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118 Unidade II 5 GESTÃO NAS ORGANIZAÇÕES DE SAÚDE Esta unidade apresenta conteúdos sobre a gestão das organizações de saúde. É oportuno, então, perguntar: o que é gestão? O que fazem os gestores? Como as organizações de saúde são gerenciadas? O termo gestão é um sinônimo contemporâneo da palavra administração, que significa tanto uma função como uma disciplina. Como disciplina, ela reúne conhecimentos sobre os processos, métodos e atividades do trabalho coletivo, aquele que depende de mais de um indivíduo para ser realizado. Esses saberes, acumulados desde o final da Primeira Guerra Mundial, quando a Administração expandiu‑se e tornou‑se uma função, possibilitaram que o trabalho humano se tornasse mais produtivo para a organização e realizador para o trabalhador. Produtivo porque o estudo da prática administrativa tornou possível definir princípios e métodos que, quando aplicados de forma organizada e sistemática, possibilitam que o trabalho tenha resultados desejáveis. Realizador porque permitiu integrar as demandas da organização com os desejos e as expectativas do trabalhador e desenvolver pessoas para obter desempenho, fazendo‑as crescer, profissional e pessoalmente. Como função, a administração está atrelada ao administrador ou gestor, isto é, à pessoa responsável pelo trabalho de outras pessoas. Essa definição histórica diferenciou administrador de dono, associando‑o à imagem de chefe, ou de alguém que tem um cargo que confere autoridade em uma organização. Na verdade, essa definição não é mais considerada satisfatória, pois foca em uma relação de subordinação entre quem planeja e quem faz o trabalho. A visão contemporânea da administração define o trabalho do gerente por meio da integração das funções de planejar, organizar, dirigir, controlar e desenvolver pessoas, com foco no resultado do trabalho, o que implica responsabilizar‑se por contribuir. A contribuição pode ser entendida como aquilo que faz diferença para a organização alcançar resultados positivos e deve ser a essência do trabalho do administrador. Podemos entender, portanto, que o gerente é toda pessoa que tem responsabilidade para contribuir dentro de uma organização e, para isso, desempenha tarefas administrativas (planejar, organizar, dirigir, controlar e desenvolver pessoas). Esse conceito está muito distante da visão de chefe com autoridade sobre outras pessoas; o mais correto é visualizá‑lo como alguém cujo trabalho depende da integração de outras pessoas, definição muito pertinente para as organizações de saúde. O aumento da expectativa de vida, a melhoria nas condições de vida (moradia, saúde, educação) e os avanços tecnológicos aumentaram a demanda de serviços especializados. As organizações de saúde tornaram‑se organismos complexos, na medida em que reúnem recursos materiais e humanos que Unidade II 119 AUDITORIA E GESTÃO DA QUALIDADE EM INSTITUIÇÃO DE SAÚDE precisam estar integrados para gerar um impacto positivo na saúde do cliente/paciente. O único caminho para isso é a administração, e somente a voltada ao desempenho, isto é, com foco nos resultados do trabalho, pode tornar possível integrar o trabalho de diversos profissionais com eficiência e eficácia. Devemos entender eficiência como fazer as coisas do jeito certo ou otimizar os rendimentos dos recursos, e eficácia como fazer as coisas certas ou alcançar resultados. No caso da assistência em saúde, significa oferecer assistência fundamentada em evidências científicas (com melhores resultados), segura e com custo justificável. Isso significa que devemos esperar, então, que nas organizações de saúde a assistência tenha qualidade. Atualmente, a qualidade em saúde é condição primordial de qualquer organização de saúde. Contudo, gerenciar a qualidade implica oferecer a melhor assistência a custos adequados, o que requer o desenvolvimento de uma visão estratégica, racional e com foco no cliente. Assim, nesta unidade, iremos compreender: • como a qualidade em saúde está relacionada a um modelo de gestão de desempenho; • como a qualidade deve ser gerenciada nas organizações de saúde; • os desafios atuais da gestão de qualidade em saúde; • a gestão de enfermagem no âmbito da qualidade em saúde. 5.1 Gestão de desempenho A prestação de serviços ocupa um importante papel na sociedade atual, pois sustenta parte considerável da economia moderna. Sejam órgãos do governo ou escolas, universidades, laboratórios de pesquisa, hospitais ou outros serviços de saúde, essas instituições são essenciais para a sociedade (DRUCKER, 2010), uma vez que suprem necessidades: crianças precisam ser educadas, doentes precisam ser curados. Entretanto, prestar um serviço não é puramente uma tarefa técnica, como no caso da produção de um bem de consumo, envolve transformar seres humanos em pessoas melhores. O papel das escolas é mais do que transmitir conhecimentos, já que contribui para a formação de cidadãos críticos e reflexivos, com habilidades essenciais (por exemplo, comunicação e raciocínio) para a vida em sociedade. No caso das organizações de saúde, elas existem porque sempre haverá indivíduos que requeiram assistência à saúde, sejam por estarem doentes, sejam por estarem expostos a riscos à saúde, como fumar ou trabalhar em excesso (DRUCKER, 2012). Apesar de sua enorme relevância para a sociedade moderna, as organizações de saúde vêm enfrentando uma crise. A demanda por serviços de saúde e, consequentemente, os gastos têm crescido em proporções exponenciais. Como instituições prestadoras de serviços, essas organizações, sejam hospitais, clínicas ou Unidades Básicas de Saúde, sempre foram consideradas sem fins lucrativos, isso porque sua missão não é gerar lucros. 120 Unidade II Com base nessa premissa, muitas instituições de saúde consideravam‑se “pilares sociais” que deveriam oferecer a melhor assistência à saúde, a qualquer custo. Esse comportamento significava pouco controle financeiro e quase nenhuma preocupação com a eficiência, isto é, a relação entre os custos e os benefícios gerados. Por essa razão, por longos anos, acreditou‑se que a crise vivida nessas organizações era econômica (falta de dinheiro), quando, na verdade, expressava a carência de preocupação com o desempenho e com o resultado do trabalho, ou seja, faltava gerenciamento (DRUCKER, 2010). Nos negócios, o foco do trabalho e a preocupação com o resultado são o lucro. Sem lucro, o negócio não se sustenta, basicamente, porque parte do lucro é reinvestido no próprio negócio, abrindo novas oportunidades de mercado. Sem o lucro, não há como cobrir o pagamento das pessoas que trabalham e das quais a empresa depende. Entretanto, um hospital não era considerado um negócio, mas sim uma “instituição social”, com “boas intenções” de oferecer a cura aos doentes a qualquer preço. Evidentemente, essa visão entrou em crise quando diversas instituições faliram ou tiveram de cortar custos abruptamente porque gastavam mais do que recebiam, revelando um problema que não era financeiro, mas sim falta de gestão de desempenho. Somente a gestão de desempenho pode converter “boas intenções” em ações corretas (DRUCKER, 2012). Gestão de desempenho significa liderar a organização para ter desempenho ou, de outra forma, resultados, equilibrando a relação de prestação de serviços com os recursos disponíveis. A gestão envolve uma série de etapas que iremos conhecer mais adiante. Neste momento, o importante é entendermos que somente a gestão de desempenho possibilita a utilização racional de recursos para obter resultados a custos aceitáveis. No caso das instituições de saúde no Brasil, o problema da falta de gestão de desempenho tornou‑se evidente no final dos anos 1980 e início da década de 1990. A assistência à saúde no Brasil sempre se caracterizou pelo foco predominantemente curativo, no qual o hospital assume um lugar de excelência, concentrando todo tipo de recursos. Não é incomum a definição de missão de um hospital incluir a meta de prestaruma assistência de qualidade. Para muitos hospitais, isso representava investimentos sem verificação de resultados; ou, ainda, desperdícios de recursos materiais e humanos, isto é, pouca preocupação com gastos financeiros e nenhuma avaliação dos resultados alcançados. Esse problema ocorreu tanto nos serviços públicos como nos privados. Nos serviços públicos, a crise evidenciou‑se pela incapacidade de lidar com o expressivo crescimento do custo‑saúde; nos serviços privados, pela inadimplência nos pagamentos de contas pelos convênios. Esse contexto turbulento criou o espírito necessário para que os administradores dos serviços de saúde desenvolvessem uma atitude gerencial mais realista, o que significa oferecer a melhor assistência à saúde e, ao mesmo tempo, gerenciar custos. Atualmente, a necessidade de demonstrar resultados é uma prerrogativa básica de muitas instituições hospitalares e, por essa razão, sua gestão passou a ser encarada como de negócios. Na verdade, gerenciar um hospital como um negócio não deve ser encarado como forma de obter lucros. Hoje, o que se preconiza é a necessidade de ter uma visão estratégica no gerenciamento de instituições de saúde, isto é, voltada ao cliente, com foco na qualidade do serviço e nas inovações; porém, com custos aceitáveis, garantindo a sobrevivência financeira. Estes são, na verdade, o âmbito 121 AUDITORIA E GESTÃO DA QUALIDADE EM INSTITUIÇÃO DE SAÚDE e, ao mesmo tempo, o desafio da atuação dos gestores de saúde. Como adicionar valor ao serviço prestado, atingir a excelência de qualidade e, ao mesmo tempo, equilibrar custos? Na verdade, já sabemos que isso exige gestão de desempenho e, consequentemente, da qualidade da saúde. Portanto, vamos entender melhor como desenvolver um modelo de gestão de desempenho, conhecendo as etapas desse processo. Como já vimos, as instituições de saúde na sociedade contemporânea precisam demonstrar resultados. Não se aceita mais uma assistência a qualquer custo, implicando gerenciar com foco no desempenho. A concepção desse modelo gerencial é atribuída a Peter Drucker (1909‑2005), ex‑consultor, escritor e professor da Universidade de Harvard, considerado o pai da administração moderna, por conferir ao gerenciamento uma visão humanista, na qual a gestão de pessoas é essencial ao desempenho da organização. Drucker anteviu a necessidade desse modelo de gestão por volta dos anos 1950, quando começou a trabalhar com instituições sem fins lucrativos (escolas, igrejas, universidades, hospitais etc.). Como essas instituições não eram impulsionadas pelo lucro, Drucker percebeu o que diferenciava as que tinham sucesso daquelas que não tinham (DRUCKER, 2012). Ele descreveu um modelo de gerenciamento que, resumidamente, apresentamos em cinco etapas: • declarar a missão da organização; • delimitar metas com foco nos resultados; • estabelecer prioridades e padrões de desempenho; • definir medidas de desempenho; • usar essas medidas como autocontrole por resultado. Para entender como isso é possível, vamos ver com mais detalhes cada uma das etapas envolvidas na gestão por desempenho. Considera‑se missão a razão da existência de uma organização. Frequentemente, a definição de missão de hospitais contém frases como “nossa missão é cuidar com qualidade”. Apesar de até transmitir certa filosofia, essa frase não conduz os indivíduos da organização à ação. A definição de missão passa pelo direcionamento das pessoas na condução de suas ações e, portanto, precisa ser operacional. Um exemplo simples é a declaração de missão elaborada por Drucker (2012), juntamente com administradores de um hospital, para um pronto‑socorro: “nossa missão é transmitir confiança aos aflitos”. Em um primeiro instante, podemos achar que se trata de mais filosofia, mas não é esse o caso. Quem já trabalhou em um pronto‑socorro sabe que muitas pessoas que procuram esse serviço estão aflitas porque consideram que têm um problema de saúde grave, quando, na verdade, a grande maioria pode ser “curada” com descanso e boa alimentação. Portanto, “transmitir confiança aos aflitos” implica compreender que a pessoa, muitas vezes, precisa de um profissional de saúde que lhe diga com confiança que “tudo vai ficar bem” e que “o seu problema não é nada grave” (DRUCKER, 2012). 122 Unidade II Para ter sucesso, a declaração de missão precisa associar três elementos essenciais: oportunidades, competência e compromisso. Oportunidades no sentido de refletir as necessidades do cliente: o hospital só existe porque há pessoas doentes e, assim, o foco de todo o trabalho é atender às necessidades do cliente. Isso parece óbvio, contudo, olhar para fora da organização e ver o que o cliente necessita ainda não é realidade em muitas instituições de saúde. Buscar compreender o cliente cria novas oportunidades e é primordial para a organização manter‑se sustentável. A competência significa focar naquilo que a organização faz bem ou até melhor que qualquer outra, possibilitando que resultados concretos sejam alcançados. Por fim, o compromisso de cada pessoa com o trabalho, porque este não é impessoal. Cada pessoa dentro da organização precisa estar comprometida com concretizar a missão. No entanto, a tarefa não acaba aqui, pois, uma vez declarada a missão, é preciso transformá‑la em metas que podem ser cumpridas. Qualquer organização dificilmente vai mudar sua razão de viver (missão) ao longo dos anos; todavia, para sobreviver, precisará sempre rever suas metas. Metas são objetivos com prazos determinados, ou, ainda, resultados desejáveis. É comum definirmos metas o tempo todo. Quando se diz “pretendo emagrecer 2 kg em um mês”, define‑se uma meta. Assim como nós, as organizações precisam definir metas para poder determinar aonde querem chegar. Ao fazer isso, elas estão preocupadas em alcançar resultados e, como já vimos, isso é essencial, porque nenhuma organização existe com um fim em si mesma. Um hospital, portanto, precisa estabelecer quais resultados quer alcançar em relação à prestação de assistência à saúde. Nem tudo vai poder ser feito ao mesmo tempo, ele pode oferecer diversos tipos de assistência à saúde, em diferentes especialidades, como neurologia, oncologia, cardiologia. Pode oferecer, ainda, serviços de diagnósticos por imagem, como raios X, ressonância magnética etc. Entretanto, cada uma dessas especialidades e seus respectivos setores irão gerar a necessidade de recursos diversos, com maiores ou menores custos. Então, o que efetivamente vai ser oferecido aos clientes depende da definição de prioridades e de padrões de desempenho. As prioridades focalizam competências. Assim, para definir prioridades, a organização deve focar naquilo que sabe que pode fazer bem ou, de outra forma, nas especialidades ou nos setores que podem apresentar um diferencial de desempenho em relação a outras instituições. Como já dissemos, a competência é essencial para a organização manter‑se sustentável, pois garante a busca do cliente pelo serviço diferenciado que a instituição oferece, seja ele um médico ou paciente. Imagine que você precisa fazer uma cirurgia ortopédica e pode escolher entre duas instituições: a primeira conta com um centro cirúrgico grande, porém pouco usado pelas equipes de ortopedia, e na segunda são realizadas centenas de cirurgias ortopédicas mensalmente, porque é muito bem equipada, tornando‑se a preferida de cirurgiões. Se você escolher a segunda está, provavelmente, tomando a decisão mais adequada, porque percebeu que suas chances de voltar a andar aumentam se contar com experts que já realizaram esse procedimento tantas vezes. Esse exemplo simples também demonstra que focar na competência é uma decisão estratégica de marketing essencial para a sobrevivência da organização, uma vez que seleciona a fatia do mercado que 123 AUDITORIA E GESTÃO DA QUALIDADE EM INSTITUIÇÃO DE SAÚDE ela quer atingir. Nesse caso, os cirurgiões ortopédicos e as pessoas que precisam de determinado tipode cirurgia. Além disso, para atingir competência também é necessário definir padrões de desempenho. Entendemos padrões de desempenho como resultados desejáveis que devem ter uma visão de longo prazo. A organização precisa pensar: “onde quero estar daqui a dez anos?” Contudo, as ações para alcançá‑las devem ser de curto prazo, ou seja, dar passos pequenos em direção a metas elevadas. Em cada passo, é preciso refletir: “esse é o melhor caminho?” “Os resultados estão adequados aos esforços?” A avaliação dos resultados de curto prazo direcionam as ações. Entretanto, como saber se os resultados foram alcançados? É preciso estabelecer medidas de desempenho. Como exemplo, podemos citar a satisfação do cliente, a taxa de ocupação de leitos, o número de cirurgias realizadas. Esses são alguns indicadores que demonstram a dimensão dos serviços oferecidos pela instituição de saúde, medidas que irão avaliar se os esforços foram capazes de alcançar os resultados desejados. Cria‑se, daí, um autocontrole por resultados. Em resumo, o modelo de Drucker (1909‑2005) de gestão de desempenho encaixa‑se perfeitamente nas instituições de saúde, na medida em que oferece subsídios para os gestores lidarem com duas questões por vezes contraditórias: custo e qualidade. Vamos entender agora como a qualidade tornou‑se um requisito fundamental nas organizações de saúde e como é possível gerenciá‑la. 5.2 Gestão da qualidade em saúde Em um contexto global, a qualidade em saúde remete às décadas de 1960 e 1970, quando os serviços de saúde americanos buscaram incorporar os conceitos de qualidade já conhecidos no modelo de produção desenvolvido pelas indústrias de manufaturas, após a Segunda Guerra Mundial (HELITO, 2010). Usado há décadas, o termo qualidade em saúde vem assumindo e incorporando diferentes dimensões e definições. O dicionário Houaiss define qualidade como ausência de defeitos; adequação ao propósito; conformidade com especificações. O Instituto de Medicina dos Estados Unidos define como sendo o grau com que o atendimento segue padrões estabelecidos, com base em normas e protocolos que organizam ações e práticas que refletem conhecimentos científicos atuais (MARQUIS; HUSTON, 2010). Já a Organização Mundial de Saúde, aponta um conjunto de elementos necessários para qualidade do atendimento médico hospitalar: alto nível de excelência profissional; uso eficiente dos recursos; mínimos riscos e máxima satisfação do cliente, com impacto positivo em sua saúde (HELITO, 2010). Em resumo, qualidade é um atributo positivo e, no contexto da gestão em saúde, está alicerçada em três pilares: melhores práticas, por onde se alcança a excelência e segurança na prestação de serviços; foco no cliente e aprimoramento contínuo. A figura a seguir representa o conceito atual de qualidade, fundamentado nesses pilares. 124 Unidade II Qualidade em saúde Aprendizado contínuo Satisfação Segurança Melhores práticas Figura 9 – Pilares da qualidade em saúde A excelência advém de padrões e critérios previamente definidos pela gerência estratégica, revelando o foco em resultados desejados. Implica, também, certa subjetividade, pois pressupõe que cada serviço defina seus próprios padrões do que considera como assistência de qualidade e, sobretudo, um sistema de avaliação e de julgamento dos resultados alcançados (MALIK, 2010). Na verdade, hoje, os sistemas de padronização e avaliação estão bastante estruturados, principalmente quando a instituição busca acreditação, o que iremos conhecer mais adiante. Avedis Donabedian (1919‑2000), médico armênio radicado nos EUA, é reconhecido como o precursor do método de avaliação (hoje, um clássico) de qualidade em saúde. Segundo esse teórico, o conceito de qualidade em saúde envolve vários componentes, bastante comuns quando se discute esse tema. O quadro 1 aponta esses componentes e suas respectivas definições. Quadro 16 – Componentes da qualidade em saúde, segundo Donabedian Componente Definição Eficácia Capacidade de alcançar resultados desejáveis. Efetividade Resultados desejáveis obtidos em condições reais da prática. Eficiência Capacidade de alcançar resultados desejáveis com menores custos. Otimização Relação entre custos e benefícios na assistência. Aceitabilidade Relação positiva entre assistência prestada e expectativas do paciente e família. Legitimidade Concordância entre costumes, valores (éticos, morais), leis e regulamentos. Equidade Igualdade e justiça na distribuição de cuidados à população. Adaptado de Denser (2003); Mallet (2005). Nas últimas décadas, a busca da qualidade em saúde trouxe grandes mudanças no gerenciamento das organizações. Inicialmente, a concepção de gestão envolveu um modelo gerencial de garantia de qualidade, isto é, manter aquela que já existia. Esse modelo evoluiu para uma visão de melhoria contínua da qualidade, fundamentado na premissa de que esta pode constantemente ser aprimorada. 125 AUDITORIA E GESTÃO DA QUALIDADE EM INSTITUIÇÃO DE SAÚDE Nesta última perspectiva, destacam‑se dois modelos: o Gerenciamento da Qualidade Total (Total Quality Management – TQM) e o Sistema de Produção da Toyota (Toyota Prodution System – TPS) (MARQUIS; HUSTON, 2010). O Gerenciamento da Qualidade Total é um conceito desenvolvido por W. Edward Deming (1900‑1993) que coloca o cliente no centro do processo de produção de um produto ou serviço, buscando o alcance de metas de qualidade sempre mais elevadas. O lema é “fazer as coisas certas já da primeira vez”, assumindo uma atitude proativa no trabalho, e não simplesmente reagir aos problemas. As necessidades e expectativas do cliente são sempre avaliadas, pois a qualidade sempre pode ser ampliada. Outro elemento central é o envolvimento e fortalecimento de todos os responsáveis pelo produto ou serviço, por meio de reconhecimento e incentivo a atitudes que gerem maior produtividade e qualidade. A educação e o treinamento são usados como instrumento de desenvolvimento pessoal (MARQUIS; HUSTON, 2010). Deming estabeleceu 14 princípios para o efetivo Gerenciamento da Qualidade Total. Lembrete O Gerenciamento da Qualidade Total é um modelo gerencial que se baseia em foco no cliente, fortalecimento dos funcionários e incentivo à melhoria contínua da qualidade. Quadro 17 – Princípios do Gerenciamento da Qualidade Total, segundo Deming 1 Criar uma constância de propósitos para melhorar produtos e serviços. 2 Adotar a filosofia de melhoria contínua. 3 Ter o foco na melhoria dos processos, e não na fiscalização do produto. 4 Acabar com a prática de compensar os negócios somente com preço. Em vez disso, minimizar o custo total trabalhando com um só fornecedor. 5 Melhorar constantemente todos os processos de planejamento. 6 Instituir treinamento e retreinamento no trabalho. 7 Desenvolver a liderança na empresa. 8 Repelir receios, encorajando a participar do processo de forma dinâmica. 9 Fortalecer a cooperação entre departamentos e romper as barreiras entre eles. 10 Eliminar dizeres, exortações e alvos para força de trabalho. 11 Concentrar‑se na qualidade, e não apenas na quantidade; eliminar sistemas de cotas, quando em uso. 12 Promover conquistas de equipes, e não apenas conquistas individuais; eliminar sistema atual de classificação ou mérito. 13 Educar/treinar os empregados para maximizar o desenvolvimento pessoal. 14 Encarregar todos os empregados da execução do pacote de gerenciamento da qualidade total. Adaptado de: Marquis e Huston (2010). O Sistema de Produção da Toyota é um modelo gerencial que enfatiza a resolução rápida de problemas e a reorganização do trabalho em nível local. Dessa forma, os funcionários têm autonomia 126 Unidade II para atender às necessidades percebidas dos clientes, corrigir o problema e determinar como o trabalho deve continuar para que o problema não ocorra novamente. Isso implica compartilhamento da tomada de decisões, com funcionários de todos os níveis hierárquicos (MARQUIS; HUSTON, 2010). LembreteO Sistema de Produção Toyota é centrado na participação e na autonomia dos funcionários para tomar decisões que afetam o resultado do trabalho. Entretanto, a implantação desse modelo é desafiadora, pois exige mudanças profundas na cultura organizacional para que todos se sintam responsáveis e comprometidos com o cliente. Não se trata somente de resolver os problemas logo que surgem, mas sim de repensar a dinâmica de trabalho para que eles não ocorram novamente (MARQUIS; HUSTON, 2010). Fernandes et al. (2010) discutem que as tentativas de implantar esse modelo na área de saúde apresentaram sérias dificuldades, pois ele requer alterações profundas não só no gerenciamento, mas também nas atividades operacionais. Assim, pensar na qualidade usando a lógica do TQM e TPS implica foco no cliente, aprimoramento contínuo, eficiência e segurança na produção de bens ou serviços (MARQUIS; HOUSTON, 2010). Aplicar esses modelos na realidade brasileira constitui‑se um enorme desafio, pois as organizações de saúde têm culturas extremamente rígidas, hegemonia médica, carência de recursos humanos qualificados e pouca preocupação com o treinamento e desenvolvimento de pessoas. Por essa razão, discute‑se hoje que a gestão da qualidade requer mais do que somente a preocupação com a qualidade dos processos, necessita de uma visão abrangente, voltada à gestão estratégica; esta surgiu como componente da ação militar, significando aplicar forças contra os inimigos. Na visão empresarial, é entendida como uma maneira de guiar o comportamento da empresa em longo prazo, maximizando recursos físicos, financeiros e humanos (BALSANELLI; MONTANHA, 2008). Para Drucker (2010), planejar de maneira estratégica é um processo contínuo e sistemático de tomar decisões no presente, analisando de que maneira a organização vai estar no futuro. Não é arquitetar o futuro, porque a menos que o gerente tenha uma “bola de cristal”, o ser humano não pode prever o futuro. O futuro é sempre incerto e a única coisa que se tem certeza é: aquilo que a organização faz hoje vai mudar em cinco ou dez anos (DRUCKER, 2012). A gestão estratégica, portanto, é um modelo gerencial implantado pela alta administração, que reconhece que nada dura para sempre. Por isso, a gerência assume uma visão proativa, fazendo o questionamento: “o que devemos fazer hoje para estarmos prontos para a incerteza do amanhã?” Depois, trabalha‑se duro para concretizar as decisões e medir os resultados de forma sistemática (DRUCKER, 2012). Assim, gestão estratégica engloba não somente a elaboração de planos, mas a definição de metas centradas nas necessidades do cliente, a estruturação e alinhamento dos processos com as metas, distribuição de responsabilidades e avaliação dos resultados (FERNANDES et al., 2010). 127 AUDITORIA E GESTÃO DA QUALIDADE EM INSTITUIÇÃO DE SAÚDE Fernandes et al. (2010) discutem que, atualmente, o único modelo gerencial que faz sentido em uma Unidade de Terapia Intensiva (UTI) é a gestão estratégica do setor alinhada à gestão estratégica da organização. Uma UTI moderna convive com diversos desafios, sendo o principal o gerenciamento de custos. Equipamentos de última geração, equipes bem treinadas, acesso de recursos materiais adequados à assistência consomem grandes quantias financeiras. Nesse ambiente, o gerenciamento de custos pode ser confundido com barateamento de custos, se o gestor de saúde não tiver uma visão estratégica centrada na missão da instituição. Assim, os autores propõem um modelo de gestão estratégica para UTI, fundamentado no Balanced Scorecard – BSC (painéis de indicadores), proposto por Kaplan e Norton (FERNANDES et al., 2010). O modelo de Fernandes et al. pode ser visualizado na figura a seguir. Finanças: para ser bem sucedido financeiramente, que resultados devem ser gerados aos acionistas? Aprendizagem/inovação: para alcançar nossa visão, que novos conhecimentos, competências e talentos devem ser desenvilvidos? Cliente: para alcançar nossa visão, que valor percebido deve ser gerado ao cliente? Processos internos: para satisfazer acionistas e clientes, em que processos devem‑se alcançar a excelência operacional? Missão Visão Figura 10 – Modelo básico do Balanced Scorecard, proposto por Kaplan e Norton Nessa figura, podemos perceber que o elemento central que direciona todos os outros é a missão e visão da organização. Como já vimos, missão é a razão de ser de uma organização e visão define o lugar onde a organização quer estar no futuro. Fernandes et al. (2010) descrevem que uma das melhores definições de missão de uma UTI é aquela declarada pelo Bioethics Task Force, adotada pela American Thoracic Society (ATS), em 1997: Preservar a vida humana através da proteção e sustentação de pacientes acometidos por situações críticas quer por lesão/doença, quer por terapia médica ou cirúrgica, com qualidade percebida pelo paciente. Prover terapia de reabilitação especializada, a partir do momento que o paciente começa a se recuperar de sua doença crítica. Prover atendimento paliativo adequado, com conforto para aqueles em que a doença foi considerada incurável, evitando sofrimento nas suas horas finais (FERNANDES et al., 2010, p. 44). Essa definição demonstra que o trabalho dos profissionais de saúde e do gerente da UTI é complexo e envolve muitas variáveis. Essas variáveis englobam clientes, finanças, processos internos, aprendizado 128 Unidade II e inovação. O BSC possibilita a análise de relações de causa e efeito entre essas variáveis. No esquema da figura anterior, pudemos perceber que a análise compreende questionamentos em cada perspectiva, tanto entre si como para a missão e visão da instituição. A perspectiva do cliente deve analisar como metas e processos devem se alinhar para acrescentar valor ao serviço prestado (resultado). Na perspectiva financeira, avalia‑se retorno sobre investimento, valor econômico agregado, custo por caso atendido e formas de aumentar a lucratividade com a finalidade de reinvestimento. Na perspectiva de processos internos, buscam‑se a análise de efetividade dos fluxos de pacientes, o uso de prática baseada em evidências e o aprendizado contínuo. Por fim, a perspectiva de aprendizado e inovação deve analisar o investimento em educação continuada, métodos de comunicação, valorização e retenção de talentos (FERNANDES et al., 2010). Observação Prática baseada em evidências refere‑se ao uso de evidências científicas (resultados de pesquisas científicas) na solução de problemas de assistência à saúde. Saiba mais Para saber mais sobre prática baseada em evidências, leia: LACERDA R. A., et al. Práticas baseadas em evidências publicadas no Brasil: identificação e análise de suas vertentes e abordagens metodológicas. Rev Esc Enferm, USP, v. 45, n. 3, p. 777‑86, 2011. Esse modelo demonstra como a gestão da qualidade nas organizações de saúde requer do gerente uma visão abrangente dos processos de trabalho de hoje em perspectiva com os de amanhã. Na literatura, discute‑se muito sobre as principais atribuições, responsabilidades e competências necessárias aos gestores de qualidade. Entre as atribuições, Kern e Lima (2011) apontam: • disseminar a filosofia de aprimoramento contínuo; • operacionalizar a implantação de padrões, práticas e controle da qualidade; • controlar e normatizar os processos organizacionais, de acordo com normas nacionais e internacionais; • avaliar criticamente e divulgar os resultados do controle da qualidade; • criar e coordenar programas de segurança do paciente; 129 AUDITORIA E GESTÃO DA QUALIDADE EM INSTITUIÇÃO DE SAÚDE • manter clima propício e motivador; • elaborar treinamentos. Os autores também citam as atividades relacionadas à gestão da qualidade, segundo o Manual Brasileiro de Acreditação da Organização Nacional de Acreditação (ONA): • analisar sistematicamente as necessidades e expectativas das partes interessadas; • divulgar as ferramentas do gerenciamento paramelhoria dos processos; • identificar oportunidades de melhorias, realizando comparações de dados com outras instituições; • tomar decisões com base nas relações de causa e efeito entre os indicadores; • estimular a inovação e a criatividade; • gerenciar os documentos padronizados; • alcançar a segurança do paciente promovendo a melhoria dos processos; • promover e gerenciar a interação entre as áreas; • realizar auditorias internas, sistemáticas, visando à melhoria da gestão. Como podemos perceber, não se trata de uma tarefa fácil. Além disso, o gestor da qualidade enfrenta a barreira da falta de autoridade, pois geralmente o cargo é de staff; portanto, o gestor só pode orientar e depende do relacionamento com outros profissionais (KERN; LIMA, 2011). Assim, entre as competências que o gestor da qualidade precisa ter, a mais desafiadora é a liderança. Liderar é, sem dúvida, um dos desafios mais evidentes na gestão da qualidade. Por isso, analisaremos a seguir esse e outros desafios dos gestores de qualidade. 5.2.1 Desafios na gestão da qualidade em saúde Especialistas na estruturação de modelos de gerenciamento de qualidade apontam que esta só se concretiza quando existe comprometimento e responsabilidade, assumidos por todas as pessoas responsáveis pelo resultado final, desde a recepcionista até o diretor médico. Segundo Kern e Lima (2011), esse nível de envolvimento e comprometimento deixa evidente a necessidade de que o gestor de qualidade seja capaz de: • estruturar e desenvolver equipes; • comunicar de forma clara a missão e as metas da organização; • distribuir responsabilidades; 130 Unidade II • treinar, supervisionar e envolver os profissionais; e • partilhar recompensas. É evidente que a complexidade dessas ações exige um estilo de liderança colaborativo e participativo por parte do gestor da qualidade, capaz de criar um clima motivador e confiável. Motivador no sentido de que inspira nos profissionais da instituição a responsabilidade por dar a sua contribuição para o alcance das metas. Confiável porque todos na organização sentem a necessidade de fazer o que é certo, de aprender com os erros e, sobretudo, perceber que podem confiar no trabalho uns dos outros. Esse estilo é muito diferente da imagem de gerência fiscalizadora, preocupada em apontar os culpados pelas falhas e “correndo atrás” dos problemas. Trata‑se de uma liderança proativa, inovadora e transformadora. Um dos grandes desafios dos gestores da qualidade é a mudança da cultura da organização de saúde, isso porque a implantação de um modelo de gestão de qualidade implica reestruturação de todos os processos de trabalho, os quais muitas vezes estão consolidados por anos. Nessas situações, a mudança é reconhecida como ameaça. Para compreendermos melhor como a mudança pode ser ameaçadora, vamos ver o seguinte exemplo: imagine um funcionário que trabalha há mais de dez anos em um hospital, prestando assistência direta a pacientes. Uma de suas atribuições é a realização de curativos em pacientes cirúrgicos e, como um profissional experiente, ele acredita que está desenvolvendo seu trabalho corretamente. Recentemente, a instituição implantou um sistema de gestão da qualidade e, assim, esse funcionário recebeu orientações e um protocolo que deveria seguir para realizar a troca de curativos; isso implicava fazer mudanças na sua rotina habitual para realizar o procedimento. Como ele não foi envolvido no processo, a mudança significava reaprendizado, pelo qual ele não pretendia se esforçar; afinal, havia realizado esse procedimento por tanto tempo, então não poderia estar fazendo nada errado. Assim, ele decidiu não seguir as orientações e continuar “do seu jeito”. Vamos examinar o que ocorreu. A gerência implantou uma padronização dos procedimentos, justamente buscando o aprimoramento dos processos, como recomendado na gestão da qualidade. Entretanto, sem uma liderança adequada, as pessoas responsáveis pelo trabalho tendem a se sentir desconsideradas, excluídas, e não compreendem porque mudar se sempre fizeram da “maneira certa”. Nesse sentido, a gestão da qualidade exige uma mudança de mentalidade e, consequentemente, comportamentos que reflitam a cultura da organização, o que só é possível com a liderança transformacional. Liderança transformacional é entendida como aquela em que o líder tem uma visão e consegue influenciar e motivar o desempenho de todos para alcançá‑la. Esse líder “vende” sua visão aos seguidores. É preocupado com o alto desempenho e em vencer os obstáculos, pois está fortemente comprometido com as metas da organização. Para tanto, estabelece uma relação interativa e de confiança com as pessoas (MARQUIS; HUSTON, 2010). Veja, no quadro a seguir, as características do líder transformacional. 131 AUDITORIA E GESTÃO DA QUALIDADE EM INSTITUIÇÃO DE SAÚDE Quadro 18 – Características do líder transformacional Liderança transformacional Identifica valores comuns É comprometido Inspira os outros com a visão Observa os defeitos Delega poder Fonte: Marquis e Huston (2010). Peter Drucker (1909‑2005), há mais de cinquenta anos, criou a noção de que o gerente eficaz é aquele que dá sua contribuição, isto é, “que faz as coisas certas acontecerem”. Para isso, ele discute algumas competências básicas que os líderes devem desenvolver e que, no âmbito da gestão da qualidade, assumem grande relevância. Entre essas competências, estão a disposição, a capacidade e a autodisciplina para ouvir e se comunicar (DRUCKER, 2012a) ou, ainda, prestar atenção no que as pessoas da organização têm a dizer e se fazer entender. O autor afirma: Eles (os líderes) perguntam: qual a opinião de vocês? Caso contrário, a organização irá dizer: esses patetas lá de cima não sabem de nada? O que está acontecendo lá? Por que eles não consideram isto ou aquilo? Mas se você puder dizer: sim, consideramos isto, mas mesmo assim, chegamos a esta decisão, as pessoas irão compreender e o seguirão. Elas poderão dizer que teriam decidido de outra forma, mas reconhecerão que lá em cima as decisões não são tomadas de forma precipitada (DRUCKER, 2012a, p.18). Notamos algo que se aplica perfeitamente à gestão da qualidade, pois essa disposição para manter a comunicação aberta e integrada com todas as pessoas da organização possibilita a criação de vínculo de respeito e confiança entre líder e seguidores e cria condições reais de comprometimento com o trabalho. O sucesso da implantação de um sistema de gestão de qualidade depende desse comprometimento, que será expresso pela adesão dos profissionais a todas as exigências. Segundo Drucker (2012a), o gerente deve atentar para ver o quadro geral sem se esquecer da pessoa que lá está, ou, então, ele irá olhar as estatísticas de cuidados no hospital e esquecer da mãe com um bebê chorando no pronto‑socorro. Saiba mais Aprenda todas as habilidades do gerente eficaz em: DRUCKER, P. F. Gerente eficaz. Tradução: Fortes J. Rio de Janeiro: LTC, 2010. DRUCKER, P. F.; MACHIARELLO, J. A. Gerente eficaz em ação. Tradução: Márcia Nascentes. Rio de Janeiro: LTC, 2007. 132 Unidade II A competência seguinte é entender que a tarefa é mais importante do que si mesmo, porque líderes eficazes não se veem como “centro do universo” e se dedicam a desenvolver as pessoas para que a tarefa seja feita, mesmo quando não estiverem mais lá. Eles não “vivem” para a organização, mas se esforçam por ela e desenvolvem padrões de desempenho elevado, para si e para os outros. Essa atitude de autorrespeito e orgulho entre as pessoas ao valorizar as equipes pelo trabalho gera, sobretudo, confiança em si mesmo como um modelo a ser seguido (DRUCKER, 2012a). A gestão da qualidade não se sustenta em um modelo de gerenciamento no qual os gerentes recebem o crédito e os subordinados, a culpa pelas falhas. Portanto, gerenciar qualidade exige a gestão de pessoas, o que, por si só, é um grande desafio para os gerentes das organizações de saúde. Na visão gerencialcontemporânea, a gestão de pessoas assume um papel crucial, porque oferece uma vantagem competitiva à organização. O modelo que expressa melhor essa visão é a gestão de competências ou gestão estratégica de recursos humanos. A gestão por competências coloca ênfase no desenvolvimento de pessoas, pois os resultados da organização dependem do esforço de pessoas qualificadas. Competência significa mobilizar conhecimentos, habilidades e atitudes para gerar resultados e agregar valor à organização. Envolve saber o que fazer (conhecimentos), como fazer (habilidades) e querer fazer (comportamentos) (BRANDÃO; GUIMARÃES, 2001); pode tanto estar direcionada a indivíduos como a equipes ou organizações. Carbone et al. (2009, p. 43) definem competência humana como “combinações sinérgicas de conhecimentos, habilidades e atitudes, expressos pelo desempenho profissional, dentro de determinado contexto organizacional, que agregam valor a pessoas e organização”. Para compreendermos claramente esse conceito, vamos analisar um exemplo prático. Como já vimos anteriormente, a qualidade nas organizações de saúde depende de os profissionais mobilizarem‑se para alcançar um atendimento de excelência e a satisfação do cliente. Para isso, esses profissionais precisam conhecer os processos, as rotinas e as atividades desenvolvidos internamente (como a técnica correta de fazer curativos); de habilidades para fazer o trabalho e não colocar os pacientes em risco (como usar técnica asséptica para realizar um curativo); e da disposição para dar a sua contribuição e fazer o que é certo (atitude positiva para seguir as normas e as regras). Como consequência da sinergia desses elementos, o resultado é um paciente caminhando para a reabilitação, sem infecção hospitalar e satisfeito com o atendimento. Desse modo, o trabalho do profissional agregou valor à organização. A visão de competência não se aplica só a pessoas, também se estende ao nível organizacional. Atribuir competência a uma organização significa que ela tem capacidade de ser eficaz, o que lhe confere uma vantagem competitiva. A capacidade de miniaturização da Sony expressa sua competência como fabricante de eletrônicos, o que por sua vez a torna única em um mercado tão competitivo (CARBONE et al., 2009). 133 AUDITORIA E GESTÃO DA QUALIDADE EM INSTITUIÇÃO DE SAÚDE Estratégia organizacional Formulação dos planos operacionais de trabalho e de gestão Diagnóstico de competências dos profissionais Desenvolvimento de competências internas Capacitação e integração de competências externas Acompanhamento e avaliação Definição de indicadores de desempenho e remuneração de equipes e indivíduos Indicadores de desempenho organizacional Missão, visão, objetivos estratégicos Diagnóstico de competências organizacionais Figura 11 – Modelo de gestão de competências Assim, a gestão por competências deve ser entendida como um modelo gerencial que analisa as competências dos profissionais e compara com aquelas necessárias para atingir as metas da organização. Quando há uma discrepância (do inglês gap) entre elas, a gerência trabalha para diminuí‑la, seja recrutando e selecionando novos funcionários, seja treinando os antigos ou os direcionando para o desempenho adequado. Na figura anterior, pudemos compreender melhor esse modelo. Essa visão pressupõe que o gerente irá buscar obter das pessoas o máximo que elas poderão dar, pois o desempenho individual determina o organizacional. A qualidade das decisões sobre pessoas, portanto, é uma medida direta do grau de compromisso da organização com sua missão e visão. Drucker (1909‑2005) considerava tarefa primordial do gerente “tornar os pontos fortes produtivos” na gestão de pessoas, o que implicava reconhecer os talentos e as competências individuais e alocá‑los na função e no cargo certos. Nessa visão, um candidato a um cargo não deveria ser analisado quanto à sua personalidade ou iniciativa, mas sim quanto à sua capacidade de desempenho. O gerente deveria concentrar‑se no que a pessoa pode fazer extraordinariamente bem, tornando os pontos fracos irrelevantes para realização de um determinado trabalho. O que vale é a pessoa ter capacidade para executar a atribuição (DRUCKER, 2007). Essa é, sem dúvida, uma perspectiva revolucionária na gestão de pessoas, mas que vem ao encontro das necessidades da gestão da qualidade, uma vez que, como já vimos, a qualidade da assistência depende do comprometimento do profissional de saúde. Ao valorizar os pontos fortes ou talentos individuais, a organização amplia sua capacidade produtiva, o trabalho torna‑se realizador e a gerência se fortalece. 134 Unidade II Assim, vamos conhecer melhor a abordagem proposta por Drucker (1909‑2005) para tornar os pontos fortes produtivos. A gestão de pessoas com esse foco envolve cinco decisões eficazes (DRUCKER, 2007): • refletir sobre a atribuição; • analisar as pessoas qualificadas; • analisar os registros de desempenho para determinar em que o candidato se sobressai; • discutir sobre os candidatos com pessoas que trabalharam com eles; • verificar se o candidato compreende a atribuição. A primeira decisão envolve refletir sobre a atribuição, o que significa questionar “quais são as funções ou tarefas exigidas para o cargo?”. Se houver muitas, “quais as mais importantes?”, “em quais devo focar para a escolha de candidatos?”. O próximo passo é analisar os candidatos. As qualificações formais são o ponto de partida. O mais relevante é perceber quem se ajusta melhor à atribuição, buscando os pontos fortes do candidato para compatibilizar as necessidades da organização com as competências individuais. Como todo ser humano tem fraquezas, estas são aceitas desde que não interfiram significativamente no desempenho apropriado. Somente falha de caráter é uma fraqueza inaceitável, pois a integridade pessoal é uma característica essencial para o adequado relacionamento humano no trabalho. Em seguida, devem‑se analisar os registros de desempenho dos candidatos, com o objetivo de verificar se os pontos fortes são adequados para o desempenho das atribuições. O foco é nos pontos fortes, portanto, interessa compreender se o candidato tem capacidade para executar a atribuição. Quanto aos pontos fracos, é relevante verificar se tiveram algum impacto no desempenho do candidato. Contudo, o candidato não deve ser eliminado pela presença de fraquezas, mas sim pela ausência de pontos fortes. A quarta decisão é discutir sobre os candidatos com ex‑colegas. Discussões informais trazem melhores informações e revelam tanto pontos fortes que impressionaram outras pessoas como pontos fracos que não foram notados. Vale ressaltar que opiniões pessoais sobre outras pessoas sempre envolvem subjetividade; então, é importante nunca se basear na opinião de uma única pessoa. Já a quinta decisão, é checar se o candidato compreende a atribuição. É considerada muito importante, pois pode demonstrar como ele compreende o papel a ser desempenhado em uma determinada função. Assim, questiona‑se como se enxerga na função e se sabe o que fazer para ser bem‑sucedido. Drucker (2012b) aponta ainda que a gestão de pessoas também precisa promover o desenvolvimento delas, fazendo exigências crescentes, o que envolve todo esforço pessoal para alcançar as metas. Isso é possível quando a missão é transmitida a todos de forma clara, elevando a visão das pessoas para que sintam que estão realmente fazendo algo importante. Nessa perspectiva, o trabalho deixa de ser 135 AUDITORIA E GESTÃO DA QUALIDADE EM INSTITUIÇÃO DE SAÚDE somente um “emprego” e ganha um significado vital, gerando um impacto extremamente positivo no espírito das pessoas, o que é muito relevante para todas as organizações; mas, para Drucker (2012b), é ainda mais importante nos hospitais. É ele quem afirma: Em minha opinião, os hospitais são os piores em manter vivo esse espírito. Muitas funções neles são apenas rotineiras.As pessoas, em parte porque precisam se proteger contra o sofrimento, se tornam calejadas. O desafio de liderança em um hospital – para um bom administrador, para um bom diretor de enfermagem – é reunir regularmente pessoas de uma dúzia de departamentos e perguntar: do que podemos nos orgulhar? Fizemos de fato uma diferença? Tivemos seis casos de parada cardíaca em uma noite e nenhum paciente morreu. Focalize os sucessos (DRUCKER, 2012b, p.110). Criar e manter o “espírito de missão” gera uma tremenda força e torna o trabalho realizador, por mais difícil que este seja. Drucker (2012b) explica isso de forma bem clara: Em Pasadena, não muito longe de minha casa, há um hospital para crianças com câncer, cuja atmosfera é alegre porque o foco está no sucesso: em fazer com que crianças agonizantes e sofredoras gozem sua infância. Todos sentem a missão, a despeito da dureza da situação. Grande parte do trabalho se resume a limpar crianças que vomitam. Entretanto, existe o sentimento de estar fazendo algo importante (DRUCKER, 2012b, p. 110). Em resumo, podemos perceber que a gestão da qualidade nas organizações de saúde envolve inúmeros desafios, que começam com a liderança transformacional, difundindo uma visão a ser seguida. Envolve também mudança na cultura organizacional e gestão de pessoas, baseada em desenvolvimento de competências. Esses desafios são inerentes ao trabalho de qualquer gestor da área de saúde. Entretanto, qual é o papel do gerente de enfermagem nesse contexto? É o que discutiremos a seguir. 5.3 Gestão de enfermagem no âmbito da qualidade em saúde O gerenciamento em enfermagem nas organizações de saúde envolve diferentes dimensões: unidade, pessoas, assistência. O enfermeiro deve gerenciar a unidade, seja ela hospitalar ou uma clínica, planejando, organizando e controlando todos os recursos materiais e equipamentos necessários para prestar assistência ao cliente/paciente. Além disso, o trabalho feito pela enfermagem envolve um grupo de profissionais de diferentes categorias (auxiliares, técnicos, enfermeiros assistenciais), com diferentes competências, que precisam da coordenação e liderança do enfermeiro‑gerente para se constituir em trabalho de equipe. Nesse caso, estamos falando da gestão de pessoas. O enfermeiro‑gerente é responsável pelo planejamento, pela organização, implantação e avaliação dos cuidados de enfermagem, o que implica gestão da assistência. Essa meta só pode ser atingida com a aplicação do processo de enfermagem, uma ferramenta prioritária para garantir assistência adequada às necessidades do cliente/paciente. A figura a seguir apresenta as três dimensões do trabalho do enfermeiro‑gerente. 136 Unidade II Gestão de serviços de saúde Gestão de pessoas Gestão de assistência Desafio: integração de papéis Figura 12 – Dimensões do trabalho do enfermeiro‑gerente Como podemos perceber, somente esses aspectos já demonstram a complexidade desse papel e revelam o desafio de tentar integrá‑los. A implantação dos programas de qualidade veio agregar novas dimensões a esse desafio. Como já vimos, gerenciar a qualidade em saúde implica demonstrar resultados e gerenciar custos, aspectos antes considerados apenas na perspectiva subjetiva da avaliação de cada enfermeiro. Este acreditava que estava realizando o “melhor” trabalho em dadas condições e oferecendo a “melhor” assistência. No entanto, não havia dados palpáveis sobre os resultados, estatísticas que pudessem demonstrar como a assistência de enfermagem contribuiu para a melhora geral do quadro clínico do cliente/paciente. Assim, os programas de gerenciamento de qualidade provocaram uma enorme revolução na mentalidade do enfermeiro‑gerente sobre seu papel. Essa questão é ainda mais dramática quando analisamos a forma como os enfermeiros vêm gerenciando as organizações de saúde ou, de outra forma, os modelos gerenciais usados. Ainda é frequente observarmos a crença de que o enfermeiro é o “chefe”, cuja função é “mandar”, e os demais membros da equipe são os “subordinados”, que, por sua vez, devem acatar as ordens dadas e “fazer”. Consequentemente, as relações de trabalho são rígidas, a comunicação é “de cima para baixo” e os conflitos são administrados com punições (RUTHES, 2008). O modelo gerencial tradicional e centralizador remete‑nos à época do taylorismo, no início do século XX, e é incompatível com a gestão da qualidade nas organizações de saúde no século XXI. Como já vimos, qualidade em saúde requer envolvimento e comprometimento de todos os profissionais da organização, em todos os níveis hierárquicos; o enfermeiro‑gerente necessita redesenhar o modelo gerencial e dar foco à gestão de pessoas e suas competências. Essa nova perspectiva de trabalho requer um profissional capaz de aprimorar suas próprias competências e um novo paradigma educacional na formação profissional do enfermeiro. Observação O termo paradigma significa algo que vai servir de modelo ou padrão. Tem origem grega e, inicialmente, surge na Linguística, como uma teoria que relacionava o signo a um conjunto de elementos que constituem a 137 AUDITORIA E GESTÃO DA QUALIDADE EM INSTITUIÇÃO DE SAÚDE língua. No meio científico, é usado para designar um conhecimento ou princípio que servirá de referência (modelo) para novas pesquisas. Seguindo as diretrizes do Ministério da Educação e Cultura (MEC), a formação do graduado em Enfermagem prevê um profissional com as seguintes competências e habilidades: atenção à saúde, tomada de decisões, comunicação, liderança, administração, gerenciamento e educação permanente. O perfil do formando/egresso é o de um enfermeiro generalista, humanista, com visão crítica e reflexiva (BRASIL, 2001). É importante notar que, das seis competências mencionadas, quatro são essenciais ao papel gerencial (tomada de decisão, comunicação, liderança, administração). No entanto, a dimensão assistencial ainda predomina no processo‑aprendizagem das escolas, expresso nos inúmeros conteúdos sobre fisiologia e patologias. Os conteúdos relacionados ao gerenciamento ainda se reportam aos modelos tradicionais e aos aspectos técnicos e normativos. Frequentemente, os alunos de graduação referem‑se a disciplinas afins como “chatas”, porque elas se prendem a questões burocráticas e não apontam a articulação do conteúdo com a prática profissional. Um estudo realizado em oito escolas de graduação e pós‑graduação em Enfermagem, no Brasil, identificou que em seus currículos não foi dada ênfase ao desenvolvimento de competências gerenciais na formação profissional do enfermeiro (CIAMPONE; KURCGANT, 2004). Santos e Castro (2010) investigaram o perfil do enfermeiro administrador de um hospital geral universitário, no Rio de Janeiro, e apontaram que boa parte dos participantes não teve formação para liderar e, portanto, tem pouca capacidade de refletir sobre o que é liderança, qual o seu estilo de liderar e como deve desenvolver essa habilidade. Muitas vezes, esse profissional cria seu jeito próprio de liderar, aprendendo na prática, ou seja, com enfermeiros de gerações mais antigas, o que o leva a reproduzir um modelo gerencial ultrapassado. Os autores atribuem essa carência de formação às próprias limitações dos docentes de administração, e chamam a atenção para a necessidade de maior articulação entre docente e prática profissional. Saiba mais Para conhecer em detalhes as competências do enfermeiro apresentadas nas diretrizes curriculares, leia: PERES, A. M.; CIAMPONE, M. H. T. Gerência e as competências gerais do enfermeiro. Texto Contexto Enferm., Florianópolis, v. 15, n. 3, p. 492‑499, jul./set. 2006. O ensino baseado em desenvolvimento de competências reconhece uma mudança nas relações do profissional com o mercado de trabalho e, portanto, sua formação requer a adequação de suas competências (KOBAYASHI; LEITE, 2010). 138 Unidade II Buscando uma formação adequada para acompanhar o perfil profissional exigido hoje do enfermeiro‑gerente,há uma grande discussão na literatura sobre as habilidades e competências que esse profissional precisa desenvolver. Além da gestão de recursos físicos, materiais e de serviços de saúde, são apontados gestão financeira; elaboração de estratégias de avaliação, controle, auditoria e acreditação de serviços de saúde/enfermagem; gestão de informações e coordenação de educação em serviço (VALE; GUEDES, 2004). Percebe‑se aí a preocupação com a formação do enfermeiro em sintonia com o gerenciamento da qualidade, na medida em que não basta só formar profissionais que sabem gerenciar materiais, mas que sejam capazes de articular gestão de custos, controle da qualidade e educação continuada. Deve‑se considerar também o descompasso entre as competências gerenciais exigidas no mercado e a formação acadêmica. O enfoque pedagógico nas disciplinas afins ainda é centrado na transmissão de conhecimento, sem articular como uma teoria gerencial, por exemplo, pode ser aplicada a uma situação prática. Essa pedagogia, carente de interações entre os diversos saberes e reflexões sobre a prática, gera um profissional inapto a encarar os desafios na gestão em saúde (MONTEZELI; PERES, 2009). Discutir a formação profissional do enfermeiro é, sem dúvida, essencial para formar profissionais capacitados para lidar com as transformações sofridas no mercado de trabalho. No entanto, há que se considerar que, uma vez formado, cada profissional é responsável pelo seu aprimoramento, pois transformações no processo de trabalho são inevitáveis, e sem capacidade de aprender, reaprender e se adaptar nenhum profissional pode se considerar competente. Vamos compreender melhor o que significa evoluir com as transformações, analisando os resultados de uma pesquisa realizada com 31 enfermeiros do Hospital das Clínicas de Ribeirão Preto para identificar como as modificações no Sistema Único de Saúde (SUS) interferiram na assistência de enfermagem. Apesar de o estudo ter sido publicado em 1998, continua bastante atual, porque retrata uma característica comum na Enfermagem: pouca disponibilidade para mudança (MELO et al., 1998). Os enfermeiros do estudo relataram que a integração do SUS ao serviço aumentou a demanda e a complexidade de pacientes, algo visto como bastante negativo, pois tiveram de mudar sua forma de trabalho, deixando de “dar cuidados”. As mudanças relatadas de forma negativa foram: necessidade de realizar avaliações mais complexas dos pacientes; necessidade de interagir com outras equipes; e maior tempo gasto com atividades administrativas, como supervisão, estatísticas. Esses relatos causam certa estranheza, pois todos os aspectos citados são atividades compreendidas no papel gerencial do enfermeiro e no Código de Ética dos Profissionais da Enfermagem. Na verdade, estavam compreendidas no próprio manual da Divisão de Enfermagem do hospital (MELO et al., 1998). As autoras do artigo concluem afirmando que: [...] os dados apresentados levam ao entendimento de que o enfermeiro está cumprindo sua jornada de trabalho de forma rotinizada, pouco envolvido com o contexto geral. Suas atribuições atuais, quando comparadas com as previstas pelo manual da Divisão de Enfermagem, aparentam estar em 139 AUDITORIA E GESTÃO DA QUALIDADE EM INSTITUIÇÃO DE SAÚDE rumos distintos, pois os enfermeiros têm executado as atividades que se apresentam: um número maior de ações ligadas à assistência direta ao paciente, nem sempre de maior complexidade técnica [...], baseada no “apagar incêndio”, ou seja, um trabalho indefinido, sem ter a compreensão do conjunto, aparentando um descaso para com o cuidado de enfermagem, sem o planejamento e a avaliação deste, reflexo da organização do trabalho centrado no modelo funcional, enfatizando a tarefa e a fragmentação do cuidado ao paciente (MELO et al., 1998, p. 12). Esses resultados apontam um profissional preocupado com a realização de tarefas, de forma desorganizada, sem foco em resultados e, consequentemente, despreparado para encarar a maior complexidade de atuação que a mudança requeria. A complexidade estava diretamente relacionada à dimensão gerencial do trabalho do enfermeiro, uma vez que exigia que esse profissional deixasse de se dedicar à realização de tarefas para focar no gerenciamento da assistência, das pessoas e da unidade. Para administrar a mudança de forma eficiente, seria necessário planejar e organizar a prestação do cuidado; administrar o tempo; priorizar a tomada de decisão; promover o trabalho em equipe; supervisionar os resultados; ter envolvimento e comprometimento com o trabalho. Essas competências demonstram o perfil de um profissional que evolui com o tempo e se adapta às mudanças sociais inerentes à maior complexidade da assistência à saúde observada nos dias atuais. Pelo exposto, percebemos que algumas competências são primordiais para o enfermeiro no contexto da gestão da qualidade. Para acompanhar essa evolução, o enfermeiro‑gerente precisa abandonar modelos gerenciais baseados na liderança autoritária e investir na liderança participativa, assumindo o papel de coaching (facilitador da equipe) e/ou de mentor, auxiliando a equipe a desenvolver as habilidades necessárias (RUTHES, 2008). Como visto anteriormente, gerenciar a qualidade exige visão estratégica por parte do gerente. Para o enfermeiro, isso implica visão de negócio e ambiente externo; interdisciplinaridade; definição de missão e objetivos do serviço em sintonia com os da organização; raciocínio lógico; agilidade; comunicação eficaz e, sobretudo, trabalho em equipe (BALSANELLI; MONTANA, 2008). Muitos enfermeiros acreditam que somente os altos gerentes precisam ter visão estratégica. Contudo, como vimos anteriormente, a gestão da qualidade exige a participação e o envolvimento dos profissionais de todos os níveis hierárquicos. Em qualquer nível, portanto, o desenvolvimento dessa visão é pré‑requisito do trabalho do enfermeiro; o que, por sua vez, exige capacidade de se adaptar a mudanças e uma postura proativa de considerar a mudança um desafio, e não uma ameaça. Preocupadas com a adequação de competências à realidade organizacional, Kobayashi e Leite (2010) implantaram um programa de desenvolvimento de competências para enfermeiros em um hospital de cardiologia, em São Paulo. Como resultado dessa intervenção, os enfermeiros apontaram a construção de algumas competências: saber comprometer‑se e assumir responsabilidades; saber aprender; ter visão estratégica; saber agir e mobilizar recursos e saber comunicar‑se. 140 Unidade II Ainda sobre a competência profissional, vale destacar a visão de Drucker (2010) sobre uma das exigências do trabalhador do conhecimento: gerenciar a si mesmo. O termo refere‑se a todo o profissional que usa uma bagagem de conhecimentos técnicos para realizar um trabalho. O produto desse trabalho é sempre algo que depende da mente, do raciocínio e da capacidade analítica do profissional para interagir com o meio ambiente e criar ou transformar a realidade. Esse é o caso de médicos, enfermeiros, advogados ou professores. Esses indivíduos diferem sensivelmente do trabalhador manual, cujo produto final do trabalho é um bem manufaturado, como um sapato ou eletrodoméstico. A sociedade contemporânea depende, em grande parte, do trabalhador do conhecimento, basicamente porque é uma sociedade de organizações, na qual o trabalho depende da integração de competências de diversos profissionais. Nesse contexto de trabalho, a tarefa nem sempre é dada. Por exemplo, um professor recebe da escola onde trabalha o conteúdo programático a cumprir. No entanto, como isso irá resultar em um aluno com nível educacional adequado depende da organização e mobilização dos próprios recursos do educador (conhecimentos específicos; capacidade de expressão, de síntese; de planejamento e organização, entre outros). Trabalho completamente diferente do caso do trabalhador manual, para o qual as atividades para produzir um bem já foram definidaspreviamente. Um operário na linha de montagem de um carro sabe exatamente quais tarefas deve desempenhar diariamente para produzir “sua parte” do carro. Para alcançar resultados, portanto, o trabalhador do conhecimento precisa conhecer seus pontos fortes e, a partir daí, aperfeiçoá‑los, sempre com foco em dar sua contribuição. Essa visão constitui‑se em uma enorme mudança de paradigma, particularmente para os enfermeiros no contexto da gestão da qualidade. Ter essa perspectiva significa desconstruir o processo de trabalho conhecido até então, muitas vezes, centrado em “rotinas” e “tradições”. A gestão da qualidade implica o enfermeiro capacitar‑se, trabalhando para aprimorar seus pontos fortes, que somente são conhecidos se ele se pergunta: “Quem sou eu?”; “Como eu aprendo?”; “De que modo eu trabalho?”; “Onde posso alcançar resultados que façam alguma diferença?”. Essa abordagem aponta para o gerenciamento de si mesmo, pois envolve buscar o autodesenvolvimento profissional como forma de se manter socialmente conectado com a realidade que está em constante transformação. Portanto, como trabalhador do conhecimento, cabe ao enfermeiro buscar o autodesenvolvimento, aprimorando novas competências, como forma de aceitar e se adaptar às mudanças inerentes às transformações no processo de trabalho. O desenvolvimento de novas competências não é um processo passivo, porque requer que o profissional entenda que seu papel social não é estático, e sim dinâmico e flexível. O autodesenvolvimento surge como consequência da busca pela excelência; a qualidade do trabalho importa e, consequentemente, a pessoa se pergunta “pelo que quero ser lembrado?”. Trata‑se de uma atitude proativa em busca da superação de si mesmo, pois existe o compromisso alinhado à missão organizacional; o trabalho assume uma dimensão de “cumprir minha missão”, porque esse comprometimento faz diferença para e na pessoa que o realiza. A natureza do trabalho em saúde é, por vezes, estressante e depressiva. O profissional de enfermagem lida com doenças, perdas e mortes de outros seres humanos, em um ambiente em que as relações interpessoais são competitivas e não acolhedoras. As diferentes categorias profissionais (técnicos, 141 AUDITORIA E GESTÃO DA QUALIDADE EM INSTITUIÇÃO DE SAÚDE auxiliares, enfermeiros) são colocadas juntas sem qualquer preocupação com o desenvolvimento do espírito de equipe. Consequentemente, há pouca interação e cooperação e os conflitos são assoberbados. Assim, frequentemente, os profissionais de enfermagem culpam a falta de recursos, de dinheiro, de tempo para não realizar um “bom trabalho”. Essa postura negativa e derrotista só pode gerar um trabalho tecnicista, sem foco no cliente e completamente insatisfatório, tanto para a pessoa como para a organização. Somente o autodesenvolvimento permite que o profissional assuma o controle de sua vida na busca da realização pessoal e retome o foco no resultado do trabalho (DRUCKER, 2012c). O enfermeiro, como líder da equipe, detém a chave desse processo se souber organizar o trabalho de maneira que cada pessoa da equipe sinta‑se essencial para atingir as metas organizacionais. O primeiro passo é definir no que se concentrar para fazer a diferença, tanto para a organização como para a pessoa. As palavras de Drucker (2012c) são apropriadas neste momento: Uma enfermeira, por exemplo, sob grandes pressões de tempo e dinheiro, com os médicos exigindo mais e a papelada fora de controle, olha para os trinta e dois pacientes de ortopedia e diz: “Eles são o meu trabalho. Tudo o mais é basicamente impedimento. O que posso fazer para me concentrar neste trabalho? Talvez seja algo referente ao processo. Será que podemos mudar a maneira pela qual prestamos nossos serviços, para que eu seja uma enfermeira melhor?” (DRUCKER, 2012c, p. 138). Quando a perspectiva pessoal muda, de culpar os outros para assumir a responsabilidade, nota‑se que somente a própria pessoa pode tornar a si mesma eficaz. Daí, ela parte em busca de dar o máximo de si e encoraja os outros a agir da mesma maneira. Quando a pessoa assume essa responsabilidade, procura uma forma sistemática de verificar o que está errado, o que precisa ser melhorado e como cada membro da equipe pode ajudar. O fator crítico é ser responsável e levar a sério aquilo que faz, pois dessa forma você “cresce” até o trabalho. Assim, o autodesenvolvimento depende de a pessoa perguntar‑se: “Para que esse trabalho seja feito da maneira certa, que conhecimentos, habilidades e atitudes preciso ter? O que preciso aprender para fazer a diferença?” (DRUCKER, 2012c). Imagine que você é o gerente de enfermagem de unidade de terapia intensiva de um hospital e durante anos não houve acidentes de trabalho nessa unidade. No entanto, recentemente, as estatísticas apontaram que os profissionais de enfermagem estão sofrendo acidentes com objetos perfurocortantes. Colocando a responsabilidade em primeiro lugar, você decide que precisa compreender as causas da ocorrência de acidentes. Assim, descobre que, mesmo tendo recebido treinamento prévio, muitos profissionais não usam as medidas de segurança, conhecidas como precauções‑padrão (PP), porque não acreditam que podem se acidentar. E usar os equipamentos de proteção (luvas, por exemplo), segundo eles, diminui a habilidade manual e “atrapalha”; assim, descartam as agulhas em locais impróprios (perto do leito do paciente, por exemplo). Percebe‑se que não se trata de desconhecer os riscos ou de como preveni‑los, mas de o profissional não dar importância à própria segurança. Querendo fazer a diferença, você pergunta: “como provocar uma mudança aqui? Que habilidades preciso desenvolver para lidar com esse problema?”. Afinal, você se importa com a segurança de sua equipe e assume a responsabilidade de garanti‑la, pois isso é parte do seu papel gerencial. 142 Unidade II Observação Precauções‑padrão são um conjunto de medidas, instituídas pelo Centro de Prevenção e Controle de Doenças (CDC, Atlanta, EUA), para evitar a exposição a material biológico. Compreende o uso de equipamentos de proteção individual (máscaras, luvas, óculos e aventais), como barreiras de proteção durante a manipulação de sangue e outros fluidos orgânicos, e manipulação e descarte cuidadoso de objetos perfurocortantes (agulhas, bisturis, lâminas, lancetas etc.). Saiba mais As precauções‑padrão não se aplicam somente aos cuidados administrados ao paciente, mas também a processos desenvolvidos na lavanderia e em outros setores de unidades de saúde. Para conhecer o conteúdo completo das PP, leia: GARNER, J. S. Guideline for Isolation Precautions in Hospitals. The Hospital Infection Control Practices Advisory Committe. Infect Control Hospital Epidemiol, v. 17, n. 1, p. 53‑80, 1996. O exemplo mostra‑nos que, quando a pessoa assume a responsabilidade de se desenvolver, ela adquire uma visão maior de si mesma, maior capacidade, autorrespeito e peso como pessoa (DRUCKER, 2012c). Para lidar com o problema de falta de adesão às precauções‑padrão, o enfermeiro‑gerente do caso descrito precisa desenvolver uma forte interação com a equipe; capacidade de se comunicar eficazmente; determinar um padrão de comportamento seguro; ter uma liderança voltada ao papel de mentor e habilidade para lidar com a resistência à mudança. É interessante notar que, nesse caso, o enfermeiro‑gerente também estaria promovendo e desenvolvendo os demais membros da equipe, pois a falta de adesão às medidas de segurança denota um comportamento irresponsável, propenso ao risco, por parte dos profissionais. Ao lidar com o trabalho dessa maneira, o gerente não é só alguém com um cargo, mas alguém que se dedica, respeita‑se e valoriza‑se; e é desse modo que ele será lembrado. 6 QUALIDADE EM SAÚDE: METODOLOGIAS DE AVALIAÇÃO DA QUALIDADE 6.1 Qualidade em saúde Nesta unidade, analisaremos os métodos e instrumentos de avaliação da qualidade em saúde. Durante anos, muitos profissionais da saúde não acreditavamser possível medir a qualidade da saúde, uma vez que esta é determinada por uma complexa inter‑relação de fatores. No entanto, a medicina “a qualquer custo” revelou‑se impraticável, na medida em que os sistemas de pagamentos dos serviços de saúde (governo, convênios) passaram a limitar os recursos financeiros. 143 AUDITORIA E GESTÃO DA QUALIDADE EM INSTITUIÇÃO DE SAÚDE Assim, a necessidade de gerenciar custos impulsionou uma mudança no paradigma e na dinâmica de trabalho dos profissionais de saúde, o que significou redefinir métodos, criar protocolos e avaliar o grau de qualidade da assistência prestada. Dessa forma, as organizações de saúde buscaram inserir o processo de controle da qualidade, usando o conhecimento advindo da indústria, no qual a qualidade do produto é imprescindível para a sobrevivência em um mercado competitivo. Esse processo iniciou‑se primeiro nos Estados Unidos e, posteriormente, chegou ao Brasil, onde desencadeou gigantescas alterações nas organizações de saúde, públicas e privadas. Avadis Donabeddian, um pediatra armênio radicado nos EUA, foi precursor na criação de um método para avaliar a qualidade. Nessa abordagem, a qualidade em saúde deve ser considerada em três aspectos: estrutura (recursos), processo (procedimentos, atividades) e resultados (impacto na saúde). Desde então, as metodologias de avaliação de qualidade evoluíram significativamente. Ferramentas estatísticas e metodológicas tornaram possível medir, comparar e discriminar os fatores e desvendar a complexa teia que envolve a assistência à saúde. Atualmente, podemos contar com diferentes metodologias de avaliação, dentro e fora da organização de saúde. A perspectiva do cliente e, em alguns casos, dos profissionais de saúde foi incorporada no processo. Assim, nesta unidade compreenderemos em detalhes o processo de avaliação quanto: • aos princípios, métodos e instrumentos; • às metodologias atuais; • à relação entre qualidade em saúde e segurança do paciente; • às ferramentas usadas na gestão da qualidade. 6.1.1 Avaliação da qualidade: princípios, métodos e instrumentos O processo de avaliação da qualidade dos serviços de saúde vem sendo desenvolvido há décadas. Os Estados Unidos são pioneiros, e cita‑se o Relatório Flexner, de 1910, que avaliou a educação médica em diversos cursos de Medicina e em hospitais, como o primeiro documento que atentava sobre a qualidade dessas instituições, propondo mudanças para o aprimoramento. No entanto, somente em 1960, com a implantação dos programas de saúde governamentais Medicare e Medicaid em hospitais, consolidou‑se a necessidade de acompanhar os resultados dos investimentos vultosos realizados (PEREIRA, 2006). A literatura aponta o modelo de avaliação de qualidade de Donabedian, da década de 1960, como precursor de metodologias de avaliação da qualidade, sendo hoje considerado um clássico, sobre o qual diversos outros foram criados. Nesse modelo, a qualidade é avaliada em três dimensões fundamentais: estrutura, processo e resultados. A estrutura refere‑se aos recursos físicos, materiais e humanos necessários à assistência. O processo compreende todas as atividades e procedimentos que a prestação da assistência exige para obter o melhor resultado de saúde. E, finalmente, o resultado 144 Unidade II aponta o impacto que as ações desenvolvidas, dentro de uma estrutura desejada, alcançaram em termos de saúde e bem‑estar do paciente (PEREIRA, 2006). A figura a seguir descreve graficamente o modelo de Donabedian: Estrutura: recursos físicos, materiais e humanos necessários Processo: todas as atividades e procedimentos que a prestação da assistência exige para se obter o melhor resultado de saúde Resultados: o impacto qua as ações desenvolvidas, dentro de uma estrutura desejada, alcançaram em termos de saúde e bem‑estar do paciente Figura 13 – Modelo de Donabedian para avaliação da qualidade dos serviços de saúde O método de Donabedian prevê a definição de três elementos essenciais para avaliação: critérios, padrões e indicadores. Critério é um atributo da estrutura, processo ou resultado capaz de inferir uma conclusão sobre a qualidade. Padrão é uma medida quantitativa específica que define a qualidade desejada. E indicador é uma medida quantitativa que pode ser usada para inferir uma avaliação dos serviços de saúde (DENSER, 2003). A figura seguinte descreve essas definições. • Critério: atributo da estrutura, processo ou resultado, capaz de inferir uma conclusão sobre qualidade. • Padrão: medida quantitativa específica que define a qualidade desejada. • Indicador: medida quantitativa que pode ser usada para inferir uma avaliação dos serviços de saúde. Critério Indicador Padrão Figura 14 – Componentes da avaliação da qualidade em UTI, segundo Donabedian Chamamos a atenção para o fato de o indicador ser um componente crítico do processo de avaliação da qualidade em saúde. Portanto, vamos entender um pouco mais sobre ele. Durante muito tempo, acreditou‑se na impossibilidade de mensurar a qualidade da saúde, por ser algo tão complexo que nenhuma medida numérica seria capaz de expressar. No entanto, hoje já podemos dizer que existe uma base bastante sólida de conhecimentos de saúde e estatísticos que conferem confiabilidade aos processos de avaliação de qualidade. Criar um indicador de saúde é um procedimento delicado. Como saber se a medida definida é confiável? Como garantir que essa medida expressa o critério relacionado a ele? Felizmente, hoje, o processo de avaliação de qualidade evoluiu para a acreditação, no qual os conjuntos de padrões e 145 AUDITORIA E GESTÃO DA QUALIDADE EM INSTITUIÇÃO DE SAÚDE de indicadores já foram previamente definidos e avaliados quanto à confiabilidade. Entretanto, antes de compreendermos o que significa acreditação, vamos nos deter no papel do indicador dentro do processo de avaliação. Indicadores devem ser entendidos como medidas que expressam o grau de desempenho de diferentes aspectos da assistência à saúde, descrevendo, assim, o que está ocorrendo na realidade. Podem ser expressos em um índice, uma taxa ou um coeficiente; ou seja, o atributo ao qual o indicador se refere precisa ser mensurável e sensível aos determinantes sociais, econômicos, ambientais e biológicos (DENSER, 2003). Além disso, para representar a qualidade de um serviço, recomenda‑se que o indicador seja prático e adaptável à realidade (D’INOCCENZO, 2010). Vejamos a próxima figura, que apresenta exemplos dos componentes de avaliação de qualidade, no contexto da Unidade de Terapia Intensiva (UTI), segundo Donabedian. Quadro 19 – Componentes da avaliação da qualidade em UTI, segundo Donabedian Estrutura Processo Resultado Critério Recursos humanos em UTI Profilaxia para úlcera de decúbito Infecções associadas a cateteres centrais Padrão 50% enfermeiros/total profissionais de enfermagem 90% dos pacientes de risco Até 10% pacientes com cateteres Indicador Nº enfermeiros/total de profissionais enfermagem Nº pacientes c/ profilaxia/ total de pacientes de risco Nº pacientes infecções/total de pacientes de risco Fonte: DENSER, C. P. A. C. Indicadores: instrumento para a prática de enfermagem com qualidade. In: BORK, A. M. T. E.; MINATEL, V. F. Enfermagem de excelência: da visão à ação. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2003. p. 91‑100. Para representar a qualidade da estrutura de uma UTI, ou seja, a adequação dos recursos físicos, humanos e materiais, foi escolhido o indicador que expressa a proporção de enfermeiros em relação ao total de profissionais da enfermagem. Para representar a qualidade dos processos, utilizou‑se um índice que expressa a proporção de pacientes que receberam profilaxia de úlcera de pressão, entre aqueles que estavam sob risco de ter essa complicação. O mesmo ocorreu com o indicador de resultados, pelo qual se observou a proporção de pacientes que apresentaram infecção em cateter central em relação ao total de pacientes com cateteres.Podemos perceber que os indicadores propostos buscaram representar aspectos da realidade da assistência hospitalar, que tem impacto forte sobre os resultados de saúde. Ao mensurar a proporção de enfermeiros, avalia‑se o nível de qualificação dos recursos humanos oferecidos. Da mesma forma, ao mensurar a proporção de pacientes que receberam o cuidado preventivo de úlcera de pressão, busca‑se verificar se a assistência prestada está voltada para a profilaxia de complicações inerentes ao tratamento. Por fim, ao mensurar a proporção de pacientes que desenvolveram infecção hospitalar relacionada a cateter, avalia‑se se os cuidados administrados não resultaram em danos maiores. Como expressão matemática, o indicador é apenas um número. Portanto, para inferir algo sobre a qualidade do serviço de saúde e ganhar significado, o número deve ser comparado a um padrão, que já sabemos ser o ideal de desempenho da organização. Essa comparação permitirá que se compreenda o grau de proximidade ou afastamento da realidade com aquilo que se considera 146 Unidade II ideal (o padrão). Quando o valor do indicador está bem próximo ou exatamente igual ao padrão, considera‑se que há conformidade parcial ou total. Quando está distante, considera‑se não conformidade (MARQUIS; HOUSTON, 2010). Vejamos novamente os exemplos da figura anterior. Nela, estão definidos os seguintes padrões: proporção de enfermeiros sobre o total de profissionais de enfermagem = 50%; profilaxia de úlcera de decúbito em pelo menos 90% dos pacientes; e proporção de pacientes com infecções associadas a cateter central = 10%. Mensurando esses dados, nota‑se que a proporção de enfermeiros era de 70%; a profilaxia úlcera de decúbito foi realizada em 99% dos pacientes; e o “índice de infecção” foi de 15%. O que isso significa? Ao comparar com os padrões, podemos dizer que há conformidade total com o primeiro e segundo padrão, e não conformidade com o terceiro; quanto ao nível de qualificação dos profissionais e aos cuidados para evitar as úlceras de pressão, a qualidade está adequada. No entanto, quanto à prevenção de infecção, há problemas, é preciso adotar medidas apropriadas para corrigi‑lo. Com esses exemplos, podemos perceber que o indicador tem o papel crucial de apontar quais aspectos da atenção à saúde precisam ser modificados ou aprimorados. Assim, podemos dizer que o indicador constitui‑se em sinalizador do que está ou não certo (DENSER, 2003). Nos exemplos dados, apontamos indicadores que expressam as dimensões da qualidade, propostas por Donabedian, ou seja, estrutura, processo e resultado. Essa é uma das classificações mais usadas, por ser bastante abrangente e completa. Os indicadores de estrutura podem mensurar não só aspectos quantitativos da estrutura organizacional, mas também se a estrutura física segue as especificações técnicas e de segurança e se facilita a dinâmica de trabalho. Outro dado importante da estrutura diz respeito à tecnologia utilizada, se oferece suporte adequado à assistência administrada, e, em relação aos recursos humanos, se são quantitativamente e qualitativamente adequados. O quadro e a figura a seguir apontam alguns exemplos de indicadores de estrutura. Quadro 20 – Indicadores de estrutura, segundo modelo de Donabedian N° de enfermeiros/n° de leitos de UTI: total de nº de enfermeiros/total de leitos de UTI. Total de horas de enfermagem/paciente/dia: total de horas de assistência de enfermagem/ total de pacientes/dia. N° de bombas de infusão/n° de leitos: total de bombas de infusão/total de leitos de UTI. Total de horas de treinamento/ano: n° de horas de treinamento/12 meses. Taxa de acidentes de trabalho: total de profissionais de saúde que sofreram acidentes de trabalho/total de profissionais de saúde. Fonte: Denser (2003). 147 AUDITORIA E GESTÃO DA QUALIDADE EM INSTITUIÇÃO DE SAÚDE 0,8 0,4 0,6 0,2 0,7 Mediana: 0,44 Relação enfermeiro/leito 2º trimestre 2011 1 95 133 1172 106 144 128 0, 11 0, 28 0, 32 0, 34 0, 34 0 ,4 0 0, 40 0 ,4 7 0, 52 0, 54 0, 56 0, 60 0, 60 0 ,6 6 0,3 0,5 0,1 0,0 Figura 15 – Exemplo de indicador de estrutura, segundo Donabedian Na figura anterior, temos a avaliação de um indicador de estrutura que faz parte do Programa Compromisso com a Qualidade Hospitalar, o qual avalia a qualidade em hospitais do Estado de São Paulo desde 1991. É importante perceber que a mensuração do indicador relação enfermeiro/leito variou consideravelmente nas instituições hospitalares participantes. Em algumas instituições, a estrutura organizacional conta com maior proporção de recursos humanos qualificados por leito, com índices de 0,60; em outras, encontra‑se uma realidade quase oposta, como nas instituições com índices de 0,11 a 0,30. Os indicadores de processo avaliam as atividades assistenciais e a forma como foram realizadas. É importante destacar que a avaliação do processo de trabalho implica a padronização de condutas de trabalho por meio de protocolos assistenciais (FERNANDES et al., 2010). Os protocolos assistenciais são, hoje, a única maneira de garantir que todos os pacientes receberão o mesmo tipo de assistência, independentemente da subjetividade do profissional de saúde (isto é, conhecimentos, habilidades, disposição etc.) que está de plantão. Muitas instituições usam protocolos clínicos multidisciplinares, nos quais estão definidos cuidados clínicos multidisciplinares padronizados, baseados em evidências científicas, visando aos melhores resultados. Em Unidades de Terapia Intensiva (UTI), existem os pacotes de tratamentos para doenças (por exemplo, para sepse), como forma de garantir a continuidade da assistência e controlar custos (FERNANDES et al., 2010). O próximo quadro aponta alguns exemplos de indicadores de processo. Quadro 21 – Indicadores de processo, segundo o modelo de Donabedian Tempo de permanência em UTI: n° de dias que paciente permaneceu internado. Manutenção da integridade da pele: n° total de úlceras de decúbito X total de pacientes/dia. Satisfação da equipe de enfermagem: nível de satisfação da equipe de enfermagem. Cuidados com acesso venoso periférico: n° de pacientes com CVP e cuidados adequados X total de pacientes com CVP. Prevenção de queda: n° de pacientes com risco de queda e prescrição de cuidados X total de pacientes com risco de queda. Fonte: Denser (2003). 148 Unidade II Os indicadores de resultados, por sua vez, medem o que aconteceu com o paciente em razão do cuidado administrado. O pressuposto atual é de que, se há qualidade na assistência a saúde, há melhoria do resultado ou desfecho, o que implica ausência de morte e eventos adversos. Paradoxalmente, as medidas para inferir sobre o resultado do cuidado apontam para aspectos negativos. Por exemplo, os indicadores de mortalidade inferem saúde por meio da ausência de morte em consequência de uma doença. Outro exemplo são os indicadores de segurança que inferem assistência segura por meio da ausência de riscos e eventos adversos (por exemplo, índice de queda e de infecção hospitalar) (FERNANDES et al., 2010; MARQUIS; HUSTON, 2010). O quadro e a figura a seguir apresentam exemplos desse tipo de indicador. Quadro 22 – Indicadores de resultado, segundo o modelo de Donabedian Taxas de acidentes com pacientes: total de quedas que levaram a ferimentos/ total pacientes/dia. Satisfação do paciente no controle da dor: nível de satisfação do pacientes sobre cuidado recebido no controle da dor. Taxas de IH/1000 pacientes/dia para infecção do trato urinário (ITU): n° total de ITU adquirida (72h)/n° de paciente c/ cateteres vesicais por dia. Retornos não esperados em UTI: n° de retornos inesperados/total pacientes/dia. Fonte: Denser (2003). 4% 6% 2% 7% Mediana: 2,35% Taxa de reingresso na UTI – Adulto durante a mesma internação 2º trimestre de 2011 1 953 1172 1064 128 0, 00 % 0, 00 % 0, 18 % 0, 64 % 0, 93 % 2, 02 % 2, 68 % 2, 90 % 4, 05 % 4, 48 % 6, 15 % 6, 19 % 3% 5% 1% 0%Figura 16 – Exemplo de indicador de resultado, segundo Donabedian Com esses exemplos, podemos perceber que utilizar indicadores com base no modelo de Donabedian oferece um panorama bastante amplo e completo da realidade da instituição de saúde e da assistência oferecida. Muitas vezes, utilizam‑se esses indicadores associados a outros, como os de eventos sentinelas. Estes medem a frequência e a seriedade de ocorrências indesejadas e que podem ser evitáveis, como suicídio e raptos nos estabelecimentos de saúde, cirurgias realizadas em paciente ou parte do corpo errados, mortes relacionadas à falta ou demora no atendimento, corpo estranho esquecido na cirurgia, surtos de infecção hospitalar, reações transfusionais e erros de medicação (TRONCHIN et al., 2009; BITTAR, 2004; PEDREIRA, 2009). 149 AUDITORIA E GESTÃO DA QUALIDADE EM INSTITUIÇÃO DE SAÚDE Outras classificações descrevem indicadores nas dimensões assistenciais ou gerenciais para a área hospitalar. Indicadores assistenciais referem‑se a todos os aspectos da assistência de enfermagem que podem ser mensurados, uma vez que a Enfermagem é a categoria profissional que mais presta assistência a pacientes hospitalizados. Já os indicadores gerenciais, estão relacionados a aspectos administrativos da organização globalmente. Apesar dessa distinção, na prática, os indicadores são vistos em conjunto, de forma associada, uma vez que a assistência e a gerência precisam estar perfeitamente integradas. Atualmente, há uma tendência crescente de usar diversos tipos de indicadores, de maneira a compor um panorama o mais completo possível da assistência oferecida, de forma seriada, contínua e, sobretudo, com validade externa, o que permitiria comparações entre instituições nacionais e internacionais (D’INNOCENZO, 2010). A implantação de indicadores de qualidade em hospitais brasileiros iniciou‑se na década de 1990 e seguiu o modelo americano. Na verdade, ainda hoje podemos observar essa característica, se atentarmos para diversas instituições que estão se credenciando à Joint Comission Internacional, uma instituição credenciada pela Joint Comission on Accreditacion of Healtcare Organizations. Trata‑se de uma empresa credenciadora da qualidade institucional que segue critérios e métodos próprios, mas com enorme visibilidade e confiabilidade (D’INNOCENZO, 2010). Também em meados da década de 1990, nos EUA, iniciou‑se uma preocupação em buscar indicadores sobre a qualidade da assistência de Enfermagem. Isso ocorreu em consequência da preocupação com a redução do número de enfermeiros que prestavam cuidados diretos nos hospitais americanos para reduzir custos de saúde. Enfermeiros foram, então, substituídos por pessoal não licenciado, deixando a segurança do paciente em segundo plano. Assim, a Associação Americana de Enfermagem (ou American Nurse Association – ANA) tomou a iniciativa de avaliar o impacto dessa mudança, o que culminou na criação da Agência Nacional para o Gerenciamento de Indicadores de Qualidade de Enfermagem (National Database of Nursing Sensivity Quality Indicators). Após algumas revisões, em 1996, esses indicadores eram os seguintes (BOHOMOL, 2010): • proporção de enfermeiros, técnicos e profissionais não licenciados, por paciente hospitalizado; • total de horas de enfermagem providas por paciente/dia; • manutenção da integridade da pele; • queda de pacientes; • satisfação do paciente com gerenciamento da dor; • satisfação do paciente com informações educacionais; • satisfação do paciente com os cuidados de modo geral; • satisfação do paciente com o cuidado específico de enfermagem; 150 Unidade II • índice de infecção hospitalar; • satisfação da equipe de enfermagem; O quadro a seguir descreve a definição desses indicadores. Quadro 23 – Indicadores sensíveis de qualidade em Enfermagem, segundo a Associação Americana de Enfermagem (1996) Indicador Definição Proporção de enfermeiros, técnicos e profissionais não licenciados Percentual de horas dos enfermeiros dispensadas no cuidado direto ao paciente, em relação ao total de horas de enfermagem. Total de horas de enfermagem/ paciente/dia Número total de horas produtivas trabalhadas pela equipe de enfermagem com responsabilidade pelo cuidado direto ao paciente, em uma unidade de internação por paciente‑dia. Manutenção da integridade da pele Razão entre número de pacientes com úlcera de pressão (grau II ou mais) e pacientes/dia X 1000. Queda de pacientes Razão entre número de pacientes que tiveram queda com dano físico, durante internação hospitalar, e pacientes/dia X 1000. Satisfação do paciente com gerenciamento da dor Grau de satisfação do paciente sobre quão bem a equipe de enfermagem gerenciou sua dor, de acordo com uma escala de respostas. Satisfação do paciente com informações educacionais Grau de satisfação do paciente quanto aos esforços da equipe de enfermagem para educá‑lo, com foco nas suas condições e necessidades, de acordo com uma escala de respostas. Satisfação do paciente com o cuidado de modo geral Grau de satisfação do paciente com os cuidados recebidos durante a internação, de acordo com uma escala de respostas. Satisfação do paciente com o cuidado específico de enfermagem Grau de satisfação do paciente com os cuidados de enfermagem recebidos durante a internação, de acordo com uma escala de respostas. Índice de infecção hospitalar Razão entre pacientes que desenvolveram infecções em um período de 72 horas após internação e pacientes/dia X 1000. Satisfação da equipe de enfermagem Grau de satisfação expresso pela equipe de enfermagem que trabalha, direta ou indiretamente, com cuidados, de acordo com uma escala de respostas. Fonte: Bohomol (2012). Lembrete Paciente‑dia corresponde ao número de pacientes admitidos em uma unidade de internação em 24 horas. Inicialmente, diversos serviços de enfermagem utilizaram esse grupo de indicadores. Entretanto, a publicação do Manual de Indicadores de Enfermagem do Núcleo de Apoio à Gestão Hospitalar (NAGEH), do Programa Compromisso com a Qualidade Hospitalar (CQH), revisado recentemente, definiu um grupo de 15 indicadores assistenciais e 10 indicadores de gestão de pessoas, descritos no quadro a seguir. 151 AUDITORIA E GESTÃO DA QUALIDADE EM INSTITUIÇÃO DE SAÚDE Quadro 24 – Definição dos indicadores assistenciais de enfermagem, NAGEH, Programa CQH, 2012 Indicador Definição Incidência de queda do paciente Razão entre número de quedas e número de pacientes‑dia X 1000. Incidência de extubação não planejada de cânula endotraqueal Razão entre número de pacientes extubados acidentalmente e número de pacientes intubados/dia X 100. Incidência de saída não planejada de sonda oro/ nasogastroenteral para aporte nutricional Razão entre número de perdas de sonda nasogastrointestinal e número de pacientes com essa sonda/dia X 100. Incidência de úlcera por pressão – Unidade de Internação (UI) adulto Razão entre número de casos novos de pacientes com úlcera de pressão, em um determinado período, e número de pessoas expostas ao risco de adquirir essa complicação X100 (UTI). Incidência de úlcera por pressão – Unidade de Terapia Intensiva (UTI) adulto Razão entre número de casos novos de pacientes com úlcera de pressão, em um determinado período, e número de pessoas expostas ao risco de adquirir essa complicação X100 (UTI). Incidência de lesão de pele Razão entre número de casos novos de pacientes com lesões de pele e número de pacientes‑dia X 100. Incidência de erro de medicação Razão entre número de erros relacionados à administração de medicamentos e número de pacientes‑dia X100. Incidência de quase falha relacionada à administração de medicamento Razão entre número de quase falhas relacionadas ao processo de administração de medicamentos e número de pacientes‑dia X 100. Incidência de flebite Razão entre número de casos de flebite em um período e número pacientes‑dia com acesso venoso periférico X 100. Incidência de extravasamentode contraste Razão entre número de casos de extravasamento de contraste e número de pacientes que receberam contraste venoso X 100. Incidência de extravasamento de droga antineoplásica em pacientes em atendimento ambulatorial Razão entre número de casos de extravasamento de drogas antineoplásicas e somatória de atendimentos ambulatoriais de pacientes que receberam droga antineoplásica X 100. Incidência de extravasamento de droga antineoplásica em pacientes internados Razão entre número de casos de extravasamento de drogas antineoplásicas e pacientes‑dia que receberam droga antineoplásica X 100. Incidência de perda de cateter central de inserção periférica Razão entre número de perda de inserção de cateter central de inserção periférica e número de pacientes‑dia com cateter central de inserção periférica X 100. Incidência de perda de cateter venoso central Razão entre número de perdas de cateter venoso central e número de pacientes com cateter venoso central X 100. Incidência de instrumentais cirúrgicos com sujidade Razão entre instrumentais cirúrgicos com sujidade no processo de inspeção e total de instrumentais cirúrgicos inspecionados X 1000. Horas de assistência de enfermagem (Unidades de Internação) Razão entre número de horas de assistência de enfermagem prestada e número de pacientes‑dia. Horas de enfermeiro (Unidades de Internação) Razão entre número de horas de assistência prestada por enfermeiros e número de pacientes‑dia. Horas de técnicos/auxiliares de enfermagem (Unidades de Internação) Razão entre número de horas de assistência prestada por técnicos/auxiliares de enfermagem e número de pacientes‑dia. Horas de assistência de enfermagem em Unidades de Terapia Intensiva Razão entre número de horas de assistência de enfermagem em UTI e número de pacientes‑dia. Horas de enfermeiros em Unidades de Terapia Intensiva Razão entre as horas de assistência prestada por enfermeiros e número de pacientes‑dia, em UTI. Horas de técnicos e auxiliares de enfermagem em UTI Razão entre as horas de assistência prestada por técnicos de enfermagem e número de pacientes‑dia, em UTI. Índice de treinamento de profissionais de enfermagem Razão entre a soma de (número de trabalhadores ouvintes no curso 1 + número de trabalhadores ouvintes no curso 2 + número de trabalhadores ouvintes no curso x...) e número de horas/homem trabalhadas X 1000. 152 Unidade II Taxa de absenteísmo de profissionais de enfermagem Razão entre número de horas/homem ausentes e número de horas/homem trabalhadas X 100. Taxa de rotatividade de profissionais de enfermagem Razão entre número de admissões somadas às demissões dividido por 2, e número de trabalhadores ativos no período por mês X 100. Taxa de acidentes de trabalho de profissionais de enfermagem Razão entre número de acidentes de trabalho e número de trabalhadores ativos no período por mês X 100. Fonte: CQH (2012). O processo de avaliação da qualidade enfrenta diversos desafios. O primeiro está relacionado à metodologia adotada. Como veremos mais adiante, existem vários métodos estruturados, e a escolha de um referencial implica estruturação complexa de diversas operações, que incluem definição operacional de padrões; elaboração de instrumentos de mensuração; coleta e análise contínuas das informações por pessoal treinado. Pode‑se imaginar o quão intenso e exaustivo esse processo pode ser. Outro grande desafio diz respeito à análise e consistência dos dados coletados. Como se trata de dados estatísticos, a análise de forma consistente depende de pessoal qualificado não só em operações matemáticas, mas também na inter‑relação entre os dados. Já vimos anteriormente que uma informação matemática, por si só, não tem significado se não for relativizada. Nesse caso, é de extrema relevância para o processo que os dados sejam não só relativizados pelo padrão, mas também entre si, pois diversos indicadores de qualidade só adquirem significado quando avaliados em conjunto. O último desafio que consideramos é quanto ao uso efetivo dos resultados apontados. Por se tratar de um processo exaustivo, muitas instituições acabam perdendo o foco em como a avaliação da qualidade vai ser utilizada para direcionar ações gerenciais. Para que isso ocorra, é necessário um forte comprometimento de todos os profissionais, sejam médicos, enfermeiros, fisioterapeutas, nutricionistas etc., o que nem sempre ocorre da forma desejada. Até agora, vimos como se deu o processo de desenvolvimento de indicadores que captassem a qualidade da assistência hospitalar. Contudo, é importante também perceber que o uso de indicadores de saúde extrapola os limites do hospital. Atualmente, existem diversas abordagens para avaliar os níveis de saúde de populações, por meio da mensuração de um conjunto amplo de indicadores. A primeira abordagem que destacamos é o grupo de Indicadores e Dados Básicos, do Ministério da Saúde. Por meio de uma atualizada base de dados, coordenada pelo Departamento de Informação e Informática do SUS (Datasus), os indicadores de saúde populacional estão agrupados nas categorias: demográficos, socioeconômicos, mortalidade, morbidade e fatores de risco, de recursos e coberturas. Esse grupo de indicadores busca compreender a saúde da população brasileira por meio de diversos determinantes, como a escolaridade, o acesso ao saneamento básico e aos serviços de saúde. Vamos conhecer um pouco mais sobre eles observando definição e componentes expostos no próximo quadro. Tendo em vista que a saúde é um estado dinâmico dependente da integração de fatores comportamentais, ambientais e sociais, esse grupo de indicadores incorpora aspectos sobre condições de 153 AUDITORIA E GESTÃO DA QUALIDADE EM INSTITUIÇÃO DE SAÚDE vida, acesso a serviços de saúde e qualidade da atenção primária. Nota‑se a intenção clara de englobar diversos aspectos determinantes do estado de saúde do país e de diferentes grupos populacionais (mulheres, crianças, recém‑nascidos e idosos, dentre outros) (BREVIDELLI; FREITAS, 2012). No entanto, como nos indicadores de qualidade usados no âmbito hospitalar, percebemos uma ênfase na investigação de aspectos negativos, na medida em que são mensuradas as doenças (indicadores de morbidade), as mortes (indicadores de mortalidade) e as condições desfavoráveis à saúde (fatores de risco), como o baixo peso em recém‑nascidos, o déficit ponderal na população infantil, a prevalência da diabetes mellitus. É preciso ressaltar também os aspectos demográficos da população que aumentam a demanda de serviços de saúde, como o índice de envelhecimento e a proporção de idosos na população. Apenas os indicadores de recursos e a cobertura apontam para uma visão de aspectos positivos para indicar o nível de saúde da população, uma vez que a disponibilidade e o acesso aos serviços de saúde podem ser inferidos como fatores primordiais para elevar o grau de qualidade de vida da população (BREVIDELLI; FREITAS, 2012). Outra questão relevante é que os indicadores de saúde no Brasil são descritos de forma separada e disponibilizados de maneira dissociada. Entretanto, atualmente, há uma crescente preocupação em integrar diversas estatísticas de saúde, de maneira a expressar o estado de saúde de uma população pelo seu nível de qualidade, cuja evolução no tempo possa ser visualizada e comparada (BREVIDELLI; FREITAS, 2012). Quadro 25 – Indicadores de saúde, Ministério da Saúde, 2006 Grupo de Indicadores Definição Exemplo de componentes Demográficos Reúne informações sobre a população, seu grau de urbanização, seu crescimento, desenvolvimento, envelhecimento e morte. População total; razão dos sexos; taxa de crescimento; grau de urbanização; taxa de fecundidade total; taxa específica de fecundidade; taxa bruta de natalidade; mortalidade proporcional por idade; mortalidade proporcional por idade em menores de um ano; taxa bruta de mortalidade; esperança de vida ao nascer; esperança de vida aos 60anos; proporção de menores de 5 anos na população; proporção de idosos na população; índice de envelhecimento; razão de dependência. Socioeconômicos Mede aspectos que determinem o nível de desenvolvimento econômico e social da população. Taxa de analfabetismo e nível de escolaridade; produto interno bruto, razão de renda e proporção de pobres; taxas de desemprego e trabalho infantil. Mortalidade Reúne dados relativos às condições e patologias que levam à morte da população. Taxa de mortalidade infantil; taxa de mortalidade perinatal; razão de mortalidade materna; mortalidade proporcional por grupo de causas; mortalidade proporcional por causas mal definidas; mortalidade proporcional por doença diarreica aguda em menores de 5 anos; mortalidade proporcional por infecção respiratória aguda em menores de 5 anos; taxa de mortalidade por doenças do aparelho circulatório; taxa de mortalidade por causas externas; taxa de mortalidade por neoplasias malignas; taxa de mortalidade específica por acidente de trabalho; taxa de mortalidade por diabetes mellitus; taxa de mortalidade por cirrose hepática; taxa de mortalidade por Aids; taxa de mortalidade por afecções originadas no período perinatal. Morbidade e fatores de risco Mapeiam taxas de incidência e prevalência de doenças infecciosas e condições e comportamentos que seriam responsáveis por gerar riscos à saúde. Incidência e prevalência de: tuberculose, cólera, dengue, cardiopatias e câncer; incidência de acidentes de trabalho; proporção de nascidos vivos de baixo peso ao nascer; prevalência de déficit ponderal para a idade em crianças menores de 5 anos de idade; prevalência de aleitamento materno; taxa de prevalência de pacientes em diálise. 154 Unidade II Recursos Identifica a quantidade de recursos de saúde disponíveis à população. Número de profissionais de saúde; de leitos hospitalares; de gasto público com saúde e saneamento; de despesa familiar com saúde. Cobertura Quantifica o acesso da população aos serviços de saúde e de estrutura sanitária (rede de água e esgoto, coleta de lixo). Número de consultas e procedimentos médicos; número de internações hospitalares (SUS); gestantes em acompanhamento pré‑natal; proporção de partos hospitalares; cobertura vacinal em crianças menores de um ano; cobertura de planos privados de saúde; cobertura de abastecimento de água, de redes de esgoto e coleta de lixo. Fonte: DATASUS, MS (2006). Como exemplo dessa perspectiva, há os indicadores de saúde do Programa Healthy People, do Departamento de Saúde dos Estados Unidos, cujos objetivos principais são: auxiliar indivíduos a aumentar a longevidade e a qualidade de vida e eliminar as disparidades dos níveis de saúde entre os segmentos da população. O Programa Healthy People 2020 representa a quarta geração dessa iniciativa, nas quais os níveis de saúde são mensurados sob quatro perspectivas: status da saúde em geral; qualidade de vida relacionada à saúde e bem‑estar; determinantes sociais da saúde e disparidades e desigualdades. Para cada aspecto, foram determinadas metas específicas a serem alcançadas para os próximos dez anos, fundamentadas em um abrangente conjunto de indicadores de saúde, o que permite monitorar o progresso do nível de saúde da população americana (United States Department of Health and Human Service, 2010; FIELDING; KUMANYKA, 2009). Em uma tentativa de integrar aspectos quantitativos e qualitativos para avaliar o nível de saúde de uma população, Brevidelli e Freitas (2012) desenvolveram o Índice de Desenvolvimento da Saúde (IDS). Trata‑se de um índice sintético que explora relações de complementaridade entre os Indicadores Básicos de Saúde para representar a disponibilidade e a qualidade de recursos de saúde, físicos e humanos, assim como a eficácia das políticas públicas, para aumentar a longevidade e a qualidade de vida de uma população. Desse modo, o IDS foi composto pelas dimensões: disponibilidade e qualidade dos recursos de saúde; cobertura da atenção básica e de saneamento; eficácia de políticas públicas de saúde na redução da morbidade e mortalidade. Usado para analisar o estado de saúde no Brasil e em suas unidades federativas, o estudo demonstrou que, em 2005, o Brasil apresentava nível intermediário de desenvolvimento da saúde, tendo progredido de patamares inferiores, desde 1999. A maioria das UF apresentava déficits em recursos e cobertura. A dimensão da eficácia mostrou‑se altamente desenvolvida em todo o Brasil. Os autores concluíram que a construção do indicador sintético IDS possibilitou constatar deficiências e disparidades regionais na disponibilidade e qualidade dos recursos de saúde, em grande parte do território nacional. Pelo exposto, percebemos a complexidade do processo de avaliação de qualidade e os desafios a serem enfrentados pelos gestores de saúde comprometidos com a objetividade e a transparência da avaliação. A seguir, apresentamos as diversas metodologias existentes para mensurar a qualidade em saúde. 155 AUDITORIA E GESTÃO DA QUALIDADE EM INSTITUIÇÃO DE SAÚDE 6.2 Metodologias de avaliação da qualidade Como sabemos, atualmente, a qualidade passou a ser um atributo indispensável nas organizações de saúde e um elemento diferenciador no atendimento. Ao mesmo tempo, diferenciar pela qualidade é um grande desafio, pois é fato que, no Brasil, os serviços de saúde possuem inúmeras limitações, como recursos insuficientes e utilizados de maneira inadequada, falta de planejamento estratégico e gestão de resultados centrada no cliente, desperdício, retrabalho e, ainda, ausência de cultura de segurança (RODRIGUES, 2004). Assim, avaliar a qualidade dos serviços de saúde exige planejamento e implantação de uma estrutura organizacional voltada a definir padrões e indicadores de desempenho, instrumentos e métodos para a coleta de dados, análise dos dados e implantação de medidas corretivas. Na verdade, a visão atual é a de gerenciamento contínuo da qualidade, no qual existe a exigência contínua de aprimoramento da qualidade; isso implica busca proativa de padrões sempre mais altos, e não somente corrigir o que está errado para atingir metas atuais. Considera‑se, então, como pressuposto da avaliação da qualidade, a estruturação de uma gerência estratégica, preocupada com a eficiência e efetividade das intervenções de saúde, o que resultaria em segurança do cliente e dos profissionais; distribuição eficiente dos recursos materiais, financeiros e humanos e consequente redução do desperdício; adequação dos procedimentos diagnósticos e terapêuticos, que levariam ao melhor resultado de saúde possível (RODRIGUES, 2004). A avaliação da qualidade nada mais é do que parte da função controle dentro do processo administrativo. O trabalho do gerente é planejar, organizar, dirigir e controlar. Por essa razão, essa fase é conhecida como controle de qualidade, no qual o desempenho da organização é avaliado com base nos padrões de qualidade. A partir daí, podem ser implantadas ações de correção das discrepâncias. Controlar a qualidade, portanto, não deve ser entendido como forma de fiscalizar e punir culpados, mas sim desenvolver os processos que precisam ser mais eficazes e inovadores. O controle não é a fase final da gestão da qualidade, pois, de maneira cíclica, possibilita o aprimoramento contínuo. Marquis e Huston (2010) apontam que a eficiência de programas de controle de qualidade depende de algumas condições. O quadro a seguir aponta quais são elas. Quadro 26 – Condições necessárias para o controle eficiente da qualidade Apoio da gerência estratégica (administração de alto escalão). Compromisso da organização com o gerenciamento de recursos humanos e fiscais. Metas de qualidade que refletem a busca da excelência. Processo contínuo. Fonte: Marquis e Huston (2010). 156 Unidade II Assim, o processo de controle de qualidade envolve as seguintes etapas: • Estabelecer padrões • Avalar indicadores • Compararcom padrões • Adotar ações corretivas Etapa 1 Etapa 3 Etapa 4 Etapa 2 Figura 17 – Etapas do processo de controle de qualidade A primeira etapa é a determinação de padrões: não basta que isso seja feito somente no papel, é preciso que cada membro da organização conheça esses padrões e comprometa‑se com eles, o que, como já sabemos, depende da atuação das lideranças. Muitas vezes, usam‑se padrões já fixados por outras organizações reconhecidas, procedimento conhecido como benchmarking. A intenção é identificar como seu desempenho difere de um padrão‑ouro (organizações excelentes). Outras vezes, utilizam‑se padrões fixados por organizações acreditadoras, como veremos mais adiante (MARQUIS; HUSTON, 2010). Observação Benchmarketing é o processo de mensuração de produtos, práticas e serviços em comparação com organizações de melhor desempenho. Nos Estados Unidos, muitas organizações, em diferentes estados, intercambiam protocolos e práticas de melhores resultados entre si. A diferença entre a média de desempenho nacional e desempenho de organizações padrão‑ouro é conhecida como gap (discrepância) de qualidade. Sabe‑se que esse gap é pequeno nas indústrias de manufaturas, aviação e bancos. Todavia, na área de saúde, chega a mais de 20% (MARQUIS; HUSTON, 2010). A segunda etapa do processo compreende a avaliação de indicadores. Como já vimos, existe hoje um conjunto padronizado com base em evidências científicas. O uso desses indicadores é importante porque não só permite comparações, como colabora para a qualificação do processo (MARQUIS; HUSTON, 2010). 157 AUDITORIA E GESTÃO DA QUALIDADE EM INSTITUIÇÃO DE SAÚDE A terceira etapa compreende a comparação com padrões. Por exemplo, se o padrão estabeleceu que, no pós‑operatório imediato, os sinais do paciente devem ser mensurados a cada quinze minutos nas primeiras duas horas, iremos observar quantas vezes efetivamente isso foi realizado pela enfermagem. Se o desempenho não corresponder ao padrão, busca‑se identificar os motivos. Para isso, pode‑se utilizar a análise de eventos críticos (Critical Event Analysis – CEA) ou análise de causa‑raiz (Root Cause Analysis – RCA) (MARQUIS; HUSTON, 2010). Finalmente, a quarta etapa envolve a determinação de ações corretivas. Quando o desempenho atual encontra‑se abaixo dos padrões repetidas vezes, é preciso reavaliar se estes não estão distantes da realidade da instituição. No entanto, rebaixar os padrões pode desqualificar o processo, já que a meta é o aprimoramento, nunca a manutenção, do nível atual (MARQUIS; HUSTON, 2010). As ações corretivas não podem implicar punições, mas sim a delimitação de estratégias motivadoras na perspectiva da liderança transformadora. Outro ponto fundamental é não superestimar o retreinamento técnico dos profissionais, pois muitas vezes a adesão do profissional não depende somente de seu conhecimento, mas sim de sua atitude diante das políticas da instituição. Podemos imaginar a seguinte situação: no exemplo dado, sobre o padrão de verificação de sinais vitais, podemos encontrar a situação em que os profissionais responsáveis por esse procedimento desconsideram essa meta porque têm opiniões diferentes sobre como cuidar de pacientes em pós‑operatório imediato. Na visão deles, profissionais experientes, a meta implica mais trabalho e nenhuma consideração com suas capacidades profissionais. Em vista disso, os profissionais não demonstram aceitação e nenhum comprometimento. Essa situação, bastante complexa, exige da liderança a capacidade de compreender muito bem os membros da equipe, isto é, suas expectativas, valores e crenças e como isso interfere no comportamento. Nesse caso, portanto, retreinar o profissional somente para as metas que ele deve atingir é, no mínimo, uma atitude simplista. Assim como nessa situação, muitas vezes a solução implica maior envolvimento das pessoas responsáveis pelo cuidado, a fim de que se sintam valorizadas e respeitadas, resultando em maior comprometimento. 6.2.1 Auditorias Segundo Marquis e Huston (2010), auditoria é um exame sistemático e oficial de registro, processo, estrutura e resultados da assistência para avaliar o desempenho. Essa definição vincula a auditoria à função controle do desempenho da organização, não de maneira fiscalizadora, mas como instrumento para aprendizagem e melhoria contínua. No entanto, atualmente, as auditorias em hospitais adquiriram também o caráter fiscalizatório das contas hospitalares, com o objetivo de reduzir custos. Em uma revisão da literatura sobre auditoria em enfermagem, os autores identificaram que, dos 20 artigos analisados, 15% lidavam com o enfoque estritamente contábil e, 10%, com a assistência de enfermagem e contabilidade de custos (SCARPARO et al., 2009). O quadro a seguir descreve todas as finalidades da auditoria, identificadas nos artigos. 158 Unidade II Quadro 27 – Finalidades da auditoria de enfermagem obtidas em publicações científicas, segundo Scarparo et al. (2009), no período de 1996 a 2005 Analisar e avaliar a assistência para reformulação de planos. Aprendizagem e melhora contínua. Controle da qualidade. Redução de glosas. Identificar deficiências no serviço, fornecer dados para melhoria dos programas de qualidade da assistência e obter dados para atualização. Análise de contas/prontuário, visando à redução de perda financeira. Análise financeira. Otimizar a economia e melhorar a qualidade da assistência. Avaliação da qualidade dos serviços prestados. Profissional (comportamental), operacional (tecnológica), comercial (mercado) e financeiro. Avaliação da qualidade dos serviços prestados. Controlar a gestão e melhorar a eficiência do trabalho. Monitorar a eficácia da qualidade. Educação fornecendo subsídios para gerência da assistência. Avaliação qualitativa. Analisar contas e assistência de enfermagem. Fonte: Scarparo et al. (2009). As auditorias podem ser classificadas como retrospectivas ou simultâneas. As retrospectivas são realizadas em prontuários, após a alta do paciente. A simultânea é realizada durante a internação ou atendimento ambulatorial (MARQUIS; HUSTON, 2010). Podem ter as seguintes características: interna (pela própria instituição) ou externa (por instituição independente, contratada); contínua (ininterrupta) ou periódica (em um período de tempo específico); normal (em todas as áreas) ou específica (em uma área específica); total (em toda a instituição) ou parcial (em parte da instituição) (SETZ; D’INNOCENZO, 2009). A auditoria de enfermagem é um tipo específico de avaliação da assistência e dos registros de enfermagem. Qualquer que seja o tipo de auditoria, ela pressupõe a utilização de indicadores de qualidade. Lembrete Os indicadores mais utilizados em instituições hospitalares são de estrutura, processo e resultados. No entanto, ainda existem indicadores de eventos sentinelas e de enfermagem (assistenciais e gerenciais). As auditorias mais utilizadas para controle de qualidade empregam a base teórica de Donabedian, separando‑se em três componentes: estrutura, processo e resultado. As auditorias de estrutura baseiam‑se na noção de que a qualidade da assistência depende de estrutura adequada e, portanto, referem‑se a todos os recursos necessários para o atendimento perfeito. Assim, envolvem a avaliação 159 AUDITORIA E GESTÃO DA QUALIDADE EM INSTITUIÇÃO DE SAÚDE de recursos físicos, materiais e humanos, como iluminação correta; dimensões dos quartos de acordo com normas de segurança; quantidade adequada de profissionais de saúde, entre as várias categorias etc. (MARQUIS; HUSTON, 2010). As auditorias de processo buscam avaliar a forma como a assistência é prestada, considerando que o modo de prestar assistência influencia sua qualidade. Assim, o foco desse tipo de auditoria são as intervenções, atividades e procedimentos (MARQUIS; HUSTON, 2010). Como veremos, atualmente, existe uma série de intervenções consideradas mais adequadas, baseadas em estudos que avaliaramsua eficácia. A situação citada anteriormente, sobre avaliação da frequência de mensuração de sinais vitais em pacientes em pós‑operatório imediato, é exemplo de um componente que poderia fazer parte de uma auditoria de processo. As auditorias de resultados preocupam‑se em avaliar o impacto ou a eficácia da assistência prestada. O resultado, portanto, está vinculado à qualidade do atendimento (MARQUIS; HUSTON, 2010). Na verdade, medir resultados da assistência é um procedimento complexo, pois envolve vários determinantes. Nem sempre o melhor resultado foi associado à melhor assistência e vice‑versa. Por exemplo, imagine um paciente idoso que está hospitalizado devido a uma infecção intestinal e, por essa razão, apresenta um quadro de diarreia com mais de dez evacuações em um dia. Naturalmente, uma assistência de enfermagem adequada implica higiene íntima frequente. No entanto, não é incomum nesses casos o paciente desenvolver uma lesão perianal, em consequência da constante higienização, uma vez que se trata de um indivíduo idoso e, portanto, com maior fragilidade da pele. Isso não diminui o valor das auditorias de resultado, uma vez que, na prática, são usados vários indicadores ajustados ao risco de ocorrência de um evento adverso. Como exemplo de indicadores que podem fazer parte da auditoria de resultados, citamos taxas de mortalidade; tempo de permanência hospitalar; taxas de queda de pacientes; úlceras por pressão; infecção hospitalar e satisfação do paciente. Estes são fenômenos diretamente associados à qualidade da assistência à saúde. Saiba mais Para visualizar outros indicadores de auditorias de estrutura, processo e resultado, consulte o artigo científico: CALDANA et al. Indicadores de desempenho em serviços de enfermagem hospitalar: revisão integrativa. Rev Rene, Fortaleza, v. 12, n. 1, p. 189‑97, jan./mar. 2001. A utilização da Classificação das Intervenções de Enfermagem (Nursing Interventions Classification – NIC) é outro exemplo de como as intervenções de enfermagem podem ser associadas a resultados. A NIC, como é conhecida também no Brasil, consiste em um sistema de classificação de intervenções independentes e colaborativas dos enfermeiros, em várias áreas de atuação (MARQUIS; HUSTON, 2010). 160 Unidade II Saiba mais A NIC é parte da aliança que associa diagnósticos de enfermagem, resultados e intervenções, conhecida como aliança NNN (North American Nursing Diagnosis Association – NANDA; Nursing Interventions Classification – NIC; Nursing Outcomes Classification – NOC). Para conhecer como se realiza essa associação, consulte: <http://www.nanda.org/AboutUs/NANDAIAlliances/CenterforNursing Classification.aspx>. 6.2.2 Acreditação Outro método de avaliar a qualidade é buscar a acreditação. Vale destacar que, se uma instituição de saúde busca acreditação, é porque está preocupada com a validação externa dos seus serviços, com base em padrões já estabelecidos, o que, por sua vez, irá agregar maior valor social. Vejamos como. Acreditação é um processo de avaliação externo pelo qual o desempenho de serviços de saúde é avaliado com base em padrões predeterminados, de maneira formal, estruturada, periódica (RODRIGUES, 2004). Tem caráter voluntário, porque a intenção não é fiscalizadora, mas sim educativa, uma forma de criar uma “cultura de qualidade” contínua (GASTAL, 2004). Entretanto, atualmente, “ser acreditado” é uma necessidade de muitas organizações de saúde. Para o Conselho Nacional de Metrologia, Normalização e Qualidade Industrial (Conmetro), a acreditação expressa reconhecimento de competência. Apesar de o termo não fazer parte da língua portuguesa oficial, sabemos que acreditar significa inspirar confiança, respeito, pelos quais se passa a ter valor. Esse valor atribuído à acreditação confere um diferencial para a instituição de saúde não só do ponto de vista da imagem projetada ao cliente externo, mas também possibilita a sobrevivência das organizações, considerando o enorme dilema vivenciado por elas em relação a oferecer serviços qualificados a custos aceitáveis. Por isso, é tão importante para as instituições de saúde ter esse rótulo. Os termos acreditação e certificação são, muitas vezes, usados como sinônimos, e há controvérsias quanto aos significados. Bittar (1999) aponta que o termo certificação é utilizado por instituições que utilizam a Norma ISO 9000 como critério de avaliação dos processos, enquanto acreditação é atribuída ao processo de avaliação com a metodologia de alguma organização acreditadora, como a Organização Nacional de Acreditação, que iremos conhecer mais adiante. Por outro lado, Rodrigues (2004) distingue que a acreditação normalmente se aplica a instituições, enquanto certificação, a um profissional e a instituições. Já para Alves (2012a), certificação é o reconhecimento de uma instituição por uma entidade acreditadora, que implica o alcance de um ideal de qualidade, enquanto acreditação é o processo de avaliação em si. 161 AUDITORIA E GESTÃO DA QUALIDADE EM INSTITUIÇÃO DE SAÚDE Neste livro‑texto, seguiremos as definições de Alves (2012a) e consideraremos que os dois termos são complementares, pois certificação indica que uma instituição passou por um processo de acreditação e foi reconhecida pela sua qualidade. O processo de acreditação ocorre por meio da visita de uma equipe de avaliadores (nos hospitais, médico, administrador hospitalar e enfermeira), em intervalos periódicos de dois ou três anos, por meio da qual todas as unidades do serviço de saúde são julgadas com base nos padrões de referência, estabelecidos por peritos ou especialistas na área (NOVAES, 2007). Existem diferentes metodologias para indicar os padrões de qualidade e direcionar o processo de avaliação, que dependerá da instituição acreditadora, conforme veremos adiante. No entanto, qualquer que seja a metodologia, a instituição de saúde que está em conformidade com os padrões será certificada, o que representa o ideal de qualidade de desempenho (RODRIGUES, 2004). Historicamente, considera‑se que o processo de acreditação iniciou‑se com a definição de padrões mínimos de assistência pelo Colégio Americano de Cirurgiões (CAC), em 1918. Desde então, observa‑se uma evolução considerável. Vamos rever alguns pontos importantes dessa evolução para entendermos melhor as perspectivas atuais. Os padrões mínimos para hospitais, definidos pelo CAC, consistiam somente de cinco itens: organização dos médicos e cirurgiões em um corpo clínico, para exercer atividades dentro do hospital; qualificação do corpo clínico (graduados em Medicina, competentes em sua área, com postura ética); adoção de regras e diretrizes para exercer atividades profissionais que incluíam revisão de casos clínicos para troca de experiências; adequado preenchimento dos registros do paciente, com detalhamento da história clínica e evolução do caso e os recursos diagnósticos e terapêuticos mínimos necessários ao adequado tratamento do paciente (laboratório e serviço de radiografia e fluoroscopia). Em 1918, apenas 89 hospitais, dos 696 visitados, estavam em conformidade com os padrões mínimos (NOVAES, 2007). Nessa ocasião, o Colégio Americano de Clínica Médica, a Associação Americana de Hospitais, a Associação Médica Americana e a Associação Médica do Canadá juntaram‑se ao Colégio de Cirurgiões para fundar a Comissão Conjunta de Acreditação de Hospitais (JCAH), uma organização não governamental e sem fins lucrativos, com o objetivo de oferecer serviços de acreditação aos hospitais. Apesar de caracterizar‑se como um processo voluntário, a acreditação nos Estados Unidos passou a ser uma exigência para o reembolso de pagamentos de pacientes pertencentes aos sistemas Medicare e Medicaid, que representam o sistema de seguridade social a pessoas idosas e com poucos recursos financeiros (RODRIGUES, 2004; NOVAES, 2007). Em 1987, a JCAH mudou seu nome para Comissão Conjunta para Acreditação de Organizações de Atenção à Saúde (JointCommission on Acreditation of Health Care Organizations – JCAHO), uma vez que estendeu o processo de acreditação a outros serviços além do hospital, como os de atendimento a pacientes crônicos e doentes mentais, assistência domiciliar, laboratórios, cirurgia ambulatorial, farmácias, entre outros (RODRIGUES, 2004). Ao longo dos anos, os padrões mínimos passaram a máximos, em consonância com a perspectiva de busca de qualidade contínua, e foram incorporados ao processo o monitoramento de indicadores de desempenho 162 Unidade II clínicos e assistenciais, bem como dos resultados da assistência. Inicialmente, os serviços de saúde podiam escolher os indicadores que iriam utilizar; porém, isso dificultava a comparação de medidas entre hospitais. Atualmente, a comissão desenvolveu uma base de dados padronizados, com um conjunto de medidas centrais, focadas em quatro condições de saúde: infarto agudo do miocárdio, insuficiência cardíaca, pneumonia (exclui aquelas adquiridas no hospital) e gravidez e condições a ela relacionadas. Essa metodologia, conhecida como ORYX, permite uma avaliação abrangente e correta padronização de condutas (MARQUIS; HUSTON, 2010). A seguir, vamos conhecer como o processo acreditação difere‑se de acordo com as instituições acreditadoras. Entre estas, vamos destacar aquelas utilizadas pelas organizações de saúde brasileiras: Organização Nacional de Acreditação (ONA), Joint Comission Internacional e Programa de Compromisso com a Qualidade Hospitalar (CQH). Organização Nacional de Acreditação – ONA No Brasil, a necessidade de aprimorar os processos hospitalares surgiu no final dos anos 1980, impulsionada pela Direção de Serviços de Saúde da Organização Pan‑Americana da Saúde (Opas), que criou um programa latino‑americano de acreditação de hospitais. Essa determinação vinha ao encontro da necessidade de melhorar os processos hospitalares considerados críticos nessa época. Um levantamento de 15.000 hospitais da América Latina identificou que 70% tinham menos de 70 leitos para internação; os recursos humanos eram deficientes e pouco capacitados; havia pouca preocupação com prevenção de infecção hospitalar; não havia comissões de qualidade e os custos operacionais não eram controlados (RODRIGUES, 2004; NOVAES, 2007). Até a década de 1980, os hospitais somente eram classificados em quatro classes (A, B, C e D), de acordo com requisitos específicos e exigências decrescentes. Havia desigualdades significativas, pois somente alguns receberam a classificação A. A necessidade de aprimorar a utilização dos recursos hospitalares de forma eficiente e eficaz culminou com a criação do Manual de Acreditação de Hospitais para a América Latina e o Caribe, pela Organização Pan‑Americana de Saúde (Opas), em parceria com a Federação Latino‑Americana de Hospitais (RODRIGUES, 2004). Ao final dos anos 1990, foi criada a Organização Nacional de Acreditação (ONA), uma organização sem fins lucrativos, com sede em Brasília, que atua em todo o território nacional e é constituída por entidades que visam desenvolver o processo de acreditação de organizações de saúde. A ONA conta com o apoio do Ministério da Saúde, por meio de um representante legal. Além disso, a Agência Nacional de Vigilância em Saúde (Anvisa) desenvolve atividades de cooperação técnica que resultaram na extensão dos processos de acreditação aos outros serviços de saúde, como hemoterapia, nefrologia e de diagnóstico por imagem, entre outros (GASTAL, 2004). A aplicação do processo de acreditação é feita por seis instituições acreditadoras: Instituto Paranaense de Acreditação em Serviços de Saúde – IPASS; Fundação Carlos Alberto Vanzolini – FCAV; Instituto de Acreditação Hospitalar e Certificação em Saúde – IAHCS; Det Norske Veritas – DNV; Instituto Qualisa de Gestão – IQG e Germanischer Loyd Certification South America – GLCSA (GASTAL, 2004). Atualmente, o Manual de Acreditação Hospitalar encontra‑se na 4ª edição, tendo sido redenominado de Manual de Acreditação de Organizações Prestadoras de Serviços Hospitalares, no qual se identifica a 163 AUDITORIA E GESTÃO DA QUALIDADE EM INSTITUIÇÃO DE SAÚDE premissa de que os serviços hospitalares não devem ser avaliados de maneira isolada, mas sim de forma interdependente, analisando‑se as reais intersecções que caracterizam a assistência à saúde. Assim, divide‑se em oito seções e respectivas subseções, cada uma delas com padrões e diretrizes orientadoras do processo. No quadro a seguir, podemos observar como o manual está estruturado. Quadro 28 – Estrutura das seções e subseções do Manual de Acreditação de Organizações Prestadoras de Serviços Hospitalares, ONA, 2006 Seções Fundamentos Subseções atuais Liderança e administração Agrupa componentes relacionados ao sistema de governo da organização, aos aspectos de liderança, diretrizes administrativas, planejamento institucional e relacionamento com o cliente. Direção e liderança; gestão de pessoas; gestão administrativa e financeira; gestão de materiais e suprimentos; gestão de qualidade – nível 3. Organização profissional Agrupa as subseções relacionadas à organização do modelo institucional e dos profissionais responsáveis pelos processos finalísticos, como continuidade dos cuidados ao paciente, assistência nas 24 horas até a sua alta, procedimentos clínicos, diagnósticos e terapêuticos. Corpo clínico; enfermagem; corpo técnico‑profissional; organização profissional – nível 3. Atenção ao paciente/ cliente Agrupa todos os componentes, atividades e serviços que se relacionam aos processos de atenção e cuidados aos pacientes/ clientes, com características de contato direto com o usuário, processo ou serviço médico assistencial desenvolvido, equipe multiprofissional e interdisciplinar envolvida, conjunto de insumos e espaço institucional específico a seus respectivos processos. Internação; atendimento ao cliente; transferência; referência e contrarreferência; atendimento ambulatorial; atendimento de emergência; atendimento cirúrgico; anestesiologia; obstetrícia; neonatologia; tratamento intensivo; reabilitação e atendimento multiprofissional; mobilização de doadores; triagem e coleta; transfusão e procedimentos hemoterápicos; terapia dialítica; medicina nuclear; radioterapia; quimioterapia; cardioangiologia invasiva e hemodinâmica; assistência farmacêutica; assistência nutricional; atenção ao paciente/cliente – nível 3. Diagnóstico Agrupa todos os componentes, atividades e serviços que se relacionam aos processos de diagnóstico realizados pela organização. Processos pré‑analíticos; processos analíticos; processos pós‑analíticos; métodos diagnósticos cardiológicos; métodos diagnósticos neurológicos; anatomia patológica e citopatologia; diagnóstico por imagem; radiologia; endoscopia; diagnóstico – nível 3. Apoio técnico Agrupa todos os componentes, atividades e serviços que se relacionam aos processos de apoio técnico da organização. Sistema de informação do cliente/paciente; gestão de equipamentos e tecnologia médico‑hospitalar; prevenção, controle de infecção e de eventos adversos; segurança e saúde ocupacional; processamento e liberação; processos de apoio laboratorial; assessoria técnica aos clientes; apoio técnico – nível 3. Abastecimento e apoio logístico Agrupa todos os componentes, atividades e serviços que se relacionam aos processos de abastecimento e apoio logísticos. Processamento de roupas – lavanderia; processamento de materiais e esterilização; qualidade da água; materiais e suprimentos; armazenamento e transporte; higiene; gestão de segurança; gestão de resíduos; abastecimento e apoio logístico – nível 3. Infraestrutura Agrupa todos os componentes que se relacionam à gestão e à manutenção da infraestrutura da organização. Gestão de projetos físicos; gestão da estrutura físico‑funcional; gestão da manutenção predial. Ensino e pesquisa Agrupa todos os componentes que se relacionam às funções educativas e depesquisa da organização, de tal forma que permita realizar um diagnóstico da estrutura disponibilizada para a capacitação profissional, para a educação permanente, para o processo de formação de recursos humanos e para a geração de novos conhecimentos. Ensino; pesquisa; educação continuada; ensino/pesquisa – nível 3. Fonte: ONA (2006). 164 Unidade II Para cada subseção, foram definidos três níveis de padrão de qualidade, níveis 1, 2 e 3. Esses níveis são semelhantes aos componentes do modelo de qualidade de Donabedian. O nível 1, estrutura, está relacionado aos aspectos de infraestrutura e de segurança. O nível 2, processo, está relacionado ao atendimento, gerência e interação de processos. O nível 3, resultado, diz respeito ao desempenho dos processos e inovações. Esses três níveis atendem a uma hierarquia, isto é, a organização que pretende ser acreditada deve, inicialmente, atender a todos os padrões de nível 1 para, posteriormente, progredir para o nível 2 e 3. Vamos conhecer melhor os padrões para compreender como esse processo ocorre. O padrão de nível 1, estrutura, determina que a organização deve “atender aos requisitos formais, técnicos e de estrutura para a sua atividade conforme legislação correspondente; identifica riscos específicos e os gerencia com foco na segurança” (ONA, 2006, p. 12). Para cada subseção, os itens de orientação estão alinhados aos três níveis de padrão. Portanto, na seção “liderança e administração”, subseção “gestão de pessoas”, são apontadas as seguintes ações orientadoras (ONA, 2006, p. 13): • responsabilidade técnica conforme legislação; • corpo funcional, habilitado ou capacitado, dimensionado adequadamente às necessidades do serviço; • condições operacionais que atendam aos requisitos de segurança para o cliente (interno e externo); • identificação, gerenciamento e controle de riscos sanitários, ambientais, ocupacionais e relacionados à responsabilidade civil, infecções e biossegurança. Quando todas as orientações das subseções forem atendidas, a organização pode almejar progredir para o nível 2. O padrão nível 2, processos, preconiza que a organização gerencie os processos e suas interações sistemicamente; estabeleça sistemática de medição e avaliação dos processos; possua programa de educação e treinamento continuado, voltado para a melhoria de processos. Como exemplo, podemos observar na subseção “gestão de pessoas”, as seguintes orientações (ONA, 2006, p. 14): • identificação, definição, padronização e documentação dos processos; • identificação de fornecedores e clientes e sua interação sistêmica; • estabelecimento dos procedimentos; • documentação (procedimentos e registros) atualizada, disponível e aplicada; • definição de indicadores para os processos identificados; • medição e avaliação dos resultados de processos; 165 AUDITORIA E GESTÃO DA QUALIDADE EM INSTITUIÇÃO DE SAÚDE • programa de educação e treinamento continuado, com evidências de melhoria e impacto nos processos; • grupos de trabalho para a melhoria de processos e interação institucional. Somente após seguir todas as orientações dos padrões de nível 2, a organização pode aspirar ao nível 3. Este preconiza que a organização utilize perspectivas de medição organizacional, alinhadas às estratégias e correlacionadas aos indicadores de desempenho dos processos; disponha de sistemática de comparações com referenciais externos pertinentes, bem como evidências de tendência favorável para os indicadores; apresente inovações e melhorias implementadas, decorrentes do processo de análise crítica. As orientações nesse nível para a mesma subseção são as seguintes (ONA, 2006, p. 17): • define as perspectivas básicas de sustentação da organização (inovação e desenvolvimento, pessoas, clientes, processos, financeira e sociedade); • sistema de indicadores de desempenho focalizando as perspectivas básicas, com informações íntegras e atualizadas, incluindo informações de referenciais externos pertinentes; • estabelecimento de uma relação de causa e efeito entre os indicadores, em que os resultados de um influenciam os demais, bem como permitem a análise crítica do desempenho e a tomada de decisão; • análise de tendência com apresentação de um conjunto de pelo menos três resultados consecutivos; • análises críticas sistemáticas com evidências de ações de melhoria e inovações; • identificação de oportunidades de melhoria de desempenho por meio do processo contínuo de comparação com outras práticas organizacionais com evidências de resultados positivos; • sistemas de planejamento e melhoria contínua em termos de estrutura, novas tecnologias, atualização técnico‑profissional e procedimentos. Essa metodologia exige que todos os serviços, setores e unidades estejam em conformidade com os padrões de nível 1 e 2, antes de progredirem para o nível 3. Nessa visão, não se avalia o setor ou departamento isoladamente, apenas o serviço de forma sistêmica, ou seja, o hospital, a clínica de hemodiálise, o laboratório de análises clínicas, globalmente (GASTAL, 2004). Caso a organização não atenda à verificação integral da conformidade de todos os setores em determinado nível, será considerado o menor nível alcançado (RODRIGUES, 2004). Portanto, segundo essa metodologia, as organizações podem ser classificadas em (GASTAL, 2004; ALVES, 2012a): 166 Unidade II • não acreditada: não atingiu os requisitos básicos, conforme o padrão do nível 1; • acreditada: atingiu os requisitos básicos, conforme o nível 1 (válido por dois anos); • acreditada plena: atingiu os requisitos básicos, conforme o nível 1 e 2 (válido por dois anos); • acreditada com excelência: atingiu todos os requisitos, conforme o nível 1, 2 e 3 (válido por três anos). Durante o período de validade da certificação, existem mecanismos controladores de manutenção dos padrões. O primeiro é a visita de avaliação de manutenção da condição de acreditado, com periodicidade mínima anual e máxima semestral e, ainda, há a detecção de eventos‑sentinela (GASTAL, 2004). Saiba mais Para conhecer as instituições de saúde acreditadas pela ONA, acesse: <https://www.ona.org.br/OrganizacoesCertificadas/0>. Joint Comission International – JCI Além dos padrões ONA, no Brasil, também é possível a acreditação pelos padrões da Joint Commission International (JCI), a divisão internacional da Joint Commission (EUA), que é representada pelo Consórcio Brasileiro de Acreditação (CBA). O CBA segue a metodologia descrita no Manual Internacional de Padrões de Certificação Hospitalar da JCI, que, na 4ª e última edição, determina 14 padrões, com dois focos distintos (CBA, 2013): Foco no cliente: metas internacionais de segurança ao paciente; acesso ao cuidado e à continuidade do cuidado; direitos dos pacientes e familiares; avaliação dos pacientes; cuidado aos pacientes; anestesia e cirurgia; gerenciamento e uso de medicamentos; educação de pacientes e familiares. Foco na administração: melhoria da qualidade e segurança do paciente; prevenção e controle de infecção; governo, liderança e direção; gerenciamento e segurança das instalações; educação e qualificação dos profissionais; gerenciamento da comunicação e informação. O Comitê Internacional de Padrões, composto de 16 membros que representam América Latina e Caribe, Ásia e Costa do Pacífico, Oriente Médio, Europa Central, Oriental e Ocidental e a África, é responsável pelo desenvolvimento e atualização dos padrões que devem refletir a prática contemporânea. Os serviços oferecidos pela CBA abrangem diversos tipos de instituições de saúde, além de hospitais, como ambulatórios, serviços de atenção primária de atendimento domiciliar, clínicas de especialidades e até serviços de transporte médico (CBA, 2013). 167 AUDITORIA E GESTÃO DA QUALIDADE EM INSTITUIÇÃO DE SAÚDE É importante notar que, nos padrões adotados pela CBA/JCI, há um grande destaque para a segurança do paciente. Esse aspecto adquiriu enorme importância nos dias atuais; porisso, será discutido mais adiante com detalhes. O processo de acreditação compreende múltiplas etapas, desde a preparação até a avaliação final, como mostra o quadro a seguir. Notamos que o processo é longo, requer muita preparação antes da avaliação final para obter a certificação. Vale destacar que compreende o envolvimento das gerências na liderança e formação de um grupo facilitador, a fim de planejar e organizar as mudanças necessárias. Também é evidente a participação do cliente e dos funcionários. Quadro 29 – Etapas do processo de acreditação pela JCI/CBA Acreditação Joint Commission Internacional/ Consórcio Brasileiro de Acreditação Apresentação da metodologia e do Manual de Padrões de Acreditação. Sensibilização das lideranças do hospital. Constituição do grupo facilitador. Elaboração e desenvolvimento do programa de educação do hospital. Autoavaliação. Pesquisa de opinião de pacientes e funcionários. Preparação do hospital para a avaliação. Estabelecimento da agenda para a avaliação. Avaliação baseada em padrões da acreditação sem pontuação. Discussão do relatório e recomendações. Elaboração do plano de ação para a busca de conformidade com os padrões. Implementação das ações corretivas. Avaliação baseada em padrões da acreditação com pontuação. Continuidade das ações corretivas (caso necessário). Avaliação para acreditação. Fonte: Consórcio Brasileiro de Acreditação (2010). A equipe de avaliadores é composta por médico, enfermeiro e administrador, devidamente treinados para, no final do processo, apresentarem um relatório de conformidades da organização relativo ao conjunto de padrões do Manual de Acreditação JCI/CBA. O método utilizado no processo compreende o cruzamento de informações obtidas nas diferentes fases do levantamento, verificando sua coerência e consistência. Elas são analisadas sob a ótica de profissionais distintos, visando aumentar a validade das conclusões. A conformidade é avaliada a partir de três técnicas (CBA, 2010): • entrevistas e informações obtidas com liderança, profissionais, pacientes e outros; • observações dos processos de cuidado aos pacientes e demais processos de trabalho da organização e observação do ambiente; 168 Unidade II • revisão de documentos: prontuários abertos e fechados. A acreditação pode ocorrer em três níveis distintos: Nível 1 – Segurança (estrutura) Pressupõe: • atendimento aos requisitos básicos de qualidade na assistência prestada ao cliente; • recursos humanos em quantidade e qualificação compatíveis com a complexidade do serviço. Nível 2 – Organização (processo) Verifica: • a organização da assistência, conferindo documentação, treinamento dos profissionais e rotinas; • uso de indicadores para a tomada de decisão clínica e gerencial; • prática de auditoria interna. Nível 3 – Práticas de gestão e qualidade (resultados) Constata se existem: • políticas institucionais de melhoria contínua em termos de estrutura, novas tecnologias, atualização técnico‑profissional; • ações assistenciais e procedimentos médico‑sanitários. Vamos compreender um pouco mais sobre os padrões JCI/CBA, detalhando procedimentos relacionados a um dos padrões. O padrão Metas Internacionais de Segurança do Paciente, incluído recentemente, delimita ações essenciais para evitar a ocorrência de eventos sentinelas. Assim, preconiza‑se a identificação correta do paciente, como usar pelo menos duas maneiras de identificação (pulseira, chamar o nome e nunca usar número, quarto ou leito) antes da realização de procedimentos, tratamentos ou exames. Além disso, para melhorar a comunicação, deve‑se certificar de que a pessoa que recebeu uma ordem verbal ou telefônica tenha compreendido todas as orientações, o que reduz a ocorrência de erros e garante a segurança do paciente. Para melhorar a segurança dos medicamentos de alta vigilância, devem‑se promover práticas seguras para a utilização dos identificados como de alto risco. Os padrões apresentados no Manual de Acreditação JCI/CBA estão descritos na forma de diretrizes de condutas a serem implantadas para garantir a qualidade da assistência prestada. 169 AUDITORIA E GESTÃO DA QUALIDADE EM INSTITUIÇÃO DE SAÚDE O quadro a seguir apresenta a descrição de alguns desses padrões. Quadro 30 – Descrição de sete padrões de acreditação para hospitais JCI/CBA Padrão Descrição Metas Internacionais de Segurança para o Paciente Compreende os processos para: • identificar os pacientes corretamente; • melhorar a comunicação efetiva; • melhorar a segurança dos medicamentos de alta vigilância; • assegurar cirurgias em local de intervenção correto, procedimento correto e paciente correto; • reduzir o risco de infecções associado aos cuidados de saúde; • reduzir o risco de lesões ao paciente decorrente de quedas. Acesso e continuidade do cuidado Os processos devem ser capazes de garantir: • adequado e contínuo acesso dos pacientes ao hospital; • adequada admissão do paciente, seguindo suas necessidades e a oferta de serviços no hospital; • sistematização das rotinas e dos procedimentos voltados a assegurar o adequado desenvolvimento dos processos de referência, contrarreferência, transferências internas, externas e alta. Direitos dos pacientes e familiares Aborda os processos para: • identificar, proteger e promover os direitos do paciente; • informar o paciente sobre seus direitos; • incluir os familiares, quando oportuno, nas decisões sobre o cuidado ao paciente; obter consentimento informado; • educar os profissionais quanto aos direitos do paciente; • estabelecer a estrutura ética da organização. Educação de pacientes e familiares Abrange: • a definição e aplicação de processos educacionais para pacientes e familiares, segundo as necessidades identificadas; • o perfil de atividades desenvolvidas na instituição. Melhoria da qualidade e segurança do paciente Aborda: • modelos e processos de estrutura de gestão e de operação para desenvolvimento de programas e atividades de melhoria de desempenho; • implantação de indicadores de desempenho nas áreas de assistência direta ao paciente e áreas administrativas; • estabelecimento de métodos para o controle e investigação das ocorrências identificadas como eventos sentinela; • implantação de métodos e instrumentos para avaliação e monitoramento contínuo do desempenho das diferentes atividades desenvolvidas nos serviços da instituição. Governo, liderança e direção Compreende: • implementação de políticas e procedimentos capazes de configurar o modelo e os métodos de gestão da instituição; • planejamento estratégico e Plano Diretor; • discussão e definição dos processos de planejamento, orçamento, controle e gestão com lideranças; • implantação de estrutura administrativa, com estabelecimento das linhas de responsabilidades e a gerência efetiva dos serviços. 170 Unidade II Prevenção e controle de infecções Aborda: • implementação de políticas e procedimentos voltados à vigilância, prevenção e controle da infecção hospitalar; • implementação de processos para o efetivo treinamento e capacitação de profissionais, pacientes, familiares e visitantes nessa área. Fonte: Consórcio Brasileiro de Acreditação (2010). Outro aspecto relevante diz respeito à realização de procedimentos invasivos e cirurgia no local de intervenção e no paciente certos. Para isso, preconizam‑se as seguintes verificações iniciais: identificação correta do paciente, prontuário e documentos, retirada de adornos, exames e marcação do membro ou estrutura pelo cirurgião ou componente da equipe. Ainda se recomenda, no momento final (time out), antes da realização do procedimento ou da incisão, a confirmação, seguida do registro pela equipe multiprofissional, dos seguintes itens: • identificação correta do paciente; • procedimento correto; • lateralidade; • medicamentos, materiais e equipamentos (quando necessários). Ao final do processo ou da cirurgia, deve‑se realizar:• registro do procedimento, anatomopatológico e outros exames; • conferência das condições do paciente e encaminhamentos no pós‑procedimento; • conferência e assinatura dos documentos pela equipe multiprofissional. Para reduzir o risco de infecções relacionadas à assistência, enfatiza‑se a higiene das mãos, que deve ser continuamente estimulada. Destacam‑se os cinco momentos nesse procedimento: • antes do contato com o paciente; • antes da realização de procedimento asséptico; • após risco de exposição a fluidos corporais; • após contato com o paciente; • após contato com superfícies próximas ao paciente. E, finalmente, para reduzir o risco de lesões aos pacientes decorrentes de queda, deve‑se analisar a presença das seguintes condições e fatores de risco para queda: 171 AUDITORIA E GESTÃO DA QUALIDADE EM INSTITUIÇÃO DE SAÚDE • alteração do estado mental (confusão ou agitação); • distúrbios neurológicos; • queda anterior; • idade maior que 60 anos e todas as crianças. As instituições acreditadas ganham clara definição da missão institucional e perfil assistencial; abrangência de todos os serviços da instituição (próprios, terceirização, unidades em diferentes locais); estabelecimento de uma estrutura e sistema de gerenciamento da qualidade e o estabelecimento de uma coordenação e integração clínico e gerencial, alinhadas às estratégias da direção e governo. Saiba mais Para conhecer todos os programas, manuais e instituições de saúde acreditadas no Brasil pela JCI/CBA, consulte: <http://www.cbacred.org.br/site/programas/>; <http://www.cbacred.org.br/site/manuais/>; <http://www.cbacred.org.br/site/unidades‑acreditadas‑no‑brasil/>. Programa Compromisso com a Qualidade Hospitalar O Programa Compromisso com a Qualidade Hospitalar – CQH foi criado em 1991, pela Associação Paulista de Medicina (APM) e pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo (Cremesp). Ele monitora a qualidade dos serviços de hospitais do Estado de São Paulo e de outros da Federação, com metodologia específica baseada em seleção de alguns indicadores, autoavaliação e visita aos hospitais participantes, possuindo seus próprios padrões de acreditação. Atualmente, o Programa CQH conta com a participação de 125 hospitais no Brasil. A adesão é voluntária e há um constante incentivo à mudança de atitude e de comportamento, trabalho coletivo, formação de grupo multidisciplinar e aprimoramento dos processos de atendimento. Além da APM e do Cremesp, o Programa CQH é constituído pelo Programa de Estudos Avançados em Administração Hospitalar e de Sistemas de Saúde (PROHASA‑HCFMUSP/EAESP/ FGV); Sociedade Brasileira de Administração em Saúde (SIMBAS); e Fundação para o Prêmio Nacional de Qualidade (FNPQ). 172 Unidade II O modelo de avaliação é fundamentado nos critérios adotados pela Fundação Nacional de Qualidade – FNQ, reforçado pela implantação do Prêmio Nacional da Gestão em Saúde – PNGS. Nesse modelo, conhecimento e informação permeiam seis pilares (clientes, pessoas, processos, sociedade, estratégias e planos, resultados) centralizados na liderança. A figura a seguir representa o modelo de avaliação da qualidade do Programa CQH (CQH, 2009). O Programa CQH enfatiza a importância da gestão de informações na organização de saúde, devido à alta quantidade e complexidade dos conhecimentos médicos. Como exemplo de informações relevantes para o processo, destacam‑se dados sobre perfis profissionais; desempenho individual e de equipe; vínculo funcional; treinamentos; capacitação; admissão; evolução funcional; demissão; acompanhamento de compras, serviços gerais e manutenção. Ressalta‑se que o processo é facilitado com o uso de tecnologias da informação (TI), de redes internas (intranet) e externas (internet) (CQH, 2009). Informação Conhecim ento Inform ação Conhecimento Inf or m aç ão Co nh ec im en to Clientes So cie da de Processos Pe sso as Estratégias e planos ResultadosLiderança Figura 18 – Pilares da qualidade, segundo o Programa CQH As informações são utilizadas para compor os indicadores próprios analisados periodicamente quanto às tendências. O modelo de gestão adotado pelo CQH preconiza a análise de dados relativos ao desempenho da organização diante das melhores práticas disponíveis no setor, gestão de informações comparativas, o que é coerente com a visão de necessidade de validação externa e busca de referenciais de excelência (Benchmarking). A seleção de indicadores foi fundamentada na metodologia Balanced Scorecard (BSC), na qual critérios específicos foram definidos a partir das dimensões do BSC (finanças, clientes e mercado, processos internos do negócio e aprendizado/crescimento organizacional), compondo um painel de controle. O quadro seguinte descreve os critérios específicos em cada uma das dimensões. 173 AUDITORIA E GESTÃO DA QUALIDADE EM INSTITUIÇÃO DE SAÚDE Quadro 31 – Painel de controle (critérios) adotados no Programa CQH Dimensão BSC Critérios específicos Clientes • Participação no mercado (market share). • Porcentual de pacientes residentes fora da área de referência do hospital. • Satisfação de clientes e familiares. • Satisfação dos médicos e dos financiadores. • Aumento de clientes e fidelização. • Índices de reclamação. Finanças • Retorno do investimento/valor agregado. • Crescimento das receitas operacional e total por período. • Porcentagem de clientes SUS/planos de saúde. • Índices de glosas segundo a fonte pagadora. • Custo médio por internação por especialidade. • Custos – segmentados por área (por exemplo, custo da esterilização) ou discriminado por produto (por exemplo, custo do quilo de roupa lavada, custo da limpeza do metro quadrado de piso, custo da refeição etc.). Aprendizado e crescimento • Taxa de acidentes do trabalho/taxa de absenteísmo/rotatividade de mão de obra. • Capacitação da força de trabalho (horas de treinamento/ funcionário/período). • Retenção da força de trabalho. • Porcentual de médicos e/ou enfermeiros com título de especialista. • Disponibilidade e acesso ao sistema de informações. • Grau de satisfação da força de trabalho. Processos • Taxa de infecção hospitalar. • Taxa de mortalidade institucional. • Taxa de ocupação hospitalar. • Tempo médio de permanência. • Giro do leito (intervalo de substituição). • Índice de renovação (rotatividade do leito). Fonte: CQH (2009). O processo é coordenado pelo Núcleo de Apoio à Gestão Hospitalar (NAGEH), no qual a enfermagem tem um papel de destaque, expresso na definição de indicadores específicos, conforme já visto anteriormente. Em 2012, os indicadores de enfermagem foram revisados pelos membros do NAGEH como forma de aprimorar os critérios relevantes para a enfermagem (CQH, 2012). Mensalmente, os hospitais participantes encaminham os resultados dos indicadores relacionados à sua gestão. Relatórios trimestrais de desempenho são enviados ao grupo de hospitais para conhecer sua posição em relação aos demais. A confiabilidade dos dados é garantida, uma vez que os hospitais são identificados apenas por números, conhecidos somente por eles (CQH, 2012). Para autoavaliação, é aplicado um questionário que distingue oito critérios, de acordo com parâmetros do Prêmio Nacional de Qualidade (PNQ): liderança, estratégias e planos, clientes, sociedade, 174 Unidade II informação e conhecimento, pessoas, processos e resultados. As visitas são realizadas sempre que houver solicitação da unidade e após o recebimento do Selo de Conformidade, compulsoriamente, a cada dois anos (CQH, 2012). 7 QUALIDADE E SEGURANÇA DO PACIENTE Contrariando o ditado popular de que “errar é humano”, os erros ocorridos na área da saúde sempre estiveram associados à noção de incompetência do profissional de saúde. Consequentemente, criou‑se uma cultura de punição ou omissão dos erros em saúde e, durante muito tempo, nãose conhecia a real dimensão desse problema. Entretanto, o relatório produzido pelo Instituto de Medicina americano To Err in Human: Building a Safer Health System (Errar é humano: construindo um sistema de saúde mais seguro), de 1999, descreve que os erros na assistência à saúde ocorrem em proporções alarmantes, acarretando danos físicos, emocionais, sociais e financeiros irreversíveis. Segundo o relatório, a cada dia, cem norte‑americanos morrem devido a erros humanos cometidos na assistência à saúde, sendo estimadas 7.000 mortes/ano só relacionadas a erros de medicação (PEDREIRA, 2009). Entre janeiro de 1995 e junho de 2010, a Joint Commission (EUA) registrou a ocorrência de 6.923 eventos sentinelas: 921 cirurgias em partes ou pacientes errados; 816 suicídios; 749 complicações pós‑operatórias; 592 eventos relacionados a erros de medicação; 450 por queda de paciente; 145 eventos relacionados a infecções e 201 por perda de função ou morte perinatal (JCI, 2010). Dados epidemiológicos de outras pesquisas mundiais demonstram que a segurança do paciente é, hoje, uma prioridade nos países desenvolvidos. Coerente com essa preocupação, a segurança foi incorporada ao conceito de qualidade, no qual a excelência na prestação de cuidados implica também segurança para o paciente. Estudos deixam claro que muitos dos erros humanos cometidos na assistência à saúde são evitáveis. Para que isso ocorra, dois aspectos são destacados: criar uma cultura de segurança e aprendizagem com erros e estabelecer a prática baseada em evidências. Esses dois aspectos estão inseridos nos processos de acreditação. Cultura de segurança é, na verdade, uma percepção compartilhada pelos profissionais de saúde de que a segurança é prioridade para a gerência da organização; isso implica a compreensão de que a estrutura organizacional está voltada para atender a todas as normas de segurança e para aprender com os erros. Essa compreensão incentiva uma atitude proativa dos profissionais para seguir práticas seguras e relatar a ocorrência de erros, já que estes não serão vistos apenas como falta grave do profissional de saúde; é fundamental para que o erro possa ser analisado em termos de seus determinantes, o que, por sua vez, possibilitará a elaboração de estratégias de prevenção adequadas para que o problema não se repita. Portanto, cultura de segurança implica atitudes seguras e consistentes tanto por parte da gerência como dos profissionais. Hoje, a área de aviação comercial é considerada bastante desenvolvida em sua cultura de segurança e, por isso, oferece um referencial consistente nessa abordagem. Ao contrário do que algumas pessoas acreditam, viajar de avião é uma das formas mais seguras de transporte, pois a chance de ocorrer acidentes aéreos é de um em 1 milhão, aproximadamente. Acredita‑se que isso se deve à capacidade da aviação civil de aprender com os próprios erros. Tragédias ocorridas com aviões comerciais possibilitaram 175 AUDITORIA E GESTÃO DA QUALIDADE EM INSTITUIÇÃO DE SAÚDE analisar criticamente os erros humanos cometidos. Ao longo dos anos, houve a compreensão de aspectos primordiais na prevenção dos desastres, entre estes se destacam: introdução de novas tecnologias de segurança, permeando a relação da tripulação com a aeronave; implementação do trabalho em equipe entre os tripulantes da cabine; melhorias na comunicação interpessoal entre os membros da equipe e treinamento exaustivo da tripulação em procedimentos operacionais baseados na adesão dos protocolos de atuação, principalmente aqueles relacionados a lidar com situações de risco. A cultura de segurança está intimamente relacionada ao processo de acreditação. Vamos relembrar que, para ser certificada, uma organização necessita seguir os padrões de qualidade instituídos pela instituição acreditadora. Como já vimos, a segurança também faz parte desse processo. Portanto, a avaliação dos processos de trabalho de instituições de saúde que desejam acreditação possibilita que os eventos adversos (por exemplo, quedas de pacientes, úlceras de pressão) ou eventos sentinela (como cirurgias em membros trocados, erros de medicação) sejam mensurados, criticamente analisados e, a partir daí, implantados protocolos de atuação mais seguros. Claro que isso não é tarefa fácil, pois não se trata apenas de registrar quantas quedas de pacientes ocorreram, mas sim de ter um modelo de gestão crítico e proativo, na verdade, estratégico. Disso depende todo o envolvimento da gerência e dos membros das equipes multidisciplinares, o que muitas vezes requer mudança na cultura organizacional. O mais importante é percebermos que o processo de acreditação conduz a organização rumo à cultura de segurança e, portanto, segurança passa a permear todas as atitudes no trabalho, porque se quer, continuamente, aperfeiçoar a qualidade dos serviços prestados. Para Pedreira (2009), estabelecer uma cultura de segurança depende de comunicação eficaz, confiança entre profissionais, prática colaborativa e capacidade de aprendizado de mudança. Se compararmos esses aspectos com aqueles apontados pela aviação civil como relevantes na prevenção de acidentes (trabalho em equipe, comunicação, entre outros), veremos que existem semelhanças. Assim, podemos perceber que participar do processo de acreditação proporciona um caminho para um modelo de gestão mais dinâmico e centrado no cliente, uma vez que impulsiona mudanças na cultura organizacional. No exemplo a seguir, podemos perceber como a cultura de segurança foi incorporada ao modelo de gestão de qualidade no hospital Johns Hopkins, Massachusetts (EUA), que utiliza o referencial de qualidade de Donabedian. Quadro 32 – Dimensões da qualidade aplicadas no Hospital Johns Hopkins, segundo o modelo de Donabedian Domínios → Definições → Exemplos em UTI Lesões causadas aos pacientes (resultado) Taxas de IRA Infecções associadas a cateteres centrais Uso de prática baseada em evidência (processo) % pacientes recebem intervenções baseadas em evidências Elevação da cabeceira do leito; profilaxia de úlcera de estresse e de TVP em pacientes em VM Aprender com erros (estrutura) % meses/ano que UTI aprende com erros Meses/ano que UTI analisa seus erros Cultura local de segurança (atitudes) Avaliação da cultura de segurança Escore da cultura de segurança 176 Unidade II Nessa figura, observamos que, para gerenciar a qualidade na UTI, foi incorporado um quarto elemento, a segurança, às dimensões estrutura, processo e resultado. No componente resultados, temos as taxas de infecção relacionadas à assistência, no exemplo, o monitoramento das infecções relacionadas a cateter central. No componente processos, observamos se existem protocolos assistenciais baseados em evidências científicas, como de elevação da cabeceira do leito e de prevenção de úlcera de estresse e de trombose venosa profunda (TVP) em pacientes em ventilação mecânica (VM). No componente estrutura, foi destacado o quanto a UTI analisa e aprende com os erros. Por último, no componente segurança, é avaliado o escore de clima de segurança, isto é, o grau com que o profissional percebe que a segurança é importante na organização. Esse exemplo mostra‑nos como estrutura, processo, resultado e segurança (atitude) devem ser vistos como partes complementares de um mesmo todo: o cuidado com a qualidade. O exemplo também apresenta outro aspecto relevante para a segurança do paciente: a prática baseada em evidências. Trata‑se da utilização de intervenções de saúde, cujos resultados já foram avaliados em diversos estudos científicos. São consideradas, portanto, intervenções com maiores benefícios possíveis e mais seguras. Se observarmos de perto os padrões de qualidade das instituições acreditadoras, veremos que muitos são alinhados por evidências científicas. Pense bem: se existe uma preocupação com os resultados da assistência, não é lógico adotar intervenções que já demonstraram ser maiseficazes e eficientes? Pois é isso que chamamos de prática baseada em evidências. A Joint Comission, por exemplo, tem como um dos padrões a utilização de protocolos de intervenções, reconhecidamente associados à qualidade e segurança, como podemos ver no componente processos. Protocolos são um conjunto de atividades padronizadas com base em estudos científicos. A seguir, destacamos algumas intervenções consideradas práticas, baseadas em evidências e seus respectivos benefícios. Observação O uso de protocolos de cuidados para prevenção de infecções relacionadas a cateteres venosos centrais reduz em 92% o risco de infecção relacionado a esse dispositivo (PEDREIRA, 2009). Quadro 33 – Práticas baseadas em evidências e seus respectivos resultados científicos Intervenção Resultados Utilização de protocolos de antibioticoterapia profilática pré‑operatória Redução de 93% de infecção de ferida operatória. Uso de prescrição informatizada Redução de 81% de erros de prescrição associados à caligrafia do médico. Equipes de resposta rápida para atendimento de emergência Redução de 15% de eventos de parada cardiorrespiratória. Utilização de protocolos de cuidados de pacientes em ventilação mecânica Redução de 62% de pneumonia associada à ventilação. Utilização de dosagem padrão de insulina na instituição Redução de 63% de episódios de hipoglicemia. Descrição e padronização de práticas com medicação Redução de 60% de eventos adversos. Fonte: Pedreira (2009). 177 AUDITORIA E GESTÃO DA QUALIDADE EM INSTITUIÇÃO DE SAÚDE Um estudo desenvolvido na Unidade de Ortopedia e Traumatologia do Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Pernambuco avaliou se o uso de protocolo de atendimento médico hospitalar para o procedimento de artroplastia de joelho ou colocação de prótese no joelho promoveu melhora do atendimento. Os resultados identificaram que houve redução no tempo médio de espera para a realização da cirurgia, no total de dias de permanência e no tempo médio de duração da cirurgia. Não houve redução nos custos diretos de consumo, mas queda nos custos diretos vinculados à internação (LAGIOIA et al., 2008). Ainda destacando a relação entre acreditação e segurança, é importante saber que a Joint Comission estabeleceu uma parceria com a Organização Mundial de Saúde (OMS), em 2005, para formar o centro colaborador dedicado à segurança do paciente. Na verdade, essa parceria foi consequência da Aliança Mundial para Segurança do Paciente (OMS), criada em 2004, para facilitar e desenvolver práticas de segurança internacionalmente (HARADA, 2009). Essa Aliança Mundial tem uma agenda audaciosa que engloba doze áreas: desafios globais para a segurança do paciente; pacientes para segurança do paciente; pesquisa para segurança do paciente; taxonomia – classificação internacional para segurança do paciente; relatando e aprendendo para segurança do paciente; soluções para segurança do paciente; cinco iniciativas principais; tecnologia para segurança do paciente; gerenciamento do conhecimento; eliminar infecções na corrente sanguínea associadas ao uso de cateter central; educação para cuidado mais seguro; prêmio da segurança (HARADA, 2009). Vamos conhecer um pouco mais sobre duas áreas que estão sob a responsabilidade do Centro Colaborador para Segurança do Paciente, cuja Joint Commission participa. A primeira, Soluções para a Segurança, tem o objetivo de transmitir conhecimento de soluções práticas sobre segurança do paciente e disseminá‑las em todo o mundo. Em 2007, esse comitê aprovou nove soluções (HARADA, 2009): • gerenciamento de riscos associados a medicamentos com aparência ou nome similares; • identificação do paciente; • comunicação durante a passagem de caso do paciente; • realização do procedimento correto, na parte correta do corpo; • controle de soluções eletrolíticas concentradas; • garantia de adequação da medicação em todo o processo de cuidado; • evitar conexão errada de cateteres e de drenos; • uso de dispositivo único para injeção; • melhora da higiene das mãos para prevenir infecções associadas ao cuidado com a saúde. 178 Unidade II Estão em desenvolvimento mais cinco soluções: prevenção de queda do paciente; prevenção de úlcera de compressão; resposta à deterioração do quadro do paciente; comunicação de resultados críticos de exames; prevenção de infecção da corrente sanguínea associada a cateter central. A segunda área, cinco iniciativas principais, tem o objetivo de reduzir de maneira significativa a ocorrência dos cinco problemas principais de segurança do paciente, durante cinco anos, em sete países. A iniciativa, estabelecida em cooperação com organizações de vários países (Austrália, Canadá, Alemanha, Holanda, Nova Zelândia, Reino Unido e EUA), busca compartilhar conhecimentos e experiências para implementar Procedimentos Operacionais Padrão (POPs) para cinco soluções (HARADA, 2009): • administração de medicamentos concentrados injetáveis; • garantia da precisão da medicação na transição do cuidado; • comunicação durante a passagem de caso do paciente; • melhora da higienização das mãos para prevenir infecções associadas à assistência; • realização do procedimento correto no lado correto. No Brasil, destacamos o projeto Hospitais Sentinela, desenvolvido pela Anvisa, em 2001. Os hospitais participantes fornecem informações detalhadas sobre eventos sentinelas nas áreas de farmacologia, hemoterapia e tecnologia, que, por sua vez, são analisados criticamente para garantir melhores produtos e mais segurança ao paciente e aos profissionais de saúde. Outro marco importante na direção de um sistema de saúde seguro foi a criação da Rede Brasileira de Enfermagem e de Segurança do Paciente, em 2008, com a finalidade de desenvolver articulação e cooperação entre instituições de saúde e de educação e criar programas de âmbito nacional. 8 FERRAMENTAS DA QUALIDADE APLICADAS À SAÚDE A literatura especializada aponta uma longa lista de ferramentas de gestão e melhoria da qualidade. Elas são consideradas úteis na medida em que auxiliam na obtenção e análise dos processos internos, identificando causas, efeitos, testando teorias ou controlando um processo quando a solução para um problema foi implantada. Sua utilização é bastante flexível, isto é, uma mesma ferramenta pode ser usada com diferentes finalidades, sozinha ou associada a outras. É importante lembrar que as ferramentas usadas na gestão da qualidade são mais úteis quando puderem ser compreendidas não só por médicos ou enfermeiros. Uma vez que a melhoria contínua da qualidade depende do envolvimento de todos os profissionais da instituição de saúde, a gerência deve se preocupar em promover o aprendizado e a difusão dessas informações da maneira mais democrática possível. Apresentaremos algumas ferramentas, apontando quando, como e por que são usadas. 179 AUDITORIA E GESTÃO DA QUALIDADE EM INSTITUIÇÃO DE SAÚDE Folha de verificação As folhas de verificação ou checklists são usadas quando se quer conhecer a frequência de certos eventos, durante determinado período de tempo. Essa frequência pode ser verificada em porcentagens ou em graduações progressivas (nunca; às vezes; frequentemente; muitas vezes; sempre), e é importante quando se quer ter um panorama do que está ocorrendo na realidade. Os quadros a seguir demonstram exemplos de utilização dessa ferramenta. Quadro 34 – Modelo de folha de verificação de causas de glosa pelo convênio Causas Quantidade Porcentagem Ausência de registro de prontuário do procedimento 10 50 Código do procedimento do convênio não corresponde ao procedimento descrito em prontuário 7 35 Data de realização do procedimento enviada ao convênio não condiz com o registrado em prontuário 2 10 Letra ilegível no prontuário 1 5 Total 20 100 Fonte: Gama e Ota (2012). Ao fazer o levantamento de causas de glosa de contas hospitalares apresentadas ao convênio utilizando essa ferramenta, fica evidente que 85% das ocorrências estavam relacionadasao registro incorreto no prontuário. Assim, utilizando a folha de verificação apresentada, é possível acompanhar de que forma está ocorrendo a adesão dos profissionais de saúde às normas de segurança para evitar acidentes com perfurocortantes. Quadro 35 – Modelo de folha de verificação no controle de acidentes de trabalho com perfurocortantes Controle de acidentes de trabalho Nunca Às vezes Com frequência Muitas vezes Sempre Caixas de perfurocortantes são lacradas quando se atinge o nível de segurança? Agulhas são descartadas corretamente? Equipamentos de proteção individuais estão disponíveis e de fácil acesso? Equipamentos de proteção individual são utilizados corretamente? Adaptado de: Alves (2012b). 180 Unidade II Fluxograma Fluxograma é uma representação gráfica dos passos de um processo. Ele é usado quando se pretende ter uma compreensão abrangente e integrada de todas as atividades ou decisões envolvidas no processo, o que é importante para detectar atividades redundantes ou desnecessárias ou outras falhas que acabam gerando retrabalho. O fluxograma utiliza símbolos padronizados para representar os diferentes aspectos envolvidos no processo. A figura a seguir apresenta os significados desses símbolos. Símbolo Significado Início e fim de um processo Ação: atividades, tarefas, procedimentos Decisão de uma ação Processo em espera Processo arquivado Sequência de eventos Figura 19 – Símbolos e respectivos significados utilizados em um fluxograma A figura a seguir descreve o fluxograma de atendimento de um funcionário ou aluno da Universidade Paulista (UNIP) que sofreu um acidente com material biológico. Podemos perceber que o desenho esquemático aponta todas as ações que devem ser desenvolvidas depois que o acidente ocorrer para garantir os cuidados adequados à pessoa. De forma simples, fica evidente a padronização de condutas que devem ser adotadas, não restando dúvida do que fazer nessa situação. Assim, o fluxograma é um instrumento que permite alinhar ações e pessoas na direção de um mesmo resultado. 181 AUDITORIA E GESTÃO DA QUALIDADE EM INSTITUIÇÃO DE SAÚDE Funcionário/estagiário acidentado Comunicar chefia/coordenação Sim Não Encaminhar ambos para atendimento médico, em hospital de referência, em até duas horas do ocorrido. Comunicar familiar responsável Encaminhar colaborador para atendimento médico, em hospital de referência, em até duas horas. Administrar cuidados locais: lavagem exaustiva com água e sabão o local da exposição (perfuração de membros ou mucosa). Comunicar à coordenação/ chefia condições do acidente e procedimentos adotados (relatório escrito). Fonte presente Figura 20 – Modelo de fluxograma de procedimentos pós‑acidente com material biológico Diagrama de Pareto Trata‑se de um gráfico de barras utilizado para representar os diversos fatores envolvidos em um processo ou problema, a fim de que se possam triar os mais importantes. O gráfico tem esse nome em homenagem ao economista italiano Vilfredo Pareto (1848‑1923), que observou que a maior parte da riqueza estava concentrada entre poucos cidadãos. Como ferramenta para melhoria da qualidade, o diagrama de Pareto é usado para identificar os fatores que mais contribuem para um determinado efeito. Esses fatores devem estar dispostos em ordem decrescente de valor. Por exemplo, vamos analisar a figura a seguir, que descreve as situações em que ocorreram acidentes com objetos perfurocortantes (OPC) em duas diferentes categorias profissionais, em um hospital universitário, na cidade de São Paulo. 36,8% 39,7% 16,3% 3,7% 58,7% 13,1% 10,0% 16,3% 1,9% 9,5% 100% Enfermagem Realização ou auxílio de procedimentos Descarte OPC local inadequado Ato de reencapar agulhas Outras práticas de risco Outras atividades ou desconhecido Outros profissionais 60% 80% 40% 10% 90% 50% 20% 70% 30% 0% Figura 21 – Modelo de diagrama de Pareto 182 Unidade II Podemos observar que foram identificados cinco grupos de causas dos acidentes com perfurocortantes. No entanto, quase 60% foram devido à realização ou auxílio de procedimentos entre os profissionais de enfermagem, enquanto em outras categorias profissionais quase 40% estavam relacionados ao descarte de OPC em local inadequado. Assim, o gráfico de Pareto permitiu identificar aquilo que os especialistas chamam de poucos vitais, isto é, os fatores que se distinguem em meio a vários. Essa observação é essencialmente importante para o gerenciamento da qualidade, porque, muitas vezes, é necessário delimitar o foco de atuação entre diversos aspectos, definindo prioridades de atuação. Por exemplo, uma das unidades do Park Nicollet Medical Center (EUA) utilizou o diagrama de Pareto para representar as causas que levaram os clientes a avaliar como ruim ou razoável o atendimento recebido. Dessa forma, perceberam que, entre as 17 categorias de causas, quatro foram responsáveis por 55% dessas avaliações: condições para conseguir uma ligação telefônica, informação sobre novos serviços, facilidades para conseguir entrevistas e tempo de espera na sala de recepção. Identificando os poucos vitais, a gerência conseguiu reduzir o número de avaliações negativas na pesquisa de satisfação dos clientes (PLSEK, 1994). Diagramas de causa e efeito Essa ferramenta também é conhecida como diagrama de Ishikawa ou “espinha de peixe”; isso se deve ao fato de ter sido introduzido pela primeira vez pelo médico japonês Dr. Kaoru Ishikawa e por seu desenho se assemelhar a uma espinha de peixe. É utilizado para analisar diferentes grupos de causas para um problema ou efeito. Como ferramenta de melhoria da qualidade, ele é mais útil quanto mais abrangente for a análise das causas, incluindo visões de diferentes profissionais, o que permite olhar para o problema em diferentes ângulos, isto é, tanto do ponto de vista da gerência quanto do funcionário de nível mais operacional. É justamente esse processo de discussão de grupo que confere maior valor a essa ferramenta. É importante também que as diferentes causas sejam agrupadas em categorias, buscando semelhanças. A figura a seguir apresenta um exemplo prático. Pessoal Políticas Atraso entre as cirurgias Processo Planta Equipe de higiene defasada Atraso da equipe cirúrgica Atraso da equipe de anestesia Elaborado por Vera Alves, 2009. Demora para chegar ao CC Prontuário incompleto Atraso dos elevadores Ausência de circulante Sala não preparada Sala ocupada Atraso do técnico RX Falta de tricotomia Falta de instrumental Falta de material especial Manutenção do ar condicionado deficiente Demora na entrega de roupas Grande distância entre os setores Falta de equipamento Figura 22 – Modelo de diagrama de causa e efeito 183 AUDITORIA E GESTÃO DA QUALIDADE EM INSTITUIÇÃO DE SAÚDE Podemos observar que a utilização do diagrama de Ishikawa possibilitou uma visão bastante detalhada e ampla das causas para atrasos de cirurgia. Quatro grandes grupos foram identificados: pessoal, políticas, processo e planta. Entre as causas envolvendo pessoal, notamos falta de disciplina e comprometimento (atraso de médicos e técnico de raio X) e carência de profissionais (equipe de higiene defasada). Entre as causas envolvendo políticas organizacionais, percebemos a carência de recursos materiais (falta de instrumental e equipamento, manutenção deficiente). Na categoria planta, percebe‑se a falta de planejamento e organização da estrutura física (sala ocupada, não preparada, distância grande). Na categoria processo, percebe‑se falta de coerência e organização das atividades envolvidas no preparo para cirurgia (demora em chegar ao CC, demora na entrega de roupas, falta de tricotomia). É importante notar que, nesse caso, seria fundamental associar essa ferramenta a um diagrama de Pareto para identificar os poucos vitais e atacar as principais causas do problema. Como ferramenta da qualidade, o diagrama de Ishikawa possibilitao trabalho em equipe e o exame objetivo das causas, contribuindo para uma visão mais complexa e global do problema. Diagrama de Dispersão Trata‑se de um tipo de gráfico utilizado para analisar a relação de influência de um fator sobre outro, isto é, se existe correlação entre eles. Não se trata de relação de causa e efeito, mas sim de verificar se a mudança em um fator provoca alteração em outro. Essa correlação pode ser positiva, negativa ou nenhuma. Como exemplo, analisaremos a próxima figura. Brasil 0,180 0,060 0,120 0,000 0,500 0,550 0,600 0,650 IDS em 1999 Va ria çã o do ID S 19 99 –2 00 5 0,700 0,750 0,150 0,030 0,090 Figura 23 – Modelo de gráfico de dispersão Brevidelli e Freitas (2012) elaboraram um gráfico de dispersão para analisar a correlação entre despesas com saúde e saneamento e o índice de desenvolvimento da saúde, para cada unidade da Federação do Brasil. Essa ferramenta permitiu observar que, no Distrito Federal, 184 Unidade II em São Paulo e no Rio de Janeiro (pontos mais altos, no canto superior direito), houve uma correlação positiva, isto é, maiores investimentos em saúde e saneamento implicaram maior nível de desenvolvimento da saúde. Por outro lado, nos estados do Maranhão, Alagoas e Pará (pontos no canto inferior esquerdo), maiores gastos com saúde não garantiram o adequado desenvolvimento da saúde. O objetivo do estudo era qualificar o nível de saúde das populações por regiões do Brasil. Além disso, por meio desse gráfico, os autores demonstraram maiores investimentos públicos na área, o que implica melhores níveis de saúde. Matriz GUT A matriz GUT é uma tabela elaborada com a finalidade de analisar riscos e identificar prioridades na resolução de um problema. O objetivo é identificar, entre diversos problemas, quais os mais graves e que requerem prioridade de intervenção. Para isso, é atribuído um valor de 1 a 5 em três critérios: gravidade (G), urgência (U) e tendência (T). A análise da gravidade questiona o impacto ou a consequência do problema em longo prazo. A urgência tem relação com o tempo disponível para resolução. E, finalmente, a tendência analisa o potencial de crescimento ou desaparecimento do problema. Assim, G = 1 indica uma ocorrência de baixa gravidade e G = 5, ocorrência grave. Da mesma forma, U = 1 indica menor urgência e U = 5, maior urgência. E, ainda, T = 1 aponta que a situação não irá piorar se nada for feito e T = 5, piora da situação se nada for feito. A multiplicação desses valores resulta em um escore (E) ou nota final. Quanto maior esse escore, maior a prioridade que se deve atribuir à resolução do problema. Como exemplo prático, vamos observar o quadro a seguir. Quadro 36 – Modelo de matriz GUT para analisar problemas na passagem de plantão, tornando essa atividade extensa e demorada Problemas Gravidade (G) Urgência (U) Tendência (T) Escore (E) Comunicação prejudicada por conversas paralelas 5 5 3 75 Acúmulo de pessoas na unidade 4 4 1 16 Admissão de pacientes em pós‑operatório 3 3 2 18 Admissão de pacientes 2 3 1 6 Chegada de visitantes 2 1 1 2 Interrupção pela equipe médica 3 2 2 12 Adaptado de: Alves (2012b). Ao elaborar uma matriz GUT para analisar os problemas que interferem na passagem de plantão, foi possível identificar que conversas paralelas (E = 75) e admissão de pacientes após a cirurgia (18) são os problemas mais graves e urgentes a resolver. Caso contrário, a passagem de plantão tende a se estender, prejudicando a continuidade da assistência aos pacientes da unidade. 185 AUDITORIA E GESTÃO DA QUALIDADE EM INSTITUIÇÃO DE SAÚDE 5W3H Essa ferramenta corresponde a um plano de ação, no qual se delimitam as ações, responsabilidades, métodos, prazos e recursos associados. É, portanto, uma ferramenta de planejamento estratégico usada para implantar mudanças na organização. A expressão 5W3H refere‑se às iniciais de termos em inglês: • What (o que): determinar o que será feito (etapas do processo); • Why (por que): apontar a justificativa para executar a atividade; • Who (quem): distribuir responsabilidades, definindo quem vai realizar cada etapa; • When (quando): definir o tempo para execução das atividades; • Where (onde): determinar o local onde cada etapa será realizada; • How (como): definir o método que será adotado em cada etapa; • How much (quanto): delimitar os custos envolvidos no processo; • How measure (como medir): apontar como o processo será avaliado e monitorado. Vamos aprender como utilizar essa ferramenta, observando o próximo quadro. Quadro 37 – Modelo de plano de ação 5W3H para reduzir tempo da passagem de plantão Setores: Unidades de Terapia Intensiva e Semi‑Intensiva Objetivo: reduzir o tempo gasto na passagem de plantão para 20 minutos O que (what) Gerenciar o tempo gasto na passagem de plantão. Quem (who) Enfermeiros da unidade. Quando (when) Até 21/02/20... Onde (where) Unidade de terapia intensiva e semi‑intensiva. Por que (why) Garantir o atendimento adequado dos pacientes da unidade. Como (how) Discutir com cada funcionário como ele deve se comportar na passagem de plantão, evitando conversas paralelas. Elencar um ou dois funcionários para receber pacientes vindos do pós‑operatório, durante a passagem de plantão. Quanto (how much) Atribuir avaliação positiva e bonificação para a equipe, caso a meta seja atingida. Como medir (how measure) Medir o tempo gasto na passagem de plantão. Fonte: Brevidelli (2013). O quadro demonstra a utilização do plano de ação 5W3H para reduzir o tempo gasto na passagem de plantão da UTI e Semi‑Intensiva e, dessa forma, garantir o atendimento adequado dos pacientes internados nessa unidade. 186 Unidade II Ao usar essa ferramenta, obtemos uma maneira objetiva sobre como o processo será realizado, quem são as pessoas envolvidas, quais as responsabilidades, quais os custos e como o resultado desejado será monitorado. Ciclo PDCA O ciclo PDCA é uma ferramenta utilizada para controle ou melhoria dos processos internos. Esse termo advém da primeira letra das etapas de um processo de análise, conforme o seguinte: • Plan (planejar): definir metas e métodos para atingi‑las. • Do (executar): executar o que foi planejado; inclui o treinamento e a educação dos profissionais para a execução adequada. • Check (verificar): verificar resultados alcançados. • Action (atuar): atuar corretamente. Quando usado para atingir metas ou manter os resultados em um nível desejado, é denominado de SDCA (Standard, Do, Check, Action – Padrão, Ação, Avaliação e Ação corretiva) (FONSECA; MYAKE, 2006). Nesse caso, estamos falando de um processo sistemático e cíclico de controle do alcance das metas e do cumprimento dos procedimentos operacionais definidos e do que deve ser feito para corrigir as falhas. A figura seguinte apresenta um diagrama clássico do ciclo PDCA. Plan: planejar ciclo PDCA Do: executar Check: avaliar Action: corrigir Figura 24 – Modelo de ciclo PDCA A utilização do PDCA para melhoria da qualidade prevê a utilização dessa ferramenta na resolução de problemas, e as fases ficariam assim definidas: 187 AUDITORIA E GESTÃO DA QUALIDADE EM INSTITUIÇÃO DE SAÚDE • P: identificação do problema, análise das causas e determinação de plano de intervenção nas causas. • D: atuação de acordo com plano de intervenção nas causas. • C: confirmação da efetividade do plano. • A: caso as ações tenham sido efetivas, deve haver a padronização de medidas para que as causas do problema não reapareçam; caso o problema não tenha sido resolvido, deve‑se voltar à fase de planejamento. O ciclo PDCA também pode ser aplicado ao planejamento da qualidade ou à busca de inovações. Nesse caso, o processo não é repetitivo, e a fase de planejamento (P) estaria voltada para a delimitação do novo processo, com análise de viabilidade técnica e econômica. Também seriam definidas todas as especificações e atividades necessárias, seguidas do plano de ação. Na segunda fase (D), o plano de açãoé executado e, posteriormente, na terceira fase (C), avaliado quanto aos resultados alcançados. Na última fase (A), os procedimentos operacionais são padronizados. Assim, percebemos que há inúmeras ferramentas para auxiliar o gestor de saúde no âmbito da qualidade, no planejamento, no controle e no aprimoramento dos processos de trabalho. Essas ferramentas são instrumentos poderosos para legitimar e consolidar a melhoria contínua da qualidade e, portanto, cabe aos gestores a tarefa de apropriar‑se corretamente deles, tornando concreta a busca pela excelência na saúde. Resumo Apesar de sua enorme relevância para a sociedade moderna, ao final dos anos 1980, as organizações de saúde enfrentaram uma crise. Como instituições sem fins lucrativos, seguiam a premissa de oferecer saúde a qualquer preço. Os custos astronômicos no setor de saúde tornaram essa premissa incompatível com a realidade e evidenciaram a carência de um modelo gerencial voltado ao desempenho. Hoje, a preocupação com o desempenho organizacional é um dos principais elementos da administração das organizações de saúde. De acordo com Drucker (2010), administrar o desempenho envolve cinco etapas: • declarar a missão da organização: implica definir a razão de existência da organização. A transmissão clara dessa ideia direciona as ações das pessoas dentro da organização; • delimitar metas com foco nos resultados: implica focar nas próprias competências, isto é, naquilo que faz bem ou até melhor que outras instituições. Tal foco dá uma vantagem competitiva à organização, pois delimita o perfil de sua clientela; 188 Unidade II • estabelecer prioridades e padrões de desempenho: implica definir resultados desejáveis. Estes devem ter uma visão de longo prazo, prevendo aonde a organização espera chegar nos próximos dez anos, por exemplo; • definir medidas de desempenho: possibilita saber se os resultados foram alcançados. Estabelecer medidas de desempenho, indicadores que demonstrem a dimensão dos serviços oferecidos pela instituição de saúde; • usar essas medidas como autocontrole por resultado: a mensuração dos indicadores de desempenho permite o autocontrole na busca do melhor desempenho. Esse modelo de gestão é bastante oportuno quando analisamos os requisitos necessários à gestão da qualidade em saúde. Trata‑se de um atributo positivo, conferido à assistência quando alicerçada em três pilares: melhores práticas, por onde se alcança a excelência e segurança na prestação de serviços; foco no cliente; e aprimoramento contínuo. A excelência advém de padrões e critérios previamente definidos pela gerência estratégica, revelando o foco em resultados desejados. Inicialmente, a concepção de gestão da qualidade envolveu um modelo gerencial de garantia de qualidade, isto é, manter a qualidade que já existia. Esse modelo evoluiu para uma visão de melhoria contínua da qualidade, fundamentado na premissa de que esta pode ser constantemente aprimorada. A abordagem atual da gestão da qualidade em saúde contempla uma visão estratégica que direciona o comportamento da empresa em longo prazo, maximizando recursos físicos, financeiros e humanos. Nessa perspectiva, destaca‑se o Balanced Scorecard (BSC), ou painéis de indicadores, proposto por Kaplan e Norton, no qual estão integradas as perspectivas do cliente, das finanças, dos processos internos, do aprendizado e da inovação. Esse modelo demonstra como a gestão da qualidade nas organizações de saúde requer do gerente uma visão abrangente dos processos de trabalho de hoje em perspectiva com os de amanhã. Na literatura, discute‑se muito sobre as principais atribuições, responsabilidades e competências necessárias aos gestores de qualidade. Entre essas competências, destacam‑se: • a liderança proativa, inovadora e transformadora, na qual o líder “vende” sua visão aos seguidores, é preocupado com o alto desempenho e em vencer os obstáculos; 189 AUDITORIA E GESTÃO DA QUALIDADE EM INSTITUIÇÃO DE SAÚDE • a gestão de pessoas, que enfatiza o desenvolvimento, uma vez que os resultados da organização dependem do esforço de funcionários qualificados. Nesse ponto, destaca‑se a visão de Drucker (1909‑2005) para tornar os pontos fortes produtivos na gestão de pessoas, isto é, reconhecer os talentos e as competências individuais e alocá‑los na função e no cargo certos. Os aspectos discutidos apontam que a gestão de qualidade envolve inúmeros desafios dos gestores na área de saúde e, principalmente, para o gerente de enfermagem. Além de gerenciar a unidade, a assistência e as pessoas, a inclusão do fator qualidade tornou imprescindível demonstrar resultados e gerenciar custos. O modelo gerencial tradicional, centrado na prerrogativa de que o enfermeiro é o “chefe”, cuja função é “mandar” e os demais membros da equipe são os “subordinados” e que, por sua vez, devem acatar as ordens dadas e “fazer”, é incompatível com a gestão da qualidade no século XXI. Essa nova perspectiva de trabalho requer um profissional capaz de aprimorar suas próprias competências e um novo paradigma educacional na formação desse profissional. Para assumir o papel de gestor de qualidade, portanto, o enfermeiro é responsável por dar a sua contribuição, o que implica capacitação, trabalhando para aprimorar os pontos fortes, que somente são conhecidos se a pessoa se questiona: quem sou eu? Como eu aprendo? De que modo eu trabalho? Onde posso alcançar resultados que façam alguma diferença? A literatura aponta o modelo de avaliação de qualidade de Donabedian, da década de 1960, como precursor de metodologias de avaliação da qualidade. Nesse modelo, a qualidade é avaliada sob três dimensões fundamentais: estrutura, processo e resultados. A estrutura refere‑se aos recursos físicos, materiais e humanos necessários à assistência. O processo compreende todas as atividades e procedimentos que a prestação da assistência exige para se obter o melhor resultado de saúde. O resultado aponta o impacto que as ações desenvolvidas, dentro de uma estrutura desejada, alcançaram em termos de saúde e bem‑estar do paciente. O método de Donabedian prevê a definição de três elementos essenciais para avaliação: critérios, padrões e indicadores. Critério é um atributo da estrutura, do processo ou resultado capaz de inferir uma conclusão sobre a qualidade. Padrão é uma medida quantitativa específica que define a qualidade desejada. Indicador é uma medida quantitativa que pode ser usada para inferir uma avaliação dos serviços de saúde e é, portanto, um componente crítico desse processo. 190 Unidade II O processo de avaliação da qualidade enfrenta diversos desafios: • metodologia adotada: a escolha de um referencial implica estruturação complexa de diversas operações, desde a definição operacional de padrões até a análise contínua das informações; • análise e consistência dos dados coletados: a análise dos dados de forma consistente depende de pessoal qualificado não só em operações matemáticas, mas também na inter‑relação entre os dados; • uso efetivo dos resultados: por se tratar de um processo exaustivo, muitas instituições acabam perdendo o foco em como a avaliação da qualidade vai ser utilizada para direcionar ações gerenciais. O processo de controle de qualidade envolve quatro etapas: estabelecer padrões; avaliar indicadores; comparar com os padrões; adotar ações corretivas. A avaliação de indicadores irá revelar os parâmetros da realidade da instituição. Em seguida, comparam‑se os resultados com os padrões. Se o desempenho não corresponder ao padrão, busca‑se identificar os motivos e determinar as ações corretivas. Esse processo pressupõe maior qualidade na assistência à saúde diante da ausência de morte e eventos adversos. As medidas para inferir o resultado do cuidado apontam para aspectos negativos, como os indicadores de mortalidade que inferem saúde por meio da ausência de morte em consequência de doença. Normalmente, são utilizados dois métodospara o controle de qualidade: auditoria e acreditação. Auditoria é um exame sistemático e oficial de registro, processo, estrutura e resultados da assistência para avaliar o desempenho; pode ser classificada como retrospectiva ou simultânea. As retrospectivas são realizadas em prontuários, após a alta do paciente. A simultânea é aquela realizada durante a internação ou atendimento ambulatorial. A auditoria de enfermagem é um tipo específico de avaliação da assistência e dos registros de enfermagem. As mais empregadas para controle de qualidade utilizam a base teórica de Donabedian, separando‑se em três componentes: estrutura, processo e resultado. Outro método de avaliar a qualidade é buscar a acreditação. Trata‑se de um processo de avaliação externo pelo qual o desempenho de serviços de saúde é avaliado com base em padrões predeterminados, de maneira formal, estruturada, periódica. O processo de acreditação ocorre por meio da visita de uma equipe de avaliadores, em intervalos periódicos de dois ou três anos, pela qual todas as unidades do serviço de saúde são julgadas com base nos padrões de referência, estabelecidos por peritos ou especialistas na área. 191 AUDITORIA E GESTÃO DA QUALIDADE EM INSTITUIÇÃO DE SAÚDE O processo de acreditação difere de acordo com as instituições acreditadoras. No Brasil, destacam‑se a Organização Nacional de Acreditação (ONA), a Joint Comission Internacional (JCI) e o Programa de Compromisso com a Qualidade Hospitalar (CQH). Na acreditação pela ONA, são avaliadas as dimensões: liderança e administração, organização profissional, atenção ao paciente/cliente, diagnóstico, apoio técnico, abastecimento e apoio logístico, infraestrutura, ensino e pesquisa. As organizações podem ser classificadas em: não acreditada (não atingiu os requisitos básicos, conforme o padrão do nível 1); acreditada (atingiu os requisitos básicos, conforme o nível 1); acreditada plena (atingiu os requisitos básicos, conforme os níveis 1 e 2); e acreditada com excelência (atingiu todos os requisitos, conforme os níveis 1, 2 e 3). Na acreditação pela JCI, a instituição deve seguir os 14 padrões estabelecidos, distinguidos em dois focos: cliente e administração. A acreditação pode ocorrer em três níveis distintos: Nível 1 – Segurança (estrutura); Nível 2 – Organização (processo): Nível 3 – Práticas de gestão e qualidade (resultados). O Programa Compromisso com a Qualidade Hospitalar – CQH monitora a qualidade dos serviços de hospitais do Estado de São Paulo e de outros da Federação. Com metodologia específica baseada em seleção de alguns indicadores, autoavaliação e visita aos hospitais participantes, possui seus próprios padrões de acreditação. Mensalmente, os hospitais participantes encaminham os resultados dos indicadores relacionados à gestão. Relatórios trimestrais de desempenho são enviados ao grupo de hospitais para conhecer sua posição em relação aos demais. Dados epidemiológicos de pesquisas mundiais demonstram que a segurança do paciente é hoje uma prioridade nos países desenvolvidos. Coerente com essa preocupação, a segurança foi incorporada ao conceito de qualidade, no qual a excelência na prestação de cuidados implica também segurança para o paciente. Estudos deixam claro que muitos dos erros humanos cometidos na assistência à saúde são evitáveis. Para que isso ocorra, dois aspectos são destacados: criar uma cultura de segurança e aprendizagem com erros e estabelecer a prática baseada em evidências. Cultura de segurança é uma percepção compartilhada pelos profissionais de saúde de que a segurança é prioridade para a gerência da organização. A prática baseada em evidências implica a utilização de intervenções de saúde, cujos resultados já foram avaliados em diversos estudos científicos. Portanto, são consideradas intervenções com maiores benefícios e mais 192 Unidade II seguras. Muitos padrões de qualidade das instituições acreditadoras são alinhados por evidências científicas. A literatura especializada aponta uma longa lista de ferramentas de gestão e melhoria da qualidade. Elas são consideradas úteis na medida em que auxiliam na obtenção e análise dos processos internos, identificando causas, efeitos, testando teorias ou controlando um processo quando a solução para um problema foi implantada. Entre essas ferramentas, destacam‑se: • folhas de verificação ou checklists: usadas para conhecer a frequência de certos eventos, durante determinado período de tempo; • fluxograma: representação gráfica dos passos de um processo, usado para compreender de forma abrangente e integrada todas as atividades ou decisões envolvidas em um processo de trabalho; • diagrama de Pareto: gráfico de barras utilizado para representar os diversos fatores envolvidos em um processo ou problema, a fim de que se possam triar os mais importantes; • diagrama de causa e efeito (diagrama de Ishikawa ou “espinha de peixe”): utilizado para analisar diferentes grupos de causas para um problema ou efeito, incluindo visões de diferentes profissionais, o que permite olhar para o problema em diferentes ângulos; • diagrama de dispersão: gráfico utilizado para analisar a relação de influência de um fator sobre outro, isto é, se existe correlação entre eles; • matriz GUT: tabela elaborada com a finalidade de analisar riscos e identificar prioridades na resolução de um problema. O objetivo é identificar, entre diversos problemas, os mais graves, que requerem prioridade de intervenção; • 5W3H: plano de ação no qual se delimitam ações, responsabilidades, métodos, prazos e recursos associados. É uma ferramenta de planejamento estratégico usada para implantar mudanças na organização; • ciclo PDCA: utilizado para controle ou melhoria dos processos internos, de acordo com as etapas: P (identificação do problema, análise das causas e determinação de plano de intervenção nas causas); D (atuação de acordo com plano de intervenção nas causas); C (confirmação da efetividade do plano); A (caso as ações tenham sido efetivas, deve haver a padronização de medidas para que as causas do problema não reapareçam). Caso o problema não tenha sido resolvido, deve‑se voltar à fase de planejamento. 193 FIGURAS E ILUSTRAÇÕES Figura 10 FERNANDES, H. S.; PULZI JR, S. A.; FILHO, R. C. Qualidade em terapia intensiva. Rev. Bras. Clin. Med., v. 8, p. 37‑45, 2010. Figura 11 CARBONE, P. 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