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Pedro Santos 
 
ABDOME AGUDO INFLAMATÓRIO 
 
Definições 
O abdome agudo é uma síndrome dolorosa aguda de intensidade variável, que leva o paciente a procurar o 
serviço de urgência e requer tratamento imediato clínico ou operatório. Não tratado, evolui com piora dos 
sintomas e progressiva deterioração do estado geral. 
Diversas classificações são adotadas para o agrupamento das diversas causas de abdome agudo. 
Didaticamente, o termo “abdome agudo inflamatório” envolve as afecções intra-abdominais que geram um 
quadro de peritonite secundária a um processo infeccioso ou inflamatório. De modo geral, o quadro 
caracteriza-se por dor de início lento, insidioso e progressivo, com defesa localizada ou generalizada à 
palpação abdominal. 
As causas mais comuns de abdome agudo inflamatório são apendicite, colecistite, pancreatite e diverticulite 
agudas. 
 
Apendicite Aguda 
A apendicite aguda é a afecção cirúrgica mais comumente atendida nos serviços de urgência, além de ser 
a principal causa de abdome agudo em crianças, adolescentes e adultos jovens. A evolução da doença 
baseia-se em sua fisiopatologia e pode ser dividida nas fases edematosa, fibrinosa, flegmonosa e 
perfurativa. 
 
O diagnóstico é eminentemente clínico. Na maioria das vezes, o paciente relata uma dor abdominal de 
moderada intensidade e mal localizada, normalmente periumbilical, que tende a migrar para a Fossa Ilíaca 
Direita (FID), onde, progressivamente, se torna de maior intensidade. Sintomas como vômitos, anorexia e 
febre baixa são comuns. 
Ao exame físico, o paciente pode apresentar sinais de toxemia dependendo da evolução da doença. À 
palpação abdominal, observa-se a contração voluntária da parede abdominal como um todo, com dor 
Pedro Santos 
 
principalmente à palpação da FID, acompanhada de descompressão brusca dolorosa. Essa manobra 
propedêutica recebe o nome de sinal de Blumberg. 
 
Os exames laboratoriais são inespecíficos, e os de imagem devem ser indicados apenas na dúvida 
diagnóstica, principalmente a mulheres, para diagnóstico diferencial com patologias ginecológicas, como 
piossalpinge e moléstia inflamatória pélvica aguda, sendo a ultrassonografia (USG) abdominal e a 
Tomografia Computadorizada (TC) os mais utilizados. 
O tratamento é cirúrgico. A apendicectomia pode ser realizada por incisão oblíqua (McBurney) ou 
transversal (Davis) na FID, e a laparoscopia é indicada especialmente aos casos de dúvida diagnóstica ou 
aos pacientes obesos. 
Colecistite Aguda 
A colecistite aguda representa a 3ª causa de internação nos serviços de Emergência, estando associada 
aos cálculos em mais de 95% dos casos, e resulta da obstrução do ducto cístico por cálculo impactado no 
infundíbulo, tornando a vesícula inflamada e distendida. A colecistite aguda alitiásica pode ocorrer em 3 a 
5% das vezes, sobretudo entre pacientes críticos em terapia intensiva, diabéticos e aqueles que receberam 
nutrição parenteral recentemente. 
O quadro clínico caracteriza-se por dor persistente no hipocôndrio direito (HCD), associada a náuseas e a 
vômitos. A febre não é comum na fase inicial. Episódios no passado, com resolução espontânea ou a partir 
do uso de antiespasmódicos, são comuns. Ao exame físico, nota-se defesa à palpação do HCD. O chamado 
sinal de Murphy consiste em comprimir o HCD e solicitar ao paciente uma inspiração profunda. Na vigência 
de colecistite, a irritação peritoneal o fará cessar a respiração. 
A avaliação laboratorial deve contar com bilirrubinas e enzimas canaliculares para a avaliação de cálculos 
na via biliar. A USG abdominal é o método de eleição para o diagnóstico, revelando espessamento da parede 
da vesícula, líquido e/ou ar perivesicular, além de indicar a presença e a localização dos cálculos. 
O tratamento da colecistite aguda é cirúrgico, mas o momento de indicação operatória pode variar. De modo 
geral, preconiza-se a indicação precoce, e a operação só não é realizada de imediato quando a doença se 
apresenta na forma não complicada em paciente de alto risco operatório. A colecistectomia 
videolaparoscópica é considerada padrão-ouro, e a antibioticoterapia é de curta duração, exceto quando há 
infecção associada. 
Pancreatite Aguda 
A pancreatite aguda é um processo inflamatório do pâncreas, geralmente de natureza química, provocado 
por enzimas digestivas produzidas por ele próprio, e que tem como resultado uma autodigestão da glândula. 
A etiologia mais comum é a litíase biliar (70%), seguida de etilismo e hipertrigliceridemia. Algumas 
casuísticas relatam de 5 a 10% de casos de pancreatite aguda idiopática. 
A dor abdominal é o elemento mais importante no quadro clínico, normalmente associado a vômitos. A dor 
em faixa do abdome superior e do dorso está presente em aproximadamente 50% dos casos. Sinais de 
toxemia, como febre e alterações circulatórias, denotam quadros avançados. Alguns sinais propedêuticos, 
Pedro Santos 
 
como as manchas equimóticas periumbilicais (sinal de Cullen) ou no flanco esquerdo (sinal de Grey-
Turner), são secundários a hemorragia peritoneal ou retroperitoneal. 
Os principais exames para a confirmação diagnóstica são as dosagens de amilase e lipase séricas. Essas 
medidas são qualitativas, não quantitativas, de modo que não se relacionam à gravidade do quadro. A 
avaliação da gravidade é feita por dados clínicos e laboratoriais, e os parâmetros de Ranson são avaliados 
na admissão e após 48 horas. A presença de 3 ou mais parâmetros indica pancreatite aguda grave. 
 
A USG abdominal pode confirmar a etiologia biliar. A indicação de TC de abdome está reserva�da aos 
quadros complicados, para avaliação de complicações, como coleções e necrose. Preconiza-se a TC após 
72 horas do início dos sintomas àqueles com elementos sugestivos de gravidade. 
Formas leves podem ser tratadas com jejum, hidratação vigorosa e controle da dor. Se a etiologia é biliar, 
realiza-se a colecistectomia videolaparoscópica na mesma internação, para evitar novos episódios. 
Quadros graves, por sua vez, exigem internação em terapia intensiva. Além das medidas iniciais, a 
necessidade de sonda nasogástrica e a correção hidroeletrolítica devem ser avaliadas. Antibióticos são 
indicados às complicações infecciosas, geralmente quando se observa ar em retroperitônio pela TC. 
A indicação de cirurgia é uma conduta de exceção. As necrosectomias devem ser realizadas em necroses 
extensas que não responderão a medidas clínicas. Frequentemente, esses pacientes necessitarão de novas 
laparotomias para a limpeza da cavidade. 
Diverticulite Aguda 
A diverticulite aguda é causada pela perfuração de um divertículo, resultado da ação erosiva de um fecalito 
ou do aumento excessivo da pressão intraluminal, levando ao quadro de peritonite. A classificação proposta 
por Hinchey em 1977 leva em conta a localização dos abscessos e a extensão do processo infeccioso. 
O quadro clínico da diverticulite aguda não complicada já foi descrito como “apendicite do lado esquerdo”. 
O paciente apresenta dor na FIE e febre persistentes. Ao exame físico, há defesa e peritonite no quadrante 
inferior esquerdo. Podem ocorrer fístulas, das quais a colovesical é a mais comum. Nesses casos, são 
observadas pneumatúria e infecção urinária, que não responde ao tratamento clínico. 
O exame considerado padrão-ouro para avaliar a doença é a TC de abdome e pelve, que confirma a presença 
do processo infeccioso e afasta outras hipóteses diagnósticas. A colonoscopia e o enema opaco são 
contraindicados na fase aguda, pelo risco de desbloqueio de uma possível perfuração e contaminação da 
cavidade. O tratamento deve ser orientado, conforme a apresentação da doença, pela classificação de 
Hinchey. 
 
Pedro Santos 
 
 
 
Deve-se ressaltar que casos tratados clinicamente, ou unicamente com drenagem do abscesso, devem ser 
operados de forma eletiva. Outros critérios de indicação cirúrgica são 2 ou mais crises, bem documentadasentre pacientes com mais de 50 anos, ou um quadro agudo entre pacientes com menos de 50 anos, além 
de presença de complicações (fístulas, estenose segmentar, perfuração e hemorragia), imunodepressão e 
impossibilidade de excluir câncer.

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