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Alergias Alimentares: Alergia alimentar é um termo relacionado a várias entidades clínicas que possuem um mecanismo comum: ausência da tolerância clínica e imunológica a alguns alimentos. A anafilaxia é a forma mais grave de manifestação da doença. A alergia alimentar é considerada um problema de saúde pública, pois afeta a qualidade de vidas das pessoas sob vários aspectos, podendo causar urticárias, que interferem no relacionamento social, afinal podem ser confundidas com doenças contagiosas. A taxa de prevalência desse problema é incerta, mas estima-se que afete, nos Estados Unidos, 4% das crianças e 1% dos adultos. A alergia alimentar é uma reação patológica do sistema imune, desencadeada pela ingestão de um alérgeno alimentar. Em indivíduos alérgicos, a exposição a quantidades muito pequenas de alimentos alergênicos pode desencadear sintomas clínicos como distúrbios gastrointestinais, urticária e inflamação das vias aéreas, variando em gravidade, que pode ser leve ou, até mesmo, levar a risco de morte. a classificação da alergia alimentar, baseada no mecanismo imunológico, pode ser de três tipos: Medida por IgE: Decorre de sensibilização a alérgenos alimentares com formação de anticorpos específicos da classe IgE. Contatos subsequentes com este mesmo alimento e sua ligação a moléculas de IgE próximas determinam a liberação de mediadores vasoativos e citocinas, que induzem às manifestações clínicas de hipersensibilidade imediata. Ocorrem dentro de minutos e podem se manifestar em até duas horas após a ingestão do alimento. Reações mistas(mediadas por IgE e hipersensibilidade celular): Estão incluídas as manifestações decorrentes de mecanismos mediados por IgE associados à participação de linfócitos T e de citocinas pró-inflamatórias. Reações não mediadas por IgE: Não são manifestações de apresentação imediata e caracterizam-se basicamente pela hipersensibilidade mediada por células. Parecem ser mediadas por linfócitos T. Não são imediatas, pois surgem horas após a ingestão do alimento. Resposta imune: Para entendermos as reações imunológicas que ocorrem em indivíduos alérgicos, é importante lembrar alguns conceitos. Os linfócitos são as células de “comando e controle” do sistema imunológico e incluem dois grupos importantes: Células B: originárias das células-tronco da medula óssea; Células T: que também se originam de células-tronco, mas são posteriormente transportadas para o timo, onde amadurecem Esses dois tipos de células funcionam como base para a resposta imune humoral e para a imunidade celular. As células T, muitas vezes chamadas de T helper (Th), diferenciam-se em células Th-1 ou Th-2, que têm papéis diferentes na resposta imune em circunstâncias diversas, pois secretam diferentes conjuntos de citocinas. Th1: As células Th1 regulam a atividade das células B para produzir anticorpos e direcionar o dano às células-alvo, resultando em destruição dos antígenos. Essa função é útil na defesa contra bactérias, vírus e outras células patogênicas. Th2: As células Th2 mediam a resposta alérgica, regulando a produção de células B da IgE sensibilizada a alérgenos alimentares. Papel do Trato Digestório no Sistema Imune: O sistema imunológico atua na limpeza de substâncias estranhas ao organismo, também chamadas de antígenos. O trato digestório representa o maior órgão imunológico do corpo em contato direto com o meio externo, pois possui uma superfície correspondente a 200 vezes a da pele. Esse órgão exerce várias funções, inclusive a de atuar como uma eficiente barreira contra patógenos e desenvolver tolerância a muitas proteínas alimentares às quais é exposto. O trato digestório é o único órgão em que existe uma convivência harmônica entre grande número de microrganismos e o sistema imunológico. Além disso, ele tem a capacidade de receber diariamente grande quantidade de alérgenos alimentares, sem desenvolver um processo inflamatório que cause danos a uma pessoa. A função do trato digestório de promover a digestão dos alimentos com a incorporação de nutrientes, água, eletrólitos e, ao mesmo tempo, manter um equilíbrio imunológico só é conseguida pela presença de mecanismos de defesa bem elaborados. Esses mecanismos podem ser classificados como: · Inespecíficos: Os mecanismos de defesa inespecíficos englobam a barreira mecânica representada pelo próprio epitélio intestinal e pela junção firme entre suas células epiteliais, a flora intestinal, o ácido gástrico, as secreções biliares e pancreáticas e a motilidade intestinal. · Específicos: Entre os mecanismos de defesa específicos, encontramos aqueles relacionados à defesa imunológica do trato digestório, que agem em adição à barreira física. Essa defesa específica é composta por uma intrincada barreira imunológica, constituída principalmente pelo sistema imune de mucosas do trato digestório (tecido linfoide associado ao intestino – GALT, Gut-associated lymphoid tissue). O GALT faz parte de um grande sistema de imunidade de mucosas (MALT – Mucosa-associated lymphoid tissue) e é considerado o maior órgão linfoide do organismo. O GALT é composto por diferentes tecidos linfoides organizados, que incluem as placas de Peyer, os folículos linfoides isolados e os linfonodos mesentéricos. Quando os mecanismos de defesa falham, isoladamente ou em conjunto, podem ocorrer fenômenos de sensibilização. A sensibilização determina o aparecimento exagerado de complexos antígeno-anticorpo e de substâncias imunologicamente ativas, que se depositam principalmente na mucosa intestinal, causando edema e lesões inflamatórias. Em outras palavras, podemos dizer que, ao vencer a barreira da mucosa intestinal, as formas peptídicas presentes nos alimentos, que não são reconhecidas pelas células do epitélio intestinal, induzirão a resposta imunológica. Essa proteção é a garantia de defesa a ataques por vírus, bactérias, protozoários e outros agentes biológicos que representem perigo à saúde do indivíduo. Normalmente, quando os alérgenos alimentares interagem com as células do sistema imunológico, não desencadeiam nenhuma reação adversa. Isso ocorre porque, apesar dos alimentos (vegetais ou animais) conterem alérgenos, nosso sistema imunológico normalmente os percebe como “estranhos, mas seguros”. Esse reconhecimento é chamado de processo de tolerância da mucosa oral, que ocorre naturalmente conforme digerimos e absorvemos os alimentos. Ou seja, essa tolerância do nosso sistema imunológico aos alérgenos dos alimentos indica que um indivíduo é clínica e imunologicamente tolerante àquele alimento. Acredita-se que a alergia alimentar ocorra quando a tolerância oral falha. A quantidade de antígeno e os fatores ambientais também influenciam no desenvolvimento de alergia alimentar. Embora tenha havido grande avanço na compreensão do sistema imunológico da mucosa intestinal, a patogênese exata da maioria das reações de alergia alimentar permanece desconhecida. Porém, sabe-se que vários fatores participam da ocorrência da alergia, tais como: · Genética; · Flora intestinal do hospedeiro; · Dosagem e frequência de exposição a vários alérgenos alimentares; · Alergenicidade de várias proteínas alimentares. Na alergia, o sistema imune desencadeia defensivos químicos (mediadores inflamatórios) em resposta a algo (neste caso, o alimento) que não deveria causar uma resposta. · O sistema imune identifica erroneamente o alimento como uma ameaça e monta um ataque contra ele. · A sensibilização ocorre na primeira exposição do alérgeno às células imunes, e não há nenhum sintoma de reação. · Depois disso, sempre que esse material estranho entrar no corpo, o sistema imunológico responderá a essa ameaça da maneira anormal. A sensibilização ocorre em dois níveis: Primário (Imediato ou Tardio): É uma reação mediada por IgE que ocorre no trato digestório, sem prévia lesão da mucosa, sendo mais comum em crianças pequenas. Secundário: Ocorre após uma infecção aguda do trato digestório ou a partir de um dano prolongado à mucosa intestinal, com excessiva absorção de macromoléculas alimentares, capaz degerar um quadro de sensibilização local ou sistêmica. A permeabilidade e a microbiota gastrointestinal influenciam de modo importante a doença alérgica. Por um lado, a disbiose influencia a função imunológica intestinal, que está ligada ao GALT. Por outro, acredita-se que a permeabilidade gastrointestinal seja maior no início da infância e decline com a maturação intestinal. Condições como doença gastrointestinal, desnutrição, prematuridade e estados de imunodeficiência podem aumentar a permeabilidade intestinal. A hiperpermeabilidade intestinal e, possivelmente, a disbiose permitem a penetração de antígenos e a apresentação aos linfócitos do GALT e a sensibilização do indivíduo. Manifestações Clínicas: As manifestações clínicas da alergia alimentar podem ser expressas em diversos sistemas orgânicos, como na pele (cutâneas), no trato gastrointestinal e, até mesmo, no trato respiratório. Manifestações Gastrointestinais: Hipersensibilidade Gastrointestinal Imediata: Caracterizada por náuseas, vômitos, dor abdominal e diarreia, que aparecem logo após a ingestão do antígeno. O leite de vaca, o ovo, o amendoim, a soja, o trigo e os frutos do mar são os principais envolvidos nesses casos. Síndrome da Alergia Oral: Simula a alergia de contato mediada por IgE. Restringe-se à orofaringe e inclui aparecimento rápido de edema, hiperemia e sensação de queimação dos lábios e da língua. É mais comum em adultos. A sensibilização ocorre pelo sistema respiratório ou por meio da pele. Síndrome da alergia oral é uma reação alérgica que afeta a boca, os lábios, a língua e a garganta. Também é conhecida como síndrome pólen-alimento. Esofagite Eosinofilica Alérgica: Decorre de hipersensibilidade mista e caracteriza-se por aparecimento de inflamação eosinofílica na mucosa do esôfago, levando a refluxo gastroesofágico, disfagia e recusa alimentar. Gastrite Eosinofilica Alérgica: Também decorre de hipersensibilidade mista, ou seja, IgE mediada, e não IgE mediada. Inclui vômitos, dor abdominal, anorexia, saciedade precoce e déficit de crescimento. Gastrenterocolite Eosinofílica Alérgica: Esse também é um exemplo de hipersensibilidade a alimentos do tipo mista. Acomete crianças de qualquer idade e apresenta sintomas semelhantes àqueles descritos para a esofagite e gastrite eosinofílicas. Enteropatia Induzida por Proteína Alimentar: Caracteriza-se por um quadro de diarreia crônica, que pode estar acompanhada de vômitos, levando à mà-absorção intestinal. O alérgeno mais comum é o do leite de vaca e ocorre mais frequentemente em lactentes. Proctite Induzida por Proteína Alimentar: Comumente encontrada em crianças alimentadas com fórmulas de leite de vaca ou de proteína de soja. O bebê reage com vômitos, diarreia, déficit de crescimento e letargia. Também são vistas fezes sanguinolentas e cheias de muco. Manifestações respiratórias Os quadros de rinite e rinoconjuntivite estão pouco relacionados às alergias alimentares, que, em geral, atingem crianças e adolescentes, porém adquirem importância em virtude da associação com pacientes asmáticos. No entanto, os sintomas respiratórios presentes na alergia alimentar geralmente indicam quadros mais graves, associados à anafilaxia. As manifestações clínicas de maior gravidade, provocadas por alergias alimentares, são aquelas que, por diversos caminhos, levam ao conjunto de sintomas conhecido como anafilaxia, que pode levar o paciente ao óbito se não for atendido com urgência após o aparecimento dos primeiros sinais clínicos. O quadro de anafilaxia compreende uma sequência de edemas de laringe, faringe, língua e lábios, constrição das vias aéreas pulmonares, hipotensão arterial, edema agudo de pele e angioedema. A anafilaxia é mais grave e frequente em indivíduos portadores de asma, pois a constrição das vias aéreas pulmonares é rápida, expondo o paciente a um grande perigo de óbito quando comparado aos não asmáticos. Verificando o Aprendizado 1. O trato digestório é um órgão em que existe uma convivência harmônica entre grande número de microrganismos e o sistema imunológico, graças a mecanismos de defesa específicos e inespecíficos. Dentre as alternativas a seguir, qual relaciona apenas mecanismos de defesa inespecíficos? R: Flora intestinal e secreções biliares. · Os mecanismos de defesa inespecíficos englobam a barreira mecânica representada pelo próprio epitélio intestinal e pela junção firme entre suas células epiteliais, a flora intestinal, o ácido gástrico, as secreções biliares e pancreáticas e a motilidade intestinal. Os mecanismos de defesa específicos estão relacionados à defesa imunológica do trato digestório (GALT, placa de Peyer e folículos linfoides, por exemplo). 2. A resposta imunológica à alergia alimentar gera uma variedade de sintomas e manifestações clínicas expressas em diversos sistemas orgânicos. Marque V (verdadeiro) ou F (falso) para as afirmativas a seguir e assinale a alternativa que apresenta a sequência correta: ( V ) A hipersensibilidade gastrointestinal imediata é caracterizada por náuseas, vômitos, dor abdominal e diarreia, que aparecem logo após a ingestão do antígeno alimentar. ( V ) Dentre as manifestações cutâneas da alergia, destacam-se a urticária e a dermatite atópica. ( V ) As manifestações clínicas de maior gravidade provocadas por alergias alimentares são aquelas que, por diversos caminhos, levam ao conjunto de sintomas conhecido como anafilaxia. ( F ) Os sintomas gastrointestinais das alergias alimentares podem interferir positivamente no estado nutricional do paciente, uma vez que melhoram a absorção de nutrientes. · Os sintomas gastrointestinais das alergias alimentares interferem negativamente no estado nutricional do paciente, uma vez que reduzem a absorção de nutrientes e podem levar ao desenvolvimento de deficiências nutricionais.