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Doença de Alzheimer (DA) 1 � Doença de Alzheimer (DA) Sumário Definição Epidemiologia Fatores de risco Genética/história familiar Fatores ambientais Fatores de risco cardiovascular Nível educacional Baixa acuidade visual Neuropatologia Função hipocolinérgica Degenerações neurofibrilares (DNF) Placas senis (PN) Amilose vascular cerebral Quadro clínico Diagnóstico Mini-exame do Estado Mental (Mini mental) Exames complementares Neuroimagem LCR Diagnóstico diferencial Prevenção Tratamento Suporte aos cuidadores da família Doença de Alzheimer (DA) 2 Definição Síndrome caracterizada pela presença de declínio cognitivo ou comportamental persistente, que interfere nas atividades sociais ou profissionais do indivíduo e que independe das alterações no nível de consciência. Doença neurodegenerativa primária insidiosa e progressiva. Um processo fisiopatológico envolvendo a beta-amiloidose e a neurodegeneração límbica e isocortical com tauopatia, que provoca um transtorno cognitivo que geralmente progride para a demência grave. 💡 Demência é uma síndrome clínica caracterizada clinicamente pelo início lento dos déficits de memória, acompanhados por vários graus de alterações de personalidade. Critérios para o diagnóstico de demência de qualquer etiologia: 1. Demência é diagnosticada quando há sintomas cognitivos ou comportamentais (neuropsiquiátricos) que: a. Interferem na habilidade do trabalho ou de atividades usuais; Não farmacológico Farmacológico Inibidores da colinesterase Memantina Tratar comorbidades psiquiátricas Prognóstico Doença de Alzheimer (DA) 3 b. Representam declínio em relação a níveis prévios de funcionamento e desempenho; c. Não são explicáveis por delirium (estado confusional agudo) ou doença psiquiátrica maior. 2. O comprometimento cognitivo é detectado mediante a combinação de: a. Anamnese com paciente e informante que tenha conhecimento da história; e b. Avaliação cognitiva objetiva, mediante exame breve do estado mental ou avaliação neuropsicológica. A avaliação neuropsicológica deve ser realizada quando a anamnese e o exame cognitivo breve realizados pelo médico não forem suficientes para permitir diagnóstico confiável. 3. Os comprometimentos cognitivos ou comportamentais afetam no mínimo dois dos seguintes domínios: a. Memória: i. Caracterizado por comprometimento na capacidade para adquirir ou evocar informações recentes, com sintomas que incluem repetição das mesmas perguntas ou assuntos, esquecimento de eventos, compromissos ou do lugar onde guardou seus pertences; b. Funções executivas: i. Caracterizado por comprometimento do raciocínio, da realização de tarefas complexas e do julgamento, com sintomas tais como compreensão pobre de situações de risco, redução da capacidade para cuidar das finanças, de tomar decisões e de planejar atividades complexas ou sequenciais. c. Habilidades visuais-espaciais: i. Com sintomas que incluem incapacidade de reconhecer faces ou objetos comuns, dificuldade para manusear utensílios, para vestir-se, não explicáveis por deficiência visual ou motora. d. Linguagem (expressão, compreensão, leitura e escrita): i. Com sintomas que incluem dificuldade para encontrar ou compreender palavras, erros ao falar e escrever, com trocas de palavras ou fonemas, não explicáveis por déficit motor ou sensorial. e. Personalidade ou comportamento: Doença de Alzheimer (DA) 4 i. Com sintomas que incluem alterações de humor (labilidade, flutuações incaracterísticas), agitação, apatia, desinteresse, isolamento social, desinibição, comportamentos obsessivos, compulsivos ou socialmente inaceitáveis. Epidemiologia Causa mais frequente de demência (cerca de 60-80% dos casos). Prevalência aumenta com a idade (dobra a cada 5 anos após os 65 anos): Idosos com mais de 65 anos → cerca de 5%; Chegando a 15-20% nos indivíduos de 80 anos. Homens e mulheres são igualmente afetados: Embora, em bases absolutas, muito mais mulheres tenham a DA, pois elas vivem mais que os homens. Não há predileções étnicas, nem raciais. Fatores de risco 60% dos fatores de risco relacionados a DA ainda são desconhecidos. Idade avançada. Genética/história familiar 70% da causa da doença. A forma genética familiar (também chamada de início precoce, pois se estabelece normalmente antes dos 60 anos) é responsável por 3-4% dos diagnósticos, enquanto a forma esporádica (também chamada de início tardio) perfaz os outros 96-97%. Familiar: Cromossomo 21 → mutações na APP. Mutações na presenilina 1 (cromossomo 14) e na 2 (cromossomo 1) - autossômica dominante - a presenilina faz parte da gama secretase. Esporádica: Doença de Alzheimer (DA) 5 Cromossomo 19 - homozigótico para o alelo E4E4 - gene codificador da proteína ApoE. 1 cópia do alelo E4 aumenta o risco de 50% para DA aos 70 anos, já 2 cópias, aumenta o risco de 50% para DA aos 60 anos. Fatores ambientais Exposição a metais tóxicos (alumínio, cobre), pesticidas, químicos industriais e poluentes atmosféricos → neuroinflamação. Infecções virais, bacterianas e fúngicas crônicas podem ser fatores causadores da via inflamatória. Diabetes mellitus, hipertensão, doença cardiovascular e trauma craniano. Fatores de risco cardiovascular Fatores de risco vascular na meia idade e níveis elevados de lipoproteína de baixa densidade (LDL) estão relacionados a um nível elevado de beta-amiloides cerebrais mais tarde na vida. Nível educacional Alta escolaridade e reserva cognitiva → fator de proteção. Alguns estudos colocam como um fator associado ao status socioeconômicos ou ambiente clínico e psicossocial na primeira infância. Baixa acuidade visual Neuropatologia Proteinopatia → inflamação → excitotoxicidade → disfunção mitocondrial → liberação de radicais livres → morte neuronal A neuropatologia inicia 10-15 anos antes do início dos sintomas. Atrofia cerebral Comprometimento principalmente no hipocampo (muito importante na aquisição da memória recente e consolidação da memória) → por isso linguagem e memória são dos primeiros acometidos. Aumento dos ventrículos (ventriculomegalia) Doença de Alzheimer (DA) 6 Há uma redução da arborização dendrítica que precede a perda neuronal. As lesões predominam no sistema hipocampoamigdaliano e no neocórtex associativo parietotemporal. Perda gradual da memória operacional e de curta duração. Inicia com uma degeneração progressiva dos neurônios da área entorrinal, que constitui a porta de entrada das vias que, do neocórtex, se dirigem ao hipocampo. Desse modo, as lesões gradualmente levam a um isolamento do hipocampo, com consequências que equivalem a ablação do hipocampo. Há também lesões subcorticais que afetam principalmente os neurônios colinérgicos do núcleo basal de Meynert. O que leva a perda das projeções modulatórias colinérgicas de praticamente todo o córtex cerebral. Doença de Alzheimer (DA) 7 Função hipocolinérgica Principal de mais precoce mudança funcional → demência hipocolinérgica. Importante para a estabilidade da vigília e da memória. Degenerações neurofibrilares (DNF) São lesões intraneuronais constituídas por pares de filamentos helicoidais insolúveis. Esses filamentos contém uma isoforma anormalmente fosforilada da proteína tau, anormalmente associada à organização e estabilidade dos microtúbulos. A estabilidade dos microtúbulos é o que mantém a capacidade do axônio de transportar nutrientes e outras substâncias. Doença de Alzheimer (DA) 8 Lesões pouco específicas para a DA, mas sua quantidade está relacionada com o grau de disfunção cognitiva. Placas senis (PN) São lesões extraneuronais que tem no centro a substância amilóide e na periferia, prolongamentos neuronais em degeneração. A substância amilóide é constituída por uma proteína de 39-42 aminoácidos, chamada proteína B-amilóide, que deriva de um precursor maior (APP - amyloid precursor protein), codificada por um gene no cromossomo 21. 💡 A APP é um componente da membrana que é catabolizado normalmentepor uma clivagem proteolítica no interior da proteína B-amilóide, impedindo seu acúmulo. A alfa-sinucleína também é um componente da placa senil. Amilose vascular cerebral Uma angiopatia amilóide cerebral, ligada a depósitos da proteína B-amilóide na parede dos vasos das leptomeninges (aracnóide e pia-máter) e do córtex. Doença de Alzheimer (DA) 9 Astrócito genistocístico → responsável pela proteína glial ácida fibrilar (GFAP) → gliose Doença de Alzheimer (DA) 10 Doença de Alzheimer (DA) 11 Coloração por prata Quadro clínico A doença de Alzheimer é caracterizada por alterações progressivas no cérebro que resultam em sintomas cognitivos e comportamentais. Os sintomas específicos da doença de Alzheimer podem ser correlacionados com as partes do cérebro que são afetadas. Algumas das correlações mais comuns são: 1. Perda de memória - A perda de memória é frequentemente um dos primeiros sintomas da doença de Alzheimer. Ela é causada pela degeneração do hipocampo, uma área do cérebro responsável pelo armazenamento e recuperação de informações. 2. Dificuldade de linguagem - A dificuldade em encontrar palavras ou entender a linguagem é causada pela degeneração da área de Wernicke, que é responsável pelo processamento da linguagem. 3. Problemas de orientação - A perda de orientação é causada pela degeneração do córtex parietal, que é responsável pelo processamento sensorial e espacial. 4. Mudanças de personalidade e comportamento - Mudanças de personalidade e comportamento são frequentemente causadas pela degeneração do lobo frontal, que é responsável pelo controle executivo e pela tomada de decisões. Doença de Alzheimer (DA) 12 5. Dificuldade em realizar tarefas cotidianas - A dificuldade em realizar tarefas cotidianas é causada pela degeneração do córtex pré-frontal e do córtex parietal, que são responsáveis pelo planejamento e execução de tarefas motoras e cognitivas. É importante notar que a doença de Alzheimer é uma doença complexa que afeta diferentes partes do cérebro de diferentes maneiras. Os sintomas e a progressão da doença podem variar amplamente entre os indivíduos. Por ser uma doença progressiva, podemos dividir a sintomatologia em fases: Fase assintomática (pré-clínica) Fase sintomática (prodrômica ou pré-demência) Demência Alterações neuropatológicas, mas com capacidade cognitiva normal. Declínio cognitivo progressivo antes do início do comprometimento funcional e demência evidente. Comprometimento cognitivo pode ser detectado bem antes do início dos sintomas de demência. O comprometimento neuropatológico inicia muito antes do comprometimento cognitivo. Inicia geralmente com distúrbios de memória para fatos recentes e desorientação temporoespacial. Segue evidenciando distúrbios do raciocínio lógico e de planejamento, alterações de linguagem (sobretudo anomia), disfunção visuespacial e desinteresse por atividades habituais. Estágios Regiões envolvidas Inicial Aprendizagem, pensamento e planejamento. De leve a moderado Fala, compreensão de discurso, percepção de onde o corpo está em relação aos objetos ao seu redor. Grave Perda da capacidade de se comunicar, de reconhecer a família e pessoas queridas e de cuidar de si mesmo. Doença de Alzheimer (DA) 13 Agitação e sintomas psicóticos (ideias delirantes, sobretudo de caráter persecutório e alucinações) mais comuns em pacientes mais idosos. Diagnóstico Clínico, de acordo com os critérios da National Institute of Neurological and Communicative Disorders and Stroke-Alzheimer’s Disease and Related Disorders Association. Doença de Alzheimer (DA) 14 Mini-exame do Estado Mental (Mini mental) https://aps.bvs.br/apps/calculadoras/?page=11 https://aps.bvs.br/apps/calculadoras/?page=11 Doença de Alzheimer (DA) 15 Doença de Alzheimer (DA) 16 O diagnóstico definitivo requer a confirmação post-mortem de alterações neuropatológicas específicas: Acúmulo de placas neuríticas e emaranhados neurofibrilares contendo proteínas tau hiperfosforiladas. Exames complementares Para exclusão de causas reversíveis de demência (5-10%), como: Hidrocefalia de pressão normal Intoxicação por álcool Deficiência de B12 Hematoma subdural Intoxicação por medicamentos Deficiência de ácido fólico Tumor cerebral Depressão Anemias Hipotireoidismo Distúrbios hidroeletrolíticos Neurossífilis HIV Meningites Vasculites no SNC Doença de Alzheimer (DA) 17 💡 Solicitar de rotina hemograma, ureia, creatinina, enzimas hepáticas, proteínas totais e frações, ácido fólico, cálcio sérico, TSH, T4 livre, VDRL, vitamina B12 e anti-HIV. TC de crânio (hematoma subdural crônico?) Neuroimagem Alterações inespecíficas → atrofia cerebral difusa que predomina na formação hipocampal. TC/RNM com atrofia de córtex e de hipocampo. PET com diminuição da atividade cerebral. Doença de Alzheimer (DA) 18 Imagens coronais seriadas de RM de um paciente com DA. À esquerda foi realizada quando o paciente estava clinicamente normal, à direita foi realizada 11 anos mais tarde, quando o paciente já estava com demência. A atrofia do hipocampo aumentou expressivamente. Doença de Alzheimer (DA) 19 Tomografia por emissão de pósitrons com fluorodesoxiglicose de paciente com DA. Reconstruções computadorizadas da proporção entre a captação da glicose regional (usando a ponte como referência) da superfície cortical mostram mais cores quentes em áreas de captação normal de glicose, e cores mais frias indicam hipometabolismo. A imagem do topo é de um indivíduo normal da mesma idade. A imagem inferior é a de um paciente com DA típica e mostra hipometabolismo em regiões corticais temporal e parietal. Tomografia por emissão de pósitrons (PET) para amiloides em pacientes com DA. Nessa imagem axial de uma PET com composto B de Pittsburg, a imagem à esquerda é de um indivíduo sem retenção de amilóide. À direita, imagem de paciente com DA mostrando a retenção proeminente do agente de aquisição nos córtices cingulados frontal, parietal e posterior. Doença de Alzheimer (DA) 20 Tomografia por emissão de pósitrons (PET) de AV1451 (tau) de paciente com DA. Nas imagens axiais de PET para tau pode ser visualizado nos lobos temporal e parietal. A varredura à esquerda nos níveis dos lobos temporais, mostra sinal aumentado representando deposição de tau. À direita, no nível dos ventrículos laterais mostra a deposição de tau a ser disseminada para os lobos parietais, incluindo o pré-cúneo nos lobos parietal medial e frontal lateral. LCR Padrão sugestivo de DA → diminuição dos níveis de proteína beta-amilóide e aumento das proteínas tau total e tau fosforilada. Diagnóstico diferencial Demência por corpos de Lewy → sugerida por parkinsonismo, alucinações visuais proeminentes e um transtorno do sono específico. Histopatologicamente, pode se encontrar alterações comuns à demência por corpos de Lewy, ao mesmo tempo que alterações da DA, sugerindo que os diagnósticos podem se sobrepor. A degeneração lobar frontotemporal é sugerida por alterações significativas do comportamento e de personalidade, ou por dificuldades de linguagem proeminentes Doença de Alzheimer (DA) 21 e precoces no curso da doença. Doença de Huntington; Paralisia supranuclear progressiva; Degeneração corticobasal; Esclerose lateral amiotrófica (ELA); Doença de Wilson. Diferenciadas pelas alterações motoras proeminentes e precoces em seu curso. Hidrocefalia de pressão normal. 💡 A diferenciação da demência vascular para DA pode ser difícil, assim, alguns médicos podem considerar ambas as entidades simultaneamente. Prevenção Evidências limitadas. Dieta saudável Exercício físico Estimulação cognitiva de atividades de lazer Tratamento Não curativo, sintomático. Suporte aos cuidadores da família Grupos de apoio, como o Alzheimer Association. Não farmacológico Equipe multidisciplinar (fisioterapeuta, psicólogo, fonoaudiólogo) Segurança → supervisão de medicamentos, das finanças, avaliação minuciosa de operação de veículos motorizados.Doença de Alzheimer (DA) 22 Farmacológico Inibidores da colinesterase Donepezila (5 ou 10 mg/dia) Galantamina (de liberação imediata, 16 ou 24 mg/dia) Rivastigmina (6 a 12 mg/dia VO ou 4,5 a 9 mg/dia por adesivo na pele). Aumenta a acetilcolina, diminuindo sua destruição na fenda sináptica. 🩺 Indicada para pacientes com a DA leve a moderada. Melhoram temporariamente a cognição, retardando a progressão dos sintomas de modo limitado (6 a 12 meses) em demências leve a moderada. Droga Dose terapêutica Posologia Indução de citocromo p450 Efeitos colaterais Donepezila 5-10 mg/dia 1 dose/dia ++ Efeitos gastrointestinais e insônia Galantamina 16-24 mg/dia 1 dose/dia + Efeitos gastrointestinais Rivastigmina 6-12 mg/dia 2 doses/dia - Efeitos gastrointestinais e anorexia Rivastigmina adesivo 5-15 cm Trocar a cada 24h - Efeitos gastrintestinais e anorexia Memantina Antagonista do receptor NMDA (glutamato) → reduz a neurotoxidade (diminui os neurotransmissores excitatórios). Posologia → 10mg, 2x/dia, devendo se iniciar 5mg pela manhã (meio comprimido) e aumentar 5mg a cada semana até a dose adequada. 🩺 Indicada para pacientes com DA moderada a grave. Melhora a cognição, o comportamento e a capacidade de realizar AVD’s. Tratar comorbidades psiquiátricas Doença de Alzheimer (DA) 23 Usar ISRS para depressão, evitando tricíclicos, já que estes pacientes já tem diminuição de acetilcolina. Adacamimabe - EUA - fases moderadas/intermediárias - estabilizador de doença Prognóstico Doença contínua, progressiva. O comprometimento cognitivo grave e a total dependência de terceiros se desenvolve em praticamente todos os pacientes, a menos que faleçam prematuramente. A morte costuma ocorrer de 7 a 15 anos, embora a evolução mais rápida possa ocorrer.