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Centro Universitário da Região da Campanha Centro de Ciências da Saúde Faculdade de Medicina Veterinária DISCIPLINA DE DOENÇAS INFECTO-CONTAGIOSAS DOS ANIMAIS DOMÉSTICOS P R O F. D R . G U IL H E R M E C O L L A R E S DOENÇAS BACTERIANAS DOENÇAS INFECTO-CONTAGIOSAS DOS ANIMAIS DOMÉSTICOS D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S SINONÍMIA ■ Antraz; ■ Pústula maligna; ■ Carbúnculo bacteriano; ■ Febre esplênica. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S ETIOLOGIA ■ Foi descrita inicialmente em herbívoros domésticos e selvagens. Posteriormente, verificou-se que afeta, também, humanos que tiveram contato com animais doentes ou seus produtos. ■ O Bacillus anthracis é o agente etiológico do carbúnculo hemático. ■ É uma bactéria grande, arredondada, imóvel, Gram-positiva e formadora de endosporos, que são encontrados com frequência em amostras do ambiente e em tecidos corpóreos expostos ao oxigênio atmosférico; ■ Os esporos são altamente resistentes a tratamentos físicos e químicos e permanecem viáveis por longos períodos no solo, em produtos de origem animal e no equipamento utilizado para obtê-los; ■ Podem permanecer viáveis no solo por mais de 15 anos e, em frascos fechados em laboratório, por 50 ou 60 anos; ■ As condições favoráveis para manutenção e crescimento do organismo incluem climas temperados e tropicais, solos alcalinos ou calcários e áreas que sofrem inundações periódicas com formação de poças contendo matéria orgânica deteriorada; ■ Por outro lado, a sobrevivência natural da forma vegetativa é muito pequena. Nos cadáveres que não são abertos, as formas vegetativas são rapidamente destruídas pelas bactérias da putrefação. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S EPIDEMIOLOGIA ■ O carbúnculo tem distribuição mundial, embora a incidência varie de acordo com o solo, clima e a vacinação dos rebanhos. ■ Em climas tropicais ou subtropicais, com alta densidade pluviométrica, o agente persiste no solo, possibilitando o aparecimento frequente de novos surtos; ■ No Brasil surtos de carbúnculo hemático ocorrem em forma esporádica. A maioria deles são relatados no Rio Grande do Sul, afetando principalmente bovinos, e, com menor frequência, ovinos, equinos e suínos. ■ Não se sabe se a baixa frequência da enfermidade nesse Estado deve-se à distribuição limitada do agente causal ou a prática sistemática de vacinação adotada pelos produtores quando, devido à falta de diagnóstico laboratorial, se presumia que a doença era muito mais frequente; D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S FONTES DE INFECÇÃO ■ A infecção pode ocorrer diretamente do solo ou de forragem cultivada em solo infectado, de farinha de ossos contaminada ou concentrados de proteína, ou de excrementos infectados, sangue ou outras secreções de animais infectados. A fonte inicial é na maioria das vezes de antigas fontes de antraz, onde o solo foi mexido. ■ A propagação do microrganismo dentro de uma área pode ocorrer por riachos, insetos, cães, porcos selvagens e outros carnívoros e por contaminação fecal de animais e pássaros infectados. Aves como gaivotas, abutres e corvos podem transportar esporos por distâncias consideráveis e as fezes de aves comedoras de carniça podem contaminar os poços d’água. A fauna selvagem infectada é também fonte para animais domésticos em pastagens comuns. A água pode ser contaminada pelos efluentes de curtumes, por carcaças infectadas e pela inundação e deposição de solo infectado com antraz. ■ A introdução da infecção em uma nova área é geralmente através de produtos animais contaminados, como farinha de ossos, fertilizantes, peles, pelos e lã, ou por concentrados ou forragem contaminados. Essa forma de transmissão representa um perigo particular, pois pode causar a doença clínica em qualquer lugar – mesmo quando o antraz é incomum – e em qualquer época do ano. Nos últimos anos, foi demonstrado que até 50% das remessas de farinha de ossos importadas para o Reino Unido estavam contaminadas com os bacilos do antraz. Surtos em suínos geralmente podem ser rastreados até a ingestão de farinha de ossos ou carcaças infectadas. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S TRANSMISSÃO ■ A infecção ganha entrada no corpo por ingestão, inalação ou através da pele. Embora o modo exato de infecção esteja frequentemente em debate, em geral se considera que a maioria dos animais sejam infectados através da ingestão de alimentos ou água contaminados. É sugerido que microlesões da membrana mucosa do trato digestório servem como porta de entrada para B. anthracis. Acredita-se que o aumento da incidência da doença em pastagens esparsas seja atribuível tanto à ingestão de solo contaminado quanto à lesão da mucosa oral, facilitando a invasão pelo microrganismo. ■ Considera-se que a infecção por inalação seja de menor importância nos animais, embora a possibilidade de infecção por poeira contaminada sempre deva ser considerada. ■ Foi proposto que a inalação de esporos pode levar o animal a se tornar portador crônico, com início da doença a qualquer momento após a inalação. A “doença de Woolsorter” em seres humanos é o resultado da inalação de esporos de antraz por trabalhadores nas indústrias de lã, mas mesmo nessas indústrias o antraz cutâneo é muito mais comum. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S TRANSMISSÃO ■ Verificou-se que as moscas picadoras, mosquitos, carrapatos e outros insetos abrigam microrganismos de antraz e a capacidade de alguns de transmitir a infecção foi demonstrada experimentalmente. No entanto, há pouca evidência de que eles são importantes na disseminação da doença que ocorre naturalmente, COM EXCEÇÃO DAS MUTUCAS. A transmissão é apenas mecânica e uma reação inflamatória é evidente no local da picada. A tendência de a maior incidência ocorrer no fim do verão e no outono nos municípios infectados pode ser resultado do aumento da população de moscas na época, mas é mais provável o efeito da maior temperatura na proliferação vegetativa de B. anthracis no solo. ■ Um surto de antraz foi registrado após a injeção de sangue infectado para fins de imunização contra anaplasmose. Houve vários relatos da ocorrência de antraz após a vacinação, provavelmente como resultado de esporos inadequadamente atenuados. A infecção da ferida com B. anthracis ocorre ocasionalmente. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S FATORES DE RISCO ■ Fatores de risco do patógeno – Cepas patogênicas de B. anthracis têm dois fatores de virulência importantes: a cápsula e o complexo de toxinas, que consistem em três proteínas conhecidas como antígeno protetor (AP), fator letal (FL) e fator edema (FE). Esses fatores de virulência são codificados em dois plasmídeos, pXO1 (que codifica AP, FL e FE) e pXO2 (que codifica a cápsula). Ambos os plasmídeos são necessários para a virulência total. – Como observado, o complexo da toxina do antraz consiste em três proteínas de ação sinérgica: AP, FL e FE. Considerando que, de forma independente, cada uma dessas proteínas é inócua, a combinação delas provoca a morte dos animais infectados. AP parece ser importante para a ligação às células-alvo específicas e a introdução de FL e FE nessas células-alvo. O FE é uma adenilato ciclase que desencadeia a produção anormal de adenosina monofosfato cíclico (cAMP), causando alteração no movimento de íons e água, resultando na formação de edema característico do antraz.2 A alteração das vias de sinalização do cAMP desordenou a ativação das células do sistema imune. O FE é uma protease dependente de zincoque desorganiza as vias regulatórias nas células eucarióticas associadas à fosforilação. O mecanismo pelo qual essa ruptura leva aos efeitos conhecidos do FE ainda não foi completamente esclarecido. https://jigsaw.minhabiblioteca.com.br/books/9788527737203/epub/OEBPS/Text/chapter21.html#re-3-2 D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S FATORES DE RISCO ■ Fatores de risco do ambiente – Surtos originados de infecção transmitida pelo solo sempre ocorrem após uma grande mudança climática, por exemplo, chuvas fortes após uma seca prolongada ou meses secos de verão após chuvas prolongadas, sempre em clima quente, quando a temperatura ambiente é superior a 15°C. – A esporulação do estado vegetativo de B. anthracis presente no meio ambiente ocorre rapidamente em temperatura ambiente acima de 12°C, e assim os bacilos vegetativos praticamente não são encontrados no ambiente. – Tem sido proposto que os esporos podem se concentrar nas chamadas áreas de armazenamento. Esporos têm alta hidrofobicidade superficial, dando a eles tendência a se aglomerarem, se tornarem concentrados e permanecerem suspensos em água parada, com maior concentração na superfície do solo à medida que a água evapora. Essa relação com o clima tornou possível prever “anos de antraz”. – Outros fatores de risco no ambiente incluem ingestão de alimentos grosseiros nas pastagens em tempos de seca, o que resulta em escoriações da mucosa oral, e confinamento em áreas altamente contaminadas ao redor de poços de água. Alguns genótipos parecem persistir em solos ricos em cálcio e solos orgânicos, assim como solos mal drenados representam risco em áreas endêmicas D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S POTENCIAL ZOONÓTICO ■ Em humanos a doença tem três formas clínicas: cutânea, inalatória e gastro-intestinal. Se a doença não for tratada leva a septicemia e morte. Na forma cutânea há cura, se o tratamento ocorrer no início da doença. Na forma inalatória, se o tratamento não for imediato, a morte ocorre em 3-5 dias e na forma gastrintestinal os casos fatais giram em torno de 25-75%. ■ O antraz tem sido causa importante de doença humana fatal na maior parte do mundo, mas nos países desenvolvidos, em razão das medidas de controle apropriadas, não é mais causa significativa de doença de seres humanos ou de descarte de gado. No entanto, ainda ocupa posição importante em razão do seu potencial como zoonose e ainda é importante nos países em desenvolvimento. É uma grande preocupação como agente de bioterrorismo e está listado como agente da categoria A pelos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA. ■ O antraz cutâneo ocorreu em médicos-veterinários após o exame post mortem de carcaças com antraz. As áreas sob risco particular de infecção são o antebraço acima da linha das luvas e o pescoço. A infecção começa como uma pápula pruriginosa ou vesícula que aumenta e erode em 1 a 2 dias, deixando uma úlcera necrótica com subsequente formação de uma escara negra central. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S PATOGENIA ■ Após a ingestão dos esporos, a infecção pode ocorrer através de defeitos ou microferidas da mucosa do trato digestório. De forma alternativa, a infecção pode ocorrer através de abrasão na pele ou lesões da pele (p. ex., de moscas picadoras) ou inalação de esporos. ■ A partir do local de entrada, os esporos são transportados por macrófagos para os linfonodos regionais, onde podem entrar na corrente sanguínea e se espalhar pelo resto do organismo; a isso se segue septicemia e invasão maciça de todos os tecidos do corpo. ■ A gravidade dos sinais clínicos depende da dose infectante, da qualidade da cápsula bacilar, da quantidade de toxina produzida e da suscetibilidade da espécie hospedeira. O complexo de toxinas produzido por B. anthracis mencionado anteriormente causa edema e dano tissular, insuficiência renal aguda, anoxia terminal e morte em decorrência do choque. A hemorragia terminal característica verificada nos orifícios do animal na morte é causada pela ação da toxina no revestimento celular endotelial dos vasos sanguíneos, resultando em desequilíbrio e sangramento. ■ Nos suínos, a localização ocorre nos gânglios linfáticos da garganta, após invasão pela parte superior do trato digestório. As lesões locais geralmente levam a septicemia fatal. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S ACHADOS CLÍNICOS ■ Não é fácil determinar o período de incubação após infecção, mas provavelmente é de 1 a 2 semanas. ■ Bovinos e Ovinos: – A forma hiperaguda da doença é mais comum no início de um surto. Os animais geralmente são encontrados mortos sem sinais premonitórios, sendo provavelmente o curso de apenas 1 a 2 h, mas podem ser observados febre, tremores musculares, dispneia e congestão das mucosas. O animal logo cai e morre após convulsões terminais. Após a morte, pode ocorrer secreção de sangue nas narinas, boca, ânus e vulva. – A forma aguda corre em um curso de aproximadamente 48 h. Depressão grave e apatia geralmente são observadas primeiro, embora às vezes sejam precedidas por curto período de excitação. A temperatura do corpo é alta, até 42°C, a respiração é rápida e profunda, as mucosas congestas e hemorrágicas e a frequência cardíaca aumenta. Não há ingestão de alimentos e a estase ruminal é evidente. Vacas prenhes podem abortar. Nas vacas ordenhadas, o rendimento é muito reduzido e o leite pode ficar manchado de sangue ou de coloração amarela-clara. O envolvimento do trato alimentar é usual e caracterizado por diarreia e disenteria. Edema local da língua e lesões edematosas na região da garganta, esterno, períneo e flancos podem ocorrer. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S ACHADOS CLÍNICOS ■ Suínos: – Nos suínos, o antraz pode ser agudo ou subagudo. Há febre com estupor e anorexia e também edema inflamatório característico da garganta e da face. Os edemas são quentes, mas não dolorosos, e podem causar obstrução da deglutição e respiração. Quando ocorre envolvimento faríngeo, pode haver espuma manchada de sangue na boca. Hemorragias petequiais estão presentes na pele e, quando a localização ocorre na parede intestinal, há disenteria, frequentemente sem edema da garganta. Uma forma pulmonar da doença foi observada em leitões que inalaram poeira infectada. Pneumonia lobar e pleurite exsudativa são características. A morte geralmente ocorre após um período de 12 a 36 h, embora casos individuais possam durar vários dias. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S ACHADOS CLÍNICOS ■ Equinos: – O antraz em equinos é sempre agudo, mas varia em suas manifestações dependendo do modo de infecção. Quando a infecção é por ingestão, há septicemia com enterite e cólica. Quando a infecção ocorre por transmissão por insetos, aumentos de volume quentes, dolorosos, edematosos e subcutâneos aparecem em torno da garganta, parte inferior do pescoço, assoalho do tórax e do abdome, prepúcio e glândula mamária. Há febre alta e depressão grave, e também pode haver dispneia como resultado de inchaço da garganta ou cólica como resultado de irritação intestinal. O curso é geralmente de 48 a 96 h. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S PATOLOGIA CLÍNICA ■ Os exames de hematologia e bioquímica sanguínea não são realizados em razão do risco de exposição humana. ■ No animal vivo, o microrganismo pode ser detectado em um esfregaço de sangue periférico corado. – O padrão de referência para o diagnóstico é a detecção por exame microscópico de uma cápsula metacromática claramente definida em bacilos com extremidade quadrada (frequentementeem cadeias) em esfregaços de sangue corados com azul de metileno policromo. – O sangue deve ser cuidadosamente coletado em uma seringa para evitar a contaminação do ambiente. Quando o edema local é evidente, os esfregaços podem ser feitos a partir de fluido do edema aspirado ou de linfonodos que drenam essa área. Para um diagnóstico mais preciso, especialmente nos estágios iniciais, quando os bacilos podem não estar presentes na corrente sanguínea em grande número, a hemocultura ou a injeção de sangue coletado em seringas em cobaias é satisfatória. ■ O envio de material infeccioso apresenta risco de disseminação do patógeno e exposição humana. Antes de planejar o envio de material infeccioso para um laboratório de diagnóstico, as autoridades locais e o laboratório de diagnóstico devem ser consultados. Além disso, o leitor deve seguir as diretrizes da Organização Mundial da Saúde (OMS) para o transporte de substâncias infecciosas. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S NECROPSIA ■ Há notável ausência de rigor mortis e a carcaça sofre decomposição gasosa, assumindo rapidamente a postura de “cavalete” característica. Todos os orifícios naturais geralmente exsudam sangue escuro que não coagula. ■ SE HOUVER UMA BOA RAZÃO PARA SUSPEITAR DA EXISTÊNCIA DE ANTRAZ, A CARCAÇA NÃO DEVE SER ABERTA. ■ Se a necropsia tiver sido realizada, falha do sangue para coagular, equimoses generalizadas, líquido seroso manchado de sangue nas cavidades do corpo, enterite grave e esplenomegalia são fortes indícios da presença de antraz. O baço aumentado é macio, com consistência comparada à geleia de amora. Inchaços subcutâneos contendo material gelatinoso e aumento dos linfonodos locais são característicos da doença em equinos e suínos. As lesões são mais frequentemente vistas nos tecidos moles do pescoço e da faringe nessas espécies. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S NECROPSIA ■ Para confirmar o diagnóstico em uma carcaça não aberta, deve ser coletado sangue periférico ou fluido de edema local por punção com agulha. Como o sangue coagula mal, a punção venosa jugular pode permitir a coleta de amostras. Os esfregaços preparados a partir desses fluidos devem ser corados com azul de metileno policromo e examinados na sequência. Essas amostras de fluidos também podem ser usadas para cultura bacteriológica se os resultados do esfregaço forem duvidosos. Os esfregaços devem ser preparados e interpretados por um microbiologista experiente e qualificado. ■ Se a decomposição de uma carcaça for avançada, uma pequena quantidade de sangue pode ser coletada da superfície fresca da cauda ou orelha amputada. Uma parte do baço é o local de eleição para cultura bacteriológica se a carcaça tiver sido aberta. ■ O antraz é uma doença de notificação obrigatória em muitos países, exigindo o envolvimento de agências reguladoras do governo quando a doença é suspeita ou quando o diagnóstico tiver sido confirmado. Representantes dessas agências geralmente são capacitados para a coleta de amostras e o transporte para um laboratório apropriado. Se houver suspeita de antraz, enviar amostras de diagnóstico pelo correio é fortemente desencorajado. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S NECROPSIA ■ Amostras para confirmação do diagnóstico – Bacteriologia: carcaça não aberta: sangue ou fluido de edema em recipiente lacrado; carcaça aberta: amostras descritas anteriormente mais o baço (linfonodos locais em equinos e suínos) em recipientes herméticos (esfregaço direto, cultura, bioensaio); – Histologia: baço fixado em formol/linfonodos locais se a carcaça tiver sido aberta (microscopia óptica). Atenção ao potencial zoonótico desse microrganismo ao manusear a carcaça e enviar amostras. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S DIAGNÓSTICO DIFERENCIAL ■ Existem diversas causas de morte súbita em animais de produção e a diferenciação é muitas vezes difícil. Afecções em que pode haver várias mortes sugestivas de antraz incluem: – Raio – evidencia de pelos chamuscados e histórico de temporal; – Carbúnculo sintomático e Gangrena Gasosa – lesões de edema e tumefações com crepitação; – Hemoglobinúria bacilar – hemoglobinúria e infartos hepáticos; – Leptospirose – hemoglobinúria e anemia; – Timpanismo gasoso agudo – histórico de manejo em pastagens; – Tristeza parasitária por Babesia bovis – quadro muito semelhante de morte súbita – posição de cavalete????? D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S TRATAMENTO E CONTROLE ■ É improvável que os animais gravemente doentes se recuperem, mas nos estágios iniciais, particularmente quando a febre é detectada antes que outros sinais sejam evidentes, a recuperação pode ser antecipada se o tratamento correto for instituído. ■ Penicilina (20.000 UI/kg, 2 vezes/dia) tem tido utilização considerável, mas preocupações foram levantadas nos últimos anos em razão do aparecimento ocasional de cepas produtoras de betalactamases, que eram, portanto, resistentes à penicilina. ■ A penicilina continua sendo o antibiótico recomendado para ambos, animais e seres humanos – pelo menos nos países em desenvolvimento, onde é acessível e está amplamente disponível. Devido à suscetibilidade de B. anthracis a uma grande variedade de antimicrobianos, existem muitas possibilidades de escolhas alternativas, entre elas tetraciclinas, aminoglicosídeos, macrolídeos e quinolonas. É desejável prolongar o tratamento por pelo menos 5 dias para evitar o ressurgimento da doença. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S TRATAMENTO E CONTROLE ■ Tratamento – Penicilina G sódica/potássica: 20.000 UI/kg IV a cada 12 h pelo menos como dose de ataque IV (R-2) – Penicilina procaína: 22.000 UI/kg IM a cada 12 h ou 44.000 UI/kg IM a cada 24 h (R-2) – Oxitetraciclina: 10 mg/kg IV ou IM a cada 24 h (R-2) – Soro hiperimune do antraz (R-2). ■ Controle – Vacina contra o antraz (R-1) – Soro de hiperimune do antraz para animais em risco (R-2) – Penicilina procaína: 44.000 UI/kg a cada 24 h para animais em risco (R-2)* – Oxitetraciclina: formulação de longa duração, 20 mg/kg a cada 72 h para animais em risco (R- 2).* Obs.: Os antibióticos administrados dentro de 7 a 10 dias após a vacinação contra o antraz prejudicam a eficácia da vacina. IV: intravenoso; IM: intramuscular. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S CONTROLE E PROFILAXIA ■ Quando um surto ocorrer, os cadáveres e descargas devem ser imediatamente destruídos, preferencialmente sendo queimados. ■ Podem ser enterrados, também, juntamente com as descargas e o solo adjacente, a uma profundidade de pelo menos 2 metros e com uma grande quantidade de cal. ■ Todo o material que entrou em contato com o animal infectado (cordas, arreios, pás, etc.) e suas excreções devem ser prontamente desinfetados. – Quando a desinfecção é realizada imediatamente antes da formação de esporos, desinfetantes comuns ou calor (60ºC por alguns minutos) destroem facilmente as formas vegetativas. – A desinfecção das formas esporuladas, que se originam dentro de poucas horas após contato com o ar, é praticamente impossível por meios comuns. Devem ser utilizados desinfetantes potentes, como soluções fortes de formalina (40%) ou hidróxido de sódio a 5%-10%, por pelo menos 2 dias. ■ Para tentar controlar o aparecimento de novos casos em rebanhos onde estejam ocorrendo surtos, pode-se tentar a aplicação de uma dose de penicilina ou tetraciclina de longa duração. Esse procedimento pode reduzir a mortalidade dos animais. O diagnóstico deve ser rápido, assim como o tratamento e isolamentodos animais doentes. ■ Cuidados especiais devem ser tomados para evitar o contato de humanos com o material contaminado. Se o contato ocorrer, a pele deverá ser desinfetada. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S CONTROLE E PROFILAXIA ■ A vacinação dos animais é uma medida amplamente utilizada. ■ Em áreas enzoóticas, a revacinação anual de todo rebanho é recomendada. ■ Quando a doença ocorre pela primeira vez num rebanho, todos os animais deverão ser vacinados. ■ Em algumas regiões a baixa frequência da doença pode estar relacionada com a inexistência do agente na maioria das propriedades, ou com a rotina de vacinação anual adotada pelos dos criadores. ■ A vacina esporulada avirulenta de Sterne é a mais indicada, tanto por sua atividade imunogênica, como por sua inocuidade. ■ Em bovinos a imunidade se dá em uma semana e em equinos demora um pouco mais. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S VACINA ■ Fórmula: Composta por suspensão viva atenuada de Bacillus anthracis, cepa Sterne totalmente apatogênica, acapsulada e imunogênica, adicionada em solução salina glicero saponinada. ■ Indicações: Profilaxia do Carbúnculo Hemático em bovinos, ovinos e caprinos. ■ Dosagem: -Bovinos: 2 ml -Ovinos, caprinos, asininos e suínos: 1 ml ■ Administração: Administrar por via subcutânea. Vacinar anualmente os animais, observando os cuidados usuais de assepsia. ■ Precauções: Agitar antes e durante o uso; Usar seringas e agulhas novas, descartáveis e estéreis; Desinfetar o local da aplicação; Não vacinar animais doentes, parasitados, subnutridos ou convalescentes; Pode ocorrer uma reação no local da aplicação. Esta reação é transitória e desaparece em poucos dias; Incinerar os frascos vazios e conteúdos residuais após o uso; Verificar o prazo de validade do produto; Conservar o produto na embalagem original, com temperatura entre 2°C a 8°C. Não congelar. Manter fora do alcance de crianças e animais domésticos. Não reutilizar a embalagem vazia. ; O uso concomitante com substâncias antimicrobianas e anti-inflamatórias poderá interferir no desenvolvimento da resposta imune após a vacinação; Não utilizar qualquer tipo de substância química que possa inativar o produto; O vacinador deverá lavar e desinfetar as mãos após a aplicação; DOENÇAS BACTERIANAS DOENÇAS INFECTO-CONTAGIOSAS DOS ANIMAIS DOMÉSTICOS D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S ETIOLOGIA ■ Carbúnculo sintomático é uma enfermidade causada por Clostridium chauvoei, bacilo Gram- positivo, anaeróbio, que esporula e pode manter-se no meio ambiente por períodos prolongados. ■ A doença ocorre quando a bactéria, que pode estar em estado latente no organismo sem causar lesões, multiplica-se nos músculos produzindo toxinas que causam uma miosite hemorrágica grave. Desconhecem-se os fatores que determinam que a bactéria deixe seu estado de latência para causar enfermidade, mas é possível que as condições favoráveis de anaerobiose ocorram em conseqüência de traumatismos musculares. ■ Aparentemente, outros clostrídios, incluindo Clostridium septicum, Clostridium novyi (oedematiens) e Clostridium sordelli podem, mais raramente, causar a enfermidade e são encontrados, freqüentemente junto a C. chauvoei nas lesões de carbúnculo sintomático. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S EPIDEMIOLOGIA ■ O carbúnculo sintomático ocorre geralmente em bovinos de 6 meses a 2 anos de idade. ■ Ocasionalmente, pode afetar bovinos de até 36 meses e bezerros de 2-6 meses. No Mato Grosso do Sul tem sido diagnosticado em bovinos de 2,5-3 anos, não vacinados ou vacinados há muito tempo, transferidos de áreas onde a doença não ocorre para áreas contaminadas, e em bezerros de 2 meses (2). ■ A doença ocorre em todos os Estados do Brasil. É a clostridiose mais freqüente no Rio Grande do Sul e está entre as 5 doenças infecciosas mais diagnosticadas em bovinos nessa região, onde ocorre com maior freqüência no outono, em bezerros nascidos na primavera anterior ou em bovinos de sobreano. ■ Com menor freqüência ocorrem surtos na primavera. A morbidade é de 5%-25% e a letalidade é de, praticamente, 100% (3). Ovinos podem contrair a infecção por C. chauvoei como conseqüência de contaminação de ferimentos, tais como feridas causadas durante o parto, castração e lesões do umbigo. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S EPIDEMIOLOGIA ■ FONTES DE INFECÇÃO: – Carbúnculo sintomático é uma infecção transmitida pelo solo. – Em ovinos, presume-se que a infecção por C. chauvoei ocorra predominantemente através de lesões penetrantes da pele ou da mucosa, mas a porta de entrada primária do microrganismo em bovinos ainda não foi definida. Presume-se que a infecção ocorra primariamente através da mucosa do trato digestivo, após a ingestão de alimento contaminado, ou que possa estar associada à erupção de dentes. – Esporos de C. chauvoei foram encontrados no baço, no fígado e no trato alimentar de animais saudáveis, e a contaminação do solo e da pastagem pode ocorrer a partir de fezes infectadas ou da decomposição de carcaças de animais que morreram em decorrência da doença. – A doença clínica se desenvolve quando mecanismos ainda indeterminados causam a proliferação dos esporos. O trauma tecidual e a anoxia foram apontados como potenciais desencadeantes. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S EPIDEMIOLOGIA ■ TRANSMISSÃO: – Enquanto em bovinos a doença geralmente ocorre sem histórico de trauma, em ovinos, as feridas cutâneas causadas por tosquia, caudectomia e lacerações vulvares ou vaginais pelo parto ou do umbigo do recém-nascido são as vias mais comuns pelas quais C. chauvoei penetra e infecta os tecidos musculares, causando a doença clínica. – As infecções da vulva e da vagina do animal durante o parto podem causar sérios surtos; a doença ocorreu em grupos de ovinos e carneiros jovens de até 1 ano de idade, geralmente como resultado da infecção de feridas cutâneas causadas por brigas. Ocorreram surtos ocasionais em ovinos após a vacinação contra enterotoxemia. Presumivelmente, a vacina formalizada causa dano tecidual suficiente para permitir que os esporos latentes do organismo proliferem. – Uma ocorrência especial é em fetos de ovinos. Ovinos fêmeas expostas à infecção na tosquia desenvolvem lesões típicas, mas aquelas tratadas com penicilina não são afetadas, exceto quando as ovinos prenhes desse último grupo apresentam abdome distendido, fraqueza e decúbito como consequência do edema, além de formação de gás no feto, do qual C. chauvoei pode ser isolado. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S EPIDEMIOLOGIA ■ FATORES DE RISCO DO AMBIENTE – O carbúnculo sintomático em bovinos tem uma incidência sazonal, com a maioria dos casos ocorrendo nos meses quentes do ano. – A incidência mais alta pode variar da primavera ao outono, provavelmente dependendo de quando os bezerros atingem a faixa etária suscetível. – Parece haver um aumento da incidência da doença em anos de alta pluviosidade, fato que foi explicado pelo aumento da anaerobiose em solos saturados de água em combinação com o maior crescimento da pastagem, estimulando o consumo de alimento pelo gado no pasto. – Ocorreram surtos de carbúnculo sintomático em bovinos depois de escavação do solo, o que sugere que o dano ao solo pode expor e ativar esporos latentes. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S EPIDEMIOLOGIA ■ FATORES DE RISCO DO ANIMAL E DO MANEJO: – O carbúnculo sintomático normalmenteé uma doença de bovinos e, em menor grau, de ovinos, mas surtos foram relatados em cervos e cavalos. Em bovinos, a doença é mais comumente observada em animais jovens, entre as idades de 6 meses e 2 anos, embora ela ocorra ocasionalmente em animais mais jovens e em bovinos de até 3 anos. No campo, os fatores de risco incluem bovinos de crescimento acelerado e um alto nível de nutrição. – A elevação do estado nutricional de ovinos pelo aumento da ingestão proteica aumenta sua suscetibilidade ao carbúnculo sintomático. – Em ovinos, não há restrição quanto à faixa etária. Em bezerros e ovinos, ocorrem surtos atípicos de morte súbita, nos quais a lesão letal é uma miosite cardíaca clos-tridiana. – Em suínos, o carbúnculo sintomático é incomum, embora uma lesão de gangrena gasosa possa estar associada à infecção por C. chauvoei ou C. septicum. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S PATOGENIA ■ Como os esporos de C. chauvoei normalmente são encontrados no solo, a ingestão destes com pastagem ou silagem contaminada é inevitável. Esporos de C. chauvoei foram encontrados não apenas no trato digestório, mas também no baço e no fígado de animais saudáveis. Como C. chauvoei parece estar presente no tecido em estado dormente antes da manifestação da doença, o carbúnculo sintomático – pelo menos em bovinos – também tem sido denominado uma infecção clostridiana “endógena”, diferentemente do edema maligno, que é considerado uma infecção exógena, porque o patógeno tem acesso ao tecido por meio de lesões na mucosa ou na pele e causa diretamente a doença clínica. ■ Enquanto em ovinos a doença clínica na maioria dos casos tem sido relacionada com laceração e trauma tecidual, o estímulo que resulta no crescimento dos esporos bacterianos latentes em bovinos é desconhecido. Geralmente, não há história de trauma. Uma vez retornado ao seu estado vegetativo, C. chauvoei produz uma série de toxinas, como hemolisinas oxigênio- estáveis e oxigênio-lábeis, DNase, hialuronidase e neuramidase, que causam miosite necrosante grave focal nos músculos esqueléticos e toxemia sistêmica, geralmente fatal. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S SINAIS CLÍNICOS ■ Bovinos – Se o animal for observado antes da morte, haverá claudicação grave, geralmente com inchaço pronunciado na parte superior do membro acometido. Em um exame mais detalhado, o animal será considerado muito deprimido, terá anorexia completa e estase ruminal, além de temperatura (41°C) e frequência de pulso (100 a 120 bpm) elevadas. A pirexia não está presente em todos os casos. Nos estágios iniciais, o inchaço é quente e dolorido à palpação, mas logo se torna frio e indolor, enquanto o edema e o enfisema podem ser sentidos. A pele apresenta alteração de cor e logo se torna seca e rachada. – Embora as lesões geralmente estejam confinadas à parte superior de um membro, casos esporádicos são vistos onde as lesões estão presentes em outros locais, como base da língua, músculo cardíaco, músculos diafragma e psoas, região peitoral e úbere. Às vezes, as lesões estão presentes em mais de um desses locais, em um animal. A doença progride rapidamente e o animal morre despercebidamente em 12 a 36 h após o aparecimento dos sintomas. Muitos animais morrem sem que sinais tenham sido observados. ■ Ovinos – Quando ocorrem lesões de carbúnculo sintomático na musculatura do membro de ovinos, nota-se marcha rígida, e os animais relutam em se mover devido à claudicação grave em um membro ou, mais comumente, em vários membros. A claudicação pode ser intensa o suficiente para evitar que alguns animais andem, mas moderada em outros. O edema subcutâneo é incomum e a crepitação gasosa não pode ser sentida antes da morte. A alteração na cor da pele pode ser evidente, mas não ocorre gangrena nem necrose cutânea. – Nos casos em que a infecção se instala através de feridas da pele, vulva ou vagina, nota-se uma lesão local extensa. As lesões da cabeça podem ser acompanhadas de inchaço local grave decorrente de edema, e pode haver sangramento nasal. Em todos os casos, há febre alta, anorexia e depressão, e o animal morre muito rapidamente. Ovinos e bovinos com miosite cardíaca causada por C. chauvoei geralmente são encontrados mortos. ■ Cavalos – A síndrome clínica em cavalos não está bem definida. Há relato de edema peitoral, marcha rígida e incoordenação. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S PATOLOGIA ■ Os animais incham rapidamente após a morte e podem apresentar perda de líquido hemorrágico pelas narinas e ânus. ■ A lesão mais característica é uma miosite hemorrágica com presença de gás. ■ Apesar de que a localização mais freqüente das lesões é nos músculos das regiões superiores dos membros, devem ser inspecionados exaustivamente todos os músculos, incluindo língua, coração e diafragma onde, ocasionalmente, podem estar localizadas as lesões. ■ As cavidades apresentam, geralmente, líquido hemorrágico com fibrina. ■ Em ovinos infectados durante o parto podem observar-se, também, lesões necróticas da parede da vagina. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S DIAGNÓSTICO ■ Bacteriologia: músculo, condicionado em recipiente hermético, quatro esfregaços obtidos por imprint da superfície da lesão recém-cortada e secos ao ar (cultura anaeróbica, teste de anticorpos fluorescentes, PCR) ■ Histologia: amostras fixadas da lesão muscular suspeita. ■ Diagnóstico diferencial – Para estabelecer um diagnóstico quando vários animais são encontrados mortos em um grupo não mantido sob estreita observação, e a decomposição post mortem é tão avançada que poucas informações podem ser obtidas, deve-se depender do conhecimento da incidência local da doença, estação do ano, faixa etária acometida, e condições da pastagem, além de uma inspeção detalhada do ambiente no qual os animais foram mantidos. Observações mais frequentes devem ser estabelecidas para que animais doentes ou cadáveres frescos estejam disponíveis para o exame. – Edema maligno: em casos típicos de carbúnculo sintomático em bovinos, um diagnóstico definitivo pode ser estabelecido baseado nos sinais clínicos e nos achados de necropsia. A identificação definitiva de Clostridium chauvoei é obtida por coloração de anticorpos fluorescentes. O diagnóstico com base em achados macroscópicos post mortem de outras causas de miosites clostridianas é um risco e pode resultar em recomendações inapropriadas de controle – Antraz – Relâmpagos – Hemoglobinúria bacilar – Outras causas de morte súbita inesperada. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S DIGNÓSTICO ■ Doença aguda e morte em bovinos de até 2 anos de idade é sugestiva de carbúnculo sintomático, assim como a claudicação e a tumefação crepitante de grupos musculares. ■ Alternativamente, podem ser enviados ossos longos refrigerados para isolamento da bactéria e/ou inoculação em animais de laboratório. ■ A necropsia deve ser realizada no menor tempo possível após a morte, já que, em algumas horas, ocorre a multiplicação de outros clostrídios na carcaça que dificultam o diagnóstico. ■ O carbúnculo sintomático é muito similar ao edema maligno, as diferencia-se pelo fato de que este último ocorre em animais de diferentes idades e está, sempre, associado a ferimentos que introduzem Clostridium spp. no organismo. ■ Outras infecções agudas ou hiperagudas como a hemoglobinúria bacilar e o carbúnculo hemático afetam, também, bovinos maiores de 2 anos; a primeira apresenta lesões características na necropsia. ■ Se após o estudo do histórico da enfermidade persistem dúvidas de que possa tratar-se de um caso de carbúnculo hemático é necessário realizar um esfregaço de sangue para descartar esta possibilidadeantes de realizar a necropsia. ■ Em bovinos de corte, em pastagens de leguminosas, o carbúnculo sintomático é freqüentemente confundido com o timpanismo. Se não houve observação dos sinais clínicos do timpanismo devem ser realizadas necropsias para identificar as lesões características desta intoxicação: congestão e hemorragias subcutâneas e dos linfonodos da parte anterior do animal e da traquéia, e palidez do fígado e baço. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S TRATAMENTO ■ O tratamento de animais afetados com penicilina e desbridamento cirúrgico da lesão, incluindo fasciotomia, é indicado se o animal não estiver moribundo. As taxas de recuperação são baixas devido à natureza extensa das lesões. Doses elevadas (44.000 UI/kg de peso corporal) devem ser administradas, começando com a penicilina cristalina IV e seguida por preparações de ação mais longa. É improvável que o antissoro para o carbúnculo sintomático seja de muito valor no tratamento, a menos que sejam administradas doses muito altas. ■ Penicilina G sódica/potássica: 44.000 UI/kg, IV, a cada 6 ou 8 h (R-2) ■ Antitoxina de Clostridium chauvoei (somente em estágios iniciais, mas a eficácia é duvidosa). D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S CONTROLE E PROFILAXIA ■ Bovinos: – Em fazendas onde a doença é enzoótica, geralmente recomenda-se a vacinação anual de todos os bovinos entre 3 e 6 meses com duas doses de vacina em intervalo de 4 semanas, seguidas de vacinação de reforço anual. Isso deve ser feito logo antes do período de risco previsto, geralmente na primavera e no verão. A imunidade materna persiste por pelo menos 3 meses e interferirá na imunidade ativa em bezerros vacinados antes dessa idade. – Em um surto, todos os bovinos não afetados devem ser vacinados imediatamente e medicados com penicilina IM. Recomenda-se a transferência dos bovinos do pasto acometido. Se os antibióticos não forem administrados, novos casos de carbúnculo sintomático podem ocorrer por até 14 dias até que a imunidade se desenvolva, e vigilância constante e tratamento precoce dos casos serão necessários. ■ Ovinos: – No caso de ovinos criados em áreas onde a doença é enzoótica, as ovinos fêmeas virgens devem ser vacinadas duas vezes, com a última vacinação administrada cerca de 1 mês antes do parto, e reforço anual subsequente administrado na mesma época antes do parto. Isso evitará a infecção das ovinos no parto e também protegerá os cordeiros contra a infecção umbilical ao nascimento e a infecção da ferida da cauda na caudectomia, desde que a cauda seja cortada em uma idade jovem. Se um surto começar em um rebanho de ovinos no momento do parto, recomenda-se administrar injeções profiláticas de penicilina e antissoro nos animais que necessitarem de assistência. – Uma única vacinação de carneiros castrados também pode ser realizada em 2 a 3 semanas antes da tosquia, se a infecção for esperada. Por causa das ocorrências comuns da doença em ovinos jovens, sua vacinação antes de ida para o pasto e da exposição à infecção de feridas cutâneas ocasionadas por brigas é recomendada em áreas de risco. A duração da imunidade nesses animais jovens vacinados é relativamente curta, e as ovinos fêmeas, em particular, devem ser revacinadas antes do primeiro parto. As vacinas contra clostridiose têm uma antigenicidade pior em ovinos e caprinos do que em bovinos. – É importante que as carcaças de animais que morrem em decorrência de carbúnculo sintomático sejam destruídas por incineração ou enterramentos profundos, para limitar a contaminação do solo. DOENÇAS BACTERIANAS DOENÇAS INFECTO-CONTAGIOSAS DOS ANIMAIS DOMÉSTICOS D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S ETIOLOGIA ■ Clostridium septicum, C. chauvoei, C. perfringens, C. sordellii e C. novyi foram isolados de lesões típicas de edema maligno em animais. Em alguns casos, pode haver infecções mistas. A ocorrência de edema maligno causado por C. chauvoei é discutida na seção sobre carbúnculo sintomático. ■ C. sordellii tem sido associado principalmente com edema maligno em bovinos, mas verificou- se que é uma causa de edema maligno e de cabeça inchada em ovinos. No entanto, a cabeça inchada de carneiros, em que as lesões de edema maligno são restritas à cabeça, é mais comumente causada pela infecção por C. novyi. ■ Em um estudo retrospectivo de 37 equinos com mionecrose clostridiana, C. perfringens foi isolado em 68% dos animais, C. septicum de 16%, e o restante foram infecções mistas por essas duas espécies. C chauvoei, C. novyi e C. fallax foram isolados casuais. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S EPIDEMIOLOGIA ■ Todas as idades e espécies de animais são afetadas. Os clostrídios que causam edema maligno são habitantes comuns do ambiente e do trato intestinal do animal. Embora algumas das espécies causadoras tenham distribuição restrita, a doença é cosmopolita. Sua ocorrência é esporádica, afetando animais individuais, exceto em circunstâncias em que um procedimento de manejo em um grupo de animais resulta em surto. ■ Fonte de infecção – A infecção geralmente é transmitida pelo solo, e a resistência dos esporos dos clostrídios à influência ambiental leva à persistência da infecção por longos períodos em determinada área. Um ambiente sujo, que permite a contaminação de feridas com solo, é a causa predisponente comum. ■ Transmissão – Na maioria dos casos, uma ferida é a porta de entrada. As feridas perfurantes profundas acompanhadas de trauma proporcionam as condições mais favoráveis para o crescimento anaeróbio, e o edema maligno ocorre mais frequentemente nessas condições. A infecção pode ocorrer por feridas cirúrgicas ou acidentais, após a vacinação, injeção intramuscular de fármacos, punção venosa, ou através do cordão umbilical no recém-nascido. Esporos dormentes de C. perfringens e outras espécies de clostrídios podem ser encontrados no músculo normal de cavalos, e é possível em alguns casos que estes possam ser ativados por condições anaeróbicas ocasionadas pelo material injetado. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S EPIDEMIOLOGIA ■ Fatores de risco do animal e do manejo – Em cavalos, a injeção intramuscular de medicamentos, geralmente no tratamento de cólica, é um fator desencadeador comum. Certos fármacos podem ter uma propensão maior a iniciar necrose e doença muscular, e esses medicamentos também são comumente usados no tratamento de cólica. O extravasamento perivascular de fármacos também é uma causa precipitante em cavalos. Em todas as espécies, há risco associado à injeção intramuscular de fármacos como anti-helmínticos e suplementos nutricionais, alguns dos quais podem causar danos teciduais significativos no local, particularmente se a assepsia adequada for negligenciada. – Surtos podem ocorrer em ovinos após práticas de manejo como tosquia e caudectomia, ou após o parto. Observaram-se também surtos em bovinos após o parto, às vezes associados a lacerações da vulva. Um método incomum de infecção ocorre quando os corvos que se alimentam de carcaça infectada transmitem a bactéria para ovinos fracos vivos e para cordeiros, ao atacarem seus olhos. Feridas de castração em suínos e bovinos também podem se tornar infectadas. A menos que o tratamento seja instituído nos estágios iniciais, a taxa de mortalidade é extremamente alta. – A prática de imersão de ovinos imediatamente após a tosquia pode causar alta incidência de edema maligno, quando a solução de imersão se apresenta altamente contaminada. A doença da “cabeça inchada”, uma forma de edema maligno, ocorre em ovinos jovens, dos 6 meses aos 2 anos de idade, quando eles correm em bandos e brigam entre si. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO SA S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S PATOGENIA E SINAIS CLÍNICOS ■ Patogênese – Necrotoxinas potentes são produzidas na lesão focal e causam morte quando absorvidas na corrente sanguínea. Localmente, as exotoxinas causam edema extenso e necrose, seguidos de gangrena. ■ Achados clínicos – Os sinais clínicos surgem 6 a 48 h após a infecção. Existe sempre uma lesão no sítio de infecção, consistindo em tumefação macia e pastosa, com eritema local acentuado, acompanhado de dor intensa à palpação. Em um estágio posterior, o inchaço torna-se tenso e a pele fica escura e esticada. Enfisema pode ou não estar presente, dependendo do tipo de infecção, e pode ser tão acentuado a ponto de causar uma exsudação espumosa intensa na ferida. Nas infecções por C. novyi não há enfisema. Uma febre alta (41 a 42°C) está sempre presente, os animais afetados estão deprimidos, são fracos, apresentam tremor muscular e, geralmente, rigidez ou claudicação. As membranas mucosas estão secas e congestas e o preenchimento capilar é muito lento. A doença é de curta duração e os animais afetados morrem dentro de 24 a 48 h após o início dos sintomas. Novos casos continuam a surgir por 3 a 4 dias após a tosquia ou outra causa precipitante. – Quando a infecção ocorre no parto, nota-se edema da vulva acompanhado de secreção fluida castanho- avermelhada, dentro de 2 a 3 dias. O edema se estende até os tecidos pélvicos e a região perineal. As lesões locais são acompanhadas de toxemia grave e o animal morre em 1 a 2 dias. – Na “cabeça inchada” dos carneiros, o edema é restrito inicialmente à cabeça. Ocorre primeiro sob os olhos e se espalha para os tecidos subcutâneos da cabeça e do pescoço. – Nos suínos, as lesões geralmente são restritas à axila, membros e pescoço, além de serem edematosas, com mínima evidência de enfisema. Lesões cutâneas locais, que consistem em placas avermelhadas opacas proeminentes, distendidas por líquido seroso transparente contendo C. septicum e que não causam doença sistêmica, podem ser encontradas em suínos, nos abatedouros. – Em cavalos, o enfisema, detectado por palpação ou ultrassonografia, é um sinal precoce. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S PATOLOGIA ■ As alterações teciduais ocorrem rapidamente após a morte, particularmente em clima quente, e isso deve ser levado em consideração ao avaliar os achados pós-morte. Geralmente, nota-se gangrena da pele com edema do tecido conjuntivo subcutâneo e intermuscular ao redor do local da infecção. Pode haver algum envolvimento do músculo subjacente, mas isso não é relevante. O líquido do edema varia de aquoso fino a um depósito gelatinoso. Geralmente, é sanguinolento e contém bolhas de gás, exceto nas infecções por C. novyi, quando o depósito é gelatinoso, claro e não contém gás. Um odor pútrido frequentemente está presente em infecções por C. perfringens e C. sordellii. ■ Hemorragias subserosas e acúmulos de líquido serossanguinolento nas cavidades corporais são comuns. Na “cabeça inchada” dos carneiros, o edema da cabeça e do pescoço pode se estender até a cavidade pleural e também envolver os pulmões. ■ O quadro histológico do edema maligno consiste em abundante quantidade de líquido de edema, enfisema e neutrófilos nos tecidos conjuntivos. O músculo não é poupado, mas o dano é focal, ao longo dos planos fasciais. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S DIAGNÓSTICO ■ Amostras para confirmação do diagnóstico – Bacteriologia – tecido fascial, colocado em um recipiente hermético; quatro esfregaços de líquido da lesão secos ao ar (cultura anaeróbia, teste de anticorpo fluorescente) – Histologia – amostra da lesão fixada. ■ Diagnóstico diferencial – A associação de toxemia grave e inflamação local e enfisema no local de uma ferida é característica. – Carbúnculo sintomático: a gangrena gasosa diferencia-se do carbúnculo sintomático pela ausência do envolvimento muscular típico e pela presença de feridas – Antraz em suínos e cavalos – Fotossensibilidade em ovinos de cara branca, com cabeça inchada. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S TRATAMENTO ■ Os animais afetados devem ser tratados como casos de emergência, devido à natureza aguda da doença. O tratamento específico requer a administração de penicilina (altas doses de penicilina cristalina, por via IV, repetidas a intervalos de 4 a 6 h) ou de um antibiótico de amplo espectro. A antitoxina ajuda a controlar a toxemia, mas é cara e deve ser administrada no início da doença. Um anti-inflamatório não esteroide e terapia de suporte são recomendados. O tratamento local consiste em incisão cirúrgica para proporcionar drenagem, aliada à irrigação com peróxido de hidrogênio. Em cavalos, relatou-se que o tratamento precoce e agressivo com miotomia e fasciotomia, repetido quando indicado e associado a penicilina potássica IV, propicia taxas de recuperação próximas de 70%. A taxa de sucesso no tratamento de cavalos com infecções por C. perfringens foi maior do que no caso de C. septicum. ■ Tratamento e controle – Penicilina G sódica/potássica: 40.000 UI/kg, IV, a cada 6 ou 8 h (R-2) – Incisões cirúrgicas para drenar e irrigar com H2O2 diluído – Flunixin meglumine: 2,2 mg/kg, IV, a cada 24 h (R-2) – Cetoprofeno: 3 mg/kg, IM, a cada 24 h (R-2) – Carprofeno: 1,4 mg/kg, IM, em dose única (R-2) – Meloxicam: 0,5 mg/kg, SC/IV, dose única (R-2) – Diclofenaco: 2,5 mg/kg, IM, dose única (R-2). ■ Controle – Penicilina: 44.000 UI/kg, IM, SID, por 3 dias, para animais em risco (R-2). D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S CONTROLE ■ A higiene no parto, tosquia, castração e caudectomia é essencial para o controle da infecção em ovinos. A aplicação de vacina composta de bacterina-toxoide de clostrídio, específica ou multivalente, prevenirá a ocorrência da doença em áreas enzoóticas. A penicilina pode ser administrada profilaticamente em animais com risco de doença. DOENÇAS BACTERIANAS DOENÇAS INFECTO-CONTAGIOSAS DOS ANIMAIS DOMÉSTICOS D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S ETIOLOGIA ■ Em ovinos a única forma de enterotoxemia diagnosticada no Brasil é a causada por Clostridium perfringens tipo D. Necrose simétrica focal é uma forma subaguda desta doença. ■ As enterotoxemias causadas por C. perfringens tipos A, B e C não têm sido comprovadas no País através da determinação de toxinas no conteúdo intestinal. ■ Em bovinos, a enterotoxemia pode ser causada por C. perfringens tipos A, B, C e D, e afeta ocasionalmente bezerros jovens. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S ETIOLOGIA ■ ENTEROTOXEMIA POR Clostridium perfringens TIPO D – Clostridium perfringens tipo D é um habitante normal do trato digestivo dos ruminantes. A doença, conhecida também como doença do rim polposo; – ocorre quando há proliferação da bactéria e produção de toxina no intestino delgado, devido a condições especiais de alimentação. – Algumas dessas condições são a presença de grandes quantidades de amido ou leite no duodeno ou a diminuição da velocidade do trânsito intestinal. – A principal toxina, responsável pelo quadro clínico e patológico, é a toxina épsilon, que altera a permeabilidade dos vasos sangüíneos, principalmente no cérebro, onde ocorre edema perivascular. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S EPIDEMIOLOGIA ■ A enfermidade afeta, principalmente, cordeiros de 3-10 semanas, mas pode ser observada em ovinos de outras idades, em caprinos, em suínos e em bovinos. ■ Os surtos são freqüentes em cordeiros amamentados por ovelhas com boa alimentação e, conseqüentemente, commuita produção de leite, ou quando os cordeiros ingerem pastagens verdes, de boa qualidade, em abundância. ■ Em outros países, que criam ovinos em confinamento, a doença está associada, também, à alimentação com concentrados. ■ No Rio Grande do Sul, onde a grande maioria dos ovinos está em pastagens nativas, a doença é pouco freqüente, tendo sido reportada, somente em cordeiros lactentes em pastagens cultivadas ou, na primavera, em pastagens nativas de boa qualidade. ■ Se após a ocorrência dos primeiros casos não forem tomadas medidas de controle a morbidade pode chegar a 10% e a letalidade é de 100%. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S SINAIS CLÍNICOS ■ É uma doença hiperaguda e dificilmente se observam sinais clínicos. ■ Em casos experimentais observam-se sinais nervosos caraterizados por marcada depressão, opistótono, movimentos de pedalagem, coma e morte em 2-8 horas. ■ Há aumento dos níveis de glicose no soro e na urina. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S PATOLOGIA ■ Na necropsia observa-se avermelhamento em alguns segmentos do intestino delgado; essa alteração é mencionada por alguns autores como enterite hemorrágica segmentar. ■ Os rins apresentam-se amolecidos, com marcada diminuição da consistência e aspecto característico de autólise, mesmo que a necropsia seja ■ realizada antes de ocorrer autólise em outros órgãos. Esta lesão renal é designada como rim polposo e pode não ocorrer em ovinos adultos. ■ Outras lesões menos específicas são a presença de líquido nas cavidades e hemorragias nas serosas, principalmente no pericárdio e endocárdio. ■ Histologicamnete, as lesões mais características ocorrem nos rins e cérebro. No primeiro as células epiteliais dos túbulos apresentam-se homogeneamente eosinofílicas e há hemorragias entre os mesmos. No cérebro pode ocorrer edema perivascular localizado, preferentemente, no tálamo, na cápsula interna, nos núcleos da base ou na substância branca das circunvoluções cerebrais. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S DIAGNÓSTICO ■ A ocorrência de uma doença hiperaguda em cordeiros com bons níveis de alimentação são sugestivos de enterotoxemia, assim como a observação, na necropsia, de rim polposo e enterite segmentária. ■ A determinação dos níveis de glicose na urina, coletada durante a necropsia, pode ser um indicativo importante para o diagnóstico. ■ As lesões histológicas dos rins e cérebro são características da doença. ■ Em esfregaços do conteúdo intestinal corados pela técnica de Gram pode observar-se predominância de bacilos Gram-positivos, com a forma típica de Clostridium. O isolamento de C. perfringens tipo D não tem valor no diagnóstico, já que o mesmo é encontrado no trato digestivo de animais sadios. O diagnóstico de certeza realiza-se pela detecção da toxina épsilon no intestino delgado. ■ Para evitar a destruição da toxina deve retirar-se o conteúdo intestinal e enviá-lo, refrigerado, em um recipiente separado, ao laboratório. Alternativamente, pode adicionar-se uma gota de clorofórmio por cada 10ml de conteúdo, que conserva a toxina por até 30 dias. A toxina permanece estável no conteúdo intestinal do animal morto por, aproximadamente, 12 horas. A identificação da toxina em filtrados do conteúdo realiza-se por inoculação em camundongos e soroneutralização. ■ Podem ser utilizadas, também, as técnicas de ELISA ou contraimunoeletroforese. ■ Deve ser feito o diagnóstico diferencial com outras enterotoxemias e hepatite necrótica, que não têm sido diagnosticadas no Rio Grande do Sul. A doença pode ser confundida, também, com edema maligno. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S CONTROLE E PROFILAXIA ■ Quando está ocorrendo um surto as únicas medidas de controle são a vacinação imediata dos animais e a diminuição dos níveis de alimentação, retirando o rebanho para áreas com menor disponibilidade de forragem por um período de 15-20 dias, até que se instale a imunidade. ■ Duas a três semanas após a vacinação é recomendável que se realize uma nova vacinação para garantir bons níveis de anticorpos. ■ Para a profilaxia deve vacinar-se as ovelhas a cada 6 meses, de forma que uma dessas vacinas seja administrada no terceiro mês de gestação. Os cordeiros dessas ovelhas estarão protegidos até as 8 semanas e deverão ser vacinados entre as 4-8 semanas e revacinados 3-4 semanas mais tarde. ■ Podem ser utilizadas vacinas contendo outras espécies de Clostridium, de forma a proteger o rebanho contra edema maligno e tétano, simultaneamente, com a enterotoxemia. DOENÇAS BACTERIANAS DOENÇAS INFECTO-CONTAGIOSAS DOS ANIMAIS DOMÉSTICOS D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S ETIOLOGIA ■ C. haemolyticum (C. novyi tipo D) é uma bactéria anaeróbica transmitida pelo solo. A longevidade dos esporos no solo é desconhecida, mas os microrganismos foram isolados em ossos 1 ano após a morte de um animal causada por hemoglobinúria bacilar. ■ Com frequência, nas regiões contaminadas o microrganismo é constatado no fígado de bovinos sadios. ■ Em condições anaeróbicas, a bactéria se multiplica e produz fosfolipase C (β-toxina), uma toxina necrotóxica e hemolítica responsável pela ocorrência da doença clínica. ■ Têm-se sugerido como causas predisponentes as lesões hepáticas causadas por telangiectasia, necrobacilose provocada por F. necrophorum e fasciolose. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S EPIDEMIOLOGIA ■ Ocorrência – Há relato de hemoglobinúria bacilar principalmente na região oeste dos EUA, embora a doença também tenha sido diagnosticada no sul dos EUA e no Canadá, México, Venezuela, Chile, Turquia, Austrália, Nova Zelândia, Reino Unido, Japão e Irlanda. A doença não é comum, mas em propriedades contaminadas as perdas causadas por mortes, geralmente inferiores a 5%, podem atingir taxa tão alta quanto 25%. ■ Fatores de risco do animal – Em geral, os bovinos são os mais comumente acometidos, embora ocasionalmente a doença ocorra em ovinos e raramente em suínos. Como acontece em várias doenças causadas por clostrídios, os animais com bom escore corporal são os mais suscetíveis. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S EPIDEMIOLOGIA ■ Fatores de risco do ambiente – Hemoglobinúria bacilar é uma doença que ocorre nos meses de verão e outono. Há uma relação primária com pastagens que também são associadas com a ocorrência de trematódeos hepáticos. A maior prevalência de hemoglobinúria bacilar é verificada em pastagem irrigada ou mal drenada, especialmente se o solo for alcalino. Ocorreram alguns surtos em animais criados em confinamento, alimentados com feno obtido de pastagens contaminadas. – A doença é rara em regiões de criação intensiva, com pastagens abertas e secas, mas é constatada em áreas de pastagem onde os bovinos têm acesso, em terrenos baixos com locais naturalmente úmidos em decorrência de nascentes ou correntes de água. É possível verificar alta taxa de mortalidade quando os bovinos de uma área não contaminada são transferidos para uma propriedade contaminada; a doença surge 7 a 10 depois. – A enfermidade se propaga para áreas não contaminadas por meio de enchentes, drenagem natural, feno contaminado oriundo de locais contaminados ou por animais portadores. Cães ou outros carnívoros que carregam ossos ou carne também podem influenciar na propagação da infecção. A contaminação da pastagem pode ocorrer pelas fezes ou pela decomposição de cadáveres. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S PATOGENIA■ Embora as tentativas de induzir a doença mediante o fornecimento de microrganismos tenham sido malsucedidas, é provável que em condições naturais, em áreas endêmicas, ocorra penetração da bactéria no trato alimentar, após ingestão de material contaminado. ■ Assim como acontece na hepatite necrótica infeciosa (doença negra) de ovinos, as bactérias são transportadas ao fígado e se instalam nesse órgão até que ocorra lesão do parênquima hepático e hipoxia resultante, que propicia condição apropriada para a multiplicação bacteriana. ■ Acredita-se que a migração de trematódeos pelo fígado possa predispor à doença clínica por ocasionar necrose hepática e propiciar condição de anaerobiose no fígado, possibilitando a multiplicação do agente etiológico. ■ A invasão do fígado por Cysticercus tenuicollis e outras causas de lesão hepática também podem ocasionar doença. ■ Uma vez que C. haemolyticum retorna à sua condição vegetativa, em ambiente anaeróbico, e se multiplica, também produz fosfolipase C (β-toxina). Essa β-toxina provoca hemólise, necrose de hepatócitos e lesão ao endotélio capilar, que causam hemoglobinúria e perda de líquido vascular aos tecidos e às cavidades serosas. ■ A formação de um trombo organizado em um ramo subterminal da veia porta ocasiona grande infarto anêmico, característico da doença. A maioria das bactérias é encontrada nesse infarto e, em condições anaeróbicas, a β-toxina necrotóxica e hemolítica é sistematicamente liberada e resulta em toxemia, lesão vascular generalizada e hemólise intravascular. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S SINAIS CLÍNICOS ■ Animais que entram em contato com o microrganismo infeccioso em áreas endêmicas raramente desenvolvem a doença antes de 7 a 10 dias após o contato. ■ A doença tem curta duração e os bovinos mantidos em pastagem podem ser encontrados mortos, sem sinais evidentes da enfermidade. ■ Mais frequentemente, o início é súbito, e nota-se parada total de ruminação, alimentação, lactação e defecação. Dor abdominal é evidenciada pela relutância do animal em se movimentar e postura com dorso arqueado. ■ Ao caminhar, podem-se ouvir claramente grunhidos. A respiração é superficial e laboriosa e o pulso é fraco e rápido. Nos estágios iniciais há febre evidente (39,5 a 41°C), mas a temperatura corporal diminui para um valor subnormal antes da morte. ■ Edema de barbela é um achado comum. As fezes apresentam coloração marrom-escura; pode haver diarreia com grande quantidade de muco e algum sinal de sangue. ■ A urina é vermelho-escura. ■ É possível notar icterícia, mas pode não ser muito evidente. A duração da doença varia de 12 h, em vacas-leiteiras em estágio avançado de gestação, até 4 dias em vacas secas. ■ Com frequência, as vacas abortam. ■ Dispneia grave é evidente pouco antes da morte. Em ovinos, a doença se manifesta com sintomas semelhantes. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S PATOLOGIA ■ Rigor mortis se instala rapidamente. O períneo apresenta sujidades com fezes e urina sanguinolentas. Edema subcutâneo gelatinoso, que tende a se tornar crepitante em poucas horas, e extensa área de petéquias hemorrágicas ou hemorragias difusas no tecido subcutâneo são achados característicos. ■ Notam-se graus variáveis de icterícia. No espaço pleural e na cavidade peritoneal constata-se excessiva quantidade de líquido, cujo aspecto varia de claro a sanguinolento e turvo. ■ Também constatam-se hemorragias subserosas generalizadas. Hemorragias semelhantes surgem sob o endocárdio. Abomasite hemorrágica e enterite são acompanhadas de ingesta sanguinolenta ou de sangue livre. ■ A lesão característica de hemoglobinúria bacilar é o infarto isquêmico no fígado. Pode haver um ou mais, em qualquer parte do órgão; variam de 5 a 20 cm de diâmetro. O infarto se apresenta pálido, circundado por uma zona de hiperemia e tem a aparência geral de necrose local. Nos rins e na bexiga, verifica-se urina vermelha; por todo o rim notam-se hemorragias petequiais. ■ C. haemolyticum pode ser isolado do infarto hepático e de vários órgãos de uma carcaça fresca, porém muitos outros microrganismos invasores pós-morte mascaram, rapidamente, sua presença. ■ A reação em cadeia da polimerase (PCR) com intuito de identificar genótipos de Clostridium spp. produtores de toxinas pode auxiliar na identificação dos microrganismos. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S DIAGNÓSTICO ■ Amostras para confirmação do diagnóstico – Bacteriologia: tecido da borda do infarto hepático, colocado em recipiente hermeticamente fechado; quatro esfregaços obtidos por imprint da borda da lesão e seco ao ar (cultura anaeróbica, FAT) – Histologia: fragmento de lesão hepática fixado, rim. ■ Diagnóstico diferencial – O diagnóstico de hemoglobinúria bacilar se baseia, praticamente, na diferenciação de outras doenças nas quais hemoglobinúria, mioglobinúria e hematúria são sinais clínicos cardiais. Em um animal encontrado morto, pode ser necessária a diferenciação de outras doenças causadas por clostrídios e de antraz. A diferenciação entre hemoglobinúria e hematúria com base nas características do jato de urina possibilita a distinção daqueles diagnósticos diferenciais não associados com hemólise intravascular. – Leptospirose aguda – Hemoglobinúria pós-parto – Anemia hemolítica provocada por plantas crucíferas – Babesiose e anaplasmose – Hematúria enzoótica – Intoxicação crônica por cobre (ovinos). D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S TRATAMENTO ■ O tratamento específico inclui o uso imediato de penicilina ou de tetraciclinas, em altas doses, e de soro antitóxico, se disponível. O tratamento imediato é essencial. Quando o soro é administrado nos estágios iniciais da doença, a hemoglobinúria pode desaparecer dentro de 12 h. ■ O tratamento de suporte, inclusive transfusão sanguínea, administração parenteral de fluido e solução de eletrólitos, tem importância considerável. É necessário cuidado durante o tratamento e o exame, pois a excitação ou exercício inapropriado pode provocar morte súbita. Touros não devem ser utilizados para acasalamento até, pelo menos, 3 semanas após a recuperação, em razão do risco de ruptura do fígado. Com frequência, o período de convalescença é longo e os animais devem ser protegidos de estresse nutricional e climático até que estejam totalmente recuperados. ■ Tratamento – Penicilina G sódica/potássica: 15.000 UI/kg IV, a cada 6 a 8 h (R-2) – Oxitetraciclina: 15 a 20 mg/kg IV, a cada 24 h (R-2) – Tratamento de suporte. D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S CONTROLE ■ Cultura do microrganismo total morta por formalina e adsorvida em hidróxido de alumínio induz boa proteção durante 1 ano, em bovinos. ■ A vacinação é realizada 4 a 6 semanas antes da previsão de ocorrência da doença. ■ Em regiões enzoóticas, é necessária a revacinação anual de todos os animais com mais de 6 meses de idade. ■ Em alguns locais de risco extremo recomenda-se uma segunda vacinação durante a estação de pastejo. ■ Para prevenir a reação no local da injeção o inóculo pode ser administrado em vários locais e espalhado sob a pele por meio de massagem. ■ A injeção deve ser subcutânea, pois a intradérmica ou intramuscular possivelmente ocasionam reações graves. ■ As vacinas modernas preparadas de modo a evitar essas reações locais carecem de imunogenicidade e precisam ser aplicadas duas vezes no ano. As carcaças de animais que morrem da doença devem ser eliminadas por meio de cremação ou enterramento profundo. ESQUEMA DE VACINAÇÃO D O E N Ç A S I N F E C T O -C O N TA G IO S A S D O S A N IM A IS D O M É S T IC O S VACINAS ■ Fórmula: – O produtoconsiste de culturas padronizadas e inativadas de Clostridium chauvoei, C. novyi, C. haemolyticum, C. septicum, C. sordellii, C. perfringens tipos C e D, adicionadas de saponina como adjuvante. ■ Indicações: – É indicada para vacinação de bovinos sadios como um dos componentes da prevenção contra doenças causadas por Clostridium chauvoei - septicum - haemolyticum - novyi - sordellii - perfringens, tipos C e D nesta espécie animal. – Embora as infecções causadas por C. perfringens tipo B não sejam um problema significante em muitos locais, imunidade também é provida por esta vacina, através da beta toxina do tipo C e do toxóide epsilon do Tipo D. ■ Dosagem: – Administrar assepticamente dose de 5 Ml, via SC ■ Esquema de Vacinação – Agite antes de usar. – Utilize técnicas de assepsia para aplicar o produto. – A vacinação inicial deve ser feita em duas doses com 4–6 semanas de intervalo entre elas. – Proceda revacinação anual, com dose única.