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ser 
educacional 
gente criando o futuro 
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou 
transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, elet rônico ou mecânico, incluindo 
fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de 
informação, sem prévia autorização, por escrito, do Grupo Ser Educacional. 
Diretor de EAD: Enzo Moreira 
Gerente de design instrucional: Paulo Kazuo Kato 
Coordenadora de oroietos EAD: Manuela Martins Alves Gomes 
Coordenadora educacional: Pamela M arques 
Equipe de apoio educacional: Caroline Guglíelmi, Danise Gr imm, Jaquelíne M orais, Laís Pessoa 
Designers gráficos: Kamilla Moreira, Már io Gomes, Sérgio Ramos,nago da Rocha 
Ilustradores: Andersen Eloy, Luiz Meneghel, Vinícius Manzi 
da Si lva, ltala Daniela. 
Teor ia e sistemas/ lta la Danie la d a Si lva; Julio Cesar Carregarí. -São Paulo: Cengage -2020. 
Bibliografia. 
ISBN 9786555583007 
1. Teoria e sistemas em Psicologia 2. Psicologia 3 . Carregari, Julio Cesar. 
Grupo Ser Educacional 
Rua Treze de Maio, 254 - Santo Amaro 
CEP: 50100-160, Recife - PE 
PABX: (81) 3413-4611 
E-mail: sereducacional@sereducacional.com 
PALAVRA DO GRUPOSER EDUCACIONAL 
"É através da educação que a igualdade de oportunidades surge, e, com 
isso, há um maior desenvolvimento econômico e social para a nação. Há alguns 
anos, o Brasil vive um período de mudanças, e, assim, a educação também 
passa por tais t ransformações. A demanda por mão de obra qualificada, o 
aumento da competitividade e a produtividade fizeram com que o Ensino 
Superior ganhasse força e fosse tratado como prioridade para o Brasil. 
O Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego - Pronatec, 
tem como objetivo atender a essa demanda e ajudar o País a qualificar 
seus cidadãos em suas formações, contribuindo para o desenvolvimento 
da economia, da crescent e globalização, além de garantir o exercício da 
democracia com a ampliação da escolaridade. 
Dessa forma, as instituições do Grupo Ser Educacional buscam ampliar 
as competências básicas da educação de seus estudantes, além de oferecer-
lhes uma sólida formação técnica, sempre pensando nas ações dos alunos no 
contexto da sociedade." 
Janguiê Diniz 
Autoria 
ltala Daniela da Silva 
Psicóloga e supervisora cl inica. 
Bacharela em Psicologia pelo Cent ro Universitário UniFavip e em Teologia pela Faculdade de Filosofia, 
Ciências e Letras de Caruaru (Fafica). 
Doutoranda e mestra em Psicologia Clinica pela Universidade Catól ica de Pernambuco (Unicap). 
Especial ista em Educação moderna: metodologia, tendência e foco no aluno pela Pontifícia 
Universidade Catól ica do Rio Grande do Sul (PUCRS). 
Júlio César Carregari 
Psicólogo e mestre em Psicologia pela Universidade Estadual Pau lista (Unesp) em Assis, onde iniciou a 
carreira docente no ensino superior como professor substituto. 
No Amazonas, em diversas instituições públicas e privadas, t rabalhou para o desenvolvimento e 
aprofundamento científico das áreas de Psicologia e Educação até o ano de 2012. 
Licenciou-se em Pedagogia e atualmente é professor da Rede Municipal de Piracicaba. 
SUMÁRIO 
Prefácio 
UNIDADE l • os atravessamentos fflosójfcos na psicologia ............................................................ 9 
Introdução............................... . ....... 10 
1 Raízes Filosóficas da Psicologia.. .... ........................ . ....... 11 
2 Dicotomia Mente e Corpo: influê ncias filosóficas e ressonâncias na psicologia 
3 Discussões sobre inato e adquirido no ser humano 
4 Natureza e limites da psicologia .... 
.... .... 18 
.. .. 21 
. ........... 22 
PARA RESUMIR .............................................................................................................................. 27 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................... ..... .................................... .................... 28 
UNIDADE 2 • Matrizes e teorias do pensamento psicológico .................. ......................................... 29 
Introdução........ . ....... 30 
1 Reducionismo ...... . 
2 Abordagem etnocêntrica. 
3 Abordagem Transcultural .. 
4 Determinismo/Livre Arbítrio 
. ...... 31 
. ............ 35 
. ............. .............. ............................ 38 
............ 42 
PARA RESUMIR .............................................................................................................................. 47 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .............................................. .................................... .................... 48 
UNIDADE 3 • Construção do espaço psicológico: teorias e escolas .................................................. 49 
Introdução... . ....... 50 
1 Abordagens nomotéticas e idiográticas ...... ................... . ........... 51 
2 Escolas da psicologia........................... ... . ....... 58 
3 Matrizes do pensamento psicológico..... . ....... 62 
PARA RESUMIR .............................................................................................................................. 67 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ............................................................. ......................................... 68 
, 
UNIDADE 4 - Ps/co/ogla{s) e a diversidade como conhecimento ...................................................... 69 
Introdução........ ................. ... . ....... 70 
1 Fenomenologia e Existencialismo .. . ... 71 
2 A constituição da Psicologia como ciência ................ 73 
3 A unicidade ou pluralidade do objeto da Psicologia .... 77 
4 Principais teorias e sistemas atuais da Psicologia ...... . . ....................................... 80 
PARA RESUMIR .............................................................................................................................. 85 
REFERtNCIAS BIBUOGRÁFICAS ...................................................................................................... 86 
PREFÁCIO 
A Contabilidade tem várias divisões que se dedicam a áreas específicas, como a 
Contabilidade Tributária, também conhecida por Contabilidade Fiscal, que trata da 
administração dos tributos. 
A primeira unidade tratará do sistema de apuração e alíquotas dos impostos, 
os procedimentos da escrituração contábil e os de alguns métodos para ca lcular 
os tributos e saber como apurar os principais tributos, como Imposto de Renda, 
Contribuição Social sobre o Lucro Líquido, ICMS, 155, IPI, PIS e Cofins. 
A unidade 2 mostrará como é o pagamento dos tributos pelas empresas e as técnicas 
para realizar o planejamento tributário. Falaremos sobre o fato gerador do imposto e 
o que fazer para que esse fato não ocorra, além de discorrer sobre procedimentos 
para uma eficiente elisão fiscal. A diferença entre elisão e evasão fiscal também será 
explicada nesta unidade. Detalharemos ainda sobre como realizar um diferimento do 
crédito tributário e uma eficiente gestão de planejamento tributário, explicando os 
tipos de planejamentos existentes. 
Na sequência, será apresentado o sistema de apuração do crédito tributário, 
um importante assunto ligado à Contabilidade Tributária. As diferenças temporárias 
...... ·,.. ............... ,.. .......... ,.. ... 1 .......... 11 ..... · .,J..., ....1 ............................ ,.. ........................... .,J,.. .. ,.. ..... ,.. ........ ,.. ................... 1 ............ , .... .,. 
t::'X.1:::,u::11lt::':::, t:llllt: u IULIU 114u1uu Ud t:111µ1t::>d t: u µ,uLt::::,:::,u Ut: rt:t:,1:::,llu t: LUllllUlt: Ut:ld:::, 
e como essas diferenças afetam o lucro da empresa serão discutidas nesta terceira 
unidade. Por fim, abordaremos os procedimentos técnicos contábeis da constituição 
do crédito tributário, seu sistema de cálculo, e o funcionamento do registro das 
diferenças nos livros fiscais de apuração de lucro líquido e da contribuição social do 
lucro líquido, além do sistema de informatizaçãoutilizado hoje. 
Fina lizando este livro, a unidade 4 apresenta a contabil ização dos efeitos nos 
sistemas de regimes de tributação e por que o processo de registro e apuração dos 
aj ustes fiscais depende do regime fiscal da empresa. Você aprenderá que o regime 
de lucro real, lucro presumido e simples nacional se diferenciam no processo de 
contabilização. As características dos regimes de tributação e as reservas de reavaliação 
fecham a unidade. 
Bons estudos! 
UNIDADE 1 
Os atravessamentos filosóficos na 
psicologia 
Introdução 
Olá, 
Você está na unidade Os atravessamentos Filosóficos na Psicologia. Conheça aqui a história 
dos principais filósofos que influenciaram a psicologia. Aprenda sobre os conceitos de 
inato e adquirido, identificando a influência da filosofia nas concepções dicotômicas entre 
mente e corpo. Por fim, entenda a natureza e os limites da ciência psicológica. 
Bons estudos! 
1 RAÍZES FILOSÓFICAS DA PSICOLOGIA 
Você sabia que, para compreendermos do que é composto o solo da psicologia, precisaremos 
dar alguns passos para t rás em busca da história da construção científica? Esse percurso iniciará 
muito antes do que chamamos de ciência propriamente dita, como concebida pela academia 
(campos de formação de ensino superior e pós-graduações) na atualidade. 
Essa história é extensa, e por ser longa, precisaremos realizar alguns recortes. Infelizmente, não 
é possível apresentar todos os aspectos, autores, filósofos, pensamentos e ideias que ajudaram 
a compor a narrativa histór ica da psicologia. As escolhas dos pensamentos que apresentaremos 
sempre está circunscrita a partir do olhar daquele que conta a história. Basta você pensar que, ao 
contar uma história, você sempre escolherá o que enfatizará. 
Dito isso, fica assinalado que toda e qualquer construção escrita sobre alguma área da ciência 
será sempre l imitada, porque haverá recortes. Portanto, todos/as aqueles que se dedicam ao 
estudo de alguma área do conhecimento, como você, estudante de psicologia, necessitarão ler, 
ouvir e estudar diversos autores contando a "mesma história". Apesar de ser a "mesma história", 
serão dadas ênfases distintas, a depender do horizonte científico daquele que escreve. 
Comentadas as considerações iniciais sobre o limite da escrita, agora chegou a hora de você 
aprender sobre as bases filosóficas da psicologia. Você conhecerá alguns dos pré-socráticos, 
Sócrates, Platão e Aristóteles. Apresentarei também um pouco da história da idade média e 
depois entraremos na história da idade moderna, o nascimento da ciência e o modo como a 
filosofia influencia as nossas concepções sobre corpo e mente, bem como inato e adqui rido. Após 
essa história inicial, pensaremos juntos sobre a natureza e os limites da psicoloeia . 
É importante ressaltar que os filósofos não estavam pensando na constituição da psicologia, 
eles estavam filosofando. Mas hoje percebemos o quanto as ideias filosóficas, de algum modo, 
atravessam a psicologia que nascerá, enquanto ciência, no século XIX. 
1.1 Pré-Socráticos e Sócrates 
Os primeiros filósofos da nossa cultura ocidenta l, que iniciaram o processo de sistematização 
do conhecimento, surgiram por volta dos séculos VII-VI a.e. Esses filósofos, chamados de pré-
socráticos (porque vieram antes de Sócrates), buscavam compreender a origem do cosmo: 
constituição, princípios e leis. Esse período ficou conhecido como cosmológico. Cada pré-
socrático, a partir dos seus estudos e observações, indicava a essência, o princípio, a origem 
cosmológica da natureza. Ou seja, eles buscavam explicar a arché (essência, origem) da physis 
(natureza) (CASERTANO, 2011). 
Acompanhe algumas ideias dos pré-socráticos. 
12 
• Tales de Mileto 
De acordo com Casertano (2011), para Tales de M ileto (641-546 a.C.), "a observação e o estudo 
da regularidade dos fenômenos naturais permitem que se extraia uma lei geral" (CASERTANO, 
2011, p. 40) que permite a explicação das coisas. Para ele, observador dos fenômenos naturais, a 
água seria o fundamento e a origem do cosmo. Ou seja, ela seria a arché. Isso porque a água "é 
o alimento das coisas e as sementes de todas as coisas são úmidas" (CASERTANO, 2011, p. 43). 
• Parmên ides 
Parmênides (520-440 a.e.), ao contrário dos filósofos daquela época, não acreditava que 
a arché fosse algum elemento da natureza. Para ele, os elementos naturais são mutáveis, e a 
essência não poderia ser mutável. Logo, ele assegura que o Ser seria o princípio, a essência. O Ser 
aqui não é visível na aparência. Porque tudo que aparece é passível de mudanças. O Ser faz parte 
de um universo que não pressupõe mutabilidade (CASERTANO, 2011). 
• Heráclito 
Em contraposição a esse pensamento de imutabilidade, Heráclito (530/20 -470/60 a.C.) 
acreditava e defendia a mutabilidade da realidade. Para ele, tanto o ser quanto as coisas são 
dinâmicas e passíveis de transformação. Sua frase mais famosa é que "tudo flui, como as águas de 
um rio que nunca são as mesmas" (CASERTANO, 2011, p. 100). Por esse motivo, ele indicava que 
o fogo seria a arché (princípio) da physis (natureza/cosmo), pois a chama viva e eterna regeria as 
mudanças do ser (CASERTANO, 2011). 
Houve muitos outros pré-socráticos, vinte são mencionados por Osborne (2012). Contudo, 
optamos por apresentar três do mais mencionados. Apresentamo-los para que fosse possível 
você compreender como as perguntas filosóficas sobre a natureza e o ser já estavam postas 600 
anos antes da era cristã. 
Por falar em questões do Ser, Sócrates foi aquele que abandou as questões sobre a natureza 
e se concentrou eminentemente nos problemas do ser humano. Suas questões centrais eram: 
o que é o bem, a virtude e a justiça. Sócrates, filho de mãe parteira, desenvolveu um método 
que ficou conhecido como maiêutico (arte de trazer à luz, partejar). Esse método foi utilizado 
por Sócrates nos encontros que ele realizava nas praças públicas. Os diálogos críticos realizados 
por ele poderiam ser divididos em dois momentos: refutação e ironia (etapa em que o filósofo 
enfatizava as contradições na resposta dada pelos interlocutores às suas perguntas); a maiêutica 
era a etapa em que Sócrates construía questões para que os interlocutores pudessem reconstruir 
as ide ias anteriormente refutadas (COTRIM; FERNANDES, 2016). 
1.2 Platão e Aristóteles 
Enquanto os pré-socráticos conflitavam entre si sobre a mutabilidade ou imutabilidade da 
essência da natureza, Platão indicou uma solução que comporta as duas dimensões. Para Platão, 
há algo que não muda, que permanece. Esse algo estaria no mundo inteligíve l, ou seja, plano das 
ideias. As ideias seriam fixas, imutáveis e, portanto, a essência de t udo o que existe. Portanto, 
a verdade, por ser imutável e fixa, só poderia estar no mundo inteligível, na transcendência. 
Pa rtindo desse pressuposto, a verdade não se manifesta na dimensão visível, aparente (COTRIM; 
FERNANDES, 2016). 
O mundo sensível, por sua vez, seria mutável. É uma cópia imperfeita do que existe no mundo 
inteligível e foi criado pelo demiurgo (espécie de deus "artesão" ). O mundo sensível é cheio de 
impressões e essa reprodução não comporta a essência da verdade, apenas espelha uma parte 
do ser e não o que ele é de verdade (COTRIM; FERNANDES, 2016). 
... 
- Transcendência 
Verdades 
Imutável Fixo Permanente 
Mundo 
Sensível 
liil1iih'r.tifl1l;/:l,il 
- Impressões 
- Cópias 1mperfe1tas 
- Mutável Sofre transformações 
Figura 1- Mundo inteligíve l e mundo sensível 
Fonte: Elaborado pela autora, 2020 
#ParaCegoVer: A imagem mostra um esquema contendo características do mundo inteligível 
e do mundo sensível. 
Mas, então, como nós humanos, vivendo no mundo sensível, conheceríamos as verdades 
eternas e imutáveis? Para Platão, para se chegar ao conhecimento da verdade, é necessário 
realizar o exercício da razão. Nesse sentido, só se atinge um conhecimento verdadeiro quando 
se submete as impressões aoraciocínio. Apenas os seres humanos têm a capacidade de realizar 
o exercício da razão, pois, para esse filósofo, apesar de homens e animais possuírem impressões 
sobre o mundo sensível, só o homem poderá formar conhecimento racional, transcendendo as 
impressões (COTRIM; FERNANDES, 2016). 
14 
Além desse pensamento dual sobre o mundo, Platão também compreende o ser humano 
numa dualidade, pois é composto por alma e corpo. A alma/mente é o bem mais precioso 
do ser humano, enquanto o corpo é inferior. Essa dualidade atravessará muito fortemente as 
compreensões da medicina que delineará os modos de lidar com o corpo e com a mente, como 
veremos mais adiante (COTRIM; FERNANDES, 2016). 
Enquanto Platão acreditava que as impressões do mundo sensível geravam distorções e não 
eram verdade iras, Aristóteles defendia que o conhecimento advém da observação da realidade. 
Esse conhecimento que nasce da observação do real, do sensível, daquilo que é mutável, ficou 
conhecido como método indutivo. Segundo Cotrim e Fernandes (2016, p. 228), para Aristóteles: 
A finalidade da ciência deve ser a compreensão do universal, visando estabelecer definições 
essenciais que possam ser utilizadas de modo generalizado. Desse modo, a indução (operação 
mental que vai do particular ao gerall representa, para Aristóteles, o processo intelectual básico de 
aquisição de conhecimento. É por meio do método indutivo que o ser humano pode atingir conclusões 
cientificas, conceituais, de âmbito universal. 
Partindo desse pressuposto, Aristóteles, contrapondo-se a Platão, defende também que o 
mundo inteligível e sensível andariam juntos e constituiriam a realidade, pois as coisas são o que 
são. Sendo o que são, para conhecê-las, seria necessário partir do dado empírico, perceptíve l aos 
sentidos (COTRIM; FERNANDES, 2016). 
Esse filósofo, além de superar a cisão entre mundo sensível e inteligível, ultrapassou também 
o dualismo entre corpo e mente. Aristóteles defende que corpo e mente são indivisíveis. O filósofo 
também foi o primeiro a discutir questões muito peculiares para a psicologia, como: "mente, 
sentidos, sensação, memória, sono e insônia, geriatria, brevidade da vida, juventude e velhice, 
vida, morte e respiração" (FREIRE, 2008, p. 38). 
1.3 Idade Média 
Talvez você esteja se perguntando o motivo de dedicarmos um espaço para falar sobre a 
idade média. Muitas vezes escutamos alguns estudiosos descartando a história desse tempo, 
pois ele está muito atrelado a Igreja Católica como instituição social. O período é tido como 
séculos escuros, das trevas, visto que o pensamento cristão exercia uma grande influência que 
norteava as concepções dessa época. A idade média teve início com a ascensão do cristianismo 
no ocidente. O Deus cristão (teocentrismo) passou a ocupar o centro em todas as esferas: arte, 
literatura, filosofia, educação, arquitetura e outros (COTRIM; FERNANDES, 2016). 
Nesse período, defendia-se que: 
Toda investigação filosófica ou cientifica não poderia, de algum modo, contrariar as verdades 
estabelecidas pela fé católica. Em outras palavras, os filósofos não precisavam mais se dedicar à 
busca da verdade, pois ela já teria sido revelada por Deus aos seres humanos. Restava-lhes, apenas, 
demostrar racionalmente as verdades da fé (COTRIM; FERNANDES, 2016, p. 241). 
A filosofia med ieval pode ser dividida em: padres apostólicos, apologistas, patrística e 
escolástica. A patrística tem como principal representante Santo Agostinho, que foi influenciado 
por algumas ideias da filosofia platônica. A escolástica é representada por São Tomas de Aquino, 
que foi influenciado por Aristóteles (COTRIM; FERNANDES, 2016). 
As construções filosóficas desse período tinham como finalidade defender e estruturar as verdades 
da fé católica. Não houve contributos para o pensamento psicológico. Contudo, só conhecendo esse 
período conseguimos compreender o renascimento, o iluminismo e o fervor que construiu a idade 
moderna e constituiu a nova ciência e o racionalismo (COTRIM; FERNANDES, 2016). 
1.4 Idade Moderna: renascimento e advento da nova ciência 
Após dez séculos de influência do pensamento cristão em todas as esferas humanas, algumas 
alterações começaram a acontecer nesses âmbitos: nos setores sociais, econômico, político, 
artístico. O movimento que contribuiu para as alterações foi chamado de renascimento. Essa 
etapa propiciou o desenvolvimento da mentalidade racionalista e o retorno do antropocentrismo, 
onde o homem volta a ser o centro e não Deus (teocentrismo), como era na Idade média. 
Contudo, a Igreja não iria abrir mão tão facilmente de sua influência e algumas obras de 
arte e cultura ainda reproduziam resq uícios religiosos. Além disso, nesse período a inqu isição da 
Instituição Católica perseguiu aqueles que se contrapunham ao pensamento defendido por ela. 
Uma das mudanças essenciais foi o heliocentrismo que, diferente do catolicismo, defendia que o 
sol e não a terra era o centro do universo. Cotrim e Fernandes (2016, p, 256) indicam que: 
Ao propiciar a e<pansão de uma mentalidade racionalista, o renascimento criou as bases 
conceituais e de valores que favoreceriam o desenvolvimento da ciência no século XVII. revelando 
maior disposição para investigar os problemas do mundo, o individuo moderno aguçou seu espírito de 
observação sobre a natureza, dedicou mais tempo à pesquisa e ás e<perimentações, abriu a mente ao 
livre e<ame do mundo. 
Foram as bases conceituais, fundadas nessa virada histórica, que começaram a oferecer 
fundamentos para a criação e fundamentação das ciências que aconteceriam posteriormente. 
Nessa época, a psicologia era essencialmente filosófica, mas essas fundamentações também 
iriam oferecer as bases necessárias para que a psicologia fosse alçada ao status de ciência nos 
séculos posteriores (FREIRE, 2008). 
1.5 Constituição da ciência moderna 
As rupturas vividas entre a idade média e moderna geraram uma certa desorientação. Fazia-
se necessário criar bases sólidas para o conhecimento e novos conceitos de verdade, visto que 
as bases fundadas no pensamento cristão tinham sido postas em xeque. Segundo Cotrim e 
16 
Fernandes (2016, p. 259), 
A ruptura com toda a autoridade preestabelecida de conhecimento fez com que os pensadores 
modernos buscassem uma base segura, algo que garantisse a verdade de um raciocínio. Assim, um 
dos principais problemas da filosofia nesse período relacionou-se com o processo de entendimento 
humano e, mais especificamente, com a seguinte questão: Que garantia posso t er de que um 
pensamento é verdadeiro? Procurava-se, portanto, um método. 
Iniciou-se uma busca frenética pelo método para se chegar à verdade. Na busca pelo método 
do conhecimento, novas concepções de homem e de mundo foram sendo construídas pelos 
pensadores da época. A filosofia, debruçada no compromisso do conhecimento, adota novas 
linguagens em que o humano passa a ser valorizado como um ser racional. O racionalismo teve 
o seu triunfo, e a base científica passou a ser: observação, experimentação e formulação de 
hipótese. É importante destacar que cada filósofo construiu distintamente os seus métodos e 
concepções e deu ênfases distintas também. 
Francis Bacon foi um empirista que, contrário ao racionalismo da época, enfatizou o papel 
das experiências sensíveis no processo de conhecimento. Para ele, a razão só teria sentido se 
aplicada à experiência, e não o contrário. Na sua obra Novum Organum, mostrou a importância 
de um método de experimentação que reduzisse os equívocos tanto do intelecto quanto da pura 
experiência, aliando o melhor de ambos para a aqu isição dos conhecimentos científicos. Bacon 
acreditava que o avanço dos conhecimentos e das técnicas, as mudanças sociais e políticas e o 
desenvolvimento das ciências e da filosofia propiciariam uma grande reforma do conhecimento 
humano (COTRIM; FERNANDES, 2016; FREIRE, 2008) . 
No que concerne à ciência, ele indicou que esta deveria valorizar a pesquisa experimental, 
e defendeu o método indutivo. No seu método, Bacon indica que são necessárias as seguintes 
etapas: 
1 Organizar e controlar os dados recebidos da experiência sensível graças a experimentos 
adequados de observação e experimentação. 
2 Organizar e controlar os resultados observacionais e experimentais para chegar a 
conhecimentos novos ou à formulação de teorias verdadeiras. 
3 Desenvolver procedimentos adequados para a aplicação prática de resultados teóricos 
(COTRIM; FERNANDES, 2016). 
Em contraposição ao método experimental de Bacon, René Descartes construiu um método 
em que desconfia das percepções e sensações, sendo radicalmente racionalista. A rigorosidade do 
seu método indica que é necessário duvidar de tudo, até reco nhecer como indubitável a própria 
existência. Para o filósofo, a única verdade livre de qualquer dúvida seria o fato da existência. Sua 
famosa frase "Penso, logo existo" assegura que, pensando, ele constatou que sua existência é 
verdadeira (COTRIM; FERNANDES, 2016). 
O modo de pensar de Descartes também estabeleceu e reforçou a perspectiva dualista 
iniciada em Platão. Após aplicar o seu método, da dúvida metód ica, René Descartes conclu iu que 
existem duas substâncias distintas: a substância pensante (res cogitans) e a substância extensa 
(res extensa). A substância pensante corresponde à esfera da consciência, e a substância extensa, 
ao mundo corpóreo e material (COTRIM; FERNANDES, 2016). 
Sobre o método de Descartes, ele consiste em estabelecer uma dúvida metódica. Nesse 
método, o questionamento rigoroso é o fundamento do pensamento filosófico. Ele se constitui 
por quatro passos. Clique abaixo para conhecê-los. 
1 Regra da evidência: Só aceitar algo verdadeiro se for claro e evidente. 
2 Regra da análise: Decompor o problema em elementos mais simples ou últimos. 
.:i ~egra aa sImese: une ma Ir aas o□Jews mais sImpIes aos ma is compIexos. 
4 Regra da enumeração: Ver ificar para obter absoluta segurança de que nenhum aspecto do 
problema foi omitido (COTRIM; FERNANDES, 2016). 
No sécu lo XVIII, a fundação do positivismo fortaleceu a ciência que se baseia nos fatos e nas 
experiências. Um dos principais representantes dessa perspectiva é o filósofo Augusto Comte. 
O entusiasmo positivista foi um reflexo do espírito da época e do entusiasmo da burguesia, 
capitalismo e do desenvolvimento técn ico-ind ustrial. Sobre o objetivo e as características do 
positivismo, Cotrim e Fernandes (2016) resumem: 
De acordo com Comte, o método positivo de investigação tem por objetivo a pesquisa das leis 
gerais que regem os fenômenos naturais. Assim, o positivismo diferencia-se do empirismo puro porque 
não reduz o conheciment o cientftico apenas aos fatos observados. É na elaboração de leis gerais 
que reside o grande ideal das ciências. com base nessas leis, o ser humano seria capaz de prever os 
fenômenos naturais, podendo agir sobre a realidade (COTRIM; FERNANDES, 2016, p. 291). 
Controle, previsibilidade e generalização são as marcas do pensamento positivista, que 
posteriormente influenciará, direta ou indiretamente, na constituição das ciências. O espírito 
científico buscará consolidar métodos científicos que assegurem esse tripé. 
Após apresentar o pensamento de alguns filósofos, importa destacar que muitos outros 
pensadores atravessaram a história da filosofia e da construção da ciência. Todavia, fica inviável 
apresentar todos aqui e/ou se delongar nas ideias dos que foram apresentados. Optamos por 
apresentar alguns que julgamos importantes, na certeza de que existem outros e que você, 
estudante da área psicológica, mergu lhará em outros textos que enfatizarão outros pensadores. 
18 
Nos tópicos seguintes, retomaremos alguns desses filósofos e acrescentaremos outros, com 
vias a discutir sobre a influência da filosofia na constitu ição da ciência psicológica. 
2 DICOTOMIA MENTE E CORPO: INFLUÊNCIAS 
FILOSÓFICAS E RESSONÂNCIAS NA PSICOLOGIA 
O mundo ficou dual desde que Platão o separou. Essa perspectiva dualista foi retomada em 
alguns momentos na história da filosofia, sobretudo com René Descartes no século XVI. Para 
Descartes, a substância pensante corresponde à mente, à consciência, enquanto a substância 
extensa corresponde à matéria corpora l (COTRIM; FERNANDES, 2016). 
Essa cisão entre mente e corpo estabeleceu um longo debate nos tratados filosóficos. O 
dualismo, defendido por alguns, era negado por outros. Caso partisse da premissa de que 
FIQUE DE OLHO 
Vimos que os pré-socráticos tinham como problema a ser investigado o princípio 
fundamental, a arché do cosmos. Já na idade moderna, o maior objetivo dos filósofos era 
definir o método de chegar ao conhecimento. A centralidade da idade moderna é a busca 
pelo método científico. É importante saber as distinções e objetivos de cada período. 
interagir? (SCHULTZ; SCHULTZ, 2009). 
Antes de Descarte, acreditava-se que a interação entre essas duas substâncias se dava 
de forma unilateral. Ou seja, a mente que comandava o corpo. Todavia, Descartes, apesar de 
considerar substâncias distintas, defendia a mútua interação entre elas, e não a unilateralidade 
l-=>'-nULI L, .l'-n ULI L, ,LlAJ:,J, \...UIIIUI lllt: lt:LUI I ldlll .:>L.IIUILL t: .lLI I UILL l.Luu:,, ..,. ~o,. uc:::,L.dl Lt::::, dl 111 1 l d 
que a mente e o corpo, embora distintos, são capazes de interagir dentro do organismo humano. 
A mente é capaz de exercer influência sobre o corpo do mesmo modo que esse pode influenciar 
a mente". 
Sobre a natureza do corpo, 
Na visão de Descart es, o corpo é com posto de matéria ffsica, portanto tem características comuns 
a qualquer matéria, ou sej a, possui tamanho capacidade motora. Sendo uma matér ia, as leis da fís ica e 
da mecânica que regem o movimento e a ação do universoffsico aplicam-se tam bém a ele. Logo, o corpo 
é semelhante a uma máquina cuja o peração pode ser explicada pelas leis da mecânica que governa o 
movimento dos objetos no espaço. seguindo esse raciocfnio, Descanes prosseguiu com a explicação 
do funcionamento fisiológico do corpo com base na ffs'tca. Descartes foi claramente influenciado pelo 
espírito mecankista da época, refletido nos relógios mecânicos e nos robôs {SCHULTZ; SCHULTZ, 2009, 
p. 36). 
Fazendo referências ao mecanismo dos robôs, Descartes defende que há reações do corpo 
que são reflexos dos movimentos externos e não necessariamente uma vontade da mente. Por 
essa constatação, por vezes o pensador é "definido como o autor da teoria do ato de reflexo. 
Essa teoria é a precursora da moderna psicologia behaviorista de estímulo-resposta" (SCHULTZ; 
SCHULTZ, 2009, p. 36). Ainda nesse sentido, "o comportamento reflexo não envolve pensamento 
nem processo cognitivo: parece ser completamente mecânico ou automático" (SCHULTZ; 
SCHULTZ, p.36). 
Enquanto o corpo é visto como uma máquina, a mente "não apresenta nenhuma das 
propriedades da matéria, no entanto possui a capacidade de pensamento, característica que a 
separa do mundo material ou físico" (SCHULTZ; SCHULTZ, p. 38). Na interação entre corpo-mente, 
segundo o filósofo, o ponto centra l das funções da mente é o cérebro, mais especificamente 
a glândula pinea l ou conarium. Os movimentos físicos e menta is influenciam um e o outro 
mutualmente a partir desse ponto central. 
Essas discussões sobre mente e corpo irão, posteriormente, no século XIX, influenciar a 
medicina, inclusive a psicologia. A visão dual ista reverberou no modo de se compreender saúde 
e doença, bem como suas possíveis associações com a mente e o corpo. 
Travou-se uma discussão na med icina sobre o caráter de adoecimento do corpo, se este tinha 
como causa fatores endógenos ou exógenos. Desde o século XV, os médicos Galeno e Paracelsus 
tinham visões distintas. Para o primeiro, a doença tinha causas endógenas, "estaria dentro do 
próprio homem, em sua constituição física ou em hábitos de vida que levassemao desequilíbrio" 
(CASTRO; ANDRADE; MULLER, 2006, p. 40) . Já para o méd ico Paracelsus: 
As doenças eram provocadas por agentes externos ao organismo. Ele propôs a cura pelos 
semelhantes , baseada no princípio de que, se os processos que ocorrem no corpo são químicos, os 
melhores remédios para expulsar a doença seriam também químicos, e passou então a ad ministrar aos 
doentes pequenas doses de m·,nera·,s e metais(CASTRO; ANDRADE; MULLER, 2006, p. 40). 
Nos séculos seguintes, essas discussões chegaram a outras áreas da medicina, inclusive 
da psicanálise e psicologia. Na psicanál ise freudiana, o determinismo psíquico reforçou "a 
importância dos aspectos internos do homem" (CASTRO; ANDRADE; MULLER, 2016, p. 40). 
Essa ideia foi reforçada pelo psicanalista Groddeck com a sua obra "Determinação psíquica e 
tratamento psicanalítico das afecções orgânicas" (CASTRO; ANDRADE; MULLER, 2016, p. 40). A 
supremacia da mente sobre o corpo foi reforçada pela psicanál ise, enquanto no campo médico 
havia uma supremacia de cuidado com o corpo. 
20 
Apesar desse dualismo reverberar nas práticas psicológicas e médicas contemporâneas, 
estudos atuais indicam a perspectiva holística como uma saída para a cisão entre corpo e mente. 
Na postura holística, corpo e mente são inseparáveis e interdependentes em aspectos psíquicos 
e biológicos (CASTRO; ANDRADE; MULLER, 2016, p. 40), 
Segundo Castro, Andrade e Muller (2006, p, 41): 
Com o desenvolvimento das neurociências o conceito dualístico tomou-se mais díffcíl de ser 
aceito. Por exemplo, o sistema nervoso autônomo não é tão autônomo assim e se encontra regulado 
pelas estruturas llmbicas junto com o controle emocional. O sistema imune influencia e é influenciado 
pelo cérebro (URSIN, 20001. O campo de estudo da psiconeuroimunologia t em suas origens no 
pensamento psicossomático e tem evoluído no sentido da realização de investigações de complexas 
interações entre a psique e os sistemas nervoso, imune e endócrino. 
Mais ampla do que as discussões das neurociências e da postura holística, a concepção 
de doença sociossomática amplia a inter-relação entre corpo, mente, ambiente e meio social. 
Nesse sentido, a medicina e a atuação psicológica, influenciada pela postura psicossomática, 
sociossomática e holística, atuam de forma a considerar a multicausalidade dos aspectos da 
saúde e da doença, 
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FIQUE DE OLHO 
A Organização Mundial da Saúde, desde o ano de 1947 define que a saúde é um estado 
que articula o bem-estar físico, mental e social. Hoje, muitos pesquisadores acrescentam 
as dimensões espirituais e culturais, sendo saúde, então, um bem estar biopsicossocial-
espiritual e cultural, e não apenas ausência de enfermidades biológicas. 
3 DISCUSSÕES SOBRE INATO E ADQUIRIDO NO 
SER HUMANO 
Assim como as discussões de corpo e mente perduraram e perduram até hoje na fi losofia e na 
ciência, as questões concernentes ao que é inato e o que é adquirido pelo ser humano ao longo 
da exIstencIa tambem se estendem pelos seculos. 
Descartes, expoente do racionalismo moderno, tratou as ideias como inatas. Ou seja, as 
ideias nasceram com o sujeito pensante. Em contraponto ao pensamento de Descartes, Jonh 
Lock, segundo Cotrim e Fernandes (2016), defendeu que não existem ideias inatas; ao contrário, 
quando o ser humano nasce, nossa mente é como uma tábula rasa. No nascimento, nossa mente 
é como um papel em branco e, a partir das experiências vividas no mundo, inscrevem-se nossos 
conhecimentos. Para adquirir conhecimento, Lock indica as ideias de sensação e de reflexão 
(COTRIM; FERNANDES, 2016). Veja suas definições clicando abaixo. 
• As ideias de sensação são as que chegam à mente através das experiências adquiridas 
pelos sentidos. 
• Já as ideias de reflexão são aquelas que se articulam da sensação e reflexão. A reflexão 
seria "nosso sentido interno que se desenvolve quando a mente se debruça sobre si mes-
ma, analisando as próprias operações" (COTRIM; FERNANDES, 2016, p. 275). 
o pensamento de Jonh Lock se associa ao pensamento de mente vazia indicada séculos atrás 
por Aristóteles (FREIRE, 2008). Freire (2008, p. 61), sobre o pensamento de Lock, resume: 
As sensações, imagens e ideias formam o conteúdo da ment e. São adquiridas através das 
impressões seMoriais, tanto do mundo externo como no interno e são obtidas através da percepção, 
que já é um processo psicológico. A percepção sensorial consciente constitui, portanto, a base do 
conhecimento e recebe, quase que passivamente, a influência de estfmulos externos. Na escala da 
aquisição do conhecimento, distinguem se dois eleme ntos básicos: a sensação e a percepção. As ideias 
que resultam desse processo podem ser simples quando se originam de um ou mais sentidos ou da 
combinação deles com a reflexão (a ideia de comprimento). a ideia de substância composta porque 
não se origina de nenhum sentido, mas da combinação de várias ideias simples. 
As ideias do filósofo Lock, empirista, são claramente distintas das ideias inatas de Platão 
e Descartes. Por esse motivo, podemos considerá-lo como "o precursor do estruturalismo 
psicológico do século XX" (FREIRE, 2008, p, 62), 
Além das discussões filosóficas sobre o modo que o conhecimento é dado à mente humana 
(se inatos ou adquiridos), existe uma outra l inha a ser estudada e investigada, que diz respeito a 
condições comportamentais, se essas são genéticas ou apreend idas na relação com o ambiente, 
Clique abaixo e acompanhe duas tendências alinhadas com esse pensamento. 
22 
• Ambientalismo-empirismo 
Para o ambientalismo-empirismo, o ambiente é o responsável pelas características dos 
comportamentos do ser humano. Essas concepções, defendidas por Jonh Lock, têm um 
adepto fundamenta l no cenário da psicologia, o psicólogo Jonh Watson. Watson, fundador do 
behaviorismo, explicou o comportamento humano a partir da interação com a cultura e o meio 
ambiente (PINHEIRO, 199S). 
• Nativismo 
O nativismo, perspectiva filosófica baseada nas concepções inatas de Platão e Descartes, 
considera o oposto do ambienta lismo. Nessa linha, a inteligência, personalidade e comportamentos 
são traços genéticos herdados pelos genes dos respectivos genitores. Aquela famosa frase dita 
no senso comum, "filho de peixe, peixinho é" é atravessada por essa lógica nativista (PINHEIRO, 
1995), Mas será que essa perspectiva é vá lida para o comportamento humano? Sobretudo 
partindo do campo psico lógico que, ao acolher os comportamentos humanos, busca construir 
com os outros novas formas de existir? 
Discutir sobre essas perspectivas é de extrema importância para a psicologia, a fim de 
compreender as perspectivas psicológicas que têm mais inclinação para a linha ambientalista e/ou 
naavIsta. ~ssas noções básicas tu naamentarao pràacas e Intervençóes trente ao comportamento 
humano. 
Discutir sobre essas perspectivas é de extrema importância para a psicologia, a fim de 
compreender as perspectivas psicológicas que têm mais inclinação para a linha ambientalista e/ou 
nativista. Essas noções básicas fundamentarão práticas e intervenções frente ao comportamento 
humano. 
4 NATUREZA E LIMITES DA PSICOLOGIA 
Você já ouviu alguma dessas frases? "Eu sou a psicóloga na família"; "Sou o psicólogo dos 
amigos"; "Sou professora e psicóloga dos meus alunos". 
Provavelmente sim, pois é frequente as pessoas fazerem menção à Psicologia quando rea lizam 
alguma atividade de escuta, conselho ou persuasão. Essas frases são resquícios da popularização 
dos termos psicológicos no senso comum, assim como as palavras empatia, recalque, projeção 
e outras. 
Primeiramente, vamos definir o que é senso comum. Ele é o conhecimento cotidiano 
construído pelas pessoas num cenário de realidade. Não passa pelo crivo da ciência e não é 
submetido a um método filosófico ou de pesquisa. O conhecimento advindo do senso comum é 
passado de tradição para tradição, e é assimiladopor cada homem e mu lher na lida com a vida 
cotidiana, Segundo Bock, Furtado e Teixeira (2008, p, 18): 
Esse conhecimento do senso comum, além de sua produção característica, acaba por se 
apropriar, de uma maneira muito singular, de conhecimentos produzidos pelos outros setores do 
saber humano. O senso comum mist ura e recicla esses outros saberes, muito mais especializados, 
e os reduz a um tipo de teoria simplificada, produzindo uma determinada visão-de-mundo. O que 
estamos querendo mostrar a você é que o senso comum integra, de um modo precário (mas esse é 
o seu modo), o conhecimento humano. É claro que isso não ocorre muito rapidamente. Leva certo 
tempo para o conhecimento mais sofisticado e especializado seja absorvido pelo senso comum, e 
nunca o é totalmente. Quando uti lizamos termos como "rapaz complexado", "menina histérica", "ficar 
neurótico", estamos usando termos definidos pela Psicologia cie ntífica. Não nos preocupamos em 
definir as palavras usadas e nem por isso deixamos de ser entendidos pelo outro. Podemos até estar 
mu·,to próximo do conceito cientifico, mas, na maioria das vezes, nem sabemos. Esses são exemplos da 
apropriação que o senso comum faz da ciência. 
Contudo, apesar dessas palavras e frases serem assimiladas no senso comum e no cotidiano 
das pessoas, isso não faz delas psicólogos/as. Isso porque a Psicologia é uma ciência. Mas então, 
o que é ciência? Essa não é uma pergunta fácil de responder, pois como vimos na história da 
filosofia e da ciência as compreensões sempre são plurais e não únicas. Existem vários caminhos 
distintos para definir os problemas da ciência, como fazer ciência e consequentemente o que é 
ciência. 
Mas, numa perspectiva mais tradicional, ciência são os conhecimentos submetidos a 
metodologias reconhecidas por filósofos e cientistas. Os métodos cientificas, que também 
são vários, indicam os caminhos de se obter conhecimentos validados pela academia (centros 
de pesquisas). Não se faz ciência com achismos, faz-se ciência com métodos específicos, com 
pesquisas, com crivo cientifico. Poderíamos dizer, como comumente é assinalado, que cientificas 
são os conhecimentos construídos de maneira programada, controlada e sistematizada (BOCK; 
FURTADO; TEIXEIRA, 2008). No entanto, há métodos cientificas que não pressupõem controle 
e previsibilidade, como são as pesquisas de cunho social, fenomenológicas e cartográficas 
(DANIELA, 2016). 
Outro aspecto comumente indicado é que todos os campos cientificas têm um objeto de 
estudo. A Sociologia tem como objeto de estudo os fenô menos ligados à sociedade; a Economia, 
os componentes econômicos; a Astrologia, os astros. Mas, e a psicologia? Qual o seu objeto de 
estudo? (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2008). 
Segundo Bock, Furtado e Teixeira (2008), desde os primórdios da Psicologia enquanto ciência 
foi difícil definir um único objeto de seu estudo, dado que cada perspectiva que surge enfatiza 
aspectos distintos do humano. No início da Psicologia Científica, o foco esteve no comportamento 
com os behavioristas. Os/as psicólogos/as de base analítica (psicanálise) dirão que é o 
inconsciente; aqueles de perspectiva fenomenológica, os fenômenos; os socioconstrutivistas, as 
24 
interações socia is. Enfim, passaríamos anos e anos indicando os diferentes objetos da Psicologia, 
visto que ela é uma ciência multifacetada. Um resumo coerente poderia ser o indicado por Bock, 
Furtado e Teixeira (2008, p. 22): 
Nossa matéria-prima, portanto, é o se r humano em todas as suas expressões, as visíveis 
(o comportamento) e as invisíveis (os sentimentos), as singu lares (porque somos o que 
somos) e as genéricas (porque somos todos assim) - é o ser humano-corpo, ser humano-
pensamento, ser humano-afeto, ser humano-ação e tudo isso está sintetizado no termo 
subjetividade. 
A Psicologia é uma ciência multifacetada, em que cada linha teórica, cada abordagem e cada 
perspectiva definirá suas concepções de homem, de mundo e os seus métodos de ação. É diferente 
da medicina, em que as evidências científicas indicarão a melhor ação para aquele paciente; na 
psicologia, os profissionais lidam com a mu ltiplicidade de teorias que indicam modos distintos de 
lidar com o mesmo fenômeno. Mas como indica Figuei redo (2009), essas perspectivas, embora 
distintas, não são arquipélagos avulsos e desconectados. 
O campo da Psicologia enquanto ciência e profissão por vezes deixa os profissionais e 
estudantes de psicologia atordoados na busca de uma unicidade. Ou seja, na busca de uma 
prescrição única. O professor Luís Cláudio Figueiredo, ao falar do campo psicológico como campo 
de dispersão, nos lembra que: 
Os alunos, ao ingressarem no curso e entrando em contato com o currlculo, podem ficar, de inicio, 
com a expectativa de que várias disciplinas irão se organizar harmonicamente, converg·1ndo para uma 
meta comum, segundo uma concepção compartilhada por todos os professores do que seja pensar e 
fazer psicologia {FIGUEIREDO, 2009, p. 17). 
Nesse sentido, ressaltamos que mesmo uma ciência, a psicologia, não se organiza com um 
objeto único, mas com objetos, campos, nuances de estudo e investigação. cada professor/a, 
a partir de suas perspectivas teóricas, indicará possíveis modos de lidar com os fenômenos 
advindos dos diversos campos de atuação psicológica. 
Ind icar essa abertura e essa multiplicidade inerente ao campo psicológico não autoriza os 
profissionais a resvalarem nos achismos do senso comum, no dogmatismo ou no ecletismo. É 
necessário que as práticas profissionais estejam subsidiadas pela abordagem (perspectiva de 
prática) esco Ih ida. 
Alguns profissionais e estudantes, perdidos na dispersão teórica e metodológica, se 
encaminham para a prisão do senso comum "porque ela é a mais próxima e envolvente" 
(FIGUEIREDO, 2009, p. 19). Outros, os dogmáticos, se agarram em uma perspectiva teórica e 
fecham-se a ela como se essa fosse a única e grande verdade. "Ensurdecem para tudo que possa 
contestá-la" (FIGUEIREDO, 2009, p. 18) e não ampliam os seus horizontes. Já os ecléticos: 
25 
[ ... ] adotam indiscriminadamente todas as crenças, métodos, técnicas e instrumentos disponíveis 
de acordo com a sua compreensão do que lhe parece necessário para enfrentar ur'iificadamente os 
desafios da prática (FIGUEIREDO, 2009, p. 18) . 
Nenhuma dessas alternativas é indicada, isso porque todas cerce iam a possibilidade da 
construção psicológica ética e coerente. A alternativa é a busca contín ua pela elaboração 
de conhecimentos novos e a articulação das teorias com a prática profissional. Trata-se de 
fundamentá-los em perspectivas de prática (abordagens), articulá-los com a experiência cotidiana 
e sempre viva do profissional e daqueles que buscam a psicologia. Não dá para juntar todas as 
teorias psicológicas como se elas falassem a mesma coisa, mas também não é possível fechar-se 
em uma teoria como se ela comportasse a única e mais exímia verdade sobre o comportamento 
humano. Importa sim definir qual será a sua abordagem e onde está circunscrita a sua visão de 
mundo. Mas a partir desse eixo, é necessário estabelecer diálogos, abrir questões, interrogar as 
indicações teóricas e metodológicas. 
Faz-se importante, inclusive, abrir novas questões nas abordagens e visões de mundo 
majoritárias na psicologia. As perspectivas cognitivo-comportamental, psicanalíticas, humanistas 
(Abordagem Centrada na Pessoa, Gestalt Terapia) e fenomenológicas (Daseinsanalyse) nasceram 
em realidades distintas da realidade brasi leira, com teóricos Europeus e Estadunidenses e em 
séculos diferentes do que estamos vivendo. Não se trata de abandonar esses teóricos, trata-se 
de assumir essas concepções de ser humano e de mundo, colocando novas e coerentes questões 
para os nossos séculos e para o nosso povo brasileiro (SILVA; DANIELA, 2019). 
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Essa concepção de que a ciência psicológica necessita dialogar comos cenários sociais, 
políticos e econômicos do seu povo, no nosso caso, o povo brasileiro, também é sustentada pelo 
Código de Ética do Psicólogo/a, que em seus "Princípios fundamentais" ind ica: " Ili. O psicólogo 
atuará com responsabilidade social, analisando crítica e historicamente a realidade política, 
26 
econômica, social e cultural" (CFP, 2005). 
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fJ 
Nesta unidade, você teve a oportunidade de: 
• conhecer os pré-socráticos e o problema da "origem"; 
• estudar o dualismo que nasce com Platão; 
• aprender sobre o desenvolvimento dos primeiros métodos de conhecimento; 
• entender as ressonâncias da filosofia nas discussões sobre corpo-mente e saúde-
doença; 
• compreender que a Ciência Psicológica é um campo de Dispersão. 
BOCK, A. M. B. A evolução da Psicologia. ln: BOCK, A. M. B. Psicologias: uma introdução 
ao estudo de psicologia. São Paulo: Saraiva, 2008. 
CASERTANO, G. Os pré-socráticos. São Paulo: Loyola, 2011. 
CASTRO, M. G.; ANDRADE, T. M. R.; MULLER, M. C. Conceito mente e corpo através da 
história. Psicologia em Estudo [onli ne), 2006, v. 11, n. 1, p.39-43. 
COTRIM, G.; FERNANDES, M. Fundamentos da filosofia e manual do professor. São Paulo: 
Saraiva, 2016. 
DANIELA, 1. O velar como des-vela-dor da vida: a possibilidade da natalidade (re)velada 
no plantão psicológico. 2016. Dissertação [Mestrado em Psicologia Clínica]. Universidade 
Católica de Pernambuco (UNICAP), Recife: UNICAP, 2016. 
FIGUEIREDO, L. C. Revisitando as psicologias: da epistemologia à ética das práticas e 
discursos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 2009. 
FREIRE, 1. R. Raízes da Psicologia. Petrópolis: Vozes, 2008. 
PINHEIRO, M. Comportamento Humano- interação entre genes e ambiente. Educar, n. 
10, p. 53-57, Curitiba, UFPR, 1995. 
SCHULTZ, 5, E.; SCHULTZ, D. P. História da Psicologia Moderna. São Paulo: Cengage Lear-
ning, 2009. 
SILVA, F. E.; DANIELA, 1. Graduações com viés mercadológico: implicações para a prática 
psicológica no Brasil. 2019. ln: Anais do li Seminário Internacional da união Latino Ameri-
cano de Entidades de Psicologia. Disponível em: http://www2.pol.org.br/inscricoesonli-
ne/ulapsi/2019/anais/detalhe.cfm?id=9025. Acesso em: 03 fev. 2020. 
UNIDADE 2 
Matrizes e teorias do pensamento 
psicológico 
Introdução 
Olá, 
Você está na unidade Matrizes e teorias do pensamento psicológico. Conheça aqui as 
contr ibuições do Reducionismo para a formação da ciência psicológica; a formação de 
um novo campo de abordagem prático-teórica da Psicologia Etnocêntrica; a consolidação 
das leituras socioculturais com a Psicologia Transcu lt ural; e a dinâmica de relação do 
Determinismo e o Livre Arbítrio para a constituição subjetiva do homem. 
Nesta unidade, seja apresentado a alguns aspectos importantes do percurso histórico 
da Psicologia, além de algumas das principa is matrizes presentes nas suas dinâmicas de 
análise mais atuais. 
Bons estudos! 
1 REDUCIONISMO 
O Reducionismo é um sistema de pensamento bastante promissor e com potencial explicativo 
nascido entre os séculos XVII e XIX,juntamente com a concepção de que os homens seriam como 
máquinas, cuja natureza se comportava segundo critérios e padrões específicos, submetidos a 
"leis gerais" de funcionamento, subsid iando os primórdios do que mais tarde se reconheceria 
como conhecimento científico e seus desdobramentos metodológicos. 
Em um momento histórico de grandes descobertas e invenções humanas, o pensamento da 
época buscava explicar o homem e seus feitos a partir de uma compreensão que se afastasse 
do conhecimento religioso e se apropriasse do pensamento filosófico racional, prático e 
paradigmático, a fim de poder intervir e produzir efeitos de compreensão e previsão do 
comportamento e runc1onamento nu mano. 
O Reducionismo constitui-se em um movimento filosófico específico e próprio desse tempo 
histórico, e se consolida como um método de pensamento, cujos conceitos podem ser formulados 
em termos cada vez mais "simples", promovendo uma redução ao nível das propriedades e das 
relações entre suas partes. 
Foi através do reducionismo teórico conceituai que a visão mecânica do universo se 
constituiu em um modelo de compreensão do homem enquanto ser natural, distanciando-se do 
conhecimento religioso e predizendo as leis gerais que explicitavam o homem, suas estruturas 
orgânicas e biológicas, e sua relação com a vontade e o pensamento. 
Através desse modelo, o homem era comparado a uma máquina, e seu funcionamento pod ia 
ser então explicado em razão de causa, efeito e consequência. 
• Causa 
Enquanto o que o motivava, como operava sua maquinaria interna e revelava a dinâmica 
física de seu comportamento. 
• Efeito 
Enquanto movimento e comportamento vital. 
• Consequência 
Enquanto processo de tomada de consciência (mesmo que religiosa e moral) de seus atos. 
O universo mecânico era então explicitado aos olhos de quem quisesse ver, e as razões de 
causas e efeitos pod iam ser harmonicamente remontadas na composição das engrenagens de 
uma das máquinas mais emblemáticas destse pensamento: o re lógio. 
32 
Como nos dizem Schultz e Schultz (1992, p. 34): "O relógio era a metáfora perfeita para o 
espírito mecanicista do século XVII, tendo sido, justamente, considerado uma das maiores 
invenções de todos os tempos". 
Foi com esse conhecimento, cada vez mais sistematizado e difundido sobre o mundo e seu 
funcionamento, que o homem passou a considerar-se pertencente ao mundo natural; assim, 
deixava de ser uma criação divina para fazer parte das mesmas leis mecânicas que regiam e 
organizavam todo o universo. 
A concepção dos seres humanos "como máquinas" emprestou aos modelos filosóficos de 
explicação do mundo condições para a criação de um novo método de conhecimento, modo pelo 
qual seria possível entender e operar sobre a natureza humana, fomentando intensamente o 
recém "descoberto" método científico de investigação do mundo moderno. 
1.1 Conceitos e Abordagens 
É inegável a contribuição e o avanço significativo que o reducionismo trouxe no bojo das 
transformações das relações do homem com o conhecimento e de sua base na produção do 
conhecimento científico, como ainda hoje se considera. 
A possibi lidade de traduzir as leis gerais de um fenômeno em um único conceito ou apenas em 
uma lista diminuta de explicações que congregam, em essência, o jogo das partes envolvidas e sua 
dinâmica de interferências, produziu, no homem, uma racional idade de controle e predição dos 
fenômenos enquanto acontecimentos naturais e, como tais, possíveis de serem "reduzidos" aos 
mesmos enquadres de explicações de causas e efeitos observados no universo físico do mundo. 
Se,rnndo Hillix e M.:irx í1995_ o. 57l: 
As expl icações reducionistas oferecem, pelo menos, uma economia potencial de conceitos, visto 
que um único conceito pode servir em mais de um nfve l de explicação. Essas economias podem servir 
como base para a escolha entre teorias em tudo o mais equivalente. 
Como também explicitam EI-Hani e Pereira (1999), a base de toda produção científica na 
modernidade se consolida a medida em que os pensadores e cientistas das diversas áreas do 
conhecimento fazem uso do reducionismo como modelo a ser aplicado na construção do saber 
científico, contrapondo-se aos saberes filosóficos, religiosos e do senso comum. 
Através de um modelo reducion ista, ao analisar um fenômeno qualquer em questão, o 
cientista seria capaz de " reduzir" a explicação do mesmo em termos condensados e essenciais, 
revelando os "segredos" das estruturas e de seus funcionamentos específicos, respeitando as 
condições externas e internas para a sua manifestação e expressão aparente. 
Continuam os autores acima citados: 
Nos últimos trezentos anos, o programa reducionista tem sido o modo de análise dominante 
dos mundos físico, biológico e até mesmo social. Em outras palavras, ele tem sido o parad'rgma na 
explicação cientifica(EL-HANI; PEREIRA, 1999, p. 77). 
Os autores acreditam que a assimilação do reducionísmo ao pensamento científico da 
modernidade fez com que essa última estivesse íntimamente associada a um modelo que, se 
tinha grande sucesso no plano das ciências natura is da física, química e biologia, o mesmo não 
se podia observar no planos dos conhecimentos científicos que não possuíam um objeto de 
investigação tão objetivo e passível de replicação de experimentos com controles de variáveis 
manejáveis ou até mesmo mensuráveis. 
E, apesar de demonstrar-se como um método limitado para lidar com sistemas causais 
complexos, dentre eles encontramos os estudos realizados pela psicologia científica. Esta fez uso 
de suas premissas em diversos momentos e em várias perspectivas teóricas tão distintas que, em 
certos momentos, chegou mesmo a produzir-se em contradições teóricas e metodológicas, sendo 
seus conflitos teóricos a base para a compreensão do que hoje se aceita como sendo a Psicologia, 
ciência e profissão. 
1.2 Contribuições para a Psicologia 
Para retratarmos as contribuições do reducionismo para a Psicologia enquanto ciência 
moderna, vale destacar as premissas do que é cientifico contrapondo-se aos conhecimentos 
de naturezas distintas, de base especulativa, observacional e experimental, presentes nos 
conhecimentos da filosofia, das artes, religiões e do próprio senso comum. Clique abaixo para 
obter mais informações. 
Com o advento do "Iluminismo", movimento cultural e filosófico do século XVII, transfere-se 
ao homem a capacidade de conhecer e explicar o universo, suas estruturas e funcionamentos 
com base no instrumental próprio de sua natureza superior. Isso distingue-o dos demais seres e 
dá ao homem o caráter dominador de tudo o que é capaz de observar, perceber, pensar, controlar, 
mensu rar e concretamente experimentar, "objetivando" o conhecimento e transformando, 
inclusive, o próprio corpo como objeto do conhecimento. 
Essa mudança de paradigma para o processo de conhecimento e produção de saberes 
específicos sobre o homem e a natureza inaugura um cenário ideal para o advento da racionalidade 
enquanto instrumento específico de acesso às verdades universais do homem e da natureza, 
conduzindo a humanidade para a realização plena de sua liberdade fundamental. 
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dentre essas, a ciência psicológica, o homem passou a considerar a possibilidade de revelar todo 
34 
o fenômeno humano à luz do reducionismo explicativo, tratando a realidade interna e externa 
da psiquê humana como "essência" e, portanto, como um fenômeno já dado a priori, que se 
transforma e se "esconde" à medida que se manifesta no plano físico e fisiológico do corpo. 
A compreensão da expressão comportamental como efeito de um funcionamento psíquico 
constituiu-se na base do reducionismo fisicalista, explicando o fenômeno psíquico humano como 
um fenômeno comportamental, ou seja, reduzindo o que se entendia em termos subjetivos como 
vontades e motivações humanas a uma espécie de respostas comportamenta is a estímulos que 
poderiam ser observados, categorizados e, consequentemente, man ipulados (CASTANON, 2009). 
Esse exemplo de um reducionismo realizado pela ciência psicológica demonstra o difícil 
di lema enfrentado por essa área do conhecimento científico e, até mesmo, revela uma das 
tensões fundamentais da Psicologia apresentada em termos de disputa de, ora pertencimento, 
ora afastamento do paradigma da ciência moderna. 
Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 
Devido à natureza não quantificável de seu objeto- à simultaneidade da condição de sujeito 
e objeto de estudo, à indivisibilidade do fenômeno psíquico, dentre outros aportes analíticos, 
considerando a transformação do próprio ser humano pela inerente interação com o mundo e 
demais indivíduos, da sua relativa autonomia e, portanto, relativa liberdade, além das constantes 
transformações de suas rea lidades externas e internas-, as diversas teorias explicativas realizadas 
pe los métodos reducionistas desses fenômenos contribuíram para a ampliação dos modelos 
teóricos, por vezes complementares, ou tão antagôn icos, colocados no bojo da compreensão 
psicológica: desde o estudo do funcionamento neuroquímico do sistema nervoso central até 
mesmo as cond ições inconscientes da constituição subjetiva humana. 
Essa compreensão ana lítica da realidade psíquica humana será sustentada por reducionismos 
metodológicos que explicitarão os mecanismos e funcionamentos da psiquê humana na alternância 
de posições de destaque desses sistemas e de acordo com as tendências das épocas históricas que 
se seguem, até o aparecimento de outro campo teórico capaz de produzir uma Psicologia científica 
tao rica e pIuraI quanto as compIexas rea11aaaes ae consmu1çao ao ser numano. 
2 ABORDAGEM ETNOCÊNTRICA 
Para entendermos a abordagem etnocêntrica em Psicologia e seu reduzido quadro de 
compreensão do homem e do mundo, precisamos adentrar uma área ainda mais espinhosa da 
psicologia cientifica, que se constitui na interface das relações de saber e poder produzidas e 
amplamente difundidas pela Psicologia e pela Antropologia enquanto áreas de domínio e de 
afirmação de preconceitos e desigualdades. 
Os esforços da ciência psicológica, desde seu início, voltaram-se primeiramente para os estudos 
do comportamento do ser humano adulto, traçando suas características externas e internas, 
preocupando-se com a regularidade e padrões desses comportamentos. Com o passar do tempo, 
essa ciência ampliou seu olhar também para os "desvios", os comportamentos que se constituíam 
fora da "curva", ou seja, se constituíam em análises iminentemente estatfsticas da norma. 
Com o alvorecer da compreensão de normalidade, as análises comparativas não demoraram 
a acontecer e a psicologia passou a incluir outras áreas do conhecimento em seu campo teórico-
metodológico. Os avanços nos estudos do comportamento da criança e do adolescente, do 
comportamento animal, dos aspectos sociais e profundos das atividades humanas, acompanhado 
de um vasto campo de técnicas de intervenção e métodos de exploração cientifica, deram 
à Psicologia um lugar de destaque na compreensão de quem é o homem, objeto e sujeito de 
análise, na área das ciências humanas. Contudo, esse destaque não lhe garante universalidade de 
conhecimento sobre os temas do homem. 
Podemos observar que, apesar dos avanços significativos alcançados na compreensão 
do fenômeno humano, o embasamento teórico-metodológico da Psicologia se encontra 
profundamente enraizado em uma abordagem etnocêntrica, que considera outras sociedades ou 
povos como inferiores ao seu próprio grupo étnico. 
Toda a Psicologia produzida até meados de 1960 e 1970 tinha por pressuposto uma 
universa lidade de homem referendada aos sujeitos brancos, ocidentais, que viviam culturas 
capitalistas e democráticas, de tradição cultural judaico-cristã, e que compactuavam com a visão 
de mundo advinda da Europa renascentista, com os ideais da Revolução Francesa ainda pulsando 
fortemente em suas formas de entender e se relacionar com o mundo. 
2.1 Teorias e conceitos 
O caráter etnocêntrico até então apresentado nos estudos psicológicos, ou seja, o caráter de 
36 
quem olha para outra cultura sem realizar um trabalho de reconhecimento e tratando o diferente 
como "exótico, diferente de mim (indivíduo), ou nós (sociocultural), começa a alargar-se em todas 
as direções dos campos de pesquisa. 
A abordagem etnocêntrica em Psicologia começa a sofrer severas críticas com o 
desenvolvimento da Psicologia Social em consonância às críticas dos métodos de investigação 
da Antropologia, compondo um campo novo, capaz de, não somente abarcar duas áreas 
específicas do conhecimento humano cientifico,mas compor uma Psicologia capaz de trabalhar 
a universalidade dos conhecimentos e dos olhares sobre o acontecimento humano sobre a terra, 
sem excluir as dimensões singulares e particulares dos modos de ser e habitar o planeta em toda 
sua diferenciação fundamental. Para essa nova perspectiva, a Psicologia Cultural nascerá como 
proposta alternativa e eticamente viável na composição do novo saber. 
Andrada (2010, p. 6) nos trará um aporte totalmente renovado sobre as perspectivas 
desse modo de entender o humano na sua dimensão etnológica ao destacar a importância 
de experimentarmos "o estranhamento do outro", como um modo de revermos o cenário 
antropológico da Psicologia, e propondo "um novo enfoque para a área, uma teoria interpretativa 
da cultura, de fato, amparada fundamentalmente na etnografia". 
Vale ressaltar que, dada a realidade recente desse campo de trabalho, ainda temos muito 
o que conhecer e compreender enquanto realidade teórico-metodológica, e muito mais ainda 
a formar enquanto campo semântico conceituai de inserção desse saber nas atuais bases das 
ciências humanas. 
Desse modo, as experiências que apresentamos a seguir são possibilidades de compreensão 
do campo da abordagem cultural em oposição à visão etnocêntrica em Psicologia, e nos permitem 
vislumbrar o caminho que ainda temos pela frente na consolidação desses conhecimentos. 
2.2 Perspectivas culturais da Psicológica 
A abordagem etnocêntr ica em psicologia perde força para uma proposta de integração: 
• Entre os estudos culturais da antropologia . 
• Das perspectivas coletivas dos agrupamentos humanos organizados da sociologia. 
• Das constituições objetivas e subjetivas das linguagens e línguas da linguística. 
Das características psicológicas compartilhadas entre os indivíduos de uma tribo, aldeia, ou 
qualquer outro agrupamento humano que caracteriza ou denota uma compreensão específica de 
um modo de ser e estar no mundo de maneira única e singular da psicologia. 
Assim, é uma abordagem que se processa na tensão emergente das tentativas de interlocução 
interdisciplinar a respeito das relações entre os sujeitos, da mesma forma que acontece 
na composição da Psicologia Cultural, cujo método de investigação se processa na esteira da 
antropologia e sociologia. 
Segundo Guimarães (2016, p. 179): 
Ao trabalhar com a articulação de disciplinas, tais como a antropologia e a etnolog·,a, a psicologia 
cultural tem se aproximado de questões que dizem respeito à relação de pessoas oriundas de povos 
autóctones da América (povos indígenas) com a sociedade envolvente {não-índios). Investigações 
recentes vªm demonstrando, por exemplo, que diversos fatores contribuem para a configuração de 
situações de risco e vulnerab'llidades psicossoc'1ais intensas re lacionadas às pessoas indígenas que 
habitam tanto nas aldeias quanto nas regiões metropolitanas de grandes cidades. 
Com essa aproximação entre a Psicologia Cultural, a abordagem etnocêntrica perde 
espaço para a compreensão da relação intersubjetiva do homem emergente de determinada 
cu ltura, estabelecendo os critérios de análise de sua psicodinâmica, extrapolando e, por vezes, 
ressignificando os conceitos tradicionalmente aceitos e aplicados pela Psicologia científica 
oriunda do campo cultural europeu ou norte americano. 
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Esse esforço pode ser analisado nas recentes apropriações do campo teórico da psicologia na 
tentativa de explicar fenômenos culturais nos mais diversos espaços de ocupação do homem sobre 
a terra- primeiramente numa perspectiva puramente descritiva, na tentativa de identificação de 
o que fazem esses sujeitos, como vivem, como se organizam e como lidam com as adversidades 
desse modo de vida, etc. Tais esforços aprofundam-se na busca de compreender como se 
desenvolvem, quais aspectos de personalidade estão mais dispostos a aceitar e inclinados a 
valorizar, e como reagem diante do desconhecido e dos sentimentos que carregam e apresentam 
na relação consigo mesmos e com os demais integrantes do grupo. 
38 
Figura 1-A cultura em evidência 
Fonte: Rawpixel.com, Shutterstock, 2020 
# ParaCegoVer: Na imagem, há um esquema das relações dos conceitos de cultura, etnia, 
pessoas, crença, tradição, diversidade e nação projetado numa parede com jovens sentados como 
em um auditório observando essa projeção. 
Vale destacar que uma das possíveis respostas a essa abordagem em Psico logia está na 
aproximação do plano teórico-metodológico da Psicologia Cultural às questões dos povos 
indígenas de nossa realidade nacional. Assim como nos lembra Guimarães (2016, p. 187): 
Ao entrarmos em contato com as t radições indígenas, dispOS1os a vivenciar o choque cultural e 
a estabelecer formas de re lação mais equitativas, passamos a conhecer a alteridade das diferentes 
tradições indígenas, ao mesmo tempo em que, pelo processo de comparação, passamos a conhecer 
também a nossa própria tradição. 
Com essa abordagem, vislumbramos um plano teórico-metodológico ainda em processo de 
consolidação e com muito espaço de aberturas e composição interdisciplinar que capte o que há 
de melhor no plano das ciências que têm o homem como principal referência de suas dimensões 
individuais e culturais em análise. 
3 ABORDAGEM TRANSCULTURAL 
Para apresentar a abordagem da Psicologia Transcultural no seu percurso científico, que se 
relaciona com a Psicologia Social Experimental, utilizaremos da Psicologia Cultural como substrato 
de compreensão dessas discussões associadas ao universo da produção brasileira na área. Desse 
modo, faz-se necessária uma atenção ao recorte epistemológico dos efeitos desse Sistema 
Transcultural, na composição do campo temático em Psicologia. 
O nascimento da Psicologia Cultural remonta ao século XVII, quando o filósofo Giambattista 
Vico (1668- 1774) - em pleno período em que imperava o pensamento de Descartes, cuja 
expressão da ciência e do saber eram a mola mestra do direcionamento humano -questionava a 
importância do senso comum e da necessidade de compreensão da vida prática como elementos 
fundamentais para a construção do pensamento e da linguagem (BONIN, 1998). 
Ele apontava a importância de Deus como conhecedor de todas as coisas, e o homem deveria 
apreender as questões a partir de seu viés particular, amplamente valorizado, incitando o estudo 
cu ltural, voltado especificamente para a análise de uma dada realidade ou de um dado contexto. 
É por isso que se atribui a ele as origens da Psicologia Cultural, uma vez que consubstancia a 
importância da apreensão particular de cada sujeito. 
De uma maneira ou de outra, a Psicologia como ciência trilhou um caminho de reconhecimento 
do campo cultural. Apesar de algumas escolas de pensamento centralizarem suas pesquisas, 
conceit os e conhecimentos na natureza intrapsíquica das questões psicológicas, há uma busca de 
compreensão do campo cultural e de como os sujeitos reagem e produzem tal realidade. 
3.1 Leituras do Campo Cultural 
De modo geral, a cultura se apresenta como "um conjunto de hábitos, de instrumentos, 
objetos de arte, tipos de relações interpessoais, regras sociais e instituições em um dado grupo" 
(BONIN, 1998, p. 61). A partir desse recorte, o autor nos relata quatro perspectivas sobre a 
Psicologia Cultural, que são determinadas pela leitura específica do campo cultural. Clique nas 
abas abaixo e acompanhe as definições. 
• Primeira leitura 
A prime ira leitura toma a cultura como variável independente, ou seja, se caracteriza como 
uma grandeza que estava sendo manipulada em um experimento. Essa concepção foi aplicada 
aos estudos de cogn ição/testagem psicológica nos anos 1960/1970. A ide ia observada era de que 
o corpo era separado da mente, dualismo mente/corpo. Nesse sentido, registra Bonin (1998), o 
mental era um aparelho interno que estabelecia o pensamento abstrato, o qual era marcado pela 
cu ltura, de fora, sem ter relação ouser criado por esta. 
• Segunda leitura 
A segunda leitura da concepção de cultura era de que a mente está inserida nas práticas 
cu lturais. Nesse entendimento, a cultura passa a ser considerada como elemento fundante das 
interações e práticas sociais, as quais constituem o sujeito. Há uma retroalimentação: o sujeito se 
constitui como humano a partir das produções culturais e, por sua vez, também é produtor dos 
elementos da cultura. 
40 
Um importante expoente é Vygostsky, que estuda e apresenta a Psicologia Sócio-histórica e as 
funções menta is superiores com as indicações de como a criança aprende e apreende o mundo a 
partir das relações de mediação promovidas pelo adulto em seus universos linguísticos e também 
pe la aj uda colaborativa com as demais crianças. 
• Terceira leitura 
A terceira leitura acena para a cultura na mente, a ideia de se estudar as narrativas produzidas 
pe las pessoas em um dado contexto cultural. Dar visibilidade e luz pelo modo como relatam 
e organizam as suas experiências diárias, coletivas, a partir de elementos cotidianos, e não se 
limitar a estudar categorias ordenadas como pensamento, cognição, linguagem como a concepção 
anterior. 
A questão que se coloca aqui alude ao pensamento simbólico e aos registros possíveis de serem 
efetuados pela fala ou a partir de elementos situacionais que nos conduzem a criar e potencializar 
ações e estabelecer conexões, por exemplo: diante de uma situação de descobrimento/conflito 
para a criança, ela pode resolver isso a partir da interação com o adu lto (que apresenta a cultura 
em seus gestos e ações) ou a partir de um conhecimento próprio (por ser sujeito emergente da 
mesma cultura). 
• Quarta leitura 
A quarta leitura sobre a cultura implica um novo direcionamento para a Psicologia Cu ltura l, 
diz respeito ao recorte que considera a cultura na pessoa, observando o sujeito como um agente 
intencional, capaz de criar elementos e recursos para a ação, considerando empaticamente a 
presença do outro . 
Estudos recentes apontam o bebê como um sujeito de intencionalidades e capacidade de 
empatia desde o nascimento, diferindo da concepção que aponta o bebê dotado apenas de 
instinto ou comportamento reflexo. 
Nesses estudos, se considera cada vez mais a importância do ambiente como elemento 
potencia lizador do desenvolvimento, bem como as relações que se estabelecem com o bebê, que 
viabil izam a ação deste, na convocação dos adultos que cuidam dele, reforçando a proposição de 
agente intencional que busca interativamente quem está por perto. 
3.2 A Psicologia Transcultural: conceitos e contribuições 
A Psicologia Transcultural se caracteriza como um sistema de investigação em Psicologia, que 
se coloca a estudar a relação do homem em seu contexto social, como ele interage, aprende, 
demonstra emoções e afetos sob certas circunstâncias de vida. 
De acordo com Gomes (2018), a busca para compreender e estudar as semelhanças e 
diferenças nos indivíduos e grupos em seus mais diferentes aspectos - sejam eles biológicos, 
ecológicos, sociais ou psicológicos - constitui-se como um dos principais objetivos de pesquisa e 
intervenção da Psicologia Transcultural. 
FIQUE DE OLHO 
Para aprofundamento dessa questão, sugerimos o filme "Babies", pois apresenta o processo 
do desenvolvimento infantil em diferentes contextos culturais possíveis de serem analisados 
segundo a perspectiva da Psicologia Transcultural. 
Para garantir pesquisas que oportunizem tamanha correlação de variáveis, a Psicologia 
Transcultural opta por metodo logias de traba lho que contemplem as ações de coleta e análise 
de dados, mas que também analisem uma demanda abundante de variáveis que podem estar se 
apresentando. 
Gomes (2018) aponta aue esse campo precisa ser melhor explorado nos países ocidentais. aue 
ainda há necessidade de estudos mais abrangentes para analisar as pesqu isas e metodologias que 
apresentem um maior rigor científico. Via de regra, pode-se dizer que a Psicologia Transcultural 
oferece três orientações teóricas para os fenômenos observados, a saber: absolutismo, relativismo 
e un iversalismo. Clique abaixo para obter informações sobre cada uma delas. 
• Absolutista 
Para a perspectiva absolutista, entende-se que os fenômenos psicológicos se caracterizam 
da mesma maneira em todas as culturas (por exemplo, o comportamento ansioso, em um dado 
local, continua sendo um comportamento ansioso em outra cultura). 
• Relativista 
A perspectiva relativista implica em afirmar que o comportamento pode ser criado a partir do 
contexto em que ele se desenvolve, por exemplo, a criança desenvolverá paladares específicos 
de acordo com a ingestão de alimentos ofertados em um determinado contexto cultural a partir 
das primeiras experiências. Nesse caso, podemos observar que, para algumas culturas, o leite a 
ser oferecido para a criança é apenas o leite materno, não possuindo qualquer outro substituto 
como observado em determinadas culturas que o associam às disponibil idades alimentares da 
localidade. 
42 
• Universalista 
Por fim, a perspectiva universalista aponta que os processos psicológicos básicos são comuns 
a todas as pessoas, independentemente de questão cultural; porém, admite-se que a cultura 
possa interferir em características psíquicas. 
4 DETERMINISMO/LIVRE ARBÍTRIO 
A dualidade que aqui se apresenta é apenas mais uma das diversas formas de compreender 
o acontecimento humano em seu amplo espectro de argumentos interpretativos e especulativos, 
na tentativa de explicar o homem, como se constitui objetiva e subjetivamente, qual seu objetivo 
ou sua missão no mundo, além de muitas outras indagações que, dependendo do ponto de 
partida, despertarão respostas tão distintas quanto incompletas a respeito das mesmas questões. 
Se partimos do pressuposto de que os atos humanos são frutos de uma intenção e que o 
próprio homem é quem conduz sua vida a partir de decisões pessoais, então estamos considerando 
o homem como um ser livre. Clique abaixo e obtenha mais informações. 
Segundo esse pressuposto, somos livres e o próprio querer é a origem causal de uma ação 
cujas intenções se colocam em xeque ao compreender que nem sempre somos capazes de 
identificar l inearmente o motivo e a consequência de um dado comportamento. 
Mas é possível estar no mundo e ser um sujeito sem qualquer interferência sobre si e seus 
comportamentos? De onde nasce o querer e quais as razões dele se manifestar dessa ou daque la 
forma? A liberdade da qual estamos tratando pode ser traduzida pelo livre arbítrio? Essas e outras 
questões nascem no intelecto humano e se constituem ao longo do seu próprio desenvolvimento 
sócio-histórico, desde os primórdios das civilizações das quais se tem registro até os nossos dias 
atuais. 
É claro que, ao ser estudado, enquanto objeto de conhecimento científico, conseguimos, 
por alguns breves momentos, compreendê-lo objetivamente e satisfazer nossa aguçada atenção 
curiosa definindo conceitos que justifiquem seus significados. Por outro lado, podemos também, 
sem muito esforço, ver tal estrutura teórico-conceituai se desmontar em função de um "novo" 
conceito, ou novo argumento, apresentado numa nova perspectiva que nos "obriga" a aceitarmos, 
senão em termos ideológicos, porém em termos lógico-racionais, que precisamos rever nossos 
velhos conceitos. 
Pensemos agora na psiquê humana como um "aparelho mental" provido de um sistema 
de análise e definidor de escolhas possíveis de serem realizadas sem interferências; como um 
dispositivo sem um acionamento prévio, sem qualquer forma de determinismo. 
É essa reflexão que Strapsson e Dittrich (2011) realizam ao analisar as contribuições do 
determinismo para a formação da Psicologia como ciência e profissão. Os autores fazem um 
contraponto esclarecedor entre o determinismo radical e o indeterminismo, também radical. Em 
ambos os casos, a realidade da condição humana de existêncianão encontra referências que 
justifiquem, cientificamente, tais proposições. 
O homem, apesar de sua liberdade de criação de modos de organ ização vital, ind ividual e 
coletiva, não é desprovido de determinantes, que tanto podem ser internas (vontades, desejos e 
motivações individuais) quanto externas (suscetível à pressão do grupo, aos impeditivos jurídicos 
e convenções sociais), ou ainda, a um terceiro tipo de interferência cuja base se constitui na 
interseção dos determinismos anteriormente citados acrescidos aos de natureza ética e moral 
com seus tabus e tradição de qualquer sorte. 
Mesmo com o nível de compreensão alcançado pelas ciências naturais e humanas, ainda 
temos a tarefa de tentar explicitar, de maneira objetiva, a seguinte questão: o que determina 
o motivo do comportamento humano em suas mais diferentes nuances de intenções e efeitos 
sobre si e os demais sujeitos com os quais convive? Onde reside a liberdade ou o livre arbítrio? 
Pensemos um pouquinho e voltemos os olhos ao que é possível! 
4.1 Conceitualização e consequências para a Psicologia 
Para nos ajudar nesta tarefa nada fácil de compreender, finalmente, o que está em jogo 
quando trabalhamos as questões humanas e os pressupostos da ciência psicológica na dualidade 
determinismo e livre arbítrio, nos aproximamos de Strapsson e Dittrich (2011). Esses autores se 
debruçaram sobre as questões teórico-conceituais acerca do determinismo e, por consequência, 
do livre arbítrio como elementos basilares para se decifrar o comportamento humano em suas 
dinâmicas conscientes e até mesmo inconsciente. 
Continuam os autores: 
O comportamento humano é um dos fenômenos mais complexos a serem estudados no mundo, e 
consequentemente um dos eventos de mais diffci l explicação. A cultura em geral tende a assumir que 
ao menos parte do nosso comportamento é livre, e o tamanho dessa parte tem sido tema de discussão 
por muitos séculos, na filosofia, no direito, na psicologia e na religião (STRAPSSON; DITTRICH, 2011, 
p. 300). 
Preocupados em identificar as contribuições do determinismo para o desenvolvimento da 
Psico logia como Ciência e Profissão, analisam o quanto dessa compreensão se encontra nos 
diferentes postulados teóricos da Psicologia ao longo da sua história e reconhecem que existe 
uma tendência a aceitar o determinismo em campos de interpretação tão distintos como a 
psicanálise e o comportamentalismo. 
44 
Essa compreensão se justifica pela argumentação que, se de um lado a psicanál ise pauta-se 
nos estudos e análises do comportamento humano determinado em grande parte pela dinâmica 
do inconsciente, por outro, não deixa de ser um determin ismo à base das relações funcionais 
entre organismo e ambiente no jogo de estímulos e respostas pesqu isados pelos behavioristas 
radicais. Para repor a complexidade da análise, não nos esqueçamos também dos determinismos 
sócio-histórico-culturais presentes nas análises da psicologia social. 
Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 
O que de fato acontece na visão desses autores é uma certa confusão teórico-conceituai 
com a definição de determinismo quando utilizado para explicitar uma refutação de ideias e 
compreensão epistemológica distinta entre os diversos sistemas e teorias em Psicologia. Ou seja, 
a questão das críticas formuladas entre esses campos teóricos do conhecimento psicológico não 
se faria com base no problema do determinismo, compreendido como equivocada simplificação 
do fenômeno humano sobredeterminado em suas causas, mas sim numa errônea aproximação 
do conceito de fatalismo na base do que seria o determinismo. 
Ao contrário do determinismo, o fatalismo apontaria para a incapacidade humana de criação 
de novas formas de responder aos motivos de um comportamento e estaria à mercê de "forças" 
completamente alhe ias às expressões de suas vontades, mesmo que inconscientemente. Nessa 
perspectiva, além de estar preso às demandas externas ou internas da motivação, não conseguiria 
nem mesmo recusar-se ao movimento na anulação de si mesmo. 
E essa não é mais uma escolha plausível na justificativa dos comportamentos humanos, pois, 
de toda a complexa rede de interações e determinações existente na condição humana, há ainda 
uma possibilidade de criação que pode indeterminar o homem e as respostas apresentadas às 
mais diversas e variadas indagações da vida. 
45 
Do mesmo modo, o livre arbítrio estaria colocado em um pressuposto epistemológico 
determinado pela concepção de autonomia humana, para poder pensar, refletir, racionalizar uma 
escolha diante de diferentes circunstâncias objetivas e subjetivas de vida, podendo até mesmo 
ser compreendida na relação entre as forças conscientes e inconscientes que determinam a 
realidade psíquica dos sujeitos, mas não completamente alheio às circunstâncias próprias da vida. 
4.2 Entre a dualidade e a complexidade 
Dentre as diversas formas criadas pela Psicologia na tentativa de abarcar o homem e todo 
fenômeno psíqu ico a ele referendado, entendemos, assim como Figueiredo (2008), que nas 
questões explicitadas entre os determinismos e o livre arbítrio encontramos um rede de relações 
tão complexas que qualquer reducionismo é apenas uma possível forma, historicamente 
constituída e arbitrariamente eleita, como modelo que apenas se revela como efeito dos arranjos 
das forças presentes no fato observado. 
Nos lembra o referido autor que, historicamente, 
[ ... ] as cond'1ções para a emergência de projetos de psicologia cientifica eram duas: a) um 
alto nlvel de elaboração da experiência subjetiva privatizada; e b) a crise dessa experiência, com o 
reconhecimento de que o sujeito não é tão livre como julga, nem tão único como crê. É isso que leva à 
necessidade de superar a experiência imediata para compreendê-la e expl icá-la melhor {FIGUEI REDO, 
2008, p. 71). 
Desse modo, a superação da experiência imediata acima apresentada pressupõe a 
ultrapassagem da compreensão dos fenômenos psíqu icos colocados em termos antagônicos e 
maniqueístas da relação entre determinismo e livre arbítrio, para alcançar a compreensão da 
complexidade do fenômeno humano posto em sua heterogeneidade irredutfvel. 
O autor acima citado irá propor a construção dessa dualidade à necessidade que temos de 
criar, também historicamente, a ilusão de condições imutáveis e fixas que justifiquem a natureza 
humana em uma essência dada ao conhecimento que, pela emergência da evolução do método 
cientifico, seria capaz de definir, de uma vez por todas, quais as regras que sustentam as relações 
humanas. 
Assim, Figueiredo (2008) recorrerá às ideias nietzsch ianas para repor a natureza complexa 
do homem e da necessidade de também trabalharmos o pensamento nessa complexidade. 
Como Mangueira e Bonfim (2014, p. 627), o autor apresenta a intrínseca correlação entre vida 
e pensamento, e que este constitui-se "não mais uma atividade puramente contemplativa e 
rememorativa, mas um procedimento criativo por meio do qual um pensamento afirma a sua 
força-diferença e a própria vida". 
Portanto, na afirmação da v ida ao homem, mesmo que real ize sua compreensão em termos 
46 
dualistas e, não raras vezes, antagônicos, esta deve ser entendida como uma forma possível de 
expressar seus anseios e projeções condicionados a um determinado tempo histórico e lugar 
físico específico, pois sua verdade reside na certeza das ilusões da v ida. 
fJ 
Nesta unidade, você teve a oportunidade de: 
• conhecer as matrizes e teorias do pensamento psicológico; 
• estudar os conceitos e aplicações dessas teorias; 
• apropriar-se das leituras do conhecimento psicológico; 
• compreender as transformações da ciência psicológica ao longo da história; 
• analisar o homem como sujeito e objeto de investigação científica. 
ANDRADA, C. F. Etnografias em Psicologia Social: notas sobre uma aproximação 
fecunda. Ponto Urbe [Online], n. 7, 2010. Disponível em: https://journals.openedition. 
org/pontourbe/1661.Acesso em: 17 mai. 2020. 
BONIN, L. F. R. Indivíduo, Cultura e Sociedade. ln: STREY, M. N. (et ai.). Psicologia Social 
Contemporânea. 9. ed. Petrópolis, Rio de Janeiro: Vozes, 1998. 
CASTANON, G. A. Psicologia como Ciência Moderna: vetos históricos e status atual. 
Temas em Psicologia, n. 1, v. 17, p. 21-36, 2009. 
EL-HANI, C. N.; PEREIRA, A. M. Reducionismo ou Hol ismo? Desperguntando a questão. 
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FIGUEIREDO, L. C. M.; SANTI, P. L. R. de. Psicologia: uma (nova) introdução. 3. ed. São 
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arttext&pid=S1809-52672018000100018&Ing=pt&nrm=iso. Acesso em: 18 mai. 2020. 
HILLIX, W. A.; MARX, M. H. Sistemas e Teorias em Psicologia. 3. ed. São Paulo: Cultrix, 
1973. 
MANGUEIRA, M.; BONFIM, E. M . da S. Força versus representação: o legado de Nietzsche 
na filosofia de Gilles Deleuze. Revista Kriterion, n. 130, p. 619-635, Belo Horizonte, dez. 
2014. 
SCHULTZ, D. P.; SCHULTZ, S. E. História da Psicologia Moderna. 5. ed. São Paulo: Cultrix, 
1992. 
STRAPASSON, B. A.; DITTRICH, A. Notas sobre o determinismo: implicações para a 
psicologia como ciência e profissão. Avances en Psicología Latinoamericana, v. 29, n. 2, 
p. 295-301, Bogotá, 2011. 
UNIDADE 3 
Construção do espaço psicológico: 
teorias e escolas 
Introdução 
Olá, 
Você está na unidade Construção do espaço psicológico: teorias e escolas. Conheça aqui 
as primeiras teorias e escolas da ciência psicológica, compreendendo as influências da 
ciência, filosofia e de outras áreas do conhecimento na constituição da psicologia. 
Aprenda sobre abordagens nomotéticas e idiográficas. Conheça a constituição da 
psicologia enquanto ciência e as principais escolas e matrizes do pensamento psicológico. 
Compreenda também esse campo do saber como espaço de dispersão e os pontos de 
intersecção entre as teorias. 
Bons estudos! 
1 ABORDAGENS NOMOTÉTICAS E IDIOGRÁFICAS 
A história da filosofia exerceu influências na constituição do projeto científico. A partir do 
século XVI, iniciou-se uma necessária cisão entre esses dois campos dos saberes. Com isso, não 
estamos dizendo que eles ainda não continuam se influenciando reciprocamente. No entanto, 
ambos têm objetivos distintos: enquanto a filosofia busca discutir e conhecer a verdade por 
meio de discussões ontológicas e ônticas, a ciência busca construir métodos específicos para se 
chegar ao conhecimento verdadeiro (GIL, 2012). Essa cisão entre filosofia e ciência foi ocorrendo 
gradativamente e o seu apogeu foi estabelecido no século XIX (RESENDE-JUNIOR, 2015). 
Após a idade média, buscaram-se, a todo custo, formas de se conhecer a verdade. A procura 
pelo método foi a principal questão que permeou as discussões da época, e constituiu o solo para 
a construção dos projetos científicos (COTRIM; FERNANDES, 2016). Francis Bacon, René Descartes 
e Augusto Comte são nomes importantes na fundamentação de métodos. Cada qual ao seu modo 
e a partir das suas perspectivas, esses pensadores indicaram como se constituíam as verdades e 
o modo com que se atingiria o conhecimento verdadeiro. 
É importante destacar que a revolução científica do século XVI foi pautada nas ciências naturais. 
Os métodos construídos nesse período objetivavam, sobretudo, encontrar verdades rígidas, 
eternas e imutáveis. A busca por verdades absolutas norteava as investigações metodológicas. 
Clique abaixo e veja as definições. 
Para Descartes, o homem era considerado como uma máquina pensante que buscava 
encontrar verdades absolutas (LAWN, 2006). 
Comte, com o seu positivismo, defendia que: "o conhecimento científico, tanto da 
natureza quanto da sociedade, é objetivo, não podendo ser influenciado de forma alguma pelo 
pesquisador" (GIL, 2012). 
A ciência nasceu atrelada a essa promessa de neutralidade, objetividade, mensuração, 
controle, previsibilidade, estabelecida a partir de relações causais (causa-efeito). Essa fixação por 
encontrar o método baseando-se nesses critérios fez com que o projeto científico se fechasse 
para buscar formas alternativas de abordar a verdade (LAWN, 2006). Lawn (2006, p. 52), ao 
falar sobre o projeto científico da modernidade, indica que "a modernidade confiou, sem crítica 
alguma, no poder do método para estabelecer verdades autocertificadas". 
No entanto, esse projeto científico deparou-se, posteriormente, com estudiosos que 
co locaram em xeque esse modelo cientificista . Um dos expoentes foi Wilhelm Dilthey. Para 
Dilthey, o conhecimento era composto por duas áreas distintas: ciências naturais e ciências 
humanas. Essa distinção é importante para que se compreenda o objetivo de cada área, bem 
como para que se construam metodologias específicas (LAWN, 2006). 
52 
FIQUE DE OLHO 
Dilthey, além de ser filósofo, era psicólogo, historiador e sociólogo. Suas discussões sobre 
ciências naturais e humanas nasceram atreladas à filosofia e se ampliaram para as outras 
áreas do conhecimento. Isso foi importante para que as ciências humanas pudessem pensar 
metodologias distintas das metodologias de cunho naturalista. 
Enquanto no positivismo, Comte (GIL, 2012) defendia que os fatores humanos se 
assemelhavam aos da natureza e, portanto, poderiam ser generalizáveis e construídos de forma 
neutra. Dilthey (LAWN, 2006, p. 75) foi categórico ao defender que "o problema com qualquer 
estudo da vida humana é que sempre somos parte daquilo que estamos procurando entender". 
Nesse sentido, além de não ser possível estabelecer axiomas neutros, o conhecimento sempre 
será circunscrito em um horizonte histórico e, portanto, não é generalizável. Estudar o humano 
sempre será uma tentativa de entender as experiências históricas vividas por ele (LAWN, 2006, p. 
76). Conforme Gil (2012, p. 5): 
Os fatos sociais dificilmente podem ser tratados como coisas, pois são produzidos por seres 
que sentem, pensam agem e reagem, sendo capazes, portanto, de orientar a situação de diferentes 
maneiras. Da mesma forma o pesquisador, pois ele é também um ator que sente, age e eKerce sua 
influência sobre o que pesquisa. 
Nesse sentido, as ciências humanas e sociais, além de considerarem a relação do pesquisador 
com o objeto investigado, entendem a construção do conhecimento como um constructo sempre 
aberto, mutável e que comporta indeterminações e evita as generalizações (GIL, 2012; LAWN, 
2006). 
Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 
Considerar essas mudanças paradigmáticas é necessário para que se possa entender como 
essas novas lógicas influenciam a construção de perspectivas metodológica para pesquisas e para 
práticas profissionais, já que as lógicas de funcionamento e as concepções de homem e de mundo 
se retroalimentam. Ou seja, as teorias sobre ciência tanto influenciarão os modos de construção 
de conhecimento como os formatos das práticas profissionais. 
É exatamente essa retroalimentação que vemos quando fa lamos sobre as abordagens 
nomotéticas e idiográficas. Foram conceitos que nasceram atrelados a metodologias científicas, 
mas que ressoam na construção das práticas psicológicas. 
Gordon Al lport, pai da teoria da personalidade, trouxe para o âmbito da psicologia a 
discussão sobre essas duas metodologias. Em suas análises, ele ressalta que ambos os horizontes 
metodológicos podem ser adotados pelos profissionais. Apesar de compreender a disponibilidade 
dos dois métodos, o psicólogo teceu contundentes críticas à psicologia norteamericana, que 
preferiu, esmagadoramente, as abordagens de cunho nomotético (HALL; LINDZEY; CAMPBELL,2008). Para Al lport, "só conhecendo a pessoa como pessoa é que poderemos predizer o que ela 
fará em qualquer situação dada" (apud HALL; LINDZEY; CAMPBELL, 2008, p. 239) 
Importa destacar que essas nomenclaturas foram substituídas por Allport e que ele preferia 
o uso dos termos morfogên ico ao invés de id iográfico, e dimensional ao invés de nomotético. 
Para Allport, conforme resumem Hall, Lindzey e Campbell {2008, p. 239) 
Essa ênfase na abordagem moriogênica é uma consequência lógica de vários aspectos da 
disposição teórica de Allport. Em primeiro lugar, sua ênfase na singular·,dade de cada pessoa obriga os 
investigadores a selecionar métodos de estudo que não escondam nem embacem sua individualidade. 
Em segundo lugar, e est reitame nte relacionada, está a ênfase da importância das disposições pessoais 
(traços individuais) como os determinantes primários do comportamento. se essas disposições são 
as unidades " reais" da personalidade, e se são características apenas de uma única pessoa, então 
certamente a abordagem mais efetiva ao estudo do comportamento será um método que estude o 
indivíduo. 
Mas como se configuram as abordagens nomotéticas e idiográficas enquanto horizontes 
teóricos? Vejamos. 
1.1 Abordagens nomotéticas 
Antes de iniciar os delineamentos sobre as abordagens nomotéticas, vamos compreender 
qual a perspectiva científica que subjaz essa metodologia para posteriormente discutirmos como 
ela reverbera nas perspectivas psicológicas. Iniciemos pela definição do termo. O dicionário da 
língua portuguesa Houaiss (2009, p. 1361) define que nomotético é "relativo à elaboração de leis; 
legislativo. Diz-se de método ou disciplina que formula ou trata de le is gerais para o entend imento 
de um determinado evento, circunstância ou objeto." 
54 
Figura 1 -As engrenagens do cérebro 
Fonte: Andrey_Kuzmin, Shutterstock, 2020 
#ParaCegoVer: A imagem mostra um fundo amadeirado com imagem de uma cabeça humana 
com engrenagens de máquina no interior. 
Com essa definição conceituai, já temos um direcionamento sobre o horizonte geral da 
abordagem e da metodologia: ela busca estabelecer princípios e leis gerais. Apesar da perspectiva 
nomotética fazer parte do rol das ciências sociais, ela está mais entrelaçada com os princípios das 
ciências naturais. Está vinculada àquelas metodologias que buscavam estabelecer as verdades 
fixas e imutáveis aos processos de conhecimento. Segundo Nascimento et ai. (2017, p. 25), 
A abordagem Nomotética, busca a aquisição do conhecimento de forma muito próxima do 
modelo das Ciências Naturais, isto é, amostragem cuidadosa, medidas precisas, bom design e análise 
de hipóteses apoiadas em teorias, pautada nas técnicas quantitativas para o estabelecimento de 
conexões causais e uti lizando como instrumento para coleta de dados, entre outros exemplos, bases 
de dados e questionários padronizados. 
Essa perspectiva teórica ressoa no campo psicológico ao convocar os profissiona is da área 
a lidarem com o esse campo do saber como uma ciência natural (FIGUEIREDO, 2014). Suas 
indicações são de que o pesquisador ou psicólogo/a busque a ordem natural dos fenômenos 
psíquicos. Assim, a psique e os comportamentos são classificados numa perspectiva preditiva 
(NASCIMENTO et ai., 2014). Nesse modelo cientificista, existem três etapas fundamentais: 
construção das hipóteses, dedução exata das hipóteses e a mensuração que corresponde ao teste 
da hipótese (NASCIMENTO et ai., 2014). 
Conforme resume Luís Cláudio Figueiredo (2014, p. 43): 
A emergência da "metodologia cientifica" corresponde exatamente a um estágio em que a 
autorreflexão das práticas produtivas já permite que a estrutura do t rabalho seja posta a serviço da 
produção e validação de conhecimento. As ideias de caráter preditivo chamar-se-ão hipóteses, e suas 
origens serão atribuídas a processos denominados indução, abdução ou invenção; as práticas produtivas 
55 
serão os procedimentos de observação controlada e, em espec'1al, os procedimentos experimentais de 
teste; o resultado obtido será confrontado com o resultado esperado - que, na avenida do possível, 
deve ser rigorosamente deduzido das hipóteses iniciais; a finalidade deste processo é a de, com base 
nesse confronto, aceitar ou refutar as hipóteses. 
Esse alinhamento da psicologia com as noções cientificistas e as predições nomotéticas se 
deu devido ao aguçado desejo de, no século XIX, fazer da psicologia uma ciência autônoma. No 
entanto, um dos maiores desafios da psicologia foi justamente estabelecer um objeto mensurável 
e passível de quantificação e controle. Só a definição desse objeto de caráter matemático poderia 
oferecer as condições para que o objeto da ciência psicológica pudesse ser submetido ao caráter 
experimenta l. 
Na história da constituição da psicologia, podemos identificar que, desde o século XVI II, ou 
seja, no século anterior ao do nascimento da psicologia científica, já havia projetos psicométricos. 
Com a psicometria, Christian Wolff buscou mensurar "os graus de satisfação (prazer e desprazer), 
perre1çao e 1mperre1çao, cen:eza e incerteza l~l'-'>Ut.1~1:.uu, Lui'I p. 'lõ-'1'1/. 
Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 
No século XIX, foi a vez da psicofísica de Weber, Fechner e Helmholtz mensurar as sensações. 
Conforme Gauer (2007, p. 2): 
A psicofísica foi o ramo de pesquisa que, embora não tenha durado até o século 20, produziu 
alguns achados e métodos que ainda hoje são válidos, sobretudo ao campo da senso-percepção. 
Porém, o mais importante é que a psicofísica encaminhou desenvolvimento de uma abordagem 
experimental que proferiu a psicologia ao status de ciência autônoma, pronta para ocupar Laboratórios 
e Departamentos Universitários. 
Essas investigações que correlacionavam a física com a psicologia se estenderam e foram 
aderidas por outros estudiosos. Ainda no século XIX, o fisiólogo e psicólogo Wilhelm Wundt 
fundou o laboratório experimental na Universidade de Leipzing na Alemanha (GAUER, 2007). 
56 
O professor, além de estabelecer a aproximação entre a pesquisa e a psicologia experimenta l, 
teve suas discussões centradas na duração dos fenômenos psíquicos. Um dos seus experimentos 
estudou o fenômeno da atenção, buscando compreender o tempo entre o estímu lo visual e 
auditivo (FIGUEIREDO, 2014). 
Outros psicólogos fundamentaram suas práticas experimentais na perspectiva nomotética. 
Clique abaixo para conhecê-los. 
• H. Ebbinghaus buscou quantificar a memória associativa. 
• Thorndike, fundador do associacionismo que construiu gráficos cartesianos do processo 
de aprendizagem e outros (FIGUEIREDO, 2014). 
Além da psicologia experimental, a abordagem nomotética influenciou o desenvolvimento da 
psicometria, iniciada por Wolff mas retomada nos séculos XIX e XX. Segundo Figueiredo (2014, 
p. 55), 
Ao lado da psicologia experimental desenvolveu-se no final do século XIX um poderoso movimento 
de psicometria dedicada ao estudo das diferenças individuais, como: f unção da progenitura, da raça, 
do sexo e das variáveis ambientais. Neste movimento avultam as figuras do inglês Francis Galton 
(1822 - 1911), do americano J. McKeen Cartel e do francês A. Binet (1857 - 1911). Com frequência 
esta psicologia das diferenças individuais - ou psicologia diferencial - estava claramente empenhada 
em tarefas práticas no âmbito da escola, da indústria e da burocracia civi l e militar, classificando em 
situando os sujeitos instalas numéricas de acordo com medidas de inteligência geral , capac"idades 
cognitivas especificas, velocidade de aprendizagem e desempenho de diferentes tipos de tarefa. Esta 
ordenação dos indivíduos era a base da seleção de pessoal, da formação das classes escolares, da 
assignação dos sujeitos para a tarefa que mais lhe conv·1nha etc. 
Essas práticas tinham como objetivo mensurar quantitativamente e, portanto, 
matematicamente os traços psicológicos e o comportamento. A análise fatorial dapersonalidade 
é um dos produtos dessa perspectiva que criou técnicas matemáticas para quantificar a psicologia 
e os objetos que ela estuda. 
1.2 Abordagens idiográficas 
Enquanto as abordagens nomotéticas têm uma característica quantificadora e buscam 
estabelecer leis gerais e princípios, a id iográfica trata os fatos considerando-os de formas 
individuais e compreensivas. Esta, além de ser a defin ição teórica e metodológica é, também, o 
significado apresentado pelo dicionário da língua portuguesa Houaiss. 
Figura 2 - Cabeças conectadas 
Fonte: Paul Craft, Shutterstock, 2020 
#ParaCegoVer: A imagem mostra um fundo laranja com dois contornos de cabeças humanas 
na cor branca. As cabeças se conectam por um novelo que está bagunçado na cabeça da esquerda 
e se organizando na da direita. 
A divisão entre abordagens id iográficas e nomotéticas dentro das ciências sociais foi proposta 
por Windelband, conforme indica Nascimento et ai. (2017). Sobre abordagens idiográficas, 
Nascimento et ai. (2017, p. 25) diz: 
A abordagem Ideográfica baseia-se no pressuposto de que a compreensão do mundo social ocorre 
através da investigação em primeira mão, ou seja, é necessário estabelecer uma relação próxima e 
pessoal com o sujeito, com forte ênfase na vivência e na anál"ise subjetiva, dada à necessidade de 
conhecer profundamente o fenômeno de estudo. Nesse aspecto, é necessár io envolver-se no fluxo 
da vida cotidiana para a real ização da análise detalhada dos insights obtidos em tais encontros com 
o sujeito ou fenômeno em análise. A abordagem Ideográfica está interessada no conhecimento do 
particular, como condição necessária à práxis, ou seja, a forma de agir adequadamente em uma 
variedade de situações particulares. O exercício de observação dos objetos externos dota o pesquisador 
pautado na abordagem Ideográfica de uma atitude espiritual completamente distinta da empregada 
na abordagem Nomotética. Na abordagem Ideográfica, o emprego das matemáticas deve ter uma 
função subordinada na compreensão profunda da sociedade, sendo seu principal objetivo descrever 
e realizar análises comparativas, que na perspectiva Nomotética, dá lugar à indução, ao experimento 
e a matematização. 
Esse horizonte de compreensão histórica foi influenciado pelo pensamento do filósofo 
Dilthey quando propôs a cisão entre as ciências natura is e humanas. O interesse pelo particular, 
pela compreensão individual, ressoou nas práticas psicológicas. Se algumas áreas da psicologia se 
dedicam às leis gerais do comportamento, outras se voltam para o singular, o histórico, o horizonte 
existencial. A clínica é uma das áreas em que o movimento idiográfico fica mais evidente - mas 
não podemos restringir esse modo de compreensão apenas a uma área da psicologia. Na verdade, 
uma escuta idiográfica parte mais do modo de escuta do profissional do que necessariamente do 
arcabouço explicativo do instrumento utilizado por ele. Há psicólogos e psicólogas que fazem uso 
58 
das noções idiográficas, inclusive no âmbito da psicometria . 
Apesar da psicometria e dos testes psicológicos terem um caráter generalizante, pois a 
normatização deles parte desse pressuposto, o olhar singular é importante na prática profissional. 
Conforme Tavares (2003), muitos testes psicológicos também podem ser compreendidos de 
forma idiográfica e não apenas nomotética. Vejamos: 
Alguns instrumentos são faci lmente aplicados em uma abordagem nomotética, como o MMPI. 
Por outro lado, este pode ser avaliado idiograficamente quando comparamos as respostas do sujeito 
a itens críticos com outras informações, por exemplo, avaliando suas respostas a itens cujo conteúdo 
sugere risco de suicídio com a prancha 3 {a crise) do TAT. O Rorschach facilmente permite a utilização 
simult~nea das abordagens nomotéticas e idiográficas. O WAIS permite os dois t ratamentos. Este é 
tradicionalmente conhecido como instrumento de avaliação nomotética da inteligência. Contudo, ele 
pode ser entendido como muito mais do que isso {TAVARES, 2003, p. 131). 
Assim, podemos compreender que o o lhar para os fenômenos psíqu icos e para o 
comportamento dependerá da postura epistemológica do profissional. É claro que muitas 
práticas estão eminentemente vinculadas a noções mais naturalistas ou mais humanas, mas isso 
não impede que o profissional articule suas anál ises de modo não generalizante. 
Essa postura também foi exortada pelo psicólogo Gordon Allport, como apontam Hall, Lindzey 
e Campbell (2008, p. 240): 
Podemos dizer que Allport, consistentemente com sua posição teórica, exortou os psicólogos a 
dedicar mais tempo e energia do que costumavam ao estudo do caso individual. Allport enfatizou que 
a maior obrigação de um pesquisador psicológico é levar seus insigts independente de como foram 
derivados, "de volta ao indiv'1dual". Essa ênfase foi tão bem aceita pelos psicólogos contemporaneos 
que aquela que fora outrora uma posição desviante é hoje amplamente ace'1ta. 
Essa exortação de Allport pode ser considerada atual, na medida em que a psicologia é 
convidada a compree nder o geral e o específico. Esse diálogo entre as perspectivas nomotéticas 
e idiográficas dá percepções ampliadas sobre o comportamento humano e, portanto, favorece a 
construção de práticas psicológicas holísticas. 
2 ESCOLAS DA PSICOLOGIA 
A psicologia foi se constituindo como espaço científico e as perspectivas teóricas e os vieses 
metodológicos foram sendo construídos influenciados tanto pelo espírito cientificista da época 
quanto a partir das demandas socioeconômicas. Para Figue iredo e Santi (2007), as noções de 
subjetividade foram se consolidando; o sistema de mercantilização, a ideologia liberal, iluminista, 
os regimes disciplinares, ofereceram o bojo para que as teorias fossem se consolidado e 
encontrando abertura e ressonância nas instituições sociais. Conforme indica Figueiredo (2014, 
p. 58): 
O surgimento da psicologia como ciência natural não está associado apenas à expansão da 
economia mercantil e ao aprofundamento dos seus reflexos na vida social . Está associado também às 
crises desta economia que exigiram novas técnicas de controle social, uma intervenção mais ativa do 
estado e legitima ações para essas formas renovadas de exercício de poder. 
Com essas indicações, assinalamos que as escolas psicológicas nasceram vinculadas tanto 
a noções científicas e filosóficas quanto respondendo a demandas das instituições sociais que 
exerciam, de algum modo, poder. 
A seguir, serão apresentadas algumas escolas da psicologia, como funcionalismo, 
estruturalismo e associacionismo. 
2.1 Constituição da psicologia enquanto ciência 
Como vimos, as noções sobre psique e comportamento humano nasceram pulverizados 
na filosofia e foram retomados na constituição da ciência moderna. Todavia, os estudiosos 
queriam consolidar esse campo de saber de forma independente. O nascimento da Psicologia 
independente esteve mais atrelado às abordagens nomotéticas. Encontrar um objeto de estudo 
passível de mensuração e quantificação foi um grande desafio. Apesar de filósofos, como Kant, 
por exemplo, defenderem que a psicologia não poderia ter os mesmos parâmetros das ciências da 
natureza, os primeiros psicólogos produziram suas discussões quantificando o comportamento, 
os prazeres e a aprendizagem (FIGUEIREDO, 2014). 
No entanto, a consolidação da psicologia científica se deu atrelada à história da psicologia 
experimental. No século XIX, com a Reforma da Universitária promulgada pelo Ministro da 
Educação da Prússia, o Ensino Superior passou a ser considerado na associação direta com a 
pesquisa. Nesse sentido, os departamentos de ensino e os laboratórios passaram a estabelecer 
relação de complementariedade. Essas novas indicações favoreceram que Wilhe lm Wundt 
estabelecesse o primeiro laboratório de Psicologia Experimental na Universidade de Leipzing 
no ano de 1879. Por esse motivo, o filósofo, psicólogo eprofessor que realizava experimentos 
sistemáticos em Psicologia é ainda hoje considerado o "Pai da Psicologia" (GAUER, 2007). 
Conforme Figueiredo e Santi (2007, p. 58): 
Para Wundt a psicologia é uma ciência intermediária entre as ciências da natureza e as ciências da 
Cultura. Sua obra se estende da psicologia experimental fisiológica à psicologia social. Ou seja, desde 
seu inicio o lugar a psicologia entre as ciências é um tanto incerto, em um dos méritos de Wundt foi o 
de conceber a psicologia nessa posição intermediária. 
O laboratório, osescritose estudos sistematizadosderam espaço para a que a ciência psicológica 
pudesse consolidar o seu campo de saber e iniciar sua história de forma " independente". 
60 
2.2 Primeiras escolas psicológicas 
Apesar do primeiro laboratório ter sido fundado na Alemanha, foi nos Estados Unidos que 
a Psicologia pôde ver a instituição de suas primeiras escolas nascerem. O rápido crescimento 
da Psicologia em cenário estadunidense dar-se-á pelo fato dos grandes avanços vividos e pela 
consolidação do capitalismo nesse país (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2008). O estruturalismo, o 
funcionalismo e o associacionismo foram as primeiras escolas que "deram origem às inúmeras 
teorias que existem atualmente" na psicologia (BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2008, p. 41). 
FIQUE DE OLHO 
Muitas escolas contemporâneas da psicologia sofrem algumas ressonâncias das primeiras 
escolas. É importante destacar que, neste momento, você está estudando apenas as 
primeiras escolas. Em outra unidade, serão apresentadas as escolas contemporâneas 
presentes até hoje na psicologia. 
Acompanhe definições sobre as primeiras escolas psicológicas. 
• Estruturalismo 
Seguidor e aluno de Wundt, Titchener foi um dos responsáveis por expandir os cenários 
geopolíticos da psicologia. Retirou-a dos recônditos alemães ea estendeu para o solo estadunidense. 
Seu objetivo era estudar o conteúdo da mente e a estrutura da consciência. Para ele, a psicologia 
deveria estar submetida às metodologias da ciência da natureza, visto que ambas a observação e a 
experimentação seriam também o método psicológico (SCHULTZ; SCHULTZ, 2009). 
No entanto, a experimentação e observação propostas por Titchener para investigar a 
estrutura da consciência seriam voltadas para uma autoconsciência, e não para uma observação 
externa do mundo. Como indica Figueiredo (2007, p. 62): "A única diferença seria a de que na 
psicologia observação se daria sob a forma de auto-observação ou introspecção, bem em que 
os sujeitos experimentais seriam treinados para observar atentamente e descrever com total 
objetividade suas experiências subjetivas em situações controladas de laboratório." 
Sendo a base metodológica da psicologia a mesma das ciências naturais, o que caracterizaria 
a independência e a importância da Psicologia? A reposta dada pelo psicólogo é apresentada 
por Schultz e Schultz (2009, p. 111), vejamos: "De acordo com Titchener, o objeto de estudo da 
psicologia é experiência consciente como dependente do indivíduo que a vivencia. Esse tipo de 
experiência difere da estudada por cientistas de outras áreas. Por exemp lo, tanto a fís ica como a 
psicologia podem estudar a luz e o som. Enquanto os físicos examinam os fenômenos do ponto 
de vista dos processos físicos envolvidos, os psicólogos analisam a luz e o som com base na 
experiência e na observação humanas desses fenôme nos." 
Nesse sentido, a peculiaridade, importância e distinção da psicologia, segundo o autor, advém 
da experiência pessoal, coisa de que as outras ciências não dependem e nem avaliam. A partir da 
auto-observação dos sujeitos experimentais, poder-se-á oferecer à psicologia a singularidade no 
olhar e na análise dos elementos da consciência, já que a as constatações estarão eminentemente 
vinculadas à experiência do sujeito experimental. 
• Funcional ismo 
Contrapondo-se ao estruturalismo, o funcionalismo não nasceu com o objetivo de ser 
necessariamente uma escola da psicologia, mas apenas para apresentar um horizonte distinto 
sobre a consciência (SCHULTZ; SCHULTZ, 2009). Todavia, com o passar do tempo, percebeu-se 
que a consolidação dessa escola se deu exatamente devido ao contraponto que fazia com o 
estruturalismo. 
William James é tido como o precursor do pensamento funciona lista. Contudo, sua figura 
também é tida como controvérsia no cenário da psicologia. Há quem defenda que ele foi uma 
das figuras mais importantes da psicologia do seu tempo. Entretanto, há quem o acuse de não 
contribuir com a psicologia experimental, já que ele tinha notório interesse por outras áreas do 
conhecimento contrapostas à ciência da psique, tais como: telepatia, espiritismo, misticismos e 
outros (SCHULTZ; SCHULTZ, 2009). Para Schultz e Schu ltz (2009, p. 156): "James não fundou a 
psicologia funcional, mas apresentou de forma clara e eficaz as suas ideias dentro da atmosfera 
funcionalista impregnada na psicologia americana. Dessa forma, influenciou o movimento 
funcionalista, inspirando as gerações posteriores de psicólogos." 
A geração de funciona listas construiu diversas questões sobre a consciência e, apesar de alguns 
pontos serem distintos entre eles, todos corroboravam com uma investigação da consciência que 
deveria ser em torno da função dela e da sua relação com o meio. O modo de adaptação do ser 
humano ao meio foi influenciado pelo Darwinismo (SCHULTZ; SCHULTZ, 2009) . Os funcionalistas 
se interessavam em saber resoonder "o auê" e "cor auê" os homens fazem determinadas coisas 
(BOCK; FURTADO; TEIXEIRA, 2008). 
Com o passar dos anos, o estudo das funções da consciência foi ganhando espaço nos Estados 
Unidos e se consolidando, visto que essa perspectiva possibilitava uma aplicação direta a questões 
práticas do cotidiano e da adaptação do homem ao meio ambiente. 
Metodologicamente, os funciona listas não excluem a auto-observação defendida pelo 
estruturalismo, mas sugerem cautela pois, para eles, não há garantia de que a auto-observação 
tenha sido bem fe ita. Quanto à introspecção de Wundt, eles se opõem radicalmente. 
62 
• Associacionismo 
Associar! Essa é a primeira ideia que vem à cabeça quando lemos ou ouvimos a palavra 
associacionismo. E é a isso que essa perspectiva está vinculada: ao estudo de como a associação 
de ideias constitui a aprendizagem. 
Thorndike é o principal representante dessa escola, isso porque foi o estudioso que cunhou a 
primeira teoria da aprend izagem. Essa teoria consiste na concepção de que as pessoas aprendem 
associando das ideias mais simples até chegar as mais complexas (SCHULTZ; SCHULTZ, 2009). 
Ainda estudando sobre aprendizagem, primeiramente com anima is e depois com humanos, 
Thorndike constatou que as respostas que ocorrem após uma ação podem ser faci l itadoras do 
processo. Esse processo de resposta após uma ação, o psicólogo chamou de lei do efeito (FEIST; 
FEIST; ROBERTS, 2015). 
Sobre a lei do efeito, ele assegurou: 
"A lei do efeito tinha duas partes. A primeira afirmava que as respostas a estímulos que são 
seguidas imediatamente por um gratificador tendem a ser fortalecidas; a segunda defendia que as 
respostas a estímulos que são seguidas imediatamente por um aversivo tendem a ser suprimidas. 
Thorndike, depois, retificou a lei do efeito, minimizando a importância dos aversivos. Enquanto 
as recompensas (gratificadores) fortalecem a associação entre um estímulo e uma resposta, as 
punições (aversivos) não costumam enfraquecer tal associação. Isto é, punir um comportamento 
apenas inibe aquele comportamento, não o suprime (FEIST; FEIST; ROBERTS, 2015, p. 308)." 
As ideias associacionistas têm uma grande influência na construção do behaviorismo 
científico, tanto no metodológico que teve como principal representante Watson, quanto no 
behaviorismo radical com Skinner. São esses três expoentes que fundamentam as abordagens 
com porta mentalistas. 
3 MATRIZES DO PENSAMENTO PSICOLÓGICO 
Como temosvisto, a Psicologia foi se constituindo a partir de horizontes distintos. Conforme 
Figueiredo (2009), esse campo do saber tem a dispersão como característica própria. No 
entanto, essa dispersão não se configura como "um caos absoluto, pois possui uma organização 
subterrânea" (FIGUEIREDO, 2009, p. 24). 
Essa organização se dá através do que Figueiredo (2009) nomeia de matrizes do pensamento. 
Ou seja, as perspectivas distintas teórico e metodologicamente encontram pontos de intersecção 
que as colocam dentro de matrizes. Há duas obras de Figueiredo que falam sobre as matrizes do 
pensamento psicológico. 
63 
A obra mais completa é "Matrizes do Pensamento Psicológico", escrita no ano de 1991 
(FIGUEIREDO, 2014). Nessa obra, o autor discute de forma mais abrangente as diversas matrizes, 
tais como as enumeradas abaixo. 
• Nomotética. 
• Atomicista e mecanicista. 
• Funcionalista e organicista americana. 
• Funcionalista e organicista europeia. 
• Ambientalista e nativista. 
• Vitalista e naturalista. 
• Matrizes compreensivas. 
• Fenomenológicas e existencialistas. 
No entanto, ele também subdivide as matrizes anteriormente mencionadas em matrizes 
cientificistas, românticas e pós-românticas. Dentro que cada matriz, encontram-se as submatrizes. 
3.1 Matrizes cientificistas 
A grande matriz chamada de cientificista é composta por todas as matrizes que buscam fazer 
ou atrelar a psicologia à ciência natural. Segundo Figueiredo (2009, p. 24-25): 
Denominam matrizes cientificistas a todas as matrizes a partir das q uais a psicologia vem ser 
concebida em praticada como ciência natural {de acordo, naturalmente, com os modelos de ciência 
natural disponíve·,s no século XIX); todas pressupõem a crença numa ordem natural e diferem apenas 
na forma de considerarem nesta ordem; as psicologias geradas por essas matrizes ser iam construídas 
como anexos ou segundo os modelos de outras ciências da natureza, como, por exem plo, a biologia. 
Como as dema·,s ciências naturais, as psicologias estariam destinadas a fornecer um conhecimento úti l 
para previsão e controle dos eventos psíquicos e comportamentais. 
Nesse rol, encontramos as matrizes: nomotética e quantitificadora; atomicista e mecanicista; 
funcionalista e organicista. Cada qual ao seu modo, subsidiam práticas psicológicas com aquelas 
metodologias de controle, previsibilidade e imutabilidade. Clique abaixo e conheça detalhes. 
• Nomotética e quantificadora 
A matriz de caráter nomotético e quantificador indica que o comportamento precisa ser 
classificado em le is gerais. Nesse sentido, o profissional precisará construir hipóteses, tecer a 
dedução e testar (mensurar) a hipótese levantada. 
64 
• Atomicista e mecanicista 
Para a matriz atomicista e mecanicista, o profissional necessita estabelecer as relações de 
causa e efeito. É um olhar unidirecional que busca encontrar os fios determinantes entre os 
acontecimentos e propor análises probabilísticas. 
• Funcionalista e organicista 
Ja a mau1z runc1ona11sca e organic1sca, apesar oe camoem ouscar compreenoer as 
relações causais, entende a ressonâncias de uma coisa na outra dentro de um horizonte de 
interdependência. Além disso, está eminentemente vinculada à noção de adequação do homem 
no mundo. 
3.2 Matrizes românticas e pós-românticas 
As matrizes românticas e pós-românticas se opõem diretamente à supremacia da 
matematização enquanto metodologia de conhecimento. A psicologia, sendo a ciência do 
comportamento humano, não deveria, portanto, se atrelar às metodologias das ciências naturais, 
visto que comportamentos são formas de expressão, produtos de uma subjetividade singular que 
se mostra nas ações (FIGUEIREDO, 2009). Sobre as matrizes românticas, assinala o autor: 
Enquanto as psicologias engendradas por matrizes cientificistas propunham se como 
conhecimento apto a previsões e controles e, nesta medida, se obrigavam a explicar os eventos 
psíquicos e comportamentais inserindo-os numa ordem r\atural, as psico!ogias engendradas a partir de 
matrizes românticas t em como meta compreender, ou seja, gerar conhecimentos aptos à apreensão 
das formas expressivas. A meta deste conhecimento seria de ampliar a capacidade de comunicação 
entre os homens e de cada um consigo mes mo. 
As matrizes que compõem esse grande grupo das matrizes românticas são: a vitalista e 
naturalista; e a compreensiva. Para a primeira, é possível fazer uso da classificação, mas esse 
não é o princípio fundamental da psicologia. O fundamenta l estaria na lida com a vida. Segundo 
Figueiredo (2014), a bioenergética, criada por Wilhelm Reich, e que trabalha as emoções do 
indivíduo em relação com o corpo, têm marcas do vitalismo e naturalismo. Outra abordagem que 
poderia ser situada nesse diálogo é a Terapia Gestalt, que busca a experiência holística do sujeito 
situada no aqui e agora (FIGUEIREDO, 2014). 
Atreladas a matrizes românticas, estariam as matrizes compreensivas. Dentro dessas há: o 
historicismo idiográfico,o estruturalismo e a fenomenologia. No entanto, Figueiredo (2014) analisa 
que as perspectivas presentes nessa matriz são contraditórias, visto que apenas a perspectiva 
idiográfica é essencialmente compreensiva. O estruturalismo tende a um cientificismo, enquanto 
a fenomenologia é epistemologicamente antirromântica. 
Essa matriz é um tanto contraditória, pois apenas o idiográfico é propriamente compreensivo, 
o estruturalismo tende ao cientificismo e a fenomenologia é antirromântica . Mas o que faz com 
que essas perspectivas distintas ainda assim estejam juntas? Para Figueiredo (2014, p. 33): 
No entanto, uma coisa as unifica: O que as unifica é visar - mediante os mais diversos 
procedimentos - a experiência humana inserida no universo cultural, estrut urada e definida por ele, 
manifesta simbolicamente. Diante dos fenômenos vitais de natureza expressiva coloca-se a exigência 
de compreensão, que se converte em interpretação quando a compreensão imediata bloqueada. 
Mas do que se trata cada uma, para além do que as unifica? Quais as distinções? Veja as 
definições clicando abaixo. 
• Historicismo idiográfico 
Para o historicismo idiográfico, o objetivo da psicologia é buscar compreender, 
hermeneuticamente, a vivência de um sujeito. 
• Estruturalismo 
O estruturalismo defende que, para compreender o comportamento, é necessário investigar 
a estrutura da consciência. 
• Fenomenologia 
A fenomenolrn1ia asse,rnra oue n1ío h~ uma estrutura orévia oue conduza acões. oois oara a 
epistemologia fenomenológica, a consciência é intencional, ou seja, é sempre consciência de algo 
e, portanto, é estabelecida em uma relação. 
Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 
No entanto, para Figueiredo (2009), há uma distinção entre as matrizes românticas e pós-
românticas. Para ele, nas matrizes pós-românticas, 
66 
[ ... ] o que observamos é o resgate da grande questão colocada pelas matrizes românticas, a 
questão da compreensão, aliado à renúncia à esperança de uma apreensão fácil e imediata do sentido. 
Para essas matrizes o sentido dos atos, dos produtos e das obras não coincide com as vivências que 
lhes correspondem, supõe-se que por trás dos sentidos haja outros sentidos e por t rás destes haja 
processos em mecanismos geradores de sentido e que nada disso se dê espontaneamente a nossa 
consciência. Seria preciso, portanto1 elaborar métodos e técnicas e critérios interpretativos que 
nos permitam ir além de uma compreensão ingênua e autocentrada dos outros e de nós mesmos 
(FIGUEIREDO, 2009, p. 25). 
Conhecer os pontos de intersecção e d istanciamentosdas matrizes do pensamento psicológico 
favorece um o lhar amplo para as epistemologias/teorias que subjazem cada perspectiva 
de prática. Esse conhecimento é importante para que se perceba que, apesar da psicologia 
ser um campo de dispersão e multifacetado, não dá para estabelecer um ecletismo, ou seja, 
adotar indiscriminadamente vários horizontes teóricosque em alguns pontos se contradizem, 
mas também não dá para se fechar no dogmatismo de conceber apenas uma linha teórica 
como verdadeira, visto que, ao seu modo, cada uma contribu i para a ciência, para a profissão 
e sobretudo para as pessoas e os setores que necessitam dos serviços dos profissionais da área 
(FIGUEIREDO, 2009). 
A atuação dar-se-á eticamente a partir da situação profissional que, reconhecendo a sua 
morada, ou seja, a sua teoria, os limites e as possibilidades de atuação e intervenção, se abrirá 
à alteridade da prática, desa lojando-se constantemente e revisitando continuamente seus 
arcabouços técnicos, teóricos e suas experiências profissionais e existenciais. 
fJ 
Nesta unidade, você teve a oportunidade de: 
• estudar sobre as abordagens nomotéticas; 
• conhecer a influência metodologia idiográfica nas abordagens mais compreensivas; 
• reconhecer as ressonâncias da fi losofia na psicologia; 
• aprender sobre as primeiras escolas da psicologia; 
• compreender os pontos de interseção entre as abordagens, a partir da mat riz de 
cada uma. 
-
BOCK, A. M. B. A evolução da Psicologia. ln: BOCK, A M. B. Psicologias: uma introdução 
ao estudo de psicologia. São Paulo: Saraiva, 2008. 
COTRIM, G.; FERNANDES, M. Fundamentos da filosofia e manual do professor. São 
Paulo: Saraiva, 2016. 
FIEST, J.; FIEST, G. J.; ROBERTS, T. Teorias da Personalidade. Porto Alegre: AMGH, 2015. 
FIGUEIREDO, L. C. M.; SANTI, P. L. R. Psicologia: uma (nova) introdução. São Paulo: Educ, 
2006. 
FIGUEIREDO, L. C. M. Revisitando as psicologias: da epistemologia à ética das práticas e 
discursos psicológicos. Petrópolis: Vozes, 2009. 
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GAUER, G. Desenvolvimento da Psicologia Experimenta l. 2007. Disponível em: http:// 
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RESENDE-JUNIOR, J. A crítica metodológica das ciências de Wilhe lm Windelband. 
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TAVARES, M. Validade Clínica . Psico-USF, v. 8, n. 2, p. 125-136, jul./dez. 2003. 
UNIDADE 4 
Psicologia(s) e a diversidade como 
conhecimento 
Introdução 
Olá, 
Você está na unidade Psicologia(s) e a Diversidade como Conhecimento. Conheça aqui 
as contribuições da Fenomenologia e do Existencialismo aos processos formativos da 
Psicologia cientffica; a constituição da Psicologia como ciência independente, seus 
percursos hist óricos e sua contribuição para o espírito científico na modernidade. 
Estude nesta unidade alguns aspectos importantes da plural idade do objeto de estudo 
da Psicologia, suas escolas de pensamento; algumas das principais teorias e sistemas em 
Psicologia, a diversidade teórica e os planos de interfaces da Psicologia, além dos seus 
desafios como ciência e profissão. 
Bons estudos! 
1 FENOMENOLOGIA E EXISTENCIALISMO 
A Fenomenologia e o Existencia lismo são bases filosóficas do pensamento que concorrem 
para a produção da Psicologia científica, subsidiando e se constituindo em base epistemológica 
importante para a sistematização da área humana do conhecimento. 
Obtenha informações a respeito de cada uma. 
• Fenomenologia 
A Fenomenologia, segundo Martins e Farinha, (1984) constitui-se como ideia, diferenciando-
se de um campo conceituai, pois, enquanto ideia, apresenta uma perspectiva de conhecimento 
de um fenômeno sem a pretensão de uma teoria acabada. 
O acesso ao fenômeno de fato será garantido por meio de um processo expl icativo que 
se distancia da revelação cientifica posta em termos de positividade das verdades sobre os 
objetos advindos da rigorosa, porém exclusiva, aplicação de métodos e técnicas que se afastam, 
naturalmente, do plano filosófico explicativo do fenômeno. 
O fato de encontrarmos na fenomenologia elementos de uma filosofia em sua essência repõe 
no campo do conhecimento psicológico sobre o homem a sua cond ição de pensar sobre as coisas 
humanas na condição humana, ou seja, de ver e de falar dos elementos perceptivos, subjetivos, 
que correspondem à existência do próprio homem. 
A resposta à pergunta "o que é Fenomenologia?", feita por Merleau-Ponty (apud MARTINS; 
FARINHA, 1984, p. 58) aponta para "o estudo das essências, é uma filosofia que recoloca as 
essências na existência: uma fi losofia para a qual não se pode compreender o homem e o mundo 
senão a partir de sua facticidade". 
Compreendendo a condição humana como campo de um conhecimento que também pode 
ser sistematizado por racionalidades diferentes daquelas experimentadas no plano das ciências 
naturais, a Fenomenologia passa a ser também um método de investigação dessa condição humana 
posta em análise a partir dos elementos constitutivos de seu modo único de ser e estar no mundo. 
• Existencialismo 
O Existencialismo, enquanto escola filosófica, corresponde ao pensamento direcionado a 
compreender o ser humano nas suas ações, seus sentimentos e suas vivências na sua singularidade 
de experiência vital. 
Critelli (1984), ao explicar o existencialismo pela perspectiva heideggeriana, sugere uma 
analogia como a leitura de um poema, admitindo que a poesia não carece de j ustificativas nem 
72 
de explicações; ela denuncia, revela, brinca e alerta, assim, torna evidentes os sentidos que cada 
um julga pertinente a partir de sua leitura. 
Em suma, o Existencialismo, assim como a poesia, sugere que não há uma única forma de 
apreender o fenômeno, e que essas maneiras podem ser uma forma legítima de apreensão da 
realidade sem a condição de uma lógica pré-existente. 
1.1 Campo teórico e contribuições para a Psicologia 
A principal questão levantada por essas áreas do conhecimento pode ser trazida pela 
preocupação que têm sobre a problematização da ideia da verdade, pois tal ideia constitui a 
essência dos entes; a mesma não se encontra no objeto a priori, ela se realiza na apreensão 
particular dos fenômenos e sua busca se transforma em conhecimento de fato. 
Tal conhecimento só será tangível na compreensão de que a Fenomenologia conduz a um 
método de acesso à realidade concreta do mundo enquanto método, se preocupando em 
fundamentar a significação de modo particular de construção do saber. 
Enquanto terreno filosófico de compreensão e método de análise, a Fenomenologia se torna 
uma forma de apreensão do fenômeno humano a partir da superação dos posicionamentos 
dicotômicos, tradicionalmente utilizados pelo pensamento científico moderno, em relação à 
concepção de sujeito como sendo aquele que observa e objeto como algo a ser observado. 
Tal posicionamento implica o pensamento em uma suspensão dos paradigmas totalizantes do 
empirismo, idealismo e positivismo, presentes na história do conhecimento da humanidade, ou 
seja, propondo uma outra alternativa para a pesquisa e, consequentemente, para a produção do 
conhecimento científico. 
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73 
~ A l.UN=> 111 U UJ,AU UA t"':)ll.ULU\.:J IA l.UIVIU l.l~Nl.lA 
A constituição da Psicologia como ciência se confunde com a própria história das Ciências 
Humanas ao deslocar o pensamento de uma investigação de base filosófica para a composição de 
um corpo teórico e conceituai que explicasse o fenômeno humano com objetividade e por meio 
de apl icaçõesde mét odos, que demonstrem o caráter universa l do conhecimento produzido 
sobre o homem, dando, ao mesmo, efetivas cond ições objetivas e concretas para conduzir o 
pensamento para novas descobertas e linear progresso de acréscimo de saber. Obtenha mais 
informações abaixo. 
Com tal conhecimento e sabedores dos processos e métodos para se atingir o máximo de 
consciência possível sobre ele, os representantes de tal conhecimento estariam em vantagem 
e com melhores condições de "corrigir" o "desvio natural" vivenciado pela humanidade. Assim, 
devolveriam aos homens as faculdades de revelar os segredos dos fenômenos do mundo, prever 
seus comportamentos e direcioná-los de modo a conquistar e dominar a vida que se conhecia 
até então. 
Olhando hoje para esse evento - o advento do conhecimento científico - na linha do tempo 
da história humana sobre a terra, parece-nos, de forma simplista a considerar, que trata-se de 
uma proposição quase certa a se chegar, dada a forma como concebemos a humanidade em sua 
racionalidade e curiosidade inerente para os fatos naturais e humanos. 
Seria mesmo apenas uma questão de tempo para que os homens pensassem de maneira 
lógica e racional até chegarem aos princípios de um modo eficaz, eficiente e criativo de dominar 
e produzir o mundo a fim de atender às suas reais e vitais necessidades básicas. Mas quais seriam 
tais necessidades básicas? O homem é natural, mas transcende à natureza; é um ser vivo, mas 
vive de modo diferente de qualquer outro ser vivo! 
A tradição do pensamento fi losófico sobre as condições vita is do mundo e do homem é 
tensionada até o limite daquilo que viria a se produzir como uma nova maneira de responder às 
questões da humanidade ao se transferir a pergunta desencadeadora sobre o sentido da vida para 
a busca de se conhecer, explicar e controlar a Vida, com suas bases físicas e orgânicas passando 
a investigar o corpo, estrutura e funcionamento, descobrindo-se, mais uma vez, um universo de 
conhecimentos a serem desvelados sobre o homem e inaugurando um caminho sem precedentes 
na história da humanidade: o procedimento científico. 
2.1 Percursos históricos 
Como podemos estudar junto de Bock, Furtado e Teixeira (2008), a Psicologia científica tem 
uma história própria que ora se confunde com a própria história das Ciências Humanas. 
74 
O desenvolvimento de um pensamento específico sobre a psicologia humana e seus 
diferentes modos de se expressar e dar-se a conhecer também está presente e se revela por 
meio das práticas sociais vivenciadas e experienciadas pelos diferentes grupos humanos, nas 
mais diferentes cu lturas e práticas cotidianas, dadas ao conhecimento por intermédio de histórias 
orais e compartilhamento também de registros escritos. 
Desse modo, mesmo apontado para um moment o específico e objetivo da história da 
ciência psicológica sendo inaugurada em Leipzig, na Alemanha de Wilhem Wundt (1832-1920), 
com o laboratório de Psicologia Experimental, não podemos deixar de referenciar a história da 
antiguidade grega e sua contribuição para a composição de um rede complexa de saberes que 
mais tarde se constituiria como base, não somente para a Psicologia científica, mas de todo corpo 
de conhecimento científico da era moderna. 
Não podemos tratar tais conhecimentos como se referindo a um corpo de conhecimentos 
psicológicos, pois não havia essa preocupação na antiguidade grega ou na posterior tradição romana. 
Era, sim, a busca pela definição de um espírito humano, algo que definisse os aspectos inerentes à 
interioridade subjetiva ligada aos sentimentos e afetos constitutivos da experiência emocional. 
Para tratar a história da Psicologia científica, Figueiredo e Santi (2008) vão buscar no processo 
histórico da formação das ciências denominadas humanas e sociais as condições necessárias para 
o seu "aparecimento" como ciência independente, e apresentam as seguintes condições, 
[ ... ] (além, naturalmente, da crença de que a ciên(1a com seus métodos e técnicas rigorosas é um 
meio insubstituível para o conhecimento): a) uma experiência muito clara da subjetividade privatizada; 
e b) a experiência da crise dessa subjetividade (FIGUEIREDO; SANTI, 2008, p. 19). 
Desse modo, as pistas deixadas pelos autores nos conduzem para a compreensão de que, 
junto ao "espírito científico" do século XVII, revelou-se o projeto da Revolução Científica e o 
paradoxo da Psicologia, também apontado por Si lva e Mendes (2017, p. 63), pois, 
[ ... ] para garantir seu status de ciência - e co m isso a execução das normas científicas para a 
legitimação de sua teoria e prática-, a Psicologia predsou ser leal em relação ao seu objeto de estudo 
- o que exigiu o d·istanciamento de uma busca ao absoluto em defr,mento da diversidade imanente ao 
homem - o que a levou ao campo da pluralidade. 
É nesse cenário de profundas transformações para o modo de ser e estar no mundo que o 
homem da renascença se lança em uma jornada sem precedentes históricos e com vistas a uma 
vivência tão potente que transformaria o seu modo de se relacionar com o mundo e revolucionaria 
as artes, as religiões, comércios, cultura e sociedade, de um modo geral. Isso obrigou o homem 
daquele período a inventar-se a si mesmo como um dado subjetivo e "revelar", no centro das 
novas descobertas de saberes, agora científicos, a consciência como resposta para seus maiores 
dilemas (Quem sou Eu? De onde Eu venho? Qual a minha missão, o meu propósito de vida?). Com 
certeza, se ainda não nos fizemos essas perguntas, j á as encontramos em algum questionamento 
artístico, teórico, filosófico, religioso, cultural ... 
2.2 Problematização do pensamento científico: a contribuição da 
Psicologia 
Na onda dos fatos que concorrem para o apontamento dos avanços científicos como centrais 
para o desenvolvimento humano, vivenciamos, no século XIX, o apogeu do modo capitalista de 
produção em uma escala industrial imensa e irreversível. Assim, encontrou-se, no princípio da 
eficiência e eficácia do conhecimento científico, respaldo para os avanços técnicos e tecnológicos 
iluminados pela racionalidade de produção cada vez maior e mais rápida devido ao controle e 
diminuição das falhas estudadas e corrigidas no processo. 
Essa mentalidade favorece o aparecimento de um campo de investigação tão empolgante e 
necessário acompanhamento quanto o plano tecno lógico, qual seja, a área das Ciências Humanas. 
Assim, para conhecer o modo de funcionamento e de pensar do ser humano, era necessário 
estudar e compreender os mecanismos do cérebro, lugar onde reside a psiquê humana, a qual 
comanda toda a rede neural que faz com que os homens respondam aos estímulos físicos de 
forma motora, além de ser onde também reside toda a subjetividade associada às emoções, 
sensações e percepções humanas. 
Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 
A aproximação do campo da Psicologia com a Fisiologia e Neurofisiologia foram fundamentais 
para avanços no campo da Neuroanatomia. Além disso, "a descoberta que a atividade motora 
nem sempre está ligada à consciência, por não estar na dependência dos centros cerebrais 
superiores" (BOCK, FURTADO; TEIXEIRA 2008, p. 37), abriu caminho para o estudo dos fenômenos 
psicológicos através da Psicofísica. 
76 
Foi por meio dessa área que os cientistas tentaram explicar a percepção das cores através da 
fisiologia do olho, uma perspectiva inédita e reveladora de proposições até então impensadas 
para a compreensão do fenômeno da visão humana. 
Na orientação desse pensamento científico, a Psicologia consegue mensurar a relação entre 
estímulo e sensação através dos estudos de Fechner e Weber que postulam uma lei de progressão 
de percepção e estímulo, onde a primeira aumenta em progressão aritmética e a segunda em 
progressão geométrica. 
Outro marco tão importante quanto esse é a criação do laboratório de Wundt em Leipzig, 
Alemanha, dedicado para a pesquisa científica na área de Psicofisiologia.Segundo esse 
pesquisador, os fenômenos mentais corresponderiam aos orgânicos, o que é denominado 
paralelismo psicofísico. Para se ter acesso à mente e à consciência dos sujeitos em laboratório, 
Wundt usa o método de introspecção, no qual um sujeito previamente treinado seria capaz de 
dizer o caminho que um estímulo orgânico faria em seu corpo até chegar a sua mente. 
Figura 1- O cérebro humano 
Fonte: GraphicsRF, Shutterstock, 2020 
Lobo occipital 
# ParaCegoVer: A imagem apresenta o cérebro humano com legendas em suas partes: lobo 
frontal, lobo parietal, lobo temporal, medula espinhal, cerebelo. Ilustra o interesse das novas 
pesquisas científicas voltadas para a busca de responder onde está a mente nessa estrutura e 
como ela se relaciona com a totalidade do corpo orgânico. 
Eis o início da Psicologia como ciência independente. Suas origens se aproximam das ciências 
fisiológica, neu roanatômica e neurofisiológica para constituir-se no plano das realidades empíricas 
e concretas do ser humano, mas também delas se afastam quando começa-se a compreender e a 
lançar novas luzes às questões, não tão novas, mas que não encontram respaldos expl icativos nas 
bases orgânicas e funcionais do sistema nervoso. 
Afinal, a experiência da subjetividade, tão associada às transformações históricas vivenciadas 
pelo homem, sobredeterminou um modo de pensar o mundo de maneira única e criou as 
condições para que o registro da individualidade do sujeito se constituísse em uma ide ia de 
eu, cuja crise acarretará na criação de uma Psicologia. Esta, talvez, ma is humana e próxima às 
incertezas desse novo objeto de investigação, exigindo um rigor científico, diferente daquele 
proposto pelas ciências naturais, contribu indo assim para a reinvenção científica de si mesmo 
como objeto e sujeito de investigação. 
3 A UNICIDADE OU PLURALIDADE DO OBJETO DA 
PSICOLOGIA 
Em se tratando de estudos em Psicologia, não podemos deixar de levar em consideração o 
caráter controverso de suas escolas e sistemas de pensamentos, suas contribuições científicas 
de diversas matrizes de conhecimento, que se aproximam ou se repelem em contradições 
teórico-filosóficas, tornando impossível a tarefa de aglutinar em um mesmo campo de análise os 
fenômenos denominados psicológicos. 
Desse modo, se um dia houve un icidade de objeto, foi somente pela caracterização de 
um plano hegemônico de ideias que excluía qualquer outra possibi lidade de investigação ou 
apreensão do fenômeno humano em sua heterogenia. 
Quanto a essa ideia, poderíamos mesmo pensar nos primórdios da Psicologia Científica, 
cuja ideia central residia na necessidade de transformar todo o conhecimento em termos de 
objetividade quantificável e tratável por meio de técnicas e métodos específicos comparti lhados 
pelo modelo da ciência Física. 
Assim, o objeto da Psicologia estaria circunscrito ao centro de investigação proposto pelos 
primeiros laboratórios de investigação e estudos dos fenômenos psíquicos humanos, recordando 
as percepções, sensações e comportamentos observáveis. 
Como desdobramento epistemológico dessa forma "fechada" e "objetivada" de compreender 
o fenômeno psicológico humano, encontra-se no legado histórico das discussões e dos 
questionamentos acerca da condição humana e de seus sentidos um outro entendimento que, 
mais tarde, constituirá a "subjetividade" como objeto específico da Psicologia. Segundo Bock, 
Trassi e Teixeira (2008, p. 22): 
78 
Nossa matéria-prima, portanto, é o ser humano em todas as suas expressões, as vísfveís (o 
comportamento) e as invisíveis {os sentimentos), as singulares {porque somos o que somos) e as 
genéricas (porque somos todos assím)-é o ser humano-corpo, ser humano-pensamento, ser humano-
afeto, ser humano-ação e tudo isto está sintetizado no termo subjetividade. 
Uma compreensão mais aberta do que representa a Psicologia para as ciências humanas 
se consolidará e val idará as intervenções propostas nos termos de uma efetiva pluralidade de 
objetos, respeitados seus planos teóricos e metodológicos de acesso e produção de conhecimento, 
UCI I IICOIIUV c...,,., ... c,11v1v51a.> ........ e, ªt-'C.>OII uc UIICICl l 'I.C.> c;1, .... ua111.v 110'1.UIC'-O e "-'""'JCI.V uc IIIVC.>'1.15ayav, 
tornam-se complementares dada a complexidade do fenômeno a ser investigado, ou seja, a 
condição humana e seus efeitos no mundo. 
3.1 Dos sistemas às escolas do pensamento psicológico 
Para tratarmos dos sistemas às escolas do pensamento psicológico, é importante dizer que, 
segundo os estudiosos da história da Psicologia, apesar de seu início apontar para a Alemanha, 
mais precisamente no laboratório experimenta l de Leipzig, com Wundt, Fechner e Weber, foi 
nos Estados Unidos, potência capital ista em expressiva ascensão, que a Psicologia expandiu seus 
conhecimentos e ganhou destaque científico, derivando as primeiras abordagens ou escolas e 
dando origem às diversas teorias do seu campo teórico. 
São três as abordagens, a saber: Funcionalismo, Estruturalismo e Associacionismo. 
Acompanhe as definições aba ixo. 
• Funcional ismo 
O Funcionalismo é a primeira abordagem genuinamente americana, desenvolvida por 
William James (1842 - 1910), que buscou responder ao senso prático de sua cultura, elegendo 
a consciência como meio para responder a duas questões fundamentais no entend imento do 
homem e sua melhor adaptação ao meio - o objeto das ações humanas e suas motivações. 
• Estruturalismo 
Na segunda abordagem, o Estruturalismo terá a fundamental participação de Wundt e seus 
estudos, porém, este será representado por seu seguidor, Titchener, autor do termo que identifica 
essa abordagem em diferenciação ao Funciona lismo de Wi lliam James. Apesar de também se 
interessar pela consciência enquanto objeto de estudo, seus esforços serão direcionados para 
a investigação de seus aspectos estruturais, como nos apresentam Bock, Furtado e Teixeira 
(2008, p. 41), "[ ... ] os elementos da consciência como estrutura do sistema nervoso central. [ ... ] 
O método de observação de Titchener, assim, como o de Wundt é o introspeccion ismo, e os 
conhecimentos psicológicos produzidos são eminentemente experimentais, isto é, produzidos a 
partir do laboratório." 
• Associacionismo 
A terceira abordagem corresponde ao Associacionismo de Edward L. Thorndike, que, a partir 
de uma perspectiva utilitarista da produção científica do conhecimento, produziu a primeira 
contribu ição teórica da Psicologia à aprendizagem. Nessa teoria, a aprendizagem acontece por 
meio da associação de ideias, sendo as mais simples as primeiras a serem assimiladas sobre um 
tema, para posterior apreensão das ide ias mais complexas. 
Thorndike também terá grande importância, mais tarde, para a Psicologia Comportamentalista, 
ao sistematiza r a Lei do Efeito, um conheciment o pautado na continuidade de um comportamento 
de um organismo vivo caso o mesmo seja recompensado no momento em que aparece, ou, por 
out ro lado, se extinguiria, caso fosse castigado. 
O legado desses sistemas e escolas do pensamento psicológico irá compor um terreno 
frutífero para o desenvolvimento e surgimento de novas ide ias, criação de métodos e estudos, 
além das diversas áreas de saberes específicos que invariavelmente tratarão o humano em sua 
subjetividade e manifestações, a saber: Comportamentalismo, Psicanálise, Gestalt, etc. 
3.2 As Psicologias 
Para ajustarmos o olhar para as psicologias segundo o plano constit utivo de sua diversidade 
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contribuição do pensamento dialético e do método do materialismo históricocomo produtor de 
um entendimento capaz de abarcar as características de movimento e transformação do homem 
no mundo, o qual também é por ele produzido e nele provoca transformações. 
Esse tipo de pensamento no acontecimento, no momento mesmo em que se manifesta, só se 
faz possível dentro da lógica do campo da Psicologia Sócio-Histórica de Vygostky (BOCK, TEIXEIRA; 
FURTADO, 2008). 
Referência importante para a Psicologia do Desenvolvimento e da Aprendizagem, esse autor 
contribui de maneira decisiva para a inscrição da Psicologia no plano das ciências humanas ao 
estudar o mundo psíquico como formação histórica e social da humanidade, devolvendo ao plano 
coletivo das relações humanas o sentido que também é dado ao processo de individuação e 
internalização das subjetividades. 
Nesse sentido, o que eu penso e sinto quando penso e quando sinto, apesar da experiência se 
singularizar numa certa unidade de identificação com o sujeito, ela não é privativa deste, apenas 
se constitui enquanto efeito de singularização. 
Assim, a teoria vygotskyana da Psicologia parte de duas premissas importantes: a filogenética 
e a ontogenética. Acompanhe as definições abaixo. 
• Filogenética 
Considera a atividade produtiva do homem, ou seja, o trabalho como elemento central de 
80 
nossa humanização. 
• Ontongenética 
Irá se desenvolver ontogeneticamente na apropriação que uma criança faz da cultura em seu 
plano de experiências sensíveis e mediadas pela linguagem. 
Bock, Teixeira e Furtado (2011, p. 31) colocam: 
Essa relação entre a base tilogenética e a ontogenética permite a Vygot sky considerar que o 
psiquismo humano está estruturado a partir da consciência e da atividade concreta no mundo. Que o 
pensamento (elemento básico do psiquismo) se expressa por meio da linguagem e que a linguagem é 
o elemento de mediação entre o ser humano e o mundo e a condição básica para a re lação com outro 
ser humano. 
Desse modo, não restam dúvidas quanto ao melhor modo de tratarmos o conhecimento 
psicológico sobre o homem, de situarmos a Psicologia como ciência que estuda e compreende a 
subjetividade como objeto de investigação de métodos teóricos, técnicos e filosóficos-conceituais 
em seus processos materiais e também "subjetivos", a partir de um olhar que tem na sua 
multideterminação a heterogeneidade do homem e seus efeitos. As Psicologias são as melhores 
expressões desse entendimento. 
4 PRINCIPAIS TEORIAS E SISTEMAS ATUAIS DA 
PSICOLOGIA 
Como vimos, a Psicologia científica é o efeito de um processo dinâmico de modos de 
operar o pensamento que ainda hoje se faz presente nas teorias psicanalíticas do inconsciente, 
o Behaviorismo (ou comportamentalismo), estudo do comportamento, a Gestalt (psicologia 
da forma), o Psicodrama, o Humanismo, além da própria Psicologia Histórico-Cultural, acima 
apresentada. 
Conforme Bock, Furtado e Teixeira (2011), o que se apresentou até aqui enquanto matrizes 
e sistemas de um pensamento psicológico precisa ser aprofundado e compreendido como uma 
possibilidade de organização desse conhecimento plu ral e diverso. 
Vale também destacar que existe uma aproximação forte na compreensão dos estudiosos da 
Psico logia, cujas matrizes modernas se encontram nas linhas de pensamento das três referências 
específicas do estudo do fenômeno humano, a saber: a Psicanálise, a Gestalt e o Behaviorismo, 
com suas histórias e fundamentos filosóficos peculiares. (BOCK, FURTADO; TEIXEIRA, 2008). 
Para saber um pouco mais como essas linhas de pensamento organizam o conhecimento 
da Psicologia, apresentaremos alguns de seus principais pressupostos, autores, e iluminaremos 
o que deverá ser trabalho de estudo dos que querem ser psicólogos ou dos que se aproximam 
de seu plano teórico-metodológico a fim de aplicações prático-profissionais ou de pesquisa 
acadêmico-conceituai. 
• Psicanálise 
Iniciemos com a Psicanálise, um dos sistemas de pensamento mais difundidos e conhecidos 
de toda a psicologia, cuja origem está intimamente associada à prática clínica. Foi em 1900 com 
a publicação da obra "A Interpretação dos Sonhos" que Freud, "[ ... ] passa a se preocupar com 
os mistérios do psiquismo humano e a desenvolver uma teoria poderosa, que vai muito além 
de uma psicopatologia e de um instrumento clínico de superação do sintoma psicológico. Nesse 
sentido, ele desenvolve uma teoria que será utilizada -além, evidentemente, daquilo que é o seu 
foco centra l - para a compreensão da subjetividade humana e das formas de la derivada" (BOCK, 
TEIXEIRA; FURTADO, 2011, p. 26). 
Com a popularização dos conceitos de inconsciente, id, ego e superego, e a busca de 
compreender a produção humana em termos de processos subjetivos tão complexos quanto a 
própria relação das dimensões interna da personalidade do sujeito, a Psicanálise ganha status de 
teoria antropológica e cultura l, permitindo uma interpretação desveladora das reais intenções 
humanas e dos segredos de suas motivações, revelando-se uma forma de análise fecunda pa ra as 
produções artísticas, ou mesmo para leitura dos acontecimentos institucionais das organizações 
e grupos, além do indivíduo. 
• Behaviorismo/Comportamentalismo 
Um outro sistema de pensamento tão forte e, principalmente, antagônico ao movimento 
psicanalítico de estudo do inconsciente, é o Behaviorismo ou Comportamentalismo. Seu 
antagonismo reside no afastamento por completo das concepções interiorizantes do fenômeno 
psíquico, buscando no plano das relações objetivas do organismo com o meio as origens e 
consequências dos comportamentos. 
Segundo Figueiredo (2008), trata-se de um sistema organizado pelo psicólogo americano J. B. 
Watson (1878-1958), que desloca as investigações científicas sobre a mente, atentando-se para 
análise do próprio comportamento e suas interações com o ambiente. 
Como principal desenvolvedor das ideias desse campo teórico, B. F. Skinner (1904-
1990) foi responsável por produzir, segundo o Figueiredo (2008), uma filosofia da Ciência do 
Comportamento, uma leitura tão inovadora e amplamente aceita entre os psicólogos de vários 
países, inclusive o Brasil, sendo reconhecido como Behaviorismo Radical. 
Na base dessa teoria está o conceito de comportamento operante, ou seja, a ideia de 
82 
que todo o comportamento é uma ação direta ou indireta sobre o mundo, o que, segundo as 
leituras skinnerianas, caracterizaria a maior parte de nossas ações no ambiente. É uma teoria tão 
complexa quanto qualquer outro campo teórico da Psicologia, e seu campo conceituai, tal como 
a Psicanálise, também foi popularizado de modo a tornar parte do cotid iano de nossas vivências 
a ideia de punição, reforçamentos, esquiva e fuga. 
• Gestalt 
Por fim, apresentamos a Psicologia da Gestalt, ou da forma, um campo teórico nascido na 
Europa que está formalmente embasado na tentativa de superação da fragmentação das ações 
e dos processos humanos realizados pelas tendências da Psicologia científica do século XIX. A 
Gestalt atua através de uma análise capaz de devolver à compreensão do fenômeno humano sua 
dimensão existencial e subjetiva. 
É, pois, através da análise fenomenológica que essa perspectiva propõe os estudos da 
percepção a partir de um questionamento fundamenta l postulado na contramão de "[ ... ] um 
princípio implícito na teoria behaviorista -o de que há relação de causa e efe ito entre o estímulo 
e a resposta - porque, para os gestaltistas, entre o estímulo que o meio fornece e a resposta 
do indivíduo, encontra-se o processo de percepção. O que o indivíduo percebe e a maneira 
como percebe são dados importantes para a compreensão do comportament o humano" (BOCK, 
TEIXEIRA; FURTADO, 2011, p. 24). 
Na perspectiva teórica em questão, o que está em processo de transformações dadas à 
análise não é o comportamento, nem tampouco a consciência ou as operações inconscientes, 
mas sim as condições presentes no momento da percepção do estímulo. 
Estão, na base deseu campo conceituai, a percepção da relação isomórfica da parte-todo 
e a tendência de estabelecer uma re lação de completude de uma figura ao avistar somente 
uma parte da mesma. Esse fenômeno da percepção é norteado pelos processos de fechamento, 
simetria e regularidade dos pontos que compõem uma figura objeto. 
É a operação do que hoje comumente reconhecemos como ilusão de ótica. 
4.1 A diversidade teórica e planos de interfaces possíveis em Psicologia 
A Psicologia se constituiu no plano das ciências humanas e daí derivou seus estudos, objetos, 
métodos e técnicas com vistas a responder às questões humanas apresentadas por diferentes 
perspectivas teóricas e filosóficas. Podemos mesmo reconhecer como fazendo parte de seus 
estudos diferentes áreas do conhecimento, além das próprias humanidades, e hoje vislumbramos 
diferentes e diversos intercessores que também permitem abrir-se em desafiantes e novas áreas 
do conhecimento científico. 
Algumas dessas áreas híbridas podem ser analisadas ao longo da prática profissional e da 
contribuição das pesquisas específicas, demandando, até mesmo, em alguns casos, a criação de uma 
área totalmente nova de atuação profissiona l, porém, com profundas raízes originárias da Psicologia. 
Um exemplo clássico desse processo é a criação da Psicopedagogia. Com esse processo, 
vislumbramos a formação dessa área independente e com recursos metodológicos de habilitação 
específica de seus profissionais, produzida pela interface entre duas áreas das ciências humanas 
- Pedagogia e Psicologia, 
Outra interface bastante difundida em com vasta produção é da Psicologia Ambiental, uma 
área de conhecimento que busca compreender as relações dinâmicas entre o homem e o meio 
onde vive, investigando como se constituem e o determinam por meio de práticas de permanência 
e pelo sentimento de pertencimento nele evocados. 
As concepções dessas áreas de conexões com outros conhecimentos produzem efeito de 
emanações de um campo conceituai que, se num primeiro momento nos remete a uma "costura 
aparente" nas zonas de toque entre uma ciência e outra, posteriormente vemos a emergência de 
um saber expresso de um modo inteiramente novo e criativo, produzido em um novo modo de 
"dizer" dos fatos, objetos e fenômenos que também os recriam numa visibilidade de descobertas e 
desafios a serem respondidos com novas metodologias, igualmente, em constante transformações. 
Utilize o QR Code para assistir ao vídeo: 
4.2 Desafios da Psicologia como ciência e profissão 
Diante da dimensão temporal, histórica, científica e de sua principa l capacidade criadora e 
disruptiva de saberes, a Psicologia é apresentada também em sua dimensão de prática social, pois 
refere-se aos fatos e feitos humanos (mesmo quando analisa as vicissitudes dos comportamentos 
animais, ou até mesmo as condições de análises de questões puramente orgânicas de estrutura 
84 
e funcionamento de um sistema simples de vida, quem está olhando, registrando, indagando e 
dando sentido ao observável é o homem), esse ser cuja capacidade de abstração de si mesmo 
permitiu-lhe pensar sobre o próprio ato de pensar como forma independente de ação no mundo. 
É pois um desafio que se apresenta ao estudo dos estudos do homem: a compreensão também 
que se faz das práticas sociais advindas desse campo do conhecimento científico, pois criou 
condições para aplicação desses saberes em diferentes modalidades de intervenção profissional 
e, com isso, dilatou, seu campo de atuação, ao mesmo tempo que exigiu novas formulações, 
alianças de saberes e interfaces metodo lógicas que sustentassem tais demandas. 
FIQUE DE OLHO 
Para maior aprofundamento dessa questão, sugerimos a leitura do artigo "Políticas Públicas 
e Direitos Humanos: Desafios à Atuação do Psicólogo", de Gesser (2013), o qual apresenta a 
atuação do psicólogo a partir de uma perspectiva ética e potencializadora do sujeito e de seu 
conhecimento sobre a humanidade. 
As práticas profissionais do psicólogo atendem desde o plano meticuloso e normativo dos 
laboratórios até mesmo a sua inserção no plano das vivências imersivas de uma cultura de uma 
população tradicional. Tais práticas encontram referência desde as atuações mais tradicionais da 
prática clínica (psicólogo clínico), hospitalar (psicólogo hospitalar), de consultório, passando pelas 
questões educacionais (psicólogo escolar/educacional), pelas demandas do mundo do trabalho 
(psicólogo organizacional), às demandas socioculturais (psicólogo social/comunitário), dentre 
outras formas já estabelecidas pelo ordenamento técnico-científico e legal da categoria. 
A compreensão da Psicologia como ciência e profissão atende aos critérios de ordenamento 
da racionalidade organizativa da sociedade onde vivemos por meio do Conselho Federal de 
Psicologia e seus Regionais, com a finalidade de garantir aos profissionais habilitados pela 
formação acadêmica da área direito ao livre exercício profissional e condições de capacitação 
técn ica para aplicação ética de seus conhecimentos. 
fJ 
Nesta unidade, você teve a oportunidade de: 
• conhecer as matrizes e teorias do pensamento psicológico; 
• estudar as escolas, seus conceitos e aplicações para a Psicologia científica; 
• aprofundar-se nas leituras do conhecimento psicológico; 
• compreender as transformações do campo conceituai e científico da psicologia ao 
longo da história; 
• analisar a Psicologia como ciência e profissão. 
BOCK, A. M. B.; FURTADO, O.; TEIXEIRA, M. de L. T. Psicologia(s): uma introdução ao 
estudo de Psicologia. 14. ed. São Paulo: Saraiva, 2008. 
BOCK, A. M. B.; FURTADO, O.; TEIXEIRA, M . de L. T. Psicologia fácil. São Paulo: Saraiva, 
2011. 
CRITELLI, D. M. Ontologia do cotidiano ou resgate do ser: poética heideggeriana. ln: 
MARTINS, J.; FARINHA, M. F. S. (Orgs.). Temas fundamentais de Fenomenologia. São 
Paulo: Editora Moraes, 1984. 
FIGUEIREDO, L. C. M.; SANTI, P. L. R. de. Psicologia: uma (nova) introdução. 3. ed. São 
Paulo: Educ, 2008. 
MARTINS, J.; FARINHA, M. F. S. (Orgs.). Temas fundamentais de Fenomenologia. São 
Paulo: Editora Moraes, 1984. 
SILVA, R. B.; MENDES, J. P. da S. Considerações sobre a constituição da ciência psicológica 
e suas implicações para a subjetividade na contemporaneidade. Revista Interdisciplinar 
INTERthesis, v. 14, n. 1, p. 60-78, Florianópolis,jan./abr. 2017. 
Teoria e sistemas é um livro direcionado para estudantes dos 
cursos de teoria e sistemas em psicologia, psicologia e correlatos. 
Além de abordar assuntos triviais, o livro traz conteúdo sobre 
atravessamentos filosóficos na psicologia, matrizes e teorias do 
pensamento psicológico, teorias, escolas e a diversidade como 
conhecimento. 
Após a leitura da obra, o leitor vai conhecer os pré-socráticos e 
o problema da "origem"; entender as ressonâncias da filosofia nas 
discussões sobre corpo-mente e saúde-doença; analisar o homem 
como sujeito e objeto de investigação científica; reconhecer as 
ressonâncias da filosofia na psicologia; aprender sobre as primeiras 
escolas da psicologia; compreender os pontos de interseção entre 
as abordagens, a partir da matriz de cada uma; saber as matrizes 
e teorias do pensamento psicológico; aprofundar-se nas leituras do 
conhecimento psicológico, e muito mais. 
Aproveite a leitura do livro. 
Bons estudos!

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