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Professor Hélbertt
Direito Penal
Hélbertt Paulo Leme dos Santos
Universidade Paulista – UNIP
Unidade de Bauru/SP
Faculdade de Direito
PLANO DE ENSINO
1. BREVE CURRICULO DO PROFESSOR
Hélbertt Paulo Leme dos Santos
hp.hp@ig.com.br
Escrivão da Polícia Civil do Estado de São Paulo de 1998 a 2005
Chefe da Seção Criminal do Ofício Judicial do Fórum da Comarca de Duartina desde 2005
Professor de Direito Penal e Direito Processual Penal no curso de Direito da UNIP desde 2008
Bacharel em Direito Pela Instituição Toledo de Ensino de Bauru/SP
Especialista em Ciências Criminais pelo LFG/UNAMA
Mestre em Teorias do Direito e do Estado pela – UNIVEM de Marília
Doutorando em Direito Penal pela Universidade de Buenos Aires - Argentina
2. IDENTIFICAÇÃO DO CURSO
Curso: Direito
Disciplina: Direito Penal
Matéria do semestre: Teoria Geral do Crime
Disciplina que visa a preparar o aluno para entender a lógica sociológica e sistêmica do Direito Penal, bem como a parte geral do Código Penal brasileiro.
3. CONTRIBUIÇÃO PARA OS OBJETIVOS DO CURSO
Permitir contextualizar o Direito, vislumbrando as normas criminais como parte significativa da ciência jurídica. Por meio da análise crítica, verificar a solidez e às vezes fragilidade de diversas normas ante os princípios norteadores do Direito Público em geral, a necessidade de respeito às garantias constitucionais que impõe limites ao ius puniendi e ao arbítrio e exigem análises técnicas dos institutos jurídicos. Além disso, verificar o fenômeno da criminalidade na atualidade e o papel do Direito Penal no combate a sse fenômeno.
4. OBJETIVOS
4.1 Geral
Permitir a análise e a compreensão dos diversos aspectos da ciência do Direito por meio de princípios, regras e conceitos, mormente acerca dos institutos que serão estudados.
4.2 Específicos
Capacitar o aluno a interpretar as normas criminais relacionando os institutos da parte geral aos crimes em espécie, sabendo aplicá-las aos casos concretos, bem como compreender a importância da análise de referidos institutos, abstratamente previsto na norma, a fim de possibilitar a solução jurídica dos fatos que lhes forem apresentados.
5. CONTEÚDO PROGRAMÁTICO
I. Linhas Gerais sobre Direito Penal
II. Direito Penal no Estado Democrático de Direito
III. Síntese Histórica do Pensamento Jurídico-Penal. 1- Tempos Primitivos. 2- Direito Penal Romano, Germânico, Canônico, Comum. 3- Escolas Penais: Clássica, Positiva, Técnico-Jurídica. 4- Evolução Histórica do Direito Penal Brasileiro: Períodos Colonial, Imperial, Republicano.
IV. Princípios do Direito Penal
VI. Interpretação da Lei Penal. 1- Analogia no Direito Penal. 2- Lei Penal em Branco. 3- Fontes do Direito Penal
VII. Aplicação da Lei Penal. 1- Anterioridade da Lei Penal. 2- A lei Penal no tempo e sua eficácia. a) Irretroatividade, b) c) Retroatividade. d) Extratividade. 3- Tempo do crime. 4- Leis penais temporárias e excepcionais
VIII. Leis penais no espaço e sua eficácia. 1- Lugar do crime. 2- Territorialidade. 3- Extraterritorialidade.
IX. Imunidades.
X. Extradição, deportação e expulsão.
XI. Disposições finais do título I do Código Penal.
XII- Conflito aparente de normas.
XIII- Teoria geral do crime. 1- Conceito, Teorias e Correntes sobre o Crime. 2- Classificação das infrações penais. 3- Análise e Caracteres do Crime sob o Aspecto Analítico. 4- Sujeitos do Crime: Ativo e Passivo; a Questão da Pessoa Jurídica. 5- Objeto material do Crime.
XIV- Elementos do Crime: Ação (Dolo e Culpa), Omissão, Nexo Causal e Resultado. 1- Conduta.
2- Teorias referentes às escolas penais: Clássica, Finalista e Social.
3- Elementos: Vontade, Finalidade, Exterioridade, Consciência. 4- Formas: Comissiva, Omissiva, Comissiva-Omissiva. 5- Elemento Subjetivo: Dolo, Culpa, Preterdolo.
XV- Nexo Causal. 1- Conceito. 2- O Dever de Agir. 3- Superveniência Causal: Absoluta e Relativa Independentes. Preexistentes, Concomitantes, Supervenientes. 4- Caso Fortuito e Força Maior. 5- Teoria da imputação objetiva.
XVI- Resultado. 1- Conceito. 2- Espécies. 3- Teorias.
XVII- Erro de tipo e erro de proibição.
XVIII- Discriminantes putativas.
XIX- Iter Criminis.1- Tentativa. 2- Desistência Voluntária e Arrependimento Eficaz. 3- Arrependimento Posterior. 4- Crime Impossível
XX- Classificação doutrinária dos crimes
6. METODOLOGIA DE APRENDIZAGEM
Em sala de aula, por parte do professor aulas expositivas, o qual, além do conteúdo programático relacionado especificamente aos institutos da parte geral do Código Penal, trará casos concretos e atuais relacionados à disciplina, bem como temas relacionados com várias áreas do conhecimento humano e úteis de forma direta ou indireta com o curso de Direito. Contudo, todo este material passado pelo professor não terá qualquer utilidade se por parte do aluno não houver aplicação no sentido de ler e estudar sozinho, buscando compreender os institutos que serão apresentados.
7. COMO ESTUDAR DIREITO PENAL
7.1. O aluno não aprenderá Direito Penal somente assistindo às aulas ministradas em sala de aula;
7.2. O aluno deve fazer uma série de leituras para conseguir compreender o Direito Penal que é uma ciência;
7.3. O aluno deve se interessar pela matéria;
7.4. O aluno deve ler o Código Penal;
7.5. Há a necessidade de compreender os institutos valendo-se de um bom livro, que pode ser algum indicado pelo professor, ou indicado por um conhecido, colega de classe ou descoberto pelo próprio aluno;
7.6. Deve ainda, se possível, fazer um estágio na área jurídica ou ao menos visitar repartições como Fórum, Ministério Público, Delegacia de Polícia, Escritórios de advocacia, Defensoria Pública, Justiça Federal, Polícia Federal etc.;
7.7. Resolvendo questões de provas de concursos públicos e da OAB.
7.8. Perguntando em sala de aula.
7.9. Debatendo os temas com os colegas de sala de aula.
7.10. Por fim, deve o aluno assistir e participar das aulas, bem como ler o material passado pelo professor.
8. ARTICULAÇÃO COM AS OUTRAS DISCIPLINAS DO CURSO
A disciplina será indissociável das demais disciplinas, principalmente Direito Processual Penal e Direito Constitucional. Além disso, sendo o Direito Penal subsidiário (como será analisado, o Direito Penal deve intervir somente quando outros ramos do Direito não forem suficientes), se vincula de alguma forma com todos os ramos do Direito.
9. AVALIAÇÃO
As provas serão compostas por questões que valerão 1,0 (um) ponto cada. As questões serão de múltipla escolha (eventualmente discursiva), questões estas extraídas de provas de carreiras jurídicas como Magistratura, Ministério Público, Defensoria Pública, OAB e outras formuladas pelo próprio professor.
10. BIBLIOGRAFIA
Bibliografia:
APOSTILA ENVIADA PELO PROFESSOR.
FERNANDO CAPEZ. Curso de direito penal: parte geral. São Paulo: Saraiva, v. 1.
ANDRÉ ESTEFAM e VICTOR EDUARDO RIOS GONÇALVES. Direito penal esquematizado, coordenador Pedro Lenza. São Paulo: Saraiva, parte geral.
DAMÁSIO EVANGELISTA DE JESUS. Direito penal: parte geral. São Paulo: Saraiva, v. 1.
JÚLIO FABRINI MIRABETE. Manual de direito penal: parte geral. São Paulo: Atlas, v. 1.
CÉSAR ROBERTO BITENCOURT. Tratado de direito penal: parte geral. São Paulo: Saraiva, v. 1.
11. MATERIAL DE APOIO PARA COMPREENSÃO DO DIREITO PENAL
1- Artigo de autoria do professor
2- Trecho do livro Vigiar e Punir de Michel Foucault (a ser enviado pelo professor)
3- Trecho do livro Dos Delitos e das Penas de Cesare de Beccaria
4- filme Minority Report
a) Para acessar o filme, escrever o que segue no you tube: Minority Report - Assistir filme completo dublado.
b) https://www.youtube.com/watch?v=XVsl4Ye720k
c) Conseguir em uma locadora.
12. TRABALHOS
Os trabalhos propostos, conforme abaixo se verá, tem como objetivo levar o aluno a passar a analisar criticamente tudo que vê por meio de livros, filmes, jornais, noticiários, internet, conversas, aulas etc.
PRIMEIRO TRABALHO - ANÁLISE DO FILME MINORITY REPORT
Análise do filme Minority Report,em face ao princípio da lesividade ou da ofensividade. A análise do filme deverá ser feita com o objetivo de responde à seguinte pergunta, que é o fio condutor da trama do filme: É lícito ao Estado se valer de métodos de combate ao crime, mesmo antes que haja a ofensa ao bem jurídico que se pretenda proteger?
PRINCÍPIO DA LESIVIDADE OU DA OFENSIVIDADE: Intitulado pelo brocardo latino 'nulla necessitas sine injuria' – não há necessidade de pena sem ofensa – este princípio é também conhecido como Princípio da Lesividade e objetiva proibir que todas as condutas que de algum modo represente ofensa ao bem jurídico sejam criminalizadas. É um princípio limitador do “jus puniende” estatal, criando balizas para o legislador e também para o aplicador do direito que devem nortear a aplicação do direito penal naquelas condutas que coloquem em risco ou em perigo de lesão as ações consideradas graves ao bem jurídico tutelado pelo ordenamento jurídico.
CRIME DE PERIGO ABSTRATO: Os crimes de perigo causam um perigo de ofensa ao bem jurídico tutelado, um perigo de dano. São tipos penais subsidiários, de forma expressa ou tácita. Quando houver dolo de causar dano ao bem jurídico tutelado, deve o sujeito responder pelo crime de dano, e não pelo crime de perigo, ainda que na modalidade tentada. Os crimes de perigo dividem-se em crimes de perigo concreto e crimes de perigo abstrato. Nos crimes de perigo abstrato, o perigo é visualizado pelo legislador ex ante, ou seja, o legislador comina uma pena à conduta pelo mero fato de considerá-la perigosa, independente da existência de perigo real no caso concreto. Já nos casos de perigo concreto, a análise do perigo é feita ex post, ou seja, cabe a verificação se a conduta gerou ou não um perigo de dano no caso concreto. Geralmente os tipos penais que contêm as expressões “gerando perigo de dano”, “expondo a perigo” são tipos penais de perigo concreto, só havendo crime se houver perigo de ofensa ao bem tutelado no caso concreto.
CRIMES DE PERIGO ABSTRATO: ATENTADO AO PRINCÍPIO DA OFENSIVIDADE
Com base no que diz o princípio da lesividade, podemos tecer uma análise sobre a constitucionalidade dos crimes de perigo abstrato, dada a relevância que este tema tem adquirido nos debates jurídicos.
Principal ponto de análise e discussão deste estudo reside na caracterização dos crimes de perigo abstrato que se posicionam contra os princípios constitucionais, principalmente ao da ofensividade. Este princípio define que as condutas somente podem ser tratadas pelo Direito Penal quando atentarem ou oferecerem perigo real aos bens tutelados juridicamente. Muitos doutrinadores defendem que ao tipificar condutas como crimes sem que ofereçam perigo concreto, o legislador atenta diretamente ao princípio da ofensividade.
Acredita-se que tal fenômeno pode ser fruto de um momento em que a sociedade virou refém da violência. Em que os recursos estatais de proteção social não oferecem a devida segurança e o poder punitivo do Estado tende a se inflar. Neste caso, o Estado que deveria agir na garantia da proteção e prevenção, acaba por agir com conduta fim, de apenas punir. Mesmo que esta punição seja de conduta meramente abstrata e subjetiva.
A respeito dessa postura do Estado ROMERO (2004) afirma que “A definição jurídica de tal modalidade delitiva dependerá não da previsão de uma conduta com probabilidade concreta de dano, isto é, de um resultado perigoso para a vida social, mas da prática de um comportamento simplesmente contrário a uma lei formal, em outras palavras, a simples realização de um ato proibido pelo legislador, sem causar necessariamente dano ou sequer um perigo efetivo à ordem jurídica. Ou seja, pune-se ainda que não ocorra o dano efetivo do bem jurídico, ou, ao menos, sua possibilidade concreta. Pune-se, pois, a mera violação normativa”.
O Estado na tentativa de proteger a sociedade e agir com prevenção ao crime, acaba por tornar como crime atitudes sem devida comprovação de perigo. Punem-se comportamentos e atitudes, onde se deveriam punir condutas comprovadamente delituosas.
Aliado ao princípio da ofensividade, outros princípios são afrontados quando se trata de crimes de perigo abstrato. Podemos citar o da intervenção mínima, da taxatividade, da presunção de inocência, da culpabilidade, dentre outros. Pois, o Estado passa a agir na tutela de bens antecipadamente, sem que a conduta ofereça perigo real ao bem tutelado. Muitas dessas condutas não se encontram expressas no código penal e são matérias de outros ramos do Direito. Há casos em que o agente ao realizar conduta de acordo com o tipo formal descrito, já passa a ser considerado culpado, contrariando o princípio da presunção de inocência em que sua culpa somente pode ser comprovada após o trânsito em julgado.
Ainda que o perigo ou o risco deva constituir a noção-chave da dialética da ilicitude penal, como síntese entre a tese do desvalor de ação a antítese do resultado, isto em nada contende com a contestação que deve merecer a tentativa de transformar o direito penal dos bens jurídicos num direito penal dos perigos”.
Não justifica, pois, que o Estado sob o lema da proteção antecipada e da ação de combate aos crimes, venha tomar por postura a criminalização apenas de condutas. Sob o risco de incorrer contra a própria liberdade da pessoa humana e contra o princípio basilar do direito que é o da dignidade. Agindo assim num âmbito subjetivo e amplo, quando na verdade o Direito Penal reside na materialidade e nas condutas restritas e do qual o Estado somente poderia se dispor em ultimo caso, ou melhor, como razão última.
SEGUNDO TRABALHO – FICHAMENTO DO LIVRO “DOS DELITOS E DAS PENAS”
DE CESARE BECCARIA
O objetivo desse trabalho é a familiaridade com o pensamento daquele que é conhecido como “pai do direito penal moderno”. Com Cesare Beccaria e sua obra “Dos delitos e das penas”, inaugura-se o período humanitário do Direito Penal. Para entender o que Cesare de Beccaria queria defender com sua obra, necessário se faz vislumbrar o que era o direito penal em seu tempo. Para tanto, segue o trecho de outra obra fundamental para se entender o direito penal, MICHEL FOUCAULT VIGIAR E PUNIR - NASCIMENTO DA PRISÃO - Tradução de Raquel Ramalhete. 29ª Edição. EDITORA VOZES. Petrópolis 2004:
O trabalho consiste em: Com base nos Capítulos I ao XXIII da obra “Dos delitos e das penas”, bem como no trecho abaixo de “Vigiar e punir”, elaborar um texto, de no máximo duas laudas, sobre o que vem a ser um direito penal que respeita a dignidade da pessoa humana e no que o livro analisado contribuiu para o surgimento de um direito penal com essas características.
SUPLÍCIO. Capítulo I: O corpo dos condenados [Damiens fora condenado, a 2 de marco de 1757], a pedir perdão publicamente diante da porta principal da Igreja de Paris [aonde devia ser] levado e acompanhado numa carroca, nu, de camisola, carregando uma tocha de cera acesa de duas libras; [em seguida], na dita carroca, na praca de Greve, e sobre um patibulo que ai sera erguido, atenazado nos mamilos, bracos, coxas e barrigas das pernas, sua mao direita segurando a faca com que cometeu o dito parricidio, queimada com fogo de enxofre, e as partes em que sera atenazado se aplicarao chumbo derretido, oleo fervente, piche em fogo, cera e enxofre derretidos conjuntamente, e a seguir seu corpo sera puxado e desmembrado por quatro cavalos e seus membros e corpo consumidos ao fogo, reduzidos a cinzas, e suas cinzas lancadas ao vento.
Finalmente foi esquartejado [relata a Gazette d'Amsterdam]. (2) Essa ultima operação foi muito longa, porque os cavalos utilizados não estavam afeitos a tração; de modo que, em vez de quatro, foi preciso colocar seis; e como isso não bastasse, foi necessário, para desmembraras coxas do infeliz, cortar-lhe os nervos e retalhar-lhe as juntas...
Afirma-se que, embora ele sempre tivesse sido um grande praguejador, nenhuma blasfêmia lhe escapou dos lábios; apenas as dores excessivas faziam-no dar gritos horríveis, e muitas vezes repetia: "Meu Deus, tende piedade demim; Jesus, socorrei-me". Os espectadores ficaram todos edificados com a solicitude do cura de Saint-Paul que, a despeito de sua idade avancada, não perdia nenhum momento para consolar o paciente.
[O comissário de policia Bouton relata]: Acendeu-se o enxofre, mas o fogo era tão fraco que a pele das costas da mão mal e mal sofreu. Depois, um executor, de mangas arregaçadas acima dos cotovelos, tomou umas tenazes de acho preparadas ad hoc, medindo cerca de um pé e meio de comprimento, atenazou-lhe primeiro a barriga da perna direita, depois a coxa, dai passando as duas partes da barriga do braço direito; em seguida os mamilos. Este executor, ainda que forte e robusto, teve grande dificuldade em arrancar os pedaços de carne que tirava em suas tenazes duas ou três vezes do mesmo lado ao torcer, e o que ele arrancava formava em cada parte uma chaga do tamanho de um escudo de seis libras.
Depois desses suplícios, Damiens, que gritava muito sem contudo blasfemar, levantava a cabeça e se olhava; o mesmo carrasco tirou com uma colher de ferro do caldeirão daquela droga fervente e derramou-a fartamente sobre cada ferida. Em seguida, com cordas menores se ataram as cordas destinadas a atrelar os cavalos, sendo estes atrelados a seguir a cada membro ao longo das coxas, das pernas e dos braços.
O senhor Le Breton, escrivão, aproximou-se diversas vezes do paciente para lhe perguntar se tinha algo a dizer. Disse que não; nem e preciso dizer que ele gritava, com cada tortura, da forma como costumamos ver representados os condenados: "Perdão, meu Deus! Perdão, Senhor". Apesar de todos esses sofrimentos referidos acima, ele levantava de vez em quando a cabeça e se olhava com destemor. As cordas tão apertadas pelos homens que puxavam as extremidades faziam-no sofrer dores inexprimíveis. O senhor Le Breton aproximou-se outra vez dele e perguntou-lhe se não queria dizer nada; disse que não. Achegaram-se vários confessores e lhe falaram demoradamente; beijava conformado o crucifixo que lhe apresentavam; estendia os lábios e dizia sempre: "Perdão, Senhor".
Os cavalos deram uma arrancada, puxando cada qual um membro em linha reta, cada cavalo segurado por um carrasco. Um quarto de hora mais tarde, a mesma cerimonia, e enfim, apos varias tentativas, foi necessário fazer os cavalos puxar da seguinte forma: os do braço direito a cabeça, os das coxas voltando para o lado dos braços, fazendo-lhe romper os braços nas juntas. Esses arrancos foram repetidos varias vezes, sem resultado. Ele levantava a cabeça e se olhava. Foi necessário colocar dois cavalos, diante dos atrelados as coxas, totalizando seis cavalos. Mas sem resultado algum.
Enfim o carrasco Samson foi dizer ao senhor Le Breton que não havia meio nem esperança de se conseguir e lhe disse que perguntasse as autoridades se desejavam que ele fosse cortado em pedaços. O senhor Le Breton, de volta da cidade, deu ordem que se fizessem novos esforços, o que foi feito; mas os cavalos empacaram e um dos atrelados as coxas caiu na laje. Tendo voltado os confessores, falaram-lhe outra vez. Dizia-lhes ele (ouvi-o falar): "Beijem-me, reverendos".
O senhor cura de Saint-Paul não teve coragem, mas o de Marsilly passou por baixo da corda do braço esquerdo e beijou-o na testa. Os carrascos se reuniram, e Damiens dizia-lhes que não blasfemassem, que cumprissem seu oficio, pois não lhes queria mal por isso; rogava-lhes que orassem a Deus por ele e recomendava ao cura de Saint-Paul que rezasse por ele na primeira missa.
Depois de duas ou três tentativas, o carrasco Samson e o que lhe havia atenazado tiraram cada qual do bolso uma faca e lhe cortaram as coxas na junção com o tronco do corpo; os quatro cavalos, colocando toda forca, levaram-lhe as duas coxas de arrasto, isto e: a do lado direito por primeiro, e depois a outra; a seguir fizeram o mesmo com os braços, com as espaduas e axilas e as quatro partes; foi preciso cortar as carnes ate quase aos ossos; os cavalos, puxando com toda forca, arrebataram-lhe o braço direito primeiro e depois o outro.
Uma vez retiradas essas quatro partes, desceram os confessores para lhe falar; mas o carrasco informou-lhes que ele estava morto, embora, na verdade, eu visse que o homem se agitava, mexendo o maxilar inferior como se falasse. Um dos carrascos chegou mesmo a dizer pouco depois que, assim que eles levantaram o tronco para o lançar na fogueira, ele ainda estava vivo. Os quatro membros, uma vez soltos das cordas dos cavalos, foram lançados numa fogueira preparada no local sito em linha reta do patíbulo, depois o tronco e o resto foram cobertos de achas e gravetos de lenha, e se pôs fogo a palha ajuntada a essa lenha. ...Em cumprimento da sentença, tudo foi reduzido a cinzas. O ultimo pedaço encontrado nas brasas só acabou de se consumir as dez e meia da noite. Os pedaços de carne e o tronco permaneceram cerca de quatro horas ardendo. Os oficiais, entre os quais me encontrava eu e meu filho, com alguns arqueiros formados em destacamento, permanecemos no local ate mais ou menos onze horas.
Alguns pretendem tirar conclusões do fato de um cão se haver deitado no dia seguinte no lugar onde fora levantada a fogueira, voltando cada vez que era enxotado. Mas não e difícil compreender que esse animal achasse o lugar mais quente do que outro.
(...)
LINHAS GERAIS DE DIREITO PENAL
I- CONSIDERAÇÕES GERAIS – Falar de Direito Penal significa, de certo modo, falar das coisas ruins que o ser humano faz.
1 – A razão de ser das sociedades – é fato que o homem é um ser essencialmente gregário. Une-se desde os primórdios com seus iguais visando uma série de objetivos em comum. Nascem assim, em noções gerais, as sociedades.
2 – A maldade inerente ao ser humano como fonte geradora das infrações – da mesma forma que o homem visa aproximar-se de seus semelhantes, demonstra, desde o passado mais remoto, uma dificuldade tremenda em relacionar-se de maneira harmoniosa e pacífica com aqueles que chama de irmãos. O Mestre Jesus Cristo, há mais de dois mil anos, no Evangelho de Mateus (2000, p. 781), capítulo 15, nos versículos 19 e 20 'a' diz que "do coração saem os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as imoralidades sexuais, os roubos, os falsos testemunhos e as calúnias. Essas coisas tornam o homem impuro". Com estas palavras Jesus quis demonstrar que o ser humano por natureza é mal. Vivendo em sociedade, essa maldade manifesta-se contra diversos bens da vida com intensidade variada, irradiando em cada área do relacionamento humano condutas divergentes daquilo que cada sociedade, em momentos específicos, convencionou chamar de correto, adequado ou direito, fazendo nascer no âmbito da família a rebeldia; da religião o pecado; da ética a imoralidade; da administração a infração administrativa; da vida civil o ilícito civil e no âmbito penal o que hoje chamamos delito, infração penal ou crime, que de todas as condutas citadas, demonstra-se a mais perniciosa para o seio social. Nota-se que nem todas as condutas que agridem os bens da vida são crimes. Melhor dizendo, na maioria das vezes tais condutas devem ser protegidas por outros instrumentos de pacificação social.
3 – O crime como fenômeno social – o bem jurídico protegido deve também ser alheio (princípio da alteridade), pois como dito, o crime é um fenômeno que se manifesta em sociedade. Qualquer homem que viva só, como um eremita, por exemplo, não tem a possibilidade de praticar um crime. É este o magistério de Francesco Carnelutti, (2002, p. 27) ao dizer que "o homem em si, ou seja, isolado dos demais homens, não pode nunca ser um réu. Já sobre esta linha se estabelece a diferença entre o delito e o pecado" ou seja, pecar o homem pode fazer de maneira solitária (se bem que na verdade o pecado que praticará será contra a divindade em que crê), mas delinqüir, somente em sociedade. O crime é um fenômeno eminentemente social, pois somente pode ser praticado se for atingido um bem alheio.
4 – Direito Penal como ferramenta do Estado – ainda deve ser levado em conta queo Direito tem como um de seus principais objetivos a pacificação social. Assim, ele regula as relações humanas em seus diversos ramos (civil, administrativo, empresarial, penal etc.) de diversas formas. Através do ramo Penal o Estado escolhe as condutas aptas a ofender de forma grave bens jurídicos relevantes, ou seja, aqueles que são fundamentais à vida dos indivíduos em sociedade, impondo a tais condutas uma conseqüência séria, qual seja, a pena, visando basicamente a duas coisas: primeiro que os bens jurídicos protegidos não sejam violados e segundo que aquele que violou, não torne a fazê-lo.
5 – Direito Penal como instrumento limitador do Estado – nesta linha de raciocínio, deve-se ter em mente que o Estado, em face do indivíduo, é extremamente poderoso e superior, pois tem toda a máquina administrativa para ir contra o delinquente. Assim, o Direito Penal serve como meio legitimador para a criminalização de certas condutas pelo Estado e ao mesmo tempo funciona como limitador deste mesmo poder, pois o Estado não pode ultrapassar os limites impostos por ele mesmo para a criminalização e punição.
6 – Direito Penal, espada e escudo – o Direito Penal, então, apresenta este duplo aspecto de espada e escudo. Serve de espada para o Estado com a finalidade de combater as condutas mais perniciosas e ao mesmo tempo serve de escudo protetivo ao indivíduo, uma vez que estabelece as regras do jogo, às quais o Estado está subordinado e limitado.
II- CONCEITO DE DIREITO PENAL – levando-se em consideração o que foi dito, pode-se conceituar o Direito Penal como sendo “ramo do Direito que define os crimes, comina as penas e limita através de normas e princípios o direito/dever de punir do Estado”.
1- Ramo do Direito – sabe-se que o Direito é uno, pois emana somente de uma fonte, o Estado. Ele é dividido tendo em vista a limitação humana de compreender o todo. Por isso, por uma questão didática, o Direito é dividido em ramos. Assim, pelo fato do Direito advir de fonte única, o Direito Penal relaciona-se com todos os demais ramos. Por exemplo, o conceito de patrimônio nos crimes de furto (art. 155 do CP) e roubo (art. 157 do CP) vem do Direito Civil; o Direito Penal define crimes falimentares, contra a Administração Pública e contra a organização do trabalho, relacionando-se, assim, com o Direito Empresarial, Administrativo e Trabalhista, respectivamente; hoje é impossível se falar em Direito Penal sem atentar aos ditames do Direito Constitucional e, por fim, com o Direito Processual se relaciona, tendo em vista que é este que serve de instrumento para o Estado concretizar seu ius puniendi.
OBS: ius (jus) puniendi é a expressão latina que designa o poder de punir que pertence unicamente ao Estado. Como se observa, pode escrever a expressão tanto com ‘i’, quanto com ‘j’, pois em latim, a primeira substitui a segunda.
2 – Definir os crimes – O Estado somente pode definir a conduta como crime através de lei em sentido estrito (art. 1º do CP e 5º XXXIX da CF), é a lex populi (lei do povo), ou seja, aquela que é elaborada e votada pelos representantes do povo. No Brasil, segundo a Constituição Federal, art. 22, I, esta lei somente poderá ser elaborada pelo Congresso Nacional (Câmara dos Deputados e Senado Federal), não havendo a possibilidade de haver lei estadual, distrital ou municipal que defina condutas como crime.
3 – Cominar as penas – na verdade se não houver cominação de pena não estaremos diante de um crime, pois ao crime definido deve necessariamente ser imputada uma pena. Tal qual a definição do crime, a pena somente pode ser cominada pelo Estado através de lei em sentido estrito, de competência do Congresso Nacional, não havendo a possibilidade jurídica de criação de crimes pelo Estado-membro, Municípios ou Distrito Federal.
4 – Limitação através de normas e princípios do direito/dever de punir do Estado – normas são as ordens emanadas do ordenamento jurídico e não se confunde com a lei. Por exemplo, em relação ao homicídio, a lei diz no artigo 121 do Código Penal “matar alguém, pena de 6 a 20 anos”. A norma que se extrai desta lei é “não matarás. Se matar, será submetido a uma pena de 6 a 20 anos”. Ou seja, a lei é o ato que atesta a existência de uma norma no ordenamento jurídico. Princípios são os fundamentos básicos de uma ciência. São os pilares de sustentação. Os princípios servem de orientação para a elaboração e aplicação das normas. Assim, o Estado está adstrito a estas normas e princípios, servindo o Direito Penal, por este prisma, como verdadeiro escudo de proteção ao cidadão.
5 – Direito/dever de punir do Estado – o ius puniendi, além de ser um direito é também um dever que o Estado tem. Ou seja, após definir determinada conduta como sendo crime, em este se configurando, o Estado não pode ficar inerte, parado. Deve agir observando as normas e princípios impostos pelo Direito Penal, investigando, acusando, julgando, se for o caso, condenando e executando a pena imposta.
III- CARACTERÍSTICAS DO DIREITO PENAL
1 – Ramo do Direito Público – sabe-se que os diversos ramos do Direito dividem-se em privado ou público. No primeiro grupo estão o Direito Civil e o Empresarial e no segundo os demais ramos, inclusive o Direito Penal, havendo divergência com relação ao Direito do Trabalho, uma vez que alguns doutrinadores o alocam no primeiro grupo e outros no segundo. O Direito Penal pertence ao Direito Público uma vez que a relação principal que existe é entre o agente criminoso e o Estado, ficando em segundo plano a relação existente entre o autor e a vítima.
2 – Finalidade preventiva (prevenção genérica e prevenção especíal) – o Direito Penal ao definir crimes e cominar penas de forma genérica na lei, está se dirigindo a toda a sociedade, buscando, então, prevenir de forma genérica a prática de crimes, ameaçando a todos que violem a norma penal com uma pena a ser imposta. Praticado o crime, impõe-se concretamente sobre o agente a pena. Pretende-se com isso prevenir especialmente em relação àquele indivíduo a prática de novos delitos, pois visa que aquele indivíduo conscientize-se que não vale a pena delinqüir.
3 – Ciência cultural – o Direito Penal, tal qual o Direito como um todo, pertence ao mundo do dever ser e não do ser. Ou seja, pretende o Direito Penal demonstrar como é que se deve agir, quais condutas devem ser adotas e as que devem ser evitadas, enfim, como se deve ser. Alem disso, Não é uma ciência exata, em Direito (Penal) nada é absoluto. Há pontos de vista diversos, há entendimentos diferentes.
4 – Ciência normativa – o objeto de estudo do Direito Penal é a norma, o Direito positivo, ou seja, aquele que está na lei para que todos vejam, assim, não admite dúvida, é indiscutível e evidente. Também conhecido como Direito posto, aquele que aí está na lei.
5 – Ciência valorativa – o Direito Penal cria sua própria escala de valores. Tal valoração pode ser vista na sanção que para algumas condutas é cominada de forma mais grave e para outras de forma menos grave. Neste aspecto observam-se grandes contradições e injustiças. Por exemplo, o crime de furto, artigo 155 do CP, é apenado com reclusão de 1 a 4 anos. Já o crime de abuso de autoridade, na modalidade atentar contra a liberdade de locomoção de um indivíduo, segundo o artigo 3º c/c artigo 4º, § 3º ‘b’ da Lei 4.898/1965, é punido com pena de detenção de 10 dias a 6 meses. Ou seja, o patrimônio, segundo o legislador, neste caso, tem valor superior em relação à liberdade.
6 – Ciência sancionadora – como dito linhas atrás, a toda conduta definida como crime é imposta uma pena. Assim, o Direito Penal é eminentemente sancionador, não visa criar bens jurídicos, antes, protegê-los.
IV- DIREITO PENAL OBJETIVO E DIREITO PENAL SUBJETIVO
1 – Direito Penal Objetivo – é o conjunto de leis que definem os crimes e cominam as penas. É o direito positivo. Ou o Direito posto. Positivo, segundo o Dicionário Aurélio, é aquilo que não admite dúvida, que é indiscutível e evidente. Já Direito posto, na definição do mesmoDicionário, é aquilo que está colocado, no caso em tela, aquilo que está colocado na lei. Assim, Direito Penal objetivo é o Direito Penal que objetivamente pode ser visto, lido e estudado, uma vez que está posto, positivado na lei e a principal lei do Direito Penal Objetivo no Brasil é o Código Penal.
2 – Direito Penal Subjetivo – subjetivo diz respeito ao sujeito, a uma pessoa. O Direito Penal subjetivo emana do Direito Penal objetivo, e nada mais é do que o ius puniendi pertencente ao Estado, que é uma pessoa jurídica.
V- DIREITO PENAL COMUM E DIREITO PENAL ESPECIAL – Diz respeito ao órgão que deve aplicá-lo jurisdicionalmente. Esta distinção não deve ser confundida com Legislação Penal Comum e Legislação Penal Especial. A primeira é aquela que se encontra no Código Penal, a segunda a que se encontra nas leis esparsas. Assim:
1 – Direito Penal Comum – é aplicado pela justiça comum, estadual ou federal.
2 – Direito Penal Especial – é aplicado pela justiça especial, ou seja, Direito Penal Militar e Direito Penal Eleitoral.
VI- DIREITO PENAL EM UM ESTADO DEMOCRÁTICO DE DIREITO – A Constituição Federal de 1988 em seu artigo 1º preceitua que a República Federativa do Brasil, formada pela união indissolúvel dos Estados e Municípios e do Distrito Federal, constitui-se em Estado Democrático de Direito (...). O que caracteriza o Brasil como um Estado Democrático de Direito? Qual a diferença entre um Estado de Direito e um Estado Democrático de Direito? Como é, ou, como deve ser o Direito Penal em um Estado Democrático de Direito?
1 – Estado Absolutista – recebe este nome, tendo em vista que o poder absoluto pertencia ao soberano. Este poder absoluto era exercido sem observância de qualquer limite ou regra. Ou seja, o monarca praticava desmandos conforme pretendesse satisfazer seus caprichos e mimos. Não havendo legislação positivada, os súditos ficavam à mercê do ânimo de seus governantes que, não poucas vezes, agiam com extrema brutalidade.
2 – Estado de Direito – pode-se afirmar que o Estado de Direito foi criado em contraposição ao Estado Monárquico Absolutista. A burguesia ascendia cada vez mais, em face disto, clamava por uma igualdade, se não de fato, ao menos jurídico em face do monarca. Assim, com o surgimento do Estado de Direito, há um enorme avanço no combate ao absolutismo monárquico, uma vez que doravante há uma igualdade jurídica entre os homens, havendo submissão de todos ao império da lei. Em um Estado de Direito quem governam não são homens, mas sim leis. Contudo, a igualdade é meramente formal, uma vez que são iguais porque a lei diz que são, mas de fato a igualdade não existe. Além disso, a simples existência de um Estado sob o manto de leis, não quer dizer necessariamente que este Estado seja justo, pois pode um Estado criar leis tremendamente injustas. E mais, deve ser lembrado que no Estado de Direito é crime aquilo que a lei diz que o é. Ou seja, um conceito meramente formal. Tem forma de crime, então é crime. Desta feita, se a lei diz “ser judeu é crime”, por mais injusta que seja esta lei, deverá ser cumprida, pois está na lei e assim deverá ser cumprida. Apesar do progresso em relação ao absolutismo, percebe-se que o cidadão saiu dos abusos do monarca para cair sob os abusos do legislador.
3 – Estado Democrático de Direito – democracia é o regime de governo com participação do povo. Melhor, é o regime de governo do povo, pelo povo e para o povo. O povo escolhe quem serão seus governantes e representantes. O povo escolhe, através de seus representantes, quais serão suas leis. Tanto seus governantes e representantes quanto as leis visam o bem comum do povo. Assim, a República Federativa do Brasil é constituído em Estado Democrático de Direito pois além de ser governado por leis, estas são feitas pelo povo através de seus representantes (poder legislativo) e para o povo, ou seja, a finalidade das leis é o bem estar de cada um dos cidadãos do Estado. A Constituição Federal de 1988 expressa esta ideia em seu artigo 1º, § único quando declara que ‘todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente, nos termos desta Constituição’. Ainda, o mesmo artigo 1º traz alguns destes fundamentos postulados da democracia, quais sejam, a cidadania, a dignidade da pessoa humana e o pluralismo político. Mais, no artigo 3º, a Constituição Federal apresenta uma série de objetivos fundamentais (fins a serem atingidos) que dizem respeito justamente ao povo, quais sejam, construir uma sociedade livre, justa e solidária; erradicar a pobreza e a marginalização e reduzir as desigualdades sociais e promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação. Por fim, pode-se notar que o Brasil tem como princípios enaltecedores da democracia, a serem seguidos na ordem internacional (o que pressupõe também aplicação interna), a prevalência dos direitos humanos, repúdio ao racismo e a concessão de asilo político. Enfim, a Constituição Federal, em tese, manifesta a vontade do povo.
4 – Direito Penal no Estado Democrático de Direito – unindo todos estes elementos que constituem em verdadeiras conquistas do cidadão, tem-se que o Direito Penal em um Estado Democrático de Direito deve ser apresentado da seguinte forma: O Direito Penal deve constituir-se em um conjunto de regras e princípios que limitem o ius puniendi do Estado, havendo necessidade das condutas definidas como crime e as respectivas penas estarem formalmente positivadas em lei. Entretanto, esta lei não poderá ser arbitrária, devendo espelhar a vontade soberana do povo expressa através de seus representantes. Os órgãos que sustentam a democracia (Judiciário, Ministério Público, Ordem dos Advogados do Brasil, Imprensa...) devem zelar para que todo tipo penal, formalizado em lei, esteja de acordo com a Constituição Federal.
5 – Conclusão – em um Estado Democrático de Direito o Direito Penal não pode ser entendido meramente como aquilo que o legislador define como sendo crime. Mais que isso. Em primeiro lugar o legislador deve estar atento aos ditames constitucionais antes de definir determinada conduta como criminosa, atendendo, assim, à vontade do povo. Em seguida o operador do direito deverá analisar em cada caso concreto se a conduta praticada se enquadra no tipo penal, passando-se necessariamente pelos princípios emanados da Constituição Federal. Resumindo, o Direito Penal em um Estado Democrático de Direito é um Direito Penal Constitucionalizado. Deve observar os princípios expressos na Constituição Federal, além de outros que se coadunem com ela. Estes princípios do Direito Penal Constitucional serão analisados a seguir.
SINTESE HISTÓRICA DO PENSAMENTO JURÍDICO-PENAL
I- Tempos Primitivos. Embora a história do Direito Penal tenha surgido com o próprio homem, não se pode falar em um sistema orgânico de princípios penais nos tempos primitivos. Nos grupos sociais dessa era, envoltos em ambiente mágico (vedas) e religioso, a peste, a seca e todos os fenômenos naturais maléficos eram tidos como resultantes das forças divinas ("totem") encolerizadas pela prática de fatos que exigiam reparação. Para aplacar a ira dos deuses, criaram-se séries de proibições (religiosas, sociais e políticas), conhecidas por "tabu", que, não obedecidas, acarretavam castigo.' A infração totêmica ou a desobediência tabu levou a coletividade à punição do infrator para desagravar a entidade, gerando-se assim o que, modernamente, denominados "crime" e "pena". O castigo infligido era o sacrifício da própria vida do transgressor ou a "oferenda por este de objetos valiosos (animais, peles e frutas) à divindade, no altar montado em sua honra". A pena, em sua origem remota, nada mais significava senão a vingança, revide à agressão sofrida, desproporcionada com a ofensa e aplicada sem preocupação de justiça. Várias foram as fases de evolução da vingança penal, etapas essas que não se sucederam sistematicamente, com épocas de transição e adoção deprincípios diversos, normalmente envolvidos em sentido religioso.
II- Fases da vingança penal – Para facilitar a exposição, pode-se aceitar a divisão estabelecida por Noronha, que distingue as fases de vingança privada, vingança divina e vingança pública.
1- Vingança privada - Na denominada fase da vingança privada, cometido um crime, ocorria a reação da vítima, dos parentes e até do grupo social (tribo), que agiam sem proporção à ofensa, atingindo não só o ofensor, como também todo o seu grupo. Se o transgressor fosse membro da tribo, podia ser punido com a "expulsão da paz" (banimento), que o deixava à mercê de outros grupos, que lhe infligiam, invariavelmente, a morte. Caso a violação fosse praticada por elemento estranho à tribo, a reação era a da "vingança de sangue", considerada como obrigação religiosa e sagrada, "verdadeira guerra movida pelo grupo ofendido àquele a que pertencia o ofensor, culminando, não raro, com a eliminação completa de um dos grupos". Juarez Tavares, em nota à obra de Wessels, afirma: "Segundo nos revelam os dados históricos, o Direito Penal não existiu sempre. Seu aparecimento se dá, propriamente, no período superior da barbárie, com a primeira grande divisão social do trabalho e a consequente divisão da sociedade em classes e a implantação do Estado. (...) O Direito Penal somente se estrutura quando a produção, já desenvolvida com o emprego de instrumentos de metal e da agricultura, apresenta considerável quantidade de reservas de excedentes e exige o suplemento de mão-de-obra, cindindo a antiga organização gentílica, alicerçada no trabalho solidário e comum, para substituí-lo pela propriedade privada dos meios de produção e pelo trabalho escravo. Com isso se estratificou a sociedade em classes, e, por consequência, se criaram contradições antagônicas que deveriam, agora, ser disciplinadas por um poder central e por normas rígidas, de caráter penal, para garantir a nova ordem. Com a evolução social, para evitar a dizimação das tribos, surge o talião (de talis = tal), que limita a reação à ofensa a um mal idêntico ao praticado (sangue por sangue, olho por olho, dente por dente). Adotado no Código de Hamurábi (Babilônia), no Êxodo (povo hebraico) e na Lei das XII Tábuas (Roma), foi ele um grande avanço na história do Direito Penal por reduzir a abrangência da ação punitiva. Posteriormente, surge a composição, sistema pelo qual o ofensor se livrava do castigo com a compra de sua liberdade (pagamento em moeda, gado, armas etc.). Adotada, também, pelo Código de Hamurábi, pelo Pentateuco e pelo Código de Manu (índia), foi a composição largamente aceita pelo Direito Germânico, sendo a origem remota das formas modernas de indenização do Direito Civil e da multa do Direito Penal.
2- Vingança divina - A fase da vingança divina deve-se à influência decisiva da religião na vida dos povos antigos.' O Direito Penal impregnou-se de sentido místico desde seus primórdios, já que se devia reprimir o crime como satisfação aos deuses pela ofensa praticada no grupo social. O castigo, ou oferenda, por delegação divina era aplicado pelos sacerdotes que infligiam penas severas, cruéis e desumanas, visando especialmente à intimidação. Legislação típica dessa fase é o Código de Manu, mas esses princípios foram adotados na Babilônia, no Egito (Cinco Livros), na China (Livros das Cinco Penas), na Pérsia (Avesta) e pelo povo de Israel (Pentateuco).
3- Vingança pública - Com a maior organização social, atingiu-se a fase da vingança pública. No sentido de se dar maior estabilidade ao Estado, visou-se à segurança do príncipe ou soberano pela aplicação da pena, ainda severa e cruel. Também em obediência ao sentido religioso, o Estado justificava a proteção ao soberano que, na Grécia, por exemplo, governava em nome de Zeus, e era seu intérprete e mandatário. O mesmo ocorreu em Roma, com aplicação da Lei das XII Tábuas. Em fase posterior, porém, libertou-se a pena de seu caráter religioso, transformando-se a responsabilidade do grupo em individual (do autor do fato), em positiva contribuição ao aperfeiçoamento de humanização dos costumes penais.
III- Direito Penal dos hebreus – Após a etapa da Legislação Mosaica (também conhecida como Tora, em hebraico ou Pentateuco, em grego), que são os cinco primeiros livros da Bíblia, ou seja, Gênesis, Êxodo, Levítico, Números e Deuteronômio, evoluiu o Direito Penal do Povo hebreu com o Talmud. Substituiu-se a pena de talião pela multa, prisão e imposição de gravames físicos, sendo praticamente extinta a pena de morte, aplicando-se em seu lugar a prisão perpétua sem trabalhos forçados. Os crimes poderiam ser classificados em duas espécies: delitos contra a divindade e crimes contra o semelhante. O Talmud, assim, foi um formidável suavizador dos rigores da lei mosaica. Estabeleciam-se, inclusive, garantias rudimentares em favor do réu, contra os perigos da denunciação caluniosa e do falso testemunho, de consequências gravíssimas e tantas vezes irreparáveis para o condenado inocente, máxime num sistema repressivo em que a palavra das testemunhas assumia excepcional importância na pesquisa da verdade.
IV- Direito Penal Romano – Sem dúvidas, da antiguidade, o direito romano é de onde se podem tirar o maior número de institutos jurídicos. Roma, com todas suas fases, com séculos de existência, representa um elo entre o mundo antigo e o moderno.
1- Caráter sacral do direito penal romano – No início de Roma, em sua fundação, vigorou no direito penal romano o caráter sacral, confundindo-se a figura do rei com a do sacerdote, os quais detinham poder ilimitado de punição, direito penal bem característico das tribos da antiguidade.
2- Direito penal consuetudinário – No início da organização jurídica do direito romano, vigorou o direito consuetudinário, ou seja, baseado no costume. Além disso, a classe dominante, denominada de patrícios, mantinha em segredo as regras do direito penal, impedindo que a classe dos dominados, os plebeus, soubessem o que era e o que não era crime, havendo, portanto, uma luta de classes que resultou na Lei das XII tábuas.
3- A Lei das Doze Tábuas – constitui a origem do direito romano sitematizado, pois as leis eram aplicadas na República Romana pelos pontífices e representantes da classe dos patrícios que as guardavam em segredo. Em especial, eram majoritariamente aplicadas contra os plebeus. Por esse motivo, um plebeu de nome Terentílio propôs no ano de 462 a.C. que houvesse uma compilação e publicação de um código legal oficial. A iniciativa visava permitir que os plebeus também conhecessem as leis e impedir o abuso que era feito delas pelos pontífices e patrícios. A ideia de se criar uma lei oficial publicada foi recusada pelos patrícios durante muito tempo, já que tentaram manter por mais tempo possível o privilégio no controle jurídico sobre a população romana. Essa condição dava aos patrícios enormes poderes de manipulação e repressão aos plebeus. Somente em 451 a.C. que um grupo formado por dez homens foi reunido para preparar o projeto oficial. É possível que uma equipe tenha ido à Grécia estudar as leis utilizadas por Sólon. No ano em que o grupo se formou para elaborar as leis, foram publicados dez códigos. No ano seguinte, foram incluídos mais dois. Assim se formaram as Doze Tábuas, nome utilizado justamente porque as leis foram publicadas em doze tabletes de madeira, os quais foram afixados no Fórum Romano para que todos pudessem ler. A Lei das Doze Tábuas reúne sistematicamente todo o direito que era praticado na época. Contém uma série de definições sobre direitos privados e procedimentos, considerando a família e rituais para negócios formais. O texto oficial foi perdido junto com diversos outros documentos quando os gauleses colocaram fogo em Roma no ano 390 a.C. Hoje conhecemos apenas fragmentos obtidos através de versões não oficiais e citações feitas por outros autores. O conteúdo do código foi reconstituído pelos historiadores com as informações que foram encontradas. Sabe-se que a Lei das Doze Tábuas versavasobre organização e procedimento judicial, normas para os inadimplentes, poder pátrio, sucessão e tutela, propriedade, servidões, delitos, direito público e direito sagrado, além de alguns assuntos complementares. Assim como as leis que existiam anteriormente, o código oficial publicado combinava penas rigorosas com procedimentos severos. A Lei das Doze Tábuas diz muito sobre a sociedade e os métodos judiciais dos romanos, mas sua implicância vai muito além disso. Os tabletes representaram o primeiro documento legal a oficializar o Direito Romano, de onde se estruturam todos os corpos jurídicos do Ocidente. Fonte: ALVES, José Carlos Moreira. Direito Romano. Forense, 1987.
4- Direito Penal Romano Clássico – surge com o conjunto de leis publicadas no fim da República, divididas em dois grupos:
a) as leges Corneliae – que cuidavam de crimes praticados nas relações interpessoais, como patrimoniais e pessoais.
b) as leges Juliae – que cuidavam dos crimes praticados contra o Estado, seja pelos particulares, seja pelos próprios administradores.
Obs: duas ou três décadas antes de Cristo, desaparece a vingança privada, prevalecendo somente o ius puniendi nas mãos do Estado.
5- Características do Direito Penal Romano Clássico:
a) fundamento da pena essencialmente retributivo, ou seja, se alguém cometeu um crime deverá receber uma pena por esta prática.
b) tipicidade do crime e da pena, vigendo o princípio da reserva legal.
c) ressurgimento da pena de morte, a qual, em determinado período havia desaparecido.
d) prisão somente como custódia prévia para a aplicação da pena principal.
e) surgimento de vários institutos que fazem parte do direito penal moderno, por exemplo nexo causal, dolo, culpa, caso fortuito, inimputabilidade, menoridade, concurso de pessoas etc.
V- Direito Penal Germânico – é relevante o conhecimento básico do direito penal germânico, pois muito do Direito Penal da Alemanha influiu no direito penal brasileiro.
1- Primórdios – era composto pelo direito consuetudinário e o direito penal era concebido como uma ordem de paz, sendo pois o crime a ruptura desta paz que podia ser pública ou privada. Quando um crime violava a paz pública, qualquer pessoa do povo poderia matar o transgressor. Quando o crime violava a paz privada, o criminoso era entregue à família para que exercesse a vingança.
2- Compensação – em determinado momento, a vingança de sangue, que era mais do que um direito, um dever da família em vingar o familiar ofendido, foi substituído pela compensação que nada mais era do que o pagamento em pecúnia pela ofensa ou crime praticado. Tal composição consistia parte em pena e parte em ressarcimento. Parte do valor entregue pelo criminoso ia para o ofendido ou para a família, como indenização pelo crime. A outra parte ia para o rei ou tribunal, como pagamento ao Estado. A quem não podia pagar, por falta de posses, eram aplicadas penas corporais.
3- Talião – o direito germânico era desproporcional, sendo aplicado o talião somente tempos depois por influência do direito romano e do cristianismo.
4- Responsabilidade objetiva – era o que caracterizava o direito penal germânico, onde o que importava era o resultado causado, sem se levar em conta o dolo ou a culpa, somente posteriormente, por influência do direito romano, passa-se a exigir o vínculo psicológico representado pelo dolo e a culpa.
5- Ordálias – no aspecto procedimental, adotava-se o direito ordálico, com provas de água fervendo e de ferro em brasa, dentre outros.
VI- Direito Penal Canônico – inicialmente teve caráter disciplinar. Aos poucos, com a crescente influência da Igreja e conseqüente enfraquecimento do Estado, o Direito Canônico foi-se estendendo a religiosos e leigos, desde que os fatos tivessem conotação religiosa.
1- O Direito Canônico divisão – era o direito canônico dividido em razão da pessoa que praticara o crime e a matéria que fora violada. Os crimes conta o direito divino era de competência dos tribunais eclesiástico e tinham como conseqüência a penitencia.
2- Direito Canônico e Prisão – a principal contribuição do direito canônico para o direito moderno, sem dúvidas, é a prisão. A prisão, tal qual conhecemos atualmente é fruto de uma punição aplicada ao clero que, ao praticarem determinada transgressão, deveriam pagar uma pena, uma penitência, ficando sozinho para pensarem em seus atos e buscar a Deus. Daí nossa palavra penitenciária.
VII- Período Humanitário: O Direito Penal e a "Filosofia das Luzes" - Os séculos XVII e XVIII foram marcados pela crescente importância da burguesia, classe social que comandava o desenvolvimento do capitalismo. Mas nem tudo era belo e tranquilo: havia um grave conflito de interesses entre os burgueses e a nobreza. Surgiu, então, um sistema de ideias que deu origem ao liberalismo burguês. Essas ideias ganharam destaque por meio do movimento cultural conhecido como Iluminismo ou Filosofia das Luzes. Os pensadores iluministas, em geral, defendiam uma ampla reforma do ensino, criticavam duramente a intervenção do Estado na economia e achincalhavam a Igreja e os poderosos. Nem mesmo Deus escapou às discussões da época. O Deus iluminista, racional, era o "grande relojoeiro" nas palavras de Voltaire. Deus foi encarado como expressão máxima da razão, legislador do Universo, respeitador dos direitos universais do homem, da liberdade de pensar e se exprimir. Era também o criador da "lei", e lei no sentido expresso pelo filósofo iluminista Montesquieu: "relação necessária que decorre da natureza das coisas". Foi, evidentemente, os escritos de Montesquieu, Voltaire, Russeau e D’Alembert que prepararam o advento do humanismo e o início da radical transformação liberal e humanista do Direito Penal. Locke, filósofo inglês, considerado o pai do iluminismo, escreveu o "Ensaio sobre o entendimento humano”. Montesquieu, jurista francês, escreveu "O espirito das Leis", defendendo a separação dos três poderes do Estado. Voltaire, pensador francês, tornou-se famoso pelas críticas ao clero católico, à intolerância religiosa e à prepotência dos poderosos. Rousseau, filósofo francês, célebre defensor da pequena burguesia e inspirador dos ideais da revolução Francesa, foi autor de "O Contrato Social" e "Discurso sobre a origem da desigualdade entre os homens”. Por fim, Diderot e D’Alembert foram os principais organizadores da "Enciclopédia", obra que resumia os principais conhecimentos artísticos, científicos e filosóficas da época. Os pensadores iluministas, supra citados, em seus escritos, fundamentaram uma nova ideologia, o pensamento moderno, que repercutiria até mesmo na aplicação da justiça: à arbitrariedade se contrapôs a razão, à determinação caprichosa dos delitos e das penas se pôs a fixação legal das condutas delitivas e das penas. Os povos clamavam pelo fim de tanto barbarismo disfarçado.
1- Beccaria - "filho espiritual dos enciclopedistas franceses" - Em 1764, imbuído dos princípios iluministas, Cesar Bonesana, Marquês de Beccaria, faz publicar a obra "Dei Delitti e Delle Pene", que, posteriormente, foi chamado de "pequeno grande livro", por ter se tornado o símbolo da reação liberal ao desumano panorama penal então vigente. Os princípios básicos pregados pelo jovem aristocrata de Milão firmaram o alicerce do Direito Penal moderno, e muitos desses princípios foram, até mesmo, adotados pela declaração dos Direitos do homem, da revolução Francesa. Segundo ele, deveria ser vedado ao magistrado aplicar penas não previstas em lei. A lei seria obra exclusiva do legislador ordinário, que "representa toda a sociedade ligada por um contrato social". Quanto à crueldade das penas afirmava que era de todo inútil, odiosa e contrária à justiça. Sobre as prisões de seu tempo dizia que "eram a horrível mansão do desespero e da fome", faltando dentro delas a piedade e a humanidade. Não foi à toa que alguns autores o chamaram apóstolo do Direito: O jovem marquês de Beccaria revolucionou o Direito Penal e sua obra significou um largo passo na evolução do regime punitivo.
2- O DireitoNatural e sua influência - Entre os séculos XVI e XVIII, na chamada fase racionalista surgia a chamada Escola do Direito Natural, de Hugo Grócio, Hobbes, Spinoza, Puffendorf, Wolf, Rousseau e Kant. Sua doutrina apresentava os seguintes pontos básicos: a natureza humana como fundamento do Direito; o estado de natureza como suposto racional para explicar a sociedade; o contrato social e os direitos naturais inatos. De conteúdo humanitário e influenciada pela filosofia racionalista, a Escola concebeu o Direito Natural como eterno, imutável e universal. Se por um lado a Escola do Direito Natural teve uma certa duraçào, a corrente que se formou, ou seja, o jusnaturalismo prolongou-se até a atualidade. Romagnosi, já visto anteriormente como um dos iniciadores da Escola Clássica, fundamentou sua obra, "Gênesis do Direito Penal", concebendo o Direito Penal como um direito natural, imutável e anterior às convenções humanas. Embora ainda sob uma pseudo-compreensão de alguns juristas, o Direito Natural tem sobrevivido e mostrado que não se trata de idéia metafísica ou princípio de fundo simplesmente religioso. O jusnaturalismo atual constitui um conjunto de amplos princípios, a partir dos quais o legislador deverá compor a ordem jurídica. Os princípios mais apontados referem-se ao direito à vida, à liberdade, à participação na vida social, à segurança, etc. É evidente a correlação que existiu e ainda existe entre Direito Natural e Direito Penal: os princípios abordados pelo jusnaturalismo, especialmente os correspondentes aos direitos naturais inativos, estão devidamente enquadrados no rol dos bens jurídicos assegurados pelo Direito Penal. Assim, o jusnaturalismo e seus princípios não deixaram de influenciar o período Humanitário, no qual buscava-se a valorização dos direitos intocáveis dos delinquentes e a consequente dulcificação das sanções criminais.
3- Escola Clássica: "A denominação pejorativa criada pelos positivistas" - Denomina-se Escola Clássica o conjunto de escritores, pensadores, filósofos e doutrinadores que adotaram as teses ideológicas básicas do iluminismo, que foram expostas magistralmente por Beccaria. Três grandes jurisconsultos podem ser considerados como iniciadores da Escola Clássica: Gian Domenico Romagnosi, na Itália. Jeremias Bentham, na Inglaterra e Anselmo Von Feuerbach na Alemanha. Romagnosi concebe o Direito Penal como um direito natural, imutável e anterior às convenções humanas, que deve ser exercido mediante a punição dos delitos passados para impedir o perigo dos crimes futuros. Jeremias Bentham considerava que a pena se justificava por sua utilidade: impedir que o réu cometa novos crimes, emendá-lo, intimidá-lo, protegendo, assim a coletividade. Anselmo Von Feuerbach opina que o fim do Estado é a convivência dos homens conforme as leis jurídicas. A pena, segundo ele, coagiria física e psicologicamente para punir e evitar o crime. No que tange à finalmente da pena, havia no âmago da Escola Clássica, três teorias: 1. Absoluta – que entendia a pena como exigência de justiça. 2. Relativa – que assinalava a ela um fim prático, de prevenção geral e especial; 3. Mista – que, resultando da fusão de ambas, mostrava a pena como utilidade e ao mesmo tempo como exigência de justiça. Na Escola Clássica, dois grandes períodos se distinguiram: o filósofo ou teórico e o jurídico ou prático. No primeiro destaca-se a incontestável figura de Beccaria. Já no segundo, aparece o mestre de Pisa, Francisco Carrara, que tornou-se o maior vulto da Escola Clássica. Carrara defende a concepção do delito como ente jurídico, constituído por duas forças: a física (movimento corpóreo e dano causado pelo crime) e a moral(vontade livre e consciente do delinquente). Define o crime como sendo "a infração da lei do Estado, promulgada para proteger a segurança dos cidadãos, resultante de um ato externo do homem, positivo ou negativo, moralmente imputável e politicamente danoso".
4- Período Cientifico ou Criminológico : "A justiça deve conhecer o homem" e "Para cada fato, há razões que o determinaram". Durante o chamado período cientifico surge uma doutrina que vai influenciar o pensamento da época, repercutindo, inclusive no âmbito criminal: a filosofia determinista. Segundo a mesma, todos os fenômenos do universo, abrangendo a natureza, a sociedade e a história são subordinadas a leis e causas necessárias. Coube a Laplace a formulação conceitual mais ampla do determinismo, corrente esta que, Segunda a visão "Laplaciana", corresponde ao "caráter de uma ordem de fatos na qual cada elemento depende de outros, de tal modo que se pode prevê-lo, provocá-lo ou controlá-lo segundo se conhece, provoque ou controle a ocorrência desses outros". Assim, o delito, como fato jurídico, deveria também obedecer esta correlação determinista, já que por trás do crime haveria sempre razões suficientes que o determinaram. Para certa corrente filosófica, a noção de determinismo é central na conceituação do conhecimento científico, tanto na esfera das ciências físico-naturais, quanto na das ciências do homem; para uma Segunda corrente, o determinismo é incompatível com a idéia da ação deliberada e responsável, ou seja, o determinismo nega o livre arbítrio. Foi aceito por Ferri, que afirmava ser o homem responsável, por viver ele em sociedade. "Os Evangelistas": Lombroso, Ferri e Garófalo - Foi César Lombroso, autor do livro L’uomo Delinquente, quem apontou os novos rumos do Direito Penal após o período humanitário, através do estudo do delinqüente e a explicação causal do delito. O ponto nuclear de Lombroso é a consideração do delito como fenômeno biológico e o uso do método experimental para estudá-lo. Foi o criador da "Antropologia Criminal". A seu lado surgem Ferri, com a "Sociologia Criminal", e Garofalo, no campo jurídico, com sua obra "Criminologia", podendo os três ser considerados os fundadores da Escola positiva. Lombroso afirmava a existência de um criminosos nato, caracterizado por determinados estigmas somato-psíquicos e cujo destino indeclinável era delinqüir, sempre que determinadas condições ambientais se apresentassem. Discípulo dissidente de Lombroso, Henrique Ferri, ressaltou a importância de um trinômio causal do delito: os fatores antropológicos, sociais e físicos. Dividiu os criminosos em cinco categorias: o nato, o louco, o habitual, o ocasional e o passional. Dividiu, ainda, as paixões em: sociais (amor, piedade, nacionalismo, etc.) e anti-sociais (ódio, inveja, avareza, etc.). Outro vulto da tríade é Rafael Garofalo, o primeiro a usar a denominação "Criminologia" para as Ciências Penais. Fez estudos sobre o delito, o delinqüente e a pena. Afirmava essa tríade de vigorosos pensadores que a pena não tem um fim puramente retributivo, mas também uma finalidade de proteção social que se realiza através dos meios de correção, intimidação ou eliminação.
5- O movimento positivista no Direito Penal - O movimento naturalista do século XVIII, que pregava a supremacia da investigação experimental em oposição à indagação puramente racional, influenciou o Direito Penal. Numa época de franco domínio do pensamento positivista no campo da filosofia (Augusto Comte) e das teorias evolucionistas de Darwin e Lamark, das idéias de John Stuart e Spencer, surgiu a chamada Escola Positiva. A nova Escola proclamava outra concepção do Direito. Enquanto para a Clássica ele preexistia ao Homem (era transcendental, visto que lhe fora dado pelo criador, para poder cumprir seus destinos), para os positivistas, ele é o resultado da vida em sociedade e sujeito a variações no tempo e no espaço, consoante a lei da evolução. Seu pioneiro foi o médico psiquiatra César Lombroso, segundo o qual a criminalidade apresenta, fundamentalmente, causa biológica. É de Lombroso a descrição do criminoso nato. Ei-la: assimetria craniana, fronte fugida, zigomas salientes, face ampla e larga, cabelos abundantes e barba escassa. O criminoso nato é insensível fisicamente, resistente ao traumatismo, canhoto ou ambidestro, moralmente impulsivo, insensível, vaidosoe preguiçoso. Embora tenha cometido alguns exageros na definição do criminoso nato, a idéia de uma tendência para o crime não foi sepultada com Lombroso. Estudos feitos por geneticistas tem levado à conclusão de que elementos recebidos por herança biológica, embora possam não condicionar um "modus vivendi" no sentido de tornar o homem predestinado em qualquer direção, influem no modo ser do indivíduo.
VIII- Evolução Histórica do Direito Penal Brasileiro – o Direito Penal brasileiro, em um primeiro momento era a extensão do direito português, somente em um segundo momento houve uma lei penal produzida no Brasil.
1- Período Pré-Colonial - antes da colonização portuguesa, os índios brasileiros praticavam a vingança privada. Não havendo um sistema jurídico avançado, as regras eram costumeiras, passadas verbalmente.
2- Período Colonial – a partir de 1500, passa a vigorar no Brasil o direito lusitano. Este direito português não teve muita eficácia no Brasil, tendo em vista as peculiaridades das novas terras. Em verdade o que vigorava era a vontade dos donatários, os chefes das capitanias hereditárias, motivo pelo qual o sistema jurídico brasileiro na época da colônia era um desastre. Havia grande desmando e abuso de poder, o que tornava a punição desproporcional, brutal, violenta e cruel. Ao lado do direito praticado pelos donatários, formalmente, vigoravam as Ordenações Filipinas, que tinha este nome por ter sido promulgadas por Filipe II em 1603. Suas penas eram cruéis como açoite, amputação de membros, galés, degredo etc. Vigorou até o ano de 1827.
1500 – ORDENAÇÕES Afonsinas – D. Afonso V.
1521 – Ordenações Manuelinas – D. Manuel I
1603 – Ordenações Filipinas – Felipe II até 1827 - Suas penas eram cruéis como açoite, amputação de membros, galés, degredo etc. Vigorou até o ano de 1827.
2- Período Imperial – Código Criminal do Império, promulgado em 1830 por Dom Pedro I, primeiro Código da América Latina.
3- Período Republicano – Quando é proclamada a república no Brasil, o Código vigente não servia mais para a nova realidade do pais. O novo código foi publicado em 1890, ou seja, antes da constituição de 1991. A doutrina o identifica como o pior código de todos os tempos no Brasil. Por este motivo, uma série de leis esparsas foram criadas. Essas leis culminaram na Consolidação das Leis Penais de 1932. Durante o regime do Estado Novo de Getúlio Vargas, nasceu o Código Penal de 1940, que entrou em vigor em 1942, sendo que em 1984 teve sua parte geral modificada, sofrendo, no decorrer dos anos, uma série de modificações, regulando o Direito Penal brasileiro juntamente com outras leis especiais
O PAPEL DO PODER JUDICIÁRIO NO ENFRENTAMENTO DA VULNERABILIDADE[footnoteRef:1] [1: Este texto foi produzido originalmente para apresentação na matéria de Criminologia, no curso de doutorado da Universidad de Buenos Aires, Argentina, ministrado entre os días 31 de março a 04 de abril de 2014.]
Introdução
Hoje em dia a informação é cada vez mais farta. Tal fartura é fruto da facilidade de acesso à internet com suas redes sociais, dos equipamentos que possibilitam o acesso à internet de onde quer que se esteja e da TV por assinatura, instrumentos cada vez mais comuns nas casas de todas as camadas sociais. Esse vasto acesso à informação gera benefícios e malefícios e uma das sensações que produz é a de insegurança.
A partir do momento em que se sabe da prática de um crime em determinado local, ou que pode ser visto tal crime que foi filmado por alguém no momento em que ocorreu por meio do telefone celular, a sensação de que o crime ocorreu muito próximo a nós é grande.
Continuando na cadeia de eventos, com a sensação de insegurança surge uma convicção na população de que há impunidade, dentre outros fatores, por conta da ineficácia do Estado. O senso de justiça aflora e o Estado, por meio de seus agentes age de forma dura no combate ao crime, porém, somente contra determinados cidadãos, os chamados vulneráveis.
O presente trabalho visa a analisar, não de forma exaustiva, a questão da prática do processo de criminalização de condutas, bem como as pessoas que são perseguidas pelas condutas que praticam e o papel do poder judiciário no combate aos excessos praticados por determinadas agências penais.
A análise se dará sob o enfoque criminológico. Dessa forma, inicialmente será analisado em que consiste a criminologia e a importância dessa ciência no estudo do direito penal. Em seguida será visto o processo de criminalização de condutas, passando pela atuação das agências penais, principalmente contra aqueles chamados de vulneráveis e, por fim, será demonstrada a importância da atuação do poder judiciário no combate dessa estrutura.
1- Situando-se na criminologia[footnoteRef:2] [2: Este tópico baseia-se nas aulas expositivas ministradas, principalmente, pelos professores Dr. Diego Zysman e Daniel Rafecas, sobre Criminologia e Tortura, no curso de doutorado da Universidad de Buenos Aires, Argentina, ministrado entre os días 31 de março a 04 de abril de 2014.]
O termo criminologia é um hibridismo greco-latino, formado das palavras, crimino (crime) e logia (estudo). A criminologia, portanto, é o estudo do crime. O conceito de criminologia moderna é de ciência que estuda o crime, suas causas, consequências, métodos de combate, o controle social e os autores do crime, assim entendidos como sendo a vítima e o delinquente.
Apesar do termo criminologia já ter sido empregado anteriormente, aceita-se, geralmente, como pessoa que difundiu tal termo Raffaele Garofalo (1851-1934), Italiano que escreveu sua principal obra justamente com o título ‘Criminologia’. Além do magistrado Garofalo, consideram-se pais da criminologia o médico Césare Lombroso e o sociólogo e jurista Enrico Ferri.
Percebe-se que a criminologia, desde seu início, nasce como reunião de várias ciências que se debruçam com o objetivo de analisar o fenômeno criminológico. Forma-se, portanto, a criminologia do complexo conjunto de ciências como medicina, direito, psicologia, política, psiquiatria, biologia, religião, antropologia, psicopatologia, ou seja, estuda-se todo o universo da ação humana.
Sob o enfoque criminológico, com amparo em todas as ciências citadas, a causa do crime evolui no decorrer dos anos. Para Rousseau, por exemplo, o crime era um fenômeno cujas causas deveriam ser investigadas na sociedade. Já para o médico Lombroso, o crime tinha como causa fundamental a estrutura do individuo. Pelos estudos atuais o crime se caracteriza pelo elemento bio-psico-social. Ou seja, o crime ocorre por elementos ligados à estrutura física relacionada a fatores patológicos. Ainda, deve ser analisado aspectos psicológicos do indivíduo e por fim, analisa-se o contexto social em que se inserem os autores do crime para analisar o fenômeno crime.
Uma das vertentes do estudo da criminologia ocorre pela ótica das chamadas escola sociológica do conflito, segundo a qual, são inerentes às sociedades a relação entre dominantes e dominados e os conflitos decorrentes dessa relação. Assim, modernamente a criminologia tem voltado sua atenção para as agências penais que combatem o crime e o conflito existente entre essas agências, deixando um pouco de lado as preocupações com as causas do crime.
Por agências penais, como ensina Zaffaroni, deve-se entender as diversas instituições que agem (por isso agência), sendo elas Poder Legislativo, Poder Executivo, Poder Judiciário, Polícia, Ministério Público, Advocacia, Mídia e Sistema Carcerário.[footnoteRef:3] [3: ZAFFARONI, Eugenio Raúl, ALAGIA Alejandro, SLOKAR, Alejandro. Derecho Penal: parte general. 2ª ed. – Buenos Aires: Sociedad Anónima Editora, 2002, p. 7.]
Agência Policial, Agência judiciária e Agência penitenciária são criadas e em tese, funcionam de forma harmônica. Contudo, na verdade estão em conflito. Agências policiais abarca, em termos sociológicos, todas as policias. Agência judiciária é compreendida por ministério público, judiciário propriamente dito,defensoria e respectivos funcionários.
A atividade policial tem, muitas vezes, a finalidade de manter a burocracia, além de possuir o objetivo escuso de manter o poder. As agências tem o interesse de expandir cada vez mais seu poder tendo cada vez mais poder de escutas telefônicas, interrogar a qualquer um etc.
Há ainda outras três agências que fazem parte do sistema penal, mas que, porém, não são exclusivamente do sistema penal. São elas: o poder executivo, que representa a agência política (ou poder político) e a classe dominante, faz concursos e mantém os salários e desenha a política criminal do Estado e o poder legislativo, que tem como prerrogativa fazer as leis.
Outra agência que existe é a midiática, que vem a ser o meio massivo de comunicação. Essa agência abarca o poder que se canaliza por meio do poder que se exerce pelo poder político. Televisão, internet, rádio e papel são meios massivos de poder. Quando a legislação permite que um grupo econômico possua muita influencia por meio de vários tipos de mídias, estes grupos se tornam agências que influenciam no direito penal. A finalidade dos meios massivos de comunicação é obter lucro, ganhar dinheiro. Portanto, entram no sistema penal para ganhar dinheiro. Ou seja, o sistema penal tem a finalidade de combater a criminalidade, porém, o meio massivo de comunicação tem como objetivo ganhar dinheiro. Facilmente se percebe que há conflito em relação aos objetivos.
Outra questão que não pode se desprezar, é a formação dos futuros operadores do sistema penal, que vem a ser as agências de reprodução de ideologia. Ou seja, se, como se disse, as agências são formadas por policiais, juízes, promotores de justiça, delegados de polícia etc., dependendo da maneira como os agentes que fazem parte das agências são formados, se saberá qual será a mentalidade e a maneira de combate à criminalidade. Assim, se o currículo das faculdades de direito desprezam os estudos relacionados à criminologia e aos direitos humanos, consequentemente haverá reprodução de um sistema penal menos garantista e mais destinado à repressão autoritária do crime, desprezando-se reiteradamente os postulados do Estado Democrático de Direito.
Para o presente trabalho, interessa analisar mais de perto as agências judicial e policial, bem como o conflito que surge da atuação de ambas na definição do que seja crime e no combate das condutas definidas como crime.
2. Criminalização primária, criminalização secundária e vulnerabilidade
É fato que o homem é um ser essencialmente gregário. Une-se desde os primórdios com seus iguais visando a uma série de objetivos em comum. Nascem assim, em noções gerais, as sociedades.
Entretanto, o mesmo homem que visa a aproximar-se de seus semelhantes, demonstra desde o passado mais remoto grande dificuldade em se relacionar de maneira harmoniosa e pacífica com aqueles a quem chama irmãos.
Vivendo em sociedade, essa dificuldade de relacionamento manifesta-se contra diversos bens da vida com intensidade variada, irradiando em cada área do relacionamento humano condutas divergentes daquilo que cada sociedade, em momentos específicos, convencionou chamar de correto, adequado ou direito, fazendo nascer no âmbito da família a rebeldia; da religião o pecado; da ética o indecoro; da administração a infração administrativa; da vida civil o ilícito civil e no âmbito penal o crime, que de todas as condutas citadas, é a mais perniciosa para o seio social.
Nota-se que nem todas as condutas que agridem os bens da vida são crimes. Melhor dizendo, na maioria das vezes tais condutas devem ser protegidas por outros instrumentos de pacificação social. Temos, então, o caráter fragmentário do Direito Penal, e somente devem ser chamadas de criminosas as condutas que violem bens jurídicos relevantes de forma grave.
Se com a sociedade nasce o crime, no momento mesmo em que esse ocorre nasce para o Estado o jus puniendi, gerando, portanto, um conflito de interesses. De um lado encontra-se o Estado com a pretensão punitiva, do outro o cidadão resistindo à pretensão estatal, tendo em vista seu direito à liberdade.
Nesse diapasão, não pode o Estado, no exercício do jus puniendi, utilizar-se de quaisquer regras. Ou então inventar regras novas desrespeitando o direito constitucional do cidadão de se defender. Ainda, não pode utilizar-se de regra nenhuma. E por fim, também não pode deixar de exercer a persecução penal. Deve o Estado atentar para as regras processuais e – principalmente – constitucionais para submeter o cidadão a uma pena.
O Estado, para chegar à efetivação de sua pretensão punitiva, pode e deve valer-se de meios legítimos para investigar a prática do delito e chegar até o cabal esclarecimento sobre sua autoria e materialidade, e é por isso que há anos existem as técnicas de investigação policial. Do mesmo modo, na fase judicial, o Estado deve observar uma série de regras constitucionais que regulam o processo para que a acusação se dê de forma que garanta a ampla defesa do acusado.
Essa é a maneira didática e utópica de se analisar o que se chama de crime em determinado Estado. Zaffaroni, por sua vez, subdivide o processo de criminalização em primária e secundária. Na criminalização primária, há um processo estabelecido pela Constituição do Estado, no qual determinado órgão fica responsável por identificar as condutas mais perniciosas para o seio social e rotulá-las como crime. No Brasil, por exemplo, compete à União legislar sobre Direito Penal, definindo crimes e cominando penas. Portanto, percebe-se que o processo de criminalização primária encontra-se nas mãos do poder legislativo, uma das agencias penais, conforme dito acima. Muitas vezes nesse processo há interferência também de outra subagência do poder executivo.[footnoteRef:4] [4: ZAFFARONI, Eugenio Raúl, ALAGIA Alejandro, SLOKAR, Alejandro. Derecho Penal: parte general. 2ª ed. – Buenos Aires: Sociedad Anónima Editora, 2002, p. 7.]
A criminalização primária abrange uma gama de crimes muito ampla, que faz com que no Brasil, por exemplo, tenha centenas de leis e crimes. Porém, não são todos os crimes que são investigados ou criminalizados. Na Argentina, por exemplo, setenta e cinco por cento das ações que ingressam no judiciário são ações que se referem a um único bem jurídico que é o patrimônio. O processo de criminalização secundário consiste em se saber quais setores e por quais delitos concretamente praticados irá se movimentar o sistema penal.
Outra questão relevante relacionada à criminalização primária e secundária diz respeito à vulnerabilidade de determinadas pessoas em face do sistema penal que são, no Brasil, os pobres, negros, profissionais do sexo, adolescentes, indigentes etc. Mas e as outras classes sociais, não praticam crimes? A criminalização primária é simplesmente simbólica e formal, resultando que todos são iguais perante a lei. Porém, a grande maioria de condutas incriminadas nunca são punidas, concluindo-se que a criminalização primária não tem poder, pois o poder está na agência que controla a criminalização secundária. Esse poder está nas mãos das agências policiais, pois é ela quem vai analisar quem é que será investigado.
Temos, portanto, a questão da seletividade. Todo sistema penal é seletivo, quais setores, quais pessoas e quais delitos. É impossível de cumprir de modo simultâneo todas as leis criminais do programa incriminador de um Estado, caso contrário, devido ao grande número de condutas criminalizadas primariamente, ninguém conseguiria se sair impune. Todos deveriam ser submetidos a uma lei penal. O programa incriminador é irrealizável. O sistema penal, então, não tem outra alternativa, faz uma seleção. Assim, a pergunta não é se o sistema seleciona, mas sim, quem seleciona e o que seleciona, que delito, que pessoa, que setores. Há assim, sistemas mais racionais, que manejam mecanismos que selecionam melhor e outros que selecionam de forma irracional.
Em relação à seleção de pessoas sobre as quais o sistema penal se imporá, surge o conceito de vulnerabilidade.Dessa forma, o Direito Penal não atinge a todas as pessoas, antes, somente aquelas que são vulneráveis ao sistema penal. São os socialmente mais frágeis, incluindo-se nesse grupo os negros, as prostitutas, os mendigos, dentre outros, variando de Estado para Estado a escolha, uma vez que a vulnerabilidade identificada em determinado Estado em um momento histórico, pode não ser vulnerábilidade para outro Estado ou para o mesmo Estado em outro momento da história.
Além de haver grupos de vulneráveis, dentro dos grupos há também uma escala de vulnerabilidade, ou seja, quanto mais longe esteja a pessoa do poder econômico, midiático ou da classe poderosa, mais vulnerável é o cidadão. De outro lado, quando a pessoa tem mais possibilidade de ter condições sociais favoráveis, menos vulnerável é.
Logicamente a escala de vulnerabilidade não é uma medida rígida que as agências penais consultam para aplicar ou não o Direito Penal. Contudo, fácil de perceber que uma mulher (vulnerabilidade pelo gênero), negra (vulnerabilidade pela cor da pele), pobre (vulnerabilidade social), profissional do sexo (vulnerabilidade moral), que pratica um furto contra uma propriedade é muito mais frágil, ou seja, vulnerável ao sistema penal.
Se o quadro se altera, ou seja, um homem (não há vulnerabilidade pelo gênero), negro (vulnerabilidade pela cor da pele), trabalhador de uma empresa há vários anos de classe média (a vulnerabilidade social é relativa), associado de algum sindicato (possui apoio social), que pratica um crime de lesão corporal dolosa. Nesse caso, esse cidadão hipotético, é menos vulnerável ao sistema penal, uma vez que tem mais possibilidades de fazer valer seus direitos frente ao Estado, que no primeiro exemplo.
Muito menos vulnerável é um homem, branco, empresário, empregador de grande número de pessoas em determinada cidade, participante de alguns clubes sociais, colega de faculdade e amigo de várias autoridades da cidade, membro de família tradicional da cidade e irmão de um deputado federal que pratica um crime de sonegação fiscal envolvendo grande valor em dinheiro. Nesse caso a vulnerabilidade é bem menor que os casos anteriores.
Enfim, quando o tema é vulnerabilidade, não quer dizer que no primeiro caso com certeza a mulher será condenada, nem que no último o empresário será absolvido. O conceito de vulnerabilidade destaca que no primeiro caso há fragilidade em face do Estado, e no último maior possibilidade de haver uma paridade de armas.
Grande parte da sociedade está no meio da escala de vulnerabilidade. Os trabalhadores assalariados que são, por exemplo, taxista, motorista de ônibus, estudantes universitários, pessoas que possuem curso superior.
Já as pessoas de baixa vulnerabilidade são os oficiais policiais, empresários, juízes e promotores, financistas, banqueiros etc. Algumas vezes essas pessoas são pegas, porém, quando isso ocorre, há todo um aparato para que não sejam condenadas.
Há ainda aqueles que são invulneráveis, por exemplo, presidente da república, presidente de um grande império de telecomunicações, ministro da suprema corte.
3- O papel do juiz de direito no combate da vulnerabilidade
Fácil de perceber o elevado grau de injustiça quando o Estado, para aplicar o direito penal se vale da vulnerabilidade do cidadão. Nesse contexto se sobressai o papel do Juiz de Direito na condução do processo, fiscalizando a atuação das agências envolvidas na apuração dos fatos, bem como a atuação eficiente ou não da defesa técnica no caso concreto. Assim, o juiz deve fazer prevalecer o devido processo legal, expressão que deriva do inglês due process of law, princípio vetor do processo, em matéria penal é chamado de devido processo penal.
No Brasil foi elevado à condição de garantia fundamental do cidadão, conforme disposto no artigo 5º, inciso LIV: “Ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal”. Devido processo legal deve ser entendido como a garantia do cidadão de que ao ser acusado de um crime, somente será privado de sua liberdade após ser seguido passo a passo o processo estabelecido em lei.
Alexandre de Morais lembra que
(...) o princípio do devido processo legal, que remonta à Magna Charta Libertatum de 1215, de vital importância no direito anglo-saxão, igualmente o art. XI, nº 1, da Declaração Universal dos Direitos do Homem, garante que ‘todo homem acusado de um ato delituoso tem o direito de ser presumido inocente até que a sua culpabilidade tenha sido provada de acordo com a lei, em julgamento público no qual lhe tenham sido asseguradas todas as garantias necessárias à sua defesa’.[footnoteRef:5] [5: MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional, 11ª ed. – São Paulo: Atlas, 2002, p. 112..]
Acrescenta Edilson Mougenot Bonfim que a garantia de que o conteúdo da jurisdicionalidade é a legalidade (nullus actum sine lege), ou seja, o rigor de obediência ao previamente estabelecido na lei. De fato, a origem histórica do princípio é inglesa (art. 39 da Magna Carta, outorgada em 1215 por João Sem Terra aos barões ingleses), muito embora a concepção moderna do que venha a ser o devido processo legal se deve, em grande medida, à construção jurisprudencial da Suprema Corte norte-americana.[footnoteRef:6] [6: BONFIM, Edilson Mougenot. Curso de Processo Penal. 4ªed. – São Paulo: Saraiva, 2009, p. 39.]
Assim, o princípio do devido processo legal deve ser observado pelo Estado no combate à criminalidade estabelecendo leis a serem seguidas, as quais tanto servem como instrumento do Estado em sua persecução penal, como também são limites impostos ao próprio Estado visando proteger o cidadão contra possíveis desmandos.
Desdobramento do devido processo legal, o contraditório é outro princípio que deve ser tratado com bastante zelo pelo julgador, principalmente em favor do réu vulnerável. O contraditório possui status constitucional no Brasil, nos termos do artigo 5º, inciso LV: “Aos litigantes, em processo judicial ou administrativo, e aos acusados em geral são assegurados o contraditório e a ampla defesa, com os meios e recursos a ela inerentes”. O juiz coloca-se equidistante das partes, só podendo dizer que o direito preexistente foi devidamente aplicado ao caso concreto se, ouvida uma parte, for dado à outra o direito de manifestar-se em seguida.
Outro desdobramento do princípio do devido processo legal, a publicidade, é outra conquista do cidadão no decorrer da história, contra possíveis desmandos do Estado na repressão penal. Encontramos no ordenamento jurídico brasileiro a publicidade dos atos processuais expresso no artigo 792 do CPP que traz a seguinte redação: “As audiências, sessões e os atos processuais serão, em regra, públicos, e se realizarão nas sedes dos juízos e tribunais, com assistência dos escrivães, do secretário, do oficial de justiça que servir de porteiro, em dia e hora certos, ou previamente designados”.
Também a Constituição Federal, respectivamente no artigo 5º, inciso LX: “A lei só poderá restringir a publicidade dos atos processuais quando a defesa da intimidade ou o interesse social o exigirem” e 93, inciso IX, “todos os julgamentos dos órgãos do Poder Judiciário serão públicos, e fundamentadas todas as decisões, sob pena de nulidade, podendo a lei limitar a presença, em determinados atos, às próprias partes e a seus advogados, ou somente a estes, em casos nos quais a preservação do direito à intimidade do interessado no sigilo não prejudique o interesse público à informação”.
Por fim, cabe transcrever o que dispõe o Pacto de São José da Costa Rica, em seu artigo 8º, 5 “o processo penal deve ser público, salvo no que for necessário para preservar os interesses da justiça”. A publicidade tem o condão de fazer com que se torne patente a todos os interessados, como atuam os órgãos da justiça, sendo um imperativo do processo do tipo acusatório, tendo-se, pois, que o sigilo é próprio do sistema inquisitorial, do qual o Brasil, na qualidade de Estado Democrático de Direito, vem buscando se distanciar. Em todos os dispositivos mencionadosobserva-se a mesma sistemática de se ter um processo público,
Conclui-se que o devido processo legal, o contraditório e a publicidade são princípios antigos e base do Direito Processual das principais democracias do mundo e, a partir do momento em que o juiz de direito faz prevalecer esses princípios, dando todas as oportunidades de defesa ao cidadão (qualquer cidadão), fará diminuir a vulnerabilidade dos mais desamparados.
O Judiciário é mais do que aplicador do direito positivado, cabe ao magistrado, bem como às cortes superiores, analisar os casos tendo em mente a questão da criminalização primária, secundária e a vulnerabilidade do cidadão que está sendo julgado para concluir se a finalidade da pena segundo prescrito na Constituição Federal e os anseios do Estado Democrático de Direito estão sendo alcançados.
Niklas Luhmann, conforme analisado por Lima, elabora uma nova perspectiva para o papel fundamental do processo na sociedade, consequentemente para o magistrado, afirmando que
o papel do processo é fazer aplicar as normas e os valores por elas representados. Como ocorre em todos os sistemas sociais no processo de diferenciação da comunicação, na proporção da intensificação comunicativa, a complexidade reduz-se. No subsistema do direito, o processo guiado pelo lícito/ilícito absorve a complexidade. (...) O aumento de complexidade da sociedade incentiva a produção de normas cada vez mais gerais e abstratas (pense-se no Código Civil, em que se privilegiou acima de tudo a construção de cláusulas gerais). Elas corroboram o dinamismo da comunicação, garante-se que o observador interno (o juiz) possa proferir as suas decisões adaptadas ao caso prático.[footnoteRef:7] [7: LIMA, Fernando Rister de Sousa. Sociologia do direito: o direito e o Processo à luz da teoria dos sistemas de Niklas Luhmann. Curitiba: Juruá, 2009, p. 80.]
A proporcionalidade deve ser analisada em um primeiro momento pelo legislador, entretanto, caso este órgão do poder não o faça, o julgador deve sempre interpretar e aplicar a norma jurídica priorizando as legítimas expectativas sociais, bem como o espírito da lei, devendo, portanto, o magistrado, analisar a finalidade e a expectativa que se têm para a privação da liberdade, e aplicá-la no caso concreto, tão somente quando esta tem a possibilidade de ser eficaz, ou seja, a lei não pode ser aplicada cegamente pelo juiz.
Afirma Barroso que a repercussão do direito constitucional sobre a disciplina legal dos crimes e das penas é ampla, direta e imediata, embora não tenha sido explorada de maneira abrangente e sistemática pela doutrina especializada. (...) Adicione-se a circunstância de que algumas tipificações previamente existentes são questionáveis à luz dos novos valores constitucionais ou da transformação dos costumes, assim como podem ser excepcionadas em algumas de suas incidências concretas, se provocarem resultado constitucionalmente indesejável (grifamos).[footnoteRef:8] [8: BARROSO, Luís Roberto. Neoconstitucionalismo e constitucionalização do Direito. O triunfo tardio do Direito Constitucional no Brasil. Revista Eletrônica sobre Reforma do Estado, Salvador, Instituto Brasileiro de Direito Público, n. 9, março/abril/maio, 2007. Disponível em http://www.direitopublico.com.br/rere.asp. Acesso em: 20 jul. 2014.
]
O juiz deve, portanto, por meio de suas sentenças, insurgir-se contra a imposição da manutenção de poder que se dá por meio do direito penal, preservando os direitos dos vulneráveis. Assim, necessário se faz que o julgador ultrapasse a letra fria da lei e busque efetivar os anseios do Estado Democrático de Direito, o qual não quer esmagar seus cidadãos, por mais vulneráveis que sejam.
Assim, estará o julgador, tornando-se coparticipante do processo de criação do Direito, completando o trabalho do legislador, ao fazer valorações de sentido para as cláusulas abertas que atingem de forma contundente somente os cidadãos em estado de vulnerabilidade.
Não se pode, por óbvio, demonizar a positivação de direitos em leis formais que se dá por meio da criminalização primária, pois a legalidade é princípio constitucional e conquista do cidadão ao longo da história, tornando-se uma das grandes garantias do indivíduo em várias esferas da vida com relevo no âmbito penal.
Contudo, a lei, no atual estágio do constitucionalismo, deve ser entendida como a baliza prevista pelo representante do cidadão, tendo por base fatores econômicos, sociais, históricos e temporais, repita-se, observando-se a vulnerabilidade para que não haja injustiças.
Conclusão
Pela análise feita acima, podem ser extraídas algumas conclusões, conforme abaixo.
Em primeiro lugar, conclui-se que a análise criminológica do fenômeno criminal atualmente deve ser feita não partindo daquilo que é crime, mas daquilo que é considerado como crime e do porquê determinada conduta é considerada como crime, uma vez que, o processo de criminalização primária não se dá porque existem condutas que por si só devam ser criminalizadas, antes, em determinado contexto, o grupo dominante declara que determinada conduta será criminalizada.
A segunda conclusão que se chega é que no processo de criminalização secundária, apesar do legislador já ter definido a gama de condutas que foram criminalizadas, são escolhidas somente algumas condutas que serão perseguidas.
Além da escolha de quais condutas criminalizadas serão escolhidas para se combater, há também a escolha de quem se irá perseguir, chegando à terceira conclusão, ou seja, somente os vulneráveis que praticam as condutas criminalizadas que se resolve combater serão perseguidos e sobre eles se imporá uma pena. O Direito Penal se volta somente contra os vulneráveis.
A quinta conclusão que se chega é que a agência penal que possui melhor condição para reverter este quadro é o poder judiciário, que deve se valer dos postulados constitucionais que sustentam o Estado Democrático de Direito para “equilibrar o jogo” e possibilitar que os direitos decorrentes do devido processo legal prevaleçam em favor dos vulneráveis.
Longe de ser abolido, o Direito Penal deve se tornar mais eficiente o quanto antes para que deixe de ser instrumento de marginalização social, tornando-se ferramenta eficiente e apta para os anseios do Estado brasileiro, que busca em todas as áreas da sociedade ser democrático e de direito.
BIBLIOGRAFIA
BARROSO, Luís Roberto. Neoconstitucionalismo e constitucionalização do Direito. O triunfo tardio do Direito Constitucional no Brasil. Revista Eletrônica sobre Reforma do Estado, Salvador, Instituto Brasileiro de Direito Público, n. 9, março/abril/maio, 2007. Disponível em http://www.direitopublico.com.br/rere.asp. Acesso em: 10 out. 2010.
BONFIM, Edilson Mougenot. Curso de Processo Penal. 4ªed. – São Paulo: Saraiva, 2009.
CÓDIGOS PENAL; Processo Penal e Constituição Federal / obra coletiva de autoria da Editora Saraiva com a colaboração de Antonio Luiz de Toledo Pinto, Márcia Cristina Vaz dos Santos Windt e Lívia Céspedes – 6ª edição – São Paulo: Saraiva, 2010.
LIMA, Fernando Rister de Sousa. Sociologia do direito: o direito e o Processo à luz da teoria dos sistemas de Niklas Luhmann. Curitiba: Juruá, 2009.
MACHADO, Antônio Alberto. Curso de Processo Penal. 2ªed. – São Paulo: Atlas, 2009, p. 26.
MORAES, Alexandre de. Direito Constitucional, 11ª ed. – São Paulo: Atlas, 2002.
TOURINHO FILHO, Fernando da Costa. Manual de Processo Penal. 10ªed. – São Paulo: Saraiva, 2008, p. 20.
ZAFFARONI, Eugenio Raúl, ALAGIA Alejandro, SLOKAR, Alejandro. Derecho Penal: parte general. 2ª ed. – Buenos Aires: Sociedad Anónima Editora, 2002.
PRINCÍPIOS LIMITADORES DO “IUS PUNIENDI”
I- CONSIDERAÇÕES GERAIS – os princípios são as bases de sustentação de qualquer ramo do Direito e apesar de um mesmo princípio valer para vários ramos, como por exemplo o princípio da legalidade ou o princípio da dignidade da pessoa humana, cada ramo do Direito tem seu conjunto de princípios, e os princípios gerais funcionam de forma particularpara cada um dos ramos do Direito. Princípio é o ponto de partida para a elaboração de qualquer norma. É também o norte a se seguir para interpretar-se determinada norma. Os princípios tanto se destinam ao legislador no momento da elaboração da norma, como para o operador do direito. É este, aliás, o magistério de Marino Pazzaglini Filho (2000, p. 17), ao comentar sobre os princípios constitucionais: “Pelo exposto, infere-se que os princípios constitucionais são os mandamentos normativos nucleares e superiores do sistema jurídico que orientam e direcionam a elaboração das regras jurídicas, sua aplicação tanto pelos órgãos públicos como pelos operadores do Direito e a integração da ordem jurídica, com sua incidência direta nas ‘lacunas’ do Direito”. Os institutos jurídicos, então, devem sempre ser analisados pelo prisma constitucional, passando pelo princípio genérico da dignidade da pessoa humana, buscando, ainda, quais princípios específicos atingem diretamente o instituto estudado. Tem-se, portanto, que os diversos institutos do Direito Penal devem sempre ser analisados e aplicados tendo os princípios atinentes a este ramo do Direito como vetores irremovíveis.
Obs: Alguns princípios atinentes ao Direito Penal tem o status Constitucional e são expressos, tal qual o princípio da legalidade. Outros princípios encontram-se expressos no Código Penal, podendo ser citado o princípio da anterioridade. Há ainda os princípios implícitos, como o princípio da insignificância e da adequação social, os quais se extraem pela análise do ordenamento penal/constitucional como um todo.
1 – Princípio da legalidade ou da reserva legal – expresso tanto no Código Penal (art. 1º), quanto na Constituição Federal (art. 5º XXXIX e 37, caput) este princípio determina que somente haverá crime, caso uma lei formal o tenha definido. É chamado também de princípio da reserva legal, tendo em vista que se reservou somente à lei a criação de uma figura típica. Assim, é juridicamente impossível a criação de um crime através de uma portaria, medida provisória ou qualquer outra norma que não seja a lei. Respeita-se, assim, a democracia, uma vez que a lei a que se faz referência é a lex popoli, ou seja, aquela formulada pelo povo através de seus representantes no Congresso Nacional (Câmara dos Deputados e Senado Federal). Por fim, deve ser lembrado que no Brasil, a lei que cria crime é somente a Federal (art. 22, I da CF), sendo, pois, vedado aos Estados, ao Distrito Federal e ao Municípios criarem figuras típicas. Outros aspecto do princípio da legalidade é a taxatividade, inclusive considerada por alguns como princípio. Segundo a taxatividade, a lei penal, por ter conseqüências serias, deve ser clara, objetiva, precisa, taxativa. Caso a conduta não tenha se dado exatamente como descrito na lei, a conduta não pode ser considerada criminosa. Ou seja, uma pessoa não pode sofrer sanção penal por apenas ter agido de forma parecida ou quase igual ao que está descrito na lei.
2 – Princípio da anterioridade – tal qual o princípio da legalidade, este vem expresso tanto no Código Penal (art. 1º), quanto na Constituição Federal (art. 5º XXXIX) nos mesmos artigos. Segundo tal princípio, para que uma pessoa seja punida pela prática de um crime, este deve estar previsto anteriormente em uma lei, devendo, ainda, esta previsão ser clara, pois a lei destina-se a todos não somente a técnicos. Basicamente a anterioridade define as regras do jogo previamente para que ninguém seja surpreendido por um novo tipo penal criado de uma hora para outra. Hoje em dia isto parece bastante claro e óbvio, entretanto, quando foi instituído, trouxe grande evolução no Direito Penal, uma vez que o cidadão ficava vulnerável ao arbítrio do soberano antes da instituição deste princípio.
3 – Princípio da intervenção mínima – o Direito Penal é utilizado pelo Estado somente para proteger determinados bens jurídicos e de determinados ataques graves. Ou seja, não são todos os bens jurídicos que são protegidos pelo Direito Penal. Aliás, é na verdade a minoria dos bens jurídicos. Na ilustração do Professor Fernando Capez, (2008, p. 17) o Direito Penal ‘se apresenta por meio de pequenos flashs, que são pontos de luz na escuridão do universo. Trata-se de um gigantesco oceano de irrelevância, ponteado por ilhas de tipicidade, enquanto o crime é um náufrago à deriva, procurando uma porção de terra na qual se possa achegar’. Em outras palavras, pode-se se dizer que o Direito Penal escolhe determinadas condutas que ferem de forma mais perigosa determinados bens jurídicos, e os define como crime. Denomina-se este princípio de intervenção mínima, pois esta intervenção deve ser rara, pois somente quando outros ramos do Direito não conseguem dar total proteção ao bem, é que deve ser definida a conduta como crime. Assim, por exemplo, um homem de 35 anos que se apaixone por sua irmã de 30 anos e com ela passe a viver maritalmente, praticando assim, o incesto, não estará praticando crime nenhum, pois tal conduta não está tipificada em nenhuma lei como crime. Aliás, o Direito Civil já se encarregou de tutelar tal conduta, impedindo que ambos casem-se, nos termos do artigo 1.521, IV, do Código Civil. De outro lado, a posse é disciplinada tanto pelo Direito Civil (CC, artigos 1.196 e seguintes), quanto pelo Código Penal como, por exemplo, no caso do furto, artigo 155, e 161, II, esbulho possessório, e isso, porque o legislador entende que nestes casos a agressão ao bem jurídico é tão grave, e o bem jurídico é tão relevante, que somente o Direito Civil não consegue tutelar e proteger o bem de maneira adequada.
4 – Princípio da fragmentariedade – O princípio da fragmentariedade aproxima-se muito com o da intervenção mínima, pois o Direito Penal não deve tutelar todos os bens jurídicos, ou não deve tutelar todos os ataques a determinado bem jurídico, porém, somente fragmentos do universo constituído pelos bens jurídicos. Assim, o Direito Penal não pune o adultério, cabendo ao Direito o Civil tutelar as conseqüências advindas desta conduta. Ou seja, a conduta adultério não é bem vista, porém, entende o legislador, que o Direito Civil pode cuidar desta conduta. Já a conduta destruir ou inutilizar coisa alheia, o legislador entendeu que esta conduta, além de ser tutelada pelo Direito Civil, deve também ser tutelada pelo Código Penal (art. 163), pois é um fragmento importante dos bens jurídicos. Entretanto, se ocorre um dano culposo, por exemplo, uma pessoa atira uma paralelepípedo para cima, somente por brincadeira, e sem querer vem a atingir o veículo de seu vizinho, ele terá que indenizar (Art. 927 do CC), entretanto não será punido na esfera penal, uma vez que o legislador entendeu que este fragmento (o dano culposo) não deveria ser tutelado pelo Direito Penal. O professor Fernando Capez não traz a fragmentariedade como princípio, mas apenas como ‘ponto de partida do princípio da fragmentariedade’ (2008, p. 17). Já o professor Cezar Roberto Bitencourt o trata como princípio derivado do princípio da intervenção mínima (2009, p. 14).
5 – Princípio da humanidade – é o princípio que preserva a dignidade da pessoa humana, tal qual vem descrito no artigo 1º, inciso III da CF, apontado em referido dispositivo como um dos fundamentos da República Federativa do Brasil. Na verdade este é o principal princípio, dele derivando todos os demais. Tal princípio expressa que todo ser humano tem uma dignidade inerente, a qual não pode ser violada. Observando-se este princípio não podem ser aplicadas penas degradante, prisão perpétua, pena de morte, trabalhos forçados, tratamento cruel, pois seria atingido diretamente o princípio.
6 – Princípio da culpabilidade – basicamente pode-se expressar tal princípio da seguinte forma: não há pena sem culpa. O artigo 5º, LVII da CF dispõe que ‘ninguém será considerado culpado até o transito em julgado da sentença penal condenatória’. O princípio da culpabilidade é o fundamento da aplicação da pena, pois somente quem é considerado culpado é que pode ser submetidoa uma pena e ainda é o limite para a fixação da pena, vale dizer, a pena deverá ser proporcional à culpabilidade do agente. Culpa neste contexto, é a chamada culpa latu sensu, que abrange o dolo e a culpa (strito sensu). A culpabilidade será estudada mais detalhadamente mais adiante neste trabalho.
7 – Princípio da irretroatividade da lei penal – vem previsto também no artigo 1º do CP e no artigo 5º XXXIX da CF. A lei deve ser anterior ao fato. A lei posterior ao fato, não pode alcançá-lo. Assim, ordenar despesa não autorizada em lei é crime, conforme se vê no artigo 359-D do CP, entretanto, aquele que ordenou despesa não autorizada em lei no ano de 1999, não praticou crime contra as finanças públicas, uma vez que tal crime entrou em vigor no ordenamento jurídico brasileiro somente no ano de 2000. Este princípio tem exceções previstas no próprio Código Penal. Primeiro, a lei penal retroage para beneficiar o réu, nos termos do artigo 2º, parágrafo único. Por exemplo, aquele que cometeu adultério no ano de 2004, será absolvido caso seja sentenciado em abril de 2005, uma vez que no dia 28/03/2005, a bigamia deixou de ser considerado crime no Brasil. Segundo, o artigo 3º prescreve que tanto a lei excepcional, quanto a lei temporária aplicam-se aos fatos praticados durante sua vigência, mesmo após o término desta. Lei temporária é aquela elaborada para durar somente determinado período de tempo. Lei excepcional é aquela elaborada para durar durante períodos excepcionais, como catástrofes, guerra etc.
8 – Princípio da insignificância ou bagatela – o Direito Penal não se presta a tutelar bagatelas, mas somente ofensas graves a bens jurídicos relevantes. Assim, a ofensa insignificante contra determinado bem jurídico não recebe a tutela do Direito Penal. Assim, por exemplo, o crime de furto, descrito no artigo 155 do Código Penal com a seguinte redação ‘subtrair para si ou para outrem coisa alheia móvel’. Não se enquadra neste delito, pelo princípio em estudo, a subtração de uma folha de papel sulfite, ou de uma tampa de caneta etc. Ainda, não constitui o crime de lesão corporal (art. 129 do CP), um leve arranhão quem nem cicatriz deixa. Não deve, entretanto, ser confundido crime de bagatela, ou crime insignificante, que é aquele sobre o qual incide o princípio da bagatela ou da insignificância, com o crime de pequeno potencial ofensivo, tal qual descrito na Lei 9.099/95. Este é o crime que o potencial lesivo, de inicio, já é pequeno, ou seja, ele lesa o bem jurídico de forma menos agressiva. Já o crime de bagatela, o bem jurídico nem chega a ser atingido. Pode-se afirmar, por isso, que o princípio da insignificância pode, inclusive, incidir sobre os crimes de pequeno potencial ofensivo, como por exemplo o crime de dano (163 do CP) e lesão corporal leve (129 do CP). Os tribunais não tem aplicado o princípio em estudo nos casos de crimes contra a Administração Pública, a exceção é o crime de descaminho e para aplicá-lo, tem-se levado em consideração a conseqüência do crime para a vítima. Ou seja, é insignificante para a vítima.
9 – Princípio da ofensividade ou lesividade – este princípio prescreve que somente podem ser incriminadas e punidas, as condutas que ofendam ou lesem o bem jurídico tutelado, vale dizer, não pode haver repressão penal quando não haja ofensa ao bem jurídico. Destina-se tanto ao legislador que deve abster-se de incriminar condutas que não cheguem a ofender o bem jurídico, quanto ao magistrado, que deve analisar em cada caso concreto, se o bem jurídico tutelado pela norma, foi ou não ofendido. Deve-se levar em conta que o princípio da ofensividade caminha junto com o princípio da legalidade, pois não é qualquer ofensa a bem jurídico que levará o agente à sanção, mas somente a ofensa ao bem jurídico que a norma anteriormente já definiu como crime. Desta forma, se o agente, por exemplo, deixa de pagar um cheque pré-datado que emitiu, apesar de ter ofendido o patrimônio do agente, não será punido penalmente, uma vez que este caso particular é tutelado pela esfera civil. Por conta deste princípio que nos termos do artigo 31 do Código Penal não são punidos o ajuste, a determinação, a instigação e o auxílio, caso o crime não cheque, ao menos, a ser tentado, salvo se houver disposição expressa em contrário, uma vez que em nenhum destes casos houve ofensa ao bem jurídico e o Direito Penal não serve para reprimir a intimidade das pessoas.
10 – Princípio da proporcionalidade ou da razoabilidade – ‘Não se matam pássaros com canhões’, é o ditado que bem resume este princípio. Estritamente ligado à pena, a proporcionalidade determina que o Estado não deve punir determinado crime de modo desnecessário, com força excessiva, enfim, de forma desproporcional. Deve, sim, impor a pena de forma razoável, adequada, aceitável. Fere o princípio da proporcionalidade, por exemplo, a amputação da mão de um rapaz que praticou um furto, por exemplo. Traduzem o princípio da proporcionalidade, normas como: artigo 5º, XLVI que impede a imposição de determinadas penas; 5º XLVII que impõe penas mais severas para crimes mais graves, dentre outros. Por fim, deve-se notar que apesar de alguns autores fazerem distinção entre o princípio da proporcionalidade e o da razoabilidade, a verdade é que comumente ambos são empregados como sinônimos.
11 – Princípio da transcendência ou da alteridade – impõe este princípio que somente podem ser punidas as condutas que transcendam a esfera pessoal do indivíduo, não sendo, portanto, punidas as condutas que lesionem exclusivamente a pessoa do agente. Conforme o magistério do Professor Fernando Capez, é ‘por essa razão, que a autolesão não é crime, salvo quando houver intenção de prejudicar terceiros, como na auto-agressão cometida com o fim de fraude ao seguro, em que a instituição seguradora será a vítima de estelionato (CP, art. 171, § 2º, V). Da mesma forma, também não pratica crime aquele que comete tentativa de suicídio, pois neste caso a imposição de qualquer pena que seja contra alguém que se vê desiludido com a vida ao ponto de querer eliminá-la, certamente aumentaria sua penúria. Por este princípio ainda fica proibida incriminação do pensamento, pois este não transcende do indivíduo, não atingindo o outro (altero).
12 – Princípio da confiança – baseia-se no fato de que vivendo em sociedade, todos devem depositar confiança em seu próximo em várias situações, caso contrário, seria demasiadamente penoso para qualquer um, além de cuidar de seus próprios atos, ter que controlar a conduta dos outros. Observando-se este princípio, então, um médico que confia em uma enfermeira, não pratica homicídio ao aplicar uma injeção preparada por aquela profissional, que causa a morte do paciente, pois no caso, o médico não violou um dever de cuidado, não podendo ser punido nem mesmo por crime culposo. Não se pune também o motorista que passa pelo sinal verde aberto para si, na eventualidade de ocorrer um acidente, pois o motorista confia que todos os outros motorista irão parar no sinal vermelho.
13 – Princípio da adequação social - O tipo penal não pode alcançar condutas lícitas, que se realizam dentro de uma esfera da normalidade social. Ou seja, aquilo que apesar de ser tipificado como crime, porém, que é tido como conduta adequada socialmente, não deve ser punida como crime. Alguns exemplos: a mãe que fura a orelha da filha recém nascida; do mesmo modo, famílias que professam a fé judaica não praticam o crime de lesão corporal, por ser socialmente adequado; as lesões corporais praticadas em uma partida de futebol. Todas são condutas que não fere o senso do adequado pela coletividade. Note-se que este princípio atua em conjunto com outros princípios e normas do Direito Penal, pois no caso do furo da orelha da filha, há a incidência do princípio da ofensividade, pois o bem jurídico não foi em verdade ofendido. No caso da circuncisão e da lesão em um jogo de futebol, está-se diante do exercício regular de um direito, quais sejam, o de professar determinada fé e o de praticardeterminado esporte. Este princípio é criticado, uma vez que o conceito de adequação social é bastante vago e impreciso, criando insegurança e muita subjetividade na análise do tipo penal.
14 – Princípio da personalidade - A pena não poderá passar da pessoa do réu. Desta forma, ninguém pode ser responsabilizado pela conduta praticada por outra pessoa. Significa dizer que se o agente criminoso morre, por exemplo, a pena não poderá ser cumprida por seu filho, ou qualquer outra pessoa. Tal princípio vem materializado no ordenamento jurídico brasileiro no artigo 5º, inciso XLV.
15 – Princípio da responsabilidade subjetiva – nenhum resultado típico pode ser atribuído a alguém, a não ser que este tenha agido com dolo ou culpa. Ou seja, o Direito Penal não conhece outra maneira de exteriorização da conduta a não ser através do dolo (intenção de praticar a conduta e atingir o resultado) ou culpa (ação imprudente, negligente ou imperita, que causa determinado resultado, tendo em vista a não observância de um dever objetivo de cuidado a todos imposto). Assim, deve ser analisada a conduta do sujeito (aspecto subjetivo) para se verificar se este agiu com dolo ou culpa. Caso não tenha agido de uma destas duas maneiras, não poderá ser a ele imputado crime. Por exemplo, artigo 121 do Código Penal, matar alguém. Se uma mulher, está em via pública, dirigindo seu veículo de forma regular, em velocidade compatível, enfim, obedecendo a todas as regras de trânsito, vem um homem e se atira na frente de seu veículo, vindo a falecer, chegaremos à conclusão que a causa da morte do homem foi traumatismo craniano causado pelo impacto do veículo da mulher contra seu corpo. Naturalisticamente falando, a mulher do exemplo causou a morte do homem, entretanto, não se pode atribuir a ela o crime de homicídio, uma vez que ela não agiu com dolo nem com culpa.
16 – Pincípio do non bis in idem – numa tradução livre deste brocardo latino, temos ‘não novamente no igual’, expressando que ninguém poderá ser punido mais de uma vez por uma mesma infração penal. E mais que isso, uma mesma circunstância não poderá ser utilizada mais de uma vez na aplicação da pena. Assim, por exemplo, caso o agente pratique um homicídio qualificado por motivo fútil, nos termos do artigo 121, § 2º, II do Código Penal, esta circunstância de motivo fútil não poderá ser utilizada novamente como agravante genérica do artigo 61, II, ‘a’, do Código Penal para majorar a pena.
INTERPRETAÇÃO E INTEGRAÇÃO DA NORMA PENAL
I- CONSIDERAÇÕES GERAIS – A legislação penal prevê diversas modalidades de norma. Não se deve confundir os conceitos de lei e norma. Lei é o instrumento através do qual a norma se materializa. Norma é comando a ser observado. A lei é a regra escrita feito pelo legislador, visando tornar expresso um comportamento indesejado que não deve ser praticado ou um comportamento desejado, e por conseguinte, que deve ser praticado. Norma é uma regra de conduta, podendo ser jurídica, moral, técnica etc. Norma jurídica é uma regra de conduta imposta, admitida ou reconhecida pelo ordenamento jurídico. A lei é o continente, a norma o conteúdo. Na norma, nos dizeres de Binding, estaria o preceito (proibitivo ou positivo em forma de ordem), e na lei encontrar-se-ia a descrição da conduta[footnoteRef:9]. O legislador, levando em conta que o normal é não praticar determinado ato, descreve-o como crime, associando-lhe uma pena. Assim, a lei é descritiva e não proibitiva, ao contrário da norma, que proíbe. Entretanto, não há como negar que norma e lei são usadas comumente como expressões equivalentes. [9: BITENCOURT, César Roberto – Tratado de Direito Penal, Parte Geral 1, 14ª edição, p. 145. Saraiva. São Paulo. 2009.]
II- DIVERSOS TIPOS DE NORMAS PENAIS – As normas penais, descritas na legislação, não são todas iguais, elas em determinados momento proíbem um comportamento, como por exemplo lesionar o outro; em outros permite referida lesão, como no caso do médico que lesiona o paciente para lhe salvar a vida. Assim, as normas penais podem ser divididas em proibitivas, mandamentais, permissivas e explicativas (ou complementar).
1- incriminadoras – são aquelas que descrevem a conduta tida pelo ordenamento jurídico como perniciosa e indesejável para o seio social. Assim, para que se saiba de forma clara qual é o comportamento que deve ser evitado pelo cidadão, descreve-se a conduta proibida (incriminada) e caso referida conduta seja praticada, é imposta uma pena. Desta forma, ao invés do legislador dizer: ‘é proibido matar alguém, e caso isso seja feito, será a pessoa submetida a pena de 6 a 20 anos’, diz-se somente: ‘matar alguém. Pena: reclusão de 6 a 20 anos’. As normas incriminadoras podem ser proibitivas ou mandamentais:
a) proibitiva: proíbem determinado comportamento e caso este comportamento seja praticado, levará à imposição de pena. É o exemplo dado do homicídio.
b) mandamental: determinam que certo comportamento seja praticado e caso este não o seja, configura-se o crime. É o tipo penal dos crimes omissivos, onde a ordem emanada pela norma é justamente para que se faça algo e caso isso não ocorra, haverá a imposição de pena. Exemplo: omissão de socorro, descrito no artigo 135 do Código Penal, onde o legislador pune aquele que deixa de prestar assistência quando é possível fazê-lo sem risco pessoal.
2- não incriminadoras – aquelas que não descrevem um ilícito penal, antes permitem que uma conduta, que inicialmente é típica seja praticada sem a ameaça de pena, ou em outras vezes explica determinado tipo penal. As primeiras são chamadas de normas penais permissivas as segundas de normas penais explicativas.
a) normas penais permissivas – são as normas penais não incriminadoras que tem o condão (poder) de fazer com que determinadas condutas tipificadas em lei como crime, tornem-se lícitas caso praticadas sob o manto de determinadas condições. Exemplo de norma penal permissiva é a legítima defesa, tal qual descrita no artigo 25 do Código Penal, o qual prevê que se entende em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem, assim, quem mata alguém estando em legítima defesa não pratica o crime de homicídio descrito no artigo 121 do Código Penal, pois a norma penal permissiva legitima tal conduta.
b) normas penais explicativas (ou complementares) – são as normas penais não incriminadoras que dão uma explicação sobre determinado instituto ou determinado crime, ou mesmo conjunto de crime. Exemplo típico de norma penal explicativa é o artigo 327 do Código Penal, que define o que se entende por funcionário público para efeitos penais: Considera-se funcionário público, para os efeitos penais, quem, embora transitoriamente ou sem remuneração, exerce cargo, emprego ou função pública.
Obs: Apesar da norma do artigo 25 “explicar” o que se entende por legítima defesa, tal norma não é considerada pela doutrina como explicativa tendo em vista que mais que explicar, ela permite a prática de determinadas condutas que inicialmente são crimes, porém, praticadas da maneira em que a norma permissiva do artigo 25 diz, exclui o crime.
3- norma penal em branco – são aquelas que necessitam de uma complementação em outra norma para poder ser aplicada. São assim normas inacabadas, incompletas.
a) norma penal em branco lato sensu – é aquela cujo complemento encontra-se em norma da mesma hierarquia, ou seja, em outra lei. Assim, por exemplo, o crime descrito no artigo 184 do Código Penal, violação de direito autoral: Violar direitos de autor e os que lhe são conexos: Pena – detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, ou multa. Pois bem, o que são direitos de autor?. Tal resposta se obtém no artigo 1º da Lei nº 9.610/98 que disciplina os direitos autorais no ordenamento jurídico brasileiro e prescreve: Esta Lei regula os direitos autorais, entendendo-se sob esta denominação os direitos de autor e os que lhes são conexos. Nota-se, pois, que o artigo 184 doCódigo Penal é uma norma penal em branco lato senso, pois para ser aplicado, tal dispositivo necessita de complementação e esta se encontra em outra lei.
b) norma penal em branco stricto sensu – entende-se como tal aquela cujo complemento vem descrito em norma de hierarquia inferior, como, por exemplo, portaria ou resolução. Exemplo deste tipo de norma penal é o artigo 33 da Lei 11.343/06, que usa o termo drogas. Pergunta-se: o que é droga? Tal resposta é encontrada na Portaria 344 de 1998, editada pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária – ANVISA, subordinada ao Ministério da Saúde. Assim, como portaria não é lei, sendo de hierarquia inferior, pode-se afirmar que o artigo 33 da Lei 11.343/06 é um exemplo de norma penal em branco stricto sensu.
III- FONTES DO DIREITO PENAL – assim como ocorre com os rios que nascem em algum lugar, ou seja, tem sua fonte, seu nascedouro, da mesma forma ocorre com o Direito Penal, ele possui nascedouro, nascente, um lugar de origem, enfim, ele possui fontes. Cada ramo do Direito tem suas próprias fontes. Algumas são comuns a todos os ramos do Direito, como a Lei, outras se referem somente a um ramo do Direito ou alguns. Estudaremos somente as fontes que dizem respeito ao Direito Penal, levando-se em consideração que as fontes subdividem-se em formais e materiais.
1- fonte material, de produção ou substanciais do direito penal – é a fonte de produção. É o local de onde sai a matéria direito penal. É a fonte que se refere ao órgão incumbido da elaboração da norma. A única fonte de produção do direito penal é o Estado, único legitimado a descrever uma conduta como crime, impor e executar uma pena. Competindo, segundo a Constituição Federal de 1988, à União legislar sobre Direito Penal (art. 22, I).
2- fonte formal, de cognição ou de conhecimento – são aquelas através das quais se faz saber ou se deixa conhecer o direito penal. É fonte formal aquela que escolhe determinada conduta, e coloca na forma de crime. As fontes formais subdividem-se em fontes formais mediatas e fonte formal imediata.
a) fonte formal imediata – a única fonte formal imediata é a lei. Lei é a disposição emanada pelo Poder Legislativo caracterizada por ser impessoal (não visa determinada pessoa), genérica (destina-se a todas as pessoas indistintamente, inclusive àqueles que a elaboraram), abstrata (não visa um fato concreto) e coercitiva (não pede, manda, impõe-se). A Lei é a fonte por excelência do Direito Penal. Estão fora desse conceito de lei os decretos, os regulamentos, resoluções, portarias ou medidas provisórias.
b) fontes formais mediatas – são aquelas que não estão positivadas no direito de um Estado, devendo ser feita uma análise mais minuciosa para se verificar que destas fontes emanam o Direito. São fontes mediatas: costumes, princípios gerais do direito, jurisprudência e doutrina. Observe que, como não há crime sem lei anteriormente que o defina, as fontes formais mediatas não poderão criar crimes, podendo, somente, servir para limitar o poder de punir do Estado ou interpretar a lei.
IV- DA INTERPRETAÇÃO DAS LEIS PENAIS – interpretar significa extrair o exato significado e real alcance de alguma coisa, no caso em tela, da lei. Mais especificamente da lei penal. Ou seja, é entender a maneira correta de aplicar a norma, observando-se os princípios norteadores previstos na Constituição Federal. Interpretar é uma arte, e como tal requer uma série de cuidados, o principal é o de não chegar-se a conclusões absurdas. Apesar de parecer óbvio, no decorrer do estudo de qualquer ramo do Direito (e o Penal não foge à regra) muitas vezes conclusões absurdas são encontradas. Com a interpretação, o operador do Direito busca a vontade da lei, desprezando a vontade de quem a fez. Assim, após a entrada em vigor, não importa o que o Deputado Federal ou o Senador quiseram dizer, importa, sim, aquilo que a lei diz interpretando-se em consonância com o ordenamento jurídico como um todo e com os princípios atinentes ao ramo do Direito estudado.
1- INTERPRETAÇÃO QUANTO ÀS FONTES – a interpretação pode se dar, segundo se observa na maior parte da doutrina, de três formas: a primeira é segundo a fonte da elaboração, ou seja, observando-se o sujeito que elabora a interpretação. Assim, considerando-se a fonte, a interpretação pode ser:
a) Autêntica ou legislativa – é a interpretação formulada pelo órgão encarregado de fazer a norma. Assim, quando o legislador explica um texto da lei valendo-se da própria lei, temos a interpretação autêntica. O exemplo clássico citado pela doutrina é o artigo 327 do Código Penal (o mesmo que vimos acima, no ponto II, 2, b, norma penal não incriminadora explicativa) com a seguinte redação: Considera-se funcionário público, para os efeitos penais, quem, embora transitoriamente ou sem remuneração, exerce cargo, emprego ou função pública. Note-se que o artigo 327, que foi escrito pelo legislador, esclarece (interpreta) o significado da expressão ‘funcionário público’ em termos de Direito Penal. Assim, quando o artigo 312 do mesmo Código Penal estabelece o crime de peculato com a seguinte redação: Apropriar-se o funcionário público de dinheiro, valor ou qualquer outro bem móvel, público ou particular, de que tem a posse em razão do cargo, ou desviá-lo, em proveito próprio ou alheio, não há o perigo de entender a expressão ‘funcionário público’ na mesma concepção que o Direito Administrativo lhe atribui, pois o termo já foi interpretado à luz do Direito Penal.
b) jurisprudencial – A palavra jurisprudência tem como ideia originária ‘prudência do direito’. Desta forma pode-se definir interpretação jurisprudencial como aquela que é dada pelos tribunais, declarando qual a prudência do direito para determinado caso concreto. O poder judiciário brasileiro é escalonado, sendo formado por mais de uma instância. Temos os juízes de direito nos estados e os juízes federais na justiça comum em primeira instância. Existem também os tribunais, que são colegiados de julgadores. Há os Tribunais de Justiça que são superiores aos juízes de direito e os Tribunais Regionais Federais superiores aos Juízes Federais. Acima destes tribunais, há os Tribunais Superiores, que são o Superior Tribunal de Justiça – STJ e o Supremo Tribunal Federal – STF. Pode-se afirmar que a interpretação jurisprudencial é aquela que se dá por meio de decisões reiteradas de determinado tribunal sobre determinada matéria. Cabe esclarecer que os juízes singulares (Juiz de Direito e Juiz Federal) não fazem jurisprudência, estes tem apenas entendimento.
c) doutrinária – Por último, quanto à fonte, a interpretação ainda pode ser doutrinária, ou seja, aquela dada pela doutrina. Doutrina é o modo de pensar o direito penal e seus vários institutos que determinados pensadores tem, e que se notabilizam pela coerência como analisam a matéria. Assim, o Professor Damásio Evangelista de Jesus, por exemplo, após estudar por muito tempo os vários aspectos o Direito Penal, emite suas opiniões e observações sobre este ramo do Direito, o interpretando, fazendo assim, interpretação doutrinária. Há doutrinadores mais antigos, como por exemplo Nelson Hungria e Magalhães de Noronha. Tem ainda outros mais recentes, podendo ser citados Damásio Evangelista de Jesus e Júlio Fabrini Mirabetti. E por fim, há aqueles mais recentes ainda, como Luiz Flávio Gomes, Fernando Capez e Cezar Roberto Bitencourt.
2- INTERPRETAÇÃO QUANTO AOS MEIOS EMPREGADOS
a) gramatical ou literal – é aquela que se utiliza das regras gramaticais da língua portuguesa. Assim sendo, como todo tipo penal é escrito nessa língua, em todas as interpretações, necessariamente, deverá ser feita a interpretação gramatical. Por exemplo, o crime de homicídio descrito no artigo 121 do Código Penal com a seguinte redação: matar alguém. Ora, utilizando-se simplesmente da interpretação gramatical já se consegue chegar ao sentido da lei, ou seja, interpretá-la, pois pelas regras gramaticais oriundas da língua portuguesa, sabe-se que o verbo matar significa retirar a vidaou causar a morte e o substantivo alguém significa ser humano. Deve-se sempre ter em mente dois pensamentos utilizar-se desta técnica de interpretação: 1) a lei não tem palavras supérfluas e 2) as expressões contidas na lei têm conotação técnica e não vulgar. Por fim, vale esclarecer que em algumas situações esta interpretação será suficiente, em outras não, devendo o operador do Direito valer-se ainda da interpretação histórica e/ou da lógica
b) histórica – é a interpretação através da qual o operador do Direito se vale dos acontecimentos históricos bem como dos motivos que levaram o legislador a criar determinada lei. Analisa-se, assim, o anseio da população, o contexto político, econômico, social etc., que influíram no ânimo do legislador para inovar na legislação penal. Exemplo de interpretação histórica são as exposições de motivos de determinada lei.
c) lógica ou sistemática – visa buscar a intenção do legislador, bem como extrair o significado da lei, tendo-se em vista todo o ordenamento penal por inteiro, bem como tendo-se em vista o ordenamento jurídico como um todo. Desta forma um artigo do Código Penal não pode ser interpretado ignorando-se os outros dispositivos do mesmo diploma jurídico. De igual forma, caso outra norma do ordenamento jurídico, por exemplo, do Direito Civil, autorize a prática de uma conduta, o Direito Penal não poderá ao mesmo tempo puni-la. O doutrinador argentino Eugenio Raúl Zaffaroni, defende aquilo que se conhece como a ‘Teoria Conglobante de Zaffaroni’, segundo a qual o Direito Penal deve ser estudado como um todo, não de forma estanque, mas de forma englobada, impedindo-se, assim que de um lado o Estado autorize a prática de um ato e de outro, ao mesmo tempo, o proíba, causando insegurança jurídica.
3- INTERPRETAÇÃO QUANTO AOS RESULTADOS
a) declarativa – mostra aquilo que já existente. Expressa somente o sentido literal da lei. O texto não é ampliado nem restringido. É dizer que o que está escrito, quer dizer exatamente e somente o que está escrito, nem mais, nem menos. Por exemplo, ao interpretar-se o crime de furto, tal qual descrito no artigo 155 do Código Penal (subtrair para si ou para outrem coisa alheia móvel), chega-se à conclusão que o tipo conseguiu expressar com suas palavras, exatamente a conduta que o legislador pretendia proibir. Dessa forma, somente se pune a pessoa que retira contra a vontade (subtrair) com a intenção de se tornar dono da coisa ou que outro se torne (para si ou para outrem), coisa que pode ser movida de um lugar para outro (coisa móvel). Conclui-se, pois, neste exemplo, que está excluída a figura do furto de uso, por exemplo, aquele que subtrai coisa alheia móvel, usa e depois devolve.
b) extensiva – ocorre quando após interpretar-se a lei penal, para atender à sua finalidade, amplia-se, dilata-se, estende-se o alcance de seu preceito, uma vez que o legislador gramaticalmente disse menos do que pretendia. Por exemplo, no crime descrito no artigo 235 do Código Penal que descreve o crime de bigamia, deve se estender este conceito para abranger também o conceito de poligamia. Outro exemplo tem-se no estado de necessidade, tal qual descrito no artigo 24 do Código Penal: Considera-se em estado de necessidade quem pratica o fato para salvar de perigo atual, que não provocou por sua vontade, nem podia de outro modo evitar, direito próprio ou alheio, cujo sacrifício, nas circunstâncias, não era razoável exigir-se. Interpreta-se este artigo de forma extensiva para abranger além do perigo atual, também o perigo iminente, pois não é razoável que se exija de uma pessoa que espere o perigo iminente tornar-se atual para agir.
c) restritiva – se dá quando o intérprete da lei deve restringir o alcance da lei, pois mesmo que sem intenção, o legislador disse mais do que deveria, e agora o operador do Direito deve diminuir o raio de alcance da norma, valendo-se de elementos lógicos, sistemáticos e históricos. Por exemplo, no caso do artigo 157, § 2º, I, traz como causa de aumento de pena a prática do roubo se a violência ou grave ameaça é exercida com emprego de arma. Ora, qual o conceito de arma? O STJ por muito tempo entendeu, através de sua súmula nº 174, que a arma de brinquedo era considerada arma. Entretanto, a partir de 2001, em nova interpretação deste dispositivo, restringiu o entendimento, afirmando que arma de brinquedo é brinquedo e não arma e desta forma revogou aquela súmula.
V- ANALOGIA – não é forma de interpretação da norma, mas forma de complementação da norma penal, pode também ser chamado de processo integrativo. É a aplicação de uma norma prevista para um caso a outro caso para o qual não há norma prevista, objetiva suprimir lacuna indesejável e involuntária da lei. Justifica-se a aplicação, tendo em vista a semelhança entre ambos os casos. Diz-se que a analogia é forma de complementação da norma penal, uma vez que o legislador não tem meios de prever todas as situações, e por isso, não podendo o juiz eximir-se de sentenciar, nem podendo cometer injustiça, deve valer-se do ordenamento jurídico como um todo, mesmo sem haver previsão específica, para resolver o caso sub judici (posto em julgamento).
1- analogia legal – quando existe preceito legal que rege um caso semelhante, porém não outro. Exemplo, o artigo 121, § 3º do Código Penal prevê no caso de homicídio culposo, o instituto do perdão judicial que é um benefício dado àquele que praticou um homicídio sem intenção, e as consequências do evento morte atinge de tal forma o agente, que a pena a ser imposta seria desnecessária. Exemplo, um pai que limpando a arma atinge, sem querer, o filho que falece. Pois bem, a Lei 9.503/1997, Código de Trânsito Brasileiro – CTB, prevê o crime de homicídio culposo causado na direção de veículo automotor. Apesar de ser homicídio culposo, não há nesta lei a figura do perdão judicial. Assim, poderia chegar-se à conclusão de que se disparando uma arma, o pai matar o filho, será beneficiado pelo perdão judicial, entretanto, se o mesmo pai, sem querer atropelar o filho, não será beneficiado. Esta lacuna legislativa é suprimida pela analogia legal, ou seja, utilizando-se um dispositivo da lei, qual seja, o § 3º do art. 121, para a figura típica do artigo 302 do CTB.
2- analogia jurídica – aplicação de preceito consagrado pela doutrina e jurisprudência em determinado caso, para situação semelhante. Por exemplo, a aplicação do princípio da insignificância aos crimes contra a Administração Pública, inicialmente utilizado somente para os crimes contra o patrimônio.
3- analogia in bonam partem – é a analogia utilizada para beneficiar o acusado, e esta (somente esta) é permitida em Direito Penal, podendo ser citados os dois casos anteriores para exemplificar a analogia in bonam partem (na parte boa).
4- analogia in malam partem – aquela que prejudica o réu, a qual é vedada no ordenamento jurídico, tendo em vista o princípio da legalidade, não sendo, por isso, permitido utilizar uma determinada lei para incriminar uma outra conduta não tipificada em lei. Isso não se dá, mas poderia ser citado como exemplo de analogia in malam partem (na parte má), punir-se o médico veterinário nos termos do artigo 282 do Código Penal (Exercício ilegal da medicina, arte dentária ou farmacêutica: Exercer, ainda que a título gratuito, a profissão de médico, dentista ou farmacêutico, sem autorização legal ou excedendo-lhe os limites), utilizando-se por analogia o termo médico (profissional que cuida da saúde de pessoas) para atingir o veterinário (médico que cuida da saúde de animais).
VI- INTERPRETAÇÃO ANALÓGICA – é processo interpretativo, que se dá em alguns dispositivos penais, onde o legislador, após uma sequência casuística, utiliza-se de uma formulação genérica, que deve ser interpretada de acordo com os casos anteriores. Exemplos, art. 121, § 2º, I, - mediante paga ou promessa de recompensa, ou por outro motivo torpe, ou seja, após uma sequência dada ao acaso, pegando alguns exemplos de casos torpes (paga, ou promessa de recompensa), informaque além daqueles, qualquer outro motivo torpe poderá qualificar o crime de homicídio (matar para obter favores sexuais, por exemplo).
LEI PENAL NO TEMPO
I- CONSIDERAÇÕES GERAIS – artigo 5º, XL da Constituição Federal a lei penal não retroagirá, salvo para beneficiar o réu. Pela simples leitura do inciso transcrito da Constituição Federal, pela sua posição no título II, capítulo I, chega-se à conclusão de que se trata de um direito individual fundamental. Ou seja, é garantia de qualquer cidadão saber anteriormente das ‘regras do jogo’, vale dizer, todos devem saber quais condutas são consideradas crimes e quais as penas correspondentes antes do ato ser praticado. A lei que incrimina nova conduta, é lícita, entretanto tal lei em hipótese alguma poderá atingir condutas praticadas antes da entrada em vigor da lei, a não ser que esta lei sirva, de qualquer modo, para beneficiar o réu.
II – VIGÊNCIA DA LEI – toda Lei tem um início, um meio e um fim. Nasce, vive e morre. Entra em vigor, tem eficácia e é revogada. A Lei entra em vigor, via de regra, na data indicada na própria lei. Por exemplo, o artigo 340 da Lei 9.503/1997, Código de Trânsito Brasileiro, prescreve que entraria em vigor 120 dias após sua publicação. Caso a lei não traga em seu bojo a data em que entrará em vigor, aplica-se a regra geral contida no artigo 1º da Lei de Introdução do Código Civil, que determina que Lei entra em vigor 45 dias após sua publicação. Algumas leis, ainda, entram em vigor na mesma data de sua publicação.
a) sanção – é o ato através do qual o Presidente da República, representando o Poder Executivo, atesta sua concordância com o Poder Legislativo com o texto legal. Contrário à sanção é o veto, quer dizer, se o Presidente da República não concorda com o texto, veta-o.
b) promulgação – conseqüência jurídica concomitante com a sanção presidencial é a obrigatoriedade da lei para todos, tal conseqüência é a promulgação. A promulgação atesta a existência da lei no ordenamento jurídico brasileiro.
c) publicação – se é obrigatória a observância da lei, injusto seria cumpri-la sem saber seu conteúdo. Assim, publicação é o ato oficial através do qual se presume que a população tomou ciência da existência e do conteúdo da Lei. O meio utilizado para a publicação da Lei é o Diário Oficial da União, e a partir deste momento começa a contar o prazo para sua vigência
d) vigência – é período pelo qual a lei tem eficácia e pode/deve ser observada.
e) revogação – é o ato pelo qual a lei sai do ordenamento jurídico brasileiro, se extingue. Uma lei somente pode ser revogada por outra lei, podendo esta ser expressa, ou seja, diz de forma clara que determinada lei foi revogada, ou tácita, a lei posterior disciplina totalmente a matéria, ou disciplina de forma contrária à lei anterior.
f) vacatio legis – é o período de tempo entre a publicação e a entrada em vigor da lei. Por exemplo, quando a lei diz que entrará em vigor 120 dias após a data de sua publicação, tem-se um vacatio legis de 120 dias. O artigo 1º da Lei de Introdução ao Código Civil estabelece um vacatio legis geral de 45 dias.
II- PRINCÍPIOS DA LEI PENAL NO TEMPO – como dito, a lei nasce, tem um período de vigência e morre, melhor dizendo, perde a vigência. Via de regra, a lei perde sua vigência pela entrada em vigor de outra lei que regula a mesma matéria, ou revoga expressamente a lei anterior. Com esta situação surge o problema do chamado direito intertemporal, ou seja, qual lei aplicar para determinada conduta que ocorreu sob o manto da vigência de determinada lei, mas será julgada sob a vigência de outra. Para resolver este problema há a aplicação de princípios conforme se verá.
1- Irretroatividade da lei penal – artigo 5º XL da Constituição Federal a lei penal não retroagirá, salvo para beneficiar o réu, com patamar de garantia constitucional esta é a regra fundamental nesta matéria. Visa manter a segurança e a liberdade na sociedade em respeito ao princípio da legalidade e da anterioridade da lei. Este princípio assegura a todo cidadão que a lei penal nova, que cria um novo tipo penal, ou agrava a pena de um crime já existente, não poderá atingir aqueles fatos já passados e cometidos sem a vigência desta lei. É uma garantia em face ao Estado.
2- Retroatividade da lei penal mais benigna – exceção ao princípio anterior, vem insculpido na segunda parte do artigo 5º XL, a lei penal não retroagirá, salvo para beneficiar o réu. O parágrafo único do artigo 2º do Código Penal esmiúça melhor tal princípio, estabelecendo que a lei posterior, que de qualquer modo favorecer o agente, aplica-se aos fatos anteriores, ainda que decididos por sentença condenatória transitada em julgado. Vale dizer, se a lei posterior traz qualquer benefício ao acusado, tal qual a diminuição da pena, ou a extinção da pena de multa, enfim, qualquer benesse que seja, deverá ser aplicada ao réu ou condenado, independentemente da fase processual em que esteja.
3- Conclusão – conclui-se que a lei penal anterior, quando mais benéfica, tem ultratividade (atividade após a revogação), aplicando-se aos fatos posteriores à sua revogação. Do mesmo modo, a lei posterior, quando mais benéfica, tem retroatividade (atividade em relação a fatos praticados antes de ter entrado em vigor), aplicando-se aos fatos anteriores à sua vigência.
III- HIPÓTESES DE CONFLITOS DE LEIS PENAIS NO TEMPO – as hipóteses em que há possibilidade de se verificar conflitos da lei revogada com a revogadora são as seguintes:
1- abolitio criminis – se dá quando o Estado deixa de entender determinada conduta que até então foi incriminada como nociva à sociedade ao ponto de ter que ser ameaçada com pena. Tal regra vem expressa no artigo 2º do Código Penal: ninguém pode ser punido por fato que lei posterior deixa de considerar crime, cessando em virtude dela a execução e os efeitos penais da sentença condenatória. Tem-se no artigo 107, III (extingue-se a punibilidade: pela retroatividade de lei que não mais considera o fato como criminoso) do mesmo diploma jurídico que abolitio criminis é causa de extinção da punibilidade. Ou seja, o Estado perde o ius puniendi sobre aquela conduta, devendo o Processo ser arquivado em qualquer fase que esteja quando a lei entende não ser mais crime a conduta. Exemplo desta situação é o artigo 240 do Código Penal, que considerava o adultério crime, mas que foi revogado em 28/03/2005 através da Lei 11.106.
2- novatio legis incriminadora – contrário do abolitio criminis, anteriormente determinada conduta não era incriminada, porém a partir de determinado momento o Estado entende que a conduta é nociva ao corpo social ao ponto de ser ameaçada com pena. Neste momento, como a lei nova é mais maléfica ao agente, não poderá ser aplicada ao fato pretérito. Dentre tantos outros, pode ser citado como exemplo de novatio legis incriminadora a Lei 9.455/1997 que passou a incriminar a tortura. Assim, a partir da promulgação desta lei, aquele que constrange alguém com emprego de grave ameaça a sofrimento mental, em razão de discriminação racial, passa a responder por tortura, cuja pena é de 2 a 8 anos de reclusão. Antes desta lei, a mesma pessoa responderia somente pelo crime de ameaça, cuja pena é de 1 a 6 meses de detenção, nos termos do artigo 147 do Código Penal.
3- novatio legis in pejus – também chamada de lex gravior, de forma diferente à novatio legis incriminadora, esta não incrimina uma conduta anteriormente lícita, mas de qualquer modo agrava a situação do agente. O artigo 155, § 5º é exemplo desta situação. O furto de veículo que é transportado para outro Estado ou para o exterior desde que o Código Penal foi editado é crime. Entretanto, a partir de 24/12/1996, por meio da Lei 9.426, passou a ter uma pena mais grave, ou seja, agravou a situação do agente que pratica tal furto, pois se antes a pena era de 1 a 4 anos, passou a ser de 3 a 8 anos.
4- novatio legis in mellius – ao contrário da novatio legis in pejus estamos diante de uma lex mitior, ou seja, uma lei quede qualquer forma favorece a situação do agente do crime. O furto do veículo a ser transportado para o exterior ou para outro Estado também pode ser citado como exemplo desta situação, pois se de um lado ela elevou a pena de 3 a 8 anos de reclusão, sendo maior que a do furto simples ou mesmo do que a pena do furto qualificado, de outro ela retirou a imposição da pena de multa para este tipo de crime, o que é mais benéfico para o agente. Desta forma, se uma pessoa praticou um furto de veículo automotor em 20/12/1996 (lembre-se que a lei nova é de 24/12/1996) receberá a pena de 1 a 4 anos, e não será submetido a pena de multa havendo ultratividade da pena de 1 a 4 anos e retroatividade da lei nova que excluiu a pena de multa.
IV- LEIS EXCEPCIONAIS E LEIS TEMPORÁRIAS – as leis penais, como regra geral, são criadas para perdurar por tempo indeterminado, enquanto se justificar pelos anseios sociais sua vigência. Como exceções a esta regra, traz o artigo 3º do Código Penal as leis excepcionais e as leis temporárias que são criadas para durar somente por tempo determinado, regulando situação excepcional que em tempos normais não seriam necessárias. Prescreve referido artigo: a lei excepcional ou temporária, embora decorrido o período de sua duração ou cessadas as circunstâncias que a determinaram, aplica-se ao fato praticado durante sua vigência. Observa-se que estas leis, por expressa previsão legal, tem ultratividade, aplicando-se mesmo após o término de sua vigência.
1- leis excepcionais – são aquelas criadas para regular determinada situação extraordinária (excepcional), como por exemplo guerra, catástrofe da natureza, estado de sítio etc.
2- leis temporárias – aquelas que em seu bojo já estabelecem o prazo de validade, por exemplo por um ano, no ano de 2010 etc.
3- aparente contradição – a disciplina do artigo 3º não é contraditória ao previsto no artigo 2º do Código Penal, na verdade é complementar a esta, preenchendo a disciplina da matéria. Assim, a regra toda do Código Penal sobre a matéria é a seguinte:
a) a lei penal não retroagirá se prejudicar o réu (irretroatividade)
b) a lei penal retroagirá se beneficiar o réu (retroatividade)
c) ninguém será punido por fato que lei deixa de considerar crime (retroatividade)
d) a lei posterior que favorecer o réu de qualquer modo, aplica-se a fatos pretéritos (retroatividade)
e) a lei excepcional e a temporária aplica-se aos fatos praticados durante sua vigência (ultratividade)
V- TEMPO DO CRIME - grande relevância tem para o Direito Penal saber qual critério a ser utilizado para se saber qual será considerado o tempo da prática do crime, sendo cridas três teorias a respeito do tema:
1- atividade – por esta teoria, considera-se praticado o crime no momento em que é praticada a ação ou omissão, mesmo que em outro momento se dê o resultado. Assim, por esta teoria, se um rapaz de 17 anos e 11 meses atira na vítima e esta é hospitalizada, ficando internada por dois meses, vindo a falecer em decorrência dos disparos efetuados, o agente não será responsabilizado como adulto, mas sim como adolescente, pois o resultado se deu quando o agente já havia completado 18 anos, mas por esta teoria, considera-se como tempo do crime, o momento da atividade, ou seja, ação ou omissão.
2- resultado – considera-se como momento do crime, aquele em que o resultado se verifica. Assim, no exemplo dado, caso se adote esta teoria, teremos como praticado o crime somente quando o evento morte finalmente se verifica.
3- ubiqüidade ou mista – considera-se como momento do crime tanto o momento da ação ou omissão quanto o momento do resultado. No exemplo dado, tanto quando efetuados os disparos, quanto no momento em que se verifica o evento morte se tem o tempo do crime.
4- teoria adotada pelo Código Penal – nos termos do artigo 4º, verifica-se que a opção do legislador foi pela teoria da atividade: considera-se praticado o crime no momento da ação ou omissão, ainda que outro seja o momento do resultado.
LEI PENAL NO ESPAÇO
I- CONSIDERAÇÕES GERAIS – O Brasil, como é sabido, é um Estado soberano, conforme prescreve o artigo 1º, inciso II da Constituição Federal. Sendo soberano, somente aquelas leis que o Brasil sanciona é que podem ser aplicadas em seu território. Tal regra é seguida de modo geral pelos países soberanos, não admitindo ingerência externa em sua legislação. Entretanto, em alguns casos, os Estados entendem necessário punir infrações penais que ocorreram fora do território do país, visando a cooperação entre as nações no combate de crimes mais graves e que isoladamente nenhum país consegue combater. Desta forma, a aplicação da lei penal no espaço deve observar determinados princípios.
II – PRINCÍPIOS RELACIONADOS À LEI PENAL NO ESPAÇO – princípios são as bases que regem determinada ciência ou instituto. Em relação à aplicação da lei penal no espaço, há os seguintes princípios:
1- territorialidade – este é o principal princípio utilizado no Brasil, o qual prevê que se aplica a lei nacional em seu respectivo território, independentemente de quem seja o autor do crime, a vítima ou o bem tutelado.
2- real, de defesa ou de proteção – por tal princípio, o Estado ultrapassa suas fronteiras sendo aplicado seu Direito Penal aos crimes que atingem alguns de seus bens jurídicos, os quais o Estado considera mais relevantes, independentemente da pessoa que praticou o crime ou da vítima.
3- nacionalidade ou personalidade – neste caso não se leva em consideração o local do crime, nem o bem tutelado, mas sim quem praticou o crime ou quem foi vítima deste. Justifica-se tal princípio em vista da legitimidade do Estado em poder exigir comportamento adequado no exterior de seu súdito. Justifica-se também pela necessidade do mesmo Estado punir aquelas agressões que atingem seus nacionais. Tal princípio subdivide-se da seguinte forma:
a) personalidade ativa – leva-se em conta a nacionalidade daquele que praticou o crime.
b) personalidade passiva – leva-se em conta a nacionalidade da vítima.
4- universalidade ou cosmopolita – por este princípio todos os Estados devem punir os crimes previstos em tratados e convenções internacionais (e somente aqueles que são anteriormente previstos nestes tratados), independentemente do autor, vítima, bem lesado ou local. Justifica-se este princípio, em vista do crime ser um mal global devendo ser combatido de forma eficaz por todos os Estados.
5- representação ou da bandeira – diz respeito a embarcações e aeronaves, e a nomenclatura se justifica pela bandeira que ostentam ou pelo país que representam. É princípio subsidiário, e aplica-se quando os crimes praticados no interior destes meios de transporte não são punidos no local no estrangeiro, onde forem praticados.
III- PRINCÍPIOS ADOTADOS PELO CÓDIGO PENAL – todos os princípios acima estudados estão previstos no Código Penal brasileiro, aplicando-se cada qual em determinadas situações.
1 - Territorialidade – é a regra no Direito brasileiro e vem previsto no artigo 5º caput do Código Penal: Aplica-se a lei brasileira, sem prejuízo de convenções, tratados e regras de direito internacional, ao crime cometido no território nacional.
2- Extraterritorialidade – sendo a regra a territorialidade, constitui-se a extraterritorialidade em exceção. Esta se subdivide em extraterritorialidade condicionada e incondicionada.
2.1. Extraterritorialidade incondicionada – encontramos nas hipóteses correspondentes aos seguintes princípios e artigos, quando não se prevê nenhuma condição para a aplicação da Lei Penal brasileira:
a) princípio real, de defesa ou de proteção – artigo 7º, inciso I – Ficam sujeitos à lei brasileira, embora cometidos no estrangeiro: I - os crimes: a) contra a vida ou a liberdade do Presidente da República b) contra o patrimônio ou a fé pública da União, do Distrito Federal, de Estado, de Território, de Município, de empresa pública, sociedade de economia mista, autarquia ou fundação instituída pelo Poder Público; c) contra a administraçãopública, por quem está a seu serviço;
b) princípio da universalidade ou cosmopolita – artigo 7º I, d) - de genocídio, quando o agente for brasileiro ou domiciliado no Brasil.
2.2. Extraterritorialidade condicionada – aplicam-se nas hipóteses seguintes, expressando, também princípios distintos:
a) nacionalidade ativa – Art. 7º - Ficam sujeitos à lei brasileira, embora cometidos no estrangeiro: II - os crimes: b) praticados por brasileiro.
b) nacionalidade passiva – A lei brasileira aplica-se também ao crime cometido por estrangeiro contra brasileiro fora do Brasil, se, reunidas as condições previstas no parágrafo anterior: a) não foi pedida ou foi negada a extradição; b) houve requisição do Ministro da Justiça.
c) princípio da representação ou da bandeira - Art. 7º - Ficam sujeitos à lei brasileira, embora cometidos no estrangeiro: II - os crimes:c) praticados em aeronaves ou embarcações brasileiras, mercantes ou de propriedade privada, quando em território estrangeiro e aí não sejam julgados.
Obs: nestes casos devem estar presentes, concomitantemente, as seguintes condições estabelecidas pelo Código Penal: § 2º - Nos casos do inciso II, a aplicação da lei brasileira depende do concurso das seguintes condições: a) entrar o agente no território nacional; b) ser o fato punível também no país em que foi praticado; c) estar o crime incluído entre aqueles pelos quais a lei brasileira autoriza a extradição; d) não ter sido o agente absolvido no estrangeiro ou não ter aí cumprido a pena; e) não ter sido o agente perdoado no estrangeiro ou, por outro motivo, não estar extinta a punibilidade, segundo a lei mais favorável. Justificando o termo extraterritorialidade condicionada.
III- LUGAR DO CRIME – Nem sempre é fácil definir-se em qual pais foi praticado o crime. Para resolver este problema várias teorias foram desenvolvidas. As três principais, mencionadas pela maior parte da doutrina, são as seguintes:
1- Teoria da ação ou da atividade – considera-se praticado o crime no local onde foi praticada a conduta, independentemente de onde teria ocorrido o resultado.
2- Teoria do resultado ou do evento – considera-se praticado o crime no local onde se produziu o resultado, independentemente do local onde ocorreu a ação ou omissão.
3- Teoria mista ou da ubiqüidade – considera-se praticado o crime no local onde ocorreu a ação ou omissão no todo ou em parte, bem como o local onde ocorreu o resultado. Foi esta a teoria adotada pelo Código Penal no artigo 6º: Considera-se praticado o crime no lugar em que ocorreu a ação ou omissão, no todo ou em parte, bem como onde se produziu ou deveria produzir-se o resultado.
IV- CRIME A DISTÂNCIA – na classificação doutrinária dos delitos, o crime cuja ação ou omissão se dá em um país e o resultado se dá em outro, tem-se o chamado crime à distância. Adotando-se, pois, a teoria da ubiqüidade, no caso do crime a distância, considera-se praticado o crime tanto em um quanto em outro país.
Obs: Não deve ser confundido crime à distância com crime plurilocal. Enquanto no crime à distância a conduta é praticada em um país e o resultado se produz ou deveria se produzir em outro, no crime plurilocal a conduta se dá em um lugar e o resultado se produz ou deveria se produzir em outro, porém, dentro do mesmo país.
V- COMPENSAÇÃO DE PENAS – no caso do crime a distância, em que se considera que o crime foi praticado tanto em um quanto em outro país, em caso de dois julgamentos, para que não haja bis in idem na aplicação da pena, tem-se a solução na regra estabelecida pelo artigo 8º do Código Penal: A pena cumprida no estrangeiro atenua a pena imposta no Brasil pelo mesmo crime, quando diversas, ou nela é computada, quando idênticas.
INSTITUTOS DE DIREITO PENAL INTERNACIONAL
I – INTRODUÇÃO - A Constituição Federal em seu art.12 determina os requisitos para que uma pessoa seja reputada nacional. Para que um indivíduo ser tido como brasileiro nato ele deve estar enquadrado em uma das situações expressamente previstas no art.12, inciso I, da Carta Magna. Os requisitos para que um indivíduo seja reputado brasileiro naturalizado estão fixadas no art. 12, inciso II, da CF/88, bem como na lei ordinária, conforme previsão constitucional. Será, portanto, considerado estrangeiro todos os outros indivíduos que estiverem, temporariamente ou permanentemente, em território nacional, e que não estejam classificados como nacional nato ou naturalizado. Cabe lembrar que aos portugueses não se aplicam as normas aplicadas aos estrangeiros, pois há um tratado internacional de reciprocidade entre Portugal e Brasil acerca da condição jurídica dos seus nacionais quando estiver no outro Estado. O estrangeiro pode ser excluído do território nacional por algumas formas previstas no Estatuto do Estrangeiro (Lei 6.815 de 19 de agosto de 1980). São elas: deportação, expulsão e extradição.
I- CONCEITO E ESPÉCIES DE EXTRADIÇÃO – A deportação e a expulsão são atos administrativos editados no âmbito do Poder Executivo, já a extradição é um pedido de um Estado a outro de entrega de um indivíduo, que em seu território deva responder a processo penal, a ser apreciado no âmbito do Poder Judiciário. A extradição só ocorre quando há prática de crime no exterior, assim se o indivíduo sofrer qualquer condenação civil não poderá ser solicitada sua extradição. O pedido de extradição só poderá ser deferido pelo governo brasileiro se houver tratado entre os dois Estados ou havendo promessa de reciprocidade de tratamento pelo Estado solicitante, de modo que fique assegurada a igualdade de tratamento quando houver pedido de extradição feito pelo Brasil. O Estatuto do Estrangeiro regulamenta a extradição passiva (quando requerida ao Brasil por outro Estado). A extradição ativa (quando o Brasil solicita a outros Estados) tem seu procedimento regulamentado pelo Decreto-Lei nº 394 de 28 de abril de 1938. A Constituição Federal enuncia algumas restrições aos pedidos de extradição feitos ao governo brasileiro. É proibida a extradição de brasileiro nato, não existindo qualquer exceção para esta regra. Tal vedação se aplica ao naturalizado, mas quanto a ele há algumas exceções, quais sejam: o naturalizado pode ser extraditado por crime comum praticado antes da naturalização, bem como em caso de comprovado envolvimento em tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins. Quanto aos estrangeiros, a regra é a permissão de extradição, sendo esta vedada apenas quando forem acusados de crime político ou de opinião.
1- FASES DO PROCESSO DE EXTRADIÇÃO PASSIVA – o pedido de extradição passiva segue três fases: a primeira administrativa (é a recepção do pedido no âmbito do Executivo); a segunda é a judiciária (no âmbito do STF, de caráter contencioso); e a terceira é a efetivação da medida realizada no âmbito do Executivo. Quando o pedido de extradição se fundamentar apenas na promessa de reciprocidade de tratamento, o governo brasileiro, na primeira fase do procedimento, poderá indeferi-lo sem necessidade de submeter o pedido ao STF, é o que se denomina por recusa sumária. A recusa sumária não pode ocorrer quando o pedido de extradição se fundamenta em um tratado, sob pena de responsabilidade internacional. Não havendo a recusa sumária, o governo encaminha o pedido de extradição ao STF. Na corte, o processo será autuado e encaminhado ao ministro relator que ordenará a prisão do extraditando. Nessa fase o extraditando pode oferecer a sua defesa só pode versas sobre aspectos formais e a legalidade do ato. Negado o pedido de extradição pelo STF, o governo comunicará ao Estado requerente a decisão. Deferido o pedido, o governo deverá efetivá-la. A extradição, ao contrário da expulsão, não impede o retorno do indivíduo ao Brasil. Atualmente, após a criação do Tribunal Penal Internacional, se fala em ato de entrega que não se confunde com a extradição prevista do Estatuto do Estrangeiro. Ambos atos são incidem sobre indivíduos que praticaram crimes, entretanto, a extradição é a solicitação de entrega feita por um Estadoa outro, enquanto que o ato de entrega é solicitado pelo TPI ( um organismo internacional a um Estado). São institutos diferentes que seguem procedimentos diversos. Com esse breve apontamento quer se evidenciar as diferenças básicas entres estes institutos, evitando-se, assim, a confusão entre eles.
II – PRINCÍPIOS RELACIONADOS À EXTRADIÇÃO – Há princípios que norteiam o instituto da extradição na legislação brasileira. São eles:
1- Em primeiro serão analisados os princípios relacionados ao crime praticado.
a) Princípio da legalidade – o artigo 91, inciso I da Lei 6.818 de 1980, conhecido Estatuto do Estrangeiro, define que não é possível se falar em extradição, caso o crime atribuído ao extraditando não constar em tratado ou convenção internacional. Assim, por exemplo, se a pessoa que está sendo extraditada pratica um crime de ameaça, e este crime, não está previsto em qualquer tratado ou convenção, não haverá a possibilidade da extradição se consumar. A extradição é ato grave, e os crimes aos quais se destina, devem ser também grave.
Observação: Apesar do artigo 91 fazer referência somente a tratados e convenção, há possibilidade, ainda, de haver a extradição caso o país que pleiteia a extradição, se comprometer no futuro, de maneira recíproca,
extraditar para o Brasil, brasileiro que se encontro no estrangeiro acusado do mesmo crime. Nesta situação, estamos diante do princípio da reciprocidade.
b) Princípio da especialidade: simples de entender. Se o estrangeiro foi extraditado sob a alegação de ter praticado um crime específico (daí a expressão especialidade), não poderá ser julgado por fato diverso. Como um país não tem ingerência sobre outro, conclui-se que deve haver confiança entre os países amigos, contudo, não há garantia de que o país que requer a extradição irá honrar.
c) Princípio da identidade da norma – nos termos do artigo 77, inciso II, do Estatuto do Estrangeiro, o fato que motivou a extradição deve ser crime tanto no país que concede quanto no país que requer a extradição. Tal princípio também é conhecido como princípio da dupla incriminação. Se o fato praticado não for crime em um dos dois países envolvidos, não haverá a possibilidade de se falar em extradição. Ainda dentro deste princípio, necessário se faz que não tenha decorrido o lapso prescricional em nenhum dos dois países envolvidos. Ou seja, além do fato ser crime nos dois países, a possibilidade de sua punição deve estar preservada.
2- O segundo grupo de princípios diz respeito à pena e a ação penal.
a) Princípio da comutação (artigo 91, III, do Estatuto do Estrangeiro) - como consequência do princípio da humanidade, a extradição concedida pelo Brasil é condicionada à não aplicação de pena de morte, prisão perpétua ou pena corporal. Assim, se a pena a ser imposta no país requerente for uma dessas, para que seja concedida extradição pelo Brasil, necessariamente a pena deverá ser comutada (trocada).
b) Princípio da jurisdicionalidade (artigo 77, VIII, do Estatuto do Estrangeiro) – pretende impedir que o extraditando seja julgado, no praís requerente, por Tribunal ou Juízo de exceção. Implicitamente procura garantir o princípio do juiz natural.
c) Princípio “non bis in idem” (artigo 77, III e 91, II, do Estatuto do Estrangeiro) – gera duas consequências: a primeira é que se o Brasil também for competente para julgar o caso, não haverá extradição. Segundo, deverá o tempo de prisão imposta no Brasil, ser contado no tempo da futura pena imposta no estrangeiro.
d) Princípio da reciprocidade (artigo 76, do Estatuto do Estrangeiro) – com a extradição dois Estados se beneficiam, o que requer a extradição, pois julgará o criminoso que praticou um delito em seu território, bem como o Estado que concede a extradição, uma vez que retirará de seu território uma pessoa indesejada.
III- REQUISITOS PARA A CONCESSÃO DE EXTRADIÇÃO – Além dos princípios, para a concessão da extradição é necessária a satisfação de alguns requisitos. Inclusive, alguns dos requisitos se confundem com os princípios.
1- Exame prévio pelo Supremo Tribunal Federal – nos termos do artigo 102, I, g, da Constituição Federal, compete ao plenário do STF a decisão sobre extradição. Tendo em vista a decisão ser dada pelo plenário da mais alta corte do país, de tal decisão não cabe recurso. A decisão de extradição é de natureza constitutiva, uma vez que tal decisão possibilita a formalização da autorização do chefe do poder executivo em determinar a extradição. Assim, a decisão do STF não vincula o executivo, pois não faz com que a pessoa seja extraditada automaticamente, pois o poder executivo, a partir de tal decisão, terá discricionariedade para analisar a conveniência e oportunidade em autorizar a extradição. De outro modo, se não houver tal autorização, o poder executivo não poderá determinar a extradição, mesmo que haja interesse político nesse sentido ou compromissos firmados entre o Brasil e o país que requerente. Assim, o exame jurídico cabe ao STF, enquanto que o exame político cabe ao poder executivo.
2- Existência de convenção ou tratado firmado cm o Brasil ou, na sua falta, o oferecimento de reciprocidade – Os tratados e convenções, em regra, nos termos do artigo 84 da Constituição Federal, são assinados pelo presidente da república e, conforme artigo 49, I, da Constituição Federal, devem ser referendados pelo Congresso Nacional. Havendo conflito entre o tratado ou convenção e lei interna brasileira, prevalece a lei interna, desde que essa seja mais recente.
3- Exitência de sentença final condenatória ou decreto de prisão cautelar – somente se a sentença impuser pena privativa de liberdade e se a sentença tiver transitado em julgado é que haverá a possibilidade de extradição. Se a sentença impuser outro tipo de pena, não. Poderá, ainda, haver extradição, caso haja prisão cautelar imposta pelo país requerente.
4- Ser o extraditando estrangeiro – não há possibilidade jurídica de extradição de brasileiro nato ou naturalizado em nenhuma situação, sendo cláusula pétrea estampada no artigo 5º, LI. Para o brasileiro naturalizado, contudo, há duas exceções, situações em que poderá haver a extradição que são:
a) Ter sido obtida a naturalização após o fato que motivou o pedido de extradição. Por exemplo, a pessoa pratica o crime no estrangeiro, ingressa em território brasileiro e, após cumprir os requisitos necessários, requer e consegue a nacionalidade brasileira. Nesses casos, haverá a possibilidade da extradição do brasileiro naturalizado.
b) No caso de comprovação de envolvimento com tráfico de entorpecentes e drogas afins, independendo se o crime foi praticado antes ou após a naturalização. Nesse caso também poderá o brasileiro naturalizado ser extraditado.
5- O fato imputado deve constituir crime perante o Estado brasileiro e o Estado requerente, tendo em vista que, se a conduta praticada for lícita no Brasil, não se justifica a punição, bem como se a conduta for lícita no Estado requerente, este, por razões lógicas, não terá qualquer interesse em impor uma pena sobre o cidadão que praticou uma conduta lícita em seu território.
IV- LIMITAÇÕES À EXTRADIÇÃO – Extrai-se do ordenamento jurídico brasileiro algumas limitações à possiblidade de extradição que são as seguintes:
1- A primeira limitação se refere à impossibilidade de nacionais serem extraditados, nos termos do artigo 5º, inciso LI, da Constituição Federal, que estabelece que o brasileiro nato não pode ser extraditado em nenhuma hipótese, enquanto o brasileiro naturalizado poderá ser extraditado caso se comprove seu envolvimento em tráfico ilícito de entorpecentes antes ou após a naturalização, ou a prática de qualquer outro crime, o qual deverá ter sido praticado, necessariamente, antes da naturalização.
2- Há limitação expressa, também, em relação a determinados crimes, os quais, mesmo que praticados por estrangeiros, não permitirão a extradição, nos termos do artigo 5º, inciso LII, da Constituição Federal, que proíbe a extradição pela prática de crimes políticosou de opinião.
3- Em relação aos crimes religiosos, de imprensa, fiscais e puramente militares não há previsão expressa, porém, doutrina e jurisprudência são dominantes no sentido de não se conceder a extradição por tais infrações.
V- DEPORTAÇÃO - A primeira forma de exclusão do estrangeiro do território nacional que vamos estudar é a deportação. Cabe, primeiramente, lembrar que todas estas formas de exclusão do estrangeiro pressupõem a sua entrada no território nacional, pois não podem ser confundidas com o impedimento à sua entrada no País. No caso de impedimento à entrada, o estrangeiro não ultrapassa a fronteira, o porto ou o aeroporto, pois não possuir, por exemplo, um passaporte visado por um cônsul brasileiro no exterior. O impedimento, previsto no art. 26, da Lei 6.815 de 1980, só é possível porque a concessão de visto nada mais é do que expectativa de direito, não configura direito adquirido. A deportação, assim, pressupõe a entrada do estrangeiro, ou seja, ele ultrapassou a fronteira, o porto ou o aeroporto brasileiro. A entrada de estrangeiro de modo irregular (clandestinamente), no território nacional, bem como a entrada regular, cuja a estada tornou-se irregular, ensejam a sua deportação. Para entrar no país o estrangeiro necessita de um VISTO que nada mais é do que uma permissão individual, concedida pela autoridade competente, para que ele permaneça, no País, por determinado tempo. Há diversos tipos de visto, como, por exemplo:
1- Visto de Trânsito – concedido para o estrangeiro que esta de passagem pelo país, quando o seu destino é outro, mas em face das condições geográficas ele é obrigado a transitar pelo território nacional. É improrrogável;
2- Visto de Turista – é concedido àquele que vem ao Brasil em caráter recreativo. É vedado o exercício de qualquer atividade remunerada.
3- Visto Temporário – é concedido quando o estrangeiro não é turista, nem pretende se fixar definitivamente no País, no entanto, pretende residir no Brasil por um longo período com um objetivo pre-estabelecido.
Quando é concedido algum tipo de visto ao estrangeiro e ele, irregularmente, descumpre os limites que lhe foram fixados para permanecer no País será cabível a deportação. Será deportado, por exemplo, o estrangeiro com visto de turista que exerce, no País, qualquer tipo de atividade remunerada, pois sua entrada apesar de regular, sua estadia tornou-se irregular com o exercício da referida atividade. O ato de deportação é um ato administrativo discricionário de competência da Policia Federal. Quando um estrangeiro enquadra-se numa das hipóteses previstas em lei para a deportação, os agentes federais estão aptos a deportá-lo sem necessidade de qualquer ordem judicial. O ato de deportação pode ser objeto, como todo ato discricionário, de controle jurisdicional quanto ao aspecto da sua legalidade. O estrangeiro deportado não fica impedido de regressar ao território nacional, pois não se trata de um ato com finalidade punitiva, mas apenas de regularização da sua situação no país.
VI- EXPULSÃO – As hipóteses de expulsão do estrangeiro estão expressamente previstas no art. 65, do Estatuto do Estrangeiro. Os casos que ensejam a expulsão do estrangeiro são casos mais graves do que os de deportação. Ela é aplicada quando a presença do estrangeiro no território nacional for considerada nociva ao convívio social. Art. 65. É passível de expulsão o estrangeiro que, de qualquer forma, atentar contra a segurança nacional, a ordem política ou social, a tranquilidade ou moralidade pública e a economia popular, ou cujo procedimento o torne nocivo à conveniência e aos interesses nacionais. Parágrafo único. É passível, também, de expulsão o estrangeiro que: a) praticar fraude a fim de obter a sua entrada ou permanência no Brasil; b) havendo entrado no território nacional com infração à lei, dele não se retirar no prazo que lhe for determinado para fazê-lo, não sendo aconselhável a deportação; c) entregar-se à vadiagem ou à mendicância; ou d) desrespeitar proibição especialmente prevista em lei para estrangeiro.
As hipóteses de expulsão do estrangeiro estão expressamente previstas no art. 65, do Estatuto do Estrangeiro. Os casos que ensejam a expulsão do estrangeiro são casos mais graves do que os de deportação. Ela é aplicada quando a presença do estrangeiro no território nacional for considerada nociva ao convívio social.
Art. 65. É passível de expulsão o estrangeiro que, de qualquer forma, atentar contra a segurança nacional, a ordem política ou social, a tranqüilidade ou moralidade pública e a economia popular, ou cujo procedimento o torne nocivo à conveniência e aos interesses nacionais
Parágrafo único. É passível, também, de expulsão o estrangeiro que:
a) praticar fraude a fim de obter a sua entrada ou permanência no Brasil;
b) havendo entrado no território nacional com infração à lei, dele não se retirar no prazo que lhe for determinado para fazê-lo, não sendo aconselhável a deportação;
c) entregar-se à vadiagem ou à mendicância; ou
d) desrespeitar proibição especialmente prevista em lei para estrangeiro.
O ato de expulsão não pode ser praticado por agentes federais, ele é um ato privativo do Presidente da República. Para ser decretada a expulsão de alguém deve haver um processo administrativo em que lhe seja assegurada a ampla defesa. Afinal, ao contrário da deportação, a expulsão é um ato administrativo com caráter punitivo que traz seqüelas ao expulso, como a proibição de retornar ao território nacional. Como ninguém pode ser privado de seus bens e direitos sem o devido processo legal (art.5º, inciso LIV, da C.F.), faz-se necessário a instauração de prévio processo administrativo que, no caso, tem curso no âmbito do Ministério da Justiça. Apesar da expulsão caber em situações mais graves que a deportação, os institutos se assemelham muito no que se refere a amplitude da discricionariedade que a lei lhes assegura. Nesse sentido são as lições do renomado mestre de Direito Internacional, Francisco Resek, in verbis: “... embora não se possa deportar ou expulsar um estrangeiro que não tenha incorrido nos motivos legais de uma ou outra medida, é sempre possível deixar de promover a deportação, ou a expulsão, mesmo em presença de tais motivos. A lei não obriga o governo a deportar ou expulsar.” O judiciário, assim como na deportação, não participa da formação do ato de expulsão, podendo, contudo, exercer o controle externo do ato no que tange ao aspecto da legalidade. A expulsão é concluída por meio da expedição de decreto pelo Presidente da República. Da decisão de expulsão caberá pedido de reconsideração no prazo de dez dias. O Estatuto do Estrangeiro enuncia os casos em que é vetada a expulsão de estrangeiro. São elas:
Art. 75. Não se procederá à expulsão:
I - se implicar extradição inadmitida pela lei brasileira; ou
II - quando o estrangeiro tiver:
a) Cônjuge brasileiro do qual não esteja divorciado ou separado, de fato ou de direito, e desde que o casamento tenha sido celebrado há mais de 5 (cinco) anos; ou
b) filho brasileiro que, comprovadamente, esteja sob sua guarda e dele dependa economicamente.
§ 1º. não constituem impedimento à expulsão a adoção ou o reconhecimento de filho brasileiro supervenientes ao fato que o motivar.
§ 2º. Verificados o abandono do filho, o divórcio ou a separação, de fato ou de direito, a expulsão poderá efetivar-se a qualquer tempo.
O expulso fica proibido de retornar ao País. Seu retorno só será permitido se editado um novo decreto revogando o anterior que o expulsou.
VI- TRIBUNAL PENAL INTERNACIONAL OU CORTE PENAL INTERNACIONAL – Antigamente, nos casos de guerra, quando um país ou grupo de países saia-se vencedor, era formado um tribunal para julgar os crimes ocorridos durante a guerra, ou seja, os tribunais eram criados ex post facto, quer dizer, os conhecidos tribunais de exceção. Tal procedimento era criticável, pois qualquer pessoa deve ser julgada pelo juiz natural, ou seja, aquele que já está previamente determinado antes da prática do ato. Para solucionaresse problema, foi criado em Haia, nos Países Baixos (Holanda), o Tribunal Penal Internacional, também conhecido como Corte Penal Internacional, que tem como objetivo julgar crimes de guerra, contra a humanidade, crime de genocídio e crime de agressão. Estes crimes estão definidos no Estatuto de Roma, o qual, até o final de 2008, havia sido ratificado por 180 países. No Brasil, foi promulgado pelo decreto n. 4.388, de 25/09/2002. O tribunal é competente para julgar os crimes mencionados desde que tenham ocorrido após sua criação que se deu em 1º de julho de 2002, bem como se o país em que o crime foi praticado se submeta a referido tribunal.
1- CRIME DE AGRESSÃO - considera-se que uma ou mais pessoas cometem um crime de agressão quando, estando em condições de controlar ou dirigir efetivamente a ação política ou militar de um Estado, planejam, preparam, iniciam ou praticam ato de agressão que, por suas características, gravidade e dimensão, venha a constituir violação manifesta da Carta das Nações Unidas. Entende-se por “ato de agressão” o uso de força armada por parte de um Estado contra a soberania, integridade territorial ou independência política de outro Estado, ou de qualquer outra forma incompatível com a Carta das Nações Unidas. De acordo com a Resolução 3314 (XXIX) da Assembléia Geral das Nações Unidas, de 14 de dezembro de 1974, quaisquer dos atos a seguir, independentemente de existir ou não declaração de guerra, será caracterizado como ato de agressão:
a) invasão ou ataque do território de um Estado pelas forças armadas de outro Estado, ou qualquer ocupação militar, mesmo temporária que resulte dessa invasão ou ataque, ou toda anexação, por meio do uso da força, do território de outro Estado ou de parte dele;
b) bombardeio do território de um Estado pelas forças armadas de outro Estado ou o uso de quaisquer armas por um Estado contra o território de outro Estado;
c) bloqueio de portos ou do litoral de um Estado pelas forças armadas de outro Estado;
d) ataque pelas forças armadas de um Estado às forças armadas terrestres, navais ou aéreas de outro Estado, à sua frota mercante ou aérea;
e) utilização de forças armadas de um Estado, que se encontrem no território de outro Estado com o consentimento do estado receptor, em violação às condições do consentimento ou como extensão de sua presença no referido território depois de retirado o consentimento;
f) ação de um Estado que permite que seu território, quando posto à disposição de outro Estado, seja utilizado por esse outro Estado para praticar um ato de agressão contra um terceiro Estado;
g) envio, por um Estado ou em seu nome, de grupos armados, de grupos irregulares ou de mercenários que pratiquem atos de força armada contra outro Estado, de tal gravidade que sejam equiparáveis aos atos antes enumerados, ou sua substancial participação na prática de tais atos.
CONFLITO APARENTE DE NORMAS
I- CONSIDERAÇÕES GERAIS – via de regra, há somente um tipo penal para cada conduta criminosa praticada. Ou seja, quando um agente comete um crime incidirá sobre sua conduta apenas um tipo penal. Assim, existe conflito aparente de normas quando a um fato praticado, aparentemente aplicam-se mais de uma norma penal, entretanto, utilizando-se de determinados princípios, aplica-se norma única.
II- PRESSUPOSTOS – tendo em vista as considerações acima, podemos identificar quatro pressupostos para ter-se o conflito aparente de normas:
1- pluralidade de normas;
2- fato único;
3- aparente incidência de mais de uma norma e
4- efetiva aplicação de norma única.
III – PRINCÍPIOS QUE SOLUCIONAM O CONFLITO APARENTE DE NORMAS – a doutrina dominante reconhece três princípios para a resolução deste aparente conflito entre as normas.
1- ESPECIALIDADE – lei geral e lei especial. Aplica-se norma especial, afastando-se norma geral. Desta forma, procurando evitar o bis in idem, analisa-se a lei em abstrato e aplica-se a lei mais específica ao caso. Tem-se portanto que uma lei somente pode ser especial em relação a outra tida como geral, considerando lei especial aquela que possui todos os elementos da lei geral, mais alguns tidos como especializantes. Na utilização deste princípio, basta observar os artigos penais envolvidos abstratamente, não sendo necessário se levar em conta o fato concreto. Ou seja, simplesmente lendo a lei pode chegar à conclusão de qual, entre duas, é a norma especial e qual é a norma geral. Alguns exemplos da utilização do princípio da especialidade são os seguintes:
NORMA GERAL
NORMA ESPECIAL
Homicídio simples Art 121. Matar alguem: Pena - reclusão, de seis a vinte anos.
Infanticídio Art. 123 - Matar, sob a influência do estado puerperal, o próprio filho, durante o parto ou logo após: Pena - detenção, de dois a seis anos.
Homicídio culposo Art. 121 § 3º Se o homicídio é culposo: Pena - detenção, de um a três anos.
Homicídio culposo ao volante Art. 302 do CTN – Praticar homicídio culposo na direção de veículo automotor: Pena – detenção de 2 a 4 anos e suspensão ou proibição de se obter a permissão ou a habilitação para dirigir veículo.
Obs 1: observa-se que o infanticídio traz em seu bojo todos os elementos do crime homicídio (matar alguém), apresentando ainda alguns outros elementos chamados especializantes (próprio filho, sob influência de estado puerperal, durante o parto, ou logo após o parto). Da mesma forma o homicídio culposo na direção de veículo automotor em relação ao homicídio culposo.
Obs 2 : veja que a lei especial pode ser mais grave ou mais branda que a lei geral. O infanticídio tem a pena mais leve em relação ao homicídio, já o homicídio praticado na direção de veículo automotor tem a pena mais grave que o homicídio culposo.
a) Tipo fundamental e tipos derivados – em regra, encontra-se o tipo fundamental descrito no caput dos artigos, sendo os tipos derivados os crimes qualificados ou privilegiados contidos nos parágrafos. Neste caso, os tipos derivados são especiais em relação ao fundamental, aplicando-se aqueles, afastando-se este. Ou seja, os crimes qualificados são também espécie de crime especial em relação ao tipo fundamental que, nesse contexto, é o crime simples.
2- SUBSIDIARIEDADE – há relação de primariedade e subsidiariedade. Temos uma norma primária que deve ser invocada em primeiro lugar e outra subsidiária, que é acionada somente se não se puder aplicar a norma primária. Nelson Hungria define a norma subsidiària como sendo o soldado de reserva que é invocado caso a primária não possa ser utilizada. Já o Professor Fernando Capez utiliza-se da figura de duas caixas idênticas, sendo que uma é menor que a outra, podendo, por isso, ser colocada uma dentro da outra. A norma subsidiária cabe dentro da norma primária. A figura subsidiária está contida na principal. Observe alguns exemplos da aplicação do princípio da subsidiariedade:
NORMA PRIMÁRIA
NORMA SUBSIDIÁRIA
Constrangimento ilegal Art. 146 - Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, ou depois de lhe haver reduzido, por qualquer outro meio, a capacidade de resistência, a não fazer o que a lei permite, ou a fazer o que ela não manda: Pena - detenção, de três meses a um ano, ou multa.
Ameaça Art. 147 - Ameaçar alguém, por palavra, escrito ou gesto, ou qualquer outro meio simbólico, de causar-lhe mal injusto e grave: Pena - detenção, de um a seis meses, ou multa.
Estupro Art. 213. Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso: Pena - reclusão, de 6 (seis) a 10 (dez) anos.
Constrangimento ilegal Art. 146 - Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, ou depois de lhe haver reduzido, por qualquer outro meio, a capacidade de resistência, a não fazer o que a lei permite, ou a fazer o que ela não manda: Pena - detenção, de três meses a um ano, ou multa.
a) Subsidiariedade expressa ou explícita – o próprio tipo penal traz em sua definição sua condição de norma subsidiária. Pode ser citadocomo exemplo o artigo 132 do Código Penal: Art. 132 - Expor a vida ou a saúde de outrem a perigo direto e iminente: Pena - detenção, de três meses a um ano, se o fato não constitui crime mais grave.
b) Subsidiariedade tácita ou implícita – ao contrário da subsidiariedade expressa, o tipo penal nada diz sobre esta sua condição, entretanto, analisando todo o sistema penal, sabe-se que determinado tipo penal somente será invocado caso não possa enquadrar-se a conduta em outro tipo penal mais grave. Exemplo, constrangimento ilegal.
3- CONSUNÇÃO – ou absorção. Segundo este princípio, um crime é caminho lógico para se atingir outro mais grave, vale dizer, há um crime meio (crime consulto) e um crime fim (crime consultivo). Um crime mais grave absorve, consome outro crime menos grave. O crime menos grave cabe dentro do crime mais grave. Este princípio não se confunde com o princípio da subsidiariedade, entretanto, não há como negar que a diferenciação entre ambos é muito tênue.
3.1. Hipóteses em que se verifica a consunção – observa-se a consunção em três situações: crime progressivo, crime complexo e progressão criminosa. Vejamos cada uma destas situações.
a) crime progressivo – visando desde o início praticar determinado crime, o agente viola diversas vezes o bem jurídico tutelado de forma crescente, até chegar ao seu intento inicial. Exemplos: 1- visando matar seu desafeto, o agente com um pedaço de pau aplica vários golpes contra a cabeça da vítima. Apesar de ter golpeado uma, duas, várias vezes a cabeça da vítima, causando diversas lesões corporais, o agente responderá somente pelo crime mais grave, qual seja, homicídio, ficando as diversas lesões corporais absorvidas pelo homicídio. 2- visando furtar o interior de uma residência, o agente adentra a residência da vítima (invasão de domicílio), quebra o cadeado da janela (dano) e subtrai de seu interior o aparelho de DVD. O agente responderá somente pelo crime de furto qualificado pelo rompimento de obstáculo, nos termos do artigo 155, § 4º, I do Código Penal, ficando os crimes de invasão de domicílio e dano absorvidos.
b) crime complexo – é aquele que resulta da fusão de dois crimes autônomos. Neste caso, o crime resultante da fusão absorve os crimes fundidos. Exemplos: 1- Latrocínio, roubo seguido de morte, nos termos do artigo 157, § 3º, in fine do Código Penal, com a seguinte redação Art. 157 - Subtrair coisa móvel alheia, para si ou para outrem, mediante grave ameaça ou violência a pessoa, ou depois de havê-la, por qualquer meio, reduzido à impossibilidade de resistência: Pena - reclusão, de quatro a dez anos, e multa. § 3º Se da violência resulta lesão corporal grave, a pena é de reclusão, de sete a quinze anos, além da multa; se resulta morte, a reclusão é de vinte a trinta anos, sem prejuízo da multa. O latrocínio é a fusão dos crimes roubo e homicídio. Ambos os crimes ficam absorvidos pelo crime fim que é o latrocínio. 2- Roubo, nos termos do artigo 157 já transcrito, vê-se que o roubo é a fusão dos crimes furto e ameaça, ou furto e lesão corporal.
c) progressão criminosa – subdivide-se em três subespécies:
c.1- progressão criminosa em sentido estrito – a sucessão de intenções do agente, que inicialmente pretende violar o bem jurídico de determinada maneira, entretanto no decorrer da conduta, modifica sua intenção, passando a violar o bem jurídico de forma mais grave. Por exemplo, o agente, inicialmente pretendendo lesionar seu desafeto, após dar a primeira paulada em sua cabeça, concretizando seu intento inicial (a lesão da vítima) passa a querer atingir a vítima de forma mais grave chegando ao homicídio. Neste caso, pela incidência do princípio da consunção, responde somente pelo crime mais grave.
c.2- ante factum impunível – sempre que um fato anterior definido como crime for praticado como meio para a prática de outro crime, o primeiro fato fica impune. O exemplo clássico é do cheque falsificado (crime meio de falsificação de documento) para a prática de um estelionato (crime fim). O agente responde somente pelo crime de estelionato, nos termos do artigo 171 do Código Penal, ficando o crime de falsificação de documento do artigo 297 do Código Penal absorvido.
c.3- post factum impunível – após a prática do crime, o agente agride novamente o mesmo bem jurídico, ficando o novo crime sem punição. É o caso clássico do agente que furta uma bicicleta e posteriormente a destrói (crime de dano, artigo 163 do Código Penal). Como o bem jurídico patrimônio da vítima já havia sido violado, o dano não causou novo prejuízo ao patrimônio da vítima. Desta forma, o crime de dano é um post factum impunível. O agente responderá somente pelo crime de furto, nos termos do artigo 155 do Código Penal.
4- ALTERNATIVIDADE – alguns autores consideram a alternatividade como princípio para solução do conflito aparente de normas, entretanto, a maior parte da doutrina não. O posicionamento da maioria da doutrina se explica tendo em vista que nesse caso não há um conflito entre normas, mas um conflito dentro da própria norma. Se dá nos chamados crimes alternativos mistos, de ação múltipla ou conteúdo variado, onde o tipo penal descreve vários tipos penais e a prática de qualquer um dos verbos do tipo configura o crime ou a prática de mais de um verbo do tipo, no mesmo contexto fático, leva à punição por crime único. Exemplo: Receptação Art. 180 - Adquirir, receber, transportar, conduzir ou ocultar, em proveito próprio ou alheio, coisa que sabe ser produto de crime, ou influir para que terceiro, de boa-fé, a adquira, receba ou oculte. Quem adquire um aparelho celular furtado, depois oculta e em seguida o transporta, pratica crime único. Aplicando-se o princípio da alternatividade, ou o agente adquire, ou recebe, ou transporta, em qualquer caso, alternativamente, responderá pelo crime de receptação. No caso do crime de tráfico de drogas, nos termos do artigo 33 da Lei 11.343/2006 ocorre o mesmo.
TEORIA DO CRIME
CONCEITO DE CRIME
1- Conceito formal – nesta perspectiva, crime é aquilo que a lei diz que é. Ou seja, leva-se em consideração o mero formalismo, assim, tem forma de crime, o legislador disse que é crime, então crime é.
2- Conceito material – é a agressão grave, a bens jurídicos relevantes, penalmente tutelados. Desta forma, não basta simplesmente observar se o fato está descrito em lei para ser conceituado como crime. Em um Estado Democrático de Direito, devem ser observados os princípios constitucionais atinentes ao Direito Penal para analisar se um fato praticado é ou não crime. Analisemos cada um dos itens que compõe o conceito material de crime:
a) tutela penal – para se saber se o fato pode ser considerado crime, deverá ser visto se o fato está definido como crime, ou seja, voltamos ao conceito formal de crime, porém este conceito formal é somente um item do conceito material. Conclui-se que se não estiver previsto em lei, vale dizer, se não for observado o princípio da legalidade, não haverá crime.
b) bens jurídicos relevantes – esta relevância, por ser jurídica, é analisada pelo legislador que diz ser relevante determinado bem jurídico ao protegê-lo, ameaçando com pena aquele que o lesar. Invoca-se o princípio da intervenção mínima, pois para o Direito Penal, a minoria dos bens são relevantes. Podem ser citados como exemplos de bens jurídicos relevantes para o Direito Penal a vida, o patrimônio, a honra, a dignidade sexual etc.
c) agressão grave – não é qualquer agressão. Agressões mínimas, que não chegam sequer a ameaçar o bem jurídico, não podem ser consideradas crimes, apesar do bem jurídico ser relevante e ser tutelado pelo Direito Penal, pode ocorrer da lesão ter sido ínfima, invocando-se, portanto, o princípio da insignificância ou da bagatela. Nota-se, então, que o furto de cinco centavos, não agride de forma grave, o bem jurídico patrimônio que é tutelado pelo Direito Penal.
3- Conceito legal – no Brasil, o conceito de crime encontra-se no artigo 1º da Lei de Introdução ao Código Penal quepreceitua: “Considera-se crime a infração penal a que a lei comina pena de reclusão ou detenção, quer isoladamente, quer alternativa ou cumulativamente com a pena de multa; contravenção, a infração a que a lei comina, isoladamente, pena de prisão simples ou de multa, ou ambas, alternativa ou cumulativamente”. Analisando este artigo, pode-se elaborar a seguinte tabela:
DIFERENÇA LEGAL ENTRE CRIME E CONTRAVENÇÃO PENAL ARTIGO 1º DA LEI DE INTRODUÇÃO AO CÓDIGO PENAL
CRIME
CONTRAVENÇÃO PENAL
Reclusão (isoladamente)
Prisão simples (isoladamente)
Detenção (isoladamente)
Multa (isoladamente)
Reclusão ou multa (alternativamente)
Prisão simples e multa (cumulativamente)
Detenção ou multa (alternativamente)
Prisão simples ou multa (alternativamente)
Reclusão e multa (cumulativamente)
-
Detenção e multa (cumulativamente)
-
Obs: Nota-se que para a lei, a diferença entre uma espécie de infração penal e outra está no tipo de prisão aplicável a cada uma. Enquanto que para o crime é aplicável a pena de reclusão ou detenção, para a contravenção penal é aplicável somente a prisão simples.
Obs 2: Para a contravenção penal há a possibilidade de aplicação da pena de multa isoladamente, o que não ocorre com o crime.
Obs 3: O artigo 28 da Lei 11.343/2006 (Lei de drogas), traz a única exceção a essa regra legislativa de conceituação do crime, uma vez que em referido artigo, há a figura do porte de droga para consumo próprio, conduta tipificada como crime, mas que legislador pune com pena de advertência ou prestação de serviços à comunidade, não havendo previsão de pena privativa de liberdade ou multa.
4- Conceito analítico – nesta perspectiva, o crime é analisado em cada um de seus elementos como será feito a seguir.
CONCEITO ANALÍTICO DO CRIME SEGUNDO A ESCOLA FINALISTA
I- Introdução - segundo esta escola, crime, em seu conceito analítico é fato típico, ilícito e culpável. Apesar de existir outros conceitos para outras escolas, analisaremos somente o conceito analítico de crime para esta escola, uma vez que predomina o entendimento de que o Código Penal brasileiro adotou a chamada teoria finalista dissidente.
PRIMEIRO ELEMENTO DO CRIME – FATO TÍPICO
I- CONDUTA – é a ação ou omissão humana, consciente e voluntária, dolosa ou culposa, dirigida a determinada finalidade (a finalidade diz respeito somente aos crimes dolosos).
1. formas de conduta – ação ou omissão
a) ação – comportamento positivo, é o fazer, realizar algo. Neste caso, a norma determina que não se faça e caso o agente faça aquilo que a norma proíbe, pratica o crime.
b) omissão – comportamento negativo, é o não fazer, é o deixar de fazer aquilo que a lei determina que se faça. Os crimes omissivos podem ser subdivididos da seguinte forma:
b1. omissivos próprios ou puros - há crimes que por sua natureza são omissivos, como por exemplo a omissão de socorro: Art. 135 - Deixar de prestar assistência, quando possível fazê-lo sem risco pessoal, à criança abandonada ou extraviada, ou à pessoa inválida ou ferida, ao desamparo ou em grave e iminente perigo; ou não pedir, nesses casos, o socorro da autoridade pública, neste caso qualquer um pode praticar o crime.
b2. omissivos impróprios, impuros ou comissivos por omissão - Veja que nos termos do § 2º do artigo 13 do Código Penal, a omissão não é sempre relevante, mas somente em alguns casos: § 2º - A omissão é penalmente relevante quando o omitente devia e podia agir para evitar o resultado. O dever de agir incumbe a quem: a) tenha por lei obrigação de cuidado, proteção ou vigilância; b) de outra forma, assumiu a responsabilidade de impedir o resultado; c) com seu comportamento anterior, criou o risco da ocorrência do resultado. Ao dizer que a omissão é penalmente relevante nas situações apontadas acima, o legislador quer dizer que nesses casos o omitente responderá pelo resultado, e não pelo crime de omissão de socorro. Por exemplo, um salva vidas em serviço vê uma pessoa se afogando na piscina de um clube, neste caso o salva vidas tinha o dever de cuidado sobre o banhista, respondendo, caso ocorra o evento morte, por homicídio doloso por omissão e não por omissão de socorro.
2 – Ação e omissão humanas - note-se que ação ou omissão devem ser humanas, caso seja feita por animal, não estaremos diante de conduta, mas sim de força maior. No caso do agente instigar um cão feroz contra a vítima, a conduta é do agente, sendo o cão mero instrumento de sua conduta.
3 – conduta dolosa ou culposa - o dolo e a culpa são os chamados elementos subjetivos do tipo, pois dizem respeito ao ânimo do agente. O Direito Penal moderno somente pune a conduta praticada com dolo ou culpa, ou seja, leva-se em conta a responsabilidade subjetiva, não existindo a responsabilidade objetiva, ou seja, aquela que é aferida independentemente de se verificar dolo e culpa.
Outros aspectos da conduta
1- diferença entre condutas e atos – conduta é a materialização da vontade humana que pode ser executada por um único ou vários atos. Assim, o agente que pratica homicídio por meio de facadas, comete uma única conduta o homicídio, através de vários atos, que são as diversas facadas desferidas contra a vítima.
2- voluntariedade – a vontade humana deve ser livre e consciente. Assim, não há voluntariedade, (leia-se, conduta livre e consciente) nas seguintes hipóteses:
a) coação física irresistível – o sujeito que tem seu dedo forçado a puxar o gatilho de uma arma. Ou na situação em que alguém segura a mão e outro e atinge esta no rosto de um terceiro. Nestas duas situações não há conduta livre, e a pessoa que teve parte de seu corpo utilizada, não comete crime algum, respondendo pelo crime aquele que se valeu da parte do corpo de outrem para tanto.
b) no reflexo – uma pessoa que em ato reflexo após levar um choque elétrico, causando lesão corporal em seu amigo, não responde por crime, pois o ato reflexo não é voluntário, uma vez que não pode ser controlado e nem é previsível.
c) quando o sujeito está dormindo – nos casos de sonambulismo e hipnose não há vontade livre e consciente, e a pessoa que pratica alguma conduta típica nestas condições não pratica crime. Dependendo das circunstâncias a pessoa responsável pela pessoa sonâmbula ou em estado de hipnose pode responder pelo resultado.
1.3.1 – CONDUTA DOLOSA – é a vontade de concretizar o tipo penal e provocar o resultado. A definição legal do que venha a ser um crime doloso, encontra-se no Art. 18, inciso I do Código Penal: Diz-se o crime: I - doloso, quando o agente quis o resultado ou assumiu o risco de produzi-lo.
1.3.1.1 – Elementos do dolo – são os seguintes
a) consciência da conduta – relaciona-se à compreensão do que a conduta pode realizar, podendo o agente distinguir a ficção da realidade.
b) consciência do resultado – o agente sabe que com a conduta praticada, poderá dar causa ao resultado.
c) consciência do nexo causa entre a conduta e o resultado – o agente tem a ciência de que com a conduta que irá praticar, poderá dar causa ao resultado que é provável.
d) vontade – ou seja, a intenção de praticar a conduta e produzir o resultado.
1.3.1.2 – Teorias do dolo – são as que seguem.
a) Teoria da vontade – é a vontade de realizar a conduta e produzir o resultado
b) Teoria da representação – é a vontade de realizar a conduta, prevendo a possibilidade do resultado. Atualmente esta forma é chamada de culpa consciente, e que será estudado adiante.
c) Teoria do assentimento – é a vontade de realizar a conduta, assumindo o risco da produção do resultado.
Obs: No Código Penal foram adotadas, segundo dispõe o artigo 18, as teorias da vontade e do assentimento: Art. 18 - Diz-se o crime: I - doloso, quando o agente quis o resultado (teoria da vontade) ou assumiu o risco de produzi-lo (teoria do assentimento).
1.3.1.3 – Espécies de dolo
a) dolo direto – vontade de praticar a conduta e produzir o resultado é aquele que se tem na primeira parte do inciso I do artigo 18 do Código Penal.
b) dolo indireto – vontade de praticar a conduta,mas não existe clareza quanto ao resultado. Subdivide-se em:
i- dolo alternativo – aceita a ocorrência de dois ou mais resultados. Por exemplo: ativa para matar, para ferir ou somente para assustar.
ii- dolo eventual – é o dolo que se encontra descrito na segunda parte do inciso I do artigo 18 do Código Penal, o agente não quer o resultado, mas assume o risco de produzi-lo, ou seja, não se importa caso este ocorra. Por exemplo, um traficante em morro carioca atira em direção de policiais com uma metralhadora. O traficante, em relação à policia, tem dolo direto de matar, em relação à população que transita nas proximidades, tem dolo eventual, pois assume o risco de acertar pessoas que não os policiais.
c) dolo de dano – o agente quer efetivamente atingir o bem jurídico protegido. Exemplo, furto, roubo, homicídio, dano etc. Em todos estes casos, o bem jurídico é efetivamente atingido, ocorrendo dano para a vítima.
d) dolo de perigo – o agente apenas expõe a perigo um bem juridicamente protegido. Por exemplo, abandono de recém nascido. Art. 134 - Expor ou abandonar recém-nascido, para ocultar desonra própria: Pena - detenção, de seis meses a dois anos. Neste caso o crime se consuma pelo simples fato da mãe abandonar a criança em um matagal, por exemplo, mesmo que nada ocorra com a criança. Entretanto, como a criança poderia ter sido atacada por um animal, ou pisada por alguém que passa, é fácil notar que sua vida ficou exposta a perigo.
e) dolo genérico – é a vontade com finalidade geral, sem um fim específico, o agente que praticar a conduta e produzir o resultado, mas não há qualquer finalidade nisso. É o dolo propriamente dito.
f) dolo específico – é atuação do agente querendo praticar a conduta e produzir o resultado, visando certa ou determinada finalidade. É o que se tem, por exemplo, no crime de extorsão mediante seqüestro, quando há uma finalidade específica, qual seja, a obtenção de um pagamento.
g) dolo geral ou ‘aberratio causae’ – também conhecido como erro sucessivo. Se dá quando o agente pratica uma conduta visando um resultado. Porém, este se consuma somente com a prática de uma nova conduta. Exemplo: agente atira em seu desafeto. Crendo que este está morto, o enterra, vindo este a morrer soterrado. Neste caso o agente não responde por tentativa de homicídio em concurso com homicídio consumado, mas somente por homicídio consumado, levando-se em conta somente sua intenção de praticar a conduta e produzir o resultado, o que de fato ocorreu.
1.3.2- CONDUTA CULPOSA – o agente não quer e nem assume o risco de produzir o resultado, entretanto, conforme prescreve o artigo 18, II do Código Penal, o agente, agindo com imprudência, negligência ou imperícia, provoca o resultado descrito na figura típica. Assim, tem-se que o crime culposo é aquele que se verifica pela inobservância de uma regra de cuidado a todos imposta, produzindo, por isso, um resultado previsível, mas não almejado, através da imprudência, negligência ou imperícia. A definição legal do que venha a ser um crime doloso, encontra-se no Art. 18, inciso II do Código Penal: Diz- o crime: II - culposo, quando o agente deu causa ao resultado por imprudência, negligência ou imperícia.
1.3.2.1- Elementos
a) ação ou omissão – esta ação ou omissão não visa uma finalidade, pois não quer produzir o resultado, mas há um desvalor no agir ou no não agir, pois houve inobservância de uma regra de cuidado a todos imposta.
b) dever de cuidado objetivo – é objetivo pois é a todos imposto este dever de cuidado. No caso concreto, o juiz deve confrontar o comportamento do agente com o comportamento que qualquer pessoa, na mesma situação, agindo com prudência, teria. Caso o juiz chegue à conclusão de que a conduta do agente foi negativa, haverá o crime na modalidade culposa.
c- resultado – não basta a mera ação ou omissão culposa, necessariamente deverá haver o resultado. Não haverá crime culposo se, mesmo havendo falta do dever de cuidado, o resultado ocorreria de qualquer maneira. Por exemplo, uma pessoa dirigindo seu carro na contramão, de repente, uma pessoa se atira na frente, propositadamente, morrendo. No caso, houve suicídio e não homicídio culposo.
d) previsibilidade – é a capacidade de se antever que a conduta praticada, negligentemente, imprudentemente ou sem perícia (ou seja, sem a observância da regra de cuidado) causará o resultado. Tal previsibilidade pode ser
d1- objetiva – é aquela que qualquer pessoa pode ter, não se exigindo uma capacidade extraordinária de se antever o resultado. É a previsibilidade que se exige de qualquer pessoa de prudência normal.
d2- subjetiva – é aquela que deve ser observada em relação à pessoa do agente. Não se leva em conta a previsibilidade que as pessoas em geral teriam nas mesmas condições. Leva-se em conta somente as características da pessoa do agente no caso concreto.
1.3.2.2- Formas de culpa – a inobservância do dever de cuidado objetivo pode se manifestar, segundo o artigo 18, inciso II do Código Penal das seguintes formas:
a) imprudência – Na conduta imprudente o sujeito age e este agir dá causa a um resultado por não ter sido observada uma regra geral de cuidado a todos imposta, apesar de não se querer e nem assumir o risco de produzir o resultado alcançado. É o agir descuidado. É a ação sem a observância das precauções necessárias. Enfim, é o fazer que gera o resultado não quisto. Como exemplo de conduta imprudente pode ser citado o agente que imprime velocidade incompatível com o local, causando um acidente automobilístico. Ou então o pai que limpa a arma carregada, a qual acidentalmente atinge um filho.
b) negligência – Se na conduta imprudente o agente age, na conduta negligente o agente deixa de observar uma regra que a todos é imposta, e apesar de não querer e nem assumir o risco de produzir o resultado, a ele dá causa. É o não agir quando deveria tê-lo feito. É o deixar de tomar alguma precaução. É o não agir que gera o resultado não quisto. Exemplo de conduta negligente é aquela em que o agente deixa de consertar os freios que sabe defeituosos ou aquele que deixa de sinalizar antes de virar em perigoso cruzamento.
c) imperícia – Nesta forma de culpa, o agente demonstra incapacidade ou falta de conhecimentos técnicos no exercício de arte ou ofício. Pressupõe sempre capacitação técnica para o desempenho da atividade. Caso inexista tal capacitação, o agente age com culpa, mas em uma das formas negligência ou imprudência. Exemplo de imperícia se tem na conduta do agente que ao fazer baliza para estacionar veículo, sobe na calçada de ré e atinge a vítima que estava na calçada caminhando, causando-lhe lesões corporais.
Obs 1: não se confunde a culpa com o erro profissional. No erro profissional o agente, empregando todos os meios conhecidos, chega a uma conclusão errada causando o resultado indesejado. Neste caso o fato é atípico, salvo se ocorrer erro grosseiro, quando poderá, dependendo da situação, haver culpa. Desta forma, o médico que se valendo de todas as técnicas conhecidas em determinado estágio da medicina, ao retirar determinado tumor próximo ao cérebro do paciente, causa-lhe a surdez em um dos ouvidos, descobrindo-se posteriormente outra técnica que, caso aplicada não causaria o mesmo mal, não responderá o médico por crime algum. Diferente da situação do médico que, após proceder à retirada do mesmo tumor, sendo a cirurgia um sucesso, fecha o local com pontos, e depois descobre-se que esqueceu-se um pedaço de gaze o que causa a surdez em um dos ouvidos do paciente. Neste caso, responderá o médico por culpa.
Obs 2: Pode ser que na mesma situação ocorra mais de uma forma de culpa. Por exemplo, o agente que, sabendo estar seu veículo sem freios, trafega em alta velocidade com seu veículo, causando acidente, uma vez que ao chegar em cruzamento, não consegue frear o veículo por dois motivos, primeiro por estar em alta velocidade, segundo por estar sem freios, pois, caso estes funcionassem, mesmo estando em velocidade incompatível com o local, poderia ter freado e evitadoo acidente.
3- Espécies de culpa – o Código Penal não diferenciou as espécies de culpa, não havendo, portanto tratamento diverso. Na verdade é muito difícil na prática diferenciar uma da outra. A diferenciação é feita pela doutrina da seguinte maneira:
a) culpa consciente ou com representação – está-se diante desta espécie de culpa quando o agente, ao agir com imprudência, negligência ou imperícia, representa em sua mente a ocorrência do resultado. O agente prevê como sendo possível a concretização do resultado. Ele está consciente de que o resultado pode de fato ocorrer. Entretanto, não o quer e nem assume o risco de produzi-lo, ou seja, o agente prevê o resultado, mas acredita que com suas habilidades conseguirá evitar que o resultado se produza. Imagine-se um rapaz em seu carro, à 80Km/h em uma via cuja velocidade máxima é de 50 Km/h. Observa que há alunos saindo da faculdade, e para impressionar uma menina, não diminui a velocidade e pensa: “O que eu vou fazer é perigoso, pois há muitas pessoas dos dois lados da rua. Mesmo assim, vou continuar na mesma velocidade, pois eu tenho certeza de que tenho habilidade para desviar”. O agente, entretanto, não consegue com suas habilidades, frear o carro quando um rapaz atravessava sobre a faixa de pedestres. Ele não queria o resultado, nem assumiu o risco de produzi-lo apesar de previsível. Age com culpa consciente. Responderá pelo crime na modalidade culposa.
b) culpa inconsciente ou sem representação – nesta espécie de culpa, o agente não prevê o resultado previsível. Melhor explicando. Tanto na culpa consciente quanto na culpa inconsciente há o resultado é previsível. Se não fosse previsível, estaríamos diante do caso fortuito ou da força maior, quando não há a possibilidade de se prever o resultado. Quando o agente não tem esta previsão, ou seja, não consegue representar em sua mente a previsibilidade do resultado, ocorre o chamado de culpa incosciente. Exemplo: o agente passa no sinal vermelho após a meia-noite, causando acidente, alegando que todas as noites faz aquilo e nunca ocorreu nada. Nem imaginou, sinceramente não previu aquilo que era previsível, que naquele dia e hora, um carro poderia passar no sinal que lhe estava verde. Responde a título de culpa incosciente.
c) culpa imprópria, culpa por extensão, por assimilação ou por equiparação – para se entender aquilo que a doutrina denomina culpa imprópria, é necessário entender alguns institutos anteriormente como segue:
1º excludente de ilicitude ou descriminante – estudaremos mais adiante as excludentes da ilicitude, porém, neste momento é necessário entender alguns de seus aspectos para compreender a culpa imprópria. O Código Penal prevê algumas circunstâncias que exclui a ilicitude da pessoa quando praticadas de determinada maneira, assim, se uma pessoa mata outra, presume-se que ocorreu um crime de homicídio, pois a conduta é típica. Entretanto, não haverá ilícito, caso tenha cometido a conduta em legítima defesa, por exemplo, nos termos do artigo 25 do Código Penal: Entende-se em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem. Neste caso se uma pessoa foi ameaçada de morte por um seu desafeto que lhe diz: ‘vou te matar. Pode esperar que hoje à noite, quando você estiver dormindo eu vou aparecer na sua casa e te matar. Você nem vai perceber o que te atingiu’. Caso o desafeto compareça na casa do agente, invada a casa deste, e este, ficando prevenido atira primeiro matando o invasor de sua casa que pretendia matá-lo, não comete crime algum, uma vez que está encoberto pelo manto da legítima defesa.
2º descriminante putativa – o que se entende por descriminante foi estudado acima. Putativo é tudo aquilo que é falso, parece, mas não é. As descriminantes putativas vem previstas no artigo 20, § 1º primeira parte do Código Penal: É isento de pena quem, por erro plenamente justificado pelas circunstâncias, supõe situação de fato que, se existisse, tornaria a ação legítima. Não há isenção de pena quando o erro deriva de culpa e o fato é punível como crime culposo. No exemplo dado para explicar a excludente de ilicitude, imagine que o desafeto após fazer a ameaça, no mesmo dia, converta-se a uma religião qualquer, e arrependido, no afã de se ver redimido de seus pecados, entra de forma afoita na residência do agente, e este, temendo por sua vida, atira e mata o invasor, acreditando estar agindo em legítima defesa, pois este colocou a mão por dentro de sua jaqueta tencionando pegar um crucifixo. Neste caso aplica-se a parte primeira do artigo 20, § 1º, devendo ser isentado de pena o agente, pois pelas circunstâncias, o erro dele era plenamente justificado, e supondo uma situação de fato, qual seja, o ataque de um desafeto, agiu pensando estar acobertado pela legítima defesa.
3º culpa imprópria – é a conduta do agente que age com culpa na percepção da situação, mas sua conduta na verdade não é culposa, e sim dolosa. E, por razões de política criminal, ao invés de punir o cidadão como se tivesse praticado uma conduta dolosa, pune-se a conduta dolosa como se culposa fosse. É o que se verifica na segunda parte do artigo 20, § 1º do Código Penal: É isento de pena quem, por erro plenamente justificado pelas circunstâncias, supõe situação de fato que, se existisse, tornaria a ação legítima. Não há isenção de pena quando o erro deriva de culpa e o fato é punível como crime culposo. Veja o seguinte exemplo: o agente recebe o telefonema de um primo que reside em outra cidade, e este lhe diz que chegará à noite para dormir em sua casa. À noite, o agente estando em sua residência, ouve um barulho na porta da frente de sua casa e ao invés de perguntar quem está do lado de fora da casa, simplesmente atira pela porta, querendo matar a pessoa, pois pensa tratar-se de um criminoso, atingindo seu intento. Ao abrir a porta, percebe que acertou seu primo, matando-o. Neste caso, houve erro ou culpa na percepção da realidade, pois o agente foi negligente ao não perguntar quem estaria do lado de fora da porta, o que acabaria com a suspeita após a identificação de seu primo que já avisara que chegaria à noite. A conduta do agente, entretanto, não é culposa, mas sim dolosa. Então, por razões de política criminal, e de forma inapropriada, ou melhor, de forma imprópria, pune-se esta conduta dolosa com as penas do crime culposo.
4- Graus de culpa – a culpa, tendo-se em mente a maior ou menor previsibilidade da ocorrência do resultado, pode ser grave, leve e levíssima. De qualquer modo haverá crime culposo, sendo relevante esta gradação no que se refere à aplicação da pena, nos termos do artigo 59 do Código Penal, que prevê as circunstâncias do crime.
5- Compensação de culpas – inexiste esta possibilidade. Assim, se duas pessoas agem, uma contra a outra de forma culposa, cada um responderá por crime culposo autônomo. Portanto, uma culpa não anula outra.
6- Concorrência de culpas – mais de uma pessoa, agindo de forma culposa, dão causa ao resultado previsível. Ambos respondem pelo mesmo crime de forma culposa. Exemplo, uma pessoa dirigindo em alta velocidade e outra na contramão, colidem e causam a morte de um terceiro que era passageiro de um dos veículos. Os dois motoristas concorreram para o evento morte de forma culposa.
7- Excepcionalidade do crime culposo – é a regra valiosa que se extrai do parágrafo único do artigo 18: Salvo os casos expressos em lei, ninguém pode ser punido por fato previsto como crime, senão quando o pratica dolosamente. Desta forma, observando-se o artigo 163 do Código Penal, conclui-se que não se pune o dano causado de forma culposa, tendo em vista não estar previsto em lei. Assim, somente excepcionalmente se pune o crime culposo, e esta excepcionalidade se dá no momento em que há a previsão legal, que não se verifica sempre.
8- Tipo penal aberto – os crimes culposos tem o chamado tipo penal aberto, pois a conduta não vem descrita no tipo penal, mas apenas o resultado, diferente do tipo penal dolosoque é fechado, descrevendo qual conduta é tipificada como crime, ou seja, não entra em detalhes para exteriorizar em que consistiu a culpa. No crime culposo, então, por ter o tipo penal aberto, deverá o magistrado fazer um juízo de valor sobre o agir do agente para se saber se este agiu com imprudência, negligência ou imperícia.
1.3.3- CONDUTA PRETERDOLOSA OU PRETERINTENCIONAL – O crime preterdoloso é uma das modalidades de crimes qualificados pelo resultado. Na conduta preterdolosa o agente age com dolo no antecedente e culpa no conseqüente. O agente tem uma vontade, contudo o resultado extrapola esta vontade e ocorre mais do que o agente quis. Preterdolo que dizer ‘além do dolo’. Exemplo típico de crime preterdoloso é a lesão corporal seguida de morte, tal qual descrita no artigo 129, § 3º do Código Penal, onde se age querendo causar lesão corporal, por exemplo, dando uma facada na perna da vítima, entretanto, causa como resultado a morte e as circunstâncias evidenciam que o agente não quís o resultado, nem assumiu o risco de produzí-lo.
1.3.3.1. Crimes qualificados pelo resultado – são aqueles que após o legislador estabelecer uma conduta, dolosa ou culposa básica, a qual, após praticada configurará o crime, prevê um resultado, doloso ou culposo, que agrava a conduta e consequentemente a pena. Combinando-se conduta dolosa ou culposa, com resultado doloso ou culposo, chega-se a quatro possibilidades de crimes qualificados pelo resultado:
a) conduta dolosa e resultado agravador doloso (dolo no antecedente e dolo no conseqüente) – o agente pratica uma conduta querendo praticá-la, bem como quer produzir o resultado estabelecido em lei que agrava a pena. Um exemplo trará mais clareza à questão. Suponhamos que uma pessoa parta para cima de seu desafeto visando causar-lhe lesões corporais. Golpeia a cabeça da vítima com uma pedra, e desta forma configura o tipo básico nos termos do artigo 129 caput com a seguinte redação: Ofender a integridade corporal ou a saúde de outrem: Pena - detenção, de três meses a um ano. Entretanto, não quer somente causar lesão, o algoz quer também causar deformidade permanente na vítima, assim, golpeia fortemente uma das orelhas da vítima com a mesma pedra, que em decorrência de sua textura e forma, é apta para extirpar a orelha da vítima. Neste momento o agente com sua conduta produz o resultado estabelecido pelo § 1º do artigo 129: § 1º Se resulta: (...) III - debilidade permanente de membro, sentido ou função (...) Pena - reclusão, de um a cinco anos. Neste caso estamos diante de um crime que foi qualificado pelo resultado.
b) conduta culposa e resultado agravador culposo (culpa no antecedente e culpa no conseqüente) – neste caso o agente, agindo com negligência, imprudência ou imperícia, pratica uma conduta tipificada como crime. E, ainda, provoca um resultado previsto em lei que agrava a pena, mas também de forma culposa. Exemplo desta modalidade de crime qualificado pelo resultado se tem combinando os artigos 250, § 2º e 258, segunda parte do Código Penal, que estabelecem o crime de incêndio e as formas qualificadas dos crimes de perigo comum, respectivamente. O agente que culposamente causa incêndio em uma residência, e deste incêndio, culposamente tem-se como resultado a morte de forma culposa de uma pessoa que estava dentro da casa, incide nas penas mais graves estabelecidas pelo artigo 258, segunda parte, havendo um crime culposo qualificado pelo resultado culposo.
c) conduta culposa e resultado agravador doloso (culpa no antecedente e dolo no conseqüente) – nesta situação, o agente inicialmente age com culpa. Posteriormente age com dolo, querendo praticar outra conduta e desta forma sua pena é agravada. Exemplo desta situação é o artigo 303, § único do Código de Transito Brasileiro, 302 e 305 do CTB, quando o agente pratica lesão corporal culposa na direção de veículo automotor, e posteriormente foge, não prestando socorro quando possível. Ou seja, no momento em que atropelou a vítima, sua conduta foi culposa. Ao se omitir, não prestando socorro, sua conduta foi dolosa e agravadora.
d) conduta dolosa e resultado agravador culposo (dolo no antecedente e culpa no conseqüente) – neste caso, e somente neste caso, estamos diante de uma figura preterdolosa. É o que ocorre no exemplo já dado do agente que age com dolo visando causa lesão corporal, mas o resultado que atinge vai além do dolo, causando a morte da vítima. Dolo no antecedente e culpa no conseqüente.
CRIME QUALIFICADO PELO RESULTADO - POSSIBILIDADES
CONDUTA ANTECEDENTE
CONDUTA CONSEQÜENTE
DOLO
DOLO
CULPA
CULPA
CULPA
DOLO
DOLO
CULPA
Todos são crimes qualificados pelo resultado, mas, só no último caso há o chamado crime preterdoloso
RESULTADO
I- CONCEITO – resultado, em termos penais, é a conseqüência ou o produto da conduta, ou seja, é aquilo que a conduta produz. Resultado é diferente de evento. Evento é qualquer acontecimento, abrangendo os eventos da natureza como raio, terremoto, enchente, nascimento, morte etc. Resultado é a consequência da conduta humana.
II- TEORIAS A RESPEITO DO RESULTADO – a doutrina traz duas teorias para explicar o resultado, quais sejam:
a) naturalística – segundo esta teoria, resultado é alteração ou modificação do mundo natural. Desta forma, com a prática do crime, ocorre um resultado que atinge o mundo concreto, causando uma mudança neste mundo concreto. Assim, o resultado do crime homicídio, é a morte. O resultado do crime furto é a subtração do patrimônio. O resultado do crime de dano, é a destruição, inutilização ou deteorização da coisa e assim por diante. Entretanto cabe ressaltar que, para os adeptos dessa teoria, sempre há resultado somente nos crimes materiais, pois nos crimes formais e os de mera conduta não tem resultado. Por exemplo, no crime de violação de domicílio, conforme descrito pelo artigo 150 - Entrar ou permanecer, clandestina ou astuciosamente, ou contra a vontade expressa ou tácita de quem de direito, em casa alheia ou em suas dependências – neste caso não há resultado naturalístico, pois o mundo concreto não é alterado. Assim, para aqueles que seguem a doutrina naturalística, tal crime é classificado como de mera conduta, ou seja, para sua consumação, não há que se verificar a existência de um resultado naturalístico, com a mera realização da conduta, o crime se consuma.
b) jurídico ou normativo – para esta teoria, resultado é toda lesão ou ameaça de lesão a um bem relevante penalmente protegido. Esta teoria é mais condizente com a redação da primeira parte do artigo 13 do Código Penal: O resultado, de que depende a existência do crime, somente é imputável a quem lhe deu causa, conforme esta redação, podemos concluir que o resultado é também a condição para a atribuição da imputação. Assim, todos os crimes tem resultado jurídico, mesmo que não haja resultado naturalístico. No mesmo exemplo do crime de violação de domicílio, conforme descrito pelo artigo 150 - Entrar ou permanecer, clandestina ou astuciosamente, ou contra a vontade expressa ou tácita de quem de direito, em casa alheia ou em suas dependências – temos que apesar de não ocorrer resultado naturalístico, há resultado jurídico, na medida em que houve alteração da ordem jurídica, pois a inviolabilidade de domicílio, bem jurídico tutelado pelo Direito Penal, foi ofendido.
III- CLASSIFICAÇÃO DOUTRINÁRIA DOS CRIMES DE ACORDO COM O RESULTADO NATURALÍSTICO QUE PRODUZEM OU NÃO
1- crimes materiais – são aqueles que o legislador descreve uma conduta e prevê um resultado naturalístico, e para que haja a consumação do crime, há necessidade de que o resultado ocorra. São exemplos de crimes materiais o homicídio (conduta: matar, resultado: morte), o furto (conduta: subtrair, resultado: diminuição patrimonial) e o roubo (conduta: subtrair mediante violência ou grave ameaça, resultado: diminuição patrimonial e lesão corporal ou a violação da liberdade individual).
2- crimes formais, crimes incongruente ou de resultado antecipado – nesta modalidade de crime, o legisladordescreve uma conduta e prevê um resultado naturalístico, entretanto, para que haja a consumação do crime, não há a necessidade de se verificar o resultado. Exemplo deste tipo de crime é a extorsão mediante sequestro. Art. 159 - Sequestrar pessoa com o fim de obter, para si ou para outrem, qualquer vantagem, como condição ou preço do resgate. Observe que o tipo penal descreve uma conduta, qual seja, sequestrar uma pessoa. Prevê também um resultado que é a obtenção de vantagem como condição ou preço do resgate, porém, pela redação do artigo, no momento em que a conduta se realiza, o crime já está consumado, pois o verbo do tipo a ser praticado para a configuração do crime é sequestrar e não obter. No caso da extorsão mediante sequestro, como a lei prevê um resultado, caso este também se verifique, tem-se o chamado exaurimento do crime. Assim, exaurimento é o fenômeno que se manifesta somente nos crimes formais, no momento que, além da consumação, o resultado naturalístico também se verifica.
3- crimes de mera conduta ou de mera atividade – são os crimes que o legislador somente descreve uma conduta, não havendo previsão de resultado naturalístico, assim, verifica-se a consumação do crime com mera prática do ato descrito na lei, não havendo a necessidade de se verificar nenhuma modificação no mundo exterior. Exemplo deste tipo de crime é a violação de domicílio.
IV- CRIMES QUALIFICADOS PELO RESULTADO – conforme já analisado anteriormente ao estudar o instituto do preterdolo, há muitas situações em que o resultado serve para qualificar o crime, fazendo com que a punição seja mais severa ao agente. Nesse sentido, é muito comum que crimes violentos sejam punidos com mais gravidade quando o agente, mesmo não querendo, ao aplicar a violência, produz o evento morte. É o que ocorre com os crimes de estupro, roubo, extorsão mediante sequestro, dentre outros.
NEXO CAUSAL
I- INTRODUÇÃO – para a prática de um crime, necessário se faz a conduta humana, dolosa ou culposa. Tal conduta, no caso dos crimes materiais, produz um resultado, sendo o resultado dispensado nos crimes formais e inexistente nos crimes de mera conduta. Havendo de um lado a conduta e de outro o resultado, deve haver no meio algo que possa se afirmar que um é consequência do outro. Ou seja, a relação causal ou o nexo causal.
II- CONCEITO - nexo causal, na teoria geral do crime, é aquilo que liga a conduta do agente ao resultado causado. É o elo, a ponte por meio da qual se consegue dizer que a conduta do agente causou o resultado naturalístico. É a relação de causa e efeito, onde a conduta é causa do efeito produzido, qual seja, o resultado.
III- NEXO CAUSAL NATURALÍSTICO – o nexo causal obedece somente aos ditames da lei física de causa e efeito. Na aferição do nexo causal, não se analisa a carga jurídica da conduta, sendo relevante somente constatar se no mundo físico, na natureza, pode-se afirmar que a causa do resultado foi a conduta do agente. Conclui-se que não se analisa, para a verificação do nexo causal, se o agente atuou com dolo ou culpa. O Professor Fernando Capez (2008, p. 157) ao tratar do tema transcreve o seguinte exemplo: um motorista, embora dirigindo seu automóvel com absoluta diligência, acaba por atropelar e matar uma criança que se desprendeu da mão de sua mãe e precipitou-se sob a roda do veículo. Mesmo sem atuar com dolo ou culpa, o motorista deu causa ao evento morte, pois foi o carro que conduzia que passou por sobre a cabeça da vítima.
IV- NEXO NORMATIVO – se o que liga a conduta a um resultado é o nexo causal, consubstanciada em uma relação de causa e efeito, o que por si só não pode caracterizar um crime, para que este se verifique, há a necessidade da existência do chamado nexo normativo, que é o que liga no mundo jurídico a conduta ao resultado. Tal nexo se dá através do dolo e da culpa. Desta forma, não há no ordenamento jurídico brasileiro crime sem que a conduta praticada se encaixe no dolo ou na culpa. Aliás, é o que se conclui da leitura do artigo 18 do Código Penal com a seguinte redação: Diz-se o crime: I - doloso, quando o agente quis o resultado ou assumiu o risco de produzi-lo; II - culposo, quando o agente deu causa ao resultado por imprudência, negligência ou imperícia.
V- TEORIA DA EQUIVALÊNCIA DOS ANTECEDENTES OU TEORIA DA CONDITIO SINE QUA NON – é a teoria adota pelo Código Penal brasileiro nos termos do artigo 13 caput do Código Penal: O resultado, de que depende a existência do crime, somente é imputável a quem lhe deu causa. Considera-se causa a ação ou omissão sem a qual o resultado não teria ocorrido. Esta teoria recebe este nome, pois atribui o mesmo peso a qualquer fato que contribua para o resultado. Vale dizer, toda ação ou omissão humana que antecede o crime contribuindo para que este ocorra, é sua condição. A expressão latina também expressa esta mesma idéia, conditio sine qua non. Numa tradução livre chegamos a ‘condição sem a qual não’ ou ‘condição sem a qual o crime não teria ocorrido’. Em outras palavras, sem aquela determinada condição, o crime não se verificaria. Para esta teoria não existe diferença entre causa e concausa, pois tanto uma como outra são condições para a produção do resultado do crime. Se de alguma forma a condição concorreu para a produção do resultado, então é causa deste. E como a exclusão de qualquer causa antecedente impediria a produção do resultado, conclui-se que todos os antecedentes se equivalem.
Obs: causa é a soma de todas as condições que levam ao resultado. Concausa é a causa que ‘corre junto’ com outra causa, ou seja, a causa que incide juntamente com outra causa. Só se fala em concausa quando há mais de uma causa contribuindo para o mesmo resultado, nestes casos, segundo explicado, causa e concausa tem o mesmo peso, se equivalem.
VI- REGRESSUS AD INFINITUM – como afirmado, para esta teoria, todas as condições que contribuíram para o resultado são causa do crime. No clássico exemplo do homicida, o agente que dispara com a arma de fogo contra seu desafeto responde pelo crime, pois o disparo foi condição indispensável, ou seja, causa. Entretanto, também foi condição indispensável a venda da arma pelo comerciante, a fabricação da arma pela indústria, os pais do criminoso que o geraram e do médico que fez o parto assim por diante, podendo-se chegar até Adão e Eva em um raciocínio simplista, criminalizando todos, pois deram causa, ou seja, agiram de tal forma que criaram uma condição sem a qual o crime não teria ocorrido. Esta conclusão é absurda para os objetivos a que se destina o Direito Penal. A esse retorno sem fim, chama-se regressus ad infinitum.
VII- CRITÉRIOS DE LIMITAÇÃO DO ALCANCE DA TEORIA DA CONDITIO SINE QUA NON – para que não haja o regressus ad infinitum, limitando assim a teoria da conditio sine qua non, foram estabelecidos uma série de critérios para atender aos interesses do Direito Penal, uma vez que essa teoria leva em consideração somente o elemento físico do delito, ou seja, a relação de causa e efeito, desprezando o nexo normativo, não servindo, por si só, para satisfazer os critérios para a punibilidade.
1- Critério da eliminação hipotética – a lição do Professor Fernando Capez é bastante esclarecedora nesse particular, citando o Professor Damásio Evangelista de Jesus (CAPEZ, p. 159): “Suponha-se que ‘A’ tenha matado ‘B’. A conduta típica do homicídio possui uma série de fatos, alguns antecedentes, dentre os quais podemos sugerir os seguintes: 1º) a produção do revólver pela indústria; 2º) aquisição da arma pelo comerciante; 3º) compra do revólver pelo agente; 4º) refeição tomada pelo homicida; 5º) emboscada; 6º) disparo de projéteis na vítima; 7º) resultado morte. Dentro dessa cadeia de fatos, excluindo-se os fatos sob os números 1º a 3º, 5º e 6º, o resultado não teria ocorrido. Logo, são considerados causa. Excluindo-se o fato sob o número 4º (refeição), ainda assim o evento teria acontecido. Logo, a refeição tomada pelo sujeito não é considerada causa. A esse sistema (...) de aferiçãodá-se o nome de “procedimento hipotético da eliminação”.
2- Inexistência de dolo ou culpa – como a teoria da conditio sine qua non é uma relação meramente de causa e efeito, ou seja, de caráter naturalístico, pode ocorrer de alguém dar causa a um resultado tipificado em lei penal, porém, não ser responsabilizado criminalmente por ausência de dolo (querer o resultado ou assumir a ocorrência do resultado) ou culpa (negligência, imprudência ou negligência). Ocorre que o a lei brasileira não conhece outra maneira de responsabilização que não seja por dolo ou culpa. Assim, se a conduta for acidental, ou houver incidência de algo definido como caso fortuito ou de força maior, não haverá crime, não servindo para resolver a situação somente a teoria da conditio sine qua non, que leva em consideração somente a relação de causa e efeito com o nexo físico, havendo a necessidade de ser analisado o nexo normativo, que liga a conduta do agente ao resultado produzido, necessariamente por meio do dolo ou da culpa.
VIII- NEXO CAUSAL NOS CRIMES PRATICADOS POR OMISSÃO – Em relação aos crimes praticados por meio de uma ação (crimes comissivos), não há grandes problemas para se verificar o nexo causal, ou seja, o elo que liga a conduta comissiva ao resultado. Entretanto, necessário prestar atenção ao se estudar o nexo causal nos crimes praticados por meio da omissão.
1- conceito de omissão – é o comportamento negativo. É o não fazer. O deixar de fazer aquilo que a lei determina que se faça. A inatividade. A omissão pode ser subdividida da seguinte forma:
2- crimes omissivos próprios ou omissivos puros – são os crimes estabelecidos em lei, onde a norma que se extrai da descrição típica é a determinação de agir, fazer algo. Conclui-se que nos crimes omissivos puros, há simplesmente uma desobediência a uma norma mandamental que determina a prática de uma conduta, e o agente é responsabilizado por sua inatividade. Entretanto, o nada fazer nada gera, não há resultado naturalístico. Não há que se falar então em conduta e resultado, mas em inatividade e ausência de resultado, não havendo nexo causal nos crimes omissivos puros ou próprios. O exemplo clássico deste tipo de crime no Código Penal é a omissão de socorro: Art. 135 - Deixar de prestar assistência, quando possível fazê-lo sem risco pessoal, à criança abandonada ou extraviada, ou à pessoa inválida ou ferida, ao desamparo ou em grave e iminente perigo; ou não pedir, nesses casos, o socorro da autoridade pública, estes tipos de crimes podem ser praticados por qualquer pessoa.
3- crimes omissivos impróprios ou omissivos impuros, ou comissivos por omissão - Veja que nos termos do § 2º do artigo 13 do Código Penal, a omissão não é sempre relevante, mas somente em alguns casos: § 2º - A omissão é penalmente relevante quando o omitente devia e podia agir para evitar o resultado. O dever de agir incumbe a quem: a) tenha por lei obrigação de cuidado, proteção ou vigilância; b) de outra forma, assumiu a responsabilidade de impedir o resultado; c) com seu comportamento anterior, criou o risco da ocorrência do resultado. Nos termos da disposição legal, em algumas situações o crime não tem a natureza omissiva, porém, pode ser praticado por omissão. Nestes casos, a omissão, ou seja, a inatividade, o nada fazer deixa de impedir a produção do resultado. Ou seja, o agente não tem somente a obrigação de agir como nos crimes omissivos próprios, mas tem o dever de agir para impedir determinado resultado e por uma ficção jurídica equiparam-se tais situações como crimes comissivos, por isso são também chamados de crimes comissivos por omissão. Dessa forma, repita-se, por uma ficção jurídica, existe nexo causal nos crimes omissivos por omissão. Exemplo de crime comissivo por omissão se dá quando um salva vidas em serviço (art. 13, § 2º, ‘b’) vê uma pessoa se afogando na piscina de um clube, nesse caso o salva vidas tinha o dever de cuidado sobre o banhista, respondendo, caso ocorra o evento morte, por homicídio doloso por omissão.
IX- NEXO CAUSAL EM OUTROS TIPOS DE CRIMES
1- nos crimes de mera conduta – não existe resultado, há somente uma conduta, por isso inexiste nexo causal, somente nexo normativo, pois o agente atua com dolo.
2- nos crimes formais – nesses crimes a lei descreve uma conduta, prevê um resultado, porém, para que este se consume, independe da produção do resultado. Caso esse ocorra, estar-se-á diante do exaurimento do crime, concluindo-se, pois, que o resultado, nestes casos, é irrelevante para o Direito Penal. Assim, não importa também para o Direito Penal o nexo causal nos chamados crimes formais, mas haverá o nexo normativo, pois o agente atua com dolo.
3- nos crimes materiais – nos crimes formais há a descrição pela lei de uma conduta e de um resultado e para a consumação do crime, necessário se faz a produção do resultado. Assim, nos crimes materiais o nexo causal sempre será verificado e relevante para o Direito Penal, além do nexo normativo, que liga o agente ao resultado pelo dolo ou pela culpa.
X- SUPERVENIÊNCIA CAUSAL – como já analisado, causa é toda condição que contribui para a produção do resultado. Como foi adotada pelo Código Penal a teoria da equivalência dos antecedentes, não se estabelece diferença entre causas e concausas. Contudo, pode-se dizer que concausa são as causas diversas da causa principal, que atuam ao lado desta, contribuindo para a produção do resultado. O Código Penal trata em seu artigo 13 § 1º da superveniência de causa independente da seguinte forma: A superveniência de causa relativamente independente exclui a imputação quando, por si só, produziu o resultado; os fatos anteriores, entretanto, imputam-se a quem os praticou. Antes de estudar especificamente a regulamentação desta causa relativamente independete, necessário se faz estudar os demais tipos de concausas.
1- Causas dependentes – são as concausas que dependem das causas anteriores, não havendo possibilidade de dissociar umas das outras. Por exemplo, no caso de uma pessoa matar outra por meio de uma única facada no região abdominal serão verificadas as seguintes causas do evento morte: facada, perfuração de órgãos vitais, hemorragia interna, parada cardíaca. Ora, é fácil notar que a facada foi a causa do resultado morte. Do mesmo modo, a perfuração dos órgãos vitais também foi causa do resultado morte, bem como a hemorragia interna e a parada cardíaca. Também não há dificuldade em perceber que uma causa é consequência natural da outra, ou seja, as causas posteriores são dependentes das anteriores. Todas são concausas.
2- Independentes – se as concausas dependentes têm uma relação íntima e indissociável com a causa anterior, no caso das causas independentes não se dá da mesma forma. Ao contrário, as causas não se relacionam indissociavelmente, antes, elas produzem por si só o resultado. As causas independentes aparecem não como um desenrolar natural da causa anterior, mas como algo inesperado. Tais causas subdividem-se em relativamente independentes e absolutamente independentes.
a) absolutamente independentes – estas concausas tem origem totalmente diversa da conduta, são condições que nascem por outra força que não a ação ou omissão do agente, rompendo o nexo causal da conduta do agente principal e o resultado no caso concreto.
a1- concausas absolutamente independentes preexistente – são causas que estão presentes na situação, sendo anteriores à conduta do agente. Suponha-se que uma pessoa tenha sido Teudas tenha sido envenenado por Judas. Posteriormente Horácio atira em Teudas tencionando matá-lo, porém, apesar da vitima ter sido atingida pelos projéteis, tem como causa mortis o envenenamento. Ora, neste caso, está rompido o nexo causal entre a conduta de Horácio e o resultado morte. Se Teudas ainda estava vivo quando recebeu os disparos, Horácio responderá por tentativa de homicídio. No caso de Teudas já estar morto no momento dos disparos, Horácio não responderá por crime nenhum, por tratar-se de crime impossível pela absoluta impropriedadedo objeto, nos termos do artigo 17 do Código Penal.
a2- concausas absolutamente independentes concomitantes – nestes casos, apesar de serem absolutamente independentes, ocorrem ao mesmo tempo. Na hipótese de Teudas estar passando na rua e de um lado Horácio atirar com um revólver e do outro Judas disparar com uma espingarda, sendo Teudas atingido por ambos os projéteis, mas vindo a falecer em decorrência daquele que saiu da arma de Judas, teremos que o nexo causal entre a conduta de Horácio e o resultado morte de Teudas estará rompido, respondendo Horácio somente pelo crime de tentativa de homicídio.
a3- concausas absolutamente independentes supervenientes – são as concausas que se apresentam depois da causa principal em análise. Por exemplo: Teudas é envenenado por Horácio. A vítima começa a passar mal e vai até à janela para respirar um pouco de ar puro, esperando que os sintomas passem. Ao abrir a janela é alvejado por um disparo efetuado por Judas, que causa o evento morte de Teudas. Mais uma vez estará rompido o nexo causal entre a conduta de Horácio e resultado, respondendo Horácio somente por tentativa de homicídio.
Obs: como visto pelos exemplos dados, a consequência das causas absolutamente independentes é o rompimento do nexo causal, respondendo o agente somente pelos atos praticados.
b) relativamente independentes – são aquelas que por si só produzem o resultado, mas que se originam na conduta do agente. Subdividem-se em:
b1- concausas relativamente independentes preexistente – são causas que existem antes da conduta do agente que dá causa ao resultado. Por exemplo: Horácio dá uma facada na perna de Teudas que é hemofílico e morre em função da hemorragia. A causa da morte foi a facada somada à doença da vítima. Veja que o nexo causal entre a conduta de Horácio e a morte de Teudas está preservado. Neste caso, a hemofilia funciona como causa relativamente independente preexistente, pois já existia antes da agressão.
b2- concausas relativamente independentes concomitantes – causas que se dão no mesmo momento da conduta do agente. Hipoteticamente falando, se Horácio dispara sua arma de fogo contra Teudas, sendo este cardíaco, e em decorrência do estampido da arma de fogo vem a sofrer um enfarto que lhe causa a morte, apesar de também atingido pelo disparo. Observe-se que nesta situação não houve rompimento do nexo causal da conduta do agente (disparo da arma de fogo) e a morte da vítima (em decorrência do enfarto provocado pelo susto). Responderá Horácio pelo homicídio. Deve ser lembrado que havia dolo de matar a vítima na conduta de Horácio.
b3- concausas relativamente independentes supervenientes – é sobre este instituto que trata o artigo 13, § 1º do Código Penal ao dizer: § 1º - A superveniência de causa relativamente independente exclui a imputação quando, por si só, produziu o resultado; os fatos anteriores, entretanto, imputam-se a quem os praticou. O exemplo tradicional trazido pela doutrina tornará mais claro o instituto. Suponha-se que Horácio efetue um disparo de arma de fogo contra Teudas o qual atinge sua região abdominal. Este é socorrido por uma ambulância, sendo que seu motorista dirige em alta velocidade tencionando salvar a vida da vítima. Em determinado momento a ambulância se envolve em um grave acidente, e em decorrência deste, Teudas morre por traumatismo craniano. Segundo o disposto pelo Código Penal, Horácio responderá somente por tentativa de homicídio, pois, por expressa previsão legal do artigo 13, § 1º do Código Penal, excetuando a regra geral, houve o rompimento do nexo causal, pois a causa da morte de Teudas foi o traumatismo craniano, causa esta superveniente, e relativamente independente, pois o traumatismo craniano somente se deu, tendo em vista o disparo efetuado por Horácio.
Obs: importante notar que o instituto da superveniência causal subdivide-se em vários aspectos, entretanto, o Código Penal trata somente da superveniência de causa relativamente independente.
TIPICIDADE
I- CONCEITO DE TIPO PENAL – como é sabido, tem-se como garantia do cidadão, tal qual descrito no artigo 5º, XXXIX da Constituição Federal, reproduzido também no artigo 1º do Código Penal, o Princípio da legalidade ou da reserva legal. Este princípio determina que somente haverá crime, caso uma lei formal o tenha definido. É chamado também de princípio da reserva legal, tendo em vista que se reservou somente à lei a criação de uma conduta que possa ser definida como crime. Desta forma, pode-se dizer que tipo penal, é o modelo estabelecido em lei de uma conduta humana que, caso reproduzida, poderá ser punida pelo Estado. Resumindo, tipo é modelo. Com estas considerações, conclui-se que o tipo penal serve como limite bilateral de atuação. Bilateral, pois limita a atuação do cidadão, livre para fazer ou deixar de fazer qualquer coisa, a não ser que seja proibido por lei (art. 5º, II da Constituição Federal), que é o caso do tipo penal, que proíbe o cidadão, por exemplo, de matar, nos termos do artigo 121 do Código Penal. E limita também a atuação do Estado, que somente poderá agir impondo pena, caso o cidadão tenha uma conduta que se enquadre perfeitamente no tipo penal. A tipicidade, contudo, deve ser analisada sob dois planos:
1- Tipicidade formal – é o perfeito encaixe de uma conduta a um tipo penal. Assim, para que uma conduta seja punida como crime, ela deve, necessariamente se enquadrar perfeitamente em algum tipo penal. Durante muito tempo tipo penal era somente o tipo formal. Contudo, atualmente não se concebe a tipicidade somente pelo seu aspecto formal, pois a subtração de uma folha de sulfite se enquadra perfeitamente no tipo penal descrito no artigo 155, furto, contudo, fere o senso de justiça de qualquer um achar que a subtração de uma folha de sulfite dever ser punido com a pena de um a quatro anos de reclusão e multa.
2- Tipicidade material – é a lesão ou perigo de lesão grave ao bem jurídico penalmente tutelado. Dessa forma, as lesões insignificantes ao bem jurídico não se encaixam no tipo penal. Percebe-se que o princípio da insignificância, quando presente, anula a tipicidade formal.
Conclusão: Tipicidade = tipicidade formal + tipicidade material.
Obs: Tipicidade ou adequação típica – apesar de parte da doutrina fazer distinção, a maioria dos autores trata os dois termos como sinônimos. É a perfeita correspondência entre a conduta praticada pelo agente e o tipo penal previsto em lei.
II- ESPÉCIES DE TIPO – há duas espécies de tipos no Código Penal, os incriminadores, que se subdivide em proibitivos e mandamentais e os tipos penais não incriminadores que, por sua vez, subdividem-se em permissivos e explicativos ou complementares.
1- incriminadores – são aqueles que descrevem a conduta tida pelo ordenamento jurídico como perniciosa e indesejável para o seio social. Assim, para que se saiba de forma clara qual é o comportamento que deve ser evitado pelo cidadão, descreve-se a conduta proibida (incriminada) e caso referida conduta seja praticada, é imposta uma pena. Desta forma, ao invés do legislador dizer: ‘é proibido matar alguém, e caso isso seja feito, será a pessoa submetida a pena de 6 a 20 anos’, diz-se somente: ‘matar alguém. Pena: reclusão de 6 a 20 anos’. Os tipos incriminadores podem ser proibitivos ou mandamentais:
a) proibitivo: proíbem determinado comportamento e caso este comportamento seja praticado, levará à imposição de pena. É o exemplo do homicídio.
b) mandamental: determinam que certo comportamento seja praticado e caso este não o seja, configura-se o crime. É o tipo penal dos crimes omissivos próprios, onde a ordem emanada pelo tipos é justamente para que se faça algo e caso isso não ocorra, haverá a imposição de pena. Exemplo: omissão de socorro, descrito no artigo 135 do Código Penal, onde o legislador pune aquele que deixa de prestar assistência quando é possível fazê-lo sem risco pessoal.
2- não incriminadores – aqueles que não descrevem um ilícito penal, antes permitem queuma conduta, que inicialmente é típica seja praticada sem a ameaça de pena, ou em outras vezes explica determinado tipo penal. As primeiras são chamadas de tipos permissivos os segundos de tipos explicativos.
a) tipos permissivos – são os tipos não incriminadores que tem o condão (poder) de fazer com que determinadas condutas tipificadas em lei como crime, tornem-se lícitas caso praticadas sob o manto de determinadas condições. Exemplo de tipo permissivo é o descrito no artigo 25 do Código Penal, o qual prevê que se entende em legítima defesa quem, usando moderadamente dos meios necessários, repele injusta agressão, atual ou iminente, a direito seu ou de outrem, assim, quem mata alguém estando em legítima defesa não pratica o crime de homicídio descrito no artigo 121 do Código Penal, pois a norma penal permissiva legitima tal conduta. Além da legítima defesa, o artigo 23 do Código Penal é um tipo permissivo que menciona também o estado de necessidade, o estrito cumprimento do dever legal e o exercício regular de direito.
b) tipos explicativos (ou complementares) – são os tipos não incriminadores que dão uma explicação sobre determinado instituto ou determinado crime, ou mesmo conjunto de crime. Exemplo típico de tipos explicativo é o artigo 327 do Código Penal, que define o que se entende por funcionário público para efeitos penais.
Obs: Proibição de descrição genérica da conduta no tipo – sempre deve ser evitada a descrição genérica da conduta no tipo penal. O tipo penal deve ser o mais claro e específico possível, para que qualquer pessoa saiba qual é a conduta que a lei entende como proibida. Exemplo de tipo penal genérico é aquele que diz: “Praticar ato contrário aos interesses nacionais”. Matar, roubar e furtar são atos contrários aos interesses nacionais. Assim como tornar-se uma pessoa obesa, beber demasiadamente ou maltratar os filhos.
III- CARÁTER INDICIÁRIO DO TIPO PENAL – os tipos penais incriminadores, como já explicado, descrevem condutas tidas como perniciosas e por isso mesmo indesejáveis para o seio social. Sempre que uma conduta humana se enquadra em um tipo penal, pressupõe em um primeiro momento que esta conduta seja ilícita, somente depois será analisado se a conduta também se enquadra em um tipo permissivo. Desta forma, quando Horácio mata Teudas, há indícios de que sua conduta foi ilícita. Por isso instaura-se Inquérito Policial para apuração dos fatos, pressupondo-se que o fato foi indesejável para a sociedade. Posteriormente, em um segundo momento, deverá o magistrado analisar se a conduta está abrangida por uma norma permissiva, ou seja, se Horácio matou em legítima defesa, estado de necessidade, estrito cumprimento do dever legal ou exercício regular de um direito.
IV- CONCEITO DE TIPICIDADE - se tipo é modelo de conduta humana praticada e que poderá ser punida com pena pelo Estado, tipicidade é a perfeita correspondência da conduta humana a um tipo penal previamente descrito em lei, é a adequação típica, pois a conduta se adequa perfeitamente ao tipo penal. Em outras palavras, é o perfeito enquadramento da ação praticada no mundo real com o modelo previsto no mundo jurídico, ou seja, na lei.
Obs: Apesar de alguns autores fazer distinção, seguindo orientação de parte da doutrina, os termos tipicidade e adequação típica serão tratados como sinônimos.
V- TIPICIDADE DE SUBORDINAÇÃO IMEDIATA – tendo-se a tipicidade como a perfeita correspondência da conduta humana a um tipo penal, esta tipicidade, via de regra se dá simplesmente relacionando a ação ou omissão do agente com aquilo que se encontra escrito em lei. Desta forma, se Horácio desfere um golpe com uma faca contra o peito de Teudas, causando a morte deste, pode-se afirmar que a conduta de Horácio enquadra-se perfeitamente no tipo penal homicídio, tal qual descrito no artigo 121 do Código Penal com a seguinte redação: ‘Matar alguém’. Observe-se que para subordinar a conduta de Horácio ao tipo penal, não há a necessidade de se valer de nenhuma outra norma além do citado artigo 121.
VI- TIPICIDADE DE SUBORDINAÇÃO MEDIATA – em alguns casos, excepcionalmente, para se subordinar a conduta do agente a um tipo penal, necessário se faz utilizar-se de mais de um artigo de lei, não sendo possível fazer a relação da conduta do agente diretamente com o tipo penal incriminador. Nestes casos, tem-se a tipicidade por subordinação mediata ou indireta, uma vez que para subordinar a conduta do agente à norma incriminadora, o operador do direito deve-se utilizar de outro artigo que servirá como ponte de ligação entre a conduta e o tipo incriminador. Na doutrina estes tipos são chamados de norma de extensão ou de ampliação, pois extendem ou ampliam o alcance do tipo incriminador. Vejamos as normas de extensão ou de ampliação constantes no Código Penal:
1- Tentativa – Código Penal, Artigo 14 Diz-se o crime: (...) II - tentado, quando, iniciada a execução, não se consuma por circunstâncias alheias à vontade do agente. Parágrafo único - Salvo disposição em contrário, pune-se a tentativa com a pena correspondente ao crime consumado, diminuída de um a dois terços. Exemplificando: Se Horácio desfere uma facada contra o peito de Teudas, tencionando tirar a vida deste, porém este não chega a óbito por circunstâncias alheias à vontade de Horácio, não há como subordinar sua conduta ao tipo penal descrito no artigo 121 do Código Penal ‘Matar alguém’, uma vez que Horácio ‘Matou ninguém’, o que não está descrito no tipo. Injusto seria também, dizer que Horácio é inocente não respondendo por crime algum. Para tanto, deve-se valer o juiz para condenar Horácio da norma constante no artigo 14, II do Código Penal acima transcrito, fazendo com que Horácio responda por tentativa de homicídio.
2- Participação – Artigo 29 Quem, de qualquer modo, concorre para o crime incide nas penas a este cominadas, na medida de sua culpabilidade. Se Horácio empresta uma arma de fogo para Judas e este desfere um tiro contra o peito de Teudas, tirando a vida deste, não há como subordinar diretamente a conduta de Horácio ao tipo penal descrito no artigo 121 do Código Penal ‘Matar alguém’, uma vez que Horácio ‘Matou ninguém’, mas prestou auxílio material a Judas, emprestando-lhe uma arma, assim, de algum modo concorreu para o crime, devendo, portando, incidir nas penas cominadas ao crime, na medida de sua culpabilidade. Observe que o artigo 29 enquadra-se na definição de norma de extensão ou de ampliação, uma vez que serve como ponte para ligar a conduta de Horácio ao tipo penal descrito no artigo 121 do Código Penal.
3- Crimes omissivos impróprios – Artigo 13, § 2º A omissão é penalmente relevante quando o omitente devia e podia agir para evitar o resultado. O dever de agir incumbe a quem: a) tenha por lei obrigação de cuidado, proteção ou vigilância; b) de outra forma, assumiu a responsabilidade de impedir o resultado; c) com seu comportamento anterior, criou o risco da ocorrência do resultado. Suponha-se que Horácio seja salva-vidas em um clube e tenha ciência de que Teudas não sabe nadar. Judas, que também tem ciência de que Teudas não sabe nadar, diz para este que irá matá-lo atirando-lhe na piscina. Ao ver Teudas sendo arremessado à água, Horácio nada faz. Ora, Horácio não matou Teudas, porém, irá responder por homicídio por omissão imprópria, uma vez que de alguma forma (contrato) assumiu a responsabilidade de impedir o resultado. Desta forma, como não pode subordinar diretamente a conduta de Horácio ao tipo penal descrito no artigo 121 do Código Penal, o artigo 13, § 2º do Código Penal serve como norma de extensão ou de ampliação do raio de atuação do artigo 121 do Código Penal.
Obs: A tentativa tem ampliação ou extensão temporal, pois a ampliação ou extensão se dá no tempo, uma vez que o alcance do artigo 121 é ampliado para momentos antes da consumação do crime. Já no caso da participação a ampliação é espacial e pessoal, pois amplia o alcance da conduta tipificada no artigo 121 da pessoa que praticou o verbo do tipo, para pessoa que somenteparticipou e que não estava no local onde o crime fora praticado.
VII- ELEMENTOS DO TIPO -
1- Objetivos – são os elementos que pela simples descrição contida no tipo, pela literalidade sabe ao que se refere. São os elementos que concretamente existem, perceptíveis no mundo material. São elementos objetivos do crime o objeto do crime, o sujeito ativo, o núcleo (verbo a ser praticado), o lugar, o modo de execução, o tempo, os meios empregados etc.
2- Normativos – são elementos que para se saber ao que se referem, deve-se fazer um juízo de valoração, apoiando-se em algum ramo do conhecimento humano: jurídico, psicológico, cultural, social, antropológico, religioso ou qualquer outro. Quando o ramo a ser invocado for o jurídico, tem-se um elemento normativo jurídico. Nos demais casos são elementos normativos extrajurídicos. Tais elementos normativos aparecem através de expressões do tipo: funcionário público, culto, decoro, fradulentamente, documento etc.
3- Subjetivos – são elementos que dizem respeito à intenção do agente, vale dizer, o tipo penal descreve uma finalidade especial que o agente deve ter em mente para que o crime se consume. Exemplo, no crime de extorsão, tal qual descrito no Art. 158 - Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, e com o intuito de obter para si ou para outrem indevida vantagem econômica, a fazer, tolerar que se faça ou deixar fazer alguma coisa, observe-se que além de praticar o verbo do tipo, qual seja, constranger mediante violência ou grave ameaça, tal constrangimento deve ser praticado com uma finalidade específica que é o intuito de obter para si ou para outrem indevida vantagem econômica.
VIII- ESPÉCIES DE TIPO QUANTO AOS ELEMENTOS – vimos que há elementos objetivos, subjetivos e normativos. Dependendo dos elementos que compõem o tipo, estes podem ser classificados em normal e anormal:
1- Tipo normal – o tipo normal contém somente elementos chamados objetivos. Exemplo de tipo normal é o homicídio, tal qual descrito no artigo 121 do Código Penal: ‘Matar alguém’. Não há necessidade de se fazer qualquer juízo de valor para entender os elementos de tal crime. Entende-se facilmente o que é matar (retirar a vida) e alguém (ser humano vivo).
2- Tipo anormal – são os tipos penais que além dos elementos objetivos, contém também elementos normativos e elementos subjetivos. Na lição de Fernando Capez (2008, p. 196), pois “alargam muito o campo de discricionariedade do julgador, perdendo um pouco de sua característica básica de delimitação (da conduta criminalizada e do campo de atuação do Estado)”.
IX- TIPO FUNDAMENTAL E TIPOS DERIVADOS – Tenha-se em mente uma receita de bolo: farinha, ovos, leite, fermento. Temos um bolo básico ou simples. Se acrescentarmos chocolate, ainda temos bolo, porém, agora se tem um bolo de chocolate. Do mesmo modo podem ser vistos os crimes, que tem seus ingredientes básicos que são as elementares, podendo ter também outros ingredientes que, apesar de não terem o poder de fazer com que deixem de ser crimes, podem alterar consideravelmente as conseqüências do delito.
1- Tipo fundamental ou básico – é o tipo tal qual descrito em sua forma mais simples, localizado no caput do artigo. Tomando-se como exemplo o artigo 121 do Código Penal, temos em seu caput o tipo fundamental ou básico com a seguinte redação ‘Matar alguém’. Veja-se que Matar (tirar a vida) e alguém (ser humano vivo), são os componentes essenciais deste crime, sem qualquer destes elementos o crime desaparece, ocorrendo o fenômeno da atipicidade absoluta. Pode também ocorrer a atipicidade relativa, quando, por exemplo, excluindo-se ou alterando determinado elemento, a conduta do agente deixa de se enquadrar em determinado tipo penal, porém passa a enquadrar-se em outro. Se o agente mata um feto, não pratica mais homicídio (121), mas aborto (124, 125 ou 126).
2- Tipo derivado – são os tipos que além dos elementos do tipo fundamental, lhe são acrescidos ainda algumas circunstâncias que alteram a pena.
a) elementares – são os ingredientes básicos do crime, aqueles elementos fundamentais de qualquer crime. No homicídio os ingredientes básicos são ‘matar’ e ‘alguém’, sendo que os parâmetros da pena nos quais o juiz deve trabalhar são de 6 a 12 anos.
b) circunstâncias – são ingredientes acessórios, que alteram o tipo fundamental. As circunstâncias podem ser subdivididas da seguinte forma:
b1- qualificadoras - são circunstâncias que quando presentes, tem o condão de alterar o patamar inicial da pena a ser aplicada pelo juiz. No caso do homicídio, artigo 121, as qualificadoras encontram-se no § 2°: Se o homicídio é cometido: I - mediante paga ou promessa de recompensa, ou por outro motivo torpe; II - por motivo futil; III - com emprego de veneno, fogo, explosivo, asfixia, tortura ou outro meio insidioso ou cruel, ou de que possa resultar perigo comum; IV - à traição, de emboscada, ou mediante dissimulação ou outro recurso que dificulte ou torne impossivel a defesa do ofendido; V - para assegurar a execução, a ocultação, a impunidade ou vantagem de outro crime: Pena - reclusão, de doze a trinta anos. Observe-se que o crime continua o mesmo, homicídio, porém, sendo acrescentado qualquer dos ingrediente contidos nos incisos I a V do § 2º, a pena deixa de ser de 6 a 12 anos e passa a ser de 12 a 30 anos.
b2- atenuantes e agravantes – são as circunstâncias que se encontram descritas de forma genérica nos artigos 61, 62, 65 e 66 do Código Penal e não alteram a pena base descrita no crime base ou na descrição qualificada, entretanto, tem a função de aproximar mais a pena no mínimo legal (no caso das atenuantes) ou do máximo legal (no caso das agravantes). Por exemplo, no caso do homicídio, se este é praticado contra irmão, se o homicídio é simples, a pena deverá ser aproximada mais do máximo legal (12 anos), pois o artigo 61, inciso II, alínea ‘e’, prevê que o crime, quando praticado contra irmão, deve ter a pena agravada.
b3- causas de aumento e diminuição – são circunstâncias que são descritas no próprio tipo penal ou na parte geral do Código Penal, e que incidem sobre a pena base, podendo fazer com que a pena aplicada fique acima do máximo legal (no caso das causas de aumento) ou abaixo da pena mínima (no caso de diminuição). No caso do homicídio, no artigo 121, § 1º está prevista uma causa específica (pois se refere especificamente ao crime de homicídio) de diminuição de pena, que se dá por exemplo no caso de patriotismo, que é uma indiscutível motivo de relevante valor social. Outra causa de diminuição de pena, desta vez prevista na parte geral, é a prevista no artigo 14, II do Código Penal, que traz o instituto da tentativa, que prevê que nestes casos, a pena deverá ser diminuída de um a dois terços. Assim, se o agente tenta matar alguém, se a pena fixada pelo juiz é de 6 anos, deverá após aplicar a causa de diminuição, se for de um terço, a pena do agente será de 4 anos.
X- FUNÇÕES DO TIPO PENAL – são três:
1- FUNÇÃO SELECIONADORA – das infinitas condutas humanas, o tipo penal seleciona algumas para defini-las como crime, em homenagem ao princípio da fragmentariedade.
2- FUNÇÃO DE GARANTIA – sabendo-se quais condutas são incriminadas, garante-se ao cidadão não ser punido por condutas lícitas.
3- FUNÇÃO MOTIVADORA – sendo as condutas tipificadas punidas em lei, motiva-se o cidadão a comportar-se de acordo com a lei, temendo a consequência trazida pelo tipo.
XI- TIPICIDADE CONGLOBANTE DE ZAFFARONI – o doutrinador argentino Eugênio Raul Zaffaroni desenvolveu este conceito de tipicidade conglobante, prescrevendo basicamente que como o ordenamento jurídico é um só, não pode ser visto de forma isolada, mas de forma global. Assim, se uma norma permite ou incentiva determinada conduta, outra não pode incriminá-la. Desta forma, quando se autoriza a prática de esporte como o boxe pelo ordenamento jurídico brasileiro, não se pode ao mesmo tempo punir o esportista pelas lesões corporais produzidas no oponente. O ordenamento jurídico brasileiro não adotaesta teoria. No exemplo do boxeador não há crime pela exclusão da ilicitude, pois o esportista está encoberta pelo exercício regular de um direito tal qual descrito no artigo 23, III do Código Penal.
ERRO DE TIPO E ERRO DE PROIBIÇÃO
I- Erro de tipo – má interpretação sobre o fato, momento em que o agente, no caso concreto, imagine não estar presente uma elementar ou uma circunstância componente da figura típica. Acha que a coisa é própria, mas é alheia; acha que mulher casada é solteira, que um homem é um animal, etc. (Artigo 20 caput O erro sobre elemento constitutivo do tipo legal de crime exclui o dolo, mas permite a punicção por crime culposo se previsto em lei.)
II- Erro de proibição – não sabe que determinada conduta está abrangida pela lei, acha, pois, que sua conduta é lícita. Ou seja, ele não ignora a lei, ele apenas tem uma má interpretação da situação, achando que sua conduta é lícita, quando não o é. (Artigo 21, o desconhecimento da lei é inescusáve. O erro sobre a ilicitude do fato, se inevitável, isenta de pena; se evitável, poderá diminuí-la de um sexto a um terço).
III- Erro na execução (aberratio ictos) – Ocorre quando o agente, querendo atingir determinada pessoa, efetua o golpe, mas, por má pontaria ou por outro motivo qualquer (desvio do projétil, desvio da vítima), acaba atingindo pessoa diversa da que pretendia. Exemplo, mata João pois Pedro, que era para ser atingido, se abaixa. (Artigo 73 Quando, por acidente ou erro no uso dos meios de execução, o agente, ao invés de atingir a pessoa que pretendia ofender, atinge pessoa diversa, reponde como se tivesse praticado o crime contra aquela, atendendo-se ao disposto no § 3º 20 dester Código, No caso de ser também atingida a pessoa que o agente pretendia ofender, aplica-se a regre do artigo 70 deste Código).
IV- Erro de pessoa – Horácio mata Pedro pensando ser João
V- Resultado diverso do pretendido (aberratio crimines) – ocorre quando atinge-se bem jurídico diverso do pretendido. Por exemplo, o agente queria danificar uma vidraça com uma pedra e acaba atingindo uma pessoa
VI- Erro sobre o nexo causal (aberratio causae) – sinônimo de dolo geral, o agente envenena a vítima e pensa que matou, após o agente enterra a vítima, que neste momento vem a morrer, o agente responde por homicídio consumado e não por tentativa de homicídio e homicídio consumado.
VII- Delito putativo por erro de proibição – o sujeito acha que praticou um crime, mas não praticou pois não há lei que incrimine aquela conduta.
VIII- Delito putativo por erro de tipo – o agente acha que a coisa é alheia, mas é própria, ou seja, falta um dos elementos do tipo para que ele se concretize, qual seja, a coisa móvel ser alheia.
ITER CRIMINIS
I. Conceito – Desde os momentos iniciais, quando o delito está apenas na mente do sujeito, até sua consumação, quando o crime se concretiza inteiramente, passa-se por todo um caminho, por um itinerário, composto de várias etapas ou fases, ou seja, o chamado iter criminis, (não “inter criminis”), expressão latina que designa o caminho, o itinerário que o crime percorre ou as fases que existem em qualquer crime.
II. Fases do iter criminis – o iter criminis é composto por quatro fases distintas, uma interna, que existe somente na mente do ser humano e outras três externas. São elas: cogitação, preparação, execução e consumação.
1- Fase interna
a) cogitação – a cogitação está na mente do indivíduo, é o pensamento a respeito da conduta que o agente pretende executar para conseguir praticar o crime. Tem-se cogitação, por exemplo, quando alguém pensa em matar um vizinho, por qualquer motivo que seja. Ou então quando um empregado pensa em subtrair dinheiro do caixa da empresa em que trabalha. Apesar de ser imoral ou pecado, tais pensamentos não têm qualquer relevância para o Direito Penal. A cogitação é irrelevante criminalmente, não havendo qualquer possibilidade jurídica destes pensamentos serem punidos.
2- Fases externas – chamam-se externas, uma vez que saem da mente humana e podem ser percebidas no mundo.
a) preparação – tem-se os atos preparatórios no momento em que a idéia sai da mente da pessoa e o agente inicia o processo concreto para que o crime possa ser cometido. A compra da arma de fogo para a prática de um homicídio, o ingresso em um estabelecimento comercial para a prática de um furto, a escolha de um pedaço de madeira para agredir um desafeto, são exemplos de atos preparatórios. Segundo o artigo 31 do Código Penal, a preparação encaixa-se em um caso de impunibilidade, pois o ajuste, a determinação ou instigação e o auxílio, salvo disposição expressa em contrário, não são puníveis, se o crime não chega, pelo menos, a ser tentado. Dessa forma, nos termos de referido artigo 31, como regra, os atos preparatórios são irrelevantes para o direito penal. A exceção é observada nos casos em que há previsão expressa em contrário, ou seja, quando a lei prevê de forma expressa um caso em que o um ato preparatório deve ser punido como crime. São exemplos de atos preparatórios tipificados como crimes os artigos 288 do Código Penal: Associarem-se mais de três pessoas, em quadrilha ou bando, para o fim de cometer crimes: Pena - reclusão, de um a três anos e 291, também do Código Penal: Fabricar, adquirir, fornecer, a título oneroso ou gratuito, possuir ou guardar maquinismo, aparelho, instrumento ou qualquer objeto especialmente destinado à falsificação de moeda: Pena - reclusão, de dois a seis anos, e multa. Nestes dois casos, atos tidos como preparação para a prática de outros crimes já são incriminados como crime.
b) execução – uma das tarefas mais difíceis, e ao mesmo tempo mais importantes no estudo do direito penal, é o estabelecimento do momento em que a ação do agente passa dos atos preparatórios para os atos executórios. Esta tarefa é difícil pois não há um critério preciso previsto em lei que autorize afirmar com certeza quando um ato é meramente preparatório ou quando é um ato executório. É de extrema importância tal distinção, uma vez que os atos preparatórios, como já visto, são irrelevantes para o Direito Penal, enquanto que os atos executórios possibilitam punir o sujeito, ao menos, pela tentativa, no caso do crime não ser consumado. Um dos critérios utilizados para se dizer que o ato é executório, não preparatório, se tem com a verificação da prática de ato idôneo para a consumação do crime. Ou seja, o ato praticado pelo agente era capaz de produzir o resultado almejado ou não (excluindo-se as situações de crime impossível, instituto que veremos adiante). O sujeito que compra a corda para enforcar alguém, pratica ato preparatório. O sujeito que puxa a corda amarrada no pescoço do desafeto inicia a execução. Mas e entre estas duas ações, ou seja, quando o sujeito amarra a corda no pescoço da vítima, nesse caso há ato preparatório ou executório? Há possibilidade de se defender qualquer posição. Insista-se, a tarefa é árdua. O critério adota pelo Código Penal brasileiro foi o formal, e tem-se ato executório quando inicia-se a realização do tipo penal, nos termos do artigo 14, II – Diz-se o crime (...) tentado, quando, iniciada a execução, não se consuma por circunstâncias alheias à vontade do agente.
c) consumação – A verificação da consumação é também muito importante para o Direito Penal, pois a consumação repercute em uma série de áreas no Direito Penal, pois com a consumação inicia-se o prazo prescricional; também a consumação define a competência para o julgamento do crime. Nos termos do artigo 14 I do Código Penal, tem-se o crime consumado, quando nele se reúnem todos os elementos de sua definição legal. Dessa forma, a consumação se verifica quando vencidas as fases anteriores do iter criminis, o agente com sua conduta, pratica um ato que se amolde perfeitamente ao tipo penal. A consumação do crime varia, dependendo do tipo de crime que se pratica:
i – crimes materiais – também conhecidos como crimes de resultado. São os crimes que em sua tipificação está descritauma conduta, bem como um resultado, para que haja consumação, necessário se faz que haja a verificação do resultado, ou seja, a modificação no mundo exterior.
ii – crimes de mera conduta – nestes casos, como o próprio nome já diz, o legislador simplesmente descreve uma conduta, não há descrição de nenhum resultado. Com a prática da conduta, o crime já está consumado.
iii – crimes formais – nestes crimes o legislador prevê tanto uma conduta, quanto um resultado. Contudo, para que o crime esteja consumado, somente se faz necessária a realização da conduta, a provocação do resultado tem conseqüência na dosimetria da pena somente.
iv – crimes permanentes – crimes permanentes são aqueles que se consumam em determinado momento, porém, a consumação se estende no tempo. São exemplos de crimes permanentes, alguns verbos da receptação (artigo 180 do Código Penal) e do porte de drogas (artigo 33 da Lei 11.343/2006). Na receptação, enquanto o agente estiver na posse da coisa produto de crime, estará o crime se consumando. De igual modo o porte de drogas.
v – crimes culposos – por definição, há crime culposo quando o agente, sem querer o resultado ou sem assumir o risco de que o resultado se produza, age com imprudência, negligência e imperícia e produz o resultado. Ou seja, por definição, caso o agente, agindo com imprudência, negligência ou imperícia não produz qualquer tipo de resultado, não haverá consumação de crime. Logo, nos crimes culposos a consumação se dá com a verificação do resultado. Um exemplo para clarear a idéia: se um agente dirigindo seu veículo em alta velocidade, sem freios, na contramão, desrespeita o sinal vermelho e cruza uma rua, porém, sem atingir nenhum veículo ou pessoa, apesar de ter agido de forma negligente e imprudente, não terá havido consumação de nenhum crime, pois sua conduta, apesar de perigosa e descuidada, não produziu nenhum resultado relevante para o direito penal.
vi – crimes omissivos – os crimes omissivos subdividem-se em próprios e impróprios. Os crimes omissivos próprios são aqueles nos quais a lei descreve um comportamento que o agente deve fazer e caso não o faça, estará cometendo crime. Exemplo de crime omissivo próprio é a omissão de socorro, conforme descrita no artigo 136 do Código Penal: Deixar de prestar assistência, quando possível fazê-lo sem risco pessoal, à criança abandonada ou extraviada, ou à pessoa inválida ou ferida, ao desamparo ou em grave e iminente perigo; ou não pedir, nesses casos, o socorro da autoridade pública. Já os crimes omissivos impróprios, também conhecidos como crimes comissivos por omissão, são aqueles que se configuram quando, e somente quanto, há um resultado, o qual foi produzido em decorrência da omissão de quem tinha o dever de agir. Logo, não é qualquer pessoa que pode praticar este tipo de crime, pois somente o praticará quem, tendo o dever de agir, se omite, produzindo o resultado. Deve ter-se em mente o seguinte: omissão é um nada e o nada não causa coisa alguma. A omissão, então só é relevante por uma ficção jurídica, nos termos do artigo 13, § 2º do Código Penal: tem o dever de agir, a) tenha por lei obrigação de cuidado, proteção ou vigilância (por exemplo, o pai em relação ao filho); b) de outra forma, assumiu a responsabilidade de impedir o resultado (outra forma que não seja a lei, por exemplo um contrato. Encaixa-se nessa situação a babá em relação à criança que deverá ser cuidada) e c) com seu comportamento anterior, criou o risco da ocorrência do resultado (por exemplo, a pessoa joga alguém na piscina, e a pessoa que cai na água não sabe nadar, quem jogou na piscina deve socorrer, se não o fizer, responde pelo resultado produzido).
1- próprios – nos crimes próprios a consumação se dá no mesmo instante que o agente se omite. Ou seja, se o agente age, não há qualquer crime, pois fez o que a lei determinou. Se o agente se omite, o crime se consuma, pois sua conduta se amolda ao conteúdo da lei.
2- impróprios – nos crimes impróprios há consumação somente se o resultado ocorre, e a ocorrência deve ter total ligação com a omissão de quem tinha o dever de agir. Deste modo, se o agente se omite, mas o resultado não ocorre, não há consumação de crime.
III- Crimes tentados – conforme definição legal estabelecida no artigo 14, inciso II, diz-se o crime tentado quando, iniciada a execução, não se consuma por circunstâncias alheias à vontade do agente. Conclui-se que para que haja crime tentado há a necessidade dos seguintes fatores: a) início da execução do crime; b) não consumação do crime e c) não consumação por circunstâncias alheias à vontade do agente.
1- Natureza jurídica da tentativa – a tentativa tem duas naturezas jurídicas, uma relacionada à teoria geral do crime e outra ligada à teoria geral das penas.
a) natureza da tentativa em relação ao crime – a tentativa é norma não incriminadora de extensão. Possui esta natureza, pois é por meio do disposto no artigo 14, II que é possível condenar uma pessoa que atira em alguém mas não mata, pois esta foi socorrida a tempo. Neste caso o agente reponderá por tentativa de homicídio, combinando-se dois dispositivos legais, artigo 121, c.c. (combinado com) o artigo 14, II, todos do Código Penal. Caso não existisse o artigo 14, II no ordenamento jurídico, o agente ficaria impune, pois quem tenta matar, mas não mata, não comete homicídio, não poderia ser condenado por crime algum.
b) natureza da tentativa em relação à pena – causa de diminuição da pena. Nos termos do parágrafo único do artigo 14 do Código Penal, salvo disposição em contrário, pune-se a tentativa com a pena correspondente ao crime consumado, diminuída de um a dois terços.
1 – Espécies de tentativa – a doutrina classifica a tentativa sob alguns aspectos, conforme adiante se vê.
a) perfeita ou crime falho – se dá nas situações em que o agente percorre todo o iter criminis, porém, por circunstâncias alheias à vontade do agente, não consegue produzir o resultado. Por exemplo, o agente, na posse de uma arma de fogo, dispara em direção da vítima diversas vezes, com o intuito de retirar-lhe a vida, até descarregar a arma, contudo, apesar de atingir a vítima uma ou duas vezes, esta não morre. Note que nesta espécie de tentativa, todos os meios à disposição do agente foram utilizados, mesmo assim, o resultado pretendido não se configurou.
b) imperfeita – nesta espécie de tentativa o agente inicia a execução, porém, não consegue utilizar todos os meios que teria a sua disposição, e por este motivo não produz o resultado desejado, por circunstâncias alheias à sua vontade. Por exemplo, o agente dispara uma primeira vez contra a vítima, errando o alvo. Quando vai disparar pela segunda vez, é impedido por um terceiro que lhe retira a arma das mãos.
c) branca ou incruenta – tem-se esta espécie de tentativa quando o agente não atinge a vítima ou quando o bem jurídico não chega a ser lesionado. Por exemplo, ao disparar a arma de fogo em direção da vítima, com a intenção de matá-la, erra o alvo, não conseguindo, em seguida, efetuar novos disparos.
d) cruenta – ao contrário da tentativa branca, na tentativa cruenta a vítima é atingida ou o bem jurídico é lesionado. Por exemplo, o agente dispara contra a vítima, objetivando matá-la, porém, esta não chega ao óbito por circunstâncias alheias à vontade do agente.
e) abandonada ou qualificada – corresponde à desistência voluntária e ao arrependimento posterior, nos termos do artigo 15 do Código Penal, que será analisado mais adiante.
f) inadequada ou inidônea – corresponde ao crime impossível, nos termos do artigo 17 do Código Penal, que será analisado mais adiante.
IV – Punibilidade da tentativa – Nos termos do parágrafo único do artigo 14 do Código Penal, salvo disposição em contrário, pune-se a tentativa com a pena correspondente ao crime consumado, diminuída de um a dois terços.
a) Exceção à regra da diminuição – segundo a classificação doutrinária dos delitos, há alguns crimes denominados “crimes de atentado” ou “crimes de empreendimento”. São chamados destaforma os crimes que possuem a mesma pena, tanto para os crimes quando se consumam quanto quando estes crimes são somente tentados. Por exemplo, o crime de Evasão mediante violência contra a pessoa, previsto no artigo 352 do Código Penal: Evadir-se ou tentar evadir-se o preso ou o indivíduo submetido a medida de segurança detentiva, usando de violência contra a pessoa: Pena - detenção, de três meses a um ano, além da pena correspondente à violência. Outro crime de atentado está previsto no artigo 309 do Código Eleitoral que diz: Votar ou tentar votar mais de uma vez, ou em lugar de outrem: pena – reclusão até três anos. Observa-se que nestes dois exemplos, a pena é a mesma se o preso se evade ou simplesmente tenta se evadir, sendo portanto exceção à regra estabelecida no parágrafo único do artigo 14, do Código Penal, que prevê pena diminuída quando o crime é tentado.
Observação: Atenção! Não confunda CRIME DE ATENTADO, que é uma classificação que a doutrina traz para determinados crimes, com crimes previstos em lei, que trazem a expressão ATENTADO, como por exemplo ATENTADO VIOLENTO AO PUDOR ou com o termo ATENTADO TERRORISTA.
VI – Infrações que não admitem tentativa – a tentativa somente se dá quando o agente inicia a execução visando um resultado, não consegue fazer com que o resultado se produza, por circunstâncias alheias a sua vontade. Ou seja, em todas as situações em que não há desejo de produzir o resultado, não há que se falar em tentativa. Por este motivo, algumas situações não admitem a tentativa, conforme adiante se verá.
1- crimes culposos – há crime culposo sempre que o agente atua de forma negligente, imprudente ou imperita, violando um dever de cuidado que todos devem ter. Entretanto, ele não age com a intenção de produzir o resultado. Além disso, para que haja o crime culposo, necessário se faz que haja resultado. Assim, o agente age sem o dever de cuidado produzindo o resultado e o crime está consumado, ou o agente age sem o dever de cuidado, porém não produz resultado algum e não há crime, não havendo como se falar em tentativa de crime culposo. Por exemplo, o agente que dirige seu veículo com defeito nos freios. Nesse caso o agente está violando um dever de cuidado inerente a todos. Se produzir lesões corporais em alguém, mesmo sem querer, responderá por crime culposo. Se não produzir qualquer resultado, não haverá crime.
2- crimes preterdolosos - O crime preterdoloso é uma das modalidades de crimes qualificados pelo resultado. Na conduta preterdolosa o agente age com dolo no antecedente e culpa no conseqüente. O agente tem uma vontade, contudo o resultado extrapola esta vontade e ocorre mais do que o agente quis. Preterdolo que dizer ‘além do dolo’. Exemplo típico de crime preterdoloso é a lesão corporal seguida de morte, tal qual descrita no artigo 129, § 3º do Código Penal, onde se age querendo causar lesão corporal, por exemplo, dando uma facada na perna da vítima, entretanto, causa como resultado a morte e as circunstâncias evidenciam que o agente não quís o resultado, nem assumiu o risco de produzí-lo. Do mesmo modo que ocorre com a conduta culposa, caso o resultado agravante ocorra, o crime preterdoloso estará consumado. Caso não ocorra o resultado agravante, não haverá a consumação. Não há que se falar em tentativa, pois o agente não quer o resultado, em outras palavras, ele não tenta fazer com que o resultado ocorra.
3- crimes unissubsistentes – crime unissubsistente é o que se realiza com um só ato, a conduta é uma, não sendo possível fracionar sua execução, desta forma, se o agente pratica o ato o crime já está consumado, não havendo a possibilidade de tentativa. Exemplo deste tipo de crime é a injúria verbal, pois no momento em que o agente ofende a vítima lhe chamado, por exemplo, de idiota, o crime já se consumou, se nada tivesse dito, não haveria crime.
4- crimes omissivos próprios ou puros – a característica destes tipos de crimes é que o legislador determina um comportamento que o agente deve ter, uma ação que deve executar, e quando o agente nada faz, pratica um crime. Por exemplo a omissão de socorro, conforme descrita no artigo 135 do Código Penal - Deixar de prestar assistência, quando possível fazê-lo sem risco pessoal, à criança abandonada ou extraviada, ou à pessoa inválida ou ferida, ao desamparo ou em grave e iminente perigo; ou não pedir, nesses casos, o socorro da autoridade pública. Nos crimes omissivos próprios ou puros, não se admite a tentativa pois, ou o agente se omite e o crime estará consumado, ou ele age e não terá ocorrido crime algum.
5- contravenções penais – nos termos do artigo 4º da Lei de Contravenções Penais, não se pune a tentativa de contravenção. Ou seja, diferente dos outros casos, não quer dizer que não haja a possibilidade de tentar praticar a contravenção penal. Fisicamente é possível, porém, por vontade do legislador, se a contravenção é somente tentada, mas não chega a se consumar, esta tentativa não será punida.
6- crimes de atentado ou de empreendimento – como já visto, são chamados desta forma os crimes que possuem a mesma pena, tanto para os crimes quando se consumam quanto quando estes crimes são somente tentados, sendo portanto exceção à regra estabelecida no parágrafo único do artigo 14, do Código Penal, que prevê pena diminuída quando o crime é tentado. Como é dado o mesmo tratamento para o crime consumado ou tentado, diz-se que não cabe tentativa nos crimes de atentado ou de empreendimento.
VII- Desistência voluntária e arrependimento eficaz – Nos termos do artigo 15 do Código Penal, o agente que, voluntariamente, desiste de prosseguir na execução ou impede que o resultado se produza, só responde pelos atos já praticados. Estes institutos também são conhecidos na doutrina como tentativa abandonada ou tentativa qualificada. Conforme a descrição legal, para se ter:
1- desistência voluntária – o agente deve iniciar a execução e, antes de consumar o crime, desiste de prosseguir com seu intento, ou seja, a desistência se dá antes da verificação do resultado. Por exemplo, o sujeito entra na casa de um desconhecido com a intenção de furtar um objeto qualquer, e, antes de pegar o objeto, por vontade própria, sai da casa sem nada levar. Neste caso, o crime que cometeu foi somente o crime de violação de domicílio.
2- arrependimento eficaz – neste caso, o agente, após iniciar a execução, impede que o resultado se produza. Por exemplo, ao disparar a arma contra seu desafeto com a intenção de matar, impede que a morte se concretize, ao socorrer a vítima. Neste caso, o sujeito responderá somente por lesão corporal.
3- Requisitos
a) voluntariedade – o agente deve desistir de continuar na execução ou evitar que o resultado se produza de forma voluntária, o que não significa que deve ser espontâneo. Ou seja, ele deve desistir da execução ou evitar que o resultado se produza sem que alguém o tenha coagido ou obrigado, mas pode ser que alguém tenha lhe dado a idéia, conversado, ou alertado para o perigo da prática do crime ou do benefício em não continuar na execução.
b) eficácia – o agente somente será beneficiado se o arrependimento for eficaz. Ou seja, se o agente dispara contra seu desafeto, o socorre, porém, a vítima, mesmo com o socorro, morre, o crime terá se consumado, e o agente terá cometido o crime de homicídio consumado.
4- Efeito – o efeito prático tanto da desistência voluntária quanto do arrependimento eficaz é fazer com que o agente responda somente pelos atos cometidos até então, não respondendo nem mesmo pela tentativa do crime mais grave.
VIII – Arrependimento posterior – O artigo 16 do Código Penal prescreve: Nos crimes cometidos sem violência ou grave ameaça à pessoa, reparado o dano ou restituída a coisa, até o recebimento da denúncia ou da queixa, por ato voluntário do agente, a pena será reduzida de um a dois terços.
1- requisitos
a) reparação integral do dano ou restituição da coisa intacta – a vítima não poderá ter qualquer prejuízo, por isso a reparação do dano deve ser integral, oua coisa deve ser restituída, estando esta intacta, ou seja, da mesma forma como foi subtraída.
b) ato do sujeito e não de terceiro – um parente não pode pagar pelo dano no lugar do agente.
c) voluntariedade – a restituição da coisa ou a reparação do dano deve se dar de forma voluntária, o que não significa que deve ser espontâneo, ou seja, não pode ter sido coagido ou obrigado, mas pode ser que alguém tenha lhe dado a idéia, conversado, ou alertado para as vantagens em restituir a coisa ou reparar o dano.
d) crime sem violência ou grave ameaça – violência ou ameaça à pessoa, pois a violência contra a coisa caracteriza o crime de dano e para este crime cabe o benefício. Além do dano, são exemplos de crimes que se aplicam o instituto o furto, o estelionato, a receptação etc. Não cabe o benefício para a extorsão, extorsão mediante seqüestro, roubo etc.
e) reparação ou restituição anterior ao recebimento da denúncia ou da queixa – entenda-se que a restituição ou a reparação deve se dar até o recebimento da denúncia, ato do juiz, não até o oferecimento da denúncia ou queixa, que é ato da acusação.
2- efeito – o efeito do arrependimento posterior que se reflete na pena é o de redução de um a dois terços. Ou seja, se a reparação total do dano ou a restituição da coisa se der antes do recebimento da denúncia, na sentença, o juiz deverá levar isto em consideração e reduzir a pena entre um e dois terços.
IX – Crime Impossível, tentativa inidônea, quase crime ou tentativa inadequada – Conforme descrito no artigo 17 do Código Penal, há crime impossível nas seguintes situações: Não se pune a tentativa quando, por ineficácia absoluta do meio ou por absoluta impropriedade do objeto, é impossível consumar-se o crime.
1- requisitos - Pela simples leitura, pode-se verificar que o crime impossível se dá quando o agente tenta praticar um crime, porém, o meio que ele utiliza é absolutamente ineficaz para concretizar sua vontade. Ou então quando o objeto sobre o qual recai a conduta do agente é absolutamente impróprio para que o crime se concretize.
a) ineficácia absoluta do meio – o meio empregado pelo agente, necessariamente, deve ser ineficaz, se a ineficácia for apenas relativa, a conduta do agente será punida como crime tentado. Há ineficácia absoluta do meio, por exemplo, quando o agente tenta praticar um homicídio furando uma pessoa com um palito de fósforo, ou se valendo de uma arma de fogo descarregada, um faca de brinque etc. Caso a arma esteja carregada, e a pólvora do cartucho for de má qualidade, ocorrer o disparo, porém o agente não conseguir matar seu desafeto, haverá tentativa de homicídio, pois a ineficácia do meio, neste exemplo, não é absoluta, mas ocasional, circunstancial, relativa.
b) absoluta impropriedade do objeto – outra situação que se caracteriza o crime impossível se dá quando o objeto sobre o qual recai a conduta do agente é absolutamente impróprio para que o crime ocorra. Por exemplo, quando o agente atira contra seu desafeto tentando matá-lo, entretanto, constata-se que a pessoa já havia morrido, ou seja, os disparos foram dados contra um cadáver. Neste caso, o agente não responderá por tentativa de homicídio, tendo em vista que o objeto protegido pela lei é a vida, e vida já não havia por ocasião dos disparos. O mesmo se dá quando uma mulher ingere medicamento abortivo não estando grávida. Entretanto, nos casos em que o agente tenta furtar a vítima e coloca a mão em um bolso, estando o dinheiro no outro, haverá impropriedade relativa, ocasional, respondendo, nestes casos por tentativa de furto.
2- efeito – segundo disposto no artigo 17 do Código Penal, nos casos em que se caracterizar o crime impossível, o agente será isento de pena.
CLASSIFICAÇÃO DOUTRINÁRIA DOS CRIMES
Apostila baixada da internet
http://www.monografias.brasilescola.com/direito/classificacao-legal-doutrinaria-dos-crimes.htm, acesso em 03/01/2009.
I- CONCEITO – classificação doutrinária é o nome dado ao crime pela doutrina, resultado de um trabalho científico sobre o tema. Segue abaixo as classificações mais comumente aceitas. Contudo, tal rol não é taxativo, podendo ser encontradas outras classificações em outros autores.
01. CRIMES COMUNS E ESPECIAIS - Damásio E. de Jesus ensina: “os crimes comuns são os descritos no Direito Penal Comum; especiais, os definidos no Direito Penal Especial”.
02. CRIMES COMUNS E PRÓPRIOS - “Crime comum é o que pode ser praticado por qualquer pessoa. Crime próprio é o que só pode ser cometido por uma determinada categoria de pessoas, pois pressupõe no agente uma particular condição ou qualidade pessoal” (Damásio E. de Jesus) Como ensina Mirabete, o tipo penal dos crimes próprios “limita o círculo do autor, que deve encontrar-se em uma posição jurídica, como os funcionários públicos, médicos.” Esta classificação é feita por Magalhães Noronha como crimes comuns e especiais.
03. CRIMES DE MÃO PRÓPRIA OU DE ATUAÇÃO PESSOAL - Damásio de Jesus conceitua este tipo de crime como “os que só podem ser cometidos pelo sujeito em pessoa”. Este crime é praticado de tal maneira que somente o autor está em condição de realizá-lo. (v.g.: incesto, falso testemunho) Mirabete completa o conceito ao dizer que “embora passíveis de serem cometidos por qualquer pessoa, ninguém os pratica por intermédio de outrem”.
04. CRIMES DE DANO E DE PERIGO - “Crimes de dano são os que só se consumam com a efetiva lesão do bem jurídico. Crimes de perigo são os que se consumam tão só com a possibilidade do dano”. (Damásio de Jesus) Damásio distingue os diversos tipos de perigo. Segundo ele, o perigo pode ser: a-) presumido (Não precisa ser provado) ou concreto (necessita ser investigado e comprovado) b-) individual (expõe uma única pessoa ao risco) ou coletivo (crimes contra incolumidade pública) c-) atual (está ocorrendo), iminente (está prestes a desencadear-se) ou futuro (pode advir em ocasião posterior) Mirabete conceitua também estes dois tipos de crime. Os crimes de dano “só se consumam com a efetiva lesão do bem jurídico visado, por exemplo, lesão à vida. Nos crimes de perigo, o delito consuma-se com o simples perigo criado para o bem jurídico”. Segundo Magalhães Noronha, “crimes de perigo são os que se contentam com a probabilidade de dano. Crimes de dano são os que só se consumam com a efetiva lesão do bem jurídico tutelado”.
05. CRIMES MATERIAIS, FORMAIS E DE MERA CONDUTA - Seguindo o conceito dado por Damásio de Jesus crimes de mera conduta são aqueles em que “o legislador só descreve o comportamento do agente”. O crime formal menciona em seu tipo “o comportamento e o resultado, mas não exige a sua produção para a consumação.” São distintos porque os crimes de mera conduta são sem resultado, os crimes formais tem resultado, “mas o legislador antecipa a consumação à sua produção”. No crime material “o tipo menciona a conduta e o evento, exigindo a sua produção para a consumação”. Vejamos o conceito de Mirabete: “No crime material há a necessidade de um resultado externo à ação, descrito na lei, e que se destaca lógica e cronologicamente da conduta. No crime formal não há necessidade de realização daquilo que é pretendido pelo agente, e o resultado jurídico previsto no tipo ocorre ao mesmo tempo e, que se desenrola a conduta, havendo separação lógica e não cronológica entre conduta e resultado. Nos crimes de mera conduta a lei não exige qualquer resultado naturalístico, contentando-se com a ação ou omissão do agente”.
06. CRIMES COMISSIVOS E OMISSIVOS - O critério que distingue estes dois crimes é o comportamento do agente. Segundo Damásio de Jesus, crimes comissivos são “os praticados mediante ação”, o agente pratica uma ação. Já os crimes omissivos são os praticados ‘mediante inação”, o agente deixa de praticar uma ação que deveria ser feita. Mirabete define crime comissivo como “os que exigem, segundo um tipo penal objetivo, em princípio, uma atividade positiva do agente, um fazer”. Crimes omissivos como “os que objetivamente são descritos com uma conduta negativa, denão fazer o que a lei determina, consistindo a omissão na transgressão da norma jurídica e não sendo necessário qualquer resultado naturalístico.” O mesmo autor fala ainda de crimes de conduta mista (comissivos-omissivos). São aqueles que “no tipo penal se inscreve uma fase inicial comissiva, de fazer, de movimento, e uma final omissão, de não fazer o devido”. E. Magalhães Noronha define que ocorre os crimes comissivos-omissivos “quando a omissão é meio ou forma de se alcançar um resultado posterior”.
07. CRIMES INSTANTÂNEOS, PERMANENTES E INSTANTÂNEOS DE EFEITOS PERMANENTES - “Crimes instantâneos são os que se completam num só momento. A consumação se dá num determinado instante, sem continuidade temporal (homicídio). Crimes permanentes são os que causam uma situação danosa ou perigosa que se prolonga no tempo, como o seqüestro ou cárcere privado”. (Damásio E. de Jesus) Segundo Mirabete, crimes instantâneos de efeitos permanentes “ocorrem quando, consumada a infração em dado momento, os efeitos permanecem, independentemente da vontade do sujeito ativo”. Como exemplo podemos citar a bigamia. Faz-se necessário saber que, segundo observação de Magalhães Noronha, “a instantaneidade não significa rapidez ou brevidade física da ação, mas cuja consumação se realiza em um instante”.
08. CRIME CONTINUADO - O crime continuado está definido no caput do art. 71 do nosso Código Penal: “quando o agente, mediante mais de uma ação ou omissão, pratica dois ou mais crimes da mesma espécie e, pelas condições de tempo, lugar, maneira de execução e outras semelhantes, devem os subsequentes ser havidos como continuação do primeiro”. Magalhães Noronha conceitua crime continuado aquele que é “constituído por duas ou mais violações jurídicas da mesma espécie, praticadas por uma ou pelas mesmas pessoas sucessivamente e sem ocorrência de punição em qualquer daquelas, as quais constituem um todo unitário, em virtude da homogeneidade objetiva”. Damásio de Jesus explica-nos que neste caso “impõe-se-lhe pena de um só dos crimes, se idênticas, ou a mais grave, se diversas”. E ressalta que não se trata de uma tipo de crime, mas uma “forma de concurso de delitos”.
09. CRIMES PRINCIPAIS E ACESSÓRIOS - Damásio de Jesus define crimes principais aqueles que “existem independentemente dos outros”. Crimes acessórios são aqueles que “pressupõe outros”. Como exemplo, o mesmo autor cita o furto (principal) e receptação (acessório). “Os crimes principais independem da prática de delito anterior. Os crimes acessórios, como a denominação indica, sempre pressupõem a existência de uma infração penal anterior, a ele ligada pelo dispositivo penal que, no tipo, faz referência àquela”. (Júlio Fabbrini Mirabete)
10. CRIMES CONDICIONADOS E INCONDICIONADOS - “Crimes condicionados são os que têm a punibilidade condicionada a um fato exterior e posterior à consumação. Incondicionados os que não subordinam a punibilidade a tais fatos” (Damásio E. de Jesus).
11. CRIMES SIMPLES E COMPLEXOS - “Crime simples é o que apresenta tipo penal único. Delito complexo é a fusão de dois ou mais tipos penais” (Damásio de Jesus).
“São simples os crimes em que o tipo é único e ofendem apenas um bem jurídico. São complexos os crimes que encerram dois ou mais tipos em uma única descrição legal (sentido estrito) ou os que, em uma figura típica, abrangem um tipo simples, acrescido de fatos e circunstâncias que, em si, não são típicos sentido amplo).”(Júlio Fabbrini Mirabete)
12. CRIME PROGRESSIVO - Segundo Damásio, o crime progressivo ocorre quando “o sujeito, para alcançar a produção de um resultado mais grave, passa por outro menos grave”. Mirabete ensina que “no crime progressivo, um tipo abstratamente considerado contém implicitamente outro que deve necessariamente ser realizado para se alcançar o resultado”. Magalhães Noronha há crime progressivo quando “se tem um tipo, abstratamente considerado, contém outro, de modo que sua realização não se pode verificar, senão passando-se pela realização do que ele contém”.
13. DELITO PUTATIVO - Segundo Mirabete, crime putativo (ou imaginário) “é aquele em que o agente supõe, por erro, que está praticando uma conduta típica quando o fato não constitui crime”. Segundo Damásio de Jesus, o delito putativo ocorre quando “o agente considera erroneamente que a conduta realizada por ele constitui crime, quando, na verdade, é um fato atípico. Só existe na imaginação do sujeito”. O mesmo autor destaca que há três tipos de delito putativo: delito putativo por erro de proibição: ocorre quando o agente supõe violar uma norma penal que na verdade não existe. “Falta tipicidade à sua conduta, pois o fato não é considerado crime”.
- delito putativo por erro de tipo: há a errônea suposição do agente e esta não recai sobre a norma, mas sobre os elementos do crime. “O agente crê violar uma norma realmente existente, mas à sua conduta faltam elementares de tipo”. Delito putativo por obra de agente provocador (crime de flagrante provocado): “ocorre quando alguém, de forma insidiosa, provoca o agente à prática de um crime, ao mesmo tempo que toma providências para que o mesmo não se consuma.”
14. CRIME PROVOCADO - Ocorre o crime provocado “quando o agente é induzido à prática de um crime por terceiro, muitas vezes policial, para que se efetue a prisão em flagrante”. (Júlio Fabbrini Mirabete). Tem-se entendido que havendo flagrante por ter sido o agente provocado pela Polícia, há crime impossível.
15. CRIME IMPOSSÍVEL - Descrito pelo art. 17 do Código Penal: “ Não se pune a tentativa, quando, por ineficácia absoluta do meio ou por absoluta impropriedade do objeto, é impossível consumar-se o crime”. “Este crime pressupõe sejam absolutas a ineficácia e a impropriedade” (E. Magalhães Noronha). Quando o dispositivo se refere ‘à ineficácia absoluta do objeto’, deve-se entender que “o meio é inadequado, inidôneo, ineficaz para que o sujeito possa obter o resultado pretendido”. No que diz respeito ‘à absoluta impropriedade do objeto’ material do crime, este “não existe ou, nas circunstâncias em que se encontra, torna impossível a consumação”. (Fabbrini Mirabete)
16. CRIME CONSUMADO E TENTADO - Segundo nosso Código Penal, há o crime consumado “quando nele se reúnem todos os elementos de sua definição legal (art.14, I)”. Diz Mirabete que o crime está consumado “quando o tipo está inteiramente realizado, ou seja, quando o fato concreto se subsume no tipo penal abstrato descrito na lei penal”. Há o crime tentado “quando, iniciada a execução, não se consuma, por circunstâncias alheias à vontade do agente” (art.14,II). “A tentativa é a realização incompleta do tipo penal, do modelo descrito na lei. Na tentativa há prática do ato de execução, mas não chega o sujeito à consumação por circunstâncias alheias à sua vontade”. (Júlio Fabbrini Mirabete)
17. CRIME FALHO - “É a denominação que se dá à tentativa perfeita ou acabada, em que o sujeito faz tudo quanto está ao seu alcance para consumar o crime, mas o resultado não corre por circunstâncias alheias à sua vontade”.(Damásio E. de Jesus)
18. CRIMES UNISSUBSISTENTES E PLURISSUBSISTENTES - Ensina-nos Damásio de Jesus: “crime unissubsistente é o que se realiza com um só fato. Crime plurissubsistente é o que se perfaz com vários atos”. O primeiro não admite tentativa (v.g.: injúria); o plurissubsistente sim (v.g. homicídio). Mirabete completa o conceito dado por Damásio. No crime unissubsistente “conduta é una”. O crime plurissubsistente “é composto de vários atos, que integram a conduta, ou seja, existem fases que podem ser separadas, fracionando-se o crime”.
19. CRIMES DE DUPLA SUBJETIVIDADE PASSIVA - “São crimes que têm, em razão do tipo, dois sujeitos passivos”. (Damásio E. de Jesus) Podemos citar como exemplo a violação de correspondência; os dois sujeitos passivos são o destinatário e o remetente. A classificação dada por Júlio Mirabete diverge da conceituada por Damásio de Jesus. O exemplo citado acima, Mirabete classifica como crime plurissubjetivo passivo. Segundo ele, este tipo decrime “demanda mais de um sujeito passivo na infração”. (Mirabete fala ainda de crimes unissubjetivos, “aquele que pode ser praticado por uma só pessoa”) e crimes plurissubjetivos (“aquele que, por sua conceituação típica, exige dois ou mais agentes para a prática da conduta criminosa”). Magalhães Noronha classifica os chamados crimes unissubjetivos de Mirabete como crimes unilaterais (“pode ser praticado por uma única pessoa”).
20. CRIME EXAURIDO - Damásio define crime exaurido como “aquele que depois de consumado atinge suas últimas conseqüências. Estas podem constituir um indiferente penal ou condição de maior punibilidade”. Mirabete diz que um crime é exaurido quando “após a consumação, que ocorre quando estiverem preenchidos no fato concreto o tipo objetivo, o agente o leva a conseqüências mais lesivas”.
21. CRIMES DE CONCURSO NECESSÁRIO - Segundo Damásio de Jesus, crimes de concurso necessário “são os que exigem mais de um sujeito”. O autor divide este tipo de crime em coletivos (os que têm como elementar o concurso de várias pessoas-art.288) e bilaterais (exigem o encontro de duas pessoas, mesmo que uma não seja culpável).
22. CRIMES DOLOSOS, CULPOSOS E PRETERDOLOSOS - Há o crime doloso “quando o sujeito quis o resultado ou assumiu o risco de produzi-lo” ( CP art. 18, I). Mirabete contribui para o entendimento deste tipo de crime ao dizer que no crime doloso não devemos apenas analisar o objetivo que o agente quis alcançar, mas também a conduta do autor. Esta conduta é dividida em duas partes: interna e externa. Na interna, analisamos o pensamento do autor: ele se propõe a um fim, prepara os meios para a execução deste fim e, por fim, considera os efeitos do fim pretendido.
A conduta externa é a exteriorização da conduta, uma “atividade em que se utilizam os meios selecionados conforma a normal e usual capacidade humana de previsão”. Há o crime culposo “quando o sujeito deu causa ao resultado por imprudência, negligência ou imperícia” (CP art. 18, II). Nos crimes culposos não há a preocupação “com o fim da conduta; o que importa não é o fim do agente, mas o modo e a forma imprópria com que atua”, segundo Mirabete. Crime preterdoloso ou preterintencional “é aquele em que a ação causa um resultado mais grave que o pretendido pelo agente”. (Damásio E. de Jesus) É considerado por Mirabete um crime misto, “em que há uma conduta que é dolosa, por dirigir-se a um fim típico, e que é culposa pela causação de outro resultado que não era objeto do crime fundamental pela inobservância do cuidado objetivo. Há no dolo no antecedente e culpa no conseqüente”.
23. CRIMES SIMPLES, PRIVILEGIADOS E QUALIFICADOS - Seguindo o conceito dado por Damásio de Jesus crime simples “é o descrito em sua forma fundamental. É a figura típica simples, que contém os elementos específicos do delito”. Mirabete ainda completa essa definição ressaltando que em seu conteúdo subjetivo não há “circunstância que aumente ou diminua sua gravidade”. O crime é considerado qualificado “quando o legislador, depois de descrever a figura típica fundamental, agrega circunstâncias que aumentam a pena”, segundo Damásio de Jesus. Fabbrini Mirabete diz ainda que “não surge a formação de um novo tipo penal, mas apenas de uma forma mais grave de ilícito”. Há ainda os crimes chamados privilegiados. Segundo a definição de Mirabete, estes “existem quando ao tipo básico a lei acrescenta circunstância que o torna menos grave, diminuindo, em conseqüência, suas sanções”.
24. CRIME SUBSIDIÁRIO - É a norma penal que tem natureza subsidiária em relação a outra. Segundo Damásio, “a norma principal exclui a aplicação da secundária”.
25. CRIMES VAGOS - “São os que têm por sujeito passivo, entidades sem personalidade jurídica, como a família, o público ou a sociedade” –art.233 praticar ato obseno em lugar público, ou aberto ou exposto ao público (Damásio E. de Jesus).
26. CRIMES COMUNS E POLÍTICOS - Damásio de Jesus distingue-os da seguinte maneira: “crimes comuns são os que lesam bens jurídicos do cidadão, da família ou da sociedade, enquanto os políticos atacam à segurança interna ou externa do Estado, ou a sua própria personalidade.” Mirabete classifica os crimes políticos como puros ou próprios, que “têm por objeto jurídico apenas a ordem política, sem que sejam atingidos bens ou interesses jurídicos individuais ou outros Estados”. Há ainda os crimes relativos ou impróprios, que “expõem a perigo ou lesam também bens jurídicos individuais ou outros que não a segurança do Estado”.
27. CRIME MULTITUDINÁRIO - “É o praticado por uma multidão em tumulto, espontaneamente organizada no sentido de um comportamento comum contra pessoa ou coisas”-art 65,II, (Nélson Hungria)
28. CRIMES DE OPINIÃO - “Consistem em abuso de liberdade do pensamento, seja pela palavra, imprensa ou qualquer meio de transmissão” (Damásio E. de Jesus).
29. CRIMES DE AÇÃO ÚNICA E DE AÇÃO MÚLTIPLA OU DE CONTEÚDO VARIADO - Mirabete conceitua crime de ação simples aquele “cujo tipo penal contém apenas uma modalidade de conduta, expressa no verbo que constitui o núcleo da figura típica”. Na redação do art. 122 do Código Penal, observamos os verbos “induzir” ou “instigar” e “prestar” auxílio ao suicídio, sendo ainda ser citados outros art. 234,289,§1º etc... Mesmo na prática destas três ações, elas são consideradas como um único crime. Assim, são definidos, por Damásio de Jesus, crimes de ação múltipla aqueles “em que o tipo faz referência a várias modalidades da ação”. Magalhães Noronha afirma que no crime de ação múltipla “o tipo contém várias modalidades de conduta delituosa, as quais, praticadas pelo agente, fatos do mesmo crime”.
30. CRIMES DE FORMA LIVRE E DE FORMA VINCULADA - “Os crimes de forma livre são os que podem ser cometidos por meio de qualquer comportamento que cause um determinado resultado. Os crimes de forma vinculada são aqueles em que alei descreve a atividade de modo particularizado” (Damásio E. de Jesus)
31. CRIMES DE AÇÃO PENAL PÚBLICA E DE AÇÃO PENAL PRIVADA -
Nos crimes de ação penal pública “o procedimento penal se inicia mediante denúncia do órgão do Ministério Público”, conceito dado por Damásio de Jesus. Nos crimes de ação penal privada, este procedimento é feito mediante queixa do ofendido ou de seu representante legal, segundo o art. 100 §§ 1º e 2º do CP. O art. 101 expressa a distinção entre estes dois tipos de crime: o crime é de ação penal privada quando a lei expressamente o declara.
32. CRIME HABITUAL E PROFISSIONAL - “Crime habitual é a reiteração da mesma conduta reprovável, de forma a constituir um estilo ou hábito de vida, art 229. Quando o agente pratica as ações com intenção de lucro, fala-se em crime profissional” (Damásio E. de Jesus). A definição de crime habitual para Mirabete é “a reiteração de atos, penalmente indiferentes por si, que constituem por um todo, um delito apenas traduzindo, geralmente um modo ou estilo de vida”. Define crime profissional como “qualquer delito praticado por aquele que exerce uma profissão, utilizando-se dela para a atividade ilícita”.
33. CRIMES CONEXOS - Neste caso há um elo entre os crimes. O sujeito comete uma infração para ocultar outra. Damásio nos dá o exemplo de um sujeito que, após praticar um furto, incendeia a casa para fazer desaparecer qualquer vestígio. O fato do incêndio é cometido para assegurar a ocultação do furto.
34. CRIME DE ÍMPETO - “É aquele em que a vontade delituosa é repentina, sem perceber deliberação” (Damásio E. de Jesus). Ex.: homicídio praticado por influência de forte emoção, art. 121,§ 1º, 3ª.figura
35. CRIMES FUNCIONAIS - Damásio de Jesus conceitua os crimes funcionais os que “só podem ser praticados por pessoas que exercem funções públicas” art. 150, § 2º.,300,301 etc.
36. CRIMES A DISTÂNCIA E PLURILOCAIS - Os crimes a distância são aquele que “a conduta ocorre em um país e o resultado noutro”. Delito plurilocal “é aquele que, dentro de um mesmo país, tem a conduta realizada num local e a produção do resultado noutro” (Damásio E. de Jesus)
37. DELITOSDE TENDÊNCIA - “São os crimes que condicionam a sua existência à intenção do sujeito” (Damásio de Jesus). Têm a característica a exigência da verificação do estado, da vontade o agente no momento do fato para a constituição da figura delitiva.
38. CRIMES DE SIMPLES DESOBEDIÊNCIA - São os crimes de perigo abstrato ou presumido. “A simples desobediência ao comendo geral, advinda da prática do fato, enseja a presunção do perigo de dano ao bem jurídico” (Damásio E. de Jesus).
39. CRIMES PLURIOFENSIVOS - “São os que lesam ou expõe a perigo de dano mais de um bem jurídico”, segundo Damásio de Jesus. Ex.: latrocínio, art.157,§3º. in fine (lesa a vida e o patrimônio).
40. CRIME A PRAZO - A qualificadora depende de um determinado lapso de tempo.
41. CRIME GRATUITO - “Praticado sem motivo” (Damásio E. de Jesus)
42. DELITO DE CIRCULAÇÃO - “Praticado por intermédio do automóvel” (Damásio E. de Jesus).
43. DELITO TRANSEUNTE E NÃO TRANSEUNTE - “Transeunte é o que não deixa vestígios; não transeunte, o que deixa” (Damásio E. de Jesus)
44. CRIME DE ATENTADO OU DE EMPREENDIMENTO - Damásio de Jesus define como “o delito em que o legislador prevê à tentativa a mesma pena do crime consumado, sem atenuação” (Ex: com arts. 352 e 358)
45.CRIME EM TRÂNSITO - Assim conceitua Damásio E. de Jesus: “são delitos em que o sujeito desenvolve a atividade em um país sem atingir qualquer bem jurídico de seus cidadãos”.
46. CRIMES INTERNACIONAIS - Definidos no art. 7º, II, a do Código Penal: “são crimes que, por tratado ou convenção, o Brasil se obrigou a reprimir”. Podemos citar como exemplo o tráfico de mulheres, entorpecentes etc.
47. QUASE-CRIME - São os definidos no Código Penal no art. 17 (crime impossível) e art. 31 (participação impunível).
48. CRIMES DE TIPO FECHADO E DE TIPO ABERTO - Ensina-nos Damásio de Jesus: “delitos de tipo fechado são aqueles que apresentam a definição completa, como homicídio. Crimes de tipo aberto são os que não apresentam a descrição típica completa”. Nos primeiros a norma de proibição violada aparece de forma clara; no segundo, não aparece claramente.
49. TENTATIVA BRANCA - Há a tentativa branca quando “o objetivo material não sofre lesão”. (Damásio E. de Jesus).
50. CRIME CONSUNTO E CONSUNTIVO - “Crime consunto é o absorvido, consuntivo, o que absorve”. (Damásio de Jesus). Constitui matéria de estudo do conflito aparente de normas, na qual é aplicado o princípio da consunção.
51. CRIMES DE RESPONSABILIDADE - Este tipo de crime é alvo de discussões, pois esta classificação suscita dúvidas no que concerne a sua interpretação. Por vezes é entendido como crimes e infrações de natureza político-administrativas não sancionadas com penas de natureza criminal. Damásio de Jesus define, em sentido amplo, “como um fato violador do dever do cargo ou da função, apenado com uma sanção criminal ou de natureza política.” Divide ainda este tipo de crime em duas espécies: próprio, que constitui delito, e impróprio, que diz respeito à infração político-administrativa.
52. CRIMES HEDIONDOS - Damásio de Jesus conceitua crimes hediondos como “delitos repugnantes, sórdidos, decorrentes de condutas que, pela forma de execução ou pela gravidade objetiva dos resultados, causam intensa repulsa”. João José Leal afirma que haveria um crime hediondo “toda vez que uma conduta delituosa estivesse revestida de excepcional gravidade, seja na execução, quando o agente revela total desprezo pela vítima, insensível ao sofrimento físico ou moral a que a submete, seja quanto à natureza do bem jurídico ofendido, ainda pela especial condição das vítimas”.
A Constituição Federal de 1988 considera estes crimes inafiançáveis e insuscetíveis de graça ou anistia (art. 5º, inc. XLIII).
53. CRIME ORGANIZADO - É aquele praticado por uma organização criminosa. Segundo Mirabete, organização criminosa “é aquela que, por suas características, demonstre a existência de estrutura criminal, operando de forma sistematizada, com planejamento empresarial, divisão de trabalho, pautas de condutas em códigos procedimentais rígidos, simbiose com o Estado, divisão territorial e, finalmente, atuação, regional, nacional ou internacional”. Nossa legislação usa este termo ‘crime organizado’, preferindo uma redação mais simplista, referindo-se a ‘crime organizando’ como ‘bando’ ou ‘quadrilha’.
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