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BIOQUÍMICA APLICADA E INTERPRETAÇÃO DE EXAMES LABORATORIAIS W BA 07 00 _v 1. 1 22 Fávia Debaigi Rafaela Benatti Londrina Editora e Distribuidora Educacional S.A. 2019 Bioquímica aplicada e Interpretação de exames laboratoriais 1ª edição 33 3 2019 Editora e Distribuidora Educacional S.A. Avenida Paris, 675 – Parque Residencial João Piza CEP: 86041-100 — Londrina — PR e-mail: editora.educacional@kroton.com.br Homepage: http://www.kroton.com.br/ Presidente Rodrigo Galindo Vice-Presidente de Pós-Graduação e Educação Continuada Paulo de Tarso Pires de Moraes Conselho Acadêmico Carlos Roberto Pagani Junior Camila Braga de Oliveira Higa Carolina Yaly Giani Vendramel de Oliveira Juliana Caramigo Gennarini Nirse Ruscheinsky Breternitz Priscila Pereira Silva Tayra Carolina Nascimento Aleixo Coordenador Camila Braga de Oliveira Higa Revisor Iara Gumbreviciu Editorial Alessandra Cristina Fahl Beatriz Meloni Montefusco Daniella Fernandes Haruze Manta Hâmila Samai Franco dos Santos Mariana de Campos Barroso Paola Andressa Machado Leal Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) Debaigi, Fávia D286b Bioquímica aplicada e Interpretação de exames laboratoriais / Fávia Debaigi, Rafaela Benatti. – Londrina: Editora e Distribuidora Educacional S.A., 2019. 153 p. ISBN 978-85-522-1550-9 1. Nutrição clínica. 2. Bioquímica. 3. Interpretação de exames. I. Debaigi, Fávia. II. Benatti, Rafaela. III. Título. CDD 610 Thamiris Mantovani CRB: 8/9491 © 2019 por Editora e Distribuidora Educacional S.A. Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta publicação poderá ser reproduzida ou transmitida de qualquer modo ou por qualquer outro meio, eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia, gravação ou qualquer outro tipo de sistema de armazenamento e transmissão de informação, sem prévia autorização, por escrito, da Editora e Distribuidora Educacional S.A. 44 SUMÁRIO Apresentação da disciplina 5 Fundamentos de bioquímica aplicada 6 Interpretação clínica de hemograma e painéis químicos clínicos 31 Exames clínicos para diabetes, dislipidemias, aminoacidopatias e risco de doenças crônicas 53 Exames clínicos relacionados à desnutrição proteico-calórica, anemia nutricional e má absorção de nutrientes 74 Interpretação de exames relacionados a hidratação, função hepática, renal e endocrinopatias 102 Interpretação de exames relacionados a função cardíaca e distúrbios do equilíbrio ácido-base de eletrólitos 127 Principais exames laboratoriais relacionados a enzimologia, inflamação e doenças autoimunes 150 BIOQUÍMICA APLICADA E INTERPRETAÇÃO DE EXAMES LABORATORIAIS 55 5 Apresentação da disciplina Prezado aluno, nesse momento você está iniciando ou aprofundando seus conhecimentos em Bioquímica aplicada e Interpretação de exames laboratoriais. A bioquímica é uma ciência extremamente importante, pois estuda e aplica a química da vida e os processos químicos que ocorrem em todos os seres vivos. Além disso, a bioquímica também tem um papel muito importante na interpretação e realização de exames laboratoriais. Muitos são os exames bioquímicos presentes na rotina laboratorial, os quais auxiliam no diagnóstico, prognóstico e avaliação da eficácia do tratamento. Para compreender esse universo, os conteúdos apresentados nessa disciplina são: fundamentos de bioquímica aplicada, interpretação clínica de hemograma e painéis químicos clínicos, exames clínicos para diabetes, dislipidemias, aminoacidopatias ou risco de doenças crônicas, exames clínicos relacionados à desnutrição proteico-calórica, anemia nutricional e má absorção de nutrientes, interpretação de exames relacionados à hidratação, função hepática, renal e endocrinopatias, interpretação de exames relacionados àfunção cardíaca e distúrbios do equilíbrio ácido-base de eletrólitos e os principais exames laboratoriais relacionados à enzimologia, inflamação e doenças autoimunes. Vamos começar? Bons estudos!. 666 Fundamentos de bioquímica aplicada Autora: Flávia Debiag Objetivos • Abordar os fundamentos básicos de bioquímica aplicada, tais como descrição e aplicação das macromoléculas. • Contextualizar a importância das vitaminas e sais minerais para os organismos e as principais doenças relacionadas com a sua deficiência. • Elencar os principais interferentes em exames laboratoriais, abrangendo as etapas pré-analítica, analítica e pós-analítica, bem como a importância de métodos de controle de qualidade. 77 7 1. Fundamentos de bioquímica aplicada Caro aluno, seja bem-vindo à disciplina de bioquímica aplicada e interpretação de exames laboratoriais. Esse primeiro bloco apresenta como tema Fundamentos da bioquímica aplicada e tem como objetivo apresentar a você conceitos básicos empregados em bioquímica aplicada, bem como suas funções nos sistemas biológicos e os principais interferentes dos métodos laboratoriais. Em geral, as células são formadas por água (70%) e por macromoléculas, sendo as principais os carboidratos, proteínas, lipídeos e ácidos nucléicos. Os exames laboratoriais bioquímicos são usualmente empregados para investigação de deficiências nutricionais específicas de determinados nutrientes e verificação do estado de saúde dos indivíduos. O profissional de saúde, ao entender a bioquímica aplicada, bem como as características dos exames laboratoriais, pode contribuir para uma melhor qualidade dos processos metabólicos dos pacientes, por meio de um diagnóstico correto. PARA SABER MAIS Biomoléculas são compostos de carbono associadas a uma grande variedade de grupos funcionais que conferem propriedades químicas específicas à molécula. Exemplos comuns dessas biomoléculas são os alcoóis, que têm um ou mais grupos hidroxila; aminas, com grupos amina; aldeídos e cetonas, com grupos carbonila; e ácidos carboxílicos, com grupos carboxila. 88 ASSIMILE Os exames laboratoriais bioquímicos são empregados para detectar os níveis de um determinado analíto no plasma sanguíneo, por exemplo, níveis séricos de LDL, HDL, colesterol total, albumina, entre outros. Os resultados de um exame são classificados em falso-positivo e falso negativo. Os resultados ou testes falso-positivo apresentam-se anormais em indivíduos que não apresentam a doença que se busca confirmar por meio do exame. Em contrapartida, nos resultados falso-negativos os valores dos exames são considerados normais em indivíduos, que de fato estão com a doença que se procura comprovar. 2. Principais constituintes bioquímicos das células 2.1 Água A água é essencial para a vida, aproximadamente 60% da composição corporal de um adulto de 70 kg é composta por água. Na célula, a molécula encontra-se presente tanto no meio intracelular, quanto no ambiente extracelular, constituído por linfa, plasma e líquidos intersticiais. A compatibilidade de vida na Terra está associada principalmente às características peculiares da água, tais como, dilatação anômala, alto calor específico, capacidade de dissolver um grande número de substâncias, meio reacional de reações químicas do metabolismo celular, agente dispersante do calor produzido no organismo. É importante ressaltar que a concentração de água no organismo deve ser regulada de forma precisa, por meio do hormônio antidiurético (ADH), garantindo assim a homeostasia corporal (BELLÉ e SANDRI, 2014). 99 9 A molécula de água é formada por dois átomos de hidrogênio (H) que se encontram ligados a um átomo de oxigênio (O), ocorrendo o compartilhamento de elétrons. Outra característica importante diz respeito à polaridade da molécula. A água é classificada com uma molécula polar, devido ao átomo de oxigênio exercer uma atração mais forte sobre os elétrons compartilhados, criando um polo negativo e as moléculas de hidrogênio adquirem cargas positivas (Figura 1). A geometria molecular da água, possibilita a interação entre os átomosnegativos de oxigênio de uma molécula com os átomos positivos de hidrogênio de uma outra molécula de água vizinha, por meio de ligações de hidrogênio, formando uma cadeia de moléculas de água, e fornecendo a propriedade de tensão superficial em sua forma líquida. (NELSON; COX, 2019). Figura 1 – Estrutura na molécula de água Fonte: PeterHermesFurian/iStock.com. Devido à sua polaridade, a água é reconhecida como solvente universal. Assim, muitas substâncias biológicas (carboidratos, proteínas) são polares, portanto, interagem com a água por meio de ligações de hidrogênio ou por interações iônicas. Entretanto, substâncias apolares (ésteres de colesterol, triacilgliceróis e ácidos graxos) não são capazes de formar ligações de hidrogênio, sendo solúveis somente em solventes orgânicos (PINTO, 2017). 1010 2.2 Aminoácidos e proteínas As unidades fundamentais das proteínas correspondem aos aminoácidos. Atualmente, são conhecidos mais de 300 aminoácidos disponíveis na natureza. Embora somente 20 deles são utilizados na composição de proteínas e enzimas humanas, os quais são denominados de aminoácidos proteinogênicos (PINTO, 2017). Os aminoácidos são formados por um átomo de carbono central que está ligado a um grupo carboxila (-COOH), um grupo amino (-NH2), um átomo de hidrogênio e um grupo “R” (radical). Com exceção da glicina, o carbono central dos aminoácidos é classificado como assimétrico, ou centro quiral, fato que possibilita a formação de estereoisômeros em consequência dos diferentes arranjos espaciais opticamente ativos (Figura 2) (NELSON; COX, 2019). Figura 2 – Fórmula geral de um α-aminoácido, termo que significa que a amina está na posição α ou 2, o carbono vizinho é a carboxila COOH: grupamento carboxila; NH2: grupamento amina; R → cadeia lateral. Fonte: Bacsica/iStock.com. Os aminoácidos se diferem quanto ao grupo R, que varia em estrutura, tamanho e carga elétrica, e afeta a solubilidade dos aminoácidos em água (Figura 3). 1111 11 Figura 3 – Estrutura dos aminoácidos essenciais Fonte: chromatos/iStock.com. De acordo com a natureza das cadeias laterais, os aminoácidos são classificados em polares e apolares. Aminoácidos polares possuem cadeias laterais hidrofílicas, com carga elétrica negativa, positiva ou neutra, originando os aminoácidos ácidos, básicos e polares sem carga, respectivamente, encontram-se basicamente no interior das proteínas. Os aminoácidos apolares são constituídos de cadeias hidrofóbicas e se encontram no interior das proteínas (NELSON; COX, 2019). Os aminoácidos desempenham funções importantes, sendo a principal a formação de peptídeos e proteínas. Além disso, podem atuar como precursores de substâncias biologicamente importantes, como os neurotransmissores, mensageiros químicos, hormônios, mediadores inflamatórios e servir como precursores de outras substâncias. 1212 As proteínas são macromoléculas formadas por sequências de aminoácidos (aproximadamente 100 resíduos) unidos por ligações peptídicas, a qual ocorre entre e o grupo amina (-NH2) de um aminoácido, com o grupo carboxila (-COOH) de outro aminoácido adjacente. Nesse processo, ocorre também a eliminação de uma molécula de água (MARZZOCO; TORRE, 2018). Em geral, as proteínas podem apresentar diferente conformação espacial, a qual é classificada em quatro níveis organizacionais, determinados de estrutura primária, secundária, terciária e quaternária. A sequência de aminoácidos unida por ligação peptídica corresponde à estrutura primária de cada proteína. A partir da estrutura primária, tem-se a estrutura secundária, a qual se caracteriza pela formação de arranjos espaciais entre aminoácidos próximos por ligações de hidrogênios. Há duas formas de estrutura secundária, denominadas de alfa-hélice e beta pregueada. Por seguinte, a estrutura terciária se caracteriza por ser compacta, proveniente do enovelamento das cadeias polipeptídicas organizadas em estrutura secundária ou entre regiões sem estrutura definida. O último nível de organização corresponde à estrutura quaternária, a qual é formada a partir da associação de estruturas terciárias (NELSON; COX, 2019). A hemoglobina é um exemplo típico de estrutura quaternária, a qual encontra-se presente nas hemácias, e é responsável por transportar o oxigênio dos pulmões para os tecidos periféricos e o CO2 dos tecidos para pulmão. Devido á presença de um grupo prostético heme em cada uma de suas cadeias, a hemoglobiana é classifica como uma hemoproteína. O grupo heme é formado por um anel porfirínico com quatro anéis pirrólicos, contendo um átomo de Fe+, o qual é responsável pela associação da hemoglobina com o oxigênio (MARZZOCO; TORRE, 2018). 1313 13 Figura 4 – Estrutura quaternária da hemoglobina Fonte: ttsz/iStock.com. A forma de classificação das proteínas pode variar de acordo com a sua composição, estrutura tridimensional das cadeias polipeptídicas e aspectos funcionais. Quanto à sua composição, são denominadas de simples, quando formadas apenas por aminoácidos, por exemplo, a insulina. Em contrapartida, as proteínas conjugadas apresentam grupos prostéticos em sua composição, podendo esse ser de natureza orgânica (carboidratos, lipídeos, etc.) ou inorgânica (íons metálicos). A hemoglobina, já explicada anteriormente, transporta o oxigênio e o gás carbônico no sangue. A lipoproteína LHD (lipoproteínas de baixa densidade) e HDL (lipoproteínas de alta densidade) encontram-se associadas à cadeia de ácidos graxos (lipídeos). Quanto à estrutura tridimensional das cadeias polipeptídicas, algumas proteínas, como o colágeno e α-queratina, apresentam a cadeia de polipeptídeo estendida, são insolúveis e desempenham funções estruturais. Já a mioglobina e a hemoglobina, apresentam um 1414 formato esférico, sendo classificadas como globulares. Ao contrário da hemoglobina, a mioglobina é formada por uma única cadeia de polipeptídeo; um grupo prostético heme está presente principalmente nas células musculares e cardíacas, sendo responsável pelo transporte e armazenamento de oxigênio entregue pela hemoglobina nos capilares (NELSON; COX, 2019). De acordo com a Tabela 1, as proteínas podem desempenhar as mais variadas funções no organismo, as quais abrangem os processos regulatórios, transporte de substâncias, componente estrutural, enzimática nutrição e de reserva energética. Tabela 1 – Classificação das proteínas de acordo com a sua função Função Exemplos Hormonal Insulina, hormônio de crescimento (GH), prolactina, glucagon, hormônio antidiurético Proteção Venenos de aracnídeos e ofídios Coagulação do sangue Fibrinogênio e a trombina Defesa Anticorpos Transporte Hemoglobina, mioglobina, lipoproteínas, albumina Estrutural Colágeno, elastina, queratina Enzimáica α-amilase, protease, lipase Energética Ovoalbumina, gliadina, caseína Fonte: PINTO, 2017. É importante ressaltar que as moléculas de proteínas são mais susceptíveis que outras biomoléculas ao fenômeno de desnaturação, que se caracteriza por promover alterações na estrutura espacial proteica, sem rompimento das ligações peptídicas, ocasionando a perda da sua função. Elevadas temperaturas, emprego de detergentes, agitação mecânica, presença de solventes orgânicos, ácidos e bases fortes e ureia são considerados os principais agentes desnaturantes das proteínas (PINTO, 2017). 1515 15 2.3 Carboidratos Quimicamente, os carboidratos (ou hidratos de carbono) são poli-hidroxialdeídos ou poli-hidroxicetonas, ou substâncias que, hidrolisadas, originam estes compostos. Apresentam, em geral, a fórmula empírica (CH2O)n, da qual deriva a sua nomenclatura. Entretanto, muitos carboidratos não apresentam esta fórmula geral (como a glicosamina, que contém um grupo amino). Além disso, existem compostos com esta fórmula que não são carboidratos (ácido lático, por exemplo). A sacarose, glicose e frutose, são carboidratos de sabor adocicados, podem ser chamados de açúcares e são comuns na alimentaçãohumana. Segundo o número de unidades componentes os carboidratos são classificados em monossacarídeos, oligossacarídeos e polissacarídeos. De acordo com o seu grupo funcional, os carboidratos são classificados em aldoses, que possuem o grupo funcional aldeído (H–C=O), e em cetoses, os quais o grupo funcional corresponde à cetona (C=O). Quanto ao número de unidades componentes, os carboidratos são classificados em monossacarídeos, oligossacarídeos e polissacarídeos (NELSON; COX, 2019). Os monossacarídeos são os açúcares mais simples que apresentam um único grupo funcional aldeído (H–C=O) ou cetona (C=O), sendo denominados de aldoses ou cetoses, respectivamente. O grupo funcional encontra-se associado a uma cadeia de 3 a 7 carbonos unidos por ligação covalente, designados de trioses (3C) tetroses (4C), pentoses (5C), hexoses (6C) e heptoses (7C), e assim sucessivamente. Exemplos de monossacarídeos encontram-se na Figura 5 (MARZZOCO; TORRE, 2018). 1616 Figura 5 – Principais monossacarídeos Fonte: elaborada pela autora. Os oligossacarídeos são formados por 3 a 10 monossacarídeos unidos entre si por ligações glicosídicas, nas quais ocorrem a condensação entre a hidroxila de um monossacarídeo com a hidroxila do carbono anomérico de outro monossacarídeo, resultando na perda de uma molécula de água. Os principais representantes dessa classe são os dissacarídeos (lactose, sacarose e maltose), os quais se encontram descritos na Tabela 2. Tabela 2 – Principais dissacarídeos DISSACARÍDEO COMPOSIÇÃO OCORRÊNCIA LACTOSE D-galactose e D-glicose. Leite e derivados SACAROSE D- glicose e D-frutose Cana de açúcar, beterraba MALTOSE D- glicose e β glicose Malte Fonte: MARZZOCO; TORRE, 2018. 1717 17 Os polissacarídeos são polímeros constituídos de centenas ou milhares de resíduos de monossacarídeos, mais comumente a glicose, unidos por ligações glicosídicas. Os polissacarídeos podem ser lineares (p. ex., celulose) ou ramificados (p. ex., glicogênio e o amido), apresentar centenas ou mesmo milhares de unidades monoméricas, e seu peso molecular ultrapassar um dálton. Entre as funções dos carboidratos, destacam-se de sustentação (celulose nos vegetais, na parede celular dos fungos e no exoesqueleto dos artrópodes) e a reserva (glicogênio nos animais, amido nos vegetais), energética (glicose). Além de poderem estar ligados a lipídios e proteínas, formando os glicolipídios e as glicoproteínas, componentes de membranas (PINTO, 2017). 2.4 Lipídeos Os lipídeos são macromoléculas presentes em todas as células, insolúveis em água e solúveis em solventes orgânicos. Possuem funções importantes biológicas estruturais no organismo, sendo componentes da membrana plasmática. Além disso, atuam como moléculas sinalizadoras, são fontes e reservas energéticas interessantes, auxiliam na manutenção da temperatura corporal e são precursores de hormônios esteroides (MARZZOCO; TORRE, 2018). Os lipídeos mais simples são os ácidos graxos, os quais são moléculas formadas por grupo funcional carboxila (-COOH), ligado a uma cadeia carbônica. O grupo COOH tem a propriedade de reagir prontamente com grupos hidroxila ou amina de outras moléculas para formar ésteres e amidas. A função mais importante dos ácidos graxos é atuar como constituintes das membranas plasmáticas. A cadeia carbônica dos ácidos graxos pode ser saturada, insaturada ou poli-insaturada, a qual possui a relação direta com o estado físico. Em temperatura ambiente, os ácidos graxos saturados são sólidos, enquanto insaturados geralmente são líquidos (NELSON; COX, 2019). 1818 De acordo com a sua forma de obtenção, os ácidos graxos são classificados em não essenciais, aqueles cujo organismo humano é capaz de sintetizar. Os essenciais são aqueles que não podem ser sintetizados pelos mecanismos bioquímicos humanos, necessitam ser obtidos a partir da dieta. Por exemplo, os ácidos graxos essenciais linolênico e linoleico que podem ser obtidos a partir de peixes como salmão e sardinha (PINTO, 2017). Os triacilgliceróis são lipídeos formados a partir de três moléculas de ácidos graxos, unidos com uma molécula de glicerol por ligações ésteres. Ou seja, as três hidroxilas do glicerol encontram-se esterificadas por ácidos graxos, os quais podem ser diferentes. Como reservas de energia, as gorduras são um tipo mais eficiente que o glicogênio, já que são armazenadas na forma anidra. Além disso, uma vez que são menos oxidadas quando comparadas aos carboidratos ou às proteínas, os triacilgliceróis fornecem significativamente mais energia, por unidade de massa, na sua oxidação completa. Em mamíferos, os lipídeos são armazenados na forma de triacilgliceróis no tecido adiposo (BELLÉ; SANDRI 2014). Já os glicerofosfolipídeos, constituintes das membranas biológicas, são formados de glicerol 3-fosfato, com posições C1 e C2 e apresentam ácidos graxos esterificados. As moléculas de glicerofosfolipídios que ocorrem em membranas plasmáticas apresentam cabeças polares, cujos grupos químicos são derivados de alcoóis polares. As esfingomielinas fazem parte das membranas biológicas do sistema nervoso (MARZZOCO; TORRE, 2018). Por fim, os esteroides são lipídeos formados por quatro anéis não planares e rígidos. O colesterol é o precursor dos hormônios esteroides (testosterona, estrógenos, progestógenos, cortisol, aldosterona) e também compõe as moléculas dos ácidos biliares. O colesterol é sintetizado pelo fígado dos animais de acordo com um processo regulado por um sistema compensatório (NELSON; COX, 2019). 1919 19 É importante ressaltar que os lipídeos estão presentes no plasma por intermédio das lipoproteínas, sendo os principais os triacilgliceróis (16%); fosfolipídios (30%); colesterol (14%); ésteres de colesterol (36%); e ácidos graxos livres (4%), a fração de lipídios metabolicamente mais ativa no plasma (MARZZOCO; TORRE, 2018). As principais lipoproteínas e suas respectivas funções encontram-se na Tabela 3. Tabela 3 – Principais lipoproteínas encontradas no plasma e suas respectivas funções Lipoproteínas Características e função Quilomícrons (Qm) Transportam principalmente triacilgliceróis exógenos (cuja fonte é a dieta), são sintetizados no intestino delgado pelos enterócitos e dirigem- se para os tecidos conduzindo triacilgliceróis Lipoproteínas de baixa densidade (LDL): Chamadas também de “colesterol ruim”, são sintetizadas no fígado, constituem as principais transportadoras de colesterol do organismo, as quais são reconhecidas por receptores de LDL nos tecidos onde o colesterol é liberado. Lipoproteínas de alta densidade (HDL): Conhecidas também de “colesterol bom”. Isso ocorre porque elas captam o colesterol liberado no sangue e transportam-no até o fígado para que seja degradado, formando os sais biliares, sendo, assim, excretado. Fonte: NELSON, COX 2019. O quadro de dislipidemia se caracteriza pelo excesso de colesterol no sangue, ou seja, quando a soma do colesterol sintetizado e do colesterol obtido na dieta excede a quantidade necessária para a síntese de membranas, sais biliares e esteróis. O acúmulo patológico de colesterol (placas) pode obstruir os vasos sanguíneos, condição chamada de aterosclerose (NELSON, COX 2019). 2.5 Vitaminas As vitaminas são substâncias essenciais para a homeostasia do corpo dos vertebrados, entretanto, não podem ser sintetizadas pelos organismos e devem, portanto, ser obtidas por meio da alimentação. Os primeiros estudos nutricionais classificaram as vitaminas de acordo com a sua solubilidade, como vitaminas hidrossolúveis e lipossolúveis. 2020 As vitaminas hidrossolúveis podem ser extraídas dos alimentos com solventes aquosos, são exemplo desse grupo a vitamina C (ácido ascórbico), as vitaminas do complexo B. Em contrapartidas, as vitaminas lipossolúveis são solúveis apenas em solventes orgânicos apolares, enquadram-se nesse grupo, as vitaminas A, D, E e K, todos compostos isoprenoides sintetizados pela condensaçãode várias unidades de isopreno. A vitamina D (colecalciferol) é sintetizada na pele, a partir de 7-desidroco- lesterol em uma reação fotoquímica catalisada pelo componente UV (ultravioleta) da luz solar. A vitamina D não é biologicamente ativa, sendo convertida por enzimas no fígado e no rim ao calcitriol (1α,25- di-hidroxivitamina D3). Esse hormônio regula a captação de cálcio no intestino e os níveis de cálcio no rim e nos ossos. A deficiência de vitamina D pode ocasionar o raquitismo (RODWELL et al., 2017). A vitamina A (β-caroteno) e seus metabólitos oxidados, o ácido retinoico e o retinol, agem nos processos de desenvolvimento, crescimento e diferenciação celular e na visão. A deficiência de vitamina A durante a gestação pode ocasionar malformações congênitas e retardo no crescimento do bebê. Em adultos, a vitamina A é também essencial para a visão, a imunidade e a reprodução. As vitaminas E e K são cofatores de oxirredução, atuam em diferentes reações do metabolismo. A deficiência das vitaminas E e K é rara em humanos e está associada à fragilidade dos eritrócitos e ao retardo da coagulação sanguínea (doença fatal para o recém-nascido), respectivamente. Por fim, os sais minerais encontram-se envolvidos em quase todas as vias metabólicas, são classificados de acordo com a sua necessidade em macrominerais, os quais são necessários em maiores quantidades (Ca, P, Mg, K, Na, Cl, S) e microminerais, sendo esses requeridos em menores proporções (Fe, Mn, Cu, I, Co, Zn, Se e Mo) (MARZZOCO; TORRE, 2018). 2121 21 2.6 Características e etapas dos exames laboratoriais Em geral, os exames laboratoriais bioquímicos não dispõem de um método de análise absolutamente preciso. Para a obtenção de exames bioquímicos idôneos é de grande importância a padronização dos processos envolvidos, que abrange desde a solicitação dos exames pelo profissional de saúde, até a liberação do laudo. Assim, os principais interferentes das qualidades dos exames, constituem as etapas pré-analítica; analítica e pós-analítica (Figura 6 (SANTOS; ZANUSSO JUNIOR, 2015). Figura 6 – Principais interferentes dos exames laboratoriais. Fonte: elaborada pela autora. A fase pré-analítica corresponde a grande parte dos erros, onde se inicia a coleta do material biológico. Nessa fase é de suma importância a orientação correta do paciente. Por exemplo, alguns exames bioquímicos de importância em nutrição, recomendam-se jejum de 12 a 14 horas prévio à coleta da amostra. A realização do teste propriamente dito refere- se à fase analítica, a qual é de responsabilidade do laboratório de análises clínicas. Por fim, a fase pós-analítica, compreende processos de validação e liberação de laudos, sendo concluída com a interpretação desses documentos por parte do nutricionista (COSTA, 2015). 2.7 Variáveis pré-analíticas As variáveis pré-analíticas podem decorrer tanto do paciente (fatores fisiológicos ou biológicos) quanto da manipulação da amostra antes da realização da sua análise. 2222 Fatores fisiológicos ou biológicos Os principais fatores fisiológicos que podem promover alterações nos resultados dos exames laboratoriais compreendem a idade, sexo, ciclo menstrual, gravidez, dieta, jejum, estresse físico e mental, uso ou não de medicamentos para fins terapêuticos, postura durante a coleta e variações cronobiológicas (PINTO, 2017). A idade do paciente influencia de maneira significativa nos resultados de alguns exames, sendo necessário estabelecer intervalos de referência apropriados. Por exemplo, a concentração do hormônio de crescimento (GH) apresenta-se mais elevada no período da puberdade, com posterior diminuição progressiva. Outro parâmetro que pode ser utilizado para exemplificar sua alteração em razão idade é a contagem de eritrócitos e as concentrações de hemoglobina nos recém-nascidos. Devido à baixa concentração de oxigênio útero, os recém-nascidos apresentam maior concentração de eritrócitos e hemoglobina do que nos adultos (WILLIAMSON; SNYDER, 2018). Os resultados dos exames laboratoriais, tais como parâmetros hormonais, bioquímicos e metabólicos também podem estar associados com o sexo. Em mulheres, a porcentagem de células vermelhas varia de 37 a 47%, já para os homens, esses valores compreendem de 40 a 54%, ocorrendo o mesmo com a concentração de hemoglobina, 12 a 16,5 g/ mℓ para as mulheres e 13,5 a 18,0 g/mℓ para homens. (PINTO, 2017). Nas mulheres, durante o ciclo menstrual, além das alterações hormonais comumente conhecidas, existe a elevação pré-ovulatória das concentrações de aldosterona e renina. Já na ovulação, níveis séricos de colesterol são mais baixos do que em outras fases do ciclo menstrual. Mulheres grávidas também apresentam alterações nos valores hematológicos e bioquímicos do sangue. Em virtude da retenção hídrica, durante a gestação pode-se observar uma hemodiluição de proteínas totais e albumina. Outros parâmetros importantes que sofrem alteração na gestação são o aumento das proteínas de fase aguda e a velocidade de hemossedimentação (COSTA, 2015). 2323 23 Pacientes que fazem o uso de determinados medicamentos devem ser questionados e alertados. Os glicocorticoides, estatinas e anti- inflamatórios, por exemplo, podem aumentar os níveis de glicemia, atividade da enzima CK total e os níveis de enzimas hepáticas, respectivamente (WILLIAMSON; SNYDER, 2018). A dieta e o jejum também podem interferir nos resultados dos exames. Em geral, os valores de referência dos testes bioquímicos são estabelecidos em indivíduos em condição de jejum de aproximadamente 8 a 12 horas. Diversos parâmetros bioquímicos (glicemia e lipemia) e de muitos hormônios (GH, cortisol, insulina, paratormônio) podem ser alterados após o consumo da refeição habitual. É importante ressaltar que o jejum acima de 12 horas também pode proporcionar uma condição de estresse, promovendo alterações dos níveis de alguns hormônios, como, por exemplo, cortisol e desidroepiandrosterona. Além disso, dietas ricas em gorduras hipolipídicas, vegetariana ou desnutrição, consumo de fitoterápicos, drogas ilícitas, bebidas alcoólicas e tabaco podem modicar os resultados de vários analítos (NELSON, 2019). Há evidências também que algumas atividades físicas, como subir e descer escada, ou estresses físicos e mentais influenciam as concentrações de muitos elementos do plasma, inclusive cortisol, aldosterona, prolactina, tireotropina, colesterol, glicose, insulina e lactato. O estado febril também influência muitas respostas hormonais, assim como o choque e o traumatismo (PINTO, 2017). Algumas variáveis durante o momento da coleta também precisam ser controladas para a confiabilidade dos resultados. Os laboratórios de análises clínicas padronizam a coleta de sangue, por exemplo, em uma posição única, no sentido de eliminar essa fonte de erros, visto que pode haver alterações em relação à posição ortostática ou em decúbito. O horário da coleta, para determinados analitos, é outro fator determinante, sendo essas denominadas de variações cronobiológicas. Por exemplo, os níveis plasmáticos de cortisol são maiores no período 2424 da manhã, quando comparados aos valores mensurados à tarde. Variações sazonais também podem influenciar na idoneidade dos exames laboratoriais, como, por exemplo, a concentração de vitamina D se encontra mais elevada no verão (NELSON; COX, 2019). De acordo com Williamson e Snyder (2018), os erros nas etapas pré- analítica correspondem a 61,9%. Aproximadamente 25% desses erros podem ter repercussões para o paciente, seja por demora na liberação do resultado do exame, seja por ameaçar a vida do paciente. Por isso, é de grande importância evitar estes interferentes em uma anamnese correta com o paciente, a fim de evitar erros. Fatores relacionados com a manipulação das amostras Na etapa de manipulação das amostras, a coleta é o processo mais importante. A maioria dos erros pré-analíticos consiste em coleta incorreta da amostra,o que abrange erros na identificação do paciente, volume insuficiente para a realização do exame, uso de anticoagulante de forma incorreta e qualidade da amostra (hemólise, coágulos, contaminação e coleta em recipiente errado). Outras variáveis pré-analíticas podem ocorrer durante o armazenamento da amostra (tempo e a temperatura) ou durante a etapa de processamento para a separação do soro ou do plasma ou das células (COSTA, 2015). Para uma amostra de qualidade, é imprescindível uma coleta de sangue precisa ser realizada por profissionais qualificados com equipamentos apropriados em ambiente adequado. O procedimento empregado para a coleta de sangue pode promover alterações nos resultados dos exames laboratoriais, por isso precisa ser realizada com muita atenção a fim de se prevenir erros de identificação de paciente, volume insuficiente e o uso de coagulantes de forma correta. Os principais anticoagulantes empregados nos laboratórios de análises clínicas são a heparina, ácido etilenodiamino tetra-acético (EDTA) e citrato de sódio. Os anticoagulantes se diferem quanto ao mecanismo de ação e a sua escolha depende do analito de interesse (WILLIAMSON; SNYDER, 2018). 2525 25 Os medicamentos também podem influenciar nos resultados dos exames laboratoriais, tanto em in vivo, como já foi explicado no tópico anterior, como in vitro, ou seja, durante o processamento da amostra. Fármacos como anticoagulantes (heparina, varfarina e inibidores diretos da trombina), ácido acetilsalicílico, doses elevadas de vitamina C, transfusão de hemoderivados e componentes de reposição de fatores de coagulação, podem interferir na confiabilidade dos resultados. Por isso, é importante o nutricionista se inteirar dos medicamentos utilizados pelo paciente e dos possíveis efeitos de cada medicamento nos resultados dos exames laboratoriais a fim de se evitar resultados falso-positivos e um diagnóstico errado (COSTA, 2015). Algumas alterações nos resultados também podem ser provenientes do armazenamento incorreto da amostra. Os principais interferentes são a temperatura de armazenagem e a inferência de luz na amostra, a qual pode interferir no doseamento de algumas substâncias fotossensíveis (bilirrubina, betacaroteno, vitamina A, vitamina B6 e porfirinas). A temperatura ideal de coleta do sangue deve ser de 22 a 25°C, enquanto seu armazenamento precisa ocorrer em ambiente entre 2 e 8°C, pois nessa temperatura (2 e 8°C) ocorre a inibição do metabolismo celular e, consequentemente, a estabilização de certos constituintes termolábeis (PINTO, 2017). 2.8 Erros analíticos Os erros analíticos são provenientes de erros das análises executadas pelo laboratório de análises clínicas. Assim, é de suma importância que os exames laboratoriais sejam realizados em laboratórios de análises clínicas, que empregam métodos de controle de qualidade e programas de avaliação de qualidade com aspectos analíticos dos exames. Quatro indicadores (acurácia, precisão, sensibilidade e especificidade) são frequentemente empregados para determinar a confiabilidade de um exame laboratorial. A acurácia e precisão estão associadas ao 2626 desempenho cotidiano do método de exame, sendo estabelecidas e monitoradas frequentemente pelo laboratório de análises clínicas. A sensibilidade e especificidade refletem o quanto o exame diferencia a doença da ausência de alguma enfermidade e são determinados por pesquisa e ensaios clínicos. Vale salientar que os exames laboratoriais devem ser elaborados de modo a serem tão precisos, acurados, específicos e sensíveis quanto for possível, visando sempre o diagnóstico correto do paciente (WILLIAMSON; SNYDER, 2018). 2.9 Erros pós-analíticos Os erros pós-analíticos estão relacionados com os resultados inseridos de forma equivocada no laudo do paciente, entrega de laudo para o paciente errado, faixa de referência incorreta e a interpretação inapropriada desses resultados. Dessa forma, laudos manuscritos e relatados por telefone devem ser evitados. Atualmente, com o uso do sistema computadorizado de entrega de exames nos hospitais, alguns desses erros foram extintos, garantindo assim uma maior confiabilidade nos resultados (PINTO, 2017). 3. Conclusão Como vimos neste capítulo, as biomoléculas possuem na sua estrutura o carbono como composto principal, associado a outros grupos funcionais. Desempenham funções vitais para o organismo, tais como sustentação, energética, enzimática, entre outras. Por isso, é de grande importância a manutenção dos seus níveis séricos dentro da normalidade. Os exames laboratoriais bioquímicos são empregados para quantificar algumas dessas biomoléculas no plasma sanguíneo a fim de garantir um diagnóstico adequado para o paciente. Para a confiabilidade dos resultados, é necessário prevenir os erros interferentes nas etapas pré-análitica, analítica e pós-analítica. 2727 27 TEORIA EM PRÁTICA Maria, 50 anos, apresentou resultados de exames bioquímicos para colesterol total e HDL de acordo com o quadro abaixo: Tipo de material: sangue Valor encontrado Faixa de Referência Colesterol total 430 mg/dℓ Nível desejável – menor que 190 mg/dℓ Nível limítrofe – 200 a 240 mg/dℓ Nível elevado – maior que 240 mg/dℓ HDL 20 mg/dℓ Prognóstico favorável maior que 40 mg/dℓ Maria foi orientada pelo serviço de nutrição que assiste a paciente a realizar uma reeducação alimentar, por meio de um cardápio. Uma frase no texto chamou a atenção de Maria: “a dieta é capaz de modular a expressão hepática de receptores de LDL-colesterol”. A partir dessa informação, responda às questões a seguir. a) De que maneira a dieta é capaz de exercer essa função? b) Por que os níveis plasmáticos de colesterol total representam risco cardiovascular? VERIFICAÇÃO DE LEITURA 1. Em geral, as proteínas podem apresentar diferente conformação espacial, a qual é classificada em 4 níveis organizacionais, determinados de estrutura primária, secundária, terciária e quaternária. Sabendo-se disso, assinale a alternativa correta: 2828 a. A sequência de aminoácidos unida por ligação peptídica corresponde à estrutura secundária de cada proteína, característico da mioglobina. b. A estrutura primária corresponde à formação de arranjos espaciais entre aminoácidos próximos uns dos outros por ligações de hidrogênios e, como exemplo, pode-se citar o colágeno. c. Há duas formas de estrutura terciária denominadas de alfa-hélice e beta pregueada, sendo que a primeira é encontrada somente em proteínas fibrosas. d. Estrutura quaternária se caracteriza por ser compacta, proveniente do enovelamento das cadeias polipeptídicas organizadas em estrutura secundária ou entre regiões sem estrutura definida. e. O último nível de organização das proteínas corresponde à estrutura quaternária, a qual é formada a partir da associação de estruturas terciárias, sendo característico da molécula de hemoglobina. 2. Os carboidratos são açúcares que podem ser classificados de acordo com o número de carbono em monossacarídeos, oligossacarídeos e polissacarídeos. Assinale a alternativa que apresenta somente exemplos que monossacarídeos. a. Glicose, frutose e ribulose. b. Glicose, maltose e xilulose. c. Amido, quitina e celulose. d. Lactose, frutose, xilose. e. Galactose, frutose e quitina. 2929 29 3. A respeito dos principais interferentes das qualidades dos exames laboratoriais em bioquímica, é incorreto afirmar que: a. A fase pré-analítica corresponde à grande parte dos erros, inicia-se a coleta do material biológico. Nessa fase é de suma importância a orientação correta do paciente. b. Os erros analíticos são provenientes de erros das análises executadas pelo laboratório de análises clínicas. Assim, é de suma importância que os exames laboratoriais sejam realizados em laboratórios de análises clínicas, que empregam métodos de controle de qualidade e programas de avaliação de qualidade com aspectos analíticos dos exames. c. As variáveispré-analíticas podem decorrer tanto do paciente (fatores fisiológicos ou biológicos) quanto da manipulação da amostra antes da realização da sua análise. d. Algumas alterações nos resultados também podem ser provenientes do armazenamento incorreto da amostra, sendo esse um erro característico da etapa analítica. e. Os erros pós-analíticos estão relacionados com os resultados inseridos de forma equivocada no laudo do paciente, entrega de laudo para o paciente errado, faixa de referência incorreta e a interpretação inapropriada desses resultados. 3030 Referências bibliográficas BELLÉ, L. P.; SANDRI, S. Bioquímica aplicada: Reconhecimento e Caracterização de Biomoléculas, 1. ed. São Paulo: Érica, 2014. COSTA, M. J. C. Interpretação de exames bioquímicos para o nutricionista, 2. ed. São Paulo: Atheneu, 2015. MARZZOCO, A. Bioquímica básica, 4. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2018. NELSON, D. L.; COX, N. M. Princípios de bioquímica de Lehninger, 7. ed. Porto Alegre: Artmed, 2019. PINTO, W. J. Bioquímica clínica. 1. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. 628 p. RODWELL, V. W., et al. Bioquímica ilustrada de Harper. 30. ed. Porto Alegre: AMGH, 2017. SANTOS, A.P.; ANUSSO JUNIOR, G. Controle de qualidade em laboratórios clínicos. Revista Uningá, 45, p. 60-67, 2015. WILLIAMSON, M. A.; SNYDER, L.M. Wallach: interpretação de exames laboratoriais, 10. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2018. 1203 p. Gabarito Questão 1 – Resposta E Estrutura quaternária se caracteriza por ser compacta, proveniente do enovelamento das cadeias polipeptídicas organizadas em estrutura secundária ou entre regiões sem estrutura definida. Feedback de reforço: Retome a leitura e tente novamente. Questão 2 – Resposta A Os monossacarídeos são açúcares simples, tais como glicose, frutose e ribulose. Feedback de reforço: Retome a leitura e tente novamente. Questão 3 – Resposta D Os erros analíticos podem ocorrer durante o processo da análise propriamente dita, realizada pelo laboratório. Os erros que ocorrem durante a armazenagem são classificados como erros pré-analíticos, portanto a alternativa D está incorreta. Feedback de reforço: Retome a leitura e tente novamente. 313131 Interpretação clínica de hemograma e painéis químicos clínicos Autora: Flávia Debiag Objetivos • Abordar a composição do tecido sanguíneo, incluindo seus elementos, como plasma, hemácias e leucócitos. • Descrever as características do hemograma, leucograma e coagulograma. • Relacionar os principais tipos de anemias com as possíveis alterações no hemograma. 3232 1. Introdução O sangue periférico é constituído por três tipos de células, denominadas de glóbulos vermelhos, eritrócitos ou hemácias; glóbulos brancos ou leucócitos; e plaquetas ou trombócitos. O hemograma e o coagulograma compreendem ao conjunto de exames capazes de avaliar as três linhagens de células sanguíneas, quanto ao seu número e função. O termo hemograma engloba a contagem de hemácias, dosagem de hemoglobina, determinação do hematócrito, índices hematimétricos e exame microscópico do esfregaço de sangue corado. Embora não faça parte do hemograma, a contagem de reticulócitos também pode auxiliar em sua avaliação e interpretação. O coagulograma corresponde a exames de tempo de sangramento, tempo de coagulação, tempo de protrombina, tempo de tromboplastina parcial e contagem de plaquetas. As alterações observadas no hemograma permitem ao profissional de saúde avaliar doenças relacionadas à série vermelha (anemias, policitemia, malária), branca (leucemias, infecções diversas) e plaquetas (púrpuras, trombocitopenias) e relacioná-las aos achados clínicos observados no paciente. PARA SABER MAIS Anemia ferropriva se caracteriza pela deficiência de ferro e representa a causa mais comum da doença. O diagnóstico se caracteriza por: • Hemograma com anemia microcítica e hipocrômica. • Ferritina < 10 ng %. • Ferro sérico < 30 mcg %, o que denota baixo estoque. • Capacidade de ligação ao ferro (TBIC) alta. Fonte: Calixto-Lima e Reis (2012). 3333 33 Neste capítulo, você irá aprender sobre as características do hemograma, reticulócitos, leucograma e coagulograma, bem como sua relevância para a prática do profissional de saúde. ASSIMILE No hemograma, a série vermelha, a série branca e as plaquetas são avaliadas quanto ao número e à citomorfologia. Para a série vermelha são analisadas a contagem de eritrócitos (hemácias), valor do hematócrito, quantidade de hemoglobina, volume corpuscular médio (VCM), hemoglobina corpuscular média (HCM) e concentração de hemoglobina corpuscular média (CHCM). Já na série branca são analisados os leucócitos, células especializadas na defesa do organismo. 1.1 Tecido sanguíneo O sangue corresponde aproximadamente a 8% da massa corporal de um adulto, ou seja, cerca de 5l de sangue. Nessa quantidade, o tecido sanguíneo contém, em média, 30 trilhões de glóbulos vermelhos, 45 bilhões de glóbulos brancos (ou leucócitos) e 1,5 trilhão de plaquetas. Na Figura 1, encontram-se descritos os principais componentes do sangue e a sua respectiva formação. 3434 Figura 1 – Componentes do sangue e sua formação Fonte: ttsz/iStock.com. Como pode ser observado na Figura 1, o tecido hematopoético é responsável pela origem no sangue. Na fase embrionária, o sangue é formado a partir de células na vesícula vitelínica. Na sequência, o fígado e o baço tornam-se os responsáveis pela formação do sangue. Após o nascimento, a medula dos ossos torna-se responsável pela hematopoiese. Dois tipos de células se originam a partir da medula óssea: as mieloides e as linfoides, que, não possuindo a capacidade de renovação, dependem das células-tronco hematopoiética. As células- tronco mieloides produzem as hemácias, plaquetas e os leucócitos (neutrófilos, basófilos, eosinófilos e monócitos). Em contrapartida, as células-tronco linfoides originam os linfócitos B e T (SILVA et al., 2016). O sangue pode ser denominado como um tipo de tecido conjuntivo pelo fato de apresentar as suas células (eritrócitos, leucócitos e plaquetas) separadas por uma abundante matriz extracelular, denominada plasma, o 3535 35 qual perfaz cerca de 55% do sangue. O plasma corresponde a um líquido amarelado, constituído em sua maior parte por água (90%), juntamente com proteínas, glicose, sais minerais, vitaminas, hormônios, amônia, ureia, gases respiratórios, etc. O principal constituinte celular do sangue corresponde aos glóbulos vermelhos (hemácias ou eritrócitos) (Figura 2). Figura 2 – Estrutura das hemácias Fonte: jarun011/iStock.com. De acordo com a Figura 2, as hemácias são células anucleadas em forma de disco, com dimensões variadas (Figura 2), especializadas no transporte de oxigênio dos pulmões aos tecidos e do dióxido de carbono no sentido inverso, devido à presença de hemoglobina no seu interior (cerca 35%). A hemoglobina é uma proteína formada por quatro cadeias polipeptídicas, cada uma das quais contém um grupo heme, que possui um anel protoporfirínico com um átomo de ferro na forma ferrosa (Fe++), o qual é responsável pela interação com o oxigênio (HOFFBRAND; MOSS, 2018). Os leucócitos ou glóbulos brancos são células sanguíneas esféricas, dotadas de núcleo, sem hemoglobina, as quais apresentam formas variadas, especializadas na defesa do organismo frente a ação de agentes estranhos. Os leucócitos (glóbulos brancos) são compostos por quatro tipos de fagócitos (neutrófilos, eosinófilos, basófilos e monócitos) e pelos linfócitos. Os fagócitos protegem o organismo contra infecções bacterianas e fônicas. Já os linfócitos, incluem as células B, envolvidas 3636 na produção de anticorpos, e as células T (CD4 auxiliares e CD8 supressoras), relacionadas à resposta imune e à proteção contra vírus e corpo estranho. Os leucócitos têm uma sobrevida amplamente variada. Em um ser humano adulto, os glóbulos brancos apresentam uma concentração entre 6.000 a 10.000 por milímetros cúbicosde sangue. Em casos de infecções ou inflamações, esse número pode aumentar (HOFFBRAND; MOSS, 2018). As plaquetas correspondem a pequenos fragmentos anucleados, responsáveis pela coagulação sanguínea. Por exemplo, durante o processo inflamatório de uma lesão, as plaquetas são ativadas, se aderem ao local e liberam uma enzima, conhecida como tromboplastina, que, mediante a presença de íons cálcio do plasma e outras moléculas, catalisa a reação de conversão da protrombina em trombina, a qual converte o fibrinogênio (proteína do plasma) em fibrina, promovendo a recuperação de vasos sanguíneos para evitar a perda de seus componentes. A Tabela 1 apresenta de forma resumida os principais constituintes das células sanguíneas, com as suas respectivas funções (SILVA; RIBEIRO NETO, 2017). Tabela 1 – Principais constituintes das células sanguíneas e suas respectivas funções Células Função Eritrócitos Transporte de oxigênio e dióxido de carbono Plaquetas Coagulação sanguínea Leucócitos Neutrófilos Proteção contra bactérias e fungos Monócitos Proteção contra bactérias e fungos Eosinófilos Proteção contra parasitas Basófilos Reações de hipersensibilidade imediata Linfócitos Células B: síntese de imunogloblinas Células T: proteção contra vírus; funções imunes Fonte: SILVA; RIBEIRO NETO (2017). 3737 37 Para análise dos constituintes celulares é de fundamental importância a realização de exames como hemograma (glóbulos vermelhos), leucograma (leucócitos) e coagulograma (plaquetas). O uso de análises bioquímicas associadas à interpretação correta é imprescindível para o diagnóstico específico do paciente, visando sempre a sua qualidade de vida. 1.2 Hemograma O hemograma é empregado para avaliar os glóbulos vermelhos, leucócitos e plaquetas, o qual é considerado a principal ferramenta diagnóstica em hematologia, sendo constituído pelos seguintes exames: • Contagem total de hemácias. • Dosagem de hemoglobina. • Determinação do hematócrito. • Índices hematimétricos: Volume corpuscular médio, hemoglobina corpuscular média, concentração de hemoglobina corpuscular média, distribuição dos tamanhos das hemácias. • Contagem total de leucócitos. • Contagem diferencial de leucócitos. • Exame microscópico do esfregaço corado. • Contagem de plaqueta (opcional). O hemograma é realizado em quatro etapas, a qual se inicia pela coleta e processamento da amostra de sangue periférico. Em seguida, é realizada a contagem das células, incluindo determinações dos índices da série vermelha. Depois é realizado o leucograma diferencial e por último a microscopia do esfregaço de sangue periférico para avaliação de potenciais anormalidades morfológicas (DALANHOL et al., 2010). 3838 Para a realização do hemograma, utiliza-se como amostra o sangue total, empregado o EDTA (etilendiaminotetra-acetato) como anticoagulante. O jejum não é obrigatório, mas se recomenda pelo menos 4 horas de jejum para eliminar os interferentes de turvação do plasma após as refeições. A confiabilidade dos resultados depende de alguns fatores, principalmente a qualidade da amostra a ser analisada (WILLIAMSON; SNYDER, 2018). 1.2.1 Série vermelha Os principais testes empregados para avaliar os parâmetros da série vermelha correspondem aos métodos de contagem de eritrócitos (hemácias), valor do hematócrito, quantidade de hemoglobina, volume corpuscular Médio (VCM), hemoglobina corpuscular média (HCM) e concentração de hemoglobina corpuscular média (CHCM). Para análise do número total de eritrócitos por ml de sangue, realiza-se a hematimetria, cujos valores de referência variam de acordo com a idade e o sexo (Tabela 2). Tabela 2 – Valores de referência do hemograma para avaliação dos eritrócitos Paciente Contagem total de Hemácias (milhões de células/mm3) Dosagem de Hemoglobina (g/dl) Determinação do Hematócrito (%) Homem 4,5 a 6 13,5 a 18 40 a 54 Mulher 4 a 5,5 12 a 16 37 a 47 Recém-nascido 4 a 6 13,5 a 19,5 44 a 60 Índices Hematimétricos VCM (volume corpuscular médio) 80 a 100 fl HCM (hemoglobina corpuscular media) 27 a 33 pg CHCM (concentração de hemoglobina corpuscular média) 32 a 35% RDW (distribuição do tamanho das hemácias) 14,5 a 11,5% Fonte: Calixto-Lima e Reis (2012). 3939 39 De modo geral, elevada concentração de hemácias, condição conhecida como policitemia, pode estar associada a casos de diarreias, desidratação, queimaduras, policitemia vera, cardiopatia crônica, intoxicações com álcool etílico ou fármacos, vômitos e acidose metabólica. Em contrapartida, valores abaixo da média também podem ser observados em casos de anemias, leucemias, após hemorragias intensas e em infecções graves. A hemoglobina (Hb) corresponde à principal proteína presente nas hemácias, possuem seus valores aumentados ou diminuídos, praticamente em todas as condições que determinam o aumento e diminuição das hemácias, respectivamente. Além disso, fatores como gravidez, indivíduos fumantes, desidratação, raça, mudança da posição em decúbito para a posição ereta na pré-coleta, dentre outros fatores, podem alterar os níveis de Hb aferidos no hemograma (COSTA, 2015). No hemograma, também se encontram valores do hematócrito, o qual corresponde à porcentagem de massa de hemácias em relação ao volume original de sangue. Valores aumentados no índice do hematócrito podem estar associados a situações de hemoconcentração, como nas policitemias, desidratações, queimaduras, diarreias e vômitos intensos. Redução nos valores dos hematócritos ocorre em situações de anemias, leucemias e infecções. Os índices hematimétricos correspondem ao VCM, HCM e CHCM (Tabela 1). O volume corpuscular médio (VCM) avalia o tamanho médio das hemácias e classifica as anemias em macrocíticas (> 100 fl), microcíticas (< 80 fl) ou normocíticas (80-100 fl). Pode ser calculado dividindo o valor do hematócrito pelo valor da hematimetria e multiplicando-se por 10 (Equação 1). (CALIXTO-LIMA; REIS 2012). 4040 Equação 1 – Cálculo do volume corpuscular médio (VCM) HT = Hematócrito HM = Hematimetria Fonte: Calixto-Lima e Reis (2012). As causas mais comuns de valores de VCM reduzido (menor que 80 fl) são devido à deficiência crônica de ferro, anemias crônicas, alfa e betatalassemia. Enquanto valores maiores que 100 fl associam- se à deficiência de folato ou de vitamina B12, hepatopatia crônica, quimioterapia citotóxica, reticulocitose e alcoolismo crônico. A hemoglobina corpuscular média (HCM) indica a quantidade (peso) de hemoglobina em média no eritrócito. Pode ser calculado dividindo o valor da hemoglobina pela hematimetria (Equação 2). O índice de HCM varia entre 27 a 33 pg, sendo que valores menores que 27 pg indicam a presença de hipocromia (baixa taxa de hemoglobina nos eritrócitos) e relacionam-se com as anemias não hemolíticas, mesmo com valores de ferro normais. Valores maiores que 33 pg são comuns em anemias hemolíticas ou carências após o consumo de ferro (MARTY; MARTY, 2015). Equação 2 – Cálculo hemoglobina corpuscular média (HCM) Hb = Hemoglobina HM = Hematimetria Fonte: Calixto-Lima e Reis (2012). A concentração de hemoglobina corpuscular média (CHCM) avalia a porcentagem de hemoglobina em 100 ml de hemácias e pode ser calculada dividindo-se o valor da hemoglobina pelo hematócrito e 4141 41 multiplicando-se por 100. Valores de CHCM menores que 32% são indicativos de hipocromia, ou seja, a taxa de hemoglobina nos glóbulos vermelhos é menor do que a taxa normal, são geralmente vinculados por deficiência de ferro. Valores de CHCM maiores que 35%, estão relacionados à presença de esferócitos (eritrócitos com alterações na membrana e mais frágeis) nas amostras, o que caracteriza situações hemólise intravascular, lipemia grave, esferocitose (eritrócitos redondos que carecem da palidez central) e tabagismo (HOFFBRAND; MOSS, 2018). Equação 3 – Cálculo da concentração de hemoglobina corpuscular média (CHCM) Hb = hemoglobina HT = hematócrito Fonte: Calixto-Limae Reis (2012). O método de distribuição do tamanho das hemácias (RDW – distribuição do diâmetro dos eritrócitos) avalia o índice de anisocitose, ou seja, a heterogeneidade das hemácias em relação ao seu diâmetro. Valores de RDW maiores do que 14,5% indicam maior dispersão do tamanho das hemácias, sendo que valores menores que 11,5% não apresentam significado clínico. A avaliação qualitativa do hemograma tem o objetivo de analisar a morfologia do esfregaço de sangue periférico. A seguir, algumas das alterações morfológicas importantes das hemácias: • Esferócitos – Hemácias esféricas com ausência de palidez central; estão associadas com a perda da integridade do citoesqueleto. Encontrados em esferocitose hereditária, anemia hemolítica autoimune, entre outros. • Esquizócitos ou fragmentação eritrocitária – Hemácias fragmentadas em uma série de formas e tamanhos. Estão associados às anemias hemolíticas microangiopáticas, incluindo 4242 púrpura trombocitopênica trombótica (PTT), síndrome hemolítico- urêmica (SHU), coagulação intravascular disseminada (CIVD) e causas mecânicas, como em próteses valvares. • Corpúsculo de Howell-Jolly – São hemácias com fragmentos na cromatina e no núcleo, uma ou poucas inclusões nas hemácias. Ocorre após esplenectomia ou em doenças com redução funcional do baço. • Células em lágrima ou gota (dacriócitos) – Indicam mecanismo de estresse (deformação) da hemácia na medula óssea ou em sua passagem pelo baço. Aparecem em talassemias e em várias outras condições, como na invasão medular por neoplasias e infecções e na mielofibrose. • Corpúsculos de Pappenheimer – Várias inclusões nas hemácias compostas de agregados de ribossomos, ferritina e mitocôndria. Achados nas anemias congênitas, como as hemoglobinopatias, ou nas anemias adquiridas, como as megaloblásticas. • Acantócitos – Acantócitos são hemáceas (eritrócitos) espiculadas irregulares, encontradas em pacientes contendo uma deficiência congênita de beta-lipo-proteínas. Estes pacientes também apresentam graves perturbações neurológicas. Células semelhantes podem ser observadas em pacientes com grave disfunção hepato-celular. • Rouleaux – Presença de hemácias empilhadas devido à sua aglutinação. É um fenômeno decorrente da concentração elevada de fibrinogênio ou de globulinas, visto especialmente nas gamopatias monoclonais (MARTY; MARTY, 2015). Outro parâmetro para as células vermelhas correspondem aos reticulócitos, que são designados de hemácias jovens e policromatofílicas devido ao seu RNA residual. A dosagem dos reticulócitos avalia a produção medular das hemácias, sendo de grande importância para diferenciar as anemias hemolíticas das não hemolíticas 4343 43 e também para verificar a eficácia do tratamento. As contagens são expressas em porcentagens (número de reticulócitos em 100 hemácias) ou em números absolutos por milímetros cúbicos. O valor normal dos reticulócitos se encontra na faixa de 0,5 a 1,5%. Altas contagens ocorrem quando a medula óssea está com a produção de hemácias aumentada, como, por exemplo, quando existe hemólise, perda aguda de sangue ou ainda na resposta medular ao tratamento de anemias (MARTY; MARTY, 2015). Todos os parâmetros da série vermelha do hemograma já descritos anteriormente, se analisados de maneira adequada, permitem o diagnóstico de várias doenças que levam à alteração da quantidade de hemoglobinas, hematócritos ou eritrócitos, principalmente a anemia. As anemias correspondem a um conjunto de distúrbios hematológicos com redução do número de glóbulos vermelhos do sangue, quantidade de hemoglobina ou o número do volume de glóbulos vermelhos compactados (hematócrito). As anemias podem estar associadas a vários fatores e são classificadas de acordo com critérios morfológicos (normocítica/normocrômica; microcítica/hipocrômica; macrocítica/ normocrômica). As principais consequências do quadro anêmico incluem hipoxia e redução da capacidade de transporte de oxigênio (XAVIER; DORA; BARROS, 2016). O quadro clínico de anemia se caracteriza quando a concentração de hemoglobina (Hb) no sangue for inferior a 13 g/dl, em homens, e inferior a 12 g/dl, em mulheres. Os sistemas de classificação das anemias enfatizam tanto o tamanho da hemácia quanto o mecanismo que reduz o número de células vermelhas (CALIXTO-LIMA; REIS 2012). A investigação laboratorial inicial consiste na realização dos seguintes exames: • Hematócrito, hemoglobina e contagem de eritrócitos para avaliar o grau de anemia. 4444 • Índices hematimétricos (VCM, HCM e CHCM) para determinar se os eritrócitos são, em média, normocíticos, macrocíticos, ou microcíticos e hipocrômicos. • Contagem de reticulócitos para estimar se a resposta medular sugere incapacidade da produção ou hemólise ou perda sanguínea recente. • Exame microscópico da distensão sanguínea (lâmina de sangue periférico) para avaliar o aspecto dos eritrócitos e as alterações concomitantes dos leucócitos e das plaquetas. As anemias podem ser classificadas quanto à proliferação (pelo índice de reticulócitos) e quanto à morfologia (pela ectoscopia da hemácia ou valores de VCM e HCM) (Figura 3). Figura 4 – Classificação das anemias de acordo com o VCM Fonte: elaborada pela autora. 4545 45 Os principais sintomas associados aos diferentes tipos de anemia dependem da idade, da capacidade física, do grau de anemia e do tempo de evolução. Os sintomas usuais apresentados pelos pacientes compreendem astenia, cansaço, fraqueza, falta de ar e palpitações. A anemia por deficiência nutricional de ferro é mais comum, seguida pela anemia megaloblástica, que se caracteriza pela deficiência de vitamina B12, essas patologias serão tratadas de forma detalha no capítulo 4 (XAVIER; DORA; BARROS, 2016). 1.2.2 Série branca O leucograma corresponde a um exame de contagem total de leucócitos, os quais exercem papel importante no processo de defesa dos organismos. Os leucócitos compreendem as únicas células nucleadas no sangue dos mamíferos, cujos valores de referência podem variar de acordo com a idade (Tabela 3). Tabela 3 – Valores de referência para leucometria global Paciente Contagem total de leucócitos (células/mm3) Adultos 4.000 a 11.0000 Recém-nascidos 10.000 a 18.000 Fonte: Calixto-Lima e Reis (2012). Denomina-se leucocitose quando o quadro clínico apresenta valores acima dos de referência, a qual pode estar associada ao aumento de um, dois e até três tipos de células, sendo as mais importantes: os neutrófilos, eosinófilos e linfócitos. A leucocitose pode ser decorrente de estresse orgânico com liberação de cortisol, decorrentes de infecções agudas causadas por bactérias, pós-operatórios, processos inflamatórios ou neoplásicos, uso de corticosteroides, septicemia, leucemia, etc. Em contrapartida, a redução dos leucócitos é denominada leucopenia e pode estar associada a um padrão transitório como a dengue, rubéola, caxumba e a leishmaniose visceral, uso de medicamentos como anti- 4646 inflamatórios e quimioterápicos; ou pode assumir padrão definitivo dado por intoxicação por solventes orgânicos ou aplasia medular. Na maioria das vezes, a leucopenia é devida à baixa de neutrófilos. Os leucócitos também podem ser analisados empregando o método de leucometria diferencial de leucócitos, o qual é baseado nos principais leucócitos encontrados no sangue, descritos na Tabela 4 (CALIXTO-LIMA; REIS, 2012). Tabela 4 – Valores de referências para leucometria diferencial Principais leucócitos encontrados no sangue Valor de referência Neutrófilos 55% a 65%(3.000 a 5.000 células/mm3) Eosinófilos 2% a 6% (100 a 300 células/mm3) Basófilos 0% a ¨1%(50 a 80 células/mm3) Monócitos 4% a ¨8% (200 a 650 células/mm3) Linfócitos 20% a 30%(1.500 a 2.500 células/mm3) Fonte: Calixto-Lima e Reis (2012). O aumento dos valores de referência na leucometria diferencial pode ser decorrente de diferentes causas, sendo denominados de neutrofilia, eosinofilia basofilia, monocitosee linfocitose. Neutrofilia relaciona-se com o aumento no número de neutrófilos, geralmente está associada a infecções bacterianas, leucemias e em processos inflamatórios. Eosinofilia indica o aumento dos níveis de eosinófilos e pode ser observado em parasitoses e processos imunoalérgicos. Basofilia compreende o aumento do número de bastonetes, a qual geralmente aparece na leucemia mielode crônica. A monocitose é decorrente do aumento do número de monócitos, decorrentes principalmente de sepse e tuberculose. Os casos de linfocitose são decorrentes do aumento dos linfócitos e característicos de infecções virais aguas e infecções crônicas (tuberculose e sífilis, leucemia linfocítica crônica e nos processos ganglionares) (COSTA, 2015). 4747 47 1.3 Coagulograma O coagulograma compreende uma série de exames que avaliam tanto a hemostasia primária quanto as proteínas da cascata de coagulação, sendo constituído pelos seguintes exames: • Contagem de plaquetas. • Tempo de sangramento. • Tempo de coagulação. • Tempo de protombina. • Tempo de tromboplastina parcial. Para a realização dos exames do coagulograma, o jejum não é obrigatório, mas recomenda-se pelo menos 4 horas de jejum para eliminar os possíveis interferentes da turvação do plasma após as refeições. Os exames que fazem parte do coagulograma podem auxiliar o profissional de nutrição clínica no acompanhamento de pacientes com hipovitaminose K, uma vez que a produção hepática dos fatores de coagulação II, VII, IX e X é altamente dependente de vitamina K, o exame de tempo de protrombina adquire especial importância nesses casos. O exame de contagem total de plaquetas, também possui aplicação na área da nutrição (PINTO, 2017). Além da importante função no processo de coagulação e fenômenos trombóticos, as plaquetas também desempenham um papel na inflamação. Uma média dos valores de referência da são de 150.000 a 400.000 plaquetas/mm3. O aumento do número de plaquetas pode ser decorrente de doenças mieloproliferativas, febre reumática, artrite reumatoide, colite ulcerativa, carcinomas, doença de Hodgkin e outros linfomas. As plaquetopenias, diminuição do número de plaquetas, podem ser hereditárias ou adquiridas, sendo estas mais comuns e geralmente causadas por anemias aplástica e megaloblástica, doenças autoimunes, malária, dengue, entre outras (XAVIER; DORA; BARROS, 2016). 4848 2. Conclusão Os exames hematológicos podem auxiliar no tratamento e acompanhamento, das anemias carências, sobretudo das anemias ferropriva e megaloblástica, sendo de grande valia para os profissionais de saúde. Em caso de suspeita de caso anêmico, deve-se solicitar exames complementares para o diagnóstico correto do paciente. TEORIA EM PRÁTICA Mulher de 50 anos de idade chega ao departamento de nutrição clínica eupneica, acianótica, anictérica e afebril. Apresenta funções excretoras normais e relata boa aceitação da alimentação. A paciente relatou que foi encaminhada ao nutricionista pela UBS – Unidade Básica de Saúde do seu bairro – e trouxe consigo laudo de alguns exames laboratoriais, os quais encontram-se na Tabela 1: Tabela 1 – Hemograma e coagulograma da paciente Exames Valores obtidos Valores de referência Hemácias 3,43 milhões/mm3 4 a 5,5 milhões/mm3 Hemoglobina 9,05 g/dl 12 a 16 g/dl Hematócrito 27,7% 40 a 52% Índices Hematimétricos VCM 70 fl 82 a 92 fl HCM 28 pg 27 a 33 pg CHCM 25% 32 a 35% Coagulograma Plaquetas 100.000 150.000 a 400.000 plaquetas/mm3 De acordo com os resultados apresentados, qual o possível diagnóstico da paciente? Justifique sua resposta. 4949 49 VERIFICAÇÃO DE LEITURA 1. O sangue periférico é constituído por três tipos de células, denominadas de glóbulos vermelhos, eritrócitos ou hemácias; glóbulos brancos ou leucócitos; plaquetas ou trombócitos. A respeito dos constituintes do sangue, assinale a alternativa correta: a. O maior constituinte celular do sangue são os glóbulos vermelhos (hemácias ou eritrócitos), os quais possuem a hemoglobina no seu interior, sendo responsável pelo transporte de gases do organismo. b. A hemoglobina é uma proteína presente no interior dos glóbulos brancos, formada por quatro cadeias polipeptídicas, as quais são responsáveis pela interação com o oxigênio. c. Os leucócitos ou glóbulos brancos são células sanguíneas esféricas, sem núcleo, sem hemoglobina, as quais apresentam formas variadas, especializadas na defesa do organismo frente á ação de agentes estranhos. d. As plaquetas são células grandes nucleadas, responsáveis pela coagulação sanguínea, que são ativadas durante o processo inflamatório de uma lesão. e. Todos os constituintes do sangue estão envolvidos no transporte oxigênio, isso é possível devido à presença de hemoglobina, nos eritrócitos, leucócitos e plaquetas. 5050 2. O hemograma é empregado para avaliar os glóbulos vermelhos, leucócitos e plaquetas, o qual é considerado a principal ferramenta diagnóstica em hematologia. Assinale alternativa que corresponde aos exames obrigatórios do hemograma: a. Contagem total de hemácias, dosagem de hemoglobina, determinação do hematócrito, Índices hematimétricos, contagem total de leucócitos, contagem diferencial de leucócitos, coagulograma. b. Contagem total de hemácias, dosagem de hemoglobina, determinação do hematócrito, Índices hematimétricos, contagem total de leucócitos, contagem diferencial de leucócitos, exame microscópico do esfregaço corado. c. Contagem total de VDL e HDL, dosagem de hemoglobina, determinação do hematócrito, Índices hematimétricos, contagem total de leucócitos, contagem diferencial de leucócitos, exame microscópico do esfregaço corado. d. Ureia, creatinina, dosagem de hemoglobina, determinação do hematócrito, Índices hematimétricos, contagem total de leucócitos, contagem diferencial de leucócitos e exame microscópico do esfregaço corado. e. Contagem total de hemácias, dosagem de proteína, determinação do hematócrito, índices do perfil lipídco, contagem total de leucócitos, contagem diferencial de leucócitos e exame microscópico do esfregaço corado. 5151 51 3. O volume corpuscular médio (VCM) avalia o tamanho médio das hemácias e classifica as anemias em macrocíticas, microcíticas ou normocíticas. Assinale a alternativa que corresponde às denominações corretas: a. Hemácias macrocíticas possuem volume maior que 80 fl, microcíticas menor que 100 fl e normocíticas entre 80 e100 fl. b. Hemácias macrocíticas possuem volume maior que 300 fl, microcíticas menor que 100 fl e normocíticas entre 100 e 300 fl. c. Hemácias macrocíticas possuem volume maior que 100 fl, microcíticas menor que 80 fl e normocíticas entre 80 e100 fl. d. Hemácias macrocíticas possuem volume maior que 200 fl, microcíticas menor que 70 fl e normocíticas entre 70 e200 fl. e. Hemácias macrocíticas possuem volume maior que 500 fl, microcíticas menor que 100 fl e normocíticas entre 100 e 500 fl. Referências bibliográficas CALIXTO-LIMA, L.; REIS, N. T. Interpretação de Exames Laboratoriais Aplicados à Nutrição Clínica. Rio de Janeiro: Rubio, 2012. 489 p. COSTA, M. J. C. Interpretação de Exames Bioquímicos Para o Nutricionista. 2. ed. São Paulo: Atheneu, 2015. 272 p. DALANHOL, M. et al. Efeitos quantitativos da estocagem de sangue periférico nas determinações do hemograma automatizado. Revista Brasileira de Hematologia Hemoteria. 32,1 São Paulo, 2010. 5252 HOFFBRAND, A. V.; Moss, P. A. H. Fundamentos em hematologia de Hoffbrand. 7. ed. Porto Alegre: Artmed, 2018. 384 p. MARTY, E; MARTY, R. M. Hematologia laboratorial. São Paulo: Érica, 2015. 120 p. PINTO, W. J. Bioquímica clínica. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. 628 p. SILVA, A.M.; RIBEIRO NETO, L.M. Hematologia: Métodos e Interpretação. São Paulo: Roca, 2017. 450 p. SILVA, P. H et al. Hematologia Laboratorial: Teoria e Procedimentos. Porto Alegre: Artmed, 2016. 448 p. XAVIER, R.M.; DORA, J.M.; BARROS, E.B. Laboratório na Prática Clínica: Consulta Rápida.3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2016. 1056 p. WILLIAMSON, M. A.; SNYDER, L.M. Wallach: Interpretação de Exames Laboratoriais.10. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2018. 1203 p. Gabarito Questão 1 – Resposta A A única afirmativa correta é: o maior constituinte celular do sangue são os glóbulos vermelhos, os quais possuem a hemoglobina no seu interior, sendo responsável pelo transporte de gases do organismo. Feedback de reforço: Retome a leitura e tente novamente. Questão 2 – Resposta B A única afirmativa correta é: os exames que compreendem o hemograma são contagem total de hemácias, dosagem de hemoglobina, determinação do hematócrito, Índices hematimétricos, contagem total de leucócitos, contagem diferencial de leucócitos, exame microscópico do esfregaço corado. Feedback de reforço: Retome a leitura e tente novamente. Questão 3 – Resposta C A única afirmativa correta é: hemácias macrocíticas possuem volume maior que 100 fl, microcíticas menor que 80 fl e normocíticas entre 80 e100 fl.l. Feedback de reforço: Retome a leitura e tente novamente. 5353 53 Exames clínicos para diabetes, dislipidemias, aminoacidopatias e risco de doenças crônicas Autora: Flávia Debiag Objetivos • Abordar sobre as principais características do diabetes mellitus, bem como os exames bioquímicos empregados para o seu diagnóstico e classificação. • Discorrer sobre as dislipidemias, bem como as suas características e exames bioquímicos. • Discutir sobre as doenças crônicas não transmissíveis e seus principais fatores de riscos associados. 5454 1. Introdução Este capítulo descreve os exames laboratoriais mais comumente empregados para diagnóstico de diabetes, dislipidemias, aminoacidopatias e risco de doenças crônicas. De acordo com a Sociedade Brasileira de Diabetes (2017) pacientes portadores de diabetes mellitus tipo 2 (DM2) apresentam maior risco para eventos cardiovasculares, entre os quais a dislipidemia provavelmente exerça o papel mais importante. Nesses pacientes, a hiperglicemia ocasiona a apoptose das células β pancreáticas e também contribui para o acúmulo do LDL (lipoproteína de baixa densidade) nas veias e arteriais. As aminoacidopatias são doenças raras, ocasionadas por uma anomalia genética do metabolismo de determinados aminoácidos, são herdadas de forma autossômicas, sendo as principais fenilcetonúria e doença da urina de xarope de bordo. PARA SABER MAIS Os principais métodos empregados para diagnóstico da resistência à insulina são: TOTG (teste oral de tolerância à glicose) HOMA IR (modelo matemático de avaliação da homeostase para resistência à insulina); QUICKI: índice quantitativo de verificação da sensibilidade à insulina; circunferência da cintura; relação cintura-altura; circunferência do pescoço; diâmetro abdominal sagital; fenótipo cintura hipertrigliceridêmica e índice TyG. Para o profissional da área da saúde, os exames laboratoriais constituem uma ferramenta diagnóstica importante e de grande valor clínico. Os exames laboratoriais bioquímicos possuem a função de colaborar ou contradizer uma hipótese diagnóstica previamente elaborada pelo clínico. Além disso, também proporciona subsídios importantes no acompanhamento e na evolução do tratamento. 5555 55 ASSIMILE O diagnóstico laboratorial do diabetes mellitus (DM) deve ser realizado por meio de glicemia de jejum, glicemia 2 horas após teste oral de tolerância à glicose (TOTG) e hemoglobina glicada (HbA1c). O perfil lipídico é definido pelas determinações do colesterol total (CT), triglicerídeos (TG), pelas frações de HDL-c (colesterol contido nas HDL), LDL-c (colesterol contido nas LDL) e não HDL-c. 2. Diagnóstico do Diabetes Mellitus O diabetes mellitus (DM) pode ser descrito como um conjunto de doenças metabólicas, as quais apresentam hiperglicemia resultante de defeitos na secreção da insulina e/ou sua ação. Os principais sintomas são poliúria, polidipsia, perda de peso, polifagia e visão nebulosa De acordo com a sua etiologia o dibetes mellitus pode ser classificado em dibetes mellitus (DM1), dibetes mellitus (DM2), dibetes mellitus gestacional (DMG). (SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES, 2017). Quadro 1 – Classificação etiológica do DM DM1 - Tipo 1A: defciência de insulina por destruição autoimune das células β comprovada por exames laboratoriais. - Tipo 1B: defciência de insulina de natureza idiopática. DM2 Perda progressiva de secreção insulínica combinada com resistência à insulina. DMG Hiperglicemia de graus variados diagnosticada durante a gestação, na ausência de critérios de DM prévios. Outros - Monogênicos (MODY). - Diabetes neonatal. - Secundário a endocrinopatias. - Secundário a doenças do pâncreas exócrino. - Secundário a infecções. - Secundário a medicamentos. DM: diabetes mellitus; DM1 diabetes mellitus tipo 1; DM2 diabetes mellitus tipo 2; DMG diabetes mellitus gestacional MODY: diabetes de início da maturidade do jovem. Fonte: Sociedade Brasileira de Diabetes (2017). 5656 Alguns exames bioquímicos são empregados para a classificação de tolerância à glicose. Na glicemia em jejum emprega-se o sangue periférico coletado após jejum calórico de no mínimo 8 horas. No teste de tolerância à glicose (TOTG), primeiramente coleta-se uma amostra de sangue em jejum para determinação da glicemia, em seguida ingere-se 75 g de glicose dissolvida em água, coleta-se outra, então, após 2 horas da sobrecarga oral. Importante reforçar que a dieta deve ser a habitual e sem restrição de carboidratos pelo menos nos 3 dias anteriores à realização do teste. Permite avaliação da glicemia após sobrecarga, que pode ser a única alteração detectável no início do DM, refletindo a perda de primeira fase da secreção de insulina. O teste de hemoglobina glicada corresponde a uma medição indireta da glicemia, que reflete os níveis glicêmicos dos últimos 3 a 4 meses, sofre menor variabilidade dia a dia e independe do estado de jejum. Para a confirmação do diagnóstico de DM é necessária a repetição dos exames laboratoriais alterados, quando a ausência de sintomas evidentes de hiperglicemia. Pacientes com sintomas clássicos de hiperglicemia, tais como poliúria, polidipsia, polifagia e emagrecimento, devem ser submetidos à dosagem de glicemia ao acaso e independente do jejum, não havendo necessidade de confirmação por meio de segunda dosagem, caso se verifique glicemia aleatória ≥ 200 mg/dl. Os critérios laboratoriais para diagnóstico de normoglicemia, pré-diabetes e DM, adotados pela Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD, 2017) encontram-se descritos na Tabela 1. Tabela 1 – Critérios laboratoriais para diagnóstico de normoglicemia, pré-diabetes e diabetes mellitus Glicose em jejum (mg/dl) Glicose 2 horas após sobrecarga com 75 g de glicose (mg/dl) Glicose ao acaso (mg/dl) HbA1c (%) Normoglicemia < 100 < 140 - < 5,7 Pré-diabetes ou risco aumentado para DM ≥ 100 e < 126* ≥ 140 e < 200# - ≥ 5,7 e < 6,5 5757 57 Diabetes estabelecido ≥ 126 ≥ 200 ≥ 200 com sintomas evidentes de hiperglicemia ≥ 6,5 HbA1c: hemoglobina glicada. * Categoria também conhecida como glicemia de jejum alterada. # Categoria também conhecida como intolerância oral à glicose. Fonte: Sociedade Americana de Diabetes (2019). O diabetes mellitus tipo 1 (DM1) ocorre principalmente em crianças, adolescentes e adultos jovens com até 30 anos, e representa 5% a 10% de todos os casos diagnosticados de DM. O diabetes mellitus tipo 1 se caracteriza pela destruição das células β pancreáticas, causando geralmente deficiência absoluta de insulina, que pode ser detectado por autoanticorpos circulantes como antidescarboxilase do ácido glutâmico (anti-GAD), anti-ilhotas e anti-insulina. Existem duas formas distintas de DM1: • Imunomediada: ocasionada por uma agressão ambiental, podendo ser infecciosa ou tóxica, as células do pâncreas de indivíduos predispostos geneticamente. Assim, o sistema imunológico destrói tanto o agente estranho, quanto as célulasendócrinas pancreáticas. • Idiopática: diz respeito às formas da doença sem etiologia conhecida, ocorre em minoria dos indivíduos com DM1. Na tabela 2 encontram-se os estágios da doença do diabetes tipo 1, baseados nos níveis glicêmicos e na sintomatologia. Em todos os estágios observa-se a presença de autoanticorpos circulantes, os quais são provenientes da destruição das células β pancreáticas e precedem a hiperglicemia por meses a anos, durante um estágio pré-diabético. É importante ressaltar que, quanto maior o número de autoanticorpos presentes e mais elevados seus títulos, maior a chance de o indivíduo desenvolver a doença. Os marcadores conhecidos de autoimunidade são: anticorpo anti-ilhota (ICA), autoanticorpo anti-insulina (IAA), anticorpo antidescarboxilase do ácido glutâmico (anti-GAD65), anticorpo antitirosina- fosfatase IA-2 e IA-2B e anticorpo antitransportador de zinco (Znt8). 5858 Tabela 2 – Níveis glicêmicos para o estadiamento do diabetes mellitus tipo 1 Estágios 1 2 3 Autoimunidade Anticorpos positivos Anticorpos positivos Anticorpos positivos Níveis glicêmicos para diagnóstico Normoglicemia Disglicemia Hiperglicemia Glicemia de jejum, TOTG e HbA1c normais Níveis glicêmicos alterados, compatíveis com pré-diabetes Diagnóstico de DM Sintomas Ausentes Ausentes Presentes HbA1c: hemoglobina glicada; TOTG: teste oral de tolerância à glicose; DM: diabetes mellitus. * Em pacientes sintomáticos, deve-se preferir diagnóstico pelas dosagens diretas de glicemia em vez da determinação de HbA1c. Fonte: Sociedade Americana de Diabetes (2019). O primeiro estágio do DM1 se caracteriza pela presença de autoanticorpos, entretanto, não há alterações nos níveis glicêmicos. Já no segundo estágio o paciente DM1 apresenta autoanticorpos e níveis glicêmicos alterados, compatíveis com pré-diabetes, entretanto. Somente no terceiro estágio, com a completa destruição das células β pancreáticas, o quadro de hiperglicemia, faz com que o paciente se torne insulino dependente (Tabela 2). (WILLIAMSON; SNYDER, 2018). O diabetes mellitus tipo 2 (DM2) corresponde a aproximadamente 90% de todos os casos de DM, o qual acomete principalmente obesos, acima de 40 anos de idade. De acordo com a Tabela 2, o DM2 é estabelecido quando o paciente apresenta exames laboratoriais com níveis de glicose em jejum maior que 126 mg/dl, glicose 2 horas após sobrecarga com 75 g maior que 200 mg/dl, glicose ao acaso maior que 200 mg/dl associado a sintomas evidentes de hiperglicemia e hemoglobina glicada maior que 6,5%. Os principais fatores de risco para DM2 correspondem à história familiar da doença, avançar da idade, obesidade, sedentarismo, diagnóstico prévio de pré-diabetes ou diabetes mellitus 5959 59 gestacional (DMG) e presença de componentes da síndrome metabólica, tais como hipertensão arterial e dislipidemia. Associação Americana de Diabetes (2017) estabeleceu a indicação para rastreamento de DM2 em indivíduos assintomáticos, conforme descrito no Quadro 2. Quadro 2 – Indicação para rastreamento de DM2 em indivíduos assintomáticos 1. Indivíduos adultos considerados com sobrepeso e obesos (IMC > 25 kg/m2) e que apresentam um ou mais fatores de riscos: • História familiar de DM (parente de primeiro grau). • Raça/etnia de alto risco para DM (negros, hispânicos ou índios Pima). • Mulheres com diagnóstico prévio de DMG. • História de doença cardiovascular. • Hipertensão arterial. • HDL-c < 35 mg/dl e/ou triglicérides > 250 mg/dl. • Mulheres com síndrome de ovários policísticos. • Sedentarismo. • Acantose nigricans. 2. Pacientes com pré-diabetes com HbA1c > 5,7% devem ser avaliados anualmente. 3. Mulheres que foram diagnosticadas com DMG devem fazer teste DM pelo menos a cada 3 anos. 4. Para todos os outros pacientes, o teste deve começar aos 45 anos de idade. 5. Se os resultados forem normais, os testes devem ser repetidos em intervalos de pelo menos 3 anos, considerando os testes mais frequentes, dependendo dos resultados iniciais e do status de risco. DM: diabetes mellitus; DMG: diabetes mellitus gestacional; HDL-c: colesterol da lipoproteína de alta densidade. Fonte: Sociedade Americana de Diabetes (2019) 6060 Em algumas circunstâncias, a diferenciação entre o diabetes tipo 1 e o tipo 2 pode não ser simples. Em casos de dúvidas, podem ser solicitados níveis de anticorpos anti-GAD e avaliação da reserva de insulina pancreática por meio da medida de peptídeo-C plasmático. Anticorpos positivos e peptídeo-C abaixo de 0,5 ng/ml sugerem o diagnóstico de diabetes mellitus tipo 1, enquanto que anticorpos negativos e peptídeo-C elevado sugerem DM2. (CALIXTO-LIMA; REIS, 2012). O peptídeo-C (PC) é empregado quando o quadro cínico do paciente não permite essa classificação do tipo de diabetes. A dosagem de PC pode ser basal, randômica (em qualquer horário do dia) ou sob estímulo, com glucagon, refeição mista ou Sustacal® (suplemento nutricional comercializado contendo uma quantidade padronizada de nutrientes). A concentração de peptídeo C deve estar entre 0,5 a 3 ng/ml, sendo que no teste após estímulo com glucagon o valor de referência é de 1,5 a 9 ng/ml. A avaliação da secreção de insulina para este fim parte do princípio de que pacientes com DM tipo 1 apresentam insulinopenia absoluta pronunciada, com perda da função secretória, ou seja, portadores de DM1 apresentam menor quantidade de peptídeo C a níveis plasmáticos. Em contrapartida, pacientes com DM2 apresentam secreção de insulina normal ou elevada, caso conhecido como insulinoma, porém insuficiente para suprir a demanda exacerbada pela resistência insulínica (CALIXTO-LIMA; REIS, 2012). Para crianças e adolescentes, de acordo com a Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes 2017-2018 (SDB, 2017), os exames de glicemia em jejum também são preferencialmente empregados para a triagem a cada 2 anos, com início após os 10 anos de idade. Lembrando que, os níveis de glicemia de jejum preconizados, com base nos critérios atualmente adotados para o diagnóstico do DM2, são os mesmos para adultos e crianças. É importante ressaltar, entretanto, que se pode encontrar alteração da glicemia de jejum em crianças com peso saudável em até 5% dos casos (SDB, 2017). 6161 61 Para gestantes, o valor de corte da glicemia em jejum difere do considerado normal para não gestantes, sendo menor que 92 mg/dl em qualquer fase da gestação. Na primeira consulta de pré-natal, recomenda-se avaliar as mulheres quanto à presença de DM prévio, não diagnosticado e francamente manifesto. Dessa forma, na primeira consulta pré-natal deve ser solicitada glicemia de jejum. Caso o valor encontrado seja maior que 126 mg/dl, é feito o diagnóstico de diabetes mellitus pré-gestacional. Caso glicemia plasmática em jejum esteja entre 92 mg/dl e 126 mg/dl, é feito o diagnóstico de DMG. Além disso, a SDB (2017) que o diagnóstico de DM será feito se um dos testes a seguir apresentar-se alterado: • Glicemia em jejum ≥ 126 mg/dl. • Glicemia 2 horas após sobrecarga com 75 g de glicose ≥ 200 mg/dl. • HbA1c ≥ 6,5%. • Glicemia aleatória ≥ 200 mg/dl na presença de sintomas. • Confirmação será feita pela repetição dos exames alterados, na ausência de sintomas. • Valores entre 92 e 126 mg/dl são diagnósticos de DMG, em qualquer fase da gestação. Toda mulher com glicemia de jejum < 92 mg/dl inicial deve ser submetida à teste de sobrecarga oral com 75 g de glicose anidra entre 24 e 28ª semanas de gestação, sendo o diagnóstico de diabetes gestacional estabelecido quando no mínimo um dos valores a seguir encontrar-se alterado: • Glicemia em jejum ≥ 92 mg/dl. • Glicemia 1 hora após sobrecarga ≥ 180 mg/dl. • Glicemia 2 horas após sobrecarga ≥ 153 mg/dl. (ASSOCIAÇÃO AMERICANA DE DIABETES, 2019). 6262 Além dos três tipos de DM, alguns indivíduos têm níveis glicêmicos que não se enquadram nos critérios diagnósticos para diabetes, porém, estão claramente alterados para seremconsiderados níveis normais, sendo denominado de “Pré-diabetes”, o que indica um risco aumentado de desenvolvimento de diabetes no futuro. O uso da HbA1c para diagnóstico de pré-diabetes é baseado no aumento de risco em desenvolver diabetes quando a hemoglobina glicada está entre 5,5 a 6% (incidência em 5 anos, de 9 a 25%) ou entre 6 e 6,5% (incidência em 5 anos, de 20 a 50%). As categorias de risco para o desenvolvimento de diabetes (pré-diabetes) são: glicemia de jejum entre 100 e 125 mg/dl; glicemia pós-sobrecarga oral entre 100 e 200 mg/dl; e HbA1c entre 5,7 e 6,5%. Para todos os três critérios, o risco é contínuo, estendendo-se abaixo do limite inferior da referência e tornando-se desproporcionalmente maior nas extremidades superiores do intervalo (WIDTH; REINHARD, 2018). 3. Aspectos laboratoriais das dislipidemias O perfil lipídico é definido por meio dos exames bioquímicos que compreendem o colesterol total (CT), triglicerídeos (TG), pelas frações de HDL-c (colesterol contido nas HDL) e LDL-c (colesterol contido nas LDL), sendo esse último é calculado pela equação de Friedewald, quando TG < 400 mg/dl. A utilização do não HDL-c também serve como parâmetro para avaliação das dislipidemias, que pode ser obtido subtraindo o valor de HDL-c do valor de CT (não HDL-c = CT - HDL-c). Este parâmetro pode ser utilizado na avaliação dos pacientes dislipidêmicos, principalmente naqueles com concentrações de triglicerídeos superiores a 400 mg/dl. De acordo com Faludi et al. (2017) os valores referenciais e de alvo terapêutico do perfil lipídico (adultos > 20 anos) devem ser apresentados de acordo com o estado metabólico que antecede a coleta da amostra, sem jejum e com jejum de 12 horas (Tabela 3). 6363 63 Tabela 3 – Valores referenciais e de alvo terapêutico* do perfl lipídico (adultos > 20 anos) Com jejum (mg/dl) Sem jejum (mg/dl) Categoria referencial Lipídeos < 190 < 190 Desejável Colesterol total (CT) > 40 H > 40 H Desejável HDL-c > 50 M > 50 M Desejável Triglicerídeos < 150 < 175‡ Desejável Categoria de risco* LDL-c < 130 < 130 Baixo < 100 < 100 Intermediário < 70 < 70 Alto < 50 < 50 Muito alto Não HDL-c < 160 < 160 Baixo < 130 < 130 Intermediário < 100 < 100 Alto < 80 < 80 Muito alto H: Homem; M: mulher *Conforme avaliação de risco cardiovascular estimado pelo médico solicitante. †colesterol total > 310 mg/dL há probabilidade de hipercolesterolemia familiar. ‡Quando os níveis de triglicérides estiverem acima de 440 mg/dl (sem jejum) o médico solicitante faz outra prescrição para a avaliação de triglicérides com jejum de 12 horas e deve ser considerado um novo exame de triglicérides pelo laboratório clínico. Fonte: FALUDI et al. (2017). A avaliação do colesterol total é recomendada nos programas de rastreamento populacional para mensurar o risco cardiovascular. Porém, para a avaliação adequada do risco cardiovascular é realizada a análise das frações não HDL-c, HDL-c e LDL-c. %). É desejável níveis de CT menores que 190 mg/dl, sendo que valores CT ≥ 310 mg/dl (para adultos) ou CT ≥ 230 mg/dl (crianças e adolescentes) pode ser indicativo de hipercolesterolemia familiar (HF), se excluídas as dislipidemias secundarias. Os portadores da HF apresentam 20 vezes mais risco de morte precoce por doenças cardiovasculares, sendo a mais comum entre as dislipidemias (FALUDI et al., 2017). 6464 O colesterol total, o HDL-c e os triglicerídeos permanecem sendo interpretados sob a ótica de valor de referência que estabelece os valores máximos desejáveis. Níveis elevados de TG se associam frequentemente a baixos níveis de HDL-c e a altos níveis de partículas de LDL-c de tamanhos pequenos e densas, porém, a elevada variabilidade biológica dos TG corresponde a principal fonte de oscilações nos seus resultados. A análise dos níveis de TG sem jejum prévio fornece informações importantes sobre lipoproteínas remanescentes associadas com risco aumentado de doença coronária (FALUDI et al., 2017). Para os TG sem jejum o valor desejável é considerado < 175 mg/dl. (FALUDI et al., 2017). Para a leitura do LDL-c e não HDL-c ocorreram algumas modificações, as quais passam a ser conforme a categoria de risco, sendo que os seus valores são alvos terapêuticos conforme avaliação de risco cardiovascular estimado pelo médico solicitante. O não HDL-c compreende a fração do colesterol nas lipoproteínas plasmáticas, exceto a HDL-c, o qual tem a finalidade de estimar a quantidade de lipoproteínas aterogênicas circulantes no plasma, especialmente em indivíduos com TG elevados. Assim, indivíduos de muito alto risco cardiovascular, ou seja, pacientes que possuem doença aterosclerótica significativa (coronária, cerebrovascular, vascular periférica) com ou sem eventos clínicos, ou obstrução ≥ 50% em qualquer território arterial, o LDL-c deve ser reduzido para < 50 mg/dl e o não HDL-c < 80 mg/dl. Já para indivíduos de alto risco cardiovascular, o quais se enquadram portadores de aterosclerose na forma subclínica documentada por metodologia diagnostica, aneurisma de aorta abdominal, presença de diabetes mellitus tipos 1 ou 2 e com LDL-c entre 70 e 189 mg/dl, o LDL-c deve ser reduzido para < 70 mg/dl e o não HDL-c < 100 mg/dl. No caso de indivíduos de risco cardiovascular intermediário, o LDL-c deve ser reduzido para < 100 mg/dl e o não HDL-c < 130 mg/dl. Em contrapartida, indivíduos de baixo risco cardiovascular, a meta de LDL-c deve ser < 130 mg/dl e o não HDL-c < 160 mg/dl (Tabela 3) (FALUDI et al., 2017). 6565 65 Outro parâmetro importante é a avaliação LDL-c de acordo com o seu tamanho, sendo que há uma considerável heterogeneidade no tamanho das partículas de LDL, cuja densidade pode variar entre 1,019 a 1,063 g/l, particularmente em pacientes com hiperlipidemia mista, quando comparados a portadores de HF (hiperlipidemia familiar) isolada. As partículas de LDL pequenas e densas coexistem com níveis elevados de TG, sendo consideradas mais aterogênicas do que LDL maiores e boiantes, que predominam em concentrações mais baixas de TG (FALUDI et al., 2017). A dosagem da ApoB e da apoA-I também é de grande valia para o diagnóstico de dislipidemia, pode ser realizada em amostra sem jejum prévio, e os métodos imunoquímicos não sofrem a influência dos níveis de TG moderadamente elevados. A dosagem da ApoB equivale a uma medida indireta de todas as partículas aterogênicas presentes na corrente sanguínea, associado à fração do não HDL-c. Concentrações de ApoB de 120 mg/dl compreende ao não HDL-c de 160 mg/dl e de ApoB de 80 mg/dl estão associados ao não HDL-c de 100 mg/dl. Em contrapartida, ApoA-I é a principal apoproteína da HDL e fornece uma boa estimativa da concentração de HDL-c. Concentrações plasmaticas de ApoA-I < 120 mg/dl para homens e < 140 mg/dl para mulheres correspondem aproximadamente às que são consideradas baixas concentrações de HDL-c. 4. Aminoacidopatias As aminoacidopatias correspondem a um grupo de erros congênitos associados com uma anomalia genética do metabolismo de determinados aminoácidos, sendo herdadas de forma autossômicas. Em geral a, aminoacidopatias caracterizam-se por apresentarem intervalos livres de sintomas, estando associadas com a alimentação. No Brasil, estima-se a prevalência isolada de algumas doenças, como da fenilcetonúria, variando entre 1:15000 e 1:25000, da doença da urina de xarope de bordo com prevalência de 1:43000 recém-nascidos vivos (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2018). 6666 A fenilcetonúria diz respeito a um erro inato, autossômico recessivo, proveniente do metabolismo que resulta da deficiência de fenilalanina hidroxilase, uma enzima que catalisa a hidroxilação da fenilalanina a tirosina. A fenilalanina é um aminoácido essencial, obtido da alimentação. Entretanto, em pacientes fenilcetonúricos, a ingestão de fenilalanina deve ser rigorosamente controlada, pois devido à ausência da enzima, a fenilalanina apresenta concentração plasmática elevada (WIDTH; REINHARD,2018). A deficiência de fenilalanina hidroxilase pode ser diagnosticada no recém-nascido por meio da detecção de hiperfenilalaninemia em sangue coletado por punção de calcanhar. Os níveis sanguíneos normais de fenilalanina são 58 ± 15 µmol/L em adultos, 60 ± 13 µmol/L em adolescentes e 62 ± 18 µmol/L (média ± desvio padrão) em crianças. No recém-nascido, o limite superior do normal é 120 µmol/L (2 mg/dl). Na forma clássica de fenilcetonúria não tratada podem ser encontrados níveis de até 20 mg/Dl de fenilalanina. O teste genético molecular (pesquisa de fenilalanina hidroxilase) é realizado basicamente para fins de aconselhamento genético, ou seja, determinação do estado de portador em pessoas de alto risco e para avaliação pré-natal (MINISTÉRIO DA SAÚDE, 2013). Outra condição hereditária classificada como aminoacidopatia, diz respeito à doença da urina em xarope de bordo, a qual é uma condição hereditária em que o organismo não consegue processar três aminoácidos: leucina, isoleucina e valina. A doença da urina em xarope de bordo pode ser causada por mutação homozigótica ou heterozigótica composta em pelo menos três genes: • BCKDHA (doença da urina em xarope de bordo do tipo 1A). • BCKDHB (doença da urina em xarope de bordo do tipo 1B). • DBT (doença da urina em xarope de bordo do tipo 2). 6767 67 Os genes citados acima codificam dois dos componentes catalíticos da desidrogenase do alfacetoácido de cadeia ramificada (BCKD), que catalisa o metabolismo dos aminoácidos de cadeia ramificada, leucina, isoleucina e valina. Desse modo, as pessoas portadoras da urina em xarope de bordo possuem um complexo proteico defeituoso que resulta no acúmulo no organismo desses aminoácidos até níveis tóxicos. Os exames mais relevantes para o diagnóstico da doença da urina em xarope de bordo são exames bioquímicos, que compreende a análise quantitativa dos aminoácidos plasmáticos, perfil de aminoácidos baseado em espectrometria de massa em tandem (MS/MS). Os programas de rastreamento em recém-nascidos que empregam a espectrometria de massa em tandem (MS/MS) detectam a doença da urina em xarope de bordo e atividade da enzima BCKAD. Além dos testes moleculares, que correspondem o sequenciamento genético e pesquisa de mutação dos três genes: BCKDHA, BCKDHB e DBT; pesquisa de deleção/duplicação dos três genes: BCKDHA, BCKDHB e DBT; pesquisa de portador (teste molecular): análise direcionada de mutação se esta for conhecida e pesquisa pré-natal (teste molecular): análise direcionada de mutação após ser identificada mutação familiar (CUPPARI, 2009). 5. Risco de doenças crônicas A incapacidade funcional e a obesidade são as principais causas do desenvolvimento de algumas doenças crônicas, tais como doença renal, osteoporose, câncer, diabetes, apneia do sono, doença hepática gordurosa não alcoólica (DHGNA), hipertensão e, mais importante, doença cardiovascular (DCV). Quando a obesidade abdominal encontra-se combinada com elevação de pressão arterial, glicemia de jejum, triglicérides e baixos níveis de HDL-c, o paciente pode estar condicionado a um quadro denominado de síndrome metabólica (SM), que diz respeito a um grupo com fator de risco aumentado para eventos cardiovasculares e mortalidade. 6868 Para o diagnóstico da SM, o critério mais adotado no Brasil é o da IDF (Federação Internacional de Diabetes) (Tabela 4). Tabela 4 – Critérios da IDF para diagnóstico de SM em adultos Obesidade CA > 94 cm em H europídeo, > 90 cm em H asiáticos e > 80 cm em M† Glicemia > 100 mg/dl ou diabetes Triglicerídeos > 150 mg/dL ou tratamento de dislipidemia HDL-c < 40 em H e < 50 mg/dl em M ou tratamento de dislipidemia Pressão arterial PAS ≥ 130 mmHg ou PAD ≥ 85 mmHg ou tratamento de HAS CA: circunferência abdominal; H: homens; M: mulheres; HDL-c: colesterol da lipoproteína de alta densidade; PAS: pressão arterial sistêmica; PAD: pressão arterial diastólica; HAS: hipertensão arterial sistêmica; † Componente obrigatório. Fonte: IDF (2006). A Federação Internacional de Diabetes (2006) considera portador de síndrome metabólica o paciente classificado como obeso associado a pelo menos dois dos quatro fatores descritos na Tabela 2. É importante ressaltar que a presença de SM está associada a um risco aumentado de eventos cardiovasculares e mortalidade. Para crianças e adolescentes a IDF (2007) determinou que a SM não deve ser diagnosticada em crianças com menos de 10 anos; no entanto, a redução de peso deve ser fortemente recomendada para aquelas com obesidade abdominal. Entretanto, para crianças entre 10 e 16 anos deve seguir os critérios descritos na Tabela 5. Tabela 5 – Critérios da IDF para diagnóstico de SM em crianças 10 a 16 anos > 16 anos Obesidade abdominal (CA) ≥ p 90 Mesmos critérios usados em adultos Glicemia de jejum (mg/dl) ≥ 100 Mesmos critérios usados em adultos Pressão arterial (mmHg) Sistólica/diastólica ≥ 130 ou ≥ 85 Mesmos critérios usados em adultos HDL-c (mg/dl) < 40 Mesmos critérios usados em adultos Triglicérides (mg/dl) ≥ 150 Mesmos critérios usados em adultos CA: circunferência abdominal; HDL-c: colesterol da lipoproteína de alta densidade. Fonte: IDF (2007). 6969 69 Como pode ser observado na Tabela 5, em crianças acima de 10 anos a SM é diagnosticada pela presença de obesidade abdominal associada a dois ou mais critérios clínicos. Atualmente, crianças e adolescentes têm sofrido com a epidemia de obesidade verificada atualmente. Além do aumento do risco de SM persistente na idade adulta, as complicações futuras dessa situação podem ser catastróficas caso não sejam instituídas medidas de intervenção preventiva. Para isso, é necessário identificar aqueles indivíduos com maior risco de risco de desenvolver complicações decorrentes do excesso de peso. Nesse contexto, os exames bioquímicos associados a outros parâmetros são imprescindíveis para o diagnóstico da SM. 6. Conclusão Diante do exposto acima, conclui-se que os exames laboratoriais bioquímicos são de grande valia para o diagnóstico correto de diversas doenças, tais como diabetes, dislipidemias, aminoacidopatias e doenças crônicas não transmissíveis. Por isso, é de grande importância a sua correta execução e interpretação. TEORIA EM PRÁTICA Homem de 60 anos chega à clínica com queixas de sede intensa, aumento da ingesta de líquidos e micção excessiva. Relata não sentir sintomas de infecção do trato urinário e não ter qualquer outro problema médico. Entretanto, não é examinado por um médico há muitos anos. O exame antropométrico constatou que estava obeso, porém sem qualquer perturbação aguda. Para os exames laboratoriais, a concentração de glicose em jejum foi de 140 mg/dl, triglicerídeos de 245 mg/dl, e HDL-c de 30 mg/dl. Qual o provável diagnóstico do paciente? Justifique sua resposta. 7070 VERIFICAÇÃO DE LEITURA 1. O diabetes mellitus tipo 1 ocorre principalmente em crianças, adolescentes e adultos jovens com até 30 anos e representa 5% a 10% de todos os casos diagnosticados de DM. No diabetes mellitus tipo 1 ocorre destruição das células β pancreáticas. Sabendo-se disso, assinale a alternativa correta: a. O DM1 imunomediada é ocasionada por uma agressão ambiental, podendo ser infecciosa ou tóxica. b. No DM1 idiopática o sistema imunológico destrói tanto o agente estranho, quanto as células endócrinas pancreáticas. c. No DM1 se caracteriza por ocorrer primeiramente à resistência à insulina e em seguida quadros de hiperglicemia. d. O DM1 idiopática apresenta etiologia conhecida, tais como vírus e bactérias. e. O DM1 imunomediada é ocasionada principalmente por obesidade e os pacientes apresentam níveis de colesterol total elevado. 2. As determinações bioquímicas do colesterol total (CT), colesterol ligado ao HDL-c, colesterol ligado ao LDL-c e triacilglicerídeos são empregadas para estabelecer o perfil lipídico. A respeito do perfil lipídico, assinale a alternativa correta: a. O colesterol HDL-c deve apresentar níveisinferiores a 40 mg/dl para homens e 50 mg/dl para mulheres. 7171 71 b. Indivíduos de baixo risco cardiovascular, a meta de LDL-c deve ser < 130 mg/dl e o não HDL-c < 160 mg/dl. c. Indivíduos de muito alto risco cardiovascular, o LDL-c deve ser reduzido para < 100 mg/dl e o não HDL-c < 40 mg/dl. d. Níveis de triglicerídeos abaixo de 150 mg/dl em jejum, significa risco de aterosclerose e precisam ser monitorados. e. A fração não HDL-c compreende a fração do colesterol nas lipoproteínas plasmáticas, HDL-c, LDL-c e triacilglicerídeos. 3. O termo síndrome metabólica (SM) diz respeito a um grupo de fatores de risco cardiometabólicos que incluem obesidade abdominal combinada com elevação de pressão arterial, glicemia de jejum e triglicérides, além de redução do nível de HDL-c. A Federação Internacional de Diabetes (2006) considera portador de síndrome metabólica o paciente classificado como obeso associado a: a. Pressão arterial sistêmica menor ou igual a 130 mmHg ou pressão arterial diastólica 85 mmHg ou tratamento de hipertensão arterial sistêmica. b. HDL-c superior a 40 mg/dl em homens e 50 mg/dl em mulheres ou tratamento de dislipidemia. c. Glicemia acima de 110 mg/dl ou diabetes e HDL-c abaixo de 50 mg/dl em homens. 7272 d. Triglicerídeos acima de 150 mg/dl ou tratamento de dislipidemia e Glicemia acima de 100 mg/dl ou diabetes. e. Triglicerídeos baixo de 150 mg/dl ou tratamento de dislipidemia e HDL-c superior a 50 mg/dl em homens. Referências bibliográficas AMERICAN DIABETES ASSOCIATION. Diabetes Care. 2017. Disponível em: https:// www.idf.org/e-library/consensus-statements/61-idf-consensus-definition-of- metabolic-syndrome-in-children-and-adolescents.html. Acesso em: 28 jul. 2019. CALIXTO-LIMA, L.; REIS, N. T. Interpretação de Exames Laboratoriais Aplicados à Nutrição Clínica. Rio de Janeiro: Editora Rubio, 2012. 489 p. CUPPARI, Lilian. Nutrição nas doenças crônicas não transmissíveis. Barueri: Manole, 2009. 506 p. FALUDI, André Arpad et al. Atualização da diretriz brasileira de dislipidemias e prevenção da aterosclerose. 2017. Disponível em: http://publicacoes.cardiol. br/2014/diretrizes/2017/02_DIRETRIZ_DE_DISLIPIDEMIAS.pdf. Acesso em: 23 jul. 2019. FEDERATION INTERNATION DIABETES (IDF). Metabolic Syndrome. 2006. Disponível em: https://www.idf.org/e-library/consensus-statements/60-idfconsensus- worldwide-definitionof-the-metabolic-syndrome. Acesso em: 27 jul. 2019. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Protocolo Clínico e Diretrizes Terapêuticas: Portaria SAS/MS nº 1.307, de 22 de novembro de 2013. 2013. Disponível em: http:// portalarquivos.saude.gov.br/images/pdf/2014/abril/02/pcdt-fenilcetonuria- livro-2013.pdf. Acesso em: 16 jun. 2019. MINISTÉRIO DA SAÚDE. Vigilância de Doenças Crônicas Não Transmissíveis (DCNT). 2018. Disponível em: http://www.saude.gov.br/vigilancia-em-saude/ vigilancia-de-doencas-cronicas-nao-transmissiveis-dcnt. Acesso em: 16 jun.2019. . Síndrome Metabólica. 2018. Disponível em: http://bvsms.saude.gov.br/dicas- em-saude/2610-sindrome-metabolicat. Acesso em: 16 jun.2019. SOCIEDADE BRASILEIRA DE DIABETES, SDB. Diretrizes da Sociedade Brasileira de Diabetes 2017-2018. 2017. Disponível em: https://www.diabetes.org.br. Acesso em: 16 jun. 2019. WIDTH, MARY; REINHARD, T. Manual de Sobrevivência para Nutrição Clínica. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2018. 488 p. WILLIAMSON, M. A.; SNYDER, L.M. Wallach: interpretação de exames laboratoriais. 10. ed. 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Níveis de colesterol total elevado. Feedback de reforço: Retome a leitura e tente novamente. Questão 2 – Resposta B A única alternativa correta é: em indivíduos de baixo risco cardiovascular, a meta de LDL-c deve ser < 130 mg/dl e o não HDL-c < 160 mg/dl. Feedback de reforço: Retome a leitura e tente novamente. Questão 3 – Resposta D A única afirmativa correta é: triglicerídeos acima de 150 mg/dl ou tratamento de dislipidemia e Glicemia acima de 100 mg/dl ou diabetes. Feedback de reforço: Retome a leitura e tente novamente. 747474 Exames clínicos relacionados à desnutrição proteico-calórica, anemia nutricional e má-absorção de nutrientes Autora: Flávia Debiag Objetivos • Abordar sobre as características da desnutrição proteico-calórica, bem como os exames empregados para o seu diagnóstico. • Classificar os tipos de anemias de acordo os principais exames laboratoriais. • Discorrer sobre as características da má-absorção de nutrientes e os exames empregados para a sua detecção. 7575 75 1. Introdução Este capítulo descreve os exames laboratoriais mais comumente empregados para diagnóstico da desnutrição proteico-calórica, anemia nutricional e má absorção de nutrientes. Os testes laboratoriais e outros exames diagnósticos são recursos usados pelos nutricionistas para obter informações objetivas valiosas a respeito de seus pacientes. Quando são associados com outras informações dos pacientes (p. ex., dados antropométricos, história detalhada, exame físico completo), os testes laboratoriais podem fornecer informações valiosas quanto ao estado nutricional do paciente ou sua resposta ao tratamento médico-nutricional. PARA SABER MAIS Indivíduos com desnutrição calórico-proteica podem apresentar um quadro de anemia fisiológica, mesmo na ausência de deficiência de ferro, cobalamina, ácido fólico ou qualquer outro nutriente envolvido na hematopoese. Isso ocorre porque, na desnutrição, a redução da massa celular acarreta menor necessidade de oxigênio para os tecidos e, por conseguinte, ocorre a diminuição na síntese de eritrócitos. 2. Desnutrição proteico-calórica As deficiências nutricionais ou desnutrição se caracterizam por uma ingestão deficiente ou aproveitamento biológico inadequado de nutrientes e de energia. Etiologicamente, a deficiência nutricional pode ser classificada como primária ou secundária. 7676 A desnutrição primária (DP) pode ser proveniente da falta de recursos financeiros para a aquisição de aporte calórico-proteico adequado dos alimentos, desmame precoce, higiene precária na preparação dos alimentos, dieta inadequada, fatores emocionais, como depressão e isolamento social, principalmente de idosos. Em contrapartida, a desnutrição secundária (DS) ocorre como consequência de situações/morbidades que elevam as necessidades energéticas e proteicas do paciente ou interferem na utilização adequada dos nutrientes, caracterizando um distúrbio metabólico. Durante os períodos de enfermidades, destacadamenteas infecções, ocorrem modificações metabólicas impostas não só pelo aumento do gasto energético total (GET) associado à doença, mas também em decorrência da liberação de citocinas, glicocorticoides e outras substâncias, as quais interferem negativamente na vontade de comer e na capacidade de absorver nutrientes. Entre as doenças associadas com a desnutrição secundária, encontram-se neoplasias malignas, radioterapia e quimioterapia, doenças do trato gastrintestinal, doenças crônicas, depressão e dor, demência e restrição física, dentre outras. Em clínica pediátrica, a desnutrição pode ser classificada em dois tipos bem definidos denominados de marasmo e kwashiorkor. O primeiro se associa pela deficiência calórica e o segundo pela deficiência exclusivamente proteica. Em adultos, os tipos de desnutrição são classificados em crônica, aguda e mista. A desnutrição aguda corresponde à deficiência calórica e a mista a uma associação de marasmo e kwashiorkor. Já a deficiência crônica corresponde ao estágio mais avançado do emagrecimento e apresenta características físicas bem definidas de depleção energético-proteico (WILLIAMSON; SNYDER, 2018). 7777 77 2.1 Diagnóstico laboratorial de desnutrição A avaliação do estado nutricional é realizada por exames laboratoriais, os quais os resultados podem ser influenciados por vários fatores, tais como: idade, gênero, etnia, estado fisiológico, estado patológico e interação entre fármacos e nutrientes. 2.1.1 Avaliação do estado nutricional de acordo com as proteínas O diagnóstico de desnutrição pode ser realizado empregando diversos parâmetros bioquímicos, sendo os principais as determinações plasmáticas de albuminas, transferrina, pré-albumina e proteína ligadora de retinol e as determinações urinárias de creatinina e 3-metil-histidina (PINTO, 2017). 2.1.1.1 Análise da massa muscular visceral O comprometimento da integridade visceral pode estar associado a situações de restrição alimentar de longa duração, sendo o fígado o órgão que mais sofre alterações em proporção do tempo de desnutrição. A avaliação da massa muscular visceral pode ser realizada por meio da dosagem de bioquímica de proteínas envolvidas na síntese hepática, como, por exemplo, albumina, transferrina, pré-albumina e proteína ligadora de retinol. 2.1.1.2 Dosagem de albumina A proteína mais abundante no plasma sangue corresponde à albumina (ALB), a qual é sintetizada no fígado pelos hepatócitos, sendo responsável pela manutenção da pressão coloidosmótica, transporte de zinco, magnésio, cálcio, ácidos graxos, enzimas e hormônios. A síntese de albumina pelo fígado pode ser prejudicada pelo baixo consumo calórico e proteico, ocasionando quadro conhecido como hipoalbuminemia. A classificação do estado nutricional de acordo com a concentração de albumina encontra-se na Tabela 1. 7878 Tabela 1 – Classificação do nível de desnutrição de acordo com a concentração de albumina Nível de desnutrição Concentração de albumina (mg/dL) Nutrido > 3,5 Leve 3 a 3,5 Moderada 2,4 a 2,9 Grave < 2,4 Fonte: CALIXTO-LIMA; REIS (2012). Como pode ser observado na Tabela 1, os níveis séricos de albumina para o paciente nutrido apresentam-se maiores que 3,5 mg/dL, já para desnutrição grave, esse valor se apresenta menor que 2,4 mg/dL. Um dos fatores limitantes para o diagnóstico nutricional da fase aguda corresponde à meia-vida biológica relativamente longa da albumina, de aproximadamente 20 dias. Portanto, pode transcorrer vários dias para que ocorra a diminuição da albumina em resposta da diminuição da ingesta calórica (COSTA, 2015). Outros fatores também podem diminuir os níveis séricos de albumina no plasma, tais como: absorção diminuída (síndromes de má-absorção), deficiência congênita, degradação aumentada (infecções, neoplasias, traumas), hemodiluição, ingestão inadequada de energia e/ou proteína, necessidade aumentada (hipertireoidismo, gravidez), perda excessiva (edema, ascite, queimaduras, hemorragias, síndrome nefrótica, enteropatia perdedora de proteínas) e síntese comprometida (doença hepática, infecção crônica). Nesses casos, a dosagem de proteína plasmática não pode ser utilizada como parâmetro de avaliação nutricional. 2.1.1.3 Dosagem de transferrina A proteína plasmática, denominada de transferrina (TRF), também pode ser utilizada na avaliação do estado nutricional, a qual é uma betaglobulina de síntese hepática, responsável pelo transporte de ferro, com meia-vida biológica de 8 dias, o que a torna mais sensível às alterações na ingestão alimentar. Níveis de transferrina menores que 100 mg% indicam nível de desnutrição grave (Tabela 2). 7979 79 Tabela 2 – Interpretação dos valores de acordo com a concentração de transferrina Nível de desnutrição Concentração de transferrina (mg%) Leve 150 a 200 Moderada 100 a 150 Grave < 100 Fonte: CALIXTO-LIMA; REIS (2012). Os níveis plasmáticos de transferrina podem ser influenciados por diversos fatores. Por exemplo, em situações de carência de ferro, os níveis de transferrina encontram-se elevados. Em contrapartida, em situações de hepatopatias crônicas, anemias, doenças renais e de medula óssea, insuficiência cardíaca congestiva, inflamações e infecções crônicas, os níveis de transferrina encontram-se abaixo do valor de referência. Portanto, quando analisada de forma isolada, não é considerada um método adequado para avaliar o estado nutricional dos pacientes (PINTO, 2017). 2.1.1.4 Dosagem de pré-albumina A pré-albumina é uma proteína sintetizada no fígado e catabolizada nos rins.Em virtude de sua média vida de 2 a 3 dias, responde de forma rápida quando a ingestão calórica-proteica está baixa. Entretanto, é um exame de alto custo, por isso é pouco utilizado. Para a classificação nutricional, valores normais de pré-albumina encontram-se entre os valores de 15,1 a 42 mg/dL, sendo que valores abaixo de 5 mg/dL podem indicar nível de desnutrição grave (Tabela 3). Tabela 3 – Interpretação dos valores de acordo com a concentração de pré-albumina Nível de desnutrição Concentração de pré-albumina (mg/dL) Leve 15,1 a 42 Moderada 10 a 15 Grave < 5 Fonte: CALIXTO-LIMA; REIS (2012). 8080 É importante ressaltar que outras situações podem interferir nos níveis de pré-albumina no plasma, tais como infecção, falência hepática e renal, e disponibilidade da tiroxina, por isso não é um parâmetro confiável para a avaliação do paciente enfermo inflamado, pois seus baixos índices podem estar associados com outras patologias. 2.1.1.5 Dosagem da proteína ligadora de retinol A proteína ligadora do retinol A (PLR) realiza o transporte de vitamina A no sangue na forma de retinol. Apresenta curta meia-vida biológica (10 a 12 horas), o que a torna muito sensível para identificar desnutrição- calórica. Os níveis da PLR devem variar de 3 a 5 mEq/dL. Além disso, os níveis de PLR podem ser influenciados pela carência de vitamina A, zinco, nos casos de doenças hepáticas e nas infecções graves. Entretanto, apresenta-se elevada na insuficiência renal (CALIXTO-LIMA; REIS, 2012). 2.1.2 Análise da massa muscular esquelético-somática Associada às medidas antopométricas, as análises de bioquímicas do índice de creatinina-altura e da 3-metil-histidina, que são produtos finais do catabolismo proteico, auxiliam na identificação do tecido muscular do indivíduo (COSTA, 2015). 2.1.2.1 Índice de creatinina-altura A creatinina presente na urina corresponde a um metabólito proveniente da hidrólise da fosfocreatina (creatina fosforilada). Representa um bom indicador de reserva proteica muscular, utilizando- se o índice de creatinina-altura (ICA), visto que a creatinina se encontra em sua maioria dentro do músculo esquelético. Esse índice é útil principalmente para medidas de controle de evolução do paciente. Entretanto, não deve ser empregado de forma isolada. O ICA é calculado pela divisão da excreção de creatinina urinária por um valor padrão para a altura do paciente,de acordo com a equação 1 (CALIXTO-LIMA; REIS, 2012). 8181 81 Equação 1 – Índice de creatinina-altura (ICA) ICA * O valor da creatinina urinária de 24 horas deve ser observado no laboratório ** Valor tabelado ICA = Índice de creatinina-altura Tabela 4 – Classificação segundo índice de creatinina-altura % de adequação de ICA Classificação > 80 Normal 60 a 80 Depleção proteica moderada < 60 Depleção proteica grave Fonte: CALIXTO-LIMA; REIS (2012). O ICA menor do que 60% do padrão indica diagnóstico de paciente com risco aumentado para sepse e morte (PINTO, 2017). 2.1.2.2 Metil-histidina A determinação dos valores séricos da 3-metil-histidina é empregada na avaliação do catabolismo proteico, pois esse aminoácido está presente em 90% do metabolismo da actina e da miosina do músculo esquelético. A 3-metil-histidina pode ser dosada na urina por métodos cromatográficos, sendo que os valores de referência variam em adultos de 18.0 - 47,0 mmol/mol de creatinina. No hipercatabolismo ocorre o aumento da 3-metil-histidina, enquanto que no idoso desnutrido pode-se observar a redução dos valores desse aminoácido (CALIXTO-LIMA; REIS, 2012). 2.1.3 Balanço Nitrogenado (BN) O balanço nitrogenado não é um índice utilizado para avaliação nutricional, e sim para avaliar o grau de catabolismo proteico, com o objetivo de se determinar a quantidade de proteína a se ofertar para 8282 pacientes hipermetabólicos. O balanço nitrogenado é estipulado pela diferença entre a quantidade de nitrogênio ingerido pela dieta e o nitrogênio excretado por suor, fezes e urina. Quando os valores da demanda proveniente da dieta forem superiores ao da perda, o BN é considerado positivo, situações contrárias são classificadas como balanço negativo. Dessa forma, o BN pode ser utilizado como parâmetro para mensurar a ingestão e a degradação proteica, sendo calculado pela diferença entre a quantidade de nitrogênio ingerida (Equação 2) (CALIXTO-LIMA; REIS, 2012). Equação 2 – Balanço nitrogenado BN (g/dia)=nitrogênio ingerido-nitrogênio excretado O nitrogênio ingerido é calculado considerando que 1 g de nitrogênio está contido em 6,25 g de proteína. O nitrogênio excretado é calculado a partir do conhecimento de que cada 100 g de ureia possui 2,14 g de nitrogênio. Além disso, para o cálculo do nitrogênio excretado, leva-se em consideração a perda ocasionada pelo suor, fezes, pulmões, mais o nitrogênio não proteico, a qual é de aproximadamente 4g/dia. Em alguns casos, como, por exemplo, diarreia e fístula gastrintestinal, deve-se levar em consideração a perda de nitrogênio por esses eventos, os quais são denominados como outras perdas. Portanto, para o cálculo do balanço nitrogenado emprega-se (Equação 3) (PINTO, 2017).: Equação 3 – Cálculo do balanço nitrogenado considerando o nitrogênio ingerido, nitrogênio excretado e outras perdas * Perdas insensíveis (suor, fezes, pulmões, entre outros) ** Outras perdas: por exemplo, diarreia (2,5 g) e fístula gastrintestinal (1g) Assim, os valores obtidos do balanço nitrogenado são classificados de acordo com a Tabela 5 (CALIXTO-LIMA; REIS, 2012). 8383 83 Tabela 5 – Interpretação dos resultados do cálculo do balanço nitrogenado Valor Interpretação 0 Equilíbrio > 0 ou positivo Anabolismo < 0 ou negativo Catabolismo Fonte: CALIXTO-LIMA; REIS (2012). O balanço energético equilibrado ocorre quando a quantidade de nitrogênio ingerida é igual a excretada. Em casos de balanço nitrogenado positivo, a quantidade de nitrogênio ingerida é maior que o excretada. Por outro lado, no balanço nitrogenado negativo, a quantidade de nitrogênio ingerido é menor que a excretada (CALIXTO-LIMA; REIS, 2012). 2.1.4 Avaliação da competência imunológica Para o auxílio do diagnóstico da desnutrição também é realizada a contagem total de linfócitos (CTL), a qual se encontra diminuída em casos de desnutrição. Os linfócitos representam de 20 a 40% do total dos glóbulos brancos do sangue. O cálculo da CTL ou linfocitometria utiliza o percentual de linfócito e o valor dos leucócitos (mL) (Equação 6) e é interpretado de acordo com a Tabela 6 Fonte: CALIXTO-LIMA; REIS (2012). Equação 6 – Contagem total de linfócitos Tabela 6 – Interpretação dos valores de acordo com a CTL Nível de desnutrição CTL (mm3) Depleção leve 1200 a 2000 células/mm3 Depleção moderada 800 a 1199 células/mm3 Depleção grave < 800 células/mm3 Fonte: CALIXTO-LIMA; REIS (2012). 8484 É importante ressaltar que a CTL sofre influência de fatores não nutricionais como infecções, doenças (cirrose, hepatite, queimaduras, entre outros) e medicações (PINTO, 2017). 3. Anemia nutricional Laboratorialmente, anemia é uma condição que se caracteriza por uma deficiência no número ou tamanho de eritrócitos sanguíneos. Independente da causa, o resultado é a diminuição da hemoglobina total funcionante na circulação. De acordo com a Organização Mundial da Saúde são considerados quadros de anemias valores de hemoglobina no sangue inferiores a 13 g/dL e 12 g/dL para homens e mulheres, respectivamente. Em gestantes lactentes e pré-escolares, o valor de referência para hemoglobina é de 11 g/dL, são considerados anormais desde que as hemoglobinas sejam funcionantes e não desnaturadas (DALANHOL et al., 2010). As anemias podem ser causadas por carência de nutrientes essenciais para a síntese normal de eritrócitos, como ferro, cobalamina (vitamina B12) e ácido fólico, e menos comumente, cobre, piridoxina, riboflavina e proteína; ou como resultado de uma variedade de condições clínicas (anormalidade genéticas, doenças do trato digestório, toxicidade por fármacos e cirrose hepática). As anemias resultantes de deficiência de nutrientes são denominadas de carenciais ou nutricionais, são os tipos mais comuns observados, principalmente em mulheres (devido à perda menstrual e à gestação) e em crianças (devido à fase de crescimento). Isso acontece porque a renovação das células do sangue ocorre de forma mais rápida em relação a outros tecidos corporais. Considerando que a hematopoese (formação das células sanguíneas) só ocorre na presença de ferro, ácido fólico e cobalamina, a deficiência de qualquer desses nutrientes resulta em anemia. O ferro possui um papel importante por ser o carreador de oxigênio nas hemoglobinas dos eritrócitos, enquanto a cobalamina e o ácido fólico participam na síntese de três dos quatros nucleotídeos necessários para a duplicação do DNA contido na célula antes da mitose (CALIXTO-LIMA; REIS, 2012). 8585 85 Os sintomas característicos da anemia incluem palidez cutaneomucosa, cansaço, tontura, sonolências, fraqueza muscular, fadiga, irritabilidade, entre outros. Os sintomas são decorrentes da produção eritrocitária deficiente e consequentemente diminuição da concentração da molécula de hemoglobina no sangue, a qual é responsável pelo transporte de oxigênio aos tecidos periféricos (PINTO, 2017). 3.1 Anemia por deficiência de ferro O ferro corresponde ao micromineral mais abundante no organismo humano, o qual é fundamental para o funcionamento de todas as células corporais. A quantidade total de ferro no organismo é de aproximadamente 50 mg/kg de peso em homens adultos normais, e de 35 mg/kg de peso em mulheres. Aproximadamente, 70% do ferro encontra-se no grupo heme da hemoglobina e na mioglobina. Cerca de 30% do ferro fica armazenado na forma de proteína denominada de ferritina e hemossiderina no fígado e no baço, e aproximadamente 0,1% é encontrado no plasma. É de extrema importância a manutenção do ferro ligado às formas heme ou como ferro de depósito, pois, quando livre, pode levar a efeitos altamente deletérios (DALANHOL et al., 2010). Por se o componente essencial do grupo heme presente na hemoglobina e mioglobina, o ferro é o responsável pelo transporte de oxigênio para tecidos periféricos. Além disso, o ferro desempenha outras importantes funções, tais como transporte de elétrons para dentro das células, integrante importantede sistemas enzimáticos em vários tecidos e participação no metabolismo de catecolaminas e na síntese de DNA. A transferrina é uma glicoproteína que transporta ferro (Fe3+), sintetizada e metabolizada principalmente nos hepatócitos. A transferrina transporta e cede o ferro aos eritroblastos da medula óssea ou a outros tecidos, onde o micromineral em questão fica armazenado (ferritina e hemossiderina) (MARTY; MARTY, 2015). 8686 Na dieta, o ferro pode estar presente de três formas químicas, sendo denominadas de ferro não heme (Fe3+), encontrado em frutas, verduras, grãos e cereais; ferro heme (Fe2+) presente nos alimentos de origem animal (carne vermelha, aves, peixes), sendo de mais fácil absorção; e o ferro inorgânico. Entre 1 e 2 mg de ferro são absorvidos por dia pelo epitélio intestinal. O processo absortivo pode ser influenciado pelo estado corporal de ferro, de forma que quanto menor a reserva corporal maior será a sua absorção. A forma química do ferro também corresponde a outro fator que influencia na sua absorção, o ferro presente em alimentos de origem animal possui maior absorção de que os de origem vegetal. A presença de fatores intensificadores, como alimentos ricos em ácido ascórbico (vitamina C), aumentam a absorção do ferro. Alguns elementos presentes nos alimentos são quelantes do ferro e podem diminuir ou aumentar a sua absorção, destacam-se carbonatos, oxalatos, fosfatos e fitatos. É importante relatar que a deficiência de ferro e anemia por deficiência de ferro (anemia ferropriva) correspondem a condições clínicas diferentes. A primeira resulta por um balanço negativo de ferro a longo prazo. Enquanto que nos casos de anemia ferropriva corresponde ao estágio mais avançado de deficiência, quando o fornecimento de ferro é insuficiente para suprir as necessidades dos diferentes tecidos corporais, característico do estado anêmico (DALANHOL et al., 2010). De acordo com as causas da deficiência de ferro, as anemias são classificadas em anemia ferropriva primária e secundária. Na primária, a deficiência é decorrente do baixo consumo de alimentos fontes de ferro. Já na secundária há um desequilibro entre o consumo de ferro e o aumento das necessidades devido à perda sanguínea ou doença hipercatabólica (MARTY; MARTY,2015). A deficiência de ferro apresenta quatro estágios com eventos bioquímicos e hematológicos distintos. O primeiro e segundo estágio apresentam balanço de ferro negativo e se caracterizam pela depleção dos estoques 8787 87 corporais e aumento da absorção intestinal, sem qualquer alteração hematológica. Nos exames laboratoriais, encontram-se redução da ferritina sérica e quase ausência de hemossiderina no exame de medula óssea. No terceiro estágio, os estoques de ferro depletados levam à queda de ferro sérico, observa-se também a redução na proporção de sideroblastos. O balanço de ferro negativo leva à disfunção, mas não à anemia. Por fim, no quarto estágio de balanço de ferro negativo ocorre o aparecimento da anemia, que com a progressão da doença se torna microcítica e hipocrômica, nessa fase os hematócritos reduzem a valores menores que 32% (HOFFBRAND; MOSS, 2018). 3.2 Diagnóstico laboratorial da anemia ferropriva O diagnóstico da deficiência de ferro em seus diferentes estágios é realizado por exames laboratoriais específicos em conjunto com o hemograma, os quais os parâmetros de referência encontram-se na Tabela 7. Tabela 7 – Exames laboratoriais empregados para diagnóstico de deficiência de ferro Exame laboratorial Valores de referência Ferritina sérica Homens Mulheres 30 a 300 ng/mL 10 a 200 ng/mL Ferro sérico 30 a 160 µg/dL Transferrina sérica 230 a 390 mg/dL Capacidade de ligação de ferro 20 a 45% dos sítios de ligação do ferro da transferrina ocupados Hemograma Hematócrito Homens Mulheres Recém-nascido 40 a 54% 37 a 47% 44 a 60% Hemoglobina Homens Mulheres Recém-nascido 13,5 a 18 g/dL 12 a 16 g/dL 13,5 a 19,5 dL 8888 Índices Hematimétricos VCM* 80 a 100 fL HCM** 27 a 32 pg CHCM*** 32 a 35% RDW**** 14,5 a 11,5% *VCM = volume corpuscular médio **HCM = hemoglobina corpuscular média ***CHCM = concentração de hemoglobina corpuscular media ****RDW = distribuição do tamanho das hemácias Fonte: CALIXTO-LIMA; REIS (2012). 3.2.1 Dosagem de ferritina sérica Os estágios iniciais da deficiência de ferro caracterizam-se pela depleção dos estoques corporais. A dosagem de ferritina sérica corresponde a um dos melhores marcadores para a avaliação do estado de ferro corporal, pois analisa a quantidade estocada desse mineral, uma vez que os níveis de ferritina encontram-se reduzidos no primeiro e segundo estágio de depleção do ferro. Valores de ferritina abaixo do limite de normalidade são um forte indicativo de anemia ferropriva. A ferritina sérica é empregada na detecção e monitoramento de deficiência de ferro, determinação da resposta ao tratamento de deficiência de ferro e diagnóstico diferencial entre anemia por deficiência de ferro e anemia crônica. Porém, esse teste também possui desvantagens, pois a ferritina pode aparecer como uma proteína de fase aguda, podendo estar aumentada devido a processo infeccioso ou inflamatório não identificado (MARTY; MARTY,2015). 3.2.2 Dosagem de ferro sérico Após a redução dos níveis da ferritina, segue-se a diminuição dos níveis de ferro sérico, resultando em redução na saturação da transferrina (quantidade de ferro ligada a proteína de transporte), os quais os valores 8989 89 normais se encontram entre 15 a 40%. Pode-se observar também o aumento da capacidade de ligação de ferro sérico e da transferrina sérica (livre de ferro) para valores acima da normalidade. A dosagem de ferro sérico compreende, basicamente, ao ferro ligado à sua proteína de transporte transferrina, pois uma quantidade muito pequena desse mineral isolado é encontrada na circulação. A determinação laboratorial do ferro sérico é pouco sensível na avaliação das alterações do metabolismo desse mineral, mas sua determinação é obrigatória para cálculo da saturação de transferrina, que corresponde à quantidade de ferro ligada a essa proteína (HOFFBRAND; MOSS, 2018). 3.2.3 Dosagem de transferrina, saturação de transferrina e capacidade total de ligação do ferro A transferrina compreende a uma glicoproteína de síntese hepática, responsável pelo transporte do ferro proveniente da absorção intestinal ou do catabolismo da hemoglobina para a medula óssea, onde irá se combinar com precursores eritrocitários, ou para sítios de estocagem, de forma a minimizar os efeitos tóxicos dos níveis elevados desse mineral livre na circulante. Entre 15 a 40% da transferrina presente no plasma encontram-se ligadas ao ferro, refletindo a saturação dessa glicoproteína. Quanto maior a saturação da transferrina (quantidade de ferro ligado a proteína), menor será sua capacidade total de ligação do ferro. Assim em anemia ferropriva, o quadro é caracterizado pela redução na saturação da transferrina (quantidade de ferro ligada a proteína de transporte), aumento da capacidade de ligação de ferro sérico e da transferrina sérica (livre de ferro) (MARTY; MARTY,2015). 3.2.4 Hemograma A anemia ferropriva também leva a alterações no hemograma. Os estágios deficientes de ferro acarretam diminuição na síntese de hemoglobina que, por conseguinte, afetam a eritropoiese. Em laboratório, observa-se redução dos níveis de hematócrito e hemoglobina. O quadro de anemia ferropriva se caracteriza por 9090 concentração de hemoglobina menor que 13 g/dL para homens adultos, abaixo de 12 g/dL para mulheres adultas, escolares, e adolescente e menor que 11 g/dL para gestantes. Os padrões diagnósticos classificam a anemia ferropriva de leve a moderada. Dessa forma, se a Hb fica entre 7 a 12 g/ dL é considerada leve. Entretanto, se a Hb for menor que 7 g/dL é classificada como grave, com pequenas variações de acordo com a idade, gênero ou presença de gestação (COSTA, 2015). ASSIMILENo hemograma, a série vermelha, a série branca e as plaquetas são avaliadas quanto ao número e à citomorfologia. Para a série vermelha são analisados a contagem de eritrócitos (hemácias), o valor do hematócrito, a quantidade de hemoglobina, o volume corpuscular médio (VCM), a hemoglobina corpuscular média (HCM) e a concentração de hemoglobina corpuscular média (CHCM). Já para à série branca, são analisados os leucócitos. Além disso, na anemia ferropriva os eritrócitos, devido à redução do volume corpuscular médio (VCM) e da concentração de hemoglobina corpuscular média (CHCM), passam a ser denominados de microcíticos e hipocrômicos (Tabela 7). É importante ressaltar que as alterações morfológicas dos eritrócitos ocorrem em estágios mais graves da anemia, sendo que a microcitose ocorre antes da hipocrômia (HOFFBRAND; MOSS, 2018). 3.3 Anemia megaloblástica A anemia megaloblástica (AM) compreende um grupo de alterações hematológicas caracterizadas por padrão morfológico atípico das células hematopoéticas, que se caracterizam por eritrócitos grandes (macrocíticas) e imaturos (megaloblásticas). A anemia megaloblástica 9191 91 é decorrente de uma alteração genética na síntese de DNA, que afeta primeiramente as células de proliferação, das quais se destacam as hematopoiéticas. Como pode ser observado na Figura 1, na anemia megaloblástica formam-se eritrócitos grandes e imaturos, os quais tendem a ser destruídos na medula óssea, de forma que suas concentrações decaem na circulação (MARTY; MARTY,2015). Figura 1 – Características do eritrócito da anemiza megaloblástica Fonte: ttsz/iStock.com. A deficiência de cobalamina (vitamina B12) e/ou ácido fólico são as causas mais comuns de AM. Essas vitaminas são indispensáveis na síntese de timidina, nucleotídeos que compõem o DNA. Em humanos, a vitamina B12 é responsável pela a conversão de ácido metilmalônico em succinil- coenzima A e a conversão de homocisteína em metionina. A deficiência de vitamina B12 poderia, portanto, levar ao aumento de ácido metilmalônico e de metionina. Dessa forma, os biomarcadoes utilizados são os níveis séricos de ácido metilmalônico (0,08 a 0,56 µmol/L) e homocisteína (6 a 12 mmol/L e 8 a 14 mmol/L para mulheres e homens, respectivamente) (Tabela 8). Assim, para o diagnóstico de deficiência de vitamina B12, tanto os níveis de ácido metilmalônico quanto de homocisteína encontram-se elevados (HOFFBRAND; MOSS, 2018). 9292 Tabela 8 – Exames para diagnóstico de anemia megaloblásticas Exames Laboratoriais Valor de referencia Ácido metilmalônico 0,08 a 0,56 µmol/L Homocisteína Mulher6 a 12 mmol/L Homem 8 a 14 mmol/L Ácido Fólico 5 a 15 mg/mL Fonte: CALIXTO-LIMA; REIS (2012). Apenas quando a realização dessas dosagens não é suficiente para o diagnóstico etiológico da doença, pode-se realizar o teste de Schilling, exame de alta complexidade e pouca disponibilidade cuja finalidade é investigar a deficiência da vitamina por ausência de fator intrínseco. Os principais sintomas das manifestações clínicas da AM por deficiência de cobalamina são tríade da fraqueza, glossite e parestesia (CALIXTO-LIMA; REIS, 2012). O ácido fólico é uma vitamina do complexo B sintetizada por bactérias da microbiota intestinal ou obtida pelo consumo de alimentos específicos, tais como fígado de boi, frutas cítricas, vegetais folhosos, gema de ovo, pão de trigo, feijão branco, dentre outros (PINTO, 2017). Para diagnóstico de anemia por deficiência de ácido fólico, emprega- se a dosagem ácido fólico sérico (5 a 15 mg/mL). As reservas corporais de ácido fólico demoram em média três meses para se esgotar em um indivíduo que consome dietas insuficientes (HOFFBRAND; MOSS, 2018). A anemia megaloblástica (por deficiência de vitamina B12 e/ou por deficiência de ácido fólico) também apresenta alterações no hemograma, tais como aumento do VCM e CHCM (PINTO, 2017). 4. Deficiência de nutrientes por má-absorção Na prática clínica, a má-absorção é proveniente da ausência de hidrólise dos nutrientes no lúmen intestinal. A má-absorção dos nutrientes pode ser decorrentes de problemas na mucosa e/ou alterações no sistema de 9393 93 remoção, por meio dos vasos sanguíneos ou linfáticos. A má absorção é ocasionada por qualquer situação/morbidade que interfere em algum desses processos. Os principais sintomas clínicos são diarreia, dor abdominal que melhora após a evacuação, disgeusia, além de sintomas não relacionados ao trato gastrointestinal. 4.1 Diagnóstico laboratorial Diversos nutrientes, tais como carboidratos, proteínas, lipídios, eletrólitos e as vitaminas, podem sofrer alterações no processo de absorção. Assim sendo, vários exames laboratoriais podem ser empregados para o diagnóstico específico da má-absorção. Em sua maioria, são realizados exames de rotina, como hemograma completo, dosagem de eletrólitos, provas de atividade anti-inflamatória, como proteína C-reativa ou velocidade de hemossedimentação, provas de função tireoidiana e função renal, e dosagem de algumas vitaminas, como ferro, ferritina, vitamina B12 e ácido fólico, já abordados anteriormente (CALIXTO-LIMA; REIS, 2012). 4.1.1 Avaliação laboratorial de má-absorção de carboidratos Incluem o teste D-xilose, pesquisa de substâncias redutoras nas fezes, determinação do pH fecal e o teste de tolerância a lactose (deficiência de lactase). 4.1.1.1 Teste de D-xilose A D-xilose constitui um monossacarídeo, o qual não é encontrado no sangue em condições clínicas normais, sua absorção depende da integridade da mucosa intestinal. Dessa forma, a redução da absorção da D-xilose pode ser realizada, após administração dessa pentose e sua dosagem no sangue (D-xilosemia) ou na urina (D-xilosúria), os quais os índices variam de 30 a 52 mg/dL e 4 a 5 g ou mais em 5 horas, respectivamente. Valores abaixo dos parâmetros estipulados significam má-absorção intestinal e estão associados a possíveis danos na mucosa (COSTA, 2015). 9494 4.1.1.2 Pesquisa de substâncias redutoras na fezes e determinação do pH fecal Os exames de pesquisa de monossacarídeos nas fezes (PSR) e determinação do pH fecal são úteis para a determinação da ausência das enzimas que hidrolisam dissacarídeos e devem ser realizados concomitantemente. Para o PSR, a avaliação será positiva quando há a presença de mono ou dissacarídeos na amostra de fezes. O pHF característico da presença de mono e dissacarídeo nas fezes encontra-se abaixo de 5,5. Em condições normais, o pHF encontra-se entre 6,7 a 7,2, quando há má absorção, as bactérias anaeróbicas presentes no cólon fermentam esses açúcares, formando ácidos graxos de cadeia curta, responsáveis pela queda do pH as fezes (CALIXTO-LIMA; REIS, 2012). 4.1.1.3 Teste de tolerância à lactose A lactase corresponde a uma enzima responsável pela hidrólise da lactose, em glicose e galactose, que está localizada no epitélio do intestino delgado. Assim, a ausência (alactasia) ou deficiência (hipolactasia) é proveniente da não produção da lactase de forma definitiva ou temporária, o que leva ao desenvolvimento dos principais sintomas gastrointestinais, como diarreia, distensão abdominal, cólica, flatulência e, em alguns casos, urgência evacuatória. O diagnóstico de intolerância à lactose é baseado no exame físico e na anamnese do paciente, buscando obter informações no histórico gestacional, familiar, alimentar e na pesquisa de fatores desencadeantes. Em exames laboratoriais, a intolerância à lactose pode ser diagnosticada por: • Biópsia. • Teste de tolerância a lactose. • Exame de urina. • Teste do hidrogênio expirado (SILVA; COELHO, 2019). 9595 95 O teste de tolerância à lactose (TTL) é o mais empregado na prática clínica em nutrição, sendo também chamado de prova de sobrecarga. Nesse exame, o paciente realiza a ingestão de 50 g de lactose e realiza a curva glicêmica em jejum e após 30 e 60 minutos (Figura 2). Figura 2 – Teste de tolerância a lactose (TTL) Fonte: elaborada pela autora. Espera-seno TTL, que após 30 minutos para pacientes não intolerantes à lactose, ocorra uma elevação da glicemia sérica maior que 20 mg/dL comparada com a glicemia basal, já que a glicose é o produto da quebra da lactose. Caso isso não ocorra, faz-se o diagnóstico de má-absorção da lactose. Provavelmente, o pH das fezes nesses pacientes será ácido (WIDTH; REINHARD, 2018). O teste do hidrogênio expirado também é muito utilizado no diagnóstico da má absorção de lactose. A produção de hidrogênio ocorre quando não há devida absorção da lactose fermentada pela flora intestinal. 9696 Os pulmões eliminam parte desse gás, podendo ser encontrado no ar expirado. A elevação na taxa de hidrogênio em amostras de ar expirado depois da ingestão de lactose indica a má absorção e fermentação desse carboidrato, já que no organismo humano não há outras vias endógenas para a produção de hidrogênio (SANTOS; ROCHA; CARVALHO, 2018). 4.1.2 Avaliação laboratorial da má-absorção de proteínas A má-absorção de proteínas é determinada por meio da dosagem de nitrogênio fecal e quantificação da proteína alfa-1-antitripsina (alfa-1A), sendo esse último mais utilizado, devido dificuldades técnicas da dosagem de nitrogênio. A alfa-1A é uma proteína de síntese hepática responsável por inibir a atividade de enzimas produzidas por células inflamatórias, sua presença aumentada nas fezes (> 2,5 mg/g de amostra) está associada positivamente com a perda proteica intestinal. (COSTA, 2015). 4.1.3 Avaliação laboratorial da má-absorção de gorduras Para o avaliar a má-absorção de gorduras é realizado o exame de pesquisa de gordura fecal, sendo considerado padrão-ouro o teste quantitativo de Van Kamer. Durante o referido exame, é necessária a coleta de toda evacuação nas últimas 72 horas, após a ingestão por 5 a 7 dias de uma dieta com 35% do seu valor calórico total em gordura, sendo que valores entre 5 e 7 g são considerados sugestivos de esteatorreia, e acima de 7 g são diagnósticos de esteatorreia. O teste fecal qualitativo (teste de Sudan III) também pode ser empregado, sendo mais simples e de baixo custo. No teste qualitativo, os resultados positivos são dados em cruzes, de acordo com o tamanho de gotículas de gordura nas fezes, as quais são observadas em campo microscópico e classificada em: • Normal (+): até 100 gotas/campo; diâmetro maior do que 4µm. • Aumentada (++): até 100 gotas/campo; diâmetro maior do que 4µm (esteatorreia moderada). • Muito aumenta (+++): mais que 100 gotas/campo; diâmetro maior do que 6 a 75µm (esteatorreia acentuada). 9797 97 A esteatorreia acentuada se caracteriza pela presença de formação de fezes volumosas, acinzentadas ou claras, que geralmente são mal cheirosas, flutuam na água e têm aparência oleosa (COSTA, 2015). 5. Conclusão Como visto neste capítulo, os exames laboratoriais são úteis para o diagnóstico correto dos tipos de anemias, bem como detecção das principais causas de desnutrição proteico-calórica e de má-absorção de nutrientes. É importante salientar que cada exame laboratorial não deve ser analisado de forma isolada, mas em conjunto com a anamnese do paciente e com outros exames, visando sempre à saúde do paciente. TEORIA EM PRÁTICA Homem de 50 anos é encaminhado ao consultório de nutrição com queixas de mal-estar, náuseas, vômitos e fadiga. Revela uma longa história de abuso de álcool durante os últimos 10 anos e afirma necessitar de doses diárias de álcool, especialmente de manhã, como um “abrir de olhos”. Esteve em reabilitação em várias ocasiões por alcoolismo, mas não foi capaz de parar de beber. Nega tosse, febre, calafrios, sintomas respiratórios superiores, contatos com doentes, viagens recentes, hematêmese e dor abdominal, mas tem fome e diz não ter comido muito bem por um longo período de tempo. No exame físico, notou-se desnutrição, mas não está em perigo; os demais achados são normais. Seu exame de sangue revela valores normais de leucócitos, mas demonstra anemia com hemácias grandes. Sua amilase, lipase e testes de função hepática estão normais. Qual é a causa mais provável da sua anemia? Qual é a base molecular para os eritrócitos grandes? 9898 VERIFICAÇÃO DE LEITURA 1. A transferrina é uma betaglobulina de síntese hepática, responsável pelo transporte de ferro, com meia-vida biológica de 8 dias, o que a torna mais sensível às alterações na ingestão alimentar. Pode ser empregada na classificação da nutrição em leve, moderada e grave. Sabendo disso, assinale a alternativa correta. a. A desnutrição leve apresenta níveis transferrina superiores a 200 mg%. b. A desnutrição moderada apresenta níveis transferrina superiores a 150 mg%. c. A desnutrição grave apresenta níveis transferrina inferiores a 100 mg%. d. A desnutrição grave apresenta níveis transferrina entre 150 a 200 mg%. e. A desnutrição moderada apresenta níveis transferrina inferiores a 100 mg%. 2. As anemias nutricionais são decorrentes de deficiência de nutrientes específicos, como ferro, cobalamina (vitamina B12) e ácido fólico. Sabendo-se disso, assinale a alternativa correta. a. A dosagem de ferritina sérica corresponde a um dos melhores marcadores para a avaliação do estado de ferro corporal, pois analisa a quantidade estocada desse mineral. 9999 99 b. Na anemia ferropriva, as alterações morfológicas dos eritrócitos ocorrem em estágios mais graves da anemia, sendo que a macrocitose ocorre antes da hipercromia. c. A anemia megaloblástica compreende um grupo de alterações hematológicas, que se caracterizam por eritrócitos pequenos (microcíticas) e hipocrômicos. d. Para diagnóstico de anemia por deficiência de ácido fólico, emprega-se a dosagem de ácido fólico sérico (30 a 50 mg/mL). As reservas corporais de ácido fólico demoram em média três meses para se esgotar. e. A dosagem de cobalamina sérica é um bom indicador de diagnóstico de anemia megaloblástica, pois os estoques corporais de cobalamina encontram-se esgotados em 2 meses, em indivíduos com deficiência. 3. A má-absorção dos nutrientes pode ser decorrente de problemas na mucosa e/ou alterações no sistema de remoção. O seu diagnóstico emprega exames usuais e específicos. A respeito do diagnóstico da má-absorção, assinale a alternativa correta. a. A má-absorção de proteínas é determinada por meio da dosagem de nitrogênio fecal e determinação da alfa-1-antitripsina (alfa-1A), sendo esse primeiro o mais utilizado devido dificuldades técnicas da dosagem de alfa-1ª. b. A redução da absorção da D-xilose pode ser realizada após administração dessa pentose e sua dosagem pode ser quantificada somente no sangue, os quais os índices variam de 30 a 52 mg/dL. 100100 c. O PSR (pesquisa de monossacarídeos nas fezes) será positivo devido à presença de mono ou dissacarídeos nas fezes. O pHF (pH fecal) acima de 8 é característico da presença de mono e dissacarídeo nas fezes. d. No teste de tolerância à lactose, espera-se que, após 30 minutos, pacientes sem intolerância à lactose apresentem uma elevação da glicemia sérica maior que 20 mg/dL,comparada com a glicemia basal. e. A dosagem de má-absorção de gorduras é realizada no sangue, sendo empregando teste de Van Kamer, em que valores acima de 20 mg/dL de gordura no sangue são indicativos de danos nos vasos sanguíneos. Referências bibliográficas CALIXTO-LIMA, L.; REIS, N. T. Interpretação de Exames Laboratoriais Aplicados à Nutrição Clínica. Rio de Janeiro: Editora Rubio, 2012. 489 p. COSTA, M. J. C. Interpretação de exames bioquímicos para o nutricionista. 2. ed. São Paulo: Atheneu, 2015. DALANHOL, M. et al. Efeitos quantitativos da estocagem de sangue periférico nas determinações do hemograma automatizado. Revista Brasileira de Hematologia Hemoteria, 32, 1, São Paulo, 2010. HOFFBRAND, A. V.; MOSS, P. A. H. Fundamentos em hematologia de Hoffbrand. 7. ed. Porto Alegre: Artmed, 2018. MARTY, E.; MARTY, R.M. Hematologia laboratorial. São Paulo: Érica, 2015. 120 p. PINTO, W. J. Bioquímicaclínica,1. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017. SILVA, V. R.; COELHO, A. Causas, sintomas e diagnóstico da intolerância à lactose e alergia ao leite de vaca. Revista Saúde UniToledo, Araçatuba, SP, v. 3, n. 1, p. 20-31, abr. 2019. SANTOS, M. F.; ROCHA, S.M.O.; CARVALHO, A. M.R. Avaliação da prevalência de crianças com alergia a proteína do leite de vaca e intolerância à lactose em um laboratório privado de Fortaleza-Ce. Revista Saúde, v. 12, n. 1-2, 2018. 101101 101 XAVIER, R.M.; DORA, J.M.; BARROS, E.B. Laboratório na prática clínica: consulta rápida, 3. ed. Porto Alegre: Artmed, 2016. WIDTH, M.; REINHARD, T. Manual de sobrevivência para nutrição clínica. 2. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2018. WILLIAMSON, M. A.; SNYDER, L.M. Wallach: interpretação de exames laboratoriais, 10. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2018. 1203 p. Gabarito Questão 1 – Resposta C A única afirmativa correta é: a desnutrição grave apresenta níveis transferrina inferiores a 100 mg%. Feedback de reforço: Retome os estudos e tente novamente. Questão 2 – Resposta A A única afirmativa correta é: a dosagem de ferritina sérica corresponde a um dos melhores marcadores para a avaliação do estado de ferro corporal, pois analisa a quantidade estocada desse mineral. Feedback de reforço: Retome os estudos e tente novamente. Questão 3 – Resposta D A única afirmativa correta é: no teste de tolerância à lactose, espera-se que, após 30 minutos, pacientes sem intolerância à lactose apresentem uma elevação da glicemia sérica maior que 20 mg/dL, comparada com a glicemia basal, pois a glicose é o produto da quebra da lactose. Feedback de reforço: Retome os estudos e tente novamente. 102102102 Interpretação de exames relacionados a hidratação, função hepática, renal e endocrinopatias Autora: Rafaela Benatti de Oliveira Objetivos • Compreender e interpretar os exames bioquímicos que avaliam a função hepática. • Compreender e interpretar os exames bioquímicos que avaliam a função renal e hidratação. • Compreender e interpretar os exames bioquímicos que avaliam as doenças que acometem o sistema endócrino. 103103 103 1. Introdução Os exames laboratoriais são essenciais para a prevenção, diagnóstico, prognóstico e estabelecimento de riscos de doenças, assim como para avaliar as respostas e conclusões de um tratamento. A literatura relata que cerca de 70% das decisões médicas são feitas com base em algum exame laboratorial. Entretanto, não entender e/ou compreender os dados que um determinado exame mostra pode acarretar em solicitações em excesso. O tradicional check-up, que nada mais é que uma bateria de exames solicitados com mais frequência pelos médicos, inclui exames tradicionais da prática clínica laboratorial, como a glicemia, perfil lipídico, exames que avaliam a função renal e hepática e que avaliam algum distúrbio hormonal (endocrinopatias), com o objetivo de verificar se o funcionamento do organismo está normal. Nesse sentido, conhecer os exames, sua indicação e interpretar os dados são fundamentais. 2. Avaliação da função hepática Para falarmos sobre os exames que avaliam a função hepática, é importante relembrarmos brevemente algumas características e funções do fígado para melhor compreensão dos exames que medem a função hepática. O fígado é o maior órgão do corpo humano, pesando cerca de 1,5 kg no adulto. Está localizado no quadrante superior direito do abdômen e aproximadamente 75% do fluxo sanguíneo do fígado é suprido pela veia porta, que se origina no intestino. É um órgão tanto secretor como excretor, com inúmeras funções metabólicas. Além dessas características, o fígado exerce inúmeras funções que são essenciais para um bom funcionamento do nosso organismo, como (Schimoni, 2006): 104104 1. Catabolismo do grupo heme. 2. Atua no metabolismo de carboidratos sintetizando glicogênio a partir da glicose. 3. Síntese de proteínas: como a albumina, imunoglobulinas, proteínas da coagulação (fibrinogênio, protrombina), proteínas de fase aguda inflamatória (PCR e ferritina). 4. Catabolismo de proteínas. 5. Síntese de ureia a partir de amônia derivada de aminoácidos. 6. Síntese de lipídios. 7. Metabolismo de drogas. 8. Armazenamento de glicogênio, ferro e vitaminas A, D e B12. 9. Síntese de ácidos biliares a partir do colesterol. A disfunção hepática pode ser dividida em duas categorias de lesão: a. Necrose celular • Aguda: Hepatite tóxica (paracetamol, isoniazida, halotano, toxinas), hepatite alcoólica, necrose isquêmica. Infecções Virais (Vírus A, B, C, D, E, Citomegalovírus, Epstein-Barr). • Crônica: Hepatite crônica ativa, hepatite autoimune, cirrose. b. Colestase • Intra-hepática: Induzida por drogas, cirrose biliar primária, metástases, colelitíase. • Extra-Hepática: Tumores. Os testes de função hepática são usados para determinar a presença ou ausência de doença hepática, realizar diagnóstico específico ou monitorar a evolução da doença. Os tipos de biomarcadores que avaliam a função 105105 105 hepática podem ser divididos em 4 grupos: (i) avaliam a função fisiológica; (ii) avaliam a lesão tecidual; (iii) avaliam reação do organismo à agressão ou lesão; (iv) identificam um agente etiológico específico (Quadro 1). Quadro 1 – Tipos de biomarcadores que avaliam a função hepática BIOMARCADORES QUE AVALIAM UMA FUNÇÃO FISIOLÓGICA DO FÍGADO (BILIRRUBINAS OU ALBUMINA) BIOMARCADORES QUE AVALIAM LESÃO TECIDUAL (AMINOTRANSFERASES, FOSFATASE ALCALINA, GAMA GT) BIOMARCADORES QUE AVALIAM REAÇÃO DO ORGANISMO À AGRESSÃO OU LESÃO (GLOBULINAS OU ANTICORPOS TECIDUAIS) BIOMARCADORES QUE IDENTIFICAM UM AGENTE ETIOLÓGICO ESPECÍFICO (PESQUISA DE VÍRUS, POR EXEMPLO VÍRUS DA HEPATITE) Fonte: elaborado pelo autor, 2019. Segundo a associação americana de estudos das doenças hepáticas, o painel de exames que avaliam a função hepática inclui (Kasalara e Tillmann, 2016): • Proteínas totais. • Albumina. • Bilirrubina total e direta. • Alanina amino transferase (ALT/TGP). • Aspartato amino transferase (AST/TGO). • Tempo de protrombina. • Fosfatase alcalina (FAL). 106106 Nesse painel de exames podem ser acrescentados exames, como: Gama GT, ureia, imunoglobulinas e marcadores de hepatites virais. Agora que você já relembrou as características, funções e aprendeu os tipos de exames que compõem o painel de avaliação da função hepática, vamos falar brevemente dos exames, sua interpretação e como eles se apresentam em algumas situações. 1. Proteínas totais As proteínas totais nada mais são do que a soma da concentração de todas as proteínas circulantes. A determinação da concentração sérica mede as quantidades de proteína total, albumina e globulina no sangue. Sua dosagem fornece informações sobre a função hepática, visto que a maior parte das proteínas séricas são sintetizadas no fígado, mas também fornecem o estado de hidratação e de outros distúrbios metabólicos ou nutricionais. A concentração das proteínas séricas totais é de cerca de 6,0 a 8,0 g/dL (Williamson e Snyde, 2018). Os valores de proteína sérica podem estar elevados em casos de hipergamaglobulinemias e em estados hipovolêmicos, e diminuídas em casos de deficiência nutricional, síntese diminuída ou ineficaz de proteínas (ex: em casos de doenças hepáticas graves), perda aumentada de proteínas, doença renal (ex: síndrome nefrótica), doença gastrointestinal (ex: enteropatias com perdas de proteína), doença dermatológica (ex: queimaduras graves, pênfigo vulgar), perda de sangue, catabolismo aumentado (ex: febre, inflamação, doenças crônicas) entre outras causas (Williamson e Snyde, 2018). 2. Albumina Dentre as proteínas plasmáticas, a albumina é a mais importante, constituindo cerca de 55 a 65% do total destas. É sintetizada pelo fígado e regulada pelo estado nutricional, pressão oncótica do soro, citocinas e hormônios. Seu tempo de meia-vida médio é de 20 dias, sendo degradada diariamente 4% da reserva total. A concentração107107 107 sérica reflete a velocidade de síntese, a degradação e o volume de distribuição. Os valores de referência variam entre os laboratórios e ficam entre: 3,5-3,8 a 4,8-5,0 g/dL (Santos, et al., 2004). Esse exame pode ser solicitado caso seja necessário determinar o estado nutricional para avaliar doença crônica e doenças hepáticas. Os valores podem se apresentar aumentados em casos de desidratação e dieta hiperproteica e diminuídos em casos de doença hepática aguda e crônica (como, por exemplo, o alcoolismo, cirrose e hepatite, onde há a diminuição de síntese pelo fígado), má absorção, desnutrição, jejum, doenças crônicas, analbuminemia genética, hipotireoidismo, infecções, queimaduras, hemorragias, doença renal, hidratação rápida ou excessiva, etc. 3. Bilirrubina total e direta A bilirrubina é um marcador que avalia a função fisiológica do fígado de uma ampla diversidade de doenças que afetam a produção, a captação, o armazenamento, o metabolismo ou a excreção de bilirrubina e para o monitoramento da eficácia da fototerapia neonatal. Aproximadamente 75-80% da bilirrubina é derivada da hemoglobina dos eritrócitos (através da degradação do grupo heme) senescentes fagocitados pelas células mononucleares do baço, medula óssea e fígado, que catabolizam e formam o pigmento (bilirrubina). Essa também pode ser derivada de outras hemoproteínas, principalmente os citocromos (Martelli, 2012). A bilirrubina é metabolizada no fígado. No sangue, a bilirrubina não conjugada é complexada com a albumina (por ser insolúvel em sistemas aquosos a albumina realiza o transporte). Essa formação do complexo albumina mais bilirrubina impede a passagem indiscriminada de bilirrubina para outras células teciduais, além dos hepatócitos. Quando chega ao fígado, a bilirrubina é conjugada com ácido glicurônico e secretada pelo hepatócito para dentro dos canalículos biliares. A bilirrubina conjugada é convertida em urobilinogênio. No intestino, o urobilinogênio fecal é convertido em estercobilina (que dá cor as fezes). E uma pequena parte do urobilinogênio pode ser excretada pelos rins e ser encontrada na urina. 108108 Um aumento da bilirrubina no plasma provoca a icterícia. A icterícia é caracterizada pela coloração amarelada em pele e mucosa, e se manifesta clinicamente quando a bilirrubina total é maior que 2,5 mg/ dL (Martelli, 2012). A hiperbilirrubinemia acontece quando há um desequilíbrio entre produção e excreção da bilirrubina. A icterícia pode ser classificada em (Martelli, 2012): • Pré-Hepática: aumento da produção de bilirrubina. As causas desse aumento podem ocorrer pelas anemias hemolíticas e por hemoglobinas anormais. Nesse caso há o aumento da bilirrubina não conjugada (bilirrubina indireta). • Intra-Hepática: captação, conjugação ou secreção hepática inadequadas. As causas desse aumento podem ocorrer por infecção por vírus (Hepatites virais A, B, C), intoxicação por álcool e drogas (paracetamol), síndrome de Gilbert e fisiológica (neonatos). Reflete disfunção hepática, neste caso a bilirrubina conjugada está elevada (bilirrubina direta). • Pós-hepática: Obstrução da drenagem biliar. As causas desse aumento podem ocorrer por cirrose biliar primária, colangite e cálculos biliares. Causada pela obstrução da árvore biliar. A bilirrubina conjugada e outros metabólitos se acumulam no plasma (bilirrubina direta). Os valores de referência podem variar entre laboratórios, visto que esses utilizam equipamentos, kits de dosagens e pessoal diferentes. Abaixo, seguem os valores de referência de um laboratório de grande porte (Tabela 1): Tabela 1 – Valores de referência bilirrubina Analito Valor de referência Bilirrubina direta Inferior ou igual a 0,4 mg/dL Bilirrubina indireta Inferior ou igual a 0,8 mg/dL Bilirrubina total De 0,3 a 1,2 mg/dL Fonte: Xavier, 2016. 109109 109 4. Tempo de protrombina A protrombina ou fator II da coagulação é produzida no fígado sob a dependência da vitamina K. A deficiência da vitamina causa redução do fator II e consequentemente hemorragia. A protrombina participa da via extrínseca da coagulação, onde o fator Xa converte a protrombina em trombina, que atua no fibrinogênio para formar monômeros de fibrina, essenciais para a formação do coágulo. É usado como teste de triagem para avaliar a via extrínseca da coagulação, pré-cirurgia e na monitorização da terapia anticoagulante com warfarina. Em casos de doença hepática, o tempo de protrombina se encontra prolongado. • Enzimas hepáticas O aumento nos níveis séricos das enzimas hepáticas, de forma geral, reflete dano ao tecido, exatamente pelo fato de a maior parte delas serem enzimas intracelulares. Algumas enzimas estão distribuídas em muitos tecidos pelo corpo, outras são órgão-específicas. É importante ressaltar que a determinação dos níveis enzimáticos isolados não é sempre específica para o dano no determinado órgão, porém, quando utilizada em conjunto com outros testes, os sintomas clínicos e a história do paciente tornam-se uma ferramenta diagnóstica útil. No caso da avaliação da função hepática, as enzimas usadas são: fosfatase alcalina, lactato deidrogenase, gama glutamil transferase e as aminotransferases (ALT e AST). 5. Aminotransferases As aminotransferases estão presentes no tecido hepático no interior dos hepatócitos. Quando há lesão da membrana dos hepatócitos, essas são liberadas no sangue, sem necessidade de necrose da célula. As concentrações variam com o tempo, ou seja, os níveis aumentam durante a doença hepática aguda e diminuem após a recuperação. 110110 Essas enzimas catalisam a transferência reversível dos grupos amino de um aminoácido para o alfa-cetoglutarato, formando cetoácido e ácido glutâmico. • Alanina amino transferase (ALT/TGP) A Alanina amino transferase (ALT), também conhecida como transaminase glutâmica-pirúvica (TGP), é encontrada principalmente no fígado e, em menores concentrações, no tecido cardíaco, renal e muscular, sendo, portanto, um marcador mais específico de danos no tecido hepático. Assim, quando ocorre uma lesão tecidual, esta enzima intracelular é liberada na corrente sanguínea. A ALT é encontrada de forma predominante no citoplasma. Esta particularidade auxilia no diagnóstico de doenças hepáticas, pois, em dano hepático leve, a forma predominante no soro é a citoplasmática, enquanto que em lesões graves há liberação da enzima mitocondrial (caso da AST, que é encontrada predominantemente nas mitocôndrias). As principais causas de elevação da ALT são principalmente por infecções hepáticas por vírus ou drogas, como na hepatite por vírus, necrose hepática, cirrose, hepatite por drogas, carcinoma hepático, paracetamol, anti-inflamatórios não esteroidais (AINEs), estatinas, tetraciclina, fluconazol. A ALT não sofre influências importantes do exercício físico. Os valores de referência normais são de 10 a 40 U/L (Mcpherson e Pincus, 2012). • Aspartato amino transferase (AST/TGO) A aspartato amino transferase (AST), também conhecida como transaminase glutâmica-oxaloacética (TGO), é encontrada em muitos tecidos, em especial no coração, no músculo esquelético e no fígado. Encontra-se elevada após o infarto do miocárdio, bem como nas doenças do fígado. Sofre influência da atividade física, sendo um 111111 111 parâmetro razoável para diagnosticar e prevenir lesões musculares em atletas. Os valores de referência em indivíduos fisicamente ativos é <62 U/L e em não praticantes de atividade física < 40 U/L (Mcpherson e Pincus, 2012). 6. Fosfatase Alcalina (FAL) A fosfatase alcalina (FAL) é uma enzima que transporta os metabólitos através das membranas. A FAL está presente principalmente no epitélio intestinal, túbulos renais, osteoblastos (ossos), fígado e placenta. No fígado, está presente na superfície dos ductos biliares. Sua meia- vida é de cerca de 7 dias. Quadros colestáticos aumentam a síntese e a liberação dessa enzima. Valores aumentados de FAL podemser encontrados quando há obstrução dos ductos biliares, cirrose biliar, mononucleose infecciosa, metástases ósseas, hepatites virais, cirrose hepática, fraturas em cicatrização e crianças em fase de crescimento. O aumento de FAL, associado com o aumento de Gama GT, sugere fortemente que a origem é hepatobiliar. Os valores de referência em crianças de 1 a 6 anos é de 150 a 380 U/L, de 7 a 9 anos é de 175 a 420 U/L e em homens adultos é de: 65 a 260 U/L e em mulheres: 50 a 130 U/L (Williamson e Snyde, 2018). 7. Gamaglutamil Transferase (GGT) A enzima Gamaglutamil Transferase (GGT) tem a função de transferir o grupo ϒ-glutamil de peptídeos para outros aminoácidos, peptídeos ou água. Está localizada na membrana celular ou em menor proporção no citoplasma do túbulo renal proximal, fígado, pâncreas e intestino. Sua origem é principalmente do sistema hepatobiliar. Mostra-se elevada na doença hepática, icterícia obstrutiva, colangite, colescistite, fígado gorduroso, esteatose hepática e cirrose de origem alcoólica. Os valores de referência para Homens é de < 50 U/L e Mulheres < 30 U/L (Xavier, 2016). 112112 PARA SABER MAIS Os exames mais solicitados para triagem de doenças hepáticas são: dosagem dos níveis séricos de aminotransferases (os testes de função hepática mais usados), bilirrubinas e fosfatase alcalina. Alguns padrões de alterações nos exames hepáticos ajudam a distinguir lesões hepatocelulares e colestase. Figura 1 – Doenças hepáticas: fatores de riscos, sinais e sintomas, prevenção e tratamento Fonte: ttsx/iStock.com. 113113 113 3. Avaliação da função renal e hidratação Para falarmos sobre os exames que avaliam a função renal, vamos lembrar brevemente algumas características e funções dos rins. Os rins são os responsáveis pela formação e excreção da urina, sendo o principal meio para eliminar produtos de excreção e excessos de fluidos. É através da excreção urinária que a hidratação do corpo, a concentração sanguínea de íons, como sódio, potássio, e outras moléculas são reguladas. Além da função de eliminar os metabólitos e produtos tóxicos de excreção pela urina, os rins também possuem a função de regular o equilíbrio ácido-básico (pH), regula a composição de volume dos fluidos corporais (como o sangue), a pressão sanguínea, e produz hormônios necessários para o correto funcionamento de tecidos e órgãos, como, por exemplo, o hormônio eritropoietina (EPO), que é produzido nos rins e age diretamente na produção dos eritrócitos na medula óssea. O rim filtra diariamente 120 mL/min de sangue e faz uma depuração de produtos finais do metabolismo proteico (prevenindo perdas de proteínas como a albumina). Essa taxa de filtração glomerular dos rins nas doenças renais diminui ao longo do tempo e acarreta algumas complicações, como a hipertensão arterial, anemia, desnutrição, doença óssea, etc. Assim, as doenças ou condições que alteram a função renal, se não tratadas, podem causar risco de vida. A falha do rim pode ser tratada com diálise ou transplante. A taxa de filtração glomerular (TFG) é uma medida muito usada na avaliação da função renal, pois mede a depuração de uma substância que é filtrada livremente pelos glomérulos e não sofre reabsorção ou secreção tubular. É uma estimativa feita por equações que levam em conta o volume de urina 24 horas e a creatinina sérica ou a cistatina 114114 C. O cálculo é baseado no peso ideal do paciente (massa muscular), no metabolismo muscular (idade e gênero) e na medida da creatinina. Dentre as equações utilizadas existem a de Cockcroft-Gault (CG), a Modification of Diet in Renal Disease (MDRD) e a Chronic Kidney Disease Epidemiology Collaboration (CKD-EPI) para adultos, e a de Schwartz para crianças. As equações para determinar a TFG podem ser encontradas no site da Sociedade Brasileira de Nefrologia. Em casos de doenças renais, além de alterações no exame de urina, as concentrações séricas e plasmáticas de algumas substâncias estão alteradas e podem ser utilizadas como marcador de função renal. Os exames que compõem esse painel são: • Ureia. • Creatinina. • Cistatina C. • Ácido úrico. • Urina e urina 24 horas. 1. Ureia O catabolismo de proteínas e ácidos nucleicos resultam na formação de ureia e amônia. Sua síntese ocorre no fígado em decorrência dos grupos NH2 liberados pela desaminação dos aminoácidos. A ureia é filtrada nos glomérulos e reabsorvida nos túbulos renais. É um teste de triagem amplamente utilizado para avaliar a função renal. Em conjunto com a creatinina sérica, os níveis de ureia no sangue ajudam no diagnóstico diferencial da hiperuricemia pré-renal, renal e pós-renal. Um nível de ureia sanguínea de 10 a 20 mg/dL sempre indica uma função glomerular normal, sendo uma forma de avaliar a função glomerular. É útil na avaliação de casos de pacientes que necessitam de suporte nutricional para o catabolismo excessivo, como, por exemplo, queimaduras e câncer. Os valores de referência são: 19 a 49 mg/dL (Abensur, 2011). 115115 115 Os valores de ureia séricos podem se apresentar elevados quando as concentrações se encontram entre 50 a 150 mg/dL, indicando grave comprometimento da função renal. Uma elevação acentuada da ureia sanguínea (150 a 250 mg/dL) conclui que há grave comprometimento da função glomerular. Quando há uma redução do fluxo sanguíneo renal (como, por exemplo, em vômitos, diarreia, diurese, sudorese) ou choque (azotemia pré-renal). Qualquer obstrução do trato urinário (aumento da razão ureia sanguínea: creatinina), azotemia pós- renal, aumento do catabolismo proteico (o nível sérico de creatinina permanece normal), hemorragia no trato gastrointestinal, IAM, estresse. Valores diminuídos podem ser encontrados em casos de diurese (ex., com hiper-hidratação, frequentemente associada a baixo catabolismo proteico), lesão hepática grave (p. ex., fármacos, intoxicação, hepatite). Um baixo nível de ureia no sangue de 6 a 8 mg/dL está frequentemente associado a estados de hiper-hidratação ou doença hepática, catabolismo aumentado e dieta (Abensur, 2011). 2. Creatinina A creatinina é formada a partir da desidratação da creatina. É um composto orgânico nitrogenado e não proteico. Sua síntese ocorre no fígado e é captada pelo músculo para armazenamento de energia na forma de fosfato de creatinina e degradada em creatinina que, em seguida, entra na circulação e é excretada pelos rins. É eliminada por filtração glomerular e não é reabsorvida pelos túbulos em grau significativo. Quando a função renal está diminuída, seus níveis no sangue aumentam, entretanto, é necessário que mais de 50% da função renal esteja alterada para que isso aconteça. Os níveis de creatinina são influenciados pela dieta e pelos níveis hormonais. Seu nível sérico depende da idade, sexo, do estado nutricional e massa muscular. Valores aumentados podem ser encontrados em casos de ingestão dietética alta (carne), destruição muscular, hipertireoidismo (esse diagnóstico é quase excluído por níveis séricos normais de creatinina) e terapia com testosterona. Os valores de referência são: homem: 0,2 a 0,7 mg/dL e mulher: 0,3 a 0,9 mg/dL (Ramos e Marini, 2014). 116116 • Depuração da creatinina (clearance de creatinina) Para estimar a filtração glomerular ou, em outras palavras, a capacidade dos rins em filtrar, utiliza-se os valores da creatinina plasmática e a amostra de urina. Assim, esse teste compara a creatinina em uma amostra de urina de 24 horas com o nível de creatinina no sangue para estabelecer a quantidade de sangue filtrada pelos rins a cada minuto. É calculada pela seguinte fórmula: UCr x volume de 24 horas/PCr x 24 x 60 min, onde UCr é a creatinina urinária e a PCr, a creatinina plasmática. Esse cálculo é muito utilizado na clínica devido ao baixo custo e por avaliar a função glomerular e monitorar a eficiência do tratamento na doença renal. Valor de referência: Homem: 85 - 125 mL/min/1,73 m2, Mulher: 75 - 115 mL/min/1,73m2 (Abensur, 2011; Ramos e Marini, 2014). 3. Cistatina C A cistatina C é uma proteína não glicosilada que inibe a cisteína protease produzida por todas as células nucleadas. A cistatina C não é afetada pela idade, gênero, massa muscular ou processo inflamatório. É um excelente indicador para taxa de filtração glomerular, visto que é removida da circulação por filtração glomerular e sofre reabsorção completa. Entretanto, esse exame ainda traz como desvantagem seu custo elevado em relação ao clearance de creatinina, restringindo seu uso na prática clínica. Valor de referência: de 0,62 a 1,11 mg/L (Abensur, 2011). 4. Ácido úrico O ácido úrico é formado através da degradação de ácidos nucleicos. Sua síntese ocorre no fígado e na mucosa intestinal. Dois terços são excretados pelos rins e um terço pelo trato gastrointestinal. Valor de referência: Homens: de 3,7 a 7,8 mg/dL e Mulheres: de 2,8 a 6,5 mg/dL (Abensur, 2011; Williamson e Snyde, 2018). 117117 117 A dosagem de ácido úrico é usada para o monitoramento do tratamento da gota e em tratamento com quimioterapia em neoplasias (a fim de evitar o depósito renal de uratos com possível insuficiência renal). Valores aumentados podem ser encontrados em casos de: insuficiência renal (não se correlaciona com a gravidade da lesão renal; para tal é necessário utilizar a dosagem de ureia e a creatinina), gota, hiperuricemia assintomática, destruição aumentada de nucleoproteínas, alguns fármacos e substâncias (barbitúricos, monóxido de carbono, diuréticos que diminuem a depuração renal ou secreção tubular, etc.), dieta hiperproteica, etilismo, hipotireoidismo, etc. ASSIMILE A água é essencial para nossa sobrevivência e é a molécula mais abundante no corpo humano. Nesse sentido, manter o corpo hidratado é fundamental. Para saber se a pessoa está com os níveis de hidratação normal, há alguns exames laboratoriais e testes clínicos que auxiliam. Como testes laboratoriais podemos incluir a concentração de sódio, a concentração de ureia, análise de hematócrito, a osmolaridade e a cor da urina. 4. Endocrinopatias O sistema endócrino é responsável por inúmeras funções no organismo humano, como exemplo a regulação iônica, controle da glicemia e nutrientes, controle da frequência cardíaca e pressão arterial, controle das funções reprodutoras, etc. Funciona como um sistema de comunicação e coordenação, que atua em conjunto com o sistema nervoso, segregando hormônios para a corrente sanguínea e controlando as necessidades fisiológicas do organismo. As principais glândulas e hormônios que fazem parte do sistema endócrino estão listadas na Tabela 2 ((Mcpherson e Pincus, 2012). 118118 Tabela 2 – Principais glândulas e hormônios secretados GLÂNDULA HORMÔNIO HIPOTÁLAMO Hormônio Liberador de Gonadotrofina (GnRH) Hormônio Liberador de Tireotropina (TRH) Hormônio Liberador de Corticotrofina (CRH), Hormônio Liberador de GH (GHRH) Somatostatina (inibidor de GH) e Dopamina HIPÓFISE ANTERIOR Hormônio Folículo Estimulante (FSH), Hormônio do Crescimento (GH), Hormônio Luteinizante (LH), Prolactina, Hormônio Adrenocorticotrófico (ACTH), Hormônio Estimulador da Tireoide (TSH) HIPÓFISE POSTERIOR Ocitocina e Vasopressina (ADH) TIREOIDE Calcitocina, Tri-iodotironina e tiroxina (T3 e T4) PARATIREOIDE Hormônio Paratireoídeo (PTH) MEDULA DA ADRENAL Adrenalina/Noradrenalina RINS Eritropoietina CÓRTEX DA ADRENAL Cortisol e Deidroepiandrosterona (DHEA) PÂNCREAS Glucagon e Insulina TESTÍCULOS Testosterona OVÁRIO Estrógeno e Progesterona Fonte: elaborada pelo autor, 2019. • Distúrbios da glândula tireoide A tireoide secreta os hormônios tiroxina (T4) e tri-iodotironina (T3). A ausência desses hormônios diminui o metabolismo basal para (40-50%) do normal e o excesso eleva o metabolismo em 60-100%. Esses hormônios circulam ligados a proteínas plasmáticas. Em torno de 70% do T4 circula ligado à globulina ligante de tiroxina (TBG), 20% ligado a transtiretina (pré albumina ligante de tiroxina) e 10% ligado a albumina. O T3 circula ligado principalmente na TBG. Nesse sentido, apenas uma pequena parte dos hormônios T3 (0,3%) e T4 (0,03-0,5%) circulam na forma livre. Os ensaios utilizados para diagnosticar os distúrbios da tireoide são: dosagem de T3, T4, hormônio estimulador da tireoide (TSH), globulina ligadora de tiroxina (TBG) e testes para pesquisas de autoanticorpos em casos de suspeita de doença autoimune da tireoide (anticorpos tireoperoxidade (anti-TPO), anti-tireoglobulina (anti-Tg) e anti-receptor de TSH (anti-TRAB)). 119119 119 Hipertireoidismo: é definido como a hipersecreção de hormônios tireoidianos. Em casos de suspeita, a determinação dos níveis séricos de T4 é o teste de rastreamento com maior custo benefício. Se o valor for normal, é quase improvável que o paciente tenha hipertireoidismo. Ainda nesses casos, os níveis de TSH são inferiores e permanecem diminuídos durante muitos meses. De forma geral, os níveis de T4 livre são importantes para confirmar e determinar o grau de hipertireoidismo, e encontram-se elevados. A avaliação de T3 também é importante para determinar a intensidade e monitorar a resposta ao tratamento. Hipotireoidismo: é definido como a deficiência na secreção e ação dos hormônios tireoidianos. A confirmação laboratorial do diagnóstico de hipotireoidismo consiste na determinação das concentrações séricas de TSH e T4 livre. O hipotireoidismo caracteriza-se por concentrações séricas elevadas de TSH e concentrações séricas baixas de T4 livre. O hipotireoidismo secundário é definido por concentrações séricas baixas de TSH, assim como concentrações séricas baixas de T4. Distúrbios da glândula adrenal ou suprarrenal A glândula adrenal está localizada bilateralmente acima dos rins. É dividida em duas zonas distintas, o córtex e a medula. O córtex adrenal secreta os hormônios aldosterona, cortisol, hormônios sexuais ou esteroides androgênicos. A medula adrenal secreta os hormônios chamados de catecolaminas (adrenalina e noradrenalina). Os distúrbios mais comuns relacionados com a glândula adrenal são a síndrome de Cushing (ou hipercortisolismo), a doença de Addison (insuficiência adrenal ou hipocortisolismo) e a hiperplasia adrenal congênita. O estresse físico e mental faz com que estimule a secreção de ACTH (corticotrofina) e consequentemente de cortisol. O cortisol possui funções essenciais no nosso organismo, que podem ser vistas na Figura 2. De acordo com sua função, um aumento nos níveis de cortisol elevará também a concentração plasmática de glicose, lipídeos e aminoácidos. 120120 Figura 2 – Funções do cortisol Fonte: elaborada pelo autor, 2019. Hipercortisolismo ou Síndrome de Cushing: é um conjunto de distúrbios clínicos e metabólicos caracterizado por hiperfunção da adrenal. Está associado com a produção excessiva de glicocorticoides ou de glicocorticoides com androgênios. São achados clínicos comuns a obesidade central, hipertensão, hirsutismo, disfunção sexual e menstrual e estrias. Os principais achados laboratoriais são a produção elevada de cortisol que faz com que o cortisol sérico, livre e urinário se apresente elevados, hiperglicemia e o sódio sérico pode estar elevado. • Distúrbios gonadais Os distúrbios gonadais ou das glândulas reprodutivas estão relacionados com os sistemas reprodutivos dos homens (testículos) e das mulheres (ovários). As glândulas reprodutivas produzem os hormônios sexuais (como a testosterona, estrógeno e progesterona), que são responsáveis pelas características sexuais dos homens e das mulheres. A testosterona (principal hormônio masculino) nos homens é responsável pelas características como voz grave, crescimento do pênis, pelos no rosto, corpo 121121 121 e pubianos, aumento de massa muscular e crescimento ósseo. Promove também o desejo sexual masculino e a agressividade. O estrógeno e a progesterona nas mulheres estão relacionados com o crescimento dos seios, a menstruação, o alargamentodos quadris e os pelos pubianos e axilares. Os distúrbios mais comuns são: ginecomastia, hirsutismo, galactorreia e hipogonadismo masculino. • Distúrbios da glândula hipófise A glândula hipófise está intimamente relacionada ao hipotálamo. Juntos fazem a interface entre o Sistema Nervoso Central e o Sistema Endócrino. Agem controlando a função de várias glândulas endócrinas e de vários processos fisiológicos. A hipófise é formada por duas glândulas distintas: adeno-hipófise ou hipófise anterior e neuro-hipófise ou hipófise posterior. Os hormônios produzidos pela hipófise estão listados na tabela 2. Os distúrbios mais comuns são: hipopituitarismo, tumores hipofisários, diabetes insípido e síndrome de secreção inapropriada do hormônio antidiurético. • Distúrbios da glândula paratireoide As glândulas paratireoides consistem em quatro pequenas glândulas localizadas na superfície posterior da glândula tireoide. O paratormônio (PTH) é uma proteína produzidas pelas glândulas paratireoides, possui ação antagônica à calcitonina e age diretamente nas células dos túbulos renais, inibindo a reabsorção de fosfatos e regulando a fosfatúria. Possui também ação nos ossos, agindo nos osteoclastos e inibindo a ação dos osteoblastos, promovendo então uma reabsorção do tecido da matriz óssea, liberando os íons cálcio e fosfato no sangue. O distúrbio mais comum da glândula paratireoide é o hiperparatireoidismo, onde ocorre a hipersecreção persistente do paratormônio. O hiperparatireoidismo pode ser primário, secundário ou terciário, sendo o primário mais comum. No hiperparatireoidismo, os níveis séricos de cálcio e PTH estão elevados. Na urina, o cálcio também se encontra elevado. 122122 Como você viu, são muitos os exames e distúrbios endócrinos já relatados na literatura. É normal ficar confuso no início, mas com tempo e estudos você ficará mais familiarizado. É recomendável que nesse início você elabore uma tabela contendo os tipos de distúrbios e os exames relacionados para que fique mais fácil durante o dia a dia do consultório. Aproveite e insira nessa tabela os exames que avaliam a função hepática e renal também. TEORIA EM PRÁTICA Homem de 70 anos chegou ao seu consultório para atendimento nutricional com sua filha. A filha relata que o pai não se alimenta de forma saudável e acredita que os sintomas que ele está apresentando tenham a ver com isso. Durante a conversa, ele relatou dor abdominal acima da cintura, mas abaixo do tórax, na região das costelas, que persiste por um mês, e que sua urina estava bem escura e as fezes muito claras. Clinicamente, você notou que ele estava ictérico através da coloração da pele e dos olhos. Após a anamnese e conversa, você solicitou que o paciente procurasse um médico ou hospital com urgência e solicitou os seguintes exames laboratoriais: Bilirrubina total, direta e indireta e ALT. Frente aos dados apresentados, qual a provável suspeita diagnóstica? Suponha que o paciente retornou com os resultados dos exames laboratoriais e mostraram: Bilirrubina Total = 23,5 mg/dL (VR < 1,2) Bilirrubina Direta = 18,3 mg/dL (VR < 0,8) Bilirrubina Indireta = 5,2 mg/dL (VR < 0,4) e ALT/TGP = 38 U/L (10 – 40 U/L). Com base nos exames que aprendeu, os exames solicitados foram suficientes? Quais outros exames poderiam ter sido solicitados? Qual a possível causa de icterícia no paciente? 123123 123 VERIFICAÇÃO DE LEITURA 1. Os testes de função hepática são usados para determinar a presença ou ausência de doença hepática, realizar diagnóstico específico ou monitorar a evolução da doença. Os tipos de biomarcadores que avaliam a função hepática podem ser divididos em 4 grupos. Assinale a alternativa correta: a. (i) Avaliam a anatomia do órgão; (ii) avaliam a lesão tecidual; (iii) avaliam reação do organismo à agressão ou lesão; (iv) identificam bactérias. b. (i) Avaliam a anatomia do órgão; (ii) avaliam a lesão tecidual; (iii) avaliam reação do organismo à agressão ou lesão; (iv) identificam fungos. c. (i) Avaliam a anatomia do órgão; (ii) avaliam a lesão tecidual; (iii) avaliam reação do organismo à agressão ou lesão; (iv) identificam um agente etiológico específico. d. (i) Avaliam a função fisiológica; (ii) avaliam a lesão tecidual; (iii) avaliam reação do organismo à agressão ou lesão; (iv) identificam um agente etiológico específico. e. (i) Avaliam a função fisiológica; (ii) avaliam a lesão tecidual; (iii) avaliam reação do organismo à agressão ou lesão; (iv) identificam bactérias e fungos. 2. Nas doenças renais, além de alterações no exame de urina, as concentrações séricas e plasmáticas de algumas substâncias estão alteradas e podem ser utilizadas como marcador de função renal. Os exames que compõem esse painel são: 124124 a. Ureia, albumina, ácido úrico e fosfatase alcalina. b. Ureia, proteínas totais, AST/ALT e cistatina C. c. Ureia, creatinina, ácido úrico e cistatina C. d. Bilirrubina total, creatinina, ácido úrico e ureia. e. Albumina, creatinina, bilirrubina direta e fosfatase alcalina. 3. O hipertireoidismo é definido como a hipersecreção de hormônios tireoidianos, em contrapartida, o hipotireoidismo é definido como a deficiência na secreção e ação dos hormônios tireoidianos. Em casos de suspeita, a determinação dos níveis séricos dos hormônios relacionados ao diagnóstico dos distúrbios da tireoide se apresentam respectivamente: a. Hipertireoidismo: T4 aumentado e TSH diminuído; Hipotireoidismo: T4 diminuído e TSH aumentado. b. Hipertireoidismo: T4 diminuído e TSH diminuído; Hipotireoidismo: T4 aumentado e TSH aumentado. c. Hipertireoidismo: T4 aumentado e TSH aumentado; Hipotireoidismo: T4 diminuído e TSH diminuído. d. Hipertireoidismo: T4 diminuído e TSH aumentado; Hipotireoidismo: T4 aumentado e TSH diminuído. e. Hipertireoidismo: T3 normal; Hipotireoidismo: T3 normal. 125125 125 Referências bibliográficas ABENSUR, Hugo. Roche (Ed.). Biomarcadores na Nefrologia. São Paulo: Sociedade Brasileira de Nefrologia, 2011. 114 p. 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Feedback de reforço: Retome os estudos e tente novamente. Questão 2 – Resposta C Os exames que compõem o painel de avaliação da função renal são: ureia, creatinina, ácido úrico e cistatina C. Feedback de reforço: Retome os estudos e tente novamente. Questão 3 – Resposta A Hipertireoidismo: T4 aumentado e TSH diminuído; Hipotireoidismo: T4 diminuído e TSH aumentado. Feedback de reforço: Retome os estudos e tente novamente. 127127 127 Interpretação de exames relacionados a função cardíaca e distúrbios do equilíbrio ácido-base de eletrólitos Autora: Rafaela Benatti de Oliveira Objetivos • Compreender a avaliação da função cardíaca. • Entender os distúrbios eletrolíticos e os mecanismos que mantêm a manutenção do pH dos líquidos. • Descrever os diferentes tipos de desequilíbrios ácido-básicos. 128128 1. Introdução O coração é um órgão essencial ao funcionamento do nosso corpo. É uma bomba propulsora que tem a função de levar o sangue (oxigenado e desoxigenado) para o corpo. Doenças que afetam esse sistema podem elevar alguns exames bioquímicos após uma lesão cardíaca, por exemplo. Sendo assim, é necessário entender os exames que avaliam a função cardíaca. Manter a homeostase entre os líquidos intracelular e extracelular no corpo exige que muitos fatores estejam em sintonia, como a ingestão de água e eletrólitos, a regulação desse sistema por hormônios (em sua maioria), o pH sanguíneo entre outros. Dessa forma, é muito importante compreender esse funcionamento, conhecer os eletrólitos, o equilíbrio ácido-base e os distúrbios que podem ocorrer em algumas situações. 2. Avaliação da função cardíaca Relembrando brevemente sobre o sistema circulatório, ele é composto pelo coração, vasos sanguíneos e o sangue. O coração nesse sistema é quem faz com que o sangue circule por todo o corpo através dos vasos sanguíneos e realiza as trocas gasosas. As doenças cardiovasculares (DCV) afetam o sistema circulatório (vasos e coração) e essas doenças têm como base a trombose arterial e aterosclerose. A aterosclerose é uma doença vascular inflamatória crônica que afeta a camada íntima das artérias de médio ou grande calibre, como a aorta, as carótidas, as artérias periféricas de membros e as artérias coronarianas. A progressão da aterosclerose pode ser dividida em duas fases, a aterosclerótica e a trombótica. Na fase aterosclerótica ocorre a progressão da placa aterosclerótica (acúmulo de lipídeos, como a lipoproteína de baixa densidade o LDL, células inflamatórias e elementos fibrosos) sob a influência de promotores (fatores de risco) e a evolução é lenta. Já na fase trombótica há a 129129 129 formação de um trombo sobre a placa aterosclerótica e a evolução é rápida. Nesse sentido, a avaliação do perfil lipídico é solicitado como forma de prevenção de doenças cardiovasculares, visto que o aumento de colesterol, triglicérides e LDL são fatores de risco para o desenvolvimento de doenças cardiovasculares. Os fatores de risco relacionados ao desenvolvimento das doenças cardiovasculares podem ser divididos em: fatores modificáveis, que incluem os fatores adquiridos, e comportamentais e os não modificáveis, que englobam os fatores genéticos ou mistos (genético-ambiental). Ainda, existem algumas condições sistêmicas que podem aumentar os riscos de DCV. Os fatores de riscos podem ser observados na tabela 1. Tabela 1 – Fatores de riscos para o desenvolvimento de DCV NÃO MODIFICÁVEIS MODIFICÁVEIS CONDIÇÕES SISTÊMICAS Histórico familiar DCV (I) Tabagismo (II) Diabetes mellitus Hiperhomocisteinemia Sexo Masculino (I) Sedentarismo (II) Hipertensão Neoplasias Idade (I) Estresse (II) Dislipidemias SAF (I) Reposição hormonal (II) Obesidade Anemia falciforme Síndrome nefrótica Legenda: SAF (Síndrome do Anticorpo Antifosfolípede). Modificáveis: (I) comportamentais e (II) adquiridos. Fonte: elaborada pelo autor. Os primeiros marcadores para avaliar a da função cardíaca foram as transaminases (ALT e AST), porém esses marcadores aumentavam em outras situações, como nas lesões hepáticas (já estudamos anteriormente), logo outros candidatos mais específicos apareceram, como a lactato desidrogenase (LDH) e a creatinoquinase (CK). Podemos adicionar a esses marcadores, a troponina cardíaca, mioglobina e proteína-C reativa ultrassensível (PCR-hs). Esses marcadores são utilizados quando o evento já ocorreu, por exemplo, após um infarto agudo do miocárdio (IAM). Há outros marcadores que são utilizados para estratificação do risco cardiovascular, ou seja, são usados como 130130 prevenção (em casos onde há fatores de risco) ou se o indivíduo já teve alguma doença cardiovascular (avalia um novo risco do desenvolvimento). Esses marcadores são: fosfolipase A2 associada à lipoproteína (Lp-PLA2), dosagem de fibrinogênio, dosagem de homocisteína, inibidor do ativador do plasminogênio tipo 1 (PAI-1) e o D-dímero, ainda nesse grupo podemos incluir também o PCRhs. Abordaremos aqui os marcadores: LDH, CK, a troponina cardíaca, mioglobina e PCRhs. Retome o conteúdo anterior da avaliação da função hepática para relembrar sobre os marcadores ALT e AST. É importante ressaltar que os marcadores de função cardíaca sempre estão associados a outros exames específicos para o diagnóstico de doença cardíaca, como o eletrocardiograma, e outros exames de imagem. Ainda muitos marcadores existentes podem ocorrer em diversos tecidos, diminuindo assim a especificidade da determinação dos seus níveis no sangue, associando a uma patologia • Creatinoquinase (CK) A Creatinoquinase (CK) é uma enzima que regula a produção de fosfato de alta energia nos tecidos contráteis. Possui três subunidades, a B (do inglês brain, cérebro) e M (músculo) que se combinam formando a CK- MM (muscular), CK-BB (cerebral) e CK-MB (miocárdica). Assim a CK-MM tem origem do músculo esquelético e do coração, a CK-BB tem origem do cérebro, dos pulmões e de muitos outros tecidos, já a CK-MB tem origem principalmente do miocárdio, entretanto, a isoforma MB pode ser encontrada no músculo esquelético. Nos casos de suspeita de IAM é solicitada a dosagem de CK-total e CK-MB. Os níveis e a dosagem de CK total são afetados por condições clínicas, ambientais ou genéticas. Os inconvenientes de sua dosagem após o IAM são: encontra-se elevada por um tempo relativamente curto e pode ter consequência de lesão no músculo esquelético, por exemplo, após exercícios físicos intensos. A CK-MB representa 40% da CK presente no tecido miocárdico. Os valores séricos de CK-MB começam a aumentar dentro de 4 a 6 horas após o início do infarto, entretantopode não estar elevados em todos 131131 131 os pacientes até cerca de 12 horas. Os valores aumentados começam a retornar ao valor basal dentro de 36 a 48 horas. Comparando esse período de elevação da CK-MB com a elevação da troponina sérica (que pode persistir por um período de até 10 a 14 dias), traz a conclusão que a CK-MB não deve ser usada para o diagnóstico tardio de IAM, mas pode ser utilizada para sugerir a extensão do infarto se houver nova elevação dos níveis após o declínio (Lozovoy, et al. 2008; Mueller, 2014; Queiroz, et al. 2018). • Lactato Desidrogenase (LDH) A lactato desidrogenase (LDH) é uma enzima citoplasmática. Possui cinco isoformas, LDH-1, LDH-2, LDH-3, LDH-4 e LDH-5. Cada uma delas possui uma especificidade tecidual, sendo a LDH-1 encontrada principalmente nos eritrócitos, coração e nos rins; a LDH-3 provém dos pulmões; e a LDH-5 provém predominantemente do fígado e músculo esquelético. A forma LDH-1 e é a mais frequente usada para indicar patologia cardíaca. Entretanto, seus valores não podem ser interpretados sem o conhecimento da história clínica. A dosagem de LDH pode ser usada na investigação de doenças que acometem o coração, o fígado, o músculo, os rins, os pulmões e o sangue. Juntamente com a CK-total e CK-MB, é usada para o diagnóstico de infarto agudo do miocárdio (IAM). Os valores de LDH também podem se apresentar elevados em outras doenças que afetam o coração, como miocardites, necrose ou inflamação do músculo cardíaco, após cirurgia torácica de peito aberto, etc. (Queiroz, et al., 2018). • Troponina cardíaca (TnT e TnI) A troponina é uma proteína presente no músculo que com a tropomiosina regulam a interação entre a actina e miosina (mediada por cálcio) durante o processo de contração do músculo. Existem três polipeptídeos de troponina que se ligam à tropomiosina (TnT), à actina (TnI) e ao cálcio (TnC). Das três isoformas, a TnC tem a sequência de 132132 aminoácidos compartilhada com sua isoforma esquelética, e dessa forma não tem valor de diagnóstico em casos de lesões cardíacas. As isoformas TnT e TnI são consideradas biomarcadores do IAM em decorrência de sua especificidade cardíaca. Após o início do IAM, os níveis de troponina começam a aumentar dentro de cerca de 4 a 6 horas e atingem valores máximos por volta de 11 horas (faixa de 10-24horas) e retornam aos valores normais entre 10 dias ou mais dias. Ainda em comparação com a CK-MB, a troponina (TnI) é altamente específica para o tecido miocárdico e não é detectável no sangue de pessoas saudáveis (Lozovoy, et al., 2008; Mueller, 2014; Queiroz, et al., 2018). • Mioglobina A mioglobina é uma proteína que transporta oxigênio nos tecidos musculares e se encontra apenas no músculo esquelético e cardíaco. Desempenha importante papel no metabolismo aeróbico celular, pois se liga de modo reversível ao oxigênio. Após uma lesão dos miócitos (como exemplo no IAM), é encontrada livre na circulação, seu pico é alcançado precocemente entre 1 a 4 horas após e alcançam níveis máximos entre 8 a 12 horas, com normalização de seus níveis entre 24 a 36 horas (ou menos). A mioglobina é considerada um biomarcador cardíaco e é o mais precoce em casos de necrose do miocárdio. Ainda um resultado negativo de mioglobina afasta efetivamente a possibilidade de ataque cardíaco, em contrapartida um resultado positivo precisa ser confirmado com teste da troponina ou outro biomarcador. O aumento de mioglobina pode proceder a liberação de CK-MB, ou seja, ele ocorre antes. A sensibilidade deste teste é muito alta dentro de 6 horas após o aparecimento dos sinais/sintomas. Níveis aumentados de mioglobina também podem ser encontrados em casos de insuficiência renal, choque, cirurgia cardíaca aberta, portadores de distrofia muscular progressiva, traumatismo extenso, miocardite e doenças infecciosas agudas (Miranda e Lima, 2014). 133133 133 • PCR A proteína C reativa (PCR) é uma proteína de fase aguda, ou seja, sua concentração sérica aumenta ou diminui durante estados inflamatórios, e é induzida por citocinas. Sua dosagem é útil na detecção e avaliação de infecções, lesão tecidual e doenças inflamatórias. Após uma lesão tecidual, seus níveis plasmáticos começam a aumentar entre 4 a 6 horas e continuam aumentando no decorrer de 24 a 48 horas. O teste da PCR- hs (proteína C reativa ou de alta sensibilidade ou PCR cardíaca) é mais sensível do que o teste padrão de PCR. A dosagem de PCR-hs é útil na avaliação de risco de doença cardiovascular, visto que nessas doenças há íntima relação entre o endotélio vascular e a resposta inflamatória. Níveis aumentados de PCR-hs aparecem dentro de 24 a 48 horas da lesão e alcançam um valor máximo em 72 horas e negativam depois de 7 dias; correlaciona-se com os níveis máximos de CK-MB, porém o pico da PCR ocorre 1 a 3 dias mais tarde após IAM. A PCR pode permanecer elevada durante pelo menos 3 meses após IAM. A PCR se encontra normal em casos de pacientes com angina instável, na ausência de necrose tecidual e com troponina T normal. O risco cardiovascular é classificado dependendo do nível de PCRhs: baixo risco: PCR <1mg/L; risco moderado: PCR entre 1-3mg/L; alto risco: PCR> 3mg/L (Folsom, et al., 2006; Bonaca e Morrow, 2008). ASSIMILE Após uma lesão no tecido cardíaco, como acontece no IAM, alguns biomarcadores ou isoenzimas se elevam imediatamente, como é o caso da mioglobina, ou após horas da lesão, como é o caso da CK-MB e troponina, ou após 24 horas, como é o caso do PCR-hs. Esses biomarcadores atingem um pico máximo de elevação até retornar ao valor basal e em alguns casos, como a troponina e PCR-hs, podem permanecer por dias na corrente sanguínea. 134134 3. Avaliação da hidratação e distúrbios do equilíbrio ácido-base de eletrólitos Os líquidos que compõem o corpo humano contêm partículas eletrolíticas e não eletrolíticas e são constituídos por um compartimento intracelular e extracelular. O compartimento extracelular é composto em sua maioria por solutos, como o sódio, cloreto e bicarbonato, enquanto que o compartimento intracelular é composto pelos solutos dominantes, como o potássio, magnésio, fosfato e as proteínas. Os eletrólitos são chamados de íons nos fluídos corporais. Os íons podem ter cargas positivas (cátions), como o sódio, potássio, cálcio e magnésio, ou ter cargas negativas (ânions), como o cloreto, bicarbonato e fosfato. Para garantir as funções celulares normais é essencial que haja um equilíbrio dos eletrólitos no compartimento intracelular e extracelular. Os mecanismos de regulação desse sistema controlam a distribuição e excreção de íons e fluídos dentro dos vários compartimentos do nosso corpo. Tabela 2 – Principais eletrólitos no meio intracelular e extracelular ESPAÇO EXTRACELULAR ESPAÇO INTRACELULAR ↑ Sódio ↓ Sódio ↓ Potássio ↑ Potássio ↑ Cloreto ↓ Cloreto ↑ Bicarbonato ↓ Bicarbonato Fonte: elaborada pelo autor. Legenda: Os eletrólitos possuem diferentes concentrações no meio intracelular e extracelular. ↑ aumentado; ↓ diminuído. Os compartimentos: intracelular (contêm o líquido intracelular) e extracelular (contêm o líquido extracelular, que compõe cerca de 80% do líquido intersticial) são separados pela membrana plasmática (seletivamente permeável), que é responsável pela passagem de substâncias, permitindo que algumas substâncias passem e outras sejam impedidas de passar para manter a homeostase. Ainda, há bombas de transporte ativo que trabalham de forma contínua na 135135 135 manutenção das diferentes concentrações de íons nos meios (como exemplo, a bomba de sódio e potássio que faz o transporte ativo de Na+ para fora das células e de K+ para dentro das células. Já o líquido intersticial é separado do plasma sanguíneo pela parede dos vasos, e através dos capilares ocorre a troca de água e solutos entre o plasma e líquido intersticial. A água é o maior componente do corpo e sua constituição depende do sexo e da idade (constituiaproximadamente de 45 a 75% da massa corporal total). O corpo se encontra em equilíbrio hídrico quando tem quantidades necessárias de água e solutos entre os compartimentos. Os processos que permitem a troca de água e solutos entre os compartimentos são: filtração, reabsorção, difusão e osmose. Desses processos, a osmose é a principal forma de movimentar os líquidos intracelular e intersticial, e a concentração de solutos nesses líquidos determina a direção do movimento da água. O principal hormônio que regula a perda de água e a osmolaridade dos líquidos corporais é o hormônio antidiurético (ADH). Dentro desse contexto, podemos perceber que o equilíbrio hídrico está intimamente relacionado com o equilíbrio eletrolítico. Nesse sentido, dificilmente ingerimos água e eletrólitos nas mesmas proporções em que eles se encontram nos líquidos corporais, assim os rins regulam a excreção do excesso de água, produzindo urina diluída, ou excretam o excesso de eletrólitos, produzindo urina concentrada, sendo crucial para a manutenção da homeostasia. Em condições normais, o volume do líquido corporal se mantém constante, visto que a perda de água é equiparada ao ganho de água. Perdemos água diariamente, seja pela excreção renal pela urina, a transpiração pela pele (suor), pelos pulmões como vapor e pelo sistema digestório através das fezes. Nas mulheres, a água também é perdida pela menstruação. Quando a perda de água é maior do que o ganho, ocorre o processo de desidratação. 136136 Assim, quando a concentração de um eletrólito no sangue é extremamente alta ou baixa, há um desequilíbrio eletrolítico, o que pode afetar todos os órgãos e sistemas do corpo. Caso esse desequilíbrio não seja controlado, pode comprometer a vida. Os eletrólitos participam de funções importantes, como por exemplo: o sódio influencia na distribuição de água corporal, no volume de sangue, na pressão sanguínea e na retenção ou perda de fluidos; o potássio, através da transmissão de impulsos elétricos, participa da manutenção da atividade muscular normal nos músculos, cardíaco e esquelético; o bicarbonato mantém o pH do sangue. Os eletrólitos comumente solicitados para análise sérica laboratorial são: sódio (Na+), potássio (K+), cloro (Cl-), bicarbonato (HCO3-), cálcio (Ca+), magnésio (Mg+) e fosfato (H2PO4-, HPO42- e PO43-). Os íons bicarbonato (HCO3-) constituem o tampão mais importante do plasma sanguíneo, são gerados a partir da produção de dióxido de carbono que se combina com a água, formando ácido carbônico; o ácido carbônico, por sua vez, se dissocia em H+ e HCO3-. Os íons fosfato (H2PO4-, HPO42-- e PO43-) são componentes estruturais dos ossos e dos dentes e necessários para a síntese de ácidos nucleicos e de ATP e participam em reações de tamponamento. Esses dois íons serão discutidos no item distúrbios do equilíbrio ácido-básico. • Distúrbios eletrolíticos do sódio O sódio (Na+) é o íon mais abundante no compartimento extracelular, tem papel central na manutenção da distribuição normal da água e pressão osmótica. Seus níveis são controlados pela aldosterona, pelo hormônio antidiurético (HAD) e pelo peptídeo natriurético atrial (PNA). A aldosterona aumenta a absorção renal de Na+. Assim, em casos onde a concentração de Na+ no plasma sanguíneo, fica baixo, uma condição chamada de hiponatremia, a liberação de HAD para. A falta de HAD faz com que haja maior excreção de água na urina e o restabelecimento 137137 137 dos níveis normais de Na+ no líquido/compartimento extracelular. Em contrapartida, quando os níveis de Na+ se encontram acima do normal, uma condição chamada de hipernatremia, o PNA aumenta a excreção de Na+ pelos rins. A dosagem de Na+ é utilizada no diagnóstico e tratamento da desidratação e hiper-hidratação. Em casos onde o paciente não tiver recebido uma grande carga de sódio, a presença de hipernatremia sugere a necessidade de água, e valores < 130 mmol/L indicam hiper-hidratação. Os valores de referência são de: 135 a 145 mmol/L, e os valores críticos são: < 121 ou > 158 mmol/L. Valores de Na+ aumentados podem ser encontrados em: condições associadas a uma perda de água maior que a perda de sal pela pele, pulmões, trato gastrointestinal e rins, desidratação, vômitos ou diarreia, queimaduras ou sudorese excessiva, infusão de sais de sódio hipertônicos ou solução salina hipertônica, hiperaldosteronismo, insuficiência renal e outras causas renais. Valores de Na+ diminuídos podem ser encontrados em casos de hiponatremia, que pode ser classificada em três tipos, dependendo do estado do líquido extracelular: (i) hiponatremia hipovolêmica (redução do líquido extracelular), por exemplo, pela perda renal de Na+ e água causada pelo uso de diuréticos ou pela perda extrarrenal de Na+ e água com conservação renal (queimaduras, obstrução intestinal, perda de sangue); (ii) hiponatremia hipervolêmica (expansão do volume do líquido extracelular e do líquido intersticial, porém redução do volume sanguíneo arterial efetivo), causada por insuficiência cardíaca congestiva, cirrose e síndrome nefrótica; (iii) hiponatremia euvolêmica (expansão do volume do líquido extracelular e do líquido intersticial sem edema), causada pelo uso de diuréticos tiazídicos, hipotireoidismo e insuficiência suprarrenal (Vieira Neto e Moisés Neto, 2003; Dutra, et al. 2012). • Distúrbios eletrolíticos de potássio Os íons potássio (K+) são cátions cuja maior concentração se encontra dentro do compartimento intracelular. O K+ participa da estabilização do potencial de repouso da membrana plasmática e na fase de 138138 repolarização dos potenciais de ação em neurônios e nas fibras musculares. Também contribui para manter o volume normal de líquido intracelular e ajuda a regular o pH dos líquidos corporais (quando o K+ se move para dentro ou para fora das células, ele é frequentemente trocado por H+). É controlado pela aldosterona, dessa forma quando há um aumento da concentração plasmática de K+, é secretado mais aldosterona para o sangue, que estimula as células dos ductos coletores renais a secretarem mais K+, de modo que o excesso de K+ seja perdido na urina. Já em situações em que a concentração plasmática de K+ está baixa, a secreção de aldosterona diminui e menos K+ é excretado na urina. Os níveis plasmáticos de sódio e de potássio controlam a reabsorção de potássio. Níveis anormais de potássio podem ser fatais, pois ele é necessário durante a fase de repolarização dos potenciais de ação. Sua concentração sérica é regulada entre 3,5 a 5,0 mEq/L. A hipopotassemia é a diminuição dos níveis plasmáticos de K+ abaixo de 3,5 mEq/L, e a hiperpotassemia é o aumento dos níveis plasmáticos de K+ acima de 5,0 mEq/L. A dosagem de K+ é utilizada na avaliação do equilíbrio eletrolítico, arritmias cardíacas, fraqueza muscular, encefalopatia hepática, insuficiência renal, diagnóstico e monitoramento da hiperpotassemia e da hipopotassemia em diversas condições (p. ex., tratamento do coma diabético, insuficiência renal, perda hidroeletrolítica grave, efeito de certos fármacos) e no diagnóstico de paralisia hiperpotassêmica familiar e paralisia hipopotassêmica. Os valores aumentados de K+ podem ser encontrados em casos como: retenção de potássio (por exemplo: em insuficiência renal, fármacos, diminuição da atividade ou produção da aldosterona, e etc.), redistribuição de potássio, etc. Já os valores diminuídos de K+ podem ser encontrados em: excreção renal excessiva (como, por exemplo, em nefropatias, distúrbios endócrinos-hiperaldosteronismo, hipertireoidismo, síndrome de Cushing, fármacos, etc.), causas não renais (como, por exemplo, em vômitos, diarreia, sudorese excessiva, queimaduras extensas, feridas que drenam, alcalose respiratória, transtornos alimentares graves, anorexia, bulimia, deficiência nutricional, etc.) (Vieira Neto e Moisés Neto, 2003; Dutra, et al. 2012). 139139 139 • Distúrbios eletrolíticos do cloro Os íons cloreto(Cl-) são os ânions com maior concentração no líquido/ compartimento extracelular. O Cl- ajuda a equilibrar os níveis de ânions em compartimentos diferentes de líquidos, por se mover de modo relativamente fácil entre os compartimentos intracelular e extracelular, porque a maior parte das membranas plasmáticas contêm muitos canais de vazamento de Cl- e contratransportadores. Um exemplo desse mecanismo é o deslocamento Cl- entre as hemácias e o plasma sanguíneo quando os níveis sanguíneos de dióxido de carbono aumentam ou diminuem, onde o Cl- é trocado pelo HCO3-mantendo o equilíbrio de ânions entre os compartimentos. Também são parte do ácido clorídrico secretado no suco gástrico. O hormônio antidiurético (HAD) ajuda a regular o equilíbrio de Cl- nos líquidos. Seu aumento ou diminuição se relacionam com a reabsorção renal dos íons Na+ que também afetam sua reabsorção. Quando sofre alteração independente do sódio, isso se deve habitualmente a um distúrbio do equilíbrio acidobásico. A dosagem de Cl, juntamente com sódio, potássio e dióxido de carbono, é solicitada para avaliação do equilíbrio eletrolítico, acidobásico e hídrico. Valores de referência: 90,0 a 106,0 mEq/L (Xavier, et al. 2016). Valores aumentados (hipercloremia) podem ser encontrados em casos de: acidose metabólica associada à diarreia prolongada, com perda de bicarbonato de sódio, acidose metabólica hiperclorêmica, alcalose respiratória, fármacos, etc. Já os valores diminuídos (hipocloremia) podem ser encontrados em casos de: vômitos prolongados (perda de ácido clorídrico), acidose metabólica com acúmulo de ânions orgânicos, acidose respiratória crônica, doenças renais perdedoras de sal, insuficiência adrenocortical, expansão do líquido extracelular, queimaduras, etc. • Distúrbios eletrolíticos do cálcio O cálcio (Ca2+) é o mineral mais abundante no corpo. É armazenado nos ossos e nos líquidos corporais, é um cátion extracelular. Desempenha papéis importantes na coagulação sanguínea, na liberação 140140 de neurotransmissores, na manutenção do tônus muscular e na excitabilidade dos tecidos nervoso e muscular. Na corrente sanguínea é regulado pelo paratormônio (PTH). Nesse sentido, um nível baixo de Ca2+ no plasma promove a liberação de mais PTH, que estimula os osteoclastos no tecido ósseo a liberarem cálcio (e fosfato) da matriz extracelular óssea. A hipocalcemia é o termo usado para casos onde há a diminuição de cálcio sérico (valores de referência: cálcio menor que 8,5 mg/dL ou cálcio ionizado menor que 1 mEq/L) e a hipercalcemia para o aumento dos valores de cálcio (Ca > 11 mg/dL) (Dutra, et al. 2012). • Distúrbios eletrolíticos do magnésio A maior parte do magnésio está presente na matriz óssea como sais de magnésio. O restante está presente como íons magnésio (Mg2+) no líquido intracelular e uma minoria no líquido extracelular. É um cofator para determinadas enzimas e essencial para a normalidade da atividade neuromuscular, da transmissão sináptica e da função miocárdica. Ainda, a secreção do paratormônio (PTH) depende de Mg2+. Os rins aumentam a excreção urinária de Mg2+ em resposta à hipercalcemia, à hipermagnesemia, a aumentos do volume do líquido extracelular, a diminuições nos níveis de PTH e à acidose. As condições opostas diminuem a excreção renal de Mg2+. Sua dosagem é utilizada no diagnóstico e monitoramento da hipomagnesemia (diminuição sérica de magnésio, valores de referência: concentração sérica de magnésio < 1,8 mg/dL, em casos < 1 mg/dL é considerada grave) e hipermagnesemia (aumento sérico de magnésio, valores de referência: concentração sérica de magnésio > 2,4 mg/dL) (Dutra, et al. 2012), especialmente na insuficiência renal ou quando houver distúrbios gastrintestinais. • Distúrbios do equilíbrio ácido-base Para a manutenção da homeostasia e a saúde é necessário que os volumes e composição dos líquidos corporais, o controle da distribuição deste e o equilíbrio do pH estejam regulados. Como vimos até agora, 141141 141 vários íons exercem funções diferentes na manutenção da homeostasia. E um dos fatores importantes nesse processo é manter a concentração de H+ (pH) dos líquidos corporais nos níveis adequados, ou seja, manter o equilíbrio ácido-base. O pH do sangue arterial sistêmico varia entre 7,35 e 7,45. As reações metabólicas do corpo geram grandes quantidades de H+, assim existem mecanismos para retirar esse íon e manter a homeostase. Os mecanismos são: sistemas-tampão, expiração de dióxido de carbono e excreção renal de H+. Os sistemas-tampão agem de forma rápida ligando temporariamente o H+, removendo o excesso. Nesse sentido, os tampões aumentam o pH dos líquidos corporais, mas não removem o H+ do sangue. A expiração de dióxido de carbono ocorre pelo aumento da frequência e profundidade da respiração, fazendo com que mais dióxido de carbono seja exalado. Em pouco tempo, esse processo reduz os níveis de ácido carbônico no sangue e eleva o pH sanguíneo, consequentemente reduz os níveis sanguíneos de H+. Já a excreção renal de H+ é a única forma de eliminação de outros ácidos além do ácido carbônico, excretando-os pela urina, porém é o mecanismo mais lento. Os sistemas-tampão, em sua maioria, consistem em um ácido fraco e o sal daquele ácido, que funciona como uma base fraca. Os tampões evitam modificações rápidas e drásticas no pH dos líquidos corporais por converterem ácidos e bases fortes em ácidos e bases fracos em frações de segundo. Os ácidos e bases fortes diminuem ou aumentam (respectivamente) de forma acentuada por fornecerem rapidamente íons H+ livres. Os principais sistemas tampão dos líquidos corporais são o sistema tampão proteico, o sistema tampão ácido carbônico- bicarbonato e o sistema tampão de fosfato. Os distúrbios ácido-base estão relacionados com a (i) acidose (ou acidemia), condição em que o pH sanguíneo se encontra abaixo de 7,35; e na (ii) alcalose (ou alcalemia) o pH sanguíneo se encontra acima de 7,45. Em casos de acidose, um dos principais efeitos é a depressão do sistema nervoso central (SNC) ocasionada pela depressão da 142142 transmissão sináptica, e caso esse pH fique menor que 7, a depressão ocorre de forma intensa, deixando o indivíduo desorientado, podendo entrar em coma e morrer. Ao contrário, em casos de alcalose, há a excitabilidade excessiva do SNC e dos nervos periféricos, o que resulta em nervosismo, espasmo muscular, convulsões e até a morte. Acidose respiratória: ocorre pelo aumento da pressão parcial de CO2 (PCO2) no sangue arterial sistêmico – acima de 45 mmHg. A expiração inadequada de CO2 faz com que o pH sanguíneo diminua (Furoni, et al. 2010; Carlotti, 2012). Alcalose respiratória: ocorre pela diminuição da PCO2 no sangue arterial sistêmico – abaixo de 35 mmHg. A causa na queda da PCO2 e o aumento resultante no pH é a hiperventilação, que ocorre em condições que estimulam o grupo respiratório dorsal no tronco encefálico (Furoni, et al. 2010; Carlotti, 2012). Acidose metabólica: os níveis de HCO3- no sangue arterial sistêmico diminuem para valores abaixo de 22 mEq/litro. O declínio nesse importante sistema tampão faz com que o pH do sangue diminua (Furoni, et al. 2010; Carlotti, 2012). Alcalose metabólica: os níveis de HCO3- no sangue arterial sistêmico se encontram acima de 26 mEq/litro. Uma perda não respiratória de ácido ou uma ingestão excessiva de fármacos alcalinos faz com que o pH sanguíneo aumente até níveis acima de 7,45 (Furoni, et al. 2010; Carlotti, 2012). Tabela 3 – Acidose e alcalose DISTÚRBIO ÁCIDO-BASE pH HCO3- PCO2 Acidose respiratória ↓ Normal ↑ Alcalose respiratória ↑ Normal ↓ Acidose metabólica ↓ ↓ Normal Alcalose metabólica ↑ ↑ Normal Fonte: elaborada pelo autor. Legenda: ↑ aumentado; ↓ diminuído. 143143 143 Figura 1 – Principais causas de acidose e alcalose Acidose – Alcalose: Fonte: elaborada pelo autor. Em resumo, a acidose e a alcalose respiratórias são distúrbios causados por mudanças na PCO2sanguínea, enquanto a acidose e a alcalose metabólicas são distúrbios associados a mudanças na concentração sanguínea de HCO3-. A compensação nos casos de acidose e a alcalose metabólicas ocorrem por mecanismos respiratórios (compensação respiratória). Por outro lado, a acidose e a alcalose respiratórias são compensadas por mecanismos renais (compensação renal). A gasometria é o exame que mede diretamente o pH e os gases, pressão parcial de oxigênio e pressão parcial de gás carbônico. PARA SABER MAIS Pessoas que têm diabetes mellitus podem apresentar um quadro de acidose metabólica em decorrência da produção de ácido aumentada, quando apresentam cetoacidose. A cetoacidose ocorre devido à deficiência de insulina e ao excesso de glucagon, que produzem aumento da síntese hepática de cetoácidos, principalmente ácido betahidroxibutírico e ácido acetoacético. 144144 Podemos concluir sobre a avaliação da função cardíaca que muitos são os biomarcadores que podem ser utilizados no diagnóstico da doença cardiovascular, e em sua maioria eles se encontram juntamente elevados após um evento, como o IAM, e permanecem aumentados em tempos diferentes. Em relação a avaliação dos distúrbios ácido- base, vimos que existem mecanismos essenciais que mantêm o pH do sangue em níveis normais e são essenciais para manter a homeostase. Os distúrbios eletrolíticos se relacionam intimamente com o balanço da quantidade de íons no meio intracelular e extracelular, a quantidade de água, hidratação e função renal. TEORIA EM PRÁTICA Mulher, 64 anos, hipertensa e diabética, relatou não realizar exercícios físicos e estar com sobrepeso. Deu entrada no hospital com sintomas de indigestão. No exame clínico, os seguintes dados foram coletados: peso: 87 kg, altura: 1,63 m, PA: 180mmHg X 120mmHg, glicemia: 150mg/dL. O médico solicitou os seguintes exames: CK total e CK-MB. a) Qual a suspeita diagnóstica levantada, levando em conta a história da paciente, o exame clínico e os exames solicitados? Você solicitaria outros exames? Quais? b) Os resultados dos exames foram CK total: 235 U/dL (valor de referência: 55-170 U/dL) e CK-MB 8,3 ng/dL (valor de referência: até 4 ng/dL). Qual o significado clínico desses exames? c) Quais são os fatores de risco para o desenvolvimento de doença cardiovascular que a paciente apresenta? d) Enquanto a paciente estava no hospital, houve a troca de plantão dos médicos, e o médico que assumiu solicitou PCRhs, cujo resultado foi de 5,1 mg/dL (valor de referência: < 1 ,0 mg /dL). Qual o significado clínico do resultado desse exame? 145145 145 e) Após 24 horas da admissão, o médico solicitou os exames de mioglobina e troponina cardíaca, cujos resultados foram: mioglobina: 60 mg/dL (valor de referência: até 70 mg/dL) e a troponina: 6,0 mg/dL (valor de referência: até 1 mg/dL). Qual o significado clínico desses exames e por que a mioglobina se apresentou normal? VERIFICAÇÃO DE LEITURA 1. Um dos problemas associados ao uso de isoenzimas ou biomarcadores é que eles podem não ser tão específicos e serem encontrados em mais de um tecido, dificultando assim sua associação com determinada patologia. Quando falamos da avaliação da função cardíaca há alguns biomarcadores que fazem parte de um painel de solicitação médica. Quais são os exames que compõem esse painel? a. LDH, CK, PCRhs, mioglobina e troponina. b. LDH, AST/ALT, PCRhs, hemoglobina e troponina. c. Sódio, CK, potássio, hemoglobina e PCRhs. d. FAL, AST/ALT, CK, mioglobina e PCR. e. PCRhs, FAL, ureia, CK e troponina. 2. As reações metabólicas do corpo geram grandes quantidades de H+, o que altera o pH sanguíneo e pode levar a um desequilíbrio do sistema ácido-base. Nesse sentido, há três mecanismos importantes para manter a homeostase. Sobre esses mecanismos, analise as afirmativas: 146146 I. Os sistemas-tampão agem de forma lenta ligando temporariamente o H+, removendo o excesso. Assim, os tampões diminuem o pH dos líquidos corporais e removem o H+ do sangue. II. A expiração de dióxido de carbono ocorre pelo aumento da frequência e profundidade da respiração, fazendo com que mais dióxido de carbono seja exalado. Em pouco tempo, esse processo reduz os níveis de ácido carbônico no sangue e eleva o pH sanguíneo, consequentemente reduz os níveis sanguíneos de H+. III. Já a excreção renal de H+ é a única forma de eliminação de outros ácidos, além do ácido carbônico – excretando- os pela urina, é o mecanismo mais lento. Assinale a alternativa que contém as afirmativas corretas: a. I, II e III. b. I e II. c. I e III. d. II e III. e. II. 3. O equilíbrio dos eletrólitos é essencial para o funcionamento do nosso corpo. Em relação as funções que os eletrólitos exercem, analise as afirmativas abaixo: I. O sódio (Na+), influencia na distribuição de água corporal, no volume de sangue, na pressão sanguínea e na retenção ou perda de fluidos. 147147 147 II. O bicarbonato (HCO3-) desempenha papéis importantes na coagulação sanguínea, na liberação de neurotransmissores, na manutenção do tônus muscular e na excitabilidade dos tecidos nervoso e muscular. III. O cálcio (Ca2+), através da transmissão de impulsos elétricos, participa da manutenção da atividade muscular normal nos músculos cardíaco e esquelético. IV. O magnésio (Mg2+) é um cofator para determinadas enzimas e essencial para a normalidade da atividade neuromuscular, da transmissão sináptica e da função miocárdica. V. O potássio (K+) constitui o tampão mais importante do plasma sanguíneo e mantém o pH do sangue. Assinale a alternativa que contém apenas as afirmativas corretas: a. I, II e III. b. II e V. c. III e IV. d. IV e V. e. I e IV. Referências bibliográficas BONACA, M.P; MORROW, D. A. 2008. Defining a Role for Novel Biomarkers. In: Summary , 1431, 2008.. Disponível em: https://doi.org/10.1373/ clinchem.2008.105387. 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Questão 3 – Resposta E Quem desempenha papéis importantes na coagulação sanguínea, na liberação de neurotransmissores, na manutenção do tônus muscular e na excitabilidade dos tecidos nervoso e muscular é o cálcio e não o bicarbonato. O potássio através da transmissão de impulsos elétricos participa da manutenção da atividade muscular normal nos músculos, cardíaco e esquelético e não o cálcio. O bicarbonato constitui o tampão mais importante do plasma sanguíneo e mantém o pH do sangue e não o potássio. Feedback de reforço: Retome os estudos e tente novamente. 150150150 Principais exames laboratoriais relacionados a enzimologia, inflamação e doenças autoimunes Autora: Rafaela Benatti de Oliveira Objetivos • Compreender e entender o uso das enzimas no diagnóstico de doenças. • Compreender os principais marcadores de inflamação e seu uso no diagnóstico. • Entender como funciona o mecanismo do desenvolvimento de doenças autoimunes e os exames utilizados para o diagnóstico. 151151 151 1. Introdução À medida que surgem novas doenças ou que novos mecanismos sejam descobertos, abre a possibilidade de que novos exames, marcadores e condutas sejam utilizados no diagnóstico de doenças. Dentro desse contexto, temos as enzimas, que são importantes aliadas no diagnóstico, prognóstico e avaliação da evolução da doença e do tratamento, os marcadores inflamatórios e autoanticorpos que auxiliam no diagnóstico de doenças autoimunes. 2. Enzimologia As enzimas são proteínas que catalisam reações especificas, ou seja, aceleram a velocidade das reações químicas que ocorrem em todas as células dos mamíferos em reações bioquímicas específicas, em diferentes órgãos, e podem estar localizadas em diferentes organelas e estruturas celulares. De forma geral, as enzimas contêm duas partes: uma porção proteica, a apoenzima, e uma porção não proteica, o cofator. Os cofatores podem ser íons metálicos como o ferro, magnésio, zinco ou cálcio, ou ainda podem ser uma coenzima (molécula orgânica, derivadas de vitaminas). Os nomes das enzimas se baseiam no tipo de reação química catalisada por ela. Geralmente terminam com o sufixo – ase. Por exemplo, as oxidases adicionam oxigênio, as quinases adicionam fosfato, as desidrogenases removem hidrogênio, as ATPases decompõem o ATP, as anidrases removem água, as proteases decompõem as proteínas e as lipases decompõem os triglicerídeos. As enzimas possuem três propriedades importantes: 1. São muito específicas, ou seja, cada uma se liga apenas a substratos específicos (moléculas sobre as quais a enzima age). Nesse sentido, cada uma tem um formato tridimensional 152152 característico com uma configuração superficial específica, permitindo que elas reconheçam e se liguem a determinados substratos. Por exemplo, a ligação da enzima ao substrato pode ocorrer como uma chave entra na fechadura ou com a mudança do local ativo para se ajustar ao substrato. No caso do modelo chave-fechadura, a porção da enzima que catalisa a reação, chamado sítio ativo, encaixa-se no substrato como uma chave entra na fechadura. Já quando ocorre a mudança do local ativo, esse muda o seu formato para se ajustar precisamente ao redor do substrato, uma vez que ele entra no local ativo, conhecido como encaixe induzido. Entre o grande número de moléculas em uma célula, uma enzima precisa reconhecer o substrato correto e separá-lo ou misturá-lo com outro substrato para formar um ou mais produtos específicos. 2. São muito eficientes, visto que, em condições ótimas, as enzimas conseguem catalisar reações milhares a bilhões de vezes mais rapidamente do que se as reações ocorressem sem enzimas. O número de moléculas de substrato que uma única enzima consegue converter em moléculas de produto é muito grande. 3. São controladas pelas células, pois sua síntese e concentração em qualquer momento são controladas pelos genes da célula. Ainda, substâncias dentro da célula podem aumentar ou inibir a atividade de uma dada enzima. Dentro das células há enzimas ativas e inativas, e essa proporção com que a forma inativa se torna ativa ou vice-versa é determinada pelo ambiente químico intracelular. Alguns fatores afetam a atividade enzimática, como a temperatura e o pH. A temperatura afeta a velocidade das reações, de modo que quando a temperatura aumenta, a velocidade aumenta e vice-versa. As enzimas apresentam atividade máxima em um dado pH ideal. 153153 153 Muitas enzimas são clinicamente úteis no diagnóstico e monitoramento de certos processos patológicos, como, por exemplo, podem ser úteis na avaliação da função renal, hepática, cardíaca, enzimas envolvidas no metabolismo ósseo, pancreáticas, lesão muscular, entre outros. Essa relação das enzimas no diagnóstico e monitoramento de processos patológicos ocorre, pois, no interior dos órgãos, quando as células são lesadas ou em processo de morte celular as enzimas podem ser liberadas na circulação. Dessa forma, os níveis plasmáticos de enzimas podem ser utilizados clinicamente. Muitas enzimas possuem isoenzimas, que nada mais são que cadeias polipeptídicas que diferem quanto às sequências, mas cujas atividadesenzimáticas são semelhantes. Algumas enzimas são compostas por duas ou mais cadeias polipeptídicas, por exemplo, as cadeias M e B da creatina fosfoquinase (CK), e dão origem a isoenzimas com cadeias de composição distinta: creatina fosfoquinase muscular (CK- MM), creatina fosfoquinase cardíaca (CK-MB) e creatina fosfoquinase cerebral (CK-BB). Em inúmeras doenças, a concentração sérica de isoenzimas específicas aumenta e, assim, facilita o diagnóstico. Alguns exemplos dos aspectos mencionados incluem as alterações dos níveis séricos da isoforma CK-MB, uma enzima miocárdica na doença cardíaca; modificações do nível sérico de alanina aminotransferase (ALT) na doença hepática; e alterações dos níveis séricos de creatina fosfoquinase total em casos de lesão no músculo esquelético. Ainda, o padrão das alterações enzimáticas muitas vezes ajuda a indicar a fonte de uma lesão. As isoenzimas, em alguns casos, podem ser relativamente específicas para um determinado órgão, de forma que a identificação da enzima elevada pode indicar o órgão lesionado. Já quando a enzima não possui uma isoenzima com especificidade tecidual, a quantidade relativa de diferentes enzimas encontradas no plasma fornece evidências acerca do tipo de órgão que apresenta lesão. Como exemplo, podemos citar as enzimas lactato desidrogenase (LDH), AST (aspartato aminotransferase) e a ALT (alanina aminotransferase), as quais podem ser identificadas em órgãos e tecidos diferentes, entretanto as concentrações relativas em cada um deles podem ser diferentes, de forma que se uma delas apresentar um aumento e outra não, podem sugerir uma lesão em determinado órgão ou tecido. 154154 Supondo que os níveis de LDH estejam muito elevados enquanto os de AST e ALT mostrem um aumento discreto, a proporção dessa elevação (LDH/AST) pode sugerir que há uma lesão nos eritrócitos, leucócitos ou tumores. Ao contrário, se os níveis de AST e ALT estiverem aumentados e LDH com um discreto aumento, a proporção LDH/AST pode indicar uma lesão hepática. Na tabela 1, é possível ver diferenças nas quantidades relativas de cada enzima (AST, ALT, CK e LDH) em vários órgãos/tecidos em relação ao soro. Tabela 1 – Quantidades relativas de cada enzima Órgão/tecido ASTUI/L ALT UI/L CK UI/L LDH UI/L Fígado 7.000 3.000 700 Rim 4.500 1.200 10 500 Cérebro 1.700 Baço 700 150 Coração 8.000 500 5.000 – 8.000 600 Músculo esquelético 5.000 300 20.000 –30.000 700 Músculo liso 300 – 600 Eritrócitos 15 7 500 Fonte: adaptada de: MCPHERSON, Richard A; PINCUS, Matthew R. Diagnósticos clínicos e tratamento por métodos laboratoriais de Henry. 21 ed. Barueri: Manole, 2012, p. 297. Na tabela 2 é possível ver algumas enzimas/isoenzimas que são utilizadas no diagnóstico e monitoramento de processos patológicos Tabela 2 – Enzimas/isoenzimas e seu uso no diagnóstico ENZIMA/ISOENZIMA FONTE APLICAÇÕES CLÍNICAS AMILASE Glândulas salivares, pâncreas e ovários Doença pancreática ALT e AST Fígado, músculo esquelético, coração, rim e eritrócitos Doenças hepáticas, IAM e doenças musculares FAL Fígado, osso, mucosa intestinal, placenta e rim Doenças óssea e hepáticas 155155 155 GGT Fígado e rim Doença hepatobiliar e alcoolismo CK Musculo esquelético e liso, coração, cérebro IAM e doenças musculares LDH Coração, fígado, músculo esquelético, eritrócitos e plaquetas IAM, hemólise e doenças do parênquima hepático LIPASE Pâncreas Doença pancreática Fonte: elaborada pelo autor, 2019. Legenda: AST (aspartato aminotransferase), ALT (alanina aminotransferase), FAL (fosfatase alcalina), GGT (Gamaglutamil transferase), CK (creatinoquinase) e LDH (lactato desidrogenase), IAM (Infarto Agudo do Miocárdio). Amilase As amilases são um grupo de enzimas do tipo hidrolases, cuja função é degradar carboidratos complexos em fragmentos. A amilase é produzida pelo pâncreas exócrino e pelas glândulas salivares, de forma a auxiliar na digestão do amido. Sua dosagem é utilizada no diagnóstico e o monitoramento da pancreatite ou outras doenças pancreáticas e também quando há suspeita de eventos inflamatório intra-abdominais (Ferreira, 2008). Lipase A lipase é uma enzima produzida e secretada pelo pâncreas e essencial no processo digestivo. A lipase hidrolisa os ácidos graxos de cadeia longa, ou seja, rompe as ligações que os unem pela ação das moléculas de água. Sua dosagem é utilizada na investigação de distúrbios pancreáticos. É mais específica que a dosagem de amilase sérica em casos de pancreatite, peritonite, intestino estrangulado ou infartado e cisto pancreático (Ferreira, 2008). Amilase e lipase De forma geral, a amilase e a lipase são amplamente utilizadas como marcadores de inflamação do pâncreas e se apresentam elevadas nesses casos, porém sua elevação também pode estar associada a doenças intra-abdominais, como doenças do trato biliar, processos de oclusão ou isquemia intestinal, apendicite aguda, entre outras (Ferreira, 2008). 156156 3. Principais exames laboratoriais relacionados à inflamação Para falarmos dos marcadores inflamatórios vamos relembrar brevemente alguns aspectos da inflamação. A inflamação ocorre como resposta de defesa do organismo frente a uma agressão (lesão), podendo ser local ou sistêmica. São várias as condições que podem provocar uma inflamação, por causas infecciosas, como os patógenos, ou por causas não infecciosas, como irritações químicas, abrasões, distúrbios celulares, reações imunológicas e temperaturas extremas. Em resumo, é a forma como o organismo tenta controlar os danos ou agressões de origem local ou sistêmica. Essa resposta se inicia com a liberação de determinadas citocinas no local da agressão e que vão gerar a “resposta de fase aguda” (reação inflamatória não específica do hospedeiro), cujo objetivo é impedir a ação do patógeno e o dano celular. Envolve várias células do sistema imune, mediadores moleculares e os vasos sanguíneos. Este processo pode controlar a agressão e restabelecer o equilíbrio ou evoluir de duas formas distintas: síndrome da resposta inflamatória sistêmica (SIRS) ou gerando uma inflamação crônica, a qual mantém níveis de ativação dos componentes do sistema de resposta aguda. Há cinco sinais e sintomas que são característicos da inflamação, são eles: dor, calor, vermelhidão, edema e o quinto sinal que pode ocorrer em alguns casos é a perda funcional no local da lesão, que depende da localização e extensão da lesão. A resposta inflamatória consiste em três fases básicas: a vasodilatação e aumento da permeabilidade dos vasos sanguíneos, a migração dos fagócitos do sangue para o líquido intersticial e o reparo tecidual. Os vasos sanguíneos se alteram imediatamente em uma região de lesão tecidual, dilatando as arteríolas e aumentando a permeabilidade dos capilares. Com o aumento da permeabilidade, as substâncias 157157 157 normalmente retidas no sangue são autorizadas a sair dos vasos sanguíneos. A vasodilatação faz com que aumente o fluxo sanguíneo na área danificada, e o aumento da permeabilidade possibilita que as proteínas de defesa, como os anticorpos e fatores de coagulação, entrem na área da lesão provenientes do sangue. O aumento do fluxo sanguíneo também contribui para a eliminação de toxinas dos patógenos e células mortas. As substâncias que contribuem para esse processo são: a histamina, cininas, prostaglandinas e leucotrienos. Dos sinais e sintomas da inflamação citados anteriormente, três deles: o calor, vermelhidão e edema são ocasionados pela dilatação das arteríolas e aumento da permeabilidade dos capilares. O calor e a vermelhidão são resultados da grande quantidade de sangue que se acumula na área. Ainda com o aumento da temperatura local, as reações metabólicas ocorrem mais rapidamente e liberam calor adicional. O aumento da permeabilidade dos vasos sanguíneos faz com que mais líquido se mova do plasma sanguíneo para os espaços teciduais, causando o edema. Os fagócitos migram para o local do processoinflamatório, com predomínio dos neutrófilo nas fases iniciais que se aderem à superfície interna do endotélio dos vasos sanguíneos e destroem os microrganismos invasores por fagocitose. Logo, os monócitos seguem os neutrófilos em direção à área infectada e, uma vez no tecido, os monócitos se transformam em macrófagos que contribuem para a atividade fagocitária dos macrófagos fixos já presentes. Em alguns casos, a resposta imune inata não consegue conter os patógenos, sendo necessário ativar células da imunidade adaptativa, os linfócitos. E, por fim, há a reparação tecidual. Quando esse processo não consegue restabelecer a homeostase, a inflamação pode se tornar crônica e a situação é diferente: ao invés de recuperar o tecido lesado, a mobilização das células não cessa jamais e acabam destruindo os tecidos, ou seja, a inflamação é ativa (infiltrado de células mononucleares), com destruição tecidual e tentativa de reparar os danos (cicatrização) e fibrose. A inflamação se torna crônica após semanas ou meses, ela pode ser decorrente de uma reação 158158 aguda, mas, também, pode ocorrer como uma reação pouco intensa e, frequentemente, assintomática. As causas desse tipo de inflamação são geralmente decorrentes de: exposição prolongada a agentes potencialmente tóxicos, endógenos ou exógenos, autoimunidade, infecções persistentes e outras. Exemplos de doenças onde há inflamação crônica ou subclínica: síndrome metabólica, obesidade, diabetes mellitus, doenças cardiovasculares aterotrombóticas, doença de Crohn, colite ulcerosa, artrite entre outras. Os marcadores que estão associados com a inflamação podem ser divididos em categorias, como: citocinas pró-inflamatórias, citocinas anti-inflamatórias, adipocinas, chemocinas, marcadores de inflamação derivados de hepatócitos, marcadores de consequência da inflamação e enzimas. Abaixo, é possível verificar os marcadores que possuem maior relevância dentro de cada categoria: • Citocinas pró-inflamatórias: interleucina-6 (IL-6), o fator de necrose tumoral-α (TNF-α), a interleucina-8 (IL-8), a interleucina-1β (IL-1β) e a proteína cluster de diferenciação (CD40) e sua ligante (CD40L). • Citocinas anti-inflamatórias: interleucina 10 (IL-10). • Adipocinas: adiponectina. • Chemocinas: MCP-1 (proteína quimiotática de monócitos do inglês “monocyte chemoattractant protein-1”). • Marcadores de inflamação derivados de hepatócitos: proteína C reativa (PCR), fibrinogênio, proteína amiloide sérica A (SAA, do inglês “Serum amyloid A”). • Marcadores de consequência da inflamação: Microalbumina urinária. • Enzimas: Ciclo-oxigenase-2 (COX-2) e lipoproteína associada à fosfolipase-A2. Abordaremos aqui os seguintes marcadores: IL-6, TNF-α, IL-1β, IL-10), adiponectina, PCR e fibrinogênio. 159159 159 • Interleucina-6 (IL-6) É uma citocina pró-inflamatória que atua na resposta imune inata e adaptativa. Sua síntese ocorre por várias células do organismo, como os monócitos, células endoteliais, adipócitos, fibroblastos e outras células frente aos mais variados estímulos. Outras citocinas, como a IL-1 e TNF-α, também podem estimular sua produção. Os níveis séricos dessa citocina podem refletir a presença de estímulos inflamatórios sistêmicos e níveis elevados foram encontrados em associação com outras patologias, como exemplo no diabetes mellitus, artrite, doença inflamatória intestinal, obesidade e síndrome metabólica. Valores de referência: inferior a 3,4 pg/mL (Volp, et al. 2008; Souza, et al. 2008). • Fator de necrose tumoral-α (TNF-α) O TNF-α é o principal mediador da resposta inflamatória aguda em casos contra bactérias Gram-negativas e também participa da resposta contra outros patógenos. Sua síntese ocorre por células do sistema imune, células do tecido adiposo e possivelmente por outros tecidos. Participa de processos biológicos, como a proliferação e diferenciação celular, apoptose, necrose, coagulação, metabolismo de lipídeos e função endotelial. Promove a inflamação sistêmica ou local e estimula a resposta de fase aguda. A elevação de TNF-α é citotóxica e, após a infecção, podem levar ao choque séptico. Já os níveis séricos baixos e contínuos induzem a caquexia e inflamação. Essa citocina, quando desregulada, está relacionada a alguns tipos de câncer, lúpus eritematoso sistêmico (LES), psoríase, artrite reumatoide, rejeição de transplantes, doenças degenerativas, arteriosclerose, resistência à insulina, obesidade, entre outras. Valores de referência: inferior a 8,1 pg/mL (Volp, et al. 2008; Mayer, et al. 2010). • Interleucina-1β (IL-1β) A IL-1β é uma citocina pró-inflamatória, cuja síntese ocorre de forma predominante em monócitos e macrófagos, mas também ocorre nos adipócitos. Está envolvida no processo de aterogênese, visto 160160 que aumenta a expressão de moléculas de adesão endotelial (como os leucócitos) e age na produção de mediadores inflamatórios relacionados ao processo aterosclerótico. Junto com o TNF-α e a IL-6, desempenha um papel na regulação da imunidade e processos inflamatórios. Níveis elevados dessa citocina são encontrados na obesidade, dislipidemia e resistência à insulina. Valores de referência: inferior a 5 pg/mL (Varella e Forte, 2001; Volp, et al. 2008). • Interleucina 10 (IL-10) A IL-10 é uma citocina com propriedade anti-inflamatórias, visto que sua função é regular o sistema imune e inibir a expressão ou produção das citocinas pró-inflamatórias. É produzida pelas células imunes (T helpers, linfócitos T, linfócitos B, monócitos e macrófagos). Atua no sistema vascular pela inibição das interações celulares endoteliais (CAMs), desempenhando seu papel anti-inflamatório. Níveis diminuídos de IL-10 foram relacionados com a síndrome metabólica. Valores de referência: inferior a 9,1 pg/mL (Varella e Forte, 2001; Volpe, et al. 2008). • Adiponectina É um hormônio cuja excreção ocorre exclusivamente pelo tecido adiposo. Tem um papel importante na regulação da inflamação tecidual e na sensibilidade à insulina. Seus níveis estão inversamente relacionados com a porcentagem de gordura corporal, ou seja, quanto maior a porcentagem de gordura corporal, menor os níveis de adiponectina. Alterações na concentração desse hormônio vêm sendo associada à obesidade e à síndrome metabólica. Níveis aumentados da adiponectina podem ser encontrados após uma refeição e atingem níveis mínimos nos 60 minutos seguintes à ingestão de alimento. Por outro lado, níveis diminuídos podem ser encontrados em pacientes com diabetes melittus tipo 2, obesidade e síndrome metabólica. Valores de referência: homens: 1,23 a 21,0 MCG/ML e mulheres: 2,0 a 25,0 MCG/ML (Costa, et a., 2011). 161161 161 • Proteína C Reativa (PCR) Vimos no tema anterior o papel da proteína C reativa (PCR) com foco na PCRhs como um biomarcador de doenças cardiovasculares. A PCR é uma proteína de fase aguda, ou seja, sua concentração sérica aumenta ou diminui durante estados inflamatórios, e é induzida por citocinas como IL-6, o TNF-α e a IL-1. Sua síntese ocorre no fígado, entretanto os adipócitos e o endotélio também sintetizam. Sua dosagem é útil na detecção e avaliação de infecções, lesão tecidual e doenças inflamatórias crônicas. Após uma lesão tecidual, seus níveis plasmáticos começam a aumentar entre 4 a 6 horas e continuam aumentando no decorrer de 24 a 48 horas (Collares e Paulino, 2006). • Fibrinogênio O fibrinogênio ou fator I é uma proteína cuja síntese ocorre no fígado, atua na formação do coágulo onde a trombina o converte em filamentos insolúveis de fibrina, que reforçam o coágulo formado primariamente pelas plaquetas e permanecem no local até a cicatrização do tecido. Nesse sentido, a dosagem sérica de fibrinogênio detecta níveis diminuídos ou anormais, determina a gravidade e a evolução da coagulação intravascular disseminada. Também é uma proteína de fase aguda, ou seja, seus níveis sanguíneos se elevam sempre que há inflamação de tecidos. Valores de referência:180 a 350 mg/dL (Gabriel, et al. 2006). ASSIMILE O excesso de citocinas pró-inflamatórias, como o TNF-α e IL-6, podem resultar em uma inflamação localizada no tecido adiposo. Essa inflamação pode se propagar e esse quadro inflamatório está associado ao desenvolvimento de comorbidades relacionadas à obesidade, resistência à insulina (RI), estresse oxidativo e aterosclerose. 162162 Por isso, mudar os hábitos como alimentação, sedentarismo, tabagismo, podem auxiliar na diminuição da inflamação nessas condições. 4. Principais exames laboratoriais relacionados a doenças autoimunes O corpo humano possui mecanismos imunológicos próprios que distinguem o que é próprio daquilo que não é próprio. Esse mecanismo é denominado de autotolerância e é mantido pelas células B e T por mecanismos centrais e periféricos. A doença autoimune ocorre quando esse mecanismo imunológico do indivíduo ataca os tecidos saudáveis do corpo, ou seja, ele perde a distinção do que é próprio. Esse ataque acontece em decorrência da ativação inapropriada de células T e/ ou B por causas intrínsecas ou extrínsecas. Causas intrínsecas: estão relacionadas às características próprias do indivíduo, como defeitos no sistema imune (em célula natural killer, células T supressoras, na secreção de interleucinas, no processo de fagocitose ou nos componentes do sistema complemento) e ação de hormônios, os quais estão sob controle genético. As causas extrínsecas são: condições ambientais (infecções ocasionadas por patógenos), medicamentos e agentes tóxicos. As doenças autoimunes podem ser classificadas como sistêmicas, que acometem múltiplos órgãos ou tecidos, ou apenas um determinado órgão (órgão-específicas). De forma geral, o diagnóstico de doenças autoimunes consiste em detectar autoanticorpos circulantes específicos para órgãos ou tecidos-alvo, por meio de técnicas laboratoriais como: microscopia de imunofluorescência direta (MIFD), microscopia de imunofluorescência indireta (MIFI) e o método mais utilizado, o ensaio de imunoabsorção enzimática (ELISA) (do inglês Enzyme-Linked Immunosorbent Assay). 163163 163 Existem aproximadamente mais de 80 doenças autoimunes diferentes e mais de uma doença autoimune pode manifestar-se em um mesmo paciente. Nesse sentido, não será possível abordar todas as doenças. Na tabela 3 é possível ver algumas doenças autoimunes órgão-específicas, o autoanticorpo utilizado no diagnóstico e o tipo de técnica utilizada. Tabela 3 – Doenças autoimunes órgão-específicas e o tipo de autoanticorpo para pesquisa diagnóstica ÓRGÃO E DOENÇA AUTOANTICORPO Glândula tireoide - Tireoide autoimune - Doença de Graves - Antiperoxidade tireoidiana e Antitireoglobulina - Antirreceptor de TSH Glândula suprarrenal - Doença de Addison - Antiadrenocortical Pâncreas - Diabetes mellitus tipo 1A - Anticélulas insulares, Insulina associado e Antidescarboxilase do ácido glutâmico Trato gastrintestinal - Gastrite atrófica - Colite ulcerativa - Doença de Crohn - Doença celíaca - Anticélula parietal gástrica - Anticólon e Antilipopolissacarídeo DNAse-sensível p-ANCA associado - ANCA - Antitransglutaminase tecidual, Antigliadina e IgA antidiendomísio Fígado - Hepatite autoimune - Cirrose biliar primária - Antimúsculo liso, Antimicrossomo hepático/renal e ANA - Antimitocondrial (M2) Neurológica - Miastenia grave - Doença desmielinizante - Anti-ACh-R - Antimielina, antitubulina, antiproteína básica da mielina, antiglicoproteína associada a mielina Pele - Pênfigo - Penfigoide - Dermatite herpetiforme - Anti-EIE (desmogleínas) - Anti-ZMB (proteínas hemidesmossômicas) - Antitransglutaminase tecidual e IgA antiendomísio Fonte: adaptada de: MCPHERSON, Richard A; PINCUS, Matthew R. Diagnósticos clínicos e tratamento por métodos laboratoriais de Henry. 21.e ed. Barueri: Manole, 2012, p. 1079. 164164 Em relação as doenças autoimunes sistêmicas, abordaremos brevemente o Lúpus Eritematoso Sistêmico e a artrite reumatoide. • Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES) O Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES) é uma doença autoimune sistêmica, caracterizada por uma inflamação crônica, formação e deposição de imunocomplexos em diversos órgãos e dano tecidual. A doença cursa com períodos de piora e remissões do quadro clínico. A solicitação de exames para o diagnóstico de LES deve estar em consonância com a realização de anamnese e exame físicos completos. Alguns exames laboratoriais auxiliam na detecção de alterações clínicas da doença e a avaliação de autoanticorpos confirmam o diagnóstico. Os exames também utilizados no diagnóstico de LES são: velocidade de hemossedimentação (VHS), proteína C reativa (PCR), hemograma, exame de urina, exames bioquímicos para avaliar a função hepática e complemento (C3 e C4). Em relação à dosagem de autoanticorpos podem ser avaliados os seguintes: fatores antinucleares (ANA ou FAN), anticorpo antinucleares (anti-dsDNA), anti-Smith (anti-Sm), anticardiolipina IgG e IgM, anticoagulante lúpico, anticorpos antinucleares anti-La/SSB, anti-Ro/SSA e anti-RNP. Dentre esses, há aqueles que são úteis para o diagnóstico, acompanhamento ou prognóstico da doença. • Artrite reumatoide A artrite reumatoide é uma doença autoimune caracterizada por uma condição inflamatória crônica, que ocasiona a destruição progressiva e simétrica das articulações, inchaço e dor à palpação. O potencial de a sinovite (inflamação da membrana sinovial que reverte as articulações) provocar lesão da cartilagem e erosão óssea é característico da artrite reumatoide. Ainda, outros tecidos e órgãos podem ser comprometidos como, por exemplo, os pulmões, pleura, pericárdio e escleras. Entretanto, as articulações de forma geral são as estruturas mais significativamente acometidas que causam incapacidade importante. O diagnóstico 165165 165 laboratorial da doença é feito através da dosagem do marcador sorológico fator reumatoide (FR) e através da pesquisa de autoanticorpos, como: anticorpos contra peptídeos citrulinados (ACPA), como o antipeptídeo citrulinado cíclico (anti-CCP) e a antivimentina citrulinada- mutada (anti-MCV) são considerados marcadores altamente específicos para o diagnóstico da doença. Os exames como Proteína C Reativa e VHS encontram-se elevados. A análise do líquido sinovial mostra um padrão inflamatório com aumento da contagem de leucócitos (2.000 a 50.000/µl nas articulações acometidas) e predominância de neutrófilos. PARA SABER MAIS Devido à característica das doenças autoimunes em atacar várias regiões do corpo e os sintomas terem picos de exacerbações e períodos de remissão, é difícil diagnosticar uma doença autoimune e, consequentemente, tratá-la. É comum que o primeiro diagnóstico não esteja certo por conta dessas características. De forma geral, as doenças autoimunes culminam com um quadro inflamatório, e nesse sentido alguns marcadores inflamatórios podem ser utilizados para o diagnóstico, como é o caso da proteína C reativa. As enzimas são clinicamente úteis no diagnóstico e monitoramento de doenças e estão relacionadas na avaliação da função hepática, renal e cardíaca, por exemplo. TEORIA EM PRÁTICA Paciente do sexo feminino, 38 anos, relata estar há cerca de 8 horas com dor na região superior do abdome, com irradiação lombar, associada a náuseas. Relata que teve 166166 pico de febre em casa, leve escurecimento da urina e que apresentou episódios prévios de dor no hipocôndrio direito, mas de menor intensidade quando comparados ao episódio atual. No exame físico, apresentou estado geral regular e icterícia, com pressão arterial (PA) de 80/58 mmHg, frequência cardíaca (FC) de 112 bpm e temperatura axilar de 38,2 °C. Ao examinar o abdome apresentou dor à palpação difusa, principalmente na região epigástrica. Os exames laboratoriais mostraram: • Leucocitose com desvio à esquerda (aumento dos leucócitos com predomínio de precursores dos neutrófilos maduros). • Amilase de 1.850U/L (Valor de referência: de 30 a 118 U/L). • Lipase de 1.680 U/L (Valor de referência: inferior ou igual a 68 U/L). • Aspartato-aminotransferase (AST) de 300 U/L (Valor de referência: inferior ou igual a 33 U/L). • Alanina-aminotransferase (ALT) de 250 U/L (Valor de referência: inferior ou igual a 41 U/L). • Bilirrubina total de 2,2 mg/dL (Valor de referência: < 1,2) com 1,2 mg/dL de bilirrubina direta (Valor de referência: < 0,8). O diagnóstico da paciente foi de pancreatite aguda. Sobre esse caso, responda: • Qual o significado clínico do aumento das enzimas amilase e lipase? • Quais são os dados que levam a esse diagnóstico? • Em relação aos marcadores inflamatórios, nesse caso poderia solicitar algum para avaliar a doença ou o prognóstico? 167167 167 VERIFICAÇÃO DE LEITURA 1. As enzimas são proteínas que catalisam reações especificas, ou seja, aceleram a velocidade das reações químicas que ocorrem em todas as células dos mamíferos em reações bioquímicas específicas, em diferentes órgãos e podem estar localizadas em diferentes organelas e estruturas celulares. Sobre as enzimas, assinale a alternativa correta: a. São específicas, pois cada uma se liga apenas a substratos específicos, eficientes e controladas pelas células. b. Agem livremente sem nenhum mecanismo de controle, ou seja, podem agir em qualquer reação química do organismo. c. Fatores como a temperatura e o pH não interferem na atividade enzimática. d. O fígado por realizar importante papel no metabolismo é o único que contém enzimas relevantes para o diagnóstico de lesões. e. Não podem ser utilizadas no diagnóstico de doenças, porque são encontradas livremente na corrente sanguínea. 2. O Lúpus Eritematoso Sistêmico (LES) é uma doença autoimune sistêmica, caracterizada por uma inflamação crônica, formação e deposição de imunocomplexos em diversos órgãos e dano tecidual. A doença cursa com períodos de piora e remissões do quadro clínico. Sobre os exames laboratoriais solicitados no caso de suspeita de LES estão inclusos: 168168 a. VHS, PCR, Hemograma, exame de urina, exames bioquímicos que avaliam a função hepática, complemento e pesquisa de autoanticorpos. b. VHS, TNF-α, Hemograma, urocultura, exames bioquímicos que avaliam a função hepática, complemento e pesquisa de autoanticorpos. c. VHS, IL-10, eritrograma, exame de urina, exames bioquímicos que avaliam a função renal, complemento e pesquisa de autoanticorpos. d. VHS, IL-6, Hemograma, urocultura, exames bioquímicos que avaliam a função cardíaca, complemento e pesquisa de antígenos. e. VHS, PCR, Hemograma, exame de urina, exames bioquímicos que avaliam a função hepática, complemento e pesquisa de antígenos. 3. De forma geral, a e a são amplamente utilizadas como marcadores de inflamação do e apresentam-se nesses casos, porém sua também pode estar associada a doenças intra-abdominais como doenças do trato biliar, processos de oclusão ou isquemia intestinal, apendicite aguda, entre outros. Assinale a alternativa que completa adequadamente as lacunas acima: a. AST – ALT – fígado – diminuídas – diminuição. b. AST – ALT – fígado – elevadas – elevação. c. AST – ALT – pâncreas – diminuídas – diminuição. d. Amilase – Lipase – pâncreas – diminuídas – diminuição. e. Amilase – Lipase – pâncreas – elevadas – elevação. 169169 169 Referências bibliográficas COSTA, Maria Cecilia et al. Adiponectina e baixo risco cardiometabólico em obesas. Arquivos Brasileiros de Endocrinologia e Metabologia, v. 55 n. 2. 201. FERREIRA, Margarida et al. Elevação da lipase e amilase no doente crítico: estudo retrospectivo. Revista Brasileira de Terapia Intensiva, [s.l.], v. 20, n. 4, p.362-369, dez. 2008. 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Acesso em: 05 nov. 2019. http://dx.doi.org/10.1590/s0103-507x2008000400008 http://dx.doi.org/10.1590/s0103-507x2008000400008 http://dx.doi.org/10.1590/s0102-76382006000300008 http://dx.doi.org/10.1590/s0102-76382006000300008 https://www.rasbran.com.br/rasbran/article/view/165 https://www.rasbran.com.br/rasbran/article/view/165 http://dx.doi.org/10.1590/s0066-782x2008000200004 http://dx.doi.org/10.1590/s0004-27302008000300015 http://dx.doi.org/10.1590/s0004-27302008000300015 170170 Gabarito Questão 1 – Resposta A As enzimas possuem três propriedades importantes: são específicas, eficientes e controladas pelas células, o que faz com que possam ser úteis na avaliação clínica. Feedback de reforço: Retome seus estudos e tente novamente. Questão 2 – Resposta A Os exames laboratoriais solicitados em casos de suspeita de LES avaliam as manifestações clínicas da doença e estão inclusos os exames: Velocidade de Hemossedimentação (VHS), que é um marcador inespecífico de inflamação. Algumas vezes normal ou ligeiramente alterado no LES ativo, usualmente alterado em casos de infecção. A Proteína C Reativa, que é um marcador inespecífico de inflamação. Algumas vezes normal ou ligeiramente alterado no LES ativo, usualmente alterado em casos de infecção. O hemograma, apresenta-se frequentemente alterado em paciente com LES ativo. Pode indicar anemia hemolítica. Em aproximadamente 30% dos pacientes, a baixa contagem de leucócitos ou plaquetas auxiliam no diagnóstico. O exame de urina é solicitado em pacientes recém diagnosticados com LES, visto que a inflamação renal não causa sintomas, a não ser que seja severa ou avançada. Hemácias e proteínas na urina sugerem inflamação renal ativa no LES. Os exames bioquímicos que avaliam a função hepática (AST, ALT, bilirrubina e FAL, por exemplo) podem estar alterados, especialmentedevido ao tratamento com drogas anti-inflamatória. O Complemento C3, C4 e complemento total, usualmente diminuído no LES. E a pesquisa de autoanticorpos, que é exame diagnóstico da doença, sendo os autoanticorpos mais característicos os antinucleares. Esses reagem com os constituintes do núcleo de todas as células. O teste de triagem para a presença de autoanticorpos é o teste de autoanticorpos antinucleares (ANA). Feedback de reforço: Retome seus estudos e tente novamente. 171171 171 Questão 3 – Resposta E De forma geral, a amilase e a lipase são amplamente utilizadas como marcadores de inflamação do pâncreas e se apresentam elevadas nesses casos, porém sua elevação também pode estar associada a doenças intra-abdominais, como doenças do trato biliar, processos de oclusão ou isquemia intestinal, apendicite aguda, entre outros. Feedback de reforço: Retome seus estudos e tente novamente. 172172 Apresentação da disciplina Fundamentos de bioquímica aplicada Objetivos 1. Fundamentos de bioquímica aplicada 2. Principais constituintes bioquímicos das células 3. Conclusão TEORIA EM PRÁTICA VERIFICAÇÃO DE LEITURA Referências bibliográficas Gabarito Interpretação clínica de hemograma e painéis químicos clínicos Objetivos 1. Introdução 2. Conclusão TEORIA EM PRÁTICA VERIFICAÇÃO DE LEITURA Referências bibliográficas Gabarito Exames clínicos para diabetes, dislipidemias, aminoacidopatias e risco de doenças crônicas Objetivos 1. Introdução 2. Diagnóstico do Diabetes Mellitus 3. Aspectos laboratoriais das dislipidemias 4. Aminoacidopatias 5. Risco de doenças crônicas 6. Conclusão TEORIA EM PRÁTICA VERIFICAÇÃO DE LEITURA Referências bibliográficas Gabarito Exames clínicos relacionados à desnutrição proteico-calórica, anemia nutricional e má-absorção de n Objetivos 1. Introdução 2. Desnutrição proteico-calórica 3. Anemia nutricional 4. Deficiência de nutrientes por má-absorção 5. Conclusão TEORIA EM PRÁTICA VERIFICAÇÃO DE LEITURA Referências bibliográficas Gabarito Interpretação de exames relacionados a hidratação, função hepática, renal e endocrinopatias Objetivos 1. Introdução 2. Avaliação da função hepática 3. Avaliação da função renal e hidratação 4. Endocrinopatias TEORIA EM PRÁTICA VERIFICAÇÃO DE LEITURA Referências bibliográficas Gabarito Interpretação de exames relacionados a função cardíaca e distúrbios do equilíbrio ácido-base de el Objetivos 1. Introdução 2. Avaliação da função cardíaca 3. Avaliação da hidratação e distúrbios do equilíbrio ácido-base de eletrólitos TEORIA EM PRÁTICA VERIFICAÇÃO DE LEITURA Referências bibliográficas Gabarito Principais exames laboratoriais relacionados a enzimologia, inflamação e doenças autoimunes Objetivos 1. Introdução 2. Enzimologia 3. Principais exames laboratoriais relacionados à inflamação 4. Principais exames laboratoriais relacionados a doenças autoimunes TEORIA EM PRÁTICA VERIFICAÇÃO DE LEITURA Referências bibliográficas Gabarito