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2 ANAIS DO VI CONACIR CONGRESSO NACIONAL DE CIÊNCIA DA RELIGIÃO RELIGIÃO, BUSCA PELA PAZ E DIREITOS HUMANOS VOL I 3 VI CONACIR CONGRESSO NACIONAL DE CIÊNCIA DA RELIGIÃO RELIGIÃO, BUSCA PELA PAZ E DIREITOS HUMANOS 20 a 23 de setembro de 2022 ANAIS Vol. I Juiz de Fora 2022 4 Organização DISCENTES DO PPCIR/UFJF A revisão textual dos manuscritos originais é de responsabilidade de seus respectivos autores, com anuência dos coordenadores dos Grupos de Trabalho. Apoio: 5 Congresso Nacional de Ciência da religião. (6.: 2022: C612c Juiz de Fora, MG). Anais do VI CONACIR- Congresso Nacional de Ciência da religião: Religião, busca pela paz e Direitos Humanos; 20 a 23 de setembro de 2022, Juiz de Fora, MG, Brasil / Organizado por Frederico Pieper Pires, Felipe de Queiroz Souto, Ernani Francisco dos S. Neto. Editado por Rafael Bertante. [realização Discentes PPCIR]. – Juiz de Fora, Minas Gerais: PPCIR/UFJF, 2022. ISSN: 2447-7184 1. Ciência da Religião- Anais- Juiz de Fora -Minas Gerais. 2. Religião. I. Universidade Federal de Juiz de Fora, Núcleo de Estudos do Catolicismo. II. Título. CDD 200 CDU 2 6 O R G A N I Z A Ç Ã O COMISSÕES PRESIDENTE Prof. Dr. Frederico Pieper Pires COORDENAÇÃO DISCENTE Felipe de Queiroz Souto Ernani Francisco dos Santos Neto COMISSÃO CIENTÍFICA Docentes Dr. Emerson Sena (Religião, Sociedade e Cultura) Drª. Maria Cecília dos Santos Ribeiro Simões (Tradições Religiosas e Perspectivas de Diálogo) Dr. Jonas Roos (Filosofia da Religião) Discentes Grazyelle Fonseca (Religião, Sociedade e Cultura) Gisele Maia (Tradições Religiosas e Perspectivas de Diálogo) Rondinele Laurindo Felipe (Filosofia da Religião) SECRETARIA E TESOURARIA Maria Angélica de Farias Jurity Martins Danilo Souza Mendes de Vasconcellos Presley Henrique Martins COMISSÃO ARTÍSTICA Luanna Telles Giovanna Sarto EQUIPE TÉCNICA André Yuri Gomes Abijaudi Adriana Rocha Ribeiro Araújo Mariane Gonçalves Bento Paulo Victor Cota Sérgio Manoel Viviane de Sousa Rocha EDIÇÃO Claudia Santos Rafael Bertante COMUNICAÇÃO Giovanna Sarto Larissa Dantas SITE DO CONACIR Theobaldo Tollendal ARTE Luana Telles 7 SUMÁRIO APRESENTAÇÃO......................................................................................................................11 GRUPOS DE TRABALHO........................................................................................................10 GT 1: CONSERVADORISMO E MODERNIDADE: DISCUSSÕES SOBRE O PENSAMENTO CONSERVADOR, VIOLÊNCIA E DIREITOS HUMANOS .................14 Filipe Costa Machado. “NÃO HÁ NADA DE NOVO DEBAIXO DO SOL”: QOHÉLET E A CRÍTICA AO PROJETO PAN-ISRAELITA DO REINO DO SUL..........15 Geraldo Magela Rodrigues de Oliveira Neto. Luiz Ernesto Guimarães. ELEIÇÕES MUNICIPAIS NA CIDADE DE BARBACENA MG: A RELIGIÃO NO DEBATE PÚBLICO................................................................................................................................ ......23 Karolina dos Santos. JIHAD: REFLEXÕES SOBRE RELIGIÃO, CONSERVADORISMO E VIOLÊNCIAS VIGENTES..........................................................30 GT 3: CRISTIANISMO DAS ORIGENS..................................................................................40 Eduardo Antônio de Faria. MATERNIDADE DIVINA: DAS ORIGENS À ÉFESO...41 GT 4: DECOLONIALIDADE, RELIGIÃO, DIREITOS HUMANOS E PÓS- SECULARISMO...........................................................................................................................46 Andréa Olimpio de Oliveira. ARTE E DECOLONIALIDADE NAS RELIGIÕES AFRO- BRASILEIRAS......................................................................................................................... ......47 GT 6: ENSINO RELIGIOSO: DIVERSIDADE E HUMANIZAÇÃO .................................59 Adriana Rocha Ribeiro Araújo. A DEMOCRACIA NO ENSINO RELIGIOSO PERPASSA SOBRE RAÇA E GÊNERO............................................................................... ...60 Cléa Luíza Rosa Dias. Heli Santos Santana. ENSINO RELIGIOSO: RELEVANTE COMPONENTE CURRICULAR PARA COMBATER A INTOLERÂNCIA ÉTNICO- RACIAL E RELIGIOSA NAS ESCOLAS.................................................................................72 Diego José Maria de Melo. Mauro Rocha Baptista. O ENSINO RELIGIOSO NA PERSPECTIVA DO CURRÍCULO REFERÊNCIA DO ESTADO DE MINAS GERAIS..83 Flávia Ribeiro Amaro. INTERCULTURALIDADE E DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO: UM ESTUDO DE CASO SOBRE A ATUAÇÃO ÉTICO-ECUMÊNICA DA TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO...................................................................................................... ................95 Goretti Marciel Pereira Goulart. Luís Fernando Oliveira do Nascimento. O ENSINO RELIGIOSO DESENVOLVIDO PELO ESTADO DE MINAS NOS PLANOS DE ESTUDOS TUTORADOS DURANTE O ENSINO REMOTO..................................106 8 Norma Maria Duran. AS CIÊNCIAS DAS RELIGIÕES, O ENSINO RELIGIOSO E SUA RELAÇÃO COM A CIDADANIA PARA A EDUCAÇÃO ATUAL......................118 GT 7: FILOSOFIA DA RELIGIÃO .......................................................................................129 Alexsandro Melo Medeiros. CIÊNCIA E RELIGIÃO: UM DIÁLOGO A PARTIR DA OBRA DE TEILHARD DE CHARDIN E PIETRO UBALDI..............................................130 Ana Paula Ferreira Gomes. Fabiano Veliq. TEMPO E MEMÓRIA NAS CONFISSÕES DE SANTO AGOSTINHO DE HIPONA..................................................140 Fabiano Victor Campos. Luiz Fernando Pires Dias. A PERSPECTIVA DE RELIGIÃO NO PENSAMENTO DE EMMANUEL LEVINAS.............................................................149 Leandro da Costa Alhadas Cavalcanti. Andréa Olimpio de Oliveira. A BUSCA PELA ESPIRITUALIDADE E SUA RELAÇÃO COM O PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO.....................................................................................................................158 Moacir Ferreira Filho. O PRINCÍPIO PLURALISTA, A CRÍTICA A MODERNIDADE E O DESAFIO DOS DIREITOS HUMANOS NA CONTEMPORANEIDADE A PARTIR DE JACQUES MARITAIN......................................................................................................166 Simone Maria Zanotto. ÉTICA DA ALTERIDADE E ACOLHIMENTO LEVINASIANO COMO CUIDADO EM DIREÇÃO AO OUTRO.................................174 GT 8: GÊNERO, OUTRAS INTERSECCIONALIDADES E CIDADANIA NA RELAÇÃO ENTRE RELIGIÃO E ESPAÇO PÚBLICO NA AMÉRICA LATINA: DESAFIOS E INTERPELAÇÕES NA BUSCA PELA PAZ.............................................................................................................................................182 Henry Isaac Peña Grajales. DO FLAVIO À ELIS REGINA: PERFORMATIVIDADE DE GÊNERO NO ROMANCE UM AMOR DIFERENTE. NOSSAS ESCOLHAS DO ESPÍRITU AUGUSTO CESAR VANNUCCI E O MÉDIUM JOÃO ALBERTO TEODORO.............................................................................................................................183 Juliana Carvalho da Silva. OS ARQUÉTIPOS FEMININOS DE IEMANJÁ E IANSÃ: DE AMOROSA À INSUBMISSA.............................................................................. ..........193 GT 9: HERMENÊUTICA DA RELIGIÃO ............................................................................203 Felipe de Queiroz Souto. CRISTIANISMO, SUBJETIVIDADE E HERMENÊUTICA: UMA CONTRADIÇÃO DE GIANNI VATTIMO?..........................................................204Sumaya Machado Lima. A PACIÊNCIA DE JÓ E ESTADOS DE BHAKTI YOGA – CATEGORIAS DE COMPREENSÃO DE SOFRIMENTO E DE AMOR....................217 9 GT 10: ENTRE RELIGIÃO E O ESPAÇO PÚBLICO: FESTAS, TURISMO RELIGIOSO E PATRIMÔNIO CULTURAL....................................................................................................228 Dora Deise Stephan Moreira. DOIS CAMINHOS DE FÉ, UM ÚNICO DESTINO: PIACATUBA, DISTRITO DE LEOPOLDINA (MG) COM POTENCIAL DE DESENVOLVIMENTO DO TURISMO RELIGIOSO.....................................................229 Rosiléa Archanjo de Almeida. CAMINHADA DA FÉ: A DEVOÇÃO MARIANA À APARECIDA............................................................................................................... ............242 GT 11: O CATOLICISMO ENTRE OS DIREITOS HUMANOS E OS DIREITOS DIVINOS ...................................................................................................................................249 Felipe de Lima França. Severino Vicente da Sailva. UM “GRITO DO NORDESTE” BRASILEIRO DE 1967: OS DIREITOS HUMANOS E DIVINOS POR MEIO DA AÇÃO CATÓLICA RURAL......................................................................................... ........250 José Romélio Rodrigues dos Santos Júnior. João Victor de Oliveira Estevam. O DIÁLOGO COM O NORTE E O SUL DO MUNDO: DOM HELDER CAMARA AO ENCONTRO DAS JUVENTUDES (1967-1969)...........................................................262 GT 13: RELIGIÃO E CULTURA VISUAL....................................................................................273 Edmilson Sousa Rocha. O CORAÇÃO COMO CENTRO DA EXPERIÊNCIA RELIGIOSA NA RENOVAÇÃO CARISMÁTICA CATÓLICA...................................274 Helmut Renders. A ICONOGRÁFICA DAS BEM-AVENTURANÇAS NA ARTE RELIGIOSA E A BUSCA PELA PAZ: O EXEMPLO DO PÁTIO DO MONASTÉRIO SANTA CLARA EM COIMBRA.......................................................................................285 GT 14: RELIGIÃO E VIOLÊNCIA........................................................................................297 Ana Paula de Paula de Oliveira. GORDOFOBIA: OBESIDADE X GULA...........298 Julia Geralda dos Santos Machado. Airiely Ingrid Souza de Paula. INTOLERÂNCIA E A “BUSCA PELA PAZ”: ANÁLISE DE DISCURSOS NEOPENTECOSTAIS DIRECIONADOS A RELIGIÕES AFRO- BRASILEIRAS.......306 Jungley de Oliveira Torres Neto. DA HERMENÊUTICA À DECOLONIALIDADE............................................................................................ ..............317 Luiza Bello. A PESSOA COMO FUNDAMENTO DA RELIGIÃO EM MAX SCHELER............................................................................................. ....................................327 Marcio Henrique S. Ribeiro. VIOLÊNCIA COMO HERMENÊUTICA RELIGIOSA.............................................................................................................................339 10 Rosemeire Celestino da Costa. O PAPEL DA IGREJA NA PROTEÇÃO DAS CRIANÇAS QUANTO A VIOLÊNCIA DOMÉSTICA E INTRAFAMILIAR...............352 Rondinele Laurindo Felipe. VIOLÊNCIA E MECANISMO VITIMÁRIO NO CENÁRIO POLÍTICO BRASILEIRO ATUAL....................................................................363 Tarcísio Lage Louzada. CRÍTICA A DITADURA MILITAR BRASILEIRA À LUZ DA INTERPRETAÇÃO ESPINOSANA DE MARILENA CHAUÍ........................................371 GT 15: RELIGIÃO, ARTE E MATERIALIDADES: NOVOS DESAFIOS E POSSIBILIDADES DE ESTUDOS ........................................................................................381 Adriana Fernandes Balbi. SANTUÁRIO DA SERRA DA PIEDADE: A ARTE SACRA UMA PERSPECTIVA DA LINGUAGEM DO CULTO MARIANO.............................382 Rodrigo Nogueira Martins. ISLÃ X CANDOMBLÉ A MATERIALIDADE DOS MALÊS COMO LEGADO RELIGIOSO NO TERREIRO DO BOGUM, SALVADOR, BAHIA..................................................................................................................... ................389 GT 18: RELIGIOSIDADES AFRO-AMERICANAS: CRENÇAS, SINCRETISMOS, RITUAIS E RESISTÊNCIAS ....................................................................................................401 Janara Puchulate De Moraes. CANDOMBLÉ: MEMÓRIA, RESISTÊNCIA, INOVAÇÃO....................................................................................... ...................................402 Sávio Roberto Fonseca De Freitas. José Bartolomeu Dos Santos Júnior. QUANDO O SUBALTERNO FALA: A NARRATIVA DE AXÉ DE MÃE BEATA DE YEMONJÁ................................................................................................ ..............................413 GT 20: TRADIÇÕES E RELIGIÕES ASIÁTICAS ...............................................................428 Breno Corrêa Magalhães. Fabiano Muniz Lima. MÚSICA COMO ELEMENTO DE INCULTURAÇÃO: APROXIMAÇÕES COM O IMAGINÁRIO CRISTÃO PELA IGREJA MESSIÂNICA MUNDIAL NO BRASIL..............................................................429 Caio Cézar Busani. UM BARCO PARA TODOS: A ABRANGÊNCIA DA PRÁTICA DE BHAKTI-YOGA NA BHAGAVAD-GITA...................................................................441 Fernando Rodrigues de Souza. ASPECTOS DA TERRA PURA: UMA ÉTICA BASEADA NO OUTRO PODER............................................................................ ...........449 Luciana Fernandes Marques. PRESSUPOSTOS DA FILOSOFIA MADHYAMAKA E OS DESAFIOS DO SEU ESTUDO NA REALIDADE BRASILEIRA CONTEMPORÊA......................................................................................................... .........460 Matheus Landau de Carvalho. USOS DE KANANA (BOSQUE) NA ESPIRITUALIDADE HINDU SEGUNDO O ARAYAKAA, DO RAMAYAA DE VALMIKI................................................................................................ ..................................468 11 Apresentação O Congresso Nacional de Ciência da Religião (CONACIR) organizado pelos discentes do Programa de Pós-graduação em Ciência da Religião da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) realizou em 2022 sua sexta edição com a temática Religião, busca pela paz e direitos humanos ocorrido entre os dias 20 e 23 de setembro de 2022. Frente à preocupação mundial com a guerra na Ucrânia provocada pela invasão russa e aos inúmeros contextos conflitivos ao redor do mundo provocados por distintas causas, nós nos propomos a pensar o papel da religião nestes espaços. Com isto, direcionamos as discussões do congresso para a avaliação da realidade brasileira geralmente marcada por guerras territoriais provocadas pelo fundamentalismo e seus desdobramentos políticos, éticos e morais. Assumindo esta perspectiva, tivemos no dia 20 de setembro a conferência de abertura acerca do pluralismo e da convivência da religião em ambientes plurais e sincréticos com o Prof. Dr. Claudio de Oliveira Ribeiro e o babalorixá Prof. Dr. Rodney William, a seção foi mediada pela doutoranda Cláudia Aparecida Santos Oliveira. Foram organizadas duas mesas redondas com enfoque no fundamentalismo e no seu desdobramento na vida cotidiana. A primeira mesa redonda, realizada em 21 de setembro, tratou do tema Fundamentalismo e Direitos Humanos e teve como debatedores os professores Dr. Breno Martins Campos (PUC-Campinas), Dra. Dilaine Soares Sampaio (UFPB) e Dr. Ricardo Mariano (USP) e foi mediada pelo doutorando Rafael Bertante. No dia 22 de setembro tivemos a mesa redonda Religião, Paz e territorialidade com a presença das professoras Dra. Mariana Gino, Dra. Patrícia Prado (ISTA) Pastora e Dra. Lusmarina Campos Garcia. A mesa foi mediada pela doutoranda Giovanna Sarto. Por fim, no dia 23 de setembro tivemos a conferência de encerramento com a Profa. Dra. Marga Janete e o Me. Tiago Nhandeva, liderança indígena, e a mediação da doutoranda Agnes Alencar. 12 Entre os dias21 e 23 de setembro também foram realizados os Grupos de Trabalho no âmbito do VI CONACIR, tivemos 16 GTs em funcionamento durante todo o evento e 101 comunicações, das quais parte está publicada nesta edição. O Conacir também ofertou o minicurso Uma reflexão sobre a Natureza e o Sagrado: olhares organizado pelo grupo de pesquisa RENATURA do PPCIR da UFJF. Em nome da coordenação do VI CONACIR agradecemos a todos aqueles que nos auxiliaram na organização do evento, desde pensar a temática junto à comissão científica até a realização do evento em plataforma digital. Sem a disposição e o trabalho de cada um o evento não teria o mesmo sucesso. Desejamos a todos que têm em mãos esta edição dos Anais do VI Conacir uma excelente leitura! Felipe de Queiroz Souto Ernani Francisco dos Santos Neto 13 Grupos de Trabalhos 14 GT 1 - CONSERVADORISMO E MODERNIDADE: DISCUSSÕES SOBRE O PENSAMENTO CONSERVADOR, VIOLÊNCIA E DIREITOS HUMANOS Doutoranda Karolina dos Santos (UFJF) Doutorando Rafael de Souza Bertante (UFJF) Ementa: Em meio a modernidade e suas complexidades, presenciamos a existência de diversos grupos que buscam reforçar suas identidades. Concomitantemente, outros movimentos tombam ante crises de sentidos. Pois essas transformações se dão – nos tempos atuais – em consonância com elementos da modernidade e do conservadorismo. Neste sentido, voltamos a nossa atenção para os grupos que se constroem a partir de ideias conservadoras e para aqueles que se encontram em crise de identidade. Nesses últimos, por vezes, percebemos discursos que afirmam um “retorno da tradição” e, portanto, se colocam como um modelo a ser seguido, recusando influências externas. Entretanto, ressaltamos que apesar do apelo para esse “retorno”, não devemos negar a existência da modernidade nessas interpretações e linhas de pensamento dos grupos. Outro ponto importante a ser levantado, é que por vezes os movimentos conservadores e de retorno às origens, são acompanhados por uma série de conflitos, sejam eles políticos ou religiosos. Um caminho para proferir essas ideias e discursos, tem sido através do domínio da linguagem digital e do bem executar das redes sociais. Ainda que estatisticamente esses grupos não sejam tão numerosos, eles conseguem, proporcionar “barulho” e consequentemente influenciar pessoas a sua volta. Algo que preocupa, é a expansão de grupos conservadores mais extremados, que incitam o uso da violência e violação dos direitos humanos. A partir deste cenário, este grupo de trabalho buscará discutir aspectos utilizados em grupos religiosos conservadores, destacando o quanto há de elementos políticos como pano de fundo, sobretudo, quando notamos o uso da violência, intolerância e o desrespeito aos direitos humanos. Um caminho para notar essas questões está na análise dos discursos e nos atos e práticas de cada grupo, tomando em consideração, as linhas de interpretações que procuram modelos ideais de religião e os diálogos com as ideias da modernidade. A atualidade deste tema se faz no nosso próprio contexto, onde percebemos o fortalecimento da ideologia conservadora em vários países do mundo, inclusive no Brasil. Logo, entendemos ser necessário realizar estudos e debates acerca do tema, pois a circulação de pesquisas sobre as questões que envolvem o conservadorismo religioso e a violência, nas diversas identidades religiosas, pode nos ajudar a criar reflexões, em busca de diminuir os conflitos e as violências e, quando possível, buscar, da melhor forma, propostas dialogais. Palavras-chave: Modernidade; Identidade; Conservadorismo; Violência; 15 “NÃO HÁ NADA DE NOVO DEBAIXO DO SOL”: QOHÉLET E A CRÍTICA AO PROJETO PAN-ISRAELITA DO REINO DO SUL Filipe Costa Machado Doutorando em Teologia pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro filipemachado91@gmail.com Resumo: Na antiguidade israelense, período em que se deu a escrita da Bíblia Hebraica, havia uma intenção de centralizar o poder político e social em Jerusalém, aqui denominado pan-israelismo, principalmente a partir da construção do templo, coração da vida religiosa. Dessa forma, a religião de Israel não somente legitimou as guerras para conquista da terra, como também atribuiu a responsabilidade pela invasão assíria ao Reino do Norte à suposta idolatria dos separatistas. Para a Obra Histórica Deuteronomista, principal fonte da Bíblia Hebraica que defende o pan- israelismo, a suposta salvação do Norte, entendida como arrependimento e volta à fidelidade para com Iavé, estaria na submissão ao Sul e ao Templo de Jerusalém. Nesse sentido, a presente comunicação tem como proposta apresentar a crítica do livro de Eclesiastes ao projeto unificador sulista em duas vertentes: a crítica à sabedoria tradicional e à monarquia. Por meio de uma pesquisa bibliográfica, caracteriza-se o projeto pan-israelita da Bíblia Hebraica. Em seguida, apresenta-se o livro de Qohélet como uma nova perspectiva inserida no texto sagrado para se repensar o Divino. Finalmente expõe-se sua crítica à sabedoria tradicional - conhecida como a teologia da retribuição e à monarquia, que abrem a possibilidade de uma nova análise dos textos canônicos, não mais como legitimadores de um domínio político conservador ou do uso da violência, mas como resultado de um processo histórico e social, cuja consequência é a impossibilidade de leituras fundamentalistas ou conflituosas. Palavras-chave: Bíblia Hebraica; Pan-israelismo; Eclesiastes; Qohélet; Conservadorismo. Introdução A Bíblia Hebraica (BH) é um dos livros mais importantes da história. Não só por fundamentar as maiores religiões da contemporaneidade, mas também por se tratar de uma obra literária de valor inestimável, com diversas histórias de libertação, resistência e busca por uma sociedade mais justa e igualitária. Entretanto, essas qualidades não a isentam da necessidade de ser lida e interpretada de acordo com seu contexto histórico-social. Caso contrário, corre- se o risco de hermenêuticas inadequadas, como as anacrônicas, fundamentalistas. Nessa perspectiva, o presente trabalho traz a releitura do livro de Eclesiastes em relação a Deus e a teologia da retribuição, essa última mailto:filipemachado91@gmail.com 16 fundamental para o projeto pan-israelita. A partir de Qohélet, defende-se que a própria BH se reinterpreta numa nova perspectiva acerca do divino que põe em xeque seu uso para legitimar qualquer forma de domínio ou violência. 1. Pan-Israelismo A história de Israel narrada na BH se confunde com suas experiências religiosas com Iavé, o deus que se revela por meio de hierofanias e milagres. A narrativa veterotestamentária mostra o Divino agindo desde a gênese não somente do mundo, mas de toda a etnia – que se tornaria hebraica – na mensagem a Abrão para que saísse da sua terra e fosse para uma outra, prometida a ele pela divindade. A história, portanto, era “um trecho de caminho em que o próprio Deus caminhava com seu povo” (VON RAD, 1996, p.89). Nesse sentido, o texto bíblico, principalmente no que se propõe a narrar a história de Israel, não é historiográfico, no sentido moderno do termo, isto é, não constitui um relato de fatos históricos, mas é permeado de mitos religiosos e ensinos teológicos que constroem a identidade hebraica. São narrações didáticas que pretendem formar e unir o povo numa sociedade com cultura, língua, descendentes e religião comuns: “quando, em Israel, uma geração repassava sua história o que realmente passava era sua própria e peculiar relação com Deus” (VON RAD, 1996, p.18). Sob um Deus criador e sua palavra reveladora, deve-se manter a união de todo o povo, criando uma estrutura de plausibilidade que sustenta a coesão do povo em todo o seu processo de formação. Porém, as divergências político-econômicasque surgiram após o início da monarquia e principalmente após a morte do rei Salomão foram suficientes para ruir a união outrora percebida. Anos depois, a invasão assíria ao reino do norte e o exílio babilônico do reino do sul motivaram diferentes autores a compilarem o texto que se tornaria a BH. Ele tinha a missão primeira de manter a cultura e a unidade do povo durante período de exílio. Como afirma Estrada (2018, p.60), “unificar correntes heterogêneas e contrapostas foi uma das grandes tarefas que assumiram os escritores que buscavam salvar a identidade nacional judia 17 no período em que haviam perdido a sua independência territorial, social e cultural”. Trata-se, assim, de um período de decadência política e desorganização social, mas de vasta produção teológico-religiosa com objetivos bem definidos. A BH se tornou um texto tão importante e bem elaborado que sua leitura se mantém atual para a contemporaneidade por apresentar “manifestação de temas intemporais da libertação de um povo, da contínua resistência à opressão e da busca pela igualdade social.” (FINKELSTEIN & SILBERMAN, 2003, p.425). Ainda que sua importância seja imensurável, a BH não é um relato histórico, fato que ficou conhecido apenas depois da adoção do método histórico-crítico para estudá-lo. Comprovou-se, assim, que “a composição da Bíblia obedeceu a um projeto teológico e ideológico mais que à história real” (ESTRADA, 2018, p.58). A historiografia moderna, sustentada pelas escavações arqueológicas, o conhecimento das tradições do Oriente próximo e os dados históricos das grandes nações vizinhas de Israel oferecem hoje outra versão diferente da história judia. Não foi a história que gerou a fé, mas o contrário, a partir da fé monoteísta tardia se recompôs história e se transformaram os acontecimentos. (ESTRADA, 2018, p. 58). Por outro lado, A BH não é uma criação sem uma base histórica de um narrador que arbitrariamente combina datas e acontecimentos, mas possui contornos da história do Antigo Israel, de memórias preservadas que foram posteriormente compiladas. Isso aconteceu principalmente à época do rei Josias, no Reino do Sul – final do século VII –, até o período do pós-exílio no século V. Fontes diferentes, como a javista, eloísta, sacerdotal e deuteronomista, de diversas narrativas com gêneros diferentes são reunidas e o resultado é “uma composição gigantesca em conglomerado de peças heterogêneas que nesse estado dificilmente poderiam ser pensadas como uma obra de leitura seguida” (VON RAD, 1996, p.16). Nessa reconstrução retrospectiva, juntam-se grandes feitos de caráter político, teofanias, as histórias dos reis e dos profetas, legislações sobre a vida em sociedade e sobre o culto. Houve também a mitificação de personagens importantes, como Abraão e Moisés, que se tornariam os patriarcas de quem 18 todo o povo seria descendente. Antigas tradições e fatos históricos foram misturados em epopeias bíblicas, legitimando novas teologias e projetos político-religiosos e reafirmaram a identidade do povo eleito. Dessa forma, a leitura bíblica deve partir dessa fundamentação teórico-histórica para se chegar a uma fé crítica, mais que uma busca pela literalidade: “a perda da plausibilidade e da verdade histórica afeta a leitura bíblica, desautorizando uma hermenêutica literalista e historicista e também a fé ingênua em um livro revelado que deve dar lugar a uma fé crítica.” (ESTRADA, 2018, p.58). Nessa perspectiva, um dos ideais criados pelos redatores foi o pan- israelismo, uma ideologia que pregava a unificação dos reinos do norte e sul com centro em Judá e capital em Jerusalém. O monoteísmo judaico em torno do templo de Jerusalém seria o fundamento da monarquia judaica, que deveria ser restaurada após a separação dos reinos. Por isso, a BH, sobretudo na fonte deuteronomista, inúmeras vezes reafirma a idolatria dos povos do Norte que trouxe como consequência a invasão assírica enviada pelo próprio Iavé para punir o povo. Assim, não somente a unificação era necessária para trazer Israel de volta à adoração a Deus, mas ele retribuiria a desobediência com mais castigos e a obediência com bênçãos. Dessa forma, a história de Israel é contada a partir das ambições territoriais do Sul, contudo, a arqueologia apresentada por Finkelstein e Silberman não comprova historicamente os relatos. Muitas das narrativas jamais aconteceram, mas refletem primariamente a ideologia e a visão de mundo dos seus escritores. Nessa perspectiva, os autores também comentam sobre a monarquia unida. Porém, afirmam que era mais um projeto que uma realidade, um “ideal posterior e não uma realidade histórica” (FINKELSTEIN & SILBERMAN, 2003, p.318), sem as glórias descritas sobre Davi ou Salomão. A mitologia hebraica atribui a ambos o período áureo da história e, por ser dessa linhagem, Josias seria o restaurador desse tempo. A aliança de Deus seria, então, cumprida nesse monarca e estaria circunscrita ao templo de Jerusalém. Dentro desse contexto, a teologia da retribuição empenha importante papel para chamar o povo à fidelidade a Iavé, favorecendo o projeto pan- 19 israelita do Sul. Segundo essa perspectiva, todo aquele que “ouvir a voz do Senhor” será exaltado e “todas as bênçãos virão” sobre ele (Cf.: Deuteronômio 28.1-13). Por outro lado, aquele que desobedece será amaldiçoado. 2. O livro de Qohélet Nos séculos III e II a.C., contudo, tem-se a escrita de outros textos veterotestamentários mais helenizados, reconhecidamente posteriores por utilizar um hebraico que apresenta aramaismos ou até mesmo grego. Dentro desse grupo, encontra-se o livro de Eclesiastes ou Qohélet, cuja autoria, tradicionalmente atribuída a Salomão, já foi definida como dessa época tardia e por isso seu autor é chamado apenas de “pregador”, em hebraico, “qohélet” ou “coélet”. O Eclesiastes é um livro que rompe com a teologia da retribuição e dá uma nova perspectiva acerca de como o ser humano deve se relacionar com Deus e deve viver. Para Qohélet, a obra de Deus – Elohim – é um mistério, nem o sábio a conhece (Cf.: Eclesiastes 8.17). Muito diferente do Iavé deuteronomista que, numa relação quase mecanicista de causa e consequência – nos binômios obediência-benção e desobediência-maldição –, relaciona-se com sua criatura por meio da retribuição, o Elohim de Qohélet é inescrutável, desconhecido. Para o autor hebraico, “assim como tu não sabes qual o caminho do vento, nem como se formam os ossos no ventre da mulher grávida, assim também não sabes as obras de Deus.” (Cf.: Eclesiastes 11.5). Para o sábio, “há justos que recebem o que o ímpio merece e ímpios que recebem o que os justos merecem” (Cf.: Eclesiastes 8.14) e “tudo sucede igualmente a todos” (Cf.: Eclesiastes 9.2). Qohélet apresenta uma nova proposta de teologia, uma teologia de crise, diante de uma realidade que não é explicada pela retribuição. Na fronteira entre o que se pode ver debaixo do sol e a realidade metafísica e transcendente, o autor de Eclesiastes percebe que “a realidade humana não faz aparecer nenhuma lei do agir divino; a impressão colhida é antes aquela de uma arbitrariedade total.” (GLASSER. 1975, p. 64). 20 O traço semítico pode ser encontrado, desde logo, na inabalável fé de Qohélet em Elohim, apesar da inescrutabilidade dos desígnios divinos e mesmo daquilo que neles pareça repugnar à razão humana. Uma fé que se exprime como ‘temor’, como espanto reverencial dos ‘filhos de adão’ perante o incognoscível (Ec 3.14). (CAMPOS, 2004, p.19). O relacionamento entre Criador e criatura não é mais definido pela retribuição, mas pelo respeito silencioso diante do mistério. Como o autor hebraico afirma, é “melhor ouvir que oferecer sacrifícios”, “sejam poucas as tuas palavras” e “não tardes em cumprir teus votos” (Cf.: Eclesiastes 5.1-4). Para o cardeal GianfrancoRavasi (1993, p.180), todo diálogo com Deus “se extingue na interrogação ou na resignação impotente do homem ou no silêncio de Deus, que parece tão ‘celeste’ e distante do horizonte terrestre. [...] A ação de Deus, imperscrutável e absoluta, não admite intervenções, retificações ou críticas”. De fato, os resultados nunca são mecânicos, as proporções nunca são matemáticas, os finais são sempre surpreendentes. Alguns dados são verificáveis em sua raiz, mas não o são mais em sua plena atuação, que pode manifestar-se de mil formas e em mil possibilidades. Seja como for, na base de tudo está a nossa ignorância a respeito do protagonista da história, Deus, e de seu estranho projeto. [...] tudo está suspenso no imponderável de Deus e da natureza. [Nós] estamos sempre na incerteza. (RAVASI, 1993, p.241). Para o ser humano, isso significa que não há mais certeza nas promessas divinas. A teologia aliancista é abandonada pelo Eclesiastes, na medida em que a condição humana – inclusive do fiel a Iavé – não passa de “vaidade” (Cf.: Eclesiastes 1.2, 12.8). Por isso, Qohélet não busca fundamentar nenhum projeto de unificação dos reinos, e até tece críticas à monarquia. Se o mistério caracteriza a ação divina, então não se pode defender o trono davídico como centro do poder político para Judá e Israel, nem o templo de Jerusalém como casa de Deus. A ambição do sul perde sua base teológica e o pan-israelismo deixa de ser uma proposta válida para o povo de Iavé. Além disso, traz duras críticas ao governo do seu tempo – que podem facilmente ser transportadas para a contemporaneidade. Não há esperança de que os líderes políticos ou religiosos agirão em prol dos mais necessitados. Pelo contrário, debaixo do sol, “no lugar do juízo há impiedade”, a hierarquia sempre 21 gera opressão do pobre, a corrupção corrompe o coração e os governantes continuamente colocam tolos no poder (Cf.: Eclesiastes 3.16, 5.8, 7.7, 10.6) Todos esses trechos ‘políticos’ de Qohélet repetem seu desprezo resignado pela vulgaridade imperante nas cortes e dominante na sociedade e a manutenção desesperançosa dessa situação. Nas palavras de Ravasi (1993, p. 155), “O Estado é visto, pois, como estrutura compacta e ‘mafiosa’, cujos níveis se controlam reciprocamente e se protegem segundo regras de solidariedade. E eis por terra o habitual e eterno pobre, esmagado, maltratado e humilhado.” A injustiça institucionalizada é mais um dos males denunciados pelo Eclesiastes. Não há, dessa forma, a quem recorrer, pois “o coração do homem está cheio de maldade” e “se enche de planos para fazer o mal” (Cf.: Eclesiastes 8.11, 9.3). Para o teólogo espanhol Vílchez Líndez (1999. p. 236.), “o direito e a justiça deveriam ser os pilares fundamentais em que se sustentariam toda a sociedade. A realidade é bem outra e Qohélet confirma: o que prevalece é a lei do mais forte, que necessariamente gera mais injustiça e violência.” Em suma, o livro de Eclesiastes é uma obra que rompe com diversas ideias caras ao texto da BH. Ele quebra a continuidade da narrativa deuteronomista que traz o projeto pan-israelita, critica a sabedoria que afirma conhecer Deus e saber como age o divino e diminui toda ação humana à mera vaidade. Apresenta e fundamenta uma religiosidade mais humilde, mais pessoal, mais cética, configurando-se, portanto, como a crítica necessária a expressões judaico-cristãs dominadoras, que não cabem mais no mundo plural da contemporaneidade. Conclusão A proposta de Qohélet, ainda que simples e na fronteira da negação da transcendência, pode ser um terreno fértil para a teologia. Ao perceber Deus como o Elohim e o ser humano como mera vaidade, desconstrói qualquer projeto imperialista que tenha como base o texto bíblico ou uma revelação divina. Pelo contrário, Qohélet é a correção da perspectiva violenta e 22 dominadora do deuteronomista dentro da própria BH, que nunca legitimaria domínios, guerras ou governos a partir da voz divina. Além disso, Qohélet chama o seguidor de Iavé a uma reavaliação acerca da sua própria fé, na crítica contundente à sabedoria tradicional que afirma saber quem Deus é e como ele age. Reafirma, dessa forma, uma característica fundamental do ser divino, o mistério, que transcende a compreensão e a experiência humanas. Referências A Bíblia sagrada: antigo e novo testamento. Tradução de João Ferreira de Almeida. Brasília: Sociedade Bíblica do Brasil, 1969. CAMPOS, Haroldo. Qohélet: o que sabe Eclesiastes. São Paulo: Perspectiva, 2004. FINKELSTEIN, Israel.; SILBERMAN, Neil. A Bíblia não tinha razão. São Paulo: A Girafa, 2003. 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São Paulo: Paulus, 1999. 23 ELEIÇÕES MUNICIPAIS NA CIDADE DE BARBACENA MG: A RELIGIÃO NO DEBATE PÚBLICO Geraldo Magela Rodrigues de Oliveira Neto Graduando em Ciências Sociais na Universidade do Estado de Minas Gerais, Unidade Barbacena geraldoliveira1951@gmail.com Luiz Ernesto Guimarães Doutorado em Ciências Sociais Universidade do Estado de Minas Gerais pr.ernesto@protonmail.com Resumo: O presente projeto tem como intuito apresentar a relação que se estabeleceu entre religião e política durante o período eleitoral de 2020, na cidade de Barbacena, em que o então candidato pelo MDB se apresentou como um nome forte para a renovação política do município, com um discurso muito acentuado na temática da religião e da manutenção dos valores cristãos guiados pelo seu contato com a RCC. A campanha se desenvolveu com um vínculo similar ao apresentado pelo atual presidente Jair Bolsonaro, quando candidato em 2018. A pesquisa buscou identificar os principais argumentos e movimentos utilizados pelo então candidato para disputar o cargo do executivo municipal. A pesquisa foi desenvolvida a partir do levantamento de dados das redes sociais (Instagram e Facebook), bem como entrevistas realizadas pelo candidato, uma vez que o período eleitoral de 2020 teve sua particularidade, a pandemia de Covid 19 e a necessidade do afastamento social. A pesquisa buscou, portanto, a demonstração da influência do discurso religioso para a disputa do pleito municipal no interior de Minas Gerais. Palavras-chave: Antropologia da política; Renovação Carismática Católica; Religião e Política; Barbacena-MG. Introdução A Renovação Carismática é um segmento católico muito importante para entender parte da política e cultura do país, sua influência nos debates, lançamento de candidatos e agendas condizentes com seus ideais de sociedade tem se mostrado cada vez mais visíveis. Mas, é importante salientar que a importância e influência desse movimento no cenário político não é aleatório e, muito menos, descoordenado. Segundo Bulgarelli (2018), há no Brasil, um forte movimento de amparo e crescimento das pautas morais em detrimento das pautas sociais, é importante salientar que o referido autor está preocupado nas questões que envolvem a orientação sexual e os direitos desses indivíduos no mailto:geraldoliveira1951@gmail.com mailto:pr.ernesto@protonmail.com 24 Brasil, porém a forte intensificação de uma bancada religiosa, não esgota suas atividades apenas nas pautas da sexualidade e não se limita apenas no congresso nacional. Um exemplo claro dos ramos dessas ideias conservadoras penetrando na sociedade civil são os grupos digitais e movimentos conservadores como o MBL – Movimento Brasil Livre; Vem pra Rua; líderes religiosos já conhecidos como Edir Macedo e Valdomiro Santiago, entre outros que assumiram um protagonismo político e carregaram em seu bojo essa onda deideais conservadores, que se firmaram principalmente em 2018 com a eleição de Jair Bolsonaro a presidência da República com seus lemas mais fortes com um grande apelo moral, sendo eles: “Pátria, Deus e Família” e “Brasil acima de tudo, Deus acima de todos’, é nesse cenário de ascensão conservadora que os eixos principais do presente trabalho se lançam como opções para o cenário político local, no caso as eleições municipais de Barbacena1 em 2020. O já explanado contexto político a instauração da pauta conservadora foram cruciais para ascensão também do, até então, candidato ao executivo na política local. Embora já experiente, uma vez que o até então candidato, era vereador cargo alcançado nas eleições de 2016, o mesmo se valeu da sua figura jovial e carregado de um discurso anti-sistêmico ou seja, de fora da política tradicional, discursos também conhecidos e reverberados no contexto das eleições de 2018 tendo expoentes como Romeu Zema (NOVO) e João Dória (PSDB), para alcançar o eleitorado barbacenense e claro, o discurso religioso e sua identidade como grande figura da RCC local. 1. RCC e a Política A Renovação Carismática Católica é um segmento religioso dentro do catolicismo que tem ganhado terreno não apenas no espaço religioso, como também na esfera política institucional. Com figuras de destaque nacional como Pe. Marcelo Rossi, membros que ganham forte destaque midiático, televisivo, no rádio e até mesmo, na atualidade, as redes sociais dando ao movimento grande oportunidade para adentrar na sociedade como um discurso quase orgânico. 1 Cidade do interior de Minas Gerais, localizada a aproximadamente 170 km da capital, Belo Horizonte. 25 Entrada e discursos que não se limitam apenas ao território religioso, embora não se desconectem dele quase em tempo nenhum, um dos campos mais visíveis de atuação e ocupação da RCC é na política institucional. Com o ideal de transformar Fé e Política em coisas unas como indica (Silveira, 2008) a RCC ganha sua roupagem política ao lançar e apoiar candidatos, sem partidos definidos, embora com a ideologia mais ligada a conservação dos valores morais defendidos pelo segmento, é nesse contexto que figuras religiosas adentram o campo político. A atuação política de um membro da RCC é, geralmente, mediada pelo Espírito Santo e tratada como “missão”, termo também rotineiramente empregado por membros da RCC que se enveredam na política, a atuação é, portanto, uma investida não por políticos profissionais nem por uma formação de um bloco político hegemônico, mas sim de levar “leigos” para a política, para que esses transmitam em suas ações, medidas que, segundo o movimento, seriam um bem comum. É o caminho inverso, não se utilizaria da política, nem do cargo para fazer mudanças morais, mas por ser impactado na própria vida pessoal adentrar a rede política. 2. As Eleições Municipais de 2020 e o recolhimento de dados O ano de 2020 foi período marcado pelo calendário eleitoral com as eleições ao legislativo e executivo municipal. Trataremos nesse tópico exclusivamente da campanha para o executivo, principalmente da figura chave, o candidato membro da Renovação Carismática que venceu a referida disputa. Cabe salientar que esse período foi perpassado pela pandemia de COVID 19, que afetou a todos e, portanto, os candidatos e as suas formas de fazer campanha. A Eleição na cidade de Barbacena foi marcada principalmente pelo advento da pandemia e as renovações na forma de se fazer campanha, o campo digital foi muito utilizado pelos candidatos, as atividades comuns do “tempo da política” (Heredia; Palmeira, 1995) como as passeatas, comícios e shows foram remodeladas e, até certo ponto, substituídas e, para ocupar a lacuna, as redes sociais foram a chave, talvez a maior, das eleições. Portanto, o 26 presente texto, trabalhará principalmente com a influência e o discurso realizado pelo candidato membro da RCC, durante o período eleitoral, principalmente a aproximação dos discursos políticos, institucionais da religião, nesse caso a religião católica, guiada pelo segmento da Renovação Carismática. As postagens, vídeos, fotos, panfletos e entrevistas analisadas durante o processo de recolhimento e análise de dados da pesquisa foram, majoritariamente, digitais e por isso cabe uma ressalva da forma metodológica aplicada, principalmente amparada na Antropologia Digital e na ideia do online não invalidar o real, mas ser parte dele, como demonstram (Horst; Miller, 2015), baseado nisso que os dados recolhidos no Instagram e Facebook, desde posts oficiais de campanha e comentários de apoiadores, que deram à pesquisa instrumentos para mapear e identificar uma característica da campanha. Uma campanha que foi abertamente cristã, declaradamente católica, mas que, para além disso, se valeu de outros argumentos para conseguir votos de outros segmentos da sociedade, é o que (Procópio, 2015) chama de movimento “multiposicional” que é, grosso modo, o movimento que o candidato religioso faz para conquistar apoio dentro do seu espectro, seja empresarial, civil, militar, mas sem que isso fira os seus princípios ideológicos. Nas eleições de 2020 em Barbacena-MG, o candidato observado, o jovem membro da renovação carismática, se valeu dessa premissa “multiposicional” ao se encontrar e fazer campanha com outros líderes religiosos cristãos, mas da vertente evangélica pentecostal, que também foi candidato na referida eleição, mas concorrendo ao cargo no legislativo municipal. Essa coligação gerou certo espanto, principalmente no período eleitoral, mas foi completamente compreensível, principalmente partindo da premissa exposta por (Reis, 2016) onde mostra a aproximação entre o pentecostalismo evangélico e a Renovação Carismática Católica, referida pelo autor, inclusive como, pentecostalismo católico. As Eleições de 2020, em Barbacena, tiveram o entrave de busca de dados e entrevistas presenciais, devido ao já referido período pandêmico. Marcada por nomes da política tradicional mineira, nomes conhecidos da cidade, ex vereadores influentes, trazia a sensação tanto nas conversas da esfera pública, 27 quanto nas pesquisas pré eleitorais divulgadas2 a disputa entre dois candidatos e o membro da Renovação Carismática, objeto de observação e análise, aparecia até então em 5º (quinto) lugar. Porém, nas redes sociais, principalmente no Instagram, era o candidato que tinha a maior mobilização e grande engajamento, desde o início das publicações ainda em príodo pré eleitoral, o candidato se valeu das massivas publicações, onde chegava a postar cerca de dois cards por dia com as notícias ou propostas como pré candidato, já em setembro, um mês e meio antes do do dia das eleições, o oficialmente candidato, remodelou suas redes, e passou a utilizar as cores verde e amarelo, associando-se a bandeira do país, esse dado é muito importante, uma vez que o candidato ao executivo municipal se valeu, mesmo que não denominando, de estratégias já conhecidas no cenário politico: a adoção das cores e bandeiras do Brasil, discursos conservadores em relação a família, aborto e outros temas de pauta moral, discursos convergentes com o do presidente da república Jair Bolsonaro, eleito dois anos antes, e com expressiva votação no município de Barbacena. Cenário benéfico para o então jovem vereador, que se valendo do discurso de novidade política, anti-sistema e pautas morais chegou no dia 15 de Novembro com forte apoio e vencendo as eleições. 2.1. O dia da vitória O dia 15 de Novembro, marcado pelo TSE para a realização das eleições municipais, foi um período de forte movimentação nas redes sociais, principalmente no período de apurações. A pesquisa focou nas transmissões ao vivo realizados para cobertura das eleições tanto no YouTube quanto no rádio, a primeira commais atenção, pois era permitida a participação e interação dos apoiadores e opositores pelo chat da transmissão. Foram recolhidas diversas manifestações, com sua maioria relacionadas ao candidato carismático, que já nos primeiros boletins de urna apontava na frente, discursos relacionados a renovação, juventude e escolha divida para melhoria da cidade eram recorrentes alguns repetidos, outros remodelados, mas sempre com a 2 Pesquisa noticiada no Barbacena Online, registrada no TSE com o número MG-07758/2020 4. 28 conotação que referia ao âmbito religioso. Outro período marcante do dia das eleições, esse já com o resultado da vitória do candidato membro da RCC, foi, depois da carreata, o pedido realizado pelo próprio candidato eleito de reunir os apoiadores, no adro da Igreja de Santo Antônio, ponto de encontro comum para as atividades políticas da cidade, para a realização de uma oração em agradecimento ao resultado das eleições e afirmações de que a cidade estaria “nas mãos do Senhor” e o pedido de mediação pelo Espírito Santo para seu governo. Conclusão O presente trabalho teve como objetivo demonstrar a correlação entre religião e política, principalmente no âmbito local, no município de médio porte, Barbacena-MG, e como um líder político e, também, religioso se portou durante o período eleitoral que concorria. Ademais, cabe salientar que Minas Gerais é um dos estados com mais influência católica, portanto, uma candidatura com esses ideais acaba tendo mais simetria e aceitação, foi o caso das eleições de Barbacena, elegendo um jovem religioso para comandar o executivo local. Para além das eleições de 2020, período relatado no presente artigo, o grupo e a pesquisa avançam para o entendimento de como o jovem membro da renovação carismatica seguirá, agora, como prefeito da cidade. Esse trabalho é. portanto, base importante em três frentes: dar aporte teórico para os estudos sociais, políticos e religiosos da cidade, acompanhar a carreira ascendente do jovem político da Renovação Carismática e traçar um indício da manutenção política da forte onda conservadora, explorada no início do texto. Referências ALMEIDA, Ronaldo de. Bolsonaro presidente: conservadorismo, evangelismo e a crise brasileira. Novos Estudos CEBRAP, São Paulo, v. 38, n. 1, p. 185-213, jan./abr. 2019. CARRANZA, Brenda. Renovação Carismática Católica: origens, mudanças e tendências. 1998. 260 f. Dissertação (Mestrado em Sociologia) – Instituto de Filosofia e Ciências Humanas, Unicamp, Campinas. 29 DESLANDES, Suely; COUTINHO, Tiago. Pesquisa social em ambientes digitais em tempos de COVID-19: notas teórico-metodológicas. Cad. Saúde Pública 36(11), 2020, p. 1-11. EVANS-PRITCHARD, Edward Evan. Bruxaria, Oráculos e Magia Entre os Azande. Rio de Janeiro, Jorge Zahar, 2005. GEERTZ, Clifford. 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London: UCL Press, 2018. 30 JIHAD: REFLEXÕES SOBRE RELIGIÃO, CONSERVADORISMO E VIOLÊNCIAS VIGENTES Karolina dos Santos Doutoranda em Ciência da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora Pesquisadora bolsista CAPES. apachesantos87@yahoo.com.br Resumo: O conceito de jihad dentro do islã é considerado polissêmico, e regado a categorias. Dessa forma, pretende-se abordar uma dessas categorias do jihad, a qual se refere a defesa da fé e dos direitos. Portanto, é preciso pontuar a importância desse conceito na religião. Para além disso, dentro do contexto atual, grupos retratados como conservadores religiosos, e relacionados ao terrorismo e grupos de guerrilha, farão o uso do conceito de jihad e, também, dessa categoria. O conceito de jihad, muito usado nos dias de hoje ao abordar determinados grupos, é um conceito que nem sempre possui conotação religiosa. Os pensadores jihadistas propõem o jihad como um ato de liberdade para exercer a fé, além de ser colocado como dever de todo muçulmano. Pensadores e idealizadores do jihad tais como Abdullah Azzam, Mohamed al Maqdisi (Barqawi) e um dos co-fundadores da Al Qaeda, Ayman al Zawahiri ainda contribuem de forma significativa para as ações vigentes de grupos, tais como o Talibã, Al Qaeda, e em partes o Estado Islâmico. Portanto, para realizar essa análise, e trazer a tona parte do pensamento jihadista elaborado por esses, será feito o uso de documentos, e escritos elaborados pelos pensadores, para apresentar suas teorias e vivências a respeito do jihad. Sendo assim, poderemos observar uma melhor compreensão referente ao campo jihadista atual, onde é permeado por questões culturais, religiosas e, também, políticas. Consequentemente, o presente trabalho irá contribuir com discussões e apontamentos a respeito do conservadorismo e violência, relacionados a essa forma de interpretação do jihad exercida pelos grupos e teóricos citados. Palavras-chave: Jihad; Abdullah Azzam; Ayman al Zawahiri. Introdução: O conceito de jihad dentro do islã é considerado polissêmico, e regado a categorias. Abordagens a respeito do jihad, são muito utilizadas nos dias de hoje ao abordar determinados grupos, é um conceito que nem sempre possui conotação religiosa. Dessa forma se faz necessário trazer a abordagem do conceito de jihad na religião e posteriormente abordá-lo dentro de outros contextos político-sociais. O presente artigo busca uma compreensão do conceito de jihad através das percepções de teóricos jihadistas, com suas abordagens que são utilizadas mailto:apachesantos87@yahoo.com.br 31 por alguns grupos, e que possuem grande relevância dentro do âmbito jihadista. 1.1. O conceito de Jihad O jihad se apresentará, traduzido do árabe, em sua forma literal como ―esforçar-se (COOK, 2005). Dentro do idioma árabe, a palavra jihad pode ser usada como verbo, substantivo, e, também, usada como nome próprio, tanto para cristãos quanto para muçulmanos (CHEREM, 2013). A palavra jihad é derivada do idioma árabe, e das palavras mujahada (trabalhar com coração) e jahada (sinceridade ougrande esforço) [HAKIM, 2016]. O jihad se apresenta como uma forma de expressão ― “se dedicar com todo esforço”, e também estará relacionado ao poder ou alguma habilidade, então o jihad seria uma luta, lutar com habilidade e energia, com grande esforço e empenho (HAKIM, 2016). Significa não medir esforços para dar o seu melhor, para superar as dificuldades, é dedicar-se ao combate aos tiranos para proteger os muçulmanos (HAKIM, 2016). De acordo com Aydin (2012) a palavra jihad pode ser considerada como algo muito abrangente, mas que está relacionada a algum tipo de esforço diante das dificuldades. Durante o surgimento da primeira comunidade islâmica, nos processos de divulgação da fé na língua revelada, torna-se importante visualizar que a comunidade se dividia em dois polos: Os que desejavam promover o Islã através da espada (sayf), mas também haviam aqueles que estavam dispostos a fazê-lo através da paz (salaam) (HUZEN, 2006). E quando colocamos em uma proporção maior, haviam aqueles que estavam prontos para a guerra pela causa de Allah (jihad), enquanto outros estavam dispostos a lutar em defesa da comunidade (ummah), que também pode ser considerada uma forma de jihad (HUZEN, 2006). Nessa época, já era perceptível a polissemia e abrangência do jihad, quando conhecemos e estudamos as interpretações e modos de vida da primeira comunidade. Dentro desse contexto de muçulmanos militantes e muçulmanos que não queriam ir para a guerra, surgirão as campanhas, ou conquistas islâmicas para conseguir adeptos. 32 O senso de pertencer a uma comunidade de fiéis expressava-se na idéia de que era dever dos muçulmanos cuidarem das consciências uns do outros, proteger a comunidade e estender seu âmbito onde possível A jihad, guerra contra os que ameaçavam a comunidade, fossem eles infiéis hostis de fora ou não-muçulmanos de dentro que rompessem seu acordo de proteção, era em geral encarada como uma obrigação praticamente equivalente a um dos Pilares. ―O dever do jihad, como os outros, baseava-se nas palavras do Corão: ‗Ó tu que crês, combate o infiel que tens perto de ti‘‖(HOURANI, 2013, p. 205). O jihad se apresenta dentro da religiosidade islâmica como uma forma de empenho, ou esforço do indivíduo com ele mesmo, e, também, para o bem estar coletivo (CHEREM, 2013). Posteriormente, com islã formado, o conceito ganhará categorias, e o chamado “esforço” será dividido em etapas. A partir do momento que surgem as categorias, tal esforço pode ser considerado um empenho para o bem espiritual da comunidade (jihad maior), ou a defesa da fé e das terras (jihad menor). Essas duas categorias maior/menor são as que possuem significados aceitos e mais abrangentes, com conotações positivas para os muçulmanos: Robinson (2021) sugere que o primeiro será o jihad realizado em defesa do islã e seu território. O segundo podemos considerar um jihad mais espiritual, que tem como significado lutar contra as tentações, é colocado como uma luta pessoal (jihad al-nafs). Esse jihad é referido pelos muçulmanos como o ― grande jihad ou jihad maior ― “jihad al akbar” (ROBINSON, 2021). 1.2 . O jihad dos teóricos Dentro do contexto atual, com a emergência de grupos chamados terroristas, é preciso compreender como de fato esses grupos surgiram. Dessa forma, é preciso ter em mente, que anterior a esses grupos existiram aqueles que pensaram esses movimentos, esses personagens são os teóricos jihadistas. Tais teóricos irão interpretar e reinterpretar o conceito de jihad principalmente na categoria jihad menor onde é mencionado a “defesa da fé”. Além de fazerem uma leitura conservadora a respeito do lado religioso, esses teóricos fazem uso da violência, que em contrapartida vai contra os princípios da fé islâmica, que prega a paz, e que prega uma religião direcionada à todos. 33 O jihad praticado por esses teóricos é diretamente relacionado às noções do que representa o terrorismo. De acordo com Visacro (2019), o terrorismo não é um fenômeno recente, mas desde o final do século XIX tem se apresentado de forma crescente. Já no século XXI, com os ataques às torres gêmeas nos Estados Unidos que são relembrados até nos dias atuais, ressaltaram esse tipo de guerra, que Visacro (2019) coloca como guerra irregular. O terrorismo dentro do contexto atual pode ser considerado um dos maiores problemas, e podemos ver que nessa era de conflitos tem como uma das principais características a presença do terror de forma exacerbada (VISACRO, 2019). Dentro do que esse artigo propõe, de agora em diante adentraremos no contexto de vida dos teóricos que trabalham dentro do contexto de terrorismo, juntamente com as suas abordagens a respeito do conceito de jihad, que no contexto atual beberá bastante de contextos político-sociais. Os teóricos mencionados nesse artigo foram aqueles que tiveram importância dentro do movimento jihadista global, e que levaram ao mundo o conhecimento dos grupos que fizeram parte, ou que chegaram a apoiar algum grupo especifico em determinado momento. 1.2.1. Abdullah Azzam Abdullah Azzam, ideólogo palestino, liderou o recrutamento de combatentes para o Afeganistão na década de 1980, a qual pode ser considerada a primeira mobilização de combatentes estrangeiros globais do mundo de acordo com HEGGHAMMER (2020). Azzam terá seu contato com o dawa‘a, o que os islâmicos chamam de divulgação da fé, ou pregação, que funciona como um chamado para aderir ao islã. O dawa‘a é visto como um chamado ou um convite, mas quando o dawa’a é praticado por grupos terroristas tais como a al Qaeda cabe também como uma forma de recrutamento (HEGGHAMMER, 2020). Dessa forma a vivência com o Dawa’a de Azzam na Irmandade Muçulmana, movimento egípcio que 34 fez parte, influenciará a projeção das interpretações do jihad e suas formas de divulgação. Azzam tinha suas ligações com a questão Palestina, e consequentemente com o seu jihad por conta de sua origem, mas Azzam também se apegou ao jihad do Afeganistão. Azzam, durante os anos de 1967 e 1968, juntamente com milhares de palestinos irão aderir à guerrilha contra Israel, pouco tempo depois, Azzam seguirá para a Arábia Saudita para lecionar (ROBINSON, 2021). A forma que Azzam desenvolveu sua ideia do jihad transcendia, porque apoiava um jihad para defender o islã como um todo, não somente como causas específicas. Tal fato fez com o que muitos palestinos não o apoiassem em torno dos anos 1970 (COOK, 2005). Azzam buscou conhecer outros países do Oriente Médio e, também, países do ocidente. Nesse momento ele já começou a desenvolver seus contatos internacionais, com muçulmanos de várias partes do mundo (HEGGHAMMER, 2020) No ano de 1984, Azzam traz à tona a questão afegã e palestina ao emitir uma fatwa. Azzam considera lutar pela causa afegã e palestina uma obrigação para todos os muçulmanos (SCHNELLE, 2012). O jihad pregado por Azzam é baseado na defesa das terras islâmicas, para que elas não sejam penetradas pelos valores e explorações do ocidente (SCHNELLE, 2012). Azzam (1985) declara que: a batalha entre a verdade e a falsidade é para a reforma da humanidade, para que a verdade se torne dominante e o bem propagado. Além disso, que suas práticas e locais de culto sejam salvos e guardados (AZZAM, 1985 p13). Para Azzam, o jihad assegura a transformação da unidade divina teórica em prática, e o sono não é possível sem o jihad. Envolver-se no jihad é se emancipar do medo, e o jihad é a única forma possível de compreender o islã de fato, pois esse pole a alma, ajuda livrá-la de ilusões, e é o maior fator de união da comunidade islâmica. As grandes potências no ocidente não são nada comparadas com o poder irresistível de Deus e seu apoio aos crentes (AZZAM, 2011). Azzam faz um chamado aos muçulmanos para que defendam seu território suas terras e suas casas, além dedefender o próprio islã. Azzam 35 ressalta a importância da luta, para que os muçulmanos não se deixem levar pelos pensamentos e formas de vida ocidentais. “Uma das obrigações perdidas mais importantes é a obrigação de lutar. Os muçulmanos atualmente por estarem ausentes dessa condição atual, eles se tornaram o lixo das águas de uma enchente (AZZAM, 1985 p13). Azzam pode ser considerado um dos teóricos jihadistas mais influentes, ao propor uma luta global, que foi usada como base teórica de grupos tais como o Talibã e a Al Qaeda.Seus escritos através de fatwas, textos e livros ainda são disponibilizados e muito utilizados no meio. 1.2.2. Ayman al Zawahiri Um fato interessante, apresentado por Al-Zayyat (2005), é que o Afeganistão, devido à ascensão dos mujahideen ganha o nome de ―terra do jihad, e da mesma forma que primeiramente atrairá Azzam, posteriormente atrairá nosso segundo teórico Ayman al Zawahiri, e em sequência Bin Laden. Ayman terá suas divergências com Azzam, devido ao fato de que Ayman acreditava que o Afeganistão não era o lugar ideal para se estabelecer o jihad. Mas foi lá que mais soldados foram recrutados, seguindo as ideias de Azzam (AL-ZAYYAT, 2005). Zawahiri de acordo com Nasser (2021) é colocado como o cérebro ideológico do jihad Global projetado pelos principais grupos jihadistas na década de 90. Mas proponho que Zawahiri antes de chegar nessa etapa ele acessará as ideias de Abdullah Azzam, que irá ajudar a estruturar seu pensamento assim como outros teóricos que vieram anteriormente. Zawahiri era médico, e iniciou seu lado jihadista ao trabalhar na Irmandade Muçulmana no final da década de 70 (NASSER, 2021). Tal fato, possivelmente fez com que Zawahiri tivesse acesso a outros teóricos tais como o egípcio Sayyid Qutb, teórico de grande relevância para o âmbito jihadista. Na década de 80, Zawahiri ao retornar ao Cairo, e com suas experiências adquiridas na Irmandade, irá recrutar adeptos do jihad para se juntarem aos mujahedeen (NASSER, 2021). 36 Zawahiri construiu sua visão de mundo através de concepções que o separam o em bom e mal, onde possuem divergências sobre o que representa um governo democrático, onde existem aqueles que querem islamizar e aqueles que são chamados de infiéis e traidores do islã (JACQUIER, 2013). Para al- Zawahiri o mundo político é conflituoso, é onde se divide os crentes e os incrédulos. E de acordo com o pensamento de Zawahiri os grupos islâmicos devem lutar contra esses apóstatas ou incrédulos (JACQUIER, 2013). Quando al-Zawahiri fala sobre o jihad, ele não coloca como uma ação política, mas como um dever (caminho) que deve ser cumprido por cada muçulmano, seja ele jovem ou idoso.O jihad deve atingir, e afetar à todos da casa (ZAWAHIRI, 2006). Todo muçulmano é responsável por defender o Islã, suas santidades, nação e pátria.É um erro os islamistas não enfatizarem esse dever individual, Todo muçulmano deve se engajar no jihad (ZAWAHIRI, 2006). Nas palavras de al-Zawahiri, o jihad representa“uma batalha de ideologias, uma luta pela sobrevivência, e uma guerra sem trégua” (Al-Zawahiri, 2006, p. 111). De acordo com Zawahiri (2006) justifica-se o jihad com o uso da violência porque a violência é a única linguagem que o Ocidente entende. Dessa forma negligenciar o jihad é abrir uma brecha para que os inimigos do Islã possam destruir e enganar a nação muçulmana, e colocá-la em estado de desastre e também de calamidade. 1.2.3. Muhammad al Maqdisi (Barqawi) Muhammad al Maqdisi, palestino assim como Abdullah Azzam, iniciará sua vida militante a respeito do jihad quando ele se muda para o Iraque mais precisamente para o Kuwait. Dessa forma, Maqdisi cresceu e foi influenciado pelos escritos conservadores do Kuwait, e posteriormente influenciado pelos wahhabitas, uma vertente mais conservadora da religião islâmica de origem saudita (WAGEMAKERS, 2011). Maqdisi quando se torna um ideólogo não apresentará uma doutrina explícita, mas é de forma nítida seu raciocínio, que bebem das idéias que ficam entre o ativismo, a militância, e o terrorismo. Mas, em contrapartida, Maqdisi 37 ressalta a importância da pregação (dawa’a), do conhecimento religioso e também político (CHEREM, 2015). Maqdisi, de acordo com Wagemakers (2011) é talvez o ideólogo jihadista mais influente que esteja vivo, e que através de seus escritos tem o poder de influenciar tanto o mundo islâmico quanto o ocidente. Maqdisi ao construir sua forma de interpretação sobre o jihad, pontuará sobre um jihad contra o politeismo, ou contra as coisas que são relacionadas ao ocidente, e incluirá a democracia como uma delas: Devemos destruir aqueles que seguem democracia, e devemos tomar seus seguidores como inimigos - odiá-los e fazer uma grande Jihad contra eles. A democracia é um politeísmo óbvio e, portanto, uma clara descrença de que Allah nos avisou em Seu Livro (MAQDISI, 2022, p. 1, trad. nossa)3. O jihad proposto por Maqdisi, é que além da divisão tradicional entre um jihad defensivo e ofensivo, propõe uma outra classificação, que pode ser considerada complementar às categorias anteriores: jihad de “prejuízo” (jihad al- nikâya) e jihad “de consolidação” (jihâd al-tamkîn). Cherem (2015) pontua a respeito dessas categorias de jihad propostas por Maqdisi: O jihad de prejuízo é uma ação justa e legislada, mesmo que não dê resultados concretos. Encontram-se nesta categoria ações que prejudicam de alguma maneira o inimigo, mas não mudam a relação de forças, inclusive: irritar o inimigo, aterrorizá-lo, impedir que ele prejudique os muçulmanos, resgatar cativos, oprimidos e fracos sob seu jugo. Para Maqdisî, esse é o tipo mais frequente de combate nos dias atuais. Outro tipo é o combate de “consolidação” – ou liberação (tah.rîr). Esse tipo de Esse tipo de jihad visa a estabelecer o controle territorial e o estado islâmico. Maqdisî deplora a situação atual, em que as terras muçulmanas liberadas não são governadas por quem merece – os mujahidin, seus libertadores, que não tomaram o poder em países como Afeganistão, Tchetchênia e Bósnia. (CHEREM, 2015, p.131). Dentro do que Maqdisi propõe, o jihad e o martírio assim como as criaturas, e o livro revelado, todos foram criados por Deus. Dessa forma, aqueles que não seguem o islã, são colocados como seguidores do diabo (shaytan), sendo assim, haverá um conflito entre aqueles que foram criados por Deus e os 3 No original: “It is not the religion of monotheism, and its parliamentary councils are just places of polytheism, and safe havens for paganistic beliefs. All of these must be avoided to achieve monotheism, which is Allah’s right upon His servants. We must destroy those who follow democracy, and we must take their followers as enemies - hate them and wage a great Jihad against them. Democracy is an obvious polytheism and thus a clear disbelief that Allah has warned us against, in His Book” 38 seguidores do “shaytan”. Então, era preciso estabelecer um califado, e criar um estado islâmico (MAQDISI, 2022). É de grande relevância trazer a figura de Maqdisi, jihadista e ideólogo influente, que possui livros publicados. Um dos pontos mais importantes da influencia de Maqdisi, é quando ele se torna mentor de Abu Mus'ab al-Zarqawi, o qual se tornou o líder da Al Qaeda do Iraque, e que também contribuirá de certa forma na construção do grupo Estado Islâmico tempos depois (WAGEMAKERS, 2011). Um fato curioso, é que Maqdisi posteriormente irá criticar grupos e suas práticas jihadistas, os quais usaram suas obras como base teórica e ideológica. De acordo com Maqdisi, esses grupos cometeram e ainda insistem em cometer muitos excessos (WAGEMAKERS, 2011). Conclusões Dentro daquilo que foi apresentado, podemos ter uma idéia do significado do conceito de jihad na religião islâmica, e que vai muito além do estereótipo “guerrasanta”. O jihad é um conceito polissêmico, abrangente e regado à categorias que maioria das vezes é desconhecida. É preciso ter em mente que a forma como os teóricos jihadistas vivenciaram o conceito faz parte de todo percurso de vida que esses tiveram. Tais interpretações não cabem ao islã como um todo. O jihad apresentado pelos teóricos representa a minoria dentro da comunidade islâmica. Ao pregarem com o uso da violência é esquecido a categoria de jihad maior, que deve ser valorizada devido a preocupação com toda a comunidade. Em contrapartida, mesmo que esses teóricos não representem toda a comunidade, trazer ao conhecimento o pensamento desses contribui no entendimento das ideias propostas por eles, e de certa forma compreender o modo de operação de grupos tais como a Al Qaeda e o Estado Islâmico. Para a Ciência da Religião traz ao conhecimento relacionado a uma das formas de conservadorismo religioso atuais. 39 Referências AL-MAQDISI Abu Muhammad. Democracy is a Religion “Al-Dimuqratiyya Din” disponível em: www.almaqdese.net. Acessado 20/10/2022. AL ZAYYAT, Montasser. Os caminhos da Al Qaeda: A história do braço direito de Bin Laden. São Paulo: Outras Palavras, 2005. AL- ZAWAHIRI, A. His own words: A translation of the writings of Dr. Ayman al- Zawahiri Tradução: Mansfield. West Point, NY: TLG, 2006. AZZAM, Abdullah. Defence of muslim lands. 1985. AZZAM, Abdullah. O que a jihad me ensinou. In: O guia árabe contemporâneo sobre o islã político. Trad. André Oídes. São Paulo: Madras, 2011. AYDIN, Hayati. Jihad in Islam. In.: GJAT, v. 2, n. 2, Turquia, 2012. CHEREM, Youssef. Jihad: duas interpretações contemporâneas de um conceito polissêmico. Campos, v. 10, n. 2, p. 83-99, 2009. CHEREM, Youssef. A crença, a lei, a guerra: Uma análise do pensamento de ‗Is.âm Muh.ammad T. âhir al-Barqâwî. Campinas: UNICAMP, 2010. CHEREM, Youssef. Jihad: interpretações de um conceito polissêmico. História e Sociedade – Ciências da Religião, v. 11, n. 2, 2013. COOK, David. Understanding Jihad. Berkeley: Universityof California Press, 2005. HEGGHAMMER, Thomas. The Caravan: Abdallah Azzam and the Rise of Global Jihad. Norwegian Defence. Research Establishment (FFI), Cambridge, 2020. 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The Abdullah Azzam Brigades. Studies in Conflict & Terrorism. São Francisco: Routledge, 2014. http://www.almaqdese.net/ 40 GT 3 - CRISTIANISMO DAS ORIGENS Doutorando Iuri Nunes (UFJF) Me. Daniel Salomão Silva Ementa: O esforço de se compreender o contexto geográfico e cultural da memória dos ditos de Jesus, a forma como foram organizados teologicamente por seus primeiros seguidores, bem como o processo de transmissão das narrativas que deram origem ao material do Novo Testamento, e mesmo de textos não canônicos, pode nos oferecer uma visão mais robusta sobre as primeiras comunidades cristãs em sua diversidade. Nesse sentido, esse GT tem o objetivo de acolher pesquisas sobre materiais dos séculos III a.C. a III d.C., judaico-cristãos ou não, mas que possam enriquecer as reflexões sobre os cristianismos originários. São naturalmente bem-vindas as contribuições dos campos da História, da Teologia, das Ciências Sociais, dos Estudos Culturais e Literários, bem como da própria Ciência da Religião, destacando seu caráter multidisciplinar. Estudos filológicos e exegéticos dos judaísmos e cristianismos antigos deram início às Ciências da Religião na Europa juntamente com a História Comparada das Religiões e a posterior Fenomenologia da Religião. Logo, entendemos como importante a tentativa de se recuperar essa tradição junto à Ciência da Religião e em meio ao nosso atual contexto social e político, ainda que de forma crítica e atenta às metodologias mais recentes. Mantendo também em mente a importância do diálogo entre as pesquisas acadêmicas e a comunidade não acadêmica, essas reflexões podem também ser um rico material para os próprios grupos cristãos ou não que fazem parte de nossa sociedade atual, para a compreensão de suas narrativas, como são articuladas e incorporadas aos seus contextos específicos, em diálogo com o que podemos estimar das primeiras formulações cristãs entre as comunidades originárias. Em um momento em que leituras e posturas fundamentalistas, que se afirmam baseadas na literatura bíblica, têm se destacado, entendemos como produtivo o desenvolvimento de uma leitura mais atenta, crítica e madura dos textos bíblicos neotestamentários e seus contemporâneos. Palavras-chave: cristianismos originários. Novo Testamento. Narrativas judaico- cristãs. 41 MATERNIDADE DIVINA: DAS ORIGENS À ÉFESO Eduardo Antônio de Faria Mestrando em Teologia Sistemática pela PUC-RJ dudufaria@terra.com.br Resumo: No escopo maior dos estudos teológicos, a mariologia ocupa lugar de destaque, uma vez que uma correta compreensão deste tema em muito nos auxilia na própria compreensão acerca do Cristo e de sua Igreja, sobretudo no que tange à “Missio Ecclesiae”, semelhante à de Maria, de trazer Cristo ao mundo. Pretendemos analisar alguns aspectos históricos do Dogma da Maternidade Divina de Maria, destacando seu enunciado, sua fundamentação escriturística, bem como suas implicações cristológicas e eclesiológicas. A expressão “Theotókos” já é encontrada na prece mariana mais antiga de que se tem conhecimento, “Sub tuum praesidium.” Composta em grego, esta oração foi encontrada em uma liturgia natalina copta, datando de meados do século III. Em Lucas 1,43 lemos: “E de onde me provém que me venha visitar a mãe do meu Senhor?” Nesta passagem, Isabel, cheia do Espírito Santo, afirma que Maria é mãe do SENHOR (kyrios). É sabido que o nome do Deus de Israel, quando vertido para a LXX, era traduzido como “Senhor” (kyrios). Desta forma, esta passagem poderia até mesma ser traduzida como “E de onde me provém que me venha visitar a mãe do meu Deus?” Por sua natureza viva, é natural que um ensinamento da Igreja se desenvolva com o tempo. Observando algumas poucas citações dos Padres sobre este tema, podemos perceber que a compreensão da Maternidade Divina de Maria não foge a essa regra. Santo Irineu de Lyon, Santo Atanásio e São Cirilo de Alexandria são exemplos que fazem uma “confissão cristológica em forma mariológica.” Ao dizermos que Maria é Mãe de Deus, apontamos para a união hipostática, ou seja, em Cristo há apenas uma pessoa, a divina. O concílio nos relembra que “a Virgem está intimamente ligada à Igreja; a Mãe de Deus é o tipo e a figura da Igreja.” (LG63) Desta forma, podemos afirmar que todos os Dogmas Marianos revelam algo acerca da própria natureza da Igreja. Em relação a este dogma especificamente, assim como Maria tornou-se portadora do Deus-Filho para o mundo, também a Igreja, no poder do Espírito, tem a missão de levar Cristo ao mundo, o Cristo gerado na Igreja. Palavras-chave: Mariologia; Desenvolvimento da doutrina; Theotokos. Introdução A pessoa de Mariaexerce um papel fundamental no plano divino de redenção da humanidade, afinal de contas, foi por meio dela que o mistério da encarnação do Verbo se realizou. Desta forma, no escopo maior dos estudos teológicos, a mariologia ocupa lugar de destaque, uma vez que uma correta compreensão deste tema em muito nos auxilia na própria compreensão acerca do Cristo e de sua Igreja, sobretudo no que tange à “Missio Ecclesiae”, semelhante à de Maria, de trazer Cristo ao mundo. No presente artigo, vamos analisar alguns aspectos históricos do Dogma da Maternidade Divina de Maria, mailto:dudufaria@terra.com.br 42 destacando seu enunciado, sua fundamentação escriturística, bem como suas implicações cristológicas e eclesiológicas. 1. Theotókos A expressão “Theotókos” não foi cunhada tardiamente na cristandade e nem mesmo é uma palavra de uso exclusivamente cristão. Pelo contrário, esse nome já é encontrado na prece mariana mais antiga de que se tem conhecimento, “Sub tuum praesidium.” Composta em grego, esta oração foi encontrada em uma liturgia natalina copta, datando de meados do século III, e logo no primeiro verso lemos: “À vossa proteção recorremos, Santa Mãe de Deus (Θεοτόκε)”. Além disso, esse termo era largamente utilizado no paganismo. Segundo Clodovis Boff destaca em sua síntese sobre os Dogmas Marianos O termo Theotókos era usado pelos pagãos para deusas-mães como Cibele, Astarté, Ishtar e especialmente a grande deusa egípcia Ísis, “mãe do deus” Hórus, muito cultuada na Antiguidade. O povo cristão assumiu Theotókos, e aplicou-o àquela que é a verdadeira “Mãe de Deus”: Maria. (BOFF, 2018, p. 14). Merece destaque o fato de que o sufixo “tókos” deriva do verbo “τίκτω”, que significa “dar à luz” como podemos ver, por exemplo, em S. Mateus 1,21. Em outras palavras, Theotókos denota literalmente “aquela que deu à luz Deus”. 2. O relato lucano De todos os relatos bíblicos que apontam para a Maternidade Divina de Maria, merecem destaque os apontamentos do terceiro evangelho. Em primeiro lugar, é digno de nota que o evangelista, ao narrar as falas de Isabel e de Simeão acerca de Maria, descreve-os como “cheio do Espírito Santo” (Lc 1,41; 2,25). Além disso, em Lucas 1,43 lemos: “E de onde me provém que me venha visitar a mãe do meu Senhor?” Nesta passagem, Isabel, cheia do Espírito Santo, afirma que Maria é mãe do SENHOR (kyrios). É sabido que o nome do Deus de Israel, quando vertido para a LXX, era traduzido como “Senhor” (kyrios). Desta forma, esta passagem poderia até mesma ser traduzida como “E de onde me provém que me venha visitar a mãe do meu Deus?” 43 3. O concílio de éfeso Resolvidas as controvérsias Arianas, nos concílios de Niceia (325AD) e Constantinopla (381AD), a Igreja passa a lidar com formulações que confessavam a divindade de Cristo, mas que de alguma forma atentavam ora contra sua plena humanidade, ora contra sua plena divindade. Neste contexto, emerge Nestório (386AD - 451AD), bispo de Constantinopla, influente e versado nas Sagradas Letras. Sua proposição acerca do Cristo torna-se popular e entrou para a história com o nome de Nestorianismo. Ensinava que Jesus tinha duas naturezas (humana e divina) e duas pessoas (humana e divina), como se o Jesus divino vestisse uma “roupa humana”, ou como se o Jesus divino “residisse” no Jesus humano, pregando uma separação entre as pessoas. Ele dizia que Maria era “anthropotókos”. Em um de seus sermões, Nestório afirma: “Deve- se falar da Mãe de Deus (Theotókos), isto é, de uma mulher que tenha gerado Deus? Ou antes se deve falar de uma mulher que deu à luz um homem (anthropotókos)? Será que Deus tem mãe? Uma criatura não pode dar à luz o Criador” (CHELLES, s.d., p. 1). Diante da popularidade do ensino de Nestório e das não poucas controvérsias geradas, o Imperador Teodósio II convoca um concílio para se realizar em Éfeso em 431. Acaloradas discussões marcaram o concílio e Nestório não acatou o parecer final: O Concílio, contra Nestório, afirma que as duas naturezas, a divina e a humana, perfeitas e diferentes, convergindo para verdadeira unidade mediante misterioso e inefável concurso, constituíram um só Jesus Cristo, um só Filho, sem, todavia, perder na união a diferença específica de cada uma delas. Por isso, a virgem Maria é apresentada pelo concílio direta, explícita, formalmente como “Theotókos”. Por isso, eles [os santos padres] não duvidaram em chamar Mãe de Deus a santa Virgem, não certamente porque a natureza do Verbo ou a sua divindade tenha havido origem da santa Virgem, mas, porque nasce dela o santo corpo dotado de alma racional, no qual o Verbo é unido substancialmente, se diz que o Verbo nasceu segundo a carne. (DS § 254). 4. Evidências na patrística Foi John Henry Newman, em sua Magnum Opus “Ensaio sobre o desenvolvimento da doutrina cristã” que propôs que por sua natureza viva, é 44 natural que um ensinamento da Igreja se desenvolva com o tempo. Observando algumas poucas citações dos Padres sobre este tema, podemos perceber que a compreensão da Maternidade Divina de Maria não foge a essa regra. É conhecida a fala de Santo Irineu de Lyon, do século II: “Assim como Eva foi seduzida pela fala de anjo e afastou-se de Deus, transgredindo a sua palavra, Maria recebeu a boa-nova pela boca de anjo e trouxe Deus em seu seio, obedecendo à sua palavra” (AH 5.19.1). Dois séculos depois, Santo Atanásio em “Encarnação do Verbo”, afirma: “O Verbo gerado do Pai do alto, inexprimível, inexplicável, incompreensível e eternamente, é aquele que nasce no tempo aqui embaixo da Virgem Maria, a Mãe de Deus” (AKIN, 2010, p. ?). Por fim, São Cirilo de Alexandria, que inclusive esteve presente no Concílio de Éfeso, defende apaixonadamente em “Carta aos monges do Egito”, já no quinto século: “Estou pasmo de que alguns estejam em dúvida se a Virgem Santa pode ou não ser chamada de Mãe de Deus. Pois, se nosso Senhor Jesus Cristo é Deus, como poderia a Virgem Santa que o deu à luz não ser a Mãe de Deus?” (AKIN, 2010, p. ?). 5. Implicações cristológicas Como afirmado anteriormente, este dogma nos auxilia em uma compreensão acerca do Cristo. Pode-se até mesmo afirmar que se trata de uma “confissão cristológica em forma mariológica” (SCHNEIDER, 2020, p.163). Ao dizermos que Maria é Mãe de Deus, apontamos para a união hipostática, ou seja, em Cristo há apenas uma pessoa, a divina. Também há duas naturezas, a divina e a humana, ambas subsistindo na mesma pessoa divina. 6. Implicações eclesiológicas O concílio nos relembra que “a Virgem está intimamente ligada à Igreja; a Mãe de Deus é o tipo e a figura da Igreja” (LG § 63) Desta forma, podemos afirmar que todos os Dogmas Marianos revelam algo acerca da própria natureza da Igreja. Em relação a este dogma especificamente, assim como Maria, sob a ação do Espírito Santo, torna-se portadora do Deus-Filho para o 45 mundo, também a Igreja, no poder do Espírito, tem a missão de levar Cristo ao mundo, o Cristo gerado na Igreja. Sob esse prisma, as palavras do apóstolo ganham novas cores, quando afirma “De novo sinto dores de parto por vós, filhinhos meus, até que Cristo seja formado em vós” (Gl 4,19). Conclusão Ao nos determos na história das formulações dos dogmas, percebemos pelo menos duas verdades complementares. Primeiramente, é certo que a compreensão dos fiéis acerca de determinado ensino evolui. Mas também é verdade que a Igreja não “cria” um dogma. A Igreja o recebe e o define, visando o bem do rebanho. Isso significa dizer que a verdade divinamente revelada contida no dogma já era uma realidade antes da formulação dogmática. Nas palavras de Newman, “a profissão e os desenvolvimentos de uma doutrina ocorrem de acordo com as urgências do momento, e o silêncio em certo período não implica que ela não fosse sustentada, mas que não era questionada (cf.NEWMAN, 2020, p. 460). Referências AKIN, J. The Fathers Know Best. El Cajon: Catholic Answers, 2010. BOFF, C. Dogmas Marianos: Síntese Catequético-Pastoral. 5. ed. São Paulo: Ed. Ave-Maria, 2018. CHELLES, M. Cristologia – Aula 9. Apostila disponibilizada pela Paróquia Nossa Senhora da Assunção, Arquidiocese de Niteróis. S/d. DENZINGER, H.; RAHNER, K. The sources of Catholic dogma. St. Louis: B. Herder Book Co., 1954. IRINEU DE LIÃO. Contra as Heresias. Tradução Lourenço Costa. São Paulo: Ed. Paulus, 2014 NEWMAN, J.H. Ensaio sobre o desenvolvimento da Doutrina Cristã. Tradução Fábio Vitta. São Paulo: Ed. Cultor de Livros, 2020. SCHNEIDER, T. (org.) Manual de Dogmática. 5. ed. Tradução Luís Marcos Sander. Petrópolis: Ed. Vozes, 2020. 46 GT 4 - DECOLONIALIDADE, RELIGIÃO, DIREITOS HUMANOS E PÓS- SECULARISMO Profa. Dra. Clarissa De Franco (UMESP) Profa. Dra. Jaci de Fátima Souza Candiotto (PUC-PR) Ementa: O GT objetiva estabelecer um diálogo interdisciplinar na esfera pública entre direitos humanos, decolonialidade, religiões e pós-secularismo, de forma a apresentar caminhos para a compreensão e desconstrução da lógica colonial. Para tal tarefa, consideramos fundamental estudar a perspectiva do pós-secularismo, segundo a qual as religiões compõem uma área relevante na construção do debate público e democrático sobre direitos humanos. As dicotomias e cisões, típicas do pensamento moderno, trouxeram um “secularismo agressivo”, termo utilizado por Ahmet Kuru (2009) para designar a postura laicizante que concebe as religiões como adversárias do processo democrático. Diante desta postura excludente e reducionista, Boaventura de Sousa Santos aponta o pós-secularismo como o espaço encontrado pelas “teologias políticas progressistas” ao “formular concepções historicamente concretas de dignidade humana, pela qual Deus é o garantidor último da liberdade e da autonomia nas lutas em que os sujeitos, tanto individuais como coletivos, travam no sentido de se tornar sujeitos da própria história” (SANTOS, 2014, p. 114). A hermenêutica diatópica proposta por Boaventura Santos (2014, 2006) conduz à possibilidade de diálogo e negociação intercultural, envolvendo uma razão que tensiona as relações com base na desigualdade de poder e sugere uma transição paradigmática apoiada em uma “ecologia dos saberes”, articulando diferentes concepções de dignidade humana. De maneira análoga à proposta de diálogos interculturais, Habermas fala em “esforços de tradução” (2007) do conteúdo semântico religioso, no âmbito de uma linguagem racional, de forma que as contribuições das religiões para o debate democrático sejam acessíveis. Neste contexto, a presença cotidiana e pública das religiões na esfera democrática tem sido exaltada por Habermas (2007), que reconhece nas cosmovisões religiosas um “potencial de racionalidade”, compreendendo que a linguagem religiosa pode oferecer contribuições valiosas para o debate público. Por sociedade pós-secular, portanto, designa-se o deslocamento da consciência pública, que envolve a reivindicação das religiões na participação dos debates democráticos. Boaventura de Sousa Santos (2014, p. 113) indica a “possibilidade de ligar o retorno de Deus a um humanismo trans-moderno concreto”, a partir de práticas interculturais e contra- hegemônicas, nas quais a participação das religiões ou do que o autor chama de teologias progressistas e pluralistas (SANTOS, 2014) atua na luta contra o sofrimento humano, em conjunto com outros grupos. Portanto, as epistemologias do Sul e as teorias decoloniais apontam caminhos de diálogo e tradução interculturais que atravessam os desafios inerentes às tensões da vida pública nas sociedades contemporâneas, considerando também o lugar das religiões nessa construção coletiva. O GT pretende reunir pesquisadores/as e acolher propostas de comunicações que discutam os elementos teórico-metodológicos acerca da articulação das temáticas acima elencadas no intuito de examinar e propor reflexões críticas à lógica colonial. Palavras-chave: decolonialidade; pós-secularismo; direitos humanos; religião; 47 ARTE E DECOLONIALIDADE NAS RELIGIÕES AFRO-BRASILEIRAS Andréa Olimpio de Oliveira Mestre em Psicologia pela UFJF andrea.olimpiodeoliveira@gmail.com Resumo: Este estudo tem como tema “Arte e Decolonialidade em Religiões Afro- brasileiras”. Objetiva-se evidenciar de que modo a arte pode servir como alternativa às práticas decoloniais, ou seja, suplantando os efeitos do racismo e da colonialidade, tanto em relação ao entendimento da arte em si, quanto nas suas representações artísticas expressas nas religiões afro-brasileiras. Almeja-se encontrar, ainda, uma compreensão da religiosidade afro-brasileira para além das concepções hegemônicas da modernidade, no qual a arte e as expressões de crença e fé se dão simultaneamente no mesmo espaço/tempo. A metodologia é baseada na pesquisa bibliográfica, através de textos teóricos que abarquem à temática estudada, além de produções artísticas que ilustrem os conceitos trabalhados. É primordial o reconhecimento de que nos espaços dos terreiros de umbandas e candomblés existem artes e que às diversas formas de manifestações artísticas produzidas em continuidade às religiões afro-brasileiras podem ser entendidas como espaços de luta e resistências contra ações de silenciamento e invisibilidade. Como contribuição aos estudos de Decolonialidade e Religião, espera-se fomentar novas discussões que promovam a inter-relação da arte, à decolonialidade e às religiões afro-brasileiras, integrando novos sentidos ao pensamento global da modernidade. Acreditamos ser possível ampliar essa reflexão com novos estudos e temáticas que considerem às especificidades locais e regionais, das mais diversas formas de expressão artística nas religiões afro-brasileiras e que se sustentam em movimentos de luta e resistência ao pensamento colonial. Palavras-chave: Religião; Modernidade; Arte decolonial; Decolonialismo; Religião afro- brasileira. Introdução A arte, embora seja configurada como uma experiência humana de caráter subjetivo, tem sido uma importante ferramenta de posicionamento sociocultural. Devido ao caráter econômico que subsidia diversas produções artísticas, suas manifestações têm apresentado cada vez mais um caráter de dominação hegemônica e globalizante, inviabilizando outras formas de expressão cultural e artística de povos representados pelo Hemisfério Sul do planeta e seus países colonizados, em grande maioria ignorada pela hegemonia das produções europeias ou da América do Norte. Em contrapartida, as manifestações artísticas e culturais podem ser compreendidas como formas de resistência às práticas decoloniais, elementos de conscientização libertadora, para todos aqueles que almejam fortalecer o projeto de descolonização em construção. Abib (2019) compreende a cultura mailto:andrea.olimpiodeoliveira@gmail.com 48 como terreno de luta, que acionam memórias, tradições e identidades e demarcam posições, ecoando vozes que buscam reconhecimento e autonomia diante da cultura hegemônica. Segundo Florêncio, Santos e Oliveira (2020), todo o projeto da modernidade se consolidou através das bases filosóficas e epistemológicas da colonialidade. A Europa, e mais recentemente, os Estados Unidos da América, definem padrões de cultura, arte e ciência com a pretensão de serem universais (embora locais), se configurando como modelos únicos e globalmente aceitos. Baseando-se nas palavras do professor e sociólogo português Boaventuara de Sousa Santos (2013), “o projeto de modernidade que se instaurou a partir do modelo de colonialismo não foi mais que um epistemicídio violento e devastador. ” Desse modo, este estudo pretende abarcar de que modo a arte pode ser compreendida como um espaço de se pensar a decolonialidade, especialmente nas religiões afro-brasileiras, comoforma de ruptura a esse modelo dominante da hegemonia europeia. 1. Decolonialidade Um debate importante se assenta na distinção entre colonialismo e colonialidade, discutidos por autores como Santos (2013), Abib (2019) e Quijano (apud Santos, 2013). Para eles, o colonialismo está para o campo histórico-geográfico da colonização, enquanto a colonialidade se refere aos poderes ideológicos historicamente determinados. Para Abib (2019), o colonizador destrói e inviabiliza o imaginário do outro, subalternizando-o, enquanto reafirma o seu próprio imaginário. Assim, a colonialidade de poder inibe o mundo simbólico, os saberes, crenças, espiritualidade, impondo ao colonizado novos elementos e novas formas de aculturação. Desse modo, a dominação é concretizada não somente em seu aspecto material, através das riquezas daquele povo ou da exploração do território físico, mas principalmente na dimensão simbólica, por meio de uma suposta ideia de superioridade cognitiva e racial. O homem branco europeu por meio de 49 justificativas de progresso e desenvolvimento, acreditava que estaria sendo justo e até benéfico com aqueles povos recém conquistados. (ANDRADE, 2021). O pensamento decolonial é, segundo Abib (2018), uma poderosa construção teórica corporificada nas lutas sociais dos povos colonizados, se baseando na luta pela decolonialidade do poder, do saber e do ser como três importantes dimensões no qual a colonização se instaura. Emerge como importante forma de contestação às concepções impostas pela modernidade, visando a construção de um outro modo de (re)existência, oriundos do pensamento, das experiências, das lutas e das crenças dos povos latinos, africanos e asiáticos, contestando à ideia de que os povos não ocidentais não seriam modernos e, sim, atrasados e não-civilizados. Apesar do fim do colonialismo, vestígios do pensamento colonial ainda estão presentes em diversos âmbitos da vida pessoal e coletiva, sendo facilmente observáveis nas mais diversas formas de opressão. Ao contrário do colonialismo, a colonialidade não se apresenta de forma direta e contundente, através do controle absoluto da autoridade política ou do domínio dos recursos naturais e meios de produção. A colonialidade se implanta a nível simbólico, de forma velada e intersubjetiva. Por isso, a experiência subjetiva da cultura da colonialidade não se encerrou nas sociedades pós-coloniais. Esse conceito demonstra que embora o colonialismo preceda a colonialidade, a colonialidade sobrevive ao colonialismo. (OLIVEIRA; CANDAU, 2010). Partindo dessa premissa, a noção de decolonialidade surge como uma abordagem epistemológica, política e teórica, que possibilita a descentralização de narrativas e desconstrução de essencialismos que ao longo da construção do projeto de modernidade estiveram centradas hegemonicamente na Europa. O pensamento decolonial carrega em si uma concepção que busca desvincular a ideia de um único modo possível de pensar o mundo, ou seja, a lógica do sistema-mundo capitalista, e se abre a uma diversidade de vozes e caminhos, ampliando o direito à diferença, a pluraliversalidade de narrativas, através da abertura para um pensamento-outro. A decolonialidade busca valorizar e reconhecer, como um de seus princípios, epistemologias latino-americanas que, 50 assim como os países asiáticos e africanos, se encontram fora do centro geopolítico do conhecimento (ANDRADE, 2021). Boaventura de Sousa Santos (2013) aborda a existência de um sistema de distinção racial que reflete uma diferença significativa entre duas realidades distintas. Um sistema que marca uma linha de separação entre os que estão “deste lado da linha” daqueles que estão “do outro lado da linha”. Santos defne esse sistema através de um conceito denominado “pensamento abissal”. O pensamento abissal se caracteriza pela capacidade de produzir e engendrar distinções. Esta distinção assinala uma divisão entre as sociedades metropolitanas e os territórios colonizados. O pensamento abissal também deu origem à construção de lógicas binárias que se consolidaram na edificação do mundo moderno, com a ideia de belo/feio; certo/errado; bem/mal; verdadeiro/falso; racional/emocional; dentre tantas outras. Sendo assim, qualquer lógica que se insere fora desses constructos, isto é, que não se enquadram nesse modo dicotômico de pensar, desapareciam, pois não seriam vistos como conhecimentos relevantes ou comensuráveis. (ANDRADE, 2021). De acordo com Boaventura de Sousa Santos (2013), a característica que demarca o pensamento abissal é a impossibilidade da co-presença dos dois lados da linha. Nesse sentido, para que um lado da linha possa ser fundamento e visível, ele precisa necessariamente inviabilizar o outro lado, tornando-o inexistente. Sousa Santos então esclarece que o ponto de partida para resolver essa tensão seria a criação de um pensamento novo, um pensamento outro, um pensamento pós-abissal. Enquanto não houver um novo meio de enfrentamento às exclusões e ao pensamento abissal, as práticas excludentes permaneceriam, não sendo possível fugir à lógica da opressão e do silenciamento de determinadas comunidades. Para o autor, é preciso, pois, pensar de um outro modo, do outro lado da linha, daquele lugar que, segundo a modernidade ocidental, pertence ao domínio do impensável. (SANTOS, 2013). Para que essa mudança ocorra, é necessária a construção de uma nova epistemologia, que tenha como princípio o reconhecimento da pluralidade de 51 conhecimentos heterogêneos e que integre relações dinâmicas e sustentáveis, sem comprometer a autonomia de cada um dos saberes. Essa epistemologia é denominada de ecologia de saberes que, segundo Santos (2013), baseia-se na ideia da diversidade epistemológica do mundo, ou seja, do reconhecimento de uma pluralidade de formas de conhecimento. 2. Afro-diáspora e decolonialidade O movimento decolonial, ou o engajamento intencional de ruptura da cultura hegemônica para a valorização dos povos tradicionais latino e afro- americanos, se expressa pela heterogeneidade cultural e religiosa na América Latina, exemplificada pelas religiões de matrizes africanas que cultuam seus Orixás e batem seus tambores, representando suas culturas e as desenvolvendo em território democrático, apesar das barreiras do desconhecimento, do preconceito e do racismo (FLORENCIO, SANTOS, OLIVEIRA, 2020). A religião dominante e os meios de progresso e desenvolvimento impostos pelo pensamento eurocêntrico não foram suficientes para suplantar a cultura ancestral e têm mostrado que não respondem às inquietações e demandas de povos indígenas, africanos ou asiáticos. Florêncio, Santos e Oliveira (2020) ressaltam que mesmo com todos os processos de aculturação a que foram submetidos, índios, negros, nativos, caboclos da terra e os chamados povos tradicionais são testemunhas de sua própria história. História que acontece tanto na atualidade quanto nas transmissões orais de seus povos, evidenciando um rastro de dominação eurocêntrica, mas também uma luta incessante pela manutenção de sua vida ancestral, dos costumes e práticas curativas, de sobrevivência e de ritualística mística e religiosa. Segundo Reis (2020), os povos da afro diáspora continuaram com seus repertórios, saberes e fazeres, realocando narrativas, discursos e práticas culturais da população negra, como forma de enfrentamento aos processos de objetificação racistas a que foram submetidos. Esse modo de resistência ao silenciamento dos saberes e narrativas dos corpos negros, contesta a invisibilidade de discursos afrorreferenciados e se caracteriza pela reinvenção 52 das culturas negro-africanas na diáspora, assentadas pela lógica da oralidade, que não é determinada pela razão ocidental dominante e seus desdobramentos tais como as estruturas moderna/colonial,cristãs, patriarcais, monorraciais e capitalistas de poder. Ao evidenciar as reinvenções africanas em diáspora e indagar a hegemonia cultural da branquitude, coloca-se em questão a soberania do pensamento eurocêntrico, centrada no uso instrumental da razão técnico- científica, da produção conceitual, da suposição de uma verdade “absoluta” e uma única forma de narrar a história. Reis (2020) sustenta, ainda, a primazia que o discurso científico adquire na modernidade/colonialidade, por meio de seus critérios de validação objetiva, neutralidade e impessoalidade, como se o conhecimento verdadeiro e indubitável só pudesse ser produzido a partir do único lugar capaz de aferir à sua verdade: a Europa. Fora de suas fronteiras reinariam a miséria, a selvageria, a barbárie, o tradicionalismo, o primitivismo e, no campo das artes, um modo de produção naíf, inferior ou sem densidade, a não ser pelo valor antropológico atribuído ao folclore dos povos não civilizados. No que se refere à estética e à história da arte, a partir do projeto de modernidade/ colonialidade, seguindo as trilhas do pensamento greco-romano, apresenta-se como o paradigma clássico – ou seja, do que permanece através do tempo -, pautados pela ideia da representação, especialmente ligados à ideia do belo e à imitação da natureza, com ênfase ao “bom” gosto, bem como à concepção do gênio criativo. Essa forma de se pensar a arte e seus modos de produção estão associados à uma concepção particular de perfeição, situada num tempo-histórico-geográfico específicos, apesar de sua pretensão à universalidade. Não obstante, através do tensionamento crítico motivado pelo apelo ao reconhecimento e valorização de outras culturas, poéticas e manifestações artísticas, amplia-se o horizonte de criação, produção e fruição das artes. Há um redimensionamento operado pela crítica à decolonialidade mediante à 53 pluriversalidade das práticas, discursos e experiências, não mais irredutíveis a um único centro geopolítico de produção. (REIS, 2020). Assim, observa-se que as práticas, vivências culturais e artísticas, experiências epistêmicas e geopoliticamente localizadas dizem respeito às múltiplas possibilidades de ser, de sentir e se colocar no mundo de diversos sujeitos, situados em espaço-tempo históricos distintos. As práticas negras não deixam de tensionar os arranjos, as formas e os modos de partilha baseados no modelo eurocêntrico de produção de conhecimento, bem como suas formas de transmissão igualmente eurocentradas. Conforme esclarece Antonacci (2015), as memórias “in-corporadas” dos negros ativam-se nas trocas e partilhas sendo transmitidas de geração a geração, dos mais velhos aos mais jovens, como lembranças da história silenciada dos povos e de suas tradições. Além disso, é necessário ressaltar que os modos de transmissões reforçam os vínculos comunitários e de pertença, as narrativas negro-africanas reafirmam as identidades afrorreferenciadas e suas reconfigurações em espaços e territórios por vezes marginalizados como os terreiros de candomblé ou as periferias urbanas e rurais. No que diz respeito às memórias negras, Reis recorda o quanto a tradição oral dos povos africanos em diáspora marcam as culturas religiosas afro- brasileiras, como formas de expansão de valores civilizatórios a serem preservados pelas diversas matrizes culturais. Além disso, essas memórias reafirmam o lugar de produção de conhecimento dos povos negros, dos modos de vida legítimos, bem como seus processos criativos e práticas culturais, a serem valorizadas e legitimadas, contrárias ao uso de medidas empregadas historicamente como meios de subjugação, injúria corporal e mental, violência, condições precárias de vida, prevenção de nascimentos e morte. Todas essas medidas que tinham como objetivo a exterminação de um grupo racial, político ou cultural, sua linguagem, religião e cultura (NASCIMENTO, 1978). 54 3. Arte nas religiões afro-brasileiras As manifestações artísticas afrodecoloniais redimensionam a questão colonial, assinalado no apagamento das heranças negro-africanas e nas trilhas de permanência do racismo, do patriarcalismo, do colonialismo. As produções pautadas pelo Norte geográfico e epistemológico determinam a economia de poder da arte e as legitimam. Revisitar trabalhos desenvolvidos por artistas e coletivos negros contribui para reescrever a história por uma outra perspectiva. Exemplos diversos são mencionados por Reis (2020), como as figuras pintadas por Yêdamaria, onde a presença de barcos a velas e Iemanjás evocam memórias ancestrais de errrâncias marinhas, contrastadas com a luminosidade e arranjos cromáticos tropicais. No que concerne à arte afro-brasileira, inúmeros artistas se destacam, muito embora silenciados ou configurados como exóticos. Muitos artistas relacionam à esfera religiosa aos diversos elementos de africanidades. A produção brasileira a partir dos anos 70 observou um reaparecimento de temáticas afro ancestrais nas artes. (CONDURU 2007, apud REIS, 2020). Apoiadas na temática dos candomblés, foi possível observar novos sentidos e significados aos valores ancestrais transmutados nos processos criativos, nas técnicas e nos materiais empregados. As imagens racializadas expostas nos mais diversos meios artísticos e culturais, ancoram- se nas experiências das culturas afro-brasileiras, compreendidas como movimentos de resistência e afirmação identitária. Talvez por isso mesmo, as religiões de matrizes africanas têm se presentificado nas produções artísticas contemporâneas como modos de resistência às práticas coloniais. Notadamente, em obras que apontam para a descolonização da história, das religiões afro-brasileiras e da crítica da arte, colaborando na constituição de subjetividades decoloniais. (REIS, 2020). Machado e Araújo (2019) apresentam em seu artigo “Ações e experimentos artísticos na Amazônia amapaense: produção de sujeitos que se autodeclaram ‘artistas de terreiro’” como a arte afro-brasileira a partir da religião afro e cultura dos povos de terreiro, desde às umbandas aos candomblés, bem 55 como a cultura afro-ameríndia na Amazônia amapaense, também podem ser percebidas como atitude política e de resistência às práticas decoloniais. Observam, ainda, que de acordo com a cosmovisão africana, a arte em seu contexto original estava sempre atrelada a religiosidade, mantendo uma relação utilitária como forma de servir e satisfazer as necessidades de toda a comunidade. Portanto, a importância da arte para o povo africano só se justifica pela coletividade. Um pensamento de integração corroborado por Rolin, ao dizer que a concepção ancestral africana inclui, no mesmo circuito fenomenológico, as divindades, a natureza cósmica, a fauna, a flora, os elementos físicos, os mortos, os vivos e os que ainda vão nascer, em contínuo processo de transformação e de devir. Nesse sentido, a natureza, a religiosidade e a arte estariam inseridas num mesmo processo, sendo inseparáveis. Assim, (...) enquanto no ocidente a arte se constituía no campo estético da produção artística e exposições em galerias e grandes salões expositivos, nas culturas tradicionais africanas a arte só produzia significados quando estava intrinsicamente ligada a outros objetos e manifestações culturais como: cantos, danças e aos ritos de ancestralidade e memória da comunidade. Ou seja, para a arte africana, um objeto se constitui enquanto arte quando é levado em consideração suas ações performáticas enquanto performances sagradas. (MACHADO; ARAUJO, 2019, p. 144-5). As práticas desses coletivos que se auto intitulam “artistas de terreiro” carregam consigo marcas da cultura e religiosidade africanas, tanto em suas formas de expressão e construção identitárias quanto em suas cosmovisões. Como já mencionado acima, às memóriasancestrais, a arte africana em seu contexto original, sempre tiveram uma relação com a religiosidade, além de manter uma relação utilitária com a coletividade de origem. Trabalhos de artistas como Ayrson Heráclito, Aline Motta, Regiane Rios e Thiago Ortiz, apenas para mencionar alguns nomes, apresentam narrativas afrodiaspóricas em suas obras e a presença afrodescendente no Brasil, muitas vezes denunciando à violência a que são submetidos os povos negro-africanos, outras vezes anunciando construções identitárias, vínculos de pertença e 56 coletividade cultivados pelas religiões de matrizes africanas através de seus valores éticos, estéticos, políticos, existenciais. (REIS, 2020). Zwetsch (2018), jornalista e repórter musical, ressalta, do mesmo modo, que as representações de matrizes africanas foram fundamentais para o desenvolvimento dos principais gêneros musicais do país, considerando que é impossível compreender a música brasileira sem refletir sobre a diáspora africana para os continentes americanos a partir de 1500. O musicólogo entende o surgimento da capoeira e do candomblé como movimentos de resistência, de reencontro e de reestruturação da cultura africana no Brasil. Segundo ele, as batidas do funk evidenciam os elementos dos pontos de macumba tocados nos candomblés, tornando-se assim uma referência intuitiva à África. Para Reis (2020), a temática dos candomblés alia duas dimensões que, no âmbito social e cultural, aparecem entrelaçadas: as experiências religiosa e racial. Segundo o autor, o imaginário religioso e as narrativas dos corpos negros não se dão de forma separadas. A compreensão dos espaços sagrados como lugares de resistência e aquilombamentos dos povos negros, no qual as lutas pelo reconhecimento, pela sobrevivência e modos de re-existência não estão desvinculados da prática religiosa e dos vínculos comunitários. Conclusão Quando se pensa a decolonialidade em sua relação com a poética artística religiosa, o candomblé, mais do que motivo, é expressão de um grupo identitário, de enraizamento e pertença, pelo qual as mais variadas expressões artísticas se configuram como meios de resistência, das lutas antirraciais, contra hegemônicas e decoloniais. A religião, atrelada a esse modo de expressão, se configura como um território sagrado refletindo um modo de existir no mundo. É primordial o reconhecimento de que nos espaços de terreiro de umbandas e candomblés existem artes, e cada ação e experimentos artísticos produzidos podem ser entendidos como espaços de luta e resistência contra 57 ações de invisibilidade e silenciamento. Muitas vezes esse reconhecimento só não acontece pelos países hegemônicos europeus. Buscou-se através deste estudo integrar a arte, à decolonialidade e às religiões afro-brasileiras, integrando novos sentidos ao pensamento global da modernidade. Essa tarefa não é fácil, mas é possível ampliar essa reflexão com novos estudos e temáticas que levem em conta as especificidades locais e regionais, primordialmente àquelas estabelecidas no Brasil e na América Latina, que se sustentam em movimentos de luta e resistência ao pensamento colonial. Referências ABIB, Pedro Rodolpho Jungers. Cultura populares, educação e descolonização. Ver. Educ. Questão, Natal, v. 57, n. 54, out 2019. Disponível em: http://educa.fcc.org.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102735201900040 0016&16&lng=pt&nrm=iso>. acessos em 16 ago. 2022. Epub 10-Fev- 2020. ANDRADE, Yasmin Coelho de. Jongo-Funk: decolonialidade e expressões de matrizes africanas no ensino de artes. Anais ABRACE. v. 21, 2021. 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Sobretudo, como o ER pode minimizar a intolerância religiosa nas escolas a partir do entendimento dele como uma área do conhecimento que tem por objetivo promover um (re)conhecimento do outro, com suas diferenças e similaridades, que visa produzir práticas de respeito e tolerância, o que colabora com uma perspectiva de garantia dos direitos humanos. Nesse sentido, um ER que foge de práticas confessionais e proselitistas. A relevância do ER para a formação crítica do (a) cidadão (ã) justifica-se também no fato que inúmeras expressões religiosas presentes no cenário brasileiro convivem por vezes em relações de tensão entre si e com a sociedade, buscando legitimar seus discursos e doutrinas, extrapolando o âmbito privado. Nesse sentido, esse GT abarca temáticas variadas que envolvam o diálogo entre religião e educação com o propósito de entender e analisar a configuração do ER na atualidade, seus avanços e perspectivas, principalmente neste momento no qual este componente curricular é contemplado na BNCC (Base Nacional Comum Curricular), assim como possui uma área de referência, as Ciências da Religião, garantido pelas Diretrizes Curriculares Nacionais (DCN) para licenciatura em Ciências da Religião. O ER nesse sentido, longe de perpetuar o status quo, sendo um instrumento de reprodução social, se alinha a uma perspectiva de educação que visa a transformação da sociedade, através do diálogo, daempatia, do pensamento crítico e autônomo dos e das estudantes. Assim, trabalhos que pesquisam os aspectos históricos, curriculares, práticos, didáticos, epistemológicos, de formação e capacitação docente do ER não confessional serão bem-vindos a esse debate. Palavras-chave: Ensino Religioso; Humanização; Diversidade. 60 A DEMOCRACIA NO ENSINO RELIGIOSO PERPASSA SOBRE RAÇA E GÊNERO Adriana Rocha Ribeiro Araújo Mestranda em Ciências da Religião – UFJF, Bolsista Capes arocharibeiroaraujo@gmail.com Resumo: Abordar um ensino laico e dentro de uma abordagem voltada para promoção dos direitos humanos pode parecer fácil em termos gerais, mas as dificuldades e entraves podem ir muito mais além do que apenas falar sobre várias religiões nas aulas de ensino religioso. A BNCC expõe que a “interculturalidade e a ética da alteridade constituem fundamentos teóricos e pedagógicos do ensino religioso”, visando assim “combater a intolerância, a discriminação e exclusão”. Assim, como seria pensar religião no ensino religioso em termos éticos perpassando também por termos estéticos que envolva a ação política do professor da disciplina considerando questões como raça e gênero? Acreditamos que a decoloniar a educação é possibilitar que vozes identitárias apareçam no estudo dos fenômenos religiosos promovendo o que é proposto pela BNCC. Da mesma forma, acreditamos que conduzir um estudo dos fenômenos religiosos nessa perspectiva seja um exercício de democracia visando o reconhecimento e respeito às alteridades. Esta comunicação versará em reflexão sobre essa questão, tendo Paulo Freire, Elisa Rodrigues, Andrei Mussopkf e Aparecida de Jesus Ferreira como suportes teóricos para metodologia em estudo bibliográfico. Compreendemos as dificuldades que possa haver em abordagens de gênero e raça no estudo dos fenômenos religiosos que podem recair sobre a falta de preparo do professor sobre essas questões pela ausência da formação em licenciatura em Ciência da Religião; bem como outras dificuldades advindas do desconhecimento ou do preconceito ou de visões fundamentalistas sobre a questão de gênero tanto do professor quanto da comunidade escolar. Também compreendemos que haja uma redução relacional de raça a religiões de matrizes africanas esquecendo que o negro transita por diversas tradições religiosas levando consigo sua ancestralidade. Esperamos contribuir com reflexão sobre a importância de incluir questões de raça e de gênero nas aulas de ensino religioso. Palavras-chave: Ensino Religioso; Raça; Gênero; Ética: Estética. Introdução Sempre que a escola pública é acionada para ser pensada, muitas abas se abrem para serem postas a reflexão. Há uma rede de relações tanto macro quanto micropolíticas que se interconectam e elencam, ou pelo menos deveriam elencar, o estudante no centro de todos os cuidados. Pensar que o que há na teoria é posto em vias de práticas reais, creio que seja um caminhar que desejamos alcançar em pedagogias freireanas que também são galgadas para o ensino religioso. Como será possível aproximar as orientações mailto:arocharibeiroaraujo@gmail.com 61 documentais para a educação percebendo a necessidade de o ensino religioso dialogar o currículo formal, o real com um currículo oculto, principalmente, num momento de negacionismos, de fundamentalismos e de intolerâncias? O objetivo desse ensaio é refletir sobre considerações de ordem epistemológicas para se pensar em termos de desafios e ousadias. Assim, pensar nas diversidades e interculturalidades nas aulas de ensino religioso deverá ir pela laicidade, pela democracia e pela educação para as relações étnico-raciais e de gênero. 1. Conceituando multiplus olhares: a democracia para no Ensino religioso reflexivo Comecemos um diálogo neste ensaio por uma reflexão sobre termos utilizados no título para compreendermos os caminhos que trilharemos. O que compreendemos por democracia é o que ela representa em vias de realidade social? As ciências sociais e a história podem nos apresentar democracias em diversos aspectos, em vias de contextos temporais e espaciais, envolvendo questões como democracia econômica, democracia social, democracia jurídica, democracia política. Nem sempre podemos ficar seguros sobre uma definição fechada em si, pois há implicações outras que se interseccionam e alteram o sentido e as abordagens, assim tratamos a democracia aqui como uma categoria. Democratizar poderia ser associado à universalização e representação em termos de possibilitar o acesso maior de participação aos bens e serviços produzidos, assim, abrimos precedentes para a complexidade de um sistema e para o refletir sobre considerações de existência de várias vozes num espaço público. Quando Rosseau pensou no Contrato Social, compreendeu a necessidade de uma democracia participativa em todos os setores da sociedade, sentido que muitas vezes trazemos de compreensão de que todo poder emana do povo, para o povo e pelo povo. Pensando nesses termos democráticos, torna-se curiosa a reflexão sobre a esfera pública e os bens e serviços produzidos: por quem produzido, para que público, com que finalidade, se há 62 qualidade no que é oferecido de forma igualitária, se há acesso a esses bens e serviços pela população, se há uma equidade social e isonomia jurídica, por exemplo. Quando tratamos de bens, vale lembrar que podem ser de ordem material ou simbólico. Os bens simbólicos desencadeiam produção de sentidos e valores aos contextos em que estamos inseridos constituindo assim um sistema simbólico que remetemos à arte, à religião, à linguagem, por exemplo. Bourdieu vai nos informar que todos somos produtores de bens simbólicos, mas há aqueles que os reduzem para controle social em valores e estética de privilégios, assim vai classificar esses produtores nas relações de poder, num domínio sociocultural, nos diversos campos da esfera pública. A democracia, em termos ideais de atuação, na esfera pública deveria estar sendo mais vivenciada em abertura para o diálogo com a complexidade das relações existentes no âmbito sociocultural que traz o indivíduo como sujeito construtor e, também, sendo objeto de construção de sentidos. As narrativas que são articuladas em âmbito particular e coletivo na esfera privada e pública vão organizando sentidos peculiares em cada indivíduo em realidades que chegam à escola também e na sala de aula do ensino religioso. Trazer as diversas narrativas para dialogarem na sala de aula é possibilitar a democratização de compartilhar saberes, em perspectivas boaventuranas, além de fornecer uma proposta reflexiva para o ensino religioso seguindo as diretrizes nacionais curriculares. É válido pensar em como tratar desses indivíduos tão particulares em perspectivas de formação de um indivíduo crítico-reflexivo para protagonismo de cidadania. A violência e a intolerância só crescem e podemos traçar relações diretamente vinculadas, mesmo que em complexidade e dentro de nossa limitação, a uma educação engessada em perspectivas colonizadoras de silenciamentos e invisibilização de indivíduos. O engessamento provindo de um discurso de democracia racial, de que a democracia deve agir em função da maioria, de que há o respeito aos direitos para todos indistintamente de credo, de gênero e de trato étnico-racial. Há desafios para um diálogo interreligioso, pois cada indivíduo traz consigo verdades sobre a realidade, além das 63 experiências religiosas e orientações sobre valores e sobre o agir. O ensino religioso, seguindo orientações da BNCC, tem a missão de desenvolver dez competências gerais, juntamente com outros componentes curriculares, dentre elas, destaco: o conhecimento; pensamento científico, crítico e criativo; repertório cultural; empatia e cooperação; cidadania e responsabilidade. A proposta deum ensino religioso reflexivo, segundo Rodrigues (2021), é tratar o ensino com pressupostos teóricos e epistemológicos cunhados pela Ciência da Religião, pois ele se abre ao diálogo interreligioso para leitura das realidades. Ler realidades é uma tarefa que requer zelo e preparação para um protagonismo social ético. A escola é um meio por onde a grande maioria dos brasileiros passa e vivência experiências sociais e cognitivas. Conhecido pelas famílias e estudantes como segunda casa, a escola também é lugar de apreensão da realidade para formação cidadã. O Ensino Religioso é hoje uma disciplina presente no quadro de obrigatoriedade de oferta escolar pública e é legislado em documentos da Educação Básica: a LDB4 9394/96 reformulada na Lei 9475/97 no art 33; registrado como componente curricular sob a orientação da BNCC5 2017, além de vir sendo citada nas diversas constituições e ainda presente na Constituição Federal de 1988 e em consonância com as DCNs6 de CRE. A presença da disciplina na BNCC é um avanço político-educacional que o professor Elcio Cechetti7, um dos pareceristas sobre o Ensino Religioso na BNCC, traduz por reconhecimento pelo Estado da função social e de identidade pedagógica do componente curricular. O alerta que ele nos faz sobre currículo, nesse parecer8, 4 LDB – Lei de Diretrizes e Base 5 BNCC – Base Nacional Comum Curricular 6 DCNs – Diretrizes Curriculares Nacionais 7 O professor Elcio Cechetti é doutor e mestre em Educação pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Realizou doutorado sanduíche na Universidade de Salamanca (Espanha) entre out./14 e out./15.Graduado em Ciências da Religião-Licenciatura em Ensino Religioso pela Universidade Regional de Blumenau (FURB). É assistente técnico pedagógico efetivo da Secretaria de Estado da Educação de Santa Catarina (SED/SC). É docente e coordenador do Curso de Licenciatura em Ciências da Religião EAD da Unochapecó e é membro do FONAPER (Fórum Nacional de Professores de Ensino Religioso) 8 O parecer pode ser acessado no endereço http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/relatorios-analiticos/Elcio_Cecchetti.pdf 64 a partir da leitura de Miguel Arroyo9, envolvendo não apenas o currículo de ensino religioso, mas o de todos as disciplinas, é que há disputas por esse território documental por onde se estrutura a função social da escola num “resultado das relações de poder que estão em ‘jogo’ nas disputas das relações sociais e políticas de dominação-subordinação”. Também complementa essa reflexão com a leitura que faz de Sacristán, informando que o currículo não trata apenas de um documento norteador e regulador em que se encontra “concepções educativas, objetivos, metodologias e procedimentos avaliativos”. Apresentar dialógos-dialéticos para as aulas de ensino religioso não- confessional é possibilitar que haja vozes de fenômenos religiosos multiplus circulando na sala de aula. Rodrigues (2021) lembra que Pierre Sanchis elucida sobre o campo religioso brasileiro dotado de diversas expressões de crenças e consciências em “espaço de lógicas múltiplas derivadas das tradições ameríndias, cristãs (primeiramente, católica apostólica romana e, posteriormente, protestantes e pentecostais), africanas, além de outros movimentos religiosos”. Essas expressões precisam estar presentes nas aulas de ensino religioso trazendo uma compreensão ao campo de estudo que está repleto de bricolagens, rupturas e ressignificações. Estar comprometido com a fenomenologia da religião é possibilitar o olhar reflexivo sobre diversas temáticas que a envolve atentando para os aspectos histórico-sócio-cultural desprovido de qualquer cunho proselitista ou classificatório. Estudar sobre a religião está na investigação sobre as maneiras que o ser humano encontra nas diversas crenças, sistemas de crenças, consciências e filosofias, maneiras de expressar suas vivências a partir das interpretações. Elisa Rodrigues (2021) vai explicitar que a compreensão ontológica e social estará vinculada a concepções de sentido internas ao indivíduo que o fazem organizar a vida a partir de uma coletividade em que esteja inserida promovendo assim o agir tanto individual quanto coletivo. Esse agir infere diretamente em outras esferas da vida pública e será exatamente por meio desse encontro que o estudo sobre religião se dará. A esfera pública, na 9 ARROYO, Miguel G. Currículo, território em disputa. Petrópolis: Vozes, 2011 65 teoria de Habermas10, possibilita vários encontros e tipos de relações entre vários sujeitos privados. Poderíamos dialogar Rodrigues com Habermas voltando-nos para o Ensino Religioso e a democracia. A aproximação poderia ser feita no que tange ao professor ser esse servidor público que possui em sua sala vários sujeitos privados dotados de crenças individuais, valores, cosmovisões. O professor terá a possibilidade de conduzir a compreensão sobre a religião por meio dos fenômenos que ela apresenta atravessando as relações sociais, históricas e culturais. Considerar a possibilidade do diálogo interreligioso será possibilitar a compreensão das dimensões do ser humano na sociedade em suas expressões e manifestações de vivências tendo a religião as atravessando, situando o ser humano como ser histórico e político. Em toda democracia há os diversos atores que estão presentes que precisam ser visualizados, assim também um ensino religioso democrático deverá ser reflexivo desses diversos atores presentes no campo religioso. Dessa forma, o ensino religioso se comportará dentro de um estado laico de forma respeitosa e também atendendo às orientações da BNCC. Isso se remeteria a possibilidades de abordagens plurais sobre as diversas religiões, sobre as crenças populares, sobre as espiritualidades e sobre as filosofias de vida que contemplam ateus, agnósticos, desigrejados, sobre trânsitos religiosos, sobre sincretismos, sobre religiões orientais. Abre-se a possibilidade de descobrir a relação da religião com as artes, da religião com a política, a religião com a economia, a religião com a estética, com a ética. Vai possibilitar a compreensão sobre “a medida que as religiões alcançam as pessoas e interferem em suas vidas interpelando-as, criando consensos e dissensos, abrindo ou fechando horizontes, limitando decisões, modelando vidas e, por assim dizer, expressando algo de nós mesmos”, (RODRIGUES, 2021). A religião tem esse poder de influenciar na organização da vida das pessoas e assim modelar a vida. Possibilitar um estudo compreensivo nos remete a possibilidade de enxergarmos a nós mesmos e fazermos parte dessa formação integral do ser 10 A compreensão de Habermas para a relação entre o público e o privado é explorado por Jessé Souza no livro A Elite do Atraso, da escravidão a Bolsonaro, fazendo-nos refletir sobre as interferências que há na esfera pública envolvendo liberdade e poder de sujeitos privados. 66 humano para um cidadão de protagonismo pela cultura da paz e do respeito às diferenças. Mas quais atores que são escolhidos a serem observados durante esse estudo? Qual a presença do papel do homem e da mulher construído na religião como fato social? Qual a composição de raça e etnia está presente na estética e nos valores no campo religioso? Trazer um ensino reflexivo democrático é possibilitar acesso a questão de gênero e de raça-etnia. 2. O campo religioso possui cores e gênero Democratizar o estudo do campo religioso na educação básica também é perceber os diversos atores nos contextos dos fenômenos a serem objetos de estudo. Descolonizar o olhar de uma eugenia que só silenciou e marginalizou pessoas também deverá se fazer presente nos estudos do fenômeno sócio- religioso. A realidade de privilégio de branquitude só é enxergada com a apreensão da realidade de negritude que se opõe a ela. A realidade de extermínio indígenasó é percebida a partir da compreensão de genocídio cultural. Falar de democracia é falar de privilégios, de apagamentos e também de resistência para reexistir na sociedade. Poderíamos afirmar que somos herança da escravidão e do patriarcado e por assim dizer passivos a invisibilizar a desumanização que a religião proporcionou em violências contra pessoas não-brancas. Não se visibiliza a religiosidade que pessoas LGBTs, por exemplo, trazem em suas experiências e hermenêuticas; muito menos as violências que são impetradas a elas em nome de dogmas fundamentalistas em controle de corpos. Acredito que a grande maioria de professores de ensino religioso desconhecem a diversidade de teologias (libertação, queer, feminista, latina-americana, negra, afroameríndias, por exemplo). As teologias trazem traços de resistências, uma heresia e transgressão de libertação a um engessamento de apenas um modo de viver que é insistentemente transmitido como tradição de ordem e civilidade por meio da violência simbólica de um ensino religioso não reflexivo sobre os fenômenos religiosos vivenciados por vários atores, em contextos regionais, diretamente ligados a uma visão hegemônica. 67 Toda nossa compreensão e realidade apreendida é derivada dessa questão. “Na medida em que o passado foi transmitido como tradição, possui autoridade; na medida em que a autoridade se apresenta historicamente, converte-se em tradição” (ARENDT, 2008, p. 208). Nessas palavras, mesmo que voltadas para as citações de Walter Benjamin11, estabelecemos um encontro de Arendt com um pensamento weberiano sobre tradição e o poder de domínio em que há num ciclo estabelecido. Assim podemos analisar que quando é apresentado um passado de superioridade branca, patriarcal e cristã relacionada a uma ordem, a uma civilidade; e, por assim dizer compreendida como autoridade e transmitida como tradição, cria-se uma semiótica. Uma semiótica de que tudo o que há dentro desse sistema de signos possa ser traduzido como verdadeiro e inquestionável, pois a compreensão de que sempre foi assim e assim se mantém uma organização social civilizatória é repassada. Dessa forma estabelece-se o domínio pela tradição. Acontece que num sistema de domínio num campo religioso, por exemplo em estudo, conforme compreendemos em Bourdieu, a linguagem de valor estético por um cristianismo, por uma branquitude e por um patriarcalismo é repassado como natural à religião. Isso é motivo de embate entre os que estão inseridos num sistema hierárquico contemplado nas camadas que atendem a esse sistema e os que estão à margem em sincretismos e não pertencentes a esse sistema. Como Bourdieu poderia alertar para uma luta no campo social entre a ortodoxia e a heresia. Talvez possamos estabelecer um diálogo sobre essa compreensão de herança social por vias de dominador e dominado por meio de autores como 11 Walter Benjamin (1892-1940) tem um capítulo dedicado exclusivamente para ele no livro de Hannah Arendt, Homens em Tempos Sombrios. O capítulo é dividido em vários subtítulos: O corcunda, Os tempos sombrios, O pescador de pérolas. Em cada subtítulo, Arendt vai expondo suas percepções sobre o autor judeu Benjamin a partir da reflexão sobre fama póstuma e as facetas dele de romper com o passado. Pelas próprias palavras de Arendt, “Benjamin se considerava um crítico literário”, p168, mas ela o descreve anteriormente como alguém que tinha erudição, mas não era erudito; era atraído pela teologia, mas não era teólogo; traduzia livro, mas não era tradutor; resenhava livros, escreveu ensaios; pensava poeticamente sobre a vida, mas não era filosofo nem poeta. A citação exposta no texto está no terceiro subtítulo, O pescador de pérolas (p.208-222), em que é apresentado uma análise sobre a volta ao passado como “desespero do presente e o desejo de destruí-lo”, bem como outras análises envolvendo a atitude do colecionador e do herdeiro e outras questões. 68 Aparecida de Jesus Ferreira, Bell Hooks, Hannah Arendt, Lélia Gonçalves, Luiz Rufino, Krenak, André Musskopf e Elisa Rodrigues para percebermos que talvez a democracia não tenha sido uma conquista alcançada na maioria das salas de aula, principalmente na disciplina de ensino religioso. Essa compreensão tem contextos históricos da formação cultural brasileira que é atravessada pela religião como uma esfera social cujos personagens também organizam suas vidas por meio dela. A visibilidade do povo negro e dos povos originários no campo religioso brasileiro, na maioria das vezes, pode estar sendo tratada, nas salas de aula, com víeis pejorativo, com víeis de inferioridade, com víeis folclórico de celebração de data em calendário. Tratar dos fenômenos religiosos em perspectivas de uma sociologia comparativa poderá trazer possibilidade de uma apreensão de diversas realidades. A apreensão das realidades é diferente, há vários fatores que interferem na organização de vida e construção de identidades. Um desses fatores é a raça e o gênero que dialogam com a questão de classe. A existência de racismo, de racismo estrutural, de um sistema de dominação centrado na branquitude e no patriarcado faz sufocar e influencia diretamente em como se apreende uma realidade e como se age dentro dos contextos nas relações. Se é por meio da linguagem que se expressa no mundo o mundo que conhecemos, é também por ela que apreendemos e agimos em diversas manifestações, muitas vezes, não apenas reproduzindo o que apreendemos, mas também com potencialidade de rompermos com ela e a reconstruirmos. Democratizar a educação brasileira é possibilitar a vivência de pluralidades em diversos espaços públicos através da garantia de descolonizar o apreender de um víeis de domínio de tradição. Hooks (2013) vai apresentar a importância da transgressão como estratégia de romper com um ensino colonial inferiorizador e determinante do lugar da pessoa negra na sociedade. Transgredir é se tornar subversivo a um sistema que invisibiliza ou distorce a participação histórica da pessoa negra, da pessoa indígena, do imigrante, da mulher, de pessoas LGBTs na sociedade em 69 fenômenos socio-religiosos. Transgredir para libertar, dentro de um sistema democrático decolonial, é possibilitar que o(a) estudante negro(a) ou indígena se identifique com a linguagem que circula na sala de aula e possibilitar que ele consiga construir seu projeto de vida, uma das habilidade para serem desenvolvidas pelo ensino religioso, pautado na ética. A habilidade EF09ER08, como orientação da BNCC, é para ser desenvolvida nos anos finais do fundamental II e consiste em desenvolver o objeto de conhecimento princípios e valores éticos possibilitando o educando construir seu projeto de vida. Dentro desse objeto de conhecimento há também mais duas habilidades que deverão ser desenvolvidas como o “reconhecer a coexistência como uma atitude ética de respeito à vida e à dignidade humana” e o de “identificar princípios éticos (familiares, religiosos e culturais) que possam alicerçar a construção de projetos de vida”, (BNCC, 2017, p 459). Se não tivesse havido políticas públicas afirmativas que obrigaram, pela força da Lei 11.645/2008, para implementar o ensino de história e cultura africana e indígena no Brasil, provavelmente ainda estaríamos mergulhados num analfabetismo em prol de uma globalização hegemônica colonial. Ainda há muito o que ser feito como traz Aparecida de Jesus (2019), falta um letramento racial crítico, uma educação para as relações étnico-raciais. Embora seu artigo mencione narrativas autobiográficas de professoras de línguas de identidades sociais e de raça para serem analisadas, podemos nos valer por comparação sociológica da importância de trazer para sala de aula narrativas de religiosas negras para serem estudadas em fenomenologia de hermenêutica mítica, de lidar com racismoestrutural dentro das instituições que frequentam, de intimidade e/ou comunicação com o Transcendente, a participação nas festas religiosas, a expressão de fé por meio dos ritos, como utilizam da religião para obter um conforto não apenas espiritual como também material. Na compreensão de um letramento racial crítico, trazendo para contextos da religiosidade indígena, a compreensão de um viver intimamente ligado a Terra e aos valores da partilha comunitária, a cosmovisão xamânica, as relações sincréticas com o daime, com a jurema, com o marabaixo, com a umbanda. 70 Conclusão Se o estudo sobre religião invisibiliza a existência de fenômenos religiosos que abordam crenças, espiritualidades, expressões religiosas em questão étnico- racial e de gênero, o silenciamento de diversidade e pluralidade religiosa poderá permanecer a serviço da manutenção de uma eugenia de superioridade cristã, branca e patriarcal. A leitura de um ensino religioso laico interreligioso pode ficar comprometido se não houver um letramento para as relações étnico-raciais e de gênero. O estranhamento do outro, que é diferente de mim, possibilita perceber uma pluralidade e diversidade religiosa que precisa ser compreendida para que haja uma convivência social pautada pela ética nas relações. Compreender que o campo religioso brasileiro possui contextos geograficamente sociais e culturais pautados pela história e as relações de poder é possibilitar uma busca pela cultura da paz e pelo combate às intolerâncias para promover uma igualdade racial e de gênero. Referências ARENDT, Hannah. Homens em Tempos Sombrios. São Paulo: Companhia das Letras. 2008 BRASIL. BNCC. MEC: 2017 Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/abase/#fundamental/ensino-religioso- no-ensino-fundamental-anos-finais-unidades-tematicas-objetos-de- conhecimento-e-habilidades. Último acesso em agosto de 2022. BOURDIEU, Pierre. Gênese e estrutura do campo religioso. In: BOURDIEU, Pierre. A economia das trocas simbólicas. São Paulo: Perspectiva, 2007, p. 27-78. FERREIRA, Aparecida de Jesus. Letramento racial Crítico: falta representatividade negra em materiais didáticos e na mídia (entrevista). Revista Uniletras, Ponta Grossa, v. 41, n. 1, p. 123-127, jan/jun. 2019. FREIRE, Paulo. Educação como prática da liberdade. Editora Paz e Terra. Rio de Janeiro, 1986. FREIRE, Paulo. Pedagogia da Autonomia - Saberes necessários à prática educativa. São Paulo: Paz e Terra (Coleção Leitura), 1997. hooks, bell. Ensinando a Transgredir -a educação como prática da liberdade. São Paulo: WMF. 2013. 71 MUSSKOPF, André S. Nem Santo te Protege: aids, teologia e religião de bolso. Belo Horizonte: Senso, vol 1, 2020. MUSSKOPF, André S. Que Comece a Festa: o filho pródigo e os homens gays. Belo Horizonte: Senso, vol 2, 2020. MUSSKOPF, André S. Viado Não Nasce, Estreia! Não Morre, Vira Purpurina. Belo Horizonte: Senso, vol 3, 2020. RODRIGUES, Elisa. Ensino Religioso: uma proposta reflexiva. Editora Senso. 2021. SILVEIRA, Emerson Sena da; JUNQUEIRA, Sérgio (org). O Ensino Religioso na BNCC – teoria e prática para o ensino fundamental. Petrópolis: Vozes, 2020. ZABATIERO, Julio P. T.; MENEZES, Jonathan M de. Gianni Vattimo e Jen- LucNancy: o fundamentalismo democrático. Revista Horizonte. Belo Horizonte, v. 18, n. 57, p. 1031-1049, set./dez. 2020 – ISSN 2175-5841. 72 ENSINO RELIGIOSO: RELEVANTE COMPONENTE CURRICULAR PARA COMBATER A INTOLERÂNCIA ÉTNICO-RACIAL E RELIGIOSA NAS ESCOLAS Cléa Luíza Rosa Dias Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Teologia pela Faculdade Teológica Sul Americana-FTSA cleacexa2017@gmail.com Heli Santos Santana Pós-graduado em Educação a Distância UNOPAR heli29053@gmail.com Resumo: Propomos mostrar como o componente curricular Ensino Religioso pode contribuir para a formação de uma sociedade menos violenta, mais igualitária e antirracista. A presente pesquisa tem o escopo de identificar as manifestações cotidianas de intolerâncias nas escolas e como enfrentá-las. Inicialmente será utilizada a Legislação, partindo da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) – Lei 9.394/1996, que preconiza o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil. No entanto, esta lei deixou a lacuna de promover a valorização histórico-cultural e religiosa sem proselitismo, havendo necessidade de alterá-la pelas Leis 9.475/1997 e 10.639/2003 e, posteriormente, esta última, modificada pela Lei 11.645/2008. Estas foram elaboradas com viés de incluir obrigatoriamente o estudo da história e cultura afro-brasileira e indígena. A diversidade cultural e pluralismo religioso dentro do ambiente escolar, gera uma tensão constante entre os alunos da educação básica, aumentando a violência e distanciando-os de uma boa formação cidadã. O problema maximiza com a falta de especialização e/ou capacitação dos professores e professoras na área de ciências da religião para mediar estes conflitos, ocasionando o principal entrave para aplicação efetiva das leis retromencionadas. Quanto a metodologia, será baseada em pesquisas bibliográficas em artigos publicados em periódicos científicos, dissertações, teses e obras nas áreas de teologia e pedagogia. Justifica-se que o Ensino Religioso é relevante para trabalhar valores e respeito às diferenças histórico-culturais e religiosas. Dessa forma, a pesquisa propõe elaboração de materiais didático- pedagógicos que possam auxiliar professores e professoras a ministrarem suas aulas através de ensino lúdico e interdisciplinares, contendo histórias em quadrinhos (HQ), culinária, arte, poesia, ciência, religião e jogos digitais. Destarte, almejamos contribuir com o GT 6 (Ensino Religioso: diversidade e humanização), mostrando que o Ensino Religioso, o(a) professor(a) e a escola, terão uma grande relevância em reconhecer a diversidade e pluralismo como construção histórica, social, religiosa e política das diferenças, com enfoque na valorização humana e, consequentemente, no combate ao racismo e quaisquer outros tipos de intolerância. Palavras-chave: Ensino Religioso; Legislação; Violência; Intolerância. Introdução As constantes transformações que vem passando a sociedade exigem do ser humano um novo modo de viver e compreender determinadas situações mailto:cleacexa2017@gmail.com mailto:heli29053@gmail.com 73 que envolvem a família, a sociedade, a escola. Nesse contexto, a educação é um importante meio que busca oferecer uma maneira de proporcionar a compreensão dessas mudanças, pois faz com que o(a) aluno(a) possa descobrir desde cedo a importância de viver em sociedade, ao oferecer condições para descobrir por si mesmo e passe a se sentir parte integrante da sociedade. Nessa perspectiva, o Ensino Religioso consiste em uma disciplina da educação básica brasileira que tem como objetivo principal propor reflexões sobre fundamentos, costumes e valores das várias religiões existentes na sociedade. Nos encontramos inseridos em uma sociedade permeada por constantes práticas racistas, preconceituosas e de intolerâncias, que se refletem dentro das unidades de ensino. Dessa forma, falar de Ensino Religioso numa perspectiva para a pluralidade religiosa é muito complexo e desafiador, por buscar uma educação que contemple a diversidade cultural e, através disso, proporcione a alteridade, a compreensão, o reconhecimento em relação às diversas tradições religiosas e, ainda, resgate o diálogo com esse poderoso fenômeno humano. O Ensino Religioso, garantido no artigo 210, parágrafo 1°, da Constituição Federal de 1988 e no artigo 33, da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDBEN) nº 9.394/1996, alterado pela Lei nº 9.475/1997, é parte integrante da formação básica do cidadão, sendo assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil. Em um processo delutas e conquistas foi homologada a Lei nº 10.639/2003, tornando obrigatória a inclusão da História e Cultura Afro- Brasileira e, posteriormente, a Lei nº 11.645/2008, que acrescentou a obrigatoriedade do ensino da História e da Cultura Indígena, ambas alterando alterou a Lei nº 9.394/1996. Tudo isto, constitui elementos norteadores e desencadeadores para possíveis modificações de concepções e práticas educativas no âmbito educacional brasileiro. Justifica-se que o Ensino Religioso é relevante para trabalhar valores e respeito às diferenças histórico-culturais e religiosas. 74 A metodologia utilizada se deu através de pesquisas bibliográficas em artigos publicados em periódicos científicos, dissertações, teses e obras nas áreas de teologia e pedagogia. O presente artigo faz parte de uma pesquisa que vem sendo desenvolvida no programa de Mestrado em Teologia, na linha de pesquisa Teologia e Espaço Público, tendo como objetivo identificar as manifestações cotidianas de intolerâncias nas escolas e como enfrentá-las, propondo a elaboração de materiais didático-pedagógicos que possam auxiliar professores e professoras a ministrarem suas aulas através de ensino lúdico e interdisciplinares, contendo histórias em quadrinhos (HQ), culinária, arte, poesia, ciência, religião e jogos digitais 1. O Ensino Religioso a partir da LDB/96 A disciplina de Ensino Religioso sempre fez parte do currículo escolar da Educação Básica, mas sua característica histórica na educação brasileira esteve relegada a um formato catequético e confessional. A possibilidade de uma virada epistemológica, metodológica e pedagógica se concretizou com a nova redação da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) de 1996 e na correção de redação de seu art. 33, em 1997, pela Lei nº 9.475, que altera o dispositivo da LDB. O texto original da Lei de Diretrizes e Bases da Educação Brasileira (LDB) de nº 9.394/96, registra no seu artigo 33 as modalidades de oferta do ensino religioso na escola pública, sendo essas, confessional e interconfessional para a prática educacional, além da expressão “sem ônus para os cofres públicos”, proporcionando a ampliação dos estudos sobre a identidade desta disciplina e, também, reforçando a necessidade de salvaguardar os direitos a liberdade religiosa ao cidadão que frequenta a escola pública (JUNQUEIRA, 2012, p. 113). O texto da lei não trouxe novidades e não agradou todos. Além de permanecer a confessionalidade, mesmo respeitando as diferentes confissões religiosas, a questão que mais causou polêmica e desagrado foi que cabe à escola oferecê-lo, porém, sem que represente qualquer ônus para o Estado, 75 restando às organizações religiosas a definição dos conteúdos e a garantia dos professores. A partir da insatisfação de comunidades escolares e das Igrejas, logo após a promulgação da Lei, inicia-se uma mobilização para mudança da LDB no Congresso Nacional. Nesse contexto, a Lei nº 9.475/97 deu nova redação para o artigo 33 e foi a primeira emenda a LDB. Com a nova redação, foi superada a expressão “sem ônus”, abrindo a possibilidade de os Estados remunerarem os professores da disciplina Ensino Religioso. Acrescenta também que os sistemas de ensino teriam a competência para regulamentar os procedimentos para a definição dos conteúdos e estabeleceriam as normas para habilitação e admissão de professores. O novo texto possui mais caráter confessional, pois prioriza o aspecto plural da sociedade brasileira, respeitando sua diversidade cultural e religiosa, sem preferência a qualquer tradição religiosa. A partir de 1997, o Ensino Religioso teve um novo enfoque, pois sua base deixou de ser teológica e passou a ser fenomenológica, isto é, incentivando uma releitura do fenômeno religioso que se manifesta nas diversas culturas com linguagens diferentes. Diante do exposto, precisamos compreender que este fenômeno acompanha as mudanças do tempo, no sentido de apresentar outras formas de expressões da religiosidade que, portanto, seria toda expressão religiosa, seja coletiva ou individual. Isso inclui crenças, rituais, objetos, imagens, palavras, símbolos e tudo o que possa ser entendido como expressão cultural de um povo, revelando o sentido profundo e os valores cultivados na vida a partir da experiência do sagrado (JUNQUEIRA, 2015, p. 9). O reconhecimento do ER como elemento importante na formação humana, com características essenciais de respeito à diversidade cultural e religiosa, elevou a disciplina a uma área de conhecimento, sendo respaldada pelas Resoluções CNE/CEB nº 04/2010 e CNE/CEB nº 07/2010, que definem as Diretrizes Curriculares Nacionais. Como o Ministério de Educação não elaborou um parâmetro curricular para nortear a elaboração dos conteúdos da disciplina ER, a tarefa então foi desempenhada pelo Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso 76 (FONAPER) com a criação do documento dos Parâmetros Curriculares Nacionais/Ensino Religioso (PCNER), em 1997. Nos Parâmetros Curriculares Nacionais para o Ensino Religioso, o Ensino Religioso é tratado como um componente curricular e, segundo Rodrigues, Machado e Junqueira (2004, p. 2), começa a ser estruturado pelas orientações do Conselho Nacional de Educação, pelo modelo fenomenológico com o objeto do fenômeno religioso e objetivos organizados pelas diretrizes curriculares, e deve ser levado em uma atuação docente pautada por uma visão clara entre as religiões e a construção cultural do país, tornando o aluno um sujeito crítico do conhecimento. A concepção de Ensino Religioso, presente nos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), vislumbra novas perspectivas para sua prática pedagógica, que representam uma verdadeira mudança paradigmática nesta área do conhecimento, e cumpre sua principal tarefa no ensino: a formação integral do educando, a fim de que possa desenvolver de forma holística um ser humano com consciência da diversidade, proporcionando mais tolerância e entendimento, evitando-se o fundamentalismo desagregador e intolerante, e, assim, possa alcançar o diálogo inter-religioso. O que se consolidou na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), elaborada pelo Ministério da Educação e Cultura, como proposta pedagógica para o Ensino Religioso. Em 2003, com a promulgação da Lei n° 10.639 sobre o ensino da Cultura Afro-Brasileira, que foi alterada pela Lei n° 11.645/2008, ampliando para a cultura indígena, propõe a discussão da temática étnico-racial em todas as disciplinas. Especificamente para o Ensino Religioso, verifica-se que desde a publicação dos Parâmetros Curriculares Nacionais do ER, em 1997, existe uma orientação para organizar o conteúdo a partir das matrizes indígena e afro- brasileira. 2. Impasses e desafios do Ensino Religioso O ponto de partida para abertura à pluralidade religiosa na sociedade moderna foi à secularização do Estado, a separação entre Igreja-Estado, pois 77 marcou o fim do monopólio da Igreja Católica e seus privilégios. Esse novo cenário leva a ex-religião oficial do Estado a conviver com a possibilidade de abertura a novos atores religiosos e, consequentemente, a perda de influência social e fiéis. Para existir o pluralismo religioso torna-se fundamental a existência da liberdade religiosa, e para isso, na sociedade moderna, o Estado é o agente regulador jurídico com a função de garantir a liberdade dos vários credos, por meio de sua secularização. Uma sociedade que tem como característica a intransigência, o fundamentalismo, e o monopólio por uma determinada religião ainda não está apta para ser plural quanto ao fenômeno da religiosidade. O pluralismo religioso remete ao reconhecimento das diversas religiões, aceitá-las, enquanto tal, estar abertos ao diálogo e a “reconhecer os outros menos como competidores, mas sim, verdadeiramente, como companheirosde aventura existencial” (SILVA, 2002, p. 69). Muitos conflitos entre as religiões podem ser vistos no decorrer da história, fato de o fenômeno da violência e da intolerância religiosa revelado como desafio de ser vivido o bom convívio entre as religiões. Diante disso, o pluralismo religioso é “um ideal poderoso destinado a resolver a questão de como se dar bem em um mundo dominado por conflitos” (BECKFORD, 2014, p. 16). O pluralismo religioso é o exercício dialogal com outras tradições em profundo respeito por sua dignidade e valor. Exige abertura, decisão de aprender do outro e com o outro. Nesse diálogo, o único e essencial de cada confissão religiosa se desenvolverá, e cada religião, na comunicação com outras tradições religiosas, não se diluirá; ao contrário, reencontrará sua própria identidade de um modo mais intenso e renovado. A realidade brasileira é plurirreligiosa e traz como característica a diversidade. O Ensino Religioso está inserido neste contexto, sendo afetado diretamente por ele. Por um lado, a disciplina tem lei específica que a regulamenta. Por outro lado, precisa dar conta da diversidade em termos de 78 diferentes tradições religiosas presentes tanto na sociedade brasileira como na escola (STRECK, 2012, p. 262). Pupo (2017, p. 167) coloca que, sendo o Brasil uma nação como pluralidade cultural e religiosa, tem uma sociedade em que nem todos respeitam a diversidade religiosa, e sendo a escola um local de socialização ela abrange uma grande quantidade dessas diversidades. Nessas circunstâncias, o papel social da educação escolar é determinante, pois o trabalho pedagógico deve oportunizar que os seus alunos possam ter um projeto de futuro que vislumbre uma vida digna. Para tanto, os educadores necessariamente precisam ter clareza sobre a pluralidade religiosa que é marca expressiva da cultura brasileira, no qual convivem inúmeras crenças de diferentes matrizes. No dizer de Siqueira: É perceptível que no trabalho pedagógico sobre o pluralismo religioso que está presente no Brasil, vem acompanhado ao logo de sua história, como sendo um contrassenso à legislação educacional, visto que a realidade histórica-social-antropológica da formação do povo brasileiro tende a ser excludente, formadora de mentalidades parciais, invisibilizando a diversidade religiosa e não proporcionando reflexões da multiforme de expressões cultural de nossa nação (2019, p. 101). Diante dessa situação, seguindo o pensamento de Streck, como “educar o ser humano de hoje, considerando uma realidade brasileira que é plurirreligiosa e que tem como característica fundamental a diversidade religiosa?” (2012, p. 263). É fato que já houve avanços em relação à pluralidade e a liberdade religiosa nas instituições de ensino, porém ainda se convive muito, atualmente, com visões baseadas na intolerância religiosa. 2.1. Da Intolerância Religiosa ao reconhecimento A intolerância religiosa é um termo que descreve a atitude mental caracterizada pela falta de habilidade ou vontade em reconhecer, ou respeitar diferenças, ou crenças religiosas de outros. Na essência do conceito de intolerância religiosa está o interesse de rotular o outro “para fazer oposição entre o que é normal, regular, padrão, e o que é anormal, irregular, não padrão”. Estigmatizar é um exercício de poder sobre o outro. Estigmatiza-se 79 para excluir, segregar, apagar, silenciar e apartar do grupo considerado normal e de prestígio (NOGUEIRA, 2020, p. 19). A intolerância religiosa é o não reconhecimento da diversidade, a não aceitação das múltiplas visões de mundo. É uma forma de opressão estimulada pela ideia de superioridade que se expressa na estereotipação do outro religioso. Isso produziu passados e se faz presente para milhões de pessoas e milhares de povos. E teima em se manter no futuro através de elites seculares, desumanas e apegadas à manutenção do seu poder colonizador (BORGES; BAPTISTA, 2020, p. 22). A intolerância religiosa é expressão da permanência de laços coloniais na contemporaneidade e possui caráter funcional à medida que reforça hierarquias entre pessoas, comunidades e religiões. Nogueira aponta que: Ouve-se muito que “é preciso tolerar a diversidade”. A expressão, aparentemente, progressista e bem-intencionada, desperta a indignação de alguns tolerados. Não, não é preciso tolerar ninguém. “Tolerar” significa algo como “suportar com indulgência”, ou seja, deixar passar com resignação, ainda que sem consentir expressamente tal conduta. Quem tolera não respeita, não quer compreender, não quer conhecer. É algo feito de olhos vendados e de forma obrigatória (2020, p. 31). Esse tipo de discurso, no fundo, nega o direito à existência autônoma do que difere dos padrões construídos socialmente. Funciona como um expediente do desejo de estigmatizar o diferente e manter este às margens da cultura hegemônica, que traça a tênue linha divisória entre o normal e o anormal. A tolerância é vista como uma resignação e uma omissão diante de uma sociedade marcadamente injusta em suas diversas dimensões (NOGUEIRA, 2020, p. 31). No ambiente escolar são encontrados alunos com múltiplas pertenças religiosas que dividem o mesmo espaço. São crianças e jovens que, submetidos às condições do meio escolar, sofrem todo tipo de assédio moral e tortura psicológica relacionados às suas crenças e práticas religiosas por parte dos grupos majoritários, quando não por parte dos próprios professores e professoras, para quem os princípios religiosos superam a humanidade. Por não reconhecer a diversidade cultural e o pluralismo religioso da sociedade brasileira, muitas escolas acabam por se tornar coniventes ou omissas com a doutrinação religiosa, transformando o Ensino Religioso, de promissora 80 disciplina facilitadora de convivência pacífica e aprendizado ético e cidadão, em prática catequética que avaliza a segregação e pouco enriquece o currículo escolar. 2.2. Promoção do respeito à diversidade cultural e religiosa A consciência mundial está voltada para o crescimento de uma educação fundamentada no respeito, valorizando a igualdade de oportunidades e, principalmente, que essa educação esteja direcionada primeiramente à ação das teorias, tendo como princípio o combate à discriminação e ao preconceito, para que, de fato, seja vivenciado o efetivo cumprimento dos Direitos Humanos por toda a sociedade. Considerando essa diversidade de crenças e religiões presentes na cultura brasileira, o Ensino Religioso deve buscar adotar uma metodologia de educação onde todos os educandos e todas as educandas que tenham uma educação adequada, com respeito e valorização de suas singularidades. O Ensino Religioso como uma das disciplinas do currículo da escola é tão importante, quanto qualquer outra disciplina, pois, deve ajudar o aluno a ver as experiências míticas das tradições religiosas como válidas e dignas de respeito, caso contrário, vamos continuar vivenciando e presenciando casos de intolerância e racismo religioso entre os(as) alunos(as). Contudo, se o professor de Ensino Religioso não possuir esta formação, poderá reforçar práticas de intolerâncias religiosas na sala de aula. No ambiente escolar não se deve privilegiar uma determinada religião, e, sim, manter o respeito e, simultaneamente, promover uma educação sem proselitismo. O professor é um mediador diante dessas questões, além de ser um conhecedor da teologia, procurando sempre interpretar as várias manifestações culturais que as diferentes religiões apresentam. De acordo com Junqueira et al. (2008), os conteúdos a serem trabalhados no ensino religioso devem combater todo o tipo de preconceito, não ser proselitista, respeitar as crenças de cada educando e entender que a 81 escola não é espaço de doutrinação, contribuindo assim para a formação integral do aluno (a).A proposta pedagógica da disciplina Ensino Religioso deve auxiliar professores e professoras para um ensino lúdico, através de aulas interdisciplinares, contendo histórias em quadrinhos (gibis), música, culinária, dança e jogos digitais, desenvolvidas no âmbito escolar para que estes possam, indubitavelmente, contribuírem ao combate a qualquer tipo de intolerância levando os estudantes a refletirem sobre seus valores e suas práticas. Conclusão Acreditamos que, na medida em que alunos(as) e professores(as) tenham uma visão positiva da diversidade religiosa, visando ao (re)conhecimento da contribuição social e cultural de diferentes tradições religiosas e ao estudo de seus fenômenos, poderemos amenizar os preconceitos e as violências vividas em sala de aula, violência essa, que se caracteriza como intolerância religiosa. Para tal o professor de Ensino Religioso deve ter formação específica e qualificada para poder atuar com mais propriedade em sala de aula. Desta forma, será mais nítido o papel da escola em identificar os comportamentos racistas e preconceituosos, herança de um passado escravista, para aplicar uma proposta pedagógica da disciplina Ensino Religioso através de um ensino lúdico e interdisciplinar. Assim, os problemas relacionados a situações de discriminação e preconceitos passam a ser minimizados ou sanados não apenas no ambiente escolar, mas em qualquer espaço social, contribuindo assim, para uma sociedade igualitária. Referências BECKFORD, James. Re-Thinking Religious Pluralism. In: GIORDAN, Giuseppe; PACE, Enzo. Religious pluralism: framing religious diversity in thecontemporary world. Padova: Springer, 2014. p. 15-29. BORGES, Cristina; BATISTA, Paulo Agostinho Nogueira. Entender o passado e falar do presente: aportes a um Ensino Religioso descolonizador e pós-colonial. Numen: revista de estudos e pesquisa da religião, Juiz de Fora, v. 23, n.2, p. 21- 38, jul./dez. 2020. 82 JUNQUEIRA, Sérgio Rogério Azevedo. A concepção de uma proposta: o Ensino Religiosoem uma perspectiva pedagógica a partir do artigo 33 da LDB. RELEGENS THRÉSKEIA estudos e pesquisa em religião, Curitiba, v. 01, n. 01, p. 102-129, 2012. JUNQUEIRA, Sérgio Rogério Azevedo et al. O sagrado no ensino religioso. São Paulo: Paulinas, 2008. NOGUEIRA, Sidnei. Intolerância religiosa. São Paulo: Pólen, 2020. PUPO, Michelle de Paula. A falta de laicidade e a intolerância religiosa das escolas públicas brasileiras e o papel da disciplina de Ensino Religioso. Revista Alamedas, Toledo, v. 5, n. 2, p.176-186, 2017. SILVA, Eliane Moura. Ensino Religioso: O Ensino Religioso na escola pública do Estado de São Paulo. São Paulo: Unicamp, 2002. SIQUEIRA, Rosângela da Silva. Pluralidade religiosa: desafios na educação escolar dos saberes produzidos pelos diferentes povos. Identidade!, São Leopoldo, v. 24, n. 1, p. 97-106, 2019. STRECK, Gisela Waechter. O Ensino Religioso e a diversidade religiosa no Brasil: desafios para a educação. Revista Pistis e Práxis, Teologia e Pastoral, Curitiba, v. 4, n. 1, p. 261-276, jan./jun. 2012. 83 O ENSINO RELIGIOSO NA PERSPECTIVA DO CURRÍCULO REFERÊNCIA DO ESTADO DE MINAS GERAIS Diego José Maria de Melo Graduado em Ciências Sociais e Graduando em Pedagogia pela UEMG Bolsista do PAPq/UEMG josdiego43@yahoo.com.br Mauro Rocha Baptista Doutor em Ciência da Religião pela UFJF Professor do departamento de Ciências Humanas da UEMG Bolsista BPO/UEMG mauro.baptista@uemg.br Resumo: A implementação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) através da resolução Nº 2, de 22 de dezembro de 2017 do Conselho Nacional da Educação trouxe inúmeras mudanças para o cenário educacional nacional. Ela representou a concretização de uma nova organização para educação brasileira cumprindo aquilo que estava previsto pela Constituição Federal de 1988, cujas determinações estabelecem a educação como um direito de todos e um dever do Estado, visando o desenvolvimento humano em todas as dimensões. Assim todo o processo de abertura permitiu que estados e municípios construíssem seus próprios currículos observando as determinações da BNCC. Como exemplo deste movimento podemos citar o estado de Minas Gerias que em 2018 instituiu o Currículo de Referência (CRMG) contendo as habilidades e conhecimentos a serem desenvolvidas em todo o território mineiro no âmbito da educação básica. O que inclui o componente curricular de Ensino Religioso ramo disciplinar que busca propiciar ao indivíduo conhecimentos religiosos e culturais provenientes de diferentes vivências. Dessa Forma como parte do Projeto de Pesquisa “O Ensino Religioso na política pública do estado de Minas Gerais a partir do Currículo de Referência de 2018” Financiado pelo Programa de Apoio a Pesquisa (PAPq) da Universidade do Estado de Minas Gerais - (UEMG) este trabalho tem o objetivo de propor uma reflexão a respeito das determinações do currículo de referência para o Ensino Religioso partindo da análise da resolução 437 que institui e orienta a implementação do currículo nas escolas estaduais assim como do parecer 937 que manifesta a respeito da estrutura a ser trabalhada no processo. A inclusão no GT se justifica ao observamos a implicação desses documentos na prática escolar cotidiana o que demanda estudos contínuos em busca de resultados que propiciem melhor desenvolvimento do processo de ensino e aprendizagem, e assim atuar na construção de indivíduos prontos para a transformação social por meio do exercício do pensamento crítico e da autonomia. Palavras-chave: Currículo Referência; Ensino Religioso; Base Nacional Comum Curricular. mailto:josdiego43@yahoo.com.br mailto:mauro.baptista@uemg.br 84 Introdução Desde 2016 temos mantido constantes debates junto ao grupo de pesquisa “Estudos sobre Religiões e Religiosidades” da UEMG-Barbacena a respeito da área de Ensino Religioso (ER), especialmente em seu desenvolvimento no estado de Minas Gerais. Os dois primeiros projetos, desenvolvidos até 2020, visavam trabalhar diretamente com os conteúdos propostos pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC–BRASIL, 2018), que estava em desenvolvimento neste momento e representava grande mudança em relação ao Currículo Básico Comum (CBC) que estava vigente no estado de Minas Gerais até então. Com a ampliação da pandemia e o início do ensino remoto foram produzidos os Planos de Estudos Tutorados (PETs) em 2020 e 2021, objetos de análise em outros projetos da equipe. Uma constatação observada no âmbito da pesquisa com os PETs motivou o desenvolvimento desta nova proposta. Primeiro foram constatadas mudanças entre o texto nacional da BNCC e o texto produzido para o Currículo de Referência de Minas Gerais (CRMG – MINAS GERAIS, 2018). Posteriormente foi observado que nos três planos de curso disponibilizados pelo estado (2020, 2021 e 2022) para a aplicação do CRMG, existem variações consideráveis no momento de trabalho de cada habilidade, o que não permite a criação de um procedimento uniforme e homogéneo ao longo dos anos. O objetivo manifesto nesta etapa da pesquisa é compreender a política pública do estado de Minas Gerais para o componente curricular de Ensino Religioso a partir de uma desconstrução dos documentos produzidos com a criação do CRMG de 2018. Fazem parte desta análise o parecer nº 937 do Conselho Estadual de Educação de Minas Gerais (CEE/MG, 2018), o texto final do CRMG (MINAS GERAIS, 2018), a resolução nº 470 que homologa o CRMG (CEE/MG, 2019) e os planos de curso produzidos pela Secretaria de Estado de Educação de Minas Gerais (SEE/MG, 2020; SEE/MG, 2021; SEE/MG, 2022). 85 1. Desenvolvimento do CRMG Assumimos que o primeiro passo para compreender os princípios de uma política pública para a área de ER no estado de Minas Gerais seria o de revisar como a adaptação da BNCC, prevista comoobrigatória para todos os estados da federação, foi realizada no estado. As modificações constatadas no CRMG serão apresentadas em outras publicações, assim como a análise dos planos de ensino propostos pela SEE/MG. Neste texto iremos nos concentrar nos documentos externos ao CRMG, que indicam a sua recepção no estado de Minas Gerais. O primeiro destes documentos é o parecer 937 (CEE/MG, 2018). Este parecer tem o objetivo de manifestar a respeito do Currículo Referência do Estado de Minas Gerais visando à implementação nas escolas da Educação Infantil e do Ensino Fundamental que compõe o sistema de ensino de Minas Gerais. A elaboração do documento observou as normas estabelecidas pelo Programa Nacional de apoio à implementação da Base Comum Curricular (BNCC) e do Conselho Nacional de Educação. O Objetivo do Currículo Referência é garantir os direitos e objetivos de aprendizagem aos estudantes do sistema de ensino de Minas Gerais Minas Gerais é um estado brasileiro com muitos municípios (oitocentos e cinquenta e três) de um total de cinco mil quinhentos e sessenta municípios em todo o Brasil. Compõe uma Unidade Federativa com grande dimensão territorial e grande diversidade de contextos o que torna a gestão educacional complexa. Cabe destacar a divisão das responsabilidades educacionais sendo que os municípios se responsabilizam com a Educação Infantil e anos iniciais do Ensino Fundamental enquanto a rede estadual anos finais do Ensino Fundamental e Ensino Médio. o Censo Escolar de 2017 apontava 16.151 escolas em todo o território Minas Gerais dessas 3.622 são estaduais e 8.751 municipais. Cabe salientar que com estes números pode-se dizer que a rede pública abarca 86 % das matrículas da educação básica no estado. A maioria das matrículas do estado se concentram na rede pública, o que evidencia o desafio da educação de qualidade. Devem se atribuir os devidos 86 Destaques para documentos normativos como a Base Nacional Comum Curricular (BNCC) que é responsável por compor as habilidades e competências a serem desenvolvidas pelos estudantes da Educação Infantil e do Ensino Fundamental de todo o território nacional. A criação do documento em questão é um desdobramento das determinações da Constituição Federal de 1988 e da Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB) DE 1996 que culminaram com a aprovação do documento em 2017. Desde 2005 o estado conta com o Currículo Básico Comum regulamentado pela resolução nº 666/2005 da SEE- MG que visa orientar o processo de ensino e garante os direitos de aprendizagem dos estudantes em Minas Gerais. O CBC, como proposta curricular busca responder às questões: “O que ensinar? (Quais conteúdos, habilidades e competências). Por que ensinar? (importância da disciplina na vida social e cultural). Quando ensinar? (Faixa etária, ordenamento dos conteúdos e habilidades)”. É importante notar que o CBC não é currículo único a ser seguido por todas as escolas, em Minas Gerais. Ele tem caráter normativo para toda a rede estadual e redes municipais sem sistema próprio. As redes privadas e municipais, com sistema próprio, têm autonomia para elaboração de seus próprios currículos. A construção e elaboração do Currículo Básico Comum se deu por meio de um regime de colaboração dos municípios e de entidades da sociedade civil. Como salientamos, desde 2005, o estado já possuía um currículo base comum, porém esta nova iniciativa vem para atender o previsto pela BNCC no intuito de dar o caráter contemporâneo a diversos conteúdos trabalhados. Para apoiar a implementação da BNCC, o Governo Federal criou o programa PróBNCC que visa dar o apoio técnico e financeiro aos estados. Minas Gerais ingressou no programa em 2018 e pode então contar com o apoio da união previsto nas deliberações do projeto. O processo de implementação do documento foi composto por cinco etapas. A primeira, Etapa de Preparação, consistiu no estudo da versão homologada da BNCC, por parte dos redatores e dos professores das escolas de 87 Minas Gerais. Neste processo destaca-se a realização do Dia D, nas escolas, ao longo do mês de abril, sendo autorizado que as escolas escolhessem a data que fosse mais conveniente, de forma a não ferir seu calendário. A Etapa de Elaboração2 da Versão Preliminar consistiu na redação da primeira versão, pelos Redatores de Currículo, a partir das contribuições recebidas das redes, no dia D, e da análise da equipe de redação. A Etapa de Encontros Municipais e Consulta Pública colocou a versão preliminar sobre crivo dos professores, em todo o estado, onde foi discutida, com profundidade, presencialmente, nos municípios, por professores e outros profissionais da educação, e por meio da Consulta Pública online. Cabe salientar que durante o processo de elaboração do documento não foram aceitas propostas que continham: “1- Elementos que ferem a atual legislação; 2- Que demonstram incompreensão da ideia proposta; 3- Que não eram adequadas ao ano proposto, ou de alteração de ano, definido na BNCC; 4 - Solicitação de exclusão/modificação, sem justificativa ou fundamentação; 5- Sugestões que não tratam do documento (infraestrutura das escolas, formação de professores, etc.)” A Etapa de Elaboração da Versão Final foi realizada com base na análise das contribuições da Consulta Pública e dos Encontros Municipais. A Etapa de Finalização e Distribuição contou com a impressão e envio, em meio físico e digital, do documento, às escolas, durante o ano de 2019. A Base Nacional Comum Curricular e os currículos elaborados a partir dela têm papéis complementares para a garantia do direito à aprendizagem. O Currículo diz respeito à organização escolar. É, no currículo, que se materializa o direito a aprender, uma vez que ele define o que ensinar, o porquê ensinar e o quando ensinar. Ao abordar a Educação Integral e Integrada, o currículo reafirma a centralidade da escola como locus do processo educativo, mas não se limita a ela, propondo a exploração de outros espaços da cidade, tornando- os espaços educativos. Durante o processo de elaboração foi feita a opção pela manutenção de um documento único e pela não separação da Educação Infantil do Ensino 88 Fundamental, considerando que as concepções dos textos introdutórios devem permear a Educação Básica, como um todo, pensando, sempre, na integralidade do sujeito. O currículo do Ensino Fundamental está alinhado às duas principais normativas para a etapa: a BNCC e o Parecer CEB/CNE nº 11/2010. A construção se deu através de uma visão que vê a educação como um processo que ocorre ao longo de toda a vida seguindo assim a visão da BNCC. Cabe destacar que currículo de Minas Gerais tem o intuito de seguir os seguintes caminhos: Construção de um Espaço para a diversidade observando a BNCC e os temas contemporâneos. Para os anos iniciais propõe-se uma articulação com as experiências na Educação Infantil e a valorização das situações lúdicas de aprendizagem. Já nos anos finais, o foco passa a ser a ampliação dos conhecimentos, com desafios de maior complexidade, dando outro significado para as aprendizagens dos anos iniciais, e fortalecimento da autonomia dos adolescentes. Como uma observação cabe destacar que documento manteve a estrutura básica da BNCC, com a separação em: Áreas de Conhecimento e suas competências específicas; Componentes Curriculares e suas competências específicas; e na estrutura dos conteúdos em Campos de Atuação, Eixos e Unidades Temáticas conforme componente curricular. Deste modo seguindo a orientação do Parecer CNE/CP nº 2, de 2017, e da LDB, o Currículo Referência de Minas Gerais possui parte diversificada integrada ao documento, respeitando a diversidade local e adaptativa a cada contexto. Em linhas gerais o parecer 937 (CEE/MG, 2018) indica uma observância direta à BNCC e não faz mençãoespecífica às alterações presentes no componente curricular de ER. Apenas é possível inferir que, uma vez que todas as exclusões/modificações deveriam ser justificadas e fundamentadas para serem aceitas, o que foi suprimido e/ou alterado no texto final do CRMG em relação à BNCC deve ter sido aceito como pertinente pelo CEE. O segundo documento da implementação é a resolução 470 (CEE/MG, 2019), homologando o CRMG. Documento organizado seguindo o viés de 89 educação colaborativa desenvolvida entre estado e municípios obedecendo a documentos como a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB) Constituição Federal de 1988 e a resolução número 2 de dezembro de 2017 do Conselho Nacional da Educação. Tendo como objetivo: garantir aos estudantes do estado de Minas Gerais os direitos e objetivos de aprendizagem visando o desenvolvimento integral. Define o currículo de referência como um documento de caráter normativo, que contém atitudes e valores a serem desenvolvidos em conjunto com todos os estudantes. Que deve respeito às individualidades e as características regionais. Objetivo do documento é superar a fragmentação das políticas educacionais, aplicando-se a toda a educação básica da educação infantil ao ensino fundamental. Está alicerçado nas seguintes competências gerais, previstas na Resolução CNE/CP nº 2/2017: “Valorização dos conhecimentos historicamente construídos; Exercício da curiosidade; Valorização da cultura local; Utilização das diferentes linguagens e manifestações; Compreender e utilizar as tecnologias de modo crítico; Valorizar a diversidade; Argumentação crítica com base em dados; Conhecer a si mesmo; Exercitar a empatia e o diálogo; Agir pessoal e coletivamente com autonomia e protagonismo”. Ensino deve ser pensado progressivamente em cada sujeito observando seu tempo e espaço. A etapa do Ensino Fundamental deve manter articulação com os conhecimentos construídos na Educação Infantil. Anos iniciais devem focar na alfabetização como necessidade para o uso adequado dos conhecimentos nas práticas sociais. Nos anos finais o objetivo é dialogar com estes conhecimentos superando as rupturas que surgem em cada fase da vida. Para o componente curricular de ER se destaca que, conforme prevê a Lei de Diretrizes e Bases da Educação (LDB), a oferta do ER é obrigatória no Ensino Fundamental com matrícula facultativa aos estudantes. E que, observando as competências gerais da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) o ER deve “Proporcionar conhecimentos culturais estéticos e religiosos de manifestações presentes na realidade dos estudantes. Proporcionar conhecimento sobre a 90 liberdade de consciência. Desenvolver o diálogo e o respeito às diferenças. Propiciar aos indivíduos a construção de seus próprios sentidos de vida”. E deve garantir aos educandos o desenvolvimento das seguintes competências específicas: “Conhecer os aspectos estruturantes das diferentes tradições/movimentos religiosos e filosofias de vida. Compreender, valorizar e respeitar as diferentes manifestações culturais, religiosas e filosofias de vida. Reconhecer e cuidar de si, do outro, da coletividade e da natureza. Conviver com a diversidade. Analisar as relações entre os conhecimentos entre os conhecimentos religiosos e culturais. Debater, problematizar e posicionar-se frente aos discursos e práticas de intolerância, discriminação e violência, especialmente de cunho religioso”. Também na homologação do CRMG não é ressaltado nada das modificações em relação à BNCC, apenas reproduzindo o texto dos objetivos e das competências, conforme eles aparecem no CRMG, inclusive com a inclusão do termo “culturais”, na segunda competência quando a BNCC trata da valorização das “manifestações religiosas e filosofias de vida”. Essa é uma das inserções repetidas diversas vezes ao lado do termo religiosa presente solitário na BNCC. 2. Planos de Curso da SEE/MG Se os primeiros documentos analisados não auxiliaram na compreensão de uma política pública do estado de Minas Gerais para a área de ER, a análise do movimento das habilidades a serem trabalhadas em cada ano tende a mostrar, ao menos, uma falta de um maior cuidado com o componente. Os planos de curso foram produzidos nos últimos três anos e, mesmo sem o desenvolvimento de uma descrição de cada habilidade, é possível compreender o efeito desta disposição do conteúdo. Neste momento apresentaremos apenas o comparativo dos planos de curso criados para o sexto ano, ressaltamos que a análise das habilidades e dos demais planos serão desenvolvidas em outras publicações do grupo de pesquisa. Habilidade PC 2020 PC 2021 PC 2022 91 Tabela desenvolvida pelos autores a partir dos planos de curso da SEE/MG. As habilidades são compostas pelas letras EF, indicativas do Ensino Fundamental; os dois números seguintes indicam o ano a que são destinadas, no caso o 06 indica que são do sexto ano; as letras seguintes são indicativas do componente curricular, ER indicando o Ensino Religioso; os últimos números são a posição da habilidade, neste caso do 01 ao 07 são as habilidades originais da BNCC (para cada ano as habilidades da BNCC são reiniciadas para o número 01), do 17 ao 21, habilidades criadas pelo CRMG (no caso das habilidades do CRMG segue-se uma numeração única iniciada no primeiro ano do Fundamental até o nono ano, por isso a primeira do sexto ano é a 17). A última inserção é indicativa da manutenção do texto original da BNCC, se nada for colocado após o número; da sua modificação parcial, se for incluído um X, ou da sua redação totalmente nova, se for incluído um MG. Para o sexto ano é possível observar que, para as 7 habilidades originais da BNCC, 6 foram modificadas e ainda foram acrescidas mais 5 pelo CRMG. O que indica uma grande atenção do CRMG ao componente curricular que foi bastante alterado em sua versão mineira. EF06ER01X 1º 1º 2º EF06ER17MG 3º 3º 3º EF06ER02 4º 3º 3º EF06ER03X 2º 1º 3º EF06ER04X 1º 2º 4º EF06ER18MG 1º 2º 4º EF06ER05X 4º 3º 4º EF06ER06X 3º 4º 1º EF06ER07X 3º 4º 1º EF06ER19MG 4º 4º 2º EF06ER20MG 2º 2º 2º EF06ER21MG 2º 1º 1º 92 Em teoria seria possível indicar que a sequência didática das habilidades deveria seguir a ordem original da BNCC, e mesmo as acrescidas pelo CRMG. Mas podemos ver que, para o ano de 2022, por exemplo, a habilidade 07 da BNCC, última a ser pensada no documento nacional, aparece prevista para o primeiro bimestre letivo, enquanto a 01 vai para o segundo bimestre. Assim como a primeira habilidade acrescida pelo CRMG, a 17, aparece no terceiro bimestre nos três anos, enquanto a última, 21, aparece no segundo de 2020 e no primeiro em 20221 e 2022. Causa estranhamento a falta de conexão entre o documento adaptado pelo estado de Minas Gerais e homologado em 2019 e os planos de curso propostos para os anos seguintes. Não há uma diferença temporal tão grande que justifique as mudanças de ordem na apresentação das habilidades, assim como não se justifica a mudança de ordem das habilidades já criadas pelo próprio estado. Ainda que fosse compreensível a adaptação estadual das habilidades propostas pela BNCC, modificando a sequência nacional em nome de uma política pública estadual, a modificação das próprias habilidades criadas no estado revela uma falta de planejamento desta política pública. Algo que pode ser mais agravado se se observa a fragmentação de um mesmo objeto de conhecimento. Por exemplo, as habilidades 06, 07, 19 e 20, fazem parte do mesmo objeto: “Símbolos, ritos e mitos religiosos”. O objeto de conhecimento é pensado como a parte formal que amarra as habilidades que se desejam desenvolver nos discentes, logo é compreensível que estejam aglutinadas em uma sequência didática própria, manifesta pelo próprio número das habilidades 06 e 07 na BNCC, concluindoa etapa, e 19 e 20 no CRMG, penúltimas, uma vez que é acrescida uma unidade temática não prevista na BNCC para o sexto ano e que é contemplada pela habilidade 21. As habilidades 06 e 07 sempre estão no mesmo bimestre, contudo em 2020 estão no terceiro, 2021 no quarto e 2022 no primeiro, ou seja, não se repete, o que seria esperado, a sua presença no quarto bimestre (apenas em 2021), uma vez que são previstas como a conclusão na BNCC. Já as habilidades 19 e 20, que complementariam o mesmo objeto de conhecimento, nunca estão juntas no 93 mesmo bimestre. A habilidade 19 está no quarto bimestre nos dois primeiros anos, e no segundo no atual, ao menos mantendo a coerência de sempre estar imediatamente após as habilidades 06 e 07 (em 2021 no mesmo bimestre). Já a habilidade é colocada no segundo bimestre nos três anos. O que indica que ela precede a discussão do objeto de conhecimento em 2020, em 2021 está deslocada das outras três habilidades que só serão trabalhadas no quarto bimestre, e em 2022, finalmente se agrupa, mas no início do ano letivo, quando a discussão deveria ser proposta após o desenvolvimento das habilidades anteriores. Esta imprevisibilidade da disposição dos conteúdos não é producente para o corpo docente do componente curricular, nem parece didaticamente justificável, por isso tende a indicar uma falta de direcionamento entre o que foi proposto na adaptação da BNCC pelo CRMG e sua aplicação nos planos de curso dos anos seguintes. Conclusão Por mais que os anos de aplicação do CRMG tenham sido diretamente relacionados com um período crítico do ensino como um todo, sobretudo pelo período de Regime de Atividades Não Presenciais (REANP), 2020 e 2021, e suas consequências ainda não totalmente mensuráveis em 2022, os caminhos da recepção do CRMG e de sua aplicação na área de ER parecem demasiadamente tortuosos para a área. Algumas das adaptações feitas no texto da BNCC são minimamente questionáveis e parecem arrefecer o caráter incisivo do método das Ciências da Religião como uma fonte basilar para o ER, em nome de uma postura mais próxima ao ecumenismo histórico do estado de Minas Gerais. Ainda que os documentos externos ao CRMG não permitam constatar, ou mesmo justificar, as alterações feitas, o simples fato de reproduzirem a inclusão do termo “cultura” como um sócio constante da religião, mantem a indicação de que se deve suavizar o peso de um estudo direto das religiões. 94 Enquanto isso, a análise dos planos de curso pensados como uma aplicação do CRMG, indicam que essa política pública não segue uma mesma diretriz, e mesmo que se descoordena com as indicações internas ao CRMG para uma ordenação das habilidades. O que não nos permite concluir que haja uma política pública precisa para a área, mesmo uma que indicasse a opção pelo método da Antropologia Religiosa em contraposição ao das Ciências da Religião. Aquilo que fica presente no CRMG, não se faz sentir diretamente nos planos. O que fica mais indicado é uma falta de direcionamento, e uma oscilação sobre a qual não conseguimos supor os interesses didáticos. As pesquisas do grupo “Estudos sobre Religião e Religiosidades” tendem a seguir buscando a compreensão desta política pública, ou, ao menos, de sua falta. Referências BRASIL. LDB. Lei nº 9.394, de 20 de Dezembro de 1996. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/Leis/L9394.htm>, acesso em 16 de março de 2017. BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: MEC, 2018. Disponível em: <http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_20dez_site.pdf>. Acesso em: 09 fev. 2018. CEE/MG. Parecer nº 937/2018. Belo Horizonte: CEE/MG, 2018. Disponível em: < Parecer CEE nº 937/2018 sobre o Currículo em MG (sinep-mg.org.br)>, acesso em 13 mar. 2022. CEE/MG. Resolução nº 470/2019. Belo Horizonte: CEE/MG, 2019. Disponível em: < Resolução nº 470 de 27.6.2019 Currículo Referência de MG.pdf (educacao.mg.gov.br)>, acesso em 13 mar. 2022. MINAS GERAIS. Currículo Referência de Minas Gerais. Belo Horizonte: SEE/MG, 2018. Disponível em: <https://drive.google.com/file/d/1ac2_Bg9oDsYet5WhxzMIreNtzy719UMz/view>. Acesso em: 03 abr. 2019. http://legislacao.planalto.gov.br/legisla/legislacao.nsf/Viw_Identificacao/lei%209.394-1996?OpenDocument https://sinep-mg.org.br/posts/parecer-cee-no-937-2018-sobre-o-curriculo-em-mg https://www2.educacao.mg.gov.br/images/documentos/Resolu%C3%A7%C3%A3o%20n%C2%BA%20470%20de%2027.6.2019%20Curr%C3%ADculo%20Refer%C3%AAncia%20de%20MG.pdf https://drive.google.com/file/d/1ac2_Bg9oDsYet5WhxzMIreNtzy719UMz/view 95 INTERCULTURALIDADE E DIÁLOGO INTER-RELIGIOSO: UM ESTUDO DE CASO SOBRE A ATUAÇÃO ÉTICO-ECUMÊNICA DA TEOLOGIA DA LIBERTAÇÃO Flávia Ribeiro Amaro Doutora em ciência da religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora. flavia.ramaro@gmail.com Resumo: Diante da ampliação do escopo de atuação dos fundamentalismos no campo religioso brasileiro, cujas implicações são sentidas em diversas esferas da vida individual e coletiva, e da necessidade de se viabilizar a pauta do pluralismo, refletir sobre possíveis conexões epistêmicas entre a perspectiva intercultural e a proposta ético- ecumênica do diálogo inter-religioso se configura como um desafio de caráter urgente e imprescindível. A reflexão acerca de possíveis interconexões, teórico-práticas, entre a interculturalidade e o diálogo inter-religioso, se apresenta como uma demanda fundamental junto aos esforços de combate à intolerância religiosa, alinhando-se às estratégias decoloniais para a reformulação e/ou construção de alternativas críticas e criativas voltadas ao tratamento do fenômeno religioso. Com o intuito de aprofundar nessa discussão, é apresentado um estudo de caso sobre o movimento teológico, intelectual e político, de caráter ecumênico, conhecido como Teologia da Libertação – encarado aqui, como um dos precursores do paradigma decolonial/ intercultural, em função de associar à reflexão científica, uma práxis engajada nas causas cotidianas e espirituais dos povos oprimidos. Para tanto, foi realizada uma revisão bibliográfica, com destaque para as obras de pesquisadores brasileiros das ciências da religião e latino- americanos vinculados ao grupo de estudos Modernidade/Colonialidade. Palavras-chave: Decolonialidade; Interculturalidade; Diálogo inter-religioso; Teologia da Libertação. Introdução O Brasil tem protagonizado transformações substanciais nos âmbitos cultural, político, econômico, cujas incidências convergem diretamente para o campo religioso e, consequentemente, para o campo epistêmico das ciências da religião, que envolve a análise do fenômeno religioso. Nós, brasileiros e pesquisadores das ciências da religião nos encontramos, simultaneamente, na condição de atores e sujeitos dessa mudança de rumos paradigmáticos, que se acha atualmente em curso, suscitando a abertura para novos arranjos epistemológicos capazes de recobrir mailto:flavia.ramaro@gmail.com 96 as novas realidades que se configuram. Dado que, estamos diante de uma diversidade religiosa sem precedentes na história, ao passo que, enfrentamos o problema do reavivamento e intensificação de fundamentalismos que, cabalmente, tem encontrado terreno fértil para se reinventar e se reproduzir. Em face à pluralidade de alteridades religiosas e de distintos loci de enunciações dispostos no tempo e no espaço, uma adaptação teórico- metodológica faz-se imprescindível, no sentido de incorporação das hodiernas demandas por arranjos epistemológicos capazes de apresentar melhores instrumentais de compreensão da realidade, o que nos direciona a considerar o desenvolvimento da interface entre as ciências da religião e o paradigma decolonial/ intercultural, que dentre suas principais prerrogativas pleiteia uma intervenção prática e transformadora na sociedade. Nesse sentido, éque evidencia-se a proposta do diálogo inter-religioso e sua premissa conciliadora. A proposta do artigo consiste em buscar convergir os pressupostos epistemológicos que se delineiam entre a noção do pluralismo e do diálogo inter-religioso, intermediados pela perspectiva intercultural e decolonial. Pois, acredita-se que assim, aproximar-se-á de uma compreensão do fenômeno religioso pautada pelo princípio da laicidade. Bem como, evidenciar-se-á, também, a necessidade de empreendimento de uma práxis voltada ao apaziguamento das tensões por disputas de influência entre as diferentes tradições religiosas, visando a interrupção do avanço dos fundamentalismos no campo religioso brasileiro. À vista disso, por um lado, têm-se a ótica do ecumenismo confessional e por outro, o do princípio laico, apreendidos como instrumentais libertários aplicados à análise do fenômeno religioso. Tal perspectiva, prevê um espaço de coexistência anti- proselitista, horizontal e pacífico em que pode se expressar o pluralismo. A discussão compreender três etapas. Primeiro, dimensiona-se considerações teórico-metodológicas sobre as noções de diálogo inter-religioso e interculturalidade. Num segundo momento, reflete-se sobre como a junção de ambas as perspectivas podem ser proveitosas para o tratamento do fenômeno religioso apreendido sob uma lógica afinada ao paradigma decolonial. E, por 97 fim, apresenta-se um estudo de caso sobre o movimento intelectual-teológico- político e pastoral, a Teologia da Libertação, e que por sua vez, busca revelar a conveniência do engajamento do cientista da religião diante do problema do fortalecimento dos fundamentalismos no campo religioso brasileiro através do fomento do diálogo inter-religioso e do combate à intolerância. 1. O que é diálogo inter-religioso? Em função do acirramento das disputas por influência no plural campo religioso brasileiro, algumas vertentes religiosas, especialmente, evangélicas- pentecostais tem lançado mão de artifícios espúrios visando a ampliação de seu escopo de atuação na sociedade. Com isso, certas correntes fundamentalistas têm operado um instrumental de violência simbólica, que chega, inclusive, às vias de fato físicas, como estratégia de imposição de suas cosmovisões, através da alienação, desinformação, corrupção e manipulação das consciências de seus fiéis, cujas consequências acabam extrapolando o âmbito da religião e atingem outras esferas das vidas individual e coletiva. Contudo, vale ressaltar que, há e sempre houve denominações e/ou movimentos religiosos que, em contrapartida, são movidos por princípios altruístas, inclusivos, pautados por ideais de paz e de conciliação, que visam emancipar as consciências de seus fiéis das agruras da dominação. A prerrogativa da libertação foi e continua sendo uma virtude esmerada – propulsora do desenvolvimento da reflexão crítica e engajada numa práxis transformadora do status quo, de desigualdade e opressão, o que se alinha à perspectiva decolonial e intercultural, caracterizada por se comprometer com uma via inter-religiosa de interpretação da condição humana. A Teologia da Libertação tem como princípio norteador de sua reflexão e engajamento político-sociocultural o acolhimento da alteridade, sobretudo, dos oprimidos e invisibilizados pelo sistema, como forma de externar não só a tolerância, como o respeito, a valorização e a legitimação de outras formas de interpelação do fenômeno religioso, que não, exclusivamente, às da cristalizada cosmologia cristã colonial impulsionada pelo capitalismo. 98 A discussão proposta perpassa a disposição de empreender um alinhamento epistêmico entre a enunciação do diálogo inter-religioso e a premissa da interculturalidade, tidas aqui como estratégias fundamentais para a elaboração de uma práxis libertadora. A diligência envolve o acionamento das bases conceituais – teológicas, críticas e comprometidas com uma práxis efetiva – levada à cabo pelos intelectuais integrantes da Teologia da Libertação, em associação com os aportes interculturais propostos pelos pesquisadores vinculados ao grupo de estudos Modernidade/ Colonialidade para refletir acerca de estratégias de fomento e aprimoramento do diálogo inter-religioso diante das desigualdades que se evidenciam no campo religioso brasileiro na atualidade e que se demonstram cada vez mais drásticas e ameaçadoras para a harmonia social, notadamente, pelo fato do fortalecimento dos fundamentalismos. O diálogo inter-religioso assume a lógica do pluralismo e empreende uma tentativa de, para além da troca de experiências enriquecedoras sob o ponto de vista cultural, estabelecer um acordo de paz, para que a coexistência das distintas tradições componentes do campo religioso brasileiro possa se transcorrer de forma amistosa. Preza-se, assim, pelo cumprimento dos direitos humanos que regem a autonomia dos indivíduos escolherem qual religião querem seguir, quais arranjos entre diferentes religiões desejam fazer, como tem assegurada a possibilidade de transitar de uma religião à outra ou até mesmo de optar por não apresentar confissão de fé nenhuma. Pressupõe à relativização frente as afirmações de verdade contidas nos discursos religiosos das distintas denominações em interação. Busca-se um consenso, mas não necessariamente no sentido da aceitação irrestrita dos conteúdos da crença que cada uma delas professa, haja visto que, o objetivo não é adentrar nesse âmbito da discussão, pois o diálogo inter-religioso sugere a suspensão, ainda que provisória, da necessidade de se entrar no campo de debate sobre as verdades essenciais. A ideia que se postula tem a ver com colocar em diálogo assuntos que apresentam um notório interesse público, em 99 que a interpretação que cada tradição apresenta possam se complementar ao invés de se confrontarem. 2. O que é interculturalidade? Primeiramente, é importante esclarecer que a discussão que envolve a compreensão da noção de “interculturalidade” para o campo epistemológico das ciências da religião, pressupõe, instantaneamente, a correlação entre as noções de cultura e de religião. Isto é, parte-se inevitavelmente de uma abordagem cultural, que admite a legitimidade e a importância da cultura como construtora e transformadora da realidade objetiva da vida cotidiana e que no caso desta pesquisa é centrada na questão da religião. A religião encarada como cultura leva ao entendimento de que cada tradição religiosa possui suas particularidades, que sintetizam e expressam o ethos de um determinado grupo social. Haja visto que, as religiões fornecem significados e explicações tanto para questões existenciais fundamentais, ligadas à vida e à morte, quanto para as vicissitudes triviais do cotidiano. Inspirados pela perspectiva analítica proposta por Clifford Geertz em seu livro, “Interpretação das culturas”12 (2008), considera-se pertinente aprofundar na busca e compreensão dessas singularidades, tomando-as a partir de situações e contextos preferencialmente localizados. Trata-se da construção de um micro olhar em detrimento de análises mais generalizadas – macroestruturais. Pois, acredita-se que o aprofundamento em uma realidade religiosa específica é capaz de fornecer significados, que por sua vez, podem ser entrelaçados à contextos mais amplos. Cada religião apresenta suas especificidades socioculturais e, nesse sentido, uma abordagem intercultural viria a colocá-las entrecruzadas, permeadas umas nas outras. Pois, considera-se que existem inúmeras possibilidades de arranjos na combinação entre diferentes culturas. E admite-se 12 Geertz coloca que em sua obra, “O objetivo é tirar grandes conclusões a partir de fatos pequenos, mas densamente entrelaçados; apoiar amplas afirmativas sobre o papel da cultura na construção da vida coletiva empenhando-as exatamenteem especificações complexas” (p. 19- 20). 100 que, quando essas culturas envolvem a religião, testemunhamos fenômenos tais como: sincretismos, hibridismos, aculturação. As diferentes religiões formam uma colcha de retalhos, em que cada parte, à despeito de sua peculiaridade, compartilha uma integralidade. Nessa linha de raciocínio, pode-se reconhecer que a dimensão imaterial do sagrado perpassa todas elas, uma vez que, todas as religiões possuem como pano de fundo o mistério. A interculturalidade aplicada ao terreno epistemológico das ciências da religião envolve o reconhecimento dos processos de sincretismo, aculturação, miscigenação, transculturação – fruto do contato entre diferentes culturas que se cruzam no tempo e no espaço e reconhece, portanto, que existem partes aproveitáveis em cada uma delas, que corroboram para um entendimento mais amplo, diverso e complexo do fenômeno religioso. A partir da produção de análises críticas, que apontam para a construção de uma práxis transformadora, aciona-se conhecimentos interculturais por intermédio da aplicação de métodos e teorias transdisciplinares, capazes de levar em consideração um novo locus de investigação e eleger novos ou renovados objetos, tal como a subjetividade da crença religiosa de indivíduos e grupos sociais. A ideia de interculturalidade alinhada à de decolonialidade sugere que algo de proveitoso da influência moderna diante das culturas pré-modernas merece ser considerado. Ou seja, admite-se que o processo de colonialidade não incorpora apenas aspectos negativos em seus princípios e consequências, pois existem partes boas que podem ser aproveitadas. Trata-se da adoção de uma “modernidade seletiva” (BERGER, 2017, p. 58). A interculturalidade prevê o reconhecimento do pluralismo religioso, legitimando a alteridade e a diversidade, seu principal objetivo epistemológico é o alargamento do conhecimento sobre as culturas admitindo sua interação e interconexão intrínsecas. Em que, o ponto de partida é a convergência, o encontro, a mescla de influências enriquecedora. Nesse sentido, o pluralismo religioso é tido como salutar para a vitalidade religiosa, gerando conhecimentos 101 novos que se tornam possíveis, justamente, pela unidade resultante desse encontro. As diferentes denominações religiosas são entendidas como fornecedoras de códigos de estruturação da interpretação do mundo e da sociedade capazes de atuar como sistemas de significação, desencadeando cosmovisões responsáveis por pautar hábitos e costumes na vida cotidiana. Parte-se do pressuposto de que as diferenças culturais no campo religioso demandam uma ação, por parte do cientista da religião, no sentido de viabilizar negociações frente aos conflitos desencadeados pela assimetria de poderes e pontos de vista em jogo. Na esteira da noção de decolonialidade, surge a ideia de “diferença colonial”, proposta por Walter Mignolo (2003). Na concepção do autor, a “diferença colonial” denota um espaço, tanto físico quanto simbólico, de confronto entre as histórias locais e os projetos globais, no qual atua a “colonialidade do poder”, subjugando as alteridades sociopolítico econômico e culturais. Nessa perspectiva, o autor sugere que estamos vivenciando um “colonialismo global”, responsável por perpetuar a diferenciação colonial em escala planetária. Contudo, sua postura é a de crítica e de denúncia ao ocidentalismo e, por extensão, ao capitalismo. Pois, ele acredita que para fazer frente a esses processos arbitrários e excludentes deve-se valer do “pensamento liminar” ou “fronteiriço”, em que se propõe negociações de influências recíprocas através da interação entre o local e o global, entre o Oriente e o Ocidente, entre a cultura hegemônica e as culturas populares. Sua proposição principal envolve o direcionamento do foco analítico às subjetividades subalternizadas, de modo que, a produção cultural e a religiosidade das massas marginalizadas passam não só a serem reconhecidas como valorizadas. Admite- se, assim, novas formas de produção do conhecimento, que não exclusivamente as produzidas e apresentadas pela epistemologia europeia são válidas. Enrique Dussel (2005), advoga em prol da noção de “interculturalidade”, que para ele diz respeito à crítica à subordinação cultural e à proposição de estratégias de enfrentamento das imposições hegemônicas eurocêntricas. 102 Partindo dessa premissa, Catherine Walsh (2005) sugere que se direcione atenção ao protagonismo do hemisfério sul nos processos do que ela chama de “interculturalidade crítica”, propondo, assim, um “giro epistêmico”, capaz de ressignificar as cosmovisões dos povos subalternizados, ainda que reconhecendo a irrevogabilidade da colonialidade. Em outras palavras, admite- se a mútua influência e propõe-se a abertura ao diálogo entre as duas visões de mundo, a europeia e a não europeia. Conforme defende a autora, a interculturalidade é uma contrapartida à hegemonia geopolítica do Norte sobre o Sul, é uma estratégia epistemológica, uma ferramenta metodológica que visa valorizar outras formas de construção do conhecimento. Maldonado-Torres (2007) fala sobre a conformação de um “racismo epistêmico”, resultante da sobrepujança da visão colonizadora europeia sobre as culturas e povos não-europeus, anteriormente colonizados, que por sua vez, nutrem um “fetiche epistêmico” com relação ao colonizador. Isto é, o autor fala sobre a admiração que o colonizador exerceu sobre o colonizado e que se perdura. E argumenta que, frente à essa situação insinua-se a demanda por uma revisão geopolítica do conhecimento. Por isso, Maldonado-Torres (2005) propõe um “giro decolonial”, que passa a considerar e a valorizar a produção do conhecimento que se constrói desde outros contextos geopolíticos, como o latino-americano, por exemplo. Boaventura de Sousa Santos (2018, p. 150), ao identificar os problemas que conduzem à colonialidade epistêmica dos povos não europeus colocou que, A distinção sujeito- objeto, a separação total entre meios e fins, a concepção mecanicista da natureza e da sociedade, o cisma entre fatos e valores e a objetividade concebida como neutralidade, uma ideia de rigor quantitativo euclidiano inimiga da complexidade e insensível à fractalidade dos fenômenos, uma teorização pretensamente universalista, mas na realidade androcêntrica e etnocêntrica- tudo isto conspirou para criar um buraco negro epistemológico à volta dos grandes problemas da vida coletiva e das relações interculturais. No terreno da religião, a interculturalidade assume o sentido do pluralismo e do diálogo inter-religioso, entendidos como o reconhecimento e a valorização da diversidade religiosa. Pois, tal como expôs Santos (2018), “A 103 interculturalidade emancipadora pressupõe o reconhecimento de uma pluralidade de conhecimentos e diferentes concepções de mundo e de dignidade humana” (p. 238-239). A interculturalidade pressupõe uma complexificação das relações, negociações, intercâmbios culturais em múltiplas vias. Seu intuito é estabelecer parâmetros de inter-relações equitativas diante da alteridade e da diversidade. Trata-se de uma interação que parte do conflito inerente às assimetrias culturais, sociais, econômicas, intelectuais, religiosas etc., pautadas pela lógica do poder. (WALSH, 2005) Pesquisadores brasileiros, igualmente, têm se dedicado a abordar a questão da religião e dos estudos da religião a partir de uma perspectiva intercultural. Dentre eles destaco: Franco & Panotto13 (2021) e Borges & Senra (2020). A interculturalidade traz a demanda pela inclusão do olhar de sujeitos concretos e seus respectivos códigos de sentido inscritos em uma trama cultural, que reflete as cosmovisões que constroem acerca da realidade da vida cotidiana. [...] significa também dialogar com aqueles que vieram antes –dialogar com o passado –, significa considerar a ideia de que há outras lógicas para se pensar o mundo. Inclusive aquelas que foram extintas ou subsumidas nas relações de poder. (BORGES; SENRA, 2020, p. 8). Desse modo, destaca-se as contribuições da Teologia da Libertação para a implementação de estratégias comprometidas com o enfrentamento dos problemas que envolvem o campo religioso e a sociedade, conforme será discutido a seguir. 3. Estudo de caso O estudo de caso que aqui se propõe é o da Teologia da Libertação. Este movimento social de caráter crítico, libertário e propositivo de ações práticas 13 Os autores colocam que: “A interculturalidade permite a compreensão da cultura e das relações culturais como construtivamente conflitivas e tensas, reconhecendo espaço para uma negociação cultural a partir do enfrentamento dos conflitos provocados pela assimetria do poder.” (FRANCO; PANOTTO, 2021, p. 39) 104 tem origem cristã, contando com a participação de católicos, protestantes e membros de outras denominações religiosas, responsáveis por apresentarem uma prerrogativa ecumênica em sua organização intelectual-política e pastoral. O objetivo que impulsionou o surgimento do movimento foi, dentre outras questões, a promoção de um diálogo ecumênico envolvendo diferentes tradições religiosas componentes do campo religioso nacional com vistas a confrontar a opressão. A Teologia da Libertação surge na América Latina como contrapartida aos processos de exploração arbitrária do continente, que se apresentavam na esteira do processo de colonização e do capitalismo. Assim dizendo, surge em resposta à opressão exercida pelo “sistema mundo” europeu sobre as minorias marginalizadas e subalternizadas. No passado, a TdL voltava-se àqueles sujeitos sociais considerados “pobres” – povos originários indígenas, criollos, camponeses e proletariado, contudo, atualmente, essa categorização se ampliou, passando a incluir outras minorias, tais como: étnicas, de gênero, geográficas, entre outras, e suas respectivas demandas socioculturais, além de conferir atenção, também, à causa ecológica. Trata-se de uma teologia crítica, comprometida com as causas populares e suas respectivas espiritualidades, capaz de refratar a teologia cristã colonial convencional e se engajar na esfera social a partir da promoção do diálogo inter-religioso e da intervenção prática junto aos povos oprimidos. Conclusão O enfoque intercultural destinado à compreensão do fenômeno religioso permite reconhecer que o multiculturalismo que, veio na esteira da globalização desencadeando pluralismos e fundamentalismos, constrói formas alternativas de conhecimento, que se evidenciam desde espaços fronteiriços, aliando perspectivas modernas, pós-modernas e decoloniais. O termo interculturalidade aplicado pelo campo epistemológico das ciências da religião, mapeia em seus desdobramentos analíticos o entendimento das configurações da religião na atualidade, pressupondo o desenvolvimento 105 de abordagens críticas e criativas, construídas a partir de micro realidades enunciadoras de conhecimentos locais que podem ser contrapostos à conhecimentos macroestruturais. Conclui-se que a interculturalidade surge da cultura, da pluralidade, da interação entre diferentes realidades dispostas no tempo e no espaço, da interconexão entre diferentes formas de construção de conhecimento e que o diálogo inter-religioso se evidencia enquanto uma diligência para o cientista da religião. Referências BERGER, Peter. Os múltiplos altares da modernidade: rumo a um paradigma da religião numa época pluralista. Petrópolis: Vozes, 2017. BORGES, Angela Cristina; SENRA, Flávio. Epistemologias marginais: ciências da religião em perspectiva decolonizadora e intercultural. Reflexão, 45: e204909, 2020. FRANCO, Clarissa; PANOTTO, Nicolás. Decolonização do campo epistemológico da(s) ciência(s) da(s) religião(ões) e teologia(s) pela via contra- hegemônica dos direito humanos. Estudos de religião, v. 35, n. 3, set./dez., 2021. pp. 33-54. GEERTZ, Clifford. A interpretação das culturas. Rio de Janeiro: LTC, 2008. PAGÁN, Luis Rivera. Racionalidade teológica e cultura cristã: uma alternativa latino-americana. In: DUSSEL, Enrique; (et al); PIXLEY, Jorge (Coord.). Por um mundo diferente: Alternativas para o mercado global. Petrópolis: Editora Vozes, 2003. SANTOS, Boaventura de Sousa. Construindo as epistemologias do sul: antologia essencial. Vol. I: Para um pensamento alternativo de alternativas. MENESES, Maria de Paula (et. al.) Ciudad Autónoma de Buenos Aires: CLACSO, 2018. 106 O ENSINO RELIGIOSO DESENVOLVIDO PELO ESTADO DE MINAS NOS PLANOS DE ESTUDOS TUTORADOS DURANTE O ENSINO REMOTO Goretti Marciel Pereira Goulart goretti.0793337@discente.uemg.br Luís Fernando Oliveira do Nascimento luizmiduoliver@gmail.com Resumo: O presente trabalho busca apresentar os resultados alcançados através do projeto de pesquisa: “O Ensino Religioso nos Planos de Estudos Tutorados dos anos finais do Ensino Fundamental”, realizado com apoio do PAPq/UEMG. Os PETs foram apresentados como primeiro material oficial produzido no estado de Minas Gerais durante o Regime Especial de Atividades não Presenciais (REANP). O objetivo foi analisar o conteúdo presente e os silenciamentos dos PETs apresentado pela SEE/MG. Os primeiros resultados permitem considerar que houve uma amenização do teor não confessional da BNCC em nome de uma postura mais guiada pela posição interconfessional, ou ecumênica, historicamente defendida no estado de Minas desde a década de 1970. Esta posição fica também caracterizada quantitativamente pela maior presença de referências ao cristianismo quando comparada a outras tradições. Uma vez que, a BNCC como base para adaptação do currículo de referência dos estados reforça sua vinculação do ensino religioso ao modelo da ciência da religião (BRASIL, 2018, p. 435). Por sua vez, não sendo entendida como uma disciplina centrada em uma religião ou das religiões, mas proporcionam o conhecimento dos elementos básicos que compõem o fenômeno religioso, de acordo com os pressupostos dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) proposto pelo Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso. (FONAPER 2009, p. 5). Por conseguinte, a escola é apresentada como o espaço propício para a formação do cidadão para este tipo de convívio respeitoso com a pluralidade. Como metodologia, a princípio foi desenvolvida a comparação das inclusões e exclusões feitas no texto do CRMG em relação a BNCC. Em seguida foi produzido um levantamento das habilidades da BNCC e do CRMG contempladas e negligenciadas ao longo do ano de 2020. A última etapa do projeto envolveu o desenvolvimento de tabelas com as tradições apresentadas nos PETs e a quantificação de cada aparição para posterior análise dos dados que serão apresentados neste congresso. Palavras-chave: Ensino Religioso; Ciência da Religião; REANP; BNCC; CRMG. Introdução A pesquisa “O Ensino Religioso nos Planos de Estudos Tutorados dos anos finais do Ensino Fundamental”, fomentada pelo PAPq/UEMG em 2021 e 2022, tem o objetivo de analisar o material produzido pelo estado de Minas Gerais para suprir as deficiências do período do Regime de Atividades Não Presenciais (REANP). Embora seja um material produzido em caráter emergencial, os Planos de Estudos Tutorados (PETs), representam o primeiro mailto:goretti.0793337@discente.uemg.br mailto:luizmiduoliver@gmail.com 107 material oficial produzido pelo estado. Além disso é necessário destacar que este material é o primeiro desenvolvido após a homologação da Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e sua adaptação no Currículo de Referência de Minas Gerais (CRMG), o que permite observar as nuances entre a proposta nacional e sua regionalização. Para a apresentação destes resultados faremosinicialmente a apresentação das tabelas produzidas para o sexto ano, como uma forma de exemplificar o trabalho desenvolvido. Na sequência apresentaremos os índices remissivos dos quatro anos. 1. As tabelas por volume do PET Para o desenvolvimento das tabelas relativas à presença das diversas tradições religiosas nos PETs desenvolvidos pela SEE/MG, organizamos a tabela de forma a destacar em cada volume as semanas previstas, as páginas desenvolvidas e o aspecto central desenvolvido nela. Quanto ao aspecto central a intenção é identificar se é trabalhada alguma tradição religiosa ou se há uma apresentação genérica tratando sobre o tema proposto sem a indicação de nenhuma religião específica. O objetivo com este levantamento era observar em que medida os PETs tratavam diretamente do tema das religiões e em que medida ele tendia para um escapamento em direção às questões puramente culturais. Tal análise se fazia necessária uma vez que entre a BNCC e o CRMG uma das principais diferenças observadas era a inclusão no segundo documento de uma relação explícita entre religião e cultura. Quando o documento nacional coloca apenas a temática da religião, o mineiro faz questão de incluir a cultura como um correlato necessário. As primeiras páginas de cada semana dos PETs trazem uma folha de rosto com a indicação da unidade temática, do objeto de conhecimento, da habilidade, dos conteúdos relacionados, e da interdisciplinaridade indicada. Optamos por fazer a indicação de que se trata desta folha de rosto e mencionar a habilidade indicada. Destacamos ainda se as páginas seguintes são referentes ao desenvolvimento de um texto teórico ou de uma atividade, em ambos os 108 casos trataremos como genérico aquilo que não particulariza nenhuma tradição religiosa específica. Caso haja alguma religião especificada, após a sua identificação, marcaremos na sequência se ela é apresentada por meio de imagem e/ou com algum texto explicativo, ou ainda se é apenas uma menção simples, como uma enumeração de exemplos que não são trabalhados individualmente. O primeiro volume dos PETs não trouxe o componente curricular de Ensino Religioso, por isso iniciamos a apresentação pelo segundo volume. PET volume II Sem. Pág. Aspecto central Texto Imagem Menção 1 119 Folha de rosto – habilidade (EF06ER18MG) 120 Texto genérico 121 Atividade genérica Atividade – Matriz Indígena X X Atividade – Matriz Africana X X 122 Atividade genérica 2 123 Folha de rosto – habilidade (EF06ER18MG) 124 Texto – Lista de textos sagrados: Vedas, Tripitaka, Tao Te King, I Ching, Kojiki, Torah, Bíblia e Alcorão. X Budismo X Islamismo X 125 Texto – Judaísmo X X Texto – Cristianismo X X 126 Atividade – Hinduísmo X Atividade – Rastafári X Atividade – Islamismo X 3 127 Folha de rosto – habilidade (EF06ER18MG) 128 Texto – Menção do idioma: Tao Te Ching, Alcorão e Bíblia X 109 129 Atividade genérica 4 130 Folha de rosto – habilidade (EF06ER18MG) 131 Texto – Cristianismo X 132 Atividade – Cristianismo X X 133 Atividade genérica Fonte: Tabela desenvolvida pelos autores a partir do PET vol. II, p. 119-133. Deve-se destacar que este primeiro volume de Ensino Religioso, segundo dos PETs gerais, traz indicações de elementos religiosos em todas as semanas, além de abarcar um significativo número de tradições diferentes. A partir do volume III a folha de rosto também passa a trazer a temática e uma sensibilização. Em alguns casos até um desenvolvimento do tema. Quando necessário faremos a indicação caso alguma religião seja tratada neste espaço. PET volume III Sem. Pág. Aspecto central Texto Imagem Menção 123 Folha de rosto geral com orientações e dicas 1 124 Folha de rosto – habilidade (EF06ER21MG) 125 Atividade genérica 2 126 Folha de rosto – habilidade (EF06ER21MG) 127 Texto e atividade genéricos 128 Atividade genérica 3 129 Folha de rosto – habilidade (EF06ER21MG) 130 Texto – Menção de matriz africana X 131 Atividade genérica 4 132 Folha de rosto – habilidade (EF06ER21MG) 133 Atividade genérica 134 Atividade genérica Fonte: Tabela desenvolvida pelos autores a partir do PET vol. III, p. 123-134. Diferentemente daquilo que foi destacado no volume II, neste volume III se destaca apenas uma menção à religião de matriz africana, o que acaba 110 rompendo com aquela imagem inicial de uma boa diversidade temática, além de também causar também uma quebra na expectativa de que se mantivesse de fato a temática da religião como algo central no Ensino Religioso. PET volume IV Sem. Pág. Aspecto central Texto Imagem Menção 1 120 Folha de rosto – habilidade (EF06ER03X) 121 Texto genérico 122 Texto – Catolicismo X Texto – Crenças populares (raizeiros e benzedeiras) X 123 Texto e atividade genéricos 124 Atividade genérica 125 2 126 Folha de rosto – habilidade (EF06ER03X) 127 Texto e atividade genéricos 128 Atividade genérica 3 129 Folha de rosto – habilidade (EF06ER03X) 130 Texto – Matriz indígena X 131 Texto e atividade – Matriz indígena X 132 Atividade genérica 4 133 Folha de rosto – habilidade (EF06ER03X) 134 Texto – Hinduísmo X X Texto – Cristianismo X X Texto – Islamismo X X 135 Atividade – Menção/Revisão Hinduísmo, Cristianismo e Islamismo X 136 Atividade genérica Fonte: Tabela desenvolvida pelos autores a partir do PET vol. IV, p. 120-136. 111 O quarto volume resgata uma tematização maior das religiões, porém uma das semanas também não tem qualquer menção. Outro aspecto observável é a manutenção de um eixo básico, repetindo algumas mesmas tradições religiosas (Cristianismo, Islamismo e Hinduísmo), apesar de serem algumas das maiores tradições atuais, a diversidade inicial é reduzida sensivelmente. Um aspecto positivo é a presença de um texto sobre as tradições abordadas. É necessário lembrar que este material foi organizado para ser utilizado em REANP, ou seja, não existia a presença de um docente como facilitador do conhecimento. Muitas vezes o tratamento da diversidade apenas a partir de imagens pode cumprir um padrão expositivo do diverso, mas dificilmente consegue sensibilizar de fato os discentes. PET volume V Sem. Pág. Aspecto central Texto Imagem Menção 1 136 Folha de rosto – habilidade (EF06ER20MG) 137 Texto genérico 138 Atividade genérica 139 Atividade genérica 2 140 Folha de rosto – habilidade (EF06ER20MG) 141 Texto genérico 142 Texto e atividade genéricos 143 Atividade genérica 3 144 Folha de rosto – habilidade (EF06ER20MG) 145 Texto – Catolicismo X X 146 Texto – Catolicismo X 147 Atividade genérica 147 Atividade – Catolicismo X 4 148 Folha de rosto – habilidade (EF06ER20MG) 149 Texto genérico – presença de imagens diversas X 112 150 Atividade – Símbolos do Judaísmo, Taoísmo, Hinduísmo, Islamismo, Cristianismo e Xintoísmo. X 151 Atividade genérica Fonte: Tabela desenvolvida pelos autores a partir do PET vol. V, p. 136-151. No quinto volume a redução volta a ser drástica, sendo que apenas o catolicismo é apresentado com um texto explicativo. A maior presença de diversidade é apresentada apenas em uma atividade com símbolos das tradições, mas a referência ao Xintoísmo, por exemplo, não pode ser imaginada como autoexplicativa. Os símbolos poderiam estar relacionados com uma pequena exposição sobre essa diversidade. PET volume VI Sem. Pág. Aspecto central Texto Imagem Menção 1 120 Folha de rosto – habilidade (EF06ER07X) 121 Texto – Matriz indígena X X 122 Texto – Matriz indígena X 123 Texto – Matriz indígena X X 124 Atividade comparativa matriz indígena X 2 125 Folha de rosto – habilidade(EF06ER07X) 126 Texto – Matriz indígena X 127 Atividade – Matriz indígena X 128 Atividade – Matriz indígena X 3 129 Folha de rosto – habilidade (EF06ER03X) Texto – Matriz indígena X 130 Texto – Matriz indígena X X 131 Atividade genérica 4 132 Folha de rosto – habilidade (EF06ER03X) 133 Texto – Matriz indígena X X 134 Texto – Matriz indígena X 113 135 Texto – Matriz indígena X 136 Atividade comparativa matriz indígena X Fonte: Tabela desenvolvida pelos autores a partir do PET vol. VI, p. 120-136. O sexto volume se dedica à matriz indígena, um modelo monopolista ainda não assumido em volumes anteriores. Estratégia que consegue frisar bastante um aspecto, mas que ao mesmo tempo revela o quanto outros ficam sub-representados. Ao indicar que a matriz indígena deveria ser trabalhada durante todo um volume o questionamento sobre o porquê não dedicar um volume à matriz africana surge como impacto necessário. Um melhor equilíbrio entre a diversidade poderia alcançar um efeito mais democratizante. PET volume VII Sem. Pág. Aspecto central Texto Imagem Menção 1 123 Folha de rosto – habilidade (EF06ER17MG) 124 Texto – Islamismo X 125 Texto – Islamismo X 126 Texto e atividade – Islamismo X 2 127 Folha de rosto – habilidade (EF06ER17MG) Texto – Judaísmo X 128 Texto – Judaísmo X Atividade genérica 3 129 Folha de rosto – habilidade (EF06ER17MG) Texto – Hinduísmo X 130 Texto – Hinduísmo X 131 Texto – Hinduísmo X 132 Atividade genérica 4 133 Folha de rosto – habilidade (EF06ER17MG) 134 Texto – Sobre fundamentalismo e menciona: Catolicismo, protestantismo, islamismo e judaísmo. X 114 Texto – Judaísmo e Cristianismo X 135 Atividade genérica Fonte: Tabela desenvolvida pelos autores a partir do PET vol. VII, p. 123-135. O volume sete amadurece e alcança um melhor equilíbrio entre a diversidade das tradições, porém retoma algumas das tradições mais enfatizadas nos outros volumes, o que demonstra uma falta de coesão interna. Essa falta de coesão faz parte de todo o contexto de excepcionalidade em que se estava vivendo quando da composição deste material, mas não se poderia deixar de demarcar tal ponto. Conclusão Feitas as tabelas de cada ano a pesquisa organizou índices remissivos que permitem visualizar os resultados quantitativos de uma forma mais direta e possível de chegar à totalizações mais coerentes. Por exemplo as referências do sexto ano podem ser ordenadas pelo volume e página em que a referência aparece: Indígena: II, 121, 122; IV, 130, 131; VI, 121, 122, 123, 124, 126, 127, 128, 129, 130, 131, 132, 133, 134, 135, 136; VII, 124. Africana: II, 121, 122; III, 130; VII, 124; PA, 40. Lista de textos sagrados: Vedas, Tripitaka, Tao Te King, I Ching, Kojiki, Torah, Bíblia e Alcorão: II, 125 Judaísmo: II, 125, 126, 127; V, 150; VII, 128, 129; VII, 135; PA, 41, 42. Cristianismo: II, 126, 127, 132, 133; IV, 134, 135; V, 150; VII, 135; PA, 41, 42. Hinduísmo: II, 127, IV, 134, 135; V, 150; VII, 130, 131, 132; PA, 42. Rastafari: II, 127 Budismo: II, 127, Islamismo: II, 125, 127, IV, 134, 135; V, 150; VII, 124, 125, 126, 127, 128, 135; PA, 41, 42. Menção do idioma: Tao Te Ching, Alcorão e Bíblia: II, 129 Catolicismo: IV, 122; V, 145, 146, 147; VII, 135; PA, 40, 42. Crenças populares (raizeiros e benzedeiras): IV, 122, Taoísmo: V, 150, Xintoísmo: V, 150, Protestantismo: VII, 135. Pode-se observar que o eixo monoteísta está bastante representado pelas religiões do tronco abraâmico. Também é possível observar que as origens brasileiras estão bem traçadas na matriz indígena, mas nem tanto na africana. O oriente está muito mais apresentado no hinduísmo que nas religiões chinesas e 115 japonesas. Existe também uma grande discrepância entre as referências ao catolicismo e a única referência ao protestantismo. Mais uma vez se compreende que a diversidade foi apresentada, mas que precisa de um melhor tratamento e uma maior equidade. O sétimo ano também recebeu o mesmo tratamento, mesmo que neste texto tenhamos optado por apresentar as tabelas apenas do sexto ano. A intenção foi cumprir a análise dentro do limite de espaço deste texto. Com relação ao sétimo ano algumas diversidades poderão ser observadas nos resultados do índice abaixo. Candomblé: II, 126, 128, 134, 135; III, 132, 133, 137; IV, 118. Catolicismo: II, 128, 131; III, 133,, 134, 135, 136, 137; IV, 119, 121, 124; V, 158, 159, 160; VI, 131; PA, 43, 44, 45. Cristianismo: II, 128; III, 133, 136; IV, 117, 119, 124; V, 151; VII, 135, 143. Budismo: II, 131; III, 137; IV, 118, 124; VI, 131; VII, 137, 138, 143. Hinduísmo: II, 131; IV, 119, 124; VII, 135. Judaísmo: III, 133, 137; IV, 117, 124; VI, 131; VII, 135. Islamismo: III, 133, 136; IV, 117, 124; VII, 135, 143; PA, 44. Matriz Africana: III, 133, 137. Agnosticismo: III, 136. Ifa cubano: III, 137. Espiritismo: IV, 119; VI, 133, 134; VII, 143. Umbandista: VI, 131; VII, 143. Matriz Indígena: VII, 143. Para o sétimo ano é possível observar um aumento significativo na abordagem da matriz africana. Assim como o budismo passa a ser mais bem trabalhado no oriente, apesar do hinduísmo manter sua relevância, diferentemente da diminuição de relevância da matriz indígena. O Espiritismo também passa a ser mais bem abordado, mas o catolicismo se torna também mais presente. De forma geral é possível observar que, se esse material fosse trabalhado como um complemento o sétimo ano teria complementado algumas lacunas do sexto. Mas se deve lembrar que este material foi criado neste ano, logo, aqueles que cursaram o sétimo com este material não tinham passado pela formação com o material do sexto, o que pode revelar um projeto mais de médio prazo, desconsiderando as deficiências à curto prazo. No material proposto para o oitavo ano será possível observar uma tendência em tratar mais as religiões de matriz africana, assim como um 116 aumento de relevância do protestantismo. Filosofias de vida não religiosas também são abordadas, o que pode indicar que determinados temas podem ter sido pensados como mais pertinentes para um grupo mais amadurecido . Tal elemento não está presente nem na BNCC, nem no CRMG. Catolicismo: II, 133; IV, 121, 126, 127, 128, 129; V, 133; VII, 126; PA, 40, 41 Protestantismo: II, 133, 135; IV, 121, 126, 127, 128, 129; V, 139; VI, 125; VII, 126, 138; PA, 41 Budismo: II, 133; III, 136, 139, 140; IV, 122, 123; PA, 40 Islamismo: III, 130; IV, 119; IV, 121, 122, 123, 130; V, 137, 138; VI, 128; VII, 138; PA, 40 Candomblé: III, 136, 139; VII, 138 Hinduísmo: III, 136, 139; IV, 122, 123, 124; VII, 126 Cristianismo: III, 136, 137, 140; IV, 119, 121, 122, 123, 125, 126, 130; V, 132, 137, 138; VI, 128; VII, 138; PA, 40 Judaísmo: III, 136, 140; IV, 119, 121, 122; V, 138, 140 Xintoísmo: IV, 122, 123 Espiritismo: IV, 128; VI, 125; PA, 41 Umbandistas: IV, 128, 131, 132, 133; VII, 138 Candomblecistas: IV, 128, 131, 132; V, 133; VI, 128 Matriz Africana: IV, 130, 131, 132, 134; VI, 130; PA, 40 Indígena: PA, 40 Adventistas: V, 140 Politeísmo: IV, 118; PA, 40 Monoteísmo: IV, 118; PA, 40 Agnosticismo: IV, 118, 119; PA, 39 Humanismo: IV, 118; PA, 40 Panteísmo: IV, 118, 123, 124; VII, 138 Ateísmo: IV,118, 119; V, 133, 138; VII, 39; PA, 40 Deísmo: IV, 118 Enquanto o oitavo ano introduz uma discussão de filosofias de vida, o nono ano irá apresentar algumas tradições que ainda não tinham sido apresentadas aos discentes. Tais como o confucionismo e tradições míticas ancestrais. Neste ano a matriz indígena é resgatada com mais relevância, depois de ter grande representatividade no sexto ano. Confucionismo: II, 144, Judaísmo: II, 144; IV, 127; VI, 121, 122; VII, 123; VII, 123, 124; PA, 45, 48. Budismo: II, 144; VII, 48. Islamismo: II, 144; IV, 127; VI, 121, 122; VII, 123;VII, 123, 124; PA, 45, 48. Espiritismo: IV, 127; VI, 121, 122; PA, 48. Umbandista: IV, 127. Cristianismo: IV, 127; VI, 121, 122, 124; VII, 123; VII, 123, 124, 128, 129; PA, 45, 48. Candomblé: IV, 128; VII, 132, 133. Hinduísta: IV, 128; VII, 123; VII, 123, 125, 126, 127. 117 Egípcia: IV, 128. Indígena: IV, 128, 131, 132; V, 146; VI, 121, 125, 126; VII, 123; PA, 48. Grega: IV, 128; VI, 128, 129. Celta: IV, 128. Panteísta: VII, 123, 124. Africana: VI, 121; VII, 123, 124. (?) Indiana: VII, 123, 124. (?) Ancestralidade: VI, 121 (?) É possível observar que uma grande gama de tradições foi tratada ao longo dos quatro anos da formação dos discentes, mas se deve ressaltar que a divisão não foi totalmente equitativa. Esta ressalva é extremamente importante se se leva em consideração que a aplicação do material não seria de forma continuada. Uma comparação entre o material produzido no primeiro ano dos PETs e aquele que se desenvolveu no segundo poderá indicar se os encaminhamentos foram ajustados. Essa análise será complementada e apresentada em futuros textos do grupo de pesquisa “Estudos sobre religiões e religiosidades” da UEMG-Barbacena. Referências SEE/MG. Plano de estudo tutorado: 6º ano. Vol. II. SEE/MG: Belo Horizonte, 2020. Disponível em: < 6º Ano Ensino Fundamental Regular 04062020.pdf - Google Drive>, acesso em 30 de julho de 2021. SEE/MG. Plano de estudo tutorado: 6º ano. Vol. III. SEE/MG: Belo Horizonte, 2020. Disponível em: <EF2_MEAE_6ano_PF-corrigido-04_08_2020.pdf - Google Drive>, acesso em 30 de julho de 2021. SEE/MG. Plano de estudo tutorado: 6º ano. Vol. IV. SEE/MG: Belo Horizonte, 2020. Disponível em: <EF2_REGULAR_6ano_PF-16.09.2020.pdf - Google Drive>, acesso em 30 de julho de 2021. SEE/MG. Plano de estudo tutorado: 6º ano. Vol. V. SEE/MG: Belo Horizonte, 2020. Disponível em: <EF2_6ano_PF1.pdf - Google Drive>, acesso em 30 de julho de 2021. SEE/MG. Plano de estudo tutorado: 6º ano. Vol. VI. SEE/MG: Belo Horizonte, 2020.Disponível em: <EF2_6ano_V6_PF.pdf - Google Drive>, acesso em 30 de julho de 2021. SEE/MG. Plano de estudo tutorado: 6º ano. Vol. VII. SEE/MG: Belo Horizonte, 2020. Disponível em: <EF_6ano_V7_PF_11-12-2020.pdf - Google Drive>, acesso em 30 de julho de 2021. SEE/MG. Plano de estudo tutorado: 6º ano. Avaliativo. SEE/MG: Belo Horizonte, 2020. Disponível em: < EF2_6ano_V8_PF.pdf - Google Drive>, acesso em 30 de julho de 2021. https://drive.google.com/file/d/1luLSB1ElQddfPvVv8RGWasKmY2gSbrgP/view https://drive.google.com/file/d/1nO1xmRvZlN-l9ZqL2XEjOjZDF6eaLAwo/view https://drive.google.com/file/d/1FMCjHe1Fsp4Gj-GwGvAF4N3ocApr-Mty/view https://drive.google.com/file/d/1njBzcA9CnPhmQzyj0nxGl_xz1UU7McBy/view https://drive.google.com/file/d/1eL-rD9lbcn6_FilvU6G2tZF2cJf-OalR/view https://drive.google.com/file/d/1cF0SW5oiDHR_QMfVuo5Ckvn_-qFFtX56/view https://drive.google.com/file/d/1phagpdmlY4k60SZn6K3oR9sLzIQ0Wbe9/view 118 AS CIÊNCIAS DAS RELIGIÕES, O ENSINO RELIGIOSO E SUA RELAÇÃO COM A CIDADANIA PARA A EDUCAÇÃO ATUAL Norma Maria Duran Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Teologia da Faculdade Teológica Sul Americana normaduran710@yahoo.com.br Resumo: Este estudo tem-se por objetivos analisar o Ensino Religioso e defender o papel das Ciências das Religiões nesse processo. Para tanto, realizou-se uma pesquisa bibliográfica, fundamentada na preocupação dos educadores com a formação do cidadão mediante o Ensino Religioso (ER) nas escolas instituídas pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC). O Estado e as instituições religiosas, mesmo sob tensões históricas, caminham unidos na tentativa de estabelecer tanto o poder educacional quanto a proteção às crianças e aos adolescentes. Isto por meio de algumas entidades que assistem os menores desamparados e de escolas que primam pela qualidade de ensino. Nesse cenário, as Ciências das Religiões poderão, pelas vias das pesquisas científicas, isto é, pelo princípio da cientificidade, observar, experimentar, buscar os indicadores de negligências tanto do Estado quanto da sociedade, apontando soluções viáveis ao desenvolvimento da educação, das instituições religiosas e do ensino religioso. O estudo revelou um ensino religioso interdisciplinar e transdisciplinar, que se apresenta como uma disciplina que colabora com outras ciências, o que justifica a necessidade de compreender o ensino religioso por meio de construções teórico- filosóficos/sociológicos das religiões. Ante o ensino religioso atual, as Ciências das Religiões podem contribuir de forma neutra e sem comparar as religiões entre si. Palavras-chave: Ciências da Religião; Educação; Ensino Religioso; BNCC; Estado. Introdução As noções de cidadania variam muito de acordo com a cultura, entretanto, esta base legal representa o respeito aos direitos inalienáveis do indivíduo no meio social. No Brasil, um país diversificado culturalmente, economicamente, socialmente e religiosamente, torna-se complexo estabelecer parâmetros para se entender plenamente a cidadania. O Direito, por meio da Constituição Federal, determina os direitos e garantias individuais, fatores preponderantes à formação da cidadania brasileira (BRASILEIRO, 2010). Atualmente, há uma preocupação com a cidadania religiosa, ou seja, a compreensão dos direitos e deveres sociais no exercício de uma religião, o respeito às diversas crenças e a liberdade de expressão, mas nem sempre foi assim. A problemática relativa aos diversos tipos de ensino religioso não existia quando no Brasil havia uma religião oficial. A cidadania religiosa nesse cenário mailto:normaduran710@yahoo.com.br 119 e, também, em outros sentidos estava mais relacionada ao vínculo com uma religião (BRASILEIRO, 2010). Uma vez que, a escola, envolvendo educadores e educandos, não tem sido ouvida quanto à elaboração de grades curriculares adequadas à realidade dos alunos, mesmo sendo ela portadora da maior responsabilidade pela democratização do conhecimento, tomando ainda como referência as transformações sociais, políticas e econômicas, o currículo escolar próximo a essas transformações, pelo menos em teoria, possibilitará aos alunos a conquista da capacidade de pensar e de ter segurança para tomar decisões (BRASILEIRO, 2010). Destaca-se ainda que por meio dessas reflexões, poder-se-ia ainda afirmar que, nas últimas décadas, houve evoluções significativas no que tange às conquistas para a cidadania. O Estado, as instituições religiosas, educacionais e os meios de comunicação representam elementos básicos de construção de cidadania para a criança e o adolescente. Essas quatro instâncias, ao fiscalizarem uns aos outros, tentam coibir os abusos, estabelecendo direitos e deveres por meio das informações sistematizadas, dificultando a manipulação das massas (BRASILEIRO, 2010). Diante disso, nas condições hodiernas, estabelecidas legalmente pelo Ministério da Educação (MEC), instituídas através da Base Nacional Comum Curricular (BNCC), (BRASIL, 2018a) e as Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso de licenciatura em Ciências da Religião (DCNLCR), (BRASIL, 2018b), é que está orientado o presente estudo. Ou seja, o seu significado em nível da Educação Básica brasileira, na etapa do Ensino Fundamental, é relativo ao entendimento do (atualmente ainda denominado) componente curricular de Ensino Religioso com sua fundamentação epistemológica suportada pelas Ciência (s) da (s) Religião (ões) (CRs). Com um recorte sobre as práticas pedagógicodidáticas14 dos conhecimentos do ER no âmbito escolar. 14 Ressalta-se que essa opção segue o entendimento admitido de preservar o uso do termo “pedagógico-didáticas” preferencialmente em relação a expressão mais habitual, ou seja, o termo didático-pedagógicas, por reconhecesse que a Pedagogia incorpora o pensar a respeito da educação proposta e a Didática engloba a educação que se faz. Consequentemente,nesse sentido, o reflexionar (considerando-se o cerne do duvidar), que integra o planejar, vem muito 120 Em outras palavras, o ensino religioso voltado para as Ciências das Religiões também visa conhecer os saberes acumulados pelas religiões ao longo da História da Humanidade, envolvendo o passado, o momento presente, as perspectivas e projeções para o futuro, ou seja, toda a sua trajetória histórica, com características de natureza evolutiva ou estacionária. Isto por meio da convivência com as diferenças, com as informações veiculadas por todos os meios de comunicação (BRASILEIRO, 2010). O Brasil um país laico, ou seja, não possui religião oficial, no entanto, é um país multicultural. Sendo assim, devemos perceber a educação como um processo que respeite essa multiculturalidade e a laicidade de maneira dialógica a fim de que favorecer o relacionamento pacífico e respeitoso entre os atores sociais das mais diversas culturas. A escola e a universidade, por sua vez, devem ser, espaços capazes de desenvolver esse diálogo, o que não é uma tarefa fácil. Dada a abrangência e a complexidade do tema, desta forma, considerando o termo amplo do que consiste a educação, este estudo tem-se por objetivos analisar o Ensino Religioso e defender o papel das Ciências das Religiões nesse processo, fazendo com que a presente pesquisa sirva de instigação a novas, no intuito de aprofundá-la e trazer reflexões acerca de sua importância. Para tanto, realizou-se uma pesquisa bibliográfica, fundamentada na preocupação dos educadores com a formação do cidadão mediante o Ensino Religioso (ER) nas escolas instituídas pela Base Nacional Comum Curricular (BNCC). O Estado e as instituições religiosas, mesmo sob tensões históricas, caminham unidos na tentativa de estabelecer tanto o poder educacional quanto a proteção às crianças e aos adolescentes. antes, ainda que perpasse todo o fazer. Sem perder de vista, o entendimento de que nas práxis, a complexidade de suas interligações, resulta em uma complementação recíproca. Que ‘naturalmente’, sofre ressignificações e reapropriações por parte de cada professor, frente aos desafios da mediação no processo de aprendizagem-do-ensino-aprendizagem-da-docência. 121 1. Histórico do componente curricular de ER no Brasil até a atual perspectiva pedagógico-didática da BNCC Ao relacionar-se o funcionamento didático do conteúdo do ER a partir da BNCC, considerando-se esse dispositivo (o entendimento da utilização do significado prático da teoria da Transposição Didática) utilizado no movimento de transformação dos saberes das Ciências das Religiões, é essencial levar-se em conta o contexto histórico do ER no Brasil. Posto isso, até chegar-se à estruturação relativa aos conteúdos, conceitos e ordenamento de cada elemento que compõe os três conjuntos que constituem cada unidade temática da estruturação do componente curricular de ER, conforme a BNCC especificamente apresenta. Essencialmente, devido ela constituir-se como o conjunto orgânico e progressivo de aprendizagens essenciais que todos os alunos devem desenvolver ao longo do Ensino Fundamental (BRASIL, 2018a, p. 7, grifo do autor). Visto que, conforme também se verifica, entre esses professores existe a ciência relativa ao fato de que por essa denominação integrar o artigo 210, da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, (BRASIL, 2019a), é que até então não foi pelo MEC tratada, uma vez que se priorizou examinar, constatar e instituir a presente conjuntura por meio da BNCC. Dessarte, mediante a veracidade, infere-se, que desde a década de 1970 quando essas práticas pedagógico-didáticas começaram a ser empreendidas e aprimoradas, até chegar-se na forma atual deste componente curricular para serem ministradas essas aulas de Ciência (s) da(s) Religião(ões) e a formação inicial para o seu docente encontrar-se instituída DCNLCR é que se ressalta o âmago do dispositivo estudado. Como na relação entre esses elementos estruturantes da organização didática da aula e o conteúdo do ER, o professor, ao decidir sobre quais os conteúdos serão apresentadas na orientação do processo ensino- aprendizagem, baseia-se nos critérios de: “validade, utilidade, significação, adequação ao nível de desenvolvimento do aluno e flexibilidade” (HAYDT, 2011, p. 96-97), verifica-se que o êxito nesse exercício constante encontra no conteúdo, na maneira como em sua docência o mestre viabiliza os acessos aos saberes, a fonte que alimenta todo o processo de ensino-aprendizagem. 122 2. A contribuição das Ciências das Religiões à educação para a cidadania A literatura constata que o ensino religioso se constitui como um conteúdo interdisciplinar e transdisciplinar, se apresentando como uma disciplina que colabora com outras ciências, o que justifica a necessidade de compreender o ensino religioso por meio de construções teórico- filosóficos/sociológicos das religiões. Segundo os PCN (BRASIL, 2002): A interdisciplinaridade supõe um eixo integrador, que pode ser o objeto de conhecimento, um projeto de investigação, um plano de intervenção. Nesse sentido, ela deve partir da necessidade sentida pelas escolas, professores e alunos de explicar, compreender, intervir, mudar, prever, algo que desafia uma disciplina isolada e atrai a atenção de mais de um olhar, talvez vários (BRASIL, 2002, p. 88). Quanto à transdisciplinaridade, segundo Japiassú (1976, p. 9) representa uma integração disciplinar além da interdisciplinaridade, “trata-se de uma espécie de coordenação de todas as disciplinas e interdisciplinas do sistema de ensino inovado, sobre a base de uma axiomática geral”. Neste panorama, as Ciências das Religiões, por meio da interdisciplinaridade e da transdisciplinaridade, valorizam as ciências humanas, sociais, biológicas, exatas, artes, dentre outras, com os propósitos de fortalecer a educação e o processo democrático de consolidação da cidadania (BRASILEIRO, 2010). A problemática relacionada à cidadania permeia a história política e religiosa do Brasil. A educação é tanto um direito quanto um dever da família, mas sofre as influências do Estado. O Estado pretende que o ensino religioso seja sem proselitismos. No entanto, o ensino religioso sofre as influências das instâncias religiosas que preferem um ensino confessional. Por tais razões, garantir um ensino religioso que conduza à cidadania, não é tarefa simples porque as resistências vêm tanto do poder religioso quanto do poder público. O ensino religioso esbarra em quatro cantos: a família, o Estado, a religião e a ciência (BRASILEIRO, 2010, p. 130). Brasileiro menciona que: O ensino religioso é, portanto, um elemento indispensável para a educação integral do cidadão e para a obra de edificar uma sociedade 123 justa e solidária e, portanto, se destina a auxiliar na construção da cidadania. Entende-se, portanto, que o ensino religioso se relaciona com a cidadania a partir do instante em que se busca garantir direitos básicos de educação e de formação da pessoa humana, enquanto ser que vive em família, sociedade e em seu meio religioso (BRASILEIRO, 2010, p. 66-67). Nas visões de Werner (2002) e de Ruedell (2005), o ensino religioso que conduz à cidadania coincide com a manutenção de um ambiente saudável, que possibilita a educação integral, a qual formará uma sociedade mais justa e solidária. Os estudos também demonstram que o entendimento das concepções de cidadania implica em reconhecer que ela está em permanente processo de construção, pois se trata de um conceito histórico, sempre ligado à vida das sociedades. Neste sentido, nova cultura se cria a partir do entendimento de que todo e qualquer indivíduo é portador de direitos e deveres, e que estes devem tornar-se algo a ser buscado e conquistado de forma coletiva e nãointerpretado como uma mera concessão. Porque o exercício da cidadania consiste em ser cidadão no gozo dos próprios direitos e deveres. Machado (2006) assim se expressa: A cidadania apresenta-se como pressuposto para reconhecer e respeitar a dignidade humana, que se apresenta imersa em uma trama de significados que homologam o diálogo multicultural e plurirreligioso em uma perspectiva de um ensino religioso que transcenda as quimeras dos costumes e tradições cristalizados ao longo do tempo. A formação do professor supõe a mobilização de práticas pedagógicas solidárias, democráticas e reflexivas a respeito da realidade social, capazes de gerar inovação completando a diversidade presente no contexto brasileiro, entre elas, a diversidade religiosa. Criando uma nova cultura a partir do entendimento de que todo e qualquer indivíduo é portador de direitos e deveres, e que estes devem tornarse algo a ser buscado e conquistado de forma coletiva e não interpretado como uma mera concessão, pois, o exercício da cidadania é ser cidadão no gozo de seus direitos e deveres, sendo capaz de interferir na ordem social em que vive, constituindo-se em uma luta pela inclusão (MACHADO, 2006, p. 7). Em síntese as Ciências das Religiões podem constituir um instrumento importante para intermediar todo o conhecimento religioso, sempre adquirido de forma democrática. Esse tipo de ensino religioso possibilitará o desenvolvimento da autonomia e da segurança dos estudantes, principalmente 124 no que tange à influência, por vezes negativa, de certas informações veiculadas pela mídia. Isto possibilitará a consciência e a concretização de direitos e deveres, base da cidadania (BRASILEIRO, 2010). 3. O ensino religioso nas escolas brasileiras Para o Fórum Nacional Permanente de Ensino Religioso (FONAPER), a finalidade do ensino religioso é proporcionar um conhecimento acumulado, partindo da cultura, e aproximar as pessoas do fenômeno religioso, uma vez que tem uma visão fenomenológica e antropológica do ser humano e da religião. Já do ponto de vista das Ciências da Religião, no ensino religioso o conhecimento seria oriundo das reflexões acadêmicas da Filosofia, da Sociologia e das demais ciências que dão suporte à interface ciência- religião. Enfim, falta um estudo multidisciplinar da religião, que valorize as diversas faces que envolvem o ensino religioso: sua evolução histórica e legal, a formação curricular, docente e as diversas experiências vivenciadas por professores e alunos (BRASILEIRO, 2010, p. 19). Quanto ao aspecto jurídico a Constituição brasileira de 1988 diz no artigo 210, parágrafo primeiro: “O Ensino Religioso, de matrícula facultativa, constituirá disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental” (BRASIL, 1988). Desse modo, o termo “facultativo” foi o diferencial histórico da legislação, ou seja, deixou de ser obrigatório para o aluno (BRASILEIRO, 2010). Entretanto, somente em 1997, no entanto, a Lei federal 9.475, no seu artigo 33, parágrafos primeiro e segundo, passou a regular o ensino religioso, expressando nos seguintes termos: Art. 33. O ensino religioso, de matrícula facultativa, é parte integrante da formação básica do cidadão e constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, assegurado o respeito à diversidade cultural religiosa do Brasil, vedadas quaisquer formas de proselitismo. § 1º Os sistemas de ensino regulamentarão os procedimentos para a definição dos conteúdos do ensino religioso e estabelecerão as normas para a habilitação e admissão dos professores. § 2º Os sistemas de ensino ouvirão entidade civil, constituída pelas diferentes denominações religiosas, para a definição dos conteúdos do ensino religioso (BRASIL, 1997). 125 Então, o ensino religioso manteve-se, portanto, como um dever do Estado e uma opção para os alunos, por ser facultativo, mas a sua prática ainda é bastante diversificada. Isto porque a Lei, conforme já foi dito, deixa aberto aos sistemas de ensino tanto a regulamentação dos conteúdos quanto a forma de se admitir aos professores (BRASILEIRO, 2010). A Constituição Federal, em seu art. 210, § 1º, preconiza: O ensino religioso, de matrícula facultativa, parte integrante da formação básica do cidadão, constitui disciplina de oferta obrigatória, nos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental e médio, inclusive de educação de jovens e adultos, assegurado o respeito à diversidade religiosa e cultural do Brasil e a todas as crenças individuais (BRASIL, 1988, p. 124). A lei nº 9.394/96 de Diretrizes e Bases da Educação Nacional (LDB), em sua versão original, diz no art. 33: O ensino religioso, de matrícula facultativa, constitui disciplina dos horários normais das escolas públicas de ensino fundamental, sendo oferecido, sem ônus para os cofres públicos, de acordo com as preferências manifestadas pelos alunos ou por seus responsáveis, em caráter: I – confessional, de acordo com a opção religiosa do aluno ou do seu responsável, ministrado por professores ou orientadores religiosos preparados e credenciados pelas respectivas igrejas ou entidades religiosas; ou II – interconfessional, resultante de acordo entre as diversas entidades religiosas, que se responsabilizarão pela elaboração do respectivo programa (BRASIL, 1996, p. 24). Em 2010, o governo decide aprovar a Resolução nº 4 que define as Diretrizes Curriculares Nacionais Gerais para a Educação Básica, relatada no capítulo II, artigo 14 que apresenta as disciplinas da Educação Básica e dentre elas cita o Ensino Religioso como parte integrante da base nacional comum e como área do conhecimento de acordo com o parágrafo 2º (CARDOSO, 2017). Sendo assim, conforme explica o Currículo Básico Comum (ESPÍRITO SANTO, 2009), a escola, ao introduzir o Ensino Religioso na sua matriz curricular, busca refletir e integrar o fenômeno religioso como um saber fundamental para a formação integral do ser humano. O grande desafio, porém, é efetivar uma prática de ensino voltada para a superação do preconceito religioso e alicerçada no respeito à diversidade cultural e religiosa. Portanto, o Ensino Religioso deve oferecer subsídios para que os estudantes entendam como os grupos sociais se constituem culturalmente e como se 126 relacionam com o sagrado. Essa abordagem possibilita estabelecer relações entre as culturas e os espaços por ela produzidos (CARDOSO, 2017). As Ciências das Religiões são, portanto, uma alternativa eficaz para o currículo de ensino religioso ser contextualizado com a realidade social e da escola. Isto por contribuir para a elaboração de um currículo mais abrangente, interdisciplinar, transdisciplinar e porque valoriza todas as ciências, revelando e realçando cada vez mais o ordenamento jurídico estabelecido na Constituição Federal brasileira (BRASILEIRO, 2010). Considerações finais A presente pesquisa nos permitiu perceber que a utilização adequada da transposição didática pelo docente de ER como um dispositivo, favorece o professor e promove o desembaraço da linguagem científica para o estudante do nível da educação básica. Efetivamente, contribui para o desenvolver a constituição dos saberes do ER (seus conteúdos), a partir da (s) Ciência (s) da (s) Religião (ões), para o aprendente desse componente curricular fundamentar os seus conhecimentos. Proporcionando assim a cada educando, através da educação escolar e do “saber ensinado” pelo ER, um suporte mais adequado para analisar as relações que perpassam a religião e a religiosidade, com base nos aspectos histórico-sócio-político-econômicos do conhecimento religioso no exercício de sua cidadania. Portanto, a educação, enquanto pública e laica, não necessita ser antirreligiosa ou anticristã, como também o respeito à minoria ou à maioria nãodeve significar a deterioração do outro, assim com disposto na lei, a escola, neste sentido, deve garantir a liberdade de expressão e de escolha de cada indivíduo, sem que isso signifique uma ofensa à pessoa humana, onde discordar não signifique desrespeitar. Ante o ensino religioso atual, as Ciências das Religiões podem contribuir de forma neutra e sem comparar as religiões entre si. 127 Referências BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Ministério da Educação. Brasília: Ministério da Educação - MEC/Secretaria de Educação Básica, 2018a. Disponível em: http://basenacionalcomum.mec.gov.br/images/BNCC_EI_EF_110518_ versaofinal_site.pdf. Acesso em: 02 set. 2022. BRASIL. Resolução nº 5 de 28 de dezembro de 2018. Institui as Diretrizes Curriculares Nacionais para o curso de licenciatura em Ciência(s) da(s) Religiã(ões) e dá outras providências. Ministério da Educação. Brasília-DF: MEC/Conselho Nacional de Educação/Conselho Pleno. 2018b. Disponível em: http://portal.mec.gov.br/docman/janeiro-2019-pdf/105531-rcp005-18/file. Acesso em: 03 set. 2022. BRASIL. Constituição (1988). Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília: Supremo Tribunal Federal, Secretaria de Documentação, 2019a. Disponível em: https://www. stf.jus.br/arquivo/cms/legislacaoConstituicao/anexo/CF.pdf. Acesso em: 05 set. 2022. BRASIL. Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as Diretrizes e Bases da Educação Nacional. Edição do Senado Federal. Brasília: Senado Federal, Coordenação de Edições Técnicas, 2019b. Disponível em: https://www2.senado.leg.br/bdsf/bitstream/handle/id/559748/lei_de_diretrize s_e_bases_3 ed. pdf?sequence=1&isAllowed=y. Acesso em: 10 set. 2022. BRASIL. Ministério da Educação (1997). Lei nº 9.475/97 da nova redação ao artigo 33 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, que estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Brasília: Diário Oficial da União, 23 de julho de 1997, seção I. BRASIL. Parâmetros Curriculares Nacionais: ensino médio. Brasília: MEC/SEB, 2002. BRASILEIRO, Marislei de Sousa Espíndula. Ensino religioso na escola: o papel das Ciências das Religiões. 2010. 231 f. Tese (Doutorado em Ciências da Religião) – Pontifícia Universidade Católica de Goiás, Goiânia, 2010. CARDOSO, Marcos Antonio. Breve Trajetória do Ensino Religioso no Brasil. UNITAS-Revista Eletrônica de Teologia e Ciências das Religiões, v. 5, n. 2, p. 957- 976, 2017. ESPÍRITO SANTO. Secretaria da Educação. Ensino fundamental: anos iniciais. Currículo Básico da Escola Estadual. Secretaria da Educação. – Vitória: SEDU, 2009. FONAPER – Fórum Nacional Permanente do Ensino Religioso. Parâmetros curriculares nacionais: ensino religioso. 4. ed. São Paulo: Ave-Maria, 2001. HAYDT, Regina Célia Cazaux. Curso de didática geral. São Paulo: Ática, 2011. 128 JAPIASSÚ, Hilton. Interdisciplinaridade e patologia do saber. Rio de Janeiro: Imago, 1976. MACHADO, Léo Marcelo Plantes. A cidadania na formação de professores para o Ensino Religioso. 2006. 129 f. Dissertação (Mestrado em Educação) - Pontifícia Universidade Católica do Paraná, Curitiba, 2006. RUEDELL, Pedro. Ensino Religioso no Estado do Rio Grande do Sul e a legislação. 1999. Dissertação (Mestrado em Educação) - Universidade do Vale do Rio dos Sinos, São Leopoldo, 1999. WERNER, Iolanda Stela Smaiotto. Construindo cidadania. Monografia (Especialização em Metodologia do Ensino Religioso) - Escola Superior de Teologia, São Leopoldo, 2002. 129 GT 7 - FILOSOFIA DA RELIGIÃO Doutoranda Rubia Campos Guimarães Cruz (UFJF) Doutorando Danilo Mendes (UFJF) Ementa: Desde os primeiros passos do que denominamos hoje como filosofia, a religião com ela se relaciona de diferentes modos. As interpretações sobre essa relação são tão vastas em multiplicidade quanto a relação mesma. O protótipo fundamental da lógica filosófica, por exemplo, que se instaura a partir do fragmento de Parmênides que diz que “o ser é, e que o não ser não é”, surge em um momento no qual o filósofo dialoga com uma deusa não identificada. Longe de mera abstração proveniente de um momento de ócio, como uma imagem vulgar da figura de um filósofo poderia sugerir, a pedra fundamental sobre a qual se constitui uma importante virada a favor da constituição racionalista da filosofia se dá a partir da sabedoria de uma deusa. Essa relação inicial, apesar de não apontar um destino teleológico a ser seguido, indica que a questão religiosa está posta desde as origens da filosofia ocidental. Por isso, fazer filosofia da religião é tarefa primordial tanto para quem se aventura a pensar filosofia, quanto para quem se debruça sobre a religião. A partir disso, o GT “Filosofia da Religião” no CONACIR propõe promover, a reunião de diferentes pesquisadores para discutir reflexões, de cunho filosófico, relativos aos modos de percepção e apreensão do fenômeno religioso. Em vista desse propósito, apresenta-se três eixos temáticos, sendo: 1) a relação entre fé e razão; 2) conceitos filosóficos ligados a contemporaneidade; 3) o pensamento filosófico-religioso de distintos/as pensadores/as historicamente relevantes. O GT se caracteriza, de modo geral, pela investigação filosófica do fenômeno religioso em suas múltiplas possibilidades de abordagem e compreensão, a saber: fenomenológica, hermenêutica, teológica ou comparativa. Serão aceitos trabalhos de estudantes de pós-graduação (mestrado e doutorado) das áreas de Ciência da Religião, Filosofia e Teologia para comunicação oral e trabalhos de estudantes de graduação das mesmas áreas para apresentação de banner científico, dispostos a pensar filosoficamente as representações do fenômeno religioso. Palavras-chave: Religião; Fenômeno Religioso; Filosofia da Religião. 130 CIÊNCIA E RELIGIÃO: UM DIÁLOGO A PARTIR DA OBRA DE TEILHARD DE CHARDIN E PIETRO UBALDI Alexsandro Melo Medeiros Doutor em Sociedade e Cultura da Amazônia pela Universidade Federal do Amazonas Mestre em Filosofia pela Universidade Federal de Pernambuco Professor Adjunto da Universidade Federal do Amazonas alexsandromedeiros@ufam.edu.br Resumo: Além de padre jesuíta, Pierre Teilhard de Chardin era também paleontólogo. Por isso, procurou, ao longo de toda sua vida, conciliar os princípios científicos com os dogmas religiosas, sobretudo da religiosidade cristã. Analisando a obra do padre jesuíta, o filósofo espiritualista e cristão, Pietro Ubaldi, considera alguns pontos de semelhança entre as suas ideias e as de Teilhard, dentre as quais podemos destacar, exatamente, a possibilidade de conciliar o conhecimento científico com o conhecimento religioso. Assim, nosso objetivo com este trabalho será o de analisar essa síntese entre ciência e religião, a partir da obra destes dois pensadores, e como suas ideias se aproximam exatamente considerando esta possibilidade. O ponto de convergência entre as suas ideias se dá a partir da visão evolucionista que nós encontramos tanto na obra O Fenômeno Humano (de Teilhard) quanto na obra A Grande Síntese (de Ubaldi). Para o padre jesuíta, o estágio evolutivo atual que culminou na consciência (noogênese) foi precedido por um longo processo de expansão da vida (biogênese) que por sua vez foi precedido por um processo ainda mais longo de organização da matéria inanimada (cosmogênese). Todo esse processo tem uma finalidade: atingir o ponto ômega, que é Deus. É o mesmo telefinalismo que encontramos na obra do filósofo italiano Pietro Ubaldi: o espírito, criado por Deus, através de um longo e lento processo de maturação evolutiva, retorna ao Criador. É assim que ciência e religião apontam para uma mesma direção. Não são dois tipos de conhecimentos antagônicos, mas que revelam algo da própria essência da vida: a de que a vida é evolução e de que essa evolução temum propósito espiritual de natureza divina. Com esta comunicação pretende-se contribuir para um profícuo debate entre ciência e religião, tão necessário na atualidade. Como metodologia utilizamos a pesquisa bibliográfica. Palavras-chave: Ciência; Religião; Espiritualidade; Deus. Introdução Pierre Teilhard de Chardin, além de padre jesuíta, foi também um paleontólogo e a sua principal obra, O Fenômeno Humano, é o resultado de sua visão evolucionista e espiritualista. Já o filósofo italiano, Pietro Ubaldi, procurou realizar uma síntese da fenomenologia do universo que passa pelo campo científico, filosófico e teológico e dedicou um vasto capítulo na obra A mailto:alexsandromedeiros@ufam.edu.br 131 Descida dos Ideais (UBALDI, 1995) para ressaltar os aspectos em comum entre a sua e a obra do padre jesuíta. O que há de comum entre ambos, além da visão evolucionista, é a visão de que a ciência pode ser iluminada pela religião e a religião pode ter uma base científica, numa síntese lógica e harmônica na qual concordam as teorias científicas e os dogmas religiosos. Aqui iremos, portanto, ressaltar essa similaridade entre as ideias de ambos os autores de acordo com um telefinalismo evolucionista de convergência para o ponto Ômega, último momento e fim da evolução: Deus. No telefinalismo evolutivo ubaldiano o espírito, criado por Deus, através de um longo e lento processo de maturação evolutiva, retorna ao Criador (ômega). É o mesmo telefinalismo que encontramos em Teilhard: o desenrolar do processo evolutivo segue uma trajetória que se inicia com a cosmogênese, prossegue na biogênese e noogênese, tendo como meta o ponto ômega: Deus. Deus representa a meta final tanto para Ubaldi quanto para Teilhard: a escalada evolutiva, descoberta e provada pela ciência, vai em direção a Deus, como já, com outras palavras, ensinam algumas tradições religiosas e espiritualistas. 1. Ciência e Religião em Teilhard de Chardin Marie-Joseph-Pierre Teilhard de Chardin foi o quarto filho de uma família de onze. Nasceu em 1º de maio de 1881, no castelo de Sarcenat, na província de Auvergne, situada no centro da França. Desde muito cedo, Teilhard de Chardin nutria um prazer pela ciência, notadamente pela geologia, que se tornara sua grande paixão, ao mesmo tempo em que possuía inclinação para a vocação religiosa15. Aos seis anos, acompanhado de sua irmã, o pequeno Teilhard teve a sua primeira experiência de exploração científica em um vulcão próximo de sua casa. De suas experiências passou a colecionar pedras coloridas e transparentes. Em seu espírito dominava a paixão pelas pedras que o conduzirá mais tarde à Geologia. Mas o sentimento religioso não tardará nele a se fazer presente e no período de 15 Em 1901, quando pronunciou seus votos sacerdotais, Teilhard escreve uma carta para os seus pais exprimindo sua felicidade de ser jesuíta e de ser “por inteiro enfim, do Sagrado Coração de Jesus, por meio da Santíssima Virgem” (SESÉ, 2005, p. 27). 132 1899 até 1913 temos os anos de sua preparação para a vida religiosa e para o sacerdócio: “Esses dois sentimentos despertados no espírito de Teilhard de Chardin e a aparente firmeza do conflito existente entre eles, a ciência natural e a religião, permaneceram com ele ao longo de toda sua vida” (LUCARELLI, 2019, p. 23). A sua produção científica consta de algumas centenas de trabalhos publicados depois de sua morte em revistas científicas. Nos últimos anos de vida, coordenou uma pesquisa concernente à origem do homem a convite de uma fundação antropológica americana em Nova York. A sua paixão pela ciência e pela religião fez com que ele tentasse construir uma visão integrada entre ambas, procurando conciliar a visão de mundo material da ciência, com a visão de mundo espiritual da teologia: a atividade científica se complementa pelo sacerdócio, em Teilhard de Chardin, e se converte em adoração a Deus. “Peregrino da Evolução apresentou em seus escritos uma visão do mundo evolucionista e mística” (SOUZA, 2007, p. 57). A tensão entre a ciência e a religião “ocupou lugar importante nas reflexões de Teilhard por muitos anos, pode-se dizer, por toda a vida. Sua busca será sempre a harmonia entre dois mundos que faziam parte de sua existência” (BORGES, 2015, p. 174). Teilhard procurou demonstrar que não existe incompatibilidade entre religião e ciência. “Nisso reside a originalidade da espiritualidade de Teilhard de Chardin: a unidade, a conciliação, a ligação” (LANGER, 2018, p. 22) a busca de integração entre as concepções materialistas e espiritualistas, uma visão integradora que aponta para uma cosmologia espiritualista e um novo sentido para a existência humana. O desafio de Teilhard, a esse respeito, não era (como não foi) fácil. Conciliar ciência e religião a partir de uma visão evolucionista (como veremos mais adiante). Foi criticado pelas duas vertentes: a científica e a religiosa. Os primeiros, com algumas exceções, negaram o valor científico de sua obra, acusando-a de ter uma linguagem estranha à ciência. Do lado religioso, suas obras teológicas foram censuradas e proibidas de serem publicadas sendo submetido a um duro período de exílio na China. Apenas postumamente a 133 Igreja Católica reconheceu o mérito de seu trabalho. “Poucos autores, na história da Igreja, foram objeto de tão fervorosa admiração e de rejeição tão implacável” (LIMA VAZ, 1996, p. 347). Aconteceu com Teilhard o mesmo que aconteceu com os inovadores das ciências, desde Giordano Bruno, Galileu Galilei e tantos outros, sendo condenados como heréticos: “Aconteceu o que acontece a todos inovadores que viram mais longe do que os outros aos quais quiseram fazer ver mais longe também, para além dos limites das verdades já vistas e codificadas por eles. É neste ponto que aparecem as condenações” (UBALDI, 1995, p. 88). Impulsionado por uma visão de mundo muito mais vasta e convincente, Teilhard viu-se compelido para gritá-la ao mundo. Mas nem tudo que é novo é aceito sem desconfiança, porque o novo parece dissonante aos ouvidos acostumados aos velhos conceitos. Então os conservadores se precipitam em levantar barreiras de defesa, para calar aquele escandaloso “eureka” que pretendia tudo resolver, fazendo abandonar a velha estrada sobre a qual caminhava tão bem a sua antiga sapiência. Este foi o martírio de Teilhard, como o é de todos os inovadores (UBALDI, 1995, p. 89). Em 1951 Teilhard transferiu-se para Nova York onde permaneceu até a sua morte, em um domingo de páscoa, aos 74 anos, em 1955. Foi ao mesmo tempo um período fecundo e doloroso. Trabalhou ainda mais intensamente pela renovação da visão cristã entregando-se à missão de conciliar a ciência e a religião, mas permaneceu incompreendido. 2. Ciência e Religião em Pietro Ubaldi Ao contrário de Teilhard de Chardin, Pietro Ubaldi não era um cientista. Mas o subtítulo de sua primeira grande obra, A Grande Síntese, revela a sua intenção: síntese e solução dos problemas da ciência e do espírito. O nosso século e o século anterior são, se assim podemos dizer, os séculos da ciência. Com os avanços tecnológicos proporcionados pelo conhecimento científico, a humanidade atingiu um estágio sem precedentes de desenvolvimento tecnológico. Mas para além da conquista de comodidades e bem-estar material, é preciso que a ciência nos ajude a resolver os grandes mistérios insondáveis que há tanto tempo atormentam a humanidade. É nesse 134 aspecto que podemos falar da necessidade de conciliar o conhecimento científico com o conhecimento religioso, se quisermos ter uma compreensão cada vez mais exata da realidade. A ciência tem o seu valor. Mas o conhecimento científico não é capaz de revelar tudo. Mesmo com os mais avançados conhecimentos tecno científicos que a ciência nos oferece, podemos dizer que ela tocou os mais profundose necessários conhecimentos que tanto tem inquietado o pensamento humano? “Vossa ciência lançou-se num beco escuro, sem saída, onde vossa mente não tem amanhã. Que vos deu o último século? Máquinas como jamais o mundo as teve (mas que, no entanto, são apenas máquinas) e, em compensação, ressecou vossa alma” (UBALDI, 2017, p. 17). A ciência resolveu todos os problemas que afligem a humanidade? Nas mãos humanas, o saber e a força não podem servir, igualmente, como fonte de dominação e até de destruição, quem sabe até da própria natureza e, com ela, da vida no planeta? “Para que serve, então, o saber, se ao invés de impulsionar-vos para o Alto, tornando-vos melhores, para vós se torna instrumento de perdição? Não riais, ó céticos, que julgais ter resolvido tudo, porque sufocastes o grito de vossa alma que anseia por subir!” (UBALDI, 2017, p. 18). O intelecto, a racionalidade, a técnica, pode ter proporcionado inúmeros conhecimentos à humanidade. Mas será a razão capaz de revelar para nós tudo aquilo de que temos necessidade de conhecer? Vamos, pois, homens de boa vontade, ouvi-me! Primeiro compreendei-me com o intelecto e quando este ficar iluminado e virdes claramente a nova estrada que vos traço, palpitará também vosso coração e nele se acenderá a chama da paixão, para que a luz se transmude em vida e o conceito em ação (UBALDI, 2017, 19). E o que dizer das religiões? Estão elas isentas de erros? “As religiões, tantas e, erro imperdoável, todas lutando entre si, exclusivistas na posse da Verdade e isto em nome do próprio Deus, aplicando-se não a procurar a ponte que as una, mas a cavar o abismo que as divida” (UBALDI, 2017, p. 34). Isto não significa que, também as religiões, não tenham trazido algum conhecimento realmente necessário para a humanidade. Mas se a ciência é feita de erros (e 135 não apenas de acertos), o mesmo também pode ser dito quando se fala das religiões. Mas como os nossos dois autores procuraram conciliar conhecimentos aparentemente tão distintos? É o que nós veremos a partir de agora. 3. Telefinalismo Evolutivo em Teilhard e Ubaldi Vimos que ciência e a religião ocuparam desce cedo lugar importante nas reflexões de Teilhard e que tais reflexões o acompanharam por toda a vida. Por qual caminho o padre jesuíta tentou harmonizar estes dois mundos aparentemente tão distintos? Teilhard tomou para si a tarefa de buscar essa integração assumindo as ideias evolucionistas e procurando realizar uma síntese original entre a ciência e a fé cristã. Em outras palavras, Teilhard procurou conciliar as ideias de criação e evolução. Para o teólogo francês, tal oposição era apenas aparente. O conceito de criação é teológico, bíblico, metafísico, religioso, que se fundamenta na relação da criação com o seu criador. O conceito de evolução é de natureza científica e, para Teilhard, a ideia de criação do mundo não exclui a evolução biológica e, por outro lado, a evolução pressupõe a criação. A obra de Deus (criada por Ele), converge para Ele mesmo (evolui para Ele). Em Deus se revela todo o sentido da evolução. Teilhard assumiu as ideias evolucionistas e em sua obra mestra, O Fenômeno Humano (CHARDIN, 1970), discorre a respeito da evolução de todo o Universo. Analisando a obra de Teilhard, assim se refere o pensador italiano: Observando os fenômenos, sobretudo no seu íntimo significado, ele chegou a uma visão do plano geral da existência, no qual domina o princípio da evolução, que faz do ser um transformismo em marcha. O conhecimento do passado hominal fez entrever a Teilhard as perspectivas em direção às quais se encaminha aquela marcha e, portanto, aquilo que o homem poderá no futuro realizar na Terra. Então Teilhard se sentiu iluminado por uma súbita luz orientadora (UBALDI, 1995, p. 87). Ao apresentar a teoria evolucionista criadora de Teilhard, vejamos simultaneamente se ela não está de acordo com as ideias do filósofo italiano Pietro Ubaldi, como ele mesmo afirma inúmeras vezes. 136 De acordo com a visão evolucionista e criadora, Deus permanece sendo o criador do mundo, da vida e do homem. Mas essa criação não ocorre de uma maneira instantânea e fixista, como descrito no Livro do Gênesis. O que não significa dizer que o Livro do Gênesis esteja errado, mas que é necessário haver um esforço interpretativo para compreender tal livro. Para Teilhard, o estofo do universo, a matéria do universo, evolui criando formas cada vez mais complexas, pela Lei de Complexidade e Consciência. “Segundo essa lei, formulada por Teilhard, o mundo atual é nada mais que o resultado de um movimento contínuo descontinuado da não-vida (cosmogênese) à vida (biogênese) e da vida à auto-reflexão do homem (antropogênese)” (ZILLES, 1995, p. 16). Tudo o que existe no universo evoluiu “Dos átomos às moléculas, das moléculas aos vírus e às células e, finalmente, a toda a gama dos seres vivos, entre os quais é evidente uma sucessiva e maior complexificação: vermes, insetos, peixes, anfíbios, répteis, aves, mamíferos, até o homem” (LIBÓRIO, 2010, p. 94). Ao se referir a cosmo-bio-noogênese de Teilhard de Chardin, Ubaldi (1995) afirma que ela corresponde ao físio-dínamo-psiquismo de A Grande Síntese e o filósofo italiano propõe uma síntese da fenomenologia do universo em termos de matéria, energia, vida e espírito. Ubaldi acrescenta aqui o conceito de energia, pois segundo ele, é preciso considerar o termo intermediário (energia) que explica a origem da vida e sua evolução. Toda a obra de Ubaldi se baseia na teoria evolucionista: “O todo não foi feito por Deus de uma só vez para sempre, de improviso, num dado momento, mas antes se está continuamente formando. O todo é resultado de uma criação contínua, obra de um Deus sempre ativo e presente” (UBALDI, 1995, p. 90). A vida é evolução, fruto de um profundo dinamismo universal: A época da concepção estática do universo e da vida está superada [...] Hoje abre-se o caminho para a concepção dinâmica, que nos diz que o paraíso não se conquista só negando a vida terrena com a renúncia, mas sobretudo afirmando-se de um modo positivo, com o trabalho e a conquista no terreno do pensamento e do espírito. Então, se a ciência foi em princípio considerada inimiga das religiões, porque perturbava o sono de quem se tinha dentro delas acomodado (inimigo das descobertas destrutivas do mistério, elemento de domínio). Hoje a ciência representa o caminho para chegar à religião 137 do futuro que, como a ciência, será universal, sem possibilidade de escapatórias, verdadeira para todos, convincente porque demonstrada pela lógica e pelos os fatos (UBALDI, 1995, p. 94). O homem faz parte de uma imensa unidade orgânica e, ao contrário da visão fixista do Livro do Gênesis não foi feito em um só momento, de uma só vez, da mesma forma como não foi a obra de Deus. O homem “é antes o resultado de um longo caminho percorrido, de formas biológicas inferiores superadas, que o precedem e que encontram nele a razão da sua existência, a continuação do seu caminho, a coroação da sua obra evolutiva” (UBALDI, 1995, p. 91). Ao invés de contraria a religião, esta hipótese na verdade deve vir sustentá-la: “Será irreligioso tudo isto? Mas esta é precisamente a mais elevada religião do futuro, a do homem inteligência e consciente, que substituirá o homem ignorante e instintivo de hoje” (UBALDI, 1995, p. 92). Assim podemos pensar não mais em oposição entre ciência e religião, oposição entre matéria e espírito. No primeiro caso temos apenas formas diferentes de perceber a realidade e, no segundo, pontos diversos de um mesmo transformismo fenomênico. “Ciência e espírito, conhecimento e moral, têm as mesmas raízes. E Teilhard não podia deixar, ele também, de ver a unidade fundamental de todas as coisas” (UBALDI, 1995, p. 92). Quando se chegou a compreender que matériae espírito, hoje concebidos como dois termos antagônicos inconciliáveis, são redutíveis à mesma substância fundamental, os atritos entre a forma mental da ciência e a das religiões podem desaparecer, e é possível fundir, numa só, as duas concepções do ser. Elas, em vez de se excluírem, se integram indispensáveis uma à outra, como duas partes da mesma unidade. Hoje estes dois aspectos parciais e complementares da mesma verdade se estão combatendo, cada um pretendendo constituir o todo e não uma parte; estão-se negando reciprocamente quando são apenas duas afirmações incompletas, que se procuram uma à outra para completar-se (UBALDI, 1995, p. 95-96). Devemos então crer, como as religiões nos ensinam, mas não uma crença cega, como ignorantes, para a realidade da ciência. Devemos aprender com a ciência, de olhos abertos, iluminando a estrada com a nossa inteligência. “Crer segundo as religiões, mas conhecer cada vez mais segundo a ciência; isto 138 é, crer cada vez menos com os olhos fechados, como ignorantes, e cada vez mais com os olhos abertos, conhecendo” (UBALDI, 1995, p. 94). Considerações Finais A partir da visão evolucionista de Teilhard de Chardin e Pietro Ubaldi, vimos como é possível, através de uma síntese lógica e harmônica, fazer concordar o conhecimento científico e o religioso. Se a ciência pode oferecer uma base lógica para a religião, esta, por sua vez, pode iluminar o conhecimento científico. Esta possibilidade ficou evidente ao levarmos em consideração que para ambos os autores a evolução é um processo natural cuja finalidade é fazer convergir toda a criação para o ponto Ômega, último momento e fim da evolução: Deus. A evolução, descoberta e provada pela ciência, pode perfeitamente se colocar de acordo com os ensinamentos da tradição religiosa. Teilhard de Chardin, o peregrino da evolução, procurou demonstrar essa ideia sobretudo em sua obra O Fenômeno Humano, onde o padre jesuíta analisa o processo evolutivo do universo de acordo com as diferentes etapas da criação do cosmos, da vida e do pensamento. A paixão de Teilhard pela ciência e a sua vocação religiosa para o sacerdócio despertaram nele o interesse de conciliar o aparente conflito existente entre ambas e construir uma visão integrada entre a visão de mundo da ciência com a visão de mundo da religião. A mesma visão evolutiva nós encontramos na obra do filósofo Pietro Ubaldi. Para o pensador italiano, se quisermos ter uma compreensão mais exata da realidade, é preciso conciliar o conhecimento científico com o conhecimento religioso. E ambos, Ubaldi e Teilhard, concordam não apenas com o aspecto evolutivo do universo como igualmente com a ideia de que essa evolução tem como meta final o retorno ao Criador (ponto ômega). A originalidade do pensamento de ambos está em demonstrar que não existe incompatibilidade entre a religião e ciência. Ambos buscaram uma integração entre as concepções materialistas da ciência e espiritualistas da religião, concebendo uma cosmovisão integradora da realidade, a partir de uma 139 visão evolucionista. É assim que ciência e religião apontam para uma mesma direção. Não são dois tipos de conhecimentos antagônicos, mas que revelam algo da própria essência da vida: a de que a vida é evolução e de que essa evolução tem um propósito espiritual de natureza divina. Referências BORGES, Deborah Terezinha de Paula. Diafania de Deus no Coração da Matéria: A Mística de Teilhard de Chardin. Tese (Doutorado em Ciência da Religião), Programa de Pós-Graduação em Ciência da Religião, Universidade Federal de Juiz de Fora, Juiz de Fora-MG, 2015. CHARDIN, Pierre Teilhard de. O Fenômeno Humano. 3 ed. Porto: Livraria Tavares Martins, 1970. LANGER, André. A Espiritualidade de Teilhard de Chardin. Tabulæ - Revista de Philosophia, ano 12, n. 24, p. 10-37, jan.-jun., 2018. 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Sendo assim, o presente trabalho, em uma tentativa de sondar parte de sua literatura, busca, como objetivo principal, explorar os conceitos de tempo e memória e sua relação, aos quais a obra Confissões reserva alguns livros, bem como compreender as implicações desses conceitos para as ideias de Amor, Vida Feliz e Eternidade.Iniciando suas ponderações sobre o tempo, Agostinho trata das ideias de criação e criador. O tempo, enquanto criação, submete-se ao criador, e não poderia existir até ser, enfim, criado. Desse modo, o agir de Deus, o criador, não se define pelas mesmas contingências do agir humano: suas obras não podem ser contidas pelo tempo ou pelo espaço. O tema do tempo se articula à questão da memória quando a tratamos enquanto habilidade da mente humana. A memória, segundo Agostinho, é capaz de duplicar a imagem dos objetos que captam a atenção dos sentidos, de forma que, mesmo não tendo o objeto em mãos, podemos nos lembrar dele. Com o armazenamento de imagens dos objetos e acontecimentos passados, a mente também se mostra capaz de criar ideias e expectativas para o futuro, por meio da recombinação das imagens guardadas. O estudo desses temas abre espaço para a investigação do conceito de Vida Feliz, bem como da origem da alma humana e a possibilidade de memórias que guardamos desseperíodo, ponderações essas importantes ao debate da filosofia através dos séculos. Palavras-chave: Memória; Tempo; Teologia; Vida Feliz. Dize à minha alma: eu sou tua salvação. Dize-o, para que eu ouça. Eis diante de ti os ouvidos do meu coração; abre-os e dize à minha alma: eu sou tua salvação. Correrei atrás dessa voz e te alcançarei. Não me escondas tua face: que, para não morrer, eu morra para vê-la. (AGOSTINHO, 2017. p. 40). Ó caminhos tortuosos! Ai da alma do temerário que esperou encontrar uma morada melhor deixando-te! Vira-se e revira-se sobre as costas, o ventre e os flancos, mas tudo é duro, e só tu és repouso. (AGOSTINHO, 2017. p. 167). 1. O conceito de tempo no livro XI das Confissões de Agostinho As considerações de Agostinho de Hipona a respeito da memória e do tempo são extensivamente trabalhadas pelo autor na obra Confissões, redigida mailto:anapaulaferreiragomes03@gmail.com mailto:veliqs@gmail.com 141 no século IV, principalmente entre os livros X e XI. Neles, trabalha-se não apenas a conceituação — ou a tentativa de definição — de vocábulos paradoxalmente tão próprios do cotidiano e, ao mesmo tempo, tão difíceis de assimilar, mas também a relação entre ambas as concepções com a alma e sua busca incessante pela verdade de Deus. “De fato, quando te procuro, meu Deus, procuro a vida feliz. Procurar-te-ei, para que viva minha alma. Pois meu corpo vive por minha alma e minha alma vive por ti.” Agostinho (2017. p. 275) O livro XI de Confissões se inicia com um questionamento que dita o tom do restante do volume: “Porventura, Senhor, sendo tua a eternidade, ignoras o que te digo, ou vês no tempo o que se dá no tempo?” Agostinho (2017. p. 306) Essa introdução de Agostinho ao livro, por si mesma, já nos permite a proposição de uma série de questões. A princípio, a afirmação “[…] sendo tua a eternidade […]”, oportuniza a compreensão de Deus como criador e, portanto, de sua obra como criatura. No entanto, a expressão “eternidade”, que diz respeito à ideia de Tempo, mostra que ela, enquanto criatura, foi criada e, portanto, passou a existir antes de sua existência e, assim, fora do próprio tempo. Entende-se que, afinal, a existência de Deus não se limita à sua criação e independe do tempo. Como mostra Agostinho em outro momento: Aqui estão os céus e a terra, eles declaram que foram feitos: mudam e variam, enquanto naquilo que não foi feito, mas é, nada há que não fosse antes, quer dizer, que mude ou varie. Declaram também que não se fizeram a si mesmos: ‘Somos por isso: por ter sido feitos; portanto, não éramos antes de ser, para que pudéssemos nos fazer a nós mesmos.’ (AGOSTINHO, 2017. p. 310) Considera-se que a condição criadora de Deus permite que Ele crie fora das contingências determinantes que limitam a vida humana, tecendo o tempo fora do tempo, tramando céus e terra sem se assentar sobre lugar algum. Tu fizeste o homem que fabrica; tu, a animação que governa seus membros; tu, a matéria de onde ele faz algo; tu, o engenho que contém a arte e vê dentro de si o que executa fora; tu, os sentidos do corpo, pela mediação dos quais este leva da mente para a matéria o que faz, e traz de volta à mente o que fez, para que ela julgue internamente, sob a direção da verdade, se é bem-feito. (AGOSTINHO, 2017. p. 311). Em conclusão, aqui podemos analisar a indagação trabalhada pelo filósofo: “Que fazia Deus, antes de criar o céu e a terra?” Agostinho (2017. p. 142 316) A própria frase já traz em si uma marca linguística da temporalidade humana: “antes”, que indica uma sucessão de acontecimentos assim como “durante” ou “depois”. No entanto, examinando a proposição, é preciso relembrar que, antes que o tempo fosse de fato criado, não havia como medi-lo, não havia um “antes”. Deus, enquanto criador, não se enquadraria em uma ordem cronológica de ações, de maneira que o homem, marcado pela transitoriedade, não pode nem sequer especular sobre uma vivência fora do tempo. Seguindo em análise, a segunda parte da proposição, que enuncia: “ignoras o que te digo, ou vês no tempo o que se dá no tempo?”, abre duas possibilidades para a compreensão do saber divino: a primeira, que rapidamente é contestada pela própria essência Onisciente de Deus, propõe que Ele não conheceria os fatos narrados pela sua criatura até que essa se dispusesse a contá-los. Enquanto isso, a segunda possibilidade, condicionada pela resolução da primeira — ou seja, pelo fato da Onisciência —, nos leva a questionar: a onisciência de Deus premedita todos os fatos antes que esses sejam, ou se dá simultânea ao tempo em que ocorrem, detendo o saber do passado, mas estando tão subjugada à inconstância do presente e incerteza do futuro quanto qualquer criatura? Aqui, faz-se necessária a diferenciação entre o Tempo do Homem e o Tempo de Deus. A princípio, entende-se que o homem vive uma sucessão de Presentes: “[…] um tempo não poderia ser longo se não por muitos movimentos passageiros, que não poderiam se estender simultaneamente;” Agostinho (2017. p. 316), que, ao transcorrerem, transformam-se em Passado que, já não sendo mais presente, não é. Da mesma forma, considerando-se o Futuro, temos um repertório de Presentes que ainda não são, já que, até então, não foram vividos. Toda essa organização se dá sobre a delicada trama do Tempo, em que uma partícula de presente, antes que se perceba, já se transformou em passado, uma experiência, fugaz, se esconde na memória. E nisso, o homem vive cada um de seus dias, horas, minutos e segundos — e quaisquer outras subdivisões possíveis ou conhecidas — em uma dimensão quase utopicamente rúptil, quando analisada com proximidade. 143 Assim, as vivências do Presente, pérfido, são acessadas apenas na consulta da memória — que, como será aprofundado mais adiante neste artigo, mantém a ideia de algo que já não é — e, rearranjando-se, transformam-se em expectativas para o Futuro. Apesar dessa complexa relação entre o homem e o Tempo, é preciso, aqui, considerar a imperfeição da atividade desse mecanismo. Sendo criatura, o homem não pode compreender plenamente a verdade: sua memória é falha e suas esperanças podem ser enganosas. Por outro lado, Deus, enquanto a própria Verdade, tem sua percepção de Tempo explicada pela seguinte afirmação: Tampouco tu antecedes os tempos no tempo: porque, se fosse assim, não antecederias todos os tempos. Mas tu antecedes todos os passados do alto da eternidade sempre presente e ultrapassas todos os futuros, porque estes são futuros e, como vêm, passarão; mas tu és sempre o mesmo, e teus anos não findarão. Teus anos não vão nem vêm: estes nossos vão e vêm, para que venham todos. Os teus permanecem todos juntos, porque permanecem, e não são removidos pelos que vêm, porque não passam; mas estes nossos só serão todos, quando todos já tiverem sido. Teus anos são um único dia, mas um hoje, porque teu hoje não é suprimido por um amanhã, nem substitui um ontem. Teu hoje é a eternidade, logo geraste cometer-nos-emos aquele a quem disseste: ‘Hoje te gerei’. Tu fizeste todo o tempo e és antes de todo tempo, e não houve um tempo em que não havia tempo. (AGOSTINHO, 2017. p. 318). A partir da citação de Confissões, entende-se que, para a filosofia agostiniana, Deus tem acesso a uma percepção de tempo que é sempre presente, de forma a enxergar simultaneamente, "[...] do alto da eternidade [...]" Agostinho (2017. p. 318), todos os acontecimentos que se deram no início da história do mundo, bem como os que ainda estão por vir. E esse panorama, portanto, não poderia acrescentar algo novo ao saber de Deus, uma vez que o conhecimento de todas as coisas, a idealização de tudo que há, bem como a ordem de efetivação já se encontram nele, como mostra Agostinho no fragmento a seguir: “Porque assim como conheces no princípio o céu e a terra, sem que teuconhecimento mude, assim fizeste no princípio o céu e a terra, sem que houvesse distensão em tua ação.” Agostinho (2017. p. 336) Entende-se, aqui, parte do conceito da eternidade de Deus, que corresponde, em suma, à ideia de constância. Deus não poderia ser eterno se 144 não por sua imutabilidade, de forma que sua ação criadora, fundamentalmente, pertence à sua essência, não partindo de um rompante criativo. Pois, se apareceu em Deus um movimento e uma vontade nova de produzir uma criação que nunca produzira antes, como poderia ser ainda verdadeira eternidade, se nela surge uma vontade que não era? Com efeito, a vontade de Deus não é uma criatura, mas anterior às criaturas, porque nada poderia ser criado, se não fosse precedido pela vontade do criador. Logo, a vontade de Deus pertence à sua própria substância. Ora, se surgiu na substância de Deus algo que não estava nela antes, então não é verdade que aquela substância seja eterna; se, porém, era eterna a vontade de Deus que produziu a criação, por que a criação também não seria eterna? (AGOSTINHO, 2017. p. 316). Essa perspectiva alinha-se ao que é tratado por Plotino nas Enéadas, em Sobre a Eternidade e o Tempo. No texto, discute-se o conceito de eternidade e as condições para que algo seja eterno, como propõe o autor: “nunca jamais deixar de ser e em não ser de outro modo, isso é, em ser do mesmo modo, isso é, indiversificadamente”16 Plotino (1985. p. 207). Plotino usa da ideia de “sempre existente”17 Plotino (1985. p. 192) para se referir ao que apenas é, nunca foi e nunca será Plotino (1985. p. 192), de forma que nunca deixa de ser, não se torna algo diferente do que já é por essência. Segundo Leite (2020), a auto-determinação de Deus como “Ser” evita o uso de nomeações imperfeitas, visto que abrange a infinitude de possibilidades que se alinham no Criador. Essa característica garante unidade e imutabilidade ao que é Eterno, de forma que o termo pode ser, e muito frequentemente é, atribuído à ideia de Deus: “Um dos nomes da divindade é mesmo Eternidade, em hebraico antigo;”18 Leite (2020. p. 6) O Criador, em seu caráter inalterável, “se revela e se apresenta a si mesmo tal qual é, a saber, como o Ser em sua modalidade de “incomovível”, de idêntico, de ser como é e de estar firmemente assentado na 16 Tradução nossa: “nunca jamás dejar de ser y en no ser de otro modo, esto es, en ser del mismo modo, esto es, indiversificadamente” (PLOTINO, 1985. p. 207) 17 “siempreexistente” 18 “No Gênesis, além de Elohim [אלהים] (Pai/Senhor criador e onipotente) (Gn. 1:1) a divindade é El-Olam [עולם ,El de sempre, El de eternidade (Römer ;(Gn. 21:33) (Pai/Senhor- Eternidade) [אל 2014, p. 107). Nome que se repete em outros momentos da Tanakh, por exemplo, nos salmos davídicos, que situam temporalmente a natureza divina fora do mundo, pois “antes que nascessem os montes, ou que tivesses formado a terra e o mundo, sim, de eternidade a eternidade [ומעולם עדעולם] tu és Deus” (Sl, 90:2). O atributo (in)temporal eternidade [עולם; olam] é a própria natureza primeva da divindade, cuja gênese se desconhece, pois ela se perde no fluxo exotérico do que é eterno e, assim, corrobora sua índole infinita e misteriosa.” (LEITE, 2020. p. 6) 145 vida”19 Plotino (1985. p. 206) A partir disso, e retomando o que já foi apresentado anteriormente, a criação não poderia partir de um ímpeto, uma vez que isso se oporia à própria natureza divina, mas, em verdade, já fazia parte do ser de Deus antes que de fato passasse a existir, já que nele, não há possibilidade de se originar algo novo: “ nada em absoluto se há originado nele — pois se algo se houvesse originado, ele não seria sempre existente e não seria um todo sempre existente”20 Plotino (1985. p. 205) Em razão do exposto, em suma, a eternidade, como também apontado por Plotino, “deve ser concebida como estando não só em repouso, mas também em unidade, e ademais como inextensa, para evitar que seja idêntica ao tempo”21 Plotino (1985. p. 200) Aqui, trata-se de repouso no sentido de manter- se invariável, sempre estável e exato em essência, mas também eterno em ato, como Uno. Segundo Nascimento: O Uno é repouso e unidade, ou seja, ele repousa na unidade. […] O Uno é essencial, isto é, essência inteligível, imutável, identidade, uniformidade e permanência, e devemos compreendê-lo como modelo dos inteligíveis. Consciência e objeto de si mesmo, o Uno se constitui como sujeito e objeto ao mesmo tempo. […] Não há passado nem futuro, como algo eterno que participa da eternidade ele está sempre presente. (NASCIMENTO, 2019. p. 155). O Uno, na filosofia de Plotino, seria o princípio inominável de tudo, presente em todas as coisas, de onde todas as coisas emanam e para onde querem retornar. Entende-se o Uno como inalterável e imortal e, consequentemente, perfeito, como mostra Romanelli (2021). No entanto, e aqui, diferencia-se do Deus de Agostinho, por ser impessoal. Agostinho trabalha a ideia de um Deus criador, que propositalmente e essencialmente cria, enquanto o Uno plotiniano emana como um centro absoluto anterior a tudo e origem de si mesmo. 19 “se revela y se presenta a sí misma tal cual es, a saber, como el Ser en su modalidad de ‘inconmovible’, de idéntico, de ser como es y de estar firmemente asentado en la vida.” (PLOTINO, 1985. p. 206). 20 “nada en absoluto se ha originado en ella — pues si algo se hubiera originado, ella no sería siempreexistente o no sería un todo siempreexistente” (PLOTINO, 1985. p. 205). 21 “debe ser concebida como estando no sólo en reposo, sino también en unidad, y además como inextensa, para evitar que sea idéntica al tiempo.” (PLOTINO, 1985. p. 200). 146 Com base na exposição da temática do tempo, podemos também analisar mais profundamente a relação entre o tempo e o homem, e em específico o funcionamento da faculdade da mente que, segundo Agostinho, nos permite acessar as distensões do tempo: a memória. O filósofo se refere a ela espacialmente, quase como se, materializando-a, pudesse perscrutar todos os cantos da mente, analisando seu funcionamento e eficiência diante da relação entre o homem e o que o cerca: “[…] e eis que chego aos campos e aos amplos palácios da memória, onde se encontram tesouros de inumeráveis imagens de todo tipo de objeto, trazidas pelos sentidos.” Agostinho (2017. p. 262) Como introduzido pela citação, Agostinho entende a memória como um abrigo para as mais diversas sensações captadas pelos sentidos, permitindo a evocação dessas em momentos oportunos — desde que não as tenha esquecido. A recordação dos objetos armazenados na memória nos permite uma vivência singular da temporalidade, uma vez que, no presente, pode-se remontar ao passado e, a partir das experiências registradas, expectar o futuro. É isso que Agostinho chama de distensão da alma. O debate proposto a partir dos conceitos abordados por Agostinho, de tempo e memória, leva à ideia de Vida Feliz, trabalhada no livro X das Confissões. Considerando-se as faculdades da mente, é proposto que apenas seria possível reconhecer ou ansiar por algo cuja imagem estivesse guardada na memória. A partir do já exposto processo de duplicação dos objetos, a memória guardaria imagens das vivências, sensações, sentimentos, objetos propriamente ditos, saberes e de tudo mais que atravessa o homem no mundo. Assim, o conhecimento e o consequente reconhecimento desses objetos só seriam possíveis a partir de uma primeira exposição. Aqui, Agostinho traz o exemplo da mulher que busca por uma dracma perdida: se não guardasse na memória a imagem da moeda, não a reconheceria mesmo que a encontrasse. Assim, é proposto que a busca humana pela verdade de Deus estaria baseada em uma experiência que, mesmo armazenada na mente, não pode ser acessada — o homem está sempre procurando pela felicidade da vida com Deus por já teruma experiência primária com Ele, mesmo que não se lembre. Agostinho, para 147 responder à procura pela Vida Feliz, apresenta duas hipóteses: ou todos os homens viveram com Deus junto ao primeiro homem, a partir de quem todos nasceram em pecado, ou vivenciaram a presença de Deus em espírito, individualmente. 22 Tempo e memória se ligam de maneira íntima na formulação agostiniana e dessa forma fica evidente que o tema em questão é de suma importância para entender temas caros à filosofia e teologia agostiniana. Conclusão O presente artigo teve por objetivo o aprofundamento nos principais conceitos trabalhados por Agostinho nos livros X e XI de Confissões: o tempo e a memória. Mesmo sendo princípios amplamente empregados no nosso cotidiano, Agostinho vai além da mesmice e mostra, através de inúmeros e didáticos exemplos, a complexidade dessas ideias, bem como a relação entre elas, o homem e Deus. Nosso texto se inicia tratando do conceito de Tempo e mostramos que o Tempo é uma criatura como qualquer outra criada por Deus, que o cria fora dele mesmo, cria para que, enfim, exista. Enquanto criador, a essência de Deus não se altera com o tempo, não se afeta, se não, não seria eterna e inalterável. No entanto, o homem, como criatura, se vê à mercê do tempo e de incontáveis contingências, em sua limitação. Em seguida, mostramos que, diferentemente de Deus, o homem vive pequenos presentes, recorda do passado e imagina o futuro, habilidade essa possibilitada pela memória, uma faculdade da mente que permite a distensão da alma pelo tempo, por meio da duplicação dos objetos que nos cercam. As experiências vividas, para Agostinho, seriam armazenadas na memória por imagens, que podem ser revisitadas desde que não tenham sido esquecidas. Seguindo na análise de Confissões, também exploramos a ideia de Eternidade de Deus, um conceito abordado por Plotino nas Enéadas, ao citar o 22 O assunto pode ser aprofundado no artigo O Amor e a Memória no livro X das Confissões de Santo Agostinho:https://doi.org/10.5752/P.2177-6342.2020v11n22p577-588 https://doi.org/10.5752/P.2177-6342.2020v11n22p577-588 148 Uno, e adaptado ao cristianismo por Agostinho, mais tarde. A eternidade, em suma, faz referência ao inalterável e constante, de forma que para Agostinho a associação com Deus pode ser feita de maneira mais direta. Fomos capazes de vincular o pensamento de Plotino ao de Agostinho ressaltando a importância do filósofo grego para a composição agostiniana. Nosso trabalho, dessa forma, vincula o tempo à noção de memória e põe em relevo temas importantes da filosofia e teologia agostiniana. Referências AGOSTINHO. Confissões. São Paulo: Penguin Classics Companhia das Letras, 2017. LEITE, A. B. C. D. (2020). A forma da eternidade. Archai 28, e0280. NASCIMENTO, Sidnei Francisco. Eternidade e tempo: Plotino e Agostinho. Argumentos, ano 11. n. 22 - Fortaleza, jul/dez. 2019 PLOTINO. Enéadas. Madrid: Editorial Gredos, S. A., 1985. ROMANELLI, Elaine David Barra. O caráter intelectualista da mística em Plotino. Veliq, F., & Gomes, A. P. F. (2020). O AMOR E MEMÓRIA NO LIVRO X DAS CONFISSÕES DE SANTO AGOSTINHO. Sapere Aude, 11(22), 577-588. 149 A PERSPECTIVA DE RELIGIÃO NO PENSAMENTO DE EMMANUEL LEVINAS Fabiano Victor Campos Doutor em Ciência da Religião pela UFJF Professor do PPGCR da PUC Minas fvocampos@hotmail.com Luiz Fernando Pires Dias Mestre e Doutorando em Ciências da Religião (Bolsista Capes) pela PUC Minas l.ferna2805@gmail.com Resumo: A presente comunicação tem como objetivo pontuar a concepção de religião no pensamento de Emmanuel Levinas, perspectiva que tem a ética como o tópos originário da inteligibilidade. O filósofo franco-lituano abriu novas possibilidades à questão através de pressupostos e postulações que determinaram uma profunda unidade entre a ética e a transcendência, distanciando-se da tematização e da rigidez conceitual, frequentemente, empregadas no discurso filosófico sobre Deus. Levinas recusa a abordagem de Deus como ser, mesmo que na condição de ser supremo, situando a questão na intriga ética da relação humana. No entendimento de Levinas, a ética assimétrica – aquela que não constitui uma totalidade, com o Eu assumindo a responsabilidade incondicional e intransferível pelo outro homem, resguardando a sua alteridade inalienável – mantém uma relação de homologia com a religião, fora do campo institucional. A abordagem da religião e de Deus em Levinas afastou-se de um horizonte dogmático, enfatizando a questão do significado, buscando as circunstâncias nas quais tais palavras podem ser pronunciadas com sentido. O rosto de Outrem, na sua total nudez, é o lugar privilegiado onde Deus vem à ideia como palavra significante, como mandamento de responsabilidade pelo próximo, fazendo do rosto o lugar central da religião e da ética no pensamento de Levinas. Palavras-chave: Deus, Ética, Levinas, Religião, Transcendência. Introdução Vivemos uma sociedade multicultural e, também, multiconfessional, na qual foram desenvolvidas diversas perspectivas sobre o transcendente, tanto pelas religiões históricas, como pela filosofia, além de outras disciplinas. O cenário atual apresenta, de forma concomitante, uma crise nas religiões institucionalizadas e a manifestação de uma espiritualidade que, muitas vezes, prescinde de vinculação a uma instituição religiosa23. Tal contexto nos sugere 23 No último censo realizado no Brasil, os sem religião formaram o terceiro maior grupamento, sendo que, a maioria desse contingente não era composta por ateus ou agnósticos, mas sim portadora de uma espiritualidade não atrelada às religiões tradicionais, na qual a fé em Deus é mailto:fvocampos@hotmail.com mailto:l.ferna2805@gmail.com 150 um desgaste das narrativas religiosas tradicionais, o que nos leva ao seguinte questionamento: quais abordagens sobre a religião estariam congruentes às mudanças que estão ocorrendo em nossas sociedades, nas quais a espiritualidade aparece, frequentemente, ligada a preocupações com a justiça social e com a dignidade humana? A proposta da presente comunicação é buscar no campo filosófico uma das respostas possíveis a essa questão, através da perspectiva de religião em Emmanuel Levinas e a sua correlação com a ética, com a religião alcançando um novo patamar de sentido ao ser associada à socialidade, em uma trama na qual o eu é irremissivelmente responsável pelo seu próximo. O desenvolvimento do presente texto se dará em três etapas. Primeiramente, abordaremos a aproximação – e o distanciamento – entre a religião e a filosofia no pensamento de Levinas. Em seguida, trataremos do status que a ética alcançou na perspectiva de religião formulada pelo filósofo. Posteriormente, buscaremos o sentido conferido à palavra Deus na filosofia levinasiana. Nas considerações finais, retomaremos alguns aspectos desenvolvidos pelo filósofo, relativos à religião e à transcendência. 1. Filosofia e religião Emmanuel Levinas foi considerado por alguns de seus críticos24 como um pensador judeu, no sentido redutor dessa expressão. No entanto, essa avaliação – refutada em certo sentido pelo próprio Levinas25 – merece uma reflexão mais aprofundada, pois desprezar a inspiração do judaísmo no pensamento de Levinas equivale a cometer uma grave omissão, assim como incorremos em erro quando restringimos sua filosofia tão somente a esse horizonte. contemplada (VIEIRA, 2016, E-book). A posição brasileira dos sem religião reflete o cenário mundial: “os não afiliados vêm em terceiro lugar, abrangendo 16,3% da população global, em torno de 1,1 bilhão de adeptos.” (TEIXEIRA; MENEZES, 2013, E-book). 24 Citamos como exemplo Jean-François Lyotard (SEBBAH, 2019, p.182). 25 “Me considerar como um pensador judeu é uma coisa,que absolutamente não me choca.[...]. Mas eu protesto contra essa fórmula quando entende-se por isso alguém que ousa fazer aproximações entre conceitos baseados unicamente sobre a tradição e os textos religiosos sem se dar o trabalho de passar pela crítica filosófica.” (LEVINAS, 1996, p. 130, tradução nossa). 151 O judaísmo esteve sempre presente na produção intelectual de Levinas26 e na sua vida como um todo, desde a mais tenra idade na cidade de Kovno na Lituânia – país do grande talmudista Gaon de Vilna (1720-1797) – onde o judaísmo ditava naturalmente a cadência da vida cotidiana. Era um judaísmo voltado ao estudo dos livros sagrados, como relata o próprio Levinas: “o essencial do espiritual – e isso se mantém como ‘judaísmo lituano’ – residia para mim não em suas modalidades místicas, mas em uma enorme curiosidade pelos livros.” (LEVINAS, 1996, p. 66, tradução nossa). A Bíblia, livro dos livros, no qual “[...] se dizem as coisas primeiras, aquelas que deveriam ser ditas para que a vida humana tenha um sentido [...]” (LEVINAS, 1982b, p.13, tradução nossa), tem um caráter fundante no pensamento de Levinas, juntamente com o Talmude. Contudo, faz-se importante sublinhar que tais leituras não acarretaram uma visão étnica ou nacionalista em Levinas, que vislumbrou nessa sabedoria uma ótica universal, uma maneira “[...] de pensar endereçando-se a todos os homens.” (LEVINAS, 1982b, p. 15, tradução nossa). Sublinhamos, também, que Levinas vê na ética o eixo central, o polo de convergência dos relatos bíblicos, constituindo o seu conteúdo essencial (LEVINAS, 1982b, p.113). No entanto, muito embora a Bíblia e o Talmude tivessem o papel de inspiração e de reflexão no pensamento levinasiano, deles não foram extraídos argumentos irrefutáveis ou elementos comprobatórios de qualquer postulação filosófica: “uma verdade filosófica não pode se basear na autoridade do versículo. É necessário que o versículo seja fenomenologicamente justificado. Mas o versículo pode permitir a busca de uma razão.”(LEVINAS, 1996, p. 131, tradução nossa). A fenomenologia foi o principal instrumental filosófico utilizado por Levinas, aluno de Husserl e de Heidegger. No entanto, afastando-se de seus professores, o pensamento levinasiano se desenvolveu já no limiar da fenomenologia, em um contexto no qual a relação com outrem não é ontologia e sim responsabilidade ética incondicional. 26 Levinas, que produziu tanto reflexões filosóficas como comentários talmúdicos, manteve uma separação entre esses escritos, utilizando editoras distintas para cada tipo de publicação. 152 A ética é o referencial primeiro de Levinas, que na busca do sentido do humano concedeu precedência absoluta à ordem do Bem, instância considerada pelo filósofo como anterior ao ser e ao saber, postulação que alçou a ética ao patamar de filosofia primeira e ponto central de seu pensamento, de onde partem as reflexões de sua filosofia, incluindo a sua perspectiva de religião. 2. A ética como ótica espiritual O primado da ética é uma constante em todos os segmentos do pensamento levinasiano. No entanto, cabe ressaltar que a noção de ética em Levinas se diferencia substancialmente do significado comumente atribuído a esse termo em nossa tradição. A ética ocidental é concebida como uma disciplina, como um objeto de conhecimento, sendo considerada uma ciência do comportamento humano determinada pelo saber. Na perspectiva levinasiana, “a ética, para além da visão e da certeza, desenha a estrutura da exterioridade como tal. A moral não é um ramo da filosofia, mas a filosofia primeira.” (LEVINAS, 2014, p. 340, tradução nossa). O filósofo franco-lituano entende a ética como um ordenamento primordial – antecedente às próprias relações com o Outro e com o mundo – que fundamenta a realidade humana, no sentido mais profundo desse termo. Portanto, na concepção de Levinas, a ética não é determinada pelo exercício da ratio, mas, ao contrário, ela consiste no eixo estrutural da própria razão. Não se trata de uma ética prescritiva ou sistematizada, mas de uma ética que representa o elemento inaugural ou o princípio instaurador de uma racionalidade fundada na responsabilidade intransferível e irrecusável pelo próximo. A relação assimétrica com o outro homem, na qual Outrem não se deixa assimilar e tem a precedência absoluta, coloca em questão o saber fundado em uma razão que habitualmente é hostil ao Outro e à diferença: Nomeamos esse colocar em questão minha espontaneidade pela presença de Outrem, ética. A estranheza de Outrem – sua irredutibilidade a Mim – a meus pensamentos e às minhas posses, se realiza precisamente como uma contestação de minha espontaneidade, como ética. A metafísica, a transcendência, o acolhimento do Outro pelo Mesmo, de Outrem por Mim, se produz 153 concretamente como a contestação do Mesmo pelo Outro, quer dizer, como a ética que realiza a essência crítica do saber. (LEVINAS, 2014, p. 33, tradução nossa). Essa concepção de ética – na qual o Eu não promove a aquisição do Outro às suas posses, esquivando-se da totalização, respeitando a alteridade inalienável de Outrem – promove a homologia entre ética e religião no pensamento de Levinas: “propomos que se chame religião ao laço que se estabelece entre o Mesmo e o Outro, sem constituir uma totalidade” (LEVINAS, 2014, p. 30, tradução nossa). No pensamento levinasiano, a ética ocupa um status decisivo, pois, além de ser considerada como o parâmetro para a crítica ao saber e de constituir-se como o elemento estruturante da realidade humana enquanto tal, a ela é atribuído um papel proeminente no que se refere à transcendência: “a ética é a ótica espiritual.” (LEVINAS, 2014, p. 76, tradução nossa). A transcendência se esquiva da relação sujeito/objeto, caracterizada pela indiferença em relação a Outrem. Para Levinas, a abertura ética ao Outro, a relação social como exigência à obra de justiça, ocasiona uma fissura na imanência na qual a transcendência se manifesta, abertura que conduz ao Deus invisível, em forma de palavra, como ordenamento ético: “a metafísica se desenvolve nas relações éticas.” (LEVINAS, 2014, p. 77, tradução nossa). A religião em Levinas relaciona-se ao Dizer pré-originário da relação ética, na qual ecoa o Infinito – que se expressa sem se mostrar – como fonte primeira de inspiração à justiça. Trata-se de uma noção religiosa fora da acepção institucional, longe do campo da sistematização dogmática, distanciando-se, de certa forma, até mesmo da esfera das consolações religiosas. Para Levinas, a perspectiva ética não exclui totalmente as consolações da religião, mas, o filósofo argumenta que “talvez seja digna dessas consolações somente uma humanidade que pode prescindir delas.” (LEVINAS, 1982b, p. 117, tradução nossa). 154 3. Deus outramente que ser Levinas desenvolveu uma contundente crítica à tematização da transcendência produzida no transcurso histórico ocidental, desaprovando o discurso filosófico sobre Deus, que manteve o Infinito ajustado e, consequentemente, limitado à razão humana: “o Deus dos filósofos, de Aristóteles a Leibniz, passando pelo Deus dos escolásticos, é um deus adequado à razão, um deus compreendido que não saberia perturbar a autonomia da consciência [...].” (LEVINAS, 2010b, p. 263, tradução nossa). Trata-se de uma análise crítica que se insere no contexto maior da contestação levinasiana ao modelo ontológico – prevalente no pensamento do Ocidente27 – que através da tematização e da conceitualização reduziu e equalizou o Outro ao idêntico, restringindo-o aos domínios do Mesmo. Nesse modelo, a significação subordina-se ao ser, que passa a ter um papel inquestionável e indestronável. No entanto, para Levinas, “a inteligibilidade da transcendência não é ontológica” (LEVINAS, 2004, p. 125, tradução nossa),sendo um equívoco tomar o ser por Deus ou considerar Deus como o ente supremo, diagnóstico que inicialmente aproxima-se da leitura heideggeriana28, para logo dela se afastar, pois na concepção de Levinas Deus relaciona-se ao sentido e não ao ser (SEBBAH, 2010, p.57). A abordagem levinasiana sobre Deus se dará fora do paradigma ontoteológico e apartada de questões comprobatórias de Sua existência, pois, para o filósofo, opor Deus à ontoteologia permite uma nova maneira de conceber o Transcendente (LEVINAS, 1993, p.144), possibilitando uma nova noção de sentido buscada na concretude do face-a-face das relações intersubjetivas: “a aproximação não onto-teo-lógica da ideia de Deus passa pela análise das relações inter-humanas que não entram no quadro da 27 “O ontologismo, sob a sua significação mais ampla, permaneceu o dogma fundamental de todo o pensamento.” (LEVINAS, 1982a, p. 124, tradução nossa). 28 “Mas se por um lado Levinas concorda com Heidegger acerca da distinção entre ser e Deus, por outro lado ele julga inviável conceber o ser como o horizonte em que Deus possa se revelar.” (CAMPOS, 2020, p. 172). 155 intencionalidade, a qual, tendo sempre um conteúdo, pensa sempre à sua medida.” (LEVINAS,1993, p. 201, tradução nossa). Um tópico fundamental na abordagem levinasiana de Deus é a ideia de Infinito, inspirada no filósofo René Descartes. Levinas abandona o contexto substancialista da postulação de Descartes, evidenciando o rompimento da consciência por ela provocado, pois a ideia de Infinito apresenta uma desproporcionalidade entre a ideia e o objeto da ideia. Quando se pensa o Infinito, o pensamento põe-se a pensar mais do que pode. Para Levinas, “a experiência, a ideia de infinito, está ligada à relação com Outrem. A ideia de infinito é a relação social.” (LEVINAS, 2010b, p. 239, tradução nossa). As relações éticas representam o acolhimento da exterioridade e o absoluto respeito à alteridade do Outro enquanto Outro, em cujo rosto Deus se revela como palavra: A relação moral reúne então ao mesmo tempo a consciência de si e a consciência de Deus. A ética não é o corolário da visão de Deus, ela é esta visão mesma. A ética é uma ótica. De sorte que tudo o que eu sei de Deus e tudo o que eu posso entender de Sua palavra e Lhe dizer razoavelmente deve encontrar uma expressão ética. (LEVINAS, 2010a, p. 37, tradução nossa). O rosto é o ponto central na relação com Outrem, por ser portador de um apelo de responsabilidade, devido à sua absoluta vulnerabilidade e indigência, característica constitutiva de nossa condição – ou incondição – humana. O rosto, em sua nudez, se recusa a ser conteúdo e não se sujeita à relação sujeito/objeto, pois ele rompe com as estruturas cognitivas do pensamento, em razão de seu caráter excessivo, que transcende as suas próprias delimitações físicas. A relação com o rosto, o face-a-face, determina uma situação ética que contesta o primado da relação ontológica e institui um contexto metafísico, revelando uma relação tipicamente religiosa, sobretudo em razão de sua diacronia assimétrica ou separação (RIBEIRO JÚNIOR, 2008, p.448). O mandamento de responsabilidade inscrito na nudez do rosto do Outro é a palavra de Deus, imune à tematização. É através do rosto de Outrem que Deus me vem à ideia, como um imperativo de justiça em favor do outro homem, como obrigação ética: “essa obrigação é a primeira palavra de Deus. A teologia 156 começa para mim no rosto do próximo. A divindade de Deus atua no humano. Deus desce no “rosto” do outro. (LEVINAS, 1994, p.179, tradução nossa). A transcendência só se realiza no face-a-face da socialidade: “não há modelo da transcendência fora da ética.” (LEVINAS, 1993, p. 226, tradução nossa). Portanto, na concepção de Levinas, pensar a palavra Deus de maneira apropriada é pensá-la no contexto ético das relações intersubjetivas. Considerações Finais Emmanuel Levinas desenvolveu uma noção bastante peculiar de religião e de transcendência, se afastando da ontologia e desarticulando o Eu da posição de soberania adquirida no transcurso histórico da filosofia ocidental. Partindo de uma matriz judaica que o inspirou, embora sem nunca avocar a sabedoria do Livro como argumento de autoridade, Levinas conferiu à ética o status de filosofia primeira e de estrutura basilar da realidade do humano enquanto humano. Nesse contexto, a religião foi abordada fora do seu significado institucional ou normativo, sendo-lhe conferido um novo sentido. A religião foi pensada, sobretudo, como relação com o Outro, em cujo rosto o Infinito se manifesta, nos obrigando, eticamente, à obra da justiça. Na concepção de Levinas, a palavra de Deus que passa como vestígio no rosto do Outro é revelação, é a religião original não oriunda das especulações da razão humana. O acolhimento dessa palavra é o próprio testemunho do Infinito, que se concretiza com a palavra ética primeira, o “eis-me aqui”, pronunciado diante do chamado de responsabilidade proveniente do rosto do próximo. Referências CAMPOS, Fabiano Victor. De outro modo que ser: o Deus de Emmanuel Levinas. In: CHACON, Daniel Ribeiro de Almeida; ALMEIDA, Frederico Soares de. (org..). Filosofia da religião: problemas da Antiguidade aos tempos atuais. São Paulo: Edições Loyola, 2020. p. 171-198. LEVINAS, Emmanuel. De Dieu qui vient à l’idée. 2ª ed., Paris: Vrin, 2004. 157 LEVINAS, Emmanuel. De l’évasion. Paris : Fata Morgana, 1982a. (Le livre de poche). LEVINAS, Emmanuel. Dieu, la mort et le temps. Paris : Grasset & Fasquelle, 1993. (Le livre de poche). LEVINAS, Emmanuel. Difficile liberté: essais sur le judaïsme. 9.ed. Paris: Albin Michel, 2010a. (Le livre de poche). LEVINAS, Emmanuel. En découvrant l’existence avec Husserl et Heidegger. Paris: Vrin, 2010b. LEVINAS, Emmanuel. Éthique et infini: dialogues avec Philippe Nemo. Paris: Fayard, 1982b. (Le livre de poche). LEVINAS, Emmanuel. Les imprévus de l’histoire. Paris: Fata Morgana, 1994. LEVINAS, Emmanuel. Totalité et infini: essai sur l’extériorité. Paris : Kluver Academic, 2014. (Le livre de poche). LEVINAS, Emmanuel. Entretiens Emmanuel Levinas / François Poirié. In: POIRIÉ, François. Emmanuel Levinas: essai et entretiens. Paris: Actes Sud, 1996, p. 59- 169. RIBEIRO JÚNIOR, Nilo. Sabedoria da paz: ética e Téo-lógica em Emmanuel Levinas. São Paulo: Loyola, 2008. SEBBAH, François-David. Levinas. Paris: Perrin, 2010. SEBBAH, François-David. Levinas no ouvido de Lyotard. Revista Ética e Filosofia Política, Número XXII – Volume I, p. 179-195, junho de 2019. TEIXEIRA, Faustino; Menezes, Renata. Religiões em movimento: o Censo de 2010. Petrópolis: Vozes, 2013. E-book. VIEIRA, José Álvaro Campos. Os sem religião: aurora de uma espiritualidade não-religiosa. Fortaleza: Parole, 2016. E-book. 158 A BUSCA PELA ESPIRITUALIDADE E SUA RELAÇÃO COM O PROCESSO DE INDIVIDUAÇÃO Leandro da Costa Alhadas Cavalcanti Graduando de Psicologia Centro Universitário de Viçosa leandropsi@konekta.io Andréa Olimpio de Oliveira Doutoranda em Ciência da Religião UFJF andrea.olimpiodeoliveira@gmail.com Resumo: Este estudo tem como proposta analisar e identificar as interfaces entre a experiência da espiritualidade e o processo de individuação; conceito central da Psicologia Analítica, desenvolvida pelo psiquiatra suíço, Carl Gustav Jung (1875–1961). Objetiva-se com este estudo, realizar uma correlação entre a experiência da busca pela espiritualidade, com o processo de individuação. Como metodologia, se trata de uma pesquisa de revisão bibliográfica cuja fonte literária primária é o Jung. Apoiando-se nos fundamentos teóricos da Psicologia Analítica, assim como em artigos que aprofundam o conceito de espiritualidade, o texto busca esclarecer as diferenças entre espiritualidade e religião, bem como de individualismoe individuação. Ao comparar os conceitos de espiritualidade e individuação, o estudo analisa a espiritualidade como um fenômeno de caráter coletivo e qualidade arquetípica, inerente à própria estrutura psíquica, que remete há tempos primordiais da humanidade. Espera-se com este estudo trazer contribuições que ampliem o entendimento da espiritualidade dentro de um contexto clínico, independente da crença religiosa do paciente ou da abordagem teórica do psicólogo. Ao passo que não há intenção de trazer respostas fixas, o resultado desta pesquisa poderá contribuir com um aclaramento sobre a função da espiritualidade dentro do manejo clínico e como parte integrante do processo psicoterápico. Palavras-chave: Arquétipo; espiritualidade; individuação; psicologia analítica. 1. Introdução Em janeiro de 2020 a Organização Mundial da Saúde (OMS) declarou uma Emergência de Saúde Pública de Âmbito Internacional, em função do surto do Coronavirus-2019 (COVID-19). Logo em seguida, em março de 2020, foi oficialmente declarado como pandemia. Durante o período mais crítico da Pandemia, que se situa entre janeiro de 2020 a dezembro de 2021, tornou-se um tema comum de discussões informais e em diferentes mídias a forma como as pessoas estavam vivenciando a pandemia. Houve, de forma geral, dois movimentos opositores como resposta à experiência da pandemia: de um lado, pessoas manifestando experiências percebidas como negativas, como mailto:leandropsi@konekta.io mailto:andrea.olimpiodeoliveira@gmail.com 159 ansiedade tristeza, sintomas depressivos e agressividade; por outro, pessoas que a experienciaram como uma oportunidade positiva de introspecção, voltar a si mesmo, de desenvolvimento espiritual e uma ressignificação de aspectos da vida. O tema da busca pela espiritualidade em momentos de crise possibilita análises profundas, sobre como as pessoas reagem quando em uma situação de tensão psíquica. A proposta desta pesquisa é fazer uma correlação a nível conceitual de espiritualidade com alguns dos conceitos mais fundamentais da teoria Junguiana como individuação, si-mesmo (Self), inconsciente coletivo, arquétipo e ego. A partir disso, busca-se gerar reflexões sobre o lugar que a espiritualidade ocupa no enfrentamento de crises, e relacionar este movimento com o processo de individuação; conceito central da Psicologia Analítica, desenvolvida pelo psiquiatra suíço, Carl Gustav Jung (1875–1961). Entender a relação da espiritualidade com a individuação é relevante pois, além de nos informar a respeito de marcos históricos que impulsionam o ser humano a buscar mais autoconhecimento, também levanta reflexões a respeito do caráter arquetípico da espiritualidade na humanidade. Para Jung, é justo através do processo de individuação que “o paciente se torna aquilo que de fato ele é” (JUNG, 2009. p. 24). 2. Objetivos Como objetivo geral busca analisar, apoiando-se em conceitos teóricos da Psicologia Analítica, identificar quais seriam algumas das interfaces, ou pontos de congruência, entre a experiência de estar conectado com algo que transcenda através da espiritualidade e o processo de individuação proposto por Carl Gustav Jung. A pesquisa pretende assim, relacionar a busca da espiritualidade como um fator catalisador, que faz parte da ancestralidade humana e fomenta o processo de individuação. Como objetivos específicos almeja: a) Elucidar os conceitos de individuação, Self (Si-mesmo), arquétipo, ego, psique e inconsciente coletivo; 160 b) Investigar diferentes conceitos de espiritualidade e religião e esclarecer a diferença entre individualismo e individuação; c) Fazer uma correlação entre a busca da espiritualidade em momentos de crise com o processo de individuação. 3. Metodologia No contexto desta investigação, será́ feita uma diferenciação entre espiritualidade e religião entendendo que espiritualidade não está necessariamente circunscrita dentro da religião. Para isto será́ realizado uma reflexão sobre a etimologia da palavra espiritualidade com base em artigos científicos secundários e pesquisas de campo que discutem o conceito de espiritualidade e sua relação com religião e saúde mental. 4. Resultados e Discussão Com base nas pesquisas iniciais realizadas para este projeto, vê-se necessário incluir como escopo desta pesquisa, os conceitos fundamentais da Psicologia Analítica e de espiritualidade, propondo um entendimento mais amplo e universal da mesma, e vê-la como um fenômeno humano, independente se a pessoa é religiosa, cientificista ou ateia. Portanto, julga-se pertinente trazer alguns dos conceitos teóricos da Psicologia Analítica, que serão utilizados no texto. As descrições dos conceitos abaixo foram reproduzidas de painéis da exposição, “Nise da Silveira – A Revolução pelo Afeto” realizada no Centro Cultural Banco do Brasil, Rio de Janeiro (novembro, 2020): Tabela 1 – Conceitos centrais da Psicologia Analítica Arquétipo Estruturas presentes no inconsciente coletivo como formas predeterminadas para pensar e agir, são possibilidades herdadas comum a todos os seres humanos. Ego Está relacionado à vontade; é a percepção geral do próprio corpo e da própria existência. 161 Inconsciente Coletivo É uma camada profunda da psique que contém os instintos e os arquétipos. São disposições funcionais herdadas, de caráter universal, inerentes à própria estrutura psíquica; matrizes em que tomam forma representações correspondentes a experiências primordiais da humanidade. Individuação Conceito central da psicologia junguiana, a individuação visa ao conhecimento de si mesmo, permitindo que o inconsciente surja no mundo consciente. É um processo que estimula o indivíduo a criar condições para que desperte o melhor de si e do outro, fazendo-o sair do isolamento e empreender uma convivência mais ampla e coletiva, consciente da totalidade, mantendo a sua coletividade. Self É o conceito de si-mesmo; é o arquétipo central da ordem, da totalidade do ser humano; o centro regulador da psique. Psique Reúne todos os aspectos da personalidade, os sentimentos, os pensamentos e os comportamentos, tanto conscientes quanto inconscientes. Tem a função de harmonizar e regular internamente o indivíduo. Para compreensão do processo de individuação, Jung (2009), esclarece a diferença entre individualismo e individuação. Enquanto o individualismo favorece um movimento direcionado ao ego, o que dentro da organização da estrutura psíquica proposta por Jung está no centro da consciência, o processo de individuação seria “tornar-se um consigo mesmo, e ao mesmo tempo com a humanidade toda, em que também nos incluímos” (2009, p. 227). Entende-se, então, que o processo de individuação, apesar de ser um movimento da dinâmica do ego (pois é uma tomada de consciência de conteúdos inconscientes), diferentemente do processo de individualismo, está orientado para o Self (si-mesmo), e esta instância, enquanto arquétipo (parte do inconsciente coletivo, e a totalidade da psique humana), representa a essência do indivíduo; normalmente inacessível à consciência. 162 Assim como é necessário fazer-se uma distinção entre individualismo e individuação, também o é distinguir espiritualidade de religião. Oliveira & Junges (2012, p. 470) fazem uma análise bibliográfica de vários autores sobre este tema e sugerem que: “o conceito de religião refere-se ao aspecto institucional e doutrinário de determinada forma de vivência religiosa. Já a espiritualidade faria referência à experiência de contato com algo que transcende as realidades normais da vida”. Dessa forma, podemos perceber a experiência da espiritualidade como algo de qualidade arquetípica, pois essa busca de ir ao encontro de si mesmo e de algo que transcenda a experiência humana (do ego), existe desde temposprimordiais, antes mesmo das instituições religiosas. Ora, este fenômeno pode ser compreendido como um processo de individuação; ou seja, o “si-mesmo” é tudo aquilo que ele tem potencial de ser; sua essência. Com base nisso podemos entendê-lo como algo que engloba todos os aspectos do ser humano. Jung (2009 p. 140) comenta que “a experiência do si mesmo nada tem a ver com intelectualismo, mas é uma experiência vital e profundamente transformadora. O processo que conduz a ela foi por mim denominado processo de individuação”. Nesse sentido, “o processo da individuação natural produz uma consciência do que seja a comunidade humana, porque traz justamente à consciência o inconsciente, que é o que une todos os homens e é comum a todos os homens” (JUNG, 2009, p. 11). Em outras palavras, ao conectar-se com o si-mesmo, estará conectando-se ao todo, à experiência do coletivo. “A individuação não exclui o mundo; pelo contrário, o engloba” (JUNG, 2000, p. 83). Em outras palavras, ela ocorre em termos de indivíduo (para si- mesmo), mas tem caráter coletivo pois é um movimento comum ao coletivo (um grupo de indivíduos), pois “bebe” da fonte do coletivo e o devolve para as mesmas águas que serão a fonte de outros indivíduos. Olhando para a etimologia latina da palavra espírito, que vem de spiritus, constata-se que ela está intimamente relacionada ao verbo spirāre, que, por sua 163 vez, implica na ação de soprar como parte da respiração do corpo29. Nessa leitura, o espírito seria o “sopro da vida”, e estaria relacionado ao próprio sentido de existir. Podemos ampliar esta imagem então para pensar a espiritualidade como algo que adjetiva essa experiência de sentir-se vivo, que manifesta uma energia vital. Oliveira & Junges (2012, p.470), chegam a citar o teólogo, escritor, filósofo e professor universitário brasileiro, Leonardo Boff, que diz que a espiritualidade “significa experimentar uma força interior que supera as próprias capacidades”. Houveram no decorrer da pandemia da COVID-19 várias pesquisas que destacavam estatísticas interessantes que demonstrando desdobramentos positivos como resultado das pessoas que recorreram à espiritualidade ou alguma prática terapêutica como uma estratégia, mesmo que não planejada, de enfrentamento. No Brasil, pode-se citar uma pesquisa realizada pela UERJ (Universidade Estadual do Rio de Janeiro) com 1.460 pessoas em 23 estados, respondendo a um questionário on-line com mais de 200 perguntas, em dois momentos específicos: de 20 a 25 de março e de 15 a 20 de abril 2020. Esta pesquisa demonstrou que “quem recorreu à psicoterapia pela internet apresentou índices menores de estresse e ansiedade'' (DIRETORIA DE COMUNICAÇÃO DA UERJ, 2020). Sobre esse mesmo tema, um estudo realizado por Sant'Ana, Silva e Vasconcelos (2020) destacou que “cerca de 850 estudos que avaliaram a associação entre envolvimento espiritualista e aspectos da saúde mental demonstram que a maior parte das pessoas que vivenciaram melhor saúde mental e mais se adaptaram ao estresse eram religiosas” (p.73). Os pesquisadores mencionados comentam “que os indivíduos, ao resignificarem o trauma vivido através de valores pessoais, com atividades espirituais e compaixão, apresentaram maior resiliência e menores índices de complicações psicológicas (2020, p. 73). 29 Benjamin Veschi. Ano: 2020. Em: https://etimologia.com.br/espirito/. Acesso em 01 junho, 2021. https://etimologia.com.br/espirito/ 164 Conclusão Ao relacionar o processo de individuação com o movimento da busca da espiritualidade em momentos de crise, podemos entender que esta busca possui qualidade arquetípica no sentido em que há algo próprio do ser humano, deste os tempos primordiais que o impulsiona a buscar compreender a si mesmo, e tendo como aporte para imbuir de sentido o mundo em que ele habita, algo que transcenda à sua condição. Este fenômeno da busca por algo que transcenda, é instintivo no ser humano. Este dinamismo é biográfico, constitucional, fazendo parte da dinâmica do próprio Self (enquanto centro da psique e instância que representa a totalidade do indivíduo), e anterior a uma organização religiosa; a religião ou qualquer tipo de crença dogmática só pode existir devido ao fenômeno da busca espiritual. É interessante perceber também que segundo o conceito de individuação, voltar-se a si-mesmo é também voltar- se ao coletivo; pois dentro da perspectiva da Psicologia Analítica, a nossa camada mais profunda da Psique é o inconsciente coletivo. Ao passo que não há intenção de trazer respostas prontas a respeito da espiritualidade, o resultado desta pesquisa poderá contribuir com um aclaramento sobre a função que a mesma ocupa dentro do manejo clínico e como parte integrante do processo psicoterápico. Espera-se que este estudo possa trazer contribuições que ampliem o entendimento da espiritualidade dentro do contexto clínico, independente da crença religiosa do paciente (e do psicólogo) ou da abordagem teórica do psicólogo. Agradecimentos Ao Jung, por meu encontro com sua obra ser uma parte tão intrínseca do meu próprio processo de individuação e à Professora Andrea Olimpio de Oliveira por ser uma fonte constante de inspiração e motivação nesta jornada. Referências DIRETORIA DE COMUNICAÇÃO DA UERJ (Brasil). UERJ. Pesquisa da UERJ indica aumento de casos de depressão entre brasileiros durante a quarentena. Disponível em: https://www.uerj.br/noticia/11028/. Acesso em: 1 jun. 2021 165 JUNG, Carl Gustav. A natureza da psique. Editora Vozes Limitada, 2000. JUNG, Carl Gustav. A prática da psicoterapia. Editora Vozes Limitada, 2009 OLIVEIRA, Márcia Regina de; JUNGES, José Roque. Saúde mental e espiritualidade/religiosidade: a visão de psicólogos. Estudos de Psicologia, Natal, v. 17, n. 3, p. 469-476, 2012. RAFFAELLI, Rafael. Imagem e self em Plotino e Jung: confluências. Estudos de Psicologia, PUC-Campinas, v. 19, n. 1, p. 23-36, janeiro/abril 2002. SANT’ANA, Geisa; SILVA, Cristina Duarte; VASCONCELOS, Maria Beatriz Aguiar. Espiritualidade e a pandemia da COVID-19: um estudo bibliográfico. Comunicação em Ciências da Saúde, v. 31, n. 03, p. 71-77, 2020. 166 O PRINCÍPIO PLURALISTA, A CRÍTICA A MODERNIDADE E O DESAFIO DOS DIREITOS HUMANOS NA CONTEMPORANEIDADE A PARTIR DE JACQUES MARITAIN Moacir Ferreira Filho Doutorando em Ciências da Religião pela Universidade Metodista de São Paulo com período intercalar com a Universidade Católica Portuguesa Financiado pela CAPES. Professor do Centro Universitário FAVENI e Faculdade de Filosofia e Teologia Paulo VI. moacirff@hotmail.com Resumo: O presente trabalho é parte de uma pesquisa de doutorado em andamento que pretende compartilhar alguns resultados preliminares de modo que se abra ao diálogo acadêmico. Tendo como referencial teórico e, posteriormente, como objeto de análise crítica, o pensamento de Jacques Maritain, propõe-se expor o princípio pluralista fundamentado pelo autor e a partir disso, analisar o pensamento dele e suas críticas ao pensamento moderno que tem enfraquecida a dignidade da pessoa humana e cria um ambiente onde o ser humano é tratado como mera coisa. Nessa perspectiva, abrem-se as possibilidades de se instaurar um comportamento de violência legitimado pelas religiões ferindo a dignidade da pessoa humana e seu status de ser dotado de direitos. A partir de uma revisão sistemática, análise crítica e de procedimentos observacionais, elaborou-se um estudo qualitativo de natureza aplicada com objetivo exploratório de procedimento bibliográfico. Essa pesquisa pretende abrir o diálogo em relação a pluralidade e diversidade presente em nossos tempos, refletir sobre o pensamento moderno e contemporâneo acerca da imagem do ser humano diverso em si e enfim, propor caminhos possíveis para a geração dapaz social, o respeito entre as pessoas e a promoção da dignidade da pessoa humana tão ferida em nossos tempos. Nessa perspectiva, pretende contribuir para esse GT no que se refere ao desafio da promoção da dignidade da pessoa humana em meio ao contexto de tantos discursos de ódio em violência onde em pleno século XXI a humanidade recorre a guerras como meio de "solucionar" conflitos. Palavras-chave: Diversidade; Modernidade; Direitos Humanos; Jacques Maritain. Introdução A sociedade atual passa por um momento em que muitas coisas estão sendo ressignificadas. O Direito é uma ciência que regula as relações humanas e, quando elas se tornam variadas, ele é modificado. Conceitos que já eram tidos como inegociáveis, hoje passam por uma espécie de “revisão” e, por vezes, negação. O mundo polarizou-se de modo que exige respostas cada vez mais delicadas da ciência que se vê imersa nesse imenso “barril de pólvora” com a missão de (tentar) responder a demanda de modo que promova a vida e a mailto:moacirff@hotmail.com 167 dignidade da pessoa humana. Nesse contexto de renegociações, negações e reafirmações, poderia a dignidade da pessoa humana estar em “jogo”? Considerar que o ente humano é um animal racional não é suficiente para valorizar sua dignidade. Considera-lo um ser de direitos é possível por poder dize-lo como pessoa e não apenas indivíduo. Contudo, o termo pessoa é proveniente de um fundamento teológico que exige um certo tipo de crença, nesse sentido, quando existe uma sociedade com um pluralismo de crença, a visão acerca da pessoa humana pode ser também variada. Fato este que causa polarizações e exige respostas que abarquem a diversidade. Vale destacar que o pluralismo não é considerado um problema, muito pelo contrário, ele traz ao centro a discussão de um conceito que seja eficiente à diversidade. 1. O princípio pluralista no pensamento de maritain Maritain (1951) destaca que o princípio pluralista pode ser observado já em Tomás de Aquino30. Esse princípio também é reforçado na sua obra “Humanismo Integral”: “(...) não é composta a sociedade somente de indivíduos, mas das sociedades particulares por eles formadas (...) na cidade dos tempos atuais fiéis e infiéis são misturados”. (MARITAIN, 1965, p. 130/132). O filósofo ensina que a harmonização dos plurais objetiva alcançar a boa vida humana. A lei deve tornar o ser humano moralmente bom. Em “Man and the State”, Maritain (1951) defende que para se conviver bem numa sociedade democrática, é necessário obter uma harmonia entre os opostos. Essa harmonia, não precisa se dar no campo teórico, mas basta que tenham um acordo prático acerca dos direitos humanos. Obviamente, a consciência de cada pessoa muda de acordo com a religião, a filosofia entre tantos outros fatores que são capazes de influenciar a mente humana, porém o que não deveria mudar de acordo com as ideologias é a prática diante da promoção da dignidade da pessoa humana e a luta pela defesa ao respeito pela humanidade. 30 ST II – II q. 10 e 11. 168 Embora estejamos inserido numa sociedade plural, seguindo o raciocínio maritainiano, é possível identificar uma crença comum entre as pessoas : a liberdade. O oposto a isso gera o fascismo, comunismo, a democracia burguesa, racismo...que são considerados erros pelo filósofo francês. “O conceito de fé e inspiração que a democracia precisa não pertence à ordem da crença religiosa e na vida eterna, mas à ordem temporal e secular da vida terrestre. A fé em questão é a cívica ou secular, não a religiosa”. (MARITAIN, 1951 p. 110 – Tradução Livre) Alguns podem até argumentar erronemanete que Maritain pretendia rrelaborar um projeto de sociedade aos moldes de um república cristão, entretanto, o filósofo deixa claro em sua obra que não se deve esperar uma nova república, mas sim que seja possível uma unidade política e espiritual do cidadão, isto é, uma sociedade onde a pluralidade de ser e de pensar sejam garantidas e respeitadas e que, acima de tudo esteja a missão de promover a dignidade da pessoa humana independente de ideologias contrárias. A sociedade civil não é composta somente de indivíduos, mas das sociedades particulares por eles formadas; e uma cidade pluralista reconhece a essas sociedades particulares uma autonomia tão ampla quanto possível, e diversifica sua própria estrutura interna segundo as conveniências típicas da natureza delas. (MARITAIN, 2018 p. 171). “Perante toda diversidade é preciso que se busque também a paz dos povos, pois o que se precisa não é uniformidade de maneiras de se comportar, mas de uma orientação que leve a uma aspiração comum, a uma vida melhor” (EUFRÁSIO, 2018, p.5). 2. A crítica a modernidade: entre a individualidade e a personalidade Notoriamente, em linhas gerais, o mito fundante predominante no ocidente é do livro do Gênesis, mais precisamente nos capítulos 1, 2 e 3 onde na interpretação de Agostinho na Cidade de Deus, quando o texto relata que Deus criou o ente humano à sua imagem, isso significa que ao cria-lo, Deus deu a ele intelecto, vontade e poder sobre seus atos. Ser imagem de Deus, na perspectiva de Agostinho, significa, que os entes humanos são dotados de elementos que os distinguem de todas as outras criaturas. A imago Dei é 169 justificada pela sua natureza racional. Através disso, é possível chamar o ente humano de pessoa e não somente indivíduo de acordo com essa tradição filosófica. Na concepção de Boécio (2005, p. 165), pessoa é “uma substância individual de natureza racional”. Tomás de Aquino (2015) adota tal definição e utiliza-se dela para elaborar o seu tratado acerca das pessoas divinas e das pessoas humanas. Spaemann (2000) destaca que o conceito de pessoa se encontra no núcleo da teologia cristã, portanto, conclui que sem a dimensão teológica, o conceito de pessoa desapareceria. Wojtyla (1961) escreve que o personalismo de Aquino não se trata apenas de uma teoria sobre o que é pessoa. O escolástico não se preocupa com pessoa como um objeto de estudo, mas como um sujeito de direitos. A doutrina religiosa da imagem de Deus se torna a doutrina filosófica da pessoa. Na formação do pensamento jurídico ocidental, nota-se como o conceito da dignidade da pessoa humana é aplicado para garantir direitos até mesmo em sociedades laicas. Segundo Azevedo (2009), Jacques Maritain se utilizou de conceitos tomistas de dignidade e liberdade para auxiliar na elaboração da DUDH adotada pela ONU. Observa-se que a dignidade da pessoa humana decorre da concepção da dignidade da pessoa divina e, se com o desencantamento do mundo proposto pela razão contemporânea enfraquece- se tudo o que é transcendental, logo a dignidade da pessoa humana está ameaçada. A pessoa humana corre risco de ser reduzida ao mero status de indivíduo. Deixa de ser alguém para ser algo. Maritain (2019) aponta que o mundo moderno confunde a individualidade e a personalidade. “Enquanto indivíduos, estamos submetidos aos astros. Enquanto pessoa, nós os dominamos” (MARITAIN, 2019, p. 26). O francês define o individualismo moderno como a exaltação da individualidade camuflada em personalidade. Em ocorrendo o desencantamento do mundo juntamente com o enfraquecimento de algumas concepções transcendentais, perde-se aquilo que Maritain chama de armadura social. 170 Atravessamos o século XX fazendo guerra e, quando pensamos que os ânimos haviam se acalmado, fazemos guerra no XXI também. Ainda há muita gente passando fome, passando por segregação, privado de saúde e educação. Enfim, há quem não goze de seus direitos básicos e fundamentais. As pessoas são reduzidas ao status de meras coisas. 3. Os desafios dos direitos humanos na contemporaneidade Levitsky e Ziblatt (2018) escrevem “Como as democracias morrem” tendo como fio condutor as polarizações que os governosdemagogos geram através dos discursos de ódio fazendo com que a democracia que outrora era vista como o sistema político mais adequado para atender a demanda dos direitos humanos fosse vista como obsoleta, frágil e que precisasse apelar para o retorno de um possível governo autoritário e totalitário que se faz absoluto e governa sem o controle ou a existência dos outros poderes. Ao escrever “Homo Deus”, Harari (2015) relata que a humanidade nunca havia passado tanto tempo sem fomo, guerra e pestes aos moldes como contam os livros de história mundial. O que o autor não esperava é que em ao término de 2019, o mundo começaria o enfrentamento de uma pandemia que assolou a população mundial. Harari (2015) também não imaginaria que em pleno 2022, países como Rússia e Ucrânia estariam em confronto direto disputando poder, território impulsionados por uma Teologia Política que, no caso, do lado dos russos, recebeu apoio do Patriarca ortodoxo Kirill para que a chamada “operação militar” tivesse “sucesso” com rapidez. Em se tratando de guerra e direitos humanos, sucesso é que esse embate não estivesse acontecendo e que as vidas não estivessem sendo dizimadas, mas infelizmente, os fatos estão aí e não podemos negar. Cabe lembrar que esse não é o único conflito vigente em nossa era, vale citar da Etiópia, Iêmen, Mianmar, Haiti, Síria, Afeganistão e regiões da África sob domínio de militantes radicais jihadistas.31 31 GALLAS, Daniel. Além da Guerra na Ucrânia: 7 conflitos sangrentos que ocorrem hoje no mundo. 14.mar. 2022. Acesso em 3.set.2022. Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/internacional-60690640 171 Um dos aspectos mais marcantes do texto de Harari é justamente a concepção de que o ser humano daria conta agora de controlar todas essas questões catastróficas para toda espécies. Sabemos bem o que precisa ser feito para evitar a fome, as pestes e a guerra – e geralmente somos bem sucedidos ao fazê-lo. (...) Sim, quando a fome, as pestes ou as guerras saem de nosso controle, costumamos achar que alguém deve ter se equivocado, (...) e prometemos que na próxima vez faremos melhor. (HARARI, 2015, p. 9). Nessa perspectiva, aquilo que numa visão de mundo encantado era visto como desígnios de Deus, em consonância ao pensamento de Harari, passa a ser visto como falha ou escolha da própria humanidade, inclusive o evento morte. Se algo de ruim aconteceu já não é considerado como a vontade de Deus, mas é interpretado como uma falha humana diante da própria história. É nesse cenário que os Direitos Humanos hoje se encontram desafiados. Num ambiente internacional caótico e polarizado onde o ser humano é detentor de todas as escolhas, por vezes, impulsionado por uma Teologia política que, dependendo de seu uso, em vez de promover e garantir a vida e a dignidade humana, apenas legitimam e promovem guerras, mortes e conflitos. Conclusão Os paradigmas do pensamento sempre passaram por mudanças. Para o Direito não é diferente. Uma de suas fontes é o costume da sociedade, e quando esta passa por modificações, ele também é modificado. É o que se pôde notar diante deste breve estudo acercar dos paradigmas filosóficos e a consideração da dignidade da pessoa humana. Só é possível manter esse conceito vigente a partir de uma reflexão lógica que envolva um discurso teológico e filosófico. Se há uma tendência de banalização de discursos de cunho religioso ocorre o problema anunciado por Maritain de se reduzir a pessoa a um mero indivíduo e daí decorrem todas as injustiças sociais. Quando se trata de pessoa, trata-se de um sujeito de ação e de direitos. A atualidade tem nos mostrado a desvalorização da pessoa humana que vive essa tensão entre a individualidade e a personalidade que, como exposto, do ponto de vista ético, ode fazer toda a diferenças. O estudo contribui para 172 que a sociedade fique atenta às injustiças sociais, abre caminhos para que se discuta uma nova maneira de pensar a revalorização da pessoa humana. Este artigo pode ser limitado pelo fato de abordar apenas um aspecto em que se nota uma falha quanto a aplicação do conceito da dignidade da pessoa humana em nossos dias. Com o advento da razão, da ciência moderna, a desinstitucionalização religiosa, o enfraquecimento das instituições, o crescimento do número dos sem-religião, aqueles princípios fundamentados em dogmas e crenças religiosas se encontram enfraquecidos e far-se-á necessário de um conceito comum que abarque a humanidade universalmente e urgentemente, haja vista que ainda em pleno século XXI a humanidade se encontra em contexto de guerra e, infelizmente, fomentada por uma Teologia Política. Um dos caminhos a serem traçados, porém longo, é o caminho da educação tal como proposto por Jacques Maritain, ademais, o autor também apresenta algumas inconsistências em suas teses que podem dar margem ao discurso que quer se dizer conservador e que, por vezes, quando exacerbado torna-se ferramenta de opressão e anulação das alteridades. No século XVI, Thomas More elaborou um romance filosófico que levou o nome de Utopia. Numa tradução simples do grego para o português, utopia quer dizer um "não lugar" ou um lugar imaginário. Nessa sociedade criada por ele, não existia intolerância religiosa e as pessoas tinham vergonha de fazer guerra. Pois bem, parece que do século XVI para o XXI, essas características continuam sendo utópicas. Referências AGOSTINHO, Santo. A cidade de Deus: parte II. São Paulo: Federação Agostiniana Brasileira; Bragança Paulista, SP: Editora Universidade São Francisco (Vozes de bolso), 2012. ARMSTRONG, Karen. Uma história de Deus. São Paulo: Companhia das Letras, 1994. AZEVEDO, Ferdinand. Jacques Maritain e a Declaração Universal dos Direitos Humanos. Universidade Católica de Pernambuco. 2009. Disponível em: Acesso em: 4 jun. 2021. 173 BOÉCIO. Escritos (opuscula sacra). Trad. Juvenal Savian Filho. São Paulo: Martins Fontes, 2005. EUFRÁSIO, Thiago de Moliner. Humanismo integral segundo Jacques Maritain: a pessoa humana como ser de relação e promotora de dignidade. 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O problema proposto verifica de que maneira é possível pensar a filosofia levinasiana, enquanto uma dimensão de cuidado com os mais frágeis na luta e na superação das violências, das perseguições, das exclusões e das injustiças de nossos tempos? A metodologia utilizada neste estudo permeou fontes de revisão e de reflexão bibliográfica, sobretudo os textos clássicos de Emmanuel Lévinas a respeito da temática abordada. Com base no exposto, essa comunicação no GT 12 - Religião e cuidado: perspectivas protestantes e existenciais traz como resultado o fomento do debate sobre o tema em questão, em relação ao apontamento do cuidado como prática não só da religião, mas de outros setores da esfera pública no agir do mundo pela garantia da paz e dos Direitos Humanos. Palavras-chave: Religião; Ética da alteridade; Acolhimento; Cuidado. Introdução Em tempos regidos por ideais multiculturais e plurais que incorporam diversos campos da sociedade, a atenção e o respeito pelas diferenças demandam a necessidade de refletir sobre a alteridade de modo ético para que a noção de outro não seja vista com inferioridade. Assim, esse contexto estimula a leitura da crítica de Emmanuel Lévinas a respeito de paradigmas filosóficos que não só estimulam como alimentam violências metafísicas como estratégia de ações de totalitarismo de modo velado. Os textos de Lévinas responsabilizam a filosofia de não trabalhar com as diferenças, mas ampliar a redução do Outro ao mesmo, dando força ao Mito da Totalidade. A filosofia levinasiana constrói uma subjetividade que promove o encontro com o rosto do Outro, para o qual o Eu é responsável e não se ausenta do cuidado. Sem responsabilização e alteridade, não há significação como será visto adiante. Para compreensão da mailto:simone.zanotto@estudante.ufjf.br 175 ética da alteridade e do acolhimento levinasiano como expressão de cuidado em relação ao outro, faz-se necessário conhecer as chaves de leitura influenciadoras da filosofia de Lévinas. Nascido em Kaunas - em 1906 - na Lituânia, em berço judeu, Lévinas experimentou com sua família um período de exílio que posteriormente o destinou a Universidade de Estrasburgo onde estudou Edmund Husserl e Martin Heidegger (HUTCHENS, 2009). Durante o período da Segunda Guerra Mundial, trabalhou forçado como prisioneiro em um campo de concentração, experimentando as atrocidades e os horrores do nazismo como a perda de sua família, de seus amigos e de seu povo judeu. Lévinas presenciou os eventos degradantes do Holocausto que o fizeram questionar sobre o papel da filosofia em deixar ocorrer genocídios como esse. Suas reflexões foram marcadas por esse cenário desumanizado. Com efeito, seu aprendizado foi originado do período em que esteve em cárcere, pois fez a mais trágica vivência de ser um prisioneiro judeu intelectual e um filósofo sobrevivente. Junto a isso, há diversas vozes que cruzam seu pensamento como os clássicos da literatura russa, as lições do Talmude e de grandes filósofos judeus como Martin Buber, Franz Rosenzweig, Walter Benjamim, Ernst Bloch e Emil Fackenheim (HUTCHENS, 2009). Sua obra também foi influenciada por outros pensadores como Hegel, Kant, Spinoza, Husserl, Heidegger e por poetas como Maurice Blanchot, Gabriel Marcel etc. Em suma, são vozes que o levaram ao confronto da ontologia do poder do Eu, do movimento da Totalidade no aprisionamento do outro ao Mesmo, na anulação ou na redução das diferenças (LÉVINAS, 2022). Sua filosofia não só tece uma crítica diante dos contextos de crueldade e de desumanização, como denuncia um papel para toda humanidade a de ser responsável pelo caos diante da supremacia do Eu que se instala na vida de outros, os quais são rostos vulneráveis em um sistema desumanizador e injusto. 176 1. Ética da alteridade, acolhimento e cuidado no pensamento levinasiano A ontologia do poder, de acordo com Hutchens (2009) é o principal aspecto analisado na filosofia levinasiana. Ela manifesta interesse “pela totalização – redução de qualquer forma de diferença à uniformidade – com o objetivo de aumentar o poder de racionalização” (HUTCHENS, 2009, p. 30). Assim, como resultado, a individualidade é transformada, pois é reduzida à uniformidade, fortalecendo a racionalidade proposta pelo objetivo da metafísica que influencia valores em diversas esferas. Lévinas, nessa conjuntura, irá explorar o status da ética diante da condição humana e da totalidade. Diante dessa perspectiva, o filósofo fraco-lituano criticou a ontologia heideggeriana como cúmplice e fomentadora da violência de sua época em relação ao sofrimento a e desumanização do outro. Segundo Maldonado-Torres (2022, p. 11) essa é uma das razões “pela qual a ética e a relação rosto-a-rosto ocupa um lugar no pensamento de Lévinas”. De acordo com Lévinas, o ontológico, a dimensão do ser, deve sua existência e obtém seu sentido a partir da necessidade da justiça na ordem transontológica; necessidade da justiça que introduz a medida e a sincronia na ordem diacrônica da experiência ética primitiva entre a subjetividade nascente e a outraidade. A introdução da justiça contém o excesso da demanda ética pelo Outro, dividindo-a igualmente entre todos os outros, incluindo aí o doador mesmo, que. em virtude da justiça, aparece pela primeira vez como outro entre outros. A justiça, com isso, cria, a partir da relação vertical entre a subjetividade e a outraidade relações horizontais entre mim e os outros, o que transforma a subjetividade em alter ego da justiça. (MALDONADO-TORRES, 2022, p. 50). Desse modo, quando a ontologia é fundamento e princípio, ela prioriza um ser anônimo acima das relações subjetivas, promovendo a renúncia da justiça e da responsabilidade com o Outro. Na filosofia levinasiana, as relações humanas que se desenvolvem no face a face são essenciais para “irrupção da transcendência que exalta no sujeito a vocação humana para santidade. Vocação que o desperta e o arranca ao enredamento complacente em torno do ego, reconhecendo no outro diante dele uma primazia sobre seus próprios interesses.” (BARCELOS, 2011, p. 68). Por conseguinte, enxerga-se no Outro um apelo, um chamado irrecusável colocando-se a sua disposição, ao seu cuidado, enfim ao seu serviço. 177 O questionamento ético surge por intermédio dessa relação originada da alteridade, em que a responsabilidade do eu diante do Outro, o impele ao acolhimento e ao diálogo com um terceiro que o encara e o leva a linguagem da justiça (LÉVINAS, 2022). Em Lévinas (2004), a ética como filosofia primeira antecede a ontologia vivificando a justiça, pois tira dela um caráter mecanizado de direitos e deveres. A justiça, essencial à comunidade humana na qual, segundo expressão de Lévinas, a “palavra de Deus” não se faz ainda ouvir completamente, não pode prescindir da promessa do despertar redentor de cada homem para a responsabilidade infinita pelo outro, para sua desigualdade como móbil que suporta a igualdade dos outros através de um excesso dos seus deveres face aos seus direitos. A componente dialogal, da refundação ética da subjetividade do eu pela abertura à alteridade, na qual se ancora a concepção levinasiana de sociabilidade, está igualmente presente nas discussões contemporâneas em torno da temática do reconhecimento. Também aqui o surgimento do outro convida-me à hospitalidade, impele-me a acolhê-lo na sua irredutível diferença. (BARCELOS, 2011, p. 70). Nesse sentido, tem-se o acolhimento como cuidado que permeia uma responsabilidade total, irrecusável que reclama a justiça desinteressada pelos que sofrem, pois há uma escuta de fidelidade ao apelodo Outro (LÉVINAS, 2021). Em decorrência disso, a responsabilidade do eu é indeclinável, ou seja, ele não pode ser substituído nesse status. Além disso, o eu responde ser responsável inclusive pela responsabilidade do outro diante do sofrimento e de outras mazelas. Não há indiferença diante das perseguições, da morte e da falta de justiça. Isto posto, para Lévinas (2021), somos responsáveis por tudo que é feito por outras pessoas e não há escolhas no acolhimento diante do rosto infinito do Outro que conduz o eu a ética da alteridade. O acolhimento levinasiano compreende no oferecimento gratuito de um lugar, de uma casa em que o Eu, como refém, recolhe um terceiro que não é igual a si. Como consequência, se dá um fenômeno caracterizado em uma responsabilidade incondicional, pois o Outro na figura de Infinito Absoluto torna-se hospede, pois é ouvido em seus apelos e em suas necessidades (LÉVINAS, 2022). É nesse recolhimento que o cuidado se faz presença como uma dobradiça em que o olhar e a escuta para com o hóspede são convertidos em respostas frente a vulnerabilidade desse que é recolhido. Dessa maneira, o 178 hóspede é ouvido de forma constante e intensa uma vez que o anfitrião se abre em intimidade para ser cuidador de uma alteridade sem desconfiança. É no face a face como o Outro que o acolhimento se constrói na preservação da identidade do Outro como uma subjetividade que não agride, mas protege e propicia a preservação do rosto acolhido. A ética da alteridade, ou seja, essa responsabilidade ética sem medida é uma resposta ao apelo do rosto enigmático, denominado por Lévinas (2021) de ileidade (Infinito). É nesse encontro que surge o sentido da ética, pois um movimento de entrega incondicional é realizado pelo Outro na figura de acolhedor do Infinito. O Outro está além de uma ideia finalizada, ele é surpreendente porque a Infinitude está presente no Rosto. Assim, “acolher o Outro em sua presença, para que a própria presença se faça possível, é ir além da capacidade do Eu, ter a ideia do Infinito” (MENEZES, 2022, p. 41). Diante do que foi apresentado, vê-se que em Lévinas o Outro não pode ser tematizado, contudo o Rosto do Outro se apresenta sem máscaras, então é possível reconhecer um apelo, uma fome, uma necessidade diante da presença que não pode ficar em silêncio, devendo exigir a justiça que atualizará a responsabilidade no cuidado com o Outro. De acordo com Menezes (2022), para Lévinas a religião ocorre de modo verdadeiro na praça pública quando há luta por justiça social. A justiça como um dito necessário, uma resposta concreta à fome do outro que não pode esperar, não pode esquecer sua inspiração, ou seja, a significação primeira o Dizer presente o rosto. O dito é a resposta possível sempre, insuficiente para responder ao Dizer que nos remete a um além, mas que possui sua significação no Rosto. A justiça representa a urgência do presente, enquanto o Rosto é expressão de um além para um aquém (futuro e passado) de si mesmo. Assim a justiça não pode se contentar com suas conquistas, devendo sempre ser revista. A ética é então um movimento possível da justiça. A justiça é, desse modo, a responsabilidade pela vida; a impossibilidade de omissão diante da morte do Outro. (MENEZES, 2022, p. 68). A justiça em Lévinas está presente no face a face com o Outro de modo concreto em sua fala. Dessarte, ela deve estar disposta a escutar para traduzir de modo legítimo a fala dos vulneráveis de modo singular se responsabilizando por suas fragilidades. A fala do Outro convoca o Eu a um ato de acolhida, colocando-o em um questionamento ético em que o Outro é reconhecido em 179 sua humanidade sem a pretensão de ser submetido ao saber do Eu. Perceber o Outro em seu Rosto é escutá-lo aceitando sua responsabilidade em relação a ele (LÉVINAS, 1997). Vale ressaltar que na ideia de acolhida está a escolha entre o bem e o mal, pois no acolhimento não há distrações que impossibilitam o Eu de enxergar as injustiças e de se esquivar da obrigação (LÉVINAS, 2001). É nessa obrigação que aparece a luta por direito à diferença e à igualdade diante da alteridade. É na singularidade que Outrem interpela o direito de luta por reconhecimento em um apelo de hospitalidade e de acolhimento. “A palavra justiça, com efeito, situa-se bem melhor aí onde se requer não minha subordinação ao outro, mas a equidade” (LÉVINAS, 1986, p. 119). É possível refletir diante dessa abrangência que a filosofia de Lévinas (2022) não tece críticas apenas diante de situações de injustiça, de crueldade e de falta de humanidade com o Outro, mas ela rompe com qualquer ideia totalizadora em que o Outro é subordinado ao Mesmo. Desse modo, em um ato de responsabilidade ética incondicional ocorre um exercício de defesa e proteção como forma de cuidado no acolhimento com o Outro que pode ser figurado em pessoas que são marginalizadas, seja na esfera econômica, social, acadêmica e inclusive na religiosa. É nessa postura responsável pelo Outro que a ética da alteridade se faz presente de modo necessário, preservando a identidade do Outro sem questionamento - sem qualquer tipo de agressão, porque não há desejo de transformar ou padronizar o Outro que é único em seu gênero. Somado a essa abordagem, vê-se na filosofia levinasiana que não há a necessidade de conhecer para exercer o cuidado no acolhimento e na hospitalidade. Como forma de guardião, o Eu assume uma infinita responsabilidade acolhedora do Outro independente do que o Outro tem a oferecer. O Eu atende a um chamado, pois ouve a súplica de alguém que sofre e requer ajuda. 180 Considerações finais A presente comunicação possibilitou reflexões que relacionaram a ética da alteridade e o acolhimento levinasiano como expressão de cuidado em direção ao Outro que são os vulneráveis do corpo social. Em tempos de violência física e simbólica, esses conceitos não só levam à reflexão como podem nortear ações, as quais acrescentam um papel relevante para a construção de uma sociedade mais justa e mais aberta à alteridade. É possível notar de modo claro que os desafios para promoção de um mundo mais humanizado são imensos diante de Estados e de Nações fomentadores de necropolítica. Contudo, vemos na filosofia levinasiana um chamado a responsabilização de todos diante desses sistemas que se encontram no poder. Dessarte, a ética de Lévinas (1997) aponta para responsabilização de resultados das situações de caos encontradas por falta de justiça que levam o Outro à morte a ao sofrimento. A morte do Outro é também a minha morte (LÉVINAS, 2022). Se eu permaneço indiferente, torno-me cúmplice. Assim, “o outro me individualiza por meio da responsabilidade que tenho por ele. A morte do outro que morre me atinge em minha identidade mesma” (LÉVINAS, 2021, p. 22). Escutar o apelo do Outro é, então, uma obrigação irrecusável que requer atenção e consciência. É nesse encontro que o acolhimento se torna cuidado promovendo a igualdade na preservação das diferenças. O anfitrião abre as portas de sua casa sem medo de se fazer presença obediente as necessidades do Outro nesses tempos de egoísmo para a garantia da paz e dos Direitos Humanos. Referências BARCELOS, Paulo. Em voou de Grou:para uma extensão global do princípio do reconhecimento. BARCELOS, Paulo (Orgs). In: Entre o reconhecimento e a hospitalidade. Lisboa: Edições 70, 2011. 67-78 HUTCHENS, B.C. Compreender Lévinas. Rio de Janeiro: Editora Vozes, 2009. LÉVINAS, Emmanuel. Totalidade e infinito: ensaio sobre a exterioridade. Trad. José Pinto Ribeiro. Lisboa: Edições 70, 2022. 181 LÉVINAS, Emmanuel. Deus, a morte e o tempo. Trad. Fernanda Bernardo. Lisboa: Edições 70, 2021. LÉVINAS, Emmanuel. Do sagrado ao santo: cinco novas interpretações talmúdicas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2001. LÉVINAS,Emmanuel. Entre nós: ensaios sobre a alteridade. Rio de Janeiro: Vozes, 1997. LÉVINAS, Emmanuel. Autrement qu’etre ou au-delà de I’essence. Paris: Klumer Academic, 2004. MALDONADO-TORRES, Nelson. Sobre a colonialidade do ser: contribuições para o desenvolvimento de um conceito. Rio de Janeiro: Via Verita Editora, 2022. MENEZES, Magali Mendes de. O dizer como subjetividade maternal: um ensaio desde Lévinas e J. Derrida. Porto Alegre:CirKula, 2022. 182 GT 8 - GÊNERO, OUTRAS INTERSECCIONALIDADES E CIDADANIA NA RELAÇÃO ENTRE RELIGIÃO E ESPAÇO PÚBLICO NA AMÉRICA LATINA: DESAFIOS E INTERPELAÇÕES NA BUSCA PELA PAZ Doutoranda Giovanna Sarto (UFJF) Doutoranda Paulina Valamiel (UFMG) Ementa: Nos últimos vinte anos o Campo Religioso Brasileiro tem intensificado os laços com o espaço público. Conforme apontou Roberta Bivar Campos, no texto “Interpretações do catolicismo: do sincretismo e antissincretismo na/da cultura brasileira” (2009), se, por um lado, a configuração do Estado moderno e democrático valoriza a pluralidade e diversidade, por outro, tal pluralidade e diversidade não significa necessariamente respeito e tolerância. No contexto da modernidade, a pluralidade de identidades, sejam elas de gênero, sexualidade, classe, raça e religião, entre outras, também se apresentam no campo religioso e em sua relação com o espaço público. As pautas reivindicadas pelos movimentos sociais têm se feito presentes no interior das religiões, reorganizando suas práticas, sobretudo a partir das reivindicações feitas pelas teólogas e teologias feministas, queer, lésbicas, gays e negras. Ao mesmo tempo, nota-se que tais reivindicações de grupos subalternizados têm desestabilizado identidades fixas e restritivas as quais muitas vezes são defendidas e asseguradas pela religião. Movidos pela ideia de combate a essas pautas, diversos grupos religiosos encontram nesse combate, novas formas de participação política. Com efeito, gênero, raça, classe e identidade religiosa configuram-se como temas centrais na relação entre Religião e Espaço Público e implicam em relações diretas e mudanças fundamentais nas diversas áreas que se propõem a uma análise científica sobre a relação entre essas interseccionalidades e o fenômeno religioso. Isso porque tanto as religiões configuram e são configuradas pelas relações sociais que os indivíduos na sociedade civil estabelecem, quanto porque historicamente sempre desempenharam ações sociais. Esses grupos transformam e complementam a noção de cidadania à medida que elaboram reflexões e ações práticas acerca dos problemas sociais para além do plano político-governamental. Ao se inserirem de forma mais ou menos institucionalizada no debate público, movimentos sociais, bem como diferentes construções identitárias, vêm disputando espaços dentro e fora da religião. Nesse sentido, ela atua como ferramenta política – que pode funcionar como instrumento tanto de opressão quanto de emancipação de grupos subalternizados. Uma vez que oscila entre conservadorismo e fundamentalismo, em concepções restritivas de gênero e outras interseccionalidades, mas também entre inclinações progressistas e mais abertas a novas epistemologias. Nesse sentido, o presente GT abre espaço a pesquisas que visam refletir sobre a busca pela paz, à guisa de convocar e articular categorias interseccionais como as de gênero, raça, classe e identidade religiosa para análise das alternativas, desafios e interpelações a um diálogo democrático e construtivo. Palavras-chave: Religião e Espaço público. Religião e Gênero. Interseccionalidade. Modernidade. Cidadania. 183 DO FLAVIO À ELIS REGINA: PERFORMATIVIDADE DE GÊNERO NO ROMANCE UM AMOR DIFERENTE. NOSSAS ESCOLHAS DO ESPÍRITU AUGUSTO CESAR VANNUCCI E O MÉDIUM JOÃO ALBERTO TEODORO Henry Isaac Peña Grajales Mestre e doutorando em Ciência da Religião pela Universidade Federal de Juiz de Fora. Bolsista Fapemig henisapegraj@aol.com Resumo: Flavio é o garoto homogênero, protagonista do romance homoafetivo "Um amor diferente", que trabalha, como transformista todo fim de semana no espaço público de uma casa de entretenimento noturno. Seus espetáculos musicais têm muito sucesso, suas imitações de mulheres são perfeitas, atraentes e interessantes para os homens que curtem esses musicais performativos de gênero na procura de lazer e diversão. Uma das artistas performadas, interpretadas e dubladas pelo Flavio é a cantora brasileira Elis Regina, desencarnada em 1982. À luz do espiritismo, o espírito imortal não tem sexo, isso explana que identidade de gênero sejam questão de desconstrução e performance social e espiritual. No ato performativo representativo, como a representação e construção de uma personagem ou da feminidade mesma, não há um dado fornecido, mas performado, representado, construído, desconstruído e reconstruído. Dai que ninguém nasça mulher, e sim se transforme numa delas (BEAUVOIR, 1970), como é o caso da performação e representação no cenário da Elis Regina por Flávio. É tal qual disse Butler (2003) a categoria mulher é um quefazer cultural variável, posto que ninguém nasce com um gênero, o gênero é sempre adquirido, aprendido, performado. Através da metodologia bibliográfico- argumentativa se pretende explicar o fenômeno e o fato da performance de gênero com base na teoria do espiritismo e na obra Problemas de gênero. Feminismo e subversão da identidade da Judith Butler (2003). Para ela a performatividade de gênero se dá em dois casos: no primeiro, dá volta em torno à figura da linguagem metalepse, e, no segundo, como repetição e ritual que consegue seu efeito no contexto de um corpo, compreendido como a duração temporal mantida culturalmente. O objetivo é relacionar o romance espírita homoafetivo com a teoria da performatividade da Judith Butler. A apresentação contribuirá para compreendermos o transformismo musical como um ato artístico, público e performático de gênero. Espera-se que o relacionamento fato entre o romance e a performance de gênero motive mais analises de personagens lésbicas, homogenéricas, bigenéricas, trigenéricas, etc., em narrativas literárias espíritas para a busca da compreensão, a valorização e a convivência pacífica em espaços públicos de performance artística de gênero. Palavras-chave: Transformismo; Performatividade de gênero; Performance musical em público. mailto:henisapegraj@aol.com 184 Introdução Flavio é o garoto homogêneo, protagonista do romance homoafetivo Um amor diferente. Nossas escolhas, que trabalha, como transformista32, todo fim de semana, no espaço público de uma casa de entretenimento noturno. Seus espetáculos musicais têm muito sucesso, suas imitações de mulheres são perfeitas, atraentes e interessantes para os homens que curtem esses musicais performativos públicos de gênero na procura de prazer, lazer e diversão. Uma das artistas performadas, interpretadas e dubladas pelo Flavio é a cantora brasileira Elis Regina33, desencarnada há 30 anos: 1982. À luz do espiritismo, o espírito imortal, não sendo matéria, não tem sexo (KARDEC, 2020), isso explana que identidade de gênero seja tanto desconstrução, quanto performance social e espiritual. No ato performativo representativo e interpretativo musical, como a representação e construção de uma personagem ou da feminidade mesma, não há um dado fornecido, fato, mas performado, representado, construído, desconstruído e reconstruído. Dai 32 Transformista é um adepto do transformismo, ou evolucionismo, na doutrina do espiritismo kardecista, mas no romance também significa performance de gênero. O transformista é o mesmo travesti ou drag queen, que se traveste de mulher com intenções artísticas, musicais, imitativas, ou sexuais para com os homens, como é o caso do personagem Flávio. O drag queen pode imitar uma mulher de modo exageradona maquiagem, na peruca, nos gestos, nos sapatos de salto. Esses personagens são hoje mais conhecidos como transgêneros por sua sensação psíquica, pessoal e social de não querer pertencer ao “gênero nuclear” do corpo com que nasceram, sua “identidade de gênero” pode fazer com que eles apresentem disforia do “gênero nuclear”. 33 Elis Regina de Costa Carvalho (17 mar. 1945, POA-19 jan. 1982: 36 anos) foi uma cantora brasileira. Seu desencarne antes do tempo fez dela um mito musical. Imortalizou muitas canções da MPB, tais como Águas de março, Casa no Campo e Como Nossos Pais, Upa neguinho; Se eu quiser falar com Deus. Seu precoce passo para o mundo espiritual derivou-se do consumo de craque e álcool. Seu namorado a achou jogada no chão quase sem vida, tento ajudá-la, mas veio a óbito chegando no hospital. Elis Regina começou a cantar, tendo 11 anos, no programa “No Clube do Guri” da Rádio Farroupilha Em 1960 foi eleita Melhor Cantora da Rádio Gaúcha. Em 1961 já no RJ, com apenas 16 anos, lançou seu primeiro disco musical “Viva a Brotolândia”. Em 1964 foi contratada pela TV Rio para apresentar o programa “Noite de Gala”. Em 1964 se instala em SP. Em 1965 estreia no festival da Record com a música “Arrastão”, de Edu Lobo e Vinicius de Moraes. Fez-se ainda mais popular pelos seus gestos cantando: alçava os braços e os movimentava. Foi premiada com o Berimbau de Ouro e o Troféu Roquette Pinto. Escolhida como a melhor cantora do ano. Entre 1965 a 1967 apresentou o programa “O Fino da Bossa” na Record TV em SP. Tal programa fez com que produzisse 3 discos “Dois na Bossa”, do primeiro vendeu um milhão. Elis foi cantante eclética, virava-se com vários estilos musicais, tais como MPB, jazz, rock, bossa nova e samba. Levou ao estrelato a cantores como Milton Nascimento, João Bosco e Ivan Lins. Foi duetista junto com Tom Jobim e Jair Rodríguez. Sobressaem seus álbuns Ela (1971); Elis e Tom (1974); Falso brilhante (1976); Essa Mulher (1979); Saudade do Brasil (1980) e Elis (1980), (FRAZÃO, 2022). 185 que ninguém nasça mulher, e sim se transforme numa delas (BEAUVOIR, 1970), como é o caso da performação e representação no palco da Elis Regina pelo Flávio. É tal qual disse Butler (2003) a categoria mulher é um quefazer cultural variável, posto que ninguém nasce com um gênero, o gênero é sempre adquirido, aprendido, performado. Através da metodologia bibliográfico-argumentativa se pretende explicar o fenômeno e o fato da performance musical de gênero com base na teoria do espiritismo sobre gênero performativo e na obra Problemas de gênero. Feminismo e subversão da identidade da Judith Butler (2003). Para ela a performatividade de gênero se dá em dois casos: no primeiro, dá volta em torno à figura da linguagem metalepse, a forma em que a essência provista de gênero dá a origem ao que é exterior a si mesma e, no segundo, a performatividade de gênero não é um ato único, mas uma repetição e um ritual que consegue seu efeito através da sua naturalização no contexto de um corpo, compreendido, até dado momento, como a duração temporal mantida culturalmente. O objetivo é relacionar o romance espírita homoafetivo com a teoria da performatividade da Judith Butler e a psicologia simbólico-junguiana do anima- animus. A apresentação contribuirá para compreendermos o transformismo musical como um ato artístico, público e performático de gênero. Espera-se que o relacionamento realizado entre o romance e a performance de gênero motive mais analises de personagens lésbicas, homogenéricas, bigenéricas, trigenéricas, etc., em narrativas literárias espíritas para a busca da compreensão, a valorização e a convivência pacífica em espaços públicos de performance artística de gênero. 1. Pedofilia, estupros sexuais e identidades de gênero Os dois protagonistas do romance Flávio e Guilherme são dois personagens com identidade de gênero34 homo. E isso será determinante nas 34 A identidade de gênero de uma pessoa vai se revelando muito antes de vir ao mundo. De fato a teoria do indutor da diferença sexual primária diz que no desenvolvimento dos mamíferos, como nós, e nos homens, há uma tendência para a feminidade, de acordo com o dito pelas Jayme e Sau (1996). A identidade de gênero é uma construção vivida, se for pensada desde a perspectiva de Moore (2000 apud COLING: TEDESCHI, 2019). 186 suas vidas, primeiro porque será uma das razões que reforçará suas identidades de homogêneros, porém também será uma das causas que os guiará para eles se identificarem como tais e fará com que eles estabeleçam um relacionamento homoafetivo e uma família homoparental. O primeiro estupro, revelado pelo Vannucci, é o do Flávio, da parte do Zê Paulo, descrito assim: Zé Paulo era um homem moreno e muito forte e estava somente de cueca. Vendo que o pequeno estava sem jeito e muito nervoso por ele estar quase nu, ali em sua frente, Zé Paulo começou a rir: ⸺ Nunca viu? O menino ficou sem jeito. Não sabia o que dizer, tentou sair correndo, mas foi seguro pelas mãos fortes de Zé Paulo. ⸺ Venha cá, não vou lhe bater ⸺ disse ele puxando-o para junto de si. O coração de Flávio parecia que ia sair do peito, batia descompassado. Zé Paulo puxou uma cadeira e, sentando-se, colocou o menino entre suas pernas, prendendo-o. Assustado, ele tentou gritar, mas foi impedido pela mão de Zé Paulo. ⸺ Se gritar será pior... Com medo, o menino tremia, e começou a sentir que a mão de Zé Paulo começou a acariciar suas costas. Logo depois, começou a sentir dor. ⸺ Não! Gritou ele. Zé Paulo, então, o beija, fazendo-o calar. O pequeno sentia dor e, ao mesmo tempo, nojo e pavor. Lágrimas caiam dos olhos de Flávio, ele não tinha forças para gritar. ⸺ Quieto! Seja um guri bonzinho, eu não vou lhe fazer mal, só estou brincando ⸺ disse ele (TEODORO, 2013, p. 101-2). Foi assim como Flávio conheceu sua primeira vez, entre dores, estupro e violência sexual, que passou a ocorrer com frequência. Depois, segundo a revelação do Vannucci, o Flávio foi se costumando com a situação. Aprendeu muito bem a ser “um menino bonzinho” (TEODORO, 2013, p. 106). No entanto, também fica registrado no romance que o pequeno Flávio se sentia uma presa em mãos de seu carrasco e predador sexual. Mesmo que Flávio tentasse fugir e esquivar a Zé Paulo, ele sempre o surpresava, ria sardonicamente, e fazia-o novamente presa em suas mãos. Depois de todos esses abusos sexuais e com o passo dos anos, Flávio esperienciou as mudanças corporais devidas aos hormônios, foi a partir desse momento que, enquanto seus amiguinhos admiravam as meninas, ele ficava maravilhado contemplando homens mais velhos do que ele. Ele estava se descobrindo como homogênero, pois até admirava ao pai como homem forte e 187 bonito. E perguntava ao Raul, seu pai, se um homem sempre se apaixonava por mulher. Era já sua mente homocentrada, seus sentimentos que desbordavam e extravasavam no seu peito de homogênero e amador de homens. O normal para o pai do Flávio era que homem e mulher namorassem, casassem e tivessem filhos, mas não era assim como pensava Flávio, que irá depois formar um casal homoafetivo com Guilherme a família homoparental com adoção da Patrícia, filha da Silvia, empregada doméstica do casal. Outro estupro revelado pelo Vannucci é o do Guilherme por parte de seu tio materno Ismael. Guilherme reprocha a Ismael que de criança tenha sido o primeiro que começou a lhe ensinar coisas sujas e pedofilizadoras. É aí, nesse comenos, que Flávio lembra os abusos também sofridos por ele quando criança pelo Zê Paulo. Guilherme disse ao seu tio Ismael que foram muitas as lágrimas derramadas pensando que voltaria mais uma noite a se deitar com ele para fazê-lo xeta e brinquedinho sexual no escuro do seu quarto. Guilherme também reprocha ao tio ⸺ que tem HIV e foi afastado da vida sacerdotal para cuidar da saúde ⸺, que além de ter abusado