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1 
 
VII Colóquio Internacional Marx-Engels 
GT 1 – A obra teórica de Marx 
 
Uma caracterização geral da ideologia segundo a interpretação lukácsiana 
 
Nara Roberta Silva1 
 
 Ao longo de suas obras, Marx, abordou, de maneira direta e indireta, diversos 
elementos componentes do que se convém chamar de superestrutura, a qual sobre a base 
material de uma sociedade se levanta (cf. Marx, 1982, p. 25) – por exemplo, a filosofia, a 
religião, entre outros. No presente trabalho, interessa-nos analisar o que é entendido como 
ideologia, apresentando alguns aspectos concernentes à sua caracterização e, por conseguinte, 
equacionando, ainda que amplamente, o seu lugar e a sua específica influência em meio à 
formação social. 
 Sem podermos nos aprofundar nos extensos debates que envolveram e ainda envolvem 
a questão da ideologia na obra marxiana, limitemo-nos a afirmar que, na ausência de 
sistematização de uma concepção da mesma pelo próprio Marx (cf. Ranieri, 2002-2003, p. 20), 
tomaremos, para a construção de nossa análise, as proposições de Lukács, formuladas no 
período de maturidade intelectual deste. A partir dessa adoção, conduziremos nossas 
afirmações com base em um estudo teórico de certos escritos de Marx e de alguns intérpretes 
próximos à perspectiva elegida, de forma a considerar que, sendo a teoria social marxiana 
constituída enquanto um denso e interligado edifício conceitual, é então necessário 
compreender a problemática da ideologia à luz de Marx por meio da unidade característica ao 
referido edifício. Mais precisamente, a leitura de Lukács indica que o trabalho, entendido 
enquanto elemento central da vida social, é o fio condutor da obra marxiana e, assim, a nosso 
ver, é coerente distinguirmos a ideologia a partir de sua fundamentação em tal elemento. Na 
retomada de tal distinção, acreditamos ser possível unificar as esparsas indicações sobre o tema 
feitas por Marx, contornando, em certo sentido, a referida ausência de uma concepção 
sistematizada de ideologia. Para além disso, a fundamentação da ideologia no trabalho revela 
que, de fato, o movimento da ideologia está relacionado ao movimento da produção material 
de uma dada sociedade, mas nem por isso pode ser o fenômeno ideológico qualificado segundo 
 
1 Mestranda do Programa de Pós-Graduação em Sociologia do IFCH/Unicamp. 
2 
 
características como: ilusão, falsidade, engodo etc. – conforme comumente são interpretadas 
certas afirmações de Marx. 
 
O lugar da ideologia 
 Em contraposição às formulações da Economia Política, de Hegel e de Feuerbach, 
Marx constrói seu sistema teórico a partir da importância detida pela atividade humana, a qual 
então inovadoramente reconhece. Em outras palavras, ao dar lugar ao que chama nas Teses 
sobre Feuerbach de práxis, ele supera a falsa separação entre sujeito e objeto empreendida 
pelo materialismo vulgar e, ao mesmo tempo, a identidade mística entre ambos desenhada pelo 
idealismo hegeliano, à medida que, com tal atividade humana, não se pode nem desconsiderar 
a objetividade descartada pelo idealismo e nem erigir uma dicotomia entre realidade objetiva e 
subjetividade, de modo que, como pontua, “A disputa sobre a realidade e a não-realidade do 
pensamento isolado da práxis – é uma questão puramente escolástica” (Idem, ibidem, p. 12, 
grifo da edição original). 
Complementarmente, essa relação não-dicotômica aludida se coloca como a própria 
base do movimento histórico. Mais precisamente, a história, para Marx, diz respeito aos 
movimentos práticos dos homens, está intimamente relacionada com a atividade prática ou o 
trabalho dos mesmos, sendo por eles construída – lembrando que se refere nosso autor aos 
homens reais, “de que só se pode[m] abstrair na imaginação” (Marx e Engels, 2007, p. 86, 
acréscimo nosso), os quais, a partir de seus próprios atos, erigem um movimento incessante de 
satisfação e surgimento de necessidades (cf. Idem, ibidem, p. 33). Em tal movimento, por sua 
vez, esclarece-se que o trabalho não se restringe ao ato laborativo em si. O surgimento 
incessante de necessidades e a igualmente incessante intervenção no mundo expõem que 
produzir não é um momento isolado; ao contrário, a produção só existe enquanto processo 
contínuo, que sempre se coloca a si mesmo (cf. Marx, 1985c, p. 153). 
A produção alicerçada no trabalho termina, então, por expandir-se e criar outros tipos 
de atividade e de necessidades mais complexas e diversas. Na verdade, devido ao próprio 
desenrolar da atividade produtiva, à base material necessariamente se vinculam outros 
elementos, tais quais momentos da produção em específico – por exemplo, como criações 
teóricas e/ou como formas de consciência –, emergentes por meio desta própria base, atuantes 
sobre ela e influentes no seu próprio desenvolvimento. 
3 
 
Desse modo, as representações, opiniões, idéias etc. – em suma, a consciência – são 
determinadas pela base material e podemos dizer, assim, que a ideologia guarda vínculo 
insuprimível com as condições produtivas e, portanto, econômicas da formação social na qual 
se encontra. Todavia, já a partir do reconhecimento da importância do elemento subjetivo, 
sabemos da importância dos aspectos vinculados à consciência para o rumo da história e, por 
isso, para compreender a ideologia, é preciso ir além de sua determinação pela base material, 
elucidando sua especificidade enquanto forma de consciência, de representação. 
A primeira observação a fazer a partir daí é, então, sublinhar que a produção é sempre 
produção social. De fato, Marx (1985a) coloca que, em qualquer momento histórico, é 
necessário que os sujeitos produzam coletivamente, de modo que o trabalho, como “um 
processo em que o homem, por sua própria ação, media, regula e controla seu metabolismo 
com a Natureza” (Marx, 1985b, p. 149), só ocorre como associação de aspectos de reprodução 
imediata e aspectos que a estes não estão diretamente ligados, da forma como viemos então nos 
referindo. Sendo, então, a produção intrinsecamente social e, numa tendência a cada vez mais 
sê-lo, é impossível que, com isso, não se façam presentes na mesma e, por conseguinte, na 
formação social, interferências de interesses humano-societários – muitas vezes bastante 
divergentes entre si. É com tais interferências que emergem e se apresentam questões, conflitos 
e impasses que só se colocam no plano coletivo e social. 
À ideologia, então, cabe a incidência nesses problemas que só são colocados 
socialmente. Mais precisamente, acreditamos que a ideologia concerne aos aspectos de 
organização social. Para isso, ela configura-se como uma elaboração teórico-espiritual 
específica, onde se representam variados aspectos necessários para a vida dos homens em 
sociedade. Essas representações, segundo precisam Marx e Engels (2007, p. 93), 
 
são representações, seja sobre sua relação com a natureza, seja sobre suas relações 
entre si ou sobre sua própria condição natural (...). É claro que, em todos esses 
casos, essas representações são uma expressão consciente – real ou ilusória – de 
suas verdadeiras relações e atividades, de sua produção, de seu intercâmbio, de sua 
organização social e política (grifo nosso). 
 
Relativas às relações dos homens consigo próprio, com outros homens e com o 
ambiente que os cercam, “A ideologia está colocada na esfera da produção intelectual e 
reflexiva acerca da própria existência humana” (Ranieri, 2002-2003, p. 22). Com tal conteúdo, 
4 
 
as representações ideológicas carregam a pretensão de influenciar a vivência social, a maneira 
como a sociedade e os indivíduos que a compõem vão se organizar, de modo que seu norte, 
então, é a produção enquanto um ato social. Ao fundamentar-se na ressonância no campo da 
produção, as formas ideológicas se apresentam, finalmente, enquanto um elemento regulador, 
pelas quais se expressa o caráter coletivode uma tal formação social e com as quais se busca 
afirmá-lo, conformando seus moldes. Segundo esclarece Marx (1982, p. 25): 
 
é necessário distinguir sempre entre a transformação material das condições 
econômicas de produção, que pode ser objeto de rigorosa verificação da ciência 
natural, e as formas jurídicas, políticas, religiosas, artísticas ou filosóficas, em 
resumo, as formas ideológicas pelas quais os homens tomam consciência desse 
conflito e o conduzem até o fim (grifo nosso). 
 
 A partir disso, podemos dizer que o alvo da ideologia são estes conflitos de cunho 
social, caracterizados em sentido amplo, a partir da colocação dos interesses humano-
societários aos quais já fizemos referência, e que, assim, não têm sua dimensão previamente 
fixada – ou seja, podemos entender tanto problemas de nível mais imediato, que atingem mais 
direta e/ou pontualmente a formação social, quanto questões relativas a um âmbito mais geral 
e/ou existencial da vida humana. Apreendendo, então, os largos contornos os quais podem 
adquirir o fenômeno ideológico, sintetiza simplesmente Mészáros (2008) que a ideologia é a 
consciência prática do conflito social. 
Pensar que a ideologia se constrói a partir da confrontação de distintos interesses 
sociais, existentes devido à própria conformação da vida humana em relações coletivas, sugere 
que o fenômeno ideológico, visando intervir conflitos sociais que então emergem, está sujeito 
às mais diversas contraditoriedades do movimento do que Lukács chama de ser social – 
expressão da totalidade na qual inevitável e necessariamente se configura a vida 
caracteristicamente humana. Contudo, a apreensão de tal fundamento é só um primeiro passo 
dado para a explanação da ideologia e que deve, então, ser desenvolvido. 
 
Ideologia como projeto 
 É patente, pelos pontos acima levantados, a amplitude e a possível diversidade de 
manifestação do fenômeno ideológico, relativa ao seu papel na intervenção nos momentos de 
5 
 
conflito caracteristicamente social e devido à sua vinculação à base produtiva ou à base do 
trabalho. 
 Sem descartar esse aspecto, avancemos pontuando que, com tais conflitos, desenha-se 
uma situação na qual é crucial a ação humana, para e na escolha de uma das possibilidades 
históricas abertas a partir do desenrolar da atividade produtiva. Assim, a ideologia, 
representando – como vimos acima – elementos concernentes à vida dos homens em coletivo, 
apresenta-se como o momento ideal da ação dos mesmos (cf. Ranieri, 2002-2003; Vaisman, 
2009). Nesse sentido, ela põe-se como o momento de tomada de consciência de uma dada 
situação e, por isso, operacionaliza e equaliza a ação a ser então empreendida com vistas, 
obviamente, à resolução do conflito originado a partir do arranjo social. 
 À medida que, porém, não estamos mais tratando de um processo estritamente empírico 
– e sim de produtos daí advindos, de caráter teórico/espiritual, localizados no âmbito da 
consciência –, vemos que sua incidência deve dar-se em um “alvo” peculiar – qual seja: o 
próprio comportamento dos homens, os quais são os portadores das ações e das atitudes que 
vêm a constituir a formação social então em questão e atribuir os moldes desta. Conforme 
sintetiza Lukács (1981, p. 25), há, com a necessidade de influenciar os rumos a serem tomados 
coletivamente, “todo um campo de reações desejadas (ou não desejadas) em relação a fatos, 
situações, obrigações, etc. sociais” e, com isso, podemos dizer que, de específica maneira, à 
ideologia cabe a formação da própria subjetividade humana. Contudo, esse aspecto último não 
pode ser considerado isoladamente, como dizendo respeito somente à formação de uma dada 
individualidade por si só. 
 Isso é facilmente compreendido se temos em conta o seguinte: se cabe à ideologia a 
inserção nos problemas práticos da sociedade, em função do referido confronto entre interesses 
distintos, com vistas a atingir os momentos que a configuram enquanto coletividade 
organizada, é indissociável dela, então, o caráter de projeto – de um projeto para a formação 
social. Dito de outro modo, ao ser um componente da prática humana, a ideologia contribui nos 
rumos para os quais caminham os homens e, com isso, é prenhe dos objetivos que devem ser 
por eles considerados. Acerca deste aspecto, sintetiza Tertulian (2008, p. 73): “a ideologia 
jamais é puro reflexo, mas um projeto e uma justificação” (grifos da edição original). 
Desse modo, o foco da ideologia é compatibilizar a subjetividade humana com certas 
possibilidades objetivas abertas pelo desenvolvimento social, a fim de que se concretizem 
6 
 
tendências que estão de acordo com alguns objetivos coletivos em questão. Formar a 
subjetividade, assim, não tem um sentido difuso. Ao contrário, neste empreendimento, está 
presente uma necessidade objetiva, que vincula a tal formação a contribuição necessária para a 
afirmação ou a negação da ordem vigente, para a manutenção ou para a mudança dos aspectos 
e do modo como se organiza a sociedade, em consonância ao(s) projeto(s) para a formação 
social em questão. 
Para além dessa específica conformação da subjetividade e em complementaridade à 
mesma, o caráter de projeto torna claro o aspecto de luta que Marx aponta como característico 
das ideologias em seu célebre Prefácio de 1859 de Para a crítica da economia política, então 
supracitado. Mais especificamente, na constante emergência e efetivação de uma representação 
ideológica, de acordo com um dado projeto, vão se conformando as subjetividades dos 
indivíduos, sempre existentes em potencial divergência a partir dos distintos interesses, de 
modo que se revela que as ações dos homens não subsistem por si só e isoladamente e que, 
através delas, são consolidadas certas tendências presentes no decurso histórico. Com isso, 
intencionando esta prática responsável pelo mover-se histórico, a ideologia somente se 
concretiza a partir do alinhamento das consciências individuais a grupos sociais que 
consubstanciam possibilidades objetivas então abertas, sendo imanente a ela a tensão oriunda à 
disputa por tais consciências e acerca de qual caminho a produção social tomará. 
Em função da exacerbação das contradições no sistema capitalista, onde os embates 
entre os grupos, sobretudo enquanto classes sociais, passam a fazer parte mais acentuadamente 
de todos os âmbitos da vida social, é mais claro, em meio a tal modo de produção, a referida 
luta que rege o confronto de ideologias. Contudo, ainda que diversos aspectos característicos 
do fenômeno ideológico revelem-se de modo mais eminente a partir do capitalismo, não 
devemos compreender que a ideologia se restringe a tal forma de sociedade. 
Pontuemos novamente que viemos qualificando a ideologia segundo sua constituição 
enquanto momento ideal da prática humana e segundo sua capacidade de intervenção em 
momentos caracteristicamente sociais da formação humana. Desse modo, a ideologia é um 
“episódio necessário da prática humana” (Ranieri, 2002-2003, p. 24) e sua emergência ditada 
pelo arranjo da estrutura social é somente possível por caracterizar-se a formação social 
enquanto uma coletividade organizada. Assim sendo, é plenamente possível o seu advento em 
sociedades anteriores à capitalista, pois já nesses momentos os homens configuram, em 
7 
 
parâmetros específicos, coletivamente sua atividade, o que abre a possibilidade de uma 
eventual ou mesmo necessária intervenção nos comportamentos dos sujeitos que em tais 
sociedades atuam, devido a conflitos os quais possam vir a emergir. 
Não há como negar, porém, que o destaque dado por Marx foi à ideologia da classe 
dominante, principalmente em sua manifestação burguesa. Ainda assim, busquemos extrair de 
algumas proposições feitas por ele acerca de tal representação ideológica elementos que, 
organizados, podem harmonicamente se incorporar à caracterização geral aqui feita, dando 
maior coerênciaàs próprias proposições que temos em mente – as quais então serão igualmente 
relacionadas e explicadas a partir da fundamentação da ideologia no trabalho. 
 
Sobre a ideologia dominante e a “falsa consciência” 
 De forma enfática, Marx e Engels (2007, p. 47) esclarecem, n’A ideologia alemã, que 
“As idéias da classe dominante são, em cada época, as idéias dominantes, isto é, a classe que é 
a força material dominante da sociedade é, ao mesmo tempo, sua força espiritual dominante”. 
A partir de tal assertiva, juntamente com outras contidas na obra em questão, desenrolaram-se 
inúmeras polêmicas – sobre as quais, já afirmamos ao início do presente trabalho, não 
poderemos infelizmente nos deter. 
Para nós, importa ao momento colocar que Marx e Engels distinguem que, para a 
prevalência da dominância da ideologia da classe dominante, tem grande peso a detenção, por 
parte da mesma, de um arsenal/aparato instrumental, institucional e/ou discursivo, que torna o 
impacto de uma dada representação ideológica em meio à formação social exeqüível (cf. 
Mészáros, 2008, p. 8). Em outras palavras, nossos autores acreditam que do mesmo modo que 
os indivíduos, ao não serem detentores dos meios de produção, estão submetidos 
economicamente à classe dominante, estão eles submetidos a tal classe do ponto de vista 
intelectual e espiritual, pois lhes “faltam os meios da produção espiritual” (Marx e Engels, 
2007, p. 47) – os quais pertencem, em correspondência aos meios de produção material, à 
referida classe dominante. Os membros desta classe, assim, controlam a produção e a 
distribuição das idéias presentes em seu tempo histórico. 
Desse modo, para além de interpretações simplistas feitas não só desse fragmento, mas 
de toda a obra A ideologia alemã, temos expresso, por meio do destaque dado por Marx à 
ideologia dominante e ao aparato/arsenal a ela adjacente, um componente fundamental para a 
8 
 
dinâmica de atuação da ideologia. Todavia, não compreendamos a partir disso que as formas 
institucionais/instrumentais ou que o discurso ideológico criam, por si mesmos, a(s) 
ideologia(s) vigente(s) numa formação social. Como já defendemos neste texto, o advento 
da(s) mesma(s) ocorre, fundamentalmente, em função do objetivo arranjo social, o qual, na 
explicitação de certos conflitos, questões e/ou impasses coletivos, consolida certas 
possibilidades e tendências históricas, a serem efetivadas pela prática dos sujeitos. 
Isso posto, é importante então acrescentar: devendo os indivíduos ser o “alvo” do 
fenômeno ideológico e atingidos pelo mesmo, é necessário, para o êxito da efetivação de uma 
de tais possibilidades e tendências historicamente abertas, que a ideologia se mescle e faça 
parte da cotidianidade dos homens – âmbito este reconhecido por Marx a partir da própria 
necessidade afirmada de que, por meio do trabalho, seja cumprida a reprodução social 
“diariamente, a cada hora, simplesmente para manter os homens vivos” (Marx e Engels, 2007, 
p. 33). Desse modo, em sua peculiaridade como forma de consciência, como produto teórico-
espiritual humano, a ideologia, como todos estes produtos, tem sua origem na atividade 
humana que constrói a produção social, mas, em seu desenvolvimento, deve manter “viva” sua 
correspondência à condição humana e aos atos concretos dos homens – para que justamente 
possa a ideologia ser fundida à sua prática. 
Sendo assim, a nosso ver, a relevância que, então, têm as formas institucionais, as 
formas instrumentais e o discurso ideológico – relevância maior conforme o desenvolvimento 
social e o acirramento das contradições – vem no esteio da necessidade de que sejam sempre 
consideradas as vivências compartilhadas pelos homens, à medida que tais instrumentos e afins 
se colocam sempre em meio aos homens e mulheres aos quais visam influenciar. 
Por conseguinte, longe de quaisquer simplismo e reducionismo, a mistificação que 
acompanha e é propagada pelo aparato da ideologia dominante, também ressaltada por Marx e 
Engels (2007, p. 94) por meio, por exemplo, da metáfora da câmara escura, não deve ser vista 
como um mero ardil. Existente a partir das necessidades do grupo social dominante, a 
mistificação é parte necessária na conformação de uma consciência e de uma prática que, dia-
a-dia, diuturnamente, se submetam a e possibilitem uma forma exploração, agindo como mais 
um modo de forjar a subjetividade segundo um dado projeto de sociedade. 
A consideração dos fatores acima elencados nos mostra, então, que é bastante frágil a 
proposição de que a ideologia deve, necessariamente, apresentar-se enquanto uma falsa 
9 
 
consciência ou uma consciência invertida. Mais precisamente, se pensarmos na determinação 
material desta específica forma de consciência e sua impossibilidade de autonomia, que 
responde a necessidades advindas do desenrolar da produção humana, encaminhando os 
sujeitos atuantes em uma sociedade de acordo com certas tendências objetivas, concebemos 
que o mais importante não é associar a forma de representação aqui tratada à específica posição 
da classe dominante política e economicamente ou então ao seu caráter progressista ou 
retrógrado, falso ou verdadeiro, correspondente ou não-correspondente ao conteúdo social da 
realidade objetiva. Esclarece Mészáros (2008, p. 11): 
 
A questão da “falsa consciência” é um momento subordinado dessa consciência 
prática circunscrita pela época e, como tal, sujeita a uma multiplicidade de 
condições especificadoras, que devem ser avaliadas concretamente em seu próprio 
cenário (grifo da edição original). 
 
Finalmente, se não é a partir dos aspectos supracitados que podemos qualificar a 
ideologia, teçamos breves e últimas palavras, com vistas a concluir nossa proposta. 
 
Ideologia a partir de sua função social 
 A última citação de Mészáros apontou que a ideologia se trata, fundamentalmente, de 
uma consciência prática – por ser voltada à ação – circunscrita pelo momento histórico no qual 
se encontra. Desse modo, a ideologia deve ser pensada, antes, a partir de sua atuação na 
formação social e o caráter que manifestamente tem uma dada representação ideológica 
constitui-se, assim, como momento subordinado do que podemos chamar de função social da 
ideologia: “É a função social que decide se alguma coisa se torna ou não ideologia, sobre este 
fato a gnosiologia, pela sua natureza, nada tem a dizer” (Lukács, 1981, p. 118). 
 Ao elucidarmos sua função social, congregamos os aspectos concernentes à ideologia 
anteriormente levantados, a saber: sua determinação pela realidade objetiva, sua intervenção 
nos conflitos sociais, sua caracterização enquanto momento ideal da prática dos homens, seus 
condicionamentos no cotidiano destes e a conformação dos mesmos de acordo com caminhos 
relacionados a um projeto para a formação social, onde a subjetividade é então compatibilizada 
com tendências objetivas abertas. 
Vale sublinhar que, de forma alguma temos, ao avaliarmos os fenômenos ideológicos 
em termos de função social, a busca à correspondência a uma prévia concepção de sistema 
10 
 
social. Na verdade, quando pensamos em função, temos em mente a tradução do lugar que a 
ideologia detém na produção social, que a leva a ser conformada pelos limites postos 
objetivamente por esta e, ao mesmo tempo, moldar os mesmos. Em meio a tal produção, a 
tarefa de dirimir conflitos configura a ideologia enquanto determinado-determinante – ou, da 
mesma forma, determinante-determinado. 
Enfim, é considerando a função social da ideologia que podemos, de fato, perceber a 
relevância do momento subjetivo em Marx, expondo, ainda, que seu sistema teórico abre a 
possibilidade para uma profunda e rica compreensão da vida social – para além das 
interpretações que reduziram suas propostas, diminuindo sua contribuição para o entendimento 
da história e do tempo presente, sobretudo quando o tema é ideologia e transformação social.Bibliografia 
LUKÁCS, György. “Il problema dell’ideologia”. Tradução de Ester Vaisman. In: ________. 
L’ontologia dell’essere sociale. v. II. Roma: Riuniti, 1981(mimeo). 
 . . Ontología del ser social: El trabajo. Buenos Aires: Herramienta, 2004. 
MARX, Karl. “Para a crítica da economia política” In: GIANNOTTI, José Arthur (org.). Os 
Economistas – Marx. São Paulo: Abril Cultural. 1982. p. 1-132. 
 . Formações econômicas pré-capitalistas. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1985a. 
 . O capital: Crítica da Economia Política. Volume I, tomo 1: O Processo de 
Produção do Capital. São Paulo: Nova Cultural, 1985b. 
 . O capital: Crítica da Economia Política. Volume I, tomo 2: O Processo de 
Produção do Capital. São Paulo: Nova Cultural, 1985c. 
 . “Teses sobre Feuerbach” In: MARX, Karl e ENGELS, Friedrich. A ideologia 
alemã: I – Feuerbach. São Paulo: Hucitec, 1999. p. 10-14; 125-128. 
MARX, Karl; ENGELS, Friedrich. A ideologia alemã: Crítica da mais recente filosofia alemã 
em seus representantes Feuerbach, B. Bauer e Stirner, e do socialismo alemão em seus 
diferentes profetas. São Paulo: Boitempo Editorial, 2007. 
MÉSZÁROS, István. O poder da ideologia. São Paulo: Boitempo Editorial, 2004. 
 . Filosofia, ideologia e ciência social: ensaios de negação e afirmação. São 
Paulo: Boitempo Editorial, 2008. 
RANIERI, Jesus. “Sobre o conceito de ideologia”. Estudos de Sociologia, Araraquara, ano 7/8, 
nº 13/14, p.7-36, agosto, 2002-2003. 
VAISMAN, Ester. “A ideologia e sua determinação ontológica”. Ensaio, São Paulo, nº 17/18, 
p. 399-444, 1989. 
 . “Lukács et la question de l’idéologie”. Cahiers Philosophiques, nº 119, p. 79-
96, 2009.

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