Prévia do material em texto
SUMÁRIO INTRODUÇÃO ............................................................................................................ 2 UNIDADE 1 – BREVE HISTÓRIA DO LATIM ............................................................ 5 1.1 Latim Arcaico ..................................................................................................... 7 1.2 Latim Clássico ................................................................................................... 8 1.3 Latim Culto ......................................................................................................... 9 1.4 Latim Vulgar ....................................................................................................... 9 1.5 Latim Tardio ..................................................................................................... 10 UNIDADE 2 – O português europeu ....................................................................... 11 2.1 Formação histórico-linguística da Península Ibérica ........................................ 11 2.2 Períodos da Língua portuguesa ....................................................................... 18 2.3 O português arcaico ........................................................................................ 20 2.4 Característica do português arcaico ................................................................ 21 2.5 O português Clássico....................................................................................... 24 2.6 A maturidade da língua portuguesa depois de 1500 ....................................... 28 UNIDADE 3 – A língua portuguesa além da Europa e da América ...................... 30 3.1 O português de África, da Ásia e da Oceania. ................................................. 31 UNIDADE 4 – O PORTUGUÊS NA AMÉRICA: A LÍNGUA LUSITANA NO BRASIL34 4.1 A língua portuguesa no Brasil de 1500 ............................................................ 34 4.2 O século XVIII até à chegada de D. João VI (1808) ........................................ 36 UNIDADE 5 – A estrutura da língua portuguesa de 1800 a 1950 ......................... 39 5.1 Fonética e fonologia ........................................................................................ 39 5.2 Morfologia e sintaxe ......................................................................................... 41 5.3 Fase de nivelamento (1950 em diante)............................................................ 43 UNIDADE 6 – A língua portuguesa do Século XXI ................................................ 50 REFERÊNCIAS ......................................................................................................... 57 2 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. INTRODUÇÃO Os estudos sobre a Historiografia da Língua Portuguesa visa oferecer um panorama sobre as origens da Língua Portuguesa desde sua relação com o Latim, passando pelo Árabe, o Basco, o Grego até o nascimento de Portugal, seguindo pela expansão da língua na América, na Ásia e na África, até o português falado no Brasil de hoje. Os estudos deste módulo serão pensados a partir da obra “História concisa da língua portuguesa” de BASSO e GONÇALVES (2014), de forma que consigamos entender na íntegra a história de nossa língua materna e sua relação com as variações regionais no Brasil. Contudo, para chegarmos a este momento, devemos acompanhar de perto a trajetória embrionária da origem indo-europeia da língua de Roma até o seu desabrochar pelas mãos de dois dos maiores escritores de língua portuguesa: o poeta português Luís de Camões e o brasileiro de maior importância para a língua portuguesa no Brasil, Machado de Assis. Quando estudamos a língua portuguesa com mais profundidade, perguntas surgem aos montes, do porquê de determinadas estruturas ou mesmo da formação de algumas palavras na língua portuguesa. Um estudo mais arraigado da língua permitirá enxergar que o português não é apenas um braço de uma família imediata (a das línguas românicas), mas pertence também a um tronco mais extenso, com relações com o grego, o búlgaro, o lituano, o sânscrito ou o antigo prussiano. Se a língua que falamos é o que somos, ou no mínimo faz parte permanente da nossa mente, do nosso mundo, estudar sua história nesses termos é não somente saber de onde viemos, mas buscar saber fundamentalmente quem somos, pois, o estudo da língua permite conhecer também o nosso próprio passado. Algumas curiosidades ao longo do estudo historiográfico é a de sabermos, por exemplo, que não é mera coincidência que lá na distante Romênia o pronome de primeira pessoa singular seja eu e um bar se chamar bodega. A movimentação geográfica dos romanos e a língua falada por este povo (o latim vulgar), fizeram circular para a Lusitânia, região situada a oeste da Península Ibérica (correspondente ao atual Portugal e à região espanhola da Galícia) a língua românica. A Península Ibérica, era o meio do caminho, devido a sua posição 3 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. geográfica, foi constantemente invadida e colonizada por diversos povos que falavam línguas diferentes: lígures, tartéssios, fenícios, gregos, bascos, iberos e celtas. Por volta do ano 218 a.C., chegaram os romanos, que com o passar dos tempos conquistaram esses povos, conseguindo assim, a unificação linguística. Pelo fato de o Latim ser uma língua mais organizada e o meio de comunicação mais adiantado, ele foi aos poucos se impondo em toda a península, substituindo as demais línguas, com exceção do basco. Pouco se sabe sobre a Península Ibérica antes da chegada dos romanos. Supõe-se que, primitivamente, ela tenha sido habitada por dois povos: o cântabro- pirenaico e o mediterrâneo, dos quais teriam se originado o povo basco e o ibérico. Os tartéssios se alojaram ao sul da península, fundando a cidade de Tarsis, aonde, segundo a Bíblia, Salomão ia buscar ouro, prata e marfim. Essas riquezas atraíram outros povos: os fenícios, que dominaram o sul, fundando as cidades de Cádiz, Málaga e outras, e os gregos, que, derrotados pelos fenícios no sul, foram para o leste, fundando, entre outras, a cidade de Alicante. Os lígures provavelmente estiveram no norte. Mais tarde, por volta do século V a.C., chegaram os celtas, que se fixaram na Galícia e no centro de Portugal. No século III a.C., para defender seu poderio no Mediterrâneo poupado por Cartago, os romanos desembarcaram pela primeira vez na península. Em 25 a.C., toda a faixa ocidental da península já estava conquistada e todos os peninsulares, com exceção dos bascos, acabaram por adotar a língua e os costumes dos vencedores, ou seja, romanizaram-se. O processo de romanização na Península Ibérica não se deu ao mesmo tempo em todas as regiões. Nas regiões do norte, onde o processo de romanização foi menor, o latim evoluiu de uma maneira mais livre e revolucionária. Apesar de haver escolas onde estudaram imperadores, poetas e filósofos, dentre eles – Trajano, Adriano, Sêneca e Marcial –, o latim que se impôs não foi o clássico, mas sim o vulgar. Este, por sua vez, distanciava-se cada vez mais do latim clássico. Portanto, as línguas românicas da península são fruto de evolução do latim vulgar em contato com elementospré-românicos e outras influências de povos que chegaram mais tarde. 4 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. É importante chamar atenção para o fato de que o processo, tanto do latim como do português, não são línguas nascidas e cristalizadas imediatamente com sua gramática e seu léxico de uma só vez estabelecidos. As incidências de fatos socioculturais são muitas, somadas aos atos políticos. O fato do português ser considerado uma língua latina se deve justamente porque encontramos no latim as palavras que deram origem ao léxico do português, mas também que encontramos certas características sintático-morfo-fonológicas específicas do latim e das línguas românicas no português. Para entendermos a história do português, será necessário compreender o percurso que o latim trilhou até se diferenciar, mesmo porque a língua que resultou nas línguas românicas modernas não foi o que chamamos de latim clássico, mas, antes, o latim falado pelas pessoas comuns no dia a dia, nas mais diversas interações, o chamado latim vulgar. E talvez seja esta a relação que deveremos fazer para acompanharmos a história da língua portuguesa e a influência que vem sofrendo na contemporaneidade. 5 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. UNIDADE 1 – BREVE HISTÓRIA DO LATIM O latim se desenvolveu e foi falada incialmente na região central da Itália, chamada de Lácio, durou em média o primeiro milênio antes de Cristo. Inicialmente, tratava-se de uma das línguas itálicas, como o osco e o umbro, faladas em pequenas aldeias de origem étnicas e linguísticas variadas: ao sul da Itália, como na Sicília ou em Nápoles, já havia colônias gregas desde bem cedo no primeiro milênio antes de Cristo; ao centro da península, havia povos de origem linguística próxima como oscos, umbros e latinos, e, ao norte, os etruscos, um povo não indo-europeu que ocupavam um grande território, além de outros povos como os lígures, os réticos e os vênetos, como podemos ver no mapa 1, abaixo: Mapa 1 – Línguas da Península Itálica A língua latina, que tem por nascimento a cidade de Roma, segue de perto as conquistas dos romanos durante o período inicial da monarquia; atravessa vários séculos de república, e chega, finalmente, a grande expansão imperial. A força do latim pode ser comprovada pela grande extensão da Europa, pelo norte da África e por diversas regiões da Ásia, até se transformar através do curso natural das línguas, em dialetos incompreensíveis entre si, que acabaram dando origem às línguas românicas. Com a fragmentação do Império romano, após a queda em 476, 6 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. diante dos invasores germânicos, teria surgido o aparecimento de dialetos bem diferentes entre si ao longo da antiguidade tardia. A força do Império Romano e de seu poderio, a partir de sua expansão, pode ser comprovado no mapa abaixo. Essas regiões pertenceram ao Império na época de Trajano, no início do século II d.C., período em que o domínio atingiu sua extensão máxima. Mapa 2 – O Império Romano no seu apogeu O latim, que ainda hoje estudamos, obedece à variante literária e estilizada de um período importante para a construção da história do Ocidente, contudo, um período curto, se pensarmos na expansão alcançada pelo Império: este período compreende os séculos I a.C. e I d.C. Nesse período, grandes autores escreveram obras literárias que ajudaram a moldar as bases culturais, políticas, sociais, filosóficas e religiosas da Europa e, consequentemente, do mundo Ocidental. Dentre esses autores, podemos destacar o poeta Virgílio, que escreveu, entre outras obras, a Eneide, no final do século I a.C. Nesse poema, Virgílio narra as origens históricas e mitológicas da grandiosa Roma, governada, no seu tempo, por Augusto. 7 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 1.1 Latim Arcaico Os primeiros registros do latim escrito data de VII ou VI a.C.. Mais tarde, por volta do século III a.C., começam a ser produzidos textos literários em latim, em grande parte através de um processo de assimilação da cultura e literatura gregas do período. A expansão de Roma em pouco tempo já somava uma quantidade de territórios de culturas diferentes, e por volta do século II a.C., o Mar Mediterrâneo já era praticamente dominado pelos romanos. Desse período, o documento (texto literário) mais antigo escrito em latim que sem tem notícias é uma tradução da Odisseia de Homero, feita por um escravo grego chamado Lívio Andronico. O texto fora escrito em versos saturninos e sobraram apenas alguns fragmentos, um pouco mais de cem versos. Ainda nesse período, outros autores produziram textos mais ou menos adaptados da tradição grega, como o poema épico Bellum Punicum de Gneu Névio, os Annales, poema épico de Quinto Ênio, tragédias, de Lívio, Pacúvio, Névio e Ênio e as comédias de Plauto e Terêncio, de gosto popular, que seguem a tradição da Comédia Nova grega. Névio e Ênio, seguindo o caminho aberto por Lívio, escreveram os primeiros textos épicos. A poesia épica escrita por esses autores contava as origens de Roma até as recentes guerras púnicas, contra Cartago (que compreendem três guerras, de 264 a 146 a.C.), contemporâneas dos dois autores. O latim desse período ainda é considerado menos polido e estilizado do que o que viria a ser utilizado no período seguinte, quando a língua literária é levada ao seu épico criativo. O texto latino mais antigo de que se tem notícia é uma inscrição curta em uma fíbula (uma espécie de broche encontrada em Preneste, na Itália). O artefato, preservado no Museo Preistorico Etnográfico Luigi Pigorini, em Roma, pode ser visto na imagem abaixo: 8 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. Fíbula encontrada em Preneste. Transcrito, o texto diz MANIOS MED FHEFHAKED NVMASIOI (visto da direita para a esquerda na imagem). Uma “tradução” para o latim clássico seria menius me fecit numerio (“Mânio me fez para Numério”, ou seja, uma assinatura do artesão e uma dedicatória na peça para a pessoa que encomendou a peça). Apesar de várias dúvidas sobre sua autenticidade desde a descoberta do artefato no século XIX, ela ainda é considerada uma peça muito antiga, provavelmente do século VII a.C.. Se autêntica, a fíbula apresenta detalhes muito interessanteda estrutura do latim arcaico. 1.2 Latim Clássico Convencionou-se chamar de latim clássico o estilo literário culto da língua ao longo do primeiro século a.C. até o início do primeiro século da Era Cristã. São desse período a prosa elaborada do político, filósofo e orador Cícero, a poesia lírica e a épica nacional de Virgílio, com sua Bucólicas e sua Eneida, a lírica amorosa de Catulo, Propércio, Tibulo, Horácio e Ovídio, além de textos de historiadores como Tito Lívio. Em geral, o latim que se ensina hoje em dia é a língua literária desse período, tanto por causa da beleza do estilo cuidadosamente trabalhado desses autores quanto pelo fato de que grande parte do corpus mais substancial dos textos clássicos é literário, o que nos deixou sem muito acesso aos outros registros linguísticos do período. Considera-se, em geral, o latim clássico como modelo de excelência linguística e cultural, de modo que quando não se especifica a época ou o registro linguístico, chama-se “latim” geralmente a língua usada nos textos desses autores “maiores”. 9 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 1.3 Latim Culto Chamamos de latim culto a variedade falada pela classe culta de Roma. Esse dialeto era a base real do latim clássico, sua variante literária, mas não se confunde com ela. A estrutura gramatical do latim culto, assim como o vocabulário, aproximava-se bastante do latim clássico, contudo, menos estilizado. Poucos documentos desta época são menos comuns, esse registro encontra-se em cartas de autores antigos, como as de Cícero e as de Sêneca, nas quais a estilização e o trabalho estético consciente com a linguagem são menos intensos, ainda que presentes. Com as cartas, talvez por não haver nenhuma preocupação literária, estética, é que o dialeto culto se faz presente. Uma das características mais importantes da prosa culta não literária seria uma ordem de palavras bem mais fixa do que a do latim clássico literário. Nas cartas de Cícero, por exemplo, ao escrever para os seus parentes, percebe-se o uso de diversos coloquialismos, como ouso regular de frequentativos (uma forma verbal que indica repetição de um evento, como em “salientar”, frequentativo de “saltar”), troca de formas de advérbio e adjetivos, entre outros. 1.4 Latim Vulgar O latim vulgar é a língua do povo, por ser a língua falada pela maior parte da população romana em todos os períodos considerados. Os registros dessa língua são mais difíceis de encontrar, pois, geralmente a escrita é associada às elites mais educadas, o que explica a escassez de registros em latim vulgar, mas aqueles que chegaram até nós, dão testemunhos muito interessantes da evolução do latim. As inscrições encontradas em muros, em banheiros públicos, e até mesmo em obras literárias que tentavam retratar a variedade linguística (como as comédias de Plauto ou o romance chamado Satyricon, de Petrônio, autor do século I d.C., que apresenta longas passagens que tentam simular a língua do povo de Roma) nos mostram uma língua viva, muito frequentemente aberta às mudanças que ocorriam naturalmente nas línguas, especialmente em se tratando da língua de um império que se espalhou por regiões com substratos linguísticos bastante diferentes. O texto anônimo Appendiz Probi, que é anônimo e provavelmente data do século III a.C. contribuiu e muito para chamar atenção da população para as formas 10 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. corretas e incorretas do latim daquela época. Exemplo interessante é a forma auris (“orelha”), do latim culto, possivelmente recebia, na fala popular, o sufixo diminutivo –cula, resultando em aricula “orelhinha”. Daí para a forma oricla, que deveria ser evitada, temos a mudança do ditongo au para o, e a síncope da vogal u entre c e l. Ao estudarmos a passagem do latim para o português, veremos que essa mudança de ditongos a vogais plenas é sistemática e regular; além disso, veremos que frequentemente, formas como -cla resultam em “-lha” e que vogais como i podem resultar em e. Assim, “orelha” em português descende diretamente de auris ou de oricla? Parece claro que, ao menos nesse caso, a instrução do Appendix não funcionou. Tantos séculos depois, sobrevive a forma então considerada “errada”. 1.5 Latim Tardio Após o período do latim clássico, temos o chamado “latim imperial” que abrange os dois primeiros séculos da Era Cristã, com grande produção literária (a chamada “idade de prata” das letras latinas), com as obras de Lucano, Sêneca, Petrônio, entre outros. Conforme o império perde força, a produção literária decai, e, ao longo dos séculos da antiguidade tardia, a língua da administração do império e das novas instâncias socioculturais, como a Igreja Católica, é chamada de modo genérico de “latim tardio”. O latim (assim com o inglês hoje) foi usado ao longo de muitos séculos como língua universal para relações internacionais, para a ciência, para administração do Império e da Igreja, e ao longo da Antiguidade e da Idade Média, todos os documentos importantes eram escritos em latim. 11 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. UNIDADE 2 – O português europeu 2.1 Formação histórico-linguística da Península Ibérica Os romanos chegaram à Península Ibérica por volta de 218 a.C., durante a Segunda Guerra Púnica, contra os cartagineses, seus maiores rivais no momento. Os cartagineses eram um povo fenício que ocupava o norte da África, com capital em Cartago, no atual território da Tunísia, e que começou a se mostrar ameaçador aos romanos ao iniciar a conquista de vários territórios ao redor do Mediterrâneo, especialmente a Sicília, a partir do século III a.C., e, a partir daí, passaram a colocar em perigo a soberania comercial dos romanos no Mar Mediterrâneo. Os cartagineses ocupavam parte da península, mas, em 209 a.C., os romanos os derrotam na Espanha e iniciaram a ocupação do território. Primeiramente, a península foi dividida em Hispânia Citerior (literalmente “Hispânia mais próxima” na região nordeste) e Hispânia Ulterior (literalmente “Hispânia mais distante, na região sudeste), como podemos ver no mapa abaixo. Posteriormente, sob o império de Augusto, a Hispânia Ulterior é dividida em duas províncias: a Lusitânia, ao norte, e a Baetica, ao sul. Ainda mais tarde, a Hispânia Citerior é transformada na província Terraconensis, e separa-se da província da Gallaetia, ao norte. Mapa 3 - Hispânia Romana As conquistas demoraram, pois, do final do século III a.C., quando os romanos derrotaram os cartagineses, até a pacificação completa da Hispânia, foram necessárias várias campanhas, incluindo as de Júlio César em 61 a.C., que 12 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemasde armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. prepararia a província para a pacificação completa por Augusto, em 27 d.C.. O resultado, no Império de Diocleciano, é a seguinte configuração de províncias: Mapa 4 – Hispânia Romana sob o Império de Diocleciano (244-311 d.C.) O resultado desse laborioso processo de conquista romana são os diferentes graus de romanização das províncias. Naquelas em que os romanos chegaram primeiro, os dialetos românicos desenvolvidos foram mais conservadores. Também contribui para essa diferenciação, a distância com relação à Roma e a dificuldade de acesso a algumas regiões. O tipo de romanização que se deu nas províncias também foi diferente. Na Baetica, por exemplo, pelo isolamento, falava-se um latim mais conservador e purista, em oposição ao falado no nordeste, na província Terraconensis, que era rota de legionários, o que gerou mais instabilidade e mudança na língua falada na região, como consequência do dinamismo da variedade mais popular de latim falada pelos legionários. Assim, os centros mais urbanizados da península acabaram por se influenciar pelo latim culto da Baetica, e a Terraconensis acabou por desenvolver inovações típicas do latim vulgar, que se refletiram nas línguas desenvolvidas ali posteriormente, como o catalão. Ao longo dos séculos V, VI, e VII da Era Cristã, como parte do movimento de inversões bárbaras que deram fim ao Império Romano do Ocidente, os visigodos sobrepujaram vários outros reinos germânicos e tentaram unificar a Península Ibérica, dominando grande parte dela. Ao longo de todo esse período de instabilidade política, que se inicia já no século IV d.C., o dialeto germânico 13 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. visigodos pouco influenciaram as línguas românicas que ali viriam a desenvolver, com exceção de alguns empréstimos lexicais, topônimos e antropônimos. Um dos reinos germânicos conquistados pelos visigodos ao longo desses séculos foi o dos suevos, que constituíram um domínio cujas fronteiras eram quase coincidentes com as da anterior província da Gallaecia. A permanência deles ali, até a conquista dos visigodos, apenas em 574, permitiu um relativo isolamento linguístico que acabou por proporcionar certos desenvolvimentos no latim vulgar dessa região, que num estágio muito antigo do português – quando este ainda se confundia com o galego –, dos outros dialetos românicos da península. Esse isolamento teria grande influência no desenvolvimento do galego-português, pois algumas dessas mudanças, como as quedas de l e n intervocálicos (luna > lua, soles > sóis, por exemplo) e a mudança dos grupos cl, pl e fl para ch (como em pluvia > chuva, clavis > chave, por exemplo) já se manifestavam no período romano (por influência dos substratos linguísticos da região). O domínio visigodo mantém-se por algum tempo, até que, no início do século VII, mais precisamente em 711, os árabes invadem a península. Esses árabes mulçumanos, comandados pelo governador da província da África, Tarik Ibn-Ziad, associam-se ao visigodo Ágila II, a pedido deste, contra seu oponente Rodrigo, último rei visigodo de Toledo, na disputa pelo trono do reino. Com a vitória de Ágila, este recebe o trono, mas os árabes conquistam outros territórios, e acabam por dominar grande parte da península, com exceção de uma parte das Astúrias, ao norte, que resistiu sob o comando do visigodo Pelágio. Por sua vez, Palágio iniciou, a partir de 722, o longo movimento denominado de Reconquista, que foi a lenta e gradual retomada dos territórios da Península Ibérica pelos cristãos. A reconquista só viria a se consolidar em 1492, com a tomada de Granada, último reduto mouro na Península Ibérica. Assim, os árabes representam um momento crucial na história das línguas ibero-românicas, pois, com a resistência dos reinos cristãos ao norte, o movimento de Reconquista precisou retomar todo o centro-sul da península, e, como vimos, isso demorou sete séculos, nos quais ocorrem diversas batalhas, mas também, em alguma medida, a convivência pacífica entre os cristãos e os mulçumanos em diversos territórios. 14 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. Os dialetos românicos da península, no início do século VIII, já se delineavam em uma faixa setentrional, em três grupos difusos, que viriam a se tornar as três línguas românicas principais: no noroeste, o galego-português, no centro, em contato com o substrato basco, o castelhano, e, no leste, o aragonês e o catalão. No centro e no sul, com a permanência dos árabes no território da Andaluzia, a ocupação era basicamente de mulçumanos e mouros (berberes conquistados pelos árabes e principalmente islamizados), falantes de árabe, e um grupo de hispano- godo-romanos subjugados pelos mulçumanos, falantes do dialeto chamado moçárabe (derivado do árabe, “submetido ao árabe”), além dos judeus, que, na época, eram vistos pelos árabes como merecedores de direitos iguais, pois eram considerados o “povo do livro” (a Bíblia). O árabe, por sua vez, foi um superstrato importante na formação das línguas românicas da península, e muitas palavras do português contemporâneo são empréstimos diretos do árabe. O movimento de Reconquista, como vimos, foi muito lento, e levou os reinos católicos para o sul, juntamente com suas línguas, ao longo dos sete séculos que foram necessários para a retomada integral dos territórios. No entanto, é exatamente ao longo desse período que se desenha o mapa geopolítico e linguístico da península, já que os reinos cristãos de Portugal, a oeste, Leão e Castela, no centro, e Aragão, a leste, cada um a seu modo, ao conquistarem territórios árabes, repovoavam os locais e ampliavam reestabelecendo as monarquias, de modo bastante diverso das tendências de formação de estado germânico anteriores à chegada dos árabes. A Reconquista leva progressivamente os dialetos românicos para o sul, definindo as fronteiras finais das línguas portuguesas, espanhola e catalã, conforme podemos ver na sequência de mapas abaixo. O Primeiro, Teyssier (1997 apud BAÇO e GONÇALVES, 2014), apresenta as regiões conquistadas pelos árabes durante algumas batalhas da Reconquista na região de Portugal. 15 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. Mapa 5 – Datas de batalhas da Reconquista que reconfiguraram o território de Portugal Nos anos iniciais do movimento da Reconquista, como se pode ver pelo mapa acima, o galego-português, às vezes chamado de galaico-português, ocupa uma área bastante avantajada com relação aos outros dialetos. No entanto, os movimentos políticos vão determinar uma outra configuração em pouco mais de um século, como podemos ver na sequência no mapa nº 6 abaixo. O reino de Leão e Castela inicia um movimento que não vai apenas ao sul, mas também acaba por conquistadas pelos outros reinos, gerando uma divisão que diminui oterritório aragonês, relegando às faixas orientais da península. 16 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. Mapa 6 – Sobre as Reconquistas nos anos de 790, 900, 1150 e 1300 É possível perceber que, por volta de 1300, o desenho político da península já apontava para o estado atual da distribuição das línguas românicas ali, como mostra o mapa a seguir. 17 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. Mapa 7 – As línguas faladas na Península Ibérica Além dos movimentos linguísticos, a Reconquista foi um período muito importante para o estabelecimento das unidades políticas da península, como o estado monárquico de Portugal. Um dos momentos mais importantes da história de Portugal se deu em virtude das alianças políticas derivadas dos movimentos de Reconquista. Assim, em virtude de seu sucesso na luta contra os árabes, Dom Raimundo e seu primo Dom Henriques receberam, respectivamente, de Dom Afonso VI, rei de Leão e Castela, sua filha Urraca e a região da Galiza, e sua filha bastarda Tareja e a região desmembrada da Galiza, chamada Condado Portucalense. Dom Henrique administra o condado sob tutela de Dom Raimundo, de modo que o condado ainda continue submisso à Galiza. No entanto, Dom Henrique, ao morrer, deixa o comando do condado à sua mulher, Tareja. Seu filho, Dom Afonso Henriques, descontente com a nova vida amorosa de sua mãe, vence, em 1128, a Batalha de São Mamede e se proclama rei. Em 1143, Afonso VII, rei de Leão, reconhece sua realeza, que foi ratificada pelo Papa Alexandre III em 1173. Portugal passa a ser, então, independente da Galiza, e Dom Afonso Henriques continua a 18 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. expansão em direção ao sul, que, em 1250, Dom Afonso III completa, com a conquista do Algarve, de modo a fixar as fronteiras atuais de Portugal do galego- português, e progressivamente chegando ao Portugal propriamente dito. 2.2 Períodos da Língua portuguesa Seria possível determinar exatamente quando a língua portuguesa nasceu? Ou seja, quando precisamente as pessoas que habitavam a atual região de Portugal deixaram de falar o latim (ou algum estágio do latim) e passaram a falar português? Será que existe uma data? Certamente, não. Não é possível afirmar quando exatamente, a partir de uma data, nasceu a língua portuguesa. E não é possível pelo fato de as línguas serem dinâmicas, assim como seus falantes e suas histórias. Sendo assim, não há nenhum momento ou ponto preciso no tempo que sirva como um marco para uma mudança linguística específica, simplesmente porque a língua muda inerentemente. Contudo, para a história, é importante que haja um ponto de partida, em geral, as datas escolhidas são aquelas que têm alguma relevância histórica, seja do ponto de vista político, cultural ou outro. Isso significa, entre outras coisas, que diferentes pesquisadores podem, em princípio, usar diferentes marcos históricos em suas periodizações da história. Basso e Gonçalves (2014) apresentam as seguintes periodizações a partir do quadro abaixo. Na primeira coluna, indicam datas e na primeira linha o nome do pesquisador responsável pela periodização, logo abaixo de seu nome: Leite de Vasconcelos Serafim da Silva Neto Pilar Vásques Cuesta Luís-Felipe Lindley-Cintra Até o século IX (882) Português pré-histórico (até 882). Português pré-histórico (até 882). Português pré-literário (até 1216). Português pré-literário (até 1216). 900-1200 Português proto-histórico (882 até 1214/1216). Português Proto-histórico (até 1214/1216). 19 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 1200-1300 Português arcaico (1216 até 1385-1412). Português Trovadoresco (1216 até 1420). Galego- português (1216 até 1385/1420). Português antigo (1216 até 1385/1420). 1300-1400 Português Trovadoresco (1216 até 1420). Galego- português (1216 até 1385/1420). Português antigo (1216 até 1385/1420). 1400-1500 Português comum (1420 até 1536/1550). Português pré- Clássico (1420 até 1536/1550). Português Médio (1420 até 1536/1550). 1500-1600 Português moderno. Português moderno. Português clássico (1420 até século XVIII). Português clássico (1550 até o século XVIII). 1600-1700 1700-1800 De 1800 em diante Português moderno. Português moderno. Podemos considerar o português arcaico o período que vai do nascimento da língua portuguesa (ao menos dos textos mais antigos escritos em português), ou seja, fins do século XII e início do século XIII, até o início das grandes navegações portuguesas, em torno de 1415 (data da tomada de Ceuta, no norte da África, pelos portugueses). O período clássico tem início justamente por volta de 1415 e vai até a publicação do poema épico Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões, datado de 1572. Nesse período, relativamente curto, várias inovações e consolidações importantes 20 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. ocorreram na língua portuguesa, e ela aproximou-se, bastante da língua que falamos hoje. O português moderno inicia-se em 1572 e segue seu curso, de modo diferente no Brasil, em Portugal, África e Ásia – até os dias de hoje. 2.3 O português arcaico Este período consiste da passagem do latim ao romance falado na Galiza, de datação incerta, devido à ausência de documentos escritos. Devemos levar em consideração as primeiras manifestações escritas do português até fins do século XIV e início do XV. Devemos considerar a Carta da Fundação das Igrejas de Lordosa (escrita em uma mistura de latim vulgar e romance galego-português, de 882), além dos textos escritos em português arcaico propriamente dito, que datam do século XII e início do XIII, como a Notícia de Torto, datada entre 1210 e 1216, e a Demanda do Santo Graal (texto literário traduzido dos romances de cavalaria franceses, escrito ao longo da primeira metade do século XIII). As características morfológicas do português pré-literário seguem as tendências do latim, e, portanto, as mudanças ocorridas são semelhantes as dos outros dialetos românicos da península, como o castelhano. A língua portuguesa, nascida do português medieval do norte, é levada ao sul com os movimentos da Reconquista,e, com a capital transferida para Lisboa, em 1255, a fixação da língua culta não mais seguirá os desenvolvimentos dos dialetos do norte, mas sim da zona de influência da capital e de Coimbra. Os textos desse período são variados, e os principais gêneros podem ser classificados em: 1) Poesia lírica trovadoresca – a poesia lírica provençal influenciará um período bastante fértil de produção de literatura em galego-português. Os três cancioneiros editados desse período são o Cancioneiro da Ajuda (de fins do século XIII), o Cancioneiro da Vaticana e o Cancioneiro da Biblioteca Nacional de Lisboa. São compilações de poesias de trovadores classificadas em cantigas d’amigo (poemas de amor com eu lírico feminino); cantigas d’amor, mais eruditas (com o eu lírico masculino); cantigas de escárnio e maldizer; poemas satíricos de invectiva, mais grosseiros que os anteriores. Os poemas trovadorescos mais antigos datam do 21 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. início do século XIII, e o gênero desaparece em meados do século XIV, com o último trovador, Dom Pedro de Barcelos, filho bastardo de Dom Dinis. 2) Documentos oficiais e particulares – trata-se de leis, cartas forais, testamentos, títulos públicos, entre outros. Desse grande gênero, temos dois dos textos mais antigos escritos em português que sobraram até hoje, o Testamento de Afonso II e a Notícia do Torto, ambos com datação mais provável de 1214. Além disso, há uma grande quantidade de documentos escritos em latim mesclado com romance galego-português desde finais do século XI até os séculos XIII e XIV, quando a maioria dos textos já era escrita predominantemente em português. 3) Prosa literária – o século XIII viu o início da tradição da prosa literária em português. Os romances de cavalaria do ciclo arturiano foram traduzidos para o português. A novelística bretã aparece representada, sobretudo, pelo ciclo de novelas do qual mais conhecida é a Demanda do santo Graal, cujas duas primeiras partes são o Livro de José de Arimatéia e o Merlim. Além disso, ao longo do século XIV temos os documentos Livro de Linhagens, de Dom Pedro, conde Barcelos, e a Crônica geral de Espanha, de 1344, primeiros textos da historiografia escrita em português. 4) Textos religiosas – há diversas vidas de santos e obras de espiritualidade nesse período, como a Regra de São Bento, do início do século XIV de São Nicolau de Myra, e Vida de Cristo, do início de meados do século XV. 2.4 Característica do português arcaico É na segunda metade do século XIII que se estabelecem certas tradições gráficas. O testamento de Afonso II (1214) já utiliza ch para a africada [tš] – ex.: Sancho, Chus –, consoante diferente do [š], ao qual se aplica a grafia x. Este ch, de origem francesa, já era usada em Castela com o mesmo valor. Para “n palatal” e “l palatal”, é somente após 1250 que começam a ser usadas as grafias de origem provençal nh e lh; ex.: ganhaar, velha. O til (~), sinal de abreviação, serve frequentemente para indicar a nasalidade das vogais, que pode vir também 22 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. representada por uma consoante nasal; ex.: razõ, razom ou razon. Apesar das suas imprecisões e incoerências, a grafia do galego-português medieval aparece como mais regular e “fonética” do que aquela que prevalecerá em português alguns séculos mais tarde. (TEYSSIER, 1997) a) Fonética e fonologia O quadro de vogais do português arcaico já era bastante próximo do português moderno, com as sete vogais orais tônicas derivadas do latim vulgar (após a perda da distinção de duração das vogais do latim clássico): /a/, /e/, /ɛ/, /o/, /ɔ/, /i/, /u/. As vogais átonas finais do português arcaico eram bastante reduzidas: /i/ (pleno, não reduzido como no português moderno), /a/, /e/ e /o/. Em oposição não final, as vogais átonas eram /a/, /e/, /i/, /o/ e /u/. Esse sistema segue, de maneira geral, o sistema de sete vogais tônicas da maior parte das línguas românicas (com exceção, por exemplo, do romeno, do sardo e do siciliano). O sistema consonantal era bastante próximo do moderno, com as importantes exceções dos pares /ts/, /dz/ e /tʃ/ /dʒ/, como eram çapato /tsa-pato, fazer/ fadzer/, chaga / tʃaga/, já / dʒá/. O primeiro par de consoantes apresentava-se em oposição a /s/ e /z/, como em cem /tsn/ X sem /sem/, e cozer /codzer/ X coser /cozer/. Já /tʃ/ apresentava-se em opisição a /ʃ/, grafado /x/. A africada /dʒ/, por sua vez, apresentava flutuação em alguns casos em que a oclusiva inicial não era pronunciada, e acabou por perder a oclusão por completo, resultando em /ʒ/ no português moderno. Assim, o português de então apresentava um sistema de consoantes que opunha os pares /ts/ e /dz/, /tʃ/ e /dʒ/, /s/ e /z/, e /ʃ/ e /ʒ/. O surgimento das cinco vogais nasais se deu pela perda de consoantes nasais que as seguiam, o que foi grafado no começo pelo til, que representava incialmente um n abreviado acima da vogal como sinal diacrítico. Em muitos casos, as consoantes nasais não caíram na ortografia, e o predomínio inicial do n final foi sendo substituído por um m final, que acabou sendo a consoante nasal final em todos os casos. Os hiatos nasais criados pela queda do /n/ intervocálico acima geraram instabilidade em muitos casos, como em vĩ-o e pĩ-o, que se resolvem com a epêntese de semivogal da consoante palatal /ɲ/ em vinho e pinho, ou com a queda da nasalização, como em bõ-a > boa. Em outros casos de palatização, ocorre ainda 23 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. a epêntese da semivogal /j/ a fim de resolver o ditongo, como em lat. alienus > port. alheo > alheio. A grande quantidade de hiatos criados pelas quedas de consoantes intervocálicos como /n/, /l/, /g/ (como legere > leer) e /d/ (sedere > seer), ainda permanece durante esse período, e resolvem-se posteriormente dos modos que vimos no parágrafo anterior, ou ainda em crase das vogais, como leer > ler e seer > ser. b) Morfologia e sintaxe A seguir mostraremos alguns exemplos significativos deste período: I) As já mencionadas quedas /l/ e /n/ intervocálicos têm consequências para a morfologia dos plurais: assim, os nomes terminados em l mantêm a consoante no singular, mas a perdem no plural, como vemos em sol > sol, mas soles > soes (port. arc.) > sóis (port. moderno). Os substantivos derivados das terminações latinas -anus, -anis, e -onis têm seus singulares e plurais formados a partir dos seguintes movimentos: manus > mano > mão X manos > mã-os (port. arc.) > mãos; leo > leon(e) > leon (port. arc.) > leão X leones > leõ-es (port. arc.) > leões. Podemos perceber, aqui, que a queda do /n/ intervocálico criou os hiatos arcaicos, que iriam se resolver em ditongos nasais posteriormente. No singular, o n final não cai, sendo pronunciado como consoante por um bom tempo, vindo a se transformar em ditongo nasal somente muito depois. II) Os pronomes possessivos possuíam formasdiferentes tônicas e átonas no feminino, como se pode ver abaixo: Masculino Feminino Tônicos Átonos meu mia, mia, minha mia, mha, ma teu tua ta seu sua sa III) O sistema de pronomes dêiticos (demonstrativos e advérbios de lugar) organizam-se da seguinte forma: este/aqueste X esse X aquel(e), já antecipando a 24 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. forma atual de distinção entre este, esse e aquele; quanto aos advérbios de lugar, temos aqui/acá/acó X ali/alá/aló. IV) Havia, também, dois advérbios anafóricos derivados do latim que eram muito frequentes em português arcaico: (h)i “aí/ aqui”, derivado do latim ibi “aí, lá”, e ende/en, “daí, a partir de” derivado do latim inde “daí, a partir de”. O sistema verbal já era praticamente idêntico ao do português moderno, com algumas peculiaridades, tais como: I) O infinito flexionado, um traço específico do português, já era encontrado em formas como (teer, teerdes, teermos, entre outras). Essa característica não se desenvolveu no leonês e no castelhano. II) As formas etimológicas da segunda pessoa do plural em -des, derivadas do latim -tis, ainda se mantinham: amades, seerdes (futuro) e leixedes (subjuntivo). III) As terceiras pessoas do singular do perfeito apresentavam flutuações de formas, como em fizo e fez, de “fazer”, disso/dixo e disse, de “dizer”, entre outras. IV) Os verbos da segunda conjugação formavam particípio em -udo, como creúdo, de creer, conheçudo (ou conhoçudo), de conhocer, entre outros. V) As formas de tratamento eram apenas as de segunda pessoa, tu (pessoal) e vós (plural e deferência), de modo que ainda se desconheciam formas como vossa mercede > vosmecê > você. 2.5 O português Clássico O período clássico vai de 1415 até 1572, coincide com o início das grandes navegações portuguesas e culmina com a publicação do poema épico Os Lusíadas, de Luís Vaz de Camões. Para além de empréstimos das mais variadas línguas, o léxico passou por grandes mudanças. Com a perda do gênero neutro, muitas palavras apresentaram flutuações de gênero, de modo que ora eram masculinas, ora femininas. Nos períodos anteriores, inclusive, diversos itens lexicais terminados em consoantes não possuíam formas diferentes para o masculino e o feminino. Um desses itens, muito frequente no período do português arcaico, é a forma de senhor, usada tanto para o masculino quanto para o feminino. Ao longo do século XV, no entanto, inicia-se um 25 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. movimento de regularização dos gêneros, de modo que, possivelmente por causa da influência da nova forma senhora para o feminino, vários nomes terminados em consoante começam a receber uma forma feminina em –a – não deve espantar, portanto, que mesmo um particípio presente como “presidente” possa receber uma marcação de gênero feminino (já dicionarizada há muito tempo) como “presidenta”. Esse processo analógico se estende a outras formas, como as terminadas em - agem, que flutuavam em gênero, e passariam todas a ser femininas (linguagem e linhagem, por exemplo, eram masculinas anteriormente). O português do século XV começa a receber muitos empréstimos latinos, do ponto de vista lexical, em virtude da chegada do Renascimento a Portugal, em boa parte devido à atuação de escritores e pensadores, com a ínclita Geração dos príncipes de Avis e Luís de Camões. Muitos desses latinismos virão a se fixar como formas principais, enquanto outras sobreviverão lado a lado com as formas mais antigas que derivam do latim vulgar. É possível perceber algumas mudanças iniciadas nesse período no plano fonológico, como veremos a seguir: a) Sincope do /d/ na segunda pessoa do plural – em Dom Diniz e Fernão Lopes já é possível perceber que o d da segunda pessoa do plural estava resolvendo da seguinte maneira: estades > estaes > estais, vendedes > vendees > vendeis. Um dado interessante a respeito dessa mudança especiífica é o fato de que, nas peças do dramaturgo Gil Vicente (c. 1465-c. 1536), o /d/ intervocálico de algumas formas verbais da segunda pessoa do plural aparece como marca de arcaísmo na fala de pessoas mais velhas, o que demonstra que, para o público de período, essa característica era percebida como um traço de arcaísmo. b) Eliminação dos hiatos – como vimos, uma grande quantidade de hiatos foi criada com as quedas dos /l/, /n/, /d/ e /g/ intervocálicos. Além disso, a recente perda /d/ na segunda pessoa do plural aumentou a quantidade de hiatos. No período clássico, os hiatos foram resolvidos através de três processos principais: monotongação, a ditongação e a epêntese. Vejamos alguns exemplos: 26 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. Monotongação • Quando o hiato consistia de vogais idênticas, ocorria a crase: dolore > door > dor. • Quando o hiato consistia de vogais diferentes, em alguns casos houve inicialmente a assimilação de uma das vogais, com posterior crase: palumbu > pa-ombo > poombo > pombo. Ditongação • Uma das vogais do hiato passa inicialmente a semivogal, com posterior ditongação: nebula > /nevu.a/ > /nevual/. Epêntese Há dois tipos de epêntese para resolver os hiatos: a vocálica, criando ditongos, e a consonantal. • A epêntese vocálica inicial permite a criação de ditongo posteriormente: credo > cre-o > creio. • As epênteses de consoantes preenchem o hiato com uma consoante diferente da que havia sido sincopada anteriormente: vinu > vĩ-o > vinho (epêntese de /ɲ/, uma > ũ-a > uma (epêntese de /m/). c) Nasalização – outro fenômeno importante do período foi a unificação das terminadas em ditongo nasal. Formas variadas como leõ (leão) e cã (cão), entre outras, resultariam no ditongo -ão /ɐ w/. Vejamos o quadro a seguir: Latim Português arcaico Português clássico tam -am -ã tã dant -ant dã pane -ane pã sum -um sõ 27 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. sunt -unt -õ sõ -ɐw oratione -one oraçõ multitudine -udine Multidõe > multidõ veranu -anu -ã-u verão vadut adunt vão d) Sibilante – o sistema de sibilante também apontava para simplificação. Nesse período, as sibilantes /ts/ e /dz/ já começavam a perder a oclusiva incial, gerando algumas confusões por causa de homofonia com formas em /s/ e /z/. No século XV, no entanto, é possível afirmar que o sistema de quatro sibilantes ainda era /ts/, /dz/, /s/ e /z/, devidamente marcadas ortograficamente, gerando a seguinte oposições: /ts/ - /dz/ aceite – azeite /s/ - /dz/ assar – azar/ts/ - /s/ cela – sela /s/ - /z/ cassa – casa /ts/ - /z/ caça – casa /dz/ - /z/ cozer – coser A mudança para um sistema com apenas duas sibilantes, /s/ e /z/, completou- se em torno do século XVII. Porém, o sistema antigo continua registrado em nossa ortografia, o que é fonte de várias confusões na escrita. e) Morfologia – do ponto de vista morfológico, as mudanças mais importantes no século XV foram as seguintes: • o desaparecimento dos particípios em -udo da segunda conjugação, que se regularizam em -ido, como os outros; 28 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. • regularização dos paradigmas verbais de verbos com crescer, parecer, arder e perder. O subjuntivo desses verbos (paresca, nasca) e indicativo (arço e perço) foram substituídos pelas formas pareça e nasça, e ardo e perdo (a forma atual é perco). Com o nascimento de uma literatura mais sólida e com o fortalecimento do estado nacional, vemos na fase do português clássico as primeiras gramáticas portuguesas e também, como apresentamos acima, preocupação com o idioma nacional. Desta época temos algumas gramáticas e textos dedicados à língua portuguesa no período clássico: 1536 – Gramática da linguagem portuguesa, de Fernão de Oliveira; 1540 – Gramática/diálogo em louvor da nossa linguagem, de João de Barros; 1576 – Ortografia da língua portuguesa, de Duarte Nunes de Leão. 2.6 A maturidade da língua portuguesa depois de 1500 Em fins do século XVI já é possível encontrar textos com o sentimento de modernidade por conta das mudanças na língua. A história da língua, como toda História, optou por fincar uma data para marcar as mudanças que já iam dando sinais na língua, e esta coincide com a publicação, em 1572, de Os Lusíadas, de Luís de Camões. Até a sua consolidação, o português sofreu uma série de transformações, do século XIV ao XVI, que tiveram como efeito fixar a morfologia e a sintaxe de tal maneira que, daí por diante, pouca variação, até o português atual. A morfologia do nome e do adjetivo absorve as consequências das evoluções fonéticas: os plurais dos nomes em -ão são fixados (tipo mãos, cães, leões), assim como o feminino. Vejamos a seguir algumas dessas mudanças em relação, primeiramente, à estrutura fonético-fonológica do português. a) O ditongo /ow/ sofreu monotongação para /o/, além de alternar-se, às vezes, com /oj/, como em touro – toro, louro – loiro; essas mudanças também ocorreram por volta do século XVII. 29 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. b) Ainda no século XVII, a africada [tʃ] simplificou-se em [ʃ]; tal modificação aplica-se a casos como macho, chave. c) Passando ao século XVIII, encontramos a pronúncia “chiante” de /s/ e /z/ em finais de sílaba e de palavras, como em dois [‘doiʃ], mesmo [‘meʒmu], paz [‘paʃ]. Das mudanças enumeradas até agora, as duas primeiras também ocorreram no português do Brasil de maneira generalizada. A realização “chiante” de /s/ e /z/ em finais de sílaba e de palavra é o caso, atualmente, em duas situações: 1) De maneira bastante generalizada: Rio de janeiro, Belém, algumas cidades litorâneas em diferentes graus (Piçarras, Garopaba, Florianópolis, Santos, Recife). 2) De maneira tendencial, mas não generalizada: região Nordeste, entre a Bahia e o Maranhão, e região Norte (Belém). 30 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. UNIDADE 3 – A língua portuguesa além da Europa e da América Entre os séculos XV e XVI, Portugal viveu o período conhecido como Grandes Navegações, mais precisamente entre 1415 (conquista Ceuta, na África) e 1543 (chegada à Ilha Tanegashima, no Japão). A busca por riquezas e rotas comerciais fizeram dos portugueses, neste período, um dos povos que mais longe chegaram; a proeza desse povo foi tamanha que em pouco mais de um século haviam chegado a todos os lugares do globo. Mapa 8 – Navegações portuguesas Este período sem dúvida permitiu a Portugal status de grande país, além de sua sustentação por muitos séculos. Contudo, muitas consequências se seguiram por conta desse sucesso todo, afinal, os territórios “descobertos” sofreram com os saques. No Brasil, os exemplos são muitos, a quase extinção da madeira de lei (pau-brasil), dos inúmeros índios mortos e escravizados, dos metais preciosos levados para a Europa, dos africanos trazidos para servir de mão de obra, entre outros. É claro que houve o legado cultural e linguístico em boa parte dos territórios onde os portugueses aportaram. 31 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. O mapa-múndi e sua distribuição geográfica servem de testemunho da potência marítima e exploradora que foi Portugal. A força da língua fez com que, em 1996, fosse criada a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (a CPLP), da qual fazem parte Angola, Brasil, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe e Timor Leste (este último a partir de 2002). Segundo relata a CPLP (www.cplp.org), em termos de quilometragem, são “10.742.000 Km2 de terras, 7,2 por cento da terra do planeta (148.939.063 Km2) espalhadas por quatro Continentes – Europa, América, África e Ásia”. Com base no número da população existente em cada país lusófono, conforme o quadro abaixo, a língua portuguesa é a sétima língua mais falada do planeta. Países População em 2010 Angola 19.081.912 Brasil 194.946.670 Cabo Verde 495.599 Guiné-Bissau 1.515.224 Moçambique 23.390.765 Portugal 165.397 São Tomé e Príncipe 165.397 Timor-Leste 1.124.355 Total 250.866.964 Além dos países apresentados acima, ainda temos os territórios de Goa, na Índia, e de Macau, na China. 3.1 O português de África, da Ásia e da Oceania. No estudo das formas que veio a assumir a língua portuguesa em África, na Ásia e na Oceania, é necessário distinguir, preliminarmente, dois tipos de variedades: as Crioulas e as não-Crioulas. As variedades Crioulas resultam do contato que o sistema linguístico português estabeleceu, a partir do século XV, com sistema linguístico indígena. Talvez todas elas derivam do mesmo Proto-Crioulo ou Língua Franca que, durante os primeiros séculos da expansão portuguesa, serviu de meio de comunicação entre 32 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. as populações locais e os navegadores, comerciantes e missionários ao longo dascostas da África Ocidental e Oriental, da Arábia, da Pérsia, da Índia, da Malásia, da China e do Japão. Aparecem-nos, atualmente, como resultados muito diversificados, mas com algumas características comuns – ou, pelo menos, paralelas –, que se manifestam numa profunda transformação da fonologia e da morfossintaxe do português que lhes deu origem. O grau de afastamento em relação à língua-mãe é hoje de total ordem que, mais do que como Dialetos, os crioulos devem ser considerados como Língua derivadas do português. 1. Crioulos do Arquipélago de Cabo Verde, com as duas variedades: a) De Barlavento, ao norte, usada nas ilhas de Santo Antão, São Vicente, São Nicolau, Sal e Boavista. b) De Sotavento, ao sul, utilizada nas ilhas de Santiago, Maio, Fogo e Brava. 2. Crioulos das ilhas do Golfo da Guiné: a) De São Tomé. b) Do Prícipe. c) De Ano Bom (ilha que pertence à Guiné Equatorial). 3. Crioulos continentais: a) Da Guiné-Bissau; b) De Casamance (no Senegal). Dos crioulos da Ásia subsistem apenas: a) O de Malaca, conhecido pelas denominações de papiá cristão, malaqueiro, malaquês, malaguenho, malaquense, serani, babasa geragau e português basu. b) O de Macau, macaísta ou macauenho, ainda falado por algumas famílias de Hong-Kong. c) O de Siri-Lanka, falado por famílias de Vaipim e Batticaloa. d) Os de Chaul, Korlai, Tellicherry, Cannor e Cochim, no território da União Indiana. Na Oceania, sobrevive ainda o crioulo de Tugu, localidade perto de Jacarta, na ilha de Java. 33 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. Quanto às variedades Não-Crioulas, há que considerar não só a presença do português que é a língua oficial das repúblicas de Angola, de Cabo Verde, da Guiné- Bissau, de Moçambique e de São Tomé e Príncipe, mas as variedades faladas por uma parte da população destes Estados e, também, de Goa, Damão, Diu e Macau, na Ásia, e Timor, na Oceania. Trata-se de um português com base na variedade europeia, porém mais ou menos modificado, sobretudo pelo emprego de um vocabulário proveniente das línguas nativas, e a que não falam algumas características próprias no aspecto fonológico e gramatical. Estas características, no entanto, que divergem de região para região, ainda não foram suficientemente observadas e descritas, embora muitas delas transpareçam na obra de alguns dos modernos escritores desses países. 34 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. UNIDADE 4 – O PORTUGUÊS NA AMÉRICA: A LÍNGUA LUSITANA NO BRASIL Os portugueses quando aqui chegaram o Brasil não era um território despovoado em 1500. Estima-se de 2 a 6 milhões de pessoas. Essa população, apesar da unidade tupi-guarani no litoral e em parte do interior, era bastante diversificada em termos culturais e linguísticos, e alguns pesquisadores creem que havia aqui nada menos que mil línguas indígenas no tempo do descobrimento. Existe uma larga diferença entre o português do Brasil e o português europeu. Essas diferenças começam já pela extensão do Brasil em relação à Portugal; na Europa, o português sofreu influência por séculos de outras línguas até a sua formação; o português no Brasil sofreu influência de línguas indígenas, africanas, de outros imigrantes, resumindo, o português quando aqui chegou com o português já era uma língua relativamente definida, já no Brasil ela começaria a ganhar outras contribuições pelo contato direto com o próximo e constante com outras línguas. Com uma fauna e flora muito diferente do território português, houve a necessidade de especificar o que se via, e como não havia palavras na língua portuguesa que definissem essa realidade, tomou-se emprestado de pronto a língua indígena, adaptando a língua as necessidades daquele momento, daí explica-se uma grande quantidade de nomes indígenas para a fauna e flora que usamos até hoje, todos os dias. A partir daí podemos começar a entender a diferença entre o português do Brasil (PB) e o português europeu (PE), ou seja, não é somente lexical, mas também gramatical. 4.1 A língua portuguesa no Brasil de 1500 Quando Pedro Álvares Cabral chega ao Brasil, a variedade de português que traz consigo é o português clássico. Poderemos conferir este português através da Carta a El-Rei de Portugal Dom Manuel, de Pero Vaz de Caminha, escrivão da esquadra de Cabral. Antes, porém, um pouco sobre as ortografias do português, encontradas em Basso e Gonçalves (2014). Segundo os autores, costuma-se dividir a história da ortografia do português em três grandes períodos: 35 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 1) Período da Ortografia Fonética: séculos XIII a XVI. 2) Período da Ortografia Pseudoetimológica: séculos XVI a XX. 3) Período das Reformas Ortográficas: do século XX em diante. O primeiro desses períodos é caracterizado por uma grande oscilação na grafia de uma série de palavras, causada por alguns motivos, como: fala de uma norma portuguesa; inspiração na norma latina, que não servia mais para o português; mudanças estruturais da pronúncia portuguesa; variedades regionais de pronúncia. Como exemplo dessas oscilações temos: gerra por guerra, algem por alguém, língoa por língua, amigua por amiga, alguo por algo, cinquo por cinco, nunqua por nunca, agia por haja, mangar por manjar, fugo por fujo, sabha por sabia, mha por mia, escripto por escrito, aya por haja, iulgar por julgar, oye por hoje, ljuro por livro, ãno e año por ano, caminho por caminho, cimco por cinco, grãde por grande, hũildade por humildade, tẽpo por tempo, razõ por razão, nocte por noite, feicto por feito, e inúmeros outros. A ortografia pseudoetimológica, como o próprio nome diz, baseia-se na ideia de guardar na escrita das palavras parte de sua origem etimológica em detrimento de sua transparência sonora. Essa ortografia é, em parte, o resultado da chegada do Renascimento a Portugal, que levou os portugueses a quererem afirmar sua origem romana (e também grega) através do resgate da ortografia dessas línguas. Além disso, essa ortografia é também motivada pelo uso da prensa e pela necessidade de padronização, somado ao desejo (ou necessidade) de se distanciar do espanhol, que prezava por uma ortografia fonética. Esse tipo de ortografia é pouco racional e por vezes se fundamenta em bases irreais, com objetivos, no mínimo, equivocados, como garantir uma origem intelectual e cultural através da forma gráfica de certas palavras. Carta de Pero Vaz de Caminha Vejamos agora um trecho da carta de Pero Vaz de caminha, na qual ele descreve os habitantes nativos do Brasil, mantendo o original, e sua transcrição com a ortografia ora usada no Brasil logo abaixo. Afeiçam deles he serem pardos maneira dauerme Ilhados de boõs rrostros e boos narizes bem Feitos. / amdam nuus sem nenhuu[m]a cuberta. Nem 36 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzidaou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. estimam nuhuu[m]a coussa cobrir nem mostrar suas vergonhas. e estam acerqua disso com tamta jnocemçia como teem em mostrar orrostro. / traziam ambos os beiços de baixo furados e metidos por eles senhos osos doso bramcos de compridam dhuu[m]a mão travessa. A feição deles é serem pardos, maneira de avermelhados, de bons rostos e bons narizes, bem feitos. / andam nus, sem nenhuma cobertura, nem estima nem uma coisa cobrir nem mostrar suas vergonhas. e estão acerca disso com tanto inocência como têm em mostrar o rosto. / traziam ambos os beiços de baixo furados e metidos por cada um deles ossos brancos de compridão de uma mão travessa. Embora seja um texto escrito em 1500, é possível entender uma boa parte de seu conteúdo. É claro que muitas coisas nos soam estranhas, mas é perceptível o uso ainda de algumas palavras em nosso vocabulário. Se o português clássico é a variedade de português que primeiro chega na América, ele não é certamente o ponto final da história, pois o fluxo de portugueses para o Brasil, ao longo do período colonial (1500-1822) foi mais ou menos constante, tendo seu pico no chamado Ciclo do Ouro, período que vai, segundo alguns historiadores, de 1697 a 1810. Aliás, os ciclos econômicos servem como um excelente guia para entendermos como se deu a ocupação do território nacional, os contatos com as populações indígenas e a dinâmica da escravidão no Brasil, pois os escravos, sendo a mão de obra por excelência da colônia portuguesa na América, acompanhavam esses ciclos, inclusive durante o Período Imperial. (BASSO E GONÇALVES, 2014) 4.2 O século XVIII até à chegada de D. João VI (1808) No século XVIII, a exploração do ouro determina a ocupação do território do atual estado de Minas Gerais. Mas em todo o período de colônias, o Brasil permanece um país essencialmente rural. As duas capitais sucessivas – Salvador, depois a partir de 1763, Rio de Janeiro – e algumas vilas de importância média com que conta a colônia preenchem apenas funções políticas, administrativas e religiosas: o seu papel intelectual e cultural é dos mais limitados. O Brasil não possui nenhuma universidade (os jovens brasileiros vão formar-se em Coimbra) nem tipografia, essa é uma diferença fundamental que distingue a América portuguesa da América Espanhola. 37 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. Segundo Teyssier (1997), este período pode ser resumido da seguinte forma: os “Colonos” de origem portuguesa falam o português europeu, mas evidentemente com traços específicos que se acentuam no decorrer do tempo. As populações de origem indígena, africana ou mestiça aprendem o português, mas manejam-no de uma forma imperfeita. Ao lado do português existe a língua geral, que é o tupi, principal língua indígena das regiões costeiras, mas um tupi simplificado, gramaticalizado pelos jesuítas e, deste modo, tornado uma língua comum. Durante muito tempo o português e o tupi viveram lado a lado como línguas de comunicação. Mas com a chegada de imigrantes portugueses seduzidos pelas descobertas das minas de ouro e diamantes, e o Diretório criado pelo marquês Pombal, em 3 de maio de 1757, onde obrigava o uso da língua geral ser oficialmente a língua portuguesa. Não demorou muito e cinquenta anos depois, o tupi viria a ser extinto de vez da língua portuguesa, ficando apenas certo de número de palavras integradas ao português local e muitos topônimos. Ainda no século XVIII aparecem os primeiros documentos aludindo aos traços específicos do português falado no Brasil. Em 1767, Frei Luís do Monte Carmelo (Compendio de Orthographia) assinala pela primeira vez um traço fonético dos brasileiros, que é o de não fazerem distinção entre pretônicas abertas (exemplos: padeiro, pregar, còrar) e as fechadas (exemplos: cadeira, pregar, morar). Jerónimo Soares Barbosa, segundo Teyssier (1997), em sua “Grammatica Philophica, 1822” consegue especificar que os brasileiros dizem minino (por menino), mi deu (por me deu); e que não chiam os -s implosivos (mistério, fasto, livros novos). Os melhores registros desse falar brasileiro aparecerão em textos de teatro, como “O Miserável Enganado” (1788), em “Periquito ao Ar” ou “O Velho Usuário”, de Manuel Ribeiro Maia. Aparecem lá, por exemplo, mi diga (diga-me), di lá (de lá), sinhorinho, emprego generalizado de você, entre outros. Com a chegada de D. João VI, ainda príncipe regente, no Brasil, faz do Rio de Janeiro a capital da monarquia de Bragança. Suas iniciativas ativam com mais rapidez o progresso material e cultural. Os 15.000 portugueses que chegam com a Corte contribuem para “relusitanizar” o Rio de Janeiro. O progresso prepara a capital para mais um capítulo da história do Brasil, ao voltar para Portugal, D. João deixa pronta a cidade para a independência. 38 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. Em 1822, o Brasil torna-se independente, e começa, a partir deste movimento, a valorizar tudo o que o distingue da antiga metrópole, particularmente as suas raízes indígenas. Dessa forma volta-se mais para a cultura da França, e acolhe os imigrantes europeus de nacionalidades diversas da portuguesa, como os alemães e os italianos que chegam em grande número. Como o tráfico de negros africanos cessou por volta de 1850, e como os índios se diluíram na grande mestiçagem brasileira, essas vindas maciças de imigrantes europeus acabaram por contribuir para “branquear” o Brasil até o período de 1950. Em duas gerações, os novos habitantes aculturam-se e fundem-se na sociedade brasileira. Ao mesmo tempo, o polo de desenvolvimento desloca-se para o Centro-Sul. Finalmente, a urbanização e a industrialização transformam inteiramente a aparência do país. Com explosão demográfica e o crescimento econômico, o antigo Brasil rural transformou-se, nos nossos dias, num “subcontinente”, onde zonas desenvolvidas de civilização urbana coexistem com regiões subdesenvolvidas. É nas vastas megalópoles de São Paulo (hoje com mais de 11 milhões de habitantes) e do Rio de Janeiro (com um pouco mais de 6 milhões de habitantes), assim como nas outras cinco cidades de mais de um milhão de habitantes (Porto Alegre, Belo Horizonte, Salvador, Recife e Fortaleza), que se elabora, nos dias de hoje, a forma particular de português que é a língua do Brasil. 39 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. UNIDADE 5 – A estrutura da língua portuguesa de 1800 a 1950 5.1 Fonética e fonologia Do ponto de vista da estrutura, os principais fenômenos encontrados no português brasileiro a partir de 1800 são os seguintes: • a queda do /r/ final, principalmente nos verbos, ocorre em todo o território nacional, e também em alguns substantivos: “buscar” como /bus’ca/ (grafada às vezes como <busca>,“receber” como /rece’be/ (<recebê>), “calor” como /ca’lo/ (<calô>), entre outros; • a monotongação de [aj] antes de [ ʃ ] – “baixo” como /’baxo/, “encaixo” como /em’caxo/, entre outras; • a monotongação de [ej] em [e] – “manteiga” como /man’tega]; “beira” como /’bera/; “deixa” como /dexa/, entre outras; • abreviações (aférese) como: “tá” por “está”, “tô” por “estou”, “cê” ou “Ocê” por “você”; • a apêndice de [i] antes de /s/ final: em português brasileiro, na maioria dos dialetos, é possível rimar “pais” com paz, ambos pronunciados como [pais]; o mesmo acontece com “seis” e rês” que terminam como /eis/, “mês” como /meis/, entre outros; • diferentemente do PE, que reduz, o PB conserva a pronúncia [e] para a vogal /e/ antes de consoantes palatais (/ ʃ /, / ʒ /, /ɲ/, /ʎ/). A africanização de /t/ e /d/ antes de /i/ no português brasileiro – como na pronúncia [‘tʃiʊ] para “tio” e [‘dʒiɐ] para “dia” –, bastante generalizada, parece ter se iniciado no começo do século XIX, e é mencionada por Jerônimo Soares Barbosa em sua gramática de 1822. Por volta da mesma época, documenta-se também a existência do chamado “erre caipira”, o <r>-retroflexo, marca registrada do interior de São Paulo, mas que ocorre também no Paraná, em Santa Catarina (nas cidades colonizadas por paulistas), em regiões de Minas Gerais e do Mato Grosso. A pronúncia “chiante” de /s/ e /z/ em fins de palavras e de sílabas, característico do Rio de Janeiro, de Belém e de várias cidades litorâneas, é também documentada desde 40 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. as primeiras décadas do século XIX no Brasil, apesar de ter se desenvolvido muito antes em Portugal. Umas das teorias para a realização do “chiante” de /s/ e /z/ mais diretamente seria atribuído à vinda da família Real Portuguesa para o Brasil, depois da invasão de Napoleão e suas tropas. Segundo alguns pesquisadores haveria certo status ou mesmo prestígio por parte dos moradores brasileiros em falar igual a corte portuguesa, afinal, todos que queriam falar como o rei. Contudo, segundo Noll (2008, p. 229-235 apud BASSO e GONÇALVES, 2014), não é possível fazer uma relação tão direta entre a pronúncia chiante e a vinda da corte portuguesa ao Brasil. Os argumentos, resumidamente seriam os seguintes: (a) Em fins do século XVIII e início do século XIX, a pronúncia portuguesa chiante era criticada no Brasil e vista com maus olhos. (b) Não existe nenhuma outra característica do português europeu que tenha passado ao português brasileiro com a vinda da corte, e seria no mínimo surpreendente que apenas a pronúncia chiante tenha tido esse privilégio. (c) O encontro grafado – sc – é realizado como [ ʃ s] em Portugal (“descer” /deʃ’ ser/, “piscina” /piʃ’sina/), mas não no Brasil, onde ele é realizado como [s]. (d) Encontramos uma mesma pronúncia chiante em Belém do Pará, por exemplo, e em outras localidades litorâneas, sem a presença de portugueses vindos com a Corte. A hipótese então avançada por Noll é de que as pronúncias chiantes no Brasil em Portugal desenvolveram-se de modo independente e, por isso, não coincidem. Essa é uma hipótese bastante interessante, mas que ainda carece de mais estudos e documentos para ser plenamente aceitável. Outras duas características importantes apontadas por gramáticos no português brasileiro são (i) o uso no Brasil de formas como “mi”, “lhi”, “filiz”, “minino” no lugar de “me”, “lhe”, “feliz” e “menino”, bem como (ii) a pronúncia /w/ para <l> final de palavras como por próclises como “mi disse”, “lhi contei”, entre outros. 41 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. É principalmente na pronúncia das vogais que o português do Brasil se distancia, tanto pelo seu conservadorismo como pelas suas inovações, do português europeu. O sistema fonológico das vogais brasileiras é hoje p seguinte: Posição tônica Posição pretônica Posição átona final / i / / u / / ẹ / / ọ / / ę / / ǫ / /A / / i / / E / / a / / u / / O / / i / / u / / a / Exemplos: Posição tônica – / i /: amigo; / ẹ / verde; / ę /: perde; / A / realizado como [ë] diante de consoante nasal (amo, cano, banho), e como [a] nas outras posições (levado, passo); / ǫ / porta; / ọ /: moça; / u / muda. Posição pretônica – /i/: livrar; /E/ realizado como [ẹ] no Centro-Sul e como [ę] no Nordeste: pegar, esquecer; / a /: cadeira, padeira; / O / realizado como [ọ] no Centro-Sul e como [ǫ] no Nordeste: morar, corar; / u /: durar. Posição átona final – / i /: passe; /a/: passa; /u/: passo. Esse sistema é simétrico e equilibrado. As átonas finais são realizadas de forma mais nítida que no português europeu. Para as consoantes, o não chiamento do -s e do -z implosivos não põe em causa o sistema. É pela vocalização do /ł/ velar e pela palatalização de t e d antes de i que se iniciam as mutações. 5.2 Morfologia e sintaxe Como no domínio da fonética e da fonologia, também no da morfologia e da sintaxe poderiam-se opor aos aspectos conservadores e aos aspectos inovadores do português do Brasil. Mas como a identificação dos arcaísmos pode aqui, por vezes, dar margem à controvérsia, contentaremos com enumerar certas particularidades, classificando-as em duas categorias: as que pertencem à língua normal e são vistas, hoje, como brasileiras, mas “corretas”, e as que pertencem a registros nitidamente vulgares e são consideradas “incorretas”. 42 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 1) Brasileirismos pertencentes à língua normal O verbo estar + gerúndio, que em Portugal cada vez mais se acantona na língua escrita (salvo em certas regiões), e que nos registros mais frequentes da língua falada vem substituindo por estar a + infinitivo, é, no Brasil, geral e todos os registros; exemplo: está escrevendo. O Brasil conserva a possibilidade de empregar os possessivos sem artigo em casos em que Portugal já não o faz; exemplo: meu carro. Continua a construir com o pronome átono em próclise enunciados do tipo João se levantou, normais no português clássico, mas não no português europeu atual. Esses exemplos são casos evidentes de conservadorismo. Os seguintes brasileirismos são igualmente normais: conosco por connosco, quatorze ao lado de catorze, dezesseis por dezasseis, dezessete por dezassete, menor paralelamente a mais pequeno, a ausência do artigo em frases do tipo todo homem é mortal, emprego da locução todo o mundo ao lado de toda a gente, o emprego de em em expressões como está a janela (à janela), na frente de (à frente de), já chegou no Brasil (ao Brasil), vou na cidade (à cidade). Pertencem ao mesmo nível de língua, o emprego impessoal do verbo ter o sentido de haver, ouda locução, pois não com valor afirmativo (– Pode me dar uma informação? – Pois não.) Mas é principalmente no que diz respeito à colocação dos pronomes pessoais átonos que o “brasileiro” se distancia, com frequência, da atual norma portuguesa. Já mencionamos um exemplo que revela a conservação de um giro antigo (João se levantou). O português brasileiro aceita naturalmente o pronome átono em início de absoluto de frase (Me parece que; me diga uma coisa) e que, quando o pronome é completo de um infinito, de um gerúndio ou de um particípio, vem sistematicamente ligado a eles; exemplo: Pode me dizer? E não pode-me dizer?, ia pouco a pouco se afastando e não ia-se pouco a pouco afastando, não tinha ainda se afastado em lugar de não se tinha ainda afastado. 2) Brasileirismo pertencentes a registros sentidos como vulgares Existe uma zona em que a vulgaridade ainda é normalmente aceitável e que podemos considerar como um grau avançado na familiaridade. Assim, as frases negativas do tipo não sei não, ou mesmo sei não; ou as orações infinitivas que têm por sujeito mim ou não eu (exemplo: é p’ra mim comer, em lugar de é para eu 43 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. comer); ou ainda feito no sentido de como (exemplo: o pobre homem chorava feito uma criança). Outros brasileirismos são nitidamente mais marcados e, por isso, sentidos como “incorretos”. É o caso do emprego das formas tônicas ele(s) e elas(s) como objeto direto em vez das formas átonas o(s) e a(s), infensas à língua popular, ainda mais incorreto, consiste e suprimir o -s, marca do plural, nos nomes e adjetivos, e conservá-los apenas nos determinantes (artigos demonstrativos, possessivos, entre outros); exemplos: as casa, estes boi, meus amigo, mil real. Quanto à flexão verbal, ela pode ser muito simplificada: não emprego do futuro, do condicional e do infinitivo flexionado; redução ao extremo do paradigma dos tempos (eu devo, ele deve, nós deve, eles deve). Mas, esses brasileirismos são sentidos como incorretos. 5.3 Fase de nivelamento (1950 em diante) Até 1970, a população brasileira era basicamente rural, ou seja, 69% da população vivia no campo e em áreas rurais. Atualmente, ou seja, quarenta e quatro anos depois, temos cerca de 85% da população vivendo em áreas urbanas. A urbanização tem vários reflexos na linguagem: sabemos que as concentrações populacionais possibilitam mais dinâmicas e mudanças linguísticas do que centros isolados. Muitos são os pontos que favorecem essas mudanças, acesso maior à educação; exposição midiática muito mais intensa do que em áreas rurais; acesso rápido à internet; por tudo isso, podemos afirmar que a urbanização tem uma grande importância para o nivelamento de uma norma. Basso e Gonçalves (2014) trazem como exemplo a construção de Brasília de 1960. Para a construção da cidade foram deslocadas inúmeras pessoas de várias regiões, muitos do nordeste, onde acabaram por ganhar o nome de “candangos”. Ora, imaginemos a comunicação do grupo, cada um com sua experiência linguística e peculiar de sua região. Não é difícil imaginar o “caldeirão linguístico”, o que acabou contribuindo para o “nivelamento” da língua na região, a partir das trocas e interações linguísticas. Outro exemplo citado pelos autores seria o grande número de pessoas que se deslocaram do Nordeste para cidades como São Paulo e Rio de Janeiro. Inevitavelmente, o que se seguiu foi a incorporação dos costumes e linguajar dos migrantes por estas cidades. 44 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. Além da troca de costumes, cultura e linguajar vivenciados pelas cidades que receberam os migrantes, temos ainda o rádio e alguns canais de televisão que conseguiram chegar nas cidades mais distantes do Brasil, transmitindo para qualquer lugar as características linguísticas da região de origem. A tecnologia acabou por motivar grandes congressos para discutir a questão como foi o caso do primeiro deles, o Congresso Brasileiro de Língua Cantada, realizado em São Paulo, em 1937; e, em 1956, o Congresso Brasileiro de Língua Falada no Teatro, em Salvador. Embora os dois congressos primassem por uma espécie de nivelamento da língua falada em todo o Brasil, o que se percebe hoje é exatamente o contrário, ou seja, tanto a televisão quanto o rádio promovem uma grande variedade de português, bem diferente daquele esperado pelos aristocratas e intelectuais como Mário de Andrade, Manuel Bandeira, Antenor Nascentes, Antônio Houaiss, Celso Cunha, entre outros. Outro dado importante para entendermos o “nivelamento” da língua é o fator escolar. As taxas de analfabetismo diminuíram nos últimos duzentos anos; estima-se que em 1920 o número de analfabetos ultrapassava 65% da população total, com uma drástica diminuição nos anos seguintes, como podemos perceber através do quadro abaixo (os números estão em milhares): Ano População de 15 anos ou mais Total Analfabetos Taxa de analfabetos (%) 1900 9.728 6. 348 65,3 1920 17.564 11.409 65,0 1940 23.648 13.269 56,1 1950 30.188 15.272 50,6 1960 40.233 15.964 39,7 45 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. 1970 53.633 18.100 33,7 1980 74.600 19.356 25,9 1991 94.891 18.682 19,7 2000 119.553 16.295 13,6 Em 2010, o número de analfabetos beirava 14 milhões de pessoas, ou seja, uma taxa de 9,6 da população total. Por esses números, é possível perceber que estamos no caminho certo, temos melhorado muito, contudo, embora haja muito para ser feito ainda. A Educação no Brasil vem sofrendo uma série de fatores que contribuíram para um índice abaixo do esperado com relação à Educação, como por exemplo: a má formação dos professores, salários que não permitem ao professor levar uma vida mais tranquila, sem ter que se dividir para conseguir um salário digno, condições precárias do espaço escolar, falta de material adequado, entre outros. Olhando assim, parece que nada funcionou durante esse período, o que não é verdade; muitas melhorias têm sido feitas ao logo dos anos, embora estejamos muito distante da situação ideal. Com relação à língua, o Brasil tem enfrentado uma espécie de “crise de identidade”. Muitas vezes, o professor tem de trabalhar com um material didático ou uma gramática que não reflete sua língua, mas uma variedade muito distante dela e tremendamente distante do aluno, o que torna o ensino da língua uma tarefa bastante complexa. A descrição da língua falada no Brasil, não a imposta pela elite acadêmica ou por pressões políticas eideológicas, tem sido recolhida por grandes linguistas desde a década de 1970. Tema de projetos coletivos e individual, a língua tem incitado muitos pesquisadores em busca de esclarecer um público mais amplo, e não só o acadêmico. Podemos citar Ataliba Castilho, Mário Perini, Marcos Bagno, Maria Helena de Moura Neves, entre outros. O avanço do Brasil no mercado mundial tem levado muitos empresários estrangeiros em busca de aprender a falar português. Contudo, é perceptível que os buscam aprender o português pela gramática, sente muita dificuldade quando aqui chegam, embora seja possível a comunicação. Mas um empresário que queria abrir 46 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. negócios no Brasil vai desejar falar igual ao seu funcionário, ficar mais próximo, usando de gírias se for o caso. A ampla pesquisa de Basso e Gonçalves (2014), com a qual estamos trabalhando, cita, como características linguísticas mais recentes do português brasileiro as seguintes formas: • Amplo uso de objeto nulo, como em “Comprei um bolo e comi” ao invés de “Comprei um bolo e o comi”. • Uso quase exclusivo da ordem sujeito-verbo, como em “João era um homem casado” ao invés de “era João um homem casado”. • Prevalecimento das orações relativas “cortadoras” e “copiadoras” frente à forma padrão, como abaixo: forma padrão – a mulher com quem divido a casa; forma “cortadora” – a mulher que eu divido a casa; forma “copiadora” – a mulher que eu divido a casa com ela. • Uso de pronomes do “caso reto” em posição de objeto, como em “eu vi ele”; “ele viu eu”. • Redução das formas do paradigma verbal, principalmente com a afirmação das formas do paradigma verbal, principalmente com a afirmação das formas “você” e “a gente” no quadro pronominal do português brasileiro, gerando paradigmas como: eu amo; nós amamos; você/eles/elas amam (em vários dialetos, principalmente os que são falados pelas pessoas que não tiveram acesso à escola, as formas se reduzem ainda mais: eu amo versus você/ele/ela/ a gente/nós/vocês/eles ama). • A concordância nominal de número é bastante enfraquecida nas variedades vernaculares e, na imensa maioria dos casos, a única marca obrigatória aparece no determinante: “os menino”; “as garrafa”. • O futuro é preferencialmente feio através de perífrases, tendo como auxiliar o verbo “ir”: “vou pensar”, “vou ir”, “Vou vir”, entre outros. 47 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. • A negação pode ser duplicada e pode ser final, como em “não vou não”; “vou não”. É preciso reconhecer a verdadeira diversidade do português falado no Brasil, como afirma Marcos Bagno em “Preconceito Linguístico” (1999). A formação do português brasileiro está imbricada em sua própria história, uma das explicações apresentadas por alguns teóricos seria o convívio durante séculos de populações indígenas e africanas, sendo que este nunca se deu pelo português dos colonizadores, ou seja, o português Europeu, mas sim, por uma língua que incluía variações linguísticas destes povos, pois o português clássico fora falado por uma minoria durante muito tempo. A verdade é que no Brasil, embora a língua falada pela grande maioria da população seja o português, esse português apresenta um alto grau de diversidade e de variabilidade, não só por causa da grande extensão territorial do país – que gera as diferenças regionais, bastante conhecidas e também vítimas, algumas delas, de muito preconceito, como afirma Bagno (1999) –, mas principalmente por conta da injustiça social. A má distribuição de renda acentua ainda mais o abismo linguístico existente e, nosso país, pois, a maioria da população fala mesmo é o português não padrão, já que os falantes da (suposta) variedade culta, em geral mal definida, que é a língua ensinada na escola. Podemos acrescentar a desigualdade dos milhões de brasileiros sem terra, sem escola, sem trabalho, sem saúde, e porque não dizer, os sem língua. Infelizmente, a chamada norma culta ainda é privilégio de poucos brasileiros. Não existe uma língua única, aliás, se formos analisar historicamente nunca houve uma língua única, mas uma variedade do português não-padrão, com uma gramática particular, mas que nunca foi reconhecida como válida. Essa relação, de uma variedade específica do português, ocorre já em fins do século XVIII. Desde então, espalhados por um radicalismo maior ou menor, pelo qual uma das vertentes defende que o português do Brasil é uma variedade de português, e a outra, os que defendem que o português do Brasil é outra língua. O problema é que não se chega a uma definição consensual da língua; o que se tem propagado é de que o conceito de “língua” é mais político do que 48 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. estrutural. E mesmo que os linguistas tivessem que falar somente de “gramática”, ainda assim não conseguiriam um ponto incomum entre o português do Brasil e o Português Europeu, por isso, definir suas estruturas não é uma tarefa muito fácil. Silva (2004) esclarece que hoje no português brasileiro se configura não apenas uma diglossia, mas um continuum dialetal mais simplificados que são, em geral, a expressão de falantes não-urbanos e não escolarizados e no extremo oposto a variedade culta expressa, sobretudo na escrita que persegue o normativo tradicional. Entre esses dois extremos, poder-se-iam distinguir as variedades ou dialetos urbanos de não-escolarizados ou se semiescolarizados e as variedades ou dialetos urbanos de indivíduos de escolaridade máxima. Para tal, devemos levar em consideração a questão fonética que se dá a partir da imbricação entre urbanos e não-urbanos e os falantes da norma culta e os de fala popular. Sobre o fenômeno fonético, Saussure (2006) salienta que uma primeira consequência do fenômeno fonético é a de romper o vínculo gramatical que une dois ou vários termos. Assim, ocorre que uma palavra não seja mais sentida como derivada da outra. Para o autor, o fenômeno fonético é um fator de perturbação. E toda parte onde não cria alternância, contribui para afrouxar os vínculos gramaticais que unem as palavras entre si; a soma das formas é inutilmente aumentada por ele; o mecanismo linguístico se obscurece e se complica à medida que as irregularidades nascidas da mudança fonética predominem sobre as formas agrupadas em tipos gerais; por outros termos, na medida em que o arbitrário absoluto predomine sobre o arbitrário relativo. Felizmente, o efeito dessas transformações é contrabalançado pela analogia. É dela que revelam as modificações normais do aspecto de palavras que não sejam de natureza fonética. A analogia supõe um modelo e sua imitação regular. Uma forma analógica é uma forma feita à imagem de outra ou de outras, segundo uma regra determinada. Durante um bom tempo, a pessoa nascida no Brasil aprendia, muito provavelmente, não apenas a língua de sua comunidade, dado que tinha de interagir em diferentesgraus, com indígenas, escravos africanos e europeus. E como o brasileiro nativo é a parcela da população que mais cresceu ao longo da história do 49 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. Brasil, é muito provavelmente nessa figura que podemos encontrar a chave para a formação de nossa língua. Vejamos o quadro abaixo sobre a densidade demográfica brasileira: 1538-1600 1601-700 1701-1800 1801-1850 11851-1890 Africanos 20% 30% 20% 12% 2% Negros brasileiros - 20% 10% 19% 13% Mulatos - 10% 19% 34% 42% Brancos brasileiros - 5% 10% 17% 24% Europeus 30% 25% 22% 14% 17% Índios integrados 50% 10% 8% 4% 2% A faixa que podemos entender como “brasileiro nativo” corresponde à soma das faixas de “negros brasileiros”, “mulatos” e “brancos brasileiros” (deixamos de lado os índios integrados, pois é sabido que sua integração não foi significativa nas áreas urbanas e que o Brasil conheceu, a partir de 1700, um incessante e rápido processo de urbanização). A transmissão linguística se deu entre falantes, em sua imensa maioria adultos, distantes de condições mínimas de aprendizado formal, sem esquecer o fato de que esses falantes provavelmente falavam outras línguas, como as indígenas e as africanas. O enorme contingente de falantes, aloglotas, em geral negros escravos, ao se aprenderem o português nas péssimas condições a que eram submetidos, desencadeou – obviamente de modo inconscientes – uma série de alterações gramaticais que resultaram numa variedade de português afro-brasileira que rapidamente perdeu suas principais características da escola. 50 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. UNIDADE 6 – A língua portuguesa do Século XXI O século XXI tem exigido bastante de nós falantes da língua portuguesa. A língua materna tem vivenciado grandes feitos neste século, e tem nos dado um protagonismo de grandes proporções. Hoje, há uma expressiva presença de nosso idioma em todos os continentes, por conta da música, do cinema, além da literatura que tem chegado com grande força mundo a fora. Fazemos parte de um universo de falantes de português dentro da cultura e dos negócios, caminhando para superar algumas línguas muito mais tradicionais que a nossa. Para se ter uma ideia, já somos mais falados do que o italiano e o alemão. O francês nos supera apenas quanto ao número de falantes não nativos. Juntos, estamos entre as seis maiores economias do planeta. Contudo, esta vantagem tem um preço, a língua portuguesa do Brasil está a nos exigir uma afirmação global, a nos cobrar uma responsabilidade para com ela. Quem há de subestimar a importância da língua? É grande a sua dimensão social, política, econômica e geopolítica. Ela é muito mais que uma ferramenta de comunicação. Nela, não estão armazenando apenas conhecimentos e informações, a língua ajuda-nos em dar um sentido para as coisas e para a vida. Através da língua nos desenhamos para o mundo através dos nossos costumes, pois que nos fortalece no mundo globalizado, provoca a economia, incentiva a criação. A língua materna favorece o desenvolvimento da criatividade humana, a capacidade de comunicação, de elaboração de conceitos e, sobretudo, o seu papel de fator de identidade cultural e nacional. Estas preocupações ficaram ainda mais forte com a Declaração Universal dos Direitos Linguísticos (DUDL), aprovada em Barcelona, a 6 de julho de 1996. O Português ocupou, até ao início do século XX, uma posição relativamente modesta entre as línguas maternas mais importantes no mundo. Foi somente a partir das primeiras décadas de novecentos que começou a obter expressão significativa, evolução que tem vindo a acentuar-se progressivamente. 51 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. As dez principais línguas maternas do mundo Fonte: Ethnologue. Languages of the World, 13 ª edição, 1999. Idem, 14ª edição, 2000. América do Sul O movimento de integração regional que conduziu à criação do MERCOSUL tem contribuído de forma intensiva para um movimento recíproco de ensino do Português e do Espanhol entre os países membros. A associação deste elemento novo e dinâmico com as projeções demográficas revela que existe um vastíssimo espaço para um crescimento exponencial do ensino da Língua Portuguesa na Argentina, no Uruguai e no Paraguai, atualmente com uma população global de 44,5 milhões de indivíduos e que rondará os 60 milhões em 2025 e os 71 milhões em 2050. Estas perspectivas encontram-se já em fase de concretização de acordo com os mais recentes dados disponíveis. Em 2001, uma reportagem do diário argentino Clarín salientava que o “Portugués, el outro idioma del Mercosur” era ensinado em institutos, universidades, escolas primárias e secundárias, ascendendo a milhares os argentinos que o estudavam em todo o país. O ensino da nossa língua vem sendo obrigatório em diversas províncias (Formosa e Santa Fé) e a Secretaria de Educação do Município de Buenos Aires iniciou um programa de ensino bilíngue em escolas primárias daquela capital. Uma pesquisa divulgada em fevereiro de 2001, na Gazeta Mercantil de São Paulo, revelou que num universo de quase 300 escolas de línguas na Argentina o Português alcançou a posição de segunda língua estrangeira, verificando-se idêntico 52 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. movimento no Uruguai e no Paraguai, mas também em países latino-americanos não pertencentes ao MERCOSUL, como o Chile, a Venezuela e o México. Projeções Demográficas Fonte: UN (1999) - Revision World Estimates end Projections (http://www.popin.org/popin/wtrends). Esses poucos exemplos estão longe de representar o panorama geral do ensino de língua portuguesa no mundo, que é também ensinada nos centros de línguas das universidades, em centenas de escolas privadas de idiomas, nas embaixadas brasileiras e em centros culturais luso-brasileiros. É praticamente impossível contabilizar esse montante, pois a divulgação desses cursos às vezes tem alcance apenas regional. O fato é que nem mesmo os navegantes portugueses do século XV, com todo o otimismo e a ousadia desbravadora peculiares,poderiam prever a expansão que o idioma transportado nas viagens marítimas alcançaria em pouco mais de 500 anos. A ampliação do ensino de língua portuguesa no exterior fez com que surgissem novos institutos e associações, órgãos que têm o objetivo de agregar propostas para internacionalizar a língua portuguesa nos diversos continentes. A língua portuguesa é umas das línguas de mais rápido crescimento neste mundo histórico, com base no crescimento do multilinguismo, de modo geral, pelas línguas produtivas, com grandes implicações para as mudanças no padrão da governança global. 53 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. Antes, porém, as mudanças precisam acontecer na estrutura da língua de forma que os falantes nativos de português consigam obter uma precisão maior na escrita da língua portuguesa. Para se alfabetizar eficientemente, sem ter de voltar ao passado, talvez seja preciso modernizar a ortografia e desatrelá-la da etimologia, que teve sua “desimportância” decretada quando se retirou o latim do ensino, quando se deixou de ensinar origem e grafia dos radicais. Parece chegado o momento de se apresentarem soluções práticas e objetivas em favor da comunidade dos falantes de língua portuguesa. No mundo de hoje, devido à velocidade com que as palavras chegam ao uso cotidiano (tsunâmi, Al Jazira, ashram, i'akos, estai, tags...), é impossível atrelar a escrita de uma palavra ao conhecimento obrigatório da sua origem, mas é importante que se possa saber escrever com segurança. Que tal uma regra extinguindo o [ch] e oficializando só o [x] para representar essa fricativa? Todo mundo saberá escrever esse som, independentemente de conhecer-lhe a origem. Professores, alunos e população, felizes e seguro sem ortografia. E se a letra [g] representar apenas o fonema /guê/? "Gato", "gerra", "averiguei" ([u] pronunciado, quando escrito), "gitarra", "gota", "gula". E se apenas o [j] representar o som /jê/? "Jato", "jelo", "jeito", "jirau", "jovem", "juta". A dúvida entre [g] e [j] nunca mais existirá. Não deveria haver muitas dúvidas sobre o que é escrever certo. Uma orientação pode ser "evite extremos": nem muito popular, nem muito arcaico. À luz dos fatos, não se deveria mais condenar certas regências (assistir o programa, preferir ler do que comer), embora se possa chamar a atenção sobre elas e explicar a mudança (ou a variação). Contudo, uma coisa é certa, ler é a melhor saída para escrever melhor. Parece óbvio, mas não é. Ler engloba muito mais do que somente decodificar o sistema linguístico. No mundo globalizado, onde as linguagens dialogam entre si, não se pode ficar preso ao ensino da língua somente através da gramática. Pois que ensinar português hoje está cada vez mais difícil devido a competição com outras mídias. Ler livros é uma experiência única. Se o professor não consegue passar isso para seus alunos, ele não contribui para um bom ensino de Língua Portuguesa nem 54 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. para uma formação integral de seus alunos. A internet, o cinema, a música, enfim, são linguagens que caminham junto com a Língua Portuguesa. Afinal, por trás dessas linguagens está a própria língua. Lançar o desafio da leitura de um livro é estimular a criatividade, aguçar a percepção, dar oportunidade para ampliar conhecimentos de toda espécie – até linguístico. Segundo Cardoso (2005), qualquer língua viva sente necessidade de renovação. A busca pela novidade faz parte do desenvolvimento cultural, social e linguístico do ser humano e está presente em qualquer universo de discurso, seja ele político, econômico, coloquial ou literário. É, portanto, no universo léxico que se formalizam transformações e mudanças pelas quais passa o sistema de valores grupalmente compartilhados. A mutabilidade linguística – o aparecimento e o desaparecimento de determinado signos – é inevitável em qualquer língua viva. A dinâmica da renovação lexical nos permite observar como a língua organiza os dados da realidade. Em nossos dias, a imprensa é a grande responsável pelo lançamento de criações lexicais. Elas acabam por vir à tona com tanta naturalidade que, muitas vezes, os falantes-ouvintes nem se dão conta de que estão diante de um novo vocábulo. As palavras novas, quando usadas com grande frequência, fazem com que desapareça rapidamente um possível choque da novidade, tornam-se conhecidas e sofrem o processo de desneologização. Depois que se integram no vocabulário usual, acabam por tornarem-se, muitas vezes, símbolos de certo momento histórico ou de certos grupos sociais. O importante para o usuário não é o texto ideal pelo emprego de formas, mas que a mensagem consiga levar a informação precisa a quem se destina. O que acontece com a língua portuguesa hoje nas redes sociais é um entrecruzamento da escrita e da oralidade na linguagem. Há uma conversação em forma de escrita com marcas de oralidade. O espaço das redes sociais não exige uma noção de “certo” ou “errado”, justamente pelo fato de o fluxo da comunicação ser intenso, daí a linguagem encontrar-se mais próxima da oralidade. A internet tem sido muito explorada para a construção do conhecimento de forma crítica e autônoma. Além disso, ela tem sido um ambiente propício para a criação de novas linguagens. A internet tem transformado profusamente costumes e 55 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. homogeneizado contextos. Vive-se num tempo em que a velocidade é protagonista da cibercultura. Com base nesse cenário, o indivíduo acaba por criar novas formas linguísticas eficazes para atender a demanda. O jovem tem consciência de saber para quem está escrevendo, ou seja, consegue diferenciar a linguagem adequada de acordo com o destinatário. A tecnologia da linguagem, dirigida a todas as formas de texto escrito e discurso falado, ajuda as pessoas a colaborar, a concretizar negócios, debates sociais e políticos, independentemente das barreiras linguísticas e das aptidões informáticas de cada um. Com o advento da tecnologia, a linguagem teve que passar por um processo de reconfiguração para atender às imposições sociais. Desse modo, inevitavelmente, as mudanças ocorridas no mundo acabaram desencadeando um processo de transformações nas ordens de discurso, portanto, na linguagem. Após pesquisar a linguagem como prática social, Fairclough (1992), assume que, o evento discursivo (discurso) molda, e é moldado, por situações, instituições e estruturas sociais. A linguagem, segundo o autor está diretamente relacionada a três aspectos: (1) relação com a economia política cultural; (2) multissemiótica; (3) a teoria social. Assim sendo, o discurso deve ser considerado um instrumento de Poder. Cada nação possui sua identidade cultural que arca o ser humano que precisa dessa identidade cultural. No mundo globalizado, somos diariamente submetidos a culturas e línguas diversas, medradas pela telecomunicação.A Globalização tem como função amenizar a imposição do mais forte ao mais fraco. O sentido de Globalização é o de ser-com-outro de modo dialógico, só aprofundando o que somos, podemos dar ao outro o melhor de nós, sem imposição nem submissão. Nenhum de nós escapa à convivência social, e a linguagem é um dos principais fatores para que tal convivência se dê, afinal, em um mundo onde o que se busca é uma ligação entre nações, a comunicação é de extrema relevância. O estudo do português contemporâneo nos mostra que muitas mudanças e modificações continuam ocorrendo, que a língua sofre influências das mais diversas, 56 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. que vão desde condições e características espaciais e geográficas até as interferências da presença de outras línguas que são os neologismos tão comuns na nossa língua portuguesa. Fernando Pessoa disse, e nunca, nem antes nem depois, foi tão eloquente, que sua pátria era a língua portuguesa e é assim que devemos nos colocar no mundo, como filhos de uma pátria forte a qual devemos amar e respeitar sem, no entanto, resguardá-la intacta das influências do mundo. 57 Todos os direitos reservados ao Grupo Prominas de acordo com a convenção internacional de direitos autorais. Nenhuma parte deste material pode ser reproduzida ou utilizada seja por meios eletrônicos ou mecânicos, inclusive fotocópias ou gravações, ou, por sistemas de armazenagem e recuperação de dados – sem o consentimento por escrito do Grupo Prominas. REFERÊNCIAS BAGNO, Marcos. Dramática da língua portuguesa: tradição gramatical, mídia e exclusão social. São Paulo: Edições Loyola, 2005. ______________. Preconceito Linguístico. São Paulo: Edições Loyola, 2005. BASSO, Renato Miguel; GONÇALVES, Rodrigo Tadeu. História Concisa da Língua Portuguesa. Petrópolis, RJ: Vozes, 2014. CARDOSO, Elis de Almeida. “A formação histórica do léxico da língua portuguesa”. In: SILVA, Luiz Antônio da. A língua que falamos – Português: história, variação e discurso. São Paulo: Globo, 2005. FAIRCLOUGH, Norman. Discourse and Social Change – Cambridge: Politry Press, 1992. SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Linguística Geral. São Paulo: Cultrix, 2006. TEYSSIER, Paul. História da Língua Portuguesa. São Paulo: Martins Fontes, 1997.