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LEANDRO GOMES SOUZA
ANÁLISE ESPACIAL E GESTÃO MUNICIPAL DE VAZIOS
URBANOS NO RIO DE JANEIRO
Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado
do Programa de Pós-Graduação em Planejamento
Urbano e Regional da Universidade Federal do
Rio de Janeiro – UFRJ, como parte dos requisitos
necessários à obtenção do grau de Mestre em
Planejamento Urbano e Regional.
Orientador: Prof. Dr. Pedro Abramo
Rio de Janeiro
2014
S729a Souza, Leandro Gomes.
Análise espacial e gestão municipal de vazios urbanos no
Rio de Janeiro / Leandro Gomes Souza. – 2014.
278 f. : il. color. ; 30 cm.
Orientador: Pedro Abramo.
Tese (mestrado) – Universidade Federal do Rio de
Janeiro, Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e
Regional, 2014.
Bibliografia: f. 250-256.
1. Vazios urbanos – Rio de Janeiro (RJ). 2. Sistemas de
informação geográfica. I. Abramo, Pedro. II. Universidade
Federal do Rio de Janeiro. Instituto de Pesquisa e
Planejamento Urbano e Regional. III. Título.
CDD: 711.4098153
LEANDRO GOMES SOUZA
ANÁLISE ESPACIAL E GESTÃO MUNICIPAL DE VAZIOS
URBANOS NO RIO DE JANEIRO
Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado
do Programa de Pós-Graduação em Planejamento
Urbano e Regional da Universidade Federal do
Rio de Janeiro –UFRJ, como parte dos requisitos
necessários à obtenção do grau de Mestre em
Planejamento Urbano e Regional.
Aprovado em: 11 de março de 2014.
BANCA EXAMINADORA
________________________________________
Prof. Dr. Pedro Abramo
Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional – IPPUR/UFRJ
________________________________________
Profa. Dra. Maria Julieta Nunes
Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano e Regional – IPPUR/UFRJ
________________________________________
Prof. Dr. Paulo Márcio Leal de Menezes
Departamento de Geografia – CCMN/UFRJ
AGRADECIMENTOS
À minha esposa Luana, por ter sido em primeiro lugar a responsável por eu
fazer o mestrado, e que sempre compreensiva, com carinho e atenção
incondicionais, me deu força nos momentos de maiores incertezas.
À minha mãe Sonia e meus irmãos Thiago, Carlos Eduardo e Carlos Alberto,
pelos ensinamentos, amizade, companheirismo e conselhos que me deram força ao
longo do percurso.
Ao meu orientador, Pedro Abramo, por ter aceitado contribuir na minha
formação e com palavras sempre positivas ter incentivado minha reflexão.
Ao grande mestre Paulo Menezes, cujas aulas na faculdade me fizeram tomar
gosto e me apaixonar pela Cartografia, área de atuação que iria seguir, a quem sou
extremamente grato e de quem tenho profunda admiração e respeito.
À Julieta Nunes, pelo aprendizado e trocas em suas aulas de metodologia,
que me fez enxergar com clareza como a produção acadêmica não está
desvinculada da minha vida profissional.
A Luiz Roberto Arueira da Silva, por servir de exemplo de profissional
dedicado e comprometido, que com seriedade e competência me serviu de
referência na busca incansável pela integração e diálogo na administração
municipal.
Aos meus colegas de mestrado, especialmente Silvia Karina Valentinuzzi
Núñez e Pedro Paulo Barros Gonçalves, pelas conversas e trocas de ideias,
acadêmicas ou não, sempre estimulantes e construtivas.
Aos docentes, em especial Rainer Randolph e Henri Acselrad, pelas
excelentes aulas e orientações. Aos técnicos administrativos, em especial Ana
Cristina e André Silva, pelo carinho e apoio.
A todos que de alguma forma, seja com fornecimento de dados e informações
ou palavras de apoio, contribuíram para a conclusão da dissertação.
RESUMO
Esta dissertação tem por objetivo a análise da distribuição espacial dos vazios
urbanos edificados na cidade do Rio de Janeiro. Busca-se recuperar a discussão
teórica e empírica acerca da noção de vazios urbanos, para proceder-se à sua
classificação interna utilizada no estudo, os vazios urbanos edificados. É analisada a
ação da Prefeitura do Rio de Janeiro, no que diz respeito às diretrizes do
planejamento urbano e os cadastro municipais sobre os vazios urbanos. A partir de
dados do Censo Demográfico IBGE 2010, é feito o mapeamento e uma série de
análises relacionadas com informações urbanas municipais com uso de Sistemas de
Informações Geográficas (SIG), instrumento com grande potencial para análises
sobre os imóveis mapeados, possibilitando melhor gestão e construção de propostas
para sua reutilização. Por fim, apresenta-se as diversas possibilidades de uso
dessas ferramentas pela administração municipal, de forma a se desenvolver
políticas sobre os vazios urbanos que garantam melhor qualidade de vida e uma
cidade mais sustentável.
Palavras-chave: Vazios urbanos. Rio de Janeiro. SIG.
ABSTRACT
This dissertation aims the spatial analysis of the vacant lands in the city of Rio de
Janeiro. It is intended to recover the theoretical and empirical discussion over the
notion of urban vacant lands, to proceed with its internal classification used in this
work, the urban vacant buildings. It is analyzed the activities of Rio de Janeiro’s
municipality concerning the guidelines of urban planning and municipal database
regarding the vacant buildings. Using IBGE’s 2010 Demographic Census data, it is
done the mapping and a set of analysis related with municipal urban information
using Geographical Information Systems (GIS), an instrument with great potential for
studying the mapped properties, making possible improved management and
propositions for its reuse. Finally, it is presented the variety of possible uses of these
instruments by the municipal administration, in order to develop urban vacant policies
ensuring better quality of life and a more sustainable city.
Keywords: Vacant buildings. Rio de Janeiro. GIS.
LISTA DE ILUSTRAÇÕES
Figura 1 – Definições de vazios urbanos segundo nível de desenvolvimento e restrições à utilização
34
Figura 2 – Desabamento de sobrado abandonado e em mal estado de conservação no Centro do Rio
36
Figura 3 – Implosão de edifícios com obras inacabadas e ocupados por famílias em Santa Cruz 37
Figura 4 – SIG Web “Philadelphia NIS” exibindo informação sobre vazios urbanos 47
Figura 5 – Macrozonas - Plano Diretor do Rio de Janeiro 2011 57
Figura 6 – Limite das Regiões de Planejamento (RP) 69
Figura 7 – Localização dos imóveis identificados pelo estudo da 3ª GPL / SMU 75
Figura 8 – Imagem de satélite QuickBird 2005 – Antigo Patronato de Menores 78
Figura 9 – Ortofoto 2012 – Conjunto do Minha Casa Minha Vida, Vivendas Recanto das Águas 78
Figura 10 – Imagem de satélite QuickBird 2005 – Fábricas da Poesi e Coca-Cola desativadas no
Complexo do Alemão 79
Figura 11 – Ortofoto 2012 – Conjuntos do Minha Casa Minha Vida no Complexo do Alemão 79
Figura 12 – Imagem de satélite QuickBird 2005 – Antiga fábrica Cintos Mundial ocupada 80
Figura 13 – Ortofoto 2012 – EDI Karine Lorraine e Vila Olímpica de Honório Gurgel 80
Figura 14 – Exemplo do inventário de imóveis levantados pelo programa Novas Alternativas 82
Figura 15 – Exemplo de intervenção do programa Novas Alternativas em imóvel abandonado 82
Figura 16 – Notificação de imóvel abandonado localizado na Estrada dos Três Rios, 1.756 86
Figura 17 – Limite das CAPs/SMS 87
Figura 18 – Quantidade de imóveis notificados por CAP/SMS91
Figura 19 – Quantidade de imóveis notificados por qualificação da baixa por CAP/SMS 92
Figura 20 – Localização dos imóveis notificados pela CVAS/SMS 92
Figura 21 – Localização dos imóveis notificados por qualificação da baixa por CAP/SMS 93
Figura 22 – Situação de abandono – Estrada dos Três Rios, 579 – antes da ação da CVAS/SMS 95
Figura 23 – Manutenção do abandono – Estrada dos Três Rios, 579 – após a ação da CVAS/SMS 95
Figura 24 – Aplicativo Mapa Digital IPP – Cadastro de logradouros 97
Figura 25 – Aplicativo Mapa Digital IPP – Gestão de terrenos 98
Figura 26 – Espécies de domicílio no Censo 2000 102
Figura 27 – Espécies de domicílio no Censo 2010 103
Figura 28 – Tela do Microsoft Access 2007 exibindo a tabela de domicílios vagos – IBGE 2010 107
Figura 29 – Domicílios vagos por setor censitário (2010) 108
Figura 30 – Domicílios vagos por setor censitário (2010) (polígonos) 109
Figura 31 – Domicílios vagos por Região de Planejamento (2010) 111
Figura 32 – Tela do ArcGIS 10.1 exemplificando a geocodificação de endereço de domicílio vago 113
Figura 33 – Tela do Microsoft SQL Server 2008 exibindo a base de dados do CNEFE 115
Figura 34 – Tabela do CNEFE com registro contendo o campo de identificação do estabelecimento
preenchido como “vazio” 116
Figura 35 – Listagem de endereços de estabelecimentos do CNEFE identificados como abandonados
117
Figura 36 – Estabelecimentos abandonados por setor censitário 118
Figura 37 – Estabelecimentos abandonados por setor censitário (2010) (polígonos) 118
Figura 38 – Estabelecimentos abandonados por Região de Planejamento 120
Figura 39 – Tela do ArcGIS 10.1 exemplificando a geocodificação de endereço de estabelecimento
abandonado 121
Figura 40 – Indicação de quadra e face de endereços de estabelecimentos abandonados no CNEFE
122
Figura 41 – Estabelecimentos abandonados por face de quadra 123
Figura 42 – Total de vazios urbanos por Região de Planejamento 126
Figura 43 – Vazios urbanos por Região de Planejamento segundo espécie 127
Figura 44 – Escalas de análise: Região de Planejamento e setores censitários (polígonos) 128
Figura 45 – Escalas de análise: Setores censitários (polígonos) e endereços geocodificados (pontos)
129
Figura 46 – Escalas de análise: Endereços geocodificados (pontos) e faces de quadra (linhas) 129
Figura 47 – Escalas de análise: Endereços geocodificados (pontos) e faces de quadra (linhas)
(detalhe) 130
Figura 48 – Setores censitários sem população com domicílios vagos 133
Figura 49 – Setores censitários 2010 sem população com domicílios vagos: condomínio Arena Park
(Avenida Dom Hélder Câmara, 6.001) em construção 136
Figura 50 – Setores censitários 2010 sem população com domicílios vagos: Condomínio Villaggio
Irajá (Estrada da Água Grande, 150) em construção 136
Figura 51 – Setores censitários 2010 sem população com domicílios vagos: Rua Itaúnas, 201, lotes
101, 201 e 401 em construção 137
Figura 52 – Setores censitários 2000 sem população com domicílios vagos: blocos 01 a 07 da
Estrada do Cafundá, 725 em construção 139
Figura 53 – Setores censitários 2000 sem população com domicílios vagos: blocos 1 a 8 do
condomínio Moradas do Itanhangá, Estrada de Jacarepaguá, 3.145 em construção 139
Figura 54 – Setores censitários 2000 sem população com domicílios vagos: Avenida Manoel Caldeira
de Alvarenga, s/n, blocos 01 a 12 em construção 140
Figura 55 – Setores censitários do Condomínio Norte Village (Rua Degas, 400), parcialmente
concluído e ocupado 141
Figura 56 – Exemplo de endereços geocodificados localizados a até 50m do setor informado 144
Figura 57 – Localização de endereços de mais de um imóvel abandonado situados em um mesmo
número de porta 148
Figura 58 – Campos da tabela do CNEFE utilizados para identificação do tipo de domicílio 151
Figura 59 – Domicílios vagos por Região de Planejamento segundo tipo 155
Figura 60 – Estabelecimentos abandonados por Região de Planejamento segundo tipo 157
Figura 61 – Densidade de domicílios vagos 158
Figura 62 – Densidade de estabelecimentos abandonados 159
Figura 63 – Densidade de vazios urbanos 160
Figura 64 – Domicílios por Região de Planejamento (2000) 161
Figura 65 – Domicílios por Região de Planejamento (2010) 162
Figura 66 – Variação domicílios 2000 / 2010 por Região de Planejamento 162
Figura 67 – População por Região de Planejamento (2000) 164
Figura 68 – População por Região de Planejamento (2010) 164
Figura 69 – Variação população 2000 / 2010 por Região de Planejamento 165
Figura 70 – Domicílios vagos por setor censitário (2000) 166
Figura 71 – Domicílios vagos por Região de Planejamento (2000) 166
Figura 72 – Variação domicílios vagos 2000 / 2010 por Região de Planejamento 167
Figura 73 – Relação domicílios vagos / total de domicílios por Região de Planejamento (2000) 170
Figura 74 – Relação domicílios vagos / total de domicílios por Região de Planejamento (2010) 170
Figura 75 – Variação na relação domicílios vagos / total de domicílios por Região de Planejamento
2000 – 2010 171
Figura 76 – Taxa domicílios vagos / mil habitantes por Região de Planejamento (2000) 173
Figura 77 – Taxa domicílios vagos / mil habitantes por Região de Planejamento (2010) 173
Figura 78 – Variação na taxa domicílios vagos / mil habitantes por Região de Planejamento 2000 –
2010 174
Figura 79 – Total de estabelecimentos por Região de Planejamento 175
Figura 80 – Relação estabelecimentos abandonados / total de estabelecimentos por Região de
Planejamento 177
Figura 81 – Taxa estabelecimentos abandonados / mil habitantes por Região de Planejamento 177
Figura 82 – Relação estabelecimentos abandonados / total por faces de quadra 179
Figura 83 – Relação vazios urbanos / domicílios por Região de Planejamento 180
Figura 84 – Taxa vazios urbanos / população por Região de Planejamento 181
Figura 85 – Transporte público de massa no Rio de Janeiro 183
Figura 86 – Relação estabelecimentos abandonados / total por faces confrontantes com linha do trem
184
Figura 87 – Indústrias, favelas e transportes na AP3 do Rio de Janeiro 190
Figura 88 – Ocupação da favela Vida Nova na antiga fábrica da Parmalat 193
Figura 89 – Expansão da favela Parque União em antiga indústria 194
Figura 90 – Ocupação das favelas Grefisa e Comunidade do Pedrosa em antigas indústrias 195
Figura 91 – Ocupações de imóveis abandonados na AP3 do Rio de Janeiro 196
Figura 92 – Comunidade CCPL, antes e depois da ocupação e remoção 198
Figura 93 – Mandela de Pedra, antes e depois da ocupação e remoção 199Figura 94 – Localização de indústrias e fábricas abandonadas 201
Figura 95 – Ocupações de prédios abandonados na área central do Rio de Janeiro 203
Figura 96 – Empreendimentos MCMV em estabelecimentos abandonados 205
Figura 97 – Empreendimento MCMV em estabelecimento abandonado: Avenida Brasil, 41.274 -
abatedouro de frangos desativado 205
Figura 98 – Empreendimento MCMV em estabelecimento abandonado: Avenida Itaoca, 1.174 –
galpão vago 206
Figura 99 – Empreendimento MCMV em estabelecimento abandonado: Rua da Lapa, 270 – loja vazia
206
Figura 100 – Empreendimento MCMV em estabelecimento abandonado: Rua Leopoldino Bastos, 44 –
fábrica abandonada 207
Figura 101 – Empreendimentos MCMV em domicílios vagos 209
Figura 102 – Implosão da antiga fábrica da Poesi, no Complexo do Alemão 210
Figura 103 – Zoneamento urbanístico do Rio de Janeiro 215
Figura 104 – Áreas de Especial Interesse no Rio de Janeiro 216
Figura 105 – Edificações em construção por Região de Planejamento 218
Figura 106 – APACs e bens tombados no município do Rio de Janeiro 220
Figura 107 – APACs e bens tombados no Centro e Zona Sul 221
Figura 108 – APACs e vazios urbanos no Centro 221
Figura 109 – Área de praças / habitante por setor censitário 223
Figura 110 – Área de praças / habitante por Região de Planejamento 223
Figura 111 – Área de lazer / habitante por setor censitário 225
Figura 112 – Área de lazer / habitante por Região de Planejamento 225
Figura 113 – Taxa áreas de lazer / habitantes por setor censitário e localização de estabelecimentos
abandonados nas regiões do Méier e Inhaúma 226
Figura 114 – Instalações olímpicas Rio 2016 228
Figura 115 – Instalações olímpicas Rio 2016 - Região Copacabana 228
Figura 116 – Instalações olímpicas Rio 2016 - Região Maracanã 229
Figura 117 – Instalações olímpicas Rio 2016 - Região Barra 230
Figura 118 – Instalações olímpicas Rio 2016 - Região Deodoro 230
Figura 119 – Projeto de recuperação dos galpões da antiga RFFSA no entorno do Engenhão 231
Figura 120 – Prédio inacabado do Gávea Tourist Hotel, em São Conrado 232
Figura 121 – Linhas de BRT (Bus Rapid Transit) - implantadas e em construção 233
Figura 122 – Acompanhamento de imóvel no tempo: Estrada dos Três Rios, 721 – vazio urbano
238
Figura 123 – Acompanhamento de imóvel no tempo: Estrada dos Três Rios, 721 – agência bancária
238
Figura 124 – Portal “311 – City Services” de Chicago com opção de solicitação sobre vazios urbanos
244
Figura 125 – Proposta de modelagem: SIG de monitoramento e gestão de informações sobre vazios
urbanos 246
LISTA DE TABELAS
Tabela 1 – Imóveis do estudo “Imóveis em estado de abandono - AP-3” (SMU/GPL-3) 73
Tabela 2 – Situação levantada pelo estudo dos imóveis do estudo da SMU/GPL-3 e atual 76
Tabela 3 – Listagem dos imóveis notificados pela CVAS/SMS (extrato) 90
Tabela 4 – Resumo dos totais de imóveis notificados por CAP/SMS 91
Tabela 5 – Domicílios Particulares Permanentes Vagos por Região de Planejamento 110
Tabela 6 – Estabelecimentos abandonados por Região de Planejamento 119
Tabela 7 – Total de vazios urbanos por Região de Planejamento 124
Tabela 8 – Ranking das RPs por total de domicílios vagos e estabelecimentos abandonados 125
Tabela 9 – Lista de setores censitários (2010) sem população com domicílios vagos 133
Tabela 10 – Total de domicílios vagos em setores com população (2010) por Região de Planejamento
135
Tabela 11 – Lista de setores censitários (2000) sem população com domicílios vagos 137
Tabela 12 – Total de domicílios vagos em setores com população (2000) por Região de Planejamento
138
Tabela 13 – População e domicílios dos setores censitários do Condomínio Norte Village 141
Tabela 14 – Resumo do quantitativo de endereços geocodificados em relação ao total 144
Tabela 15 – Dados do CNEFE para imóveis abandonados situados no mesmo número de porta 148
Tabela 16 – Dados do IPTU para imóveis abandonados situados no mesmo número de porta 149
Tabela 17 – Elementos da tabela do CNEFE considerados para o tipo de domicílio vago “casa” 152
Tabela 18 – Elementos da tabela do CNEFE considerados para o tipo de domicílio vago
“apartamento” 152
Tabela 19 – Elementos da tabela do CNEFE considerados para o tipo de domicílio vago “outros”
153
Tabela 20 – Tipos de domicílios vagos por Região de Planejamento 154
Tabela 21 – Tipos de estabelecimentos abandonados por Região de Planejamento 156
Tabela 22 – Domicílios particulares permanentes 2000-2010 por Região de Planejamento 160
Tabela 23 – Pessoas em domicílios particulares permanentes 2000-2010 por Região de
Planejamento 163
Tabela 24 – Domicílios particulares permanentes vagos 2000-2010 por Região de Planejamento
167
Tabela 25 – Relação domicílios vagos / total de domicílios 2000-2010 169
Tabela 26 – Taxa domicílios vagos / habitantes 2000-2010 172
Tabela 27 – Total de estabelecimentos por Região de Planejamento 174
Tabela 28 – Estabelecimentos abandonados por total e por população por Região de Planejamento
176
Tabela 29 – Vazios urbanos por totais de domicílios e população por Região de Planejamento 179
Tabela 30 – Domicílios vagos em aglomerados subnormais por Região de Planejamento 185
Tabela 31 – Estabelecimentos abandonados em aglomerados subnormais por Região de
Planejamento 186
Tabela 32 – Características das ocupações em imóveis abandonados na AP3 196
Tabela 33 – Exemplos de endereços de estabelecimentos abandonados dos tipos indústria e fábrica
201
Tabela 34 – Indústrias e fábricas abandonadas por Região de Planejamento 202
Tabela 35 – Lista de empreendimentos MCMV localizados em estabelecimentos abandonados 207
Tabela 36 – Quantidade de domicílios vagos e estabelecimentos abandonados por zoneamento de
uso do solo 211
Tabela 37 – Quantidade de domicílios vagos e estabelecimentos abandonados por zoneamento de
uso do solo por Região de Planejamento 212
Tabela 38 – Edificações em construção por Região de Planejamento 217
Tabela 39 – Domicílios vagos e estabelecimentos abandonados em APACs por Região de
Planejamento 220
Tabela 40 – Área total e relação de área de praças por habitante por Região de Planejamento 222
Tabela 41 – Área total e relação de áreas de lazer por habitante por Região de Planejamento 224
Tabela 42 – Quantidade de domicílios vagos eestabelecimentos abandonados nas regiões olímpicas
230
LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS
APAC: Área de Proteção do Ambiente Cultural
BRT: Bus Rapid Transit
CAP: Coordenações de Área Programática
CNEFE: Cadastro Nacional de Endereços para Fins Estatísticos
CREA-RJ: Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do Estado do Rio de
Janeiro
CVAS: Coordenadoria de Vigilância Ambiental em Saúde
IBGE: Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística
IPP: Instituto Pereira Passos
IRPH: Instituto Rio Patrimônio da Humanidade
MCMV: Minha Casa Minha Vida
PAL: Projeto Aprovado de Loteamento
SIG: Sistema de Informações Geográficas
SMDS: Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social
SME: Secretaria Municipal de Educação
SMH: Secretaria Municipal de Habitação
SMF: Secretaria Municipal de Fazenda
SMS: Secretaria Municipal de Saúde
SMU: Secretaria Municipal de Urbanismo
SUMÁRIO
1 INTRODUÇÃO 18
2 DISCUSSÃO SOBRE A NOÇÃO DE VAZIO URBANO: DIFERENTES
CLASSIFICAÇÕES E SUA IMPORTÂNCIA PARA O PLANEJAMENTO
URBANO 23
2.1 Classificação geral e usual de vazios urbanos: dificuldades em
estudos empíricos 23
2.2 Desafios para a mensuração dos vazios urbanos 30
2.3 Vazios urbanos, justiça ambiental e questões de planejamento
urbano sustentável 34
2.4 O uso de SIG na análise de vazios urbanos: algumas
experiências 45
2.5 Delimitação do objeto, justificativa da classificação e
abordagem sobre os vazios urbanos 49
3 AVALIAÇÃO DAS POLÍTICAS E INFORMAÇÕES DA PREFEITURA
SOBRE VAZIOS URBANOS 52
3.1 Legislação e diretrizes da política urbana sobre vazios urbanos
52
3.1.1 Instrumentos jurídicos previstos a nível federal 52
3.1.2 Instrumentos e políticas do município do Rio de Janeiro 55
3.2 Levantamento de bases cadastrais municipais sobre vazios
urbanos 68
3.2.1 Secretaria Municipal de Fazenda 71
3.2.2 Secretaria Municipal de Urbanismo 72
3.2.3 Secretaria Municipal de Habitação 81
3.2.4 Secretaria Municipal de Saúde 85
3.2.5 Instituto Pereira Passos 96
4 DOMICÍLIOS VAGOS E ESTABELECIMENTOS ABANDONADOS:
METODOLOGIA DE IDENTIFICAÇÃO E MENSURAÇÃO DE VAZIOS
URBANOS EDIFICADOS PARA A CIDADE DO RIO DE JANEIRO 101
4.1 Domicílios vagos 105
4.2 Estabelecimentos abandonados 114
4.3 Resultado final: vazios urbanos edificados 123
5 VAZIOS URBANOS NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO:
RESULTADOS E ANÁLISES 131
5.1 Validação e controle de qualidade dos resultados 131
5.1.1 Problematização da categoria domicílios vagos 132
5.1.2 Análise sobre resultado da geocodificação 142
5.2 Análise das características internas dos vazios urbanos 146
5.2.1 Tentativa de cruzamento com o cadastro do IPTU 146
5.2.2 Classificação segundo tipos de vazios urbanos 151
5.2.2.1 Tipos de domicílios vagos 151
5.2.2.2 Tipos de estabelecimentos abandonados 156
5.3 Análises de densidade 158
5.4 Análises temporais e relativas 160
5.4.1 Comparação inter-censal: análise temporal e relativa sobre
domicílios vagos 160
5.4.2 Análise relativa sobre estabelecimentos abandonados 174
5.4.3 Análise relativa sobre vazios urbanos 179
5.5 Análise comparada com informações urbanas 182
5.5.1 Transportes 183
5.5.2 Habitação 185
5.5.2.1 Indústrias abandonadas e novas estratégias de habitação
popular 187
5.5.2.2 Minha Casa Minha Vida 204
5.5.3 Zoneamento e legislação urbanística 210
5.5.4 Mercado imobiliário 217
5.5.5 Patrimônio histórico e arquitetônico urbano 219
5.5.6 Áreas de lazer e áreas verdes 222
5.6 Articulação com as intervenções e políticas urbanas em curso
da Prefeitura 226
5.6.1 Jogos Olímpicos Rio 2016 227
5.6.2 Corredores BRT 232
6 PROPOSTA PARA UTILIZAÇÃO DE SIG COMO INSTRUMENTO DE
GESTÃO DE VAZIOS URBANOS PELO MUNICÍPIO 234
6.1 Importância do monitoramento ao longo do tempo para gestão
236
6.2 Alimentação e manutenção do SIG de vazios urbanos 239
7 CONCLUSÃO 247
REFERÊNCIAS 250
APÊNDICES 259
APÊNDICE A – Acompanhamento temporal de imóveis
abandonados no bairro Freguesia Jacarepaguá 259
APÊNDICE B – Trabalho de campo para identificação de imóveis
abandonados no bairro Freguesia Jacarepaguá 266
ANEXOS 268
ANEXO A – Ordenamento territorial do município do Rio de Janeiro
268
ANEXO B – Programa Casa Paulista 273
18
1 INTRODUÇÃO
A cidade do Rio de Janeiro apresenta recentemente uma grande dinâmica de
expansão imobiliária e demanda por espaços para construir. Essa dinâmica vem
sendo estimulada pelas expectativas geradas a partir dos megaeventos que a
cidade sediará nos próximos anos, como a Copa do Mundo 2014 e os Jogos
Olímpicos 2016. Grandes transformações urbanas e reestruturação estão em
andamento. A expansão possui uma forma dupla, sendo horizontal e vertical.
Grandes obras conduzidas pela atual gestão da Prefeitura do Rio de Janeiro
estimulam a consolidação e expansão urbana para a Zona Oeste da cidade, como
as de transporte – instalação do Bus Rapid Transit (BRT) Transoeste – e de
habitação – grande concentração de conjuntos habitacionais do programa Minha
Casa Minha Vida nessa região da cidade. Paralelamente, alguns projetos da
Prefeitura visam ao adensamento e verticalização em outras áreas da cidade, como
a operação urbana do Porto Maravilha, na região portuária, permitindo um gabarito
de até 50 pavimentos em partes de bairros até hoje caracterizados por edificações
de pequeno porte. Esse crescimento também traz a necessidade de se formular
políticas relacionadas à agenda do desenvolvimento sustentável, para que esse
crescimento e expansão aconteçam em consonância com o cenário político,
econômico e ambiental a nível internacional.
Enquanto a cidade continua crescendo, com a verticalização, densificação e
expansão da sua área urbana consolidada, que vão transformando rapidamente o
seu espaço construído, verifica-se uma grande quantidade de vazios urbanos
edificados distribuídos pelo seu território. Trata-se de espaços construídos, em
muitos casos em áreas com boas condições de infraestrutura urbana, que são
mantidos ociosos por razões variadas, como os espaços resultantes do
esvaziamento industrial sofrido pela cidade há algumas décadas atrás ou os imóveis
mantidos sem uso para fins de especulação imobiliária. Dentro do contexto
apresentado, os vazios urbanos possuem não só um grande potencial de
reutilização como também evidenciam a necessidade de se promover a função
social da propriedade em consonância com o desenvolvimento sustentável da
cidade, considerando-se o alto preço da terra urbana com infraestrutura implantada,
o aproveitamento da mesma, e, por conseguinte, o desperdício representado por
19
esses vazios urbanos. A cidade, que cresce “para cima” e “para os lados”, também
deve crescer “para dentro” aproveitando tais áreas no tecido urbano consolidado. A
gestão e planejamento urbanos de forma sustentável, eficiente e integrada exige a
consideração dessa questão no desenvolvimento de políticas inteligentes e
respostas eficientes aos desafios que se colocam à gestão urbana.
Minha experiênciaprofissional, como geógrafo trabalhando com SIG na
Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, permitiu verificar as inúmeras possibilidades
de análises urbanas a partir dos registros administrativos e informações municipais,
considerando o viés geográfico. Por isso a delimitação do ponto de vista e a
aproximação feita do objeto dessa pesquisa é o da administração pública municipal,
com a gestão da informação para formulação de políticas de planejamento e gestão
integrada do solo urbano pelo governo local. Como cidadão, percorrendo e
conhecendo a cidade, também pude verificar a grande quantidade de imóveis
vazios, ociosos ou subutilizados, muitos localizados em áreas consolidadas, o que
despertou o interesse em me aprofundar no seu estudo, suas causas e possíveis
explicações, assim como propostas para otimização do uso do solo na cidade com
aproveitamento destes espaços.
Para o planejamento e gestão urbanos é essencial conhecer a distribuição
espacial dos fenômenos. Devido à importância de se conhecer a distribuição
geográfica dos imóveis caracterizados como vazios urbanos na cidade para que se
possa desenhar políticas sobre os mesmos, torna-se necessária a estruturação de
um banco de dados georreferenciado dos vazios urbanos.
O mapeamento e organização das informações georreferenciadas realizado a
partir da estruturação de Sistemas de Informações Geográficas – SIG. Um SIG é um
conjunto de ferramentas de aquisição, tratamento, edição, cruzamento, análise e
produção de informações georreferenciadas. A análise sobre como se distribui
espacialmente o fenômeno e a sua relação com o entorno é essencial para entender
como geram e se mantém imóveis sem utilização e para apoiar estratégias de
desenvolvimento urbano pelo poder municipal que contemplem esses espaços da
cidade. Outras informações podem ser levantadas para ajudar a compreender
melhor o fenômeno, servindo também como subsídio para propostas de intervenção
e aproveitamento de tais imóveis. A informação sobre a variação do quantitativo e
20
distribuição dos vazios urbanos na cidade nos últimos anos serve como uma base
importante para a avaliação das políticas urbanas no Rio de Janeiro, enquanto o
conhecimento sobre sua relação com variáveis como zoneamento, políticas de
habitação e transportes, entre outras, permite melhorar o planejamento.
Assim, esse trabalho tem como objetivo principal a estruturação e organização
de uma base de dados georreferenciada de vazios urbanos da cidade do Rio de
Janeiro. Como objetivos secundários, se buscará cruzar com outras bases espaciais
visando compreender e tecer algumas considerações sobre a sua distribuição
geográfica e configuração entre as diferentes regiões de planejamento da cidade.
Será analisada a sua variação nos últimos dez anos, com a verificação das áreas da
cidade em que houve aumento e diminuição no seu quantitativo. Também se busca
estruturar informações que possam ser utilizadas pela Prefeitura da Cidade do Rio
de Janeiro, dada a importância da ação integrada das secretarias e a compreensão
da relação com as dimensões políticas, econômicas, sociais, ambientais e jurídicas,
entre outras. As grandes transformações urbanísticas mencionadas pelas quais a
cidade passa têm impacto direto sobre o espaço construído, e as políticas urbanas
conduzidas pelo município afetam a forma como os vazios urbanos são valorizados
e como podem ser utilizados.
Existem diversos obstáculos, de natureza institucional, técnica, tecnológica e
de ineficiência sobre a gestão da informação, para seu cadastramento e sua
reutilização, que resultam em entraves para a ação e consequentemente na
reprodução dessa situação ao longo do tempo. A análise espacial ora apresentada
oferece insumo para superar tais obstáculos.
Como objeto de estudo, considerou-se vazio urbano edificado todo o espaço
construído sem utilização atual ou subutilizados, incluindo diversos contextos
urbanos, áreas territoriais, usos precedentes e tipologias construtivas, tais como:
domicílios e estabelecimentos comerciais vagos, indústrias e galpões desativados,
prédios e casas abandonados, de destinação particular ou pública, áreas públicas
construídas de outras naturezas, edificações em construção inacabadas e
edificações em ruínas. Estas diferenças são importantes para o planejamento. Para
efeitos de análise, essas diferentes ocorrências foram suscintamente divididas em
duas categorias, domicílios vagos e estabelecimentos abandonados, como será
21
mais bem detalhado posteriormente. A delimitação metodológica buscada aqui é de
que os vazios urbanos devem ser classificados como edificados e não edificados,
dada a importância dessa distinção para o planejamento urbano. O escopo deste
trabalho é o dos vazios urbanos edificados, por escolha metodológica dos dados do
Censo Demográfico do IBGE, que define domicílios vagos e estabelecimentos
abandonados. Buscando um esforço de aproximação do problema a partir de um
viés espacial, holístico, considerando o planejamento urbano para a cidade como um
todo, o recorte espacial de estudo a cidade do Rio de Janeiro.
Dentre as justificativas e relevância para o estudo, existem motivações para a
sua transformação e reutilização em várias dimensões, como econômica e fiscal –
pela improdutividade que representam e a possível depreciação das áreas,
implicando também em diminuição do potencial de arrecadação tributária pelo
município –, e a solução de impactos como degradação ambiental e social – por
exemplo, pelo risco à saúde humana. Enquanto os vazios urbanos representam um
sinal de insustentabilidade urbana, a utilização dos interstícios bem localizados está
alinhada com a ideia de uma cidade compacta, mais sustentável nos pontos de vista
ambiental (menores emissões causadas por transportes), econômico (menos custos
para implantação de infraestrutura) e social (menos gastos em deslocamento
moradia-trabalho-lazer). Frente ao grande déficit habitacional na cidade, os vazios
urbanos representam um potencial estoque habitacional a ser desenvolvido e
utilizado. Conhecer os imóveis sem utilização também representa a possibilidade de
melhorar a gestão e planejamento sobre o uso do solo urbano pelo município,
portanto representa a possibilidade de maior eficiência na administração pública. Os
vazios podem ser entendidos como oportunidades para o desenvolvimento urbano a
partir da necessidade de promoção da função social da propriedade.
Defende-se a ideia de que a análise detalhada sobre os vazios urbanos, com a
construção de uma informação espacial precisa sobre sua localização e distribuição
na cidade, é um subsídio chave para a elaboração de estratégias finas e detalhadas
de planejamento urbano, sendo este planejamento participativo e a informação
gerada servindo para os processos de discussão da utilização dos imóveis.
No capítulo 2, é apresentada uma visão geral de como a noção de vazios
urbanos é utilizada, sua relação com o planejamento urbano e como os mesmos são
22
comumente classificados pelos estudos e por trabalhos empíricos. É delimitada e
justificada a classificação pretendida por esse trabalho.
No capítulo 3, é feita uma análise sobre as ações recentes da Prefeitura em
relação aos vazios urbanos, tanto em termos de cadastros e bases de dados quanto
sobre políticas e legislação relacionadas ao tema.
No capítulo 4, é descrita a metodologia que foi desenvolvida, o tratamento
realizado sobre as fontes de informação e a geração da base georreferenciada em
SIG dos vazios urbanos da cidade, e a discussão sobre a informação produzida.
No capítulo 5, são discutidos os resultados, avaliando a base georreferenciada
gerada para a distribuição dos vazios urbanos e a mesma é analisada em conjunto
com outras camadas de informações urbanas.
No capítulo 6, será apresentada a possibilidade de uso do SIG para gestãodos
vazios urbanos pelo município, suas funcionalidades e importância como ferramenta
que viabilize o desenho e execução de políticas voltadas ao planejamento para
reaproveitamento e reutilização dos vazios urbanos, em consonância com a
orientação da política urbana municipal.
No capítulo 7, são tecidas as conclusões.
23
2 DISCUSSÃO SOBRE A NOÇÃO DE VAZIO URBANO: DIFERENTES
CLASSIFICAÇÕES E SUA IMPORTÂNCIA PARA O PLANEJAMENTO
URBANO
A noção de vazio urbano é utilizada de forma bastante abrangente em
diversos contextos e situações, como no âmbito acadêmico, no debate sobre a
formulação de políticas públicas e mesmo nos meios de comunicação e no senso
comum. A utilização do termo vazio urbano em situações tão diversas implica em
que nem sempre ele seja analisado com o rigor necessário, uma vez que pode ser
empregada para referir-se a uma multiplicidade de objetos com características
totalmente diversas, como, por exemplo, um terreno alagado sem acesso a
infraestrutura, um apartamento desocupado ou uma indústria abandonada situada
próxima a grandes eixos viários.
Para fins de estudo e aplicação prática para políticas de gestão sobre vazios
urbanos é, portanto, necessário conhecer as classificações comumente utilizadas
para se referir aos mesmos e discutir o que se entende por essa noção.
2.1 Classificação geral e usual de vazios urbanos: dificuldades em
estudos empíricos
Aqui faremos uma leitura e recuperação orientada sobre trabalhos que
adotam como objeto os vazios urbanos, e a forma como o mesmo é definido e
classificado, sempre dialogando com a perspectiva da presente dissertação, que é
oferecer uma metodologia para uso de sistemas de informações geográficas no
planejamento. É importante a compreensão do vazio urbano não como um conceito,
mas uma noção, possuindo desse ponto de vista um caráter classificatório.
Ao estudar os vazios urbanos nas cidades dos EUA, Pagano e Bowman (2000)
afirmam que não existe uma definição formal ou padronizada sobre vazios urbanos
entre os municípios, tampouco a nível federal, o que dificulta uma análise
comparada e padronizada. Assim, em seu estudo se incluiu uma diversidade de
24
tipos de terra, desde espaços livres sem intervenções (“undisturbed open space”)
até áreas abandonadas e contaminadas (“brownfields”). No estudo, os autores
fazem uma distinção classificatória bastante marcada entre terras vagas (“vacant
land”) e estruturas abandonadas (“abandoned structures”), que em nosso
entendimento é essencial para os objetivos propostos nessa dissertação.
O termo terras vagas é comumente utilizado para se referir a muitos tipos
diferentes de parcelas não utilizadas ou subutilizadas, tais como: perímetro agrícola
ou terras não cultivadas; terra arrasada recentemente; abandonada (“derelict”);
terras com edificações e estruturas abandonadas; brownfields; greenfields. Não
necessariamente são terras danificadas, podendo ser ainda consideradas as terras
com usos temporários (por exemplo, pastos ou de armazenamento). É interessante
o aspecto puramente relacionado ao desenho urbanístico levantado pelos autores,
que afirmam que as terras vagas podem ser pequenas parcelas ou parcelas com
formato irregular deixadas como “sobra” de um desenvolvimento anterior, ou ainda
com limitações físicas, virtualmente não edificáveis devido a áreas com encostas
íngremes ou com risco à inundação. Também é relevante o fato de não se
considerar as terras vagas “não desenvolvíveis”, como logradouros, passagens
públicas, terras submersas, alagadiços, etc.
Tampouco há definição padronizada sobre a outra noção apresentada pelos
autores, a de estruturas abandonadas, havendo grande variedade de definições
colocadas pelas municipalidades nos EUA. Algumas cidades estudadas pelos
autores argumentam que uma estrutura é abandonada quando se encontra sem
ocupação por 60 dias, enquanto outras utilizam como consideração temporal 120
dias ou mais. Diferentemente das terras vagas, as estruturas abandonadas são tidas
como um “perigo iminente” à comunidade ou ameaças à saúde e segurança na
cidade.
Essa ampla e variada definição muitas vezes dificulta a medição precisa da
quantidade de terras vagas por pesquisadores ou funcionários do governo. Sobre as
estruturas abandonadas, a rápida rotatividade de propriedades e a capacidade
administrativa das cidades em contá-las e saber a respeito das mesmas são grande
parte das dificuldades em obter uma contagem precisa; além disso, a carência de
dados locais confiáveis e compreensivos se traduz em definições inconsistentes,
25
pelas quais os mesmos tipos de estrutura podem ser considerados abandonados em
alguns casos e em outros não.
A distinção marcada entre terras vagas e estruturas abandonadas, e as suas
características, é extremamente importante do ponto de vista do planejamento
urbano, como consideraremos mais detalhadamente adiante. Para padronização,
esses dois tipos podem ser lidos como vazios urbanos não edificados e vazios
urbanos edificados, respectivamente.
Northam (1971, apud MHATRE, 2007) identifica cinco tipos de vazios urbanos,
relativos a parcelas não edificadas:
(1) Parcelas remanescentes, tipicamente pequenas em tamanho, com
formato irregular;
(2) Parcelas com limitações físicas, tais como encostas íngremes ou áreas
com risco de inundação, sendo portanto não edificáveis;
(3) Parcelas de reserva privada, mantidas para expansão ou relocação
futura;
(4) Parcelas mantidas para especulação, frequentemente encontradas em
áreas de transição, na franja urbano-rural; e
(5) Parcelas de reservas institucionais postas de lado por entidades
públicas para futuro desenvolvimento, segundo necessidade e
financiamento.
Os tipos definidos por este autor revelam uma diversidade de situações e
formas como tais vazios se encontram inseridos no espaço urbano. Alguns vazios
são assim produzidos pelo projeto arquitetônico/urbanístico, tendo origem no projeto
de parcelamento da cidade (caso 1) ou por constrangimentos e limitações de ordem
física, antes do que pelas restrições de ordem jurídico-urbanística, por situarem-se
em áreas impróprias à ocupação humana (caso 2). No entanto, interessa aqui
principalmente os casos onde as terras vazias e abandonadas são conscientemente
colocadas desta forma. Nesta situação, existe uma diversidade, ao considerar a
intenção da manutenção da área como vazia, o objetivo pretendido e o tipo de
proprietário. Aquelas áreas particulares mantidas vazias para uso futuro, dentro de
26
um planejamento de expansão ou relocação de uma empresa, por exemplo – e aqui
também podemos considerar o caso de terrenos com baixo aproveitamento no que
diz respeito à relação área edificada/área livre – se enquadram no caso 3. Outro
caso também mantido por proprietários particulares é o caso em que a terra é
mantida vazia ou abandonada intencionalmente, com o objetivo de gerar lucro com a
sua valorização, o que pode ocorrer de diversas formas – expansão da mancha
urbana (nesse caso, seriam áreas localizadas na franja urbano-rural), intervenções
do poder público com implantação de algum ativo urbano, etc – esse é o caso 4.
Embora o autor mencione que frequentemente são encontradas em áreas de
transição, as terras vazias ou abandonadas também podem estar inseridas na
mancha urbana, em localizações extremamente favoráveis para o seu
desenvolvimento, considerando o nível de instalação de infraestrutura urbana, na
qual destacaríamos os transportes. Esses dois casos podem ser alvo de políticas de
incentivo ao uso, ou sanções mais rigorosas, sendo entretanto difícil diferenciar na
prática se a terra é mantida vazia intencionalmente ou não; em geral, usa-se o fator
temporal, isto é, conta-se por quanto tempo (por exemplo, anos) que a terra é
mantida dessa forma. O último tipo apresentadoé próximo ao terceiro, mas neste
caso são terras públicas – este é o caso 5. Apesar do autor definir que são áreas de
futuro desenvolvimento, entendemos que não necessariamente tratam-se de terras
que devem ser edificadas, pois existem qualidades ambientais relacionadas à
manutenção de terras livres nas cidades. As definições colocadas pelo autor não
abrangem todo o leque de diversidade, onde poderia se incluir questões de
legislação, problemas de propriedade de heranças e outros tipos de impasse, mas é
interessante por trazer uma distinção importante, entre vazios assim mantidos por
questões de ordem urbanística por um lado e vazios deliberados por proprietários,
sejam eles privados ou públicos, por outro.
Verifica-se assim que questões físico-urbanísticas são também apontadas
como limitantes ao desenvolvimento de vazios urbanos do tipo não edificado. No
questionário da pesquisa feita com cidades dos EUA, no estudo de Pagano e
Bowman (2000), foram listadas algumas condições gerais que teriam relação com a
manutenção de terras vagas, sem desenvolvimento. Entre as condições mais
recorrentes, limitando o potencial de desenvolvimento das terras, apontou-se o fato
das parcelas não serem grandes o suficiente, as parcelas terem formato “estranho”,
27
ou possuírem localização inadequada (estarem no lugar “errado”). Outros fatores
levantados na pesquisa com as cidades foram motivações de manutenção para
especulação, presença de “brownfields” ou existência de problemas de
infraestrutura. Mas, de forma geral, os dados apontaram que o tamanho, formato e
localização das terras foram os fatores mais recorrentes.
Para os vazios urbanos edificados, no entanto, fatores como restrições físicas
(áreas alagáveis, encostas íngremes, parcelas de pequenas dimensões ou com
formato impróprio à edificação) de forma geral não se aplicam, estando as causas
relacionadas muito mais a fatores de ordem econômica, social ou jurídica – por
exemplo, a especulação imobiliária. Vale ressaltar que não são apenas fatores de
ordem espacial que explicam, mas também outras causas que não são diretamente
perceptíveis ou explicáveis pela sua localização segundo o ambiente urbano ou
jurídico, como a falta de recursos dos proprietários para manutenção e utilização,
problemas de ordem administrativa e institucional, questões históricas, problemas de
herança, disputas familiares ou falta de recursos para utilizar ou interesse para
vender por parte do proprietário, que também podem depender da conjuntura
econômica e política no momento. A própria determinação de quem é o proprietário,
simples à primeira vista, pode ser um processo extremamente difícil e ser
determinante para a não utilização de uma propriedade ao longo do tempo.
Larangeira (2004) busca explicar a grande diversidade de situações de vazios
urbanos mencionando que as denominações – terras vacantes, vazios urbanos,
baldios, “terras de engorde”, vacantes latentes – podem ser tantas como os tipos,
tamanhos, localizações e motivos determinantes dos mesmos. Entre as causas
apontadas pela autora, temos não só a tradicional especulação imobiliária, através
da qual o proprietário deixa sua terra sem desenvolver para aproveitar a valorização
a partir dos investimentos públicos em infraestrutura, como também a baixa
eficiência urbanística e os impactos da livre operação do mercado imobiliário. A
partir do exposto pela autora, podemos concluir que existe uma diferença
fundamental entre terras vagas e construções abandonadas, tanto nas causas
quanto políticas para sua utilização. As terras vagas podem estar vinculadas à
ordem jurídico-urbanística e transformações na regulação do uso do solo, que
podem transformar uma área não edificável em urbanizável, sobretudo na franja
28
urbano-rural ou definir áreas de preservação ambiental, restringindo certos tipos de
desenvolvimento da terra e tornando-a desinteressante ao investimento; uma
legislação mais favorável pode por outro lado induzir o desenvolvimento e utilização
das terras. As edificações abandonadas, por outro lado, podem ser fruto da fuga (de
empresas, de pessoas) das centralidades, devido às externalidades negativas,
produzindo o que a autora chama “vazios latentes”, espaços edificados que pelo
grau de obsolescência e deterioração deixam de cumprir sua finalidade,
representando degradação física, social e econômica. Um exemplo de vazio urbano
que ocorre exclusivamente no tipo edificado são os casos em que o pavimento
térreo é utilizado, porém os pavimentos superiores encontram-se subutilizados ou
não utilizados. A autora menciona como exemplo o caso dos sobrados no distrito
comercial do SAARA, no centro do Rio de Janeiro, onde os andares superiores que
são utilizados para armazenagem das lojas possuem área útil muito superior à real
necessidade destas, porém usos mistos não são estimulados pelo temor de impacto
negativo nos negócios. Pode-se perceber assim como as causas, implicações e a
formulação e realização de intervenções urbanas são bastante distintas entre as
terras vazias e os vazios urbanos edificados.
Verificou-se na bibliografia analisada a importância da questão temporal na
análise dos vazios urbanos – tanto porque é necessário definir a partir de quanto
tempo sem utilização um imóvel pode ser considerado abandonado, quando pela
natureza transitória desse estado de abandono. Neste último caso, Greenberg,
Popper et al. (1990) cunharam a expressão em inglês “TOADS”, acrônimo de
“Temporarily Obsolete, Abandoned, or Derelict Sites”, ou seja, locais
temporariamente abandonados, sendo mais uma das expressões utilizadas em
estudos internacionais sobre vazios urbanos. Para IAAI/UFSA (2006), a diferença
entre os termos “vago” e “abandonado” é a existência e facilidade de se localizar o
proprietário ou não, assim como a existência de alguém interessado na propriedade.
A noção de vazio urbano também varia segundo a disciplina que busca seu
estudo. Mori (2004) busca definir terras vagas e subutilizadas a partir dos conceitos
empregados por planejadores urbanos e profissionais do setor imobiliário, uma vez
que segundo a autora, essas definições variam segundo a profissão – o que é
subutilizado para a comunidade, do ponto de vista de um planejador urbano, pode
29
ser o “melhor” uso para um proprietário, enquanto vai variar para os profissionais do
setor imobiliário, segundo os objetivos, tempo e condições do mercado imobiliário.
Segundo a autora, do ponto de vista do planejador, a determinação da subutilização
não se dá apenas sobre o imóvel abandonado ou parcela não edificada, mas
também sobre as externalidades geradas por sua situação, impactos que muitas
vezes são subjetivos e difíceis de quantificar ou padronizar. Por sua vez, o
profissional do mercado imobiliário preocupa-se especificamente com o conceito
financeiro de maior e melhor uso da propriedade como aquele uso que maximiza a
capacidade de geração de lucro e benefício ao proprietário, dentro do legalmente
permitido (por exemplo, pelo zoneamento) e fisicamente possível (determinado pela
parcela em si); assim seria qualificada como subutilizada aquela propriedade que
não tivesse o aproveitamento máximo, ou maior e melhor uso, e ao contrário do
planejador limita-se ao imóvel em si, não considerando as externalidades impostas à
comunidade.
Constata-se portanto como um termo genérico – “nublado e algo evasivo” –
como terra subutilizada, pode abranger desde simplesmente terras vagas, incluindo
praias, áreas inundáveis, jardins e áreas rurais até estacionamentos, prédios
abandonados, lotes vazios e sítios industriais desativados, entre uma multiplicidade
de outros. Pela noção de vazios subutilizados, poderíamos considerar todas as
propriedades que poderiam ter o uso aprimorado ou intensificado, do ponto de vista
financeiro, comunitário, social e/ou econômico,como um estacionamento que
poderia atender melhor à comunidade se fosse uma loja de departamento (MORI,
2004). O problema apontado é que é difícil e extremamente complexo e subjetivo
definir, por exemplo, o que é desejável, expondo conflitos no que se refere à
“intensificação” do uso que traga externalidades positivas para a comunidade ou
maior retorno financeiro ao seu proprietário. Tal diferenciação a respeito dos
benefícios para a comunidade está na raiz do sentido de função social da
propriedade, outro aspecto extremamente relevante no que diz respeito ao
aproveitamento e estímulo para reutilização de tais áreas – que por sua vez traz à
tona outras questões relativas à definição dos usos mais apropriados e necessários
ao bairro ou localidade dos vazios urbanos.
30
Portanto, podemos concluir que a falta de definição única se refere à
dificuldade em uma padronização de variáveis físicas, urbanísticas, jurídicas e
temporais para classificação.
2.2 Desafios para a mensuração dos vazios urbanos
Do ponto de vista empírico, a coleta de dados também se mostra
extremamente complexa. No estudo supramencionado de Pagano e Bowman
(2000), um questionário foi enviado para as cidades dos EUA com mais de 100 mil
habitantes, solicitando a quantificação (em área) de terras vagas e a quantificação
(em número) de estruturas abandonadas. A fim de diminuir as disparidades em
relação às definições, considerou-se as terras vagas da seguinte forma: “Vacant
land includes not only publicly-owned and privately-owned unused or abandoned
land or land that once had structures on it, but also the land that supports structures
that have been abandoned, derelict, boarded up, partially destroyed, or razed”
(PAGANO; BOWMAN, 2000, p. 2) – isto é, incluem-se nessa categoria as terras com
edificações em ruínas ou construções abandonadas – e foi solicitado a cada cidade
a estimativa de quantificação de terras utilizáveis nessa situação; para estruturas
abandonadas, por sua vez, não foi oferecida nenhuma definição, e foi solicitado
apenas a quantificação, sem a necessidade de desagregação, como residencial
unifamiliar ou multifamiliar, comercial e industrial. Algumas dúvidas sobre
interpretação surgiram, demonstrando a dificuldade de definição, por exemplo, no
caso de se não utilizados deveria incluir também as terras subutilizadas. Aspectos
legais também causaram complexidade, no que se refere ao termo “utilizável”, que
pode variar segundo a legislação de uso do solo (e a facilidade de modificação da
mesma) em cada cidade – como no caso de áreas agrícolas e a maior ou menor
facilidade de conversão para usos urbanos. A pesquisa recebeu respostas variadas:
algumas cidades não responderam, algumas não foram capazes de fornecer os
dados solicitados, algumas responderam apenas para terras vagas, algumas apenas
para estruturas abandonadas e outras para ambas as informações. A partir dos
dados das 70 cidades americanas com mais de 100 mil habitantes que responderam
com dados sobre terras vagas, o estudo reporta que em média 15,4% das terras
urbanas nas cidades dos EUA foram consideradas como vazias. De acordo com os
31
autores, tentativas de medir a quantidade de terras vazias foram escassas, e a
última tentativa foi no início da década de 1970, o que de certa forma pode ser
atribuída a essa dificuldade conceitual apresentada. Os resultados apresentados
nesse relatório são semelhantes aos resultados de três décadas antes. Das 60
cidades americanas com mais de 100 mil habitantes que responderam com dados
sobre estruturas abandonadas, a média foi de 2,63 estruturas abandonadas a cada
mil habitantes. Outro resultado interessante é o de que em geral, as cidades com
menor proporção de terras vagas possui maior número de estruturas abandonadas
por habitante. Vale aqui uma análise crítica sobre esses números. Se por um lado a
relação de proporção entre terras vagas/terras totais pode ser adequada, a relação
estruturas abandonadas/população deve ser analisada com cuidado. Como os
estudos apontam, há uma relação entre a dinâmica populacional e quantidade de
estruturas abandonadas, dessa forma, cidades que sofreram esvaziamento
populacional vão ter a quantidade de estruturas abandonadas de certa forma
agravada. As quatro cidades americanas com maior quantidade de estruturas
abandonadas por habitante são Detroit (1 milhão de habitantes e 9,74 estruturas
abandonadas por mil habitantes), Kansas City (442.300 de habitantes e 11,30
estruturas abandonadas por mil habitantes), Baltimore (675 mil habitantes e 22,22
estruturas abandonadas por mil habitantes) e, em primeiro lugar, Filadélfia (1 milhão
e 478 mil habitantes e 36,54 estruturas abandonadas por mil habitantes). As cidades
de Baltimore, Cleveland, Detroit e Filadélfia formam um conjunto espacialmente
conhecido como o "rust belt" (cinturão da ferrugem) americano, mas também vêm
realizando estratégias conjuntas visando sua renovação e recuperação (McKay,
2013).
Um problema metodológico importante que é revelado é de que muitas cidades
americanas que participaram do estudo não possuem métodos confiáveis de coleta
das informações ora analisadas, recorrendo frequentemente a métodos informais
para o reconhecimento dos seus vazios urbanos. Entre os mecanismos mais
utilizados para “descobrir” estes espaços estão o aviso feito por vizinhos, que
correspondem a nada menos que 74% das cidades que responderam, seguido por
feedback informal de técnicos municipais como inspetores de construções, da área
de saúde e segurança ou bombeiros (46%) e a ocorrência de delitos (24%). Tal
aspecto é tanto mais problemático quando se tratam da única forma de
32
reconhecimento de vazios urbanos, se consideramos que tais informações
determinarão a condução de políticas públicas.
Outro problema é que a informação sobre vazios urbanos fica dispersa entre
vários departamentos municipais, com jurisdições, responsabilidades e controle
sobre o uso do solo variados, sem histórico de trabalhos coordenados.
A imprecisão metodológica também se deu no entendimento diferenciado sobre
o que contava como vazio urbano. Segundo Larangeira (2004, p. 8) “a tarefa de
quantificar o montante total de terras vagas se torna complexa pela ausência de
dados confiáveis, consistentes e sistemáticos [...] limitando assim as possibilidades
de desenho de políticas e programas resultantes para seu manejo". Para políticas
municipais eficientes consideramos ser necessário sistemas de cadastro amparados
em uma noção única, com quantificação precisa, sendo que os diferentes tipos de
vazios devem ser contados separadamente, pois como veremos adiante, as políticas
sobre vazios não edificados e edificados são bastante distintas.
Porém, apesar da evidente falta de rigor técnico científico, tanto no
entendimento do que seria considerado quanto nos meios de coleta da informação,
defendemos que frente a uma questão complexa desde a definição da noção de
vazio urbano, esforços empíricos podem provar ser uma iniciativa para mensuração
e localização do problema.
Embora o relatório ora analisado compare cidades e não porções do território
de uma mesma cidade – como é o objetivo de nossa pesquisa – algumas questões
metodológicas são relevantes, sobretudo no que se refere à dificuldade de definição
de critérios para quantificação de vazios urbanos. Bowman e Pagano (2000), ao
explorar as interconexões entre condições, causas e políticas locais, apontam que
há uma relação entre o número de estruturas abandonadas e mudanças
populacionais na cidade. Outro aspecto importante ressaltado pelos autores é de
que terras vagas (áreas não edificadas) e estruturas abandonadas (áreas edificadas)
possuem diferentes causas e demandam soluções a partir de políticas urbanas
distintas.
Mhatre (2007) também aponta o pequeno esforço para medição dos vaziosurbanos (“vacant and abandoned properties”) e a extensão do problema, com
33
referência ao Censo americano. Segundo o autor, terras vagas e abandonadas,
sobretudo as não residenciais, em geral não são mensuradas ou quantificadas no
Censo americano e consequentemente uma definição generalizada não é fácil. Pela
afirmação do autor, presume-se que o Censo seria uma fonte adequada para
definição quanto à natureza dos vazios urbanos, quando disponível no censo de um
país. Apesar de não haver consideração a partir do Censo americano, o U.S.
General Accounting Office (1978) define como vaga aquela construção ou lote que
esteja nessa situação por dois anos ou mais.
Os Censos realizados pelos países, por serem aplicados de forma padronizada
em todo território, apesar de diferenças entre as regiões de um país, podem permitir
a mensuração a respeito dos vazios urbanos. Nesse sentido, é interessante
comparar as definições existentes em casos internacionais de forma a contextualizar
a definição utilizada pelo IBGE no caso brasileiro, buscando entender de que forma
os Censos definem e avaliam ou não os vazios urbanos.
O Censo dos EUA é realizado pelo U.S. Bureau of the Census e não coleta
dados sobre o uso do solo, nem possui dados sobre terras vagas como
contraposição às áreas construídas. São levantados apenas dados sobre estruturas
residenciais vagas, não se levantando também nenhuma informação sobre
estruturas não-residenciais. Além disso, não se mede o abandono.
No Brasil, o Censo Demográfico realizado pelo IBGE, não possui quantificação
sobre vazios urbanos não edificados, mas a coleta de informação sobre domicílios
vagos torna possível a quantificação no que diz respeito aos vazios urbanos
edificados. Apesar de coletar essa informação, os vazios urbanos edificados são
compostos não apenas por domicílios, mas também por imóveis não residenciais,
que não possuem no Censo do IBGE uma classificação quanto à sua situação tal
como existe para os domicílios, se estão em uso ou se estão abandonados, mas que
também precisam ser considerados.
A partir das terminologias e noções relacionadas, apresentadas na bibliografia,
é possível organizar um ranking de situações dessas áreas inseridas no tecido
urbano, variando daquelas com menor a maior nível de desenvolvimento,
intervenção de infraestrutura urbana e complexidade/custos das possibilidades de
(re)inserção na dinâmica urbana (figura 1).
34
Figura 1 – Definições de vazios urbanos segundo nível de desenvolvimento e restrições à utilização
2.3 Vazios urbanos, justiça ambiental e questões de planejamento
urbano sustentável
O plano diretor do Rio de Janeiro é intitulado “Plano Diretor de
Desenvolvimento Urbano Sustentável do Município do Rio de Janeiro”, portanto
faremos aqui uma discussão a respeito da relação entre vazios urbanos e
sustentabilidade.
Diversos estudos apontam problemas ocasionados pelos vazios urbanos. Se
por um lado as causas para seu surgimento e manutenção são de diversas ordens e
contextos variados, por outro as suas consequências são muito mais fáceis de se
perceber. Em um artigo que aborda os “espaços mortos no centro agonizante da
cidade”, Coleman (1982) trata do problema multifacetado da degradação do centro
das cidades e os impasses causados pelas tentativas de reconstrução. Os espaços
descritos como mortos ou perturbados são terras abandonadas (“bare derelict land”),
terrenos baldios (“roughly vegetated wasteland”), construções abandonadas e usos
temporários diversos, como depósitos de material e terrenos de construções reais ou
supostas, muitos cercados por painéis ondulados de ferro. Esse cenário de
devastação foi utilizado pela autora ao analisar um distrito central da Grande
Nível de desenvolvimento
Restrições à utilização
(físicas ou jurídicas)
Áreas contaminadas (“brownfields”)
Terrenos vagos, não edificados
(Vacant land, derelict land)
Espaços livres (“open spaces”)
Estruturas abandonadas
Áreas de preservação ambiental
Indústrias abandonadas
(“friches industrielles”)
Áreas ambientalmente frágeis (áreas com
encostas íngremes ou com risco à inundação)
Vazios urbanos edificados
35
Londres, onde quase 15% da terra eram ocupadas por esse tipo de espaço em
1977, sendo a proliferação de espaços mortos e decadência visual similares em
áreas centrais de várias outras cidades. De acordo com a autora, mudanças
planejadas no ambiente urbano frequentemente se mostram infrutíferas e tentativas
de melhorias acabam por agravar o problema. Os centros analisados por ela
receberam atenção intensiva por parte do planejamento e mais investimentos
públicos do que qualquer outro lugar no Reino Unido, mas apesar de tudo a
decadência parece ter se aprofundado mais do que aliviado, o que leva a autora a
examinar e questionar algumas hipóteses populares que inspiram as ações nas
áreas centrais. Uma das hipóteses questionadas é a de que os espaços mortos
seriam uma resultante espontânea do fato das áreas centrais estarem morrendo –
esta é apresentada como uma relação onde não se sabe qual a causa e qual o
efeito, qual é a variável independente e qual a variável dependente – ao que a
autora problematiza questionando se as áreas centrais não estariam decadentes,
morrendo, por decisões iniciais que provocariam a criação e proliferação de muitos
espaços mortos no seu interior. A autora afirma que várias políticas de custosas
demolições e “condenações à morte” por decisões de autoridades públicas locais
usaram como argumento o fato do centro estar morrendo, quando evidências
mostraram recusa a ofertas de compra e intenções de desenvolvimento por agentes
empreendedores privados, revelando mais uma doutrinação política do que uma
resposta a uma situação de inviabilidade.
Esses espaços também são descritos como um problema não só para a
”saúde” dos bairros, ameaçando seu desenvolvimento, como também para a saúde
humana. Conforme será detalhado adiante, existem relações entre imóveis
abandonados e proliferação de doenças, como por exemplo a dengue. Além disso, o
mau estado de conservação dessas edificações pode gerar acidentes e incêndios.
No Rio, levantamento do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia do
Estado do Rio de Janeiro – CREA-RJ aponta a existência de pelo menos cem
imóveis antigos, abandonados em mau estado de conservação, que podem desabar
(COSTA; SCHMITT, 2012). Tal afirmação foi feita após o desmoronamento parcial
de um sobrado na Rua do Lavradio, 90, no Centro da cidade – dentro da Área de
Proteção do Ambiente Cultural – APAC da Cruz Vermelha (figura 2). A Prefeitura,
36
por sua vez, afirma fazer vistorias e interditar por meio da Defesa Civil os imóveis
malconservados que proporcionam riscos à população. Um relatório da Comissão
Especial de Patrimônio Cultural da Câmara dos Vereadores, concluído em dezembro
de 2011, aponta a existência de risco de desabamento em 31 imóveis tombados
pelos governos municipal, estadual ou federal em toda a cidade.
Figura 2 – Desabamento de sobrado abandonado e em mal estado de conservação no Centro do Rio
. Fonte: COSTA; SCHMITT, 2012.
Os imóveis abandonados com risco pela Defesa Civil nem sempre se
encontram desocupados. Em alguns casos famílias ocupam para fins de moradia,
tornando o problema um drama social ainda maior, como no caso dos edifícios
inacabados conhecidos como He-Man e Esqueleto, no Largo do Bodegão, em Santa
Cruz (figura 3). Habitados por 126 famílias por 23 anos e condenados pela Defesa
Civil em agosto de 2008, só foram implodidos em dezembro de 2009.
37
Figura 3 – Implosão de edifícios com obras inacabadas e ocupados por famílias em Santa Cruz
Fonte: Extra, < http://extra.globo.com/noticias/rio/edificios-he-man-esqueleto-condenados-
pela-defesa-civil-sao-implodidos-em-santa-cruz-205431.html>Vale mencionar a iniciativa da Associação Internacional de Investigadores de
Incêndios (International Association of Arson Investigators) na publicação de uma
cartilha sobre prevenção de incêndios em imóveis abandonados, para alertar sobre
os riscos de edifícios abandonados para a população, inclusive para a ação do
próprio corpo de bombeiros (IAAI/USFA, 2006). Segundo o estudo, anualmente nos
EUA são 11 mil incêndios neste tipo de propriedade. Também são identificados
fatores de risco que podem levar uma propriedade ao abandono. Em um estudo da
Divisão de Incêndios da cidade de Middletown, em Ohio, EUA (BOTTS, 2010), são
apontados não apenas os problemas relacionados ao risco de incêndios, mas
também de saúde e potencial de criminalidade dos vazios urbanos. Algumas
definições sobre vazios urbanos utilizam essa dimensão social, de impactos
negativos para a comunidade, como feito por exemplo pela National Vacant
Properties Campaign (NVPC), nos EUA (2005), que define como tal as construções
residenciais, comerciais e industriais e lotes vazios que representam ameaça à
segurança pública, sobre as quais seus proprietários ou gestores propositalmente
negligenciaram os deveres fundamentais de propriedade. Consideram as estruturas
que permaneceram desocupadas e mal preservadas por mais de um ano, tanto lotes
vagos quanto construções abandonadas.
38
Estes imóveis também são cenário de crimes, como venda de entorpecentes
e uso de drogas, a exemplo da denúncia sobre o abandono do antigo prédio da 33ª
DP em Realengo, que após o abandono cedeu lugar a uma cracolândia (GOMES,
2012). Outro exemplo é o antigo prédio do IBGE na Mangueira, que também é
reduto para uso de drogas e onde já foram noticiadas mortes.
Os vazios urbanos possuem, no entanto, um aspecto duplo. Se por um lado,
representam um problema, por outro também representam um potencial. Conforme
apontam Bowman e Pagano (2004), a noção de vazios urbanos quase sempre traz
imagens negativas porque em geral estes só são identificados quando se tornam um
problema, enquanto na realidade podem ser um ativo, se avaliados em conjunto com
outros dados que permitam entender porque se encontram nesse estado e criar
métodos mais eficientes e eficazes para sua utilização. Propriedades vagas e
abandonadas são tipicamente associadas com externalidades negativas de crime,
pobreza, estagnação e desinvestimento, embora tais terras possuam muito potencial
para desenvolvimento futuro (MHATRE, 2007). No entanto, a questão não deve ser
simplificada, mas problematizada, como aponta Coleman (1982), ao afirmar que um
mito a ser desfeito é o de que os vazios urbanos seriam uma forma desejável para
facilitar as mudanças no uso do solo – estudos devem ser realizados para fugir
dessa armadilha conceitual.
Os estudos teóricos e empíricos acerca dos vazios urbanos de forma geral
apresentam os mesmos a partir do viés sobre seu aproveitamento, como um
recurso. Isso se deve ao caráter imóvel, indestrutível e irreprodutível da terra urbana.
A partir de um relatório sobre vazios urbanos nas cidades dos EUA, Pagano e
Bowman (2000) apontam as terras vagas e estruturas abandonadas como um ativo
competitivo chave para implementar estratégias de desenvolvimento social,
recuperação e crescimento econômico, a partir da sua reutilização, como: geração
de emprego, aumento da receita fiscal, melhoria na infraestrutura de transportes e
mobilidade e atração de população residente.
O aproveitamento das edificações hoje abandonadas revela-se como uma
forma sustentável de desenvolvimento urbano, revelando a apropriação do espaço
construído de outros tempos segundo o contexto atual e a capacidade de
reconstrução/reinvenção da cidade sobre si mesma. Pode-se interpretar essas
39
mudanças a partir das categorias de forma, função, estrutura e processo,
apresentadas por Santos (1985). Certas formas hoje existentes são produto do
passado, com o objetivo de atender a uma função determinada. Ambas são
instituídas segundo a estrutura vigente no momento de sua produção. As
transformações dessa estrutura através do processo histórico podem tornar as
funções (assim como as formas, em determinados casos) obsoletas, incompatíveis
com as novas necessidades urbanísticas, porém pode-se reaproveitar para que
desempenhem novas funções.
A bibliografia em geral relaciona os vazios urbanos e a existência de imóveis
abandonados com o espraiamento da mancha urbana. Em Pagano e Bowman
(2000), afirma-se que a reutilização dos vazios urbanos é uma oportunidade para
densificação e redução do desenvolvimento rumo aos subúrbios. Tanto o interesse
recente em revitalização nas áreas centrais das cidades quanto o aumento no custo
das terras suburbanas tem levado a uma diminuição na quantidade de vazios
urbanos (BOWNMAN; PAGANO, 2004). No caso do Rio de Janeiro, existem áreas
da cidade onde a oferta de terrenos é extremamente escassa. A reutilização dos
vazios urbanos edificados são necessários sobretudo em áreas consolidadas da
cidade, nas quais há dificuldade de se encontrar terrenos livres disponíveis. Essa
consideração é verdadeira não apenas do ponto de vista de agentes privados, mas
também do Estado, na implementação de políticas setoriais. Tal problema pode ser
exemplificado a partir de um trabalho recente da Prefeitura da Cidade do Rio de
Janeiro, realizado pelo Instituto Pereira Passos em parceria com a Secretaria
Municipal de Educação, onde se evidenciou a dificuldade de encontrar terrenos para
construção de escolas em determinadas regiões da cidade (SOUZA, 2013) – fator
essencial para a execução das metas da política educacional municipal, de acordo
com o Planejamento Estratégico da Prefeitura. Assim como esta, várias outras
metas podem enfrentar dificuldades ou até impossibilidade de realização em virtude
da falta de imóveis disponíveis.
Porém, não existe uma necessidade absoluta de desenvolvimento de todas
as terras vagas. Os espaços livres possuem valores essenciais para a qualidade
ambiental e de vida, além de atributos estéticos, cênicos, paisagísticos e de
preservação de ecossistemas. As terras públicas vagas são em determinados
40
contextos importantes como espaço para atividades recreativas e de lazer, podendo
ter diferentes níveis de intervenção. Nesses casos, é determinante para considerá-la
não como abandonada, mas como espaço livre e “vivo”, uma vez que possui
externalidades positivas para a comunidade urbana. Alguns estudos recentes
mostram a demanda pública para preservação de espaços livres locais, que são
dignos de detalhamento. Tem sido crescente nas cidades dos EUA o uso de
referendos locais, inclusive alguns por iniciativa popular, para financiar programas de
preservação de espaços livres (“open space”); sobre esta tradução existe uma
ampla discussão, mas que aqui usamos com o sentido entendido a partir do artigo.
Tais resultados são sintomáticos no que diz respeito à disposição dos cidadãos em
preservar espaços livres e da sua importância para a cidade.
Kline (2006) aponta que existe uma racionalidade econômica para o
crescente apoio público para preservação de espaços livres, correlacionando os
resultados dos referendos a tendências socioeconômicas. Os espaços livres aos
quais o autor faz referência são terras rurais, como florestas, fazendas, entre outras.
As comunidades mais urbanas, com maior crescimento populacional e crescente
escassez de espaços livres, ricas e educadas são as que mais aprovam referendos
para conservação de espaços livres; nas cidades com maior território já protegido
legalmente há menor aprovação para preservação de espaços livres adicionais. O
autor ainda faz referência à implicação desses resultados para as políticas e
estratégias de gestão sobre o espraiamento urbano e a perda de espaços livres. No
entanto, chamamos atenção para que não apenas afranja urbano-rural como
também os espaços livres em contexto intraurbano devem ser dignos de atenção, a
respeito do planejamento sobre o uso do solo.
No estudo de Banzhaf et.al. (2007), a experiência indica o sucesso da
aprovação pelos cidadãos para conservação desses espaços, com finalidades
diversas, entre as quais para parques e áreas de recreação. O estudo também
buscou utilizar alguns dados como atributos censitários das comunidades e
informação sobre o uso do solo, além de um conjunto de variáveis políticas e os
tipos de propostas pretendidas para os espaços livres, para entender o perfil e
padrão geográfico das comunidades que desejam maior preservação de espaços
livres. Resultados apontaram que comunidades mais educadas, com maior apoio ao
41
governo democrata e com maior percentual de urbanização estão mais inclinadas a
apoiar uma agenda de conservação desses espaços – indicando a preocupação
com uma quantia cada vez mais modesta de espaços livres restantes e valorização
de uma commodity escassa (Banzhaf et.al.,2007). Os interesses também podem se
mostrar motivados pelas mais diversas razões, como no caso dos proprietários, para
os quais as amenidades não apenas gerariam aumento no valor dos seus imóveis
pelos seus efeitos de externalidade – possuir uma área verde de lazer é mais
positivo e torna mais agradável de viver do que ter um prédio como vizinhança –
como também a restrição na oferta de terra para habitação, que para contar com o
seu apoio devem ser mais positivos do que os aumentos nas taxas gerados pela
conservação.
Essas pesquisas oferecem um contraponto em relação ao desenvolvimento
urbano, e apontam também para a necessidade de conservação de espaços livres.
Nesses casos, identificada a necessidade para a comunidade local, os vazios
urbanos edificados podem ser aproveitados enquanto lote, dando lugar a praças,
parques e áreas públicas de lazer. Assim, se por um lado a manutenção de espaços
livres pode ser de interesse para algumas comunidades, por outro isso deve ser feito
de forma planejada, e não pela ação de especulação provocada por agentes
privados proprietários de terras vagas nas cidades.
Em uma linha semelhante, o debate em torno da noção de cidade sustentável
também deve incluir os vazios urbanos nas suas reflexões. A multiplicidade de
argumentos que estão no cerne do discurso da sustentabilidade, como
“funcionalidade”, “eficiência”, “aproveitamento”, “produtividade”, “equidade” e
“justiça”, nos diversos contextos em que o tema sustentabilidade pode ser invocado
– ambiental, social, econômico. etc. – podem igualmente ser utilizadas como pontos
de reflexão sobre as perspectivas dos vazios urbanos.
Aplicada ao espaço urbano, a sustentabilidade urbana coloca perspectivas à
gestão das cidades, orientando conjuntos de práticas e políticas urbanas de base
material entendidas como sustentáveis; esta associação também é utilizada para dar
legitimidade às perspectivas de determinados atores produtores do espaço urbano,
segundo Acselrad (1999). As diferentes representações das cidades apontam para
diferentes entendimentos sobre a sustentabilidade urbana e as adaptações
42
necessárias para alcançá-la. O autor aponta três: representação tecno-material;
como espaço de qualidade de vida; e como espaço de legitimação das políticas
urbanas, que respectivamente embasariam a adoção de modelos de: racionalidade
ecoenergética (sustentabilidade garantida através da distribuição eficiente e
equilibrada de populações e atividades dentro da cidade, reduzindo o consumo de
recursos – espaço, matéria e energia); “pureza”/cidadania (sustentabilidade
garantida através do direito das coletividades a condições saudáveis de vida); e
eficiência/equilíbrio (sustentabilidade garantida através da capacidade das políticas
urbanas adaptarem oferta de serviços urbanos às demandas sociais, ou equilíbrio
entre necessidades da população e os investimentos para satisfazê-las). Para a
discussão em pauta, vale destacar este último modelo. A partir dessa concepção, a
insustentabilidade urbana seria gerada pela fragilização das bases de legitimidade
dos responsáveis pelas políticas urbanas, com a contestação popular, seja pela
ineficiência dos gastos públicos ou pela falta de democratização do acesso aos
serviços urbanos, ou, em outras palavras, pela desigualdade/concentração sócio
territorial dos benefícios. Mas não apenas os benefícios, como também os prejuízos
– através da alocação espacial dos “custos indesejáveis” – podem se encontrar
desigualmente distribuídos, como esclarece Acselrad (1999). A questão de justiça
ambiental nas cidades envolve uma dimensão espacial intrínseca, como a
localização de projetos causadores de externalidades ambientais negativas,
conhecidos como “Lulus” – acrônimo inglês para Locally unwanted land uses (usos
do solo localmente indesejáveis), sob o qual existe um debate sobre mecanismos
participativos na discussão dessas políticas e resolução de conflitos ambientais
locais, que também são um problema de gestão urbana e justiça distributiva
(SABATINI, 1999). Esses Lulus, depósitos tóxicos e instalações de risco ambiental,
também tem o efeito de gerar vazios urbanos.
As relações capitalistas e as forças de produção também definem a
distribuição desigual dos riscos ambientais - a dimensão espacial é indissociável dos
processos que produzem problemas ambientais com impacto local, principalmente
nas comunidades pobres e minoritárias (FIELD, 1997). As localizações das
indústrias poluentes dependem não só das instituições de governo, mas também
das forças de mercado. As forças produtivas e relações de produção não só
produzem o risco, como definem a sua distribuição. A ascensão de movimentos de
43
justiça ambiental tem na maioria das vezes origem em organizações localizadas em
áreas degradadas, como a organização ambiental "People for Community Recovery"
em Chicago. Os movimentos de justiça ambiental, diferente do ambientalismo “puro”,
trazem o cunho da justiça social e direitos civis (FIELD, 1997).
Em nossa leitura, é importante não apenas o entendimento dos processos
capitalistas de instalação e distribuição de indústrias poluentes e dos seus resíduos,
mas também ter em conta que os vazios urbanos também são um produto do
capitalismo, como os processos de desindustrialização são testemunhas. A
suburbanização, sobretudo após a Segunda Guerra Mundial, com a evolução dos
transportes de massa, a força de trabalho foi se distanciando das áreas com
atividades industriais. Segundo Field (1997, p. 83), “esta tendência teve um número
de implicações espaciais que se relacionam com a distribuição dos riscos
ambientais”. A população que continua vivendo nas antigas áreas industriais (pobres
demais para se mudar) sofrem dos problemas históricos de contaminação de
estágios de industrialização anteriores. No Rio de Janeiro, as redes de transporte de
massa levaram tanto as indústrias quanto a população para os subúrbios da Zona
Norte, que buscavam solos com preços mais baixos. O surgimento de muitas favelas
esteve associado com a necessidade da mão-de-obra se localizar próxima às
indústrias.
Com a desindustrialização, os riscos ambientais repousam não mais nas
atividades produtivas, mas justamente no seu oposto, isto é, nos espaços antes
produtivos mas agora “residuais”, “produzidos” pelo abandono das atividades
econômicas de outrora. Na bibliografia internacional, recebem nomes variados,
como “brownfields” e “friches industrielles”.
Dentro desse contexto, é indiscutível a necessidade de se pensar também os
vazios urbanos, sobretudo os que possuem um potencial real de se traduzir em
riscos para as populações situadas próximas aos mesmos. Nesse caso estão
inscritos os espaços desindustrializados – “brownfields” – e questões relacionadas,
como a insalubridade e outrosprejuízos ambientais, que em muitos casos estão ao
alcance de uma minoria, um problema de insustentabilidade que evoca também o
aspecto social da mesma.
44
A Agência de Proteção Ambiental dos EUA – Environmental Protection Agency
(EPA) – define “brownfields” como instalações industriais e comerciais
abandonadas, ociosas ou subutilizadas, onde a expansão ou redesenvolvimento são
complicados pela contaminação ambiental real ou percebida. O custo para
descontaminação de solos, por exemplo, é um fato que limita a reutilização dos
“brownfields”.
Face à multiplicidade de experiências e interpretações acerca do sentido da
sustentabilidade urbana, Emelianoff (2003) buscar apresentar as diversas “chaves
de entrada”, isto é, enfoques para sua abordagem. Entre esses, é trazido em
destaque o enfoque na planificação do uso do espaço, na tentativa de conter a
expansão urbana a partir da “compactação” da cidade – e uma das formas de
implementação desses ideais é a prática de reaproveitamento dos vazios urbanos.
Nesse contexto, destaca-se o desenvolvimento de bairros “sustentáveis”,
construídos sobre vazios urbanos de grande dimensão territorial: antigos espaços
portuários, militares e industriais abandonados. Analisando o contexto europeu, os
melhores exemplos da Alemanha (cidades como Friburgo, Nuremberg e Hannover).
No caso de Friburgo, por exemplo, existe o “Quartier Vauban”, construído na área de
uma antiga base militar francesa abandonada desde o princípio dos anos 90. Outro
exemplo é o do plano diretor de Roma, que fazendo referência ao desenvolvimento
sustentável indica a reciclagem de espaços industriais abandonados, que se
transformam em museus e pólos culturais. O novo plano diretor do Rio de Janeiro –
que recebe o novo de “Plano Diretor de Desenvolvimento Sustentável” – também
possui algumas referências, como será detalhado adiante, assim como projetos
urbanísticos de revitalização como o Porto Maravilha. A ideia da “reciclagem urbana”
traz no seu nome o princípio da sustentabilidade. Reforçando a ideia de que a
sustentabilidade é incorporada e se traduz em práticas e políticas de gestão do
espaço urbano, a autora afirma que “a reutilização permanente dos lugares e dos
tecidos urbanos é uma acepção da cidade sustentável, da cidade que se renova
sobre si mesma” (EMELIANOFF, 2003, p. 12).
45
2.4 O uso de SIG na análise de vazios urbanos: algumas
experiências
Para reutilizar os vazios urbanos e pensar em políticas de gestão sobre os
mesmos, é essencial saber sua quantificação, localização e condições. Sem uma
base de dados confiável uma resposta a esse problema pode se mostrar falha.
Segundo Pagano e Bowman (2000), transformações bem-sucedidas sobre os vazios
urbanos dependem de informações precisas, compreensivas e computadorizadas,
que garantam a efetividade de programas de gestão territorial.
Como foi demonstrado, além da grande dificuldade em termos de classificação
e conceituação, a sua quantificação e localização também são tarefas complexas,
que podem ser amenizadas com o uso do SIG.
Apesar do grande potencial, casos em que o problema é avaliado com
utilização de SIG ainda são pontuais. Muitas vezes, até o uso de tecnologias de
sistemas computacionais de qualquer natureza ainda não é prática entre as cidades.
Na análise dos resultados do estudo feito nas cidades americanas, Pagano e
Bowman (2000) indicam que apenas pouco mais da metade das cidades (56%)
utilizam sistemas computacionais para registrar e acompanhar terras vagas. Apesar
dos avanços tecnológicos recentes na área de informação, tanto por SIG quanto
informatização dos cadastros de imóveis, a indicação das demais é que não tinham
condições e confiabilidade no uso dos SIGs para este tipo de acompanhamento;
quanto às cidades que empregavam SIG, a questão se estas o faziam a partir de
coletas precisas e periódicas não foi passível de investigação.
A maior parte dos trabalhos analisados que utilizaram SIG para identificação e
análises sobre vazios urbanos o fizeram a partir da perspectiva de terras vagas,
metodologicamente de mais fácil identificação por processos remotos de aquisição –
aerofotogrametria a partir de ortofotos e imagens de satélite. Os vazios urbanos
edificados não são passíveis de identificação por esses métodos, pois a sua
qualificação como vazio se dá pela constatação da não utilização/abandono da
estrutura edificada, o que é confirmado apenas in loco.
A utilização de SIG na análise de vazios urbanos é feita de longa data, como
por exemplo, o estudo de Davidson (1985), que utilizou o software de SIG Odyssey
46
– desenvolvido pelo laboratório de computação gráfica e análise espacial da
Universidade de Harvard em meados da década de 70 – para inventariar e analisar
terras vagas, criando uma metodologia para identificar relações entre uso do solo e
aptidão para novos usos do solo, orientando planejamento para desenvolvimento a
partir de critérios apropriados.
Estudos como o de Lesser (1996) demonstram a possibilidade de análise de
vários critérios a partir de SIG. Trabalhando com a ideia de potencial de
desenvolvimento de parcelas não edificadas (aquelas que não possuem nenhuma
estrutura construtiva) no Condado de Carrabus, Carolina do Norte, EUA, o autor usa
variáveis diversas – parcelas cadastrais, áreas inundáveis, solos, zoneamento,
infraestrutura urbana de água, esgoto, gás, principais logradouros e ferrovias – para
identificar as parcelas que, por sua localização, seriam consideradas “terras vagas
utilizáveis” em potencial baixo, médio e alto, diferenciando daquelas que por razões
ambientais deveriam ser mantidas como reservas, preservadas e protegidas.
Outra experiência interessante é a do trabalho com SIG pelo condado de Clark,
no estado de Washington, EUA. Partindo de uma estratégia semelhante, o trabalho
intitulado “Modelo de terras vagas edificáveis” (Clark, 2006), iniciado em 1992, foi
concebido e desenvolvido como um instrumento de planejamento territorial, a partir
das análises das terras vagas em áreas comerciais, residenciais e industriais
situadas nas áreas de crescimento urbano, monitorando os padrões de crescimento
baseando-se nas terras classificadas como vagas ou subutilizadas e verificando o
potencial e capacidade de desenvolvimento destas áreas, com foco em habitação e
emprego.
Litt (2000), no seu trabalho de Phd em saúde ambiental e políticas públicas,
estuda os “brownfields” da cidade de Baltimore – que possui mais de mil espaços
industriais abandonados ou subutilizados – qualificando as características
ambientais dos vazios urbanos, associando às informações socioeconômicas e de
saúde como indicadores de mortalidade das populações a nível de setores
censitários vivendo próximas a esses espaços para determinar a existência de riscos
envolvidos, empregando SIG para examinar padrões espaciais dos indicadores
selecionados.
Alguns exemplos de SIG WEB sobre vazios urbanos:
47
• Vacant and Abandoned Building Finder Chicago
http://chicagobuildings.org/
O sistema utiliza dados de vazios identificados pelo serviço de atendimento ao
cidadão oferecido pela Prefeitura de Chicago, o 311, ou por técnicos da prefeitura, e
permite a comparação com variáveis demográficas, como população total, taxa de
pobreza, desemprego e rendimento médio.
• Philadelphia NIS – Neighborhood Information System
http://www.cml.upenn.edu/nis/nBase.htm
Os indicadores de vacância e abandono utilizados incluem dados sobre
demolições em propriedades, incêndios, violação dos códigos de habitação,
desligamento e suspensão dos serviços de água e utilização do fundo de serviços
emergenciais por estas propriedades. Os vazios urbanos (“vacant properties”) são
divididos em prédios abandonados (“vacant buildings”) ou terras (“vacant land”).
Figura 4 – SIG Web “Philadelphia NIS” exibindo informaçãosobre vazios urbanos
Fonte: http://cml.upenn.edu/nbase/nbMapRequest.asp
48
Em 2006, a ESRI – maior empresa de softwares de inteligência geográfica do
mundo –, a antes mencionada National Vacant Properties Campaign e Magellan
(empresa de tecnologia GP anunciaram os vencedores do National Vacant and
Abandoned Properties Grant Program, que receberam 50 mil dólares em software,
hardware e treinamento, para 10 governos locais e regionais dos EUA, a fim de
fomentar abordagens inovadores para resolver problemas do governo e comunidade
com uso combinado de SIG e tecnologia GPS, visando à produção ou melhoria de
inventários e estimulando o redesenvolvimento de propriedades vagas ou
abandonadas nos EUA1. Os premiados criaram e compartilharam aplicações que
governos com projetos similares podem acessar no site de domínio público da ESRI
(www.esri.com/arcscripts2). Uma das cidades norte-americanas que fazem uso da
plataforma ESRI para o cadastro e gestão de vazios urbanos é a cidade de Hickory,
na Carolina do Norte, que construiu um inventário de vazios urbanos edificados3.
Na mesma linha de estímulo ao desenvolvimento de novas ideias e
tecnologias, a Casa de Cultura Digital, em São Paulo, realizou com parcerias
internacionais em julho de 2012 um “hackfest”, evento para discussão de novas
tecnologias na cidadania. Nesse evento, foi apresentado o projeto “Imóveis
abandonados de São Paulo”, plataforma que visa permitir o mapeamento
colaborativo dos imóveis abandonados na cidade de São Paulo. Usando como ponto
de partida uma lista produzida pela FAU/USP, a ideia é permitir ao usuário da
plataforma marcar um imóvel no mapa ou preencher/atualizar as informações4.
Como pode-se perceber, as iniciativas de uso de SIG para gestão de vazios
urbanos existem há algumas décadas, e com os recentes avanços tecnológicos em
áreas como SIG Web mostra o potencial para esse tipo de trabalho.
1 Notícia disponível em: http://spatialnews.geocomm.com/dailynews/2006/dec/20/news6.html
2 www.esri.com/arcscripts
3 http://www.hickorync.gov/eGov/apps/document/center.egov?view=item;id=4681
4 Notícia disponível em: http://br.okfn.org/tag/hackfest/
49
2.5 Delimitação do objeto, justificativa da classificação e
abordagem sobre os vazios urbanos
No presente estudo, o tratamento metodológico que propomos é de diferenciar
os vazios entre não edificados e edificados, e estes últimos entre domicílios e
estabelecimentos, devido à importância dessa distinção classificatória para o
planejamento urbano.
De acordo com a bibliografia pesquisada, constatou-se que a grande maioria
dos estudos se dedica a considerar os vazios urbanos sobre a ótica de terras vagas,
sem estruturas construídas/abandonadas. Grande parte dos estudos sobre vazios
urbanos busca compreendê-los como um produto da cidade capitalista, sob a ótica
da especulação imobiliária como força explicativa da manutenção de terras sem
desenvolver. O direito de propriedade imobiliária pleno e sem restrições, construindo
uma cidade produzida e regulada pelo mercado, teria como produto e permanência
na cidade capitalista os vazios urbanos. A ideia mais corrente é a da ação dos
proprietários fundiários como agentes modeladores do espaço urbano, à medida que
mantém suas terras urbanas intocadas, aguardando investimentos do poder público
que a tornem mais valorizadas, para então desenvolvê-la ou colocá-la no mercado.
Em parte, este ponto de vista pode ser considerado verdadeiro, porém está
relacionado a um tipo específico de vazio urbano, qual seja, o de lotes vazios não
edificados esperando um uso futuro.
No presente estudo, buscaremos analisar outro tipo de vazio urbano, os vazios
urbanos edificados, que se por um lado também podem ser utilizados como reserva
de valor, por outro impõem uma série de características e peculiaridades,
particularidades que envolvem dimensões históricas sobre usos antecedentes e
sobre como a dinâmica urbana os tornou obsoletos para determinada atividade,
entre o grupo de funções urbanas desempenhadas pela cidade.
Essa distinção entre vazios urbanos edificados e não edificados constitui-se em
uma primeira divisão classificatória essencial do ponto de vista metodológico, pois
em suma indica duas possíveis posturas diferentes sobre o objeto de estudo vazio
urbano para o planejamento urbano, suas possibilidades enquanto processo,
produto e ativo. No caso dos vazios urbanos não edificados, a sua valorização
50
enquanto ativo é mais fácil, até pelo senso comum, pois se trata de uma terra
urbana que aguarda o desenvolvimento. Sobre os vazios urbanos edificados, além
de características físicas, que impõem restrições, e visuais/estéticas que muitas
vezes comprometem a sua valorização (como os imóveis abandonados ou com
estrutura em ruínas), os mesmos impõem questões e problemáticas que impactam
as possibilidades de uso e são obstáculos do ponto de vista dos princípios de
planejamento urbano, como potenciais e parâmetros urbanísticos segundo as leis de
zoneamento e uso e ocupação do solo, sendo enxergados muitas vezes mais como
problemas do que as possíveis soluções envolvendo os mesmos.
Essa escolha metodológica também determina diferentes formas de aquisição
e mensuração da informação, se consideramos as tecnologias de informação
geográfica – instrumental que permite o georreferenciamento, isto é, a atribuição de
coordenadas espaciais a determinado objeto – utilizadas nesse trabalho. Existem
formas variadas para detecção e extração dos dados da realidade de forma
georreferenciada. Estas podem envolver desde acompanhamento
aerofotogramétrico, por sensores remotos e processamento digital de imagens para
detecção e monitoramento ao longo do tempo de lotes não edificados (que por um
lado possuem a vantagem de comparabilidade de forma remota, ou seja, sem
necessidade de estar presente fisicamente ao local da coleta), até o levantamento
de coordenadas de imóveis por GPS e geocodificação a partir de cadastros de
endereços coletados em campo, de imóveis com determinadas características de
interesse. Neste sentido, a escolha pelos vazios urbanos edificados também foi
movida pelos dados disponíveis a partir da pesquisa por fontes de dados que foi
realizada, como será detalhado adiante neste trabalho.
É importante diferenciar a classificação da noção de vazio urbano quando ela
se refere a uma teoria da cidade e quando ela é uma classificação para o
planejamento urbano. Em alguns textos, a referência a vazio urbano é como parte
de explicação da cidade, produto da sua produção e reprodução e
desenvolvimento/expansão. Segundo os objetivos deste trabalho, a classificação
pretendida do vazio urbano é identificá-lo como um objeto para o planejamento
urbano. A definição buscada por esse trabalho portanto não é para uma teoria da
cidade, mas para instrumentalizar o planejamento urbano.
51
Assim, sob esta perspectiva, os vazios urbanos edificados e não edificados são
dois objetos distintos no sentido de estabelecer distintas estratégias para o
planejamento urbano, por isso a importância da diferenciação proposta, e a
necessidade de estabelecer uma metodologia fina para identificação, localização e
monitoramento do vazio urbano edificado. É necessária a classificação interna dos
vazios edificados, básica e essencial para o planejamento do desenvolvimento da
cidade. Esta é a segunda divisão classificatória, uma classificação que diz respeito a
diferentes situações nos mais variados aspectos urbanisticamente, sendo a principal
delas a distinção entre domicílios e estabelecimentos. Por serem diferentes, e
devem ser tratados tanto metodologicamente quanto em termos de planejamento de
formas distintas. Esse é um ponto importante para o debate sobre vazios urbanos,
em relação a uma literatura quedefine vazio urbano como especulação de forma
simplista.
52
3 AVALIAÇÃO DAS POLÍTICAS E INFORMAÇÕES DA PREFEITURA
SOBRE VAZIOS URBANOS
De acordo com a legislação urbanística federal do Brasil, o município é o ente
federativo responsável pela organização e gestão do uso do solo. Assim, cabe a ele
conhecer o seu território, sua dinâmica e os fatores que a influenciam, para
desenhar políticas e uma legislação urbanística coerente com os objetivos da sua
política urbana. Sobre o tema dos vazios urbanos, estas dimensões da ação
municipal são igualmente válidas: o conhecimento sobre a distribuição e localização
dos vazios urbanos, de um lado, e os objetivos das políticas, programas de governo
e legislação sobre os vazios urbanos, do outro – ambos intrinsecamente
relacionados. Entende-se que o estudo da distribuição espacial dos vazios urbanos
está relacionado à legislação sobre uso do solo pois esta determina os conceitos
atribuídos aos mesmos, assim como as diretrizes e possibilidades de ação dizendo
respeito à sua gestão. Neste capítulo, serão analisadas as políticas, práticas e
legislações da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro cujas diretrizes de
planejamento têm como premissa o uso dos vazios urbanos e as informações
disponíveis nos diferentes cadastros e bases de dados municipais em relação a
esses imóveis.
3.1 Legislação e diretrizes da política urbana sobre vazios urbanos
3.1.1 Instrumentos jurídicos previstos a nível federal
É papel do Estado intervir nos processos envolvendo o solo urbano, de
interesse social e habitacional, que garantam a qualidade de vida e justiça social na
cidade. Para combater o abandono e a especulação e promover maior
desenvolvimento social, o Estado dispõe de diversos instrumentos legais. A nova
ordem jurídico-urbanística no Brasil, criada pela Constituição de 1988 e consolidada
pelo Estatuto da Cidade e a Medida Provisória 2.220/2001, representa um grande
avanço institucional, mas ainda são enormes os desafios enfrentados para a
materialização das políticas públicas urbanas (FERNANDES, 2006).
53
Pode-se afirmar que os vazios urbanos emergem como questão no
planejamento urbano no Brasil a partir da Constituição Federal de 1988, em seu
artigo 182, incluído por meio de proposta popular e inserido no debate da reforma
urbana, com a crítica de movimentos urbanos da sociedade civil em relação às
terras urbanas ociosas e subutilizadas mantidas para fins de especulação
imobiliária. O artigo em questão estabelece que a política de desenvolvimento
urbano deve ser executada pelo poder público municipal, tendo como objetivo o
ordenamento do desenvolvimento das funções sociais da cidade, remetendo ao
plano diretor quais são as exigências que definem o cumprimento da função social
da propriedade urbana. No que tange aos vazios urbanos, o artigo em questão
faculta ao poder público municipal, mediante lei específica que defina a área para
sua aplicação, exigir do proprietário o aproveitamento do solo urbano não edificado,
subutilizado ou não utilizado sob pena de: parcelamento ou edificação compulsórios;
IPTU progressivo no tempo; e desapropriação com pagamento mediante títulos da
dívida pública.
A lei 10.257, de 10 de julho de 2001 – Estatuto da Cidade (BRASIL, 2001a)
estabelece diretrizes para a função social da propriedade, fornecendo importantes
instrumentos que permitem reverter a situação ora estudada. O seu art. 5º prevê a
utilização compulsória do solo urbano edificado e não utilizado; em caso de
descumprimento ao previsto procede a aplicação do IPTU progressivo no tempo –
definido no art. 7º –, podendo o município, após cinco anos de cobrança do imposto,
desapropriar o imóvel.
As áreas urbanas já ocupadas por sua vez podem ser enquadradas na
usucapião especial de imóvel urbano, matéria tratada nos artigos 9º e 10 da lei. No
caso de imóveis públicos situados em área urbana, os ocupantes tem o direito à
concessão de uso especial para fins de moradia, segundo a Medida Provisória
2.220, de 4 de setembro de 2001 (BRASIL, 2001b). A instituição de Zonas Especiais
de Interesse Social – ZEIS – também é um importante instrumento que pode ter um
impacto positivo, reservando áreas para a população de menor poder aquisitivo,
além de serem áreas prioritárias para a aplicação dos diversos instrumentos
jurídicos apontados pelo Estatuto da Cidade.
54
Com um forte aparato legal a seu dispor, resta buscar a efetivação dessas
políticas de combate à especulação e de regularização fundiária, que ainda
encontram obstáculos de diversas naturezas – jurídica, técnica, política, econômica
– à sua implementação (ALFONSIN; FERNANDES, 2004). Mas para se efetivar
uma verdadeira reforma urbana, visando reduzir o nível de disparidade sócio-
econômica e sócio-espacial intraurbana, não basta garantir a segurança jurídica
para as populações em espaços carentes de regularização fundiária, mas também a
geração de emprego e renda para os pobres urbanos, como defende Souza (2003).
Em relação a estes instrumentos previstos por leis federais relacionadas à
função social da propriedade urbana, o levantamento dos vazios urbanos oferece
subsídio para a aplicação de alguns desses instrumentos. Sobre o instrumento do
parcelamento, edificação ou utilização compulsórios/IPTU progressivo no tempo, o
mesmo exige para a sua aplicação a delimitação da área, conforme apontado no art.
72 do Plano Diretor, inspirado na lei federal, que indica que “lei municipal específica,
de iniciativa do Poder Executivo, determinará as áreas e os critérios para a aplicação
do parcelamento, edificação ou de utilização compulsórios”. A localização e
concentração dos vazios urbanos em áreas com boa infraestrutura existente são um
indicativo de áreas onde seria importante para o município a aplicação do
instrumento, com vistas à função social da propriedade urbana, e o uso do SIG
permite o cruzamento dessas múltiplas informações para o planejamento.
O novo Código Civil (lei nº10.406, de 10 de janeiro de 2002), por sua vez, no
LIVRO III – “Do Direito das Coisas”, TÍTULO III – “Da Propriedade”, CAPÍTULO IV –
“Da Perda da Propriedade”, institui nos seus artigos 1275 e 1276 o abandono como
causa da perda da propriedade, pela qual o imóvel que o proprietário abandonar, e
que não se encontrar na posse de outrem – ou seja, cessados os atos de posse – e
não cumprir com os seus ônus fiscais (principalmente o IPTU) pode ser arrecadado
como bem vago e passar, três anos depois, à propriedade do município. O
levantamento dos vazios urbanos, conjugado com outras informações municipais a
seu respeito, sobretudo fiscais (imóveis em dívidas ativa), aponta a existência de
imóveis que podem passar à propriedade do município, constituindo um estoque de
imóveis para a implementação das suas políticas urbanas, destinando-os a uma
função social.
55
3.1.2 Instrumentos e políticas do município do Rio de Janeiro
As leis refletem as intenções e compromissos das políticas conduzidas pelo
município, e sua análise permite compreender de que forma os vazios urbanos são
considerados no planejamento da Prefeitura do Rio de Janeiro. Na teoria, vão refletir
também as dificuldades, impasses e posicionamento frente à questão, assim como o
papel da administração pública no tratamento de problemas que impactam os
cidadãos.
Na lei nº 5.147, de 21 de janeiro de 2010 ("Dispõe sobre o Plano Plurianual
para o quadriênio 2010/2013"), das 89 diretrizes estratégicas do Plano Plurianual, a
primeira delas, que pertence ao agrupamento infraestrutura urbana, é "ampliar a
produção de novas unidades habitacionais, com ênfase na ocupação de vazios
urbanos e imóveis subutilizados em áreas que já dispõem de serviços e
infraestrutura, com destaque para as Áreas Central e Portuária da Cidade". Na
atualização doPlano Plurianual 2010/2013 para o período de 2011 a 2013 (decreto
nº36753, de 30 de janeiro de 2013) essa diretriz não aparece mais. Apesar disso, a
importância da reutilização dos vazios urbanos para a política habitacional do
município pode ser percebida na atualização do Plano Plurianual pela utilização do
"número de imóveis abandonados, em ruínas e subutilizados na AP-1" como
avaliação do programa Morar Carioca - Minha Casa Minha Vida ("Anexo VII -
Programas e Ações por Área de Resultado").
O Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano Sustentável do Município do Rio
de Janeiro (PREFEITURA DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO, 2011) possui várias
diretrizes dedicadas aos vazios urbanos. A partir da sua leitura, verifica-se
claramente que os vazios urbanos são entendidos como oportunidade
principalmente pelo viés da política habitacional.
No seu título I – “Da política urbana e ambiental”, capítulo I – “Dos princípios e
diretrizes da política urbana do município”, temos “XV – promoção do adequado
aproveitamento dos vazios ou terrenos subutilizados ou ociosos, priorizando sua
utilização para fins habitacionais, ou como espaços livres de uso comunitário,
parques, áreas verdes e áreas de lazer, onde couber” e “XX – ampliação da oferta
habitacional de interesse social, mediante a produção de moradias populares e lotes
56
urbanizados, a reconversão de usos de imóveis vazios em áreas infra
estruturadas da cidade, a locação social e produção social da moradia através de
associações e cooperativas habitacionais, contando com assistência técnica e
financiamento de materiais de construção” (grifo nosso). Está explícito desde o seu
princípio que a priorização do uso dos vazios urbanos para atender à política
habitacional é preponderante.
No seu título II – “Do ordenamento territorial”, coloca no capítulo I – “Do uso e
da ocupação do solo”, seção II – “Da ocupação urbana”, no art. 14, que a regulação
da densidade e intensidade da ocupação e do uso do solo considerará “VII- a
existência de vazios urbanos e a capacidade de absorção de maior densidade”.
Essa preocupação está relacionada aos possíveis usos dos vazios urbanos, que ao
mesmo tempo que se traduzam na reutilização dos espaços, devem estar de acordo
com a densidade e capacidade de recepção de impacto das redes de infraestrutura
existentes.
Ao tratar do seu macrozoneamento, no capítulo II – “Do macrozoneamento”, na
seção II – “Dos vetores de crescimento da cidade”, considera explicitamente que,
entre outros vetores de crescimento, a ocupação urbana do município se orientará
“pela ocupação de vazios urbanos nas Macrozonas de Ocupação Incentivada e
Ocupação Assistida, especialmente na faixa de território compreendida pela
Av.Brasil e o leito da estrada de ferro, na Zona Oeste, e a Zona Portuária”.
57
Figura 5 – Macrozonas - Plano Diretor do Rio de Janeiro 2011
Assim, a questão levantada anteriormente da necessidade de “crescimento” no
sentido de ocupação dos vazios urbanos está mencionado, relacionadas às
macrozonas. Por outro lado, não menciona as demais macrozonas – Condicionada e
Assistida – valendo a pergunta se essas macrozonas também não possuem
concentrações de vazios urbanos a serem ocupados. Além disso, se em relação à
Zona Portuária temos uma área consolidada da cidade, as faixas entre a Avenida
Brasil e o leito da estrada de ferro na Zona Oeste estão em áreas caracterizadas por
expansão urbana, ao passo que trechos destes estruturadores geográficos na
macrozona Incentivada, por exemplo, além de concentrar vazios urbanos, situam-se
em área mais infraestruturada da cidade.
No Anexo III do Plano Diretor do Rio de Janeiro, “Diretrizes por Macrozona de
Ocupação”, são indicadas entre as diretrizes para as macrozonas diversas ações
relativas aos imóveis vazios urbanos.
58
Para a Macrozona de Ocupação Controlada, o estímulo à reforma ou
reconstrução de imóveis subutilizados em Santa Teresa, visando o aumento de
unidades residenciais.
Para a Macrozona de Ocupação Incentivada, a “reconversão de edificações e
reaproveitamento das estruturas existentes, vazias ou subutilizadas em áreas
industriais e outras áreas degradadas”, como forma de priorizar a melhoria geral do
ambiente urbano, além de “estimular a reconversão de prédios ociosos, degradados,
ou aqueles inadequados para os fins a que se destinavam originalmente, para novos
usos e destinações”. Note-se que na lei que estabelece o Plano Plurianual, aprovada
no ano anterior, a ênfase não é dada nesta área, mas na Zona Central da cidade
(que parte esta nessa macrozona, e parte na macrozona Controlada).
As macrozonas de ocupação Condicionada e Assistida não possuem nenhuma
diretriz relativa aos vazios urbanos.
No capítulo IV, “Da Política de Habitação”, os vazios urbanos são mencionados
na seção IV, “Das Áreas de Especial Interesse Social” (identificados como AEIS 2) e
na seção VII, “Da Ocupação de Vazios Urbanos e Imóveis Subutilizados”, que
especifica alguns critérios para a utilização para fins habitacionais, no artigo 212:
Art. 212. A ocupação de vazios urbanos e imóveis subutilizados e não utilizados
compreenderá:
I - a realização de novos projetos habitacionais em áreas consolidadas e infraestruturadas da
cidade pela recuperação e o reaproveitamento de imóveis ociosos, lotes vazios e trechos
subutilizados do tecido urbano em geral, criando opções de moradia;
II - a reabilitação de prédios de interesse cultural, visando a sua valorização pela aplicação de
soluções para edificações abandonadas e ruínas;
III - o aproveitamento dos imóveis, respondendo à demanda de moradia em bairros centrais e
bem servidos de infraestrutura;
IV - o incentivo à Agricultura Urbana Sustentável.
§ 1º Na implementação das ações previstas neste artigo os projetos deverão observar o
atendimento e a manutenção da população já residente no local.
§ 2º A implantação de projetos habitacionais em vazios urbanos se dará preferencialmente em
locais mais degradados ambientalmente, sem que haja prejuízo ambiental para a área, levando em
59
consideração a presença de vegetação, corpos hídricos e áreas permeáveis, possibilitando uso
destas áreas pela população, quando for cabível.
§ 3º Os vazios urbanos que apresentem alta taxa de permeabilidade e presença significativa de
vegetação, que proporcionem função ecológica e/ou serviços ambientais à cidade serão destinados
preferencialmente para a formação de áreas da malha verde urbana, e para a implantação de áreas
de lazer e integração social.
Este artigo apresenta importantes informações a respeito dos vazios urbanos
para fins habitacionais. No item II, está evidente a política de retrofit, muito comum
em prédios de valor histórico e arquitetônico. No item III, apontando para áreas
centrais bem servidas, dialoga diretamente com o programa Novas Alternativas, da
Secretaria Municipal de Habitação, que será descrito na próxima seção. Também se
destacam algumas possibilidades de uso não exclusivamente habitacional, como
agricultura urbana, áreas de lazer e integração social.
Por fim, no capítulo VII, “Da Política de Regularização Urbanística e Fundiária”
– seção III, “Das Ações Estruturantes”, o art. 240 relaciona: “poderão ser
contempladas pelo Programa de Regularização Urbanística e Fundiária ocupações
clandestinas de baixa renda em imóveis abandonados e/ou que tiveram seu uso
original desativado, localizados em áreas servidas por infraestrutura e equipamentos
públicos, como forma de reaproveitamento destes imóveis para que cumpram sua
função social como opção de moradia”.
Porém no título seguinte, título V – “Das estratégias de implementação,
acompanhamento e controle do Plano Diretor”, em dois capítulos – V – “Do sistema
de defesa da cidade” e VI – “Do sistema de controle de uso e ocupação do solo” – o
Plano Diretor mencionaa necessidade de remoção de população, no primeiro, pelo
Art. 318, que considera como ameaça “às condições normais de funcionamento da
cidade” as “ocupações irregulares em imóveis particulares abandonados por seus
proprietários em razão de impedimentos jurídicos, quando representarem risco à
ordem ou à segurança urbana, ou à saúde da população”; e no segundo, pelo Art.
324, que menciona a ação de controle da ocupação do solo em casos de
“ocupações irregulares em imóveis abandonados quando representarem risco à
ordem ou à segurança urbana, ou à saúde da população”. Assim, na prática, a
atuação vai evidenciar o conflito entre a possibilidade de regularização das
ocupações em imóveis abandonados, por um lado, e a estratégia de defesa e
60
controle da ocupação do solo com intervenção em casos que representem ameaças
à saúde ou segurança da população – na maior parte dos casos, tendendo para a
segunda interpretação. Pode-se exemplificar a atuação do município em ocupações
de antigas indústrias abandonadas, como a Embratel (próxima à favela Mandela de
Pedra, em Manguinhos) e a CCPL (em Benfica), não foram regularizados, mas
houve a remoção da população que usava esses imóveis para habitação para a
construção de conjuntos do programa habitacional Minha Casa Minha Vida,
atendendo a outras populações. Mais recentemente, o mesmo ocorreu com a antiga
gráfica da editora Bloch na Rua Frei Caneca, bairro do Estácio (comunicado nº
12/12, “antigo prédio da editora Bloch será implodido para dar lugar a moradias para
população de baixa renda”, DO Ano XXVI, nº 162, sexta-feira, 09 de Novembro de
2012); o prédio de seis andares estava abandonado e havia sido ocupado há 12
anos, onde viviam as 132 famílias que foram reassentadas pela SMH, sendo o
edifício demolido para a construção de 91 apartamentos com varanda em dois
blocos. A não manutenção da população já residente no local com sua remoção
opõe-se ao previsto no artigo 212, § 1º. Em outro exemplo, na favela surgida no
prédio do antigo Instituto Estadual de Infectologia São Sebastião, no Caju –
abandonado pelo estado desde 2008, tendo como uma das causas a violência nas
favelas do entorno – houve demolição da ocupação de cerca de 40 domicílios para
construção de unidades do Minha Casa Minha Vida para a população que aí ocupou
(COSTA, 2012).
Além do viés habitacional, a única outra intenção encontrada no Plano Diretor
para os vazios urbanos é a utilização daqueles que são terrenos para atividades de
agricultura urbana, como previsto no título IV – “Das políticas setoriais”, capítulo VIII
– “Das políticas econômicas”, seção IV – “Da agricultura, pesca e abastecimento”,
no artigo 254: “São diretrizes da Política de Agricultura, Pesca e Abastecimento:
implementação de projetos de agricultura institucional ou subsidiada em áreas
ociosas, vazios urbanos ou áreas impróprias à ocupação”; porém, evidentemente, a
mesma diz respeito aos vazios urbanos não edificados, que não são o foco do nosso
estudo.
A utilização de instrumentos para o planejamento aparece no título I – “Da
política urbana e ambiental”, capítulo III – “Da função social da propriedade urbana”,
61
que a define em seu artigo 7º: “A propriedade urbana cumpre sua função social
quando atende às exigências fundamentais de ordenação da cidade expressas no
Plano Diretor, assegurando o atendimento das necessidades dos cidadãos quanto à
qualidade de vida, à justiça social e ao desenvolvimento das atividades econômicas,
respeitadas as diretrizes previstas no Art. 3º desta Lei Complementar”; como
instrumentos para tanto, temos os previstos no Estatuto da Cidade. Temos no título
III – “Dos instrumentos da política urbana”, o seu capítulo III, “Dos Instrumentos de
Gestão do Uso e Ocupação do Solo”. Na seção I – “Das áreas de especial
interesse”, que definem um regime específico diferente do previsto na zona onde se
situam essas áreas. Para nosso estudo, é importante destacar a Área de Especial
Interesse Urbanístico – AEIU, “destinada a projetos específicos de estruturação ou
reestruturação, renovação e revitalização urbana”; e a Área de Especial Interesse
Social – AEIS, na modalidade 2, caracterizada por “imóveis não edificados, não
utilizados e subutilizados em áreas infraestruturadas”.
A Avenida Brasil, um dos mais importantes eixos viários da cidade, foi objeto
da lei complementar nº 116 de 25 de abril de 2012, que criou a AEIU da Avenida
Brasil. A lei faz menção aos vetores de crescimento definidos pelo artigo 33 do
Plano Diretor – entre eles a reconversão de edificações e a ocupação dos vazios
urbanos na faixa compreendida entre a Avenida Brasil e o leito da estrada de ferro –
e define os casos em que as disposições são aplicáveis, incluindo a zona industrial.
A partir da leitura do seu projeto de lei complementar nº 57/2011, é evidente a
preocupação com os vazios urbanos nesta área, seu potencial e benefícios do
aproveitamento dos imóveis situados ao longo da Avenida Brasil. Em sua
justificativa5, o Poder Executivo afirma que o referido projeto de lei tem por objetivo
reverter o processo de esvaziamento econômico das zonas industriais da cidade,
particularmente da AP 3. Menciona que a área apresenta uma série de imóveis
abandonados, em estado de deterioração e invadidos, que se refletem na
degradação especialmente ao longo da Avenida Brasil. Conclui que a alteração da
legislação de uso e ocupação do solo busca reverter esta condição com o incentivo
à reutilização de imóveis.
5 Mensagem nº 135 de 11 de maio de 2011, publicada no Diário Oficial do Poder Legislativo do
Município do Rio de Janeiro (DCM) em 12 de maio de 2011.
62
Esta iniciativa visa a propiciar condições e instrumentos legais para o
fortalecimento dos centros de comércio e de serviço; para a geração de emprego e
renda; para a coexistência de empreendimentos residenciais com atividades
geradoras de emprego e renda, reduzindo as distâncias no deslocamento da
população entre casa e trabalho; reverter o processo de degradação do ambiente
urbano em áreas infraestruturadas da Cidade; induzir ao reaproveitamento de
imóveis subutilizados e incrementar a dinâmica de ocupação nos corredores viários
estruturantes da região: Avenida Brasil, Avenida das Missões e Rodovia Presidente
Dutra.
A criação da AEIU da Avenida Brasil realiza mudanças no uso e ocupação do
solo, de uma região que antes era industrial, mas agora possui galpões e indústrias
abandonados para usos comerciais e residenciais. Tais mudanças se referem
particularmente ao artigo 4º, que torna os usos residencial e comercial adequados
na área que a lei complementar menciona. É uma tentativa de estimular, com
flexibilização de gabarito e taxa de ocupação, a revitalização de uma região com
infraestrutura instalada, como a definição de não limitação no número de unidades
residenciais por lote (artigo 7º).
Além da AEIU da Avenida Brasil, a SMU está realizando estudos para uma
revisão ampla da legislação urbanística na área que abrange as regiões de Ramos,
Maré e Ilha do Governador. Em entrevista concedida por Marcelo Garcez Viseu,
arquiteto da GPL-3, foi possível conhecer alguns detalhes do Plano de Estruturação
Urbana da Grande Leopoldina – o PEU Grande Leopoldina. O PEU é um
instrumento que estabelece diretrizes para o desenvolvimento local, através de Lei
Complementar, que revisa a legislação urbanística instituída pela LUOS. Segundo o
arquiteto, a revisão da legislação tem por objetivo analisar os parâmetros
estabelecidos na área e oferecer mudanças que permitam combater o estado de
abandono de galpões e outros imóveis nesta região da cidade.
Na seção II do mesmo título, é apresentado o instrumento “Do Parcelamento,
Edificação ou Utilização Compulsórios”, porém, o mesmo apresenta alguns
problemas em relação à efetividade.Primeiramente, exige uma legislação específica
para que possa ser aplicado, como disposto no art. 71 – “Lei específica de iniciativa
do Poder Executivo poderá determinar o parcelamento, a edificação ou a
63
utilização compulsórios do solo urbano não edificado, subutilizado ou não
utilizado, fixando as condições e os prazos para implementação da referida
obrigação, nos termos dos artigos 5º a 8º do Estatuto da Cidade” (grifo nosso); o uso
do termo “poderá” deixa a discussão em aberto, sem exigência de que o mesmo
seja estabelecido. Ainda no mesmo artigo, temos o §1º que define que “O disposto
no caput se aplicará a imóveis localizados na Macrozona de Ocupação Incentivada
conforme disposto nesta Lei Complementar”, ou seja, o instrumento não é passível
de aplicação de forma ampla na cidade, mas restrita apenas aos imóveis localizados
na Macrozona de Ocupação Incentivada. De acordo com o art. 72, “Lei municipal
específica, de iniciativa do Poder Executivo, determinará as áreas e os critérios para
a aplicação do parcelamento, edificação ou de utilização compulsórios, nos termos
dos arts. 5º ao 8º da Lei Federal 10.257 - Estatuto da Cidade”. Não há definição
clara do que são imóveis não edificados, subutilizados ou não utilizados, apenas a
definição no §4º que “Poderão ser também considerados como subutilizados, os
imóveis com edificação em ruínas ou que tenha sido objeto de demolição, situação
de abandono, desabamento ou incêndio”. A definição de subutilização aqui feita se
refere claramente a características de utilização da edificação, diferentemente do
definido no Estatuto da Cidade, que como veremos considera a subutilização nos
termos de área construída sobre área total do lote. Isso é importante, pois passa a
considerar este um instrumento para vazios urbanos edificados. Vemos na
regulamentação desse instrumento uma contradição nas diretrizes da política urbana
municipal, que se no Plano Diretor menciona, conforme visto anteriormente, diversas
orientações que visam ao uso de vazios urbanos e apontam para a importância da
sua utilização em diversas porções da cidade e suas macrozonas, na mesma lei vai
instituir que a aplicação de um instrumento essencial para tal transformação como o
do parcelamento, edificação ou utilização compulsórios, exige outra lei e não é
aplicável em todo o território da cidade. As duas seções seguintes, III – “Do IPTU
progressivo no tempo” (aplicável por 5 anos), e IV – “Da desapropriação com
pagamento em títulos” (após o pagamento de 5 anos do IPTU progressivo),
igualmente se encontram vinculadas através do instrumento anterior, sendo
necessária a lei específica. Vale mencionar que há exemplos de planos diretores de
cidades brasileiras onde esta definição se encontra explícita, como, por exemplo, o
Plano Diretor do Recife, que em seu artigo 148 determina que “são passíveis de
64
parcelamento, edificação ou utilização compulsórios, incidência de imposto predial e
territorial urbano progressivo no tempo e desapropriação com pagamento mediante
título da dívida pública os imóveis não edificados, subutilizados ou não utilizados
localizados em toda a Macrozona de Ambiente Construído - MAC e Macrozona de
Ambiente Natural - MAN, observada a legislação ambiental específica” (nota-se que
como no caso do Rio de Janeiro, também há restrição para macrozonas específicas
da cidade) e em seu artigo 149 define para os fins da lei, o que se entende por solo
urbano não edificado, imóveis não utilizados e imóveis subutilizados. Ainda a título
de comparação, a lei do Recife é mais restritiva: após a identificação pelo munícipio
de imóveis nestas condições e notificação aos proprietários, é dado o prazo de
apenas um ano para que os proprietários promovam o parcelamento ou edificação
compulsórios e utilização efetiva do imóvel, e caso o mesmo não ocorre, há
cobrança do IPTU progressivo no tempo por até 5 anos (PREFEITURA DO RECIFE,
2008). Outro avanço, em teoria, é o estabelecimento de prazo para identificação dos
imóveis abandonados. O artigo 218 estabelece que “O Poder Executivo Municipal,
no prazo de 02 (dois) anos, deverá submeter à Câmara de Vereadores do
Recife Projetos de Lei Municipal, adequando a legislação urbanística e ambiental às
disposições constante na presente Lei. Parágrafo Único - O prazo de que trata o
"caput" deste artigo aplica-se também à identificação dos imóveis não
edificados, subutilizados e não utilizados definidos no Art. 149 deste Plano
Diretor” (grifo nosso). Porém, não há indícios de cumprimento ao que consta no
texto do plano diretor sobre esse ponto (Jornal do Commercio, 2012).
Alguns decretos recentes foram publicados visando combater o abandono e
falta de conservação de imóveis. Poucos dias após o desabamento de um edifício
no Centro do Rio, foram publicados dois decretos criando regras para concessão de
direito de uso de próprios municipais abandonados ou com mau estado de
conservação à iniciativa privada. O decreto nº 35.646 de 16 de maio de 2012
considera a existência de imóveis próprios municipais sem destinação específica e
em mau estado de conservação em áreas dotadas de infraestrutura urbana; o
princípio constitucional da função social da propriedade; e o ordenamento urbano
para o crescimento econômico, para justificar a sua disponibilização a terceiros,
tendo como contrapartida a recuperação dos imóveis.
65
O outro decreto publicado na mesma data, o decreto nº 35.648, considera a
quantidade de imóveis abandonados em áreas dotadas de infraestrutura urbana;
mais uma vez a função social da propriedade; o risco de desabamento –
mencionando a tragédia decorrente do desabamento de um prédio na Rua Treze de
Maio, no Centro do Rio; e o artigo 1.276 do Código Civil Brasileiro – que define que
o imóvel urbano que o proprietário abandonar não mais o conservando em seu
patrimônio poderá ser arrecadado como bem vago e passar após três anos à
propriedade do município – decreta a arrecadação do imóvel que apresentar sinais
de abandono como bem vago, passando à propriedade do município três anos
depois. O art. 2º dá a incumbência à Secretaria Municipal de Urbanismo, auxiliada
pela Subsecretaria de Patrimônio Cultural e Subsecretaria de Defesa Civil, de
identificar os eventuais imóveis urbanos que apresentem as características de
abandono, elaborando laudos de vistoria que certifiquem a presença dessas
características. Caso se confirme a existência de tais características para esses
imóveis e a Secretaria Municipal de Fazenda identificar a existência de ônus fiscais,
será encaminhado processo à Procuradoria Geral do Município para imediato
ajuizamento de ação para arrecadação do imóvel. Porém, há uma dificuldade
empírica e normativa sobre as mesmas, na forma de especificação sobre quais
seriam essas características, e se envolveriam apenas vistoria externa (fachada) ou
também visitas aos imóveis.
Relacionado a esse mesmo contexto e aos decretos anteriores está o projeto
de lei nº 1.395/2012, de autoria do Poder Executivo, cuja ementa “Concede
benefícios fiscais aos adquirentes de imóveis em péssimo estado de conservação ou
com obras paralisadas em estágio de estrutura”, como isenção de IPTU e ISS. Em
sua justificativa, o projeto de lei faz menção ao período de grandes investimentos
públicos e privados que a cidade atravessa, visando à melhoria da qualidade do
ambiente urbano para os cidadãos e turistas, como preparação da cidade para os
grandes eventos esportivos dos quais será sede. Em seguida, menciona os imóveis
em péssimo estado de conservação e obras interrompidas, que prejudicam o
ambiente urbano e oferecem risco à segurança das pessoas, e que portanto à oferta
aos adquirentes de facilidades do ponto de vista fiscal tornaria atraente
economicamente a sua renovação e reabilitação. Essas motivações possuem muito
66
em comum com o que foianteriormente apresentado como importantes para a ação
sobre os vazios urbanos.
Em muitos casos, os imóveis abandonados possuem valor arquitetônico e
histórico. Como exemplo, podemos mencionar o abandono de quatro imóveis
tombados pelo Inepac (Instituto Estadual do Patrimônio Artístico e Cultural) no Largo
do Boticário – importante ponto turístico situado na Apac Cosme Velho, próximo à
estação de trem do Corcovado – onde a proprietária entrou na Justiça, recorrendo
da decisão de um decreto de 2007 que tornava as casas de interesse público para
fins de desapropriação, e por falta de interesse em conservar ou vender as casas
alegava falta de estímulo por parte da Prefeitura para que investisse na manutenção
dos seus imóveis (ALVES, 2011). Por casos como esse, diversas políticas recentes
também têm buscado a recuperação e preservação especificamente de imóveis com
valor histórico e arquitetônico e bens tombados, através de ações promovendo a
renovação urbana, sobretudo no Centro do Rio. Podemos mencionar o programa
Pró-Apac, de financiamento de projetos de restauração de imóveis particulares
preservados ou tombados; e o programa Ocupação Criativa de Vazios Urbanos,
para dar destinação a imóveis da Prefeitura sem uso a partir da cessão dos imóveis
à iniciativa privada, que deve reformar os imóveis, com prioridade para setores da
indústria criativa.
No entanto, esses decretos não definem de forma clara a área da cidade em
que seriam aplicáveis. Um exemplo de lei semelhante que faz isso é a lei
complementar nº74/2009 da Prefeitura Municipal de Curitiba, que “cria incentivos
fiscais para recuperação de edificações e dinamização da área do entorno do Paço
Municipal”, em área delimitada no anexo da lei.
Contudo, não é apenas a questão estética ou a preocupação com a segurança
que motiva decretos e leis que estimulem a conservação de imóveis abandonados,
mas também existem preocupações de ordem mais abrangente em termos de
políticas econômicas e de desenvolvimento urbano, mais abrangentes também em
escala espacial, como a já mencionada AEIU da Avenida Brasil.
Especificamente em relação a imóveis abandonados na fase de construção,
não concluídos, uma lei conhecida como “lei dos esqueletos”, a lei municipal
44/2000, permite a conclusão de obras licenciadas e inacabadas que não satisfaçam
67
à legislação vigente. Também nesse aspecto, pelo fato de permitir a conclusão de
obras paralisadas mesmo que os parâmetros e exigências atuais possam ser mais
restritivos, o estudo da situação de inserção do imóvel, do seu entorno, das
condições de infraestrutura, são essenciais para assegurar que a reinserção desses
vazios urbanos seja de forma a não causar impactos negativos, mas positivos.
Apesar de ser um plano diretor de desenvolvimento sustentável, e a questão
dos vazios urbanos ter relação direta com a sustentabilidade urbana conforme
apresentado, no Título V – “Das políticas públicas setoriais”, capítulo I – “Das
políticas de desenvolvimento urbano e ambiental”, apesar do objetivo VIII da política
de meio ambiente ser “estabelecer diretrizes para controle e acompanhamento de
áreas com passivos ambientais, áreas degradadas e ou contaminadas, visando a
sua recuperação ambiental”, não encontramos em nenhuma das 35 diretrizes dessa
política a mínima menção ao monitoramento, promoção ou realização de ações
sobre os vazios urbanos. Tampouco na subseção das ações estruturantes
relacionadas à paisagem aparece qualquer ação sobre os vazios urbanos, apesar de
seu artigo 168 descrever que “Entende-se por paisagem a configuração visual da
cidade e seus componentes, resultante da interação entre os elementos naturais,
edificados, históricos e culturais. Parágrafo único. A paisagem do Rio de Janeiro
representa o mais valioso ativo da cidade, responsável pela sua consagração como
um ícone mundial e por sua inserção na economia turística do país gerando
emprego e renda”, tendo os imóveis abandonados grande impacto negativo sobre os
atributos paisagísticos da cidade.
A breve análise de algumas leis e decretos municipais permitem compreender
que as políticas relativas aos vazios urbanos tem por objetivo sobretudo sua
reconversão para usos habitacionais. Para essas políticas a informação sobre a
localização dos vazios urbanos é essencial – e às vezes, explícita no texto da lei –, o
que torna relevante o levantamento dessa informação, além de outras informações
como de áreas com infraestrutura, transportes e distribuição de usos do solo urbano,
necessárias para responder a perguntas como: onde estão localizados os vazios,
para alimentar as políticas habitacionais a partir da sua reutilização? Em quais
desses imóveis o uso habitacional é adequado, considerando as suas características
e as do seu entorno? Como definir a melhor estratégia para ocupação de vazios
68
urbanos, a partir da localização de infraestruturas existentes? As áreas priorizadas
para reconversão de vazios urbanos em habitação são coerentes com as áreas
onde se encontra a maior quantidade de imóveis? Em que limites espaciais é
positiva a aplicação do instrumento de parcelamento, edificação ou utilização
compulsórios?
3.2 Levantamento de bases cadastrais municipais sobre vazios
urbanos
Para a análise das bases cadastrais do município a respeito do tema dos
vazios urbanos, em primeiro lugar devemos conhecer a divisão por recortes
territoriais utilizada no município.
Em relação ao planejamento e à organização de informações que sirvam de
subsídio para o mesmo, é essencial a definição do Plano Diretor sobre esse
aspecto, uma vez que o que buscamos analisar é a forma de leitura da cidade em
relação à abordagem e orientação que consta na lei. No seu título II – “Do
ordenamento territorial”, capítulo III – “Da ordenação para o planejamento”,
estabelece para efeitos de planejamento e controle do desenvolvimento urbano do
município as seguintes unidades territoriais: áreas de planejamento (AP); regiões de
planejamento (RP); regiões administrativas (RA); bairros; e bacias hidrográficas.
Destas a que julgamos adequada à nossa análise são as regiões de planejamento,
uma vez que são “estabelecidas pelo grupamento de Regiões Administrativas e pela
subdivisão das Áreas de Planejamento e segundo critérios de homogeneidade
específicas, visando apoiar a organização das informações e a integração da ação
descentralizada dos órgãos municipais na implementação de políticas públicas
setoriais”.
69
Figura 6 – Limite das Regiões de Planejamento (RP)
As Regiões de Planejamento (figura 6), em um total de 16, são uma divisão
administrativa criada a partir do grupamento das 33 Regiões Administrativas já
existentes, estabelecidas por sua vez por fins administrativos a partir do
agrupamento de bairros, e da subdivisão das 4 Áreas de Planejamento (também já
existentes anteriormente) estabelecidas por critérios de compartimentação
ambiental, características histórico-geográficas e de uso e ocupação do solo. O
critério para definição das Regiões de Planejamento foi o de, por homogeneidades
específicas, apoiar a organização das informações e integração da ação
descentralizada dos diversos órgãos municipais na implementação de suas políticas
setoriais. Optou-se pelo recorte das Regiões de Planejamento pela interlocução do
tema dos vazios urbanos com as diretrizes e orientações para o planejamento
municipal de cada região da cidade. A organização territorial completa do município
pode ser vista no Anexo A.
No seu Título V – “Das estratégias de implementação, acompanhamento e
controle do Plano Diretor”, estabelece o seu artigo 298 que “O desenvolvimento e a
70
implementação da Política Urbana proposta por este Plano Diretor tem como
princípio a articulação intersetorial do planejamento urbano municipal, base
para a elaboração do plano plurianual,das diretrizes orçamentárias e do orçamento
anual da cidade” (grifo nosso). Assim, está explícita a importância do trabalho em
conjunto entre os diversos órgãos e secretarias municipais para o desenvolvimento e
implementação do disposto no Plano Diretor. Este aspecto será enfatizado mais
adiante em relação ao tratamento interdisciplinar essencial para a gestão dos vazios
urbanos, dado que a solução e políticas a seu respeito devem ser feitas a partir de
múltiplas abordagens. A questão sobre sistematização do trabalho sobre bases
geográficas comuns vai aparecer no artigo 300: “Os órgãos responsáveis pelas
políticas públicas setoriais, que integram a Política Urbana proposta por este Plano
Diretor, deverão promover a integração entre seus planos, programas e projetos
através da institucionalização de procedimentos administrativos que consolidem a
articulação intersetorial de forma sistemática sobre bases geográficas
comuns, análises conjuntas e definição de ações articuladas, racionalizadas e
potencializadas em que sejam otimizados seus recursos” (grifo nosso). No artigo
seguinte, que trata dos instrumentos de articulação territorial, no seu § 1º, temos que
“A elaboração dos planos regionais e dos planos setoriais se fará em conformidade
com as dezesseis Regiões de Planejamento, instituídas por este Plano Diretor e
deverá contar com o apoio do Sistema Municipal de Informações Urbanas”.
Foi feito um levantamento de todas as secretarias e órgãos municipais com
interface com o tema, que poderiam ou deveriam possuir cadastro para fins de suas
atividades finalísticas ou relacionadas ao tema do planejamento urbano de forma
geral.
As informações sobre vazios são importantes para as políticas de diversos
órgãos da administração municipal, mas foram analisados aqueles que por sua
atividade finalística seriam os responsáveis pela estruturação de um cadastro dessa
natureza. Assim, foi realizado levantamento junto aos principais órgãos da prefeitura
do Rio de Janeiro que trabalham com cadastros territoriais – as secretarias
municipais de Fazenda, Urbanismo e o Instituto Pereira Passos – além das
secretarias de Habitação e Saúde – por trabalhos específicos que coletam
informações sobre imóveis em estado de abandono – para verificar as ações da
71
prefeitura em relação à informação. O estudo sobre o cadastramento de vazios
urbanos pela Prefeitura permite verificar a administração pública e a sua capacitação
técnica-instrumental para lidar com a problemática.
3.2.1 Secretaria Municipal de Fazenda
Em relação aos cadastros da Secretaria Municipal de Fazenda,
especificamente o cadastro do IPTU, constatou-se que o mesmo não levanta a
situação de abandono. Por meio de entrevista com o fiscal de rendas João Américo,
explicou-se que não existe um “uso” abandonado, isto é, esta situação não é
levantada no cadastramento dos imóveis; de acordo com o cadastro do IPTU, os
usos destes imóveis são residenciais, comerciais, etc., ainda que não estejam
exercendo função alguma. Isso é reflexo da visão da Fazenda, de construção de um
cadastro estritamente com fins tributários, e não urbanos de forma ampla. Quando
verifica-se em campo que um imóvel está abandonado e o fiscal na vistoria o
identifica como ruínas, o imóvel é considerado como tipologia de terreno, e cobra-se
o imposto territorial. Se no entanto possui uma edificação com estado de
conservação que permita o usufruto, ainda que esteja abandonada, é cobrado o
valor do imposto predial. Esta é a única diferenciação possível no IPTU em relação a
imóveis abandonados.
O acompanhamento ao longo dos anos das inscrições imobiliárias cadastradas
no IPTU como de uso do tipo indústria poderia dar indícios de áreas que outrora
foram industriais, e que podem se encontrar abandonadas, tomando-se como ponto
de partida os imóveis industriais situados na área de estudo. No entanto, a
atualização do cadastro de imóveis no IPTU não segue uma regularidade, o que
dificulta esse tipo de acompanhamento ao longo do tempo.
A Superintendência de Patrimônio Imobiliário realiza um trabalho de
georreferenciamento dos próprios municipais, o que permite, após a implantação do
sistema, a identificação e gestão no que se refere aos imóveis municipais, mas
também no momento não possui um trabalho específico sobre vazios urbanos. O
superintendente do patrimônio imobiliário, Fabrício Tanure, indica a melhoria da
gestão como um dos maiores objetivos do trabalho de recadastramento e
72
georreferenciamento dos próprios municipais, revelando que alguns próprios são
ocupados irregularmente. A partir da localização geográfica, é possível utilização
adequada para políticas municipais. Esse tipo de cadastro é essencial para a gestão
de imóveis vazios sem utilização do município, inclusive daqueles que venham a
compor o patrimônio municipal por meio da desapropriação com títulos da dívida
pública, arrecadados pelo município a partir da aplicação dos instrumentos previstos.
3.2.2 Secretaria Municipal de Urbanismo
A Secretaria Municipal de Urbanismo, através da sua GPL-3 (Gerência de
Planos Locais da AP3), coordenou um estudo intitulado “Imóveis em estado de
abandono”. O estudo foi encomendado pelo decreto 26.610/06, que, considerando
em seu caput a reconversão de áreas da cidade e o abandono de diversos galpões,
criou uma equipe macrofuncional com técnicos de várias secretarias municipais.
Deve-se destacar o enfoque interdisciplinar adotado em relação ao estudo desses
imóveis abandonados, com participação na equipe de técnicos dos seguintes órgãos
e secretarias municipais: Instituto Pereira Passos, Obras e Serviços Públicos,
Habitação, Fundação Parques e Jardins, Transportes, Educação e Secretaria
Especial de Desenvolvimento Econômico, Ciência e Tecnologia6. O objetivo do
estudo foi de: “identificar edificações em estado de abandono com vistas a propor
medidas que qualifiquem urbanisticamente a área, sejam elas de simples demolição
com construção de espaços públicos, sejam, praças, novas vias que facilitem a
mobilidade, áreas de esporte, escolas, equipamentos culturais, ou mesmo
reurbanização com vistas a atrair o interesse privado” (PREFEITURA DA CIDADE
DO RIO DE JANEIRO, 2006). O diagnóstico, único do tipo realizado pela SMU tendo
claramente como objeto os imóveis industriais abandonados, localizou um total de
17 imóveis abandonados na AP3 a partir de trabalhos de campo. Para cada um dos
imóveis, foram descritas propostas de reutilização, como atividades comerciais,
comunitárias, moradia popular, equipamentos públicos, ou o aproveitamento do lote
para atividades de interesse da população local, abertura de logradouros ou
implantação de praças.
6 Posteriormente, outros órgãos foram incluídos na equipe por decretos: o decreto 26.617/06 inclui a
Secretaria Municipal das Culturas e o decreto 26.864/06 inclui a SMAC e SMF.
73
Tabela 1 – Imóveis do estudo “Imóveis em estado de abandono - AP-3” (SMU/GPL-3)
ID Imóvel Endereço
Área
aproxima
da (m²) Legislação Dívidas de IPTU
1
Cervejaria
Princeza
R. Licínio
Cardoso, 515
e R. João
Rodrigues,
60/60A 8.670
Zona Industrial (decreto 322/76), sendo
adequado apenas o uso industrial e
tolerado o uso residencial de baixa
densidade e algumas atividades
comerciais de pequeno porte Sem dívidas
2
Patronato
de
Menores
R.
Engenheiro
Brotero, 26 8.990
Zona Residencial (ZR-2), onde é
permitida a construção de prédios
multifamiliares de até 14 pavimentos Sem dívidas
3
Sorvete
Sem
Nome
R. Gandavo,
161 20.430
AEIU do Engenho de Dentro (lei
4.125/05), permitindo uso residencial
uni e multifamiliar e comércio e serviços
de pequeno, médio e grande porte Não constatada
4
Indústrias
na Av.
Pastor
Martin
Luther
King Jr. e
Linha
Amarela - - -
4.1 -
R. João Mena
Barreto,168 18.400
Zona Industrial (decreto 322/76), sendo
adequado apenas o uso industrial e
tolerado o uso residencial de baixa
densidade e algumas atividades
comerciais de pequeno porte Não constatada
4.2 -
Via de acesso
à favela Águia
de Ouro 25.670
Zona Industrial (decreto 322/76), sendo
adequado apenas o uso industrial e
tolerado o uso residencial de baixa
densidade e algumas atividades
comerciais de pequeno porte Não constatada
5 Coca-Cola
Etr. Itararé,
951 e 1.071 76.420
Zona Industrial (decreto 322/76), sendo
adequado apenas o uso industrial e
tolerado o uso residencial de baixa
densidade e algumas atividades
comerciais de pequeno porte Sem dívidas
6 Poesi
Etr. Itararé,
690 e 690A 54.880
Zona Industrial (decreto 322/76), sendo
adequado apenas o uso industrial e
tolerado o uso residencial de baixa
densidade e algumas atividades
comerciais de pequeno porte
Cotas em aberto:
R$ 1.495.400,00
/ Dívida ativa:
Valor absoluto
até 2004: R$
29.986.596,49
74
7
Av. Brasil,
6.011
Av. Brasil,
6.011 410
Situado em corredor comercial de zona
industrial, sendo adequados os usos
comercial/serviços de qualquer porte,
industrial e residencial de pequeno
porte Não constatada
8
Av. Brasil,
6.532
Av. Brasil,
6.532 2.660
Situado em corredor comercial de zona
industrial, sendo adequados os usos
comercial/serviços de qualquer porte,
industrial e residencial de pequeno
porte Não constatada
9
Av. Brasil /
Av. Postal,
29
Av. Brasil /
Av. Postal, 29 6.320
Situado em corredor comercial de zona
industrial, sendo adequados os usos
comercial/serviços de qualquer porte,
industrial e residencial de pequeno
porte Sem dívidas
10
Av. Brasil,
8.883
Av. Brasil,
8.883 2.350
Situado em corredor comercial de zona
industrial, sendo adequados os usos
comercial/serviços de qualquer porte,
industrial e residencial de pequeno
porte Sem dívidas
11
Curtume
Carioca
R. Quito, R.
Couto, R.
Montevidéu e
R. Panamá 29.470
Situado em zona de uso misto do PEU
da Penha - Decreto 7.654/88, sendo
permitidos os usos residencial uni e
multifamiliar, comercial/serviços e
industrial de uso exclusivo, porém
limitados a 4 pavimentos
Cotas em aberto:
R$ 2.231.339,00
/ Dívida ativa:
Valor absoluto
até 2004: R$
28.020.022,00
12
Organizaç
ões
Diamantin
o Lucas
Etr. Coronel
Vieira, 134 18.950
Zona Residencial (CB-2 de ZR-5), em
corredor onde são permitidas
edificações multifamiliares com mais de
10 pavimentos, comerciais e mistas Não constatada
13
Votorantim
Cimentos
Av. Meriti,
4.411 64.940
Zona Industrial (decreto 322/76), sendo
adequado apenas o uso industrial e
tolerado o uso residencial de baixa
densidade e algumas atividades
comerciais de pequeno porte Sem dívidas
14
Bloch
Editores
Etr. da Água
Grande,
807/863 23.190
Zona Residencial (CB-3 de ZR-5), em
corredor onde são permitidas
edificações multifamiliares, comerciais
e mistas
Dívida ativa:
Valor absoluto
até 2004: R$
8.178,98
15
Cintos
Mundial R. Ururaí, 556 28.160
Zona Residencial (CB-1 de ZR-5), em
corredor onde são permitidas
edificações multifamiliares, comerciais
e mistas
Cotas em aberto:
R$ 293.457,00 /
Dívida ativa:
Valor absoluto
até 2004: R$
2.873.050,00
75
16 Parmalat
R. Maturá,
411 40.580
Zona Industrial (decreto 322/76), sendo
adequado apenas o uso industrial e
tolerado o uso residencial de baixa
densidade e algumas atividades
comerciais de pequeno porte
Cotas em aberto:
R$ 101,92 /
Dívida ativa:
Valor absoluto
até 2004: R$
149.810,05
17
Edifício
Garagem /
Centro
comercial
R. Prof.
Lindolfo
Gomes, 30 e
R. Dr.
Bernardo
Pinto Moreira,
40 4.690
Zona Residencial (ZR-5), onde são
permitidas edificações multifamiliares,
comerciais e mistas
Há 74 lojas em
dívida ativa
Fonte: SMU, 2006.
Figura 7 – Localização dos imóveis identificados pelo estudo da 3ª GPL / SMU
No entanto, não houve acompanhamento dos imóveis objeto desse trabalho.
Através de interpretação das ortofotos, foi feito o acompanhamento de cada um dos
imóveis identificados pela equipe, para verificar a situação atual de cada um dos 17
imóveis presentes no estudo: 8 ainda continuam sem utilização; 5 foram demolidos e
encontra-se em construção no local novas unidades habitacionais; e 3 outras que à
76
época do estudo estavam abandonadas acabaram sendo ocupadas por famílias que
são cadastradas pelo IPP como favelas – Vida Nova, Grefisa e Comunidade do
Pedrosa.
Tabela 2 – Situação levantada pelo estudo dos imóveis do estudo da SMU/GPL-3 e atual
ID Imóvel Características identificadas pelo estudo Situação atual
1 Cervejaria Princeza Antiga fábrica abandonada
Clínica da Família Dona
Zica
2 Patronato de Menores
Imóvel tombado adquirido pela
Administração Pública Municipal; encontra-
se invadido
Vivendas Recanto das
Águas (MCMV)
3 Sorvete Sem Nome Prédio industrial desativado, em ruínas
Conjunto de prédios atrás
do Norteshopping
4
Indústrias na Av. Pastor
Martin Luther King Jr. e
Linha Amarela - -
4.1 - Indústria desativada
Ocupada - Comunidade do
Pedrosa
4.2 - Indústrias invadidas Ocupada - Grefisa
5 Coca-Cola Indústrias em processo de desativação Conjuntos MCMV
6 Poesi Prédio industrial em estado de abandono Conjuntos MCMV
7 Av. Brasil, 6.011 Imóvel abandonado Mantido
8 Av. Brasil, 6.532 Edificação em ruínas Mantido
9
Av. Brasil / Av. Postal,
29 Grande área Mantido
10 Av. Brasil, 8.883
Déposito abandonado da antiga Casa
Mattos Mantido
11 Curtume Carioca
Conjunto de prédios abandonados e em
ruínas Terreno limpo
12
Organizações
Diamantino Lucas Imóvel sem qualquer uso ou atividade
Unidades residenciais em
construção
13 Votorantim Cimentos Indústrias em processo de desativação Mantido
14 Bloch Editores Prédios remanescentes Mantido
15 Cintos Mundial
Fábrica desativada; vem sendo ocupada
com construção de moradias em alvenaria
EDI Karine Lorraine
(inaugurado em jul/11) /
Vila Olímpica de Honório
Gurgel
16 Parmalat
Indústria desativada; encontra-se
atualmente invadida
Ocupada - Vida
Nova/Parmalat
17
Edifício Garagem /
Centro comercial Prédios em total caos urbano Terreno limpo
77
As figuras 8 a 13 apresentam a comparação, para cada imóvel, entre as
imagens de satélite 2005 e a ortofotos 2012, o que permite detectar as
transformações sofridas ao longo desses anos.
78
Figura 8 – Imagem de satélite QuickBird 2005 – Antigo Patronato de Menores
Figura 9 – Ortofoto 2012 – Conjunto do Minha Casa Minha Vida, Vivendas Recanto das Águas
79
Figura 10 – Imagem de satélite QuickBird 2005 – Fábricas da Poesi e Coca-Cola desativadas no
Complexo do Alemão
Figura 11 – Ortofoto 2012 – Conjuntos do Minha Casa Minha Vida no Complexo do Alemão
80
Figura 12 – Imagem de satélite QuickBird 2005 – Antiga fábrica Cintos Mundial ocupada
Figura 13 – Ortofoto 2012 – EDI Karine Lorraine e Vila Olímpica de Honório Gurgel
81
A utilização de ortofotos anuais ajuda no trabalho, pois, embora não substitua o
trabalho de campo, que continua imprescindível para uma identificação precisa da
situação de abandono, serve para o acompanhamento da evolução do uso do solo e
orientação para as áreas que podem ser priorizadas em vistorias de campo com o
fim de atualização de informações cadastrais dessa natureza.
De acordo com Maria Luiza Korenchendler, coordenadora da GPL-3, um
resultado prático desse trabalho foi o decreto nº 27.533 de 12/01/2007, o qual,
“considerando a necessidade de revitalizar áreas infra-estruturadas da Cidade que
vêm sofrendo esvaziamento da atividade industrial”, estabelece em seu art. 1º que “o
uso residencial passa a ser adequado nas Zonas Industriais 1 e 2 da Área de
Planejamento-3” (PREFEITURA DA CIDADE DO RIO DE JANEIRO, 2007).
3.2.3 SecretariaMunicipal de Habitação
Sobre a Secretaria Municipal de Habitação, o principal programa de
refuncionalização de vazios urbanos é o Programa “Novas Alternativas”, iniciado em
1998. Tendo como objetivo principal formular propostas de projetos habitacionais em
áreas consolidadas da cidade, sua atuação se dá basicamente na reabilitação,
recuperação e construção em lotes em vazios urbanos infraestruturados. Há uma
clara vinculação à valorização do patrimônio arquitetônico e cultural, mencionando
as APACs na região. O programa está restrito à área central da cidade, incluindo
Centro, Rio Comprido, Santa Teresa e Portuária.
O programa levantou a situação fundiária de cada imóvel, se preservado, seu
estado de conservação, uso atual e o interesse da SMH em utilizá-lo no programa.
82
Figura 14 – Exemplo do inventário de imóveis levantados pelo programa Novas Alternativas
Fonte: http://www.sinduscon-rio.com.br/FTP/PM/Area1/Inven_Rua_Camerino.pdf
Figura 15 – Exemplo de intervenção do programa Novas Alternativas em imóvel abandonado
Fonte: http://www.moradiacentral.org.br/pdf/apr_sp_Rio_NovasAlternativas_Nazih.pdf
83
Este programa identificou, selecionou e cadastrou imóveis abandonados nessa
área da cidade, no entanto esse cadastro foi estruturado de forma tradicional (sem
banco de dados geográficos) e isolada, construído sem vinculação com os dados
cadastrais de imóveis da Fazenda ou do Urbanismo.
Um exemplo de projeto de reutilização de vazios urbanos com uso de SIG é o
Casa Paulista, do Governo do Estado de São Paulo. A partir de entrevista com
Breno Figueiredo, da equipe do Instituto de Urbanismo e Estudos sobre a Metrópole
– URBEM, organização do terceiro setor que participa por meio de Parceria Público-
Privado (PPP), foi possível conhecer alguns detalhes deste programa. O projeto é
desenvolvido através de uma PPP 7, refletindo uma visão de desenvolvimento onde
agentes públicos e privados trabalham para aliar a provisão de oferta habitacional ao
desenvolvimento econômico e imobiliário, para um objetivo que gere retorno positivo
para sociedade, governo e setor imobiliário.
A proposta do projeto é retomar o tecido urbano degradado do centro da
metrópole paulista a partir da viabilização de 20 mil unidades habitacionais no
Centro de São Paulo, onde pelo menos 12 mil sejam de interesse social e o restante
de médio padrão, refletindo uma mistura de segmentos. Na verdade, este projeto já
existe há muitos anos, com a visão de oferta de habitação de interesse social em
AEIS, que está sendo retomado por meio da PPP para pensar o desenvolvimento
urbano de forma mais integrada, a partir de edital lançado em fevereiro de 2014.
Todo o projeto foi feito desde sua concepção com um olhar multidisciplinar,
considerando um amplo leque de variáveis, a partir de bases de dados geográficas e
uso de SIG, estudando questões demográficas para pensar a habitação como um
elemento integrador. Faz parte do projeto a implantação de serviços, comércio no
térreo dos prédios, além de outras infraestruturas, de forma a se colocar como um
urbanismo mais completo, não apenas habitacional. A ideia central é que essa
intervenção tenha um efeito indutor.
7 O mecanismo é o da manifestação de interesse privado (MIP), um mecanismo através do qual o
setor privado elabora projetos de intervenção pública com recursos próprios, e caso os estudos sejam
aproveitados integralmente ou parcialmente pode resultar em ressarcimento dos grupos privados.
Esse projeto é a primeira MIP de habitação em São Paulo.
84
Os vazios urbanos utilizados foram sobretudo do tipo não edificado,
principalmente de entes públicos, que facilitou o trabalho e reduziu os custos
necessários para a execução dos projetos, além de alguns grandes terrenos
negociados com empresas proprietárias de imóveis na área. Apenas em poucos
casos se aproveitou não apenas o lote, como a edificação existente – caso dos
prédios de valor histórico. Na grande parte dos casos, a proposta é de demolição
para construção de prédios de 15 andares.
Algumas imagens desse trabalho podem ser visualizadas no Anexo B.
Vale registrar também, na área de cadastro de habitação, o trabalho realizado
pela Secretaria Estadual de Habitação, em moldes semelhantes, que em um
levantamento inédito cadastrou 250 imóveis abandonados do governo do estado no
Centro do Rio para reformas e transformação em moradia social (DAFLON, 2011a).
A Secretaria Municipal de Habitação também atua em casos de imóveis de
forma isolada, sem vinculação a nenhum programa específico de ação sobre vazios
urbanos. Grande parte desse tipo de ação se dá em imóveis abandonados que
foram ocupados por famílias para fins de moradia. Em geral é feita através da
remoção da população para construção de conjuntos habitacionais do Minha Casa
Minha Vida.
O Programa Novas Alternativas – assim como seu semelhante de São Paulo,
o Casa Paulista – tem uma preocupação praticamente exclusiva com o uso para
habitação de interesse social. Aplicados em áreas centrais, traduzem-se em maior
densificação populacional e melhor aproveitamento da infraestrutura, comércio,
serviços e equipamentos de atenção ao público. Ao contrário, o aproveitamento em
áreas mais afastadas do centro devem levar em consideração a necessidade de
atividades de apoio, para se programar maior densidade populacional sem que
signifique sobrecarregar as infraestruturas existentes.
85
3.2.4 Secretaria Municipal de Saúde
A Secretaria Municipal de Saúde, por meio da Coordenação de Vigilância
Ambiental em Saúde, realiza o combate ao vetor da dengue. A secretaria atua
fortemente na área de Vigilância em Saúde, colocando em prática um conjunto
articulado de ações destinadas a controlar determinantes, riscos e danos à saúde de
populações que vivem em determinados territórios.
A Coordenação de Vigilância Ambiental atua no monitoramento e no controle
dos fatores de risco presentes no meio ambiente que interferem na saúde da
população, com o objetivo de promover a interação entre saúde, meio ambiente e
desenvolvimento, incentivando a participação da população na promoção da saúde
e na qualidade de vida. Entre as atividades e ações desenvolvidas estão a visitação
domiciliar executada pelos agentes de vigilância em saúde, para detecção,
diagnósticos e, se necessário, controle de vetores.
São realizadas vistorias contínuas, em todo o território da cidade. Quando não
é possível entrar em um imóvel com suspeita de foco de proliferação do vetor da
dengue, ele é notificado. Após notificação, não havendo resposta do proprietário,
nem acesso na nova tentativa, a entrada é forçada. O decreto nº 31.406, de 2009,
que “dispõe sobre os procedimentos a serem tomados para a adoção de medidas de
vigilância sanitária e epidemiológica, voltadas à contenção da dengue e ao controle
de seu vetor”, autoriza o ingresso de agentes de saúde em imóveis abandonados ou
fechados, conforme especificado em seu art. 2.º “Dentre as medidas que poderão
ser determinadas para a contenção da doença e o controle de seu vetor [...]
destacam-se: I – o ingresso forçado em imóveis particulares e públicos, nos casos
de recusa ou de ausência de pessoa que possa abrir a porta para o Agente Sanitário
quando isso se mostrar fundamental para a contenção da doença ou do agravo à
saúde”.
O decreto, utilizado pela primeira vez em abril de 2011, se baseia no
documento do Ministério da Saúde do Governo Federal, lançado em 2006, do
Programa Nacional de Controle da Dengue, intitulado “Amparo legal à execução das
ações de campo – imóveis fechados, abandonados ou com acesso não permitido
pelo morador” (BRASIL, 2006). Decretos com essa finalidade também foram
86
adotados em outras cidades brasileiras, como Belém (PA), Campo Grande (MS),Fortaleza (CE) e Rio Branco (AC).
A forma de ação é dada pela resolução nº 1.627 de 10/09/2010, que
“Determina a adoção das medidas previstas no Art. 2 do Decreto nº 31.406, de 26 de
novembro de 2009, de modo a conter a dengue e controlar seu vetor”. A figura 16
apresenta exemplo de imóvel abandonado onde a notificação de tentativa de visita
foi utilizada.
Figura 16 – Notificação de imóvel abandonado localizado na Estrada dos Três Rios, 1756
Fonte: Campo realizado em 11 de março de 2012.
Através de contato com a CVAS, foi feita a cessão para essa pesquisa da
listagem completa de todos os imóveis notificados, de janeiro de 2011 a maio de
2013. Essa listagem possibilitou as análises que são descritas a seguir.
A SMS, em sua atuação, divide a cidade em 10 Coordenações de Área
Programática – CAPs (figura 17). Os limites das CAPs não são plenamente
coincidentes com as RPs, havendo tanto casos em que um conjunto de CAPs forma
a mesma RP, quanto casos em que uma CAP é composta por diferentes RPs.
Devido a esses casos, não foi possível agregar os dados por RPs.
87
Figura 17 – Limite das CAPs/SMS
As informações levantadas para cada imóvel notificado são as seguintes:
• Notificação nº: Número de identificação da notificação
• Nome do AVS, Matrícula: Dados do agente de vigilância em saúde
• Cap, Território, Quarteirão, Endereço, Nº, Bairro, Complemento, Ponto
de Referência: Dados para localização do imóvel; os campos território e
quarteirão correspondem a uma divisão feita pela SMS da cidade
• Descrição do Local - Tipo (R, C, O, etc): informações sobre o imóvel,
tipo (residencial, comercial, outros) com caracterização se o mesmo
encontra-se abandonado, a quantidade e tipo de focos, quando
encontrados, e outras informações úteis para qualificação do mesmo
• Data - Primeira Visita/notificação, Data - Segunda Visita, Data - Terceira
Visita, Data – Publicação, Data - Previsão de Ação: datas das visitas e
88
notificações e, quando é o caso, data da publicação no Diário Oficial do
Município do Rio de Janeiro.
• Qualificação da Baixa, Data da Baixa
Segue abaixo alguns exemplos de imóveis com as qualificações de baixa
possíveis, que demonstram o tipo de preenchimento feito pelas equipes.
• Visita realizada voluntariamente: “TRATAVA-SE DE UMA RESIDÊNCIA QUE
SE ENCONTRAVA FECHADA, ONDE O AGENTE DEIXOU O
FORMULÁRIO DE NOTIFICAÇÃO. DIAS DEPOIS, O PROPRIETÁRIO
ENTROU EM CONTATO AGENDANDO VISITA. O IMÓVEL SERÁ
MONITORADO, PORQUE, O MESMO ESTÁ AGUARDANDO ORDEM PARA
DEMOLIÇÃO” (Estrada da Gávea, 640 – São Conrado; Data da baixa:
03/02/2011).
• Verificada não necessidade de visita: “TRABALHO REALIZADO.
INSPECIONADOS 2 DEPÓSITOS DO TIPO C, OS QUAIS NÃO
APRESENTAVAM FOCOS DE MOSQUITOS. REPASSADA MENSAGEM
EDUCATIVA AO PROPRIETÁRIO” (Rua Araguaia, 1459, casa 1 – Freguesia
Jacarepaguá; Data da baixa: 28/06/2012).
• Visita não realizada: “LOCAL EM CONFLITO SEM POSSIBILIDADE DE
REALIZAR VISITAS, POIS PODE COLOCAR AGENTES EM RISCO” (Rua 9,
32, Antares – Santa Cruz; Data da baixa: 09/10/2011).
• Visita realizada compulsoriamente: “COMÉRCIO ABANDONADO. POR
INTERMÉDIO DOS VIZINHOS O LOCAL APRESENTA MUITO LIXO,
ENTULHO E MORADORES DE RUA FREQUENTANDO O LOCAL" (Rua
Clarimundo de Melo, 272 – Piedade; Data da baixa: 08/07/2011)
89
No caso das visitas realizadas compulsoriamente, é publicado um aviso no Diário
Oficial do Município com a notificação, nos moldes a partir do exemplificado a seguir:
AVISO
A Secretaria Municipal de Saúde e Defesa Civil no uso das atribuições para controle da transmissão
da Dengue na Cidade do Rio de Janeiro, objetivando a proteção à saúde coletiva, vem tornar público
que os imóveis abaixo listados serão objeto de ação de visitação compulsória para identificação de
possíveis focos do vetor de transmissão da Dengue – mosquito Aedes Aegyptis. Tal medida se
fundamenta no Decreto nº 31406 de 26.11.2009 e na Resolução nº 1627 de 10 de setembro de 2010,
em que se estabelecem os procedimentos necessários para realização da ação de visitação
compulsória que se dará após 15 dias da data desta publicação, num prazo de 15 a 20 dias.
1 – Rua Brigadeiro Delamare, 122 – Bairro: Marechal Hermes
2 – Rua Clarimundo de Melo, 272 – Bairro: Piedade
3 - Rua Martinho de equita, 167 – Bairro: Barra da Tijuca.
(DO 10/06/2011 - Pág. 73 - Nº 62)
A tabela 3 apresenta parte dos campos da tabela recebida com 10.218
registros, a título de exemplo.
90
Tabela 3 – Listagem dos imóveis notificados pela CVAS/SMS (extrato)
Notificação
nº Cap Endereço Nº Bairro
Descrição do Local -
Tipo (R, C, O, etc)
Qualificaçã
o da Baixa
Data da
Baixa
1304226 - 3 3,3 Rua Santo Isaac 22 Irajá
Muito lixo, água parada e
plantas com foco.
Residência fechada
permanentemente,
segundo moradores da
rua.
Visita
realizada
compulsoria
mente
18/04/2012
401.118 4 Av. Gláucio Gil 956 Recreio Mensagem educativa.
Verificada
não
necessidade
de visita
14/08/2012
40.458 4 Rua das Tulipas 417
Vila
Valqueire
8 depósitos tratados e 30
eliminados. Imóvel com
grande quantidade de
potes plásticos com
acúmulo de água. Lixo
recolhido pela Comlurb.
Visita
realizada
compulsoria
mente
19/04/2012
05/003-2012 3,2 Rua Dr. Bulhões 412
Engenho
de Dentro Casa abandonada
Visita
realizada
voluntariame
nte
16/02/2012
N/I 3,2
Rua
Monsenhor
Jerônimo
232 Engenho de Dentro
Residência em péssimo
estado de conservação,
porém todos os
problemas relaticos à
proliferação de mosquitos
foram resolvidos durante
vistoria.
Visita
realizada
voluntariame
nte
16/02/2011
05/061-2011 3,2 Rua José Bonifácio 308
Todos os
Santos Residência com piscina
Verificada
não
necessidade
de visita
25/05/2012
130 1 Rua da Lapa 270 Centro
008/12 2,2
Rua Barão
de
Mesquita
588 Tijuca Terreno baldio.
Visita
realizada
voluntariame
nte
20/08/2012
05/151-2012 3,2 Etr.Adhemar Bebiano
406
3 Inhaúma Residência fechada.
A partir dos dados fornecidos pela CVAS, que abrangem as notificações de
janeiro de 2011 a maio de 2013, foi possível a confecção de mapas que permitem
análises sobre esta política. Para a localização no mapa a partir dos endereços, foi
feito um processamento chamado geocodificação, que será explicado em detalhes
na parte metodológica desta dissertação.
91
Tabela 4 – Resumo dos totais de imóveis notificados por CAP/SMS
CAP
Quantidade
de Imóveis
Notificados
Visitas
Realizadas
Voluntariamente
Visitas Realizadas
Compulsoriamente
Visitas
Não
Realizadas
Verificada
Não
Necessidade
de Visita
1.0 1.740 585 1 109 1.045
2.1 277 222 36 18 1
2.2 162 141 14 4 3
3.1 224 147 15 59 3
3.2 560 411 39 47 63
3.3 3.025 2.293 29 3 700
4.0 1.550 805 22 59 664
5.1 438 303 11 16 108
5.2 546 167 23 354 2
5.3 1.696 430 61 1.205 0
TOTAL 10.218 5.504 251 1.874 2.589
Figura 18 – Quantidade de imóveis notificados por CAP/SMS
92
Figura 19 – Quantidade de imóveis notificados por qualificação da baixa por CAP/SMS
Figura 20 – Localização dos imóveis notificados pela CVAS/SMS
93
Figura 21 – Localização dos imóveis notificados por qualificação da baixa por CAP/SMS
Deve-se destacar aqui as CAPs que apresentaram maior quantidade de
visitas realizadas compulsoriamente: 5.3 (Santa Cruz), 3.2 (Méier) e 2.1 (Zona Sul).
O fato da visita ter sido realizada sem a presença ou retorno por parte do dono é um
indicativo de situação de abandono do imóvel, relevante para a análise sobre os
vazios urbanos. A equipe da CVAS esclareceu por meio de entrevista que na maior
parte dos casos a visita forçada não se mostra necessária, devido ao retorno dos
proprietários. Ainda segundo a equipe, em uma quantidade muito expressiva de
vezes, no dia em que é agendada a visita compulsória, o proprietário ou vizinhocompareceu para permitir a entrada da equipe – isto indica que de alguma forma os
proprietários estão cientes e acompanham o que acontece com seus imóveis,
apesar de aparentemente estarem abandonados e sem uso.
Após a atuação no combate ao vetor da dengue, não é feita nenhum outro
tipo de intervenção ou disponibilização de dados, o que revela a necessidade de
maior integração e compartilhamento de informação que pode ser útil a outros
órgãos da administração municipal. Outros departamentos poderiam utilizá-la no
94
planejamento de suas ações, que poderiam refletir em mudança real desses
imóveis.
Esse trabalho conduzido pela SMS para combate à dengue foi o mais próximo
a um cadastro completo de vazios urbanos: é um trabalho de campo, abrange a
cidade inteira, considerando todos os imóveis, não se apoiando apenas em critérios
estéticos (como estado de conservação dos imóveis), mas todos os imóveis em que
não foi possível contatar o proprietário e os vários tipos de vazios urbanos, de
terrenos a prédios em construção abandonados. Porém, devido à finalidade do
programa, alguns aspectos não são considerados. Como a finalidade é entrar nos
imóveis, no caso de abandonados que possuam alguém para receber a equipe, não
é registrado nenhum problema. Em entrevista com a equipe, foi mencionado ser
recorrente casos de imóveis visivelmente abandonados, e quando a equipe chegava
um vizinho estava com a chave e abria o imóvel, evidenciando que poucos estão
realmente “abandonados”. Assim, este trabalho foi importante por revelar que uma
prática comum é deixar uma pessoa responsável pelo imóvel, o que não implica que
os imóveis não se encontrem efetivamente sem uso, independente de ter alguma
pessoa tomando conta para evitar ocupações ou outro tipo de posse.
Portanto, apesar de constituir um importante trabalho em termos de
identificação de imóveis abandonados, essa é uma ação que tem um objetivo
específico aos fins da secretaria, qual seja, o combate do vetor da dengue, e não de
planejamento urbano. Apesar de eficiente na sua missão, não pode ser considerado
como um cadastro para fins de gestão de vazios urbanos. Além disso, tampouco se
constitui em uma ação de planejamento, uma vez que concluída a atividade, não há
nenhuma outra forma de tratamento dos imóveis, mantendo-se sua condição inicial
de imóvel abandonado. Um exemplo é o imóvel da Estrada dos Três Rios, 579.
95
Figura 22 – Situação de abandono – Estrada dos Três Rios, 579 – antes da ação da CVAS/SMS
Fonte: Campo realizado em 17 de fevereiro de 2012.
Figura 23 – Manutenção do abandono – Estrada dos Três Rios, 579 – após a ação da CVAS/SMS
Fonte: Campo realizado em 7 de fevereiro de 2014.
96
Segundo a listagem de imóveis notificados, este imóvel foi visitado e
notificado em 24/07/2012, 08/08/2012 e por último em 03/09/2012. A informação
registrada na descrição do local foi a seguinte: “Entrada compulsória. Imóvel
abandonado. Mendigos invadiram o imóvel e saquearam o mesmo deixando tudo
remexido. A situação é preocupante, pois o imóvel situa-se entre uma clínica e uma
escola particular, cabendo uma intervenção do poder público. 87 depósitos
vistoriados, 2 tratados e 58 eliminados”. Como pode-se observar a partir das fotos e
da descrição, a única coisa que mudou ao longo do tempo foi que o imóvel recebeu
novas pichações e as esquadrias das janelas foram furtadas, o que revela a
necessidade de outras intervenções para combater o estado de abandono, que não
sejam apenas a ação para o combate à dengue.
3.2.5 Instituto Pereira Passos
O Instituto Pereira Passos (IPP) é o órgão da Prefeitura da Cidade do Rio de
Janeiro responsável pela manutenção da base cartográfica e pela gestão do
geoprocessamento municipal. Através de sua Diretoria de Informações da Cidade
(DIC), o Instituto realiza a coleta, análise e produção de informações, divulgadas na
forma de tabelas, mapas, estudos e aplicativos web. Uma das missões do Instituto é
promover a integração e consolidação de informações de diversas fontes, visando
produzir conhecimento para maior eficiência no planejamento, execução e
monitoramento de políticas públicas, conduzindo esses processos em parceria com
os demais órgãos da administração municipal. O IPP atua aliando a disponibilização
de uma ampla base de dados, abrangendo os diversos temas da dinâmica urbana, à
experiência no uso dessas informações para o desenho de políticas públicas.
O IPP possui uma série de aplicativos SIG web intitulados Mapas Digitais8, que
representam um esforço no sentido de agregar informações georreferenciadas de
diversas fontes, para alcançar o objetivo – juntamente com os diversos
departamentos da administração municipal – de elaboração de políticas públicas de
forma concertada, além da transparência da informação que fica disponível para o
cidadão. Entre as diversas informações disponíveis estão séries históricas de
8 Disponível em: http://portalgeo.rio.rj.gov.br
97
ortofotos, bases de logradouros, divisões administrativas, informações censitárias
(polígonos dos setores censitários e dados do Censo), equipamentos públicos como
unidades escolares e de saúde, entre outras. Através de um acesso restrito aos
departamentos municipais é possível fazer edições, atualizações e
georreferenciamento de dados cadastrais online, permitindo assim que cada
departamento faça a manutenção das suas ações (por exemplo, atividades de
vistoria e coleta de informação sobre imóveis) e intervenções (por exemplo,
georreferenciamento de novos equipamentos construídos) no território.
Ao todo já existe mais de 15 aplicativos, cada um com uma finalidade
específica, como por exemplo, o cadastro de logradouros (figura 24) e o aplicativo
de gestão de terrenos para construção de novos equipamentos (figura 25).
Figura 24 – Aplicativo Mapa Digital IPP – Cadastro de logradouros
98
Figura 25 – Aplicativo Mapa Digital IPP – Gestão de terrenos
Esses aplicativos são uma plataforma de grande potencial para gestão de
vazios urbanos, que poderiam fazer parte do aplicativo de gestão de terrenos
apresentado, tornando-o um verdadeiro instrumento para a gestão do solo urbano.
Essas ferramentas de SIG web podem ser exploradas a partir do enfoque espacial e
holístico, pois possibilitam a gestão de bases de dados geográficas e alfanuméricas,
tanto setoriais – atendendo às especificidades dos órgãos e secretarias municipais –
quanto corporativas, compartilhadas por várias secretarias. Em ambos os casos, as
bases ficam disponíveis para todas as secretarias, que dessa forma podem utilizar
não só as suas informações, quanto a de outros, para o planejamento e gestão de
suas atividades. É evidente o grande potencial da ferramenta, porém, apesar de ser
uma excelente ferramenta, não existe atualmente um aplicativo com foco sobre
gestão e vistoria de imóveis, que poderia ser utilizado para identificar características
de imóveis abandonados, atendendo à gestão de vazios urbanos.
Em geral, o que se pode concluir a partir do que se analisou em diversas
secretarias municipais é a pouca sistematização e estruturação das informações
acerca de imóveis em estado de abandono e das ocupações urbanas, tanto em
termos de sistemas de informações geográficas quanto cadastros convencionais.
99
Salvo as atividades do IPP, órgão da prefeitura responsável pela cartografia e
implantação de sistemas de geoprocessamento para suporte à ação das outras
secretarias, existe pouca experiência no trabalho com dados georreferenciados no
tratamento dos imóveis abandonados na cidade. Para a gestão e o desenvolvimento
dos vazios urbanos edificados, é importante saber onde estão, como se distribuem e
se concentram.
O que se verificaem pesquisa junto a órgãos de planejamento e de execução
de políticas públicas municipais da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro é que
apesar de alguns trabalhos e informações sobre a temática dos vazios urbanos,
constata-se a inexistência de tratamento completo sobre este tipo de vazio urbano,
seja a nível conceitual, seja a partir de um cadastro territorial georreferenciado,
completo, abrangente, preciso e atualizado para o tratamento da questão aqui
abordada. Em todos os casos verificou-se uma restrição setorial – em relação à
abordagem temática – e/ou espacial – isto é, circunscrita a uma determinada área
da cidade – o que impede uma abordagem completa e única para o planejamento.
Tampouco encontrou-se por parte da administração municipal estudos
compreensivos e sistemáticos sobre o tema, mostrando-se extremamente pontuais e
descontinuados. Esses devem ser entendidos como essenciais para ações de ampla
abrangência geográfica e de longo prazo, que não possuam limitação quanto ao
espaço geográfico e/ou sejam implementadas no curto prazo. No exemplo
demonstrado em Pagano e Bowman (2000) acerca do caso norte-americano, muitas
cidades consomem muitos recursos tentando combater os problemas relacionados
aos vazios urbanos, sejam terra livre ou edificações abandonadas. No entanto, o
tratamento sobre a regulação e gestão de vazios urbanos muitas vezes resultou em
desenvolvimento e melhorias de curto prazo, em vez de soluções de longo prazo.
Apesar do grupo de trabalho formado com representantes de várias secretarias para
o estudo da SMU, este se mostrou pontual, confirmando a tese apresentada pelos
autores de que em grandes cidades os departamentos mais envolvidos com os
vazios urbanos não se comunicam uns com os outros para comparar experiências e
realizar um “brainstorm” acerca de questões sobre a gestão dos mesmos, se
comunicando de forma contínua para aprimorar sistematicamente os processos de
100
aquisição e disposição de informações. Tal relacionamento é essencial para
programas de larga escala, maior do que intervenções pontuais em alguns imóveis,
ou circunscritos a partes da cidade. Assim, entendemos que apenas a partir de um
cadastro consolidado e bem estruturado é possível a aplicação mais inteligente de
recursos e com resultados mais exitosos.
No entanto, deve-se reconhecer a existência também de limitações estruturais,
políticas, sendo o planejamento urbano também um resultado de interesses que vão
além da eficiência técnica para o enfrentamento da questão. Apesar disso, no
âmbito do planejamento, principalmente baseado no Plano Diretor, verifica-se a
intenção de que os vazios urbanos façam parte do planejamento urbano municipal,
no sentido de reutilização desses espaços.
A legislação e políticas oferecem referência concreta de intenções, no entanto
não há instrumentos de suporte necessários para dar apoio a essas políticas de
forma adequada, fornecendo subsídio às diretrizes das políticas acerca dos vazios
urbanos. A proposta é construir estes instrumentos. O descompasso entre a teoria e
a prática coloca em evidência a necessidade de se construir uma base sobre os
vazios urbanos no Rio de Janeiro. Essa lacuna permite a proposta de uma
metodologia para classificação instrumental dos vazios urbanos, e tratamento com
uso de SIG, e mecanismos de gestão e manutenção do banco de informações.
101
4 DOMICÍLIOS VAGOS E ESTABELECIMENTOS ABANDONADOS:
METODOLOGIA DE IDENTIFICAÇÃO E MENSURAÇÃO DE VAZIOS
URBANOS EDIFICADOS PARA A CIDADE DO RIO DE JANEIRO
Conforme foi apresentado no capítulo anterior, inicialmente buscou-se a
existência de um cadastro de vazios urbanos, ou com informações que permitissem
a sua identificação, entre os cadastros de informações urbanas de órgãos
municipais. Foi realizado um levantamento junto às secretarias municipais de
Urbanismo, Habitação, Fazenda e o Instituto Pereira Passos (IPP), órgão da
Prefeitura responsável pela informação geográfica, cartográfica e estatística
municipal. Em nenhum dos órgãos verificou-se um cadastro finalizado, estruturado
para uso, completo e integrado com informações sobre os vazios urbanos, que
abrangesse toda a cidade, o que indica a dificuldade de identificação e gestão da
administração municipal sobre esse problema. Frente à dificuldade metodológica de
encontrar algum indicador a partir de registros administrativos municipais que
oferecessem indício de existência de vazio urbano, buscaram-se outras fontes.
Segundo a divisão apresentada no capítulo 2, consideramos importante a
distinção entre domicílios e estabelecimentos por questões metodológicas, com
finalidade classificatória e tendo por fim a utilidade prática para elaboração das
estratégias de planejamento e gestão, assim como a sua compreensão e explicação.
Identificou-se então a possibilidade de uso de informações do Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), produzidas no Censo Demográfico
2010. Assim, é necessário compreender quais são as categorias utilizadas pelo
IBGE nos Censos, no que diz respeito aos domicílios.
De acordo com o Censo Demográfico 2000 (IBGE, 2000), os domicílios
particulares em que não houve coleta de informações se classificam segundo as
categorias fechado, vago e de uso ocasional:
Domicílio fechado: Considerou-se como Fechado o domicílio particular ocupado cujos
moradores estavam temporariamente ausentes durante todo o período da coleta.
102
Domicílio vago: Considerou-se como Vago o domicílio particular permanente que não tinha
morador na data de referência, mesmo que, posteriormente, durante o período da coleta, tivesse sido
ocupado.
Domicílio de uso ocasional: Considerou-se como de Uso ocasional o domicílio particular
permanente que na data de referência servia ocasionalmente de moradia, ou seja, usado para
descanso de fins de semana, férias ou outro fim, mesmo que, na data de referência, seus ocupantes
ocasionais estivessem presentes.
Figura 26 – Espécies de domicílio no Censo 2000
No Censo Demográfico 2010 (IBGE, 2010), as informações foram organizadas
de forma mais categorizada, e os domicílios vagos são uma categoria de domicílios
não ocupados, juntamente com os domicílios fechados e de uso ocasional:
Domicílio particular: É a moradia onde o relacionamento entre seus ocupantes é ditado por
laços de parentesco, de dependência doméstica ou por normas de convivência.
Domicílio particular permanente: É o domicílio que foi construído a fim de servir exclusivamente
para habitação e, na data de referência, tinha a finalidade de servir de moradia a uma ou mais
pessoas.
Domicílio particular permanente ocupado: É o domicílio particular permanente que, na data de
referência, estava ocupado por moradores e no qual foi realizada a entrevista.
Domicílio particular permanente fechado: É o domicílio particular permanente que estava
ocupado na data de referência, porém não foi possível realizar a entrevista no momento da visita do
Recenseador, já que seus moradores estavam ausentes. Para estes domicílios, o IBGE utilizou uma
Particular
Coletivo
Ocupado
Não ocupado
Fechado
De uso
ocasional
Vago
103
metodologia de imputação, que se encontra descrita, adiante, no item Tratamento dos domicílios
fechados.
Domicílio particular permanente de uso ocasional: É o domicílio particular permanente que
servia ocasionalmente de moradia na data de referência, ou seja, era o domicilio usado para
descanso de fins de semana, férias ou outro fim, mesmo que, na data de referência, seus ocupantes
ocasionais estivessem presentes.
Domicílio particular permanente vago: É o domicílio particular permanente que não tinha
morador na data de referência, mesmo que, posteriormente, durante o período da coleta, tivesse sido
ocupado.
Figura 27 – Espécies de domicílio no Censo 2010Portanto, entre as várias possibilidades de categorização, como aquelas
utilizadas em estudos empíricos apresentadas no capítulo 2, como propriedade e
imóvel, optou-se pelo uso do conceito de domicílio, pois é o utilizado pelo Censo
Demográfico do IBGE, fonte de dados principal desta pesquisa.
No entanto, interessava a essa pesquisa enquanto vazios urbanos não só os
domicílios, mas todo tipo de imóvel urbano abandonado sem utilização, incluindo as
unidades não residenciais. Buscou-se então essa informação no Cadastro Nacional
de Endereços para Fins Estatísticos – CNEFE. Esse cadastro começou a ser
preparado no Censo 2000 e foi consolidado no Censo 2010, levantando todos os
endereços do País. Segundo a nota de divulgação do CNEFE, os endereços
registrados por este cadastro referem-se apenas a edificações, não sendo
Particular
Coletivo
Improvisado
Permanente
Fechado
De uso
ocasional
Ocupado
Vago
104
considerados os lotes vagos nem as edificações em ruínas sem morador. Este
aspecto é fundamental para a adequação à metodologia de identificação de vazios
urbanos edificados. Portanto, estes atendem à noção de vazios urbanos utilizada
nessa pesquisa. Pelo seu caráter massivo, recente e o fato de ter sido conferido em
campo em um curto período de tempo – na preparação que antecedeu o Censo –
apresentou-se como um bom cadastro a ser utilizado.
O CNEFE identifica o endereço a partir dos seguintes componentes:
logradouro, número, complemento, localidade e ponto de referência. A identificação
sobre a categoria de utilização do endereço é feita a partir das seguintes espécies:
(1) Domicílio Particular, (2) Domicílio Coletivo (hotéis, alojamentos, asilos, etc.), (3)
Estabelecimento Agropecuário, (4) Estabelecimento de Ensino, (5) Estabelecimento
de Saúde, (6) Estabelecimento de Outras Finalidades e (7) Edificação em
Construção.
No caso de um mesmo endereço possuir mais de uma espécie – por exemplo,
ao mesmo tempo ser a residência (1 – Domicílio Particular) e um salão de beleza (7
–Estabelecimento de Outras Finalidades) – serão representados como mais de um
registro na tabela do CNEFE, cada linha correspondendo a uma espécie identificada
para o mesmo endereço.
Outra questão metodológica importante é que no Censo 2010 as edificações
totalmente voltadas para fins não residenciais, mesmo possuindo muitas unidades
(por exemplo, um prédio exclusivamente comercial), foram registradas em apenas
uma linha na tabela, como apenas um único endereço. Nesse caso, é possível
identificar a existência de mais de uma unidade na coluna “indicador de endereço”
preenchida com o valor “múltiplo”.
A indicação de vazios urbanos foi buscada na informação sobre a identificação
do estabelecimento. Vale ressaltar que os domicílios vagos também estão listados
no CNEFE, porém apenas identificados como espécie “1” (Domicílio Particular) ou
“2” (Domicílio Coletivo), o que demandou a solicitação da tabela com identificação
dos domicílios vagos, fornecida pelo IBGE para esta pesquisa.
105
Deve-se enfatizar que o Censo é um retrato, não constituindo em uma base de
acompanhamento dos vazios, embora sirva de recurso para um diagnóstico da
situação atual.
Ambas as bases foram disponibilizadas em bases de dados alfanuméricos e
sobre elas tiveram que ser feitos procedimentos para que pudessem ser
georreferenciados e analisados com geoprocessamento, utilizando-se ferramentas
de SIG, que serão detalhados a seguir, separadamente pelas suas peculiaridades.
Os softwares utilizados para consultas e filtros dos bancos de dados alfanuméricos
foram o Microsoft SQL Server 2008 e o Microsoft Access 2007. Para estruturação do
SIG, utilizou-se o software ESRI ArcGIS 10.1.
4.1 Domicílios vagos
É importante o entendimento conceitual das categorias apresentadas
anteriormente sobre domicílios vagos, segundo as definições do Censo 2010, para
saber o que foi incluído na presente análise de vazios urbanos a partir desses
dados.
Para este trabalho, não se considerou os domicílios coletivos, pois estes não
são identificados como vagos. O domicílio coletivo, segundo a definição do Censo
2010, “é uma instituição ou estabelecimento onde a relação entre as pessoas que
nele se encontravam, moradoras ou não, na data de referência, era restrita a normas
de subordinação administrativa”.
A espécie de domicílios ocupados fechados inclui aqueles onde não foi
possível realizar entrevista, por exemplo, pela ausência dos moradores no período
do recenseamento, mas por meio de informações e evidências sabe-se da
existência de moradores. Nesses casos, após terminar a coleta e as supervisões de
campo, o IBGE utilizou uma metodologia para estimar o número de pessoas
residentes, atribuindo a cada domicílio fechado o número de moradores de outro
domicílio, que havia sido inicialmente considerado fechado e depois foi recenseado.
Essa estimativa foi utilizada pela primeira vez pelo IBGE no Censo 2010. Os
domicílios não ocupados de uso ocasional são aqueles que servem ocasionalmente
106
de moradia, em fins de semana, férias ou outra finalidade. Os domicílios não
ocupados vagos são aqueles que não tinham morador na data de referência do
Censo 2010 (noite de 31 de julho para 1º de agosto de 2010), mesmo que,
posteriormente, durante o período da coleta, tivessem sido ocupados. Segundo
a nota técnica divulgada pelo IBGE, prédios construídos, mas ainda não habitados,
unidades residenciais colocadas à venda, aluguel ou abandonadas são exemplos de
domicílios vagos. Pode-se perceber como esta definição é abrangente e complexa,
pois inclui situações diversas, considerando na mesma categoria como vagos tanto
imóveis antigos que já tiveram moradores e atualmente encontram-se sem ocupação
quando imóveis recém-lançados ainda sem moradores, ambos podendo estar
inclusive envolvidos na dinâmica imobiliária, sendo disponibilizados para aluguel ou
venda, ou, no caso contrário, simplesmente abandonados sem qualquer iniciativa de
inserção na dinâmica imobiliária da cidade. Assim, são considerados como
domicílios vagos aqueles existentes em setores censitários correspondentes a
alguns grandes empreendimentos imobiliários que não tinham sido ocupados no
Censo 2010.
A informação sobre domicílios vagos totais por setor faz parte da divulgação
dos dados do Censo 2010 do IBGE. Essa informação foi divulgada pelo IBGE,
porém agregada por setores censitários, sem identificação dos endereços dos
domicílios. Assim, foi solicitada a informação diretamente ao IBGE, que cedeu para
esse estudo a tabela contendo todos os endereços identificados como domicílios
vagos pelo Censo 2010. Mas para o detalhamento a partir de endereços dos
domicílios vagos, utilizou-se a base de endereços fornecida pelo IBGE que continha
essa especificação. Foram recebidas, em outubro de 2011, planilhas no formato
Excel, divididas por subdistritos do IBGE, com o seguinte dicionário de espécies: 01=
Domicílio Particular Permanente Ocupado; 02= Domicílio Particular Permanente Não
Ocupado - Fechado ; 03= Domicílio Particular Permanente Não Ocupado - Uso
Ocasional; 04= Domicílio Particular Permanente Não Ocupado – Vago; 05=
Domicílio Particular Improvisado Ocupado; 06= Domicílio Coletivo com Morador; 07=
Domicílio Coletivo sem Morador; 08= Estabelecimento Agropecuário; 09=
Estabelecimento de Ensino; 10= Estabelecimento de Saúde; 11= Estabelecimentos
de Outras Finalidades; e 12= Edificação em Construção.
107
Importando-se a tabela para o Microsoft Access 2007, utilizou-se uma consulta
para criação de uma nova tabela, a partir do filtro pelo campo de espécie de
domicílio, usando como critério “04= Domicílio Particular Permanente Não Ocupado
– Vago”. A figura 28 apresenta um exemplo de visualização da tabela produzida.
Figura 28 – Tela do Microsoft Access 2007 exibindo a tabela de domicílios vagos– IBGE 2010
A partir desse filtro, a nova tabela, com os domicílios vagos, totalizou 193.639
registros.
Os campos da tabela indicam o setor censitário onde o domicílio se localiza, o
logradouro (dividido nos campos tipo, título e nome), o número e os complementos
de numeração que podem ser encontrados no endereço. Exemplos de complemento
são: casa, frente, fundos, sobrado, apartamento, bloco, sendo que os complementos
podem estar distribuídos em diferentes campos, por exemplo, bloco 1 apartamento
101.
A partir da informação sobre o setor censitário, foi possível uma primeira
aproximação sobre a distribuição espacial dos domicílios vagos na cidade do Rio de
Janeiro. Por meio de uma consulta de totais, agrupou-se a soma de domicílios vagos
encontrados em cada um dos 10.504 setores censitários do Censo 2010. A partir
108
daí, foi gerada a informação de total de domicílios vagos para cada setor censitário.
Por meio de um join da tabela contendo os totais de domicílios vagos por setor
censitário com a base georreferenciada de setores censitários, pela chave código do
setor, foi possível ver sua distribuição no mapa da cidade.
As figuras 29 e 30 apresentam a informação de domicílios vagos por setor
censitário.
Figura 29 – Domicílios vagos por setor censitário (2010)
109
Figura 30 – Domicílios vagos por setor censitário (2010) (polígonos)
Dada a definição das Regiões de Planejamento, pelo Plano Diretor de
Desenvolvimento Urbano Sustentável do Rio de Janeiro, como regionalidade criada
para a organização de informações e integração dos órgãos municipais na
implementação das políticas setoriais, os mapas foram gerados agregando os
setores censitários pelos limites das Regiões de Planejamento. A visualização da
informação sobre domicílios vagos e estabelecimentos abandonados no nível de RP
permite, portanto, a compreensão do fenômeno na escala adotada no Plano Diretor
para implementação de políticas públicas setoriais.
O IBGE trabalha com a orientação de que os limites dos setores censitários
devem coincidir com os limites de bairros, quando definidos pelo município,
enquanto o Plano Diretor do Rio de Janeiro também define, no capítulo III – “da
Ordenação para o Planejamento”, que os limites administrativos da Prefeitura devem
estar sempre adequados aos limites dos setores censitários. Tal compatibilização
permitiu a fácil agregação dos resultados por setores para os recortes de maior
110
amplitude geográfica, a partir da soma destes, sendo distribuídos pelas regiões de
planejamento conforme apresentado na tabela 5 e na figura 31.
Tabela 5 – Domicílios Particulares Permanentes Vagos por Região de Planejamento
RP
Domicílios Particulares
Permanentes Vagos
1.1 - Centro 8.996
2.1 - Zona Sul 21.447
2.2 - Tijuca 9.506
3.1 - Ramos 3.882
3.2 - Méier 13.119
3.3 - Madureira 16.656
3.4 - Inhaúma 3.795
3.5 - Penha 8.367
3.6 - Pavuna 8.136
3.7 - Ilha do Governador 3.293
4.1 - Jacarepaguá 20.317
4.2 - Barra da Tijuca 17.393
5.1 - Bangu 16.675
5.2 - Campo Grande 21.708
5.3 - Santa Cruz 13.628
5.4 - Guaratiba 6.721
TOTAL 193.639
Fonte: IBGE, 2010.
111
Figura 31 – Domicílios vagos por Região de Planejamento (2010)
Apenas considerando essa informação, pode-se perceber que em relação às
regiões com menor quantidade de domicílios vagos, existe uma concentração
naquelas que também são as menores em tamanho: Inhaúma, Ramos e Ilha do
Governador. As maiores quantidades encontram-se distribuídas em regiões com
perfil variado, como a Zona Sul e a Zona Oeste.
Buscando maior refinamento na análise geográfica, procurou-se a localização
exata dos endereços no mapa da cidade, em detalhe maior do que o total por setor
censitário. Isso foi possível a partir do geocoding (geocodificação) dos endereços do
banco de dados pelo SIG. A geocodificação é o processo de georreferenciamento de
uma informação alfanumérica, atribuindo uma localização, por meio das
coordenadas geográficas X e Y de um ponto, a partir dos atributos descritivos de
endereços em uma tabela.
Para o funcionamento da ferramenta de geocodificação, é necessário criar
primeiro um address locator (localizador de endereço), que é a referência espacial
112
para os endereços que serão geocodificados, por meio de bases espaciais de
logradouros, números de porta e CEP, entre outras. O endereço pode ser localizado
tanto pelo número de porta, quando há coincidência total entre o endereço
informado na tabela e o endereço na base de número de porta usada como
referência espacial, quanto pelo trecho de logradouro, quando o endereço não existe
na base de número de porta, mas é encontrado o seu CEP ou efetua-se a
interpolação entre o número inicial e final informado na tabela de logradouro para
estimar a posição do endereço da tabela. Para o localizador de endereços, foram
utilizadas as bases do IPP possuindo as informações de logradouros (com
respectivo CEP) e números de porta. Os campos da tabela com conteúdos
necessários para georreferenciamento por geocodificação foram, portanto, os de
nome do logradouro, número e CEP. A concatenação dos campos logradouro e
número permitiram a consolidação em um campo do endereço, necessário para o
funcionamento da ferramenta. Para a criação e alimentação de um campo de CEP,
que não existia na tabela enviada pelo IBGE, foi feita uma consulta comparativa com
o CNEFE, que possuía essa informação.
Na tabela do CNEFE, o endereço do imóvel se encontra dividido no campos
TIPO, TÍTULO, NOME e NUMERO, além dos campos de complemento que não
foram utilizados pois o geocode do IPP não utiliza. Por exemplo, TIPO=AVENIDA,
TÍTULO=PRINCESA, NOME=ISABEL e NUMERO=263. Para utilizar na ferramenta
de geocodificação, foi criado um campo “Endereço”, onde se concatenou essas
informações nesse campo, por exemplo: “AVENIDA PRINCESA ISABEL, 263”.
Preparada a tabela, foi então utilizada a ferramenta, a partir da qual foi obtido o
seguinte resultado:
Encontrados: 130.577 (67%)
Encontrados com dúvidas: 32.043 (17%)
Não encontrados: 31.019 (16%)
Aqueles classificados como encontrados são os casos em que o endereço da
tabela teve coincidência total com um ponto no mapa. No caso de encontrados com
dúvidas, tem-se os endereços que, por informações incompletas na tabela ou
duplicidades na base espacial de referência, são encontrados vários candidatos
113
possíveis para um mesmo endereço, e escolhido um desses pontos no mapa para
representar o endereço. Os endereços não encontrados são aqueles cuja referência
da tabela não foi encontrada nas bases geográficas, ou que continham informações
conflitantes, por exemplo, CEP e logradouro inconsistentes. Ao todo, foram criados
98.123 pontos de diferentes coordenadas X e Y no mapa, uma vez que em vários
casos os endereços – considerados a partir do seu logradouro e número de porta –
possuíam complemento (por exemplo, apartamentos) que possuíam as mesmas
coordenadas geográficas, portanto pontos coincidentes ou sobrepostos. Esta é uma
característica do cadastro 2D, onde a localização é feita por um par de coordenadas,
ao passo que os cadastros 3D utilizam-se de uma terceira coordenada Z (altura).
A figura 32 apresenta um exemplo da geocodificação dos endereços de
domicílios vagos. O recurso do Google Street View foi acrescentado por meio de um
add-in9.
Figura 32 – Tela do ArcGIS 10.1 exemplificando a geocodificação de endereço de domicílio vago
9 http://www.arcgis.com/home/item.html?id=7508d2ce2fbe4485bebc57f9fe621b71
114
4.2 Estabelecimentos abandonados
O CNEFE foi utilizado pelo trabalho para localizar os vazios urbanos que não
são domicílios, mas estabelecimentos, complementando o que foi feito para os
domicíliosvagos. No entanto, diferentemente deste cadastro, o CNEFE não possui
uma espécie ou categoria específica para os estabelecimentos que constituiriam
vazios urbanos. As espécies de endereços do CNEFE são as seguintes: 1 -
Domicílio Particular; 2 - Domicílio Coletivo (hotéis, alojamentos, asilos, etc.); 3 -
Estabelecimento Agropecuário; 4 - Estabelecimento de Ensino; 5 - Estabelecimento
de Saúde; 6 - Estabelecimentos de Outras Finalidades; 7 - Edificação em
Construção. Uma nota importante divulgada pelo IBGE é a de que os endereços
registrados referem-se a edificações, não sendo considerados os lotes vagos nem
as edificações em ruínas sem morador, isto é, não são considerados endereços pelo
levantamento nem os terrenos vagos por um lado, nem as edificações abandonadas
em ruínas sem ocupantes, por outro.
O CNEFE está disponível para download no site do IBGE, em arquivos
separados para cada subdistrito dos estados da federação, divulgado em dezembro
de 2011, no formato de documentos de texto. A base de dados foi importada para o
Microsoft SQL Server 2008, com a separação dos campos e seus conteúdos. Ao
todo, a base do CNEFE possui 2.673.469 endereços para toda a cidade do Rio de
Janeiro. A figura 33 apresenta a tela com a tabela importada.
115
Figura 33 – Tela do Microsoft SQL Server 2008 exibindo a base de dados do CNEFE
Conforme mencionado, não havia nenhuma categoria específica na espécie de
endereço para identificar os vazios urbanos, dessa forma foi necessário pesquisar
por esse tipo dentro daqueles endereços das categorias estabelecimento
agropecuário, de ensino, de saúde e de outras finalidades. Procedeu-se então a
uma análise do campo de identificação do estabelecimento. A partir de entrevista
com Antonio Jorge Teixeira, do IBGE – Unidade Estadual Rio de Janeiro, foi
explicado que este campo é do tipo texto, preenchido livremente pelo recenseador,
conforme a verificação visual e sua interpretação sobre o estabelecimento, e não
existe um treinamento específico para a equipe da coleta a respeito de formas de
preenchimento ou alguma padronização. Assim, este campo encontra-se preenchido
com centenas de diferentes textos, como, por exemplo, bar, salão de beleza, loja, e
entre estes, abandonado, vazio, e outros termos que oferecem indício de tratar-se
de vazios urbanos, como apresentado na figura 34.
116
Figura 34 – Tabela do CNEFE com registro contendo o campo de identificação do estabelecimento
preenchido como “vazio”
Manualmente, procedeu-se com uma leitura exaustiva desse campo buscando
um padrão de formas de preenchimento para indicação de vazios urbanos. Foi
criada então uma consulta (query) buscando os diversos termos encontrados e suas
variantes, considerando inclusive casos com erros de grafia, mas com a mesma
indicação, para abarcar a maior quantidade possível de resultados. Os termos
incluídos na consulta e suas variantes foram: abandonado, em abandono,
desativado, vago, vazio, fechado, antigo, falido, inativo, sem atividade, sem
funcionamento, sem ocupação, sem uso, sem utilização, ruína. Uma das
dificuldades foi a falta de padronização no preenchimento do campo
estabelecimento. Por ser um campo do questionário aberto e sem uma regra ou
orientação de procedimento a adotar, a consistência se reduz, à medida que um
imóvel com as mesmas características, ou características muito semelhantes,
podem ser identificadas de formas muito variadas. Por exemplo, entre os resultados
encontra-se informações como "bar fechado", "birosca vaga", "boteco abandonado".
Além disso, temos ciência que a situação de abandono pode nem mesmo ter sido
registrada, anotando-se apenas o tipo de estabelecimento.
117
Com essa consulta e filtro dos endereços para as espécies de
estabelecimentos (espécies 4, 5 e 6), chegou-se ao resultado para estabelecimentos
abandonados. A figura 35 apresenta um exemplo com alguns registros encontrados
a partir dessa consulta.
Figura 35 – Listagem de endereços de estabelecimentos do CNEFE identificados como abandonados
Foi encontrado um total de 10.072 imóveis. As figuras 36 e 37 apresentam a
distribuição dos estabelecimentos abandonados por setor censitário, a partir do join
entre a tabela e os setores censitários, pelo código de setor.
118
Figura 36 – Estabelecimentos abandonados por setor censitário
Figura 37 – Estabelecimentos abandonados por setor censitário (2010) (polígonos)
119
A tabela 6 e a figura 38 apresentam o resultado, agrupado por Região de
Planejamento, com a mesma metodologia da que foi utilizada para os domicílios
vagos.
Tabela 6 – Estabelecimentos abandonados por Região de Planejamento
RP Estabelecimentos abandonados
1.1 - Centro
1.127
2.1 - Zona Sul
568
2.2 - Tijuca
425
3.1 - Ramos
665
3.2 - Méier
881
3.3 - Madureira
1.123
3.4 - Inhaúma
284
3.5 - Penha
650
3.6 - Pavuna
316
3.7 - Ilha do Governador
119
4.1 - Jacarepaguá
551
4.2 - Barra da Tijuca
139
5.1 - Bangu
1.062
5.2 - Campo Grande
1.221
5.3 - Santa Cruz
756
5.4 - Guaratiba
185
TOTAL
10.072
120
Figura 38 – Estabelecimentos abandonados por Região de Planejamento
Em uma aproximação inicial, pode-se perceber a concentração de
estabelecimentos abandonados na região central, além de Madureira, Bangu e
Campo Grande. Diferente do verificado no caso dos domicílios vagos, algumas
regiões menores em área, como Ramos, possuem grande quantidade de
estabelecimentos abandonados.
As ações da SMU e SMH na parte de cadastro, apresentadas no capítulo
anterior, possuem uma nítida concentração territorial – o primeiro, nas regiões da
Zona Norte de Ramos e Penha, o segundo, na região do Centro. A análise espacial
permite constatar que os estudos são realizados em áreas com importante
concentração de estabelecimentos abandonados. Porém, percebe-se que a maior
quantidade é encontrada nas regiões de Madureira, Bangu e Campo Grande. Essa é
uma importante constatação preliminar para mostrar que por vezes as políticas
estão voltadas para as áreas que não necessariamente são as mais críticas. Em
geral, as propostas de requalificação e renovação urbana se voltam para as áreas
mais centrais, tanto através de políticas públicas quanto por estudos, mas em certos
121
casos outras áreas da cidade merecem atenção. No caso de habitação, é justificada
pela necessidade de proximidade ao centro.
Também foi utilizada a ferramenta de geocodificação para a localização precisa
desses endereços, por pontos, com o seguinte resultado:
Encontrados: 6.719 (67%)
Encontrados com dúvidas: 2.086 (21%)
Não encontrados: 1.267 (12%)
Este resultado é exemplificado na figura 23.
Figura 39 – Tela do ArcGIS 10.1 exemplificando a geocodificação de endereço de estabelecimento
abandonado
Para os estabelecimentos abandonados, foi possível também a localização por
face de quadra, disponível no CNEFE (figura 40).
122
Figura 40 – Indicação de quadra e face de endereços de estabelecimentos abandonados no CNEFE
A base geográfica do IBGE possuía 185.538 registros, porém havia casos em
que dois desenhos diferentes possuíam mesmo código de setor, quadra e face. Com
a agregação desses casos, chegou-se a um total de 145.054 faces geográficas.
Do total dos 210.276 estabelecimentos levantados pelo CNEFE, 179.880
tiveram coincidência com face geográfica. Para os 10.072 estabelecimentos
abandonados, 9.402 tiveram coincidência com face geográfica. Assim, foi possível
para esses casos localizar a face e mapear a partir dessa escala, conforme
apresentado na figura 41.
123
Figura 41 – Estabelecimentosabandonados por face de quadra
4.3 Resultado final: vazios urbanos edificados
Conforme a metodologia apresentada, consideramos como vazios urbanos
edificados a soma dos domicílios vagos e estabelecimentos abandonados. A tabela
7 apresenta a síntese dos valores encontrados por Região de Planejamento, que
somados resultam na informação total sobre vazios urbanos na cidade.
124
Tabela 7 – Total de vazios urbanos por Região de Planejamento
RP
Domicílios
Particulares
Permanentes
Vagos Estabelecimentos abandonados
Total de
vazios
urbanos
1.1 - Centro 8.996 1.127 10.123
2.1 - Zona Sul 21.447 568 22.015
2.2 - Tijuca 9.506 425 9.931
3.1 - Ramos 3.882 665 4.547
3.2 - Méier 13.119 881 14.000
3.3 - Madureira 16.656 1.123 17.779
3.4 - Inhaúma 3.795 284 4.079
3.5 - Penha 8.367 650 9.017
3.6 - Pavuna 8.136 316 8.452
3.7 - Ilha do Governador 3.293 119 3.412
4.1 - Jacarepaguá 20.317 551 20.868
4.2 - Barra da Tijuca 17.393 139 17.532
5.1 - Bangu 16.675 1.062 17.737
5.2 - Campo Grande 21.708 1.221 22.929
5.3 - Santa Cruz 13.628 756 14.384
5.4 - Guaratiba 6.721 185 6.906
TOTAL 193.639 10.072 203.711
Em termos absolutos, verifica-se que para algumas regiões de planejamento
não há grande correlação entre o total de domicílios vagos e estabelecimentos
abandonados por RP, isto é, a quantidade de domicílios vagos pelas RPs não é
diretamente proporcional à quantidade de estabelecimentos vagos nas mesmas. A
tabela 8 permite verificar esse aspecto.
125
Tabela 8 – Ranking das RPs por total de domicílios vagos e estabelecimentos abandonados
Ranking geral RP Ranking total de domicílios vagos
Ranking total de
estabelecimentos
abandonados
1ª 5.2 - Campo Grande 1ª 1ª
2ª 3.3 - Madureira 6ª 3ª
3ª 5.1 - Bangu 5ª 4ª
4ª 2.1 - Zona Sul 2ª 9ª
5ª 1.1 - Centro 10ª 2ª
6ª 3.2 - Méier 8ª 5ª
7ª 4.1 - Jacarepaguá 3ª 10ª
8ª 5.3 - Santa Cruz 7ª 6ª
9ª 3.5 - Penha 11ª 8ª
10ª 4.2 - Barra da Tijuca 4ª 15ª
11ª 2.2 - Tijuca 9ª 11ª
12ª 3.1 - Ramos 14ª 7ª
13ª 3.6 - Pavuna 12ª 12ª
14ª 5.4 - Guaratiba 13ª 14ª
15ª 3.4 - Inhaúma 15ª 13ª
16ª 3.7 - Ilha do Governador 16ª 16ª
Os principais exemplos são as regiões do Centro e Ramos (maior quantidade
de estabelecimentos abandonados em relação a domicílios vagos) e as regiões da
Zona Sul, Barra da Tijuca e Jacarepaguá (maior quantidade de domicílios vagos em
relação a estabelecimentos abandonados). Essa diferenciação de perfil é essencial
para definição de políticas adequadas para solução do problema dos vazios
urbanos.
A quantidade de domicílios vagos é muito maior, indicando uma maior
facilidade enquanto considerada a possibilidade de aproveitamento para uso
habitacional.
126
Figura 42 – Total de vazios urbanos por Região de Planejamento
O mapa se assemelha ao de domicílios vagos, com as mesmas áreas em
destaque. Fica evidenciada assim, comparativamente, a diferença na ordem de
grandeza, tendo os domicílios vagos um peso muito maior do que os
estabelecimentos abandonados, considerando-se os valores totais absolutos de
cada espécie. A figura 43 apresenta com clareza essa diferença.
127
Figura 43 – Vazios urbanos por Região de Planejamento segundo espécie
Mesmo nas regiões com maior proximidade entre as quantidades totais, os
estabelecimentos abandonados não chegam a 20%, em Ramos, e 15%, no Centro,
da quantidade total dos domicílios vagos.
As diversas escalas cartográficas apresentadas neste capítulo para as quais as
informações foram produzidas permitem a análise dos vazios urbanos edificados em
diferentes escalas analíticas: Região de Planejamento, setores censitários
(polígonos), faces de quadra (linha) e número de porta geocodificado (ponto). Cada
uma das quatro escalas cartográficas utilizadas se mostra adequada a uma escala
de análise. Para procurar um imóvel (ponto), definir uma diretriz urbana (RP),
microescala para definição de uma política local (setor) ou análise segundo efeito de
variáveis de proximidade imediata (faces).
Essas diferentes escalas também representam diferentes níveis de políticas, da
mais local à mais global, para o município do Rio de Janeiro. A caracterização a
nível mais desagregado, por setor censitário, é importante na elaboração de
128
estratégias de planejamento urbano, para a identificação das áreas de intervenção.
O georreferenciamento dos vazios urbanos através de pontos permite localização
precisa para a intervenção, tratando do imóvel que será alvo da atuação municipal.
As figuras 44 a 47 apresentam essas escalas, utilizando como exemplo os
estabelecimentos abandonados da região de planejamento de Madureira.
Figura 44 – Escalas de análise: Região de Planejamento e setores censitários (polígonos)
129
Figura 45 – Escalas de análise: Setores censitários (polígonos) e endereços geocodificados (pontos)
Figura 46 – Escalas de análise: Endereços geocodificados (pontos) e faces de quadra (linhas)
130
Figura 47 – Escalas de análise: Endereços geocodificados (pontos) e faces de quadra (linhas)
(detalhe)
O georreferenciamento por número de porta é essencial para saber onde
dentro do setor estão localizados os vazios? Estão concentrados ou dispersos? Tais
respostas são essenciais para o melhor conhecimento e abordagem necessária
sobre o problema.
131
5 VAZIOS URBANOS NA CIDADE DO RIO DE JANEIRO:
RESULTADOS E ANÁLISES
Neste capítulo, será feita uma análise sobre os resultados produzidos a partir
das bases do IBGE na geração da informação sobre vazios urbanos no Rio de
Janeiro. Primeiramente, avaliaremos a metodologia utilizada a partir de um controle
de qualidade desses resultados, por meio de uma validação dos mesmos. Depois,
será feita uma análise comparativa entre os Censos 2000 e 2010, de forma a avaliar
as mudanças nos últimos 10 anos sobre a sua distribuição espacial. Por fim,
buscaremos analisar mais detalhadamente os resultados, a partir das características
“internas” dos vazios urbanos – os seus tipos – e das características “externas” – isto
é, sua relação com outras variáveis do entorno, através do seu cruzamento com
outras bases em SIG – para que possamos tecer algumas hipóteses e conclusões
em relação aos aspectos geográficos, como físicos, sociais, habitacionais,
urbanísticos, ambientais, paisagísticos, jurídicos, políticos e econômicos da
distribuição espacial dos vazios urbanos na cidade.
5.1 Validação e controle de qualidade dos resultados
Uma vez que se pretende que a informação gerada seja utilizada para
análises que subsidiem o planejamento e gestão sobre os imóveis, torna-se
relevante uma análise sobre o controle de qualidade dos resultados gerados no
trabalho de georreferenciamento dos vazios urbanos.
Dada a grande massa de dados, não foi possível uma validação em campo
em relação à qualidade da informação do IBGE, no que diz respeito à listagem de
domicílios vagos e, sobretudo, à listagem de endereços aqui classificados como
abandonados com base no preenchimento do CNEFE. Para validar os dados,
portanto, foram feitas análises e cruzamento de informações do próprio banco, para
verificar a sua consistência.
132
5.1.1 Problematização da categoria domicílios vagos
Conforme apresentado anteriormente, a definição de domicílio vago pelo
IBGE é ampla e inclui tanto situações que por definição atendem ao que nos
referimos no capítulo conceitual como vazios urbanos, como também inclui casos de
empreendimentos imobiliários lançados recentemente ainda não ocupados.
Estudou-se então de que forma esses casos poderiam ser identificados para em
seguida avaliar o impacto sobre o total de domicílios vagos informados pelo Censo e
a possibilidade de desconsiderá-los nas análises.
Utilizando os dados do Censo, levantou-sea hipótese de que esses casos de
lançamentos imobiliários ainda não ocupados seriam identificáveis através da
verificação dos casos em que havia domicílios vagos e não havia população
residente. No Censo, nos casos em que durante a pré-coleta verifica-se imóveis em
construção com número de unidades conhecido, é feito o cadastramento do número
de unidades (domicílios), para poder fazer a divisão dos setores quando necessário
e compor corretamente a estimativa de unidades a visitar durante o recenseamento.
Porém, nem sempre durante a coleta essas unidades já se encontram ocupadas,
gerando esses casos ora relatados. Foi feita a apuração tanto para os dados do
Censo 2010 quanto para o Censo 2000. Identificou-se 43 setores censitários com
essa situação em 2010 e 8 setores censitários com essa situação em 2000,
apresentados na figura 48.
133
Figura 48 – Setores censitários sem população com domicílios vagos
A tabela 9 apresenta a lista dos setores censitários de 2010 com essa
característica.
Tabela 9 – Lista de setores censitários (2010) sem população com domicílios vagos
Código do setor 2010 RP Bairro
Quantidade
de
domicílios
vagos
330455705070010 1.1 - Centro Centro 1
330455705120121 1.1 - Centro Vasco da Gama 3
330455705120126 1.1 - Centro São Cristóvão 3
330455705120127 1.1 - Centro Vasco da Gama 1
330455705260010 1.1 - Centro Paquetá 3
330455705260011 1.1 - Centro Paquetá 5
330455705170601 3.2 - Méier Engenho de Dentro 257
330455705170602 3.2 - Méier Engenho de Dentro 269
330455705170603 3.2 - Méier Engenho de Dentro 256
134
330455705170604 3.2 - Méier Engenho de Dentro 226
330455705170629 3.2 - Méier Cachambi 136
330455705190298 3.3 - Madureira Irajá 361
330455705190299 3.3 - Madureira Vila da Penha 304
330455705200537 3.3 - Madureira Quintino Bocaiúva 298
330455705300072 3.6 - Pavuna Acari 4
330455705300286 3.6 - Pavuna Acari 10
330455705300290 3.6 - Pavuna Pavuna 2
330455705250278 3.7 - Ilha do Governador Cidade Universitária 1
330455705250318 3.7 - Ilha do Governador Cidade Universitária 5
330455705250335 3.7 - Ilha do Governador Moneró 6
330455705290409 4.2 - Barra da Tijuca Recreio dos Bandeirantes 1
330455705290431 4.2 - Barra da Tijuca Itanhangá 2
330455705290443 4.2 - Barra da Tijuca Vargem Grande 2
330455705290444 4.2 - Barra da Tijuca Vargem Grande 1
330455705220616 5.1 - Bangu Gericinó 1
330455705230393 5.2 - Campo Grande Inhoaíba 3
330455705230584 5.2 - Campo Grande Cosmos 213
330455705230585 5.2 - Campo Grande Cosmos 243
330455705230666 5.2 - Campo Grande Campo Grande 301
330455705230667 5.2 - Campo Grande Campo Grande 224
330455705230668 5.2 - Campo Grande Campo Grande 196
330455705230680 5.2 - Campo Grande Campo Grande 262
330455705230681 5.2 - Campo Grande Campo Grande 291
330455705230683 5.2 - Campo Grande Campo Grande 215
330455705230684 5.2 - Campo Grande Campo Grande 204
330455705230716 5.2 - Campo Grande Campo Grande 269
330455705230717 5.2 - Campo Grande Campo Grande 282
330455705230718 5.2 - Campo Grande Campo Grande 262
330455705230836 5.2 - Campo Grande Campo Grande 396
330455705240635 5.3 - Santa Cruz Santa Cruz 1
330455705310056 5.4 - Guaratiba Guaratiba 1
330455705310077 5.4 - Guaratiba Guaratiba 1
330455705310191 5.4 - Guaratiba Pedra de Guaratiba 38
A tabela 10 apresenta os resultados por RP.
135
Tabela 10 – Total de domicílios vagos em setores com população (2010) por Região de Planejamento
RP
Total de domicílios
vagos (2010)
Total de domicílios vagos em
setores com população Diferença
1.1 - Centro 8.996 8.980 0,18%
2.1 - Zona Sul 21.447 21.447 0,00%
2.2 - Tijuca 9.506 9.506 0,00%
3.1 - Ramos 3.882 3.882 0,00%
3.2 - Méier 13.119 11.975 8,72%
3.3 - Madureira 16.656 15.693 5,78%
3.4 - Inhaúma 3.795 3.795 0,00%
3.5 - Penha 8.367 8.367 0,00%
3.6 - Pavuna 8.136 8.120 0,20%
3.7 - Ilha do Governador 3.293 3.281 0,36%
4.1 - Jacarepaguá 20.317 20.317 0,00%
4.2 - Barra da Tijuca 17.393 17.387 0,03%
5.1 - Bangu 16.675 16.674 0,01%
5.2 - Campo Grande 21.708 18.347 15,48%
5.3 - Santa Cruz 13.628 13.627 0,01%
5.4 - Guaratiba 6.721 6.681 0,60%
As RPs com maior diferença se consideramos ou não esses domicílios são:
3.2 – Méier, 3.3 – Madureira e 5.2 – Campo Grande. Buscou-se analisar alguns
casos com o uso de ortofotos do ano de 2010, apresentados nas figuras 49 a 51.
136
Figura 49 – Setores censitários 2010 sem população com domicílios vagos: condomínio Arena Park
(Avenida Dom Hélder Câmara, 6.001) em construção
Figura 50 – Setores censitários 2010 sem população com domicílios vagos: Condomínio Villaggio
Irajá (Estrada da Água Grande, 150) em construção
137
Figura 51 – Setores censitários 2010 sem população com domicílios vagos: Rua Itaúnas, 201, lotes
101, 201 e 401 em construção
Com a comparação com a ortofotos de 2010, produzida pelo IPP a partir de
voos realizados no mesmo período da coleta do Censo, é possível concluir que se
trata de grandes empreendimentos que, ainda que não ocupados quando se realizou
a coleta, já estavam finalizados, e cujos domicílios já foram contabilizados pelo
IBGE.
Para o Censo 2000, 8 setores censitários foram identificados nessa situação,
sendo a relação apresentada na tabela 11.
Tabela 11 – Lista de setores censitários (2000) sem população com domicílios vagos
Código do setor 2000 RP
Quantidade de
domicílios vagos
330455705210182 4.1 - Jacarepaguá 336
330455705290022 4.2 - Barra da Tijuca 432
330455705290023 4.2 - Barra da Tijuca 360
330455705290024 4.2 - Barra da Tijuca 362
330455705290025 4.2 - Barra da Tijuca 432
330455705290198 4.2 - Barra da Tijuca 252
330455705230387 5.2 - Campo Grande 360
330455705230388 5.2 - Campo Grande 360
138
A tabela 12 apresenta os resultados por RP para o ano de 2000.
Tabela 12 – Total de domicílios vagos em setores com população (2000) por Região de Planejamento
RP
Total de
domicílios vagos
(2000)
Total de domicílios vagos
em setores com população Variação
1.1 - Centro 13.182 13.182 0,00%
2.1 - Zona Sul 27.376 27.376 0,00%
2.2 – Tijuca 13.445 13.445 0,00%
3.1 - Ramos 8.683 8.683 0,00%
3.2 – Méier 17.223 17.223 0,00%
3.3 - Madureira 20.445 20.445 0,00%
3.4 - Inhaúma 6.409 6.409 0,00%
3.5 – Penha 10.725 10.725 0,00%
3.6 - Pavuna 10.463 10.463 0,00%
3.7 - Ilha do Governador 7.103 7.103 0,00%
4.1 - Jacarepaguá 18.840 18.504 1,78%
4.2 - Barra da Tijuca 16.596 14.758 11,07%
5.1 – Bangu 18.183 18.183 0,00%
5.2 - Campo Grande 18.218 17.498 3,95%
5.3 - Santa Cruz 11.453 11.453 0,00%
5.4 - Guaratiba 5.135 5.135 0,00%
Se comparado ao ano de 2010, a situação aconteceu em um número muito
menor de vezes, o que pode ser atribuído a alguma revisão metodológica por parte
do IBGE, além da própria dinâmica imobiliária da cidade, que se encontrava em um
ritmo diferente do atual.
As RPs com maior diferença se consideramos ou não esses domicílios são
4.1 – Jacarepaguá, 4.2 – Barra da Tijuca e 5.2 – Campo Grande. As figuras 52 a 54
apresentam o detalhe, com a ortofoto, de alguns setores em questão.
139
Figura 52 – Setores censitários 2000 sem população com domicílios vagos: blocos 01 a 07 da
Estrada do Cafundá, 725 em construção
Figura 53 – Setores censitários 2000 sem população com domicílios vagos: blocos 1 a 8 do
condomínio Moradas do Itanhangá, Estrada de Jacarepaguá, 3.145 em construção
140
Figura 54 – Setores censitários 2000 sem população com domicílios vagos: Avenida Manoel Caldeira
de Alvarenga, s/n, blocos 01 a 12 em construção
No entanto, embora a princípio os casos acima relacionados possam ser
considerados como diferentes do que se busca com a noção de vazios urbanos,
também verificou-se dificuldade metodológica na abordagem dessa situação, uma
vez que além desses existem também casos em que há alguns poucos domicílios
ocupados em empreendimentos recém-lançados no momento do Censo. A figura55
e a tabela 13 apresentam um exemplo dessa situação.
141
Figura 55 – Setores censitários do Condomínio Norte Village (Rua Degas, 400), parcialmente
concluído e ocupado.
Tabela 13 – População e domicílios dos setores censitários do Condomínio Norte Village.
RP SETOR 2010
NOME
BAIRRO
Domicílios
Particulares
Permanentes
Vagos
Pessoas em
Domicílios
Particulares
Permanentes
3.2 - Méier 330455705170628 Cachambi 0 48
3.2 - Méier 330455705170629 Cachambi 136 0
3.2 - Méier 330455705170630 Cachambi 159 41
Nesse caso, por exemplo, apenas o setor 170629 foi considerado na listagem,
por não ter nenhuma população residente. Porém, outros dois setores compõem o
mesmo empreendimento e já possuíam parte dos seus domicílios ocupados.
Identificar todos esses casos que envolveria uma análise muito mais
detalhada e com recursos que não estão disponíveis para este trabalho. O dado do
IBGE utilizado como fonte é produzido dessa forma e não há como segregar com
142
certeza todos os casos. Por outro lado, também não pode se descartar a hipótese de
que imóveis recém-lançados sejam mantidos vazios motivados por especulação
imobiliária, e nesse caso ainda que não estejam degradados ou abandonados
deveriam ser considerados como vazios urbanos edificados. Frente à natureza do
levantamento do IBGE e à impossibilidade de se obter dados desta fonte que
permitissem identificar e analisar separadamente as diferentes situações agrupadas
na espécie domicílios vagos, neste estudo fez-se a opção metodológica de
considerar todos os domicílios vagos segundo a definição do Censo.
5.1.2 Análise sobre resultado da geocodificação
A geocodificação dos endereços que foi realizada permitiu conhecer com
precisão de coordenadas geográficas a localização de cada um dos imóveis. Este
posicionamento é essencial para análises mais detalhadas do que a escala do setor
censitário no qual ele está localizado, que é a escala da divulgação feita pelo IBGE.
Porém, devido ao fato de nem todos os endereços terem sido encontrados sem
problemas, é necessário conhecer um pouco melhor esse resultado e fazer um
refinamento do mesmo.
Verifica-se que os percentuais de endereços encontrados, encontrados com
dúvidas e não encontrados é semelhante para domicílios vagos e estabelecimentos
abandonados, sendo a quantidade de domicílios encontrados com dúvidas ou não
encontrados ligeiramente superior, o que é explicado sobretudo pela forma de
indicação do endereço de domicílios, com grande quantidade de endereços
informais ou imprecisos se comparados com os endereços de estabelecimentos, que
embora grande quantidade de informais na cidade, não são tantos quanto os de
domicílios. Também é o caso dos imóveis sem número, dado o fato de que em um
mesmo logradouro pode haver inúmeros endereços sem número ao qual a
geocodificação pode possivelmente associar os endereços.
Os vazios urbanos, tanto domicílios vagos quanto estabelecimentos
abandonados, são localizáveis a partir exclusivamente da base do IBGE até o nível
de setor censitário. Para o detalhamento no nível de ponto, foi necessário utilizar a
ferramenta de geocodificação, comparando os endereços desses imóveis com a
143
base geográfica de endereços da Prefeitura. Um problema importante a ser
considerado são os casos em que a ferramenta de geocodificação não possibilita o
georreferenciamento no nível de ponto porque alguns endereços não constam na
base da Prefeitura, que foi a base utilizada para encontrar esses endereços.
A base georreferenciada do IBGE é apenas de logradouros, não chegando ao
nível do endereço (ponto) divulgado no Censo. Assim, para a validação desse
resultado, foi feita a comparação para cada endereço entre o código do setor
informado no Censo e o código do setor onde o endereço foi geocodificado na base
geográfica de setores censitários, encontrado pela associação com a base de
endereços da Prefeitura. Uma vez que o processo de geocodificação utilizou bases
geográficas de diferentes fontes - setores censitários do IBGE e endereços da
Prefeitura - essa análise é importante para a validação do nível de aderência e
comparabilidade entre as duas bases.
Em muitos casos, a não coincidência se deve ao fato da base geográfica de
setores censitários do IBGE não ser desenhada até o fundo dos lotes, de forma que
o ponto do endereço mapeado pela Prefeitura fica fora dos seus limites, pois
segundo a modelagem da Prefeitura a camada de números de porta está associada
em geral às edificações de cada lote, e aquelas recuadas no fundo do lote ficariam
fora dos setores censitários. Em outros casos, é apenas questão de desenho. Outro
problema é a existência de ruas com mesmo nome – por exemplo, Rua Projetada A,
Rua sem Nome. Sobretudo nos casos de geocodificação “encontrados com dúvida”,
isto se deve ao fato de na base existir várias possíveis localizações para esse tipo
de endereço. A ferramenta da geocodificação permite escolher entre os vários
resultados possíveis quando existe mais de um, porém este trabalho não foi feita
dada a grande quantidade de casos (quase 35 mil endereços).
Assim, a solução adotada foi utilizar os casos em que o setor onde o
endereço foi localizado ficou até uma distância de 50m do setor censitário informado
no Censo. Para tal, se utilizou a premissa de que não existiriam ruas nas duas bases
com mesmo nome a menos de 50m uma da outra, conforme exemplificado na figura.
O filtro pela distância a partir do setor informado foi útil principalmente nos casos
onde os registros foram encontrados com dúvida, como os muitos casos sem
144
número e os casos de logradouros em favela, onde a precisão dos endereços
normalmente é menor. A figura 56 representa isso.
Figura 56 – Exemplo de endereços geocodificados localizados a até 50m do setor informado
A tabela 14 apresenta as quantidades de acordo com a consideração dos
endereços geocodificados e considerados por cada métdodo.
Tabela 14 – Resumo do quantitativo de endereços geocodificados em relação ao total
Resultado Domicílios vagos
% do total de
endereços
geocodificados
Estabelecimentos
abandonados
% do total de
endereços
geocodificados
Total geocodificados 162.620 100,0% 8.805 100,0%
Total geocodificados
encontrados 130.577 80,3% 6.719 76,3%
Total geocodificados
encontrados com dúvidas 32.043 19,7% 2.086 23,7%
145
Total geocodificados setor
localizado = setor informado 111.988 68,9% 6.402 72,7%
Geocodificados encontrados
setor localizado = setor
informado
99.909 61,4% 5.608 63,7%
Geocodificados encontrados
com dúvidas setor localizado
= setor informado
12.079 7,4% 794 9,0%
Total geocodificados setor
localizado a até 50m setor
informado
127.753 78,6% 7.071 80,3%
Geocodificados encontrados
setor localizado a até 50m
setor informado
111.878 68,8% 6.503 73,9%
Geocodificados encontrados
com dúvidas setor localizado
a até 50m setor informado
15.875 9,8% 1.018 11,6%
Ao selecionar os casos em que o setor localizado é igual ao setor informado,
em ambos os casos há uma redução de aproximadamente 30%, sendo para os
domicílios um pouco maior (redução de 31,1%) do que para os estabelecimentos
(redução de 27,3%), o que pode ser explicado pela maior precariedade no
preenchimento da informação de endereços nesses casos se comparado ao
endereço dos estabelecimentos, portanto maior quantidade encontrada em
localização geográfica equivocada. Também em ambos os casos a redução na
porcentagem dos encontrados com dúvidas é muito maior do que para os
encontrados, pois, como esperado, são justamente os casos com dúvidas aqueles
em que a possibilidade do endereço localizado estar equivocado é maior. Ao se
considerar também os endereços dentro de 50m de distância dos limites do setor
informado, temos um aumento da ordem de 10% para os resultados,sendo que para
os encontrados o aumento é muito maior, praticamente a totalidade dos casos, do
que os encontrados com dúvidas, pois, como esperado, os erros são mais comuns
nesses casos. O “corte” ao se considerar para as análises a seguir apenas aqueles
endereços geocodificados com uma proximidade de até 50m dos setores informados
é de 21,4% para os domicílios vagos e 19,7% para os estabelecimentos
abandonados, porém julgamos necessário para garantir maior exatidão nas análises.
Assim, para as análises feitas na próxima seção utilizando o ponto de
endereço geocodificado, optou-se por utilizar a camada com os endereços
146
geocodificados que foram encontrados a até 50m do setor informado pelo Censo
2010. Se para números absolutos a contagem pode ficar prejudicada devido à
geocodificação, para percentuais pode-se utilizar.
Um obstáculo técnico encontrado foi o georreferenciamento de diferentes
unidades imobiliárias no mesmo endereço – por exemplo, diversos apartamentos
vagos em um prédio – que aparecem como pontos sobrepostos. Isso se deve ao
fato da base georreferenciada de endereços da Prefeitura identificar os mesmos
pelo seu número de porta (o acesso a partir do logradouro). Nesses casos uma
solução seria a elaboração de um cadastro 3D, com visualização de volume que
poderia identificar os imóveis de forma individualizada.
5.2 Análise das características internas dos vazios urbanos
As definições de políticas e intervenções devem levar em consideração as
características e especificidades de cada imóvel. Para se formular estratégias de
ação, além das informações do contexto urbano do entorno – que serão analisadas
espacialmente a partir do cruzamento com bases geográficas diversas, na próxima
seção – também existem algumas informações importantes próprias dos
imóveis/lotes em si úteis para sua análise – parte alfanumérica da base de dados.
Alguns exemplos dessas características físicas da construção são a tipologia
construtiva, a área total do lote e sua área edificada, o número de pavimentos,
situação fundiária (público/privado), idade e estado de conservação da edificação,
entre outras.
5.2.1 Tentativa de cruzamento com o cadastro do IPTU
O IPTU é uma importante fonte de dados, sendo a principal base municipal
para gestão não apenas fiscal dos imóveis. Tentou-se integração automática com os
sistemas da Prefeitura através do cadastro imobiliário gerido pela SMF, o cadastro
do IPTU, com informações como tipologia, idade (estimada) da edificação, etc. A
chave de inscrição imobiliária municipal é associada espacialmente à base
geográfica de pontos dos endereços da Prefeitura por meio de uma outra chave, o
147
CLNP (concatenação do código de logradouro com o número de porta), que forma o
endereço. O CNEFE possui endereço, mas não usa os códigos de logradouro da
Prefeitura, portanto a única forma de comparação das bases seria para aqueles
endereços geocodificados que tiveram resultado “encontrado”, para então tentar o
cruzamento com o cadastro do IPTU.
No entanto, tal integração se mostrou complexa, pois como a base geográfica
de pontos de endereços só considera o número de porta, e não os complementos
(por exemplo, “casa A”, “apartamento 101”, “fundos”, etc.), nos inúmeros casos onde
mais de um imóvel (portanto, mais de uma inscrição imobiliária) possui o mesmo
CLNP, não haveria forma automática de saber qual das inscrições era a do imóvel
vazio, apenas comparando visualmente caso a caso, uma vez que os complementos
na tabela do CNEFE não necessariamente estão preenchidos da mesma forma que
na base do IPTU. Além disso, também nos inúmeros casos de imóveis sem número
também a compatibilização se mostraria ainda mais complexa.
Para exemplificar o problema de integração com o IPTU quando para um
mesmo CLNP temos mais de uma inscrição e mais de um imóvel identificado como
vazio utilizamos o endereço Estrada Intendente Magalhães, 1.195 (figura 57).
148
Figura 57 – Localização de endereços de mais de um imóvel abandonado situados em um mesmo
número de porta
Tabela 15 – Dados do CNEFE para imóveis abandonados situados no mesmo número de porta
Setor
ENDEREÇO
ELEMENTO
_1
VALOR_
1
ESPECIE_
ENDEREC
O
IDENTIFICACAO_
ESTABELECIMEN
TO
330455705200500
ESTRADA
INTENDENTE
MAGALHÃES, 1195 LOJA A 06
RAMIRO PARADA
1195 AUTO
PECAS
330455705200500
ESTRADA
INTENDENTE
MAGALHÃES, 1195 LOJA B 06
TOPMIX
VEICULOS
330455705200500
ESTRADA
INTENDENTE
MAGALHÃES, 1195 LOJA C 06
GION
AUTOMOVEL
330455705200500
ESTRADA
INTENDENTE
MAGALHÃES, 1195 FUNDOS 01
330455705200500
ESTRADA
INTENDENTE
MAGALHÃES, 1195 SALA 201 06
ESCRITORIO DO
ADVOGADO
ADILSON
149
330455705200500
ESTRADA
INTENDENTE
MAGALHÃES, 1195 SALA 202 06 IMOBILIARIA
330455705200500
ESTRADA
INTENDENTE
MAGALHÃES, 1195 SALA 203 06
CLS
INFORMATICA
330455705200500
ESTRADA
INTENDENTE
MAGALHÃES, 1195 SALA 204 05
CONSULTORIO
DENTARIO
330455705200500
ESTRADA
INTENDENTE
MAGALHÃES, 1195
SALA 205 05
CONSULTORIO
DO
PSICANALISTA
DR RENILDO
330455705200500
ESTRADA
INTENDENTE
MAGALHÃES, 1195
SALA 206 06
MARLYESCRITO
RIO DOS
ADVOGADOS
FROTA E
330455705200500
ESTRADA
INTENDENTE
MAGALHÃES, 1195 SALA 207 06 SALA VAGA
330455705200500
ESTRADA
INTENDENTE
MAGALHÃES, 1195 SALA 208 06 SALA VAGA
330455705200500
ESTRADA
INTENDENTE
MAGALHÃES, 1195 SALA 209 06 SALA VAGA
Tabela 16 – Dados do IPTU para imóveis abandonados situados no mesmo número de porta
CLNP
Complem
ento Tributação Inscrição Utilização Tipologia Posição
2581701195 A Não residencial 11306438 Não residencial Loja Térreo
2581701195 B Não residencial 11306446 Não residencial Loja Térreo
2581701195 C Não residencial 11306453 Não residencial Loja Térreo
2581701195 FDS Residencial 8812257 Residencial Apartamento Fundos
2581701195 Não residencial 15053739 Escritório Sala Frente
2581701195 SAL 202 Não residencial 15053747 Escritório Sala Frente
2581701195 SAL 203 Não residencial 15053754 Escritório Sala Frente
2581701195 SAL 204 Não residencial 15053762 Escritório Sala Frente
2581701195 SAL 205 Não residencial 15053770 Escritório Sala Frente
2581701195 SAL 206 Não residencial 15053788 Escritório Sala Frente
2581701195 SAL 207 Não residencial 15053796 Escritório Sala Frente
2581701195 SAL 208 Não residencial 15053804 Escritório Sala Frente
2581701195 SAL 209 Não residencial 15053812 Escritório Sala Frente
150
Como podemos perceber, apesar do endereço informado no CNEFE ter sido
localizado na base de CLNP, as formas de preenchimento do complemento do
endereço são diferentes nas duas bases, o que torna a comparação automática
complexa, exigindo um grande esforço para consolidação no mesmo padrão.
A partir do IPTU, algumas informações poderiam ser levantadas, como: Ano do
exercício, Inscrição, CLNP, Tributação, Utilização (terreno, residencial, escritório,
indústria, hospital, colégio, armazém/depósito, oficina, templo, entre outros),
Tipologia (terreno, casa, apartamento, sala, loja, galpão, armazém/depósito,
indústria, entre outros), Condição, Situação, Patrimônio (público, particular),
Benfeitoria, Posição (frente, lateral, fundos), Área construída, Área territorial,
Testada real, Idade, CEP, Valor base de cálculo, Valor tributável, Área construída e
Área do terreno.
Através da inscrição imobiliária também é possível consultar os imóveis em
dívida ativa. Alguns casos de imóveis abandonados são imóveis em dívida ativa,
como alguns do estudo realizado pela SMU, conforme apresentado em capítulo
anterior.
Outra informação essencial para promoção de utilização dos vazios urbanos é
a identificação do proprietário, isto é, integração com o registro de imóveis. Não
existe essa associação, apenas a informação no IPTU em relação ao endereço de
cobrança.Em relação aos próprios municipais, embora não haja igualmente a
relação entre os cadastros, o trabalho de georreferenciamento feito pela
Superintendência de Patrimônio Imobiliário permite localizar de forma muito genérica
aqueles que têm o município como titularidade. Assim, a questão da identificação do
proprietário é outra que, ainda que essencial, encontra muitos obstáculos para seu
conhecimento.
Portanto, para este estudo foi possível apenas a análise a partir das próprias
informações existentes no próprio Censo/CNEFE.
151
5.2.2 Classificação segundo tipos de vazios urbanos
5.2.2.1 Tipos de domicílios vagos
Para os domicílios vagos, procurou-se classificar segundo unidades
unifamiliares (casa) e multifamiliares (prédios/apartamentos). Como descrito
anteriormente nos passos metodológicos, o endereço no CNEFE apresenta o campo
de complemento, dividido nos campos “Elemento” e “Valor”; o primeiro é utilizado
para preenchimento textual (apartamento, bloco), e o segundo, para preenchimento
numérico (101, A), existindo a possibilidade de até 6 diferentes preenchimentos para
o mesmo endereço, como apresentado na figura 58.
Figura 58 – Campos da tabela do CNEFE utilizados para identificação do tipo de domicílio
A partir de uma leitura geral verificou-se estar preenchido com o conteúdo
“apartamento” ou “bloco”. Os casos em que estava preenchido como “casa” não
eram utilizados para unidades individuais, mas se tratavam de casos em que para o
mesmo endereço havia mais de uma casa (casa 1, casa 2, etc.). Assim, assumiu-se
de forma genérica que os casos em que o campo “Elemento” estava preenchido,
tratava-se de unidade unifamiliar – casa – e os campos sem preenchimento seriam
unidades multifamiliares – apartamento.
152
Vale mencionar as características dos domicílios particulares permanentes
segundo IBGE 2010, no quesito “Tipo do domicílio”. Quanto ao tipo, classificou-se o
domicílio particular permanente como:
“Casa – quando localizado em uma edificação de um ou mais pavimentos, desde que ocupada
integralmente por um único domicílio, com acesso direto a um logradouro (arruamento, vila, avenida,
caminho etc.), legalizado ou não, independentemente do material utilizado em sua construção;
Apartamento - quando localizado em edifício: de um ou mais andares, com mais de um domicílio,
servidos por espaços comuns (hall de entrada, escadas, corredores, portaria ou outras
dependências); de dois ou mais andares em que as demais unidades eram não residenciais; e de
dois ou mais pavimentos com entradas independentes para os andares”.
Encontrou-se 60 resultados de preenchimento para o campo “Elemento_1”.
Esses resultados foram agrupados entre “casa”, “apartamento” e “outros”. Os demais
campos para preenchimento de “Elemento_2”, “Elemento_3”, etc. eram utilizados
nos casos em que o complemento exigia, por exemplo, “Edificio apartamento 301”
ou “Conjunto 1 bloco 17 apartamento 102”. Por isso, utilizou-se apenas o primeiro
campo de elemento, que definia claramente a que tipo de domicílio se referia.
Tabela 17 – Elementos da tabela do CNEFE considerados para o tipo de domicílio vago “casa”
ELEMENTO_1 Quantidade
(nulo) 33.585
CASA 39.093
FRENTE 3.021
FUNDOS 14.537
LOTE 6.181
Tabela 18 – Elementos da tabela do CNEFE considerados para o tipo de domicílio vago
“apartamento”
ELEMENTO_1 Quantidade
ANDAR 3.486
APARTAMENTO 45.717
BLOCO 27.230
153
ELEMENTO_1 Quantidade
COBERTURA 1.131
EDIFICIO 1.529
PREDIO 793
QUITINETE 1.914
SOBRADO 4.780
TERREO 1.572
Tabela 19 – Elementos da tabela do CNEFE considerados para o tipo de domicílio vago “outros”
ELEMENTO_1 Quantidade
ALA 53
ALAMEDA_INTERNA 42
ANEXO 115
ARMAZEM 28
AVENIDA_INTERNA 40
BANCA 1
BARRACA 81
BARRACAO 58
BOX 68
CABINE 2
CAIS 58
CHACARA 4
CHALE 11
COMODO 81
CONJUNTO 92
DEPENDENCIA 21
DEPOSITO 24
ENTRADA 364
ESTANCIA 4
FNS 5
GALERIA 167
GARAGEM 55
GRANJA 5
ELEMENTO_1 Quantidade
GRUPO 23
HABITACAO 42
LADO 194
LAJE 13
LOJA 1364
MODULO 12
OUTROS 97
PAVILHAO 2
PAVIMENTO 14
PORAO 36
PORTA 30
PORTAO 136
QUADRA 3579
QUARTO 603
QUINTA 1
RUA_INTERNA 579
SALA 267
SEDE 1
SITIO 53
SOBRELOJA 226
SUBSOLO 215
SUITE 24
TRAVESSA_INTERNA 180
154
Partindo das premissas apresentadas, a tabela 20 e a figura 59 apresentam o
resultado para esta classificação.
Tabela 20 – Tipos de domicílios vagos por Região de Planejamento
RP
Total de
domicílios
vagos Casa Apartamento Outros
1.1 - Centro 8.996 3.701 4.755 540
2.1 - Zona Sul 21.447 2.302 18.740 405
2.2 - Tijuca 9.506 2.616 6.597 293
3.1 - Ramos 3.882 2.087 1.565 230
3.2 - Méier 13.119 5.787 7.028 304
3.3 - Madureira 16.656 10.367 5.798 491
3.4 - Inhaúma 3.795 1.984 1.674 137
3.5 - Penha 8.367 5.388 2.778 201
3.6 - Pavuna 8.136 6.253 1.550 333
3.7 - Ilha do Governador 3.293 1.749 1.429 115
4.1 - Jacarepaguá 20.317 9.305 10.037 975
4.2 - Barra da Tijuca 17.393 4.321 12.434 638
5.1 - Bangu 16.675 12.054 3.808 813
5.2 - Campo Grande 21.708 13.912 6.045 1.751
5.3 - Santa Cruz 13.628 11.102 1.643 883
5.4 - Guaratiba 6.721 5.403 357 961
TOTAL 193.639 98.331 86.238 9.070
155
Figura 59 – Domicílios vagos por Região de Planejamento segundo tipo
A divisão proposta entre os tipos é feita no sentido de pensar os imóveis com
diferentes potenciais de intervenção. Para os imóveis classificados como “casa”, a
intervenção pode em princípio envolver mudança de uso (de residencial para alguma
atividade econômica, por exemplo), de acordo com a legislação de uso do solo ou
como proposta para sua revisão. Os imóveis aqui classificados como “apartamento”,
por sua vez, implicam em maior dificuldade para mudança de uso, porém podem ser
aproveitados a partir de políticas como aluguel social ou oferecendo estímulos e
imposição de regras aos proprietários de forma a promover sua ocupação, como
cumprimento da função social – no caso, habitação.
Pode-se observar uma diferença de perfil muito grande entre as RPs, sendo
que a predominância de vazios urbanos do tipo casa ou apartamento, ou o equilíbrio
entre eles, segue o perfil de cada RP. Assim, na Zona Sul, a predominância é de
apartamentos, ao passo que em Santa Cruz é de casas. Em algumas RPs da Zona
Oeste, é mais expressiva a presença de domicílios vagos aqui categorizados como
“outros”. Estes incluem “quadra”, “entrada”, “conjunto”, que são tipos característicos
de áreas de expansão e pouco consolidadas.
156
5.2.2.2 Tipos de estabelecimentos abandonados
Para os estabelecimentos abandonados, utilizou uma consulta no campo
“identificação do estabelecimento” para diferenciar os principais tipos, isto é, os que
ocorriam com maior frequência, da tabela de estabelecimentos abandonados. Estes
foram os tipos “galpão” (255 registros), “loja” ou “lj” (5.500 registros) e “sala” (358
registros). Em relação ao total de cada um dos tipos de estabelecimentos, tivemos a
distribuição da seguinte forma:
• “Galpão”: 255 de 1.646 galpões (15,5 %)
• “Loja” ou “lj”: 5.500 de 25.767 lojas (21,3 %)
• “Sala”: 358 de 11.176 salas (3,2 %) (para este, retirou-se da consulta o termo
“salao”, para que só fossem consideradas salas comerciais, salas, etc.).
Percebe-se o grande peso das lojas e galpões abandonados em relação ao
total de estabelecimentos destes tipos. Outros tipos de estabelecimento, como bar,
restaurante, etc., não tiveram quantitativo considerável para serem incorporados de
forma individualizada na análise.
A tabela 21 e a figura 60 apresentam os resultados por RP.
Tabela 21 – Tipos de estabelecimentos abandonados por Região de Planejamento
RP GALPAO LOJA SALA
OUTROS
TOTAL
1.1 - Centro
18
554
24
531
1.127
2.1 - Zona Sul
1
259
11
297
5682.2 - Tijuca
4
221
20
180
425
3.1 - Ramos
50
440
7
168
665
3.2 - Méier
29
529
23
300
881
3.3 - Madureira
32
501
64
526
1.123
3.4 - Inhaúma
9
157
14
104
284
3.5 - Penha
35
327
50
238
650
3.6 - Pavuna
6
172
5
133
316
157
3.7 - Ilha do Governador
-
50
9
60
119
4.1 - Jacarepaguá
9
219
62
261
551
4.2 - Barra da Tijuca
1
62
8
68
139
5.1 - Bangu
27
637
30
368
1.062
5.2 - Campo Grande
19
755
17
430
1.221
5.3 - Santa Cruz
8
487
14
247
756
5.4 - Guaratiba
7
130 -
48
185
TOTAL
255
5.500
358
3.959
10.072
Figura 60 – Estabelecimentos abandonados por Região de Planejamento segundo tipo
As lojas são o principal tipo de na composição do total de estabelecimentos
abandonados, em todas as RPs. Em algumas, outros tipos são numerosos, como as
salas em Jacarepaguá e os galpões em Ramos.
158
5.3 Análises de densidade
Embora a maior precisão e totalidade de registros sobre domicílios vagos e
estabelecimentos abandonados seja por setor censitário, o mapa de densidade
utilizou os pontos geocodificados como camada de entrada devido ao fato de só
poderem ser utilizados como dados de entrada desta ferramenta feições do tipo
ponto ou linha.
Utilizou-se a ferramenta estimadora de densidade kernel da extensão Spatial
Analyst do ArcGIS 10.1. A ferramenta considera a vizinhança ao redor de cada
ponto da camada de entrada, desenhando sua área de influência por meio de uma
função matemática para a qual se define o raio de influência de cada ponto.
Figura 61 – Densidade de domicílios vagos
159
As análises de densidade são importantes para detectar com maior facilidade
as áreas prioritárias para atuação, em cada um dos casos.
Deve-se interpretar este mapa com atenção, uma vez que ele não revela
necessariamente a maior quantidade, mas a concentração. Assim, as regiões da
Zona Oeste não possuem grande densidade, embora tenham a maior quantidade.
Fica evidente a grande concentração na Zona Sul, Centro, Tijuca e Méier, com
algum espraiamento para as outras regiões da Zona Norte. Alguns centros de bairro
se destacam – Freguesia Jacarepaguá, Barra da Tijuca (Jardim Oceânico), Recreio
dos Bandeirantes, Bangu e Campo Grande.
Figura 62 – Densidade de estabelecimentos abandonados
No caso dos estabelecimentos abandonados, a concentração é ainda mais
evidente, com destaque para o Centro, Madureira e Ramos/Penha. Alguns centros
de bairro também se destacam – Copacabana, Bangu e Campo Grande.
160
Figura 63 – Densidade de vazios urbanos
5.4 Análises temporais e relativas
5.4.1 Comparação inter-censal: análise temporal e relativa sobre
domicílios vagos
Em primeiro lugar, apresenta-se dados de população e domicílios para 2000 e
2010, que permitem verificar a dinâmica das regiões entre os dois Censos. A tabela
22 e as figuras 64 a 66 apresentam os dados referentes ao total de domicílios.
Tabela 22 – Domicílios particulares permanentes 2000-2010 por Região de Planejamento
RP DomPartPerm_2000 DomPartPerm_2010 Variação
1.1 - Centro
84.845
104.209 22,82%
2.1 - Zona Sul
239.779
266.126 10,99%
2.2 - Tijuca
123.897
138.129 11,49%
3.1 - Ramos
79.276
92.910 17,20%
3.2 - Méier
137.534
149.090 8,40%
161
3.3 - Madureira
174.973
193.539 10,61%
3.4 - Inhaúma
58.050
66.001 13,70%
3.5 - Penha
95.786
101.129 5,58%
3.6 - Pavuna
101.385
118.026 16,41%
3.7 - Ilha do Governador
63.420
71.743 13,12%
4.1 - Jacarepaguá
149.902
203.152 35,52%
4.2 - Barra da Tijuca
54.618
106.113 94,28%
5.1 - Bangu
187.632
212.334 13,17%
5.2 - Campo Grande
137.342
171.702 25,02%
5.3 - Santa Cruz
86.001
112.598 30,93%
5.4 - Guaratiba
27.907
37.644 34,89%
TOTAL
1.802.347
2.144.445 18,98%
Figura 64 – Domicílios por Região de Planejamento (2000)
162
Figura 65 – Domicílios por Região de Planejamento (2010)
Figura 66 – Variação domicílios 2000 / 2010 por Região de Planejamento
163
A região da Barra da Tijuca é a que possuiu aumento mais expressivo na
quantidade de domicílios, praticamente dobrando nos últimos 10 anos,
acompanhada por um ritmo também acentuado por Jacarepaguá e as regiões da
Zona Oeste – Campo Grande, Santa Cruz e Guaratiba. As regiões do Centro,
Ramos e Pavuna também merecem destaque.
A tabela 23 e as figuras 67 a 69 apresentam os números de 2000 e 2010 para
população.
Tabela 23 – Pessoas em domicílios particulares permanentes 2000-2010 por Região de
Planejamento
RP
PessDomPartPerm_2000 PessDomPartPerm_2010 Variação
1.1 - Centro
259.180
290.269 12,00%
2.1 - Zona Sul
626.280
636.315 1,60%
2.2 - Tijuca
363.667
369.652 1,65%
3.1 - Ramos
262.273
282.353 7,66%
3.2 - Méier
432.618
433.737 0,26%
3.3 - Madureira
575.449
574.427 -0,18%
3.4 - Inhaúma
194.531
203.445 4,58%
3.5 - Penha
316.167
320.465 1,36%
3.6 - Pavuna
349.741
366.339 4,75%
3.7 - Ilha do Governador
210.436
211.295 0,41%
4.1 - Jacarepaguá
501.937
606.720 20,88%
4.2 - Barra da Tijuca
173.207
300.522 73,50%
5.1 - Bangu
651.043
655.454 0,68%
5.2 - Campo Grande
482.824
541.260 12,10%
5.3 - Santa Cruz
309.220
367.381 18,81%
5.4 - Guaratiba
98.853
122.593 24,02%
TOTAL
5.807.426
6.282.227 8,18%
164
Figura 67 – População por Região de Planejamento (2000)
Figura 68 – População por Região de Planejamento (2010)
165
Figura 69 – Variação população 2000 / 2010 por Região de Planejamento
Os dados de população apontam para a mesma direção daqueles para
domicílios, porém em menor intensidade, com a região da Barra da Tijuca mais uma
vez à frente, seguida por Jacarepaguá, Campo Grande, Santa Cruz e Guaratiba.
Uma vez que a informação sobre domicílios particulares permanentes vagos
também foi levantada no Censo Demográfico 2000, seguindo os mesmos conceitos,
foi possível a comparação 2000-2010, o que permite entender a evolução dos
domicílios vagos na cidade nos últimos anos. No Censo 2000, no entanto, não foi
levantado o estabelecidos, sendo a constituição do CNEFE uma construção do
Censo 2010, o que não possibilitou a comparação completa, considerando os vazios
urbanos edificados não residenciais.
166
Figura 70 – Domicílios vagos por setor censitário (2000)
Figura 71 – Domicílios vagos por Região de Planejamento (2000)
167
Tabela 24 – Domicílios particulares permanentes vagos 2000-2010 por Região de Planejamento
RP Domicílios vagos 2000 Domicílios vagos 2010 Variação
1.1 - Centro 13.182 8.996 -31,8%
2.1 - Zona Sul 27.376 21.447 -21,7%
2.2 - Tijuca 13.445 9.506 -29,3%
3.1 - Ramos 8.683 3.882 -55,3%
3.2 - Méier 17.223 13.119 -23,8%
3.3 - Madureira 20.445 16.656 -18,5%
3.4 - Inhaúma 6.409 3.795 -40,8%
3.5 - Penha 10.725 8.367 -22,0%
3.6 - Pavuna 10.463 8.136 -22,2%
3.7 - Ilha do Governador 7.103 3.293 -53,6%
4.1 - Jacarepaguá 18.840 20.317 7,8%
4.2 - Barra da Tijuca 16.596 17.393 4,8%
5.1 - Bangu 18.183 16.675 -8,3%
5.2 - Campo Grande 18.218 21.708 19,2%
5.3 - Santa Cruz 11.453 13.628 19,0%
5.4 - Guaratiba 5.135 6.721 30,9%
Figura 72 – Variação domicílios vagos 2000 / 2010 por Região de Planejamento
Com os dados comparados de domicílios vagos, totalde domicílios e total de
pessoas entre 2000 e 2010, é possível analisar a relação do crescimento
(populacional e de domicílios) das regiões da cidade e o aumento dos domicílios
vagos nos últimos 10 anos. As áreas com maiores taxas de crescimento são
168
também as com crescimento de vazios urbanos do tipo domicílio, porém inverte-se a
ordem: Barra da Tijuca é a que teve menor crescimento na quantidade de domicílios
vagos, seguida por Jacarepaguá, ao passo que as regiões da Zona Oeste são as
que tem maior incremento – Santa Cruz, Campo Grande e a líder, Guaratiba. Porém,
as outras áreas que apresentaram aumentos expressivos em população e domicílios
vão ter redução no número de domicílios vagos. O destaque vai para Ramos, que,
sendo uma das regiões onde houve maior aumento nas outras informações, quando
consideramos os domicílios vagos foi a de maior redução de todas – queda de mais
da metade.
A análise intertemporal permite alguns direcionamentos básicos para avaliar a
evolução das políticas urbanas dos últimos 10 anos na cidade. Claramente, há uma
distinção quando comparamos as regiões mais centrais em relação às frentes de
expansão urbana. As áreas da cidade com maior dinâmica imobiliária são as que
tiveram maior aumento no número de vazios, e o fato de estarem incluídos na
metodologia do IBGE os domicílios correspondentes a lançamentos recentes ainda
não ocupados pode ter influenciado esse resultado, explicando o afastamento de
Ramos das regiões da Zona Oeste, Jacarepaguá e Barra da Tijuca. Estes dados não
são conclusivos, exigindo outras análises, mas servem para apontar um
direcionamento das políticas públicas em relação ao tratamento da questão, uma
vez que revelam que o aumento no total de domicílios e população também levou a
um aumento no número de domicílios vagos.
Em números absolutos, algumas RPs possuem relativamente mais domicílios
e outras, mais estabelecimentos, o que torna necessária a análise em termos
relativos, considerando a quantidade de vazios urbanos em comparação com o total
de imóveis de cada espécie em determinada RP. Assim, as análises relativas,
comparando a relação entre os domicílios vagos sobre o total de domicílios e a
população fornecem outros dados relevantes à análise.
169
Tabela 25 – Relação domicílios vagos / total de domicílios 2000-2010
RP
Relação
domicílios
vagos / total de
domicílios
(2000)
Posição
no
ranking
2000
Relação
domicílios
vagos / total
de domicílios
(2010)
Posição
no
ranking
2010
Variação na
relação
domicílios vagos
/ total de
domicílios 2000 -
2010
1.1 - Centro 0,155366 3ª 0,086327 7ª -44,4%
2.1 - Zona Sul 0,114172 9ª 0,08059 10ª -29,4%
2.2 - Tijuca 0,108518 14ª 0,06882 13ª -36,6%
3.1 - Ramos 0,109529 13ª 0,041782 16ª -61,9%
3.2 - Méier 0,125227 7ª 0,087994 6ª -29,7%
3.3 - Madureira 0,116847 8ª 0,08606 8ª -26,3%
3.4 - Inhaúma 0,110405 12ª 0,057499 14ª -47,9%
3.5 - Penha 0,111968 11ª 0,082736 9ª -26,1%
3.6 - Pavuna 0,103201 15ª 0,068934 12ª -33,2%
3.7 - Ilha do
Governador 0,111999 10ª 0,0459 15ª -59,0%
4.1 - Jacarepaguá 0,125682 6ª 0,100009 5ª -20,4%
4.2 - Barra da
Tijuca 0,303856 1ª 0,16391 2ª -46,1%
5.1 - Bangu 0,096908 16ª 0,078532 11ª -19,0%
5.2 - Campo
Grande 0,132647 5ª 0,126428 3ª -4,7%
5.3 - Santa Cruz 0,133173 4ª 0,121032 4ª -9,1%
5.4 - Guaratiba 0,184004 2ª 0,178541 1ª -3,0%
170
Figura 73 – Relação domicílios vagos / total de domicílios por Região de Planejamento (2000)
Figura 74 – Relação domicílios vagos / total de domicílios por Região de Planejamento (2010)
171
Figura 75 – Variação na relação domicílios vagos / total de domicílios por Região de Planejamento
2000 - 2010
A análise relativa permite chegar a algumas conclusões. Em primeiro lugar,
todas as regiões tiveram redução no número relativo de domicílios vagos. As regiões
da Zona Oeste, porém, são as que tiveram menor redução, informação que somada
à anterior permite afirmar que são as áreas onde a atenção com relação aos
domicílios vagos deve ser maior. Ramos figura como a região de maior queda
também no valor relativo, seguida de perto pela Ilha do Governador.
O fato de as áreas da Zona Oeste com maior aumento de população e
domicílios terem sido também as que tiveram a menor redução no número de
domicílios vagos sobre o total de domicílios pode indicar que esse crescimento teve
pouca relação com a reutilização de vazios urbanos. Para essas áreas, a relação de
domicílios vagos sobre o total continua sendo a mais alta do município.
172
Tabela 26 – Taxa domicílios vagos / habitantes 2000-2010
RP
Domicílios
vagos /
mil
habitantes
(2000)
Posição
no
ranking
2000
Domicílios
vagos /
mil
habitantes
(2010)
Posição
no
ranking
2010
Variação na
taxa domicílios
vagos / mil
habitantes
2000 - 2010
1.1 - Centro 50,86041 3ª 30,99194 7ª -39,1%
2.1 - Zona Sul 43,71208 4ª 33,70501 5ª -22,9%
2.2 - Tijuca 36,97064 9ª 25,71608 11ª -30,4%
3.1 - Ramos 33,10673 13ª 13,74875 16ª -58,5%
3.2 - Méier 39,8111 5ª 30,24644 8ª -24,0%
3.3 - Madureira 35,52878 10ª 28,99585 9ª -18,4%
3.4 - Inhaúma 32,94591 14ª 18,65369 14ª -43,4%
3.5 - Penha 33,92195 11ª 26,10894 10ª -23,0%
3.6 - Pavuna 29,91642 15ª 22,20894 13ª -25,8%
3.7 - Ilha do Governador 33,75373 12ª 15,58485 15ª -53,8%
4.1 - Jacarepaguá 37,53459 7ª 33,48662 6ª -10,8%
4.2 - Barra da Tijuca 95,81599 1ª 57,87596 1ª -39,6%
5.1 - Bangu 27,92903 16ª 25,44038 12ª -8,9%
5.2 - Campo Grande 37,73218 6ª 40,10642 3ª 6,3%
5.3 - Santa Cruz 37,03836 8ª 37,09501 4ª 0,2%
5.4 - Guaratiba 51,94582 2ª 54,82369 2ª 5,5%
173
Figura 76 – Taxa domicílios vagos / mil habitantes por Região de Planejamento (2000)
Figura 77 – Taxa domicílios vagos / mil habitantes por Região de Planejamento (2010)
174
Figura 78 – Variação na taxa domicílios vagos / mil habitantes por Região de Planejamento 2000 -
2010
A análise comparativa com população tem resultados semelhantes à feita
para o total de domicílios, e os números por mil habitantes podem ser úteis para
outras análises dos vazios urbanos que necessitem de enfoque relacionado ao
quantitativo populacional.
5.4.2 Análise relativa sobre estabelecimentos abandonados
Tabela 27 – Total de estabelecimentos por Região de Planejamento
RP Estabelecimentos
1.1 - Centro
18.612
2.1 - Zona Sul
19.870
2.2 - Tijuca
9.191
175
3.1 - Ramos
13.884
3.2 - Méier
14.098
3.3 - Madureira
17.422
3.4 - Inhaúma
6.079
3.5 - Penha
11.633
3.6 - Pavuna
11.257
3.7 - Ilha do Governador
4.850
4.1 - Jacarepaguá
16.355
4.2 - Barra da Tijuca
5.866
5.1 - Bangu
22.262
5.2 - Campo Grande
19.612
5.3 - Santa Cruz
14.515
5.4 - Guaratiba
4.770
TOTAL
210.276
Figura 79 – Total de estabelecimentos por Região de Planejamento
176
A informação sobre o total de estabelecimentos, retirada diretamente do
CNEFE, sem necessidade de nenhuma apuração ou consulta específica, serve
como comparativo entre RPs em relação à vocação de atividades econômicas
dessas áreas. Bangu aparece em primeiro lugar, seguido por Zona Sul, Campo
Grande e Centro.
Tabela 28 – Estabelecimentos abandonados por total e por população por Região de Planejamento
RP
Relação
estabelecimentos
abandonados /
total de
estabelecimentos
Posição
no ranking
Taxa
estabelecimentos
abandonados / mil
habitantes
Posição no
ranking
1.1 - Centro 0,060552 4ª 0,003883 1ª
2.1 - Zona Sul 0,028586 13ª 0,000893 13ª
2.2 - Tijuca 0,046241 10ª 0,00115 11ª
3.1 - Ramos 0,047897 7ª 0,002355 2ª
3.2 - Méier 0,062491 2ª 0,002031 5ª
3.3 - Madureira 0,064459 1ª 0,001955 7ª
3.4 - Inhaúma 0,046718 9ª 0,001396 10ª
3.5 - Penha 0,055876 5ª 0,002028 6ª
3.6 - Pavuna0,028071 14ª 0,000863 14ª
3.7 - Ilha do Governador 0,024536 15ª 0,000563 15ª
4.1 - Jacarepaguá 0,03369 12ª 0,000908 12ª
4.2 - Barra da Tijuca 0,023696 16ª 0,000463 16ª
5.1 - Bangu 0,047705 8ª 0,00162 8ª
5.2 - Campo Grande 0,062258 3ª 0,002256 3ª
5.3 - Santa Cruz 0,052084 6ª 0,002058 4ª
5.4 - Guaratiba 0,038784 11ª 0,001509 9ª
177
Figura 80 – Relação estabelecimentos abandonados / total de estabelecimentos por Região de
Planejamento
Figura 81 – Taxa estabelecimentos abandonados / mil habitantes por Região de Planejamento
178
A partir das comparações feitas entre estabelecimentos abandonados pelo
total de estabelecimentos e total de pessoas, alguns comentários importantes
podem ser tecidos. Existem dois perfis muito distintos que se destacam como
maiores taxas, o das regiões mais centrais e de ocupação antiga (Centro, Ramos) e
os das fronteiras de expansão (Campo Grande, Santa Cruz).
Em relação à comparação por número de habitantes, é interessante observar
as regiões com maiores diferenças em relação ao ranking dos domicílios por
habitantes, que traduzem a diferença de perfil residencial/comercial das regiões.
Regiões com perfil residencial predominante caem no ranking, ao passo que
regiões com perfil comercial predominante sobem no ranking. O Centro aparece com
a maior taxa de domicílios abandonados por habitante, por ser comparativamente a
região com maior número de domicílios e menor número de habitantes. A Barra da
Tijuca, sendo a região com maior taxa de domicílios vagos por habitante, é a região
com menor taxa de estabelecimentos abandonados por habitante. Em Ramos
observamos o inverso: menor taxa de domicílios vagos por habitante e segunda
maior taxa de estabelecimentos abandonados por habitante, atrás apenas do
Centro.
Essas comparações permitem concluir que existem fatores de ordem
econômica e social distintos na produção e manutenção de vazios urbanos do tipo
domicílio e estabelecimento.
Foi feita para os estabelecimentos a análise da relação por meio das faces de
quadra (figura 82).
179
Figura 82 – Relação estabelecimentos abandonados / total por faces de quadra
A partir dessa escala de análise, é possível analisar no detalhe a influência de
fatores confrontantes às faces, como por exemplo eixos viários e de transporte sobre
trilhos, que não vão ter impacto sobre todo um setor censitário ou quadra, mas
apenas a face de quadra que fica em frente, como será exemplificado no próximo
capítulo.
5.4.3 Análise relativa sobre vazios urbanos
Tabela 29 – Vazios urbanos por totais de domicílios e população por Região de Planejamento
RP
Total de
vazios
urbanos
Relação vazios
urbanos / mil
domicílios
Posição no
ranking
(domicílios)
Taxa vazios
urbanos / mil
habitantes
Posição no
ranking
(habitantes)
1.1 - Centro 10123 97,141322 6ª 34,874547 5ª
2.1 - Zona Sul 22015 82,723973 11ª 34,597644 6ª
2.2 - Tijuca 9931 71,89656 12ª 26,865809 12ª
3.1 - Ramos 4547 48,939834 15ª 16,103955 16ª
180
3.2 - Méier 14000 93,903012 7ª 32,277624 8ª
3.3 - Madureira 17779 91,862622 8ª 30,950843 9ª
3.4 - Inhaúma 4079 61,802094 14ª 20,049645 14ª
3.5 - Penha 9017 89,163346 9ª 28,137238 10ª
3.6 - Pavuna 8452 71,61134 13ª 23,071527 13ª
3.7 - Ilha do
Governador 3412 47,558647 16ª 16,148039 15ª
4.1 -
Jacarepaguá 20868 102,721115 5ª 34,394778 7ª
4.2 - Barra da
Tijuca 17532 165,220096 2ª 58,338491 1ª
5.1 - Bangu 17737 83,53349 10ª 27,060633 11ª
5.2 - Campo
Grande 22929 133,539504 3ª 42,362266 3ª
5.3 - Santa Cruz 14384 127,746496 4ª 39,152814 4ª
5.4 - Guaratiba 6906 183,455531 1ª 56,332743 2ª
Figura 83 – Relação vazios urbanos / domicílios por Região de Planejamento
181
Figura 84 – Taxa vazios urbanos / população por Região de Planejamento
Algumas análises mais aprofundadas podem ser tecidas a partir dessa
informação. A primeira delas é a de que, também em termos relativos, não há
correlação grande entre o percentual de domicílios vagos e o percentual de
estabelecimentos abandonados por RP. Isto permite afirmar que os fatores que
levam à existência de domicílios vagos não são os mesmos que levam à existência
de estabelecimentos abandonados. Também é possível considerar que existem
inúmeros fatores que levam à existência dos vazios, e que estes influenciam
diferentemente o mesmo tipo de imóvel em uma RP ou outra.
A título de comparação, a média para a cidade do Rio de Janeiro é de 32,5
vazios urbanos edificados por mil habitantes, valor próximo à Filadélfia, a cidade dos
EUA com maior quantidade de estruturas abandonadas por mil habitantes – 36,54 –
e bastante a frente da segunda, Baltimore (22,22 estruturas abandonadas por mil
habitantes), de acordo com o estudo de Pagano e Bowman (2000).
182
5.5 Análises comparadas com informações urbanas
O planejamento sobre vazios urbanos é uma atividade de planejamento
holística, que não envolve apenas o imóvel em questão, mas também as
necessidades segundo as características da localidade. O uso do SIG possibilita o
cruzamento da localização dos vazios urbanos com outras informações do entorno
que possam ter relação. Neste caso, é possível analisar aqueles fatores que podem
ser determinantes, tanto para a explicação quanto para a gestão e planejamento
sobre os vazios urbanos, do ponto de vista espacial, relacionados à localização,
sejam eles físicos (infraestrutura) ou não (zoneamento urbano).
Tais cruzamentos podem fornecer, senão a explicação total, alguns fatores
explicativos e indícios para compreendermos a razão da sua existência e
manutenção, além da percepção sobre possibilidade de usos futuros. O SIG permite
realizar análises e descobrir relacionamentos que seriam complexos demais sem o
seu uso.
Os vazios urbanos, enquanto potencial, podem gerar uma série de novos
usos aproveitando a edificação, como usos habitacionais, comerciais e institucionais,
ou aproveitando apenas seu lote para novas construções, atendendo a finalidades
logísticas, de infraestrutura ou ainda a partir da qualificação ambiental, como
espaços livres de recreação e lazer. Tais decisões dependem não apenas do imóvel
em questão – diferenciando-se o potencial de indústrias abandonadas,
apartamentos vagos, etc. – como as características do seu entorno e inserção na
paisagem urbana e o relacionamento com os demais ativos – transportes,
infraestrutura, áreas verdes, etc. – e fatores não visíveis, como legislação em vigor e
questões de mercado.
Por se tratar de vazios urbanos edificados, em contexto de urbano, algumas
informações do tipo ambiental (área inundável, tipo de solo) e acesso a redes de
infraestrutura (água, esgoto, gás) não foram consideradas como determinantes para
diferenciação dos potenciais, pois se referem à possibilidade de ocupação e como
se tratam de áreas já ocupadas não seriam um impeditivo, nem influenciariam assim
a diferenciação e decisão do que seria útil para o desenvolvimento de um vazio
urbano ou outro.
183
A seguir, serão realizadas algumas análises para exemplificar o uso do SIG
na gestão sobre os vazios urbanos e as possibilidades de planejamento.
5.5.1 Transportes
A figura 85 apresenta os transportes de massa – trem e metrô.
Figura 85 – Transporte público de massa no Rio de Janeiro
Foi feita uma análise espacial para verificar a proximidade de vazios em
relação às estações.
Em um raio de 1km das estações de trem, contabiliza-se 36.613 (28,7% do
total) domicílios vagos e 3.375 (47,7% do total) estabelecimentos abandonados.
Em um raio de 1km das estações de metrô, contabiliza-se 27.704 (21,7% do
total) domicílios vagos e 1.582 (22,4% do total) estabelecimentos abandonados.
184
As variações em cada tipo de estação são reflexo tanto da localização e
quantidade das estações quanto dos perfis das áreasonde as linhas cruzam.
No caso do transporte, buscou-se analisar a influência das linhas de trem em
relação às faces confrontantes. Para tanto, utilizou-se uma consulta espacial para
selecionar as faces de quadra completamente dentro de um raio de 50m da linha de
trem – essas foram consideradas como as faces confrontantes (figura 86).
Figura 86 – Relação estabelecimentos abandonados / total por faces confrontantes com linha do trem
A média de estabelecimentos abandonados/total de estabelecimentos por
face é de 3,7% na cidade, enquanto para as faces confrontantes à linha de trem
esse valor sobre para 5,8%. As áreas de linha de trem em geral apresentam maior
abandono, por fatores de ordem urbana do ponto de vista físico – em geral são
áreas degradadas devido ao efeito de externalidade negativa. Essa é uma análise
geral que permite maior detalhamento na escala de projetos e planos de intervenção
urbana.
185
5.5.2 Habitação
A insuficiência das políticas habitacionais que garantam a oferta de moradias
para as camadas mais pobres da população urbana através do mercado imobiliário
formal ajuda a explicar a expansão horizontal e vertical das áreas informais já
existentes, assim como a ocupação de novos terrenos e também o mercado
imobiliário informal.
Para quantificar os vazios urbanos em favelas cariocas, foram utilizados os
setores de aglomerados subnormais, definidos pelo IBGE como “conjunto
constituído por 51 ou mais unidades habitacionais caracterizadas por ausência de
título de propriedade e pelo menos uma das características: irregularidade das vias
de circulação e do tamanho e forma dos lotes e/ou; carência de serviços públicos
essenciais (como coleta de lixo, rede de esgoto, rede de água, energia elétrica e
iluminação pública)” (IBGE, 2010). Por serem um tipo de setor, a quantificação foi
feita filtrando os setores pertencentes a este tipo, depois agregando por região de
planejamento.
Tabela 30 – Domicílios vagos em aglomerados subnormais por Região de Planejamento
RP
Domicílios
vagos em
setores não
especiais
% Domicílios
vagos em
setores não
especiais
Domicílios
vagos em
aglomerados
subnormais
% Domicílios
vagos em
setores não
especiais
TOTAL
1.1 - Centro 7.463 83,0% 1.533 17,0% 8.996
2.1 - Zona Sul 19.833 92,5% 1.614 7,5% 21.447
2.2 - Tijuca 9.010 94,8% 496 5,2% 9.506
3.1 - Ramos 2.864 73,8% 1.018 26,2% 3.882
3.2 - Méier 12.234 93,3% 885 6,7% 13.119
3.3 - Madureira 15.619 93,8% 1.037 6,2% 16.656
3.4 - Inhaúma 3.577 94,3% 218 5,7% 3.795
3.5 - Penha 7.682 91,8% 685 8,2% 8.367
3.6 - Pavuna 6.752 83,0% 1.384 17,0% 8.136
3.7 - Ilha do
Governador 2.797 84,9% 496 15,1% 3.293
4.1 - Jacarepaguá 16.141 79,4% 4.176 20,6% 20.317
4.2 - Barra da
Tijuca 15.193 87,4% 2.200 12,6% 17.393
5.1 - Bangu 14.072 84,4% 2.603 15,6% 16.675
186
5.2 - Campo
Grande 20.120 92,7% 1.588 7,3% 21.708
5.3 - Santa Cruz 12.007 88,1% 1.621 11,9% 13.628
5.4 - Guaratiba 5.850 87,0% 871 13,0% 6.721
TOTAL 171.214 88,4% 22.425 11,6% 193.639
Tabela 31 – Estabelecimentos abandonados em aglomerados subnormais por Região de
Planejamento
RP
Estabelecimentos
abandonados em
setores não
especiais
%
Estabelecimentos
abandonados em
setores não
especiais
Estabelecimentos
abandonados em
aglomerados
subnormais
%
Estabeleciment
os
abandonados
em
aglomerados
subnormais
TOTAL
1.1 - Centro 1.087 96,5% 40 3,5% 1.127
2.1 - Zona Sul 538 94,7% 30 5,3% 568
2.2 - Tijuca 416 97,9% 9 2,1% 425
3.1 - Ramos 615 92,5% 50 7,5% 665
3.2 - Méier 831 94,3% 50 5,7% 881
3.3 -
Madureira 1.099 97,9% 24 2,1% 1.123
3.4 - Inhaúma 257 90,5% 27 9,5% 284
3.5 - Penha 634 97,5% 16 2,5% 650
3.6 - Pavuna 265 83,9% 51 16,1% 316
3.7 - Ilha do
Governador 104 87,4% 15 12,6% 119
4.1 -
Jacarepaguá 445 80,8% 106 19,2% 551
4.2 - Barra da
Tijuca 99 71,2% 40 28,8% 139
5.1 - Bangu 956 90,0% 106 10,0% 1.062
5.2 - Campo
Grande 1.173 96,1% 48 3,9% 1.221
5.3 - Santa
Cruz 711 94,0% 45 6,0% 756
5.4 -
Guaratiba 163 88,1% 22 11,9% 185
TOTAL 9.393 93,3% 679 6,7% 10.072
187
5.5.2.1 Indústrias abandonadas e novas estratégias de habitação
popular
Apesar das diversas iniciativas conduzidas pelo Estado visando à oferta de
moradia para as camadas de baixa renda via mercado formal, estas políticas
continuam insuficientes no enfrentamento da questão habitacional. Recentemente,
paralelamente à expansão horizontal, verticalização e surgimento de novas favelas,
do mercado imobiliário informal, e o crescimento dos loteamentos irregulares, a
ocupação de imóveis abandonados também vem sendo adotada como estratégia de
moradia pelas camadas urbanas mais pobres. No caso da cidade do Rio de Janeiro,
muitas dessas ocupações se dão em fábricas e indústrias abandonados, imóveis
com grande área territorial, que atendiam a um uso relacionado a um contexto
econômico diferente do que vive a cidade atualmente, resultantes do esvaziamento
industrial sofrido pela cidade, sendo reflexo também da ausência de políticas
públicas concretas e eficientes de incentivo à reutilização dos vazios urbanos
industriais. Este fenômeno tem relação direta com a capacidade de planejamento e
gestão municipal, uma vez que a falta de um cadastro territorial atualizado, que
possibilite fazer um acompanhamento das mudanças no uso do solo, representa um
grande obstáculo para as políticas de requalificação dessas áreas, hoje estagnadas
e degradadas (SOUZA, 2012b). Dada a grande escala (área) desses imóveis
industriais e algumas experiências na área de habitação, dedicaremos essa seção a
esses tipos de vazios urbanos funcionais.
A ocupação de imóveis abandonados para moradia popular expressa a
complexidade de relações na produção do hábitat urbano, onde percebe-se os
conflitos de interesses entre o direito à propriedade privada e o direito à moradia e à
cidade. O melhor conhecimento desde fenômeno possibilita reconhecer e
compreender a produção de novas formas urbano-espaciais decorrentes desses
conflitos. A utilização dos vazios urbanos para fins de habitação popular é ao mesmo
tempo uma ação autogestionada de inclusão dos grupos excluídos – introduzindo
novas formas de sociabilidade urbana – quanto uma oportunidade para melhor
gestão do solo urbano pelo Estado, com novas ações/intervenções que podem
garantir a reutilização dos vazios urbanos ainda não ocupados para o cumprimento
da função social da propriedade e da cidade.
188
A relação entre as indústrias hoje abandonadas e a habitação social no Rio
de Janeiro é histórica e suas origens são entrelaçadas. Com o processo de
industrialização e urbanização na cidade, a falta de espaço e necessidades de
moradias baratas levou ao aumento da quantidade de habitações coletivas, como
solução encontrada para a crise habitacional. No início do século XIX, a provisão de
moradia para os trabalhadores por parte dos patrões era uma prática comum na
relação moradia/trabalho e grande parte dos trabalhadores morava no próprio local
de trabalho. Tal prática foi rompida com a modernização, e a solução clássica para
garantir a proximidade do morador às indústrias foi a construção das vilas operárias
(VAZ, 2002). Essas foram construídas principalmente entre a década de 1880 e a
década de 1920, quando questões conjunturais – tais como o aumento da oferta de
mão-de-obra e as leis de proteção ao inquilinato, que garantiam a permanência
mesmo dos operários desempregados – levaram ao seu declínio (VAZ, 2002).
Diversos autores, como Abramo (2003), Abreu (2008) e Silva (2005),
apresentam a proximidade das indústrias como um dos fatores de surgimento e
expansão de muitas favelas cariocas. A favela aparece como a principal solução de
moradia para a população sem renda suficiente para adquirir habitação bem
localizada via mercado formal, com preferência locacional pela proximidade dos
centros de emprego e da infraestrutura de transportese serviços, ainda que na
maioria das vezes em situações de extrema precariedade das habitações e de
irregularidade urbanística e fundiária. Como indica Silva (2005), dados do Censo da
Prefeitura do Distrito Federal na década de 1940 apontavam a presença significativa
de que metade dos moradores das favelas eram trabalhadores das indústrias; a
partir do Censo de 1960 os dados apontam redução drástica nesses números,
embora ainda significativa em algumas regiões da cidade como Méier e Irajá. De
acordo com a Silva (2005, p. 112), “as áreas de concentração industrial no início da
década de 1960 correspondiam, em parte, aos locais de concentração de favelas
nas áreas mais tradicionais; o mesmo se observara em bairros mais recentes,
localizados em zonas suburbanas de desenvolvimento, já no período a partir da
década de 1950”.
A concentração industrial na cidade do Rio de Janeiro inicialmente se deu na
área central e nas proximidades do porto, em razão da necessidade de escoamento
189
da produção. Todavia, com a expansão da rede ferroviária para os subúrbios, a
partir do início do século XX, começa um processo de difusão espacial, dando-se
preferência à ampla disponibilidade de terras nos subúrbios, com preços mais
baratos que os solos urbanizados centrais.
A expansão das ofertas de emprego que resultou da instalação das indústrias
em outras áreas da cidade além do Centro levou também a um grande fluxo
populacional e ao surgimento das primeiras favelas nessas áreas. Entre as primeiras
fábricas instaladas nos subúrbios da Zona Norte estão a Cisper (produção de
vidros), em 1917, e a General Eletric (fábrica de lâmpadas) e a Marvin (fábrica de
parafusos e pregos), em 1921, localizadas no bairro de Maria da Graça. Entre as
pioneiras estava também a Companhia Nacional de Tecidos Nova América, que se
instalou no ano de 1924 em Del Castilho. Data dessa mesma época o surgimento da
favela do Jacarezinho, da qual muitos moradores eram operários nessas fábricas
(ABREU, 2008).
A partir da década de 1930, com o apoio do Estado, sobretudo através de
obras de saneamento ambiental e de transportes, a atividade industrial e a ocupação
residencial vão se intensificar nos subúrbios atendidos pelos ramais ferroviários da
Leopoldina, Linha Auxiliar e Rio d’Ouro, que até então eram secundários. A
intervenção mais expressiva do Estado no período é o decreto-lei 6.000/37, que vai
definir pela primeira vez um zoneamento industrial para a cidade. Neste zoneamento
estavam incluídas as áreas suburbanas recém ocupadas, em detrimento dos bairros
de produção fabril tradicional da Zona Sul e Centro, que ficaram fora da lei de
zoneamento industrial, e cujos terrenos em crescente valorização foram
gradativamente sendo deixados pelas indústrias para a ocupação de moradias das
classes mais abastadas. Enquanto isso, um fluxo intenso de indústrias se dirigia
para o subúrbio, que já dispunha de linhas ferroviárias e de energia elétrica, seguido
pelos fluxos de trabalhadores pobres que ocupariam e adensariam essas áreas – e
suas favelas. A Avenida Brasil, inaugurada em 1946, visando à ocupação de novos
terrenos pelas indústrias, é considerada por Abreu (2008) como o melhor exemplo
de integração entre Estado e indústria no período que vai de 1930 a 1950. A
necessidade de mão-de-obra numerosa, barata e próxima conduz à expansão e
adensamento das favelas; o Censo Demográfico de 1948 já revelava que 44%
190
destes assentamentos situavam-se na AP3. Algumas favelas que aparecem nesse
período são a Nova Brasília (década de 40, em Bonsucesso) e Fernão Cardim
(década de 50, nas adjacências da fábrica da Klabin, no Cachambi) (ABRAMO,
2003).
A figura 87 apresenta a relação entre os transportes, favelas e indústrias.
Figura 87 – Indústrias, favelas e transportes na AP3 do Rio de Janeiro
Fonte: Souza, 2012b.
Através da figura é possível perceber a forte influência das linhas ferroviárias
e dos eixos viários na localização das áreas industriais, assim como a sua relação
com a distribuição das favelas. Também é notável a grande concentração de áreas
industriais ao longo da Avenida Brasil, que em consequência do processo de
fechamento das indústrias potencialmente apresenta a maior quantidade de
edificações sujeitas ao abandono, merecendo atenção especial.
191
Esta tendência de industrialização na Zona Norte foi contínua, até a década
de 80, quando tem início um processo de reversão deste quadro, com o fenômeno
da desindustrialização que afetou a cidade como um todo e esta área da cidade de
forma ainda mais acentuada. O fenômeno, com fatores de repulsão de natureza
interna como as externalidades negativas causadas por violência urbana e
problemas de mobilidade, além dos altos custos – por exemplo, para manutenção de
imóveis – diminuem a sua atratividade para as atividades econômicas e os fluxos
populacionais, ao passo que fatores de atração de natureza externa, como oferta de
incentivos fiscais de outras localidades, têm incentivado a instalação das indústrias
em seus territórios (DINIZ FILHO, 2005; SOUZA, 2004). Todos esses fatores
influenciam na saída das indústrias das grandes cidades, o que permite
compreender a existência e a distribuição dos espaços industriais ociosos.
Mecanismos especulativos também estão por trás da manutenção dos antigos
imóveis industriais como reservas de valor nessas áreas que após um longo período
de degradação atualmente recebem uma série de iniciativas, como a série de
decretos municipais, apresentados no capítulo 3.
No contexto da questão habitacional atual, as ocupações de indústrias
abandonadas, apontada por alguns autores como Martins (2008) como um novo tipo
de moradia coletiva informal, possuem laços com as formas históricas das soluções
de habitações populares e suas formas de coabitação existentes como solução no
século XIX. Essas ocupações teriam características de “co-propriedades populares”,
uma vez que, considerado o estabelecimento de regras de convivência entre seus
moradores, representaria a emergência de um novo modo de habitação popular
tomando como referencial os condomínios fechados, aponta Martins (2012) a partir
do estudo de caso das ocupações na Avenida Brasil. Souza (2012a) apresenta
aspectos morfológicos, urbanísticos, socioeconômicos e jurídicos que representam
singularidades das ocupações em indústrias abandonadas em relação às favelas
“convencionais”: ocupação organizada de estrutura arquitetônica adaptada, não
orgânica; diferentes usos no interior do mesmo edifício; integração física com a
cidade formal; definição urbanística: endereço reconhecido, porém irregular
(domicílios improvisados); heterogeneidade e diversidade dos ocupantes; auto-
organização e gestão comunitária como processos inovadores; regime de
192
condomínio; e diferentes necessidades de intervenção para regularização fundiária e
urbanística/arquitetônica.
Resumindo, Souza (2012a) apresenta uma conjunção de fatores explica a
ocupação das indústrias e fábricas abandonadas. O esvaziamento industrial a partir
da década de 1980, gerando os vazios urbanos funcionais; mecanismos de
especulação imobiliária, causando a retenção desses imóveis; o esgotamento da
“fronteira de expansão” da habitação popular e o mercado imobiliário informal cada
vez mais caro; a contínua preferência espacial por moradia bem localizada, em
áreas inseridas no tecido urbano consolidado e com infraestrutura implantada;
insuficiência das políticas habitacionais para oferta de moradia popular; e por fim, a
ausência de políticas sistemáticas para reutilização dos vazios urbanos. A
particularidade das ocupações de indústrias abandonadas em termos de localização
se comparadas com outras favelas é que não se tratam da escolha de áreas vazias
para construção de habitações, mas sim a refuncionalização de áreas já edificadas,o que pode inclusive ser entendido como uma revitalização desses espaços até
então deixados desconectados com o seu entorno, sem a realização de qualquer
função econômica ou social para a cidade e seus habitantes (Souza, 2012b).
Em seu trabalho, Silva (2008), a partir do estudo dos casos das indústrias na
região de Manguinhos, apresenta a diversidade de usos, não apenas habitacionais,
mas também equipamentos de utilização coletiva – centros sociais, associações de
moradores, igrejas e cooperativas – que vão ter lugar nesses vazios urbanos.
A partir do trabalho de Souza (2012b), para a identificação de imóveis
abandonados ocupados com uso de SIG, pode-se perceber a importância desse tipo
de habitação sobre vazios urbanos. A metodologia utilizada pelo autor, a partir de
bases cartográficas de restituição com informações sobre os lotes, edificações,
topônimos, endereços e identificação de usos – inclusive por indústrias e fábricas –
e interpretação de imagens aéreas produzidas de diversos anos, em uma sequência
que possibilita acompanhar as mudanças no uso e ocupação do solo, permitiu
identificar, na Zona Norte da cidade, as áreas cadastradas pela Prefeitura como
favelas que tiveram origem na ocupação de indústrias e fábricas abandonadas. Para
o acompanhamento das áreas, apresenta-se nas figuras a seguir em três momentos:
em 1999, por volta do período da realização do Censo 2000, antes da ocupação; em
193
2010, período da coleta do Censo 2010, com as áreas já ocupadas; e em 2013,
momento atual, como as áreas se encontram hoje.
Figura 88 – Ocupação da favela Vida Nova na antiga fábrica da Parmalat
194
Figura 89 – Expansão da favela Parque União em antiga indústria
195
Figura 90 – Ocupação das favelas Grefisa e Comunidade do Pedrosa em antigas indústrias
As áreas identificadas estão listadas na tabela 32 e espacializadas na figura
91.
196
Figura 91 – Ocupações de imóveis abandonados na AP3 do Rio de Janeiro
Fonte: Souza, 2012b.
Tabela 32 – Características das ocupações em imóveis abandonados na AP3
Nº Nome da ocupação Descrição do
tipo de indústria
Área
aprox.
(m²)
Período da
ocupação
População Domicílios
1 Comunidade CCPL CCPL 34.000 Entre 2000 e 2004 1.576 531
2 Comunidade do Adonis Galpão 700 Entre 2000 e 2004 ‐ ‐
3
Engenheiro Alberto
Haas Galpão 580 Entre 2000 e 2004 ‐ ‐
4 Antiga Company Company 1.400 Entre 2000 e 2004 ‐ ‐
5 Vitória de Manguinhos CONAB 24.100 Entre 2000 e 2004 ‐ ‐
6 Mandela de Pedra Embratel 29.500 Entre 2005 e 2008 ‐ ‐
7 Comunidade do Pedrosa Indústria 12.600 Entre 2005 e 2008 447 142
197
8 Grefisa Indústria 25.700 Entre 2000 e 2004 ‐ ‐
9
Parque Everest
(Aripibuí) Indústria 16.300 Entre 2000 e 2004 1267 314
10 Uga‐Uga Galpão 3.700 Entre 2000 e 2004 408 141
11 Avenida dos Campeões Galpão 940 Entre 2000 e 2004 ‐ ‐
12 Av. Teixeira de Castro Galpão 2500 Entre 1976 e 1985 802 267
13 Avenida Brasil Borgauto 16.950 Entre 2000 e 2004 1.603 516
14 Parque União Indústria 13.450 Entre 2000 e 2004 2.278 589
15 Vida Nova Parmalat 40.550 Entre 2005 e 2008 1.160 352
16 Rua Embaú, nº 425 Transportadora 6.950 Entre 2005 e 2008 84 26
17 Estrela do Sul Transportadora 20.800 Entre 2005 e 2008 605 211
Só foi possível identificar a população nos casos em que os setores
censitários do Censo 2010 coincidiam plenamente com os limites das áreas.
Considerando apenas aquelas ocupações com dados disponíveis, destaca-se
a quantidade de pessoas vivendo nestas áreas: mais de 10 mil pessoas, indicando a
gravidade da precariedade deste tipo de condição de habitação. É possível observar
que as ocupações em imóveis de antigas indústrias e galpões estão localizadas nos
bairros que já tiveram grande atividade industrial da Zona Norte da cidade, que hoje
se encontram em decadência econômica. Apesar da grande variedade entre a área
das edificações ocupadas – desde o pequeno galpão com pouco mais de 500 m² na
Rua Engenheiro Alberto Hass, até a ocupação Vida Nova na desativada indústria da
Parmalat, com mais de 40.000 m² – todas têm em comum a preferência por
localidades com boa acessibilidade de transportes, pois se percebe a concentração
próxima a grandes eixos viários, localizações buscadas pelas indústrias que antes
estavam aí instaladas.
Uma importante constatação a ser feita é que em dois casos, comunidades
que surgiram a partir da ocupação de antigas indústrias abandonadas foram
removidas pela Prefeitura: a Comunidade CCPL e a Mandela de Pedra, como pode
ser observado nas figuras 92 e 93.
198
Figura 92 – Comunidade CCPL, antes e depois da ocupação e remoção
199
Figura 93 – Mandela de Pedra, antes e depois da ocupação e remoção
200
Fernandes e Costa (2013) explicam como se deu o processo de ocupação e
remoção desses dois casos. Tanto no caso da comunidade CCPL quanto em
Mandela de Pedra – além da Vitória de Manguinhos, que permanece – as
ocupações das instalações abandonadas foram planejadas baseadas no
pressuposto de que com a ocupação os moradores seriam cadastrados para
reassentamento pelo governo, recebendo uma nova casa. A expansão da
comunidade Mandela de Pedra, ocupando o terreno onde funcionava a Embratel, é
um exemplo de caso em que o agravamento da violência e outros problemas
urbanos levaram à saída da empresa, ocorrendo então a expansão e favelização da
área. Os recorrentes furtos e invasões levaram à desativação das instalações pela
Embratel em 2004, uma vez que essa não conseguia mais garantir a segurança dos
funcionários. Localizada ao lado da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos –
ECT, a ocupação do seu terreno foi iniciada em 2005 e concluída em 20 de julho de
2005, data tida como a “fundação” da favela. A Prefeitura estava em negociação
com as empresas para construir um novo conjunto habitacional que ofereceria mil
unidades residenciais, no entanto a falta de um acordo favoreceu a ocupação do
terreno.
A importância do mapeamento das indústrias e fábricas abandonadas é
possibilitar uma ação pró-ativa do município, planejamento o uso habitacional de
forma adequada nesses espaços, ao contrário do que foi apresentado na sessão
sobre a ação municipal, que em todos os casos implicou na remoção de população
que ocupa esses vazios urbanos para então realizar investimentos por programas
habitacionais. Os casos exemplificados das favelas originadas da ocupação de
indústrias abandonadas em Manguinhos servem para demonstrar a importância de
ação prévia do município na reutilização dos vazios urbanos industriais.
A partir de consulta no banco estruturado de estabelecimentos abandonados,
utilizou-se os termos “fábrica” e “indústria” para quantificação destes. Para
abandonados com o tipo “fábrica”, encontrou-se 68 casos, de um total de 2.142 para
a cidade; para abandonados com o tipo “indústria”, encontrou-se apenas 4 de um
total de 422.
201
Figura 94 – Localização de indústrias e fábricas abandonadas
Dos 72 casos, alguns foram relacionados na tabela 33, como exemplos.
Tabela 33 – Exemplos de endereços de estabelecimentos abandonados dos tipos indústria e fábrica
RP BAIRRO cod_setor IDENTIFICACAO_ESTABELECIMENTO Endereço
1.1 -
Centro
Santo
Cristo 330455705060023
FABRICA DESATIVADA ACUCAR
PEROLA
Rua Pedro
Alves, 0
1.1 -
Centro Mangueira 330455705120112
ANTIGA FABRICA ALTO DA BOA
VISTA
Rua
Visconde de
Niteroi, 448
2.2 -
Tijuca Vila Isabel 330455705140051 ANTIGA FABRICA DA ANTARTICA
Rua Torres
Homem, 688
3.2 - Méier Engenho Novo 330455705170103 FABRICA DE BISCOITO DESATIVADA
Rua
Visconde de
Santa Cruz,
260
5.1 -
Bangu
Padre
Miguel 330455705220066 GALPAO ANTIGA FABRICA VALERIA
Rua
Murundu, 0
5.2 -
Campo
Grande
CampoGrande 330455705230562 FABRICA DESATIVADA DA AMBEV
Avenida
Brasil, 49800
202
A tabela 34 apresenta os resultados por RP.
Tabela 34 – Indústrias e fábricas abandonadas por Região de Planejamento
RP Quantidade indústrias e fábricas abandonadas
1.1 - Centro 6
2.1 - Zona Sul 0
2.2 - Tijuca 5
3.1 - Ramos 4
3.2 - Méier 16
3.3 - Madureira 10
3.4 - Inhaúma 4
3.5 - Penha 6
3.6 - Pavuna 2
3.7 - Ilha do Governador 1
4.1 - Jacarepaguá 0
4.2 - Barra da Tijuca 0
5.1 - Bangu 5
5.2 - Campo Grande 9
5.3 - Santa Cruz 3
5.4 - Guaratiba 1
TOTAL 72
Mais da metade – 43 indústrias e fábricas abandonadas – encontra-se na
Zona Norte, área de cidade de maior concentração de atividades industriais no
passado, atividades que atualmente se deslocaram para a Zona Oeste.
As informações georreferenciadas de localização destes imóveis industriais
abandonados são essenciais para melhor planejamento e ação preventiva do
município, para evitar a ocorrência das situações de ocupação – e os seus
problemas decorrentes, tanto para a população como para a cidade – ora
apresentadas.
Além das ocupações em indústrias e fábricas, ocorre em muitos casos a
ocupação por movimentos sociais como o movimento dos sem-teto, de prédios
abandonados – prédios comerciais, hotéis, prédios em construção, etc. –
principalmente na região central da cidade. Vale lembrar que essa é a mesma região
de atuação do programa Novas Alternativas, da SMH.
203
A partir de uma listagem do Instituto de Terras e Cartografia do Estado do Rio
de Janeiro – ITERJ, divulgada em Motta (2009), 42 imóveis estariam ocupados nos
bairros do Centro, São Cristóvão, Santo Cristo/Saúde, Estácio, Santa Teresa, Glória,
Catete e Catumbi, que foram mapeados conforme apresentado na figura 95.
Figura 95 – Ocupações de prédios abandonados na área central do Rio de
Janeiro
É interessante conhecer a distribuição espacial desses imóveis, pois se
tratam de vazios urbanos, imóveis que não cumpriam sua função social e que foram
ocupados, recebendo novos usos. Em sentido estrito, porém, esses casos não são
considerados vazios urbanos pela metodologia utilizada. Primeiramente, porque de
fato não podem ser considerados como vazios pela noção, uma vez que estão
ocupados para moradia, ainda que de forma irregular. Em termos dos dados
utilizados neste trabalho, o IBGE considera esse tipo de moradia como domicílios
improvisados, que de acordo com a definição do Censo (IBGE, 2010) “é aquele
localizado em uma edificação que não tenha dependências destinadas
exclusivamente à moradia (por exemplo, dentro de um bar), como também os locais
204
inadequados para habitação e que, na data de referência, estavam ocupados
por moradores” (grifo nosso). Assim, não se enquadram como domicílios
particulares permanentes vagos, nem como estabelecimentos abandonados, não
sendo levantados nas consultas utilizadas para esse fim. Diferente dos casos
apresentados das indústrias e fábricas que foram ocupadas, havendo remoção do
telhado, as ocupações nesses prédios não permite identificação através de
ortofotos, mas apenas com trabalhos de campo.
Em outras realidades, como no Reino Unido, por exemplo, a ocupação de
imóveis vazios não habitados não é crime, e os ocupantes só podem ser removidos
por ordem judicial (LYALL, 2011). É uma prática dos chamados squatters, que
abrange desde grupos com movimentos políticos a simplesmente sem-tetos. Existe
inclusive um grupo organizado para apoiar e incentivar esse tipo de ação, o Advisory
Service for Squatters, que disponibiliza um site (http://www.squatter.org.uk/)
informando uma lista de propriedades vazias, e explicações sobre a lei sobre esse
assunto. Em Berlim, os tacheles constituem-se em espaços abandonados ocupados
por grupos semelhantes, anarquistas e artistas que buscam tais espaços para uso
criativo.
A partir dessas observações, é possível observar que a relação entre os
espaços industriais na cidade e habitação popular é histórica na cidade e continua
existindo – antes, pela proximidade entre local de moradia e local de trabalho, seja
pela construção de vilas operárias ou pela origem de muitas favelas; hoje pela
ocupação de indústrias abandonadas como estratégia de solução habitacional.
5.5.2.2 Minha Casa Minha Vida
Utilizou-se a ferramenta de consulta espacial para encontrar todos os pontos
estabelecimentos abandonados que intersectavam com os polígonos dos
empreendimentos do Minha Casa Minha Vida, considerando-se uma tolerância de
10m para que os pontos de endereços não sobrepostos também pudessem ser
conferidos. A partir de conferência visual e do endereço escrito, encontrou-se 8
empreendimentos do MCMV projetados em endereços identificados pela base do
Censo 2010 como abandonados.
205
Figura 96 – Empreendimentos MCMV em estabelecimentos abandonados
As figuras 97 a 100 apresentam ortofotos de cada um desses casos.
Figura 97 – Empreendimento MCMV em estabelecimento abandonado: Avenida Brasil, 41.274 –
abatedouro de frangos desativado
206
Figura 98 – Empreendimento MCMV em estabelecimento abandonado: Avenida Itaoca, 1.174 –
galpão vago
Figura 99 – Empreendimento MCMV em estabelecimento abandonado: Rua da Lapa, 270 – loja vazia
207
Figura 100 – Empreendimento MCMV em estabelecimento abandonado: Rua Leopoldino Bastos, 44 –
fábrica abandonada
Tabela 35 – Lista de empreendimentos MCMV localizados em estabelecimentos abandonados
Endereço Unidades Status Bairro Faixa Imóvel
Estrada Carvalho Ramos, 935 350 Enquadrado Campo Grande
6 a
10
SFAL Fundição
(fábrica
abandonada)
Avenida Itaoca, 1174 100 Contratado Bonsucesso 0 a 3 Galpão vago
Rua do Teatro,17 6 Licenciado Centro 3 a 6 Abandonado
Estrada Rodrigues Caldas,
2055 470 Contratado Taquara
6 a
10 Vazio
Rua Leopoldino Bastos, 44 142 Contratado Engenho Novo
6 a
10 Fábrica abandonada
Avenida Brasil, 41274 180 Enquadrado Campo Grande 0 a 3
Abatedouro de
frangos desativado
Travessa Vasconcelos, 25 - Enquadrado Andaraí - Loja abandonada
Rua da Lapa, 270 5 Enquadrado Centro 3 a 6 Loja vazia
Os empreendimentos encontram-se em diferentes estágios, sendo alguns
apenas estudos, mas que apontam uma iniciativa de reutilização de vazios. No
entanto, a mesma se mostra ainda muito tímida se consideramos a quantidade total
de imóveis do tipo estabelecimento identificados como abandonados.
208
Também foi feita uma análise em relação aos domicílios vagos situados
dentro de projetos do MCMV. Neste caso, existem duas explicações possíveis. Uma
é a de que se tratam de domicílios em estado de abandono sobre os quais existe a
iniciativa de reutilização, nos moldes do verificado em relação aos estabelecimentos
abandonados. A outra, é que se trata de empreendimentos do MCMV já lançados e
ainda sem população residente; em relação a esses casos, existe uma dificuldade
uma vez que a base georreferenciada do MCMV não contempla todos os
empreendimentos desde o início, pois a base começou a ser mapeada
recentemente. Segundo a análise realizada, não foi detectado nenhum caso para
esta situação.
Para analisar esse aspecto, por seleção espacial foram marcados todos os
domicílios vagos dentro do polígono do MCMV. Posteriormente, foram sendo
verificados visualmente e comparando-se o endereço com o endereço do projeto, e
foram apagados aqueles registros que não tinham coincidência de endereços e que
estavam dentro dos polígonos apenas por questão de traçado. Por esse método,
dos 78 endereços de domicílios vagos geocodificados encontrados dentro dos
polígonos do MCMV, restaram apenas 11.
Uma grande dificuldade encontrada foi pelo fato de muitos endereços de
empreendimentos MCMV fazerem referência a lotes de PALs, resultantes do
desmembramento, remembramento e loteamento, fazendo com que só se seja
possível verificar se os endereçosda base da Prefeitura são de fato os que
originaram os empreendimentos a partir de consultas a PALs. Esta é uma base que
não está disponível, e a consulta ao histórico de endereços/PALs é extremamente
complexa.
209
Figura 101 – Empreendimentos MCMV em domicílios vagos
Em muitos casos, a construção dos conjuntos do MCMV vão se dar em locais
ocupados por indústrias e fábricas abandonados. Diferentemente dos casos
apresentados na seção anterior, onde a população já havia ocupado esses edifícios,
alguns exemplos onde o poder público se antecipou podem ser encontrados no
Complexo do Alemão: o da antiga fábrica da Coca-Cola e a antiga fábrica de lingerie
Poesi para realização de obras habitacionais do PAC (figura 51). Estas duas
indústrias fazem parte da lista de imóveis identificados pelo trabalho da GPL-3/SMU
que foram alvo de políticas de utilização, sendo demolidos para aproveitamento dos
lotes em empreendimentos habitacionais.
210
Figura 102 – Implosão da antiga fábrica da Poesi, no Complexo do Alemão
Fonte: VIEGAS, 2008.
De forma geral, verifica-se que o MCMV, principal programa habitacional do
governo, ainda aproveita pouco os vazios urbanos para aumentar a oferta
habitacional de baixa renda.
5.5.3 Zoneamento e legislação urbanística
O zoneamento, ao definir os usos possíveis para as diferentes partes da
cidade, pode ser um dos mais importantes fatores a se analisar para entender a
situação dos vazios urbanos. Ele permite entender algumas restrições que podem
dificultar o desenvolvimento e utilização dos mesmos.
As Zonas, definidas em Lei Complementar – LUOS – Lei de Uso e Ocupação
do Solo, têm as seguintes denominações e conceitos, segundo o Plano Diretor:
I. Zona Residencial é aquela onde prevalece o uso residencial, admitidas as atividades de
apoio ou complementaridade a esse uso, desde que compatíveis entre si;
211
II. Zona Industrial é aquela onde prevalece a existência de indústrias e de atividades
correlatas, inclusive aquelas de apoio, viabilidade e complementação, podendo incluir o uso
residencial e demais atividades econômicas, desde que garantida a compatibilidade com as
atividades do setor secundário;
III. Zona Comercial e de Serviços é aquela onde prevalecem as atividades comerciais e de
prestação de serviços, classificadas de acordo com as intensidades dessas atividades, admitida a
incidência de uso residencial e de atividades econômicas ligadas aos setores primário e secundário;
IV. Zona de Uso Misto é aquela onde as atividades residenciais, comerciais, de serviços e
industriais, compatíveis entre si, coexistem, sem a predominância necessária de qualquer dessas
atividades;
V. Zona de Conservação Ambiental é aquela que apresenta características naturais, culturais
ou paisagísticas relevantes para a preservação, inclusive através de projetos de turismo sustentável,
podendo vir a ser transformadas, total ou parcialmente em Unidades de Conservação da Natureza;
VI. Zona Agrícola é aquela onde prevalecem atividades agrícolas e de criação animal e
aquelas de apoio e complementação compatíveis entre si.
Na base geográfica fornecida pela SMU, temos além dessas zonas uma área
de PEU – Plano de Estruturação Urbana.
Tabela 36 – Quantidade de domicílios vagos e estabelecimentos abandonados por zoneamento de
uso do solo
Tipo
Quantidade de
Domicílios Particulares
Permanentes Vagos
Quantidade de
Estabelecimentos
abandonados
Área Central 1.205 429
Zona Agrícola 324 2
Zona Comercial e de Serviços 1.464 327
Zona de Conservação Ambiental 122 1
Zona Especial 11.065 170
Zona Industrial 3.331 458
Zona Portuária 79 8
Zona Residencial 103.416 5.400
Zona Turística 2.742 58
Zona de Uso Misto 1.360 181
PEU Vargens (Lei Complementar 104/2009) 1.641 7
212
Tabela 37 – Quantidade de domicílios vagos e estabelecimentos abandonados por zoneamento de
uso do solo por Região de Planejamento
RP NOME_RP Tipo
Área por
zona (m²)
%
zona /
área
total
Domicílios
Particulares
Permanentes
Vagos
Estabelecimentos
abandonados
1.1 Centro Sem informação
1.091.575 3,2% 64 9
1.1 Centro Área Central
4.006.004 11,6% 1.182 428
1.1 Centro
Zona de Conservação
Ambiental
776.171 2,3% 2 0
1.1 Centro Zona Comercial e de Serviços
1.581.077 4,6% 360 40
1.1 Centro Zona Especial
7.544.377 21,9% 541 19
1.1 Centro Zona Industrial
3.007.160 8,7% 41 45
1.1 Centro Zona Portuária
2.165.386 6,3% 79 8
1.1 Centro Zona Residencial
10.328.117 30,0% 3.777 273
1.1 Centro Zona Turística
42.751 0,1% 9 0
1.1 Centro Zona de Uso Misto
3.899.084 11,3% 467 100
2.1 Zona Sul Sem informação
8.049.325 17,8% 163 4
2.1 Zona Sul Área Central
4.508 0,0% 23 1
2.1 Zona Sul Zona Comercial e de Serviços
52.590 0,1% 23 2
2.1 Zona Sul Zona Especial
12.387.114 27,4% 92 0
2.1 Zona Sul Zona Residencial
22.690.950 50,1% 15.182 442
2.1 Zona Sul Zona Turística
2.083.277 4,6% 2.042 23
2.2 Tijuca Sem informação
49.314 0,1% 3 3
2.2 Tijuca Zona Comercial e de Serviços
266.500 0,5% 17 2
2.2 Tijuca Zona Especial
40.853.108 74,0% 250 10
2.2 Tijuca Zona Industrial
266.753 0,5% 25 18
2.2 Tijuca Zona Residencial
13.752.101 24,9% 7.343 255
3.1 Ramos Sem informação
306.378 2,0% 13 1
3.1 Ramos Zona Comercial e de Serviços
52 0,0% 0 0
3.1 Ramos Zona Especial
79.208 0,5% 0 0
3.1 Ramos Zona Industrial
10.282.061 66,0% 676 178
3.1 Ramos Zona Residencial 4.885.672 31,4% 1.715 327
213
3.1 Ramos Zona Residencial
11.947 0,1% 0 0
3.1 Ramos Zona de Uso Misto
37 0,0% 0 0
3.1 Ramos Zona Industrial
4.897 0,0% 0 0
3.2 Méier Sem informação
54.604 0,2% 5 1
3.2 Méier Zona Especial
5.688.343 18,7% 78 3
3.2 Méier Zona Industrial
2.323.475 7,7% 265 36
3.2 Méier Zona Residencial
22.287.728 73,4% 9.621 625
3.2 Méier Zona de Uso Misto
0 0,0% 0 0
3.3 Madureira Sem informação
195.645 0,4% 7 0
3.3 Madureira Zona Comercial e de Serviços
605 0,0% 0 0
3.3 Madureira Zona Especial
4.319.776 9,6% 1 0
3.3 Madureira Zona Industrial
3.311.555 7,3% 355 24
3.3 Madureira Zona Residencial
37.388.293 82,7% 13.534 924
3.3 Madureira Zona Residencial
10.158 0,0% 4 0
3.4 Inhaúma Sem informação
147.455 1,1% 0 1
3.4 Inhaúma Zona Especial
1.350.475 9,8% 10 0
3.4 Inhaúma Zona Industrial
2.140.849 15,5% 136 32
3.4 Inhaúma Zona Residencial
10.203.899 73,7% 2.732 185
3.5 Penha Sem informação
420.420 1,7% 6 2
3.5 Penha
Zona de Conservação
Ambiental
303.796 1,2% 0 0
3.5 Penha Zona Comercial e de Serviços
309.053 1,2% 76 152
3.5 Penha Zona Especial
3.706 0,0% 0 0
3.5 Penha Zona Industrial
5.440.111 21,4% 381 30
3.5 Penha Zona Residencial
5.986.290 23,6% 1.984 92
3.5 Penha Zona Residencial
7.190.979 28,3% 2.790 138
3.5 Penha Zona de Uso Misto
3.148.851 12,4% 764 78
3.5 Penha Zona Industrial
2.571.708 10,1% 251 42
3.6 Pavuna Sem informação
51.697 0,2% 8 0
3.6 Pavuna Zona Especial
2.104.744 6,6% 20 0
214
3.6 Pavuna Zona Industrial
6.102.502 19,3% 574 23
3.6 Pavuna Zona Residencial
23.414.192 73,9% 4.825 169
3.7
Ilha do
Governador Sem informação
253.434 0,6% 0 0
3.7
Ilha do
Governador Zona Especial
26.096.760 63,0% 66 3
3.7
Ilha do
Governador Zona Residencial
14.661.089 35,4% 2.289 84
3.7
Ilha do
Governador Zona Turística
443.183 1,1% 65 5
4.1 Jacarepaguá
PEU Vargens (Lei
Complementar 104/2009)
1.624.113 1,3% 165 8
4.1 Jacarepaguá
Zona de Conservação
Ambiental
8.288.410 6,5% 75 1
4.1 JacarepaguáZona Comercial e de Serviços
976.948 0,8% 362 18
4.1 Jacarepaguá Zona Especial
73.597.941 57,5% 3.370 99
4.1 Jacarepaguá Zona Industrial
2.022.612 1,6% 86 4
4.1 Jacarepaguá Zona Residencial
41.412.932 32,4% 7.911 223
4.2 Barra da Tijuca
PEU Vargens (Lei
Complementar 104/2009)
66.222.174 39,9% 2.177 9
4.2 Barra da Tijuca Zona Especial
98.667.731 59,4% 6170 29
4.2 Barra da Tijuca Zona Residencial
1.081.262 0,7% 16 0
5.1 Bangu Sem informação
268.847 0,2% 7 0
5.1 Bangu Zona Agrícola
9.042.963 7,4% 25 0
5.1 Bangu Zona Comercial e de Serviços
1.055.970 0,9% 87 50
5.1 Bangu Zona Especial
57.489.415 47,0% 348 7
5.1 Bangu Zona Industrial
1.394.008 1,1% 79 1
5.1 Bangu Zona Residencial
53.107.499 43,4% 9.897 616
5.2 Campo Grande Sem informação
133.850 0,1% 0 0
5.2 Campo Grande Zona Agrícola
16.551.018 10,8% 299 2
5.2 Campo Grande Zona Comercial e de Serviços
2 0,0% 0 0
5.2 Campo Grande
Zona de Conservação
Ambiental
51.747.269 33,7% 45 0
5.2 Campo Grande Zona Comercial e de Serviços
1.971.531 1,3% 539 63
5.2 Campo Grande Zona Industrial
14.132.787 9,2% 93 6
5.2 Campo Grande Zona Residencial
65.466.482 42,7% 11.507 684
5.2 Campo Grande Zona de Uso Misto
3.448.793 2,2% 129 3
215
5.3 Santa Cruz Sem informação
1.312.540 0,8% 32 2
5.3 Santa Cruz Zona Especial
29.882.505 18,2% 26 0
5.3 Santa Cruz Zona Industrial
45.476.698 27,7% 361 19
5.3 Santa Cruz Zona Residencial
85.668.773 52,2% 5.530 285
5.3 Santa Cruz Zona Turística
1.749.151 1,1% 234 26
5.4 Guaratiba Sem informação
163.419 0,1% 10 0
5.4 Guaratiba
Zona de Conservação
Ambiental
120 0,0% 0 0
5.4 Guaratiba Zona Especial
77.427.314 50,7% 93 0
5.4 Guaratiba Zona Industrial
1.143.251 0,7% 8 0
5.4 Guaratiba Zona Residencial
70.212.600 46,0% 2.759 78
5.4 Guaratiba Zona Turística
3.756.125 2,5% 392 4
Figura 103 – Zoneamento urbanístico do Rio de Janeiro
216
Algumas dificuldades foram encontradas na análise da informação do
zoneamento urbanístico. O zoneamento é formado por uma superposição de
legislações que afetam diferentes áreas ou áreas comuns. Além disso, a
nomenclatura é variável, como por exemplo, "Zona Residencial", "Zona Residencial
Unifamiliar" e "Zona Residencial Multifamiliar"; “Zona Comercial” e “Zona Comercial
e de Serviços”; e "Zona Industrial", "Zona de Indústria e Comércio" e "Zona de Uso
Predominantemente Industrial". Nesses casos, agregou-se segundo o tipo.
Em relação às Áreas de Especial Interesse (AEI) (figura 104) uma análise
possível é levantar os imóveis situados dentro dessas áreas, que tendo diretrizes
específicas, dependendo do seu tipo, podem ser alvo de algumas políticas
adequadas às mesmas.
Figura 104 – Áreas de Especial Interesse no Rio de Janeiro
Dentro da Área de Especial Interesse Urbanístico da Avenida Brasil, temos
1.005 domicílios vagos e 124 estabelecimentos abandonados. Esses imóveis são
217
uma das preocupações na definição dessa AEIU, que é recente e foi definida depois
da informação do Censo, não sendo possível tecer considerações sobre o seu
impacto a partir dos dados aqui utilizados.
Todas as quase 200 áreas de especial interesse social identificadas na base
eram do tipo 1, áreas já ocupadas de favelas ou habitação social. Não foi
encontrada nenhuma documentação referente a áreas de especial interesse social
do tipo 2, que seriam as áreas de vazios urbanos.
Existem diversos outros conceitos e definições previstas na LUOS, como
índices de Aproveitamento do Terreno e coeficiente de adensamento que podem
fornecer importantes indicações sobre as possibilidades de usos dos vazios
urbanos.
5.5.4 Mercado imobiliário
A partir da informação sobre as edificações em construção, informação
também disponível no CNEFE, é possível ter uma aproximação da questão do
mercado imobiliário. Existem muitas variáveis econômicas e não envolvidas, cujo
aprofundamento pode ajudar a responder a difícil questão que se coloca, a
explicação se é um vazio urbano porque foi desvalorizado ou se foi desvalorizado
por ser uma área de vazios urbanos. Esta questão foi apresentada anteriormente, a
partir de Coleman (1982), que menciona a dificuldade em definir qual é a causa e
qual é o efeito.
Tabela 38 – Edificações em construção por Região de Planejamento
RP
Quantidade de edificações
em construção
Ranking em construção Ranking em vazios
urbanos
1.1 - Centro
1.737
10ª 9ª
2.1 - Zona Sul
1.661
12ª 2ª
2.2 - Tijuca
647
16ª 10ª
3.1 - Ramos
1.695
11ª 14ª
3.2 - Méier
2.743
8ª 8ª
218
3.3 - Madureira
2.310
9ª 4ª
3.4 - Inhaúma
1.505
14ª 15ª
3.5 - Penha
1.613
13ª 11ª
3.6 - Pavuna
2.896
6ª 12ª
3.7 - Ilha do Governador
934
15ª 16ª
4.1 - Jacarepaguá
9.482
2ª 3ª
4.2 - Barra da Tijuca
2.862
7ª 6ª
5.1 - Bangu
5.000
4ª 5ª
5.2 - Campo Grande
9.997
1ª 1ª
5.3 - Santa Cruz
5.547
3ª 7ª
5.4 - Guaratiba
3.673
5ª 13ª
TOTAL
54.302
Figura 105 – Edificações em construção por Região de Planejamento
219
De acordo com a definição do CNEFE, as edificações em construção somente
são consideradas a partir da existência de obras na fundação e na ausência de
moradores.
Setores censitários com desenvolvimento de empreendimentos residenciais e
comerciais a princípio provocam transformações positivas, porém verifica-se que se
concentram em áreas onde houve aumento populacional e menor diminuição de
domicílios vagos. Por outro lado, conforme já apresentado, alguns empreendimentos
residenciais ainda não lançados revelam a existência de domicílios vagos.
Comparando-se o mapa com as edificações em construção e o mapa dos
vazios urbanos, verifica-se incoerência na expansão da cidade, com novas
construções, simultaneamente ao grande estoque de áreas subutilizadas ou não
utilizadas nos mesmos territórios. As regiões de Jacarepaguá e Campo Grande, que
são as duas com maiores quantidades de vazios urbanos, são também as com
maiores quantidades de edificações em construção; as exceções ficam por conta de
regiões com poucos terrenos livres, como Zona Sul e Tijuca. Tal confirmação é um
sintoma do mau aproveitamento das áreas já construídas.
Uma informação que seria de grande valia para a análise do mercado
imobiliário e a relação com os vazios urbanos é a investigação sobre as áreas da
cidade com maior quantidade e valor de transações e a associação com as áreas da
cidade com maior quantidade de vazios urbanos. Seria de grande valor também
verificar se os imóveis aqui identificados como vazios urbanos foram transacionados
recentemente. Porém, assim como no caso do IPTU, o banco do ITBI também
possui como chave identificadora a inscrição imobiliária, associada pelo endereço,
portanto não foi possível essa análise.
5.5.5 Patrimônio histórico e arquitetônico urbano
De acordo com o Plano Diretor, entende-se por Área de Proteção do
Ambiente Cultural – APAC, “o território de domínio público ou privado, que apresenta
conjunto edificado de relevante interesse cultural, cuja ocupação e renovação devem
ser compatíveis com a proteção e a conservação de sua ambiência e suas
características sócioespaciais identificadas como relevantes para a memória da
220
cidade e para a manutenção da diversidade da ocupação urbana constituída ao
longo do tempo”.
Tabela 39 – Domicílios vagos e estabelecimentos abandonados em APACs por Região de
Planejamento
Região de
planejamento
Total de
domicílios
particulares
permanente
s vagos
Total de
estabeleci
mentos
abandona
dos
Domicílios
particulares
permanentes
vagos em
APACs
Estabelecim
entos
abandonad
os em
APACs
%
domicílios
particulare
s
permanentes vagos
dentro de
APACs
%
estabelecimen
tos
abandonados
dentro de
APACs
1.1 ‐ Centro 6513 922 3758 583 57,70% 63,23%
2.1 ‐ Zona Sul 17525 472 5437 85 31,02% 18,01%
2.2 ‐ Tijuca 7638 288 200 14 2,62% 4,86%
Santa Cruz 6178 330 230 26 3,72% 7,88%
Figura 106 – APACs e bens tombados no município do Rio de Janeiro
221
Figura 107 – APACs e bens tombados no Centro e Zona Sul
As APACs da região do Centro são as que concentram a maior quantidade
dos bens tombados, pela importância e grande quantidade de imóveis de valor
arquitetônico e histórico.
Figura 108 – APACs e vazios urbanos no Centro
222
A grande quantidade de domicílios vagos também revela a importância de
projetos de revitalização no que diz respeito à preservação do patrimônio
preservado.
5.5.6 Áreas de lazer e áreas verdes
Comparando-se a quantidade de população e áreas verdes (praças, parques
áreas protegidas) ou de lazer, pode-se propor demolição de vazios urbanos
edificados e aproveitamento do lote para manutenção de reservas ambientais nas
áreas onde faltar áreas verdes. Como apontado em alguns estudos apresentados,
como Kline (2006) e Banzhaf et.al. (2007), existe demanda por áreas verdes nas
cidades, e os vazios urbanos edificados podem ser úteis para de forma planejada
integrar o sistema de espaços livres, melhorando o ambiente urbano. Os vazios
urbanos podem gerar parques e outros tipos de espaços livres em áreas da cidade
com carência de espaços públicos de lazer, a exemplo do Parque Madureira.
Tabela 40 – Área total e relação de área de praças por habitante por Região de Planejamento
RP
Soma de área de
praças (m²)
Praças por habitante
(m²/pessoa)
1.1 - Centro 1.295.459,956 4,462963515
2.1 - Zona Sul 668.738,8315 1,05095563
2.2 - Tijuca 219.465,0599 0,593707216
3.1 - Ramos 198.984,485 0,704736571
3.2 - Méier 57.678,77963 0,132980999
3.3 - Madureira 327.825,1844 0,57069947
3.4 - Inhaúma 93.056,97119 0,457406037
3.5 - Penha 258.206,013 0,805722974
3.6 - Pavuna 349.059,6777 0,952832425
3.7 - Ilha do Governador 281.255,8824 1,331105244
4.1 - Jacarepaguá 577.898,6909 0,952496524
4.2 - Barra da Tijuca 433.164,5556 1,441373862
5.1 - Bangu 886.664,6701 1,352748889
5.2 - Campo Grande 1.005.884,157 1,858412144
223
5.3 - Santa Cruz 328.761,8921 0,894879953
5.4 - Guaratiba 354.335,9653 2,89034419
Figura 109 – Área de praças / habitante por setor censitário
Figura 110 – Área de praças / habitante por Região de Planejamento
224
Para avaliar a relação entre necessidade de áreas de lazer, população e
vazios urbanos existentes, utilizou-se a informação do uso do solo do IPP (2012).
Segundo a definição do IPP, as áreas de lazer são “áreas destinadas ao lazer,
contemplativo, esportivo e cultural, como praças, parques, vilas olímpicas, clubes,
complexos esportivos, temáticos, estádios, museus, bibliotecas, planetário,
observatórios, centros culturais etc. As áreas verdes expressivas dentro d e grandes
parques públicos estão representadas nos seus respectivos temas relativos à
vegetação”.
Tabela 41 – Área total e relação de áreas de lazer por habitante por Região de Planejamento
RP
Soma de áreas de
lazer (m²)
Áreas de lazer por
habitante (m²/pessoa)
1.1 ‐ Centro 1.700.261,332 5,857536739
2.1 ‐ Zona Sul 3.715.007,491 5,838315129
2.2 ‐ Tijuca 548.620,712 1,484154589
3.1 ‐ Ramos 492.809,4438 1,745366416
3.2 ‐ Méier 291.772,4852 0,672694479
3.3 ‐ Madureira 592.033,7263 1,030650938
3.4 ‐ Inhaúma 86.893,53727 0,427110704
3.5 ‐ Penha 185.522,5573 0,578916753
3.6 ‐ Pavuna 378.631,6127 1,033555294
3.7 ‐ Ilha do Governador 719.692,5202 3,406102938
4.1 ‐ Jacarepaguá 1.152.930,638 1,900268061
4.2 ‐ Barra da Tijuca 6.202.174,963 20,63800641
5.1 ‐ Bangu 1.345.143,263 2,052231374
5.2 ‐ Campo Grande 1.489.460,441 2,751839118
5.3 ‐ Santa Cruz 1.672.307,841 4,551971499
5.4 ‐ Guaratiba 1.007.446,871 8,217817261
225
Figura 111 – Área de lazer / habitante por setor censitário
Figura 112 – Área de lazer / habitante por Região de Planejamento
226
As regiões com menor quantidade de áreas de lazer em relação à população,
Méier e Inhaúma.
Figura 113 – Taxa áreas de lazer / habitantes por setor censitário e localização de estabelecimentos
abandonados nas regiões do Méier e Inhaúma
5.6 Articulação com as intervenções e políticas urbanas em curso
da Prefeitura
Dentro do contexto mais geral da cidade, podemos mencionar alguns casos
de reaproveitamento de vazios urbanos e analisar as finalidades a que se tem sido
executado. Assim, parte dos vazios urbanos tem relação direta com as concepções
que orientam as políticas em curso, tendo em vista o momento vivido pela cidade
com grandes projetos urbanos em função dos eventos que a cidade vai sediar nos
próximos anos.
227
O caso do Porto Maravilha é apenas um entre os diversos projetos de
revitalização de zonas portuárias semelhantes que ocorrem no mundo e em outras
cidades brasileiras, onde áreas degradadas e repletas de vazios urbanos sem
função social sofrem intervenções – em sua maioria através de concessões ou
parcerias público-privadas – para a implantação de empreendimentos que a maioria
das vezes sofre forte questionamento por não se adequarem aos interesses
públicos. Alguns casos internacionais mais conhecidos são os de Baltimore,
Barcelona, Boston, Buenos Aires, Cidade do Cabo; no Brasil, alguns exemplos são
os casos do Recife e Porto Alegre.
Vale mencionar que o exemplo, vindo dos EUA, assim como as noções de
“revitalização” e “requalificação” urbana, é amplamente discutido sob uma
perspectiva crítica em relação à cidade como empresa, atendendo a interesses
financeiros de agentes privados. Tais projetos seriam movidos pelo ideal de
mercantilização e gentrificação, subjacente em termos como revitalização,
reabilitação, revalorização, reciclagem e requalificação de espaços “desativados”
(Arantes, 2000). Essa discussão é extremamente ampla e não nos aprofundaremos
nesse momento.
O Parque Madureira, inaugurado em junho de 2012, é um importante marco
em termos de espaço de esporte e lazer na Zona Norte da cidade, e aproveitou
diversos vazios urbanos ao longo da linha de transmissão da Light para ser
construído. O mapeamento dos vazios urbanos a partir dos dados do Censo de
2010 demonstram, tanto em nível de setores censitários quanto de endereços
georreferenciados, a existência de um importante estoque de imóveis nessas
condições no seu entorno, podendo o seu uso ter relação com a expansão planejada
do parque. Estudos mais detalhados acerca da influência do projeto do Parque
Madureira no mercado imobiliário da região são necessários para a análise da sua
influência sobre esses vazios urbanos.
5.6.1 Jogos Olímpicos Rio 2016
Em termos logísticos e operacionais, os equipamentos olímpicos são divididos
em quatro regiões: Copacabana, Maracanã, Barra e Deodoro.
228
Figura 114 – Instalações olímpicas Rio 2016
Figura 115 – Instalações olímpicas Rio 2016 - Região Copacabana
229
Figura 116 – Instalações olímpicas Rio 2016 - Região Maracanã
Figura 117 – Instalações olímpicas Rio 2016 - Região Barra
230
Figura 118 – Instalações olímpicas Rio 2016 - Região Deodoro
Tabela 42 – Quantidade de domicílios vagos e estabelecimentos abandonados nas regiões olímpicas
Região
Quantidade
de domicílio
vagos 500m
Quantidade de
estabelecimentos
abandonados
500m
Quantidade
de domicílio
vagos 1000m
Quantidade de
estabelecimentos
abandonados
1000m TOTAL
Copacabana 1.463 31 5.754 182 7.430
Maracanã 994 63 4.598 319 5.974
Barra 499 0 1.186 1 13.404
Deodoro 98 0 602 32 732
TOTAL 3.054 94 12.140 534 15.822
Uma vez que considerou-se o ponto no centro da sede, e não o polígono do
lote, o númerode vazios urbanos pode estar subestimado. Os vazios urbanos
podem ser importantes enquanto espaços para logística e atividades de apoio aos
jogos olímpicos.
231
Importante equipamento das Olímpiadas Rio 2016, o estádio do Engenhão
receberá, além da ampliação das ruas de acesso, a restauração dos galpões
tombados da RFFSA, abandonados vizinhos ao estádio.
Figura 119 – Projeto de recuperação dos galpões da antiga RFFSA no entorno do Engenhão
Fonte: http://oglobo.globo.com/rio/galpoes-serao-recuperados-ruas-alargadas-com-
desapropriacao-de-imoveis-no-entorno-do-engenhao-2772245.
A antiga fábrica da cervejaria Brahma situada ao lado do Sambódromo,
abandonada desde a fim do seu funcionamento em 1998, foi implodida em junho de
2011 como parte do projeto de ampliação da Passarela do Samba, sendo ressaltada
pelo prefeito Eduardo Paes como importante não só para o carnaval, mas como
legado olímpico, uma vez que o local será sede das competições de tiro com arco e
chegada da maratona (CANDIDA, 2011).
Em relação à demanda por aumento da capacidade hoteleira na cidade,
podemos citar o caso recente do “esqueleto” do Gávea Tourist Hotel (figura 58), um
prédio inacabado com obras interrompidas em 1972, após a falência da companhia
responsável pelo empreendimento (DAFLON, 2011b). Ocupando uma área de 30 mil
metros quadrados, o prédio de 16 pavimentos e 480 apartamentos no meio da mata
em São Conrado foi arrematado em leilão e será transformado em um hotel, com a
finalidade de atender a demanda do pacote olímpico municipal, segundo o secretário
municipal de Urbanismo.
232
Figura 120 – Prédio inacabado do Gávea Tourist Hotel, em São Conrado
Fonte: DAFLON, 2011b.
Mori (2004) aponta a existência e manutenção de vazios não desenvolvidos
dentro de áreas consideradas “hot areas”, definidas pela autora como epicentros de
revitalização urbana em cidades com aumento populacional em áreas antes
degradadas, como Boston e Filadélfia.
5.6.2 Corredores BRT
O traçado dos corredores BRT envolvem em muitos casos desapropriações
de imóveis. Estas envolvem grande burocracia, e a dificuldade em identificar os
proprietários para indenização muitas vezes atrasa o andamento das intervenções.
Conhecer a localização dos abandonados e dos proprietários pode agilizar.
Inclusive, podem influenciar o seu traçado.
Conhecer a existência e localização de imóveis residenciais e comerciais
abandonados no entorno e ao longo dos corredores projetados do BRT é importante
por fornecer subsídios para estudos em que o traçado pode causar menor impacto
social de desapropriações.
233
Figura 121 – Linhas de BRT (Bus Rapid Transit) - implantadas e em construção
Em um raio de 1km de todas as estações do BRT – implantadas e em
construção – contabiliza-se 35.575 (27,8% do total) domicílios vagos e 2.886 (40,8%
do total) estabelecimentos abandonados.
Quando todas as estações de BRT estiverem em funcionamento, juntamente
com as estações de trem e metrô, em um raio de 1km estarão contabilizados 78.093
(61,1% do total) domicílios vagos e 5.072 (71,7% do total) estabelecimentos
abandonados.
Esses números demonstram que grande parte dos vazios urbanos – 61,7% –
são bem servidos por transportes de alta capacidade.
Com a construção dos BRTs, é esperada grande valorização dos imóveis, o
que pode ter impacto nos vazios urbanos do ponto de vista da especulação.
234
6 PROPOSTA PARA UTILIZAÇÃO DE SIG COMO INSTRUMENTO DE
GESTÃO DE VAZIOS URBANOS PELO MUNICÍPIO
A administração municipal produz e consome cotidianamente em seu trabalho
uma grande quantidade de informações, por meio de cada um dos seus órgãos,
para o planejamento e ação setoriais. A gestão de diversos serviços sobre o
território da cidade, como educação e saúde, a manutenção e conservação do
mobiliário e infraestrutura urbana, execução de obras, políticas habitacionais,
ambientais e de controle urbanístico, entre dezenas de outras atividades, passam
necessariamente pela produção de informações que tem um viés espacial. A
formulação das estratégias e tomada de decisão, seja o combate à dengue ou
mudança de padrões de uso e ocupação do solo, baseia-se nessas informações de
registros administrativos.
Como foi possível compreender no capítulo anterior, o SIG é uma ferramenta
extremamente eficiente não só para identificar e localizar com precisão os vazios
urbanos, como também possibilita a sua análise frente a outras informações urbanas
geográficas, disponíveis de forma georreferenciada – como, por exemplo, os limites
de atuação de uma equipe na sua atividade de campo – ou que possam ser
associada a limites territoriais – por exemplo, o total de arrecadação de um imposto
municipal por região fiscal ou bairros da cidade.
Portanto, defendemos a ideia de que a grande massa de dados gerada pelos
mais diversos órgãos municipais podem ser utilizados para a alimentação de
informação e a estruturação de um sistema de gestão de vazios urbanos. Essas
informações, uma vez georreferenciadas, podem ser utilizadas como camadas de
informação associadas aos vazios urbanos no SIG, produzindo análises e gerando
políticas e estratégias de ação sobre os mesmos. Trata-se de sistematizar a
produção constante de informação na Prefeitura, de forma que a mesma possa
contribuir tanto para a identificação quanto para a gestão dos vazios urbanos, tendo
portanto o SIG um aspecto de uso prático pela Prefeitura.
235
A partir da análise espacial do problema, tanto as causas quanto
consequências e formulação de propostas sobre sua reutilização/refuncionalização
podem ser melhor entendidas. Por exemplo, verificar o padrão construtivo do vazio
urbano, as características do entorno e os parâmetros urbanísticos vigentes para a
área oferece indicação sobre usos potenciais que sejam viáveis, apropriados e
desejáveis. Nesse sentido, evidencia-se o SIG com um instrumento de grande
importância para a gestão de vazios urbanos, pelas suas potencialidades para
tratamento da questão a partir de um viés espacial, e não apenas descritivo, assim
como pela multidimensionalidade de análises combinadas a partir de informações de
origens e finalidades diversas. Algumas das informações às quais podem ser
associadas são físicas, jurídicas, zoneamento, transportes, diretrizes da política
urbana, leis de uso e ocupação do solo e socioeconômicas.
O município, por ser o ente federativo responsável pelo uso do solo urbano,
pode utilizar essas informações de forma a melhorar a gestão dos vazios urbanos,
seja por meio de uma ação direta, tal como a desapropriação de um imóvel sem uso
para o cumprimento da sua função social, ou indireta, pelas mudanças e estímulos
que possam levar o seu proprietário a fazer uso do mesmo. Para esses tipos de
ação, é necessária a adequação da proposta de reutilização de um vazio urbano
com as diretrizes de planejamento para as diferentes áreas da cidade, planejamento
do uso do solo pelo município, atendendo a fins habitacionais, desenvolvimento de
infraestrutura, melhoria da qualidade ambiental ou outros fins, sem negligenciar a
sua inserção urbana e as necessidades, aproveitando a edificação ou demolindo e
aproveitando apenas o lote.
Por isso, com a organização das informações em um SIG sobre vazios urbanos
e a sua localização ora proposta, torna possível utilizar essa ferramenta para
combinar as diversas variáveis que têm uma dimensão territorial relacionada a esse
fenômeno, como econômicas, sociais, ambientais, urbanísticas, regulatórias, entre
outras. Existem diversos fatores, como demográficos, forças do mercado,
disponibilidade de capital para investir no seu desenvolvimento, que não são de total
controle da administração municipal. O regime de propriedade, com a forte proteção
da propriedade privada é uma das principais dificuldadesa serem superadas para o
uso dos vazios urbanos. No entanto, o conhecimento sobre sua dinâmica e
236
espacialidade no território da cidade auxilia no desenho das políticas de gestão
sobre os mesmos. Assim, o SIG deve funcionar mais do que apenas para
acompanhamento do surgimento de vazios urbanos, sendo um sistema de gestão
sobre o uso do solo na cidade. Também não se deve ignorar a possibilidade de
participação da população na decisão sobre a reutilização dessas áreas, a partir do
que é do maior interesse público dentro das possibilidades de uso indicadas por
ferramentas de SIG.
6.1 Importância do monitoramento ao longo do tempo para gestão
O cadastro georreferenciado ora apresentado é aquele referente ao passivo de
vazios urbanos existentes atualmente, a partir da base disponibilizada pelo Censo
Demográfico IBGE 2010, e permite vários tipos de análises que seriam difíceis ou
impossíveis sem a informação geográfica. No entanto, como trata-se de uma
informação produzida de forma massiva e com uma ocorrência não sistemática,
rapidamente pode tornar-se obsoleta, sendo útil como ponto de partida, mas
devendo passar por manutenção e atualização. A cidade em geral possui uma
grande dinâmica de transformação, e os vazios urbanos em particular reagem a
essa dinâmica: o aquecimento do mercado imobiliário e investimentos podem fazer
com que antigos vazios sejam absorvidos e reutilizados por políticas do governo ou
iniciativa privada, por um lado, e a degradação e abandono de gastos públicos
podem provocar o surgimento de novos vazios urbanos, por outro. Sobretudo na
cidade capitalista, alguns desses ritmos são ditados por leis de mercado que a
produzem e cuja previsibilidade é difícil.
Um exemplo da importância em se dar continuidade acompanhando o
levantamento feito sobre imóveis abandonados é o estudo realizado pela SMU/GPL-
3, apresentado em capítulo anterior. Apesar de ser uma iniciativa interessante no
tratamento da questão, verificou-se que não conseguiu gerar muitos resultados além
de listar os imóveis abandonados na área, e o não acompanhamento acabou por
não interferir na ocupação por famílias, intervenção do poder público na demolição e
utilização do lote ou permanência de abandono dos imóveis.
237
Os exemplos dos capítulos anteriores servem para entender a dinâmica, tanto
dos imóveis vazios urbanos que são ocupados, quanto dos casos de imóveis
abandonados que são reaproveitados e as ocupações que sofreram com ações de
remoção para demolição e construção de MCMV.
Portanto, fica evidente a importância de manutenção desse cadastro, e os SIGs
também possuem algumas características que possibilitam o acompanhamento da
dinâmica, do surgimento, manutenção e reutilização de vazios urbanos.
Esse aspecto se mostra como um complicador, à medida que o fator tempo é
essencial para a aplicação de alguns instrumentos previstos no Estatuto da Cidade,
como a recuperação de mais-valias urbanas. Para exemplificar, trazemos o caso de
imóveis situados na Rua Geminiano Góis, próximos a diversos lançamentos
imobiliários, onde através de contínuos trabalhos de campo pudemos analisar a
evolução da situação desses imóveis, que foram vistoriados contínuas vezes pela
SMS em relação a tentativas de visita para o combate à dengue e que no momento
se encontram terrenos. As casas, em situação de abandono, foram compradas por
uma incorporadora, que as demoliu, mas não iniciou nenhum uso do terreno. Em
outro caso, nada foi feito a não ser erguer mais segurança contra invasões após as
notificações da SMS. Esses casos estão ilustrados no Apêndice A.
Também existem casos em que o vazio urbano é desenvolvido, recebendo
outro uso, como o exemplo mostrado a seguir, onde uma academia abandonada
(figura 122) deu lugar a uma agência bancária (figura 123).
238
Figura 122 – Acompanhamento de imóvel no tempo: Estrada dos Três Rios, 721 – vazio urbano
Fonte: Campo realizado em 11 de março de 2012.
Figura 123 – Acompanhamento de imóvel no tempo: Estrada dos Três Rios, 721 – agência bancária
Fonte: Campo realizado em 25 de janeiro de 2014.
Além da importância em termos de planejamento do uso do solo, o
monitoramento ao longo do tempo por meio do SIG fornece base para aplicação dos
instrumentos previstos como o de utilização compulsória e IPTU progressivo no
tempo.
239
6.2 Alimentação e manutenção do SIG de vazios urbanos
Pelos impactos e implicações dos vazios urbanos nas mais diversas esferas da
vida e do funcionamento da cidade, entendemos que a alimentação do SIG deve se
dar de forma descentralizada, pois cada órgão poderia utilizar para finalidades
específicas a sua ação, mas sem deixar de compartilhar as informações que
produzisse com os demais. A informação, sobretudo quando de difícil coleta e pouca
disponibilidade, deve ser compartilhada, envolvendo processos de melhoria da
integração institucional. A partir dos próprios registros administrativos, produzidos
cotidianamente pelos mais diversos órgãos da administração municipal, em
atividades envolvendo vistorias de campo, a informação pode ser atualizada nos
seus atributos geograficamente.
O cadastro ora construído por este trabalho, a partir dos dados do Censo 2010
do IBGE, pode servir de ponto de partida para a contínua alimentação e manutenção
pelo município. A geometria que propomos ser utilizada pelo SIG é de pontos por
endereço dos imóveis, pois os mesmos são a escala de análise espacial de maior
detalhe, e podem ser agregados e associados às bases de lotes, quadras, faces de
quadras e limites administrativos (regiões administrativas e de planejamento, além
dos limites administrativos dos órgãos, como as GPLs da SMU e CAPs da SMS); a
associação às inscrições imobiliárias do IPTU também pode ser estabelecida a partir
do endereço do imóvel.
Conforme foi apresentado, a atuação cotidiana de cada órgão municipal se
reflete na produção de informações de cunho implicitamente ou explicitamente
espacial. Essas informações são aquelas que, em primeiro lugar, poderiam servir à
alimentação e manutenção do SIG de vazios urbanos. A contínua produção e
utilização de tais informações garantiriam a atualização do sistema, e pode-se citar
alguns exemplos de como esse fluxo de informações sobre e para vazios urbanos
funcionaria.
A SMU possui atuação sobre os vazios urbanos em duas frentes, tanto pelas
gerências de licenciamento e fiscalização quanto pela elaboração de estudos que
servem de base para propostas de leis, decretos e PEUs. A partir do
acompanhamento das licenças, as construções não concluídas no prazo previsto
240
devem ser vistoriadas, pois em muitos casos são obras que permanecem
inacabadas e resultam em vazios urbanos. As diversas atividades de vistoria
também possibilitam a coleta de informações úteis à alimentação do cadastro. A
SMF, que realiza também vistorias de diversos tipos nos imóveis, como as
atividades de recadastramento do IPTU, pode estabelecer a definição de uma classe
de uso “abandonado”, que resultaria em uma importante fonte de informações.
Para a SMS, seria possível a sistematização de forma georreferenciada dos
programas de saúde ambiental e vigilância ambiental em saúde – tal como o
combate à dengue, apresentado em capítulo anterior; além do trabalho de campo
que já é realizado pela CVAS, a vigilância sanitária possui um programa específico
para casos de imóveis abandonados com piscinas (foco potencial de dengue), e
uma análise sobre a base de vazios urbanos em conjunto com interpretação de
imagens de satélite e ortofotos (ou a integração com outro cadastro de imóveis que
possua a informação dos imóveis com piscina na cidade) geraria uma informação de
grande valor para a elaboração de estratégias de ação para esse programa.
Também é interessante à Defesa Civil a informação sobre osimóveis
abandonados, pelos riscos à saúde dos imóveis em mau estado de conservação,
por isso os laudos de vistorias realizadas e autuações feitas podem ser
georreferenciados no nível de endereço do imóvel, garantindo sua inclusão no SIG
de vazios urbanos.
Na área de conservação do patrimônio histórico e arquitetônico, muitas
políticas de incentivo à conservação de imóveis atualmente em estado de
degradação e abandono estão sendo executadas, de responsabilidade do IRPH.
Através dessas políticas, existe a ação de cadastramento em campo, ou os casos
em que esse trabalho não é necessário, pois os próprios proprietários dos imóveis
abandonados é que buscam o IRPH para solicitar recursos por meio dos editais de
apoio à recuperação e utilização. Ambas as situações geram informação que pode
ser georreferenciada a nível do endereço, ficando assim disponível e atualizada para
a base SIG. Evidentemente, o resultado dessas políticas tem como efeito esperado
que o imóvel deixe de ser um vazio urbano, por isso o acompanhamento da situação
e a atualização no SIG quando da sua “baixa” é essencial. Quanto ao uso pelo IRPH
da base compartilhada e com informações inseridas pelos demais órgãos, entende-
241
se que nem todo imóvel abandonado necessariamente possui um valor histórico, por
isso a informação inserida pelos outros órgãos a partir de trabalhos de campo deve
qualificar as características do imóvel. A integração do cadastro georreferenciado
dos imóveis tombados e de interesse histórico com o de vazios urbanos é importante
nesse sentido, pois outros órgãos podem constatar o estado de abandono e
degradação dos imóveis tombados, sem que haja necessidade de contínuos
trabalhos de campo pelas equipes do IRPH.
A SMDS e a SMH trabalham em ações envolvendo imóveis abandonados
ocupados por sem-teto, cadastramento de famílias e pelos programas e iniciativas
de aproveitamento de imóveis para programas de oferta de moradia, como o MCMV.
Com todas essas atividades, que já acontecem no cotidiano das secretarias
municipais, é útil a criação de um sistema de gestão compartilhada sobre os imóveis
vazios e ociosos. Todas essas importantes variáveis e usos podem ser possíveis a
partir da criação de um aplicativo SIG que permita o uso compartilhado e atualização
das informações sobre os vazios urbanos. Existem diversas possibilidades para
publicação de serviços web através do ArcGIS server, para visualização e edição, a
exemplo de alguns aplicativos produzidos pelo IPP, como o cadastro corporativo de
logradouros e outros sistemas de atualização e manutenção das bases corporativas.
Conforme apresentado no estudo sobre os cadastros disponíveis na Prefeitura, a
série de mapas digitais desenvolvidos pelo IPP pode constituir em uma importante
ferramenta de gestão. Pode ser desenvolvido um mapa digital que atenda às
diversas secretarias envolvidas, assim como já existem hoje os aplicativos para
gestão de logradouros e terrenos, onde seja possível visualizar os vazios urbanos,
os diversos tipos e suas características, além de outras informações
georreferenciadas, como zoneamento urbano, áreas protegidas, PALs, entre outras,
permitindo análises, nos moldes de algumas apresentadas no capítulo anterior que
subsidiem as políticas de reutilização. De acordo com Pagano & Bowman (2000) a
identificação de vazios por técnicos da prefeitura é a segunda forma mais comum de
descoberta da prefeitura sobre os mesmos, sendo importante a padronização de
forma que a confiabilidade na forma de aquisição dessa informação em campo seja
aumentada. O compartilhamento de informação também se traduz em redução de
custos e menor possibilidade de duplicação de esforços e informações pelos órgãos.
242
A alimentação e atualização da base devem ser feitas preferencialmente por
protocolos automáticos, a partir de views sobre os bancos de cada setor da
Prefeitura, conforme estes recebem informação, evitando a necessidade de
dedicação contínua para inserção manual e duplicada de informações em diferentes
sistemas. Para tal, é necessário que haja sensibilização dos órgãos quanto aos
ganhos que terão para suas atividades a partir do compartilhamento da informação.
No entanto, apesar da gestão ser municipal, o município não é o único que
pode gerar as informações que seriam utilizadas pelo SIG de vazios urbanos. O
IBGE e outros órgãos podem fornecer informação que indiquem a não utilização dos
imóveis, tais como a Light (cortes no fornecimento de energia elétrica) e a Cedae
(fornecimento de água).
É importante ressaltar também a participação da sociedade civil, por meio de
suas organizações ou a partir da participação direta do cidadão. Nesse sentido, é
essencial a abertura de canais de participação popular, que envolvam a população
na construção deste SIG, recebendo a contribuição sobre a existência de vazios
urbanos. O SIG torna-se assim uma forma de instrumentalizar a participação popular
no planejamento.
Como foi constatado no estudo de Pagano e Bowman (2000), o aviso por
vizinhos tem sido a forma mais recorrente dos municípios pesquisados nos EUA
descobrirem a existência de vazios urbanos. Apesar da precariedade representada
pelos casos onde essa é praticamente a única forma de conhecimento pelo
município, tal aspecto não deve ser visto de forma negativa, pelo contrário, uma vez
que representa uma possibilidade de participação popular na gestão do uso do solo
urbano, podendo a situação ser posteriormente validada por inspeção de campo por
técnicos da Prefeitura. Partindo de um cadastro georreferenciado de vazios urbanos,
é apenas necessário que tal participação ocorra com a devida orientação do poder
público. Uma cartilha, apresentando os impactos negativos da existência de vazios
urbanos (desvalorização dos imóveis próximos, riscos de focos de doença e
insegurança) para os moradores, esclarecendo a população sobre as formas de
identificação, pode ajudar nesse aspecto.
Por conta desta pesquisa, foi feito pelo autor um levantamento de imóveis
abandonados em campo, traçando um percurso a pé, em uma parte do bairro
243
Freguesia Jacarepaguá. Este levantamento encontra-se no Apêndice B da
dissertação. A exemplo do que foi feito aqui, é possível que a partir dos meios
adequados o cidadão possa colaborar.
O serviço da Central de Atendimento da Prefeitura do Rio 1746 – através do
seu portal na internet e do teleatendimento – pode ser uma oportunidade, sendo
aproveitado e vinculado ao sistema de gestão sobre vazios urbanos. O serviço do
1746 foi criado para consolidar as solicitações do cidadão através de um único
canal, gerando ordens de serviço para o setor específico da Prefeitura responsável
pelo atendimento. No Portal 1746 (http://www.1746.rio.gov.br/), é possível fazer
solicitações online, havendo uma grande listagem de tipos de demanda, porém
nenhuma delas é referente à denúncia sobre imóveis abandonados. Em entrevista
com técnicos da SMS, foi informado que existem alguns casos em que o cidadão
entra em contato através do 1746 para denunciar casos de imóveis abandonados
que podem ser focos de proliferação de certas doenças. A SMS atende a essas
solicitações, sobretudo no combate do vetor da dengue, porém após o atendimento
as mesmas não são sistematizadas. A divisão de solicitação de atendimento por
secretaria/órgão no portal 1746 reflete uma forma de tratamento segregada,
enquanto a questão urbana em geral e dos vazios urbanos em particular deve ser
endereçada de forma integrada e multidimensional.
Existem exemplos internacionais que podem servir de inspiração para a
Prefeitura do Rio. A cidade de Chicago possui o sistema “311 – City Services”, um
serviço de atendimento ao cidadão implantado em 1999 com a finalidade de unificar
e melhorar a gestão das solicitações de serviços pela população da cidade. Na
listagem de tipos de serviçosdisponíveis para solicitação pelo cidadão
(http://www.cityofchicago.org/city/en/depts/311/supp_info/request_service.html),
encontra-se a opção “Vacant/Abandoned Building”, onde o usuário pode usar este
serviço para relatar construções abandonadas na vizinhança (figura 124).
244
Figura 124 – Portal “311 – City Services” de Chicago com opção de solicitação sobre vazios urbanos
Por outro lado, o conhecimento pelo cidadão das solicitações feitas também é
importante, pois reflete transparência e divulgação das necessidades de serviços em
cada área da cidade. O serviço do 311 da Cidade de Nova Iorque possui um serviço
que permite o acesso a esse tipo de informação – o “NYC 311 Service Request
Map” (http://www1.nyc.gov/apps/311srmap/) – que permite ao usuário saber o que
está sendo solicitado na sua vizinhança.
245
A disponibilização de um serviço através do próprio portal do 1746 que agrega-
se essas ideias de denúncia de vazios urbanos (a partir do exemplo do 311 de
Chicago) somada a disponibilização de um mapa participativo apresentando ao
usuário as solicitações feitas (como o exemplo do NYC 311) constituiria em um
instrumento que garantiria importante avanço na participação popular na gestão
pública.
O processo sistêmico de articulação de informações disponíveis na Prefeitura e
outras fontes de dados secundários para a manutenção/atualização do cadastro e
ação sobre os vazios urbanos pode ser visto no organograma da figura 125.
Por último, é importante reconhecer que o SIG em si não resolve todos os
problemas, nem necessariamente torna mais democrático o planejamento e gestão
urbanos, mas é um instrumento que pode contribuir para ações municipais sobre o
problema.
246
Figura 125 – Proposta de modelagem: SIG de monitoramento e gestão de informações sobre vazios
urbanos
ENTRADA
EDIÇÃO ANÁLISE
CONSULTA
SMDS – Cadastro de famílias ocupantes
Defesa Civil – Imóveis em risco
(laudo de vistorias e autuações)
Cidadão – Solicitações do 1746
IPTU – Recadastramento com
identificação dos imóveis com uso
igual a “abandonado”
Fluxo (deixa de ser vazio urbano)
Estoque de vazios urbanos
Reutilização
Mercado de solo urbano
Ação municipal
Ação particular
BASE GEORREFERENCIADA – VAZIOS URBANOS (domicílios vagos e
estabelecimentos abandonados – Censo Demográfico IBGE 2010)
IRPH – Trabalhos de campo e
recebimento de informações
SMU – Licenciamento e fiscalização:
licenças de construção, habite‐se e
vistorias de campo
Direta (reutilização para atender
fins de uma política setorial)
Indireta (políticas de estímulos e
facilidades para reutilização)
247
7 CONCLUSÃO
Foi possível perceber a grande dificuldade teórica e empírica de analisar os
vazios urbanos, devido à grande diversidade de noções e situações em que estas se
aplicam. Apesar da dificuldade em mensurar e localizar os vazios urbanos, estas
tarefas são essenciais para o planejamento da sua reutilização e aproveitamento no
desenvolvimento urbano.
Com esse estudo foi possível estruturar um SIG com informação
georreferenciada dos imóveis vazios urbanos. Esse cadastro permite ao município
conhecer onde se localizam e a possibilidade de combinação com outras
informações essenciais para apoiar a formulação de políticas de planejamento e
gestão, garantindo um melhor controle sobre o uso do solo pelo município. Apenas
com a localização precisa sobre os imóveis vazios urbanos, de forma detalhada, é
que é possível desenhar estratégias de planejamento urbano. Consideramos este
estudo uma importante forma de aumentar a eficiência das ações do município para
melhor qualidade de vida para sua população. A partir da utilização desse cadastro
inicial, será possível facilitar o trabalho de fiscalização, que poderá atualizá-lo. Há
necessidade de refinamento, sobre os domicílios classificados como vagos e os
estabelecimentos com descrição que oferece indícios de abandono.
Pode-se compreender a sua distribuição espacial na cidade do Rio de Janeiro
e a sua dispersão no território. Os domicílios vagos possuem concentrações
importantes nas áreas mais consolidadas da cidade, mas seu maior número e
relação em relação ao total de pessoas e domicílios está nas áreas de expansão.
Em relação aos estabelecimentos abandonados, sua concentração é superior no
Centro e na Zona Norte, área em processo de degradação, mas que diversas
políticas de estímulos estão em andamento para a reversão desse quadro.
A construção de um cadastro dessa natureza oferece uma possibilidade para
melhor planejamento e gestão do uso do solo da cidade e do seu espaço construído,
a partir dos vazios urbanos, sendo útil para diversos setores, como urbanismo,
habitação, saúde, defesa civil, patrimônio arquitetônico histórico, que podem
conjuntamente mantê-lo atualizado. As ferramentas de SIG se apresentam como
importante instrumento para ajudar na integração e compartilhamento da informação
248
georreferenciada, sendo essencial para as análises necessárias sobre esses
espaços que sirvam de base para melhor gestão e planejamento sobre o uso dos
vazios urbanos e da cidade como um todo.
A integração entre padrões deve ser ressaltada, pois ainda representa um
obstáculo no uso e compartilhamento de informações. Nesse estudo, ficou evidente
a importância de cruzamento dos dados de endereços do IBGE com os da Prefeitura
– IPTU e base georreferenciada de endereços do IPP – atualmente impossibilitado
pela falta de um padrão de endereço comum utilizado entre os órgãos. Esse
cruzamento permitiria extrair informações mais detalhadas dos imóveis, como área
ocupada, essenciais para melhor conhecimento e planejamento. Tal resultado
aponta para necessidade de maior integração entre a base de endereços da
Prefeitura e os dados coletados pelo Censo do IBGE, assim como internamente na
própria Prefeitura em relação ao IPTU, para que possa ser formado um sistema
compartilhado de informações urbanas para o planejamento e gestão urbanos. Com
os vazios urbanos mapeados, torna-se possível uma série de análises espaciais que
propiciam melhor gestão dos mesmos, sendo este um instrumento proposto para
não apenas identificar, mas também evitar o surgimento de novos vazios urbanos e
promover a reutilização dos existentes. O compartilhamento de informações é
essencial, não apenas internamente à Prefeitura. Apesar da Prefeitura não estar
integrada com a Infraestrutura Nacional de Dados Espaciais – INDE do IBGE, a
disponibilização e gestão da informação geoespacial para trabalhos futuros é de
extrema importância para outros estudos e práticas de planejamento. Um dos
maiores obstáculos é a falta de integração do cadastro físico de parcelas com o
registro imobiliário-cartorial, sobre a propriedade dos imóveis.
O fato de terem sido utilizadas bases do cadastro nacional do IBGE, é possível
utilizar a mesma metodologia aplicada neste estudo para outras cidades e regiões
do país.
A preparação de uma base única georreferenciada dos vazios urbanos com
uso de SIG é um importante instrumento de forma a aumentar a capacidade de ação
do município sobre esses territórios. Para tal, é essencial a capacitação e a
integração dos diversos órgãos da prefeitura que trabalham com esse tipo de
informação. O problema encontrado é que ainda faltam informações de registros
249
administrativos da prefeitura a esse respeito. As geotecnologias possuem grande
potencial para aplicação voltada ao planejamento urbano, sendo sua incorporação
às atividades da prefeitura um passo importante para o aperfeiçoamento da gestão
pública na busca de um desenvolvimento sustentável da cidade.
A partir de um mapeamento detalhado, é possível dotar de instrumentos que
permitam a definição de parâmetrose áreas para aplicação de instrumentos
jurídicos como o IPTU progressivo no tempo e a desapropriação, aplicáveis em
vazios urbanos em áreas com infraestrutura no entorno e potencial de construção.
Entendemos que só o cadastro não é suficiente para a formulação de uma
política ampla, que envolve questões como mercado de solo urbano, valorização
imobiliária decorrente das políticas de estímulos e mudanças nas normas da
legislação sobre o uso do solo. Outros pontos complexos são os referentes a
questões de identificação do proprietário, seja para aquisição ou desapropriação
pelo município.
Com esses resultados, tem-se a expectativa de não apenas oferecer insumos
para a identificação e ação sobre essas áreas como também compreender melhor
suas causas objetivando evitar o surgimento de novos espaços ociosos. Assim, é
possível promover um real desenvolvimento urbano da cidade, baseado no uso
apropriado do seu espaço construído e na função social da propriedade e da cidade.
250
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Política Urbana e Ambiental do Município, institui o Plano Diretor de
Desenvolvimento Urbano Sustentável do Município do Rio de Janeiro e dá outras
providências. Rio de Janeiro: 2011.
______. Lei complementar nº 116 de 25 de abril de 2012. Cria a área de especial
interesse urbanístico da Avenida Brasil, define normas para incremento das
atividades econômicas e para reaproveitamento de imóveis em áreas das zonas
industriais e ao longo de corredores viários estruturantes da AP-3 e da AP-5 e dá
outras providências. Rio de Janeiro: 2012.
______. Decreto nº 35.646 de 16 de maio de 2012. Estabelece as diretrizes para
outorga de uso a terceiros de próprios municipais sem destinação pública específica
e em mau estado de conservação. Rio de Janeiro: 2012.
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de arrecadação dos imóveis urbanos abandonados. Rio de Janeiro: 2012.
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de imóveis em péssimo estado de conservação ou com obras paralisadas em
estágio de estrutura e dá outras providências. Rio de Janeiro: 2012.
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257
Entrevistas realizadas
Antonio Jorge da Rocha Teixeira
Supervisor de Bases Territoriais
IBGE – UE/RJ (Unidade Estadual do Rio de Janeiro)
Data: 18/08/2011
Maria Luiza Korenchendler
Coordenadora
Gerência de Planejamento Local GPL-3 – Coordenadoria Geral de Planejamento
Urbano – SMU
Data: 14/03/2012
João Américo Barbosa Ribeiro
Fiscal de rendas
Coordenadoria do IPTU – SMF
Data: 25/09/2012
Fabrício Duarte Tanure
Superintendente
Superintendência do Patrimônio Imobiliário –SMF
Data: 05/10/2012
258
Marcus Vinícius Nunes Ferreira
Coordenador
Coordenação de Vigilância Ambiental em Saúde – SMS
Data: 27/05/2013
Eduardo Jorge de Souza
Técnico de vistorias de campo
Coordenação de Vigilância Ambiental em Saúde – SMS
Data: 27/05/2013
Marcelo Garcez Borges Viseu
Arquiteto
Gerência de Planejamento Local GPL-3 – Coordenadoria Geral de Planejamento
Urbano – SMU
Data: 31/01/2014
Breno Figueiredo
URBEM – Instituto de Urbanismo e Estudos sobre a Metrópole
Data: 07/02/2014
259
APÊNDICES
APÊNDICE A – Acompanhamento temporal de imóveis
abandonados no bairro Freguesia Jacarepaguá
Rua Comandante Rubens Silva, 211 - Primeira visita. Campo realizado em 16 de dezembro de 2011.
Rua Comandante Rubens Silva, 211 - Segunda visita. Campo realizado em 17 de fevereiro de 2012.
260
Rua Comandante Rubens Silva, 211 - Terceira visita. Campo realizado em 11 de março de 2012.
Rua Comandante Rubens Silva, 211 - Quarta visita. Campo realizado em 25 de janeiro de 2014.
261
Rua Geminiano Góis, 436 e 448. Notificação em 13 e 14.12.2011. Campo realizado em 16 de
dezembro de 2011.
262
Rua Geminiano Góis, 424, 436 e 448. Notificação de 08.02.2012. Campo realizado em 14 de
fevereiro de 2012.
263
Rua Geminiano Góis, 436 e 448. Notificações violadas. Campo realizado em 11 de março de 2012.
264
Rua Geminiano Góis, 424 e 436. Notificações em 27.02.2013. Campo realizado em 02 de março de
2013.265
Rua Geminiano Góis, 424, 436 e 446. Notificações em 27.02.2013. Campo realizado em 08 de
dezembro de 2013.
266
APÊNDICE B – Trabalho de campo para identificação de imóveis
abandonados no bairro Freguesia Jacarepaguá
267
ID Logradouro Número Notificação SMS Tipo
1 Rua Araguaia 1057 12/12/2011 10:15 Terreno limpo
2
Rua Comandante
Rubens Silva 211
06/12/2011 10:45 e
13/12/2011 11:00 Casa
3 Estrada dos Três Rios 721 NÃO Academia
4 Estrada dos Três Rios 972 NÃO Terreno limpo
5 Estrada dos Três Rios 1097 NÃO Terreno limpo
6 Estrada dos Três Rios 1276
16/01/2012 9:30 e
05/02/2012 10:30 Terreno limpo
7 Estrada dos Três Rios 1756 13/01/2012 10:00 Casa
8 Estrada dos Três Rios 1816 NÃO Terreno com mato
9 Estrada dos Três Rios 0 NÃO Terreno com mato
10 Estrada dos Três Rios 2045 NÃO Terreno limpo
11 Estrada dos Três Rios 2110 NÃO Terreno com mato
12 Estrada do Pau Ferro 1390 NÃO Terreno limpo
13 Estrada do Pau Ferro 1379 NÃO Terreno com mato
14 Estrada do Pau Ferro 1373 NÃO Terreno com mato
15 Estrada do Pau Ferro 1350 NÃO Casa
16 Estrada do Pau Ferro 1353 NÃO Casa com mato
17 Estrada do Pau Ferro 0 NÃO Terreno com mato
18 Estrada do Pau Ferro 1218 NÃO Casa
19 Estrada do Pau Ferro 0 NÃO Casa com mato 1
20 Estrada do Pau Ferro 0 NÃO Casa com mato 2
21 Estrada do Guanumbi 1736 NÃO Terreno limpo
22 Rua Araguaia 0 NÃO Terreno com mato
23 Rua Araguaia 1459 13/12/2011 11:05 Terreno limpo
24 Rua Geminiano Góis 448 14/12/2011 10:16 Casa
25 Rua Geminiano Góis 436 13/12/2011 13:20 Casa
268
ANEXOS
ANEXO A – Ordenamento territorial do município do Rio de Janeiro
Armazém de Dados
Quadro 379 - Divisão administrativa geral - Município do Rio de Janeiro - 2013
Áreas de Planejamento, Regiões de
Planejamento e Bairros
Regiões Administrativas Nome Código
Área de Planejamento 1
Região de Planejamento 1.1 - Centro
I Portuária Saúde 001
Gamboa 002
Santo Cristo 003
Caju 004
II Centro Centro 005
Lapa (11) 161
III Rio Comprido Catumbi 006
Rio Comprido 007
Cidade Nova 008
Estácio 009
VII São Cristóvão (1) Imperial de São Cristóvão (10) 010
Mangueira 011
Benfica 012
Vasco da Gama 159
XXI Paquetá Paquetá 013
XXIII Santa Teresa Santa Teresa 014
Área de Planejamento 2
Região de Planejamento 2.1 - Zona Sul
IV Botafogo Flamengo 015
Glória 016
Laranjeiras 017
Catete 018
Cosme Velho 019
Botafogo 020
Humaitá 021
Urca 022
V Copacabana Leme 023
Copacabana 024
VI Lagoa (2) Ipanema 025
Leblon 026
Lagoa 027
Jardim Botânico 028
269
Gávea (2) 029
Vidigal (2) 030
São Conrado (2) 031
XXVII Rocinha Rocinha 154
Região de Planejamento 2.2 - Tijuca
VIII Tijuca Praça da Bandeira 032
Tijuca 033
Alto da Boa Vista 034
IX Vila Isabel Maracanã 035
Vila Isabel 036
Andaraí 037
Grajaú 038
Área de Planejamento 3
Região de Planejamento 3.1 - Ramos
X Ramos (4) Manguinhos 039
Bonsucesso (3) 040
Ramos (3) 041
Olaria 042
XXX Maré Maré 157
Região de Planejamento 3.2 - Méier
XIII Méier (5) Jacaré (5) 051
São Francisco Xavier 057
Rocha 058
Riachuelo 059
Sampaio (5) 060
Engenho Novo (5) 061
Lins de Vasconcelos 062
Méier 063
Todos os Santos 064
Cachambi 065
Engenho de Dentro 066
Água Santa 067
Encantado 068
Piedade 069
Abolição 070
Pilares 071
XXVIII Jacarezinho Jacarezinho 155
Região de Planejamento 3.3 - Madureira
XIV Irajá Vila Cosmos 072
Vicente de Carvalho 073
Vila da Penha 074
Vista Alegre 075
Irajá 076
Colégio 077
XV Madureira Campinho 078
Quintino Bocaiúva 079
Cavalcanti 080
Engenheiro Leal 081
270
Cascadura 082
Madureira 083
Vaz Lobo 084
Turiaçu 085
Rocha Miranda 086
Honório Gurgel 087
Oswaldo Cruz 088
Bento Ribeiro 089
Marechal Hermes 090
Região de Planejamento 3.4 - Inhaúma
XII Inhaúma (4) Higienópolis (4) 050
Maria da Graça (4) 052
Del Castilho 053
Inhaúma (4) 054
Engenho da Rainha 055
Tomás Coelho 056
XXIX Complexo do Alemão Complexo do Alemão 156
Região de Planejamento 3.5 - Penha
XI Penha Penha 043
Penha Circular 044
Brás de Pina 045
XXXI Vigário Geral Cordovil 046
Parada de Lucas 047
Vigário Geral 048
Jardim América 049
Região de Planejamento 3.6 - Pavuna
XXII Anchieta Guadalupe 106
Anchieta 107
Parque Anchieta 108
Ricardo de Albuquerque 109
XXV Pavuna (6) Coelho Neto 110
Acari 111
Barros Filho 112
Costa Barros 113
Pavuna (6) 114
Parque Colúmbia 158
Região de Planejamento 3.7 - Ilha do
Governador
XX Ilha do Governador
Ribeira 091
Zumbi 092
Cacuia 093
Pitangueiras 094
Praia da Bandeira 095
Cocotá 096
Bancários 097
Freguesia 098
Jardim Guanabara 099
271
Jardim Carioca 100
Tauá 101
Moneró 102
Portuguesa 103
Galeão 104
Cidade Universitária 105
Área de Planejamento 4
Região de Planejamento 4.1 -
Jacarepaguá
XVI Jacarepaguá (7) Jacarepaguá 115
Anil 116
Gardênia Azul 117
Curicica 119
Freguesia (Jacarepaguá) 120
Pechincha 121
Taquara (7) 122
Tanque (7) 123
Praça Seca 124
Vila Valqueire 125
XXXIV Cidade de Deus Cidade de Deus 118
Região de Planejamento 4.2 - Barra da
Tijuca
XXIV Barra da Tijuca Joá 126
Itanhangá 127
Barra da Tijuca 128
Camorim 129
Vargem Pequena 130
Vargem Grande 131
Recreio dos Bandeirantes 132
Grumari 133
Área de Planejamento 5
Região de Planejamento 5.1 - Bangu
XVII Bangu (8) Padre Miguel 140
Bangu 141
Senador Camará 142
Gericinó 160
XXXIII Realengo Deodoro 134
Vila Militar 135
Campo dos Afonsos 136
Jardim Sulacap 137
Magalhães Bastos 138
Realengo 139
Região de Planejamento 5.2 - Campo
Grande
XVIII Campo Grande Santíssimo 143
Campo Grande 144
272
Senador Vasconcelos 145
Inhoaíba 146
Cosmos 147
Região de Planejamento 5.3 - Santa Cruz
XIX Santa Cruz Paciência 148
Santa Cruz 149
Sepetiba (9) 150
Região de Planejamento 5.4 - Guaratiba
XXVI Guaratiba Guaratiba 151
Barra de Guaratiba 152
Pedra de Guaratiba 153
Fonte: Secretaria Municipal de Urbanismo
- SMU.
Notas: 1. O Decreto nº 3.157 de 23/07/81 delimita as primeiras 24 Regiões Administrativas e o
Decreto nº 3.158 de 23/07/81 delimita os bairros correspondentes a essas RAs.
2. O Decreto nº 5.280, de 23/08/85, cria as 25ª e 26ª RAs,
alterando decretos anteriores.
3. As unidades territoriais do Município do Rio de Janeiro foram definidas pela Lei
Complementar n.º 111 de 1/2/2011 que
institui o Plano Diretor de Desenvolvimento Urbano Sustentável do Município do Rio de
Janeiro no artigo 36 do capítulo 3,
que trata da ordenação para o planejamento, e apresenta as
seguintes definições:
I - áreas de Planejamento – AP, estabelecidas pela divisão do território municipal a partir
de critérios de compartimentação ambiental,
de características histórico-geográficas e de uso e ocupação do
solo;
II - regiões de Planejamento – estabelecidas pelo grupamento de Regiões Administrativas
e pela subdivisão das Áreas de Planejamento e
segundo critérios de homogeneidade específicas,visando apoiar a organização das
informações e a integração da ação descentralizada
dos órgãos municipais na implementação de políticas públicas
setoriais;
III - regiões Administrativas – RA, formadas por um ou mais
bairros com fins administrativos;
IV- bairros, porções do território demarcados oficialmente por limites culturalmente
reconhecidos pela mesma denominação, sendo unidade
territorial de referência na coleta de dados e informações produzidas pelos órgãos do
Município e nas ações de planejamento urbano;(...)
Legislação relativa às alterações posteriores de limites de RAs e
bairros e novas criações:
(1) Lei Complementar n.º 17/92 (alteração de limites da RA e
bairros correspondentes).
(2) Lei no. 1.995/93 (alteração de limites da RA e bairros
correspondentes).
(3) Lei n.º 2.055/93 (alteração de limites da RA e bairros).
(4) Lei Complementar n.º 17/92/Lei n.º 2.055/93 (alteração de
limites da RA e bairros).
(5) Lei Complementar n.º 17/92 (alteração de limites da RA, inclusão do bairro Jacaré e da
Comunidade Fernão Cardim - Decreto 17.525/99).
(6) Decreto n.º 5.280 de 23/08/85, cria as 25ª e 26ª RAs,
alterando os decretos anteriores.
273
(7) Decreto n.º 8.095/88 (retificação de limites) - Decretos 12.791/94 e 13.448/94
(delimitação dos bairros).
(8) Decreto n.º 8.095/88 (retificação de limites - RAs XVI e XVII).
(9) Decreto 25155 de Março de
2005
(10) Denominação revista pelo Decreto No 28302 de 14 de agosto de 2007, passando a
ser denominado bairro Imperial de São Cristóvão.
(11) Lei n.º 5.407/12 (cria o bairro).
Fonte: Instituto Pereira Passos, 2013.
ANEXO B – Programa Casa Paulista
Todas as imagens foram fornecidas por Breno Figueiredo (URBEM).
OS SEIS SETORES DE ATUAÇÃO DO CASA PAULISTA
274
MOBILIDADE (METRÔ / CPTM)
REDES FÍSICAS INTEGRADORAS
275
REDES FÍSICAS ESTRUTURADORAS
ARTICULAÇÃO INTERSETORIAL
Exemplo de detalhamento de uma intervenção composta de dois empreendimentos
276
277
278