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GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO 
FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO 
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM URBANISMO 
PROURB 
 
 
 
 
 
GISELE SILVA BARBOSA 
 
 
 
O DISCURSO DA SUSTENTABILIDADE EXPRESSO NO PROJETO 
URBANO 
 
 
 
 
Rio de Janeiro - RJ 
2013 
 
 
 
 
 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 
UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE JANEIRO 
FACULDADE DE ARQUITETURA E URBANISMO 
PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM URBANISMO 
 
 
 
 
 
 
GISELE SILVA BARBOSA 
 
 
 
O DISCURSO DA SUSTENTABILIDADE EXPRESSO NO PROJETO 
URBANO 
 
 
TESE DE DOUTORAMENTO APRESENTADA AO PROGRAMA 
DE PÓS-GRADUAÇÃO EM URBANISMO DA FACULDADE DE 
ARQUITETURA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE 
JANEIRO, COMO PARTE DOS REQUISITOS PARA A 
OBTENÇÃO DO GRAU DE DOUTOR EM URBANISMO. 
 
ORIENTADOR: PROF. DSC. OSCAR DANIEL CORBELLA 
 
 
 
Rio de Janeiro - RJ 
2013 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
GISELE SILVA BARBOSA 
 
O DISCURSO DA SUSTENTABILIDADE EXPRESSO NO PROJETO 
URBANO 
TESE DE DOUTORAMENTO APRESENTADA AO PROGRAMA 
DE PÓS-GRADUAÇÃO EM URBANISMO DA FACULDADE DE 
ARQUITETURA DA UNIVERSIDADE FEDERAL DO RIO DE 
JANEIRO, COMO PARTE DOS REQUISITOS PARA A 
OBTENÇÃO DO GRAU DE DOUTOR EM URBANISMO. 
 
ORIENTADOR: PROF. DSC. OSCAR DANIEL CORBELLA 
 
COMISSÃO EXAMINADORA 
 
_____________________________________________ 
Prof. Dsc. Oscar Daniel Corbella (Orientador) 
PROURB - UFRJ 
 
____________________________________________ 
Profª Dsc. Ângela Maria Gabriella Rossi 
Escola Politécnica/Programa de Engenharia Urbana /DEG /UFRJ 
 
_____________________________________________ 
Profª. Dsc. Eliane da Silva Bessa 
Programa de Pós-Graduação em Urbanismo /FAU/UFRJ 
 
_____________________________________________ 
Pesquisadora Dsc. Patricia Regina Chaves Drach 
Programa de Pós-Graduação em Urbanismo /FAU/UFRJ 
 
_____________________________________________ 
Profª Dsc. Rachel Coutinho Marques da Silva 
Programa de Pós-Graduação em Urbanismo /FAU/UFRJ 
 
____________________________________________ 
Profª Dsc. Rosane Martins Alves 
Escola Politécnica/Programa de Engenharia Urbana /DEG /UFRJ 
 
Rio de Janeiro - 2013 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
No decorrer do desenvolvimento desta Tese nasceu o Lucas, 
fruto de um imenso amor que só se intensificou. 
Dedico essa tese aos dois amores da minha vida, Rei e Lucas. 
 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 
 
 
AGRADECIMENTOS 
 
 
Agradeço à Deus pelos cuidados com minha vida. 
Agradeço ao meu orientador Oscar Corbella pelas muitas discussões e imensa 
contribuição à tese, aos meus colegas de trabalho da Salesiana e da UFRJ pela 
compreensão e ajuda, principalmente à Patrícia Drach e Gabriella Rossi pelas leituras e 
sugestões. Agradeço ao Programa de Pós-graduação em Urbanismo pela oportunidade 
e por ter acolhido meu projeto. Agradeço aos meus pais e irmãos pelo apoio e carinho, 
aos meus familiares e amigos pela torcida e a todos que ajudaram com o Lucas para 
que eu pudesse escrever. 
Agradeço ao meu marido, Reinaldo, que me deu todo suporte e incentivo. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 
 
RESUMO 
BARBOSA, Gisele Silva Barbosa. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto 
Urbano. Tese (Doutorado em Urbanismo), Programa de Pós-Graduação em Urbanismo 
(PROURB), Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), Universidade Federal do Rio de 
Janeiro (UFRJ), Rio de Janeiro 2013. Orientador: Oscar Daniel Corbella. 
 
 A tese apresenta uma discussão 'em aberto' a cerca do desenvolvimento 
sustentável e da sustentabilidade urbana. Buscou-se apresentar diferentes 
posicionamentos e atores sociais que estudam e/ou atuam sobre o tema da 
sustentabilidade urbana. O estudo aborda o que está sendo apresentado por diversos 
autores como sustentabilidade e o que pode ser apropriado para a criação de novas 
cidades e projetos urbanos. O principal objetivo da tese é analisar e discutir o projeto 
urbano na busca pela sustentabilidade. A tese busca contribuir para uma boa prática 
de projeto urbano sustentável considerando os novos paradigmas da sociedade. 
Através de uma metodologia de análise baseada em categorias analíticas relativas à 
sustentabilidade urbana, buscou-se evidenciar as problemáticas e soluções urbanas de 
três projetos de cidade que se autodenominam sustentáveis. Os projetos abordados 
como estudos de referência foram as concepções de Masdar, nos Emirados Árabes, 
Dongtan, na China e Nuevo Juan del Grijalva, no México. Apesar de bastantes distintos, 
a matriz de análise de projetos urbanos sustentáveis desenvolvida na tese para o 
estudo se mostrou eficiente e bastante abrangente. Dentro de seus diferentes 
contextos e propostas, os projetos contribuíram como referência para o estudo e 
puderam ser analisados de forma crítica por uma metodologia geral que evidenciou a 
importância do projeto urbano para se alcançar objetivos sustentáveis. 
 
 
Palavras-chave: Desenvolvimento Sustentável, Sustentabilidade Urbana, Projeto 
Urbano Sustentável, Análise de Projeto. 
 
 
 
 
 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
ABSTRACT 
BARBOSA, Gisele Silva Barbosa. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto 
Urbano. Tese (Doutorado em Urbanismo), Programa de Pós-Graduação em Urbanismo 
(PROURB), Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), Universidade Federal do Rio de 
Janeiro (UFRJ), Rio de Janeiro 2013. Orientador: Oscar Daniel Corbella. 
 
The thesis presents an 'open' discussion about sustainable development and urban 
sustainability. We tried to present different positioning and social actors who study 
and / or work on the theme of urban sustainability. The study addresses what is being 
presented by many authors as sustainability and what may be appropriate for the 
creation of new towns and urban design. The main objective of the thesis is to analyze 
and discuss urban design in the search for sustainability. The thesis seeks to contribute 
to a good practice of sustainable urban design considering the new paradigms of 
society. Through an analysis methodology based on analytical categories related to 
urban sustainability, we sought to highlight the problems and solutions of three urban 
projects that call themselves sustainable city. The projects addressed as reference 
studies were conceptions of Masdar, the UAE, Dongtan, China and Nuevo Juan del 
Grijalva, Mexico. Although quite distinct, the matrix of sustainable urban design 
analysis developed in the thesis for the study was efficient and very comprehensive. 
Within their different contexts and proposals, projects contributed as a reference for 
the study and could be analyzed critically by a general methodology that showed the 
importance of urban design to achieve sustainable goals. 
 
 
Keywords: Sustainable Development, Urban Sustainability, Sustainable Urban Design, 
Project Analysis. 
 
 
 
 
 
 
 
 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
Lista de Abreviaturas e Siglas 
Abreviaturas 
DS - Desenvolvimento Sustentável 
ONG - Organização não Governamental 
LRT - Light Rail Transport 
PRT- Personal Rapid Transport 
 
Siglas 
BIRD - Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento 
CEPAL - Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe 
CMMAD - Comissão Mundial do Meio Ambiente e Desenvolvimento 
CNUMAD - Conferência das Nações Unidaspara o Meio Ambiente e Desenvolvimento 
FMI - Fundo Monetário Internacional 
OECD - Organization for Economic Co-Operation and Development 
OMS - Organização Mundial da Saúde 
ONU - Organização das Nações Unidas 
UNESCO - United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization 
UN-Habitat - United Nations Human Settlements Programme 
WGSUT - Working Group on Sustainable Urban Transport 
WWI - Worldwatch Institute 
 
 
 
 
 
 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
Lista de Ilustrações 
Índice de Figuras: 
Figura 1: Esquema físico do projeto de Masdar. A figura representa a implantação geral da 
cidade que será em dois quadrados interligados por uma “via parque”...................................... 
 
24 
Figura 2: Localização de Dongtan. A nova cidade fica próxima à Xangai, mas separadas por um 
braço de mar................................................................................................................................. 
 
25 
Figura 3: Imagem ilustrativa do projeto de Dongtan.................................................................... 25 
Figura 4: Imagens das cooperativas de Nuevo Juan del Grijalva já em funcionamento.............. 27 
Figura 5: Idem anterior................................................................................................................. 27 
Figura 6 - Favela da zona leste de São Paulo, Brasil...................................................................... 40 
Figura 7: Parque do Ibirapuera, São Paulo.................................................................................... 40 
Figura 8: Indústria em Volta Redonda, Rio de Janeiro.................................................................. 43 
Figura 9: Indústria Verde Coreana. Uma alternativa para a diminuição de poluentes................. 43 
Figura 10: Esquema de Cidade Linear de Arturo Soria y Mata...................................................... 90 
Figura 11: Diagramas de Howard da ‘Cidade Jardim’.................................................................... 91 
Figura 12: Idem anterior................................................................................................................ 91 
Figura 13: Ville Radieuse - Le Corbusier........................................................................................ 93 
Figura 14: Desenho de Le Corbusier da ‘Cidade Contemporânea’................................................ 93 
Figura 15: Projeto de uma Unidade de Vizinhança....................................................................... 95 
Figura 16: Mapa da ocupação urbana brasileira baseada na categoria de cidades pequenas, 
médias e grandes........................................................................................................................... 
 
110 
Figura 17: O bairro de Vauban se localiza na cidade de Frieburg, na Alemanha........................... 138 
Figura 18: Mapa turístico do Bairro de Vauban............................................................................. 138 
Figura 19: Exemplos de edificações com maior adensamento e diversificadas............................ 139 
Figura 20: Vias adequadas para o pedestre e para o uso de bicicletas......................................... 139 
Figura 21: Vista aérea deSarriguren.............................................................................................. 140 
Figura 22: Plano da cidade de Sarriguren com esquema de transporte 
público............................ 
140 
Figura 23: Lago artifiial de Sarriguren........................................................................................... 141 
Figura 24: Transporte público foi prioridade no projeto urbano.................................................. 141 
Figura 25: Parque Central e Sarriguren......................................................................................... 141 
Figura 26: Plano urbano de Hammarby........................................................................................ 142 
Figura 27: Transporte público e alternativo priorizado em Hammarby........................................ 142 
Figura 28: Centro de Pesquisa de Masdar ainda em obra em 2010.............................................. 177 
Figura 29: Localização de Masdar com referência a Abu Dhabi.................................................... 178 
Figura 30: Dimensão de Masdar e população esperada. Os dois quadrados fazem parte de 
Masdar, não tem especificidades urbanas diferentes e são ligados por uma “via parque”.......... 
 
182 
Figura 31: Desenho esquemático mostrando a entrada de ventos durante o dia e a noite em 
Masdar........................................................................................................................................... 
 
184 
Figura 32: Dados gerais urbanos de Masdar. ............................................................................... 185 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
Figura 33: Definição esquemática dos usos de Masdar................................................................. 188 
Figura 34: Corte esquemático de uma via de Masdar................................................................... 189 
Figura 35: Definição de usos da área da cidade que será construída primeiramente................... 189 
Figura 36: Imagem digital de uma praça interna........................................................................... 190 
Figura 37: Desenho da Praça da Família........................................................................................ 191 
Figura 38: Esquema de mobilidade de Masdar............................................................................. 192 
Figura 39: Personal Rapid Transport............................................................................................. 192 
Figura 40: Corte longitudinal mostrando os diferentes níveis de vias e serviços de Masdar........ 192 
Figura 41: Esquema das vias subterrâneas e estações de LRTs ( Light Rail Transport) e PRTs 
(Personal Rapid Transport)............................................................................................................ 
 
193 
Figura 42: Acessibilidade das áreas verdes.................................................................................... 195 
Figuras 43: Exemplo de elementos árabes nas edificações........................................................... 196 
Figura 44: Foto do Instituto ainda em construção em 2010.......................................................... 197 
Figura 45: Foto do Instituto já concluído em 2012........................................................................ 197 
Figura 46: Imagem digital do Masdar Headquarters..................................................................... 197 
Figura 47: Idem anterior................................................................................................................ 197 
Figura 48: Imagem digital mostrando o sistema de guarda-sol do Complexo de Masdar City 198 
Figura 49: Idem anterior................................................................................................................ 198 
Figura 50: Desenho esquemático mostrando o sombreamento das vias e das coberturas das 
edificações..................................................................................................................................... 
 
199 
Figura 51: Masdar contará com uma matriz energética 100% renovável: usinas solares e 
eólicas, painéis fotovoltaicos nos telhados de algumas edificações, coletor de luz solar para 
aquecimento de água e uso de resíduos para geração de biocombustível................................... 
 
 
200 
Figura 52: Localização atividades e de algumas tecnologias utilizadas na cidade de Masdar na 
primeira fase da construção..........................................................................................................202 
Figuras 53: Imagens e desenhos esquemáticos da Torre de Vento............................................... 204 
Figura 54: Idem anterior................................................................................................................ 204 
Figura 55: Idem anterior................................................................................................................ 204 
Figura 56: Campo de perfuração para energia geotérmica........................................................... 204 
Figura 57: Fábrica de Concreto de Masdar.................................................................................... 205 
Figura 58: Bioreator de Membrana............................................................................................... 205 
Figura 59: Imagem aérea da construção de Masdar City em 2010............................................... 209 
Figura 60: Desenho de Masdar com cheios e vazios urbanos com destaque para a área que 
será construída primeiramente. E desenho de um corredor "verde"........................................... 
 
211 
Figura 61: Desenho esquemático com insolação e ventilação em Masdar................................... 213 
Figura 62: Interconexão entre diferentes subcategorias............................................................... 224 
Figura 63: Localização de Dongtan................................................................................................ 226 
Figura 64: Desenho diferenciando as três “vilas” e mostrando os canais e quarteirões. Os 
quarteirões na cor mais escura possuem um uso maior comercial e de serviços e os 
quarteirões mais claros possuem um uso maior residencial......................................................... 
 
 
229 
Figura 65: Hierarquia de vias com rede de ciclovias interligadas em toda a cidade..................... 229 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
Figura 66: Transporte intermodal de Dongtan.............................................................................. 230 
Figura 67: Plano dos canais e lagos com destaque para os portões de drenagem e emergência 
para controle de cheias................................................................................................................. 
 
231 
Figura 68: Aproveitamento do subsolo para a agricultura. Assim como já é feito em países 
como o Japão, prédios são utilizados, principalmente para agricultura hidropônica.................. 
 
233 
Figura 69: Imagem esquemática dos gabaritos das edificações.................................................... 234 
Figura 70: Imagem digital de um dos canais de Dongtan.............................................................. 234 
Figura 71: Áreas livres e configuração dos quarteirões................................................................. 235 
Figura 72: Planta esquemática com áreas livres e publicas da cidade.......................................... 235 
Figura 73: Localização da cidade e das áreas de preservação e campo na ilha de Chongming..... 236 
Figura 74: Detalhamento da área central do núcleo urbano........................................................ 236 
Figura 75: Mapa de usos, delimitação e vias urbanas................................................................... 237 
Figura 76: Imagem digital de um dos canais de Dongtan............................................................. 238 
Figura 77: Imagem digital mostrando algumas edificações e uma parte da via principal............. 238 
Figura 78: Estratégia de Gestão Sustentável das cheias [Plano]................................................... 238 
Figura 79: Corte esquemático evidenciando os desníveis do solo para o controle das cheias..... 239 
Figura 80: Quantidade de MWh por ano relativa às diferentes fontes energéticas..................... 240 
Figura 81: Croqui destacando os núcleos que formarão Dongtan................................................ 243 
Figura 82: Os projetos tem uma semelhança visual muito acentuada, mas como serão 
construídos posteriormente por outras empresas essa monotonia porá será alterada e a 
tipologia apresentada ser somente uma ilustração representativa............................................. 
 
 
243 
Figura 83: Imagem trabalhada demonstrando a permeabilidade da ventilação proporcionada 
pelos espaços abertos e pelas diferenciações de gabarito........................................................... 
 
244 
Figura 84: Mapa demográfico de Chiapas com destaque para o Município de Ostuacán que 
possui menos de 25 mil habitantes............................................................................................... 
 
251 
Figura 85: Índice de Desenvolvimento Humano de Marginalização e Defasagem Social 
mostrando o estado de Chiapas com o maior índice de marginalização...................................... 
 
252 
Figura 86: Localização da antiga Juan del Grijalva e da nova cidade, além da localização da 
cidade mais próxima (Ostuacán)................................................................................................... 
 
253 
Figura 87: Residências anteriores de alguns moradores............................................................... 257 
Figura 88: Idem anterior................................................................................................................ 257 
Figura 89: Foto aérea do desastre no rio Grijalva em 2007........................................................... 259 
Figura 90: Mapa climático de Chiapas com destaque para o Município de Ostuacán.................. 260 
Figura 91: Imagem aérea de Ostuacán, México............................................................................ 261 
Figura 92: Foto da subida para Nuevo Juan del Grijalva................................................................ 261 
Figura 93: Vistas aéreas de Nuevo Juan Del Grijalva. É possível perceber a “monotonia 
arquitetônica”................................................................................................................................ 
 
264 
Figura 94: Idem anterior................................................................................................................ 264 
Figura 95: Destaque da área de 30 hectares inserida no sítio inicial, mas que foi utilizada como 
Polígono Agrícola........................................................................................................................... 
 
265 
Figura 96: Área destinada ao crescimento futuro......................................................................... 265 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
Figura 97: Área urbana com a zona norte e a zona sul.................................................................. 266 
Figura 98: Projeto final apresentado pelo governo de Chiapas..................................................... 267 
Figura 99: Fotografia mostrando as ocupações dos quintais das residências de NJG................... 268 
Figura 100: Área de produção com estufas da produção de tomates e galpões de criação de 
aves................................................................................................................................................ 
 
268 
Figura 101: Idem anterior.............................................................................................................. 268 
Figura 102: Creche de NJG............................................................................................................. 271 
Figura 103: Escola primária de NJG............................................................................................... 271 
Figura 104: Mapa localizando a zona de serviços e lazer. ............................................................ 272 
Figura 105: Foto da quadra de esporte da cidade.........................................................................272 
Figura 106: Sala de Informática..................................................................................................... 
Figura 107: Polo industrial............................................................................................................ 
272 
272 
Figura 108: Projeto original das habitações de NGJ...................................................................... 274 
Figura 109: Projeto original das habitações de NJG mostrando a potencial ampliação................ 274 
Figura 110: Projeto de situação com as dimensões da casa do terreno....................................... 275 
Figura 111: Foto de uma das casas tendo sua fachada modificada.............................................. 275 
Figura 112: Imagem dos quintais aproveitados para a criação de aves........................................ 275 
Figura 113: Fachada frontal de uma edificação padrão de Chiapas.............................................. 276 
Figura 114: Fachada posterior de uma edificação padrão de Chiapas.......................................... 276 
Figura 115: Poste de iluminação urbana....................................................................................... 278 
Figura 116: Fogões ecológicos....................................................................................................... 278 
Figura 117: Croqui evidenciando a repetição da tipologia e posicionamento das edificações 
não considerando a carta solar..................................................................................................... 
 
282 
Figura 118: Corte esquemático de uma via padrão de Nuevo Juan del Grijalva........................... 283 
Figura 119: Cidade de Santiago el Pinar apresentada como a segunda cidade rural sustentável 
do México. O que á apresentado como uma cidade rural é uma obra de um bairro na já 
existente cidade de Santiago del Pinar.......................................................................................... 
 
 
284 
Figura 120: Idem anterior.............................................................................................................. 284 
 
 
Gráficos: 
Gráfico 1: Gráfico demonstrando que a maioria da população brasileira reside em 
municípios menos populosos........................................................................................... 
 
107 
Gráfico 2: Gráfico demonstrando que a maioria da população urbana brasileira 
também reside em cidades pequenas e médias............................................................... 
 
109 
Gráfico 3: Gráfico esquemático de custos e atividades.................................................... 185 
Gráfico 4: Dados de Temperatura média, máxima e mínima do ano de 2011 da região 
de 
Dongtan............................................................................................................................ 
 
227 
Gráfico 5: Dados de Umidade Relativa na parte da manhã e tarde e dados referentes 
a quantidade de sol média diária do ano de 2011 da região de Dongtan. ...................... 
 
227 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 
Tabelas: 
Tabela 1: Acordos Internacionais sobre o meio ambiente............................................... 65 
Tabela 2: Tabela baseada em dados do IBGE 2010 com a indicação da população 
residente nos municípios (rural e urbana)....................................................................... 
 
107 
Tabela 3: Tabela baseada em dados do IBGE 2010 com a indicação da população 
residente urbana nos municípios..................................................................................... 
 
108 
Tabela 4: Temperaturas e Precipitações em Abu Dhabi em 2011................................... 183 
Tabela 5: dados das localidades que foram reunidas em Nuevo Juan del Grijalva........ 255 
Tabela 6: Dados de temperaturas e precipitação do estado de Chiapas no ano de 
2011..................................................................................................................................... 
 
261 
Tabela 7: Edifícios Públicos de NJG adaptado do Relatório de Michigan.......................... 269 
 
Quadros: 
Quadro 1: Quadro com dados gerais das cidades estudadas.............................................. 169 
Quadro 2: Quadro comparativa das cidades estudadas a partir das categorias analíticas. 169 
Quadro 3: Quadro com dados gerais da cidade de Masdar................................................ 214 
Quadro 4: Quadro de Masdar com relação às categorias analíticas para o projeto 
urbano sustentável. ........................................................................................................... 
 
215 
Quadro 5 Quadro com dados gerais da cidade de Dongtan............................................... 245 
Quadro 6: Matriz de análise do projeto urbano de Dongtan com relação às categorias 
analíticas sustentável. ........................................................................................................ 
 
246 
Quadro 7: Quadro com dados gerais da cidade de Nuevo Juan del Grijalva...................... 286 
Quadro 8: Quadro de NJG com relação às categorias analíticas para o projeto urbano 
sustentável. ........................................................................................................................ 
 
287 
 
Esquemas: 
Esquema 1: Esquema adaptado do livro “Guía Básico de La Sostenibilidad” de Edward 
(2009).................................................................................................................................. 
 
67 
Esquema 2: Esquema adaptado de Brian Edwards (2009) sobre as diferenças entre 
Desenvolvimento Sustentável e Sustentabilidade ............................................................. 
 
69 
Esquema 3: Dimensões de sustentabilidade urbana........................................................... 127 
Esquema 4: Esquema do Plano de Governo de Chiapas.................................................... 263 
 
 
 
 
 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
SUMÁRIO 
Agradecimentos...................................................................................................... VI 
Resumo ................................................................................................................... VII 
Abstract .................................................................................................................. VIII 
1. INTRODUÇÃO ............................................................................................ 18 
1.1. Objetivos e hipótese................................................................................. 20 
1.2. Justificativa................................................................................................ 22 
1.3. Universo da pesquisa............................................................................... 23 
1.4 Metodologia.............................................................................................. 27 
1.4.1. Roteiro metodológico.............................................................................. 30 
 1.4.1.1 Embasamento teórico................................................................ 31 
 1.4.1.2 Levantamento de dados – Inventário............................................. 32 
 1.4.1.3 Análise dos projetos urbanos........................................................ 33 
1.4.2. Materiais e métodos................................................................................ 34 
1.5. Estrutura da tese................................................................................... 34 
2. DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E SUSTENTABILIDADE............................ 38 
2.1. A Sociedade atual e a questão ambiental.....................................................39 
2.2. Crise ambiental como ponto de partida....................................................... 42 
2.3. O termo desenvolvimento sustentável...................................................... 53 
 2.3.1. As origens do termo desenvolvimento.......................................... 54 
 2.3.2. O contraditório discurso da sustentabilidade................................... 59 
 2.3.3. A disseminação do ideal do desenvolvimento sustentável................ 64 
2.4. Síntese do capítulo e posicionamento quanto ao tema que orientou a tese.. 77 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
3. CIDADE E MEIO AMBIENTE.......................................................................... 81 
3.1. Formação de cidades ............................................................................. 84 
 3.1.1. Ideais urbanos do século XX e críticas posteriores............................. 86 
 3.1.2. Cidades contemporâneas................................................................ 99 
 3.1.3. A formação de novas cidades ou a intervenção em cidades já 
 existentes....................................................................................... 
102 
3.2. A problemática urbana e o desenvolvimento urbano sustentável................. 111 
 3.2.1 - O debate sobre a sustentabilidade urbana....................................... 112 
4. O PROJETO URBANO COMO NORTEADOR................................................... 125 
4.1 Considerações iniciais ............................................................................... 125 
4.2 O projeto urbano sustentável .................................................................... 128 
5. CATEGORIAS ANALÍTICAS.......................................................................... 145 
5.1. Gestão e participação comunitária............................................................ 146 
5.2. Morfologia e tipologia.............................................................................. 151 
5.3. Mobilidade urbana........................................................................................ 157 
5.4. Tecnologias sustentáveis e presença de infraestrutura técnica....................... 161 
5.5. Valorização da estrutura ecológica............................................................. 164 
5.6. Promoção de trabalho e renda................................................................... 166 
5.7. Matriz de comparação e análise................................................................. 167 
6. ESTUDOS DE REFERÊNCIA........................................................................... 175 
6.1. Justificativa de escolha dos projetos.......................................................... 175 
6.2. Masdar................................................................................................. 176 
 6.2.1 Levantamento socioeconômico......................................................... 177 
 6.2.2 Levantamento geográfico e climático............................................... 183 
 6.2.3 Levantamento urbanístico e morfológico........................................... 184 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 6.2.4 Levantamento de tecnologias ambientais aplicadas............................. 199 
 6.2.5. Análise do projeto de Masdar a partir das categorias analíticas......... 205 
6.3. Dongtan.................................................................................................... 218 
 6.3.1 Levantamento socioeconômico ...................................................... 222 
 6.3.2 Levantamento geográfico e climático................................................. 224 
 6.3.3 Levantamento urbanístico e morfológico............................................ 228 
 6.3.4 Levantamento de tecnologias ambientais aplicadas............................. 239 
 6.3.5. Análise do projeto de Dongtan a partir das categorias analíticas....... 241 
6.4. Nuevo Juan del Grijalva............................................................................ 250 
 6.4.1 Levantamento socioeconômico (contextualização).............................. 251 
 6.4.2 Levantamento geográfico e climático.................................................. 260 
 6.4.3 Levantamento urbanístico e morfológico.............................................. 262 
 6.4.4 Levantamento de tecnologias ambientais aplicadas............................. 277 
 6.4.5. Análise do projeto de Nuevo Juan del Grijalva a partir das 
categorias analíticas ...................................................................................... 
 
278 
6.5. Estudo comparativo entre os projetos urbanos ditos sustentáveis................. 291 
6.6. Possibilidade de novas propostas urbanas sustentáveis para o Brasil............. 297 
 
7. CONSIDERAÇÕES FINAIS ................................................................................ 302 
7.1. Perspectiva de novas pesquisas.................................................................. 306 
 
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA.............................................................................. 307 
 
 
 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CAPÍTULO 1 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
1. INTRODUÇÃO 
Em diversas áreas do conhecimento a palavra sustentabilidade está recebendo 
destaque, principalmente nas últimas décadas. Na disciplina do urbanismo isso não é 
diferente e o adjetivo "sustentável" está presente nas discussões e projetos atuais. 
Com a crise ambiental iniciada ainda no século passado e com o reconhecimento dos 
problemas sociais e ambientais enfrentados no meio urbano, são muitos os autores, 
urbanistas, documentos e governos que buscam novas possibilidades para as cidades 
contemporâneas. A sociedade atual está em constante mudança e consequentemente, 
as cidades também refletem essas alterações. As mudanças climáticas, a crise 
econômica, o crescimento urbano, a globalização, entre outras, cooperam para a 
aceitação de que a relação entre o desenvolvimento econômico e social e as cidades 
está em transição. 
Numerosos acordos, diretrizes, legislações e relatórios são redigidos com o 
intuito de direcionar o desenvolvimento mais sustentável nas cidades de todo o 
planeta. Mesmo assim, na prática, muitas vezes os conhecimentos teóricos são 
insuficientes ou não são considerados e, em diversas ocasiões, tomam-se decisões 
equivocadas. 
Nos últimos anos, alguns países estão investindo, especificamente, na criação de 
novas cidades com o enfoque ambiental. No entanto, muito se discute se esse enfoque 
ambiental e sustentável não é somente um discurso político incentivado pelo capital. A 
partir daí, a discussão levantada por essa tese é a cerca do que está sendo proposto 
como projeto urbano sustentável, visto que essas cidades já estão sendo planejadas e 
construídas por algumas nações. 
O campo de análise escolhido foi o da formação de novas cidades planejadas, 
focalizando primordialmente o projeto urbano. Perante a extensão do tema buscou-se 
delimitar o estudo apresentando apenas alguns projetos de cidades planejadas, 
realizadas ou não, no século XX até os dias atuais, mas que influenciaram de alguma 
forma o urbanismo. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
É sabido que o tema e o período estipulado podem ser considerados restritivos. 
Planejar uma cidade vai muito além do que pensar somente em sua estrutura física. 
Não se deve destacaruma cidade de seu contexto regional ou mesmo esperar que um 
projeto urbano represente todas as soluções para os problemas sociais e econômicos 
urbanos. No entanto, o projeto, a partir da estruturação física, pode contribuir com 
alterações sociais, propiciando ambientes menos congestionados e degradados, 
criando espaços onde se dão os encontros e atos humanos. A partir daí, parte-se do 
pressuposto de que a sociedade atual, que é chamada de “sociedade de risco” por 
Giddens (GIDDENS, 1994), requer mais do que um planejamento arbitrário e tecnicista 
como eram feitos muitos dos planejamentos urbanos, principalmente no início e em 
meados do século XX. Assim, ao se falar de projetos de novas cidades sustentáveis, 
reconhecendo esta “sociedade de risco” parece importante repensar o papel dos 
planejadores e integrar às práticas profissionais tanto os processos participativos como 
as incertezas presentes nestas sociedades em constante transição. 
Desta forma, discute-se a origem dos pressupostos urbanísticos e o projeto 
urbano resultante de três novas cidades totalmente planejadas a partir de princípios 
urbanos sustentáveis e apresentadas por seus idealizadores e construtores como 
sendo sustentáveis: "Masdar", nos Emirados Árabes Unidos; "Dongtan", na China e 
“Nuevo Juan del Grijalva”, no México. 
A análise dos três projetos foi realizada a partir de uma matriz baseada em 
categorias analíticas definidas de acordo com os referenciais metodológicos e teóricos. 
As categorias levantadas na tese para a análise de projetos urbanos sustentáveis são: 
gestão democrática e participação comunitária, morfologia e tipologias urbanas, 
mobilidade urbana, valorização da estrutura ecológica, tecnologias sustentáveis e 
presença de infraestrutura técnica e promoção de trabalho e renda. A partir desses 
seis parâmetros básicos foi estruturada uma matriz de análise com diversas 
subcategorias com o intuito de verificar pressupostos, princípios e ações sustentáveis 
nos projetos analisados. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 Alguns dos referenciais metodológicos que influenciaram a construção do 
quadro de análise foram Register (2002), Girardet (2001), Rossi (2012), Bentley (1999), 
entre outros, além de alguns Indicadores de Sustentabilidade. Quanto aos referenciais 
teóricos que embasaram a tese, o principal deles foi Wolfgang Sachs (1996, 2000), que 
estudou o desenvolvimento sustentável a partir de três visões distintas que serão 
apresentadas na tese, chamadas pelo autor de “perspectiva da competição”, 
“perspectiva do astronauta” e “perspectiva doméstica”. Os referenciais teóricos 
embasaram a discussão acerca das definições de Desenvolvimento Sustentável e 
Sustentabilidade e auxiliaram na apresentação de outros temas como a formação de 
cidades, o projeto urbano, entre outros. Além de Sachs, outros autores que se 
destacaram foram Rogers (2001), Corbella (1998, 2010), Acserald (2001), entre outros. 
A temática desta tese pode ser definida como a relevância do projeto urbano 
sustentável para a formação de novas cidades. Para melhor exemplificar e estudar o 
tema, os projetos das três cidades citadas anteriormente foram escolhidos como 
estudos de referência com o intuito de analisar suas premissas e verificar se os 
resultados de projeto condizem com o que é apresentado como sustentabilidade 
urbana pela tese. A análise dos projetos será feita a partir de referenciais 
metodológicos que auxiliarão na definição de categorias analíticas. Desta forma, as 
escolhas feitas pelos projetistas/urbanistas, os princípios e pressupostos assumidos, 
suas motivações e os projetos resultantes são a problemática a ser estudada por essa 
tese. 
 
1.1. Objetivos e Hipótese 
O objetivo central desta tese consiste em analisar e discutir o projeto urbano 
como um dos principais instrumentos na busca para se alcançar a sustentabilidade 
urbana. A partir dos estudos de referência, os projetos de Masdar, Dongtan e Nuevo 
Juan del Grijalva, pretende-se analisar criticamente os conceitos e princípios 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
urbanísticos e suas motivações e interesses. Ainda, levanta-se a questão de que se 
esses planos, ou alguns deles, são resultados de planejamentos institucionais criados 
somente por “técnicos urbanistas”, muitas vezes em outros países, para atender uma 
sociedade em transição e instável. Desta forma, verificar-se-á se os preceitos 
urbanísticos e os projetos urbanos resultantes colocados como sustentáveis pelos 
autores e financiadores dos projetos estão condizentes com os princípios urbanos 
estudados na Academia como sustentáveis. 
Além disso, apesar de não ter sido considerado nenhum exemplo de cidade 
brasileira que atendesse aos requisitos definidos na metodologia, será ponderado no 
final da tese se são relevantes e viáveis atuações desse cunho no Brasil. 
Destacam-se como objetivos secundários apresentar e estudar alguns projetos e 
ideais urbanos do século XX em diante, que serviram como inspiradores para diversos 
projetos, como as Cidades Jardim de Howard, e ainda, analisar historicamente a 
formação de novas cidades, também no século XX, e suas motivações, ideais e 
princípios urbanísticos. Esses estudos tiveram como intuito evidenciar a importância 
de uma ideia, mesmo que ela nunca tenha sido colocada em prática. 
A hipótese levantada por essa tese é a de que o projeto urbano é um dos 
principais fatores que podem contribuir para a sustentabilidade. Porém, analisam-se 
os projetos no intuito de verificar se, apesar de apresentarem alguns pontos 
relevantes para a sustentabilidade local, podem mesmo ser considerados como 
projetos urbanos sustentáveis, visto que contradizem diversos quesitos levantados 
como sustentáveis por pesquisadores do assunto. 
Acredita-se que os modelos urbanos influenciam o projeto de estruturas físicas 
de novas cidades e de intervenções em cidades já existentes; visto isso, é importante 
analisar e estudar tais modelos ditos sustentáveis para que equívocos não sejam 
repetidos em outros projetos. Será que é possível uma nova opção do planejamento 
não baseado somente em dados estatísticos e levantamentos técnicos, mas que 
considere as reais necessidades da comunidade local, ou será que nunca será possível 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
abranger em um planejamento urbano todas as diversas facetas da sociedade? Ao 
levantar estas questões mais uma vez, acredita-se na importância de integrar às 
práticas profissionais os processos participativos como fatores mais representativos 
das reais necessidades da comunidade local e, ainda de ser capaz de lidar com as 
incertezas presentes nestas sociedades. 
 
1.2. Justificativa 
Durante as últimas décadas em todo o mundo foi discutida a situação em que se 
encontra grande parte das cidades atuais. O consumo cresce mais do que o planeta é 
capaz de suportar, as reservas petrolíferas estão se esgotando e a produção de 
insumos e dejetos cresce aceleradamente. Perante esse quadro, algumas sociedades 
estão se mobilizando para criar cidades ditas sustentáveis. No entanto, muitos outros 
quesitos contribuem para o incentivo à criação dessas novas cidades, como a questão 
do poder, da política, do capital e da imagem diante do mundo. A criação de uma nova 
cidade engloba questões sociais, econômicas, políticas e ambientais. 
Nas três cidades estudadas, Masdar, Dongtan e Nuevo Juan del Grijalva, a 
questão ambiental sobressai no discurso de seus idealizadores, aparentemente, das 
demais questões (econômica, política e social). É bastante provável que esses projetos 
urbanos apresentados para o mundo como sustentáveis venham a se tornar modelos 
urbanos fortemente influenciadores de novos projetos,dado o caráter inovador, visto 
que diversos países estão incentivando a formação de cidades que priorizem questões 
ambientais perante o quadro de insustentabilidade que se encontra a grande maioria 
das urbes. Além disso, os projetos urbanos de Masdar e de Dongtan foram 
desenvolvidos por escritórios particulares que também têm suas motivações políticas e 
financeiras, e ainda, estão localizados em regiões do mundo muito diferentes dos 
locais onde serão implantadas essas duas cidades. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
Em toda a história, por diversos momentos e motivos, houve a fundação de 
novas cidades e na grande maioria das vezes, a academia só analisava o que havia sido 
feito anos depois. Poucos projetos foram analisados e criticados em fase de 
implantação. Propor uma metodologia de análise de projeto baseada em categorias 
analíticas e realizar a análise desses projetos que se auto denominam sustentáveis, se 
justifica, principalmente, pelo fato de que cidades serão criadas e, consequentemente 
habitadas, e ainda, influenciarão várias outras. Não cabe aqui modificar os projetos 
propostos para as novas cidades, mas sim, apontar a essência dos projetos antes de 
suas implantações para analisar se o que está sendo colocado em projeto é realmente 
o que é discutido pelos pesquisadores como sustentável. 
 
1.3. Universo da Pesquisa 
O universo da pesquisa é compreendido com os estudos de referência que 
tiveram como função auxiliar na afirmação da hipótese da tese. A escolha das três 
cidades se baseou em três características específicas: ser planejada, ser nova 
(planejada no século XXI), e por fim, se autodenominar ‘sustentável’. Desta forma, não 
foi selecionada nenhum cidade brasileira, pois não foi encontrado um exemplo que 
atendesse os três parâmetros. No entanto, é sabido que exemplos de diferentes locais 
do mundo são utilizados como inspiração ou mesmo reprodução na formação ou 
reforma de bairros até em cidades no Brasil. Assim, sendo o estudo feito a partir de 
cidades estrangeiras, a tese ganha importância no Brasil por discutir preceitos 
utilizados em outros países que muito provavelmente serão utilizados por 
planejadores brasileiros. 
A primeira cidade que se destaca para esse estudo é o da cidade de Masdar, nos 
Emirados Árabes (Figura 1). Projetada pelo escritório de Norman Foster, arquiteto 
inglês, para ser implantada perto de Abu Dhabi, a cidade capital dos Emirados Árabes. 
Masdar se apresenta como uma das primeiras cidades ecológicas do planeta. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
Esse projeto se baseia em preceitos da organização WWF apresentados como 
guia para as cidades. Os princípios estão dispostos em um documento chamado “One 
Planet Living” (WWF, 2009) e destaca questões como a redução da liberação de CO2 
através do uso de energias limpas e renováveis; a reciclagem e reutilização de 
resíduos; o incentivo ao uso do transporte coletivo e do veículo com baixa emissão de 
CO2; o uso de materiais reciclados na construção e o uso de materiais sustentáveis 
como a madeira certificada; produção de alimentos orgânicos; diminuição do consumo 
de água e reutilização de águas residuais; conservação da vida selvagem; incentivo à 
arquitetura que expresse a cultura local; legislações trabalhistas que regulem os 
salários e as condições de trabalho, promovendo equidade e comércio justo 
(masdar.ae, 2010); além de buscar promover a qualidade de vida1. 
 
Figura 1: Esquema físico do projeto de 
Masdar. A figura representa a implantação 
geral da cidade que será em dois quadrados 
interligados por uma “via parque”. 
Fonte: masdar.ae (2010) 
 
Todos esses preceitos vão além do projeto urbano, mas são refletidos no projeto 
resultante. A cidade é parte da Iniciativa Masdar, um investimento multifacetado de 
Abu Dhabi na exploração, desenvolvimento e comercialização de futuras fontes de 
energia e soluções de tecnologia limpa. A cidade, de 7 km2, crescerá para suportar 
1.500 empresas e 50.000 residentes em 2015, ano em que a cidade estará 
completamente operacionalizada. 
 
1
 Entende-se nesta tese como qualidade de vida o bem estar social e comunitário. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
O outro projeto urbano analisado é Dongtan, localizada próxima de Xangai 
(Figura 2 e Figura 3). Uma cidade totalmente planejada para ser construída na China a 
partir de 2010. Com o crescente processo de êxodo rural chinês estima-se que até 
2020 partirão para cidades mais de 300 milhões de camponeses chineses - o 
equivalente a toda a população dos EUA. 
 
Figura 2: Localização de Dongtan. A nova cidade fica 
próxima à Xangai, mas separadas por um braço de mar. 
Figura 3: Imagem ilustrativa do projeto de Dongtan. 
Fonte: HEAD, 2006 
O governo chinês prevê a construção de cerca de quatrocentas cidades 
completamente novas que deverão ser concluídas até 2050 (LIAUW, 2008). Além disso, 
o plano da China é deixar de ter 20 das 30 cidades mais poluídas do mundo em seu 
território, como acontece hoje. Para diminuir a imagem de poluidora a China está 
investindo em projetos ditos sustentáveis, apesar de já haverem indícios de que nunca 
se concretizem. Dongtan é o mais novo projeto de cidade ambiental chinesa, que se 
localizará em uma ilha semi-rural, chamada Chongming, na fronteira norte de Xangai. 
É previsto que a cidade receba inicialmente 20 mil habitantes e estima-se que em 2020 
esse número chegue a 80 mil e em 2050 é esperado que a população atinja 500 mil 
habitantes. 
De acordo com o escritório inglês ARUP, que projetou a cidade, alguns quesitos 
se destacaram como: emprego, proximidade, transporte, carros “verdes”, gasto de 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
energia controlado, energia limpa, diminuição do acúmulo de lixo e do desperdício de 
água. 
 O último exemplo a ser estudado é a cidade Nuevo Juan del Grijalva, situada no 
estado de Chiapas, no México. Esta cidade faz parte de um programa de governo que 
prevê a construção de “Cidades Rurais Sustentáveis” em todo o México com a intenção 
de possibilitar a permanência dos trabalhadores rurais no campo e permitir uma 
melhor qualidade de vida e de condições de trabalho (Figura 4 e Figura 5). 
Nuevo Juan del Grijalva é apresentada como a primeira cidade rural sustentável 
do mundo e conta com um projeto para 410 famílias. Os habitantes da nova cidade são 
de 11 comunidades do município de Ostuacán, no estado de Chiapas que passaram por 
um desastre ambiental em 2007 e muitos ficaram desabrigados. 
O projeto está orientado para atender os oito Objetivos de Desenvolvimento do 
Milênio2 (ODM): erradicar e pobreza extrema e a fome; tornar a educação universal; 
promover a igualdade de gêneros; reduzir a mortalidade infantil; melhorar a saúde 
materna; combater o vírus da AIDS; criar ambientes sustentáveis; e fomentar a 
associação mundial (LEON, 2010). Além disso, o projeto para as cidades rurais 
sustentáveis apresenta algumas características relevantes do ponto de vista ambiental, 
tais como, construções feitas com tijolo de bloco-adobe, iluminação pública feita a 
partir de células fotovoltaicas, além de características sociais como o oferecimento de 
serviços de saúde e educação e a geração de cooperativas produtivas com a intenção 
de gerar empregos. 
 
2
 A ONU (Organização das Nações Unidas) estabeleceu, em 2000, oito objetivos gerais com o intuito de 
direcionar ações individuais e governamentais. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 
 
Figura 4 e Figura 5: Imagens dascooperativas de Nuevo Juan del Grijalva já em funcionamento. 
Fonte: Governo do Estado de Chiapas, 2007. 
 
1.4. Metodologia 
 O decorrer de uma pesquisa pressupõe-se uma determinação dos métodos e 
técnicas de investigação para se alcançar os objetivos propostos e possibilitar a 
verificação das hipóteses da tese. Desta forma, as leituras de referenciais teóricos que 
embasem o tema e uma coleta de dados sistematizada se fazem necessárias. A 
complexidade do estudo do espaço urbano, principalmente se tratando do estudo de 
cidades inteiras, requer uma interdisciplinaridade que leva a pesquisadora a optar pela 
conjugação de diferentes autores como referenciais teóricos para a análise. 
As etapas de processo foram definidas a partir dos estudos de autores como 
Capra (1997; 2002), Lynch (1981), Bentley (1999), Girardet (2001), Rossi (2012), 
Corbella (1998; 2009), Moore (1998), Beatley (2010), Farr (2008), entre outros, além 
de indicadores de sustentabilidade e de teses e dissertações. Essas leituras garantiram 
uma sequência lógica de raciocínio, além de permitir uma futura complementação e 
uma conferência das etapas de análise. Os diferentes referenciais abordam categorias 
analíticas diversas para o estudo do ambiente urbano, mas não são todos que têm 
suas pesquisas voltadas para o projeto sustentável. Alguns dos autores como Capra, 
Rossi, Beatley, Girardet e o livro Entornos Vitales de Ian Bentley têm seus estudos 
específicos voltados para o projeto urbano sustentável. No entanto, outros autores 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
como Moore e Lynch não tratam especificamente do tema, mas seus estudos tem 
importância considerável para a análise de projeto. 
A partir dos textos de livros, artigos e teses, o intuito foi selecionar algumas 
categorias de análise de projeto definidas pelos autores e definir quais delas se 
aplicaram melhor ao estudo dos projetos urbanos das cidades selecionadas 
apresentadas como sustentáveis. 
Além das questões levantadas pelos diversos autores já mencionados, as 
categorias de análise dos projetos urbanos também foram definidas a partir de 
indicadores de sustentabilidade. Como os indicadores são desenvolvidos para atender 
a uma demanda específica, foram escolhidos quatro indicadores mais adequados ao 
estudo por se tratarem de documentos mais abrangentes: os Indicadores de Seattle 
(Sustainable Seattle, 1993), os Indicadores de Sustentabilidade da Agenda 21 Brasileira 
(Conferência das Nações Unidas, 1992), os Indicadores de Sustentabilidade Canadense 
(DAUNCEY & PECK, 2001) e o Report by the Commission on the Measurement of 
Economic Performance and Social Progress (STIGLITZ-SEN-FITOUSSI, 2009). 
Como os indicadores são produzidos visando avaliar sociedades já 
estabelecidas, muitas das questões levantadas pelos mesmos não terão respostas nas 
análises de projetos que ainda não foram implantados ou ainda estão sendo 
construídos. Principalmente os dados referentes à economia e características 
populacionais como o PIB, os dados demográficos e renda média. 
O texto da tese pode ser classificado como exploratório pelas suas 
características em relação ao grau de novidade do conceito e do tema visto que apesar 
de muito discutido os conceitos de desenvolvimento sustentável e de sustentabilidade 
urbana são bastante recentes e não possuem definição única. A abordagem do 
problema é feita a partir de uma pesquisa qualitativa, buscando responder a questões 
particulares do projeto urbano sustentável. A tese se propõe a ser um estudo 
conceitual e não tem o objetivo de alcançar respostas definitivas. O foco principal do 
estudo e a análise dos dados é demonstrar a evolução da gestão e da visão de 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
sustentabilidade e desenvolvimento sustentável que podem ser expressos em projetos 
urbanos sustentáveis, não requerendo o uso de métodos e técnicas estatísticas. 
Quanto à natureza, o estudo classifica-se como pesquisa aplicada, pois abordará 
indicativos para questões de projetos urbanos que afetam diretamente a sociedade. 
 O estudo de uma cidade apresenta uma grande complexidade e uma análise 
detalhada de diversos fatores tanto sociais, quanto econômicos e físicos. Por se tratar 
de um tema bastante extenso e com fatores tanto quantitativos quanto qualitativos, 
para viabilizar a pesquisa e permanecer no foco da tese, os estudos foram 
direcionados para as características físicas descritas no projeto. A escala de análise se 
restringe ao projeto urbano não englobando toda a complexidade do planejamento 
urbano. 
 Para realizar o estudo foram selecionadas três cidades que obedecem três 
parâmetros importantes para a análise: serem cidades novas, planejadas e que se 
autodenominam sustentáveis. Além disso, cada uma dessas cidades privilegiou uma 
das perspectivas de desenvolvimento sustentável apresentadas por Wolfgang Sachs 
(2001). A cidade de Masdar, nos Emirados Árabes tem suas motivações muito 
próximas das descrições de Sachs (2001) da ‘perspectiva da competição’. Nuevo Juan 
del Grijalva, no México, tem propósitos parecidos com os da ‘perspectiva doméstica’ e 
Dongtan, na China, tem foco no meio ambiente aproximando-se da ‘perspectiva do 
astronauta’, apesar de apresentar características das outras perspectivas também. 
Desta forma, como já foi mencionado na introdução, não foi possível selecionar 
uma cidade brasileira, pois não foi encontrado nenhum exemplo brasileiro que 
obedecesse aos três parâmetros definidos. No entanto, o Brasil possui exemplos de 
projetos urbanos sustentáveis espalhados por diversas cidades que tem o seu valor, 
mas a escala de atuação é bastante diferente. 
As três cidades que foram selecionadas para o estudo e se autodenominam 
sustentáveis, Masdar, Dongtan e Nuevo Juan del Grijalva, estão localizadas em países 
com contextos muito diferentes. O fato dos projetos estudados serem exemplos em 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
países distantes e dois deles ainda não estarem concluídos traz duas questões 
relevantes a serem consideradas. A primeira refere-se ao fato de que o “olhar” da 
pesquisadora será o de “fora” da situação o que pode facilitar a percepção do conjunto 
dos fatores e variáveis que compõem cada projeto. A segunda questão é o fato de que 
exatamente por não serem cidades próximas e não estarem completamente 
executadas a conferência de dados no local é praticamente inexistente passando a ser 
considerado apenas o projeto, ou seja, a ideia. Além disso, pela mesma questão, o 
projeto analisado pode sofrer alterações até o final do processo de implantação do 
mesmo. Apesar disso, o que está se considerando desde o início da tese é a ideia de 
projeto urbano sustentável não necessariamente colocado em prática, como é o caso 
das ideias de Howard3 que influenciaram vários projetos em todo o mundo, mas nunca 
foram exatamente colocadas em prática, apesar do exemplo de Letchworth. 
 
1.4.1. Roteiro Metodológico 
Para o desenvolvimento da tese foi definido um roteiro metodológico com o 
intuito de nortear o raciocínio e auxiliar na elaboração da análise dos projetos. As 
diferentes etapas predefinidas serão desenvolvidas ao longo da pesquisa e são 
interdependentes. As etapas se dividem em um embasamento teórico, uma definição 
de categorias analíticas apresentadas a partir dos referenciais teóricos, um 
levantamento de dados que será tratado como um inventário e a análise dos projetos 
a partir dos referenciais metodológicos. Após serem feitas as análises das cidades será 
discutido na tese a possibilidade da realização de projetos semelhantes no Brasil. 
 
 
 
 
3
 Alguns projetos de Ebenezer Howard serão mostrados nocapítulo 3 desta tese. 
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1.4.1.1 Embasamento Teórico e Metodológico 
 O embasamento teórico norteará toda a pesquisa e corresponde à fase inicial 
do desenvolvimento da tese. É nesta fase que os referenciais teóricos e metodológicos 
são definidos e vão embasar a escolha das cidades que serão estudadas e como essas 
cidades serão analisadas. Nesta fase alguns conceitos ganham destaque na discussão 
da tese, como desenvolvimento sustentável, sustentabilidade, projeto urbano 
sustentável, entre outros. 
A metodologia de pesquisa adotada corresponde a um procedimento qualitativo 
de descrição e análise teórica dos objetos, que compreende um estudo de referência 
dos projetos urbanos propostos para Dongtan, Nuevo Juan del Grijalva e Masdar. O 
intuito principal na escolha deste método consiste em aprofundar o conhecimento 
sobre a origem e as motivações da adoção dos princípios contidos em seus partidos 
urbanísticos. 
Para melhor compreender a formação dessas novas cidades como modelos 
apresentados como sustentáveis, cabe apresentar, a priori, outros projetos de 
formação ou proposição de novas cidades, principalmente no século XX, verificando 
conceitos discutidos e princípios de implantação das mesmas. 
O marco teórico principal da tese é Wolfgang Sachs, mas outros autores são 
apresentados com pertinência para o estudo. Desta forma, destacam-se algumas 
fontes de pesquisa para o embasamento teórico, como, David Harvey, Leonardo 
Benévolo, Tim Baetley, Lewis Mumford, Françoise Choay, Peter Hall, Manuel Castells, 
entre outros. Ainda destacam-se os indicadores de sustentabilidade e teses de 
doutoramento e dissertações de mestrado que apresentam o tema da formação de 
cidades e o estudo do projeto urbano. 
Como parte desta tese foi realizada: 
- Revisão da bibliografia referente ao tema; 
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- Pesquisa bibliográfica para identificar projetos urbanos de formação de novas 
cidades e bairros no século XX. 
- Revisão bibliográfica para definição de metodologia de análise de projeto 
urbano sustentável. 
- Estudos de referência que serão utilizados como método de pesquisa por meio 
de análise qualitativa, além da pesquisa bibliográfica acerca da sustentabilidade 
ambiental urbana, do projeto urbano e do planejamento ambiental. 
Outros autores também se destacam na definição e discussão dos termos como 
Ignacy Sachs (1996), Bossel (1998), Romero (2011), Vázquez (2008), Camargo (2007), 
Magalhães (2008), entre outros. 
Além desses autores, outros ainda são considerados como referenciais 
metodológicos para a definição das categoriais analíticas. 
 
1.4.1.2 Levantamento de Dados – Inventário 
 A segunda parte da tese corresponde ao inventário, onde são realizados os 
levantamentos dos projetos que serão posteriormente analisados a partir dos 
referenciais metodológicos. Serão realizados quatro tipos de levantamentos: 
 Levantamento socioeconômico (contextualização) 
 Levantamento climático; 
 Levantamento urbanístico e morfológico; 
Levantamento das tecnologias ambientais aplicadas; 
 O levantamento socioeconômico coleta dados da população que reside ou 
residirá em cada uma das cidades estudadas e auxilia na contextualização e 
justificativa da implantação de cada um dos projetos. 
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 O levantamento climático se ocupa das informações referentes ao clima de 
cada cidade como a temperatura do ar, a radiação solar, a umidade relativa, a 
velocidade do ar e as precipitações. 
 O levantamento urbanístico e morfológico recolhe informações referentes ao 
projeto urbano. Nesta fase são estudadas as configurações espaciais como a malha 
urbana, a circulação viária, o gabarito, os usos e a forma de ocupação dos lotes. 
 O levantamento das tecnologias ambientais aplicadas em cada projeto busca 
apresentar as possíveis soluções ambientais considerando a morfologia e o clima de 
cada região. A verificação de cada uma dessas tecnologias permitirá uma melhor 
análise das soluções de projeto. 
 
 1.4.1.3 Análise dos Projetos Urbanos 
 Após a coleta de dados do inventário, os mesmos serão analisados a partir de 
categorias analíticas definidas pelo referencial teórico. Cada um dos projetos será 
analisado de acordo com os levantamentos dos projetos urbanos e das categorias 
definidas pelos referenciais metodológicos descritos anteriormente. 
 Com as análises busca-se responder à hipótese da tese levantada no início dos 
estudos que é a de que o projeto urbano é um importante fator que pode contribuir 
para a sustentabilidade. Além disso, será verificado se os projetos analisados, apesar 
de apresentarem alguns pontos relevantes para a sustentabilidade local, podem ou 
não ser considerados como projetos urbanos sustentáveis, visto que contradizem 
diversos quesitos levantados como sustentáveis por pesquisadores do assunto. 
 
 
 
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 1.4.2 Materiais e Métodos 
 Para o embasamento teórico foram selecionados livros, memoriais, artigos e 
textos governamentais. Textos específicos de divulgação sobre cada projeto também 
foram considerados. 
 O levantamento considera plantas dos projetos realizadas pelos respectivos 
escritórios, mapas climáticos de cada região, informações cedidas pelas prefeituras ou 
Estados de cada cidade, dados censitários e material iconográfico das modelagens 
tridimensionais dos projetos e fotos dos locais de implantação ou de partes dos 
projetos já executados. 
 A etapa de análise converterá os dados obtidos em textos descritivos com 
mapas esquemáticos, cortes, croquis e quadros com o intuito de discutir os ideais de 
projeto. É importante ressaltar que, como se trata de uma análise teórica de uma 
idealização de projeto, a tese se aterá mais a uma descrição textual e discussão 
também no âmbito da teoria e crítica. 
 
1.5. Estrutura da Tese 
 Inicialmente serão apresentados os principais referenciais teóricos e 
metodológicos, assim como, os objetivos da tese e a hipótese levantada pela mesma. 
Também é apresentado ainda na introdução quais serão os estudos de referência 
abordados na tese e como será realizada a análise desses projetos urbanos. 
 Ainda neste capítulo o enfoque também é dado à metodologia que guiará o 
texto. Será descrito o roteiro metodológico definindo o processo de construção da 
tese, além de serem definidas as fontes de pesquisa para o embasamento teórico e os 
referenciais para a construção da metodologia de análise de projetos urbanos 
sustentáveis. Por fim, serão apresentados os “materiais e métodos” considerando os 
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livros, textos específicos, documentos internacionais, levantamentos, memoriais de 
projeto e a forma como será feita a análise dos projetos. 
 O capítulo seguinte, denominado Desenvolvimento Sustentável e 
Sustentabilidade, trata justamente da discussão desses dois termos. O capítulo é 
dividido em quatro partes e a primeira e a segunda referem-se às questões atuais da 
sociedade e à crise ambiental sentida nas últimas décadas. A terceira parte apresenta a 
discussão sobre o tema do Desenvolvimento Sustentável e todas as suas implicações: 
as origens do termo desenvolvimento, as diferentes discussões sobre sustentabilidade 
e o significado da junção dessas duas palavras. Para concluir o capítulo a autora 
apresenta a síntese do mesmo e o posicionamento da tese quanto aos termos 
discutidos. 
 O terceiro capítulo discorre sobre a relação entre a cidade e o meio ambiente. 
Para isso, apresenta um breve estudo sobre cidades e as diferentesformas de se 
pensar a interação com a natureza. Também se discute a formação de cidades e os 
projetos urbanos que apresentaram um enfoque ambiental realizados no último 
século e que foram ideais urbanísticos e como os mesmos, executados ou não, 
influenciaram diversos outros projetos em todo o mundo. Já no debate sobre as 
cidades contemporâneas é colocada a questão de que modelos urbanos não são mais 
aceitos, mas a insustentabilidade da grande maioria das cidades atuais também não 
deve ser mantida. Desta forma, discuti-se se é viável a formação de novas cidades com 
projetos urbanos sustentáveis ou se seria melhor a intervenção em cidades já 
existentes na busca pela sustentabilidade. Também foi incluído no capítulo uma breve 
defesa das intervenções em cidades pequenas e médias, e por fim, é apresentada uma 
discussão sobre a problemática urbana frente ao Desenvolvimento Sustentável e 
sobre o debate dos urbanistas quanto à sustentabilidade urbana. 
 O capítulo seguinte defende a importância do projeto urbano como norteador 
do ideal de sustentabilidade urbana. Procura apresentar a ideia de que o projeto 
urbano sustentável é um dos principais responsáveis pela busca da sustentabilidade e 
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pode influenciar toda uma sociedade. São apresentados nesse capítulo projetos com 
enfoque ambiental, principalmente europeus, que estão sendo chamados de eco-
bairros ou até mesmo eco-cidades. 
 O quinto capítulo define a metodologia de análise de projeto urbano 
sustentável a partir de categorias analíticas: Gestão democrática e participação 
comunitária, morfologia e tipologias urbanas, mobilidade urbana, valorização da 
estrutura ecológica, tecnologias sustentáveis e presença de infraestrutura técnica, 
promoção de trabalho e renda. Cada categoria apresenta diversas subcategorias de 
análise. Dessas seis categorias, apenas duas delas não se referem exclusivamente às 
características físicas das cidades. No entanto, são importantes para a análise das 
mesmas e por isso foram consideradas na tese. Para estruturar melhor a análise dos 
projetos urbanos selecionados como estudos referência, foi desenvolvida um quadro 
de análise a partir das categorias analíticas e das subcategorias. 
 A matriz de análise de projeto urbano sustentável será utilizada no sexto 
capítulo na avaliação de cada projeto selecionado. Primeiramente cada um deles será 
apresentado conforme seus memoriais e textos de divulgação com seus princípios, 
pressupostos e ilustrações. A partir daí, serão analisados criticamente com o auxílio da 
matriz definida no capítulo anterior. Além disso, será feito um estudo comparativo 
entre os três projetos e levantada a questão sobre a possibilidade de desenvolvimento 
de projetos urbanos sustentáveis no Brasil. 
 Por fim, serão apresentadas as considerações relevantes ao tema e levantadas 
algumas recomendações e possibilidades para novas pesquisas. 
 
 
 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CAPÍTULO 2 
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2. DESENVOLVIMENTO SUSTENTÁVEL E SUSTENTABILIDADE 
A partir do século XX a preocupação com as questões ambientais assumiu uma 
importância significativa, principalmente após a Segunda Guerra Mundial, quando o 
desenvolvimento de novas tecnologias e a intensificação da exploração dos recursos 
naturais fez com que a escassez de matérias-primas naturais ficasse evidente. O 
esgotamento dos recursos modifica e interfere no desenvolvimento das cidades e na 
qualidade de vida. (Relatório da ONU, 2007). 
Muito se discute acerca do que vem a ser desenvolvimento sustentável e 
sustentabilidade, e dessa forma, diferentes atores da sociedade “leem” o conceito da 
forma que lhes é mais conveniente. As distintas percepções ideológicas da 
problemática ambiental se traduzem em diferentes discursos, e consequentemente, 
em diversas formas de atuação nas cidades embasadas por uma apropriação política 
do discurso “ambiental”. 
O conceito de Desenvolvimento Sustentável ganhou destaque nas discussões 
políticas e organizações após a Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente 
e Desenvolvimento – RIO 1992. Nas últimas décadas a discussão de desenvolvimento 
sustentável passou a se estender considerando mais o ambiente urbano. Grande parte 
da população mundial reside em cidades e desta forma, qualquer conceito referente 
ao desenvolvimento passa também a incluir o espaço urbano onde ocorrem grande 
parte das relações humanas. 
A atual sociedade ocidental passa por mudanças culturais, sociais e econômicas. 
Desta forma, apresenta indícios relevantes de mudanças de posturas e até mesmo a 
possibilidade de um novo sistema econômico capaz de gerir as atuais necessidades e 
demandas dessa sociedade. Apesar da possibilidade de mudanças mais profundas 
parecer estar longe da realidade atual os discursos ambientais fazem parte das 
questões que inquietam a sociedade globalizada (HARVEY, 2004). Ao mesmo tempo 
em que tanto se discutem as questões ambientais e de justiça social, a poluição, o 
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consumo exacerbado, a produção excessiva de dejetos e a disparidade social nunca 
estiveram tão presentes no nosso cotidiano. 
A grande maioria dos países desenvolvidos, tanto quanto os que estão em 
desenvolvimento, e também suas cidades, estão explorando a capacidade de seus 
recursos naturais ao limite. Dependendo do nível de industrialização de cada país os 
problemas se diferenciam. Nos países desenvolvidos a migração de pessoas de centros 
urbanos para os subúrbios mais afastados levou ao aumento do uso de automóveis, 
aos consequentes congestionamentos e à poluição do ar. Já nos países em 
desenvolvimento os problemas ambientais e sociais são agravados pelo "inchaço" das 
cidades sem o acompanhamento de infraestruturas para suportar tal crescimento. Em 
todo o mundo a pobreza ainda é um dos principais problemas enfrentados pelas 
sociedades, e geralmente a camada mais pobre da população é amplamente 
negligenciada. Também o consumo exacerbado, principalmente dos países 
desenvolvidos e das classes mais abastadas dos países em desenvolvimento, aumenta 
os problemas ambientais. 
Diante disso, nota-se a necessidade de um desenvolvimento urbano sustentável, 
diferente do desenvolvimento atual, que é baseado no lucro e privilegia uma pequena 
parte da sociedade. Os direitos básicos devem ser proporcionados, tais como o direito 
à água, ao abrigo, à alimentação, à saúde, à educação, entre outros. 
 
2.1. A sociedade atual e a questão ambiental 
 Muitos autores concordam que a sociedade está em transição e no limiar de 
um novo tempo. Apesar de ainda haver discórdias com relação ao termo que define a 
nova sociedade, muitos são unânimes no discurso de que as mudanças sociais e de 
comportamento são visíveis na sociedade atual. Para Anthony Giddens uma grande 
variedade de termos tem sido sugerida para essa transição. Alguns se referem 
positivamente a um novo tipo de sistema social, como “sociedade de informação” ou 
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“sociedade de consumo”, e outros termos sugerem o encerramento de um sistema, 
como “pós-modernismo” ou “sociedade pós-industrial” (GIDDENS, 1994). 
Independente do nome dado a essa sociedade, o que se observa é que as mudanças 
são evidentes e contínuas. A perspectiva dessa nova sociedade traz consigo novos 
comportamentos e atitudes. A heterogeneidade é vista como positiva e a pluralidade 
de ideias e costumes é valorizada. 
 Para Giddens a “ordem social emergente da modernidade é capitalistatanto 
em seu sistema econômico como em suas instituições” (GIDDENS, 1994). Ainda na 
sociedade “pós-moderna” o sistema econômico predominante é o capitalismo. Harvey 
(2004) destaca que esse modelo também molda o meio urbano. O modo de produção 
capitalista é refletido na produção do urbanismo, baseado no fluxo de capital e na 
acumulação. De acordo com Milton Santos a formação social é a superposição de 
formas criadas pela sucessão de modos de produção. As cidades são reflexos da 
sociedade e as diferenças entre lugares “são o resultado do arranjo espacial dos 
modos de produção” (SANTOS, 1982). 
 Os antagonismos das cidades contemporâneas são reflexos da sociedade atual. 
Umas das palavras-chaves para definir esse momento social é “dicotomia” (Figura 6 e 
Figura 7). 
 
Figura 6: Favela da zona leste de São Paulo, 
Brasil. 
Fonte: Plataforma Cidades Sustentáveis, 
UNICEF, 2010. 
Figura 7: Parque do Ibirapuera, São Paulo. 
Fonte: Prefeitura de São Paulo, 2010. 
 
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Na visão de François Ascher (2002) “a velocidade produziu formas urbanas 
novas, precisamos repensar nossas concepções de cidades e nossas ferramentas de 
análise e ação sobre a cidade”. Independente do nome dado ao período atual vivido 
pela sociedade é consenso entre os autores de que os antagonismos e as mudanças 
são evidentes. 
De acordo com David Harvey (2004) a espécie humana, como todas as outras 
espécies, é dotada de potencialidades e capacidades específicas que são empregadas 
com a finalidade de modificar os ambientes de tal maneira que preserve a nossa 
própria existência e reprodução. Para Harvey (2004) “isso define ‘a condição de nossa 
existência imposta pela natureza’... Alteramos esse mundo e, ao fazê-lo, alteramos a 
nós mesmos mediante nossas atividades e labores”. 
 Durante muitos séculos o homem modificou a natureza para atender suas 
necessidades, mas nas últimas décadas essas intervenções humanas nunca foram tão 
destrutivas e ameaçadoras. O modo de produção capitalista, que visa à acumulação e, 
consequentemente, o aumento da disparidade social, modificou, durante o último 
século, os ambientes urbanos e o meio ambiente. 
 Nos dias atuais o tema do meio ambiente se tornou o foco de discussões e 
debates, “tanto entre os capitalistas e seus aliados como entre os que buscam 
alternativas” (HARVEY, 2004). Esses muitos discursos expressam formas de 
pensamento e possibilidades de atuação no meio. No entanto, assim como são 
variadas as discussões também são distintas e, muitas vezes até contraditórias, as 
atuações. 
 Os diferentes discursos também são reflexos da sociedade contemporânea 
cheia de contradições e antagonismos. Harvey expressa bem esse antagonismo: 
“Inúmeros vilões (a razão iluminista, o especiesismo, a 
modernidade e a modernização, a racionalidade 
científica/técnica, o materialismo ..., as multinacionais ..., 
o Banco Mundial, o patriarcado, o capitalismo, o livre 
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mercado, a propriedade privada, o consumismo..., o 
poder do Estado, o imperialismo, o socialismo de Estado, 
..., a miopia e a estupidez humana e assim por diante) são 
contemplados (sozinhos ou em alguma combinação 
particular) para ocupar a posição de arquiinimigo(s) da 
sanidade ecológica. E o debate de longa data sobre a 
oposição entre fins e meios (autoritários, democráticos, 
gerenciais, pessoais) tem uma multiplicidade de ecos na 
política ambiental” (HARVEY, 2004). 
Parece irrelevante pensar em certo ou errado, mas a possibilidade de discussão 
de ideias enriquece e torna possível a elaboração de alternativas. Cada setor social 
apresenta o seu posicionamento acerca da “crise ambiental”, alguns catastróficos 
outros ponderados, alguns pautando soluções dentro do próprio sistema atual outros 
buscando modificações drásticas. Perante esse quadro, esse texto vai analisar os 
diferentes posicionamentos frente a um dos termos mais importantes para a discussão 
ambiental que é o desenvolvimento sustentável. 
 
2.2. Crise ambiental como ponto de partida 
Para muitos autores a sociedade atual está passando por um momento de “crise 
ambiental”. Esse termo se refere aos muitos problemas ambientais que são visíveis na 
grande maioria do globo terrestre como escassez de água, solos inférteis por 
contaminação, poluição do ar e aquecimento global. Problemas esses, causados muitas 
vezes devido ao padrão de consumo indevido, utilização excessiva dos recursos 
naturais, além do excesso de rejeitos e insumos jogados na natureza sem nenhum 
tratamento. 
A “crise ambiental” também é analisada a partir da crise da modernidade, 
expressa através de questões emergentes que dizem respeito à possibilidade de 
catástrofes ambientais generalizadas. A sociedade se vê muitas vezes acuada pelas 
suas próprias invenções. A globalização trouxe coisas boas como a facilidade de acesso 
a bens, serviços e a comunicação; no entanto, trouxe problemas como a 
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desvalorização dos bens locais e a competição desigual entre países pelos mercados 
consumidores. Para Giddens (1994) a sociedade se situa numa nova ordem social pós-
tradicional num contexto onde muitas sociedades são globais e culturalmente 
cosmopolitas. Muitos cientistas sociais como Harvey (1992) e Castells (1999), associam 
o processo de globalização como um dos principais fatores que contribuíram para 
acelerar muitas mudanças nas últimas décadas. Giddens (1994) destaca que a 
globalização não pode ser vista como um fenômeno somente econômico ou um 
processo único, mas como um processo complexo que produz conflitos e 
desarticulações. A globalização é a transformação do espaço e do tempo, a partir de 
um rápido e intenso desenvolvimento das tecnologias. 
Muitos cientistas colocam a deterioração ecológica decorrente da forma como o 
ser humano intervém sobre o meio ambiente, principalmente em períodos de 
acelerado crescimento econômico como após a Segunda Guerra Mundial. Desde o final 
da Segunda Guerra até a primeira metade dos anos 1970, a sociedade industrial, tanto 
nos países capitalistas como nos socialistas, passou por um intenso processo de 
expansão da produção manufaturada, sem se preocupar com os subprodutos desse 
processo, tais como o esgotamento dos recursos ambientais, a poluição do solo e do ar 
e a urbanização descontrolada (Figura 8). Apesar de nas últimas décadas a indústria 
buscar alternativas para diminuição da poluição, as ações ainda são muito pontuais e 
visíveis principalmente nos países desenvolvidos (Figura 9). 
 
Figura 8: Indústria em Volta Redonda, Rio de 
Janeiro. 
Fonte: Jornal O DIA, foto Julio Paraizo, 2010. 
Figura 9: Indústria Verde Coreana. Uma 
alternativa para a diminuição de poluentes. 
Fonte: http://www.kdcstaffs.com, 2010 
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Acredita-se que grande parte dos problemas ambientais é provocada ou 
agravada pelo crescimento econômico sem controle de muitos países, principalmente 
dos países do Hemisfério Norte. O crescimento econômico está amplamente ligado ao 
aumento da produção de bens, consequentemente, ao aumento do uso dos recursos 
naturais. A Revolução Industrial possibilitou a produção em massa de bens de 
consumo e representou um grande marco no desenvolvimento tecnológico e 
econômico para as sociedades, principalmente a europeia e a americana. O uso de 
recursos naturais se intensificou enormemente, principalmente do ferro e do petróleo, 
para suprir a necessidade de produção, a possibilidade de crescimento econômico e o 
enriquecimento das sociedades que dispunham dos processos de produção. 
A utilização do petróleo como fonte de energiaestabeleceu um novo modelo de 
produção que trouxe consigo novos parâmetros de consumo. Principalmente a 
indústria automobilística foi e ainda é extremamente incentivada pelas indústrias 
petroquímicas. Esse modelo de produção intensificou o uso de recursos ambientais 
aumentando também o impacto das atividades humanas sobre o meio ambiente. 
Também a produção de eletricidade para as indústrias e para a população em geral 
contribuiu para o consumo dos recursos ambientais. Atualmente as três fontes 
principais de energia são o petróleo, o gás e o carvão. Todas as três são bastante 
poluentes e não renováveis. A energia nuclear, apesar de ter se tornado uma usual 
substituta da queima de carvão em países como a França e o Japão, também apresenta 
grande risco para o planeta e ainda é poluente.(rever o texto) 
 Além do processo de produção de energia nuclear e a própria usina serem um 
risco, principalmente para as cidades onde elas estão instaladas e para as cidades mais 
próximas, a produção de resíduos desse tipo de usina também é um problema 
ambiental para todo o planeta, pois são milhares de piscinas com produtos radiativos 
que não podem ser reciclados. 
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No entanto, o desenvolvimento humano depende da obtenção de energia. A 
forma como é gerada essa energia (solar, eólica, etc.) e como ela é utilizada é que 
pode ser considerada sustentável se for realizada de maneira ambientalmente 
adequada. 
Frequentemente, o desenvolvimento de cada país foi definido pelo seu grau de 
produção; quanto mais se produzia e consumia mais desenvolvida era considerada a 
sociedade. Até meados do século XX, o uso exagerado de recursos ambientais para a 
produção de bens de consumo era visto como um problema pontual e localizado, não 
sendo colocado como um limitador para a produção capitalista. A intensificação dos 
problemas relacionados ao uso desenfreado dos recursos naturais, principalmente a 
partir da segunda metade do século XX, permitiu a mobilização de diversos setores da 
sociedade, que deram início ao “movimento ambientalista”. Os problemas ambientais 
passaram a ser reconhecidos como problemas globais e não mais locais. A poluição 
provocada por um país pode provocar um desastre ambiental em outro continente e 
esse pensamento provoca um sentido de responsabilidade ambiental na sociedade. 
Embora o termo ecologia já exista como disciplina científica há mais de um século, 
somente a partir da década de 1960 adquiriu maior relevância mundial, mas as 
políticas e ações coordenadas de governos e entidades somente começaram a partir 
de 1973 com a crise mundial do petróleo. 
O ambientalismo, na década de 1950, restringia-se principalmente ao meio 
acadêmico. A partir da atividade científica, a preocupação ambiental emerge em escala 
mundial, que na década de 1960 é marcada pelas instituições não governamentais e na 
década de 1970 “destaca-se pela institucionalização do ambientalismo”, culminando 
na Conferência de Estocolmo (1972). Tal conferência evidenciou a preocupação de 
governos e sociedade com os problemas ambientais e desta forma, surgiram diversas 
agências governamentais voltadas para o meio ambiente. 
No final da década de 1960, abandonou-se a ideia de natureza intocada e se 
passou a abordar uma política de conservação em termos mais complexos e 
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dinâmicos, buscando alcançar um desenvolvimento que, através dos avanços 
tecnológicos, consiga manter condições favoráveis para uma melhor qualidade do 
ambiente humano. Assim, na década de 1970 o discurso ecológico atinge diversos 
setores da sociedade, mobilizando organizações não governamentais, instituições 
públicas e grupos de cientistas que passam a desenvolver pesquisas e o 
desenvolvimento tecnológico voltado para a redução do consumo energético e a 
diminuição da poluição. 
Questões que nos dias atuais são corriqueiras para a maior parte da população 
começaram a ser discutidas e veiculadas por especialistas e pela sociedade em geral, 
como o efeito estufa e a existência de buracos na camada de ozônio. Com a crise 
energética desencadeada pelo aumento de preço do petróleo em 1973 as taxas de 
crescimento econômico começaram a declinar, mas o uso de recursos naturais 
continuou sem controle e os problemas ambientais continuaram aumentando. 
Para Hobsbawn, analisando o século XX: 
“(...) as forças geradas pela economia tecnocientífica são agora 
suficientemente grandes para destruir o meio ambiente, ou 
seja, as fundações materiais da vida humana. As próprias 
estruturas das sociedades humanas, incluindo mesmo algumas 
das fundações sociais da economia capitalista, estão na 
iminência de ser destruídas pela erosão do que herdamos do 
passado humano. Nosso mundo corre o risco de explosão e 
implosão. Tem de mudar” (HOBSBAWN, 1996, p. 562). 
 
Um marco no debate internacional sobre a possibilidade de continuidade do 
crescimento econômico foi a publicação do documento “Os Limites do Crescimento”, 
em 1972, desenvolvido pelo Massachussets Institute of Tecnology (MIT) e patrocinado 
pelo Clube de Roma. O texto se destacou, pois demonstrava por cálculos e estatísticas 
a impossibilidade de um crescimento continuado e o esgotamento dos recursos 
naturais. Foi questionado, na época, principalmente pelos países industrializados que 
não viam com bons olhos a possibilidade de frear o crescimento econômico. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
Algumas hipóteses de crescimento foram apresentadas pelo documento 
colocando alternativas para minimizar as possíveis catástrofes ambientais, mas 
nenhuma delas negava que o colapso era inerente à vida humana na Terra. O ar 
apocalíptico do texto contribuiu para que o mesmo recebesse reações negativas de 
autoridades mundiais. As alternativas para um possível colapso se davam em torno de 
uma proposta de mudança do modelo de desenvolvimento econômico e social 
vigente, pois se baseava na redução do consumo de matérias-primas e recursos 
energéticos, produzir menos bens materiais e mais bens de serviço, reduzir o grau 
poluidor das produções industriais, entre outros. Desta forma, as economias 
industrializadas mais ricas do mundo foram confrontadas pela primeira vez com o seu 
crescimento econômico. Era nítido que esse crescimento não havia trazido somente 
vantagens, mas havia deixado danos ambientais e sociais difíceis de serem reparados e 
muitas vezes até impossível. A possibilidade do crescimento infinito era colocada “em 
xeque”, e apesar de apenas parte da população ter vivenciado essas vantagens do 
crescimento, as desvantagens poderiam atingir todo o planeta. 
A partir desse documento, as diferenças entre os países do Norte 
(industrializados) e do Sul (em fase de industrialização) ficaram ainda mais claras. Além 
disso, ficou claro também que o crescimento desenfreado não poderia alcançar todos 
os países. De acordo com J. Pronk, acerca da extensão global do desenvolvimento nos 
padrões dos países ricos, seria necessário extrair dez vezes mais combustíveis fósseis e 
ampliar a extração de riquezas minerais em duzentas vezes mais para que o Terceiro 
Mundo obtivesse o mesmo padrão material que o da minoria rica dos países do Norte 
(PRONK, 1991, In: MAGALHÃES, p. 28, 2008). 
A crise do petróleo intensificou o debate sobre a relação do ser humano com o 
meio ambiente natural. Em consequência, novas conferências e encontros foram 
realizados para discutir as questões ambientais já levantas pelos ambientalistas e por 
outros documentos, como o próprio texto “Os Limites do Crescimento”. Em 1972, 
ocorreu a Conferência de Estocolmo que levantou questões mais aceitas pelas 
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autoridades políticas da época. O documento previa o atendimento às necessidades da 
população dos países em desenvolvimento, a redução da poluição e a preservação dos 
recursos não renováveis, a necessidade da cooperação entre países e o 
desenvolvimento social global, entre outros conceitos que foram importantes para os 
futuros discursos sobre o desenvolvimento. A partir desse documento, o debate sobre 
o desenvolvimento se baseou na busca de alternativas dentro do próprio modelo 
econômico vigente que mantivesse a possibilidade de crescimento controlado, porém 
não paralisar ou retroceder. 
A partir da década de 1980, os problemas ambientais se tornaram mais 
presentes nos discursos políticos. Passaram a ocasionar preocupações globais com a 
contaminação dos recursos naturais como: a água, o solo, o ar, o aumento do buraco 
da camada de ozônio, o empobrecimento da biodiversidade, entre outros. Destaca-se 
nessa mesma década a elaboração e divulgação do documento “Nosso Futuro 
Comum”, mais conhecido com Relatório Brundtland em referência a primeira ministra 
da Noruega, Gro Brundtland. O referido relatório foi criado pela comissão especial da 
Assembleia Geral da ONU em 1987 e tinha como função propor estratégias ambientais 
de longo prazo para se obter um desenvolvimento sustentável com um discurso 
semelhante ao da Conferência de Estocolmo. O documento contém as origens do 
discurso ambientalista e gerou uma forma de tratar as questões ambientais que 
assumiu uma ampla abrangência mundial. Serve de referência e modelo para 
Constituições e Relatórios de todo o mundo e é bastante aceito pelas autoridades 
mundiais. 
O Relatório descreve o “desenvolvimento sustentável” como um processo de 
mudanças buscando um equilíbrio entre as necessidades atuais e futuras das 
sociedades. No entanto, essas necessidades não são claras, principalmente no que diz 
respeito à grande disparidade de consumo entre países e regiões. Não é definido o que 
são as necessidades básicas e muito menos quais serão as necessidades das gerações 
futuras. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
Uma possível classificação das necessidades humanas seria em necessidades de 
sobrevivência e necessidades de posição social ou econômica. As necessidades de 
sobrevivência são o alimento, a moradia e a saúde. Já as necessidades de posições 
variam com cada cultura e cada região. Na sociedade ocidental atual um exemplo de 
necessidade de posição é a compra de um automóvel como forma de se posicionar 
frente à comunidade. 
Com relação às diretrizes políticas, o documento “Nosso Futuro Comum” destaca 
acesso mais justo a recursos, planejamento familiar, reforço às culturas dos povos 
tradicionais, acesso à educação, segurança alimentar, contenção da destruição da 
biodiversidade, reforma do padrão industrial (destacando a frase “produzir mais com 
menos”) e solução para os problemas urbanos. 
Nas décadas seguintes, para vender cada vez mais, o próprio mercado 
“mercantiliza” os problemas ambientais e enche as prateleiras de produtos 
“ecologicamente corretos”. O mercado que antes era apontado como réu agora se 
coloca como “benfeitor” tratando o desenvolvimento sustentável como uma “marca” 
extremamente vendável e lucrativa. Os produtos “ecos” ganham mercado e o 
consumo aumenta ainda mais. Consequentemente as indústrias produzem mais e 
acumulam ainda mais capitais. 
Além disso, a globalização e o caráter global da economia de mercado marcaram 
a divisão ainda mais intensa entre as diferentes regiões mundiais. Tanto as 
responsabilidades quanto os méritos e deméritos são desiguais entre países ricos e 
pobres. Para Wolfgang Sachs (1997) a desigualdade entre países de Norte (ditos 
desenvolvidos e capitalistas avançados) e do Sul (países em desenvolvimento e 
capitalistas periféricos) são cada vez maiores e se mostram não somente nos padrões 
econômicos como também nas responsabilidades ambientais, onde o conceito de 
desenvolvimento está intimamente ligado ao crescimento econômico. 
Até meados da década de 1960, os países eram classificados em Primeiro e 
Terceiro Mundo. Os países mais ricos eram também os países industrializados. As 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
riquezas eram medidas pela produção industrial e pela capacidade de lucrar com a 
venda desses produtos não só internamente, mas abrindo mercado para os países do 
terceiro mundo. Normalmente, a matéria-prima era importada de países pobres para 
os países de primeiro mundo a preços módicos e depois esses países exportavam seus 
produtos manufaturados com preços altíssimos de volta para o Terceiro Mundo 
(KLEIN, 2008). 
A classificação dos países ganhou outra nomenclatura, entretanto o processo do 
mercado continuou bastante parecido até os últimos anos. Os países passaram a ser 
classificados como desenvolvidos, em desenvolvimento e subdesenvolvidos (SACHS, 
1997) e o principal fator para ser um país desenvolvido era sua capacidade de 
crescimento econômico. O fator econômico continuou intimamente vinculado a 
palavra desenvolvimento. Só era desenvolvida a nação que tinha riquezas acumuladas 
e a possibilidade, inclusive bélica, de acumular mais. Em consequência, os ônus da 
relação do capital com o meio ambiente também são desigualmente distribuídos e 
recaem sobre os segmentos periféricos do sistema capitalista que são principalmente 
os países do Sul. Desta forma, é comum a transferência, por exemplo, de indústrias 
poluidoras para regiões onde a mão de obra é barata e farta e as leis ambientais são 
mais amenas e menos punitivas. Além disso, o descarte de lixo industrial e tóxico é 
feito de forma indiscriminada em portos de países “em desenvolvimento”. 
As situações nos países do Sul e do Norte são diferentes, mas de uma forma 
geral, se completam em sua desigualdade. Os países do alto da cadeia capitalista 
avançam com um discurso contra as indústrias poluentes ou com grande consumo de 
energia, se dizem contra a produção do lixo tóxico, mas são os maiores produtores de 
resíduos e incentivadores de indústrias poluidoras. No entanto, são os países da base 
da cadeia que recebem essas indústrias poluentes e o lixo tóxico. Muitos países do sul, 
contraditoriamente, destacam-se com o alto índice de reciclagem, mas não se registra 
que essa aparentemente benéfica reciclagem – colocada como socialmente 
sustentável e que contribui para a redução dos resíduos sólidos - é garantida a partir 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
do abuso do trabalho mal remunerado, explorado e realizado sob condições sub-
humanas. 
Na sociedade contemporânea as práticas ambientais se voltam mais para 
atividades “vendidas” com o rótulo de ambientais como o uso de produtos 
biodegradáveis, o consumo de produtos verdes e a reciclagem. Apesar de essas 
atitudes terem a sua relevância, as problemáticas ambientais mais acentuadas que são 
o consumismo e o produtivismo exagerados são pouco enfrentadas. 
O modelo de desenvolvimento que vigora na grande maioria das sociedades 
ocidentais também trouxe benefícios como o aumento da expectativa de vida, a 
possibilidade da produção de alimentos em grande escala, a possibilidade do 
crescimento econômico pessoal (desde que não exagerado), entre outros. No entanto, 
esse modelo também estabeleceu uma ordem de domínio econômico onde os ricos 
podem “comprar” sua liberdade, educação, saúde e bem estar. Além disso, os padrões 
de consumo e produtividade exagerados continuam a exaurir os recursos naturais. 
O próprio relatório da ONU (Relatório Brundtland) destaca que “o grande 
desequilíbrio econômico e social faz com que haja no mundo mais famintos e 
analfabetos do que nunca, além dos que não dispõem de água emoradia de boa 
qualidade, nem qualquer espécie de energia para cozinhar e se aquecer. Além disso, os 
riscos do desequilíbrio ambiental ameaçam o planeta, o homem e a vida de muitas 
espécies.” (CMMAD, 1991). 
No modelo atual, o consumo e a degradação do ambiente acabam sendo 
análogos funcionais do processo de enriquecimento desigual e desequilíbrio 
econômico. Na maioria das vezes, a lógica capitalista recusa-se a aceitar limites de 
produção ou de apropriação do espaço, pois tais limitações se contradizem com o 
discurso do livre mercado. As restrições necessárias para se adequar a produção à 
preservação do meio ambiente se contrapõem a lógica do capital. No entanto, as 
crescentes necessidades de produção e acumulação de riqueza vem se defrontando 
com os próprios limites de expansão do modelo capitalista (MOTA e SILVA, p. 38, 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
2009). Desta forma, o próprio modelo busca se reeditar e se mostrar mais solícito às 
questões ambientais produzindo produtos “verdes” e novas tecnologias, e muitas 
vezes, colocando uma imagem de que é um dos principais responsáveis pela 
preservação ambiental. 
Alguns autores, como Richard Rogers (2001) e Herbert Girardet (2001), 
acreditam que a tecnologia pode superar os problemas ambientais causados pelo ser 
humano. Esses autores estão ligados a uma tendência tecnocêntrica e acreditam que 
todo o consumo e degradação pode ser suprido por novas tecnologias. As tecnologias 
são de grande valor para possíveis soluções sustentáveis, mas as ações sociais e 
políticas podem ter muito mais importância e afetam diretamente o bem estar social e 
consequentemente melhoram a qualidade de vida e aumentam o interesse pelas 
questões ambientais. 
Os custos da tecnologia podem ser muito altos para uma megacidade, por 
exemplo, que deveria ter como prioridades erradicar a pobreza, garantir moradia 
digna, garantir saúde e educação para uma maioria populacional que vive na pobreza. 
Uma possível sustentabilidade para cidades de países em desenvolvimento depende 
muito mais do fortalecimento da economia, da erradicação da pobreza e da 
diminuição da corrupção para que cidadãos educados, alimentados e saudáveis 
possam desenvolver e executar tecnologias ambientais. 
As atuações pontuais com novas tecnologias como o uso de células fotovoltaicas, 
o uso de carros movidos a ar comprimido, entre outros, realmente devem ser 
executadas e contribuem para a melhoria do meio ambiente, mas a sustentabilidade 
não pode estar baseada somente na tecnologia, mas sim no ser humano. A tecnologia 
é somente um aparato de desenvolvimento para enfrentar a “crise ambiental”. 
 Algumas distorções éticas e morais da sociedade contemporânea contribuem 
para a insustentabilidade social e econômica como a corrupção, o predomínio do 
privado sobre o coletivo, do global sobre o local e do artificial sobre o natural, 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
aumentando as concentrações desiguais de recursos e tecnologias voltadas à 
apropriação do espaço e do meio ambiente. 
No entanto, as questões ambientais ganham cada vez mais espaço nos debates 
entre intelectuais, movimentos sociais e organizações obtendo também cada vez mais 
espaço nos meios de comunicação, e em consequência, alcançando a população em 
geral. Com isso, os questionamentos sobre o modelo econômico e social também 
surgem nesses debates e auxiliam na busca por propostas alternativas. Apesar disso, o 
poder do dinheiro ainda sobressai às consequências da “Crise Ambiental”. Em 
consequência, as indústrias contemporâneas ainda contribuem efetivamente para a 
degradação ambiental, tanto pelo uso desenfreado dos recursos não renováveis e pelo 
volume de dejetos industriais poluentes não reciclados despejados na natureza 
(principalmente nos países pobres) quanto pelo descarte de produtos ocorridos devido 
à obsolescência programada4. 
A crise ambiental fica ainda mais visível nas megacidades, principalmente dos 
países do Sul (América Latina, África e Oriente). A pobreza, as desigualdades, o 
descarte de lixo tóxico em aterros não tratados, a falta de saneamento básico, de 
saúde e educação, são fatores que denunciam a insustentabilidade desses ambientes 
urbanos e os potenciais riscos para a vida humana. 
 
2.3. O Termo Desenvolvimento Sustentável 
 O termo Desenvolvimento Sustentável (DS) é bastante utilizado nos discursos 
ambientais e políticos atuais. A imprecisão do termo permite que ele seja apropriado 
por diferentes grupos sociais com posicionamentos distintos quanto ao 
 
4
 Obsolescência programada é o termo que se refere à vida curta de um bem ou produto projetado para 
que somente dure por um tempo pré-determinado. Faz parte de uma estratégia de mercado surgida nas 
décadas de 1930 e 1940 para reestruturar a economia pós-guerra e incentivar o capitalismo. Esse 
fenômeno mercadológico leva o consumidor a comprar de tempos em tempos o produto que pára de 
funcionar. Até os dias atuais as indústrias continuam produzindo produtos que tem vida útil limitada 
propositalmente. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
desenvolvimento. Parte da imprecisão é inerente ao próprio conceito, que 
dependendo da abordagem e de quem aborda pode tomar conotações distintas. 
 Discutir o conceito de DS é bastante importante para embasar o trabalho, mas 
para isso, é necessário um breve retrocesso às origens do tema e uma abordagem das 
discussões atuais. 
 
2.3.1. As Origens do Termo Desenvolvimento 
As contradições acerca do conceito de desenvolvimento sustentável se dão 
principalmente pelas contraditórias definições de desenvolvimento e da imprecisão do 
que vem a ser sustentabilidade. 
Parte da população mundial, principalmente a que se encontra na parte Norte e 
ocidental do planeta, iniciou, a partir da década de 1950, uma discussão questionando 
o modelo de sociedade atual, cujo padrão civilizatório está pautado em procedimentos 
tecnológicos que, em alguns casos, causam efeitos danosos ao meio ambiente. A 
preocupação com o meio ambiente resultou no já mencionado movimento 
ambientalista, impulsionado, a partir da década de 1960, por grupos americanos que 
viam a necessidade de manter a natureza intocada (W. SACHS, 1996). 
O resultado das discussões anteriores é registrado em 1972, onde os governos 
posicionam-se oficialmente e de uma forma conjunta em relação ao meio ambiente. A 
Assembleia Geral das Nações Unidas discute, nessa data, o meio ambiente como uma 
questão global na I Conferência de Estocolmo. Estabelecem-se princípios gerais para a 
preservação do ambiente e discute-se pela primeira vez o termo Ecodesenvolvimento 
como o precursor do termo desenvolvimento sustentável. O termo 
Ecodesenvolvimento foi introduzido por Maurice Strong, secretário geral da ONU, e 
amplamente difundido por Ignacy Sachs (1993). 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 Praticamente na mesma época, é publicado o Relatório do Clube de Roma, que 
também ficou conhecido como Relatório Meadows. Tanto a Conferência quanto o 
Relatório apresentam uma expectativa de reversão do quadro ambiental e uma 
preocupação com o futuro, mas nenhum dos dois demonstra uma perspectiva de 
mudança do modelo de produção existente nas sociedades. Os dois prezam pela 
preservação e pela melhora do meio ambiente e estabelecem um discurso ecológico 
que qualifica e imprime juízos, mas comprometido de antemão com as regras do 
capitalismo industrial. 
Neste momento, as tensões existentes entre crescimento econômico, expansão 
urbana, avanço tecnológico e conservação da natureza ficam mais evidentes. Como 
conseguinte, na ComissãoMundial para o Meio Ambiente e o Desenvolvimento 
(CMMAD, 1991), também conhecida como Comissão de Brundtland, presidida pela 
norueguesa Gro Halen Brundtland, no processo preparatório à Conferência das Nações 
Unidas – também chamada de “Rio 92”- foi desenvolvido o, já mencionado, relatório 
que ficou conhecido como “Nosso Futuro Comum” ou Relatório Brundtland. Tal 
relatório contém informações colhidas pela comissão ao longo de três anos de 
pesquisa e análise destacando-se as questões sociais, principalmente no que se refere 
ao uso da terra, sua ocupação, suprimento de água, abrigo e serviços sociais, 
educativos e sanitários, além de administração do crescimento urbano. Nesse relatório 
está apresentada uma das definições mais difundidas do conceito: “o desenvolvimento 
sustentável é aquele que atende às necessidades do presente sem comprometer as 
possibilidades de as gerações futuras atenderem suas próprias necessidades”. No 
entanto, são muitas as questões que englobam o discurso do desenvolvimento 
sustentável e, por isso, um conceito único sempre estará incompleto. 
Um importante marco para a discussão no Brasil foi a Conferência das Nações 
Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvolvimento realizada no Rio de Janeiro em 1992 
(Eco-92). Naquela ocasião, foi publicada a Agenda 21, que é um documento resultante 
da Conferência, “que estabelece um pacto pela mudança do padrão de 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
desenvolvimento global para o próximo século”. A partir daí, aumentou o interesse em 
tornar as comunidades sustentáveis e ficou mais nítido o envolvimento de todas as 
atividades humanas neste processo, principalmente no planejamento urbano e nas 
novas arquiteturas. O conceito de desenvolvimento sustentável firmado na Agenda 21 
também foi incorporado em outras agendas mundiais de desenvolvimento e de 
direitos humanos, mas como será evidenciado nessa tese, o conceito ainda está em 
construção. 
No meio acadêmico o debate sobre o conceito de desenvolvimento é bastante 
rico, principalmente quanto às diferenças entre crescimento econômico e 
desenvolvimento. Porém, “apesar das divergências existentes entre as concepções de 
desenvolvimento, elas não são excludentes. Na verdade, em alguns pontos, elas se 
completam” (SCATOLIN, 1989, p.24, In: OLIVEIRA e SOUZA-LIMA, 2006, p.15). É comum 
alguns autores atribuírem ao termo desenvolvimento somente o aumento da renda 
como condição para ser desenvolvido, sem se preocupar com a distribuição dessa 
renda. No entanto, nos debates mais recentes o desenvolvimento está sendo tratado 
de uma forma mais ampla, reconhecendo, além do crescimento econômico, a melhoria 
da qualidade de vida. Esse segundo critério insere nos parâmetros de desenvolvimento 
a possibilidade de melhoria dos indicadores econômicos e sociais como a diminuição 
da pobreza, o desemprego, as desigualdades, as melhores condições de alimentação, 
saúde, habitação e educação. 
O conceito de desenvolvimento é um dos temas mais debatidos e controversos 
nas ciências sociais. O debate se acirrou principalmente após a Segunda Guerra 
Mundial, quando diversos países tentavam diminuir problemas como a miséria, o 
desemprego, as descriminações políticas e raciais e as desigualdades econômicas e 
sociais e se firmarem no contexto mundial. A preocupação tanto com o progresso 
econômico quanto com a melhoria da qualidade de vida foi defendida desde 1945 na 
Carta das Nações Unidas, um dos documentos de maior importância na época do pós-
guerra acerca das questões do desenvolvimento. No mesmo ano da conferência onde 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
a carta foi divulgada (Conferência de São Francisco) também foi criada oficialmente a 
Organização das Nações Unidas (ONU), composta inicialmente por cinquenta e um 
países. Essa organização tinha como propósito fortalecer os países aliados e contribuir 
para a elevação dos níveis de qualidade de vida, utilizando as instituições 
internacionais para a promoção do avanço econômico e social. 
As discussões acerca do desenvolvimento se intensificaram após a criação da 
ONU e também foram criados outros programas e organismos para auxiliar os países a 
tratar problemas econômicos e sociais de modo internacional, mantendo 
principalmente a superioridade bélica e econômica dos países constituintes da ONU. 
Foram criados o Banco Internacional de Reconstrução e Desenvolvimento (BIRD), o 
Fundo Monetário Internacional (FMI), o Acordo Geral de Tarifas e Comércio, a 
Organização Mundial da Saúde (OMS), entre outros. 
O debate sobre o desenvolvimento nessa época se volta ainda mais para o 
enfoque do crescimento econômico. Os economistas veem a possibilidade de criar 
modelos de desenvolvimento econômico que podem levar os países à acumulação de 
riquezas. Para o economista Furtado, em 1961, “o desenvolvimento é, basicamente, 
aumento do fluxo de renda real, isto é, incremento na quantidade de bens e serviços 
por unidade de tempo à disposição de determinada coletividade” (FURTADO, 1961, p. 
115-116, In: OLIVEIRA e SOUZA-LIMA, 2006, p.18). 
Duas correntes marcaram o pensamento econômico sobre o tema do 
desenvolvimento. A primeira encara o crescimento como sinônimo de 
desenvolvimento, enquanto a segunda acredita que o crescimento é essencial para o 
desenvolvimento, mas não é suficiente. Essa segunda corrente é formada por 
cientistas de orientação marxista ou cepalina (seguem os ensinamentos da CEPAL – 
Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), que vêem o crescimento como 
uma variação quantitativa do produto, enquanto desenvolvimento é caracterizado por 
mudanças na qualidade de vida dos indivíduos, das instituições e das estruturas 
produtivas (OLIVEIRA e SOUZA-LIMA, 2006, p.18). 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
Wolfgang Sachs (1996) considera que a era do desenvolvimento teve seu marco 
inicial em 1945, quando o presidente americano Harry Truman, em seu discurso de 
posse, definiu os países pobres como “áreas subdesenvolvidas”. Apresentava-se uma 
visão onde todos os países estavam se movendo no mesmo caminho em busca de um 
desenvolvimento, que definia o grau civilizatório de cada nação pelo seu nível de 
produção. 
Com essa visão de desenvolvimento diversos países buscaram se capacitar para 
aumentar seus índices de produção, mas o resultado disto, muitas vezes, foi 
catastrófico, principalmente na Ásia e na América Latina. Além da distância econômica 
entre os países industrializados e os países em desenvolvimento terem aumentado 
consideravelmente, essa diferença econômica também aumentou entre a população 
de cada país, crescendo assim, a disparidade social e econômica entre ricos e pobres. 
Para Naomi Klein (2008) o livre mercado trouxe consequências desastrosas 
para diversas sociedades. Durante décadas de abertura de mercado, a partir de uma 
crise ou choque, diversos países sofreram e sofrem até os dias de hoje com as 
consequências ruins do livre mercado. A aparente liberdade e democracia dão lugar a 
sociedades manipuladas. Muitas vezes “boas intenções” de um governo podem, 
muitas vezes, trazer desemprego e disparidade social e econômica para a população 
local e enriquecimento para a nação “bem intencionada”. 
A promessa liberal de meados do século XX pregava um crescimento econômico 
constante e duradouro que poderia universalizar-se e atingir toda a população 
mundial, mas nas últimas décadas constata-se que esse crescimento é limitado e essa 
corrida pelo desenvolvimento econômico está trazendo sérias consequências para o 
mundo. 
Para algumas pessoas a ideia de uma nova cidade sustentável não deixa de ser 
uma ideia capitalista. Em muitos casos, como por exemplo, nas "cidades privadas", as 
questões ambientais sãolevadas em consideração, mas o que realmente importa é o 
lucro dos empreendedores. Alguns poucos que podem pagar pelo status de morar em 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
uma cidade “ecológica” são beneficiados, mas toda uma população continua 
miserável. 
Ignacy Sachs (1993) aponta para um desenvolvimento socialmente includente, 
ambientalmente sustentável e economicamente sustentado. É importante que para 
que seja socialmente includente seja ético e solidário. Por outro lado, para que as 
coisas aconteçam é necessário que sejam economicamente viáveis. “O econômico não 
é um objetivo em si, apenas o instrumental com o qual avança o caminho do 
desenvolvimento includente e sustentável” (I. SACHS, 2007. In: NASCIMENTO e 
VIANNA (orgs.), p. 23, 2007). Os parâmetros para se distinguir o que possa ser 
ambientalmente sustentável também são muito tênues e um dos principais quesitos é 
a preservação dos bens naturais. 
As diferentes visões de desenvolvimento também embasam diferentes ações 
governamentais e não governamentais. No entanto, é de consenso comum que os 
governos de vários países têm como meta ações em prol do crescimento econômico 
visto que apesar de não ser condição suficiente para o desenvolvimento ainda é o 
meio mais utilizado para diminuir a pobreza e para a melhoria da qualidade de vida, 
mesmo não sendo necessariamente a forma mais adequada de acabar com a miséria. 
 
2.3.2. O contraditório discurso da sustentabilidade 
O termo sustentabilidade não possui uma definição amplamente aceita por 
diferentes setores da sociedade. Há uma indefinição tanto sobre a origem do termo 
quanto sobre sua definição. Apesar de bastante debatido e aceito pelo senso comum, 
o conceito de sustentabilidade não possui precisão e acaba ganhando vários sentidos, 
algumas vezes contraditórios. 
Por não haver uma hegemonia do significado do conceito, a imprecisão do termo 
torna comum o seu uso em discursos e ações diferentes. I. Sachs (1997) alerta para a 
manipulação do conceito de acordo com os diferentes interesses políticos e 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
econômicos de cada sociedade. Para o autor o termo sustentabilidade aglutina amigos 
e inimigos e gira em torno de uma variedade de definições e interesses. 
Uma das primeiras definições do conceito de sustentabilidade foi escrito por 
Lester Brown na WWI (Worldwatch Institute) no início da década de 1980. Lester 
escreveu que “uma sociedade sustentável é aquela capaz de satisfazer suas 
necessidades sem comprometer as chances de sobrevivência das gerações futuras” 
(BROWN, 1980 In: ANDRADE e ROMERO, 2004). Já no ano de 1987 esse conceito foi 
utilizado no Relatório Brundtland para definir desenvolvimento sustentável. 
Para Henri Acselrad (1999) o termo sustentabilidade teve seu primeiro enfoque 
nas ciências biológicas onde cada ser vivo seria composto de um “capital/estoque” que 
possibilitaria estabelecer um fluxo de biomassa sem comprometer a manutenção 
desse “capital”. A mesma lógica de manutenção dos recursos naturais mesmo com o 
uso constante destes foi mantida no discurso da sustentabilidade. Muitos governos, 
empresas e indústrias passaram a “esverdear” seus projetos e produtos com o intuito 
de continuar o crescimento econômico, mas passando uma imagem de durabilidade e 
consciência ambiental. No entanto, algumas ONGs e a própria academia passaram a 
ver a sustentabilidade como um mecanismo capaz de limitar o crescimento e constituir 
um novo princípio organizador focado no ser humano. 
Para Bossel (1998) a sustentabilidade de um sistema só pode ser observada a 
partir da perspectiva futura, de ameaças e oportunidades. Ele destaca que no passado 
a sustentabilidade da sociedade era pouco questionada, pois a ameaça provocada pela 
ação antrópica era de carga reduzida e não provocava estragos muito sensíveis, o que 
permitia uma rápida adequação da natureza. A sustentabilidade de um sistema se 
torna ameaçado a partir do momento em que a natureza não é capaz de suportar e 
responder adequadamente à carga excessiva que recebe. O aumento da taxa de 
mudanças diminui a capacidade do sistema de responder e ele pode acabar deixando 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
de ser viável. (BELLEN, 2005). Quanto mais o sistema se mantiver estável melhor é sua 
resiliência.5 
Por essa visão o conceito de sustentabilidade significa manter em existência, 
prolongar, mas Bossel (1998) acredita que a sociedade humana não pode ser mantida 
em um único “estado”. Ela é extremamente adaptativa e mutável e interage com outro 
sistema complexo que é o meio ambiente. A sustentabilidade não pode ser somente 
pautada no meio ambiente, pois uma sociedade pode ser ambientalmente sustentável, 
embasada principalmente por novas tecnologias, mas socialmente insustentável com 
injustiças sociais e diferenças econômicas entre setores da sociedade. Para Bossel 
(1998) a sustentabilidade deve abordar as dimensões material, ambiental, ecológica, 
social, cultural, legal, econômica, psicológica e política. 
Para Clovis Cavalcanti (2003) sustentabilidade “significa a possibilidade de se 
obterem continuamente condições iguais ou superiores de vida para um grupo de 
pessoas e seus sucessores em dado ecossistema”. Para o autor, as discussões atuais 
sobre o significado do termo “desenvolvimento sustentável” mostram que se está 
aceitando a ideia de colocar um limite para o progresso material e para o consumo, 
antes visto como ilimitado, criticando a ideia de crescimento constante sem 
preocupação com o futuro (CAVALCANTI, 2003). 
Ignacy Sachs (1997) defende a sustentabilidade como um conceito dinâmico que 
engloba um processo de mudanças e subdivide o conceito em cinco dimensões: 
sustentabilidade social, econômica, ecológica, geográfica e cultural. Apesar de não 
haver um consenso sobre essas dimensões pode-se considerar que são bastante 
amplas e permitem um estudo complexo sobre o conceito de sustentabilidade. No 
entanto, a divisão nessas cinco dimensões é bastante sutil e suas definições se 
misturam. 
 
5
Resiliência é um conceito oriundo da física que se refere à capacidade de certos materiais de acumular 
carga quando é exigido, mas não se rompem, ou se deformam permanentemente. Esse conceito 
também é usado na ecologia para se referir à capacidade de um sistema retornar ao equilíbrio após 
sofrer uma intervenção brusca, ou seja, sua capacidade de recuperação. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
Essa divisão de I. Sachs é contraposta pela visão de Schumacher (CMMAD, 1991), 
que classifica somente em sustentabilidade ambiental, econômica e pessoal. Mas, 
essas duas visões diferem principalmente na definição do termo ambiental, pois 
Schumacher refere-se ao uso racional dos recursos, enquanto Sachs à capacidade dos 
ecossistemas diante da agressão humana. 
Nessa tese o termo sustentabilidade é compreendido como uma meta a ser 
alcançada e um processo para se chegar ao objetivo. Tal meta e forma de processo se 
diferenciam de acordo com o contexto socioeconômico e ambiental de cada cidade. 
Como processo a sustentabilidade interfere nas estruturas da sociedade desde 
aspectos globais até questões cotidianas. Desta forma, os diferentes posicionamentos 
políticos quanto às questões ambientais mais abrangentes, assim como as atitudes 
individuais, podem influenciar no processo para a sustentabilidade. Outros fatores que 
também influenciam o alcance ou não da meta da sustentabilidade são a forma de 
organização social que atualmente, principalmente nos países do hemisfério sul, 
exacerbam as diferenças sociais e corroboram para o aumentodas mesmas, além do 
padrão de consumo e da estrutura econômica vigente. 
A sustentabilidade somente pode ser alcançada quando se atua profundamente 
em cada uma dessas estruturas e nas suas variáveis e condicionantes, compreendendo 
o ciclo de existência de cada elemento consumido ou produzido (LEMOS, 2010). Assim, 
a sustentabilidade urbana pode variar quando apenas alguns aspectos de todo o 
sistema são sustentáveis e a meta ideal seria um processo com ciclo metabólico 
“fechado” onde praticamente tudo é reutilizado e reciclado e a retirada de novos 
recursos do meio ambiente é bastante reduzida e, em consequência, a geração de 
resíduos também é baixa. Ciclos urbanos “fechados” que atendam às necessidades 
humanas atuais, sem comprometer as necessidades futuras, considerando as 
diferentes escalas locais e globais e a viabilidade econômica e os limites dos recursos 
naturais seria um sistema urbano sustentável ideal. No entanto, a questão se volta para 
quais são as necessidades de cada sociedade e quais são os limites do meio ambiente e 
essas definições variam de acordo com as condições culturais, sociais, etc. de cada 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
grupo de indivíduos. 
A sustentabilidade das cidades não se refere apenas às questões ecológicas, mas 
também à qualidade de vida e a vivência em sociedade. As questões ambientais são 
muitas vezes as mais fáceis de serem reconhecidas na busca por cidades sustentáveis, 
no entanto os condicionantes sociais, econômicos, culturais e políticos são mais 
complexos e difíceis de serem mensurados. 
Além disso, intrínseco ao conceito de sustentabilidade urbana está a compreensão 
de que a forma, a infraestrutura, o modo de vida e a economia estejam integrados ao 
contexto local, considerando suas variáveis específicas ecológicas, sociais, culturais e 
econômicas. Desta forma, o projeto é realizado para uma determinada região, 
população e época, podendo obedecer a princípios e metas gerais, mas com soluções 
específicas. 
Para Richard Rogers (2001) a cidade sustentável deve ser: 
"- Justa: onde justiça, alimentação, abrigo, educação, 
saúde e esperança sejam distribuídos de forma justa e 
onde todas as pessoas participem da administração. 
- Bela: onde arte, arquitetura e paisagem incendeiem a 
imaginação e toquem o espírito. 
- Criativa: onde uma visão aberta e a experimentação 
mobilizem todo o seu potencial de recursos humanos e 
permitam uma rápida resposta à mudança. 
- Ecológica: que minimize seu impacto ecológico, onde a 
paisagem e a área construída estejam equilibradas e onde 
os edifícios e a infraestrutura sejam seguros e eficientes 
em termos de recursos. 
- Fácil: onde o âmbito público encoraje a comunidade à 
mobilidade, e onde a informação seja trocada tanto 
pessoalmente quanto eletronicamente. 
- Compacta e policêntrica: que projeta a área rural, 
concentre e integre comunidades nos bairros e maximize 
a proximidade. 
- Diversificada: onde uma ampla gama de atividades 
diferentes gera vitalidade, inspiração e acalenta uma vida 
pública essencial." (ROGERS, 2001). 
 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
Algumas características levantadas por Rogers (2001) são consensuais a diversos 
outros autores. Sendo que o ponto de maior discussão é a compactação da urbe. Este 
tema será discutido com maior enfoque nos capítulos seguintes. 
Muitas vezes o conceito de sustentabilidade é banalizado e tratado 
simplesmente como um conveniente artifício ideológico e político. Além disso, a falta 
de critérios específicos e leis incisivas no âmbito da gestão ambiental urbana nos 
indicam lacunas na literatura e falhas em experiências já realizadas que buscavam uma 
sustentabilidade para o lugar. 
A sustentabilidade consiste em encontrar meios de produção, distribuição e 
consumo dos recursos existentes de forma mais coesa, economicamente eficaz e 
ecologicamente viável. Além disso, perceber que a diminuição da produção e do 
consumo de alguns pode possibilitar o ajuste social entre países do Norte e do Sul e 
diminuir a injustiças sociais dentro das sociedades. 
 
2.3.3. A disseminação do ideal do Desenvolvimento Sustentável 
Nas últimas décadas o termo “desenvolvimento sustentável” passou a ser 
utilizado por grande parte das instituições e discursos políticos. Como o termo 
desenvolvimento e a palavra sustentabilidade possuem definições diversas e são 
utilizados de formas diferentes por atores sociais com interesses políticos e 
econômicos distintos, a junção das duas palavras também forma um termo 
contraditório e cheio de significados. 
A junção de desenvolvimento e sustentabilidade foi oficializada no já citado 
Relatório Brundtland em 1987, no documento “Nosso Futuro Comum”. (Nosso Futuro 
Comum, 1988; IN: CMMAD, 1991). O Relatório considera que a pobreza generalizada 
não é mais inevitável e que o desenvolvimento de uma cidade deve privilegiar o 
atendimento das necessidades básicas de todos e oferecer oportunidades de melhoria 
de qualidade de vida para a população. Um dos principais conceitos debatidos pelo 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
relatório foi o de “equidade” como condição para que haja a participação efetiva da 
sociedade na tomada de decisões através de processos democráticos para o 
desenvolvimento urbano. 
O texto do Relatório Brundtland ainda ressaltou, em relação às questões urbanas, 
a necessidade de descentralização das aplicações de recursos financeiros e humanos, e 
a necessidade do poder político favorecer as cidades em sua escala local. No tocante 
aos recursos naturais, avaliou a capacidade da biosfera de absorver os efeitos 
causados pelas atividades humanas, e afirmou que a pobreza já pode ser considerada 
como um problema ambiental e como um tópico fundamental para a busca da 
sustentabilidade. 
Apesar do termo “desenvolvimento sustentável” somente ter sido considerado a 
partir do Relatório de Brundtland em 1987, diversos outros acordos mundiais foram 
feitos em prol do meio ambiente, inclusive anteriormente ao ano de 1987 (Tabela 1). 
ACORDOS MUNDIAIS SOBRE O MEIO AMBIENTE 
1972 
1979 
1980 
1983 
1983 
1987 
1987 
1992 
1996 
1997 
2000 
2002 
2012 
Conferência de Estocolmo sobre o meio ambiente humano. 
Conferência de Genebra sobre a contaminação do ar. (ONU) 
Estratégia Mundial sobre Conservação (IUCN) 
Protocolo de Helsinki sobre qualidade do ar 
Comissão Mundial sobre meio ambiente e sustentabilidade (ONU) 
Protocolo de Montreal sobre a camada de ozônio (ONU) 
Nosso Futuro Comum (ONU) 
Conferência das Nações Unidas sobre Meio Ambiente e Desenvol. no RJ(ONU) 
Conferência Habitat (ONU) 
Conferência de Quioto sobre aquecimento global (ONU) 
Conferência de Haia sobre mudanças climáticas 
Cúpula Mundial sobre Desenvolvimento Sustentável de Johannesburg 
Conferência das Nações Unidas Rio + 20 
Tabela 1: Acordos Internacionais sobre o meio ambiente. 
Fonte: Edward, 1999 complementada pela autora da tese, 2012. 
O conceito de desenvolvimento sustentável foi firmado na Agenda 21, documento 
desenvolvido na Conferência das Nações Unidas sobre o Meio Ambiente e o 
Desenvolvimento - Rio 1992 (Rio, 1992), e incorporado em outras agendas mundiais de 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
desenvolvimento e de direitos humanos, mas apesar de bem aceito pela sociedade o 
conceito ainda está em construção e envolve diversos discursos controversos como já 
foi apresentado. 
Apesar de ser um conceito questionável por não definir quais são as necessidades 
do presente nem quais serão as do futuro, o relatório Brundtland chamou a atenção 
do mundo sobre a necessidade de se encontrar novas formas de desenvolvimento 
econômico, sem a reduçãodos recursos naturais e sem danos ao meio ambiente. Além 
disso, definiu três princípios básicos a serem cumpridos: desenvolvimento econômico, 
proteção ambiental e equidade social. Mesmo assim, o referido relatório foi 
amplamente criticado por apresentar como principal causa da situação de 
insustentabilidade do planeta o descontrole populacional e a miséria dos países 
subdesenvolvidos, colocando somente como um fator secundário a poluição 
ocasionada nos últimos anos pelos países desenvolvidos. 
Para a Comissão Mundial do Meio Ambiente e Desenvolvimento (CMMAD, 1991) 
os objetivos que derivam do conceito de desenvolvimento sustentável estão 
relacionados com o processo de crescimento da cidade e objetivam a conservação do 
uso racional dos recursos naturais incorporados às atividades produtivas. Entre esses 
objetivos estão: crescimento renovável; mudança de qualidade do crescimento; 
satisfação das necessidades essenciais por emprego, água, energia, alimento e 
saneamento básico; conservação e proteção da base de recursos; reorientação da 
tecnologia e do gerenciamento de risco e reorientação das relações econômicas 
internacionais (CMMAD, 1991). 
Leila Ferreira afirma em seu livro “A questão ambiental: sustentabilidade e 
políticas públicas no Brasil” que: 
“o padrão de produção e consumo que caracteriza o atual estilo 
de desenvolvimento tende a consolidar-se no espaço das 
cidades e estas se tornam cada vez mais o foco principal na 
definição de estratégias e políticas de desenvolvimento” 
(FERREIRA, 1998). 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
Deste modo, é de grande importância a busca de alternativas sustentáveis que 
esquadrinhem qualidade de vida para a dinâmica urbana, consolidando uma referência 
para o processo de planejamento urbano. 
Para Edwards (2009) o DS está pautado sobre três perspectivas: a social, a 
tecnológica e a do meio ambiente (Esquema 1). Para que um projeto seja considerado 
sustentável e de acordo com os paradigmas do desenvolvimento sustentável deve ser 
pensado “à sombra” desses três parâmetros. 
Social: 
- Economia 
- Formação 
- Comunidade 
- Equidade 
- Cultura 
 
 
 
 
 
Tecnológica: 
- Tecnologias energéticas 
- Serviços 
- Projeto 
- Novas tecnologias 
- Conhecimento 
Meio Ambiente: 
- Saúde 
- Energia 
- Água 
- Recursos 
- Continuidade 
Esquema 1: Esquema adaptado do livro “Guía Básico de La Sostenibilidad” de Edward (2009). 
 
A temática ambiental está sendo cada vez mais incorporada no âmbito das 
ciências e das sociedades. São cada vez mais evidentes e relevantes as discussões 
sobre o meio ambiente e a relação entre a natureza e o ser humano. 
O conceito DS mais difundido, que é o do Relatório Brundtland, deixa perguntas 
como quais são as necessidades do presente e quais serão as do futuro, e sustentar o 
que para quem? As respostas variam de acordo com o ator da sociedade que a 
responde. No entanto, nas últimas décadas, a dificuldade de definir o que vem a ser 
desenvolvimento sustentável não é vista como um problema para todos os setores. No 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
documento da UNESCO de 1997 afirma-se que o desenvolvimento sustentável pode 
ser um conceito controverso, mas que permite a articulação entre diferentes 
economias e políticas entre o Sul e o Norte e oferece a possibilidade de unir os debates 
sobre equidade e justiça social com a ecologia (MAGALHÃES, 2008). 
O conceito de desenvolvimento sustentável busca estabelecer uma efetiva 
possibilidade de uma ordem social ecológica e democrática, sem que isso implique 
necessariamente na ultrapassagem do capitalismo. Entretanto, uma ordem social 
ecológica e democrática não combina com uma ordem de mercado que busca o lucro e 
a acumulação sem controle. 
Para Mota e Silva (2009) se destacam duas dificuldades concretas no sentido da 
consistência dessa concepção de DS. A primeira é a contradição de propor um modelo 
endógeno de desenvolvimento exatamente em um quadro histórico marcado pela 
mundialização do capital financeiro e pela globalização, e depois, “a formulação capaz 
de resolver o problema da almejada subordinação dos interesses e ações da economia 
de mercado à gestão dos recursos naturais referentes à qualidade de vidas das 
pessoas” (MOTA e SILVA, 2009). 
Todo esse dilema se deve a noção convencional de desenvolvimento, onde 
crescimento econômico e o nível de produção são os fatores que diferenciam um país 
desenvolvido de um país subdesenvolvido (ou em desenvolvimento). Discute-se, desde 
a década de 1970, um “modelo alternativo de desenvolvimento” que busque conciliar 
a sustentabilidade ambiental e a justiça social. O conceito de desenvolvimento 
sustentável teve como pano de fundo essa intenção de “modelo alternativo”, mas 
mesmo assim as necessidades de cada setor social ficam evidentes no discurso 
políticos dos mesmos (W. SACHS, 1996). Alguns setores tendem para a proteção do 
“meio ambiente” e outros levantam a bandeira desenvolvimentista. 
Desta forma, o discurso do desenvolvimento sustentável corre o perigo de ser 
somente um termo novo e vazio de significado. A CEPAL destaca que o 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
desenvolvimento sustentável pode ser o suporte ideológico e político capaz de 
produzir um consenso de classes: 
“O desenvolvimento sustentável destaca-se, no conjunto das 
propostas e ações implementadas na área socioambiental, 
como uma mediação fundamental e suporte ídeopolítico 
necessário à construção de um consenso de classes. A tríade 
sustentabilidade econômica, social e ambiental orienta práticas 
das mais diversas, oferecendo-lhes justificativa e amparo, sejam 
estas ações locais, em âmbito nacional ou mesmo 
internacionais. Por este caminho é que empresas e instituições 
vêm redefinindo programas e projetos denominados de 
responsabilidade socioambiental, inclusive demandando 
atividades especializadas, onde se inclui a dos assistentes 
sociais” (CEPAL, 2004, p.7). 
A discussão acerca do desenvolvimento sustentável pode agregar setores 
diferentes da sociedade, mas não deve receber significados diferentes de acordo com 
cada ator social. A discussão é válida para o desenvolvimento e definição do termo, 
mas a aceitação de vários significados e enfoques podem tornar o termo frívolo e 
vazio. 
Para Edwards (2009) a troca de informações e a discussão internacional ocorrida 
nesses eventos é parte essencial para a noção de desenvolvimento sustentável, mas a 
sustentabilidade vai além do conceito de DS e se apresenta como um processo 
sistêmico que pode contribuir para resultados mais visíveis em projetos urbanos 
considerando não somente as novas tecnologias como também a equidade social 
(Esquema 2). 
Desenvolvimento Sustentável x Sustentabilidade 
Diferenças entre Desenvolvimento Sustentável (DS) e Sustentabilidade (S) 
DS é um objeto – (mecânico) 
S é um processo – (sistêmico) 
 
Meio ambiente 
Economia Desenvolvimento Sustentável 
Sociedade 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 
Sistema Ecológico 
Econômico Sustentabilidade 
Social 
Cultural 
Esquema 2: Esquema adaptado de Brian Edwards (2009) sobre as diferenças entre DS e S. 
 
W. Sachs (1996) destaca três visões diferenciadas de desenvolvimento 
sustentável. A primeira ele denomina de “perspectiva da competição” que apresenta a 
concepção de que o desenvolvimento pode ser duradouro e a preocupação ambiental 
emerge como força propulsora do crescimento econômico. Nesta visão há uma 
demanda da conservação do desenvolvimento e não do meio ambiente. Para Arturo 
Escobar (1994) essa visão é denominada de liberal e é a mais difundida nos últimos 
anos, incluindo o RelatórioBrundtland. O discurso liberal apresenta a ideia de que a 
realidade social pode ser modificada a partir de novos conhecimentos tecnológicos. 
Acredita-se que novos padrões tecnológicos e novas formas de gerir as questões 
sociais poderiam “salvar” a natureza e evitar o colapso ambiental. Essa mercantilização 
ambiental pode ser vista quando grandes empresas causam desastres ambientais e 
pagam multas para compensar os danos ou ainda quando são negociados entre países 
os créditos de emissão de carbono. 
O meio ambiente está cada vez mais sendo utilizado como marketing para o 
crescimento econômico e para o consequente consumo. Propõem-se aos empresários, 
como estratégia de crescimento, alcançar a “eficiência ecológica” e as empresas 
utilizam do slogan “eco” para vender cada vez mais. Assim, a “ênfase mudou da 
proteção à natureza para a preservação da produtividade dos recursos naturais para o 
uso econômico.” (W. SACHS, 1996). 
Nesta visão da “competição” os países industrializados manteriam a sua 
hegemonia e competitividade e a sociedade passaria a ser vista como uma empresa. O 
objetivo das empresas e indústrias seria a “eficiência ecológica” e a tecnologia 
ambiental poderia levar a esse propósito. Essa perspectiva refere-se também a uma 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
visão tecnocêntrica onde os autores ligados a ela acreditam que a “sustentabilidade se 
refere à manutenção do capital total disponível no planeta e que ela pode ser 
alcançada pela substituição de capital natural pelo capital gerado pela capacidade 
humana” (BELLEN, 2005). A grande maioria das empresas e indústrias defende que 
todos os problemas ambientais podem ser resolvidos com novas tecnologias. 
O Banco Mundial, por exemplo, é um defensor dessa visão econômica do meio 
ambiente e defende que o “desenvolvimento sustentável é o desenvolvimento que 
dura”. Sobre essa frase W. Sachs denuncia que não é a conservação ambiental que as 
agendas governamentais desejam, mas sim a manutenção do utilitarismo humano, 
tomando os bens ambientais como mercadorias que podem ser negociadas e 
vendidas. W. Sachs questiona: 
“Até que ponto os serviços da natureza são indispensáveis para 
o desenvolvimento futuro? Ou que serviços da natureza são 
dispensáveis ou substituíveis, por exemplo, por novos materiais 
ou por energia genética? Assim, a natureza se converte em uma 
variável. Nesta perspectiva a natureza é reinterpretada como 
capital” (W. SACHS, 1996, p.105). 
 
A natureza passa a ser constituída em um capital disponível que espera um valor, 
podendo ser substituída ou utilizada para garantir o crescimento econômico. Desta 
forma, houve uma mudança na relação com o bem natural e com o “consumo da 
natureza” que não tem limites. De acordo com W. Sachs (1996, p.105) “os 
ambientalistas queriam reformar o capital para salvar a natureza, os economistas 
querem agora reformar a natureza para conservar o capital”. 
A segunda visão de desenvolvimento sustentável destacada por W. Sachs é a 
“perspectiva do astronauta”, difundida, principalmente, pelos ambientalistas. Ela é 
assim determinada por fazer uma referência à visão da Terra como o objeto em 
questão. A partir do momento em que astronautas trouxeram imagens e fotografias 
do globo terrestre, alguns ambientalistas destacaram a finitude dos recursos da Terra. 
Essa visão desenvolveu um discurso que coloca o planeta como objeto científico e 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
político e as sociedades e aspirações humanas tornam-se irrelevantes frente às 
questões do planeta. Com essa tendência a sustentabilidade é cada vez mais 
concebida como um desafio da gestão global, que deve identificar o equilíbrio entre o 
extraído e o emitido pelo homem e as capacidades de regeneração da natureza. 
Um dos maiores difusores dessa visão é o “Plano Marchal Global” (GORE, 1992), 
onde a ecologia é a peça fundamental de uma política mundial, que deveria ter como 
compromisso combater a crise da natureza sem negligenciar a crise da justiça (SACHS, 
1996). São muitos os cientistas e ambientalistas que defendem essa visão e que 
buscam compatibilizar as atividades humanas com a manutenção da biosfera. 
Destacam-se como defensores dessa visão os cientistas Richard Rogers (2001) e 
Girardet (2001). Em seus livros, eles concebem uma perspectiva da necessidade de 
manutenção dos recursos terrestres em prol da possibilidade da manutenção da 
biosfera protegida. A principal crítica à perspectiva do astronauta é a sua proposta 
extremamente quantitativa, proveniente de uma visão mais objetiva da 
sustentabilidade (MAGALHÃES, 2008). Muitos céticos a essa visão acreditam que há 
uma falta de percepção dos problemas sociais e das diferentes culturas e formas de 
organização das sociedades humanas. Uma visão muito objetiva e quantitativa não 
alcança os problemas sociais que é uma das principais questões levantadas pela 
sustentabilidade. 
Nessa perspectiva os recursos naturais estão em primeiro lugar e não a 
humanidade. Deste modo, a questão se volta novamente às diferenças entre o Sul e o 
Norte. Por encarar o problema ambiental através de números inicia-se a discussão 
entre os países industrializados que já usufruíram enormemente e ainda usufruem dos 
bens materiais e os países em fase de desenvolvimento que querem o direito de 
usufruir desses bens tanto quanto os demais desenvolvidos. Passa a ser um problema 
encarado como matemático. Uma questão de quantidade usufruída de recursos que 
um ou outro podem retirar do ambiente. Essa conta cai principalmente sobre os países 
industrializados devido aos muitos anos de extração sem controle de recursos e da 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
poluição causada pelos seus rejeitos. Além disso, com o poder econômico os países 
industrializados conseguem manter sua produção em alta, pois ainda tem a 
possibilidade de "comprar o direito de poluir" de países mais pobres, como prevê o 
Protocolo de Kyoto. No entanto, o crescente econômico das últimas décadas dos 
países em desenvolvimento, principalmente os asiáticos, também preocupa os 
ambientalistas, pois a poluição causada para atingir esse crescimento está afetando 
todo o globo terrestre. 
A última visão de desenvolvimento mencionada por Wolfgang Sachs (1996) é a 
“perspectiva doméstica”, onde o desenvolvimento sustentável não é por excelência 
um fator econômico, nem a estabilidade da biosfera, mas os meios de subsistência 
global. 
“Os esforços práticos e teóricos têm como objetivo 
alternativas para o desenvolvimento econômico... 
Internacionalmente, espera-se que sociedades 
conservacionistas no Norte abram espaço para as 
sociedades do Sul florescerem, enquanto estilos de vida 
para as classes médias urbanas... nessa perspectiva, 
agiganta-se a questão de que necessidades são atendidas 
pelo desenvolvimento sustentável e para quem.” (W. 
SACHS, 1996, p.19). 
Na visão da “perspectiva doméstica”, para proteger o meio ambiente e as 
sociedades é necessário delimitar o desenvolvimento extrativista. Desejam-se 
sociedades descentralizadas e não centradas na acumulação. Porém, a visão 
“doméstica” é um grande desafio, principalmente, para os países mais ricos, por 
propor uma diminuição da produção. No entanto, as consequências negativas do 
crescimento econômico sem limitações sobressaem às positivas e isso é um grande 
incentivo para a mudança de postura dos países industrializados. A principal 
preocupação da “perspectiva doméstica” é a busca de uma sociedade que seja capaz 
de permanecer em um nível intermediário de produção e consumo. 
Nessa perspectiva o desenvolvimento tradicional é visto com desconfiança e os 
excessos do capitalismo aparecem como prejudiciais. “Nessa visão, a boa vizinhança 
GISELESILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
global requer, acima de tudo, a reforma da própria casa, em um espírito cosmopolita” 
(W. SACHS, 1996). A “perspectiva doméstica” propõe uma redução da ´pegada-
ecológica´6, principalmente dos países do Norte. Espera-se um recuo organizado e a 
redução dos efeitos globais das ações capitalistas. 
“Na ‘perspectiva doméstica’, exige-se do Norte que reduza o 
fardo ambiental que coloca sobre os outros países e que pague a 
dívida acumulada pelo uso excessivo da biosfera durante décadas 
e séculos. Assim, a arena principal para o ajuste ambiental não é 
nem o Hemisfério Sul nem o mundo inteiro, mas o próprio Norte” 
(W. SACHS, 1996, p. 21). 
 Nessa perspectiva Sachs engloba um enfoque de grande importância que é a 
ideia de autolimitação: “... a busca de uma sociedade que seja capaz de permanecer 
em um nível intermediário de desempenho. Em outros termos, uma sociedade que é 
capaz de não desejar algo que poderia produzir”. W. Sachs parece inclinar-se para essa 
perspectiva e a compara com as demais: “a perspectiva ‘doméstica’ tende a se 
focalizar mais em valores e padrões institucionais, em resumo, no universo simbólico 
da sociedade, enquanto as "perspectivas da competição" e "do astronauta" destacam 
os processos energéticos e materiais, ou seja, o mundo das quantidades materiais.” 
Faz-se uma comparação entre a sustentabilidade objetiva e a subjetiva. A objetiva 
preocupa-se muito mais com os problemas quantitativos de uso de recursos, descarte 
de rejeitos, emissão de gases tóxicos e produção de materiais. Os estudiosos que 
tendem para a objetividade das questões ambientais acreditam na eficiência 
tecnológica como solução para muitos problemas entre as atividades antrópicas e o 
meio ambiente. Já uma sustentabilidade subjetiva se preocupa mais com os problemas 
sociais e políticos que são difíceis de serem quantificados e sua abordagem procura um 
ajuste qualitativo com foco nas mudanças das práticas econômicas e políticas. 
 W. Sachs acredita que o desenvolvimento deveria utilizar menos a natureza e 
incluir mais o ser humano. Além disso, ele destaca que a diminuição da produção não 
 
6
Pegada ecológica é a tradução do termo criado em espanhol (huella ecológica) e se refere ao impacto 
causado pelo ser humano no meio ambiente. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
levaria necessariamente à diminuição do bem-estar. Modelos alternativos de 
desenvolvimento sem tanta acumulação e desperdícios poderiam levar a sociedades 
mais justas e ambientais. Para W. Sachs o problema social não está na pobreza, mas na 
riqueza. A desigualdade entre ricos e pobres é que propicia um ambiente de injustiças 
sociais e ambientais. Da mesma forma, “o problema da natureza não se encontra nela, 
mas no desenvolvimento (econômico) excessivo” (SACHS, 1996). 
Nos estudos de Acselrad (2001) três matrizes descritas por ele se aproximam 
dessa terceira perspectiva defendida por Wolfgang Sachs: ética, autossuficiência e 
equidade. A primeira é a da “ética” que propõe uma contenção racional dos desejos. 
Essa visão coloca a questão ética como “evidenciadora das interações da base material 
do desenvolvimento com as condições de continuidade da vida do planeta”. Acselrad 
(2001) faz uma análise entre os valores do bem e do mal evidenciando as interações 
do “desenvolvimento com as condições de continuidade de vida no planeta”. 
Muito antes de Acselrad destacar a ética como matriz para o desenvolvimento, 
Spinoza (DELEUZE, 1984) 7 destacava o conceito de ética como norteador para a 
formação e vivência humana. Construir um comportamento ético pode ser um 
caminho para se pensar em sustentabilidade. Comportamento ético é aquele que é 
considerado bom e o bom pode ser definido como lidar com as prioridades em conflito 
dos indivíduos perante o todo. Pensar em sustentabilidade requer pensar no bem 
estar de um todo e não de um indivíduo. Para Spinoza “não existe o perfeito e o 
imperfeito, o bem e o mal. Tais conceitos são apenas comparações que o homem faz 
entre o objeto que produz e outros na natureza (quando na verdade é tudo parte da 
natureza)“ (ROSE, 2010). 
 A segunda matriz descrita por Acselrad (2001) é a da autossuficiência, 
“desvinculada de economias nacionais e sociedades tradicionais dos fluxos de mercado 
mundial, como estratégia apropriada para a capacidade de auto regulação comunitária 
 
7
 Tema estudado na disciplina de STA Cidades Sustentáveis ministrada pelo Prof. Oscar Corbella no 
Programa de Pós-graduação em Urbanismo (PROURB-UFRJ). 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
das condições de reprodução da base material do desenvolvimento”. Diz respeito 
também a importância das questões locais e da valorização dos produtos locais. Prega 
a negação do mercado global frente ao mercado local. 
E por fim ele destaca a “equidade” como condição para que haja a participação 
efetiva da sociedade na tomada de decisões, através de processos democráticos, para 
o desenvolvimento urbano. Também o Relatório Brundtland destaca a necessidade de 
equidade entre as sociedades e o ser humano. Desta forma, há a necessidade de 
descentralização das aplicações de recursos financeiros e humanos, e a necessidade do 
poder político favorecer as cidades em sua escala local. 
 O desenvolvimento sustentável é um marco de referência para todas as 
atividades humanas. Esse conceito deve estar intrinsecamente ligado com a concepção 
urbanística. Os estudos urbanos têm um papel básico neste cenário, pois são as 
cidades as áreas mais prejudicadas no contexto atual de descompasso entre as 
atividades humanas e o meio ambiente. 
Um possível caminho para o desenvolvimento sustentável pode ser uma mudança 
na estrutura econômica dos meios de produção, devido à relação entre sociedade e 
natureza sempre ter sido de dominação. No modo de produção capitalista e socialista 
os recursos naturais estão e estavam presentes da mesma forma, ou seja, o “homem” 
utilizando a natureza de forma mercantilista. 
Acredita-se que são necessárias mudanças de paradigma alterando os modos de 
produção, as estruturas econômicas, as ações políticas e sociais, criando-se assim, uma 
nova relação entre as atividades humanas e a natureza. 
Apesar de o tema ser bastante complexo, a revisão conceitual do desenvolvimento 
sustentável deve ser bastante discutida e refletida, buscando sempre um caminho para 
a equidade social, ambiental e econômica entre países e entre os seus cidadãos. 
 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
2.4. Síntese do Capítulo e posicionamento quanto aos temas 
Neste capítulo buscou-se apresentar a discussão sobre a origem e as variações 
de definição de desenvolvimento sustentável (DS). Também foram apresentados os 
antagonismos que muitas vezes resultam em atuações bastante diferenciadas visando 
a sustentabilidade do local. Foi tratada também a relevância da discussão sobre 
sustentabilidade e DS no âmbito das cidades, visto que são nas mesmas que ocorrem a 
grande maioria das relações humanas. São muitas as contradições e desafios que se 
apresentam ao privilegiar ações urbanas que visam o DS. 
 Por se tratar de um tema bastante complexo é importante que seja 
apresentado o posicionamento sobre sustentabilidade e DS que pautará essa tese. 
Apesar das muitas incertezas urbanas, as atuações pautadas pelo DS são apresentadas 
como uma opção viável para a melhoria da qualidade das cidades e da vida de seus 
cidadãos. 
 É aceito que a definição precisa do que vem a ser sustentabilidade urbana ou 
cidade sustentável ainda é muito incerta. No entanto,a cidade sustentável também é 
um ideal a ser buscado. A ideia de sustentabilidade depende também do grupo social 
que a estiver idealizando. Parâmetros sociais, econômicos e ambientais podem até ser 
semelhantes, mas o ideal urbano sustentável é alterado de acordo com cada cultura. 
Desta forma, apesar de não haver um consenso na definição exata do termo 
sustentabilidade há uma vasta aceitação de que o que é dito sustentável busca um 
equilíbrio entre as necessidades humanas e o meio ambiente. A manutenção de 
recursos para as futuras gerações e a justiça social também são questões aceitas 
consensualmente no ideal de sustentabilidade urbana. 
 Muitos conceitos recebem dimensões diferenciadas de acordo com cada ator 
social como, por exemplo, o termo “Liberdade”, que não significa a mesma coisa para 
brasileiros e cubanos, por exemplo. Também o termo sustentabilidade ganha 
conotações diferenciadas, mas alguns parâmetros são coerentes com todos os 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
discursos. Fazendo uma comparação, quanto se discute Liberdade, independente da 
cultura ou classe social, todos associam a outras expressões como livre, acessível, livre-
arbítrio, entre outras. Também quando se discute sustentabilidade alguns termos são 
facilmente associados como natureza, equilíbrio, sustento e manutenção da vida. 
A partir daí, é defendido nessa tese que a sustentabilidade é um princípio 
norteador capaz de contribuir para um desenvolvimento centrado no ser humano e no 
meio ambiente. A busca por um equilíbrio entre o crescimento econômico e a justiça 
social pode indicar caminhos para a sustentabilidade urbana. Além disso, a interação 
entre as questões locais e globais e a preocupação com as gerações futuras contribui 
para o ideal de sustentabilidade. Acredita-se na possibilidade de um desenvolvimento 
social e humano com capacidade de suporte ambiental, gerando cidades produtoras 
com atividades que podem ser acessadas por todos como uma forma de valorização 
do espaço incorporando os elementos naturais e sociais. 
 De todos os referenciais teóricos apresentados o principal autor é Wolfgang 
Sachs (1999) com sua definição da visão ‘doméstica’ sobre o DS. Para a continuidade 
da tese reafirmamos que a visão local é de grande valia para realizar mudanças globais. 
Para esse texto a perspectiva ‘doméstica’ de W. Sachs é a que melhor representa a 
visão de uma mudança de paradigma econômico e social. Um dos desafios da 
sustentabilidade é a conscientização de que esta mudança é um processo a ser 
percorrido e não algo definitivo a ser alcançado. A busca por uma conceituação do que 
vem a ser sustentável traz consigo uma série de proposições e estratégias que buscam 
atuar em níveis tanto locais quanto globais. 
Pensar novas possibilidades e refletir sobre as reais necessidades do ser 
humano pode ser um caminho para se definir sustentabilidade e desenvolvimento. A 
partir de princípios racionais e éticos é possível convencer governos e cidadãos a 
pensar, refletir, agir e investir sobre uma nova possibilidade de conduzir suas ações. 
O desenvolvimento sustentável é um processo de aprendizagem social de longo 
prazo, que se caracteriza, portanto, não como um estado fixo de harmonia, mas sim 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
como um processo de mudanças. O conceito é amplo e sempre poderá ser apropriado 
por diferentes atores. No entanto, as diversas discussões sobre o termo 
“desenvolvimento sustentável” abrem à questão de que é possível desenvolver sem 
destruir o meio ambiente. O DS pode ser descrito como uma consequência do 
desenvolvimento social, econômico e da preservação ambiental. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CAPÍTULO 3 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
3. CIDADE E MEIO AMBIENTE 
 Para discorrer sobre a relação entre a cidade e o meio ambiente é necessário, 
primeiramente, esclarecer lacunas sobre em que momento o meio ambiente natural 
ganhou importância para os planejadores urbanos e para a sociedade em geral e sobre 
a formação de cidades. 
Como a cidade está presente em toda a discussão da tese, sua definição e 
estudo apresentam-se tão importantes quanto o estudo do meio ambiente, e 
principalmente, a interação entre a urbe e o meio natural. A origem das cidades não 
pode ser facilmente definida e a atual complexidade da urbe não permite um estudo 
linear. Permitiu-se, nessa tese, discutir a relação da cidade com o meio ambiente de 
uma forma mais ampla e multidisciplinar. Apesar das relações histórias de formação de 
cidades não ser o foco desta tese a contextualização e a definição de cidade contribui 
para uma maior compreensão dos problemas urbanos atuais. 
Para Lewis Mumford “as origens das cidades são obscuras; enterrada ou 
irrecuperavelmente apagada uma grande parte de seu passado, e são difíceis de pesar 
suas perspectivas futuras” (MUMFORD, 1998). O desenvolvimento cultural e social da 
humanidade é em grande parte a história da cidade. De certa forma, a cidade é o 
reflexo da sociedade e em praticamente todos os continentes foi a forma como a 
humanidade encontrou de facilitar e preservar sua sobrevivência e se organizar. Na 
sua obra A Política, Aristóteles apresenta a busca da comunidade para um bem: 
“Vemos que toda a cidade é uma espécie de comunidade, e toda comunidade se forma 
com vistas a algum bem comum...” e conclui que o mais importante de todos os bens é 
a cidade, que por sua vez é uma comunidade política.8 
As primeiras aglomerações sedentárias, a partir de novos processos técnicos, 
passaram a produzir excedentes que começaram a ser trocados. Nesse momento, 
 
8
ARISTÓTELES, A Política, Livro I, Capítulo I (Edição em português de 1965). 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
iniciou-se um novo sistema de repartição, comercialização e distribuição de produtos 
que culminou nas primeiras constituições de cidades. 
Posteriormente a cidade tornou-se o local de residência temporária dos 
proprietários rurais e local de serviços, como destaca Castells: 
“Elas são os centros religiosos, administrativos e políticos, expressão 
espacial de uma complexidade social determinada pelo processo de 
apropriação e de reinvestimento do produto do trabalho. Trata-se de um 
novo sistema de organização social, mas que não é separado do rural, 
nem posterior a ele, porque eles são estreitamente ligados no seio do 
processo de produção de formas sociais, mesmo se, do ponto de vista 
dessas formas, se esteja em presença de duas situações diferentes 
(CASTELLS, 2000, p.499)”. 
Muitas cidades ainda no início do século I d.C. já possuíam uma considerável 
densidade demográfica, como é o caso de Roma que chegou a possuir uma população 
de cerca de um milhão de habitantes por volta do ano 200 d.C. Muitas civilizações 
eram bastante estruturadas com centros cívicos e religiosos. 
No entanto, somente nos séculos XVIII e XIX o crescimento populacional das 
cidades começou a se destacar e ganhar maior notoriedade. Foi no século XIX que se 
iniciou a Revolução Industrial com um crescimento populacional urbano exacerbado. 
Muitas áreas industriais passaram a aglomerar pessoas em busca de trabalho. Neste 
contexto os problemas e possíveis soluções urbanas contribuíram para a formação do 
urbanismo como disciplina. 
O advento das grandes Guerras também influenciou na formação de novas 
cidades e no crescimento das existentes. A cidade é descrita por Mumford como: 
“(...) uma estrutura especialmente equipada para armazenar e 
transmitiros bens da civilização e suficientemente condensada para 
admitir a quantidade máxima de facilidades num mínimo de espaço, 
mas também capaz de um alargamento estrutural que lhe permite 
encontrar um lugar que sirva de abrigo às necessidades mutáveis e as 
formas mais complexas de uma sociedade crescente e de sua herança 
social acumulada” (MUMFORD, 1998). 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
Destaca-se a ideia de que as necessidades são mutáveis e as sociedades cada 
vez mais crescentes e complexas. O tema do meio ambiente natural se mostra de 
suma importância para a cidade tal como se apresenta no contexto urbano atual. Nas 
primeiras formações urbanas as relações entre o meio natural e o urbano eram de 
hostilidade no sentido em que o ambiente natural era visto como uma área de risco e 
perigo. Nos dias atuais ainda existe uma grande hostilidade, mas agora os riscos e 
perigos são causados mais pelas cidades “invadindo” a natureza. 
A relação entre cidade e natureza é bastante discutida e um tema presente 
desde antes das polis gregas. Nas primeiras organizações urbanas até bem pouco 
tempo a relação do homem com a natureza era de hostilidade e sua principal missão 
era dominar e conquistar a natureza que era vista somente como selvagem e perigosa 
para a sociedade. 
No entanto, algumas sociedades já faziam experiências urbanas aproveitando e 
interagindo com a natureza como a cidade de Priene (BUTTI e PERLIN, 1980) que tinha 
o seu traçado pensado para usufruir de uma melhor ventilação e insolação. Mas foi 
somente no final do século XIX que muitos autores se voltaram para o tema da relação 
entre cidade e natureza e pensaram os seus ideais de cidades interagindo o meio 
ambiente natural com o urbano. Ebenezer Howard projetou a cidade-jardim como 
uma nova forma de interação entre a cidade e o campo. Uma das principais 
preocupações dos urbanistas dessa época era a de modificar a forma de vida nas 
cidades advinda da concentração populacional do período industrial. Desta forma, 
houve uma tentativa, por diversos autores, de reintroduzir a natureza no ambiente 
urbano e ampliar os recursos e equipamentos sociais na intenção de diminuir a 
segregação social. 
Outros urbanistas do início do século XX como Frank Lloyd Wright também 
pensaram na interação do meio ambiente natural com a cidade. Wright idealizou 
dissolver a cidade no campo com o seu projeto para a “Broadacre city”. Anos mais 
tarde, Le Corbusier pensou cidades inseridas dentro de parques naturais. No entanto, 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
todas essas idealizações de cidades lidavam com a natureza como bem a ser usufruído 
pelo homem. Somente mais recentemente, a ideia de que a natureza deve ser 
preservada e protegida passou a fazer parte dos mais novos ideários urbanos. 
Benévolo (2005) ressalta que “a cidade, em seu conjunto, forma um organismo 
artificial inserido no ambiente natural, e ligado a este ambiente por uma relação 
delicada (...). A medida deste equilíbrio entre natureza e arte dá a cada cidade um 
caráter individual e reconhecível”. 
O debate ambiental alcançou as cidades e mais recentemente percebeu-se a 
necessidade de inserir o tema da sustentabilidade urbana. As cidades são terrenos 
férteis para as discussões acerca da sustentabilidade, pois são nas aglomerações 
urbanas que se revelam mais facilmente os problemas ambientais. 
 
3.1. Formação de cidades 
 É bastante paradoxal que o habitat de praticamente dois terços da 
humanidade, as próprias cidades, seja o maior responsável pela destruição do meio 
ambiente e pelas ameaças da sobrevivência do próprio homem. Pensar em cidades 
sustentáveis é de certa forma refletir sobre a possibilidade de um futuro adequado 
para as gerações que ainda virão. 
 É aceita pela maioria dos estudiosos atuais a ideia de que é preciso repensar as 
cidades com novas formas de planejamento urbano capazes de suprir as necessidades 
da sociedade sem agredir, ou pelo menos agredindo menos o meio ambiente. Muitos 
urbanistas, sociólogos, planejadores e governos, apontam para os problemas da 
maioria das cidades atuais, principalmente as grandes cidades de países em 
desenvolvimento. A ideia de cidade sustentável apesar de ainda não estar definida já é 
um ideal para muitas sociedades. No entanto, a forma como esses novos 
planejamentos e projetos urbanos serão executados ainda é motivo de muita 
discussão entre os estudiosos e executores. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 Uma das principais discussões diz respeito a onde essas mudanças urbanas 
seriam feitas: em cidades já existentes e consolidadas ou em cidades em fase de 
crescimento ou ainda seria necessário criar novas cidades. 
 Independente de serem realizadas em cidades novas ou já existentes, durante 
toda a história os projetos urbanos “obedeceram” ou pelo menos foram influenciados 
por modelos que correspondiam às intenções de cada época. Nos estudos mais atuais 
a criação de modelos urbanos é bastante questionada por não atender às 
necessidades locais e forçar uma adaptação da sociedade que viverá naquele espaço. 
Desta forma, coloca-se em evidência que apesar de globalizado, o mundo ainda possui 
condições e necessidades variadas definidas principalmente pelas condições climáticas 
de cada lugar e variedade cultural. 
 No entanto, novos projetos urbanos, principalmente nos países desenvolvidos, 
normalmente influenciam a execução de outros em todo o mundo. Os ideais e a 
própria forma urbana pensada em uma cidade como Paris, por exemplo, influencia 
planejamentos e projetos que serão realizados em várias partes do mundo. 
Em toda a história, de forma constante, houve a necessidade de expansão ou 
formação de cidades. Muitos desses eventos urbanos aconteceram espontaneamente, 
sem a intervenção de técnicos ou especialistas. Vê-se nesses casos, que em sua 
maioria, são aglomerações - impulsionadas por algum fator (normalmente o 
econômico) - que se desenvolvem à medida que surgem as necessidades. Em grande 
parte, essas cidades não foram preparadas para se desenvolver gerando qualidade de 
vida. As cidades planejadas geralmente seguem um modelo pautado pelas convicções 
da época buscando atender às necessidades e superar as dificuldades encontradas por 
determinada sociedade. 
Diversos modelos urbanos criados para um determinado lugar foram 
executados ou influenciaram projetos em locais com condições completamente 
diferentes. Em cada época uma nova motivação levou à criação ou modificação de 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
cidades. Essas motivações foram políticas, sociais e principalmente econômicas, mas 
nos dias atuais uma das principais motivações, pelo menos nos discursos políticos, 
para a intervenção nas cidades existentes ou na criação de novas é a ambiental. 
 Desta forma, salienta-se nessa tese que da mesma forma que projetos urbanos 
pensados para determinadas sociedades influenciaram muitas outras, os novos 
projetos e planejamentos urbanos com enfoque ambiental podem influenciar projetos 
em todo o mundo. Sendo assim, o estudo desses projetos, mesmo considerando que 
nos dias atuais os planejadores não aceitam mais modelos de cidades, pode contribuir 
para que possíveis distorções e problemas de projeto não sejam replicados como 
carimbos em todo o mundo. 
 
3.1.1 Ideais urbanísticos anteriores 
Pensamentos urbanísticos de outro século ainda influenciam os projetos atuais 
como é o caso dos pensamentos de Howard com as Cidades Jardins que por sua vez, 
recebeu influência de pensadores do final do século XVIII e início do século XIX, como 
Robert Owen e Charles Fourrier. 
Planejadores de todo o mundo têm buscado soluçõespara melhorar e moldar o 
espaço urbano. Com esse intuito, no último século, alguns autores pensaram em ideias 
para a formação de novas cidades ou intervenções em cidades já existentes. Esses 
autores, apesar de bastante criticados no final do século passado, exerceram uma 
forte influência no planejamento e projeto urbano de cidades criadas ou ampliadas no 
século XX. Para Kevin Lynch o pensamento utópico tem alguns erros constantes como 
o erro de não considerar o processo de desenvolvimento econômico e partir de um 
sistema de valores excessivamente limitado e estático (LYNCH, 1981). No entanto, 
esses planos e projetos tiveram um papel importante no pensamento social e urbano e 
alguns trouxeram novos valores ou confirmaram valores da época. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
Para essa tese, destacam-se alguns desses planejadores, que realizaram projetos 
que foram colocados em prática ou não, mas que discutiram a forma física-espacial das 
cidades. Dentre eles, pode-se citar Ebenezer Howard, como um dos principais 
influenciadores de projetos urbanos do século XX. Também se destacam Arturo Soria y 
Mata, Le Corbusier, Tony Garnier, entre outros. 
Desde a Revolução Industrial, nos séculos XVIII e XIX, muitas cidades européias 
foram criadas ou impulsionadas pelas fábricas. As cidades industriais da Europa e 
algumas dos Estados Unidos receberam um grande contingente de pessoal em busca 
de trabalho. A falta de um planejamento fez com que muitas delas ficassem 
excessivamente povoadas e insalubres. 
No século XIX, os reformistas sociais começaram a reivindicar melhorias ao 
governo e sugerir novos planejamentos urbanos. A falta de habitabilidade e das 
condições mínimas de saúde e vivência urbana, fez com que alguns conceitos fossem 
revistos. Seja por motivação social, política ou ambiental, surgiram ideias e concepções 
de cidade que buscaram de alguma forma amenizar as diferenças sociais da grande 
maioria da sociedade europeia. 
A Revolução Industrial trouxe um acelerado crescimento econômico e com ele, 
várias alterações na sociedade. O crescimento exacerbado das cidades depois da 
segunda metade do século XVIII e no início do século XIX, pela eclosão da Revolução 
Industrial, fez com os problemas urbanos também crescessem rapidamente 
(BENEVOLO, 2003). Os problemas foram agravados pela maior densidade demográfica 
sem infraestruturas que suprissem as necessidades da população; assim o centro 
urbano tornou-se cada vez mais insalubre. Por reação, “nascem algumas propostas 
revolucionárias, políticas e urbanísticas, para mudar ao mesmo tempo a organização 
social e a organização dos conjuntos habitacionais” (BENÉVOLO, 2005). O modo de 
trabalho, de moradia e das relações sociais e com o meio foram modificados e ainda 
em meados do século XIX alguns estudiosos começaram a pensar essa sociedade e a 
cidade onde agora ela passava a habitar. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
Diversos industriais e estudiosos da época como Robert Owen (1771-1858), 
Charles Fourier (1772–1837) e Jean-Baptista Godin (1817-1888), apresentaram 
propostas que contrapõem com a liberdade individual pregada pela Revolução 
Industrial, com a intenção de resolver publicamente os problemas da vida familiar e 
social (BENÉVOLO, 2005) Esses homens buscavam de alguma forma amenizar as 
diferenças sociais e a pobreza da grande maioria da sociedade europeia. 
Françoise Choay (1979) classifica-os como urbanistas utópicos por tentarem 
mudar uma comunidade inteira através de pequenas intervenções e ainda por 
acharem que suas ideias seriam aceitas como verdade e atenderiam às necessidades 
da época. A utopia nesse contexto é vista como algo idealizado, mas inacessível e não 
realizável. 
No fim do século XIX entram em crise tanto os movimentos de esquerda 
quanto os regimes liberais. Os socialistas científicos, Karl Marx e Friedrich Engels, por 
exemplo, criticam os socialistas anteriores (Owen e Fourier). Esses dois estudiosos, 
além de George Simmel e Robert E. Park, desenvolveram estudos sobre a sociedade 
humana e como o espaço a influencia. Simmel disserta sobre a metrópole e a vida 
mental do homem mostrando a interferência do lugar nas relações sociais. Park 
relaciona o homem com a natureza através do que ele chama de “Ecologia Humana”. 
“A Ecologia Humana é uma tentativa de aplicar às inter-relações dos seres humanos, 
um tipo de análise aplicado anteriormente a plantas e animais.” (CHOAY, 1979). 
A tendência em valorizar o “verde” com a intenção de melhorar a saúde se 
refletiu nas atuações urbanísticas e arquitetônicas da época. Tal fato é visível nas 
Cidades Jardins de Ebenezer Howard, com conceitos higienistas (Figura 16 e Figura 17), 
como também na Reforma e Embelezamento da Cidade de Barcelona do Engenheiro 
Ildefons Cerdà em 1859. 
Esses pensamentos higienistas trouxeram consigo novos conceitos que foram 
evidenciados no movimento das “city beautiful” de Daniel Burham, ou nas “New 
Towns for América”, de Clarence Stein. Alguns elementos urbanos foram inspirados 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
nas cidades-jardins como as moradias e jardins individuais e as ruas em “cul-de-sac” 
com separação de pedestres e veículos. Na mesma circunstância das cidades jardins, 
outros governantes e pensadores da época reviam as cidades pós-liberais. Paris foi a 
primeira a sofrer mudanças radicais em sua estrutura urbana (BENÉVOLO, 2005). 
Os exemplos citados anteriormente foram fruto de uma visão higienista que 
primava pela saúde humana. De certa forma, mesmo com autoritarismo, essas cidades 
serviram de “mostruário” para diversas outras e contribuíram para a formação da 
consciência ambiental voltada para a população. Mesmo com a formulação de novas 
ideias, a natureza ainda era vista como um recurso à mercê das necessidades do 
homem e inesgotável, mas já era protegida e utilizada visando aos benefícios para a 
saúde mental e física de quem a usufruía (HALL, 2004). 
Outro projeto que, apesar de não ter sido executado com todos os seus ideais, 
também influenciou propostas urbanas para diversas partes do mundo foi o da 
“Cidade Linear” de Arturo Soria y Mata. 
Arturo Soria y Mata, engenheiro e político espanhol, propôs seu projeto em 1882 
(FEFERMAN, 2007). Sua proposta era uma resposta encontrada por ele para solucionar 
problemas das poluídas cidades industriais. Seu projeto foi bastante criticado 
posteriormente, mas teve sua importância para o pensamento urbanístico por 
salientar uma resposta para o problema de integração dos sistemas modernos de 
transporte ao projeto urbano. 
A Cidade Linear seria composta por uma via de 500 m de largura e do 
comprimento que se desejasse, onde as extremidades dessa rua seriam grandes 
cidades já existentes. A rua seria formada por uma via central onde estariam locadas 
as linhas de trem ou bondes e uma rodovia principal, por onde passariam os 
condutores de água, eletricidade, gás e esgoto. Seguindo esta via central, estariam os 
edifícios funcionais, como hospitais, escolas, delegacias, prefeitura, etc. Ladeando a 
via, seriam propostas zonas residenciais, com vias transversais conectando a via 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
central a uma via secundária. A partir desta via secundária estariam as fazendas e 
campos (Figura 10). 
 
Figura 10: Esquema de Cidade 
Linear de Arturo Soria y Mata. 
Fonte: Feferman, 2007. 
 
Soria y Mata chegou a começar a construir uma linha férrea fora do centro de 
Madri e projetou uma cidade linear de 55 km, mas a companhia responsável pela obra 
faliu e somente um quarto do projeto foi executado. 
Apesar de muito questionado, principalmente por apresentar um custooneroso, 
o projeto foi inspiração para planejamentos urbanos executados, como o projeto de 
Nikolaj Aleksandrovic Miljutin em 1930 para a cidade linear industrial na Rússia para a 
fábrica de automóveis de Nizhni Novgorod (LYNCH, 1981). 
Também no início do século XX, pensadores como William Morris, Ebenezer 
Howard e Frank Lloyd Wright, propõem esquemas de cidades e planos para serem 
realisados. Morris foi o único que pensou simultaneamente um sistema físico e um 
sistema social, provavelmente por ser um socialista. Tanto Howard quanto Wright 
desenvolveram planos para cidades reduzidas, equilibradas e ordenadas. Wright 
apresenta um modelo de cidade para Broadacre City, em 1934, com pequenas granjas 
distribuídas de forma dispersa, com um parque industrial linear seguindo as principais 
estradas e com o entorno natural preservado. 
Howard propõe o esquema de Cidade-Jardim (HOWARD, 1996, 1°ed.1904) 
(Figura 11 e Figura 12). Esse modelo urbano foi um dos mais influenciadores de 
projetos posteriores e, até hoje, é utilizado como inspiração, principalmente para o 
projeto de condomínios fechados e bairros. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 
 
Figura 11 e Figura 12: Diagramas de Howard da ‘Cidade Jardim’. 
Fonte: HOWARD, 1996, 1°ed.1904 
 
O projeto urbano da Cidade-Jardim previa o número de cerca de trinta a 
quarenta mil habitantes por cidade. Esta seria limitada por um cinturão verde para 
impedir que outras aglomerações vizinhas se agrupassem. 
O diferencial do modelo de Howard estava em considerar a topografia, a 
incidência do sol, do vento dominante e o conforto ao indivíduo. Além de valorizar a 
rede de cidades e um sistema viário eficiente capaz de interligar esses espaços. Tentou 
mesclar a vida urbana com a vida no campo, criando projetos que incorporavam 
grandes espaços verdes com as vantagens que uma cidade pode oferecer: como 
acesso a bens de consumo e industriais, convívio em centros comunitários e 
habitações saudáveis. 
Muitas décadas depois o projeto foi bastante criticado, principalmente por suas 
ideias influenciarem a formação de subúrbios-jardins segregadores e elitistas (JACOBS, 
2000). No entanto, teve grande aceitação na época e diversos projetos realizados a 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
partir de seu modelo como Letchworth e Welwyn na Inglaterra, além de influências no 
Brasil, Estados Unidos, França, entre outros. 
Praticamente na mesma época que Ebenezer Howard propunha a “Cidade 
Jardim”, o estudante francês Tony Garnier apresentava, em 1901, o plano para uma 
cidade industrial hipotética (GARNIER, 1917 In: VASCONCELLOS, 1999). Em 1904 o 
projeto foi apresentado de forma detalhada e em 1917 foi publicado no livro “Étude 
pour la constrution dês Villes”. O plano detalhado apresenta um centro hospitalar, uma 
represa para fornecer energia, zonas industriais, abatedouros, estação de tratamento 
de esgoto, cemitério, etc. Além de todo o planejamento de transporte ferroviário e 
rodoviário. 
Esse projeto antecipou os conceitos posteriormente utilizados pelos urbanistas 
modernos: Habitar, Trabalhar, Lazer e Circular. Utilizava também o conceito de 
zoneamento que influenciou amplamente os projetos modernos tanto na França 
quanto em outros países, incluindo o Brasil. 
Ainda no século XX as formações de novas cidades e as reformas de locais já 
existentes levaram ao desenvolvimento de diversos projetos urbanos que 
influenciaram cidades em todo o mundo. Um exemplo são as ideias de Le Corbusier 
que fazia parte de um movimento moderno que defendia a padronização da 
sociedade. Mesmo com sua defesa radical do papel social da arquitetura e do 
urbanismo, o movimento moderno considerou a natureza como apenas uma 
ambientação para a urbanização e as zonas verdes como uma das funções que 
deveriam proporcionar à cidade o bem estar de seus habitantes. 
Não desconsiderando seus valores arquitetônicos e urbanísticos, isso pode ser 
visto no plano urbano da “Ville Radieuse” de Le Corbusier, na qual a cidade é um 
imenso parque em que os edifícios se dispõem em meio a gramados verdes e onde os 
elementos essenciais são o céu, as árvores, a vista e o sol (Figura 13). Sua influência é 
visível na concepção de Brasília de Lúcio Costa e até mesmo em projetos mais recentes 
como o próprio bairro da Barra da Tijuca no Rio de Janeiro. Os interesses mais 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
relevantes do movimento moderno estão na iluminação e na ventilação natural, mas 
não se refletia sobre o esgotamento dos recursos. 
 
 
Figura 13: Ville Radieuse - Le Corbusier. 
Fonte - www. kosmograph.com 
 
Figura 14: Desenho de Le Corbusier da ‘Cidade 
Contemporânea’. 
Fonte: LE CORBUSIER, 1958 
 
Em 1922 é exposto por Charles-Édouard Jeanneret-Gris (Le Corbusier), no Salão 
de Outono (Paris) (LE CORBUSIER, 1958), o projeto de uma cidade de três milhões de 
habitantes (Figura 14). Seu projeto reconhece a cidade grande como polo de atração e 
difusão da informação e fica conhecido como “Cidade Contemporânea”. 
Ainda no final do século XX, foram testadas nos projetos de cidades e bairros 
novas tecnologias capazes de aplicar e explorar a energia eólica, solar e outras fontes 
renováveis. Acreditava-se que a ciência e a tecnologia podiam suprir qualquer 
necessidade futura. A natureza passou a ser estudada para ser utilizada com mais 
eficiência em benefício do homem. 
Em 1933 a Carta de Atenas é redigida como código de princípios gerais que 
propõem a implementação de um zoneamento urbano que prevê quatro funções 
principais: Habitar, Trabalhar, Circular e Recrear. 
A ideia de Le Corbusier é colocada em prática na cidade de Marselha na França, 
após a Segunda Guerra Mundial, e inspira diversos outros urbanistas em todo o 
mundo, incluindo o Brasil. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
Como todos os modelos urbanos, a proposta de Le Corbusier também foi 
bastante questionada, principalmente nos dias atuais, por resultar em projetos 
urbanos que não favorecem o convívio social e o uso das ruas por pedestres, além de 
proporcionar uma excessiva necessidade do automóvel. 
Uma das principais características dos projetos urbanos modernistas era o 
zoneamento. De uma forma geral a cidade era dividida em zonas de atividades e usos 
onde a moradia é distanciada da área de trabalho. Nos estudos atuais esse 
zoneamento é visto como prejudicial à vitalidade e à diversidade das cidades e ainda 
como um agravante ao aumento da contaminação do ar, devido aos maiores 
deslocamentos de veículos (ROGERS, 2000). 
Com a crise do petróleo, nos anos setenta, novas investigações foram feitas 
sobre as fontes de energia fósseis e as renováveis. Diversos estudiosos começaram a 
questionar até que ponto o sistema econômico baseado no petróleo iria permanecer 
estável. Com isso, novas ideias no urbanismo começaram a ser discutidas a partir do 
ideal de uma cidade com menor dependência do automóvel. 
Já nos Estados Unidos, desenvolveu-se o “Community Centre Movement” que 
apresentava como objetivo intensificar a vida cívica através de discussões e ações 
corporativas. Clarence Perry, em 1910 desenvolveu em sua monografia um projeto 
urbano que propiciava esses locais de encontro. Seu projeto se intitulava “The 
Neighborhood Unit: a Scheme of Arrangement for the Family Life Community”. 
A Unidade de Vizinhança estimava uma população de 5000 habitantes por 
unidade e seus limites seriam cercados por vias de passagem. Internamente à unidade, 
seriam dispostos parques e playgrounds, habitações, centro comunitário e uma escola 
primária. Nas extremidades seriam implantadas as lojas e apartamentos (Figura 15). 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discursoda Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 
Figura 15: Projeto de uma Unidade de Vizinhança. 
Fonte: New York Regional Survey, Vol 7. 1929. 
In:wikipedia.org 
 
Esse modelo foi criticado, anos mais tarde, por criar subúrbios e cidades 
esparsas, mas influenciou projetos de diversos bairros, e ainda influencia até hoje, 
principalmente os projetos de condomínios fechados. 
Ainda no início do século XX, alguns urbanistas viam a técnica como solução de 
todos os problemas urbanos. Dentre eles, Eugène Hénard (1849-1923) se destaca com 
projetos visionários e que influenciaram diversos outros trabalhos. De acordo com 
Choay (2003) esses urbanistas fazem parte de um grupo por ela chamado de 
tecnopatia9, além de outros urbanistas como Colim-Buchanan, Iannes Xenakis e 
Antonio Sant´Elia. 
Um dos movimentos mais recentes que defende a ideia de menos automóveis e 
consequentemente menos utilização de energia fóssil é o “New Urbanism” (Novo 
Urbanismo), criado nos Estados Unidos, em resposta ao crescimento caótico dos 
subúrbios americanos. Os idealizadores do “New Urbanism” defendem a formação de 
comunidades menores e mais densas que os subúrbios tradicionais, com limites 
definidos, e com um número variado de funções entre espaços de lazer, comércio, 
 
9
Termo tratado por Choay (2003) para definir a exagerada ênfase dada às possibilidades tecnológicas 
para a resolução dos problemas urbanos. 
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institucionais e serviços juntamente com áreas residenciais de vários tipos 
arquitetônicos. 
O Novo Urbanismo tem como meta não só as modificações físicas, mas 
também as transformações políticas nos Estados Unidos. Já existem várias 
comunidades criadas baseadas nesse novo modelo como Seaside na Flórida, desde 
1981, Suisun City e The Crossing, na Califórnia, projetadas nos anos noventa. Uma 
grande dificuldade para as propostas do Novo Urbanismo é a limitação econômica. 
Esses projetos requerem um alto investimento que muitas vezes não tem o 
financiamento do governo, pelo qual essas comunidades são alternativas para apenas 
uma parcela da sociedade que pode pagar para usufruir desses empreendimentos. 
Um dos primeiros exemplos é a cidade Celebration, na Flórida, desenvolvida 
pelo grupo Walt Disney que foi um dos primeiros exemplos de cidade privada para a 
elite americana, construída como objeto de consumo. As concepções do Novo 
Urbanismo são vistas na cidade através das edificações residenciais próximas umas das 
outras para melhor promover um sentido de comunidade. A filosofia por trás da 
cidade é que ela deve ser um lugar amigável e com forte senso de vizinhança. É uma 
espécie de parque temático residencial. Algumas cidades privadas, e principalmente, 
bairros privados, foram criados no último século em todo o mundo. Por motivos 
diversos, tendo como principais enfoques a segurança e o bem-estar, essas cidades 
conquistaram compradores que podem pagar pelos seus benefícios, mas nenhuma 
dessas cidades é produtora, e normalmente, o consumo é exacerbado. 
Atualmente outro movimento está ganhando espaço nas discussões urbanas, 
que são os projetos para cidades sustentáveis. Da mesma forma que todos os 
planejamentos e projetos citados anteriormente influenciaram todo o mundo, esses 
novos pensamentos também podem modificar a forma de desenhar e planejar as 
cidades. 
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Independente de terem sido executados ou não, esses projetos tiveram uma 
grande relevância no urbanismo. Além disso, os mesmos foram e ainda são fonte de 
influência para várias intervenções urbanas. 
Todos esses modelos tiveram sua importância na conformação do pensamento 
urbanístico, no entanto, foram posteriormente analisados e criticados por autores 
diversos como Jane Jacobs, Kevin Lynch e Gordon Cullen. Apesar de criticados 
posteriormente, esses modelos influenciaram a formação de cidades em todo mundo 
que hoje convivem tanto com os problemas quanto com as soluções urbanas criadas 
pelos seus planejadores. O que se destaca neste trabalho é esse novo ideal de cidade 
que está sendo discutido em todo mundo. Nas últimas décadas do século XX e início do 
atual século, questões ambientais começaram a ganhar espaço nas discussões políticas 
e econômicas. Apesar de, já anteriormente, projetos de “Cidades Jardim” e “Unidades 
de Vizinhança” apresentarem de forma clara a importância da inserção da natureza no 
ambiente urbano, somente nos últimos anos, questões ambientais mais significativas 
estão sendo pensadas para os projetos urbanos. 
Diferentemente dos modelos do século XIX e XX, os projetos atuais não são 
mais copiados em diversos lugares, mas seus ideais e paradigmas influenciam novas 
propostas urbanas. Desta forma, o estudo dos projetos que se autodenominam 
sustentáveis pode questionar tais propostas antes mesmo delas serem executadas ou 
replicadas. 
Diversos autores criticam a formação de cidades ou a intervenção em cidades 
existentes a partir de modelos preestabelecidos. Apesar das críticas terem sido feitas 
às propostas de urbanistas do século XIX e XX, elas também atingem em parte às novas 
propostas para as cidades sustentáveis. 
Jane Jacobs (2009), quando critica os subúrbios norte-americanos, aponta 
alguns problemas criados por esse tipo de formação urbana. Para ela os projetos de 
cidades americanas que separam o centro comercial das áreas de moradia forçam o 
aumento do uso do automóvel, e o consequente aumento da liberação de CO2. 
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Também expõem problemas sociais, pois nesses subúrbios residem pessoas 
normalmente de classe média alta e classe alta e áreas menos privilegiadas são 
ocupadas por pessoas de poder aquisitivo mais baixo. Essa segregação traz consigo 
também uma monotonia cultural. 
Muitos desses bairros se inspiraram nos modelos ainda pensados no início do 
século XIX como os bairros criados a partir do movimento “New Towns of America”. 
Isso mostra que ideias urbanas apresentadas, muitas vezes, somente em teoria podem 
modificar centenas de cidades e bairros. A crítica é uma forma de avaliação de uma 
ideia e muitas foram às críticas sobre as ideias urbanas do século XIX e XX, mas apesar 
disso, muitas cidades foram criadas ou remodeladas baseadas em algum desses ideais. 
No entanto, o movimento do New Urbanism também recebe críticas de suas 
práticas de projeto e princípios. A primeira delas é que a densidade urbana defendida 
pelos urbanistas do movimento leva a uma falta de privacidade para os moradores. 
Além disso, essa compactação excessiva das cidades poderia não ser adequada para 
países tropicais como o Brasil por alterarem o micro-clima (BARBOSA, DRACH, 
CORBELLA, 2010). A segunda crítica é que muitas dessas cidades são exemplos isolados 
que se diferenciam dos demais exemplos urbanos americanos. E por se tornarem 
locais muito caros e não possuírem nenhum incentivo à diversidade de classes sociais 
atraem uma população rica diminuindo a diversidade cultural. 
Tanto as cidades tradicionais quanto a moderna ou a contemporânea 
receberam e ainda irão receber diversas críticas e avaliações de ocupação. 
Independente do período histórico, os projetos de formação de cidades e as 
intervenções urbanas são relevantes para os novos projetos que virão. 
As novas propostas de projetos urbanos sustentáveis, na maioria das vezes, se 
apresentam baseadas em princípios que se repetem em cidades diferentes. Mesmo os 
princípios urbanos são transmitidos por diversos países e replicados por muitos 
urbanistas. Inicialmente, isso não é um problema, desde que esses princípios sejam 
avaliados previamente considerandocada local e cultura. É importante salientar que 
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os projetos urbanos serão sempre influenciados por outros anteriores, independente 
de serem pequenas intervenções ou a formação de cidades inteiras. A 
responsabilidade de escolha na maioria dos casos cabe aos urbanistas que podem 
avaliar tais princípios e pensar sempre no microclima local, nas questões sociais e 
econômicas e principalmente nos anseios e cultura da população local. 
 
 3.1.2. Cidades Contemporâneas 
As cidades atuais assumem diferentes papéis e denominações como as cidades 
globais, as cidades chip ou simplesmente, a cidade genérica, como a define Koolhas 
(1995). A cidade global na visão de Zaída Muxí (2004) “es una ciudad virtual en tanto 
que se constituye a partir de áreas separadas en el espacio físico pero unidas en el 
espacio de la comunicación y los flujos”. A cidade chip é um lugar cuja relação espaço 
urbano e espaços eletrônicos resultam em espaços irregulares, descentralizados e sem 
identificação (Vázquez, 2004). A cidade genérica, segundo Koolhas (1995), “não é nada 
além de um reflexo da necessidade e capacidade presentes. É igualmente estimulante 
e desestimulante em qualquer lugar. É ‘superficial’ – como um estúdio hollywoodiano, 
pode produzir uma nova identidade a cada manhã de segunda-feira.” A 
instantaneidade torna-se o sistema neural das cidades, onde o caráter eletrônico 
manipula a produção do espaço e, muitas vezes, pode privar o indivíduo da noção de 
lugar. 
Segundo Bernardo Secchi, a cidade contemporânea se distancia muito da 
cidade moderna apesar de ainda estarem profundamente ligadas. As características 
das cidades contemporâneas não seguem um padrão em todo o mundo ocidental 
como o que ocorria muitas vezes com as cidades modernas que apresentavam temas, 
problemas e soluções recorrentes em várias delas. Para urbanistas, sociólogos e 
antropólogos, a cidade contemporânea não é simples de ser descrita muito menos 
compreendida. Alguns termos são utilizados para descrever esses ambientes, mas 
geralmente também são dotados de significados múltiplos como fragmentada, 
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heterogênia, caótica, descontínua, etc. (SECCHI, 2006). A grande maioria dos estudos e 
denominações é feita para cidades grandes onde as características comuns são mais 
visíveis e mais fáceis de serem identificadas. 
As cidades atuais não apresentam padrões facilmente reconhecíveis e muitas 
vezes são vistas como o lugar da diferença que junta todas as classes e credos que 
convivem em um mesmo ambiente. Essas diferenças são reflexos da sociedade 
contemporânea que não tem problema em mostrar suas diversas faces. O ser humano 
sempre teve suas diferenças, mas nos séculos anteriores, na maioria das vezes, elas 
eram minimizadas ou reprimidas por condutas sociais rígidas o que também se refletia 
no espaço urbano. 
Nos dias atuais muitos até procuram se diferenciar para se auto afirmar, mas a 
diferença ainda é reprimida socialmente. A individualidade também é uma 
característica marcante dessa sociedade e isso é visível nas cidades quando os espaços 
também são individualizados. Muitas áreas urbanas são restritas a determinadas 
pessoas ou por controles rígidos de segurança ou mesmo por barreiras invisíveis. Essas 
barreiras podem ser sociais, culturais ou econômicas. 
A diversificação e a efemeridade das cidades também trazem modificações 
para o meio urbano. Muitas áreas recebem usos diversificados quase que a cada 
momento. Um mesmo espaço é usado como feira, como área de circulação e como 
espaço cultural quase que ao mesmo tempo. No entanto, enquanto que a efemeridade 
e o uso intenso dos espaços é uma realidade contemporânea, a obsolescência e a 
desativação também são muito comuns. Bairros que antes eram regiões 
movimentadas e ricas, hoje passam por completo abandono público. 
Muitas cidades atuais estão perdendo a vitalidade em seus centros urbanos 
comerciais, isso demonstra a fragilidade e muitas vezes a ineficiência do modelo de 
cidade “zonificada” ainda das cidades modernas, onde cada função é exercida em uma 
área pré-definida da mesma. Este modelo tende a simplificar as questões urbanas e 
não tratá-las em toda a sua complexidade. Sendo a cidade extremamente dinâmica e 
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mutável dificilmente um planejamento atenderia todas as suas dimensões, mas as 
cidades sustentáveis colocam como premissa a junção de funções e usos mistos tanto 
de áreas urbanas como de arquiteturas. Um lugar que é incentivado e utilizado em 
diferentes horários do dia por pessoas com ocupações variadas tende a ser mais bem 
cuidado e apresentar uma maior segurança. 
Atualmente, é reconhecido que um dos principais entraves causadores de 
poluição das cidades é o automóvel. Grande parte das metrópoles, principalmente as 
de países em desenvolvimento, como as latino-americanas, não possui um adequado 
sistema de transporte coletivo e público. Desta forma, o tráfego de veículos individuais 
polui cada vez mais a atmosfera, além dos transtornos causados pelos 
engarrafamentos e o maior número de acidentes. Também se vê um planejamento 
que prioriza transporte individual, diminuindo a qualidade dos espaços públicos e 
fomentando cada vez mais a expansão urbana. O automóvel muitas vezes é um dos 
principais objetos de desejos, pois é colocado pela indústria como bem necessário que 
demonstra “status”. 
A variedade cultural, os espaços públicos de qualidade, as áreas verdes 
protegidas, a possibilidade de deslocamento sem gastos de energia não renováveis, o 
uso de novas tecnologias que permitam o reaproveitamento de recursos naturais e o 
menor consumo de energia, e os tratamentos de resíduos são questões que podem 
melhorar significativamente a qualidade do lugar, e consequentemente, a vida de cada 
indivíduo e sua sociedade como um todo. Toda e qualquer intervenção ou projeto 
urbano atua diretamente tanto em questões espaciais quanto em questões políticas e 
sociais. 
Uma constante em grande parte das cidades contemporâneas é a 
insustentabilidade das mesmas, principalmente das cidades latino-americanas atuais. 
Muitas das características que definem a insustentabilidade urbana são apresentadas 
por Neira Alva (1998). Diversos problemas atuais prejudicam e até impedem o 
desenvolvimento sustentável, como o alto índice das atividades potencialmente 
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poluidoras, como indústrias e meios de transporte; a deficiência de equipamentos 
urbanos e serviços; a falta de coleta e tratamento adequado do esgoto doméstico e 
dos resíduos sólidos e a violência que atinge de forma mais intensa a população de 
baixa renda. 
Com o acelerado crescimento populacional, principalmente nas cidades de países 
subdesenvolvidos, os problemas ambientais e sociais se multiplicam, enfatizando uma 
reflexão sobre os sistemas sociais, de valores e dos modos de produção que regem a 
economia e a sociedade atual. A ONU alerta que em 2050 serão mais de 4,5 bilhões de 
pessoas vivendo em cidades chegando a um percentual de 65% da população mundial. 
Desta forma, a cidade é compreendida como uma realidade, mas que deve ser 
planejada e limitada. 
A cidade não pode ser entendida apenas como um lugar que concentra pessoas 
e atividades, mas como um espaço simbólico de integração cultural, da identidade 
coletiva, e que possui valor local e global. Estas premissas são motivações importantes 
para a elaboração dos planos estratégicos urbanos, pois as cidades dão respostas aos 
desafios econômicos, políticos e sociais impostos por esta nova ordem. 
 
3.1.3. A formaçãode novas cidades ou a intervenção em cidades já existentes 
 Os projetos urbanos que se autodenominam sustentáveis ou ambientais muito 
provavelmente já estão influenciando diversas intervenções em todo o mundo. A ideia, 
muitas vezes, tem um poder maior do que o próprio projeto executado. Isso se deve 
ao fato de que a pura idealização, na maioria dos casos, tem suas falhas amenizadas 
pela forma como a ideia é apresentada. 
 O que se discute nesse tópico é a até que ponto uma cidade precisa ser criada 
do zero para atender aos indicativos do projeto ambiental ou sustentável. Os três 
exemplos que serão apresentados na tese são exemplos de cidades criadas em um 
terreno que antes não havia nem sequer uma pequena aglomeração urbana. Esse tipo 
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de exemplo realmente facilita a implantação de novas ideias visto que não é preciso 
destruir algo existente nem convencer a população local de que aquele projeto irá 
atendê-la. Apesar de um dos exemplos (Nuevo Juan del Grijalva) ter tido a participação 
da população que foi habitá-la, a maioria das cidades formadas por empresas ou 
governos não recebem essa influência da sociedade, pois ainda não há definição de 
quem habitará aquele local. 
Normalmente, a cidade é criada e projetada e somente depois do projeto já 
definido ela é vendida aos futuros moradores. Isso ocorreu em diversos exemplos 
durante a História até mesmo no Brasil como é o caso de Brasília e de Palmas. 
A atuação em uma cidade pré-existente traz consigo uma maior complexidade, 
pois lida com uma população já pré-estabelecida que tem desejos e deveres diferentes 
que também devem ser considerados, independentemente da dimensão da 
intervenção. 
Apesar de muitas cidades ainda serem criadas a partir de motivações políticas e 
sociais a grande motivação que propicia a formação ou intervenção de urbes é a 
econômica. Ainda hoje a motivação principal para a formação de cidades é a 
econômica, mas também a motivação ambiental está sendo considerada mesmo que 
apenas nos discursos políticos. Algumas cidades são criadas ou modificadas devido a 
problemas ambientais como enchentes, tsunamis e furacões. Esses fatores 
catastróficos indicam que alguns paradigmas devem ser revistos e na formação das 
novas cidades a motivação ambiental passa a ser bastante considerada. Outras 
sociedades já demonstram uma maior consciência ambiental e mesmo sem sofrer 
diretamente com desastres ambientais prezam por projetos pautados em princípios 
sustentáveis. Além disso, infelizmente muitas intervenções estão pautadas somente 
por discursos políticos ou empresariais que viram na sustentabilidade um slogan 
plausível para projetos urbanos. 
Cada uma das motivações traz características e indicativos para os 
planejamentos e projetos urbanos. As cidades capitais, por exemplo, têm a motivação 
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política como principal incentivador. Algumas capitais criadas no século XX tiveram 
seus projetos incentivados por modelos urbanos já citados, como por exemplo, 
Brasília, Palmas, La Plata e Chandgard. 
Uma cidade criada com enfoque político terá um centro cívico mais valorizado 
como é o caso de Washington e Brasília. Uma cidade com enfoque social terá mais 
áreas de habitação social e centros comunitários. Por sua vez, uma cidade formada a 
partir de uma motivação ambiental apresentará um projeto urbano privilegiando as 
áreas de parques, a iluminação e a ventilação natural e novas tecnologias ambientais. 
As cidades industriais, por exemplo, apresentam como principal motivação as 
questões econômicas, como as cidades inglesas do século XX e as cidades do Vale do 
Aço no Brasil. Essas cidades privilegiam as áreas das empresas e indústrias e as áreas 
residenciais para seus trabalhadores. Ainda, diversas cidades são criadas para ocupar 
ou expandir territórios pouco desenvolvidos como as cidades de fronteira, algumas 
cidades amazônicas e do centro-oeste brasileiro. 
Nas novas intervenções e formações urbanas essa motivação ambiental tem 
sobressaído pelo menos nos discursos. Nesse âmbito englobam as áreas de 
preservação ambiental, principalmente próximas das cidades, as questões 
relacionadas aos meios de transporte e as vias, o projeto de bairros novos que 
priorizam a iluminação e a ventilação natural, o tratamento de resíduos, entre outros. 
Muito são os indicativos de projeto que buscam uma identidade ambiental. 
Alguns estudos destacam apontamentos urbanos que podem levar uma cidade 
a ser classificada como sustentável ou pelo menos com projetos com intenções 
sustentáveis. 
Algumas tendências são apresentadas por autores da atualidade, como a 
necessidade de limitação urbana (CORBELLA, 1998); a discussão se as cidades devem 
ser compactas (ROGERS, 2001); a criação de redes de cidades de menor porte 
(referência); a utilização de energias renováveis; a necessidade de reutilização e 
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reciclagem de materiais e dejetos; além do bioclimatismo urbano e da limitação 
veicular diminuindo a produção de CO2. 
Todos esses indicativos de projeto como a cidade compacta, o regionalismo, a 
necessidade de trabalho e renda, a mobilidade urbana voltada para o transporte 
público e para o uso de meios de transporte não poluentes, a rede de cidades que 
pode ser criada para amenizar as distâncias e distribuir melhor os serviços, até a 
limitação da área urbana, podem ser implantados tanto em cidades já existentes 
quanto na formação de novas cidades. 
Quando se cria uma cidade há a facilidade da complexidade ser menor e não 
haver nada que obstrua a construção diretamente como é o caso de uma cidade já 
estabelecida que tem edificações tombadas, grandes viadutos, entre outros, que 
podem e devem influenciar na execução de novas obras com enfoque ambiental. No 
entanto, apresentam um problema social que também deve ser considerado, pois os 
novos habitantes que vão para uma nova cidade, primordialmente, tem uma maior 
dificuldade de criar uma identidade com o lugar. Além disso, podem ocorrer duas 
situações distintas, a primeira ocorre principalmente nas cidades privadas onde uma 
única classe social ocupa o lugar e cria uma monotonia cultural, na maioria das vezes 
intencional. O outro caso é mais comum nas cidades criadas com o incentivo 
governamental, pois a oferta de emprego e a possibilidade de crescimento traz um 
contingente populacional bastante distinto, mas que não tem uma identidade cultural 
entre si, nem com o lugar. Além de trazer também uma grande quantidade de pessoas 
não qualificadas e sem condição de fixação adequada que acabam tendo como solução 
imediata a criação de favelas periféricas. 
Esta última situação até poderia ser evitada caso houvesse uma limitação 
urbana e o incentivo de várias cidades e não de uma única localidade. No entanto, 
para que isso ocorresse seria necessária uma mudança de paradigma política. 
A intervenção em cidades já existentes, principalmente nas grandes cidades, 
aumenta a complexidade do planejamento e do projeto que deve considerar cada 
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edificação e via já existente. A vantagem é que a população já tem uma identidade 
com o espaço e normalmente também se preocupa em cuidar e preservar, 
principalmente se esse lugar é revitalizado. 
Um dos grandes problemas das cidades já existentes, principalmente nas 
grandes cidades dos países em desenvolvimento, é a ocupação irregular. As favelas 
apresentam graves problemas de salubridade, segurança e acesso aos serviços 
públicos. Ainda, a intervenção urbana nas mesmas é dificultada por serem, muitas 
vezes, áreas invadidas ou de riscoambiental. Mesmo que os habitantes tenham uma 
identidade com o local, a insalubridade e a legislação, na maioria das vezes, impedem 
uma revitalização. A (in)sustentabilidade das metrópoles, por exemplo, é denunciada 
por Neira Alva (1997) que apresenta um quadro complexo e de difícil intervenção das 
grandes cidades latino americanas. 
Além disso, a participação da sociedade na definição do projeto, que pode 
ajudar bastante a adequar as questões técnicas definidas pelos planejadores às 
questões sociais almejadas pela população, torna-se dificultosa pelo maior número de 
habitantes e as divergências entre os habitantes. Ainda, os projetos em área já 
ocupada normalmente são pontuais e não atingem a grande maioria da população e, 
na maioria das vezes, não conseguem criar uma unidade para a cidade. À medida que a 
cidade cresce as necessidades se modificam e o projeto urbano é alterado de acordo 
com cada época, sem nenhuma indicação de limitação urbana. Os problemas gerados 
por intervenções são mais visíveis nas grandes cidades que acabam se tornando uma 
grande “colcha de retalhos” com intervenções pontuais e com um grande 
espaçamento de tempo entre uma e outra. 
No entanto, se essas intervenções fossem pensadas para cidades menores 
esses entraves seriam minimizados. A grande maioria das políticas públicas, 
principalmente dos países em desenvolvimento, é voltada para as metrópoles e para 
as cidades com mais de um milhão de habitantes. Por serem cidades grandes e 
bastante populosas tem-se a impressão que a grande maioria da população encontra-
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
se nessas cidades, mas analisando os dados do IBGE no Brasil, por exemplo, percebe-se 
que a maior parte da população brasileira encontra-se em cidades pequenas (até 60 
mil habitantes) e cidades médias (de 60mil a 500mil habitantes) (PLANMOB- Ministério 
das Cidades, 2007)(Tabela 2 e Gráfico 1). 
 Até 60 mil 
habitantes 
De 60 a 500 mil 
habitantes 
Acima de 500 
Quantidade de 
Municípios 
5067 460 38 
Quantidade de 
habitantes 
69.984.829 64.899.464 55.871.506 
 
Total de Municípios: 
5565 
Total de habitantes: 
190.755.799 
Tabela 2: Tabela baseada em dados do IBGE 2010 com a indicação da população residente nos 
municípios (rural e urbana). Fonte: Dados do IBGE 2010 / Baseado na Tabela 761. 
 
 
Gráfico 1: Gráfico demonstrando que a maioria da população brasileira reside em municípios menos 
populosos. 
Fonte: Dados do IBGE 2010 / Baseado na Tabela 761. 
 
 Mais de 70% da população brasileira mora em municípios que não possuem 
cidades com mais de 500 mil habitantes. Normalmente esse mesmo dado é utilizado 
por muitos pesquisadores para frisar que quase um terço da população habita em 
grandes cidades. No entanto, é muito mais significativo que mais de dois terços da 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
população habitam em cidades com até 500 mil habitantes, isto é, cidades pequenas e 
médias. 
 As intervenções nas grandes cidades são importantes, mas as políticas públicas 
nacionais não devem privilegiar somente essas. O número de cidades com mais de 500 
mil habitantes é bastante pequeno (38) em comparação às pequenas cidades (5067), 
por exemplo. Desta forma, quando se intervêm em uma única cidade grande são 
muito mais pessoas que tomam conhecimento da intervenção. No entanto, são poucos 
os habitantes que são atingidos diretamente. Um morador da zona norte carioca, na 
maioria das vezes, recebe a informação, seja por propaganda ou por outro indivíduo, 
sobre uma obra realizada em Copacabana, por exemplo, mesmo sem essa intervenção 
influenciar diretamente a sua vida urbana. 
Já no âmbito das cidades menores seriam necessárias várias intervenções em 
várias pequenas cidades para que o mesmo número de pessoas visse ou mesmo 
ficasse sabendo das modificações. No entanto, a possibilidade de uma intervenção em 
uma pequena cidade influenciar diretamente a vida urbana de grande parte da 
população local é muito maior. 
 Quando se avalia somente a população urbana esse percentual ainda é 
bastante significativo (Tabela 3 e Gráfico 2): 
 
 Até 60 mil 
habitantes 
De 60 a 500 mil 
habitantes 
Acima de 500 
Quantidade de 
Municípios 
5154 375 36 
Quantidade de 
habitantes 
50.163.264 56.404.913 54.357.615 
 
Total de Municípios: 
5565 
Total de habitantes: 
160.925.792 
Tabela 3: Tabela baseada em dados do IBGE 2010 com a indicação da população residente urbana nos 
municípios. Fonte: Dados do IBGE 2010 / Baseado na Tabela 761. 
 
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Gráfico 2: Gráfico demonstrando que a maioria da população urbana brasileira também reside em 
cidades pequenas e médias. 
Fonte: Dados do IBGE 2010 / Baseado na Tabela 761. 
 
O último gráfico demonstra que 66% da população urbana brasileira reside em 
cidades pequenas e médias com até 500 mil habitantes. Essas cidades apresentam a 
realidade urbana brasileira que normalmente é pouco incentivada e desenvolvida 
(Figura 16). É importante salientar que algumas dessas pequenas e médias cidades são 
cornubadas com uma grandes urbe formando uma metrópole. No entanto são 
exceções e a grande maioria dos pequenos e médios municípios estão no interior do 
país. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 
Figura 16: Mapa da ocupação urbana brasileira baseada na categoria de cidades pequenas, médias e 
grandes. 
Fonte: desenvolvido pela autora e pelos bolsistas Emanuel Moraes e Fernanda Aor no programa 
ArqGis. Baseado nos dados do IBGE. Esc: 1:25.000.000. Dezembro de 2011. 
 
 É visível que mais de 70% da população brasileira reside em cidades médias e 
pequenas e praticamente todo o território brasileiro é ocupado por pequenas cidades. 
No entanto a maioria das políticas públicas ainda é feita para cidades grandes. Alguns 
exemplos são os investimentos em obras de infraestrutura urbana, a quantidade de 
universidades e escolas técnicas nas maiores cidades brasileiras, entre outros. Além 
disso, um dado visível no mapa acima é que essas grandes cidades encontram-se 
principalmente no litoral brasileiro, e consequentemente, as cidades do interior do 
país acabam sendo menos incentivadas. 
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As intervenções que visam melhorias no âmbito ambiental são muito mais 
simples de serem implementadas em cidades menores com até 60 mil habitantes, pois 
ainda há bastante espaço e facilidade de remodelação do projeto urbano e o local já 
possui uma identidade e uma noção de permanência dos habitantes. 
 Desta forma, essa tese defende que intervenções em cidades pequenas e 
médias, apesar de não serem vantagem para o atual sistema político por não significar 
uma visibilidade rápida que influencie as urnas, é uma das principais mudanças de 
paradigma necessárias no Brasil para se buscar alcançar o ideal de cidade sustentável. 
Visto que os projetos de intervenção poderiam ser executados mais facilmente, com 
menores custos e fazendo diferença significativa na qualidade de vida da população 
local. 
 
3.2. A problemática Urbana e o Desenvolvimento Urbano Sustentável 
As cidades contemporâneas têm se caracterizado por antagonismos 
demonstrados nos espaços de privilégio e exclusão que constroem paisagens 
calamitosas e espetaculares. Essas diferenças desafiam os planejadores urbanos a 
desenvolver as cidades contribuindo para que os cidadãos vivam com qualidade e 
tenham acesso à saúde, moradia e alimentação, através de um desenvolvimento com 
equidade. 
O reflexo da falta de planejamento urbano e, muitas vezes, de políticas e 
projetos insatisfatórios, é visível em grande parte dascidades atuais. Essas estão 
sofrendo com a favelização, principalmente na América Latina, a urbanização 
desordenada e com a violência gerada por problemas sociais que são em parte 
causados pela desigualdade social e até mesmo pela macroescala das mesmas. 
No ano de 2007, na primeira vez na história, a população urbana superou a 
população rural. Esse marco contribuiu para o aumento dos estudos e conferências 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
que focavam as relações entre as cidades e o meio ambiente. Mais pessoas no meio 
urbano agravam os problemas de contaminação, de falta de recursos e maior 
produção de resíduos (EDWARDS, 2009). É estimado que o percentual de indivíduos 
que migram para as cidades aumente ainda mais nas próximas décadas. Normalmente, 
as pessoas vão atrás de oportunidades de emprego e de melhores condições de vida, 
mas na grande maioria das vezes acabam encontrando miséria, principalmente nos 
países em desenvolvimento. Edwards (2009) ressalta que se for considerado um 
crescimento econômico anual aproximado de 2% e uma população mundial de 10 
bilhões de habitantes, em 2050 a raça humana causará um impacto ambiental quatro 
vezes maior do que no ano de 2000. 
Richard Rogers coloca a ironia de que apesar da cidade ser o habitat atual da 
humanidade, também se caracteriza como o maior agente destruidor do ecossistema e 
consequentemente, a maior ameaça à sobrevivência da humanidade (ROGERS, 2001). 
Partindo do princípio de que o espaço urbano interfere nas relações humanas e no 
comportamento social, o urbanismo sustentável pode ser reflexo de uma consciência 
ecológica provocada por diversos problemas ambientais. 
 
3.2.1. O debate sobre a sustentabilidade urbana 
Há sempre o risco de que o discurso da sustentabilidade não produza alterações 
substantivas, podendo o mesmo, como afirma Cyria Emelianoff, “ser reduzido por 
algumas coletividades locais a um simples marketing destinado a valorizar suas 
vantagens territoriais, a aumentar sua atratividade e seu poder” (EMELIANOFF, 2003). 
É necessário que se busquem modelos de desenvolvimento onde possam ser 
agregados aos valores ecológicos, além de outros, como autonomia, solidariedade e 
responsabilidade. 
Muitas vezes o conceito de sustentabilidade é banalizado e tratado 
simplesmente como um conveniente artifício ideológico e político. Além disso, a falta 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
de critérios específicos e leis incisivas no âmbito da gestão ambiental urbana nos 
indicam lacunas na literatura e falhas em experiências já realizadas que buscavam uma 
sustentabilidade para o lugar. 
 As cidades são um campo fértil para a discussão sobre o desenvolvimento 
sustentável e nas últimas décadas diversos setores sociais buscam uma definição para 
o que vem a ser uma cidade sustentável. Para o United Nations Human Settlement 
Program – UN-Habitat, cidade sustentável pode ser definida como: 
“... uma cidade onde as realizações e os avanços em 
desenvolvimento social, econômico e físico são feitos para durar. 
Uma Cidade Sustentável possui uma reserva durável de recursos 
naturais dos quais depende o desenvolvimento (utilizando-os 
somente num nível de produção sustentável). Uma cidade 
mantém uma segurança durável diante de desastres naturais que 
possam ameaçar o desenvolvimento (permitindo-se somente 
riscos aceitáveis). Cidades Sustentáveis são fundamentais para o 
desenvolvimento social e econômico” (UN-HABITAT, 2003). 
 Além desses parâmetros sociais e econômicos também deve ser destacado o 
parâmetro ambiental que considera as características do lugar e principalmente do 
clima que a partir de bons projetos urbanos e arquitetônicos e planejamentos podem 
configurar em cidades com menos consumo energético. Ainda a participação da 
sociedade nas decisões políticas não pode ser desconsiderada quando se define uma 
cidade como sustentável. 
 Para Carla Canepa (2007) um dos maiores desafios na sociedade urbana-
industrial atual consiste em como transformar uma estratégia de crescimento 
econômico em um modelo de sustentabilidade baseado no bem-estar humano. No 
entanto, essa tese também discute até que ponto esse crescimento econômico pode 
ser capaz de alcançar algum tipo de sustentabilidade. O modelo econômico atual tem 
como principal objetivo o lucro. A globalização possibilitou a interação mais rápida e 
dinâmica entre diferentes sociedades e da mesma forma que trouxe benefícios 
também causou grandes problemas para determinadas sociedades, principalmente as 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
que são menos “desenvolvidas” na classificação do poder econômico e 
consequentemente, com menos capacidade competitiva. 
 A equidade e a justiça social são essenciais para qualquer conceito de cidade 
sustentável e a continuidade do modelo econômico atual impossibilita qualquer 
sustentabilidade urbana plena. No entanto, muitas tentativas pontuais são realizadas 
no intuito de amenizar os impactos causados pela produção e consumo. Essa tese não 
defende que cidades sustentáveis só serão possíveis com o fim do modelo capitalista, 
mas alerta que esse atual modelo sem alterações profundas somente produzirá 
propostas pontuais e pouco efetivas socialmente. Normalmente as atuações 
sustentáveis visam tecnologias capazes de economizar o uso de recursos ou o 
reaproveitamento de energias, ou ainda a utilização de materiais recicláveis, mas no 
geral são políticas de manutenção de riquezas que satisfazem principalmente às 
empresas e indústrias. Essas atuações também são necessárias, mas não trazem 
equidade social, pois as diferenças sociais são muito pouco alteradas com novas 
tecnologias. 
 Muitas cidades atuais foram transformadas em centros de negócios 
aglomerados de fábricas e escritórios permeados por habitações espremidas e 
precárias, onde poucos detentores de capital e poder conseguem uma posição 
privilegiada. No entanto, a concretização de conceitos urbanos sustentáveis é 
justamente para que ideais de justiça social e ecologia urbana façam parte do 
planejamento urbano. 
 Richard Rogers (2001) alerta que a cidade é extremamente mutável e 
complexa, com atividades humanas e efeitos ambientais. Desta forma, “planejar uma 
cidade auto-sustentável exige uma ampla compreensão das relações entre cidadãos, 
serviços, políticas de transporte e geração de energia, bem como seu impacto total no 
meio ambiente local e numa esfera geográfica mais ampla.” Para o autor, todos esses 
fatores devem estar entrelaçados para se criar efetivamente uma noção de 
desenvolvimento urbano sustentável. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 A degradação ambiental causada pelas cidades ameaça também a eficiência 
econômica e a equidade social. A cidade é um sistema extremamente complexo 
caracterizado por processos contínuos que consideram aspectos como a energia, os 
recursos naturais e a produção de resíduos. A manutenção, a renovação e o incentivo 
dos sistemas e seus fluxos, são de grande importância para se alcançar a 
sustentabilidade (CANEPA, 2007). 
Tratar cada cidade com suas especificidades locais pode levar a resultados mais 
satisfatórios e coerentes. A própria Agenda 21, resultante da Conferência Rio-92, já 
reconhecia a importância da gestão urbana sustentável em nível local. A Agenda 21 
propõe que as administrações locais elaborem estratégias para o desenvolvimento 
sustentável através de planos diretores e estratégicos desenvolvidos com a 
participação da população. 
Um dos desafios para se alcançar a sustentabilidade urbana é o de criar 
instrumentos que possibilitem a mensuração de dados urbanos que produzam 
informações claras que facilitem a avaliaçãodo grau de sustentabilidade das 
sociedades. Tais instrumentos auxiliam no monitoramento das expectativas do futuro 
desenvolvimento e nas decisões de atuação. Os meios mais utilizados nessas coletas 
de dados atualmente são os indicadores de sustentabilidade que têm sido utilizados na 
elaboração de políticas públicas, nos relatórios e estudos urbanos e permitem uma 
comparação entre regiões diferenciadas (OECD, 2006). 
Assim como a Agenda 21 aponta indicadores de sustentabilidade, também 
existem diversos outros que também auxiliam na discussão do termo sustentabilidade, 
visto que esses documentos se baseiam no que principalmente é consenso para definir 
parâmetros. Na grande maioria dos casos os parâmetros são quantitativos e muitas 
vezes critérios não-quantificáveis não são abordados. No entanto, a avaliação feita a 
partir de indicadores sustentáveis auxilia na boa intervenção de espaços urbanos. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
Normalmente, os indicadores não se restringem às questões físicas da cidade, 
levando em consideração abordagens sociais, econômicas e ambientais. Para efeito 
desta tese, os indicadores foram relevantes na escolha das categorias analíticas, mas a 
definição das mesmas não leva em consideração todas as dimensões levantadas pelos 
documentos, pois muitas delas somente poderiam ser avaliadas após uma ocupação 
ou dizem respeito às questões nacionais e não locais e não correspondem ao projeto 
urbano. 
Os Indicadores são utilizados como instrumentos que permitem a visualização e 
a avaliação de uma situação para uma possível intervenção. Para Bellen (2005), mesmo 
com o reduzido consenso sobre os conceitos relacionados ao desenvolvimento 
sustentável, há a necessidade de se desenvolver instrumentos que procurem mensurar 
a sustentabilidade. Apesar de apresentarem limitações técnicas, os indicadores são 
utilizados na mensuração das características urbanas. Como não conseguem abranger 
todas as complexas questões da vida urbana, medem a aproximação da realidade. 
Além disso, a escolha inadequada dos indicadores pode conduzir a uma resposta 
ambígua, passível de manipulações políticas ou de interpretações errôneas da 
realidade (BELLEN, 2005). 
Principalmente nos países em desenvolvimento, há uma dificuldade 
institucional na coleta e avaliação de dados e sua posterior transformação em 
informação útil. Ainda é preciso melhorar a coordenação da divulgação e das 
atividades de informação e os dados encontrados, como os dados ambientais, 
demográficos, sociais e de desenvolvimento (CNUMAD, 1992). 
A grande maioria dos Indicadores é feita para a avaliação específica de uma 
determinada cidade, mas alguns deles, como é o caso da Agenda 21 Brasileira, são 
mais abrangentes. Além da Agenda 21, três outros Indicadores são mais relevantes 
para a tese: Os indicadores de Seattle (1993), os Indicadores de Sustentabilidade 
Canadense (DAUNCEY & PECK, 2001) e o Report by the Commission on the 
Measurement of Economic Performance and Social Progress (STIGLITZ-SEN-FITOUSSI, 
2009) 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
Os Indicadores de Sustentabilidade da Agenda 21 Brasileira buscam um 
delineamento político que auxilie na tomada de decisões considerando o viés da 
sustentabilidade. As categorias de abrangência dos indicadores são: social, econômica, 
ambiental e institucional. No âmbito social são quantificados os índices de 
desemprego, os índices de alfabetização de adultos, de mulheres no mercado de 
trabalho, o acesso ao saneamento básico, os gastos com a educação, entre outros. Na 
categoria econômica são considerados os dados de consumo de energia, PIB per 
capita, percentual de importação e exportação, investimentos líquidos do PIB, etc. Já 
na categoria ambiental procura-se identificar os dados de desmatamento, as emissões 
de gases, as densidades das redes hidrológicas, a reciclagem e reuso de resíduos 
sólidos, a concentração de poluentes em áreas urbanas, etc. Por fim, a categoria 
institucional mede o percentual de gastos em pesquisas e desenvolvimento com 
relação ao PIB, os acordos globais, a participação de ONGs, etc. 
 Os indicadores de Seattle (1993) possuem como finalidade o monitoramento da 
cidade e a conscientização dos usuários e são definidos cinco tópicos de abrangência: 
- de meio ambiente: monitoram os níveis da qualidade do ar, as erosões do solo, a 
acessibilidade dos pedestres, as ciclovias, etc.; 
- de população e recursos: trata das questões referentes diretamente ao bem estar da 
população e o consumo dos recursos como os resíduos e a reciclagem, a coleta de lixo, 
o consumo de água, a produção agrícola local, o crescimento populacional, o consumo 
de combustíveis, etc.; 
- de economia: quantifica as questões econômicas como a renda média, os níveis de 
desemprego, os gastos e cuidados com a saúde, os níveis de pobreza, os investimentos 
na comunidade, etc.; 
- da educação e da juventude: faz um levantamento de dados sobre o grau de 
alfabetização da população, a criminalidade juvenil, a equidade na justiça, a 
diversidade étnica nas escolas, etc.; 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
- da saúde e da qualidade: refere-se às perspectivas de qualidade de vida, às relações 
de vizinhança, ao acesso à bibliotecas e centros comunitários, ao acesso à moradia, 
etc. 
Os Indicadores de Sustentabilidade Canadense (PECK & DAUNCEY, 2001) 
descrevem doze tópicos para análise urbana. O primeiro é a proteção ecológica que 
verifica desmatamentos, perda de nascentes e áreas agricultáveis. Também avalia que 
a proteção ecológica garante um aumento de 5% a 50% do valor de habitações em 
áreas protegidas. Isso mostra que esse relatório tem uma visão capitalista do espaço 
verde. Outra preocupação do documento é com a densidade e o desenho urbano. 
Acredita-se que com o alastramento do estilo de baixa densidade populacional podem 
ocorrer a perda de terras agrícolas, o enfraquecimento do sentido de comunidade, e o 
aumento das emissões de C02 nas viagens locais. 
 Para diminuir os problemas urbanos o Indicador Canadense defende também o 
transporte sustentável que é entendido como o aumento do número de ciclovias e a 
diminuição das distâncias através do incentivo à comunidades reduzidas aumentando 
o deslocamento à pé. Além disso, o relatório destaca a necessidade de comunidades 
que ofereçam oportunidades para a sociabilidade, desenvolvimento pessoal e 
participação comunitária. O documento também alerta que a diversidade social 
incentivada por uma mistura de tipos de habitação e níveis de renda também contribui 
para a sustentabilidade local. 
 Outras questões abordadas pelo relatório canadense são o saneamento básico 
e o acesso à água tratada. Além disso, o uso de energias limpas e a políticas dos 3 R´s 
(Reduzir, Reciclar e Reutilizar) também são fatores relevantes para a meta de 
comunidades sustentáveis. Como a mudança climática global é provavelmente um dos 
problemas mais graves que o mundo enfrenta atualmente e uma das principais causas 
é a queima de combustível fóssil, o documento recomenda a utilização de energias 
limpas alternativas diminuindo a liberação de CO2 para a atmosfera. Com a política dos 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
3 R´s também há a diminuição do consumo de materiais e consequentemente a menor 
produção industrial. 
 Por fim, o Report by the Commission on the Measurement of Economic 
Performance and Social Progress (Stiglitz-Sen-Fitoussi, 2009) é definido por José Eli da 
Veiga (2010) como um marco de mudança do indicadores que “propõe a superação da 
contabilidade produtivista, a abertura do leque da qualidade de vida e todo o 
pragmatismo possível com a sustentabilidade”(VEIGA, 2010). 
Este relatório foi desenvolvido por uma comissão francesa que pretendia, no 
governo de Nicholas Sarkozy, realizar estudos específicos nas cidades francesas, mas 
que deu contribuições significativas a vários outros indicadores. A principal delas foi 
mostrar que desempenho econômico, qualidade de vida e sustentabilidade são 
questões diferenciadas e que apesar de serem indissociáveis, não deveriam ser 
mensuradas juntamente. As três principais orientações do relatório foram: 
"- O PIB (ou PNB) deve ser inteiramente substituído por 
uma medida bem precisa de renda domiciliar disponível, e 
não de produto; 
- A qualidade de vida só pode ser medida por um índice 
composto bem sofisticado, que incorpore até mesmo as 
recentes descobertas desse novo ramo que é a economia 
da felicidade; 
- A sustentabilidade exige um pequeno grupo de 
indicadores físicos, e não de malabarismos que 
artificialmente tentam precificar coisas que não são 
mercadorias."(VEIGA, J. E. da. 2010) 
 O relatório distingue entre uma avaliação do "bem-estar" e uma avaliação da 
"sustentabilidade", observando a possibilidade de duração desses dois itens. O "bem-
estar" tem a ver com os recursos econômicos, como renda e com aspectos não 
econômicos da vida dos indivíduos, como o que se espera do futuro e o que fazem ou 
deixam de fazer. Se este nível de bem-estar pode ser sustentado ao longo do tempo, 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
depende se estoques de recursos e bens que são importantes para o habitantes atuais 
são repassados para as gerações futuras (STIGLITZ-SEN-FITOUSSI, 2009). 
 Uma das principais questões abordadas neste Indicador é que a qualidade de 
vida é mensurada por fatores subjetivos. A abordagem subjetiva distingue entre as 
dimensões da qualidade de vida e os fatores objetivos que moldam essas dimensões. 
Por sua vez, a qualidade das dimensões subjetivas de vida abrangem vários aspectos. A 
primeira abordagem é feita a partir de uma avaliação individual dos moradores sobre 
as coisas comuns como seu trabalho, família e sua condição financeira. A segunda 
dimensão implica nos sentimentos reais das pessoas como dor, raiva, respeito, 
orgulho. Esses sentimentos somente podem ser avaliados a partir de entrevistas 
diretas com os moradores, o que não é possível com um projeto ainda no papel. No 
entanto, a elaboração do projeto pode destinar tempo para a avaliação dos usuários 
que despertaram sentimentos variados com relação ao bem estar. 
Dentro desta categoria ampla de sentimentos das pessoas, a pesquisa sobre 
bem-estar subjetivo distingue entre afetos positivos e negativos, e ainda caracterizar a 
experiência de cada pessoa. 
Os indicadores trabalham com a avaliação e análise de uma cidade ou um 
projeto restrito, mas com a amplitude das questões de sustentabilidade, a escala de 
atuação ganha notoriedade na discussão ambiental. Por ser um mundo globalizado, o 
contexto local e o global estão entrelaçados. Apesar de contemporaneamente a ideia 
de atuar localmente seja bastante aceita, essa é uma proposta ainda bastante 
discutida. Os limites entre fronteiras, antes extremamente demarcados, hoje passam a 
ser relativizados. A noção de que o planeta é um só e deve ser preservado começa a 
ganhar espaço sobre as atuações individuais de cada país sobre o seu território. O lema 
“pensar globalmente e agir localmente” muda a atuação do indivíduo para a visão da 
Humanidade. Essa ideia de sobrevivência do planeta e da raça humana fez com que o 
debate ambiental ganhasse a esfera internacional e que muito da discussão ficasse a 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
cargo de organizações internacionais. As relações de cobrança e expectativa entre 
diferentes países ficaram mais abertas e a noção de que as decisões de um lado do 
mundo afetam o outro lado fez com que o debate ambiental redefinisse fronteiras e 
limites. 
Muitos problemas ambientais só são identificáveis local ou regionalmente. 
Desta forma, a atuação localizada é valorizada no discurso da sustentabilidade. Para 
Jacques Theys (2002, In: MAGALHÃES, 2008) “hoje, é essencialmente à escala dos 
territórios (locais) que os problemas do desenvolvimento sustentável são percebidos e, 
sem dúvida, é igualmente lá que eles podem encontrar as soluções ao mesmo tempo 
igualitárias e democráticas”. Também na escala global os problemas ambientais são 
percebidos, como é o caso do efeito estufa. Apesar da grande maioria das ações 
serem locais as consequências dos problemas são globais e atingem populações em 
diferentes lugares do planeta, mesmo não tendo havido uma grave intervenção no 
meio ambiente naquele determinado local. Como exemplo pode ser citado o efeito 
estufa que é um problema global que atinge populações que pouco interferem no 
meio ambiente. 
 O sentimento crescente de que as cidades são parte essencial do problema 
ambiental, mas que também podem auxiliar nas soluções para esse problema, 
afirmam a importância das cidades no debate ambiental. A sustentabilidade urbana 
está relacionada com o papel das cidades nas condições ambientais mundiais. Os 
processos de utilização dos recursos naturais e de acumulação e produção de bens se 
dá, normalmente, nos centros urbanos. A busca por cidades sustentáveis, a partir de 
ações e planejamentos locais, pode alcançar a sustentabilidade em nível global. O 
urbanismo sustentável pode ser capaz de propor novas formas para se pensar as 
cidades. Para Cyria Emelianoff o conceito de cidade sustentável engloba tanto a noção 
de global quanto de local: 
“A noção de cidade sustentável se constrói nas idas e vindas 
entre o local e o global, entre a exigência de respeitar a 
diversidade local sem a reduzir a uma grade de leitura pré-
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
estabelecida, e a necessidade de fixar-se sobre a “terra firme” de 
uma visão urbanística” (EMELIANOFF, 2003). 
Essa noção de sustentabilidade urbana diferenciada não quer dizer 
necessariamente que seja um problema para a busca por cidades sustentáveis. O que é 
ideal para uma sociedade não é necessariamente bom para outra. O autor Peter Brand 
(1999) apresenta a noção de cidade sustentável de uma forma holística e como uma 
metáfora. Essa visão é bastante parecida com a visão doméstica de Wolfgang Sachs 
(1999). A “cidade sustentável” não é obrigatoriamente um modelo a ser atingido e sim 
um ideal. A metáfora não traz objetivos claros a serem seguidos, mas sugestões 
abertas e simbólicas. Para Peter Brand: 
“... a cidade sustentável ou o desenvolvimento urbano 
sustentável, nunca pode ser uma meta objetiva, e sim uma gama 
de possibilidades abertas cujas prioridades são determinadas 
pela urgência do presente.” (BRAND, 1999, IN: MAGALHES, 
2008). 
 No entanto, essa tese alerta que a urgência do presente pode comprometer as 
necessidades do futuro. Dessa forma, ao analisar as diversas possibilidades de atuação 
no meio urbano é importante também verificar as possíveis consequências em longo 
prazo para que a solução de hoje não seja o problema de amanhã. A própria definição 
do Relatório Brundtland ressalta a importância das gerações futuras. 
 Em busca desse ideal de cidade sustentável, diversos governos e empresários 
estão tentando incorporar o desenvolvimento sustentável em suas ações e políticas 
urbanas. Algumas cidades estão recebendo planejamentos pontuais em seus centros 
urbanos ou em bairros novos, outras estão sendo formadas do zero a partir de 
projetos e planejamentos audaciosos que as colocam como modelos de urbanismo 
sustentável. Esta tese apresenta uma discussão sobre a formação dessas cidades e até 
que ponto elas realmente podem ser chamadas de sustentáveis. Além disso, levanta-
se a discussão sobre a formação de cidades“Tabula Rasa” ou se seria melhor intervir 
em cidades já existentes. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 Nos discursos e estudos atuais o meio ambiente é quase que uma consideração 
obrigatória em praticamente todas as questões de desenvolvimento urbano. Não se 
deve projetar nada sem considerar o local de inserção do projeto e seu microclima e 
recursos ambientais disponíveis. A importância do termo sustentabilidade urbana foi 
firmado pela Conferência Mundial sobre Cidades-Modelo que ocorreu em Cingapura 
em 1999, onde foi defendido que as questões ecológicas deveriam ser consideradas 
para que a cidade pudesse ser classificada como modelo. 
 Nas últimas décadas, muitos protocolos, conferências e acordos internacionais, 
como o de Johannesburgo (2002), do Rio de Janeiro (1992, Rio+10), de Kioto (1996) e 
de Montreal (1987), contribuíram para uma visão mais ampla sobre a relação das 
cidades com o meio ambiente, sobre a escassez de recursos e sobre ecologia. 
 A grande maioria dos novos projetos tanto pontuais como de uma cidade 
completa são voltados, pelo menos nos discursos, para a ideia de sustentabilidade 
urbana. Com a mudança climática e com os desastres ambientais ocorrendo com mais 
frequência e atingindo mais populações pensar nas questões ambientais quando se 
planeja qualquer empreendimento se tornou essencial. Toda a questão agora se volta 
para como alcançar essa sustentabilidade urbana, visto que o termo carrega diversos 
significados e intenções. 
 
 
 
 
 
 
 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CAPÍTULO 4 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
4. O Projeto Urbano como norteador 
A teoria sobre o desenvolvimento urbano sustentável também se baseia nos 
preceitos de projeto urbano sustentável. A morfologia da urbe pode influenciar tanto 
nas relações humanas que ocorrem na cidade quanto nos gastos de energia e 
produção de insumos. Por exemplo, um bairro misto com comércio, lazer, áreas 
empresariais e residenciais auxilia na diminuição do uso do automóvel, aumenta a 
sensação de segurança tanto no período noturno quanto diurno e facilita a 
proximidade dos indivíduos. 
 O planejamento de bairros e até cidades inteiras pode ser baseado em 
parâmetros urbanos sustentáveis com morfologias que auxiliem na aproximação 
“saudável” da cidade com a natureza. Projetos urbanos que propiciem, por exemplo, o 
acesso irrestrito aos bens e espaços públicos aumentando também a interação entre 
indivíduos de classes sociais distintas, podem indicar um caminho na busca por cidades 
sustentáveis. 
 
4.1 Considerações Iniciais 
O projeto urbano sustentável não deve ser a única frente de atuação, mas pode 
ser a mais perceptível para a população, que nas últimas décadas sofre com o 
acelerado crescimento populacional principalmente nos países em desenvolvimento 
da América Latina. Esse processo de crescente concentração populacional aumenta a 
demanda habitacional e consequentemente a demanda por infraestrutura básica 
como saneamento e acesso à saúde e educação. No entanto, normalmente, as 
políticas públicas não atendem todo esse contingente e a sociedade sofre com a 
insuficiência ou inexistência dos serviços ou muitas vezes pela adoção de soluções 
paliativas que prejudicam o meio ambiente. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 Desta forma, o crescimento sem limites também influencia a periferização das 
cidades, tanto por favelas e assentamentos irregulares, quanto por condomínios 
luxuosos cercados que buscam uma proximidade com a natureza e uma segregação de 
parte da comunidade. O que, por sua vez, acaba sofrendo as consequências da 
escassez de saneamento, de habitação, de acesso à saúde e com o aumento da 
violência. Essa periferização também contribui para a diminuição das regiões de 
reservas naturais e das áreas circundantes agricultáveis o que modifica sensivelmente 
o meio ambiente e propicia um aumento das distâncias entre o campo (produtor de 
alimentos) e as cidades (consumidoras de alimentos). 
 As consequências de projetos urbanos ruins incentivados por políticas públicas 
segregativas são percebidos não somente localmente, mas de uma forma global. Os 
impactos ambientais se inter-relacionam e atingem escalas globais. Um dos marcos 
das políticas atuais, principalmente das grandes cidades dos países em 
desenvolvimento, é a economia baseada na produção de automóveis. Esses processos 
tornam-se cíclicos onde os projetos urbanos e o planejamento levam a cidades 
espraiadas e pouco auto suficientes, com grandes distâncias que, como consequência, 
necessitam de mais infraestrutura e de combustíveis fósseis, que por sua vez, 
produzem mais insumos. Além disso, a expansão urbana sem limitação adequada 
contribui para o aumento do desmatamento, o que deixa o solo mais pobre, 
provocando erosões e aumentando o assoreamento de corpos d' água. 
O ambiente urbano é onde ocorrem as interações dos habitantes com esse 
espaço urbano, assim, a forma é o suporte físico para essas atividades ocorrerem. A 
sustentabilidade passa por uma mudança comportamental e um posicionamento 
político e apesar de necessitar alcançar muito além da forma urbana, são os espaços 
físicos que podem proporcionar a base material mais adequada para a realização das 
atividades urbanas de forma mais sustentável possível. 
 As dimensões físicas da cidade incluem seu tamanho, seus usos, sua 
configuração e distribuição dos espaços, incluindo a composição de diversas 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
características como o sistema de transporte e densidade. No entanto a 
sustentabilidade também depende de questões mais abrangentes como a preservação 
do meio ambiente, as necessidades econômicas e sociais, incluindo a justiça e a 
equidade. 
 O termo "forma urbana" pode ser usado simplificadamente para descrever as 
características físicas da cidade. A forma urbana está intimamente relacionada com a 
escala e tem sido descrita como as características morfológicas de uma zona urbana em 
todas as escalas (JENKS, M & DEMPSEY, N, 2005). As escalas consideradas e 
mensuradas no estudo da forma urbana incluem a habitação individual, os edifícios, as 
ruas, os quarteirões, os bairros até a cidade com um todo (Esquema 3). 
 
Esquema 3: Dimensões de sustentabilidade 
urbana. 
Fonte: JENKS, Mike & JONES, Colin. Dimensions of 
the Sustainable City. Springer, London, 2010. 
Tradução feita pela autora. 
 O conceito de "projeto urbano", segundo alguns autores como Bernard Secchi 
(2007) é difuso e tem especificidades diferenciadas de acordo com o local onde foi 
instituído. Possui diversas definições como projeto de requalificação, regeneração, 
operação urbanas, programa, entre outros. 
 No entendimento desta tese é compreendido como projeto urbano o plano 
urbano das cidades novas contendo seus "masterplans" com características físicas dos 
projetos e suas diretrizes gerais que definem suas prioridades e suas estratégias de 
ação. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
4.2 O Projeto Urbano Sustentável 
 A qualidade e a forma como são feitas as trocas do meio urbano com o meio 
ambiente são determinadas pelo espaço urbano, por meio de sua forma física e 
disposição das suas partes, em uma compreensão sistêmica (ANDRADE, GOMES e 
BORGES, 2008). Register (2002) alerta que a forma como se projeta e executa no 
ambiente construído determina o modo de vida dos futuros usuários. Acrescenta que 
uma avaliação precisa dos impactos ambientais urbanos deve levar em consideração 
tanto o bem estar da população quantoas possíveis tecnologias. Também é necessário 
observar a presença de infraestruturas, a morfologia do espaço, a utilização do solo e 
as moradias da população. 
 O uso racional dos recursos naturais e a organização eficiente do transporte 
público depende da forma urbana. Desta forma, é de responsabilidade dos projetistas 
estabelecer estratégias e princípios norteadores referentes à morfologia e as 
infraestruturas propiciando ambientes urbanos com proximidade dos elementos 
estruturais relacionados à forma física. A forma ideal, provavelmente, não será 
alcançada, mas alguns princípios podem ser orientadores para projetos urbanos 
sustentáveis. 
 Para Register (2002) o desenho de cidades sustentáveis depende de princípios 
como a introdução de áreas verdes no meio urbano, a manutenção e/ou recuperação 
da paisagem natural, a diminuição da dependência do automóvel individual, o 
adensamento dos centros urbanos com base em edifícios ecológicos, a construção de 
edifícios de uso misto evitando deslocamentos e o incentivo a tecnologias ambientais, 
principalmente de implantação de infraestruturas. 
 A forma urbana influencia diretamente sobre a sustentabilidade tanto das 
funções quanto das atividades realizadas nas cidades. Os dois principais exemplos são a 
estrutura viária e de transporte, incluindo o tecido urbano, e o uso do solo (LEMOS, 
2010). Esses dois exemplos, inclusive, são os mais utilizados na defesa da forma 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
compacta como alternativa para as cidades sustentáveis. 
 A forma urbana também influencia diretamente o consumo de energia local, 
que são diretamente ligados à densidade populacional e construtiva. Desta forma, a 
relação entre espaços livres e espaços construídos, a presença ou não de vegetação nos 
espaços abertos, a orientação solar das vias e o gabarito e os afastamentos das 
edificações no tecido urbano, as dimensões das vias e até mesmo os materiais 
utilizados na construção das edificações, interferem na qualidade urbana e nas 
atividades realizadas na urbe como deslocamentos e distribuição dos usos. 
 A redução do consumo de energia, através de cidades melhor planejadas é um 
dos princípios de sustentabilidade urbana. No entanto, essa redução depende também 
de uma conscientização da população. A redução do consumo de energia pode ser 
influenciada pela forma urbana, mas programas de educação ambiental e decisões 
sobre a utilização de energias renováveis são ações políticas. Algumas definições 
prévias do projeto urbano podem contribuir para a redução passiva do consumo de 
energia, aproveitando todo o potencial oferecido pelas condições climáticas locais 
como a ventilação natural, a incidência dos raios solares e o adequado uso do solo 
(como, por exemplo, a utilização de cotas diferenciadas do terreno para a distribuição 
de água). 
O projeto urbano deve estar “condicionado e adaptado às características do 
meio, tais como a topografia, a cobertura do solo, a ecologia, a latitude e os impactos 
negativos da massa construída” (ROMERO, 2001). Os impactos ambientais causados 
por projetos urbanos descompromissados com o meio ambiente são sentidos também 
no conforto e na salubridade da população. A implantação de uma fonte de água no 
projeto de um parque urbano localizado em uma área quente e úmida, por exemplo, 
pode trazer grande desconforto para os visitantes do parque, visto que a evaporação 
da água irá aumentar a umidade e o desconforto térmico, mas em contrapartida, esse 
problema pode ser amenizado caso haja sombreamento da área por vegetação 
(CORBELLA e YANNAS, 2003). 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 Nas últimas décadas uma linha de estudo sobre o projeto urbano sustentável 
vem sendo bastante difundida na área acadêmica e consequentemente modificando 
planejamentos urbanos de novos bairros e cidades. Esse pensamento defendido por 
autores como Rogers (2000), Girardet (2001), Nobre (2004) entre muitos outros, 
aponta para a associação de três parâmetros urbanos para se alcançar projetos 
urbanos sustentáveis. O primeiro é a densificação das cidades, que leva em 
consideração a menor necessidade de infraestrutura e a menor utilização do 
automóvel. Além disso, reduz a necessidade de expansão da cidade para áreas 
periféricas o que diminui o desmatamento e mantém a proximidade do campo com a 
área urbana. O segundo é o uso misto em contrapartida com os planejamentos 
urbanos norte americanos das décadas de 1960 e 1970. Esses projetos urbanos 
propiciavam a criação de bairros dormitórios nos subúrbios das grandes cidades e 
centros somente com usos comerciais e de negócios que permaneciam praticamente 
vazios em períodos noturno e finais de semana. O último parâmetro é a criação de 
sistemas de transporte coletivo de maior capacidade e periodicidade contrariando o 
uso restrito de poucos indivíduos por automóvel. 
 Para esses autores a associação desses três fatores (densidade, diversidade e 
transporte) seria o primeiro passo para um projeto urbano sustentável. Contudo o 
primeiro parâmetro merece uma discussão mais ampla, pois a densificação deve ter 
um limite que vai variar com as características do lugar. 
Nas últimas décadas o discurso da densificação urbana como uma proposta 
promissora para a sustentabilidade tem prevalecido, principalmente, nos fóruns e 
estudos dos países do Hemisfério Norte. A ideia principal da compactação urbana é 
construir cidades com necessidade de deslocamentos menores. No entanto, um dos 
princípios de sustentabilidade é que cada projeto é feito para um determinado espaço 
e época e nem sempre a compacidade é a solução mais adequada. Para Mike Jenks e 
Nicola Dempsey (2005): 
"O alto nível de consenso entre os argumentos sobre a 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
densidade urbana, e o link atual para a sustentabilidade 
urbana não deve disfarçar o problema. Densidade, se 
considerada isoladamente, é problemática e não é em si 
mesma uma solução... Alta densidade pode ser utilizada 
como um instrumento entre outros para alcançar o uso 
eficiente da terra e sustentabilidade, mas mesmo assim 
tem suas dificuldades". (JENKS, M & DEMPSEY, N, 2005) 
 A densificação não pode ser vista como uma solução coerente para todas as 
regiões. De acordo com Nobre (2004) um estudo realizado pelo Banco do Trabalhador 
da Venezuela demonstra que o gráfico entre a necessidade de infraestrutura e a 
densidade populacional é uma parábola cujo ponto de otimização ficaria entorno de 
1000 habitantes por hectare. Rodrigues (1986) num estudo realizado para a realidade 
brasileira, afirma que uma densidade menor que 100 habitantes por hectare inviabiliza 
a presença de serviços e infraestrutura, já uma densidade maior do que 1500 
habitantes por hectare geram problemas sociais, econômicos e ambientais, como é o 
caso de alguns bairros do Rio de Janeiro. Copacabana, por exemplo, possui problemas 
com a diminuição da velocidade dos ventos e a canalização dos mesmos nas vias mais 
largas aumentando a temperatura nos edifícios e na escala do pedestre (CORBELLA e 
YANNAS, 2003). 
 Outros estudos como o de Juan Mascaró (1986, In: NOBRE, 2004) sugerem que 
"os custos da infraestrutura urbana (água, luz, esgoto e pavimentação), do edifício 
(construção, terreno e capital) e da energia gasta para a manutenção (iluminação, 
elevadores e refrigeração) chega ao valor de densidade mais econômica em torno de 
100 a 120 famílias/hectare, que pela média brasileira de 3,5 pessoas\família resultaria 
numa densidade de 350 a 420 habitantes\hectare.” O autor ainda sugere uma 
morfologia urbana com edifícios de 3 a 4 pavimentos com 8 a 10 blocos por hectare. É 
importante ressaltar que esses parâmetros foram propostos para uma cidadede clima 
temperado no sul do Brasil. 
 Além disso, outro estudo apresentado recentemente apresenta uma relação 
considerável entre a temperatura local, a ventilação e a densidade (BARBOSA, DRACH 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
e CORBELLA, 2010). Nesse estudo foi demonstrado por simulação computacional que o 
aumento da densidade aumenta consideravelmente a temperatura, principalmente 
nos países dos trópicos. Sabe-se que a introdução de novos elementos ou a alteração 
dos existentes na malha urbana é capaz de alterar drasticamente o microclima e 
produzir resultados de desconforto ambiental. A simulação computacional introduz a 
possibilidade de avaliar alterações previamente e selecionar àquelas mais adequadas 
ao conjunto. Chegou a ser constatado um aumento de até nove graus Celsius quando 
comparado um bairro real pouco adensado com uma simulação desse mesmo espaço 
adensado por simulação computacional com as mesmas condições viárias e os mesmos 
materiais construtivos. Já em uma cidade da Alemanha essa variação não passou de 
dois graus Celsius, o que no caso do contexto europeu, principalmente das cidades do 
norte, esse acréscimo não é negativo. 
O modelo de cidade densa já foi visto como sinônimo de insalubridade por 
representar o modelo das cidades industriais europeias do século XIX. A insalubridade 
era muitas vezes gerada pela massificação e pobreza que propiciava mais facilmente a 
proliferação de cólera, de tifo e outras doenças, sendo que o problema era agravado 
por indústrias tóxicas e altíssima carga horária de trabalho. Por conta disso, alguns 
autores já citados como Ebenezer Howard, resolveram propor novas formas de 
ocupação transferindo a população para os entornos menos densos e ajardinados. 
Esse modelo permaneceu até os dias atuais, mas com o diferencial de que hoje quem 
procura os subúrbios ajardinados é a população de alta renda, e tal ocupação urbana 
gera consumo excessivo de energia e contaminação. 
Sabe-se que as grandes cidades esparsas trazem grandes problemas, mas a 
densificação das metrópoles também não garante a sustentabilidade, apesar de não 
deixar de ser uma tentativa de evitar problemas ambientais nessas cidades já 
consolidadas. Do ponto de vista bioclimático, nos trópicos úmidos, a cidade compacta 
propicia a formação de ilhas de calor, com o consequente aumento do consumo de 
energia elétrica com o uso excessivo de ar condicionado e a produção de poluição. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
Rogers (2001) considera que a “densificação” de uma cidade pode trazer 
vantagens ecológicas, como a redução da contaminação do ar por automóveis que não 
necessitam se deslocar por grandes distâncias, a maior segurança dos centros urbanos, 
a redução da expansão da cidade sobre a paisagem natural e o planejamento 
integrado a fim de aperfeiçoar o uso dos recursos energéticos e diminuir a poluição. 
Porém, este texto se coloca dentro das linhas de pensamento que defendem a 
instalação de um limite para o crescimento da urbe, com o incentivo às pequenas e 
médias cidades e à criação de outras novas (CORBELLA, 1998). Tais ações podem trazer 
todas as vantagens citadas acima para uma cidade densa sem os problemas gerados 
pela macro escala, além de promover uma melhor participação da sociedade nas 
decisões políticas. Uma cidade menor pode ser socialmente diversificada onde as 
diferentes atividades sociais e econômicas se multiplicam e a sociedade pode se 
integrar mais facilmente (MOORE, 1998). 
 Os outros dois parâmetros principais de projeto urbano sustentável, que são a 
diversidade de usos e o incentivo ao transporte público, já trazem menos 
controvérsias. Quanto aos usos, o zoneamento tende a evitar a complexidade urbana, 
reduzindo as cidades em divisões simples com maior facilidade para administrá-las do 
ponto de vista legal e político, mas ao mesmo tempo impede uma relação mais 
saudável do homem com o meio e com seu semelhante. 
Normalmente as áreas de trabalho estão localizadas nos centros urbanos que 
ficam desertos e perigosos durante a noite, e a habitação e o lazer estão presentes em 
bairros mais afastados conectados ao centro comercial por autopistas. O impacto 
ambiental causado por esse zoneamento é muito maior do que o impacto causado por 
planejamentos onde o trabalho, o lazer e a habitação se integram em ambientes 
próximos e muitas vezes compartilhados. 
Quanto ao incentivo dos transportes públicos, no sistema tradicional de 
zoneamento, o automóvel se converteu no fator mais importante para o 
planejamento urbano. Na distribuição dos espaços públicos, todas as ruas e avenidas, 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
e muitas vezes até parques, são pensadas para atender as necessidades dos carros e 
não dos pedestres. A rua, que anteriormente era local de trocas e encontros sociais, 
hoje tem sido tomada por automóveis (SANTOS, 1985). A valorização de transportes 
públicos coletivos ou alternativos como a bicicleta ou a própria caminhada são 
essenciais para se pensar em um planejamento urbano sustentável baseado em um 
projeto ambiental que possibilite essas pequenas distâncias. A presença de ciclovias e 
vias de pedestre também são mensuradas por Indicadores de sustentabilidade como 
os Indicadores de Seattle (Sustainable Seattle, 1993) e os Indicadores de 
Sustentabilidade Canadense (DAUNCEY & PECK, 2001). 
Outros vários parâmetros de projeto urbano podem cooperar para o 
desenvolvimento sustentável, no entanto qualquer que seja o parâmetro não é 
aplicável da mesma forma em todos os lugares. O principal parâmetro para se pensar 
em sustentabilidade deve ser sempre o regionalismo com todas as características 
físicas, culturais, sociais e econômicas de cada localidade. 
 Uma metodologia pensada por Fritjof Capra (2002) também apresenta um 
interessante estudo sobre o projeto urbano sustentável. Capra propõe observar os 
ecossistemas naturais compreendendo como eles se organizam a fim de empregar 
esses conhecimentos na implantação de possíveis comunidades sustentáveis. O 
projeto urbano sustentável poderia se basear em princípios ecológicos de organização. 
 Capra (2002) estabelece seis princípios básicos que podem contribuir para a 
implantação de comunidades sustentáveis em equilíbrio com a natureza, socialmente 
justas e economicamente viáveis: redes, ciclos, alianças, energia solar, diversidade e 
equilíbrio dinâmico. 
 Toda a metodologia de Capra (2002) se baseia no princípio fundamental da 
ecologia que é a interação e a interdependência. O ecossistema é visto como um 
sistema dinâmico e cíclico onde todos estão de alguma forma, conectados e 
interagindo. Para Girardet (2001) um conceito importante que demonstra esse ciclo é 
o de “metabolismo circular”, no qual o consumo é reduzido melhorando o rendimento 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
e aumentando a reutilização dos recursos. As cidades atuais têm um “metabolismo 
linear” onde há a entrada de recursos, como a energia e os alimentos, posteriormente, 
o consumo desses materiais dentro da urbe e, em sequência, a produção de resíduos e 
emissão de gases tóxicos. 
 Os sistemas cíclicos também mantêm uma troca contínua de energia, matéria e 
informação com o seu meio e sua existência depende de inter-relações denominadas 
redes. 
Desta forma, para que uma sociedade se torne autônoma, quanto mais se 
criam interações entre os sistemas vivos, tanto de humanos como de animais e 
vegetais, mais se aproxima da sustentabilidade (CAPRA, 2002). 
Segundo Emelianoff (2003) a cidade deve ser capaz de se manter no tempo, 
oferecer qualidade de vida e possuir um projeto político e coletivo. Desta forma, a 
cidadepode possuir dinamismo a partir de suas expressões culturais, criatividade e 
capacidade de renovação. Ainda, quando oferece qualidade de vida em todas as suas 
instâncias, oferece também acesso aos serviços para toda a população e valoriza as 
atividades de lazer, comércio, serviços, entre outras. 
O projeto urbano sustentável também foi denominado de Projeto Ambiental. O 
enfoque ambiental dado aos projetos de revitalização de áreas degradadas e a 
proposição de novos espaços urbanos define a importância do Projeto Ambiental. Para 
Maria Assunção Ribeiro Franco, o Projeto Ambiental atende a três premissas: 
 - A conservação ambiental, mantendo os ecossistemas naturais e a biodiversidade. Os 
fatores determinantes para a formação de cenários ambientais são: o clima, os 
sistemas de bacia, a topografia, as características geológicas e edafológicas, além das 
características e organização da flora e da fauna. 
- A melhora da qualidade de vida a partir da educação ambiental e da justiça social. 
Portanto, os fatores determinantes para a formação da qualidade de vida são: a 
organização sociopolítica, a organização econômica e as novas tecnologias; 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
- O equilíbrio e a harmonização entre as características dos ecossistemas. (FRANCO, 
2001). 
Esse último parâmetro dialoga com os ideais de Capra (2002) e apontam para 
modelos cíclicos, como também defende Girardet (2001). 
 O projeto dentro das áreas públicas urbanas normalmente está ligado a uma 
estratégia maior de planejamento. O planejamento está presente em todas as áreas de 
conhecimento e refere-se à tomada de decisões para alcançar um determinado 
objetivo. Segundo Maria Assunção R. Franco: 
“a palavra planejamento carrega em seu valor semântico o 
sentido de empreendimento, projeto, sonho e intenção. Como 
empreendimento já revela o ato de intervir ou transformar uma 
dada situação, numa determinada direção, a fim de que se 
concretizem algumas intenções” (FRANCO, 2001). 
Segundo Ignacy Sachs o planejamento pode ser visto como um instrumento capaz 
de harmonizar a equidade social, a sustentabilidade ecológica, a eficácia econômica, a 
acessibilidade cultural e a distribuição espacial equilibrada das atividades e dos 
assentamentos humanos (SACHS, 1993). 
Como já foi discutido no primeiro capítulo, no início da década de 1970 
“prevaleceu o enfoque conservacionista nos discursos dos que se consideravam 
defensores do meio ambiente” (BEZERRA, 2002). Essa visão rígida não permitia a 
intervenção do ser humano na natureza. Mas nos últimos anos, passou-se a associar a 
preservação ambiental ao desenvolvimento econômico, assim o debate se ampliou e 
teve maior relevância considerando nos seus discursos que não poderia haver 
desenvolvimento sem sustentabilidade (BEZERRA, 2002). 
Somente a partir da constatação do fracasso do planejamento fundamentado na 
visão economicista ou estratégico-militar, tendo em vista o colapso urbano e a 
escassez dos recursos naturais, foi que, já no século XXI, apresenta-se o Planejamento 
Ambiental como um mecanismo capaz de melhorar a vida urbana (FRANCO, 2001). 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
É relevante constatar que não existe planejamento ambiental sem se pensar em 
projeto ambiental e a recíproca também é verdadeira. 
Com parâmetros e princípios sustentáveis pode-se buscar projetos mais 
harmônicos com o meio ambiente e que atendam às necessidades locais tanto do 
ponto de vista social como do econômico, mas a forma como esses princípios serão 
aplicados e desenvolvidos faz toda a diferença entre um projeto urbano 
adequadamente sustentável e uma cópia replicada como um carimbo para sociedades 
diferentes em locais diversos. 
Ainda, é importante destacar uma diferenciação entre cidade sustentável e eco-
cidade. Os dois termos se confundem e muitas vezes são utilizados identificando o 
mesmo tipo de projeto. No entanto, quando se refere ao projeto de uma eco-cidade 
ou um eco-bairro, refere-se a uma ideia de que o projetista considerou questões 
ambientais, tais como a presença de parques, as vias de pedestres e bicicletas, o uso 
de tecnologias ambientais, etc.. Mas quando se refere ao projeto de cidades 
sustentáveis o termo é mais amplo e leva em consideração questões sociais e 
econômicas do local. 
Algumas cidades se destacam com projetos locais que podem ser considerados 
com enfoque ambiental e até chamados de eco-bairros ou eco-cidades. No entanto, 
muitos exemplos se aproximam da visão do desenvolvimento liberal apresentada por 
Wolfgang Sachs denominada de “perspectiva da competição” já discutida no capítulo 3 
dessa tese. Esses projetos têm a tecnologia como principal enfoque e não questionam 
o modelo de desenvolvimento econômico atual. São projetos como a criação do bairro 
Vauban na cidade universitária de Freiburg no sudoeste da Alemanha que se destaca 
pelo grande uso de tecnologias ambientais como o uso de painéis solares, o 
reaproveitamento da água fluvial tanto nas residências quanto nas áreas urbanas e a 
utilização de materiais recicláveis (Figura 17 e Figura 18). 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 
Figura 17: O bairro de Vauban se localiza na cidade de 
Frieburg, na Alemanha. 
Fonte: Google maps, 2011 
Figura 18: Mapa turístico do Bairro de Vauban. 
Fonte: www.vauban.de (consultado em 2011) 
 
O que mais chama a atenção em Vauban é a pouca quantidade de automóveis. 
Todos os seus habitantes utilizam transportes alternativos como bicicletas e as 
distâncias são menores entre os serviços públicos, para que se possa caminhar. Os 
habitantes que quiserem possuir carro têm que pagar 20 mil euros, mas a grande 
maioria deles optou por alugar ou utilizar carros compartilhados quando há a 
necessidade de carregar objetos ou sair de férias. No entanto, apesar dessas opções 
serem de grande valia para o meio ambiente elas não interferem na estrutura social e 
influem ainda muito pouco na diminuição do consumo. O bairro possui um grande 
enfoque residencial e não possui usos mistos, além disso, todo o bairro é partilhado 
por pessoas de classe média que tem condição financeira suficiente para ter acesso a 
esse ambiente reservado. Sem a intenção clara, esses projetos retratam a “perspectiva 
da competição” onde quem pode pagar pela preservação do meio ambiente também 
recebe o privilégio de usufruir da natureza (Figura 19 e Figura 20). 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 
 
 
 
Figura 19: Exemplos de edificações com maior 
adensamento e diversificadas. 
Fonte: www.vauban.de (consultado em 2011). 
Figura 20: Vias adequadas para o pedestre e para o uso de 
bicicletas. 
Fonte: Daniel Schoenen 
 
 Outro exemplo já constituído de um empreendimento que inicialmente era um 
bairro com enfoque ambiental, também chamado de “ecovilla” e hoje, devido às 
proporções que tomou, é reconhecido como ecocidade (ecociudad) é o projeto de 
Sarriguren, localizado na Espanha na região de Navarra. A ecocidade foi implantada em 
um pequeno vilarejo rural com cerca de 80 habitantes, próxima à cidade de Pamplona 
que já estava bastante saturada A intenção do governo de Navarra é incentivar os 
cidadãos de Pamplona a ocupar a nova ecocidade que foi estabelecida em um espaço 
anteriormente rural que abastecia a cidade de Pamplona. A cidade teve um 
crescimento acelerado nos últimos 10 anos e no censo de 2010 a cidade já possuía 
uma população estimada em 8500 habitantes.10(Figura 21 e Figura 22). 
 
 
10
INEbase / Nomenclátor. ‘Relación de unidades poblacionales’. Instituto Nacional de Estadística 
(España). Consultado el 18 de diciembre de 2010. 
GISELESILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 
Figura 21: Vista aérea de Sarriguren. 
Fonte: http://internal.gsd.harvard.edu 
Figura 22: Plano da cidade de Sarriguren com 
esquema de transporte público. 
Fonte: http://internal.gsd.harvard.edu 
 
O projeto urbano seguiu a tendência europeia de cidades compactas e os 
edifícios residenciais receberam um maior contingente populacional. A eco-cidade 
recebeu prédios públicos, escolas, hospitais, centros esportivos, parques, praças e 
jardins, além de um centro de inovação tecnológica com desenvolvimento de pesquisa 
do governo e de empresas privadas. Parte dos edifícios é de uso misto com residências 
e comércio aumentando o uso em horários diferentes e diminuindo as distâncias. Uma 
tipologia específica criada na eco-cidade são edificações mistas chamadas de Cubo de 
Inovação que abrigam empresas de pequeno porte, restaurantes, bibliotecas e demais 
serviço atendendo também a demanda de mão de obra local. Ainda, prezou-se por 
projetos bioclimáticos executados por escritórios diferentes para evitar a monotonia 
arquitetônica, além de diversificar as tipologias incentivando vários tipos de habitação 
social. Inicialmente foram construídas 5.097 habitações de custo limitado pelo governo 
e 500 habitações de custo livre. 
Para diminuir o impacto com o ambiente rural que a circunda foram criados 
parques com paisagismo adequado para a passagem de animais entre a área externa 
da cidade e os parque urbanos. Os vários parques e jardins urbanos foram pensados 
para diminuir os fatores negativos causados pela impermeabilização do solo. Além 
disso, também foi criado um lago artificial melhorando a gestão dos recursos hídricos e 
regulando o fluxo do Rio do Barranco Grande que corta a região. (Figura 23) 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 
Figura 23: Lago artificial de Sarriguren. 
Fonte: http://joseignaciosanz.com/proyectos.htm 
 
Todas as edificações foram pensadas para atender o melhor possível aos 
parâmetros bioclimáticos. Para que a insolação fosse amenizada nas fachadas das 
edificações no verão, foram implantadas árvores em frente aos edifícios e projetadas 
persianas nas fachadas sul para que a temperatura nos dias de verão fosse amenizada. 
Além disso, a grande maioria dos edifícios possui painéis solares e fotovoltaicos para 
aquecimento de água e produção de energia. 
O eco-bairro de Sarriguren possui uma política de incentivo ao transporte 
alternativo feito com bicicletas ou caminhadas à pé. Para isso, foram projetadas 6,4 km 
de vias para pedestres em torno dos edifícios e 9km nos parque e jardins, além de 
6,5km de ciclovias. (Figuras 24 e Figura 25). 
 
 
Figura 24: Transporte público foi prioridade no 
projeto urbano. 
Fonte: Fonte: http://internal.gsd.harvard.edu 
Figura 25: Parque Central de Sarriguren, sem 
arborização. 
Fonte: http://joseignaciosanz.com/proyectos.htm 
 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
O projeto foi considerado como uma boa prática urbanística pela ONU e 
premiado pelo Conselho Europeu de Urbanistas com o Prêmio Europeu de Urbanismo 
2008. No âmbito dos projetos com enfoque ambiental, esse planejamento urbano se 
destaca, pois engloba parâmetros bioclimáticos, utilizando novas tecnologias e 
parâmetros sociais, garantindo diversidade cultural e emprego no próprio local em 
escritórios e comércio. 
Um outro exemplo, na Suécia, é o bairro de Hammarby em Estocolmo (Figura 26). 
O bairro era uma antiga zona portuária bastante insalubre que se transformou em um 
modelo de ordenamento em menos de 15 anos. Os projetos começaram com a disputa 
de Estocolmo para sediar as Olimpíadas, mas a cidade perdeu para Atenas, mas não 
interrompeu as ações de revitalização. O objetivo inicial era reduzir o impacto 
ambiental pela metade em relação aos impactos causados pelos edifícios e áreas 
urbanas da década de 90. Para isso foram estudados diversos aspectos como os ruídos, 
o tráfego, os resíduos, entre outros. Houve uma grande descontaminação do solo para 
a retirada de resíduos oriundos das indústrias que tiveram suas arquiteturas 
restauradas e adaptadas para novos usos com café e centros culturais (Figura 27). 
 
 
Figura 26: Plano urbano de Hammarby. 
Fonte: aarquiteturacontemporanea.wordpress.com 
Figura 27: Transporte público e alternativo priorizado 
em Hammarby. 
Fonte: aarquiteturacontemporanea,wordpress.com 
Hammarby Sjöstad atende a um programa ambiental com seis objetivos: a 
utilização dos espaços já construídos, materiais de construção recicláveis, transportes 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
coletivos, descontaminação dos solos, limitação do ruído a 45 dB e otimização dos 
serviços energéticos, de água e de resíduos. O bairro ainda está sendo construído e sua 
finalização está prevista para 2016. O diferencial desse bairro é o fato de prever locais 
residenciais e comerciais para também gerar renda para parte da população local. A 
intenção do governo é replicar o projeto em outros bairros de Estocolmo e em áreas 
novas. 
Diversos projetos urbanos apresentam características relevantes para o projeto 
ambiental. No entanto, a grande maioria das intervenções é em países desenvolvidos 
que podem pagar pelas novas tecnologias e pelos projetos de revitalização. Em países 
da América Latina, por exemplo, os poucos projetos urbanos com enfoque ambiental 
são realizados em condomínios fechados voltados para a classe média alta, com 
pouquíssimas exceções. As questões sociais são pouco consideradas tanto nesses 
projetos europeus quanto, principalmente, nos países em desenvolvimento. 
Apesar disso, destacar projetos urbanos com enfoque ambiental demonstra que 
muito já está sendo realizado e pode servir de exemplo para outras intervenções. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CAPÍTULO 5 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
5. CATEGORIAS ANALÍTICAS 
Os estudos dos projetos de referência foram realizados baseados em seis 
categorias analíticas que foram definidas a partir dos referenciais teóricos e 
metodológicos. São muitos os critérios de análise possíveis para um projeto urbano 
ambiental. Para que fosse viável a análise de três cidades, mesmo que essa análise 
fosse feita somente a partir dos projetos das mesmas, foi necessário estabelecer 
categorias específicas que proporcionassem um estudo conceitual dos projetos 
urbanos. Algumas dessas categorias foram estudadas pela autora como princípios 
sustentáveis em sua dissertação de mestrado, apresentada a esse mesmo programa de 
pós-graduação em 2006. No entanto, com a continuidade dos estudos no 
doutoramento e uma análise mais aprofundada do tema, a forma de abordagem das 
categorias e a metodologia adotada é bastante distinta. 
Alguns critérios de análise de projeto definidos neste capítulo foram defendidos 
como princípios sustentáveis urbanos em um artigo apresentado no México também 
com a participação da autora da tese (CORBELLA, O. D. e BARBOSA, G. S., 2009). Além 
disso, uma matriz de avaliação de projeto, ainda reduzida, contendo alguns desses 
princípios foi elaborada para o estudo de bairros sustentáveis em um artigo da autora, 
juntamente com outras duas pesquisadoras (ROSSI, A. M. G; BARBOSA, G. S. e 
ARAGÃO, T, 2012). Nesta tese as categorias analíticas definidas pelo estudo serão 
utilizadas para a análise de projetos de cidades. 
As categorias analíticas são: 
 Gestão democrática e participação comunitária, 
 morfologia e tipologias urbanas, 
 mobilidade urbana, 
 valorização da estrutura ecológica, tecnologias sustentáveis e presença de infraestrutura técnica, 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 promoção de trabalho e renda. 
 
Cada um dos autores selecionados como referência metodológica desenvolveu 
estudos que foram considerados pertinentes e coerentes com as categorias analíticas 
apresentadas para a análise de projetos urbanos sustentáveis. Alguns autores, por 
exemplo, não abordam categorias de estudo para projetos sustentáveis, no entanto, 
seus estudos têm bastante relevância para análise de projeto urbano. 
Esta tese propõe tais categorias a partir dos estudos de diversos autores que 
por sua vez desenvolveram suas próprias categorias de análise de projeto. Os autores, 
apesar de terem feito seus estudos em épocas e sociedades diferentes, tem 
parâmetros de análise em comum e podem contribuir para apontar questões 
relevantes para o projeto urbano buscando uma maior qualidade para a população 
que o usufrui. 
 
5.1. Gestão democrática e participação comunitária 
A primeira categoria analítica definida como primordial para a análise de um 
projeto urbano sustentável é a “gestão democrática e a participação comunitária” nas 
decisões projetuais. Essa categoria deve ser a primeira a ser avaliada, pois as questões 
políticas interferem consideravelmente nas decisões urbanas. O contexto político de 
cada cidade ajudará a definir o projeto e o conhecimento prévio da comunidade e o 
acesso da mesma às decisões também será crucial para a realização de um bom 
projeto. 
A importância de uma boa gestão política é defendida por Walter Moore (1998) 
que destaca que sem democracia não há cidade sustentável. Uma boa gestão pública 
que vise à sustentabilidade garante uma eficiente distribuição dos bens de serviço de 
acordo com as necessidades da comunidade. Além disso, a presença de escolas, 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
hospitais e áreas de lazer cooperam para a qualidade de vida da população. Todos os 
Indicadores de sustentabilidade apresentados na tese destacam que os gastos com 
alfabetização e saúde devem ser considerados como fatores mensuráveis para a 
medição da sustentabilidade local, apesar dessas questões não serem consideradas 
para a análise de projeto. 
O critério de Personalização defendido por Ian Bentley (1999) também destaca 
a importância da participação pública nas decisões urbanas. Para o autor, é importante 
permitir que o indivíduo personalize seu entorno aumentando a identidade do mesmo 
com o local. Essa categoria se adequa mais às edificações, pois com poucas exceções, 
os moradores poderão modificar o espaço público diretamente. No entanto, alguns 
espaços urbanos permitem alterações individuais, principalmente das associações de 
bairros. A capacidade de adaptação do espaço às necessidades dos usuários também 
facilita a de intervenção dos mesmos nas áreas urbanas. Quanto mais flexível e 
adaptativo for o ambiente, menor é a possibilidade de se tornar obsoleto. Na prática, a 
presença de espaços livre públicos e a gestão democrática são exemplos de 
facilitadores desse processo de intervenção. 
A maior personalização do espaço está presente no momento de projeto que 
reflete os anseios de um determinado grupo populacional. Na maioria das vezes o 
projeto é realizado por escritórios que não se interessam ou não permitem a 
participação da população nas decisões e consequentemente, a aceitação posterior 
por parte dos usuários pode não ser boa. No entanto, a participação comunitária não é 
garantia de um bom projeto se os desejos da população não forem coerentes com 
uma sociedade sustentável. Cabe à gestão pública o acesso à informação e a 
conscientização da população para as questões sustentáveis e seus direitos e deveres. 
Sem essa consciência coletiva, problemas de ação serão gerados mesmo com a boa 
intenção do poder público. A educação ambiental e social vai desde o consumo restrito 
e equilibrado de recursos ambientais até as questões mais amplas de justiça e 
equidade. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
A participação comunitária no projeto urbano e principalmente na gestão 
urbana após a implantação da cidade é defendida por diversos autores como MOORE 
(1998), ROGERS (2001), entre outros. Também é destacada por indicadores de 
sustentabilidade como o Indicador Canadense (DAUNCEY & PECK, 2001) que destaca a 
importância de espaços para a socialização, para o desenvolvimento pessoal e 
abertura política para a participação comunitária. O Indicador Canadense defende que 
uma das formas de proporcionar comunidades sustentáveis participativas é o incentivo 
de cidades menores (DAUNCEY & PECK, 2001). 
Outro autor que levanta categorias de análise que se aproximam da categoria 
que destaca a importância da gestão política e da participação comunitária é Kevin 
Lynch. A última dimensão de rendimento defendida por Lynch é o Controle e essa 
dimensão leva em consideração a capacidade dos usuários de determinado espaço 
terem o controle sobre a forma de utilização, a sua criação, sua modificação e gestão. 
Essa categoria se aproxima da necessidade da participação popular nas decisões sobre 
os espaços urbanos. Quando há uma motivação populacional sobre determinado 
projeto de revitalização, por exemplo, a probabilidade de esse espaço ser bem cuidado 
pelos seus usuários é bem maior. 
Ainda coerente com a gestão política, Lynch (1981) defende um parâmetro que 
chama de metacritério que somente será alcançado a partir de uma adequada gestão 
democrática. Esse metacritério é definido pelo autor como Justiça e é apresentado 
como um critério mais abrangente não considerando somente a forma urbana. É 
bastante defendido também por Henri Acserald (2001) e Wolfgang Sachs (2000) como 
um dos principais critérios para se alcançar a sustentabilidade. Esses últimos dois 
autores defendem que a justiça e a equidade são essenciais para a sustentabilidade 
social. A sustentabilidade social é difícil de ser mensurada, mas pode ser verificada na 
diversidade social e cultural presente em uma cidade. Uma cidade pensada somente 
para uma ‘classe social’ inibe a diversidade cultural. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
A Justiça se refere ao modo como as vantagens e as desvantagens de 
determinado projeto são distribuídos pelos indivíduos. Um projeto que expulsa uma 
população para um local com difícil acesso, péssimas condições de salubridade, etc., 
em prol de atender às necessidades de outra parcela populacional, não deve ser 
considerado um bom projeto. 
A promoção de políticas públicas e ações visando o aumento da qualidade de 
vida, em geral, permite um compromisso sustentável com justiça social, redução das 
desigualdades e assegura o acesso aos bens materiais e serviços. Assim, a presença do 
Estado e o resgate de suas funções sociais podem promover a cidadania, garantindo os 
direitos e necessidades básicas para os cidadãos. Além disso, cabe também à gestão 
política ações de promoção de segurança pública através de programas específicos. No 
entanto, a mudança de paradigma econômico e social pode influenciar na diminuição 
da disparidade social, que por sua vez, é vista como um potencializador de problemas 
de segurança pública. O projeto também pode contribuir consideravelmente para a 
diminuição da criminalidade local. Alguns exemplos são as vias livres de obstáculos 
visuais, as fachadas frontais das edificações voltadas para as ruas, separação e 
sinalização adequada entre os meios de locomoção para evitar acidentes, entre outros. 
Também é de responsabilidade da gestão política garantir a presença dos bens 
de serviço e o acesso da comunidade aos mesmos. A presença de serviços distribuídosnos diferentes bairros e a facilidade de acesso a esses bens pode contribuir para o 
projeto urbano sustentável, pois diminui as distâncias e promove a qualidade de vida 
(ROSSI, A. M. G; BARBOSA, G. S. e ARAGÃO, T, 2012). Além da qualidade do 
equipamento, a distância entre o usuário e o serviço contribui indiretamente para a 
preservação do ambiente. Um exemplo é a proximidade entre as escolas e habitação. 
Se a escola é perto de casa, a criança pode andar. O acesso aos serviços de saúde, 
educação, lazer e serviços é de grande importância para sustentabilidade local e 
qualidade de vida (ROSSI, A. M. G; BARBOSA, G. S. e ARAGÃO, T, 2012). 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
Em uma proposta de cidade sustentável fatores econômicos e sociais devem 
ser integrados ao projeto urbano. Além disso, a motivação dos cidadãos e sua 
participação nas decisões públicas e políticas deve ser garantida. A participação da 
sociedade civil na formulação de políticas e fiscalização das atividades do governo 
também têm sua importância (BARBOSA, 2006) e no tocante ao projeto urbano, se for 
uma cidade de grandes extensões o acesso aos governantes se torna mais difícil para a 
população em geral. A gestão democrática orientada pela sustentabilidade requer 
ação responsável dos diversos atores sociais (MOORE, 1998). 
Cabe também à gestão democrática a limitação do crescimento físico da cidade 
e da densidade populacional. Essa limitação não pode ser rígida por se tratar de uma 
democracia e por se estar pensando em sustentabilidade, mas o controle do 
crescimento é necessário para que o projeto urbano pensado para um número 
determinado de habitantes não tenha que atender o dobro, por exemplo. Apesar de a 
densificação urbana ser considerada por diversos autores como um princípio 
sustentável, a alta densidade populacional pode trazer diversos contratempos para a 
sociedade. 
O controle da densidade se dá principalmente através do controle da 
especulação imobiliária e da promoção de novas áreas bem servidas também de 
infraestrutura e serviço. Uma forma de restrição é a legislação urbana, através da 
definição de gabarito máximo e de taxa de ocupação do terreno adequada a cada 
projeto. 
Um dos principais objetivos das cidades que buscam um desenvolvimento 
sustentável é o desenvolvimento socioeconômico equilibrado da sociedade, além da 
melhora da qualidade de vida, da gestão responsável pela preservação do meio 
ambiente e a utilização racional do território (Carta Europeia para a ordenação do 
território - CEOT/CEMAT, 1983). 
 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
5.2. Morfologia e Tipologia 
 A segunda categoria é a morfologia e a tipologia urbana baseadas em critérios 
ambientais. A forma urbana e a tipologia das edificações pode afetar o microclima 
local criando ou evitando, por exemplo, o efeito estufa. A morfologia define o traçado 
urbano que independente de ser sinuoso, radial ou retilíneo, será responsável por 
diversas consequências projetuais na cidade. Por exemplo, é a partir da morfologia que 
será definido o uso do solo. A partir disso, as habitações serão próximas ou afastadas 
das áreas de trabalho, a cidade será compacta ou espraiada, as vias serão estreitas ou 
largas, os serviços serão concentrados em um único centro ou em diversos núcleos de 
bairro, entre outras definições físicas do projeto. 
É a morfologia urbana que também influencia a dinâmica urbana, 
especialmente na mobilidade. No zoneamento modernista tradicional as áreas 
residenciais são separadas do trabalho e a distância entre casa e trabalho contribui 
para uma grande necessidade de deslocamento. O fluxo de pedestres e carros organiza 
a hierarquia das vias e a forma como este sistema viário é projetado pode ajudar ou 
dificultar o uso de transportes públicos e alternativos. Também traz reflexos para a 
morfologia a intenção em diminuir as distâncias entre as atividades, pois uma das 
soluções projetuais é aumentar o uso misto em ambientes urbanos para também 
minimizar o consumo de energia,. Para Girardet (2000), o planejamento de uma cidade 
mista e diversificada pode reduzir a poluição e consumo excessivo de energia. Girardet 
(2000) também destaca a importância de projetos urbanos que privilegiam bairros 
com centros comerciais capazes de suprir as necessidades da população daquela 
região (cidade polinucleada). Capra (2002) também apresenta a importância de redes 
entre bairros e cidades vizinhas. Os bairros podem ser interdependentes: subsistemas 
de redes complexas uns dentro de outros, organizados e associados às infraestruturas 
(CAPRA, 2002. 
Os usos diversificados dos espaços também podem ser incentivados pela boa 
distribuição dos bens de serviço. O acesso facilitado e a justiça social dependem da boa 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
localização das escolas, hospitais, centro comunitários etc. Não é somente a 
quantidade suficiente, mas o local onde se encontram, pois um único bairro pode 
concentrar vários serviços e outros não terem nem escola primária. Além disso, o 
entorno desses equipamentos deve oferecer segurança, acessibilidade e acesso 
facilitado gerando uma vitalidade. 
 Para Capra (2002) a noção de diversidade na ecologia pode ser revertida para o 
urbanismo. Na ecologia a biodiversidade é a “diversidade das espécies, organismos, 
em interdependência e informação” (CAPRA, 2001). Um ecossistema diverso também 
será resiliente, pois ele possui muitas espécies que superpõem funções ecológicas que 
podem ser parcialmente substituídas, caso um elo da rede se desfaça. Já no 
urbanismo, essa diversidade contribui para a redução da ´pegada ecológica´ a partir da 
diversidade de usos. Quanto maior a diversidade, menor a dependência de transporte 
motorizado, menor o impacto e maior a troca de energia, matéria e informação com o 
meio (ANDRADE E ROMERO, 2004). 
Ian Bentley (1999) destaca o critério da Variedade que é semelhante a 
categoria de Diversidade descrita por Capra (2001). A variedade também traz dinâmica 
para os espaços urbanos. Não somente a diversidade de usos, mas também a 
diversidade visual dos espaços e cultural pode oferecer mais opções e novas 
experiências para os habitantes. 
Além da diversidade de usos já pré-definida no ambiente urbano, como 
habitação, hospitais, escolas, áreas de trabalho, entre outros, a promoção de 
ambientes multifuncionais adaptáveis para diferentes usos também pode contribuir 
para a vitalidade local. A presença de ambientes multifuncionais capazes de atender a 
eventos diferenciados deve ser considerada no estudo da morfologia urbana, pois é 
um dos fatores que aumenta a condição adaptativa da cidade. Espaços livres bem 
elaborados são exemplos de locais que permitem atividades distintas em dias e 
horários diferentes. A capacidade de adaptação dos ambientes também melhora a 
resiliência urbana e ainda, a sensação de segurança visto que espaços bem 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
aproveitados evitam a obsolescência e a consequente degradação e insegurança 
(LEMOS, 2010). 
Ainda, a definição se a cidade será esparsa ou compacta também aparece na 
morfologia. Os projetos urbanos compactos receberam maior notoriedade nos estudos 
recentes, mas, como já foi discutido anteriormente, essa "compactação" também deve 
ser considerada com critérios, pois isso também pode trazer problemas como "ilhas de 
calor", especialmente em locais tropicais (BARBOSA, DRACH, CORBELLA, 2010). Além 
disso, apesar da densificação urbana poder até representar uma tentativa de amenizar 
os problemas urbanos e ambientais causados pela macro escala, ao mesmo tempo, 
causa novos problemas como a verticalização intensadas cidades, prejudicando a 
ventilação e a iluminação natural, e aumentando a concentração da poluição 
atmosférica. 
Desta forma, voltasse na discussão da escala da cidade. Uma cidade grande e 
ainda compacta traz grandes problemas urbanos incluindo a dificuldade de 
mobilidade. São muitos os exemplos de cidades grandes no mundo que sofrem com a 
favelização e o crescimento desordenado. 
Desde os primórdios do urbanismo a limitação urbana já era considerada como 
essencial para a qualidade da cidade. Os gregos definiam a dimensão de suas cidades 
considerando sua governabilidade (BENÉVOLO, 2005). Ainda hoje, o crescimento 
excessivo urbano é visto como insustentável (NEIRA ALVA, 1998). Para Roberto 
Magalhães, as pequenas cidades permitem uma escala ‘controlável’ do fenômeno 
urbano (MAGALHÃES, 2006). Desta forma, uma cidade que demanda uma menor 
infraestrutura, facilita a administração pública e o acesso da população às decisões 
políticas. 
Não há estudos que estipulem uma estimativa sobre o número máximo de 
habitantes que permite o desenvolvimento urbano sem prejudicar as questões 
ambientais. No entanto, é aceito na comunidade acadêmica que a grande escala pode 
prejudicar a sustentabilidade. A dificuldade de acesso aos governantes locais, os gastos 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
excessivos de energia e tempo com a locomoção, a maior poluição do ar, a dificuldade 
em gerar infraestrutura para todos, entre outros, são fatores que demonstram a 
insustentabilidade da grande escala urbana (CORBELLA, 1998). 
A partir daí, alguns autores defendem a limitação urbana como forma de 
garantir um crescimento adequado para os ambientes urbanos. Inicialmente a 
limitação urbana é uma questão política, a ação de limitar a urbe reflete na 
morfologia. Cada cidade poderia ser planejada para um determinado limite que seria 
variável de acordo com cada sociedade e vocação urbana (CORBELLA, 1998; 2010). 
Desta forma, outros núcleos urbanos poderiam ser incentivados e planejados para 
atender o excedente populacional. Alguns dos autores que defendem o incentivo de 
uma rede de cidades menores como um princípio urbano sustentável são Barbosa 
(2006), Girardet (2001), Moore (1998) Rogers (2001) e Corbella (1998, 2010). Além 
disso, as cidades em rede podem propiciar uma troca de serviços e recursos entre as 
mesmas. 
A limitação urbana, apesar de ser uma forma de controle, refere-se à forma 
como o gestor da cidade, e, inicialmente, seus planejadores controlam seu 
crescimento. Para Barbosa (2006) e Corbella (1998; 2010) a limitação urbana pode ser 
feita a partir de uma legislação que defina gabaritos e áreas de preservação ou de 
produção agrícola no entorno urbano, incentivando também cidades produtivas com 
trabalho e renda. Tal legislação poderia em longo prazo inibir a especulação 
imobiliária. Desta forma, a área urbana estaria limitada evitando conurbações e 
verticalização excessiva. Para esses autores, dificilmente a estrutura de uma cidade 
planejada para um determinado número de habitantes suportará um crescimento 
ilimitado, o que resultará, provavelmente, em uma urbe com áreas de favela. O 
incentivo a diferentes cidades e a formação da outras cidades com características 
sustentáveis pode distribuir melhor o financiamento público e atender de forma mais 
eficiente a população. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
Outra questão que também é levantada por Ian Bentley (1999) é o conceito de 
Permeabilidade para o projeto urbano ambiental. Esse critério também diz respeito à 
morfologia urbana. Somente locais que são acessíveis podem ser desfrutados. A 
possibilidade de alcançar locais por caminhos diferentes e a qualidade desses acessos 
é essencial para trazer vitalidade para a área urbana. A forma como as vias se 
relacionam e a quantidade de rotas que permitem a variedade de acessos auxiliam na 
utilização dos espaços urbanos. Além disso, as normas de uso do solo urbano também 
influenciam para estabelecer um conjunto harmônico de vias. 
 Em todo espaço urbano é importante ter espaços mais permeáveis e outros 
menos. Além disso, algumas áreas são privadas e realmente devem ter acessos mais 
preservados, no entanto, os espaços públicos devem ter uma melhor permeabilidade 
física e visual. 
 Para Bentley (1999) existem três características de projeto que podem criar 
obstáculos para os acessos aos espaços públicos: o aumento da escala do 
planejamento; a utilização de traçados hierárquicos e a não segregação entre pedestre 
e veículos. A escala de planejamento refere-se à extensão das vias. Vias longas 
dificultam a permeabilidade e podem criar quarteirões muito grandes. Já os traçados 
hierárquicos são importantes para a cidade, que realmente deve ter vias mais largas e 
mais estreitas de acordo com a intenção de fluxo, mas o acesso hierárquico dificulta o 
acesso direto ou o retorno. São, por exemplo, as ruas sem saída e os cul-de-sac que 
são mais estreitos e obrigam o usuário a retornar pelo mesmo lugar. Além disso, inibe 
o usuário de sair de uma via larga e com visualização direta para uma via estreita. Por 
fim, a segregação entre veículos e pedestres também pode ser uma alternativa para o 
projeto urbano, no entanto, essa separação deve ser feita de forma consciente e 
coerente (BENTLEY, 1999). Uma segregação ruim pode dificultar a permeabilidade, 
como por exemplo, uma grande avenida pensada somente para veículos sem a 
possibilidade de caminhada do pedestre ou a inibição total de automóveis em áreas 
residenciais se o acesso à entrega de mercadorias ou de automóveis de socorro, por 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
exemplo, não for garantido. Já a segregação criada por obstáculos urbanos deve ser 
evitada. Alguns elementos como rios, grandes avenidas, muros etc., se não forem bem 
tratados no projeto, podem criar obstáculos que consequentemente farão com que 
pedestres e até mesmo automóveis evitem passar por aqueles ambientes. O resultado 
disso, muitas vezes, são espaços degradados, obsoletos e sem vitalidade (RITCHIE 
&THOMAS, 2003). 
 A permeabilidade também pode contribuir para a legibilidade dos espaços 
urbanos. Um bom projeto urbano pode facilitar a legibilidade da forma da cidade e 
permitir uma compreensão mais rápida dos espaços, o que passa para o habitante e 
para o visitante uma maior segurança. A permeabilidade visual aumenta a sensação de 
segurança, pois o indivíduo se localiza melhor no espaço e sabe qual caminho fazer 
para alcançar o local aonde deseja chegar (LYNCH, 1981). 
A morfologia urbana também pode contribuir para a integração entre o natural 
e o ambiente construído, melhorando o contexto urbano através da introdução de 
vegetação na área urbana e facilitando a criação de corredores naturais. 
A tipologia também terá grande importância quanto ao uso da iluminação 
natural e da ventilação, contribuindo para o uso racional da energia elétrica. Os 
edifícios são um dos principais fatores responsáveis pelo consumo de energia e suas 
tipologias podem reduzir o consumo quando esses edifícios são projetados com 
princípios bioclimáticos (CORBELLA e YANNAS, 2001). 
 Ainda, a diversidade cultural, social e econômica também pode ser visível nas 
tipologias urbanas. A monotonia tipológica não reflete a sociedade sustentável, visto 
que a diversidade é de grande importância para o desenvolvimento sustentável. 
 
 
 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
5.3 Mobilidade urbana 
A mobilidade urbana tem grande importância para o projeto urbano. Desde o 
começo do século XX o automóvel tem recebido destaque no projeto urbano, 
especialmente no zoneamento tradicional. Normalmente, espaços públicos,ruas, 
avenidas e até parques, às vezes são projetados para atender em primeiro lugar às 
necessidades dos carros, desconsiderando, muitas vezes, as necessidades dos 
pedestres. A rua, que antes era um local de encontros de intercâmbio e social, hoje 
tem sido um espaço usado principalmente pelos carros (SANTOS, 1985). Para mudar 
esse quadro, além do planejamento de bairros mistos também são importantes 
projetos que incentivem o transporte público ou alternativo, como bicicletas ou 
mesmo a mobilidade a pé. 
Nas últimas décadas o automóvel se tornou objeto de desejo de grande parte 
da população. Na sociedade atual os conceitos de individualidade e autonomia 
também permeiam a discussão sobre mobilidade. O meio de transporte também 
recebe um significado simbólico. O fato de cada indivíduo querer controlar seu tempo 
e seu espaço na cidade exige maiores extensões territoriais para o transporte que 
acaba sendo, em sua maioria, individual. O uso do transporte coletivo e do transporte 
alternativo também passa por uma mudança cultural (CORNER, BARBOSA, CORBELLA, 
2008). 
A mudança de paradigmas culturais pode contribuir para o maior incentivo a 
projetos que beneficiem o transporte coletivo. Focar o pedestre ao invés do automóvel 
modifica todo o projeto urbano tradicional. No entanto, a cidade pensada para o 
pedestre também traz novamente a discussão da escala urbana. Cidades pequenas e 
médias, por possuírem menores distâncias, também facilitam a locomoção a pé ou de 
bicicleta. Além disso, o incentivo a uma rede de cidades pequenas e médias com 
infraestrutura e acessos facilitados pode contribuir para uma melhor mobilidade 
intermunicipal. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
De acordo com o Working Group on Sustainable Urban Transport - WGSUT o 
transporte urbano sustentável deve apresentar os seguintes objetivos: 
- dar suporte à liberdade de movimento, saúde, segurança e qualidade de vida 
dos cidadãos, da geração atual e para as gerações futuras; 
- ser ambientalmente eficiente; 
- possibilitar o acesso às oportunidades e serviços a todos os cidadãos, 
incluindo idosos e com mobilidade reduzida, e não-cidadãos (WGSUT, 2004). 
Desta forma, o uso racional dos transportes, favorecendo o uso de energias 
renováveis e o incentivo do transporte público e alternativo torna-se essencial para se 
alcançar os objetivos de uma mobilidade sustentável (CAMPOS e RAMOS, 2005). 
Com a expansão da mancha urbana, consequência da dispersão espacial da 
população e do maior contingente de pessoal nas cidades médias e grandes, o setor 
público não consegue, na maioria das vezes, alocar recursos para um plano de 
transporte adequado. Consequentemente, o tempo médio de locomoção das pessoas 
aumenta e também a poluição do ar pelo uso excessivo do automóvel. Além disso, de 
acordo com a Plataforma Cidades Sustentáveis (Rede Social Brasileira por Cidades 
Justas e Sustentáveis e o Movimento Nossa São Paulo, 2010), em um projeto 
sustentável é indispensável não somente o incentivo do transporte público e do 
automóvel movido à energia alternativa como também a integração dos diferentes 
meios de transporte, 
“facilitando a locomoção dos cidadãos e, consequentemente, 
melhorando a qualidade de vida de todos. As cidades devem 
zelar para que seus planos de mobilidade municipais levem em 
consideração os inúmeros aspectos das políticas públicas como 
moradia, geração de emprego e renda, perfil de uso das fontes 
de energia utilizadas e, principalmente, para que haja 
integração total de todos os modais de transporte, com perfeita 
harmonia entre as distintas alternativas de mobilidade. Isso 
sem deixar de priorizar pedestres e ciclistas...” (Rede Social 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
Brasileira por Cidades Justas e Sustentáveis e o Movimento 
Nossa São Paulo, 2010). 
 
Também no Brasil, o Estatuto das Cidades estabelece que cidades com mais de 
500 mil habitantes devem aplicar um Plano Diretor de Mobilidade Urbana (PlanMob). 
Esse planejamento (PlanMob) destaca quatro entendimentos básicos para o 
transporte: 
 “O transporte deve ser parte de um contexto mais amplo, o da mobilidade 
urbana, que considere a qualidade de vida, a inclusão social e o acesso às 
oportunidades das cidades; 
 A política de mobilidade deve ser cada vez mais associada às políticas urbanas, 
e submetida às diretrizes do planejamento urbano expressas nos Planos 
Diretores11; 
 O PlanMob, tratado de modo amplo e, sobretudo considerando a 
sustentabilidade das cidades, deve dedicar atenção especial aos modelos 
motorizados e não motorizados de transporte de massa, e oferecer 
acessibilidade universal; 
 O PlanMob deve ser realizado com a máxima participação da sociedade na 
elaboração de seus planos e projetos, de modo a garantir o apoio e 
legitimidade política na sua implementação e continuidade. Este novo conceito 
de planejamento da mobilidade, com um escopo mais amplo, precisa ser 
incorporado pelos municípios” (CORNER, BARBOSA, CORBELLA, 2008). 
A partir destes conceitos, o PlanMob estabelece princípios e diretrizes a serem 
desenvolvidos pelos gestores das cidades: 
 “Garantir a diversidade de meios de transporte, respeitando as características 
das cidades, priorizando o transporte de massa que é estruturante sobre os 
meios de transporte individuais, respeitar os meios de transporte não 
motorizados valorizando os pedestres; 
 Garantir que a mobilidade urbana ocorra de forma integrada no âmbito do 
Plano Diretor Municipal; 
 Respeitar as condições especiais locais e regionais; 
 
11
 No Brasil, toda cidade com mais de 20mil habitantes deve ter um Plano Diretor. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 Garantir o controle da expansão urbana, o acesso universal à cidade, a melhoria 
na qualidade ambiental e o controle dos impactos gerados pelo uso da terra no 
sistema de mobilidade.” (CORNER, BARBOSA, CORBELLA, 2008). 
Kevin Lynch (1981) destaca o Acesso como o critério que propicia toda a vida 
urbana. A possibilidade das relações urbanas é toda pautada pela capacidade de ir e vir 
dos indivíduos. No entanto, nas últimas décadas esse acesso ganhou uma nova 
conotação, visto que as comunicações evoluíram consideravelmente e o acesso ao 
outro ou mesmo ao trabalho pode ser realizado virtualmente. 
Mesmo assim, a mobilidade ainda é um dos principais critérios que deve ser 
privilegiado no projeto urbano, visto que uma casa isolada e não integrada não 
permite que seus habitantes utilizem de forma adequada os espaços urbanos. 
No projeto urbano com enfoque sustentável valorizar e incentivar o transporte 
coletivo ou alternativo, como o uso de bicicletas ou o caminhar, são essenciais. Além 
disso, a acessibilidade universal também deve ser garantida. O desenho universal 
permite a locomoção e bem estar de pessoas com necessidades especiais, sejam 
cadeirantes, cegos, idosos e até mesmo pessoas com necessidades temporárias como 
quando está empurrando um carrinho de compras ou de bebê. A largura das vias, dos 
passeios, os rebaixamentos de transposição das vias pelas faixas de pedestre, a 
sinalização tátil e sonora, equipamento urbano e transportes adequados, são algumas 
das características físicas importantes do ambiente urbano sustentável que gera maior 
segurança e comodidade aos habitantes. 
O uso misto propiciado por uma morfologia adequada para o projeto urbano 
sustentável também pode trazer melhorias para a mobilidade, uma vez que as 
atividades de trabalho, habitação e lazer se interagem. A distribuição adequada da 
estrutura urbana contribui em vários sentidos para a cidade e o meio ambiente. Além 
de diminuir distâncias e facilitar o acesso também propicia sociedades maisjustas e 
equilibradas. Ter acesso aos bens de serviço é uma das garantias de qualidade de vida 
(JENKS & DEMPSEY, 2005). 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
O projeto de uso misto definido na morfologia urbana diminui a necessidade de 
locomoção de grandes distâncias diárias e, consequentemente, contribui para a 
redução tanto da poluição do ar quanto sonora (CORNER, BARBOSA e CORBELLA, 
2008). 
 
5.4. Tecnologias sustentáveis e presença de infraestrutura técnica 
Alguns autores acreditam que as novas tecnologias ambientais podem garantir 
a preservação do meio ambiente. A ‘perspectiva da competição’ descrita por W. Sachs 
(1996) defende que a partir das novas tecnologias pode-se alcançar a sustentabilidade 
sem inibir o desenvolvimento econômico da sociedade. Acredita-se, por exemplo, que 
o acesso à alimentação pela maioria da população mundial pode ser alcançado através 
de tecnologias de plantio, criação, conservação e distribuição de alimentos. Outro 
exemplo é a produção de energia, que para os defensores desse pensamento, a 
escassez do petróleo não é um problema, pois as novas tecnologias de energias 
alternativas podem suprir essa demanda. No entanto, essas novas ideias, 
normalmente, ainda são caras e o acesso às mesmas acaba sendo restrito a uma 
pequena parte da população, principalmente quando não há ou quando é pequeno o 
incentivo governamental a essas tecnologias. 
 Essa realidade poderia ser diferente se as tecnologias ambientais fossem 
adotadas como padrão, pois uma política de grande escala reduziria os custos. Um 
exemplo é a produção de energia elétrica a partir de hidroelétricas, pois a construção 
de uma hidroelétrica e de um sistema de distribuição além de caro também causa 
transtornos ambientais. No entanto, quando é o padrão do país, como é o caso do 
Brasil, esse custo é pago por grandes consórcios e governos e diluído para os 
consumidores. Se o padrão se tornasse a captação de energia solar, por exemplo, a 
instalação inicial do sistema também teria um alto custo, mas esse valor se distribuiria 
entre o governo, os consórcios e o consumidor da mesma forma que a energia 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
hidráulica, mas com um dano ambiental menor e com um custo de distribuição 
reduzido se o sistema fosse pensado localmente. 
Essa tese defende a ideia de que as tecnologias são de grande importância para 
a sustentabilidade, mas não garantem a mesma, pois a sustentabilidade transcende às 
questões ambientais. A sustentabilidade urbana considera fatores ambientais, 
econômicos e sociais. Uma ótima criação tecnológica que visa à preservação 
ambiental, como por exemplo, a produção de biocombustível, se não for bem 
administrada e com uma produção controlada, traz problemas ao meio ambiente 
como desmatamento para a monocultura da cana de açúcar. A tecnologia é somente 
um aparato para o desenvolvimento sustentável, mas não garante a sustentabilidade. 
No entanto, diversos autores concordam que as tecnologias ambientais são 
fundamentais nos projetos urbanos sustentáveis. Desde tecnologias simples como a 
drenagem feita a partir de valas permeáveis até a produção de energia elétrica a partir 
de fontes alternativas. 
Existem várias tecnologias que são desenvolvidas para contribuir para o 
desenvolvimento urbano sem danificar o meio ambiente, tais como a reutilização de 
água, as energias renováveis como uma fonte de potência, a reutilização dos materiais 
e reciclagem de matérias-primas, o tratamento de resíduos, e a utilização da energia 
solar, entre outros. Capra (2001) e Girardet (2001) defendem a ideia de que tudo se 
inter-relaciona e os ciclos permitem os ‘3Rs’ (Reduzir, Reutilizar, Reciclar). Para esses 
autores o metabolismo circular transforma resíduos em recursos, como o ciclo da 
água, do lixo e energias de biomassa. 
Essa tese não tem como propósito descrever ou apresentar todas essas 
possíveis tecnologias ambientais. No entanto, tem como objetivo destacar a 
importância das mesmas para o ambiente sustentável. Além disso, a falta de 
tecnologias pode piorar a implantação de infraestrutura técnica o que pode levar à 
degradação do ambiente natural. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
Os quatro Indicadores de Sustentabilidade considerados nesta tese destacam a 
necessidade do uso de novas tecnologias de produção de energia limpa. Como o 
aquecimento global é consensualmente aceito pela maioria dos governantes e 
pesquisadores como um dos principais problemas mundiais, e uma das causas maiores 
do mesmo é a queima de combustível fóssil, a busca por tecnologias limpas de 
produção energética pode ser uma das principais atuações sustentáveis. 
Outras tecnologias ambientais podem contribuir bastante para a promoção de 
cidades sustentáveis, principalmente na área de infraestruturas, como o tratamento 
de água e de resíduos. O ideal seria que esses sistemas também tivessem um baixo 
consumo de energia e material. 
A escassez de infraestrutura técnica pode trazer um grave problema social, 
como doenças causadas por falta de saneamento, especialmente em áreas de baixa 
renda. A falta de saneamento e a falta de coleta de lixo adequada podem contribui 
para a poluição de rios e do solo, por exemplo. De acordo com os Indicadores de 
Seattle (Sustainable Seattle, 1993) um dos principais fatores de medição de 
sustentabilidade é a infraestrutura básica que permite o acesso à água e ao 
saneamento nas habitações. Muitos problemas ambientais podem ser evitados com a 
implantação de infraestrutura, principalmente se forem pautadas em tecnologias 
ambientais. Além disso, quanto mais os sistemas urbanos tiverem um baixo consumo 
energético e de material, mais contribuem para a sustentabilidade urbana. 
Douglas Farr (2008) destaca a importância do alto desempenho ambiental de 
edifícios e áreas urbanas. Edifícios e até mesmo bairros bem posicionados e com 
tecnologias que prezem o meio ambiente como o recolhimento de água pluvial e o 
reuso das mesmas, além da utilização de energia solar, por exemplo, podem contribuir 
para o projeto urbano sustentável, mesmo em escala reduzida. 
As tecnologias são de grande valor para possíveis soluções sustentáveis, mas as 
ações sociais e políticas podem ter muito mais importância. Essas afetam diretamente 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
o bem estar social e consequentemente melhoram a qualidade de vida e aumentam o 
interesse pelas questões ambientais por parte da população. 
Os custos das novas tecnologias ambientais ainda são muito altos para grande 
parte das cidades, que, muitas vezes, têm como prioridades erradicar a pobreza, 
garantir moradia digna, garantir saúde e educação para uma maioria populacional que 
vive na pobreza. A sustentabilidade de cidades em países em desenvolvimento, como 
é o caso do Brasil, por exemplo, depende muito mais de questões políticas e 
econômicas. No entanto, as tecnologias ambientais são de grande importância e 
colaboram significativamente para a sustentabilidade urbana. 
Acredita-se nesta tese que atuações tecnológicas pontuais como as citadas 
nesse tópico realmente podem ser executadas e contribuir para a melhoria do 
ambiente, mas a sustentabilidade não pode estar baseada na tecnologia, mas sim, no 
ser humano. 
 
5.5. Valorização da estrutura ecológica 
Para diversos autores, como Beatley (2010), Farr (2008), Gomes (2010) e Ruano 
(1999), a presença da natureza no meio urbano é de grande importância para a 
sustentabilidade. O projeto urbano pode contribuir para essa interação através de 
parques, áreas preservadas e vegetação urbana. Para Gomes (2010), preservar, 
integrar e se necessário reflorestar áreas afetadasfaz parte do desenvolvimento 
urbano sustentável. 
A presença de áreas verdes no ambiente urbano contribui para a qualidade de 
vida dos moradores e auxilia no aumento da biodiversidade. A proteção da estrutura 
biofísica, incluindo as áreas agrícolas e zonas florestais, são fundamentais para a 
manutenção dessa biodiversidade (GOMES, 2010). 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
Timothy Beatley (2010) defende a ‘ecologização’ das cidades, que foca na 
natureza para garantir sustentabilidade. Muitas vezes o projeto urbano sustentável 
foca em elementos como transporte público, produção de energias renováveis, entre 
outros, mas não enfatiza a presença da natureza no ambiente urbano. Beatley (2010) 
reforça a ideia de que o ser humano tem uma necessidade inata de ter contato com o 
meio natural. Isso é o que ele defende como biofilia. A cidade biofílica valoriza as 
características naturais que já existem e auxilia na restauração das áreas degredadas. 
Desta forma, a arborização urbana e as áreas verdes são essenciais para o projeto 
sustentável. 
A presença de parques, reservas e árvores urbanas aumenta a biodiversidade, 
mas as formas naturais e as imagens também podem fazer parte dos projetos 
arquitetônicos e urbanos. Telhados verdes, paredes verdes, jardins nas calçadas, 
parques e reservas ambientais são exemplos da possível presença da natureza no meio 
urbano. 
Douglas Farr (2008) ressalta que a ligação do homem com a natureza traz 
benefícios a saúde e melhora a qualidade de vida. E para isso, o projeto urbano pode 
utilizar recursos naturais para alcançar objetivos sustentáveis sem comprometer o 
meio ambiente. Desta forma, os sistemas de escoamento de águas pluviais, por 
exemplo, podem ser feitos a partir de jardins e áreas permeáveis. As caminhadas 
podem ser incentivadas através da criação de parque e da arborização das vias (FARR, 
2008). Além disso, a arborização também coopera para a melhora do microclima 
urbano, por proporcionar sombreamento, o que é de grande importância 
principalmente para cidades tropicais, como é o caso das cidades brasileiras. Para 
Virgínia Vasconcellos (2006), a pavimentação do solo e a retirada das árvores geram 
um processo de impermeabilização do solo muito grande, contribuindo tanto para a 
não absorção das águas pluviais e realimentação do lençol freático, quanto 
aumentando a possibilidade de enchentes. Além disso, a escassez de arborização nas 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
vias contribui para aumentar a absorção da radiação solar pelos edifícios, solo e 
pedestres, devido à diminuição de áreas sombreadas. 
A valorização do ambiente natural e das relações entre o mesmo e a cidade 
também coopera para a valorização da paisagem. Ressaltando que paisagem não é 
somente o meio natural. De acordo com A. Ritchie e Thomas (2003): 
"Paisagem não é apenas árvores, arbustos e relva, 
adicionados pelo seu valor estético. Em vez disso, a 
paisagem combina formas de relevo, ecossistemas e abre 
espaços-redes que moldam o ambiente natural e 
sustentam não só o plantio, mas todas as formas de vida, 
incluindo os seres humanos" (RITCHIE &THOMAS, 2003). 
 
Redução da poluição atmosférica, estabilidade bioclimática, melhoria das 
condições do solo, aumento da biodiversidade, qualidade ambiental e paisagística, são 
alguns dos benefícios da arborização urbana (VASCONCELLOS, 2006). Além disso, a 
escolha dos materiais de pavimentação do solo e a previsão dos espaços livres verdes 
nos projetos urbanos são fatores importantes para a permeabilidade do solo e para 
menor consumo de energia e menor produção de poluição. 
 
5.6. Promoção de trabalho e renda 
Essa última categoria não cabe especificamente ao projeto urbano, mas não 
pode ser desconsiderada, pois o acesso ao trabalho e renda pode ser facilitado pelo 
projeto. O projeto urbano não pode ser considerado sustentável se não incentivar a 
formação de cidades produtivas. Além disso, o projeto também influencia na 
promoção e no acesso ao trabalho que também são fundamentais para a permanência 
na cidade. 
A escolha da cidade de moradia tem ligação direta com o acesso ao trabalho. 
Não somente o acesso físico, mas principalmente, a possibilidade de trabalhar e se 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
manter na determinada cidade. Quando o projeto urbano coopera para a presença de 
postos de trabalho próximos das moradias há uma melhor mobilidade. Políticas sociais 
podem permitir a criação de micro e pequenas empresas, cooperativas de trabalho, 
treinamento técnico e pequenas áreas agricultáveis próximas ao meio urbano que por 
sua vez cooperam para a promoção de um ambiente urbano sustentável (MOORE, 
1998). 
Para Corbella (1998) a cidade sustentável deve ser produtiva e capaz de 
produzir, no mínimo, parte dos alimentos e bens que consome. A proximidade com o 
meio rural, além de gerar empregos também diminui as distâncias entre os alimentos e 
os seus consumidores. Além disso, como já foi dito anteriormente, os limites urbanos 
podem ser feitos com áreas rurais e áreas de preservação, garantindo além do 
controle sobre o crescimento urbano a proximidade da natureza e da produção de 
alimentos das cidades. (CORBELLA, 1998; BARBOSA, 2006). 
 
5.7. Matriz de Comparação e Análise 
Após a definição das categorias analíticas e da descrição das mesmas foi 
elaborado um quadro de verificação metodológica. Tal verificação será feita a partir 
das categorias e das diversas possibilidades de cada uma delas levantadas pelos 
diferentes autores estudados como referencial metodológico. 
Como o foco da tese é o projeto urbano, alguns princípios de sustentabilidade, 
apesar de serem discutidos na tese, não foram considerados para a avaliação, pois há 
uma dificuldade em relacionar esses conceitos à forma urbana, como, por exemplo, o 
conceito de resiliência e personalização. Já alguns dados sociais como diversidade 
social, limitação da densidade populacional e a participação comunitária, foram 
incluídos no estudo metodológico, pois resultam em ações diretas e visíveis no projeto 
urbano. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
Os quadros apresentados nesta tese foram parcialmente desenvolvidos para um 
artigo de análise de bairros sustentáveis12 ainda no período de desenvolvimento da 
pesquisa. Para a tese os quadros foram complementados e alterados em alguns 
quesitos. Os quadros representam uma matriz metodológica de análise de projeto 
urbano sustentável, elaborados com base nos referenciais teóricos e metodológicos da 
tese. 
É importante salientar que a matriz não é estática e não produz um resultado 
quantitativo direto. Para uma utilização adequada da metodologia proposta é 
necessário analisar cada caso individualmente e considerar as ponderações relatadas 
nas observações e no estudo como um todo. Ainda, algumas subcategorias são 
coerentes à diferentes categorias, mas foram inseridas na categoria considerada mais 
adequada ao estudo. 
É sabido que qualquer análise de projeto dificilmente abordaria todas as 
dimensões do mesmo, devido a complexidade de uma cidade e, principalmente, às 
diferentes escalas de atuação. Desta forma, o estudo propõem uma abordagem 
generalista que visa principalmente avaliar os conceitos e premissas do projeto, 
destacando alguns quesitos específicos nas subcategorias de análise. 
O primeiro quadro refere-se aos dados gerais de cada projeto e a qual visão de 
desenvolvimento definida por Wolfgang Sachs (1997) aquela cidade mais se aproxima. 
Serão considerados os dados referentes ao projeto urbano concluído e não a cidade 
construída (Quadro 1).12
Artigo “Sustainable Neighborhoods and Social Housing Urban Projects: A Comparison between 
Brazilian and European Practices” apresentado em Helsinki, na Finlândia, de autoria da autora da tese e 
da professora da Universidade Federal do Rio de Janeiro, Ângela Maria Gabriella Rossi, e da aluna de 
doutorado do Instituto de Pesquisa em Planejamento Urbano e Regional (IPPUR), Thêmis Aragão. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 
Dados Gerais 
Cidades Selecionadas 
Masdar Dongtan Nuevo 
Juan del 
Grijalva 
Observações 
Localização 
Área urbana 
Número de habitantes inicial 
Expectativa máxima de habitantes 
Densidade Populacional 
Cidade mais próxima 
Distância da cidade mais próxima 
Aquisição da terra 
Financiamento 
Escritório Responsável pelo projeto 
Construtora 
Data prevista para a conclusão das 
obras. 
 
Perspectiva de 
desenvolvimento baseada nas 
definições de Wolfgang Sachs. 
 
Quadro 1: Quadro com dados gerais das cidades estudadas. 
 
Após apresentar os dados gerais condizentes com os projetos das três cidades 
selecionadas, será realizada uma análise direta de cada projeto para uma posterior 
comparação entre os mesmo através da matriz de análise de projeto urbano 
sustentável abaixo (Quadro 2). 
 
Categorias Analíticas para 
o Projeto Urbano 
Sustentável 
 
Cidades Selecionadas 
 Masdar Dongtan Nuevo 
Juan del 
Grijalva 
Observações 
 
Gestão democrática e 
participação comunitária 
(fatores sociais) 
 
Participação Comunitária 
Presença de Serviços (Escolas, 
Hospitais, Comércio, bancos, áreas de 
Lazer) 
 
Diversidade social e cultural 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
Incentivo a construção de outras 
cidades semelhantes 
 
Limitação da densidade demográfica 
Ações de promoção de segurança 
pública 
 
Possibilidade de intervenção no 
espaço público 
 
Possibilidade de intervenção no 
espaço privado (Individual) 
 
 
Morfologia e Tipologias 
urbanas 
 
Uso misto 
Limitação espacial 
Inexistência de segregações físicas 
Distribuição equilibrada da estrutura 
urbana 
 
Tipologia mista 
Ambientes multifuncionais e com 
capacidade adaptativa 
 
Áreas Públicas Livres 
Hierarquização de vias 
Cidades em rede 
Cidades sustentáveis em rede 
 
Mobilidade 
Desenho Universal 
Veículo leve sobre trilhos ou trem 
urbano 
 
 Ônibus urbano 
Ônibus Interurbano 
Metro 
Passeios adequados 
Ruas para pedestres 
Pistas exclusivas para bicicletas 
Veículos elétricos ou movidos a 
hidrogênio públicos 
 
Veículos elétricos ou movidos a 
hidrogênio privados 
 
Proximidade entre as habitações, o 
comércio e os serviços. 
 
Outros (especificar) 
 
Tecnologias sustentáveis e 
presença de infraestrutura 
técnica 
 
Saneamento Básico 
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Tratamento de resíduos 
Tratamento de água 
Coleta e reuso de água. 
Coleta de lixo 
Reciclagem e reuso de resíduos 
sólidos 
 
Metabolismo circular 
Sistemas urbanos com baixo consumo 
de energia. 
 
Energias alternativas (especificar) 
Drenagem de águas pluviais 
Edificações com baixo consumo 
energético 
 
Uso de materiais de construção 
adequados 
 
Materiais de pavimentação 
adequados 
 
Iluminação Pública adequada 
Outros (especificar) 
 
Valorização da estrutura 
ecológica 
 
Arborização de vias (% aproximada) 
Parques urbanos 
Florestas urbanas 
Áreas permeáveis 
Proximidade com o meio rural 
Valorização da paisagem 
 
Promoção de trabalho e renda 
Oferta de trabalho no interior da 
cidade 
 
Proximidade entre o emprego e a 
residência 
 
Produção de alimentos 
Oferta de trabalho na área rural 
próxima 
 
Quadro 2: Matriz de análise de projetos urbanos sustentáveis elaborada a partir das categorias 
analíticas. 
 
 
A matriz acima será preenchida com respostas diretas como sim, não, em parte 
e/ou não informado. Além disso, alguma informação relevante poderá ser 
acrescentada nas observações. Toda a metodologia de análise se baseia nas 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
referências descritas acima e para o estudo foi necessário um levantamento prévio de 
cada projeto. 
De acordo com os autores abordados e as categorias analíticas levantadas, em 
síntese, algumas características urbanas sustentáveis são: a gestão urbana participativa 
com a integração de diferentes atores sociais no processo de decisões; a adequação do 
projeto ao contexto local (regionalismo), urbanos; a busca pela redução do consumo 
de energia através da forma urbana, potencializando as características do clima local, e 
a utilização de energias limpas geradas no local de implantação do projeto; redução do 
consumo de recursos naturais a partir de tecnologias ambientais e da educação 
ambiental; acesso à infraestrutura básica urbana, como saneamento, coleta de lixo, 
drenagem, etc.; integração do meio urbano com a natureza e com o meio rural através 
da presença de parques, florestas urbanas e acesso facilitado à área agrícola, 
melhorando também a biodiversidade da região, além de incentivar uma relação 
equilibrada com o meio natural e o metabolismo "fechado" dos ciclos urbanos 
(GIRARDET, 2001); integrar o projeto à uma rede de cidades também produtoras 
capazes de gerar interações econômicas e sociais, gerando emprego e dando acesso à 
bens diferenciados; define os limites urbanos e a densidade populacional adequada à 
região promovendo um desenvolvimento econômico também limitado; promove a 
socialização da comunidade, a diminuição da disparidade de rendas e a diversidade 
cultural; facilita o acesso aos bens de serviço; cria mecanismos que incentivem a 
permanência dos cidadãos e o sentimento de pertencimento ao local como a geração 
de emprego e renda, a sensação de segurança, a possibilidade de intervenção 
(limitada) do espaço, o acesso à habitação de qualidade, entre outros; promove a 
integração físico-territorial eliminando espaços obsolescentes e diminuindo a 
fragmentação espacial; 
 Todos os itens citados acima podem auxiliar no estudo de projetos urbanos, 
principalmente, nos projetos que se propõem ser sustentável. Nem todas as indicações 
são definidas pelo projeto urbano e refletem diretamente no resultado gráfico, mas, 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
mesmo algumas sendo intenções políticas e sociais, são indicativos que apresentam 
motivações sustentáveis. 
 Destaca-se que a avaliação de projetos a partir desses critérios não é absoluta e 
somente apresenta indicativos de intenções de sustentabilidade urbana. As respostas 
diretas (sim/não/ em parte) não devem ser quantificadas no intuito de se obter uma 
classificação de valores que possa colocar as cidades analisadas em um "ranking". 
Desta forma, as observações dadas a cada resposta possuem uma grande importância, 
pois um critério avaliado positivamente pode ser ruim para a sustentabilidade 
dependendo da motivação do mesmo. Assim, os quadros de análise são 
compreendidos como um auxílio de avaliação, que são melhor utilizados para a 
discussão teórica dos resultados de projeto. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
CAPÍTULO 6 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
6. ESTUDOS DE REFERÊNCIA 
 Este capítulo apresenta os estudos dos projetosdas cidades selecionadas. 
Primeiramente procurou-se apresentar os projetos com seus contextos e conceitos 
definidos e publicados pelos seus idealizadores e financiadores. Posteriormente cada 
cidade foi analisada baseando-se nas categorias analíticas apresentadas no capítulo 
anterior. Como muitas imagens são oficiais dos projetos originais, muitas delas foram 
deixadas no idioma original. 
 
6.1. Justificativa de escolha dos projetos 
 Esta tese levanta a questão de que o projeto urbano é um dos principais fatores 
que podem contribuir para a sustentabilidade. Desta forma, buscou-se selecionar 
projetos que se auto-denominam sustentáveis para que os seus projetos sejam 
analisados. Os três critérios de seleção dos projetos adotados foram: as cidades serem 
planejadas, novas e classificadas pelos seus idealizadores como sustentáveis. No 
entanto, alguns apontamentos feitos pelos referenciais teóricos e metodológicos 
contradizem a ideia de sustentabilidade apresentada pelos projetos urbanos 
selecionados. 
 Para realizar uma análise embasada no referencial teórico principal (Wolfgang 
Sachs) foram selecionadas três cidades com características condizentes com as três 
classificações de desenvolvimento sustentável definidas pelo autor. A primeira cidade, 
Masdar, nos Emirados Árabes, tem seu projeto pautado por ideais da perspectiva da 
competição onde as tecnologias e o capital predominam nos discursos e ações. A 
segunda cidade, Dongtan, na China, se aproxima da perspectiva do astronauta e 
também da competição, tendo um projeto voltado mais para as questões ambientais e 
tecnológicas. Esse é o exemplo que apresenta mais variações quanto às perspectivas 
definidas por Wolfgang Sachs. No entanto, é o que mais se preocupa em transmitir 
uma boa imagem para o restante do mundo. O último exemplo é a cidade de Nuevo 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
Juan del Grijalva, no México. Essa cidade é uma cidade rural e apresenta características 
próximas da definição da ‘perspectiva doméstica’ de Sachs. Nenhum dos exemplos 
obedece fielmente às definições de Sachs, mas possuem características que podem ser 
identificadas nas perspectivas de desenvolvimento analisadas pelo autor. 
 Para uma análise comparativa, as três cidades serão estudadas a partir das 
categorias analíticas definidas pelos referenciais metodológicos, mas primeiramente 
são apresentadas a partir dos dados disponibilizados pelos seus respectivos 
idealizadores. 
 
6.2 Masdar: 
O primeiro projeto urbano analisado é o da cidade de Masdar, nos Emirados 
Árabes Unidos, projetada pelo escritório do arquiteto Norman Foster (FOSTER + 
PARTNERS) para ser implantada na vizinhança de Abu Dhabi, uma cidade já existente. 
Masdar se apresenta como uma das primeiras cidades ecológicas do planeta e é 
denominada pelos seus idealizadores como a cidade Carbono Zero ou Masdar City. 
Para realizar os estudos sobre Masdar, primeiramente foi feito um levantamento 
baseado nos dados produzidos pelo Escritório Norman Foster e pela Masdar Company. 
Todo o levantamento tem como referência as publicações da Masdar Co, o site oficial 
de Masdar e o site oficial do Escritório Norman Foster. Somente alguns dados gerais 
foram obtidos através de outras publicações. Esse cuidado foi tomado para que o 
levantamento fosse feito baseado em dados oficiais apresentados pelos idealizadores 
do projeto. 
Masdar significa fonte em árabe e seu nome faz alusão a sua intenção de ser um 
exemplo de gerenciamento de fonte energética renovável. Através do seu foco 
principal, que é a produção de energia limpa, os idealizadores de Masdar também 
preveem uma significativa redução de CO2. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
A cidade está sendo criada para abrigar empresas multinacionais, áreas de 
pesquisa e ensino, indústrias e serviços utilizando apenas energias renováveis. O 
principal viés de incentivo é a energia fotoelétrica. De acordo com o prospecto do 
projeto, Masdar possui cinco unidades de integração: a cidade de Masdar, 
propriamente dita; o Instituto de Ciência e Tecnologia onde serão incentivadas 
pesquisas voltadas para o desenvolvimento de tecnologias ambientais como a 
construção de usinas solares e coletores, além de painéis fotovoltaicos, produção de 
biocombustível e energia eólica; gerenciamento de Carbono e por fim o incentivo às 
indústrias de tecnologia limpa (Figura 28). 
Masdar possui três principais focos de ocupação: um centro tecnológico, uma 
área de livre comércio para empresas de todo o mundo e uma área residencial. 
Mesmo as áreas públicas foram projetadas com controle de acesso e permanência. 
É uma cidade cercada e privada e está sendo construída em etapas. A primeira 
etapa consta de um centro de pesquisa e ensino e já está concluída. Nas etapas 
posteriores foram construídos os edifícios residenciais próximos do centro de pesquisa 
e as usinas de energia. 
 
Figura 28: Centro de Pesquisa de Masdar ainda em obra em 2010. 
Fonte: foto pessoal 
6.2.1 Levantamento socioeconômico (contextualização) 
 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 Masdar é uma cidade privada idealizada para ser uma cidade sustentável no 
deserto dos Emirados Árabes Unidos (EAU). Os EAU estão situados no sudeste da 
Península Arábica, no Sudoeste Asiático, no Golfo Pérsico. Fazem fronteira com Omã e 
com a Arábia Saudita. Os Emirados Árabes Unidos são formados por sete ‘estados’ 
gerenciados por diferentes xeiques: Abu Dhabi, Dubai, Sharjah, Ajman, Umm al-
Quwain, Ras al-Khaimah e Fujairah. O maior dos Emirados é Abu Dhabi com uma área 
de 67.340 quilômetros quadrados, equivalente a 86.7 % da área total do país e com 
uma população de 1.850.250 habitantes. Masdar está localizada à 17km do centro 
comercial de Abu Dhabi que é a capital dos EAU e é governada pelo xeique Khalifa Bin 
Zayed bin Sultan Al Nahyan sob um regime de Monarquia Constitucional. Apesar de ser 
considerada uma cidade independente politicamente, a cidade está subordinada à Abu 
Dhabi e seu território está situado entre o centro comercial de Abu Dhabi e o 
aeroporto da mesma. Além disso, a cidade é dependente de serviços, principalmente 
administrativos, de Abu Dhabi (Figura 29). 
 
Figura 29: Localização de Masdar com referência a Abu Dhabi 
Fonte: Google, 2012. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 
O espaço urbano de Masdar continuará sendo gerido pela cidade de Abu Dhabi. 
Devido a isso, alguns equipamentos públicos comuns em todas as cidades foram 
suprimidos. Alguns exemplos são as edificações referentes à prefeitura, a delegacia de 
polícia e outros equipamentos referentes à gestão urbana. 
Além disso, é importante salientar que a gestão política dos Emirados Árabes é 
bastante diferente das gestões ocidentais. Nesse país o xeique que o governa é 
também o principal dono das terras. Masdar, por exemplo, é gerida pelo governo de 
Abu Dhabi e por particulares, no entanto, todos os seus imóveis só podem ser 
alugados e seu espaço físico só foi cedido para empresas, principalmente 
multinacionais, para se instalarem na cidade. 
Nos Emirados os xeiques são donos do território e eles têm o poder sobre como 
atuar no espaço e como concedê-lo a algumas outras pessoas. Normalmente se 
compra ou aluga o direito de uso da terra, mas a propriedade continua nas mãos de 
uma única família. Desta forma, as áreas urbanas de Masdar também só poderão ser 
utilizadas pelos moradores, por convidados ou trabalhadores como em um bairro 
privado no ocidente. 
Até o momento (2012), a economia dos EAU é praticamente toda baseada na 
indústria petrolífera. É em Abu Dhabi que se concentra o maior número de empresas e 
indústrias petrolíferas. Comas obras de Masdar, o governo está incentivando a vinda 
de outras empresas de energia, mas que estejam interessadas também na energia 
renovável. 
 O projeto de Masdar foi financiado por diversas empresas multinacionais e pelo 
governo de Abu Dhabi. Masdar City é uma unidade de Masdar, uma subsidiária da 
Mubadala Development Company, que é uma estatal de Abu Dhabi criada para 
fomentar o desenvolvimento econômico e diversificação no emirado. Os parceiros no 
planejamento, design, engenharia e arquitetura de Masdar foram o próprio escritório 
do arquiteto Norman Foster (Forter + Partners), Mott MacDonald e Sheppard Robson 
International. Os financiadores foram a Shell, a Siemens, Korea Tchnopark Association, 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
montadoras de automóveis como a Mitsubishi e RollsRoyce, Fiat e General Eletric, 
entre outras, além do governo de Abu Dhabi. O projeto foi chamado de “Iniciativa 
Masdar” e está sendo gerado por uma multinacional que também recebeu o nome de 
Masdar Mubadala Company e é presidida por Ahmed Ali Al Sayegh. 
 O plano original da companhia de Masdar era finalizar a construção da cidade 
em 2016, mas com a crise internacional e a escassez de incentivos ao mercado de 
tecnologias ambientais fez com que as metas de término fossem revistas. Atualmente 
a pretensão de finalização das obras é entre 2021 e 2025. Ainda, havia a pretensão de 
criar outra cidade semelhante, mas esse novo projeto precisou ser abandonado. 
Também foi descartada a criação de uma usina de força baseada no uso de hidrogênio. 
No entanto, a usina de energia solar de Masdar foi mantida. 
 A grande maioria da riqueza dos Emirados Árabes vem da extração de petróleo, 
mas com as novas possibilidades energéticas esse grupo de empresários viu nesse 
empreendimento uma nova opção, mas também baseada no lucro. A cidade de 
Masdar terá um centro empresarial livre de impostos. Como um dos seus principais 
focos é o empresarial diversas vantagens capitalistas foram dadas às empresas que se 
interessarem em se instalar em Masdar. 
 Os licenciamentos ambientais, os registros e licenciamentos de relações 
governamentais, além de vistos, serviços de tradução, entre outros, ficam a cargo da 
Masdar Company. Algumas das vantagens apresentadas são a não existência de tarifa 
de importação; zero por cento de impostos sobre empresas e pessoas físicas; não há 
restrições aos movimentos de capitais, lucros ou quotas; não há restrições monetárias; 
possibilidade de contratação de pessoal; rede logística facilitada pelas proximidades de 
aeroportos, portos, ferrovias, etc; entre outros. 
 O investimento inicial foi de quatro bilhões de dólares para as obras da cidade, 
além dos já garantidos investimentos próprios das empresas que irão se instalar em 
Masdar. O investimento total previsto é de 22 bilhões de dólares (masdar.ae, 2010). 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
A cidade de Masdar tem como foco investimentos ambientais, que seus 
idealizadores veem como potencial mundial e para os Emirados Árabes Unidos. E esses 
investimentos foram feitos nos seguintes setores: 
“- Energia limpa: incluindo geração de energia e tecnologias de armazenamento, 
tecnologias de transporte, tecnologias limpas / inovação, energia e biocombustíveis 
sustentáveis; 
- Recursos ambientais: incluindo água e gestão de resíduos e tecnologias agrícolas 
sustentáveis; 
- Energia e materiais que contribuem para um menor consumo energético: incluindo 
desenvolvimentos em materiais avançados, construção e energia da rede de eficiência, 
e as tecnologias; 
- Serviços ambientais: incluindo a proteção ambiental e serviços de negócios.” 
(masdarcity.ae) 
O investimento nestes mercados é feito através de dois fundos: o Fundo de 
Tecnologia Limpa Masdar (MCTF), lançado em 2006, e o Deutsche Bank Masdar Clean 
Tech Fund (DBMCTF), lançado em 2009. O MCTF investiu um total de 250 milhões de 
dólares. Cerca de US $ 45 milhões foram colocados em três fundos de tecnologia limpa 
e o restante (US $ 205 milhões) foram aplicados em 12 investimentos diretos em 
empresas. O DBMCTF é administrado em conjunto com o Deutsche Bank e levantou 
US$ 265 milhões de dólares com um grupo de investidores liderado pela Siemens, o 
Banco do Japão para Cooperação Internacional, Japão Oil Development Co. Ltd., a 
Nippon Oil Corporation, o Banco de Desenvolvimento de Japão e a GE. 
 A incorporação de Masdar coloca em destaque alguns objetivos para melhorar 
a região de Abu Dhabi. Masdar pretende contribuir para a diversificação de mercado, 
que atualmente é baseada na extração e exportação de petróleo. São propostos cinco 
objetivos pela empresa que vai gerir Masdar: 
- Expandir a base de exportação; 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
- Incentivar o empreendedorismo do setor privado. 
- Investir em educação e pesquisa que estimula a inovação: treinar, atrair e reter 
trabalhadores qualificados em setores baseados no conhecimento. 
- Fomentar o investimento em áreas que geram ganhos de propriedade intelectual. 
 - Aumentar a participação do setor não petrolífero da economia do emirado e 
dissociar o crescimento econômico dos preços flutuantes do petróleo. 
 É esperado que a cidade receba 1.500 empresas privadas, 50 mil habitantes 
residentes e 40 mil usuários volantes até 2025. A área total utilizada pela cidade é de 
cerca de 7 km² sendo que a maior área é destinada às indústrias e às áreas de 
plantação (Figura 30). 
 
Figura 30: Dimensão de Masdar e população esperada. Os dois quadrados fazem parte de Masdar, não 
tem especificidades urbanas diferentes e são ligados por uma “via parque”. 
Fonte: Masdar City, 2010 
 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
Inicialmente foi construído um centro tecnológico com o apoio do 
Massachussets Institute of Tecnology (MIT). Até o ano de 2012 os residentes são os 
alunos, professores e alguns funcionários administrativos desse instituto. O Masdar 
Institute, nome dado ao centro tecnológico, tem como foco principal o estudo e 
pesquisa de energias renováveis e tecnologias sustentáveis. 
 Não é previsto no projeto de Masdar nenhuma área residencial destinada aos 
trabalhadores de base como faxineiros, motoristas, cozinheiros, etc. 
 
6.2.2 Levantamento geográfico e climático 
A cidade de Masdar está localizada na latitude 24°28’’ norte e longitude 54°22’’ 
leste. Essa localização e suas características geográficas corroboram para um clima 
desértico. 
Durante praticamente todo o ano há muito pouca ou nenhuma formação de 
nuvens. Os meses de junho a setembro são geralmente quentes e úmidos, com 
temperaturas médias acima de 40 °C. Nestes meses podem ocorrer tempestades de 
areia. As temperaturas são mais amenas de novembro a março, mas ainda assim 
permanecessem altas, principalmente durante o dia. O período de janeiro e fevereiro é 
geralmente o mais fresco e durante este período também pode ocorrer uma névoa 
densa em alguns dias (World Meteorological Association, 2012) (Tabela 4). 
Temperaturas máximas, mínimas e médias altas e mínimas. Precipitações em mm em Abu Dhabi em 2011 
 
Tabela 4: Temperaturas e Precipitações em Abu Dhabi em 2011. 
Fonte: "World Weather Information Service, Abu Dhabi, UAE". World Meteorological Association. 
Acessado em set de 2012. 
 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
Por ser uma região desértica, a questão da água é de grande importância para a 
implantação da cidade. Pode-se notar na tabela acima que não houve precipitação ou 
foi irrisória em seis meses do ano. A localização do projeto é bastante próxima do mar, 
mas não há nenhum recurso de água doce próximo e suficientepara atender a cidade. 
O lençol freático é muito superficial e sua água é salobra. 
O local de implantação da cidade é praticamente todo plano, tendo apenas 
uma pequena elevação em direção ao aeroporto de Masdar. 
 
6.2.3 Levantamento urbanístico e morfológico 
A cidade possui um planejamento estratégico com um ‘masterplan’ elaborado 
desde sua concepção com seus usos, morfologias e tipologias. O design urbano e 
arquitetônico foi inspirado nas tradições Árabes. Diversos exemplos da arquitetura e 
do urbanismo regional foram utilizados nas definições dos espaços de Masdar como as 
ruas estreitas e sombreadas, torres de vento e o uso de cobogós. 
A orientação das principais vias urbanas foi pensada em diagonal com relação 
ao litoral. Isso foi definido para permitir uma melhor permeabilização das brisas 
noturnas em Masdar (Figura 31). 
 
Figura 31: Desenho esquemático mostrando a entrada de ventos durante o dia e a noite em Masdar. 
Fonte: Masdar City, 2010. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 
As vias ainda possuem uma hierarquia desde a via principal que possui 25 
metros incluindo as áreas de parques até as secundárias de 8,5 metros. Também 
existem vias internas nos quarteirões que são mais estreitas (cerca de 3 metros) e são 
apenas para pedestres. A densidade populacional é em torno de 130 a 160 habitantes 
por hectare e as edificações que irão abrigar essas populações possuem em média 4 a 
5 pavimentos e a grande maioria dos edifícios é muito maior horizontalmente do que 
verticalmente (Figura 32). 
Para os autores do projeto a forma e a organização das vias e das edificações é 
o fator mais importante no ‘ganho ambiental’ e também o de menor custo. Já os 
investimentos financeiros feitos para a construção das edificações com tecnologias 
ambientais são maiores. Mas os maiores custos se concentram nas tecnologias 
referentes à obtenção de energias, como os sistemas fotovoltaicos, os concentradores 
de energia, as turbinas eólicas, entre outros (Gráfico 3). 
 
 
 
Figura 32: Dados gerais urbanos de Masdar. 
Gráfico 3: Gráfico esquemático de custos e atividades. 
Fonte: Masdar City, 2010 
 
Com o objetivo de tornar a cidade de Masdar a primeira cidade sustentável do 
planeta, de acordo com a Masdar Company, vários aspectos do planejamento urbano e 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
da arquitetura foram pensados para diminuir o consumo de energia e água e melhorar 
a geração de energias limpas. A partir daí, sete características primordiais foram 
definidas para Masdar: 
 Orientação Ideal: a cidade e sua grade urbana foram orientados no eixo 
sudeste-noroeste. A tipologia das edificações e os painéis fotovoltaicos nos 
telhados auxiliam no sombreamento dos próprios edifícios e das vias 
minimizando a sensação térmica. 
 Integração: há uma integração entre as áreas industriais e de negócios com as 
áreas residenciais e de lazer. Tanto a universidade e o maior complexo de 
negócios estão inseridos no centro urbano. Os moradores e os usuários tem 
acesso facilitado às suas necessidades pela própria proximidade dos serviços. 
 Baixo crescimento e alta densidade: para os idealizadores esses dois fatores são 
essenciais para o baixo consumo de energia. A alta densidade com variedade 
de usos reduz o uso de veículos e o custo da infraestrutura. O baixo 
crescimento facilita a gestão urbana e garante a permanência das 
características pensadas e programadas ainda na formação da cidade. 
 Vitalidade urbana: os espaços livres têm uma grande importância nos edifícios 
de Masdar. Esses ambientes possuem uma variedade de usos para promover 
uma maior vitalidade. 
 Cidade de Pedestres: a cidade foi pensada para atender o pedestre e até 
mesmo os edifícios possuem uma escala apropriada. A maioria dos serviços 
está no nível dos pedestres e as vias são sombreadas. 
 Alta qualidade de vida: para seus idealizadores a cidade de Masdar foi 
projetada para proporcionar a maior qualidade de vida com o menor impacto 
ambiental. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 Transporte Público eficiente: foi projetada uma rede de transporte público 
movido à energia elétrica. Ônibus elétricos também são utilizados no interior 
da cidade e metros e trens elétricos são utilizados na conexão com Abu Dhabi. 
(Esclarecendo que praticamente 100% da eletricidade de Abu Dhabi é 
proveniente de fontes poluidoras). 
 
Os quatro princípios básicos do planejamento da cidade são: sinergia, 
mobilidade, energia e qualidade de vida. Sinergia refere-se à interação dos seus 
espaços e atividades. A cidade possui uma distribuição mista de seus usos e tem como 
intenção ser uma cidade para pedestres. Desta forma, o usuário deve percorrer 
pequenas distâncias para chegar aos locais mais utilizados no dia a dia, como parques, 
áreas comerciais e a própria estação de automóveis. O uso misto facilita essa 
proximidade e permite um uso constante tanto nos horários diurnos quanto noturnos 
(Figura 33). 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 
Figura 33: Definição esquemática dos usos de Masdar. 
Fonte: Masdar City, 2010 
 
A cidade possui um plano urbano na superfície e uma grande “teia” de vias e 
serviços no subsolo. As vias da superfície são primordialmente para pedestres e 
ciclistas e as vias subterrâneas são para o transporte individual, mas em automóvel 
coletivo e para o transporte público. Por causa dessa conformação a maioria das vias 
são estreitas e com proteção solar (Figura 34 e Figura 35). 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 
Figura 34: Corte esquemático de uma 
via de Masdar. 
Fonte: Khalifa University of Science, 
Technology and Research at Masdar 
Master Plan. (Sasaki Associates, Inc.) 
 
Figura 35: Definição de usos da área da cidade que será construída primeiramente. 
Fonte: Khalifa University of Science, Technology and Research at Masdar Master Plan. (Sasaki 
Associates, Inc.) 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 Toda a morfologia urbana foi pensada para proporcionar a compactação da 
cidade, visto que os autores do projeto urbano acreditam que a cidade compacta traz 
benefícios e sustentabilidade. 
Apesar dos ambientes mais compactados, a presença de praças e parques é 
significativa. Vários quarteirões possuem praças internas como o próprio complexo do 
Masdar Institute (Figura 36). Essas praças possuem comércios básicos como cafés e 
pequenos mercados e um sistema de sombreamento e ventilação. 
 
Figura 36: Imagem digital de uma praça interna. 
Fonte: Masdar City, 2010 
 
Outra praça enfatizada pelo projeto é a Praça da Família que tem como 
principal propósito o encontro dos moradores. Essa praça será também sombreada 
pelas coberturas das edificações e contará com um paisagismo também voltado para o 
sombreamento local. Esse espaço localiza-se entre as edificações residenciais e 
também conta com comercio local e a presença de espelhos d´água melhorando a 
umidade relativa do ar, mas sombreados para evitar a total evaporação (Figura 37). 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 
Figura 37: Desenho da Praça da Família 
Fonte: Masdar City, 2010 
 
Para melhorar a circulação de pedestres e a permanência dos mesmos nesses 
espaços, como já foi mencionada, a grande maioria das vias de veículos são 
subterrâneas e feitas apenas para os automóveis guiados com magnetismo e os 
veículos elétricos coletivos da cidade. Os moradores que tem carros próprios e os 
visitantes devem estacionar seus automóveis nos arredores da cidade, próximo a umterminal de acesso e a partir deste pegar um dos automóveis coletivos chamados de 
PRT (Personal Rapid Transport) (Figura 38, Figura 39 e Figura 40). 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 
Figura 38: Esquema de mobilidade de Masdar 
Fonte: Masdar City, 2010 
 
 
Figura 39: Personal Rapid Transport 
Figura 40: Corte longitudinal mostrando os diferentes níveis de vias e serviços de Masdar. 
Fonte: Masdar City, 2010 
 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
Os usuários da cidade de Masdar também tem acesso ao sistema de metro de 
massa (LRT – Light Rail Transport) que circula dentro da cidade fazendo conexão com o 
metro de superfície externo que leva até outras cidades como Dubai. Foram pensadas 
diversas estações de PRT e uma interligação com as estações de LRT (Figura 41). As 
estações mais externas também possuem estacionamentos de automóveis para a 
quem chegar à cidade com veículo. Todas essas estações são subterrâneas e muitas 
delas dão acesso direto a determinadas edificações. 
 
Figura 41: Esquema das vias subterrâneas e estações de LRTs ( Light Rail Transport) e PRTs (Personal 
Rapid Transport). 
Fonte: Masdar City, 2010. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 
Como a maioria das vias não possui circulação de automóveis elas estão sendo 
pensadas para atender aos pedestres. Além das áreas sombreadas pelos próprios 
edifícios algumas vias também terão áreas arborizadas e com cursos d´água. Como 
Masdar está em uma região desértica à questão da água é um fator preocupante para 
manter as regiões arborizadas. A irrigação da vegetação em Abu Dhabi é constante 
para que as plantas sobrevivam. No caso de Masdar a vegetação também necessitará 
de irrigação constante. A água para isso deverá ser obtida a partir da reciclagem de 
águas servidas e equivale a 60% das necessidades de água da cidade. Os outros 40% 
serão obtidos com usinas de dessalinização movida a painéis solares fotovoltaicos e 
com coletores de orvalho e captação de água de chuva (BARBOSA e SOARES, 2010). 
No projeto urbano as áreas verdes foram distribuídas na malha da cidade de tal 
forma que possam ser acessadas pela maioria da população com até 1 minuto de 
caminhada (Figura 42). Três grandes corredores verdes foram projetados para as vias 
principais na diagonal da malha urbana no intuito de melhorar a entrada da brisa 
marítima auxiliando no resfriamento dos ambientes. Diversas outras pequenas áreas 
verdes foram distribuídas pela cidade para melhorar o microclima e facilitar o acesso 
dos usuários às áreas livres. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 
Figura 42: Acessibilidade das áreas verdes 
Fonte: Masdar City, 2010 
 
Para que haja uma redução do consumo de água as plantas selecionadas para 
Masdar são, em sua maioria, de origem nativa. Algumas outras espécies também 
foram implantadas, mas de acordo com os idealizadores, são plantas que necessitam 
de pouca água e suportam a alta temperatura. 
Quanto à tipologia, as edificações estão sendo construídas em parte com 
materiais locais e com influência da arquitetura local, como por exemplo, mucharabis, 
jardins internos, presença de espelhos d´água, entre outros elementos utilizados na 
arquitetura árabe (Figura 43). 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 
 
Figuras 43: Exemplo de elementos árabes nas edificações. 
Fonte: Masdar City, 2010 
 
Praticamente todas as edificações possuem painéis solares em seus telhados, 
sendo que em alguns casos esses painéis também são utilizados para sombrear parte 
das vias. Além disso, grande parte do material de construção é reciclado e reutilizado 
por um Centro de Reciclagem de Material (MRC) construído dentro da própria cidade 
para otimizar as obras. 
A grande maioria das edificações é mista com maior uso residencial, mas dois 
complexos se destacam dos demais: o Instituto de Ciência e Tecnologia de Masdar e o 
Centro Empresarial chamado de Masdar Headquarters. 
O Instituto de Ciência e Tecnologia de Masdar já está concluído e possui 
elementos isolantes térmicos que auxiliam na diminuição da entrada de calor na 
edificação. A forma das edificações do complexo buscam atender as necessidades de 
um instituto de ciências e tecnologias, como salas de aula, laboratórios anfiteatros, 
etc., além do uso residencial e de lazer para os estudantes que irão habitar o espaço 
(Figura 44 e Figura 45). 
O edifício utiliza uma série de tecnologias com a função de diminuir o calor 
extremo do deserto dos Emirados. Uma delas é a utilização de “bolsões de ar” na 
estrutura das paredes dos laboratórios isolando termicamente as salas. Parte da 
edificação é coberta com uma folha refletiva o que pode aumentar a temperatura das 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
vias. Janelas na fachada sul possuem persianas verticais para bloquear o sol da manhã 
e da tarde e persianas horizontais para o meio-dia. Os edifícios residenciais do Centro 
de Tecnologia são definidos blocos de concreto ondulados com vazados que fornecem 
sombra e permitem a visualização da rua abaixo mantendo a privacidade de quem está 
no interior da edificação. Essas telas são tradicionais na cultura árabe e permitem a 
passagem de ar para o interior da edificação. O restante da fachada é selado com 
folhas de alumínio reciclado (masdarcity.ae). 
 
Figura 44: Foto do Instituto ainda em construção em 2010. Fonte: foto da autora 
Figura 45: Foto do Instituto já concluído em 2012. Fonte: Masdar City, 2010 
 
 O Masdar Headquarters está sendo construído para abrigar a sede da Masdar 
Company, da Secretaria da Agência Internacional de Energia Renovável e ser também 
uma área comercial e empresarial (Figura 46 e Figura 47). 
 
Figura 46 e Figura 47: Imagens digitais do Masdar Headquarters. 
Fonte: Masdar City, 2010 
 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
Os responsáveis pelo projeto são os arquitetos do escritório Adrian Smith + 
Gordon Gill Architecture. O projeto inclui uma grande área livre coberta com uma 
estrutura suspensa para permitir a ventilação. Nessa praça principal do complexo a 
estrutura de sombreamento é móvel, semelhante a um guarda-sol, e também funciona 
como um sistema de captação de energia que pode ser fechado no período noturno ou 
quando necessário (Figura 48 e Figura 49). Assim como a maioria das edificações de 
Masdar, esse complexo também será coberto com painéis fotovoltaicos para captação 
de energia para gerar cerca de 5,5 GWh de energia renovável anualmente (BARBOSA e 
SOARES, 2010). Os painéis também servem para fazer sombreamento no telhado. 
 
Figura 48 e Figura 49: Imagem digital mostrando o sistema de guarda-sol do Complexo de Masdar City. 
Fonte: BARBOSA e SOARES, 2010. 
 
 O complexo possui onze cones de vento que fornecem ventilação natural 
levando o ar quente para o nível do telhado. Além da função de ventilar, os cones 
também servem para maximixar a entrada da luz solar indireta em todo o edifício, 
promovendo uma economia de energia. 
 
 Os demais edifícios de Masdar serão das empresas e residências e também irão 
obedecer a altura máxima estipulada em 40 metros. Todas as edificações serão 
construídas pela empresa Masdar e alugadas ou cedidas para os usuários. Desta forma 
o padrão arquitetônico será definido pela empresa e não poderá ser modificado pelo 
usuário. A tipologia dessas edificações foi pensada para aumentar a área de 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
sombreamento nas vias e nas próprias edificações.Esse sombreamento é conseguido 
através de recuos de fachada sobre as vias e por painéis fotovoltaicos que fazem o 
papel de um ‘chapéu’ sobre os edifícios (Figura 50). 
 
Figura 50: Desenho esquemático mostrando o sombreamento das vias e das coberturas das edificações. 
Fonte: Masdar City, 2010 
 
6.2.4 Levantamento de tecnologias ambientais aplicadas 
 Muitas das tecnologias presentes no escopo de projeto de Masdar são voltadas 
para a geração de energias renováveis. A maior parte dos estudos do Centro 
Tecnológico de Masdar busca desenvolver essas tecnologias alternativas. A fonte 
energética que será mais utilizada em Masdar será a solar (Figura 51). A energia solar 
será aproveitada nas usinas solares, nos coletores de luz solar para aquecimento de 
água e através de painéis fotovoltaicos. A construção das usinas solares e a instalação 
dos coletores e dos painéis serão de responsabilidade da empresa que gerencia 
Masdar. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 
Figura 51: Masdar contará com uma matriz 
energética 100% renovável: usinas solares e 
eólicas, painéis fotovoltaicos nos telhados de 
algumas edificações, coletor solar para 
aquecimento de água e uso de resíduos para 
geração de biocombustível. 
Fonte: masdarcity.ae 
 Já está em funcionamento um “Campo de teste de painéis solares” com mais 
de 35 tipos de painéis de fornecedores diferentes sendo testados. A ideia é selecionar 
o painel mais eficiente para as condições da região. Esses painéis serão implantados 
nos telhados de diversas edificações e terão a função de sombrear as coberturas além 
de sua função principal de captação de energia solar. 
Como somente a área dos telhados das edificações é pouca para a implantação 
dos painéis, é prevista também uma fazenda de painéis fotovoltaicos ainda dentro do 
perímetro da cidade. 
Além dos painéis solares, outra forma de captação de energia solar será um 
projeto piloto para uma torre solar de concentração de energia chamada de “Beam 
Down Project”. O projeto em parceria com empresas japonesas visa melhorar a 
eficiência do atual Concentrador de Energia Solar, mas ainda está em fase de testes. 
Também está sendo investido em empresas que produzam utilitários e manufaturados 
para serem utilizados nas usinas de energia. Masdar possui participação acionária 
desde empresas de fabricação de painéis solares até nas empresas que ficaram 
responsáveis por construir e operar o projeto de Concentração de Energia Solar (CSP). 
Um parque eólico offshore para gerar energia está sendo previsto para 
abastecer a cidade de Masdar com 1% da sua necessidade energética. Outros parques 
eólicos on e offshore (na terra e no mar) já estão em funcionamento nos Emirados 
Árabes. No entanto a produção de energia em locais distantes e o transporte até a 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
cidade que demanda essa energia traz diversos problemas, como por exemplo, a perda 
de grande parte desse potencial elétrico e a dependência energética de uma outra 
cidade. 
Masdar City, 2010 também possui um projeto de redução de emissão de 
carbono no Oriente Médio, na África e na Ásia Central e Sudeste. Esse projeto tem 
como objetivo desenvolver e financiar empresas que se comprometem em diminuir 
suas emissões de carbono, principalmente empresas na área energética. No entanto, é 
previsto também a capitalização desse “crédito” de emissão de carbono que será 
negociado com outros países. 
 Neste esquema abaixo (Figura 52), algumas das tecnologias podem ser 
localizadas no plano da cidade de Masdar. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 
Figura 52: Localização atividades e de algumas tecnologias utilizadas na cidade de Masdar na primeira 
fase da construção.
13
 Fonte: Masdar City, 2010 
 
13
 Tradução da legenda: 1- Área de testes de painéis solares; 2 - Projeto “Bean de Down” (Concentrador 
Solar); 3 – Campo de teste de Geotérmica; 4 - Usina Solar de 10 MW; 5 - Centro de Reciclagem de 
Materiais; 6 - Garagem / Estação PRT; 7 - Transporte Pessoal Rápido; 8 – Transporte de massa 
subterrâneo; 9 – Estação de PRT do Masdar Institute; 10 - Recepção de Estudantes e ambiente de 
pedestres; 11- Torre de Vento; 12- Praça Urbana; 13 - Fachadas de edifícios; 14 - Laboratório de 
Construção do Masdar Institute; 15 - Edifício Residencial do Masdar Institute; 16- Praça da Família; 17- 
Centro de Conhecimento; 18 - Parques Lineares; 19 - Masdar Institute, fase 1b; 20 - Sede da Masdar; 21- 
Usina de Concreto; 22- Biorreator de membrana; 23 - Projeto piloto. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 Outra tecnologia desenvolvida para Masdar é o Personal Rapid Transport (PRT), 
um pequeno veículo para quatro pessoas que faz a interligação de diversas estações na 
cidade de Masdar. O veículo foi projetado com um painel de controle com informações 
necessárias para que o usuário possa definir seu destino e suas necessidades de uso 
como ar condicionado, abertura de porta, chamada de emergência, com sua 
localização, destinos possíveis, entre outros. O pequeno veículo funciona por 
eletricidade e após ser programado pelo usuário ele automaticamente se desloca até o 
destino solicitado. 
 Ainda subterrânea, está uma rede de infraestruturas como canalizações, cabos 
de alta tensão, cabos de telefonia e várias outras utilidades que permitem que as ruas 
fiquem livres de fiações. Essas áreas tem acesso facilitado para manutenção e atendem 
todas as regiões da cidade. 
 Como já foi comentado, a cidade está localizada em uma área desértica com 
lençol freático muito superficial. Por isso, está previsto no projeto de Masdar uma 
usina de dessalinização de água (WITHERSPOON, 2009). Hoje a cidade de Abu Dhabi já 
é abastecida por uma usina de dessalinização e a vegetação das vias e parques só é 
possível devido a um grande sistema de irrigação. 
Outro problema enfrentado pela região é que a sensação térmica é 
intensificada pelos ventos quentes do deserto. Para amenizar os efeitos do calor do 
deserto algumas ‘Torres de Vento’ foram desenvolvidas. O sistema da ‘Torre de Vento’ 
é uma tradição árabe já utilizada há muitos séculos. A tecnologia foi redesenhada para 
Masdar e implantada em diferentes locais da cidade (Figura 53, Figura 54 e Figura 55). 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 
 
 
Figuras 53, Figura 54 e 55: Imagens e desenhos esquemáticos da Torre de Vento. Tradução da autora. 
Fonte: Masdar City, 2010. 
 
 Outra tecnologia utilizada em Masdar é a perfuração exploratória para testar a 
possibilidade de uso de água geotérmica para aquecimento e água quente para 
sanitários. A produção de energia e a dessalinização também são possíveis aplicações 
da energia geotérmica, mas a perfuração teria que ser mais profunda do que a que já 
foi feita até o momento (Figura 56). 
 
Figura 56: Campo de perfuração para energia geotérmica. 
Fonte: Masdar City, 2010 
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Para a construção das edificações de Masdar, foi instalada no interior da cidade 
uma fábrica de concreto (Figura 57). Além de diminuir a distância entre o fornecedor e 
o local de utilização, a fábrica produz um concreto que substitui parte do cimento 
Portland por cinza de carvão e por escória de forno de produção de ferro. As 
propriedades do concreto obtido são, de acordo com os seus produtores, melhores do 
que o concreto convencional e com uma durabilidade de 70 anos. 
Também para atender Masdar foi criado um Bioreator de Membrana para o 
tratamento de águas residuais (Figura 58). Esse jáestá em funcionamento atendendo o 
Instituto de Masdar e os escritórios da obra. Por ser um projeto modulado, a intenção 
é aumentar a capacidade à medida que a cidade for crescendo. 
 
Figura 57: Fábrica de Concreto de Masdar 
Figura 58: Bioreator de Membrana. 
Fonte: Masdar City, 2010 
 
São muitas as tecnologias com enfoque ambiental utilizadas em Masdar. Por 
ser uma cidade com um Instituto de Ciência e Tecnologia é bastante provável que 
muitas outras tecnologias sejam implantadas na cidade. 
 
6.2.5 Análise do projeto de Masdar a partir das Categorias Analíticas 
A primeira análise referente à Masdar é o posicionamento do seu projeto a partir 
do referencial teórico de Wolfgang Sachs (1997) que apresenta os ideais de 
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desenvolvimento sustentável como ‘perspectiva da competição’, ‘perspectiva do 
astronauta’ e ´perspectiva doméstica’. De acordo com essas classificações esse projeto 
se aproxima da ‘perspectiva da competição’ por se tratar de um projeto que visa o 
lucro e é incentivado pelo capital, mas possui um grande potencial tecnológico. 
O projeto está sendo desenvolvido por um consórcio internacional e por uma 
empresa de energia de Abu Dhabi tendo como pontos principais a captação de energia 
solar e a transformação em energia elétrica e o desenvolvimento de tecnologias 
sustentáveis. A empresa de Abu Dhabi pretende vender tais conhecimentos e 
excedentes de energia. Além disso, todas as edificações serão construídas pela 
empresa Masdar e alugadas ou cedidas para os usuários. Desta forma, só poderão 
habitar a cidade de Masdar pessoas escolhidas pela empresa como cientistas e 
empresários ou pessoas que podem pagar os altos custos da moradia. Assim, há uma 
seleção prévia dos usuários que muito provavelmente terão classes sociais 
semelhantes. 
O fato de estarem sendo trazidas multinacionais de todas as partes do mundo, 
além de estudantes e professores também de locais muito distintos, apresenta dois 
pontos controversos na convivência diária: apesar da diversidade cultural ser uma 
vantagem, o excesso de culturas muito distintas e a não liberdade de modificação dos 
espaços e até mesmo a cultura árabe como principal gestora, podem trazer problemas 
sociais até como a restrição de vestuário. 
É importante salientar que o projeto da cidade não teve intervenção direta da 
população. O cliente do Escritório Foster + Partners foi a Empresa Masdar e como 
ainda não havia uma população definida, visto que os espaços seriam alugados 
posteriormente, não houve participação comunitária nas decisões de projeto. Essa 
falta de participação pode trazer problemas que poderiam ser solucionados caso as 
necessidades específicas da comunidade fossem ouvidas. A cidade foi primeiramente 
projetada e executada para depois receber seus habitantes e usuários que também 
não tem acesso às decisões políticas. Como os espaços são todos alugados, os 
residentes e usuários também não tem a possibilidade de alteração dos ambientes, o 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
que dificulta a formação de uma identidade com o lugar e uma noção de 
pertencimento. 
Não é do interesse dos idealizadores que trabalhadores como empregados 
domésticos, porteiros, camareiros etc. residam na cidade de Masdar visto que o custo 
de um aluguel de um apartamento é comparável a um aluguel de um apartamento no 
centro de Londres. Essa segregação por questões financeiras levanta duas questões 
relevantes à sustentabilidade urbana. A primeira diz respeito à diversificação cultural 
que fica prejudicada quando somente pessoas de poder aquisitivo semelhantes se 
inter-relacionam. Outra questão é a justiça social que é essencial para a 
sustentabilidade urbana. Esses trabalhadores tem que se deslocar cotidianamente 
para bairros menos infraestruturados e não tem a oportunidade de aproveitar a 
qualidade de vida oferecida aos moradores e trabalhadores de maior poder aquisitivo 
de Masdar. 
Os serviços básicos como escolas, bancos, comércios e áreas residenciais, são 
atendidos pelo projeto. A maioria dos usuários pode ter acesso a esses ambiente à pé, 
o que facilita a utilização e diminui a necessidade do automóvel. No entanto, não ficou 
claro na descrição do projeto se o número de serviços atenderá suficientemente os 
moradores e usuários volantes. 
A cidade também não conta com alguns serviços essenciais para a 
autossuficiência urbana como delegacias e edificações de governo. Como a cidade 
permanecerá vinculada à Abu Dhabi, algumas das necessidades urbanas ficaram à 
cargo da cidade vizinha. A sede da empresa de energia de Abu Dhabi que gerenciará 
Masdar foi altamente pensada e desenvolvida para atender as questões ambientais 
como o consumo energético, mas não foi registrada nenhuma área para a governança 
local com exceção do Headquarter da Masdar Company. Apesar da cidade ter o 
incentivo do governo de Abu Dhabi, a urbe não possui uma governança local nem 
parlamentar nem eleita. A falta desse governo dificulta as relações democráticas, o 
que torna a cidade de Masdar uma área não autônoma politicamente. Suas decisões 
políticas acabam ficando à cargo do governo de Abu Dhabi e da empreendedora. 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
A empreendedora de Masdar tem todo o controle sobre a cidade e a mesma é 
murada e vigiada. A limitação física impede que a cidade cresça sem controle, o que é 
bom para a cidade (CORBELLA, 1999), mas em contrapartida, o controle absoluto sobre 
quem entra e sai do perímetro urbano diminui a noção de democracia e dificulta o 
acesso. 
Para Nicolai Ouroussoff (2010)., colunista do New York Times, a experiência de 
Masdar se aproxima de uma “Disneylândia verde”, pois é um condomínio fechado de 
alto padrão. Apesar de ter seus pontos positivos como a tecnologia aliada à 
arquitetura árabe tradicional, a cidade não atende bem às questões sociais. 
Para Ouroussoff, 
“O projeto reflete uma mentalidade de condomínios 
fechados que tem se espalhado pelo mundo como um câncer 
durante décadas. Sua pureza utópica e seu isolamento da vida 
das cidades reais estão fundamentados na crença, ao que me 
parece, aceitos pela maioria das pessoas hoje, de que a única 
maneira de se criar uma comunidade verdadeiramente 
harmoniosa, verde ou não, é isolando-a do mundo em geral. ... 
as classes rica e média instruída tem encontrado cada vez mais 
conforto em se isolar em uma variedade de miniutopias.” 
(OUROUSSOFF, 2010) 
 
No entanto, mesmo para ser chamada de "verde" muita energia deverá ser 
gastada, pois por se encontrar em uma região desértica a realidade do local é bastante 
diferente das imagens digitais apresentadas para a venda do projeto (Figura 59). 
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Figura 59: Imagem aérea da construção de Masdar City em 2010. 
Fonte: Utilities ME Staff 
 
Como Masdar será construída somente para atender 50 mil residentes e 40 mil 
usuários flutuantes, inicialmente, a empreendedora previa a construção de outra 
cidade semelhante à Masdar, mas com a crise econômica e com os altos custos já 
gastos nesse projeto o outro empreendimento foi cancelado. Desta forma, duas 
questões ficam prejudicadas. A primeira é o fato de que com o crescimento urbano e a 
saturação de Masdar a população não terá outra opção de ocupação dita sustentável 
na região. Caso fosse uma cidade em um país ocidental, muito provavelmente 
surgiriam cidades satélites. Como nos Emirados Árabes o controle é muito rígido e 
Masdar é uma cidade privada, a falta de outra cidade semelhante é um problema 
apenas para algumas famílias ricas que gostariam, mas não conseguiram se 
estabelecer em Masdar. Outra questão é aideia de cidades sustentáveis em rede 
defendida por diversos autores. Apesar de Masdar estar conectada com outras cidades 
como Abu Dhabi e Dubai, não formará uma rede de cidades sustentáveis. 
No entanto, os acessos às cidades já existentes atende a população de Masdar e 
principalmente à população flutuante. O metro e os ônibus interurbanos são utilizados 
principalmente pela população mais pobre e a população mais rica utiliza carros 
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convencionais passando pelas grandes autopistas que ligam Masdar às cidades 
vizinhas. 
Os meios de transporte internos da cidade buscam atender tanto 
individualmente a população com o sistema PRT (Personal Rapid Transport) quanto 
coletivamente com o LRT (Light Rail Transport). No entanto, o sistema de PRT´s, por 
ser individual, é bastante caro e tanto sua implantação quanto sua manutenção seria 
inviável em uma cidade convencional. O sistema de vias subterrâneas é bastante 
interessante para liberar a superfície para o pedestre, mas também ainda é muito 
caro, mas não inviável. Para ter praticamente todo o sistema viário subterrâneo 
também é necessário muito controle, principalmente nas estações que dão acesso 
direto às edificações, como é o caso de Masdar. 
A densidade populacional é entorno de 130 a 160 habitantes por hectare. Se 
compararmos com a densidade populacional do Rio de Janeiro que é de 
aproximadamente 60 habitantes por hectare (IBGE, 2010), vê-se que a densidade 
populacional de Masdar é bastante alta o que torna a cidade bastante compacta 
apesar das edificações serem relativamente baixas (até 40 metros). Para alguns 
autores essa compacidade é bem aceita como uma das características da cidade 
sustentável (ROGERS, 2001 e GIRARDET, 2001), mas outros autores destacam 
simulações que comprovam que a temperatura local pode aumentar, principalmente, 
com vias muito estreitas e prédios muito próximos uns dos outros, visto que o 
sombreamento que um edifício faz no outro não faz muita diferença térmica em locais 
de clima quente (BARBOSA, DRACH e CORBELLA, 2010). 
Além disso, a alta densidade prejudica a permeabilidade do solo. Apesar de 
possuir muitas áreas de circulação de pedestre, esses espaços são, em sua maioria, 
calçados e com poucas áreas de absorção de água (Figura 60). 
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Figura 60: Desenho de Masdar com cheios e vazios urbanos com destaque para a área que será 
construída primeiramente. E desenho de um corredor "verde". 
Fonte: Design + Planning AECOM. (modificadas pela autora) 
 
Outra questão que deve ser considerada é a homogeneidade de alturas das 
edificações. A grande maioria das edificações possui o mesmo número de pavimentos 
o que dificulta a permeabilidade da ventilação e, consequentemente, modifica o 
microclima local (ROMERO, 2001). 
Já as vias possuem uma hierarquia com relação à dimensão e algumas áreas são 
reservadas exclusivamente ao pedestre. Essas vias também possuem um bom 
sombreamento, visto que a própria tipologia das edificações e os painéis solares dos 
telhados dos edifícios foram pensados também para atender esta função. No entanto, 
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as temperaturas médias em Masdar são muito altas, e como acontece em Abu Dhabi, a 
grande maioria das edificações, mesmo pensadas para serem bem ventiladas, acaba 
optando pelo uso do ar condicionado. Neste caso, as temperaturas das vias e dos 
edifícios ficam bem distintas o que causa um desconforto térmico e um gasto maior de 
energia com o “abre-e-fecha” das portas das edificações (CORBELLA & YANNAS, 2003). 
Ainda, os sistemas de ar-condicionado liberam para as vias mais calor, o que piora o 
microclima local. 
Além disso, as altas temperaturas também prejudicam a vegetação mais robusta 
que precisa ser quase que constantemente irrigada para sobreviver. Já a vegetação 
original de áreas desérticas não faz muita sombra. Com altas temperaturas e 
vegetação escassa os cursos d´água tem uma grande tendência à evaporação. Essa 
evaporação contribui para uma umidificação do ambiente, mas piora a sensação 
térmica. 
A cidade não possui um parque urbano definido, mas possui parques lineares que 
servem de vias principais e outros espaços verdes distribuídos no interior da malha 
urbana(Figura 61). Por ser uma região desértica, não possui florestas urbanas e tem 
dificuldade de produzir sua própria alimentação. Apesar de ter um espaço reservado 
para a produção de alimentos, essa área é bastante pequena para atender a população 
e não pode ser considerada uma área rural. Grande parte dos alimentos é importada, 
pois a criação e a plantação na região são prejudicadas pelo clima. 
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Figura 61: Desenho esquemático com insolação e ventilação em Masdar. 
Fonte: Khalifa University of Science, Technology and Research at Masdar Master Plan. (Sasaki 
Associates, Inc.) Modificado pela autora. 
 
Apesar de não haver nenhuma tecnologia ambiental que diminua o impacto da 
cidade não produzir sua própria alimentação, muitas outras tecnologias desenvolvidas 
em Masdar são de grande importância para a formação de cidades sustentáveis e para 
a implantação em cidades já existentes. As tecnologias se destacam no 
desenvolvimento da cidade, principalmente na utilização de energias limpas. 
Para fazer uma análise direta com as categorias analíticas desenvolvidas no 
capítulo 5 da tese os dados de Masdar foram inseridos no quadro abaixo e 
posteriormente, foi realizado o levantamento baseado nas categorias (Quadro 3). 
 
 
 
 
GISELE SILVA BARBOSA. O Discurso da Sustentabilidade Expresso no Projeto Urbano. Tese/PROURB 
 
 
 
Dados Gerais 
Cidade Masdar 
Masdar 
 
Observações 
Localização Emirados Árabes. Lat. 24°28’’ norte e 
Long. 54°22’’ leste 
Região Desértica 
Área urbana 7 km² Incluindo: 2.8Km² de 
área urbana 
propriamente dita e 
4.2Km² de área de 
indústrias implantação. 
Número de habitantes inicial 10 mil 
Expectativa máxima de habitantes 50 mil residentes e 40 mil flutuantes 
Densidade Populacional 130 a 160 habitantes por hectare Possui uma densidade 
alta em comparação 
com cidades como Rio 
de Janeiro e Londres. 
Cidade mais próxima Abu Dhabi Masdar é politicamente 
subordinada à Abu 
Dhabi 
Distância da cidade mais próxima 17 km do centro comercial Masdar também faz 
divisa com Khalifa 
Madinaf 
Aquisição da terra Particular As terras são da Masdar 
Mubadala Company. 
Financiamento Masdar Mubadala Company, governo de 
Abu Dhabi e Parceiros como Shell, 
Mitsubishi e RollsRoyce, Fiat e General 
Eletric, entre outras. 
O investimento é 
praticamente todo de 
grandes empresas 
multinacionais. 
Custo aproximado 22 bilhões de dólares 
Escritório Responsável pelo projeto Foster + Partners Outros escritórios são 
responsáveis pelas 
edificações 
Construtora Masdar Mubadala Company 
Data prevista para a conclusão das 
obras. 
2025 A cidade está sendo 
construída em etapas e a 
primeira etapa foi 
concluída em 2011. 
Perspectiva de 
desenvolvimento baseada nas 
definições de Wolfgang Sachs. 
Perspectiva de competição Características 
principais: incentivada 
por empresas que visam 
o lucro. Cidade 
praticamente toda 
privada. 
Quadro 3: Quadro com dados gerais da cidade de Masdar. 
 
Com os dados levantados sobre Masdar foi possível completar a matriz a seguir e 
verificar algumas características da cidade com relação às categorias analíticas para o 
projeto urbano sustentável (Quadro 4). 
 
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Categorias Analíticas para o 
Projeto Urbano Sustentável 
 
MASDAR

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