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ANÁLISE DE POLÍTICA EXTERNA AULA 2 Prof. Bruna Leal Barcellos CONVERSA INICIAL Nesta aula você será apresentado a algumas das principais teorias das Relações Internacionais e aprenderá sobre suas visões a respeito da política externa. Em um primeiro momento será introduzida a ideia de teoria e a sua importância para a construção de uma análise. Esse Tema será introdutório para maior facilidade de absorção das teorias que serão apresentadas a seguir. Como primeira teoria trabalhada teremos o Realismo. Nesse momento será realizada uma introdução às três vertentes do realismo: o realismo clássico, realismo neoclássico e o neorrealismo. Nesse Tema compreenderemos o surgimento dessa teoria e sua visão do Estado como ator que age de forma a garantir seu interesse próprio, tendo como principal foco a sua segurança no cenário anárquico internacional. Na sequência, abordaremos a teoria liberal. Com a apresentação da teoria liberal, será possível fazer uma comparação de suas ideias com a da teoria realista, observando como sua visão sobre o Estado e a concepção de outros atores no cenário internacional representam a mudança na dinâmica internacional. Acompanhando as mudanças teóricas que surgiram como reflexo das mudanças conjunturais do cenário internacional, o construtivismo será apresentado, trazendo alguns dos seus principais conceitos como a identidade e a interdependência complexa. Por fim, uma breve consideração sobre a emergência das teorias que consideram outros níveis além do Estado será realizada, encerrando a análise das relações da Análise de Política Externa (APE) com algumas das principais teorias das Relações Internacionais. TEMA 1 – AS RELAÇÕES DA APE COM AS TEORIAS O uso da teoria em uma pesquisa pode servir para diferentes funções conforme o objeto estudado, e o objetivo pretendido. Enquanto que, em algumas pesquisas, a teoria pode exercer um papel de auxílio explicativo, como em análises empíricas, a teoria também pode servir de aparato analítico em estudos de caso. Sua flexibilidade vai desde casos mais específicos, até assuntos mais gerais (Nanci; Pinheiro, 2019, p. 26). Um outro ponto a ser observado pelo pesquisador além da teoria são os níveis de análise. No campo da APE, os níveis de análise podem se dividir em três: I. Nível do indivíduo: foco de análise nos decisores da política externa; II. Nível estatal: análise sobre a correlação dos fatores domésticos com as decisões tomadas no campo externo; III. Nível internacional: análise sobre as relações entre os atores do nível externo (Nanci; Pinheiro, 2019, p. 28). A pesquisa pode se dar de forma autônoma, sendo cada nível analisado de forma individual e prática, mas também há a possibilidade de junção dos níveis, e com isso, têm-se uma análise de diversos níveis em uma só pesquisa. Os níveis de análise incluem as estruturas e os agentes da dinâmica externa. As estruturas representariam o local em que esses agentes executariam suas ações e decisões, e os agentes seriam compreendidos como aqueles que “possuem capacidade de ação” (Nanci; Pinheiro, 2019, p. 30). Qual seria então a problematização sobre esses dois pontos? Hill (2003) indica que o ponto nebuloso sobre essa relação se dá na compreensão se os agentes, que teriam o papel de agir, seriam moldadas pelas estruturas, ou se essas segundas, acabariam sendo modificados pelos agentes. Deve se compreender que levando em consideração determinada ótica, as estruturas não passariam de uma representação abstrata da qual ocorreriam as ações dos agentes. As estruturas não seriam físicas, mas sim uma manifestação dos padrões que ocorrem por meio da interação e dos processos. De acordo com essa ideia, as estruturas não poderiam ser vistas como constantemente fixas e imutáveis. O fato de estarem correlacionadas com as representações de padrões e processos, coloca as estruturas em um caráter receptivo das mudanças que ocorrem nesse campo. Logo, as estruturas se mostram como possíveis de alterações, de metamorfoses, que ocorreriam conforme os processos executados e projetados sobre elas. TEMA 2 – A APE E O REALISMO O Realismo é uma das teorias mais antigas, e talvez uma das mais conhecidas, dentro da disciplina das Relações Internacionais. Apresentando três principais vertentes, sendo essas o realismo clássico, o realismo neoclássico e o neorrealismo. Por sua vez, a corrente realista ainda se mostra viva nas análises dentro do campo das Relações Internacionais, ainda que o cenário no qual essa teoria nasceu tenha se alterado durante os anos. O realismo clássico é baseado em pensadores como Sun Tzu, Tucídides, Tito Lívio, Maquiavel, Hobbes e Richelieu (Castro, 2012, p. 314). Cada um contribuindo com uma visão, assim como com a concepção de seu tempo, sobre a relação do Estado e indivíduo, assim como as relações entre Estados. Como ponto central do realismo clássico tem-se a ideia de preservação do Estado, assim como coloca o seu foco na importância da segurança que estaria correlacionada ao poder estatal. Com base nesses conceitos básicos sobre o Estado, o realismo clássico também constrói sua visão sobre o cenário internacional, podendo esse cenário ser observado como amparado na: [...] incerteza, é estruturado em assimetria de informações por causa da natureza desnivelada do relacionamento entre os Estados e demais atores não estatais. O cenário internacional é amoldado pelo poder, pela força, pelo interesse. (Castro, 2012, p. 316) A visão realista clássica não somente reconhece a ausência de igualdade entre as nações, mas também coloca nessa desigualdade observada um dos motivos pelo status de incerteza que consome o cenário externo. É essa incerteza, o cenário de desequilíbrio internacional e o caráter anárquico do campo internacional que fariam com que a defesa do Estado se tornasse um ponto essencial. A atenção do realismo clássico se volta para a necessidade de proteção estatal. O Estado precisaria estar a todo momento garantindo sua própria segurança pois, não sabe qual a ação que outro Estado tomará. A ideia de que o outro está se armando, o faz também se armar a fim de se auto preservar. Como vimos na Aula 1, essa discussão sobre Estado é uma das principais para o realismo em um todo. A ideia de Estado como ator racional e central permeia o raciocínio realista. O Estado agiria para seu próprio bem, o que justificaria a atenção para sua própria proteção, assim como justificaria qualquer decisão no campo doméstico ou externo. Castro (2012, p. 319-322) estabelece sete premissas do realismo clássico: I. As articulações externas, ou não, do Estado se pautariam em parte pela natureza egoísta e individualista do indivíduo; II. O Estado garante sua sobrevivência e segurança com base em mecanismos, sendo um deles, a guerra; III. O Estado executa a maximização de poder executando constrangimentos; IV. O Estado justifica suas políticas para a defesa com a ideia de obtenção e manutenção; V. A ausência de controle no cenário externo força a priorização da agenda particular de cada Estado; VI.; O Estado é o principal ator no cenário internacional; VII. A organização e posicionamento dos Estados ocorre de forma assimétrica. As mudanças no cenário internacional de alguma forma também alteraram as visões sobre esses sete pontos apresentados. Novas teorias foram emergindo e novas visões foram aplicadas à nova dinâmica do cenário internacional. Uma segunda vertente realista, a do neorrealismo, foi elaborada por Kenneth Waltz buscando apoio em modelos positivistas. Um dos principais pontos defendidos por Waltz é a de que a bipolaridade sistêmica evita conflitos e rupturas no cenário internacional, sendo com base nessa bipolaridade que se teria a manutenção do status quo (Castro, 2012, p. 327). Waltz também trata da questão anárquica do cenário internacional, utilizando essa realidade como uma justificativa para o comportamento de “vigilância” aplicado pelos Estados.As decisões estatais nesse cenário seriam guiadas levando em consideração sua capacidade de poder. Waltz viria a argumentar que a posição de defesa não precisaria ser uma constante, caso fosse garantido o equilíbrio de poder internacionalmente (Nanci, Pinheiro, 2019, p. 33). Na abordagem neorrealista, a visão sobre o Estado se altera também em relação ao seu caráter comportamental. Para os neorralistas, o Estado teria aspectos racionais, buscando interesses próprios e o seu rumo a cooperação ou conflito se apoiariam são funções das forças sistêmicas (Shimko, 1992, p. 298). Uma outra perspectiva também adicionada a visão neorrealista está em sua visão sobre os regimes internacionais, em forma de instituições, os considerando como importantes, já que auxiliariam na redução de custos das ações dos Estados. A definição sobre o que são esses regimes se altera de acordo com o autor que observarmos. Keohanne estabelece uma definição mais objetiva, observando regimes como instituições que representam de um determinado conjunto de regras em relação a um problema internacional no qual os Estados concordam (Tarzi, 2004, p. 124). Em um texto publicado em 2004 por Waltz, o autor aborda as críticas feitas ao neorrealismo. Um dos pontos relevantes a serem comentados é sobre o que Waltz fala sobre a visão do neorrealismo, ou como coloca, do “novo realismo” como sendo o “antigo realismo” apenas de forma mais rigorosa. Segundo o autor, essa visão estaria equivocada ao se observar o antigo realismo como comportamental, vendo bons Estados como capazes de produzir bons resultados, e maus Estados, maus resultados. Para o novo realismo, ou neorrealismo, o resultado não estaria tão dependente de uma observação sobre “bom ou mal” em relação ao Estado, mas sim estaria conectado com as questões de estrutura nas quais as ações estatais ocorreriam. Um dos pontos que podemos utilizar para encerrar o debate sobre o neorrealismo está na sua natureza de não ser uma teoria de política externa. Waltz por si só já definiu que a teoria neorrealista não teria essa função, no entanto, como Telbami (2002, p. 158-159) estabelece, o fato de a teoria neorrealista não necessariamente correr o mesmo caminho da política externa, as análises provenientes da visão neorrealista não necessariamente devem ser excluídas de uma análise de política externa. Como Telbani esclarece, “O neorrealismo é, portanto, melhor concebido como uma estrutura para uma investigação mais aprofundada, não como o fim da investigação” (Telbami, 2002, p. 159). Essas duas vertentes do Realismo demonstram como a visão dentro da própria teoria se alterou conforme as mudanças da conjuntura internacional. Logo, é de se esperar que outras teorias também passassem por momentos de maior ou menor emergência. No próximo tema iremos analisar outra importante teoria: a teoria liberal. TEMA 3 – A APE E O LIBERALISMO Como visto no Tema 2, o Realismo tinha seu foco de análise no Estado e seu comportamento. O Estado como sendo ator central teria, consequentemente, como maior preocupação sua própria segurança, e para isso, colocava boa parte da sua atenção nas questões de defesa nacional. Essa perspectiva realista guia o olhar do pesquisador para determinados pontos e comportamentos do Estado no cenário internacional. Em contrapartida, o Liberalismo surge em um momento em que se passou a questionar a visão Realista até então predominante, trazendo uma outra forma de observar o cenário externo. Uma das principais diferenças entre a visão Realista e a Liberal se dá na concepção de Estado como ator unitário. O Liberalismo dará maior espaço para outros atores que não só os Estados-nação. De acordo com Castro (2012, p. 338), “o liberalismo não desconsidera a importância do Leviatã (Estado), porém, enxerga outras forças pulverizadas juridicamente guiadas no interior e no exterior dos Estados que possuem papel legítimo nas Relações Internacionais”. Compreende-se que o Estado passaria a dar espaço para outros atores, mas sem perder sua importância no cenário internacional. Além disso, o Liberalismo também apresentará outra argumentação em relação aos conflitos internacionais. Para a visão liberal, existiria o que chamamos de paz democrática. A paz democrática nortearia os Estados para evitarem entrar em guerras, compreendendo que a manutenção de um cenário de paz é mais benéfica do que o conflito, sendo esse último visto como prejudicial para a economia estatal (Nanci; Pinheiro, 2019, p. 37). Parte da compreensão desse comportamento estatal no cenário externo observado pelo liberalismo se daria com base na visão de racionalidade inclusa nessa teoria. Para o liberalismo, os indivíduos sempre agiriam de forma racional, e essa racionalidade os levaria a alcançar seus objetivos. Por meio da racionalidade, cada indivíduo iria prosperar individualmente e, consequentemente, prosperar em grupo. Essa mesma visão pode ser aplicada sobre o comportamento dos Estados, os observando como atores racionais que agem de forma a garantir os benefícios próprios e assim, o benefício geral. Keohane e Nye (1972; 1977) trazem a visão de interdependência complexa, que se mostra a par das mudanças internacionais. Como já debatido na Aula 1, a mudança no cenário internacional é acompanhada da emergência de novos poderes Estatais e não estatais, de novos centros de cooperação, acordos bilaterais e multilaterais, além de diversos outros novos paradigmas. A interdependência complexa é um auxílio na análise dessa nova dinâmica. Sobre essa perspectiva todos os Estados estariam de alguma forma conectados, e seria essa “conexão” que construiria a concepção de interdependência entre eles. Como podemos interpretar de forma prática essa visão? Em certo ponto, a interdependência complexa argumentará que os Estados não vivem de forma isolada, e que devido a esse cenário de “conexão” entre eles, as decisões, rupturas e eventos que ocorrem em um Estado-nação, podem afetar outros Estados. Temos então os conceitos de sensibilidade e vulnerabilidade dentro da abordagem de interdependência. A sensibilidade trataria sobre a capacidade de resposta de um país em relação ao outro. Na sensibilidade, uma ruptura no país A não causaria um custo sobre o país B pois, não demandaria alguma mudança política desse país. Já na visão de vulnerabilidade, a questão se dá em relação à influência de um Estado sobre outro. Nessa percepção, uma ruptura no país A não somente é sentida pelo país B, mas também demanda que esse país tome ações de proteção, gerando custo interno. É relevante trazer à tona a concepção de assimetria que permeia as questões de interdependência complexa. Seriam as assimetrias existentes entre os diferentes Estados que acabariam propiciando a formação de alianças. Por essa concepção, os Estados com interesses em comum se uniriam, e os conflitos acabariam sendo um resultado dos interesses opostos (Di Sena Junior, 2003, p. 188-189 citado por Rodrigues, 2014, p. 110). A interdependência complexa trabalha sobre a ideia de existência de três canais múltiplos pelos quais diferentes sociedades poderiam se relacionar: Interestatais: existente no âmbito das relações entre os Estados; transgovernamentais e transnacionais, sendo ambas conectadas a ideia de não coerência na ação estatal, ocorrendo as alianças decorrente da intenção de resolução de problemas (Filho, 2006, p. 82-83). Essa ideia de cooperação entre Estados permearia até mesmo a concepção de anarquia internacional. Para Keohane (1984), seria o ambiente anarquista que construiria a oportunidade para a relação e cooperação entre os Estados, eliminando a ideia de conflito automático que existiria nesse cenário. Uma corrente Liberal que deve ser citada é a do neoliberalismo institucional. Por essa abordagem, ainda se observa o papel de outros atores que não somente os estatais nas relações internacionais. A existência de instituições teria o papel central de ceder um espaço de debate erelacionamento para os Estados. Por essa visão, três variáveis seriam responsáveis por afetar a cooperação entre os Estados: a. Estrutura de compensação (payoff): trata das rupturas que ocorrem fora do planejado pelos governos. Com base nessas rupturas inesperadas se construiriam as concepções de interesses mútuos; b. Sombra do futuro: trabalha sobre a questão de como o interesse dos Estados no futuro irá criar o ambiente propício para a cooperação. Nessa visão, quanto mais os ganhos do futuro se mostram maiores dos que os do presente, maiores as chances de cooperação; c. Número de atores: argumenta que um grande número de atores em uma negociação, maiores os riscos de redução de reciprocidade (Silva, 2015, p. 5-6). Como se observa, o liberalismo traz diversas novas formas de observar as novas dinâmicas internacionais. No entanto, o pesquisador deve sempre ter em mente que o uso da teoria na sua pesquisa terá que considerar seu objeto de estudos. Logo, uma pesquisa que busca analisar o papel das Organizações Internacionais na mediação das relações estatais, tende a se beneficiar mais de uma abordagem liberal do que realista. No próximo tema abordaremos outra importante teoria das Relações Internacionais. TEMA 4 – A APE E O CONSTRUTIVISMO O construtivismo surgiu de forma “neutra” entre as dicotomias do realismo e do liberalismo ao fim da década de 1980, sendo parte da virada sociológica e da virada linguística. Não querendo adotar nenhum dos lados, a teoria construtivista se inseriu propondo apontar os pontos falhos de cada uma das teorias clássicas, e contribuir de forma a cobrir esses pontos. Esse discurso construtivista pode ser percebido na fala de Adler (1999, p. 206) que encaixa o construtivismo como não sendo contrário ao realismo ou liberalismo, não adotando uma posição “pessimista ou otimista”. O autor também categoriza o construtivismo como não sendo uma teoria a ser utilizada de forma isolada, mas sim em conjunto com outra abordagem. Certamente o construtivismo trouxe uma nova visão para os estudos das Relações Internacionais. Tendo seu início no campo das Artes no Século XX, partindo para a Pedagogia na Rússia antes de a URSS e alcançando a Sociologia no Ocidente, o construtivismo tem raízes que justificam suas visões fora dos padrões até então observados. O construtivismo vai trocar a palavra ator por agente, compreendendo que agentes são aqueles que agem, o que caracteriza aqueles envolvidos na política; também irá substituir a concepção de cenário por sistema. Na visão construtivista, o Estado representa uma crença pois, representa a sociedade que o compõe. O construtivismo argumentaria contra a ideia realista de que as análises devem ser concebidas de forma top-down, observando do Estado para dentro, e argumentará a favor de uma abordagem que venha de baixo, da sociedade. As novas nomenclaturas e prismas do construtivismo criam críticas por parte daqueles que aplicam as Relações Internacionais de forma mais clássica. Uma das principais críticas se dá sobre a visão construtivista de que não existem barreiras, logo, não existiria o externo. Os agentes domésticos simplesmente se relacionariam no sistema externo sem a existência das mesmas normas domésticas. Outro ponto essencial para compreender o construtivismo é observar a alteração de foco para o campo das ideias, interpretando que essas seriam as responsáveis por construir a realidade. A análise sobre as relações entre agentes deveria ser executada de forma a considerar a estrutura em que estão inseridos sendo que ambos existiriam mutuamente, sem um preceder o outro. Uma boa forma de compreender a visão construtivista está na definição de Adler: [...] o construtivismo amplia nossa compreensão da relação entre conhecimento científico e desfechos das relações internacionais com o argumento que as relações internacionais, em geral, sejam cooperativas ou conflituosas, são moldadas e socialmente construídas por todos esses tipos de conhecimento, científico e outros. (Adler, 1999, p. 233) Visto como um dos principais autores da abordagem construtivista, Wendt (1995) atribui qualidades como crenças e senso de intenção aos Estados. Para o autor, existiriam alguns pontos mínimos para que o Estado pudesse ser considerado um “Estado essencial”. O primeiro ponto faz menção a existência do Estado como independente da sociedade; o segundo, a relação entre política interna e externa e por fim, a relação mútua entre Estado e sociedade (Richie, 2015, p. 33). Uma das principais atribuições do construtivismo para o Estado é a identidade. Seria com base na identidade que os interesses estatais seriam construídos (Campbell, 1998; Zehfuss, 2001; Kubálková, 2001). A identidade pode corresponder a visão do agente sobre si mesmo, mas também existiria a identidade que representaria a imagem que um Estado tem sobre o outro. Independente disso, como Wendt aponta, a identidade surgiria em consequência da relação entre os agentes. Logo, compreende-se que as identidades dos Estados podem se alterar conforme o rumo de suas relações com outros agentes (Salomón, 2016). Uma forma de observar a importância da identidade pode ser a de que “[...] interesses são pressupostos pelas identidades por uma simples razão: se eu não sei quem eu sou, não terei meios de precisar aquilo que desejo” (Riche, 2015, p. 34). Além de identidade, um outro conceito importante presente no Construtivismo é o de comunidades epistêmicas. Podendo ser vistas como um grupo de interesses, as comunidades epistêmicas representam a união daqueles que tem em comum um determinado objetivo, e diante de sua união passariam a exercer sua influência sobre o Estado com o intuito de garantir as suas intenções. A inclusão das comunidades epistêmicas sobre a APE auxilia na compreensão das ações Estatais não somente no cenário doméstico, mas também externo. Como argumenta Adler (1999, p. 233), os atores que fazem parte da denominação de comunidades epistêmicas “são significativos para uma compreensão teórica mais ampla da construção social da realidade internacional pelo conhecimento intersubjetivo”. Ainda que se tratando de uma teoria não tão antiga quanto o realismo ou liberalismo, o construtivismo está longe de ser a teoria mais recente a imergir nos estudos de Relações Internacionais. No próximo tema abordaremos brevemente a inclusão de outras teorias nas agendas de pesquisa. TEMA 5 – A APE E A ASCENSÃO DE NOVAS TEORIAS O fim da guerra fria sempre é citado como um dos marcos para o início das mudanças teóricas das Relações Internacionais. No entanto, não somente uma ruptura ocasiona mudanças no campo teórico. A emergência de novos atores, a adoção de novos regimes internacionais, a crescente criação de acordos entre Estados, além de outros novos fenômenos internacionais também são correlacionados com as novas visões que foram surgindo com os anos. No entanto, grande parte das teorias que observamos hoje como estando em ascensão, não surgiram após esses eventos. Sua existência já é anterior a eles, no entanto, a conjuntura até então não permitia que tais teorias fossem utilizadas na mesma frequência, ou com a mesma atenção que as teorias mais clássicas. Temos então a ascensão do pós-colonialismo, por exemplo, podendo ser observado como um conjunto de teorias primeiramente aplicadas sobre estudos de cultura, que foram se expandindo para outros campos das ciências sociais. Trabalhando sobre a herança que as relações do colonialismo, o pós-colonialismo argumenta sobre como o fim do colonialismo, na prática, não representa o fim do colonialismo como percepção e interpretação sobre o outro (Santos, 2008, p. 16-17). Outro exemplo de teoria que emergiu é o pós-estruturalismo. Nessa abordagem, podemos usar uma visão de Foucault sobre poder. Para o autor, o poder não seria algo natural, mas sim uma prática social. Ou seja, o poder não seria algo que alguns possuem e outros não, mas estaria presente nas práticas sociais.O poder, na visão de Foucault, não se limitaria ao Estado, também estando presente na sociedade por meio de práticas, e até mesmo costumes. Têm-se então o poder como presente no dia a dia, com uma característica de “rede”, moldando comportamentos (Pacifico; Pinheiro, 2013, p. 118). Outras teorias como a Teoria Feminista também surgem como um reflexo do novo cenário de relações entre os Estados, e entre o Estado e a sociedade. Os avanços de teorias que passaram a considerar a influência da sociedade nas decisões de política criaram cada vez mais espaço para outras abordagens que se debruçavam sobre essa relação. Têm-se então a APE, assim como as Relações Internacionais, sofrendo uma metamorfose com os anos e ganhando cada vez mais aparatos para a execução de suas análises. NA PRÁTICA Considerando as teorias apresentadas, acesse o site do Mercosul <http://www.mercosul.gov.br/s aiba-mais-sobre-o-mercosul> e faça a leitura da descrição presente considerando as teorias anteriormente citadas. Tende a executar uma leitura crítica, tentando aplicar os conceitos das teorias e sua visão de política externa sobre os termos utilizados e as medidas do Mercosul que estão dispostas no site. FINALIZANDO Nessa aula você foi apresentado a algumas das principais teorias das Relações Internacionais e suas visões sobre a dinâmica da política externa. Após ser apresentado a ideia de teoria e a importância da escolha teórica para a realização da análise do pesquisador, a primeira teoria de Relações Internacionais foi apresentada: o realismo. Com a leitura sobre a visão realista aprendemos que o Estado é um ator central para essa perspectiva, e que suas ações são movidas pela intenção de garantir seus objetivos e também ideia de necessidade de defesa. Tendo a concepção de que o cenário internacional é anárquico, o realismo clássico interpreta que o desequilíbrio entre as forças estatais, leva a esses autores a terem a necessidade de preservação, sendo a questão de defesa um tema constante na agenda estatal. Como visão contrária temos o Liberalismo, e sua ideia de que as modificações no cenário externo levaram aos Estados a terem que compartilhar sua posição com outros atores. O estado continua tendo sua importância, no entanto, a análise não deve mais ser somente realizada sobre esse autor. Funcionando do princípio de racionalização, o liberalismo verá a cooperação como um ato racional estatal em busca da garantia de seus interesses. O construtivismo surge primeiramente como uma teoria que não buscava se posicionar contra o liberalismo ou realismo. Trazendo sua própria visão, o construtivismo logo se mostra apto para as análises de política externa ao considerar fatores como a identidade nas relações entre Estados. A ideia de interdependência complexa trabalha sobre a conexão existente entre os agentes e seu impulso para a cooperação. Por fim, uma breve leitura sobre algumas teorias que emergiriam conforme a conjuntura internacional se alterou nos propiciou pensar em como o uso de diferentes teorias e metodologias http://www.mercosul.gov.br/saiba-mais-sobre-o-mercosul acabam sendo um reflexo do momento vivido. REFERÊNCIAS ADLER, E. O Construtivismo no Estudo das Relações Internacionais. Lua Nova, n. 47, 1999. CASTRO, T. Teoria das relações internacionais. Brasília: FUNAG, 2012. FILHO, A. G. Y. A inserção internacional de Campinas: aspectos conceituais. Perspectivas, pp. 81- 98, 2006. NANCI, F.; PINHEIRO, L. Análise de Política Externa: o que estudar e por quê? 2019. PACIFICO, A. P.; PINHEIRO, T. K. F. O status do imigrante haitiano no Brasil após o terremoto de 2010 sob a perspectiva do Pós-Estruturalismo. 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