Prévia do material em texto
<p>ANÁLISE DE POLÍTICA</p><p>EXTERNA</p><p>AULA 2</p><p>Profª Bruna Leal Barcellos</p><p>2</p><p>CONVERSA INICIAL</p><p>Nesta aula você será apresentado a algumas das principais teorias das</p><p>Relações Internacionais e aprenderá sobre suas visões a respeito da política</p><p>externa.</p><p>Em um primeiro momento será introduzida a ideia de teoria e a sua</p><p>importância para a construção de uma análise. Esse Tema será introdutório</p><p>para maior facilidade de absorção das teorias que serão apresentadas a seguir.</p><p>Como primeira teoria trabalhada teremos o Realismo. Nesse momento</p><p>será realizada uma introdução às três vertentes do realismo: o realismo</p><p>clássico, realismo neoclássico e o neorrealismo. Nesse Tema</p><p>compreenderemos o surgimento dessa teoria e sua visão do Estado como ator</p><p>que age de forma a garantir seu interesse próprio, tendo como principal foco a</p><p>sua segurança no cenário anárquico internacional.</p><p>Na sequência, abordaremos a teoria liberal. Com a apresentação da</p><p>teoria liberal, será possível fazer uma comparação de suas ideias com a da</p><p>teoria realista, observando como sua visão sobre o Estado e a concepção de</p><p>outros atores no cenário internacional representam a mudança na dinâmica</p><p>internacional.</p><p>Acompanhando as mudanças teóricas que surgiram como reflexo das</p><p>mudanças conjunturais do cenário internacional, o construtivismo será</p><p>apresentado, trazendo alguns dos seus principais conceitos como a identidade</p><p>e a interdependência complexa. Por fim, uma breve consideração sobre a</p><p>emergência das teorias que consideram outros níveis além do Estado será</p><p>realizada, encerrando a análise das relações da Análise de Política Externa</p><p>(APE) com algumas das principais teorias das Relações Internacionais.</p><p>TEMA 1 – AS RELAÇÕES DA APE COM AS TEORIAS</p><p>O uso da teoria em uma pesquisa pode servir para diferentes funções</p><p>conforme o objeto estudado, e o objetivo pretendido. Enquanto que, em</p><p>algumas pesquisas, a teoria pode exercer um papel de auxílio explicativo,</p><p>como em análises empíricas, a teoria também pode servir de aparato analítico</p><p>em estudos de caso. Sua flexibilidade vai desde casos mais específicos, até</p><p>assuntos mais gerais (Nanci; Pinheiro, 2019, p. 26).</p><p>3</p><p>Um outro ponto a ser observado pelo pesquisador além da teoria são os</p><p>níveis de análise. No campo da APE, os níveis de análise podem se dividir em</p><p>três:</p><p>I. Nível do indivíduo: foco de análise nos decisores da política externa;</p><p>II. Nível estatal: análise sobre a correlação dos fatores domésticos com as</p><p>decisões tomadas no campo externo;</p><p>III. Nível internacional: análise sobre as relações entre os atores do nível</p><p>externo (Nanci; Pinheiro, 2019, p. 28).</p><p>A pesquisa pode se dar de forma autônoma, sendo cada nível analisado</p><p>de forma individual e prática, mas também há a possibilidade de junção dos</p><p>níveis, e com isso, têm-se uma análise de diversos níveis em uma só pesquisa.</p><p>Os níveis de análise incluem as estruturas e os agentes da dinâmica</p><p>externa. As estruturas representariam o local em que esses agentes</p><p>executariam suas ações e decisões, e os agentes seriam compreendidos como</p><p>aqueles que “possuem capacidade de ação” (Nanci; Pinheiro, 2019, p. 30).</p><p>Qual seria então a problematização sobre esses dois pontos?</p><p>Hill (2003) indica que o ponto nebuloso sobre essa relação se dá na</p><p>compreensão se os agentes, que teriam o papel de agir, seriam moldadas</p><p>pelas estruturas, ou se essas segundas, acabariam sendo modificados pelos</p><p>agentes. Deve se compreender que levando em consideração determinada</p><p>ótica, as estruturas não passariam de uma representação abstrata da qual</p><p>ocorreriam as ações dos agentes. As estruturas não seriam físicas, mas sim</p><p>uma manifestação dos padrões que ocorrem por meio da interação e dos</p><p>processos.</p><p>De acordo com essa ideia, as estruturas não poderiam ser vistas como</p><p>constantemente fixas e imutáveis. O fato de estarem correlacionadas com as</p><p>representações de padrões e processos, coloca as estruturas em um caráter</p><p>receptivo das mudanças que ocorrem nesse campo. Logo, as estruturas se</p><p>mostram como possíveis de alterações, de metamorfoses, que ocorreriam</p><p>conforme os processos executados e projetados sobre elas.</p><p>TEMA 2 – A APE E O REALISMO</p><p>O Realismo é uma das teorias mais antigas, e talvez uma das mais</p><p>conhecidas, dentro da disciplina das Relações Internacionais. Apresentando</p><p>4</p><p>três principais vertentes, sendo essas o realismo clássico, o realismo</p><p>neoclássico e o neorrealismo. Por sua vez, a corrente realista ainda se mostra</p><p>viva nas análises dentro do campo das Relações Internacionais, ainda que o</p><p>cenário no qual essa teoria nasceu tenha se alterado durante os anos.</p><p>O realismo clássico é baseado em pensadores como Sun Tzu,</p><p>Tucídides, Tito Lívio, Maquiavel, Hobbes e Richelieu (Castro, 2012, p. 314).</p><p>Cada um contribuindo com uma visão, assim como com a concepção de seu</p><p>tempo, sobre a relação do Estado e indivíduo, assim como as relações entre</p><p>Estados. Como ponto central do realismo clássico tem-se a ideia de</p><p>preservação do Estado, assim como coloca o seu foco na importância da</p><p>segurança que estaria correlacionada ao poder estatal.</p><p>Com base nesses conceitos básicos sobre o Estado, o realismo clássico</p><p>também constrói sua visão sobre o cenário internacional, podendo esse cenário</p><p>ser observado como amparado na:</p><p>[...] incerteza, é estruturado em assimetria de informações por causa da natureza</p><p>desnivelada do relacionamento entre os Estados e demais atores não estatais. O</p><p>cenário internacional é amoldado pelo poder, pela força, pelo interesse. (Castro,</p><p>2012, p. 316)</p><p>A visão realista clássica não somente reconhece a ausência de</p><p>igualdade entre as nações, mas também coloca nessa desigualdade observada</p><p>um dos motivos pelo status de incerteza que consome o cenário externo. É</p><p>essa incerteza, o cenário de desequilíbrio internacional e o caráter anárquico</p><p>do campo internacional que fariam com que a defesa do Estado se tornasse</p><p>um ponto essencial.</p><p>A atenção do realismo clássico se volta para a necessidade de proteção</p><p>estatal. O Estado precisaria estar a todo momento garantindo sua própria</p><p>segurança pois, não sabe qual a ação que outro Estado tomará. A ideia de que</p><p>o outro está se armando, o faz também se armar a fim de se auto preservar.</p><p>Como vimos na Aula 1, essa discussão sobre Estado é uma das</p><p>principais para o realismo em um todo. A ideia de Estado como ator racional e</p><p>central permeia o raciocínio realista. O Estado agiria para seu próprio bem, o</p><p>que justificaria a atenção para sua própria proteção, assim como justificaria</p><p>qualquer decisão no campo doméstico ou externo.</p><p>Castro (2012, p. 319-322) estabelece sete premissas do realismo</p><p>clássico:</p><p>5</p><p>I. As articulações externas, ou não, do Estado se pautariam em parte pela</p><p>natureza egoísta e individualista do indivíduo;</p><p>II. O Estado garante sua sobrevivência e segurança com base em</p><p>mecanismos, sendo um deles, a guerra;</p><p>III. O Estado executa a maximização de poder executando</p><p>constrangimentos;</p><p>IV. O Estado justifica suas políticas para a defesa com a ideia de obtenção</p><p>e manutenção;</p><p>V. A ausência de controle no cenário externo força a priorização da agenda</p><p>particular de cada Estado;</p><p>VI. O Estado é o principal ator no cenário internacional;</p><p>VII. A organização e posicionamento dos Estados ocorre de forma</p><p>assimétrica.</p><p>As mudanças no cenário internacional de alguma forma também</p><p>alteraram as visões sobre esses sete pontos apresentados. Novas teorias</p><p>foram emergindo e novas visões foram aplicadas à nova dinâmica do cenário</p><p>internacional.</p><p>Uma segunda vertente realista, a do neorrealismo, foi elaborada por</p><p>Kenneth Waltz buscando apoio em modelos positivistas. Um dos principais</p><p>pontos defendidos por Waltz é a de que a bipolaridade sistêmica evita conflitos</p><p>e rupturas no cenário internacional, sendo com base nessa bipolaridade que se</p><p>teria a manutenção do status quo</p><p>(Castro, 2012, p. 327).</p><p>Waltz também trata da questão anárquica do cenário internacional,</p><p>utilizando essa realidade como uma justificativa para o comportamento de</p><p>“vigilância” aplicado pelos Estados. As decisões estatais nesse cenário seriam</p><p>guiadas levando em consideração sua capacidade de poder. Waltz viria a</p><p>argumentar que a posição de defesa não precisaria ser uma constante, caso</p><p>fosse garantido o equilíbrio de poder internacionalmente (Nanci, Pinheiro, 2019,</p><p>p. 33).</p><p>Na abordagem neorrealista, a visão sobre o Estado se altera também</p><p>em relação ao seu caráter comportamental. Para os neorralistas, o Estado teria</p><p>aspectos racionais, buscando interesses próprios e o seu rumo a cooperação</p><p>ou conflito se apoiariam são funções das forças sistêmicas (Shimko, 1992, p.</p><p>298). Uma outra perspectiva também adicionada a visão neorrealista está em</p><p>sua visão sobre os regimes internacionais, em forma de instituições, os</p><p>6</p><p>considerando como importantes, já que auxiliariam na redução de custos das</p><p>ações dos Estados. A definição sobre o que são esses regimes se altera de</p><p>acordo com o autor que observarmos. Keohanne estabelece uma definição</p><p>mais objetiva, observando regimes como instituições que representam de um</p><p>determinado conjunto de regras em relação a um problema internacional no</p><p>qual os Estados concordam (Tarzi, 2004, p. 124).</p><p>Em um texto publicado em 2004 por Waltz, o autor aborda as críticas</p><p>feitas ao neorrealismo. Um dos pontos relevantes a serem comentados é sobre</p><p>o que Waltz fala sobre a visão do neorrealismo, ou como coloca, do “novo</p><p>realismo” como sendo o “antigo realismo” apenas de forma mais rigorosa.</p><p>Segundo o autor, essa visão estaria equivocada ao se observar o antigo</p><p>realismo como comportamental, vendo bons Estados como capazes de</p><p>produzir bons resultados, e maus Estados, maus resultados. Para o novo</p><p>realismo, ou neorrealismo, o resultado não estaria tão dependente de uma</p><p>observação sobre “bom ou mal” em relação ao Estado, mas sim estaria</p><p>conectado com as questões de estrutura nas quais as ações estatais</p><p>ocorreriam.</p><p>Um dos pontos que podemos utilizar para encerrar o debate sobre o</p><p>neorrealismo está na sua natureza de não ser uma teoria de política externa.</p><p>Waltz por si só já definiu que a teoria neorrealista não teria essa função, no</p><p>entanto, como Telbami (2002, p. 158-159) estabelece, o fato de a teoria</p><p>neorrealista não necessariamente correr o mesmo caminho da política externa,</p><p>as análises provenientes da visão neorrealista não necessariamente devem ser</p><p>excluídas de uma análise de política externa. Como Telbani esclarece, “O</p><p>neorrealismo é, portanto, melhor concebido como uma estrutura para uma</p><p>investigação mais aprofundada, não como o fim da investigação” (Telbami,</p><p>2002, p. 159).</p><p>Essas duas vertentes do Realismo demonstram como a visão dentro da</p><p>própria teoria se alterou conforme as mudanças da conjuntura internacional.</p><p>Logo, é de se esperar que outras teorias também passassem por momentos de</p><p>maior ou menor emergência. No próximo tema iremos analisar outra importante</p><p>teoria: a teoria liberal.</p><p>7</p><p>TEMA 3 – A APE E O LIBERALISMO</p><p>Como visto no Tema 2, o Realismo tinha seu foco de análise no Estado</p><p>e seu comportamento. O Estado como sendo ator central teria,</p><p>consequentemente, como maior preocupação sua própria segurança, e para</p><p>isso, colocava boa parte da sua atenção nas questões de defesa nacional.</p><p>Essa perspectiva realista guia o olhar do pesquisador para determinados</p><p>pontos e comportamentos do Estado no cenário internacional.</p><p>Em contrapartida, o Liberalismo surge em um momento em que se</p><p>passou a questionar a visão Realista até então predominante, trazendo uma</p><p>outra forma de observar o cenário externo. Uma das principais diferenças entre</p><p>a visão Realista e a Liberal se dá na concepção de Estado como ator unitário.</p><p>O Liberalismo dará maior espaço para outros atores que não só os Estados-</p><p>nação.</p><p>De acordo com Castro (2012, p. 338), “o liberalismo não desconsidera a</p><p>importância do Leviatã (Estado), porém, enxerga outras forças pulverizadas</p><p>juridicamente guiadas no interior e no exterior dos Estados que possuem papel</p><p>legítimo nas Relações Internacionais”. Compreende-se que o Estado passaria</p><p>a dar espaço para outros atores, mas sem perder sua importância no cenário</p><p>internacional. Além disso, o Liberalismo também apresentará outra</p><p>argumentação em relação aos conflitos internacionais.</p><p>Para a visão liberal, existiria o que chamamos de paz democrática. A</p><p>paz democrática nortearia os Estados para evitarem entrar em guerras,</p><p>compreendendo que a manutenção de um cenário de paz é mais benéfica do</p><p>que o conflito, sendo esse último visto como prejudicial para a economia estatal</p><p>(Nanci; Pinheiro, 2019, p. 37).</p><p>Parte da compreensão desse comportamento estatal no cenário externo</p><p>observado pelo liberalismo se daria com base na visão de racionalidade inclusa</p><p>nessa teoria. Para o liberalismo, os indivíduos sempre agiriam de forma</p><p>racional, e essa racionalidade os levaria a alcançar seus objetivos. Por meio da</p><p>racionalidade, cada indivíduo iria prosperar individualmente e,</p><p>consequentemente, prosperar em grupo. Essa mesma visão pode ser aplicada</p><p>sobre o comportamento dos Estados, os observando como atores racionais</p><p>que agem de forma a garantir os benefícios próprios e assim, o benefício geral.</p><p>8</p><p>Keohane e Nye (1972; 1977) trazem a visão de interdependência</p><p>complexa, que se mostra a par das mudanças internacionais. Como já debatido</p><p>na Aula 1, a mudança no cenário internacional é acompanhada da emergência</p><p>de novos poderes Estatais e não estatais, de novos centros de cooperação,</p><p>acordos bilaterais e multilaterais, além de diversos outros novos paradigmas.</p><p>A interdependência complexa é um auxílio na análise dessa nova</p><p>dinâmica. Sobre essa perspectiva todos os Estados estariam de alguma forma</p><p>conectados, e seria essa “conexão” que construiria a concepção de</p><p>interdependência entre eles. Como podemos interpretar de forma prática essa</p><p>visão?</p><p>Em certo ponto, a interdependência complexa argumentará que os</p><p>Estados não vivem de forma isolada, e que devido a esse cenário de “conexão”</p><p>entre eles, as decisões, rupturas e eventos que ocorrem em um Estado-nação,</p><p>podem afetar outros Estados. Temos então os conceitos de sensibilidade e</p><p>vulnerabilidade dentro da abordagem de interdependência.</p><p>A sensibilidade trataria sobre a capacidade de resposta de um país em</p><p>relação ao outro. Na sensibilidade, uma ruptura no país A não causaria um</p><p>custo sobre o país B pois, não demandaria alguma mudança política desse</p><p>país. Já na visão de vulnerabilidade, a questão se dá em relação à influência</p><p>de um Estado sobre outro. Nessa percepção, uma ruptura no país A não</p><p>somente é sentida pelo país B, mas também demanda que esse país tome</p><p>ações de proteção, gerando custo interno.</p><p>É relevante trazer à tona a concepção de assimetria que permeia as</p><p>questões de interdependência complexa. Seriam as assimetrias existentes</p><p>entre os diferentes Estados que acabariam propiciando a formação de alianças.</p><p>Por essa concepção, os Estados com interesses em comum se uniriam, e os</p><p>conflitos acabariam sendo um resultado dos interesses opostos (Di Sena</p><p>Junior, 2003, p. 188-189 citado por Rodrigues, 2014, p. 110).</p><p>A interdependência complexa trabalha sobre a ideia de existência de</p><p>três canais múltiplos pelos quais diferentes sociedades poderiam se relacionar:</p><p>Interestatais: existente no âmbito das relações entre os Estados;</p><p>transgovernamentais e transnacionais, sendo ambas conectadas a ideia de não</p><p>coerência na ação estatal, ocorrendo as alianças decorrente da intenção de</p><p>resolução de problemas (Filho, 2006, p. 82-83).</p><p>9</p><p>Essa ideia de cooperação entre Estados permearia até mesmo a</p><p>concepção de anarquia internacional. Para Keohane (1984), seria o ambiente</p><p>anarquista que construiria a oportunidade para a relação e cooperação</p><p>entre os</p><p>Estados, eliminando a ideia de conflito automático que existiria nesse cenário.</p><p>Uma corrente Liberal que deve ser citada é a do neoliberalismo</p><p>institucional. Por essa abordagem, ainda se observa o papel de outros atores</p><p>que não somente os estatais nas relações internacionais. A existência de</p><p>instituições teria o papel central de ceder um espaço de debate e</p><p>relacionamento para os Estados.</p><p>Por essa visão, três variáveis seriam responsáveis por afetar a</p><p>cooperação entre os Estados:</p><p>a. Estrutura de compensação (payoff): trata das rupturas que ocorrem fora</p><p>do planejado pelos governos. Com base nessas rupturas inesperadas se</p><p>construiriam as concepções de interesses mútuos;</p><p>b. Sombra do futuro: trabalha sobre a questão de como o interesse dos</p><p>Estados no futuro irá criar o ambiente propício para a cooperação.</p><p>Nessa visão, quanto mais os ganhos do futuro se mostram maiores dos</p><p>que os do presente, maiores as chances de cooperação;</p><p>c. Número de atores: argumenta que um grande número de atores em uma</p><p>negociação, maiores os riscos de redução de reciprocidade (Silva, 2015,</p><p>p. 5-6).</p><p>Como se observa, o liberalismo traz diversas novas formas de observar</p><p>as novas dinâmicas internacionais. No entanto, o pesquisador deve sempre ter</p><p>em mente que o uso da teoria na sua pesquisa terá que considerar seu objeto</p><p>de estudos. Logo, uma pesquisa que busca analisar o papel das Organizações</p><p>Internacionais na mediação das relações estatais, tende a se beneficiar mais</p><p>de uma abordagem liberal do que realista.</p><p>No próximo tema abordaremos outra importante teoria das Relações</p><p>Internacionais.</p><p>TEMA 4 – A APE E O CONSTRUTIVISMO</p><p>O construtivismo surgiu de forma “neutra” entre as dicotomias do</p><p>realismo e do liberalismo ao fim da década de 1980, sendo parte da virada</p><p>sociológica e da virada linguística. Não querendo adotar nenhum dos lados, a</p><p>10</p><p>teoria construtivista se inseriu propondo apontar os pontos falhos de cada uma</p><p>das teorias clássicas, e contribuir de forma a cobrir esses pontos.</p><p>Esse discurso construtivista pode ser percebido na fala de Adler (1999,</p><p>p. 206) que encaixa o construtivismo como não sendo contrário ao realismo ou</p><p>liberalismo, não adotando uma posição “pessimista ou otimista”. O autor</p><p>também categoriza o construtivismo como não sendo uma teoria a ser utilizada</p><p>de forma isolada, mas sim em conjunto com outra abordagem.</p><p>Certamente o construtivismo trouxe uma nova visão para os estudos das</p><p>Relações Internacionais. Tendo seu início no campo das Artes no Século XX,</p><p>partindo para a Pedagogia na Rússia antes de a URSS e alcançando a</p><p>Sociologia no Ocidente, o construtivismo tem raízes que justificam suas visões</p><p>fora dos padrões até então observados.</p><p>O construtivismo vai trocar a palavra ator por agente, compreendendo</p><p>que agentes são aqueles que agem, o que caracteriza aqueles envolvidos na</p><p>política; também irá substituir a concepção de cenário por sistema. Na visão</p><p>construtivista, o Estado representa uma crença pois, representa a sociedade</p><p>que o compõe. O construtivismo argumentaria contra a ideia realista de que as</p><p>análises devem ser concebidas de forma top-down, observando do Estado para</p><p>dentro, e argumentará a favor de uma abordagem que venha de baixo, da</p><p>sociedade.</p><p>As novas nomenclaturas e prismas do construtivismo criam críticas por</p><p>parte daqueles que aplicam as Relações Internacionais de forma mais clássica.</p><p>Uma das principais críticas se dá sobre a visão construtivista de que não</p><p>existem barreiras, logo, não existiria o externo. Os agentes domésticos</p><p>simplesmente se relacionariam no sistema externo sem a existência das</p><p>mesmas normas domésticas.</p><p>Outro ponto essencial para compreender o construtivismo é observar a</p><p>alteração de foco para o campo das ideias, interpretando que essas seriam as</p><p>responsáveis por construir a realidade. A análise sobre as relações entre</p><p>agentes deveria ser executada de forma a considerar a estrutura em que estão</p><p>inseridos sendo que ambos existiriam mutuamente, sem um preceder o outro.</p><p>Uma boa forma de compreender a visão construtivista está na definição de</p><p>Adler:</p><p>11</p><p>[...] o construtivismo amplia nossa compreensão da relação entre conhecimento</p><p>científico e desfechos das relações internacionais com o argumento que as</p><p>relações internacionais, em geral, sejam cooperativas ou conflituosas, são</p><p>moldadas e socialmente construídas por todos esses tipos de conhecimento,</p><p>científico e outros. (Adler, 1999, p. 233)</p><p>Visto como um dos principais autores da abordagem construtivista,</p><p>Wendt (1995) atribui qualidades como crenças e senso de intenção aos</p><p>Estados. Para o autor, existiriam alguns pontos mínimos para que o Estado</p><p>pudesse ser considerado um “Estado essencial”. O primeiro ponto faz menção</p><p>a existência do Estado como independente da sociedade; o segundo, a relação</p><p>entre política interna e externa e por fim, a relação mútua entre Estado e</p><p>sociedade (Richie, 2015, p. 33).</p><p>Uma das principais atribuições do construtivismo para o Estado é a</p><p>identidade. Seria com base na identidade que os interesses estatais seriam</p><p>construídos (Campbell, 1998; Zehfuss, 2001; Kubálková, 2001). A identidade</p><p>pode corresponder a visão do agente sobre si mesmo, mas também existiria a</p><p>identidade que representaria a imagem que um Estado tem sobre o outro.</p><p>Independente disso, como Wendt aponta, a identidade surgiria em</p><p>consequência da relação entre os agentes.</p><p>Logo, compreende-se que as identidades dos Estados podem se alterar</p><p>conforme o rumo de suas relações com outros agentes (Salomón, 2016). Uma</p><p>forma de observar a importância da identidade pode ser a de que “[...]</p><p>interesses são pressupostos pelas identidades por uma simples razão: se eu</p><p>não sei quem eu sou, não terei meios de precisar aquilo que desejo” (Riche,</p><p>2015, p. 34).</p><p>Além de identidade, um outro conceito importante presente no</p><p>Construtivismo é o de comunidades epistêmicas. Podendo ser vistas como um</p><p>grupo de interesses, as comunidades epistêmicas representam a união</p><p>daqueles que tem em comum um determinado objetivo, e diante de sua união</p><p>passariam a exercer sua influência sobre o Estado com o intuito de garantir as</p><p>suas intenções.</p><p>A inclusão das comunidades epistêmicas sobre a APE auxilia na</p><p>compreensão das ações Estatais não somente no cenário doméstico, mas</p><p>também externo. Como argumenta Adler (1999, p. 233), os atores que fazem</p><p>parte da denominação de comunidades epistêmicas “são significativos para</p><p>uma compreensão teórica mais ampla da construção social da realidade</p><p>internacional pelo conhecimento intersubjetivo”.</p><p>12</p><p>Ainda que se tratando de uma teoria não tão antiga quanto o realismo ou</p><p>liberalismo, o construtivismo está longe de ser a teoria mais recente a imergir</p><p>nos estudos de Relações Internacionais. No próximo tema abordaremos</p><p>brevemente a inclusão de outras teorias nas agendas de pesquisa.</p><p>TEMA 5 – A APE E A ASCENSÃO DE NOVAS TEORIAS</p><p>O fim da guerra fria sempre é citado como um dos marcos para o início</p><p>das mudanças teóricas das Relações Internacionais. No entanto, não somente</p><p>uma ruptura ocasiona mudanças no campo teórico. A emergência de novos</p><p>atores, a adoção de novos regimes internacionais, a crescente criação de</p><p>acordos entre Estados, além de outros novos fenômenos internacionais</p><p>também são correlacionados com as novas visões que foram surgindo com os</p><p>anos.</p><p>No entanto, grande parte das teorias que observamos hoje como</p><p>estando em ascensão, não surgiram após esses eventos. Sua existência já é</p><p>anterior a eles, no entanto, a conjuntura até então não permitia que tais teorias</p><p>fossem utilizadas na mesma frequência, ou com a mesma atenção que as</p><p>teorias mais clássicas.</p><p>Temos então a ascensão do pós-colonialismo, por exemplo, podendo</p><p>ser observado como um conjunto de teorias primeiramente aplicadas sobre</p><p>estudos de cultura, que foram se expandindo para outros campos das ciências</p><p>sociais. Trabalhando sobre a herança que as relações do colonialismo, o pós-</p><p>colonialismo argumenta sobre como o fim do colonialismo, na prática, não</p><p>representa o fim do colonialismo como percepção e interpretação sobre o outro</p><p>(Santos, 2008, p. 16-17).</p><p>Outro exemplo de teoria que emergiu é o pós-estruturalismo. Nessa</p><p>abordagem, podemos usar uma visão de Foucault sobre poder. Para o autor, o</p><p>poder não seria algo natural, mas sim uma prática social. Ou seja, o poder não</p><p>seria algo que alguns possuem e outros não, mas estaria presente nas práticas</p><p>sociais.</p><p>O poder, na visão de Foucault, não se limitaria ao Estado, também</p><p>estando presente na sociedade por meio de práticas, e até mesmo costumes.</p><p>Têm-se então o poder como presente no dia a dia, com uma característica de</p><p>“rede”, moldando comportamentos (Pacifico; Pinheiro, 2013, p. 118).</p><p>13</p><p>Outras teorias como a Teoria Feminista também surgem como um</p><p>reflexo do novo cenário de relações entre os Estados, e entre o Estado e a</p><p>sociedade. Os avanços de teorias que passaram a considerar a influência da</p><p>sociedade nas decisões de política criaram cada vez mais espaço para outras</p><p>abordagens que se debruçavam sobre essa relação.</p><p>Têm-se então a APE, assim como as Relações Internacionais, sofrendo</p><p>uma metamorfose com os anos e ganhando cada vez mais aparatos para a</p><p>execução de suas análises.</p><p>NA PRÁTICA</p><p>Considerando as teorias apresentadas, acesse o site</p><p>https://www.gov.br/mre/pt-br/assuntos/mercosul e faça a leitura da descrição</p><p>presente considerando as teorias anteriormente citadas. Tende a executar uma</p><p>leitura crítica, tentando aplicar os conceitos das teorias e sua visão de política</p><p>externa sobre os termos utilizados e as medidas do Mercosul que estão</p><p>dispostas no site.</p><p>FINALIZANDO</p><p>Nessa aula você foi apresentado a algumas das principais teorias das</p><p>Relações Internacionais e suas visões sobre a dinâmica da política externa.</p><p>Após ser apresentado a ideia de teoria e a importância da escolha teórica para</p><p>a realização da análise do pesquisador, a primeira teoria de Relações</p><p>Internacionais foi apresentada: o realismo.</p><p>Com a leitura sobre a visão realista aprendemos que o Estado é um ator</p><p>central para essa perspectiva, e que suas ações são movidas pela intenção de</p><p>garantir seus objetivos e também ideia de necessidade de defesa.</p><p>Tendo a concepção de que o cenário internacional é anárquico, o</p><p>realismo clássico interpreta que o desequilíbrio entre as forças estatais, leva a</p><p>esses autores a terem a necessidade de preservação, sendo a questão de</p><p>defesa um tema constante na agenda estatal.</p><p>Como visão contrária temos o Liberalismo, e sua ideia de que as</p><p>modificações no cenário externo levaram aos Estados a terem que compartilhar</p><p>sua posição com outros atores. O estado continua tendo sua importância, no</p><p>entanto, a análise não deve mais ser somente realizada sobre esse autor.</p><p>14</p><p>Funcionando do princípio de racionalização, o liberalismo verá a cooperação</p><p>como um ato racional estatal em busca da garantia de seus interesses.</p><p>O construtivismo surge primeiramente como uma teoria que não</p><p>buscava se posicionar contra o liberalismo ou realismo. Trazendo sua própria</p><p>visão, o construtivismo logo se mostra apto para as análises de política externa</p><p>ao considerar fatores como a identidade nas relações entre Estados. A ideia de</p><p>interdependência complexa trabalha sobre a conexão existente entre os</p><p>agentes e seu impulso para a cooperação.</p><p>Por fim, uma breve leitura sobre algumas teorias que emergiriam</p><p>conforme a conjuntura internacional se alterou nos propiciou pensar em como o</p><p>uso de diferentes teorias e metodologias acabam sendo um reflexo do</p><p>momento vivido.</p><p>15</p><p>REFERÊNCIAS</p><p>ADLER, E. O Construtivismo no Estudo das Relações Internacionais. Lua</p><p>Nova, n. 47, 1999.</p><p>CASTRO, T. Teoria das relações internacionais. Brasília: FUNAG, 2012.</p><p>FILHO, A. G. Y. A inserção internacional de Campinas: aspectos conceituais.</p><p>Perspectivas, pp. 81-98, 2006.</p><p>NANCI, F.; PINHEIRO, L. Análise de Política Externa: o que estudar e por</p><p>quê? 2019.</p><p>PACIFICO, A. P.; PINHEIRO, T. K. F. O status do imigrante haitiano no Brasil</p><p>após o terremoto de 2010 sob a perspectiva do Pós-Estruturalismo. Revista</p><p>Perspectivas do Desenvolvimento: um enfoque multidimensional, v. 1, n.</p><p>1, p. 107-125, 2013. Disponível em: . Acesso em: 16 abr. 2020.</p><p>RICHE, F. E. Notas sobre a teoria social da política internacional de Alexander</p><p>Wendt. Século XXI, Porto Alegres, v. 6, n. 1, 2015.</p><p>RODRIGUES, N. Teoria da Interdependência: os conceitos de sensibilidade e</p><p>vulnerabilidade nas Organizações Internacionais. Conjuntura Global, v. 3, n.</p><p>2, p. 107-116, 2014.</p><p>SALOMÓN, M. Teorias e enfoques das relações internacionais: uma</p><p>introdução. 1. ed. Curitiba: InterSaberes, 2016.</p><p>SANTOS, B. S. Do pós-moderno ao pós-colonial. E para além de um e de</p><p>outro. Revista Travessias, Coimbra, n. 6/7, 2008. Disponível em:</p><p>. Acesso em: 16 abr. 2020.</p><p>SILVA, Mateus S. Política externa ambiental brasileira na América Latina e no</p><p>Regime Internacional de Mudanças Climáticas: agendas ambientais distintas</p><p>ou processos de uma mesma política governamental? 5º Encontro nacional</p><p>da ABRI, Belo Horizonte, 2015.</p><p>SHIMKO, Keith L. Realism, Neorealism, and American Liberalism. The Review</p><p>of Politics, v. 54, n. 2. Disponível em:</p><p>Acesso em: 15 abr. 2020.</p><p>16</p><p>TARZI, Shah M. Neorealism, Neoliberalism and the International System.</p><p>International Studies, v. 41, n. 1, 2004. Sage Publications.</p><p>WALTZ, Kenneth. Neorealism: Confusions and Criticisms. Journal of Politics</p><p>and Society, v. 15, ed. 1, p. 2-6, 2004. Disponível em:</p><p>Acesso em: 15 abr. 2020.</p><p>WENDT, Alexander. Constructing International Politics. International Security,</p><p>v. 20, n. 1, p. 71-81, 1995. Disponível em:</p><p>Acesso em: 15 abr. 2020.</p>