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Psicomotricidade Prof ª. Jacqueline Leire Roepke ePistemologia da Indaial – 2021 1a Edição Impresso por: Elaboração: Prof ª. Jacqueline Leire Roepke Copyright © UNIASSELVI 2021 Revisão, Diagramação e Produção: Equipe Desenvolvimento de Conteúdos EdTech Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Ficha catalográfica elaborada pela equipe Conteúdos EdTech UNIASSELVI R716e Roepke, Jacqueline Leire Epistemologia da psicomotricidade. / Jacqueline Leire Roepke. – Indaial: UNIASSELVI, 2021. 200 p.; il. ISBN 978-65-5663-415-9 ISBN Digital 978-65-5663-416-6 1. Psicomotricidade. - Brasil. II. Centro Universitário Leonardo da Vinci. CDD 152.334 Prezado acadêmico, seja bem-vindo ao Livro Didático Epistemiologia da Psicomotricidade. Considerando esse título, quais foram os pensamentos que lhe vieram à mente? Você já tem alguma familiaridade com a psicomotricidade ou não tem muita segurança para explicar o que significa, ainda que já tenha lido ou estudado algo sobre ela? Neste conteúdo, esperamos que você amplie consideravelmente os seus conhecimentos acerca da psicomotricidade. Para tanto, a Unidade 1 foi elaborada para esclarecer quais são as relações entre epistemologia e psicomotricidade. Assim, você aprenderá, primeiramente sobre os conceitos “epistemologia” e, na sequência, “psicomotricidade”. Tendo cumprido essa etapa, veremos os conceitos fundamentais e as especificidades da psicomotricidade. Já na Unidade 2, nosso enfoque estará na psicomotricidade em termos de conhecimento e intervenção. Desse modo, aprenderemos sobre o conhecimento nas áreas de intervenção profissional tanto relativas à educação, quanto à clínica. Também encontraremos alguns subsídios sobre as relações da Psicomotricidade com outras formas de intervenção. Por fim, vamos nos concentrar, na Unidade 3, na formação profissional em psico- motricidade, levando em consideração aspectos teóricos, práticos e pessoais. Esperamos que seja uma leitura proveitosa e ofereça, a você, oportunidades de aprimorar algumas de suas habilidades. Bons estudos! Prof a. Jacqueline Leire Roepke APRESENTAÇÃO GIO Olá, eu sou a Gio! No livro didático, você encontrará blocos com informações adicionais – muitas vezes essenciais para o seu entendimento acadêmico como um todo. Eu ajudarei você a entender melhor o que são essas informações adicionais e por que você poderá se beneficiar ao fazer a leitura dessas informações durante o estudo do livro. Ela trará informações adicionais e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto estudado em questão. Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o material-base da disciplina. A partir de 2021, além de nossos livros estarem com um novo visual – com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura –, prepare-se para uma jornada também digital, em que você pode acompanhar os recursos adicionais disponibilizados através dos QR Codes ao longo deste livro. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com uma nova diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página – o que também contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo. Preocupados com o impacto de ações sobre o meio ambiente, apresentamos também este livro no formato digital. Portanto, acadêmico, agora você tem a possibilidade de estudar com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. Preparamos também um novo layout. Diante disso, você verá frequentemente o novo visual adquirido. Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa continuar os seus estudos com um material atualizado e de qualidade. Acadêmico, você sabe o que é o ENADE? O Enade é um dos meios avaliativos dos cursos superiores no sistema federal de educação superior. Todos os estudantes estão habilitados a participar do ENADE (ingressantes e concluintes das áreas e cursos a serem avaliados). Diante disso, preparamos um conteúdo simples e objetivo para complementar a sua compreensão acerca do ENADE. Confira, acessando o QR Code a seguir. Boa leitura! Olá, acadêmico! Para melhorar a qualidade dos materiais ofertados a você – e dinamizar, ainda mais, os seus estudos –, nós disponibilizamos uma diversidade de QR Codes completamente gratuitos e que nunca expiram. O QR Code é um código que permite que você acesse um conteúdo interativo relacionado ao tema que você está estudando. 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QR CODE SUMÁRIO UNIDADE 1 — A RELAÇÃO ENTRE EPISTEMOLOGIA E PSICOMOTRICIDADE .......1 TÓPICO 1 — EPISTEMOLOGIA ................................................................................. 3 1 INTRODUÇÃO ........................................................................................................ 3 2 O QUE É EPISTEMOLOGIA? ................................................................................. 3 3 A UTILIDADE DA EPISTEMOLOGIA ................................................................... 16 RESUMO DO TÓPICO 1 ..........................................................................................25 AUTOATIVIDADE ...................................................................................................26 TÓPICO 2 — PSICOMOTRICIDADE ........................................................................29 1 INTRODUÇÃO ......................................................................................................29 2 PSICOMOTRICIDADE ........................................................................................29 3 EPISTEMOLOGIA E PSICOMOTRICIDADE ........................................................34 RESUMO DO TÓPICO 2 .......................................................................................... 37 AUTOATIVIDADE ...................................................................................................38 TÓPICO 3 — CONCEITOS FUNDAMENTAIS EM PSICOMOTRICIDADE ................39 1 INTRODUÇÃO ......................................................................................................39 2 OS PRINCIPAIS CONCEITOS EM PSICOMOTRICIDADE ...................................39 3 CONCEITOS FUNDAMENTAIS EM PSICOMOTRICIDADE ................................ 40 3.1 CORPO ..................................................................................................................................40 3.2 MOVIMENTO ........................................................................................................................41 3.3 ATIVIDADE ...........................................................................................................................41 3.4 AÇÃO .....................................................................................................................................41 3.4.1 Motor .............................................................................................................................41 3.4.1.1 Funções motoras .......................................................................................... 42 3.4.1.2 Funções motrizes ........................................................................................42 3.5 FUNÇÕES PERCEPTUAIS ................................................................................................ 42 3.5.1 Psicológico .................................................................................................................43 3.5.2 Psíquico .....................................................................................................................43 3.5.3 Funções psíquicas ..................................................................................................43 3.6 FUNÇÕES MENTAIS ..........................................................................................................43 3.6.1 Emoções .....................................................................................................................44 3.7 SISTEMA NERVOSO ...........................................................................................................45 3.7.1 Encéfalo .......................................................................................................................45 3.8 DESENVOLVIMENTO .........................................................................................................46 3.8.1 Maturação ..................................................................................................................46 3.8.2 Maturidade ................................................................................................................ 47 3.9 CONTEXTO SOCIAL ........................................................................................................... 47 3.9.1 Interação ..................................................................................................................... 47 3.9.2 Experiência individual .............................................................................................48 3.10 SENSITIVO .........................................................................................................................48 3.10.1 Integração ................................................................................................................. 49 3.11 EDUCAÇÃO ........................................................................................................................50 3.12 ESQUEMA CORPORAL ....................................................................................................50 3.12.1 Lateralidade ..............................................................................................................50 3.12.2 Coordenação motora ampla .................................................................................51 3.12.3 Coordenação motora fina .....................................................................................51 3.12.4 Coordenação óculo-manual ............................................................................... 52 3.12.5 Orientação espacial ............................................................................................... 52 3.13 ORIENTAÇÃO TEMPORAL .............................................................................................. 53 3.13.1 Equilíbrio .................................................................................................................... 53 3.13.2 Tonicidade ................................................................................................................54 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS ..................................................................................54 LEITURA COMPLEMENTAR ..................................................................................56 RESUMO DO TÓPICO 3 ..........................................................................................62 AUTOATIVIDADE ...................................................................................................63 REFERÊNCIAS .......................................................................................................65 UNIDADE 2 — RELAÇÃO ENTRE EPISTEMOLOGIA E PSICOMOTRICIDADE ........71 TÓPICO 1 — ESPECIFICIDADES DA PSICOMOTRICIDADE .................................. 73 1 INTRODUÇÃO ...................................................................................................... 73 2 A PSICOMOTRICIDADE E SUAS ESPECIFICIDADES ........................................ 74 RESUMO DO TÓPICO 1 ..........................................................................................82 AUTOATIVIDADE ...................................................................................................83 TÓPICO 2 — O CONHECIMENTO NAS ÁREAS DE INTERVENÇÃO PROFISSIONAL: EDUCAÇÃO ............................................................85 1 INTRODUÇÃO ......................................................................................................85 2 INTERVENÇÃO PROFISSIONAL EM PSICOMOTRICIDADE E APRENDIZAGEM ................................................................................................85 3 INTERVENÇÃO PROFISSIONAL EM PSICOMOTRICIDADE E FRACASSO ESCOLAR ............................................................................................................92 RESUMO DO TÓPICO 2 ........................................................................................100 AUTOATIVIDADE ................................................................................................. 101 TÓPICO 3 — O CONHECIMENTO NAS ÁREAS DE INTERVENÇÃO PROFISSIONAL CLÍNICA ................................................................103 1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................103 2 A ÁREA DE ATUAÇÃO CLÍNICA .......................................................................103 RESUMO DO TÓPICO 3 ........................................................................................ 118 AUTOATIVIDADE ..................................................................................................119 TÓPICO 4 — RELAÇÕES DA PSICOMOTRICIDADE COM OUTRAS FORMAS DE INTERVENÇÃO .......................................................................... 121 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................... 121 2 OUTRAS ÁREAS DE ATUAÇÃO DOS PSICOMOTRICISTAS ............................. 121 3 PSICOMOTRICIDADE: O CÓDIGO DE ÉTICA ................................................... 123 LEITURA COMPLEMENTAR ................................................................................130 RESUMO DO TÓPICO 4 ........................................................................................ 136 AUTOATIVIDADE ................................................................................................. 137 REFERÊNCIAS ..................................................................................................... 139 UNIDADE 3 — PSICOMOTRICIDADE: FORMAÇÃO PROFISSIONAL ..................143 TÓPICO 1 — FORMAÇÃO PROFISSIONAL EM PSICOMOTRICIDADE: TEÓRICA ..........................................................................................145 1 INTRODUÇÃO ....................................................................................................145 2 FORMAÇÃO TEÓRICA EM PSICOMOTRICIDADE ............................................145 RESUMO DO TÓPICO 1 ........................................................................................158 AUTOATIVIDADE ................................................................................................. 159 TÓPICO 2 — FORMAÇÃO PROFISSIONAL EM PSICOMOTRICIDADE: PRÁTICA ...........................................................................................161 1 INTRODUÇÃO .....................................................................................................161 2 PSICOMOTRICIDADE E PRÁXIS .......................................................................161 3 FORMAÇÃO PRÁTICA ...................................................................................... 170 RESUMO DO TÓPICO 2 .........................................................................................177AUTOATIVIDADE ................................................................................................. 178 TÓPICO 3 — FORMAÇÃO PROFISSIONAL EM PSICOMOTRICIDADE: PESSOAL ......................................................................................... 179 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................... 179 2 FORMAÇÃO PROFISSIONAL E HISTÓRIA PESSOAL ...................................... 179 3 FORMAÇÃO PESSOAL E PROFISSIONAL ....................................................... 181 LEITURA COMPLEMENTAR ................................................................................190 RESUMO DO TÓPICO 3 ........................................................................................194 AUTOATIVIDADE ................................................................................................. 195 REFERÊNCIAS ..................................................................................................... 197 1 UNIDADE 1 — A RELAÇÃO ENTRE EPISTEMOLOGIA E PSICOMOTRICIDADE OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir do estudo desta unidade, você deverá ser capaz de: • entender o que é epistemologia; • ampliar o conhecimento sobre o que é psicomotricidade; • conhecer alguns dos conceitos fundamentais em psicomotricidade; • depreender algumas das especificidades da psicomotricidade. A cada tópico desta unidade você encontrará autoatividades com o objetivo de reforçar o conteúdo apresentado. TÓPICO 1 – EPISTEMOLOGIA TÓPICO 2 – PSICOMOTRICIDADE TÓPICO 3 – CONCEITOS FUNDAMENTAIS EM PSICOMOTRICIDADE Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 2 CONFIRA A TRILHA DA UNIDADE 1! Acesse o QR Code abaixo: 3 EPISTEMOLOGIA TÓPICO 1 — UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Nesta disciplina, temos muito para aprender sobre epistemologia e psicomo- tricidade. Talvez essas palavras não soem muito familiares para você. Fique tranquilo, neste tópico desvendaremos o que significa a palavra epistemologia e, no Tópico 2, a psicomotricidade. Então você conseguirá identificar algumas associações entre elas. Portanto, iniciaremos os estudos colocando a nossa concentração sobre a epistemologia. Leia atentamente, pois a compreensão dos tópicos subsequentes depende dos conceitos que veremos logo a seguir. 2 O QUE É EPISTEMOLOGIA? O nosso primeiro desafio é compreender o sentido da palavra epistemologia. Se recorrermos aos dicionários ou aos sinônimos dessa palavra, encontraremos as seguintes expressões, conforme mostra o Quadro 1. QUADRO 1 – DEFINIÇÃO DE EPISTEMOLOGIA NO DICIONÁRIO COMENTADO PELO PROFESSOR PASQUALE FONTE: Adaptado de Cipro Neto (2009) e.pis.te.mo.lo.gi.a (gr epistéme + logo + ia1) sr Filos Estudo crítico dos métodos empregados nas ciências. Teoria da ciência Ao analisar o quadro, em conformidade com Tesser (1994), pode-se notar, resumidamente, a história ou a origem da palavra epistemologia: gr epistéme + logo + ia. Analisando brevemente a explicação do significado da palavra pela análise dos elementos que a constitui, temos a Figura 1. 4 FIGURA 1 – ETIMOLOGIA DA EPISTEMOLOGIA FONTE: A autora Ao observarmos a figura, podemos inferir que a palavra “epistemologia” significa discurso (logos) sobre a ciência (episteme) (TESSER, 1994). O Quadro 2 apresenta a etimologia da palavra epistemologia – que já tínhamos visto no quadro anterior –, além de fazer menção à filosofia. QUADRO 2 – SIGNIFICADO DA PALAVRA EPISTEMOLOGIA EM DICIONÁRIO ON-LINE FONTE: <https://www.dicio.com.br/epistemologia/>. Acesso em: 21 ago. 2020. Significado de Epistemologia Substantivo feminino Reflexão sobre a natureza, o conhecimento e suas relações entre o sujeito e o objeto Teoria do conhecimento [Filosofia] Subárea da filosofia que se dedica ao estudo do conhecimento humano, buscando defini-lo, determinando suas fontes (percepção, memória, razão, introspecção etc.) e implicações Ciência das práticas relacionadas com conhecimento: epistemologia política Análise das premissas teóricas e práticas relacionadas com o conhecimento científico, de acordo com seu avanço histórico no desdobramento de uma sociedade Etimologia (origem da palavra epistemologia). Epistem + o + logia Já que a palavra filosofia marcará presença em mais partes deste tópico, vale lembrar que ela consiste no “Estudo geral sobre a natureza de todas as coisas e suas relações entre si” (CIPRO NETO, 2009, p. 273). Vale recordar ainda, que o verbete filosofia também pode ter o sentido de conjunto de doutrinas de uma época ou de uma escola. A filosofia geralmente está associada à sabedoria e à razão (CIPRO NETO, 2009). logos episteme epistemologia 5 QUADRO 3 – EPISTEMOLOGIA NO DICIONÁRIO PRIBERAM ON-LINE FONTE: <https://dicionario.priberam.org/epistemologia>. Acesso em: 21 ago. 2020. e·pis·te·mo·lo·gi·a 1. [Filosofia] Ramo da filosofia que se ocupa dos problemas que se relacionam com o conhecimento humano, refletindo sobre a sua natureza e validade. = FILOSOFIA DO CONHECIMENTO, TEORIA DO CONHECIMENTO epistemologia genética • Teoria do conhecimento que consiste em descrever os processos pelos quais se produz o conhecimento científico. QUADRO 4 – SINÔNIMOS DE EPISTEMOLOGIA FONTE: <https://www.sinonimos.com.br/epistemologia/>. Acesso em: 21 ago. 2020. Sinônimo de epistemologia 5 sinônimos de epistemologia para 1 sentido da palavra epistemologia: Ciência da origem e da natureza do conhecimento: filosofia do conhecimento gnoseologia gnosiologia teoria da ciência teoria do conhecimento Em relação aos quadros apresentados, a novidade do Quadro 4 é a palavra gnosiologia, que se refere “[...] às propriedades fundamentais necessárias à constituição do sujeito e suficientes para que os objetos produzam efeitos na construção do sentido consciente, e no desenvolvimento do intelecto” (GOMES, 2009, p. 38). Ainda que, muitas vezes, encontremos a palavra gnosiologia como sinônimo de epistemologia, é válido esclarecer que, para alguns autores, como Gomes (2009), essas palavras possuem diferenças quanto aos seus significados. Você já ouvir falar na epistemologia genética? Para essa área do saber, as pessoas passam por várias fases de desenvolvimento durante o ciclo vital. A epistemologia genética foi proposta por Jean Piaget e está associada aos conceitos cunhados pelo referido autor: assimilação, estrutura cognitiva e construtivismo (ABREU et al., 2010). NOTA 6 No Quadro 5, uma de suas palavras merece destaque: postulados – talvez, você já a conheça por estar relacionada ao contexto da esfera religiosa, no sentido de dogma ou de princípios. QUADRO 5 – SIGNIFICADO DE EPISTEMOLOGIA NO BUSCADOR GOOGLE FONTE: <http://twixar.me/BXsm>. Acesso em: 21 ago. 2020. epistemologia 1. reflexão geral em torno da natureza, etapas e limites do conhecimento humano, esp. nas relações que se estabelecem entre o sujeito indagativo e o objeto inerte, as duas polaridades tradicionais do processo cognitivo; teoria do conhecimento 2. freq. estudo dos postulados, conclusões e métodos dos diferentes ramos do saber científico, ou das teorias e práticas em geral, avaliadas em sua validade cognitiva, ou descritas em suas trajetórias evolutivas, seus paradigmas estruturais ou suas relações com a sociedade e a história; teoria da ciência No que concerne à epistemologia, por exemplo, relaciona-se ao levantamento de hipóteses sobre os fenômenos, tendo a ver com suposições, conjecturas, premissas, pressupostos, evidências. Em linhas gerais, trata-se de um ponto de partida de um raciocínio ou de uma argumentação. Agora, fazendo um apanhado de todos os significados apresentados, podemos identificar algumas palavras que se repetem, não é mesmo? Vamos checar quais são elas na Figura 2. Para sabermais sobre o assunto, sugerimos a leitura completa do artigo de Gomes (2009): “Gnosiologia versus epistemologia: distinção entre os fundamentos psicológicos para o conhecimento individual e os fundamentos filosóficos para o conhecimento universal”. Acesse na íntegra em: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/tp/v17n1/v17n1a05.pdf. DICA 7 FIGURA 2 – SIGNIFICADOS DE EPISTEMOLOGIA FONTE: A autora Muitas dessas palavras são usadas normalmente no dia a dia, empregadas em diversas situações e com sentidos diferentes. Por exemplo, a palavra “validade” indica, entre outras coisas, qual é o prazo em que um alimento pode ser consumido. Embora seja possível termos ouvido essas palavras na escola, talvez ainda não tenhamos compreendido o que significam e como se relacionam. Então, antes de estudarmos sobre a articulação entre epistemologia e psicomotricidade, precisamos entender o que é a epistemologia. Para tanto, o Quadro 6 mostra breves definições das palavras-chave que vimos nos quadros apresentados até aqui. QUADRO 6 – PALAVRAS RELACIONADAS COM O SABER EPISTEMOLÓGICO TEORIA CONHECIMENTO VALIDADE GNOSELOGIA CIÊNCIA CIENTÍFICO MÉTODOS COGNITIVA Palavra Significado Teoria Princípios básicos e elementares de uma arte ou ciência. Sistema ou doutrina que trata desses princípios. Conhecimento que se limita à exposição, sem passar à ação, sendo, portanto, o contrário da prática. Conjetura, hipótese. Utopia. Opiniões sistematizadas Métodos Conjunto dos meios dispostos convenientemente para alcançar um fim e especialmente para chegar a um conhecimento científico ou comunicá-lo aos outros. Ordem ou sistema que se segue no estudo ou no ensino de qualquer disciplina. Caminho pelo qual se atinge um objetivo. Maneira de fazer as coisas; modo de proceder, meio. Processo ou técnica de ensino ou organização. A palavra método está ligada à metodologia, por isso, vale a pena nos deter, também sobre ela. Metodologia: Estudo científico dos métodos. Arte de guiar o espírito na investigação da verdade. Filos Parte da Lógica que se ocupa dos métodos do raciocínio, em oposição à Lógica Formal Ciência Conjunto de conhecimentos organizados sobre determinado assunto. Erudição, instrução, literatura. Conhecimento, informação, notícia 8 FONTE: Adaptado de Cipro Neto (2009) Conhecimento Ato ou efeito de conhecer. Faculdade de conhecer. Ideia, noção; informação, notícia. Consciência da própria existência. Assim, conhecer é ter ou chegar a ter conhecimento, ideia, noção ou informação de. Ser perito ou versado em. Ter experiência de. Discernir, distinguir, reconhecer. Ter ideia justa da própria capacidade. Tomar conhecimento. Apreciar, julgar. Observação: A palavra faculdade aqui presente, denota o poder de efetuar uma ação física ou mental: capacidade. Função inerente ao espírito Científico Relativo à ciência. Que mostra ciência. Que tem o rigor da ciência Validade Qualidade de válido. Dir Qualidade do ato jurídico ou administrativo, feito com todos os requisitos que a lei exige. Já a palavra válido equivale a “que tem valor”. A palavra validar, por sua vez, consiste em dar validade a; fazer (-se) ou tornar (-se) válido; legitimar (-se) Cognitiva Relacionada à cognição que é o ato de adquirir um conhecimento Gnoseologia Teoria da natureza, validade e limites do conhecimento humano, epistemologia. Está ligada à gnosia que é a faculdade de perceber e reconhecer as coisas Assim, podemos depreender que a epistemologia explicita a ciência da ciência ou, ainda, a filosofia da ciência (TESSER, 1994). Isso pode parecer meio confuso, então, vamos dar seguimento à leitura para proporcionar maior clareza sobre essa palavra. Pode-se dizer que a epistemologia conta como uma teoria foi construída, já que a epistemologia explora com lentes diferentes a variedade dos saberes, dos conhecimentos (CAÑÓN ORTIZ; PELÁEZ ROMERO; NOREÑA NOREÑA, 2005). Assim, a epistemologia precisa considerar o objeto de estudo de uma dada área do conhecimento, bem como atentar para como se deu a construção teórica (NACHONICZ, 2002). A epistemologia pode propiciar o entendimento de como os conteúdos e os conhecimentos foram estruturados, levando em conta as ações que foram realizadas para tal desenvolvimento, bem como as experiências que fizeram parte dele. Abarca, ainda, uma série de reflexões, entendimentos, busca de sentido, exercícios intersubjetivos, articulação de ideias e de observações (GARZÓN, 2008). A epistemologia também busca identificar como uma ciência é classificada e desenvolvida metodologicamente (CASTAÑON, 2004). A metodologia tem a ver com os procedimentos adotados durante um experimento feito em laboratório, por exemplo. Um dos métodos que tende a ser mencionado, quando se fala em história da epistemologia, é o empírico-indutivo, cujas raízes estão na filosofia empirista inglesa, sobretudo do filósofo John Locke, e que foi retomado pelo positivismo de Auguste Comte. Assim, algumas das perguntas que a epistemologia costuma fazer, enquanto analisa uma ciência, são: “trata-se de uma ciência empírica?” e “assenta-se sobre o estudo de quais processos?”. 9 Uma vez que dialogamos sobre ciência, vale destacar que, nos dias atuais, ela é cúmplice do processo de industrialização (TESSER, 1994), porque “[...] contribui, organiza, racionaliza o processo de produção, ampliando o campo de suas investigações do microcosmo ao macrocosmo” (TESSER, 1994, p. 97). É importante ressaltar que a psicomotricidade é uma ciência – ainda nesta unidade, estudaremos sobre isso, mas, por enquanto, vamos manter o foco sobre a epistemologia. “A pesquisa foi absorvida na aspiral do crescimento, na medida em que a ciência penetrou na indústria, foi profundamente industrializada, ‘indústria cultural’. Cabe aos epistemólogos questionar e problematizar o conhecimento do senso-comum, científico e filosófico” (TESSER, 1994, p. 97). Assim, podemos rememorar que o conhecimento científico não é o único existente. Também é importante salientar o que é senso comum. Trata-se do conhecimento que é passado de geração em geração e que não é submetido aos procedimentos metodológicos. O senso comum é o conhecimento popular, obtido por meio da observação. Quanto ao conhecimento científico, é pertinente mencionar o movimento histórico que foi imprescindível para a formação das ciências humanas: a Revolução Francesa, que aconteceu entre 1789 e 1799. A revolta contou com a participação de camponeses, artesãos e burgueses, que estavam descontentes com as condições de vida, a crise econômica e as desigualdades sociais. Até o final deste tópico, voltaremos a falar sobre essa relevante revolução. Por enquanto, basta lembrar que, até a Revolução Francesa, as palavras proferidas pela Igreja e pelo clero eram extremamente valorizadas pela sociedade – isto é, até a Revolução Francesa, o conhecimento religioso era o mais valorizado, legitimado e prestigiado. O que aconteceu após a Revolução Francesa, sobretudo com a ciência? Você concorda que a ciência ganhou maior notoriedade a partir dessa revolução? Se, até então, as pessoas acreditavam que a verdade estava com a religião, não passaram a acreditar que a verdade era explicitada pela ciência? A Epistemologia seria uma reflexão profunda e crítica sobre o universo da Ciência. Pois já que a Ciência ocupa um lugar na sociedade atual grande e tão significativo, que ela se torna uma das mais importantes atividades humanas, a tal ponto de constituir-se numa das formas específicas da existência moderna do homem (TESSER, 1994, p. 97). 10 DICA Ei, acadêmico, o que você pensa sobre essa citação? Na sua opinião, qual é o lugar que a ciência ocupa na sociedade em que vivemos? Que tal dar uma rápida pausa na leitura para pensar sobre isso? Um filme que pode te ajudar a pensar sobre a relevância da ciênciaé “A Cure for Wellness”, de 2016, que, no Brasil, recebeu o título de “A Cura”. Essa produção cinematográfica aborda indiretamente o poderio da ciência. Trata-se de um filme que suscita reflexões sobre a ética e a pesquisa com humanos. Embora seja um filme de suspense, terror e fantasia, leva à reflexão sobre o poder que um médico pode exercer sobre o paciente, além dos efeitos das intervenções oriundas da ciência na vida das pessoas. CARTAZ DO FILME “A CURA” FONTE: <http://www.adorocinema. com/filmes/filme-232128/>. Acesso em: 21 ago. 2020. Retomando nossas reflexões sobre as palavras do Quadro 6, já vimos teoria, métodos e, mais recentemente, ciência. Na sequência, vamos refletir mais um pouco sobre o conhecimento. Existem diferentes tipos de conhecimento. O conhecimento é desenvolvido pouco a pouco, a partir do que já se tem acumulado, na grande maioria das vezes; ele é construído em meio às disputas, às divergências, às convergências e aos conflitos. Nasce, também com Kant, a figura do sujeito cognoscente: aquele que conhece, desvenda e enuncia verdades; “duplo” da filosofia e da ciência modernas: ao mesmo tempo sujeito e objeto do conheci- mento, núcleo da epistemologia clássica, que permanece ainda no centro das epistemologias contemporâneas, de forma revisitada. Apesar da tradição crítica que liga Nietzsche e Foucault levantar esta questão ao longo do século XX, ainda não foi superado esse lugar central do sujeito nos jogos de produção do conhecimento, onde toda a verdade ainda remete e retorna a ele. Sujeito cognoscente, transcendental e universal, porque não é nenhum sujeito concreto em especial e sim, uma abstração genérica que se refere a uma po- sição e não de um indivíduo, um “descobridor genial” (PRADO FILHO; MARTINS, 2007, p. 16, grifo nosso). 11 Além de ser produzido, o conhecimento ainda é analisado, classificado, mensurado e disseminado – sobretudo, o conhecimento relativo à ciência (FERRAZ; CHAVES; FERRAZ, 2018). O conhecimento do sujeito sobre o real não é uma apropriação do real em sua imanência e totalidade, mas uma apresentação organizada pela razão, segundo critérios colocados pela própria razão sobre o objeto. Nesse sentido, o posicionamento gnosiológico- epistemológico se preocupa com a constituição do saber pela propositura subjetiva, está preocupado com o “como saber?” e, desse modo, ganha relevância a discussão metodológica – os procedimentos/critérios envolvidos no processo de verificação da ideia do real como empírico (FERRAZ; CHAVES; FERRAZ, 2018, p. 5). Nem todos os tipos de conhecimento são sopesados com tantos critérios, tanta racionalidade, tantos cuidados e procedimentos metodológicos. Entretanto, quando se trata de ciência – ou do conhecimento científico –, há uma série de critérios que entram em jogo: Considerando-se que o desenvolvimento de uma ciência é refletido na produção científica, ou seja, que por meio das publicações a comunidade científica tem acesso a um novo conhecimento e o torna legítimo, o estudo da comunicação científica possibilita o exame e a avaliação dos conteúdos produzidos pelos cientistas, bem como as tendências, métodos e influências teóricas. Nesse contexto, desde o século XVII, o periódico científico figura como um dos mais importantes veículos de comunicação, pois proporciona disseminação, formalização, atualização com rapidez, ampliação e precisão dos conhecimentos científicos (ARBOIT; BUFREM; FREITAS, 2010, p. 20). Por conseguinte, o conhecimento científico é analisado em termos de influ- ências de pensamento, tendências, conteúdos, classificações, categorias, concepções, aplicações, linhas e enfoques (ARBOIT; BUFREM; FREITAS, 2010). De acordo com Tesser (1994), o conhecimento científico nunca está con- cluído, plenamente acabado nem atinge um patamar definitivo. Por isso, diz-se que o conhecimento científico é sempre provisório. No entanto, por qual o motivo o conheci- mento científico é necessariamente temporário e transitório? Porque, geralmente, ele está ancorado ao contexto de seu momento e, portanto, é afetado por questões ideoló- gicas, religiosas, econômicas, políticas, históricas, entre outras (TESSER, 1994). 12 Outro filme que merece ser assistido, relaciona- do com o conhecimento científico, chama-se “O Homem que Viu o Infinito”. Sugerimos que preste atenção em quanta dedicação a ciência deman- da, o quanto seus resultados são questionados, contestados entre os próprios pesquisadores e cientistas. Repare, ainda, nos embates entre a fé, professa- da pelo protagonista, e a reação dos demais ma- temáticos em relação a ele. CARTAZ DO FILME O HOMEM QUE VIU O INFINITO FONTE: <http://twixar.me/NSym>. Acesso em: 21 ago. 2020. DICA Também é necessário apontar que novas descobertas no campo da ciência podem reforçar premissas científicas já legitimadas ou podem questioná-las, arruiná- las. No desenvolvimento da produção de conhecimento, esse será tão mais válido quanto tais critérios forem rigorosamente aceitos, eis porque o consenso entre os sujeitos pesquisadores se torna o fundamento de verdade científica, eis o solo do acirramento das disputas em torno de quais critérios são os válidos. Assim, temos uma ciência que parte exclusivamente do sujeito-pesquisador, que opera a perda da coisa, do ser, da integralidade do real, eis porque nesta perspectiva científica as explicações aos problemas acabam sendo distintas e, portanto, apreendidas enquanto uma rivalidade entre os sujeitos operadores da ciência (FERRAZ; CHAVES; FERRAZ, 2018, p. 5, grifo nosso). Ei, acadêmico, você percebeu que a palavra “válidos” foi repetida nesse excerto que acabou de ler? Lembre-se de que lá no quadro em que essas palavras foram apresentadas, a palavra validade aparece como a qualidade de válido. De vez em quando, ouvimos que uma ciência tem sua validade lógica ou filosófica questionada, não é mesmo? “Ou seja, se não há parâmetro ou prova suficiente para garantir a validade de qualquer conhecimento, como foi possível chegar a essa conclusão acerca da validade do conhecimento, (ou seja, a da não validade) entendendo-a como válida?” (CASTAÑON, 2004, p. 76). 13 Certamente você se recorda de algum postulado que já foi reconhecido como científico em algum momento da história e, que hoje, foi contestado, desmantelado. Será que, então, é aqui que a palavra validade se encaixa na área da epistemologia? No sentido de que um pressuposto passa a ser considerado científico, portanto é válido ou, melhor, foi validado como científico? E quando uma premissa é derrocada, ela perde a validade científica? De modo geral, podemos inferir que sim. Afinal, ao validar um postulado, o cientista está dando mais força a ele, mais firmeza ao postulado. DICA Um filme que pode ajudar a lembrar de infor- mações que foram consideradas científicas e que, depois, deixaram de ser consideradas é “A Teoria de Tudo”. Esse filme retrata a vida do astrofísico Stephen Hawking. Notam-se os esforços dele para comprovar que suas ideias eram válidas. Repare, também, na resistência que ele preci- sou encarar por parte dos integrantes da uni- versidade e de outros pesquisadores. CARTAZ DO FILME A TEORIA DE TUDO FONTE: <http://www.adorocinema. com/filmes/filme-222221/>. Acesso em: 21 ago. 2020. Agora que já refletimos um pouco sobre teoria, métodos, ciência, conhecimento, conhecimento científico e validade, falaremos sobre as palavras cognição ou cognitiva. Pensando sobre as questões intelectuais e as faculdades mentais, a cognição está ligada ao conhecimento, à aprendizagem e à sapiência. A cognição, enquanto processo, pode explicar o que ocorre: um sistema é cognitivo quando elabora de forma coerente suas informações, para permanecer no real. Todo sistema é abertoe sensível ao ambiente, em algum nível. Os sistemas internalizam relações e a recodificação das informações altera o próprio estímulo. Desenvolvem, assim, a função memória (NACHONICZ, 2002, p. 62, grifo nosso). 14 Para Arboit, Bufrem e Freitas (2010), o paradigma cognitivo articula a informação e o sujeito individual. Segundo Ferraz, Chaves e Ferraz (2018), é preciso levar em conta o aspecto cognitivo do sujeito, isto é, a subjetividade, o caráter subjetivo. Isso porque, quando o sujeito está apreendendo algo sobre um objeto de estudo, ele está fazendo o uso de sua capacidade de pensar e de sua faculdade de conhecer tal objeto. Para analisar o objeto, o sujeito precisa elaborar explicações e argumentos sobre tal objeto, buscando evidências objetivas acerca dele, fazendo abstrações e utilizando o pensamento crítico. Ao fazer cada uma dessas ações, a pessoa acionará seu aparato cognitivo. Com base no conteúdo disponibilizado até aqui, na sua opinião, a cognição humana é limitada ou ilimitada? Está em dúvida sobre como responder a esta pergunta? Então, que tal ler o artigo: “Para além da epistemologia: reflexões necessárias para o desenvolvimento do conhecimento”, escrito por Ferraz, Chaves e Ferraz (2018)? Acesse, na íntegra, em: http://twixar.me/QXsm. Vale lembrar que ele já foi citado algumas vezes neste tópico. Boa leitura! DICA Tendo em vista que já refletimos acerca de teoria, métodos, ciência, conheci- mento científico, conhecimento, validade e cognição/cognitiva, chegou o momento de analisarmos a última palavra do Quadro 6, que é a gnoseologia ou gnosiologia. Veja como Moreno e Wainer (2014, p. 51, grifo nosso) articulam as palavras gno- siologia, método e epistemologia: “[...] a palavra método tem originalmente o signifi- cado de caminho, outro objetivo foi demonstrar como o caminho entre gnosiologia e epistemologia é o caminho do método hipotético-dedutivo”. Almeida (2007, p. 11, grifo nosso) também ajuda a compreender melhor a relação entre gnoseologia e metodologia: “A questão dita gnoseológica interrogava a natureza do conhecimento. A questão metodológica dirigia-se à produção desse conhecimento e às suas condições”. Portanto, ao fazer um estudo pautado na epistemologia, recorre-se aos elementos-chave de uma dada área do saber. Por exemplo, ao fazer uma análise em epistemologia da educação, os elementos-chave podem ser: conhecimento, saberes, cognição, projeto, aprendizagem, recodificação, paradigma e método (NACHONICZ, 2002). Além disso, é preciso buscar compreender como esses elementos interagem 15 uns com os outros, suas articulações e interdependências. Acrescentam-se, ainda, os elementos que já constam na produção bibliográfica da dada área do saber. Por exemplo, no caso mencionado, seria necessário fazer uma busca quanto ao conhecimento em educação em termos bibliográficos: • O que os autores, pesquisadores, teóricos têm falado sobre educação? • O que eles falaram sobre ela ao longo da história? • Quais são os grandes temas em torno dos quais a educação vem sendo construída? • Quais são os conceitos e teorias que a amparam? Assim, é preciso levar em conta aspectos relacionados com o tempo, o espaço, o sujeito e a palavra (NACHONICZ, 2002). A epistemologia transformou-se numa área relevante para a ciência e a filosofia, muitos pensadores e intelectuais têm dedicado parte de seu tempo para refletir este tema complexo e amplo, citemos alguns filósofos (Piaget, Bachelar, Foucault, Popper e Habermas), considerados como os mais importantes críticos, muitas vezes, até radicais no questionamento da ciência e da tecnologia, pois as mesmas passaram a fazer parte do cotidiano das pessoas. Vivemos um momento do triunfo da ciência. Tudo indica que é a civilização científico-técnica que elabora, sob medida, as condições ideais de nossa existência (TESSER, 1994, p. 91, grifo nosso). Você notou a palavra críticos na citação? Ocorre que, para Tesser (1994), a epistemologia pressupõe o estudo crítico tanto dos princípios quanto das hipóteses e ainda dos resultados das diversas ciências. Esperamos que, com esta leitura, você já tenha uma noção do que é a epistemologia. Então, você já pode imaginar qual é o objetivo da epistemologia. O intuito da epistemologia é promover a reconstrução racional do conhecimento. Quando se trata do conhecimento científico, a epistemologia tem a intenção de conhecer e analisar o processo gnosiológico (epistemológico) da ciência (TESSER, 1994). Desse modo, propicia uma análise que se baseie na perspectiva lógica, linguística, sociológica, interdisciplinar, política, filosófica e histórica da ciência (TESSER, 1994). É fazer uso de conhecimentos científicos de diferentes áreas da ciência para investigar uma dada área da ciência. “A Epistemologia exerce seu papel de reflexão e crítica, quando ela tenta mostrar aos cientistas suas filosofias implícitas nas Ciências, quando ela submete a Ciência a um estudo crítico, pois a Ciência utilizada sem consciência torna-se a ruína da alma” (TESSER, 1994, p. 98). Possivelmente, você já compreendeu o que é a epistemologia e qual é o objetivo dela. No entanto, talvez esteja pensando sobre a sua serventia – em termos práticos, para que a epistemologia serve? Vamos aprender sobre isso na próxima seção. 16 3 A UTILIDADE DA EPISTEMOLOGIA Às vezes, alguns alunos no ensino fundamental ou, até mesmo, no médio questionam os professores sobre a utilidade da filosofia, dizendo que eles têm a impressão de que a filosofia não leva a lugar nenhum, já que um grupo de pessoas fica pensando e nada é feito com o produto do que pensaram. Talvez, você esteja pensando algo parecido sobre a epistemologia. Afinal, para que ela serve? Vamos conferir se o Quadro 7 apresenta essa resposta. QUADRO 7 – UTILIDADES DA EPISTEMOLOGIA FONTE: Adaptado de Bunge (1980, apud Tesser, 1994 p. 92) Utilidades da epistemologia Refere-se à ciência propriamente dita Ocupa-se de problemas filosóficos que surgem antes do curso da investigação científica, ou no decurso Ocupa-se de reflexão sobre os problemas da ciência Ocupa-se de análise dos métodos da ciência Ocupa-se de teorias da ciência Propõe soluções claras para problemas atrelados à ciência Propõe soluções consistentes em teorias rigorosas e inteligíveis, adequadas à realidade da investigação científica É capaz de distinguir a ciência autêntica da pseudociência É capaz de criticar programas relativos à ciência É capaz de criticar resultados errôneos advindos de pesquisas ditas científicas É capaz de conseguir novos enfoques promissores à ciência Traz à tona os pressupostos filosóficos – em particular semânticos, gnosiológicos (e) ontológicos – de planos, métodos ou resultados de investigação científicas de atualidade Visa a elucidar conceitos filosóficos, empregados em diversas ciências Pode sistematizar conceitos filosóficos, empregados em diversas ciências Ajuda a resolver problemas científico-filosóficos, como o de saber se a vida se distingue pela teleonomia e a psique pela inespacialidade Reconstrói teorias científicas de maneira axiomática Desvela pressupostos filosóficos de teorias científicas Participa de discussões sobre a natureza e o valor da ciência pura e aplicada Ajuda a esclarecer as ideias sobre ciência pura e aplicada Serve de modelo a outros ramos da filosofia, como a ontologia Serve de modelo à ética 17 Com base nesse quadro, podemos depreender que a epistemologia esclarece que construções teóricas não são perpassadas por neutralidade. É um equívoco dizer que a ciência é neutra (NACHONICZ, 2002). Afinal, cada ciência é tecida num dado momento histórico, o qual é influenciado por determinadas perspectivas sociais, econômicas, culturais, religiosas, psicológicas, ideológicas, políticas etc. Cada contexto histórico exerce influênciatanto nas ciências quanto na epistemologia. Além disso, os objetos de estudo podem transformar-se com o passar do tempo e, até mesmo, por influência da própria epistemologia. No fim das contas, pode oferecer um olhar sobre o objeto de estudo segundo a perspectiva teórica pela qual ele é visto (NACHONICZ, 2002). De mais a mais, a epistemologia pode oferecer subsídios para questionamentos no que tange à responsabilidade social dos cientistas e dos técnicos (NACHONICZ, 2002). Assim, “[...] cabe à epistemologia refletir tanto sobre a teoria quanto sobre a prática das ciências, desde seu início, estruturação, formação e progresso, este estudo visa contribuir, assim, para a compreensão e consolidação do domínio científico” (ARBOIT; BUFREM; FREITAS, 2010, p. 22). Como exemplo de sua utilidade, podemos citar a epistemologia pedagógica, que, segundo Tesser (1994), visa a propiciar condições para que os estudantes pensem com criticidade, superando, assim, interpretações literárias e os modos fragmentados de raciocínio. Isso vai além do aprendizado, já que diz respeito a desenvolver a capacidade e a competência de problematizar, dialeticamente, a teoria e, inclusive, a própria práxis educacional. Não se trata de negar, especificamente da Ciência, a sua dimensão social no desenvolvimento do progresso; trata-se de mostrar que ela não constitui um mundo à parte, neutral, desinteressado, mas de mostrar que todo conhecimento é portador de interesses, e de que a racionalização científica moderna é instrumental e coisificante. Portanto, a Ciência e a Técnica são hoje instrumentos ideológicos de poder, manipulação e legitimação da sociedade dominante (TESSER, 1994, p. 98, grifo nosso). Nesse caso, os alunos passam a ter contato com uma epistemologia que lhes proporciona a busca de elementos de distintas áreas do conhecimento. Além do mais, eles podem engajar-se em novos tipos de questionamentos e de análises sobre problemas, bem como na formulação de soluções que acarretam a transformação da realidade educacional (TESSER, 1994). “Baseado em quê uma pessoa, que parta de pressupostos relativistas éticos e epistemológicos, pode denunciar a validade de outro sistema de valores morais ou epistêmicos, a não ser no mais contraditório autoritarismo?” (CASTAÑON, 2004, p. 78, grifo nosso). 18 Já que ponderamos sobre interesses, a influência do autoritarismo na produção e na disseminação de conhecimento, vamos a outra dica de filme. Vimos que há interesses que enviesam o conhecimento, os quais podem interferir tanto na produção do conhecimento quanto no que se faz com os resultados gerados por ele. Um filme que ilustra essa situação é “Epidemia” (1995). Ao assistir a esse filme, fique atento aos interesses pessoais que influenciam as decisões do protagonista, Coronel Sam Daniels, interpretado pelo ator Dustin Hoffman. Também preste atenção no quanto as decisões das lideranças governamentais são afetadas pelos interesses políticos que estão em jogo. Além disso, o autoritarismo (que observamos na última citação) também fica claro no decorrer do filme. CARTAZ DO FILME EPIDEMIA FONTE: <http://twixar.me/6Xsm>. Acesso em: 21 ago. 2020. DICA Antes de encerrarmos este tópico, é pertinente esclarecer que, tanto a filosofia quanto a epistemologia, possuem utilidade. Ao longo desta seção, vimos qual é o papel da epistemologia. Se você ainda tiver dúvidas sobre a utilidade da filosofia, ou minimamente dos efeitos que ela pode gerar na sociedade, que tal fazer uma rápida pesquisa sobre a Revolução Francesa? Além das pesquisas sobre esse tema, é oportuno refletirmos sobre a Revolução Francesa, porque, assim, veremos que a filosofia não é inerte, como muitas pessoas acham. Além disso, podemos ter uma noção do panorama que quebrou paradigmas de pensamento que se perpetuavam por décadas e décadas. 19 Seguem algumas sugestões de leitura sobre a Revolução Francesa, para você aprofundar seus conhecimentos sobre essa época revolucionária da História: • ARRUDA, J. J. de A; PILETTI, N. Toda a história: história geral e história do Brasil. 7. ed. São Paulo: Ática; 1997. • GRESPAN, J. Revolução francesa e iluminismo. São Paulo: Contexto; 2003. • HILLS, K. A Revolução Francesa. Tradução e adaptação Jayme Brener. 4. ed. São Paulo: Ática; 1994. • MANFRED, A. Z. A concepção materialista da Revolução Francesa. Tradução de Maria Luisa Borges. 2. ed. São Paulo: Global; 1989. • VOVELLE, M. A Revolução Francesa explicada à minha neta. Tradução de Fernando Santos. São Paulo: UNESP; 2007. DICA Certamente, você descobrirá que os pensamentos dos filósofos iluministas desempenharam um papel crucial para a derrubada do absolutismo e para a consequente transformação social. Você se lembra o que é absolutismo? Quando o rei Luís XVI (Figura 3) foi coroado na França, em 1654, ele transmitia uma imagem sagrada, como de um representante direto de Deus e como se possuísse o poder absoluto. Ele não foi a única figura de liderança que apresentava essas características, mas foi a que mais as colocou em proeminência. FIGURA 3 – REI LUÍS XVI FONTE: <https://aulazen.com/wp-content/uploads/2018/05/1-2.jpg>. Acesso em: 21 ago. 2020. 20 O rei Luís XVI mostrou-se um péssimo administrador da economia do país – e quem ousasse questionar os poderes do rei também recebia rigorosas punições. Por isso, os reis enriqueciam cada vez mais à custa dos impostos e de outras explorações do povo, exibindo riqueza e roupas caríssimas (como é possível observar na imagem), enquanto a população padecia com fome e miséria. “Críticos do absolutismo, os filósofos iluministas insistiam que os monarcas franceses eram pessoas absolutamente normais às quais a ignorância atribuía poderes especiais: a faculdade de curar os escrofulosos ou governar a França como representantes de Deus” (ALMEIDA, 2016, p. 271). Outros monarcas, além do rei Luís XVI, demonstravam poderio absolutista na Europa e, assim, não necessitavam se submeter a qualquer poder manifesto sobre a Terra – por isso, esses monarcas faziam o que queriam com o povo. O rei Luís XVI monopolizava a administração e controlava os tribunais, enquanto a dívida externa excedia o dobro do valor circulante. Ele ainda esbanjava luxo e tinha o poder de condenar quem quisesse à prisão sem julgamento; bastava ordenar e os presos iam para a fortaleza da Bastilha sem que fosse averiguado se a pessoa realmente cometeu um ato ilegal. Conforme Nunes (2019), a Revolução Francesa foi desencadeada por conta dos discursos que, durante o século XVIII, foram disseminados acerca de crítica sobre a religião católica e o poder régio. Para o mesmo autor, o Iluminismo possuía um potencial transformador, além de preconizar a valorização de certo modelo de filosofia racional. Um dos motivos que gerou a insatisfação do povo foi a cobrança de vários impostos, para o governo sustentar o regime absolutista monárquico, os luxos exuberantes da corte do rei Luís XVI, os privilégios do clero da Igreja Católica e dos nobres. Existiam o imposto sobre o sal (chamado de gabela) e taxas pagas em trabalho, como a corveia, que estava relacionada à conservação das estradas e ao conserto de carruagens dos nobres, além de ocorrerem aumentos sucessivos e do fato de apenas o povo pagar por esses impostos. A população sentia-se oprimida com tantos tributos e tarifas, pois seu poder aquisitivo era baixíssimo. Havia fome, condições precárias de higiene e recorrentes infestações de ratos. Muitos adoeciam e apresentavam corpos magros, porque os alimentos tinham preços inacessíveis. Enquanto isso, a realeza francesa ostentava inúmeras festas pomposas, nas quais as madames usavam vestidos caríssimos. Isso deixava a população ainda mais inconformada e irritada. 21 Você já assistiu à série Versailles?Sua primeira temporada foi em 2015, retratando a ostentação da monarquia francesa e o rei Luís XVI, interpretado por George Blagden. O título da série foi inspirado na cidade de Versalhes, na qual está localizado o Château de Versailles – o suntuoso palácio que era ocupado pela monarquia francesa. É válido destacar que essa série tem classificação indicativa para acima de 18 anos. SÉRIE VERSAILLES FONTE: <http://twixar.me/CXsm>. Acesso em: 8 dez. 2020. DICA A burguesia estava se fortalecendo e tomou conhecimento da situação econômica delicada do país. Assim, procurou conscientizar a massa da população. Os filósofos iluministas foram os responsáveis por denunciar a gravidade da situação econômica do país para o povo. O padre Jean Meslier, Rousseau, Montesquieu e Voltaire foram destacáveis iluministas. O rei Luís XVI manteve seu poder sobre a França no início da revolução francesa até ser deposto em 1792, tendo sido guilhotinado no ano seguinte. 22 Frequentemente, as pessoas dizem que o povo não tem poder. A Revolução Francesa é um exemplo de que o povo não era insignificante – além de mostrar os efeitos da atuação dos filósofos iluministas. Nas aulas de filosofia, às vezes, os jovens pensam que os filósofos não têm uma funcionalidade, porque “só filosofam” e não fazem nada de prático. A Revolução Francesa é um exemplo de que o produto da reflexão dos filósofos também não é inútil. Afinal, a união entre os atos dos filósofos e do povo foi determinante para acabar com o sistema de governo absolutista monárquico, no qual o rei detinha praticamente todo o poder. INTERESSANTE Assim, o lema da Revolução tornou-se “liberdade, igualdade e fraternidade”. Com inspiração iluminista, também tal lema fundamentou a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (aprovada em 26 de agosto de 1789), que defendia o direito à liberdade, à igualdade perante a lei, à inviolabilidade da propriedade e o direito de resistir à opressão – o Quadro 8 mostra outros itens do legado dessa revolução. QUADRO 8 – LEGADO DA REVOLUÇÃO FRANCESA FONTE: A autora Abalou o absolutismo monárquico em toda a Europa Superação das instituições feudais do Antigo Regime Tomada do poder pela burguesia Muitas pessoas são executadas na guilhotina, dentre elas o rei Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão Preparação para o despontar do capitalismo industrial A Revolução Francesa gerou as conjecturas necessárias para que o capitalismo industrial eclodisse. Com a Revolução Industrial, as forças produtivas (indústria) provocaram uma gigantesca transformação nas relações de produção, despontando, assim, novas classes sociais: a burguesia e o proletariado. É bem verdade que inúmeras novas indústrias surgiram nessa fase, mas, também, aconteceu a aplicação de novos métodos às velhas indústrias, além da descoberta e da aplicação de novas técnicas. 23 Se você preferir produções cinematográficas para incrementar o seu processo de aprendiza- gem, seguem algumas sugestões sobre a Revolução Francesa no quadro a seguir. SUGESTÃO DE FILMES SOBRE A REVOLUÇÃO FRANCESA DICA Título do Filme Ano Gênero Duração Direção Maria Antonieta 1938 Drama/obra de Época 2h40 Van Dyke, Julien Duvivier A Queda da Bastilha A Tale of Two Cities 1980 Drama 202 minutos Jim Goddard Danton – O Processo da Revolução 1983 Drama/ficção histórica 2h16 Andrzej Wajda La Revolution Française 1989 Drama/thriller 6 horas Robert Enrico, Richard T. Heffron Caindo no Ridículo – Ridicule 1996 Drama/romance 1h43 Patrice Leconte Maria Antonieta 2006 Drama/romance 2h7 Sofia Coppola Adeus, Minha Rainha 2012 Drama/romance 1h40 Benoît Jacquot A Revolução Em Paris 2019 Drama, histórico 2h02 Pierre Schoeller Como é possível observar, a Revolução Francesa teve significativo derrama- mento de sangue e muitas pessoas foram degoladas, já que a guilhotina foi bastante utilizada na época. Talvez, essa época tenha servido de inspiração para o escritor Lewis Carroll, que viveu entre 1832 e 1898, em sua obra “Alice no País das Maravilhas”, na qual utilizou, repetidas vezes, a expressão “cortem as cabeças” por meio da personagem Rainha Vermelha. 24 DICA Um dos filmes apresentados no quadro de sugestões é “Maria Antonieta”, que foi a esposa do rei Luís XVI – e também retrata o Château de Versailles. CARTAZ DO FILME MARIA ANTONIETA FONTE: <http://twixar.me/5Xym>. Acesso em: 21 ago. 2020. Lembre-se de que, para compreendermos a palavra epistemologia, passamos boa parte deste tópico revendo, aprendendo e refletindo sobre as seguintes palavras: teoria, métodos, ciência, conhecimento, conhecimento científico, validade, cognição/ cognitiva e gnoseologia/gnosiologia. Em seguida, mergulhamos em trechos da história da Revolução Francesa – que também irá aparecer em outros momentos deste livro. 25 Neste tópico, você aprendeu: • A epistemologia é o estudo do saber e pressupõe o estudo metódico e reflexivo do conhecimento. • A epistemologia presta atenção na organização, na formação, no desenvolvimento e no funcionamento das áreas do saber, sobretudo quanto aos seus produtos intelectuais. • Precisamos compreender algumas palavras para ter um entendimento mais amplo da epistemologia. São elas: teoria, métodos, ciência, conhecimento, científico, validade, cognitiva e gnosiologia. • Às vésperas da Revolução Francesa, a França era um país agrário, que apresentava aumento populacional e assistia ao início da industrialização. A França vivia no regime monárquico absolutista. RESUMO DO TÓPICO 1 26 AUTOATIVIDADE 1 Para Wahba (2019, p. 1), “[...] o fazer nas ciências humanas [...] está atrelado a um método que respeite a subjetividade do pesquisador e a integridade do sujeito de pesquisa, imbuído de princípios epistemológicos”. Com base no exposto, associe os itens, utilizando o código a seguir: I- Teoria. II- Metodologia. III- Ciência. ( ) Envolve estudos científicos. Arte de guiar o espírito na investigação da verdade. Parte da Lógica que se ocupa dos métodos de raciocínio, em oposição à Lógica Formal. ( ) Conjunto de conhecimentos organizados sobre determinado assunto. Erudição, instrução, literatura. Conhecimento, informação, notícia. ( ) Princípios básicos e elementares. Sistema ou doutrina que trata desses princípios. Conhecimento que se limita à exposição, sem passar à ação, sendo, portanto, o contrário da prática. Conjectura, hipótese. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) II – III – I. b) ( ) I – II – III. c) ( ) III – I – II. d) ( ) II – I – III. 2 “Por outro lado, essa pedagogia, pretendendo ser analítica, traduz-se numa arquitetura curricular fragmentada em matérias, numa trajetória gradual e linear, congruente com a análise de decomposição-recomposição justificada por uma epistemologia cartesiana” (ALMEIDA-FILHO, 2017, p. 10). Associe os itens, utilizando o código a seguir: I- Validade. II- Conhecimento. III- Gnoseologia. ( ) Qualidade de válido. Qualidade do ato jurídico ou administrativo, feito com todos os requisitos que a lei exige. Já a palavra válido equivale a “que tem valor”. ( ) Faculdade de conhecer. Ideia, noção; informação, notícia. Ter ideia justa da própria capacidade. Tomar conhecimento. Apreciar, julgar. ( ) Teoria da natureza e limites do conhecimento humano, epistemologia. Está ligada à faculdade de perceber e reconhecer as coisas. 27 Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) I – II – III. b) ( ) III – I – II. c) ( ) II – I – III. d) ( ) II – III – I. 3 “A formação da opinião pública, que se apresentava, frequentemente, pelo seu matiz didático-pedagógico, conduzia os intelectuais orgânicos da Revolução Francesa a se postarem como arautos da verdade revolucionária, da interpretação histórica e da orientação do futuronacional” (BOTO, 2003, p. 746). Com base na Revolução Francesa, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) O povo não tem poder, no que tange às questões políticas, sobretudo numa monarquia. b) ( ) Os filósofos iluministas desempenharam um papel crucial para a derrubada do absolutismo. c) ( ) O rei Luís XVI era estudioso da psicomotricidade, por isso exibia silhueta esbelta e magra. d) ( ) O clero foi responsável pela Revolução Francesa, ao desbancar a valorização da ciência que vigorava até ali. 28 29 PSICOMOTRICIDADE UNIDADE 1 TÓPICO 2 — 1 INTRODUÇÃO Neste tópico, abordaremos a psicomotricidade propriamente dita, retomando alguns conceitos da epistemologia. Para quem ainda não se sentiu satisfatoriamente familiarizado com o conceito de psicomotricidade, aprenderemos sobre essa palavra até obtermos uma noção mais ampla acerca do que ela abrange. 2 PSICOMOTRICIDADE Esse é um bom momento para encarar um desafio: quando você se depara com a palavra psicomotricidade, o que vem a sua mente? Você arriscaria escrever o que entende dessa palavra? Dê uma pausa na leitura, pegue uma caneta e escreva o que você acha que é psicomotricidade. É necessário se lançar nesse exercício, porque, mais adiante, o retomaremos – e, quem sabe, talvez, você também precise falar sobre ele em um encontro presencial ou virtual desta unidade. Para lhe ajudar, deixamos esse espaço para que você registre o seu conceito pessoal: Psicomotricidade é _____________________________________________________ __________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________ __________________________________________________________________________. DICA 30 Mesmo que, conforme a leitura seguinte, você descubra que seu conceito estava incorreto, equivocado ou muito resumido, não tem problema. O importante é manter o registro, mesmo que errado, e mais para a frente revê-lo. Você encontrará mais oportunidades para registrar um conceito mais elaborado – fique tranquilo! Agora, novamente buscaremos a ajuda dos dicionários para entender o que significa psicomotricidade, conforme mostra o Quadro 9. QUADRO 9 – PSICOMOTRICIDADE NO DICIONÁRIO MICHAELIS FONTE: <https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues-brasileiro/psicomotricidade>. Acesso em: 24 ago. 2020. psi·co·mo·tri·ci·da·de PSICOL. Conjunto e integração das funções motoras e psíquicas que determinam e coordenam os movimentos corporais ETIMOLOGIA der do voc comp do gr psykhē+o+fr motrice+i+dade, como fr psychomotricité Podemos depreender que a psicomotricidade está relacionada com funções motoras, funções psíquicas e movimentos corporais. No estudo de epistemologia, recorremos à etimologia da palavra. Vamos fazer o mesmo com a psicomotricidade, afinal, poderemos conferir a etimologia da palavra psicomotricidade. Se, mesmo assim, esse conceito não ficou totalmente claro, não se preocupe, preparamos um elemento gráfico para o ajudar na compreensão (Figura 4). FIGURA 4 – ETIMOLOGIA DA PALAVRA PSICOMOTRICIDADE FONTE: A autora • movimento • mover com frequência • agitar com força • alma • espírito • mente motrice+i+dade psykhē+o+fr 31 Ter acesso a essas informações pode ajudar aqueles que nunca estudaram sobre o tema, ou que não irão lidar diretamente com ele no futuro. Entretanto, uma vez já envolvidos nessa área, ter essas informações não é suficiente. Então, vamos mergulhar um pouco mais fundo, conforme apresenta o Quadro 10. QUADRO 10 – PSICOMOTRICIDADE NO DICIONÁRIO LÉXICO FONTE: <https://www.lexico.pt/psicomotricidade/>. Acesso em: 24 ago. 2020. Significado de Psicomotricidade Grupo de funções motoras que estão envolvidas na atividade a nível psicológico Além de reforçar a questão das funções motoras, já vistas anteriormente, a novidade são as expressões atividade e nível psicológico. Poderíamos presumir que a psicomotricidade tem a ver com aspectos psicológicos que envolvem os movimentos corporais? QUADRO 11 – PSICOMOTRICIDADE NO DICIONÁRIO ESTRAVIZ FONTE: <http://estraviz.org/psicomotricidade>. Acesso em: 24 ago. 2020. psicomotricidade Integração das funções motoras e psíquicas em consequência da maturidade do sistema nervoso No Quadro 11, temos o acréscimo da informação relacionada à maturidade do sistema nervoso. Então, minimamente, podemos inferir que há participação direta do encéfalo e/ou da medula espinhal, não é mesmo? QUADRO 12 – PSICOMOTRICIDADE NO DICIO FONTE: <http://twixar.me/Qjym>. Acesso em: 24 ago. 2020. Significado de Psicomotricidade Integração das funções motrizes e mentais sob o efeito da educação e do desenvolvimento do sistema nervoso. Integração organizada do que é motor, sensitivo, psíquico e das experiências individuais, que busca, através do corpo e de sua interação com o contexto social, o desenvolvimento individual. Etimologia (origem da palavra psicomotricidade). Psico + motricidade. No Quadro 12, as expressões novas, pelo menos no que se refere à leitura deste livro, são funções motrizes e funções mentais – vale lembrar que a palavra motriz está ligada à força que gera movimento. Além disso, a palavra educação também não tinha sido associada à psicomotricidade. Já a palavra desenvolvimento, de certo, surgirá novamente adiante. 32 FIGURA 5 – O REI LUÍS XVI E A OBESIDADE FONTE: <https://rainhastragicas.files.wordpress.com/2017/07/bastilha.jpg>. Acesso em: 27 ago. 2020. Outras palavras recorrentes nos estudos da psicomotricidade são motor, sensitivo e psíquico. Todas elas possuem diversos sentidos ou significados. Talvez muitos associem motor ao motor de um carro e sensitivo às pessoas que consideram ter uma percepção mais aguçada. Será que são esses os significados com os quais lidaremos nesta disciplina? Também não podemos deixar de mencionar as expressões experiências individuais, interação e contexto social. Ao acrescentarmos essas expressões, vemos que a psicomotricidade não está restrita ao sistema nervoso de uma pessoa, pois aspectos sociais também incidem sobre ela. Que tal um exemplo? “Em relação ao meio social, nunca houve registros na história ocidental de tamanha incidência de problemas posturais, obesidade e doenças cardiovasculares em crianças” (FERNANDES; DANTAS; MOURÃO-CARVALHAL, 2014, p. 117). Já que acabamos de obter uma informação sobre obesidade, que tal lembrarmos do rei Luís XVI? Você sabia que ele era obeso? Você já percebeu que boa parte dos integrantes das famílias reais europeias, que viveram às vésperas da Revolução Francesa, exibia corpos, hoje, considerados obesos? Naquele tempo, estar “acima do peso” era algo que conferia status. Afinal, a maioria da população era magra por não ter condições de comprar comida. Então, aqueles que tinham poder aquisitivo para comer gostavam de ter uma aparência mais avantajada, para sinalizar que eram ricos e tinham posses. Talvez você já tenha assistido a algum dos filmes que foram indicados, quando estávamos aprendendo sobre a Revolução Francesa – o rei Luís XVI foi retratado como alguém obeso nessas produções cinematográficas? Por quê? Hoje, a obesidade é indício de status em nossa sociedade? Na atualidade, algo que confere status na sociedade, por exemplo, é possuir carros e/ou roupas e/ou equipamentos de grife. Algumas pessoas fazem isso para passarem a impressão de que têm poder aquisitivo considerável. 33 Assim, podemos ter uma ideia de que a Revolução Francesa interferiu nos hábitos alimentares e, provavelmente, nos movimentos corporais das pessoas – até porque movimentar o corpo pode nãoser uma tarefa fácil para as pessoas com obesidade. Então, a relação entre psicomotricidade e Revolução Francesa vai muito mais além do que supõe nossa vã filosofia. Desse modo, é hora de honrarmos mais uma palavra do Quadro 12: corpo. É bem possível que ela tenha sido escrita, por você, no exercício que propusemos no começo deste tópico, pois muitas pessoas associam a palavra psicomotricidade a corpo. Outras expressões que merecem atenção e que apareceram em vários dos quadros deste tópico são: conjunto, grupo e integração organizada. Todas essas expressões serão retomadas no Tópico 3, mas esse pequeno contato permite ter certa noção do que vem a ser a psicomotricidade: A psicomotricidade está relacionada a aspectos psicológicos e cognitivos do movimento e às atividades corporais na relação do organismo com o meio em que se desenvolve. Na psicomotricidade, há componentes maturacionais relacionados com os movimentos e ações que se mostram quando a criança entra em contato com pessoas e objetos com os quais se relaciona de forma construtiva. E, ao mesmo tempo, é fonte de conhecimento e expressão do que já se tem, como meio de gerar vivências e emoções (FERREIRA; MARTINEZ; CIASCA, 2010, p. 224, grifo nosso). As palavras destacadas nessa citação foram as mesmas apresentadas nos quadros deste tópico. Sugerimos que você releia a citação, para entender algumas relações estabelecidas entre esses termos. Agora, aprofundaremos a etimologia da palavra psicomotricidade, conforme mostra o Quadro 13. QUADRO 13 – A ORIGEM DO SIGNIFICADO DE PSICOMOTRICIDADE FONTE: Adaptado de <https://institutoneurosaber.com.br/entenda-o-conceito-de-psicomotricidade/>. Acesso em: 27 ago. 2020. PSI Refere-se ao aspecto emocional da pessoa; está ligado ao sentimento CO Faz referência à cognição, ao processamento das informações recebidas por todos nós MOTRIC Motriz = movimento e força IDADE Etapa de vida de todos nós. Ciclo vital Podemos afirmar que a psicomotricidade está atrelada ao corpo, portanto, ela também está vinculada à esfera orgânica. Além disso, está conectada, ainda, aos aspectos afetivos, cognitivos, intelectuais, bem como à maturação e ao movimento. 34 A palavra motricidade “[...] é entendida como o conjunto de expressões corporais, gestuais e motoras, não verbais e não simbólicas, de índole tónico-emocional, postural, somatognósica, ecognósica e práxica, que sustentam e suportam as manifestações do psiquismo” (FONSECA, 2010, p. 46). Agora que já analisamos o significado da palavra psicomotricidade, a seguir, entenderemos qual é a sua relação com a epistemologia. 3 EPISTEMOLOGIA E PSICOMOTRICIDADE Vamos retomar, brevemente, o que aprendemos sobre epistemologia? Ela tem a ver com teoria, métodos, ciência, conhecimento científico, validade, cognição e gnosiologia. Vejamos algo sobre a psicomotricidade no que diz respeito à teoria. No âmbito da matriz teórica da psicomotricidade, o psiquismo é entendido, concebido e compreendido como sendo composto pelo funcionamento mental total, isto é, pelas sensações, percep- ções, emoções, fantasmas, representações, projeções e condutas relacionais e sociais. Cabem nesta concepção dinâmica, corpora- lizada e atuante do psiquismo, todos os processos cognitivos que integram, processam, planificam, regulam e executam a motricidade, como uma resposta adaptativa intencional e inteligível exclusiva da espécie humana (FONSECA, 2010, p. 42, grifo nosso). Assim, sabemos, de antemão, que a psicomotricidade possui uma matriz teórica, bem como podemos ter uma ideia mais abrangente sobre o que é o psiquismo (Figura 6). FIGURA 6 – PSIQUISMO FONTE: Adaptada de Fonseca (2010) ps iq ui sm o funcionamento mental total sensações percepções emoções representações projeções condutas 35 No tópico anterior, vimos que a psicomotricidade é uma ciência. É chegada a hora de conferir isso mais de perto. Na perspectiva de Fonseca (2010), a psicomotricidade é uma ciência com arquitetura conceitual e estrutural, que se embasa num grupo de paradigmas e pressupostos que se harmonizam, se conciliam. A Psicomotricidade, como ciência, é entendida como o campo transdisciplinar que estuda e investiga as relações e as influências recíprocas e sistémicas, entre o psiquismo e o corpo, e, entre o psiquismo e a motricidade, emergentes da personalidade total, singular e evolutiva que caracteriza o ser humano, nas suas múltiplas e complexas manifestações biopsicossociais, afetivoemocionais e psicossóciocognitivas (FONSECA, 2010, p. 42). Pode-se dizer que a psicomotricidade é mais do que uma área interdisciplinar ou multidisciplinar, tendo em vista que se ampara em conteúdos que se interligam e que apresentam conceitos representantes das áreas biológicas e das áreas culturais. “A Psicomotricidade é reconhecida como uma ciência que muito tem a contribuir para o desenvolvimento humano, em todas as suas etapas, da infância à velhice, e em toda sua complexidade, pois afeto, cognição e movimento são inseparáveis e fazem parte da condição humana” (BENETTI et al., 2018, p. 604). Talvez, pareça estranho o uso da expressão “todas as suas etapas”, relacionada ao desenvolvimento humano. Isso porque quando imaginamos um profissional trabalhando com a psicomotricidade, temos uma certa tendência a associar a alguma intervenção com crianças. Você também tinha essa impressão? Essa impressão decorre do fato de que é justamente durante a infância que as funções psicomotoras passam a se desenvolver (BENETTI et al., 2018). Além disso, como apontam Ferreira, Martinez e Ciasca (2010, p. 223), “Na infância, o papel da psicomotricidade é de fundamental importância para o desenvolvimento e a aprendizagem da criança, e envolve: aspectos emocionais, motores e cognitivos”. Também por isso Benetti et al. (2018) defendem que os gestores da Educação Infantil necessitariam ter mais conhecimento sobre a psicomotricidade, a fim de aumentar, consideravelmente, as condições para que fosse colocada em prática em meio à educação formal. Seguindo a mesma linha de raciocínio, Duzzi, Rodrigues e Ciasca (2016) recomendam que a psicomotricidade esteja presente nos currículos de cursos de formação, tanto na fase de graduação quanto na fase de pós-graduação, ressaltando a necessidade de ser abordada nesses contextos com seriedade e aprofundamento, sobretudo com os cursos voltados à formação de professores, já que há uma relação entre o desenvolvimento das habilidades psicomotoras e a aquisição da escrita. Vale salientar que o conhecimento nessa área implicará grandemente em sua instrumentalização, que se mostra necessária e é o diferencial de um profissional capacitado (BENETTI et al., 2018, p. 604). 36 Ao ler as expressões “colocadas em prática” e “instrumentalização” associadas à “profissional capacitado”, é bem provável que desconfiemos que a psicomotricidade não seja apenas uma ciência. Parece que ela também pode ser uma profissão ou área de atuação profissional, não é mesmo? Por outro lado, Kolyniak (2010) esclarece que a psicomotricidade não pode ser considerada uma estratégia que une diversos exercícios mecânicos, com vistas à aquisição de habilidades automatizadas, para que a criança saiba escrever com letras bem feitas. Muito mais do que isso, o desenvolvimento das funções psicomotoras, no nível neurológico e motor, permite à criança uma interação com o meio social de tal qualidade, que promove possibilidades de vivências que constroem conhecimento internalizado e, com mediações, são representadas e generalizadas em representações simbólicas (KOLYNIAK, 2010, p. 69). Nesse sentido, Fonseca (2010) acrescenta que a psicomotricidade não se propõe a auxiliar somente no que tange a promoçãoda reaprendizagem motora propriamente dita. Ela se volta para a totalidade do processo aprendizagem, de desenvolvimento, de modificações e de interação. Para tanto, busca desenvolver as suas funções receptivas, integrativas (representacionais e elaborativas) e expressivas. Em se tratando de epistemologia relacionada com a psicomotricidade, que tal fazermos um resgate da palavra gnosiológica, na prática? Para Moreno e Wainer (2014, p. 47), “[...] realizar uma análise gnosiológica dos esquemas do paciente significa conhecer quais são suas estruturas organizadoras de conhecimento que influenciam sua representação de novas situações e o planejamento de seu comportamento”. Agora que trouxemos a análise gnosiológica, ao longo desta disciplina, devemos ficar atentos a aspectos teóricos, metodológicos, científicos, congnição e gnosiológicos da psicomotricidade, já que a epistemologia é o discurso sobre a ciência, e a psicomo- tricidade é uma ciência. No Tópico 1 da Unidade 2, aprenderemos mais sobre esse tema, ao estudarmos sobre o conhecimento nas áreas de intervenção profissional ligadas à educação. ESTUDOS FUTUROS 37 Neste tópico, você aprendeu: • A psicomotricidade diz respeito a todas as etapas da vida. • O prefixo psico significa alma, espírito, mente. • O psiquismo engloba o funcionamento mental total: sensações, percepções, emo- ções, representações, projeções, condutas relacionais e sociais. • A palavra motricidade significa movimento, mover com frequência e agitar com força. • A psicomotricidade é uma ciência e, consequentemente, há relações entre episte- mologia e psicomotricidade. RESUMO DO TÓPICO 2 38 AUTOATIVIDADE 1 Chegou a hora de você dar uma olhada no que escreveu lá no começo, sobre o que sabia a respeito da psicomotricidade, isto é, o seu conhecimento prévio sobre o assunto. Agora que você recebeu mais embasamento, disserte sobre a psicomotricidade. 2 Por que, às vésperas da Revolução Francesa, a obesidade era frequentemente exibida pelos monarcas e pelas famílias da realeza? Justifique: 39 TÓPICO 3 — CONCEITOS FUNDAMENTAIS EM PSICOMOTRICIDADE UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Ao longo deste livro, ainda aprenderemos mais sobre a psicomotricidade, apresentando muitas informações a respeito para o ajudar a ter maior clareza. Neste tópico, desvelaremos quais são os conceitos fundamentais dessa área. Portanto, vamos nos apropriar dos principais entendimentos, noções, expressões, considerações ou conteúdos relacionados com a psicomotricidade. Para fazer um resgate do que aprendemos sobre epistemologia, vamos nos concentrar nos mais importantes conceitos teóricos da psicomotricidade. Em outras palavras, entenderemos um pouco sobre as bases da psicomotricidade, seus alicerces e sustentáculos. 2 OS PRINCIPAIS CONCEITOS EM PSICOMOTRICIDADE Benetti et al. (2018, p. 603) realizaram um estudo sobre psicomotricidade e desenvolvimento, no qual investigaram as concepções e as vivências de professores da educação infantil numa determinada região brasileira, conforme mostra um dos achados dessa pesquisa: Mas observou-se que as participantes não possuíam um conheci- mento aprofundado sobre a temática da psicomotricidade e não re- alizavam um trabalho específico de educação psicomotora. Algumas funções como lateralidade, esquema corporal, coordenação motora ampla, coordenação motora fina, orientação temporal, orientação espacial são trabalhadas, mas nem sempre da maneira mais adequada, uma vez que alguns equívocos conceituais, quanto às funções citadas anteriormente, foram percebidos (BENETTI et al., 2018, p. 603). Nesse caso, foi possível averiguar que as atividades psicomotoras que os professores desenvolviam com os alunos não estavam devidamente embasadas ou não eram corretamente conduzidas. Observa-se também que eles se queixam da falta de materiais para realizar as atividades. No entanto, se os professores apresentam dificuldades para conceituar parte das funções psicomotoras, fica difícil imaginar que pudessem conduzir atividades psicomotoras com destreza. 40 Sabemos a realidade de muitas instituições educacionais e de saúde da rede pública do nosso país, que não possuem a quantidade necessária de materiais disponíveis aos profissionais. Todavia, mesmo que os profissionais tivessem equipamentos, materiais de alta tecnologia e em abundância, como eles poderiam utilizá-los apropriadamente em atividades psicomotoras se desconheciam os conceitos fundamentais da psicomotricidade? Fernandes, Dantas e Mourão-Carvalhal (2014, p. 118) explicam que “A psicomotricidade fornece bases motoras, cognitivas, afetivas e emocionais que podem facilitar as aprendizagens acadêmicas”. Entretanto, como os professores poderão facilitar tais aprendizagens se não conhecerem o suficiente sobre psicomotricidade e seus conceitos fundamentais? No Tópico 2, muitas expressões que apareceram em destaque serão exploradas a seguir, sendo compostas por alguns dos elementos básicos da psicomotricidade: funções motoras, funções motrizes, funções psíquicas, funções mentais, sensitivo, movimento, motor, corpo, atividade, ação, psicológico, maturidade, maturação, sistema nervoso, encéfalo, medula espinhal, educação, desenvolvimento, experiência individual, interação, contexto social, emoções, integração, esquema corporal, lateralidade, coordenação motora ampla, coordenação motora fina, orientação temporal, orientação espacial, coordenação global e coordenação óculo-manual, equilíbrio e tonicidade. 3 CONCEITOS FUNDAMENTAIS EM PSICOMOTRICIDADE Em suma, pode-se depreender que o intuito da psicomotricidade é encaminhar tanto o corpo quanto a motricidade para o centro do comportamento e da evolução humana (FONSECA, 2010). A seguir, elencamos os conceitos fundamentais em psico- motricidade. 3.1 CORPO Estrutura física da pessoa, a qual é a origem das aquisições orgânicas, afetivas e cognitivas. Possui um formato e extensão, e a imagem que a pessoa possui do próprio corpo influencia a sua personalidade. Assim, o corpo expressa a individualidade de cada sujeito. Além disso, é por meio do corpo que os indivíduos percebem a si próprios e o seu entorno (SACCHI; METZNER, 2019). 41 3.2 MOVIMENTO É o ato de mover, podendo envolver a mudança de posição ou de lugar e, até mesmo, um deslocamento. Portanto, está ligado à ação. No que tange à psicomotricidade, alguns exemplos de movimento são: correr, dançar, pular, desenhar, rasgar papel, levantar, abaixar, engatinhar, caminhar, realizar movimentos livres, subir e descer. Conforme Benetti et al. (2018), a execução de movimentos corporais é essencial para o desenvolvimento humano, isto é, conseguir ter coordenação e agilidade na realização de movimentos intencionais é fundamental para resolver inúmeras tarefas da vida adulta. 3.3 ATIVIDADE A atividade está relacionada com a força, o vigor. Pode ser um adjetivo empregado para caracterizar uma pessoa que é ativa. Por exemplo, estamos habituados a ouvir a expressão “atividade física”; pode-se dizer que fazer recortes com revistas equivale a uma atividade corporal fina. Além disso, em psicomotricidade existem as atividades psicomotoras. Na opinião de Sacchi e Metzner (2019), atividades podem ser cruciais para o desenvolvimento infantil – estudaremos sobre elas nas próximas unidades. 3.4 AÇÃO É gerada por uma força física. É um ato motor ou a execução de um movimento feito por um sujeito. A ação pode beneficiar tanto a descoberta quanto a exploração do ambiente físico. Por isso, Carvalho (2003) aponta que a ação sobre o real pode ser considerada uma motricidade de realização. 3.4.1 Motor É o que faz algo mover-se. Quando se refere ao corpo, envolve a atividade motora, portanto, abarca movimento muscular. Nos textos de psicomotricidade, apalavra motor, ou motora (que é sua forma feminina), costuma aparecer acompanhada de outras expressões, conforme vemos a seguir: repertório motor, desenvolvimento motor, desempenho motor, habilidades motoras, bases motoras, experiências motoras, perfil motor, classificação motoras, idade motora, atraso motor, distúrbios motores e execução motora (FERNANDES; DANTAS; MOURÃO-CARVALHAL, 2014). Também pode ser vista associada a outras palavras, como mostra Fonseca (2010): resposta motora, ato motor controlado, aprendizagem motora, produto motor, atividade motora e anomalias motoras ou, ainda, ação motora, como exemplificado por Moraes e Maluf (2015). 42 3.4.1.1 Funções motoras Kolyniak Filho (2010) faz menção às funções motoras superiores, que correspondem às formas designadamente humanas de movimento. Segundo Bretas et al. (2005), as funções motoras podem ser finas ou grossas. Mais adiante, veremos as diferenças entre elas. Segundo Okuda et al. (2011b, p. 354), crianças com TDAH apresentaram dificuldade na execução de atividades motoras finas como: prender tachinhas em cortiça, parafusar e oposição polegar-dedos; dificuldades em funções motoras sensoriais como: posição da mão, tato, diferenciar pontiagudo, estereognosia, grafoestesia e discriminação de dois pontos; e dificuldade em funções motoras perceptivas como abotoar, traçar e dar laço. Tais atividades motoras finas, sensoriais e perceptivas exigem preensão adequada, força e pressão graduadas e sincronização dos movimentos, exigindo alto grau de destreza e coordenação motora, necessária para a aquisição do grafismo. 3.4.1.2 Funções motrizes A palavra motor aceita duas formas femininas: motora e motriz. As funções motrizes são interligadas às funções mentais. Para Benetti et al. (2018), as funções motrizes são o objeto de estudo da psicomotricidade. Algumas das funções motrizes são: movimento, equilíbrio e coordenação. Note que o tônus muscular necessariamente se faz presente em todas elas. “Se o domínio da natureza é imemorial, e o controle do corpo é seu primeiro degrau [...]” (VAZ, 1999, p. 92). Em outras palavras, o autocontrole do próprio corpo pressupõe o pré-requisito para o autocontrole comportamental. 3.5 FUNÇÕES PERCEPTUAIS Dizem respeito à concentração, às memórias visuais, às memórias táteis, ao esquema corporal, ao ritmo, à discriminação entre lado esquerdo e direito, ao grafismo e à adaptação espacial (BRETAS et al., 2005). O desenvolvimento de algumas funções relacionadas à percepção, como: visão, consciência corporal, tato, sentido cinestésico, percepção de direção e do espaço e coordenação entre mão e olho, esta última é melhorada com a utilização das mãos, este é apenas um exemplo de como a função motora contribui, e muito, para o desenvolvimento perceptivo, daí a importância dessa função estar desenvolvida na população estudada (BRETAS et al., 2005, p. 407). Para Benetti et al. (2018), as funções perceptivas relacionam-se tanto com o desenvolvimento sensorial quanto com o intelectual e o motor. Assim, envolvem o recebimento de informações e, em seguida, a execução apropriada do ato de resposta. 43 3.5.1 Psicológico É pertencente ou relativo à psicologia, que, por sua vez, é, em linhas gerais, a ciência que se debruça sobre a mente, o comportamento e os processos mentais. Benetti et al. (2018) lembra de que a psicomotricidade faz parte da psicologia aplicada. A psicomotricidade explicita uma função complexa, envolvendo habilidade e comportamento especí- fico, que integra e combina aspectos motriculares e psicológicos relacionados a funções perceptivas, desenvolvimento sensorial, in- telectual e motor de recebimento de informações e execução ade- quada do ato de resposta (BENETTI et al., 2018, p. 590, grifo nosso). Para Carvalho (2003), as atividades que são realizadas com fins de educação motora precisam levar em conta os processos de desenvolvimento psicológico. 3.5.2 Psíquico É algo relacionado à alma, à mente ou à psique. Para Fernandes, Gutierres Filho e Rezende (2018, p. 705, grifo nosso), a esfera psíquica equivale ao “[...] espaço interior (continente psíquico), fundamental para a construção psicocorporal da criança”. Conforme Fonseca (2010), a mente seria a entidade que, além de interna, é inobservável e íntima. Assim, está atrelada ao campo dos sentimentos, das sensações, dos pensamentos, das imagens e, inclusive, dos movimentos (FONSECA, 2010). 3.5.3 Funções psíquicas Segundo Fonseca (2010), as funções psíquicas são: atenção, percepção, imagem, memória, integração, elaboração, planificação, antecipação, extrapolação, controle, processamento simultâneo e sequencial de dados internos e externos, simbolização, expressividade estética, artística. De qualquer forma, as funções psíquicas não são puramente físicas ou motoras, já que envolvem aspectos representacionais, centrais e psíquicos. Elas advêm da mente humana, porém interagem tanto com o ambiente externo quanto com o interno. 3.6 FUNÇÕES MENTAIS A maioria das pessoas sabe que o avanço das tecnologias, em termos de avalição neuropsicológica e neuroimagem, tem contribuído para uma ampliação do conhecimento acerca do encéfalo e, até mesmo, das funções mentais. Tanto que o córtex pré-frontal tem sido considerado o responsável por grande parte das funções mentais, talvez, inclusive, por todas elas (FONSECA, 2014). 44 Para Fonseca (2010), o funcionamento mental agasalha projeções, sensações, emoções, percepções, representações, entre outros. As funções mentais acarretam a noção de identidade individual e coletiva de cada pessoa. Portanto, conectam-se diretamente ao desenvolvimento, à socialização e à aprendizagem (FONSECA, 2010). As funções mentais ainda dizem respeito à consciência e à liberdade dos atos mentais. Consequentemente, envolvem os seguintes processos: atenção, planificação, processamento e autorregulação (FONSECA, 2010). 3.6.1 Emoções Estão diretamente vinculadas à motricidade, à afetividade e à cognição. Por isso, a emoção não pode ser levada em conta isoladamente; pelo contrário, sempre deve ser observada como integrada à inteligência, à motricidade, ao contexto social e, até mesmo, à sobrevivência da espécie humana. Isso porque as emoções interferem completamente no estabelecimento de vínculos básicos entre pessoas, além de serem fundamentais para a diferenciação entre os sujeitos e no conhecimento do real. Em suma, podemos dizer que a emoção é indispensável no tocante à relação do sujeito com o meio (ALEXANDROFF, 2012). É válido salientar que a afetividade é mais ampla do que a emoção. Por esse motivo, não devemos empregar as palavras “afetividade” e “emoção” como se tivessem o mesmo significado. A [...] a motricidade emocional, permite a reação às situações externas, utilizando-se de movimentos apropriados, auxiliando a criança no seu relacionamento com o meio físico e social. A [...] a sensibilidade emocional, permite conceituar o mundo físico internamente, através da representação, transformando-o conforme as necessidades do sujeito ou de seu grupo [...] A emoção é a fase mais arcaica do desenvolvimento. Ao sair do estado puramente orgânico, a pessoa é um ser emocional, no qual, lentamente, surge o racional. No início da vida, a afetividade e a inteligência estão misturadas, mas há predomínio do afetivo. Elas se alternarão e se influenciarão reciprocamente, ao longo do desenvolvimento infantil, pois a afetividade refluirá para dar espaço ao cognitivo e vice-versa. Assim, em cada período ou estágio do desenvolvimento haverá a preponderância e alternância de um destes aspectos. A emoção tem tanta importância no início da vida que, por meio dela, o corpo toma forma e consistência(ALEXANDROFF, 2012, p. 37, 39). Ainda, para Alexandroff (2012, p. 40), “pode-se afirmar que a emoção é visível, através das modificações que ocorrem na mímica e na expressão facial”. As emoções serão, portanto, sempre acompanhadas de reações neurovegetativas (aceleração do batimento cardíaco, mudança na respiração, secura na boca, perturbações digestivas) e expressivas (alterações na postura, na mímica facial, na forma de expressar os gestos). 45 “Por serem acompanhadas de modificações exteriores, as reações expressivas são altamente contagiosas e mobilizadoras do comportamento do outro” (ALEXANDROFF, 2012, p. 40), ou seja, as emoções alteram os movimentos que ocorrem, internamente, em diferentes órgãos ou sistemas do corpo humano, interferindo, por exemplo, no ritmo dos batimentos cardíacos. No mais, as emoções de uma pessoa incidem reflexos nas emoções de outras, com as quais interage. “A emoção, então, pode ser um obstáculo para a aprendizagem, mas pode também se tornar propulsora da escrita, como neste caso” (ALEXANDROFF, 2012, p. 54). 3.7 SISTEMA NERVOSO A principal função do sistema nervoso é possibilitar a adaptação do sujeito ao meio ambiente. O sistema nervoso central comporta as estruturas encefálicas, que, por sua vez, se relacionam tanto com as funções cognitivas quanto com o comportamento (RIBAS, 2006). “Durante a infância, em consequência do rápido desenvolvimento do sistema nervoso central, é fundamental que ocorra uma ampla e adequada variação dos estímulos ambientais, favorecendo assim o desenvolvimento motor, cognitivo e afetivo- social” (RÉ, 2011, p. 55, grifo nosso). 3.7.1 Encéfalo É formado por cérebro, cerebelo e tronco encefálico. Essas estruturas são essenciais para que uma pessoa permaneça viva (RODRIGUES; CIASCA, 2010). Até porque o tronco encefálico tem funções relacionadas aos batimentos cardíacos, à pressão arterial e à respiração, entre outras. Por isso, diz-se que o encéfalo é basilar para a vida, bem como tem sido considerado um dos órgãos mais responsáveis pelas faculdades intelectuais do ser humano. 3.7.2 Medula espinhal Conforme explica Kolyniak Filho (2010, p. 56, grifo nosso): A partir do nascimento, o bebê passa a relacionar-se com o mundo, inicialmente, exclusivamente por meio de movimentos reflexos (mo- vimentos que são controlados por uma ligação neurológica, que se dá na medula espinhal e, portanto, não passa pelo sistema nervoso central), como os de sucção, preensão, tônico-cervical e outros. 46 3.8 DESENVOLVIMENTO Segundo Ré (2011, p. 55-56), “O desenvolvimento humano emerge a partir da interação entre fatores biológicos e ambientais [...] Crescimento, maturação e desenvolvimento humano são processos altamente relacionados que ocorrem continuamente durante todo o ciclo de vida”. Para Sacchi e Metzner (2019, p. 100), “O desenvolvimento psicomotor requer o auxílio constante do professor por intermédio de diferentes estimulações, tornando possível à criança dominar o seu corpo e os comandos motores dentro do contexto social e afetivo em que vive”. Novamente, Ré (2011, p. 56) defende que “O processo de crescimento, maturação e desenvolvimento humano interfere diretamente nas relações afetivas, sociais e motoras dos jovens; consequentemente, é necessário adequar os estímulos ambientais em função desses fatores”. Por fim, Borges et al. (2010, p. 135) concluem que “Portanto, a partir de deter- minada época do desenvolvimento humano, faz-se necessária a integração da psico- motricidade e cognição para a realização dos movimentos e atividades mais elaboradas, como exercer um ofício ou uma função num posto de trabalho”. 3.8.1 Maturação Geralmente, essa palavra está vinculada aos fenômenos de ordem biológica e seu significado tem certa semelhança com a expressão “tornar maduro” ou “amadurar”. Na maioria das vezes, diz respeito à emadurecer determinadas funções ou sistemas, ou órgãos do corpo humano, como os órgãos sexuais, o sistema muscular e as funções metabólicas – nesse exemplo, a maturação sexual equivaleria ao momento do ciclo vital em que surgem as características sexuais secundárias (RÉ, 2011). “O processo de crescimento, maturação e desenvolvimento humano interfere diretamente nas relações afetivas, sociais e motoras dos jovens; consequentemente, é necessário adequar os estímulos ambientais em função desses fatores” (RÉ, 2011, p. 56, grifo nosso). Também podemos citar a maturação morfológica, que tem a ver com o crescimento do corpo e com a estatura. Já a maturação dental compreende o período em que os dentes de leite são substituídos pelos permanentes. A maturação dental e esquelética são mais fidedignas do que a sexual e a morfológica; entretanto, devido a sua complexidade, custo relati- vamente elevado e dificuldade de aplicação em larga escala, têm sido pouco utilizadas na área esportiva. Por esse motivo serão abordadas apenas a maturação sexual e a morfológica (RÉ, 2011, p. 60). 47 3.8.2 Maturidade Essa palavra pode ser usada como sinônimo para maturação em vários contextos. Também dá indícios do estado de como algo que está – por exemplo, Silva, Oliveira e Ciasca (2017) falam da maturidade perceptomotora e da maturidade visuomotora. Já Bretas et al. (2005, p. 405, grifo nosso) menciona a palavra imaturidade: “certa imaturidade da motricidade fina e das dissociações da mão, que acabam por registrar carência de ordem instrumental”. Quanto ao ritmo e concentração, observou-se um bom desempenho. Ao reproduzirem ritmo espontâneo, em relação ao ritmo codificado, mais da metade apresentaram boa performance, porém 40% apresentaram defasagem na persistência psicomotora. O ritmo varia mais ou menos de indivíduo para indivíduo, sob a influência de fatores como: percepção e reação, comprimento comparativo dos membros, temperamento e estado de ânimo momentâneo. A concentração, de modo geral, exige certa maturidade, os sentidos relevantes devem estar intactos, especialmente a visão e a audição. É importante que tal função esteja bem desenvolvida, pois a concentração é a base para o bom aproveitamento escolar e para aprendizagem de novas tarefas, entre outras coisas (BRETAS et al., 2005, p. 408, grifo nosso). 3.9 CONTEXTO SOCIAL De acordo com Sacchi e Metzner (2019, p. 100, grifo nosso), “O desenvolvimento psicomotor requer o auxílio constante do professor por intermédio de diferentes estimulações, tornando possível à criança dominar o seu corpo e os comandos motores dentro do contexto social e afetivo em que vive”. De modo semelhante, a consciência de que é na interação com o meio social e afetivo que o indivíduo avança no processo de aprender sobre o mundo e qualifica-se para atuar nele de forma planejada e eficiente, aumenta a responsabilidade dos que atuam como educadores - pais e profissionais (MORAES; MALUF, 2015, p. 89, grifo nosso). 3.9.1 Interação Para Chicon et al. (2019, p. 171, grifo nosso), “O homem se constitui nas relações sociais e, desde o seu nascimento, a sua inserção no mundo social propicia-lhe condições de desenvolver-se. No entanto, cabe ressaltar que nem todas as formas de interação podem fazer avançar esse desenvolvimento”. A partir do entendimento de que a criança se desenvolve no mundo a partir da interação social, das diversas relações que estabelecem com os outros, nos diferentes espaços da vida social em que se insere, este estudo buscou compreender os aspectos relacionais de uma criança com autismo com outros colegas em 48 situações de brincadeira. A análise permitiu apontar o papel crucial de outra criança e dos adultos no desenvolvimento do brincar de Jonas, menino com autismo, a possibilidade de compartilhamento de interesses e atenção durantebrincadeiras tradicionais, como “a galinha do vizinho”, e também a ação mediadora dos adultos no desenvolvimento potencial dessa criança durante a atividade lúdica, mesmo que tenha como uma de suas principais características a dificuldade na interação social [...] Na situação de brincadeira analisada, são fortes os indícios dos avanços de Jonas: a permanência na atividade por longo tempo; o acompanhamento de ações dos colegas por meio do olhar e de palmas no momento da música; o perseguir o colega no momento do pique, entre outros aspectos. Esse salto qualitativo que se observa no comportamento de Jonas e na interação com os colegas pode ser indício de uma capacidade de autocontrole do movimento e de algumas ações durante a brincadeira (CHICON et al., 2019, p. 174, grifo nosso). 3.9.2 Experiência individual Segundo Mori e Rey (2011, p. 107, grifo nosso), “Todo processo individual se configura através dos discursos, representações sociais e outras práticas da sociedade”. Os autores complementam que: Na sua produção, estão implicados tanto o individual quanto o social como sistemas que se articulam mutuamente. O sentido subjetivo não é uma reprodução linear de um tipo de comportamento ou emoção, mas uma produção singular da pessoa que está constituída pelo histórico (diferentes momentos da vida da pessoa no contexto da cultura) e o momento atual da história da pessoa (MORI; REY, 2011, p. 100, grifo nosso). Isso significa que, mesmo as experiências individuais, costumam ser alimenta- das por intermédio de processos sociais. Podem ser interações sociais realizadas ante- riormente, como vivências educativas, interações realizadas na internet ou a leitura de um material impresso – ainda que o autor do livro não esteja presencialmente com o leitor, foi ele quem propiciou o conteúdo com esse material. Além do mais, é pertinente destacar que diferentes elementos perpassam tanto a sua história individual quanto os aspectos sociais e culturais. 3.10 SENSITIVO Geralmente, essa palavra refere-se aos sentidos (tato, olfato, audição, visão e paladar) ou às sensações. Contudo, as pessoas são suscetíveis a ter um déficit sensitivo, o que pode acarretar alguma alteração da motricidade. Impressões sensoriais e impressões sensitivas são interligadas. 49 No sistema nervoso periférico, a lesão das vias sensitivas, cortando a via aferente, abole o arco reflexo elementar e determina alterações motoras: arrefletividade, A interrupção das vias longas ascendentes que conduzem, na medula, a sensibilidade profunda consciente, determina ataxia sensitiva que é, também, um distúrbio motor (LANGE; BITTENCOURT, 1944, p. 426). Para Anghinah (1976, p. 152, grifo nosso), “[...] todo movimento baseia-se na integração sensitivo-motora como um todo, e não em níveis superpostos, levando à dedução lógica de que qualquer tipo de alteração sensitiva afeta a integridade do movimento voluntário”. O autor ressalva que “Por outro lado, tanto o córtex sensitivo como o cerebelo contribuem para que a função motora seja normal e a lesão de um ou de ambos altera ou pode mesmo impedir a realização de movimentos voluntários” (ANGHINAH, 1976, p. 152). 3.10.1 Integração Essa palavra explicita a associação ou junção de distintos elementos. Por exemplo, Fonseca (2010) defende que é difícil dizer que determinados atos sejam simplesmente motores. Afinal, como já vimos, sempre há aspectos ecológicos, sociais, econômicos, familiares, emocionais, pessoais, cognitivos e vocacionais existentes em meio à psicomotricidade. Benetti et al. (2018) acrescenta a afetividade e o movimento ao conjunto de elementos característicos da psicomotricidade e da condição humana, em toda a sua complexidade. Assim, a palavra psicomotricidade englobaria tanto as questões motoras quanto as afetivas e cognitivas (SACCHI; METZNER, 2019). A mente humana não pode ser independente do corpo e do cérebro, sendo consequentemente impossível separar o mental do neuronal e o psíquico do motor, o que pressupõe compreender o desenvolvimento pessoal e social dum indivíduo, normal ou portador de disfunções psicomotoras, como o resultado de uma múltipla integração e interação entre o corpo (periferia) e o cérebro (centro) e os diversos ecossistemas que constituem o contexto sócio-histórico onde ele se insere e integra (FONSECA, 2010, p. 46, grifo do autor). Dessa maneira, além das condições orgânicas, existem fatores e subfatores dos âmbitos social, cultural, emocional, afetivo, psíquico, cognitivo, entre outros, por trás da origem da motricidade como expressão da subjetividade e da intencionalidade humana (FONSECA, 2010). Conforme Bretas et al. (2005, p. 408), “[...] a corporalidade sensório-motora indica um ponto de encontro entre vivência e experiência. Ponto de encontro que serve de base à inscrição de um sujeito sensório-motor que sente, age, aprende, conhece, e constituí, evolutivamente, um sujeito cognitivo na atividade sensoriomotora”. 50 3.11 EDUCAÇÃO Quando falamos de psicomotricidade, a palavra educação frequentemente concerne à educação psicomotora. O exercício da educação psicomotora [...] exige um engajamento mais amplo no sentido da compreensão de homem e na adoção de uma dada pedagogia. Não pode estar desvinculada, solta como meras atividades a serem executadas mecanicamente. Ademais, precisa ser fundamentada na compreensão dos processos de desenvolvimento psicológico (CARVALHO, 2003, p. 85, grifo nosso). Na perspectiva de Sacchi e Metzner (2019, p. 107) “[...] o pedagogo possui uma grande responsabilidade no desenvolvimento psicomotor das crianças, portanto, é fundamental que ele tenha conhecimento a respeito desse tema para que possa realizar atividades de forma intencional e comprometida com a formação integral dos alunos”. Benetti et al. (2018) também dão ênfase ao papel do professor em mediar situações de localização ou de movimento, em virtude das consequências de seu trabalho no desenvolvimento da criança. Recomenda-se que o professor preste atenção à idade das crianças, aos interesses dela e aos aspectos culturais. 3.12 ESQUEMA CORPORAL De acordo com Benetti et al. (2018, p. 596, grifo nosso): Esta função psicomotora é essencial também para a construção da personalidade da criança. O esquema corporal fundamenta-se principalmente em órgãos relacionados com a postura e as posições do corpo. As experiências com o próprio corpo por meio de músicas, brincadeiras, como engatinhar, andar, fazer movimentos livres são fundamentais para o desenvolvimento. Carvalho, Ciasca e Rodrigues (2015) revelam que o esquema corporal tem a ver com a imitação de postura e com a agilidade em realizar certos movimentos. Sacchi e Metzner (2019, p. 99) acrescentam que “[...] o esquema corporal é influenciado pela linguagem e pelas interações sociais, portanto, ele não integra apenas informações corporais, mas também afetos e conceitos”. 3.12.1 Lateralidade “Ao mesmo tempo, é importante para a adaptação espacial, a aquisição da consciência corporal e certo senso de lateralidade e direção; sentidos necessários para perceber alguma coisa como parte de si mesmo e estas representam pré-condições para a percepção do espaço” (BRETAS et al., 2005, p. 406, grifo nosso). 51 A lateralidade tem a ver com a preferência do uso de um lado do corpo – alguns se intitulam destros, outros são canhotos. Embora logo pensemos no uso das mãos, isso também pode se relacionar ao uso dos olhos e dos pés. Por exemplo, nos jogos de futebol, o narrador geralmente antecipa como poderá ser a cobrança de pênalti ou de falta, por conta da preferência do uso do pé de cada jogador (“ele costuma chutar com a direita”). “Possuir consciência corporal e certo senso de lateralidade e direção é necessário para perceberalguma coisa como parte de si mesmo, e estas representam pré-condições para a percepção do espaço” (BRETAS et al., 2005, p. 408, grifo nosso). Grande parte da população estudada apresentou dominância lateral definida. Ressalta-se a importância da aquisição da lateralidade, pois quando se tem dificuldade em distinguir o lado direito do esquerdo, a criança não entende o trânsito, não escreve bem e possui uma concepção incompleta da direção e do espaço. Desta forma, acarreta no futuro do indivíduo, dificuldade de orientação espacial e localização no mundo em que habita (BRETAS et al., 2005, p. 408, grifo nosso). 3.12.2 Coordenação motora ampla Relaciona-se à execução de atividades que requerem movimentos amplos, espaçosos. Para tanto, essa coordenação aciona os maiores grupos musculares do organismo. Com certa frequência, também é chamada de coordenação motora grossa ou coordenação global. Pode ser exemplificada com vários dos movimentos que observamos em esportes, bem como durante uma caminhada, ao correr ou saltar, escalar, subir e descer escadas, e rastejar (SACCHI; METZNER, 2019). Além de demandar a participação dos músculos maiores, exige a capacidade postural da pessoa (BENETTI et al., 2018). Muitas crianças já chegam à educação infantil apresentando certo domínio da coordenação motora ampla, porém outras apresentam mais dificuldades, cabendo ao professor avaliar as aquisições ante- riores, devendo observar a relação entre postura e controle do corpo, corrigindo, caso necessário (BENETTI et al., 2018, p. 599). 3.12.3 Coordenação motora fina Boa parte das ações que exemplificam a coordenação motora fina requer maior precisão e ligeireza de movimentos, sobretudo das mãos, como recortar papel, escrever (SACCHI; METZNER, 2019), dar nós em barbantes, riscar percursos em labirintos impressos ou em tabuleiro, e realizar movimentos circulares com os polegares (OKUDA et al., 2011a). Benetti et al. (2018) explicam que as vivências de lançar e pegar objetos contribuem para o desenvolvimento dos movimentos manuais necessários ao ato de escrever. 52 Em um estudo sobre a coordenação motora fina de escolares com dislexia e transtorno do déficit de atenção e hiperatividade (OKUDA et al., 2011a), obteve-se como resultado: [...] concluímos que tanto os escolares com dislexia como os com TDAH deste estudo apresentam atrasos na coordenação motora fina, demonstrando que os participantes desta pesquisa apresentam dificuldades em atividades que exijam destreza, quadro característico do transtorno do desenvolvimento da coordenação (OKUDA et al., 2011a, p. 876). De acordo com o estudo, um dos instrumentos utilizados para avaliar essas habilidades foi: a Prova de motricidade fina da Escala de Desenvolvimento Motor [...]. Foram aplicadas as seguintes provas de motricidade fina: cubos em torre, cubos em ponte, agulha, nó, labirinto, bolinha de papel, ponta do polegar, lançar uma bola, círculo com polegar e agarrar uma bola. Os materiais utilizados para a aplicação deste procedimento foram: bola, cubos, cesto com buraco e pedaços de papel, conforme descrito no manual de aplicação do procedimento (OKUDA et al., 2011a, p. 878). 3.12.4 Coordenação óculo-manual Envolve a relação entre os movimentos oculares e os manuais. Eles são acionados, por exemplo, no ato de digitar um texto no computador ou copiar um texto no papel. Ferreira, Martine e Ciasca (2010) afirmam que o ato de ler requer coordenação ocular, e que a coordenação óculo-manual abrange a dominância manual, bem como a dominância ocular. No artigo de Souza e Capellini (2011), é possível notar que a função percepto- visomotora reivindica um conjunto de habilidades como a planificação motora e cog- nitiva. Além disso, tal função também solicita um conjunto de habilidades perceptuais visuais, entre as quais a coordenação óculo-manual está incluída. Ao estudar sobre neurofisiologia, geralmente, aprendemos sobre o sistema vestibular, também chamado de labirinto, o qual faz parte do nosso sistema nervoso e faz o controle dos movimentos dos olhos (NOVALO et al., 2007). 3.12.5 Orientação espacial Ao estudar o sistema nervoso, pode-se entender que o sistema vestibular também está ligado à percepção espacial (NOVALO et al., 2007). 53 A adaptação espacial é parte integrante de nossa vida; aliás, é difícil dissociar os três elementos fundamentais da Psicomotricidade: corpo, espaço e tempo, e quando operamos com toda esta dissociação, limitamo-nos a um aspecto bem preciso e restrito da realidade. É através do sentido cinestésico que as distâncias podem ser avaliadas pelo movimento, uma vez que diferentes distâncias precisam ser atravessadas para atingir diferentes objetivos. A noção do tempo, por sua vez, determina a velocidade imprimida para cobrir uma longa ou curta distância. Ao mesmo tempo, é importante para a adaptação espacial, a aquisição da consciência corporal e certo senso de lateralidade e direção; sentidos necessários para perceber alguma coisa como parte de si mesmo e estas representam pré-condições para a percepção do espaço (BRETAS et al., 2005, p. 406, grifo nosso). “Portanto, é de extrema importância que seja realizado o diagnóstico das afecções vestibulares, da forma mais precoce possível, para que o tratamento/ reabilitação seja iniciado rapidamente e sintomas como a desorientação espacial, não influenciem futuras aprendizagens da criança” (NOVALO et al., 2007, p. 529, grifo nosso). Ao analisar o excerto do artigo escrito por Aguiar e Pedrosa (2009, p. 410, grifo nosso), observa-se que a orientação espacial pode ser desenvolvida a partir de alguns métodos e atividades lúdicas: “Além de aprendizagens concernentes à localização e à orientação espacial, essa atividade lúdica proporcionou a oportunidade de aquisição de noções de outros campos conceituais, estreitamente relacionados ao de espaço: tempo, peso, força e estimativa de distâncias”. Por fim, Carvalho, Ciasca e Rodrigues (2015) destacam que a organização espacial está diretamente ligada à noção de percepção do espaço. 3.13 ORIENTAÇÃO TEMPORAL É construída a partir da percepção temporal. Abrange a percepção de ritmos; durabilidade de certos sons; intervalos; continuidade; existência, ao mesmo tempo, de duas ou mais ações, coisas ou fatos; e sucessão (BENETTI et al., 2018). Carvalho, Ciasca e Rodrigues (2015) acrescentam que a organização temporal está conectada à linguagem. Ao que tudo indica, as estruturas temporais são destacáveis nesse processo. 3.13.1 Equilíbrio Algumas palavras sinônimas de equilíbrio são: estabilidade, constância, imobilidade, firmeza e inalterabilidade. Novamente, o sistema vestibular do sistema nervoso está envolvido, já que o vestibular visa a alcançar e conservar o equilíbrio corporal (NOVALO et al., 2007). 54 Para Carvalho, Ciasca e Rodrigues (2015), o equilíbrio pressupõe a postura estática. Benetti et al. (2018) acrescentam que o desenvolvimento do equilíbrio é condição basilar para que o sujeito consiga executar vários dos movimentos coordenados. 3.13.2 Tonicidade “Tonicidade, definida como estado de tensão (contração) básica dos músculos, que possibilita o acionamento de um músculo ou grupo muscular” (KOLYNIAK FILHO, 2010, p. 61, grifo do autor). Na ansiedade, também há aumento de tonicidade. Ela pode se escoar através de uma atividade corpórea, que, muitas vezes, se manifesta num ativismo desordenado. No entanto, se a ansiedade ficar retida por muito tempo, pode gerar desconforto e problemas. O medo diante de uma situação de perigo pode causar, ao contrário do ictus, o raptus, em que o excesso de tonicidade permite precisão de movimentos, permitindo uma fuga [...] Todavia,a emoção não tem sempre este caráter explosivo, imprevisível e anárquico, pois ela está presente quando a criança participa dos jogos interacionais (jogos de esconde-esconde, de bater e receber), em que há espera, aumento de tonicidade e um medo hipertônico, mas como há previsão do que irá acontecer, a tonicidade vai se escoando através do próprio jogo. Só poderá se transformar em cólera se houver uma intercorrência não esperada ou se houver um excesso de brincadeira e o consequente cansaço (ALEXANDROFF, 2012, p. 43, grifo nosso). 4 CONSIDERAÇÕES FINAIS A psicomotricidade possui vários conceitos basilares, não é mesmo? Foi possível notar que algumas expressões e, até mesmo, frases ou parágrafos se repetiram. Ocorre que os elementos são tão ligados um ao outro, a união deles tem tamanha proximidade, que é até difícil tentar explicar cada um deles sem se tornar algo repetitivo. Você notou que a palavra aprendizagem marcou presença em algumas linhas do tema tonicidade? Isso aconteceu porque a aprendizagem, sobretudo no ambiente educacional, demanda que a criança apresente a psicomotricidade integrada, com os elementos psicomotores organizados. NOTA 55 É possível que, com a leitura de um tópico tão extenso, você esteja se sentindo cansado ou, até mesmo, com a sensação de que recebeu um bombardeio de informações. Não se preocupe, pois grande parte desses conceitos serão discutidos novamente nas próximas unidades, a fim de proporcionar uma melhor compreensão sobre os temas. A seguir, apresentamos uma leitura complementar, selecionada para retomar vários dos temas vistos até aqui, bem como para propiciar subsídios para alguns assuntos a serem aprendidos nas próximas unidades. 56 LEITURA COMPLEMENTAR PSICOMOTRICIDADE, JOGO E CORPO-EM-RELAÇÃO: CONTRIBUIÇÕES PARA A INTERVENÇÃO Jorge Manuel Gomes de Azevedo Fernandes Paulo José Barbosa Gutierres Filho Alexandre Luiz Gonçalves de Rezende INTRODUÇÃO Numa intervenção psicomotora realizada por profissionais da área da saúde, existe uma constante interação entre o motor e o psíquico, entre a mente e o corpo, a partir da qual se estrutura o desenvolvimento psicomotor. Essa dialética é reforçada por Fonseca (2010), quando afirma que a psicomotricidade está enquadrada num campo multidisciplinar, que estuda as relações e as influências recíprocas e sistêmicas entre o psiquismo e a motricidade. Não pode existir clivagem entre corpo e psiquismo, mas, se existir, essa separação será artificial, o que leva Golse (2002) a considerá-la como a principal inimiga do desenvolvimento da criança. A dimensão motora é indissociável da energia psíquica, ou seja, é inseparável do pensamento que expressa a intencionalidade de cada movimento (ideomotricidade), assim como, das emoções. A psicomotricidade é, portanto, decorrente de uma integração gnosicopráxica e tonicoemocional, isto é, da associação existente entre o movimento corporal e as expressões imaginário-simbólicas que dão significado ao corpo, na sua relação dialética com os outros e com os objetos (POTEL, 2020). A intervenção psicomotora implica uma observação, ou seja, a existência de um espaço de escuta do corpo, em que as manifestações conscientes ou inconscientes dos desejos, vontades e necessidades da criança se expressam corporalmente por tônus, gestos, movimentos e diferentes formas de brincar (LIMA; FERNANDES; ARAÚJO, 2015). Essas manifestações estão centradas num paradigma de transposição, que investe na gestão de um ir e vir, entre o interno e o externo, com atividades marcadas pelo agir e reagir, que responde tanto às necessidades internas, como às solicitações externas. Desse modo, o terapeuta olha para o corpo de forma holística, ou seja, para um corpo que se move de um lado para o outro e, também, para um corpo ornado com símbolos, que se comunica com os outros, envolvendo a função e a relação (FERNANDES, 2012; 2015). O corpo que se conhece por meio das sensações provenientes da pele, dos fusos neuromusculares e dos órgãos tendinosos de Golgi, ou o corpo que se expressa e 57 transmite emoções e afetos, formam uma unidade indissociável. Por isso, existe um corpo que age e reage, um corpo real e imaginário (SAMI-ALI, 1998), que é espaço de passagem da comunicação, da relação e da vida psíquica (GATACEL, 2009). Nesse enquadramento da psicomotricidade, Fernandes (2012) destaca a importância dessa práxis, na ajuda ao desenvolvimento da criança, por esta envolver tanto a possibilidade de melhorar a coordenação motora (real-funcional) como a de aumentar a capacidade criativa numa contínua descoberta do que está para além de si mesma (imaginário- relacional). Na intervenção psicomotora, solicita-se uma meta atividade corporal, no sentido de transcender a atividade do corpo real e ir além do corpo que se conhece e que se move. Se não existir essa transcendência, a atividade corporal ficará associada apenas a um corpo voltado para ele próprio, com o objetivo de melhorar a performance física. A atividade corporal, nessa intervenção terapêutica, deve incluir uma nova dimensão, ou seja, um espaço de atuação que necessariamente abrange o simbolismo vivido pela criança, expresso no seu corpo e pelo seu corpo, que é concomitantemente funcional e relacional (POTEL, 2010; BOUTINAULD et al., 2014). Assim, esse simbolismo torna-se um quadro vivo da sua própria história, em que o corpo se move e se expressa, com referências ao passado, presente e futuro. Não constatamos apenas a existência de um corpo real, mas também a repre- sentação de um corpo imaginário. O corpo não se reduz ao real porque mediatiza todo o mundo imaginário do sujeito (SAMI-ALI, 1998). Essa dimensão – o imaginário – expres- sa os desejos, as vontades, os (des)prazeres, por meio de metáforas corporais durante o jogo-em-relação, desde que exista uma relação empática vivenciada entre a criança e o outro, por uma ressonância tonicoemocional recíproca e empática (AUCOUTURIER, 2010) que se estabelece entre o terapeuta e a criança. A importância da relação de mediação corporal, na intervenção psicomotora, foi apresentada por Ajuriaguerra (1962), ao referir que é através da relação que se estabelece com o outro, com um corpo-em-relação, que a criança adquire a consciência de si e o sentimento de ser e estar. Por sua vez, Joly (2010) considera que esta práxis se operacionaliza por intermédio de uma motricidade lúdica em relação. É, nesse sentido, que a relação está associada ao jogo, como um dos principais mediadores em psicomotricidade e, por isso, considerado como jogo-em-relação. De acordo com o exposto, este ensaio apresenta um texto que expressa a centralidade da dimensão lúdica do corpo-em-relação, embasado em conceitos que se agrupam em torno de uma intencionalidade dialética entre função e relação. Pretendemos, através de uma exposição de ideias, que se fundamentam em diferentes áreas do conhecimento, apresentar a gênese do jogo-em-relação e algumas linhas orientadoras para que os profissionais da área da saúde (psicomotricistas, terapeutas ocupacionais etc.), que pretendem atuar nesse âmbito, o utilizem como mediador de intervenção. 58 O saber-teórico da psicomotricidade e o saber-fazer intervenção psicomotora, apresentados neste ensaio, produzem um conhecimento necessário e fundamental para os psicomotricista; no entanto, existem outros terapeutas que também utilizam como mediadores de intervenção o corpo e o jogo, que é o caso dos terapeutas ocupacionais (TO). O jogo é um dos instrumentos de intervenção em psicomotricidade? O jogo é um dos instrumentos de intervenção em terapia ocupacional? Para ambas as perguntas, a resposta é sim. Por isso, as noções apresentadas são fundamentais para os psicomotricistas, terapeutas ocupacionais, ou qualquer outro profissional que utilize o jogo como mediador deintervenção na ajuda ao desenvolvimento, profilática ou terapêutica, na criança. Existem noções idênticas e transversais para diferentes áreas de intervenção, mesmo que estas apresentem uma identidade própria, objetivos e formas de intervenção diferenciadas. As intervenções terapêuticas sustentam-se cada vez mais em conhecimentos multidisciplinares e é neste sentido que os saberes de diferentes áreas, ao serem partilhados, permitem criar novos espaços de reflexão, de prática e experimentação. Psicomotricidade e Jogo-em-relação A psicomotricidade não é uma teoria em si, mas uma práxis, que tem como referência principal o corpo em toda a sua complexidade (existencial, expressiva, emocional, identitária) e que se integra nas teorias que envolvem o ser humano (CICCONE et al., 2007). A intervenção psicomotora é uma práxis de mediação corporal, porque, pela sua especificidade, intervém com o corpo em relação, como se existisse um corpo entre dois, como se existisse um terceiro, entre o adulto e a criança. Isso porque existe como que uma reativação no presente das necessidades, emoções ou expectativas que a criança construiu nas relações que estabeleceu com a mãe, o pai e os irmãos, no passado. Existe como que “[...] une expérience a mínima que porte en elle les germes d’une émotion inmense, parce que réactivant les traces contenues dans la mémoire du corps” (POTEL, 2015, p. 113). Assim, a criança se expressa através de metáforas corporais quando joga de forma espontânea, revivenciando a relação com um Outro, neste caso um terceiro, mas atualizado na imagem de autoridade do adulto; nominamos essa relação de jogo-em- relação. No entanto, não nos devemos fixar no passado, ou seja, no que a criança já vivenciou, mas sim no presente em que se estabelece uma relação atual, aproveitando as capacidades e qualidades funcionais e relacionais da criança. Deve-se proporcionar – e como refere Coimbra de Matos (2016) – o estabelecimento de uma relação sã, sanígena e desenvolutiva com o outro, o mundo e ela própria. Por tudo isto e seguindo os princípios definidos por Ajuriaguerra (1962), o jogo tem de ser sempre relacional, o que não significa, porém, que seja um tudo psíquico. O tudo psíquico não deve ser apanágio da psicomotricidade (CICCONE et al., 2007). A existência da relação corpo-psiquismo não quer dizer que se considerem todas as 59 manifestações corporais como expressão de uma problemática intrapsíquica. Também não devemos estar centrados apenas no desenvolvimento neuromotor, na procura da performance física ou na especialização do movimento pelo treino exclusivo das funções anatomofisiológicas. A psicomotricidade não é uma “orthopedagogie” (JOLY, 2014), pois o modelo de intervenção psicomotora envolve uma abordagem global, lúdica e mediatizada, corpóreo-psíquica, do ser-em-relação. Essas noções são fundamentais para os psicomotricistas, terapeutas ocupacionais ou para qualquer profissional que queira utilizar o jogo como alavanca para o desenvolvimento infantil, de forma a potencializar não somente a sua funcionalidade, mas também as capacidades tonicoemocionais e psicoafetivas. Uma terapia com objetivos psicomotores tem de estruturar-se sobre esta dupla negação. Por quê? Porque uma prática centrada apenas no corpo real corre o risco de se tornar uma ortopedagogia do corpo e uma prática centrada apenas no corpo imaginário corre o risco de provocar uma maior separação entre a função e a relação. Como refere Fernandes (2012; 2015), a intervenção psicomotora deve perspectivar tanto a aquisição de habilidades motoras em um fundo tônico emocional e relacional, como também o desenvolvimento de capacidades relacionais, simbólicas e emocionais em um fundo de vivências motoras. É necessário pensar, conhecer e integrar uma psicomotricidade sem divisões que, por natureza própria, não é nem apenas funcional, nem apenas relacional (CALZA; CONTANT; MOYANO, 2007). Por isso, o jogo-em-relação proporciona à criança estímulos que têm um papel estratégico no processo de consciência do próprio corpo, na aquisição da verticalidade que lhe permite tomar consciência da noção do espaço interior e na descoberta progres- siva do Eu, ao mesmo tempo em que descobre a realidade do espaço exterior (JARICOT, 2006). Assim, tanto as vivências sensoriomotoras associadas à realização do jogo-em-re- lação, como o papel do envelope sensoriomotor na construção do eixo corporal – como o desenvolvimento das representações e emoções pela solicitação do corpo real (função) e imaginário (relação) – fundamentam o desenvolvimento neurocognitivomotor e o desen- volvimento psicoafetivocorporal da criança (BULLINGER, 2011). Durante o jogo-em-relação (livre e espontâneo), a criança desenvolve e cria atividades de acordo com as suas necessidades psicoafetivas e emocionais, como construir uma casa com os tecidos, colchões e blocos de espuma, em que se deita e se envolve com tecidos para experimentar uma sensação de tranquilidade, ou correr por toda a sala com um bastão na mão como se fosse um guerreiro para afirmar a sua identidade, ou lançar bolas para os colegas na tentativa em estabelecer um elo de comunicação. Como refere Winnicott (1971), essas formas de jogar são equivalentes à capacidade de a criança representar e criar. No entanto, é fundamental relembrar a necessidade da relação ser uma relação de qualidade, que Coimbra de Matos (2016, p. 6) descreve como “[...] relação de confiança – segura e fiável, responsiva e previsível –, de intimidade afetiva – que toca o âmago dos parceiros e por isso perdura para além dos encontros presenciais, deixa rastro, e cria expectativas, constrói futuro”. 60 Por essa razão, o terapeuta deve participar dos jogos de imaginação da criança, aprender a escutá-la, receber o que ela oferece, estar disponível para ser e estar com ela, e utilizar a sua criatividade para sugerir a inclusão de novos elementos lúdicos. A sua presença atenta e participativa no jogo proposto pela criança permite que ela experimente a capacidade de ser autônoma, de ser eficaz e ter confiança em si própria; e, se lhe for permitido realizar o que deseja e o que gosta de fazer, sentir-se-á valorizada e competente nas atividades que realiza. O jogo livre é fundamental para o desenvolvimento do pensamento, pois a criança, ao ter liberdade de fazer o que deseja, pensa nas funções que gostaria de dar aos objetos, o que permite desenvolver a capacidade em criar, recriar e, simultaneamente, ter o prazer em decidir e pensar. Por meio dessa relação dialética, pela qual o adulto deixa fluir o desejo da criança, o jogo psicomotor abre caminho para a construção de uma relação afetiva em que a criança reconhece o outro como par. Quando a criança parte do seu desejo, tendo ela a iniciativa e o outro lhe serve de par, abre-se espaço para uma relação empática que concede ao adulto o direito de assumir, aos poucos, a iniciativa dentro do jogo e, posteriormente, a proposição de novos jogos. Assim, é através da atitude relacional do terapeuta e da sua função de espelho tônico- emocional tranquilizador e não culpabilizante, que a prática psicomotora se torna efetiva e producente (MIRA; FERNANDES, 2015), ou seja, por uma transmissão verbal ou corporal contentora que, de acordo com o que a criança expressa tônico emocionalmente, vai ao encontro do que ela necessita naquele momento. O terapeuta deve desempenhar a função de Eu-auxiliar e companheiro de jogo da criança. Uma das estratégias para implementar esta relação é estar sempre disponível para as diferenças, especificidades e peculiaridades da criança (GUTIERRES FILHO, 2012), e atuar de forma empática; voltando a parafrasear Coimbra de Matos (2016), pelo estabelecimentode uma relação sadia e saudável. Dessa forma, as sensações, ao serem emocionalmente partilhadas, podem ser mais bem integradas, percebidas e representadas, o que ajuda a criança a dar sentido ao que vivencia. O que pretendemos referir é que o terapeuta não pode ficar na inconsciência da relação (comunicação), mas em um parentesco relacional (comunicativo) com a criança, em que este não é o agente nem a criança a agida; o que se pretende é que ambos sejam uma coisa e outra, e construam uma comunidade de sentimentos e emoções que permitam a transformação e o desenvolvimento (MIRA; FERNANDES, 2015). CONSIDERAÇÕES FINAIS Após as cogitações apresentadas e para o encerramento deste ensaio – que, de forma indelével, envolve o paradigma dualidade vs. dialética entre função e relação –, apresentamos algumas linhas orientadoras que permitem equacionar o jogo-em- relação como mediador de intervenção terapêutica: 61 • o jogo deve supor sempre uma relação com o objeto, o outro, o espaço e o tempo. Isso pressupõe um espaço potencial de jogo, o qual permite o desenvolvimento da criatividade e não apenas a simples manipulação de objetos; • a criança deve vivenciar, de forma livre e espontânea, o prazer de jogar, correr, saltar, gritar, desempenhar o papel de um outro, enquanto pensa, espera, observa e explora; também deve realizar atividades e construções com bolas, blocos de espuma, tecidos, cordas, bastões e, sempre que desejar, ter a liberdade de destruir e voltar a construir, de realizar e não realizar, para que possa desenvolver o sentimento de ser; • a criança, ao jogar, deve estar livre, sentir prazer em utilizar o seu corpo real e vivenciar livremente experiências ilusórias que expressa através do corpo imaginário, pois, como refere Golse (2002), o jogo é um espaço de narração e liberdade; • o terapeuta deve ter um olhar participativo para o jogo livre e espontâneo, o jogo- em-relação, que é o meio, por excelência, para solicitar as funções gnosicopráxicas, as funções imaginárias simbólicas e o prazer de criar agindo, o que permite, à criança, a aquisição da sua identidade e do sentimento em ser e existir. Constatamos que existe um conjunto de conhecimentos, expressos nes- tas quatro alíneas orientadoras, que permitem justificar e enquadrar o jogo-em-rela- ção numa prática terapêutica que solicita o corpo real e o corpo imaginário, necessários à estruturação e ao desenvolvimento psicomotor e psicocorporal. Albergamos, neste texto, um conjunto de ideias que permitem aos terapeutas, independentemente de serem psicomotricistas, terapeutas ocupacionais ou outros profissionais, refletir sobre a forma de solicitar o corpo funcional e a sensorialidade para favorecer os processos de integração psíquica, ao utilizarem o jogo como mediador da sua intervenção. Entre as diretrizes apresentadas, as mais relevantes estão associadas à forma como as vivências corporais, sensoriais, gnosicopráxicas, lúdicas e cinestésicas devem ser vividas e partilhadas, em um espaço contentor, através de uma relação tonicoemocional empática entre o terapeuta e a criança. Como última consideração, referimos a necessidade de se solicitar sempre o corpo real associado à funcionalidade e o corpo imaginário associado aos desejos, vontades e prazeres da criança, que se expressam através de metáforas durante o jogo-em-relação. Por isso, não devemos centrar a intervenção ou só na função ou só na relação. Assim, este jogo-em-relação permite, ao terapeuta, ajudar a criança a (re)habitar o seu corpo, ao processar tanto as informações sensório-motoras como as tônico-emocionais, ambas necessárias à (re)construção do seu esquema corporal, imagem corporal, imagem de si e à promoção da sua identidade. FONTE: Adaptado de FERNANDES, J. M. G. de A.; GUTIERRES FILHO, P. J. B.; REZENDE, A. L. G. de. Psicomotricidade, jogo e corpo-em-relação: contribuições para a intervenção. Cad. Bras. Ter. Ocup., v. 26, n. 3, p. 702-709, jul. 2018. Disponível em: https://www.scielo.br/pdf/cadbto/v26n3/2526-8910- cadbto-26-03-00702.pdf. Acesso em: 18 jan. 2021. 62 Neste tópico, você aprendeu: • A psicomotricidade possui diversos conceitos fundamentais interligados e inter- relacionados. • Alguns dos conceitos centrais da psicomotricidade são: funções motoras, funções motrizes, funções psíquicas, funções mentais, sensitivo, movimento, motor, corpo, atividade, ação, psicológico, maturidade, maturação, sistema nervoso, encéfalo, medula espinhal, educação, desenvolvimento, experiência individual, interação, contexto social, emoções, integração, esquema corporal, lateralidade, coordenação motora ampla, coordenação motora fina, orientação temporal, orientação espacial, coordenação global, coordenação óculo-manual, equilíbrio e tonicidade. RESUMO DO TÓPICO 3 63 AUTOATIVIDADE 1 A palavra integrada apareceu com frequência nos Tópicos 1 e 2. Que tal fazer um mapa mental sobre o que foi estudado, dando ênfase à parte integrada? Se você não sabe o que é um mapa mental ou acha que não sabe como construir um, indicamos o seguinte site, que traz várias dicas sobre esse tema: https://www.mapamental.org/ dicas/o-que-e-mapa-mental/. FONTE: A autora 2 Com base na leitura complementar deste tópico, quais foram os pontos que mais chamaram a sua atenção no que se refere à psicomotricidade? Justifique sua resposta. funções motoras / motrizes desenvolvimento funções psíquicas / mentais contexto social • interação • educação • biológico • psicológico • maturação • emoções • efetividade • ação • motor • atividade 64 65 REFERÊNCIAS ABREU, L. C. et al. A epistemologia genética de Piaget e o construtivismo. Rev. Bras. Crescimento Desenvolvimento Hum., São Paulo, v. 20, n. 2, p. 361-366, 2010. Disponível em: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/rbcdh/v20n2/18.pdf. Acesso em: 21 ago. 2020. AGUIAR, M. C. A.; PEDROSA, M. I. P. C. Desenvolvimento do conceito de espaço em crianças e a educação infantil. 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TÓPICO 1 – ESPECIFICIDADE DA PSICOMOTRICIDADE TÓPICO 2 – O CONHECIMENTO NAS ÁREAS DE INTERVENÇÃO PROFISSIONAL: EDUCAÇÃO TÓPICO 3 – O CONHECIMENTO NAS ÁREAS DE INTERVENÇÃO PROFISSIONAL CLÍNICA TÓPICO 4 – RELAÇÕES DA PSICOMOTRICIDADE COM OUTRAS FORMAS DE INTERVENÇÃO Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 72 CONFIRA A TRILHA DA UNIDADE 2! Acesse o QR Code abaixo: 73 TÓPICO 1 — ESPECIFICIDADES DA PSICOMOTRICIDADE UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Neste tópico, apresentaremos as especificidades da psicomotricidade. Em outras palavras, descobriremos juntos sobre as características que são exclusivas à psicomotricidade. Você já tem alguns palpites sobre o que a torna diferente das outras tantas “psicos” que existem? Quais são as peculiaridades da psicomotricidade e o que a torna uma ciência tão especial? Antes de dar continuidade à leitura, que tal explorar, no caça-palavras, a seguir, algumas palavras que começam com “psico”. Será que você consegue achar a palavra psicomotricidade? Há, no total, 13 palavras que começam com “psico” – mas, não se preocupe, apresentaremos a resposta completa dessa atividade no fim deste tópico. FONTE: A autora DICA P S I C O F A R M A C O L O G I A M E P S I C O T É C N I C O O T P P T P S I C O D I N Â M I C A R S P S P S I C O S S O M Á T I C A I M S I R I C A M M O R T I D M I C P S I C O M O T R I C I D A D E O S S O C O C I L E T E D A D I C D I M I I O P D A O T P M T M D A I C T R C M P A D E G R D R O C D Á O R O T O C E T I C I I E T O E G D I C I R T I D A I S A A E R I N R C D A I R E T A C M O A D D C O A E I D D D T R R G E T D A C I S M D E A P E O M A I O D I D T R T A M O I C M I D E P D G A R M O I O P S I C O M E T R I A I D I P C T T A D R I O A D D A A E A O C O P S I C O L I N G U Í S T I C A D 74 Essa atividade é interessante, pois exemplifica que existem muitas palavras que iniciam com esse prefixo/radical – e a psicomotricidade é uma delas. Nossa missão, ao longo deste tópico, é tornar compreensível o que a difere das demais “psicos”. 2 A PSICOMOTRICIDADE E SUAS ESPECIFICIDADES Na Unidade 1, vimos que o radical “psico” significa alma e espírito, e que é de origem grega. Frequentemente, no início dos estudos sobre a psicomotricidade, os acadêmicos têm muito forte a noção de que ela diz respeito ao corpo, aos movimentos, mas sempre precisamos destacar que, além disso, assim como todas as outras áreas e palavras que possuem “psico”, a psicomotricidade também faz menção à alma, ao espírito ou à mente. É válido esclarecer que, para as psicologias, o significado da palavra psicologia nem sempre é bem representado por “estudo da alma”. Afinal, a palavra alma é mais comum nos discursos de âmbito religioso/espiritual, e não no meio científico. Além do mais, o objeto de estudo da psicologia não parece ser o mesmo para todas as abordagens da área ou daquelas próximas à psicologia. A psicanálise, por exemplo, enfatiza o inconsciente, ao passo que a abordagem cognitiva comportamental sequer trabalha com essa categoria. Parece não existir um consenso sobre o significado atual da palavra psicologia ou o objeto de estudo da psicologia, como aponta o excerto a seguir: A Psicologia é definida habitualmente como ciência do comporta- mento, mas necessita uma revisão de seus pressupostos. Há difi- culdades na própria definição de comportamento e ela representa o predomínio das correntes neopositivistas e materialistas. Isto le- vou as disciplinas ou escolas psicológicas que tratavam a questão dentro do âmbito de uma psicologia introspectiva e subjetiva ou da alma a se afastarem, gerando vazios e contradições, presentes no campo teórico, profissional, acadêmico e de formação. Ao ignorar o enfoque da subjetividade, considerando a ciência positiva como a verdade da psique, ela tornou-se prisioneira do mito ou ideologia do cientificismo. Deve-se então recuperar o sentido da psicologia como estudo da alma ou da subjetividade, havendo necessidade de um discurso simbólico e subjetivo complementando o racional e obje- tivo. O termo “alma” pode ser visto como uma metáfora da psique e os diversos discursos ou disciplinas psicológicas seriam explorações desta metáfora permitindo ampliar sua expressão e compreensão (SERBENA; RAFFAELLI, 2003,p. 31). Nesse caso, surgem como dúvida: se todas as palavras com o radical “psico” se referem, de certa forma, à alma, ao espírito ou à subjetividade, quais são as diferenças entre elas? Ou pelo menos, o que a psicomotricidade tem de diferente? 75 Segundo o portal da internet Guia da Carreira: Psicomotricidade é a ciência que busca entender os aspectos emocionais, cognitivos e motores nas diversas etapas da vida do ser humano. O ponto de partida é uma visão global pessoa e busca entender especialmente três aspectos: o movimento do corpo, o desenvolvimento intelectual e o lado afetivo e emocional. FONTE: <https://www.guiadacarreira.com.br/carreira/psicomotricidade/>. Acesso em: 19 set. 2020. NOTA Para Fonseca (2010), pode-se dizer que a psicomotricidade é, entre outras coisas, um sistema conceitual, que leva em consideração vários componentes, além das experiências e dos dessemelhantes contextos. Possivelmente, surge a curiosidade sobre quais seriam esses vários compo- nentes. Fonseca (2010) esclarece que a psicomotricidade busca integrar contribuições advindas de distintas áreas do saber, como: • Ciências Biológicas. • Ciências Humanas. • Ciências Sociais. Isso quer dizer que a psicomotricidade abarca diversas disciplinas e paradigmas; portanto, é essencialmente transdisciplinar. Na Unidade 1, vimos que diversas áreas do saber são necessárias para a composição da psicomotricidade. Além da epistemologia, podemos citar, com base em Fonseca (2010): • ecologia; • antropologia; • fenomenologia; • biossemiótica; • psicossomática; • psicologia; • psicofisiologia; • psicopatologia; • psicologia cognitiva; • psicanálise; • psicopedagogia; • neurociência; • neurologia; 76 • neuropsiquiatria; • neuropsicologia; • neuropatologia; • defectologia; • cibernética. São diversas áreas e paradigmas, não é mesmo? Talvez agora a afirmação de Fonseca (2010, p. 43, grifo nosso) faça sentido: “Como sistema conceptual, a psicomotricidade, na nossa visão pessoal, deve ser estudada e investigada numa arquitetura com três componentes mutuamente interligados: o multicomponencial, o multiexperiencial e o multicontextual”. Sobre a palavra multicomponencial, empregada por Fonseca (2010), compre- endemos que são vários elementos ou componentes que estão em questão. Por isso, acabamos de elencar cada um deles no formato de tópicos, para você tenha mais clare- za de que a psicomotricidade é transdisciplinar e se baliza em variadas áreas do saber. A expressão multiexperiencial significa que a psicomotricidade tem como in- teresse estudar e pesquisar o processo de desenvolvimento humano, levando em conta todas as fases do ciclo vital (desde o recém-nascido, passando pela infância, adoles- cência, juventude, adultez até a velhice) (FONSECA, 2010). A expressão multiexperien- cial ainda envolve o grau de experiência do indivíduo, por conseguinte, a psicomotri- cidade engloba tanto as pessoas consideradas inexperientes (principiantes, que ainda estão aprendendo) quanto as experientes (FONSECA, 2010). Por fim, expressão multiexperiencial também diz respeito às pessoas conside- radas “normais” e àquelas que apresentam deficiência(s), dificuldade(s) ou desvanta- gem(s) (FONSECA, 2010). Por exemplo, Rodrigues et al. (2018) fizeram um estudo sobre o desempenho psicomotor na pessoa com deficiência intelectual, relacionado com a educação especial. Outro exemplo é o estudo feito por Schauder et al. (2011) intitula- do “Quando o caminho que leva do coração à boca deve passar pela mão”, que trata acerca da imagem inconsciente do corpo, em casos de psicose, de fobia ou de defici- ência intelectual. Vale mencionar que esse estudo envolveu o desenho e a modelagem. Em resumo, a palavra multiexperiencial engloba todos os seres humanos – indepen- dentemente de sua idade, sua experiência de vida e do que vivenciaram ou vivenciam (FONSECA, 2010). O enquadramento científico deverá partir igualmente duma con- cepção multifacetada da psicomotricidade e da corporeidade humanas, visando a sua caracterização: filogenética, sociogenética, ontogenética, disontogenética e retrogenética, não só contextualiza- da, mas aprofundada, nas suas necessidades biopsicossociais trans- cendentes, descrevendo o funcionamento do corpo e da motricidade, assim como das suas perturbações ou disfunções como um proces- so interactivo e evolutivo numa perspectiva biocultural e ecológica coerente e integrada (FONSECA, 2010, p. 43, grifo do autor). 77 Agora vejamos o que Fonseca (2010) quis dizer por “multicontextual”. Refere- se à aplicação do conhecimento da psicomotricidade, o que pode ocorrer em inúmeros ambientes e contextos. Podemos ver intervenções de psicomotricidade em qualquer lugar em que exista atividade humana. Então, isso pode ser feito em escolas, núcleos de educação infantil, creches, hospitais, locais de lazer, ambientes culturais, espaços voltados a práticas desportivas, postos de trabalho das mais diferentes profissões, residências, espaços inclusivos e, até mesmo, residências (FONSECA, 2010). Como visto, a psicomotricidade não é apenas uma área de estudos, pois também propõe intervenções. Isso significa que ela possui atividades práticas, bem como que os conhecimentos da psicomotricidade não servem apenas para explicar coisas, mas também podem ser aplicados. Carvalho (2003) explica que a psicomotricidade disponibiliza tanto intervenções terapêuticas quanto educativas, sendo que as terapêuticas abrangem a reeducação psicomotora, a terapia e a clínica psicomotoras (CARVALHO, 2003). No que se refere às intervenções educativas, elas são mais voltadas à prevenção e costumam ser chamadas de “educação psicomotora”, tendo como intuito auxiliar no desenvolvimento da criança, pois, geralmente, são destinadas às crianças em fase de escolarização. Muitas vezes, são aplicadas com grupos de crianças, estimulando a execução de movimentos, sejam eles espontâneos ou sugestões específicas feitas pela pessoa que está conduzindo a intervenção em psicomotricidade (CARVALHO, 2003). Por exemplo, Levin (1998) destaca questões da psicomotricidade que podem emergir quando a criança está no processo de alfabetização, sobretudo no que se refere à garatuja. A garatuja costuma representar as primeiras tentativas de escrita da criança, muitas vezes com traços ilegíveis, passando a impressão de letra feia ou feita com má vontade. Contudo, a maioria das pessoas começa a escrever fazendo essas tentativas incompreensíveis – aos olhos das pessoas alfabetizadas. Por isso, muitos compreendem que a garatuja faz parte do processo de alfabetização. “É justamente aí que poderemos encontrar os problemas psicomotores mais característicos que enunciam o sofrimento de um sujeito” (LEVIN, 1998, p. 122). Sodré (2002) também disponibiliza suas reflexões sobre psicomotricidade atinente ao desenvolvimento infantil, sobretudo quanto à escrita manuscrita. É importante recordar que a psicomotricidade não se interessa apenas por movimentos amplos, ou feitos por atletas no momento do esporte. O ato de segurar o lápis e conduzi-lo sobre o papel, para produzir as primeiras letras, requer uma série de movimentos por parte da criança – que não ficam restritos apenas a sua mão. Postura, movimentos oculares, músculos acionados nos braços e várias outras partes do corpo estão em ação para executar esses movimentos representantes da coordenação motora fina. 78 Outro exemplo é o estudo de Fernandes, Dantas e Mourão-Carvalhal (2014) acerca de dificuldades de aprendizagem no tocante aos cálculos. Foram observadas possíveis relações entre o desempenho psicomotor de crianças em fase de escolarização em relação à dificuldade de aprendizagem de conteúdos da matemática, por meio da aplicação de testes cognitivo, acadêmicoe psicomotor. Quanto ao desempenho psicomotor, a atenção do estudo de Fernandes, Dantas e Mourão-Carvalhal (2014) é voltada à lateralidade, à noção de corpo e à estruturação espaço-temporal – lembre-se de que aprendemos um pouco sobre esses termos na Unidade 1. Por enquanto, é suficiente termos uma noção da articulação entre desempenho matemático e psicomotor; apenas precisa estar claro que: A psicomotricidade, que estuda as condições predisponentes à ma- ximização, optimização e modificabilidade máximas do potencial de adaptabilidade psicomotora do indivíduo, normal, excepcional ou diferente, visa a sua acessibilidade aos vários ecossistemas envol- ventes, quer sejam naturais, arquitetônicos, laborais, tecnológicos, recreacionais ou culturais (FONSECA, 2010, p. 44). Conseguiu perceber as especificidades da psicomotricidade? Os psicólogos são focados na psiqué dos pacientes, mas também observam os movimentos corporais deles. Geralmente, eles observam a forma com a qual o paciente se locomove ao entrar no consultório: sua postura, se está cabisbaixo, se se movimenta com leveza e firmeza ou anda como se estivesse se “arrastando”. Talvez, isso seja associado mais ao professor de educação física, que está focado nos movimentos corporais que as crianças estão aprendendo para colocarem em prática uma atividade de determinado esporte. O professor repara que uma criança faz movimentos mais bruscos e grosseiros com o corpo, e que sua expressão facial parece irritadiça, então pode conversar com a criança para descobrir o motivo, se ela está chateada, por exemplo. Esses profissionais estão levando em conta tanto aspectos atinentes à psiqué quanto ao corpo. Assim, o que os difere dos profissionais que conduzem intervenções propriamente da psicomotricidade? Fonseca (2010) esclarece que a psicomotricidade tem como pauta uma matriz científica, que, além de levar em conta a prevenção, a terapia e a educação, também visa a propiciar a reeducação e, inclusive, a reabilitação total. Logo, as aplicações da psicomotricidade não ficam circunscritas às áreas clínica e educativa. Pode-se falar em intervenções da psicomotricidade na área da saúde, da segurança social, do bem-estar e, ainda, em muitas outras (FONSECA, 2010). Dufour (2007) cita a expressão “psicomotricistas” em seu estudo sobre pesquisa internacional, que envolveu a análise de laços familiares e sociais, identidade da criança e desenho infantil. 79 A seguir, separamos dois trechos extraídos da Conferência do II Congresso Brasileiro de Psicomotricidade, da Associação Brasileira de Psicomotricidade (ABP), Belo Horizonte, em 1982: Atualmente, no Brasil, vocês estão numa situação um pouco semelhante àquela que nós conhecemos na França, antes de 1975, data na qual foi criada oficialmente a formação universitária dos psicomotricistas, que confere, ao final de três anos de estudo, o diploma superior em Psicomotricidade. [...] Isso é difícil e é por isso que, munido de seu diploma superior, o jovem psicomotricista, que começa a trabalhar, sente-se bastante despreparado. Ele só tem umas ideias em mente, adquirir uma formação complementar, da mesma forma que o psicomotricista mais experimentado procura uma reciclagem, pois sua prática e sua participação nas equipes multidisciplinares o questionam em todos os níveis de sua pessoa. FONTE: <https://psicomotricidade.com.br/capitulominasgerais/a- formacao-do-psicomotricista/>. Acesso em: 14 set. 2020. INTERESSANTE É pertinente mencionar que Pfeifer e Anhão (2009) também fizeram um estudo acerca da psicomotricidade, articulando noção corporal e desenhos da figura humana em crianças pré-escolares. Embora estejamos apresentando muitos estudos de maneira sucinta, apenas para fornecer um panorama mais geral da especificidade da psicomotricidade, ou seja, uma noção mais ampla do tema, eles serão retomados nos próximos tópicos de modo mais aprofundado. Histórico da psicomotricidade Em 1935, Edouard Guilmain, neurologista, desenvolveu um exame psicomotor para fins de diagnóstico, indicação da te- rapêutica e prognóstico. Em 1947, Julian de Ajuriaguerra, psi- quiatra, redefiniu o conceito de debilidade motora, conside- rando-a uma síndrome com suas próprias particularidades. Ele delimitou com clareza os transtornos psicomotores que oscilam entre o neurológico e o psiquiátrico. Com essas con- tribuições, a psicomotricidade diferenciou-se de outras disci- plinas, adquirindo sua própria especificidade e autonomia. [...] IMPORTANTE 80 A especificidade do psicomotricista situa-se, assim, na compreensão da gênese do psiquismo e dos elementos fundadores da construção da imagem e da representação de si. O sintoma psicomotor instala-se quando ocorre um fracasso na integração somatopsíquica, consequente de fa- tores diversos, seja na origem do processo de constituição do psiquismo ou posteriormente em função de disfunções orgânicas e/ou psíquicas. A patologia psicomotora é, portan- to, uma patologia do continente psíquico, dos distúrbios da representação de si, cuja sintomatologia pode se apresentar no somático e/ou no psíquico. FONTE: <https://psicomotricidade.com.br/historico-da- psicomotricidade>. Acesso em: 29 set. 2020. Ao longo desta unidade, também será possível perceber que os profissionais que atuam na área da psicomotricidade têm metodologias específicas de trabalho, para fazer avalições e para executar intervenções. “Brinquedos, jogos, desafios. Essas são algumas das ferramentas utilizadas pelos profissionais que atuam com Psicomotricidade. Seu campo de estudo é o ser humano e a forma como ele se relaciona com o mundo e consigo mesmo por meio do corpo em movimento”. FONTE: <https://www.guiadacarreira.com.br/carreira/psicomotricidade/>. Acesso em: 19 set. 2020. DICA Por fim, é válido mencionar as treze palavras que iniciam com “psico” que estão no caça-palavras apresentado no início deste tópico. Se você ainda não tiver encontrado todas elas, talvez essa informação o ajude a localizá-las: • psicofarmacologia; • psicotécnico; • psicodinâmica; • psicossomática; • psicomotricidade; • psicometria; • psicolinguística; 81 • psicodrama; • psicodiagnóstico; • psicologia; • psicopedagogia; • psicoterapia; • psicopata. Esse exercício teve o intuito de mostrar que existem muitas palavras com o prefixo “psico”, o que foi exemplificado por meio de um caça-palavras. Na verdade, existem muitas outras palavras com esse radical. Você já tinha ouvido falar em todas as palavras do nosso caça- palavras? Já conhece quais são os significados de cada uma delas? Vale uma busca no dicionário ou nos buscadores da internet para saber cada significado. DICA 82 Neste tópico, você aprendeu: • Embora existam muitas palavras formadas com o radical “psico”, a psicomotricidade se distingue por ter como interesse tanto a subjetividade humana quanto o corpo humano, sobretudo no que corresponde aos movimentos corporais. • A psicomotricidade fundamenta-se em matriz científica e não é tão somente um campo teórico do saber, pois apresenta propostas de intervenções, dispondo de conhecimentos que podem ser aplicados com objetivos específicos. • É possível ver intervenções da psicomotricidade em vários lugares diferentes, e não só em clínicas e escolas. • A psicomotricidade não se restringe à prevenção; pode possibilitar terapia, educação, reeducação e reabilitação às pessoas que procuraram pelos profissionais da área. • O conhecimento científico da psicomotricidade edifica-se a partir dos conhecimentos de disciplinas como Biologia, Psicologia, Psicanálise, Sociologia, Linguística, entre outras. RESUMO DO TÓPICO 1 83 AUTOATIVIDADE 1 A psicomotricidade pode ser articulada com a psicopedagogia. Considere as breves explicações presentes na figura a seguir, extraída do artigo de Alexandroff (2010, p.37). FONTE: Alexandroff (2010, p. 37) Sobre a “rosa (escrita)”, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Trata-se de um exemplo de garatuja. b) ( ) Está escrito “rosa” no idioma hindi. c) ( ) Mostra que Carolina possui dislexia. d) ( ) Indica que Carolina está muito longe de adentrar no processo de alfabetização. 2 Silva (1998) destacou algumas condições sociais necessárias para a produção da atividade gráfica, como as relações entre a fala e o desenho, as ações das crianças com e sobre as possibilidades funcionais dos materiais empregados na atividade gráfica e as mediações entre pares e professora. Com base no artigo indicado, disserte sobre o que é garatuja. flor (desenho) rosa (escrita) 84 85 O CONHECIMENTO NAS ÁREAS DE INTERVENÇÃO PROFISSIONAL: EDUCAÇÃO UNIDADE 2 TÓPICO 2 — 1 INTRODUÇÃO Como já vimos, a psicomotricidade está voltada para todas as fases do desenvolvimento humano. Contudo, quando a gente fala em aprendizagem, geralmente pensamos na infância, principalmente na fase de escolarização, não é mesmo? No entanto, o ser humano aprende em todas as etapas da vida, até as últimas horas da velhice, pois a aprendizagem não acontece somente em escola ou em instituições educacionais. Todos os processos envolvidos na apreensão do mundo e dos elementos que o compõem requerem aprendizagem. “É a evolução psicomotora que permite ao indivíduo construir conhecimento sobre o mundo, sobre si mesmo e o que lhe permite agir de forma programada sobre ele” (MORAES; MALUF, 2015, p. 88). A psicomotricidade educacional pode ser aplicada tanto na educação básica quanto na educação superior, o que inclui a educação especial. Por outro lado, focaremos nas atividades relativas à psicomotricidade na infância, porque uma parte considerável das intervenções em psicomotricidade ocorre justamente durante a infância, conforme aponta Benetti (2018). Neste tópico, teremos um pouco mais de contato com o conhecimento atrelado à psicomotricidade no contexto de intervenção profissional na esfera educacional. 2 INTERVENÇÃO PROFISSIONAL EM PSICOMOTRICIDADE E APRENDIZAGEM De acordo com Moraes e Maluf (2015), a psicomotricidade é uma das aborda- gens que podem contribuir para que as crianças se desenvolvam apropriadamente, aproveitando seu potencial cognitivo ao máximo. Em conjunto com a psicopedagogia e a neuroaprendizagem, a psicomotricidade auxilia na compreensão do processo de aprendizagem, além de oferecer propostas de intervenção para favorecê-lo – inclusive, a psicopedagogia tomou forma, no Brasil, motivada por professores, psicólogos e profis- sionais da saúde que buscavam saídas para os índices alarmantes de fracasso escolar. Afinal, as neurociências, quando interligadas com neuroaprendizagem, propor- cionam subsídios sobre o funcionamento do sistema nervoso e os processos de apren- dizagem que ocorrem com o suporte das estruturas cerebrais e de outras partes do 86 sistema nervoso. É válido lembrar que aprendizagem não diz respeito apenas aos con- teúdos escolarizados, mas a tudo que envolve a apreensão e a interação do indivíduo com o mundo. Certamente, os conteúdos aprendidos na escola ajudam nessa apreen- são, que é tão global (MORAES; MALUF, 2015). Reconhecer que o SNC [sistema nervoso central] é responsável pelo processo de aprendizagem, e que se desenvolve com maior eficiência quanto melhor sejam as bases biológicas, tem auxiliado a implementação de práticas na área de Saúde que zelam pela gestação responsável, incluindo exames – ultrassonografia morfológica, amniocentese e biópsia do vilo corial, entre outros – que contribuem para o diagnóstico precoce de síndromes e malformações do tubo neural ou neurológicas. De modo semelhante, a consciência de que é na interação com o meio social e afetivo que o indivíduo avança no processo de aprender sobre o mundo e qualifica-se para atuar nele de forma planejada e eficiente, aumenta a responsabilidade dos que atuam como educadores – pais e profissionais (MORAES; MALUF, 2015, p. 89, grifo nosso). Com base nessa leitura, lembramos das relações entre o funcionamento neuropsicomotor e todo o corpo humano, que ainda se relaciona com as emoções, a cognição etc. De fato, trata-se de algo bastante complexo e dinâmico. Por exemplo, na estruturação espaço-temporal, vista na Unidade 1, quando a criança não vivencia uma estruturação relacionada com as noções de tempo e de espaço, ela pode apresentar dificuldades na aprendizagem (CAMPOS et al., 2008), que se tornam mais visíveis ainda no âmbito escolar? Esse é apenas um dos motivos pelos quais Moraes e Maluf (2015) esclarecem que a psicomotricidade propicia contribuições à aprendizagem. Conforme Dell’ Agli e Brenelli (2007), a aprendizagem abarca as aquisições decorrentes das vivências e dos mecanismos internos de assimilação, acomodação e equilibração, que desembocam na evolução dos conhecimentos (Figura 1). Essa concepção parte do princípio de que a aprendizagem é subordinada ao desenvolvimento. FIGURA 1 – O PERCURSO DA APRENDIZAGEM FONTE: A autora Experiências Interações Conteúdos da educação informal Conhecimentos que são adquiridos Conteúdos escolares Aprendizagem 87 Para Moraes e Maluf (2015), a psicomotricidade pode ser envolvida em ações efetivas interdisciplinares e até transdisciplinares, voltadas ao desenvolvimento cognitivo e a melhoras na aprendizagem na esfera escolar. O surgimento da psicomotricidade foi na França, há mais de um século. No Brasil, ela chegou no final da década de 1960 e passou a ganhar cada vez mais espaço a partir dos anos 1970. FONTE: <https://www.guiadacarreira.com.br/carreira/ psicomotricidade/>. Acesso em: 19 set. 2020. INTERESSANTE Se houver dúvidas sobre a eficiência das intervenções em psicomotricidade em termos de aprendizagem, vamos mergulhar um pouco mais fundo, observando um exemplo mais prático. Santos e Oliveira (2009) propuseram-se a averiguar a real existência de relações entre a intervenção psicomotora lúdica e a construção do pensamento operatório concreto e no desempenho neuromotor em crianças que evidenciavam lentidão na aprendizagem – na sequência, disponibilizamos o resumo do referido artigo para que você possa compreender melhor os resultados da pesquisa, uma vez que ele esclarece os procedimentos adotados, cita os instrumentos utilizados e os resultados alcançados pelos pesquisadores. Ressalta-se que o grupo experimental foi submetido à intervenção psicomotora, ao passo que o grupo controle não passou por ela, pois os pesquisadores acharam melhor deixar uma parte das crianças sem a intervenção, para verificar se haveria diferença entre os dois grupos: Este estudo investiga a influência de intervenção psicomotora lúdica na construção do pensamento operatório concreto e desempenho neuromotor de alunos com lentidão no aproveitamento escolar da 2ª série do Ensino Fundamental. O grupo de participantes compõe-se por 18 escolares, de 7 a 11 anos, de ambos os sexos, organizados em dois grupos: experimental (G.E. nº 9) e controle (G.C. nº 9). A pesquisa desenvolve-se em três etapas. Aos dois grupos são aplicados pré-teste (1ª etapa) e pós-teste (3ª etapa), constando de duas sessões individuais em cada etapa, com a utilização dos seguintes instrumentos: Provas Operatórias de Piaget, teste Piaget-Head de Orientação Direita-Esquerda e subteste de Aritmética do teste de Desempenho Escolar de Stein, teste de Shuttle Run. A 2ª etapa, exclusiva do G.E., consta da intervenção psicomotora lúdica, em 12 sessões grupais de 50 minutos cada. Utiliza-se da prova estatística de Wilcoxon, para comparação dos dados entre os grupos. Os resultados referentes às noções de Classificação (p = 0,01), Seriação (p = 0,03), Aritmética (p = 0,16) e Orientação Direita-Esquerda(p = 0,01) indicam uma diferença superior significativa no G.E. Nas demais provas, não foi observada diferença significativa entre os grupos (SANTOS; OLIVEIRA, 2009, p. 164). 88 Por conta dessa pesquisa, a professora de crianças que participaram dessa intervenção psicomotora lúdica relatou que foi perceptível, entre as crianças do grupo experimental, maior facilidade no processo de alfabetização após a intervenção, especialmente no que se refere a dois alunos que, inicialmente, revelaram consideráveis dificuldades em aprender a ler e escrever (SANTOS; OLIVEIRA, 2009). “Diante do exposto, a possibilidade de averiguar concepções sobre a Psicomo- tricidade acena como um recurso de apoio a professores e crianças, com vistas à pro- moção de desenvolvimento humano saudável [...]” (BENETTI et al., 2018, p. 591). Moraes e Maluf (2015) ressaltam que a eficiência neuropsicomotora interfere diretamente no potencial de aprendizagem da criança, o que favorece para seu sucesso escolar. Posto isso, os professores, ou outros profissionais da educação, podem fazer intervenções e mediações, tanto nas experiências psicomotoras quanto nas representações simbólicas das crianças (KOLYNIAK, 2010). Vamos saber um pouco mais sobre como foi realizada a intervenção descrita por Santos e Oliveira (2009): buscou associar, de forma complementar e dinâmica, atividades lúdicas psicomotoras à discussão e reflexão. Durante a execução das técnicas, buscou-se fazer com que as crianças resolvessem as situações-problema geradas pela atividade física individual ou grupal, utilizando o raciocínio para desenvolver possíveis soluções e criando condições para que as explorassem e verificassem sua validade, o que foi bem aceito pelos participantes. A intervenção psicomotora desenvolvida nesta pesquisa foi complementada pela elaboração verbal e, em alguns momentos, por escrito, dos resultados obtidos, o que fez com que os participantes aprendessem a classificá-los, ordená-los e compará-los, ou seja, a classificar e seriar (SANTOS; OLIVEIRA, 2009, p. 176-177). Como podemos notar, a intervenção foi muito além das estratégias que dão ênfase à memorização e à decoreba ainda tão presentes em muitas salas de aula. Aquelas estratégias tradicionais em que as crianças devem responder com reprodução mecanizada de conteúdos transmitidos pelo professor, ou seja, que o produto do aprendizado delas seja expresso praticamente de modo automatizado. “A intervenção pedagógica não é só transmissão de conteúdos, deveria ser, acima de tudo, criadora de sentidos” (KOLYNIAK, 2010, p. 73). Os dados obtidos levam também a concluir que as atividades desenvolvidas nesta pesquisa contribuíram para aperfeiçoar habilidades básicas referentes ao desenvolvimento neuropsicomotor, contextualizado no tempo e no espaço vividos, como as de locomoção e manipulação em diferentes situações, favorecendo a utilização de habilidades psicomotoras culturalmente aceitas, importantes para a vida também fora da escola, diferenciando-se assim da maioria dos programas de Educação Física, que costumam enfatizar apenas a formação esportiva (SANTOS; OLIVEIRA, 2009, p. 177). 89 Primeiramente, pensamos ser válido esclarecer que, em se tratando de educação física escolar, em parte considerável das vezes, as atividades propostas visam a desenvolver as habilidades motoras relativas ao desenvolvimento motor e à psicomotricidade. Por outro lado, Santos e Oliveira (2009) parecem propor atividades que vão além do enfoque no desenvolvimento motor em si. Alguns diferenciais dessa proposta de intervenção pautam-se justamente no oferecimento de oportunidades para que as crianças experimentem situações significativas ao aprendizado, que provoquem questionamentos, reflexões e discussões. Preste atenção em quantos movimentos o sistema nervoso central da criança precisa realizar para captar informações, relacioná- las, integrá-las, armazená-las, resgatá-las, reelaborá-las e, por fim, expressá-las. Esses movimentos que envolvem o pensamento, a tentativa de solução de problemas e a conexão de informações favorecem as descobertas e a criatividade no processo educativo (SANTOS; OLIVEIRA, 2009), como podemos depreender com base na tão conhecida frase para os estudiosos da teoria piagetiana: “Cada vez que ensinamos prematuramente a uma criança alguma coisa que poderia ter descoberto por si mesma, esta criança foi impedida de inventar e, consequentemente, de entender completamente” (PIAGET, 1977, apud CASTRO, 2016, p. 233). Vale esclarecer que Jean Piaget foi um epistemólogo, também psicólogo e biólogo, que nasceu na Suíça em 1896. Uma parte dos conhecimentos atuais da psicomotricidade ainda se embasa nas teorias de Piaget, que, ainda na adolescência, ansiava por criar uma teoria biológica do conhecimento (CAETANO, 2010). FIGURA 2 – JEAN PIAGET FONTE: <https://novaescola.org.br/conteudo/7234/jean-piaget>. Acesso em: 19 set. 2020. 90 Piaget ainda criou um método inovador de pesquisa, denominado de método clínico. Ele começou sistematicamente as investigações acerca do desenvolvimento infantil e a construção da inteligência a partir da observação de bebês, crianças e adolescentes, incluindo seus próprios filhos (CAETANO, 2010). Piaget analisou e descreveu o processo de construção do conhecimento pelo sujeito em interação com outrem. A teoria de Piaget também é chamada de Epistemo- logia Genética, Teoria Construtivista ou concepção piagetiana. De acordo com Gomes e Bellini (2009), essa teoria procurava compreender as diferentes maneiras de entender a origem do conhecimento. Alguns conceitos centrais da teoria piagetiana são: • Assimilação: uma pessoa que possui uma estrutura cognitiva que lhe permita compreender o que está sendo informado a ela, conseguirá “assimilar” a nova informação. É algo que a pessoa faz sobre o objeto para compreendê-lo. É fundamental que a pessoa tenha capacidade de assimilar para que possa aprender. • Acomodação: é algo que acontece por “imposição” do objeto ou da nova informação, ou seja, a pessoa acomoda as novas informações a partir das experiências que viveu ao interagir com a informação ou com o objeto. Significa que a pessoa agregará novas informações em sua estrutura cognitiva, por exemplo, por conta das demandas feitas pelo objeto. • Interação: as relações que a pessoa estabelece com as informações, com os objetos e com as pessoas que a acompanham durante esse processo são contributivas para a aprendizagem. Logo, interação e interacionismo são palavras valorizadas por essa concepção. • Equilibração: trata-se de um processo ativo, sinônimo de autorregulação. Quando a pessoa tem contato com algo novo, ela tende a associar com algo semelhante que seja do seu conhecimento. Enquanto sua estrutura cognitiva tenta fazer associações, para começar a assimilar e acomodar, acontece certo desequilíbrio. Ela sente-se desafiada a compreender o que é novo. Conforme a aprendizagem é processada, ela equilibra as novas informações, concluindo um novo processo de aprendizagem. • Adaptação: a adaptação ocorre quando a estrutura cognitiva completa os ciclos de aprendizagem relativos à assimilação e à acomodação. Diz-se que a pessoa adaptou as novas informações a sua estrutura cognitiva, resolveu os conflitos que levaram ao temporário desequilíbrio. O estado de equilíbrio voltou ao normal e ela finalizou a adaptação. Contudo, assim que a pessoa descobrir novas informações ou novos objetos, esses processos são suscitados novamente. Pode-se notar que a teoria piagetiana propicia argumentos que podem subsidiar práticas educativas, e a compreensão do processo de aprendizagem. Reiteramosque a pesquisa de Santos e Oliveira (2009) se alicerça na perspectiva piagetiana, por isso consideramos imprescindível fazer essa breve apresentação sobre o teórico que tanto influenciou – e continua influenciando, mesmo após a sua morte – a psicomotricidade. 91 Por ora, voltemos à pesquisa de Santos e Oliveira (2009): Os dados comprovam também leitura neuropsicológica que esclarece como os jogos tradicionais podem ser vistos como coadjuvantes do amadurecimento das funções cerebrais. Os resultados positivos do G.E. [grupo experimental] obtidos nesta pesquisa foram similares aos de estudos com jogos em ambiente escolar, que comprovam sua eficácia na internalização de regras e relações, inclusive aritméticas, e ressaltam a necessidade de que o professor inclua, em seu dia a dia, situações de aprendizagem que envolvam movimento, ao mesmo tempo que desafiem o aluno e provoquem conflitos cognitivos capazes de desequilibrar seu modo de pensar, vindo a favorecer a elaboração de operações mentais mais abstratas e elaboradas. Nesse sentido, o verificado neste trabalho também leva a rever a forma com que a Educação Física vem sendo desenvolvida, em geral, nas escolas e alicerçar proposta de inserirem-se atividades psicomotoras lúdicas na grade curricular do Ensino Fundamental, levando em conta sua validade na participação decisiva do desenvolvimento cognitivo e desempenho escolar (SANTOS; OLIVEIRA, 2009, p. 178-179). Desse modo, podemos notar que a psicomotricidade auxilia na melhora da aprendizagem, seja em iniciativas voltadas à prevenção ou à reeducação, no ambiente escolar ou terapêutico. Campos et al. (2008) adverte que, para a intervenção ser planejada adequadamente ao seu público-alvo, é imprescindível levar em conta a identificação de fatores deficitários pela avaliação do perfil psicomotor. Nesse sentido, é importante que o planejamento pedagógico na es- cola inclua atividades estruturadas e sistematizadas, voltadas para o desenvolvimento psicomotor dos seus alunos. No entanto, esse planejamento requer capacidade dos profissionais em reconhecer e analisar as principais fases de desenvolvimento das funções psi- comotoras elementares, ou seja, motricidade global e fina, equilíbrio, esquema corporal, lateralidade, praxias e organização espaço tem- poral. Com isso, pode-se monitorar e identificar possíveis atrasos e, quando for o caso, implementar intervenções precocemente. Como se sabe, quanto mais ações preventivas, maiores as chances de se evitar (ou minimizar) defasagem na aprendizagem infantil (SANDRO- NI; CIASCA; RODRIGUES, 2015, p. 5, grifo nosso). Muitas expressões, que aprendemos na Unidade 1, apareceram no texto de Sandroni, Ciasca e Rodrigues (2015), o que permite inferir que as intervenções em psicomotricidade, no âmbito educacional, podem englobar atividades que almejam trabalhar a motricidade coordenada e até rítmica, além da espontânea. Soares et al. (2012) acrescenta que as atividades podem envolver também a percepção tátil e o esquema corporal, o que requer uma concentração maior nos sentidos da criança (tato, audição e olfato) e a exploração de objetos significativos que ela encontrar disponíveis em seu ambiente. 92 Kolyniak (2010) também almejou elaborar uma proposta de intervenção com atividades que partem da vivência motora concreta. Além disso, objetivava conduzir as crianças ao exercício sistematizado de funções psicomotoras. “Com a devida mediação pedagógica, favorecem progressivamente a representação simbólica e a generalização cognitiva dos conceitos subjacentes às atividades vivenciadas, tais como relações espaciais e temporais e conhecimento do próprio corpo na relação com o meio” (KOLYNIAK, 2010, p. 76). Na perspectiva de Moraes e Maluf (2015), é necessário que a psicomotricidade faça parte dos currículos de cursos superiores e de especialização ligados à educação, como a pedagogia. Também seria ideal a inserção de conteúdos da neuroaprendizagem nesses currículos. Para Campos et al. (2008), se os professores conhecessem o perfil psicomotor dos alunos e as modificações que podem acontecer por meio da intervenção psicomotora, tais profissionais teriam melhores condições para elaborar estratégias de intervenção apropriadas para estimular o desenvolvimento infantil dos educandos. A atualização nessas áreas [saúde e educação] pode ser promovida com a exigência de qualificação por parte dos profissionais nela atuantes, mas também pela oferta de cursos que levem em conta os avanços da Neurociência e da Psicomotricidade, conforme apresentado nesta pesquisa. Medidas como essa podem, no médio prazo, transformar vidas, evitando o fracasso escolar, contornando as dificuldades e promovendo a felicidade e a integração social plena da clientela ampla da rede de ensino (MORAES; MALUF, 2015, p. 89, grifo nosso). Supondo que as estratégias de prevenção da psicomotricidade geram melhoras na aprendizagem, ao passo que as de reeducação resolvem, ou pelo menos amenizam, as situações de fracasso escolar, a seguir, veremos como a psicomotricidade pode combater o fracasso escolar. 3 INTERVENÇÃO PROFISSIONAL EM PSICOMOTRICIDADE E FRACASSO ESCOLAR A revisão dos currículos de cursos superiores é urgente, já que são perceptíveis as lacunas na formação dos professores e demais profissionais da educação. Além do mais, o cotidiano nas escolas e, até mesmo, os noticiários nos lembram, dia após dia, das condições precárias em que muitas crianças vivem. Muitas enfrentam uma série de dificuldades e carências, que desembocam no fracasso escolar tão conhecido no Brasil há tantas décadas (MORAES; MALUF, 2015). “Ao Estado, caberia zelar prioritariamente pela atualização dos professores da rede pública, mas também incorporar na política educacional nacional as conquistas das Neurociências” (MORAES; MALUF, 2015, p. 89). Sabemos que não são poucos os 93 profissionais da educação que estão abatidos e desapontados diante dos alarmantes índices de fracasso escolar e, sobretudo, por lidarem com ele em seu dia a dia. Muitos se sentem impotentes e decepcionados consigo mesmos diante das crianças que parecem não progredir nos processos de aprendizagem. Cada dia mais, parecem surgir mais e diversas dificuldades de aprendizagem no cotidiano escolar, e os diagnósticos trazidos pelos pais parecem se avolumar (MORAES; MALUF, 2015). Os professores também tendem a experimentar sofrimento diante dos casos de evasão escolar, que, diferentemente do que muita gente pensa, não estão extintos no país. A psicopedagogia tem procurado potencializar o processo de ensino- aprendizagem, tanto pelas intervenções que têm sido propostas em consultórios e clínicas quanto nas instituições – escolas, empresas e demais organizações. Quando a psicomotricidade está aliada à psicopedagogia, os resultados têm sido ainda mais favoráveis, afinal, os psicopedagogos vêm trabalhando em “[...] ações profiláticas que possam prevenir e não apenas remediar prejuízos na aprendizagem que muitas vezes conduzem ao fracasso escolar” (MORAES; MALUF, 2015, p. 90). Segundo Moraes e Maluf (2015), é essencial que as crianças tenham diagnóstico e intervenção precoces quando em situação de risco ou já revelarem dificuldades ou transtornos de aprendizagem instalados. Afinal, podemos supor que, se a eficiência psicomotora promove melhores rendimentos escolares, a falta dela, consequentemente, estará associada ao insucesso das crianças nas escolas. Nesse sentido, a boa notícia é que o conhecimento sobre a aprendizagem vem se amplificando e se aprofundando nos últimos anos, oferecendo ainda mais compreensão dos processos de aprendizagem. Assim, cada vez mais, contamos com novos subsídios para identificaro que tem causado adversidade no processo de aprendizagem. Há uma noção mais abrangente das bases biológicas relacionadas com a aprendizagem, o que também tem colaborado no tratamento das manifestações de dificuldades e de transtornos relativos ao aprender (MORAES; MALUF, 2015). Por outro lado, a psicopedagogia foi formulada a partir do século XIX. Além dela, a pedagogia e a psicologia também apresentavam respostas científicas para as dificuldades de aprendizagem. Assim, surgem questionamentos como: será que as dificuldades de aprendizagem começaram a existir apenas por volta do século XIX? Elas já existiam antes disso? O que era feito com as crianças que não conseguiam aprender antes do século XIX? A quantidade de casos de dificuldade de aprendizagem não era tão espantosa, porque a educação era praticamente restrita à casa ou à comunidade na qual a criança vivia. Além do mais, os conteúdos a serem aprendidos estavam todos vinculados com o dia a dia da criança, e a quantia de conteúdos não era tão grande quanto passou a ser no século XIX, após a revolução científica. 94 Como as crianças aprendiam com os próprios familiares ou vizinhos e o ensino era conduzido por esses atores sociais a uma quantidade reduzida de crianças de cada vez, é possível que poucas crianças apresentassem dificuldades para aprender. Ainda assim, quando algumas demoravam muito mais tempo para aprender ou realmente não conseguiam aprender determinado conteúdo, não havia profissionais especializados para atendê-las. É bem provável que os pais recorressem a padres, pastores ou outros representantes da esfera religiosa/espiritual, com vistas a obter a cura da criança por meio das orações. Vale lembrar que até mesmo os reis se reportavam aos líderes religiosos para pedir oração e orientações acerca das guerras que emergiam. Talvez alguns pais levassem as crianças ao médico, para averiguar se algum problema de saúde impedia a aprendizagem. Em geral, a dificuldade de aprender era atribuída à preguiça ou à falta de esforço da criança. Aquelas com maiores dificuldades de aprender e interagir com os outros, certamente, ficavam isoladas, vivendo, muitas vezes, num quarto nos fundos da casa. Quanto as que revelavam uma capacidade de aprender levemente reduzida, provavelmente ficavam com responsabilidades mais leves da vida do lar ou com atividades de trabalho (agricultura, artesanato etc.) que exigiam menos habilidades/ competências. Ainda que, mesmo nos dias atuais, muitas pessoas costumem atribuir as dificuldades de aprendizagem exclusivamente à criança, Kolyniak (2010) lembra que essas dificuldades nem sempre têm causas orgânicas ou psicológicas. As dificuldades de aprendizagem podem ser provocadas por questões sociais. Alguns discursos dos profissionais promovem uma discussão crítica sobre a existência de queixas escolares. Quando falas identificaram que a escola tem se apresentado desinteressante e que as estratégias de ensino utilizadas não têm sido adequadas às expectativas dos estudantes, é evidente que existem profissionais implicados em fazer ou pensar diferente, mas, por vezes, acabam se frustrando diante de um contexto escolar praticamente preditor de fracasso para o próprio professor, inclusive. Com turmas superlotadas, remuneração incompatível com a função, condições de trabalho inadequadas, tem-se uma realidade profissional desfavorável ao fazer docente (SCHWEITZER; SOUZA, 2018, p. 57). Portanto, embora as crianças com baixas notas sejam culpabilizadas por sua “não aprendizagem”, talvez as escolas tenham falhado no processo de “ensinagem”. Às vezes, os profissionais da saúde e da educação precisam atender a crianças que são taxadas de “burras” pela sociedade, quando, na verdade, talvez estas realmente não estejam aprendendo como poderiam “[...] devido ao fracasso da escola, que não consegue ensinar” (KOLYNIAK, 2010, p. 74). 95 Se Kolyniak (2010) enfatizou as questões sociais, Campos et al. (2008) chama a atenção para as questões econômicas, em um estudo sobre os efeitos de intervenção psicomotora em algumas crianças de baixo nível socioeconômico: Visou-se identificar o perfil psicomotor de crianças de baixo nível socioeconômico e verificar o efeito nelas de um programa de intervenção psicomotora. Participaram do estudo seis crianças do sexo masculino, na faixa de 10 a 12 anos (11,5 ± 0,92). Os participantes foram avaliados utilizando-se uma bateria psicomotora que avalia sete fatores psicomotores: tonicidade, equilibração, lateralização, noção do corpo, estruturação espaço-temporal, praxia global e fina; de acordo com o desempenho da criança, os fatores são pontuados de 1 a 4; o escore 1 refere-se ao perfil apráxico, 2 ao dispráxico, 3 ao eupráxico e 4 ao hiperpráxico. Com base nas dificuldades detectadas, foi elaborado um programa de intervenção psicomotora, aplicado durante três meses, em 16 sessões de uma hora de duração, duas vezes por semana. Ao término da intervenção, os participantes foram reavaliados. Pela avaliação inicial, o perfil dos participantes foi predominantemente eupráxico nos fatores equilibração, lateralização, noção do corpo, praxia global e praxia fina; nos fatores tonicidade e estruturação espaço-temporal, o perfil foi predominantemente dispráxico. Após o programa de intervenção, houve aumento estatisticamente significativo (p < 0,05) na pontuação nos fatores tonicidade, equilibração, estruturação espaço-temporal, praxia global e praxia fina, sugerindo que o programa de intervenção psicomotora aplicado beneficiou o desempenho psicomotor de crianças de baixo nível socioeconômico (CAMPOS et al., 2008, p. 188). Hipoteticamente, é possível que essas crianças de baixo nível socioeconômico fossem consideradas, de certa forma, “atrasadas” antes da intervenção a qual foram submetidas. No entanto, se a intervenção gerou mudanças positivas, isso mostra que elas não estavam daquele jeito porque queriam ou porque não tinham condições de progredir; a questão é que elas não tinham acesso aos estímulos adequados até ali. Entretanto, essas informações são hipotéticas, porque, no estudo de Campos et al. (2008, p. 192), “[...] verificou-se que a intervenção psicomotora aplicada favoreceu significativamente o aprimoramento do perfil psicomotor dos participantes, que passou de normal para bom”. Outros dados da intervenção proposta por Campos et al. (2008): Intervenção: após a análise do perfil obtido pela BPM [Bateria Psicomotora], foi elaborado um programa de intervenção psicomotora, de atividades que pudessem favorecer o aprimoramento das dificuldades detectadas. O programa de intervenção psicomotora teve a duração de três meses, aplicado em duas sessões semanais de uma hora de duração (total de 16 sessões). Cada sessão foi subdividida em três fases: preparação, atividades motoras e retorno às condições de repouso. As atividades eram desenvolvidas de forma lúdica para envolver e motivar os participantes. Reavaliação: ao final do programa de intervenção psicomotora, as crianças foram reavaliadas empregando-se a mesma bateria de testes (CAMPOS et al., 2008, p. 190, grifo do autor). 96 Ficou curioso sobre essa bateria psicomotora? Então leia o trecho a seguir: Trata-se de um conjunto de testes que avalia o desenvolvi- mento da criança em sete fatores psicomotores: tonicidade, equilibração, lateralização, noção do corpo, estruturação es- paço-temporal, praxia global e praxia fina, constituindo no total 42 tarefas. Cada fator é pontuado de 1 a 4 de acordo com o desempenho da criança, sendo 1 referente ao perfilapráxico, 2 ao dispráxico, 3 ao eupráxico e 4 ao hiperpráxi- co. Somando-se as pontuações dos sete fatores, obtém-se o escore que permite classificar o perfil psicomotor geral em deficitário (7 a 8 pontos), dispráxico (9 a 13 pontos), normal (14 a 21 pontos), bom (22 a 26 pontos) ou superior (27 a 28 pontos), ou seja, quanto maior o escore, melhor é o perfil psicomotor da criança (CAMPOS et al., 2008, p. 190). NOTA Sob o ponto de vista de Benetti et al. (2018), é importante conhecer as concepções dos professores, isto é, o que eles pensam antes de realizar um projeto ou programa de intervenção relacionado com a psicomotricidade. Fazendo isso, podem-se expandir os mecanismos de proteção e reduzir os fatores de risco, no que concerne às chances de que a criança apresente respostas positivas diante de suas adversidades diárias. Até porque tudo isso pode afetar diretamente na autoestima da criança e em sua imagem corporal, o que, com o passar do tempo, pode levar ao desempenho inapropriado na sociabilidade e, até mesmo, no fracasso escolar. Mais que isso, o avanço nas parcerias disciplinares trouxe um novo olhar também às práticas profissionais do psicopedagogo, que pode desempenhar papel pró-ativo tanto nos níveis institucional – trabalhando com profissionais da Educação e formadores para que despertem para observação, por exemplo, de falhas psicomotoras – como no clínico, atendendo aos alunos que se encontrem em situação de risco de fracasso escolar. Parcerias efetivas com fonoaudiólogos, psicólogos, pedagogos e professores têm-se construído mediadas pelas Neurociências e parecem tornar-se mais promissoras (MORAES; MALUF, 2015, p. 90, grifo nosso). Faz-se necessário realçar que a psicopedagogia coloca seus holofotes sobre a aprendizagem, sobretudo no que concerne à esfera psíquica do sujeito. Além de ter o intuito de promover a aprendizagem, ela também oferece subsídio para que a pessoa que tem demonstrado certas dificuldades para aprender consiga lidar melhor com seus baixos rendimentos escolares e que possa ultrapassá-los. Isto é, entre outras coisas, a psicopedagogia visa a recuperar o potencial de aprendizagem da criança, que, muitas vezes, já se sente desenganada em relação à capacidade de aprender. 97 Vimos que seria ideal repensar os currículos da área de educação no ensino superior. Todavia, será que os currículos da educação básica também não deveriam ser revistos? Um novo olhar dos profissionais da área pode permitir ainda a revisão e alteração do planejamento curricular e dos conteúdos a serem ministrados pelos professores, que respeitem, por exemplo, o processo de maturação neuromotora, para que o risco de dificuldades e prejuízos na aprendizagem se reduzam e que se possa prevenir a instalação dos transtornos, mesmo quando haja base biológica para isso (MORAES; MALUF, 2015, p. 89, grifo nosso). Sandroni, Ciasca e Rodrigues (2015) vão ainda mais longe, defendendo que a psicomotricidade já deveria se fazer presente bem no início da etapa de educação básica, isto é, na educação infantil, acima de tudo, com crianças que apresentam necessidades educativas especiais. Ressaltam que essa abordagem psicomotora deveria ser rotineira, uma prática habitual com tais crianças, porque, dessa forma, se estaria maximizando o desempenho global das crianças com deficiência, com transtornos ou com outras necessidades educativas especiais, e, consequentemente, se veriam reflexos desse trabalho no aprendizado delas. Benetti et al. (2018) também dão ênfase à educação infantil, fazendo menção às Diretrizes Curriculares Nacionais para a Educação Infantil. Esse documento cita as dimensões expressivo-motoras, além das afetivas, cognitivas, éticas, culturais e socioculturais das crianças. Além disso, a educação infantil deixa marcas, em termos do desenvolvimento global infantil. Isso posto, é mister ponderar que programas de intervenção são capazes de favorecer o desempenho psicomotor das crianças às quais se destinam. Até mesmo na faixa etária de 10 a 12 anos, é possível intervir e obter aprimoramento em seu perfil psicomotor (CAMPOS et al., 2008). Como visto, as neurociências, bem como as outras áreas atreladas à psicomotricidade, têm alcançado muitos progressos. Todavia, Campos et al. (2008) recomendam a realização de novos estudos, com amostras maiores e maiores períodos de intervenção psicomotora. Isso significa que ainda há espaço para mais progressos em termos de conhecimento e intervenção em psicomotricidade. Neste tópico, vimos que programas de intervenção psicomotora devem ser incentivados, sobretudo com crianças de baixo nível socioeconômico (CAMPOS et al., 2008) ou questões sociais que não as favoreçam (KOLYNIAK, 2010), uma vez que “Ações eficientes, que promovam melhor desempenho da criança em sua trajetória de aprendiz, estão ao alcance da família e das instituições de ensino e o Estado tem como influenciar positivamente, revendo não só a política para a Saúde, como também a de Educação” (MORAES; MALUF, 2015, p. 89). 98 A psicomotricidade disponibiliza intervenções, programas, estratégias e técni- cas que têm sido úteis para que as crianças tenham acesso a melhores oportunidades para um desenvolvimento saudável. Além disso, a psicomotricidade pode reduzir os efeitos indesejáveis das condições socioeconômicas sobre o desenvolvimento infantil (CAMPOS et al., 2008). Antes de encerrarmos o tema, vale citar que Dusi, Neves e Antony (2006) realçam a rotulação do fracasso escolar, ao propor uma atuação ética que seja interventiva no sentido de promover, de forma responsável, a aprendizagem do estudante. Na Figura 3, podemos verificar como o fracasso escolar é um fenômeno melindroso. FIGURA 3 – QUEIXAS ESCOLARES FONTE: A autora Queixas escolares • Problemas de aprendizagem, de comportamento ou de relacionamento. • Há um predomínio de discursos que concebem as queixas escolares pelo viés da patologização. Dificuldades de aprendizagem • Pedem significados, explicações ao contexto escolar. • Quais são as causas das dificuldades? Fracasso escolar • Embasado e perpetuado numa perspectiva predeterminista. • O aluno é culpabilizado por não atender aos objetivos de aprendizagem traçados pelo professor ou pela escola. • Se a culpa por não ter aprendido é exclusivamente do aluno, não há porque fazer investimentos pedagógicos. Uma vez que nem todas as crianças têm acesso a intervenções, programas, estratégias e técnicas voltadas para um desenvolvimento saudável espontaneamente, é preciso que o Estado interfira para garantir que todas as crianças possam ter esse acesso. Afinal, quando falamos de aprendizagem, desenvolvimento infantil e psicomotricidade, não estamos nos referindo apenas ao rendimento escolar. Não são apenas notas num boletim que estão em jogo. Contribuir para o desenvolvimento cognitivo harmônico é investir no sucesso do processo de aprendizagem e da trajetória escolar. Mais que isso, é contribuir para a felicidade do sujeito. Esse objetivo pode ser alcançado, mesmo quando se trata de indivíduos com necessidades especiais, já que o trabalho psicopedagógico deve promover o desenvolvimento e a reabilitação, reconhecendo, antes de tudo, as possibilidades reais do sujeito, ao contrário do que, em geral, faz a escola (MORAES; MALUF, 2015, p. 90, grifo nosso). 99 Quando falamos em desenvolvimento global, estamos automaticamente incluindo todas as esferas da vida da criança, e isso é muito mais abrangente do que a vida escolar que ela tem ou que irá construir; envolve amizades, relacionamentos, hobbyes, atividades extracurriculares, esportes e a relação que ela estabelece consigo mesma, com seu corpo, com os outros e com o mundo. Além do mais, vamos recordar que, no âmbitoeducativo, as ações em psicomotricidade podem se voltar às pessoas com dificuldades de aprendizagem, ou àquelas que sejam muito inibidas ou que apresentem o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH), por exemplo. Tanto na educação básica quanto na educação especial, os profissionais procuram ampliar as possibilidades de seus pacientes. 100 Neste tópico, você aprendeu: • A psicomotricidade deve estar presente nos currículos das licenciaturas e, até mesmo, dos cursos de pós-graduação da área de Educação (MORAES; MALUF, 2015). • Ao planejar os programas de reeducação psicomotora, é preciso levar em conta o perfil do público-alvo. • Jean Piaget deixou fortes marcas no conhecimento da educação psicomotora, que se perpetuam até hoje. • A psicomotricidade pode promover a aprendizagem e evitar o fracasso escolar. • Nem sempre a dificuldade de aprendizagem está centrada na criança. Existem vários fatores que podem contribuir para o fracasso escolar, como questões sociais, socioeconômicas e aspectos da própria escola (por exemplo, metodologias de ensino inadequadas ou materiais pedagógicos inapropriados etc.). • A psicomotricidade possui conhecimentos que lhe permite aplicar técnicas e estra- tégias que propiciam experiências de motricidade espontânea, rítmica, coordenada, entre outras. • As intervenções em psicomotricidade podem, a médio ou longo prazos, transformar vidas, contornar dificuldades e, até mesmo, promover a felicidade e a integração social das crianças (MORAES; MALUF, 2015). RESUMO DO TÓPICO 2 101 AUTOATIVIDADE 1 Você sentiu algum tipo de estranhamento ao se dar conta de que toda a culpabilização da não aprendizagem ficava centrada exclusivamente nas crianças? Você já tinha reparado que, consequentemente, as intervenções pareciam ser voltadas apenas a elas? Acontece que já se passaram quase 50 anos dessa situação e, hoje, parece impossível que ninguém desconfiasse de que as causas da não aprendizagem pudessem estar localizadas fora do aluno, não é mesmo? Apresente suas impressões sobre isso e justifique sua resposta. 2 Leia o texto a seguir: Por décadas, na ausência de um autêntico sentido público, a escola brasileira tinha uma clara finalidade socioeconômica: operar como um mecanismo de seletividade precoce, capaz de dar legitimidade social para a ideologia da meritocracia individual. Assim, a experiência escolar conferia, aos poucos que a ela tinham acesso, uma distinção social que frequentemente se revertia em privilégio econômico. Com a expansão de seu atendimento à quase totalidade da população, esvai-se seu poder de operar distinções e com ele o “sentido” (na verdade, a “finalidade”, já que era concebida mais como “meio” para um fim que lhe era extrínseco) que historicamente lhe foi associado (CARVALHO, 2011, p. 575). Disserte sobre quais são algumas das causas do fracasso escolar. 102 103 TÓPICO 3 — O CONHECIMENTO NAS ÁREAS DE INTERVENÇÃO PROFISSIONAL CLÍNICA UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Até aqui, aprendemos um pouco sobre os eixos dos psicomotricistas para o atendimento educacional. Apesar do enfoque desta unidade ter sido o ensino básico, vale lembrar que isso também abrange o ensino superior, as instituições de educação especial, entre outros. Neste tópico, conheceremos a área de atuação clínica em psicomotricidade e as aplicações clínicas (BORGES et al., 2010). Não temos a pretensão de condensar todo o conhecimento da área de intervenção clínica – nem haveria espaço suficiente aqui para isso. A seguir, apresentaremos alguns aspectos importantes, como a constituição do sujeito e da imagem corporal sob o ponto de vista da psicanálise e a atitude do terapeuta, que precisa ser de empatia e aberta ao lúdico. 2 A ÁREA DE ATUAÇÃO CLÍNICA A atuação clínica do psicomotricista é mencionada no Código de Ética do Psicomotricista: “Art. 4º O Psicomotricista deve exercer a Psicomotricidade com exata compreensão de sua responsabilidade, atendendo a nível educativo e clínico, sem distinção de ordem política, nacionalidade, cor ou credo e tendo o direito de receber remuneração pelo próprio trabalho” (ABP, c1980/2019, grifo nosso). O código destaca a responsabilidade do psicomotricista, tanto no nível educativo (como vimos no tópico anterior) quanto no nível clínico. O profissional precisa ter um compromisso ético com seus pacientes, sem fazer acepção entre eles. Embora muitas pessoas conheçam consultórios médicos, de psicólogos ou de psicopedagogos, os consultórios de psicomotricistas ainda não são tão conhecidos, que costumam ser indicados para determinados casos de distúrbios ou de transtornos. 104 Vamos ter uma noção acerca da clínica em psicomotricidade? A utilização da psicomotricidade clínica, em geral, está relacionada com distúrbios ou transtornos que interferem no processo de aprendizagem ou desenvolvimento motor. Suas aplicações mais recorrentes são: • Terapia com bebês prematuros. • Tratamento do TDAH. • Tratamento da dislexia. • Deficiências cognitivas. • Deficiências psicomotoras. • Estímulo em indivíduos com paralisia cerebral. FONTE: <https://www.portaleducacao.com.br/conteudo/ artigos/pedagogia/psicomotricidade-clinica-qual-a-sua- finalidade/52776>. Acesso em: 20 set. 2020. IMPORTANTE Talvez, surja a dúvida “mas as pessoas com esses distúrbios ou transtornos não são tratadas por médicos e psicólogos?”. Sim, realmente grande parte delas recebe o tratamento desses profissionais – ou pelo menos deveria receber. “Uma de nossas funções [psicomotricistas] na clínica com essas crianças portadoras de graves transtornos neurológicos será possibilitar a elas construir sua imagem corporal e, em relação aos pais, permitir que eles possam reconhecer-se em seus filhos, ou seja, restabelecer a filiação” (LEVIN, 2000, p. 150). Afinal, o psicomotricista é um profissional que possui conhecimentos específicos e é apto para conduzir intervenções que contribuem grandemente para o desenvolvimento dos pacientes. A aplicação clínica dos conceitos da psicomotricidade é uma importante aliada no processo de desenvolvimento de crianças ou na readaptação de adultos que passaram por alguma situação que comprometesse suas funções psicomotoras, como acidente vascular cerebral, acidentes mecânicos, entre outras. As avaliações permitem identificar a terapia mais indicada para cada caso e a evolução dos resultados possibilita auferir a eficácia do tratamento. As sessões acontecem, em média, duas vezes por semana, com duração de uma hora cada. FONTE: <https://www.portaleducacao.com.br/conteudo/artigos/ pedagogia/psicomotricidade-clinica-qual-a-sua-finalidade/52776>. Acesso em: 20 set. 2020. ATENÇÃO 105 Assim, podemos deduzir que vários psicomotricistas atuam em equipes multi- profissionais ou, no mínimo, atendem pessoas que estão em tratamento concomitante com outros profissionais. Os psicomotricistas também podem atuar em equipes inter- disciplinares e transdisciplinares. É por isso que o Código de Ética do Psicomotricista possui um capítulo direcionado às relações com outros profissionais – veremos isso mais adiante. Por enquanto, basta sabermos que o psicomotricista geralmente trabalha com equipes que envolvem outros saberes e mais profissionais: Existem noções idênticas e transversais para diferentes áreas de intervenção, mesmo que estas apresentem uma identidade própria, objetivos e formas de intervenção diferenciadas. As intervenções terapêuticas sustentam-se cada vez mais em conhecimentos multidisciplinares e é neste sentido que os saberes de diferentes áreas, ao serem partilhados, permitem criar novos espaços de reflexão, de prática e experimentação (FERNANDES; GUTIERRES FILHO; REZENDE, 2018, p. 704, grifo nosso). Contudo, de antemão, podemosalertar para o cuidado que o profissional da psicomotricidade precisa tomar em suas responsabilidades para com o cliente: Art. 10. Ao Psicomotricista, em sua relação com o cliente, é vedado: [...] f) Dar diagnóstico clínico de qualquer patologia que não seja da área da psicomotricidade, assim como, promover qualquer intervenção, também, fora da área da psicomotricidade (ABP, c1980/2019, grifo nosso). Ainda que o Art. 10 esteja presente no capítulo sobre as responsabilidades do psicomotricista para com o cliente, podemos perceber que, simultaneamente, se refere ao respeito pelas outras áreas, pelos outros profissionais – sejam da área da educação ou da saúde. Afinal, dar diagnósticos sobre patologias que não dizem respeito à psicomotricidade significaria avançar em território alheio e, portanto, antiético. No mais, também são necessários alguns cuidados no manuseio de instrumentos de intervenção. O jogo é um dos instrumentos de intervenção em psicomotricidade? O jogo é um dos instrumentos de intervenção em terapia ocupacional? Para ambas as perguntas, a resposta é sim. Por isso, as noções apresentadas são fundamentais para os psicomotricistas, terapeutas ocupacionais, ou qualquer outro profissional que utilize o jogo como mediador de intervenção na ajuda ao desenvolvimento, profilática ou terapêutica, na criança (FERNANDES; GUTIERRES FILHO; REZENDE, 2018, p. 704). 106 Para ampliarmos nossa visão acerca da psicomotricidade em termos terapêuticos, é im- portante destacarmos o resumo do artigo de Fernandes, Gutierres Filho e Rezende (2018): Este ensaio aborda os fundamentos que perspectivam o jogo como mediador da prática psicomotora e a centralidade da dimensão lúdica do corpo-em-relação, enquadrado numa dialética entre o corpo real e o corpo imaginário. Através de uma exposição de ideias, que se fundamentam em diferen- tes áreas do conhecimento, apresentamos algumas linhas orientadoras para que os profissionais da área da saúde, que pretendem atuar de forma terapêutica ou na ajuda ao desenvolvimento da criança, utilizem o jogo-em-relação. Após breves considerações sobre a psicomotricidade como práti- ca-em-relação, equacionamos a gênese do jogo-em-relação e a sua fundamentação teórico-prática, explicitando a impor- tância das vivências sensoriomotoras (gnosicopráxico) e das representações (imaginário-simbólico) no desenvolvimento psicocorporal e psicomotor da criança. Como considera- ções finais, veiculamos algumas reflexões necessárias para enquadrar o jogo na intervenção terapêutica, reforçando a importância do estabelecimento de uma relação de qualida- de (FERNANDES; GUTIERRES FILHO; REZENDE, 2018, p. 702). IMPORTANTE Vale lembrar que, a psicomotricidade sendo aplicada no ambiente clínico, também pode auxiliar a reabilitar movimentos, além de beneficiar a reação psicomotora, podendo ser utilizada com pacientes de todas as idades, inclusive idosos, para os quais o atendimento é denominado de gerontopsicomotricidade. Por exemplo, no artigo de Borges et al. (2010), cujo título é Psicomotricidade e retrogênese: considerações sobre o envelhecimento e a doença de Alzheimer, foram levantados alguns aspectos que parte dos idosos enfrenta, especialmente em termos de demência. A teoria da retrogênese refere-se às mudanças nas habilidades psicomotoras que ocorrem de forma inversa à aquisição do desenvolvimento motor normal. Tais mudanças ocorrem ao longo do processo de envelhecimento e também são ilustradas por mudanças degenerativas ocorridas na doença de Alzheimer (DA) (BORGES et al., 2010, p. 131). Esse estudo é interessante para entendermos que, apesar de muitos psicomotricistas serem procurados para atenderem crianças, isso não significa que eles só trabalharão com essa faixa etária. Com o envelhecimento populacional, a tendência é que, cada vez mais, os psicomotricistas passem a ser procurados para atender idosos, afinal: “É sabido que a maioria dos casos de DA [doença de Alzheimer] acontece na velhice, e o risco de desenvolver a DA aumenta com o avançar da idade” (BORGES et al., 2010, p. 135). 107 Você ficou interessado pela gerontopsicomotricidade? Para se aprofundar sobre esse tema, indicamos a leitura do seguinte texto: FONSECA, V. Gerontopsicomotricidade: uma abordagem ao conceito da retrogênese psicomotora. In: FONSECA, V. Psicomotricidade: filogênese, ontogênese e retrogênese. Porto Alegre: Artes Médicas; 1998. p. 343-81. CAPA DO LIVRO PSICOMOTRICIDADE: FILOGÊNESE, ONTOGÊNESE E RETROGÊNESE FONTE: <https://www.booktoy.com.br/image/cache/catalog/livros/69/3380-600x600.png>. Acesso em: 20 set. 2020. DICA Assim, pode-se dizer que a psicomotricidade não é proveitosa apenas para melhorar o processo de aprendizagem, como enfatizado anteriormente; ela também é indicada para situações de saúde mental. Reiteramos que, embora haja maior menção à aplicação durante a fase da infância, isso ocorre porque a maioria dos encaminhamentos feitos aos psicomotricistas envolvem crianças. Na intervenção psicomotora, solicita-se uma meta atividade corporal, no sentido de transcender a atividade do corpo real e ir além do corpo que se conhece e que se move. Se não existir essa transcendência, a atividade corporal ficará associada apenas a um corpo voltado para ele próprio, com o objetivo de melhorar a performance física. A atividade corporal, nesta intervenção terapêutica, deve incluir uma nova dimensão, ou seja, um espaço de atuação que necessariamente abrange o simbolismo vivido pela criança, expresso no seu corpo e pelo seu corpo, que é concomitantemente funcional e relacional [...]. Assim, este simbolismo torna-se um quadro vivo da sua própria história, em que o corpo se move e se expressa, com referências ao passado, presente e futuro (FERNANDES; GUTIERRES FILHO; REZENDE, 2018, p. 703, grifo nosso). 108 É interessante sabermos qual é a diferença entre o corpo real e o corpo imaginário (Figura 4). FIGURA 4 – CORPO REAL E CORPO IMAGINÁRIO FONTE: A autora Além de construir conhecimentos sobre o corpo real e imaginário, o psicomo- tricista precisa desenvolver atitudes e comportamentos adequados durante os atendi- mentos clínicos. É fundamental demonstrar credibilidade, para assim, aumentar a con- fiança do paciente no seu trabalho. Além disso, é preciso estabelecer uma relação de respeito e empatia entre profissional e paciente. Isso tudo é o que Fernandes, Gutierres Filho e Rezende (2018) chamam de saber teórico, enquanto conhecimentos da psico- motricidade na área de atuação clínica, e o saber-fazer da intervenção motora em si. De acordo com o exposto, este ensaio apresenta um texto que expressa a centralidade da dimensão lúdica do corpo-em- relação, embasado em conceitos que se agrupam em torno de uma intencionalidade dialética entre função e relação. Pretendemos, através de uma exposição de ideias, que se fundamentam em diferentes áreas do conhecimento, apresentar a gênese do jogo- em-relação e algumas linhas orientadoras para que os profissionais da área da saúde (psicomotricistas, terapeutas ocupacionais etc.), que pretendem atuar neste âmbito, o utilizem como mediador de intervenção (FERNANDES; GUTIERRES FILHO; REZENDE, 2018, p. 703, grifo dos autores). É possível reparar que a palavra lúdico(a) tem surgido algumas vezes ao longo deste livro. Muitos desconhecem o seu significado ou acham que o conhecem, mas não sabem explicá-lo, sempre o relacionando com brincadeira. No Quadro 2, vamos conhecer o sentido e os sinônimos da palavra em questão. corpo real corpo imaginário representação (des)prazeres relação desejos vontades existência função age reage 109 QUADRO 2 – LÚDICO FONTE: <http://twixar.me/d8ym>. Acesso em: 20 set. 2020. Sentido da palavra lúdicoRelativo a jogo, brinquedo e diversão Sinônimos de lúdico Divertido, recreativo, alegre, jocoso, entretenido, recreador, brincalhão, brincador, brincante, prazenteiro A maioria dos artigos que relaciona lúdico com a psicomotricidade refere-se à área de atuação educacional, mas isso não significa que apenas o psicomotricista conduza suas sessões dessa forma apenas no contexto escolar. Para Sacchi e Metzner (2019), existem diversas atividades psicomotoras que podem ser conduzidas de maneira lúdica com a criança, fazendo uso de objetos (cordas, bola, bambolê, jornais, balões, cones) ou não. É necessário que essas atividades não sejam conduzidas de modo repetitivo. Por esta razão, o terapeuta deve participar dos jogos de imaginação da criança, aprender a escutá-la, receber o que ela oferece, estar disponível para ser e estar com ela, e utilizar a sua criatividade para sugerir a inclusão de novos elementos lúdicos. A sua presença atenta e participativa no jogo proposto pela criança permite que ela experimente a capacidade de ser autônoma, de ser eficaz e ter confiança em si própria; e, se lhe for permitido realizar o que deseja e o que gosta de fazer, sentir-se-á valorizada e competente nas atividades que realiza. O jogo livre é fundamental para o desenvolvimento do pensamento, pois a criança, ao ter liberdade de fazer o que deseja, pensa nas funções que gostaria de dar aos objetos, o que permite desenvolver a capacidade em criar, recriar e, simultaneamente, ter o prazer em decidir e pensar (FERNANDES; GUTIERRES FILHO; REZENDE, 2018, p. 707). O melhor é criar um ambiente e uma situação em que os movimentos feitos pela criança façam algum sentido para ela, talvez os relacionando com a imaginação da criança. “Ao trabalhar os aspectos psicomotores de forma lúdica, as crianças terão a oportunidade de explorar os movimentos de forma prazerosa e divertida” (SACCHI; METZNER, 2019, p. 104). Por conseguinte, o psicomotricista pode propor brincadeiras que façam junção entre o brincar e os aspectos psicomotores. A atitude do psicomotricista também pode colaborar para que os pacientes – sejam crianças ou adultos – se permitam brincar. Não cabe a ele culpabilizar os pacientes pelas dificuldades psicomotoras que possam sentir; seu papel é tranquilizar e ajudar na melhora do quadro. 110 Assim, voltemos a falar do corpo real e do corpo imaginário: “Porque uma prática centrada apenas no corpo real corre o risco de se tornar uma ortopedagogia do corpo e uma prática centrada apenas no corpo imaginário corre o risco de provocar uma maior separação entre a função e a relação” (FERNANDES; GUTIERRES FILHO; REZENDE, 2018, p. 706). Vimos na Unidade 1, que a psicomotricidade é a ciência que possui uma visão holística, isto é, que o todo é mais do que a soma das partes. A visão holística é inteira, é uma oposição ao reducionismo e a fragmentação do ser humano ou das disciplinas. “Com base numa visão holística do ser humano, a psicomotricidade encara de forma integrada as funções cognitivas, socioemocionais, simbólicas, psicolinguísticas e motoras, promovendo a capacidade de ser e agir num contexto psicossocial”. FONTE: <https://psicomotricidade.com.br/sobre/o-que-e- psicomotricidade/>. Acesso em: 20 set. 2020. NOTA No entanto, do que adianta a psicomotricidade possuir um estofo teórico, um conjunto de conhecimentos que é holístico, se o psicomotricista trabalhar apenas com o corpo real ou com o corpo imaginário do paciente? Fazendo isso, ele estaria fragmentando seu paciente. Já que estamos explanando sobre o conhecimento em psicomotricidade clínica, convém lembrar que ela recebe influências da psicanálise. Nesse sentido, Magalhães (2016), em seu estudo sobre constituição do sujeito, também critica a fragmentação ou o despedaçamento do sujeito, ou, mais especificamente, da estrutura subjetiva: A teoria psicanalítica vem nos dizer da constituição de uma estrutura subjetiva, do tornar-se sujeito de desejo, e da importância dessas construções na infância. Entretanto, há uma tendência entre os teóricos a fazer uma separação radical entre a perspectiva estrutural e a perspectiva do desenvolvimento, criando um hiato entre essas formulações, o que dificulta o diálogo interdisciplinar. Partindo desse ponto de vista, discutirei a possibilidade de um diálogo entre mecânica motora e estrutura discursiva, perpassando diferentes cenas do funcionamento psicomotor que determinam a subjetivação da criança por meio de sua construção corporal. Assim, irei me deter nas diferenças e semelhanças entre estrutura e desenvolvimento, haja vista que uma criança se estrutura e se desenvolve (MAGALHÃES, 2006, s.p., grifo nosso). 111 Como é possível observar, Magalhães (2006) propõe um diálogo entre a mecânica motora e a estrutura discursiva, abarcando diferentes momentos do funcionamento psicomotor que determinam a subjetivação do corpo da criança. Afinal, sabemos que as crianças se constituem a partir da relação de diferenças e semelhanças entre estrutura e desenvolvimento. Para saber mais sobre as relações entre psicanálise e psicomotricidade, sugerimos a leitura do artigo Constituição do sujeito X Desenvolvimento da criança: um falso dilema, que foi escrito por Darlene Denise Machado de Moura Oliveira de Magalhães e está disponível na íntegra em: http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415- 71282006000100008&lng=pt&nrm=iso. DICA Em virtude disso, além do conhecimento da psicomotricidade ser holístico, o trabalho dos psicomotricistas deve estar alinhado e, também, ser conduzido de modo integrado (Figura 5). FIGURA 5 – INTERVENÇÃO PSICOMOTORA FONTE: A autora capacidades emocionais capacidades simbólicas tônico emocional capacidades relacionais intervenção psicomotora aquisição de habilidades motoras vivências motoras 112 “No enfoque psicomotor, o corpo se apresenta não só como instrumento, mas também como corpo imaginário e simbólico” (MAGALHAES, 2006). Fernandes, Gutierres Filho e Rezende (2018) dão ainda maior ênfase à integração na e da psicomotricidade. Eles dizem que ela deve se concretizar, inclusive, na relação entre profissional e paciente: “Dessa forma, as sensações, ao serem emocionalmente partilhadas, podem ser mais bem integradas, percebidas e representadas, o que ajuda a criança a dar sentido ao que vivencia” (FERNANDES; GUTIERRES FILHO; REZENDE, 2018, p. 707). Assim como a psicopedagogia questiona e problematiza a questão do ensino e da aprendizagem, a psicomotricidade questiona a passividade do paciente durante a intervenção. Se a psicopedagogia faz perguntas como: • “Quem disse que só professor ensina?”. • “Quem disse que só os estudantes aprendem?”. A psicomotricidade faz perguntas como: • “Quem disse que o terapeuta é o agente?”. • “Quem disse que o paciente é o agido”?. Caro acadêmico, perdão pelo uso desse neologismo. Para a psicomotricidade, o paciente não é passivo, muito menos mero alvo da ação do terapeuta? Já a psicopedagogia se refere aos aprendentes, aqueles que, sim, aprendem, mas ensinam enquanto aprendem e que aprendem a aprender durante o processo. A psicomotricidade, por sua vez, vê o paciente não como aquele ser passivo, que apenas recebe a intervenção psicomotora, mas, sim, como uma pessoa inteira, que, durante a relação que estabelece com o psicomotricista, integra uma comunidade, na qual há a partilha de diálogos, sentimentos e emoções. Com o trabalho conjunto entre psicomotricista e paciente, são criadas as condições para a transformação psicomotora. 113 Quer saber mais sobre a prática clínica em psicomotricidade e a prática escolar? Então, sugerimos a leitura do livro: CABRAL, S. V. Psicomotricidade relacional: prática clínica e escolar. Belo Horizonte: Revinter; 2001. CAPA DO LIVRO PSICOMOTRICIDADERELACIONAL: PRÁTICA CLÍNICA E ESCOLAR FONTE: <http://twixar.me/lRsm>. Acesso em: 20 set. 2020. DICA Já que o jogo pode estar presente nas intervenções feitas na clínica, e também em outros lugares, Fernandes, Gutierres Filho e Rezende (2018) fazem algumas considerações acerca desse recurso: a) O jogo deve supor sempre uma relação com o objeto, o outro, o espaço e o tempo. Isso pressupõe um espaço potencial de jogo, o qual permite o desenvolvimento da criatividade e não apenas a simples manipulação de objetos; b) A criança deve vivenciar, de forma livre e espontânea, o prazer de jogar, correr, saltar, gritar, desempenhar o papel de um outro, enquanto pensa, espera, observa e explora; também deve realizar atividades e construções com bolas, blocos de espuma, tecidos, cordas, bastões e, sempre que desejar, ter a liberdade de destruir e voltar a construir, de realizar e não realizar, para que possa desenvolver o sentimento de ser; c) A criança, ao jogar, deve estar livre, sentir prazer em utilizar o seu corpo real e vivenciar livremente experiências ilusórias que expressa através do corpo imaginário, pois [...] o jogo é um espaço de narração e liberdade; 114 d) O terapeuta deve ter um olhar participativo para o jogo livre e espontâneo, o jogo-em-relação, que é o meio, por excelência, para solicitar as funções gnosicopráxicas, as funções imaginárias simbólicas e o prazer de criar agindo, o que permite à criança, a aquisição da sua identidade e do sentimento em ser e existir (FERNANDES; GUTIERRES FILHO; REZENDE, 2018, p. 707, grifo dos autores). Esses autores defendem que o “jogo em relação” permite acionar a pessoa num todo, tanto o corpo real quanto o imaginário, e, por isso, o jogo é ideal para a estruturação e o desenvolvimento psicomotor. Por isso, não devemos centrar a intervenção ou só na função ou só na relação. Assim, este jogo-em-relação permite, ao terapeuta, ajudar a criança a (re)habitar o seu corpo, ao processar tanto as informações sensoriomotoras como as tonicoemocionais, ambas necessárias à (re)construção do seu esquema corporal, imagem corporal, imagem de si, e à promoção da sua identidade (FERNANDES; GUTIERRES FILHO; REZENDE, 2018, p. 708, grifo dos autores). Nota-se que a expressão “imagem corporal” veio novamente à tona. Levin (2000) esclarece que a imagem corporal se estrutura durante o desenvolvimento da criança, envolvendo seu desenvolvimento psicomotor e a relação com as pessoas com as quais ela interage no seu cotidiano. Aos poucos, a criança constitui, assim, sua imagem corporal e seu esquema corporal. Cada órgão e sistema do corpo humano e cada função perpassam a formação da imagem do corpo (LEVIN, 2000). Contudo, a criança não faz isso sozinha – até porque a primeira imagem que ela forma não está em si mesma, e sim na pessoa que a nutre, que cuida dela, que se responsabiliza por ela. A constituição do sujeito demanda necessariamente de alguém que cuide da criança, especialmente nos primeiros meses de vida. Nós, seres humanos, não somos como alguns dos animais que, logo após o nascimento, caminham sozinhos em busca de alimentação e conseguem preservar a vida sem o auxílio de algum animal ou de alguma pessoa. Nós precisamos ganhar comida na boca, precisamos de alguém que nos higienize e que nos ajude a ingressarmos na cultura e a nos apropriarmos de uma linguagem (LEVIN, 2000). Pelo olhar das pessoas com quem convive e de suas falas, toques e movimen- tos, a criança passa a se reconhecer, explorando o seu entorno e existindo em suas pro- duções corporais, e não somente em seu crescimento e em sua maturação psicomotora (LEVIN, 2000). As crianças com sintomatologia psicomotora nos “fazem ver” a que- da, o desmoronamento do eixo corporal, dramatizado em sua deso- rientação espacial sem limites representativos nos quais sustentar- 115 -se para situar-se e diferenciar-se. Em parte, esta é a demanda que a criança enuncia nesse singular “fazer-se ver” na relação com o olhar do outro (LEVIN, 2000). Contudo, vivemos tempos em que o corpo tem recebido a maioria dos holofotes na sociedade e na cultura em geral. O corpo, enquanto organicidade, em detrimento de aspectos subjetivos. Isso se reflete, até mesmo, nos conhecimentos da psicomotricidade, já que os elementos técnicos, princípios tecnológicos e detalhados sobre o corpo parecem estar se avolumando (LEVIN, 2000). O corpo vai ficando “tecnificado”. O discurso atual da modernidade sobre a temática do desenvolvi- mento infantil nos leva a suprimir o sujeito que emerge em cada ato e jogo psicomotor. Pretende deste modo, a busca de um desenvol- vimento “harmônico” e adequado de acordo com estágios, modelos e subestágios previamente estabelecidos, os quais por sua vez de- pendem de cada classificação e tipologia que o discurso imperante da modernidade considere mais lógico, adequado e equilibrado para sua respectiva idade cronológica (LEVIN, 2000, p. 152). Em contrapartida, é por intermédio do relacionamento com os outros que a criança tem seus movimentos espontâneos, transformando-se em gestos com significados e em imagens lúdicas (LEVIN, 2000). Os aspectos subjetivos são mais do que necessários para o desenvolvimento psicomotor. Nós, que trabalhamos com crianças partindo da psicomotricidade ou de qualquer outra disciplina, temos a responsabilidade de não retroceder diante do excesso de organicidade que a cultura atual nos propõe, que em sua última versão tenderia a eliminar a imagem do corpo. Por exemplo, pode-se geneticamente clonar um corpo. Mas... como clonar uma imagem corporal? (LEVIN, 2000, p. 155). Por exemplo, talvez o bebê movimente o braço para cima e mexa a mão, sem querer. O adulto que vê esse movimento espontâneo sorri para o bebê, abraça-o e diz: “Muito bem, aprendeu a dar tchauzinho! Vamos fazer outra vez?”. Daí o adulto mexe o braço da criança, e a mãozinha se movimenta em consequência. “O sistema motor fica assim limitado pela dimensão psíquica que constitui a direcionalidade e a orientação do sistema. Daí o psicomotor” (LEVIN, 2000, p. 149). Se o bebê já estiver perto de um ano de idade, pode aprender a “dar tchauzinho” estimulado pela interação com esse adulto. A partir de então, mexerá o braço e a mão por iniciativa própria, sabendo que isso possui algum significado: Se, na clínica, tomamos as crianças como objetos a reparar, a reeducar, a exercitar ou a estimular, corremos o risco de perder a dimensão subjetiva e, com ela, a possibilidade de atar seu desenvolvimento psicomotor (e, portanto, o eixo corporal) ao cenário estruturante da constituição de um sujeito. É, nessa direção, que propomos nossa técnica e estratégia clínica. O eixo do corpo não se move, é a partir dele, de sua função estrutural, que a motricidade articula-se e ordena-se como representante de um sujeito (LEVIN, 2000, p. 150). 116 Novamente, voltamos ao fato de que o psicomotricista não pode ver em seu(s) paciente(s) apenas o corpo real. Ele não pode se deter a fazer uma intervenção pensando somente no sistema muscular e esquelético. A clínica requer um olhar e uma escuta para além do corpo, que resultarão numa proposta interventiva. Para isso, é necessária empatia por parte do terapeuta. Entre as diretrizes apresentadas, as mais relevantes estão associadas à forma como as vivências corporais, sensoriais, gnosicopráxicas, lúdicas e cinestésicas devem ser vividas e partilhadas, em um espaço contentor, através de uma relação tonicoemocional empática entre o terapeuta e a criança (FERNANDES; GUTIERRES FILHO; REZENDE, 2018, p. 708). Para aprender mais sobre a clínica psicomotora, sugerimos a leitura do livro: LEVIN, E. A clínica psicomotora: o corpo na linguagem. 9. ed. Petrópolis: Editora Vozes; 2011. CAPADO LIVRO A CLÍNICA PSICOMOTORA: O CORPO NA LINGUAGEM FONTE: <http://twixar.me/bRsm>. Acesso em: 20 set. 2020. DICA 117 É importante reforçarmos, novamente, um dos maiores desafios dos psicomo- tricistas da atualidade: O psicomotricista terá de lutar necessariamente com essa fascina- ção, exagero e desmesura pelo detalhe orgânico ou funcional que a modernidade apresenta-nos atualmente. Uma vez que, em detri- mento da imagem, o oculto torna-se visível, o misterioso do desen- volvimento metamorfoseia-se em pura mecânica ou estágios, e a curiosidade infantil transforma-se em manuais padronizados ou em caminhos preestabelecidos estatisticamente. Deste modo, o corpo é esvaziado de todo segredo e enigma. A sombra do órgão retorna uma e outra vez fragmentando e questionando a imagem (LEVIN, 2000, p. 155). 118 Neste tópico, você aprendeu: • A psicomotricidade pode ser aplicada no contexto clínico. • Os psicomotricistas podem atender pacientes das mais variadas faixas etárias, da infância até a velhice. Além de escolas, é possível atuar em hospitais, empresas, organizações e clínicas. • Os psicomotricistas precisam “refletir sobre a maneira de solicitar a função, a senso- rialidade e o imaginário, para que tenham êxito nos processos de integração psíquica ao utilizarem o jogo-em-relação como mediador da sua intervenção” (FERNANDES; GUTIERRES FILHO; REZENDE, 2018, p. 702). • Ter acesso ao conhecimento da psicomotricidade clínica não garante uma boa atuação profissional. Afinal, o psicomotricista precisa atuar alinhado à teoria, olhando para o paciente como um ser inteiro, e não repartido ou segmentado. • O psicomotricista precisa desenvolver atitudes de empatia e estar aberto ao lúdico. • O psicomotricista deve trabalhar de forma lúdica. RESUMO DO TÓPICO 3 119 AUTOATIVIDADE 1 Leia o texto a seguir: A prática clínica psicomotora apresenta uma lista substantiva de factos e evidências sobre as estreitas relações que unem as anomalias psíquicas com as motoras, que não são mais do que a expressão de uma solidariedade neurofuncional original e profunda entre as ações e as sensações, entre o movimento e o pensamento (FONSECA, 2010, p. 50). Diante do exposto, descreva quem são as pessoas que costumam ser encaminhada para o atendimento clínico com psicomotricista. 2 Leia o texto a seguir: Na década de 1970, diferentes autores definiram a psicomotricidade como uma motri- cidade de relação. Começou, então, a ser delimitada uma diferença entre uma postura reeducativa e uma terapêutica que, ao despreocupar-se da técnica instrumentalista e ao ocupar-se do “corpo de um sujeito”, vai dando, progressivamente, maior importân- cia à relação, à afetividade e ao emocional. Para o psicomotricista, a criança constitui sua unidade a partir das interações com o mundo externo e nas ações do outro (mãe e substitutos) sobre ela. FONTE: <https://psicomotricidade.com.br/historico-da-psicomotricidade/>. Acesso em: 20 set. 2020. Diante do excerto, disserte sobre por que o psicomotricista não deve dar maior ênfase ao corpo do paciente, e sim a seus aspectos subjetivos. 120 121 TÓPICO 4 — RELAÇÕES DA PSICOMOTRICIDADE COM OUTRAS FORMAS DE INTERVENÇÃO UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Até aqui, aprendemos sobre a psicomotricidade e a área de atuação clínica. Anteriormente, vimos também a educação psicomotora ou a área de atuação educacional da psicomotricidade, além de algumas das especificidades da psicomotricidade. Neste tópico, aprenderemos sobre as relações da psicomotricidade com outras formas de intervenção. Podemos dizer que já vimos algumas pistas sobre isso, com base no que aprendemos até aqui. Agora, é o momento de deixar esse assunto mais claro. Ficará evidente o quanto o Código de Ética enfatiza questões atinentes ao relacionamento com outras formas de intervenção. 2 OUTRAS ÁREAS DE ATUAÇÃO DOS PSICOMOTRICISTAS Antes de sopesarmos as relações entre psicomotricistas e outros profissionais, é propício sabermos onde os psicomotricistas podem trabalhar. Será que os únicos lugares são instituições educacionais e clínicas? A resposta para essa pergunta é não. Além das linhas educativas, reeducativas e da terapêutica e relacional, também existem os campos de atuação na área da saúde e na área empresarial. Alguns chamam esse contexto de atuação de “psicomotricidade institucional”, como podemos ver no exemplo, a seguir, que se refere aos cursos de pós-graduação em psicomotricidade: Os estudos sobre a Psicomotricidade chegaram ao Brasil no final dos anos 1960 e hoje integram o currículo de muitas graduações. A formação profissional se dá principalmente a partir de cursos de pós-graduação. [...] Há mais de 70 cursos de especialização em Psicomotricidade autorizados pelo MEC. A carga horária varia de 360 a 640 horas/aula, dependendo da instituição (GUIA DA CARREIRA, c2007-2021, s.p.) 122 Existem cerca de 30 tipos de cursos de pós-graduação que enfocam o tema de forma combinada a outras áreas do conhecimento, principalmente à educação. Veja alguns exemplos: • Educação Especial e Psicomotricidade. • Educação Física Escolar, Psicomotricidade e Ludopedagogia. • Educação Infantil e Psicomotricidade Escolar. • Gestão Esportiva: Ênfase em Psicomotricidade e Inclusão. • Neuropsicomotricidade. • Neuropsicopedagogia e Psicomotricidade. • Psicomotricidade e Neurociências. • Psicomotricidade Educacional. • Psicomotricidade Funcional. • Psicomotricidade – Abordagem Clínica e Institucional. • Psicomotricidade Relacional. • Psicomotricidade, Corpo e Movimento. FONTE: Adaptado de <https://www.guiadacarreira.com.br/carreira/ psicomotricidade/>. Acesso em: 20 set. 2020. IMPORTANTE No tocante ao âmbito de atuação da saúde, podemos citar, como exemplos de possíveis ambientes de trabalho para os psicomotricistas, enfermarias, ambulatórios, hospitais (inclusive nas unidades de tratamento intensivo – UTI) e, até mesmo, brinquedotecas. Já o âmbito de atuação empresarial ou institucional envolve a ergomotricidade e a psicomotricidade aquática – esta relacionada com as possibilidades psicomotoras na água, sobretudo envolvendo a natação. 123 Você sabe o que é ergomotricidade? Ergomotricidade consiste na aplicação da psicomotricidade aos problemas ocupacionais da ergonomia. A ergomotricidade é uma ciência, mas também é uma prática que atua sobre o movimento, com o objetivo de melhorar a postura, por se tratar de uma atividade motora que exprime uma certa relação com o mundo exterior, o que se dá por meio da atividade muscular, das percepções visuais, auditivas e cinestésicas, das antecipações, do equilibração, da regulação dos movimentos e das atividades mentais envolvendo a memória e o ritmo, enfim, das percepções próprio, externo e interoceptivas. Sendo assim, a ergomotricidade torna-se capaz de fazer a ponte entre dois polos aparentemente antagônicos, o corpo do trabalho e o corpo do lazer, pela possibilidade de atuação global sobre o corpo em movimento oportunizada pela prática psicomotora ao dirigir-se e se deixar dirigir por suas bases: esquema corporal, espaço temporalidade, tonicidade, ritmo, coordenação de movimentos, equilíbrio, respiração, desenvolvendo, portanto pelo exercício não automatizado, a consciência do gesto. FONTE: <https://psicomotricidade.com.br/ergomotricidade/>. Acesso em: 21 set. 2020. NOTA Posto isso, torna-se fácil deduzir que os psicomotricistas poderão trabalhar com profissionais de diversas áreas do conhecimento. Além dos professores e demais profissionais da educação, o psicomotricista poderá trabalhar com médicos, enfermeiros e demais profissionais da área da saúde, bem como com administradores, engenheiros, entre outros, na área empresarial. A seguir, veremos o que o código de ética preconiza a esse respeito. 3 PSICOMOTRICIDADE: O CÓDIGO DE ÉTICANo Tópico 3, vimos que não adianta ao psicomotricista conhecer as bases teóricas da psicomotricidade, se ele não trabalhar de modo alinhado a elas. Da mesma forma, para que ele tenha êxito em sua carreira profissional, além do conhecimento teórico e prático, e de saber manejá-lo adequadamente, ainda é preciso conhecer e respeitar o Código de Ética da profissão. Dada a importância desse código, vamos vê-lo, na íntegra, a seguir. 124 IMPORTANTE É possível que você já tenha se deparado com o Código de Ética em outra(s) disciplina(s) ou que volte a encontrá-lo mais adiante no curso. Aproveite sempre a oportunidade de lê-lo, pois, conforme você aprender mais sobre a psicomotricidade, poderá se apropriar melhor do que o código trata, a fim de ter uma compreensão maior dos seus capítulos e artigos. CÓDIGO DE ÉTICA DO PSICOMOTRICISTA Os princípios éticos que orientam nossa atuação, também, fundamentam nossa imagem. O presente Código de Ética reúne as diretrizes que devem ser observadas em nossa ação profissional, para atingirmos padrões éticos cada vez mais elevados no exercício de nossas atividades. Reflete nossa identidade cultural e os compromissos que assumimos no mercado em que atuamos. Abrangência Este Código de Ética é um instrumento norteador das práticas psicomotoras, pertence e aplica-se a todos os sócios desta Associação, até que a profissão seja regulamentada, estando anexado ao Projeto de Lei. CAPÍTULO I DOS PRINCÍPIOS Art. 1º A Psicomotricidade é uma ciência que tem como objetivo, o estudo do homem através do seu corpo em movimento, em relação ao seu mundo interno e externo, bem como suas possibilidades de perceber, atuar, agir com o outro, com os objetos e consigo mesmo. Está relacionada ao processo de maturação, onde o corpo é a origem das aquisições cognitivas, afetivas e orgânicas. Psicomotricidade, portanto, é um termo empregado para uma concepção de movimento organizado e integrado, em função das experiências vividas pelo sujeito, cuja ação é resultante de sua individualidade e sua socialização. Art. 2º Podem intitular-se Psicomotricistas e, nesta qualidade, exercer profissionalmente essa atividade em todo território Nacional, os seguintes profissionais: Graduados na área de Saúde e/ou Educação, os Titulados que se enquadrem no Estatuto regulamentador da ABP – Associação Brasileira de Psicomotricidade, e/ou assemelhados. Art. 3º Os Psicomotricistas devem ter como objetivo básico, promover o desenvolvimento das pessoas sob seu atendimento profissional devendo utilizar todos os recursos técnicos terapêuticos disponíveis (principalmente a interdisciplinaridade) e proporcionar o melhor serviço possível. Art. 4º O Psicomotricista deve exercer a Psicomotricidade com exata compreensão de sua responsabilidade, atendendo a nível educativo e clínico, sem distinção de ordem política, nacionalidade, cor ou credo e tendo o direito de receber remuneração pelo próprio trabalho. Art. 5º O trabalho do Psicomotricista prestado às Instituições, comprovadamente filantrópicas e sem fins lucrativos, poderá ser gratuito. 125 ****** Nota-se que a interdisciplinaridade está prevista no código e que esse artigo retoma muitas das coisas que já aprendemos neste livro até aqui. ****** CAPÍTULO II DAS RESPONSABILIDADES GERAIS DO PSICOMOTRICISTA Art. 6º São deveres Gerais do Psicomotricista a) Esforçar-se por obter eficiência máxima em seus serviços, mantendo-se atualizado quanto aos conhecimentos científicos e técnicos, necessários ao pleno desempenho da atividade; b) Assumir, por responsabilidade, somente as tarefas para as quais esteja habilitado; c) Recorrer a outros especialistas, sempre que for necessário; d) Colaborar para o progresso da Psicomotricidade como ciência e como futura profissão; e) Colaborar sempre que possível, e desinteressadamente, em campanhas de Educação e Saúde, que visem difundir princípios da Psicomotricidade, úteis ao bem estar da coletividade; f) Resguardar a privacidade do cliente. Art. 7º Ao Psicomotricista é Vedado: a) Usar títulos que não possua, ou, anunciar especialidades para as quais não esteja habilitado; b) Fornecer diagnóstico em Psicomotricidade, sem conhecimento prévio do paciente, através de qualquer meio de comunicação. c) Realizar atendimento em Psicomotricidade, através de qualquer veículo de comunicação; d) Praticar atos que impliquem na mercantilização da Psicomotricidade; e) Acumpliciar-se, por qualquer forma, com pessoas que exerçam ilegalmente esta atividade; f) Avaliar ou tratar distúrbios da Psicomotricidade, a não ser no relacionamento profissional; g) Usar pessoas não habilitadas para a realização de práticas em substituição à sua pró- pria atividade. ***** O psicomotricista precisa ter humildade e recorrer a outros especialistas quando sentir tal necessidade. Ele pode buscar parcerias com seus colegas de profissão, sobretudo no início de suas atividades profissionais, ou com profissionais de outras áreas, para ter melhor entendimento acerca dos casos a serem atendidos. ***** CAPÍTULO III DAS RESPONSABILIDADES PARA COM O CLIENTE Art. 8º Define-se como cliente, a pessoa, entidade ou organização a quem o Psicomotricista preste serviços profissionais e em benefício do qual, deverá agir com o máximo de zelo e o melhor de sua capacidade profissional. Art. 9º São deveres dos Psicomotricistas nas suas relações com os seus clientes: a) Informar ao cliente e ou a seu representante legal, sobre resultados obtidos na avaliação de Psicomotricidade: objetivos do tratamento previsto e sua orientação, a fim de que o cliente possa decidir-se pela aceitação ou não do tratamento indicado; b) Informar à Instituição Educacional, sobre o projeto a ser desenvolvido, seus objetivos gerais e específicos, dar orientação à equipe educacional, a serem seguidas, e sobre os resultados obtidos após intervenção terapêutica; 126 c) Limitar o nº de seus clientes, respeitando as normas da técnica e prática da Psicomotricidade, visando a eficácia do atendimento; d) Esclarecer ao cliente, sobre os possíveis prejuízos de uma interrupção do tratamento que vem recebendo, ficando isento de qualquer responsabilidade; e) Certificar-se da realização do diagnóstico de outras especialidades ao assumir compromisso terapêutico com seu cliente, e, encaminhá-lo, quando se fizer necessário, para os especialistas adequados; f) Garantir a privacidade do atendimento realizado, impedindo a presença de elementos alheios na sala de atendimento, a não ser com autorização prévia documentada. Art. 10. Ao Psicomotricista, em sua relação com o cliente, é vedado: a) Prolongar desnecessariamente o tratamento ou prestação de serviço; b) Garantir resultados de qualquer procedimento terapêutico ou intervenção institucional, através de métodos infalíveis sensacionalistas, ou de conteúdo inverídico; c) Emitir parecer, laudo ou relatório, que não correspondam a veracidade dos fatos; d) Usar para fins meramente promocionais e/ou comerciais, pessoas ou instituições a quem prestar serviços profissionais; e) Usar pessoas ou instituições para fins de ensino ou pesquisa, sem seu consentimento expresso e documentado, ou de seu representante legal; f) Dar diagnóstico clínico de qualquer patologia que não seja da área da psicomotricidade, assim como, promover qualquer intervenção, também, fora da área da psicomotricidade. ***** Anteriormente, vimos um pouco sobre esses artigos, mas sempre é válido rever, sobretudo com a leitura completa do código. ****** CAPÍTULO IV DAS RELAÇÕES COM OUTROS PSICOMOTRICISTAS Art. 11. O Psicomotricista deve ter para com seus colegas, a consideração, o apreço e a solidariedade, que refletem a harmonia da classe e lhe aumentem o conceito público. Art. 12. O Psicomotricista, quando solicitado, deverá colaborar com seus colegas e apresentar-lhes serviços profissionais, salvo impossibilidade de motivo relevante. Art. 13. O espírito de solidariedade, não pode levar o Psicomotricistaa ser conivente com ato ilícito praticado por colega. Art. 14. O Psicomotricista atenderá o cliente que esteja sendo assistido por um colega, somente nas seguintes situações: a) A pedido do próprio colega; b) Se for procurado, espontaneamente pelo cliente, dando ciência ao colega e atuando em comum acordo. Art. 15. O Psicomotricista, em relação ao colega, é vedado: a) Emitir julgamento depreciativo sobre o exercício da profissão, ressalvadas as comunica- ções de irregularidade, transmitidas ao órgão competente; b) Explorá-lo profissionalmente e financeiramente; c) Avaliar os serviços prestados pelo colega, para determinar sua eficácia. ********* Não deixe para ler o código só depois de formado. Afinal, ao longo da sua formação, é possível que você faça estágios e é ideal que você siga essas orientações. Sejam os seus estágios obrigatórios ou extracurriculares, é necessário que você se posicione e trabalhe com ética. 127 Além do mais, ao ler o Código de Ética, você também aprende mais sobre essa profissão e algumas das possibilidades de atuação, como as instituições empregatícias. Você sabia que o Código de Ética também disponibiliza orientações específicas sobre elas? Vamos conferi-las? ********* CAPÍTULO V DAS RESPONSABILIDADES E RELAÇÕES COM AS INSTITUIÇÕES EMPREGATÍCIAS E OUTRAS Art. 16. O Psicomotricista funcionário de uma organização deve sujeitar-se aos padrões gerais da instituição, salvo quando o regulamento ou costumes ali vigentes contrarie sua consciência profissional e os princípios e normas deste Código. Art. 17. O Psicomotricista poderá formular junto às autoridades competentes, críticas aos serviços públicos ou privados, com o fim de preservar o bom atendimento da psicomotricidade e o bem estar do cliente. Art. 18. O Psicomotricista no cargo de direção ou chefia, deverá preservar normas básicas à eficácia do exercício da Psicomotricidade, respeitando os interesses da classe. ********* Note que, ao mesmo tempo em que o psicomotricista é incentivado a se adequar às normas e valores das instituições, ele também possui liberdade para se dirigir às autoridades competentes e, se necessário, fazer solicitações para que seu trabalho possa ser feito apropriadamente e para que seus pacientes experimentem o bem-estar. Tendo em vista que este tópico discorre sobre as relações da psicomotricidade com outras formas de intervenção, vamos direto ao assunto? Então vejamos o que o código orienta sobre as relações com outros profissionais. ********* CAPÍTULO VI DAS RELAÇÕES COM OUTROS PROFISSIONAIS Art. 19. O Psicomotricista procurará desenvolver boas relações com os componentes de outras áreas, observando para esse fim o seguinte: a) Trabalhar nos restritos limites das suas atividades; b) Reconhecer os casos pertencentes aos demais campos de especialização profissional, encaminhando-os a profissionais habilitados e qualificados para o atendimento. Art. 20. O Psicomotricista, nas suas relações com outros profissionais, deverá manter elevado conceito e padrões de seu próprio trabalho; Art. 21. O Psicomotricista deverá estabelecer e manter o relacionamento harmonioso com os colegas de outras profissões, informando-os: a) A respeito de serviço de psicomotricidade; b) Emitindo parecer em Psicomotricidade sobre seus clientes, a fim de contribuir para a ação terapêutica da outra profissão. ******** De fato, todos esses itens são indispensáveis para que o trabalho ocorra num ambiente cordial, respeitoso e que também seja eficiente aos pacientes. ******** 128 CAPÍTULO VII DAS RELAÇÕES COM AS ASSOCIAÇÕES CONGREGANTES, REPRESENTATIVAS DOS PSICOMOTRICISTAS Art. 22. O Psicomotricista procurará filiar-se às Associações que tenham como finalidade, a difusão e o aprimoramento da Psicomotricidade como ciência, bem como os interesses da classe. Art. 23. O Psicomotricista deverá apoiar as iniciativas e os movimentos de defesa dos interesses morais e materiais da classe, através dos seus órgãos representativos. CAPITULO VIII DO SIGILO PROFISSIONAL Art. 24. O Psicomotricista está obrigado a guardar segredo sobre fatos que tenha conhecido, em decorrência do exercício de sua atividade. Parágrafo único – não se constitui quebra de sigilo, informações a outro profissional envolvido com o caso, ou, no cumprimento de determinação do poder Judiciário. Art. 25. O psicomotricista não poderá, em anúncios, inserir fotografias, nomes, iniciais de nomes, endereços, ou qualquer outro elemento que identifique o cliente, devendo adotar o mesmo critério nos relatos ou publicações, em sociedades científicas e jornais. Salvo com autorização livre e esclarecida, devidamente documentada. CAPITULO IX É VEDADO AO PSICOMOTRICISTA a) Apresentar, como original, qualquer ideia descoberta, ou ilustrações, que, na realidade, não o sejam; b) Anunciar na recuperação de clientes, sobretudo em casos considerados impossíveis o emprego de métodos infalíveis ou secretos, de tratamento. CAPITULO X DOS HONORÁRIOS PROFISSIONAIS Art. 26. O piso dos honorários deverá ser estabelecido pelo Conselho profissional, logo que a profissão for regulamentada. CAPITULO XI DAS DISPOSIÇÕES GERAIS Art. 27. As dúvidas na observância deste Código e os casos omissos encaminhados pelos Capítulos Regionais da ABP – Associação Brasileira de Psicomotricidade, serão apreciados pela ABP-Colégio Nacional. Art. 28. Compete a ABP – Associação Brasileira de Psicomotricidade firmar jurisprudência nos casos omissos e fazê-los incorporarem-se neste Código. O presente Código de Ética, elaborado pela ABP – Associação Brasileira de Psicomotricidade, entrará em vigor na data de sua substituição, no Registro de Pessoas Jurídicas e/ou de sua publicação no Diário Oficial da União. Art. 34. Cumprir e fazer cumprir este Código é dever de todo Psicomotricista. FONTE: <https://psicomotricidade.com.br/codigo-de-etica/>. Acesso em: 20 set. 2020. 129 Esperamos que você tenha obtido maior clareza a respeito da atuação profissional psicomotricista. É pertinente deixar claro que não existe uma epistemologia exclusiva da psicomotricidade clínica nem da psicomotricidade voltada ao âmbito educacional. Independentemente da área de atuação, a base teórica e científica é a mesma. Isso também vale para o Código de Ética. Não existe um código só da psicomotricidade dirigida à área da saúde ou à área empresarial. O código é singular, único e válido para todos os psicomotricistas, independentemente de sua área de atuação. A título de exemplo, vamos citar o sigilo profissional. Ele não deve ser seguido somente no contexto clínico, mas deve ser preservado em toda e qualquer área de atuação que o psicomotricista ocupar. É, por isso, que deixamos o Código de Ética como desfecho desta unidade, porque ele se refere a todas as áreas de atuação da psicomotricidade. 130 LEITURA COMPLEMENTAR A IMPORTÂNCIA DA PSICOMOTRICIDADE NA EDUCAÇÃO INFANTIL Fabiele Muchinski Maneira Elaine Cristina Gonçalves Psicomotricidade A Psicomotricidade como sendo uma área que tem por objetivo o desenvol- vimento motor, cognitivo e afetivo se faz importante para o trabalho com crianças na etapa da Educação Infantil, uma vez que é por meio de atividades psicomotoras que a criança encontra a possibilidade de desenvolver-se integralmente. Muitos estudiosos voltaram suas pesquisas para a Psicomotricidade, mas, segundo Fonseca (1995b), Henri Wallon possivelmente é o precursor dos estudos direcionados a essa área, pois desenvolveu várias pesquisas e publicou obras no campo do desenvolvimento psicológico da criança. O movimento é entendido por Wallon como a única expressão e o primeiro instrumento do psiquismo. Segundo Bueno (1998), a Psicomotricidade, no Brasil, tem seus primeiros registros e documentos em meados de 1950, período em que se começava a reconhecer a ligação existente entre corpo e movimento, mas ainda não se visava o termo “psicomotricidade”.O autor salienta ainda que, no fim de 1950, Günspun já evidenciava a possibilidade de tratamento de distúrbios de aprendizagem utilizando-se de atividades psicomotoras. A Sociedade Brasileira de Psicomotricidade foi fundada em 1980, com o objetivo de auxiliar os profissionais que trabalhavam e buscavam formação nessa área. A Educação Psicomotora, eixo da Psicomotricidade que se configura como foco desta pesquisa, caracteriza-se como uma técnica de trabalho psicomotor que possui um cunho preventivo. Desse modo, observa-se a importância da sua aplicabilidade desde a mais tenra idade. Por esse motivo, a faixa etária que será tratada com ênfase neste trabalho será de 0 a 3 anos. Essa é a etapa em que a criança recebe vários estímulos, os quais serão somente aprimorados no decorrer da vida escolar do indivíduo, determinando uma significativa porcentagem das capacidades futuras. 131 Educação Psicomotora A Educação Psicomotora sendo trabalhada na Educação Infantil e nos primeiros anos do Ensino Fundamental I apresenta-se como uma ação preventiva, pois proporciona estímulos e desenvolvimento de capacidades que serão evidenciadas ao longo da vida do indivíduo. Segundo Goretti (1994), a Educação Psicomotora iniciou na França, tendo como precursor o professor de Educação Física Jean Lê Boulch, em meados de 1960. Nesse período, já se visava o desenvolvimento global do sujeito, por meio dos movimentos, e objetivava-se evitar distúrbios de aprendizagem. Observa-se, nessa perspectiva, que já se evidenciava o uso de atividades psicomotoras para o desenvolvimento não só motor, mas também afetivo e cognitivo. Lê Boulch (1988) salienta que a proposta de um trabalho psicomotor educativo surgiu devido ao fato de a educação física não atender às necessidades de uma educação voltada ao corpo. Assim sendo, percebe-se que o professor Lê Boulch concluiu que as atividades de Educação Física não deveriam ser trabalhadas da mesma forma com todas as faixas etárias; cada idade tem suas necessidades de desenvolvimento específicas. Desse modo, compreende-se a necessidade de uma Educação Física voltada ao público infantil. Conforme Rossi (2012), a partir de várias pesquisas realizadas, constatou-se que o trabalho com a Psicomotricidade proporciona ao aluno uma melhor assimilação das aprendizagens escolares. Após esta verificação, houve o interesse em trazer seus recursos para o cotidiano escolar, no âmbito da Educação Psicomotora. Segundo Lê Boulch (1988, p. 25), a Educação Psicomotora auxilia de forma significativa o processo de desenvolvimento infantil, “a educação psicomotora deve ser praticada desde a mais tenra idade; conduzida com perseverança, permite prevenir inadaptações, difíceis de corrigir quando já estruturadas”. Desse modo, percebe-se que o trabalho psicomotor é indispensável na etapa da Educação Infantil, considerando que é nessa fase que a criança recebe estímulos importantes para o seu desenvolvimento global. Lapierre e Lapierre (2002) colocam que o trabalho com as crianças nos primeiros anos de vida nas creches é centrado apenas no cuidado, mas o infante, antes dos 18 meses, já possui capacidades em potencial que permitem a sua abertura para o processo de aprendizagem. 132 Salienta-se, neste enfoque, a importância crucial do desenvolvimento de atividades psicomotoras na faixa etária de 0 a 3 anos, pois, nessa idade, as crianças possuem muitas habilidades, necessitam de estímulos e mediação para aprimorá-las. Assim sendo, o trabalho com essa faixa etária na Educação Infantil não deve se restringir apenas ao cuidado, pois, desse modo, estaria se subestimando as capacidades do sujeito. Nesse sentido, aponta-se que: Muitos estudiosos, mesmo de correntes de pensamento diversas, concordam sobre o fato de que os primeiros anos de vida são fundamentais para a maturação da criança. De maneira particular, é opinião compartilhada que já aos três anos todo indivíduo tenha adquirido as características principais da própria personalidade (VECCHIATO, 2003, p. 33). Nessa perspectiva, observa-se a necessidade de um trabalho de qualidade exercido pelos profissionais atuantes na Educação Infantil, uma vez que a criança, em seus primeiros anos de vida, depende de estímulos e intervenções do adulto para desenvolver-se e moldar sua personalidade. Sob essa análise, Lê Boulch (1988, p. 27) expõe que “no nascimento, existem potencialidades que, para desenvolver-se, não requerem só a maturação dos processos orgânicos, mas sim principalmente o intercâmbio com as outras pessoas”. O referido autor salienta que, na primeira infância, a interação da criança com o outro será fator decisivo para o desenvolvimento do temperamento e da personalidade. Por meio desse enfoque, permite-se observar que o trabalho psicomotor auxilia de modo significativo no processo de aprendizagem na primeira infância, pois, com o exercício de tais atividades, o professor terá a possibilidade de interagir com a criança, de manter um contato direto e afetuoso com esta. Como aponta Bueno (1998, p. 58), “a criança se sentirá bem na medida em que seu corpo lhe obedece, em que o conhece bem, em que pode utilizá-lo não somente para movimentar-se, mas também para agir”. Segundo o RCNEI (BRASIL, 1998), o trabalho com o movimento deve ocorrer desde os primeiros anos de vida e se faz necessário respeito às especificidades de cada faixa etária, além das inúmeras culturas corporais. Referente aos conteúdos, o RCNEI salienta que: Os conteúdos deverão priorizar o desenvolvimento das capacidades expressivas e instrumentais do movimento, possibilitando a apropriação corporal pelas crianças de forma que possam agir com cada vez mais intencionalidade. Devem ser organizados num processo contínuo e integrado, que envolve múltiplas experiências corporais, possíveis de serem realizadas pela criança sozinha ou em situações de interação. Os diferentes espaços e materiais, os diversos repertórios de cultura corporal expressos em brincadeiras, jogos, danças, atividades esportivas e outras práticas sociais são algumas das condições necessárias para que esse processo ocorra (BRASIL, 1998, p. 29). 133 Por meio da análise desse documento, observa-se a importância e a responsa- bilidade do trabalho com a Educação Psicomotora para o desenvolvimento integral do sujeito. Para a criança, as atividades psicomotoras têm grande significância perante sua formação, uma vez que é por meio delas que a criança tem a possibilidade de conhe- cer-se e de conhecer o outro. Sendo a Educação Psicomotora trabalhada com qualidade desde os primeiros anos de vida, fase crucial do desenvolvimento humano, essa técnica pode prevenir dificuldades de aprendizagem. A criança, ao receber vários estímulos, passa a realizar mais conexões cerebrais, e ao chegar à fase da alfabetização, por exemplo, já possuirá uma gama de capacidades desenvolvidas, precisando apenas de aprimoramento e aprofundamento. Relação Entre as Dificuldades de Aprendizagem e a Educação Psicomotora Primeiramente, faz-se necessário esclarecer que as Dificuldades de Aprendizagem (DA) tratadas nesta pesquisa serão compreendidas como “limitações no processo de desenvolvimento que dificultam o acompanhamento das atividades curriculares”, como consta na Resolução nº 2 de 11 de setembro de 2001 (CARVALHO, 2007, p. 117). Atualmente, as Dificuldades de Aprendizagem são evidenciadas nas salas de aula com frequência, fator preocupante para o desenvolvimento do processo de ensino. Os professores, hoje em dia, se deparam com uma sala de aula onde se concentram alunos que não conseguem internalizar alguns conhecimentos, devido à dificuldade no aprendizado, e outros que já assimilaram e esperam por novos conteúdos. Desse modo, o docente tem de saber trabalharcom ambas as realidades. Para começar a tratar desde assunto, faz-se necessário conhecer uma definição das Dificuldades de Aprendizagem. Segundo Fonseca, a definição de Dificuldades de Aprendizagem que possui maior relevância é a apresentada pelo National Joint Committee of Learning Disabilities – NJCLD (Comitê Misto Nacional de Dificuldades de Aprendizagem) (1988 apud FONSE- CA, 1995a, p. 71), a qual diz que: Dificuldades de Aprendizagem (DA) é um termo geral que se refere a um grupo heterogêneo de desordens manifestadas por dificuldades significativas na aquisição e utilização da compreensão auditiva, da fala, da leitura, da escrita e do raciocínio matemático. Tais desordens, consideradas intrínsecas ao indivíduo, presumindo-se que sejam devidas a uma disfunção do sistema nervoso central, podem ocorrer durante toda a vida. Problemas na autorregulação do comportamento, na percepção social e na interação social podem existir com as DA. Apesar das DA ocorrerem com outras deficiências (por exemplo, deficiência sensorial, deficiência mental, distúrbios socioemocionais) ou com influências extrínsecas (por exemplo, diferenças culturais, insuficiente ou inapropriada instrução etc.), elas não são o resultado dessas condições. 134 Pode-se observar, com essa definição, a existência de vários fatores que podem gerar as Dificuldades de Aprendizagem, os quais nem sempre estão ligados a uma ordem neurológica, e sim, podem estar relacionados com o ambiente social em que o indivíduo está inserido. Desse modo, constata-se que as Dificuldades de Aprendizagem podem ser prevenidas, em determinados casos, se o ambiente cultural do sujeito for estimulador para a aprendizagem desde os primeiros anos de vida. Conforme Fonseca (1995a, p. 72), “o enfoque das DA está no indivíduo que não rende ao nível do que se poderia supor e esperar a partir do seu potencial intelectual, e por motivo dessa especificidade cognitiva na aprendizagem, ele tende a revelar fracassos inesperados”. Nessa perspectiva, pode-se averiguar que as dificuldades de aprendizagem têm ligações com o mau desenvolvimento cognitivo, o qual é de suma importância para o processo de ensino-aprendizagem. O infante portador de DA pode sofrer com este quadro, pois, por muitas vezes, é taxado de preguiçoso e desatento, mas, como salientam Dockrell e McShane (2000, p. 170), “[...] é possível que a falta de atenção e de esforço seja o resultado e não a causa da dificuldade de aprendizagem”. Essas crianças não deixam de aprender por sua própria vontade, mas porque possuem limitações em seu desenvolvimento. Quando o sujeito se movimenta por meio de atividades direcionadas e planejadas por um mediador, seu cérebro é capaz de internalizar conceitos imprescindíveis para o desenvolvimento de suas capacidades. “A aprendizagem humana é o resultado de uma experiência motora que posteriormente se conserva no cérebro, através de uma experiência psicológica reflexiva” (FONSECA, 1995b, p. 150). Segundo Bueno (1998), a fase que se caracteriza como crucial para o desenvolvimento global do sujeito (motor, intelectual, socioemocional) corresponde a faixa etária do nascimento até os 8 anos, aproximadamente. Nesse contexto, o autor afirma que: É nesse período que se instalam as principais dificuldades em todas as áreas de relação com o meio ao qual está inserido e que, se não forem exploradas e trabalhadas a tempo, certamente trarão prejuízos como dificuldades na escrita, na leitura, na fala, na sociabilização, entre outros. [...] Observando o indivíduo de forma global, a psicomotricidade faz-se necessária tanto para a prevenção e tratamento das dificuldades quanto para a exploração do potencial ativo de cada um (BUENO, 1998, p. 51). Nessa perspectiva, observa-se, claramente, a importância do trabalho com a Psicomotricidade, denominada de Educação Psicomotora, que, ministrada no âmbito escolar, pode vir a prevenir as Dificuldades de Aprendizagem. Para que esse fator seja evidenciado, faz-se necessária a estimulação desde a primeira infância, pois, quanto mais cedo as capacidades da criança forem desenvolvidas, melhor será seu desempenho nos anos subsequentes. 135 Fonseca (1995a) coloca que a psicomotricidade pode possibilitar meios de prevenção e intervenção nas Dificuldades da Aprendizagem, além de poder ser um ótimo recurso para desenvolver potenciais de aprendizagens, mas esses fatores somente poderão ser evidenciados se a prática psicomotora for bem elaborada e estruturada. Assim sendo, observa-se a importância em se desenvolver atividades psicomotoras que objetivem atender a todas as necessidades das crianças, pois elas dependem de bons mediadores para que o processo de aprendizagem ocorra com êxito. As Dificuldades de Aprendizagem estão cada vez mais presentes no cenário educacional, desse modo, faz-se necessário implantar meios de intervenção, ou melhor, de prevenção. Para isso, é imediata a conscientização da importância da Educação Psicomotora desde os primeiros anos de vida, pois, como já esclarecido nesta pesquisa, quanto mais cedo se estimula o cérebro, mais capacidades serão desenvolvidas, e, assim sendo, o indivíduo terá uma menor probabilidade de apresentar DA. Sobre essa perspectiva, Dockrell e McShane (2000, p. 26) afirmam que: Uma das coisas mais óbvias a respeito das crianças é que elas aprendem muito durante o decorrer da infância. Para que este aprendizado ocorra, a criança deve ser equipada no nascimento com um sistema cognitivo que seja capaz de aprender. [...] Nos últimos trinta anos, o estudo do comportamento dos bebês mostrou que a criança nasce com uma rica estrutura organizacional para processar informações. Por meio desta análise, é possível perceber a importância crucial da estimulação da criança desde o nascimento. FONTE: Adaptado de MANEIRA, F. M.; GONÇALVES, E. L. A importância da psicomotricidade na educação infantil. In: XII CONGRESSO NACIONAL DE EDUCAÇÃO. Anais [...] EDUCERE, PUCPR, 2015. Disponível em: https://educere.bruc.com.br/arquivo/pdf2015/15878_7339.pdf. Acesso em: 10 dez. 2020. 136 Neste tópico, você aprendeu: • Existe um Código de Ética que orienta a profissão dos psicomotricistas. • O psicomotricista precisa observar seu paciente, ponderando sobre o estilo de vida dele. • Cabe ao psicomotricista estimular o paciente a atingir novos patamares. • O psicomotricista precisa se concentrar para ajudar o paciente, devendo buscar o entendimento dos aspectos emocionais que podem estar causando impacto no desenvolvimento do paciente. • O Código de Ética é o mesmo que orienta a atuação do profissional em psicomotricidade, independentemente da área de atuação na qual o psicomotricista irá trabalhar. • É a mesma epistemologia que dá fundamento para a prática dos psicomotricistas, seja qual for a área de atuação na qual o psicomotricista irá trabalhar. RESUMO DO TÓPICO 4 137 AUTOATIVIDADE 1 Em 3 de janeiro de 2019, foi assinada a Lei nº 13.794, que dispõe sobre a regulamentação da atividade profissional de psicomotricista. Leia, a seguir, uma parte da referida lei: Art. 3º Compete ao psicomotricista: I- atuar nas áreas de educação, reeducação e terapia psicomotora, utilizando recursos para a prevenção e o desenvolvimento; II- ministrar disciplinas específicas dos cursos de graduação e pós-graduação em Psicomotricidade; III- atuar em treinamento institucional e em atividades de ensino e pesquisa; IV- participar de planejamento, elaboração, programação, implementação, direção, coordenação, análise, organização, avaliação de atividades clínicas e parecer psicomotor em clínicas de reabilitação ou em serviços de assistência escolar; V- prestar auditoria, consultoria e assessoria no campo dapsicomotricidade; VI- gerenciar projetos de desenvolvimento de produtos e serviços relacionados à psicomotricidade; VII- elaborar informes e pareceres técnico-científicos, estudos, trabalhos e pesquisas mercadológicas ou experimentais relativos à psicomotricidade. FONTE: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2019-2022/2019/lei/L13794.htm>. Acesso em: 22 set. 2020. Em qual área de atuação o psicomotricista pode expor fotografias de seus pacientes em anúncios? 2 Taira é uma psicóloga que divide um consultório com o psicomotricista Olavo. Em certo dia, constava na agenda de Taira uma avaliação psicológica com Ana – que é paciente dos dois profissionais do consultório. Entretanto, Taira teve um imprevisto e saiu às pressas do consultório sem poder avisar a paciente sobre sua ausência. No horário agendado, Taira ainda não havia retornado, e Ana chegou ao consultório. Ana disse para a secretária que preferia fazer a avaliação naquele momento, se isso fosse possível. Olavo estava disponível naquele instante e ouviu a conversa entre as duas, sem ser visto por elas. Sobre o que Olavo deve fazer nessa situação, já que ele não é formado em psicologia, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) Olavo deve explicar que a avaliação psicológica deve ser reagendada, pois apenas pessoas com formação em psicologia podem fazê-la. b) ( ) Olavo deve se dispor a fazer a avaliação, até porque Ana também é paciente dele, e ele encontrará os testes no armário de Taira. 138 c) ( ) Olavo deve dizer, para Ana, que a atitude de Taira é imperdoável e orientá-la a procurar outro psicólogo que seja pontual com os horários. a) ( ) Olavo deve pedir para a secretária explicar que nenhum dos dois está no consultório, orientando-a a dizer para Ana que ela não sabe o que fazer nesse caso. 139 REFERÊNCIAS ABP – Associação Brasileira de Psicomotricidade. Código de ética. Associação Brasileira de Psicomotricidade, c1980/2019. Disponível em: https:// psicomotricidade.com.br/codigo-de-etica/. Acesso em: 20 set. 2020. ALEXANDROFF, M. C. 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TÓPICO 1 – FORMAÇÃO PROFISSIONAL EM PSICOMOTRICIDADE: TEÓRICA TÓPICO 2 – FORMAÇÃO PROFISSIONAL EM PSICOMOTRICIDADE: PRÁTICA TÓPICO 3 – FORMAÇÃO PROFISSIONAL EM PSICOMOTRICIDADE: PESSOAL Preparado para ampliar seus conhecimentos? Respire e vamos em frente! Procure um ambiente que facilite a concentração, assim absorverá melhor as informações. CHAMADA 144 CONFIRA A TRILHA DA UNIDADE 3! Acesse o QR Code abaixo: 145 TÓPICO 1 — FORMAÇÃO PROFISSIONAL EM PSICOMOTRICIDADE: TEÓRICA UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO De posse dos conhecimentos teóricos em psicomotricidade apresentados nas unidades anteriores, este tópico tem por intuito apresentar um olhar diferenciado sobre a construção do arcabouço teórico da psicomotricidade, além de proporcionar maior clareza sobre as formas pelas quais as pessoas podem dar início e continuidade aos seus estudos dentro da área de conhecimento profissional da psicomotricidade. Assim, veremos o passo a passo de como se tornar um profissional formado em psicomotricidade, que, portanto, conhece as bases teóricas da profissão. Em seguida, conheceremos os pioneiros nos estudos em psicomotricidade, o que é válido, nesse momento, em virtude de os conhecimentos teóricos em psicomotri- cidade terem como base os seus escritos. 2 FORMAÇÃO TEÓRICA EM PSICOMOTRICIDADE Para obter a formação profissional em psicomotricidade, em termos teóricos, o primeiro passo é ingressar em um curso de graduação, isto é, deve-se iniciar os estudos em uma instituição de educação superior. A oferta de cursos superiores específicos em psicomotricidade é bastante recente no Brasil. Na Figura 1, podemos perceber que a maioria dos psicomotricistas atuantes no país cursou, primeiramente, outro curso superior. 146 FIGURA 1 – CURSOS SUPERIORES E A PSICOMOTRICIDADE FONTE: A autora Psicomotricidade Psicologia Educação Física Pedagogia Serviço Social Fisioterapia Enfermagem Medicina Fonoaudiologia Dança Terapia Ocupacional Musicoterapia Música Depois de cursar a graduação, é necessário fazer uma pós-graduação. Embora já tenhamos apresentado algumas sugestões de cursos de especialização disponíveis no mercado, repetiremos a lista para que você possa conferi-las prontamente: “Há mais de 70 cursos de especialização em Psicomotricidade autorizados pelo MEC. A carga horária varia de 360 a 640 horas/aula, dependendo da instituição. Além disso, existem cerca de 30 tipos de cursos de pós-graduação que enfocam o tema de forma combinada com outras áreas do conhecimento, principalmente à educação. Veja alguns exemplos: • Educação Especial e Psicomotricidade. • Educação Física Escolar, Psicomotricidade e Ludopedagogia. • Educação Infantil e Psicomotricidade Escolar. • Gestão Esportiva: Ênfase em Psicomotricidade e Inclusão. • Neuropsicomotricidade. • Neuropsicopedagogia e Psicomotricidade. • Psicomotricidade e Neurociências. DICA 147 • Psicomotricidade Educacional. • Psicomotricidade Funcional. • Psicomotricidade – Abordagem Clínica e Institucional. • Psicomotricidade Relacional. • Psicomotricidade, Corpo e Movimento. As disciplinas podem variar de acordo com o curso, mas, de modo geral, combinam uma base teórica com práticas utilizadas nos tratamentos, além de estágio supervisionado. Confira algumas disciplinas que podem ser encontradas nos currículos de pós-graduação em Psicomotricidade: • Análise e Intervenção nas Alterações do Movimento: da Neonatologia à Gerontomotricidade. • Avaliação Psicomotora. • Desenvolvimento Psicomotor. • Dinâmica de Entrevistas para Crianças, Adolescentes e Adultos. • Educação Psicomotora. • Epistemologia da Psicomotricidade. • Estágio Supervisionado. • Fisiologia do Movimento. • Fundamentos de Psicanálise. • Neuropsiquiatria. • Oficina de Consciência Corporal. • Oficina do Lúdico e o Brincar. • Práticas em Sensibilização Corporal. • Psicomotricidade e a Família. • Psicomotricidade Hospitalar. • Técnicas de Respiração e Relaxamento. • Terapia Psicomotora”. FONTE: <http://twixar.me/yVym>. Acesso em: 22 set. 2020. O que os cursos de psicomotricidade têm em comum, seja na modalidade de graduação ou pós-graduação, são algumas das perspectivas teóricas, que, ao longo da história, vêm marcando essa ciência, conforme veremos ao longo deste tópico. “Historicamente, o termo ‘psicomotricidade’ aparece a partir do discurso médico, mais precisamente neurológico, quando surgiu a necessidade, no início do século XIX, de nomear as zonas do córtex cerebral situadas mais além das regiões motoras. Com o desenvolvimento e as descobertas da neurofisiologia, começou a constatar-se que há diferentes disfunções graves sem que o cérebro esteja lesionado ou sem que a lesão esteja claramente localizada”. FONTE: <https://psicomotricidade.com.br/historico-da- psicomotricidade/>. Acesso em: 23 set. 2020. IMPORTANTE 148 Assim, grande parte dos cursos de psicomotricidade ainda mantém as influên- cias do discurso médico, seja em maior ou menor medida. Até porque os pioneiros nos estudos em psicomotricidade foram os médicos. Isso ficará mais evidente ao longo da leitura deste tópico. “São descobertos distúrbios da atividade gestual, da atividade práxica. Portanto, o ‘esquema anátomo-clínico’, que determinava para cada sintoma sua correspondentelesão focal, já não podia explicar alguns fenômenos patológicos. É, justamente, a partir da necessidade médica de encontrar uma área que explique certos fenômenos clínicos que se nomeia, pela primeira vez, a palavra psicomotricidade, no ano de 1870. As primeiras pesquisas que dão origem ao campo psicomotor correspondem a um enfoque eminentemente neurológico”. FONTE: <https://psicomotricidade.com.br/historico-da- psicomotricidade/>. Acesso em: 23 set. 2020. ATENÇÃO Por exemplo, em setembro de 2020, a UNIASSELVI ofertava dois cursos de es- pecialização específicos da psicomotricidade, um deles intitulado de “Psicomotricidade” e o outro de “Psicomotricidade e o processo de ensino-aprendizagem”, além de dispo- nibilizar diversos outros cursos na área da educação e na área da saúde que podem contribuir para a formação teórica do psicomotricista. Ainda que já tenhamos aprendido bastante sobre os conhecimentos da psicomo- tricidade, vamos conhecer um pouco sobre os principais expoentes da psicomotricidade. “A psicomotricidade surgiu em 1907, com Ernest Dupré, considerado a principal referência da área, a partir de observações clínicas que en- fatizaram o paralelismo das manifestações motoras e psíquicas: ‘[...] entre certas alterações mentais e as alterações motoras correspon- dentes existe uma união tão íntima, que parecem constituir verdadei- ras parelhas psicomotoras’”. FONTE: <http://www.psicomotricidade.com.br/curriculo_basico.htm>. Acesso em: 23 set. 2020. NOTA 149 Um fato bastante curioso, que já mostra a tendência à interdisciplinaridade da psicomotricidade, é que, quando Ernest Dupré (Figura 2) estava em sala de aula, no papel de professor, ele indicava que os alunos lessem obras literárias, sobretudo as escritas pelos romancistas, para aprenderem mais sobre a psicologia (PÉREZ-RINCÓN, 2010). FIGURA 2 – ERNEST DUPRÉ FONTE: <https://commons.wikimedia.org/wiki/File:Ernest_Dupr%C3%A9.JPG>. Acesso em: 23 set. 2020. “A figura de Dupré, neuropsiquiatra, em 1909, é de fundamental importância para o âmbito psicomotor, já que é ele quem afirma a independência da debilidade motora (antecedente do sintoma psicomotor) de um possível correlato neurológico”. FONTE: <https://psicomotricidade.com.br/historico-da- psicomotricidade/>. Acesso em: 23 set. 2020. IMPORTANTE Outro teórico bastante relevante para a teoria da psicomotricidade é Henri Paul Hyacinthe Wallon (Figura 3), um importante autor tanto para a psicologia quanto para a psicopedagogia, entre outras áreas além da psicomotricidade. Sua teoria englobava cognição e afetividade, e ele levou essas questões em consideração, sobretudo no tocante à educação (FERREIRA; ACIOLY-RÉGNIER, 2010). 150 FIGURA 3 – HENRI WALLON FONTE: <http://www.nerj.rj.saude.gov.br/albertsabin/?attachment_id=630>. Acesso em: 23 set. 2020. Wallon era filósofo, psicólogo, médico e político, cuja teoria era predominantemente social, ainda que ele levasse em conta os aspectos orgânicos. Isso porque, para ele, a integração entre os fatores orgânicos com o meio era bastante valorizada (FERREIRA; ACIOLY-RÉGNIER, 2010). Na perspectiva de Wallon, a base orgânica do corpo humano é importante, mas não é a única esfera responsável pelos movimentos corporais. Uma pessoa precisa mais do que músculos e ossos para se mexer. Até porque esses só se movimentam sob os comandos do sistema nervoso central. Então, Wallon olhava para os sentimentos, emoções e paixões dos seres humanos (FERREIRA; ACIOLY-RÉGNIER, 2010). A noção da integralidade estava presente nos escritos de Wallon, já que ele compreendia a pessoa como um ser total. Essa noção leva a um movimento contínuo que produz transformações (FERREIRA; ACIOLY-RÉGNIER, 2010). Para Wallon, ao mesmo tempo em que os músculos e os ossos dependem dos comandos do cérebro, as funções psicológicas superiores dependem das dimensões motoras e afetivas para serem desenvolvidas (FERREIRA; ACIOLY-RÉGNIER, 2010). “Em 1925, Henri Wallon, médico psicólogo, ocupa-se do movimento humano dando-lhe uma categoria fundante como instrumento na construção do psiquismo. Essa diferença permite a Wallon relacionar o movimento ao afeto, à emoção, ao meio ambiente e aos hábitos do indivíduo”. FONTE: <https://psicomotricidade.com.br/historico-da- psicomotricidade/>. Acesso em: 23 set. 2020. IMPORTANTE 151 Desse modo, para Wallon, a base orgânica da afetividade requer estruturas orgânicas na formação da pessoa, além do convívio com o meio social. Afinal, é por meio da interação com os outros que vamos pouco a pouco transformando essa afetividade orgânica, moldando-a e tornando suas manifestações cada vez mais sociais (FERREIRA; ACIOLY-RÉGNIER, 2010). O médico Edouard Guilmain também deixou suas marcas na história da psi- comotricidade. Ainda que na internet não se encontre facilmente fotos suas ou seus escritos, o nome dele merece ser citado. “A dinâmica corporal ou global da revisão Guilmain tem por objetivos principais a observação do equilíbrio, da coordenação estática e dinâmica, coordenação viso- motriz, destreza, agilidade e persistência motora de base” (BRETAS et al., 2005, p. 405, grifo nosso). Para saber mais sobre Wallon e psicomotricidade, leia o artigo de Elda Maria Rodrigues de Carvalho, Tendências da educação psicomotora sob o enfoque Walloniano, disponível na íntegra em: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/pcp/v23n3/v23n3a12.pdf. NOTA “Em 1935, Edouard Guilmain, neurologista, desenvolve um exame psicomotor para fins de diagnóstico, de indicação da terapêutica e de prognóstico”. FONTE: <https://psicomotricidade.com.br/historico-da- psicomotricidade/>. Acesso em: 23 set. 2020. IMPORTANTE 152 Agora que já aprendemos um pouco sobre Ernest Dupré, Henri Wallon e Edouard Guilmain, vamos conhecer Julian de Ajuriaguerra (Figura 4). FIGURA 4 – JULIAN DE AJURIAGUERRA FONTE: <https://alchetron.com/Julian-de-Ajuriaguerra>. Acesso em: 23 set. 2020. Sugerimos a leitura do livro de Edouard Guilmain, considerado o “Manual da Revisão Psicomotora”: GUILMAIN, E. L’activité psychomotrice de l’enfant: son évolution de la naissance à 12 ans. Tests d’âge moteur et tests psycho-moteurs. Paris: EAP; 1986. DICA Julian de Ajuriaguerra é autor de um livro referenciado, ainda na atualidade, em artigos científicos de psicomotricidade: AJURIAGUERRA, J. Le corps comme relation. Revue. Suisse de Psychologie Pure et Appliquée, France, v. 2, p. 137-157, 1962. DICA 153 Após conhecermos esses quatro teóricos, podemos retomar a perspectiva da motricidade de relação – já vimos um pouco sobre ela nas unidades anteriores. Além dos autores citados, poderíamos citar vários outros. Anteriormente, vimos um pouco sobre Freud, que vem influenciando especialmente a atuação clínica da psicomotricidade. A Revista Estilos da Clínica disponibiliza um discurso feito por Julian de Ajuriaguerra em 1983. AJURIAGUERRA, J. De los movimientos espontáneos al diálogo tónico-postural y a las actividades expressivas. Revista Anuario de Psicología, v. 28, p. 7-18, 1983. Discurso do professor doutor Julián de Ajuriaguerra “Magnífico e Excelentíssimo Senhor Reitor, Distintos colegas universitários, Senhoras e senhores: Obrigado à Universidade de Barcelona, representada por seu Magnífico Senhor Reitor, por me acolher em seu seio com a categoria de Doutor Honoris Causa. Se universidade tem a ver com ‘universalidade’, a Universidade de Barcelona demonstra hoje que está atenta ao que ocorre no terreno da pesquisa, seja onde for. Não direi nada sobre o fato de ter escolhido a minha pessoa, porque não me cabe julgá-lo. Cabe a mim, em troca, agradecê-lo. Por isso, venho com ilusão receber o valioso prêmio desta Universidade, em seu máximo grau acadêmico. Para obtê-lo (e de acordo com seus usos), permito-me oferecer-lhe o resultado de uma de minhas últimas reflexões, na forma da seguinte oração acadêmica”. Ficou curioso para ler o discursocompleto (“Movimentos espontâneos do diálogo tônico-postural e atividades expressivas”)? Acesse a tradução na íntegra em: http://pepsic.bvsalud.org/pdf/estic/v18n3/v18n3a12.pdf. NOTA “Em 1947, Julian de Ajuriaguerra, psiquiatra, redefiniu o conceito de debilidade motora, considerando-a uma síndrome com suas próprias particularidades. É ele quem delimita, com clareza, os transtornos psicomotores que oscilam entre o neurológico e o psiquiátrico. Com essas novas contribuições, a psicomotricidade diferencia-se de outras disciplinas, adquirindo sua própria especificidade e autonomia”. FONTE: <https://psicomotricidade.com.br/historico-da- psicomotricidade/>. Acesso em: 23 set. 2020. IMPORTANTE 154 A motricidade constrói-se na relação recíproca entre as heranças biológica e sócio-histórica. Vale dizer que, tanto no plano da espécie como no do indivíduo, a motricidade resulta da interação entre o genoma, as condições e as características ambientais e os processos sociais em sua historicidade (KOLYNIAK FILHO, 2010, p. 55, grifo nosso). “Na década de 1970, diferentes autores definiram a psicomotricidade como uma motricidade de relação. Começou, então, a ser delimitada uma diferença entre uma postura reeducativa e uma terapêutica que, ao despreocupar-se da técnica instrumentalista e ao ocupar-se do ‘corpo de um sujeito’, daria, progressivamente, maior importância à relação, à afetividade e ao emocional. Para o psicomotricista, a criança constitui sua unidade a partir das interações com o mundo externo e as ações do outro (mãe e substitutos) sobre ela”. FONTE: <https://psicomotricidade.com.br/historico-da- psicomotricidade/>. Acesso em: 23 set. 2020. IMPORTANTE NOTA Você quer saber mais sobre a psicomotri- cidade relacional? Sugerimos a leitura do livro A psicomotricidade relacional em meio aquático, escrito por Paulo Gutierres Filho e publicado pela Editora Manole. A seguir, observe a capa do livro: CAPA DO LIVRO A PSICOMOTRICIDADE RELACIONAL EM MEIO AQUÁTICO FONTE: <http://twixar.me/Txym>. Acesso em: 23 set. 2020. 155 É interessante que você incremente seus estudos sobre psicomotricidade relacional, já que falaremos brevemente sobre ela no Tópico 3. ESTUDOS FUTUROS Para saber mais sobre a psicomotricidade relacional, sugerimos a leitura do artigo A contribuição da psicomotricidade relacional no desenvolvimento das crianças com transtorno do espectro autista, escrito por Leilane Crislen Cordeiro e Diego da Silva, disponível na íntegra em: https://www.iessa.edu. br/revista/index.php/fsr/article/view/566/239. NOTA Nos estudos de psicomotricidade, em geral, utilizam-se brincadeiras nas ses- sões, focando a expressão corporal e o jogo relacional como elementos para melhorar a comunicação e a interação social (LIMA et al., 2017, p. 92). Para aprender com maior profundidade sobre a psicomotricidade relacional, sugerimos a leitura da dissertação a seguir: CORNELSEN, C. Uma criança autista e sua trajetória na inclusão escolar por meio da psicomotricidade relacional. 2007, 200f. (Dissertação de Mestrado em Educação). Universidade Federal do Paraná, Curitiba, 2007. Disponível em: http://www.ppge.ufpr.br/ teses/teses/M07_cornelsen.pdf. Acesso em: 28 dez. 2020. NOTA Sigmund Schlomo Freud (Figura 5) foi o primeiro formulador da psicanálise. Foi um psiquiatra que viveu entre 1856 e 1939. É válido acrescentar que a ideologia e a operatividade do inconsciente têm servido de subsídio para a psicopedagogia. Isso significa que, para boa parte dos psicopedagogos, quando uma pessoa tem dificuldades para aprender, existem aspectos que fogem à consciência dela que interferem nesse processo, algo que lhes escapa à mente, ao entendimento. Duas obras de Freud, utilizadas nos estudos de neurociência, são: A Interpretação dos Sonhos e Sobre a Psicopatologia da Vida Cotidiana. 156 FIGURA 5 – FREUD FONTE: <https://cosmosecontexto.org.br/inconsciente-metaforas-ilusoes-a-serie-freud-na-netflix/>. Acesso em: 23 set. 2020. É válido conhecermos um pouco sobre a teoria de Freud, até porque Wallon se inspirou consideravelmente nela. Outros conceitos da psicanálise que têm sido estendidos à psicomotricidade são: • Desejo: está relacionado ao inconsciente. Tem a ver com o querer aprender, querer saber, querer ensinar. Perpassa o processo de obtenção de informações e construção do conhecimento. Está relacionado com a vontade e pode ser expresso pela resistência (que o contraria). O desejo exerce pressão sobre o sujeito (WELS, 2015). • Transferência: inicialmente, essa palavra foi usada por Freud para se referir à clínica, mais especificamente à relação estabelecida entre analista e paciente. Abrange os sentimentos que o paciente transfere, de modo inconsciente, ao seu analista. Por exemplo, o paciente pode associar o sobrenome do analista a algum conhecido seu, e isso pode gerar uma boa impressão ou uma má impressão para ele. O analista precisa lidar com manejo diante da transferência, para que o tratamento não seja prejudicado. Posteriormente, percebeu-se que a transferência não ocorre apenas na clínica psicanalítica. Ela também acontece em outras relações, como na relação professor- aluno. Tem a ver com os sentimentos que o professor desperta no aluno, com base nas vivências anteriores. Está, portanto, ligado à realidade psíquica dos envolvidos. Está vinculado, ainda, ao suposto saber que o paciente ou o aluno outorga (ou não) ao analista, ou, respectivamente, ao professor. Às vezes, ao olhar para um professor, surge a impressão de que ele tem conhecimento a transmitir ou que ele não tem. A transferência está associada à impressão que temos de uma pessoa. Quando “vamos prontamente com a cara dela” ou “quando o santo não bate”. Contudo, vale esclarecer que a transferência não é estática. Ela pode mudar, pois é dinâmica (WELS, 2015). 157 • Sublimação: também é um conceito atrelado ao inconsciente, que está relacionado com a organização, o processamento, o trabalho psíquico de lidar com sentimentos e acontecimentos. A pessoa pode fazer isso desenvolvendo um sintoma que seja considerado negativo pela sociedade. Apesar de ser algo do inconsciente, pode ser provocado de modo intencional por um analista ou por um professor, a fim de que a pessoa lide com a situação de maneira socialmente aceitável. O incentivo à leitura e à construção do conhecimento é exemplo de sublimação estimulada pelo professor (WELS, 2015). Em linhas gerais, pode-se dizer que a psicanálise dá embasamento quanto ao in- consciente e, também, no que tange à dinâmica psíquica, que se torna manifesta por meio dos sintomas e símbolos. Assim, é possível acessar o desejo do sujeito (BOSSA, 2000). A arte é vista, por Freud, como uma satisfação substitutiva e psiquicamente eficaz, devido ao papel que a imaginação e a fantasia ocupam na vida anímica; de acordo com o pensar lacaniano, ela é um modo específico de organização em torno do vazio. Os três termos que Freud define para a “sublimação” são arte, religião e ciência. Sublimação é um dos mecanismos de defesa mais aceitáveis por “converter” conteúdos que poderiam causar sofrimento em algo aceitável, do ponto de vista estético e moral, como a arte, a religião e a ciência. Portanto, a transformação não é em algo negativo, mas em algo socialmente positivo. NOTA 158 Neste tópico, você aprendeu: • A psicomotricidade iniciou com um forte discurso médico, principalmente porque os primeiros teóricos eram todos médicos. • Dupré era neuropsiquiatra e é considerado um dos primeiros teóricos da psicomotricidade. • Henri Wallon tinha várias formações, dentre as quais, em medicina e psicologia. Deixou um legado sobre afetividade e psicomotricidade. • Edouard Guilmain foi um neurologista que também marcou a psicomotricidade. • Julian de Ajuriaguerra também foi um destacável teórico da psicomotricidade,tendo sido, inclusive, reconhecido publicamente em uma universidade. RESUMO DO TÓPICO 1 159 AUTOATIVIDADE 1 Leia o texto a seguir: Henri Wallon, filósofo, médico e psicólogo francês, contribuiu para a psicologia não apenas com uma teoria da emoção ou ainda com suas discussões e divergências com Jean Piaget. Entre suas contribuições pouco discutidas estão sua teoria sobre a inteligência, suas discussões sobre a origem e o desenvolvimento do pensamento discursivo nas crianças e, talvez menos conhecidas, suas reflexões e proposições sobre a transição entre uma inteligência sensório-motora (caracterizada pela capacidade de resolver problemas práticos, mas sem o auxílio da reflexão) e uma inteligência discursiva (caracterizada pela utilização e intermediação dos símbolos e representações) (SILVA, 2007, p. 1). Sem dúvida, Wallon também deixou valiosas contribuições à psicomotricidade. No entanto, outros teóricos também participaram da construção da psicomotricidade ao longo da história, como Ajuriaguerra, Dupré e Freud. Assim, associe os itens, utilizando o código a seguir: I- Ajuriaguerra. II- Dupré. III- Freud. IV- Wallon. ( ) Médico considerado o primeiro formulador da psicanálise. ( ) Elaborou uma teoria preeminentemente social. ( ) Deu um novo significado às palavras desejo, transferência e sublimação. ( ) Delimitou transtornos psicomotores neurológicos e psiquiátricos. ( ) Recomendava a leitura de obras literárias romancistas aos seus alunos. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) III – IV – III – I – II. b) ( ) II – I – III – IV – I. c) ( ) IV – III – II – II – IV. d) ( ) III – II – IV – III – I. 160 2 Leia o texto a seguir: O próprio Freud (1912) constatou que o fenômeno da transferência ocorria nas diversas relações estabelecidas no decorrer de suas vidas. Trata-se de um fenômeno que se encontra em todas as relações humanas. Segundo ele, a transferência pode ser entendida como reedições de vivências psíquicas que são atualizadas em relação à pessoa do analista e, no nosso caso, atualizada em relação à figura do professor (RIBEIRO; NEVES, 2006, p. 115). Alguns médicos, como Freud, dedicaram-se aos estudos que se tornaram a base teórica da ciência psicomotricidade. Levando em consideração algumas das contribuições deixadas por eles, associe os itens, utilizando o código a seguir: I- Freud. II- Guilmain. III- Wallon. ( ) Levava em conta emoções, paixões e sentimentos humanos; sua teoria colaborou para o entendimento da relação cognição e afetividade no campo educacional. ( ) Desenvolveu um exame psicomotor para fins de diagnóstico, de indicação da terapêutica e de prognóstico, e é considerado um dos pioneiros no que tange à prática psicomotora. ( ) Suas observações voltavam-se ao equilíbrio, à coordenação estática e dinâmica, à coordenação viso-motriz, à destreza, à agilidade e à persistência motora de base. ( ) Médico que partia do pressuposto de que psiquismo e corpo não são substâncias diferentes. Para ele, psiquismo e corpo formam uma unidade. Ele foi um grande disseminador da noção de psiquismo inconsciente. Assinale a alternativa que apresenta a sequência CORRETA: a) ( ) III – II – II – I. b) ( ) I – III – I – II. c) ( ) II – I – III – III. d) ( ) I – III – II – I. 161 FORMAÇÃO PROFISSIONAL EM PSICOMOTRICIDADE: PRÁTICA UNIDADE 3 TÓPICO 2 — 1 INTRODUÇÃO É fato que a psicomotricidade não é apenas um campo teórico do conhecimento ou apenas uma teoria, tampouco oferece apenas uma base teórica. No artigo escrito por Sacchi e Metzner (2019), cujo intuito era acessar a percepção de pedagogos acerca do desenvolvimento psicomotor na educação infantil, alguns dos teóricos que embasaram a referida pesquisa e alguns dos pedagogos entrevistados afirmavam que a psicomotricidade é uma prática. Além de a psicomotricidade ser caracterizada como uma prática, é válido lembrarmos que a formação do profissional de psicomotricidade não se dá apenas em termos teóricos. Afinal, ela também abrange uma parte prática. 2 PSICOMOTRICIDADE E PRÁXIS Embora remeta à parte prática da formação profissional do psicomotricista, só faz sentido falarmos em formação prática nas áreas de atuação que podem ser aplicadas, isto é, postas em prática. Partindo desse pressuposto, vamos relembrar algumas evidências de que a psicomotricidade pode e deve ser colocada em prática. “E esta resistência à promoção e prática da Psicomotricidade deveria ser vista em uma reflexão sobre o papel dos educadores em cuidados infantis, tanto nas disciplinas dos cursos universitários quanto na formação continuada” (BENETTI et al., 2018, p. 603, grifo nosso). Nota-se a expressão “prática da Psicomotricidade”, que se refere à educação de crianças – certamente, ligada à educação psicomotora ou à área de atuação educacional. 162 Vale lembrar que já vimos alguns dos principais enfoques do artigo de Benetti et al. (2018) neste livro. Contudo, destacamos que esse artigo discorre sobre parte das funções psicomotoras básicas, e a intenção dos autores foi averiguar se os educadores conduzem atividades relacionadas com tais funções psicomotoras. Além disso, os autores queriam visualizar como essas atividades eram, de fato, postas em prática pelos educadores. O objetivo desta pesquisa, de cunho exploratório, descritivo e de abordagem qualitativa, foi verificar qual a percepção de oito professoras pré-escolares sobre psicomotricidade e educação infantil. Para tanto, foi utilizado um roteiro de entrevista semiestruturada, cujos resultados foram analisados sob a óptica temático-categorial da Análise de Conteúdo de Bardin. As categorias definidas foram: percepção das professoras sobre a relação entre psicomotricidade e educação infantil, atividades psicomotoras trabalhadas e aspectos que dificultam/facilitam o trabalho na área. Os resultados apontam que as professoras consideram que existe uma forte relação entre psicomotricidade e educação infantil. Quanto às atividades psicomotoras desenvolvidas, foi possível constatar que elas tiveram dificuldades para conceituar certas funções psicomotoras, principalmente em relação à orientação espacial. Quanto aos aspectos facilitadores e dificultadores, foi possível perceber que algumas apresentaram melhor condição para desenvolver atividades psicomotoras e outras afirmaram contar com a criatividade para lidar com a falta de materiais (BENETTI et al., 2018, p. 588). DICA Para saber mais sobre o assunto, sugerimos a leitura do livro: AUCOUTURIER, B. O método Aucouturier: fantasmas de ação e prática psicomotora. São Paulo: Idéias e Letras; 2010. CAPA DO LIVRO O MÉTODO AUCOUTURIER: FANTASMAS DE AÇÃO E PRÁTICA PSICOMOTORA FONTE: <http://twixar.me/4xym>. Acesso em: 28 set. 2020. 163 Esperamos que a retomada do resumo do artigo de Benetti et al. (2018) ajude a rememorar o que estudamos sobre a psicomotricidade voltada à educação infantil. Além disso, também já foi explanada a importância que os atos de correr, pular e até escrever e recortar são exemplos de que o corpo da criança está em movimento – mesmo os atos caracterizados como produções psicomotoras amplas e as finas contribuem nos processos de aprendizagem. Por outro lado, essa citação mostra que as professoras entrevistadas por Benetti et al. (2018) pareciam não ter clareza sobre os conceitos das funções psicomotoras em termos teóricos, o que provavelmente interfere na prática da psicomotricidade. Afinal, se elas não têm entendimento dos conceitos centrais da psicomotricidade, como poderão conduzir as práticas psicomotoras com propriedade? Por isso, é pertinente resgatarmos novamenteesse artigo sobre a formação prática em psicomotricidade. Com relação à questão da formação inicial: Pôde-se também constatar que a temática relacionada à psicomo- tricidade, estudada durante a Graduação, havia sido parcialmente esquecida, o que talvez explique a dificuldade em responder algumas perguntas que estavam presentes no roteiro da entrevista. Isso pre- judica o andamento das atividades psicomotoras na escola, uma vez que as educadoras deveriam ter um bom domínio sobre o campo da Psicomotricidade, para que pudessem realizar um trabalho cons- ciente e adequado para o desenvolvimento de seus alunos. Porém, a maioria das professoras apresentou pouco tempo de trabalho, após a formação em pedagogia, estando, ainda, a investir em especializa- ções e cursos de capacitação, é provável que futuramente venham a ter mais contato e mais conhecimento sobre esta temática (BENETTI et al., 2018, p. 603-604, grifo nosso). Assim, podemos reaver a importância da formação inicial e da formação continuada. Realmente, o psicomotricista precisa dar seguimento aos seus estudos, para que sua prática seja aperfeiçoada e se torne mais eficiente. Para tanto, Benetti et al. (2018) mencionam cursos de curta duração, como os de capacitação, e cursos de especialização. Ainda que a pesquisa diga respeito aos psicomotricistas com formação inicial em pedagogia, é necessário ressaltar que, mesmo os psicomotricistas que se formam num curso de graduação específico em psicomotricidade, precisam continuar estudando depois de graduados. O campo da Psicomotricidade deveria ser amplamente difundido, ganhando respeito e atenção, principalmente dos gestores da Educação Infantil, para que possa realmente ser posta em prática junto à educação formal, sendo trabalhada de maneira consciente e comprometida não apenas pelos docentes, mas por toda a instituição (BENETTI et al., 2018, p. 603, grifo nosso). Outro artigo interessante já visto foi escrito por Fernandes, Gutierres Filho e Rezende (2018) sobre psicomotricidade, jogo e corpo-em-relação, o qual tratava sobre o uso de jogos associados às práticas de educação psicomotora. De acordo com o texto, o jogo pode se tornar um “[...] mediador da prática psicomotora e a centralidade da di- mensão lúdica do corpo-em-relação, enquadrado numa dialética entre o corpo real e o corpo imaginário” (FERNANDES; GUTIERRES FILHO; REZENDE, 2018, p. 702, grifo nosso). 164 Podemos citar, ainda, um exemplo sobre outra área de atuação do psicomotricista: A prática clínica psicomotora apresenta uma lista substantiva de factos e evidências sobre as estreitas relações que unem as anomalias psíquicas com as motoras, que não são mais do que a expressão de uma solidariedade neurofuncional original e profunda entre as ações e as sensações, entre o movimento e o pensamento (FONSECA, 2010, p. 50, grifo do autor). Dessa maneira, esperamos ter esclarecido que a psicomotricidade não é tão somente uma área teórica, um conhecimento abstrato ou conceitual. DICA Outro texto que pode contribuir bastante para a sua formação de psicomotricista pode ser encontrado em: FERNANDES, J. Das abordagens emergentes em psico- motricidade às atualidades da prática psicomotora. In: FERNANDES, J.; GUTIERRES FILHO, P. (Eds.). Atualidades da prática psicomotora. Rio de Janeiro: Wak; 2015. p. 19-28. Sugerimos também a leitura de outro capítulo desse livro, para aprofundar o seu conhecimento sobre o assunto: LIMA, G.; FERNANDES, J.; ARAÚJO, L. Psicomotricidade e psicanálise: a linguagem faz corpo. In: FERNANDES, J.; GUTIERRES FILHO, P. (Eds.). Atualidades da prática psicomotora. Rio de Janeiro: Wak; 2015, p. 105-121. CAPA DO LIVRO ATUALIDADES DA PRÁTICA PSICOMOTORA FONTE: <http://twixar.me/lxym>. Acesso em: 28 set. 2020. Possivelmente, talvez surja o pensamento de que os tópicos com a palavra “prática” deveriam tratar apenas de aspectos da prática do psicomotricista, porém, fazer essa divisão não é tarefa fácil; isso porque a prática é dependente da teoria, e a teoria em psicomotricidade se propõe a levar a compreensão de situações que as pessoas vivenciam – relativas ao corpo, à afetividade, aos movimentos corporais, à aprendizagem etc. 165 Ora, as atividades mentais compreendem, entre outras, as de: perce- ber, memorizar, praticar uma linguagem, conscientizar-se, associar, avaliar, comparar, compreender, escolher, decidir, interpretar, julgar, refletir e verificar. Por meio desses atos cognitivos, representamos o real de maneira sensível, racional e intuitivamente, tornando presen- te o ausente, e vamos, num movimento contínuo de superação de ignorâncias, pari passu ao surgimento de outras em nós, produzin- do conhecimento, criando cultura, realizando a práxis educativa (CORREIA; CARVALHO, 2012, p. 69-70, grifo nosso). Portanto, teoria e prática são articuladas, misturadas e entrecruzadas. Contudo, podemos explorar brevemente a palavra práxis, que também aparece no título desta seção. QUADRO 1 – PRÁXIS NO DICIONÁRIO DO BUSCADOR GOOGLE FONTE: <http://twixar.me/zxym>. Acesso em: 27 set. 2020. PRÁXIS Origem da palavra Significado Sinônimos ETIM gr. prâksis,eōs 'ação, conduta' 1. prática; ação concreta. 2. parte do conhecimento voltada para as relações sociais e as reflexões políticas, econômicas e morais. prática ação atividade ato atuação desempenho diligência Ainda que o dicionário tenha dado ênfase à questão prática, realçamos que a práxis não é feita tão somente de práticas; é composta, inclusive, por fios condutores teóricos. “Práxis compreende princípios e regras posturais e de conduta pessoal e social, entrelaçando teoria e prática, visão e ação” (CORREIA; CARVALHO, 2012, p. 76, grifo nosso). Voltamos a frisar que o conhecimento teórico é indispensável para a prática em psicomotricidade. Por exemplo, na medida em que você realizar estágios obrigatórios deste curso, presumivelmente você irá acionar muitas das coisas que têm aprendido com as disciplinas consideradas “teóricas”. Conforme suas experiências e suas vivências com práticas psicomotoras, automaticamente se lembrará de conteúdos que estudou e, talvez, até eles se tornem mais claros nos momentos em que for aplicá-los. 166 DICA Outra uma sugestão de leitura é: AUCOUTURIER, B.; DARRAULT, I.; EMPINET, J. L. A prática psicomotora – reeducação e terapia. Porto Alegre: Artes Médicas; 1986. CAPA DO LIVRO A PRÁTICA PSICOMOTORA – REEDUCAÇÃO E TERAPIA FONTE: <http://twixar.me/Xxym>. Acesso em: 28 set. 2020. A seguir, apresentamos um exemplo de uma aplicação prática da psicomotricidade: O presente estudo objetivou elaborar e aplicar um programa de estimulação psicomotora baseado no processo de orientação e mobilidade do deficiente visual. Este tipo de comprometimento influencia diretamente o desenvolvimento psicomotor do indivíduo e condiciona a sua autonomia e independência. O programa foi aplicado no Laboratório de Estimulação Psicomotora da Universidade Federal de Viçosa, com o embasamento teórico da Psicomotricidade. O indivíduo estudado possuía um diagnóstico médico de grave problema visual desde a infância e optou-se pelo estudo de caso intrínseco, para observar e avaliar melhor dificuldades encontradas, mediante a técnica da observação sistematizada e entrevista informal com os pais. Puderam-se perceber evoluções no deficiente visual estudado, no que tange ao equilíbrio, noção espacial e esquema corporal e também na disposição em realizar atividades da vida diária, o que interferiu diretamente na sua locomoção. Concluiu-se que o processo de orientação e mobilidade é primordial no trabalho de independência do deficiente visual e que este necessita de um estímulo ao desenvolvimento psicomotor desde o início da sua vida, vistoos atrasos que poderão surgir durante o seu crescimento e maturação, devido a possíveis dificuldades com o meio interno e externo gerados pelo comprometimento citado. Torna-se importante a aplicação de novos estudos com amostras maiores que se utilizem também abordagens qualitativas (SOARES et al., 2012, p. 16, grifo nosso). 167 Nesse trabalho de estimulação psicomotora, foram realizados onze encontros. Inicialmente, o intuito foi analisar os principais déficits e, dessa forma, estabelecer os temas dos dez encontros posteriores (SOARES et al., 2012). A seguir, o Quadro 2 mostra um resumo dessa aplicação prática em psicomotricidade. QUADRO 2 – APLICAÇÃO DO PROGRAMA DE ESTIMULAÇÃO PSICOMOTORA Encontro Descrição Semana 1 Primeiros contatos (diálogos e preenchimento da ficha cadastral com a responsável, no caso a mãe) e trabalhos com atividades para cada fator da Psicomotricidade (observação dos possíveis atrasos do aluno) Semana 2 Equilíbrio (banco sueco, trave de equilíbrio, plataforma de equilíbrio e circuito com obstáculos – primeiramente, o DV realizava o primeiro contato com o aparelho – intervenções cinestésicas a todo o momento por parte do professor) Semana 3 Esquema corporal e lateralidade (quebra-cabeça corporal e “jogos com bola de guizo” – uso deste material como adaptação, trazendo um estímulo sonoro ao aluno) Semana 4 Marcha (pés de EVA – intervenções cinestésicas a todo o momento) e circuito com obstáculos – nessa atividade, o professor modificava o posicionamento dos objetos a cada repetição executada por L. Além disso, teve início, nessa atividade, a implementação do uso de uma bengala adaptada: um cabo de vassoura. Esse objeto passou a ser utilizado para que L rastreasse o ambiente e, assim, pudesse evoluir no que diz respeito à sua independência. A técnica de Hoover foi utilizada como propõe Melo (1991), em que a bengala deve ser tomada de maneira firme: nem frouxa, de tal maneira que fique solta dentro da mão, nem apertada demais, a ponto de “rebater”, golpeando o solo com dureza e chamando a atenção dos circunstantes, pelo ruído produzido no solo Semanas 5 e 6 Orientação e mobilidade (Parte principal do trabalho – caminhadas no Departamento de Educação Física da UFV, com orientações sobre o uso da bengala) Semanas 7 e 8 Orientação e mobilidade e orientação espacial (parte principal do trabalho – caminhadas no Departamento de Educação Física da UFV, com orientações sobre o uso da bengala – no fim da aula, o professor montou um circuito e constantemente mudava a ordem dos objetos, sendo que L tinha que perceber essas mudanças e estabelecer a rota mais adequada) Semana 9 Orientação e mobilidade (parte principal do trabalho – caminhadas no Departamento de Educação Física da UFV, com orientações sobre o uso da bengala – estabelecimento de percursos diferentes e mais complexos, com a inclusão de escadas, áreas não conhecidas anteriormente e caminhadas em volta de uma piscina) e cognição (boliche adaptado com bola de guizo – o objetivo principal era trabalhar de forma concreta as somas matemáticas com o aluno, sendo que cada pino tinha o valor de um ponto) Semana 10 Cognição (boliche adaptado e tapete abecedário de EVA – reconhecimento das letras através da percepção tátil) Semana 11 Equilíbrio (mesmas atividades da semana 2, a fim de verificar alguma possível evolução no comportamento de L) FONTE: Adaptado de Soares et al. (2012) 168 Observa-se que, para fazer essa aplicação, foram necessários conhecimentos da educação especial, da educação inclusiva. Em contrapartida, se alguns dos conhecimentos “teóricos” ainda parecerem confusos, supostamente, ao realizar a prática, o profissional pode sentir que algo está faltando ou que algo não está fazendo muito sentido. Por isso, é preciso sempre voltar à leitura de alguns dos livros que fizeram parte da sua formação. DICA Sugerimos como dica de leitura: BUENO, J. M. Psicomotricidade teoria & prática – Estimulação, Educação e Reeducação Psicomotora com Atividades Aquáticas. São Paulo: Lovise; 1998. CAPA DO LIVRO PSICOMOTRICIDADE TEORIA & PRÁTICA – ESTIMULAÇÃO, EDUCAÇÃO E REEDUCAÇÃO PSICOMOTORA COM ATIVIDADES AQUÁTICAS FONTE: <http://twixar.me/cxym>. Acesso em: 16 dez. 2020. Outro exemplo da prática da intervenção psicomotora lúdica, dessa vez, com o objetivo de intervir na construção do pensamento operatório concreto e do desempenho neuromotor em estudantes que apresentam certa lentidão no aproveitamento escolar, durante a segunda série do ensino fundamental (SANTOS; OLIVEIRA, 2009), pode ser visto no Quadro 3. 169 Quantos alunos o programa atingiu diretamente? O grupo de participantes compõe-se por 9 escolares, de 7 a 11 anos, de ambos os sexos Quando o programa foi feito? Durante o período de aula Com qual frequência? Duas vezes por semana Quantas sessões? 12 sessões grupais e individuais Quais foram os instrumentos aplicados? Provas Operatórias de Piaget, teste Piaget-Head de Orientação Direita-Esquerda e subteste de Aritmética do teste de Desempenho Escolar de Stein, teste de ShuttleRun. Foram aplicados no pré-teste (1ª etapa) e no pós-teste (3ª etapa), constando de duas sessões individuais em cada etapa Qual duração das sessões? 50 minutos Quais eram as atividades do primeiro bloco de intervenção? Atividades individuais de percepção corporal e orientação direita-esquerda (10 min.) Quais eram as atividades do segundo bloco de intervenção? Atividades psicomotoras grupais lúdicas, com anotações por escrito (30 min.) Quais eram as atividades do terceiro bloco de intervenção? Discussão grupal sobre as estratégias utilizadas na resolução das tarefas, seus acertos, falhas e correções, tanto a nível individual como coletivo, e registro escrito Quais eram os estímulos adicionais? Procurou-se manter o otimismo, e alcançar a participação e o questionamento de todos os participantes O que foi possível observar ao longo das sessões? Uma crescente organização dos alunos quanto à execução das atividades, acompanhada de maior participação verbal e facilidade no registro escrito e numérico dos resultados Quais foram os resultados obtidos com essa pesquisa? Os resultados obtidos comprovam a hipótese deste estudo de que a realização de intervenção psicomotora lúdica traria uma contribuição positiva à construção do pensamento operatório e ao desenvolvimento neuromotor de crianças com lentidão no aproveitamento escolar. Na prova de Conservação de Quantidades Discretas, não pôde ser verificada diferença entre o pré e pós-teste, levando-se em conta que os grupos já apresentavam desenvolvida essa noção para uma interação dinâmica entre as aquisições lógicas operatórias e espaciais via lúdico. Essa comprovação evidenciou-se especificamente em relação à construção das noções de Classificação e Seriação, no desempenho das provas de Aritmética e no de Orientação Direita-Esquerda. Em relação à Agilidade, ambos os grupos melhoraram a sua atuação, sendo que os resultados positivos do G.C. [grupo controle] sugerem a hipótese de que essa melhora se deva, inclusive, à grande motivação, desses participantes em realizar bem a prova, havendo mesmo demonstrado o desejo de competir com o G.E [grupo experimental] QUADRO 3 – PROGRAMA DE INTERVENÇÃO PSICOMOTORA LÚDICA NA CONSTRUÇÃO DO PENSAMENTO OPERATÓRIO FONTE: Adaptado de Santos e Oliveira (2009) 170 Esse estudo de Santos e Oliveira (2009) já foi visto nas unidades anteriores. Nesse momento, devemos atentar para o fato de que esse exemplo de aplicação prática da psicomotricidade gerou uma aceitação calorosa por parte das crianças, o que influenciou positivamente na sua motivação em sala de aula. É oportuno apontar que, frequentemente, professores têm se queixado dapresença de crianças com lentidão de aproveitamento escolar, sobretudo nas séries iniciais da Educação Básica. Tanto que uma parte dessas crianças acaba desistindo dos estudos e entrando para as estatísticas de evasão escolar. Esse é um dos motivos pelos quais mais estudos e mais programas como esse feito por Santos e Oliveira (2009) precisam ser realizados e disseminados. Agora que já vimos que é praticamente impossível separar a teoria e a prática, vamos conferir o que é a formação prática em psicomotricidade. 3 FORMAÇÃO PRÁTICA A grade curricular do curso de psicomotricidade possui uma carga horária considerável de estágios, o que já demonstra a relevância do saber fazer para a carreira dos psicomotricistas. O site da Associação Brasileira de Psicomotricidade (ABP) traz interessantes orientações sobre a formação dos psicomotricistas. No 2º e 3º ano, os estudantes recebem uma formação teórica e prática sobre as técnicas fundamentais da Psicomotricidade e são iniciados estágios com recém-nascidos, crianças, adolescentes, adultos, pessoas idosas, tanto em Psiquiatria como em Neurologia ou com deficientes físicos, sensoriais ou mentais. No 3º ano, o estudante inicia um estágio dentro de uma instituição com um psicomotricista, em cujo estágio ele é solicitado a praticar a psicomotricidade, num encontro direto com os pacientes. Participaram, então, da elaboração deste programa de formação, professores da Faculdade de Medicina, Psiquiatras, Médicos, Psicó- logos e Psicomotricistas, assim como os representantes dos Minis- térios da Saúde e da Educação Nacional, no nível das Universidades. Foi decidido que não seria incluída no nível universitário a formação dada aos professores especializados da educação nacional que trabalham no âmbito educativo das escolas maternais e primárias. Nós ficamos subordinados ao Ministério da Saúde e trabalhamos durante meses e decidimos organizar a formação em três níveis: IMPORTANTE 171 • o ensino teórico; • o ensino e a prática das técnicas físicas e psicomotoras; • a formação pessoal do estudante, o que supunha uma reflexão sobre a dimensão do engajamento do psicomotricista. O ensino teórico previsto no 1º ano é o seguinte: • Um curso de introdução geral que situa a psicomotricidade no âmbito profissional da saúde, por exemplo, as questões de ética, as relações com as outras profissões, a equipe médica e paramédica, a patologia e os exames clínicos em medicina e cirurgia. • Diversos cursos: 1. Anatomia geral e descritiva e neuroanatomia. 2. Fisiologia, bioquímica, biologia celular, fisiologia nervosa e muscular, a postura, sua integração, o movimento e seus níveis de integração. 3. A Psicologia: ◦ os sistemas de referência; ◦ as condutas fundamentais e suas perturbações; ◦ os elementos de psicometria; ◦ a personalidade e sua evolução; ◦ as comunicações não verbais e sua patologia. 4. A Pedagogia: ◦ histórico; ◦ métodos; ◦ a personalidade do educador; ◦ as estruturas de atendimento na escola maternal, nas classes primárias e secundárias; ◦ a educação especializada, seus problemas, suas pesquisas. 5. Introdução à Psiquiatria Infantil: ◦ a criança; ◦ seu crescimento, seu desenvolvimento. 6. A Psicomotricidade: ◦ definição; ◦ histórico; ◦ conceitos; ◦ os exames psicomotores; ◦ as técnicas; ◦ a organização psicomotora e o exercício psicomotor; ◦ a vida emocional; ◦ as técnicas de ginástica, esportivas, de dança; ◦ as bases neuro e psicofisiológicas do ritmo. FONTE: Adaptado de <https://psicomotricidade.com.br/capitulominasgerais/a-formacao- do-psicomotricista/>. Acesso em: 27 set. 2020. A formação prática envolve estágios. Abarca vivências nas quais os acadêmicos podem ter suas primeiras experiências com a prática da psicomotricidade. Os estágios possibilitam várias vivências positivas, porém, alguns acadêmicos ficam angustiados com a aproximação dos dessa etapa, por se sentirem despreparados e, inseguros, relatando, até mesmo, uma sensação de desespero, de ansiedade ou de tensão (CAIRES; ALMEIDA, 2000). 172 Professores do ensino superior que já trabalham no presencial notam que, nas proximidades dos estágios, alguns acadêmicos que levaram os estudos sem a devida seriedade, que faltavam excessivamente nas aulas, que não prestavam atenção nas aulas ou que entregavam os trabalhos sem a dedicação necessária demonstram maior insegurança acerca de suas capacidades, sensação de decepção ou frustração consigo mesmos. Alguns comentam que se arrependeram por ter levado o curso de qualquer jeito, pois, durante a execução dos estágios, não tem opções de atalhos, não dá para fazer um “copiar/colar”. Em contrapartida, vemos que alguns alunos menos dedicados ingressam no estágio mantendo a mesma falta de compromisso, o mesmo desleixo e, assim, conseguem extrair poucas aprendizagens significativas do estágio. Geralmente, eles encontram mais dificuldades para se manter em um trabalho na área de graduação depois de formados. Entretanto, os acadêmicos mais esforçados, eventualmente, também podem relatar um medo de falhar e dúvidas sobre o seu preparo para encarar os estágios. Mesmo com toda a sua dedicação ao longo das disciplinas, eles realçam sua necessidade de fazer um trabalho espetacular nos estágios, em virtude de seu senso de responsabilidade para com os pacientes. Nesse caso, a sensação de despreparo não se pauta na falta de conhecimentos teóricos, e sim numa característica pessoal do próprio aluno, de querer dar o melhor de si em tudo o que faz e, talvez, até uma tendência ao perfeccionismo. Durante o período de estágios, ocasionalmente, os acadêmicos podem expor suas inseguranças como futuros profissionais, se conseguirão oportunidades de trabalho mesmo sendo recém-formados. Outros também mencionam que tinham idealizado uma situação para a prática psicomotora, talvez baseada em filmes ou em elementos imaginários. Daí, nos estágios, se deparam com situações inesperadas, o que pode gerar certa desilusão ou sensação de ter tomado uma decisão equivocada quanto à escolha do curso de graduação, ou ainda uma sensação de insatisfação pessoal com a atividade exercida, o que equivale à baixa realização profissional (CAIRES; ALMEIDA, 2000). Por exemplo, um acadêmico que ingressou na psicomotricidade almejando trabalhar com intervenções relacionadas com a dança, mas, nos estágios, se vê atuando em hospitais ou em escolas com crianças com deficiência e que têm muitas limitações em termos de movimentos corporais; o estagiário pode sentir que seu cotidiano não está parecido com as suas expectativas antes de entrar no curso. O contrário também pode acontecer: o acadêmico buscou a psicomotricidade com a vontade de ajudar pessoas com paralisia ou pessoas hospitalizadas, mas seus estágios o levam para intervenções psicomotoras a partir de dança; ele também pode estar se sentindo “menos importante” do que imaginava, já que está conduzindo intervenções com um grupo de pessoas aparentemente saudáveis, portanto, que não precisam tanto da ajuda dele quanto as pessoas em situações “graves”. De qualquer modo, o acadêmico precisa refletir que os estágios são temporários. Mais adiante, ele pode buscar atividades profissionais mais alinhadas aos seus objetivos pessoais ou rever tais objetivos, até porque todas as pessoas podem ser beneficiadas com a ajuda de um psicomotricista. 173 Uma pequena parte dos estagiários demonstra tristeza, desmotivação e irritabilidade com o início dos estágios, chegando a relatar um desgaste físico e psicológico. Vale lembrar que eles geralmente têm suas atividades profissionais, e a sensação de estresse aumenta porque ocorre uma mudança na rotina, na qual precisa se deslocar até o lugar de seu estágio (CAIRES; ALMEIDA, 2000). Como apontam Caires e Almeida (2000), mesmo que o estágio possa gerar alguns sentimentos difíceis delidar, é preciso olhar para os aspectos positivos que ele produz. O estudo de Caires e Almeida (2000) evidencia vários motivos que fortalecem a pertinência do estágio na formação dos estudantes do Ensino Superior. Veremos alguns desses motivos ainda neste tópico e o exploraremos novamente no tópico seguinte. Sabe-se que o curso precisa subsidiar o acadêmico com conhecimentos advindos de diferentes áreas do conhecimento, como psicologia, pedagogia e, até mesmo, biologia, fisiologia e bioquímica. Além dos conceitos, das técnicas e dos exames específicos da psicomotricidade, o acadêmico precisar ter contato com mais conhecimentos relacionados com a área. O psicomotricista deve ter certo contato com técnicas de ginástica, técnicas esportivas e de dança. No estudo de Araújo et al. (2017) acerca de mulheres com fibromialgia que praticavam zumba, adotada como intervenção no período de três meses, foi apontado que as mulheres perceberam uma série de benefícios quanto à qualidade de vida, como diminuição das dores, qualidade do sono, desempenho físico, autoestima, capacidade funcional. Para entendermos melhor, a expressão “formação prática” diz respeito aos estágios, entre outros momentos da formação acadêmica, que envolvem a parte prática (por exemplo, oficinas em eventos científicos, vivências em grupos de pesquisa ou iniciação científica). Os meios de se obter essa formação contínua são dados por sessões, seminários e estágios que se realizam na universidade e nas instituições públicas e privadas. Frequentemente, essa formação é reconhecida e custeada por organizações institucionais. Trata-se de cursos e de estágios, de aulas teóricas e práticas. Entretanto, essa formação, a nível dos conhecimentos e das vivências, é suficiente para o reeducador, mas não basta para o terapeuta. Há uma diferença fundamental no nível das técnicas empregadas e no nível da relação e do vínculo. IMPORTANTE 174 Como visto, nota-se que o respeito às outras áreas é frisado, citando a educação, a psicologia, a fonoaudiologia e a psicanálise. É sempre válido chamar a sua atenção para esse item, até por que: “As intervenções terapêuticas sustentam-se cada vez mais em conhecimentos multidisciplinares e é, nesse sentido, que os saberes de diferentes áreas, ao serem partilhados, permitem criar novos espaços de reflexão, de prática e experimentação” (FERNANDES; GUTIERRES FILHO; REZENDE, 2018, p. 704, grifo nosso). Antes de 1975, eram praticadas, na França, várias técnicas psicomotoras, por professo- res, professores de educação física e de dança, fisioterapeutas, fonoaudiólogos, psicólo- gos e médicos. A prática deles firmou a necessidade do subsídio da Psicomotricidade, tanto no campo da educação como no campo da saúde mental. Nós quisemos que existisse, em toda sua especificidade, a profissão de psicomotricista, nos empenhando primordialmente em dois níveis: 1. O estabelecimento de uma formação oficial nesta disciplina, a fim de que não existissem mais as formações a varejo que só poderiam ser fragmentárias. 2. O desenvolvimento dos conceitos e técnicas específicas da psicomotricidade, a fim de consolidar seu lugar no quadro das abordagens pluridisciplinares, reeducativas e terapêuticas, como a fisioterapia, a fonoaudiologia, as psicoterapias verbais e analíticas. Eu quero dizer que, assim, ao invés de ser um instrumento de trabalho a serviço de uns e outros, uma técnica que se acrescenta a outras técnicas, a Psicomotricidade torna-se uma disciplina integral, exercida por especialistas diplomados, que são os psicomotricistas. E, ao mesmo tempo, a Psicomotricidade esclarece e enriquece as outras abordagens. Do mesmo modo, o psicomotricista em- penhado em sua prática se esclarece a respeito dos conceitos de outras disciplinas, como a educação, a psicologia, a fonoaudiologia, a psicanálise e estas disciplinas se beneficiam atualmente dos subsídios da abordagem psicomotora. FONTE: Adaptado de <https://psicomotricidade.com.br/capitulominasgerais/ a-formacao-do-psicomotricista/>. Acesso em: 27 set. 2020. “A formação didática, nessa fase, permite a cada participante, na prá- tica de seus estágios, experimentar diversas abordagens e decidir em prosseguir, conforme a área de atuação escolhida, individualizando e assumindo seu olhar e transferindo-o à sua prática psicomotora. O desafio é levar o psicomotricista em formação na Psicomotricidade a entender que, para assumir a sua identidade, precisa suportar a sepa- ração do formador, desvincular-se pouco a pouco e emprestar-se cor- poralmente ao seu praticante, em momentos de vínculos e desvínculos contínuos” (BUENO, 2018). FONTE: <https://psicomotricidade.com.br/formacao-profissional-em- psicomotricidade/>. Acesso em: 27 set. 2020. IMPORTANTE 175 Os estágios também possibilizam situações em que o acadêmico experimenta o mundo do trabalho relacionado com sua área de graduação. Então, eles costumam relatar que o estágio permite a apropriação de conhecimentos e/ou a aplicação de conhecimentos, a aprendizagem, o crescimento profissional ou até a consolidação de conhecimentos vistos ao longo das disciplinas do curso (CAIRES; ALMEIDA, 2000). No que se refere à dimensão interpessoal, os sentimentos mais frequentemente assinalados prendem-se com as boas relações estabelecidas com os colegas, com o(s) supervisor(es) e/ou outros profissionais presentes no seu estágio, sob a forma de espírito de grupo, cumplicidade e companheirismo. O estágio foi, assim, uma oportunidade para fazer novos conhecimentos, alargar o seu leque de relações ou sentir-se bem-vindo na instituição (CAIRES; ALMEIDA, 2000, p. 245, grifo nosso). Observa-se que a dimensão interpessoal está diretamente ligada ao que vimos sobre as relações que o psicomotricista estabelece com seus colegas de trabalho e com outros profissionais. Contudo, alguns acadêmicos relatam certos dissabores quanto a isso: Numa dimensão mais ligada à faceta interpessoal dos estágios, po- demos referir a alusão a sentimentos como inveja, mágoa, hipocrisia, falsidade, desconfiança e competição, que parecem traduzir a exis- tência de algumas tensões relacionais, quer com os colegas de estágio, quer com outros atores que fizeram parte do seu estágio. Mais concretamente ligados à figura do(s) supervisor(es), parecem estar sentimentos como falta de compreensão, rejeição, injustiça, desrespeito ou arrogância e prepotência. Ligados ainda à supervisão, mas numa vertente mais “formal”, foi possível identificar sentimentos como “desilusão em relação ao modelo”, “abandono”, “indiferença”, “pouca autonomia”, “desinteresse” ou “não reconhecimento”, “irres- ponsabilidade” e “falta de preparação” do supervisor (CAIRES; ALMEI- DA, 2000, p. 246, grifo nosso). Curiosamente, alguns supervisores de estágio são considerados muito exigentes, excessivamente presentes por alguns estagiários, ao passo que outros consideram os mesmos supervisores indiferentes ou pouco presentes. Mesmo que o supervisor adote o mesmo procedimento com todos os acadêmicos, existem aqueles que gostam de mais autonomia, enquanto outros preferem estar o tempo todo acompanhados – isso varia conforme o estilo de cada estagiário. Muitos desses sentimentos são mais da esfera psicológica, nem sempre revelam que o supervisor realmente agiu com indiferença. Pode ser uma interpretação errônea dos acadêmicos. No estágio, os acadêmicos podem desenvolver certas habilidades e alcançar determinadas destrezas para se adaptarem às rotinas do trabalho do psicomotricista (CAIRES; ALMEIDA, 2000). 176 DICA Uma sugestão de texto que tra- ta especificamente da formação profissional é: FARIAS, G. O.; SHIGUNOV, V.; NASCIMENTO, J. V. Formação e desenvolvimento profissional. In: SHIGUNOV, V.; SHIGUNOV NETO, A. A formação profissional e a prática pedagógica. Londrina:O autor; 2001. p. 19-53. CAPA DO LIVRO A FORMAÇÃO PROFISSIONAL E A PRÁTICA PEDAGÓGICA FONTE: <http://twixar.me/dCym>. Acesso em: 28 set. 2020. 177 Neste tópico, você aprendeu: • Práticas educativas, conduzidas na educação infantil ou na educação básica, podem envolver práticas psicomotoras. • As práticas em psicomotricidade objetivam colaborar para o desenvolvimento integral do sujeito, inclusive no que tange ao processo de ensino-aprendizagem. • As práticas psicomotoras deveriam ser mais valorizadas, especialmente na educação infantil, já que beneficiam as esferas afetivas, emocionais, sociais, físicas, culturais e mentais. • Pode-se falar em práticas em psicomotricidade tanto na área de atuação educacional quanto na clínica, ou em qualquer outra área de atuação do psicomotricista. • A palavra práxis refere-se ao trançar da teoria com a prática. • A psicomotricidade tem embasamento teórico e prático; portanto, a formação profissio- nal precisa contar com a apropriação de conhecimentos teóricos e de conhecimentos práticos. RESUMO DO TÓPICO 2 178 AUTOATIVIDADE 1 Leia o texto a seguir: “Diversos estudos confirmam o fato de que programas de intervenção psicomotora exercem importante contribuição no desenvolvimento de crianças expostas a fatores de risco [...]. Além dos benefícios citados, a expansão das habilidades promovida pela intervenção psicomotora representa um resultado importante também pelos efeitos psicossociais proporcionados à criança” (CAMPOS et al., 2008, p. 192). Diante do exposto, disserte sobre a expressão “programa de intervenção” com a prática em psicomotricidade: 2 Leia o texto a seguir: “Em relação à agilidade, ambos os grupos melhoraram na sua atuação, sendo que os resultados positivos do G.C. sugerem que essa melhora se deva à grande motivação dos seus participantes em realizar bem o pós-teste, pois esses alunos mostraram-se extremamente dispostos a participar e demonstrar também sua capacidade, o que influenciou principalmente as provas de maior desempenho físico [...]. É importante registrar que a intervenção teve excelente aceitação por parte da escola, em geral. A enorme satisfação e disposição nas atividades propostas, demonstrada pelos integrantes do G.E., levaram-nos ao ponto de, ao final, solicitarem mais jogos, não demonstrando vontade de parar, o que não passava despercebido aos demais alunos da classe, além dos participantes do G.C., que passaram a se ressentir de não fazerem parte do G.E. Também queriam imitar, em outras ocasiões, várias das atividades do G.E., principalmente as relacionadas a brincadeiras tradicionais, como pular corda e amarelinha” (SANTOS; OLIVEIRA, 2009, p. 176). Qual é a diferença entre a sigla G.C. e G.E.? Justifique sua resposta. 179 TÓPICO 3 — FORMAÇÃO PROFISSIONAL EM PSICOMOTRICIDADE: PESSOAL UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Neste tópico, aprenderemos sobre a formação profissional em psicomotrici- dade, no que tange à esfera pessoal. Afinal, nem só de formação acadêmica, teoria, prática e profissional são feitos os psicomotricistas. Eles trazem sua história pessoal, suas características pessoais quando dão início aos seus estudos em psicomotricidade. Conforme estudam, a trajetória pessoal de cada um dispara gatilhos de memória perso- nalizados, mediante o que aprenderam e também vivenciaram ao longo de suas vidas. Os conhecimentos e vivências proporcionados pelos estudos em psicomo- tricidade também tendem a afetar a esfera pessoal do acadêmico que se engaja verdadeiramente com a psicomotricidade. Se, futuramente, o psicomotricista atuar na área, possivelmente ele não irá obter apenas satisfação e enriquecimento, em termos profissionais, pois mergulhar nos estudos em psicomotricidade pode propi- ciar um interessante enriquecimento pessoal. 2 FORMAÇÃO PROFISSIONAL E HISTÓRIA PESSOAL A história de vida de uma pessoa é singular, é individual e é única. Mesmo irmãos gêmeos, que viveram na mesma casa, que estudaram nas mesmas escolas e que nasceram no mesmo dia, vivenciam cada dia de modo diferente. Eles têm características diferentes, que os fazem reagir de maneira diferenciada aos estímulos. O organismo de cada um funciona de modo personalizado, e o modo pelo qual se relacionam com seus cuidadores/responsáveis nunca é idêntico. Por exemplo, num dia, um dos bebês gêmeos pode requerer mais atenção, por causa de uma possível febre ou de um choro acentuado; no outro dia, o outro bebê pode demandar mais atenção porque passou a recusar a alimentação. Isso sem falar que; às vezes; um filho conquista maior apreciação de um dos genitores ou a preferência de outro. Esse é um assunto bastante antigo, presente, até mesmo, na bíblia, em que Jacó e Esaú, os irmãos gêmeos que viveram na mesma moradia, tiveram histórias pessoais totalmente diferentes, pois Jacó era o favorito de sua mãe e Esaú era o predileto de seu pai. É importante frisarmos isso porque cada acadêmico lembrará (ou lembrou no decorrer das leituras) de diferentes vivências da sua história pessoal. Cada um escolheu ingressar nos estudos em psicomotricidade por causas diferenciadas, por objetivos 180 pessoais distintos, com expectativas singulares. Além disso, Souza et al. (2007) acrescentam as representações que o acadêmico tem acerca do futuro, do sucesso pessoal e profissional. Nesse momento, vamos fazer uma relação desse contexto com o estudo de Versoza-Carvalhal, Melo e Silva (2017) sobre as influências da trajetória de vida pessoal de professoras e sua atuação profissional na educação inclusiva. As professoras que trabalham com alunos incluídos podem apresentar comportamentos favoráveis ou desfavoráveis à inclusão, dependendo de sua história pessoal, profissional e da sua formação acadêmica. A opinião das professoras sobre a educação especial ou sobre a educação inclusiva é afetada pelo histórico de cada uma delas – por exemplo, sobre ter experimentado ou não a vivência prática da educação especial (VERSOZA-CARVALHAL; MELO; SILVA, 2017). Assim, Versoza-Carvalhal, Melo e Silva (2017) consideraram o eixo pessoal, tanto o contato anterior em contexto social quanto a expectativa em trabalhar com educação inclusiva. O presente estudo sugere que, apesar de os comportamentos dos professores em relação à inclusão poderem ser desenvolvidos ao longo de sua vida pessoal, profissional e acadêmica, é, principalmente, na atuação profissional que as contingências necessárias para a formação de um comportamento pró-inclusivo têm sido criadas, possibilitando a formação dessa classe de comportamentos apenas após a experiência docente (VERSOZA-CARVALHAL; MELO; SILVA, 2017, p. 240, grifo nosso). Vale também resgatar o que aprendemos, anteriormente, com auxílio do estudo de Sandroni, Ciasca e Rodrigues (2015), em que, depois de um breve período de intervenção psicomotora, foi possível identificar a alteração do perfil psicomotor de grande parte das crianças com necessidades educativas especiais do ensino infantil. Em algumas crianças, inclusive, as habilidades de cognição e de linguagem também passaram por alterações depois da intervenção. Foram perceptíveis, até mesmo, mudanças positivas no que se refere à socialização e aos autocuidados. Desse modo, temos mais um indício de que a intervenção psicomotora pode maximizar as funções psicomotoras (SANDRONI; CIASCA; RODRIGUES, 2015). Dessa forma, pretende-se contribuir para a preparação dos jovens para um engajamento democrático, ativo e crítico em todos os aspectos da sua vida pessoal, social e profissional. Mas é preciso ter em mente que, além do crescimento pessoal, é preciso lutar pela construção de uma sociedade mais justa e inclusiva (MUNHOZ; MELO-SILVA, 2011, p. 45, grifo nosso).Levando em conta os estudos apresentados, podemos supor que o contato an- terior com atividades psicomotoras e as expectativas em trabalhar com a psicomotrici- dade podem interferir na atuação profissional do psicomotricista. 181 Será que, ao longo do que estudamos até aqui, você se lembrou de alguma aula de educação física da sua fase de escolarização? Ou de algum esporte que você praticou em algum momento da sua vida? Ou de alguma estratégia para desenvolver suas habilidades motoras finas, adotada pelas suas professoras na alfabetização ou até mesmo antes da sua alfabetização? Souza et al. (2007) também dá ênfase à etapa de formação pessoal vivenciada na escola. Afinal, no ambiente escolar, as crianças observam que, muitas das coisas que aprenderam no seio familiar, são, por vezes, reforçadas, confirmadas e, até mesmo, negadas. Esse é um dos motivos pelos quais a escola parece ser dúbia, às vezes, interessante e estimulante, apoiando o que a criança aprendeu com os familiares, e, às vezes, cansativa e, até mesmo, ousada, já que questiona ou combate o que a criança aprendeu em casa. Caires e Almeida (2000) lembram que a escola não promove apenas as aprendizagens dos conteúdos que vemos durante as aulas, mas também gera aprendizagens que deixam marcas na esfera emocional e pessoal. Isso também vale para o estabelecimento de boas relações interpessoais. A escola pode contribuir nesse quesito. No mais, as crianças tendem a enxergar a escola como o lugar do saber, da liberdade ou de várias proibições. Conforme a criança amadurece, ela vê, na escola, a chance de reverter suas difíceis condições de vida, dependendo de sua condição de classe (SOUZA et al., 2007). No estudo de Forte e Flores (2012) sobre o desenvolvimento profissional e a formação docente em serviço, eles tratam a respeito da formação pessoal: Este estudo permitiu compreender o modo como os professores olham para o seu desenvolvimento profissional e para as suas experiências de colaboração docente na escola. No que diz respeito à articulação entre desenvolvimento profissional e colaboração docente no contexto de trabalho, os professores são unânimes em considerar os benefícios da colaboração, situando-os a vários níveis, nomeadamente profissional e pessoal, tais como a satisfação profissional e pessoal pelo reconhecimento e visibilidade do seu trabalho, pelo apoio e valorização da partilha de ideias e de experiências (FORTE; FLORES, 2012, p. 916, grifo nosso). 3 FORMAÇÃO PESSOAL E PROFISSIONAL De vez em quando, as organizações oferecem cursos de formação profissional aos funcionários e colaboradores. Por vezes, essas iniciativas de formação continuada são chamadas de treinamento, capacitação, desenvolvimento, curso de aperfeiçoamento ou, até mesmo, reciclagem – que são os cursos que visam a atualizar conhecimentos ou processos internos da empresa. 182 Por falar em reciclagem, a seguir, veremos um exemplo de como essa palavra se aplica no âmbito da formação em psicomotricidade. “Enfim, o 3º eixo desta formação é a formação pessoal do estudante, a fim de fazê-lo sentir sua própria vivência corporal e de iniciá-lo no diálogo corporal. O estudante irá praticar para si mesmo o relaxamento, um esporte ou luta, uma técnica expressiva. Ele visa multiplicar as diferentes vivências. Essa revisão rápida e incompleta nos dá uma visão da complexidade desta formação. Nós estamos nessa encruzilhada de teorias e de técnicas derivadas de outras disciplinas e somos chamados a viver com os pacientes um engajamento corporal autêntico. Isso é difícil e é por isso que, munido de seu diploma superior, o jovem psicomotricista que começa a trabalhar sente-se bastante despreparado. Ele só tem uma ideia em mente, adquirir uma formação complementar, da mesma forma que o psicomotricista mais experimentado procura uma reciclagem, pois sua prática e sua participação nas equipes multidisciplinares o questiona em todos os níveis de sua pessoa”. FONTE: <https://psicomotricidade.com.br/capitulominasgerais/a- formacao-do-psicomotricista/>. Acesso em: 28 set. 2020. INTERESSANTE Às vezes, as instituições de trabalho também disponibilizam cursos de desenvolvimento pessoal. Entretanto, essas iniciativas costumam ser mais raras. Afinal, nem sempre as políticas de treinamento e desenvolvimento estão alinhadas ao planejamento e aos objetivos organizacionais. Assim, os funcionários podem ter dificuldades sobre como alcançar metas de realização profissional e pessoal (GONDIM; BRAIN; CHAVES, 2003). Dessa forma, os profissionais não podem confiar às instituições nas quais tra- balham a responsabilidade de traçar estratégias para a carreira profissional e pessoal. Existem organizações que disponibilizam plano de cargos e salários, etapas delimitadas para o crescimento profissional, para que se consiga uma promoção. Ainda assim, acon- selhamos sempre zelo pela construção da sua própria trajetória profissional e pessoal, e recomendamos que você busque ser o autor de sua própria história; de tempos em tempos, reflita se sua vida profissional atende aos seus objetivos pessoais e se lhe traz a realização e a satisfação que você busca. Além disso, é importante saber onde se pretende chegar, em termos profissio- nais, e quais são os conhecimentos, as habilidades e as atitudes a serem apropriadas, aperfeiçoadas ou desenvolvidas para atingir o seu objetivo. Ademais, deve-se buscar descobrir quais são as experiências profissionais necessárias para que se consiga assu- mir o cargo que almeja com destreza e eficácia. 183 Embora pareça um discurso muito batido, talvez até mesmo clichê, estudar é importante. Ter diplomas é necessário, embora nem sempre seja suficiente, tampouco qualificar-se para se tornar competitivo no mercado de trabalho. O sucesso profissional envolve muito mais do que isso. Em boa parte dos casos, esses sucessos resultam do esforço do acadêmico, mas é preciso esclarecer que não é só esforço individual que conta; é um esforço coletivo de instituições educacionais que fizeram parte da história do acadêmico, de familiares, de colegas de classe, de políticas educacionais etc. Ainda que estejamos vendo alguns itens relacionados à realização pessoal, é necessário frisar que a atuação profissional do psicomotricista assume um papel social bastante relevante. Nem sempre os acadêmicos, ou até mesmo os graduados, refletem sobre o papel social que ocupam no mundo do trabalho, pois nem todos conseguem articular as necessidades pessoais subjetivas às necessidades de transformação da vida coletiva (SOUZA et al., 2007), isto é, ao serem questionados sobre realização profissional e pessoal, muitos fazem menção aos padrões naturalizados de individualismo e focados na autorrealização pessoal (SOUZA et al., 2007). Uma hipótese para essa situação, levantada por Souza et al. (2007), é a de que as escolas públicas de ensino médio não têm proporcionado espaços suficientes de reflexão sobre os sentidos e significados hegemônicos do sucesso pessoal e profissional. No que toca à formação no curso superior, um momento que contribui, consideravelmente, para a formação pessoal é o estágio. Vimos um pouco sobre esse tema anteriormente, quando estudamos sobre a formação prática em psicomotricidade. Caires e Almeida (2000) fizeram um estudo sobre as implicações, no nível intrapessoal, do estágio: uma experiência onde estão presentes sentimentos contraditórios de insegurança e desafio, de frustração e satisfação (entre muitos outros), os quais vão surgindo em resultado do confronto consigo próprio, com a profissão e com o mundo do trabalho, e que fazem desta experiência um importante momento de crise e, simultanea- mente, de crescimento pessoal e profissional. Por outro lado, e ape- sar de algum do desgaste (físico e psicológico) implicado por estaexperiência, das elevadas exigências colocadas à pessoa do estagiá- rio e da existência de alguns momentos de alguma “desestruturação” pessoal, a grande maioria destes alunos “sobrevive” e, em grande número, com elevados ganhos. Apenas uma pequena minoria “su- cumbe” às pressões inerentes ao estágio (CAIRES; ALMEIDA, 2000, p. 243-244, grifo nosso). Durante os estágios, podem emergir sentimentos relacionados com a esfera intrapessoal e com as mudanças operadas na pessoa do estagiário ou sentimentos em relação a si próprio. Podem ocorrer situações em que o estagiário sente realização pessoal e/ou profissional ou extrema empolgação, entusiasmo e motivação. Parte dos estagiários, inclusive, sente que vivenciam um processo de amadurecimento, um crescimento 184 pessoal. Assim, há uma nova reflexão sobre a responsabilidade e, consequentemente, ao emprego dessa responsabilidade. Há estagiários que notam elevação da autonomia, da autoconfiança e da autoestima (CAIRES; ALMEIDA, 2000). Também podem vir à tona sentimentos atinentes à esfera interpessoal e às aprendizagens. O importante contributo desta componente mais prática, em termos do desenvolvimento pessoal e profissional destes jovens, faz da investigação sobre os estágios uma área extremamente profícua e de grande relevância na análise da qualidade da formação assegurada a estes alunos e da sua inserção no mercado de trabalho. Porque esses processos nem sempre são claros, e porque alguns alunos experimentam dificuldades adaptativas significativas, importa alargar a investigação e a intervenção psicológica ao domínio dos estágios no Ensino Superior, por formar a apoiar de forma mais adequada estes alunos e a potenciar as aquisições e as transformações esperadas com a sua concretização (CAIRES; ALMEIDA, 2000, p. 247-248, grifo nosso). Após vermos alguns aspectos gerais da formação pessoal, a seguir, analisaremos como se dá a formação pessoal do acadêmico ligado aos estudos da psicomotricidade. “No momento avançado de atuação profissional, a formação corporal pessoal, nessa fase, é mais específica e vem sustentada pela formação teórica, a qual aponta e direciona as escolhas para a prática do psicomotricista em ação. É, nessa etapa, que o psicomotricista em formação decodifica suas formas de vincular, de desvincular, suas estratégias de relacionar-se, sua forma de funcionamento, seus tons e sobretons, suas dificuldades e desejos. Também compreende as relações transferenciais e os mecanismos de defesa e as manifestações de ansiedade, em seu corpo. Associado à formação didática, é, nesse momento, que o psicomotricista em formação toma consciência dos objetivos traçados, ao mesmo tempo em que coloca o seu corpo em movimento à disposição do outro na prática educacional e clínica, permitindo sua estruturação e delimitando novas metas e objetivos na concretização de seu trabalho como psicomotricista. É, na formação didática, que o aluno se encontra capaz de localizar o fio condutor e vai em busca, no emaranhado que envolve a complexidade de cada praticante, e consegue entrelaçar a sua prática com o objetivo ali estabelecido. Além disso, é momento de se posicionar, de registrar, de refletir sobre o registro e de receber a devida supervisão. A supervisão é o olhar do outro. É o espaço de encontro e de confronto de ideias, de reflexões e de levantamento de dúvidas sobre a prática do psicomotricista em formação. É onde se traçam os limites entre o trabalho educacional e clínico, e também onde se delimitam os limites e as possibilidades de atuação de cada participante em formação. Nesse olhar do outro, enredam-se, no psicomotrisista em processo de desvinculamento progressivo de seu formador, a condição de suportar as frustrações de receber um olhar diferente na sua atuação e intervenções que desviam seu foco, muitas vezes desfocado, para a compreensão, conforme Demarchi (2008) aponta, de que se trabalha com o desenvolvimento do praticante (em qualquer idade ou complexidade) como uma globalidade. IMPORTANTE 185 Corroborando com Farias, Shigunov e Vieira do Nascimento (2001), as limitações que serão encontradas para atuar como psicomotricista nas diversas realidades, como a realidade social dos sujeitos, a realidade do mercado de trabalho e seus imperativos na prática profissional, bem como a formação profissional sempre em construção e, portanto, incompletas, podem ser administradas e superadas pelo compromisso com o ser humano e a responsabilidade ética com a profissão que exerce e sobre a qual fez sua escolha” (BUENO, 2018, grifo nosso). A formação pessoal em psicomotricidade tem a ver com as experiências que o acadêmico vivenciará observando as reações do próprio corpo durante as atividades físicas que ele experimentará. O acadêmico necessita experienciar situações de relaxamento, de alongamento, de musculação, de dança, de natação ou alguma outra modalidade de esporte. Também são válidas as lutas e as técnicas expressivas. O ideal é que ele experimente diferentes modalidades, mesmo que já tenha a sua predileção, para perceber diferentes contextos de movimentos corporais. Nesse ponto, é válido lembrarmos que a psicomotricidade tem um olhar dife- renciado sobre o esporte, já que ela dá mais ênfase ao esquema corporal, à organiza- ção espacial, ao equilíbrio e à motricidade durante as atividades esportivas, do que à competitividade entre os times, por exemplo. Isso porque o enfoque está no domínio psicomotor (NÓBREGA; MENDES; GLEYSE; 2016). Nessa perspectiva, as oportunidades adequadas de prática motora na infância e posteriormente o envolvimento com o treinamento esportivo, são estratégias efetivas não somente para a geração de futuros atletas, como também para a geração de cidadãos que utilizam o esporte como ferramenta de educação, integração social, lazer, entretenimento e promoção da saúde. Diante dessa realidade, em estudos futuros é importante a adoção de delineamentos longitudinais que considerem a variabilidade das características do comportamento humano durante o ciclo de vida e permitam um maior entendimento das múltiplas possibilidades oferecidas pelo esporte (RÉ, 2011, p. 64, grifo nosso). Como visto, várias dessas “múltiplas possibilidades” estão de acordo com a perspectiva da psicomotricidade. A seguir, veremos outro exemplo sobre o quanto a dança pode favorecer a formação pessoal em vários sentidos: Aspectos como a superação de limites, a realização pessoal e a in- teração com o grupo também foram ressaltados. Quatro professores e três bailarinas salientaram fatores como concentração, disciplina, respeito e responsabilidade. Para duas bailarinas, existe uma ênfase dada ao desenvolvimento de capacidades físicas e motoras como for- ça, flexibilidade e equilíbrio (TREVISAN et al., 2016, p. 197, grifo nosso). 186 Assim, é possível observar que a vivência com a dança, além de beneficiar o desenvolvimento profissional pessoal do psicomotricista, o ajuda a desenvolver habilidades específicas, relacionadas com a concentração, a força, o equilíbrio, a capacidade física etc. Mais adiante, veremos que, além do desenvolvimento pessoal e artístico, o envolvimento mais íntimo com a dança pode ajudar no desenvolvimento de outras habilidades e capacidades, como a criatividade e a interação, bem como aprendizagens sobre a forma de participação em festivais, o contato com os eventos de modo mais direto e todos os conhecimentos dos bastidores de uma apresentação pública de dança: A organização curricular destes cursos técnicos prevê a realização de Festivais de Dança, espetáculos baseados em criações a partir de diferentes temas. Esses eventos mobilizam diferentes recursos para a expressão criativa e oferecem subsídios para enriquecer essa discussão, que foram evidenciadostambém nas respostas de dois professores e de três bailarinas. O processo de construção e elaboração desses festivais se mostrou uma oportunidade valiosa para o desenvolvimento artístico e pessoal na formação em dança. De acordo com as bailarinas, a oportunidade de interpretar um personagem significou experimentar diversas formas de se expressarem, sendo que essa atuação lhes proporcionou prazer, bem-estar, a descoberta de novas capacidades e habilidades, além de ter promovido maior interação entre a turma. Essa foi vista, portanto, como uma oportunidade rica para novas aprendizagens, tanto durante as experimentações em sala de aula, como no decorrer do espetáculo. Nessa perspectiva, a gama de conhecimentos e práticas utilizados em um espetáculo de dança é permeada por um fazer artístico que é instigado pela exploração de novas habilidades. Para tanto, as músicas, os figurinos e cenários diversificados, os recursos de iluminação, o desenvolvimento de temas, de sequências coreográficas e da interpretação dos personagens, todos esses, compondo um todo coeso, podem fomentar um processo de criação na dança, o que [...] ocorre a partir da experimentação (TREVISAN et al., 2016, p. 200, grifo nosso). Ainda sobre os aspectos das relações transferenciais e os mecanismos de defesa, vistos anteriormente, é pertinente destacar que são conceitos oriundos da psicanálise, mais especificamente de Freud. Na França, há uma ênfase nos discursos da psicomotricidade, na psicocinética, mas também aparecem os discursos que buscam aproximar a educação física da psicanálise e os discursos e as práticas da consciência corporal, da antiginástica, da eutonia, da expressão corporal e de técnicas de relaxamento e de respiração (NÓBREGA; MENDES, 2016, p. 233, grifo nosso). Com relação à situação em que a psicomotricidade é permeada por ações multidisciplinares, como a Psicopedagogia e as Neurociências, essas áreas não somente oferecem subsídios que ajudam na elaboração do diagnóstico de problemas de aprendizagem, como podem ajudar na prevenção e ainda na intervenção, com vistas à superação dessas situações (MORAES; MALUF, 2015). 187 Você sabia que existem cursos específicos de formação pessoal relacionados com a psicomotricidade? Veja um exemplo a seguir: Formação Pessoal através da Psicomotricidade Relacional – PUCRS • Público-alvo: Profissionais e acadêmicos das áreas da Educação e Saúde. • Coordenação: Prof. Me. Lucio Andre Brandt. • Unidade promotora: Faculdade de Educação Física e Ciências do Desporto. • Programação: Psicomotricidade Relacional – histórico e desenvolvimento; Linguagem não verbal; Formação Pessoal – autoconhecimento. • Ministrante: Prof. Dr. Celso Luiz Mastrascusa – Educação Continuada PUCRS. FONTE: Adaptado de <https://psicomotricidade.com.br/formacao-pessoal- atraves-da-psicomotricidade-relacional/>. Acesso em: 28 set. 2020. INTERESSANTE DICA Para aprender ainda mais, sugerimos a leitura do livro Formação Pessoal e Profissional do Pro- fessor à Luz da Psicomotricidade Relacional, que aborda temáticas teóricas e práticas sobre o reducionismo, a fragmentação entre razão e emoção, o que se opõe à educação integral do aluno, temas que aprendemos ao longo desta disciplina. Esse livro também visa a provocar reflexões so- bre a autoformação, para que psicomotricistas possam ponderar sobre a prática pedagógica, as maneiras de pensar e de agir, bem como so- bre as metodologias comumente adotadas na prática da profissão. Por mencionar a Psicomotricidade Relacional, ainda ajuda a sopesar os relacionamentos que o psicomotricista estabelece com seus colegas de profissão e com os demais profissionais com os quais interage. CAPA DO LIVRO FORMAÇÃO PESSOAL E PROFISSIONAL DO PROFESSOR À LUZ DA PSICOMOTRICIDADE RELACIONAL FONTE: <http://twixar.me/S2ym>. Acesso em: 28 set. 2020. 188 A seguir, veremos um anúncio de um curso de Formação Pessoal em Psicomotricidade, para ter uma noção melhor dos temas que serão vistos na área de psicomotricidade relacional, como os conteúdos programáticos e quantos itens são abordados nessa área da psicomotricidade. Curso de Formação Pessoal em Psicomotricidade Relacional de Âmbito Clínico Ministrante Prof. João Costa – Universidade de Évora. Local: Faculdade de Educação – Rua Waldery Uchôa, 1 – Benfica, Fortaleza/CE. O curso tem o intuito de promover ações formativas voltadas para qualificação de profissionais e alunos da graduação e pós-graduação das áreas de educação e saúde, para um melhor atendimento à infância, intervindo, através da psicomotricidade, em dificuldades de nível corporal e cognitivo, bem como em dificuldades afetivas e relacionais. Visa a fortalecer a habilidade linguística, o raciocínio lógico e o estabelecimento de relações afetivas, que, como fim, possam favorecer a inclusão plena dessas crianças no sistema escolar. A formação está fundamentada em uma metodologia pautada na interdisciplinaridade curricular. O curso terá uma parte teórica e outra prática. No primeiro momento, teremos a parte teórica com aulas expositivas, com recurso de vídeos, acompanhada de reflexões que propiciem um diálogo do professor com o texto e dos alunos cursistas entre si. No segundo momento, serão prescritas atividades fundamentadas nos conteúdos teóricos onde serão desenvolvidas sessões práticas. No terceiro momento, as reflexões proporcionadas pelo desenvolvimento das atividades nas etapas anteriores servirão como aporte para a confecção de propostas de intervenção nas escolas. Conteúdos programáticos • O toque corporal, o envolvimento, a aceitação do corpo do outro, a gestão das distâncias: o próximo e o distante. • A linguagem do corpo sem palavras. • Incidência e aprofundamento prático em nível de comunicação não verbal: ◦ Linguagem do corpo. ◦ Linguagem do olhar e dos sons. ◦ Funcionamento em espelho. ◦ Simpatia, empatia e sintonia. ◦ Regulação da distância. • O corpo em expressão Corporal – leitura dos sentimentos e afetos. • O valor simbólico dos materiais, a influência sensorial dos materiais. • Formas de avaliar e observar em psicomotricidade – Observação ecológica: fatores a observar – grelha de observação de João Costa. • Estudo da psicopatologia infantil e juvenil e indicações terapêuticas pela psicomotrici- dade. • Relaxação relaxamento e descontração. • Método de Descontração de João Costa. • Relação com os pais e professores e educadores. • Evolução do pensamento desde a sensorialidade até a representação. • Imagem corporal na adolescência o normal e o patológico. • Método Afetivo de Aprendizagem da Leitura e escrita de JC. • Indicado para crianças com dificuldades severas de aprendizagem. • Conceito de Psicomotricidade Clínica. INTERESSANTE 189 • Indicação terapêutica com incidência corporal, relacional e cognitiva. • Atitude terapêutica. • Posição do terapeuta. • Setting terapêutico: organização do espaço e materiais. • Aliança terapêutica. • Abordagem trifocal: crianças, pais, família. • Evolução sensorial, afetivo, perceptivo emocional, simbólico. • Comunicação e linguagem: comunicação verbal e não verbal. • Psicopatologia da infância, da adolescência e psicomotricidade. • Indicação e prescrição: Intervenção. • Abordagem individual: indicações, contra indicações; vanta- gens e inconvenientes. • Dinâmica de grupo em Psicomotricidade. • Evolução do grupo – conceito do grupo. • Indicação terapêutica para grupo. • Vantagens de trabalhar em grupo. • Contraindicações de intervenção em grupo. Aviso importante: o formando deve apresentar-se com roupa adequada a poder movimentar-se à vontade sem restrições, deve trazer uma toalha, um pano leve tipo lençol, um pano pequeno para vendar os olhos e uma almofada. FONTE: <https://www.ppge.ufc.br/curso-de-formacao-pessoal-em- psicomotricidade-relacional-de-ambito-clinico>.Acesso em: 29 set. 2020. 190 LEITURA COMPLEMENTAR BREVE HISTÓRICO DA PSICOMOTRICIDADE Hilda Torres Falcão Maria Auxiliadora Motta Barreto A história do saber da psicomotricidade representa já um século de esforço de ação e de pensamento. A sua cientificidade, na era da cibernética e da informática, permite, certamente, ir mais longe da descrição das relações mútuas e recíprocas da convivência do corpo com o psíquico. Essa intimidade filogenética e ontogenética representa o triunfo evolutivo da espécie humana, um longo passado de vários milhões de anos de conquistas psicomotoras (FONSECA, 1988, p. 99). A história da psicomotricidade é solidária à história do corpo. Ao longo dessa história, foram registradas perguntas: como explicar as emoções, as sensações do corpo e qual a relação entre corpo e alma; por que diferenciá-los? (BARTHES apud LEVIN, 2003, p. 22). O corpo humano sempre foi valorizado, desde a Antiguidade, pelo culto excessivo do esplendor físico, cultivando músculos bem desenvolvidos, considerados sinal de masculinidade. O percurso histórico desse corpo discursivo e simbólico está marcado pelas diferentes concepções que o homem construí acerca do corpo ao longo da história. Devemos levar em conta que a palavra corpo provém, por um lado, do sânscrito garbhas, que significa embrião e, por outro lado, do grego karpós, que quer dizer fruto, semente e envoltura, e, por último do latim corpus, que significa tecido de membros, envoltura da alma e embrião do espírito (LEVIN, 2003, p. 22). Da civilização oriental à civilização ocidental e, dentro desta, a civilização grega, passando pela Idade Média, até os nossos dias, a significação do corpo sofreu inúmeras transformações. A cultura do corpo tem sua origem nas grandes cidades gregas. O homem grego sabia dar ao corpo um lugar de eleição, nos estádios ou nos lugares de culto, no mármore ou nas cores. Para Platão, o primeiro elemento da educação do espírito e do corpo está em alimentá-lo e mexê-lo a cada momento, e já afirmava haver uma separação distinta entre corpo e alma, colocando o corpo apenas como lugar de transição da existência no mundo de uma alma imortal. 191 Para Aristóteles, o corpo é matéria moldada pela alma. A alma é que põe o corpo em movimento, sendo ela a forma do corpo. Enunciava, assim, um primórdio de pensamento psicomotor, quando analisou a função da ginástica para melhorar o desenvolvimento do espírito. Afirmava que o homem era constituído de corpo e alma, e valorizava bastante a ginástica, pois ela servia para “dar graça, vigor e educar o corpo”. De acordo com suas ideias, a ginástica devia ser desenvolvida até o período da adolescência com exercícios não muito cansativos para não prejudicar o desenvolvimento do espírito, dando a esta uma conotação de movimento, como algo mais do que simplesmente o exercício pelo exercício (MASSUMI, 2005). No século XVIII, Descartes (apud Levin, 2003, p. 22) estabelece “princípios fundamentais” a partir dos quais se acentua a dicotomia: o corpo, “que é apenas uma coisa externa que não pensa”, e a alma, substância pensante por excelência que “não participa de nada daquilo que pertence ao corpo”. O dualismo corpo – alma marca, por um lado, a separação, mas, ao mesmo tempo e contraditoriamente, sua união. Separações e uniões que formam uma continuidade e articulação ao longo da história, tentando fornecer explicações do corpo e da “alma” do sujeito (DESCARTES apud LEVIN, 2003). No século XIX, com o desenvolvimento e as descobertas da neurofisiologia, é possível constatar que há diferentes disfunções graves sem que o cérebro esteja lesionado ou sem que a lesão esteja localizada claramente. São descobertos “distúrbios da atividade gestual, da atividade práxica”, sem que, anatomicamente, estejam circunscritos a uma área ou parte do sistema nervoso. Portanto, o “esquema estático anátomo-clínico” que determinava, para cada sintoma, sua correspondente lesão focal, já não podia explicar alguns fenômenos patológicos. Justamente, é a necessidade médica de encontrar uma área que explique certos fenômenos clínicos que nomeia, pela primeira vez, o termo psicomotricidade, no ano de 1870. As primeiras pesquisas que dão origem ao campo psicomotor correspondem a um enfoque totalmente neurológico (CAMUS apud LEVIN, 2003, p. 23). É Dupré, neurologista francês, que, em 1907, a partir de seus estudos clínicos, define a síndrome da debilidade motora, composta de sincinesias (movimentos invo- luntários que acompanham uma ação), paratomias (incapacidade para relaxar volun- tariamente uma musculatura) e inabilidades, sem que lhes sejam atribuídos danos ou lesão extrapiramidal. Ele rompeu com os pressupostos da correspondência biunívoca à localização neurológica e perturbações motoras da infância, e formulou a noção de psi- comotricidade através de uma linha filosófica neurológica, evidenciando o paralelismo psicomotor, ou seja, a associação estreita entre o desenvolvimento da psicomotricida- de, inteligência e afetividade. A patologia cortical, a neurofisiologia e a neuropsiquiatria são conhecidas como as três vias de acesso do conceito de psicomotricidade (LEVIN, 2003, p.24). 192 Henry Wallon (1879-1962), médico, psicólogo e pedagogo, é, provavelmente, o grande pioneiro da psicomotricidade, vista como campo científico. Segundo Fonseca (1988), forneceu observações definitivas acerca de desenvolvimento neurológico do recém-nascido e da evolução psicomotora da criança. Wallon diz que “o movimento é a única expressão e o primeiro instrumento do psiquismo”. O movimento (ação), pensamento e linguagem são unidades inseparáveis. O movimento é o pensamento em ato, e o pensamento é o movimento sem ato. De acordo com Camus (1986), estuda a relação entre motricidade e caráter, diferentemente de Dupré, que correlacionou a motricidade com a inteligência. Essa diferença permite relacionar o movimento ao afeto, a emoção ao meio ambiente e aos hábitos da criança. O conhecimento, a consciência e o desenvolvimento geral da personalidade não podem ser isolados das emoções. Wallon realizou um importante trabalho sobre os aspectos psicofisiológicos da vida afetiva, a consciência corporal, a relação intrínseca tônus – emoção, chamando de diálogo tônico, assinalando que a atividade de relação e a atividade postural têm em sua origem, uma raiz comum. A partir de sua obra, foi possível construir, pela síntese de muitas correntes e teorias, uma técnica terapêutica nova, cujo objetivo era a reeducação das funções motoras. Em 1935, impulsionando pelas obras de Wallon, Edouard Guilman (1901-1983) iniciou a prática psicomotora, que estabeleceu, por meio de diferentes técnicas provenientes da neuropsiquiatria infantil, a reeducação psicomotora, que são exercícios para reeducar a atividade tônica, a atividade de relação e controle motor. Essa primeira aproximação “prática” entre a conduta psicomotora e o caráter da criança foi utilizada, posteriormente, como modelo para diferentes reeducadores pedagógicos e psicomotores, como, por exemplo, na Argentina, por Dalila M. Costallat. Era um trabalho dirigido a crianças que apresentavam déficit em seu funcionamento motor e não governavam bem o próprio corpo, o que ocasionava uma série de problemas em seu meio social (LEVIN, 2003, p. 25). Na Alemanha, em 1942, Kofka, Kohler e os psicólogos da Gestalt interessaram- se pelos mecanismos da percepção. Os trabalhos de Schultz ou de Jacobson que definiram os primeiros métodos de relaxação e os psicopedagogos que estudaram o desenvolvimento sensório-motor da criança, como Clapariede, Montessori e Piaget na área da Psicologia evolutiva, propiciaram uma melhor compreensão