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AULA 1 COOPERAÇÃO INTERNACIONAL Profª Thaise Kemer 2 CONVERSA INICIAL A presente disciplina busca fornecer elementos estruturantes para a compreensão da cooperação internacional nas Relações Internacionais (RI) contemporâneas. Para tanto, esta primeira aula oferece uma introdução sobre o tema, com vistas a permitir o entendimento da cooperação a partir de uma perspectiva abrangente, a qual habilite os estudantes a desenvolver um pensamento crítico e analítico sobre essa temática. Assim, exploraremos cinco temas. O primeiro tema oferece uma definição conceitual da cooperação internacional, a qual permitirá uma visão abrangente sobre as diferentes formas de cooperação internacional na atualidade. O segundo tema, por sua vez, discutirá o papel de três fatores para a cooperação internacional, nomeadamente a expectativa de reciprocidade, a reputação das partes e a confiança entre os atores. O terceiro tema trabalhará o papel da política doméstica e as implicações do ambiente político interno dos países para a configuração de políticas de cooperação internacional. O quarto tema trabalhará a cooperação internacional e as instituições internacionais. Para tanto, tratará, em um primeiro momento, de contextos nos quais a cooperação ocorre entre muitos atores. Em seguida, a seção discutirá as implicações da cooperação por meio de instituições internacionais. Por fim, o quinto tema aprofundará o debate sobre o papel das organizações internacionais contemporâneas para o estabelecimento da cooperação. Em particular, a seção trabalha alguns exemplos históricos que ilustram o papel da cooperação internacional por meio de instituições para a busca de superação de crises. Dessa forma, a aula oferece um panorama amplo do conceito de cooperação, com vistas a estimular reflexões sobre o tema no contexto de exemplos práticos da realidade internacional contemporânea. TEMA 1 – DEFINIÇÃO E TEMAS DA COOPERAÇÃO INTERNACIONAL Segundo Dai, Snidal e Sampson (2017, p. 3), embora a cooperação internacional exista há muito tempo, a definição que conhecemos na atualidade foi consolidada somente na década de 1980. De acordo com esses autores, esse conceito foi trabalhado por autores como Taylor (1976) e Axelrod (1981, 1984), e pode ser entendido como “o comportamento coordenado de atores independentes 3 e, possivelmente, egoístas que seja benéfico a todos” (Dai; Snidal; Sampson, 2017, p. 3, tradução nossa). Nesse contexto, segundo esses autores, a cooperação internacional pode ser entendida como um conceito amplo tanto em termos de atores quanto de suas temáticas principais. De fato, a cooperação ocorre no contexto internacional tanto entre indivíduos quanto entre diferentes entidades coletivas, como Estados, empresas e organizações não governamentais. No entanto, segundo Dai, Snidal e Sampson (2017, p. 3), a literatura acadêmica tende a se concentrar na cooperação entre Estados. Além disso, a cooperação pode ocorrer no contexto de arranjos diversos. Nesse sentido, é possível haver, por exemplo: • Cooperação bilateral; • Cooperação regional, quando ocorre em uma região geográfica delimitada, como é o caso, por exemplo, do Mercosul; • Cooperação entre países de diferentes partes do mundo, como é o caso da cooperação no âmbito da Organização das Nações Unidas (ONU). No que se refere aos temas de cooperação, observa-se também que a cooperação internacional pode se referir a diferentes temas, entre os quais meio ambiente, segurança, saúde, direitos humanos, educação e desenvolvimento, entre inúmeros outros. Nesse sentido, para Sato (2010), a cooperação pode ocorrer tanto em temas identificados como high politics, ou “alta política”, quanto em temas de low politics, ou “baixa política”. Segundo Sato (2010, p. 47), durante a Guerra Fria, esses termos foram utilizados para tratar de temas diferentes na cooperação internacional: enquanto a alta política estava mais relacionada a questões de segurança dos Estados, a baixa política guardava relação com outros temas, como desenvolvimento, saúde e meio ambiente, entre outros. Com o tempo, porém, Sato (2010) afirma que essa divisão foi progressivamente perdendo o sentido, e um dos motivos para isso foi que, com o fim da Guerra Fria, os temas associados à baixa política ganharam um destaque crescente nas relações internacionais. A despeito desse fato, Sato (2010, p. 48) reconhece que os temas de baixa política oferecem maior acessibilidade para o estabelecimento de acordos de cooperação internacional, haja vista que, segundo o autor, os ambientes de negociação para esses temas oferecem menor tensão do que no contexto de negociações que envolvem a segurança dos países. Nas palavras do autor: 4 Geralmente as questões de segurança envolvem aspectos notadamente sensíveis, que tendem a criar um ambiente de negociação que pode ser bem caracterizado como o de um “jogo de soma zero”, isto é, sejam investimentos em sistemas de defesa ou iniciativas de formação de alianças estratégicas, o resultado inevitável é a mudança na relação de poder e capacidade estratégica. Em outras palavras, alguém está́ ganhando em relação a alguém que está perdendo. Por outro lado, as questões típicas de low politics tendem a oferecer um ambiente de múltiplas alternativas de ganhos e possibilidades aos atores envolvidos. Num acordo comercial, ainda que não seja na mesma proporção, em princípio todos os signatários estão ganhando. (Sato, 2010, p. 48) Além disso, Dai, Snidal e Sampson (2017, p. 3) destacam que a cooperação internacional nem sempre ocorre por meio do estabelecimento de acordos para benefício de ambas as partes, mas pode, também, apresentar a forma de sanções contra, por exemplo, determinado país ou grupo de indivíduos (Dai; Snidal; Sampson, 2017, p. 3). Segundo esses autores, a cooperação internacional pode ocorrer ainda que os atores tenham interesses conflitantes, pois os países podem, também nesses casos, compartilhar de alguns interesses em comum. Sob essa perspectiva, as situações internacionais podem ser compreendidas, na maioria dos casos, como oportunidades de barganha, nas quais as partes buscam viabilizar a distribuição do tema em questão, de forma a viabilizar um acordo que seja mutuamente benéfico (Dai; Snidal; Sampson, 2017, p. 3). De fato, Sato (2010, p. 50) afirma que a cooperação internacional não deve ser compreendida como o oposto de conflito. Mesmo em um cenário no qual os países assumam posições conflitantes, ainda assim pode haver pontos de convergência nos quais a cooperação é possível. Assim, a cooperação internacional deve ser compreendida como o contrário de unilateralismo (Sato, 2010, p. 50). TEMA 2 – VARIÁVEIS E PERSPECTIVAS SOBRE A COOPERAÇÃO INTERNACIONAL De acordo com Dai, Snidal e Sampson (2017, p. 3), a ocorrência da cooperação depende diretamente tanto do contexto particular dos atores envolvidos em um determinado tema quanto da estratégia de ação desses atores. Ainda assim, os autores (2017, p. 6-7) destacam três variáveis que podem fornecer indicativos sobre a possibilidade de ocorrência de arranjos de cooperação. 5 A primeira variável é a expectativa de reciprocidade. Segundo os autores, saber que se encontrarão repetidas vezes em momentos futuros afeta a decisão dos atores quanto a cooperar ou não. Assim, os agentes adotam a lógica de responder na mesma moeda, de forma que cooperam se observarem a cooperação de outro, mas não cooperam caso os demais atores deixem de cooperar. Ainda segundo os autores, caso ambas as partes adotem essa perspectiva, a cooperação é fortalecida, haja vista o interesse dos atores de que a cooperação tenha continuidade no futuro (Dai; Snidal; Sampson, 2017, p. 6). A segunda variável é o cuidado dos agentes com a própria reputação. De fato, em um cenário em que há expectativa de cooperaçãofutura, os atores têm interesse em manter sua reputação no presente, pois temem retaliações que impeçam acordos vindouros (Dai; Snidal; Sampson, 2017, p. 6). Por fim, Dai, Snidal e Sampson (2017, p. 7) discutem o papel da terceira variável, a confiança nos outros atores para o estabelecimento de acordos de cooperação. Em um cenário marcado pela desconfiança, a cooperação pode: • ser feita por meio de acordos muito detalhados, de forma a minimizar tanto quanto possível os riscos de quebra de acordo; • dependendo do grau de desconfiança, pode chegar a ser, no limite, evitada. Os autores Kydd (2005, citado por Dai; Snidal; Sampson, 2017, p. 7) e Acharya e Ramsay (2013, citados por Dai; Snidal; Sampson, 2017, p. 7) tratam dessas diferentes abordagens. Segundo o primeiro, quando Estados desconfiam de outros Estados não se constitui um empecilho para a configuração de acordos internacionais, pois eles podem ser feitos por meio de acordos mais custosos, incluindo, por exemplo, mais especificações e a previsão de medidas para casos em que haja seu descumprimento (Kydd, 2005, citado por Dai; Snidal; Sampson, 2017, p. 7). Para Acharya e Ramsey (2013, citados por Dai; Snidal; Sampson, 2017, p. 7), mesmo pequenos erros de percepção podem comprometer completamente a cooperação e a comunicação entre atores. Essa afirmação demonstra a importância de haver, por exemplo, muito cuidado no contexto da comunicação entre os países, pois falhas nessa comunicação podem comprometer a cooperação internacional. Assim, a expectativa de reciprocidade, a reputação e a confiança podem ser consideradas variáveis relevantes para compreender os contextos em que a cooperação internacional ocorre, ou, ainda, deixa de ocorrer. 6 Outro ponto importante para compreender a cooperação internacional é considerá-la a partir de perspectivas teóricas da disciplina de Relações Internacionais (RI) que interpretem a existência da cooperação. Para ilustrar as diferentes perspectivas teóricas no contexto das RI, veremos brevemente as perspectivas do Realismo, as liberais e ainda a dos autores Robert Keohane e Joseph Nye (1989), que trabalharam a temática da interdependência. Segundo Maciel (2009, p. 226), autores vinculados ao Realismo, a exemplo de Hans Morgenthau, concebem o sistema internacional como uma anarquia na qual os Estados devem ter como prioridade a própria sobrevivência. Nessa perspectiva, Estados cooperam na medida de seu interesse nacional, de sua sobrevivência e de sua segurança. De fato, na perspectiva de Nogueira e Messari (2005, p. 31) a perspectiva realista não exclui a possibilidade de haver cooperação no sistema internacional; contudo, essa cooperação está sujeita a uma supervisão permanente dos Estados, de maneira a identificar quaisquer ameaças em potencial à segurança e ao interesse nacional do Estado. Os liberais, por sua vez, também concebem o sistema internacional como um ambiente anárquico (Nogueira; Messari, 2005, p. 61); porém, acreditam que o sistema internacional pode ser tornado mais cooperativo, por meio, por exemplo, do livre-comércio, da ênfase à democracia e da presença de instituições internacionais (Nogueira; Messari, 2005, p. 61). Para os liberais, o livre comércio estimula a cooperação internacional na medida em que os Estados que têm interesse no comércio mútuo têm incentivos para não guerrearem (Nogueira; Messari, 2005; Kemer; Pereira; Blanco, 2016). De fato, de acordo com Montesquieu, a guerra prejudica o comércio internacional, pois destrói vidas humanas e danifica a infraestrutura dos países (Kemer; Pereira; Blanco, 2016). As democracias, por sua vez, também favorecem a cooperação: segundo E. Kant, por exemplo, os governantes de democracias devem prestar contas a seu público interno, o qual desaprovaria esse tipo de conduta (Kemer; Pereira; Blanco, 2016). No âmbito do conceito da interdependência, por sua vez, um trabalho de destaque é a obra de Keohane e Nye (1989), intitulada Power and interdependence (“Poder e interdependência”). Segundo a perspectiva dos autores, a interdependência significou um reconhecimento de que as economias estavam crescentemente interligadas pela melhoria das comunicações e dos transportes. Com isso, os problemas passaram a ser internacionalizados, pois diversos temas que ocorriam no âmbito doméstico, como nas áreas da política, 7 da economia e da sociedade, passaram a ser originados em outros países (Nogueira; Messari, 2005, p. 81). Assim, em Power and interdependence os autores reconhecem que a crescente interdependência entre os atores internacionais pode constituir tanto uma fonte de conflito quanto um recurso de poder (Nogueira; Messari, 2005, p. 81). Para Nogueira e Messari (2005, p. 81), o trabalho de Keohane e Nye (1989) assume uma posição pioneira na tentativa de conciliar as perspectivas realista e liberal, e, por isso, merece destaque na presente aula. TEMA 3 – O PAPEL DA POLÍTICA DOMÉSTICA Nas Relações Internacionais, existe uma subárea denominada Análise de Política Externa, ou APE. A APE volta-se à análise do papel de variáveis domésticas para a configuração das políticas externas dos países. De fato, segundo Salomón e Pinheiro (2013, p. 40): “[...] a APE tem como objeto o estudo da política externa de governos específicos, considerando seus determinantes, objetivos, tomada de decisões e ações efetivamente realizadas”. Nesse contexto, Dai, Snidal e Sampson (2017, p. 10) destacam que o contexto da política doméstica exerce um papel fundamental para a cooperação internacional de um determinado país. De fato, Dai, Snidal e Sampson (2017) citam a obra de Putnam (1988) que, em seu texto clássico Diplomacy and domestic politics: the logic of two-level games, “Diplomacia e política doméstica: a lógica dos jogos de dois níveis”, trabalhou a relação entre a política doméstica e o escopo dos acordos internacionais. Nessa obra, Putnam (1988) problematiza a ação de negociadores internacionais, os quais devem jogar em dois níveis: no doméstico, esses negociadores buscam responder aos interesses dos atores internos, que têm agendas próprias e buscam defender seus interesses também no contexto internacional; no nível internacional, por sua vez, os negociadores enfrentam os constrangimentos do sistema internacional, o qual conta com atores com características e interesses particulares. Assim, ao unir a política interna e a política externa dos países, o modelo de Putnam, conhecido como modelo dos jogos de dois níveis, evidencia as inter-relações entre as esferas doméstica e internacional. Segundo Putnam (1988, p. 441), os acordos internacionais que podem ser realizados são aqueles que atendem aos interesses dos jogadores e das 8 coalizões domésticas e, ao mesmo tempo, são capazes de atender aos interesses dos negociadores no nível internacional. De fato, essa condição se faz necessária porque a aprovação de um acordo internacional depende da concordância de instituições internas, como o parlamento dos países. Assim, os acordos internacionais que são efetivamente concretizados são aqueles que receberam essa concordância de determinados atores internos. TEMA 4 – COOPERAÇÃO MULTILATERAL E INSTITUIÇÕES INTERNACIONAIS Quando há um grande número de atores, a cooperação apresenta aspectos que a favorecem e aspectos que a dificultam. Se há bens públicos envolvidos e um grande número de atores que desejam cooperar, as chances de que a cooperação produza ganhos coletivos se torna maior (Dai; Snidal; Sampson, 2017, p. 9). Contudo, esse maior número de atores faz com que o grupo tenha uma dificuldade crescente para organizar uma ação coletiva. Ao mesmo tempo, um grande número de atores eleva a possibilidade de utilização da lógica do “carona” (ou, em inglês, free rider), que consiste em se aproveitar de iniciativas de outros em benefíciopróprio (Dai; Snidal; Sampson, 2017, p. 9). Segundo os Dai, Snidal e Sampson (2017, p. 9), quando há acordos de cooperação e alguns atores não cooperam, há duas alternativas: 1. os atores que não cooperam são facilmente identificáveis; 2. o ator que não coopera não pode ser facilmente identificado. No primeiro caso, a cooperação pode ser feita por meio de acordos apenas com aqueles atores que desejem, de fato, cooperar. Nesse contexto, é possível utilizar acordos bilaterais entre as partes interessadas na cooperação. No segundo caso, por sua vez, todo o grupo é penalizado, pois os acordos passam a ser feitos apenas nos temas em que há disposição de todos em cooperar. Assim, as possibilidades de acordos de cooperação multilaterais tornam-se significativamente menores (Dai et al., 2017, p. 9). Ainda nesse tema, é importante tratarmos das instituições internacionais e de seu papel para a cooperação internacional. De fato, embora os Estados recebam grande atenção nessa temática, as instituições internacionais apresentam também papel central no âmbito da cooperação. Segundo Dai, Snidal e Sampson (2017, p. 12), as instituições internacionais podem ser concebidas 9 como agentes que estabelecem tanto regras formais de cooperação entre Estados quanto informais, a depender das expectativas de cada um deles e das normas que orientam suas condutas no plano internacional. Além disso, as instituições internacionais podem ampliar as possibilidades de cooperação entre os Estados, pois podem promover a cooperação simultânea em temas diferentes (Dai; Snidal; Sampson, 2017). Ainda segundo os autores (2017, p. 14), um exemplo desse fato foi a negociação do Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, no contexto do Protocolo de Quioto. Esse acordo foi assinado em 1997 no Japão e representou um importante esforço internacional para o tratamento das mudanças climáticas. O protocolo estabeleceu compromissos internacionais para que países desenvolvidos reduzissem as emissões de gases de efeito estufa e, assim, criou- se o Mecanismo de Desenvolvimento Limpo, que uniu o tema da proteção do meio ambiente ao estabelecimento de projetos de desenvolvimento. Para tanto, os países desenvolvidos puderam implementar projetos em países em desenvolvimento para reduzir a emissão de gases do efeito estufa. Esses projetos geravam créditos aos países desenvolvidos, de forma a permitir o cumprimento das metas de redução de gases do efeito estufa que foram estabelecidas no âmbito do Protocolo de Quioto (MCTIC, S.d.). Outro aspecto importante das instituições internacionais é a sua capacidade de oferecer transparência às negociações internacionais. De fato, ao estabelecer regras claras e dar visibilidade aos seus processos e práticas, as instituições internacionais contribuem para a criação de um ambiente de maior confiança entre os Estados (Dai; Snidal; Sampson, 2017, p. 14). As instituições, nesse sentido, explicitam o entendimento da cooperação em determinados temas e, assim, estabelecem referências quanto ao tipo de conduta que é considerado aceitável em determinados contextos. Além disso, as instituições internacionais podem trabalhar para oferecer informações que permitam o estabelecimento de acordos entre Estados, como é o caso da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) (Dai; Snidal; Sampson, 2017, p. 15). A AIEA constitui um fórum internacional para a cooperação científica em matéria nuclear. Um dos exemplos mais notórios da atuação dessa organização é o monitoramento no contexto do acordo nuclear estabelecido entre as potências internacionais Estados Unidos, Reino Unido, Rússia, França, China, Alemanha e União Europeia, de um lado, e o Irã, de outro. Nesse caso, a AIEA tem o papel de 10 inspecionar periodicamente os depósitos de urânio do Irã, de forma a verificar o cumprimento do acordo internacional por esse país. TEMA 5 – A COOPERAÇÃO INTERNACIONAL E A BUSCA DA SUPERAÇÃO DE CRISES As instituições internacionais exerceram, historicamente, um papel central para a superação de crises (Sato, 2010, p. 51). No contexto do pós-Segunda Guerra Mundial, um arranjo de instituições internacionais foi concebido com vistas a lidar com os efeitos do conflito (Sato, 2010, p.51). Destacaram-se os acordos de Bretton Woods, de 1944, que originaram o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial, e a criação da Organização das Nações Unidas (ONU), em 1945. Em particular, enquanto os acordos de Bretton Woods viabilizaram o reerguimento da economia e das finanças internacionais no pós-Guerra, a ONU foi criada com o objetivo de possibilitar a cooperação da humanidade para a promoção da paz e da segurança internacionais. Um exemplo mais recente de cooperação internacional para a superação de crises ocorreu após a crise financeira internacional de 2008. Naquele contexto, tornou-se evidente que a ação concertada entre países desenvolvidos e em desenvolvimento seria fundamental para a superação da crise. Assim, o grupo G- 20 tornou-se referência em matéria de cooperação internacional, pois possibilitou que países em desenvolvimento assumissem um papel ativo para a resolução da crise internacional (Sato, 2010, p. 50). Dai, Snidal e Sampson (2017, p. 18) afirmam que as instituições internacionais afetam a forma de distribuição de poder, na medida em que Estados em diferentes condições políticas e econômicas podem estabelecer acordos em temas diversos. Um debate que advém dessa análise aborda a crescente demanda dos países em desenvolvimento por ter um maior protagonismo em determinadas instituições internacionais. É o caso da crescente demanda por maior reforma de organismos como a ONU e o FMI. Os países subdesenvolvidos veem essas organizações não apenas como entidades por meio das quais ocorre a cooperação, mas também como contextos nos quais podem ter maior voz. Assim, as dinâmicas pela busca do poder se fazem presentes também nas organizações internacionais, e estão diretamente associadas com as dinâmicas de cooperação internacional. 11 FINALIZANDO A presente aula tratou o tema da cooperação internacional, de forma a explorar tanto seus aspectos conceituais quanto seus desdobramentos práticos. De fato, a cooperação internacional assume uma crescente relevância na atualidade, haja vista que a globalização torna urgente a necessidade de concertação para o enfrentamento de desafios que ultrapassam fronteiras políticas e geográficas. Entre os exemplos desses desafios, podemos citar a necessidade de proteção do meio ambiente, a segurança internacional e a promoção do desenvolvimento, entre outros. Nesse contexto, vimos que a cooperação internacional pode ocorrer entre diferentes tipos de atores, como indivíduos, Estados e organizações internacionais, e em diferentes temas. Vimos também que variáveis como expectativa de reciprocidade, reputação e confiança podem ser consideradas relevantes no processo de definição da cooperação internacional. Observamos ainda que diferentes teorias das Relações Internacionais (RI) apresentam perspectivas sobre a cooperação internacional. Além disso, vimos como a política doméstica dos Estados pode ser associada à cooperação internacional. Por fim, aprendemos, por meio de exemplos, que a cooperação internacional exerceu um papel histórico na superação de crises internacionais, e que as instituições internacionais foram decisivas nesse processo. 12 REFERÊNCIAS ACHARYA, A.; RAMSAY, K. W. The calculus of the security dilemma. Quarterly Journal of Political Science, v. 8, n. 2, p. 183-203, 2013. AXELROD, R. The emergence of cooperation among egoists. American Political Science Review, v. 75, n. 2, 306-318, jun. 1981. _____. The evolution of cooperation. New York: Basic Books, 1984. DAI, X.; SNIDAL, D.; SAMPSON, M. International cooperation theoryand international institutions. Oxford Research Encyclopedias: international studies, nov. 2017. Disponível em: <https://oxfordre.com/internationalstudies/view/10.1093/acrefore/9780190846626 .001.0001/acrefore-9780190846626-e-93>. Acesso em: 30 jul. 2019. KEMER, T.; PEREIRA, A. E.; BLANCO, R. 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Assim, trabalharemos o cenário da pós-Segunda Guerra Mundial, no qual o contexto da Guerra Fria, marcado pela bipolaridade entre países capitalistas e países socialistas, teve implicações centrais para a forma de interação entre os países naquele período. O terceiro tema, por sua, explora a consolidação da CID após os anos 1990, com os novos desafios que o fim da Guerra Fria trouxe para esse campo. O quarto tema aprofunda a tipologia dos atores da cooperação para o desenvolvimento e, por fim, o quinto tema trabalha o tema da cooperação técnica, que é uma das formas possíveis de cooperação para o desenvolvimento, e apresenta o tratamento do Brasil com relação a essa temática. A Cooperação Internacional para o Desenvolvimento, ou CID, é considerada, pelo autor Carlos Milani (2018, p. 21), um “campo político fundamental das Relações Internacionais”. De fato, o autor entende que a cooperação se trata de um campo político, pois, segundo esse autor, ela é dotada das seguintes características: (1) contém inúmeras relações de poder; (2) não exclui a competição, haja vista que na cooperação diferentes atores competem por recursos e prestígio (Milani, 2018, p. 23). A despeito desse reconhecimento, segundo esse autor, desde 1945, os montantes efetivamente gastos pelos países com essa modalidade de cooperação são muito inferiores aos valores gastos pelos Estados com armamentos e com gastos militares (Milani, 2018, p. 23). Ainda assim, Milani destaca a importância dessa temática como campo político, no sentido de que a CID engloba distintas relações de poder, entre as quais: [...] (1) a capacidade de agência dos Estados e, a seguir, das corporações transnacionais e dos atores não governamentais; (2) um conjunto de normas geradas e difundidas por organizações 3 internacionais; (3) a crença compartilhada de que a cooperação para o desenvolvimento em bases solidárias seria a melhor solução para as contradições e desigualdades geradas pelo capitalismo no plano internacional (Milani, 2018, p. 23). Nesse contexto, é importante destacar que a cooperação para o desenvolvimento compreende tanto países desenvolvidos como países emergentes, os quais, segundo Milani, competem por “legitimidade, reconhecimento e recursos materiais” (Milani, 2018, p. 23). Nesse contexto, a CID está relacionada a diferentes expressões, as quais remetem a distintas ênfases da cooperação internacional, como os termos Cooperação Norte-Sul, que se relaciona à cooperação entre países desenvolvidos e países em desenvolvimento; cooperação Sul-Sul, que se refere à cooperação entre países em desenvolvimento; e a cooperação técnica entre países em desenvolvimento (CTPD), que se refere aos projetos de cooperação com enfoque técnico entre esses países (Milani, 2018, p. 22). Ainda, os países pertencentes à Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico utilizam a expressão “Ajuda Oficial para o Desenvolvimento”, cujo conceito trabalharemos no próximo tema. TEMA 2 – INSTITUCIONALIZAÇÃO DA CID De acordo com Milani (2018, p. 35) o término da Segunda Guerra Mundial trouxe a ampliação expressiva das iniciativas de cooperação internacional. De fato, em um ambiente marcado pelas consequências trágicas daquele conflito de proporções globais, a cooperação internacional foi a forma utilizada para unir esforços em prol da reconstrução das economias nacionais que haviam sido destruídas pela Guerra. Com isso, Milani (2018, p. 36) destaca que houve o desenho de uma verdadeira “arquitetura da ajuda”, que teve entre suas prioridades principais a reconstrução da Europa. Nesse contexto, o Plano Marshall, desenhado pelos Estados Unidos para o reerguimento da economia europeia, revelou centralidade no processo de recuperação dos países daquele continente. O contexto pós-Segunda Guerra foi, ainda, marcado pelo embate ideológico entre as potências alinhadas aos Estados Unidos, por um lado, e à União Soviética, por outro. Ao mesmo tempo, havia, ainda, o cenário de descolonização dos países africanos e asiáticos. Assim, ao mesmo tempo em que os países recém-descolonizados apresentavam profundas carências no que se refere ao desenvolvimento, os Estados Unidos e a União Soviética buscavam 4 demarcar suas esferas de influência. Estabeleceu-se, assim, um contexto propício para uma crescente ênfase na cooperação para o desenvolvimento. De fato, tanto os Estados Unidos quanto a União Soviética buscaram, por meio da bandeira do desenvolvimento, promover o alinhamento de outros países a suas ideologias. Nesse sentido, Milani menciona o exemplo do apoio da URSS à China no contexto do Plano Quinquenal desse país, que ocorreu entre 1953 e 1957 (Milani, 2018, p. 36). Nesse sentido, a cooperação internacional passou a ser utilizada como um verdadeiro instrumentopara promover o alinhamento de outros países à ideologia dos Estados Unidos ou da União Soviética, especialmente considerando que a descolonização colocava, frequentemente, importantes disputas de poder dentro dos países em fase de libertação. Assim, ao apoiar as partes de diferentes conflitos, Estados Unidos e União Soviética buscavam conseguir que países recém-independentes ficassem alinhados a suas ideologias. Nos anos 1960, o desenvolvimento consolidou-se como uma agenda central para as relações internacionais. De fato, segundo Milani (2018, p. 73), em 1961, a criação do Comitê de Ajuda ao Desenvolvimento (CAD), no âmbito da OCDE, representou um marco fundamental nesse processo, em razão de sua contribuição para promover a harmonização de conceitos e de políticas. Ainda segundo o autor, o CAD formulou o conceito de “Ajuda Oficial para o Desenvolvimento”, ou AOD. De acordo com Milani (2018, p. 73), a AOD consiste no envio de recursos financeiros a países presentes na lista de beneficiários da OCDE e às instituições multilaterais de desenvolvimento, com o objetivo de promover o desenvolvimento e concedido a fundo perdido em, no mínimo, 25% do capital enviado. Além disso, o desenvolvimento tornou-se crescentemente presente nas agendas de política externa de diferentes países. No governo brasileiro de Juscelino Kubitschek, surgiu a Operação Pan Americana, na qual houve o pedido ao governo dos Estados Unidos para que fossem feitos investimentos no desenvolvimento de países da América Latina. Em 1961, os Estados Unidos criaram a Aliança para o Progresso, um programa cujo propósito era investir no desenvolvimento dos países latinos; porém, na prática, tinha o interesse de colocar dinheiro em projetos na região, de forma a afastar a influência soviética. De fato, segundo Doratioto e Vidigal (2014, p. 82), a Aliança para o Progresso 5 teve um papel mais de realizar os interesses americanos do que de servir ao propósito da promoção do desenvolvimento na América Latina. Se, por um lado, os Estados Unidos e a União Soviética utilizavam a bandeira do desenvolvimento para, entre outros, demarcar suas esferas de influência internacional, os países do chamado Sul Global afirmavam a importância do desenvolvimento para suas agendas de política externa. No caso do Brasil, por exemplo, em 1963, Araújo Castro, Ministro das Relações Exteriores brasileiro, discursou no contexto da Organização das Nações Unidas em favor do desarmamento, do desenvolvimento e da descolonização, o que ficou conhecido como o “discurso dos 3D’s”. Segundo Doratioto e Vidigal (2014, p. 86), nesse discurso, Araújo Castro reconheceu o desenvolvimento econômico como peça central para a política externa brasileira e destacou, ainda, a capacidade de o Brasil atuar para a promoção desse tema para outros países, haja vista as dimensões e capacidades do país. No contexto mais amplo das relações Internacionais, houve, na década de 1960, uma crescente aproximação entre o desenvolvimento e desenvolvimento econômico por meio do comércio. Nesse sentido, em 1964, foi criada a Conferência das Nações Unidas para o Comércio e Desenvolvimento (UNCTAD), cujo propósito foi apoiar os países em desenvolvimento em sua integração com o comércio internacional, com o intuito de dotá-los de ferramentas e de mecanismos para que houvesse a inclusão desses países em matéria comercial de forma mais justa (UNCTAD, s.d.). Os anos 1970, por sua vez, trazem novidades para a CID. De acordo com Milani (2018, p. 51), em 1970, a Resolução 2.626 da Assembleia Geral das Nações Unidas propôs que os países desenvolvidos deveriam buscar atingir a meta de destinar ao menos 0,7% de seu Produto Nacional Bruto para a Ajuda Oficial para o Desenvolvimento. As Nações Unidas trazem a questão do desenvolvimento também em 1974, ano em que uma resolução da Assembleia Geral traz o estabelecimento da Nova Ordem Econômica Internacional (Milani, 2018, p. 53), que discutia os diversos entraves presentes no caminho dos países descolonizados para que eles se tornassem desenvolvidos. Entre esses obstáculos, estavam, segundo a resolução 3.201, de 01 de maio de 1974, temas como a dominação estrangeira, a discriminação racional, o apartheid e o neocolonialismo (idem, p. 53). 6 Em 1978, Milani (2018, p. 55) destaca a realização, em Buenos Aires, da Conferência das Nações Unidas sobre Cooperação Técnica entre Países em Desenvolvimento. Segundo Milani, esse documento foi inovador, na medida em que os países em desenvolvimento reconheceram que a superação do subdesenvolvimento passava pela aquisição de competências próprias e de um esforço autônomo, que os países denominaram “autossuficiência nacional e coletiva” (Milani, 2018, p. 55). Nos anos 1980, o mundo passou por diversas crises de endividamento, as quais ocorreram na esteira das crises do petróleo de 1973 e de 1979, respectivamente, entre outros fatores. Nesse contexto, segundo Milani, a cooperação para a superação de crises financeiras passou a ser associada a condicionalidades políticas, as quais se tornaram conhecidas posteriormente como Consenso de Washington (Milani, 2018, p. 56). Nesse sentido, em troca de cooperação, os Estados foram solicitados a aderir medidas de austeridade fiscal e implementar medidas políticas e econômicas condizentes com as indicações do Fundo Monetário Internacional (Milani, 2018, p. 56). TEMA 3 – A CID APÓS OS ANOS DE 1990 Com o término da Guerra Fria, o mundo deixou de ser pautado pela dualidade entre países alinhados aos Estados Unidos e à União Soviética, e esse fato teve consequências importantes também para o tema da cooperação para o desenvolvimento. De fato, Milani (2018) aponta que a cooperação deixou de ser usada como instrumento de alinhamento ideológico entre essas duas potências e passou a ter uma agenda de temas e de atores crescentemente diversificada. Esses fatos tiveram um reflexo direto também no contexto das Nações Unidas, na medida em que a paz passou a ser concebida não apenas como a ausência de conflitos violentos, mas a significar a presença de condições para o florescimento das capacidades humanas, ou desenvolvimento (Milani, 2018; Kemer et al, 2016). De fato, em 1992, o Secretário Geral das Nações Unidas, Boutros Boutros-Ghali, lançou um documento chamado “Agenda para a Paz”, no qual reforçou a relevância do desenvolvimento para a construção da paz nos países que emergiam de conflitos (Milani, 2018; Kemer et al, 2016). De maneira geral, o autor José Lindgren Alves destaca que os anos 1990 se tornaram conhecidos como a “década das conferências”, haja vista que, na esteira do fim da Guerra Fria, a humanidade passou a buscar a esfera multilateral 7 para tratar a cooperação internacional no contexto de diversas conferências associados ao desenvolvimento. Entre essas conferências, destacam-se a Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento de 1992 (conhecida como “Rio-92”) e a Cúpula Mundial sobre o Desenvolvimento Social, que ocorreu em Copenhague em 1995 (Alves, 1997; 2018; Novaes, 1992). Na esteira desse processo, nos anos 2000, foram criados os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, que consistiram em um conjunto de metas acordadas entre 191 países e que deveriam ser alcançadas pela humanidade em um horizonte de 15 anos (ODM, s.d.). As metas foram direcionadas às seguintes áreas: (1) acabar com a fome e a miséria; (2) oferecer educação básica de qualidade para todos; (3) promover a igualdade entre os sexos e a autonomia das mulheres; (4) reduzir a mortalidade infantil; (5) melhorar a saúde das gestantes; (6) combater a Aids, a malária e outras doenças; (7) garantir qualidade de vida e respeito ao meio ambiente e (8) estabelecer parcerias para o desenvolvimento (ODM, s.d.). No início da década de 2000, o ataque terrorista às torres gêmeas,nos Estados Unidos, fez que o tema da segurança internacional assumisse um papel de centralidade nas relações internacionais, o que reduziu a atenção dos países à cooperação e ao multilateralismo (Milani, 2018, p. 61). Alguns anos depois, o tema da cooperação retornou no contexto dos debates sobre a “eficácia da ajuda” que ocorreram no âmbito de dois Fóruns da OCDE em Paris, em 2005, e em Acra, em 2008 (OCDEb, s.d.). De fato, nesses encontros, enfatizou-se que a que a ajuda oficial ao desenvolvimento deveria ser pautada pelos seguintes critérios: (1) pertencimento: os países em desenvolvimento devem ser os responsáveis por definir suas próprias estratégias para redução da pobreza, para a melhoria de suas instituições e para o enfrentamento da corrupção; (2) alinhamento: os países desenvolvidos devem se orientar por esses objetivos e utilizar sistemas locais; (3) harmonização: os países doadores devem simplificar procedimentos e compartilhar informações, de forma a evitar a duplicação de esforços; (4) resultados: o foco deve ser nos resultados em matéria de desenvolvimento e (5) contabilidade mútua: tanto os países doadores quanto os países doadores devem ter accountability quanto aos resultados do desenvolvimento (OCDEb, s.d.). 8 TEMA 4 – ATORES DA COOPERAÇÃO PARA O DESENVOLVIMENTO Conforme aponta Milani (2018, p. 62), a preocupação com a coordenação de esforços internacionais é plausível, haja vista o cenário internacional com aumento expressivo na diversidade de atores que participam de processos de cooperação. Nesse contexto, Milani (2018, p. 68 e 69) apresenta seis tipos básicos de atores que participam da cooperação para o desenvolvimento. O primeiro tipo são as organizações intergovernamentais multilaterais, as quais podem ser universais ou regionais. As organizações universais podem contar com a participação de todos os Estados, como é o caso das Nações Unidas. As organizações regionais, por sua vez, podem ter membros de determinada região geográfica, como é o caso do Mercosul. Um segundo tipo de atores são as agências governamentais bilaterais, as quais são agências que trabalham o tema da cooperação no contexto da política externa de seus países. São exemplos dessas agências a Agência Brasileira de Cooperação, a agência dos Estado Unidos, ou USAID e a agência de cooperação da Alemanha, ou GIZ. Um terceiro tipo de ator são as agências governamentais descentralizadas, as quais abrangem, por exemplo, agências de cooperação localizadas no contexto de cidades em particular, a exemplo das agências existentes em cidades como São Paulo e o Rio de Janeiro. O quarto tipo proposto por Milani (2018) são os atores não governamentais, os quais podem ser, por exemplo, associações religiosas, fundações empresariais, movimentos sociais e universidades. O quinto tipo são indivíduos, a exemplo de celebridades internacionais que atuam em projetos de cooperação, como é o caso do Bono Vox e da Angelina Jolie, entre outros. Por fim, o sexto tipo consiste em associações de múltiplos doadores, entre as quais estão as parcerias público-privadas (Milani, 2018, p. 68 e 69). Assim, o trabalho de sistematização proposto por Milani (2018) permite-nos observar que existe uma ampla variedade de atores que atuam no contexto da cooperação internacional. TEMA 5 – INTRODUZINDO A COOPERAÇÃO TÉCNICA PARA O DESENVOLVIMENTO NO BRASIL De acordo com a Agência Brasileira de Cooperação (ABC), uma das vertentes da cooperação para o desenvolvimento é a cooperação técnica 9 internacional (Brasil, 2014). Segundo a ABC, a cooperação internacional constitui, para o Brasil, um mecanismo central para o desenvolvimento, na medida em ela auxilia o país a “promover mudanças estruturais nos campos social e econômico brasileiro, com capacitação de instituições nacionais dos três níveis da federação, via transferência de tecnologia e conhecimento” (ABC, 2014). De fato, historicamente, a cooperação técnica permitiu ao país contribuir tanto para o desenvolvimento de outros países quanto, também, para que alcançássemos acesso a novos instrumentos e ferramentas técnicas. Um dos exemplos de maior notoriedade em termos de cooperação técnica foi o caso da cooperação entre o Brasil e o Japão em matéria agrícola. De fato, a despeito de o Cerrado Brasileiro apresentar características de solo que dificultariam o estabelecimento de plantações de alimentos, a cooperação com o Japão nos anos de 1970, no âmbito do “Programa de Cooperação Nipo-Brasileira de Desenvolvimento Agrícola da região dos Cerrados”, ou PRODECER, deu um novo rumo para as terras agricultáveis dessa região do Brasil. Nesse sentido, as técnicas de correção da acidez do solo utilizadas pelos japoneses possibilitaram que o Brasil passasse a utilizar as terras do Cerrado para o plantio da soja (Heredia et al, 2010). Na atualidade, o Brasil é um dos maiores produtores mundiais desse produto. Outro exemplo de cooperação do Brasil é o caso da cooperação com a China em matéria de lançamento de satélites. Essa cooperação existe desde 1988 e permitiu a configuração do Programa China Brazil Earth Resources Satellite (CBERS). O Brasil também oferece a cooperação para o desenvolvimento a diversos países de variadas regiões do mundo, como os países africanos lusófonos, como Angola e Moçambique, o Haiti, na América Latina, e o Timor Leste, no Sudeste Asiático. Além disso, nossa cooperação internacional abrange um amplo escopo de temas, como saúde, agricultura, educação e esportes. Assim, evidencia-se a crescente importância da cooperação para o desenvolvimento para o Brasil e, em particular, para a cooperação técnica. Dada a importância desse tema para o Brasil, contamos com um órgão designado para planejar a cooperação técnica do Brasil: a Agência Brasileira de Cooperação (ABC). Essa agência foi criada em 1987 por meio do Decreto n. 94.973, com os objetivos de: [...] planejar, coordenar, negociar, aprovar, executar, acompanhar e avaliar, em âmbito nacional, programas, projetos e atividades de cooperação para o desenvolvimento em todas as áreas do conhecimento, recebida de outros países e organismos internacionais e aquela entre o Brasil e países em desenvolvimento, incluindo ações 10 correlatas no campo da capacitação para a gestão da cooperação técnica e disseminação de informações (ABC, s.d.) É interessante observar que o estabelecimento da ABC ocorreu no contexto da redemocratização do Brasil, e, nesse sentido, a cooperação tem sua importância reconhecida como um princípio da conduta do Brasil no plano internacional. De fato, o artigo quarto da Constituição Federal de 1988 estabeleceu, em seu artigo quarto, que a um dos princípios que regem as relações internacionais do Brasil é a “cooperação entre os povos para o progresso da humanidade” (Brasil, 1988). Segundo a ABC (s.d.), os programas de cooperação técnica do Brasil possibilitam que o país compartilhe conhecimentos, boas práticas e experiências com outros países, o que fornece aos países com os quais o Brasil coopera a melhoria de suas condições estruturais, pois a cooperação técnica trabalha áreas essenciais para o aprimoramento dessas condições. Assim, a cooperação técnica do Brasil possibilita ao país concretizar os princípios das Relações Internacionais do Brasil da forma como estão presentes na Constituição e, assim, viabiliza a promoção do desenvolvimento em uma escala internacional com nossos parceiros. A presente aula consolidou temas centrais para compreender a cooperação para o desenvolvimento na atualidade. De fato, ao longo da aula, vimos a definição, o histórico dessa cooperação e, ainda, iniciamos o debate sobre uma das principais vertentes da cooperação do Brasil: a cooperação técnica para o desenvolvimento. No primeiro tema, vimos que, para Carlos Milani (2018, p. 21), a cooperaçãopode ser vista como “campo político fundamental das Relações Internacionais”. Vimos também que a história da cooperação para o desenvolvimento envolveu países capitalistas e socialistas, países desenvolvidos e em desenvolvimento, no contexto de relações marcadas por assimetrias de poder e por interesses diversos. Ainda assim, os exemplos apresentados na aula demonstraram que a cooperação simboliza o alcance de ganhos mesmo em contextos em que atores têm interesses diferentes: no âmbito do PRODECER, por exemplo, o Japão precisava de encontrar mercados fornecedores para sua alimentação (Heredia et al, 2010). Nesse sentido, a cooperação partiu de interesses diferentes e, mesmo assim, gerou resultados benéficos para as duas partes envolvidas. Dessa forma, embora a cooperação não pressuponha, necessariamente, a ausência de conflitos, ela pode ocorrer a despeito de posicionamentos diversos e de eventuais assimetrias no sistema internacional. 11 REFERÊNCIAS ABC – Agência Brasileira de Cooperação. Conceito. Disponível em: <http://www.abc.gov.br/CooperacaoTecnica/Conceito>. Acesso em: 01 ago. 2019. _____. Histórico. Disponível em: <http://www.abc.gov.br/SobreABC/Historico>. Acesso em: 01 ago. 2019. ALVES, J. A. L. A Cúpula Mundial sobre o Desenvolvimento Social e os paradoxos de Copenhague. Revista Brasileira de Política Internacional, Brasília, v. 40, n. 1, p. 142-166, jun. 1997. _____. A década das conferências: 1990-1999. 2. ed. Brasília: FUNAG, 2018. BRASIL. Constituição (1988). Diário Oficial da República Federativa do Brasil, Brasília, DF, 05 out. 1988. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao.htm>. Acesso em: 1 ago. 2019. _____. Ministério das Relações Exteriores. Diretrizes para o desenvolvimento da cooperação técnica internacional multilateral e bilateral. 4. ed. Brasília, DF, Agência Brasileira de Cooperação, 2014. MILANI, C. Solidariedade e interesse: motivações e estratégias na cooperação internacional para o desenvolvimento. Curitiba: Appris, 2018. DORATIOTO, C. E.; VIDIGAL, F. História das Relações Internacionais do Brasil. São Paulo: Saraiva, 2014. HEREDIA, B.; PALMEIRA, M.; LEITE, S. P. Sociedade e Economia do "Agronegócio" no Brasil. Revista Brasileira de Ciências Sociais, v. 25, n. 74, p. 159-176, out. 2010. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0102690920100003000 10&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 1 ago. 2019. KEMER, T.; PEREIRA, A. E.; BLANCO, R. A construção da paz em um mundo em transformação: o debate e a crítica sobre o conceito de peacebuilding. Revista de Sociologia e Política, Curitiba, v. 24, n. 60, p. 137-150, dez. 2016. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0104- 44782016000400137&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 1 ago. 2019. 12 NOVAES, W. Eco-92: avanços e interrogações. Estudos Avançados, São Paulo, v. 6, n. 15, p. 79-93, ago. 1992. OCDE. Paris Declaration and Accra Declaration for Action. Disponível em: <http://www.oecd.org/dac/effectiveness/parisdeclarationandaccraagendaforactio n.htm>. Acesso em: 1 ago. 2019. ODM. Objetivos de Desenvolvimento do Milênio. Disponível em: <http://www.odmbrasil.gov.br/os-objetivos-de-desenvolvimento-do-milenio>. Acesso em: 01 ago. 2019. UNCTAD. Disponível em: <https://unctad.org/en/Pages/aboutus.aspx#>. Acesso em: 01 ago. 2019. AULA 3 COOPERAÇÃO INTERNACIONAL Profª Thaíse Kemer 2 CONVERSA INICIAL Nesta aula aprofundaremos o papel da cooperação Sul-Sul para o Brasil, haja vista que, no contexto da cooperação internacional, essa forma de cooperação assume centralidade para a política externa brasileira contemporânea. De fato, a cooperação entre países em desenvolvimento representa um pilar fundamental das relações internacionais do país, pois permite que haja a diversificação e o reforço de nossas parcerias internacionais e a busca conjunta da superação de desafios comuns. Nesse contexto, a aula está dividida em cinco partes. Na primeira parte, trabalharemos a importância da cooperação Sul-Sul para o país, de maneira a discutir seu papel para a busca da superação de desigualdades estruturais no contexto internacional. Além disso, debateremos também o papel das instituições internacionais para essa cooperação, de forma a evidenciar sua relevância como meio para a construção de diálogos entre países em desenvolvimento, os quais dispõem de poucos recursos para investir em negociações internacionais. Além disso, veremos que as instituições contribuem para dar maior segurança aos acordos internacionais, o que é vantajoso tanto para os países desenvolvidos quanto para aqueles em desenvolvimento. Na segunda parte, tratamos das linhas gerais que pautam a cooperação técnica brasileira, as quais incluem os dispositivos da Constituição Federal relativos aos princípios que regem as relações internacionais do Brasil, assim como os benefícios dessa cooperação. Na terceira parte, por sua vez, discutimos as bases normativas e políticas da cooperação para o desenvolvimento do país. Por fim, nas duas últimas seções, apresentamos estudos de caso que evidenciam como a cooperação para o desenvolvimento do Brasil ocorre na prática. Para tanto, enquanto esta aula trata dos temas da agricultura, da saúde e da educação, posteriormente daremos continuidade à exposição de mais alguns casos práticos, haja vista que a observação da realidade constitui um instrumento essencial para analisar criticamente a prática da cooperação internacional. TEMA 1 – A IMPORTÂNCIA DA COOPERAÇÃO SUL-SUL No contexto da cooperação brasileira ao desenvolvimento internacional, a expressão cooperação Sul-Sul, que se refere à cooperação entre países em desenvolvimento, é comumente utilizada. De fato, o Brasil trabalha em conjunto 3 com outros países em desenvolvimento a fim de avançar agendas de interesse mútuo. De acordo com Leite (2011), os países do sul veem a cooperação Sul-Sul por meio das instituições internacionais como mecanismo central para suas políticas externas, pois: (1) a cooperação amplia as possibilidades para a correção de assimetrias internacionais; (2) a cooperação via instituições facilita o cumprimento de acordos internacionais; e (3) as instituições oferecem um canal de diálogo entre países com poucos recursos para investir em negociações internacionais. No que se refere ao primeiro tópico, de acordo com Leite (2011, p. 38), a cooperação Sul-Sul permite que países em desenvolvimento possam se aproximar para a defesa de normas e valores que viabilizem a busca de um sistema internacional menos desigual. Quanto ao segundo tópico, as instituições internacionais oferecem aos países em desenvolvimento mecanismos para facilitar a negociação, a supervisão e o acompanhamento de acordos internacionais, o que favorece a cooperação Sul-Sul (Leite, 2011, p. 38). Essas características das instituições internacionais são benéficas para os países em desenvolvimento, ao passo que tornam as negociações internacionais menos custosas para esses países, em termos materiais e humanos, e facilitam o diálogo entre eles e a busca da solução para desafios comuns (idem, p. 39). Além disso, Flemes e Saraiva (2014, p. 227) veem a cooperação como uma forma de possibilitar aos países em desenvolvimento uma forma de contraposição perante ações unilaterais das grandes potências, pois a cooperação favorece que, em conjunto, eles possam ter maior voz e protagonismo no contexto internacional. De acordo com Leite (2011, p. 39), é importante observar, no entanto, que nem todos os países em desenvolvimento se apresentam da mesma forma no cenário internacional, pois há países, como o Brasil, que, embora estejam em fase de desenvolvimento, são reconhecidos como potências médias, ou, segundo Lima (2005), como “países intermediários”. De acordocom Lima (2005, p. 1), um país é reconhecido como intermediário quando preenche ao menos um dos três requisitos a seguir: “capacidades materiais, uma medida de autopercepção e o reconhecimento dos outros Estados, em especial das grandes potências”. Para Lima (2005, p. 2), então, o Brasil pode ser considerado um país intermediário, porque, embora tenha recursos e capacidades limitadas, trata-se de uma economia emergente e que busca assumir um protagonismo em foros 4 internacionais multilaterais, de maneira a buscar modificações na agenda internacional. Ainda que essa análise não seja recente e possa ser objeto de debates na contemporaneidade, ela evidencia que a cooperação oferece importantes instrumentos de poder para países com pouca capacidade relativa em termos de recursos e capacidades no contexto internacional. Assim, a próxima seção aprofunda a cooperação técnica do Brasil como importante ferramenta para a aproximação com outros países na busca da superação das desigualdades internacionais. TEMA 2 – ESTRATÉGIA DA COOPERAÇÃO TÉCNICA BRASILEIRA Conforme vimos anteriormente, a cooperação para o desenvolvimento do Brasil fundamenta-se na Constituição Federal de 1988, a qual destaca, em seu art. 4º, que o Brasil se rege pelo princípio da “cooperação dos povos para o progresso da humanidade”. Nesse contexto, a ABC publicou um documento denominado “Documento de Estratégia da Agência Brasileira de Cooperação” (ABC, 2013), no qual expõe os princípios, prioridades geográficas e setoriais e benefícios da cooperação técnica para o Brasil. Quanto aos princípios, a ABC destaca: a promoção de autonomias nacionais na formulação e gestão de políticas públicas de desenvolvimento; a horizontalidade nas relações de cooperação e equilíbrio de interesses; o mútuo benefício; o respeito à soberania e a não ingerência de uma parte cooperante nos assuntos internos da outra; a não imposição de condicionalidades; o reconhecimento e utilização das experiências e das capacidades locais; e o foco no desenvolvimento de capacidades humanas, institucionais e produtivas como base para o alcance de avanços qualitativos, mensuráveis e duráveis. (ABC, 2013, p. 1) Esses princípios são centrais para compreender a postura brasileira no contexto da cooperação internacional. A promoção de autonomias nacionais significa que o Brasil apoia outros países com seus projetos de desenvolvimento, de maneira a respeitar sua autonomia na formulação de suas próprias políticas públicas. A horizontalidade na cooperação, por sua vez, significa que a tomada de decisão entre o Brasil e os países com os quais coopera é tomada de maneira conjunta, sem nenhum tipo de ingerência e com o respeito mútuo à soberania das partes. Já a não imposição de condicionalidades significa que a cooperação com outros países ocorre sem que haja o estabelecimento de condicionalidades de qualquer natureza. Por fim, a utilização das vivências e capacidades locais é um princípio da cooperação brasileira que enfatiza o papel das sociedades locais para 5 a busca do desenvolvimento. Nesse sentido, a cooperação brasileira age para o reforço dessas capacidades, de maneira a dotá-las de melhores condições técnicas, materiais e de conhecimento para buscar a melhoria autônoma de suas perspectivas de futuro. No que se refere às prioridades geográficas, a ABC (2013, p. 1) afirma que a cooperação do Brasil confere prioridade a países fronteiriços, e, de forma mais ampla, à América Latina, ao Caribe e à África. Quanto aos temas da cooperação, a ABC (2013) destaca a diversificação das temáticas trabalhadas pelo Brasil, o que é resultado de um mundo crescentemente globalizado, ao qual as diferentes agendas estão relacionadas. Esse é o caso, por exemplo, do tema da segurança alimentar e nutricional, que relaciona, entre outros, a cooperação em agricultura, para o aprimoramento no cultivo de alimentos; a cooperação em ciência e tecnologia, com vistas ao aprimoramento das técnicas de seleção de grãos; e o desenvolvimento de técnicas agrícolas sustentáveis. Por fim, entre os benefícios da cooperação para o Brasil, a ABC (2013) destaca, entre outros: Otimização de recursos: a cooperação pode trazer ganhos para as partes sem que haja, necessariamente, volumosos aportes de recursos materiais; Projeção internacional: o Brasil beneficia-se tanto de uma melhoria de sua imagem no plano internacional quanto da ampliação de seus laços com outros países, o que pode ser altamente benéfico para a geração de parcerias futuras em diferentes temáticas; Visibilidade às áreas de ponta: por meio da cooperação, o Brasil pode dar maior destaque internacional para as áreas científicas e tecnológicas nas quais apresenta maior desenvolvimento, o que gera reconhecimento no exterior quanto às capacidades do país; Capacitação: a participação na cooperação gera grande aprendizado para as instituições que se envolvem nesse processo; (v) aprimoramento das políticas públicas; Interação com países desenvolvidos, em desenvolvimento e organismos internacionais; Diversificação de parcerias: o Brasil amplia suas parcerias com países de diferentes regiões do mundo e cria uma agenda positiva com eles. 6 TEMA 3 – BASES DA COOPERAÇÃO BRASILEIRA PARA O DESENVOLVIMENTO INTERNACIONAL (COBRADI) De acordo com o IPEA (2018, p. 16), a Cooperação Brasileira para o Desenvolvimento Internacional (COBRADI) é financiada com recursos do Tesouro Nacional e compreende o pagamento dos recursos materiais e humanos necessários para viabilizar essa cooperação. Segundo o IPEA (2018, p. 296), a COBRADI compreende ações para a cooperação do Brasil nas seguintes áreas: Cooperação técnica; Cooperação educacional; Cooperação científica e tecnológica; Cooperação humanitária; Proteção e apoio a refugiados; Operações de manutenção da paz; Gastos com organismos internacionais. Em particular, de acordo com o IPEA (2018, p. 21), a cooperação técnica internacional engloba o desenvolvimento de capacidades técnicas, tanto institucionais quanto individuais, e o “compartilhamento de práticas destinadas a promover mudanças qualitativas e estruturais em benefício de países terceiros” (IPEA, 2018, p. 21). Do ponto de vista institucional, a gestão da cooperação técnica é feita pela Agência Brasileira de Cooperação (ABC), que atua no contexto de diferentes arranjos de cooperação: Sul-Sul bilateral; Trilateral com países desenvolvidos; Trilateral com organismos internacionais; Sul-Sul com organismos regionais; Sul-Sul com blocos de países (IPEA, 2018, p. 21). No que se refere à cooperação Sul-Sul, em um primeiro momento, o Brasil busca identificar temas de relevância mútua com países em desenvolvimento. A partir desse diagnóstico, busca as instituições que disponham dos conhecimentos necessários para os projetos em questão (IPEA, 2018, p. 22). 7 Quanto à cooperação trilateral com países desenvolvidos, o Brasil procura agir em parceria com países desenvolvidos na implementação de projetos em terceiros países (idem, p. 22). Na cooperação trilateral com organismos internacionais, por sua vez, o Brasil busca organismos internacionais para viabilizar a implementação de ações de promoção do desenvolvimento no contexto dos terceiros países (idem, p. 22). Para viabilizar a COBRADI, o Brasil envolve diferentes instituições brasileiras para a implementação de projetos para o desenvolvimento. Nesse sentido, de acordo com o IPEA (2018, p. 25-26), entre 2014 e 2016, a ABC trabalhou em conjunto com mais de 126 entidades nacionais, como a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (ANVISA), o Banco Central do Brasil (BACEN), a Força Aérea Brasileira (FAB) e universidades federais, como a Universidade de Brasília, a Universidade de São Paulo, a UniversidadeFederal do Paraná e inúmeros outros atores nacionais. Nesse contexto, o relatório da OBS (2017) reconhece que “o Brasil não dispõe de uma política única, coerente e institucionalizada nacionalmente para a Cooperação Sul-Sul”. Assim, os diferentes projetos de cooperação envolvem diferentes arranjos de atores, o que, embora seja parte da natureza de projetos que são marcadamente multidisciplinares, também dificulta a coordenação das diferentes iniciativas de cooperação que contam com a participação do Brasil. De acordo com Milani et al. (2016, p. 17), dados da ABC entre 2005 e 2013 evidenciam que a agricultura, a saúde e a educação estão entre as principais áreas da cooperação técnica do Brasil. Dessa forma, para aprofundar o conhecimento sobre ela, as seções seguintes oferecerão exemplos desses âmbitos da cooperação nacional. TEMA 4 – A COOPERAÇÃO NA PRÁTICA: AGRICULTURA A Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (EMBRAPA) é uma instituição pública que descreve seu propósito da seguinte forma: “Somos uma empresa de inovação tecnológica focada na geração de conhecimento e tecnologia para agropecuária brasileira”. A EMBRAPA vincula-se ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA) e, segundo o IPEA (2018, p. 162), está atualmente presente em todos os continentes, de maneira a atuar em conjunto com instituições ligadas à pesquisa agropecuária no mundo todo. De fato, o IPEA (2018, p. 170) destaca que a EMBRAPA faz pesquisas tanto em 8 parceria com países desenvolvidos, como os Estados Unidos, quanto em conjunto com países em desenvolvimento, como os do chamado Cotton-4+Togo, grupo de países formado por Benin, Burkina Faso, Chade, Mali e, a partir de 2014, o Togo, os quais assumem grande protagonismo internacional na produção de algodão. Ainda nesse contexto, vale mencionar que, em 2014, o Brasil venceu um contencioso contra os Estados Unidos no contexto da Organização Mundial de Comércio (OMC). De fato, os Estados Unidos foram acionados por terem oferecido subsídios a seus produtores agrícolas, o que foi contra as regras estabelecidas pela OMC, pois prejudicava os produtores agrícolas de outros países, entre eles o Brasil. Assim, o Brasil acionou os Estados Unidos na OMC e recebeu receitas deles como forma de compensar os prejuízos causados pelos subsídios. Dessa forma, o Brasil, por meio do Instituto Brasileiro do Algodão (IBA) e da Agência Brasileira de Cooperação (ABC), fez um projeto de cooperação trilateral com a Organização Internacional do Trabalho (OIT) denominado "Cooperação Sul-Sul para a promoção do trabalho decente em países produtores de algodão na África e América Latina” (MRE, 2014). Nesse projeto, os países do Cotton 4+Togo também foram beneficiados por meio das iniciativas do projeto, que incluíram “a sistematização, compartilhamento e adaptação de experiências brasileiras relevantes em áreas tais como combate à pobreza, inclusão produtiva, prevenção e erradicação do trabalho infantil e do trabalho forçado, entre outras” (MRE, 2014). Assim, o exemplo da atuação do Brasil com os Estados Unidos e os referidos países africanos demonstra que a cooperação pode ocorrer inclusive em contextos conflitivos. TEMA 5 – A COOPERAÇÃO NA PRÁTICA: SAÚDE E EDUCAÇÃO O Brasil tem uma destacada atuação na área da saúde, atuando em fóruns internacionais globais e regionais sobre o tema, como a Organização das Nações Unidas, no caso dos primeiros, e a Organização Pan-Americana de Saúde, no caso dos segundos (IPEA, 2018, p. 63). Para ilustrar essa cooperação, apresenta- se, a seguir, a cooperação internacional na área de Bancos de Leite Humano. A Rede de Bancos de Leite Humano é uma ação da Política Nacional de Aleitamento Materno que faz a coleta, o processamento e a distribuição de leite humano a bebês prematuros e de baixo peso e, além disso, oferece apoio à amamentação (RBLH, S.d.). A coordenação da rede fica a cargo da Fiocruz, cujo 9 modelo é, atualmente, objeto da cooperação internacional no contexto de uma parceria entre a Fundação Osvaldo Cruz (Fiocruz), a ABC e o Ministério da Saúde. De acordo com o IPEA (2018, p. 27), a Rede de Bancos de Leite Humano é a maior do mundo e, por isso, o Brasil coopera nessa temática com mais de vinte países das Américas, África e Europa. Ainda segundo o IPEA (2018, p. 27), no contexto dessa parceria, mais de 1,5 milhão de mulheres já foram assistidas e mais de 390.000 recém-nascidos já foram beneficiados. Um dado relevante dessa rede é que ela evidencia o conceito de cooperação estruturante do Brasil na área da saúde, a qual vem sendo desenvolvida pela Fiocruz. Segundo o IPEA (2018, p. 63), a cooperação estruturante pauta-se por oferecer uma capacitação avançada não apenas para indivíduos, mas também no que se refere a instituições. Além disso, “Mais que assessorar, trata-se de buscar promover educação avançada e consolidação de lideranças, utilizando os próprios atores nacionais na sua implantação” (IPEA, 2018, p. 63). Destaca-se, ainda, a ênfase nas relações de solidariedade e de não dependência desse tipo de intercâmbio (idem), o que dá mais chances para a busca da superação do subdesenvolvimento. No caso da educação, por sua vez, uma das iniciativas do Brasil consiste na cooperação com países em desenvolvimento para proporcionar o ingresso de estudantes desses países em instituições de ensino superior brasileiras. De acordo com Milani et al. (2016, p. 18), a cooperação educacional constitui instrumento para melhorar a educação de estudantes provenientes de países em desenvolvimento e, também, pode ser compreendida como meio para aproximar as culturas do Brasil com outros países, por meio da aproximação dos estudantes. Nesse sentido, os autores destacam que: “Como lembram Pinheiro e Beshara (2012), cultura e educação são consideradas importantes fontes de soft power do Brasil na arena internacional, uma vez que contribuem para o reforço dos laços políticos e econômicos entre o Brasil e os países parceiros” (Milani et al., 2016, p. 18). Assim, destacam-se as iniciativas do Programa Estudante-Convênio de Gra- duação (PEC-G) e do Programa de Estudantes-Convênio de Pós-Graduação (PEC-PG). Segundo o IPEA (2018, p. 197), em 2016, 56 países da África, da Ásia e das Américas participavam desses programas. Por fim, no campo da cooperação para a formação profissional, um projeto de destaque é a parceria entre a ABC e o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (SENAI). Essa parceria viabiliza o treinamento de alunos de países 10 como Angola, Cabo Verde, Paraguai, Timor Leste e Guiné Bissau em áreas como a construção civil, costura industrial, confeitaria e mecânica de automóveis; entre 2014 e 2016, 1069 pessoas entre 18 e 59 anos foram capacitadas no contexto dessa cooperação (IPEA, 2018, p. 28). FINALIZANDO Nesta aula conhecemos os princípios e estratégias que regem a cooperação do Brasil e também pudemos verificar, por meio de casos práticos, exemplos da atuação do Brasil em agricultura, saúde e educação. Nesse contexto, vimos que o Brasil pauta suas relações internacionais pela cooperação internacional, e que essa cooperação pode trazer múltiplos benefícios ao país. A cooperação internacional possibilita que ampliemos nossa projeção internacional, pois nossas capacidades técnicas e a solidariedade passam a ser reconhecidas internacionalmente. Dessa forma, ao ampliar o prestígio internacional, temos mais oportunidades de desenvolvimento e de parcerias futuras. Além disso, por meio da cooperação internacional, o Brasil posiciona-se como um país que se orienta pelo diálogo e pela solidariedade nas relações internacionais, o que nos posiciona como um país pacífico e colaborativo. A cooperação favorece o aprimoramento de nossas instituições, e, como vimos, as diferentes temáticas de cooperaçãoenvolvem variados atores nacionais, ampliando nossas possibilidades de aprendizado. 11 REFERÊNCIAS FLEMES, D.; SARAIVA, M. G. Potências emergentes na ordem de redes: o caso do Brasil. Rev. bras. polít. int., Brasília, v. 57, n. 2, p. 214-232, dec. 2014. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0034- 73292014000200214&lng=en&nrm=iso>. Acesso em: 6 ago. 2019. GUIA para monitoramento e mensuração da cooperação sul-sul brasileira. OBS – Observatório Brail e o Sul, 2017. Disponível em: <https://obs.org.br/cooperacao/1135-guia-para-monitoramento-e-mensuracao- da-cooperacao-sul-sul-brasile>. Acesso em: 6 ago. 2019. IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica e Aplicada. Cooperação brasileira para o desenvolvimento internacional: levantamento 2014-2016. Brasília: IPEA, ABC, 2018. LEITE, P. S. O Brasil e a operação sul-sul em três momentos: os governos Jânio Quadros/João Goulart, Ernesto Geisel e Luiz Inácio Lula da Silva. Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão, 2011. MANUAL de gestão da cooperação técnica sul-sul. ABC – Agência Brasileira de Cooperação. Brasília: Ministério das Relações Exteriores, 2013. MILANI, C. R. S.; CONCEICAO, F. C. da; M’BUNDE, T. S. Cooperação sul-sul em educação e relações Brasil-PALOP. Cad. CRH, Salvador, v. 29, n. 76, p. 13- 32, abr. 2016. RBLH – Rede Global de Bancos de Leite Humano. Quem somos. Disponível em: <https://rblh.fiocruz.br/quem-somos>. Acesso em: 6 ago. 2019. AULA 4 COOPERAÇÃO INTERNACIONAL Profª. Thaíse Kemer 2 INTRODUÇÃO Nesta aula, vamos expor estudos de caso sobre a cooperação para o desenvolvimento do Brasil, dado que a análise de casos reais configura instrumento imprescindível para a geração de conhecimento. Trabalharemos dois temas que são centrais para esse objetivo. O primeiro deles é a cooperação em ciência e tecnologia, crucial para a geração de condições estruturais que viabilizem o desenvolvimento de nossos parceiros internacionais. Do mesmo modo, por meio da cooperação em ciência e tecnologia o Brasil ganha experiência e conhecimento para aprimorar seu próprio conhecimento. O Sistema Nacional de Tecnologia, Ciência e Inovação, que congrega o conjunto de atores relacionados à produção de ciência e tecnologia no Brasil, é, nesse sentido, fundamental para esse processo. Além disso, abordaremos as relações entre a diplomacia e a ciência, já que a ciência tanto permite a melhoria das relações entre os países quanto possibilita avanços que seriam inviabilizados – ou reduzidos – caso as pesquisas científicas fossem desenvolvidas apenas de forma separada pelos países. O segundo tema, por sua vez, trata da cooperação em direitos humanos. Nesse contexto, após uma exposição do conceito de “direitos humanos” e de alguns dos principais tratados internacionais na matéria, a aula aborda a proteção dos refugiados. Esse tópico é de grande complexidade no mundo contemporâneo, pois envolve todos os cuidados necessários para que as pessoas em situação de refúgio sejam protegidas, adaptem-se ao país e alcancem autossuficiência econômica e bem-estar social. Outros temas trabalhados na aula são as contribuições do Brasil a organismos internacionais e às operações de manutenção da paz. Por fim, são expostos aspectos básicos necessários à formalização da cooperação técnica Sul–Sul. Nesse contexto, além de diferenciar os instrumentos de Acordo Básico de Cooperação Técnica e de Memorando de Entendimento, a aula trabalha a estratégia e a gestão de projetos de cooperação. Assim, são apresentados tanto a estrutura lógica quanto o ciclo de gestão que permitem a organização da cooperação técnica do Brasil. TEMA 1 – A COOPERAÇÃO NA PRÁTICA: CIÊNCIA E TECNOLOGIA Segundo o IPEA (2018, p. 133), no campo da cooperação científica e tecnológica deve-se destacar a importância do Sistema Nacional de Tecnologia, Ciência e Inovação, que compreende o conjunto de atores envolvidos na produção 3 científica e tecnológica nacional. Entre esses atores, estão “governo, empresas e instituições de ensino e pesquisa, associações acadêmicas, científicas e empresariais e sindicais e agências de fomento” (IPEA, 2018, p. 133). São exemplos desses atores o Ministério de Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações (MCTIC), o Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), a Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e a Agência Espacial Brasileira (AEB), entre inúmeros outros. Ainda segundo o IPEA (2018, p. 142), a cooperação na área de ciência e tecnologia pode ser compreendida no contexto da “diplomacia científica”, a qual pode ser compreendida por meio de três termos: (1) diplomacia para a ciência; (2) ciência para a diplomacia; e (3) ciência na diplomacia. Na diplomacia para a ciência, enquadram-se iniciativas diplomáticas que buscam viabilizar a cooperação internacional em ciência e tecnologia. De fato, conforme aponta o IPEA (2018), diversos experimentos científicos são altamente custosos, de maneira que a cooperação entre diferentes países possibilita a redução desses custos, ao mesmo tempo em que traz o avanço do conhecimento para todos os participantes. São exemplos dessa forma de cooperação a Estação Espacial Internacional e a a Organização Europeia para a Pesquisa Nuclear (European Organization for Nuclear Research, ou CERN) (IPEA, 2018, p. 42-43; CERN, 2019). No caso da ciência para a diplomacia, a cooperação em ciência e tecnologia funciona como um meio para aproximar países e, assim, contribuir para a melhoria de suas relações internacionais. Um exemplo dessa forma de cooperação foi o Programa Ciência sem Fronteiras (IPEA, 2018, p. 144). Por fim, no caso da ciência na diplomacia, a ciência é utilizada com vistas à melhoria das relações entre países em uma matéria em particular. Nesse contexto, o IPEA (2018, p. 145) destaca a importância do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC). O IPCC é um órgão da Organização das Nações Unidas (ONU) cujo propósito é elaborar a avaliação da ciência relacionada às mudanças climáticas (IPCC, 2019). O órgão foi criado com o intuito de oferecer aos formuladores de políticas públicas avaliações sobre as mudanças climáticas, seus riscos e potenciais estratégias de mitigação e adaptação. Por essas iniciativas, o IPCC foi agraciado com o Prêmio Nobel da Paz no ano de 2007 (IPCC, 2019). 4 TEMA 2 – A COOPERAÇÃO NA PRÁTICA: DIREITOS HUMANOS De acordo com o art. 4º da Constituição Federal de 1988, o Brasil pauta suas relações internacionais pela prevalência dos direitos humanos. Segundo o relatório do IPEA (2018, p. 225), a noção contemporânea de “direitos humanos” está compreendida na Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), que foi elaborada como a Resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas em 10 de dezembro de 1948. De fato, de acordo com o artigo primeiro dessa declaração: Todo ser humano tem capacidade para gozar os direitos e as liberdades estabelecidos nesta Declaração, sem distinção de qualquer espécie, seja de raça, cor, sexo, idioma, religião, opinião política ou de outra natureza, origem nacional ou social, riqueza, nascimento, ou qualquer outra condição. (ONU, 2019) A partir da DUDH, diversos tratados internacionais de direitos humanos foram elaborados para proteger os direitos humanos, entre os quais o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos (1966) e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais (1966), a Convenção Internacional sobre Todas as Formas de Discriminação Racial (1965); a Convenção Sobre a Eliminação de Todas as Formas de Discriminação Contra as Mulheres (1979), a Convenção Sobre os Direitos da Criança (1989) e a Convenção Sobre os Direitos das Pessoas com Deficiência (2006), entre outras (ONU, 2019b). De acordo com o IPEA(2018), além desses tratados internacionais, existem outros acordos nos contextos regionais, como nos âmbitos das Américas, Europa e África, que completam o sistema internacional de proteção aos direitos humanos. Nesse contexto, um importante desdobramento da prevalência dos direitos humanos nas relações internacionais do Brasil é a ação do país na proteção dos refugiados. De acordo com o Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados: São pessoas que estão fora de seu país de origem devido a fundados temores de perseguição relacionados a questões de raça, religião, nacionalidade, pertencimento a um determinado grupo social ou opinião política, como também devido à grave e generalizada violação de direitos humanos e conflitos armados. (ACNURb, s.d.) O principal órgão para fazer a análise e decidir sobre a concessão de refúgio no Brasil é o Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE). O CONARE é um órgão multiministerial sob a coordenação do Ministério da Justiça, e conta com a participação do governo do Brasil, da sociedade civil e do ACNUR (ACNUR, s.d.). Segundo o IPEA (2018, p. 242), a proteção aos refugiados configura um 5 tema central no contexto da cooperação de direitos humanos no Brasil. Além disso, o IPEA destaca também a complexidade para operacionalizar, no âmbito nacional, a proteção aos refugiados, dado que essa proteção inclui a ação de diferentes setores do governo e da sociedade civil (IPEA, 2018, p. 242). Além disso, a proteção requer cuidados em múltiplas áreas; por exemplo, o cuidado com a dimensão formal da regularização de documentos dos refugiados; o oferecimento aos refugiados de condições para que obtenham a autossuficiência econômica, bem como a adaptação sociocultural dos refugiados no país, com respeito e tolerância (IPEA, 2018, p. 243). Segundo o Ministério da Justiça, em 2017, havia um total de 33.866 solicitações de reconhecimento da condição de refugiado ao Brasil, das quais 17.865 vinham da Venezuela (MJ, 2018). A Venezuela ocupava, dessa forma, a maior parcela entre as solicitações de refúgio ao Brasil, com 33% das solicitações, seguida pelo Haiti (14%) (MJ, 2018). Ainda no tema da cooperação em direitos humanos, é importante destacar as iniciativas de cooperação humanitária do Brasil, definida pelo IPEA da seguinte forma: A assistência humanitária consiste em ações que visam salvar vidas e também amenizar o sofrimento de populações atingidas por situações de emergência – tais como desastres ambientais, conflitos bélicos e pobreza extrema –, tendo os direitos humanos como guia básico de atuação. Além das atividades de reestabelecimento e manutenção da normalidade baseada na paz, a atual concepção sobre a ajuda humanitária inclui também ações de prevenção de crises humanitárias. (IPEA, 2018, p. 237) Nesse contexto, uma das formas de cooperação humanitária do Brasil é a doação de alimentos. Isso se dá por meio da atuação da Companhia Nacional de Abastecimento (CONAB), vinculada ao Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (MAPA). De fato, entre 2014 e 2016, o Brasil doou mais de 30 mil toneladas de alimentos a mais de 13 países, entre os quais Síria, Cuba e Nicarágua (IPEA, 2018, p. 189). TEMA 3 – A COOPERAÇÃO NA PRÁTICA: ORGANISMOS INTERNACIONAIS E OPERAÇÕES DE MANUTENÇÃO DA PAZ Na cooperação brasileira para o desenvolvimento internacional, devem ser destacados, ainda, os gastos do Brasil no contexto de organismos internacionais e de operações de manutenção da paz. Os gastos com organismos internacionais referem-se a contribuições do Brasil condicionadas à aceitação do ingresso do país em tais organismos. Ainda de acordo com o IPEA (2018, p. 310): 6 Essas contribuições ocorrem de acordo com a vontade de um ou mais entes da administração pública, em vista de seu entendimento com relação à conveniência e à oportunidade de efetuar uma contribuição específica a uma organização da qual o Brasil é membro. (IPEA, 2018, p. 310) Sem que o Brasil faça essas contribuições, o país perde o direito ao voto nesses organismos. De fato, entre 2014 e 2016, o Brasil se tornou inadimplente perante diversas organizações internacionais, pois acumulou uma dívida de R$ 3,2 bilhões (IPEA, 2018, p. 269). Nesse contexto, o Brasil perdeu o direito a voto na Organização Internacional de Energia Atômica em 2015 e, também, na Assembleia das Partes do Tribunal Penal Internacional (TPI) (IPEA, 2018, p. 269). Em 2016, o Congresso Nacional aprovou orçamento para quitar a maior parte dessa dívida. O envolvimento brasileiro em missões de manutenção da paz das Nações Unidas, também conhecidas como missões de peacekeeping, por sua vez, constituem também parte importante da cooperação brasileira para o desenvolvimento internacional. Segundo o IPEA (2018, p. 281), entre 2005 e 2016, o Brasil destinou cerca de R$ 1,3 bilhão a esse fim. Missões de peacekeeping são estabelecidas por meio de resoluções emanadas do Conselho de Segurança das Nações Unidas e têm o propósito de preservar a paz em locais que vivenciaram situações de conflito, bem como apoiar a consolidação de acordos de pacificação (Kemer; Pereira; Blanco, 2016, p. 141). De acordo com Aguilar (2015, p. 114), o Brasil contribui com as missões de manutenção de paz das Nações Unidas desde os seus primórdios, em 1948. A partir de então, o Brasil esteve presente em 53 missões de paz e operações políticas no contexto da ONU, em países como Moçambique, Angola, Timor Leste, Líbano e Haiti (Aguilar, 2015, p. 114). TEMA 4 – FORMALIZANDO A COOPERAÇÃO TÉCNICA SUL-SUL Anteriormente, tivemos a oportunidade de conhecer os diferentes temas que compõem a cooperação do Brasil para o desenvolvimento internacional (COBRADI): a cooperação técnica, a cooperação educacional, a cooperação científica e tecnológica, a cooperação humanitária, a proteção e apoio a refugiados e as operações de manutenção da paz. Agora, vamos aprofundar o conhecimento sobre os procedimentos necessários para estabelecer projetos de cooperação técnica. Para tanto, vamos utilizar como base o Manual de Gestão da Cooperação Técnica Sul–Sul (ABC, 2013). Elaborado pela Agência Brasileira de Cooperação 7 (ABC), o manual contém as principais orientações e diretrizes para a elaboração de projetos de cooperação técnica Sul–Sul. Nesse contexto, uma primeira observação importante refere-se aos marcos normativos e políticos que devem existir para viabilizar um acordo de cooperação. Segundo a ABC (2013, p. 16), a cooperação entre o Brasil e outros países ou organizações internacionais deve ser formalizada por meio do Acordo Básico de Cooperação Técnica. Esse documento, que deve ser ratificado pelo Congresso Nacional, estabelece as áreas gerais nas quais a cooperação ocorrerá. Os acordos devem ser seguidos por documentos que fornecerão detalhes operacionais da cooperação, como, por exemplo, os Ajustes Complementares ou Programas Executivos, que não necessitam de novas aprovações do Congresso Nacional (ABC, 2013, p. 16). Para conhecer os acordos básicos existentes entre o Brasil e outros países, recomenda-se a visita a uma página do Ministério das Relações Exteriores do Brasil denominada Concórdia – um repositório de todos os atos internacionais do Brasil até a atualidade (MRE, 2019). A ABC destaca, ainda, a existência dos Memorandos de Entendimento, que são comumente utilizados nas relações entre países e organismos internacionais. Os Memorandos de Entendimento possuem uma função política e não criam compromissos jurídicos. Assim, sua função é a de apresentar as intenções de suas partes, sejam elas Estados ou organismos internacionais (ABC, 2013, p. 17). Segundo a ABC (2013, p. 17-18), um projeto de cooperação técnica pode ser executado por meio de três atores: (i) execução pelo governo brasileiro; (ii) execução paralela e; (iii) execução descentralizada.No primeiro caso, o governo brasileiro é o principal responsável pela operacionalização administrativa e financeira da cooperação Sul–Sul (ABC, 2013, p. 17-18). No segundo caso, por sua vez, essa operacionalização é compartilhada entre o governo brasileiro e outro organismo internacional. No terceiro caso, a cooperação fica a cargo de uma entidade brasileira não governamental e de outra entidade internacional, e o governo brasileiro fica responsável pela coordenação da iniciativa (ABC, 2013, p. 17-18). Segundo a ABC (2013, p. 18), para operacionalizar a cooperação técnica Sul–Sul, é importante distinguir: (i) programa; (ii) projeto e; (iii) ação preparatória. O “programa” refere-se a “um conjunto de iniciativas de cooperação técnica com objetivos comuns [...] concebidas e coordenadas de forma centralizada, porém executadas separadamente” (ABC, 2013, p. 18). O programa tem a vantagem de dar um sentido comum a diferentes iniciativas de cooperação técnica que tenham 8 propósitos e lógicas afins. O “projeto”, por sua vez, é um conjunto de ações planejadas que tem duração determinada e envolve o gerenciamento tanto das pessoas nele envolvidas quanto dos recursos financeiros (ABC, 2013, p. 18). Nesse contexto, é possível, por exemplo, que um determinado programa inclua diferentes projetos. Por fim, a “ação preparatória” busca oferecer os conhecimentos necessários para a operacionalização de programas ou de projetos (ABC, 2013, p. 19-20). Para tanto, a ação preparatória pode incluir missões ao país beneficiário e também coleta de dados e o mapeamento de atores (ABC, 2013, p. 19-20). TEMA 5 – ESTRATÉGIA E GESTÃO DE PROJETOS DE COOPERAÇÃO Para viabilizar a elaboração de um projeto de Cooperação Sul–Sul, a ABC utiliza a Estrutura Lógica, que contém os elementos básicos da estratégia de um projeto (ABC, 2013, p. 21). A estrutura lógica está representada na Figura 1: Figura 1 – Estrutura lógica Fonte: ABC, 2013, p. 21. Os itens que devem ser contemplados para que a cooperação técnica possa ser planejada: (1) Objetivo de Desenvolvimento: impacto de longo prazo esperado pelo país onde o projeto vai ser desenvolvido; (2) Objetivo Específico: propósito do projeto; (3) Resultados: competências e conhecimentos a serem adquiridos pelos beneficiários; (4) Produtos: bens e serviços produzidos pelos projetos, por exemplo: treinamentos, materiais didáticos, manuais, entre outros; (5) Atividades: tarefas feitas para operacionalizar o projeto; (6) Insumos: recursos 9 utilizados para executar as atividades dos projetos, como, por exemplo, equipamentos, livros e instalações físicas. Essa sequência lógica revela-se útil para elaborar um projeto de cooperação Sul–Sul. Segundo a ABC (2013, p. 30), esse projetos possuem três etapas: (1) Fase analítica: na qual as condições e o contexto em que ocorrerá a cooperação são cuidadosamente analisados, por meio do mapeamento de atores, da análise de problemas, de soluções, das estratégias mais adequadas para a finalidade do projeto proposto e dos riscos presentes no cenário em que se dará a cooperação; (2) Fase de olanejamento: que envolve a definição de objetivos, resultados, produtos e insumos; e (3) Fase de preparação: que a redação de um documento de apresentação do projeto (ABC, 2013, p. 30). Por fim, no que se refere ao ciclo de gestão das iniciativas de cooperação Sul–Sul, a ABC (2013, p. 82) estabelece cinco etapas, conforme a Figura 2: Figura 2 – Ciclo de gestão de iniciativas de cooperação Fonte: ABC, 2013, p. 82. São estas as etapas: (1) Identificação: recepção da solicitação de cooperação e sua posterior análise. Para tanto, verifica-se se há compatibilidade entre as experiências do Brasil e a solicitação de cooperação em questão e a disponibilidade de recursos técnicos e de pessoal para a realização do projeto; (2) Prospecção: aprofundamento da análise para discutir a viabilidade da cooperação. Essa etapa compreende amplos diálogos entre técnicos dos países em questão para avaliar as condições para o estabelecimento da cooperação; (3) I. Identificação II. Formulação e enquadramento III. Formulação e enquadramento III. Avaliação e encerramento V. Implementação e Monitoramento Horizontalidade e participação 10 Formulação e Enquadramento: envolve a redação de um documento preliminar para descrever os detalhes da cooperação técnica; (4) Implementação e Monitoramento: inclui a operacionalização da cooperação, sua gestão administrativa e financeira e o monitoramento do progresso do projeto, com vistas a verificar se os objetivos planejados estão sendo cumpridos; e (5) Avaliação e Encerramento: após o término das atividades do projeto, as partes avaliam a totalidade dos resultados da iniciativa de cooperação. Em todo o ciclo, a ABC (2013, p. 83) destaca, ainda, a importância da horizontalidade para a cooperação técnica. Horizontalidade, nesse contexto, significa que deve haver um diálogo contínuo entre os participantes da cooperação, e, ainda, que a cooperação é uma empreitada conjunta, pois as decisões devem ser tomadas com a participação de todas as partes do projeto. CONCLUSÃO Nesta aula, discutimos a cooperação do Brasil para o desenvolvimento em suas dimensões da ciência e tecnologia, dos direitos humanos e da cooperação com organizações internacionais. Nesse contexto, observamos que os temas da cooperação do Brasil para o desenvolvimento exercem um papel fundamental tanto para a política externa brasileira – na quel constituem uma contribuição crucial para a promoção de melhorias estruturais das condições de desenvolvimento entre nossos parceiros do Sul global – quanto viabilizam a melhoria de nossas próprias condições de desenvolvimento. Nesse contexto, ainda que os exemplos não esgotem o rol das atividades de cooperação desenvolvidas pelo Brasil, eles oferecem um amplo panorama dos desafios e complexidades inerentes a essa cooperação. Além disso, por meio da apresentação de aspectos da formulação estratégica e da gestão de projetos de cooperação, a aula ofereceu os insumos básicos para a compreensão da operacionalização da cooperação na contemporaneidade. Considerando que esses conhecimentos podem ser aplicados em diferentes contextos nas relações entre países, a aula trouxe ferramentas de grande utilidade para o âmbito da cooperação e das negociações internacionais, por meio da análise do contexto brasileiro. 11 REFERÊNCIAS ABC – Agência Brasileira de Cooperação. Ministério das Relações Exteriores Manual de gestão da cooperação técnica Sul-Sul. Brasília, 2013. ACNUR – Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados. [S.d.]. Disponível em: <https://nacoesunidas.org/agencia/acnur/>. Acesso em: 9 ago. 2019. _____. [S.d.] Refugiados. Disponível em:<https://www.acnur.org/portugues/quem-ajudamos/refugiados>/. Acesso em: 9 ago. 2019. AGUILAR, S. L. C. 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O segundo tema, por sua vez, discute algumas nomenclaturas frequentemente utilizadas no campo da cooperação e, em seguida, promove um debate sobre as motivações da cooperação. O tema seguinte trabalha a cooperação Sul-Sul do Brasil com base em uma perspectiva histórica, com vistas a apresentar o tema nos governos de Jânio Quadros e de João Goulart (Política Externa Independente, ou PEI). O quarto tema aprofunda a questão da cooperação Sul-Sul no contexto da PEI, de forma a apresentar dois exemplos relevantes dessa cooperação datados do início da década de 1960: a reunião de Uruguaiana, de 1961, e a criação da Área Latinoamericana de Livre Comércio (ALALC). Por fim, a aula apresenta um panorama da cooperação Sul-Sul no contexto do governo de Ernesto Geisel. De acordo com Leite (2011), os períodos trabalhados na presente aula revelaram-se importantes para a Cooperação Sul-Sul do Brasil, e por isso foram selecionados para a exposição. TEMA 1 – COOPERAÇÃO SUL-SUL: CONCEITO E HISTÓRICO Segundo Besharati e Esteves (2015), a Cooperação Norte-Sul e a Cooperação Sul-Sul são conceitos que se desenvolveram de forma paralela, ainda que tenham assumido formas distintas. A cooperação Norte-Sul trata da relação entre países mais desenvolvidos com países em desenvolvimento. Essa forma de cooperação está associada a um passado associado ao período colonial e com as relações que se estabeleceram, historicamente, entre países mais ricos e de base industrial perante países mais pobres (Besharati; Esteves, 2015). A Cooperação Sul-Sul, por sua vez, pode ser entendida como as relações de apoio mútuo que foram estabelecidas entre países em desenvolvimento. De acordo com Muñoz (2016, p. 9): A Cooperação Sul-Sul (CSS) se apresenta como uma forma de apoio ao desenvolvimento, de criação ou fortalecimento de laços políticos, econômicos ou culturais, de negociação quanto a um maior 3 protagonismo internacional e ainda como uma fonte de soft power e de credibilidade no cenário global. Segundo Besharati e Esteves (2015), essa forma de cooperação surgiu no contexto da Guerra Fria, quando países mais pobres da América Latina, África e Ásia uniram-se para buscar melhores condições de desenvolvimento. Nesse contexto, dois movimentos relevantes podem ser destacados: a Conferência Afro- Asiática de Bandung, em 1955, e o Movimento dos Países Não Alinhados, em 1961. Segundo Magnoli (2008), na Conferência de Bandung, vinte e quatro países recém-independentes da África e da Ásia reuniram-se no Ceilão (atual Sri Lanka) para afirmar, coletivamente, princípios como a defesa dos direitos humanos, a condenação do racismo, a soberania dos Estados e a igualdade entre as nações, bem como a ênfase na solução pacífica de conflitos internacionais. Assim, a Conferência de Bandung foi um evento que aproximou países em desenvolvimento em prol de objetivos comuns, de forma que pode ser compreendida como parte importante do histórico da cooperação Sul-Sul. De acordo com Magnoli (2008, p. 135), a Conferência de Bandung pode ser compreendida no marco do “terceiro-mundismo”, um movimento que buscou criar um terceiro pólo de poder que fosse autônomo com relação aos polos de poder dos Estados Unidos e da União Soviética. Ainda de acordo com Magnoli (2008), o movimento terceiro-mundista consolidou-se em 1961, ano em que ocorreu a criação do Movimento dos Países Não-Alinhados (MNA), o qual tinha como objetivo fazer com que os países pertencentes a esse movimento se tornassem, em conjunto, capazes de influenciar as decisões internacionais. Assim, o Movimento dos Países Não Alinhados pode ser considerado, também, relevante para compreender as origens da Cooperação Sul-Sul. Além desses eventos, podemos destacar três marcos para entender a evolução da cooperação Sul-Sul ao longo do século XX: 1. A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento, em 1964; 2. A criação do G-77, também em 1964 e; 3. A Conferência das Nações Unidas sobre Cooperação Técnica entre Países em Desenvolvimento, em 1978. 4 A Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento surgiu no início da década de 1960, em um contexto de crescente preocupação internacional sobre o papel e os desafios enfrentados pelos países em desenvolvimento para acessar ao comércio internacional. Nesse contexto, em 1964, realizou-se, em Genebra, na Suíça, a Primeira Conferência das Nações Unidas sobre Comércio e Desenvolvimento. Dada a sua importância, essa Conferência passou a ocorrer a cada quatro anos, tornou-se parte da estrutura permanente das Nações Unidas e passou a contar com um Secretariado permanente (UNCTAD, s.d.). O G-77, por sua vez, foi estabelecido ao término da Primeira Conferência das Nações Unidas para o Desenvolvimento, em 1964, e consistiu na criação de uma organização intergovernamental dos países em desenvolvimento nas Nações Unidas. O grupo compreendia um total de setenta e sete países e tinha o propósito de facilitar a articulação entre países em desenvolvimento para a promoção de seus interesses econômicos coletivos, melhorar sua capacidade de negociação e promover a cooperação Sul-Sul para o desenvolvimento (G77, s.d.). Uma terceira iniciativa importante no marco da cooperação Sul-Sul foi a Conferência das Nações Unidas sobre Cooperação Técnica entre Países em Desenvolvimento, de 1978, a qual buscou trazer orientações e procedimentos para promover a cooperação técnica entre países em via de desenvolvimento e, assim, também pode ser considerada como um marco relevante para a Cooperação Sul-Sul (Leite, 2011). A cooperação técnica pode estar presente tanto na Cooperação Norte-Sul quanto na Cooperação Sul-Sul. De fato, considerando que o Brasil não possui excedentes de poder nos planos econômico, político e militar (Milani, 2017), a cooperação técnica é parte importante dessas duas formas de cooperação do país, conforme argumenta Milani (2017, p. 1): Por meio da cooperação técnica o Brasil tem estreitado os laços com parceiros tradicionais – do Norte, do Sul e organismos internacionais – projetando cada vez mais uma imagem de nação democrática e socialmente progressista. Graças a dezenas de convênios e projetos de cooperação técnica, o Brasil angaria frutos políticos nas relações bilaterais e multilaterais, em sua região de interesse geopolítico mais próximo, mas também no plano global. Assim, observa-se que a cooperação técnica está presente em nossas relações de cooperação tanto com países do Norte, como forma de aprimorar nosso desenvolvimento, quanto com países do Sul, como forma de promover o 5 desenvolvimento em escala internacional. Com isso, o Brasil aufere dividendos relevantes também nos âmbitos diplomático, político e econômico. TEMA 2 – POTÊNCIAS EMERGENTES, ESTADOS FALIDOS E MOTIVAÇÕES DA COOPERAÇÃO INTERNACIONAL Besharati e Esteves (2015) promovem um debate bastante instigante para compreender o papel de países em desenvolvimento,como os BRICS (Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul), no contexto da cooperação Sul-Sul: a natureza do conceito de potência emergente. Segundo esses autores, esse conceito foi criado pelos países do Norte para viabilizar a revisão do papel dos países desenvolvidos como doadores internacionais, à medida que os países em desenvolvimento passem a se tornar progressivamente mais desenvolvidos (Besharati; Esteves, 2015). Entretanto, a conceituação de potência emergente é, segundo os autores, tarefa de grande complexidade e controvérsia, pois não há critérios objetivos e neutros que permitam conceituar potência emergente (Besharati; Esteves, 2015, p. 298). Assim, a tentativa de classificar os atores da cooperação internacional para o desenvolvimento entre “doadores tradicionais", “países recebedores de baixa renda” e “doadores emergentes” é considerada por Besharati e Esteves (2015, p. 298) como parte de uma ação política dos países do norte para organizar o âmbito da cooperação internacional, a qual, na realidade, é marcada pela heterogeneidade de atores e práticas. Além disso, a classificação de um país como emergente pode alterar a ação esperada desse país no contexto da cooperação. De fato, segundo os autores, o fato de um país ser considerado como economia emergente pode: 1. reduzir os recursos de cooperação internacional a ele destinados; 2. fazer com que ele seja requisitado a assumir mais responsabilidades internacionais no contexto da cooperação com terceiros países (Besharati; Esteves, 2015, p. 305-306). Nesse contexto, segundo Bhatia (2013, citado por Besharati e Esteves, 2015), os países que passam por uma aceleração de seu desenvolvimento econômico buscam garantir a cooperação e, simultaneamente, garantir que os países desenvolvidos continuem a observar suas responsabilidades históricas no contexto da cooperação. Assim, verifica-se que o campo da cooperação 6 evidencia, também, tensões entre países na definição e na distribuição de responsabilidades internacionais no contexto da cooperação para o desenvolvimento. Ainda no que se refere às nomenclaturas relacionadas ao campo da cooperação, segundo Hirst (2012, p. 15), o Brasil recusa a utilização de rótulos para classificar países com termos como doador emergente, ou ainda, o uso de expressões como Estados falidos e Estados fracos. Nesse sentido, para o Brasil, o uso dessas expressões fomenta o preconceito e a estigmatização de países em desenvolvimento e pode, dessa forma, trazer graves prejuízos para esses países. Além disso, a autora pontua que a rotulagem pode ser vista como uma forma de questionar a soberania dos países, haja vista que é feita não pelos países ditos falidos, mas, sim, por países que possuem melhores condições de poder no sistema internacional (Hirst, 2012). No que se refere às motivações para a cooperação, Besharati e Esteves (2015) destacam que a cooperação Sul-Sul não ocorre com uma finalidade exclusivamente altruísta, na medida em que “A cooperação para o desenvolvimento (seja do Norte ou do Sul) está quase sempre relacionada a outros interesses, sejam eles econômicos, políticos, estratégicos, comerciais ou diplomáticos” (Besharati; Esteves, 2015, p. 314). De fato, a cooperação com países em desenvolvimento é vista, em muitos casos, como uma oportunidade para, por exemplo, ter acesso a novos mercados e matérias-primas e para fortalecer as relações diplomáticas e políticas com outros países (Besharati; Esteves, 2015). Nesse sentido, Besharati e Esteves (2015) mencionam que, na China, o Ministério do Comércio é o órgão responsável pela condução das iniciativas de cooperação para o desenvolvimento daquele país, o que evidencia a integração entre as áreas de comércio e cooperação chinesas. No caso do Brasil, uma mudança na normativa que regula as atividades da ABC aproximou o Brasil, em certa medida, dessa hierarquia proposta pela China para organizar suas atividades de cooperação. Nesse sentido, em 2019, o decreto que rege a Agência Brasileira de Cooperação foi modificado. De fato, antes de 2019, valia o Decreto n. 8.817, de 21 de julho de 2016, no qual a ABC situava-se sob a Subsecretaria-Geral de Cooperação Internacional, Promoção Comercial e Temas Culturais (SGEG) (Milani, 2017). Com a alteração do Decreto de 2019, a ABC passou a estar situada 7 sob a Secretaria de Política Externa Comercial e Econômica (Brasil, 2019), o que traz questionamentos sobre o formato que será assumido pela cooperação técnica do Brasil no futuro. No caso do Brasil, Hirst (2012, p. 14) recorda que não há a imposição de condicionalidades no contexto da cooperação. Ainda assim, a autora destaca que o caráter transversal do desenvolvimento faz com que as atividades de cooperação do Brasil coexistam com outras iniciativas nacionais com finalidades diversas, a exemplo de nossas atividades comerciais e econômicas em outros países. Nesse sentido, a autora ilustra seu argumento com o exemplo da cooperação técnica desenvolvida pela Empresa Brasileira de Agropecuária (Embrapa), a qual beneficia tanto os países que recebem a cooperação quanto, também, as empresas brasileiras de agroindústria presentes nesses contextos (Hirst, 2012). De acordo com Hirst (2012), o Brasil compreende a cooperação Sul-Sul como um mecanismo relevante para evitar a característica de assimetria presente no contexto das políticas de assistência presentes na Cooperação Norte-Sul. Conforme sabemos, essa forma de cooperação é disciplinada pelo Comitê de Assistência ao Desenvolvimento (CAD) da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), o qual regula a ajuda oficial ofertada por países desenvolvidos para países em desenvolvimento. TEMA 3 – A COOPERAÇÃO SUL-SUL DO BRASIL NO CONTEXTO DA POLÍTICA EXTERNA INDEPENDENTE Para compreender o histórico da cooperação Sul-Sul no Brasil, a obra de Leite (2011), intitulada O Brasil e a Cooperação Sul-Sul em três momentos de política externa: os governos Jânio Quadros/João Goulart, Ernesto Geisel e Luiz Inácio Lula da Silva revela-se extremamente relevante. Na presente seção, trabalharemos com alguns dos diversos pontos importantes sobre esse histórico que foi levantados e problematizado pela autora. Para compreender a evolução inicial desse tema no Brasil, Leite (2011) destaca que a defesa do desenvolvimento assumiu duas vertentes no Brasil: a vertente americanista e a vertente nacional-desenvolvimentista. A primeira defendia que deveria haver uma ideia de maior aproximação do Brasil junto a países do continente americano, com destaque para os Estados Unidos. A vertente nacional-desenvolvimentista, por sua vez, entendia que a vertente 8 americanista tendia a limitar o desenvolvimento nacional, na medida em que limitaria nossas parcerias exclusivamente a países do continente. Nesse contexto, a vertente nacional-desenvolvimentista argumentava que o Brasil deveria ter uma política de desenvolvimento de tipo “universalista”, que abrangesse países do mundo todo, o que favoreceria a diversificação de nossas parcerias internacionais e, com isso, a superação do subdesenvolvimento. Assim, ainda que o americanismo estivesse presente em períodos importantes de nossa política externa ao longo do século XX, em 1961, a Política Externa Independente (PEI) trouxe consigo o princípio do universalismo para as relações internacionais do Brasil. Dessa forma, de acordo com Leite, a PEI evidenciou inspiração nacional-desenvolvimentista (Leite, 2011). De acordo com Doratioto e Vidigal (2014, p. 82), a Política Externa Independente foi o nome recebido pela política externa dos governos de Jânio Quadros e de João Goulart, entre 1961 e 1 de abril de 1964. Essa política preconizava uma série de princípios que buscavam dotar o país de maior autonomia no plano internacionalpara buscar seu desenvolvimento e promover a paz mundial, entre os quais: a ampliação de contatos com nações de todo o mundo, inclusive do bloco socialista, o apoio ao anticolonialismo e o estreitamento das relações com países da Ásia, África, Europa e Américas, entre outros (Doratioto; Vidigal, 2014). Nesse sentido, o Brasil deveria seguir uma política que fosse autônoma e que buscasse a diversificação de seus laços diplomáticos e comerciais. Dessa forma, a cooperação Sul-Sul assumiu papel de destaque em nossa política externa, pois o universalismo pressupunha que o Brasil mantivesse relações externas tanto com países desenvolvidos quanto com países em desenvolvimento (Leite, 2011). Vale notar que, naquele momento, o mundo da Guerra Fria estava dividido entre países alinhados aos Estados Unidos e países de orientação socialista. Com a adoção do universalismo pelo Brasil, abriu-se, então, espaço para que o Brasil passasse a cooperar com países socialistas. Isso ampliou o alcance da cooperação Sul-Sul do Brasil para além de fronteiras ideológicas (Leite, 2011). Assim, segundo Leite (2011), a defesa do desenvolvimento dos países do Sul assumiu grande destaque em discursos oficiais, ao ponto de o Presidente João Goulart destacar a necessidade de superar a dicotomia Norte-Sul e de trabalhar pelo desenvolvimento dos países mais pobres (Leite, 2011). 9 TEMA 4 – O ESPÍRITO DE URUGUAIANA E A CRIAÇÃO DA ALALC Um acontecimento importante desse período em matéria de cooperação Sul-Sul foi o “Encontro de Uruguaiana”, como ficou conhecida a reunião entre o presidente do Brasil Jânio Quadros e o presidente da Argentina Arturo Frondizi, em 1961, realizada na cidade gaúcha de Uruguaiana. Segundo Leite (2011), esse encontro possibilitou a identificação de agendas de cooperação e a criação de mecanismos de coordenação diplomática. A reunião de Uruguaiana foi tão importante que, nas palavras da autora: “A cooperação Brasil-Argentina passou a ser considerada primeiro passo rumo a maior coordenação com os demais países latino-americanos” (Leite, 2011, p. 90). Ainda assim, o chamado “espírito de Uruguaiana” enfrentou, como obstáculo, mudanças no contexto político bilateral, pois em 1962 ocorreu um golpe militar na Argentina e, com isso, houve um progressivo afastamento entre esses países (Leite, 2011). Ainda segundo Leite (2011), a cooperação entre Brasil e Argentina aconteceu em um quadro de crescente busca da integração na América Latina. Um dos exemplos nesse sentido foi o estabelecimento, em 1961, da Associação Latino-Americana de Livre Comércio (ALALC), a qual foi criada pelo Tratado de Montevidéu, de 1960. A ALALC tinha o objetivo de criar um mercado comum na América Latina, com base no estabelecimento de uma zona de livre comércio entre os países da região (Leite, 2011). De acordo com Leite (2011), a ALALC enfrentou diversos desafios, entre os quais seu formato inflexível, pois não permitia acordos sub-regionalizados, e a falta de complementaridade entre as economias latino-americanas, o que dificultava o estabelecimento de acordos comerciais. Assim, ainda que as iniciativas de cooperação Sul-Sul do período tenham enfrentado desafios, segundo Doratioto e Vidigal (2014), a PEI constituiu um importante marco na história diplomática do Brasil, pois permitiu a identificação de novas oportunidades para o Brasil no contexto de suas relações internacionais. TEMA 5 – A COOPERAÇÃO SUL-SUL NO CONTEXTO DO GOVERNO GEISEL (1974-1979) Segundo Doratioto e Vidigal (2014), no governo de Geisel (1974-1979), os princípios da PEI foram recuperados, pois o Brasil passou a atribuir maior ênfase tanto na diversificação das parcerias do Brasil quanto na busca do desenvolvimento como foco da política externa brasileira. De fato, Leite (2011) 10 destaca que a agenda do desenvolvimento econômico atendia às necessidades do Brasil naquele período, pois a crise do petróleo de 1973 havia evidenciado a urgência de o Brasil buscar o fortalecimento dessa agenda. Assim, a cooperação com outros países assumiu centralidade para a diplomacia brasileira, haja vista a importância do relacionamento com outros países para viabilizar o desenvolvimento econômico (Leite, 2011). Nesse contexto, a política externa brasileira do período foi denominada de “pragmatismo responsável e ecumênico”, a qual tinha a orientação de buscar parcerias variadas, independentemente de condicionantes ideológicas, para alcançar o interesse nacional (Leite, 2011, p. 129). Leite (2011) destaca ainda que, como resultado desse processo, o Brasil se aproximou de países da América Latina, da África, do Oriente Médio e da Ásia, como a China, por meio de visitas diplomáticas, da cooperação técnica e de trocas comerciais. De fato, a autora observa que os países do Sul passaram a exercer um papel de maior protagonismo no contexto do comércio nacional, com uma participação que passou a ser de mais de 30% no contexto das exportações nacionais em 1979, frente a um valor de cerca de 20% em 1973 (Leite, 2011). No que se refere a outros eventos relevantes da cooperação Sul-Sul, podemos mencionar, segundo Doratioto e Vidigal (2014), a criação de um programa de ações que levaria à construção de uma Nova Ordem Econômica Internacional (Noei), a qual foi apresentada por meio da Resolução da Assembleia Geral das Nações Unidas de número A/RES/S-6/3201 (ONU, 1974). Nessa resolução, afirmava-se um compromisso dos países das Nações Unidas de trabalhar pelo estabelecimento de uma Nova Ordem Econômica Internacional baseada na igualdade, na interdependência e na busca de cooperação entre todos os Estados, independentemente de seu sistema econômico ou social (idem). Assim, a Resolução defendia a busca da eliminação do crescente distanciamento entre países desenvolvidos e em desenvolvimento (ONU, 1974). Na região da América Latina, uma importante iniciativa no campo da cooperação Sul-Sul foi a assinatura do Tratado de Cooperação Amazônica, em 1978, que teve iniciativa brasileira e reuniu oito países da Bacia Amazônica. Com esse tratado, buscava-se utilizar a cooperação para promover o desenvolvimento da região, garantir o bem-estar das populações locais e destacar a soberania dos países ali presentes (MRE, s.d.). 11 FINALIZANDO Na presente aula, vimos que o conceito de cooperação Sul-Sul esteve associado, historicamente, à busca de maior coordenação entre países em desenvolvimento para a melhoria de suas condições sociais e econômicas, bem como para a criação de uma ordem internacional mais justa e equitativa. Na esteira desse processo, vimos que, no Brasil, os debates sobre a forma mais adequada para a promoção do desenvolvimento incluíram o debate sobre os conceitos de americanismo, por um lado, e de nacional-desenvolvimentismo, por outro. Nesse contexto, vimos que, para Leite (2011), a política externa independente trouxe, em seu bojo, o conceito de universalismo, pois afirmou a necessidade de o Brasil manter relações internacionais independentemente de condicionantes ideológicas. Esse princípio orientou a cooperação Sul-Sul do Brasil durante o período dos governos de Jânio Quadros e de João Goulart. Durante o período do governo de Ernesto Geisel, por sua vez, a necessidade de cooperação com países diversos adveio da busca pelo desenvolvimento econômico, inserindo-se no contexto da política externa do pragmatismo responsável e ecumênico. Assim, vimos que a cooperação Sul-Sul já aparece, de maneira importante, na política externa brasileira da segunda metade do século XX. 12 REFERÊNCIAS BESHARATI, N. ESTEVES, P. Os BRICS, a cooperação sul-sul e o campo da cooperação para o desenvolvimento internacional. Contexto Internacional, Rio de Janeiro , v. 37, n. 1, p. 289-330, 2015. BRASIL. Decreto n. 9.683, de 9 de janeiro de 2019. DiárioOficial da União, Poder Legislativo, Brasília, DF, 10 jan. 2019. COSTA LEITE, I. et al. Brazil’s engagement in international development cooperation: the state of the debate. IDS – Institute of Development Studies Evidence Report, n. 59, Brighton, UK, 2014. DORATIOTO, F.; VIDIGAL, C. E. História das relações internacionais do Brasil. São Paulo: Saraiva, 2014. G77 – The Group of 77 at the United Nations. Disponível em: <https://www.g77.org/doc/>. Acesso em: 19 ago. 2019. HIRST, M. Aspectos conceituais e práticos da atuação do Brasil em cooperação Sul-Sul: os casos de Haiti, Bolívia e Guiné-Bissau. Brasília: IPEA, 2012. LEITE, P. S. O Brasil e a cooperação Sul-Sul em três momentos de política externa: os governos Jânio Quadros/João Goulart, Ernesto Geisel e Luiz Inácio Lula da Silva. Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão, 2011. MAGNOLI, D. O mundo contemporâneo. São Paulo: Atual, 2008. MILANI, C. R. S. 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AULA 6 COOPERAÇÃO INTERNACIONAL Profª Thaíse Kemer 2 TEMA 1 – A COOPERAÇÃO SUL-SUL DO BRASIL NO GOVERNO DE LULA DA SILVA A presente aula dá continuidade ao debate sobre a Cooperação Sul-Sul do Brasil. Para tanto, a exposição dos conteúdos está dividida em cinco temas. No primeiro deles, faremos a exposição sobre a cooperação Sul-Sul no governo de Lula da Silva (2003-2010), de forma a apresentar os desdobramentos de sua política externa no campo da cooperação. Na segunda parte, avançaremos a análise para o período do governo de Dilma Rousseff (2010-2016), de maneira a debater a evolução dos projetos de cooperação do país durante esse período. No terceiro tema, por sua vez, será apresentado o caso da cooperação entre o Brasil e o Haiti, haja vista a importância estratégica que esse país assumiu para a política externa brasileira no contexto da Missão das Nações Unidas para o Haiti. No quarto tema, serão debatidas algumas das características da cooperação Sul-Sul do Brasil na contemporaneidade, entre as quais a natureza de nossas prioridades geográficas e temáticas e seu caráter de dispersão de atores. Por fim, aprofundaremos o tema da horizontalização da política externa, com vistas a analisar as implicações dessa horizontalização para a cooperação do Brasil. Segundo Leite (2011, p. 168), durante os dois mandatos do governo de Luís Inácio Lula da Silva, observou-se que a mudança da conjuntura econômica e política internacional ofereceria espaços estratégicos importantes para a promoção dos interesses do Brasil no exterior. De fato, conforme destaca a autora, temos um período de crescimento de países em desenvolvimento como a China, a Índia e a África do Sul (Leite, 2011, p. 168), Nesse período, houve também o fortalecimento da União Europeia, o que oferecia importantes janelas de oportunidade para o Brasil. Nesse contexto, a cooperação Sul-Sul revelou-se uma importante ferramenta para a política externa brasileira, sem que houvesse demérito para as relações com países do Norte (idem). Assim, segundo Doratioto e Vidigal, “[...] a política externa brasileira estaria voltada para a paz e para o desenvolvimento, que seriam buscados por meio da redução das diferenças entre nações ricas e as pobres, da promoção do respeito à igualdade entre os povos e da democratização efetiva do sistema internacional” (Doratioto e Vidigal, 2014, p. 125). Esses pensamentos fizeram parte da chamada “Política Externa Altiva e Ativa”, que foi formulada no contexto da atuação do Ministro das Relações 3 Exteriores Celso Amorim (Milani, 2017, p. 43). No contexto dessa política, a cooperação Sul-Sul assumiu papel de grande relevância. De fato, o orçamento da cooperação técnica foi grandemente ampliado durante o governo Lula, como pode ser observado a partir de uma análise da evolução do orçamento da Agência Brasileira de Cooperação (ABC): Gráfico 1 – Evolução da Execução Financeira da ABC Fonte: Agência Brasileira de Cooperação [S.d.]. O Gráfico 1 demonstra a evolução da execução da ABC entre 2000 e 2014. Os valores anuais incluem: (1) o orçamento da ABC; (2) as transferências para Organismos Internacionais e; (3) os recursos repassados por outras instituições brasileiras para serem aplicados nas iniciativas de cooperação técnica da ABC (Agência Brasileira de Cooperação, S.d.). Segundo Milani (2017, p. 49), é importante lembrar que a ABC coordena cerca de 20% das atividades de cooperação técnica internacional do Brasil, e que outros ministérios e órgãos públicos administram outros recursos nesse sentido. Ainda assim, dada a finalidade da ABC de se concentrar no campo da cooperação técnica, a análise da execução financeira dessa agência oferece um indicativo importante para compreender o campo da cooperação no Brasil. No Gráfico 1, observamos, também, que houve uma ampliação da cooperação durante o governo Lula. Esse contexto trouxe a ampliação dos esforços de cooperação Sul-Sul do Brasil, pois, segundo Milani (2017, p. 47-48), entre 2002 e 2013, o número de países em desenvolvimento com os quais o Brasil desenvolveu cooperação técnica internacional foi ampliado de 21, em 2002, para 98, em 2013. 4 No ano de 2010, observa-se um aumento expressivo dos recursos destinados à cooperação técnica. Essa ampliação expressiva deve-se, em parte, ao contexto da cooperação do Brasil com o Haiti. Em 2010, o Haiti enfrentou um terremoto que trouxe graves consequências para a população daquele país. Vamos conhecer mais sobre o caso da cooperação entre Brasil e Haiti ainda nesta aula. TEMA 2 – A COOPERAÇÃO SUL-SUL DO BRASIL NO GOVERNO DE DILMA ROUSSEFF De acordo com Doratioto e Vidigal (2014, p. 128), o governo de Dilma Rousseff manteve, no âmbito de sua política interna, linhas de continuidade com o governo de Lula da Silva. No âmbito da política externa, contudo, os autores afirmam que essa tendência não se manteve, pois, para esses autores, as aparentes continuidades da política externa de Dilma com relação ao governo de Lula teriam, na verdade, origem em outros contextos históricos (Doratioto; Vidigal, 2014, p. 128). Essa nova forma de condução da política externa teve reflexos importantes no campo da cooperação do Brasil. De fato, conforme aponta Milani (2017, p. 53), durante o governo de Dilma Rousseff, entre 2012 e 2015, diversas mudanças econômicas e políticas reduziram a capacidade de ação da Agência Brasileira de Cooperação. Entre essas mudanças, Milani menciona: A conjuntura econômica de crise global e o cenário doméstico de restrições orçamentárias e forte desvalorização cambial (da ordem de 56,4% no período entre agosto de 2012 e julho de 2015), combinados à crescente demanda por cooperação técnica com o governo brasileiro, acabaram por reduzir significativamente a capacidade de execução de projetos da ABC. (Milani, 2017, p. 53) Em conjunto com esse cenário, Cervo e Lessa (2014, p. 149) argumentam que, entre 2010 e 2014, houve, de fato, um declínio da inserção internacional doBrasil, o qual se manifestou, segundo os autores, em fatores como: (1) na dificuldade do Estado em dialogar com setores da sociedade brasileira; (2) na redução de investimentos e do desenvolvimento tecnológico nacional e; (3) na deterioração das contas externas do país. Além disso, alguns autores afirmam que Dilma não demonstrou o mesmo nível de interesse de Lula na condução de sua política externa, conforme argumentam Abdenur e Call (2017, p. 32). Nesse sentido, Saraiva argumenta que: “A Presidente Rousseff mostrou sua preferência 5 pela solução dos problemas internos, junto com seu pouco interesse por temas externos, particularmente aqueles que apresentassem ganhos difusos, não tangíveis em um curto prazo” (Saraiva, 2014, p. 27). Assim, segundo os autores analisados, observa-se que o período de governo de Dilma Rousseff mostrou-se pouco favorável para o campo da cooperação do Brasil, o que nos oferece lentes analíticas importantes para interpretar o Gráfico 1. TEMA 3 – A COOPERAÇÃO ENTRE BRASIL E HAITI A cooperação entre Brasil e Haiti assumiu proporções significativas durante o governo Lula. Segundo Milani (2017, p. 117), o Brasil mantinha relações diplomáticas com o Haiti desde 1928; contudo, apenas após 2004 essa cooperação passou a ter peso significativo na agenda diplomática brasileira. De fato, de acordo com Milani (2019, p.117), até então, havia ocorrido apenas uma visita de oficial do Haiti ao Brasil, no ano de 1982, pelo então Ministro das Relações Exteriores do Haiti, Jean Robert Estimé. Ainda segundo Milani (2019, p. 117), naquele ano, houve a assinatura do Acordo Básico de Cooperação Técnica e Científica entre Brasil e o Haiti. A promulgação desse acordo, contudo, somente ocorreu em 2004. Nesse ano, ocorreu o aumento da presença do Brasil no Haiti, no contexto do estabelecimento da Missão das Nações Unidas para a Estabilização do Haiti (Ministério da Defesa). A MINUSTAH foi criada por meio de uma Resolução do Conselho de Segurança das Nações Unidas e, segundo o Ministério da Defesa do Brasil, teve o propósito de apoiar aquele país na superação de sua crise política, a qual levou ao exílio o então presidente haitiano, Jean Bertrand Aristide (Ministério da Defesa). No âmbito da Minustah, o Brasil assumiu papel de destaque, haja vista que, entre 2004 e 2017, foi o responsável pelo comando do componente militar da Missão (MD, S.d.). Durante esse período, segundo o Ministério da Defesa (S.d.), o Brasil apoiou a população do Haiti no enfrentamento de duas catástrofes naturais: o terremoto de 2010 e o furacão Matthew, que atingiu o país em 2016. Nesse contexto, é importante destacar que o orçamento das Forças Armadas, no que se refere à presença do Brasil em missões de manutenção da paz, difere do orçamento da ABC em matéria de cooperação técnica. No entanto, com a presença do Brasil em território haitiano, houve um aumento da participação do Brasil em projetos de cooperação técnica naquele país. Segundo Milani (2017, p. 117), em 2004, o governo brasileiro estabeleceu uma equipe multidisciplinar 6 que foi responsável por: “[...] fazer um amplo diagnóstico da realidade socioeconômica haitiana que pudesse permitir ao governo brasileiro atender suas demandas específicas por meio de cooperação técnica e projetos humanitários” (Milani, 2017, p. 117). Na esteira desse processo, segundo a ABC (citado por Milani, 2017, p. 117), entre 2004 e 2010, houve o desenvolvimento de 44 projetos de cooperação técnica do Brasil no Haiti. A despeito dos esforços do Brasil no campo da cooperação com o Haiti, Milani (2017, p. 118) observa que, após 2010, houve um aumento significativo do número de refugiados haitianos no Brasil. De fato, segundo o Comitê Nacional para os Refugiados (CONARE), se, em 2010, houve 442 entradas de refugiados no Brasil, em 2016, esse número passou para expressivos 16.779 ingressos de haitianos em busca de refúgio em território nacional (Acnur, S.d.). A participação do Brasil na MINUSTAH foi encerrada em 2017, por meio da resolução 2.350 (2017), do Conselho de Segurança, a qual prolongou por mais seis meses a duração da MINUSTAH e estabeleceu uma nova missão no Haiti: a Missão das Nações Unidas para o apoio à Justiça no Haiti (MINUJUSTH) (Ministério da Defesa, S.d.). TEMA 4 – CARACTERÍSTICAS DA COOPERAÇÃO SUL-SUL Agora que já temos maior conhecimento histórico e bases conceituais, é importante debatermos, também, as características principais da cooperação Sul- Sul. Em primeiro lugar, vale destacar o papel de relevância assumido pela Agência Brasileira de Cooperação (ABC). De acordo com o decreto n. 9.683, de 9 de janeiro de 2019, essa agência tem a seguinte finalidade: À Agência Brasileira de Cooperação compete coordenar, negociar, aprovar, acompanhar e avaliar, em âmbito nacional, a cooperação humanitária e técnica para o desenvolvimento em todas as áreas do conhecimento, recebida de outros países e organismos internacionais e aquela entre o Brasil e países em desenvolvimento. (Brasil, 2019) No que se refere às prioridades geográfica e temática da cooperação Sul- Sul com atuação da ABC, cabe indagar: para quais países ou regiões o Brasil direciona suas ações de cooperação técnica? Segundo Iglesias (2010), algumas regiões foram, historicamente, consideradas de grande destaque para nortear nossas ações de cooperação com outros países em desenvolvimento. Nesse sentido, Iglesias (2010, p. 243) destaca que a América Latina e Caribe e os países africanos lusófonos estão entre países que, historicamente, receberam maior 7 cooperação técnica do Brasil. Segundo Milani (2014, p. 113), essa concentração de projetos guarda relação com: A formação histórica da sociedade brasileira (identidades compartilhadas), interesses estratégicos das empresas em franco processo de internacionalização (petróleo e mineração, infraestrutura e engenharia civil, agronegócio e biocombustíveis) e, mais recentemente, com algumas mudanças em matéria de política externa (novas coalizões de poder). (Milani, 2014, p. 113) Assim, de acordo com Milani, a formação agenda de cooperação do Brasil inclui, historicamente, aspectos tão diversos quanto a proximidade cultural, o contexto estratégico e as mudanças nos polos de poder presentes no cenário internacional. Do ponto de vista temático, por sua vez, a cooperação também ocorre em diferentes áreas. Nesse contexto, de acordo com a ABC, entre 2000 e 2014, as temáticas principais trabalhadas pela ABC em projetos foram a agricultura (19%), saúde (16%) e educação (11%) (Agência Brasileira de Cooperação, S.d.). Em termos normativos, de acordo com Costa Leite et al. (2014, p. 40), a cooperação técnica do Brasil e, nesse contexto, também a cooperação cooperação Sul-Sul, caracteriza-se, por um lado, pela ausência de um marco regulatório claro e, por outro, pela chamada “horizontalização da política externa”, termo usado pelos autores para se referir à crescente diversificação de atores presentes na formulação e na operacionalização dessa política. Segundo esses autores, a ausência de um marco regulatório claro significa que o Brasil não possui um documento básico que consolide nossas objetivos, prioridades e processos no campo da cooperação para o desenvolvimento (Costa Leite et al., 2014, p. 40). De acordo com os autores, o estabelecimento desse marco regulatório ofereceria ao Brasil melhores condições para garantir o fluxo necessário de recursos e de capitais humanos que sejam relevantes para viabilizar nossas iniciativas no campo da cooperação (idem). Nesse contexto, Costa Leite et al. (2014, p. 40) afirmam que a cooperação brasileira é marcada pela fragmentação e pela dispersão, pois há diversos atores e iniciativas de cooperação no país. Para os autores, a ausência de um marco regulador claro é importante para entender a fragmentação,haja vista que esse documento traria maior clareza sobre os papéis e competências dos diferentes atores da cooperação no Brasil. Dada a ausência desse marco regulatório, segundo Costa Leite et al. (2014, p. 41), a cooperação técnica do Brasil encontra obstáculos nas regras internas 8 dos diferentes órgãos nacionais que dela participam. De acordo com os autores, além dessas dificuldades burocráticas, o tamanho limitado da equipe do Ministério das Relações Exteriores e da ABC para atuar na cooperação são alguns dos desafios encontrados no Brasil para atuar nessa temática (Costa et al, 2014, p. 41). Assim, a solução encontrada para lidar com esses desafios foi o crescente envolvimento do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD) no campo da cooperação (Costa e Leite, 2014, p. 41). Nesse sentido, o PNUD atua em parceria com o governo brasileiro para promover o treinamento da equipe da ABC e para atuar na organização e implementação de iniciativas diversas. Segundo Milani (2017, p. 92), em 2010, houve a assinatura de um Acordo-Quadro entre o Brasil e o PNUD, com vistas ao estabelecimento de uma parceria para avançar a agenda do desenvolvimento global por meio da Cooperação Sul-Sul. Milani (2017, p. 92) destaca ainda a importância desse acordo para o Brasil, o qual afirmou a natureza diferenciada da Cooperação Sul-Sul do Brasil e destacou o país como um “player global” nessa temática. TEMA 5 – A HORIZONTALIZAÇÃO DA POLÍTICA EXTERNA: DESDOBRAMENTOS PARA A COOPERAÇÃO DO BRASIL No que se refere à horizontalização da política externa, os autores Farias e Ramanzini Júnior (2015, p. 7) compreendem esse termo no sentido de significar a democratização da arena política externa, de forma a incluir tanto um maior número de órgãos governamentais, como ministérios, quanto a participação da sociedade civil nesse contexto. De fato, Costa Leite et al. (2014, p. 40) destacam que a cooperação brasileira caracteriza-se por uma pluralidade de atores participantes, entre os quais os autores citam órgãos governamentais nos âmbitos federal, estadual e municipal, atores privados e entidades da sociedade civil. Podemos observar debates sobre essa multiplicidade e diversidade de atores no contexto do trabalho de diferentes autores, como, por exemplo, no trabalho de Oliveira (2012) e de Malamud (2016). A participação da sociedade civil vem sendo objeto de um debate crescente no âmbito da política externa brasileira, haja vista que, com a democratização do país, a sociedade passou a exigir maior transparência do governo brasileiro quanto à condução de sua política externa e, também, a maior participação no âmbito dessa política (Lopes, 2011). 9 Na esteira desse processo, a cooperação Sul-Sul passou a ser debatida como um setor no qual a participação da sociedade civil é essencial, dado o entendimento da política externa como uma política pública (Milani; Pinheiro, 2013). Nesse sentido, Milani (2017, p. 69-70) oferece alguns exemplos que demonstram o engajamento de organizações da sociedade civil em projetos de cooperação técnica, no contexto de um processo seletivo que foi organizado pelo PNUD: (1) no Haiti, o projeto “Inclusão social por meio da prática esportiva em futebol”, que ofereceu capacitação técnica a adolescentes haitianos por um período de nove meses e; (2) na Guiné-Bissau, o projeto “Jovens Lideranças para a Multiplicação de Boas Práticas Socioeducativas”, que teve, entre seus participantes, a Fundação Gol de Letra, o Instituto Elos e a Associação Amizade, uma organização da sociedade civil da Guiné-Bissau, cujo propósito era a disseminação de práticas educacionais e a formação de lideranças locais (Milani, 2017, p. 69-70). Segundo Faria (2017, p. 89-94), o Ministério das Relações Exteriores (MRE) empreendeu diversos esforços, ao longo dos anos de 1990, para buscar envolver a sociedade civil nos debates sobre a política externa brasileira. Nesse sentido, nos anos de 1990 e no início dos anos 2000, houve uma crescente abertura para a participação da sociedade no contexto de conferências internacionais, como, por exemplo: (1) no contexto das Conferências das Nações Unidas sobre temas como meio ambiente, população, mulheres, desenvolvimento social e luta contra a discriminação racial; (2) além disso, nos anos 2000, o Ministério diversificou seus canais de comunicação com o público, por meio da criação de perfis em redes sociais, de um blog institucional e de um canal para transmissão de vídeos relacionados às atividades do Ministério e; (3) por fim, em 2014, o governo organizou uma série de eventos denominada de Diálogos de Política Externa, com vistas a ampliar o debate com a sociedade civil em matéria de política exterior (Faria, 2017). A despeito desses exemplos, após entrevistar diversos integrantes do Ministério das Relações Exteriores, Milani (2017, p. 70) afirmou: No entanto, eles mesmos reconhecem que a participação da sociedade civil ainda é excepcional, mas poderia tornar-se expressiva caso houvesse legislação federal com desenho abrangente e atualizado para regular tais iniciativas, mas também se houvesse incremento de recursos orçamentários e financeiros disponíveis. 10 Assim, verifica-se que, a despeito dos esforços do Ministério das Relações Exteriores para promover uma abertura da política externa brasileira para a sociedade civil (Faria, 2017), o campo da cooperação técnica do Brasil evidencia que existe uma margem significativa para ampliar a participação da sociedade nesse contexto. Um dado interessante trazido por Milani é que, quando a Agência Brasileira de Cooperação foi criada, em 1987, ela representou uma inovação, na medida em que, segundo esse autor, constituiu uma das primeiras agências de cooperação técnica oriundas de países em desenvolvimento (Milani, 2017, p. 29). No entanto, a atualidade do cenário da cooperação para o desenvolvimento no Brasil, marcada pela pluralidade de atores e pelas sobreposições e tensões entre interesses nacionais e internacionais, demanda uma atualização dos marcos estruturantes da cooperação (Costa Leite et al, 2014). De fato, conforme observamos na presente seção, as atividades de cooperação do Brasil envolvem diversos atores sociais, os quais demandam uma crescente participação em matéria de política externa (Milani, 2017). Por fim, Milani (2017, p. 71) traz o debate sobre as tensões públicos- privadas que podem se fazer presentes em projetos de cooperação. Segundo esse autor, “Paradoxalmente, a CTI brasileira também pode revelar tensões público-privadas, uma vez que os países onde os projetos de cooperação técnica são mais numerosos também podem ser aqueles onde as empresas transnacionais brasileiras estejam presentes” (Milani, 2017, p. 71). Nesse contexto, o autor argumenta que, embora os investimentos do Brasil sigam orientações distintas dos projetos de cooperação internacional, a separação entre essas esferas pode não ser tão claras na prática (Milani, 2017). Assim, reafirma-se a relevância de trazer para o debate público o tema da cooperação internacional, de forma a dar mais clareza e transparência para seus debates. 5.1 Conclusão Na presente aula, vimos que a Cooperação Sul-Sul assumiu grande destaque no contexto do governo Lula da Silva, mas teve uma redução no contexto da política externa de Dilma Rousseff. Considerando que a cooperação Sul-Sul é parte da agenda mais ampla da política externa brasileira, é importante refletir sobre seu valor. Na conclusão de seu livro, Milani (2017, p. 178), discute a real importância da cooperação, dado que, no mundo contemporâneo, o 11 orçamento destinado à cooperação é, geralmente, muito menor do que o montante gasto pelas principais potências mundiais em outras temáticas. De fato, ao longo da disciplina, discutimos os benefícios que cooperaçãopode oferecer, entre os quais estão o fortalecimento de laços comerciais e diplomáticos bilaterais e multilaterais e a promoção de estímulos às trocas comerciais e empresariais. Assim, conforme argumenta Milani (2017, p. 178), a cooperação técnica internacional revela centralidade para a política externa brasileira, ao possibilitar o início de outras formas de cooperação e trazer benefícios amplos no contexto das relações internacionais do Brasil. 12 REFERÊNCIAS ABDENUR, A. E.; NETO, D. M. de S. 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