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SP 2.2 – Mãos de costureira Marta e Raul, acadêmicos do segundo ano de medicina, recebem na UBS Dona Francisca, 68 anos para uma consulta de rotina com Dr. Fernão. Marta: “Olá Dona Francisca, quanto tempo, que bom que veio à consulta! O que a senhora está sentindo?” Francisca: “Há uns 5 anos tenho dores nas juntas das mãos, que só piora, já não consigo mais fazer as minhas coisas, costurar, cozinhar... elas ficam duras quase todo o dia. Hoje senti muita dor e uma sensação de febre, e daí resolvi vir ao atendimento. Sou costureira e isso me atrapalha muito” Após o acolhimento, Marta e Raul discutem o caso com Dr. Fernão, que vem examinar Francisca. Fernão: “Marta e Raul, observem bem as mãos da Dona Francisca. Esse aspecto se chama de “Pescoço de cisne” e “botoeira”. Vocês vão aprender que essas alterações são típicas da Artrite Reumatoide. Dona Francisca, essa é uma doença do corpo contra si próprio. Nós vamos pedir alguns exames para podermos começar o tratamento”. Francisca: “Doutor, o que eu fiz para isso acontecer? É porque eu sempre fiz muito crochê? Tem relação com a minha idade?” Termos desconhecidos: Pescoço de cisne Botoeira Artrite Reumatoide Doenças autoimunes Hipóteses: As doenças autoimunes são consequências de respostas inflamatória não reguladas; As doenças autoimunes são sempre resultados de fatores genéticos; As doenças autoimunes sempre geram quadro de inflamação crônica; A idade de D. Francisca é fator determinante para a artrite reumatóide; D. Francisca tem problemas de natureza ocupacional, o que intensifica o quadro da doença autoimune; O diagnóstico de doenças autoimunes se dá através de testes laboratoriais; A conduta do médico foi adequada, pois foi utilizados termos mais acessíveis à compreensão da paciente. Objetivos: 1. O que são doenças autoimunes? Conceitue e exemplifique – enfatizar a artrite reumatóide. A tolerância imunológica é definida como a não responsividade a um antígeno, induzida pela exposição prévia a esse mesmo antígeno. O termo surgiu com base em observações experimentais de que animais que já haviam entrado em contato com um antígeno em condições particulares não responderiam, ou seja, tolerariam, o mesmo antígeno em exposições subsequentes. Quando encontram antígenos, os linfócitos específicos podem ser ativados, induzindo respostas imunes, ou podem ser inativados ou eliminados, levando à tolerância. O mesmo antígeno pode induzir uma resposta imune ou tolerância, dependendo das condições de exposição e da presença ou ausência de outros estímulos concomitantes, tais como coestimuladores. Os antígenos que induzem tolerância são chamados de tolerógenos, ou antígenos tolerogênicos, para distingui-los dos imunógenos que geram imunidade. A tolerância aos autoantígenos, também chamada de autotolerância, é uma propriedade fundamental do sistema imunológico normal, e a falha na autotolerância resulta em reações imunes contra antígenos próprios (autoantígenos ou antígenos autólogos). Essas reações são denominadas autoimunidade, e as doenças que causam são chamadas doenças autoimunes. A tolerância imunológica, principalmente no contexto da autotolerância, e como a autotolerância pode falhar, resultando em autoimunidade. Os mecanismos de tolerância eliminam ou inativam linfócitos que expressam receptores de alta afinidade para autoantígenos. Todos os indivíduos herdam essencialmente os mesmos segmentos gênicos do receptor antigênico, que se recombinam e são expressos pelos linfócitos tão logo essas células se desenvolvam a partir de células precursoras. As especificidades dos receptores codificados pelos genes recombinados são aleatórias e não são influenciadas pelo que é estranho ou próprio no organismo de cada indivíduo. A tolerância é antígeno-específica, resultante do reconhecimento antigênico pelos clones individuais de linfócitos. A autotolerância pode ser induzida em linfócitos imaturos autorreativos nos órgãos linfoides geradores (tolerância central) ou em linfócitos maduros nos sítios periféricos (tolerância periférica). A tolerância central garante que o repertório de linfócitos naive maduros se torne incapaz de responder a autoantígenos que são expressos nos órgãos linfoides geradores (o timo para as células T, e a medula óssea para os linfócitos B, também chamados de órgãos linfoides centrais). Entretanto, a tolerância central não é perfeita, e muitos linfócitos autorreativos completam sua maturação. A tolerância central ocorre durante um estágio da maturação dos linfócitos, quando um encontro com o antígeno pode levar à morte celular ou à substituição de um receptor antigênico autorreativo por outro não autorreativo. A tolerância periférica é necessários para prevenir a ativação desses linfócitos potencialmente perigosos. A tolerância periférica também é mantida pelas células T reguladoras (Tregs) que suprimem ativamente a ativação dos linfócitos específicos para antígenos próprios e outros antígenos. A supressão mediada pelas células Tregs ocorre nos órgãos linfoides secundários e nos tecidos não linfoides. Alguns autoantígenos são sequestrados do sistema imune, e outros antígenos são ignorados. As doenças autoimunes podem ser sistêmicas ou órgão-específicas dependendo da distribuição dos autoantígenos que são reconhecidos. Por exemplo, a formação de imunocomplexos circulantes compostos de autoantígenos e anticorpos específicos tipicamente produz doenças sistêmicas, como o lúpus eritematoso sistêmico (LES). Ao contrário, respostas de autoanticorpos ou de células T contra autoantígenos com distribuição tecidual restrita levam a doenças órgão- específicas, como a miastenia grave, diabetes tipo 1 (T1D, do inglês, type 1 diabetes) e esclerose múltipla. Vários mecanismos efetores são responsáveis pela lesão tecidual em diferentes doenças autoimunes. Esses mecanismos incluem imunocomplexos, autoanticorpos circulantes e linfócitos T autorreativos. Doenças autoimunes tendem a ser crônicas, progressivas e de autoperpetuação. As razões para essas características são que os autoantígenos que desencadeiam essas reações são persistentes e, uma vez que a resposta imunológica se inicia, muitos mecanismos de amplificação são ativados e perpetuam essa resposta. Adicionalmente, uma resposta iniciada contra um autoantígeno que lesiona tecidos pode resultar na liberação e alteração de outros antígenos teciduais, na ativação de linfócitos específicos para esses outros antígenos e na exacerbação da doença. Esse fenômeno, conhecido como propagação do epítopo, pode explicar por que, uma vez desenvolvida a doença autoimune, esta pode se tornar prolongada e se autoperpetua. A artrite reumatoide (AR) é uma doença autoimune caracterizada pela inflamação crônica (hipersensibilidade tardia como mecanismo imunológico) das articulações sinoviais com destruição progressiva de estruturas cartilaginosa se ósseas. As principais articulações afetadas são as das mãos, punhos, joelhos e pés, em geral, de forma simétrica. Fatores hormonais provavelmente estão envolvidos porque a incidência maior ocorre em mulheres (3:1) de 35 a 50 anos de idade. Além dos fatores hormonais, agentes infecciosos têm sido associados ao surgimento da artrite reumatoide, tais como: Mycoplasma, ví rus da rubéola, citomegalovírus, herpes vírus, parvovírus B19, o vírus Epstei n-Barr e o My cobacterium tuberculosis . Há forte associação nesses pacientes com a expressão das moléculas de MHC-II : HLA-DR4 e HLA -DR1.O líquido presente em articulação sinovial normal é acelular; no entanto, quando a artrite reumatoide se desenvolve, es te fica enriquecido predominantemente de neutrófilos, embora macrófagos, linfócitos T e células dendríticas estejam presentes. A membrana sinovial composta de uma aduas camadas celulares torna- se infiltrada por células provenientesdo sangue e passa a apresentar de seis a oito camadas. 2. Quais fatores causam as doenças autoimunes? Os fatores que contribuem para o desenvolvimento da autoimunidade são a suscetibilidade genética e os desencadeadores ambientais, como infecções e lesão tecidual local. Genes de suscetibilidade podem quebrar os mecanismos de autotolerância, enquanto a infecção ou necrose nos tecidos promovem o influxo de linfócitos autorreativos e a ativação dessas células, resultando em lesão tecidual. Infecções e lesão tecidual também podem alterar a forma como os autoantígenos são exibidos para o sistema imune, levando à falha da autotolerância e à ativação dos linfócitos autorreativos. Os papéis desses fatores no desenvolvimento da autoimunidade serão discutidos posteriormente. Outros fatores como mudanças no microbioma do hospedeiro e alterações epigenéticas nas células imunes podem desempenhar papéis importantes na patogênese, mas os estudos sobre esses tópicos estão apenas no início. 3. Qual a fisiopatologia das doenças autoimunes? Dentre os mecanismos celulares e moleculares associados a doenças autoimunes o mais simples é a mimetização de antígenos exógenos com moléculas endógenas, que causam confusão no momento de apresentação de antígenos aos linfócitos B. Outro fato r importante na patogênes e da autoimunidade é o comprometimento dos mecanismos de proteção c ontra a autoimunidade que inclui 1) deleção (remoção de linfócitos T auto-reativos por apoptose no timo durante a maturação), 2) anergia (não responsividade do sistema i mune a células apresentadores de auto antígenos, evitando o desenvolvimento de uma resposta humoral) e 3) supressão (repressão dos linfócitos auto -reativos por citocinas produzidas por outros linfócitos). 4. Quais as orientações, diagnóstico, tratamento e cuidados para pacientes acometidos por doenças autoimunes? (Doenças crônicas incapacitantes) O tratamento medicamentoso vai variar de acordo com o estágio da doença, sua atividade e gravidade, devendo ser mais agressivo quanto mais agressiva for a doença. Os anti-inflamatórios são a base do tratamento seguidos de corticóides para as fases agudas e drogas modificadoras do curso da doença, a maior parte delas imunossupressoras. Mais recentemente os agentes imunobiológicos passaram a compor as opções terapêuticas. O tratamento com anti-inflamatórios deve ser mantido enquanto se observar sinais inflamatórios ou o paciente apresentar dores articulares. O uso de drogas modificadoras do curso da doença deve ser mantido indefinidamente. O tratamento medicamentoso é sempre individualizado e modificado conforme a resposta de cada doente. Em alguns pacientes há indicação de tratamento cirúrgico, dentre eles cita -se a sinovectomia para sinovite persistente e resistente ao tratamento conservador, artrodese, artroplastias totais, etc. Fisioterapia e terapia ocupacional contribuem para que o paciente possa continuar a exercer as atividades da vida diária. A proteção articular deve garantir o fortalecimento da musculatura periarticular e adequado programa de flexibilidade, evit ando o excesso de movi mento. O condicionamento físico, envolvendo atividade aeróbica, exercícios resistidos, alongamento e relaxamento, deve ser estimulado observando-se os critérios de tolerância de cada paciente. 5. De que maneira deve ocorrer a conduta e a comunicação médico-paciente das doenças autoimunes? (Diagnóstico, orientações…) DOENÇAS RARAS AUTOIMUNES Diversas Doenças Raras de etiologia não genética podem ter natureza autoimune. Trata-se de doenças crônicas. Embora possam existir Serviços Especializados ou Serviços de Referência específicos, por doenças, com o seu desenvolvimento e de acordo com as necessidades eles podem ser agrupados sob a denominação de Serviços Especializados ou Serviços de Referência para Doenças Raras Autoimunes. ATENÇÃO BÁSICA A. FUNÇÃO DA ATENÇÃO BÁSICA: Detectar ou suspeitar de Doença Rara Autoimune e fazer os encaminhamentos necessários. Em caso de problemas clínicos associados, providenciar os encaminhamentos de acordo com a necessidade. B. PROCEDIMENTOS DA ATENÇÃO BÁSICA: Na consulta, realizar a anamnese e exame clínico cuidadoso com especial atenção para sinais e sintomas clínicos específicos; acompanhamento de rotina na atenção básica de acordo com a orientação dos serviços de atenção especializada. O paciente com suspeita de doença rara de natureza autoimune poderá ser encaminhado/referenciado de forma regulada para os Serviços Especializados ou Serviços de Referência em DR, com relatório clínico resumido. Independentemente do diagnóstico etiológico, em caso de comprometimento da saúde funcional, encaminhar para terapias de apoio no CER. Interfaces recomendadas: Terapias de apoio (fisioterapia/fonoaudiologia/terapia ocupacional e outros serviços de atenção ao desenvolvimento neuropsicomotor) e no CER ou nos Serviços Especializados em Geral (já inseridos no fluxo normal de atendimento).