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PLÁSTICA E ESTÉTICA Jaqueline Ramos Grabasck Uso de tipologias no projeto arquitetônico Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Explicar o que são tipo e tipologia na arquitetura. Demonstrar a transformação de tipos em esquemas formais. Ilustrar a utilização da transformação de tipos em projetos de arquitetura. Introdução A elaboração de um projeto arquitetônico está condicionada a diversos fatores que abrangem as necessidades apresentadas pelos clientes. Entre esses fatores estão as condicionantes naturais que interferem no local, as aspirações dos usuários e, principalmente, o referencial teórico e a experiência obtida pelo projetista com o passar dos anos. O profissional pode utilizar um único elemento como base de diversos projetos, de maneira que cada projeto ainda será único. Essa premissa segue o conceito de tipo arquitetônico, que pode ser compreendido como a essência do projeto. Entretanto, a elaboração de um projeto arquitetônico não precisa ficar restrita a apenas um tipo, podendo ser constituída de quantos tipos forem necessários. A combinação gerada por diferentes tipos arquitetônicos configura a tipologia arquitetônica, e ambos os conceitos são inerentes ao processo de desenvolvimento projetual. Neste capítulo, você estudará sobre a diferença entre tipo e tipologia arquitetônica, identificará a transformação de tipos arquitetônicos em esquemas formais e verá como a transformação desses tipos pode ser aplicada em projetos de arquitetura. 1 Tipo e tipologia na arquitetura Um projeto arquitetônico surge a partir de referências que compõem a expe- riência adquirida pelo arquiteto com o passar dos anos e os estudos por ele realizados, de maneira que parte dessa carga será responsável pela defi nição do tipo arquitetônico a ser utilizado na realização do projeto e pela determi- nação da tipologia a ser empregada na execução da edifi cação. Motta e Scopel (2015) indicam que a tipologia é responsável por proporcionar ao arquiteto o embasamento necessário, de maneira a contribuir com o desenvolvimento dos projetos. Os autores salientam que a tipologia pode ser defi nida como o estudo dos tipos (MOTTA; SCOPEL, 2015). Tanto a tipologia como o tipo arquitetônico são conceitos inerentes ao desenvolvimento do projeto, seja no processo de lançamento da proposta, seja no processo de adequação para revitalizar uma edifi cação. Tipo arquitetônico O tipo arquitetônico pode ser defi nido como algo que estrutura um projeto, que refere-se ao seu cerne. Um projeto pode ser constituído por diversos tipos, cada um com a sua essência, de forma a complementar o todo. De acordo com Mahfuz (1995), o tipo arquitetônico é considerado o ponto de partida para elaborar uma composição, algo puro e ideal. Entretanto, o autor ressalta que o tipo não representa a realidade devido ao fato de nascer de uma abstração (MAHFUZ, 1995). Pereira (2012) corrobora com Mahfuz (1995) ao indicar o tipo como uma forma ideal, complementando que o tipo se sobrepõe à aparência individual da edifi cação, apresentando diversas possibilidades de variações, de forma a facilitar a sua utilização na derivação de outras edifi cações. Já Cabral (1996) indica que todas as formas arquitetônicas intrínsecas ao projeto podem ser classificadas como tipos, mesmo que o tipo não seja identificado como uma forma específica. Mahfuz (1995) ressalta que o tipo apresenta uma variação formal infinita, porém “que não pode ser mais redu- zido do que já é” (MAHFUZ, 1995, documento on-line). Nesse sentido, ele apresenta como exemplificação o edifício-pátio, que corresponde a uma forma com um vazio no centro, podendo tanto o vazio quanto a edificação apresentar qualquer formato que for possível imaginar (Figura 1). Uso de tipologias no projeto arquitetônico2 Figura 1. Exemplos do tipo edifício-pátio. Fonte: Mahfuz (1995, documento on-line). A Figura 1 apresenta algumas das diversas possibilidades de variações que o tipo edifício-pátio pode configurar, constituído sempre por uma massa que envolve um vazio. Independentemente das formas que cada uma dessas partes apresenta, ao visualizá-las, é possível identificar qual tipo arquitetônico elas representam, pois correspondem à sua essência. O conceito de edifício-pátio apresentado por Mahfuz (1995) é reforçado por Argan (1983 apud CABRAL, 1996) ao indicar que o tipo corresponde a uma estrutura formal básica, advinda de diferentes eventos, de maneira que não corresponde a nenhum, mas é comum a todos eles. Dessa maneira, a autora indica que o tipo relaciona-se a um conceito com capacidade de identificar a estrutura formal que resulta em uma forma arquitetônica. Ela também salienta que o tipo possibilita aproximar conteúdos genéricos a situações particulares, atuando como um mediador entre a singularidade dos eventos frente a um conhecimento arquitetônico universal. O tipo transcende o tempo, permanecendo frente às circunstâncias materiais e culturais das quais advêm, não relacionando-se com a neutralidade, mas com os paradigmas arquitetônicos e urbanísticos que acompanham a perspectiva histórica. O tipo é considerado um elemento importante na dimensão con- ceitual da arquitetura, abrangendo a essência da arte e o desdobramento da teoria, tendo este como função, além de apresentar a concepção do arquiteto juntamente com a percepção gerada no público. 3Uso de tipologias no projeto arquitetônico Os aspectos funcionais de uma edificação podem advir de uma análise das atividades que são desempenhadas no local, utilizando-se de um organograma e de um fluxograma, abrangendo também uma análise das questões estéticas, que consideram os aspectos figurativos. Nesse contexto, Motta e Scopel (2015) afirmam que o tipo arquitetônico nasce das condicionantes formais e funcio- nais, que são equivalentes em uma edificação. A arquitetura do século XIX é apresentada por Pereira (2012) tendo como conceito básico a composição, relacionando-se com a forma e o programa, ou a forma e a função, de maneira que a composição atua frente aos diferentes programas apresentados pela sociedade, que não seriam atendidos satisfatoriamente pelos tipos existentes. O tipo é responsável por determinar o caráter distintivo das edificações, regulando as modificações e a legibilidade frente aos observadores. Motta e Scopel (2015) indicam que o tipo é representado por uma forma-base co- mum, advinda de reduções realizadas em um conjunto de variáveis formais, que podem ser consideradas infinitas. As definições de tipo e modelo estão relacionadas e são essenciais para o desenvolvimento de um projeto arquite- tônico, porém o modelo é reproduzido tal e qual, sem apresentar variações. Já o tipo apresenta características únicas que relacionam as características formais e funcionais ao seu desenvolvimento. Dessa maneira, Motta e Scopel (2015) afirmam que o tipo pode ser considerado vago e subjetivo, devido à possibilidade de variáveis formais que podem resultar. Para Mahfuz (1995), faz-se necessário o desdobramento do conceito de tipo para se obter uma tipologia abrangente, de maneira que o surgimento de cada obra arquitetônica pode ser categorizada da seguinte maneira: forma arquitetônica; definição e articulação espacial; relações espaciais; circulação e percurso; princípios de organização espacial; princípios de ordenação; grandes elementos construtivos; elementos ornamentais; e relações entre edifício e contexto. Assim, o tipo arquitetônico não apresenta características únicas, que o engessam, pois é algo mutável, que varia conforme o período histórico, a tradição, a cultura e as aspirações da sociedade na qual se encontra. O tipo pode ser facilmente identificado, mas a sua caracterização não é possibilitada por se tratar de algo que não é concreto. Uso de tipologias no projeto arquitetônico4 Tipologia arquitetônica A tipologia pode ser defi nida como o estudo dos tipos arquitetônicos,ou seja, tipologia corresponde aos tipos de construções desenvolvidas para confi gurar o espaço de uma cidade, compostas por edifi cações dos mais variados formatos e que podem vir a abrigar as mais distintas funções. As primeiras tentativas de conceituar e construir tipologias arquitetônicas surgiu, segundo Tourinho (2014), durante o Iluminismo no século XVIII. A autora afi rma que, além de a tipologia ser o estudo dos tipos, abrange também sua discussão, classifi cação e fundamentação, ao surgir da ideia de algo superior, de forma a ser o ponto de origem de diversos outros objetos. Entretanto, ela ressalta que esse conceito não é único ou estático (TOURINHO, 2014). Motta e Scopel (2015) complementam que a tipologia abrange diversas variáveis, como o tipo de construção, o espaço livre, as variações encontra- das no espaço, a hierarquia, a sua relação com o contexto urbano, o período histórico em que ocorreu a construção, os seus executores, a sociedade, os elementos morfológicos que compreendem o terreno e a edificação. Já o método tipológico associa diferentes tipos, que relacionam técnica, estilo, função, caráter coletivo e momento individual, apresentando um número limitado de partes em um mesmo projeto. Nesse sentido, é possível afirmar que os fatores construtivos e culturais interferem diretamente na implantação das edificações em um espaço. Entretanto, as questões referentes à tipologia arquitetônica não devem ser observadas apenas no contexto histórico, mas devem estar presentes no sistema ideativo e operativo de cada arquiteto (MOTTA; SCOPEL, 2015). Desse modo a arquitetura não apresenta apenas a história de um povo ou determina o estilo utilizado em uma época específica, mas atua como um norteador para obras futuras, configurando o embasamento proporcionado ao profissional, o qual será utilizado no desenvolvimento de um projeto. Nesse sentido, pode-se concluir que a tipologia é pertinente ao processo de projeto, pois abrange todas as constituintes que podem vir a interferir em seu desenvolvimento, compreendendo elementos que podem ser alterados pelo arquiteto, mas também elementos que fogem de seu controle, como as condicionantes ligadas ao lugar e à época em que a edificação foi projetada. 5Uso de tipologias no projeto arquitetônico Nesse contexto, Pereira (2012) afirma que a tipologia arquitetônica também determina a morfologia urbana, devido ao fato de as demandas do espaço urbano não serem mais consideradas aspectos relevantes. Observa-se que, em cidades contemporâneas, passou-se a priorizar a necessidade individual da unidade residencial, sem relacioná-la com as formas urbanas, como ruas, praças e quarteirões, interferindo diretamente na elaboração de novos bairros, que podem surgir sem se relacionar com o contexto urbano pré-existente. A morfologia urbana pode ser definida como o estudo das formas da cidade (ROSSI, 1977 apud PEREIRA, 2012). Já a tipologia compreende o estudo dos tipos, que vêm a materializar as edificações e, consequentemente, definir a configuração física das cidades. Nesse sentido, é possível afirmar que esses três conceitos (morfologia urbana, tipologia arquitetônica e tipo arquitetônico) relacionam-se entre si e interferem diretamente na configuração do todo, assim como na configuração um do outro. Essa relação associada de tipologia arquitetônica e morfologia urbana pode ser observada na Unidade Habitacional de Marselha, projetada por Le Corbusier. Ela é considerada uma continuação da cidade por apresentar em seu programa áreas comerciais, de serviço e de lazer. Para a sua elaboração, Le Corbusier considerou o conceito das vilas, para organizar áreas privativas e de uso comum em uma mesma edificação. Na elaboração da planta baixa, o arquiteto utilizou a tipologia em fita, centralizando a circulação vertical e dispondo as circulações horizontais a cada três pavimentos, gerando unidades habitacionais com pé-direito duplo, dispostas de forma intercalada e, conse- quentemente, otimizando ao máximo a área edificada (Figura 2a). A horizontalidade da edificação pode ser observada tanto em planta como em fachada por meio da configuração das aberturas, que reforçam o seu padrão volumétrico. Já a sua relação de continuidade com a cidade deve-se à permeabilidade no pavimento térreo, que é garantida pela utilização de pilotis, possibilitando a integração da tipologia com a morfologia urbana (Figura 2b). Uso de tipologias no projeto arquitetônico6 Figura 2. (a) Planta baixa e (b) fachada da Unidade Habitacional de Marselha, do arquiteto Le Corbusier. Fonte: (a) Kroll (2016, documento on-line); (b) Gurak (2016, documento on-line). (a) (b) Nos padrões dos anos de 1920, o edifício residencial destacava-se das demais composições arquitetônicas por ser um complexo residencial moderno, elaborado de forma inovadora e com a finalidade de trazer a cidade para dentro de sua composição. Apesar de ser uma inovação para a época, o seu uso se mantém e reforça as premissas de tipologia residencial, uma vez que dificilmente passará por modificações em sua utilização. 7Uso de tipologias no projeto arquitetônico Mahfuz (1995) reforça que a tipologia é redutiva, apresentando uso muito limitado, constituída por uma estrutura irredutível, porém com possibilidade de passar por transformações contínuas. Cabe ressaltar que a versatilidade deve ser incorporada na elaboração de um projeto arquitetônico, para que a edificação possa então se transformar e se adequar conforme as necessidades de seus usuários, de maneira a não atingir a obsolescência e vir a cair em desuso. Entretanto, obras clássicas, como é o caso da Unidade Habitacional de Marselha, continuarão sempre mantendo o seu destaque e imponência conferidos pelo projeto, conforme elaborado por seu criador. 2 Transformação de tipos em esquemas formais O princípio de transformação parte de um protótipo arquitetônico que passa por diversas manipulações para adequá-lo às necessidades apresentadas no projeto. Ao passar por diversas análises, com tentativas e erros, o protótipo é compreendido, reforçando o seu conceito projetual e mantendo-o em constante desenvolvimento. A Figura 3 elucida a defi nição de transformação apresentada por Ching (2013), de modo a realizar-se diversas manipulações em um protótipo sem que venha a perder a sua essência, ou seja, sem destruir o seu conceito. Figura 3. Exemplo de transformação. Fonte: Ching (2013, p. 402). Uso de tipologias no projeto arquitetônico8 De acordo com Fonseca (2017), o esquema é considerado uma forma de representar o conceito do projeto mediante a utilização do meio gráfico, deno- minado diagrama, ou seja, o ponto médio entre o pensamento e a finalização da ideia. Sua elaboração pode compreender perspectivas, plantas e demais constituintes, além de ser complementado por diagramas e modelos compu- tacionais que abrangem desenhos manuais e modelagem em três dimensões. Dejtiar (2019) indica que, ao utilizar esquemas e diagramas para realizar estudos, possibilita-se a compreensão de outros tipos de considerações proje- tuais. Por meio dos esquemas abstratos, dá-se a percepção e o destaque para o tipo arquitetônico. Entretanto, por mais que o projeto mude ao longo de seu desenvolvimento, o tipo permanecerá inalterado. Ao compreender o projeto em sua totalidade, é possível identificar erros e entender o funcionamento dos sistemas e conjuntos. Rudolf Wittkower analisou as Villas Palladianas e concluiu que essas edi- ficações, desenvolvidas por Andrea Palladio, foram elaboradas tomando como base um esquema geométrico, que é aplicado de forma implícita no projeto arquitetônico de cada uma das Villas, denominado diagrama dos nove quadra- dos. Em complementação, mediante estudos de metodologia sintática, Peter Eisenman indicou que o diagrama dos nove quadrados possibilita compreender o pensamento projetual, entretanto, não apresenta indícios exatos do processo de projeto utilizado no desenvolvimentodas Villas (SOUZA, 2010). As Villas Palladianas configuram-se mediante a utilização de uma grelha, que organiza os espaços em planta a partir de três faixas no sentido vertical e de três a cinco faixas no sentido horizontal. Nas análises apresentadas por Barbosa (2005), é possível observar a implantação nas faixas principais da acomodação das funções, do tipo e da configuração da sala principal, direcio- nando a organização funcional para as subdivisões menores da grelha, que não ficam evidentes na fachada da edificação. O diagrama dos nove quadrados é utilizado também para demonstrar as propriedades estruturais que compõem as Villas Palladianas, como centralidade, axialidade, simetrias e modulações, por meio da utilização de um padrão geométrico que é observado ao ser aplicado na matriz gerada matematicamente (Figura 4). 9Uso de tipologias no projeto arquitetônico Figura 4. Diagrama dos nove quadrados aplicado às Villas Palladianas. Fonte: Adaptada de Izar (2015). Villa Thiene at Cicogna Villa Badoer at Fratta, Polesine Villa Zeno at Cesalto Villa Cornaro at Piombino Villa Pisani at Montagnana Villa Emo at Fanzolo Villa Macontenta Villa Pisani at Bagnolo Villa Rotonda Geometrical Pattern of Palladio´s Villas Villa Sarego at Miega Villa Poiana at Poiana Maggiore Uso de tipologias no projeto arquitetônico10 Ao analisar as diferentes composições das Villas Palladianas, é possível observar o diagrama dos nove quadrados escondido dentro dos projetos. Souza (2010) indica que o uso do diagrama apresenta um nível de crítica à edificação em estudo. O autor ainda afirma que o diagrama contém mais que o modelo, por compreender uma abstração com possibilidade de geração de algo a mais, superando, dessa maneira, a essência do tipo arquitetônico (Figura 5). Figura 5. Villa Rotonda, do arquiteto Andrea Palladio. Fonte: Souza (2010, documento on-line). De acordo com Izar (2015), a equiparação do princípio arquitetônico e do princípio formal indica que Palladio destacava os planos de fachada, vindo a replicar uma matriz de plantas nas mais diversas situações. A autora indica a existência de três princípios formais apresentados por Wittkower: 11Uso de tipologias no projeto arquitetônico [...] a ideia de que há princípios formais-arquitetônicos da arquitetura do Renascimento; de que a análise formal pode revelar esses princípios; de que se pode partir para uma leitura formal das ambiguidades de um sistema compositivo por meio de diagramas que reduzem o objeto a uma relação elementar de espaçamentos, massas, proporções, linhas, pontos, simetrias, hierarquias e outras propriedades eminentemente espaciais (IZAR, 2015, documento on-line). Após analisar o diagrama dos nove quadrados de Wittkower, Peter Eisen- man apresentou duas classificações em graus para o termo representação. Os registros gráficos, como plantas, cortes, perspectivas, elevações e fotografias, são definidos como representações de primeiro grau, pois são utilizados para elucidar ou dar a ideia de objeto para o observador. Já as representações de segundo grau são diagramas explicativos compostos por um nível de critica- lidade, uma remoção ou destituição dos fatos do objeto, sendo consideradas as abstrações das edificações analisadas, podendo ser citado como exemplo o diagrama dos nove quadrados de Wittkower. Nesse contexto, Souza (2010) afirma que Eisenman apresenta uma analogia de tipo e diagrama referentes à abstração, em que o tipo configura uma abstração que reduz toda a carga significante para uma padronização. Já o diagrama tem como facilitador trazer o instrumento crítico, que é conferido como qualidade ao objetivo, para além de seu tempo. Segundo Izar (2015), Wittkower enfatiza o viés formalista ao incentivar a busca no projeto arquitetônico pelo esquema espacial, responsável por apre- sentar as camadas estruturais e superficiais que constituem a forma de cada obra, podendo gerar um sistema ambíguo e dissonante. A autora ressalta que o objetivo de Wittkower era mapear a estrutura que encontrava-se oculta na forma arquitetônica, que utilizava o diagrama de forma a isolar os elementos construtivos da superfície em si, possibilitando a compreensão de quais ele- mentos foram abstraídos de sua composição, mediante a utilização de elementos sintáticos que foram inventados pelo projetista (IZAR, 2015). Assim como Wittkower, Eisenman empregou diagramas para representar as constituintes das edificações, porém utilizou o isolamento das proprieda- des referente às formas genéricas a fim de analisar as suas interações. Nesse contexto, Izar (2015) afirma que a forma genérica não corresponde a uma tipologia histórica, nem mesmo a um tipo preestabelecido, mas a um sistema que compreende as bases geométricas, as propriedades estáticas e as dinâmi- cas, de forma a se articular com o projeto elaborado. Eisenman utiliza figuras ortogonais, que partem de malhas de pontos, eixos e formas prismáticas, para estabelecer a organização que foi utilizada na composição dos elementos, Uso de tipologias no projeto arquitetônico12 de forma que, segundo Izar (2015), para expressar a evolução dos sistemas formais, o arquiteto utiliza a interação entre as figuras, como intersecções, alinhamentos e justaposições. A Figura 6 representa as propriedades genéricas observadas por Eisenman no Museu Guggenheim, projetado por Frank Lloyd Wright. Os diagramas da esquerda e do centro apresentam a tendência diagonal, que resulta em um sistema espiral e escalonado. Já os diagramas da direita indicam a simetria e a assimetria conferida aos planos do volume genérico. Figura 6. Diagrama de propriedades genéricas desenvolvido por Peter Eisenman para o Museu Guggenhein, do arquiteto Frank Lloyd Wright. Fonte: Izar (2015, documento on-line). Em suma, é possível afirmar que o esquema torna os pensamentos explícitos, assim como as decisões do arquiteto no decorrer da elaboração do projeto arquitetônico, utilizado com o intuito de estruturar as ideias do profissional. O esquema pode ser utilizado para representações em planta, em fachadas e volumetrias, com o objetivo de apresentar o conceito do projeto de forma clara, mas também de esclarecer dúvidas referentes a detalhes significativos que compreendem o projeto. Dessa maneira, o esquema pode ser utilizado na fase inicial de projeto, para determinar pontos importantes a serem abordados, para indicar a sua 13Uso de tipologias no projeto arquitetônico localização ou para ampliar o número de informações a serem transmitidas. Também pode ser elaborado com a finalidade de evitar erros e discordâncias no decorrer do desenvolvimento projetual, além de apresentar aplicabilidade na fase final do projeto arquitetônico, a fim de indicar conexões, encaixes e recortes que podem não terem sido apresentados de forma clara durante a elaboração do projeto. Peter Eisenman dedicou-se a análises formais sistemáticas ao utilizar diagramas para enfatizar a base formal advinda de obras canônicas do Modernismo, apresentando, em sua tese de doutorado, análises que indicam que a forma era o pressuposto. Com essas abordagens, Eisenman identifica a arquitetura estudada como formalista frente às perspectivas culturais (IZAR, 2015). 3 Transformação de tipos em projetos de arquitetura O conceito de transformação possibilita que o arquiteto selecione um modelo para transformar, conforme as necessidades, no contexto das diretrizes projetu- ais. Ching (2013) indica que a estrutura formal e o ordenamento dos elementos devem ser adequados para que todas as modifi cações possam ser realizadas a fi m de atender às demandas específi cas. A Figura 7 apresenta o conceito de transformação apresentado por Ching (2013), partindo de um modelo que sofre manipulações a fi m de se adequar às especifi cações apresentadas. Figura 7. Esquema de desenvolvimento de uma cela representando o conceito de transformação. Fonte: Ching (2013, p. 402). Uso de tipologias no projetoarquitetônico14 Segundo Ströher et al. (2001), o enfoque tipológico conferido ao processo de projeto tornou-se distante do ponto de vista histórico e artístico, vindo a dificultar o esclarecimento das relações de tipo e método de projeto. Entretanto, os autores indicam que Quatremère de Quincy relacionava o tipo diretamente com a lógica da forma, com base na razão e no uso da edificação. Quatermère de Quincy foi um dos precursores na definição do conceito de tipo arquitetônico. Teve a sua análise reforçada por renomados autores ao conceituar o tipo como um elemento que deve servir de regra, apresentando a obrigatoriedade de ser reproduzido de forma integral ou mediante a imitação perfeita da ideia inicial, com base em um elemento que irá gerar obras que não se assemelham entre si. Pereira (2012) ressalta que, para Quincy, a arquitetura antiga e a arquitetura moderna se relacionavam pela modificação do tipo: sempre que uma edificação fosse projetada, haveria uma transformação em seu conceito, além de ressaltar que o tipo apresenta caráter próprio, imprimindo-se em sua forma. Dessa maneira, o enfoque projetual passa a ser a forma e a função, par- tindo do conceito de que ambas devem ser elaboradas em paralelo, ou seja, o desenvolvimento da forma da edificação e as funções que esta deve apresentar devem ser realizados de maneira complementar para que não haja sobreposição e nem descaracterizações da ideia projetual. Ströher et al. (2001) salientam que o conceito de tipo está relacionado a outros conceitos, como história, teoria, criatividade, forma, função, tecnologia, geometria, emoção, mudança, repetição, juntamente com uma infinidade de constituintes que compreendem modelos teóricos, abstratos e especulações intelectuais. Ao perceber a essência de todos esses conceitos, o arquiteto compreenderá sua natureza fundamental e sua estrutura para reforçá-lo durante o desenvolvimento da proposta o que, de acordo com Ching (2013), segue a premissa de elaboração projetual que abrange análises, sínteses, tentativas e erros. Ao final desse processo, será possível observar o desenvolvimento de um partido formal do projeto arquitetônico. A partir desse conceito, é possível desenvolver uma proposta que contemple as premissas apresentadas no programa de necessidades e que reforce a ideia inicial de projeto, de maneira a atender aos requisitos formais e funcionais apresentados no decorrer do processo. A aplicação desses requisitos acompa- 15Uso de tipologias no projeto arquitetônico nha os projetistas desde os primórdios, aprimorando a proposta inicial para contemplar as necessidades dos clientes. Nesse sentido, alguns arquitetos definem configurações que compõem a essência de suas obras, mas não se repetem do mesmo modo em todas elas. A análise de Wittkower reforça essa teoria ao apresentar o diagrama dos nove quadrados nas obras de Andrea Palladio, que mantém um esquema geométrico implícito no desenho, mas ainda possibilita a criação de uma obra única. As Villas surgem de um volume primário, que abriga a casa principal e representa o eixo da simetria da edificação, cercada pelas partes de serviço, que indicam o domínio do projetista frente às relações do todo com a parte e da parte com o todo. Com essa análise, Barbosa (2005) afirma que é possível indicar que Palladio partia de um mesmo tipo arquitetônico para elaborar os seus projetos, porém todos eram desenvolvidos de maneira diversificada. A Villa Pisani Montagnana, projetada por Palladio, ao ser inserida na grelha, demonstra que sua composição é configurada com os nove quadrados (Figura 8). Assim como as demais edificações que compõem as Villas Palladianas, Montagnana foi desenvolvida com a sala recebendo destaque frente aos demais ambientes, enquanto que as partes de serviço são dispostas ao seu redor. Figura 8. Villa Pisani Montagnana, de Andrea Palladio. Fonte: Barbosa (2005, documento on-line). O diagrama dos nove quadrados apresenta uma composição tão assertiva que seguiu sendo aplicado por outros arquitetos, como Frank Lloyd Wright, que utilizou-se desse tipo arquitetônico para compor algumas de suas obras. A Casa Thomas Hardy, elaborada por Wright, segue a premissa do diagrama dos nove quadrados utilizado por Palladio. A Figura 9 demonstra a utilização do diagrama na formulação da planta baixa dessa residência. Uso de tipologias no projeto arquitetônico16 Figura 9. Planta baixa e construção da Casa Thomas Hardy, elaborada por Frank Lloyd Wright. Fonte: (a) Ching (2013, p. 404); (b) Frank Lloyd Wright Trust ([201–?], documento on-line). (a) (b) A elaboração da residência parte da premissa da junção de quatro qua- drados, formando um T, configurando o pavimento térreo da edificação. Por estar situada junto ao Lago Michigan, o arquiteto utilizou-se da configuração do terreno para desenvolver a edificação, que é distribuída em três pavimen- tos. O pavimento térreo encontra-se no nível da rua, onde estão situados os acessos principais, que direcionam-se por meio de escadas para dois jardins laterais, abraçando, no centro, a volumetria que comporta os dormitórios e a sala de estar, situados também em níveis diferentes dos acessos, assim como os jardins (Figura 10a). 17Uso de tipologias no projeto arquitetônico No nível inferior, encontram-se a cozinha, a sala de jantar e um terraço, com acesso para as margens do Lago Michigan (Figura 10b). Nesse nível, a configuração em T é reforçada pela volumetria, que mantém o conceito inicial do projeto. Já o pavimento superior faz o fechamento da edificação, onde localizam-se os dormitórios e sanitários (Figura 10c), mantendo a com- posição volumétrica empregada no pavimento inferior e reforçando a ideia de contemplação da paisagem. Figura 10. (a) Planta baixa do pavimento térreo, (b) do pavimento inferior e (c) do pavimento superior da Casa Thomas Hardy. Fonte: (a) Freiluft (2013a, documento on-line); (b) Freiluft (2013b, documento on-line); (c) Freiluft (2013c, documento on-line). (a) (b) (c) Uso de tipologias no projeto arquitetônico18 Outro exemplo que pode ser citado pela utilização do diagrama dos noves quadrados é a Casa Samuel Freeman, também do arquiteto Frank Lloyd Wright. Nessa residência, a utilização do diagrama também ocorre em planta baixa, desenvolvida com o uso de três quadrados (Figura 11a). A configuração em planta pode ser observada de forma nítida na compo- sição volumétrica (Figura 11b), reforçando a utilização do diagrama dos nove quadrados como recurso compositivo para a transformação dos espaços. A residência era utilizada pelos proprietários como um salão artístico e político devido à configuração apresentada pela sala, que possibilitava o seu uso como um centro de atividades. Figura 11. (a) Casa Samuel Freeman e (b) volumetria do projeto, elaborado pelo arquiteto Frank Lloyd Wright. Fonte: (a) Ching (2013, p. 404); (b) Tillman (2019, documento on-line). (a) (b) 19Uso de tipologias no projeto arquitetônico O conceito de um projeto arquitetônico pode ser reforçado de diversas maneiras, por exemplo, em sua inserção junto ao tipo arquitetônico incorporado ao projeto. Dessa maneira, é essencial que o projeto seja compreendido como um todo, condicionando a percepção do observador à intenção do arquiteto. O estudo de tipos e tipologias arquitetônicas é considerado um importante foco de análises, enfoque de pesquisas de renomados autores, a fim de compreender a essência projetual e criar premissas que facilitem a compreensão de todas as suas constituintes. A tipologia arquitetônica abrange diversas variáveis que interferem e modificam um projeto com o intuito de atender às necessidades apresentadas em seu programa. O tipo não compreende uma forma específica de materialização, mas uma infinidade de possibilidades que agregam qualidade ao projeto arquitetônico. A transformação de edifícios em habitação social qualifica edificações do período de pós-Guerra, transformando a tipologiaem elementos de destaque no contexto urbano. Para saber mais, leia o artigo “Ressignificando o passado: 7 projetos de reabilitação de edifícios habitacionais do pós-guerra”, de Andreea Cutieru com tradução de Romullo Baratto, disponível no site ArchDaily (CUTIERU, 2020). BARBOSA, R. F. 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