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SERVIÇO PÚBLICO FEDERAL UNIVERSIDADE FEDERAL DO PARÁ INSTITUTO DE GEOCIÊNCIAS FACULDADE DE GEOLOGIA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM RECURSOS HÍDRICOS (PPRH) FUNDAMENTOS DE GEOCIÊNCIAS Módulo 3: unidades 6, 7 e 8 Organização: Prof. Marcio D. Santos Belém/PA 2019 219 SUMÁRIO MÓDULO 3 (unidades 6,7 e 8) .............................................................................. 221 .................................................................................................... 221 ................................................ 222 ............................................................ 226 6.3.1- PRINCIPAIS ELEMENTOS GEOMÉTRICOS DAS FALHAS ........................... 227 6.3.2- CLASSIFICAÇÃO DAS FALHAS ..................................................................... 228 ............................................................ 229 6.4.1- PRINCIPAIS ELEMENTOS GEOMÉTRICOS DAS DOBRAS .......................... 230 6.4.2- CLASSIFICAÇÃO DAS DOBRAS ................................................................... 230 Com base na geometria e morfologia das dobras ......................................... 231 6.4.3- MECANISMOS DE FORMAÇÃO DAS DOBRAS ............................................. 235 ........................................ 235 ............................................................................................ 238 .................................................................................................... 238 ........................................................................................ 239 7.2.1- CRITÉRIOS ESTRATIGRÁFICOS ................................................................... 239 7.2.2- CRITÉRIOS PALEONTOLÓGICOS: com base nos fósseis ......................... 243 7.2.3- ESCALA DO TEMPO GEOLÓGICO ............................................................... 247 Datação absoluta .............................. 250 7.3.1- INTRODUÇÃO ................................................................................................. 250 7.3.2- MÉTODO Rb-Sr ............................................................................................... 254 7.3.3- MÉTODO U-Pb ................................................................................................ 255 7.3.4- MÉTODO RADIOCARBONO ........................................................................... 256 7.3.5- IDADE DA TERRA ........................................................................................... 257 7.3.6- SUBDIVISÃO DOS ÉONS PRECAMBRIANOS .............................................. 258 7.3.7- LINHA DO TEMPO DS HISTÓRIA DA TERRA ............................................... 259 ........................................................... 261 .................................................................................................... 261 ...................................................................................... 262 ................................ 264 ........................ 266 ............................................. 267 ............................................................................. 270 220 8.6.1- DEPÓSITOS DE CROMITA ESTRATIFORME ............................................... 270 8.6.2- DEPÓSITOS SULFETADOS DE Ni-Cu ........................................................... 271 Depósitos de Ni-Cu (PGE) em complexos máficos intrusivos ................... 271 Depósitos de Ni-Cu em komatiitos ............................................................... 272 8.6.3- DEPÓSITOS DE CROMITA PODIFORME ...................................................... 273 8.6.4- DEPÓSITOS DE Nb-P-TR EM CARBONATITOS ........................................... 274 8.6.5- DEPÓSITOS DE DIAMANTES EM KIMBERLITOS ........................................ 275 8.6.6- DEPÓSITOS DE PEGMATITOS ...................................................................... 276 ........................................................................... 277 8.7.1- DEPÓSITOS HIDROTERMAIS DE FILIAÇÃO MAGMÁTICA ........................ 278 Depósitos hidrotermais relacionados a intrusões félsicas ........................ 278 Depósitos de Cu-Au (Fe) do tipo IOCG ........................................................ 278 Depósitos de Sn-W em greisens .................................................................. 279 Depósitos de Cu-Mo porfiríticos ................................................................... 280 Depósitos hidrotermais relacionados a vulcanismo continental .............. 281 Depósitos epitermais de metais preciosos ................................................. 281 Depósitos hidrotermais relacionados a vulcanismo submarino ............... 283 Depósitos de sulfetos maciços vulcanogênicos (VMS) .............................. 283 Depósitos de formações ferríferas bandadas tipo Algoma ........................ 285 8.7.2- DEPÓSITOS HIDROTERMAIS DE FILIAÇÃO NÃO MAGMÁTICA ................ 287 Depósitos hidrotermais relacionados a sistemas sedimentares ............... 287 Depósitos de Pb-Zn em rochas clásticas do tipo Sedex ............................ 287 Depósitos de Pb-Zn em rochas carbonáticas do tipo vale do Mississippi 288 Depósitos hidrotermais relacionados com metamorfismo dinâmico ....... 290 Depósitos auríferos em zonas de cisalhamento ......................................... 290 REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS .......................................................................... 291 ATIVIDADES DO MÓDULO 3 .................................................................................... 292 221 Deformação das rochas Na unidade 3 deste documento (tectônica de placas) foi mostrado a dinâmica da litosfera de nosso planeta, com movimentos tectônicos dos continentes, formação de oceanos e cadeias de montanhas, associados com metamorfismo e deformação das rochas. Denomina-se geologia estrutural a parte das geociências que estuda a deformação das rochas e as estruturas decorrentes dessas deformações que ocorrem desde a escala microscópica, em cristais componentes das rochas, até a escala macroscópica dos blocos continentais. O estudo das estruturas geológicas é de grande importância nas ciências da Terra, pois evidencia o estado dinâmico da litosfera e da crosta terrestre, onde vivemos. As estruturas geológicas têm grande importância prática também no armazenamento de hidrocarbonetos (petróleo e gás), água e minérios, e em obras de engenharia civil como barragens, pontes, túneis e estradas. As feições de deformação mais comuns nas rochas da crosta terrestre são dobramentos e falhamentos. Dobras se formam por deformação sem rompimento (Fig. 6.1a), mas frequentemente as rochas dobradas são apenas parcialmente expostas como uma camada inclinada (Fig. 6.1b). Por outro lado, falhas se formam quando ocorre rompimento das rochas (Fig. 6.1c), normalmente em decorrência de terremotos. A atitude ou orientação de uma camada é um dado importante para reconstituir a história de deformação das rochas. A atitude das camadas é definida por duas medidas obtidas no campo por meio de uma bússola de geólogo: direção (strike) e mergulho (dip). A direção é definida pela orientação geográfica da linha de intersecção da camada com uma superfície horizontal (medida na bússola em graus), enquanto que o mergulho é a inclinação da camada, medido na direção perpendicular à sua direção (Fig. 6.2). Mapas geológicos são instrumentos importantes para elucidar a evolução dos processos deformacionais que afetaram as rochas de uma região. Nos mapas são registados os tipos de rochas, localização de afloramentos e atitudes das camadas rochosas, como aparecem na superfície (em planta). A terceira dimensão, com dadosde profundidade, é observada nas seções geológicas transversais que mostram as feições que seriam visíveis se um corte vertical fosse feito na região mapeada, reconstituídas pelas atitudes das camadas, estruturas geológicas mapeadas e afloramentos de penhascos (face vertical) e cortes de estradas (Fig. 6.3). a b Figura 6.1- camada de rocha dobrada (a). Camadas inclinadas de calcáreo e folhelho, Somerset, Inglaterra (b). As crianças estão andando ao longo da direção das camadas. Falha mostrando o deslocamento das camadas, Monte Carmel, Utah, EUA (c). c 222 Antes de abordar os principais tipos de estruturas geológicas, serão considerados os fundamentos dos processos mecânicos da deformação e das forças que a provocam. A dinâmica da litosfera impõe forças de tensão vetoriais (stress) aos maciços rochosos, provocando movimentos de massa e deformação (strain) nesses maciços. As tensões compressivas são positivas e as tensões distensivas são negativas. compressão (tensão positiva) distensão ou extensão (tensão negativa) Uma força vertical F (tensão) atuando sobre um plano inclinado P, fazendo um ângulo com a horizontal, pode ser descomposta em duas componentes, uma Figura 6.2- Atitude de uma camada. Direção: 30 NE (N30E), Mergulho: 45 para NW (45 NW). Figura 6.3- Mapa geológico de uma sequência rochosa dobrada e uma seção transversal (AB) derivada do mapa, mostrando a sequência temporal das camadas, sendo 1 a camada mais antiga e 4 a mais nova. As linhas pontilhadas reconstroem a parte erodida da dobra no afloramento, conectando camadas idênticas de um flanco e de outro da dobra. Observar que a charneira da dobra foi erodida, mas ainda ficou preservada a parte inferior (mais antiga) da charneira, denominada no mapa de camada 1. N 223 perpendicular ao plano inclinado, denominada componente normal (FN) e outra paralela ao plano inclinado, denominada componente cisalhante (FS) e, portanto, F = FN + FS. O ângulo θ que o plano P faz com a horizontal será igual ao ângulo que a força vertical F faz com a sua componente normal (FN) porque as duas linhas que definem esses dois ângulos são perpendiculares entre si. Desse modo, a componente normal (FN) será igual ao produto da força F pelo cosseno de θ (FN = Fcosθ) e a componente cisalhante (FS) será igual ao produto da força F pelo seno de (FN = Fsenθ), conforme a figura 6.4. Quando uma força vetorial (pressão dirigida) atua sobre uma superfície, o seu efeito em relação à área da superfície denomina-se esforço (), medido pela razão entre a força e a área (A) sobre a qual a força é aplicada ( = F/A), cuja magnitude será inversamente proporcional à área (quanto maior a área menor o esforço e vice-versa). Um corpo rochoso submetido a tensões e esforços mecânicos pode sofrer as seguintes modificações ou deformações em relação a situação inicial: Rotação, em que o corpo rochoso é rotacionado (mudança de atitude), Fig. 6.5a; Translação, em que o corpo rochoso é deslocado (mudança de posição), Fig. 6.5b; Dilatação, em que o corpo rochoso muda de volume (Fig. 6.5c), podendo aumentar (dilatação positiva) ou diminuir de volume (dilatação negativa ou contração), Distorção, em que o corpo rochoso muda de forma (Fig. 6.5d). Um corpo rochoso sob a ação de um esforço distensivo tende a sofrer dilatação positiva (aumento de volume), enquanto que sob a ação de um esforço compressivo tende a sofrer dilatação negativa ou contração (diminuição de volume). a b c d Figura 6.5- Tipos de deformação: mudança de atitude ou rotação (a), mudança de posição ou translação (b), mudança de volume ou dilatação (c) e mudança de forma ou distorção (d). Figura 6.4- Força (tensão F) vertical atuando sobre um plano inclinado P, fazendo um ângulo com a horizontal, decomposta nas componentes normal (FN) e cisalhante (FS). F = FN + FS. FN = Fcosθ FS = Fsenθ 224 As forças vetoriais tectônicas (pressão dirigida) que deformam as rochas podem ser de três tipos principais (Fig. 6.6): forças compressivas colineares (tensões positivas) que comprimem e encurtam um corpo rochoso (dilatação negativa, Fig. 6.6a); forças extensionais colineares (tensões negativas) que alongam um corpo rochoso (dilatação positiva) e tendem a segmenta-lo (Fig. 6.6b); Forças de cisalhamento que são tensões não colineares, formando um binário, que empurram cada lado de um corpo rochoso em direções opostas, causando deformação por rotação (Fig. 6.6c). Esses três tipos de forças tectônicas atuam nos três tipos de limites de placas litosféricas: forças compressivas predominam em limites de placas convergentes, onde as placas se movimentam uma contra a outra; forças extensionais predominam em limites de placas divergentes, onde as placas se afastam uma da outra; e forças de cisalhamento que atuam em limites de placas conservativos ou transformantes, onde as placas deslizam horizontalmente uma em relação à outra. Existe ainda situações intermediárias de participação da uma componente cisalhante (movimentação horizontal) associada tanto com esforços compressivos como distensivos. Em função da pressão litostática (PLit)/profundidade na crosta e da temperatura, os processos de deformação podem ser divididos em dois domínios principais (Fig. 6.7): Rúptil ou frágil, com predominância de deformações com rompimento, em ambiente raso (˂15 Km), e Dúctil ou plástico, com predominância de deformações plásticas (sem rompimento), em ambiente profundo (>15 Km). Em regiões de alto gradiente geotérmico (linha AGT-BP, na figura 5.7), o regime dúctil inicia em menor profundidade, com menor pressão litostática. Por outro lado, em regiões de baixo gradiente geotérmico (linha BGT-AP, na figura 6.7), o regime dúctil inicia em maior profundidade, com maior pressão litostática. c b a Figura 6.6- Tipos de forças tectônicas: compressivas que apertam e encurtam um corpo (a), extensivas que estiram um corpo e podem rompê-lo (b) e cisalhante que empurram dois lados opostos de um corpo (c). Comprime e encurta um corpo Estira e tende a romper um corpo Figura 6.7- Domínios de deformação em função da pressão litostática (profundidade) e temperatura. AGT (BP): alto gradiente geotérmico (regime de baixa pressão). BGT (AP): baixo gradiente geotérmico (regime de alta pressão). Empurra dois lados em direções opostas 225 Um terceiro domínio mais restrito ocorre entre a crosta superior e inferior e entre os regimes rúptil e dúctil, em que ocorrem deformações elásticas (sem rompimento) que retornam à situação inicial quando cessa o esforço que a provocou, ao contrário das deformações plásticas que, uma vez ocorridas, são irreversíveis (Fig. 6.8). Entretanto, o comportamento da deformação não depende somente da profundidade, depende também dos tipos de materiais que compõem as rochas. Existem rochas naturalmente mais frágeis, como as rochas ígneas, metamórficas e rochas sedimentares clásticas, e rochas mais dúcteis como as rochas sedimentares pelíticas (siltitos e argilitos) que comportam-se plasticamente, mesmo em profundidades rasas. As feições estruturais que se formam em regime dúctil são: dobramentos produzidos por forças de compressão (Fig. 6.9a), estiramentos causados por forças de extensão (Fig. 6.9b) e deformações com rotação produzidas por cisalhamento (Fig. 6.9c). As rochas que se formam por metamorfismo dinâmico em regime dúctil são os milonitos. Em regime rúptil, as principais feições estruturais são falhas inversas ou de empurrão produzidas por compressão (Fig. 6.10a), falhas normais causadas por forças de extensão (Fig. 6.10b) e falhas transcorrentes, com movimentação horizontal, causadas por cisalhamento(Fig. 6.10c). As rochas que se formam em regime rúptil são cataclasitos e brechas. Na região de transição rúptil-dúctil pode ocorrer ainda rochas com associações de feições estruturais rúpteis (fraturas e falhas) e dúcteis (dobras e estiramentos), podendo predominar feições rúpteis ou dúcteis. Figura 6.8- Modelo sandwich dos domínios de deformação rúptil, dúctil e elástico na litosfera. Figura 6.9- Feições estruturais em regime dúctil: dobras produzidas por compressão (a), estiramentos causados por extensão (b) e deformações com rotação provocadas por cisalhamento (c). b a c 226 As principais feições de deformação rúpteis são as juntas e falhas. As juntas ou fraturas são fissuras em rochas frágeis, sem deslocamento dos blocos fraturados, provocadas por forças tectônicas compressivas, extensivas ou de cisalhamento. Podem ser formadas também por esforços não tectônicos causados por expansão e contração provocadas por aquecimento e resfriamento climático superficial ou por denudação erosiva que alivia a pressão litostática, provocando expansão das rochas e formação de juntas de alívio (esfoliação esferoidal). Por outro lado, falha é uma fratura com movimento relativo dos blocos rochosos, em ambos os lados da fratura. As falhas são feições estruturais comuns em cadeias de montanhas, em margens continentais ativas, em vales rifts, em margens de placas tectônicas divergentes e também em margens de placas conservativas, com movimentos horizontais. Os esforços tectônicos também podem provocar falhamentos nas rochas longe dos limites das placas. As falhas podem ser muito grandes, como a falha transformante de Santo André, com quase 1.300Km de extensão, em movimento horizontal ativo na Califórnia, EUA (Fig. 6.11), ou muito pequenas, como a falha normal da figura 6.1c. Figura 6.10- Feições estruturais em regime rúptil: falhamentos inversos ou de empurrão produzidos por compressão (a), falhas normais provocadas por extensão (b) e falhas transcorrentes causadas por cisalhamento (c). a b c Figura 6.11- Falha transformante de Santo André, Califórnia, EUA, entre a placa Pacífica e a placa Norte Americana, mostrando a linha de falha tracejada vermelha e o deslocamento do córrego Wallace atravessado pela falha, cujo curso à leste da linha da falha se deslocou 130m para sul em relação ao curso à oeste da falha. 227 6.3.1- PRINCIPAIS ELEMENTOS GEOMÉTRICOS DAS FALHAS é a superfície onde ocorreu o movimento da falha que pode ser plana ou curva (Fig. 6.12). Falhas com superfície curva são denominadas falhas lístricas. O é definido pela sua direção e mergulho, conforme ilustrado na figura 6.2. é o bloco situado acima da superfície ou plano de falha, e é o bloco situado abaixo do plano ou superfície de falha. é a parte exposta da falha, normalmente saliente na topografia (Fig. 6.12a), e ou de falha corresponde a intersecção da superfície ou plano de falha com a superfície topográfica, representada em mapa como uma linha que marca o traçado médio das diversas superfícies subparalelas de uma zona de falha na superfície (Fig. 6.11). Outra feição importante é a desenvolvida no plano de falha (Fig. 6.12a e 6.13). Rejeito de uma falha é o deslocamento entre dois pontos previamente adjacentes, situados em lados (blocos) opostos da falha e medido no plano da falha. Denomina-se rejeito direcional o rejeito ao longo da direção de uma falha, e rejeito de mergulho o rejeito na direção do mergulho da falha. A falha pode possuir somente rejeito direcional, somente rejeito de mergulho ou os dois rejeitos. Neste último caso, a somatória dos rejeitos direcional e de mergulho denomina-se rejeito total (Fig. 6.14). Figura 5.12- Principais elementos geométricos de uma falha (a): plano de falha, lapa ou teto, capa ou muro e escarpa de falha. Falha lístrica com superfície de falha curva (b). Figura 6.13- Estrias de atrito sub-horizontais em plano de falha em meta-arenitos do grupo Camaquã, Rio Grande do Sul, Brasil. Figura 6.14- Rejeito de uma falha: Rejeito direcional (Rd), rejeito de mergulho (Rm). Rejeito total (Rt = Rd + Rm), rejeito aparente (Ra = Rm). Rt = Rd + Rm a b 228 6.3.2- CLASSIFICAÇÃO DAS FALHAS As falhas podem ser classificadas em quatro tipos, de acordo com a direção do movimento relativo entre os blocos. Quando o movimento ocorre somente na direção do mergulho do plano de falha, existem dois casos, ambos com rejeito de mergulho (Rm): , na qual a capa desce em relação a lapa, condicionado por esforços distensivos (Fig. 6.15a); , na qual a capa sobe em relação a lapa, condicionado por esforços compressivos (Fig. 6.15b). é aquela cujo movimento ocorre somente ao longo da direção do plano da falha, com rejeito direcional (Rd), condicionado por esforços de cisalhamento que provocam rotação, podendo ser dextral (sentido horário) ou sinistral (anti-horário, figura 6.16a). Uma falha transcorrente de grande porte que limita placas tectônicas é denominada falha transformante, como a falha Santo André (dextral). é aquela cujo movimento é inclinado em relação à direção e ao mergulho do pano da falha, com rejeito direcional (Rd) e de mergulho (Rm), condicionados por esforços de cisalhamento associados com compressão ou extensão. Esforços extensionais associados com cisalhamento formam falhas oblíquas equivalentes a falhas normais com uma componente direcional de rejeito (Fig. 6.16b), enquanto que esforços compressivos associados com cisalhamento formam falhas oblíquas equivalentes a falhas inversas com uma componente direcional de rejeito. Se as forças extensionais que formam as falhas normais romperem uma placa tectônica, pode formar um vale em rift (Fig. 6.17), como os rifts das dorsais meso- oceânicas e o rift do Mar Vermelho. Falhas inversas de baixo ângulo ( 45), em que a capa é empurrada sobre a lapa, são denominadas de falhas de cavalgamento (Fig. 6.18), muito frequentes em cadeias de montanhas de cinturões orogênicos, como resultado do processo de encurtamento crustal provocado pelas forças compressivas em margens continentais ativas. Figura 6.15- Falhas com movimento dos blocos na direção do mergulho do plano de falha: Falha normal, condicionada por esforços distensivos (a), falha inversa ou de empurrão, condicionada por esforços compressivos (b). Figura 6.16- Falha direcional ou transcorrente, com movimento sinistral na direção do plano de falha (a). Falha oblíqua, com movimento normal + transcorrente, inclinado em relação à direção e mergulho da falha (b). b a b a 229 As principais feições de deformações dúcteis são os dobramentos, observados normalmente em rochas com uma estrutura planar anterior, como acamamento sedimentar ou foliação metamórfica, encurvados por esforços tectônicos ou não tectônicos compressivos, associados ou não com cisalhamento. As dobras são feições estruturais comuns em cadeias de montanhas de cinturões orogênicos, com dimensões muito variadas, desde a escala macroscópica, com dobras quilométricas representadas em mapas, mesoscópica, com dobras métricas ou centimétricas observadas em afloramentos e amostras de rochas, até a escala microscópica, com dobras milimétricas ou submilimétricas observadas ao microscópio. O grau do encurvamento depende da magnitude das forças aplicadas, do tempo de ação das forças e da natureza das rochas afetadas. Feições de deformação dúcteis também se formam por efeitos de esforços Figura 6.17- Rift do mar Vermelho, mostrando os falhamentos normais dos blocos rochosos no centro do vale, provocados pelos esforços extensionais. Figura 6.18- Falha de cavalgamento de Keystone, Nevada,EUA, mostrando o cavalgamento das camadas D, C, B sobre as camadas D, C, B, A. A camada B é um calcário cambriano que ficou sobreposto a arenitos jurássicos, 350 Ma mais jovens. 230 distensivos, originando feições estiradas, como foliações miloníticas, lineações minerais (6.19a) e boudins que são camadas ou lentes de material mais rígido que sofrem estiramento e estrangulamento, normalmente com rompimento (Fig. 6.19b). PRINCIPAIS ELEMENTOS GEOMÉTRICOS DAS DOBRAS Dobra é uma superfície encurvada ou dobrada. Pode-se destacar os seguintes elementos geométricos de uma dobra (Fig. 6.20): é a zona de maior curvatura de uma dobra. é a linha que une os pontos de curvatura máxima da superfície dobrada e é aquela que une os pontos de inflexão das dobras, que correspondem à curvatura mínima das superfícies dobradas. Essas duas linhas podem ser retas ou curvas, dependendo da geometria da superfície dobrada. é uma superfície (curva ou plana) que contém a linha de charneira. Se a superfície axial é plana denomina-se , cuja linha de charneira também é uma reta denominada . A orientação dessa superfície ou plano axial e sua linha de charneira (ou eixo) definem a posição espacial da dobra. A intersecção da superfície ou plano axial com a topografia resulta em uma linha denominada traço axial da dobra que é representado em mapas geológicos. são os dois lados de uma dobra, separados pela superfície ou plano axial. A linha de charneira ou eixo da dobra fica na zona da charneira, enquanto que a linha de inflexão fica nos flancos da dobra. de uma dobra é plano perpendicular a linha de charneira ou eixo da dobra, onde deve ser observado a morfologia e o estilo das dobras (Fig. 6.20). CLASSIFICAÇÃO DAS DOBRAS Dependendo das propriedades das rochas e da magnitude e direção das forças compressivas aplicadas, as rochas acamadas podem se dobrar de muitas maneiras, havendo, portanto, diversos critérios de classificação das dobras. a Figura 6.19- Feições de deformação dúcteis em regimes extensionais (estiramentos): foliação milonítica associada com lineação mineral em quartzo estirado (a) e com boudins (b). Figura 6.20- Elementos geométricos de uma superfície dobrada, definida pelo arco do círculo inscrito (em azul), com superfície axial plana (plano axial PA) e linha de charneira reta (eixo), mostrando também a linha de inflexão (Li), zona de charneira (Zc), flanco (Fl) e perfil da dobra (plano P). b Eixo PA 231 Com base na geometria e morfologia das dobras 3 tipos podem ser distinguidos, com base nesse critério (Fig. 6.21): A superfície dobrada dessas dobras pode ser gerada pela translação de uma reta que corresponde ao eixo e geratriz da dobra (linha de charneira reta). O eixo da dobra é uma das retas da superfície de um cilindro (Fig. 6.21a). A base desse cilindro é o círculo que define a curvatura da dobra na zona da charneira superposta em um arco da base circular do cilindro (em azul na figura 6.21a). A grande maioria das dobras são cilíndricas ou aproximadamente cilíndricas. a superfície dobrada pode ser gerada pela translação de uma linha curva que corresponde à linha de charneira e geratriz da dobra (Fig. 6.21b). mais raras. A superfície dobrada pode ser gerada pela rotação de uma linha geratriz (linha de charneira) em torno de um eixo imaginário (Fig. 6.21c). Com base na orientação espacial da curvatura das dobras (concavidade) Com base nesse critério distingue-se dois tipos fundamentais (Fig. 6.22): ou antiforme, com a concavidade da curvatura para baixo e fechamento da estrutura para cima. ou sinforme, com a concavidade para cima e fechamento da estrutura para baixo. Anticlinório e sinclinório são estruturas antiformais e sinformais de grande porte, com sinclinais e anticlinais menores em seus flancos. Com base na orientação espacial definida pelos seus eixos e superfícies axiais Com base nesse critério, três categorias básicas de dobras podem ser distinguidas. Em dobras cilíndricas as superfícies axiais são planos axiais (PA). PA vertical ou subvertical (80 a 90) e eixo com inclinação variável (horizontal, inclinado e vertical), conforme a figura 6.23. eixo horizontal ou sub-horizontal (0 a 10) e PA com caimento variável (vertical, inclinado e horizontal), conforme a figura 6.24. eixo e PA inclinados 80 a 90º, conforme a figura 6.25d. Figura 6.22- Classificação das dobras com base na situação espacial da curvatura da superfície dobrada: anticlinais, com concavidade para baixo e sinclinais, com concavidade para cima. a b c Figura 6.21- Classificação das dobras com base em sua morfologia e geometria: Dobras cilíndricas (a); dobras curviplanares (b), dobras cônicas (c). 232 As dobras normais (PA vertical ou subvertical) podem ser de três tipos principais, de acordo com a inclinação de seus eixos: , com eixo horizontal ou sub- horizontal (Fig. 6.23a), , com eixo inclinado 10 a 80 (Fig. 6.23b) e , com eixo vertical ou subvertical (Fig. 6.23c). As dobras horizontais (eixo horizontal ou sub-horizontal) podem ser também de três tipos principais, de acordo com a inclinação de seus planos axiais (PA): , com PA vertical ou subvertical (Fig. 6.24a), , com PA inclinado 10 a 80 (Fig. 6.24b) e , com PA horizontal ou sub-horizontal (Fig. 5.24c). Os seis tipos das duas categorias de dobras mostrados acima (3 normais e 3 horizontais) são, na verdade, cinco tipos, pois o primeiro tipo normal (Fig. 5.23a) e o primeiro tipo horizontal (Fig. 5.24a) são a mesma dobra (normal horizontal ou horizontal normal), com PA vertical e eixo horizontal. Nesses cinco tipos de dobras houve variação de inclinação só no eixo (dobras normais) ou só no PA (dobras horizontais). A terceira categoria são as que apresentam variação de inclinação tanto no eixo como no plano axial (Fig. 6.25d). Essas três categorias de dobras podem ser melhor visualizadas no diagrama da figura 6.25a. Nesse diagrama, as dobras horizontais (tipos 2 a 5, Fig. 6.25b) estão situadas no eixo horizontal que exibe o mergulho das superfícies axiais das dobras, e as dobras normais estão situadas no eixo vertical do diagrama (tipos 6 a 9, Fig. 6.25c) que exibe o caimento do eixo das dobras. No cruzamento dos dois eixos ocorre o tipo 1 que é uma dobra normal e também horizontal (PA vertical e eixo horizontal). A terceira categoria de dobras (reclinadas), com eixo e PA inclinados (Fig. 6.25d), situam-se no campo marrom do diagrama, entre as dobras horizontais recumbentes (tipo 5, com PA e eixo horizontais) e as dobras normais verticais (tipo 9, com PA e eixo verticais), que apresentam algumas características tanto das dobras verticais (direção do eixo perpendicular à direção do PA), como das dobras horizontais (eixos e PA com a mesma direção e flancos mergulhando para o mesmo lado). Independentemente da orientação do eixo e plano axial das dobras, elas podem ser anticlinais ou sinclinais (Fig. 6.26). No caso das dobras verticais e recumbentes, se as rochas mais antigas estiverem na parte côncava da dobra ela será anticlinal e se estiverem na parte convexa ela será sinclinal. Figura 5.24- Tipos de dobras horizontais (eixo horizontal), de acordo com a orientação de seus planos axiais (PA): dobra normal (a), dobra inversa (b) e dobra recumbente (c). Figura 6.23- Tipos de dobras normais (PA vertical), de acordo com a inclinação de seus eixos: dobra horizontal (a), dobra inclinada ou com caimento (b), e dobra vertical (c). a b c a b c 233 As dobras normais (PA vertical) em geral são simétricas, com os dois flancos mergulhando com o mesmo ângulo em sentidos opostos, simetricamente em relação ao plano axial (Fig. 6.27a), independentemente do mergulho do eixo. Por outro lado, as dobras inversase reclinadas (PA inclinado) normalmente são assimétricas, com os flancos mergulhando com ângulos diferentes, tanto em sentidos opostos, como em algumas dobras inversas com mergulho suave do PA (Fig. 6.27b), como no mesmo sentido, acompanhando a direção do PA, como nas dobras inversas com mergulho forte do PA e dobras reclinadas (Fig. 6.27c). Uma característica comum das dobras com flancos mergulhando no mesmo sentido é a inversão estratigráfica em um de seus flancos, com as camadas mais novas embaixo das mais antigas. Figura 5.25- Classificação das dobras com base no mergulho do plano axial (PA) verus caimento do eixo das dobras. PA vertical e eixo inclinado Eixo horizontal e PA inclinado PA inclinado e eixo inclinado b c d Figura 6.26- Anticlinal horizontal (a) e com caimento (b). Sinclinal com caimento (c). a b c b c a Figura 6.27- Dobra normal simétrica (a). Dobras inversas assimétricas, com os flancos mergulhando com ângulos diferentes em sentidos opostos (b) e dobras reclinadas com os flancos mergulhando com ângulos diferentes no mesmo sentido do plano axial (c). a 234 Com base no ângulo interflancos da superfície dobrada As dobras podem ser classificadas em: suaves (180-120), abertas (120-70), fechadas (70-30), apertadas (30-0) e isoclinal (0, flancos paralelos), conforme a figura 6.28a. O ângulo interflancos de uma superfície dobrada é definido pelo ângulo de duas tangentes que passam nos pontos de inflexão dos dois flancos da dobra (Fig. 6.28b). são estruturas circulares ou ovais, normalmente de grande porte, com morfologia sinformal (relevo depressivo), no primeiro caso (Fig. 6.29a), e antiformal (relevo positivo), no segundo (Fig. 6.29b). Nessas duas estruturas as camadas de seus flancos mergulham radialmente em direção a um ponto central (convergente), no caso de uma bacia, e a partir de um ponto central (divergente), no caso do domo. Figura 5.28- Classificação das dobras com base no ângulo interflancos (a). Ângulo interflancos ( ) de uma superfície dobrada (b). a b Formação mais antiga exposta na superfície Figura 6.29- Perfil NW-SE da bacia sedimentar do Paraná, mostrando as camadas mergulhando para o centro da bacia (a). Domo de Sinclair, Wyoming, EUA, mostrando as camadas mergulhando para fora da estrutura (b). b a 235 MECANISMOS DE FORMAÇÃO DAS DOBRAS As dobras tectônicas podem ser formadas por dois tipos de mecanismos de deformação compressiva: (backling), com compressão na direção das camadas, produzindo uma flexão (encurvamento) das camadas que deslizam entre elas, com encurtamento perpendicularmente à superfície axial das dobras, denominadas dobras flexurais (Fig. 6.30a). Esse tipo de mecanismo é favorecido em sequências estratificadas com alternâncias de camadas rúpteis, como arenitos e quartzitos, e camadas mais dúcteis, como rochas pelíticas (siltitos, argilitos e xistos) e, normalmente, preserva a espessura e o comprimento das camadas. Se a compressão é muito intensa, a rocha sofre flexão inicial e posterior achatamento (flattening), com adelgaçamento nos flancos e espessamento na zona da charneira da dobra. (shearing), com esforço transversal à direção das camadas, produzindo encurvamento das camadas causado pelos deslizamentos transversais (Fig. 6.30b). As dobras de cisalhamento sofrem mudança na espessura e comprimento das camadas, com espessamento na zona da charneira e adelgaçamento dos flancos, sem encurtamento ortogonal às camadas, podendo ocorrer rompimento dos flancos e formação de dobras apertadas com planos axiais paralelos aos estratos, denominadas dobras intrafoliais (Fig. 6.30c). As dobras atectônicas são de ocorrência restrita, provocadas pela força da gravidade em ambiente sedimentar quando os sedimentos saturados em água, em profundidade, adquirem fluidez. Os esforços de compactação dos sedimentos, durante a diagênese, também podem levar à formação de dobras atectônicas. As estruturas geológicas são muito importantes na reconstituição da evolução geológica de uma região e também são elementos de destaque na modelagem da paisagem da superfície crustal, onde vivemos. Além disso, as estruturas geológicas constituem importantes elementos de controle em diversos processos geológicos, como magmatismo e sedimentação, sobretudo as fraturas e falhas, que podem condicionar a migração de magma e a formação de bacias sedimentares. Geralmente a história geológica de uma região envolve uma sucessão de episódios de deformação, entre outros processos geológicos. Entretanto, o que se observa é o estágio final da evolução geológica. Usando os conceitos geológicos, os geólogos conseguem reconstituir os diversos episódios da evolução da região, como exemplificado na figura 6.31. Dobras e falhas são também importantes no controle de formação de depósitos minerais, reservatórios de água subterrânea, petróleo e gás, e em obras de engenharia civil, como barragens, túneis, estradas, etc. Corpos mineralizados, como filões e pipes, c Figura 6.30- Mecanismos de dobramentos: Flambagem, com dobras flexurais (a); dobra de cisalhamento (b). Dobras intrafoliais em zona de cisalhamento (c). a Flexão b 236 podem ocorrer em zonas de distensão (abertura de espaço) condicionadas por falhamentos e por dobramentos (Fig. 6.32). Figura 6.31- Reconstituição da evolução geológica de uma província fictícia, em 5 estágios. Estagio 1: Deposição sedimentar em camadas horizontais no fundo do mar. Estagio 2: Forças compressivas causam dobramentos e falhamentos na sequência sedimentar. Estagio 3: Soerguimento e erosão das rochas, formando uma nova superfície horizontal. Estagio 4: Erupções vulcânicas cobrem a nova superfície erosional com derrames e lavas Estagio 5: Forças extensionais causam falhas normais, originando blocos abatidos e seccionando as feições anteriores. 1 2 3 4 5 Situação inicial (Interpretada) Situação final (atual) 237 a b c Figura 6.32- Corpos mineralizados em zonas de distensão em falhas transcorrentes curvas, dextral (a) e sinistral (b) e em charneiras de dobras (c). 238 Uma das mais importantes diferenças entre os geólogos e os demais cientistas está na forma como lidar com o tempo. Físicos e químicos estudam alguns processos que duram frações de segundo, como a separação de um núcleo atômico ou uma reação química rápida, e outros que podem durar minutos, horas ou dias. Historiadores lidam com séculos e alguns milhares de anos, e arqueólogos com algumas dezenas de milhares de anos. Os geólogos, por outro lado, lidam com processos que podem se desenvolver em diferentes escalas de tempo, desde tremores de terra que duram segundos ou minutos, até o soerguimento de cadeias de montanhas e a abertura de oceanos que duram vários milhões de anos (Fig. 7.1). Além disso, físicos e químicos estudam normalmente processos atuais, enquanto que os geólogos estudam processos que já aconteceram, em um passado remoto da história da Terra. Desse modo, tal como a história e arqueologia, a geologia é uma ciência histórica, cujo principal objetivo é desvendar a evolução e história temporal dos processos geológicos desde a origem da Terra, em uma escala do tempo que chega a bilhões de anos, na qual a dimensão de tempo humana, medida em alguns milhares de anos, não chega a representar um instante. As durações de processos geológicos de curta duração, como os ciclos de enchente e vazante dos rios e o movimento das geleiras, podem ser medidas diretamente por relógios ou calendáriosconvencionais. Entretanto, como medir e sequenciar processos geológicos de longa duração? São esses os principais desafios da geologia. Quando as cadeias de montanhas, como os Andes e os Himalaias, começaram a se formar? Como se formaram os oceanos, como o Atlântico e o Pacífico? E porque a Terra passa por frequentes idades do gelo? Para responder tais questionamentos, é necessário métodos e instrumentos adequados para caracterizar os processos geológicos do passado e medir os longos períodos de tempo envolvidos nesses processos o que, evidentemente, não pode ser feito por relógios convencionais. Para reconhecer e caracterizar os processos geológicos antigos, os geólogos procuram por vestígios desses processos que ficam preservados nas rochas, tal como um investigador a procura de indícios de um acontecimento já ocorrido. As rochas preservadas da erosão funcionam como uma espécie de memória da Terra, onde ficam armazenados registros dos processos geológicos que as formaram ou as afetaram. Entretanto, frequentemente os vestígios geológicos são incompletos, removidos pela erosão e/ou superpostos com outros processos, dificultando sua interpretação. E que Figura 7.1- Escala logarítmica do tempo de duração de alguns processos geológicos e físicos. 239 relógios seriam capazes de medir o tempo geológico? Além de medir a idade das rochas, é preciso um método que permita comparar as idades das rochas situadas em continentes separados e construir um calendário geológico que possa ser utilizado em todo o planeta para estabelecer a sequência em que as rochas e os processos geológicos, inclusive a evolução da vida, se formaram em suas respectivas idades. Esse instrumento, denominado , foi elaborado após dois séculos de pesquisas geológicas. Os geólogos do século 19 estabeleceram princípios e métodos que permitiram determinar as idades relativas dos estratos sedimentares e, desse modo, definir uma ordem cronológica para os eventos geológicos que formaram as formações rochosas. A datação relativa, com base principalmente no conteúdo fossilífero das rochas, permitiu a elaboração inicial da escala geológica do tempo. Posteriormente, no século 20, a partir da década de 1920, os geólogos passaram a utilizar a física do decaimento radioativo de alguns elementos químicos, como o urânio, rubídio e potássio, para determinar a idade isotópica (idade absoluta) das rochas, o que permitiu quantificar mais precisamente o tempo geológico e aperfeiçoar a escala geológica do tempo, tema principal dessa unidade. Princípios fundamentais da geologia histórica Os únicos registros disponíveis dos eventos geológicos passados são aqueles encontrados de forma incompleta nas rochas que se preservaram da erosão e dos processos de subducção. Considerando que somente rochas dos assoalhos oceânicos atuais mais recentes que 200Ma sobreviveram à subducção, a busca por rochas mais antigas que possam evidenciar grande parte da história geológica da Terra deve concentrar-se nos continentes. 6.2.1- CRITÉRIOS ESTRATIGRÁFICOS A estratificação ou acamamento, uma estrutura sedimentar característica, constitui a base de três princípios simples, definidos pelo cientista dinamarquês Nicolaus Steno, no século 17, e utilizados para interpretar os eventos geológicos a partir de registros em rochas sedimentares (Fig. 7.2): , pelo qual as camadas sedimentares são depositadas originalmente em posição horizontal. Camadas inclinadas ou dobradas são consideradas deformadas por esforços tectônicos, após a sua deposição. Entretanto, sabe-se atualmente que esse princípio não se aplica em pelo menos duas situações específicas: ambientes sedimentares de alta energia, onde se formam estratificações cruzadas e deposição em superfícies inclinadas como leques aluviais e frentes deltaicas. , pelo qual, em uma sequência não perturbada tectonicamente, cada estrato sedimentar é mais novo que aqueles sotopostos (que lhe servem de base) e mais antigo que aqueles que o sobrepõem (que o cobrem). Esse princípio relaciona cada camada a uma unidade de tempo e uma série de camadas a uma espécie de linha de tempo vertical, ou seja, um registro parcial ou completo de um intervalo de tempo entre a camada inferior e a superior. , pelo qual as camadas sedimentares são contínuas, estendendo-se e normalmente estreitando-se até as margens da bacia de deposição. Atualmente sabe-se também que nem sempre isso acontece, pois pode haver passagem lateral com interdigitação entre camadas diferentes. Com base nos princípios de Steno, uma sequência vertical de estratos sedimentares, denominada sucessão estratigráfica, pode ser considerada um registro cronológico da história geológica de uma região. Em uma sequência estratigráfica não perturbada pode-se dizer que uma camada é mais antiga que outra sobreposta, embora não se pode especificar a diferença de idade entre elas. Ou seja, as relações 240 estratigráficas podem fornecer as idades relativas das camadas, mas não as idades absolutas, pelas seguintes razões: A taxa de deposição dos sedimentos varia amplamente, não só entre os diferentes ambientes como também em um mesmo ambiente de sedimentação. Em uma sequência estratigráfica, frequentemente não ocorre sedimentação contínua entre o estrato mais antigo e o mais novo, havendo intervalos de tempo sem deposição ou removidos pela erosão. Embora esses lapsos de deposição possam ser reconhecidos, normalmente não é possível estabelecer com precisão quanto tempo esse intervalo representa. Além disso, a definição das idades relativas somente com base nas relações estratigráficas normalmente é restrita às regiões onde haja continuidade das exposições rochosas e não funcionam bem entre regiões muito distantes, sem continuidade dos afloramentos entre elas. Para interpretar os registros geológicos, os princípios de Steno são associados com outros critérios, tais como: interpretação de estruturas geológicas, como falhas, dobras e discordâncias, evidências de subsidência, soerguimento, deformação e erosão, e reconstrução dedutiva dos ambientes sedimentares de deposição e das condições originais das rochas que foram deformadas e metamorfisadas. Os lapsos de sedimentação foram estuados por James Hutton, no final do século 18, que os denominou de , definidas como uma superfície entre duas camadas sedimentares que não foram depositadas em uma sequência contínua (Fig. 6.3 e 6.4). Desse modo, uma discordância representa um intervalo de tempo sem deposição, causado normalmente por duas maneiras: Soerguimento tectônico da região, expondo a sequência sedimentar acima do nível do mar e, portanto, à erosão. Abaixamento do nível do mar causado, por exemplo, por glaciação, até que a sequência sedimentar fique exposta e sujeita à erosão. De acordo com a relação entre o pacote de camadas superiores e inferiores, as discordâncias podem ser classificadas em três tipos: , ou discordância erosiva, entre um conjunto superior de camadas, assentadas sobre uma superfície erosiva, e um pacote inferior de camadas não deformadas, dispostas na posição horizontal (Fig. 7.3). discordância na qual um pacote superior de camadas sobrepõe-se a um pacote inferior cujas camadas foram dobradas ou basculadas por processos tectônicos e sofreram erosão antes da deposição do pacote superior. Em uma discordância angular, portanto, o acamamento dos dois pacotes de camadas (superior e o inferior), não são paralelos (Fig. 7.4a). A figura 7.4b mostra uma espetacular discordância angular entre dois pacotes sedimentares na base da sequência do Grand Canyon, Colorado, EUA. , ou discordância litológica, em que o pacote superior de camadas recobre rochas não sedimentares (metamórficas ou magmáticas). Figura 7.2- Interpretação do ambiente de deposição de uma sequência sedimentar no canyon Marble, um braço do Grand Canyon, Colorado, EUA (a) e das idades relativas das camadas (b).a b 241 Uma discordância erosiva (desconformidade) representa um intervalo de tempo em que a sequência sedimentar ficou exposta à erosão (sem deposição), causada normalmente por soerguimento tectônico ou abaixamento do nível do mar, cujos indícios, de um ou outro mecanismo, podem ser verificados no registro geológico. Por outro lado, em uma discordância angular, além da erosão sofrida pela camada inferior, esta foi deformada e dobrada de tal forma que seus estratos não se encontram mais na posição horizontal, fazendo um ângulo em relação a camada superior não deformada. Figura 7.3- Discordância erosiva (desconformidade), formada por meio de soerguimento e erosão da sequência sedimentar, seguido de subsidência e outro ciclo sedimentar. A erosão removeu a camada D e parte da C, deixando uma superfície irregular de morros e vales. Soerguimento tectônico das camadas acima do nível do mar, expondo-as à erosão Os sedimentos acumulam-se sob o mar nas camadas A-D. subsidência da região com subida do nível do mar e invasão marinha. Nova deposição de uma camada E sobre a camada C, preservando a superfície irregular entre as camadas E e C, como uma discordância. 242 Subsidência da região com subida do nível do mar e invasão marinha. Novo ciclo sedimentar sobre a superfície erosiva do ciclo anterior, preservando a superfície erosiva como uma discordância angular. Figura 7.4- Discordância angular, formada por meio de soerguimento e erosão da sequência, com dobramento e deformação da sequência sedimentar, seguido de subsidência e novo ciclo sedimentar (a). Discordância angular no Grand Canyon (b). a b Discordância angular na base da sequência sedimentar do Grand Canyon, Colorado, EUA, entre o arenito horizontal Tapeats e o folhelho pré-cambriano Wapatai sotoposto e fortemente dobrado. Os sedimentos acumulam-se em camadas sob o nível do mar Soerguimento tectônico com dobramentos, deformação das camadas e formação de montanhas Remoção do topo das camadas pela erosão, deixando um plano irregular de várias camadas dobradas. a 243 Outro critério importante utilizado na interpretação das idades relativas, resgatado dos registros geológicos, são as relações de seccionamento, tais como intrusões de corpos magmáticos e deslocamentos provocados por falhas. (Fig. 7.5), também definido inicialmente por James Hutton. Se um corpo magmático (dique ou outros plutons) é intrusivo em uma rocha, esta rocha é mais antiga que o corpo magmático. Do mesmo modo, se uma feição geológica de uma rocha (acamamento, foliação, etc.) foi deslocada por uma falha, a rocha que contém a feição é mais antiga que a falha. : Os sedimentos acumulam-se em camadas sob o nível do mar. : Soerguimento tectônico com dobramento e deformação das camadas sedimentares durante a formação de cadeia de montanha. : Intrusão de dique magmático nas camadas dobradas, cortando-as transversalmente. Como o dique corta as camadas dobradas, conclui-se que a sedimentação e o dobramento antecederam a intrusão. : Falhamento desloca as camadas e o dique, o que indica que o falhamento é considerado posterior à intrusão do dique, ou seja, o último evento reconhecido na região. Figura 7.5- Duas feições de seccionamento que ajudam a estabelecer as idades relativas dos eventos geológicos: intrusão de corpos magmáticos (dique) no tempo 3 (a) e granito intrusivo (b). Falha geológica que corta as camadas e o dique no tempo 4 (a). Vale do rio Tilt, Escócia, mostrando um granito penetrando (intrudindo) rochas sedimentares mais antigas, onde James Rio Tilt a b Hutton concebeu o princípio das relações de seccionamento. 244 Nas três últimas décadas do século passado, foi desenvolvido o conceito de sequências estratigráficas, auxiliado pela geofísica (sismologia, Fig. 7.6a). A sequência é um conjunto de estratos sedimentares limitados no topo e na base por discordâncias (Fig. 7.6b). Um exemplo típico são as sequências deltaicas, nas quais duas sequências normalmente se formam: sequência basal (A nas figuras 7.6b, c), constituída por sedimentos clásticos finos (argila e lama) e uma sequência de topo (B nas figuras 7.6 b, c) formada por areias que avançam mar a dentro à medida que o delta cresce. Se o nível do mar subir, uma nova sequência deltaica se forma em direção ao continente (C nas figuras 7.6b, d), constituindo uma sequência transgressiva. Se o nível do mar descer, forma uma nova sequência estratigráfica regressiva em direção ao oceano. 7.2.2- CRITÉRIOS PALEONTOLÓGICOS: com base nos fósseis As limitações das interpretações das idades relativas com base apenas nas relações estratigráficas foram em parte solucionadas com os fósseis que se tornaram a ferramenta mais importante na construção de uma escala geológica do tempo global, antes do advento da geocronologia isotópica. Um dos primeiros pensadores modernos a reconhecer os fósseis como vestígios de vida antiga foi Leonardo da Vinci, no século 15. Mas foi somente no final do século 18 que a Paleontologia (campo das geociências que estuda os fósseis) se estabeleceu como ciência, ao lado da Geologia, com o objetivo de estudar a vida antiga a partir do registro fóssil. Fósseis bem preservados só ocorrem em rochas sedimentares. Eles não resistem às altas temperaturas magmáticas e raramente são encontrados em rochas metamórficas, pois quando ocorrem nessas rochas encontram-se tão deformados que dificilmente podem ser reconhecidos. Figura 7.6- Sequência deltaica transgressiva mostrada no perfil sísmico (a), com três sequências (b). A interpretação do perfil: uma sequência deltaica se formou (c), com duas unidades, A (basal) e B (topo), sobreposta por uma terceira sequência transgressiva C (d). a b c d 245 Os fósseis mais antigos conhecidos são de estromatólitos, encontrados em rochas com idades entre 3.800 a 3.500Ma, da era pré-cambriana. Os estromatólitos são estruturas orgânicas tubiformes, silicosas ou carbonáticas, formadas por micro- organismos unicelulares primitivos, procarionte (células sem núcleo), principalmente cianobactérias. Os fósseis de estromatólitos constituem as primeiras evidências diretas de vida primitiva (Fig. 7.7a, b). A partir de 2.500Ma o registro fóssil da vida na Terra tornou-se progressivamente mais rico, revelando uma espetacular evolução adaptativa dos seres pioneiros da vida terrestre. A partir de 2.000Ma surgiram os primeiros micro- organismos unicelulares eucariontes, formados por células com núcleo, como os fungos. Fósseis de fungos são raros, pois estes micro-organismos não possuem partes duras e são observados somente em estruturas fossilizadas interpretadas como colônias fúngicas. As algas marinhas foram os primeiros organismos multicelulares que surgiram na Terra, cujos fósseis também são raros e ocorrem principalmente como moldes preservados nas rochas (Fig. 7.7c), pois as algas antigas não possuíam partes duras. Moldes fósseis interpretados como de algas vermelhas, datados de 1600Ma, encontrados na Índia, são os vestígios mais antigos de vida vegetal reconhecida. Após a glaciação Marinoan (há cerca de 650 a 635Ma), surgiram os primeiros seres invertebrados do reino animal, no final da era pré-cambriana, há 600Ma, que evoluíram em uma sequência de picos biológicos no período Cambriano (543 a 510Ma) e deixaram um robusto registro fóssil. O primeiro pulso produziu seres invertebrados simples, como águas vivas e samambaias, e também organismos invertebradoscom exoesqueleto (casulo ou carapaça), como os metazoários namacalathus (Fig. 7.8a, b), os primeiros organismos reconhecidos com exoesqueleto calcífero, que viveram apenas 7Ma e foram logo extintos, no final da era pré-cambriana. O segundo pulso foi um breve período entre 545 e 530Ma em que houve uma explosão biológica, referida como Big Bang biológico cambriano, no qual surgiram 8 ramos do reino animal invertebrado, com exoesqueleto, incluindo os ancestrais de quase todos os animais que conhecemos hoje. Eram criaturas esquisitas, como o hallucigenia (Fig. 7.8c), além de vermes terrestres e marinhos, estrelas do mar, moluscos, insetos, crustáceos, cordados (Fig. 7.8d) e os trilobitas, um tipo invertebrado da classe dos artrópodes, extinto no permiano (Fig. 7.8e). Esses organismos cambrianos, com partes duras ricas em cálcio, deixaram, pela primeira vez, carcaças fósseis bem preservadas no registro geológico, como os protozoários foraminíferos e radiolários, micro-organismos protistas planctônicos, com carapaças carbonáticas (foraminíferos) ou silicosas (radiolários), encontrados como microfósseis em sedimentos marinhos (Fig. 7.9a, b), desde o cambriano até o recente. Diatomáceas são algas unicelulares microscópicas com carapaças silicosas, o fitoplâncton mais comum nos ambientes marinhos e lacustres, que produzem, por fotossíntese, 20 a 50% do oxigênio liberado para a atmosfera a cada ano. Braquiópodes são organismos invertebrados marinhos com carapaças bivalves calcíferas ou fosfáticas (Fig. 7.9c, d), encontrados como fósseis, do cambriano ao recente. Figura 7.7- Formação ferrífera arqueana (3,77 Ga) com estromatólito, Quebec, Canada (a). Estromatólito carbonático arqueano de 3,7 Ga, em Isua, Groenlândia (b). Molde fóssil de alga, deserto da Austrália (c). b a c 246 Foi um agrimensor inglês, William Smith, um dos pioneiros na aplicação dos fósseis na estratigrafia para definir as idades relativas das camadas e fazer correlações estratigráficas. Ao trabalhar na construção de canais para escoamento de carvão, na Grã-Bretanha, Smith observou que as camadas de rochas sedimentares expostas nos canais podiam ser ordenadas com base nas características peculiares das rochas e dos fósseis nelas contidos, o que permitia definir as idades relativas dos conjuntos de estratos, mesmo que regionalmente descontínuos. As observações de Smith, na Inglaterra, juntamente com os trabalhos dos cientistas franceses Georges Cuvier (paleontólogo) e Alexandre Brongniart (engenheiro de minas), na passagem do século 18 para o 19, resultaram na definição do princípio de sucessão fóssil (ou sucessão biótica): fósseis ocorrem em conjuntos característicos das sucessivas épocas em que os organismos viveram, aparecendo sempre na mesma ordem, onde quer que os fósseis ocorram. Este princípio permite utilizar os fósseis para definir as idades relativas das rochas sedimentares em todo o mundo, por meio das correlações fossilíferas ou bioestratigráficas (Fig. 7.10). a b c d Figura 7.8- Fósseis do Pré-cambriano: moldes fósseis de namacalathus (a) e a reconstituição de sua forma (b). Fósseis do Cambriano: hallucigenia (c), cordado (d) e trilobita (e). e 0,1 mm a 0,1 mm b 3,0 cm c d Figura 7.9- Fósseis de foraminíferos (a), diatomáceas (b) e radiolários (c, d), este último moldes fósseis de carapaças de radiolário na rocha. 247 Uma categoria de fósseis, reconhecida primeiramente por Smith na Inglaterra e por Cuvier e Brongniart na França, merece destaque especial: os fósseis guias ou fósseis índices que são fósseis relativamente abundantes e facilmente reconhecíveis, de distribuição geográfica ampla e distribuição temporal (ou estratigráfica) restrita. São fósseis, portanto, de organismos que se espalharam rapidamente por grandes áreas e evoluíram para outras formas de vida ou se extinguiram em pouco tempo. Por causa dessas características, os fósseis guias são excelentes marcadores temporais que permitem correlações bioestratigráficas muito precisas em diferentes regiões da Terra. Em geral, os microfósseis apresentam melhores características de preservação, abundância, variedade, distribuição geográfica e temporal, para datações relativas e correlações bioestratigráficas. Em rochas marinhas, os melhores fósseis guias são de microrganismos planctônicos (microalgas, foraminíferos e radiolários), enquanto que em rochas continentais, esporos e grãos de pólen são os melhores fósseis. Para explicar todo esse espetacular registro fóssil nas rochas sedimentares, surgiram dois conceitos radicalmente opostos: catastrofismo de G. Cuvier, proposto em 1796, pelo qual o registro fóssil seria o resultado de sucessivas extinções cataclísmicas globais, seguidas pela criação de nova fauna e flora; evolução biológica de Charles Darwin, publicada em sua obra clássica “Origem das espécies”, de 1859, pela qual a grande diversidade do registro fóssil ao longo do tempo geológico seria o resultado da interação entre os seres e o meio ambiente, com a sobrevivência das formas de vida mais bem adaptadas ao meio e extinção daquelas que não conseguiram se manter, por meio da seleção natural. 6.2.3- ESCALA DO TEMPO GEOLÓGICO No século 19 e início do século 20, os geólogos utilizaram os princípios de datação relativa e reuniram informações de afloramentos de todo o mundo para compor uma escala geológica do tempo completa e global, um verdadeiro calendário de idades relativas da história geológica da Terra, em que cada intervalo de tempo está relacionado a um pacote de rochas e seus respectivos fósseis. Embora a escala do tempo geológico tenha sido melhor calibrada por meio da datação absoluta, surgida no início do século 20, e ainda esteja em constante aperfeiçoamento, suas principais divisões, estabelecidas originalmente, têm se mantido inalteradas. A escala do tempo geológico foi dividida, inicialmente, em três unidades principais de tempo: eras, períodos e épocas, da maior duração temporal (era) para menor duração (época). Posteriormente, já na metade do século 20, as eras foram agrupadas em uma unidade de tempo maior, o éon, com três Figura 7.10- Correlação bioestratigráfica entre três regiões (1, 2 e 3). Entre as regiões 2 e 3 ocorre somente a sequência A e na região 3 a sequência B não ocorre. 248 éons, do mais antigo para o maior jovem: Arqueano, Proterozoico e Fanerozoico. Um quarto éon (Hadeano) foi introduzido para o período inicial da Terra, antes do Arqueano. (do grego hades: inferno), é o éon mais antigo. Começou em torno de 4.570 milhões (Ma) ou 4,57 bilhões (Ga) de anos, com o início do processo de formação dos planetas do sistema solar e terminou, na Terra, há aproximadamente 3,85Ga quando surgiram as primeiras rochas do planeta, marcando o início do éon Arqueano. Portanto não há registro de rocha com idade hadeana. (do grego archaios: antigo), entre 2,85 e 2,5Ga. Durante o Arqueano, os sistemas do geodínamo, da tectônica de placas e do clima, entraram em atividade. Formaram-se os núcleos da maioria dos continentes, quando o sistema de tectônica de placas operava de modo um pouco diferente de como passou a atuar nos éons posteriores. Fósseis de organismos unicelulares primitivos (estromatólitos) ocorrem em algumas rochas arqueanas. , do grego próteros (anterior) e zoicós (vida), entre 2,5Ga e 543Ma. Durante o Proterozoico, os regimes de tectônica de placas e do clima passaram a ser semelhantes aos do Fanerozoico. No Proterozoico, micro-organismos fotossintéticos (microalgas) passaram a produzir oxigênio, o qual começou a reagir com o ferro reduzido (Fe+2) disponível nos oceanos, formando expressivos depósitos de óxido de ferro nos oceanos. A precipitação de óxido de ferro manteve o nível de oxigênio muito baixo na atmosfera proterozoica até que todo o ferro dos oceanosfosse consumido. Com o fim da precipitação de óxido de ferro, o teor de oxigênio da atmosfera começou a subir e, no final do Proterozoico, atingiu os níveis atuais (21%), o que pode ter promovido a evolução de formas de vida unicelulares para algas e animais multicelulares, preservados no registro fóssil do Proterozoico. , do grego phanerós (visível) e zoikós (vida), o mais recente e mais bem estudado éon que abrange os últimos 543Ma da história da Terra. Muitas sequências de rochas do Fanerozoico contêm abundantes fósseis de organismos invertebrados e vertebrados. A grande maioria das reservas de petróleo e gás formaram- se durante o Fanerozoico. O éon Fanerozoico é subdividido em três : (vida antiga), entre 543 a 251Ma, (vida média), entre 251 a 65Ma, e (vida recente), a partir de 65Ma ao presente (Fig. 7.11a). As eras foram as unidades maiores de tempo durante a montagem da escala do tempo geológico, no século 19, as quais foram subdivididas em 11 , com base no registro fóssil de rochas sedimentares, e denominados conforme o nome da localidade geográfica onde as formações geológicas estão melhor expostas, ou onde foram descritas pela primeira vez, ou ainda por alguma característica peculiar das formações. Rochas afossilíferas (ígneas e metamórficas) não foram diretamente envolvidas na construção inicial da escala do tempo geológico. Desse modo, o período mais antigo, com rochas fossilíferas, foi definido no País de Gales, onde foi observado o contato de rochas fossilíferas mais antigas da Grã-Bretanha com rochas ígneas e metamórficas mais antigas ainda, porém aparentemente sem fósseis. Essa importante discordância tornou-se a base do primeiro período da escala do tempo geológico, denominado Cambriano, em alusão ao nome romano da Inglaterra (Cambria). Como as rochas ígneas e metamórficas (sem fósseis), mais antigas que o Cambriano, não puderam ser subdivididas, foram incluídas em uma unidade temporal denominada Pré-cambriano, uma espécie de superéon que engloba os éons Hadeano, Arqueano e Proterozoico. Nomes de outros períodos foram derivados de termos geográficos, como o Devoniano (de Devonshire, Inglaterra), Permiano (da cidade de Perm, Rússia), Jurássico (dos montes Jura, na França e Suíça), ou de termos geológicos, como Carbonífero, em referência às rochas portadoras de carvão da Europa e América do Norte, ou de termos culturais, como Ordoviciano e Siluriano, em alusão aos nomes das tribos Ordovices e 249 Silures que habitavam o País de Gales. O período Triássico foi denominado em referência a sua subdivisão em três sequências litológicas distintas, e o Cretáceo, do francês cré (giz em português), em referência a grande quantidade de calcáreo fino nas rochas desse período. As denominações dos dois períodos mais jovens, Terciário e Quaternário, foram termos herdados das arcaicas denominações de rochas terciárias e quaternárias. Os 11 períodos foram agrupados nas três eras: Paleozoico, com 5 períodos (Cambriano, Ordoviciano, Siluriano, Devoniano, Carbonífero e Permiano), Mesozoico, com três períodos (Triássico, Jurássico e Cretáceo) e Cenozoico, com dois períodos (Terciário e Quaternário). Os períodos são subdivididos em , sendo as mais bem conhecidas aquelas do período Terciário, subdividido em cinco épocas: Paleoceno (65 a 57,8Ma), Eoceno (57,8 a 36,6Ma), Oligoceno (36,6 a 23,7Ma), Mioceno (23,7 a 6,0Ma) e Plioceno (6 a 1,8Ma atrás), e do Quaternário, subdividido em duas épocas: Pleistoceno (1,8 a 0,012Ma) e Holoceno (11,65 mil anos ao presente), conforme a figura 7.11a. Figura 7.11- Escala do tempo geológico (a), com 4 éons, 3 eras do éon Fanerozoico e 11 períodos (6 na era paleozoica, 3 na mesozoica e 2 na cenozoica). Fita do tempo geológico (b). 65 a b 0,012 250 As épocas podem ainda ser subdivididas em , normalmente medida em milhares de anos (ma). Por exemplo, a época atual (Holoceno) é subdivida em três idades: Gronelandês (11,65 a 8,33ma), cujo início foi marcado pela última glaciação há 11,65ma, Norte-Gripiano (8,2 a 4,2ma), cujo início foi marcado por uma pequena idade do gelo há 8,2ma, denominada 8,2Kiloyear event, e Meghalaiano (4,2ma ao presente), a idade atual. O início desta idade foi marcado por uma seca há 4,2ma que durou dois séculos e afetou praticamente todas as civilizações humanas da época (Egito, Grécia, Roma, Fenícia, Ásia Menor Síria, Mesopotâmia). Discute-se atualmente se os impactos da humanidade no planeta justificam a criação de uma nova época do período Quaternário, denominada Antropoceno, cujo início seria marcado pela revolução industrial no final do século 18, mas não há ainda uma definição nem da criação dessa nova época e nem de seu início. A montagem da escala do tempo geológico mudou a concepção temporal da história da Terra. Antes dessa escala do tempo, muitos cientistas, fortemente influenciados por dogmas religiosos, imaginavam a evolução da Terra modelada por uma série de eventos catastróficos ocorridos em apenas poucos milhares de anos. A escala do tempo geológico mostra que a Terra, tal como se encontra atualmente, é o produto de uma série de processos geológicos operando uniformemente e lentamente durante um intervalo de tempo muito maior, medido em milhões ou até bilhões de anos, uma mudança impressionante na dimensão do tempo. Entretanto, todo o espetacular e imenso trabalho inicial foi feito em rochas sedimentares fossilíferas do éon Fanerozoico que engloba somente os últimos 540Ma da história da Terra, o que representa apenas em torno de 12% do tempo geológico total de 4,56Ga (faixa verde e amarela na Fig. 7.11b). O Pré-cambriano (éons Hadeano, Arqueano e Proterozoico) corresponde aos 88% do tempo restante da história da Terra (faixa laranja, azul e lilás na figura 7.11b) que não podia ser estudado com base nos fósseis. Essa maior e importante parte da história de nosso planeta só começou a ser melhor estudada com o advento da datação absoluta pelos métodos radiométricos ou geocronológicos. Datação absoluta 7.3.1- INTRODUÇÃO A datação relativa com base nos fósseis tem duas limitações importantes como ferramenta cronológica: permite apenas ordenar os processos e as rochas em uma sequência temporal, sem determinar suas idades absolutas; restringe a datação às rochas fossilíferas (sedimentares), que começaram a se formar apenas no início do Paleozoico, quando a Terra já tinha pouco mais de 4 bilhões de anos. A datação com base nos fósseis não abrange as rochas magmáticas e metamórficas (afossilíferas) que compõem em torno de 95% do volume da crosta. Para superar essas duas limitações precisava-se descobrir um método de datação absoluto que pudesse datar rochas ígneas e metamórficas. Em 1986, o físico francês Antoine H. Becquerel descobriu a radioatividade do urânio e em 1898 o casal de físicos franceses, Marie e Pierre Curie, descobriram mais dois elementos radioativos, o rádio (Ra) e o polônio (Po). Pelo feito, Becquerel e o casal Curie ganharam o prêmio Nobel de física de 1903. Em 1905, o físico neozelandês Ernest Rutherford demonstrou que a radioatividade dos elementos ocorre por um processo espontâneo de desintegração (ou decaimento) do núcleo que emite partículas e radiação eletromagnética, com uma taxa de decaimento constante, transformando um elemento radioativo em outro elemento estável. Como a taxa de decaimento radioativo não é afetada por mudanças físicas e químicas do meio onde ocorre, Rutherford sugeriu que a radioatividade poderia ser usada como relógio natural para calcular a idade absoluta de uma rocha ou mineral. Ele chegou a calcular a idade de amostras de minerais de urânio, com base no decaimento do rádio para hélio (He), e obteve uma idade em torno de 251 500Ma. Estava dado, portanto, o pontapé inicial para desenvolver um método confiável e preciso de datação absoluta das rochas por meio da radioatividade,ramo das geociências que passou a denominar-se geocronologia. A radioatividade é uma reação nuclear que ocorre em isótopos radioativos de alguns elementos. O núcleo desses elementos é instável e se transforma espontaneamente em outro elemento com emissão de partículas e liberação de energia radioativa, processo denominado decaimento ou desintegração radioativa. O elemento com núcleo instável (radioativo) que está desintegrando é denominado elemento-pai e o elemento formado a partir do decaimento do elemento-pai é o elemento-filho. Durante o decaimento de um isótopo radioativo, a reação continua até o elemento pai se transformar em um elemento filho estável (isótopo radiogênico), após um determinado tempo de decaimento. Isótopos são elementos químicos com o mesmo número atômico (Z) e diferentes números de massa (A). Ex.: existem dois isótopos estáveis do carbono (Z = 6), o carbono 12 ( 12 6C), com A = 12, e o carbono 13 ( 13 6C), com A = 13, e diversos isótopos radioativos, sendo o mais comum o carbono 14 ( 14 6C), com A = 14, (Fig. 7.12). Três tipos de decaimento ocorrem nos processos radioativos (Fig. 7.13): Decaimento alfa ( ): o núcleo instável emite uma partícula (2 prótons + 2 nêutrons) e, portanto, o elemento-filho terá seu número atômico (Z) reduzido em 2 unidades e seu número de massa reduzido em 4 unidades. Ex.: U92 238 Th90 234 + + + energia. Decaimento beta (): um dos nêutrons do núcleo instável transforma-se em próton por emissão de uma partícula (elétron), aumentando o número atômico (Z) do elemento- filho em 1 unidade, sem alterar sua massa. Ex.: Rb37 87 Sr38 87 + ‾ + energia. Captura de elétrons: um próton do núcleo instável captura um elétron da camada de elétrons em volta do núcleo e se transforma em nêutron, diminuindo o (Z) do elemento-filho em 1 unidade, sem alterar seu número de massa (A). Ex.: K19 40 + e‾ Ar18 40 + + energia. Gama ( ) é uma radiação eletromagnética energética e de pequeno comprimento de onda, subproduto dos decaimentos , e captura de elétrons. Figura 7.12- Três isótopos de carbono (Z = 6): 12 6C (estável), 13 6C (estável) e 14 6C (radioativo). b a c Figura 7.13 Tipos de decaimento radioativo: emissão de partícula (a); emissão de partícula (b); captura de elétron (c). 252 Rutherford demonstrou que o decaimento radioativo é um processo nuclear exponencial que nunca termina, e que pode ser representado pela equação M = MO/2x, onde M é a massa do elemento filho e MO a massa do elemento radiativo que está decaindo, cuja unidade (x = 1) ele denominou de . Desse modo, meia-vida corresponde ao tempo decorrido para que metade da quantidade original de isótopos radioativos se transforme em isótopos estáveis, denominados radiogênicos (Fig. 7.14). O princípio da datação radiométrica baseia-se no seguinte: conhecendo-se a quantidade de um isótopo radiogênico estável (filho) recém-formado e do isótopo radioativo (pai) que lhe deu origem, bem como a taxa de decaimento do par de isótopos, é possível calcular o tempo que transcorreu desde que o relógio radioativo (decaimento do isótopo pai) começou a bater. Por meio de análises isotópicas quantitativas em equipamentos denominados espectrômetros de massa, se obtém a quantidade que ainda resta do isótopo radioativo (pai) e do isótopo estável (filho) gerado pelo decaimento do isótopo radioativo. Com os valores analíticos obtidos pelo espectrômetro e a meia- vida do par de isótopos (pai e filho), é possível calcular a quantidade original do isótopo radioativo (pai), quando não havia ainda isótopos radiogênicos (filho) e quanto tempo levou para produzir a quantidade de isótopo estável (filho) obtida pelo espectrômetro de massa, que deve corresponder à idade do mineral ou rocha que contém o par de isótopos. Por exemplo, o rubídio (Rb), com Z=37, tem um isótopo radioativo, o rubídio 87 (87Rb) que, por meio de um decaimento beta (emissão de elétrons), forma um isótopo filho estável, o estrôncio 87 (87Sr), com Z=38 (Fig. 7.15). Análises isotópicas de uma amostra de rocha em um espectrômetro de massa forneceram a razão entre átomos de 87Rb e 87Sr como sendo 24:1. Sabendo-se que a meia-vida do 87Rb/87Sr é 48,8Ga, pode-se calcular a idade da rocha: Átomos iniciais de 87Rb: 25 (24+1) 100% Átomos finais de 87Sr: 1 (4%) Meia-vida (48,8Ga) 50% (idade) 4% = 3,9Ga 235U 40Ar=0 40K original (elemento pai) 1 P ro p o rç ão d e át o m o s p ai r es ta n te s 40Ar (elemento filho) 235U=1 207Pb=0 207Pb 235U=½ 235U 235U = ¼ 207Pb Figura 7.14- Demonstração gráfica do decaimento do 235U para 207Pb, com meia-vida = 704Ma (a), e do 40K para 40Ar, com meia-vida = 1.250 Ma (b), com aumento exponencial do elemento filho (207Pb, 40Ar) em relação ao elemento pai (235U, 40K) que está decaindo. a b Figura 7.15- Decaimento radioativo do 87Rb/87Sr 253 3,9Ga foi o tempo decorrido desde que o rubídio da amostra analisada (acima) começou a decair, formando estrôncio. Apesar do tempo muito longo, apenas 4% do rubídio inicial foi transformado em estrôncio, por causa da meia-vida muito alta do par isotópico 87Rb/87Sr (48,8Ga). Se a amostra analisada é de uma rocha ígnea ou metamórfica, o tempo calculado deve corresponder à idade da rocha, porque o processo de cristalização magmática ou metamórfica provoca a perda do estrôncio radiogênico anterior, zerando o relógio isotópico. A partir do momento que a rocha cristaliza, o estrôncio radiogênico não pode mais escapar, o que só poderá acontecer se a rocha sofrer fusão ou for metamorfisada. Existem vários outros pares de isótopos radioativos e radiogênicos (pais e filhos) que são utilizados nos métodos geocronológicos. A escolha do método depende da composição do material a ser analisado, da noção de antiguidade da amostra e do tipo de problema geológico ou histórico a ser investigado (Fig. 7.16). O método U/Pb em zircão (silicato de zircônio que hospeda urânio radioativo), é utilizado principalmente para obter idades magmáticas, mesmo se a rocha estiver metamorfisada, pois o metamorfismo normalmente não consegue destruir o zircão, um mineral muito estável. Os métodos 87Rb/87Sr, 40K/40Ar e 40Ar/39Ar são mais sensíveis, zerando o sistema isotópico em temperaturas mais baixas que as magmáticas, podendo ser afetados pelos processos metamórficos e, portanto, podem ser usados para datar rochas metamórficas. Para datação de eventos humanos, de milhares de anos, é utilizado o carbono 14 ( 14 6C), cuja meia vida é de 5.730 anos. Esses métodos tornaram-se viáveis com o aprimoramento dos espectrômetros de massa, a partir da década de 1950 do século passado, e também dos procedimentos químicos para preparar as amostras. Tal como o par 87Rb/87Sr, cujo isótopo radiativo (87Rb) se transforma para o isótopo filho (87Rb) por apenas um decaimento (emissão beta, sem mudar a massa A do filho), no par 40K/40Ar também o isótopo radioativo (40K) se transforma para o isótopo filho (40Ar) por um único decaimento (captura de elétrons, sem mudar a massa A do Figura 7.16- Principais métodos geocronológicos utilizados nas geociências para datação de rochas e minerais. O primeiro elemento do par é o isótopo pai e o segundo o filho. 254 filho). Entretanto os isótopos de urânio e tório possuem decaimento bem mais complexos, com uma série de decaimentos alfa e beta sequenciados até chegar no isótopo estável (Fig. 7.17). Em rochas magmáticas metamorfisadas, para datar os dois processos deve-se utilizar dois métodos geocronológicos: o U/Pb para datar o magmatismo e um outro método mais sensível a temperatura, como o 39Ar/40Ar (Fig. 7.18).7.3.2- MÉTODO Rb-Sr As idades isotópicas são normalmente obtidas por meio de diagramas X-Y isocrônicos, construídos com razões de dois pares de isótopos analisados, um no eixo horizontal (X) e o outro no eixo vertical (Y), para obter uma curva, normalmente reta, denominada isócrona. No método 87Rb/87Sr, os dois isótopos, o radioativo pai (87Rb) e o radiogênico filho (87Sr) são normalizados pelo isótopo de estrôncio estável (86Sr). Entretanto, nem todo o 87Sr foi originado pelo decaimento do 87Rb, uma vez que já havia uma quantidade inicial de 87Sr na rocha quando o 87Rb começou a decair. No eixo vertical, então, fica a razão entre o 87Sr total (radiogênico + inicial) e o estrôncio estável (87Sr/86Sr), e no eixo horizontal fica a razão entre o 87Rb e o estrôncio estável (87Rb/86Sr). Figura 7.17- Série de decaimento radioativo do 238U para 206Pb, cuja meia-vida é 4,47Ga. As setas para esquerda são decaimento alfa, com aumento do A, e as setas tracejadas para a direita são decaimento beta, sem mudança no A, acompanhados por liberação de hélio (He). ( ) ( ) Figura 7.18- Datação de um granito metamorfisado por dois métodos geocronológicos: U/Pb em zircão para datar o magmatismo e o 39Ar/40Ar para datar o metamorfismo. 255 As amostras podem ser de minerais ou de rocha total do corpo a ser datado, mas precisam apresentar alguma variação nos valores das razões para que se possa construir a isócrona. Se as amostras são todas cogenéticas (da mesma idade) devem ter se cristalizado com a mesma razão inicial dos isótopos de estrôncio (87Sr/86Sr) e os pontos deverão se alinhar, formando a isócrona (Fig. 7.19). A inclinação da reta é proporcional à idade das amostras e pode ser calculada pela equação da reta. Conhecendo-se a constante de desintegração do 87Rb pode-se calcular a idade do conjunto de amostras e a sua razão inicial. A razão inicial 87Sr/86Sr tem grande significado petrogenético, pois valores baixos (entre 0,702 e 0,706) indicam origem mantélica do material, e valores altos (em torno de 0,73) indicam origem crustal. A interseção da isócrona com o eixo Y determina a razão inicial (87Sr/86Sr) da rocha, o que permite recompor situação isotópica inicial (a, b, c), quando não havia estrôncio radiogênico (87Sr), somente o 87Sr inicial (igual para todas as amostras). Quando o 87Rb começou a decair para produzir o 87Sr radiogênico, esse processo evoluiu ao longo das linhas aa’, bb’, cc’ (perpendiculares à isócrona) até a situação atual (a’, b’, c’). O alinhamento dos pontos (a’, b’, c’) indica que as amostras são cogenéticas (com a mesma idade e com a mesma razão inicial). 7.3.3- MÉTODO U-Pb O método U/Pb em zircão é um dos mais importantes na geocronologia moderna por causa da sua precisão e abrangência, sobretudo em rochas magmáticas e metamórficas, nas quais tem exercido um papel fundamental no estudo de rochas antigas. O método é baseado no decaimento de dois isótopos radioativos de urânio (235U e 238U) que geram respectivamente os isótopos radiogênicos de chumbo 207Pb e 206Pb. Os diagramas isocrônicos são construídos com as razões 206Pb/U238 no eixo vertical e 207Pb/U235 no eixo horizontal. Uma curva teórica de idades, denominada concórdia, é construída com base na desintegração dos dois isótopos radioativos de urânio. Cada par isotópico (206Pb/U238 e 207Pb/U235) gera uma idade independente que teoricamente são coincidentes em um ponto na curva concórdia. As análises das amostras a serem datadas são plotados no diagrama e quando recaem sobre a concórdia definem uma idade concordante para a rocha. Entretanto, as análises das amostras podem não coincidir exatamente com a curva concórdia por causa de eventuais perdas de Pb causadas por stress metamórfico ou tectônico sofrido pelo zircão, definindo idades discordantes. Por outro lado, os pontos das amostras formam uma reta, normalmente abaixo da concórdia, denominada discórdia, que intercepta a concórdia. O ponto de Figura 7.19- Diagrama isocrônico Rb/Sr. Os pontos a, b, c representam a situação inicial das 3 amostras, com o mesmo valor do isótopo estável de estrôncio (86Sr) e valores diferentes do isótopo radioativo (87Rb). Os pontos a’, b’, c’ representam a situação atual das 3 amostras. Y=ax+b b = coeficiente linear b = razão inicial 87Sr/86Sr a = coeficiente angular = tg tg = = constante de decaimento do 87Rb. = idade das amostras 256 intercepção entre a concórdia e a discórdia é interpretado como a idade da amostra (Fig. 7.20a). Além do zircão, podem ser usados outros minerais que contenham urânio na sua estrutura cristalina, como a titanita (CaTiSiO5) e monazita (Ce,La,Y,Th)PO4. Estes dois minerais, porém, são mais sensíveis a temperatura e abrem o sistema isotópico entre 650 e 700C, podendo ser afetados por processos metamórficos de alto grau. O zircão (Fig. 7.20b) é um silicato muito estável (ZrSiO4) que só abre seu sistema isotópico a partir de 800C, o que o torna mais adequado para datar rochas magmáticas mesmo que tenham sido afetadas por metamorfismo. 6.3.4- MÉTODO RADIOCARBONO O método radiocarbono, com base no decaimento do carbono 14 (14C) para nitrogênio 14 (14N), foi desenvolvido no início da década de 1950 do século passado, para datação de eventos humanos, de milhares de anos. O carbono (Z = 6) possui três isótopos: 12C6, 13C6, 14C6, este último radioativo, formado na atmosfera superior pela colisão de raios cósmicos com átomos de nitrogênio 14 (14N7), fazendo com que um nêutron toma o lugar de um próton do núcleo do nitrogênio transformando-o em carbono 14 radiativo, com diminuição de uma unidade número atômico (14C6). O 14C6 decai novamente para (14N7) por emissão beta, com aumento de uma unidade no número atômico e meia-vida de 5.730 mil anos (Fig. 7.21). Os isótopos de carbono, inclusive o 14C, se combinam com o oxigênio da atmosfera, formando CO2 que é absorvido e continuamente renovado pelas planas e animais, mantendo a razão isótopo radioativo/isótopo estável (14C/12C) praticamente constante enquanto o organismo viver. Ao morrer, o organismo deixa de absorver carbono 14 e a razão (14C/12C) começa a diminuir, a uma taxa constante e conhecida, Figura 7.20- Diagrama isocrônico U/Pb, mostrando a curva concórdia, a reta discórdia e a idade da amostra na intercepção entre a concórdia e a discórdia (a). Cristais prismáticos de zircão (b). Cristal prismático bipiramidal de zircão ZrSiO4 0,1 mm Microcristais de zircão b a Figura 7.21- Formação do isótopo de carbono radioativo (14C6) e seu decaimento para nitrogênio 14 (14N7) por emissão beta. 257 em função do decaimento radioativo do 14C para 14N, estabelecendo um cronômetro geocronológico, como nos demais casos abordados com meia-vidas mais longas. A medição precisa da razão 14C/12C permite determinar quando o organismo morreu. O método radiocarbono revolucionou a arqueologia e as investigações sobre as antigas civilizações humanas, pois permite determinar a idade de materiais orgânicos, como ossos, conchas, dentes, troncos, folhas, etc. Por causa da curta meia-vida, esse método é efetivo para materiais com até 70 mil anos, o que corresponde em torno de 12 meia- vidas. Acima disso, a quantidade de carbono radioativo (14C) fica muito reduzida (em torno de 0,02%), abaixo do limite de detecção analítico. 7.3.5- IDADE DA TERRA Há séculos que o homem se questiona qual a idade da Terra e várias respostas, a essa pergunta, foram sendo propostas com valores cada vez mais altos. Mas a resposta final sobre a idade da Terra só pode ser obtida com a geocronologia isotópica. Mas não foi fácil chegar à resposta correta, pois as primeiras rochas formadas no éon Hadeano não existem mais, pelo menos até hoje não foram encontradas. Uma possível exceção foiuma rocha máfica encontrada no norte do Canadá, datada pelo método 147Sm/143Nd com uma idade de 4,1Ga. Um zircão, provavelmente detrítico (em rochas sedimentares) encontrado na Austrália, foi datado em 4,3Ga, pelo método U-Pb. Se não há rochas do Hadeano, como determinar, então, com precisão, a idade da Terra? Para resolver essa questão, o geoquímico americano Clair C. Paterson decidiu, em 1956, utilizar os meteoritos, com base na premissa de que esses corpos errantes do espaço devem ter a mesma idade da Terra, uma vez que se formaram na mesma época juntamente com toda a matéria do sistema solar. Patterson usou o método Pb-Pb para datar amostras de meteoritos cuidadosamente selecionados, um meteorito ferroso (siderito) e dois rochosos e ainda incluiu uma amostra de sedimento marinho do fundo oceânico do Pacífico. O chumbo é um elemento estável (não radioativo), mas seus isótopos radiogênicos (derivados de isótopos radioativos de U ou Th) podem ser usados também como relógio geocronológico. Patterson usou dois isótopos radiogênicos de Pb (206Pb e 207Pb) normalizados pelo isótopo não radiogênico 204Pb, para construir um diagrama isocrônico, com a razão 207Pb/204Pb no eixo vertical e a razão 206Pb/204Pb no eixo horizontal, e obteve um alinhamento perfeito dos pontos, com uma idade de 4,55 0,07Ga (Fig. 7.22). Além de, finalmente, obter a idade da Terra, Patterson mostrou que o alinhamento perfeito da composição isotópica do sedimento marinho com os meteoritos demonstra que a Terra e os meteoritos tiveram a mesma origem, com a mesma evolução dos isótopos de chumbo, o que comprova a sua premissa original. Décadas de investigações radiométricas posteriores em outros meteoritos e utilizando métodos mais modernos, confirmaram a idade obtida por Patterson, sendo 4,566Ga, o valor atualmente aceito para a idade da Terra. Figura 7.22- Diagrama isocrônico Pb/Pb de C. Patterson (1956) que determinou a idade da Terra, com amostras de meteoritos. 258 7.3.6- SUBDIVISÃO DOS ÉONS PRE-CAMBRIANOS A geocronologia isotópica e as datações absolutas dela decorrentes estabeleceram um marco muito importante nas geociências. Antes da geocronologia isotópica, os geocientistas do século 19 conseguiram montar a escala do tempo geológico que mudou a ordem de grandeza temporal da história da Terra, de milhares de anos, estabelecido pelos dogmas religiosos, para milhões de anos, com base principalmente nos fósseis, e foram até o limite possível do conhecimento da época, até onde havia fósseis. Denominaram de Pré-cambriano todas as rochas mais antigas abaixo desse limite, justamente porque o Cambriano era a última fronteira estudada por meios dos fósseis. Mas eles tinham apenas uma vaga impressão da grande dimensão temporal do Pré-cambriano e não imaginavam que, apesar do grande esforço para montar a escala do tempo geológico, ela cobria apenas pouco mais de 10% do tempo geológico total da história da Terra. Ao permitir o estudo e datação das rochas mais antigas do Pré-cambriano, a geocronologia isotópica mudou mais uma vez a ordem de grandeza do tempo geológico, de milhões pra bilhões de anos. Além disso, a geocronologia isotópica permitiu ajustar, de maneira mais precisa e confiável, a dimensão do tempo no éon Fanerozoico e corrigir muitas lacunas e imprecisões temporais em épocas e períodos desse éon, trabalho que ainda continua, cada vez mais refinado. No final do século 19 já se sabia que a duração do Pré-cambriano excedia em várias vezes a do Fanerozoico, mas a imensidão do Pré-cambriano só começou a ser visualizada, com mais exatidão, quando as primeiras idades absolutas de rochas antigas começaram a ser publicadas. Percebeu-se, então, o imenso trabalho que havia pela frente para estudar, cronometrar e subdividir essas rochas em eras e períodos, tal como no Fanerozoico, para completar, finalmente, a escala geológica do tempo. Os éons Proterozoico e Arqueano já foram divididos em eras e as eras proterozoicas em períodos, mas ainda há muito trabalho para as próximas gerações. O (2.500 a 542Ma), logo abaixo do éon Fanerozoico, foi subdividido em três eras, as quais estão subdivididas em períodos (tabela 7.1): ❖ (1.000 a 542Ma), subdivido em três períodos: Ediacarano (630 a 542Ma), logo abaixo do período cambriano da era paleozoica Criogeniano (850 a 630Ma) Toniano (1.000 a 850Ma) ❖ (1.600 a 1.000Ma), subdividido em três períodos: Eteniano (1.200 a 1.000Ma) Ectasiano (1.400 a 1.200Ma) Calymmiano (1.600 a 1.400Ma) ❖ (2.500 a 1.600Ma), subdividido em quatro períodos: Statheriano (1.800 a 1.600Ma) Orosiriano (2.050 a 1800Ma) Rhyaciano (2.300 a 2.050Ma) Sideriano (2.500 a 2.300Ma) O (3.850 a 2.500Ma) foi subdividido em quatro eras, as quais não estão ainda subdivididas em períodos (tabela. 7.1): ❖ (2.800 a 2.500Ma) ❖ (3.200 a 2.800Ma) ❖ (3.600 a 3.200Ma) ❖ (3.800 a 3.600Ma) 259 A coluna geológica acima mostra que o Pré-cambriano (Proterozoico + Arqueano + Hadeano) compreende 4.018Ma, o que equivale a 88% da idade da Terra (4.560Ma) e o Fanerozoico corresponde a 542Ma, o que equivale apenas a 12% da idade da Terra. 7.3.7- A LINHA DO TEMPO DA HISTÓRIA DA TERRA Ajustando a escala do tempo geológico com as idades absolutas obtidas, podemos construir uma linha do tempo de toda a história da Terra, iniciada em 4,56Ga, mostrada na figura 7.23 em forma de uma espiral, onde cada volta representa um bilhão de anos, ou seja, a espiral tem quatro voltas e meia. Podemos observar nessa figura quão pequeno é o éon fanerozoico em relação à história geológica da Terra e também o diminuto intervalo de tempo decorrido desde o início da evolução humana. Para compreender melhor esse período de tempo extraordinariamente vasto, podemos pensar a história da Terra fazendo uma correspondência a um ano do nosso calendário humano. À zero hora do dia primeiro de janeiro a Terra nasceu. Durante o mês de janeiro e parte do mês de fevereiro ela se estruturou em núcleo, manto e crosta. Em torno de 21 de fevereiro a vida surgiu. De março a setembro a Terra desenvolveu os continentes e bacias oceânicas, algumas semelhantes às atuais, e a tectônica de placas começou a operar. Em 25 de outubro, os organismos complexos, incluindo aqueles com carapaças, surgiram, começando a explosão de vida cambriana (big bang biológico). No dia 7 de dezembro surgiram os répteis e no Natal os dinossauros foram extintos. Os humanos modernos (homo sapiens) apareceram às 23 horas, na véspera do ano novo, e a última idade do gelo terminou às 23h 58min 45s desse dia. Três centésimos de segundo antes da meia noite Pedro Álvares Cabral aportou em Porto Seguro, na Bahia. E poucos milésimos de segundo antes da meia noite você nasceu. Tabela 7.1- Coluna geológica do Pré-cambriano, com as eras do Arqueano e as eras e períodos do Proterozoico. 260 Figura 7.23- Linha do tempo geológico da história da Terra, em forma de espiral. Cada volta da espiral corresponde a um bilhão de anos. 261 A história da humanidade está ligada à utilização de recursos naturais, minerais vegetais e energéticos, inclusive a água. Na idade da pedra o homem já utilizava o quartzo para fazer instrumentos de caça e luta e depois passou a utilizar alguns metais (bronze e ferro). O homem moderno continua utilizando o quartzo para produzir uma grande variedade de objetos, incluindo transístores e fibra ótica. Os recursos minerais forneceram os materiais e a energia necessários que viabilizaram e evolução das civilizações humanas que passaram a processar os alimentos, edificar construções e manufaturar bens de todos os tipos, cada vez mais complexos. Da idade da pedra para cá, a demanda por recursos minerais tem sido crescente para atenderas necessidades das sociedades tecnológicas atuais. As substâncias minerais, sejam elas metálicas, não metálicas, energéticas (combustíveis fósseis ou nucleares), ou gemas, fazem parte da nossa vida cotidiana e nos dão conforto e bem-estar, embora nem sempre de maneira perceptível. Os recursos minerais são recursos naturais não renováveis, ou seja, não podem ser produzidos artificialmente ou gerados pela natureza tão rapidamente quanto o seu consumo pelo homem, sendo, portanto, finitos. Devido a sua importância na economia mundial, os principais recursos minerais, tais como metais e combustíveis fósseis, são mercadorias enquadradas na categoria de commodities, ou seja, com pouca transformação industrial e preços cotados nas bolsas de valores. Compatibilizar a exploração de recursos naturais finitos e não renováveis, de modo a não comprometer as gerações futuras, se tornou um dos principais problemas para o desenvolvimento econômico no final do século 20 e um dos aspectos essenciais do princípio de desenvolvimento sustentável. Este princípio surgiu com a constatação de que o aumento populacional, sem precedente no último século, e o correspondente aumento na demanda por recursos naturais não renováveis, tende a se agravar, tornando muito difícil evitar a exaustão de muitas commodities nos próximos 100 anos. Equilibrar a demanda por recursos naturais finitos com uma crescente população cada vez mais consumidora, é o grande desafio do desenvolvimento sustentável. Nesse sentido, pelo menos duas iniciativas responsáveis estão sendo propostas: reciclar metais de bens manufaturados sucateados, e substituir elementos e metais raros na natureza, utilizados pela indústria, por outros elementos mais abundantes. Porque os recursos minerais são tão importantes para a sociedade? Todo produto inorgânico utilizado pelo homem (vestuários, eletrodomésticos, remédios, cerâmica, fertilizantes, materiais de construção, etc.), se não é mineral bruto, é derivado de substâncias minerais (Fig. 8.1). Os metais, por exemplo, possuem algumas propriedades muito úteis na indústria, não encontradas em outros materiais, tais como resistência mecânica, condutividade térmica e elétrica e resistência a corrosão, que lhes permitem aplicações tecnológicas que outros materiais não podem substituir com o mesmo custo e eficiência. A indústria mineral, além de estratégica, representa uma parcela importante na economia de muitos países. Apesar da produção do setor mineral brasileiro ter crescido quase 10 vezes na primeira década do século 21, a participação da mineração em relação ao PIB brasileiro vem mantendo-se em torno de 4%. Nessa unidade serão abordados os principais tipos de depósitos minerais e seus processos genéticos. Veremos que os depósitos minerais são também um tipo especial de material terrestre, intimamente relacionado às rochas já discutidas no módulo anterior. Na verdade, os minérios são rochas ou concentrações minerais especiais mais raras, de onde retiramos metais e elementos químicos importantes para o ser humano e, portanto, muito mais valiosos que as rochas comuns. 262 O conceito de depósito mineral não é somente um conceito geológico, pois envolve também um aspecto econômico. Existem três termos para os depósitos minerais diferenciados pelo aspecto econômico. Concentração mineral anômala, porém normalmente sem interesse econômico. Concentração mineral anômala, cuja viabilidade econômica depende ainda de estudo e avaliação. Toda concentração mineral suscetível de ser explorada economicamente, ou seja, com lucro. Portanto, para ser considerada uma jazida, um depósito mineral precisa se mostrar economicamente viável por meio de estudos de viabilidade econômica. : é o minério propriamente dito, constituído pelos (que contém os metais ou elementos de interesse econômico) + que é a parte do minério sem interesse econômico, como quartzo, carbonatos, feldspato, etc. (Fig. 8.2a). Com relação aos minerais de minério, existe dois tipos de minério: aqueles em que o interesse econômico está em um elemento químico do mineral de minério, que requerem técnicas de mineração mais complexas para extrair o(s) elemento(s). Podem ser metálicos (maioria são sulfetos e óxidos) ou não metálicos, como a apatita (minério de P) e a bauxita (minério de Al). aqueles em que o interesse econômico é o próprio mineral ou rocha, normalmente de mineração mais simples. Normalmente são minérios não metálicos, como a halita (sal gema), minerais industriais (talco, vermiculita, gipsita, cianita, coríndon, calcário, etc.), gemas. Rocha ou um conjunto de rochas que contém os corpos mineralizados. rocha que contém o sistema mineralizado (corpos mineralizados + alteração), em alguns casos é a mesma rocha hospedeira (Fig. 8.2b). Métodos e técnicas (geológicas, geoquímicas e geofísicas) de procura e identificação de depósitos minerais. São os procedimentos de mineração e lavra de uma jazida mineral. Se um programa de exploração mineral encontrar depósitos minerais, estes devem ser submetidos a estudos de viabilidade econômica e se alguns deles virar jazida mineral, poderão ser explotados. porcentagem do(s) elemento(s) de interesse econômico contido no minério. (cut off) é o teor mínimo para viabilizar a explotação, definido para cada elemento e para cada depósito. Abaixo do teor de corte o minério não é explotável. Figura 8.1- Consumo médio global (per capta) dos principais recursos minerais utilizados anualmente pela sociedade moderna na indústria básica ou como fonte de energia. 263 instalações físicas para explotar ou minerar (lavrar) uma jazida. de um elemento químico em um corpo de minério é a razão entre o teor do elemento no minério e seu teor médio na crosta terrestre. Os elementos mais abundantes na crosta, como o ferro e alumínio, tem um fator de concentração menor que os elementos mais raros, menos abundantes na crosta, como o cobre, chumbo, zinco, ouro, mercúrio (Tabela 7.1). O fator de concentração expressa quanto um determinado elemento químico precisa ter seu teor aumentado, em relação a seu teor médio nas rochas da crosta, para se tornar um depósito mineral passível de ser aproveitado economicamente. As causas geológicas que levaram a aumentar a concentração desses elementos em centenas e até milhares de vezes, em determinadas localidades, é uma das grandes questões da geologia econômica. , são o conteúdo de minério nos depósitos minerais identificados, no tempo presente, que podem ser explotados economicamente de acordo com a lei (Tabela 8.2). Dependendo do grau de conhecimento das reservas, elas são classificadas em (bem conhecidas, com erro menor que 10%), (pouco conhecidas, com erro entre 10 e 20%) e (muito pouco conhecidas, com erro maior que 20%). As operações de lavra começam com as reservas medidas. , são a totalidade de determinados bens minerais que podem se tornar disponíveis para uso futuro. Incluem as reservas já identificadas, os depósitos que ainda precisam de estudos de viabilidade econômica e também os depósitos ainda não identificados, mas que, em função das características geológicas conhecidas da região, tem possibilidades de serem descobertos em programas de exploração mineral Figura 8.2- Minério de zinco (a) constituído pela esfalerita ZnS (mineral de minério) e carbonato dolomita (ganga). Veio mineralizado sulfetado encaixado em granito (b). Tabela 8.1- Fator de concentração em jazidas minerais de alguns metais. b a 264 (Tabela 8.2). É estratégico para qualquer país, conhecer e dimensionar seus recursos e reservas minerais como também gerenciá-los dentro do programa de governo para atender os interesses da nação da melhor forma possível. Em relação às rochas encaixantes, as mineralizações podem ser: mineralizaçãocontemporânea e formada pelo mesmo processo que sua rocha hospedeira e também estruturalmente concordante com ela. Exemplos: depósitos sedimentares e alguns tipos de depósitos magmáticos (Fig. 7.3). mineralização mais jovem e não cogenética com sua rocha hospedeira, ou seja, formada por um processo genético distinto e normalmente estruturalmente discordante com a rocha hospedeira. Exemplos: depósitos filonianos (Fig. 7.4). Tabela 8.2- Recursos e reservas minerais, mostrando os três tipos de reservas. Figura 8.3- Depósito mineral singenético acamadado (minério: camadas escuras), concordante com as rochas hospedeiras. Hanging wall (capa): rocha hospedeira acima dos corpos de minério (capa) Foot wall (lapa): rocha hospedeira abaixo dos corpos de minério (lapa). Figura 8.4- Corpos filonianos de pegmatitos cortando uma rocha granítica. 265 Com relação a concentração da mineralização, ela pode ser: o minério ocorre concentrado na rocha hospedeira, com mais minerais de minério (acima de 50%) e menos ganga (abaixo de 50%). São minérios de alto teor e reserva normalmente de baixa tonelagem (Fig. 8.5a) o minério ocorre disperso na rocha hospedeira, com mais ganga (acima de 50%) e menos minerais de minério (menos de 50%). São minérios de baixo teor e reserva normalmente de alta tonelagem (Fig. 8.5a, b). Com relação à morfologia dos corpos mineralizados, eles podem ser: (pipes ou charutos) são corpos mineralizados com predomínio de uma dimensão, normalmente controlados estruturalmente. Exemplos: pipes kimberlíticos, rocha fonte de diamante (Fig. 8.6). corpos mineralizados em forma de camada. Podem ser de dois tipos principais: • corpos mineralizados acamadado, normalmente singenético. Exemplos: depósitos minerais sedimentares e magmáticos de cromo, níquel e cobre (Fig. 8.7). Figura 8.5- Filões de quartzo mineralizados (sulfetos + Au) encaixados em granito. Mina do Palito, Itaituba-PA, com sulfetos maciços no veio e disseminados no halo de alteração (a). Distrito aurífero Peixoto de Azevedo, MT, com minério disseminado pirita + Au) no halo de alteração (b) b a Figura 8.6- Pipe mineralizado, mina de prata, Bristol, Nevada, EUA (a). Pipe kimberlítico esquemático em forma de cenoura (b). Figura 8.7- minério estratiforme de cromita (camadas escuras) complexo máfico-ultramáfico de Bushveld, África do Sul. a b 266 • são corpos tabulares epigenéticos e, portanto, normalmente discordantes em relação à rocha hospedeira, mas existem também filões concordantes (filões camadas) que se alojaram ao longo de estruturas da rocha encaixante. Os filões são normalmente envolvidos por um halo de alteração hidrotermal, com alguns centímetros a alguns metros de espessura, que hospeda a mineralização filoniana (Fig. 8.4 e 8.5). corpos mineralizados tridimensionais irregulares, sem predomínio de alguma dimensão. Exemplos: bolsões, stocks, stockwork (Fig. 7.8). A gênese dos depósitos minerais está relacionada aos processos geológicos que deram origem aos materiais terrestres, não só as rochas (magmáticas, sedimentares e metamórficas), como também os solos, formados do intemperismo. A gênese dos depósitos minerais cujo minério são os próprios minerais ou a própria rocha (minerais e rochas industriais), é mais simples, pois confunde-se com o próprio processo que gerou as rochas, nas quais houve uma concentração dos minerais industriais. Por outo lado, a gênese dos depósitos minerais, nos quais o interesse econômico reside em elementos químicos, como os elementos metálicos, é mais complexa, pois requer condições especiais para que o elemento seja concentrado em centenas e até milhares de vezes em relação aos seus teores médios nas rochas da crosta terrestre. Que mecanismos são esses que proporcionaram uma concentração dessa ordem de grandeza? Esse é o assunto desse tópico, o qual é uma das questões fundamentais da geologia econômica, o ramo das geociências que estuda os depósitos minerais. Denomina-se ao mecanismo que promoveu a formação de um depósito mineral. Para que um processo de mineralização forme um depósito mineral precisa haver uma fonte dos elementos químicos de interesse econômico, com quantidade adequada desses elementos, e a partir dessa fonte os elementos são concentrados em três etapas (Fig. 8.9): Mobilização (solubilização) dos elementos na rocha fonte por fluidos denominadas Transporte dos elementos pelo fluido mineralizante b a c Figura 8.8- Bolsões de minério associados com falhamentos (a) e com veio (b). Stockwork de vênulas de hematita em microdiorito, depósito de Cu-Au porfirítico Zafranal, Arequipa, Peru (c). 267 Deposição dos elementos em locais específicos condicionados por armadilhas geológicas que favorecem a deposição desses elementos a partir do fluido mineralizante. Os fluidos mineralizantes exercem um papel muito importante na gênese dos depósitos minerais. Existem dois tipos principais de fluidos mineralizantes: (fusão silicatada) denominada . Se diferencia dos magmas comuns pelo seu enriquecimento em sulfetos ou óxidos metalíferos. O magma mineralizado é responsável pela formação dos depósitos minerais magmáticos que se formam do mesmo modo que uma rocha magmática e estão associados com essas rochas. Não é qualquer magma que forma depósitos minerais de expressão suficiente para serem explotáveis. Os depósitos magmáticos de interesse econômico são associados com rochas máfico-ultramáficas (depósitos de Ni-Cu, e Cr-Pt), rochas alcalinas (depósitos de P, Nb-Ta, TR, U-Th, Ti, Zr) e kimberlitos (depósitos de diamante). é uma solução aquosa quente (T˃ 50), denominada , normalmente de origem magmática, relacionada com as fases finais do magmatismo (vulcânico e plutônico). Após a formação das rochas magmáticas, restam soluções hidrotermais enriquecida em metais (Sn, W, Bi, Cu, Pb, Zn, Mo, Nb- Ta, Zr, TR, U-Th, Au, Ag) e elementos voláteis (Cl, F, CO2, SO2, H2S) que não participaram da cristalização das rochas magmáticas. Essas soluções são responsáveis pelas atividades finais dos processos magmáticos e pela formação de importantes depósitos minerais metálicos, associados principalmente com rochas magmáticas félsicas e intermediárias (mais silicosas). Existem também soluções hidrotermais não magmáticas que podem formar depósitos minerais importantes. São águas conatas (contida nos sedimentos) ou águas meteóricas (subterrâneas), aquecidas em profundidade, e também águas metamórficas formadas pelas reações de desidratação metamórfica, que podem lixiviar metais de alguma rocha fonte. Existem vários critérios de classificação dos depósitos minerais, podendo-se distinguir o grupo de classificações descritivas, com base nas características físicas e geológicas dos depósitos (rocha hospedeira, formas dos corpos mineralizados, controle estrutural e nas commodities dos depósitos), e as classificações genéticas, com base nos processos de formação dos depósitos. Classificações descritivas, sobretudo com base nas commodities, se mostraram mais efetivas em depósitos cujos bens minerais são os próprios minerais ou as rochas, enquanto que nos depósitos nos quais o interesse econômico são elementos químicos, as classificações genéticas se mostram mais adequadas. Uma classificação geral dos depósitos minerais com base nas commodities e suas aplicações (apresentada a seguir) é útil, por mostrar o universo total dos depósitos minerais. Com base nesse critério, a totalidade dos recursos minerais pode ser dividida em 5 classes: Depósitos metálicos; Depósitos não metálicos; Minerais e rochas industriais; Combustíveis fósseis; Recursos hídricos, conforme a tabela 8.3. Armadilha Depósito mineral Mobilização de metais Rocha fonte Fluido mineralizante Magma Soluçãoaquosa Figura 8.9- Ciclo de geração de um depósito mineral a partir de uma fonte, de onde são mobilizados os metais que são transportados pelo fluido mineralizante até o local de deposição 268 1- Depósitos metálicos: a commodity é um elemento ou associação de elementos metálicos 1.1- metais da indústria siderúrgica e do aço Ferro (Fe), manganês (Mn), cromo (Cr), níquel (Ni), cobalto (Co), vanádio (V), wolfrâmio (W), molibdênio (Mo), nióbio (Nb) e tântalo (Ta). 1.2- da indústria em geral Cobre (Cu), chumbo (Pb), zinco (Zn), níquel (Ni), estanho (Sn) Alumínio (Al), magnésio (Mg), titânio (Ti), lítio (Li), berílio (Be) Urânio (U), tório (Th), césio (Ce), zircônio (Zr), cádmio (Cd), háfnio (Hf), lítio (Li), berílio (Be) 1.3- Arsênio (As), antimônio (Sb), telúrio (Te), selênio (Se), bismuto (Bi) 2- Depósitos não metálicos: a commodity ou o minério são elementos ou minerais não metálicos Enxofre (S), Cl (cloretos halita), F (fluorita), Na (halita), K (silvita), P (fosfatos apatita), Br (brometos), I (iodetos), B (boratos). Diamante, esmeralda e água marinha (berilo), crisoberilo, turmalinas, topázios, granada, ametista, quartzo rosa, citrino e fumê, ágata, opala, andalusita, brasilianista, fenacita. 3- Minerais e rochas industriais: o minério são minerais ou rochas utilizadas na indústria 3.1- Pirita, halita, fluorita, mercúrio (Hg) e elementos não metálicos (Sr, Br, I, B) 3.2- Nitratos, fosfatos, sais de potássio (K) 3.3- Argilas, areias, quartzo, feldspato, granitos, ardósias, arenitos, quartzitos, mármore, calcário, gipso. 3.4- materiais de alto ponto de fusão Argilas refratárias (caulim), magnesita, bauxita, dolomito, cianita, andalusita, sillimanita, zircão, cromita, grafita, talco, pirofilita. 3.5- A materiais de alta dureza Diamante, córindon, granada, areia, sílex, feldspato, quartzito, pedra-púmice (vidro vulcânico), granito, diatomito (algas diatomáceas). 3.6- Hematita, magnetita, limonita, ilmenita 3.7- Micas, cristal de rocha, amianto (crisotila, antofilita, tremolita, actinolita), vermiculita, diatomito, cádmio (Cd), mercúrio (Hg), estrôncio (Sr), háfnio (Hf), terras raras (TR), telúrio (Te), Selênio (Se). 4- Combustíveis fósseis: Petróleo, gás natural, betume, carvão mineral, linhito, sapropelito 5- Recursos hídricos: Água Os depósitos metálicos são melhor classificados com base em seus processos de formação (classificação genética). Podem ser divididos também em 5 classes: Depósitos magmáticos; Depósitos hidrotermais; Depósitos sedimentares; Depósitos metamórficos; Depósitos residuais (intempéricos), conforme a tabela 8.4. Tabela 8.3- Classificação dos recursos minerais com base na natureza química das commodities ou recursos minerais e suas aplicações. 269 1- DEPÓSITOS MAGMÁTICOS 1.1- Depósitos relacionados a complexos máfico-ultramáficos Hospedados em complexos acamadados Depósitos de Cr-Pt, Exemplo: Bushveld, África do Sul Depósitos de Ni-Cu. Exemplo: Sudbury, Canadá Depósitos de Ni-Cu em komatiitos de greenstone belts: Kambalda, Austrália Depósitos de cromita em peridotitos tipo Alpino. Exemplo: Troodos, Chipre 1.2- Depósitos relacionados a complexos alcalinos Depósitos de Nb-P-ETR em carbonatitos. Exemplo: Palabora, África do Sul Diamantes em kimberlitos. Exemplo: Kimberley, África do Sul 1.3- Depósitos relacionados a rochas intermediárias a félsicas Pegmatitos. Exemplos: NE de Minas Gerais, entre Galileia e Mendes Pimentel 2- DEPÓSITOS HIDROTERMAIS 2.1- Depósitos hidrotermais de filiação magmática Depósitos relacionados a intrusões intermediárias a félsicas Depósitos de Cu-Au(Fe) tipo IOCG: Sossego e Salobo, Carajás-PA Depósitos de Sn-W em greisens (granitos aluminosos/alcalinos): Pitinga-AM Depósitos de Cu-Mo(Au) porfiríticos (granitos cálcio-alcalinos): Bingham, EUA Depósitos hidrotermais relacionados a vulcanismo continental Depósitos epitermais de metais preciosos (Au-Ag): Creed, Colorado, EUA Depósitos hidrotermais relacionados a vulcanismo submarino Sulfetos maciços vulcanogênico. Exemplos: Kuroko, Japão; Noranda, Canadá Formações ferríferas bandadas (BIF): Algoma, Canadá, Carajás, PA 2.2- Depósitos hidrotermais de filiação não magmática Depósitos hidrotermais relacionados a sistemas sedimentares Depósitos de Pb-Zn (Ag) em rochas clásticas, tipo Sedex: Mt. Isa, Austrália Depósitos de Pb-Zn(Ba) hospedados em carbonatos: vale do Mississippi, EUA Depósitos hidrotermais relacionados com metamorfismo dinâmico Depósitos auríferos em zonas de cisalhamento: Mother lode, Califórnia, EUA 3- DEPÓSITOS MINERAIS ASSOCIADOS A ROCHAS SEDIMENTARES 3.1- Depósitos de origem detrítica Depósitos de aluviões e placeres Au, Pt, diamante, cassiterita, zircão, cromita, magnetita, ilmenita, granada, rutilo: Witwatersrand (Au), África do Sul 3.2- Depósitos de origem química 3.2.1- Depósitos de U-V em rochas clásticas, tipo Red beds: Salt Wash, Colorado. Evaporitos: Laguna Scammons, Califórnia, Lago Kara-Bogaz, Turquemenistão Depósitos de Cu (Pb-Zn) em folhelhos negros: Chambishi, Zâmbia Depósitos de ferro e manganês Formações ferríferas bandadas (BIF) sedimentares: Lago Superior, Canadá Depósitos de manganês: Azul, Buritirama Carajás- PA; Urucum, MS Fosforitos: Florida, EUA 4- DEPÓSITOS MINERAIS RELACIONADOS AO METAMORFISMO REGIONAL 4.1- Rochas e minerais industriais: ardósia, quartzito, mármore, cianita, pirofilita, talco, grafita 5- DEPÓSITOS MINERAIS RESIDUAIS 5.1- Depósitos lateríticos: Ferro, manganês, alumínio e níquel: Onça, Carajás-PA 5.2- Depósitos gossânicos: enriquecimento supergênico de Cu, Au e Ag: Bahia-PA Tabela 8.4- Classificação genética dos depósitos minerais 270 Os depósitos magmáticos são formados pela cristalização direta de magmas máfico-ultramáficos, como uma rocha magmática. Para formar depósitos minerais magmáticos, os magmas precisam estar enriquecidos em metais (magmas mineralizados). Dois tipos de magmas podem gerar depósitos minerais: magmas oxidados que dão origem a depósitos estratiformes de cromita FeCr2O4 + platinoides (Pt, Pd) ou elementos do grupo da platina (PGE). magmas reduzidos que dão origem a depósitos de níquel e cobre, como sulfetos pentlandita e calcopirita. 8.6.1- DEPÓSITOS DE CROMITA ESTRATIFORME Cromita FeCr2O4 (Fe,Mg)(Cr,Al)2O4, com substituição do Fe +2 por Mg+2 e do Cr+3 por Al+3: principal minério de cromo. As cromitas estratiformes são as principais fontes de cromo, com 95% das reservas mundiais. Associados à cromita pode ocorrer platinoides (Pt, Pd, Ru, Rd) nativos, como sulfeto PtS, (Pt,Pd)S, ou em pirrotita e pirita. Um dos principais depósitos de cromita estratiforme e PGE do mundo é o Complexo de Bushveld, um corpo intrusivo lopolítico (Fig. 8.10) de idade rhyaciana (2,0Ga) do Paleoproterozoico que ocorre em região estável (craton Kaapvaal, na África do Sul). O minério é maciço, hospedado em rochas máfica-ultramáficas (norito, piroxenito, anortosito), com 6 bilhões ton de minério de reserva @ 38% Cr e 6ppm Pt (Fig. 8.11). Figura 8.11- Minério estratiforme de cromita (níveis escuros, cromitito) do depósito de Cr-Pt de Bushveld, África do Sul (a). Merennky reef (b), mostrando um nível inferior de anortosito, em contato brusco com uma fina camada de cromitito com PGE. A porção central é um norito pegmatoide, com plagioclásio branco, e a porção superior um cromitito mais espesso com PGE. Figura 8.10- Bloco diagrama da intrusão lopolítica de Bushveld, cortada por granitos (em vermelho). Aflora apenas as bordas leste e oeste do corpo de Bushveld (em verde), mostrando a posição do estrato Merensky nas duas bordas, onde ocorre o minério de platinoides. a b Cromitito Com PGE 75 cm de espessura 271 8.6.2- DEPÓSITOS SULFETADOS DE NI-CU Existem dois tipos de depósitos de Ni-Cu magmáticos: emcomplexos máficos intrusivos; em rochas vulcânicas ultramáficas (komatiitos) associadas com sequências greenstone belts (sequências vulcano-sedimentares em cratons arqueanos). Depósitos de Ni-Cu(PGE) em complexos máficos intrusivos: Pentlandita (Fe,Ni)9S8 (principal minério de Ni) + calcopirita CuFeS2 (principal minério de Cu) + pirita + pirrotita Fe1−xS, com PGE e Co. Um dos principais depósitos de Ni-Cu em complexos intrusivos é o Complexo lopolítico de Sudbury, Canadá, de idade orosiriana (1,85Ga) do paleoproterozoico (Fig. 8.12). O minério é maciço (Fig. 8.13a) ou disseminado. Nos contatos do complexo Sudbury, com o embasamento (inferior) e com a Formação Onaping (superior), as rochas estão todas brechadas (Fig. 8.13b), inclusive o minério no contato inferior. As brechas e outras feições de impacto lavaram vários geólogos a interpretar a estrutura de Sudbury como de impacto de meteorito. Pirrotita Pentlandita Figura 8.13- Minério maciço de Ni- Cu de Sudbury: pentlandita + pirrotita + calcopirita (a), Brecha do contato inferior do Complexo Sudbury (b) a 46°15’N Figura 8.12- Mapa geológico do Complexo intrusivo lopolítico Sudbury, Canadá, mostrando a localização dos depósitos de Ni-Cu no contato do complexo com as rochas do embasamento. b 272 Depósitos de Ni-Cu em Komatiitos: Um dos mais importantes depósitos de Ni-Cu em komatiitos do mundo é o de Kambalda, SW da Austrália, em volta de um domo (Fig. 8.14). Komatiito rocha vulcânica ultramáfica, composta por olivina + piroxênio, equivalente plutônico do peridotito. Ocorrem em greenstone belts (cinturão de rochas verdes), sequências de rochas vulcano-sedimentares arqueanas típicas de regiões cratônicas (estáveis). Uma das feições características dos derrames komatiíticos é a textura spinifex, na parte superior dos derrames (Fig. 8.15a), formada por cristais alongados (ripas) de olivina e piroxênio (Fig. 8.15b). Os depósitos de Ni-Cu são hospedados por komatiitos maciços da parte inferior dos derrames (Fig. 8.15a). Na parte inferior dos corpos mineralizados o minério é maciço (Fig. 8.15b) e, na parte superior desses corpos, pode ocorrer minério disseminado. Em Kambalda o minério é constituído por pentlandita (Fe,Ni)9S8 (mineral de minério dominante) + calcopirita CuFeS2 + pirrotita Fe1 xS + pirita cobaltífera (Fe,Co)S2. Pode conter também platinoides (PGE). Figura 8.14- Mapa geológico do domo de Kambalda, SW da Austrália, mostrando os depósitos de Ni-Cu (preto), na parte basal dos komatiitos (cinza escuro), em contato com basaltos inferiores (cinza claro). Figura 8.15- Seção esquemática de um derrame de komatiito, delimitado no topo e na base por textura esqueletal (a). A textura spinifex ocorre na parte superior (A2) do derrame (b) e na parte inferior (B2) a textura é maciça (c) e cumulática (deposição por gravidade) na base (A3). Komatiito maciço Minério maciço de pentlandita Komatiito com textura spinifex (estéril). Minério disseminado Next unit above Next unit below 273 8.6.3- DEPÓSITOS DE CROMITA PODIFORME Depósitos de ocorrem em que são porções do manto superior que podem ocorrer sob sequências ofiolíticas. Os ofiolitos são porções de crosta oceânica obductada sobre crosta continental em zonas de convergência de placas, tanto em zonas de subducção (Fig. 8.16a), como zonas de colisão (Fig. 8.16b). Uma sequência ofiolítica é constituída por três camadas (Fig. 8.17): delgada camada de sedimentos marinos profundos silicosos (chert), ferruginosos laminados e sedimentos orgânicos (radiolários e diatomáceas). várias centenas a milhares de metros de lavas basálticas almofadadas (pilow lavas, Fig. 7.18a) alteradas, cortadas por diques de diabásio (sheeted dikes), os canais de alimentação para o vulcanismo basáltico. porção plutônica da crosta oceânica, constituída por uma sequência gabroica com 3 a 10Km de espessura, maciça na porção superior e acamadada, com olivina e cromita, na inferior. A obducção pode alcançar uma porção do manto superior (peridotito) alojando-o sob a sequência ofiolítica e colocando todo o conjunto sobre a crosta. As cromitas (Fe,Mg)(Cr,Al)2O4 dos peridotitos tipo Alpino são deformadas pela tectônica e por isso exibem forma lenticular (podiforme, Fig. 8.18b), diferente das cromitas estratiformes (não deformadas). As cromitas podiformes formas depósitos de baixa tonelagem, raramente atingindo 1 milhão de tonelada, com apenas 5% das reservas mundiais. a b Figura 8.16- Formação de ofiolito por obducção de crosta oceânica em zona de subducção (a) e colisão continental (b). Figura 8.17- Sequencia ofiolítica constituída por 3 camadas: sedimentos marinhos; lavas basálticas almofadadas e gabro. Sob a sequência ofiolítica pode ocorrer peridotito mantélico (tipo Alpino). Figura 8.18- Pillow lavas do famoso ofiolito de Oman (a). Cromita podiforme, minério de cromo hospedado em peridotito tipo alpino (b). a b Moho Sedimentos oceânicos Pillow lavas + Sheeted dikes Gabro Peridotito tipo Alpino (manto superior) 274 8.6.4- DEPÓSITOS DE Nb-P-TR EM CARBONATITOS Rocha ígnea máfica-ultramáfica com pelo menos 50% de carbonatos primários (calcita, dolomita), com bandamento de fluxo. São corpos predominantemente intrusivos cilíndricos, na forma de pipe, frequentemente zonados concentricamente. Ocorrem normalmente na parte central de maciços de rochas alcalinas, em ambiente de rift continental. alta concentração de álcalis (Na, K) em relação à sílica, sem quartzo, com feldspatoides (nefelina, leucita), piroxênios (aegirina, jadeíta) e anfibólios (riebeckita, arfvedsonita) alcalinos. proterozoico ao recente. são corpos pequenos (5 a 30Km2), excepcionalmente ultrapassam 100Km2 (Jacupiranguito, SP, 180Km2), e forma circular ou oval em planta. Em seções verticais exibem mergulhos acentuados, sub-verticais (pipes ou plug), conforme as figuras 8.19 (Palabora, África do Sul) e 8.20 (Araxá, MG). Em relação à proporção entre os carbonatos: calcita- carbonatitos (mais abundantes) e os dolomita-carbonatitos. Em relação aos minerais acessórios: carbonatitos ricos em apatita e magnetita, com feldspatoides, minerais de Nb-Ta, como o pirocloro (Na,Ca)2(Nb,Ta,Ti)2O6(F,OH), perovskita CaTiO3 e rutilo TiO2, e aqueles ricos em TR, sem feldspatoides, com carbonatos e fosfatos de TR e barita. O interesse econômico nos carbonatitos está nesses minerais acessórios. apatita e carbonatos; Nb-Ta (pirocloro); TR (perovskita, pirocloro e carbonatos); U-Th (pirocloro, uranotorita), Ti (rutilo, brookita, perovskita), Zr (zircão e badaleita), barita, fluorita e vermiculita. O Brasil tem importantes reservas de Nb, TR e Ti, em carbonatitos, principalmente em Minas Gerais (Araxá, catalão, Tapira). Figura 8.20- Carbonatito de Araxá, Mina Gerais, em vermelho (a). Cristal octaédrico de pirocloro (b) Figura 8.19- Mapa do carbonatito de Palabora, África do Sul (a) e seção norte-sul (b). Pirocloro a b a b 275 8.6.5- DEPÓSITOS DE DIAMANTE EM KIMBERLITOS principais fontes de depósitos primários de diamantes. São peridotitos alcalinos (potássicos), porfiríticos e hipabissais que ocorrem em regiões cratônicas (estáveis), constituídos essencialmente por olivina, flogopita, granada (fenocristais) em matriz de olivina, piroxênio, espinélio, perovskita, calcita, monticelita (Fig. 8.21a, b). O diamante é um mineral eventual que foi arrancado de rochas do manto pelos kimberlitos, sendo mais antigo que o kimberlito (xenocristal). O kimberlito é um corpo intrusivo raso (subvulcânico) pequeno, um pipe em forma de cenoura, com 80 a 150m em planta e 300 a 2.000m em profundidade. O pipe kimberlítico é constituídopor três fácies: cratera, diatrema (onde normalmente se encontram os diamantes) e hipabissal (raiz), conforme a figura 8.21c. Os pipes kimberlíticos costumam ocorrer em agrupamentos de até 20 pipes formando províncias, com muitas variedades nos tipos petrográficos e nos teores dos kimberlitos (Fig. 8.22). Os teores são medidos em quilates/100t (ct/100t) de rocha, variando de alguns ct/100t até poucas dezenas de ct/100t. Teores de 30 a 50 ct/100t são considerados elevados. Excepcionalmente os teores ultrapassam 100 ct/100t. Os kimberlitos se formam nos estágios iniciais de rifts que se encontram atualmente em regiões cratônicas (estáveis). Os kimberlitos do leste brasileiro e do oeste africano foram formados no estágio inicial do rift que deu origem ao oceano Atlântico. Infelizmente, na divisão do continente Gondwana, a África ficou com mais kimberlitos. Amostra do Museu da CPRM, Porto Alegre Diamante (xenocristal) Carbonatos kimberlito Braúna, BA a b Figura 8.22- Mapa (a) e seção (b) dos diatremas dos pipes kimberlíticos da província de Wesselton, África do Sul, mostrando a grande variedade de tipos petrográficos (números). Nem todos os kimberlitos são férteis (diamantíferos) e os férteis mostram teores muito varáveis. a b 1 quilate (ct) = 0,2 g Fácies de cratera Fácies hipabissal ou de raiz Diamante 0 300 m Figura 8.21- Amostras de kimberlito (a e b), com diamante na (a). Pipe kimberlítico, com suas três fácies, cratera, diatrema e hipabissal (c). c 276 8.6.6- DEPÓSITOS DE PEGMATITOS Pegmatitos rochas holocristalinas de natureza ígnea ou metamórfica e granulação anormalmente grossa (Fig. 8.23a, b), cujos constituintes minerais essenciais são os mesmos que ocorrem tipicamente nas rochas ígneas normais (Jahns, 1955). Pegmatitos com algum interesse econômico são somente de natureza ígnea granítica. Esses pegmatitos são produtos da cristalização de magmas graníticos residuais, enriquecidos em sílica, alumina, álcalis e elementos raros que não se acomodam bem nos minerais comuns das rochas graníticas, como Li, Rb, Be e Ce, Nb, Ta, U, Th, Sn, W e TR e voláteis (sobretudo água). A saturação em água parece ser o ponto que distingue os pegmatitos das rochas comuns, condição que favorece o crescimento dos cristais. Por outro lado, somente alguns pegmatitos graníticos têm realmente interesse econômico, sobretudo gemológico. São pegmatitos complexos e zonados, enriquecidos em minerais acessórios exóticos, com elementos raros listados acima. São corpos pequenos, na forma de dique, lentes ou bolsões, com poucos metros a centenas de metros de comprimento e largura de poucos centímetros a 200m (Fig. 8.24a, b). injeção e cristalização de um magma silicático residual rico em água, em que os primeiros cristais que se formam reagem com o magma residual que muda progressivamente sua composição da periferia para o núcleo do corpo pegmatítico, com zonas externas mais precoces e zonas internas mais tardias (Fig. 8.25a). Até 4 zonas concêntricas podem ocorrer, diferenciadas pela composição mineralógica e textura: borda, parede, intermediária e o núcleo (Fig. 8.25b). Os minerais raros de interesse econômico normalmente cristalizam na zona intermediária, podendo haver 5 ou 6 subzonas intermediárias diferenciadas pelas assembleias minerais. Figura 8.24- Veios de pegmatito, cortando uma rocha ígnea (a) e um gnaisse (b). Figura 8.25- Zonas dos pegmatitos complexos (a) e suas composições mineralógicas (b). b a b a a b Figura 8.23- Cristais prismáticos de berilo decimétrico (a) e métrico de quartzo (b). 277 Os depósitos hidrotermais são formados pela cristalização do minério a partir de soluções aquosas quentes denominadas (Fig. 8.26), diferente, portanto, dos depósitos magmáticos, nos quais o fluido mineralizante é o próprio magma, uma fusão silicatada. Existem duas categorias de depósitos hidrotermais: formados por fluidos hidrotermais de filiação magmática, a maioria dos casos de depósitos hidrotermais. formados por fluidos hidrotermais de filiação não magmática (águas conata, meteórica ou metamórfica aquecidas). Nos depósitos hidrotermais, os metais são transportados pela solução hidrotermal e, portanto, em solução. Entretanto, a solubilidade dos metais em água, como simples íons elementares, é extremamente baixa. Por outro lado, estudos experimentais indicam que a solubilidade dos metais é aumentada em várias ordens de grandeza se eles são transportados como íons complexos (combinação de íons), principalmente como complexos clorados (com Cl‾) ou sulfurosos (com H2S), ambos disponíveis nas fases residuais magmáticas enriquecidas em metais, o que torna as soluções hidrotermais um poderoso fluido mineralizante. O transporte dos metais por complexos clorados ou sulforosos mostrou-se, então, como um mecanismo adequado para explicar o grande volume de minérios hidrotermais que ocorre na natureza. O Fe+2 e metais básicos (Cu+, Pb+2, Zn+2) têm mais afinidade com complexos clorados: MeCl, MeCl+, MeCl2, enquanto que os metais preciosos (Au+, Ag+, Pt+2) têm mais compatibilidade com complexos sulfurosos: MeHS, MeHS+, Me(HS)2, Me(HS)2‾, sendo Me um metal monovalente (como o Cu+ e Au+) ou bivalente (como Fe+2, Pb+2, Zn+2). Mas essa questão depende também da temperatura do fluido mineralizante, sendo os complexos clorados mais estáveis em temperaturas mais elevadas. Os metais são transportados em solução, na forma complexada, até encontrar um local propício para deposição, onde poderá formar um depósito mineral. O local de deposição precisa ser uma armadilha física e/ou química que favoreça a desestabilização dos complexos metálicos, ou seja, a diminuição da solubilidade dos metais complexados, provocando a deposição do minério, normalmente como sulfeto ou óxido. Enquanto os metais complexados permanecerem solúveis na solução hidrotermal a deposição não acontece. Os fatores físicos que podem provocar a desestabilização dos complexos metálicos são principalmente abaixamento de temperatura e/ou pressão, enquanto que os fatores químicos são principalmente a reação entre o fluido hidrotermal e as rochas hospedeiras e mistura de fluidos, ambos podem alterar parâmetros como pH e Eh do fluido, diminuindo a solubilidade dos complexos metalíferos e, portanto, favorecendo a deposição do minério. As armadilhas de deposição normalmente envolvem uma combinação de fatores físicos e químicos. A reação entre o fluido e as rochas hospedeiras provoca alteração hidrotermal nessas rochas, uma feição características dos depósitos hidrotermais. Mobilização de metais Rocha fonte Fluido mineralizante Magma (solução aquosa quente) Armadilha Depósito hidrotermal Figura 8.26- Ciclo de geração dos depósitos hidrotermais, mostrando o fluido mineralizante: solução hidrotermal, uma solução aquosa quente. Depósito Magmático 278 8.7.1- DEPOSITOS HIDROTERMAIS DE FILIAÇÃO MAGMÁTICA Depósitos hidrotermais relacionados a intrusões intermediárias a félsicas Existem três tipos principais de depósitos hidrotermais relacionados com intrusões félsica-intermediárias, dependendo da composição das intrusões: depósitos de Au-Cu (Fe) tipo IOCG relacionados com rochas alcalinos em rifts; depósitos de Sn-W em greisens, relacionados com granitos alcalinos (tipo A) em ambiente cratônico (granitos anorogênicos), ou com granitos orogênicos aluminosos (tipo S) em ambiente de colisão continental; depósitos de Cu-Mo porfiríticos, relacionados com granitos orogênicos cálcio-alcalinos (tipo I) em zonas de subducção. Depósitos de Cu-Au (Fe) tipo IOCG Sigla em inglês de iron-oxide-copper-gold deposits: depósito de Cu-Au ricos em óxido de ferro, uma classe mundial de depósitos proposta por Hitzman (1982), considerada inicialmente de idade proterozoicae fanerozoicas e, com a inclusão dos depósitos de Cu-Au de Carajás nessa classe, estendeu-se ao arqueano. cratônico ou em rift com tectônica extensional. rochas magmáticas (plutônicas e vulcânicas), félsico- intermediárias, máfico-intermediárias e alcalinas, e rochas sedimentares (clásticas e carbonatos) e seus equivalentes metamórficos de baixo grau. maioria possui menos de 500 milhões ton de minério. Muitos entre 500 milhões e 1 bilhão ton (nessa faixa estão Salobo e Cristalino de Carajás) e os maiores entre 2 e 2,5 bilhões ton, com teores de 0,5 a 4% de Cu e 0,2 a 0,8 ppm Au. pipes de brechas ao longo de contatos intrusivos ou de falha, e corpos tabulares concordantes, com minério maciço e/ou disseminado tipo stockwork. da paleossuperfície até 4-6 Km de profundidade: minérios ricos em hematita são mais rasos que os enriquecidos em magnetita. alteração sódica (albita) e sódico-cálcica (actinolita, escapolita) em maiores profundidades, associadas com magnetita, passando para alteração potássica (K-feldspato + sericita) em níveis intermediários, e alteração sericítica (sericita + quartzo) nas porções superiores do sistema, associadas com hematita (Fig. 8.27) suíte metálica Fe-Cu-Au-U-TR F, Ba, P: vênulas e brechas (Fig. 8.28) Sulfetos de Cu-Fe: calcopirita CuFeS2, bornita Cu5FeS4, calcocita Cu2S + pirita Urânio: uraninita/pechblenda UO2. Ouro nativo: Au TR em: apatita Ca5(PO4)3(OH,F,Cl), monazita (Ce,La,Y,Th)PO4, Xenotima YPO4. Figura 8.27- distribuição espacial das zonas de alteração nos depósitos de Cu-Au IOCG. Figura 8.28- Calcopirita + Au na matriz das brechas Minério Sossego, Carajás 279 oxidados, hipersalinos e também de baixa salinidade, T moderada a alta (100 a 600C) e rochas hospedeiras variadas (magmáticas, sedimentares e metamórficas). Essas características indicam que não deve haver uma fonte única e um único tipo de fluido mineralizante. Deve haver fontes magmáticas, provavelmente rochas alcalinas (fluido rico em álcalis), mas pode haver também fluidos salinos de bacias sedimentares (salmouras) e possivelmente fluidos metamórficos. Depósitos de Sn-W em greisens produtos da alteração metassomática de granitos aluminosos profundos e suas rochas encaixantes, provocada por soluções hidrotermais ácidas e oxidantes que contém elementos alcalinos (K e Na), estanho e tungstênio no estado oxidado (Sn+4, W+6). A alteração metassomática (greisenização) é provocada pela reação entre a solução hidrotermal e as rochas graníticas e encaixantes, formando inicialmente K- feldspato (K,Na)AlSi3O8 e albita NaAlSi3O8. No final do processo, quando forma o greisen, os feldspatos se decompõem, restando mica branca (muscovita) e quartzo mica de Li (lepidolita, zinwaldita), topázio Al2SiO4(OH,F)2, fluorita CaF2, cassiterita SnO2, wolframita (Fe,Mn)WO4, turmalina e berilo, que ficam dispersos em maior ou menor quantidade na massa de mica branca e quartzo que forma maior parte dos greisens (Fig. 8.29). A greisenização destrói também a textura granítica, de tal forma que o granito só é reconhecido fora das porções greisenizadas. Os corpos de greisens localizam-se nas porções apicais das intrusões graníticas, estendendo-se para as rochas encaixantes (Fig. 8.30), cortadas por veios de quartzo e vênulas de stockwork preenchidas pelos mesmos minerais dos greisens. A cassiterita é o principal minério dos greisens, seguido pela wolframita, um wolframato. Os dois minerais, principalmente a cassiterita, formam depósitos secundários de aluvião em drenagens, provenientes do intemperismo e erosão dos greisens. A cassiterita é praticamente a única fonte de estanho e o Brasil é um grande produtor desse metal, a partir de seus numerosos depósitos de greisens com cassiterita. Cassiterita Figura 8.29- Amostras de greisens constituídos basicamente de mica branca e quartzo (a, b). Amostra de greisen mineralizado com cassiterita (c). b a c Figura 8.30- Cúpula de granito greisenizada em cinza e greisen maduro em amarela escuro (a). Cassiterita em granito greisenizado (b) Cassiterita SnO2 b a 280 Depósitos de Cu-Mo porfiríticos disseminados em cúpulas e em volta de granitoides cálcio-alcalinos porfiríticos, subvulcânicos, em arcos magmáticos de zonas de subducção (Fig. 8.31a). alta tonelagem (média de 200 milhões ton) e baixos teores (0,5 a 2,5% Cu e 0,01 a 0,1% Mo), lavrados normalmente à céu aberto (Fig. 8.31b). Cenozoico e Mesozoico (cadeias de montanhas dobradas) e faixas móveis paleozoicas e pré-cambrianas (mais raros). stocks porfiríticos intermediário-félsicos: dioritos, granodioritos, quartzo-monzonitos, com fenocristais de K-feldspato, plagioclásio, hornblenda e/ou biotita (Fig. 8.32a). As mineralizações ocorrem na cúpula dos stocks (Fig. 8.32b, c), em vênulas stockwork (Fig. 8.33a, b) ou brechas formadas por fraturamento hidráulico (fig. 8.33c). Fenocristal de biotita ‘A level Plan Figura 8.31- Posição dos depósitos de Cu-Mo porfiríticos em arco magmático de zonas de subducção (a). Mineração a céu aberto no depósito de Cu-Mo porfirítico de Chuquicamata (b). b c Figura 8.32- Granito porfirítico com fenocristais de biotita (a). Depósito porfirítico na cúpula de stock granítico mostrado em seção (b) e planta no nível A (c). a b a c Figura 8.33- Vênulas stockwork de quartzo + molibdenita cortada por vênulas de pirita + quartzo, depósito de Butte, Montana, EUA (a). Veio de quartzo + calcopirita, depósito de British Columbia, EUA (b). Brecha hidráulica mineralizada, com minério na matriz (c). a b Depósito de Chuquicamata, Chile 281 os corpos de minério são hospedados por rochas hidrotermalizadas, nas quais podem ser reconhecidas 4 tipos principais de alterações (Fig. 8.34). Após o processo magmático, inicia o processo hidrotermal, com alteração (clorita + epidoto + albita + carbonato + pirita), afetando a periferia do sistema hidrotermal, inclusive as rochas encaixantes (marrom claro na Fig. 8.34). Nesse estágio, começa também a (K-feldspato + biotita) na parte central do sistema (marrom escuro na Fig. 7.34), em volta da intrusão porfirítica (amarelo na Fig. 8.34) e relacionada espacialmente com a mineralização. Na parte central inferior do sistema hidrotermal, abaixo da zona potássica, forma um núcleo de quartzo estéril. Na fase tardia do processo hidrotermal começa a (sericita + albita + clorita), em verde na Fig. 8.34 que se superpõe à alteração potássica, e a alteração clorítica, em azul, na porção periférica superior. No final do processo hidrotermal, em temperatura mais baixa, ocorre a avançada (quartzo + pirofilita + caulinita + alunita), em lilás na Fig. 8.34, que se superpõe às outras alterações na parte superior do sistema hidrotermal, mais próximo da superfície, formando uma capa silicosa + argila (litocap). salmoura formada por mistura entre água magmática e água meteórica, podendo predominar uma ou outra. Temperatura entre 250 e 350C calcopirita CuFeS2 + bornita Cu5FeS4 + calcocita Cu2S + molibdenita MoS2 + pirita. A pirita se estende para a parte periférica da mineralização, formando halos. Em rochas graníticas mais máficas (dioritos e quartzo dioritos) pode correr ouro como componente principal do minério, denominado de “ ”. Os depósitos porfiríticos fornecem do Cu mundial, metade do molibdênio e talvez do ouro, além de ser importantes fornecedores de Re (rênio), Ag, Pd, Te, Se, Bi, Zn e Pb. Depósitos hidrotermais relacionados a vulcanismo continental Importante classe de depósitos de metais preciosos (Au-Ag), formados em ambiente raso (até 1 Km de profundidade), de baixa temperatura (150 a 300C) e associados com vulcanismo cálcio-alcalino continental. arcos magmáticos de zonas de subducção (Fig.8.35). Os depósitos se formam em zonas extensionais, com falhas normais e fraturas de extensão, próximo da superfície, acima dos depósitos porfiríticos. Os depósitos epitermais e os porfiríticos são produtos do mesmo processo magmático, sendo os epitermais relacionados ao vulcanismo e os porfiríticos ao plutonismo (Fig. 8.35). Os dois sistemas progridem um para o outro, havendo superposição entre eles. Litoca p Figura 8.34- Distribuição espacial das alterações hidrotermais em relação ao pluton intrusivo e à mineralização de Cu-Mo. 282 rochas vulcânicas félsico-intermediárias: dacitos, riodacitos, andesitos, latitos e riolitos, tanto na forma de derrames como de rochas piroclásticas. cenozoicas (terciária). Depósitos mais antigos são raros, devido à erosão. filonianas (veios de quartzo), stockworks, pipes de brechas e disseminações, formadas por fluidos hidrotermais que circulam livremente próximo da superfície, eventualmente escapando para a superfície (fontes termais: hot springs). corpos pequenos, em torno de um milhão ton, podendo atingir algumas dezenas de milhões ton e teores 1-10 ppm Au e 100-200 ppm Ag. Ouro e prata nativos, electrum (liga Au-Ag), acantita Ag2S, sulfossais das séries pirargirita-proustita Ag3(Sb,As)S3 e tetraedrita-tenantita (Cu,Fe)12(Sb,As)4S13, enargita Cu3AsS4, calaverita AuTe2 e silvanita (Au,Ag)Te2, além de cinábrio HgS e mercúrio nativo. Ganga de quartzo, calcita, fluorita, barita e K-feldspato adularia. Os metais preciosos estão associados com que forma os veios de quartzo (vermelho na figura 8.36). Os veios são envolvidos pela (amarelo escuro na figura 7.36), com adularia, sericita e pirita, em profundidade, e ilita, calcita e pirita na porção superior do sistema. Mais próximo da superfície, os veios são envolvidos pela , com caulinita, alunita KAl3(SO4)(OH)6 e pirita (cinza na figura 8.36). A periferia do sistema epitermal é formado pela com clorita, epidoto e carbonato (verde na figura 8.36) que envolve as outras alterações. Na superfície, o sistema é encoberto por uma (sílica cap), constituída por opala, cristobalita cinábrio (amarelo claro na figura 8.36). tipicamente texturas de preenchimento e estruturas rúpteis, como o bandamento coloforme e as brechas (Fig. 8.37). Figura 8.35- Posição dos depósitos epitermais em arco magmático de zonas de subducção. Figura 8.36- Distribuição espacial das zonas de alteração hidrotermal de um sistema epitermal b a Figura 8.37- Feições texturais epitermais típicas: brecha mineralizada (a) e bandamento coloforme (b). 283 , com relação ao conteúdo de enxofre: 2 tipos mistura de fluido magmático e água meteórica, com maior conteúdo de enxofre, mais oxidante (maior Eh) e pH ácido, caracterizado pela presença de sulfato (alunita) associado com caulinita. Os corpos mineralizados situam-se próximo ou sobre o vent vulcânico, cratera por onde o material vulcânico extravasa (Fig. 8.38a). basicamente água meteórica, com baixo conteúdo de enxofre, redutora (baixo Eh) e pH neutro, caracterizado pela presença de adularia associada com sericita e ausência de sulfato. Os corpos mineralizados são afastados dos vents vulcânicos (Fig. 8.38b). Depósitos hidrotermais relacionados a vulcanismo submarino Até o início dos anos 1960 do século passado, pouco se sabia sobre o fundo dos oceanos e muito menos sobre processos metalogenéticos submarinos. Entretanto, nas três últimas décadas do século 20 ocorreu um dramático aumento do conhecimento do fundo dos oceanos e o vulcanismo submarino, com o hidrotermalismo a ele associado, são agora reconhecidos como importantes processos metalogenéticos, desde o arqueano até o presente. Depósitos estratificados formado por fontes termais submarinas (black smokers), relacionadas a processos vulcânicos (Fig. 8.39). O termo exalativo é aplicado às emanações finais do processo vulcânico submarino, correspondente às fumarolas no vulcanismo continental. No processo exalativo não é mais magma que extravasa e sim soluções hidrotermais do final do processo vulcânico. Exalito é o material precipitado quimicamente a partir do fluido exalativo. a b Figura 8.38- Dois tipos de depósitos epitermais: alta sulfetação, com alto conteúdo de enxofre, (alunita-caulinita), relacionado com vent vulcânico (a) e baixa sulfetação, com baixo conteúdo de enxofre (adularia-sericita), não relacionado com vent vulcânico (b). Figura 8.39- Black smokers em atividade no fundo do mar. A coloração escura da exalação é em decorrência do alto teor de sulfetos metálicos na solução. 284 Rochas vulcânicas submarinas (derrames ou piroclásticas), tanto félsicas cálcio-alcalinas (mais abundantes), como máficas toleíticas e também rochas vulcanoclásticas e sedimentares (grauvacas, folhelhos, turbiditos). O vulcanismo félsico- intermediário submarino está relacionado com pequenos plutons ácidos (domos riolíticos) em profundidade Após o vulcanismo seguem períodos piroclásticos e exalativos que formam um sistema convectivo hidrotermal, alimentado pelo calor magmático e envolvendo as águas magmáticas e a água do mar. Em um sistema hidrotermal submarino, a mineralização ocorre em horizontes preferenciais, favoráveis à deposição do minério, causado principalmente quando as soluções hidrotermais magmáticas encontram com a água do mar mais fria. Principalmente em margens de placas tectônicas, tanto convergentes (em arcos de ilhas ou continentais, como o depósito de Kuroko, Japão), como divergentes (em sequências ofiolíticas, como o depósito de Chipre). Ocorrem também associados com ilhas oceânicas intraplaca e em greenstone belts. desde o arqueano ao recente. Parece não haver qualquer restrição temporal. mistura entre a água magmática e água do mar. Classificação dos depósitos com base na distância em relação à fonte vulcânica: sulfetos maciços vulcanogênicos (VMS), sigla em inglês de vulcanogenic massive sulfide (SMV, em português). Próximos ou sobre a fonte vulcânica. formações ferríferas bandadas (BIF) e depósitos vulcanogênicos auríferos. Afastados da fonte vulcânica e associados com rochas sedimentares. Depósitos de sulfeto maciço vulcanogênicos (VMS) Dados de 144 depósitos em 5 importantes distritos no Canadá, Noruega e Japão, variam de 5,8 a 9,2 milhões ton. @ 0,58 a 1,63% Cu, 1,53 a 5,43% Zn, 0,07 a 2,17% Pb, 31,9 a 95,1 g/t Ag e 0,5 a 0,9 g/t Au. 3 tipos principais com base no ambiente tectônico e associação metálica: Em zonas de subducção: Kuroko, Japão (cenozoico) e Noranda, Canadá (arqueano), hospedados em rochas vulcânicas félsicas. Em bodas de placas divergentes: Chipre (cretáceo), hospedado em basaltos. Em rifts e bacias trás-arco: Besshi, Japão (paleozoico e mesozoico), hospedado em rochas sedimentares. Lente concordante de sulfeto maciço acima de uma zona de minério disseminado composta por vênulas discordantes em padrão stockwork (zona stringer), hospedada em um halo de alteração hidrotermal em forma de pipe (Fig. 8.40). Figura 8.40- VMS, constituído pela lente de sulfeto maciço, acima do pipe de alteração hidrotermal que contém a zona stringer de minério disseminado stockwork. 285 deposição dos sulfetos no assoalho oceânico, sobre e em volta do vent de exalação, a partir das soluções hidrotermais. A forma da lente varia de um cone íngreme (em forma de cogumelo, mais comum) a uma camada tabular. calcopirita CuFeS2, esfalerita, ZnS (Fig. 8.41), galena PbS e mais raramente bornita Cu5FeS4 + pirita FeS2, pirrotita Fe1 xS e sulfossais. Ganga: quartzo, clorita, barita BaSO4, gipso CaSO4.2H2O e carbonatos + magnetita Fe3O4 + hematita Fe2O3. O minério de Kuroko é de Cu-Pb-Zn e o de Chipre e Noranda são de Cu-Zn, com pouco Pb. decréscimo da razão Cu/Zn + Pb para cima da lente e para fora do pipede alteração (Fig. 8.40). A calcopirita ocorre na parte inferior da lente. (vênulas em forma de corda ou longarina) canais de circulação do sistema hidrotermal submarino para a superfície. Forma uma zona de mineralização disseminada de calcopirita tipo stockwork no pipe de alteração hidrotermal, formado por dois tipos principais de alteração: zona interna de cloritização (clorita + epidoto + albita), com mineralização disseminada de calcopirita + pirita, envolvida por uma zona externa de sericitização (sericita + clorita), com mineralização disseminada de pirita + esfalerita + galena, que passa gradualmente para a zona da clorita (Fig. 8.40). Formações ferríferas bandadas tipo Algoma formados pelos componentes menos densos e mais solúveis das soluções hidrotermais, como os óxidos de Fe e Mn que se precipitam como , longe da fonte vulcânica, juntamente com material sedimentar (Fig. 8.42). As BIFs são importantes depósitos de ferro. Os metais nobres (Au-Ag) tendem a se concentrar nos depósitos distais associados com os óxidos, formando depósitos de Au exalativo em BIFs. Existe uma gradação desde os depósitos tipicamente proximais, de natureza vulcanogênica, até aqueles tipicamente distais, de natureza predominantemente sedimentar. ba Figura 8.41- Sulfeto maciço do depósito de Aijala, Finlândia: esfalerita (preta) + calcopirita (amarela). a b Figura 8.42- Depósitos vulcanogênicos proximais e distais associados com vulcanismo cálcio-alcalino, em zonas de subducção (a) e toleítico, em zonas de divergência de placas (b). Formação ferrífera bandada (BIF). 286 As formações ferríferas bandadas tipicamente relacionadas com processos vulcanogênicos são denominadas tipo Algoma, em referência a região de Algoma, no Canadá, onde foram caracterizadas. São de idade arqueana ou paleoproterozoica e associadas com rochas vulcânicas em greenstone belts. São constituídas por estratos de sílica alternados com estratos ferríferos, principalmente na forma de óxidos (hematita e magnetita), conforme a figura 8.43. Os estratos ferríferos também podem ser constituídos por carbonatos, silicatos ou sulfeto de ferro, ou combinações desses minerais. Os principais minerais de ferro são: magnetita Fe +2 Fe +3 2O4 e hematita Fe2O3 Carbonato: Siderita FeCO3, sulfeto: pirita FeS2 Silicatos: greenlalita (Fe,Mg)3Si2O5(OH)4 Chamosita Fe4Si4O10(OH)8, Grunerita (Fe,Mg)7Si8O22(OH)2 Fe2SiO4 Olivina (faialita) Fe2SiO4. A origem das BIFs é um tema controverso, sobretudo sobre a proveniência de tanto ferro. A teoria mais aceita parte da premissa de que, nos primórdios da história da Terra, a atmosfera era anóxica (sem ou com muito pouco oxigênio) e também não havia micro- organismos marinhos que consumiam sílica para construir seus casulos. Desse modo, durante o Eoarqueano, todo o ferro reduzido (Fe+2 solúvel) produzido pelas intensas atividades vulcânicas se acumulou nos oceanos. Essa situação só começou a mudar no Paleoarqueano (a partir de 3.600Ma) quando surgiram os primeiros organismos fotossintéticos (estromatólitos), um tipo de cianobactéria que consumia carboidratos produzidos por meio da reação entre o CO2 e a água, com liberação de oxigênio. Durante milhões de anos, o oxigênio produzido pelos estromatólitos passou a reagir com o ferro reduzido (Fe+2) dissolvido na água do mar, transformando-o em ferro oxidado (Fe+3) que é insolúvel. O Fe+3, então, passou a reagir com a sílica disponível na água do mar, para formar as BIFs (Fig. 8.44). O tipo e composição dos minerais de ferro das BIFs dependem principalmente das condições de fugacidade de oxigênio (fO2) e Eh do ambiente de deposição (Fig. 8.45). Figura 8.43- Formação ferrífera bandada (jaspelito) tipo Agoma, com estratos de sílica (vermelho, com ferro) e de óxido de ferro (preto). Figura 8.44- Relação das formações ferríferas bandadas arqueanas tipo Agoma com as exalações vulcânicas ricas em Fe+2 das zonas de rift oceânicos. Figura 8.45- Tipo e composição dos minerais de ferro das BIFs, de acordo com a fugacidade de oxigênio (fO2) e Eh do ambiente de deposição. 287 8.7.2- DEPOSITOS HIDROTERMAIS DE FILIAÇÃO NÃO MAGMÁTICA Depósitos hidrotermais relacionados a sistemas sedimentares Existem dois tipos principais de depósitos hidrotermais relacionados a sistemas sedimentares: depósitos de Pb-Zn (Ba) em rochas clásticas (turbidíticas), tipo sedex; depósitos de Pb-Zn em rochas carbonáticas, tipo vale do Mississippi. Depósitos de Pb-Zn (Ba) em rochas clásticas, do tipo sedimentar exalativo (Sedex) Maiores depósitos de metais básicos do mundo: Sullivan (Brithish Columbia, Canadá), Red Dog (Alaska, EUA), Rammelsberg e Meggen (Alemanha), Broken Hill, Mount Isa, McArthur (Australia). No Brasil, depósitos de Boquira, Ba, e Castelão, Go. Rift intracontinentais com ou sem crosta oceânica (Fig. 8.46) tonelagem média: 15 Mt (os maiores com 150 Mt), @ 5,6% Zn, 2,8% Pb, 30ppm Ag. proterozoicos (mais comuns), paleozoicos (mais raros). rochas sedimentares clásticas e químicas da plataforma continental e talude (turbiditos): arenitos, conglomerados, folhelhos e calcáreos, com matéria orgânica. corpos estratiformes ou lenticulares ricos em sulfetos de Pb e Zn, com espessura decamétrica, intercalados em estratos sedimentares (Fig. 8.47). esfalerita ZnS, galena PbS + pirita FeS2 + pirrotita Fe1−xS calcopirita CuFeS2 em estratos intercalados com chert ou sedimento pelítico. zona de brechação com alteração hidrotermal e minério disseminado em alguns depósitos, abaixo do minério estratiforme (Fig. 8.48) Na maioria dos casos a exalação é de água conata que lixiviou os metais de outras rochas abaixo e ascendeu até encontrar um local favorável para precipitar os metais. Em alguns casos o depósito parece ser um produto distal de um processo vulcanogênico. Figura 8.46- Ambiente tectônico dos depósitos Sedex, em rifts intracontinentais. Figura 8.47- Minério Sedex estratiforme, com esfalerita + pirita (a). Esfalerita (vermelho) + galena (preto) + pirita, amarelo (b), Alaska, EUA. Figura 8.48- Vent exalativo abaixo do minério estratiforme, no depósito de Remmelsberg, Alemanha. a b Sedex Sedex 288 Alteração branda, constituída por quartzo, muscovita, clorita, ankerita, siderita, turmalina e sulfetos. aquoso salino (salmoura) com salinidade até 30% NaCl e T = 200-300C. Depósitos de Pb-Zn em rochas carbonáticas, do tipo vale do Mississippi (MVT) Depósitos minerais de classe mundial, principal fonte de Pb-Zn na América do Norte. Devem o nome da classe aos distritos clássicos que ocorrem na bacia do rio Mississippi: Tennessee, SE Missouri, Três Estados e SW Wisconsin (Fig. 8.49). Outro distrito importante da América do Norte é Pine Point, SW Canada. Plataformas continentais em margens passivas de grandes bacias sedimentares de antepaís (foreland basins), com tectônica extensional (Fig. 8.50), afastadas das bordas de placas. Enquanto os depósitos Sedex podem ainda ter alguma relação com vulcanismo de borda de placa, os depósitos MVT não apresentam qualquer relação com vulcanismo. São depósitos hidrotermais, tipicamente sedimentares. Devoniano ao Permiano e Cretáceo ao Terciário. Depósitos individuais com tonelagem muito variada, desde 200 mil ton até 200 Mt. O conteúdo metálico (Zn + Pb) é em torno de 10% da reserva, sendo que normalmente Zn ˃ Pb, com teor de Zn ˃ 5% e ˂ 10% e teor de Pb ˂ 5%. Figura 8.49- Localização dos principais distritos de depósitos de Pb-Zn tipo Vale do Mississippi na parte central dos EUA: 1- Tennessee, 2- SE Missouri, 3- Três Estados, 4- SW Wisconsin. Figura 8.50- Ambiente tectônico dos depósitos MVT em plataformas continentais de margens passivas.Sedex MVT MVT Sedex 289 minério epigenético em camadas de substituição (stratabound), hospedados em dolomitos ou calcáreos dolomitizados plataformais, em estruturas positivas, como altos do embasamento ou recifes de corais ou algas (Fig. 8.51). galena (pobre em Ag), esfalerita (pobre em Fe) + barita BaSO4 e fluorita CaF2 (podem ser minério ou ganga). Ganga dolomita CaMg(CO3)2, calcita CaCO3, quartzo e jasperoide (sílica), pirita, marcassita. Subprodutos podem incluir Cu em calcopirita, Ni e Co em siegenita (Ni,Co)3S4 e milerita NiS, Cd, In, Ge e Ga em esfalerita. substituição e preenchimento de espaço vazio (Fig. 8.52). simples e branda das rochas carbonáticas hospedeiras, provocadas por reações produtoras de ácido que ataca os carbonatos. A reação mais comum ocorre por mistura de fluidos com S reduzido (H2S) e fluidos ricos em metal, formando sulfeto + acido. H2S pode ser produzido por redução de sulfatos (S oxidado) que produz dolomita. substituição de calcita por dolomita formação de jasperoide (sílica microcristalina) água conata salina (salmoura, 10 a 30% NaCl), com metais e T = 50 a 200C. O minério se forma quando esse fluido encontra S reduzido. Figura 8.51- Corpos de minério (em preto) no distrito Metaline, Washington, EUA (a) e em graben no distrito Bou-Beker, Marrocos (b). Figura 8.52- Bandada, com esfalerita, escura, e pirita, amarelo, mina Reocin, Espanha (a). Brechada, com esfalerita e dolomita cimentando fragmentos de dolomita (b), mina Lucky Dog, Arkansas. brechada, com fragmentos coloformes de esfalerita cimentados por dolomita (c), Pine Point, Canadá. Esfalerita substituindo estratos delgados de matéria orgânica em dolomito (e), mina Monte Cristo, Arkansas a b a b c d 290 Depósitos hidrotermais relacionado com metamorfismo dinâmico Depósitos auríferos em zonas de cisalhamento Depósitos epigenéticos filonianos, estruturalmente controlados e hospedados por sequências metamorfisadas em ambiente de placas convergentes. Ambiente tectônico, rochas hospedeiras e idades Dois conjuntos de depósitos podem ser destacados: 1) Greenstone belts arqueanos ou paleoproterozoicos, em sequências metavulcano-plutônico-sedimentares. 2) Cinturões orogênicos paleozoicos ou cadeias de montanhas mesozoico-cenozoicas, em rochas metassedimentares turbidíticas (grauvacas, xistos, argilitos e filitos), em zonas de subducção oceano- continente ou de colisão continental. Groves et al. (1998) propõe o termo para incluir os dois grupos em uma classe única de depósitos formados em sequências metamórficas acrescidas ao arco magmático em zonas de subducção, relacionado ao processo orogenético (formação de cadeia de montanha), conforme a figura 8.53 em torno de 100 depósitos com mais de 70 ton Au, umas duas dezenas com mais de 500 ton Au (gigantes), com teores entre 1 a 50g/t. veios ou pipes de preenchimento e corpos de substituição nas rochas hospedeiras alteradas. quartzo dominante, com até 3-5% sulfetos (principalmente sulfetos de ferro). Veios de largura métrica, mas formam conjuntos com dezenas a centenas de metros. Au + pirita + pirrotita + arsenopirita galena, esfalerita, calcopirita, molibdenita. Au disseminado em rochas alteradas adjacentes aos veios, constituídas por quartzo, carbonato, sericita, albita e pirita. Zonas de cisalhamento regionais, de baixo ângulo (empurrão) ou de alto ângulo (transcorrência, mais frequente), desde cisalhamento rúptil em rochas cataclásticas (até 10Km de profundidade) até cisalhamento dúctil em milonitos, em maiores profundidades, 10Km (Fig. 8.54) Figura 8.53- Ambiente tectônico dos depósitos auríferos orogênicos, em sequências acrecionárias deformadas em arcos magmáticos, bem na frente do arco. Figura 8.54- Cataclasito em zona de cisalhamento rúptil (a). Milonito em zona de cisalhamento dúctil (b). a b 291 Os veios ocorrem normalmente na transição entre os dois regimes (rúptil-dúctil ou dúctil- rúptil), em falhas menores associadas aos grandes falhamentos (Fig. 8.55). carbonatação (calcita e/ou dolomita) associada e envolvendo os corpos mineralizados. A alteração carbonática passa para a zona da clorita externa, constituída por clorita e sericita, que envolve o conjunto (veios + zona carbonática). Nos veios, o ouro livre associado aos sulfetos, e no halo de alteração ocorre disseminado. Fluido metamórfico aquocarbônico H2O-CO2-H2S, neutro a alcalino, baixa salinidade (2 a 4% NaCl), T 200 a 500C, P 1 a 4Kb. desidratação e devolatização crustal de material subductado durante a progressão do metamorfismo em zonas de subducção. O fluido lixivia o ouro das rochas metamórficas subductadas e deposita nos veios de forma mais concentrada. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS Biondi J.C. 2002. Processos metalogenéticos e os depósitos minerais brasileiros. Oficina de Textos, 528p. Dardenne M.A. & Schobbenhaus C. 2001. Metalogênese do Brasil. Editora UnB. 392p. Edwards R. & Atkinson K. 1986. Ore deposit geology and its influence on mineral exploration. Chapman and Hall, London, 466p. Evans A.M. 1993. Ore Geology and Industrial Minerals, An Introduction. 3rd ed., Geoscience Texts, Blackwell Scientific Publications, London, 389p. Guilbert J.M & Park Jr. C.F. 1986. The geology of ore deposits. W.H. 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Elas são justificáveis? 4- O aumento populacional e o desenvolvimento tecnológico demandam cada vez mais recursos minerais não renováveis que são finitos. Como poderia ser resolvido esse dilema? 5- Comparando dois tipos de depósitos de sulfetos maciços: depósito magmático de Ni- Cu em komatiito e depósito de sulfeto maciço vulcanogênico (VMS), observa-se que no primeiro (magmático) o minério maciço (sulfeto) fica embaixo do disseminado, enquanto que no segundo (vulcanogênico) ominério maciço fica em cima do disseminado. Como essa situação poderia ser explicada, considerando a natureza dos dois processos? 293 6- Porque o diamante é denominado de xenocristal do kimberlito? 7- Porque formou enormes depósitos de formação ferrífera bandada no Arqueano e no Proterozoico?