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Unidade didática sobre Linguística Textual e recursos de textualidade. Apresenta panorama histórico (Gramática, Filologia, Saussure), fases da linguística textual (transfrástica, gramática textual) e temas: coesão, coerência, correferência, pronominalização, ordem das palavras.

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26/09/2022 20:24 MI_EDU_LINTEX_19_E_1
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Introdução
A Linguística, enquanto ciência, surge dos preceitos de três distintas fases:
inicialmente, a Gramática, que teve seus estudos iniciados pelos gregos e,
posteriormente, seguido pelos franceses. Essa Gramática tem como objetivo
principal de estudo a formulação de regras e normas utilizadas para nortear o uso
correto ou incorreto da língua, “desprovido de qualquer visão cientí�ca e
desinteressada da língua”. (SAUSSURE, 2006, p. 8).
A Filologia de Wolf, que surge em 1977 e segue até os dias atuais, aparece como
norteadora do objeto de estudo da Linguística logo após a Gramática dos gregos. Tal
ciência não tinha a língua como seu único objeto de estudo, pois buscava interpretar
e comentar textos não só literários, mas também, a história sobre os costumes e as
instituições, usando como seu método principal a crítica a eles.
Unidade 1 - Linguística textual e
os recursos de textualidade
Noélia Luísa Neves Lobos
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A terceira fase, a Gramática Comparada, já apontava linguistas importantes como
Bopp, Grimm, Pott, Kuhn etc., que entenderam a língua como passível de estudos
comparativos, possibilitando, também, o entendimento das línguas como uma
família, como, então, uma ciência. Essa ciência, portanto, passa a ser reconhecida
como o primeiro período da Linguística na Índia e na Europa, mesmo não sendo,
posteriormente, considerada a Linguística como a entendemos atualmente. Porém,
do ponto de vista metodológico há certo interesse em conhecer esses erros: os erros duma
ciência que principia constituem a imagem ampliada daqueles que cometem os indivíduos
empenhados nas primeiras pesquisas cientí�cas. (SAUSSURE, 2006, p. 11)
Partindo, assim, dos preceitos das três fases mencionadas, a Linguística como a
conhecemos, surge no começo do século XX, com Ferdinand de Saussure. Dessa
maneira, Linguística é, segundo Orlandi (1942, p.10), “tudo o que faz parte da língua”,
porém apenas as linguagens verbal, oral e escritas são analisadas pela Linguística.
É sobre esses conceitos que vamos falar nesta unidade.
Bons Estudos!
1. Panorama histórico da
linguística textual
Nas décadas de 1960 e 1970, podemos encontrar o surgimento da Linguística
Textual, na Alemanha, como resultado das buscas por melhor entendimento e
melhores recursos de análises sobre as frases, até então.
O desenvolvimento da Linguística Textual enquanto teoria pode ser diferenciado em
três fases distintas:
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Figura 1 - Fases linguística textual - Fonte: Não informada, 2019 
1.1. Transfrástica
Nas décadas de 60 e 70, podemos encontrar o surgimento da Linguística Textual, que
até então, tinha como objeto de estudo os mecanismos interfrásticos que compõem
a gramática da língua e,
entre os fenômenos a serem explicados, contavam-se a correferência, a pronominalização, a
seleção do artigo (de�nido/inde�nido), a ordem das palavras, a relação tema/tópico, a
concordância dos tempos verbais, as relações entre enunciados não ligados por conectores
explícitos, diversos fenômenos de ordem prosódica, entre outros. (KOCH, 2015, p. 19)
Assim, pelas relações estabelecidas entre enunciados, a correferência aparece como
relação referencial e diz respeito à coesão textual. O texto, portanto, é “uma
sucessão de unidades linguísticas constituída mediante uma concatenação
pronominal ininterrupta”, de acordo com Koch (2015, p. 19). Nesta primeira fase da
Linguística Textual, os estudos das relações referenciais aconteciam apenas pelos
processos correferenciais que podiam ser entre dois ou mais elementos textuais.
Nesses estudos iniciais da Linguística Textual, a coerência textual ainda era tida como
característica do texto, apenas, sendo analisada por meio da coesão e não como
recurso textual.
1.2. Gramática textual
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A 2ª fase da Linguística Textual acontece quando os linguistas entendem o texto
como a mais alta unidade linguística em suas estruturas, resultando em “uma
entidade do sistema linguístico, cujas estruturas possíveis em cada língua devem ser
determinadas pelas regras de uma gramática textual”. (KOCH, 2015, p. 22).
Um dos precursores da gramática textual foi Harald Weinrich, que como
estruturalista
“de�ne o texto como uma sequência linear de lexemas, e morfemas que se condicionam
reciprocamente e que, também reciprocamente, constituem o contexto. Isto é, o texto é uma
estrutura determinativa, onde tudo está necessariamente interligado. Assim sendo, para ele,
toda linguística é necessariamente linguística de texto". (KOCH, 2015, p. 22)
Tal reconhecimento despertou nos linguistas a necessidade de existência de uma
gramática textual (podendo ter uma abordagem sintática ou uma abordagem
semântica) que tivesse a função de nortear o uso das línguas, ou seja, cada língua
deveria ter um sistema de regras �nito que pudesse ser utilizado por seus falantes
de maneira única.
Com isso, a possibilidade de identi�car textos, entender sua estrutura e avaliar se
eram bons ou não se tornou realidade para os linguistas, que notaram a ocorrência
de mais de uma correferência em um mesmo texto, justi�cando a necessidade de ir
além do que caracterizaram autores da fase Transfrástica.
Dessa maneira, a gramática do texto tinha as funções de:
determinar os “princípios de constituição, os fatores responsáveis pela
coerência, as condições em que se manifesta a textualidade” (KOCH, 2015, p.
21), com �ns de entender por que um texto podia ser considerado texto;
delimitar os textos de maneira que tivessem sentido completo;
diferenciar os textos analisados entre suas possibilidades textuais.
A classi�cação de um texto se dava por meio de sua segmentação às unidades
menores, e não mais partindo da frase para sua estrutura mais alta, o texto. Ou seja,
o texto como um signo linguístico primário deveria ter as características básicas de
texto, a �m de ser dividido e se tornar possível o estudo de seus signos parciais.
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É nessa fase, portanto, que a Linguística Textual reconhece o texto como seu objeto
de investigação, passando a entendê-lo como uma manifestação da linguagem,
indicando o rompimento com a Linguística de Saussuriana.
A Linguística Textual demonstra, então, algumas in�uências da Retórica Clássica, a
Estilística, e da linha de raciocínio dos Formalistas Russos, do círculo linguístico de
Moscou, de acordo com Tafarello e Rodrigues (1993). E, ainda segundo os autores,
também são tidos como precursores da Linguística Textual Hjelmslev, Harris, Pike,
Jakobson, Benveniste, Pêcheux e Orlandi.
1.3. Teoria do texto
A partir de 1980, a Linguística Textual começa a considerar, também, o contexto,
além do texto, como objeto de investigação, isto, porque os linguistas passaram a
entender a textualidade como parte essencial de um texto, não tendo como ponto
central a competência textual em si, segundo Marcuschi (1998).
Então, como contexto, linguistas entendem
o conjunto de condições externas à língua, e necessários para a produção, recepção e
interpretação de texto, e também a interação já que o sentido não está no texto, mas acontece
na interação entre o escritor / falante e o leitor / ouvinte. (BONIFÁCIO; MACIEL)
Esta nova perspectiva da Linguística Textualrecebe o nome de Pragmática, que
também tem como foco a “busca de conexões determinadas por regras, entre textos
e seu contexto comunicativo-situacional, mas tendo sempre o texto como ponto de
partida da representação”. (KOCH, 2005, p. 27).
Assim, portanto, a terceira fase da Linguística Textual é marcada pela pesquisa da
língua e seu funcionamento inseridos na comunicação da sociedade, e não mais
tratando da língua apenas como sistema autônomo. Koch (2005, p. 27) ainda
completa dizendo que os textos deixam de ser vistos como produtos acabados, que
devem ser analisados sintática ou semanticamente, passando a ser considerados
elementos constitutivos de uma atividade complexa, com instrumentos de realização
de intenções comunicativas e sociais o falante.
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A perspectiva pragmática passa a ser entendida como determinante das perspectivas
sintáticas e semânticas, visto que a intenção do escritor/falante ditará as principais
relações que aparecerão em um texto, de modo que o leitor/ouvinte seja capaz de
entender sua intenção integralmente, podendo “reconstruir os propósitos
comunicativos que tinha o falante ao estruturá-lo, isto é, descobrir o “para quê” do
texto. (KOCH, 2005, p. 29).
Começam, portanto, a surgir como padrões de textualidade, de Beaugran & Dressler
(1981), a coesão e a coerência, a informatividade, a situacionalidade, a
intertextualidade, a intencionalidade, e a aceitabilidade. Além deles, outros linguistas
começam a propor suas teorias e recursos para a Teoria do Texto, como: Gívón,
novamente, Weinrich, Van Dijk, Petö�, Schmidt, Charolles, Combettes, Vigner, Adam,
entre outros.
Mareuschi (1983, p. 12) propõe, dessa maneira, a Linguística Textual como
o estudo das operações linguísticas e cognitivas reguladoras e controladoras da produção,
construção, funcionamento e recepção de textos escritos ou orais. Seu tema abrange a coesão
super�cial ao nível dos constituintes linguísticos, e a coerência conceitual ao nível semântico e
cognitivo e o sistema de pressuposições e implicações nível pragmático da produção de
sentido no plano das ações e intenções. Em suma, a Linguística Textual trata o texto como um
ato de comunicação uni�cado num complexo universo das ações humanas (...).
Você quer ler?
Ingedore Koch escreveu um artigo contando a retrospectiva da Linguística
Textual e descrevendo mais sobre o ponto de vista de outros linguistas.
Acesse aqui.
http://biblioteca.virtual.ufpb.br/files/linguastica_textual_1360183766.pdf
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2. Princípios da construção
textual do sentido
Para a Linguística Textual, o texto pode apresentar distintos conceitos; conceitos
estes que variam de acordo com o autor e as teorias adotadas para a construção do
texto. Vimos que o texto, hierarquicamente, é uma unidade linguística maior que a
frase, sabemos, ainda, que para se construir um texto, é necessário que haja uma
combinação de frases de modo coeso e coerente, textualidade.
2.1. Texto e textualidade
Koch (2011, p. 25), apresenta como possíveis de�nições de texto:
uma cadeia de pronominalizações ininterruptas;
uma cadeia de isotopias;
um complexo de proposições semânticas.
Para a pragmática, o texto pode ser:
pelas teorias acionais, uma sequência de atos de fala;
pelas vertentes cognitivistas, como fenômenos primariamente psíquicos,
resultado, portanto, de processos mentais;
pelas orientações que adotam por pressuposto a teoria da atividade verbal,
como parte de atividades mais globais de comunicação, que vão muito mais
além do texto em si, já que este constitui apenas uma fase desse processo
global. (KOCH, 2011, p. 26).
O texto, portanto, é o resultado �nal de um processo de planejamento, verbalização
e construção, que acontece pela necessidade de comunicação, ou seja, é um meio de
interação sociocomunicativo entre sujeitos que visa comunicar algo a alguém.
Como resultado comunicativo, o processo de produção textual (considerando esse
em todas suas possibilidades: verbal, escrito, musical ou visual) acontece de maneira
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complexa e organizada, para que seja possível atingir seu objetivo. É assim, então,
que o autor traça estratégias conscientes para transmitir um ponto de vista ao
receptor por meio de uma manifestação verbal, de acordo com Koch (2011).
De maneira clara, Koch (2011, p. 27) apresenta o texto como
uma manifestação verbal constituída de elementos linguísticos selecionados e ordenados pelos
coenunciadores, durante a atividade verbal, de modo a permitir-lhes, na interação, não
apenas a depreensão de conteúdos semânticos, em decorrência da ativação de processos e
estratégias de ordem cognitiva, como também a interação (ou atuação) de acordo com
práticas socioculturais.
Para que um texto seja considerado como tal pela Linguística Textual, é importante
que as regras normativas da língua sejam seguidas, a �m de assegurar seu sentido
(individual e coletivo), como meio de transmissão de uma mensagem.
A transmissão de uma mensagem por meio de um texto apenas se torna possível
quando carrega informação semântica, que por sua vez, deve conter pelo menos
uma informação/dado com que o receptor esteja familiarizado, de modo que a
contextualização de sua informação dada seja alcançada. Além disso, a informação
semântica deve conter algo novo, ou seja, algo que se quer transmitir partindo da
contextualização da informação anterior.
Figura 2 - Mensagem - Fonte: Adptado Freepick Vetores, 2019 
A isso, a Linguística Textual dá o nome de remissão ou referência textual,
organizando as “cadeias coesivas, que têm papel importante na organização textual,
contribuindo para a produção do sentido pretendido pelo autor do texto”. (KOCH,
2011, p. 28).
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A remissão ou referência textual, entretanto, não acontece explicitamente em um
texto, ou seja, os dados em uma mensagem têm que ser manifestados de modo que
o receptor capte o contexto da informação que lhe está sendo transmitida,
resultando em referentes expressados como conteúdo de consciência, isto é,
“referentes estocados na memória dos interlocutores, que, a partir de pistas
encontradas na superfície textual, são (re)ativados, via inferenciação”, de acordo com
Koch (2011, p. 28).
Tais inferências, são, então, as estratégias cognitivas ativadas durante os processos
de interação entre sujeitos, que possibilitam ao receptor o acesso entre o dado e o
novo. Dessa maneira, o contexto é ativado, em um texto, através das inferências
textuais que apenas são possíveis por meio das remissões recorrentes em seu
conteúdo.
Assim, portanto, acontecem as progressões textuais, que estabelece relações de
sentido, em um texto, ainda segundo Koch (2011, p. 29) entre:
segmentos textuais de extensões variadas;
segmentos textuais e conhecimento prévios;
segmentos textuais e conhecimentos e/ou práticas socioculturalmente
partilhados.
Estes recursos, remissão/referência textual, inferências e progressão textual é que
compõem o que conhecemos como coesão textual.
Coesão textual é, de acordo com Halliday e Hasan (1976, apud GUIMARÃES, 2009, p.
148), “um conceito semântico que se refere às relações de sentido existentes no
interior do texto e que o de�nem como um texto”, ou seja, a coesão somente
acontece quando os elementos de um texto são dependentes entre si, signi�cando
que eles se complementam e resultam na construção de sentido.Os mecanismos coesivos passíveis de análise em um texto, são os pronomes, os
artigos, as conjunções, as relações entre tempo verbal e conjugação, as preposições,
e ainda, os mecanismos que determinam encadeamento linear dos enunciados
textuais.
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Em um texto, a coesão pode acontecer, como vimos, por meio da remissão, que
podem aparecer como pronomes pessoais de terceira pessoa – retos e oblíquos), e
ainda, por meio de pronomes possessivos, demonstrativos, inde�nidos,
interrogativos e relativos, além de, também, acontecer por meio de numerais
advérbios pronominais e artigos de�nidos.
Outra possibilidade de encontrarmos a coesão em um texto é através da sinalização
textual, que organiza o texto, apresentando ao receptor orientações para o
processamento textual. Koch (2011, p. 49), também nomeia tal mecanismo como
dêixis textual, pois “o procedimento dêitico constitui o instrumento para dirigir a
focalização de ouvinte em direção a um item especí�co, que faz parte de um domínio
de acessibilidade comum – o espaço dêitico”.
Há ainda, a coesão sequenciadora, que assegura a sequência de um texto de
maneira organizada, dando a ideia de avanço textual e continuidade de sentidos,
podendo acontecer
de forma direta, sem retornos ou recorrências; ou podem ocorrer na progressão do texto
recorrências das mais diversas ordens: de termos ou expressões, de estruturas (paralelismo),
de conteúdos semânticos (paráfrase), de elementos fonológicos ou prosódicos (similicadência,
rima, aliteração, assonância) e de tempos verbais. (KOCH, 2011, p. 52)
Guimarães (2009, p. 17) diz que “um texto não tem sentido por si mesmo, mas graças
à interação que se estabelece entre o conhecimento apresentado no texto e o
conhecimento de mundo armazenado na memória do interlocutor”. Estas relações
que acontecem entre texto e receptor recebem o nome de coerência.
Koch (2011, p. 52), então, assegura que a coerência “é resultado de uma construção
feita pelos interlocutores, numa situação de interação dada, pela atuação conjunta
de uma série de fatores de ordem cognitiva, situacional, sociocultural e interacional”.
Por meio das relações entre os mecanismos recorrentes em um texto, entre coesão e
coerência, que acontece a construção textual de sentido.
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Você quer ler?
Você sabe qual é o papel da Linguística Textual no ensino da língua
portuguesa? Descubra aqui .
2.2. Fatores pragmáticos de textualidade
Vimos a coesão e a coerência como os recursos semânticos da construção textual de
sentido. Porém, existe também a recorrência de fatores pragmáticos que interferem
aí.
A situacionalidade é expressada em um texto pelo seu contexto. A textualidade
acontece para situar determinada ação comunicativa, por exemplo, é através dela
que conseguimos evidenciar:
quem fala ou escreve o texto;
para quem o texto é falado ou escrito;
qual é o objetivo do texto falado ou escrito.
Esse fator é responsável pela construção de sentido inicial de um texto, visto que,
caso não haja reconhecimento do espaço textual por parte do receptor, o
entendimento da mensagem estará comprometido, visto que seu sentido não estará
completo como conteúdo de consciente.
Além disso, outro fator de textualidade pragmático possível, é a informatividade que
implica o pensar na mensagem a ser transmitida por um texto. Marcuschi (2008), diz
que todo texto é escrito ou falado com a intenção de dizer algo, porém informação
não tem o mesmo signi�cado que sentido em um texto. Para, então, uma informação
ter efeito de sentido, no texto, é importante que sua informatividade esteja
inteiramente relacionada à quantidade de dados e conhecimentos que ele expressa.
Portanto, um texto deve ser bem equilibrado em relação a sua informatividade,
buscando oferecer, ao receptor, relevante quantidade dados novos, e, ao mesmo
tempo, uma quantidade signi�cativa de informações já conhecidas, para que ele seja
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capaz de contextualizar conhecimentos já internalizados com as novidades propostas
para internalização durante o processo de entendimento.
Figura 3 - Curva Perigosa - Fonte: Panorama, 2019 
Um terceiro fator ainda possível é a intencionalidade, que se relaciona diretamente
com o objetivo do autor ao proferir um texto. Sua intenção, aqui, deve ser bem
norteada de modo a completar o sentido da informatividade e da situacionalidade
propostas. Marcuschi (2008, p. 127), explicita que tal objetivo do autor deve ser
interpretado e apreendido pelo receptor, ou seja, a intencionalidade é “a intenção do
locutor de produzir uma manifestação linguística coesiva e coerente”.
Relacionado ao fator da intencionalidade, está o quarto fator pragmático da
textualidade: aceitabilidade. A aceitabilidade se centra no receptor de um texto, que
será o responsável por estabelecer relações de sentido com a produção linguística do
autor, de maneira a assegurar o cumprimento do objetivo proposto pelo segundo.
Intencionalidade e aceitabilidade não são aspectos materiais de um texto, mas são
fatores primordiais para que a textualidade seja completada com a interpretação
correto do sentido transmitido por determinado texto, completando, assim, o ciclo
de uma atividade comunicativa simples.
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Figura 4 - Intencionalidade - Fonte: Adaptado Freepick Vetores, 2019 
Consistência e relevância são, ainda, dois fatores imprescindíveis para que um texto
seja considerado coerente, signi�cando que, consistentemente, “todos os enunciados
de um texto possam ser verdadeiros, isto é, não contraditórios dentro de um mesmo
mundo ou dentro de diversos mundos representados num texto”. (KOCH, 2015, p.
53).
Um texto coerente, portanto, tem que ser capaz de expressar seu objetivo de
maneira contextualizada, e de modo claro e conciso, para que o receptor consiga
decifrá-lo, e ainda, deve seguir uma �uência de raciocínio para que as informações
estejam de acordo e bem relacionadas a todos os outros fatores vistos até aqui.
O critério de relevância, por sua vez, diz respeito às informações transmitidas por um
texto, pois essas devem ser, como o próprio nome diz, relevantes dentro do assunto
em que tal texto é discorrido. “Assim, a relevância não se dá linearmente entre pares
de enunciados, mas entre conjuntos de enunciados e um tópico discursivo”. (KOCH,
2015, p. 53).
Outro recurso que também caracteriza a textualidade de um texto é a focalização.
Esse recurso in�uencia diretamente no entendimento de um texto por parte do
receptor, por permitir diferentes focalizações, um texto pode apresentar vários
sentidos, dependendo do conteúdo consciente do receptor. E, “a focalização é, ainda,
responsável pela escolha de descrições ou expressões nominais, na
construção/reconstrução de referentes textuais”. (KOCH, 2015, p. 53).
A interdependência que os textos têm entre si, é chamada de intertextualidade, que
segundo Guimarães (2009, p. 134), é um “processo de incorporação de um texto em
outro, seja para reproduzir o sentido incorporado, seja para transformá-lo”.
Koch (2014) ainda completa que todos os textos têm algum tipo de relação com
outro texto, principalmente por fazerem parte de conteúdo de consciente dos
autores e, também, dos receptores. A possibilidade de interação entre textos, por
meio de comentários, citação, paráfrase é quepermite a reprodução de ideias sem
plagiar autores, visto que há possibilidade de se utilizar desse recurso para fazer
alusão a outro texto, contextualizar informações e dados etc.
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Gonçalves Dias escreveu a Canção do exílio:
Minha terra tem palmeiras, 
Onde canta o Sabiá; 
As aves que aqui gorjeiam, 
Não gorjeiam como lá. 
Nosso céu tem mais estrelas, 
Nossas várzeas têm mais �ores, 
Nossos bosques têm mais vida, 
Nossa vida mais amores. 
Em cismar, sozinho, à noite, 
Mais prazer eu encontro lá; 
Minha terra tem palmeiras, 
Onde canta o Sabiá. 
Minha terra tem primores, 
Que tais não encontro eu cá; 
Em cismar – sozinho, à noite– 
Mais prazer eu encontro lá; 
Minha terra tem palmeiras, 
Onde canta o Sabiá. 
Não permita Deus que eu morra, 
Sem que eu volte para lá; 
Sem que desfrute os primores 
Que não encontro por cá; 
Sem qu’inda aviste as palmeiras, 
Onde canta o Sabiá. 
DIAS, Gonçalves. Cinco Estrelas. Rio de Janeiro: Objetiva, 2001.
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Então, Carlos Drummond de Andrade se utiliza da paráfrase para criar a “Nova
canção do exílio” e os dois textos passam a apresentar pontos de vista semelhantes
comum a reorganização das ideias:
Um sabiá 
na palmeira, longe. 
Estas aves cantam 
um outro canto. 
O céu cintila 
sobre �ores úmidas. 
Vozes na mata, 
e o maior amor. 
Só, na noite, 
seria feliz: 
um sabiá, 
na palmeira, longe. 
Onde é tudo belo 
e fantástico, 
só, na noite,seria feliz. 
(Um sabiá,na palmeira, longe.) 
Ainda um grito de vida e 
voltar 
para onde é tudo belo 
e fantástico: 
a palmeira, o sabiá, 
o longe. 
ANDRADE, Carlos Drummond de. A Rosa do Povo. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1945.
Com isso, é possível veri�car que para que haja, de fato, a intertextualidade, é
necessário que o receptor ative o conteúdo de consciência, para reconhecer as
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semelhanças entre os textos e, assim, entender seu sentido completo. Como diz
Koch (2011, p. 46),
todo texto é um objeto heterogêneo, que revela uma relação radical de seu interior com seu
exterior; e, desse exterior, evidentemente, fazem parte outros textos que lhe dão origem, que o
pré-determinam, com os quais dialoga, que retoma, a que alude, ou a que se opõe.
3. Referência e referenciação
Os referentes são fabricados na dimensão da percepção-cognição e, são eles que
condicionam os eventos semânticos de sentido. Blikstein (1995 apud KOCH, 2015, p.
59), diz que
o fato de ser o referente (objeto mental, unidade cultural) extralinguístico não signi�ca que
deva ser relegado pela Linguística, pois ele está simplesmente situado atrás ou antes da
linguagem, como um evento cognitivo, produto de nossa percepção.
Dessa maneira, Blikstein aponta a necessidade que a Linguística Textual, têm de
considerar o referente (percepção/cognição) na semântica, visto que para que haja
signi�cação linguística, o referente é essencial. A realidade, então, é totalmente
in�uenciada pela percepção e pela cognição do receptor, sendo, portanto, o
referente, o criador da realidade. Com isso, referenciar explica por que vários
autores a�rmam que um texto sempre sofre in�uência de outros, visto que a
realidade é fabricada pelas interações culturais e perceptivas e, ainda,
potencializadas pela língua.
Assim, os processos de referenciação também criam elos “entre o texto e a parte não
linguística da prática em que ele é produzido e interpretado” (MONDADA; DUBOIS,
2003, p. 20). São, logo, nesses processos que ocorrem a modi�cação e
recategorização de nossas realidades de mundo, representando a signi�cação de
mundo por meio das práticas sociais e linguísticas.
Contudo, a referenciação não pode ser considerada apenas uma retomada de
informações em um texto, e sim, deve ser entendida como “uma atividade discursiva
atrelada ao saber adquirido linguisticamente pelo próprio texto, bem como pelos
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conteúdos inferenciais através de elementos presentes ligados aos conhecimentos
lexicais, enciclopédicos e culturais como também as opiniões e saberes mobilizados
na interação autor – texto – leitor. (ELIAS; KOCH, 2008 apud SANTANA et al, 2012).
Podemos dizer que a transição da referência à referenciação se dá entre as relações
discurso – realidade, de modo a dar sentido ao individual e ao coletivo, que constitui
a realidade de mundo do ser social.
3.1. Estratégias de referenciação
O processo de referenciação, em um texto, garante sua produção de sentido e sua
progressão textual; para tanto, é possível fazer uso de algumas estratégias de
referenciação:
Ativação
Reativação
De-ativação
Tais estratégias disponibilizam ao autor a inserção ou manutenção dos referentes
em um texto, visto que, o referente pode sofrer alterações durante o processo de
apreensão de sentido de um texto.
Veja o exemplo:
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Figura 5 - Ronaldo, o polêmico - Fonte: Revista Época, 2009
Martins (2013), explica o exemplo acima:
percebe-se que o referente “o fenômeno Ronaldo” inicialmente introduzido por ativação é
retomado e mantido, primeiro, por meio do substantivo “jogador”; segundo, pelo nome
“Ronaldo”. Além desse referente, há também a de-ativação “cunhado Caio” que na progressão
textual é referido na sequência por “marido da irmã”.
Assim, a variação de referenciação – fenômeno, jogador, Ronaldo etc. – ocorre como
meio de retomar o referente (ou objeto), “Ronaldo” no texto. Segundo Martins (2013),
a escolha por estes processos de referenciação especí�cos, no texto, aconteceu para
que o receptor pudesse chegar ao sentido real proposto pelo autor. Ainda, de acordo
com a autora,
as formas de referenciação se dão por um entrelaçamento sistemático entre as partes
formadoras do texto. Desse modo, a referência não pode ser vista apenas como um produto
da língua, mas como parte do complexo processo de interação entre os sujeitos envolvidos nas
atividades enunciativas. Fazer Referência, ou referir é muito mais do que indicar objetos do
mundo.
4. Formas de articulação
textual
Os elementos que compõem um texto são relacionados a sua textualidade, que
ocorre quando todos são enunciados são estruturados por elementos que lhe
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garantem progressão textual; essa progressão textual pode ser chamada também de
articulação textual.
A articulação textual é, como parte integrante de um texto, um dos objetos de
investigação da Linguística Textual, e pode ser expressa por meio de atividades
formuladas quando o autor introduz distintos tipos de recorrências, como
“reiteração de itens lexicais, paralelismos, paráfrases, recorrência de elementos
fonológicos, de tempos verbais etc.” (KOCH, 2015, p. 84).
Então, quando tratamos da articulação textual, tratamos, também, da coerência e da
textualidade de um texto em si. Quando tratamos da coesão de um texto, estamos
versando sobre os elementos que possibilitam a ele o encadeamento das ideias
proposta, de modo que a interação entre os sujeitos (autor – receptor) seja possível.
Com isso, podemos dizer, então, que os articuladores textuais são “conectores
responsáveis peloencadeamento de natureza sintática, semântica e pragmática”.
(NASCIMENTO, 2008) E, assim, segundo Koch (2015), a repetição ou reiteração de
itens lexicais, no texto, é um recurso utilizado para contextualizar o sentido proposto
pelo autor que não seria possível caso determinado item lexical fosse utilizado
apenas uma vez. Isto porque, um mesmo item lexical carrega em cada uma de suas
aparições no texto um sentido completo e distinto do anterior, e que completam o
sentido de sua aparição primeira e/ou anterior, consequentemente.
O paralelismo por sua vez, é a presença de estruturas sintáticas iguais, com o uso de
diferentes itens lexicais nos enunciados do texto. Koch (2015, p. 82) diz que o
paralelismo sintático “é, frequentemente, acompanhado de um paralelismo rítmico
ou similicadência.
Já a paráfrase é apresentada no texto por meio do uso de conteúdos semânticos
iguais expressos sob formas estruturais distintas entre si. Em português, as
marcações linguísticas que demonstram a introdução de uma paráfrase no texto são:
isto é, ou seja, quer dizer, ou melhor, em outras palavras, em síntese, em resumo etc.
Quando há enunciados compostos por diferentes itens fonológicos, que indiquem
igualdade de metro, ritmo, rima, assonâncias, aliterações etc., o recurso de
progressão textual é chamado de recorrência de recursos fonológicos.
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E, por �m, a recorrência de tempos verbais é utilizada com a �nalidade de auxiliar o
receptor a entender a mensagem transmitida pelo autor, de modo que este entenda
se determinada produção textual diz respeito a um relato, uma retrospectiva, um
comentário etc. Esses recursos de recorrência, têm como função textual enfatizar
algo que o autor acredite ser fundamental para o entendimento o real sentido pelo
receptor.
Por outro lado, quando a progressão textual acontece sem a utilização dessas
recorrências, implicando em que a continuação de sentido aconteça por meio de
diferentes procedimentos linguísticos, Koch (2015, p. 85) aponta que, tais recursos
também se tornam fatores de coesão textual
e interferem de maneira direta na construção da coerência na medida em que garantem a
manutenção do tema, a progressão temática, o estabelecimento das relações semânticas e/ou
pragmáticas entre segmentos maiores ou menores do texto, a ordenação e a articulação de
sequências textuais.
Os procedimentos linguísticos que podem ser recorridos para a progressão de um
texto, nesse caso, são:
agrupamento metalinguístico;
conexão temporal;
conexão de pressupostos;
contraste adversativo;
correção de asserções precedentes;
comentário;
confronto/ comparação etc.
Existe, ainda, a possibilidade de que o encadeamento de um texto aconteça através
de conexões. Isto é, quando o uso de todo e qualquer tipo de conector é realizado
para auxiliar na progressão textual.
Koch (2015, p. 87-93), enumera esses conectores como:
causalidade (causa e consequência);
mediação (causalidade intencional);
condicionalidade;
temporalidade;
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conformidade;
disjunção;
conjunção (soma de argumentos);
disjunção argumentativa (efeito de provocação);
justi�cação ou explicação;
comparação;
conclusão;
comprovação;
generalização;
modalização da força ilocucionária;
correção;
reparação;
especi�cação ou exempli�cação e;
contrajunção (oposição).
Então, por meio da utilização dos recursos linguísticos aqui apresentados é que o
autor consegue assegurar a produção de sentido textual que expressa, explícita ou
implicitamente, os recursos de textualidade e, consequentemente, os recursos de
coesão e coerência necessários para que uma produção textual com foco na
interação sociocomunicativa seja considerada texto.
O Prof. Dr. Luiz Carlos Travagalia dá uma entrevista sobre os usos da língua
e fala sobre a linguística de maneira contextualizada. Assista aqui .
Síntese
Nesta unidade demos início aos estudos da Linguística Textual:
compreendemos seu percurso de desenvolvimento e seu panorama histórico;
delineamos seu objeto de investigação, apresentando as alterações e adequações
que aconteceram com o passar do tempo para que a Linguística Textual pudesse ser
https://youtu.be/grgp7YZ9Gtk
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https://student.ulife.com.br/ContentPlayer/Index?lc=02mqUsfF0xqJvz3TKJFPXQ%3d%3d&l=coQ6Cd0%2f6AFyTUl8xrTfKw%3d%3d&cd=r7K0… 22/24
inserida no contexto escolar;
notamos a necessidade da presença dos recursos de textualidade para um texto
tenho sentido completo;
entendemos o texto como toda produção com o objetivo sociointeracionista,
podendo analisar e tratar, por exemplo, de produções musicais, imagéticos, textuais,
entre outras;
discutimos sobre a importância da coesão na construção do sentido do texto, e que
ela é representada pela utilização dos recursos de textualidade com �ns de
assegurar seu encadeamento e progressão textual, por meio dos fatores
pragmáticos possíveis;
tratamos sobre as diferenças de referência e referenciação como modo de
apresentar um objeto no texto, e com a intenção de auxiliar o receptor/leitor em sua
assimilação do texto para a compreensão de seu real sentido;
reconhecemos algumas das maneiras possíveis de articulação de um texto,
conceituando os elementos que adotamos para unir os enunciados que propõem
nossas ideias para a construção de um texto e de seu sentido.
Agora, estamos prontos para aprofundar nossos estudos acerca da Linguística
Textual nas próximas unidades.
Até lá!
Download do PDF da unidade
Bibliografia
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Acesse: https://www.youtube.com/watch?v=IVxdHi2ZRcY 
Acesse: https://www.youtube.com/watch?v=DNhHs0PaSfE 
https://www.youtube.com/watch?v=IVxdHi2ZRcY
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