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Direito à educação e o Estatuto da Criança e do Adolescente
Introdução
Antes de tratar sobre o direito à educação no ECA - Estatuto da Criança e do
Adolescente - sugere-se aos cursistas uma visita ao site do Ministério Público do
estado do Paraná para visualizar a linha do tempo sobre os direitos de crianças e
adolescentes no Brasil.
👉 https://crianca.mppr.mp.br/pagina-2174.html
O material retoma quais eram os direitos das crianças e dos adolescentes, em
meados do início do século XVIII. Era uma época em que havia no país as “Rodas
dos Rejeitados” e a atenção às crianças tinha caráter meramente religioso. A
sequência dos acontecimentos nos mostra o quão recentes são as medidas do
Estado para controle da assistência dos menores em escala nacional.
Somente em 1941 foi instituído um Serviço de Assistência a Menores (SAM),
que atendia aos "menores abandonados" e "desvalidos", encaminhando-os às
instituições oficiais existentes. Os "menores delinquentes" eram internos em colônias
correcionais e em reformatórios.
Em 1979 elaborou-se um Código de Menores, que trazia um pouco da
doutrina da proteção integral presente na concepção futura do ECA, mas somente
http://crianca.mppr.mp.br/pagina-2174.html#:~:text=O%20Estatudo%20da%20Crian%C3%A7a%20e,da%20sociedade%20e%20do%20Estado
http://crianca.mppr.mp.br/pagina-2174.html#:~:text=O%20Estatudo%20da%20Crian%C3%A7a%20e,da%20sociedade%20e%20do%20Estado
https://crianca.mppr.mp.br/pagina-2174.html
com a Constituição Federal de 1988 que se estabeleceu como dever da família, da
sociedade e do Estado “assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com
absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à
profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência
familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência,
discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão". Foi também aí que o
direito à educação foi consagrado pela primeira vez como um direito social.
A Constituição de 88 e seus novos ares permitiram a promulgação do
Estatuto da Criança e do Adolescente em 1990. Marco legal sobre o assunto no país,
reuniu reivindicações de movimentos sociais que trabalharam por décadas em defesa
da ideia de que crianças e adolescentes também são sujeitos de direitos e merecem
acesso à cidadania e proteção.
Isso significa reconhecer que são pessoas em formação de sua
personalidade, de sua integridade física e moral e que estes aspectos são
fundamentais para o seu desenvolvimento humano. Constitui-se numa verdadeira
mudança de paradigma.
1- Aspectos gerais do ECA
Para facilitar, o ECA foi dividido em cinco direitos fundamentais:
I - Direito à Vida e à Saúde
II – Direito à Liberdade, Respeito e Dignidade
III – Direito à Convivência Familiar e Comunitária
IV – Direito à Educação, Cultura, Esporte e Lazer
V – Direito à Profissionalização e Proteção no Trabalho.
Os eixos centrais da lei são a sobrevivência, o desenvolvimento pessoal e
social, e a integridade física, moral, psicológica e social do menor.
http://crianca.mppr.mp.br/pagina-440.html
As políticas prioritárias são a saúde, a educação e a proteção especial; e são direitos
fundamentais garantidos o direito à vida, à saúde e à alimentação, à educação, à
cultura, ao esporte, ao lazer e à profissionalização.
A convivência familiar e comunitária, a liberdade, a dignidade e o respeito
também são direitos garantidos pela lei nº 8.069, de 13 de julho de 1990.
1.1 O direito à educação no ECA
A educação, portanto, é uma das políticas prioritárias da lei que, ao contrário
dos dizeres populares alardeados pela mídia, não ameaça a autoridade do sistema
educacional nem os pais e/ou responsáveis pelas crianças e adolescentes, sendo, na
verdade, um contentor das negligências promovidas contra elas e importante
ferramenta de trabalho para os profissionais da educação em suas ações
pedagógicas. É também um instrumento que garante as políticas públicas
necessárias à infância e à juventude em situações de risco e vulnerabilidade social.
Segundo o ECA, “a criança e o adolescente têm direito à educação, visando
ao pleno desenvolvimento de sua pessoa, preparo para o exercício da cidadania e
qualificação para o trabalho”.
A lei assegura:
● Igualdade de condições para o acesso e permanência na escola;
● Direito de ser respeitado por seus educadores;
● Direito de contestar critérios avaliativos, podendo recorrer às instâncias
escolares superiores;
● Direito de organização e participação em entidades estudantis, e
● Acesso a escola pública e gratuita próxima de sua residência.
O estatuto também estipula os deveres do Estado para que sejam
assegurados os direitos apontados, quais sejam:
http://www.educadores.diaadia.pr.gov.br/arquivos/File/formacao_acao/1semestre_2015/agentes_eca_anexo1.pdf
http://www.educadores.diaadia.pr.gov.br/arquivos/File/formacao_acao/1semestre_2015/agentes_eca_anexo1.pdf
● Garantir ensino fundamental, obrigatório e gratuito, inclusive para os que
a ele não tiveram acesso na idade própria;
● Assegurar progressivamente a extensão da obrigatoriedade e
gratuidade ao ensino médio;
● Oferecer atendimento educacional especializado aos portadores de
deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino;
● Oferecer atendimento em creche e pré-escola às crianças de zero a seis
anos de idade;
● Garantir acesso aos níveis mais elevados do ensino, da pesquisa e da
criação artística, segundo a capacidade de cada um;
● Ofertar ensino noturno regular, adequado às condições do adolescente
trabalhador;
● Promover atendimento no ensino fundamental, através de programas
suplementares de material didático escolar, transporte, alimentação e
assistência à saúde.
Vale lembrar que o acesso ao ensino obrigatório e gratuito é um direito
público subjetivo, o que quer dizer que, caso o Poder Público não o garanta ou não o
faça de maneira regular, o cidadão tem a possibilidade de exigi-lo judicialmente.
Todos os poderes - Executivo, Legislativo e Judiciário - e níveis da
federação - União, Estados e Municípios - devem efetivar os direitos e garantias
previstos, bem como fiscalizar seu cumprimento, para o qual devem existir órgãos
capacitados e competentes para tal.
Tem-se hoje, por exemplo, Coordenadorias de Educação (escolas
municipais), Diretorias Regionais de Ensino (escolas estaduais), Secretarias de
Educação (estadual e municipal), Defensoria Pública, Ministério Público, Poder
Judiciário, Conselhos Tutelares, e Conselhos de Direitos da Criança e do
Adolescente.
Reforçando: prefeituras, governos estaduais e governo federal têm como
uma de suas funções principais promover a política social básica da Educação e são
obrigados a oferecer e cuidar de uma rede constante de ensino.
A Lei de Diretrizes e Bases da Educação chegou em 1996 para especificar
que à União cabe a função de estabelecer uma política nacional de educação, que
aos Estados cabe oferecer o ensino fundamental gratuito e priorizar o ensino médio e
que aos municípios cabe prover o ensino infantil (creche e pré-escola), priorizando o
ensino fundamental.
2- Medidas protetivas
O ECA determina a possibilidade de aplicação de medidas protetivas sempre
que os direitos nele previstos forem ameaçados ou violados. Isso vale tanto para as
ameaças aos direitos pelo Estado, pela sociedade ou pela própria família.
Nesse caso a atuação da Defensoria Pública ou do Ministério Público serão
essenciais, sem falar nos Conselhos Tutelares, órgãos permanentes e autônomos,
não jurisdicionais, encarregados pela sociedade de zelar pelo cumprimento dos
direitos definidos no Estatuto.
Caso os pais, por exemplo, não encontrem vagas nas escolas para os filhos, o
Conselho Tutelar pode ser acionado, solicitando ao serviço público o atendimento da
demanda. Da mesma maneira, o Conselho pode exigir dos pais a matrícula e a
frequência obrigatória em estabelecimento oficial de ensino. Afinal, ainda não há leique regulamente a educação domiciliar no Brasil, sendo obrigatório o ensino em
instituição adequada dos 4 a 17 anos de idade, compreendendo três etapas: a
educação infantil, o ensino fundamental e o ensino médio.
A propósito, o ECA também prevê medidas socioeducativas, direcionadas
exclusivamente aos adolescentes que tenham praticado atos infracionais e, ainda que
o adolescente esteja cumprindo sanção pela prática de algum ato, seu direito à
educação em nada é afetado.
Por fim, vamos lembrar que uma das obrigações impostas aos gestores
escolares é comunicar ao Conselho Tutelar, sob pena de cometer infração
administrativa, casos de maus-tratos envolvendo seus alunos, reiteração de faltas
injustificadas e de evasão escolar e elevados níveis de repetência, após esgotados os
recursos escolares de solução pedagógica dos casos específicos.
http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l9394.htm
Essa é uma das grandes questões que envolvem o debate sobre o momento
adequado do retorno às aulas presenciais, inclusive, pois enquanto a criança e o
adolescente estão dentro de sala de aula encontram-se em apoio psicossocial. Sem
escola muitas vezes não têm com quem ficar, se privam da merenda escolar, sofrem
mais violência doméstica e gravidez precoce.
Outro eixo de promoção do direito à Educação consolidado pelo ECA é a
família, sendo os pais e/ou responsáveis compelidos a matricular as crianças e
adolescentes nas instituições de ensino e garantir a permanência deles até o final do
período compulsório. Alguns programas públicos de distribuição de renda, inclusive,
condicionam o benefício à frequência escolar.
O não cumprimento dessas obrigações também pode acarretar sanções de
natureza civil e penal. Na esfera cível, responsabilidade em razão do poder familiar e,
na penal, sujeição à infração do art. 2464 do Código Penal, pelo crime de abandono
intelectual.
Os 30 anos do ECA e a pandemia
Trinta anos se passaram desde a promulgação do ECA e não se pode negar
que houve enormes avanços na proteção dos direitos das crianças e dos
adolescentes.
O ECA promoveu mudanças culturais, como a forma de ver o trabalho infantil.
A partir do estatuto não pode mais haver trabalho até os 16 anos, salvo em condição
de aprendizagem, a partir dos 14 anos. A violência física como instrumento mediador
da educação familiar também passou a ser repudiada, existindo, inclusive, outras leis
a respeito do tema.
Entre outros avanços está o crescimento dos percentuais de crianças e
adolescentes na escola. O Relatório do 3º Ciclo de Monitoramento do Plano Nacional
de Educação (PNE) 2020 demonstra que 98,1% da população de 6 a 14 anos
frequenta ou já concluiu o ensino fundamental e 73,1% dos adolescentes de 15 a 17
anos frequentam ou já concluíram o ensino médio.
https://agenciabrasil.ebc.com.br/direitos-humanos/noticia/2020-07/estatuto-ajudou-pais-a-avancar-na-universalizacao-do-ensino
Apesar de a educação brasileira ainda ter que superar o desafio da qualidade,
os índices anteriores ao ECA eram muito menores, sem contar a inexistência do
Conselho Tutelar, que ampliou a rede de proteção à infância. O antigo Código de
Menores – de 1979 - identificava crianças e adolescentes como indivíduos com
menos direitos e apenas depois da vigência do Estatuto tivemos órgãos competentes
para lidar tanto na prevenção de violação de direitos quanto no enfrentamento dos
inúmeros problemas ainda existentes.
Com a pandemia, o ECA ganhou novos e inéditos desafios. Agora a
preocupação é o não agravamento da vulnerabilidade social das crianças e
adolescentes fora das escolas há mais de 06 meses.
A crise não é de pouca monta: já se percebe queda nos indicadores de
aprendizagem dos alunos menos favorecidos e, num segundo momento, é previsto o
aumento das desigualdades. Milhares de estudantes não conseguiram continuar os
estudos, seja pela escola não poder propiciar o ensino remoto, seja pela inviabilidade
de acessar o conteúdo ou pela necessidade de, em plena pandemia, trabalhar para
ajudar a família em desespero econômico. O aumento na evasão escolar também é
aguardado, já que houve quebra do vínculo aluno/escola.
Em recente relatório, a OCDE afirma que o Brasil, devido ao tratamento dado
à pandemia, fez com que os alunos ficassem mais tempo sem aulas presenciais se
comparado a várias outras nações. Há a crítica de que outros países, como Portugal,
por exemplo, frearam a reabertura de outros serviços para priorizar o retorno às
escolas, enquanto nós fizemos o contrário.
Enfim, é importante lembrar que, após os 30 anos de existência, o ECA já foi
alvo de mais de 20 leis que modificaram sua redação original e ainda estão em
análise na Câmara dos Deputados mais de 300 propostas que pretendem alterar o
estatuto. Muitas mudanças vieram para modernizar a norma, mas, em relação a
novos projetos, pelo menos um quarto deles tem o interesse de endurecer a punição
aos adolescentes infratores.
Fato é que, apesar de uma constante desinformação dentro do próprio país
sobre sua adequação e eficiência, o Estatuto da Criança e do Adolescente é visto
como referência mundial na defesa dos direitos da infância e da adolescência.
https://www.youtube.com/watch?v=UOsThta5_34&feature=youtu.be
https://www.youtube.com/watch?v=UOsThta5_34&feature=youtu.be
https://www.youtube.com/watch?v=UOsThta5_34&feature=youtu.be
Lei que nasceu com essência democrática, levando em consideração
perspectivas de especialistas de diversas áreas; lei que protege a infância e a
Educação e que, por consequência, protege a sociedade inteira.
Fonte:
SANTOS, A. L. JACOBS, E. O direito à educação no Estatuto da Criança e do
Adolescente. Disponível em:
<https://www.jacobsconsultoria.com.br/post/o-direito-%C3%A0-educa%C3%A7%C3%
A3o-no-estatuto-da-crian%C3%A7a-e-do-adolescente>. Acesso em 23/08/2022. (Com
algumas adaptações feitas pela autora).
Imagem: Imagem de Dorothe por Pixabay. Gratuita.
https://www.inesc.org.br/uma-lei-que-protege-a-infancia-protege-a-sociedade-inteira/
https://www.inesc.org.br/uma-lei-que-protege-a-infancia-protege-a-sociedade-inteira/
https://www.jacobsconsultoria.com.br/post/o-direito-%C3%A0-educa%C3%A7%C3%A3o-no-estatuto-da-crian%C3%A7a-e-do-adolescente
https://www.jacobsconsultoria.com.br/post/o-direito-%C3%A0-educa%C3%A7%C3%A3o-no-estatuto-da-crian%C3%A7a-e-do-adolescente
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