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Equipe de tradução Anne D. Villela (Cap. 2 e 3) Doutora em Biologia Celular e Molecular pela Pontif ícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUCRS). Ardala Breda (Caps. 4, 5, 16, 17, 21) Pesquisadora do Departamento de Bioquímica na Texas A&M University. Ph.D. em Biologia Celular e Molecular pela PUCRS. Armando Divan Molina Junior (Caps. 26 a 34) Biólogo. Pesquisador do Centro de Ecologia do Instituto de Biociências da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS). Mestre em Ecologia pela UFRGS. Doutor em Fisiologia Vegetal pela Universidade Federal de Viçosa (UFV). Christian Viezzer (Caps. 11, 49, 50 e 51) Mestre em Engenharia e Tecnologia de Materiais pela PUCRS. Doutor em Ciência e Tecnologia dos Materiais-PPGEM pela UFRGS. Pós-Doutor em Biologia Celular e Molecular pela PUCRS. Denise Cantarelli Machado (Caps. 7, 12, 13, 19, 24 e 25) Bióloga. Professora da Faculdade de Medicina e Coordenadora do Laboratório de Biologia Celular e Molecular e do Centro de Terapia Celular do Instituto de Pesquisas Biomédicas da PUCRS. Especialista em Biotecnologia. Mestre em Genética pela UFRGS. Doutora em Imunologia pela University of Sheffield, Inglaterra. Pós-Doutora em Imunologia Molecular pela University of Sheffield e National Institutes of Health (NIH), Bethesda, USA. Gaby Renard (Caps. 3, 6, 14, 15, 18, 20, 22, 23 e 45, Iniciais, Apêndices) Pesquisadora da Quatro G Pesquisa & Desenvolvimento Ltda., TECNOPUC. Mestre e Doutora em Ciências Biológicas: Bioquímica pela UFRGS. Jocelei Maria Chies (Cap. 6) Pesquisadora da Quatro G Pesquisa & Desenvolvimento Ltda., TECNOPUC. Mestre em Genética pela UFRGS. Doutora em Biologia Molecular pela Universidade de Brasília (UnB). Jordana Dutra de Mendonça (Caps. 12, 13) Mestre em Ciências Biológicas: Bioquímica pela UFRGS. Laura Roberta Pinto Utz (Caps. 22 a 25) Mestre em Biologia Animal pela UFRGS. Doutora em Marine Estuarine and Environmental Sciences (MEES) pela University of Maryland at College Park. Leandro Vieira Astarita (Cap. 10) Biólogo. Professor adjunto da Faculdade de Biociências da PUCRS. Doutor em Ciências (ênfase em Botânica) pela Universidade de São Paulo (USP). Leonardo Krás Borges Martinelli (Cap. 9) Pesquisador do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Tuberculose (INCT-TB/PUCRS). Mestre em Engenharia Biomédica pela PUCRS. Doutor em Biologia Celular e Molecular pela PUCRS. Paulo Luiz de Oliveira (Caps. 2, 8, 35 a 39, 40 a 44 e 52 a 56) Biólogo. Professor titular aposentado do Departamento de Ecologia do Instituto de Biociências da UFRGS. Mestre em Botânica pela UFRGS. Doutor em Ciências Agrárias pela Universität Hohenheim, Stuttgart, República Federal da Alemanha. Rodrigo Gay Ducati (Cap. 1) Pesquisador pós-doutor no Albert Einstein College of Medicine (Bronx, NY - EUA). Mestre em Genética e Biologia Molecular pela UFRGS. Doutor em Biologia Celular e Molecular pela UFRGS. Thamires Barreto Ferreira (Caps. 46, 47 e 48) Bióloga. Graduada em Ciências Biológicas pela PUCRS. Catalogação na publicação: Poliana Sanchez de Araujo – CRB 10/2094 B615 Biologia de Campbell [recurso eletrônico] / Jane B. Reece ... [et al.] ; [tradução : Anne D. Villela ... et al.] ; revisão técnica : Denise Cantarelli Machado, Gaby Renard, Paulo Luiz de Oliveira. – 10. ed. – Porto Alegre : Artmed, 2015. Editado como livro impresso em 2015. ISBN 978-85-8271-230-6 1. Biologia. I. Reece, Jane B. CDU 573 Poderosos cogumelos Caminhando pela Floresta Nacional de Malheur, no leste do Oregon, você pode observar algumas aglomerações de cogumelos-do-mel (Armillaria ostoyae) dispersas aqui e ali, sob as árvores imponentes (Figura 31.1). Embora você possa pensar que as coníferas em volta são maiores que os cogumelos, na verdade o contrário é verdadeiro. Todos esses cogumelos são apenas a parte acima do solo de um único fungo enorme. Sua rede subterrânea de filamentos se espalha por 965 hectares de floresta. Com base em sua taxa de crescimento atual, os cientistas estimam que esse fungo, que pesa centenas de toneladas, esteja crescendo há mais de 1.900 anos. O invisível cogumelo-do-mel no chão da floresta é um símbolo adequado da negligenciada grandeza do reino Fungi. A maioria das pessoas dá pouca atenção a esses eucariotos além dos cogumelos que comemos ou pela ocasio- nal coceira causada por pé-de-atleta. Entretanto, os fungos são um enorme e importante componente da biosfera. Embora cerca de 100 mil espécies te- nham sido descritas, pode haver até 1,5 milhão de espécies de fungos. Alguns fungos são exclusivamente unicelulares, mas a maior parte tem complexos cor- pos multicelulares. Esses organismos diversos são encontrados em quase todos os hábitats imagináveis, desde terrestres até aquáticos. Os fungos não são apenas diversos e amplamente distribuídos, são tam- bém essenciais ao bem-estar da maioria dos ecossistemas. Eles decompõem o material orgânico e reciclam nutrientes, permitindo a outros organismos as- similar elementos químicos essenciais. Os seres humanos utilizam os fungos como fonte de alimento, para aplicações na agricultura e silvicultura e na fabri- cação de produtos que variam desde pães até antibióticos. Contudo, também é verdadeiro que alguns fungos causam doenças em plantas e animais. Figura 31.1 Qual é o maior organismo nesta floresta? 31 Fungos C O N C E I T O S - C H A V E 31.1 Fungos são heterótrofos que se alimentam por absorção 31.2 Fungos produzem esporos por meio de ciclos de vida sexual e assexual 31.3 O ancestral dos fungos foi um protista unicelular, aquático e flagelado 31.4 Os fungos irradiaram em um conjunto diverso de li- nhagens 31.5 Os fungos desempenham papéis essenciais na cicla- gem de nutrientes, nas interações ecológicas e no bem-estar humano BIOLOGIA DE CAMPBELL 649 Neste capítulo, investigaremos a estrutura e a histó- ria evolutiva dos fungos, examinaremos os principais gru- pos de fungos e discutiremos sua significância ecológica e comercial. CONCEITO 31.1 Fungos são heterótrofos que se alimentam por absorção Apesar de sua enorme diversidade, todos os fungos com- partilham alguns atributos fundamentais, e o aspecto mais importante é o modo pelo qual eles obtêm sua nutrição. Além disso, muitos fungos crescem pela formação de fila- mentos multicelulares, uma estrutura corporal que desem- penha um papel importante na maneira como eles obtêm alimento. Nutrição e ecologia Assim como os animais, os fungos são heterótrofos: não conseguem produzir seu próprio alimento como as plantas e algas conseguem. Todavia, ao contrário dos animais, os fungos não ingerem (comem) seu alimento. Em vez disso, um fungo absorve os nutrientes do ambiente externo ao seu corpo. Muitos fungos fazem isso pela secreção de enzimas hidrolíticas em seu entorno. Essas enzimas decompõem moléculas complexas em compostos orgânicos menores que os fungos podem absorver e utilizar. Outros fungos usam enzimas para penetrar as paredes das células, possibi- litando que eles absorvam seus nutrientes. Coletivamente, as diferentes enzimas encontradas em várias espécies de fungos podem digerir compostos de uma ampla diversidade de fontes, vivas ou mortas. Essa diversidade de fontes de ali- mento corresponde aos variados papéis dos fungos nas comunidades ecológi- cas: diferentes espécies vivem como de- compositores, parasitos ou mutualistas. Os fungos decompositores decompõem e absorvem nutrientes de material or- gânico não vivo, como troncos caídos, cadáveres de animais e resíduos de organismos vivos. Os fungos parasi- tos absorvem nutrientes das células de hospedeiros vivos. Alguns fungos pa- rasitos são patogênicos, incluindo mui- tas espécies que causam doenças em plantas. Fungos mutualistas também absorvem nutrientes de um organismo hospedeiro, mas retribuem com ações que o beneficiam. Por exemplo, fungos mutualistas que vivem dentro de certas espécies de térmites usam suas enzimas para decompor madeira, como proce- dem os protistosmutualistas em outras espécies de térmites (ver Figura 28.27). As versáteis enzimas que possibilitam aos fungos dige- rir uma ampla gama de fontes de alimento não são a única razão para seu sucesso ecológico. Outro fator importante é como sua estrutura corporal aumenta a eficiência da ab- sorção de nutrientes. Estrutura corporal A estrutura corporal fúngica mais comum são filamentos multicelulares e células isoladas (leveduras). Muitas espé- cies de fungos podem crescer tanto como filamentos como leveduras, mas a maioria cresce mesmo apenas em forma de filamentos; relativamente poucas espécies crescem ape- nas como leveduras. Muitas vezes, as leveduras habitam ambientes úmidos, incluindo a seiva de plantas e tecidos animais, onde há um suprimento pronto de nutrientes so- lúveis, como açúcares e aminoácidos. A morfologia de fungos multicelulares intensifica sua capacidade para crescer e absorver nutrientes de suas vizi- nhanças (Figura 31.2). Os corpos desses fungos formam uma rede de filamentos finos, chamados de hifas. As hi- fas consistem em paredes celulares tubulares envolvendo a membrana plasmática e o citoplasma das células. As pa- redes celulares são reforçadas por quitina, um polissacarí- deo resistente, porém flexível. As paredes ricas em quitina podem aumentar a nutrição por absorção. À medida que um fungo absorve nutrientes de seu ambiente, as concen- trações desses nutrientes em suas células aumentam, fa- zendo a água se mover para as células por osmose. O mo- vimento de água para dentro das células fúngicas cria uma pressão que poderia causar o rompimento delas caso não fossem envolvidas por uma rígida parede celular. Micélio (massa de hifas) Estruturas produtoras de esporos Estrutura reprodutiva. Diminutas células haploides, chamadas de esporos, são produzidas dentro do cogumelo. Hifas. O cogumelo e seu micélio subterrâneo são uma rede contínua de hifas. 60 mm Figura 31.2 Estrutura de um fungo multicelular. A fotografia superior mostra as estruturas sexuais, neste caso chamadas de cogumelos, do fungo “Cèpe de Bordeaux” (Boletus edulis). A fotografia inferior mostra um micélio crescendo sobre acículas caídas de coníferas. A imagem do MEV mostra hifas em detalhes. ? Embora os cogumelos na fotografia acima pareçam ser indivíduos diferentes, poderiam seus DNA serem idênticos? Explique. 650 REECE, URRY, CAIN, WASSERMAN, MINORSKY & JACKSON Outra importante característica estrutural da maioria dos fungos é que suas hifas são divididas em células por paredes transversais, ou septos (Figura 31.3a). Em geral, os septos têm poros suficientemente grandes para permitir que ribossomos, mitocôndrias e mesmo núcleos se mo- vam de uma célula a outra. Em alguns fungos faltam septos (Figura 31.3b). Conhecidos como fungos cenocíticos, esses organismos consistem em uma massa citoplasmáti- ca contínua tendo centenas ou milhares de núcleos. Como descreveremos adiante, as condições cenocíticas resultam de divisões repetidas de núcleos sem citocinese. As hifas fúngicas formam uma massa enovelada chama- da micélio que se infiltra no material sobre o qual o fungo se alimenta (ver Figura 31.2). A estrutura de um micélio maxi- miza sua razão superf ície-volume, tornando a alimentação muito mais eficiente. Apenas 1 cm3 de solo fértil pode conter 1 km de hifas com área de superf ície total de 300 cm2 em contato com o solo. Um micélio fúngico cresce rapidamen- te, à medida que as proteínas e outros materiais sintetizados pelo fungo se movem pela corrente citoplasmática para as extremidades das hifas em crescimento. O fungo concentra sua energia e recursos no aumento do comprimento das hifas e, portanto, na área de superf ície absorvente global, em vez de aumentar o diâmetro das hifas. Os fungos não são móveis no sentido comum – eles não podem correr, nadar ou voar em busca de alimento ou parceiros. Entretanto, à medida que crescem, os fungos conquistam novos territórios, estendendo rapidamente as extremidades de suas hifas. Hifas especializadas e fungos micorrízicos Alguns fungos têm hifas especializadas que lhes permi- tem se alimentar de animais vivos (Figura 31.4a). Outras espécies fúngicas têm hifas especializadas chamadas haustórios que o fungo utiliza para extrair nutrientes de, ou permutar nutrientes com, suas plantas hospedei- ras (Figura 31.4b). Relações mútuas benéficas entre es- ses fungos e raízes vegetais são chamadas de micorrizas (o termo significa “raízes fúngicas”). Os fungos micorrízicos (fungos que formam micorri- zas) podem melhorar a transferência de íons fosfato e ou- tros minerais para as plantas, uma vez que as vastas redes de micélios dos fungos são muito mais eficientes do que as raízes das plantas para adquirir esses nutrientes do solo. Em troca, as plantas suprem os fungos com nutrientes or- gânicos como carboidratos. Há dois tipos principais de fungos micorrízicos. Os fungos ectomicorrízicos (do grego, ektos, externo) formam bainhas de hifas sobre a superf ície de uma raiz e costumam crescer dentro dos espaços extracelulares do córtex da raiz (ver Figura 37.13a). Os fungos micorrízi- cos arbusculares (do latim, arbor, árvore) estendem hifas ramificadas pela parede celular da raiz e em tubos forma- dos por invaginação (empurrando para o interior, como na Figura 31.4b) da membrana plasmática da célula da raiz (ver Figura 37.13b). No Exercício de Habilidades Cientí- ficas, você irá comparar dados genômicos de fungos que formam e fungos que não formam micorrizas. As micorrizas são muito importantes tanto em ecos- sistemas naturais como na agricultura. Quase todas as plantas vasculares têm micorrizas e dependem de seus par- ceiros fúngicos para nutrientes essenciais. Muitos estudos mostraram a importância das micorrizas pela comparação do crescimento de plantas com e sem elas. Muitas vezes, os silvicultores inoculam as plântulas de pinheiro com fungos micorrízicos para promover o crescimento. Na ausência de intervenção humana, os fungos micorrízicos coloni- zam os solos pela dispersão de células haploides chamadas esporos que formam novos micélios após a germinação. Parede celular Núcleos Septo Poro Parede celular Núcleos (a) Hifa septada (b) Hifa cenocítica Figura 31.3 Duas formas de hifas. Hifa fúngica Célula vegetal Membrana plasmática da célula vegetalHaustório Parede celular vegetal Nematódeo Hifas (b) Haustório. Em alguns fungos mutualistas e parasíticos crescem hifas especializadas, chamadas de haustórios, que conseguem extrair nutrientes de células vegetais vivas. Os haustórios permanecem separados do citoplasma de uma célula vegetal pela membrana plasmática que ela possui (cor de laranja). (a) Hifas adaptadas para capturar e matar presas. Em Arthrobotrys, um fungo do solo, porções das hifas são modificadas como laços que podem contrair em volta de um nematódeo (nematelminto) em menos de um segundo. O crescimento das hifas, então, penetra no corpo do verme e o fungo digere os tecidos internos de sua presa (MEV). Figura 31.4 Hifas especializadas. A dispersão de esporos é um componente essencial de como os fungos se reproduzem e se espalham para novas áreas, como discutiremos a seguir. REVISÃO DO CONCEITO 31.1 1. Compare e diferencie o modo nutricional de um fungo com o seu próprio modo de nutrição. 2. E SE. . .? Suponha que certo fungo é um mutualista que vive dentro de um inseto hospedeiro, porém seus ancestrais eram parasitos que viviam dentro e sobre o corpo do in- seto. Que características derivadas você poderia encontrar nesse fungo mutualista? 3. FAÇA CONEXÕES Reveja a Figura 10.4 e a Figura 10.6. Se uma planta tem micorrizas, onde o carbono que entra nos estômatos da planta como CO2 poderia ser finalmente depositado: na planta, no fungo ou em ambos? Explique. Ver respostas sugeridas no Apêndice A. CONCEITO 31.2 Fungos produzem esporos por meio de ciclos de vida sexual e assexual A maioria dos fungos se autopropaga pela produção de grandesnúmeros de esporos, tanto sexualmente como assexualmente. Por exemplo, bufas-de-lobo, as estruturas reprodutivas de certas espécies de fungos, podem liberar trilhões de esporos (ver Figura 31.17). Os esporos podem ser carregados a longas distâncias pelo vento ou pela água. Se eles caem em um lugar úmido onde haja alimento, eles germinam, produzindo um novo micélio. Para entender quão efetivos são os esporos ao se dispersarem, deixe uma fatia de melão exposta ao ar. Mesmo sem uma fonte visível de esporos próxima, dentro de uma semana, você prova- velmente observará micélios felpudos crescendo de espo- ros microscópicos que caíram sobre o melão. EXERCÍCIO DE HABILIDADES CIENTÍFICAS Interpretando dados genômicos e formando hipóteses O que a análise genômica de um fungo micorrízico pode revelar sobre as inte- rações micorrízicas? O primeiro genoma de um fun- go micorrízico a ser sequenciado foi o do basidiomiceto Laccaria bicolor (ver foto). Na natureza, L. bicolor é um fungo ectomicor- rízico comum de árvores como álamo e abeto, bem como um organismo de vida livre do solo. Em viveiros florestais, ele é usado em programas de inoculação de larga escala para aumentar o cresci- mento das plântulas. O fungo pode facilmente ser cultivado sozinho em cultura e pode estabelecer micorrizas com raízes de árvores em laboratório. Os pesquisadores esperam que o estudo do genoma de Laccaria venha a produzir pistas sobre o processo pelo qual esse or- ganismo interage com seus parceiros micorrízicos – e, por extensão, sobre interações micorrízicas envolvendo outros fungos. Como o estudo foi realizado Usando o método do se- quenciamento genômico completo por fragmentos aleatórios (ver Figura 21.2) e bioinformática, os pesquisadores sequenciaram o genoma de L. bicolor e o compararam com os genomas de alguns fungos basidiomicetos não micorrízicos. Pela análise da expressão gê- nica usando microarranjos, os pesquisadores foram capazes de com- parar os níveis de expressão gênica para diferentes genes codificantes de proteínas e para os mesmos genes em um micélio micorrízico e um micélio de vida livre. Eles puderam então identificar os genes para proteínas fúngicas que são constituintes específicos de micorrizas. Dados do estudo Tabela 1. Número de genes em L. bicolor e quatro espécies fúngicas não micorrízicas L. bicolor 1 2 3 4 Genes codificando proteínas 20.614 13.544 10.048 7.302 6.522 Genes para transportadores de membrana 505 412 471 457 386 Genes para pequenas proteínas secretadas (PPS) 2.191 838 163 313 58 Tabela 2. Genes de L. bicolor mais altamente hiperexpressos no micélio ectomicorrízico (MEC) do abeto-de-Douglas ou de álamo versus micélio de vida livre (MVL) Proteína ID Característica proteica ou função Abeto-de- -Douglas Razão MEC/MVL Álamo Razão MEC/MVL 298599 Pequena proteína secretada 22.877 12.913 293826 Inibidor enzimático 14.750 17.069 333839 Pequena proteína secretada 7.844 1.931 316764 Enzima 2.760 1.478 Interprete os dados 1. (a) A partir dos dados na Tabela 1, que espécie fúngica tem mais genes codificando transportadores de membrana (proteí- nas transportadoras de membrana; ver Capítulo 7)? (b) Por que esses genes poderiam ser de especial importância para L. bicolor? 2. Os pesquisadores usaram a expressão “pequenas proteínas secretadas” (PPS) para se referir a proteínas com comprimentos menores do que cem aminoácidos que o fungo secreta; sua função ainda não é conhecida. (a) O que é mais evidente nos dados sobre as PPS na Tabela 1? (b) Os pesquisadores constata- ram que os genes PPS compartilham uma característica comum indicativa de que as proteínas codificadas eram destinadas à secreção. Com base na Figura 17.21 e na discussão do texto dessa figura, suponha qual foi essa característica comum dos genes PPS. (c) Sugira uma hipótese para os papéis das PPS em micorrizas. 3. A Tabela 2 mostra dados de estudos de expressão gênica de quatro genes de L. bicolor cuja transcrição foi mais elevada (“hiperexpressos”) em micorrizas. (a) Para o gene codificando a primeira proteína listada, o que o número 22.877 significa? (b) Os dados na Tabela 2 sustentam sua hipótese em 2(c)? Explique. 4. (a) Na Tabela 2, como os dados para as micorrizas do álamo são comparáveis com aqueles das micorrizas do abeto-de-Dou- glas? (b) Proponha uma hipótese geral para essa diferença. Dados de F. Martin et al., The genome of Laccaria bicolor provides insights into mycorrhizal symbiosis, Nature 452: 88–93 (2008). 652 REECE, URRY, CAIN, WASSERMAN, MINORSKY & JACKSON A Figura 31.5 generaliza os ciclos de vida muito di- ferentes que podem produzir esporos fúngicos. Nesta se- ção, examinaremos os principais aspectos da reprodução sexuada e assexuada em fungos. Reprodução sexuada Os núcleos das hifas fúngicas e os esporos da maioria dos fungos são haploides, embora muitas espécies tenham está- gios diploides transitórios que se formam durante os ciclos de vida sexuais. A reprodução sexuada frequentemente co- meça quando hifas de dois micélios liberam moléculas sina- lizadoras sexuais chamadas feromônios. Se os micélios são de diferentes tipos sexuais, os feromônios de cada parceiro ligam-se aos receptores do outro, e as hifas se estendem em direção à fonte dos feromônios. Quando se encontram, as hifas se fundem. Em espécies com esse “teste de compati- bilidade”, esse processo contribui para a variação genética ao evitar que hifas se fundam com outras hifas do mesmo micélio ou de outro micélio geneticamente idêntico. A união do citoplasma de dois micélios parentais é co- nhecida como plasmogamia (ver Figura 31.5). Na maioria dos fungos, o núcleo haploide fornecido por cada genitor não se funde imediatamente. Em vez disso, em partes do mi- célio fusionado coexistem núcleos geneticamente diferentes. Diz-se que esse micélio é heterocariótico (significando “nú- cleos diferentes”). Em algumas espécies, os núcleos haploi- des se dispõem em pares em uma célula, um de cada geni- tor. Esse micélio é dicariótico (significando “dois núcleos”). À medida que o micélio dicariótico cresce, os dois núcleos em cada célula se dividem um após o outro sem se fundir. Uma vez que retêm dois núcleos haploides separados, essas células diferem de células haploides, que têm pares de cromossomos homólogos dentro de um único núcleo. Horas, dias ou (em alguns fungos) mesmo séculos podem se passar entre a plasmogamia e o próximo estágio no ciclo sexual, a cariogamia. Durante a cariogamia, os núcleos haploides for- necidos pelos dois genitores se fundem, produzindo células diploides. Zigotos e outras estruturas transitórias se formam durante a cariogamia, o único estágio di- ploide na maioria dos fungos. A meiose, então, restaura a condição haploide, le- vando enfim à formação de esporos ge- neticamente diversos. A meiose é uma etapa fundamental na reprodução se- xuada, e os esporos assim produzidos são às vezes chamados de “esporos sexuais”. O processo sexuado de carioga- mia e meiose produz grande variação genética, um pré-requisito para a sele- ção natural. (Ver Capítulos 13 e 23 para revisar como a reprodução sexuada pode aumentar a diversidade genética.) A condição heterocariótica também oferece algumas vantagens da diploidia pelo fato que um genoma haploide pode compensar por mutações prejudiciais no outro. Reprodução assexuada Embora muitos fungos possam apresentar reprodução tan- to sexuada quanto assexuada, cerca de 20 mil espécies são conhecidas por se reproduzirem apenas assexuadamente. Assim como a reprodução sexuada, os processos de repro- dução assexuada variam amplamente entre os fungos. Muitos fungos se reproduzem assexuadamente por crescimento como fungos filamentosos que produzem esporos (haploides) por mitose: essas espécies são infor- malmente chamadas de mofos (ou bolores), se formarem micélios visíveis. Dependendo de seus hábitos de limpeza doméstica, você pode ter observa- do mofos em sua cozinha,for- mando tapetes felpudos sobre pães ou frutas (Figura 31.6). Estruturas produtoras de esporos Micélio Esporos Zigoto Estágio heterocariótico REPRODUÇÃO ASSEXUADA CARIOGAMIA (fusão dos núcleos) PLASMOGAMIA (fusão do citoplasma) MEIOSEGERMINAÇÃO GERMINAÇÃO REPRODUÇÃO SEXUADA Esporos Haploide (n) Heterocariótico (núcleos não fusionados de genitores diferentes) Diploide (2n) Legenda Outro micélio Figura 31.5 Ciclo de vida generalizado dos fungos. Muitos fungos se reprodu- zem tanto sexuadamente como assexuadamente. Alguns se reproduzem apenas sexuada- mente, outros somente assexuadamente. ? Compare a variação genética encontrada em esporos produzidos em partes sexuais e assexuais do ciclo de vida e explique porque estas diferenças ocorrem. 1, 5 m m Figura 31.6 Penicillium, mofo comumente encontrado como decompositor de alimentos. Os agregados em forma de contas na imagem ao MEV colorida são conídios, estruturas envolvi- das na reprodução assexuada. BIOLOGIA DE CAMPBELL 653 Em geral, os mofos crescem rapidamente e produzem mui- tos esporos assexuadamente, possibilitando aos fungos co- lonizarem novas fontes de alimento. Muitas espécies que produzem esses esporos também podem se reproduzir sexuadamente se por acaso entrarem em contato com um tipo sexual diferente da mesma espécie. Outros fungos se reproduzem assexuadamente cres- cendo como as leveduras unicelulares. Em vez de produzir esporos, a reprodução assexuada em leveduras ocorre por divisão celular simples ou pela constrição de pequenas “bro- tações celulares” de uma célu- la-mãe (Figura 31.7). Como já mencionado, alguns fungos que crescem como leveduras podem também crescer como micélios filamentosos. Muitas leveduras e fun- gos filamentosos não têm estágio sexual conhecido em seu ciclo de vida. Já que os primeiros micologistas (bió- logos que estudam fungos) classificavam os fungos prin- cipalmente com base em seus tipos de estrutura sexual, isso representou um problema. Os micologistas tradicional- mente agrupam todos os fungos em que falta a reprodução sexuada em um grupo chamado deuteromicetos (do grego, deutero, segundo, e mycete, fungo). Sempre que um estágio sexual é descoberto em um assim chamado deuteromiceto, a espécie é reclassificada em outro filo, dependendo do tipo de estrutura sexual que ela forma. Além da busca por está- gios sexuais desses fungos indeterminados, os micologistas podem agora utilizar técnicas genômicas para classificá-los. REVISÃO DO CONCEITO 31.2 1. FAÇA CONEXÕES Compare a Figura 31.5 com a Figu- ra 13.6. Em termos de haploidia versus diploidia, como os ciclos de vida de fungos e seres humanos diferem? 2. E SE.. .? Suponha que você faça uma amostra de DNA de dois cogumelos de lados opostos de seu quintal e descubra que eles são idênticos. Proponha duas hipóteses razoáveis para explicar esse resultado. Ver respostas sugeridas no Apêndice A. CONCEITO 31.3 O ancestral dos fungos foi um protista unicelular, aquático e flagelado Os dados tanto da paleontologia quanto da sistemática molecular oferecem perspectivas sobre a evolução inicial dos fungos. Como consequência, os sistematas agora reco- nhecem que os fungos e os animais são mais estreitamente relacionados entre si do que cada grupo é com as plantas ou a maioria dos outros eucariotos. A origem dos fungos Análises filogenéticas sugerem que os fungos evoluíram de um ancestral flagelado. Enquanto à maioria dos fungos fal- tam flagelos, algumas das primeiras linhagens divergentes de fungos (os quitrídeos, como discutiremos rapidamente) têm flagelos. Além disso, a maioria dos protistas que comparti- lham um ancestral comum próximo com animais e fungos também tem flagelos. Dados de sequência de DNA indicam que esses três grupos de eucariotos – os fungos, os animais e seus parentes protistas – formam um clado (Figura 31.8). Como discutido no Capítulo 28, os membros desse clado são chamados opistocontes, nome que se refere à localização posterior (opistho) do flagelo nesses organismos. Dados de sequência de DNA também indicam que os fungos são mais estreitamente relacionados a vários grupos de protistas unicelulares do que eles são aos animais, suge- rindo que o ancestral dos fungos era unicelular. Um desses grupos de protistas unicelulares, os nuclearídeos, consiste em amebas que se alimentam de algas e bactérias. Evidên- cia adicional de DNA indica que os animais são mais es- treitamente relacionados a um grupo diferente de protistas (os coanoflagelados) do que eles são tanto aos fungos como aos nuclearídeos. Juntos, esses resultados sugerem que a mul- ticelularidade deve ter evoluído em animais e fungos inde- pendentemente, a partir de diferentes ancestrais unicelulares. Utilizando análises de relógio molecular, os cientistas estimaram que os ancestrais de animais e fungos divergi- ram em linhagens separadas entre 1 e 1,5 bilhão de anos atrás. Fósseis de certos eucariotos marinhos unicelulares que viveram há 1,5 bilhão de anos foram interpretados como fungos, mas essas ale- gações permanecem contro- versas. Além disso, embora a maioria dos cientistas acre- dite que os fungos se origina- ram em ambientes aquáticos, os fósseis mais antigos ampla- mente aceitos como fungos são de espécies terrestres que viveram há cerca de 460 mi- lhões de anos (Figura 31.9). Em geral, mais fósseis serão necessários para ajudar a es- Brotação Célula-mãe 10 mmm Figura 31.7 A levedura Saccharomyces cerevisiae em vários estágios de bro- tamento (MEV). Animais (e seus parentes protistas mais próximos) Nuclearídeos Outros fungos Quitrídeos ANCESTRAL FLAGELADO, UNICELULAR O p isto co n tasFu n g o s Figura 31.8 Fungos e seus parentes próximos. A evidência molecular indica que os nuclearídeos, um grupo de protistas unicelu- lares, são os parentes atuais mais próximos dos fungos. As três linhas paralelas levando aos quitrídeos indicam que este grupo é parafilético. 50 50 mm50 mm Figura 31.9 Hifas e esporos fúngicos fósseis do período Ordoviciano (há cerca de 460 milhões de anos) (MO). 654 REECE, URRY, CAIN, WASSERMAN, MINORSKY & JACKSON clarecer quando os fungos se originaram e que característi- cas estavam presentes em suas primeiras linhagens. Os primeiros grupos divergentes de fungos A partir de estudos genômicos recentes, começaram a sur- gir alguns discernimentos sobre a natureza dos primeiros grupos divergentes de fungos. Por exemplo, vários estu- dos identificaram os quitrídeos do gênero Rozella como uma das primeiras linhagens a ter divergido do ancestral comum dos fungos. Além disso, resultados de um estudo de 2011 colocaram Rozella dentro de um grande clado an- tes desconhecido de fungos unicelulares, provisoriamen- te chamado “cryptomycota”. Assim como Rozella (e qui- trídeos em geral), os fungos no clado Cryptomycota têm esporos flagelados. A evidência atual indica que Rozella e outros membros de Cryptomycota são os únicos entre os fungos que não sintetizam a parede celular rica em quitina durante qualquer estágio de seus ciclos de vida. Isso sugere que uma parede celular reforçada por quitina – importan- te característica estrutural dos fungos – pode ter surgido após os Cryptomycota divergirem dos outros fungos. A mudança para o ambiente terrestre As plantas colonizaram o ambiente terrestre há cerca de 470 milhões de anos (ver Capítulo 29), e a colonização pe- los fungos pode ter sido anterior. De fato, alguns pesqui- sadores descreveram a vida sobre o solo antes da chegada das plantas como um “limo verde” que consistia em cia- nobactérias, algas e uma diversidade de pequenas espécies heterotróficas, incluindo fungos. Com sua capacidade de digestão extracelular, os fungos estariam bem adaptados para se alimentar de outros organismos terrestres primiti- vos (ou de seus resíduos). Uma vez no ambiente terrestre, alguns fungos formaram associações simbióticas com as primeiras plantas terrestres. Por exemplo, fósseis de405 milhões de anos de idade da plan- ta terrestre primitiva Aglaophyton contêm evidências de re- lações micorrízicas entre plantas e fungos (ver Figura 25.12). Essa evidência abrange fósseis de hifas que penetraram em células vegetais e formaram estruturas que se parecem com os haustórios de micorrizas arbusculares. Estruturas similares foram encontradas em uma diversidade de outras plantas terrestres primitivas, sugerindo que as plantas pro- vavelmente existiram em relações benéficas com os fungos desde os períodos iniciais da colonização do ambiente ter- restre. As primeiras plantas terrestres não tinham raízes, o que limitava sua capacidade para extrair nutrientes do solo. Como ocorre com as associações micorrízicas atuais, é pro- vável que os nutrientes do solo fossem transferidos para as primeiras plantas terrestres por um extenso micélio formado por seus parceiros simbióticos fúngicos. Recentes estudos moleculares também têm sustentado a antiguidade das associações micorrízicas. Para um fungo micorrízico e sua planta associada estabelecerem uma rela- ção simbiótica, certos genes devem ser expressos pelo fungo e outros genes devem ser expressos pela planta. Os pesquisa- dores concentraram-se em três genes de plantas (chamados de genes “sym”) cuja expressão é necessária para a formação de micorrizas em plantas floríferas. Eles verificaram que es- ses genes estavam presentes em todas as principais linhagens de plantas, incluindo as linhagens basais como as hepáticas (ver Figura 29.7). Além disso, após eles transferirem um gene sym de uma hepática para uma planta florífera mutante que não podia formar micorrizas, esta recuperou sua capacidade de formar micorrizas. Esses resultados sugerem que os genes micorrízicos sym estavam presentes no ancestral comum das plantas terrestres – e que a função desses genes foi conserva- da por centenas de milhões de anos à medida que as plantas continuaram a se adaptar à vida no ambiente terrestre. REVISÃO DO CONCEITO 31.3 1. Por que os fungos são classificados como opistocontes ape- sar de a maioria deles não ter flagelos? 2. Descreva a importância das micorrizas, tanto hoje quanto na colonização do ambiente terrestre. Que evidência sustenta a antiguidade das associações micorrízicas? 3. E SE. . .? Se os fungos colonizaram o ambiente terrestre antes das plantas, onde eles poderiam ter vivido? Como suas fontes de alimento diferiam do que eles se alimentam atualmente? Ver respostas sugeridas no Apêndice A. CONCEITO 31.4 Os fungos irradiaram em um conjunto diverso de linhagens Na última década, análises moleculares ajudaram a escla- recer as relações evolutivas entre grupos de fungos, embo- ra ainda ocorram áreas obscuras. A Figura 31.10 apresen- ta uma versão simplificada de uma hipótese atual. Nesta seção, examinaremos cada um dos principais grupos fún- gicos identificados nesta árvore filogenética. Os grupos fúngicos mostrados na Figura 31.10 po- dem representar apenas uma pequena fração da diversi- dade de fungos existentes. Enquanto há aproximadamente 100 mil espécies conhecidas de fungos, os cientistas esti- maram que a diversidade real pudesse ser mais próxima de 1,5 milhão de espécies. Dois estudos metagenômicos pu- blicados em 2011 sustentam essas estimativas mais altas: os Cryptomycota (ver Conceito 31.3) e outros grupos intei- ramente novos de fungos unicelulares foram descobertos, e a variação genética encontrada em alguns desses grupos é tão grande quanto aquela encontrada entre todos os gru- pos mostrados na Figura 31.10. Encerra aqui o trecho do livro disponibilizado para esta Unidade de Aprendizagem. Na Biblioteca Virtual da Instituição, você encontra a obra na íntegra.