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Introdução O currículo tem sido pensado, ao longo do tempo, de diferentes maneiras e em distintos enfoques, mobilizado por variadas concepções e leituras de mundo. Não há uma resposta específica sobre a definição de currículo. Ele pode ser compreendido de acordo com o contexto social em que foi gestado. Em alguns períodos, o currículo foi pensado por meio de mecanismos de gerenciamento do trabalho escolar, como planejamento do que deveria ser ensinado nas escolas, como rol de conteúdos a serem apreendidos pelos alunos; em outros, ainda, como forma de resistência, retratando as experiências envolvidas nos percursos de vida dos sujeitos, como produção de significado, como interação em redes de conhecimentos, por exemplo. As diferentes concepções curriculares que serão abordadas não devem ser entendidas como fechadas em si mesmas ou restritas a determinado momento histórico-social específico. Elas ganham força, tornando-se preponderantes em determinado momento, mas, ainda que convivam com outras visões, se mantêm em constante processo de interação social, sendo recuperadas e reinterpretadas nos distintos contextos sociais em que são apropriadas. Isso quer dizer que, ao abordarmos o pensamento curricular, não é adequado falarmos em superação de uma ou outra visão, como se passássemos de uma etapa a outra. Ao contrário, importa termos em mente que, embora distintas entre si, as diferentes concepções de currículo possuem algo em comum, que é o fato de serem respostas aos contextos sociais em que se inserem, buscando atender a variadas demandas e questionamentos sociais daquele momento. Compreender o currículo por meio das diferentes formas em que tem sido pensado nos ajuda a entender os sentidos produzidos para a prática escolar, para a gestão, para as políticas curriculares e para as diferentes formas de conhecer que intersectam o cotidiano da escola. AntonioAugusto Realce AntonioAugusto Realce AntonioAugusto Realce AntonioAugusto Realce AntonioAugusto Realce AntonioAugusto Realce MÓDULO 1 Reconhecer as teorias tradicionais, críticas e pós-críticas em currículo Perspectivas tradicionais em currículo Para compreender as principais correntes teóricas que constituem o pensamento curricular, este módulo está estruturado em três seções definidas, respectivamente, como teorias tradicionais, críticas e pós-críticas. Essa forma de organização visa reconhecer e diferenciar distintas concepções curriculares, que podem ser compreendidas em grandes grupos genéricos. No campo do currículo, as perspectivas compreendidas como tradicionais ganharam maior destaque a partir do início do século XX, momento em que, de acordo com Pinar et al. (2017), passou-se a buscar maior definição de seu objeto por diferentes visões. A partir desse período, podemos inferir o crescimento de uma preocupação sobre a forma mais adequada de projetar currículos ou guias para redes de ensino. Também houve a busca pela compreensão do que ocorria no contexto de cada escola. Nesse sentido, de forma geral, podemos apontar para duas grandes compreensões curriculares que ajudam a reconhecer uma abordagem tradicional em currículo: o comportamentalismo (eficientismo) e o progressivismo. O pensamento comportamentalista pode ser caracterizado pela incorporação da razão gerencial da administração científica de Taylor ao currículo, sob a ideia de que a escola pudesse ser gerida como uma empresa, por meio de mecanismos de controle e testagem rígidos. No âmbito da abordagem tradicional em currículo, é recorrente a busca pelo controle da organização e da orientação dos processos compreendidos pelo trabalho educativo, o que caracteriza uma preocupação com o estabelecimento de mecanismos precisos para a condução e avaliação da experiência de professores e estudantes. Para Pinar et al. (2017), o pensamento de Bobbitt tende a ser vinculado a abordagens mais limitantes e diretivas sobre o currículo, concebendo-o como forma de controlar e gerir a sociedade por meio de visões cientificistas, com o javascript:void(0) AntonioAugusto Realce AntonioAugusto Realce AntonioAugusto Realce AntonioAugusto Realce AntonioAugusto Realce AntonioAugusto Realce AntonioAugusto Realce AntonioAugusto Realce AntonioAugusto Realce AntonioAugusto Realce AntonioAugusto Realce AntonioAugusto Realce AntonioAugusto Realce AntonioAugusto Realce AntonioAugusto Realce AntonioAugusto Realce AntonioAugusto Realce AntonioAugusto Realce AntonioAugusto Realce AntonioAugusto Realce AntonioAugusto Realce AntonioAugusto Realce objetivo de tornar a escola mais eficiente para a resolução de problemas sociais. Bobbitt compreende que o conhecimento e o aprendizado devem ser meios, orientados de forma procedimental e metodológica, para alcançarmos objetivos produtivos considerados desejáveis. As concepções de Bobbitt, embora sejam criticadas por diferentes autores, são frequentemente utilizadas em distintas propostas curriculares (nacionais, estaduais e municipais) e no cotidiano escolar. Por exemplo, ao planejarmos processos de ensino-aprendizagem baseados em objetivos (gerais ou específicos) precisos, ou quando desenvolvemos uma proposta de avaliação como controle de um “produto”, estamos interagindo com ideias semelhantes às do autor. Entre críticas a visões como a de Bobbitt, podemos destacar o pensamento de John Dewey. Considerado pensador progressista, defende também uma perspectiva de currículo baseada na resolução de problemas sociais, mas com foco nos desafios ligados à experiência do estudante, não no mundo produtivo. Diferentemente de abordagens eficientistas ou comportamentalistas, o pensamento de Dewey é considerado por Lopes e Macedo (2011) como menos restritivo do ponto de vista do controle do conhecimento e da escola, sendo marcado pela defesa a uma educação mais democrática, combativa à desigualdade social, que valoriza os interesses e vivências dos estudantes no processo formativo. Bobbitt Dewey O currículo privilegia o ensino de concepções científicas necessárias ao desempenho de funções produtivas. O processo de ensino-aprendizagem concentra-se em objetivos restritos, e as avaliações são projetadas como mecanismos de controle do desempenho educacional. O currículo não se restringe à transmissão de conhecimento científico e abre-se à diversidade de visões e a questões sociais. O processo de ensino- aprendizagem valoriza os interesses e vivências dos estudantes, preocupando- se com a formação destes não apenas no sentido do desempenho de uma função produtiva. AntonioAugusto Realce AntonioAugusto Realce AntonioAugusto Realce AntonioAugusto Realce AntonioAugusto Realce AntonioAugusto Realce AntonioAugusto Realce AntonioAugusto Sublinhado AntonioAugusto Sublinhado AntonioAugusto Sublinhado AntonioAugusto Realce As visões eficientista e progressivista podem ser diferenciadas no modo como pensam as finalidades da prática escolar e da produção de conhecimento. Se, com Bobbitt, compreendemos que a preparação da criança para o mundo produtivo é um objetivo central, Dewey defende a aprendizagem como processo contínuo de produção do conhecimento, não como preparação para a vida adulta. O progressivismo se organiza como crítica social, para que o conhecimento da criança crie oportunidades para a reflexão e soluções democráticas para os problemas sociais. Nesse sentido, o pensamento de Dewey propõe que na escola seja desenvolvida uma formação associada à experiência social comum dos sujeitos. Outra visão importante a ser destacada é a de Tyler, que propôs uma abordagem eclética de currículo, baseada nas ideias de organização e desenvolvimento, visando à superação das perspectivas do eficientismo e do progressivismo. Segundo Silva (2009, p. 25), a proposta curricular de Tyler considera quatro dimensões O pensamentode Tyler se configura como abordagem tradicional ao assumir: javascript:void(0) O trabalho educacional por meio do currículo, como prescrição a ser implementada na escola O ensino ou instrução, como o meio pelo qual o currículo será efetivado na prática escolar. A avaliação, como meio pelo qual seria possível controlar o cumprimento das etapas anteriores, mensurando seus resultados O estabelecimento de vínculos precisos entre o currículo e a avaliação destaca a ideia de prescrição como uma marca da abordagem tradicional em currículo, uma marca comum entre o eficientismo, o progressivismo e a racionalidade tyleriana. Ou seja, mesmo que suas propostas se diferenciem no que diz respeito às problematizações que trazem, mantêm visões como a de que a escola é um contexto controlável e de aplicação de conhecimentos pressupostos, segundo Lopes e Macedo (2011). Também é importante destacarmos as visões cientificistas ou academicistas de conhecimento que ambos possuem ao assumirem o conhecimento científico como princípio para escola, a despeito das críticas que podem ser feitas à ciência e, ainda, às diferenças que caracterizam as escolas como espaços e tempos singulares. Entre as críticas a tais visões destacam-se o questionamento sobre a ideia de padronização para a educação, que baseia as visões apresentadas nesta seção; a ausência de críticas ao conhecimento científico e as disparidades entre este e o conhecimento escolar. As críticas a tais abordagens tradicionais deram corpo a diferentes outras leituras curriculares, que conheceremos na próxima seção, e que, em linhas gerais, podem ser organizadas entre aquelas que desenvolvem a perspectiva reprodutivista e as que produziram visões emancipatórias e de resistência. Perspectivas críticas em currículo As abordagens críticas de currículo, apesar de suas diferenças, focalizam o papel da ideologia, do poder, do caráter reprodutivista e opressivo da educação tradicional, da estratificação social na sociedade capitalista, da conscientização, da emancipação e da resistência na produção curricular. Diferentemente das abordagens tradicionais, podemos inferir que as visões críticas possuem como horizonte comum a emancipação dos sujeitos por meio da conscientização quanto ao caráter excludente da sociedade capitalista. Podemos considerar que as abordagens críticas em currículo visam mostrar o quanto a organização da escola, suas tradições e normas orientam processos que visam o controle da escola, de seus sujeitos e de suas condições. No âmbito do movimento crítico, a concepção de conhecimento possui centralidade, pois é por meio dele que também são defendidas formas de controle sobre a escola e também se torna possível a construção de um olhar sistemático do mundo e de conscientização crítica, capaz de gerar oportunidades de resistência e emancipação aos sujeitos escolares. Quando salientamos a centralidade do conhecimento na abordagem crítica de currículo estamos focalizando os pressupostos de neutralidade da ciência, chamamos a atenção para o quanto propostas variadas, como as dos eficientistas e dos progressivistas, ainda que conflitantes entre si, condicionam o debate sobre o conhecimento a questões metodológicas, negligenciando seu caráter político. Nesse sentido, podemos agrupar as abordagens críticas em dois grandes enfoques: Estudos reprodutivistas; Estudos vinculados às teorias de emancipação e de resistência. javascript:void(0) javascript:void(0) Esses enfoques podem ser diferenciados em razão da visão curricular voltada a cenários macroestruturais (no caso das teorias reprodutivistas) e microestruturais (como as teorias de emancipação e resistência) de interpretação do currículo. Os estudos que consideramos como reprodutivistas (ou crítico-reprodutivistas) questionam concepções de escola e de currículo como controle, reprodução e alienação social. Desenvolvem abordagens associadas ao pensamento marxista, relacionando base econômica e superestrutura (Superestrutura é um conceito marxista relacionado à parte visível de uma estrutura, ocultando a visão de uma ideologia, principalmente aquelas relacionadas à dominação dos indivíduos.). Louis Althusser (1918-1990) foi um filósofo marxista francês, foi um estudioso dos conceitos relacionados à ideologia. Como um aparelho ideológico, a escola atuaria difundindo a ideologia dominante por meio das formas de conhecer entendidas como aceitáveis. Podemos entender que sua função reprodutivista consiste na organização hierarquizada dos processos de escolarização, “inclina as pessoas das classes subordinadas à submissão e à obediência, enquanto as pessoas das classes dominantes aprendem a comandar e a controlar.” (SILVA, 2009, p. 32). Desse modo, salientamos que, por meio das hierarquizações dos conhecimentos, ou do acesso seletivo a eles, a escola atuaria como reprodutora da sociedade, das desigualdades e opressões que caracterizam o sistema capitalista. Além dos conteúdos ministrados pelas disciplinas escolares, autores como Samuel Bowles e Herbert Gintis, com o conceito de correspondência, também apontam para o fato de que as relações sociais na escola espelham a estratificação social, reproduzindo valores do mundo do trabalho. Jean-Claude Passeron foi um sociólogo francês que trabalhou como diretor de estudos na École des Hautes Études en Sciences Sociales (Escola de Estudos Avançados em Ciências Sociais ). Escreveu em parceria com Pierre Bourdieu a obra La reproduction, publicada em 1970. Pierre Bourdieu (1930-2002) foi um sociólogo francês que desenvolveu pesquisas sobre mundo social. É amplamente conhecido pela compreensão do mundo social pela teoria dos campos. Segundo o pensamento dos autores, a escola atuaria para a manutenção da estratificação social, por meio do que entendem como violência simbólica, que consiste na produção do habitus, que seria uma formação escolar duradoura baseada na naturalização da cultura hierarquizante da sociedade capitalista. Assim, as visões culturais de maior prestígio social seriam legitimadas como adequadas à vida, constituindo o que denominam como capital cultural, ou seja, aqueles conhecimentos considerados como possuidores de maior valor para a sociedade e, portanto, a serem reproduzidos pelo currículo escolar. Entre os questionamentos desse movimento, podemos exemplificar a busca por compreender os processos de seleção dos conhecimentos presentes no currículo, quais são as culturas legitimadas por meio de tais seleções e quem são os atores sociais envolvidos em tais escolhas. É interessante destacarmos que o currículo não forma apenas os sujeitos, mas o próprio conhecimento também é produzido por meio de tais seleções, sendo definido como o foco dos processos de escolarização. Para compreender como são reproduzidas as hegemonias ideológicas nas escolas, assim como suas consequências nas escolas, Apple (2016) propõe o conceito de currículo oculto, por meio do qual busca denunciar o que acontece nas escolas, de forma subjacente ao currículo formal. Mas o que Apple concebe exatamente como currículo oculto? Podemos entender o currículo oculto como as relações de poder que influenciam o cotidiano escolar e levam a escolhas quanto ao que é importante a ser ensinado, quais comportamentos são considerados adequados aos estudantes, como deve ser organizada a escola. Por exemplo, podemos pensar que a própria ausência de tempo ou condições para estudar outros temas que não aqueles definidos por uma proposta curricular demonstra a ocultação de um currículo formal. Ou seja, o que é prescrito como devendo ser ensinado predomina entre tantas possibilidades de o estudante aprender e conhecer na escola, muitas vezes sob a ideia de que é mais importante para o futuro, porque será cobrado em determinadaavaliação. Apesar das contribuições dos estudos reprodutivistas para pensarmos as lógicas envolvidas na produção do currículo, esses estudos também sofreram significativas críticas, tais como a de que restringiriam a consciência dos sujeitos trabalhadores, dos grupos subalternizados socialmente, à compreensão de que a sociedade é estruturada de forma segregadora, mas não mobiliza propostas consistentes de ruptura com a hegemonia e a ideologia dominantes. Entre os críticos, destacam-se os estudos de Henry Giroux, para quem os reprodutivistas produziram um “discurso do desespero” (GIROUX, 1986), ao assumir uma orientação alienante, pois apoiam justamente o que criticam. Além disso, pesa o fato de que a maior parte dos estudos reprodutivistas não dão atenção ao contexto da escola, buscando compreender suas dinâmicas internas, mas restringiram-se a abordagens macroestruturais de cunho sociológico. Em linhas gerais, podemos reconhecer que os estudos de emancipação e de resistência dão maior atenção aos contextos escolares, ao que é produzido na realidade escolar. Esses estudos se opõem à ideia de que a escola seria um espaço de reprodução e, para isso, utilizam referenciais teóricos da fenomenologia, hermenêutica e existencialismo. Diferentes estudos de emancipação chamam a atenção para o microcosmo da escola, dando maior importância à experiência, às práticas que levam à produção de conhecimento, às vivências dos sujeitos nas escolas. Os estudos de resistência compreendem que a escola tem um poder de reflexão e construção de caminhos emancipatórios, por meio da produção de um conhecimento crítico e reflexivo, baseado nas demandas dos sujeitos da escola e na defesa à elaboração de novas leituras de mundo, diferentes daquelas que são disseminadas pela lógica dominante. Entre os estudos de emancipação e resistência, podemos destacar também as contribuições de Paulo Freire, cujas teorias repercutiram no campo do currículo em nível mundial, tendo sido incorporado por diferentes autores estadunidenses e canadenses. Paulo Freire em 1977. Importa salientarmos que, nos estudos freireanos, a valorização das experiências vividas pelos sujeitos é um aspecto central. Para o autor, é importante repensar a escola para além das hierarquizações sociais, defendendo uma proposta crítica à reprodução, mas baseada no diálogo entre as experiências de vida dos sujeitos com as decisões curriculares. Sua concepção de “educação bancária” critica a ideia de uma escola cuja missão é transferir conhecimento do professor para o aluno. Ao contrário, interessa entendermos que Freire visa a uma educação ligada à vida dos sujeitos, às situações de experiência. Portanto, para o autor, o conhecimento não pode estar separado do objeto a ser conhecido. Como podemos ver, ao construírem importantes críticas ao currículo e à escola na sociedade capitalista, os diferentes estudos considerados componentes de uma abordagem curricular crítica possuem diferentes características. Alguns dão maior centralidade à dominação econômica, outros ao controle cultural na formação dos sujeitos; há aqueles que defendem uma visão macroestrutural, de cunho mais sociológico e econômico, mas também há estudos que concentram atenção no contexto da escola e nas experiências dos sujeitos. É interessante considerarmos que tais estudos possuem em comum a perspectiva de que é possível compreender a realidade, construir uma forma de consciência sobre o mundo como um todo por meio de um conhecimento crítico, baseado na crítica cultural ou econômica. Por meio de tais conhecimentos os sujeitos seriam levados à emancipação, libertação e à resistência à estrutura opressiva da sociedade capitalista. No entanto, estudiosos de matrizes pós- críticas questionam as noções de consciência plena do sujeito, de identidade fixa, conhecimento emancipatório ou prioritário, por exemplo. Ou seja, os estudos pós-críticos vão propor uma abordagem de crítica à crítica, indagando os padrões definidos por visões tradicionais e críticas. Perspectivas pós-críticas em currículo As abordagens pós-críticas em currículo são constituídas de muitas influências teóricas, tais como os estudos culturais, de gênero e feministas, queer, étnico- raciais, o multiculturalismo, além das contribuições dos estudos pós-modernos, pós-coloniais e pós-estruturais. Salientamos que, além de termos estudos concentrados em uma só influência, há aqueles que mesclam diferentes visões teóricas para compreender um fenômeno específico, como é o caso de trabalhos que estudam biografia de mulheres negras, a partir de contribuições dos estudos feministas e étnico-raciais. Não apenas voltados às diferenças entre pessoas, tais estudos focalizam também a valorização e a inclusão do que é diferente: uma forma de conhecer, por exemplo, como são os conhecimentos de povos indígenas e comunidades tradicionais; uma forma de manifestação no mundo, como o funk ou o grafite; uma forma de ser, como as que são acolhidas pelos grupos LGBTQIA+. Os estudos do multiculturalismo, de origem norte-americana, defendem, segundo Silva (2009), o direito à representação cultural dos grupos subalternizados na cultura nacional. Grupos considerados minoritários têm suas lutas por reconhecimento, inclusão e representação compreendidas pelo pensamento multicultural, que também questiona as relações de poder envolvendo processos migratórios, guetização de grupos culturais. Nesse sentido, podemos remeter ao caso de diferentes fluxos migratórios para países centrais que, diante da cultura dominante, são marginalizados, como ocorre com a comunidade de migrantes árabes na Alemanha ou de migrantes italianos nos Estados Unidos, por exemplo. O multiculturalismo põe em questão as relações de hierarquização entre as culturas, chamando a atenção para os processos históricos e suas consequências para as sociedades, tais como as diferentes formas de manifestação do preconceito e da exclusão. O etnocentrismo compõe o repertório de discussões do multiculturalismo. Em defesa ao direito da pessoa em ter sua cultura respeitada, o multiculturalismo propõe o combate a toda forma de superiorização entre culturas e, em vez disso, defende que são construções simbólicas que caracterizam todo grupo humano. Podemos entender, com isso, que, na visão multicultural, todos os grupos culturais têm em comum sua humanidade e, por isso, como humanos, todos devem ter suas manifestações e formas de expressão culturais toleradas. O multiculturalismo crítico, no campo do currículo, também possui influências marxistas, por meio das quais analisa os processos históricos envolvidos na hierarquização cultural. Segundo Silva (2009), no campo do currículo, especificamente nos Estados Unidos, a discussão multicultural crítica ganhou força a partir de movimentos organizados por grupos sociais subalternizados, tais como mulheres, homossexuais e negros, que se opunham à valorização das referências da cultura branca, heterossexual, masculina e europeia. As críticas aos diferentes tipos de multiculturalismo tendem a estarem voltadas às ideias de que, embora busquem valorizar as culturas diversas, o fazem fixando-as como padrões (como quando afirmamos “uma” ou “a” cultura indígena, quando há muitas, diferentes entre si e dinâmicas). Além disso, as concepções de tolerância e respeito também são questionadas, pois tendem a dar poder a quem tolera ou respeita, como se as culturas dependessem de uma autorização superior para serem reconhecidas. javascript:void(0) Tais movimentos defendem que o currículo escolar privilegie o combate a tais tradições sexistas e racistas, proporcionando experiências que valorizem as experiências femininas e masculinas, além das contribuições dos diferentes grupos étnicos. Como nos mostra Silva (2009), os estudos étnicos no campodo currículo apontam para a marginalização das culturas não brancas em diferentes momentos da experiência escola, como na retratação residual de grupos étnicos em materiais didáticos ou na definição de datas comemorativas que restringem a visibilidade de determinadas culturas. Em perspectiva semelhante, a influência da teoria queer no currículo tem sido marcada pela defesa às pessoas homossexuais. O termo queer possui, na língua inglesa, a conotação de excêntrico, estranho ou fora do normal e, segundo Silva (2009), foi apropriada por grupos homossexuais para chamar a atenção para a defesa àqueles que perturbam a “normalidade” inserida por padrões heterossexuais no currículo. O objetivo estaria justamente em questionar os padrões do comportamento sexual que são difundidos desde a escola. Nesse sentido, o combate à homofobia nas instituições e a inclusão de temas voltados à sexualidade e ao gênero no repertório curricular, estão entre as pautas propostas pelo movimento queer. Para Silva (2009), no campo do currículo, o pensamento pós-moderno possibilitou o questionamento ao próprio modelo de educação moderna que temos, baseado na transmissão do conhecimento científico, moldar sujeitos e formá-los sob uma suposta racionalidade e autonomia. Tal modelo nos trouxe a uma sociedade burocratizada e totalitária, pois restringe a visão de mundo a uma única orientação, prometendo uma sociedade e um progresso que não podem ser alcançados. As metas de desenvolvimento e organização social repousariam sobre um sujeito que não existe, pois este é dividido, não pode possuir uma consciência plena sobre o mundo, pois o próprio mundo não possui uma única versão interpretativa. O sujeito do currículo, no pensamento pós-moderno, não pensa, narra ou constrói o mundo, mas é, ao contrário, pensado, narrado e construído. Ou seja, o sujeito é produzido por todo um conjunto de fatores que são exteriores, tais como as instituições, pelo próprio discurso. Por meio de seus questionamentos, podemos interpretar que as contribuições pós-modernas ajudaram a criticar o pensamento tradicional e as abordagens críticas de currículo por meio das concepções iluministas e modernas que essas abordagens utilizam. Assista agora a um breve resumo das principais tendências na abordagem de currículo. curriculu_pensamento.mp4 Verificando o aprendizado 1. (COTEC ‒ Prefeitura de São Francisco ‒ MG ‒ Pedagogo ‒ 2017 ‒ Adaptado) Segundo Freire (1996), “Ninguém educa ninguém, ninguém educa a si mesmo, os homens se educam entre si, mediatizados pelo mundo.” Se essas tendências forem consideradas pelo profissional pedagogo, no exercício de suas atividades pedagógicas, serão perceptíveis, no ambiente de trabalho: a) Memorização de conteúdos como uma forma de preservação da cultura letrada e do conhecimento. b) Diálogos que incentivem à busca pela aprendizagem e incentivos às trocas de experiências. c) Capacitações para mistificação da realidade e treinamentos para a resolução de problemas. d) Rigorosidade metódica, no processo de aprendizagem, para limitar o pensamento crítico do educando. e) A proposição de Freire é de romper a alienação e fortalecer os fundamentos da revolução e, por essa perspectiva, o autor deve ser usado com cautela. Comentário Parabéns! A alternativa "B" está correta. Segundo o pensamento de Paulo Freire, o diálogo é central ao processo educativo, pois somente por intermédio das interações entre os sujeitos, com a partilha de suas vivências e conhecimentos, se torna possível a compreensão do mundo e a formação de sujeitos libertos de lógicas opressivas. 2. (CEBRASPE/CESPE ‒ Prefeitura de São Luís ‒ MA ‒ Professor da Educação Básica ‒ 2017 ‒ Adaptado) As teorias crítico-reprodutivistas postulam não ser possível compreender a educação senão a partir dos seus condicionantes sociais. Há, pois, nessas teorias uma cabal percepção da dependência da educação em relação à sociedade. Como chegam invariavelmente à conclusão de que a função própria da educação consiste na reprodução da sociedade em que ela se insere, recebem a denominação de teorias crítico-reprodutivistas. A partir do texto precedente sobre as teorias crítico-reprodutivistas, assinale a opção correta. a) Os aparelhos ideológicos do Estado funcionam massivamente pelos rituais econômicos e políticos e, secundariamente, pelos rituais educativos. b) Incluem-se entre as teorias crítico-reprodutivistas a teoria do sistema de ensino como violência simbólica e a teoria da escola como aparelho ideológico de Estado (AIE). c) A teoria do sistema de ensino como violência simbólica foi desenvolvida por Althusser. d) O termo “violência simbólica” relaciona-se à ideia de que toda e qualquer sociedade se estrutura como um sistema de relações de força emocional cujo papel é enfraquecer, por dissimulação, as relações de força material. e) As teorias crítico-reprodutivistas também podem ser chamadas de tradicionais, marcadas pela construção de um modelo conteudístico e pela erudição da cultura letrada. Comentário Parabéns! A alternativa "B" está correta. As teorias crítico-reprodutivistas são fortemente marcadas, por um lado, pela concepção de que os sistemas educacionais são produtores de processos de violência simbólica, por meio do controle cultural, segundo os estudos de Bourdieu; e, por outro, pelos estudos de Althusser, que baseiam a interpretação de que a escola seria mais um dos aparelhos de controle ideológico do Estado. MÓDULO 2 Identificar a perspectiva pós-estruturalista de currículo Currículo: perspectiva pós-estruturalista Pressupostos do pós-estruturalismo no campo curricular A abordagem pós-estrutural ao currículo propõe que não questionemos somente o que é o sujeito, o conhecimento ou uma disciplina escolar, por exemplo, mas que atentemos para como os sentidos, que são produzidos discursivamente, constroem a própria ideia do que é o mundo, o currículo e da docência. É importante termos clareza de que o pós-estruturalismo não deve ser confundido com o pós-modernismo, pois, apesar de criticarem ideias como consciência, sujeito centrado e conhecimento, no caso do pós-modernismo há uma preocupação em sinalizar para uma mudança de época, em ruptura com o pensamento moderno e iluminista, como vimos anteriormente. O pós-estruturalismo, por sua vez, está voltado aos processos de significação e à diferença, compreendendo a linguagem como fluida e opaca. O foco na linguagem é uma característica central do pós-estruturalismo. Ao compreender que o mundo é produzido por meio de processos de significação, o que marca um conflito constante entre diferentes segmentos pela definição de um sentido para o mundo (incluindo-se, obviamente, o currículo, as finalidades sociais da escola, a própria escola, o conhecimento, a sociedade etc.), o pós- estruturalismo nos chama a atenção para o quanto a linguagem é um terreno de disputas de poder. Para tais estudos, nenhum nome ou termo possui um significado fixo ou final, pois, ao ser contextualizado, pode ser traduzido, reinterpretado de outra forma, sendo articulado a diferentes outros sentidos na produção de novas significações. Isso quer dizer que, a depender do contexto, outras perspectivas, inclusive imprevistas, serão produzidas, sendo essa uma dinâmica contínua. O pós-estruturalismo é considerado por Silva (2009) como uma continuidade e uma crítica ao estruturalismo. Podemos, de forma geral, entender o estruturalismo como um pensamento que privilegia uma concepção do mundo como estrutura fechada, marcada por uma lógica geral que envolve e orienta todos os fenômenos. Como exemplo de visão estrutural, podemos pensar nos estudos críticos reprodutivistas de enfoque economicista, que interpretam o mundo como organizado por uma estrutura econômica que o controla. Entre destacáveispensadores estruturalistas, estão Saussure e Lévi-Strauss, cujos trabalhos buscam estabelecer uma lógica universal de funcionamento para a linguagem e a cultura, respectivamente. Atenção O pós-estruturalismo possui o foco na linguagem em comum com o estruturalismo, mas se diferencia ao criticar a ideia de uma estrutura fechada que regularia todos os processos de significação. Nesse sentido, em vez de falarmos em rigidez estrutural, tratamos de flexibilidade e falha da estrutura, o que torna possível o acontecimento da diferença, do pensamento diferente, da significação diferente, demonstrando a precariedade e fragilidade da estrutura, assim como sua incapacidade de controle sobre a significação. Para pensar as operações feitas por meio da linguagem, Foucault propôs a ideia de discurso e Derrida apresentou a ideia de texto geral. Foucault questionou a ideia de poder, produzindo uma visão diferente daquela proposta pelo marxismo. Para o autor, o poder não possuiria um centro, fixidez ou lugar de onde seria emanado, mas é algo dinâmico, fluido e disperso em todos os contextos. Segundo Silva (2009), Foucault considera o poder como intimamente associado ao saber, pois não existe saber que não seja uma expressão do poder, assim como não há poder que não seja constituído em uma relação de saberes. O poder, no pensamento foucaultiano, seria o elemento definidor do sujeito, aquilo que o identifica no mundo. O poder do discurso seria o meio pelo qual os sujeitos se constituiriam em determinado contexto. Ou seja, não haveria um sujeito preconcebido com determinada identidade, mas ele é significado por meio de relações de poder, sendo, portanto, definido externamente. Nesse caso, podemos considerar que qualquer tipo de identificação, tais como estrangeiro, louco, são, inteligente, incluído, homossexual, negro etc., são significações que produzem o sujeito em relações de poder, constituindo formas de hierarquização e preconceitos, consequentemente. Para Foucault, em razão do modo como o sujeito é significado na sociedade é que cabem críticas a instituições como a escola tradicional, o manicômio ou a igreja, pois elas tendem a constituir todo um conjunto de regras e normas disciplinares que docilizam os corpos, ao significar os sujeitos por meios de valores e lógicas controladoras. Uma vez que o sujeito é significado externamente, o papel de tais instituições seria marcado pela produção contínua de sentidos sobre formas certas ou erradas de ser e estar em sociedade, criando, assim, formas de exclusão e repressão sobre as pessoas desde a infância. Derrida, por meio da ideia de différance, defendeu a ampliação da compreensão da diferença. Para o filósofo, um significante (um nome) é significado sempre de modo relativo a outros significantes com os quais é articulado em determinado contexto. O significado jamais é fechado, contido ou apreendido pelo significante, estando sempre adiado ou prometido. Segundo Silva (2009, p. 121), um exemplo interessante nesse sentido seria a própria ideia do dicionário, em relação ao qual estabelecemos a ilusão de acesso ao significado quando encontramos uma definição para a palavra. Para o autor, o suposto significado é apresentado por outras palavras, cujos supostos significados também são apresentados por outras e, assim, continuamente. Outra contribuição do pensamento de Derrida está na crítica ao caráter superior da linguagem oral sobre a escrita, sendo a primeira entendida, na tradição filosófica ocidental, como expressão da consciência ou subjetividade, enquanto a escrita seria uma forma secundária de registro da relação da consciência com javascript:void(0) a linguagem. Para o filósofo, a linguagem oral não é a consciência em si; mas, assim como a escrita, uma relação com significantes. Por esse motivo, Derrida propõe a compreensão de escrita como integração de toda forma de manifestação (oral ou escrita) no mundo. Assim, nenhuma forma de expressão seria mais ou menos verdadeira, todas são uma tentativa de significar as coisas constantemente. Por meio dessa proposta, o autor defende que não existe sujeito pleno ou consciência plena, pois não há significado originário ou fixo ao mundo, mas uma busca por significação. Para Derrida, o sujeito não existe, mas há processos de subjetivação, uma ação de vir-a-ser sujeito que não termina. Segundo Silva (2009) no campo do currículo não teríamos uma teoria pós- estrutural específica, mas uma “atitude” pós-estruturalista, que permite compreendermos a incerteza e a indeterminação na abordagem a diversos temas, como o conhecimento, a formação de sujeitos, a consciência, entre outros. Esses termos, por exemplo, na ótica pós-estruturalista, não possuiriam significados preexistentes, mas sua significação é produzida em contextos culturais específicos. Para o autor, o foco de tais estudos estaria em investigarmos as relações de poder envolvidas na produção contextual de tais significações. A abordagem pós-estrutural se difere de visões tradicionais ou críticas ao não trabalhar com a defesa de que determinado conhecimento tem um significado específico e, portanto, deve ser ensinado ou excluído na escola. Ao contrário, pode nos ajudar a compreender as relações de poder que levam a que conteúdos definidos por um documento curricular sejam ressignificados de formas distintas em diferentes contextos, sendo relacionados a outros temas, questionamentos ou discussões imprevistos. Tais concepções ajudam a pensar o modo como são produzidos novos sentidos na linguagem por meio da articulação de nomes (significantes) em distintos contextos. Ou seja, a todo momento, ainda que tentemos controlar o significado de algo, sempre produzimos novos sentidos, fazendo com que o processo de significação não cesse. É importante considerarmos, na visão pós-estrutural, a crítica ao realismo, opondo-se à visão de que as coisas possuem uma “essência de verdade”. Nesse sentido, os estudos pós-estruturais no campo do currículo não o pensam como um objeto da realidade, como um documento curricular impresso, uma caneta ou um prédio. O currículo é interpretado como uma produção constante, que é mobilizada pelas diferentes visões de mundo, pelas interpretações feitas sobre o que entendemos como mundo. As distintas visões curriculares não são mais do que leituras de mundo que buscam produzir um “efeito de verdade”. Isso quer dizer que todas as abordagens curriculares têm por objetivo dar sentido, significar o próprio mundo do qual tratam, construindo-o ao mesmo tempo em que se referem a ele. No caso do currículo, poderíamos pensar, em um caso exemplar, na ideia de qualidade em educação, em relação à qual diferentes grupos defendem sentidos distintos, às vezes até divergentes entre si, mas concordam com a inclusão da ideia de qualidade como uma meta a ser alcançada pela educação em geral. Coletivo A: Suponhamos que o coletivo A, defensor da ideia de qualidade em educação, interprete que esta será assegurada se a escola ensinar, prioritariamente, Língua Portuguesa e Matemática aos jovens, entendendo que dependem de tais conhecimentos para serem incluídos socialmente. Coletivo B Pensemos também que o coletivo B, apoiador da ideia de qualidade, interpreta que Geografia, História e Ciências devem ser ensinadas pela escola, pois sem elas não seria possível a inclusão social do jovem, uma vez que sem conhecimentos sobre dinâmicas da sociedade e do mundo da ciência e tecnologia, a juventude estaria marginalizada. Coletivo C Consideremos, ainda, o coletivo C, que concorda com a ideia de qualidade, compreende que as disciplinas mencionadas acima devam ser ensinadas, mas que atividades interdisciplinares e voltadas às experiências de cada comunidade escolar precisam compor o rol de ações a serem desenvolvidas, pois, para haver qualidade, a escolaprecisa favorecer a compreensão dos estudantes sobre suas realidades locais. A lista de exemplos de coletivos poderia seguir indefinidamente se levarmos em consideração o conjunto de demandas sociais que disputam a significação da ideia de qualidade em educação. Importa atentarmos para o conflito que o exemplo nos mostra: todos os coletivos defendem a perspectiva de que a educação deve ter qualidade, mas a disputa pelo significado dela é exemplificada no modo como cada um propõe o que pensa como qualidade. Ficou com dúvida sobre essa questão do exemplo? O professor Hugo Heleno explica melhor: Assista agora a uma exposição que esclarece os exemplos oferecidos acima. Contribuições dos estudos pós-estruturais ao currículo Segundo Silva (2009), muitos trabalhos no campo do currículo apropriam concepções e discussões do pós-estruturalismo de forma mesclada a outras abordagens para o desenvolvimento de investigações sobre temas variados. São frequentes as associações com os estudos culturais, pós-coloniais, feministas, neomarxistas, pós-marxistas, decoloniais, queers, com o multiculturalismo e, também, com perspectivas críticas de cunho emancipatório. Podemos considerar que uma das contribuições do pós-estruturalismo ao campo curricular é chamar a atenção para a diferença, para a instabilidade dos significados do que quer que seja no currículo, para a incerteza e a impossibilidade de controle do outro (seja ele conhecido ou não). Nessa direção, o sujeito não pode ser controlado para se tornar consciente de algo, mas é um processo constante de construção. Silva (2009) assinala que no pós- estruturalismo o sujeito, o currículo, o conhecimento são invenções, tentativas de estabelecer um padrão impossível. Isso não nos permitiria falar em um modelo ou regra de qualidade, de formação, de conhecimento pleno, pronto e acabado, capaz de explicar todo o mundo, mas podemos tratar de significados provisórios. Temos, em uma perspectiva geral, um conflito constante pelo significado do que é o currículo, o sujeito e o conhecimento. pos_estruturalismo.mp4 Para Lopes e Macedo (2011), a leitura pós-estrutural se constitui em críticas às proposições clássicas de planejamento curricular, que tendem a definir o que pode ou não ser dito e feito na escola, o que deve ser o sujeito, o que é válido como conhecimento e como o mundo deve ser entendido. Noções como a de “cumprimento” ou “implementação curricular”, muito comuns na racionalidade tyleriana, são criticadas por visões pós-estruturais, pois desconsideram a vida do contexto escolar, as culturas que constituem as escolas e seus sujeitos. Sob uma visão pós-estrutural de currículo não se é contra a ideia de planejar, mas sim contra a perspectiva de que o planejamento, anterior à experiência escolar, deve ser implementado. Para as autoras, uma vez que toda proposta curricular é ressignificada no contexto, o planejamento deve ser pensado como passível a alterações, tornando-se outra coisa na escola. Influências e perspectivas nacionais No Brasil, os estudos de Sandra Corazza são considerados como fortemente influenciados pelo pensamento pós-estruturalista. Sandra Corazza Sandra Corazza (1951-2021) foi uma pesquisadora brasileira que contribuiu para as pesquisas em Educação e para o campo dos estudos sobre currículo. Para a autora, o planejamento pedagógico é um texto produzido no contexto escolar por intermédio da prática de construção de novos e diferentes significados. A autora destaca haver uma potência nas ações escolares, que são caracterizadas como criadoras de novos sentidos, práticas e versões do mundo, levando à ruptura constante das formas de controle que caracterizam as normas, as formas prescritas de currículo. O caráter cientificista das teorias educacionais, com as definições do que é ser um bom professor que ensina o melhor conhecimento, se opõem, segundo os estudos de Corazza, à concepção de que a escola é um espaço de criação de novos significados. Para a autora, cujos trabalhos possuem influências também do pensamento foucaultiano e de Deleuze, a ideia de que há uma verdade a ser ensinada na escola possui um papel determinista sobre os sujeitos e formas de conhecer, devendo tornar-se objeto de críticas dos estudos pós-estruturais. Em âmbito internacional, os trabalhos de Cleo Cherryholmes e Thomas Popkewitz são lembrados como uns dos primeiros produzidos sob influência pós-estrutural (LOPES; MACEDO, 2011). Cherryholmes propõe pensarmos que a norma para o currículo é a instabilidade e o desacordo, a desconstrução dos pressupostos que visam fundamentá- lo e controlá-lo. Popkewitz, que possui trabalhos muito influenciados pelo pensamento de Foucault, tem estudos em que chama atenção para as transformações que as disciplinas escolares sofrem no contexto escolar. Em especial, o autor salienta o caso da Matemática que, segundo seus estudos, possui maior relação com questões éticas na escola do que com práticas científicas. Sob essa perspectiva, as disciplinas escolares deixam de ser interpretadas como meios para a transmissão de conhecimentos científicos na escola e se tornam meios pelos quais diferentes sujeitos, em distintos contextos, negociam culturas e visões de mundo produzindo saberes. Assim, tal como propõem Lopes e Macedo (2011), construímos saberes ao passo em que nos tornamos disciplinares. Nos identificamos com determinados saberes ao mesmo tempo em que produzimos novos sentidos ao interagir com um campo disciplinar. Assim, ao mesmo tempo em que é produzido o discurso de que “um” conhecimento específico é capaz de libertar ou conscientizar “o” sujeito, também é afirmado “um” significado específico para “o” mundo e, ainda, para o que é ter consciência ou ser consciente, desprezando outras formas de pensar, estar e significar o mundo em que vivemos. Para os estudos pós-estruturais, tais definições são construções discursivas que precisam ser criticadas em seu caráter limitante a outras visões de mundo, a outras criações que são produzidas no currículo. Os estudos pós-estruturais em currículo buscam romper com as ideias binárias de currículo, tais como as de currículo proposto e praticado, formal, vivido ou oculto, bem como a dualidade entre teoria e prática. Para tais estudos, tudo o que acontece em relação ao currículo é produção de sentidos, é produção curricular, independente de se manifestar como proposta governamental, ato político do grêmio escolar, manifestação de professores, uma feira de ciências, um trabalho de campo, uma roda de conversa sobre determinado tema ou, ainda, a produção de um material didático. Verificando o aprendizado Parte superior do formulário 1. A partir de seus trabalhos, Michel Foucault construiu ferozes críticas às instituições modernas, sendo a escola tradicional um de seus alvos. Para o autor, a escola é frequentemente considerada como: a) Um lugar de docilização dos corpos. b) Um espaço de troca de experiências. c) Ambiente de reflexão partilhada entre sujeitos. d) Momento de manifestação de opiniões e diferentes comportamentos. e) Um ambiente análogo ao da prisão, marcado pela violência e cerceamento da liberdade do sujeito. Comentário Parabéns! A alternativa "A" está correta. Para Foucault, a escola tradicional é um lugar de regulação e docilização dos corpos, pois possui, por meio da reprodução de valores e normas, o objetivo de controlar as formas de pensar e agir, reduzindo, assim, possibilidades de formação de sujeitos autônomos e críticos. Parte inferior do formulário Parte superior do formulário 2. As abordagens pós-estruturais criticam o realismo e o essencialismo no pensamento curricular. Nesse sentido, podemos afirmar que: a) O currículo é produzido por constantes processos de significação. b) O currículo deve assegurar os conteúdos básicospara a formação cidadã. c) O currículo transmite as normas e valores que garantem a inclusão das pessoas na sociedade. d) O currículo desvenda os processos de reprodução da sociedade capitalista. e) O currículo é a forma de criar sujeitos críticos e prontos para lutar contra o sistema e fazer a revolução. Comentário Parabéns! A alternativa "A" está correta. No âmbito dos curriculares pós-estruturais, o currículo é compreendido como constituído por processos contínuos de significação, o que leva à interpretação de que não pode possuir um significado final ou estável. MÓDULO 3 Relacionar currículo e construção do conhecimento escolar, com base nos princípios da coletividade, reciprocidade, integralidade, ética e alteridade Currículo e constituição do conhecimento escolar com base nos princípios da coletividade, reciprocidade, integralidade, ética e alteridade Assista agora a uma introdução sobre o tema da relação currículo-escola- conhecimento. A centralidade do conhecimento no campo do currículo O debate sobre conhecimento no campo do currículo é considerado um dos mais frequentes e intensos, haja vista a quantidade de abordagens e associações que diferentes estudiosos do currículo produziram e produzem em torno das associações ao conhecimento. De modo geral, podemos interpretar que tais associações têm sido construídas, ao longo do tempo, em acordo com os contextos sociais, com as demandas políticas ou buscando sanar problemas de diferentes momentos. Dessa forma, trabalhos ligados a diferentes abordagens curriculares tradicionais, críticas e pós-críticas, compreendem o conhecimento e, consequentemente, o papel da escola de diferentes maneiras. Dentre as visões de conhecimento, podemos destacar as abordagens ACADÊMICAS; AS INSTRUMENTAIS; AS PROGRESSISTAS; ENFOQUE CRÍTICO. Sob a ótica acadêmica, o conhecimento é entendido como aquele produzido e validado por especialistas de um campo acadêmico-científico específico. Não currículo-escola-conhecimento.mp4 currículo-escola-conhecimento.mp4 só os conhecimentos científicos são considerados, mas também aqueles reconhecidos por comunidades acadêmicas, tais como as de literatura ou artes. A visão instrumental também dialoga com a visão acadêmica de conhecimento, pois concorda que o conhecimento a ser ensinado pela escola deve ser aquele produzido e credenciado pelos especialistas acadêmicos. No entanto, tal abordagem se diferencia da acadêmica ao compreender que não se trata de transmitir os conhecimentos acadêmicos como forma de perpetuação da produção intelectual acumulada pela humanidade, mas de ensinar aquilo que possa servir à formação de sujeitos eficientes para o atendimento de finalidades sociais. Como exemplo de tais influências, na atualidade, podemos destacar a concepção de ensino por competências, habilidades ou, ainda, a definição de itinerários formativos para os jovens, presentes na atual Base Nacional Comum Curricular (BRASIL, 2018). Esses modos de organização do conhecimento no currículo escolar tendem a selecionar, de um conjunto mais amplo de concepções acadêmicas, somente aqueles elementos que possam auxiliar o cumprimento dos objetivos educacionais definidos pelas propostas curriculares. Do ponto de vista progressista, o conhecimento é entendido como todas as contribuições, de diferentes campos do saber, que possam ser utilizadas na descoberta de soluções, de novos problemas ou de formas de abordar um fenômeno. O conhecimento deve ser um facilitador dos desafios e problemas da vida. Os estudos progressistas têm por finalidade maior a defesa da democracia por meio da educação. Por esse motivo, com vistas ao maior diálogo entre diferentes formas de pensar o mundo, o conhecimento tende a ser concebido como produto da interação de conhecimentos acadêmicos com os interesses e expectativas dos sujeitos escolares. Em comum com a visão acadêmica, possuem a priorização do conhecimento definido pelas disciplinas acadêmicas, entendendo-o como forma de contribuição para a resolução de problemas ligados às experiências sociais dos sujeitos. Podemos entender que as concepções de conhecimento tratadas até aqui estariam mais vinculadas às abordagens tradicionais de currículo, pois, apesar de divergirem em muitos aspectos, assumem o conhecimento acadêmico e/ou científico como pressuposto para a definição do que é o currículo e, por conseguinte, de qual é o papel da escola e dos sujeitos. Para diferentes autores críticos, as formas de hierarquização e escolha de conhecimentos para o currículo não se baseiam somente em sua validação acadêmica, mas, antes disso, nas relações de poder que caracterizam a sociedade em classes. Nesse sentido, o conhecimento passa a ter sua pretensa neutralidade criticada. Entre contribuições críticas ao debate sobre conhecimento no campo do currículo, temos os autores envolvidos com o movimento da Nova Sociologia da Educação, que deram centralidade ao debate sobre conhecimento ao questionarem o que conta socialmente como conhecimento. O conhecimento não deveria ser validado pelos especialistas acadêmicos, mas pelas relações sociais e pela compreensão de que determinado saber é capaz de ajudar a combater as desigualdades. Para o autor, o fato de os conhecimentos serem legitimados pelas elites intelectuais já marca uma hierarquização do conhecimento, reproduzindo, de modo indireto, as hierarquizações sociais. Dessa forma, sob uma lógica “elitista” de seleção do conhecimento no currículo, teríamos a valorização dos saberes de “alto status” social e a consequente exclusão dos saberes considerados de baixo prestígio. Assim, os saberes abstratos possuiriam maior prestígio do que aqueles produzidos nas experiências cotidianas dos sujeitos; a linguagem escrita, por exemplo, seria legitimada em relação à expressão oral. Em abordagem crítica diferenciada, Paulo Freire propõe uma compreensão da possibilidade ao defender um projeto de educação popular em que os conhecimentos são pensados como meios para conscientização política e libertação dos oprimidos. Para o pensador, no entanto, o conhecimento precisa ser produzido com as pessoas oprimidas e não para elas, pois os oprimidos são entendidos como sujeitos ativos na produção do conhecimento, devendo este ser elaborado em associação com as vivências e saberes construídos em suas trajetórias de vida. Assim, Freire critica a primazia dos conhecimentos da escola tradicional, em virtude da excessiva influência acadêmico-científica e do modo como são ensinados, afastados das experiências dos sujeitos escolares. A ideia de educação bancária deriva dessa leitura sobre a escola formal, pois nela os estudantes são entendidos como pessoas sem saber algum da vida, cabendo- lhes o recebimento de conhecimentos acadêmicos transmitidos pelos professores, entendidos como detentores dos saberes válidos. Em oposição às características da escola tradicional, Freire defende uma educação problematizadora, que compreende as experiências e saberes dos sujeitos em uma abordagem crítica sobre as opressões da realidade em que vivem com o objetivo de transformar essa mesma realidade. Assim, o conhecimento não seria algo em si mesmo, como na visão acadêmica, mas seus significados seriam construídos no encontro de pessoas em diálogo sobre o mundo e as experiências que vivenciam. Os trabalhos de José Carlos Libâneo, por sua vez, divergem da visão freireana ao ponderar que, apesar da importância de considerar os saberes e experiências dos jovens, a escola também teria por finalidade a produção de um conhecimento sintético junto aos estudantes. Nesse caso, os estudantes possuiriam um conhecimento sincrético, produzido em suas experiências cotidianas e a escola teria por objetivo a produção de um conhecimento mediado pelosconhecimentos científicos historicamente produzidos pela humanidade. Para o autor, o conhecimento deve ser produzido em interação direta com os conteúdos escolares, que se baseiam nas contribuições acadêmico-científicas dos saberes de referência. Seus estudos defendem que a construção de um conhecimento crítico não pode ser desenvolvida sem a apropriação crítica dos conhecimentos científicos. Sincrética Que combina princípios de diversas doutrinas ou de concepções heterogéneas. javascript:void(0) Podemos dizer que o foco de Libâneo está mais concentrado na criação de possibilidade de inclusão ou ascensão social dos sujeitos, o que ocorreria por meio da interação com o conhecimento socialmente acumulado. Esse conhecimento, embora possa ser associado às elites, seria, na lógica do autor, o meio pelo qual as classes populares teriam condições de acessar o sistema dominante e seus benefícios, levando-os a melhorarem seu padrão de vida, por meio, por exemplo, da aquisição de empregos melhores ou do conhecimento das leis para saberem como agir em defesa de seus direitos A produção escolar do conhecimento Podemos destacar como emblemáticos os estudos de Yves Chevallard e Basil Bernstein que, de forma mais atenta às dinâmicas da escola, buscaram compreender a formação do conhecimento a partir das concepções de “transposição didática” e de “recontextualização”, respectivamente. Os trabalhos de Chevallard são frequentemente considerados como entre os primeiros a defender que a escola é um espaço de produção de conhecimento. Para o autor, que teve seus trabalhos produzidos sobre o ensino de Matemática, javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) interessa compreender as diferenças entre o conhecimento científico, produzido por especialistas em âmbito acadêmico, e o conhecimento escolar, produzido por professores e estudantes nas escolas. Segundo seus estudos, o modo como os conceitos são desenvolvidos na escola é diferente daquele produzido pela ciência, pois passam por processos específicos ligados ao contexto escolar. Entre esses processos, estão: Despersonalização Deslocamento Quanto a quem desenvolveu o conceito no contexto científico. O afastamento da rede de questões em que estaria envolvido e do momento em que foi elaborado. O fato de a escola lidar com a produção do conhecimento de modo diferente do que é feito pela ciência não leva Chevallard a pensar que a escola comete erro, mas que, sob uma preocupação didática, professores e estudantes interagem na relação de ensino-aprendizagem produzindo outros significados. Cabe destacarmos que a ideia de transposição didática leva em conta, especificamente, a noção de que determinado conhecimento sofre alterações ao ser levado de um contexto a outro. Assim, no processo de transição da ciência para a escola, um conceito passa a ser adaptado para o ensino, tendo preservados os aspectos considerados importantes para as finalidades educacionais de uma disciplina escolar, por exemplo. Importa salientar que nesse processo de transição estão envolvidos não só professores e estudantes, mas os órgãos de gestão, os materiais didáticos e a própria influência da comunidade local em que a escola se insere. Também com o objetivo de compreender a produção do conhecimento escolar, Bernstein propõe o conceito de recontextualização, que consiste no entendimento de que a significação do conhecimento muda conforme mudam os contextos. Para o autor tal mudança não está restrita ao trabalho de professores, mas a cada contexto novo em que determinado conteúdo é abordado, em que suas características, enfoques e teor, são alterados. Sob a lógica de Bernstein, determinado conhecimento faria, por exemplo, uma trajetória de partida do campo científico, passando por um campo recontextualizador oficial, marcado pelos órgãos de governo, e por um campo de recontextualização pedagógica, em que atuam os especialistas em educação, as instituições de pesquisa educacional e de formação de professores. Ao longo desse processo de recontextualização, um conteúdo seria influenciado e alterado por ideologias e concepções contextuais. Para ele, portanto, o conhecimento escolar seria produto de múltiplos processos de recontextualização. As abordagens desenvolvidas por Chevallard e Bernstein possuem, em comum, a visão de que o conhecimento escolar é produzido pela escola, mas seriam versões de saberes produzidos em contextos anteriores ou superiores à escola. Com isso, a escola seria produtora de um conhecimento adaptado e não de um conhecimento próprio. As críticas aos autores consistem, de modo geral, na afirmação de que mesmo reconhecendo a escola e seus sujeitos como influenciadores na produção de conhecimento, estes estariam hierarquicamente submetidos às normas do Estado ou da ciência. Muitos estudos, em outra perspectiva, passaram a focalizar a escola e suas práticas, buscando compreender como produzem conhecimento. A relação entre cultura e currículo somente poderia ser compreendida a partir de si mesma e não por abordagens macroestruturais ou cientificistas. Contrário às visões generalizantes, o autor defende que todos os sujeitos atuantes em determinada escola trazem suas visões de mundo, culturas e expectativas e, na interação com outras culturas circulantes, é que ocorrem negociações, produções de novos sentidos e conhecimentos. Conflitos, questões familiares, discussões que envolvem questões étnicas, de gênero e diferentes concepções de mundo estariam atreladas à produção dos conhecimentos naquela escola, por exemplo. Os conhecimentos são considerados libertadores ou emancipatórios justamente por serem produzidos a partir das experiências e dos desafios coletivos e individuais com os quais os sujeitos lidam cotidianamente. Esses estudos não desprezam as contribuições da ciência, mas pensam que suas formas de conhecer, ao interagirem com a multiplicidade de culturas cotidianas escolares, possibilitam a produção de um conhecimento com significado para os sujeitos. Também com o objetivo de chamar a atenção para a produção de conhecimentos no cotidiano escolar, no Brasil, os estudos do cotidiano, desenvolvidos por estudiosas como Nilda Alves (1999) e Inês Barbosa de Oliveira (2003), abordam os conhecimentos escolares como criações e trocas cotidianas, produzidas por muitas articulações em rede. Os conhecimentos, para as autoras, seriam produzidos pelos “praticantes” dos cotidianos, a partir das vivências reais dos sujeitos e do modo como interagem com a escola. Para Alves, a lógica moderna de organização do conhecimento construiu uma hierarquização em que a teoria, vinculada ao conhecimento científico, seria a forma adequada de explicar o mundo, enquanto a prática seria uma forma secundária de produção de significados nesse mesmo mundo. Alves (1999) propõe que atentemos à atuação dos praticantes dos cotidianos de modo a construir um olhar sobre como os conhecimentos são produzidos na escola. Para a autora, é nas interações cotidianas que todo um amplo conjunto de fatores leva à criação de novos e imprevistos conhecimentos. Assim, os diferentes usos da tecnologia, os meios de comunicação, as informações difundidas socialmente, os conhecimentos acadêmicos, as disciplinas escolares, as negociações estabelecidas localmente, assim como as culturas que envolvem as experiências dos sujeitos, levam à produção constantemente negociada do conhecimento. Assista agora a uma introdução sobre o tema da relação currículo-escola- conhecimento. conhecimento.mp4 conhecimento.mp4 Assista agora a uma introdução sobre o tema da relação currículo-escola-conhecimento. Parte superior do formulário 1. (IDHTEC ‒ Prefeitura de Vertentes ‒ PE ‒ Professor do 1º ao 5º ano ‒ 2017 ‒ Adaptada) No contexto de estudo das tendênciaspedagógicas da prática escolar, Libâneo aponta que a perspectiva crítico-social dos conteúdos reconhece a universalidade e objetividade dos conteúdos, que se manifesta: a) No tratamento científico dos conteúdos e na compreensão de seu caráter histórico. b) Na busca pela emancipação dos sujeitos. c) Na intenção da formação de habilidades técnicas de forma crítica. d) No desenvolvimento de aptidões individuais. e) No valor dos conhecimentos acadêmicos que devem ser a base do que é levado para escola. Comentário Parabéns! A alternativa "A" está correta. Para Libâneo, assim como os saberes cotidianos dos estudantes, os conhecimentos científicos devem ser ensinados criticamente na escola, compreendendo os processos históricos envolvidos em sua construção. Para o autor, somente por meio da produção de um conhecimento sintético e crítico, mediado pelos conteúdos científicos, é que o estudante passa a ter oportunidades de compreender a realidade e modificá-la. 2. (AMEOSC ‒ Prefeitura de Guaraciaba ‒ MG ‒ Professor II ‒ Geografia ‒ 2019) Paulo Freire insiste que ensinar não é transmitir conhecimento, mas criar as possibilidades para a sua produção ou sua construção, de modo que é preciso estar atento para as diferentes formas de saberes coexistentes. Essa percepção do educador é descrita como: conhecimento.mp4 a) Conscientização b) Práticas de liberdade c) Dialogicidade d) Educação bancária e) Revolução Comentário Parabéns! A alternativa "C" está correta. Para Freire, somente por meio do diálogo entre diferentes sujeitos, com seus distintos conhecimentos e vivências, é possível a produção de conhecimento crítico libertador. Assim, a dialogicidade é a base para a interação de saberes na produção de processos educativos emancipatórios. MÓDULO 4 Definir as contribuições da concepção de currículo em redes Currículo em redes O pensamento curricular em redes (estudos do cotidiano) Caracterizados pela negação da ideia de que a escola seria receptáculo de normas e espaço de reprodução de ideias externas a ela, os estudos sobre a produção cotidiana dos currículos em redes, também conhecidos como estudos do cotidiano, foram desenvolvidos a partir da década de 1980, principalmente por meio dos trabalhos de Nilda Alves. Junto à autora, diferentes pesquisadores, como Inês Barbosa de Oliveira e Carlos Eduardo Ferraço, têm produzido variadas pesquisas voltadas ao estudo dos cotidianos das escolas. Comentário Podemos considerar que os estudos do cotidiano defendem a compreensão da escola como espaço e tempo complexo e relevante na construção de uma perspectiva de currículo diferenciada e atenta às dinâmicas que envolvem os sujeitos. Assim, os estudos do cotidiano se voltam à pluralidade de conhecimentos produzidos de diferentes maneiras e a partir de muitas fontes além da ciência. Tais conhecimentos não são controláveis, hierarquizáveis ou calculáveis justamente por serem imprevistos. A atenção dos estudos do cotidiano está voltada também para as ressignificações, os usos práticos dos objetos, as interações que produzem novas versões sobre um mesmo tema ou concepção, as transformações que os sujeitos, por meio de suas redes, trazem para a escola, mantendo-a em constante mudança. Entre as influências dos estudos do cotidiano estão os trabalhos de Michel de Certeau, para quem a origem do próprio cotidiano estaria na pluralidade e no caráter produtivo das interações. Ou seja, é justamente o fluxo das contribuições das pessoas e sua interação o que constitui o cotidiano. Outro autor a ser mencionado é Boaventura de Sousa Santos, cujos trabalhos apontam para a importância de rompermos com as ideias hierarquizantes, que colocam o conhecimento científico como superior aos conhecimentos dos sujeitos, os conhecimentos práticos, por exemplo. Ao criticar visões curriculares que olham a escola como lugar de implementar ordens, os estudos do cotidiano defendem que não basta dizermos que pesquisamos o cotidiano, como se fosse uma “coisa” sobre a qual tratamos. Mas, em uma busca por maior aproximação à realidade das escolas, com suas experiências, alteridades e conflitos, tais estudos definem a ideia de pesquisa “nos/dos/com os cotidianos”. Esta expressão visa construir o entendimento de que os estudos só podem se dar “no” cotidiano, a partir “do” cotidiano e junto “com” ele. Estação Central do Brasil. Outra concepção importante é a de “espaçostempos”, por meio da qual Alves e Barbosa (2004) chamam atenção para o cotidiano escolar como momento singular de produção de significados curriculares em rede. Ao integrar espaço e tempo em um só nome, os estudos do cotidiano buscam nos mostrar que a produção do contexto escolar não está apartada de outros contextos sociais, mas que, como um momento específico, em um espaço e em um tempo, o cotidiano escolar se constitui de modo único. Segundo Alves (1998), importa que compreendamos os contextos cotidianos como estando em contínua interação com outros contextos. Isso torna impossível definir limites para as interações entre o contexto da escola e outros contextos sociais com os quais ela se relaciona. Para a autora, o que temos é uma relação “dentrofora” das redes, ou seja, nas redes cotidianas somos influenciados e influenciamos constantemente os outros com os quais interagimos. Para Alves (1998, p. 3) a forma como estamos: [...] dentrofora dessas redes nos relacionamos com nossos iguais e com os “outros” vão impulsionar ideias de políticas. São essas relações que nos permitem criar e articular valores, éticas e estéticas diversificadas, apropriadas à complexidade das diversas redes. Nesse “dentrofora” das redes em que estamos envolvidos é que são produzidos os conhecimentos e práticas. Esses conhecimentos, pensados como “saberesfazeres” curriculares em rede, são elaborados nas complexas interrelações das quais participamos. Dessa forma, o modo como os conhecimentos são produzidos não está limitado à escola ou a qualquer outro contexto social. Os conhecimentos são formados de modo partilhado por todos os sujeitos que estão na escola que, por sua vez, trazem conhecimentos de outros contextos para a escola e levam dela para outros contextos. Nessas interações, o conhecimento é produzido sob as próprias lógicas do cotidiano, como uma “colcha de retalhos” formada por diferentes tecidos, partes, pedaços de visões de mundo, de experiências, unidos por diferentes linhas. As redes constituem as experiências cotidianas dos indivíduos, levando-os à produção de “saberesfazeres” a partir dos quais respondem aos desafios rotineiros e lidam com as situações que chegam a eles, sejam elas ligadas às famílias, à cidade, ao bairro. Para Alves (2012), os sujeitos se formam e produzem conhecimentos por meio de todas essas interações em rede, que marcam o cotidiano. Diferentemente de concepções tradicionais ou crítico-reprodutivistas, podemos compreender que a produção do conhecimento, com suas potencialidades críticas sobre o mundo, não seria orientada por uma única forma de consciência; mas o conhecimento, segundo a visão dos estudos do cotidiano, seria uma produção do próprio sujeito por meio das leituras de mundo que produz nas redes em que está envolvido. Assim, em seu dia a dia, na interação com diferentes pessoas, situações e locais, os sujeitos lidam com distintas opiniões, ideias, imagens, sons, impressões, conceitos e preconceitos, a partir dos quais são influenciados e levados à produção de suas posições políticas, ao mesmo tempo em que também são influenciadores de outras pessoas. Essas influências e aprendizagens vividas fora da escola são os elementos que, ao serem levados para dentro da escola, renovam a experiência de ensino. Segundo Alves (2013), a partir do momento em que diferentes conteúdos adentram a escola, passama motivar professores e provocar mudanças em suas práticas que, construindo novos olhares, buscam cotidianamente interagir com o novo, com as novas questões e desafios que chegam. Para a autora, “são essas tais redes das quais nós participamos e que não estão fora da escola, elas estão dentro da escola, porque vão dentro das pessoas que vão à escola fazer a escola” (ALVES, 2008, p.3). Ou seja, as redes cotidianas, que influenciam as pessoas que frequentam a escola, fazem com que o contexto escolar seja transformado continuamente, pois sempre está sendo atravessado pela pluralidade de questões cotidianas que mobilizam os sujeitos e produzem a escola. Essas muitas influências e atravessamentos, que constituem o currículo como produção cotidiana, não estão sob nosso controle, mas adentram e constituem outras versões de mundo no contexto da escola, influenciando comportamentos, processos de ensino-aprendizagem, produzindo novas visões sobre temas variados. Tais influências seriam também formas de resistência às normas, às propostas curriculares oficiais, aos livros didáticos, aos padrões e regras rígidas que tentam se impor à escola e controlar o conhecimento, as formas de agir e pensar o mundo. A compreensão de que não há um controle pleno sobre o cotidiano está no fato de que seus praticantes o produzem por meio de “táticas” de uso e utilizam-se de ações improvisadas, baseadas em conhecimentos e visões que constituem nas redes em que circulam, e não só agem sob orientação de conhecimentos formais ou regras. Tais práticas aprendidas ao longo de suas experiências de vida permitem que, em dado momento de desafio ou oportunidade, o sujeito decida de forma singular. Segundo os estudos de Alves (2002), os estudos do cotidiano têm contribuído para a crítica radical do modo como a escola está organizada em nossa sociedade. Para a autora, a escola precisa ser repensada internamente do ponto de vista das estruturas de poder e em relação ao trabalho pedagógico e ao currículo. Do ponto de vista externo, importa chamarmos a atenção para as relações de poder constituídas entre a escola e a sociedade, levando em consideração as demandas dos movimentos sociais, do debate público e do mundo do trabalho no que diz respeito à produção de conhecimento. Como os estudos do cotidiano nos ajudam a (re)pensar a escola Para Alves (2008) há movimentos capazes de nos auxiliar no desenvolvimento de uma crítica sobre a escola e as relações de poder em que ela se constitui. Para a autora, tais movimentos não seriam como receitas prontas para dominar o cotidiano, pois, como temos visto, tal tarefa, além de indesejável, seria impossível. O primeiro movimento seria “o sentimento do mundo”, que teria por objetivo uma imersão no cotidiano com a finalidade de conhecer mais do que a visão ou a aparência nos permitem perceber. Para a autora, na busca por conhecermos o cotidiano, precisamos mergulhar nele, avançando sobre o aparente na direção dos seus sentidos circulantes, das visões e sensações que o constituem. Somente na produção de uma forma de pertencimento é que estaríamos envolvidos na experiência cotidiana. Um segundo movimento, denominado como “virar de ponta-cabeça”, tem por foco a subversão das concepções e teorias de amplo conhecimento social, consideradas frequentemente como pressupostos inquestionáveis. Tais conhecimentos e teorias, que tendem a ser repetidos como verdades, devem ser reinterpretados como hipóteses, como possibilidades de questionarmos e pensarmos o cotidiano, que se transforma continuamente. Dessa forma, este segundo movimento pode ser pensado como um entendimento de que os conhecimentos sistematizados (por meio da ciência, por exemplo) podem ajudar a pensar, mas não explicar toda a experiência, pois a experiência, que é dinâmica, não pode ser compreendida por formas estáveis de conhecimento. O terceiro movimento, definido como “beber de todas as fontes”, nos leva a compreender a importância de interagirmos com outras formas de conhecimento, reconhecendo-as como potentes para o entendimento das diferentes questões que atravessam o cotidiano. Esse movimento teria como objetivo também permitir o alargamento de nossas visões de mundo, das concepções a partir das quais interpretamos os fenômenos. Dessa forma, tudo o que envolve o cotidiano deve se tornar objeto de interesse e conhecimento. Tal tarefa assume uma condição permanente pois, como já ressaltamos, o cotidiano é dinâmico e singular e está em constante mudança. Ao mudar a todo tempo, não pode haver um conjunto fixo de conhecimentos capazes de explicar tudo o que surge e renova o cotidiano. Resta, assim, a atenção e a apropriação constantes de tudo o que é novo e das formas de conhecer que essas novidades nos trazem. Nas experiências cotidianas, portanto, tudo o que sentimos, notamos, percebemos, ouvimos ou narramos, é interessante e importante para o próprio conhecimento do cotidiano. Conversas, estórias, brincadeiras, músicas, expressões, casos, traumas, aplicativos e imagens são compreendidos como manifestações ou elementos cotidianos que nos interessam na crítica às formas de regulação da escola, na formação de professores e nas muitas formas de interação com o outro. O quarto movimento, denominado como “narrar a vida e literaturizar a ciência”, tem por objetivo construir um novo olhar sobre nossos registros e pesquisas nos/dos/com os cotidianos, possibilitando a construção de conexões entre nossas interpretações e os praticantes do cotidiano. Para Alves (2008), não basta produzirmos conhecimentos por meio de nossas práticas investigativas, mas tais conhecimentos precisam dialogar com os sujeitos do cotidiano. Ao tratarmos do cotidiano, já estamos atuando em sua construção, por meio de narrativas a partir das quais produzimos novos sentidos, influenciando novas significações e sendo influenciados por outras. Para os estudos do cotidiano, a narração possui muita importância, pois é por meio dela que interagimos com muitas outras narrativas nas redes de conhecimento, acessando novos conteúdos, ideias e visões de mundo. Nossas narrativas são formas de trazer para o “agora” as sensações e pensamentos de outros “espaçostempos” que nos influenciam e circulam nas redes de conhecimento, nas realidades com que nos envolvemos cotidianamente. Um quinto movimento, chamado de “ecce femina”, chama a atenção para os sentimentos, existências e vivências dos praticantes, perspectivas que são narradas, mas não podem ser expressas objetivamente. Tais perspectivas só podem ser percebidas ou experiênciadas na própria relação com as outras pessoas e na interação com as narrativas que circulam no cotidiano. Assim, é importante compreendermos que não se pode conhecer, estudar, participar e produzir conhecimento sem a contribuição dos praticantes, suas impressões, visões, histórias e concepções sobre tudo o que os afeta. Esses movimentos são como caminhos para que possamos organizar nosso olhar sobre e com o cotidiano. Por meio deles, podemos seguir percursos investigativos, como professores, estudantes, como sujeitos cotidianos, com foco nas práticas, que são o que interessa. 1º movimento - o sentimento do mundo Imersão no cotidiano 2º movimento - virar de ponta-cabeça Subversão das concepções e teorias 3º movimento - beber de todas as fontes Alargamento da visão de mundo 4º movimento - narrar a vida e literaturizar a ciência Conexões entre interpretações científicas e interpretações dos praticantes do cotidiano 5º movimento - ecce femina Atenção para os sentimentos, existências e vivências As práticas, para os estudos do cotidiano, possibilitam a compreensão dos processos vividos. Elas não são pensadas como devendo serem observadas de fora, mas são narrações, concepções, imagens, visões de mundo que produzimos constantemente.Como dito anteriormente, tudo o que anima o cotidiano é objeto de interesse. Nesse sentido, não há teoria de um lado e prática de outro, mas uma produção inseparável de pensar e fazer coisas, a partir de coisas pensadas e feitas. Não estamos tratando de um trava-línguas, mas a compreensão dos estudos do cotidiano sobre as dinâmicas do contexto da escola, por exemplo, não lida com a ideia de que teríamos teorias para, então, fazermos a escola, para produzirmos conhecimentos. De outra forma, podemos pensar que temos a todo tempo a interferência de diferentes teorias, pensamentos, inspirações, ideias, táticas, que produzem e são produzidas por outras práticas e, assim, sucessivamente. Ao mesmo tempo, os estudos do cotidiano valorizam a produção no contexto, ainda que também seja influenciado pelas memórias e vivências de outros contextos. Com essa compreensão, os estudos do cotidiano pensam a produção de conhecimento como algo que não pode ser produzido em um contexto para ser transmitido ou transposto para a escola. Pensam, ao contrário, que na relação com diferentes formas de conhecer é que produzimos conhecimentos. Comentário Essa mesma visão sobre a produção de conhecimento nos impede de construir uma teoria ou conceitos fixos ou rígidos para interpretar os fenômenos que produzem o cotidiano. Por serem multifacetados, plurais e imprevisíveis, as construções teóricas e práticas ocorrem no próprio contexto cotidiano, sendo esta a única maneira de construirmos uma compreensão sobre ele, dele, nele e com ele. Os movimentos citados anteriormente estão intimamente ligados ao processo de construção de abordagens sobre o cotidiano. Todos os movimentos descritos retomam a ideia de que não se pode estudar os cotidianos de fora deles, como se fôssemos observadores externos ou alheios ao cotidiano. Somente por meio de tais movimentos, que reforçam a importância da imersão no cotidiano, é que podemos experimentá-lo na relação com tantas outras experiências ali circulantes. Quando os estudos do cotidiano constroem esse foco sobre as práticas e os praticantes do cotidiano, reconhecendo o caráter produtivo dos contextos, visam também colocar em questão a potência política de tais relações. Para Oliveira (2013), tanto os elementos culturais, sociais e epistemológicos, como as emoções e características dos praticantes constituem interações produtoras de sentidos nas políticas. Nesse caso, para a autora importa que entendamos as práticas de estudantes e professores como produtoras de novos significados para as visões de mundo, convicções, conhecimentos e acontecimentos que atravessam o cotidiano escolar. Nesse movimento de ressignificação constante de tudo o que se passa na experiência cotidiana, os praticantes (professores e estudantes) criam leituras de mundo, novos currículos, transformando influências, normas e regulamentações, por meio da utilização do que sabem, percebem, sentem e almejam para suas vidas e para os outros naquele contexto. Atenção O conhecimento, que é um tema de grande repercussão no campo do currículo, nos estudos do cotidiano, é assumido como uma produção enredada por muitos outros contextos, que estão articulados ao contexto escolar. Nesse sentido, a escola é reconhecida como lugar de interação de saberes, com os quais os praticantes cotidianos interagem e produzem suas múltiplas redes, que envolvem questões ligadas às famílias, à sexualidade, à religião, às visões de mundo, ao mundo do trabalho, aos preconceitos e aos conceitos produzidos para além da escola. Atenção Tais influências atravessam o cotidiano escolar, produzindo sensações, conflitos, emoções, novas formas de interação com aquilo que é proposto formalmente pelas escolas, pelas políticas que também chegam para elas, pelos materiais didáticos, pelas falas, imagens, sons, experiências e histórias. Podemos pensar nos estudos do cotidiano como uma abordagem curricular inclusiva, que nos propõe uma atitude inclusiva em relação ao que é o currículo produzido nos/dos/com os cotidianos, com todas as dinâmicas e instáveis visões de mundo que lhes atravessam. Verificando o aprendizado Parte superior do formulário 1. Os estudos do cotidiano criticam a visão de que a escola é um espaço de cumprimento de propostas curriculares oficiais. Segundo tais estudos, as escolas são compreendidas como: a) Locais exclusivos para a partilha de conhecimentos e vivências dos sujeitos. b) Contextos plurais enredados a outros contextos, em que sujeitos constroem conhecimentos na interação com outros conhecimentos circulantes. c) Lugares de interação de conhecimentos críticos e de conscientização dos sujeitos sobre o caráter reprodutivista e excludente da sociedade. d) Espaços tempos de resistência e defesa de conhecimentos críticos, mediados pelo pensamento científico emancipatório. e) Espaços exclusivos para que determinados grupos possam expor suas vivências. Comentário Parabéns! A alternativa "B" está correta. Os estudos do cotidiano concebem a escola como contexto atravessado por outros contextos de experiências e vivências dos sujeitos. Por meio de tais atravessamentos, são constituídos conhecimentos, articulados a práticas, sentimentos, visões de mundo, táticas e experiências. Parte superior do formulário 2. Em sua abordagem aos estudos do cotidiano, Nilda Alves (2008) propõe um conjunto de movimentos capazes de auxiliar no entendimento do currículo. O olhar sobre a relação entre currículo e cotidiano precisa ser conhecida por um olhar: a) Que privilegie os conteúdos de forma vertical. b) Que lide com a teia de conhecimento que abrace o aluno. c) Que estabeleça o fim do currículo substituído por vivências. d) Que rompa com as forças do Estado e crie uma nova anarquia. e) Que só é possível imergirmos no cotidiano a partir da interação com diferentes conhecimentos. Comentário Parabéns! A alternativa "E" está correta. Colocar de ponta cabeça a visão clássica que está estabelecida em nossa sociedade, notando que o currículo proposto previamente é atravessado e vivido na compreensão de que tudo no cotidiano é interessante e gera olhares e debates, colocando dessa forma a hierarquia curricular de ponta cabeça. Considerações Finais Ao longo deste tema, estudamos diferentes abordagens sobre o currículo, com o objetivo de compreender suas diferentes orientações. Partimos de concepções tradicionais em que o currículo tende a ser interpretado como uma proposta formal para implementação escolar de conhecimentos e padrões para formação de sujeitos. Passamos por diferentes concepções críticas, que contribuem para o questionamento das lógicas de reprodução social nas escolas. Conhecemos também aquelas visões críticas que salientam que, apesar de tentativas de controle da escola, está responde com formas de resistência política, por meio da produção de conhecimentos emancipatórios. Com as abordagens pós- críticas, interagimos com concepções que incorporam a linguagem como meio pelo qual os sujeitos são produzidos e produzem sentidos no currículo, ressignificados a todo tempo. Compreendemos, por meio das concepções pós-estruturais, que o currículo é um texto que envolve discursos e diferenças, sendo constantemente produzido por meio de processos de significação. Concluímos com os estudos do cotidiano em rede, chamando a atenção para o currículo produzido por tudo o que atravessa a escola e os processos formativos dos sujeitos, incluindo experiências, conhecimentos, sensações e interações e práticas incontroláveis. Podcast Ouça agora um breve resumo das principais tendências na abordagem de currículo. Referências ALVES, N. Trajetórias e redes na formação de professores. Rio de Janeiro: DP&A, 1998. ALVES, N. Tecerconhecimento em rede. In: ALVES, N.; GARCIA, R. L. O sentido da escola. Rio de Janeiro: D, P & A, 1999. p. 111- 120. ALVES, N. Decifrando o pergaminho – os cotidianos das escolas nas lógicas das redes cotidianas. In: ALVES, Nilda; OLIVEIRA, Inês Barbosa de (orgs.). Pesquisa nos/dos/com os cotidianos das escolas sobre redes de saberes. 3. ed. Rio de Janeiro: DP&A, 2008. APPLE, M. W. Ideologia e currículo. Porto Alegre: Artmed, 2016. FREIRE, P. Conscientização: teoria e prática da libertação. São Paulo: Moraes, 1980. GIROUX, H. Teoria crítica e resistência em educação. Para além das teorias de reprodução. Petrópolis: Vozes, 1986. LOPES, A. C.; MACEDO, E. Teorias de Currículo. São Paulo: Cortez, 2011. LYOTARD, J-F. A condição pós-moderna. Rio de Janeiro: José Olympio, 2011. OLIVEIRA, I. B. Currículos praticados: entre a regulação e a emancipação. Rio de Janeiro: DP&A, 2003. OLIVEIRA, I. B. Currículo e processos de aprendizagemensino: políticaspráticas educacionais cotidianas. Currículo sem Fronteiras, v. 13, p. 375-391, 2013. Consultado na internet em: 5 jul. 2021. OLIVEIRA, I. B.; ALVES, N. Imagens de Escolas: espaçostempos de diferenças no cotidiano. Educação e Sociedade, Campinas, v. 25, n.86, p. 17-36, 2004. PINAR, W.; REYNOLDS, W.; SLATTERY, P.; TAUBMAN, P. Understanding Curriculum. New York: Peter Lang, 2008. SILVA, T. T. Documentos de identidade: uma introdução às teorias do currículo. Belo Horizonte: Autêntica, 2009. Explore+ Para saber mais sobre os assuntos tratados neste conteúdo, leia: O artigo “Teorias pós-críticas, política e currículo”, de Alice Casimiro Lopes. O artigo de Elizabeth Macedo, “Currículo como espaço-tempo de fronteira cultural”. O artigo “Currículos, docência e cotidianos”, de Inês Barbosa de Oliveira e Patrícia Raquel Baroni. O artigo “Formação de docentes e currículos para além da resistência”, de Nilda Guimarães Alves. O artigo “O pensamento de Paulo Freire como referência para o desenvolvimento de políticas de currículo”, de Ana Maria Saul e Antônio Gouvêa da Silva. Conteudista Hugo Heleno Camilo Costa Currículo e Cultura Descrição: Estudo das relações entre currículo e cultura demonstrando que não existe proposição curricular que imobilize a relação com as culturas e tradições locais. PROPÓSITO: Instrumentalizar os profissionais de educação de acerca da construção curricular, considerando sua necessária adaptação às culturas e às demandas dos grupos envolvidos. Vamos a um exemplo: se. eu estender a mão a um aluno em um ambiente escolar, é uma ação que é reconhecida como valor em meio aquele conjunto. Os resultados são muitos: evitar por conta do medo do contágio de alguma doença, apertar com força, recusar o aperto de mão. Todo esse conjunto de códigos só tem sentido em um meio social. Tanto dar a mão quando a ação do outro são imprevisíveis, ainda que existam algumas tendências. Estudar a relação entre currículo e cultura é ofertar a mão em um aperto. Vamos pensar sobre quantos efeitos e interpretações são possíveis e fortalecer nosso olhar sobre cultura. Assista agora a um vídeo que apresenta o conceito de cultura. MÓDULO 1 A cultura e suas relações com o currículo Relacionar as noções de cultura e suas relações com o currículo no contexto atual da educação O campo pedagógico do Currículo e a cultura A preocupação que habita o campo do Currículo, do ponto de vista cultural, repousa sobre o entendimento das ações sociais nele e por ele engendradas. As propostas e práticas curriculares, como ação social que constituem, devem trazer significados que possam ser compartilhados entre os diferentes sujeitos das escolas. Ao mesmo tempo, devemos evitar nos devolver à concepção de cultura que separa o que pode ser considerado válido, cultural e socialmente, do que é percebido como “ignorância”. conceito%20de%20cultura.mp4 Vivemos um novo mundo com tantos incrementos que o debate passa pelo seguinte questionamento: será que vivemos uma nova “aldeia global” homogênea ou uma cultura tão individual que o mundo se tornou totalmente heterogêneo? Assim, é preciso refletir sobre as consequências, na sociedade e nos currículos, dessas transformações. Deve-se lembrar sempre que, ao mesmo tempo em que esse estreitamento de relações reduz diferenças, a reafirmação identitária e a hegemonia da cultura branca, ocidental e europeia mantém as relações culturais perigosamente excludentes. Os preconceitos derivados da valorização excessiva de culturas europeias em detrimento de outras culturas importantes na formação social do Brasil, como as culturas africanas, afrodescendentes e indígenas, segue operando na sociedade brasileira, nas práticas sociais e nos currículos. Vamos contrapor o pensamento colonial e o pensamento decolonial Há um leque de movimentos sociais que se abrem e se fecham a todo instante, impedindo que o mundo se torne um espaço culturalmente uniforme e homogêneo, ao reagirem e reafirmarem suas especificidades, mesmo sem rejeitar interações e mudanças mútuas. É evidente que o efeito leque, para funcionar e ter sentido, necessita de um abrir e fechar, ou seja, de um vai e vem em que mudanças dialogam com permanências, tradições são atualizadas e novidades emergem, mas não linearmente, são gestadas nesse processo complexo de hibridização e reafirmação de si. O problema cultural dos currículos escolares Com relação aos currículos escolares e os modos como se relacionam com essa pluralidade cultural e processos de hibridização — recentes e antigos — infelizmente, ainda se tem hoje no Brasil a predominância de propostas centradas na ideia de uma escola que transmita os conhecimentos acumulados pela humanidade. Nesses currículos, não se questiona a seleção de certos conhecimentos dentre muitos possíveis e a parte da humanidade envolvida nessa produção e acumulação de conhecimentos. Como o conhecimento precisa ser pensado: javascript:void(0) Então, como perceber a relação entre as culturas e os currículos escolares, para compreendermos os critérios de escolha do que será ensinado ou não? Para tratar desse problema, é preciso ir mais longe, já que essas escolhas dependem da estrutura que se pretenda contemplar, da lógica com a qual se pretende trabalhar na estruturação da proposta e dos próprios objetivos da educação definidos antes dessas escolhas. O que defendemos é que, antes de pensar em conteúdos curriculares e em sua distribuição por disciplinas ou períodos de escolarização, é preciso pensar no que pretendemos com a educação escolar. Antes de definirmos “objetivos de aprendizagem”, é preciso definir os objetivos da educação e, para tal, é preciso saber de que modo a proposta curricular considera o respeito à pluralidade necessário e de as diferentes contribuições das culturas para a formação do Brasil. javascript:void(0) É essencial lembrar que nem tudo o que acontece nas escolas depende apenas das escolas, uma vez que esses objetivos dependem de políticas de viabilização, tais como: condições físicas, materiais, de transporte; salários, docentes e equipes de apoio; políticas de atendimento aos estudantes, entre outras. Isto é, nem tudo que concerne as escolas e os processos de escolarização se resolve, decide ou acontece nas escolas e nos processos de escolarização. Nem sempre tem sido assim, entretanto. Com base nos conhecimentos “acumulados” pela parte da humanidade branca e europeia — predominantemente masculina —, a estrutura escolar e curricular do Brasil segue o mais estrito eurocentrismo: parte de e se baseia no olhar dos colonizadores. Definido como o processo por meio do qual a Europa se constitui como o centro de poder no mundo, principalmente com a colonização, essa visão de mundo eurocêntricaprivilegia o conhecimento ocidental europeu, construído sob o mito da universalidade desses conhecimentos, considerados como os únicos válidos e legítimos a partir do lócus de enunciação do sujeito europeu, “civilizado, desenvolvido, descorporificado, dessubjetivado, neutro, objetivo e universal” (SANTOS, 2002). O conhecimento eurocêntrico é, assim, um conhecimento intrinsecamente atrelado à modernidade/colonialidade do poder, do ser e do saber, mas é afirmado como “neutro, objetivo e universal”, negando o passado e o presente de genocídios e epistemicídios cometidos sob sua lógica (SANTOS, 2002). Não parece ser necessário avançar muito para perceber o quanto a formação para a democracia, para a justiça e para a cidadania — metas explícitas da educação brasileira, registradas em diferentes documentos — exige considerar as questões culturais e o modo como interferem nas definições dos currículos e, portanto, na inclusão ou exclusão de diferentes grupos sociais. No Brasil atual, quanto mais distante da cultura europeia um estudante estiver, menores são suas chances de sucesso, uma vez que sua compreensão de mundo não dialoga com aquela que lhe é imposta pelos currículos do modo como a escola gostaria. javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) Por isso, é possível dizer que, mesmo quando há a perspectiva de um currículo democrático, fortemente vinculado às tradições coloniais, a ação humana tem deixado marcas e adaptações que não o permitem agir plenamente. Assista agora a um vídeo que apresenta de forma lúdica as tradições brasileiras. Para que a educação básica se torne de fato inclusiva, formadora para a democracia e para a igualdade, além de ensinar conteúdos formais, é necessário oferecer a todos a oportunidade de alcançar e manter um padrão mínimo de qualidade da aprendizagem, o que, como vimos, depende dos modos como as propostas e práticas curriculares incluem, ou não, conhecimentos e valores multiculturais. A preocupação com a qualidade do ensino deve, portanto, ser expressa por meio da luta pela superação de todos os obstáculos que impeçam as diferentes culturas de se expressarem e serem consideradas ao longo dos processos educativos. Os preconceitos e estereótipos de qualquer natureza devem ser ludico.mp4 combatidos, em nome de uma educação para todos, que esteja em conformidade com os princípios da democracia e do reconhecimento mútuo. Cabe ressaltar que as vítimas preferenciais dos processos de discriminação e inferiorização curricular são os grupos sociais subalternizados que, conforme o art. 3 da Declaração Mundial sobre Educação para Todos (1991), devem ter recuperados seus direitos à educação. “Um compromisso efetivo para superar as disparidades educacionais deve ser assumido. Os grupos excluídos — os pobres; os meninos e meninas de rua ou trabalhadores; as populações das periferias urbanas e zonas rurais; os nômades e os trabalhadores migrantes; os povos indígenas; as minorias étnicas, raciais e linguísticas; os refugiados; os deslocados pela guerra; e os povos submetidos a um regime de ocupação — não devem sofrer qualquer tipo de discriminação no acesso às oportunidades educacionais. (DECLARAÇÃO..., 1991) São tais grupos que as propostas de unificação curricular baseadas nos saberes formais da cultura europeia mais excluem, e esse é um dos principais problemas da política curricular brasileira neste momento. O problema cultural nas políticas curriculares no Brasil atual Quando nos dedicamos a refletir sobre o modelo educacional brasileiro e os valores que lhe são subjacentes — fundamentalmente ligados à tradição cultural europeia —, percebemos o quanto muitos segmentos sociais do país, formados por populações subalternizadas econômica e culturalmente, permanecem excluídos mesmo quando estão dentro das escolas. Permanecem excluídos A professora Inês Oliveira apresenta um exemplo dessa condição: “Isso se evidencia numa história vivenciada por uma professora ligada ao Movimento dos Trabalhadores Rurais sem Terra (MST), que me esclareceu a plateia, em um evento da área, ‘porque parecia fundamental ao movimento javascript:void(0) javascript:void(0) propor sua própria pedagogia e colocá-la em prática com professores ligados ao movimento’. O objetivo era evitar a repetição da opressão praticada por professores advindos da cidade. Era comum, segundo ela, alunos em dificuldades de aprendizagem ouvirem de suas professoras, em tom de ameaça, que se não se dedicassem ao estudo poderiam ‘acabar como os pais’, ou seja, trabalhadores rurais sem terra! Além de culpar as vítimas de um sistema social produtor e realimentador de iniquidades pela situação econômica em que se encontram, a prática desrespeita o local, a cultura e os saberes que o caracterizam, assumindo o padrão urbano e pequeno burguês como o único desejável” (OLIVEIRA, 2017, p. 294). Por quê “A essa reflexão devemos acrescentar, com base em que valores, em que critérios e em que concepção de educação, de currículo e de formação. Nenhuma dessas questões pode ser respondida por meio de uma política curricular conteudista e disciplinarista. Isso porque é necessário refletir sobre que proposta curricular que busque respeitar a diversidade e evitar a naturalização de certas particularidades é possível” (OLIVEIRA, 2017, p. 294- 295). Cabe ressaltar que, ao excluirmos determinados conhecimentos dos currículos, excluímos também seus portadores. Frauda-se, desse modo, aquilo que defendem os formuladores de nossas políticas curriculares, a ideia de meritocracia que não passa, na verdade, do reconhecimento daqueles que possuem o perfil cultural e social equivalente ao desejado pela escola pensada no nível das autoridades que definem “o que entra e o que sai” (ARROYO apud OLIVEIRA, 2000) nas propostas. As vítimas dessas escolhas são responsabilizadas pelo próprio fracasso, produzido antes e para além de suas possibilidades de evitá-las. Trata-se, portanto, (...) de um discurso falacioso de igualdade de oportunidades, por meio da seleção de conteúdos escolares e das avaliações em larga escala pensadas e propostas para atestar a “posse” dos conhecimentos socialmente valorizados, presentes nas propostas curriculares sob a alegação de que são cientificamente superiores. A pergunta que fica é a de se saber a quem interessa essa desigualdade e sua reprodução legitimada pelo sistema escolar que leva uns ao sucesso e outros ao fracasso. (OLIVEIRA, 2017, p. 296) Além dessas ponderações, é fundamental destacar que há muitos exemplos e outros argumentos que permitem compreender que é impossível para uma proposta única dar conta da imensa pluralidade epistemológica, social, cultural e pessoal do Brasil em suas diferentes regiões, grupos sociais, municípios e escolas. Vejamos a questão sob dois pontos de vista. Vem que te explico I Vem que te explico II Vídeo Cast. Verificando o aprendizado 1. Sobre a relação entre currículo e cultura, deve-se afirmar que é pressuposto que seja observada: a) Uma educação básica inclusiva, formadora para a democracia e para a igualdade. b) Uma educação erudita, formadora para intelectualidade e para o fortalecimento do conhecimento. c) Uma educação nacional, exaltando nossos valores e reafirmando nossa identidade. d) Uma educação crítica, que promova a consciência de classe e a luta contra o sistema. e) Uma educação crítica, que promova a consciência de classe e a luta contra o sistema. ponto.mp4 explico%20I.mp4 explico%20II.mp4 BLOCO%201_CURRÍCULO%20E%20CULTURA.mp4 Comentário Parabéns! A alternativa "A" está correta. Para uma educação inclusiva e formadora para a democracia, é necessário que a escola ofereça a seus alunos e alunas a oportunidade de alcançar e manter um padrãomínimo de qualidade da aprendizagem. As propostas e práticas curriculares devem incluir conhecimentos e valores multiculturais, de modo a superar todos os obstáculos que impeçam as diferentes culturas de se expressarem e serem consideradas ao longo dos processos educativos. Os currículos devem abranger as especificidades dos grupos minoritários, ao mesmo tempo em que as colocam em diálogo com as culturas ditas majoritárias. 2. A chamada revolução cultural global assume a perspectiva de que parâmetros culturais que pareciam sólidos são associados e reinventados diante das demandas contemporâneas. Um dos ambientes fortemente afetados é a escola. Por quê? a) A escola é o lugar em que as diferenças devem ser aproximadas, então, a revolução cultural tem um impacto relativo nela. b) A escola é um espaço de troca, tradicionalmente marcado pela integração, e o responsável por puxar toda a revolução cultural. c) A escola passa a ser criticada sob o ponto de vista de promover historicamente a cultura hegemônica, então, a revolução a transforma totalmente. d) A escola é palco de movimentos políticos e sociais, assim, a revolução cultural global torna-se ícone das transformações da instituição. e) A escola representa o mundo de forma reduzida, assim, apresenta contradições que afastam uma perspectiva global, mas, ao mesmo tempo, é privilegiada em conviver com essa perspectiva. Comentário Parabéns! A alternativa "E" está correta. O conceito de revolução cultural global não é assim tão uniforme, como querem alguns pensadores. Além disso, o resultado desse movimento não é tão fácil de ser previsto e nem leva necessariamente à homogeneização. Os movimentos sociais que se abrem e fecham a todo instante impedem que o mundo se torne um espaço culturalmente uniforme e homogêneo, pois reagem e reafirmam suas especificidades, mesmo sem rejeitar interações e mudanças mútuas. MÓDULO 2 A perspectiva do multiculturalismo crítico em Currículo como área pedagógica Reconhecer a perspectiva do multiculturalismo crítico em Currículo como área pedagógica Conceitos de multiculturalismo A noção de multiculturalismo crítico surge no início dos anos 1990 quando, diante do crescimento das discussões sobre o tema, Peter McLaren (1994) publica seu livro Multiculturalismo Crítico, no qual apresenta uma discussão sobre as diferentes concepções de multiculturalismo. O autor destaca quatro tipos de multiculturalismo: multiculturalismo conservador ou empresarial; multiculturalismo liberal humanista; multiculturalismo liberal de esquerda; e multiculturalismo crítico. Para o autor, o pensamento ocidental é construído como um sistema de diferenças organizado por lógicas binárias: branco/preto, bom/ruim. Quando os binarismos se tornam racial e culturalmente identificados, o branco acaba por assumir a posição do ele ou do tu, em que a “branquidade” é percebida como neutra. Os signos são assim compreendidos como parte de uma luta ideológica. Para um currículo multiculturalista crítico, McLaren sugere que os educadores levantem questões da diferença, de maneira a superar o essencialismo monocultural dos “centrismos” — anglocentrismo, afrocentrismo e assim por diante —, pois um multiculturalismo de resistência entende a cultura como não harmoniosa e consensual. Essa proposição pensa o mundo mais assim: javascript:void(0) Binarismo entre cultura dominante e as culturas dominadas. Pesos diferentes atribuídos às múltiplas culturas são resultados das relações de poder. O multiculturalismo crítico na educação Falar de multiculturalismo é, portanto, falar da existência de muitas culturas e das relações entre elas, desiguais nas sociedades contemporâneas, compondo o que se poderia perceber como um arco-íris cultural, segundo proposta do pensador português Boaventura de Sousa Santos (2003). Ele aponta o multiculturalismo como uma nova forma de globalização. Ele compara o mundo como um "arco-íris”: “arco-íris de culturas", ou seja, o mundo é composto por uma infinidade de culturas e outra infinidade de combinações entre culturas. Continuando na analogia do arco-íris, admite-se que é importante ser capaz de “ver” esses e outros conjuntos de cores (culturas), mas algumas pessoas, apesar de disporem de um aparelho visual morfologicamente bem constituído, não são capazes de distinguir tons e cores que compõem o arco-íris. Alguns ficam com uma capacidade reduzida de identificação de tons, reconhecendo apenas os cinzentos: são os daltônicos. A analogia proposta aqui é a de que a não conscientização da diversidade cultural que nos rodeia em múltiplas situações constitui uma espécie de daltonismo cultural. Romper com esse daltonismo cultural e ter presente o “arco-íris das culturas” nas práticas educativas supõem todo um processo de desconstrução de práticas naturalizadas e enraizadas no trabalho docente para sermos educadores capazes de criar maneiras de nos situar e intervir no dia a dia de nossas escolas e salas de aula. javascript:void(0) javascript:void(0) javascript:void(0) Aos poucos, esse conceito se torna uma proposta pedagógica no campo do Currículo, entendido como a inter-relação de várias culturas em um mesmo ambiente. É também chamado de pluralismo cultural, e é um conceito da Sociologia que vem sendo usado em estudos no campo das Ciências Sociais e Humanas. É uma teoria que defende a valorização da cultura dos diversos grupos que compõem a humanidade, propondo compreender que ser diferente não significa ser melhor nem pior do que ninguém. Surge em contraposição à uniformização ou padronização do ser humano, de viés mais conservador. - Pode-se dizer, nesse contexto, que uma educação multicultural será aquela que valoriza as diferentes culturas em presença, local e nacionalmente. Ainda, é a responsável pela formação do cidadão que o prepara para incluir-se e receber os “outros” na sociedade, aceitando a validade das diferentes culturas e, portanto, respeitando aqueles que as representam. Esse multiculturalismo na educação pode ser definido como uma proposta educacional que visa garantir o conhecimento das mais diversas culturas, além do respeito a todas elas. Compromete-se, inclusive, com a compreensão e transformação das relações desiguais entre as culturas estabelecidas na sociedade, levando cada sujeito a perceber que as pessoas possuem diferentes valores e conhecimentos e, com base neles, se manifestam de diversas formas. O multiculturalismo crítico valoriza as diversas culturas ao mesmo tempo e a diversidade dos grupos fortalece o multiculturalismo como movimento social e como parte do processo educativo, definindo, portanto, a sua participação efetiva no próprio currículo escolar. A escola tem um papel fundamental nesse processo, pois ali estão presentes no dia a dia muitos atores que expressam a complexidade cultural brasileira. Por isso, a escola torna-se um espaço em que convivem estudantes de diferentes origens, assim como é um dos lugares em que são ensinadas as regras do espaço público para o melhor convívio com a diferença. Desse modo, o multiculturalismo crítico é uma estratégia política de reconhecimento e de representação da diversidade cultural, não podendo ser concebido dissociado dos contextos das lutas dos grupos culturalmente oprimidos. O multiculturalismo crítico nas escolas e nos currículos javascript:void(0) Num primeiro plano, o multiculturalismo na escola deve ser entendido como a inclusão de todos e todas na educação, compreendendo-a como um direito independentemente das diversidades e do lugar social subalternizado dos grupos ditos minoritários. Por outro lado, o multiculturalismo como característica da sociedade também deve ser incluído no currículo, ampliando o reconhecimento culturaldos grupos minoritários e reconhecendo a singularidade dos indivíduos no seio das diferentes culturas. Atenção Complementarmente, é necessário refletir sobre o que é e pode ser um currículo multicultural. Tal currículo deve buscar reverter a ideia de neutralidade e homogeneidade predominante nos espaços escolares: fazer com que todo o processo de construção cultural do país seja compreendido por meio de seus conflitos e contradições, além de ouvir as vozes de movimentos sociais e de lutas silenciadas. Normalmente, a história é escrita pelos vencedores, em detrimento dos vencidos. O multiculturalismo deve trazer a história tal qual ela foi vivida, como visto acima. Nessa perspectiva, a inclusão de um currículo multicultural no ambiente escolar possibilitará a todos o conhecimento de outras culturas; ao mesmo tempo, auxiliará no processo ensino-aprendizagem, à medida que os professores utilizem a cultura dos próprios alunos em suas aulas e em projetos da escola. Isso porque a cultura traz consigo o íntimo de cada um de seus membros (de cada um dos alunos, dos professores e de seus entornos). Para Vera Candau (2002b), a cultura é um fenômeno plural, multiforme, não estático e que está em constante transformação. Ela envolve um contínuo processo de criar e recriar e, talvez de uma maneira imperceptível, um componente ativo na vida do ser humano e nas manifestações mesmo nos atos do indivíduo mais corriqueiros. A autora vai ainda mais longe quando afirma que “não há indivíduo que não possua cultura, pelo contrário, cada um é criador e propagador de cultura” (CANDAU, 2002b, p. 12). Cai por terra, pois, a expressão “fulano não tem cultura”, pelo menos nesse sentido amplo da cultura. Para o antropólogo Darcy Ribeiro, no seu livro O Povo Brasileiro, [...] cultura é a herança social de uma comunidade humana, representada pelo acervo coparticipado de modos padronizados de adaptação à natureza para o provimento da subsistência, de normas e instituições reguladoras das reações sociais e de corpos de saber, de valores e de crenças com que explicam sua experiência, exprimem sua criatividade artística e se motivam para ação.. (RIBEIRO, 1995, p. 72) Nesse contexto, e ainda dentro do pensamento de Vera Candau, a escola é uma instituição educacional e uma instituição cultural por excelência ao mesmo tempo: comporta dentro dela grupos sociais diversos, que não devem ser ignorados pela instituição, muito menos pelo currículo que a orienta. Isto é, num mesmo espaço estão a Escola — de forma privilegiada — e dentro dela mesma e de seu entorno a cultura, como lugar e fonte de que se nutre o processo educacional para formar pessoas, para formar consciência. Para Azoilda Trindade (2000), a cultura tem um papel fundamental no processo de aprendizagem, uma vez que ela nutre todo processo educacional, na missão de formar o indivíduo crítico e conhecedor de sua origem cultural. Por isso, é tão necessário discutir as culturas diversas na sala de aula e compreender a importância do currículo. Embora a escola seja um palco privilegiado dessa multiculturalidade, o que se percebe é que ela ainda não encontrou a fórmula ideal de usufruir desse privilégio, em virtude do eurocentrismo que ainda se faz presente nas propostas e práticas curriculares. Ela encontra dificuldades em fazer interagir suas práticas educativas mais comuns com a diversidade cultural que caracteriza os alunos e a sociedade. Antes de entrarem em vigor as leis que tornam obrigatório o ensino de história e cultura africanas, afro-brasileira e indígenas, Vera Candau (2000, p. 2) já afirmava que "hoje se faz cada vez mais urgente a incorporação da dimensão cultural na prática pedagógica". Ela defende uma abordagem pedagógica javascript:void(0) pautada numa perspectiva de educação multicultural, com a inclusão dessa discussão no currículo escolar e, por certo, nos projetos da escola. Quando se fala em trazer o multiculturalismo para o currículo, trata-se de uma proposta audaciosa, que vai além de trazer o tema para a sala de aula: em poucas palavras, é trazer para dentro da sala de aula os próprios atores, é a inclusão de todos nos processos de escolarização, procurando atender aos interesses e necessidades de todos, independentemente de etnias, deficiências ou diferenças. Trata-se, portanto, de trazer oficialmente para os bancos das escolas os grupos minoritários, que já estão lá, mas geralmente excluídos e marginalizados. Essa proposta de um novo modelo de escola, que busque atender à diversidade cultural brasileira em sua completude, levaria a uma quebra de paradigma, fazendo a escola deixar de lado sua proposta homogeneizante e se estruturar de modo mais compatível e respeitoso com a pluralidade cultural do país. Vejamos, então, o que poderia ser proposto nesse sentido. A escola pública multicultural, plural e democrática A proposta de um modelo não europeu de escola — o nosso atual é herdado da França republicana dos fins do século XIX — não é simples de formular e menos ainda de colocar em prática. O modelo social em que vivemos é, até então, compatível com essa escola, cientificista, europeia e branca. Para a transformação, é preciso fazer com que a escola exerça uma função equalizadora, mais do que reprodutora. Trata-se, portanto, de buscar democratizar as relações entre as culturas nas propostas de currículo escolar, javascript:void(0) pluralizar conhecimentos e suas origens, trazer para a oficialidade das propostas as diferentes culturas constituidoras do país e demonstrar o quanto interagiram na formação daquilo que somos hoje. Nesse sentido, seria necessário ampliar os currículos, de modo a abranger as especificidades dos grupos minoritários, ao mesmo tempo em que as colocamos em diálogo com as culturas ditas majoritárias. Dessa forma, a instituição escola deixaria de contemplar somente a história e a cultura dos europeus, dominantes, “vencedores”, para reconhecer a igualdade de direitos e de cidadania, realmente, a toda a população. Pensando nas práticas pedagógicas interculturais a serem construídas, uma mudança radical ótica se faz necessária. De acordo com Emília Ferreiro: É indispensável instrumentalizar didaticamente a escola para trabalhar com a diversidade. Nem a diversidade negada, nem a diversidade isolada, nem a diversidade simplesmente tolerada. Também não se trata da universidade assumida como um mal necessário ou celebrada com um bem em si mesmo, sem assumir seu próprio dramatismo. Transformar a diversidade conhecida e reconhecida em uma vantagem pedagógica: e isso me parece ser o grande desafio do futuro. . (FERREIRO apud LERNER, 2007, p. 7) Essa mudança de paradigma nas propostas curriculares exigiria mudanças globais nos âmbitos espacial e organizacional da escola, e isso exige tempo e trabalho. É um processo construído pouco a pouco e feito de avanços e retrocessos, que vai colocar em jogo novas exigências e possibilidades às práticas cotidianas nas escolas, pois a cultura única, anteriormente soberana, seria confrontada com outras tantas, gerando, portanto, diálogos e conflitos no interior das escolas e mesmo dos currículos. Para Vera Candau, o movimento multiculturalista teve grande força na história dos Estados Unidos da América, quando nos anos de 1960 presenciaram muitas manifestações em prol da igualdade nos negros. Talvez os Estados Unidos tenham sido mesmo o protótipo ideal para o fortalecimento do multiculturalismo, considerando a diversidade e o Estado democrático de direito ali fundamentando. E, nesse sentido, não é só o movimento negro que importa. A javascript:void(0) democracia americana, espelho maior da democracia capitalista burguesa, não tem sentido sem a busca da igualdade de direitos entre homens e mulheres (igualdade de gênero), entre raças, entre populações locaise migrantes etc. São essas exigências que se colocam àqueles que pensam e buscam defender uma escola democrática e plural, esse é o grande desafio. Somente quando formos capazes de não reduzir a igualdade à padronização, nem a diferença um problema a resolver, será possível mobilizar um processo de construção de práticas pedagógicas interculturais. É necessário outro olhar: reconhecer a dignidade de todos os atores presentes nos processos educativos e conceber a diferença como riqueza e "vantagem pedagógica". Sem essa mudança de perspectiva, não poderemos caminhar. O que é preciso trabalhar supõe, ao mesmo tempo, desconstruir a padronização baseada na superioridade imaginada de uma cultura e lutar contra todas as formas de desigualdade e discriminação presentes na sociedade, ao mesmo tempo em que se reconhecem as diferenças e o direito a elas, conforme ensina Santos (2002, p. 316): “temos o direito a ser iguais quando a diferença discrimina e a ser diferentes quando a igualdade descaracteriza”. Vamos pensar exemplos de forma prática? Rodrigo Rainha é entrevistado para falar de alguns momentos chaves para o crescimento do multiculturalismo. Eu te Explico Cultura e o Currículo Escolar II Eu te Explico Educação Inclusiva, Democrática e Plural III crescimento%20do%20multiculturalismo.mp4 explico%20II.mp4 Explico%20III.mp4 Verificando o aprendizado 1. Sobre o conceito de educação multicultural, analise as afirmativas a seguir: I. A educação multicultural é aquela que valoriza as diferentes culturas em presença, local e nacionalmente, responsável pela formação do cidadão, que o prepara para incluir-se e receber os “outros” na sociedade, além de aceitar a validade das diferentes culturas, portanto, respeitando aqueles que as representam. II. A educação multicultural é o diálogo do multiculturalismo com a educação, que pode ser definida como uma proposta educacional que visa garantir o conhecimento das mais diversas culturas e o respeito a todas elas, e que se compromete com a compreensão e a transformação das relações desiguais entre elas estabelecidas na sociedade, conduzindo cada sujeito a perceber que as pessoas possuem diferentes valores e conhecimentos e, com base neles, se manifestam de diversas formas. III. A educação multicultural é aquela que visa defender o direito ao pertencimento de uma cultura. Manifesta-se na possibilidade de a escola formar-se para sua visão comunitária, como uma escola quilombola ou uma escola confessional. Estão corretas as afirmativas: a) I somente. b) I e II somente. c) I e III somente. d) II e III somente. e) III somente. Comentário Parabéns! A alternativa "B" está correta. As afirmativas nos levam a três caminhos complementares. Na primeira, trata-se da perspectiva do sujeito e suas relações com a cultura, central na educação. A segunda aponta para o histórico das relações estabelecidas e o papel de superação da escola. A terceira parece correta, ao mencionar o reconhecimento do grupamento cultural, mas seu foco não é o direito a existir — que deveria ser pressuposto —, mas sim, o direito aos seus fundamentais aspectos de conviver. Por isso, a afirmativa III está incorreta. 2. O conceito de multiculturalismo não é linear. Chegou a ser intensamente criticado, mas em uma perspectiva crítica ele contribui para o debate entre currículo e cultura. Como entender o papel do multiculturalismo na escola? a) Promovendo um processo de construção de identidade a partir da escola. b) Estruturando uma escola integradora que permite todos terem a mesma cultura. c) Fortalecendo a necessidade de os educadores buscarem instrumentos didáticos que valorizem a diversidade. d) Organizando uma proposição didática que dê conta de lidar com todas as culturas presentes na escola. e) Afirmando o poder do povo na luta contra a opressão das tradições escolares eurocêntricas. Comentário Parabéns! A alternativa "C" está correta. Num primeiro plano, o multiculturalismo na escola deve ser entendido como a inclusão de todos e todas na educação, compreendendo-a como um direito independentemente das diversidades e do lugar social subalternizado dos grupos ditos minoritários. Por outro lado, o multiculturalismo como característica da sociedade também deve ser incluído no currículo, ampliando o reconhecimento cultural dos grupos minoritários e reconhecendo a singularidade dos indivíduos no seio das diferentes culturas. a inclusão de um currículo multicultural no ambiente escolar possibilitará a todos o conhecimento de outras culturas; ao mesmo tempo, auxiliará no processo ensino-aprendizagem, à medida que os professores utilizem a cultura dos próprios alunos em suas aulas e em projetos da escola. Isso porque a cultura traz consigo o íntimo de cada um de seus membros (de cada um dos alunos, dos professores e de seus entornos). MÓDULO 3 Cultura popular versus cultura erudita e a constituição do currículo Identificar o papel da cultura na constituição do currículo Você tem cultura? O antropólogo Roberto da Matta, importante estudioso das relações culturais brasileiras; em 1981, já levantava o debate sobre a ideia de se ter ou não se ter cultura, interrogando a concepção de cultura subjacente a essa ideia. Ele narra: “Outro dia ouvi uma pessoa dizer que ‘Maria não tinha cultura’, era ‘ignorante dos fatos básicos da política, economia e literatura’. Interessante que essa proposição pode ser ouvida em vários segmentos da sociedade. Por outro lado, quando visitamos uma exposição de artesanato popular, podemos ouvir a expressão, que ali está a representação da cultura brasileira, como o que se segue no texto de Da Matta, que aponta, em seguida, o interesse de seus alunos sobre ‘a cultura dos índios Apinayé, de Goiás’ em aula. Ele reflete sobre esses dois usos: ‘(...) decidi que essa seria a melhor forma de discutir a ideia ou o conceito de cultura tal como nós, estudantes da sociedade a concebemos. Ou, melhor ainda, apresentar algumas noções sobre a cultura e o que ela quer dizer, não como uma simples palavra, mas como uma categoria intelectual, um conceito que pode nos ajudar a compreender melhor o que acontece no mundo à nossa volta’. (MATTA, 1981, p. 1) Vejamos agora os comentários dos professores Rodrigo Rainha e Antônio Giacomo sobre as concepções mais recorrentes de cultura e sua vinculação com a formação dos currículos. formacao%20dos%20curriculos.mp4 O que observamos na maior parte dos currículos escolares é a prevalência da primeira visão, segundo a qual a cultura é sinônimo de sofisticação, de sabedoria, de educação no sentido restrito do termo. Ou seja, quando falamos que “Fulano não tem cultura”, ou quando afirmamos que “aquele artista é culto”, estamos nos referindo a certo estado educacional dessas pessoas, querendo indicar com isso sua capacidade de compreender ou organizar certos dados e situações. Trata-se de uma compreensão de cultura como sofisticação, sabedoria. Sociedades consideradas atrasadas, grupos sociais e pessoas tidas como ignorantes e mesmo incapazes por estarem “abaixo” do necessário para aprender e se “elevar” culturalmente completam esse cenário, que se baseia no eurocentrismo e na noção de erudição como qualidade cultural, em oposição ao popular, favorecendo ainda essa ideia de centralidade do conhecimento europeizado. Vamos novamente exemplificar com arte: veja e diga qual das duas você tende a reconhecer como “culturalmente superior”. Você pode pensar ainda qual das duas em uma exposição te traria maior estranhamento. Saiba que o primeiro é um dos artistas mais reconhecidos do neoexpressionismo. Por isso é tão importante buscar sair dessa percepção para promover uma educação mais democrática e menos discriminatória, conforme visto no módulo anterior.Você precisa parar e pensar por que é mais “natural” ver a jovem loira em uma obra de arte do que a menina negra, mesmo vivendo no país com o maior número de negros fora da África. Para isso, é importante centrar a atenção sobre a segunda concepção que considera a cultura como “a maneira de viver total de um grupo, sociedade, país ou pessoa”. Roberto da Matta reconhece ainda, em seu texto, o caráter parcial de toda cultura. Ele se insurge contra a tendência recorrente classificarmos hierarquicamente diferentes culturas ao invés de percebermos que, em suas parcialidades, se complementam na formação da totalidade que é o mundo multicultural no qual javascript:void(0) vivemos. O autor chama atenção, ainda, para o fato de que as regras de cada cultura formam tão somente um cenário básico no qual os sujeitos sociais se movem com certa liberdade na vida cotidiana. Um caminho para a compreensão dessas diferenças de sentido está na compreensão da evolução dos significados do termo, que nos permite, também, compreender por que, apesar dos cientistas sociais privilegiarem o segundo sentido, permanece na nossa sociedade a insistência no uso do primeiro, inclusive nas propostas curriculares e nas práticas educativas. Marilena Chauí (2006) esclarece os muitos usos atuais do termo cultura a partir da origem do termo. O mesmo acontece com a questão da cultura. Marilena Chauí também explica que, a partir do século XVIII, a cultura ganha um novo sentido. Passa a significar “os resultados daquela formação ou educação dos seres humanos, de seu trabalho e de sua sociabilidade, resultados expressos em obras, feitos, ações e instituições” (CHAUÍ, 2006, p. 106). A partir daí, o termo assume outro significado, o de vita civile, sinônimo de civilização, “como expressão dos costumes e das instituições enquanto efeitos da formação e da educação dos indivíduos do trabalho e da sociabilidade” (CHAUÍ, 2006, p. 106). A distinção entre culturas, fruto do cientificismo do século XIX, em primitivas e modernas, se impõe como compreensão hegemônica e separa, pelo nível de erudição, diferentes povos e sujeitos sociais. Cabe ressaltar o modo como, no Brasil, essa concepção se instala nas compreensões de mundo e nas relações entre a cultura de origem europeia — erudita — e os demais povos formadores do país — negros e indígenas. Os comportamentos europeus eram vistos como normais, já as práticas dos demais grupos, como marcas de seu atraso. Esse ainda é um pensamento presente no nosso modelo de escola e, infelizmente, ainda é base de muitos comportamentos docentes e discentes. Cientificismo do século XIX Ciência que adota a percepção de raças humanas e seus estágios diferenciados em civilizados, bárbaros e selvagens. É uma forma de negligenciar, o que esclarece Roberto da Matta, ao afirmar que por compartilharem dos códigos de base de cada cultura que: Um conjunto de indivíduos, com interesses e capacidades distintas e até mesmo opostas, transformam-se num grupo e podem viver juntos sentindo-se parte de uma mesma totalidade. Podem, assim, desenvolver relações entre si porque a cultura lhes forneceu normas que dizem respeito aos modos, mais (ou menos) apropriados de comportamento diante de certas situações. (MATTA, 1981, p. 2) O que existe, portanto, são formas culturais ou subculturas de uma sociedade que caracterizam diferentes grupos sociais e que precisam ser compreendidas como equivalentes, embora diferentes em seus modos de sentir, celebrar, pensar e atuar sobre o mundo. Infelizmente, a hierarquização entre culturas, que javascript:void(0) define a cultura europeia como “erudita” e, logo, superior, ainda possibilita a crença e a difusão de que essa é a única forma válida, porque superior e mais “moderna”, mais desenvolvida que as demais. É preciso outro modo de perceber e enfrentar as diferenças culturais, acompanhado de outra visão dessa relação entre o erudito e o “popular”, e mesmo entre diferentes manifestações dessas culturas. Ainda vivemos sob a hierarquia entre diferentes manifestações culturais, sejam elas no campo das artes — literatura, teatro, ópera, cinema, artes plásticas e música, que com frequência é percebida como erudita ou popular —, ou no campo dos eventos culturais e religiosos — festivais, carnaval, eventos religiosos como procissões e outras manifestações, como as esportivas. Os embates culturais, os currículos e as práticas escolares Em texto publicado ainda nos anos 1990, o estudioso de Currículo Ivor Goodson traz uma importante reflexão sobre como, historicamente, o ensino de diferentes disciplinas escolares e a abordagem que deveriam adotar em diferentes contextos se constituíram. Sobre o ensino de Música, a abordagem evolutiva e classificatória fica evidente em Brocklehurst, conforme podemos ver: O objetivo primeiro da educação musical é fazer gostar da boa música e compreendê-la. É certamente tarefa dos professores esforçar-se ao máximo para prevenir os jovens de se tornarem presas fáceis dos fornecedores de música popular comercializada. (BROCKLEHURST apud GOODSON, 1995, p. 111) Não é preciso procurar muito para encontrar a frequente atitude incentivada nas escolas brasileiras de rejeição a manifestações musicais como o funk e o rap, consideradas impróprias para o ambiente escolar. Trata-se, aqui, de assumir não só o que vale e o que não vale, mas de encontrar o porquê. Podemos entender que é uma forma de silenciar culturas consideradas inferiores, muitas vezes apenas pelas suas origens distantes da suposta erudição de determinados gêneros musicais. Recorremos de novo a Goodson (1995, p. 110), quando ele interroga: “Que tipo de educação de massa está sendo visado quando o que é popular é, não somente ignorado, mas positivamente desvalorizado?”. Um acontecimento do século XIX na Inglaterra, apresentado na sequência, evidencia não só o preconceito e a discriminação, como a motivação deles: manter a hegemonia entre as diferentes classes sociais e as culturas que professam. No caso brasileiro, entre as culturas europeias e negras/indígenas. Para encerrar nosso módulo com um resumo dessas reflexões e a importância delas para pensar as relações entre currículo e cultura, podemos sintetizar o que diz o autor ao final do capítulo: na perspectiva da oposição/complementaridade entre cultura erudita e cultura popular, temos a afirmação de que “o currículo escrito é um exemplo perfeito sobre invenção da tradição” (GOODSON, 1995, p. 113). Assim, é possível compreender o fato de termos nossa atenção voltada a determinados temas e preocupações como uma ideologia. Preocupações como a noção de “ensino eficaz (isto é, avaliação de professores ou ‘professores incompetentes’) e ‘aprendizado efetivo’, ou seja, ‘melhores escolas’”, tornam-se diferenciais de sucesso decisivos em cada escola e para cada aluno, individualizando e descaracterizando os aspectos sociais envolvidos nesses “sucessos”. Com isso, a reflexão em torno dos aspectos comuns de sucesso e fracasso, que permitiria acessar a construção social do currículo, é negligenciada. Esconde-se que esses critérios e lógicas foram objeto de luta anterior e nos levam a crer que “determinada versão de escola deveria ser considerada boa” (GOODSON, 1995, p. 113). Jurjo Torres Santomé (2011, p. 155) aponta, nesse sentido, a necessidade de considerarmos a importância da escolarização na formação “de cidadãos (ãs) ativos (as) e críticos (as), membros solidários e democráticos de uma sociedade solidária e democrática”. Para tal, o autor formula uma ideia do que seria um “projeto curricular emancipador” que “deve necessariamente propor certas metas educativas e aqueles blocos de conteúdos culturais que melhor contribuam para a socialização crítica dos indivíduos” (SANTOMÉ, 2011, p. 156). A noçãode conteúdos culturais, definidos como relativos “ao conhecimento, destrezas e habilidades que as pessoas usam para construir e interpretar a vida social”, criados e aprendidos nos seus meios culturais específicos, que não se restringem ao modelo eurocêntrico. Essa proposta pretende, portanto, superar a predominância de conteúdos escolares baseados apenas nas culturas hegemônicas e incluir conteúdos advindos das culturas tradicionalmente negadas nos currículos, de modo a viabilizar a reflexão crítica sobre a sociedade. Sem esquecer que a maioria dos docentes da atualidade não se sente capaz e não é autorizada a formular currículos com conteúdos culturais, o autor chama atenção para um importante aspecto: (...) a arrasadora presença das culturas que podemos chamar hoje de hegemônicas. As culturas ou vozes dos grupos sociais minoritários e/ou marginalizados que não dispõem de estruturas importantes de poder costumam ser silenciadas, quando não estereotipadas e deformadas, para anular suas possiblidades de reação. (SANTOMÉ, 2011, p. 157) Santomé ainda aponta, não por acaso, culturas consideradas populares ou sem valor, como as culturas locais, as culturas infantis e juvenis, as culturas das etnias sem poder, o mundo feminino e as homossexualidades, os pobres e as classes trabalhadoras, o mundo rural, as pessoas com deficiência e as vozes do terceiro mundo. São essas culturas que precisam — numa perspectiva intercultural de educação — adentrar os currículos, rompendo a dicotomia entre erudito popular, viabilizando a recuperação, pela educação obrigatória, de “uma de suas razões de ser: a de ser um espaço onde as novas gerações se capacitem para adquirir e analisar criticamente o legado cultural da sociedade” (SANTOMÉ, 2011, p. 171). Vem que te explico -Multiculturalismo Vem que te explico – Educação Multi Cultural Video Cast III Video Cast IV Explico%20IV.mp4 Explico%20V.mp4 Video_Cast%20III.mp4 Video_Cast%20IV.mp4 Verificando o aprendizado Parte superior do formulário A respeito das questões curriculares, os documentos oficiais sinalizam que tratar da diversidade e da diferença no contexto escolar implica: I. Posicionar-se favorável aos processos de colonização e dominação. II. Oferecer possibilidades de análises sobre como as diferenças foram hierarquizadas e tratadas de forma desigual e discriminatória. III. Analisar o currículo como um fenômeno que dialoga com a cultura e que, por isso, deve perceber o seu compromisso com a composição vigente em nossa realidade. IV. Compreender a diversidade como princípio e entender que a cultura não é um bem que pode ser adquirido. Assinale a alternativa que indica todas as afirmativas corretas. a) São corretas apenas as afirmativas I e II. b) São corretas apenas as afirmativas III e IV. c) São corretas apenas as afirmativas I, II e III. d) São corretas apenas as afirmativas II, III e IV. e) São corretas as afirmativas I e IV. Comentário Parabéns! A alternativa "D" está correta. A cultura do colonizador é a hegemônica que notamos como uma dificuldade na tradição escolar. A cultura deve ser observada como um papel não hegemônico, por isso, as outras três afirmativas estão corretas. Parte superior do formulário 2. Na Proposta Curricular da Rede Municipal de Ensino de Florianópolis (2008), que se atenta a pensar o currículo não diante de uma cultura erudita ou hegemônica, mas em sua diversidade. Nesse sentido, são linhas previstas na proposição curricular da rede: I. Patrimônio cultural de todos. II. Reconhecer os artefatos sociais elaborados por meio dos conhecimentos acadêmicos. III. Riqueza da diversidade cultural. IV. Conjunto de informações que deve ser transmitido aos estudantes de maneira segmentada e hierarquizada. V. Informação elaborada a serviço da cidadania ampla e contemporânea. Assinale a alternativa que indica todas as afirmativas corretas. a) É correta apenas a afirmativa I. b) São corretas apenas as afirmativas I, II e III. c) São corretas apenas as afirmativas I, III e V. d) São corretas apenas as afirmativas II, IV e V. e) São corretas apenas as afirmativas III, IV e V. Comentário Parabéns! A alternativa "C" está correta. As afirmativas corretas são as que falam em diversidade: patrimônio tratado de forma ampla, riqueza da diversidade cultural como um valor para todos e a lógica de uma cidadania não civilizadora, mas integradora. As afirmativas II e IV são excludentes e eruditas, por isso, não estão adequadas. MÓDULO 4 Currículo e a cultura no mundo contemporâneo Identificar os impactos das dinâmicas sociais contemporâneas no campo do Currículo Currículo e tecnologia Antes de começarmos a leitura, vamos ouvir o que os professores Rodrigo Rainha e Antônio Giacomo têm a nos dizer. Currículo e tecnologia. Com o advento da internet e, posteriormente, com a popularização da informatização de conteúdos e a automática introdução de conteúdos digitais, novas linguagens e formas de comunicação surgem a cada instante, trazendo, com elas, novas possibilidades no campo das práticas educativas e dos currículos. Essas “novas formas” surgem de modo muito rápido e, simultaneamente, são substituídas ou complementadas por outras ainda mais novas na mesma velocidade, sendo ultrapassadas por novas tecnologias em permanente mutação. Há casos em que, enquanto ainda tentamos definir o nome da tecnologia, ela já está superada por outra mais recente. Nos anos de 1990, tivemos, por exemplo, a educação via internet pela Plataforma Web 2.0. Essa plataforma introduziu novas possibilidades de relacionamento entre diferentes formas de ensino e aprendizagem por meio do uso de recursos tecnológicos recém desenvolvidos pelas Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDIC) no campo educacional. Essa época e os recursos e métodos proporcionados pela Educação Web 2.0 parecem longínquos, já se foram há muito. Ficou somente o conceito, que evoluiu para a curriculo%20e%20tecnologias.mp4 noção de educação on-line, híbrida, mediada, entre outras noções. Atualmente, mesmo no chamado ensino presencial, as redes sociais, a internet e os recursos nelas e por elas disponibilizados seguem presentes na educação. Sim, as novas tecnologias digitais são consequência de um processo de desenvolvimento tecnológico das sociedades humanas que não começou com a informática. O domínio do fogo nos primórdios da humanidade, os primeiros utensílios e armas, a descoberta da pólvora, entre outras marcas transformadoras das práticas sociais sempre ocorreram. Do ponto de vista mais estrito da cultura e da escolarização, a própria invenção do papel, da imprensa e mesmo o advento dos cadernos escolares foram cruciais para a transformação dos registros de conhecimentos, para a sua transmissão e, portanto, para as práticas educativas. Essas transformações, comuns ao longo da história, não param de ser criadas. O que há de diferente no momento é a velocidade com que novas formas de comunicação surgem, exigindo também uma maior atenção e celeridade na incorporação das novidades. Ao mesmo tempo, é necessário certo cuidado com o “inovacionismo” nas práticas educativas, já que o ritmo dos processos educativos não é o mesmo da evolução tecnológica. O equilíbrio entre inovação e preservação é fundamental para que as propostas não se percam dos sujeitos concretos que as utilizarão nos cotidianos, incluindo os alunos, que nem sempre têm à disposição as inovações mais recentes. Não por acaso, após os resultados de pesquisas envolvendo os processos de escolarização no primeiro ano da pandemia (2020), que evidenciaram muitos problemas de ordem política e social, foi promulgada a Lei 14.172, de 10 de junho de 2021. Essa lei garante que estudantes e professores das redes públicas do paísdeverão ter acesso à internet. Para tal, o governo federal deverá destinar R$ 3,5 bilhões aos estados e municípios para garantir a conectividade de banda larga nas escolas até 2024. Ainda que se saiba que essa urgência advém da pandemia, é impossível negar que se trata de uma preparação para um futuro em que as redes sociais e as possibilidades da internet estarão plenamente incorporadas aos processos ensino-aprendizagem nas escolas. Daí a importância particular da noção de “democracia digital”, termo que está se incorporando à realidade do século XXI. Wilson Gomes nos apresenta uma definição desse termo: [...] qualquer forma de emprego de dispositivos (computadores, celulares, smartphones, palmtops, ipads...), aplicativos (programas) e ferramentas (fóruns, sites, redes sociais, mídias sociais...) de tecnologias digitais de comunicação para suplementar, reforçar ou corrigir aspectos das práticas políticas e sociais do Estado e dos cidadãos em benefício do teor democrático da comunidade política. (GOMES, 2011, p. 27-28) Os currículos escolares e as novas tecnologias: o que é um webcurrículo? Com suas redes sociais digitais, esse ciberespaço potencializa o surgimento de novas linguagens de comunicação e de informação que, ao transcenderem os espaços-tempos escolares, os modificam. As novas “tecnologias digitais” geram, portanto, novos cenários e modos para interagir e comunicar nas comunidades virtuais que adentram também o espaço escolar, trazendo inovações pedagógicas e mudanças. A virtualidade dos meios tecnológicos digitais propicia novas formas de estar, pensar, agir, interagir, criar, conectar, recriar-se no mundo (ALVES; MOREIRA, 2017), além de transformar a capacidade de comunicação dos usuários. A escola é um importante instrumento dentro da sociedade e não pode ficar de fora das transformações e interações que ocorrem nas redes educativas do/no cotidiano dos sujeitos-alunos, que cada vez mais fazem parte do ciberespaço. Essa agilidade da comunicação, própria do contexto contemporâneo das juventudes e de suas relações com o meio ambiente e/ou com as tecnologias digitais, precisa ser considerada dentro das salas de aula de forma colaborativa, criativa e inventiva. As trocas em rede, potencializadas pelos usos dos dispositivos móveis, indicam um processo formativo de troca de saberes que, por si só, modifica os processos ensino-aprendizagem nas escolas. A tecnologia proporcionará mais visibilidade, auxiliará no processo de construção e representação do conhecimento, potencializará a busca das informações e a comunicação entre aqueles para os quais a distância espacial seria um entrave à linguagem produzida pela interação entre imagens, movimentos e sons, que atrai os jovens muito mais do que a linearidade do texto de um livro. Ou seja, o webcurrículo tem como objetivo trazer para dentro da sala de aula a tecnologia e a linguagem tecnológica do dia a dia, elementos inerentes à nova cultura digital conhecida como cibercultura. Nesse sentido, o desafio atual é levar a escola a estar permanentemente interligada com o seu entorno e inscrita na rede mundial de computadores e com as interações que ela viabiliza. A escola não pode mais estar alicerçada apenas na linguagem e na cultura escritas. Esse modelo de escola, herdado do século XIX, está agonizando, pois não atende mais aos desejos e às necessidades daqueles que a frequentam e nela devem aprender. As escolas, a cibercultura e os multiletramentos Dentro desse contexto, o planejamento educacional, os projetos políticos pedagógicos e as propostas curriculares precisam também se flexibilizar para receber as novas tecnologias, incorporando a necessidade de democratização do acesso à internet, e, sobretudo, aos conhecimentos indispensáveis para o uso cada vez mais otimizado daquilo que as tecnologias oferecem. Integrar aos processos educativos as tecnologias digitais, vistas com desconfiança até pouco tempo atrás, é um grande desafio para as propostas e práticas pedagógicas. É evidente que a integração das tecnologias digitais nos currículos, oficializando sua presença nas escolas, não é um processo simples, demanda tempo, formação, interesse dos gestores das políticas educacionais e das escolas, de professores e demais agentes pedagógicos. O processo de integrá-las aos currículos de forma inovadora, crítica e contextualizada com a realidade local, buscando possibilitar a potencialidade de educar cidadãos críticos e capazes de atuar socialmente de modo ativo e permanente, exige e exigirá, além de compromisso político e educativo, trabalho cotidiano, diálogos e agilidade. Se consideramos que essa concepção defendida já é parte de uma proposta curricular, percebemos a importância de se compreender, do ponto de vista das mudanças curriculares, a questão das tecnologias digitais e sua presença nas escolas. O que chama mais a atenção, nesse momento, é a velocidade das transformações para as quais os currículos precisam dar respostas, uma vez que, como já visto, as tecnologias sempre interferiram nos cotidianos e nos processos educativos. É preciso, portanto, buscar e pensar propostas pedagógicas que considerem cenários específicos em cada realidade escolar e que sejam suficientemente abertas e interdisciplinares para dialogar com o ritmo acelerado das mudanças e inovações tecnológicas. Na educação básica, é indispensável que promovam o estímulo nos alunos, deixando as aulas mais motivadoras e interessantes, sobretudo para aqueles do Ensino Fundamental II e do Ensino Médio, que vivem as culturas juvenis. A cibercultura pode ser definida, nesse cenário, como uma forma natural de cultura surgida junto com o desenvolvimento das tecnologias digitais e que vem, a todo instante, ganhando espaço frente à sociedade moderna. Além do ciberespaço, há os novos dispositivos tecnológicos que permeiam o cotidiano, cada qual apresentando suas potencialidades, limitações, contextos e dimensões. Tais dispositivos podem ser aproveitados com mais critério, rigor e leveza nos processos educacionais, proporcionando interação e colaboração entre alunos e docentes. Para Pierre Lévy (1994), cibercultura é um conceito que trata da reunião de relações sociais, das produções artísticas, intelectuais e éticas dos seres humanos. Trata-se de um conjunto de técnicas (materiais e intelectuais), práticas, atitudes, modos de pensamento e valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento do ciberespaço. Além disso, a cibercultura se articula por meio de redes interconectadas de computadores, ou seja, no ciberespaço. Assim, cibercultura aborda a relação entre sistemas: tecnologia, informação, sociedade e seus valores. De acordo com a autora, o termo letramento é empregado para “nomear práticas sociais de leitura e de escrita mais avançadas e complexas que as práticas do ler e do escrever resultantes da aprendizagem do sistema de escrita” (SOARES, 2004, p. 8), ou seja, do processo de alfabetização em si. No entanto, os processos de letramento e alfabetização se complementam e, apesar dessa interdependência, é importante ressaltar que não é necessário alguém ser alfabetizado para participar de uma sociedade letrada. Um indivíduo pode não ter domínio do código, mas pode utilizá-lo ao se envolver em eventos sociais de leitura e escrita, como ouvir a leitura de um jornal, pegar um ônibus, conferir um troco etc. Assim, deve-se pensar o termo multiletramento a partir de práticas que explorem atividades diversificadas no ambiente social e, principalmente, no escolar, considerando a multiculturalidade presente nesses contextos. Dessa noção inicial deriva a compreensão de multiletramento, incluindo a linguagem digital. Embora a noção não seja nova, os estudos envolvendo letramentos emultiletramentos vêm ganhando relevância especial no contexto das múltiplas plataformas e linguagens midiáticas, sobretudo desde o início da pandemia da covid-19, em 2020. No entanto, antes mesmo do vírus, um evento da área ocorrido em 2018, chamado Letramentos & Multiletramentos, trazia sérias reflexões sobre o letramento digital, reforçando a importância dos estudos recentes no campo, que “encaram a leitura e a escrita como práticas discursivas inseparáveis dos contextos sociais diversos em que se desenvolvem, além de valorizarem usos e práticas de linguagem do cotidiano, tradicionalmente pouco valorizados pelas instituições educacionais” (LETRAMENTOS..., 2018, não paginado). Vamos falar um pouco mais sobre o multiletramento! Eu te Explico multiletramento I Eu te Explico multiletramento II Vídeo Cast Multiletramento I Vídeo Cast Multiletramento I multiletramento%20I.mp4 eu%20te%20explico_multiletramento%20I.mp4 eu%20te%20explico_multiletramento%20II.mp4 Video%20Cast%20Multiletramento%20I.mp4 eu%20te%20explico_multiletramento%20II.mp4 Verificando o aprendizado 1. A questão dos currículos diante do mundo contemporâneo traz alguns debates fundamentais, inclusive a respeito do acesso à tecnologia. Acerca das práticas que o currículo deve contemplar, leia as afirmativas a seguir: I. A definição do currículo de uma instituição de ensino não deve contemplar inovações tecnológicas úteis ao trabalho escolar. II. A atenção à diversidade no ambiente escolar é um princípio comprometido com a equidade, ou seja, com o direito de todos os alunos realizarem as aprendizagens fundamentais para seu desenvolvimento e socialização, inclusive digital. III. A escola deve contemplar a questão da democracia digital como pressuposto necessário a seu desenvolvimento, valorizando a “alfabetização” dos alunos e a promoção novas linguagens. Está correto o que se afirma em: a) I e II. b) I c) II e III. d) III. e) I e III. Comentário Parabéns! A alternativa "C" está correta. O processo de currículo e cultura não pode se afastar da dinâmica das sociedades, inclusive dos seus desenvolvimentos tecnológicos, por isso, as afirmativas que reforçam o valor de difundir a tecnologia como algo primordial estão corretas; a que não o faz, incorreta. 2. Considerando a BNCC e a inclusão digital no currículo, é recorrente que apareçam para contemplar essas questões as seguintes afirmativas: I. O relevo e a altitude devem ser medidas pelos alunos e todos devem ter acesso aos aparelhos necessários, não ficando na teoria. II. A inclusão digital em relação aos conteúdos curriculares vistos nas escolas pode potencializar sua formação na perspectiva da cidadania ativa. III. Os ambientes democráticos devem fomentar os meios de atingimento não só dos conteúdos, mas de outras habilidades e competências, como a valorização do letramento digital. Marque a alternativa correta: a) As afirmativas I e II são verdadeiras. b) As afirmativas I e III são verdadeiras. c) As afirmativas II e III são verdadeiras. d) Somente a afirmativa II é verdadeira. e) Somente a afirmativa I é verdadeira. Comentário Parabéns! A alternativa "C" está correta. É preciso diferenciar a tecnologia do cotidiano, democrática; e aquela que tem um papel específico, profissional. Por isso, a primeira está incorreta e as duas outras corretas. Conclusão Considerações Finais Nem padronização, nem desigualdade. É isso que podemos depreender do estudo das relações entre cultura e currículo, pois se percebe a riqueza de possibilidades de trabalho com as diferentes culturas por meio do diálogo entre elas no campo do Currículo. O reconhecimento das diferenças culturais e da necessária e inevitável relação entre elas nos cotidianos sociais é o que permite refletir sobre o possível papel da educação na construção da igualdade e da justiça sociais, necessárias a toda sociedade democrática. Nesse sentido, este estudo apresentou alguns modos de compreensão dessa complementariedade não hierárquica entre as culturas e os problemas que o monoculturalismo pode trazer aos currículos, às aprendizagens escolares e à democracia. É importante que as práticas educativas partam desse reconhecimento das diversidades presentes nas escolas e nas salas de aula, o que exige romper com os processos de homogeneização, que inviabilizam e ocultam as diferenças, reforçando o caráter monocultural das culturas escolares. As diferenças entre uma cultura e outra não nos permitem dizer que essa ou aquela é pior ou melhor, pois não existe melhor ou pior no que se refere à questão cultural, conforme visto a partir dos textos de Chauí, Laraia e Da Matta. É no diálogo e nos embates e debates entre culturas que todos e todas amadurecem e se formam. O mais importante na perspectiva intercultural crítica é estimular o diálogo entre saberes nos processos ensino-aprendizagem desenvolvidos nas salas de aula, uma vez que o conhecimento não é privilégio de determinado grupo de pessoas. Ele tem sua história e geografia. (...) Cabe reconhecer que os caminhos da emancipação são diversos e que uma sociedade democrática não pode prescindir dessa ecologia cognitiva, e conhecendo a diversidade de sujeitos e de lugares e formas de produção de conhecimento (STRECK, 2012, p. 21). O multiculturalismo visa resistir à homogeneidade cultural, principalmente quando essa homogeneidade é considerada única e legítima, submetendo outras culturas a particularismos e dependência. Por isso, quando estudamos as relações entre as culturas e os currículos, precisamos encarar a realidade multicultural do país e respeitar essa pluralidade para que haja justiça nas propostas e práticas curriculares e na promoção das aprendizagens, que são direitos de todos. PODCAST Ouça agora uma síntese dos pontos mais importantes abordados. Referências ALMEIDA, M. E. B. de. Integração currículo e tecnologias: concepção e possibilidades de criação de webcurrículo. In: ALMEIDA, M. E. B. de; ALVES, R. M.; LEMOS, S. D. V. (orgs.). Webcurrículo: aprendizagem, pesquisa e conhecimento com o uso de tecnologias digitais. 1. ed. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2014, p. 22-40. ALVES, L.; MOREIRA, J. A. (orgs.). Tecnologias & aprendizagens: delineando novos espaços de interação. Salvador: EDUFBA, 2017. BRASIL. Lei n. 14.172, de 10 de junho de 2021. Dispõe sobre a garantia de acesso à internet, com fins educacionais, a alunos e a professores da educação básica pública. Diário Oficial da União, Brasília, DF, n. 108, 11 jun. 2021. Seção 1, p. 1. CANDAU, V. M. F. Educação multicultural: tendências e propostas. In: CANDAU, V. M. F. (org.). Sociedade, educação e cultura(s): questões e propostas. Petrópolis: Vozes, 2000. CANDAU, V. M. F. Sociedade, cotidiano escolar e cultura(s): uma aproximação. Educação & Sociedade, Campinas, v. 23, n. 79, p. 125-161, 2002a. CANDAU, V. M. F. (org.). Multiculturalismo e educação: sociedade, educação e cultura(s). Rio de Janeiro: DP&A, 2002b. CHAUÍ, M. Cidadania cultural: o direito à cultura. São Paulo: Fundação Perseu Abramo, 2006. DECLARAÇÃO mundial sobre educação para todos. In: Conferência de Jomtien, 9 mar. 1990. Consultado na internet em: 18 jun. 2021. GOMES, W. Participação política online: questões e hipóteses de trabalho. In: MAIA, R. C. 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Letramento e alfabetização: as muitas facetas. Revista Brasileira de Educação, Rio de Janeiro, n. 25, abr. 2004, p. 5-17. STRECK, D. F. Qual o conhecimento que importa? Desafios para o currículo. Currículo sem Fronteiras, Brasil, vol. 12, n. 3, p. 8-24, set./dez. 2012. TRINDADE, A. L. da; SANTOS, R. dos. Multiculturalismo: mil e uma faces da escola. Rio de Janeiro: SEPE, 2000. Explore+ O estudo dos principais textos referidos neste material permite um excelente aprofundamento do tema. As obras abaixo descriminadas estão disponíveis na internet e podem ser encontradas por você. Cidadania cultural: o direito à cultura, de Marilena Chauí, publicada pela Editora Fundação Perseu Abramo em 2006. Você tem cultura?, de Roberto da Matta, publicada em 1981 no Jornal da Embratel. Cultura, um conceito antropológico, de Roque de Barros Laraia, publicado em 2001 pela Jorge Zahar Editores. Quanto aos documentos, a Declaração Mundial sobre Educação para Todos (Declaração de Jomtien) pode ser encontrada no portal da UNICEF e a legislação brasileira está disponível no site do Planalto. Outras muitas reflexões e documentos podem ser encontradas no site da Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-graduação em Educação, sobretudo na aba dedicada ao GT 16, Educação e Comunicação. Finalmente, dedicado ao estudo da cibercultura nos currículos, a professora Edmea Santos, da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, coordena o Grupo de Pesquisa Docência e Cibercultura (GPDOC), com extensa produção e muito material disponibilizado nas redes sociais e no site próprio. Conteudista Inês Barbosa de Oliveira O currículo no cotidiano escolar Profª.Inês Barbosa de Oliveira Descrição Estudo das relações entre currículo e cotidiano escolar e suas diferentes expressões. Propósito A área de currículo é parte do tripé que sustenta a pedagogia e, como tal, é necessário compreender sua relação com os cotidianos escolares, levando ao reconhecimento de diferentes possibilidades de efetivação curricular nas negociações entre currículo instituído e currículo instituinte. INTRODUÇÃO Os currículos escolares são formulados a partir de leis e normas definidas nas três instâncias de poder – federal estadual e municipal – sempre com base em uma legislação que o transcende e visando a normatizar e estruturar os sistemas de ensino, assegurando que os padrões mínimos de escolarização, de ensino e aprendizagem, definidos em lei sejam cumpridos, garantindo a efetivação do direito de aprender a toda a população em idade escolar. Essas definições formais, no entanto, não são suficientes para se compreender o que se passa em diferentes espaços educativos, escolas de diferentes níveis e modalidades de ensino. Isso porque, para além daquilo que é definido formalmente em diferentes propostas curriculares, cada espaço educativo tem suas especificidades e estas influenciam as práticas curriculares cotidianas que neles são desenvolvidas. Escolas grandes são diferentes de escolas pequenas, escolas periféricas diferem das metropolitanas, entre muitas outras variações, muitas não classificáveis, mas influenciadoras dos currículos, ainda assim. Nesse sentido, pode-se afirmar que, em diferentes cenários educacionais, os currículos efetivados vão variar. Portanto, para compreender esses processos de adaptação curricular é necessário interrogar o cotidiano escolar, compreendendo que o que se passa nas escolas não é apenas aplicação das normas previstas e estabelecidas legalmente. Cada circunstância local, social, política, cultural e outras, interferem no modo como o que está formalmente estabelecido vai ocorrer na realidade. 1 - A escola e as realidades dos processos pedagógicos Ao final deste módulo, você será capaz de reconhecer as distinções entre os modos oficiais de perceber a escola e as realidades dos processos pedagógicos. Currículos e cotidianos escolares Iniciaremos buscando o entendimento do que é currículo! Etimologicamente, a palavra currículo, oriunda do latim currere, significa caminho, jornada, trajetória, percurso a seguir. Profissionalmente, fala-se em curriculum vitae, também abreviado para CV ou apenas currículo, que mantém o significado original da palavra latina, constituindo um documento de tipo histórico, o qual relata o caminho, a jornada, a trajetória de vida de uma pessoa. Ou seja, um breve resumo das experiências profissionais e educacionais de uma pessoa, como forma de demonstrar suas habilidades e competências. No campo educacional, por sua vez, o termo currículo é usado, originariamente, para designar os conteúdos de uma disciplina, o programa de um curso inteiro ou, mais amplamente, como uma forma de apresentar diferentes atividades educativas por meio das quais os conteúdos educacionais são desenvolvidos, e materiais e metodologias utilizados. Afinal, quando surgiram os estudos sobre currículo? Inicialmente, os estudos do currículo surgiram nos Estados Unidos, dedicando- se a refletir sobre a organização do processo educativo escolar, abordando, fundamentalmente, o que se deveria ensinar e, no caso de alguns autores, como seria melhor fazê-lo. John Franklin Bobbitt (1918). Nesse período, final do século XIX e, sobretudo, a partir dos anos 1920, um número considerável de educadores passou a se debruçar com mais afinco sobre as questões curriculares, criando esse campo de estudos no contexto da reflexão educativa. A primeira sistematização do currículo como disciplina foi apresenta pelo educador americano John Franklin Bobbitt em 1918. Ele era representante dos pesquisadores que pensavam na eficiência da escola e trouxe essa perspectiva para o campo do currículo, com forte influência do processo de industrialização e massificação do ensino. Na concepção desse autor, os estudantes deveriam ser processados como um produto industrializado, numa compreensão fordista da escola, com ênfase na boa administração. Nesse contexto, o sistema educacional deveria funcionar como uma fábrica, como uma empresa, e o currículo deveria se pautar na especificação clara de objetivos, na seleção de conteúdos necessários ao alcance de forma eficiente dos objetivos e na definição de procedimentos que otimizassem resultados que pudessemser precisamente mensurados (SILVA, 1999). Os critérios que definiriam os currículos, nessa perspectiva, exigiam “precisar objetivos e obter, pelas ações minuciosamente conhecidas e fragmentadas, a eficiência e a eficácia” (MACEDO, 2013, p. 35). Tal compreensão “transformou- se no método eleito e no caminho aceito científica e academicamente para se obter a formação relevante para o contexto americano emergente” (MACEDO, 2013, p. 35). Assim, o currículo passou a ser visto como processo de racionalização de resultados educacionais, cuidadosa e rigorosamente especificados e medidos. Com o passar do tempo o campo do currículo evoluiu, veja dois marcos desse processo: Quando nos debruçamos sobre o estudo do campo do currículo nos modos como se manifesta nos cotidianos, faz-se necessário ressaltar a perspectiva crítica e sociológica do campo, que foi sendo desenvolvida a partir, sobretudo, da segunda metade do século XX. Assim, essa perspectiva tecnicista de compreensão dos currículos passou a ser questionada, com proposições e abordagens distintas apresentadas pelas chamadas teorias críticas do currículo, baseadas nas concepções marxistas e também nos ideários da Escola de Frankfurt (Max Horkheimer e Theodor Adorno), como também pelos autores da chamada Nova Sociologia da Educação (com destaque para Michael Young) Assim, começa-se a reconhecer que o currículo é uma “arena política” em que coexistem relações de cultura e poder e é nesse sentido que estudá-lo em seus desenvolvimentos reais, locais, em diferentes cotidianos pode potencializar sua compreensão. Entram em jogo as teorias curriculares pós-críticas, dentre as quais se podem reconhecer a presença dos estudos do currículo como criação cotidiana. Dessa maneira, as chamadas teorias curriculares pós-críticas, que surgem a partir da década de 1980, com base nos princípios da fenomenologia, do pós- estruturalismo e do multiculturalismo, trazem um novo movimento ao campo ao colocar a diferença como sua característica principal. Nesse contexto, entra no campo das questões curriculares a perspectiva da cultura como um movimento de relações e lutas, e não somente os conteúdos estabelecidos em uma grade curricular. O multiculturalismo também emerge como tema importante e passa a ser um conceito relacional, que se estabelece, portanto, a partir das relações de poder entre os diferentes grupos socioculturais. Desse modo, mais do que a realidade social dos indivíduos, o currículo precisa abarcar os conflitos de raça, gênero, orientação sexual e todos os elementos próprios das diferenças entre as pessoas, para não permitir que o currículo legitime “através da seleção de conteúdos, atividades e valores, determinadas visões de mundo e de cultura, em detrimento de outras” (MACEDO, 2013, p. 62). Numa perspectiva mais atual e crítica: “O currículo precisa ser concebido numa ação coletiva, uma construção social, autorias singulares e plurais. Ivor Goodson (1998) vai ainda mais longe; ele compreende o currículo como uma “tradição inventada”, como um artefato socioeducacional que se configura nas ações de conceber/selecionar/produzir, organizar, institucionalizar, implementar/dinamizar saberes, conhecimentos, atividades, competências e valores visando a dada formação, configurada por processos e construções constituídos na relação com o conhecimento eleito como educativo. (MACEDO, 2013, p. 24) Trataremos, em breve, sobre currículo instituído e instituinte. Currículo instituído Mais do que um conjunto coordenado e ordenado de matérias, o chamado currículo instituído, determinado previamente pelo poder público, passou a ser visto como uma construção social, formado por uma estrutura voltada a uma perspectiva libertadora e conceitualmente crítica em favorecimento das massas populares. Tais práticas curriculares passaram a ser vistas como um espaço de lutas no campo cultural e social, deixando de lado a neutralidade típicas das ideias convencionas de até então. Sendo assim, o currículo passou a ser entendido como uma construção social e, portanto, abandonou a retórica da neutralidade, passando a evidenciar o momento histórico, político, econômico em que se encontra inserido, direcionando o conhecimento a ser transmitido e as formas que serão utilizadas no meio escolar, numa construção do chamado currículo instituinte. Currículo instituído e instituinte Mais do que um conjunto coordenado e ordenado de matérias, o chamado currículo instituído, determinado previamente pelo poder público, passou a ser visto como uma construção social, formado por uma estrutura voltada a uma perspectiva libertadora e conceitualmente crítica em favorecimento das massas populares. Tais práticas curriculares passaram a ser vistas como um espaço de lutas no campo cultural e social, deixando de lado a neutralidade típica das ideias convencionas de até então. Sendo assim, o currículo passou a ser entendido como uma construção social e, portanto, abandonou a retórica da neutralidade, passando a evidenciar o momento histórico, político, econômico em que se encontra inserido, direcionando o conhecimento a ser transmitido e as formas que serão utilizadas no meio escolar, numa construção do chamado currículo instituinte. Vejamos dois aspectos desses currículos: Para esclarecer melhor esses pontos analisaremos três importantes conceitos. Veja: Análise institucional Segundo Lorau, a análise institucional possui forças, qualidade de instituinte entrando em contradição com o já instituído, produto de uma imobilidade a ser quebrada com tal intervenção, considerada: Uma nova forma de penetrar na vida cotidiana dos estabelecimentos de saúde, de educação, da Igreja etc. A análise institucional é feita com os atores sociais em seu campo de atuação, uma vez que são considerados os maiores conhecedores da realidade. (TILMAN, 2005) Diferenciação: instituição de estabelecimento ou espaço geográfico Lorau (1993) diferencia, em seus estudos, instituição de estabelecimento ou espaço geográfico. Entende que, em diferentes instituições, há, além das normas em vigor, que disciplinam, buscam controlar e submeter os seus sujeitos, “forças instituintes que contribuem para a desconstrução das relações existentes, propiciando o desocultamento de questões que contribuirão para a sua transformação e até mesmo, para sua dissolução”, diz Silva (2009, p. 3). Portanto, o conceito de instituição não designa coisas passíveis de serem vistas, sólidas, concretas. [...] trata-se de um conceito produzido por (e para) análises coletivas" (LORAU, 1993, p. 61). O autor toma o conceito de instituição como um modelo teórico que possibilita a compreensão dos acontecimentos que se dão e podem ser observados tanto em uma casa, como em uma escola, em uma fábrica, ou em um hospital. A instituição é vista, assim, como campo de análise e como campo de intervenção, considerando as suas contradições. (SILVA, 2009, p. 3) O debate entre currículos instituído e instituinte A partir disso e com o desenvolvimento crescente de pesquisas com os cotidianos, o debate entre currículos instituído e instituinte – que teve certo destaque nos anos 1970 – ganha novos sentidos, já que na perspectiva desses estudos, há sempre algo de instituinte nos currículos reais desenvolvidos nas escolas. Cenário do "instituinte ordinário", trabalho de auto- organização e de instituição do dia a dia, o ambiente escolar abriga em seu espaço, contradições e acontecimentos de uma ordem social e histórica em que se entrecruzam diferentes modos de ser, de pensar, de agir e de compreender a si e ao mundo. (SILVA, 2009, p. 3) Currículos locais Nesse contexto são criados currículos locais. Os estudos dos cotidianos reconhecem, nos sujeitos das escolas, criadores ativos de currículos em perspectiva instituintee percebe que, em muitos casos, esses mesmos sujeitos se reconhecem como tais. O uso dessa perspectiva de compreensão do campo para conceber os currículos instituídos e instituintes nos ajudará a compreender a noção de currículo como criação cotidiana nas/das escolas, que passa a ser relevante, já que o currículo instituinte pode ser considerado como “tudo aquilo que acontece na escola”, levando-se em consideração, nesse sentido, os saberes que foram, por bastante tempo, negligenciados: os saberes docentes e discentes. Enquanto isso, instituídos são os currículos formais, pré- definidos, formalmente formulados e aprovados como norma institucional. O que isso significa? Isso significa dizer que, mais do que uma oposição entre bom e ruim, entre autoritário e democrático ou mesmo entre processo (instituinte) e produto (instituído), estamos diante de uma espiral de criação/consolidação/crítica permanente, na qual momentos se sucedem e dialogam entre si. A relação entre a noção de currículo instituinte e currículo como criação cotidiana, alimentada pela compreensão de que, em ambos os casos trata-se de fazer dialogar as normas representadas pelo instituído com as especificidades circunstanciais e as possibilidades locais. Esse caminho permite, portanto, uma intervenção educativa em contexto escolar mais aberta, prazerosa e dialógica, que propicia o exercício do protagonismo pelos sujeitos das escolas, tanto no ato de aprender como no ato de ensinar, uma maior abertura do canal de comunicação entre os atores sociais que constroem os currículos reais, no cenário escolar e uma maior possibilidade de trabalho, análise e interpretação dos conteúdos culturais presentes em todo currículos, instituído ou instituinte, e os diálogos possíveis entre eles. Desse modo, a ideia de currículo instituinte suscita a superação da percepção do currículo como uma lista engessada de saberes ensinado, historicamente, atendendo sempre aos interesses sociais, econômicos e políticos hegemônicos. Como formação humana, o que se busca é garantir aos estudantes o direito a uma formação completa para a compreensão e ação no mundo, dignamente integrada política, social e culturalmente. Para tal, currículos instituintes, criados cotidianamente, ao considerarem diferente saberes, muito deles historicamente oprimidos, silenciados ou rejeitados, potencializam essa formação. Cotidianos no campo curricular: da “caixa preta” ao currículo como criação cotidiana O que é preciso saber sobre o cotidiano no campo do currículo? Os estudos do cotidiano no campo do currículo se inscrevem, portanto, na perspectiva de crítica ao modelo curricular hegemônico, mas, diferentemente de outras tendências, se ocupa mais de buscar compreender o que fazem com essas normas os “praticantes” (CERTEAU, 1994) dos cotidianos escolares em suas diferentes realidades escolares, sociais, políticas e econômicas do que em analisar as normas curriculares ou suas inspirações políticas, sociais e epistemológicas. O que é currículo? O currículo é uma práxis antes que um objeto estático emanado de um modelo coerente de pensar a educação ou as aprendizagens necessárias das crianças e dos jovens, que tampouco se esgota na parte explícita do projeto de socialização cultural nas escolas. É uma prática, expressão, da função socializadora e cultural que determinada instituição tem, que reagrupa em torno dele uma série de subsistemas ou práticas diversas, entre as quais se encontra a prática pedagógica desenvolvida em instituições escolares que comumente chamamos de ensino. Nesse sentido, devemos considerar que: “O currículo é uma prática na qual se estabelece diálogo, por assim dizer, entre agentes sociais, elementos técnicos, alunos que reagem frente a ele, professores que o modelam. (SACRISTÁN, 2000, p. 15-16) Nesse contexto, como os currículos são percebidos na criação cotidiana dos praticantes? A partir das convicções epistemológicas e políticas que embasam as pesquisas nos/dos/com os cotidianos, é possível considerar que os currículos podem ser percebidos como criação cotidiana dos praticantes (CERTEAU, 1994) das escolas, e, mais do que isso, como contribuições da escola à tessitura da emancipação social democratizante, tal como defendida por Boaventura de Sousa Santos (2004), o qual percebe a emancipação social como possibilidade de criação de relações mais ecológicas entre diferentes conhecimentos, temporalidades, culturas, escalas e sistemas de produção (SANTOS, 2004), por meio da superação das monoculturas hegemônicas nas sociedades ocidentais da atualidade, considerando indissociáveis o campo do epistemológico e do político. . Compreendidos como criação invisibilizada pelo pensamento educacional hegemônico, os currículos praticados (OLIVEIRA, 2003), aqueles criados nos cotidianos das escolas – que, seguindo a argumentação aqui desenvolvida sobre a indissociabilidade prática/teoria/prática, reflexão/ação, seriam melhor nomeados como pensadospraticados – podem e merecem ser estudados, de modo que os compreendamos para daquilo que neles obedece ao status quo, e que se impõe como norma. Esses processos permitem a desinvisibilização e possível multiplicação de experiências emancipatórias desenvolvidas nas escolas, por docentes a quem são historicamente negados o reconhecimento por suas criações cotidianas e de sua competência profissional. Muitas vezes reconhecidos como meros transmissores de conhecimentos produzidos em instâncias “superiores”, esses profissionais são criadores de currículos que contribuem para a formação cidadã, para a ampliação da justiça cognitiva e social e, com isso, para a emancipação social. A “caixa preta”: processos curriculares e criações cotidianas A imensa maioria dos estudos curriculares não considerava, até o início dos anos 1950, o que acontecia nas escolas como informação relevante para o campo do currículo. Vamos compreender o motivo desse acontecimento? Isso ocorreu porque, na perspectiva tecnicista da época, as teorias deveriam se aplicar às práticas, o que equivale a dizer que as propostas curriculares formuladas por teóricos do campo e autoridades educacionais deveriam ser implantadas e seguidas pelas escolas. Seguindo a noção de que as propostas eram o input e os resultados obtidos o output, o processo era considerado menos importante. Problemas nos resultados exigiriam mudança nas propostas. No entanto, outra compreensão desses problemas passou a ser considerada mais válida do que a anterior e passou-se a compreender, majoritariamente, que o problema de insuficiência de aprendizagens esperadas deveria ser tributado às incapacidades daqueles que estavam nas escolas. Isto é, o que não se podia examinar – a vida cotidiana das escolas – era reconhecido como a fonte dos problemas, já que a incapacidade de desenvolvimento de boas práticas estaria naqueles que, sem suficiente conhecimento técnico-científico, não davam conta de aplicar as propostas que lhes chegavam. Ou seja, a vida cotidiana nas escolas era identificada como uma espécie de “ caixa preta ”, numa analogia com a mecânica, a tecnologia lógica, ou com objeto presente no avião – que pode dar pistas e informações sobre o voo, – a teoria de sistemas na área de administração, educacional e escolar. Vejamos duas abordagens importantes desse processo: A noção de “caixa preta” e seus aspectos hegemônicos Do ponto de vista das iniciativas oficiais em educação, embora sem que se explicite isso, a noção de “ caixa preta ” se mantém hegemônica. Com o uso dessa metáfora, procura-se indicar a impossibilidade de se conhecer, de fato, o que acontece nas escolas, sustentando, ao mesmo tempo, a ideia de que certas aproximações possíveis não poderiam contar com nada além da inventividade dos quedesejam se dedicar a esse estudo, já que não é possível acessar, de modo confiável, o que se passa nesses cotidianos. Além disso, os que assim denominam ou compreendem os cotidianos escolares, como uma “caixa preta”, afirmam que aqueles que os estudavam/estudam, o fazem de forma necessariamente insuficiente e por isso defendem que, não importando o que se passa no interior da ” caixa preta ”, a intervenção no sistema deve se dar sobre os planos de entrada (inputs), a partir de uma realimentação com dados obtidos na finalização do processo anterior (feedback), possível através da avaliação dos indicativos fornecidos pelos resultados de saída (outputs). A aplicação das provas de final de ciclos e cursos, como se faz em nosso país e tantos outros, nos fornece uma concretização desse “modelo” (ALVES, 2003, p. 63-64). A superação da dicotomia teoria-prática A superação da dicotomia teoria-prática tornou-se importante para este campo de estudos, já que, sendo sujeito da escola e praticante da vida cotidiana (CERTEAU, 1994), o professor, mais do que apenas um repetidor ou transmissor de conteúdos curriculares formulados por especialistas, passa a ser percebido como alguém que, ao usar as normas, o faz de modo próprio. Assim sendo, este passa a ser percebido como sujeito ativo na criação curricular e, por isso, responsável pelo seu próprio trabalho. Com isso, a ideia do professor como pesquisador de sua prática passou a ganhar adeptos, entendendo-se que ele é o sujeito capaz de questionar, identificar e analisar suas práticas através de processos de pesquisa, além de intervir cotidianamente no que acontece no ambiente escolar. Além disso, as pesquisas nos cotidianos começaram a abordar a necessidade de se compreender a realidade escolar, sem julgamentos de valor, mas com o entendimento de que o que nela se faz e se cria precisa ser concebido como uma saída possível, em cada contexto específico, encontrada por quem nela trabalha, estuda ou convive de alguma maneira. Sendo assim, a partir de tais influências, os estudos do cotidiano se fundamentam, também, em uma crítica ao modelo de ciência moderna. Nesse contexto, qual foi à relação do modelo de ciência moderna com os conhecimentos cotidianos? O modelo de ciência moderna, que, para se “construir”, acabou por considerar os conhecimentos cotidianos como saberes menores, como “senso comum” a ser superado de alguma forma. Tal perspectiva, no entanto, não compreende os múltiplos sentidos e usos que fazem das normas os praticantes dos cotidianos e, por isso, mantém uma postura equivocada sobre o que é ou não fazer ciência, limitando-a a determinados procedimentos e compreensão dos processos de conhecer. Procurando, então, superar esse modelo de ciência moderna, é necessário provocar reflexões com o intuito de tecer respostas diferentes das hegemônicas, avançando na compreensão do que são os estudos nos/dos cotidianos, inserindo nesta esfera os processos sociais que foram negligenciados pelo fazer científico moderno, como as criações cotidianas de usos de produtos e normas pelos praticantes da vida diária. São práticas curriculares instituintes que, cotidianamente, são criadas pelos sujeitos das escolas, praticantes do cotidiano escolar. Compreendendo esses acontecimentos, adiante abordaremos sobre a ação do currículo como criação cotidiana. Currículo como criação cotidiana Atualmente, os estudos no campo do currículo no Brasil dialogam com diferentes teorias sociais e abordagens sociológicas e filosóficas, inscrevendo- se, assim, em diferentes tendências de pensamento educacional. Nesse contexto de pluralidade e riqueza de conteúdos, se inscrevem (FERRAÇO; OLIVEIRA; PEREZ, 2008): REFLEXÕES As reflexões acerca dos cotidianos das escolas. CONCEPÇÃO DE CURRÍCUO A concepção de “currículo como criação cotidiana”. METODOLOGIA DE PESQUISA As metodologias de pesquisa que os sustentam, como a “pesquisa nos/dos/com os cotidianos”. Contudo, embora as contribuições das pesquisas nos/dos/com os cotidianos tenham sido significativas para o campo do currículo nos últimos quinze anos, ainda são muitos os mal-entendidos que rondam tais pesquisas. Por esta razão, torna-se importante esclarecer alguns pontos em torno delas, sobretudo para que se compreenda a própria noção de currículo como criação cotidiana. Assim, faz-se necessário esclarecer que foi a partir da incapacidade de se compreender as escolas a partir de teorias e métodos de pesquisa tradicionais, como já visto, e com as hierarquizações por elas produzidas, que as pesquisas nos/dos/com os cotidianos das escolas se desenvolveram, conquistaram espaço e chegaram a muitas compreensões, dentre elas a de que os currículos são criados, cotidianamente, pelos sujeitos da escola, muito além daquilo que se prevê e se normatiza como “o currículo”. Tais estudos globais e desvinculados das realidades escolares sempre mantiveram um forte desconhecimento acerca do que circulava, na prática, nas escolas, e o incômodo gerado precisava ser resolvido por outras formas de pesquisar e de compreender os currículos. Desse modo, os cotidianistas desejavam não apenas conhecer e apontar superficialmente os problemas escolares, mas compreendê-los como potencialmente aperfeiçoáveis, sendo necessário, portanto, novos modos de se pesquisar a escola, inexistentes até então. Modos que valorizassem o saber da prática, do cotidiano, do que é praticado na rotina da escola por seus sujeitos, seus praticantes. O currículo como criação cotidiana se insere como uma possibilidade de se pensar os currículos pensadospraticados nas escolas a partir das vivências dos praticantespensantes do cotidiano escolar. Dessa forma, destacamos três aspectos importantes (OLIVEIRA, 2016): Sendo assim, podemos compreender os currículos pensadospraticados muito além de seus aspectos organizáveis, quantificáveis e classificáveis, distante do que neles é repetição, é esquema, é estrutura. Torna-se possível, portanto, conhecer os modos como se tecem, as circunstâncias sob as quais são desenvolvidos e que neles interferem, compreendendo-os em sua complexidade e processos constitutivos. É por isso que se torna necessário mergulhar nos cotidianos das escolas, envolvendo-se com suas múltiplas e complexas realidades e problemas concretos que exigem a reinvenção curricular permanente. A partir desse mergulho, procuramos, nos diversos e múltiplos cotidianos, mais do que as marcas das normas supostamente estabelecidas e percebidas hegemonicamente, que ditam o formato das prescrições curriculares. Buscamos, sobretudo, “as marcas das operações dos praticantespensantes dos cotidianos escolares, das opções tecidas nos acasos e situações nas quais a vida cotidiana acontece, os processos de enredamentos entre conhecimentos, valores, sujeitos em interação, que dão vida e corpo às propostas curriculares, criando currículos cotidianamente” (OLIVEIRA, 2016, p. 103-104). Currículo e cotidiano: definições Neste vídeo, a especialista apresenta esclarecimentos sobre o currículo escolar e seu cotidiano. Vem que eu te explico! Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar. Currículo instituído. Cotidianistas e a pesquisa em currículo. Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 O currículo é um processo que tem uma origem genérica e que se consolidou como um campo fundamental dos estudos pedagógicos. Sua formulação passa pelo entendimento de que existe um currículo instituído. Sua definição é: I - Mais do que um conjunto coordenado e ordenado de matérias, o chamado currículo instituído, determinado previamente pelo poder público, deve ser visto como uma construção social. II - Formado por uma estruturavoltada a uma perspectiva libertadora, a única tendência que permite a adoção de uma estrutura curricular e conceitualmente crítica em favorecimento das massas populares. O%20CURRÍCULO%20NO%20COTIDIANO%20ESCOLAR%20MOD1%20VID1.mp4 O%20CURRÍCULO%20NO%20COTIDIANO%20ESCOLAR%20MOD1%20VID1.mp4 O%20CURRÍCULO%20NO%20COTIDIANO%20ESCOLAR%20-%20MOD%201%20VE%201.mp4 O%20CURRÍCULO%20NO%20COTIDIANO%20ESCOLAR%20-%20MOD%201%20VE%202.mp4 III - Tais práticas curriculares passaram a ser vistas como um espaço de lutas no campo cultural e social, deixando de lado a neutralidade típica das ideias convencionas de até então. Está(ao) correta(s) a(s) afirmativa(s): Questão 2 Uma vez compreendido para além de uma grade ou de uma ordem, o currículo é construído pelas relações. Nessa perspectiva passamos a tratar o Currículo como uma criação cotidiana. O que se entende do Currículo como criação cotidiana? I - Os estudos no campo do currículo dialogam com diferentes teorias sociais e abordagens sociológicas e filosóficas, inscrevendo-se, assim, em diferentes tendências de pensamento educacional. II - Há, assim, uma singularidade e linearidade dos conteúdos que o currículo precisa observar para construir um valor nacional. III - O currículo se inscreve nas reflexões acerca dos cotidianos das escolas e, de maneira específica, traz para dentro do currículo as questões do cotidiano. Está(ão) correta(s): 2 - Currículos por projetos e suas possibilidades Ao final deste módulo, você será capaz de conhecer os currículos por projetos e suas possibilidades de adequação a diferentes modalidades de escolarização. O desenvolvimento do currículo por projetos de trabalho Currículo e cotidiano: além dos muros limitados Já reparou quantos muros tem na escola: os físicos externos, as paredes de separação, as salas, as disciplinas, tudo cartesiano, recortado. Mas será que precisa ser assim? Vamos refletir sobre essa realidade e esses muros! Quando se propõe compreender os currículos como criação cotidiana das escolas em meio a processos de negociação entre as normas curriculares e as especificidades locais, perceber os motivos e argumentos em favor de tantas propostas pedagógicas voltadas às realidades escolares que defendem a adaptação das propostas formais a elas se torna mais fácil. Se em nenhum local os currículos podem ser somente aplicação ou implementação de uma proposta formal escrita, é normal e mesmo necessário que os espaços escolares busquem, ao compreender-se em suas características e necessidades, a construção de propostas pedagógicas específicas. A própria legislação prevê essas possibilidades, que compreendem inúmeras iniciativas, no Brasil e no exterior, e que buscam adequar as exigências formais do sistema educacional às possibilidades e necessidades locais. Os currículos por projetos como forma de organização curricular O currículo pode, então, ser considerado um conjunto de valores e práticas que proporcionam a produção e a socialização de significados no espaço social e que contribuem, intensamente, para a construção de identidades sociais e culturais dos estudantes. Da mesma forma, o currículo deve difundir os valores fundamentais do interesse social, dos direitos e deveres dos cidadãos, do respeito ao bem comum e à ordem democrática, bem como considerar as condições de escolaridade dos estudantes em cada estabelecimento, a orientação para o trabalho, a promoção de práticas educativas formais e não formais (CNE/CEB 07/2010, p. 24). A seguir destacaremos passos importantes para essa construção: Organização do tempo curricular: educação básica Na educação básica, a organização do tempo curricular precisa, portanto, levar em consideração as peculiaridades do meio e as características próprias da população atendida, não podendo se restringir à sala de aula e aos conteúdos dos livros didáticos. Itinerário formativo O itinerário formativo deve ser aberto e contextualizado, incluindo os componentes curriculares obrigatórios, como também — conforme os componentes flexíveis e variáveis que possibilitem percursos formativos que atendam aos inúmeros interesses — necessidades e características de seus alunos e professores. Abordagens curriculares Na organização do currículo é preciso ampliar ainda mais os horizontes com abordagens disciplinar, pluridisciplinar, interdisciplinar e/ou transdisciplinar, as quais revelam a visão de mundo que deve orientar as práticas pedagógicas dos educadores e organizam o trabalho do aluno (cf. NICOLESCU, 2000, p. 17). Esse tipo de proposta pode ser contemplado pela implantação dos currículos por projetos, visto que, neste tipo de organização há a busca de respostas adequadas e soluções locais, conforme a especificidade dos espaços, das culturas, das possibilidades e necessidades daquela população e daquela escola. Processos decisórios Neste sentido, os processos decisórios ocorrem ao longo do próprio formular da proposta e se relacionam com as normas curriculares gerais, sem serem por ela aprisionados. Importante ressaltar que todo projeto precisa estar relacionado aos objetivos e conteúdos definidos formalmente, para não perder o sentido do que se quer alcançar ao formulá-lo como escolha local. O educador espanhol Fernando Hernández – em parceria com Monserrat – baseado nas ideias de John Dewey, filósofo e pedagogo estadunidense, em seu livro A organização do currículo por projetos de trabalho, considera o processo de conhecimento como um caleidoscópio formado pela relação necessária da vida com a sociedade em que se vive, da mesma forma em que os meios se relacionam com os fins, e a teoria com a prática. Assim sendo, a ideia que preside a proposta dos currículos por projetos é, precisamente, a de poder relacionar o que deve ser ensinado-aprendido com as realidades locais, a partir de temas de interesse coletivo. Desse modo, nos currículos por projetos, o professor troca o papel de “transmissor de conteúdos” para se transformar em um eterno pesquisador e parceiro do aluno, que por sua vez, se transforma num protagonista desse processo de ensino e aprendizagem. É a dúvida, a curiosidade coletiva, que constitui o mecanismo do qual se parte para a formulação de um currículo por projeto. É a partir de uma dúvida que a escola – ou a classe – inicia a pesquisa em busca de evidências sobre o assunto. A partir disso, conteúdos e objetivos que possam contribuir para a solução da dúvida de base são associados ao projeto, bem como os meios pelos quais se tenciona aprender os primeiros para dar conta dos segundos. Neste contexto, educadores e educandos participam do processo de criação, na busca de respostas e soluções. Ou seja, no currículo por projetos, a busca de respostas adequadas e soluções acertadas se torna o motor que movimenta o delineamento do processo. O processo se inicia, portanto, com: I - A definição coletiva dos temas e/ou problemas a serem abordados. II - Interrogações dirigidas ao tema. Afinal, quais são os passos importantes para realização desse projeto? O importante é que o projeto como um todo precisa estar relacionado aos objetivos e conteúdos já conhecidos e definidos, mantendo a direção para não perder o rumo daquilo que deve ser ensinado e aprendido nas escolas. Em outras palavras, não se trata de uma proposta de trabalho sem limites e metas, que busca tão somente atender interesses e possibilidades locais. É uma forma de organização pedagógica da instituição e de trabalho com os currículos voltada ao diálogo entre os conhecimentos formais e as realidades locais. Promove a criação curricular local como meio de se chegar a metas globais, ou seja, respeitando conteúdos e metas elencados nos documentos oficiais. O objeto do currículo por projeto é: A escola é,sem dúvida, uma instituição que se organiza em torno de saberes historicamente construídos e consolidados como relevantes na sociedade e que, portanto, devem ser conservados e difundidos. No entanto, também não se pode negligenciar novos saberes, que são criados a cada instante. Estamos na era da tecnologia e da globalização, e o ritmo das novidades, inclusive no campo dos saberes formais, é acelerado. Cabe às escolas buscarem incorporá-los aos seus cotidianos, o que fica bastante facilitado quando currículos por projeto estão em andamento, pela maleabilidade que possuem. Tal maleabilidade dos currículos por projetos permite o seu uso na estruturação de propostas curriculares voltadas a modalidades diferenciadas de Educação, como a educação de jovens e adultos, a educação indígena, entre outras. Isso porque essas modalidades, organizadas especificamente em função das características próprias dessas populações-alvo, não podem se distanciar das diretrizes nacionais e devem se adequar às possibilidades e necessidades desses públicos sem violentar suas tradições, especificidades culturais e sociais, limites e possibilidades de aprendizagem de cada um. O que isso significa? Significa dizer que, além das etapas – educação infantil, ensino fundamental e ensino médio, conhecidas de todos – a educação básica no Brasil integra diferentes modalidades destinadas a públicos específicos. E pensar na possibilidade do trabalho com projetos como meio de potencializar seus resultados é algo que pode contribuir para melhor compreensão, seja dos currículos por projetos, seja das diferentes modalidades que fazem parte da educação básica no Brasil, as quais não são poucas e buscam atender os direitos daqueles para quem não basta um ensino regular padronizado em torno das necessidades e direitos da maioria da população, já que possuem especificidades que exige m adequações. Modalidades da educação básica e currículos por projetos Nos termos do art. 208 da Constituição Federal, a educação básica é obrigatória e gratuita dos quatro aos dezessete anos de idade, assegurada inclusive sua oferta gratuita para todos os que a ela não tiveram acesso na idade própria (inciso I). Diferentes modalidades de educação básica estão elencadas na legislação nacional, sempre como dever do Estado e da família e direito dos sujeitos sociais, sejam eles quem forem. Assim, as diferentes modalidades seguem regulamentações próprias, mas todas se inscrevem nas normas gerais dos diferentes níveis da educação básica nos quais se inscreve. Segue um estudo básico dessas modalidades e de suas normas, úteis à reflexão curricular. Os cotidianos de algumas dessas modalidades – ou dessas populações –, elencadas neste item, podem exigir processos de adequação curricular, e a maleabilidade dos currículos por projetos pode ser bastante útil nessas circunstâncias, embora haja especificidades que, para serem contempladas, exijam mais do que projetos maleáveis, como será visto adiante. Educação especial O inciso 3º e seguintes do art. 208 da Constituição Federal garante atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino, com acesso ao ensino obrigatório e gratuito como direito público e subjetivo. O Atendimento Educacional Especializado (AEE), previsto pelo Dec. 6.571/2008, é parte integrante do processo educacional, devendo os sistemas de ensino matricular os estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação nas classes comuns do ensino regular e no AEE. Cabe às escolas organizarem-se para seu atendimento, garantindo as condições para uma educação de qualidade para todos, devendo considerar suas necessidades educacionais específicas, pautando-se em princípios éticos, políticos e estéticos. Educação de jovens e adultos A Constituição Federal (art. 208, I) determina que o dever do Estado para com a educação será efetivado mediante a garantia de ensino fundamental obrigatório e gratuito, assegurada inclusive sua oferta gratuita para todos os que a ele não tiverem acesso na idade própria. Na organização curricular dessa modalidade da educação básica, a mesma lei prevê que os sistemas de ensino devem oferecer cursos e exames supletivos, que compreenderão a base nacional comum do currículo, habilitando ao prosseguimento de estudos em caráter regular. Entretanto, prescreve que, preferencialmente, os jovens e adultos tenham a oportunidade de desenvolver a educação profissional articulada com a educação básica (LDB, art. 37, § 3º). Talvez a EJA seja uma das modalidades em que conceber um currículo por projetos seja particularmente relevante. A questão social e cultural que envolve a modalidade, as experiências frustradas de escolarização em currículos amarrados disciplinarmente, desconsideração pelas suas culturas de origem na organização de conteúdos e na proposição de atividades de ensino. Educação profissional e tecnológica (EPT) A educação profissional e tecnológica (EPT), em conformidade com o disposto na LDB, no cumprimento dos objetivos da educação nacional, integra-se aos diferentes níveis e modalidades de educação e às dimensões do trabalho, da ciência e da tecnologia. Dessa forma, pode ser compreendida como uma modalidade, visto que possui um modo próprio de fazer educação nos níveis da educação básica e superior e em sua articulação com outras modalidades educacionais: educação de jovens e adultos, educação especial e educação a distância – todas referidas neste item. Analisaremos algumas ações desse tipo de modalidade: EPT na educação básica A EPT na educação básica ocorre na oferta de cursos de formação inicial e continuada ou qualificação profissional, e nos de educação profissional técnica de nível médio ou, ainda, na educação superior. Cursos articulados com o ensino médio organizados na forma integrada No tocante aos cursos articulados com o ensino médio, organizados na forma integrada, o que está proposto é um curso único (matrícula única), no qual os diversos componentes curriculares são abordados de forma que se explicitem os nexos existentes entre eles, conduzindo os estudantes à habilitação profissional técnica de nível médio ao mesmo tempo em que concluem a última etapa da educação básica. Cursos técnicos articulados com o ensino médio, ofertados na forma concomitante Os cursos técnicos articulados com o ensino médio, ofertados na forma concomitante, com dupla matrícula e dupla certificação, podem ocorrer na mesma instituição de ensino, aproveitando-se as oportunidades educacionais disponíveis; em instituições de ensino distintas, aproveitando-se as oportunidades educacionais disponíveis; ou em instituições de ensino distintas, mediante convênios de intercomplementaridade, visando ao planejamento e ao desenvolvimento de projeto pedagógico unificado. Organização curricular da educação profissional e tecnológica por eixo tecnológico A organização curricular da educação profissional e tecnológica por eixo tecnológico fundamenta-se na identificação das tecnologias que se encontram na base de dada formação profissional e dos arranjos lógicos por elas constituídos. Por considerar os conhecimentos tecnológicos pertinentes a cada proposta de formação profissional, os eixos tecnológicos facilitam a organização de itinerários formativos, apontando possibilidades de percursos tanto dentro de um mesmo nível educacional quanto na passagem do nível básico para o superior. Os conhecimentos e habilidades adquiridos tanto nos cursos de educação profissional e tecnológica como os adquiridos na prática laboral pelos trabalhadores podem ser objeto de avaliação, reconhecimento e certificação para prosseguimento ou conclusão de estudos. Assegura-se, assim, ao trabalhadorjovem e adulto a possibilidade de ter reconhecidos os saberes construídos em sua trajetória de vida. Educação a distância (EaD) A modalidade educação a distância (EaD) caracteriza-se pela mediação didático-pedagógica nos processos de ensino e aprendizagem com a utilização de meios e tecnologias de informação e comunicação, com estudantes e professores desenvolvendo atividades educativas em lugares e/ou tempos diversos. Embora tenha sua lógica própria, relacionada a plataformas Web e à possibilidade de atividades assíncronas, esta modalidade foi bastante utilizada durante a pandemia da covid-19, de modo emergencial, levando a alguma descaracterização da multiplicidade de suas especificidades e exigências próprias. Modalidades para além dos projetos Conforme já dito, em algumas modalidades da educação básica, as especificidades das populações a serem atendidas transcendem a capacidade de adaptação de currículos definidos para o ensino regular. Essas modalidades são aquelas destinadas a populações que não seriam suficientemente atendidas apenas com projetos curriculares diferenciados, já que suas circunstâncias de vida, origens e práticas culturais e mesmo necessidades e possibilidades de aprendizagem dialogam mal com aquilo que consta das propostas curriculares oficiais do país, sejam diretrizes gerais ou a BNCC. Daí a necessidade de diretrizes próprias e da compreensão das especificidades desses públicos. Analisaremos como as modalidades da educação básica se comportam em relação às especificidades das populações: Educação básica do campo A educação para a população rural está prevista no art. 28 da LDB, em que ficam definidas, para atendimento à população rural, adaptações necessárias às peculiaridades da vida rural e de cada região. Nesta modalidade, a identidade da escola do campo é definida pela sua vinculação com as questões inerentes à sua realidade, ancorando-se na temporalidade e saberes próprios dos estudantes, na memória coletiva que sinaliza futuros, na rede de ciência e tecnologia disponível na sociedade e nos movimentos sociais em defesa de projetos que associem as soluções exigidas por essas questões à qualidade social da vida coletiva no país. Já em função dessas características, formalmente enunciadas, pode-se perceber a necessidade de se romper com as normas globais que regem a Educação Básica na modalidade regular e outras. Vejamos como a modalidade se adapta a essas questões: É bastante claro que podem predominar, num ou noutro, oportunidades diversas de aprendizagens, com ênfases ora em conhecimentos formais, ora em habilidades profissionais, ora em atitudes, emoções e valores necessários ao adequado desempenho do estudante. Nesse sentido, os dois ambientes/situações são complementares. Educação escolar indígena Esta modalidade tem diretrizes próprias instituídas pela Resolução CNE/CEB 3/99, com base no Parecer CNE/CEB 14/99, que fixou Diretrizes Nacionais para o Funcionamento das Escolas Indígenas. A escola desta modalidade tem uma realidade singular, ainda mais pronunciada do que a escola do campo, já que inscrita em terras e cultura indígenas. Requer, assim, pedagogia própria em respeito à especificidade étnico-cultural de cada povo ou comunidade e formação específica de seu quadro docente, observados os princípios constitucionais, a base nacional comum e os princípios que orientam a educação básica brasileira (arts. 5º, 9º, 10, 11 e inciso VIII do artigo 4º da LDB). É, portanto, uma modalidade de múltiplas propostas, conforme a etnia e o local no qual a escola se inscreve. Na estruturação e no funcionamento das escolas indígenas é reconhecida sua condição de escolas com normas e ordenamento jurídico próprios, com ensino intercultural e bilíngue, visando à valorização plena das culturas dos povos indígenas e à afirmação e manutenção de sua diversidade étnica. As escolas indígenas desenvolvem suas atividades de acordo com o proposto nos respectivos projetos pedagógicos e regimentos escolares com as prerrogativas de: Essas escolas têm projeto pedagógico próprio, por escola ou por povo indígena, tendo por base as Diretrizes Curriculares Nacionais referentes a cada etapa da educação básica; as características próprias das escolas indígenas, em respeito à especificidade étnico-cultural de cada povo ou comunidade; as realidades sociolinguísticas, em cada situação; os conteúdos curriculares especificamente indígenas e os modos próprios de constituição do saber e da cultura indígena; e a participação da respectiva comunidade ou povo indígena. Educação escolar quilombola Sem se diferenciarem muito das exigências colocadas à educação escolar indígena, a educação escolar quilombola é desenvolvida em unidades educacionais inscritas em suas terras e cultura, requerendo pedagogia própria em respeito à especificidade étnico-cultural de cada comunidade e formação específica de seu quadro docente, observados os princípios constitucionais, a base nacional comum e os princípios que orientam a Educação Básica brasileira. Na estruturação e no funcionamento das escolas quilombolas, deve ser reconhecida e valorizada sua diversidade cultural, e todas as exigências a ela relacionadas. marrando os pontos: currículo por projetos Quando o currículo deve, pelo cotidiano, superar a concepção de currículo? Por que o currículo em projeto pode ser uma solução viável diante de demandas complexas da educação? Para entender esses e outros questionamentos, vamos ouvir a especialista. 2:28 min. Módulo 2 - Vem que eu te explico! Educação por projeto. 2:46 min. Módulo 2 - Vem que eu te explico! Adaptabilidade Educação por projetos – Educação Especial. 2:18 min. Módulo 2 - Vem que eu te explico! Adaptabilidade Educação por projetos - EJA. 2:09 min. Módulo 2 - Vem que eu te explico! Adaptabilidade da Educação por projetos – indígenas e quilombolas. O currículo no cotidiano escolar Profª.Inês Barbosa de Oliveira Descrição Estudo das relações entre currículo e cotidiano escolar e suas diferentes expressões. Propósito A área de currículo é parte do tripé que sustenta a pedagogia e, como tal, é necessário compreender sua relação com os cotidianos escolares, levando ao reconhecimento de diferentes possibilidades de efetivação curricular nas negociações entre currículo instituído e currículo instituinte. Objetivos Módulo 1 A escola e as realidades dos processos pedagógicos Reconhecer as distinções entre os modos oficiais de perceber a escola e as realidades dos processos pedagógicos. Módulo 2 Currículos por projetos e suas possibilidades de adequação Conhecer os currículos por projetos e suas possibilidades de adequação a diferentes modalidades de escolarização. Módulo 3 O papel dos saberes docentes na construção curricular cotidiana. Compreender o papel dos saberes docentes na construção curricular cotidiana. Introdução Os currículos escolares são formulados a partir de leis e normas definidas nas três instâncias de poder – federal, estadual e municipal – sempre com base em uma legislação que o transcende e visando a normatizar e estruturar os sistemas de ensino, assegurando que os padrões mínimos de escolarização, de ensino e aprendizagem, definidos em lei sejam cumpridos, garantindo a efetivação do direito de aprender a toda a população em idade escolar. Essas definições formais, no entanto, não são suficientes para se compreender o que se passa em diferentes espaços educativos, escolas de diferentes níveis e modalidades de ensino. Isso porque, para além daquilo que é definido formalmente em diferentes propostas curriculares, cada espaço educativo tem suas especificidades e estas influenciam as práticas curriculares cotidianas que neles são desenvolvidas. Escolas grandessão diferentes de escolas pequenas, escolas periféricas diferem das metropolitanas, entre muitas outras variações, muitas não classificáveis, mas influenciadoras dos currículos, ainda assim. Nesse sentido, pode-se afirmar que, em diferentes cenários educacionais, os currículos efetivados vão variar. Portanto, para compreender esses processos de adaptação curricular é necessário interrogar o cotidiano escolar, compreendendo que o que se passa nas escolas não é apenas aplicação das normas previstas e estabelecidas legalmente. Cada circunstância local, social, política, cultural e outras, interfere no modo como o que está formalmente estabelecido vai ocorrer na realidade. 1 A escola e as realidades dos processos pedagógicos Ao final deste módulo, você será capaz de reconhecer as distinções entre os modos oficiais de perceber a escola e as realidades dos processos pedagógicos. Currículos e cotidianos escolares Iniciaremos buscando o entendimento do que é currículo! Etimologicamente, a palavra currículo, oriunda do latim currere, significa caminho, jornada, trajetória, percurso a seguir. Profissionalmente, fala-se em curriculum vitae, também abreviado para CV ou apenas currículo, que mantém o significado original da palavra latina, constituindo um documento de tipo histórico, o qual relata o caminho, a jornada, a trajetória de vida de uma pessoa. Ou seja, um breve resumo das experiências profissionais e educacionais de uma pessoa, como forma de demonstrar suas habilidades e competências. No campo educacional, por sua vez, o termo currículo é usado, originariamente, para designar os conteúdos de uma disciplina, o programa de um curso inteiro ou, mais amplamente, como uma forma de apresentar diferentes atividades educativas por meio das quais os conteúdos educacionais são desenvolvidos, e materiais e metodologias utilizados. Afinal, quando surgiram os estudos sobre currículo? Inicialmente, os estudos do currículo surgiram nos Estados Unidos, dedicando-se a refletir sobre a organização do processo educativo escolar, abordando, fundamentalmente, o que se deveria ensinar e, no caso de alguns autores, como seria melhor fazê-lo. John Franklin Bobbitt (1918). Nesse período, final do século XIX e, sobretudo, a partir dos anos 1920, um número considerável de educadores passou a se debruçar com mais afinco sobre as questões curriculares, criando esse campo de estudos no contexto da reflexão educativa. A primeira sistematização do currículo como disciplina foi apresenta pelo educador americano John Franklin Bobbitt em 1918. Ele era representante dos pesquisadores que pensavam na eficiência da escola e trouxe essa perspectiva para o campo do currículo, com forte influência do processo de industrialização e massificação do ensino. Na concepção desse autor, os estudantes deveriam ser processados como um produto industrializado, numa compreensão fordista da escola, com ênfase na boa administração. Nesse contexto, o sistema educacional deveria funcionar como uma fábrica, como uma empresa, e o currículo deveria se pautar na especificação clara de objetivos, na seleção de conteúdos necessários ao alcance de forma eficiente dos objetivos e na definição de procedimentos que otimizassem resultados que pudessem ser precisamente mensurados (SILVA, 1999). Os critérios que definiriam os currículos, nessa perspectiva, exigiam “precisar objetivos e obter, pelas ações minuciosamente conhecidas e fragmentadas, a eficiência e a eficácia” (MACEDO, 2013, p. 35). Tal compreensão “transformou-se no método eleito e no caminho aceito científica e academicamente para se obter a formação relevante para o contexto americano emergente” (MACEDO, 2013, p. 35). Assim, o currículo passou a ser visto como processo de racionalização de resultados educacionais, cuidadosa e rigorosamente especificados e medidos. Com o passar do tempo o campo do currículo evoluiu, veja dois marcos desse processo: chevron_left chevron_right chevron_left1 de 2chevron_right Quando nos debruçamos sobre o estudo do campo do currículo nos modos como se manifesta nos cotidianos, faz-se necessário ressaltar a perspectiva crítica e sociológica do campo, que foi sendo desenvolvida a partir, sobretudo, da segunda metade do século XX. Assim, essa perspectiva tecnicista de compreensão dos currículos passou a ser questionada, com proposições e abordagens distintas apresentadas pelas chamadas teorias críticas do currículo, baseadas nas concepções marxistas e também nos ideários da Escola de Frankfurt (Max Horkheimer e Theodor Adorno), como também pelos autores da chamada Nova Sociologia da Educação (com destaque para Michael Young) Assim, começa-se a reconhecer que o currículo é uma “arena política” em que coexistem relações de cultura e poder e é nesse sentido que estudá-lo em seus desenvolvimentos reais, locais, em diferentes cotidianos pode potencializar sua compreensão. Entram em jogo as teorias curriculares pós-críticas, dentre as quais se pode reconhecer a presença dos estudos do currículo como criação cotidiana. Dessa maneira, as chamadas teorias curriculares pós-críticas, que surgem a partir da década de 1980, com base nos princípios da fenomenologia, do pós-estruturalismo e do multiculturalismo, trazem um novo movimento ao campo ao colocar a diferença como sua característica principal. Nesse contexto, entra no campo das questões curriculares a perspectiva da cultura como um movimento de relações e lutas, e não somente os conteúdos estabelecidos em uma grade curricular. O multiculturalismo também emerge como tema importante e passa a ser um conceito relacional, que se estabelece, portanto, a partir das relações de poder entre os diferentes grupos socioculturais. Desse modo, mais do que a realidade social dos indivíduos, o currículo precisa abarcar os conflitos de raça, gênero, orientação sexual e todos os elementos próprios das diferenças entre as pessoas, para não permitir que o currículo legitime “através da seleção de conteúdos, atividades e valores, determinadas visões de mundo e de cultura, em detrimento de outras” (MACEDO, 2013, p. 62). Numa perspectiva mais atual e crítica: O currículo precisa ser concebido numa ação coletiva, uma construção social, autorias singulares e plurais. Ivor Goodson (1998) vai ainda mais longe; ele compreende o currículo como uma “tradição inventada”, como um artefato socioeducacional que se configura nas ações de conceber/selecionar/produzir, organizar, institucionalizar, implementar/dinamizar saberes, conhecimentos, atividades, competências e valores visando a dada formação, configurada por processos e construções constituídos na relação com o conhecimento eleito como educativo. (MACEDO, 2013, p. 24) Trataremos, em breve, sobre currículo instituído e instituinte. Currículo instituído Mais do que um conjunto coordenado e ordenado de matérias, o chamado currículo instituído, determinado previamente pelo poder público, passou a ser visto como uma construção social, formado por uma estrutura voltada a uma perspectiva libertadora e conceitualmente crítica em favorecimento das massas populares. Tais práticas curriculares passaram a ser vistas como um espaço de lutas no campo cultural e social, deixando de lado a neutralidade típica das ideias convencionas de até então. Sendo assim, o currículo passou a ser entendido como uma construção social e, portanto, abandonou a retórica da neutralidade, passando a evidenciar o momento histórico, político, econômico em que se encontra inserido, direcionando o conhecimento a ser transmitido e as formas que serão utilizadas no meio escolar, numa construção do chamado currículo instituinte. Currículo instituído e instituinte Mais do que um conjunto coordenado e ordenado de matérias, o chamado currículo instituído, determinado previamente pelo poder público, passoua ser visto como uma construção social, formado por uma estrutura voltada a uma perspectiva libertadora e conceitualmente crítica em favorecimento das massas populares. Tais práticas curriculares passaram a ser vistas como um espaço de lutas no campo cultural e social, deixando de lado a neutralidade típica das ideias convencionas de até então. Sendo assim, o currículo passou a ser entendido como uma construção social e, portanto, abandonou a retórica da neutralidade, passando a evidenciar o momento histórico, político, econômico em que se encontra inserido, direcionando o conhecimento a ser transmitido e as formas que serão utilizadas no meio escolar, numa construção do chamado currículo instituinte. Vejamos dois aspectos desses currículos: Instituído Diz respeito ao que é formalmente estabelecido, às normas institucionais. close Instituinte Se define exatamente como o que se contrapõe ao que é instituído. Para esclarecer melhor esses pontos analisaremos três importantes conceitos. Veja: 1. flag Análise institucional Segundo Lorau, a análise institucional possui forças, qualidade de instituinte entrando em contradição com o já instituído, produto de uma imobilidade a ser quebrada com tal intervenção, considerada: Uma nova forma de penetrar na vida cotidiana dos estabelecimentos de saúde, de educação, da Igreja etc. A análise institucional é feita com os atores sociais em seu campo de atuação, uma vez que são considerados os maiores conhecedores da realidade. (TILMAN, 2005) 2. flag Diferenciação: instituição de estabelecimento ou espaço geográfico Lorau (1993) diferencia, em seus estudos, instituição de estabelecimento ou espaço geográfico. Entende que, em diferentes instituições, há, além das normas em vigor, que disciplinam, buscam controlar e submeter os seus sujeitos, “forças instituintes que contribuem para a desconstrução das relações existentes, propiciando o desocultamento de questões que contribuirão para a sua transformação e até mesmo, para sua dissolução”, diz Silva (2009, p. 3). Portanto, o conceito de instituição não designa coisas passíveis de serem vistas, sólidas, concretas. [...] trata-se de um conceito produzido por (e para) análises coletivas" (LORAU, 1993, p. 61). O autor toma o conceito de instituição como um modelo teórico que possibilita a compreensão dos acontecimentos que se dão e podem ser observados tanto em uma casa, como em uma escola, em uma fábrica, ou em um hospital. A instituição é vista, assim, como campo de análise e como campo de intervenção, considerando as suas contradições. (SILVA, 2009, p. 3) 3. flag O debate entre currículos instituído e instituinte A partir disso e com o desenvolvimento crescente de pesquisas com os cotidianos, o debate entre currículos instituído e instituinte – que teve certo destaque nos anos 1970 – ganha novos sentidos, já que na perspectiva desses estudos, há sempre algo de instituinte nos currículos reais desenvolvidos nas escolas. Cenário do "instituinte ordinário", trabalho de auto-organização e de instituição do dia a dia, o ambiente escolar abriga em seu espaço, contradições e acontecimentos de uma ordem social e histórica em que se entrecruzam diferentes modos de ser, de pensar, de agir e de compreender a si e ao mundo. (SILVA, 2009, p. 3) Nesse contexto são criados currículos locais. Os estudos dos cotidianos reconhecem, nos sujeitos das escolas, criadores ativos de currículos em perspectiva instituinte e percebe que, em muitos casos, esses mesmos sujeitos se reconhecem como tais. O uso dessa perspectiva de compreensão do campo para conceber os currículos instituídos e instituintes nos ajudará a compreender a noção de currículo como criação cotidiana nas/das escolas, que passa a ser relevante, já que o currículo instituinte pode ser considerado como “tudo aquilo que acontece na escola”, levando-se em consideração, nesse sentido, os saberes que foram, por bastante tempo, negligenciados: os saberes docentes e discentes. Enquanto isso, instituídos são os currículos formais, pré- definidos, formalmente formulados e aprovados como norma institucional. report_problem Atenção Cabe lembrar que esse debate não nos deve levar a conceber instituintes possíveis a partir do nada, já que todo instituinte parte de uma crítica ao instituído, ou de compreensões iniciais e premissas, também estabelecidas, e resulta em um instituído. Assim, ao mesmo tempo, os instituídos são, sempre e necessariamente, produtos de momentos instituintes. O que isso significa? Isso significa dizer que, mais do que uma oposição entre bom e ruim, entre autoritário e democrático ou mesmo entre processo (instituinte) e produto (instituído), estamos diante de uma espiral de criação/consolidação/crítica permanente, na qual momentos se sucedem e dialogam entre si. A relação entre a noção de currículo instituinte e currículo como criação cotidiana, alimentada pela compreensão de que, em ambos os casos trata-se de fazer dialogar as normas representadas pelo instituído com as especificidades circunstanciais e as possibilidades locais. Esse caminho permite, portanto, uma intervenção educativa em contexto escolar mais aberta, prazerosa e dialógica, que propicia o exercício do protagonismo pelos sujeitos das escolas, tanto no ato de aprender como no ato de ensinar, uma maior abertura do canal de comunicação entre os atores sociais que constroem os currículos reais, no cenário escolar e uma maior possibilidade de trabalho, análise e interpretação dos conteúdos culturais presentes em todo currículos, instituído ou instituinte, e os diálogos possíveis entre eles. Desse modo, a ideia de currículo instituinte suscita a superação da percepção do currículo como uma lista engessada de saberes ensinados, historicamente, atendendo sempre aos interesses sociais, econômicos e políticos hegemônicos. Como formação humana, o que se busca é garantir aos estudantes o direito a uma formação completa para a compreensão e ação no mundo, dignamente integrada política, social e culturalmente. Para tal, currículos instituintes, criados cotidianamente, ao considerarem diferentes saberes, muitos deles historicamente oprimidos, silenciados ou rejeitados, potencializam essa formação. Cotidianos no campo curricular: da “caixa preta” ao currículo como criação cotidiana O que é preciso saber sobre o cotidiano no campo do currículo? Os estudos do cotidiano no campo do currículo se inscrevem, portanto, na perspectiva de crítica ao modelo curricular hegemônico, mas, diferentemente de outras tendências, se ocupa mais de buscar compreender o que fazem com essas normas os “praticantes” (CERTEAU, 1994) dos cotidianos escolares em suas diferentes realidades escolares, sociais, políticas e econômicas do que em analisar as normas curriculares ou suas inspirações políticas, sociais e epistemológicas. O que é currículo? O currículo é uma práxis antes que um objeto estático emanado de um modelo coerente de pensar a educação ou as aprendizagens necessárias das crianças e dos jovens, que tampouco se esgota na parte explícita do projeto de socialização cultural nas escolas. É uma prática, expressão, da função socializadora e cultural que determinada instituição tem, que reagrupa em torno dele uma série de subsistemas ou práticas diversas, entre as quais se encontra a prática pedagógica desenvolvida em instituições escolares que comumente chamamos de ensino. Nesse sentido, devemos considerar que: O currículo é uma prática na qual se estabelece diálogo, por assim dizer, entre agentes sociais, elementos técnicos, alunos que reagem frente a ele, professores que o modelam. (SACRISTÁN, 2000, p. 15-16) Nesse contexto, como os currículos são percebidos na criação cotidiana dos praticantes? A partir das convicções epistemológicas e políticas que embasam as pesquisas nos/dos/comos cotidianos, é possível considerar que os currículos podem ser percebidos como criação cotidiana dos praticantes (CERTEAU, 1994) das escolas, e, mais do que isso, como contribuições da escola à tessitura da emancipação social democratizante, tal como defendida por Boaventura de Sousa Santos (2004), o qual percebe a emancipação social como possibilidade de criação de relações mais ecológicas entre diferentes conhecimentos, temporalidades, culturas, escalas e sistemas de produção (SANTOS, 2004), por meio da superação das monoculturas hegemônicas nas sociedades ocidentais da atualidade, considerando indissociáveis o campo do epistemológico e do político. Compreendidos como criação invisibilizada pelo pensamento educacional hegemônico, os currículos praticados (OLIVEIRA, 2003), aqueles criados nos cotidianos das escolas – que, seguindo a argumentação aqui desenvolvida sobre a indissociabilidade prática/teoria/prática, reflexão/ação, seriam melhor nomeados como pensadospraticados – podem e merecem ser estudados, de modo que os compreendamos para daquilo que neles obedece ao status quo, e que se impõe como norma. Esses processos permitem a desinvisibilização e possível multiplicação de experiências emancipatórias desenvolvidas nas escolas, por docentes a quem são historicamente negados o reconhecimento por suas criações cotidianas e de sua competência profissional. Muitas vezes reconhecidos como meros transmissores de conhecimentos produzidos em instâncias “superiores”, esses profissionais são criadores de currículos que contribuem para a formação cidadã, para a ampliação da justiça cognitiva e social e, com isso, para a emancipação social. A “caixa preta”: processos curriculares e criações cotidianas A imensa maioria dos estudos curriculares não considerava, até o início dos anos 1950, o que acontecia nas escolas como informação relevante para o campo do currículo. Vamos compreender o motivo desse acontecimento? Isso ocorreu porque, na perspectiva tecnicista da época, as teorias deveriam se aplicar às práticas, o que equivale a dizer que as propostas curriculares formuladas por teóricos do campo e autoridades educacionais deveriam ser implantadas e seguidas pelas escolas. Seguindo a noção de que as propostas eram o input e os resultados obtidos o output, o processo era considerado menos importante. Problemas nos resultados exigiriam mudança nas propostas. No entanto, outra compreensão desses problemas passou a ser considerada mais válida do que a anterior e passou-se a compreender, majoritariamente, que o problema de insuficiência de aprendizagens esperadas deveria ser tributado às incapacidades daqueles que estavam nas escolas. Isto é, o que não se podia examinar – a vida cotidiana das escolas – era reconhecido como a fonte dos problemas, já que a incapacidade de desenvolvimento de boas práticas estaria naqueles que, sem suficiente conhecimento técnico-científico, não davam conta de aplicar as propostas que lhes chegavam. Ou seja, a vida cotidiana nas escolas era identificada como uma espécie de “caixa preta”, numa analogia com a mecânica, a tecnologia lógica, ou com objeto presente no avião – que pode dar pistas e informações sobre o voo, – a teoria de sistemas na área de administração, educacional e escolar. Vejamos duas abordagens importantes desse processo: A noção de “caixa preta” e seus aspectos hegemônicos Do ponto de vista das iniciativas oficiais em educação, embora sem que se explicite isso, a noção de “caixa preta” se mantém hegemônica. Com o uso dessa metáfora, procura-se indicar a impossibilidade de se conhecer, de fato, o que acontece nas escolas, sustentando, ao mesmo tempo, a ideia de que certas aproximações possíveis não poderiam contar com nada além da inventividade dos que desejam se dedicar a esse estudo, já que não é possível acessar, de modo confiável, o que se passa nesses cotidianos. Além disso, os que assim denominam ou compreendem os cotidianos escolares, como uma “caixa preta”, afirmam que aqueles que os estudavam/estudam, o fazem de forma necessariamente insuficiente e por isso defendem que, não importando o que se passa no interior da “caixa preta”, a intervenção no sistema deve se dar sobre os planos de entrada (inputs), a partir de uma realimentação com dados obtidos na finalização do processo anterior (feedback), possível através da avaliação dos indicativos fornecidos pelos resultados de saída (outputs). A aplicação das provas de final de ciclos e cursos, como se faz em nosso país e tantos outros, nos fornece uma concretização desse “modelo” (ALVES, 2003, p. 63-64). A superação da dicotomia teoria-prática A superação da dicotomia teoria-prática tornou-se importante para este campo de estudos, já que, sendo sujeito da escola e praticante da vida cotidiana (CERTEAU, 1994), o professor, mais do que apenas um repetidor ou transmissor de conteúdos curriculares formulados por especialistas, passa a ser percebido como alguém que, ao usar as normas, o faz de modo próprio. Assim sendo, este passa a ser percebido como sujeito ativo na criação curricular e, por isso, responsável pelo seu próprio trabalho. Com isso, a ideia do professor como pesquisador de sua prática passou a ganhar adeptos, entendendo-se que ele é o sujeito capaz de questionar, identificar e analisar suas práticas através de processos de pesquisa, além de intervir cotidianamente no que acontece no ambiente escolar. Além disso, as pesquisas nos cotidianos começaram a abordar a necessidade de se compreender a realidade escolar, sem julgamentos de valor, mas com o entendimento de que o que nela se faz e se cria precisa ser concebido como uma saída possível, em cada contexto específico, encontrada por quem nela trabalha, estuda ou convive de alguma maneira. Sendo assim, a partir de tais influências, os estudos do cotidiano se fundamentam, também, em uma crítica ao modelo de ciência moderna. Nesse contexto, qual foi a relação do modelo de ciência moderna com os conhecimentos cotidianos? O modelo de ciência moderna, que, para se “construir”, acabou por considerar os conhecimentos cotidianos como saberes menores, como “senso comum” a ser superado de alguma forma. Tal perspectiva, no entanto, não compreende os múltiplos sentidos e usos que fazem das normas os praticantes dos cotidianos e, por isso, mantém uma postura equivocada sobre o que é ou não fazer ciência, limitando-a a determinados procedimentos e compreensão dos processos de conhecer. Procurando, então, superar esse modelo de ciência moderna, é necessário provocar reflexões com o intuito de tecer respostas diferentes das hegemônicas, avançando na compreensão do que são os estudos nos/dos cotidianos, inserindo nesta esfera os processos sociais que foram negligenciados pelo fazer científico moderno, como as criações cotidianas de usos de produtos e normas pelos praticantes da vida diária. São práticas curriculares instituintes que, cotidianamente, são criadas pelos sujeitos das escolas, praticantes do cotidiano escolar. Compreendendo esses acontecimentos, adiante abordaremos sobre a ação do currículo como criação cotidiana. Currículo como criação cotidiana Atualmente, os estudos no campo do currículo no Brasil dialogam com diferentes teorias sociais e abordagens sociológicas e filosóficas, inscrevendo-se, assim, em diferentes tendências de pensamento educacional. Nesse contexto de pluralidade e riqueza de conteúdos, se inscrevem (FERRAÇO; OLIVEIRA; PEREZ, 2008): Reflexões As reflexões acerca dos cotidianos das escolas. Concepção de currícuo A concepção de “currículo como criação cotidiana”. Metodologia de pesquisa As metodologias de pesquisa que os sustentam, como a “pesquisa nos/dos/com os cotidianos”. Contudo, embora as contribuições das pesquisas nos/dos/com os cotidianos tenham sido significativas para ocampo do currículo nos últimos quinze anos, ainda são muitos os mal-entendidos que rondam tais pesquisas. Por esta razão, torna-se importante esclarecer alguns pontos em torno delas, sobretudo para que se compreenda a própria noção de currículo como criação cotidiana. Assim, faz-se necessário esclarecer que foi a partir da incapacidade de se compreender as escolas a partir de teorias e métodos de pesquisa tradicionais, como já visto, e com as hierarquizações por elas produzidas, que as pesquisas nos/dos/com os cotidianos das escolas se desenvolveram, conquistaram espaço e chegaram a muitas compreensões, dentre elas a de que os currículos são criados, cotidianamente, pelos sujeitos da escola, muito além daquilo que se prevê e se normatiza como “o currículo”. Tais estudos globais e desvinculados das realidades escolares sempre mantiveram um forte desconhecimento acerca do que circulava, na prática, nas escolas, e o incômodo gerado precisava ser resolvido por outras formas de pesquisar e de compreender os currículos. Desse modo, os cotidianistas desejavam não apenas conhecer e apontar superficialmente os problemas escolares, mas compreendê-los como potencialmente aperfeiçoáveis, sendo necessário, portanto, novos modos de se pesquisar a escola, inexistentes até então. Modos que valorizassem o saber da prática, do cotidiano, do que é praticado na rotina da escola por seus sujeitos, seus praticantes. O currículo como criação cotidiana se insere como uma possibilidade de se pensar os currículos pensadospraticados nas escolas a partir das vivências dos praticantespensantes do cotidiano escolar. Dessa forma, destacacamos três aspectos importantes (OLIVEIRA, 2016): chevron_left chevron_right chevron_left1 de 3chevron_right Sendo assim, podemos compreender os currículos pensadospraticados muito além de seus aspectos organizáveis, quantificáveis e classificáveis, distante do que neles é repetição, é esquema, é estrutura. Torna-se possível, portanto, conhecer os modos como se tecem, as circunstâncias sob as quais são desenvolvidos e que neles interferem, compreendendo-os em sua complexidade e processos constitutivos. É por isso que se torna necessário mergulhar nos cotidianos das escolas, envolvendo-se com suas múltiplas e complexas realidades e problemas concretos que exigem a reinvenção curricular permanente. A partir desse mergulho, procuramos, nos diversos e múltiplos cotidianos, mais do que as marcas das normas supostamente estabelecidas e percebidas hegemonicamente, que ditam o formato das prescrições curriculares. Buscamos, sobretudo, “as marcas das operações dos praticantespensantes dos cotidianos escolares, das opções tecidas nos acasos e situações nas quais a vida cotidiana acontece, os processos de enredamentos entre conhecimentos, valores, sujeitos em interação, que dão vida e corpo às propostas curriculares, criando currículos cotidianamente” (OLIVEIRA, 2016, p. 103-104). video_library Currículo e cotidiano: definições Neste vídeo, a especialista apresenta esclarecimentos sobre o currículo escolar e seu cotidiano. playlist_play Vem que eu te explico! Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar. 2:23 min. Módulo 1 - Vem que eu te explico! Currículo instituído. 2:37 min. Módulo 1 - Vem que eu te explico! Cotidianistas e a pesquisa em currículo. emoji_events Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 O currículo é um processo que tem uma origem genérica e que se consolidou como um campo fundamental dos estudos pedagógicos. Sua formulação passa pelo entendimento de que existe um currículo instituído. Sua definição é: I - Mais do que um conjunto coordenado e ordenado de matérias, o chamado currículo instituído, determinado previamente pelo poder público, deve ser visto como uma construção social. II - Formado por uma estrutura voltada a uma perspectiva libertadora, a única tendência que permite a adoção de uma estrutura curricular e conceitualmente crítica em favorecimento das massas populares. III - Tais práticas curriculares passaram a ser vistas como um espaço de lutas no campo cultural e social, deixando de lado a neutralidade típica das ideias convencionas de até então. Está(ão) correta(s) a(s) afirmativa(s): Questão 2 Uma vez compreendido para além de uma grade ou de uma ordem, o currículo é construído pelas relações. Nessa perspectiva passamos a tratar o Currículo como uma criação cotidiana. O que se entende do Currículo como criação cotidiana? I - Os estudos no campo do currículo dialogam com diferentes teorias sociais e abordagens sociológicas e filosóficas, inscrevendo-se, assim, em diferentes tendências de pensamento educacional. II - Há, assim, uma singularidade e linearidade dos conteúdos que o currículo precisa observar para construir um valor nacional. III - O currículo se inscreve nas reflexões acerca dos cotidianos das escolas e, de maneira específica, traz para dentro do currículo as questões do cotidiano. Está(ão) correta(s): Avalie o módulo starstarstarstarstar 2 Currículos por projetos e suas possibilidades Ao final deste módulo, você será capaz de conhecer os currículos por projetos e suas possibilidades de adequação a diferentes modalidades de escolarização. O desenvolvimento do currículo por projetos de trabalho Currículo e cotidiano: além dos muros limitados Já reparou quantos muros tem na escola: os físicos externos, as paredes de separação, as salas, as disciplinas, tudo cartesiano, recortado. Mas será que precisa ser assim? Vamos refletir sobre essa realidade e esses muros! Quando se propõe compreender os currículos como criação cotidiana das escolas em meio a processos de negociação entre as normas curriculares e as especificidades locais, perceber os motivos e argumentos em favor de tantas propostas pedagógicas voltadas às realidades escolares que defendem a adaptação das propostas formais a elas se torna mais fácil. Se em nenhum local os currículos podem ser somente aplicação ou implementação de uma proposta formal escrita, é normal e mesmo necessário que os espaços escolares busquem, ao compreender-se em suas características e necessidades, a construção de propostas pedagógicas específicas. A própria legislação prevê essas possibilidades, que compreendem inúmeras iniciativas, no Brasil e no exterior, e que buscam adequar as exigências formais do sistema educacional às possibilidades e necessidades locais. Os currículos por projetos como forma de organização curricular O currículo pode, então, ser considerado um conjunto de valores e práticas que proporcionam a produção e a socialização de significados no espaço social e que contribuem, intensamente, para a construção de identidades sociais e culturais dos estudantes. Da mesma forma, o currículo deve difundir os valores fundamentais do interesse social, dos direitos e deveres dos cidadãos, do respeito ao bem comum e à ordem democrática, bem como considerar as condições de escolaridade dos estudantes em cada estabelecimento, a orientação para o trabalho, a promoção de práticas educativas formais e não formais (CNE/CEB 07/2010, p. 24). A seguir destacaremos passos importantes para essa construção: 1. flag Organização do tempo curricular: educação básica Na educação básica, a organização do tempo curricular precisa, portanto, levar em consideração as peculiaridades do meio e as características próprias da população atendida, não podendo se restringir à sala de aula e aos conteúdos dos livros didáticos. 2. flag Itinerário formativo O itinerário formativo deve ser aberto e contextualizado, incluindo os componentes curriculares obrigatórios, como também — conforme os componentes flexíveis e variáveis que possibilitem percursos formativosque atendam aos inúmeros interesses — necessidades e características de seus alunos e professores. 3. flag Abordagens curriculares Na organização do currículo é preciso ampliar ainda mais os horizontes com abordagens disciplinar, pluridisciplinar, interdisciplinar e/ou transdisciplinar, as quais revelam a visão de mundo que deve orientar as práticas pedagógicas dos educadores e organizam o trabalho do aluno (cf. NICOLESCU, 2000, p. 17). Esse tipo de proposta pode ser contemplado pela implantação dos currículos por projetos, visto que, neste tipo de organização há a busca de respostas adequadas e soluções locais, conforme a especificidade dos espaços, das culturas, das possibilidades e necessidades daquela população e daquela escola. 4. flag Processos decisórios Neste sentido, os processos decisórios ocorrem ao longo do próprio formular da proposta e se relacionam com as normas curriculares gerais, sem serem por ela aprisionados. Importante ressaltar que todo projeto precisa estar relacionado aos objetivos e conteúdos definidos formalmente, para não perder o sentido do que se quer alcançar ao formulá-lo como escolha local. O educador espanhol Fernando Hernández – em parceria com Monserrat – baseado nas ideias de John Dewey, filósofo e pedagogo estadunidense, em seu livro A organização do currículo por projetos de trabalho, considera o processo de conhecimento como um caleidoscópio formado pela relação necessária da vida com a sociedade em que se vive, da mesma forma em que os meios se relacionam com os fins, e a teoria com a prática. Assim sendo, a ideia que preside a proposta dos currículos por projetos é, precisamente, a de poder relacionar o que deve ser ensinado-aprendido com as realidades locais, a partir de temas de interesse coletivo. Desse modo, nos currículos por projetos, o professor troca o papel de “transmissor de conteúdos” para se transformar em um eterno pesquisador e parceiro do aluno, que por sua vez, se transforma num protagonista desse processo de ensino e aprendizagem. É a dúvida, a curiosidade coletiva, que constitui o mecanismo do qual se parte para a formulação de um currículo por projeto. É a partir de uma dúvida que a escola – ou a classe – inicia a pesquisa em busca de evidências sobre o assunto. A partir disso, conteúdos e objetivos que possam contribuir para a solução da dúvida de base são associados ao projeto, bem como os meios pelos quais se tenciona aprender os primeiros para dar conta dos segundos. Neste contexto, educadores e educandos participam do processo de criação, na busca de respostas e soluções. Ou seja, no currículo por projetos, a busca de respostas adequadas e soluções acertadas se torna o motor que movimenta o delineamento do processo. O processo se inicia, portanto, com: I - A definição coletiva dos temas e/ou problemas a serem abordados. II - Interrogações dirigidas ao tema. report_problem Atenção Ressaltamos que uma das características desse tipo de currículo é a integração entre disciplinas, já que todo conhecimento útil à solução do problema eleito e que possa contribuir com soluções adequadas será trazido ao estudo. Afinal, quais são os passos importantes para realização desse projeto? O importante é que o projeto como um todo precisa estar relacionado aos objetivos e conteúdos já conhecidos e definidos, mantendo a direção para não perder o rumo daquilo que deve ser ensinado e aprendido nas escolas. Em outras palavras, não se trata de uma proposta de trabalho sem limites e metas, que busca tão somente atender interesses e possibilidades locais. É uma forma de organização pedagógica da instituição e de trabalho com os currículos voltada ao diálogo entre os conhecimentos formais e as realidades locais. Promove a criação curricular local como meio de se chegar a metas globais, ou seja, respeitando conteúdos e metas elencados nos documentos oficiais. O objeto do currículo por projeto é: Relação escola x aluno Aproximar a escola do aluno possibilitando a troca de conhecimentos. Associação à pesquisa Se associar à pesquisa sobre o interesse do educando, à curiosidade e investigação dos fatos e temas da atualidade. Descentralização do saber Uma das importantes contribuições desta forma de organização curricular é combater a ideia de que há um dono do saber. Troca de conhecimentos Proclamar que nem professores ou mesmo a escola são donos do saber. A escola é, sem dúvida, uma instituição que se organiza em torno de saberes historicamente construídos e consolidados como relevantes na sociedade e que, portanto, devem ser conservados e difundidos. No entanto, também não se pode negligenciar novos saberes, que são criados a cada instante. Estamos na era da tecnologia e da globalização, e o ritmo das novidades, inclusive no campo dos saberes formais, é acelerado. Cabe às escolas buscarem incorporá-los aos seus cotidianos, o que fica bastante facilitado quando currículos por projeto estão em andamento, pela maleabilidade que possuem. Tal maleabilidade dos currículos por projetos permite o seu uso na estruturação de propostas curriculares voltadas a modalidades diferenciadas de Educação, como a educação de jovens e adultos, a educação indígena, entre outras. Isso porque essas modalidades, organizadas especificamente em função das características próprias dessas populações-alvo, não podem se distanciar das diretrizes nacionais e devem se adequar às possibilidades e necessidades desses públicos sem violentar suas tradições, especificidades culturais e sociais, limites e possibilidades de aprendizagem de cada um. O que isso significa? Significa dizer que, além das etapas – educação infantil, ensino fundamental e ensino médio, conhecidas de todos – a educação básica no Brasil integra diferentes modalidades destinadas a públicos específicos. E pensar na possibilidade do trabalho com projetos como meio de potencializar seus resultados é algo que pode contribuir para melhor compreensão, seja dos currículos por projetos, seja das diferentes modalidades que fazem parte da educação básica no Brasil, as quais não são poucas e buscam atender os direitos daqueles para quem não basta um ensino regular padronizado em torno das necessidades e direitos da maioria da população, já que possuem especificidades que exigem adequações. Modalidades da educação básica e currículos por projetos Nos termos do art. 208 da Constituição Federal, a educação básica é obrigatória e gratuita dos quatro aos dezessete anos de idade, assegurada inclusive sua oferta gratuita para todos os que a ela não tiveram acesso na idade própria (inciso I). Diferentes modalidades de educação básica estão elencadas na legislação nacional, sempre como dever do Estado e da família e direito dos sujeitos sociais, sejam eles quem forem. Assim, as diferentes modalidades seguem regulamentações próprias, mas todas se inscrevem nas normas gerais dos diferentes níveis da educação básica nos quais se inscreve. Segue um estudo básico dessas modalidades e de suas normas, úteis à reflexão curricular. Os cotidianos de algumas dessas modalidades – ou dessas populações –, elencadas neste item, podem exigir processos de adequação curricular, e a maleabilidade dos currículos por projetos pode ser bastante útil nessas circunstâncias, embora haja especificidades que, para serem contempladas, exijam mais do que projetos maleáveis, como será visto adiante. Educação especial O inciso 3º e seguintes do art. 208 da Constituição Federal garante atendimento educacional especializado aos portadores de deficiência, preferencialmente na rede regular de ensino, com acesso ao ensino obrigatório e gratuito como direito público e subjetivo. O Atendimento Educacional Especializado (AEE), previsto pelo Dec. 6.571/2008, é parte integrante do processo educacional, devendo os sistemasde ensino matricular os estudantes com deficiência, transtornos globais do desenvolvimento e altas habilidades/superdotação nas classes comuns do ensino regular e no AEE. Cabe às escolas organizarem-se para seu atendimento, garantindo as condições para uma educação de qualidade para todos, devendo considerar suas necessidades educacionais específicas, pautando-se em princípios éticos, políticos e estéticos. report_problem Atenção No caso da implantação de uma organização curricular por projeto, este deverá prever atividades, abordagens do tema e dos seus conteúdos afins de modo compatível com a inclusão dos estudantes com deficiência que porventura estejam na escola e na turma. Educação de jovens e adultos A Constituição Federal (art. 208, I) determina que o dever do Estado para com a educação será efetivado mediante a garantia de ensino fundamental obrigatório e gratuito, assegurada inclusive sua oferta gratuita para todos os que a ele não tiverem acesso na idade própria. Na organização curricular dessa modalidade da educação básica, a mesma lei prevê que os sistemas de ensino devem oferecer cursos e exames supletivos, que compreenderão a base nacional comum do currículo, habilitando ao prosseguimento de estudos em caráter regular. Entretanto, prescreve que, preferencialmente, os jovens e adultos tenham a oportunidade de desenvolver a educação profissional articulada com a educação básica (LDB, art. 37, § 3º). Talvez a EJA seja uma das modalidades em que conceber um currículo por projetos seja particularmente relevante. A questão social e cultural que envolve a modalidade, as experiências frustradas de escolarização em currículos amarrados disciplinarmente, desconsideração pelas suas culturas de origem na organização de conteúdos e na proposição de atividades de ensino. Educação profissional e tecnológica A educação profissional e tecnológica (EPT), em conformidade com o disposto na LDB, no cumprimento dos objetivos da educação nacional, integra-se aos diferentes níveis e modalidades de educação e às dimensões do trabalho, da ciência e da tecnologia. Dessa forma, pode ser compreendida como uma modalidade, visto que possui um modo próprio de fazer educação nos níveis da educação básica e superior e em sua articulação com outras modalidades educacionais: educação de jovens e adultos, educação especial e educação a distância – todas referidas neste item. Analisaremos algumas ações desse tipo de modalidade: 1. flag EPT na educação básica A EPT na educação básica ocorre na oferta de cursos de formação inicial e continuada ou qualificação profissional, e nos de educação profissional técnica de nível médio ou, ainda, na educação superior. 2. flag Cursos articulados com o ensino médio organizados na forma integrada No tocante aos cursos articulados com o ensino médio, organizados na forma integrada, o que está proposto é um curso único (matrícula única), no qual os diversos componentes curriculares são abordados de forma que se explicitem os nexos existentes entre eles, conduzindo os estudantes à habilitação profissional técnica de nível médio ao mesmo tempo em que concluem a última etapa da educação básica. 3. flag Cursos técnicos articulados com o ensino médio, ofertados na forma concomitante Os cursos técnicos articulados com o ensino médio, ofertados na forma concomitante, com dupla matrícula e dupla certificação, podem ocorrer na mesma instituição de ensino, aproveitando-se as oportunidades educacionais disponíveis; em instituições de ensino distintas, aproveitando-se as oportunidades educacionais disponíveis; ou em instituições de ensino distintas, mediante convênios de intercomplementaridade, visando ao planejamento e ao desenvolvimento de projeto pedagógico unificado. 4. flag Organização curricular da educação profissional e tecnológica por eixo tecnológico A organização curricular da educação profissional e tecnológica por eixo tecnológico fundamenta-se na identificação das tecnologias que se encontram na base de dada formação profissional e dos arranjos lógicos por elas constituídos. Por considerar os conhecimentos tecnológicos pertinentes a cada proposta de formação profissional, os eixos tecnológicos facilitam a organização de itinerários formativos, apontando possibilidades de percursos tanto dentro de um mesmo nível educacional quanto na passagem do nível básico para o superior. Os conhecimentos e habilidades adquiridos tanto nos cursos de educação profissional e tecnológica como os adquiridos na prática laboral pelos trabalhadores podem ser objeto de avaliação, reconhecimento e certificação para prosseguimento ou conclusão de estudos. Assegura-se, assim, ao trabalhador jovem e adulto a possibilidade de ter reconhecidos os saberes construídos em sua trajetória de vida. Educação a distância (EaD) A modalidade educação a distância (EaD) caracteriza-se pela mediação didático- pedagógica nos processos de ensino e aprendizagem com a utilização de meios e tecnologias de informação e comunicação, com estudantes e professores desenvolvendo atividades educativas em lugares e/ou tempos diversos. Embora tenha sua lógica própria, relacionada a plataformas Web e à possibilidade de atividades assíncronas, esta modalidade foi bastante utilizada durante a pandemia da covid-19, de modo emergencial, levando a alguma descaracterização da multiplicidade de suas especificidades e exigências próprias. settings Reflexão A EaD tem desempenhado importante papel no credenciamento para a oferta de cursos e programas de educação de jovens e adultos, de educação especial e de educação profissional e tecnológica de nível médio, modalidades que lhe são, portanto, complementares, já que em todas elas têm sido considerada uma possibilidade e, conforme as normas oficiais, compete aos sistemas estaduais de ensino, atendidas a regulamentação federal e as normas complementares desses sistemas, conceder a autorização para sua implementação. Modalidades para além dos projetos Conforme já dito, em algumas modalidades da educação básica, as especificidades das populações a serem atendidas transcendem a capacidade de adaptação de currículos definidos para o ensino regular. Essas modalidades são aquelas destinadas a populações que não seriam suficientemente atendidas apenas com projetos curriculares diferenciados, já que suas circunstâncias de vida, origens e práticas culturais e mesmo necessidades e possibilidades de aprendizagem dialogam mal com aquilo que consta das propostas curriculares oficiais do país, sejam diretrizes gerais ou a BNCC. Daí a necessidade de diretrizes próprias e da compreensão das especificidades desses públicos. Analisaremos como as modalidades da educação básica se comportam em relação às especificidades das populações: Do campo Educação básica do campo Indígena Educação escolar indígena Quilombola Educação escolar quilombola Educação básica do campo A educação para a população rural está prevista no art. 28 da LDB, em que ficam definidas, para atendimento à população rural, adaptações necessárias às peculiaridades da vida rural e de cada região. Nesta modalidade, a identidade da escola do campo é definida pela sua vinculação com as questões inerentes à sua realidade, ancorando-se na temporalidade e saberes próprios dos estudantes, na memória coletiva que sinaliza futuros, na rede de ciência e tecnologia disponível na sociedade e nos movimentos sociais em defesa de projetos que associem as soluções exigidas por essas questões à qualidade social da vida coletiva no país. Já em função dessas características, formalmente enunciadas, pode-se perceber a necessidade de se romper com as normas globais que regem a Educação Básica na modalidade regular e outras. Vejamos como a modalidade se adapta a essas questões:A legislação – e o bom senso – afirma, ainda, que as propostas pedagógicas das escolas do campo devem contemplar a diversidade do campo em todos os seus aspectos: sociais, culturais, políticos, econômicos, de gênero, geração e etnia. Formas de organização e metodologias pertinentes à realidade do campo devem, nesse sentido, ser acolhida. Assim, a pedagogia da terra busca um trabalho pedagógico fundamentado no princípio da sustentabilidade, para que se possa assegurar a preservação da vida das futuras gerações. Particularmente propícia para esta modalidade é a pedagogia da alternância (sistema dual), criada na Alemanha há cerca de 140 anos, atualmente difundida em inúmeros países, inclusive no Brasil, com aplicação, principalmente, no ensino voltado à formação profissional e tecnológica ao meio rural. Nesta metodologia, o estudante, durante o curso e como parte integrante dele, participa, concomitante e alternadamente de dois ambientes/situações de aprendizagem: o escolar e o laboral, não se configurando o último como estágio, mas, sim, como parte do currículo do curso – conforme um projeto de aprendizagem laboral. No sistema dual, a alternância pode ser de dias, na mesma semana, de blocos semanais ou, mesmo, mensais ao longo do curso. Supõe uma parceria educativa, em que ambas as partes são corresponsáveis pelo aprendizado e formação do estudante. É bastante claro que podem predominar, num ou noutro, oportunidades diversas de aprendizagens, com ênfases ora em conhecimentos formais, ora em habilidades profissionais, ora em atitudes, emoções e valores necessários ao adequado desempenho do estudante. Nesse sentido, os dois ambientes/situações são complementares. Educação escolar indígena Esta modalidade tem diretrizes próprias instituídas pela Resolução CNE/CEB 3/99, com base no Parecer CNE/CEB 14/99, que fixou Diretrizes Nacionais para o Funcionamento das Escolas Indígenas. A escola desta modalidade tem uma realidade singular, ainda mais pronunciada do que a escola do campo, já que inscrita em terras e cultura indígenas. Requer, assim, pedagogia própria em respeito à especificidade étnico-cultural de cada povo ou comunidade e formação específica de seu quadro docente, observados os princípios constitucionais, a base nacional comum e os princípios que orientam a educação básica brasileira (arts. 5º, 9º, 10, 11 e inciso VIII do artigo 4º da LDB). É, portanto, uma modalidade de múltiplas propostas, conforme a etnia e o local no qual a escola se inscreve. Na estruturação e no funcionamento das escolas indígenas é reconhecida sua condição de escolas com normas e ordenamento jurídico próprios, com ensino intercultural e bilíngue, visando à valorização plena das culturas dos povos indígenas e à afirmação e manutenção de sua diversidade étnica. As escolas indígenas desenvolvem suas atividades de acordo com o proposto nos respectivos projetos pedagógicos e regimentos escolares com as prerrogativas de: people_alt Organização Organização das atividades escolares independentes do ano civil, respeito ao fluxo das atividades econômicas, sociais, culturais e religiosas. close watch_later Duração Duração diversificada dos períodos escolares, ajustando-a às condições e especificidades próprias de cada comunidade. Essas escolas têm projeto pedagógico próprio, por escola ou por povo indígena, tendo por base as Diretrizes Curriculares Nacionais referentes a cada etapa da educação básica; as características próprias das escolas indígenas, em respeito à especificidade étnico-cultural de cada povo ou comunidade; as realidades sociolinguísticas, em cada situação; os conteúdos curriculares especificamente indígenas e os modos próprios de constituição do saber e da cultura indígena; e a participação da respectiva comunidade ou povo indígena. report_problem Atenção A formação dos professores é específica, desenvolvida no âmbito das instituições formadoras de professores, garantindo-se aos professores indígenas a sua formação em serviço e, quando for o caso, concomitantemente com a sua própria escolarização. Educação escolar quilombola Sem se diferenciarem muito das exigências colocadas à educação escolar indígena, a educação escolar quilombola é desenvolvida em unidades educacionais inscritas em suas terras e cultura, requerendo pedagogia própria em respeito à especificidade étnico- cultural de cada comunidade e formação específica de seu quadro docente, observados os princípios constitucionais, a base nacional comum e os princípios que orientam a Educação Básica brasileira. Na estruturação e no funcionamento das escolas quilombolas, deve ser reconhecida e valorizada sua diversidade cultural, e todas as exigências a ela relacionadas. video_library Amarrando os pontos: currículo por projetos Quando o currículo deve, pelo cotidiano, superar a concepção de currículo? Por que o currículo em projeto pode ser uma solução viável diante de demandas complexas da educação? Para entender esses e outros questionamentos, vamos ouvir a especialista. Currículo por Projetos Vem que eu te explico! Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar. Curriculo%20por%20Projetos.mp4 Módulo 2 - Educação por projeto. Módulo 2 - Adaptabilidade Educação por projetos – Educação Especial. Módulo 2 - Adaptabilidade Educação por projetos - EJA. O%20CURRÍCULO%20NO%20COTIDIANO%20ESCOLAR%20-%20MOD%202%20VE%201.mp4 O%20CURRÍCULO%20NO%20COTIDIANO%20ESCOLAR%20-%20MOD%202%20VE%202.mp4 O%20CURRÍCULO%20NO%20COTIDIANO%20ESCOLAR%20-%20MOD%202%20VE%203.mp4 O CURRÍCULO NO COTIDIANO ESCOLAR - MOD 2 VE 1.mp4 Módulo 2 - Adaptabilidade da Educação por projetos – indígenas e quilombolas. Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 O currículo é central para educação, ele é base e fundamento da transformação educacional, sem sua mensuração como fundamento e instituição não existe educação. Se tomarmos esse ponto como um princípio, podemos afirmar que o currículo se resume exclusivamente em bases legais e escritas? O%20CURRÍCULO%20NO%20COTIDIANO%20ESCOLAR%20-%20MOD%202%20VE%204.mp4 Questão 2 O currículo por projetos é uma solução estrutural para refletir sobre a demanda específica de educação. Nesse sentido, podemos afirmar a quem compete estabelecer as diretrizes curriculares para modalidades diversas? I – A União e a previsão de modalidades específicas da educação. II – Previsibilidade regional de demandas particulares de educação e sua introdução ao sistema regular de ensino. III – A sociedade civil que deve detectar suas demandas e criar projetos independentes das ações governamentais. IV – Entes federativos que atuam na organização da educação e refletem sobre a sua especificidade cotidiana. Estão corretas. 3 - O papel dos saberes docentes na construção curricular cotidiana Ao final deste módulo, você será capaz de compreender o papel dos saberes docentes na construção curricular cotidiana. Os saberes docentes na construção curricular cotidiana E você, professor? O professor aparece, no campo da Educação, como a figura de alguém que, antes de qualquer coisa, deve possuir algum saber e ser capaz de transmiti-lo a outros. Contudo, tal premissa vem sendo questionada em tempos recentes, pelo menos a partir dos anos 1980. A partir desse período, a compreensão de que saberes específicos, que ultrapassam essa possibilidade de ensinar pela mera repetição do que se sabe, vem ganhando protagonismo na compreensão do que caracteriza a profissão docente. Concretamente, os estudos sobre a profissão docente e a preocupação com a chamada profissionalidade docente e seus saberes específicos vêm questionando a premissa, antes hegemônica, segundo a qual ensinar seria apenas difundir saberesdisciplinares aos estudantes e que, portanto, uma pessoa que detenha os conteúdos será capaz de transmiti-los aos alunos. Nesse contexto, vejamos alguns acontecimentos relacionados a prática de profissionais docentes: Estudo da docência Sobretudo a partir dos anos 1980, numerosos autores, com destaque para Maurice Tardif e Clermont Gauthier, no Canadá; Antônio Nóvoa, em Portugal, entre muitos autores, inclusive brasileiros, como Selma Garrido Pimenta, vêm estudando a docência numa perspectiva de um ofício com saberes próprios, tecidos em diferentes espaços-tempos de formação, inclusive os cotidianos escolares. Adaptações curriculares Sejam as demandas que aparecem a partir do acelerado avanço das tecnologias da informação e da comunicação, que trazem a exigência de uma dinâmica formativa capaz de habilitar docentes para a rápida adaptação às novidades que surgem a todo momento, sejam as demandas do mercado de trabalho, que exigem adaptações curriculares permanentes, ou mesmo a pluralidade de situações com as quais os docentes se deparam e que precisam enfrentar cotidianamente, há, na docência, um movimento contínuo de aprendizagem e adaptação que passa a ser entendido como importante para a formação e a atuação docentes, levando a novas perspectivas de compreensão, também, da sua formação. Interrogações e investigações a respeito dos saberes necessários à prática docente Surgiram e se consolidaram interrogações e investigações protagonizadas pelo questionamento a respeito dos saberes necessários à prática docente e, evidentemente, à formação. Questiona-se que tipo de saber o profissional docente deve possuir, se ele deve ser somente um transmissor de conteúdos, se é capaz de produzir outros saberes, se possui algum papel de relevância na escolha dos saberes que circulam na escola, bem como se ele deve exercer alguma função em relação à produção dos saberes pedagógicos, dentre outros. Deixando de ser um mero transmissor de saberes produzidos e reconhecidos fora do campo docente e passando a ser reconhecido como detentor de saberes, docentes ficam ao mesmo tempo expostos a problemas concernentes às suas relações com os saberes próprios da docência, o quanto os dominam, como podem ser formados para melhor dominá-los. Após analisarmos esses resultados, é importante falarmos sobre a especificidade dos saberes docentes. A especificidade dos saberes docentes Tendo em vista a necessidade de evidenciar os saberes docentes em meio aos saberes sociais, é interessante ressaltar que todos os saberes, mesmo os novos, estão sujeitos a uma duração temporal que remete à história de sua formação e construção. Assim, todo saber implica um processo de aprendizagem e formação e está sujeito às modificações do tempo e da história. A relação dos docentes com os saberes não é feita somente a partir da mera transmissão de conhecimentos, como já mencionado. A prática docente integra diferentes saberes, com os quais o corpo docente mantém diversas formas de relação. Nesse sentido, o saber docente é definido como um saber plural, formado a partir de uma combinação de saberes profissionais, curriculares, disciplinares e experienciais, segundo Tardif (2014). A seguir, analisaremos as definições dos saberes profissionais, disciplinares e curriculares: Gauthier amplia e modifica essa compreensão de Tardif, elencando não mais um conjunto de quatro saberes, mas seis. Concretamente, pode-se dizer que duas categorias de Tardif se mantêm e outras duas são reestruturadas, dividindo-se. Ou seja, nenhuma grande transformação, mas uma maior precisão na classificação definida. Ainda assim, é importante notar a preocupação de Gauthier de deixar mais claras as definições. Exemplo: No que se refere aos SABERES DISCIPLINARES, — para ele “a matéria a ser ensinada” — Gauthier chama a atenção para o fato de que são saberes “produzidos pelos cientistas e pesquisadores, e não pelo professor”, sendo aprendidos nas universidades. Mantém-se a concepção de SABERES CURRICULARES, mas no caso dos SABERES PROFISSIONAIS, Gauthier os reclassifica, distinguindo os saberes das Ciências da Educação dos saberes da tradição pedagógica, uns de ordem mais teórica e outros mais metodológicos. Vamos refletir! Talvez a observação mais relevante, e a que mais interessa à compreensão da importância dos saberes docentes e de seu estudo para a compreensão das relações entre currículos e cotidiano escolar esteja na distinção entre SABERES EXPERIENCIAIS e os SABERES DA AÇÃO PEDAGÓGICA. No primeiro caso estão os saberes que representam a experiência docente e que, ao longo do tempo, acabam se transformando em hábito. Para o autor, estes trazem o risco de gerar concepções equivocadas da própria prática. E, separadamente, como um sexto tipo de saber, estão os saberes experienciais (Acredito que seja Saberes da Ação Pedagógica) que foram publicamente testados e validados pelas pesquisas, e assim constituem-se como saberes importantes para a fundamentação da educação e do ensino. No pensamento de ambos os autores, trata-se de evidenciar que há saberes que são elementos constitutivos da prática docente e que o professor precisa saber sua matéria, o programa do curso que ministra, sem deixar de possuir conhecimentos acerca das ciências da educação e da pedagogia. Mas o que efetivamente vai caracterizar a vida docente é o modo como cada professor desenvolve um saber prático em torno de sua experiência cotidiana com os alunos, que também envolve conhecimentos relacionados a saberes experienciais de outros, já reconhecidos como tais. Nesse cenário destacam-se dois pontos atenção: a postura do profissional-professor e da pessoa-professor. É aqui que a contribuição de Nóvoa amplia as possibilidades de compreensão dos modos como se constituem esses saberes. Rompendo com o entendimento dos saberes docentes apenas como um repertório de conhecimentos de que devem dispor os docentes, o autor realça a importância de se buscar compreender os saberes representados pelas experiências de vida dos professores, observando o profissional-professor também como pessoa-professor na abordagem de seus saberes experienciais postos em ação em seus fazeres docentes. Ou seja, a perspectiva de Nóvoa acrescenta a relevância das experiências pessoais – dentro e fora das escolas – para a constituição do docente e de seus saberes, perspectiva que ganha adeptos crescentemente e habita os estudos mais recentes sobre formação inicial e continuada de docentes. Para entramos no debate específico sobre a questão da formação docente, a partir desse reconhecimento da pluralidade de saberes que envolvem a docência e de processos de aprendizagens, que também ocorrem fora dos espaços de formação e de atuação docentes, algumas observações de Cardoso, Del Pino e Dorneles (2012) parecem relevantes. Referindo-se aos trabalhos de Gauthier e Tardif, eles afirmam a complexidade dos processos que tornam um professor o que ele é, construindo os saberes necessários à docência, marcado por diferentes períodos, diferentes vivências e experiências. Contextos de formação docente e alternativas possíveis de formação Historicamente, se considerarmos a formação docente e os inúmeros aspectos que a envolvem, é possível afirmar que o que chamamos de currículo oficial de formação é apenas um aspecto dessa formação, e bem menos relevante do que se acredita. Reconhecendo a pluralidade de conhecimentos que envolve o fazer docente e a necessidade de reconhecer a formação como plural e presente muito além do espaço das universidades e cursos de formação, recorremos a Alves (2015) e à noção de “contextos de formação” – inicialmente formulados como esferas de formação – na qual a pesquisadora esclarece que os diferentes contextos de formação “[...]se estabelecem dentro de uma rede intrincada de coerção, cooptação, conflito e contradição” (ALVES, 1986, apud ALVES, 2015, p. 66). Esses contextos, sempre entendidos como praticasteorias – junto e em itálico, como uma nova palavra que entende ambas como indissociáveis, e por isso expressas em uma só palavra e não como duas em aparente oposição – são definidos em nota de rodapé (ALVES, 2015, p. 65-66) como sendo “o das praticasteorias da formação acadêmica; o das praticasteorias pedagógicas cotidianas; o das praticasteorias das políticas de governo; o das praticasteorias coletivas dos movimentos sociais; o das praticasteorias das pesquisas em educação; o das praticasteorias de produção e “usos” de mídias; o das praticasteorias de vivências, nas cidades, nos campos ou na beira de estradas”. E a autora, então, esclarece que: Uma verdadeira “rede de relações” se estabelece entre as várias esferas, e ao pensarmos uma delas - no caso a esfera da formação acadêmica - só podemos fazê-lo entendendo a existência dessa rede e as tensões nela existentes. (ALVES, 2015, p. 66) Nesse sentido, é de extrema importância compreender as maneiras como, no cotidiano escolar, acontecem os movimentos de construção curricular e o modo como esses diferentes contextos de formação participam dos processos formais e experienciais de constituição da docência, em diferentes instâncias e contextos da formação. Portanto, vamos compreender que, como faz Oliveira (2012) ao falar da criação curricular cotidiana nas escolas, trazer a questão da construção cotidiana do currículo nos cursos de formação de profissionais da educação para discussão é imprescindível, e parte de um desejo de se encontrar alternativas realizáveis para a formação de professores, sobretudo para atuação na educação básica. E o que encontramos é um forte movimento que, desde o início dos anos 1980, busca formular uma perspectiva de formação que dialoga – mesmo que involuntariamente – com o pensamento dos autores citados sobre os saberes docentes. Contextos de formação docente e alternativas possíveis de formação É com a ajuda de Nilda Alves (2015), ainda, que trazemos esta história naquilo que ela tem de relevante para a reflexão atual sobre processos de formação docente que se adequem à compreensão dos saberes docentes como plurais e enredados e sua atuação também como espaço de formação. Adiante analisaremos os marcos importantes desse contexto: Organização do Comitê Nacional Pró-formação do Educador Situando o marco inicial deste debate na I Conferência Brasileira de Educação (CBE), na qual se organiza o Comitê Nacional Pró-formação do Educador, em 1980, a autora se refere a novembro de 1983, “ao final de um Encontro Nacional realizado pelo Ministério da Educação”, como o momento em que “é aprovado um documento, que nunca foi assumido oficialmente pelo MEC, no qual se explicita, pela primeira vez, a base comum nacional” (CNCFE, 1986 apud ALVES, 2015). Realização de encontros nacionais regulares A Comissão Nacional dos Cursos de Formação do Educador, que realiza encontros nacionais, inicialmente, antes ou durante encontros mais amplos, organizados, por outras associações, sempre de cunho nacional, e a seguir realizados autonomamente, especialmente após a fundação da ANFOPE. A defesa de uma formação articulada de diferentes profissionais de educação, com base na ideia de que “a docência constituiu a base da identidade profissional de todo educador” (CNCFE, 1983, p. 65 apud ALVES, 2015) é a base do trabalho que se segue a essa articulação. A autora identifica uma sucessão de avanços em encontros do período, em 1984 e 1986, porém em 1986 identifica “um aprofundamento importante ao serem estabelecidas aquelas que são entendidas como as três dimensões fundamentais e intrinsecamente relacionadas da formação”, que aparecem no documento de 1987 (CNCFE, 1987 apud ALVES, 2015). São elas: Dimensão profissional Requer um corpo de conhecimentos que identifique toda a categoria e, ao mesmo tempo, corresponda à especificidade de cada profissão. Como professores, devemos fluir num certo saber e num certo fazer. Dimensão política Aponta para a necessidade de que os profissionais formados pelas diversas licenciaturas sejam capazes de repensar e recriar a relação teoria-prática, o que pode se dar se tiverem uma formação que permita uma visão globalizante das relações educação-sociedade e do papel do educador comprometido com a superação das desigualdades existentes. Dimensão epistemológica Remete à natureza dos profissionais da escola, instituição social necessária à transmissão e à elaboração de um saber, em que o científico deve ter um espaço privilegiado. A base comum [nacional] deve, portanto, fundamentar-se em uma estrutura científica capaz de romper com o senso comum sem perder o núcleo do bom senso nele existente. (CNCFE, 1987, apud ALVES, 2015, p. 69-70). O que esse contexto histórico nos ensina? O que se pode notar pela leitura dessa história de uma proposta de formação docente dos anos 1980 é que ela dialoga com o reconhecimento dos saberes docentes em sua pluralidade e que o que se busca, no Brasil, a partir de estudos sobre processos de formação em andamento, é precisamente formar com e para essa pluralidade, em múltiplas dimensões e de modo articulado, docentes preparados para aprender sempre com suas experiências e as de seus alunos, de modo a assumirem seus saberes, desenvolvê-los e aperfeiçoarem suas práticas cotidianas. Assim, a discussão sobre o trabalho docente nas escolas, a especificidade dos saberes que o constituem, a formação docente e a necessidade de revalorização dessa profissão surge como desafio e perspectiva para pensar e debater interrogações que penetram tanto o universo escolar quanto o acadêmico de modos diferenciados. Atenção Estabelecer um diálogo entre modelo ideal e realidade aparece como uma poderosa ferramenta para o entendimento da vida docente, dos saberes e dos dilemas que a circundam, bem como dos desafios enfrentados e suas perspectivas de futuro. Desse modo, a compreensão do que é a escola e a educação estrutura tanto a escola quanto o sistema escolar e, ainda, ajuda a perceber as negociações de sentido que se instalam nos diferentes universos escolares específicos, ou seja, nas situações cotidianas nas quais estão atuando diferentes docentes. Deste fato surge, então, a importância de nos dedicarmos a entender as diversas realidades cotidianas, nos debruçando sobre o que fazem professores e alunos nas diferentes escolas, tornando-as reais, dialogando com o modelo e usando, de modos próprios, as regras que lhes são dadas para consumo (CERTEAU, 1994). É importante reiterar a continuidade da formação docente no chão da escola, no cotidiano que se constrói e se tece como uma rede de saberes entre os sujeitos que habitam e dão vida à instituição escolar, com seus saberes próprios, aprendidos nos diferentes contextos de formação e consolidados ao longo de suas trajetórias profissionais. Desse modo, a importância dessa reflexão para a discussão em torno da formação docente, seus fazeres-saberes e dos desafios que deles fazem parte se relaciona com a convicção de que, ao contrário do que supõem muitas autoridades educacionais, acadêmicas ou políticas, a prática docente não é mera repetição de fazeres previstos e ou planejados de fora das salas de aula, uma vez que ela se forja por meio do enredamento entre fazeres-saberes inseridos em diferentes contextos de formação. Você já ouviu falar sobre autoformação continuada coletiva? Ainda com relação aos processos de formação, atualmente, há em desenvolvimento outros estudos, pesquisas e perspectivas que, acatando as reflexões de autores cotidianistas em diálogo com o pensamentode Nóvoa, Tardif e Gauthier – naquilo que trazem sobre a pluralidade dos saberes docentes – vêm trabalhando com perspectivas de autoformação continuada coletiva, nas quais as experiências cotidianas – em atuação nas escolas ou na vida pessoal – são narradas coletivamente e dão origem a debates e reflexões úteis a uma formação que é, ao mesmo tempo contínua, coletiva e em rede. Os diferentes saberes, experiências, processos formativos e trajetórias de vida dos participantes dialogam uns com os outros, formando ao mesmo tempo em que coletivizam. Essas experiências, chamadas por grupos que as praticam como momentos de autoformação contínua, vêm se mostrando bastante importantes como meio de unir o reconhecimento das especificidades e pluralidade dos saberes docentes, a necessidade do diálogo permanente teoria-prática-teoria na formação e na atuação docentes. E você, professor? Neste vídeo, vamos discutir questões relacionadas aos saberes docentes e aos desafios da formação continuada. O%20CURRÍCULO%20NO%20COTIDIANO%20ESCOLAR%20MOD3%20VID1.mp4 Módulo 3 - Saberes docentes e o currículo. Módulo 3 - Teoria, prática e Currículo. O%20CURRÍCULO%20NO%20COTIDIANO%20ESCOLAR%20-%20MOD%203%20VE%201.mp4 O%20CURRÍCULO%20NO%20COTIDIANO%20ESCOLAR%20-%20MOD%203%20VE%202.mp4 Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 Discutimos currículos, metodologias, ensino, realidade dos alunos, mas e o professor? Com base nessa reflexão, quais saberes são necessários para o exercício da prática docente? I – Muitas interrogações são protagonizadas pelo questionamento a respeito dos saberes necessários à prática docente e são dessas dúvidas que surge um campo de constante investigação. II – Deve-se perceber os tipos de saberes que o profissional docente deve possuir, rompendo com a ideia de ser um transmissor de conteúdos, mas, sim, capaz de produzir outros saberes. III – Possui nenhum papel de relevância na escolha dos saberes que circulam na escola. IV – Deve exercer alguma função em relação à produção dos saberes pedagógicos, dentre outros. Estão corretas as afirmativas: Questão 2 Como entender os diferentes saberes docentes, tais como: saberes disciplinares, curriculares e profissionais? I – Parte vem da formação técnica dos docentes. II – Parte vem das experiências e vinculações com a comunidade. III – Parte vem da transformação da teoria para a prática, que são muito diferentes. Estão corretas: Considerações finais Os estudos do cotidiano no campo do Currículo se inscrevem na perspectiva de crítica ao modelo curricular hegemônico, mas, diferentemente de outras tendências, se ocupa mais de buscar compreender o que fazem com essas normas os “praticantes” (CERTEAU, 1994) dos cotidianos escolares em suas diferentes realidades escolares, sociais, políticas e econômicas do que em analisar as normas curriculares ou suas inspirações políticas, sociais e epistemológicas. Esses processos permitem a desinvisibilização e possível multiplicação de experiências emancipatórias desenvolvidas nas escolas, por docentes a quem são historicamente negados o reconhecimento por suas criações cotidianas e de sua competência profissional. Muitas vezes reconhecidos como meros transmissores de conhecimentos produzidos em instâncias “superiores”, esses profissionais são criadores de currículos que contribuem para a formação cidadã, para a ampliação da justiça cognitiva e social e, assim, para a emancipação social. As inovações produzidas cotidianamente nos currículos e nas atividades de formação e que atualmente estão visíveis para um número crescente de educadores e estudiosos do cotidiano são mais do que inovação geral. São produto de um movimento de horizontalização das relações entre aqueles que, histórica e socialmente, desfrutaram do direito de serem reconhecidos como produtores de saber e aqueles que, por meio de “táticas desviacionistas” e “astúcias cotidianas”, produziram saberes cotidianamente, por meio dos usos que deram às regras e aos produtos que o poder instituído lhes impunha, mesmo sem serem oficialmente reconhecidos na sua produção. Além disso, é importante pensar que, em seus fazeres cotidianos, os professores não apenas modificam sua prática devido às circunstâncias de cada momento, mas se colocam, também, em constante processo de formação continuada, seja como “autoformação”, baseada em seus próprios processos de reflexão; seja como formação continuada coletiva, pela interação com colegas, ou pelo contato com obras e autores da área ou de cursos formais de “reciclagem” – espaços-tempos de formação importantes, mas não únicos. Formação que se dá, também, no espaço das “culturas vividas, entre as quais referências especiais devem ser feitas às práticas políticas coletivas” (ALVES, 2003, p. 18). Podcast Neste podcast, a especialista retorna aos principais assuntos estudados no tema. Referências ALVES, N. Praticantepensante dos cotidianos. In: OLIVEIRA, I. B.; GARCIA, A. (Orgs.). Perfis da Educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2015. ALVES, N. Cultura e Cotidiano escolar. Revista Brasileira de Educação. n. 23. 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Explore + Para saber mais sobre os assuntos aqui explorados, consulte: GTs Formação Docente, Ensino Fundamental e Currículo, no site da Associação Brasileira de Pesquisa e Pós-graduação em Educação. Periódicos: Currículo sem Fronteiras (curriculosemfronteiras.org); Revista e-Curriculum (pucsp.br); Revista Espaço do Currículo (ufpb.br). No campo da Formação Docente, podem ser acessados textos e reflexões no site da ANFOPE. Objetivos Módulo 1 O currículo e as políticas públicas Identificar as concepções de currículo que permeiam as políticas públicas para a educação. Módulo 2 Propostas curriculares na BNCC Reconhecer as propostas curriculares hegemônicas na BNCC. Módulo 3 Construção democrática do currículo escolar Formular estratégias de construção democrática do currículo escolar. Introdução Um currículo não está dissociado dos movimentos vividos nas sociedades, pelo contrário, ele traduz as mudanças, os anseios e as pretensões que determinada sociedade se impõe quando trata da formação de seus indivíduos. O currículo, dessa forma, não é sinônimo de conteúdo a ser ensinado, mas o conjunto das aprendizagens vivenciadas no processo de ensino e aprendizagem. É nesse sentido que podemos dizer que o currículo tem voz: somos nós e cada um em movimento dentro e fora da escola. O currículo nos formata e formatamos assim nosso agir e pensar no mundo e sobre ele. Neste conteúdo, vamos apresentar o processo de transformação do currículo, desde a Constituição de 1988, passando pelas Diretrizes Curriculares Nacionais, pelos Parâmetros Curriculares Nacionais, pelo Plano Nacional de Educação e pela BNCC, até a reforma do ensino médio. Refletiremos sobre como as escolas estão ensinando e como estamos aprendendo. Serão abordadas, neste estudo, perspectivas divergentes acerca das últimas políticas públicas implementadas, o que permitirá a você, ao final, montar um panorama da discussão atual que está gerando muitos debates dentro dos cursos de formação de professores, das redes de ensino e, por conseguinte, das escolas nas quais essas novas diretrizes deverão se traduzir numa prática pedagógica. 1- O currículo e as políticas públicas Ao final deste módulo, você será capaz de identificar as concepções de currículo que permeiam as políticas públicas para a educação. Contextualizando o currículo A fim de iniciar a nossa discussão sobre o currículo, consideraremos alguns estudos da Antropologia que procuram compreender os modos de vida e de sobrevivência das diferentes sociedades e grupos sociais. Para os antropólogos, é preciso distinguir a cultura do saber escolar. A escola deve procurar entender o ponto de vista daqueles a quem serve e seu contexto cultural, que, necessariamente, envolve os costumes, os modos de viver, de vestir, de morar, das maneiras de pensar, as expressões da linguagem, os valores, os comportamentos frente ao novo, ao inesperado. Assim: O conhecimento não pode ser estudado como atividade isolada de seu contexto cultural. As pessoas sabem fazer bem o que é importante para elas. Os habitantes das ilhas Puluwat, pequeno atol da Micronésia, por exemplo, desenvolveram habilidades navegacionais surpreendentes, transmitidas entre as gerações por meio da oralidade e dos costumes. Cada viagem é planejada com antecipação e depende de um corpo específico de conhecimentos, que é prático e útil. Ignorando os navios de passageiros à sua disposição, eles pilotam suas canoas sem uma bússola, através de milhares de milhas, em pleno Oceano Pacífico. Sua navegação depende de aspectos do mar e do céu, baseando-se num sistema de lógica tão complexa que os ocidentais não o podem reproduzir sem o uso de instrumentos avançados. Assim, o que é aprendido como ‘prático’ em Puluwat, seria considerado como altamente ‘teórico’, ‘abstrato’, em um de nossos colégios navais. Ironicamente, quando um navegador de Puluwat é submetido a um de nossos ‘testes de inteligência’, seu índice de realização mental parece baixo. (SARUP apud KRUPPA, 2016, p. 42-43) Podemos transferir a experiência relatada para a realidade do nosso país: nossas comunidades indígenas possuem conhecimentos seculares sobre a preservação da floresta, o uso das plantas e as formas de subsistência, de modo a conviver harmonicamente com a floresta e tudo o que dela podem usufruir, sem destruí-la. Essa sabedoria dos povos originários, embora muito útil e potencialmente benéfica para a sociedade em geral, não se traduz em conhecimento escolar nas escolas tradicionais. Resumindo Portanto, uma das possíveis compreensões acerca do currículo é entendê-lo (CORAZZA, 2001) como uma linguagem. E como tal, podemos identificar significantes e significados, sons, imagens, conceitos, falas, língua, posições discursivas, representações, metáforas, metonímias, ironias, invenções, fluxos, cortes etc. Nesse sentido, compreende-se o currículo como fruto de uma prática social, discursiva e não discursiva, que se corporifica em instituições, saberes, normas, prescrições morais, regulamentos, programas, relações, valores e modos de ser sujeito. As bases legais e suas interpretações Para entendermos as políticas públicas voltadas para o currículo, começaremos pela análise da ideia central que está inscrita na Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996, conhecida como Lei de Diretrizes da Educação Nacional – LDEN (BRASIL, 1996), que determina os princípios fundamentais que devem reger todos os processos educacionais no país, quais sejam: Igualdade; Liberdade; Pluralismo de ideias; Gratuidade; Valorização profissional; Gestão democrática; Garantia de padrão de qualidade; Valorização da experiência extraescolar; Consideração da diversidade étnico-racial; Vinculação educação-trabalho-práticas sociais e a garantia de aprendizagem ao longo da vida. De acordo com a determinação da Constituição, portanto, outro arcabouço legal e fundamental para o planejamento das ações e políticas educacionais foi instituído: o Plano Nacional de Educação (PNE). Nas suas diretrizes, estão expressos os princípios que devem nortear todas as ações de planejamento das políticas no período de 10 anos. Durante esse processo, são necessárias ações de acompanhamento das metas para que ajustes possam ser feitos ao longo da vigência do plano. Veja, a seguir, as diretrizes do PNE. Além das diretrizes gerais, o Plano Nacional de Educação (2014-2024) apresenta 20 metas e, em cada uma delas, estratégias para seu cumprimento. Vemos que a Meta 2 traça duas estratégias que estão voltadas para a elaboração de uma Base Nacional Comum Curricular (BNCC): No mesmo sentido, a Meta 3 trata da formação no ensino médio, estabelecendo estratégias para esse segmento: Entre educadores, entidades e movimentos em defesa do direito à educação, há um consenso de que a legislação em vigor, quando traduz a necessidade de uma base comum curricular, não determina um currículo nacional único. A lei dispõe somente que as diretrizes sejam nacionais, de forma que os sistemas e as escolas possam democraticamente elaborar seus currículos. Nesse sentido, quando o Conselho Nacional de Educação (CNE) iniciou seu processo de discussão, em 2014, tinha como objetivo “acompanhar e contribuir com o Ministério da Educação na elaboração de documento acerca dos direitos e objetivos de aprendizagem e desenvolvimento” (BRASIL, 2014), tendo em vista, principalmenteas diretrizes e as estratégias do PNE (Plano Nacional de Educação), já elencadas acima. Esse debate inicial contemplaria as metas e as diretrizes do PNE no que diz respeito não só à necessidade de uma base, como também à metodologia de construção dessa base. Dito isso, a opção por uma construção verticalizada, com ares de participação foi a ação adotada pelo Conselho e pelo Ministério da Educação. Pode-se aqui afirmar que não houve consenso nem mesmo dentro do próprio CNE (Conselho Nacional de Educação) que, ao aprovar o relatório da BNCC (Base Nacional Comum Curricular), teve pedido de vistas por três conselheiras que votaram contra o relatório e apresentaram um parecer alternativo respaldado por entidades de classe e sindicais dos trabalhadores da educação básica. Nesse parecer, alertava-se que propostas construídas desde os anos 80 e 90 já constituíam avanços no delineamento de concepções político-pedagógicas para todas as etapas e modalidades da educação básica. Essas conselheiras defendiam que seria necessário, em primeiro lugar, delinear um marco de referência que representasse todas as concepções, as utopias, os sonhos e os princípios educacionais desejados e definidos coletivamente. E ainda: Ao fazer a opção pela votação de uma proposta construída pela Fundação Carlos Alberto Vanzolini, especialmente contratada como consultora para fazer toda a consolidação das propostas que deveriam ser incorporadas à terceira versão, o MEC se viu em uma situação de contradição: em prol da educação e da aceleração da reforma, esvaziou o protagonismo dos professores e de todos os profissionais da educação envolvidos nas discussões até então. As conselheiras denunciaram em seu parecer que sequer puderam ter acesso aos documentos sistematizados para que pudessem confrontá-los com o documento que seria apreciado e depois aprovado pelo Conselho. A reforma curricular como parte da reforma neoliberal Numa análise do documento do Banco Mundial, publicado em 2018, está explícita a ideia da necessidade de reformas educacionais a partir da relação educação e desenvolvimento econômico. No relatório chamado Aprendizagem para realizar a promessa da educação, o aspecto econômico é colocado como benefício tanto individual como social da educação: Afirma-se que a educação é um instrumento poderoso para a ampliação de renda, tornando os trabalhadores mais produtivos ao dar-lhes habilidades que permitem que eles aumentem o seu desempenho (BANCO MUNDIAL, 2018). Essa é a mesma reflexão que encontramos aqui: Esse enfoque, sempre difundido por organismos internacionais e fundações empresariais, está diretamente relacionado à questão das competências para o mundo do trabalho. Portanto, essa formação técnica profissionalizante é que vai dar a possibilidade para essa entrada rápida, numa qualificação aligeirada para as necessidades do mercado. Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI) faltarão 300 mil profissionais nos próximos dois anos e o Brasil só deverá alcançar 106 mil dos 401 mil necessários até 2023. No Brasil, segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD) Contínua, somente 11% dos estudantes se formam no ensino técnico. Na média da Organização para Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), que reúne 38 países desenvolvidos, a parcela é de 42%. E o que o PNE (Plano Nacional de Educação) fala da educação profissional técnica de nível médio? A Meta 11 determina que o Brasil deveria triplicar a matrícula, assegurando a qualidade da oferta a pelo menos 50% dos estudantes no seguimento público até 2024. Essa trágica realidade se agrava com a aprovação da reforma do ensino médio, por meio da Lei nº 13.415, de 16 de fevereiro de 2017, e a posterior BNCC para esse nível de ensino. Nessa reforma, a educação profissional está inserida nos “itinerários formativos”, apresentada pela propaganda governamental à época como uma opção que o aluno poderá fazer na sua formação. Veja, a seguir, uma imagem da propaganda. Captura de tela do vídeo de propaganda do MEC. Essa receita já foi testada em reforma anterior, que tornou obrigatório o ensino profissionalizante, com justificativas semelhantes, de formação de mão de obra para as necessidades do mercado. Qual foi o resultado? Escolas de excelência foram criadas para alguns, como as escolas técnicas federais e alguns projetos de escolas estaduais. Depois de alguns anos, muitos laboratórios dessas escolas foram abandonados porque as verbas de manutenção nunca chegavam e as aulas práticas ficaram cada vez mais distantes dos sonhos de uma formação profissional integral. Hora do conflito Há, portanto, diferentes perspectivas e posicionamentos diante dessas reformas. Vejamos uma contraposição dessas visões. De um lado: Entende-se que a reforma transforma o ensino em um mercado escolar, em que o professor passa a ser um tutor, o diretor será o gestor gerente, enquanto outros profissionais como psicólogo, fonoaudiólogo, coordenador, supervisor, inspetor de aluno, serventes e merendeiras, são dispensáveis ou terceirizados. Já o projeto político- pedagógico, construído democraticamente pela comunidade escolar, agora será um itinerário formativo, definido pela escola e por seus gerentes. Nessa visão, os alunos são clientes que agora consumirão a mercadoria aprendizagem por competência. Do outro lado: Se as escolas fazem parte dos sistemas sociais e se as pessoas passam a identificar a educação como um bem e desejam pagar por esse bem, nada tem mais sentido do que promover uma reforma de eficiência, trazendo fundamentos da gestão para o ambiente escolar. O Estado continua a lidar com a educação como um direito, mas também tentará ser mais eficiente e mais adequado às demandas de mercado, afinal, a educação tem um fim — nesse ponto de vista — de inserção educacional. Quem está certo? Depende de como você vê a questão, ambos os lados têm seus argumentos. A centralidade e a centralização da BNCC Muitos autores (CÁSSIO, 2019; AGUIAR; DOURADO, 2018) concordam que a base é, antes de tudo, uma política de centralização curricular, o que não é novo no Brasil. Analisando o tópico sobre as bases legais, podemos perceber que, desde a Lei de Diretrizes e Bases, a centralização curricular já era tida como um pressuposto para a melhoria da qualidade do ensino. É a partir desse pressuposto e do processo de globalização que se insere a necessidade de controlar para que seja possível avaliar, premiar e punir aqueles que serão responsáveis pelo sucesso ou pelo fracasso da educação ao final. Logomarca do grupo Todos pela Educação. O movimento Todos pela Educação, criado formalmente por empresários em 2006, assumiu, em 2014, a qualificação jurídica de Organização da Sociedade Civil de Interesse Público (OSCIP) e está no cerne do Movimento pela Base. Este, formado em 2013, reúne também a Fundação Lemmann, a Fundação Roberto Marinho, os Institutos Ayrton Senna, o Unibanco, a Natura e a Inspirare, bem como economistas, consultores de materiais didáticos e especialistas em avaliações em larga escala. Todas essas instituições que compõem o Movimento pela Base representam um grande poder econômico e político do país. São elas as responsáveis por “patrocinar” muitas políticas e processos de privatização e terceirização de serviços públicos, travestidos de parcerias público- privadas realizadas em parceria com o Consed e com a Undime. Ao mesmo tempo, o financiamento público vem diminuindo, principalmente após a aprovação da reforma do teto dos gastos (BRASIL, 2016), por meio da PEC 55 de 2016 — chamada pelos críticos de “PEC do fim do mundo” —, que congelou os investimentos públicos por 20 anos por medida de economia ou por redução da ação do Estado. Hora do conflitoHá, portanto, diferentes perspectivas e posicionamentos diante dessas ideias. Vejamos uma contraposição dessas visões. De um lado: A apropriação dos fundos públicos por entes privados pode ser verificada pelas consultorias, apostilamentos e venda de livros ao PNLD, pois o MEC é o maior comprador de livros do país. Em muitos sistemas de educação, empresas com materiais e cursos formatados oferecem esses materiais aos professores para que o consumo seja imediato. Também não é difícil encontrar, na Internet, diferentes PPPs formatados, adequados a diversas realidades e prontos para serem utilizados, em que a rede se ensino não atue na sua organização. Em todos os casos, o professor é desconsiderado e deve apenas seguir as prescrições das apostilas e dos livros didáticos adotados. Do outro lado: A introdução de temáticas relativas à gestão busca tornar eficientes as escolas e os modelos, de modo a facilitar a burocracia para que as escolas possam tomar as decisões dentro do ponto de vista pedagógico. O princípio democrático não é rompido pela disponibilização de modelos; a forma como cada uma das escolas vai trabalhar e mobilizar esses conhecimentos é que vai definir o resultado. É a lógica da autonomia e busca de eficiência dos estados e dos seus custos. Cabe ao Estado monitorar, acompanhar, direcionar e cobrar os que não fazem o processo com eficiência. Diretrizes nacionais e currículos locais Neste vídeo, você conhecerá a proposta de diretriz nacional pela ótica dos currículos locais e especificidades regionais do país. Vem que eu te explico! CONTEXTUALIZANDO CURRÍCULO PNLD PROGRAMA NACIONAL DO LIVRO DIDATICO PROJETO%20JOANA%20-%20Políticas%20Curriculares%20Formação%20da%20Base%20Nacional%20Comum%20Curricular%20-%20MOD1_VID1_15092021_AUDIOK_FINAL.mp4.mp4 FORMACAO%20DA%20BASE%20NACIONAL%20MOD1%20VE1%201%20-%20PGM.mp4.mp4 FORMACAO%20DA%20BASE%20NACIONAL%20MOD1%20VE2%201%20-%20PGM.mp4.mp4 Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 Considere o seguinte texto: A Base Nacional Comum Curricular (BNCC) é intensamente debatida, por ser considerada uma valorização da educação privada em detrimento da educação pública. Se, originalmente, a proposta de uma base comum sugeria princípios democratizantes interessados em garantir isonomia curricular a todas as escolas, independentemente das desigualdades regionais, as questões propostas por técnicos e docentes foram atropeladas por interesses políticos. Levando em conta os diversos momentos do processo de discussão da BNCC (Base Nacional Comum Curricular) que nos ajudam a compreender por que a base é enxergada de forma tão controversa, assinale a alternativa que apresenta dois elementos presentes nas discussões. Questão 2 Ao estabelecer uma base nacional comum curricular, educadores, entidades e movimentos em defesa do direito à educação acreditam que 2 - Propostas curriculares na BNCC Ao final deste módulo, você será capaz de reconhecer as propostas curriculares hegemônicas na BNCC. BNCC – um conceito e diferentes entendimentos Os defensores da base, que são também os defensores de todas as políticas de centralização curricular desde os anos 80, afirmam que existe a necessidade de melhoria urgente da qualidade da educação. Eles defendem que esse avanço seria possível a partir da garantia da aprendizagem, isto é, é preciso ter um controle sobre o que se ensina de forma a garantir o que é ensinado. À vista disso, são utilizadas as avaliações em larga escala, o que significa a implementação de políticas públicas que versam sobre o controle de informação e a produção de dados. Hora do conflito Há, portanto, diferentes perspectivas e posicionamentos diante dessas ideias. Vejamos uma contraposição dessas visões. De um lado: Desloca-se o processo do ensino para a metrificação da aprendizagem. Todo o conhecimento acumulado dos projetos desenvolvidos pelas escolas ao longo dos anos é deixado de lado em detrimento de uma linha comum. Essa política apenas camufla e desvirtua os verdadeiros problemas vividos pela educação brasileira, que são o subfinanciamento e a privatização que vem ocorrendo ao longo dos anos. Do outro lado: Para que o governo possa mensurar o investimento e criar uma política pública institucional, é defendida a comparação e a construção de um projeto nacional, com passos relativos aos planos nacionais, aos sistemas de avaliação nacional, às formas de investimento e ao controle desses investimentos. Em se tratando de análise de políticas públicas, especialmente no âmbito da Educação no contexto brasileiro, é fundamental que tenhamos posicionamentos díspares, que auxiliem a nossa análise. Provavelmente muitos de nós podem entender (e até estar vivenciando essa realidade) da privatização da educação como possibilidade real de inclusão, em um país continental como o nosso. Quem está certo? Depende de seu ponto de vista. A BNCC tornou-se recentemente o carro chefe dos debates da educação brasileira. Essa base impacta diretamente todas as outras políticas direcionadas aos currículos escolares, quais sejam: A política pública de formação de professores, conforme mencionado acima, é um excelente exemplo desse impacto. Em decisão do Conselho Nacional de Educação, uma nova diretriz foi organizada pelo seu Conselho Pleno, a Resolução nº 2 de 1º de julho de 2015, que define as Diretrizes Curriculares Nacionais para a formação inicial em nível superior (cursos de licenciatura, cursos de formação pedagógica para graduados e cursos de segunda licenciatura) e para a formação continuada. Publicada quase simultaneamente à BNCC, seu elemento mais importante é a valorização da prática relacionada aos cursos de licenciatura, passando a ser chamados de Formação de Professores. As instituições de ensino tinham dois anos para se adequar e pediram o adiamento por duas vezes, até que, em dezembro de 2019, uma nova legislação que garantia o diálogo com a BNCC foi publicada. Veja, a seguir. RESOLUÇÃO Nº2, 20 DE DEZEMBRO 2019 Define as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação Inicial de Professores para a Educação Básica e institui a Base Nacional Comum para a Formação Inicial de Professores da Educação Básica (BNC-Formação). O Presidente do Conselho Nacional de Educação, no uso de suas atribuições legais e regulamentares, tendo em vista o disposto no § 1º do art. 9º e no art. 90 da Lei nº 9.394, de 20 de dezembro de 1996 (LDB); no § 1º do. art. 6º e no § 1º do art. 7º da Lei nº 4.024, de 20 de dezembro de 1961, com a redação dada pela Lei nº 9.131, de 25 de novembro de 1995; e com fundamento no Parecer CNE/CP nº 22, de 7 de novembro de 2019, homologado pela Portaria MEC nº 2.167, de 19 de dezembro de 2019, publicada no DOU de 20 de dezembro de 2019, Seção 1, pág. 142, CONSIDERANDO que: O § 8º do. art. 62 da LDB estabelece que os currículos dos cursos da formação de docentes terão por referência a Base Nacional Comum Curricular (BNCC- Educação Básica); A Lei nº 13.415, de 16 de fevereiro de 2017, em seu art. 11, estabelece o prazo de 2 (dois) anos, contados da data de homologação da BNCC-Educação Básica, para que seja implementada a referida adequação curricular da formação docente; O § 1º do art. 5º das Resoluções CNE/CP nº 2, de 22 de dezembro de 2017 e CNE/CP nº 4, de 17 de dezembro de 2018, entre outras disposições, estabelece que a BNCC Educação Básica deve contribuir para a articulação e coordenação das políticas e ações educacionais em relação à formação de professores; As aprendizagens essenciais, previstas na BNCC-Educação Básica, a serem garantidas aos estudantes, para o alcance do seu pleno desenvolvimento, nostermos do art. 205 da Constituição Federal, reiterado pelo art. 2º da LDB, requerem o estabelecimento das pertinentes competências profissionais dos professores; O Ministério da Educação (MEC) elaborou, em 2018, a ‘Proposta para Base Nacional Comum da Formação de Professores da Educação Básica’, encaminhada ao Conselho Nacional da Educação (CNE) para análise e emissão de parecer e formulação da resolução regulamentando a Base Nacional Comum para a Formação Inicial de Professores da Educação Básica, resolve: (BRASIL, 2020) Hora do conflito É possível dizer que essa base comum visa estabelecer uma diretriz central, buscando evidenciar um caráter de competência “gerencial” das nossas escolas. A questão principal é: ser nacional significa desconsiderar as características regionais? Como podemos discutir essas questões? De um lado: A BNCC (Base Nacional Comum Curricular) é uma proposta de um currículo único em âmbito nacional, para que todas as escolas ofereçam o mesmo conteúdo programático. Esse objetivo é questionado, pois essa pretensão objetiva que as metas de aprendizagem serão garantidas, mas oculta a problemática da desigualdade social associada à educação. Há desigualdades no sistema educativo por muitos aspectos sócio-econômicos, e opositores entendem que não é necessário que todas as escolas tenham o mesmo currículo. O currículo precisa fazer sentido contextualmente e atender demandas e necessidades heterogêneas. (LOPES, 2018, p. 25). Neste sentido, a desigualdade e diversidade no brasil pode ser reforçada por um currículo único. Do outro lado: A Base Nacional Comum Curricular é uma demanda nacional histórica, prevista na LDB, uma demanda de um país profundamente desigual em que as oportunidades e a circulação interna não se colocam da mesma maneira para todos. Não é possível o desenvolvimento econômico e social, assim como as melhorias de condição média, sem uma política pública que permita o acesso e a circulação dos seus cidadãos a uma formação de qualidade. A criação de uma base visa garantir a aquisição das competências e habilidades por todos os alunos do país. Assim, sua necessidade é inquestionável a um projeto nacional e uma crítica no sentido da sua destruição é frágil e equivocada. Quem está certo? De alguma forma, ambas as perspectivas resultam de uma preocupação com os alunos e isso é louvável. A BNCC (Base Nacional Comum Curricular) é uma demanda, de fato, em prol de crianças e jovens. Seu problema diz respeito à extensão dessa base, pois a maneira que foi definida, por conta de uma excessiva tendência ao controle, fez com que um documento que se pretendia norteador se estendesse de tal forma que permite pouca adaptação. . A questão da qualidade da educação e o custo aluno-qualidade como balizador Vamos conceituar: o que é qualidade? Antes da implementação dos modelos neoliberais na educação, muito se falava que as escolas, em especial as escolas públicas regulares, tinham qualidade. Foram as medidas neoliberais que permitiram o crescimento do volume de alunos, consolidando números impressionantes de inserção escolar ao longo das décadas de 1980 e 1990. No entanto, juntamente com esse aumento, potencializou-se um processo de fragilização da carreira docente — iniciado antes dos anos de 1970 —, em especial no que diz respeito ao retorno financeiro e às condições materiais. Assim, esse processo de popularização foi avassalador para a lógica da “qualidade” nos resultados e nas condições materiais. Diante dessa expansão da educação, mesmo antes da publicação da BNCC (Base Nacional Comum Curricular), as políticas públicas de currículo passaram a funcionar como garantidoras de condições ou de entregas mínimas, com foco em elementos conteudista e centralizadores. A unificação de currículos se torna, portanto, condição para que as avaliações em larga escala ocorram, segundo um mesmo padrão de ensino adotado em todos os sistemas e em todos os países. Hora do conflito E quais os problemas desse tipo de avaliação? Será mesmo que a avaliação produz um diagnóstico para o planejamento ou replanejamento das ações pedagógicas e políticas públicas? Ou a avaliação somente estabelece um padrão de competitividade entre sistemas, escolas, professores e alunos, candidatos ao mercado também competitivo? De um lado: Podemos afirmar que, nesse tipo de avaliação, não se considera as condições de trabalho dos educadores. Sabemos que muitos professores e demais profissionais da educação não são remunerados dignamente e atuam em salas de aula lotadas, sem equipamentos básicos e sem acesso às tecnologias, dentro de escolas com estruturas físicas que não comportam todas as necessidades de estudo, lazer, pesquisa e acolhimento. Todas essas questões são fundamentais quando pensamos no processo de ensino-aprendizagem com qualidade. Do outro lado: Só conseguimos mensurar as necessidades das escolas quanto às suas condições materiais medindo e verificando os avanços a partir da ampliação dos investimentos. Assim, é possível notar como as aulas e os espaços podem ser melhorados. As relações de competitividade fazem parte da sociedade, inclusive na área de ensino-aprendizagem: o aluno vai concorrer, disputar vagas, logo, as escolas tentarem ser mais competentes e cuidadas contribui para desenvolver projetos. No tocante aos investimentos em educação, algumas questões são colocadas: quanto tempo demora para melhorar o sistema? Quanto custa formar um aluno? Há quem defenda que a educação não deve ser discutida dessa forma, que a melhoria é um processo institucional; outros vão utilizar termos como “saco sem fundo”, justificando que o investimento público na educação é via de regra perdido, não se sabe onde foi aplicado. Um conceito importado e adaptado no século XXI, chamado custo aluno- qualidade, que considera as métricas educacionais e as comparações sobre o custo da educação, está incluído nas metas internacionais. E que insumos indispensáveis seriam esses? O que os números do Censo Escolar 2017 demonstram e qual sua relação com a política pública de currículo? Resposta As políticas públicas atuam em meio a debates complexos, mas são direcionamentos que visam construir projetos de longa duração, organizando um fim que atenda aos anseios sociais. É importante destacar, nesse sentido, que as políticas públicas da educação brasileira não são produtos de um governo, são demandas históricas, fruto de grupos que debatem e fazem acúmulos, ainda que cada conjunto dos poderes executivos gere seu próprio direcionamento. Ao longo dos últimos trinta anos no Brasil, presenciamos um desenvolvimento da educação de cunho neoliberal, que aponta para uma valorização como direito fundamental, de um lado, e também como um conjunto que precisa ser gerido, regulado e estruturado pelos entes federativos. Sua métrica central é a capacidade de avaliação; seu parâmetro de qualidade, a comparação; e seu princípio, o da ampliação do número de alunos, na idade escolar apropriada, com a garantia de insumos mínimos para funcionamento e de investimentos para sua melhora. A base de observação do BNCC (Base Nacional Comum curricular) busca garantir valores necessários para sua manutenção, estudos do custo e como ser possível atingir a qualidade mensurável dos resultados da educação nacional. As políticas de currículo, então, criaram parâmetros de qualidade, estabelecendo habilidades e competências que os alunos devem ter ao concluir cada uma das etapas. Esses parâmetros, entretanto, não limitam a atuação dos espaços educacionais, afinal, tais políticas públicas estão fundamentadas no princípio da gestão democrática dos sistemas e das escolas, de modo que seuscurrículos carreguem as características vinculadas à regionalidade e às decisões tomadas pela sua comunidade. Uma outra questão se coloca: qual a relação entre o “currículo” estabelecido pelo Estado e a qualidade que se deseja obter? Retornando ao início da discussão, quando falamos em qualidade na educação, destacamos que a qualidade envolve uma série de adjetivações, o que traduz também diferentes respostas às perguntas que já fizemos aqui: qual educação queremos para o Brasil? Assim, o termo qualidade está em disputa na sociedade. Para cada resposta, temos uma solução diferenciada. E nesse contexto aparece a BNCC (Base Nacional Comum Curricular), vendida como solução para uma qualidade almejada. A qualidade foi definida no Plano Nacional de Educação O Plano Nacional de Educação, aprovado em 2014, estabeleceu o planejamento da política de Estado num período de 10 anos, portanto, deveria ser o balizador de todas as políticas educacionais. Há, entretanto, um grande problema: O PNE não aparece como prioridade nas políticas públicas de educação, nem mesmo como parte da formulação da BNCC (Base Nacional Comum Curricular). A prioridade do governo federal em relação à meta 2 do PNE é amplamente criticada por profissionais da educação por ter sido posta em prática de forma desarticulada. Um bom exemplo da crítica se dirige ao seu próprio fatiamento: as BNCCs da educação infantil e do ensino fundamental foram aprovadas separadamente da BNCC do ensino médio. Hora do conflito Há, portanto, diferentes perspectivas e posicionamentos diante dessas ideias. Vejamos uma contraposição dessas visões. De um lado: Profissionais da educação críticos ao método como foi formulada a BNCC afirmam que o texto aprovado no CNE, supostamente construído democraticamente, foi um simulacro de participação. No primeiro momento de participação pública, segundo o MEC, houve mais de 12 milhões de contribuições à primeira versão da BNCC, em 2015. Entretanto, não foi explicitado que essas contribuições, na sua maioria, vieram de um questionário em que cada pessoa teria apenas que dizer se concordava, concordava plenamente, discordava ou discordava plenamente. Do outro lado: As participações, que, de fato, mobilizaram os professores, formaram um campo de conflito intenso. Uma dificuldade enfrentada pela comissão era como mediar as participações de conjuntos tão grandes, encontrando na adoção de formulários que permitiam comentários a possibilidade de gerar caminhos em uma primeira fase de debates. Nesse sentido, a ideia de participações quantitativas tornava possível a medição. A comissão entendeu que havia um preço em propor um debate com um número tão grande de profissionais, logo, era melhor estabelecer desenhos institucionais a partir das contribuições quantitativas. Vamos entender o debate? A educação brasileira tem como pressuposto indiscutível a democracia e, portanto, a possibilidade de participação pública. Ao mesmo tempo, tem um forte viés para criar mecanismos de gestão a fim de fundamentar um projeto nacional, marcado como um direcionamento nacional essencial. A criação do documento a partir de uma consulta pública faseada foi inquestionavelmente um grande avanço para a formulação de políticas públicas, que, ao longo da história, foram elaboradas dentro dos gabinetes. Contudo, há esse desafio da própria democracia em lidar com vozes e valores tão diversos, marcados por conflitos e interesses muito complexos. A segunda rodada de contribuições da LDB foi marcada pela organização de comissões e reuniões regionais, que resultaram em contribuições as quais demonstraram uma imensa dificuldade de gerar parâmetros como o desejado. Discussões sobre história, letras e geografia geraram nas instituições verdadeiros campos de batalha. Reduzir era entendido como assumir o risco de apagamento e ampliar o risco de unificação, enquanto os processos, fundamentais à educação brasileira, eram, ao mesmo tempo, tidos como uma dor de difícil superação. As participações da segunda versão, quando o Conselho Nacional de Educação promoveu audiências regionais em todo o Brasil, e o relatório apresentado para aprovação no CNE apontavam para a necessidade da continuação dos debates, o que gerou uma enorme pressão política para os direcionamentos necessários. Há aqui uma grande tensão: Nesse ínterim, houve mudanças substanciais na composição do CNE e do Fórum Nacional de Educação. A terceira versão apresentada para a votação no CNE surge depois da contratação da Fundação Vanzolini. Novamente, alguns segmentos defendem que a versão final foi organizada para que as decisões fossem contempladas, outros alegam que foi um atropelamento de um processo que fora então constituído. Veja, a seguir. Ensino Fundamental Com o compromisso de nortear as demais políticas geradas a partir de então, a Base Nacional Comum Curricular para o ensino fundamental foi definida e publicada separadamente, de forma ímpar, por Rossieli Soares da Silva. No texto introdutório do documento, é reforçada a participação multidisciplinar, e o documento está voltado às expectativas de desenvolvimento econômico e de aprendizagem. Seu olhar é construído em pilares fundamentais: objetivos claros, habilidades e competências como princípio e compreensão de que ela é norteadora, uma base. Ensino médio Quanto ao ensino médio, o processo passou por uma dinâmica apartada. Enviada ao Congresso por meio de Medida Provisória nº 746/2016, a Lei nº 13.415, de 16 de fevereiro de 2017, alterou a LDB (Lei de Diretrizes e Bases da Educação) para reformar todo o ensino médio. Com tantos jovens terminando o ensino fundamental, seria necessário que os governos estivessem se preparando para recebê-los no ensino médio. Entretanto, a juventude, por vezes, é encarada pela mídia e pelo senso comum como o lugar dos problemas, e isso esteve visível por anos em políticas de financiamento da educação voltadas apenas ao ensino fundamental. Assim, a invisibilidade desse nível de ensino aliado ao descompromisso e à mitigação dos orçamentos públicos ao longo do tempo, fez com que a juventude fosse abandonada à própria sorte e aos impulsos mercadológicos para venda de soluções fáceis e mobilizadoras. Essa lei da reforma do ensino médio precedeu a BNCC (Base Nacional Comum Curricular), para que a base, que foi discutida no CNE (Conselho Nacional de Educação) e aprovada de maneira acelerada já considerasse a reforma. Hora do conflito Há, portanto, diferentes perspectivas e posicionamentos diante dessas ideias. Vejamos uma contraposição dessas visões. De um lado: Enquanto todas as universidades debatiam sobre suas necessidades e sobre as características da BNCC para o ensino médio, os debates foram interrompidos, as comissões, desfeitas. A publicação vinculada à chamada reforma do ensino médio decretava o fim de muitas disciplinas fundamentais e tradicionais para os alunos. Críticos entendem que ideias como o ensino por pessoas com “notório saber” são deturpações que restringem o conhecimento docente a um conteúdo meramente conteudístico e técnico, assim como desvalorizam de maneira definitiva e vergonhosa os docentes Do outro lado: Notou-se um corporativismo e uma resistência à mudança, com áreas e cursos temendo a redução de postos de trabalhos, o que demonstrou que a preocupação não estava centrada nos alunos. A mudança era necessária, isso é ponto pacífico, mas sem uma ação efetiva para que essa mudança ocorresse, seria impossível. A título de exemplo, podemos citar áreas como Letras e História, que discutem rompimentos com o pensamento colonial, mas, em uma abordagem decolonial, propõem a manutenção de estruturas tradicionais em suas diretrizes, cursose, consequentemente, no ensino escolar. Quem está com a razão? Essa questão é dificílima. A política tem um tempo diferente dos debates acadêmicos, enquanto a gestão e a economia muitas vezes não dialogam com o que é realmente necessário ao aluno. Temos aqui uma das chaves para o debate: o currículo deve ser garantidor, isto é, prever o essencial, e são as instituições de ensino que decidem, com a comunidade e de forma democrática, como será o seu currículo. Por outro lado, o histórico de nossas decisões, as características do mercado e a resistência ao investimento na educação, por parte da sociedade, criam um clima de projeto de desmonte e fragilização. É visível que mais ficar como estava e que, com essas políticas, temos problemas e avanços, logo, correções de rumos e debates ainda precisarão ser realizados. As razões daqueles que defendem a BNCC (Base Nacional Comum Curricular) Após compreendermos um pouco o contexto em que foi aprovada a BNCC, vamos entender agora os pressupostos daqueles que defendem a proposta aprovada e regulamentada pelo MEC. Inicialmente, parte-se da análise de que a educação brasileira vai mal e entende- se a educação como a ponte para o desenvolvimento. Somos um país com profundas desigualdades e todos os índices que avaliam a performance dos estudantes brasileiros nos colocam numa posição muito inferior aos países com mesmo nível de desenvolvimento. Nesse sentido, faz-se necessária a reorganização e reestruturação das escolas e de seus currículos, a fim de promover a equidade e a igualdade na educação. Dessa forma, pretende-se reverter a situação de exclusão histórica que envolve os grupos minoritários — indígenas e quilombolas —, aqueles que não conseguiram completar os estudos em idade própria, os alunos com deficiência, reconhecendo a importância da inclusão como prática pedagógica. Hora do conflito Há, portanto, diferentes perspectivas e posicionamentos diante dessas ideias. Vejamos uma contraposição dessas visões. De um lado: Muitos autores debatem que, apesar dos avanços, outros grupos continuaram excluídos da BNCC, como os negros — mesmo sendo o grupo majoritário entre os brasileiros —, a população LGBTQIA+ e os analfabetos. No mesmo sentido, temas como as questões de gêneros de jovens e adultos, e a educação especial também não foram abordados pelo documento. Do outro lado: Os defensores afirmam que esses grupos estão contemplados, ainda que sua inclusão não seja indicada nominalmente diante das grandes métricas. No documento, são nomeados somente grupos que não tinham seu espaço garantido e sua posição refletida. Qual é o caminho? Equidade! Aqui, o conceito de equidade pressupõe a igualdade de oportunidades para ingressar, permanecer e aprender na escola, ao se estabelecer um patamar que todos têm direito — ou, pelo menos, todos os que estão aqui referenciados. Outro termo defendido na BNCC (Base Nacional Comum Curricular) é o pacto interfederativo, por meio do qual se buscará a igualdade nas “decisões curriculares e didático-pedagógicas das Secretarias de Educação, no planejamento do trabalho anual das instituições escolares, nas rotinas e nos eventos do cotidiano escolar” (BRASIL, 2018a, p. 11). Essa mesma igualdade, agora no âmbito da igualdade de oportunidades, soma-se ao conceito de flexibilidade, também defendido pela BNCC (Base Nacional Comum Curricular), e que abordaremos a seguir. Educação para todos, todas e todes? Todes? A norma culta da Língua Portuguesa define que, ao usarmos “todos”, já incluímos todos os gêneros, pois se trata de um termo neutro e não masculino. Termos como todes, entretanto, têm sido apresentados para marcar um discurso inclusivo, embora estejam longe da unanimidade. Essas adjetivações são fruto de muitas batalhas, pequenos avanços e conquistas que chegam às salas de aula de nossas escolas. Gêneros: feminino, neutro e masculino A flexibilidade, que pode ser entendida como adaptabilidade ou resiliência, é necessária à vida dos trabalhadores e trabalhadoras e daqueles que, desde a sua formação, serão conformados ao modo de vida neoliberal. Esses conceitos se transmutam como uma reinterpretação daquilo que historicamente conquistamos como direitos universais: Por outro lado... A BNCC (Base Nacional Comum Curricular) planeja justamente que a ideia da mudança da determinação de gênero, das adjetivações, cabem ao contexto de cada escola, de cada ambiente. Não é da alçada de uma estrutura normativa trabalhar a necessária discussão sobre como as sociedades precisam pensar seus conceitos. A BNCC (Base Nacional Comum Curricular) defende que a educação não é imóvel, não está estagnada, que as demandas atuais serão diferentes das futuras e que é necessário ter espaço para a transformação. O currículo por competências A principal diferença entre a tradição disciplinar e a pedagogia das competências está no momento da seleção dos conteúdos. Veja a seguir: Hora do conflito Se a crítica à escola tradicional é a distância entre o que se ensina e a realidade do estudante, o apelo da pedagogia das competências é exatamente essa vinculação imediata do que se aprende com a realidade, ou seja, o mundo do trabalho e da produção. De um lado: Essa opção pragmática, que determina que o conhecimento a ser ensinado deve seguir a lógica da utilidade retira do estudante o direito ao conhecimento socialmente construído que é universal. Dessa forma, justifica-se a não obrigatoriedade da sociologia ou da filosofia como disciplinas nesse currículo, afinal, os filhos das classes trabalhadoras não encontrarão uma utilidade imediata para esses conhecimentos no mundo do trabalho. Entretanto, também não terão condições de discutir ou reivindicar seus direitos, como melhores condições de remuneração e dignidade no trabalho, uma vez que essas reflexões fazem parte do conhecimento daquelas disciplinas. Do outro lado: Não houve a retirada efetiva de sociologia, filosofia ou qualquer uma das bases de ciências humanas, a BNCC permitiu a flexibilização de seu olhar e possibilitou o trabalho desses conhecimentos em dinâmicas de projetos e de valorização social. É importante não confundir os debates políticos atuais que marcam o documento normativo com as suas formas de aplicação. Pressupor que públicas os debates sociológicos, filosóficos e a dinâmica de tempo-espaço sumirão das escolas públicas é irreal. Eles se modificam. A busca é por valorizar o contexto, saber que as competências e as demandas mudam, e permitir que isso ocorra em meio às políticas públicas. Custo Aluno-qualidade Neste vídeo, você saberá mais sobre o conceito e a importância do custo aluno- qualidade para a educação brasileira. Vem que eu te explico! Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar. Módulo 2 - Novo Ensino Médio Módulo 2 - Aprendizagem por Competência PROJETO%20JOANA%20-%20Políticas%20Curriculares%20Formação%20da%20Base%20Nacional%20Comum%20Curricular%20-%20MOD2_VID1_15092021_AUDIOK_FINAL.mp4 PROJETO%20JOANA%20-%20Políticas%20Curriculares%20Formação%20da%20Base%20Nacional%20Comum%20Curricular%20-%20MOD2_VID1_15092021_AUDIOK_FINAL.mp4 FORMACAO%20DA%20BASE%20NACIONAL%20MOD2%20VE1%201-%20PGM.mp4 FORMACAO%20DA%20BASE%20NACIONAL%20MOD2%20VE2%201%20-%20PGM.mp4 Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 Sobre o conceito de qualidade da educação e a BNCC, analise as afirmações: I. Para os defensores da BNCC, a qualidade da educação se relaciona com a qualidade de aprendizagem, que não pode ser metrificada. II. Para os defensores da BNCC, a aprendizagem se refere às competências necessáriaspara inserção flexível ao mercado produtivo. III. Para os críticos da BNCC, a qualidade é socialmente referenciada, visto que o direito à educação diz respeito também ao direito a uma escola com padrões mínimos de insumos para seu funcionamento, além da garantia de profissionais qualificados e bem remunerados. IV. Para os críticos da BNCC, a qualidade da educação está relacionada à inserção das escolas no contexto da globalização, nas quais o processo de aprendizagem visa adequar os alunos aos padrões mercadológicos. Está correto o que se afirmar em: . Questão 2 A reforma do ensino médio, proposta pela Medida Provisória nº 746/2016, aprovada e transformada na Lei nº 13.415, de 16 de fevereiro de 2017, apresenta uma mudança em sua estrutura, propondo a flexibilização da grade curricular e a valorização do protagonismo juvenil. Nessa proposta, há uma estrutura comum e obrigatória para todas as escolas, conforme descrita na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e itinerários formativos diferenciados. Sobre a estrutura do ensino médio, a partir da lei citada, analise as afirmações: I. Os itinerários formativos estão organizados em três grandes áreas: Linguagens, Aritmética e Formação profissional. II. As duas disciplinas obrigatórias são língua portuguesa e matemática. III. Os itinerários formativos poderão ser ministrados por profissionais sem formação específica na área. IV. O ensino da língua inglesa não é obrigatório no ensino médio. Está correto o que se afirmar em: 3 - Construção democrática do currículo escolar Ao final deste módulo, você será capaz de formular estratégias de construção democrática do currículo escolar. Afinal, a BNCC é ou não é um currículo? Para respondermos a essa questão, começaremos com a seguinte afirmação: Com apenas um ou dois cliques, qualquer professor pode acessar um curso, uma palestra, uma apostila ou mesmo um plano de aula pronto de qualquer assunto relacionado na BNCC. Você está livre para escolher como vai fazer, mas o que vai fazer deve estar lá na BNCC (Base Nacional Comum Curricular), assim como lá está o tempo para se fazer. Ora, se existe liberdade, deveria existir autonomia para que o professor pudesse fazer seu próprio planejamento, já que ninguém conhece melhor seus alunos e suas necessidades de aprendizagem. Em oposição a essa ideia, nenhum professor vai encontrar, com um clique na Internet, um projeto político-pedagógico que seja a alma de sua escola, que traduza os anseios e os sonhos de pais, alunos e professores, que traga uma reflexão coletiva dos problemas vivenciados por todos, dos percursos necessários para sua superação, que organize os roteiros de aprendizagem necessários para a vida e para a coletividade. Não será possível encontrar um PPP (projeto político-pedagógico) que mostre caminhos possíveis de avanços para a superação das injustiças, da pobreza, da miséria, das desigualdades, da discriminação de todo e qualquer ser humano por sua cor de pele, opção religiosa, orientação sexual, assim como em nenhum lugar da Internet poderá encontrar tanta riqueza cultural que cada um e cada uma daquela escola tem para compartilhar. Nenhum clique encontrará respostas únicas para tantas questões que permeiam o fazer pedagógico das escolas! Ao afirmar que a BNCC não é o currículo, o MEC (MACEDO, 2018) assume o conceito de “currículo em ação”, isto é, o currículo seria uma materialização formal que deve estar presente em todos os sistemas e escolas. Esse currículo estaria fundamentado nessa base comum, mas não se esgotaria nela, pois a outra parte seria construída pelos sistemas e seus professores, de modo a atender às especificidades e às necessidades das redes de ensino, bem como às características das escolas. Para muitos autores na literatura nacional e internacional, currículos centralizadores têm falhado sistematicamente. Um currículo vivido no projeto político-pedagógico da escola Considerando que os sistemas de ensino e as escolas são obrigados por lei a ter a BNCC como guia, torna-se ainda mais importante garantir a elaboração autônoma de propostas pedagógicas. Conforme o art. 14 da LDB, cabe a cada escola e sistema de ensino elaborar seus PPPs (projetos políticos-pedagógicos), com ampla participação e debates com todos os segmentos da comunidade escolar. O projeto político-pedagógico pode ser entendido como a alma da escola e, como tal, deve traduzir toda a vida pungente e pulsante que existe dentro e fora dela: Veja, a seguir, o relato de uma professora da Escola Paula Brito, na Rocinha, sobre a construção de um projeto político-pedagógico. RELATO Repensando a minha própria prática educativa, volto aos anos 80, quando era professora na Escola Paula Brito, na Rocinha. Ali vivi a primeira experiência da construção de um projeto político-pedagógico, antes mesmo de aprender sobre esse conceito na universidade, onde me formei pedagoga, em 1985. Toda a ideia partiu da direção da escola e da equipe pedagógica, particularmente da supervisora educacional, que, inconformadas com os altos índices de repetência dos alunos, mobilizaram os pais, os alunos, os professores e a comunidade para uma discussão sobre o que deveria ser feito para melhorarmos esses índices. Tivemos a ajuda de um educador popular, Antonio Leal, que já atuava em projetos de alfabetização na comunidade. Nossos alunos eram filhos de imigrantes nordestinos, muitos pais eram também analfabetos. Dessa discussão também surgiu a necessidade de um projeto de alfabetização de adultos. Uma construção coletiva, democrática, que traçou objetivos, propostas e projetos que se desenvolveram ao longo dos anos que ali lecionei. Avaliações periódicas permitiam verificar o que estava dando certo, o que era necessário mudar nos processos, inclusive os próprios professores avaliavam seu envolvimento nos projetos. A formação continuada que existia por parte da Secretaria Municipal de Educação foi fundamental para o bom desenvolvimento do PPP (projeto político-pedagógico) da Escola Paula Brito. Fazíamos cursos de alfabetização na metodologia construtivista, entretanto, eram mais que isso: eram um acompanhamento de nós professores no fazer pedagógico. Todas as semanas, tínhamos reunião para discutir o desenvolvimento dos alunos a partir da nova proposta de alfabetização. Tirávamos dúvidas e planejávamos os próximos passos. Foi na Rocinha que aprendi a dançar forró, aprendi a fazer pipa e a costurar bonecas de pano, em oficinas que realizamos com os pais e a comunidade. Foi ali que comecei a exercer a pedagogia da autonomia freireana. Hora do conflito Quanto retornamos à pergunta inicial, se a BNCC (Base Nacional Comum Curricular) é um currículo, há, novamente, respostas divergentes. De um lado: Para alguns, sim, é um currículo engessado, centralizador, restrito e insuficiente. No entanto, é na prática que ele se dará, e diante da imensa potência das escolas e de seus projetos político-pedagógicos, a Base talvez seja revista e redesenhada por aqueles que, comprometidos com uma educação de qualidade, socialmente referenciada, possam torná-la, de fato, um currículo vivo. Do outro lado: A definição de currículo mais usada refere-se ao caminho que o aluno percorre no ambiente escolar, seu processo formativo, seu todo, é o valor do sujeito. Assim, currículo não é o gradeamento, não é a determinação de disciplinas, o currículo é um processo de construção em que o aluno e a escola são ativos. O fato de escolas não seguirem os modelos democráticos para construção de seus PPPs (projetos políticos-pedagógicos), bem como não estimularem a troca e a construção coletiva, não é culpa da BNCC, pelo contrário, é consequência de um dos problemas que a construção da base visousanar. Romper paradigmas históricos é importante, e a BNCC se dispõe a enfrentá- los. . E quem está certo? É com você. Leia sobre a questão e construa seu posicionamento. Ciclos de formação e o currículo Nesta última discussão, traremos um debate que se iniciou lá nas décadas de 1960 e 1970, mas que se espalhou pelo Brasil nos anos 80: os ciclos de formação. E o que são eles? Inserida nesse contexto, a escola por ciclos de formação apropria-se das teorias de Piaget e Ferreiro para formar seu arcabouço teórico, com o seguinte princípio fundamental: cada um constrói o seu próprio conhecimento, mas a aprendizagem se dá de diferentes formas, em ritmos e tempos diferentes. Nesse sentido, a proposta dos ciclos respeitaria o processo ensino- aprendizagem de forma contínua e sem retrocessos, com metodologias que contemplassem esses fundamentos, e com avaliações que também seriam um processo contínuo e serviriam como balizadoras de replanejamentos de percursos. Paulo Freire já dizia que a educação não transforma o mundo, mas muda pessoas, e essas, sim, transformariam o mundo. E mais: que ensinar supera a transmissão de conhecimento, na verdade, cria possibilidades para sua construção. Aprender e ensinar acontece tanto ao aluno quanto ao professor. Por isso, a escola por ciclos é a tradução desses conceitos freireanos. Exemplo Diferentes experiências de escolas por ciclo se espalharam pelo país. Entre as mais conhecidas estão a Escola Cidadã de Porto Alegre, a Escola Plural de Belo Horizonte e as experiências de São Paulo com o próprio Paulo Freire como secretário de Educação (1989-1991). É nesse sentido que podemos falar (KRUG, 2007) em criar, na escola, espaços de conhecimento compartilhado entre a cultura do aluno, seus saberes de experiência e o conhecimento escolar. Para tanto, alguns movimentos são importantes: Reconhecer que o outro (aluno ou aluna) tem conhecimento. Promover, no coletivo da sala de aula, o resgate desses conhecimentos, seu aprofundamento e/ou problematização. Desvincular o conhecimento a ser trabalhado na escola de uma listagem prévia de conteúdo a serem desenvolvidos, atuando a professora com maior autonomia na escolha dos temas a desenvolver. Utilizar várias fontes de estudos, livros didáticos, revistas, jornais, documentos históricos, relatos orais. Utilizar tecnologias para pesquisas, aprimoramentos, releituras e produções de novas linguagens. Com os pensamentos de Paulo Freire, é possível aprender que a tarefa do educador vai além da seleção dos conteúdos a serem ensinados aos estudantes: a tarefa do educador está intrinsecamente relacionada ao que se deseja para os alunos e as alunas. Mas é importante dizer, Ira, que ao criticar a educação ‘bancária’, temos que reconhecer que nem todos os tipos de aula expositivas podem ser considerados educação ‘bancária’. Você pode ser muito crítico fazendo preleções. A questão, para mim, é como fazer com que os alunos não durmam, porque eles nos ouvem como se estivéssemos cantando para eles! A questão não é se as preleções são ‘bancárias’ ou não, ou se não se deve fazer preleções. Porque o caso é que os professores tradicionais tornarão a realidade obscura, quer dando aula expositivas, quer coordenando discussões. O educador libertador iluminará a realidade mesmo com aulas expositivas. A questão é o conteúdo e o dinamismo da aula, a abordagem do objeto a ser conhecido. Eles reorientam os estudantes para a sociedade de forma crítica? Estimulam seu pensamento crítico ou não? (SHOR; FREIRE, 1986, p. 31) Para pensar Será que a Base Nacional Comum Curricular é a culpada? Seria correto dizer que o currículo, a educação e as políticas públicas vinham muito bem e que a BNCC veio para trazer o caos? Resposta Como vocês viram há pouco, não! As dificuldades são longas e históricas. A BNCC ainda é jovem e já nasce cheia de contradições com as quais teremos que lidar. Mas não imagine que foi diferente com grande parte dos documentos normativos da educação do passado, que ainda hoje estão vigentes. A educação no Brasil se tornou uma política pública vital e nacional em tempos muito recentes, sendo que a nossa transição para uma educação efetivamente de massa não tem 50 anos. Então, devemos aceitar, já vale o esforço? Não, educador, nunca. Devemos ler, aprender, discutir a política pública norteadora, entender suas mudanças políticas, sociais e estruturais. Precisamos estar atentos aos debates e aos agentes envolvidos. Um caso de sucesso em PPP (projeto político-pedagógico) Neste vídeo, você acompanhará uma experiência de construção democrática de um projeto político-pedagógico. PPP (projeto político-pedagógico) Vem que eu te explico! Os vídeos a seguir abordam os assuntos mais relevantes do conteúdo que você acabou de estudar. Módulo 3 - BNCC em questão Política de centralização curricular; Conhecimento; Competência; Habilidades; ../../../../../ANTONI~1/DOCUME~1/ESTACI~1/CURRIC~1/TEMA4-~1/PROJETO%20JOANA%20-%20Políticas%20Curriculares%20Formação%20da%20Base%20Nacional%20Comum%20Curricular%20-%20MOD3_VID1_15092021_AUDIOK_FINAL.mp4 ../../../../../ANTONI~1/DOCUME~1/ESTACI~1/CURRIC~1/TEMA4-~1/PROJETO%20JOANA%20-%20Políticas%20Curriculares%20Formação%20da%20Base%20Nacional%20Comum%20Curricular%20-%20MOD3_VID1_15092021_AUDIOK_FINAL.mp4 FORMACAO%20DA%20BASE%20NACIONAL%20MOD3%20VE1%201%20-%20PGM.mp4 Desenvolvam; Omissão de gênero e elementos regionais; Diversidade. Módulo 3 - Escola por Ciclos Escola por ciclos de formação; Teoria de Piage e Ferreiro; Construção do próprio conhecimento; Menos seletivo; Aberto a diversidade; Paulo Freire; Progressão continuada; Reprovação necessária; Analfabetismo funcional; Bem sucedida em vários Países. FORMACAO%20DA%20BASE%20NACIONAL%20MOD3%20VE2%201%20-%20PGM.mp4 Falta pouco para atingir seus objetivos. Vamos praticar alguns conceitos? Questão 1 Em relação ao projeto político-pedagógico (PPP), assinale a alternativa correta. Questão 2 Um currículo é a tradução daquilo que se escreve no PPP da escola. Uma escola democrática constrói seu PPP de forma participativa: envolve todos os segmentos nessa construção, promove reuniões, formações e debates permanentes, assim como organiza e incentiva esse processo contínuo por meio de sua direção e coordenação pedagógica. A justificativa política para implantação de modelos de ciclo de formação se pauta na eliminação da multirrepetência e do consequente congestionamento do sistema. No aspecto pedagógico, promove melhor organização do tempo e do espaço escolares, respeita os ritmos e os processos de aprendizagens dos alunos, e elimina a cultura da repetência instalada na escola, preservando a autoestima dos alunos. Sobre o tema, avalie as asserções a seguir e a relação proposta entre elas. I. A proposta de uma escola por ciclos de formação foi iniciada no Brasil na década de 1980 e desenvolvida num contexto de redemocratização do país, com altos índices de repetência e evasão escolar. PORQUE II. Essa proposta respeita o processo de ensino-aprendizagem de forma contínua e sem retrocessos, utilizando metodologia apropriada e processos contínuos de avaliação. A respeito dessas asserções, assinale a opção correta. Considerações finais Neste conteúdo, apresentamos um pouco das trajetórias de implementação das principais políticas públicas educacionais do pais, em especial, a Base Nacional Comum Curricular. Ao longo do seu estudo, você pôde observar como o desenvolvimento, a concepção e a aprovação da BNCC (Base Nacional Comum Curricular) foram marcados por disputas e contradições, com alguns grupos a entendendo como uma política pública problemática,enquanto outros defendiam sua implementação. Destacamos que, aos olhares críticos à BNCC (Base Nacional Comum Curricular), essa política traz uma concepção gerencial de escola, apoiada no controle de processos via produção de materiais didáticos e via avaliação de larga escala, que já acontece no Brasil em quase todos os estados da federação, além dos sistemas de gestão pública. Do ponto de vista contrário, a BNCC seria uma garantidora da qualidade da educação e de uma possível equidade ao longo do extenso território brasileiro e suas diferentes regiões. Por fim, debatemos sobre o papel dessa política pública no campo pedagógico do currículo, gerando importantes questionamentos e provocações. O foco deste estudo não é apresentar soluções e respostas, mas sim criar um debate vivo sobre o que representa a BNCC (Base Nacional Comum Curricular) no campo do currículo brasileiro e apresentar as disputas no campo da política pública. Nosso objetivo é provocar o seu olhar, seja pela irritação, pela concordância, pela discordância, e mobilizá-lo para estudar mais essas políticas e fundamentar sua opinião. Podcast Neste podcast, você ouvirá sobre Currículo e a realidade escolar . BNCC (Base Nacional Comum Curricular); Implementação e complexidade da implementação; Especificidade; Regionalidade; Se adaptar as realidades regionais; Práxis pedagógica; “Materialidade da Teoria” Saber onde aplicar aquilo que aprendeu; Metodologia Aplicada; Implementação da BNCC (Base Nacional Comum Curricular); Contexto e Metodologias; Nova senda; Profissão de Excelência; Discursão nunca ia acabar, base nacional; A política atropela a Politica Publica; Prevaleça os interesses pessoais; Educação dualista; Uma educação que ensina a pessoa a mandar; E outra que ensina o sujeito a ser comandado; Qual a Educação você está recebendo? Processo de aprendizagem continuo; Educação 5.0; Leitura de cada Pessoa; Freire; Introdução de Tecnologias; Disputas de diversos grupos; PCN Parâmetros Curriculares Nacionais; Acerto de Volume; Novo Ensino Médio; Como Base o BNCC (Base Nacional Comum Curricular) Itinerários Informativos; Aprendizagem mais significativa para os alunos; Arquiteturas Necessárias; Referências AGUIAR, M. A. da S.; DOURADO, L. F. (orgs.). A BNCC na contramão do PNE 2014-2024: avaliação e perspectivas. Recife: ANPAE, 2018. BANCO MUNDIAL. Aprendizagem para realizar a promessa da educação: relatório sobre o desenvolvimento mundial de 2018. Washington, DC: World Bank Publication, 2018. BRASIL. Base Nacional Comum Curricular. Brasília: Fundação Carlos Alberto Vanzolini, 2018a. BRASIL. Casa Civil. Emenda Constitucional n. 95, de 15 de dezembro de 2016. Altera o Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, para instituir o Novo Regime Fiscal, e dá outras providências. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, ano 153, n. 241, p. 2-3, 16 dez. 2016. BRASIL. Lei n. 9.394, de 20 de dezembro de 1996. Estabelece as diretrizes e bases da educação nacional. Diário Oficial da União. Brasília, DF, 23 dez. 1996. BRASIL. Lei n. 13.005, de 25 de junho de 2014. Aprova o Plano Nacional de Educação – PNE e dá outras providências. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, ano 151, n. 120-A, p. 1-7, 26 jun. 2014. BRASIL. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Resolução n. 3, de 21 de novembro de 2018. Atualiza as Diretrizes Curriculares Nacionais para o Ensino Médio. Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, p. 21-24, 22 nov. 2018b. BRASIL. Ministério da Educação. Conselho Nacional de Educação. Resolução CNE/CP n. 2, de 20 de dezembro de 2019. Define as Diretrizes Curriculares Nacionais para a Formação Inicial de Professores para a Educação Básica e institui a Base Nacional Comum para a Formação Inicial de Professores da Educação Básica (BNC-Formação). Diário Oficial da União: seção 1, Brasília, DF, p. 46-49, 15 abr. 2020. BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF, 1988. CÁSSIO, F. (org.). Educação contra a barbárie: por escolas democráticas e pela liberdade de ensinar. São Paulo: Boitempo, 2019. CORAZZA, S. O que quer um currículo: pesquisas pós-críticas em educação. Petrópolis: Editora Vozes, 2001. FREIRE, P. Extensão ou comunicação? São Paulo: Paz e Terra, 1985. KRUG, A. R. F. (org.). Ciclos em revista: A construção de uma outra escola possível. Rio de Janeiro: Wak Editora, 2007. v. 1. KRUPPA, S. M. P. Sociologia da Educação. 2. ed. ver. e atual. São Paulo: Cortez, 2016. LOPES, A. C. Apostando na produção contextual do currículo. In: AGUIAR, M. A. da S.; DOURADO, L. F. 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Ainda que suas opiniões são sejam unânimes, é importante ao educador conhecer a profundidade de seus debates. Por isso, leia o livro Dez novas competências para ensinar, publicado pela Artmed Editora em 2015. Também é válida a leitura de seus comentadores, como João Carlos Bernardo Machado, que cria boas possibilidades de análise em A proposta pedagógica de Phillipe Perrenoud: fundamentos filosóficos da “pedagogia das competências”. Por fim, alguns sites trazem conteúdos fundamentais para aprofundar a temática aqui abordada, entre eles: Observatório do Ensino Médio; Movimento pela Base. Política Publicas – Lei nº 9.394 20/21/1996 – Lei de Diretrizes da Educação Nacional (LDEN). O Plano Nacional de Educação (PNE). (LDB – LEI DE DIRETRIZES E BASE) 1 - Abordagem em curriculo 2 - Curriculo e Cultura 3 - O Currículo no Cotidiano Escolar 4 -Politicas Curriculares Formação da BNCC