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1 @poli.canuto III Período - FASAI Objetivos 1) Entender o remodelamento cardíaco 2) Estudar quais as consequências da insuficiência cardíaca diastólica 3) Compreender a importância da adesão ao tratamento 4) Complicações clínicas nos órgãos alvos da HAS Remodelamento cardíaco Definição Remodelamento ventricular é o processo pelo qual fatores mecânicos, neuro-hormonais e genéticos alteram o tamanho, a forma e a função ventricular (tratado de cardiologia) É também um mecanismo adaptativo à sobrecarga hemodinâmica, permitindo ao coração manter suas funções em vigência de aumento de carga. É considerado fator de risco para o desenvolvimento de disfunção ventricular e insuficiência cardíaca (IC). (Mendes,2010) A hipertrofia e o remodelamento inadequados podem resultar em alterações na estrutura (i. e., massa muscular, dilatação das câmaras) e na função (i. e., comprometimento da função sistólica ou diastólica), as quais frequentemente levam à disfunção adicional da bomba e à sobrecarga hemodinâmica (Porth) É um processo reversÌvel, desde que a causa possa ser suprimida ou atenuada (Pontes,2004) Caracterização clínica O diagnóstico clínico da remodelação baseia-se na detecção de mudanças na morfologia – alterações no diâmetro da cavidade, massa (hipertrofia e atrofia), geometria (espessura da parede e na forma do coração), áreas com cicatriz (caracteristicamente após o infarto), fibrose e infiltrado inflamatório (como nas miocardites). Os métodos mais utilizados para detectar essas mudanças são o ecocardiograma, a ventriculografia e, recentemente, a ressonância nuclear magnética. Outra forma de diagnóstico, mas ainda não utilizada na prática clínica de forma rotineira, consiste na detecção de marcadores celulares. Esse fenômeno baseia-se no fato de que o processo de remodelação envolve a reexpressão de genes do período fetal. Assim, diversos marcadores podem sugerir remodelação, incluindo as alterações da cadeia pesada da miosina, com diminuição da alfa e aumento da beta-miosina Causas do remodelamento O remodelamento cardíaco é estimulado primariamente pelo estiramento mecânico, porém, vários fatores, incluindo isquemia, hormônios e peptídios vasoativos, podem modificar os efeitos do fator mecânico (tratado de cardiologia) a) Tensão aumentada na parede, que entre outros efeitos, aumenta a concentração citosólica de cálcio; b) Sinais de crescimento sistêmico (noradrenalina, ADH, angiotensina II, insulina no diabetes tipo II) Silbernagl) c) Sinais de crescimento local (endotelina, CTGF [fator de crescimento do tecido conjuntivo], TGF [fator de crescimento transformante], PDGF [fator de crescimento derivado de plaquetas], FGF [fator de crescimento de fibroblastos]) e redução de inibidores do crescimento [NO e PGI2]) (Silbernagl) d) Sinais inflamatórios (TNF-α, interleucina 6, geração de radicais de oxige ̂nio pela aldosterona cardíaca; As células miocárdicas aumentam (hipertrofia), porém desenvolve-se refratariedade a ̀s catecolaminas (regulac ̧ão para baixo dos β1- adrenorreceptores, elevac ̧a ̃o nas proteínas Gi antagonistas, desacoplamento dos recepto- res) e queda na atividade da Ca2+-ATPase. (Silbernagl) Remodelamento cardíaco e insuficiência cardíaca 2 @poli.canuto III Período - FASAI Mecanismo de ação O miocárdio é composto por miócitos (ou células musculares) e não miócitos. Os miócitos são as unidades funcionais do músculo cardíaco. Seu crescimento é limitado por um incremento no tamanho da célula e não por um aumento na quantidade de células. (Porth) Os não miócitos incluem macrófagos cardíacos, fibroblastos, músculo liso vascular e células endoteliais. Essas células, localizadas no espaço intersticial, preservam a capacidade de aumentar o número de células e fornecer suporte aos miócitos. (Porth) Um dos principais processos adaptativos que ocorre no remodelamento é a hipertrofia do cardiomiócito. O estresse hemodinâmico é detectado pelo miocárdio, via deformação da membrana e alteração do citoesqueleto, e leva a alterações na expressão de genes miocárdicos e modificação na função de canais iônicos., ativando mediadores de hipertrofia, como o sistema calcineurina. (Pontes,2004) Além disso, uma séria de neurohormônios e mediadores da hipertrofia se expressam, como a angiotensina II e a endotelina 1. Esses mediadores transmitem seus sinais por meio de proteínas de transdução de sinal para ativar enzimas, que induzem a expressão de um programa de genes fetais. Esses genes são a marca da hipertrofia patológica e inclui alterações em genes envolvidos na síntese de proteínas contráteis. (Pontes, 2004) Os não miócitos também determinam muitas das alterações inadequadas que ocorrem durante a hipertrofia do miocárdio. Por exemplo, o crescimento descontrolado dos fibroblastos cardíacos está associado ao aumento da síntese das fibras de colágeno, à fibrose do miocárdio e à rigidez da parede ventricular. Assim como a rigidez da parede ventricular aumenta a carga de trabalho do coração, a fibrose e o remodelamento podem levar a anormalidades na condução elétrica, nas quais o coração se contrai de modo descoordenado – a chamada dissincronia cardíaca – causando redução da função cardíaca sistólica. (Porth) Os principais pontos do remodelamento cardíaco são a hipertrofia de miócitos e a dilatação cardíaca, com aumento da formação de matriz intersticial. (tratado de cardiologia) A hipertrofia miocárdica é causada pelo aumento de miofibrilas e mitocôndrias. (tratado de cardiologia) Esse processo adaptativo inicia-se como mecanismo compensatório a fim de manter a força contrátil e preservar o estresse da parede. Entretanto, com a progressão da degeneração miocárdica, esse processo torna -se mal adaptado e contribui para a piora da insuficiência cardíaca (tratado de cardiologia) O interstício cardíaco também é muito sensível aos mesmos estímulos mecânicos, inflamatórios e neuro-hormonais que afetam o crescimento dos miócitos. Em condições normais, a matriz extracelular tem um papel biológico determinante nos mecanismos cardíacos. As mudanças na matriz intersticial provocam alterações nas propriedades sistólica e diastólica do coração. (tratado de cardiologia) A fibrose provoca rigidez miocárdica e heterogeneidade mecânica e elétrica, que desempenham papel importante na gênese de arritmias e deterioração das funções sistólica e diastólica. (tratado de cardiologia) A morte celular também é determinante no remodelamento cardíaco, porque causa a perda de massa contrátil, com consequente hipertrofia de células miocárdicas e fibrose reparativa (tratado de cardiologia) A presença de bloqueio de ramo esquerdo afeta os eventos mecânicos do ciclo cardíaco, alterando a ativação e a contração ventricular e provocando dissincronia ventricular, atraso na abertura e no fechamento da válvula mitral e disfunção diastólica (tratado de cardiologia) Tipos de remodelamento Conforme o tipo de estímulo, o remodelamento ventricular pode ocorrer de duas maneiras distintas: (tratado de cardiologia) No nível celular, as células musculares cardíacas respondem aos estímulos do estresse imposto sobre a parede ventricular pela pressão e pela sobrecarga de volume, iniciando diversos processos que levam à hipertrofia. Estes incluem estímulos que produzem (Porth) Hipertrofia simétrica, com um aumento proporcional no comprimento e na largura dos músculos, como ocorre nos atletas Na sobrecarga pressórica, ocorre desenvolvimento de sarcômeros em paralelo, criando remodelamento ventricular concêntrico, com maior aumento da massa em relação ao volume ventricular. Aumento da espessura da parede, como ocorre na hipertensão. No caso da sobrecarga volumétrica, ocorre hipertrofia de sarcômeros em série, o que provoca remodelamento ventricular excêntrico, commaior aumento do volume ventricular em relação à massa. 3 @poli.canuto III Período - FASAI Há um aumento desproporcional no comprimento do músculo, como ocorre na MCD. Hipertrofia concêntrica Quando o estímulo primário para a hipertrofia é a sobrecarga de pressão, o aumento de tensão da parede conduz à replicação em paralelo das miofibrilas, espessamento dos miócitos individualmente e hipertrofia concêntrica (Porth) A hipertrofia concêntrica pode preservar a função sistólica por um determinado período de tempo, mas eventualmente o trabalho realizado pelo ventrículo ultrapassa a reserva vascular, predispondo à isquemia (Porth) Quando há sobrecarga de pressão (p. ex., por hipertensão arterial ou estreitamento de uma valva; ver adiante), a força contrátil precisa aumentar. Adicionalmente, há aumento da tensão na parede. (Bogliogo) Os miocardiócitos da parede submetida a maior trabalho se hipertrofiam na tentativa de manter o débito cardíaco e, conforme a lei de Laplace (Bogliogo) Em consequência a este aumento, o miocárdio se espessa, enquanto o volume da cavidade fica mantido ou, às vezes, discretamente diminuído. Desse modo, ocorre uma hipertrofia na qual o comprimento de cada célula não se altera muito, mas sim sua espessura, refletindo um aumento dos sarcômeros “em paralelo”, aumentando a quantidade de actina e miosina (Bogliogo) Hipertrofia excêntrica Há sobrecarga de volume, em outras doenças com mau funcionamento do miocárdio, como bombeamento não efetivo (p. ex., miocardite) ou insuficiência valvar (Bogliogo) Também nessa situação as células se hipertrofiam, tentando manter o fluxo e diminuir o estresse na parede, mas a espessura desta é normal ou mesmo diminuída, assim como a dos cardiomiócitos, que sofrem aumento do seu comprimento, com predomínio de adição de sarcômeros dita “em série”. (Bogliogo) Neste caso e apesar de ocorrer hipertrofia dos cardiomiócitos, a cavidade ventricular é dilatada e suas paredes distanciam-se igualmente de seu centro geométrico; a denominação “excêntrica”, portanto, apesar de usada, não é adequada . Há, todavia, situações em que a dilatação e a hipertrofia não se distribuem igualmente por todo o ventrículo – em geral, quando há perda de cardiomiócitos de uma região da parede, como no infarto do miocárdio (Bogliogo) O alongamento das células musculares leva a uma diminuição da espessura da parede ventricular, com aumento do volume diastólico e na tensão da parede (Porth) A sobrecarga de volume ocorre devido à regurgitac ̧ão aórtica e pulmonar, pois o volume regurgitante acaba sendo adicionado ao volume sisto ́lico efetivo (Porth) OBS: Qualquer que seja o tipo de hipertrofia, a vascularização do órgão também aumenta, mantendo-se em geral a proporção numérica capilar/fibra miocárdica. Mesmo assim, como o volume dos miocardiócitos está aumentado, pode haver carência relativa do aporte de sangue (isquemia relativa). Assim, podem ocorrer morte de pequenos grupos de células e, posteriormente, surgir focos de fibrose intersticial. Cardiopatia hipertensiva Cardiopatia hipertensiva representa o conjunto de alterações que ocorrem no coração em consequência de hipertensão 4 @poli.canuto III Período - FASAI arterial sistêmica, na maioria das vezes a hipertensão essencial. (Bogliogo) Para o diagnóstico de cardiopatia hipertensiva é necessário que haja hipertrofia concêntrica do ventrículo esquerdo, ausência de outras doenças cardiovasculares e, naturalmente, quadro de hipertensão arterial (Bogliogo) Com a sobrecarga gerada pela hipertensão arterial, surge hipertrofia concêntrica, inicialmente do ventrículo esquerdo, no qual as fibras cardíacas sofrem aumento da espessura por aumento em paralelo do número de sarcômeros (hipertrofia concêntrica). A hipertrofia cardíaca constitui uma reação do miocárdio para vencer a pressão sistêmica aumentada (Bogliogo) A espessura aumentada da parede do ventrículo tende a normalizar a tensão sistólica sofrida pelos miofilamentos. (Bogliogo) Ocorrida a hipertrofia do ventrículo esquerdo, o indivíduo permanece compensado hemodinamicamente por anos ou décadas, apesar da hipertensão arterial; nesse período, fala-se em fase compensada da cardiopatia hipertensiva. (Bogliogo) A capacidade de hipertrofia, no entanto, é limitada. Se a pressão arterial não é controlada, chega um momento em que o miocárdio não consegue se hipertrofiar mais nem se manter hipertrofiado. O débito cardíaco não é mais mantido, resultando em sobrecarga de volume diastólico e dilatação da cavidade (hipertrofia excêntrica), caracterizando insuficiência cardíaca. Esta constitui a fase descompensada da cardiopatia hipertensiva. (Bogliogo) Com a dilatação do ventrículo esquerdo, ocorre dilatação do anel da valva mitral, podendo resultar em insuficiência desta. Com isso, aumentam a sobrecarga e a dilatação do átrio esquerdo, o que favorece fibrilação atrial. (Bogliogo) Ao mesmo tempo, surge congestão pulmonar que, se prolongada, resulta em hipertensão pulmonar. Se esta é mantida, ocorre sobrecarga do ventrículo direito, que sofre hipertrofia concêntrica de sua parede, na tentativa de manter o fluxo sanguíneo pulmonar. Após certo tempo, o ventrículo direito também entra em descompensação, por mecanismos semelhantes aos do ventrículo esquerdo, resultando em dilatação da sua cavidade e do anel da valva tricúspide; assim, esta se torna insuficiente e permite o refluxo de sangue para o átrio direito, que logo se dilata. (Bogliogo) OBS: Mesmo na fase compensada e por causa do aumento progressivo da espessura da parede ventricular, a complacência do ventrículo esquerdo diminui (surge sobrecarga do átrio esquerdo) e aumenta a necessidade de oxigênio, o que contribui para a isquemia miocárdica e faz com que surjam focos de fibrose intersticial. (Bogliogo) OBS: As células miocárdicas hipertróficas são mais suscetíveis a isquemia, porque, além de terem exigências metabólicas aumentadas, a distância entre o interior das células e o capilar que as nutre é maior, ocasionando dificuldade para difusão de O2. (Bogliogo) Atenção: Na forma compensada, o paciente pode ser assintomático, embora o risco de morte súbita seja aumentado. Quando ocorre dilatação ventricular, surgem manifestações de insuficiência cardíaca congestiva. Com a insuficiência cardíaca esquerda, aparecem congestão e edema pulmonares, que se manifestam por tosse e dispneia; quando mais grave, aparecem hipoperfusão renal e encefálica (encefalopatia hipóxica). Quando há insuficiência cardíaca direita, aparecem congestão sistêmica (p. ex., hepatomegalia) e edema, inicialmente nos membros inferiores. (Bogliogo) Morte celular e remodelamento cardíaco Classicamente, os miócitos cardíacos, assim como as células nervosas, eram tidos como células pós-mitóticas terminais, altamente diferenciadas e incapazes de regenerar-se. Só há pouco tempo, entretanto, demonstrou-se que também os miócitos cardíacos são capazes de sofrer mitose; (tratado de cardiologia) Em 2002, Quaini et al. 38 demonstraram que células de receptores de transplante cardíaco são capazes de migrar e repovoar o enxerto, sugerindo que a capacidade do tecido cardíaco de regenerar-se ocorria, ao menos em parte, pela migração de células pluripotentes extracardíacas. (tratado de cardiologia) A visão do coração como um órgão pós-mitótico tem perdido espaço para um novo conceito no qual as células do miocárdio são continuamente substituídas por novas populações recém- formadas de miócitos, células musculares lisas vasculares e endoteliais. (tratado de cardiologia) A homeostase cardíaca seria, portanto, regulada por um compartimento de células-tronco cardíacas multipotentes que teriam a habilidade de se transformar em diversas linhagens do miocárdio (tratado de cardiologia) Em condições de aumento da perda celular(como na IC), as células-tronco seriam recrutadas em maior número. A progressão da disfunção ventricular ocorreria por desbalanço entre a morte celular (por necrose ou apoptose) e a capacidade teci dual de regeneração (tratado de cardiologia) 5 @poli.canuto III Período - FASAI Insuficiência cardíaca Definição A insuficiência cardíaca tem sido definida como uma síndrome complexa resultante de qualquer distúrbio funcional ou estrutural do coração que causa e/ou aumenta o risco de desenvolvimento de manifestações de baixo débito cardíaco e/ou congestão sistêmica ou pulmonar. (Porth) Em outra visão, a IC tem sido descrita como uma enfermidade progressiva desencadeada a partir de um insulto inicial que acomete o músculo cardíaco, com resultante perda de massa muscular ou, alternativamente, prejudica a habilidade desse miocárdio de gerar força e manter sua função contrátil adequada (tratado de cardiologia) A síndrome da insuficiência cardíaca pode ser produzida por qualquer condição cardíaca que reduza a capacidade de bombeamento do coração. Entre as causas mais comuns de insuficiência cardíaca, podemos citar DAC; Hipertensão CMD Cardiopatia valvar. Como muitos processos que levam à insuficiência cardíaca são de longa duração e progridem gradualmente, é possível prevenir a insuficiência cardíaca em muitos casos, ou adiar a progressão por meio da detecção e intervenção precoces. A importância dessas abordagens é enfatizada pelas diretrizes do ACC/AHA, que incorporaram um sistema de classificação da insuficiência cardíaca com a inclusão de quatro estágios: (Porth) Estágio A – Risco alto de desenvolver insuficiência cardíaca, mas sem anormalidades estruturais identificadas nem sinais de insuficiência cardíaca Estágio B – Presença de cardiopatia estrutural, mas sem histórico de sinais e sintomas de insuficiência cardíaca Estágio C – Sintomas atuais ou anteriores de insuficiência cardíaca com cardiopatia estrutural Estágio D – Cardiopatia estrutural avançada e sintomas de insuficiência cardíaca em repouso, com terapia clínica máxima Epidemiologia A IC tem alta prevalência e grande impacto na morbidade e mortalidade em todo o mundo, sendo hoje um grave problema de saúde pública. D (tratado de cardiologia) Nos EUA, a insuficiência cardíaca custa à nação mais de US$ 30 bilhões ao ano, tendo afetado mais de 5 milhões de americanos em 2009. (Porth) A insuficiência cardíaca pode ocorrer em qualquer faixa etária, mas afeta primariamente os idosos e homens (Porth) Ainda que as taxas de morbidade e mortalidade por DCV tenham diminuído nas últimas décadas, a incidência de insuficiência cardíaca está aumentando a uma taxa alarmante. Aproximadamente, 400 mil a 700 mil pessoas são diagnosticadas com insuficiência cardíaca a cada ano, nos EUA. (porth) Nos últimos 30 anos, a sobrevida após o diagnóstico de IC melhorou, a taxa de mortalidade ajustada por idade diminuiu, e a idade média de morte por HF aumentou. No entanto, globalmente, a mortalidade ainda permanece alta, e cerca de 50% das pessoas diagnosticadas com IC morrerão dentro de 5 anos (tratado de cardiologia) No Brasil, dados do Ministério da Saúde mostram que, em 2007, quase 40% das internações hospitalares foram relacionadas à IC descompensada. Essa proporção foi de 70% no grupo etário com mais de 60 anos. Nesse mesmo período a IC foi a causa mais frequente de internação na população idosa no Brasil. (tratado de cardiologia) Em comparação com outros países que utilizam o registro ADHERE-I (Acute Decompensated Heart Failure National Registry- International), os países da América Latina tiveram uma duração média de tempo de internação mais longa em comparação com os países da Ásia-Pacífico e nos Estados Unidos: 6 dias ( 4-1 O dias) versus 4 dias (3-7 dias). O Brasil tem a maior taxa de mortalidade hospitalar entre os países do registro ADHERE (tratado de cardiologia) Fisiopatologia A síndrome clínica da insuficiência cardíaca (IC) representa um somatório de múltiplas alterações anatômicas, funcionais e biológicas que interagem entre si. (tratado de cardiologia) Detectou-se que a IC estava associada com redução do débito cardíaco e excessiva vasoconstrição periférica, o que originou o "modelo cardiocirculatório ou hemodinâmico': (tratado de cardiologia) Mesmo após a instalação de disfunção cardíaca, a maioria dos pacientes pode permanecer assintomática por períodos de tempo variáveis em decorrência da ativação de mecanismos adaptativos neuro-hormonais, dentre os quais se destacam os 6 @poli.canuto III Período - FASAI sistemas renina-angiotensina-aldosterona (SRAA) e nervoso simpático (SNS). Essas adaptações iniciam-se rapidamente, questão de minutos a horas, e são pazes de sustentar ou modular a função ventricular em níveis próximos ao normal (tratado de cardiologia) Em longo prazo, outro mecanismo adaptativo é o remodelamento ventricular, em que fatores neuro-hormonais, mecânicos e, possivelmente, genéticos alteram o tamanho, a forma e a função ventricular (tratado de cardiologia) Quando ocorre a falência dos mecanismos adaptativos, sobretudo do remodelamento ventricular, a IC torna -se francamente sintomática (tratado de cardiologia) Disfunção sistólica versus diastólica A classificação separa a fisiopatologia da insuficiência cardíaca em insuficiências ou disfunções sistólica e diastólica, com base na fração de ejeção ventricular. (Porth) Fração de ejeção é a porcentagem de sangue bombeada para fora dos ventrículos a cada contração. Uma fração de ejeção normal é de aproximadamente 55 a 70%. (Porth) Na disfunção ventricular sistólica, a contratilidade do miocárdio está comprometida, levando a uma diminuição na fração de ejeção e no débito cardíaco. (Porth) A disfunção ventricular diastólica é caracterizada por uma fração de ejeção normal, mas com relaxamento ventricular diastólico comprometido, levando a uma diminuição no enchimento ventricular que, por fim, causa diminuição na pré-carga, no volume sistólico e no débito cardíaco. (Porth) Muitas pessoas com insuficiência cardíaca apresentam uma combinação de elementos de disfunções ventriculares sistólica e diastólica, e a divisão entre disfunção sistólica e disfunção diastólica pode ser razoavelmente artificial, em particular conforme esteja relacionada às manifestações e ao tratamento. (Porth) Disfunção sistólica Primariamente definida como uma diminuição na contratilidade do miocárdio, caracterizada por uma fração de ejeção inferior a 40%. (Porth) Na insuficiência cardíaca sistólica, a fração de ejeção declina progressivamente com o aumento dos graus de disfunção miocárdica. Nos tipos mais graves de insuficiência cardíaca, a fração de ejeção pode diminuir para uma porcentagem com dígito único. (Porth) Com uma diminuição na fração de ejeção, há um aumento resultante no volume diastólico final (pré-carga), na dilatação ventricular e na tensão da parede ventricular e uma elevação na pressão diastólica final ventricular.(Porth) O aumento do volume, somado ao retorno venoso normal, leva a um aumento na pré-carga ventricular. Acredita-se que a elevação na pré-carga seja um mecanismo compensatório para ajudar a manter o volume sistólico por meio do mecanismo de Frank-Starling, apesar da diminuição da fração de ejeção. (Porth) Embora atue como um mecanismo compensatório, o aumento da pré-carga também pode levar a uma das consequências mais deletérias da disfunção ventricular sistólica – o acúmulo de sangue nos átrios e no sistema venoso (que é esvaziado no interior dos átrios), causando edema pulmonar ou periférico. (Porth) A disfunção sistólica comumente resulta de condições que comprometem o desempenho contrátil do coração (p. ex., cardiopatia isquêmica e miocardiopatia), produzem uma sobrecarga de volume (p. ex., insuficiência valvar e anemia) ougeram uma sobrecarga de pressão (p. ex., hipertensão e estenose valvar) sobre o coração. (Porth) Disfunção diastólica Ainda que a insuficiência cardíaca em geral esteja associada ao comprometimento da função sistólica, em cerca de 55% dos casos a função sistólica é preservada e a insuficiência cardíaca ocorre exclusivamente com base na disfunção diastólica ventricular esquerda. (Porth) Embora esses corações apresentem contração normal, o relaxamento é anormal. O enchimento anormal do ventrículo compromete o débito cardíaco, especialmente durante o exercício. (Porth) Para qualquer volume ventricular determinado, as pressões ventriculares estão elevadas, acarretando sinais de congestão venosa pulmonar e sistêmica, de modo idêntico ao observado em pessoas cujo coração está dilatado e contrai inadequadamente. (Porth) A prevalência da insuficiência diastólica aumenta com a idade, sendo mais alta nas mulheres e em pessoas com hipertensão e fibrilação atrial. (Porth) Entre as condições causadoras de disfunção diastólica, estão aquelas que impedem a expansão do ventrículo (p. ex., efusão pericárdica, pericardite constritiva), aumentam a espessura da parede e reduzem a dimensão da câmara (p. ex., hipertrofia do miocárdio, MCH), e adiam o relaxamento diastólico (p. ex., envelhecimento, cardiopatia isquêmica). (Porth) 7 @poli.canuto III Período - FASAI O envelhecimento com frequência é acompanhado por um adiamento no relaxamento do coração durante a diástole, de modo que o enchimento diastólico tem início enquanto o ventrículo ainda está rígido e resistente à distensão para aceitar um aumento no volume. (Porth) A função diastólica também é influenciada pela frequência cardíaca, a qual determina o tempo disponível para que ocorra o enchimento ventricular. Um aumento na frequência cardíaca abrevia o tempo de enchimento diastólico. Portanto, a disfunção diastólica pode ser agravada por taquicardia ou arritmia e melhorar com uma queda na frequência cardíaca, a qual possibilita um tempo maior para o enchimento do coração. (Porth) Com a disfunção diastólica, o sangue não consegue se movimentar livremente no interior do VE e isso faz com que a pressão intraventricular aumente com qualquer volume. As pressões elevadas são transferidas do VE para dentro do átrio esquerdo e do sistema venoso pulmonar, causando uma diminuição na complacência do pulmão que aumenta o trabalho respiratório e evoca sintomas de dispneia. (Porth) O débito cardíaco encontra-se diminuído, não em consequência de uma redução da fração de ejeção ventricular conforme a observada com a disfunção sistólica, mas em decorrência de uma diminuição no volume (pré- carga) disponível para o débito cardíaco adequado. (Porth) Disfunção ventricular direita versus esquerda A insuficiência cardíaca é classificada de acordo com o lado do coração (ventricular direita ou ventricular esquerda) primariamente afetado. Embora o evento inicial que leva à insuficiência cardíaca possa ser de origem ventricular direita ou esquerda, a insuficiência cardíaca a longo prazo normalmente envolve ambos os lados. (Porth) Disfunção ventricular direita A insuficiência cardíaca do lado direito compromete a capacidade de transporte do sangue desoxigenado da circulação sistêmica para a circulação pulmonar. Consequentemente, quando o ventrículo direito é insuficiente, ocorre uma redução na quantidade de sangue deslocada adiante, para a circulação pulmonar, e em seguida para o lado esquerdo do coração, finalmente causando redução do débito cardíaco ventricular esquerdo. (Porth) Além disso, se o ventrículo direito não ocasiona o movimento anterógrado do sangue, ocorre acúmulo ou congestão de sangue no sistema venoso sistêmico. Isso eleva as pressões diastólica final ventricular direita, atrial direita e venosa sistêmica. (Porth) Um importante efeito da insuficiência cardíaca do lado direito é o desenvolvimento de edema periférico Os efeitos da ação da gravidade fazem com que o edema seja mais pronunciado nas partes inferiores do corpo. Quando a pessoa está em posição ortostática, observa-se edema nos membros inferiores; em decúbito dorsal, o edema é observado na área acima do sacro. (Porth) A insuficiência cardíaca do lado direito também produz congestão das vísceras. À medida que a distensão venosa progride, o sangue se acumula nas veias hepáticas que drenam na veia cava inferior, e o fígado fica ingurgitado. Isso pode causar hepatomegalia e dor no quadrante superior direito. (Porth) A congestão da circulação porta também pode levar ao ingurgitamento do baço e ao desenvolvimento de ascite. (Porth) A congestão do trato gastrintestinal pode interferir na digestão e na absorção de nutrientes, causando anorexia e desconforto abdominal. (Porth) As veias jugulares, que estão acima do nível do coração, normalmente são invisíveis na posição ortostática ou sentada com a cabeça em um ângulo superior a 30°. Na insuficiência cardíaca do lado direito grave, as veias jugulares externas se tornam distendidas e podem ser visualizadas quando a pessoa está sentada ou em pé. (Porth) As causas da disfunção ventricular direta incluem condições que impedem o fluxo sanguíneo nos pulmões ou que comprometem a eficácia do bombeamento do ventrículo direito. (Porth) A insuficiência ventricular esquerda é a causa mais comum de insuficiência ventricular direita. A hipertensão pulmonar prolongada também causa disfunção e insuficiência ventricular direita. 8 @poli.canuto III Período - FASAI A hipertensão pulmonar ocorre em pessoas com doença pulmonar crônica, pneumonia grave, embolia pulmonar ou estenose aórtica ou mitral. Quando a insuficiência cardíaca do lado direito ocorre em resposta à doença pulmonar crônica, é denominada cor pulmonale. (Porth) Estenose ou regurgitação das valvas tricúspide ou pulmonar, Infarto ventricular direito Miocardiopatia. Tetralogia de Fallot Defeito do septo interventricular. Disfunção ventricular esquerda A insuficiência cardíaca do lado esquerdo compromete o movimento do sangue a partir da circulação pulmonar (de baixa pressão) até o lado arterial (de alta pressão) da circulação sistêmica. (Porth) Com o comprometimento da função cardíaca esquerda, ocorre uma diminuição no débito cardíaco para a circulação sistêmica. (Porth) O sangue se acumula no VE, no átrio esquerdo e na circulação pulmonar, o que causa uma elevação na pressão venosa pulmonar. (Porth) Quando a pressão nos capilares pulmonares (normalmente de cerca de 10 mmHg) excede a pressão osmótica capilar (em geral ao redor de 25 mmHg), ocorre uma transferência do líquido intravascular para o interstício dos pulmões, resultando em edema pulmonar (Porth) O episódio de edema pulmonar costuma ocorrer à noite, após a permanência da pessoa em posição reclinada durante algum tempo e a remoção das forças gravitacionais do sistema circulatório. Nesse momento, o líquido do edema sequestrado nos membros inferiores ao longo do dia retorna para o compartimento vascular e é redistribuído para a circulação pulmonar .(Porth) As causas mais comuns de disfunção ventricular esquerda são a hipertensão e o infarto agudo do miocárdio. (Porth) A estenose ou regurgitação da valva aórtica ou mitral também gera o nível de retorno do lado esquerdo que resulta em congestão pulmonar. Conforme a pressão pulmonar aumenta como resultado da congestão, pode haver progressão para insuficiência cardíaca do lado direito. (Porth) Insuficiência com débito alto versus débito baixo Ambas são descritas em termos do débito cardíaco. A insuficiência com débito alto é um tipo incomum de insuficiência cardíaca causada por uma necessidade excessiva de débito cardíaco. Na insuficiência com débito alto, a função do coração pode estar acima do normal e inadequada, devido às necessidades metabólicasexcessivas. As causas de insuficiência com débito alto incluem anemia grave, tireotoxicose, condições que causam desvios arteriovenosos e doença de Paget. (Porth) A insuficiência com débito baixo é causada por distúrbios que comprometem a capacidade de bombeamento do coração, como cardiopatia isquêmica e miocardiopatia. A insuficiência com débito baixo é caracterizada por evidências clínicas de vasoconstrição sistêmica, com extremidades frias, pálidas e por vezes cianóticas (Porth) Mecanismos compensatórios da IC Mecanismos de Frank-starling O mecanismo de Frank-Starling opera por meio de um aumento na pré-carga Com o aumento do enchimento diastólico, ocorre ampliação no estiramento das fibras miocárdicas e uma aproximação mais ideal das cabeças dos filamentos grossos de miosina aos sítios de ligação da troponina nos filamentos finos de actina, resultando em aumento na força da contração subsequente. (Porth) 9 @poli.canuto III Período - FASAI No coração com função normal, o mecanismo de Frank- Starling atua para corresponder aos débitos dos dois ventrículos. (Porth Um aumento na contratilidade, ou no inotropismo, aumentará o débito cardíaco em qualquer volume diastólico final, causando deslocamento da curva para cima e à esquerda, enquanto uma diminuição no inotropismo causará o deslocamento da curva para baixo e à direita. Na insuficiência cardíaca, o inotropismo está diminuído em comparação ao normal. Portanto, o volume sistólico não será tão alto quando no inotropismo normal, independentemente do aumento na pré-carga.. (Porth) Ativação neuro-hormonal Na insuficiência cardíaca, independentemente da causa, ocorre queda do volume circulante efetivo que é detectado pelo sistema barorreceptor renal e extrarrenal, desencadeando a ativação de potentes vasoconstritores e a subsequente retenção de sódio (tratado de cardiologia) Sistema renina-angiotensina-aldosterona Na IC, ocorre aumento da produção de renina pelo aparelho justaglomerular renal por duas vias principais: (Porth) Estimulação dos adrenorreceptores-beta-1 do aparelho justaglomerular, secundário ao aumento da atividade simpática, Ativação dos barorreceptores renais pela queda da pressão hidrostática no glomérulo e na arteríola aferente. A carga de sódio que chega à mácula densa e a própria retroalimentação negativa proveniente dos níveis de angiotensina 11. A ação da angiotensina 11 sobre os vasos produz potente vasoconstrição e contribui, juntamente do sistema nervoso simpático, para excessiva elevação da resistência vascular na IC. Ela aumenta também a liberação de noradrenalina pelo sistema simpático e estimula a secreção de aldosterona pela glândula suprarrenal, aumentando, em consequência, a reabsorção de sódio no nível de túbulo contornado distal. (tratado de cardiologia) Além dessas ações clássicas, já bem conhecidas, que ajudam no controle do equilíbrio homeostático, recentes descobertas têm evidenciado um papel do SRAA no controle do crescimento e da remodelação de vários tecidos. Não se sabe ao certo se a angiotensina 11 age como fator de crescimento por si só ou se age como amplificador de outros fatores de crescimento e citocinas. (tratado de cardiologia) A angiotensina 11 é um potente estimulador da fibrogênese, e seu efeito envolve vários mecanismos, destacando-se a morte celular pela vasoconstrição intensa, o efeito trófico da angiotensina li nos miócitos e o efeito proliferativo sobre os fibroblastos (tratado de cardiologia) A aldosterona também é um importante indutor da fibrose, tanto intersticial como perivascular (tratado de cardiologia) A ativação do SRAA na insuficiência cardíaca, que, a princípio, promove efeitos benéficos para a manutenção do débito cardíaco, acaba sendo deletéria em longo prazo pela estimulação do remodelamento ventricular, sobrepondo maior deteriorização a um coração já debilitado. (tratado de cardiologia) Sistema nervoso autônomo Na insuficiência cardíaca ocorre ativação adrenérgica generalizada e retração do sistema parassimpático. (tratado de cardiologia) A falta de estiramento dos mecanorreceptores situados no arco aórtico, nas artérias carótidas, nas arteríolas aferentes renais e no ventrículo esquerdo por causa da queda da 10 @poli.canuto III Período - FASAI pressão arterial ou do volume sistólico diminui o influxo inibitório para o sistema nervoso autônomo, que ativa vias eferentes simpáticas, promovendo vasoconstrição periférica, aumento da contratilidade cardíaca e taquicardia, além do efeito de estímulo à liberação de vasopressina e renina. (tratado de cardiologia) Apesar dos efeitos benéficos desses mecanismos, a fim de preservar o fluxo sanguíneo para áreas nobres, suas consequências são prejudiciais. A vasoconstrição generalizada promove aumento da resistência vascular sistêmica e aumento da pós-carga ao ventrículo esquerdo, sobrecarregando um ventrículo já insuficiente. (tratado de cardiologia) A hipoperfusão da musculatura esquelética leva ao metabolismo anaeróbico, à produção de ácido lático, gerando fraqueza e fadiga. (tratado de cardiologia) A hipoperfusão esplâncnica promove retenção de nitrogênio e sódio, disfunção hepática e isquemia mesentérica. (tratado de cardiologia) O aumento das concentrações local e circulante de noradrenalina pode contribuir para a hipertrofia dos miócitos, diretamente pela estimulação de receptores alfa e beta- adrenérgicos ou, de modo secundário, ativando o SRAA. (tratado de cardiologia) A noradrenalina é diretamente tóxica para as células miocárdicas, efeito mediado pela sobrecarga de cálcio ou pela indução da apoptose. (tratado de cardiologia) Vasopressina arginina A vasopressina arginina (AVP) é um hormônio pituitário que age na regulação da água livre e osmolaridade plasmática. (tratado de cardiologia) Em pacientes com IC, o nível desse hormônio é, constantemente, elevado e, apesar da osmolaridade normal ou baixa sentida pelos osmorreceptores centrais, está associado com elevação dos níveis de renina e catecolaminas, que desempenham o papel de estimular a secreção da vasopressina pela neuro-hipófise. (tratado de cardiologia) Essa secreção não osmótica de AVP é desencadeada pelo estímulo dos barorreceptores arteriais que sentem a redução do enchimento do leito arterial. (tratado de cardiologia) A vasopressina causa vasoconstrição periférica, retenção de água livre por meio de sua ação nos túbulos coletores renais e, consequentemente, hiponatremia dilucional (tratado de cardiologia (tratado de cardiologia) Endotelina Endotelina é um potente peptídio vasoconstritor liberado pelas células endoteliais. Três subtipos já foram identificados: endotelina-1, endotelina-2 e endotelina-3, todos potentes vasoconstritores. (tratado de cardiologia) A angiotensina 11, a noradrenalina, a vasopressina arginina e a interleucina -1 estimulam a produção da endotelina, que, por sua vez, ativa receptores de endotelina tipo A, que causam vasoconstrição da musculatura lisa. (tratado de cardiologia) A endotelina também tem potencial de estimular o crescimento e atuar no remodelamento cardíaco (tratado de cardiologia) Peptídeos natriuréticos A família dos peptídios natriuréticos é composta por três peptídios estruturalmente similares: peptídio natriurético atrial (ANP), peptídio natriurético cerebral (BNP - brain natriuretic peptide) e peptídio natriurético tipo-C. (tratado de cardiologia) O ANP é sintetizado nos átrios e liberado em resposta à distensão deles. Em contraste, o BNP é sintetizado primariamente nos ventrículos e secretado em vigência de sobrecargas pressórica ou volumétrica para esses ventrículos. (tratado de cardiologia) Nos rins, os peptídios natriuréticos promovem vasodilatação da arteríola aferente e vasoconstrição da eferente, e, portanto, aumentam a pressão capilare a TFG. (tratado de cardiologia) Eles atuam também nas células mesangiais e aumentam a superfície de filtração. (tratado de cardiologia) Em nível tubular, esses peptídios inibem o efeito estimulatório nas bombas de Na+fH+ dos túbulos proximais, na bomba de Na+ no túbulo distais e nos canais de Na+ nos túbulos coletores.. Os peptídios natriuréticos inibem, também, a ação vasoconstritora do SNS, do SRAA, da AVP e da endotelina e agem no sistema nervoso central modulando o tônus vasomotor, a sede e a liberação de AVP. (tratado de cardiologia) Apesar de ser um mecanismo compensatório importante, os peptídios natriuréticos são insuficientes para superar a intensa vasoconstrição instalada na I C (tratado de cardiologia) Niprilisina A neprilisina é uma enzima responsável pela degradação dos peptídios natriuréticos vasoativos. (tratado de cardiologia) Recentemente, o uso de um inibidor da neprilisina associado a um bloqueador do receptor de angiotensina 11 mostrou -se 11 @poli.canuto III Período - FASAI potencialmente benéfico no tratamento da I C, diminuindo a mortalidade global quando em comparação ao tratamento- padrão com um inibidor da ECA isolado. (tratado de cardiologia) Mediadores inflamatórios Atualmente, pesquisas em curso examinam a relação entre marcadores inflamatórios (especialmente a PCR) e a insuficiência cardíaca. (Porth) Níveis elevados de PCR foram associados a consequências adversas em portadores de insuficiência cardíaca, além de terem se mostrado preditivos do desenvolvimento de insuficiência cardíaca em grupos de alto risco. (Porth) Particularmente interessantes são as interações entre a PCR e mediadores como angiotensina II e noradrenalina. Essa relação inflamatória continua a ser examinada. Contudo, é difícil testá-la porque não se sabe como diminuir o efeito inflamatório na insuficiência cardíaca. (Porth) Entender a importância da adesão ao tratamento para controle HAS Introdução A implementação do tratamento anti-hipertensivo com medidas farmacológicas e não farmacológicas visa, principalmente, a reduzir a morbidade e a mortalidade decorrentes dos valores elevados da pressão arterial (PA). (Diretrizes) Apesar da efetividade e da eficácia comprovadas do tratamento, os índices de controle da hipertensão arterial (HA) ainda são insatisfatórios na maioria dos países, inclusive o Brasil. (Diretrizes) Um estudo nacional de revisão sistemática e metanálise realizado na atenção primária à saúde mostrou que a taxa de controle da HA variou de 43,7% a 67,5%. (Diretrizes) Os motivos para a falta de controle dos hipertensos são diversos, mas um dos fatores de maior peso nesse cenário é certamente a falta de adesão ao tratamento por diferentes motivos (Diretrizes) Conceito de adesão Um documento da Organização Mundial da Saúde (OMS) publicado em 2003 definiu a adesão como o “grau em que o comportamento de uma pessoa – tomar o medicamento,seguir uma dieta e/ou executar mudanças no estilo de vida (MEV) – corresponde às recomendações acordadas com um prestador de assistência à saúde”. (Diretrizes) O principal motivo do controle inadequado da HA parece ser o não cumprimento do tratamento a longo prazo (Diretrizes) De acordo com tal diretriz, a adesão ao medicamento é um processo caracterizado por três grandes componentes: o início, a implementação e a descontinuação. (Diretrizes) O início é o tempo desde a prescrição até a tomada da primeira dose do medicamento; A implementação corresponde à coincidência entre a dose que o paciente toma e a dosagem prescrita; A descontinuação marca a interrupção, quando se omite a próxima dose a ser tomada e se interrompe o tratamento posteriormente. Apesar de várias terminologias utilizadas como sinônimos de adesão, como aderência, observância, complacência, fidelidade, compliance, a palavra mais apropriada para o tratamento proposto da HA é adesão. (Diretrizes) Os problemas de adesão nem sempre são fáceis de se detectar e quantificá-los é ainda mais difícil. Para melhorar o controle da HA, é importante reunir esforços no sentido de identificar os pacientes não aderentes ao tratamento proposto. (Diretrizes) A falta de adesão ao tratamento é frequentemente definida quando os hipertensos fazem uso de menos de 80% dos medicamentos prescritos. No entanto, pode variar ao longo de um contínuo de zero e até ultrapassar 100% naqueles que usam mais do que foi prescrito, o que também se considera não adesão ao tratamento (Diretrizes) Métodos de avaliação da adesão Existem várias formas para medir a adesão ao tratamento medicamentoso anti-hipertensivo na prática clínica e em pesquisa, sendo classificados como métodos diretos os que há comprovação objetiva da tomada do medicamento pelo paciente; e métodos indiretos aqueles em que estratégias diversas estimam ou não a tomada do medicamento prescrito. (Diretrizes) A OMS sugere o uso de um método indireto associado a um método direto para a medida da adesão para doenças crônicas. (Diretrizes) No contexto da HA, os métodos indiretos acabam sendo os mais utilizados, pois os métodos diretos ainda carecem de validação, são caros e estão somente disponíveis em ambientes de pesquisa. As escalas estruturadas de autorrelato 12 @poli.canuto III Período - FASAI são muito empregadas em pesquisa clínica, como a escala de adesão terapêutica de Morisky-Green (Diretrizes) Fatores que interferem na adesão Fatores como idade, renda, escolaridade e etnia/raça destacam se principalmente em locais com predomínio de baixo nível socioeconômico. (Diretrizes) O sistema de saúde ofertado e as características da equipe de saúde também podem influenciar a adesão dos hipertensos. (Diretrizes) Quanto à doença e ao tratamento, ressaltam-se a cronicidade e a ausência de sintomatologia da HA, o tratamento para toda a vida e o esquema medicamentoso complexo em alguns casos, além de efeitos indesejáveis e interações dos fármacos. (Diretrizes) Nos aspectos relacionados com o paciente, acrescentam-se a falta de envolvimento com sua problemática de saúde e o esquecimento do uso de medicamentos. (Diretrizes) Estratégias para promover a adesão ao tratamento anti- hipertensivo A falta de adesão ao tratamento tem como principal consequência a falta de controle da HA e, portanto, o aumento de lesões em órgãos-alvo (LOA) e da morbimortalidade cardiovascular (CV). Essas consequências, por sua vez, têm grande impacto econômico, devido a maiores gastos de atendimentos de saúde e aposentadorias precoces. (Diretrizes) Diante disso, a adoção de estratégias com o objetivo de promover uma melhor adesão ao tratamento anti- hipertensivo, seja de forma isolada ou em conjunto, tem como finalidade a mudança desse cenário. (Diretrizes) Automedida da PA Esquemas posológicos com maior comodidade: menores doses possíveis, tomada em dose única diária, associação de anti-hipertensivos em um mesmo comprimido Implementação de equipes multiprofissionais no cuidado de pacientes hipertensos com médico, enfermeiro, farmacêutico, educador físico, nutricionista, psicólogo, assistente social e agentes comunitários de saúde HAS e lesões dos órgãos alvos O aumento da pressão de perfusão ocasionada pela hipertensão pode causar lesão direta dos órgãos-alvo. Além disso, o aumento da pressão intravascular pode lesionar as células endoteliais vasculares, o que aumenta o risco de desenvolvimento de doença vascular aterosclerótica (que compromete ainda mais a perfusão dos órgãos) (Porth) A lesão dos órgãos-alvo afeta em particular os órgãos com estrutura altamente vascularizada ou que dependem fortemente de um suprimento de sangue adequado para a sua função apropriada, incluindo coração, cérebro, rins e retina nos olhos (Porth) A hipertensão é uma causa líder de cardiopatia e doença cerebral isquêmica, doença renalem estágio terminal e comprometimento visual ou cegueira por retinopatia (Porth) A hipertensão é um fator de risco importante para a aterosclerose, porque promove e/ou acelera a formação de placas e sua possível ruptura (Porth) A elevação na pressão arterial aumenta a carga de trabalho do ventrículo esquerdo, por aumentar a pressão contra a qual o coração precisa bombear o sangue ejetado na circulação sistêmica. Com o passar do tempo, a pressão aumenta a carga de trabalho do coração, e a parede ventricular esquerda sofre 13 @poli.canuto III Período - FASAI remodelamento e hipertrofia para compensar o aumento do trabalho em decorrência da pressão (Porth) Essa hipertrofia ventricular esquerda é um fator de risco importante para o desenvolvimento de cardiopatia coronariana, arritmias cardíacas, morte súbita e insuficiência cardíaca congestiva, uma vez que o ventrículo não consegue bombear com eficiência (Porth) A hipertensão crônica leva à nefroesclerose, causa comum de doença renal crônica. A lesão dos rins é produzida por diversos mecanismos (Porth) Uma das formas mais significativas de a hipertensão causar lesão renal é por hipoperfusão glomerular, a qual promove glomeruloesclerose e fibrose tubulointersticia (Porth) Demência e comprometimento cognitivo são mais frequentes em hipertensos. A hipertensão, em particular a hipertensão sistólica, é um importante fator de risco para acidente vascular encefálico e hemorragia intracerebral (Porth) A hipertensão também afeta o olho, em alguns casos de modo devastador. A retinopatia hipertensiva afeta a retina induzindo uma série de alterações microvasculares (Porth) O olho de um hipertenso inicialmente apresenta aumento do tônus vasomotor, que causa estreitamento arteriolar generalizado. Com a persistência da hipertensão, as alterações arterioscleróticas se agravam e incluem a hiperplasia da parede média, espessamento da íntima e degeneração hialina (Porth) Referências PONTES, M. R. N.; LEÃES, P. E. Remodelamento ventricular: dos mecanismos moleculares e celulares ao tratamento. Rev Soc Cardiol Rio Grande do Sul, v. 13, n. 3, p. 1-7, 2004. SILBERNAGL, Stefan; LANG, Florian. Fisiopatologia. [Digite o Local da Editora]: Grupo A, 2016 Brasiliero Filho G. Bogliolo - Patologia. 9ª. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2017 NORRIS, T.L. Porth Fisiopatologia. 10. ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2021. Barroso, Weimar Kunz Sebba et al. Diretrizes Brasileiras de Hipertensão Arterial – 2020. Arquivos brasileiros de cardiologia, v. 116, n.