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Capítulo 1 A ciência da psicologia 5
A ciência da psicologia não tem a ver apenas com in-
tuições ou senso comum. A ciência psicológica é o estudo, 
por meio da pesquisa científica, da mente, do cérebro e do 
comportamento. Todavia, qual é o significado exato de cada 
um desses termos e como estão relacionados entre si? 
Mente se refere à atividade mental. São exemplos de 
mente em ação as experiências perceptivas (visões, odores, 
sabores, sons e toques) que temos ao interagir com o mun-
do. A mente também é responsável por memórias, pensa-
mentos e sentimentos. A atividade mental resulta de proces-
sos biológicos que ocorrem junto ao cérebro. 
Comportamento descreve a totalidade das ações hu-
manas (ou animais) observáveis. Essas ações variam de su-
tis a complexas. Algumas são observadas exclusivamente 
em seres humanos, como discutir filosofia ou realizar cirur-
gias. Outras são vistas em todos os animais, como comer, 
beber e acasalar. Por muitos anos, os psicólogos se concen-
traram no comportamento em vez de nos estados mentais, 
em grande parte por disporem de poucas técnicas objeti-
vas para avaliar a mente. O advento da tecnologia para ob-
servação da atividade do cérebro em ação permitiu que os 
psicólogos estudassem os estados mentais, levando assim 
a um conhecimento mais amplo do comportamento huma-
no. Embora os psicólogos façam contribuições importantes 
para o conhecimento e tratamento de transtornos mentais, 
a maior parte da ciência psicológica tem pouco a ver com 
os clichês terapêuticos, como divãs e sonhos. Em vez dis-
so, os psicólogos geralmente buscam conhecer a atividade 
mental (tanto normal como anormal), a base biológica des-
sa atividade, o modo como as pessoas envelhecem, como 
variam em resposta aos contextos sociais e como adquirem 
comportamentos sadios e não sadios. 
A ciência psicológica ensina o pensamento crítico
Um dos objetivos mais importantes deste livro-texto é fornecer instrução básica mo-
derna sobre os métodos de ciência psicológica. Ainda que a sua única exposição 
à psicologia seja por meio da disciplina introdutória cujo livro-texto é o Ciência 
psicológica, você se tornará psicologicamente letrado. Adquirindo um conheci-
mento satisfatório das principais questões da área, bem como das teorias e con-
trovérsias, você também evitará equívocos comuns sobre psicologia. Aprenderá 
como separar aquilo que é acreditável daquilo que é inacreditável. Aprenderá a 
identificar experimentos mal delineados e desenvolverá as habilidades necessá-
rias para avaliar de forma crítica as alegações feitas na mídia popular. 
A mídia ama uma boa história, e as descobertas de pesquisa psicológica cos-
tumam ser provocativas (FIG.1.2). Infelizmente, os relatos da mídia podem ser 
distorcidos ou até diretamente falsos. Ao longo de sua vida, como consumidor de 
ciência psicológica, você precisará se manter cético quanto aos relatos da mídia 
sobre descobertas “novas em folha” provenientes de pesquisas “inovadoras” (FIG. 
1.3). Com a rápida expansão da internet e milhares de descobertas científicas no-
vas disponíveis para pesquisas sobre praticamente qualquer assunto, você preci-
sa ser capaz de escolher e avaliar a informação que encontra para obter a correta 
compreensão do fenômeno (coisa observável) que estiver tentando investigar. 
Uma das principais características de um bom cientista – ou de um con-
sumidor conhecedor de pesquisa científica – é o ceticismo amigável. Esse tra-
ço combina abertura e cautela. Um cético amigável permanece aberto a novas 
ideias, mas é cauteloso com relação às “novas descobertas” que aparentemente 
não são sustentadas por boas evidências e raciocínio sólido. Um cético amável 
desenvolve o hábito de ponderar cuidadosamente os fatos ao decidir em que 
acreditar. A capacidade de pensar dessa forma – questionar sistematicamente 
FIGURA 1.2 Psicologia no noticiário. A pesquisa psi-
cológica aparece no noticiário com frequência, porque 
as descobertas são intrigantes e relevantes para a vida 
das pessoas.
Ciência psicológica
Estudo, por meio da pesquisa 
científica, da mente, do cérebro e do 
comportamento.
FIGURA 1.3 Descobertas “novas 
em folha”. Os relatos da mídia 
buscam atrair atenção. Suas ale-
gações podem ser baseadas na 
ciência, mas também podem ser 
campanha publicitária ou pior.
6 Ciência psicológica
Pelo amor de Deus, pense! Por que ele está sendo tão bom para você?
e avaliar a informação com base em evidência bem-sustentada – é denominada pen-
samento crítico. 
Ser um pensador crítico envolve procurar “furos” nas evidências, empregando 
a lógica e o raciocínio para ver se a informação faz sentido, bem como considerar 
explicações alternativas. Também requer considerar a possibilidade de a informa-
ção ser tendenciosa por influência, por exemplo, de agendas pessoais ou políticas. 
O pensamento crítico demanda questionamento saudável e 
uma mente aberta. A maioria das pessoas são rápidas 
para questionar informação que não se ajusta a suas 
crenças. Entretanto, como uma pessoa instruída, 
você precisa pensar de forma crítica sobre toda in-
formação. Mesmo quando você “sabe” alguma coisa, 
precisa manter essa informação sempre “fresca” na 
sua mente. Pergunte a si mesmo: a minha crença ainda 
é verdadeira? O que me leva a crer nisso? Quais são os 
fatos que sustentam isso? A ciência produziu novas descobertas que exigem de nós 
a reavaliação e atualização de nossas crenças? Esse exercício é importante porque 
você pode estar menos motivado a pensar de forma crítica sobre a informação que 
verifica seus preconceitos. No Capítulo 2, você aprenderá muito mais sobre como o 
pensamento crítico é útil para o nosso conhecimento científico acerca dos fenômenos 
psicológicos. 
O raciocínio psicológico examina o modo de pensar típico das pessoas
O pensamento crítico é útil em todos os aspectos da sua vida. É também importante 
em todos os campos de estudo nas áreas de humanidades e ciências. A integração 
do pensamento crítico na ciência psicológica acrescenta ao nosso conhecimento o 
modo de pensar típico das pessoas quando se deparam com uma informação. Muitas 
décadas de pesquisa demonstraram que a intuição das pessoas com frequência está 
errada e também que tende a estar errada de modos previsíveis. De fato, o pensa-
mento humano muitas vezes é de tal modo tendencioso que o pensamento crítico se 
torna muito difícil. Por meio do estudo científico, os psicólogos descobriram tipos de 
situações em que o senso comum falha, e as tendenciosidades (ou vieses) influenciam 
o julgamento das pessoas. Em psicologia, o termo raciocínio se refere ao uso de evi-
dência para tirar conclusões. Neste livro, o termo raciocínio psicológico se refere ao 
uso da pesquisa psicológica para examinar o modo de pensar típico das pessoas com 
o intuito de saber quando e por que elas tendem a tirar conclusões erradas. 
Consumir açúcar demais faz as crianças se tornarem hiperativas? Muitas pes-
soas acreditam que essa conexão foi estabelecida cientificamente, mas, na verdade, 
uma revisão da literatura científica revela que a relação entre consumo de açúcar e 
hiperatividade é essencialmente inexistente (Wolraich, Wilson, & White, 1995). Algu-
mas pessoas argumentarão que testemunharam “com os próprios olhos” o que acon-
tece quando as crianças comem doces em grandes quantidades. Em contrapartida, 
considere os contextos dessas observações em primeira mão. Seria possível que as 
crianças comiam grandes quantidades de doces quando iam a festas onde havia mui-
tas crianças? Será que as reuniões, e não os doces em si, tornavam as crianças muito 
excitadas e ativas? As pessoas muitas vezes deixam suas crenças e tendenciosidades 
determinarem aquilo que “veem”. O comportamento altamente ativo das crianças, vis-
to em conexão com o consumo de doces, é interpretado como hiperatividade induzida 
por açúcar. Esse exemplo mostra muitas formas pelas quais aprender a usar o racio-
cínio psicológico pode ajudar as pessoas a se tornarem melhores pensadorescríticos. 
Os cientistas psicológicos catalogaram algumas formas pelas quais o pensamen-
to não crítico pode levar a conclusões errôneas (Gilovich, 1991; Hines, 2003; Kida, 
2006; Stanovich, 2013). Esses erros e tendenciosidades não ocorrem por falta de 
inteligência ou motivação das pessoas. Acontece exatamente o contrário. A maioria 
dessas tendenciosidades ocorre porque as pessoas estão motivadas a usar sua inteli-
gência. Elas querem dar sentido aos eventos que as envolvem e que acontecem ao seu 
redor. O cérebro humano é altamente eficiente em encontrar padrões e fazer conexões 
entre as coisas. Usando essas habilidades, as pessoas podem cometer erros, mas 
também conseguem fazer novas descobertas e avançar a sociedade (Gilovich, 1991).
Pensamento crítico
É o questionamento sistemático e 
a avaliação da informação usando 
evidência bem-sustentada.
Capítulo 1 A ciência da psicologia 7
A nossa mente está constantemente analisando e tentando dar sentido 
a toda informação que recebemos. Essas tentativas geralmente resultam em 
conclusões relevantes e corretas. Algumas vezes, porém, interpretamos as 
coisas de modo errado; enxergamos padrões que, na realidade, não existem. 
Olhamos as nuvens e vemos imagens nelas – palhaços, faces, cavalos, aqui-
lo que vier a nossa mente. Tocamos uma música ao contrário e escutamos 
mensagens satânicas. Acreditamos que eventos como mortes de celebrida-
des acontecem aos montes (FIG. 1.4).
Muitas vezes, enxergamos aquilo que esperamos ver e falhamos em 
perceber as coisas que não se ajustam às nossas expectativas. Esperamos 
que as crianças consumidoras de açúcar se tornem hiperativas e, então, 
interpretarmos o comportamento delas de maneiras que confirmam as nos-
sas expectativas. Do mesmo modo, nossos estereótipos acerca das pessoas 
moldam as nossas expectativas sobre elas, e interpretamos seus comporta-
mentos de maneiras que confirmam esses estereótipos.
Por que é importante se preocupar com os erros e as tendencio-
sidades no pensamento? O psicólogo Thomas Gilovich responde a essa 
pergunta de modo criterioso em seu livro How We Know What Isn’t So: 
The Fallibility of Human Reason in Everyday Life [Como identificamos 
aquilo que não é: a falibilidade da razão humana no dia a dia] (1991). 
O autor destaca que mais norte-americanos acreditam na percepção ex-
trassensorial (PES) do que na evolução, e que há 20 vezes mais astrólogos 
do que astrônomos. Os seguidores de PES e astrologia podem tomar deci-
sões importantes na vida com base em crenças erradas. Algumas pessoas 
caçam animais em extinção por acreditar que partes do corpo desses ani-
mais operam curas mágicas. Algumas contam com terapias suplementa-
res para proporcionar aquilo que acreditam ser um tratamento médico 
ou psicológico real. 
O conhecimento sobre raciocínio psicológico também ajudará você a 
melhorar seu desempenho em sala de aula, inclusive nas aulas desse assun-
to. Antes de ingressarem em um curso de psicologia, muitos estudantes têm crenças 
falsas ou conceitos equivocados sobre os fenômenos psicológicos. As psicólogas Pa-
tricia Kowalski e Annette Kujawski Taylor (2004) constataram que os estudantes que 
empregam habilidades de pensamento crítico concluem um curso introdutório com 
uma compreensão mais precisa da psicologia do que aqueles que concluem o mesmo 
curso sem pôr em prática as habilidades de pensamento crítico. Ao ler este livro, você 
será beneficiado pelas habilidades de pensamento crítico discutidas. Você pode apli-
car essas habilidades em suas outras aulas, no local de trabalho e em sua vida diária. 
Cada capítulo do livro direciona sua atenção a pelo menos um exemplo relevan-
te de raciocínio psicológico, naqueles recursos chamados “No que acreditar? Aplican-
do o raciocínio psicológico”. A seguir, são descritas algumas das principais tendencio-
sidades que você irá encontrar.
 � Ignorando a evidência (viés de confirmação): não acredite em tudo que você 
pensa. As pessoas mostram uma forte tendência a dar muita importância à 
evidência que sustenta suas crenças. Tendem a subestimar a evidência que não 
corresponde àquilo em que acreditam. Quando ouvem falar de um estudo que é 
consistente com suas crenças, geralmente acreditam que esse trabalho tem mé-
rito. Quando escutam falar de um estudo que contraria tais crenças, procuram 
defeitos ou outros problemas. Voltemos a pensar no estudo sobre o Facebook, 
descrito no início deste capítulo. O estudo parecia ter mérito? É provável que o 
seu julgamento tenha sido influenciado por seus sentimentos em relação à rede 
social.
Um fator que contribui para a confirmação das tendenciosidades é a amos-
tragem seletiva da informação. Exemplificando, pessoas com certas crenças po-
líticas podem visitar somente websites que são consistentes com tais crenças. 
Entretanto, se nos restringirmos às evidências que sustentam nossas perspecti-
vas, é claro que acreditaremos que estamos certos. De modo similar, as pessoas 
mostram memória seletiva, tendendo a lembrar melhor a informação que sus-
tenta suas crenças. 
FIGURA 1.4 Padrões inexisten-
tes. As pessoas muitas vezes 
pensam que enxergam faces em 
objetos. Quando alguém alegou 
ter visto a face da Virgem Maria 
em seu sanduíche de queijo gre-
lhado, esse sanduíche foi vendido 
a um cassino por 28 mil dólares, 
pelo eBay. 
8 Ciência psicológica
 � Falhando em julgar corretamente a credibilidade da fonte: em quem você 
pode confiar? Todos os dias, somos assediados por informações novas. Parti-
cularmente, quando temos dúvida sobre em que acreditar, nos deparamos com 
a questão de em quem acreditar. É provável que você assuma que o seu pro-
fessor de psicologia é muito mais digno de confiança na descrição dos fatores 
que influenciam o êxito de um encontro romântico do que seu primo Vinny, por 
exemplo. Entretanto, como pensador crítico, você sabe que as fontes, mesmo 
os especialistas, devem ser capazes de justificar suas alegações. O seu profes-
sor pode lhe falar sobre estudos científicos reais, enquanto Vinny provavel-
mente contará com sua própria experiência pessoal. Ao mesmo tempo, você 
deve estar atento aos apelos de autoridade, como ocorre quando as fontes se 
referem ao conhecimento delas e não a evidências. Publicitários podem tentar 
explorar as nossas tendências a confiar no conhecimento. Uma propaganda 
usando uma pessoa com aparência de médico provavelmente alcançará êxito 
maior promovendo vendas de fármaco do que outra que use um representante 
do fabricante do medicamento (FIG. 1.5). O pensamento crítico exige que nós 
examinemos as fontes de informação que recebemos. 
 � Interpretando equivocadamente ou ignorando a estatística: seguindo o 
que você sente. Em geral, as pessoas falham em compreender ou usar a esta-
tística ao tentar interpretar os eventos ao seu redor. Jogadores acreditam que 
uma bola de roleta que parou cinco vezes consecutivas no vermelho estará 
mais propensa a parar no preto na próxima rodada. Os fãs de basquete assis-
tem aos jogadores fazendo hot streaks como se jamais fossem perder. Esses 
“padrões” não ocorrem com maior frequência do que a esperada ao acaso. 
Suponha que você ouviu dizer que existe uma forte relação entre tabagismo 
e desenvolvimento de câncer. Você poderá pensar em um tio que fuma há 40 
anos e está bem. Por causa dessa observação, poderá concluir que a relação 
existente é falsa. Entretanto, a relação entre tabagismo e câncer está simples-
mente no fato de os fumantes serem mais propensos a desenvolver a doença. 
Conforme você aprenderá no Capítulo 2, a estatística ajuda os cientistas a 
saber a probabilidade de os eventos acontecerem simplesmente devido ao 
acaso. 
 � Enxergando relações que inexistem: criando algo do nada. Um erro de ra-
ciocínio extremamente comum é a percepção equivocada de que dois eventos 
acontecendo ao mesmo tempo devem ter alguma relação. Em nosso desejo de 
descobrir a previsibilidade no mundo, às vezes enxergamos ordem onde não há. 
Acreditar que eventos estejam relacionados,quando na verdade não estão, pode 
levar a um comportamento supersticioso. Um exemplo é a atleta pensar que 
deve consumir determinada refeição antes de um jogo para conseguir vencer, 
ou o fã que acredita que vestir a camiseta do time favorito irá ajudar na vitória 
da equipe. Muitas vezes, eventos que parecem estar relacionados são apenas 
coincidência. Considere um exemplo humorístico. Ao longo dos últimos 200 
anos, a temperatura global média aumentou. Durante esse mesmo período, o 
número de piratas navegando em alto mar diminuiu. 
Você argumentaria que o declínio dos piratas levou 
ao aumento do aquecimento global (FIG.1.6)?
 � Usando comparações relativas: já que você colo-
ca as coisas assim. Quando as pessoas são solicita-
das a adivinhar o resultado da multiplicação 8 × 7 × 6 
× 5 × 4 × 3 × 2 × 1, a média faz suposições em torno 
de 2.250. Entretanto, quando as pessoas são solicita-
das a adivinhar o resultado da multiplicação 1 × 2 × 3 
× 4 × 5 × 6 × 7 × 8, a média supõe apenas 512 (Tver-
sky & Kahneman, 1974). A resposta correta é 40.320. 
Por que começar com um número maior levaria a uma 
suposição mais alta e começar com um número menor 
levaria a uma suposição mais baixa? A informação que 
chega primeiro exerce forte influência sobre o modo 
como as pessoas fazem comparações relativas. Como 
uma questão é enquadrada ou apresentada também 
muda o modo como as pessoas respondem à pergunta. 
FIGURA 1.5 Atores como 
“especialistas”. Propagan-
das que exibem pessoas 
retratando profissionais 
médicos alcançam êxito por 
criar a ilusão de que essas 
pessoas têm conhecimen-
to.
45.000 20.000 15.000 5.000 400 1735.000
1820
1860
1880
1920
1940
1980
2000
13
14
15
16
13,5
14,5
15,5
16,5
Número de piratas (aproximado)
Te
m
pe
ra
tu
ra
 g
lo
ba
l m
éd
ia
 (
C
el
si
us
)
FIGURA 1.6 Um exemplo humorístico. Às vezes, coisas 
que parecem relacionadas não estão.
Capítulo 1 A ciência da psicologia 9
Por exemplo, as pessoas tendem a preferir a informação que é apresentada 
de forma positiva, em vez de negativa. Considere um tratamento médico. As 
pessoas em geral irão se sentir mais entusiasmadas em relação a um trata-
mento se lhes disserem quantas vidas esse tratamento pode salvar, e irão se 
sentir menos entusiasmadas se lhes disserem quantas vidas não serão salvas 
por ele. Seja qual for o prisma pelo qual o tratamento é olhado, o resultado é 
o mesmo. O enquadramento determina as comparações relativas feitas pelas 
pessoas. 
 � Aceitando explicações pós-fato: eu posso explicar! Como as pessoas 
esperam que o mundo faça sentido, muitas vezes aparecem com explica-
ções para o motivo da ocorrência dos eventos. Elas agem assim até mes-
mo quando dispõem de informação incompleta. Uma forma dessa tenden-
ciosidade de raciocínio é conhecida como viés de retrospectiva. Somos 
maravilhosos para explicar por que as coisas aconteceram, mas somos 
muito menos bem-sucedidos em prever eventos. Pense nos disparos fatais 
desferidos em 2012, na Sandy Hook Elementary School, em Newtown, 
Connecticut (EUA). Em retrospectiva, sabemos que houve sinais de alerta 
de que o atirador, Adam Lanza, poderia se tornar violento (FIG. 1.7). Ain-
da assim, nenhum desses sinais de alerta levou imediatamente alguém a 
tomar uma atitude. As pessoas viram os sinais, mas falharam em prever 
o desfecho trágico. De modo mais geral, depois que sabemos o desfecho, 
interpretamos e reinterpretamos evidências antigas para dar-lhe sentido. 
Do mesmo modo, quando gurus políticos preveem o resultado de uma 
eleição e se enganam, aparecem posteriormente com toda sorte de expli-
cações para o resultado da eleição. Se realmente já tivessem visto esses 
fatores como importantes antes da eleição, deveriam ter feito uma previsão 
diferente. Precisamos desconfiar das explicações pós-fato, porque tendem 
a distorcer a evidência. 
 � Pegando atalhos mentais: mantendo as coisas simples. As pessoas mui-
tas vezes seguem regras simples, chamadas heurísticas, para tomar decisões. 
Esses “atalhos” mentais são valiosos porque, com frequência, produzem deci-
sões razoavelmente boas sem esforços grandes demais (Kida, 2006). Porém, 
muitas heurísticas podem levar a julgamentos imprecisos e resultados ten-
denciosos. Um exemplo desse problema ocorre quando as coisas que chegam 
com mais facilidade à mente guiam o nosso pensamento. Após ouvir uma 
série de relatos de notícias sobre raptos de criança, as pessoas superestimam 
a frequência com que esses raptos ocorrem. Os pais se tornam excessivamen-
te preocupados com a possibilidade de seus filhos serem raptados. Como 
consequência, as pessoas podem subestimar outros perigos enfrentados pelas 
crianças, como acidentes de bicicleta, intoxicação alimentar ou afogamento. 
Os relatos no noticiário de raptos de crianças parecem ser mais prováveis 
do que os relatos dessas outras ameaças. A natureza vívida dos relatos de 
rapto os torna fáceis de lembrar. Processos similares levam as pessoas a di-
rigir um carro, em vez de pegar um avião, mesmo que as chances de morrer 
em veículos terrestres sejam muito maiores do que as chances de morrer em 
um acidente aéreo. No Capítulo 8, consideraremos algumas tendenciosidades 
heurísticas. 
 � Falhando em enxergar as nossas próprias inadequações (viés de autos-
serviço): todo mundo é melhor do que a média. As pessoas são motivadas 
a se sentir bem sobre si mesmas e essa motivação afeta seu modo de pensar 
(Kunda, 1990). Exemplificando, muitos acreditam que são melhores do que 
a média em qualquer número de dimensões. Mais de 90% das pessoas pen-
sam que são condutores acima da média, porém esse percentual é ilógico, uma 
vez que apenas 50% podem estar acima da média em qualquer dimensão. As 
pessoas usam várias estratégias para sustentar suas perspectivas positivas, 
como dar créditos aos pontos fortes pessoais por seus êxitos e culpar forças 
externas por seus fracassos. Em geral, as pessoas interpretam a informação de 
maneiras que sustentam suas crenças positivas acerca de si mesmas. Um fator 
que promove excesso de confiança é a frequente dificuldade que as pessoas 
têm para reconhecer seus próprios pontos fracos. Esse fator é ainda descrito 
em “No que acreditar? Aplicando o raciocínio psicológico”, na próxima página. 
FIGURA 1.7 Os disparos de 
Sandy Hook. Em retrospectiva, 
houve sinais de alerta de que o 
atirador de Newtown, Adam Lan-
za, era problemático. Mas é mui-
to difícil prever o comportamento 
violento.
10 Ciência psicológica
Você está assistindo a um ensaio do 
American Idol, e o cantor, embora 
apaixonado, é simplesmente horrível 
(FIG.1.8). Toda a audiência está rindo ou 
contendo o riso por educação. Quando 
os jurados proclamam “Você só pode 
estar brincando! Aquilo foi horrível!”, 
o artista é esmagado e não consegue 
acreditar no veredito. “Mas todos dizem 
que sou um ótimo cantor”, argumenta. 
“Cantar é minha vida!” Você fica senta-
do pensando como é que ele não sabe o 
quanto é ruim?
Momentos como esse nos fazem 
encolher. Sentimo-nos profundamen-
te desconfortáveis com relação a eles, 
mesmo quando sintonizamos para 
assisti-los. O idioma alemão tem uma 
palavra que significa “como nos senti-
mos”: Fremdschämen. Esse termo se 
refere a quando vivenciamos constran-
gimento por outras pessoas, em parte 
por elas não perceberem que deveriam 
ficar constrangidas por si mesmas. As 
comédias da televisão, como The Office, 
alcançam grande parte de seu sucesso 
transmitindo a sensação de Fremdschä-
men.
Como as pessoas com deficiência 
auditiva podem acreditar que seus talen-
tos de cantar merecem a participação 
em uma competição nacional de canto-
res? Os psicólogos sociais David Dun-
ning e Justin Kruger têm uma explica-
ção. As pessoas felizmente costumam 
não ter consciência de seus pontos fra-
cos por não poderem julgá-los (Dunning 
et al., 2003; Kruger & Dunning, 1999). De 
que forma essa limitação vem à tona?
As pessoas felizmente 
costumam não ter 
consciência de seus pontos 
fracos por não poderemjulgá-los.
Para julgar se alguém é um bom 
cantor, você precisa ser capaz de dizer a 
diferença entre um bom e um mau can-
tor. Precisa saber a diferença até mes-
mo ao julgar o modo como você mesmo 
canta. Isso também é válido para a maio-
ria das outras atividades. A falta de uma 
habilidade não só impede as pessoas de 
produzir bons resultados, como também 
as impede de saber quais são os resul-
tados bons. Conforme observado por 
esses pesquisadores, “dessa forma, se 
as pessoas não têm as habilidades ne-
cessárias à produção de respostas cor-
retas, também são amaldiçoadas com 
uma incapacidade de saber quando suas 
respostas (ou as respostas de outra pes-
soa) estão certas ou erradas” (Dunning 
et al., 2003, p. 85).
Em estudos com estudantes uni-
versitários, Dunning e Kruger consta-
taram que pessoas com notas mais 
baixas avaliam bem mais alto o próprio 
domínio das habilidades acadêmicas 
do que aquilo que o desempenho delas 
de fato justifica (FIG.1.9). Um aluno 
que tira nota C pode reclamar para o 
professor “Meu trabalho foi tão bom 
No que acreditar? Aplicando o raciocínio psicológico
Falhando em enxergar as nossas próprias inadequações: por que as 
pessoas não têm consciência de seus pontos fracos?
FIGURA 1.8 Julgando um desem-
penho. Jurados do American Idol 
reagem a uma audição. 
100
90
80
70
60
50
40
Pe
rc
en
til
Quartil de desempenho real 
30
20
10
0
Menor Segundo lugar Terceiro lugar Maior
Domínio percebido do material 
Desempenho percebido em teste
Desempenho real em teste
FIGURA 1.9 Avaliações indi-
viduais versus desempenho 
real. Estudantes avaliaram o 
próprio domínio do material 
do curso e o desempenho em 
testes. Os pontos no eixo Y 
refletem como eles perceberam 
suas posições (valor em uma 
escala de 100) de percentis. Os 
pontos no eixo X refletem a po-
sição real do desempenho des-
ses alunos (quartil significa que 
as pessoas foram divididas em 
quatro grupos). As maiores pre-
dições dos alunos se aproxima-
ram de seus resultados reais. 
Em contraste, as predições 
menores dos alunos estavam 
distantes da realidade.
Capítulo 1 A ciência da psicologia 11
quanto o do meu colega de quarto, só 
que ele ganhou nota A”. Esse protesto 
pode mostrar apenas que o estudante 
não tem capacidade de avaliar o de-
sempenho nas áreas em que é mais 
fraco. Para piorar as coisas, as pessoas 
que não têm consciência das próprias 
fraquezas falham em qualquer tentativa 
de autoaprimoramento para superação 
desses pontos fracos. Essas pessoas 
não tentam melhorar porque acreditam 
que seu desempenho já é bom.
Dunning e Kruger (1999) demons-
traram que ensinar habilidades especí-
ficas para as pessoas as ajuda a serem 
mais precisas no julgamento do próprio 
desempenho. Esse achado implica que 
as pessoas podem precisar de ajuda 
para identificar seus pontos fracos an-
tes de poderem consertá-los. Mas em 
primeiro lugar, por que as pessoas são 
tão imprecisas? A resposta provável é 
que elas em geral começam com pers-
pectivas extremamente positivas sobre 
suas habilidades. No Capítulo 12, você 
aprenderá mais sobre o motivo pelo qual 
a maioria das pessoas acredita estar 
acima da média em muitas coisas. Es-
sas crenças influenciam o modo como 
julgam seus talentos e habilidades em 
múltiplas áreas. Saber sobre essas cren-
ças nos ajuda a compreender o motoris-
ta que alega ser muito habilidoso apesar 
do envolvimento em numerosos aciden-
tes de carro, bem como o cantor que se 
gaba de uma incrível habilidade vocal 
apesar do desempenho terrível em rede 
nacional. 
Resumindo
O que é ciência psicológica?
 � Ciência psicológica é o estudo, por meio de pesquisa, da mente, do cérebro e do compor-
tamento. 
 � A maioria de nós atua como psicólogos intuitivos, mas muitas de nossas intuições e cren-
ças são erradas. 
 � Para melhorar a precisão das nossas próprias ideias, precisamos pensar de forma crítica 
sobre elas. 
 � Também precisamos pensar de maneira crítica sobre as descobertas científicas, e fazer 
isso significa conhecer os métodos de pesquisa usados pelos psicólogos. 
 � A ciência psicológica estabeleceu os erros típicos que as pessoas cometem ao raciocinar 
sobre o mundo que as cerca. Esses erros incluem ignorar evidências que não sustentam 
as crenças de alguém (viés de confirmação), falhar em julgar corretamente a credibilidade 
da fonte, interpretar as estatísticas de forma errada ou não usá-las, enxergar relações ine-
xistentes, fazer comparações relativas, aceitar explicações pós-fato, pegar atalhos mentais 
e falhar em ver as próprias inadequações (viés de autosserviço).
Avaliando 
 1. Pensamento crítico é
 a. criticar o modo de pensar das outras pessoas.
 b. avaliar sistematicamente a informação para chegar a conclusões sustentadas por evi-
dência. 
 c. questionar tudo que você ler ou ouvir e se recusar a acreditar em qualquer coisa que 
você não tenha visto por si mesmo. 
 d. tornar-se uma autoridade em tudo, para que assim você nunca tenha que contar com 
os julgamentos das outras pessoas. 
 2. Faça a correspondência de cada exemplo com a habilidade de raciocínio psicológico 
por ele descrita: interpretação errada ou não uso de estatística; falha em julgar com 
precisão a credibilidade da fonte; viés de autosserviço e pegar atalhos mentais.
 a. Um jogador de blackjack vence três rodadas consecutivas e diminui a aposta, assumin-
do que irá perder na próxima rodada. 
 b. Uma pessoa faz uso de tratamento à base de ervas para melhorar o sono porque a em-
balagem contém a informação de que esse tratamento é efetivo em 100% dos casos. 
 c. Um estudante pensa que merece nota A por um artigo que recebeu nota D. 
 d. Seu colega de quarto insiste em ir para a Flórida nas férias da primavera porque esse é 
o primeiro lugar que lhe veio à mente.
RESPOSTAS: (1) b. avaliar sistematicamente a informação para chegar a conclusões sustentadas por 
evidência. (2) a. interpretar de modo errado ou não usar estatística; b. falhar em julgar com precisão a credi-
bilidade da fonte; c. viés de autosserviço; d. pegar atalhos mentais.
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