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ADMINISTRAÇÃO E ECONOMIA Antonio Albano B. Moreira Jackson Teixeira Bittencourt G es tã o A D M IN IS T R A Ç Ã O E E C O N O M IA A nt on io A lb an o B . M or ei ra Ja ck so n Te ix ei ra B itt en co ur t A Administração é uma ciência universal, utilizada desde a criação humana, na vida pessoal e coletiva, para atingir resultados com recursos que estavam disponíveis sob diversas formas. Os impérios, as migrações, os enriquecimentos e tantos outros fatores deram-se a partir de práticas, rudimentares ou complexas, em que a Administração não era explicitamente registrada. Vivemos um período de transições rápidas e radicais em todos os ramos da atividade humana. São tempos difíceis para as organizações porque mudanças normalmente são traumáticas e causam perdas para aqueles que não se adaptam aos rápidos e novos tempos. Principalmente hoje, são essenciais o estudo, a reflexão, o embasamento nos princípios e fundamentos da Administração e acima de tudo, agilidade e inovação. Os principais temas econômicos da atualidade noticiados pela mídia nacional e internacional estão intrinsecamente relacionados com a própria existência da sociedade moderna, na medida em que esses temas têm influência direta no cotidiano das pessoas. Muitas vezes não conseguimos entender qual a razão de algumas medidas econômicas adotadas por nossos economistas e/ ou dirigentes governamentais, contudo não podemos viver à margem dessas questões, pois elas influenciam ou irão influenciar direta ou indiretamente a vida de todos os cidadãos. Durante os capítulos adiante iremos transitar sobre conceitos básicos, criar significados com base na história dos acontecimentos e ainda dialogar sobre a gestão atual e a economia brasileira. Tudo isso de forma clara e objetiva. Curitiba 2021 Administração e Economia Antonio Albano B. Moreira Jackson Teixeira Bittencourt Ficha Catalográfica elaborada pela Editora Fael. M838a Moreira, Antonio Albano B. Administração e economia / Antonio Albano B. Moreira, Jackson Teixeira Bittencourt – Curitiba: Fael, 2021. 234 p. 978-65-86557-66-4 1. Administração 2. Economia I. Bittencourt, Jackson Teixeira II. Título CDD 658 Direitos desta edição reservados à Fael. É proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem autorização expressa da Fael. FAEL Direção Acadêmica Francisco Carlos Sardo Coordenação Editorial Angela Krainski Dallabona Revisão Editora Coletânea Projeto Gráfico Sandro Niemicz Imagem da Capa Stock.adobe.com/Looker_Studio Arte-Final Hélida Garcia Fraga Sumário Carta ao Aluno | 5 1. Conceitos básicos de administração e organização | 7 2. Abordagem científica/clássica da administração | 21 3. Teoria das relações humanas | 53 4. A moderna gestão | 65 5. Princípios de Economia: Escassez, Trade-offs e Custo de Oportunidade, Fronteira das Possibilidades de Produção, Problemas Econômicos e Sistemas Econômicos | 111 6. Economia de mercado: modelo microeconômico; demanda e seus determinantes; oferta e seus determinantes; equilíbrio do mercado | 131 7. Moeda, inflação e sistema financeiro | 149 8. Políticas macroeconômicas e comércio internacional | 169 9. Teoria da firma: produção e custos | 189 10. Economia Brasileira Contemporânea: Planos de Estabilização, Inserção na Globalização e os Entraves da Economia Brasileira | 205 Gabarito | 223 Referências | 231 Prezado(a) aluno(a), A compreensão dos fatos está ligada à aprendizagem sig- nificativa, quando vemos sentido naquilo que está sendo apre- sentado e muitas vezes iniciamos um processo de substituição de ideias ligadas ao senso comum por conhecimentos cientí- ficos. A administração e a economia estão atreladas ao nosso cotidiano. Em qualquer nível, todos nós tomamos decisões sobre administração e economia em nossas vidas, mesmo sem percebermos. E aqui vale um ponto de atenção, sempre cuidar para que essas decisões, por mais corriqueiras que sejam, não se baseiem no senso comum. A melhor maneira de se evitar isso é pesquisar, estudar. A atividade econômica é de fundamental importância para a sobrevivência humana e para o progresso de toda sociedade. Os princípios da administração e da economia são apresentados nesta obra de forma clara e concisa possibilitando reflexões sobre Carta ao Aluno – 6 – Administração e Economia a maneira com a qual as sociedades decidem empregar seus recursos e as consequências dessas decisões. Vivenciamos um momento ímpar na história – pandemia, eleitos climáticos, conflitos geopolíticos, desigual- dade, inovação tecnológica, inteligência artificial – todos esses fatores, independente se positivos ou negativos, afetam diretamente a economia global e a administração de recursos e pessoas. Estudar e compreender essa dinâmica torna-se estratégico, independente de sua área direta de atu- ação ou formação. Bons estudos! 1 Conceitos básicos de administração e organização Temos observado, nos últimos tempos, algumas opiniões contrárias ao estudo da Teoria Geral da Administração, a tradi- cional TGA, dentro dos cursos de Administração. O principal argumento usado é o fato de que esse estudo versa sobre um pas- sado distante e remonta ao início da formalização das organiza- ções empresariais. Usando dos mesmos argumentos, poderíamos invalidar, também, o estudo da história ou mesmo dos conceitos mais bási- cos de qualquer outra ciência tradicional. Por exemplo, podería- mos deixar de estudar as operações aritméticas básicas por estas serem muito antigas e terem sido estabelecidas em um passado distante? A resposta, com certeza, é não, tanto para a matemática como para qualquer outra ciência. – 8 – Administração e Economia É por meio das pesquisas e dos estudos que consolidaram conhe- cimentos sobre como as pessoas se organizam em busca de resultados comuns e de como essas organizações podem melhorar sua eficiência e eficácia em busca desses resultados que podemos nos espelhar para melhorar o funcionamento das organizações atuais, fazê-las mais competi- tivas e, mais importante, poder fazê-las mais duráveis e sólidas. Apesar de todo o avanço que se fez no estudo e na disseminação da Administração, ainda temos índices muito elevados de mortalidade prematura das nossas empresas, causados por falta de aplicação de conceitos administrativos já amplamente estudados e comprovados. 1.1 A Administração atual O estudo histórico da evolução da Administração por meio da sua teoria e das várias concepções e visões surgidas ao longo do tempo, embasados em estudos científicos, nada mais é do que o processo da evolução de uma ciência construindo novos conhecimentos e conceitos em princípios e fundamentos já estabelecidos anteriormente. O fato de, na sua forma tradicional, o estudo da Administração voltar-se, principal- mente, à análise das teorias administrativas baseadas e estabelecidas em realidades e organizações completamente diferentes das atuais de forma alguma invalida a utilização desses princípios e fundamentos pelas orga- nizações atuais. Essa evolução revela uma ciência viva e em constante atividade e desenvolvimento, provocando, com isso, o grande desafio para os admi- nistradores e organizações de aplicarem os princípios e os conceitos de modo que as organizações beneficiem-se e se promova uma melhoria contínua de cada organização de forma específica e da Administração como um todo. 1.1.1 A importância e o papel do administrador A Administração ou gestão e o administrador ou gestor, termos com sentidos sinônimos e utilizações idênticas, na sua atividade, são respon- sáveis por atingir os objetivos dos grupos sob sua responsabilidade e, portanto, estão presentes em todas as organizações, tendo em vista que – 9 – Conceitos básicos de administração e organização são um conjunto organizado de recursos humanos, físicos e monetários, trabalhando organizados por meio de um sistema de processos funcionais, valores, políticas, cultura e práticas,para um objetivo comum. É a partir do trabalho do gestor, transformando conhecimento em ganhos, que a organização chega aos seus objetivos. O mundo atual, caracterizado pela necessidade constante por melhores resultados exigi- dos às organizações, sejam elas públicas, privadas ou de caráter social, leva à pressão por uma constante melhoria dos processos organizacionais e da produtividade aos seus gestores. O esforço em atingir esses resul- tados não é o foco da gestão, mas, sim, o resultado alcançado mediante este esforço (NOBREGA, 2004). Caracteriza-se, então, o papel do administrador, ou gestor, como pode ser denominado, como a busca constante pela melhoria na produtividade e nos resultados das suas organizações ou setores de uma organização, por meio da otimização da utilização de todos os recursos e processos colo- cados à sua disposição no alcance dos objetivos propostos. Dessa forma geral, verificamos que a presença de um administrador ou gestor se faz necessária em qualquer tipo de organização, organismo ou grupo social definido com um objetivo comum estabelecido. Por isso enfatizamos a importância do estudo dos princípios e fun- damentos históricos não só para entender o passado, mas, também, para a aplicação de tais elementos, garantindo, assim, resultados semelhantes (NOBREGA, 2004). Sabemos que os princípios básicos de uma ciência são estes: mesmas condições, mesmos processos, mesmos componentes darão o mesmo resultado, sob as mesmas condições ambientais. Sob esse enfoque amplo, descrito anteriormente, o papel do admi- nistrador adquire importância dentro das empresas, já que é dele que se espera o planejamento das estratégias e das ações empresariais, o acom- panhamento diário dessas ações estabelecidas e quanto elas estão contri- buindo para os objetivos propostos, a gestão dos recursos financeiros nas suas especificidades dos recebimentos, pagamentos, financiamentos e aplicações dos recursos materiais, envolvendo máquinas, equipamen- tos, edifícios e matérias-primas e a sua compra, manutenção e venda, a gestão de todos os aspectos que envolvem a gestão dos recursos huma- – 10 – Administração e Economia nos da organização, seleção, recrutamento, relacionamentos interpesso- ais, análise da satisfação, treinamento e demissão de funcionários. Por- tanto, o campo de atuação do administrador é bastante amplo e variado, cabendo, hoje, diversas atividades relacionadas e correlatas a um admi- nistrador profissional. De forma mais resumida, podemos afirmar que a Administração trata da condução das organizações lucrativas ou não lucrativas de uma forma racional das suas atividades. E essa condução deve ocorrer mediante o planejamento, a organização, a direção e o controle de todas as atividades que ocorrem em uma organização, decorrentes de uma diferenciação e divisão do trabalho (CHIAVENATO, 2004). Apesar de recentes no Brasil, os cursos de Administração são relati- vamente antigos nos Estados Unidos, tendo ali surgido no fim do século XIX, na Wharton School, em 1881. Enquanto já havia formado-se algo em torno de 50 mil administradores, 4 mil mestres e 100 doutores nos EUA, surgia, em 1952, o início do estudo da Administração no Brasil (FEA- -USP, 2012). Não é mera coincidência a criação das escolas de Administração no Brasil e o início dos períodos do processo de desenvolvimento no país. Inicialmente, de forma tímida, no período Vargas, e mais concre- tamente no governo Juscelino. O início da industrialização e o cres- cimento das empresas geram uma necessidade muito grande de um contingente de mão de obra qualificada para gerir essas empresas e ocupar cargos intermediários de gestão. Essa necessidade de profissio- nais qualificados gera a necessidade da formação de administradores profissionais, por meio do ensino formal profissional da Administra- ção. O início desse ensino foi marcado pela criação da Fundação Getu- lio Vargas (FGV) e da FEA-USP (FEA-USP, 2012). Atualmente, o estudo profissional da Administração está amplamente difundido e solidificado. A profissão de administrador é regulamentada mediante a Lei n. 4.769/1965 e sua atividade registrada e fiscalizada por meio dos Conselhos profissionais estaduais e o federal, o Conselho Regio- nal de Administração (CRA), em nível estadual, e o Conselho Federal de Administração (CFA), em nível federal. – 11 – Conceitos básicos de administração e organização 1.1.2 As organizações atuais e o administrador Se, de alguma forma, a grande diversidade de organizações presentes no mundo atual poderia levar a crer em uma dificuldade de adaptação interna do administrador a cada uma delas e às suas especificidades e heterogenei- dades, isso não ocorre devido ao fato de que o papel do administrador é determinado e estabelecido como a definição das estratégias, o diagnóstico das situações e dos problemas, a priorização e a alocação dos recursos, o planejamento da sua aplicação e a criação de diferenciais competitivos, por meio da inovação de processos e produtos (CHIAVENATO, 2004). Mesmo considerando todas as diversificações de tamanho, estrutura, características, tipos de produtos ou processos, as organizações podem ser classificadas em dois grandes grupos: lucrativas, as chamadas empresas privadas, e as não lucrativas, aí incluindo um grande leque de organiza- ções, desde as filantrópicas, ONGs, igrejas, até os serviços públicos, exér- cito, etc. Por outro lado, percebemos que a procura por profissionais com- petentes da Administração, focados em resultados, aumenta em função da alta competição que o mundo globalizado provocou em todos os setores da economia. Desde as pequenas empresas até os grandes grupos multina- cionais, todas as organizações devem buscar suas vantagens competitivas e seus diferenciais sob a liderança de administradores competentes. Dentro desse leque variado e extenso de organizações e cargos nelas existentes, o administrador deve procurar, na sua formação, adquirir deter- minadas habilidades que o levem a se destacar perante seus pares e a gal- gar cargos nas estruturas das organizações. Essas habilidades podem ser divididas em três grandes grupos (CHIAVENATO, 2004): 2 Habilidades técnicas – são aquelas decorrentes do conhecimento e da experiência profissional e são a implantação de métodos, téc- nicas e processos para a realização das tarefas, é o fazer. 2 Habilidades humanas – relacionadas ao convívio social com seus colegas. É a capacidade de trabalhar em equipe e de propor soluções à interação, à liderança e à resolução de conflitos. 2 Habilidade conceitual – refere-se à capacidade de abstra- ção, de visualizar o futuro, de tomar decisões por meio do – 12 – Administração e Economia raciocínio e do diagnóstico das situações e alternativas dis- poníveis; de interpretar o ambiente, os dados disponíveis, a missão da organização e poder levá-la a novos horizontes e a novos patamares de eficácia e produtividade, otimizando recursos e aproveitando oportunidades. De acordo com o crescimento que o administrador terá dentro da estrutura hierárquica, essas três habilidades serão exigidas de forma diferente. Partindo do nível operacional, temos, aqui, um forte predo- mínio e necessidade das habilidades técnicas, os conhecimentos e os métodos são as exigências dos cargos de supervisão, ainda muito ligados ao acompanhamento e ao controle das atividades operacionais e com fraca presença da aplicação das habilidades humanas. Conforme o admi- nistrador sobe na escala hierárquica, as atividades operacionais ficam mais distantes e logo ele precisa aplicar suas habilidades humanas de liderança, resolução de conflitos e de trabalho em equipe. Esse nível caracteriza-se pelos cargos de gerência intermediária, é o chamado nível tático da organização. No nível mais alto da organização, a alta direção, temos uma forte presença da necessidade de habilidades con- ceituais. É o predomínio das ideias, da abstração das tomadas de decisão estratégicasque envolvem toda a organização e uma perspectiva de médio e longo prazo, na sua maioria. Paralelamente ao desenvolvimento dessas habilidades, exige-se do administrador três tipos de competências no exercício da sua atividade. Essas competências devem ser duráveis e constituir a base sólida da atu- ação do profissional, porque as rápidas mudanças a que as empresas são expostas não devem provocar a sua obsolescência (CHIAVENATO, 2004). Para isso, o administrador deve orientar sua competência dentro de linhas mestras duráveis, o conhecimento, seu referencial, sua base de decisão, sua experiência profissional e não deve estar estagnado e imutável. O profissional deste século deve estar em constante aprendizado e ter a capacidade do aprender a aprender, a habilidade de colocar seu conheci- mento em prática, o saber fazer e aplicar. Deve, ainda, ter a capacidade de identificar, dentro da sua bagagem cognitiva, quais elementos podem ser – 13 – Conceitos básicos de administração e organização aplicados em cada caso e em cada desafio da sua carreira e ter a segurança nessa aplicação. Por último, é necessária uma competência comportamen- tal ou atitude para poder interagir com o mundo que o rodeia, liderar suas equipes no alcance dos objetivos, estabelecer o ritmo e o estilo de trabalho que vai ser observado, imitado e seguido. É a forma como as outras duas habilidades anteriores são colocadas para o grupo e os outros. Essas três competências são as guias mestras que nortearão a carreira do administra- dor rumo ao sucesso e ao topo da organização. Saiba mais Henry Mintzberg, norte-americano, nascido em 2 de setembro de 1939, é Ph.D em Administração. É autor e acadêmico referên- cia na Administração com vários estudos e livros relacionados às funções de gerência, administração e análises sobre as fun- ções dessa área. Para além das competências relacionadas, Mintzberg em seus estu- dos, identificou e catalogou dez papéis executados pelo administrador, catalogados em três grupos classificatórios: interpessoais, informacionais e decisórios (apud CHIAVENATO, 2004). Os papéis interpessoais são aqueles que se relacionam com as pessoas, como o próprio nome indica. Eles se referem à forma como o administrador se relaciona com as pessoas e as influencia, em decorrência das suas habilidades humanas. Os papéis informacionais têm a ver com as informações com as quais o administrador lida, com a rede de informações que ele precisa montar, seu desenvolvimento e manutenção, bem como à forma como ele troca essas informações com seus colegas. Os papéis decisórios relacionam-se na forma como o administrador toma decisões, escolhe opções, processa e usa as informações e também como põe em prática suas habilidades huma- nas e de relacionamento interpessoal. Podemos ver, no quadro 1.1, os dez papéis do administrador, a classificação desses três grupos de papéis e seus componentes mais simples. – 14 – Administração e Economia Quadro 1.1 Os dez papéis do administrador. Categoria Papel Atividade Interpessoal Representação Assume deveres cerimoniais e simbó- licos, representa a organização, acom- panha visitantes, assina documentos legais. Liderança Dirige e motiva pessoas, treina, acon- selha, orienta e se comunica com os subordinados. Ligação Mantém redes de comunicação dentro e fora da organização, usa malotes, tele- fonemas e reuniões. Informacional Monitoração Manda e recebe informação, lê revistas e relatórios e mantém contatos pesso- ais. Disseminação Envia informação para os membros de outras organizações, envia memoran- dos e relatórios, telefonemas e contatos. Porta-voz Transmite informações para pessoas de fora, através de conversas, relatórios e memorandos. Decisorial Empreen- dimento Inicia projetos, identifica novas ideias, assume riscos, delega responsabilida- des de ideias para outros. Resolução de conflitos Toma ação corretiva em disputas ou crise, resolve conflitos entre subordina- dos, adapta o grupo a crises e mudan- ças. Alocação de recursos Decide a quem atribui recursos. Pro- grama, orça e estabelece prioridades. Negociação Representa os interesses da organização em negociações com sindicatos, em vendas, compras ou financiamentos. Fonte: Chiavenato (2004, p. 5). – 15 – Conceitos básicos de administração e organização Quadro 1.2 Os dez papéis do administrador. Categoria Papel Atividade Interpessoal Representação Assume deveres cerimoniais e simbóli- cos, representa a organização, acompa- nha visitantes, assina documentos legais. Liderança Dirige e motiva pessoas, treina, aconse- lha, orienta e se comunica com os subor- dinados. Ligação Mantém redes de comunicação dentro e fora da organização, usa malotes, telefo- nemas e reuniões. Informacional Monitoração Manda e recebe informação, lê revistas e relatórios e mantém contatos pessoais. Disseminação Envia informação para os membros de outras organizações, envia memorandos e relatórios, telefonemas e contatos. Porta-voz Transmite informações para pessoas de fora, através de conversas, relatórios e memorandos. Decisorial Empreend i - mento Inicia projetos, identifica novas ideias, assume riscos, delega responsabilidades de ideias para outros. Resolução de conflitos Toma ação corretiva em disputas ou crise, resolve conflitos entre subordina- dos, adapta o grupo a crises e mudanças. Alocação de recursos Decide a quem atribui recursos. Pro- grama, orça e estabelece prioridades. Negociação Representa os interesses da organização em negociações com sindicatos, em vendas, compras ou financiamentos. Fonte: Chiavenato (2004, p. 5). – 16 – Administração e Economia 1.2 Origem histórica da Administração Mesmo que só recentemente tenha sido formalizada a profissão de administrador e a Administração estabelecido-se como uma ciência, as funções e os princípios administrativos já estão presentes desde a forma- ção dos pri meiros grupos humanos. Nos diversos registros da história da humanidade, na sua evolução e, principalmente, na sua organização em sociedade, de alguma forma estiveram presentes competências adminis- trativas para que essas ações ou sociedades organizadas tivessem sucesso. 1.2.1 A Administração através dos tempos A necessidade da caçada em grupo dos antigos homens, há milhões de anos, levou-os a organizarem-se de forma a obter o melhor resultado nas suas empreitadas e a registrar suas experiências e táticas para que, em futuras caçadas, usassem os mesmos modelos de sucesso, como ficou registrado em pinturas conservadas em várias cavernas da Europa. Mais recente que nossos ancestrais rupestres, da mesma forma, 4 mil anos a.C., os egípcios demonstraram alta utilização das funções da gestão para o sucesso na construção das suas pirâmides, utilização tão eficaz que até hoje discute-se qual organização e gestão utilizadas e a forma como elas foram construídas, além de se reconhecer que uma alta competência de planejamento, organização e controle da gestão egípcia se fez presente nessas construções. Várias outras demonstrações de conceitos de gestão até hoje usados estão presentes em registros históricos. Na Bíblia, encontramos o regis- tro de Moisés como um gestor, ao vê-lo seguir os conselhos de Jatro, seu sogro, sobre a forma como organizar as tribos judaicas estrutural- mente e hierarquicamente e como funcionaria o processo de comando e de comunicação entre ele, os líderes das tribos e todos os seus compo- nentes. Ali ele já aplicaria os conceitos da delegação, pois concedeu-lhes a autoridade da tomada de decisões, como seus representantes diretos. Limitando a autoridade desses chefes a assuntos mais simples, cabendo à autoridade dos assuntos mais complexos a si próprio, por meio de um processo de comunicação na estrutura hierárquica, estaria ou não Moisés – 17 – Conceitos básicos de administração e organização aplicando princípios de estruturação organizacional que muitos séculos depois foram formalizadosem manuais, organogramas e fluxogramas até hoje usados em todas as organizações? Com certeza, podemos afirmar que sim. Podemos afirmar, também, que a Administração da forma como a vemos hoje começou nesses antigos modelos de estruturação e gestão ( CHIAVENATO, 2004). Várias outras demonstrações da aplicação de princípios e práticas administrativas foram registradas ao longo dos séculos e em variados lugares do planeta, tendo sempre em comum a preocupação da organiza- ção, do controle, da produtividade e da maximização dos recursos utiliza- dos. Podemos verificar esses fatos históricos no quadro 1.2, que trata da linha do tempo da Administração, a seguir. Ao longo do tempo, têm sido sempre muito presentes as funções da Administração, principalmente as militares e religiosas, em que se fazem necessárias organização e hierarquia muito formais, além de uma definição muito clara de funções. A Administração ganhou muito das experiências militar e religiosa e seus conceitos bem-sucedidos. Ainda hoje temos muito presentes nas nossas organizações formas e similaridades herdadas, prin- cipalmente, da organização militar e, mais especificamente, dos exércitos. Individualmente, também observamos essa presença. A partir da necessidade da execução da mais simples tarefa humana diária: qual a sequência das tarefas domésticas a executar, como elaborar uma receita culinária ou qual o trajeto a fazer para otimizar minhas tarefas na rua, etc. Algumas das funções básicas da Administração estarão presentes caso o objetivo seja a otimização e o sucesso nessas tarefas, sejam elas o plane- jamento da sequência correta das tarefas a executar, a verificação sobre se existem os componentes certos da receita e a quantidade certa ou qual o tempo gasto para o deslocamento de um lugar a outro, para poder chegar aos compromissos a tempo. O estudo e a aplicação da gestão estão presentes de forma mais sim- ples nos aspetos mais práticos e corriqueiros da vida humana, a sua apli- cação consciente trará imensos benefícios na busca do sucesso pessoal e profissional, mediante planejamento pessoal ou da carreira, organização de tempo e recursos, execução do planejado e, no aspecto mais prático, a otimização de recursos financeiros. – 18 – Administração e Economia Quadro 1.3 Linha do tempo da Administração. Período e local Evento 3000 a.C., Mesopotâmia Civilização suméria. Escrituração de operações comer- ciais. Primeiros dirigentes e funcionários administrativos profissionais. Século XXVI a.C., Egito Construção da Grande Pirâmide. Evidências de planeja- mento, organização e controle sofisticados. Século XXIV a.C., China O Imperador Yao usa o princípio da assessoria para diri- gir o país de forma descentralizada. Século XVIII a.C., Babilônia Código de Hamurabi. Escrituração meticulosa de opera- ções. Evidências de ênfase no controle. Século XVI a.C., Egito Descentralização do reino. Logística militar para a prote- ção das províncias. Século XII a.C., China Constituição da Dinastia Chow. Século VIII a.C., Roma Começo do Império Romano, que duraria 12 séculos. Os embriões de todas as instituições administrativas moder- nas são criados nesse período. Século VI a.C., China Confúcio expõe uma doutrina sobre o comportamento ético dos cidadãos e dos governantes. Século V a.C., China Mêncio procura sistematizar princípios de administração. Século V a.C., Grécia Democracia, ética, qualidade, método científico, teoriza- ção e outras ideias fundamentais. Século IV a.C., China Sun-Tzu prescreve princípios de estratégia e comporta- mento gerencial. Século III a.C., Roma O exército romano é o modelo para os exércitos nos séculos seguintes. Esse modelo influenciaria outros tipos de organizações. 1494, Gênova Luca Pacioli divulga o sistema de partidas dobradas para escrituração contábil no livro Summa de Arithmetica, Geo- metria, Proportioni et Proportionalità (Obras completas de aritmética, geometria, proporções e proporcionalidades). – 19 – Conceitos básicos de administração e organização Período e local Evento Século XVI, Veneza O Arsenal de Veneza usa contabilidade de custos, nume- ração de peças inventariadas, peças padronizadas e inter- cambiáveis e técnicas de administração de suprimentos. O Arsenal também utiliza uma linha de montagem para equipar os navios. Em 1574, durante uma visita de Hen- rique III da França, um navio foi montado, equipado e posto ao mar em uma hora. Século XVI, Florença Maquiavel publica O príncipe, um tratado sobre a arte de governar, em que são enunciadas as capacidades do dirigente. Meados do século XVIII, Inglaterra Início da Revolução Industrial. 1776, Inglaterra A riqueza das nações, de Adam Smith, descreve e elogia o princípio da divisão do trabalho e a especialização dos trabalhadores. Final do século XVIII, Europa e Estados Unidos Desenvolve-se a produção baseada em peças padroniza- das e intercambiáveis. 1810, Escócia Robert Owen inicia uma experiência de administração humanista na fiação New Lanark. Início do século XIX, França Primeiros sistemas de participação nos resultados para os trabalhadores. Início do século XIX, Inglaterra Primeiros sindicatos de trabalhadores. Final do século XIX, Alemanha Wilhelm Wundt cria a psicologia experimental. 1881, Esta- dos Unidos Joseph Wharton funda a primeira faculdade de Admi- nistração. Final do século XIX até os anos 10 do século XX, Estados Unidos Movimento da Administração Científica. Fonte: adaptado de Maximiano (2010, p. 15). – 20 – Administração e Economia Da teoria para a prática A necessidade da aplicação dos conceitos e funções da Administra- ção está presente em todos os setores da atividade humana. Isso se torna evidente na forma como a aplicação desses conceitos e funções leva ao sucesso determinadas organizações ou atividades ou como a falta ou má execução dessas funções faz com que os resultados pretendidos não sejam alcançados. Para que sejam evidenciadas tais premissas, propomos a verificação, durante um período relativamente curto, por exemplo, uma semana, da presença, da necessidade ou mesmo da falta de conceitos e aplicação das funções básicas do administrador – prever, planejar, organi- zar, controlar e avaliar, por meio da observação de notícias emitidas pelos meios de comunicação de massa, bem como dos resultados apresentados pelas organizações em geral. Podem ser observados, por exemplo, os índi- ces de mortalidade das empresas brasileiras e as suas causas relativas à falta da aplicação tanto de princípios da Administração quanto das fun- ções administrativas. Síntese Mesmo que tenham evoluído ao longo da história do homem em sociedade, os princípios, fundamentos e conceitos básicos da Adminis- tração sempre estiveram presentes e exerceram influência sobre a sobre- vivência e sucesso das organizações. Em parte ou na sua totalidade, as funções administrativas de prever, planejar, organizar, controlar e avaliar estiveram e ainda estão presentes na atividade do administrador. Essas funções, bem como as competências básicas necessárias relativas aos conhecimentos exigidos ao cargo, as habilidades em transformar esses conhecimentos em prática, o comportamento determinado em melhorar e inovar, mais os dez papéis exigidos ao administrador catalogados por Mintzberg nas categorias de papéis da interpessoalidade, da relação infor- macional e da relativa às tomadas de decisão, são fundamentais a todas as organizações lucrativas ou não lucrativas, para que atinjam os resultados pretendidos mediante eficaz utilização de todos os recursos disponibiliza- dos ao administrador. 2 Abordagem científica/clássica da administração A partir dessa situação geral que se vivia no mundo indus- trial da época, mais a intensa concorrência no mercado, a neces- sidade de estudos sobre como melhorar tal situação forma uma consequência natural. Assim, surgiram, paralelamente, nos EUA, por meio de Frederick Taylor e, na Europa,com Henri Fayol, os primeiros princípios e estudos para o estabelecimento da ciência da Administração. 2.1 Administração Científica A partir da implantação do racionalismo de Descartes, que estabelecia o poder da razão e do método para a resolução de todos os problemas e negando todo o conhecimento empírico, os ramos da ciência passaram a substituir o conhecimento tradicio- nal pelo racional e, com isso, a formalizar as bases científicas dos diversos ramos do conhecimento. No entanto, o trabalho indus- trial ainda não tinha sido atingido pelo processo de racionaliza- – 22 – Administração e Economia ção já estabelecido nas outras ciências. Com o panorama geral de insatis- fação e desorganização existentes nesse ambiente, estavam estabelecidas as condições para que surgissem esses estudos. A Abordagem Clássica, na sua vertente da Administração Científica, focou seus estudos e observações na busca da eficiência máxima na exe- cução das tarefas fabris e na melhor forma para sua execução. O papel do administrador era, mediante observação dos tempos e movimentos e padronização, achar a eficiência máxima da operação. 2.1.1 Taylor e a ciência da Administração O principal expoente do início da Administração Científica foi o engenheiro Frederick Winslow Taylor (1856-1915). Independente de se considerar Taylor como seu criador, o movimento da Administração Científica teve a participação de várias outras pessoas que trabalharam na busca da resolução dos problemas da época, já citados, e na obtenção de eficiência e produtividade, por meio de bases científicas com princí- pios e técnicas que poderiam ser sistematizadas e utilizadas por todas as organizações (MAXIMIANO, 2010). Apesar de esses estudiosos terem contribuído muito com o desenvolvimento da Administração Científica, todos eles destacavam a liderança de Taylor nesse movimento, a qual foi reforçada pela importância de suas contribuições e estudos no processo de estabelecimento da Administração como ciência. Devemos destacar, também, que algumas das bases do movimento da Administração Científica, como a divisão do trabalho, a especialização das tarefas e os problemas da produção em massa, já tinham sido salien- tados e detectados por Adam Smith, em seu livro A riqueza das Nações, em 1776. Toda essa base histórica, mais a situação das empresas, encon- traram em Taylor a mente brilhante, o espírito de observação e a grande experiência em fábrica capazes de observar e definir os problemas que se viviam nos ambientes fabris da época. Seu gosto por esse ambiente o fez trocar a tradição familiar da advocacia e iniciar uma carreira industrial bem-sucedida, que o levou de simples trabalhador a engenheiro chefe em 12 anos. Paralelamente à sua ascensão no trabalho, o gosto pela indústria o levou a estudar, na parte da noite, engenharia, área em que teve uma car- – 23 – Abordagem científica/clássica da administração reira também brilhante, obtendo o título de mestre. Ele chegou a ter várias invenções patenteadas, comprovando o brilhantismo da sua capacidade. Na sua carreira como engenheiro, Taylor pôde observar os proble- mas vividos na época. Sobressaindo, entre vários, os listados a seguir ( MAXIMIANO, 2010). 2 Falta de clareza e noção das responsabilidades entre trabalhadores por parte da Administração e quais tarefas lhe eram atribuídas. 2 Salários fixos que provocavam a desmotivação dos trabalhado- res em produzir mais. 2 Trabalhadores deixavam de cumprir suas responsabilidades. 2 Falta de embasamento na tomada de decisão por parte dos admi- nistradores, baseando-se em opiniões e intuição. 2 Falta de coordenação nas atividades interdepartamentais. 2 Trabalhadores não treinados e sem aptidão para as tarefas que lhes eram designadas. 2 Falta de visão estratégica dos gerentes no sentido de que um melhor desempenho e a busca por excelência em todos os níveis levaria a uma melhor performance empresarial e consequente- mente a retribuições a eles e seus operários. 2 Falta de padrões operacionais provocava conflitos entre operários e capatazes em função de divergência de resultados da produção. Esses problemas, comuns nas empresas da época e que ainda pode- mos observar em muitas empresas atuais, tornaram-se uma preocupação para Taylor ao longo da sua carreira e o levaram a várias observações e experiências no sentido da sua resolução. Reflita Quando são apontados os problemas existentes nas empre- sas e, mais especificamente, nas indústrias do início do século passado e que levaram à criação da Ciência da Administração, podemos pensar que esse tipo de problema não existe nas orga- – 24 – Administração e Economia nizações atuais. O que observamos, contudo, é muitas pequenas e microempresas – e algumas médias até – viverem ambientes com a configuração de problemas semelhantes aos encontrados por Taylor e seus pares. Já que se estabeleceram alguns princí- pios, naquela época, para resolver tais problemas, por que não utilizar as mesmas soluções propostas por Taylor nas empresas atuais para solucioná-los? Como não poderia deixar de ser, em função dos problemas da Admi- nistração do período serem eminentemente fabris, o movimento da Admi- nistração Científica surgiu na Sociedade Americana de Engenheiros, insti- tuição presidida por Taylor em determinada época. A ideia central do movimento da Administração Científica foi a orga- nização racional do trabalho, visando eliminar o empirismo aos diferen- tes processos de trabalho. Por meio da uniformidade de interesses entre patrões e empregados e da aplicação dos princípios da racionalização do trabalho, ambos poderiam ganhar o máximo possível. As bases conceitu- ais que apoiaram o movimento são destacadas a seguir. 2 O homem visto como uma máquina, eminentemente racional e que sempre toma as decisões mais apropriadas à solução do p roblema, maximizando assim os resultados. Movido, basica- mente, por incentivos financeiros e recompensas, por isso se estabeleceriam bases padronizadas de incentivos. É impor- tante referir que, na época, considerava-se o homem como “vadio”, totalmente interesseiro e sem motivação para o tra- balho, fazendo-o apenas porque poderia, sem as recompen- sas salariais e incentivos de produtividade, morrer de fome. Esse conceito é classificado como Homo economicus, ou homem econômico, e vinha provocando um posicionamento, por parte da Administração, em um sentimento de imputação de culpa ao operário de todos os males que aconteciam nas fábricas e em uma isenção dos gerentes quanto a essa respon- sabilidade. Ao longo do tempo e com a evolução das outras ciências sociais, principalmente da psicologia, e da evolução – 25 – Abordagem científica/clássica da administração do homem em sociedade, poderemos observar a correspon- dente evolução do conceito do homem e seu posicionamento perante as organizações. 2 O estudo minucioso de tempos e movimentos repetitivos exe- cutados pelos operários nos seus trabalhos. A partir desse estudo, encontrar a melhor maneira de executar a tarefa, enfo- cando, quase em totalidade, as tarefas a serem executadas, para construir a partir daí o restante da organização fabril e das recompensas salariais. 2 Criação dos métodos de trabalho que levassem ao desempenho máximo em cada tarefa, incluindo-se nisso as máquinas mais indicadas a cada operação. 2 Paralelamente ao estudo das tarefas e do melhor método de executá-las, a análise da fadiga humana decorrente da execução repetitiva e prolongada dessas tarefas. 2 A especialização do operário a partir de uma divisão racional do trabalho a ser executado. Sendo estabelecida a especiali- zação exigida ao trabalhador, a seleção adequada dos traba- lhadores seria mais fácil, e o seu treinamento em cada tarefa, uma consequência racional. 2 Uma decorrência da divisão do trabalho foi a organização da estrutura fabril em cargos e a definição das tarefas de responsa- bilidade desses cargos, eliminando, assim,alguns dos problemas existentes na época, da indefinição de responsabilidades e falta de comando. 2 Estabelecimento de prêmios de produção e incentivos salariais, em função da definição clara das tarefas, dos métodos de traba- lho e tempos e movimentos. Com esses elementos, era possível a definição de padrões de produtividade. 2 Criação das condições ambientais físicas necessárias ao bom andamento do trabalho e à sua melhor execução por parte do operário. Em decorrência do estudo dos condicionantes da fadiga humana na tarefa, seriam proporcionadas as melhores – 26 – Administração e Economia condições de conforto físico para que o operário pudesse produ- zir o máximo possível. 2 Definição da supervisão funcional, com clarificação do alcance e a necessária especialização e conhecimento do supervisor para cada tarefa a ser supervisionada. Essas foram, portanto, as ideias que nortearam e sustentaram a racionalização da Administração e estabeleceram um método cientí- fico no estudo da área, o que fundamentou o seu reconhecimento como ciência. A busca final da Administração Científica foi a da eficiência máxima das operações mediante a padronização de tempos e movimen- tos executados pelos operários. A padronização aconteceria por meio da divisão do trabalho mais detalhada possível e do estudo dos tempos e movimentos necessários para a execução das tarefas decorrentes dessa divisão, sempre buscando a mais eficiente forma de execução. A partir dessa padronização ocorreria a seleção, o treinamento e os pagamentos dos incentivos dos operários. 2.1.2 Princípios organizacionais Apesar do foco inicial dos estudos de Taylor e da Sociedade Ameri- cana de Engenheiros Mecânicos ser a resolução do problema dos salários, com a evolução dos estudos foi percebido que o problema da remuneração dos operários, sua produtividade e a consequente premiação e incentivo à melhoria da produção era apenas um daqueles com que se debatiam as indústrias da época. A análise mais profunda da situação vigente permitiu perceber outras variáveis influenciadoras e ampliar a visão do problema. Como pode ser observado na figura 2.1, que aborda os três momentos da Administração Científica, o movimento para a formação de tal Adminis- tração se dividiu em três fases distintas, saindo do enfoque na produtivi- dade e na remuneração dos operários para o estabelecimento e a consolida- ção dos princípios norteadores da Administração Científica, substituindo os velhos métodos de trabalho empíricos e, assim, ampliando o enfoque do chão de fábrica, pressuposto inicial dos estudos, para as organizações como um todo. Por exemplo, a recomendação da dissociação da tarefa – 27 – Abordagem científica/clássica da administração de planejar da atividade produtiva, tornando-a mais global e formalizada (MAXIMINIANO, 2006). Figura 2.1 Três momentos da Administração Científica. Pr im ei ra fa se Se gu nd a fa se Ù Ataque ao problema dos salários. Ù Estudo sis- temático do tempo. Ù Definição de tempos padrão. Ù Sistema de administração de tarefas. Ù Aplicação de escopo, da tarefa para a administração. Ù Definição de princípios de administração do trabalho. Ù Consolidação dos princípios. Ù Proposição de divisão de autoridade e responsabili- dades dentro da empresa. Ù Distinção entre técnicas e princípios. Te rc ei ra fa se Fonte: Maximiano (2010, p. 54). Os princípios estabelecidos na época, como a base de toda a Admi- nistração, tiveram a participação de vários estudiosos e formaram muitos outros, mas alguns ficaram mais presentes. Taylor salientou quatro, mas deixou registrados muitos outros decorrentes ou complementares a estes: 1. princípio do planejamento – o método empírico usado na época e comandado pela vontade do operário deveria ser substi- tuído por um planejamento rigoroso das tarefas a serem executa- das, estabelecendo um método científico de trabalho para todas as tarefas. 2. princípio de preparo – a partir do estabelecimento do melhor método para a realização de cada tarefa, o passo seguinte deveria ser a escolha científica do trabalhador mais indicado a executar essa tarefa, de acordo com sua habilidade, e treiná-lo adequadamente para que pudesse atingir a produtividade máxima estabelecida no método determinado. Além da atenção na máxima e melhor exe- cução das tarefas pelos operários, estabeleceu-se, nesse princípio, também, uma atenção na escolha, na preparação e na disposição das – 28 – Administração e Economia máquinas dentro da fábrica da maneira mais científica, para que se pudesse ter a máxima produtividade e a menor perda de tempo entre tarefas e movimentações dos materiais. 3. princípio da execução – a execução das tarefas feita da melhor e mais produtiva maneira exigia que elas fossem distribuídas e as responsabilidades determinadas aos operários. 4. princípio do controle – tendo o método sido estabelecido, os operários bem escolhidos e treinados, as tarefas distribuídas, o passo seguinte mais lógico é a verificação da execução das tarefas, a qual deve seguir os padrões estabelecidos e o que foi planejado anteriormente. Reflita Será que hoje esses princípios já estão solidificados e ampla- mente aplicados em todos os ambientes fabris, das micro e pequenas empresas às grandes? Não estariam, aqui, os primórdios das nossas normas de produ- ção com qualidade? Para além desses quatro princípios mais importantes outros foram estabelecidos e que ou eram essenciais aos quatro principais ou eram sua decorrência, de forma mais detalhada. 1. Decompor todas as atividades a serem exercidas pelos operá- rios nas suas mais elementares operações, sua análise, estudo e medição dos tempos gastos em cada movimento. O objetivo era estabelecer a melhor maneira com os movimentos mais rápido e econômicos, verificando, assim, a forma como os operários deveriam executar cada tarefa de maneira minuciosa. 2. Selecionar os trabalhadores para cada tarefa a ser executada em função dos tempos e movimentos estabelecidos como padrão, de forma mais científica possível. – 29 – Abordagem científica/clássica da administração 3. Especializar, treinar e instruir os trabalhadores de maneira que eles fossem capazes de executar as operações da forma como foram estabelecidas anteriormente. 4. Separar as funções operacionais de preparação e operação. 5. Engajar os operários na busca da produtividade e no alcance dos padrões de produção estabelecidos por meio de incentivos e prê- mios de produção maiores, caso estes fossem ultrapassados. 6. Planejar e preparar a produção tanto estabelecendo metas de produção, métodos e processos de execução, tempos de prepa- ração das máquinas como determinando máquinas, ferramentas, equipamentos e todos os recursos necessários para a melhor exe- cução da produção. 7. As vantagens resultantes da racionalização do trabalho divi- didas proporcionalmente a todos os interessados: patrão, ope- rários e clientes. 8. Manter a execução do trabalho nos níveis pretendidos, melhorá- -lo e corrigi-lo por meio de controle. 9. Organizar os processos, equipamentos e matérias necessários à produção em uma classificação otimizada ao seu uso. Como pudemos observar, esses princípios se concentram mais no estudo do trabalho e na especialização e controle da melhor maneira de realizar as tarefas. Talvez em decorrência de os estudos terem sido fei- tos na Sociedade Americana de Engenheiros e mais especificamente por Taylor, um mestre em engenharia, a Abordagem Clássica, na sua vertente da Administração Científica, ficou, portanto, conhecida como a Aborda- gem Científica focada nas tarefas e na melhor forma da sua execução. 2.1.3 Avaliação da Administração Científica Não obstante o grande avanço que as empresas obtiveram com a utilização dos princípios da Administração Científica, como não poderia deixar de acontecer, esta recebeu pesadas críticas quanto à sua implan- tação e abordagem. – 30 –Administração e Economia Com a total racionalização da operação fabril foram obtidos enormes ganhos de produtividade, eliminação de desperdícios e redução de custos, além disso, o grande ganho da possibilidade de uma produção em massa, o que contribuía em larga escala para a redução de custos da manufatura. Essa redução de custos permitiu que os bens manufaturados chegassem ao mercado com preços mais baixos sem comprometer os ganhos dos ope- rários, como vinha acontecendo até então. Para se obter um custo mais baixo, o caminho natural vinha sendo baixar os salários dos operários, até então a principal causa de todos os males das organizações. A Administração Científica veio introduzir um novo conceito indus- trial, a era da máquina e da produção em massa. A total racionalização, mecanicismo e estudo de tempos e métodos nos mínimos detalhes era a regra geral a ser aplicada para tudo. E quando se falava tudo, incluíam-se, também, os operários, vistos única e simplesmente como recursos forne- cedores da mão de obra capaz de fazer funcionar as máquinas ou outros equipamentos e que, consequentemente, deveriam ter comportamentos semelhantes às máquinas, sempre repetidos da mesma forma otimizada e evitar sinais de fadiga que pudessem provocar mudança de ritmo de trabalho ou fazer movimentos fora dos preestabelecidos. Daí o rótulo de “mecanicista” a esse movimento. A empresa e tudo a ela relacionado resumiam-se a uma organização rígida, racional e padronizada em perfeita sincronia, como engrenagens de uma máquina. Aqui notamos que a atenção aos aspectos subjetivos do ser humano, como suas emoções, sentimentos e as necessidades sociais, foi rele- gada a um segundo plano, apenas com foco na produtividade. Como expoente crítico nessa priorização da força do trabalho físico do elemento humano das empresas da época temos o filme Tempos modernos, de Charlie Chaplin. Dica de filme Para entender melhor o ambiente em que se vivia na época da implantação dos princípios da Administração Científica, indica- mos filme Tempos modernos, de Charlie Chaplin, no YouTube, no link: <http://youtu.be/D_kpovzYBT8>. Observe que um filme produzido em 1936 mantém-se atual, confrontando-nos com – 31 – Abordagem científica/clássica da administração uma comparação encontrada em algumas empresas, já logo na abertura. Algumas das situações apresentadas e ridicularizadas estão presentes nas observações críticas das posições contrárias aos postulados da Administração Científica. TEMPOS modernos. Disponível em: <http://www.youtube. com/watch?v=D_kpovzYBT8&feature=youtu.be>. Acesso em: 11 jul. 2012. Os próprios operários também começaram a se insurgir, por meio dos sindicatos e com greves, contra os altos tempos-padrão que eram estabe- lecidos como metas de produção, a grande repetição de movimentos e o trabalho apenas mecânico e sem qualquer significação pessoal que eles exe- cutavam, fazendo dar errado uma das principais premissas estabelecidas por Taylor de que os princípios da Administração iriam harmonizar as relações entre patrões e operários. Essa revolta tomou proporções tão grandes que o Congresso Americano mandou investigar o que estava se passando. Outra crítica feita ao movimento foi a de que, dividindo as tarefas na sua composição de movimentos mais elementares possíveis e treinando os operários nessas pequenas tarefas, estaria provocando-se uma especia- lização de tal modo detalhada que ao operário não restaria mais nenhuma qualificação da tarefa, bastava ser treinado de forma exclusiva na tarefa que iria executar (MAXIMIANO, 2010). A visão muito elementar do papel do ser humano na organização eliminava totalmente os elementos sociais inerentes aos funcionários atuando em grupo. O que interessava para a organização era apenas a capacidade física do operário, posta em atividade em conjunto com as máquinas. Em complemento, levantou-se a crítica de que eram postos de lado os aspectos informais da organização, bem como a vida social dos trabalhadores. Apesar de o próprio nome Administração Científica conter o aspecto ciência na sua composição, foram levantadas muitas críticas de que esse movimento não poderia ser considerado uma ciência porque não continha todos os elementos necessários a uma comprovação científica, a pesquisa e a experimentação científica de comprovação das teses. – 32 – Administração e Economia Mesmo existindo outros tipos de atividades nas empresas, a limitação do campo de aplicação da Administração Científica no ambiente fabril foi motivo de críticas também. A formação de engenheiro de Taylor e sua experiência essencialmente industrial provocaram o estreitamento do foco ao ambiente fabril. O tipo de proposta apresentado pela Administração Científica deu-se, essencialmente, no sentido de estabelecer princípios sobre como deveria funcionar a produção. Uma série de receitas, prescrições e normas padro- nizando a forma como deveria funcionar nada explicou acerca do fun- cionamento. Para os críticos ao movimento, isto era limitante na maneira como deveriam ser levadas em consideração as prescrições. Limitando-se ao estudo minucioso das tarefas e do método de traba- lho, a Administração Científica deixou de lado as interações da empresa com o meio que a rodeia, considerando-as como sistemas fechados, nos quais o funcionamento das suas partes é determinado e padronizado, não apresentando variações, o que não condiz com a realidade das empresas, que é de sistemas abertos influenciados pelo meio ambiente e imprevisí- veis no seu comportamento. Mesmo com todas as críticas que sofreu decorrentes do pioneirismo, é inegável que o movimento da Administração Científica deu início ao desenvolvimento da Administração e melhorou a forma de atuação das empresas da época, com suas inovações em termos de padronização, racionalização e uso de métodos científicos. Foi o primeiro movimento a introduzir os conceitos do aumento de produtividade por meio de métodos científicos e apresentou novos conceitos na forma de se ganhar dinheiro. Resumidamente, é possível afirmar que a Administração Científica teve sua base formada pelas premissas de comando e controle, uma única maneira certa de fazer, mão de obra, e não recursos humanos e segurança nem insegurança. Ao estabelecer como função principal da gerência pla- nejamento e controles rígidos e aos operadores a execução das tarefas de forma obediente, estabeleceu-se, também, uma forte relação de comando do supervisor para o operário, de cunho hierárquico semelhante a uma estrutura militar, em que o gerente determina a melhor maneira de execu- – 33 – Abordagem científica/clássica da administração tar as tarefas e cabe ao operário utilizar esse método sem questionar e tirar dele o melhor partido no objetivo da máxima produtividade. A visão de que os operários consistem em mão de obra disponível, em contraponto à visão dos trabalhadores como recursos humanos, não esti- mula nenhum envolvimento, tanto de um lado como do outro nas relações de trabalho. Era desprezado o reconhecimento aos operários, bem como era-lhes vedado o acesso a ter responsabilidades além daquelas já descri- tas anteriormente. A empresa não se comprometia com nenhuma lealdade para com os operários, esperando deles uma lealdade funcional. Em con- trapartida, elas garantiam uma relativa e pseudo estabilidade e segurança no trabalho. Tudo parecia estabelecido, controlado e estável. Mesmo com as análises feitas e apontados, pelos críticos, pontos negativos à Administração Científica, devemos admitir que uma série de fatos e consequências importantes à Administração atual são decorrên- cia daquela. Uma dessas decorrências é a busca constante, por parte da Administração, de produtividade e rentabilidade. Até hoje a mola propul- sora da Administração é essa busca, a constante e necessária renovação de processos e práticas para o aumento da produtividade e da rentabilidade das empresas. Assim, não podemos,de maneira alguma, retirar o mérito de Taylor no desenvolvimento industrial da sua época e consequências decorrentes da implantação das suas ideias, por isso ele é considerado o pai da Administração ( CHIAVENATO, 2004). 2.2 Teoria Clássica Paralelamente ao desenvolvimento das ideias da Administração Científica lideradas por Taylor, nos EUA, e focadas, principalmente, na tarefa e no trabalho, surgia, na mesma época, na França, uma corrente de pensamento um pouco diferente no foco, mas também preocupada em estabelecer as bases e os princípios da Administração. O expoente dessa corrente foi Henry Fayol (1841-1925), que se dedicou a estudar a Admi- nistração, dando ênfase à estrutura. – 34 – Administração e Economia Fayol fez toda a sua carreira profissional em uma mesma empresa, a mineradora e metalúrgica francesa Comambault, chegando ao cargo de diretor-geral com a empresa em situação desastrosa. Conseguiu, ao longo do tempo, levá-la ao sucesso financeiro e administrativo. Essa carreira exitosa permitiu que, após sua aposentadoria, aos 77 anos, iniciasse a divulgação dos seus princípios baseados na sua experiência profissional de sucesso. Fundou o Centro de Estudos Administrativos, que passou a difundir suas ideias por meio de reuniões que congrega- vam industriais, militares, funcionários de governo e filósofos fran- ceses. Lecionou, também, na Escola Superior de Guerra da França e suas ideias foram adotadas na Marinha francesa. Suas análises sobre as ideias de Taylor o levaram a afirmar que eram complementares às suas (MAXIMIANO, 2010). 2.2.1 A visão de Fayol da Administração e as suas funções Na sua obra Administração geral e industrial, Fayol estabelece que administrar é uma função diferente das outras atividades de uma empresa. Seria algo diferenciado das funções de finanças, produção, comerciais ou técnicas. As funções administrativas estariam acima des- tas. O autor estabelece, ainda, que essa função administrativa envolve cinco elementos ou funções básicas inerentes ao trabalho do administra- dor: prever, organizar comandar, coordenar e controlar. Ele foi o pioneiro em estabelecer que o trabalho de administrar deveria estar desvincu- lado às demais atividades de uma empresa. Aparentemente, um conceito simples, mas que se desdobra em várias consequências essenciais ao trabalho e à importância do administrador. Dentro da ótica de Fayol, o dirigente, ao alcançar os postos mais altos na hierarquia da empresa, deveria se desvencilhar dos aspectos técnicos da produção e se dedicar às funções essenciais do administrador, citadas anteriormente. – 35 – Abordagem científica/clássica da administração Figura 2.2 Proporção da função administrativa nos níveis hierárquicos. Funções administrativas Mais altos Mais baixos Outras funções não administrativas Proporcionalidade da função administrativa nos diferentes níveis hierárquicos da empresa Ù Prever ÙOrganizar ÙComandar ÙCoordenar ÙControlar Fonte: adaptado de Chiavenato (2004, p. 64). Essa visão de Fayol é bastante atual e perspicaz, já que, a todo o momento, vemos nas organizações bons técnicos, ao serem promovidos a cargos de níveis acima na estrutura, tornarem-se maus ou totalmente incompetentes administradores, por não conseguirem se desfazer das habi- lidades técnicas dos cargos mais operacionais e não conseguirem pensar sob a ótica das funções administrativas necessárias à execução das tarefas administrativas, como pode ser visto na figura 2.2, que trata da proporcio- nalidade da função administrativa. Quanto mais altos os cargos na escala hierárquica da empresa, mais a visão do administrador deve se tornar glo- bal, no sentido da visão total da empresa, mais as funções de previsão, organização, comando, coordenação e controle da Administração devem ser feitas e menos as habilidades e funções de operação serão necessárias. Fayol tornou claro e estabeleceu as bases do atual papel dos cha- mados cargos executivos. Muitas empresas, para tentar minimizar essas dificuldades de adaptação, treinam seus chefes e administradores con- forme vão sendo promovidos, para exercer as novas funções nos cha- mados treinamentos de chefia e liderança. Essa dificuldade encontrada – 36 – Administração e Economia pelas empresas não é só vista dentro das instituições, ao serem feitas as promoções, também podem ser observadas quando um bom técnico resolve montar sua própria empresa e não consegue abandonar seu modo de raciocinar focado na produção e passar a pensar mais administrativa, estratégica e globalmente. A Administração, como uma atividade inclusa em todos os procedi- mentos humanos, seja na família, negócios ou governo, que exigissem, de alguma forma, ações de planejamento, organização, comando, coorde- nação e controle, foi uma das contribuições importantes de Fayol para a solidificação e a expansão da área. Como já visto anteriormente, Fayol apresenta o conceito de que todas as empresas têm seis funções bem definidas e atuando em conjunto, con- forme o quadro 2.1. Quadro 2.1 Funções administrativas de Fayol. Funções Responsabilidades Administrativa Coordenação das outras funções. Disposição de todos nos objetivos. Financeira Gestão dos capitais. Aplicação de recursos. Busca de recursos. Contábeis Registros e controles de custos e estoques. Balanços. Técnicas Produção de bens e serviços. Comerciais Negociação. Compra. Venda. Segurança de bens e pessoas Preservação. Proteção. Fonte: adaptado de Maximiano (2010, p. 73). A função administrativa é a que exerce o papel essencial da Adminis- tração e se coloca na cúpula das outras cinco funções. Com a evolução das atividades econômicas e empresariais, esses conceitos foram mudando – 37 – Abordagem científica/clássica da administração os nomes, adaptando-se e tornando-se mais ou menos importantes, como é o caso da função de segurança, por conta da evolução dos conceitos da Administração. Contudo, foi a partir desse conceito inicial que outros pensadores puderam evoluir para novos conceitos. Como é o exemplo da função de recursos humanos, incluída nesse rol, pela grande importância para as empresas, do fator humano e da sua gerência. Para além dessa classificação das funções empresariais, Fayol estabe- leceu qual o papel e quais as funções do administrador nas empresas. Ele verificou que o processo administrativo estava acima, coordenando todas as outras funções da empresa, e teria em sua composição os cinco elemen- tos destacados a seguir. 2 Planejar: estabelece os objetivos da empresa, especificando, tam- bém, a forma como alcançá-los. A partir de uma visão do futuro, desenvolvendo um plano de ações para atingir as metas traçadas. É a primeira das funções, servirá para operacionalizar as demais funções com a formalização das metas e forma de atuação. 2 Organizar: arranjo de todos os recursos da empresa, sejam humanos, financeiros ou materiais, alocando-os da melhor forma possível para atingir o estabelecido. 2 Coordenar: a coordenação dos esforços de toda a empresa é fundamental para implantar o planejamento e torná-lo viável para atingir as metas traçadas. 2 Comandar: é o processo de executar as tarefas pelos subordina- dos e que eles façam o que tem de ser feito. Para tal, as relações hierárquicas precisam estar bem definidas, suas responsabili- dades, amplitude de comando e relações hierárquicas e o grau de participação e colaboração de cada um para a realização dos objetivos definidos. 2 Controlar: definir os padrões e as medidas de desempenho que permitam assegurar que as atitudes empregadas serão as mais compatíveis com o que a empresa espera. O controle objetiva assegurar que tudo seja feito o mais igual possível ao que foi estabelecido. – 38 – Administração e Economia Paralelamente, Fayol refletiu sobre os conceitos de Administração e organização e suas diferenças. Para ele, seriam conceitos diferentes, sendo a Administração o mais global, incluindo um conjunto de pro-cessos i ntegrados, abrangendo os aspectos da previsão, comando e con- trole. Organização é um conceito menos abrangente, envolvendo apenas os aspectos relativos à estruturação da empresa na sua forma, portanto, fazendo parte do conceito abrangente da Administração. Para Fayol, a ideia que ele possuía sobre o funcionamento da empresa como um sistema racional de regras e autoridade, justificando sua existên- cia no fornecimento de bens e serviços aos clientes, não se aplicava apenas a organizações industriais, e, sim, a todas as empresas. Na sua visão, após a organização da empresa, os colaboradores precisam de ordens para saber o que fazer e serem coordenados da melhor maneira e com controle, para que sejam atingidos os resultados planejados. Ele criou 16 deveres específicos para os gerentes poderem exercer seu papel, contendo (MAXIMIANO, 2010): 1. preparação e planejamento cuidadosos e execução rigorosa; 2. coerência entre objetivos e recursos da empresa com a organiza- ção humana e material; 3. autoridade competente, enérgica, única e construtiva; 4. harmonização das atividades e coordenação dos esforços; 5. decisões estabelecidas de forma precisa, simples e nítida; 6. seleção do pessoal de forma eficiente e organizada; 7. obrigações definidas de forma clara; 8. encorajamento do senso de responsabilidade, bem como da ini- ciativa dos colaboradores; 9. justa e adequada recompensa pelos serviços prestados; 10. uso de sanções para erros e faltas; 11. manutenção da disciplina na organização sob sua responsabilidade; 12. interesses gerais acima dos interesses pessoais; 13. manutenção da unidade de comando; – 39 – Abordagem científica/clássica da administração 14. supervisão à ordem material e humana; 15. manutenção do controle de tudo; 16. evitar excessos de burocracia, papéis e regulamentos. 2.2.2 Os princípios da Administração segundo Fayol Completando sua obra de sistematização da Administração, Fayol, estabeleceu 14 princípios orientadores do administrador, os quais estão listados a seguir. 1. Divisão do trabalho: divisão das tarefas e especialização de pessoas em um número limitado para realizá-las, de modo a aumentar a eficiência. 2. Autoridade e responsabilidade: autoridade é o direito de dar ordens e o poder de esperar a correspondente obediência. Em contrapartida à autoridade, vem a responsabilidade de obedecer e prestar contas da execução das ordens. O equilíbrio entre a autoridade e a responsabilidade são fundamentais para o êxito da relação. 3. Disciplina: respeito aos acordos estabelecidos entre a empresa e os funcionários, mantendo a obediência a eles. 4. Unidade de comando: a cada empregado corresponde apenas um chefe e só dele deve-se receber ordens. É o princípio da autoridade única. 5. Unidade de direção: uma só orientação e plano para cada grupo de atividades que tenham o mesmo objetivo. 6. Subordinação dos interesses individuais aos interesses gerais: o interesse da empresa e dos planos sobressai e elimina interesses particulares e opiniões. 7. Remuneração do pessoal: deve ser equitativa e justa, com base em fatores internos e externos e na garantia da satisfação para os empregados e para a organização em termos de retribuição. – 40 – Administração e Economia 8. Centralização: equilíbrio entre a concentração da autoridade no topo da hierarquia da organização, sua capacidade de executar as responsabilidades a contento e a iniciativa dos subordinados. 9. Cadeia escalar: hierarquia da estrutura da empresa. A série de chefes do primeiro escalão ao último, definindo a linha de auto- ridade e responsabilidade da empresa. Princípio do comando. 10. Ordem: um lugar para cada pessoa e cada pessoa no seu lugar. Igualmente para os recursos materiais. 11. Equidade: tratamento de forma idêntica a todos, com benevo- lência e justiça sem deixar de aplicar a energia e o rigor quando necessário. 12. Estabilidade do pessoal: a manutenção das equipes promove seu desenvolvimento e gera maior eficiência, ao contrário dos impactos negativos da rotatividade. 13. Iniciativa: promoção do aumento do zelo e das atividade dos agentes e fazê-los ter iniciativas que assegurem o sucesso do planejado, dentro dos limites da autoridade e disciplina. 14. Espírito de equipe: desenvolvimento e manutenção da harmo- nia e união entre as pessoas da organização, incentivá-las a man- ter este espírito. Esses princípios foram a base para a criação da Teoria Clássica da Administração. Da mesma forma como foram lançados os princípios da Administração Científica, aqui também sobressaem os enfoques normativos e prescritivos, indicando ao administrador como deve se comportar e atuar. Sugestão de leitura Sugerimos uma pesquisa sobre os fundamentos e princípios atuais de excelência da gestão no site da Fundação Nacional da Qualidade (FNQ), disponível em: <http://www.fnq.org.br/ site/377/default.aspx> (FNQ, 2012b). A partir dessa leitura, será possível verificar a atualidade de alguns dos princípios estabe- lecidos por Fayol. – 41 – Abordagem científica/clássica da administração 2.2.3 A Teoria da Administração Mesmo com enfoques diferentes, os autores clássicos pretenderam criar uma teoria administrativa consistente e científica, baseada nos con- ceitos principais da divisão do trabalho, da especialização nas tarefas e nos trabalhadores, na coordenação por parte dos superiores hierárquicos e na separação das atividades de linha e staff. Figura 2.3 Desdobramento da abordagem clássica da Administração. Abordagem clássica Administração Científica Ênfase tarefas Teoria Clássica Ênfase estruturas Fonte: adaptado de Chiavenato (2001a, p. 54). Apesar das visões diferentes resumidas por meio da figura 2.3, Taylor e Fayol complementaram-se em seus conceitos e abordagens e o conjunto das suas visões deu o corpo necessário à criação da Teoria Administrativa. Como podemos ver no quadro 2.2, a seguir, nem uma nem outra abor- dagem seriam suficientes por si só, pois uma atende, preferencialmente, à parte operacional e à outra o restante administrativo, dando o enfoque completo a uma empresa. Quadro 2.2 Enfoques de Taylor e Fayol. Administração científica Administração clássica Precursor Frederick Taylor. Henri Fayol. Origem Chão de fábrica. Gerência administrativa. Ênfase Adoção de métodos racionais e padronizados; máxima divi- são de tarefas. Estrutura formal da empresa; adoção de príncipios adminis- trativos pelos altos escalões. Enfoque Produção. Gerência administrativa. Fonte: adaptado de Chiavenato (2004, p. 74). – 42 – Administração e Economia Todos os autores da Teoria Clássica foram unânimes em afirmar o estudo e a atenção da Administração cientificamente, em contraponto ao empirismo e à improvisação existente na época, introduzindo a técnica científica. O que se pretendia era a criação da “Ciência da Administração”, exigindo-se, portanto, um método de ensino organizado e sistemático para a formação dos administradores, a exemplo das outras profissões baseadas na ciência. Em relação à organização, a Teoria da Administração a estabeleceu como uma série de cargos e órgãos arrumados de forma estruturada, de tal modo dispostos que as funções organizacionais pudessem ser feitas de maneira a inter-relacionar essas partes separadas entre si e os objetivos globais como um todo. Aqui vemos uma forte influência das antigas estruturas organizacio- nais, principalmente a militar e a eclesiástica, muito rígidas, tradicionais e hierarquizadas, mantendo, ainda, uma forte ligação com o passado. Não podemos tirar o mérito das teorias clássicas de salvar as empresas do caos primitivo em que se encontravam, ainda sob forte influência da Revolução Industrial. No entanto, sob o aspecto exclusivamente das organizações e a forma como se reúnem as partes dessa organização em torno do obje- tivo geral, nada se avançou para além da imitação das estruturas militares e eclesiásticas, com forte ênfase na hierarquia e na cadeia de comando.Podemos entender uma organização como a forma de associação em torno de um objetivo comum na qual os seres humanos correspondem-se. Temos, portanto, a caracterização de uma organização por um fim comum e a forma da associação. Um implica o outro e vice-versa, a forma de asso- ciação vai ou não facilitar o atendimento do fim comum. A estrutura organizacional e a forma como é montada dão o tom de como a empresa vai funcionar. É a estrutura que estabelece a cadeia de comando, a linha de autoridade entre as posições da organização, a res- ponsabilidade de cada uma na estrutura e as responsabilidades atribuí- das a cada posição, a cadeia de comando ou cadeia escalar estabelecida pela estrutura da organização, de acordo com os princípios estabelecidos na época, deve basear-se no princípio da unidade de comando, um só comando superior para cada nível ou escala inferior. – 43 – Abordagem científica/clássica da administração Outro ponto fundamental para a criação da ciência da Administração foi o princípio da especialização e da divisão do trabalho. A divisão clara e definida do trabalho caracteriza uma organização. Essa divisão é a base e a essência da organização e a fonte orientadora para a montagem da estru- tura. Ela conduz a uma diferenciação das tarefas e à quebra da homoge- neidade. Nesse aspecto, o pensamento da época era de que, quanto maior a divisão do trabalho, maior a possibilidade de treinamento e especialização e, em consequência, seria obtida uma maior produtividade e eficiência. Para os clássicos, a divisão do trabalho poderia se dar em duas dire- ções, como veremos a seguir. 1. Vertical, de acordo com os níveis hierárquicos de autoridade e responsabilidade. É a hierarquia quem estabelece os graus de responsabilidade de cada cargo. Quanto mais alto na escala hie- rárquica, maior a responsabilidade. Quanto mais definidas as linhas de autoridade, mais eficientes seriam as organizações. Para definir a autoridade hierárquica e de comando entre um superior e o subordinado, dá-se o nome de autoridade de linha. 2. Horizontal, de acordo com as atividades da organização. Usando o conceito da especialização do trabalho e o princípio da homo- geneidade das tarefas aglutinadas. Em cada nível hierárquico as atividades são designadas para departamentos ou seções especí- ficas de forma homogênea. A divisão do trabalho, na horizontal e de acordo com os critérios de homogeneidade, é chamada de departamentalização e pode ser de vários tipos, como veremos mais adiante (CHIAVENATO, 2004). Um dos elementos incluídos por Fayol no rol dos elementos funda- mentais para a Administração foi o princípio da coordenação. Para o teó- rico, a coordenação é a unificação de esforços e atividades, de maneira harmônica, reunindo em torno dos objetivos os esforços comuns. Pode- mos, ainda, definir coordenação como a orientação de todos os envolvidos na obtenção de um alvo ou de um objetivo a ser alcançado. Para alguns autores, a coordenação é obrigatória para o sucesso das organizações. A premissa básica era que, quanto maior fosse a organização da divisão – 44 – Administração e Economia do trabalho, tanto vertical como horizontal, maior seria a necessidade de coordenação para que se conseguisse a eficiência do todo organizacional. Um ponto enfatizado na Abordagem Clássica da Administração é a estruturação de forma simples da organização, por meio da organização linear. Esse tipo de organização baseia-se em quatro princípios adminis- trativos, apresentados a seguir. 1. Unidade única e supervisão única: cada subordinado responde unicamente a apenas um superior. 2. Unidade de direção: os objetivos da organização devem orientar a elaboração de todos os planos inferiores, para que a união des- tes formem planos superiores e maiores. 3. Centralização da autoridade: a autoridade máxima da organiza- ção deve se concentrar no seu topo escalar. 4. Cadeia escalar: a autoridade deve se estruturar de forma escalar, em níveis hierárquicos, nos quais uma autoridade, associada a um nível hierárquico, subordina-se a um nível hierárquico supe- rior, até o topo em que se concentraria a autoridade máxima. Esse tipo de organização toma a forma de uma pirâmide. Nesse ponto, encontramos divergências entre os seguidores da Administração Científica, que preconizavam a autoridade funcional, devido ao seu foco essencial na tarefa. Já os seguidores da Teoria Clássica, por partirem do topo da estrutura para o detalhe, discordavam da organização funcional porque esse tipo de organização ia contra o princípio da unidade de comando; cada subordi- nado teria vários superiores de acordo com o tipo de assunto a ser analisado. Nesse aspecto, passam a ser definidos três tipos de formatação das organi- zações. A organização linear, em que se estabelece o princípio da unidade de comando de forma rígida. Para que esses departamentos possam exercer suas atividades a con- tento, surge a necessidade de criar a organização de apoio a essas ativi- dades fim, os órgãos de staff, ou de apoio, assessoria, fornecedores de serviços, recomendações, apoio e aconselhamento aos órgãos de linha, já que estes não têm a condição de prover este tipo de serviço. Os serviços fornecidos por esses órgãos de apoio não podem ser impostos aos órgãos – 45 – Abordagem científica/clássica da administração de linha, serão apenas oferecidos. Assim, surgem dois tipos de autoridade: a de linha, na qual existe a autoridade formal dos gerentes com poder para dirigir e controlar os subordinados imediatos, e a autoridade de staff, atri- buída aos especialistas, não tem poder nem autoridade, apenas aconselha, orienta e recomenda aos gerentes de linha, das suas áreas de especializa- ção, como poderiam conduzir suas ações no que tange ao assunto especí- fico de conhecimento do staff. 2.3 Os seguidores das ideias iniciais Paralelamente aos dois maiores expoentes da Administração Clás- sica, outros pesquisadores tiveram papel de destaque no desenvolvimento das ideias iniciais do movimento da criação da Administração Científica e na sua aplicação na melhoria da eficiência das empresas da época. Alguns deles foram fundamentais no mundo da Administração e mudaram com- pletamente a forma como as indústrias passaram a trabalhar, como é o caso de Henry Ford. Por outro lado, é importante realçar que, sendo Taylor o pioneiro da Administração Científica, não podemos esquecer nomes importantes que, antes dele, já tinham implantado práticas de Administração ou escrito sobre o assunto. É o caso de Adam Smith, da Inglaterra, que, em 1776, com seu livro A riqueza das nações, fala da divisão do trabalho e da espe- cialização do trabalhador como meios de obter mais produtividade. 2.3.1 Os seguidores de Taylor Como já afirmamos, é necessário mencionar que, antes de Taylor, outros nomes já vinham demonstrando iniciativas no sentido da sistemati- zação e padronização das práticas do trabalho e da Administração, no fim do século XVIII. Para resolver problemas nas oficinas sob seu comando, o capitão Henry Metcalfe (1847-1917) , do Arsenal Armado Frankford (EUA), publicou seus métodos para melhorar os processos de produção das Oficinas Públicas. No segundo caso, o de Henry Towne (1844-1924), alguns autores dizem até que foi um forte influenciador das ideias de Taylor, pois ambos conviveram tanto na Midvale Steel Co., na qual Taylor – 46 – Administração e Economia teve o apogeu da sua carreira, como na Sociedade Americana de Enge- nheiros Mecânicos, em que chegou a ser presidente. Towne propôs que a administração de fábrica tivesse a mesma importância da administração da engenharia e que a Sociedade Americana de Engenheiros Mecânicos tivesse papel de liderança na implantação do modelo de empresas com a engenharia e a administração juntas nas práticas de fábrica, sugestão aceita pela Sociedade anos depois (SILVA, 2005). Independentemente da importância que Taylor teve na liderança da Sociedade Americana de EngenheirosMecânicos para a implantação da Administração Científica, teremos de realçar o papel da própria Sociedade em si, seus membros e alguns outros estudiosos, ressaltando-se os descritos a seguir. 2.3.1.1 Frank Gilbreth (1868-1924) e Lilian Gilbreth (1878-1972) Frank Gilbreth e sua esposa Lilian deram muitas contribuições ao desenvolvimento de sistemas administrativos, mas sua participação espe- cial foi nos estudos da fadiga humana. Elas iniciaram suas carreiras apli- cando a metodologia de Taylor no estudo dos tempos e movimentos, mas depois direcionaram seus estudos à fadiga humana, para acharem a melhor maneira de se realizar uma tarefa e aumentar a eficiência da produção. Eles estabeleceram que toda a tarefa poderia ser reduzida a movimentos ele- mentares, aos quais deram o nome therbligs (Gilbreth ao contrário). For- malizaram a definição de eficiência como a correta utilização dos meios de produção disponíveis, estabelecendo que a eficiência seria a razão entre os produtos resultantes e os recursos utilizados. Portanto, quanto menor fos- sem os recursos utilizados e maior a produção, consequentemente, maior seria a eficiência. Gilbreth, nos seus estudos, relacionou os efeitos da fadiga humana na eficiência do indivíduo, demonstrando algumas decorrências que ainda hoje – 47 – Abordagem científica/clássica da administração estão em discussão, tais como o aumento de doenças, do número de acidentes de trabalho, a queda na qualidade do trabalho e da produtividade entre outras. Ele ainda propôs quais seriam os princípios influenciadores da eco- nomia de movimentos que deveriam ser analisados no estudo dos tempos e movimentos (SILVA, 2005): 1. relativos ao corpo humano; 2. relativos ao local de trabalho; 3. relativos aos equipamentos e ferramentas. Gilbreth lançou a tese A psicologia da administração, que foi um dos primeiros estudos sobre o homem na indústria. Lilian considerava o ambiente e as chances dadas aos funcionários essenciais para o aprimo- ramento da produtividade. 2.3.1.2 Henry Gantt (1861-1919) Tal como os outros seguidores, Gantt também foi fortemente influenciado por Taylor, com quem trabalhou durante vários anos. A par- tir da sua carreira solo, deu algumas contribuições originais. Uma delas foi o sistema de pagamento por incentivo “tarefa-bônus” em que o traba- lhador ganhava um bônus monetário ao alcançar um determinado padrão de produção. Esse sistema foi melhor aceito que um anteriormente pro- posto por Taylor. Trabalhou com Taylor na Midvalle Steel Co. e desenvolveu méto- dos gráficos para representar planos e possibilitar melhor controle gerencial. Gantt destacou a importância dos fatores tempo, custo e pla- nejamento para a realização do trabalho, método até hoje utilizado e que leva o seu nome. Na figura 2.4 sobre o gráfico de Gantt, destacada a seguir, poderemos ver um exemplo simples da utilização da meto- dologia iniciada por esse estudioso para o controle do desempenho do planejado em relação ao realizado. – 48 – Administração e Economia Figura 2.4 Gráfico de Gantt. Operação 1 Operação 2 Operação 3 TempoProgramado Realizado Fonte: adaptado de Silva (2005, p. 127). 2.3.1.3 Carl Barth (1860-1939) Contratado por Taylor por ser professor de Matemática, Barth dedicou-se aos estudos dos complexos problemas matemáticos dos experimentos de corte de metais para melhoria da alimentação e da velocidade das máquinas. 2.3.1.4 Harrington Emerson (1853-1931) Mesmo sendo contemporâneo de Taylor, os estudos de Harrington- Emerson tomaram um rumo diferente quanto aos do referido autor, enfatizando “a grande pro dutividade das organizações corretas”. No livro Doze prin- cípios da eficiência, estabeleceu os 12 princípios que deram título à obra: 2 ideais claramente definidos (objetivos); 2 senso comum (bom senso); 2 orientação competente, disciplina, tratamento justo; 2 registros confiáveis e imediatos; 2 prontidão, rapidez (nas rotinas); 2 padrões e programações; 2 condições padronizadas, operações padronizadas; 2 instruções escritas nas práticas-padrão; 2 recompensas pela eficiência. – 49 – Abordagem científica/clássica da administração Ele, certamente, antecipou a Administração por Objetivos (APO), ela- borando os primeiros trabalhos sobre a seleção e treinamento de empregados. 2.3.1.5 Henry Ford (1863-1947) Dos seguidores de Taylor, o nome mais destacado, sem dúvida nenhuma, é o de Henry Ford. Ele é visto como um dos grandes responsáveis pelo salto qualitativo no desenvolvimento organizacional atual. Ford representa a indústria na Administração Clássica. Ele não tinha formação acadêmica nem em engenharia, mas tinha um objetivo muito particular e prático em mente: a aplicação dos conceitos de eficiência, de forma muito prática, em uma fábrica de automóveis. Ford divergia de Taylor sobre a forma como atingir a eficiência, ao contrário do método de Taylor, segundo o qual o operário executava as tarefas em um tempo estipulado pela Administração. No seu método, Ford fez os operários adaptarem-se ao ritmo da produção com a criação da linha de montagem. Ele não torna rígidos os movimentos dos operá- rios, os faz adaptarem-se de forma mais cômoda possível e de acordo com as aptidões de cada um ao processo. Ford não estava muito interessado nos estudos profundos sobre a indústria como um todo ou em estudos das relações dos trabalhadores e trabalho. Interessava-se pela eficiência como uma redução de custo, preços de um lado e a produção, motivação e salá- rios de outro, de forma particular na sua fábrica. O pragmatismo de Ford perpetuou-se com sua famosa frase: “Todos podem ter o carro da cor que quiserem, desde que o carro seja preto”. Ciente da importância do consumo em massa, agilizou a produção em massa, em série e em uma cadeia contínua. Criou, assim, alguns conceitos de fabricação para agilizar a produção, reduzir os custos e o tempo de produção. 2 Integração vertical e horizontal: produção integrada da maté- -ria-prima ao produto final acabado (integração vertical) e insta- lação de uma rede de distribuição imensa (integração horizontal). 2 Padronização: iniciando a utilização da linha de montagem e a padronização do equipamento utilizado, obtinha-se agilidade e redução nos custos. Em contrapartida, a flexibilização do pro- duto era prejudicada. – 50 – Administração e Economia 2 Economicidade: redução dos estoques e agilização da produção. Seus princípios de trabalho denotavam a visão prática que Ford tinha. Ele orientava sua visão pela produtividade (a máxima produção em um período), pela intensificação (giro de capital com sua mínima imobiliza- ção) e pela economicidade (mínimo de matéria-prima). Ford foi tão bem-sucedido na aplicação dos seus princípios e ideias que criou a primeira linha de montagem, em 1913, com a produtividade de um carro a cada 84 minutos. Seu sistema de trabalho em linha de mon- tagem, por meio de fabricação em série, objetivava: 2 minimizar os movimentos dos operários para ganhar tempo; 2 eliminar os movimentos desnecessários das ações dos trabalhadores; 2 racionalizar o trabalho visando alcançar economias de escala, reduzindo custos de produção de um único modelo de automóvel; 2 adaptar os movimentos do operário e a sua eficiência à veloci- dade da linha de montagem; 2 o material a ser produzido é que se movimenta e ia até o ope- rário, reduzindo, assim, os tempos perdidos entre as operações. O sistema de Ford teve a importante função social de democratizar o consumo do automóvel. O objetivo era produzir um ford em um tempo redu- zido para colocá-lo no mercado no menor prazo, o que conseguiu com êxito. Também propôs um sistema de pagamento por bônus, vinculado à produtividade. Mesmo com todo o sucesso que teve, os métodos de Ford sofre- ram críticas: 2 produção de um único modelo; 2 preocupação com a quantidade em relação à qualidade; 2 foco no produto, e não no mercado; 2 eficiência do sistema prejudicada, pois não favorecia a inovaçãoe a adaptação ao mercado. Essas críticas ficaram mais evidentes a partir do momento em que a General Motors, com uma política mais voltada para o mercado e sem poder concorrer com a Ford no mercado de massa, começou a pro- – 51 – Abordagem científica/clássica da administração dução de modelos para várias faixas de consumidores, cada um com sofisticação, preços e acessórios direcionados para a renda da faixa de consumidor a atingir. Da teoria para a prática O fato que levou os vários autores da Teoria Clássica da Administra- ção ao estudo da Administração ter sido um problema existente à época nos ambientes fabris nos permite achar as evidências de uma ligação muito forte da aplicação dos princípios da Administração às atividades do dia a dia das empresas. O interessante é que as padronizações implantadas na época por Taylor, Fayol e seus seguidores são bases essenciais ao bom funcionamento das empresas hoje em dia. Sugerimos, como exemplo, a verificação da aplicação do princípio da divisão do trabalho na estrutura- ção das empresas atuais ou a divisão por função indicada por Fayol, pre- sente de forma natural na cabeça de todo administrador como a maneira mais eficiente de organizar as funções de apoio de uma empresa, tais como contabilidade, RH, comercial, marketing, etc. Outro exemplo muito evi- dente são os conceitos im plantados por Henry Ford da produção em massa e da linha de montagem como forma de aumento de produtividade e redu- ção de custos e preços. A escala de produção em massa alcançada hoje pela China provocou uma queda muito grande dos preços dos produtos manufaturados, gerando, em outros países, uma crise nesse tipo de pro- duto, pelo fato de as empresas não conseguirem preços tão baixos como os alcançados pela China, em função da escala mais reduzida. 3 Teoria das relações humanas 3.1 Teoria das relações humanas O foco na eficiência da Administração Clássica trouxe mui- tas críticas por seu aspecto mecanicista e racional no tratamento da produção. A preocupação com o trabalhador era quase exclusi- vamente focada na tentativa de que ele se tornasse o mais produ- tivo possível e que executasse as tarefas de forma rápida, repeti- tiva e mais eficiente, sempre. Mesmo os estudos sobre a fadiga e seus impactos na produtividade tinham como objetivo a questão da produtividade, e o trabalhador era visto apenas como parte de uma engrenagem que não poderia parar em detrimento da redução de custos e aumento da produção. Uma corrente de estudos vinculados às ciências sociais e da psicologia trata do estudo do homem no ambiente de trabalho, suas interações e mútuas influências, revelando a importância do aspecto emocional do trabalhador e sua relação em grupo. – 54 – Administração e Economia 3.1.1 Avaliação das consequências da Administração Clássica – Teorias Transitivas A visão totalmente mecanicista sobre o ser humano na sua relação com o ambiente de trabalho começou a ser questionada, primeiro pelos sindicatos e depois pela psicologia industrial. O mundo estava saindo da grande recessão econômica e cada vez mais buscava-se a eficiência nas organizações, mas, apesar ou por causa disso, iniciou-se uma corrente que questionava os princípios da Administração Clássica. As ciências sociais estavam se desenvolvendo, principalmente a psicologia e sua vertente industrial. O estudo do homem, de sua relação com o trabalho e de sua relação no grupo e suas interdependências fortaleceu-se por meio de estudos e pesquisas. Surgiu a corrente que mais ferrenhamente se opôs à Teoria Clássica e seus preceitos, mediante evidências de que existiam outros aspectos que influenciavam a produtividade humana dentro das organi- zações. Esses aspectos relacionavam-se ao lado humano e não mecani- cista ou operacional das organizações. Dois pontos formaram a preocupação da psicologia industrial: 1. a adaptação do trabalhador ao trabalho – estuda os testes psi- cológicos na seleção científica dos trabalhadores. Todo o estudo das características exigidas aos trabalhadores para cada tipo de trabalho, a seleção dentro dessas exigências, toda a orientação profissional, os fatores da aprendizagem, a influência psicoló- gica da fadiga, a fisiologia do trabalho e a análise dos acidentes de trabalho. 2. a adaptação do trabalho ao trabalhador – tem como foco de estudo os aspectos mais psicológicos do trabalhador, sua perso- nalidade, a do chefe e a relação desta com os trabalhadores, os fatores motivacionais, os incentivos do trabalho, a liderança sob o ponto de vista psicológico e o impacto nos operários, as rela- ções sociais e interpessoais dentro da organização e as comuni- cações formais e não formais. – 55 – Teoria das relações humanas A partir desse novo olhar sobre o ambiente industrial e os questiona- mentos críticos à Administração Clássica, foi se solidificando uma nova teoria da Administração para sistematizar todos os novos conceitos resul- tantes das pesquisas e estudos para explicar e orientar as relações huma- nas dentro das empresas, a chamada Teoria Humanista da Administração. Contudo, antes de essa teoria solidificar-se como tal, alguns autores já vinham falando de novos pontos a serem discutidos sobre o ambiente fabril e iniciativas da introdução da psicologia e da sociologia no âmbito da Administração. O resultado desses trabalhos, estudos e pesquisas foi catalogado como Teorias Transitivas da Administração. O velho conceito do trabalhador apático, preguiçoso, movido apenas a recompensas monetárias, o conceito do Homo economicus (homem eco- nômico) começava a ser questionado e deixado de lado por algumas orga- nizações e especialistas. A satisfação do trabalhador passava a ser impor- tante para as organizações responsáveis, e o lado humano da empresa começou a ser considerado importante e impactante nas organizações. Um dos expoentes dessa época, Ordway Tead (1860-1933), começou, na década de 20 do século XX, a propagar o relaxamento nos preceitos científicos rígidos e a analisar, também, as relações entre o comportamento do operário no seu ambiente de trabalho e seus temores, ambições e seu complexo psicológico. Também ressaltou a necessidade da compreensão da natureza humana como base para a compreensão do comportamento admi- nistrativo. Iniciou, ainda, os primeiros conceitos sobre a liderança da Admi- nistração. Tead considerava que as atividades de administrar eram próprias de certas pessoas, que teriam a missão de ordenar e aglutinar, facilitar os esforços do grupo para atingir os resultados estabelecidos previamente. Para ele, a Administração seria como uma arte própria de alguns e não poderia ser aprendida, só alguns teriam os dons especiais capazes de administrar de forma a ter a colaboração da equipe. Na sua concepção, o administrador precisava ser, também, educador e exercer a liderança para além do seu papel profissional, para poder influenciar e educar. Na questão da liderança, ele afirmava que o chefe deve exercer o papel de influencia- dor para seus subordinados, sendo o elemento fundamental para a execução da democracia dentro da empresa (CHIAVENATO, 2001a). Tead estava, – 56 – Administração e Economia assim, definindo como deveria ser o comportamento e a atuação do líder, um influenciador, aglutinador, educador, um agente moral e o símbolo principal da democracia na empresa, sendo o executor das diretivas e disseminador da visão global da empresa. Dica de filme A animação A fuga das galinhas retrata, em diversos momen- tos, a capacidade do líder em aglutinar os colaboradores em torno de uma ideia, motivá-los e influenciá-los na busca de objetivos comuns. A FUGA das galinhas. Direção de Peter Lord, Nick Park. EUA: DreamWorks Pictures/Universal Pictures do Brasil, 2000. 1 filme (84 min), sonoro, legenda, color., 35mm. A democracia empresarial, na visão de Tead, é a forma de administrar que permite que a escolha dos objetivos seja compartilhada por todos, que cria o sentimentode liberdade que proporciona a colaboração e a inicia- tiva dos subordinados, uma liderança pessoal presente e que estimule a participação que resulte em uma organização coesa e engrandecida em torno dos seus objetivos. Dessa forma, ele estabelece que a empresa não existe apenas para a obtenção de lucro e para a satisfação dos emprega- dos com bons salários distribuídos, ela tem outros papéis a desempenhar, legais para com a Estado, funcionais para com seus clientes, técnicos relativos aos seus processos, pessoais nas relações interpessoais, públicos nas relações com a sociedade e lucrativos. O sucesso na obtenção desses objetivos depende de os trabalhadores aceitarem e trabalharem por eles. Aí cresce a importância do papel do líder em saber formular e difundir tais objetivos. A forma mais indicada para estabelecê-los é aquela na qual eles são formulados pelo grupo, o papel do líder é o de dirigi-lo no alcance desses objetivos. Entre os psicólogos que estudaram o papel do ser humano nas empre- sas, o nome que mais se destacou foi o de Mary Parker Follet (1868-1933), quem teve a visão de separar, nas organizações, os psicólogos especialis- – 57 – Teoria das relações humanas tas dos sociólogos e, assim, apartar as análises psicológicas das sociológi- cas no estudo da participação do ser humano nas empresas e seus compo- nentes internos e na relação com o grupo social. Follet defendia a ideia de que as pessoas deviam contribuir espontaneamente e que o gerente teria o papel de integrador dessas contribuições especializadas nas funções empresariais de marketing, produção, finanças e relações industriais, novo nome atribuído ao departamento de gerenciamento dos recursos humanos. O gerente aprende a exercer sua função por si próprio, por meio da obser- vação de suas experiências. Follet ainda conceitua vários outros elementos da Administração, os quais são apresentados a seguir. 2 A organização como força viva que não é fixa, que se constitui de pessoas e, como tal, reage aos estímulos externos que não podem ser definidos com precisão pela sua aleatoriedade. E estabelece que em função dessa interação constante e viva com os estímulos, todos os problemas da empresa são problemas de relações humanas. 2 Reforça a participação da psicologia na Administração, aju- dando, com suas técnicas, a melhorar o desempenho das pessoas na organização e nas relações interpessoais. Ela foi pioneira na abordagem da motivação humana. Conceitua a existência da liderança como uma consequência do grupo e deve ter uma atu- ação de aglutinação para obter a melhor participação de cada um em vez de ser uma execução de poder do líder. 2 Estabelece que não é possível determinar nenhuma regra univer- sal para tomadas de decisão em decorrência de que a decisão é contextualizada ao momento da decisão e à situação existente. A única variável a ser levada em consideração deve ser a situação. 2 Para manter a tradição, também estabelece princípios da Admi- nistração. No entanto, nesse caso, a grande contribuição é a de que os princípios se aplicam não só a organizações empresariais, mas a todo tipo de atividade humana. E os princípios são decor- rência da forma como ela vê uma organização: o princípio do contato direto entre responsáveis e interessados, o princípio de – 58 – Administração e Economia planejamento, no qual as relações são estabelecidas, o princípio das relações recíprocas entre todos os fatores de uma determi- nada situação e o princípio do processo contínuo de coordena- ção a preocupação constante e básica de todo dirigente e a ser exercido a todo o momento. A corrente dos sociólogos na Administração teve seu expoente em 1938, com Chester Barnard, um executivo americano que fez propostas sobre a cooperação na organização. Apresentamos algumas dessas pro- postas a seguir. 2 Os seres humanos não são estáticos e fixos, sofrem mudanças constantes, conforme as mudanças do ambiente. Também não estão isolados, atuam por interações com outros seres huma- nos, havendo influência mútua. Além disso, os indivíduos têm limitações na sua atuação, e a cooperação surge da necessidade de suplantá-las. 2 A organização existe por meio das cooperações entre seus mem- bros, quando eles interagem, cooperam e têm propósitos comuns. Portanto, a organização é um conjunto de atividades coordena- das de indivíduos. Ela é um sistema cooperativo racional. 2 A autoridade é um problema constante nas organizações e depende da forma como a comunicação entre o chefe e o subor- dinado acontece. Como essa comunicação se desenrola, assim a autoridade terá ou não sucesso, caso a comunicação não seja entendida ou aceite que não existe autoridade. 2 Dentro desse novo conceito de organização, o papel do adminis- trador além dos tradicionais de planejar, organizar, dirigir e con- trolar, tem acrescida a função de manter os esforços em clima de cooperação. O novo paradigma de Administração ocorre por meio dos resultados, e não por meio do controle. Sem dúvida, Barnard antecipou a forma de trabalho do executivo moderno e influenciou vários autores modernos. – 59 – Teoria das relações humanas 3.1.2 A experiência de Hawthorne e o ser humano na empresa Um dos fatores para a solidificação da Teoria das Relações Humanas é o experimento de Hawthorne, feito por Helton Mayo e equipe. Além dessa experiência, os outros dois fatores dominantes para o surgimento dessa teoria foram a necessidade de humanizar e democratizar a Administração, vinda do mecanicismo da Administração Clássica, e o desenvolvimento das chamadas ciências humanas (sociologia, psicologia, antropologia, etc.). Os experimentos de Hawthorne foram muito importantes para a teoria das organizações por vários motivos. Em primeiro lugar, porque foi nesses estudos que os teóricos puderam observar, na prática, como o trabalho em grupo, as atitudes e as necessidades dos empregados afetam a motivação e o comportamento. O segundo ponto observado foi a grande complexi- dade dos problemas de produção em relação à produtividade. Salienta-se, nessa experiência, a possibilidade que se teve de comprovar a importância do método científico experimental na comprovação e estudo das hipóteses organizacionais. Contudo, o mais marcante nessa experiência foi o fato de que o objetivo de estudo era diferente do atingido, mas, em função da mente aberta dos pesquisadores, percebeu-se a existência de outras hipó- teses em ação e, assim, eles direcionaram seu estudo às novas hipóteses surgidas espontaneamente. A experiência de Hawthorne aconteceu na Western Electric Company, entre 1924 e 1927, e teve como objetivo estudar a influência da iluminação na produtividade do departamento de montagem de relés para telefones. Tal departamento era composto somente por moças, as quais executavam seu trabalho de forma manual, que dependia exclusivamente do seu esforço e rapidez. No entanto, a empresa preocupava-se mais em conhecer os seus funcionários do que propriamente em aumentar a produção. Na época, a Western já praticava uma política de recursos humanos voltada ao bem- -estar dos funcionários. A experiência de Hawthorne dividiu-se em quatro fases distintas. Na primeira fase, foram estudados os fatores de iluminação. As teorias organizacionais da época consideravam que os trabalhadores eram apenas motivados por fatores econômicos e externos. Então, nessa primeira fase, – 60 – Administração e Economia foram realizados quatro experimentos, cada um buscando algo diferente dos anteriores, orientados por um grupo de testes e outro de controle. No primeiro experimento, os trabalhadores de três departamentos foram sub- metidos a diferentes níveis de iluminação. O experimento revelou que os índices de produtividade aumentavam com a melhora da iluminação, não em uma razão direta desse aumento. Algo revelador: a eficiência da produ- ção nem sempre diminuía quando se reduzia a iluminação. No segundo experimento, foram escolhidosdois grupos de traba- lhadores, em número igual, foram dispostos em duas salas, uma sob ilu- minação constante e a outra sob iluminação variável. Mais uma vez, nada pôde ser afirmado sobre a alteração de eficiência na produção em função da variação na iluminação, pois as variações verificadas não foram significativas. O terceiro experimento foi efetuado com dois grupos de trabalha- dores, um controlado sob nível de iluminação fixa e outro sob mudanças controladas no nível de iluminação. O que se observou foi que a produti- vidade dos dois grupos cresceu conforme crescia o nível de iluminação e tornou-se constante de acordo com a constância do nível de iluminação. Contudo, o grupo de teste manteve a produtividade, mesmo diminuindo o nível de luminosidade, até ela tornar-se muito fraca. Esses experimentos falharam no seu propósito, a correlação entre o esforço e a iluminação, mas tiveram uma profunda influência na evolução das teorias organiza- cionais. As questões levantadas ainda não tinham sido observadas nem consideradas como hipóteses. Em função da observação de que mesmo baixando os níveis de ilu- minação ao limite da escuridão a produtividade não diminuiu, a mente aberta dos pesquisadores constatou que estavam na presença de outros fatores e que seria necessária a pesquisa e a descoberta desses outros fatores que não a iluminação, foi a chamada segunda fase da experiên- cia de Hawthorne. Nessa fase, a seleção das operadoras obedeceu a critérios rigorosos, bem como o arranjo da operação e a sala em que se dariam as experiên- cias. Nessa experiência, foram introduzidas novas variáveis a serem pes- – 61 – Teoria das relações humanas quisadas, horários de descanso, lanches, reduções no período de trabalho e sistema de pagamento. Além disso, uma das operadoras atuava como um tipo de abastecedora e supervisora do trabalho. Buscava-se identificar, entre as variáveis testadas, aquela que mais se relacionava com a produ- tividade. Após rigoroso método de experimentação, mais uma vez a pro- dutividade subia em função da melhoria das variáveis independentes, mas continuava crescendo mesmo com a volta dos fatores ao estágio inicial do experimento. Os pesquisadores consideraram que o fato da presença e o grupo de trabalhadoras estar sob observação poderia levar a resultados diferentes e que o grupo na sala de testes estava sob condições sociais diferentes das existentes na fábrica. Com base nos experimentos da sala de testes, ficou claro para os pesqui- sadores que o comportamento do supervisor era importante para a produtivi- dade. Então, na terceira fase dos experimentos, preparou-se um programa de entrevistas, buscando apurar os sentimentos e as atitudes dos trabalhadores perante o trabalho e as atitudes dos supervisores. Foram entrevistados cerca de 21 mil empregados. Por meio das entrevistas, revelou-se a existência de uma organização paralela à organização da empresa e com forte influência nos funcionários, criada por relações de confiança e lealdade entre si e com a instituição. Essa lealdade à organização informal do grupo poderia trazer problemas para a empresa. A quarta fase da experiência objetivava estudar os mecanismos e os processos dos pequenos grupos sociais dentro da empresa, em que pôde se observar que o grupo punia os membros que não participassem das decisões em relação à produtividade. Nessa última fase, foi possível a observação das relações entre a organização informal dos operários e a organização formal da fábrica e a preponderância do informal sobre o formal. A experiência de Hawthorne ocorreu entre os anos de 1927 e 1932, quando foi encerrada, por motivos não vinculados ao seu desenvolvimento. Entretanto, a influência de seus resultados sobre a teoria administrativa foi fundamental e derrubou as convicções da Administração Científica sobre a produtividade, calcadas na divisão das tarefas, no estudo dos tempos e movimentos e na especialização (SILVA, 2005). – 62 – Administração e Economia Quadro 3.1 As quatro fases da experiência de Hawthorne. Primeira fase Segunda fase Terceira fase Quarta fase Estudos da iluminação. Sala de teste de montagem de relés. Entrevistas. Observação dos mecanismos e processos dos pequenos grupos. Não conclusivo na relação da iluminação e produtividade. A descoberta de que os grupos com atenção e interação melhoravam a produtividade com a interação. Revelação da existência de grupos informais. Predominância do informal sobre o formal. Fonte: adaptado de Silva (2005, p. 203-208). As conclusões da experiência de Hawthorne são: 1. o nível de produção é resultante da integração social do trabalha- dor no grupo com suas normas e expectativas; 2. o comportamento do indivíduo se apoia totalmente no grupo social do qual participa; 3. o comportamento dos trabalhadores está condicionado a normas e padrões sociais; 4. os trabalhadores participam de grupos sociais dentro da orga- nização e mantêm-se em uma constante interação social pela diversidade diária de relações existentes; 5. ao contrário do pregado, a maneira mais eficiente de divisão do trabalho não é a especialização. O conteúdo e a natureza do cargo são importantes e podem gerar resultados de produtividade; 6. devem merecer atenção especial da Teoria das Relações Humanas os componentes emocionais não planejados e irra- cionais do ser humano. – 63 – Teoria das relações humanas As bases da Teoria das Relações Humanas foram estabelecidas com os seguintes pressupostos: 2 lembrar-se que a organização é um conjunto de grupos de pessoas; 2 enfatizar as pessoas, pois é por meio delas, da sua aglutinação em torno de objetivos e das relações entre elas, que se forma a organização; 2 usar os conhecimentos da psicologia para melhor entender os trabalhadores; 2 delegar autoridade, dando mais importância aos cargos e às fun- ções exercidas nos níveis inferiores da hierarquia; 2 oferecer autonomia ao empregado, ele pode ser responsável e produtivo mesmo sem uma supervisão e controles rígidos; 2 confiar e ter abertura nas relações com os trabalhadores e entre supervisores e subordinados; 2 enfatizar as relações entre as pessoas; 2 confiar nas pessoas; 2 estudar e entender as dinâmicas grupal e interpessoal. Surge, assim, em oposição à anterior visão do homem, o Homem Social. Totalmente diferente daquele indivíduo mesquinho e interesseiro da Teoria Clássica, surge agora uma visão de que os trabalhadores têm sentimentos, emoções, interesses de satisfação pessoal, relacionam-se e podem ser confiáveis. O trabalho pode ser resultante de fatores motivacio- nais e a satisfação na sua execução está diretamente relacionada à inserção em grupos sociais. A supervisão e a liderança influenciam o comporta- mento do grupo e, por consequência, os membros do grupo e as normas do grupo controlam os níveis de produção. 4 A moderna gestão A partir da década de 70 do século XX, paralelamente ao crescimento da economia globalizada, a situação econômica do mundo passou por grandes transformações, que fizeram as empresas buscar por modelos de gestão que trouxessem resulta- dos práticos em termos de competitividade em relação aos seus concorrentes. Os clientes buscavam por produtos mais baratos, mais eficientes e de melhor qualidade. Tradicionalmente, a indústria automobilística é o carro- -chefe da economia industrial, local em que as principais inova- ções no campo da Administração surgiram. O choque do petróleo de 1974 veio provocar uma revisão nos modelos estratégicos das empresas automobilísticas americanas, em relação à eficiência de seus produtos e à concorrência que os automóveis japoneses apresentavam na relação custo, benefício e qualidade. Esse cho- que no modelo tradicional de estratégias industriais, baseadas em produção, com grandes volumes de estoques, e em empurrar – 66 – Administração e Economia produtos para os canais de vendas e índices de qualidade da ordem de defeitos,por cem, e os modelos japoneses de qualidade assegurada com defeitos, por mil, novas técnicas de produção por Kamban e Just in time, produção sem estoques e produtos puxados pelo mercado, mais a solidi- ficação dos conceitos da Teoria Contingencial, provocaram uma grande alteração nos ambientes industriais. 4.1 Administração japonesa A partir do fim da Segunda Guerra Mundial, a necessidade de reconstruir o país levou o Japão a criar um modelo de organização eco- nômico e diferenciado. O que se observou foi uma forte determinação e união de todo o povo, a organização das empresas foi direcionada pelo governo e houve uma forte necessidade de se apoiar nas exportações, pelas características físicas do país, com uma falta de recursos primários e uma pequena extensão. O modelo escolhido para garantir o crescimento do conjunto das indústrias como um todo foi o da intervenção do governo. Para isso, as empresas foram organizadas em polos, grupos centralizados por uma grande montadora de produtos finais, principalmente, automobilísticas e eletroeletrônicas e, à sua volta, a cadeia de fornecedores que a abaste- ciam até o topo da grande empresa. 4.1.1 Administração participativa e CCQ Aliado ao modelo econômico, protegido e direcionado pelo governo, um modelo de organização começou a surgir nas indústrias a partir da necessidade da resolução de problemas de qualidade que os produtos japoneses apresentavam e das marcantes características culturais do povo. A chamada Administração japonesa surgiu do chão de fábrica, em função da já mencionada necessidade de produzir com máxima eficiência, de eliminarem-se os desperdícios e de garantir a melhoria contínua, tanto nos processos como nos produtos. Essa impactante situação do país estar se reconstruindo e existirem poucos recursos disponíveis marcou a forma como os ambientes fabris organizaram-se e como trabalharam. – 67 – A moderna gestão A necessidade de aumentar a qualidade dos produtos japoneses para que pudessem entrar nos mercados internacionais provocou a busca pelas autoridades industriais japonesas de nomes de destaque nos estudos sobre a qualidade nos EUA. Assim, os nomes de Joseph Juran e W. Edwards Deming surgiram quando os produtos japoneses começaram a desbancar os ameri- canos, nos mercados internacionais, em preço e qualidade, e as empresas ocidentais voltaram-se para descobrir quais as razões do sucesso japonês. Para Deming, quem determina a qualidade dos produtos não são apenas as especificações técnicas dos produtos, e, sim, as necessidades e exigências do consumidor, aliados a uma utilização de ferramentas de controle estatístico de qualidade e à seleção criteriosa dos fornece- dores da empresa. A prática da melhoria da qualidade, recomendada por Deming (apud SILVA, 2001), são os 14 passos a seguir: 1. criar uma visão consistente de um produto ou serviço; 2. assumir a liderança da empresa; 3. terminar com as inspeções; 4. selecionar um fornecedor preferencial; 5. melhorar continuamente o processo; 6. promover a aprendizagem no trabalho; 7. encarar a liderança como algo que todos aprendam; 8. evitar liderar criando medo; 9. trabalhar em equipes; 10. eliminar a imposição de metas; 11. abandonar a gestão por objetivos, baseando-se nos indicado- res quantitativos; 12. não classificar o desempenho dos empregados por ranking; 13. criar um programa de formação para os empregados; 14. impor a mudança como tarefa de todos os trabalhadores. Joseph Moses Juran (1904-2008), engenheiro eletricista pela Univer- sidade de Minnesota (EUA), desenvolveu trabalhos de qualidade na GE. Além disso, como professor e consultor, ampliou a visão da qualidade e preconiza a participação desta na estratégia da empresa, e não somente o foco nas técnicas de controle de qualidade. Com ele, é quebrado o para- – 68 – Administração e Economia digma de que maior qualidade significa maiores custos, com o conceito de que menos desperdícios e menos defeitos geram menos custos, mais satisfação dos clientes e, por consequência, maiores lucros. Para Juran, a qualidade divide-se em três partes: 1. melhoria da qualidade; 2. planejamento da qualidade; 3. controle de qualidade. Deming e Juran criaram uma linha de seguidores, entre eles Kaoru I shikawa, que adaptou o método da qualidade para as condições culturais do Japão. Sua contribuição foi importante a ponto da ferramenta de “causa e efeito”, amplamente utilizada no mundo todo, levar seu nome, Gráfico de Causa e Efeito ou Gráfico de Ishikawa. Temos a implantação dos sete instrumentos de controle de qualidade: o Diagrama de Pareto, o Diagrama de Causa e Efeito, o Histograma, as Folhas de Controle, o Diagramas de Escada, os Gráficos de controle e os Fluxos de controle. Segundo Ishikawa, a utilização destas ferramentas resolve 95% dos problemas de qualidade. Com o objetivo do “zero defeito”, as indústrias japonesas aplicaram os conceitos de qualidade até a sistematização de sistemas mais sofisti- cados e ampliados por estudiosos do mundo inteiro, sua implantação foi solidificada no mundo industrial. Atualmente, trata-se a qualidade de forma global na empresa, o Total Quality Control (Controle Total da Qua- lidade – TQC) ou o Total Quality Management (Gerenciamento da Qua- lidade Total – TQM), é um processo sistêmico e estratégico que garante a excelência organizacional. A filosofia de que a qualidade se faz com a participação dos funcioná- rios inicia-se com os Círculos de Controle de Qualidade (CCQ), também atribuídos a Ishikawa e amplamente difundidos no Ocidente, na década de 80 do século XX. Os CCQ, hoje chamados de Círculos de Qualidade, consistem em pequenos grupos de funcionários, com média de um número de nove, que se reúnem, de forma regular e voluntariamente, para discutir os projetos relacionados ao trabalho, com o objetivo de sempre avançar na melhoria dos processos e do trabalho. Esses círculos são organizados, treinados nas técnicas de qualidade e incentivados até com premiações, pela organização, para sempre buscarem, por meio de sugestões, melho- – 69 – A moderna gestão rias para a qualidade e para a produtividade, projeto de ferramentas, redu- ção de custos, manutenção, segurança e proteção ambiental. Os círculos de qualidade têm grande impacto nos resultados das empresas, baseados no conceito de que quem melhor conhece o processo é quem trabalha nele, e no conceito do Kaizen, que diz respeito à busca da melhoria contínua em tudo. Este conceito prega que sempre é possível “fazer” e “ser” de uma maneira melhor. Atualmente e em decorrência das técnicas japonesas de admi- nistração industrial, para se tornar competitiva, uma indústria deve incorporar a Administração participativa japonesa, con- ceito que evoluiu para a moderna ideia de células autônomas de produção, em que toda a gestão do grupo é feita pelos próprios participantes do grupo até o extremo de o grupo escolher quem supervisionará e qual será a forma de supervisão. Do ponto de vista da produção, o sistema japonês, que alcançou grande repercussão pelo sucesso que obteve, fundamenta-se no sistema aplicado na Toyota, sendo seu maior idealizador o engenheiro Taiichi Ohno, do qual decorreram as duas outras denominações do método, Sis- tema Toyota de Produção ou Ohnoísmo. Esse método baseia-se no con- trole da produção, feito de forma visual, pelos próprios operários. O três conceitos básicos em que se apoia o sistemas são destacados a seguir. 1. Just in Time: envolve a redução dos custos e a agilização do fluxo do processo produtivo com a programação das chegadas dos materiais às estações de trabalho, em que são aplicados no momento certo de seu uso. Para atingir tal sofisticação, é neces- sária uma forte integração com as etapas anteriores da cadeia de produção, tanto internas como externas. Permite cortar os custos de manutenção de estoque, maximizar o uso do espaço e, de forma indireta, atingir eficiência e qualidades em toda a cadeia. 2. Kanban: métodode programação da produção e movimentação do material em que o próprio operador programa seu trabalho de – 70 – Administração e Economia forma visual. Na língua japonesa, a palavra kanban significa um marcador (cartão, sinal ou placa) utilizado para controlar a necessidade de mais material para as etapas seguintes. Esse sistema também é conceituado como a produção puxada pelo nível seguinte. 3. Kaizen: conceito de melhoria contínua dos processos e pessoas, em busca da eficiência. Esses conceitos, com a transferência do controle das tarefas para os operários, foram por esse motivo, chamados de Administração participa- tiva. Essa forma participativa de gestão surge inicialmente com os CCQ, dentro dos quais a participação dos funcionários nas decisões, melhorias e estabelecimento de metas é valorizada e até delegada. Por meio dela, o subordinado ganha maior grau de poder na tomada de decisões e obtém melhores decisões. Tendo por base todas essas características da Administração japo- nesa, o pesquisador americano William Ouchi (1943- ), professor, PhD pela Universidade de Chicago e interessado em descobrir as causas da produtividade japonesa, lançou o livro Teoria Z, sistematizando todos esses conceitos em uma teoria para a qual ele deu o nome de Teoria Z, em uma sequência das teorias X e Y, de Douglas McGregor. Ouchi baseia sua teoria em características muito próprias da cultura japonesa, que são: o emprego estável e vitalício e a fidelidade do empregado à empresa em que iniciou sua carreira após a formação escolar, a remune- ração por antiguidade, que depois evoluiu para um sistema de remunera- ção associado ao desempenho, escolaridade e antiguidade, e a formação de sindicatos por empresas, possibilitando maior conjunto de interesses comuns entre os funcionários. Segundo Chiavenato (2001b), a Teoria Z orienta que toda a Admi- nistração deve ser focada na participação de todos os funcionários nas decisões, que devem ser tomadas em consenso e orientadas a longo prazo. Para que isso ocorra de forma bem-sucedida, os seguintes cuida- dos devem ser tomados: 2 os objetivos devem estar claros para todos os funcionários e os administradores devem levar em consideração o sistema de cren- – 71 – A moderna gestão ças, a cultura existente e a forma certa de comunicação. Os objeti- vos são obtidos através de consenso entre todos por meio de con- versas informais; 2 a existência de um espírito comum da busca pela excelência empresarial e individual. Os padrões de excelência são discuti- dos e estabelecidos de comum acordo com todos; 2 as estratégias do negócio têm de estar claras e definidas, aten- dendo às necessidades do consumidor, as tendências do mer- cado e os concorrentes; 2 a criação de um forte espírito de equipe voltado para a resolução de problemas; 2 uma estrutura de trabalho e informação que permita a ampla par- ticipação de todos nas decisões; 2 as recompensas devem ser correspondentes aos esforços e com- prometimento dos funcionários. Os objetivos organizacionais se atingem com a satisfação dos objetivos individuais. Para a Teoria Z, a Administração tem de ser participativa, porque a complexidade dos detalhes de cada tarefa só pode ser conhecida por quem executa essa tarefa, portanto só eles poderão tomar as melhores decisões relativas à sua tarefa. Apesar da pouca expressividade da Teoria Z, alguns conceitos da Administração participativa permanecem ativos, continuam a ser usados e foram até desenvolvidos para formas mais abrangentes de participação nas decisões da empresa, envolvendo até fornecedores e clientes nessas deci- sões. Essa abrangência nas tomadas de decisão envolvendo fornecedores e clientes parte da visão da interligação de interesses de toda a cadeia de produção e a importância das trocas de informações entre os elos dessa cadeia para a sobrevivência da cadeia como um todo. Essa visão da importância da colaboração de todos na busca do sucesso das organizações e da interligação dos interesses entre as partes envolvidas leva ao conceito da coparticipação de todos os funcionários na tomada de decisão de interesse comum, na melhoria da eficiência, por meio de programas de sugestões e nas formas mais avançadas de super- visão, a chamada autogestão, ou células autogerenciáveis, que consiste – 72 – Administração e Economia na escolha, pelos próprios funcionários das unidades de produção, das pessoas supervisionadas e da forma como serão supervisionados. Esse modelo, que vem apresentando resultados positivos no aumento da produtividade e satisfação e resultados para os funcionários, contrapõe- -se ao modelo mais tradicional e ainda bastante difundido de Administra- ção, o modelo diretivo, em que as ordens e direcionamentos são estabele- cidos pela hierarquia superior. 4.2 Foco na produtividade Como consequência da crise do petróleo, ocorrida na década de 70 do século XX, o início da expansão da globalização, os mercados inter- nacionais de automóveis e eletroeletrônicos sendo dominados pelas empre- sas japonesas, as empresas foram levadas a uma busca pela redução dos seus custos de operação e o aumento da produtividade a qualquer preço. Com o crescimento econômico, o número de empresas concorrentes aumentou e proporcionou, também, um aumento de opções disponíveis aos consumidores de produtos concorrentes e substituíveis. Essa situação levou a uma inversão na força de comando no processo de compra, saindo das empresas e passando para o lado dos consumidores, que passam a escolher o produto que lhes dê maior valor de benefício por valor mone- tário aplicado à compra. 4.2.1 Processo de redução de custos e estrutura A inversão no processo das decisões de compra, passando para o lado dos consumidores, provocou uma mudança na forma de as empre- sas administrarem seus custos e despesas. Se, anteriormente, eram elas quem determinavam o preço das mercadorias, agora a situação inverteu-se e quem estabelece o preço é o mercado. Essa situação nova provoca uma forte tendência de as empresas reduzirem custos e despesas e os primeiros pontos a serem analisados e que estão sob o controle interno da organização são os processos de exe- cução, a estrutura da organização e seu componente humano. A análise da estrutura com objetivo de redução de custos e aumento da eficiência – 73 – A moderna gestão implica reformatações nos modelos de organização hierárquica, redução das pessoas e aumento da produção. Alguns modelos de otimização de processos tiveram larga disse- minação, tornou-se quase uma obrigação das empresas os analisarem e avaliarem a possibilidade da sua implantação total ou parte. Entre os mais difundidos, temos a reengenharia, os processos de Downsizing e Empowerment ou Empoderamento. 4.2.1.1 Reengenharia A reengenharia é um processo que pretende reprojetar a forma de funcionamento da empresa, por meio do estudo e reformatação dos seus processos. Segundo os autores dessa filosofia, a reengenharia questiona e analisa com o que realmente a empresa se preocupa. Segundo Michael Hummer e James Champy (apud SILVA, 2005), autores do livro Reen- genharia da corporação, essa nova forma de projetar a maneira como a empresa faz negócios parte de uma pergunta inicial que todos os gerentes devem fazer: se houvesse a necessidade de iniciar a empresa novamente e formatá-la, que tipo de empresa seria, baseado na experi- ência adquirida e nas tecnologias disponíveis? As organizações tendem a se estagnar quando os funcionários com cargos de decisão começam a olhar mais para o seu espaço próximo, emprego e departamento e menos de forma abrangente, para as relações com outros departamentos e outras pessoas. Procurando atingir melhorias drásticas em pontos críticos do desem- penho, como custos, qualidade, serviço e velocidade, a reengenharia pro- põe-se enquanto mudança radical e fundamental nos processos de negócio. As quatro palavras-chave no processo de reengenharia são: 1. fundamental – refere-seao mais básico e fundamental que uma empresa tem de responder, por que faz o que faz e por que isso é feito desse modo. Assim, pretende-se um novo olhar, novas regras e abordagens sobre as operações da empresa; – 74 – Administração e Economia 2. radical – por recomendar que se desconsiderem completamente todos os processos e estruturas existentes, para provocar novas maneiras de fazer os mesmos objetivos; 3. processos – por ser o foco da reengenharia, a remodelação radical dos processos e não das tarefas, para a estrutura, para as pessoas e os serviços; 4. drástica – porque se pretendem não evoluções em cima dos modelos existentes, mas uma nova maneira de fazer as coisas, que provém ganho em saltos e não em pequenas evoluções gra- duais. Para que isso aconteça, é necessário destruir os modelos existentes, o novo surge somente pela destruição. Para a reengenharia, mesmo os trabalhos individuais bem definidos e bem executados não significam trabalhos eficientes, é preciso que se ques- tione se não existe uma maneira mais eficaz de se fazer essa tarefa, pela importância que ela tem no contexto maior da organização. Uma das mar- cas da reengenharia é o conceito de que sucesso no passado não garante um sucesso no futuro, não existem vantagens vitoriosas permanentes. Um questionamento feito pela reengenharia diz respeito à forma como as empresas utilizam a Tecnologia da Informação (TI). A maioria das empresas não usa todo o potencial de ganho em velocidade e de automação dos processos e das tarefas, feitos de forma diferente com a ajuda da TI. Apenas concentram-se em transferir o processo atual, mesmo que possi- velmente menos eficiente, para um processo auxiliado pela TI e, com isso, automatizando processos ineficientes, transferindo essa ineficiência para o sistema informatizado. Algumas comparações podem ser feitas entre a reengenharia e a Teo- ria da Qualidade, mas elas têm premissas bem diferentes, como podemos observar no quadro 4.1. Quadro 4.1 Reengenharia X TQM (Administração da Qualidade Total). Reengenharia TQM Pressuposições ques- tionadas Fundamental Desejos e necessidades dos clientes – 75 – A moderna gestão Reengenharia TQM Escopo de mudança Radical De baixo para cima Orientação Processos Processos Metas de melhoria Drástica Incremental Fonte: adaptado de Silva (2005). A ênfase da reengenharia é a eliminação dos desperdícios de passos e tempos nas tarefas que são realizadas, normalmente, após um processo de reengenharia bem-feito, o ganho em termos de rapidez de execução e diminuição de etapas nos fluxos de documentos é muito grande. A reengenharia recebeu muitas críticas, principalmente porque os pro- cessos não foram bem conduzidos, não se completou o ciclo ou foi usado com objetivos diferentes daqueles para que ela foi criada. A crítica mais comum que tem sido feita diz respeito ao fato de ela preconizar mudanças drásticas e, tam- bém, de que a filosofia se resumia em um corte puro e simples de funcionários. Os cincos passos para uma boa reengenharia são: 1. dar o controle de cada processo a uma pessoa que se tornará o proprietário desse processo e o levará até ao fim; 2. mapear o processo, por meio de documentação específica para esse fim, como o fluxograma; 3. eliminar pontos de dificuldade potenciais no sistema, por exem- plo, mais elementos que podem causar erros, como pessoas, mecanismos, documentos; 4. concluir a tarefa o mais rápido possível; mais foco no fim da tarefa do que no seu controle; 5. tornar a reengenharia um processo contínuo. Pelas suas características drásticas e de formas radicais, o processo de reengenharia não é fácil e envolve muitos aspectos comportamentais. Portanto, para que se atinja o sucesso, é importante ter alguns cuidados na forma de condução. A liderança tem de estar definida e ter autoridade para efetuar mudanças, deve existir um processo de mudança comportamental, conduzido de acordo com os preceitos que as teorias comportamentais recomendam para que se consiga mudança e desenvolvimento organiza- – 76 – Administração e Economia cionais e, com isso, sejam superadas as resistências à mudança, que, nor- malmente, são grandes. 4.2.1.2 Downsizing – Rightsizing Outro processo de redução que teve grande utilização é chamado Downsizing ou Rightsizing (diminuição de tamanho ou ter o tamanho certo) e é um processo de redução de tamanho da organização, principal- mente com a diminuição dos níveis hierárquicos, redução essa que visa obter uma rápida diminuição de custos. A ideia de tornar a organização menor, tanto a vertical, eliminando níveis hierárquicos da estrutura, como a horizontal, com a redução de pessoas dentro de cada linha horizontal, sobrecarrega os que ficam com as responsabilidades e tarefas que eram executadas pelos cargos que foram eliminados. As desvantagens do Downsizing são: 2 custos associados à demissão de pessoas, recolocação e indeni- zações; 2 custos de treinamento dos empregados remanescentes às novas responsabilidades; 2 declínio no moral dos funcionários remanescentes, pelo medo de também serem cortados seus cargos; 2 queda na qualidade do trabalho feito pelos remanescentes, por acúmulo de funções e baixa do moral. Apesar de ser o processo de redução de custos mais fácil de executar e, normalmente, o mais tentador, com executivos novos com pressão por resultados imediatos, é o menos profundo e abrangente na análise das suas consequências, o que envolve maior custo direto e indireto e pode com- prometer o moral profundamente. 4.2.1.3 Empowerment – Empoderamento Durante certo tempo foi muito usado o conceito de Empowerment ou Empoderamento, mas esse processo é uma delegação feita de outra forma. O Empowerment é a passagem da autoridade e da responsabili- dade, a delegação permanente da tomada de decisão para os funcionários. – 77 – A moderna gestão No entanto, esse processo deve ser feito de maneira que os funcio- nários possam tomar as decisões da melhor forma possível, treinando- -os, fornecendo as informações e recursos necessários, recompensando-os pelo aumento das responsabilidades. Motivar os funcionários é o principal objetivo do processo de Empowerment, pela percepção que eles têm da importância do trabalho para a organização. Isso leva-os a sentirem-se mais competentes e, com isso, a ganharem a autoconfiança para poderem tomar decisões com mais segurança. Com esse sentimento de importância, a motivação de parti- cipar de forma ativa aumenta e leva os funcionários a se tornarem mais ativos na sugestão de melhorias e a conduzirem processos de mudanças organizacionais com mais sucesso. Os custos da implantação dessa filosofia de trabalho são: 2 mais treinamentos em função do aumento das responsabilidades; 2 selecionar pessoal melhor qualificado para poder desempenhar melhor as tarefas, com maior responsabilidade; 2 salários mais altos para poder contratar e reter funcionários mais competentes; 2 menor ênfase no acerto pela primeira vez; 2 funcionários mais “empoderados” podem extrapolar suas fun- ções no atendimento aos clientes. Os benefícios obtidos pelo Empowerment são: 2 empregados mais ativos e confiantes para atender rapidamente às queixas dos consumidores; 2 um sentimento de confiança nos empregados, sobre eles pró- prios e sobre seu trabalho; 2 motivação e entusiasmo dos funcionários, eles criam relações mais entusiásticas e pessoais com os clientes; 2 empregados mais dispostos em participar, com sugestões de melhorias ou na prevenção de problemas futuros. O Empowerment está mais focado para empresas prestadoras de ser- viços, nas quais os clientes precisam ser atendidos com rapidez e calorosa- – 78 – Administração e Economia mente. Isso se conseguirá com funcionários com mais autoridade, motiva- dos, entusiasmados e ativos não só para atender com qualidade, mas para resolver rápida e calorosamente problemas de insatisfação dos clientes. 4.2.1.4 Administração holística Este conceitobaseia-se na visão da organização vista como um todo completo, que atua em conjunto e deve ser vista como tal, não como partes integradas. Nesta ótica, o todo é muito mais que a simples soma das partes que o compõem, tal qual um sistema aberto, que é visto como um todo nas suas interações com o ambiente. O conceito da organização holística e da forma de administração cor- respondente é decorrência das novas visões que as ciências passaram a ter do homem, como um ser indivisível, a forma de funcionamento do homem deve ser analisada como um todo e não em separado, por cada órgão ou componente. Um sistema ou organização só pode ser entendido como um todo e não em separado. 4.2.1.5 Benchmarking O processo de Benchmarking é uma busca constante das organi- zações por melhor desempenho, mediante um processo de melhorias nas suas práticas operacionais, administrativas e gerencias pela com- paração entre as suas práticas e as práticas inovadoras e de excelência, adotadas por outras empresas, tanto do mesmo ramo, concorrentes, como de outros ramos ou as empresas semelhantes de uma mesma organização, com várias unidades. Esse processo de comparação requer uma metodologia de busca das melhores e mais inovadoras práticas existentes no mercado, sua análise, sistematização dessas práticas e estabelecimento de uma metodologia de incorporação dessas práticas à organização. 4.2.1.6 Learn organization A partir das obras de Peter Senge, solidificou-se a visão de que a empresa deve criar uma forma de constante aprendizado e incorporação à sua cultura e comportamento, às experiências adquiridas ao longo do tempo e que esse aprendizado impulsione, de forma contínua, a inovação e – 79 – A moderna gestão a renovação constantes, tão necessárias às organizações, inseridas em um ambiente tão cheio de mudanças rápidas como o atual. Algumas formas sistêmicas e métodos foram criados para que esse aprendizado seja incorporado ao dia a dia, à cultura e ao processo organi- zacional, em uma forma de absorção da constante mudança organizacional. 4.2.1.7 Terceirização É, basicamente, um processo de busca de redução de custos e foco nas atividades principais da empresa, o chamado core business, pela trans- ferência de atividades anteriormente executadas internamente pela organi- zação para serem executadas por parceiros, fornecedores ou até a criação de empresas novas dedicadas a essa atividade. A empresa que terceiriza uma de suas atividades para uma outra empresa terceirizada pretende que, por meio dessa transferência e compra desses serviços, tenha uma maior qualidade no serviço e menor custo pela especialização no serviço contratado pela empresa terceirizada. Exemplo comum desse tipo de funcionamento é a terceirização de serviços de segu- rança, limpeza, contratação de funcionário, contabilidade, etc. Reflita Perceba que a forma como se sentem os funcionários se motiva- dos e entusiasmados reflete no atendimento a clientes e na auto- nomia que eles têm para, rapidamente, resolver as insatisfações e problemas dos clientes. Fica evidente que funcionários empoderados são muito melho- res no atendimento e provocam sentimentos de mais cordiali- dade nos clientes. 4.2.2 Melhoria contínua e PDCA O conceito da melhoria contínua foi popularizado por meio da divul- gação do sistema japonês de Administração fabril e ficou mais conhecido como Kaizen. Por meio do Kaizen, cria-se uma cultura de busca contínua – 80 – Administração e Economia por maiores níveis de produtividade e eficiência. É um processo cíclico que vai crescendo todo mês e, ao se iniciar um novo ciclo, no mês seguinte, o mais usual, colocam-se novas metas mais audaciosas que as anteriores. A princípio, o topo da empresa, o nível estratégico, estabelece as metas e os objetivos para a organização como um todo e essas metas des- cem pela estrutura hierárquica detalhando-se a cada nível e atingindo todos as etapas. Por outro lado, do nível operacional da empresa, sobem as infor- mações necessárias para abastecer os níveis superiores a tomarem decisões e estabelecerem metas mais realistas e sobem, também, os indicadores de desempenho, que vão se aglutinando nível a nível, para que, ao chega- rem ao topo, sejam os indicadores de desempenho globais da organização, como vemos na figura 4.1. A cúpula da empresa estabelece as metas de vendas, lucros, custos, eliminação de desperdícios, etc. A organização trabalha para que essas metas sejam atingidas e retorna para os níveis superiores os resultados atingidos e as informações necessárias para abastecer tomadas de decisão e estabelecimento de novas metas. Assim, repete-se o ciclo de melhoria contínua, com metas mais desafiadoras e de melhores desempenhos. Figura 4.1 Ciclo da melhoria contínua. Informações Indicadores de desempenho Nível estratégico Nível gerencial Nível operacional Indicadores Metas Objetivos Fonte: adaptado de Abreu e Rezende (2009, p. 112-133). – 81 – A moderna gestão A ferramenta criada para impulsionar essa filosofia de trabalho, amplamente divulgada e usada por todos os tipos de empresas, foi o ciclo Plan-Do-Check-Act (PDCA), atualmente, a última etapa do ciclo tem sido chamada de Learn, em vez de Act. O ciclo PDCA foi criado por Walter Andrew Shewhart (1891-1967) e divulgado por Deming, que foi quem o incluiu no seu sistema de melhoria contínua da qualidade e divulgou sua utilização. Atualmente, a ferramenta de PDCA não se restringe mais ao sistema da qualidade, está sendo usada em todas as outras áreas da empresa. O ciclo PDCA representa as funções do administrador, criadas por Fayol na Teoria Clássica, adaptada aos novos conceitos da qualidade, melhoria contínua e produtividade. Inicialmente, seu uso era direcionado para estatística e métodos de amostragem da qualidade, depois foi ampliado e tornou-se a ferramenta da função administrar. O ciclo PDCA tem por obje- tivo tornar claros e ágeis os processos de gestão, bem como organizá-los. Figura 4.2 Ciclo PDCA. Verificar se as ações implementadas atin- giram os resultados desejados. Agir melhorando. Implementar e monitorar os resultados. Preparar equipe para implantação. Definir método e padrões de trabalho. Definir objetivos e metas. A act C check D do P plan Fonte: adaptado de Campos (2004, p. 34 e p. 206). O ciclo PDCA é constituído por quatro etapas sequenciais, mas que interagem umas com as outras, podem acontecer ao mesmo tempo e são interdependentes. Vamos apresentar essas etapas a seguir. – 82 – Administração e Economia 4.2.2.1 Plan (planejar) Essa é a etapa inicial do processo e constitui a fase de planejamento, que se subdivide em duas partes: a definição dos objetivos e metas, por meio de um levantamento de dados, boas ferramentas de análise ambiental, análise de causas e efeitos e uma clara visão dos cenários futuros; a outra subdivisão é o estabelecimento de métodos e padrões de trabalho desejados para resolver o problema ou executar a tarefa pretendida. Nessa fase do PDCA, é necessário definir: 2 o processo a ser gerenciado, o problema a ser resolvido ou as metas a serem atingidas; 2 os métodos a serem utilizados no alcance dos objetivos; 2 os padrões de desempenho pretendidos; 2 as metas a serem atingidas para se alcançarem os objetivos. 4.2.2.2 Do (executar) Nessa etapa ocorre a execução das tarefas planejadas na fase anterior. No entanto, para que as tarefas sejam feitas com qualidade, é necessário que se prepare a equipe para a sua implementação, mediante escolha das pessoas certas para cada tarefa, treinamento dessas pessoas para dar-lhes todas as condições de forma a atingir os padrões de desempenho estabele- cidos. Depois, a sequência é implementar as ações e monitorar os resulta- dos por meio dos indicadores já estabelecidos na fase anterior. É muito importante realçar que, sem o envolvimento das pessoas no alcance dos objetivos, não há comprometimento nem sucesso nos resul- tados. Para quese consiga tal compromisso, é preciso treinar e liderar as pessoas em torno dos objetivos da empresa. É importante, nessa fase, a coleta dos dados certos e mais indicados, para que o monitoramento tenha sucesso. 4.2.2.3 Check (verificar) Após a realização das tarefas, o próximo passo é verificar se as metas e os padrões estabelecidos no planejamento foram atingidos na execu- ção. Isso é feito utilizando as metas estabelecidas e os dados monitorados anteriormente. A partir dessa verificação e análise, não se deve apenas – 83 – A moderna gestão apontar divergências entre metas e resultados alcançados, mas, principal- mente, verificar as causas dessas divergências. É importante que todos essas dados sejam registrados para que o conhecimento se absorva e para consultas futuras. 4.2.2.4 Act (ação) Essa é fase do agir melhorando, absorvendo as avaliações feitas na fase anterior. Esta ação envolve determinar novos planos de ação, metas, objetivos e padrões de trabalho, para que se inicie um novo ciclo. Esses novos planos devem melhorar os indicadores do ciclo anterior, a quali- dade, a eficiência e a eficácia, melhorando e corrigindo as falhas quando houver ou estabelecendo novos patamares de desempenho superior. Em função dessa característica de absorver a experiência do ciclo anterior e melhorar ou corrigir os resultados obtidos, essa etapa também é chamada de Learn, que significa aprender. A ferramenta PDCA, pela simplicidade de elaboração e execução, pode ser aplicada a todos os tipos de empresas, até em nível individual. A sua importância é grande pelos motivos já apontados e por apresentar resultados muito positivos. Devido a essa combinação de simplicidade, facilidade de elabora- ção e bons resultados, a metodologia espalhou-se e solidificou-se por todas as organizações. O ciclo PDCA pode ser implantado de forma mais global, como o planejamento da empresa como um todo, e ir detalhando e dividindo os planos conforme se desce na estrutura hierárquica e chega-se ao nível mais operacional, no qual o PDCA pode representar planos individuais. 4.2.3 Ferramentas da qualidade Um dos principais responsáveis pela implantação e pela expansão dos conceitos de qualidade no Japão, Kaoru Ishikawa, estabeleceu sete ferra- mentas que auxiliam a melhorar a qualidade. Foi a partir da ampla utilização e do sucesso desses instrumentos que sua utilização ampliou-se de simples ferramentas de qualidade do produto e processo industriais para a amplia- – 84 – Administração e Economia ção da sua utilização como ferramentas da Administração e dos processos gerais da Administração. As ferramentas da qualidade vieram juntar-se a outras ferramentas, como o fluxograma e o organograma, para se tornarem instrumentos da Administração. Como vimos anteriormente, as sete ferramentas da qualidade implan- tadas por Ishikawa são o Diagrama de Pareto, o Diagrama de Causa e Efeito, o Histograma, as Folhas de Controle, os Diagramas de Escada, os Gráficos de Controle e os Fluxos de Controle, que, segundo Ishikawa, resolvem 95% dos problemas de qualidade. As ferramentas da qualidade e da gestão mais utilizadas são destaca- das a seguir. 4.2.3.1 Diagrama de Pareto Essa ferramenta baseia-se nos estudos de Vilfredo Pareto (1848-1923), economista, político e sociólogo, que, em 1897, executou um estudo sobre a distribuição de renda. Com tal estudo, percebeu-se que a distribuição de riqueza não se dava de maneira uniforme, havendo grande concentração (80%) nas mãos de uma pequena parcela da população (20%). Comprovou- -se a aplicabilidade desse conceito, de 80-20, a vários ramos da economia e da Administração, estabelecendo que 80% dos resultados são explicados por 20% das causas. No caso específico da qualidade, significa que 20% das causas provo- cam 80% dos defeitos. Para a Administração, de forma geral, o conceito de Pareto pode ser útil se colocado para grandes volumes de ocorrências, torna-se mais evidente, por exemplo, afirmar que 20% dos clientes são responsáveis por 80% das receitas, 20% dos produtos são responsáveis por 80% das vendas, ou do lucro, conceito muito usado na Administração de grandes supermercados. Ele também é muito conhecido como Clas- sificação ABC, em que os itens são dividos em três, abrindo uma escala dos 30% referentes às causas seguintes, às mais importantes e que são responsáveis por 15% dos resultados. Assim, 50% das causas respondem por 95% dos resultados, restando 50% das causas para serem responsáveis por apenas 5% dos resultados. Portanto, a primeira ação do administrador é identificar 20% de ocor- rências que representam 80% dos resultados das tarefas ou produtos do – 85 – A moderna gestão seu processo, concentrando seus esforços principais na gestão destes e depois, seguindo a escala, focando nos 30% seguintes, assim consegue-se identificar e administrar 95% dos resuldados do seu trabalho. Normalmente, esse conceito é usado graficamente, para melhor visuali- zação, e tem uma metodologia própria a ser seguida para se chegar ao gráfico. Figura 4.3 Diagrama de Pareto. 200 Quantidade de itens inspecionados: 5000 Q ua nt id ad e de it en s d ef ei tu os os 1 de abril a 30 de junho 180 160 140 120 100 80 60 40 20 Pe rc et ag em a cu m ul ad a (% ) 100 90 80 70 60 50 40 30 20 10 OutrosD B F A C E A: Trinca D: Deformação B: Risco E: Fenda C: Mancha F: PorosidadeFonte: adaptado de Kume (1993, p. 25). 4.2.3.2 Diagrama de Ishikawa Esse diagrama é, também, conhecido pelos nomes de gráfico espinha de peixe, por sua semelhança gráfica com uma espinha de peixe, ou grá- fico causa e efeito, pelo seu objetivo. – 86 – Administração e Economia Essa ferramenta busca atingir as causas principais dos problemas, por meio de uma metodologia de busca dos porquês dos problemas e subpro- blemas, até achar a causa real que provoca o efeito que queremos eliminar. Figura 4.4 Estrutura do Diagrama de Ishikawa ou de causa e efeito. Operadores Máquina Peças e materiais Métodos de operação Fadiga Enfermidade Concentração Treinamento Educação Habilidade Experiência Moral Atenção PeçaItem Inspeção Método Estabilidade Operação Desequilíbrio Deformação Abrasão Fixação Armazenagem Dimensão Posição Sequência Quantidade do material Diâmetro Montagem Ritmo Componente Ângulo Trabalho Perfil Grau de aperto ProcedimentoForma Dispositivos e ferramentas Saúde Variação dimensional Fonte: adaptado de Kume (1993, p. 39). Esse diagrama é também conhecido por 6M, pois, na sua estrutura, todos tipos de problemas podem ser classificados como pertencentes a seis tipos diferentes de causas que têm como inicial a letra M. A busca da solução deve seguir dentro desses tipos de causas. 2 Método: a maneira como está sendo executado. 2 Matéria-prima: problemas de especificação ou qualidade. 2 Mão de obra: problemas de execução ou treinamento. 2 Máquinas: referentes aos equipamentos. 2 Medição: falta de precisão ou especificação. 2 Meio ambiente: fatores externos ao ambiente da tarefa. – 87 – A moderna gestão Para se fazer o diagrama, é necessária a identificação dos “subpro- blemas” que estão levando ao problema raiz, ou seja, é preciso chegar às causas remotas e reais que nos levam ao efeito final (o problema raiz). 4.2.3.3 5W3H Essa ferramenta não faz parte do lote inicial das chamadas ferramen- tas da qualidade, mas é de grande utilidade para que o administrador esta- beleça planos de ação, verifique o andamento do planejamento. Pode, tam- bém, ser usada para outras finalidades, como a investigação de processos para detectar as suas falhas. O nome da ferramenta vem das inicias, em inglês, das perguntas a serem respondidas, como podemos ver no quadro 4.2. Quadro 4.2 Método 5W3H. Perguntas Inglês Português Explicação 5W What O quê? Que ação será executada? Who Quem? Quem será o responsável, o exe-cutor e os participantes da ação? Where Onde? Onde será executada a ação? WhenQuando? Quando será executada a ação? Why Por quê? Por que a ação será executada? 3H How Como? Como será executada a ação? How much Quanto custa? Quanto vai custar a ação? How measure Como medir? Como será medido o progresso e os resultados da ação? Fonte: adaptado de Campos (2004, p. 59). Pela utilização dessa ferramenta é possível estabelecer as funções da Administração ou o PDCA de forma mais fácil. – 88 – Administração e Economia 4.2.3.4 Histograma A utilização da estatística aos meios de produção como foco nas aná- lises de qualidade foi amplamente explorada. Esse é o caso do histograma, a representação em um gráfico de colunas, do número de ocorrências por tipo de ocorrências no fenômeno em estudo. A grande utilidade dessa ferramenta é que por meio só do esforço da elaboração e da simples visualização do gráfico ficam evidentes os fenô- menos de maior ocorrência. O processo de elaboração do histograma serve como o início de um estudo e é importante ferramenta para identificar o tipo de distribuição do fenômeno. Figura 4.5 Exemplo de histogramas. 0 Característica (peso, idade) O co rr ên ci as 5 10 15 20 25 30 Fonte: Talentus (2012, s. p.). Figura 4.6 Estratificação. Total de acidente – Departamento Manutenção Mês Tipo de Acidente TotalCorte Queimadura Fraturas Janeiro 6 5 4 15 Fevereiro 6 4 3 13 Março 4 4 2 10 Abril 1 1 1 3 Maio 3 1 2 6 Junho 1 1 0 2 Julho 3 1 1 5 – 89 – A moderna gestão Tipo de acidente – Departamento Manutenção Corte Queimadura Fratura 0 Janeiro Fevereiro Março Maio Junho JulhoAbril 1 2 3 4 5 6 7 Fonte: Cantidio (2012, s. p.). 4.2.3.5 Folhas de controle Folhas de verificação são instrumentos que facilitam o processo de coletar e analisar os dados a serem estudados. São tabelas ou planilhas que economizarão tempo na preparação dos dados pela orientação que é dada à coleta, eliminando o trabalho de se desenhar figuras ou escrever números repetitivos. Com o uso das folhas de verificação, direciona-se a análise de dados para que se evite erros de dispersão. Tabela 4.1 Folha de controle. Características Lote 1 Lote 2 Lote 3 Lote 4 Lote 5 Lote 6 Manchada 4 Quebrada 2 5 5 4 3 Pequena 3 Fonte: Qualidade Brasil (2012, s. p.). – 90 – Administração e Economia 4.2.3.6 Diagrama de dispersão Esse tipo de diagrama é usado para verificar, de forma fácil e visual, a ocorrência de mudanças em variáveis de um processo em estudo. As ocorrências são relacionadas a duas variáveis quantitativas que são inseridas no espaço cartesiano nas variáveis X e Y. Caso ocorra uma alteração grande de uma das variáveis em estudo dentro das ten- dências e concentração de todas as ocorrências, o fato é perceptível visualmente e, pelas formulas matemáticas de regressão e progressão linear, é possível estabelecer as tendências das ocorrências. Figura 4.7 Diagramas de dispersão. Custo Real X Estimado Custo aparente real 3000 3000 3500 3500 4000 4000 4500 5000 5500 6000 6500 7000 7500 4500 5000 5500 6000 6500 7000 7500 Coef. correlação = 0,94 Primeira bissetriz C us to a pa re nt e es tim ad o Fonte: Cantidio (2012, s. p.). 0 0 2 2 4 6 y 4 6 x Pontos suspeitos n = 30 Fonte: Kumo (1993, p. 78). – 91 – A moderna gestão 4.2.3.7 Gráficos de controle Esse é mais um componente estatístico aplicado aos processos indus- triais e administrativos. Com o registro das ocorrências em gráfico, é pos- sível verificar, continuamente, se os fatores em análise mantêm-se dentro dos limites estabelecidos. Figura 4.8 Gráficos de controle. LSE -2 4035302520151051 0 2 4 6 8 10 12 14 16 18 20 LSC LIC LIC D iâ m et ro p ar a ro la m en to e m 0 ,0 01 m m Análise de estabilidade do processo – Norton – semieixo. Diâmetro para rolamento. Sequência de produção Fonte: Cantidio (2012, s. p.). Limite superior de controle Linha central Limite inferior de controle Gráfico de controle para processo sob controle x Gráfico de controle para processo fora de controle x Fonte: Kume (1993, p. 98). 4.2.3.8 Fluxos de controle Tais fluxos são as representações gráficas da sequência de ações, verificações e tomadas de decisão, para orientar a execução das tarefas e – 92 – Administração e Economia garantir que ela seja feita sempre da forma correta. Os fluxos de controle são considerados como fluxogramas, chamados, ainda, de carta de fluxo do processo. Gráfico de processamento e gráfico de sequência são definidos como a representação gráfica, por meio de símbolos predefinidos, de cada fase de um processo ou de um trabalho, registrando a análise detalhada das tarefas, sua sequência, tomadas de decisão e os responsáveis e/ou as uni- dades organizacionais envolvidas. Os fluxogramas são de ampla utilização da Administração, em todas as áreas, como forma de sistematizar e padronizar as tarefas. São utilizados nas fases da divisão e especialização do trabalho na estruturação da organização. Figura 4.9 Fluxo de controle. Início Seleção de barras Corte Sim Sim SimNão Não Dobrar Dobrar Armar Área de expedição Carregamento de caminhão Estoque intermediário Armação da ferragem Fim Não Armar Fonte: Reinvenção (2012, s. p.). Com o amplo uso da ferramenta fluxograma, obtemos os seguin- tes benefícios: 2 padronização da representação dos métodos administrativos e operacionais; 2 maior rapidez da descrição dos métodos de trabalho; – 93 – A moderna gestão 2 leitura e entendimento facilitados pelo uso de simbologia padrão; 2 análise melhorada pela facilidade da visualização; 2 facilidade de localização e identificação dos pontos que são mais importantes. As vantagens resultantes do uso do fluxograma são o levantamento e análise de qualquer método administrativo, a apresentação real do funcio- namento, a visualização integrada de um método administrativo. Para que se atinjam melhores benefícios com o uso do fluxograma, recomendamos algumas perguntas que permitem analisar o processo, uma utilização conjunta do fluxograma e dos 5W3H. 2 Por que essa fase é necessária? Tem influência no resultado final da rotina analisada? 2 O que é feito nessa fase? 2 Para que serve essa fase? 2 Onde essa fase deve ser feita? Uma mudança de/no local permi- tiria maior simplificação? 2 Quando essa fase deve ser feita? A sequência está na ordem correta? 2 Quanto tempo dura a execução dessa fase? 2 Quem deve executar essa fase? Há alguém melhor qualificado para executá-la? Seria mais lógico que outra pessoa a executasse? 2 Como essa fase está sendo executada? A utilização das ferramentas da qualidade em toda a Administração das organizações traz mais consistência e metodologia para a execução das funções do administrador, fazendo delas não só ferramentas de quali- dade, mas ferramentas da Administração. 4.3 Excelência da gestão O estudo mais avançado da gestão, atualmente, é a busca da exce- lência organizacional por meio de práticas e princípios fundamentados em c ritérios mundialmente aceitos como os fundamentos de uma gestão de excelência. Esses fundamentos e critérios são estabelecidos por asso- – 94 – Administração e Economia ciações de vários países e poucas variações apresentam de país para país. Aqui no Brasil, tais práticas têm sido conduzidas pela Fundação para o Prêmio Nacional da Qualidade, mais tarde somente Fundação Nacional da Qualidade (FNQ). Em vários estados, outros organismos foram criados ou responsabilizados para conduzir as empresas locais a um patamar de qualidade e produtividade idêntico ao das melhores empresas mundiais, as chamadas “Empresas de Classe Mundial”. 4.3.1 Fundamentos e critérios da excelência Em meados dos anos 80 do século XX, as organizações americanas sentiram a necessidade de melhorar as suas práticas para atingir mais qua- lidade e produtividade nos seus produtos. Um grupo de especialistas ana- lisou uma série de empresas com resultados de sucesso para verificar quais características as levaram a serem consideradas“ilhas de excelência” e a se diferenciarem das demais empresas, que se encontravam em patamares inferiores de qualidade e produtividade. Essas características foram identificadas e constituíam-se como valo- res organizacionais pertencentes à cultura das organizações, praticados pelas pessoas da organização desde a base da estrutura até o topo. Esses valores deram origem aos fundamentos para a criação de uma cultura de gestão voltada para os resultados; deram origem, também, aos critérios de avaliação e à estrutura do Prêmio Malcolm Baldrige National Quality Award (MBNQA), em 1987. No Brasil, o movimento para a melhoria da produtividade e da quali- dade das empresas começou em 1991, com a instituição da Fundação para o Prêmio Nacional da Qualidade, entidade sem fins lucrativos, fundada por 39 organizações públicas e privadas. A primeira premiação ocorreu em 1992, abordando os critérios do prêmio da MBNQA. Ao longo desse tempo, foram feitas no prêmio evoluções para acompanhar as tendências de evolução da tecnologia de gestão das organizações, bem como uma aproximação das organizações de prêmios semelhantes, em outros países. Desde então, a consciência das empresas em relação à importância de ado- tar práticas de gestão fundamentadas na excelência só aumentou e passou a ser aplicada a empresas de todos os tamanhos, das micro e pequenas às – 95 – A moderna gestão grandes multinacionais. A referência em relação aos critérios de excelên- cia é o modelo criado pela FNQ, em concordância com organismos seme- lhantes da maioria dos países. Para os valores iniciais, identificados nas empresas de sucesso, foram considerados os fundamentos para a criação de uma cultura organizacio- nal voltada para resultados. A partir desses fundamentos, estabeleceram-se os critérios identificadores de uma empresa com um padrão de excelência de gestão. A excelência da gestão e da qualidade não se relaciona apenas à qualidade dos produtos em si, mas, de forma abrangente, à qualidade dos processos de gestão que proporcionam às empresas que adotam essas práti- cas alcançarem níveis de produtividade e de resultados não alcançados pelas outras empresas que não as adotam. Os fundamentos da excelência baseiam-se em conceitos simples e em um modelo flexível, sem a prescrição de ferramentas e práticas específicas de gestão, e pode ser aplicado a qualquer tipo de organização, nos setores públicos e privados, com ou sem finalidade de lucro e de qualquer porte. Os fundamentos da excelência que expressam os conceitos reconhecidos inter- nacionalmente como os fundamentos que levam organizações a se tornarem empresas de Classe Mundial são destacados a seguir (FNQ, 2012b). 4.3.1.1 Pensamento sistêmico É uma visão global da empresa e do entendimento das relações de interdependência entre os diversos subsistemas que compõem uma orga- nização, bem como a decorrência desse sistema ser aberto, as relações entre a organização e o ambiente externo. 4.3.1.2 Aprendizado organizacional A organização deve absorver as práticas e os conhecimentos por meio de percepção, reflexão, avaliação e compartilhamento de experiências, bus- cando alcançar novos estágios de conhecimento. Esse conceito de apren- dizagem organizacional foi incorporado ao ciclo da gestão o PDCA, que, mais tarde, passou para PDCL, com ao letra L significando Learn, ou seja, “aprender”. Tudo isso para deixar claro que o processo de avaliação não é simplesmente uma avaliação, mas a incorporação dos conhecimentos adquiridos à organização. – 96 – Administração e Economia 4.3.1.3 Cultura de inovação É proporcionar um ambiente que gere vantagens competitivas para a organização, por meio do estimulo à criatividade, à experimentação e implementação de novas ideias. 4.3.1.4 Liderança e constância de propósitos É a importância de as lideranças da empresa criarem relações de qualidade e proteção dos interesses das partes, bem como agir de forma aberta, democrática, inspiradora e motivadora. 4.3.1.5 Orientação por processos e informações As tomadas de decisão devem ser embasadas em informações coleta- das, levando em conta os riscos identificados. As atividades e os processos de trabalho devem ser compreendidos e segmentados. 4.3.1.6 Visão de futuro É a compreensão dos fatores que afetam a organização a curto e longo prazo, bem como o ecossistema e o ambiente externo em que a empresa se insere. 4.3.1.7 Geração de valor É atender a todas as partes interessadas, com resultados consistentes e sustentáveis de aumento de valor tangível e intangível. 4.3.1.8 Valorização das pessoas Trata-se da criação de condições de maximização do desempe- nho para que, por meio do comprometimento, do desenvolvimento de competências e de espaços para empreender, as pessoas realizem-se profissional e humanamente. 4.3.1.9 Conhecimento sobre o cliente e o mercado Trata-se do conhecimento e entendimento do cliente e do mercado, para criar, sustentavelmente, valor para o cliente e gerar vantagens competitivas. – 97 – A moderna gestão 4.3.1.10 Desenvolvimento de parcerias É o desenvolvimento de atividades em conjunto com outras organi- zações, para alavancar e complementar a utilização das competências de cada organização, gerar benefícios para ambas as partes. 4.3.1.11 Responsabilidade social É definida pela postura ética e transparente da organização com todos os públicos com os quais ela se relaciona. A empresa precisa fazer parte do desenvolvimento sustentável da sociedade, preservando recursos ambien- tais e culturais para gerações futuras. A estratégia deve incluir ações para a redução das desigualdades sociais e o respeito pela diversidade. Esses são os fundamentos da excelência da Gestão, encontrados em organizações de classe mundial. Eles são a base teórica de uma boa ges- tão, são postos em prática e avaliados por oito critérios, como podemos verificar na figura 4.10. Figura 4.10 Fundamentos X critérios de excelência. Desenvolvimento de parcerias Aprendizado organizacional Pensamento sistêmico Cultura da inovação Liderança e constância de propósitos Visão de futuro Orientação por processos e informações Valorização das pessoas Conhecimento do cliente e do mercado Responsabilidade social Geração de valor Pessoas Sociedade Clientes Processos Es tra té gi as e pl an os Li de ra nç a Resultados In fo rm aç õe s e c on he ci m en to Fonte: FNQ (2012c). – 98 – Administração e Economia Há uma correspondência colorida entre os fundamentos e os critérios resultantes, alguns fundamentos estão destacados em cor sem correspon- dência nos critérios, pois são transversais a todos os outros. Os critérios são a aplicação prática dos fundamentos. O círculo representativo dos critérios de excelência tem essa forma para, representativamente, mostrar a empresa como um sistema que interage com o meio ambiente que o rodeia, permeado de informações e conhecimento. O sucesso de uma empresa depende da relação com seus clientes, do conhecimento sobre eles e do atendimento de suas necessidades e expectativas. O conhecimento dessas necessidades pode ser utilizado para reter os clientes. Para que a empresa garanta a sua continuidade, ela deve identificar, entender e satisfazer às necessidades, mediante uma interação ética, cum- prindo as leis da sociedade em que se insere. De posse destas informações, a liderança estabelece a forma de atuação da empresa, seus princípios den- tro dos fundamentos da excelência. A liderança estabelece as estratégias da empresa, que direcionarão a organização e seu desempenho, estabelecendo suas posições compe- titivas. Os quatro critérios anteriormente especificados são a parte Plan (P) do ciclo PDCA. As pessoas devem ser escolhidas, treinadas e satisfeitas para poderem executar suas tarefas em um ambiente que lhes dê as melhores condições para isso. A partir de pessoas escolhidas e preparadas, os processos podem ser executados, criando valor para os clientes eaperfeiçoando o relaciona- mento com os fornecedores. Assim, conclui-se a etapa da execução do Do (D), do ciclo PDCA. Para complementar e ciclo, na etapa do Control (C) são mensurados os resultados em relação a vários aspectos da organização. Os efeitos das práticas de gestão podem ser comparados às metas estabelecidas, é preciso fazer as correções de rumo ou reforçar as ações implementadas. Esses resultados, apresentados pelas informações e o conhecimento, retornam a toda a organização, complementando o ciclo PDCA, com a Action (A). Essas informações representam a inteligência da gestão da organização. – 99 – A moderna gestão Saiba mais O site da FNQ, na opção “produtos ou serviços/cursos gratuitos (on-line)”, disponibiliza cursos para os profissionais que dese- jam aprofundar seus conhecimentos sobre a origem e os funda- mentos do Modelo de Excelência da Gestão (MEG). FNQ. Federação Nacional de Qualidade. 2012a. Disponível em: <http://www.fnq.org.br>. Acesso em: 29 nov. 2012. Assim são estabelecidos os fundamentos e critérios necessários para uma empresa atingir uma gestão de excelência e poder usufruir do aumento de produtividade e resultados consequentes. 4.4 Perspectivas futuras Desde o longínquo nascimento da ciência da Administração, no iní- cio do século passado, muitos foram os enfoques abordados pelos dedica- dos pesquisadores que tentaram sistematizar e analisar a ciência da Admi- nistração. O sentido sempre foi o de tornar as empresas mais eficientes, produtivas e eficazes. Esse é o papel e o desafio maior do administrador: manter as organizações em que trabalham vivas e competitivas. Esse desafio está se tornando cada vez mais difícil, com a necessi- dade de adaptações muito rápidas a um ambiente externo cada vez mais complexo. Atualmente, o ambiente econômico é turbulento e cheio de mudanças, a globalização aumentou a interdependência e a influência dos mercados, com muita concorrência, não só local, mas, por vezes, ampliada a todo o planeta pelo comércio eletrônico. No campo da tecnologia, o pro- cesso de mudanças é muito mais rápido e as empresas precisam sempre se inovar, com risco de ficarem de fora do mercado. No aspecto humano, as mudanças também foram muitas, desde a época do início da Teoria Clássica. Os seres humanos também estão em processos de transformação rápida, em função da forma como desde muito jovens têm acesso a infor- mações e à tecnologia. Para além de tudo isso o administrador ainda sobre as pressões da sociedade sobre as empresas nas questões de sustentabili- dade social e ambiental. – 100 – Administração e Economia 4.4.1 O impacto da internet e das ferramentas de TI O uso das tecnologias da informação e comunicação, ou TI como também é designada a informática, promoveu e promove, crescentemente, mudanças radicais na forma de se administrar e fazer negócios. A partir da década de 80 do século XX, com o lançamento do PC, por parte da IBM, com um preço acessível, com a miniaturização dos com- ponentes digitais e aumento nas velocidades das linhas de comunicação digital, o uso da TI, por parte das empresas, disseminou-se. O uso das redes de computadores, com a descentralização das ativi- dades ligadas ao processamento eletrônico de dados, em vez de computa- dores centrais, foi o grande motor do crescimento do uso da TI, por parte das organizações. Esse avanço tecnológico proporcionou um maior uso dessa ferramenta nos processos administrativos e o grande motor do exer- cício da Administração, a ponto de hoje termos um computador na mesa de todos os funcionários, sendo que sem ele a atividade de Administração não pode mais ser executada. Assim, a forma como se realizam as funções da Administração mudaram completamente. Atualmente, existem siste- mas informatizados e aplicativos para todas as funções administrativas. Em função da existência desses aplicativos e da redução dos valo- res necessários à sua implantação, as empresas tiveram a oportunidade de expandir o uso do computador para todas as suas áreas. Isso permi- tiu à Administração automatizar os processos administrativos, primeiro de uma forma setorizada, depois com a integração de todos os sistemas. Isso aconteceu pelo crescimento da tecnologia de bancos de dados e pelo aumento do poder computacional. A conjugação da diminuição de preços, do aumento do poder computacional e de armazenamento veio, rapida- mente, acelerar a passagem dos processos administrativos manuais para sistemas informatizados, com isso ganhou-se eficiência e produtividade, o grande motivo da implantação de sistemas integrados para toda a empresa, os Enterprise Resource Planning (gerenciamento do planejamento dos recursos da empresa), ainda que haja muita reclamação em função de implantações mal executadas e administradas. Inicialmente, os sistemas informatizados surgiram apenas para pro- porcionar um maior controle das tarefas operacionais das áreas de apoio, – 101 – A moderna gestão folha de pagamento, contabilidade, financeiras, fiscais, controle de esto- ques, etc. Depois, em uma etapa posterior, as tarefas de controle das ope- rações fabris passaram, também, a ser processadas de forma informati- zada. Os processos estavam sendo controlados, mas não integrados. O passo seguinte foi a integração de todos os sistemas e a implantação do conceito de banco de dados, em que a mesma informação estava apenas gravada e pode ser usada por todos que dela precisassem. Esse avanço proporcionou a criação dos ERP, sistemas totalmente integrados que incorporam os conceitos organizacionais usados na época. A visão sistêmica das organizações também era aplicada aos modelos informatizados, a mesma informação que dava entrada no sistema era usada e integrada com outras tarefas que dependiam dessa informação. A organização passou a ser vista e controlada com poucos processos globais, compostos por vários subprocessos. Exemplo disso é o processo que se inicia com o pedido, pelo cliente, e termina com o recebimento da venda efetuada, passando pela confirmação do pedido, programação da produ- ção, produção, disponibilidade, venda, distribuição e recebimento. Surge o conceito de que a informação é única, em todas as etapas dos processos globais, e cada etapa é cliente da etapa anterior e fornecedora da etapa seguinte. A departamentalização dilui-se pela influência da tecnologia usada, as fronteiras das tarefas departamentais diluem-se para a criação de uma visão integrada de um processo a ser completado com o atendimento e satisfação do cliente final. Essa é a integração horizontal da estrutura pelo conceito da empresa como um conjunto de processos globais. Os sistemas começaram a ser ferramentas também de comunicação entre departamentos e na vertical, o fato de a alimentação dos dados exigi- dos em uma etapa já ficarem disponíveis para consulta e serem aplicados a etapas seguintes na vertical e na horizontal eliminou uma grande circula- ção de documentos e facilitou a rapidez na tomada de decisão. Na análise vertical das organizações, a evolução da parte tecnológica da TI cresceu em potencial computacional, velocidade de processamento e recursos de programação, propiciando que mais funções da Administra- ção sejam transferidas para os sistemas e que sua capacidade de proces- sar grandes volumes de informação tenha rapidez que os “ER” humanos. – 102 – Administração e Economia Também tivemos avanço nas aplicações direcionadas para atividades indivi- duais de e scritório, que ficaram mais poderosas, dando ao administrador uma série de ferramentas para facilitar o seu trabalho, aumentar sua eficiência e produtividade, como é o caso de processadores de texto, planilhas eletrônicas, gerenciadores de bancos de dados individuais e aplicativos de apresentações. Os sistemas começaram a entrar nas áreas da tomada de decisão das empresas, primeiro com a aglutinação e o fornecimento rápido de resumos, listas e gráficos, depois; mais aprofundadamente, na análisedos dados históricos armazenados com técnicas matemáticas e estatísticas, chegando ao topo da organização como grandes ferramentas de apoio à tomada de decisões, como o conceito do Business Intelligence (BI), inteligência aplicada aos negócios. Atualmente, o BI é uma das áreas em que mais se investe, em de TI, com o objetivo de trabalhar com inteligên- cia, baseado nos dados históricos, e, também, para conseguir descobrir a principal dificuldade inerente ao trabalho da Administração, eliminar a incerteza do meio ambiente, olhar para os históricos existentes, achar tendências externas baseadas em coleta de dados do ambiente e eliminar as incertezas do futuro com a criação de cenários previstos. Essa nova utilização da TI nas organizações causou impactos positivos na melhoria geral da produtividade e na eficiência de empresas de todos os tipos, porque até as micro e pequenas têm a possibilidade de usar aplicativos e ferramentas de tomada de decisão, gratuitas ou a custos muito acessíveis. A estrutura de dados e informações está representada na figura 4.11. Figura 4.11 sEstrutura e fluxo de informações. Nível estratégico Informações Indicadores de desempenho Indicadores Metas Objetivos Nível gerencial Nível operacional Decisão Análise das informações Geração de informação Organização dos dados Coleta e controle dos dados Fonte: adaptado de Abreu e Rezende (2009, p. 112-133). – 103 – A moderna gestão A partir de 1996, houve uma explosão da utilização da internet como meio de comunicação empresarial. Primeiro, as empresas começaram a utilizá-la como meio rápido de comunicação por meio do e-mail, ocorreu a facilitação da criação de redes virtuais pela internet, integrando seus departamentos e filiais geograficamente distantes. Isso foi um avanço muito grande para o administrador que soube usar a ferramenta como forma de aumento de produtividade e eficiência. Paralelamente, houve avanços das comunicações e eletrônica, como saltos de produtividade no aumento das capacidades de armazenamento, miniaturização dos componentes, velocidade de processamentos, aumento da capacidade das comunicações digitais, que permitiram que o aumento do uso da TI atingisse todos os ambientes e meios. A utilização intensiva da internet e dos meios móveis de comu- nicação permitiu a convergência de utilização de texto, voz, imagem, geolocalização e dados, tudo no mesmo aparelho móvel, os chamados telefones móveis inteligentes. As novas fronteiras que se abrem às organizações, para aumentar sua eficiência e produtividade no relacionamento comercial com outras empresas e clientes, é enorme. As aplicações móveis cresceram, a inclusão de chips a produtos, embarcando a inteligência para facilitar a sua utiliza- ção por parte dos clientes, avançou e a indústria automobilística não ficou de fora, criando automóveis cada vez mais “inteligentes”. O desafio atual, para o administrador e para as organizações, é a expansão da utilização das chamadas mídias sociais, com base na inter- net. A forma como as pessoas estão se ligando e se organizando em redes sociais e em ambientes virtuais está mudando comportamentos e formas de consumo e trabalho, obrigando o administrador a se adaptar às novas formas de relacionamentos surgidas com grande velocidade pelas inova- ções constantes, nas áreas da telefonia móvel e as aplicações embasadas nela e na internet. O poder está saindo do eixo das empresas e das hierarquias e pas- sando para as mãos do cliente e das organizações em rede, aglutinadas em torno de objetivos comuns. A tradicional estrutura de poder hierárquico está sendo substituída por uma força de poder em rede sem lideranças, – 104 – Administração e Economia ganhando uma força ainda maior que a soma das forças individuais de cada participante. A organização em rede social sempre existiu com os meios tradicionais, mas com um meio fácil, como os programas sociais da internet, ampliou-se e ganha cada vez mais força. As empresas precisam se adaptar a essa mudança na forma de fazer negócios. Dica de filme Para entender qual o assunto em estudo na nova ciência das redes sociais e o que se atinge quando se consegue criar uma inteligência maior que a soma das inteligências individuais, assista ao filme Macrowikinomics Murmuratio, no YouTube. MACROWIKINOMICS Murmuration. Disponível em: <http://www.youtube.com/watch?v=o4QRouhIKwo>. Acesso em 14 jul. 2012. 4.4.2 O que virá por aí? Os desafios da Administração atual são grandes, novas perspectivas e preo cupações surgem a cada momento para que o administrador mante- nha-se atento, atualizado e inove-se a todo o momento. Alguns desses desafios são: 2 o surgimento de novas organizações mais enxutas, rápidas, ino- vadoras e flexíveis; 2 a nova era do conhecimento e da economia do conhecimento, transferindo para esse recurso o papel de principal recurso eco- nômico e o motor da economia e das organizações; 2 as mudanças muito rápidas no conhecimento e nos novos conhe- cimentos que surgem, a única coisa certa que temos é a mudança constante e o crescimento do conhecimento; 2 a queda do emprego vitalício e a passagem para o conceito de empregabilidade: novos tipos de trabalho surgem com os novos – 105 – A moderna gestão conhecimentos e as pessoas terão de se adaptar a essa realidade de ter vários empregos ao longo da vida; 2 crescimento do trabalho autônomo com a característica do auto- gerenciamento do trabalho; 2 crescimento da valorização dos funcionários pela capacidade inovadora; 2 crescimento da necessidade de desenvolver o empreendedo- rismo individual, para que possa ser aplicado como gerador de novas empresas, ou dentro das organizações, como intra- empreendedorismo. As organizações precisam ser cada vez mais velozes, mais focadas no core business, mais flexíveis, amigáveis, responsáveis socioambientais, amigáveis com seus clientes e funcionários e inovadoras. Elas precisam adaptar-se às novas características exigidas: 2 devem ser flexíveis; 2 não hierárquicas; 2 baseadas na participação de funcionários, fornecedores e clientes; 2 criativas e empreendedoras; 2 baseadas em redes sociais e empresariais. 4.4.2.1 Responsabilidade social e ambiental Um dos maiores desafios da Administração das empresas é a sua identificação como uma empresa responsável social e ambientalmente e que se preocupa com a sustentabilidade. Essa visão envolve o papel social da empresa e os impactos que ela causa no ambiente em que se insere. É o modelo stakeholder, conceito segundo o qual os interessados no bom funcionamento das empresas não são apenas os acionistas ou proprietá- rios, mas todos os envolvidos no processo e no ambiente em que se insere a empresa. Desse modo de ver uma organização parte o princípio de que foi a sociedade que forneceu o poder da organização funcionar e o legiti- mou. Portanto, a empresa tem a responsabilidade de se preocupar com a sociedade e o meio ambiente, pois é nele e para ele que a organização atua e a continuidade da sua operação depende, também, da existência dessa – 106 – Administração e Economia sociedade e dos recursos ambientais que ela precisa para operar. Essa visão de interdependência total entre organizações, sociedade e ambiente é fundamental para que a sociedade como um todo possa continuar funcio- nando, já que os recursos ambientais são limitados. Como partes interessadas no funcionamento das organizações, temos os chamados stakeholders, que são os acionistas ou proprietários, os fun- cionários, o meio ambiente natural, os fornecedores, os clientes, os con- correntes e a sociedade. Todos esses elementos que compõem o ambiente interno e externo da empresa influenciam e são influenciados e se inter- -relacionam como sistemas abertos, participantes de sistemas maiores, necessitando, portanto, uns dos outros para realizar suas funções. 4.4.2.2 Ética A questão da ética nos negócios sempre foi algo presente, mas nunca antes se faloutanto como agora, em todos os países. As empresas grandes e, principalmente, dos países mais desenvolvidos sempre exi- giram, por parte de seus executivos, a necessidade de cumprimento de códigos de ética rígida. Nesses países, a justiça atua muito próxima das práticas organizacionais e pune exemplarmente quando os executivos quebram as condutas legais e éticas. Ainda assim, temos visto acontecer vários casos de falta de ética por parte de altos executivos, que são punidos pela justiça comum, o que tem levado, principalmente, as empresas de capital aberto a manter um código de conduta ética cada vez mais rígido, por parte de seus dirigentes. A sociedade como um todo e, principalmente, os acionistas já perceberam que o custo da conduta antiética na condução dos negócios é muito alto para esses e as empresas em particular. Para coibir essas práticas, novos conceitos de Administração têm sur- gido e sido difundidos, eles englobam a preocupação ética, como o caso da governança corporativa. 4.4.2.3 Qual o futuro? Um exercício de futurologia é difícil, mas a certeza que se tem é de que a necessidade da presença da Administração se faz presente em todas – 107 – A moderna gestão as organizações. Desde o momento que surgiu, a Administração foi capaz de se adaptar e criar modelos que puderam levar as organizações aos está- gios em que se encontram, da mesma forma como, ainda hoje, existem os conceitos de divisão de trabalho, especialização, tipos de estrutura, etc. Tais conceitos são usados com novas roupagens e adaptados às necessida- des que as organizações tiveram de sobreviver nos ambientes novos que se formam. Ao longo desses anos, desde os primeiros 14 princípios que Fayol estabeleceu, também a Administração atual irá achar, por meio de adaptações espontâneas ou de pesquisadores e estudiosos, formas de adap- tação aos desafios que surgirão para as organizações no futuro próximo. A Administração e o seu papel de melhorar o desempenho, a pro- dutividade e a eficiência das organizações de todos os tipos ainda tem desafios grandes a resolver. Apesar de termos avançado muito em concei- tos, princípios e práticas, por parte da Administração e da TGA, muitas empresas ainda se perdem nas estatísticas de mortalidade prematura, pela falta da aplicação e conhecimento de princípios básicos que já tinham sido determinados como essenciais à Administração, pelos seus criadores. As pesquisas das causas dessa mortalidade prematura nos mostram que a Administração ainda tem muito que ser utilizada e útil. Esse período que a sociedade vive, bastante influenciado e modifi- cado pela utilização da internet, de forma generalizada, dos eletroeletrôni- cos, dos vídeo games, da telefonia móvel inteligente e da ampla utilização das mídias sociais, gera um tipo de sociedade virtual que desafia todas as organizações a entenderem o que se passa e a participarem dela. Um novo tipo de homem parece estar surgindo, a evolução do Homo economicus, identificado nos primórdios da formatação da Administração como ciên- cia. Que tipo de “homem” está surgindo dessa turbulência geral que esta- mos vivendo, da mobilidade, da ubiquidade, do geoprocessamento, das realidades virtuais, aumentadas e expandidas e da inteligência e conectivi- dade das coisas? Um “homem” social, um homem integrado, conectado, influenciado e influenciador, que participa de redes sociais virtuais para consumir e trabalhar. – 108 – Administração e Economia Saiba mais O avanço da tecnologia da comunicação e informação cresceu muito, pelo aumento da capacidade de transmissão de dados por fio ou sem fio, da velocidade de processamento, da capaci- dade de armazenamento, da miniaturização dos equipamentos, avanço nas linguagens de programação e da convergência de mídias para um equipamento apenas, como é o caso dos apare- lhos de telefonia móvel. Esse avanço tecnológico provocou uma série de formas novas de fazer as coisas, desde as mais simples até as mais complexas, como o comando de equipamento por meio do pensamento, mesmo à distância. Muito interessante e desafiador é saber mais o que todos esses novos conceitos nominados significam e que tipo de utilidade eles têm para melhorar a vida do ser humano. Para além do simples uso dessa tecnologia de forma lúdica, vemos o nascimento de uma nova classe de pessoas completamente adaptadas e integradas, já nascidas e alfabetizadas neste ambiente dominado pelas mudanças tecnológicas e que se tornaram consumidores, administradores e economicamente ativos. Isso tem alterado completamente a forma das organizações funcionarem, sejam elas privadas, sem fins lucrativos, públi- cas ou políticas. Esse é o grande desafio com que a Administração depara- -se, como conviver nessas novas formas de organizações. Esse é um ambiente bastante desafiador, de um lado, há algumas organizações pequenas e familiares, sem a Administração colocada em prática, e, por outro, temos organizações perfeitamente adaptadas aos novos tempos do uso da TI, da realidade digital e das mídias sociais. O papel da TGA, no sentido do estudo e sistematização de princípios, práticas e orientações na forma das organizações se estruturarem e funcio- narem, sempre se fará necessário, pois o mundo é feito pela participação dos homens em sociedade, que se organiza com outros humanos para atender a suas necessidades, o ser só se torna humano quando se organiza em torno de outros humanos, mesmo que de formas virtuais, sempre serão formas – 109 – A moderna gestão de organização sociais mediante diversos meios. Apesar de muito novos, já existem amplos estudos e literatura sobre essas novas formas de trabalho de empresas e de organização, o que garante a continuidade da importância do estudo da Teoria Geral da Administração e da atividade da Administração. Da teoria para prática A gestão moderna tem se voltado muito mais para as questões práti- cas da melhoria da qualidade, da produtividade e da eficiência do que para a criação de teorias e princípios ou para se propor a discutir a essência da Administração. O que se vê é uma busca pelas melhores práticas e fer- ramentas, que permitam ao administrador exercer sua função da melhor forma. Nesse período, acontece uma preocupação maior quanto ao desen- volvimento de metodologias e estudos mais voltados para a prática, como é o caso das ferramentas da qualidade que extrapolaram o departamento de qualidade e transformaram-se em ferramentas da gestão. Um dos fatores que levou a essa preocupação prescritiva que se vive atualmente foi a grande concorrência existente em todos os mercados e as mudanças rápidas da TI e dos mercados. Síntese A forte penetração dos produtos japoneses nos mercados americano e europeu, o aumento da concorrência, principalmente na indústria auto- mobilística e de eletroeletrônicos, levou as empresas do mundo inteiro a analisarem e tentarem imitar as técnicas de Administração japonesa, como os CCQ e a Administração participativa. Paralelamente, também se voltaram as atenções para as estruturas em busca da rápida redução de custos ou para a melhoria na relação com os clientes, como é o caso do Downsizing e do Empowerment. De um foco inicial da Administração em grandes empresas, os cri- térios de excelência, avaliados por meio dos prêmios de qualidade, são estendidos para as microempresas, que podem atingir padrões de gestão excelentes, e nos níveis das melhores práticas mundiais. Assim, as empre- sas podem usar da grande quantidade de materiais disponíveis para que possam melhorar suas práticas rumo à excelência. 5 Princípios de Economia: Escassez, Trade-offs e Custo de Oportunidade, Fronteira das Possibilidades de Produção, Problemas Econômicos e Sistemas Econômicos Uma importante pergunta a ser feita antes de estudar econo- mia é: por que estudar economia? A resposta seria: porque a economia é extremamente interes- sante, uma vez que afeta tudo o que fazemos em nosso ambientede trabalho, nas compras em um shopping center e na hora da eleição. O que é estudado na disciplina de economia nos fornece Administração e Economia – 112 – ferramentas de análise para melhor compreender o mundo que nos cerca e os problemas com os quais nos defrontamos diariamente. 2 Ao decorrer da disciplina, vamos procurar responder perguntas como: 2 por que a escassez é um problema de ordem econômica? 2 por que os preços sobem? 2 como o governo atua sobre os problemas de ordem econômica? 2 o que é uma “economia de mercado” e como ela determina os preços? 2 qual a influência da taxa de juros na atividade produtiva? 2 por que o desemprego vem aumentando nos últimos anos? Enfim, o que a economia, como ciência, busca explicar? 5.1 Economia: origens e conceitos 5.1.1 Breve histórico A palavra “economia” tem sua origem no grego, derivada de oikonomia, e foi empregada pela primeira vez pelo filósofo Xenofonte (440-335 a.C.), bem como por Platão (427-347 a.C.) e Aristóteles (384-322 a.C.), pelo último mencionado, quando se referia à riqueza. “Oikos” quer dizer casa e “nomos” quer dizer lei, ou seja, administração da riqueza. Porém, não se observou na Grécia Antiga nenhuma forma de sistema econômico desenvolvido, pois a preocupação central daquela sociedade era, basicamente, com os estudos filo- sóficos, éticos e políticos (PASSOS, 2010). Foi no período do Mercantilismo (1450-1750), mas, principalmente, no Iluminismo (século XVIII), que o pensamento econômico surgiu através da administração pública, em que a função de economista era aconselhar aos governantes, particularmente da Espanha e de Portugal, sobre como aumentar a riqueza da nação. Esse período, também denominado como fase comercial do capitalismo, foi marcado por grandes transformações: – 113 – Princípios de Economia: Escassez, Trade-offs e Custo de Oportunidade, Fronteira das Possibilidades de Produção, Problemas Econômicos e Sistemas Econômicos 2 intelectual – explosão artística e literária (Renascimento e Ilu- minismo), que disseminaram para a sociedade a descoberta de novos fatos, novas ideias, novos conceitos etc. 2 religiosa – o movimento revolucionário da Reforma implantada por Calvino (Calvinismo), dando origem à religião evangélica que, ao contrário da Igreja Católica (religião predominante no período do Feudalismo), não condenava a busca pelo “lucro”, o que foi essencial para o desencadear do sistema capitalista a par- tir da “iniciativa privada”, ou seja, o desenvolvimento de negó- cios e, consequentemente, o surgimento de grandes empresas. 2 política – o surgimento de uma forma moderna de Estado, o Estado-nação, coordenador dos recursos materiais e humanos da nação. 2 geográfica – novos fluxos comerciais decorrentes das grandes descobertas e dos limites do mundo. 2 padrão de vida – o desejo por parte da sociedade de “bem-estar social”, como uma melhor alimentação, habitação mais confor- tável, viagens etc. 2 econômica – monetização da economia nos grandes centros comerciais, ou seja, início da utilização da moeda como instru- mento de troca. Entretanto, foi a publicação do livro “A Riqueza das Nações”, em 1776, de Adam Smith (1723-1790), o que tornou a economia uma ciência ministrada nos grandes centros universitários da Europa, dando um caráter científico aos problemas de ordem econômica. A economia pode ser definida como a ciência que estuda “como o indivíduo e a sociedade decidem empregar recursos produtivos escassos na produção de bens e serviços, de modo a distribuí-los entre várias pes- soas e grupos da sociedade, a fim de satisfazer as necessidades humanas” (VASCONCELLOS, 2004, p. 2). Mendes (2004, p. 3), ao abordar o con- ceito de economia, destaca que “sua principal função é descobrir como o mundo econômico funciona. Ou seja, ela analisa o funcionamento do sistema econômico”. Administração e Economia – 114 – Dentro desse contexto, a ciência econômica também pode ser enten- dida, de forma sistêmica, como a ciência que estuda o capitalismo, ou seja, as relações de produção capitalistas, pois esse fato está diretamente relacionado com o surgimento da economia como uma ciência no século XVIII conforme relatado anteriormente. 5.2 Escassez e os problemas econômicos 5.2.1 Escassez O problema econômico reside no fato de que os recursos disponíveis para a humanidade são escassos, mas as necessidades da humanidade são ilimitadas, o que implica em escolhas pela sociedade. Entende-se por escassez “a situação em que os recursos são limitados e podem ser utilizados de diferentes maneiras, de tal modo que devemos sacrificar uma coisa por outra” (MENDES, 2004, p. 3). A escassez existe devido ao fato das necessidades humanas como alimentação, roupas, habitação etc. serem ilimitadas frente à disposição de recursos produtivos como fábricas, máquinas e equipamentos, ou seja, tais recursos são relati- vamente insuficientes para suprir as necessidades de toda uma sociedade. É importante observar que escassez não é sinônimo de pobreza. Pobreza significa ter poucos bens e escassez significa ter mais necessidades que o possível para satisfazê-las. Sendo assim, a escassez é encontrada em todos os países, indepen- dentemente de ser rico ou pobre. Podemos afirmar que os Estados Unidos possuem menos problemas que a Somália, por exemplo; porém, isso não neutraliza o problema da escassez para os americanos. Devido ao pro- blema da escassez, as sociedades devem efetuar uma “escolha” sobre como aplicar seus esforços nos recursos disponíveis frente às necessida- des ilimitadas, surgindo, assim, o custo de oportunidade. Para entendermos melhor a escassez, podemos utilizar os seguintes exemplos práticos e cotidianos: 2 dinheiro – imagine que uma pessoa, um pai de família, recebe R$ 1.000,00 por mês, e desse total, R$ 300,00 são dedicados às com- – 115 – Princípios de Economia: Escassez, Trade-offs e Custo de Oportunidade, Fronteira das Possibilidades de Produção, Problemas Econômicos e Sistemas Econômicos pras no supermercado. Logo, essa pessoa deverá fazer escolhas sobre o que comprar e em que quantidade comprar certos produ- tos, implicando em renunciar a outros que ela desejava adquirir. 2 tempo – imagine que você irá dedicar oito horas de estudo todos os finais de semana neste semestre, afinal de contas, você é um universitário. Para tanto, terá de renunciar a outras atividades como ir ao cinema, assistir a um jogo de futebol, namorar etc. 2 espaço – imagine que, no bairro onde você mora, uma deter- minada área é destinada para a construção de um parque. Isso implica em uma redução de espaços para o desenvolvimento da atividade econômica, como a construção de uma indústria ou de um shopping center. 2 gastos do governo – o Governo Federal anualmente elabora um plano orçamentário para aplicar seus recursos oriundos dos impostos e outras arrecadações. A aplicação desses recursos deve ser destinada a necessidades básicas da sociedade como saúde, educação e habitação, bem como a defesa nacional, como armas e aviões. Nem todas as necessidades serão atendidas. É importante observar que, na atualidade, pensamos que necessita- mos de bens como carros, computadores, geladeiras, cinemas, TV a cabo, cosméticos, máquina fotográfica digital etc. Ou seja, nossas necessidades vão além da esfera biológica de sobrevivência se renovando a cada dia. Dessa forma, devemos passar a interpretar as necessidades ilimitadas não apenas a partir da esfera biológica, mas da esfera psicológica. As necessidades humanas analisadas a partir da esfera psicológica apresentam uma relação direta com a noção de “nível de padrão de vida”. 5.2.2 Problemas econômicos Segundo Passos (2010), qualquer economia tem a necessidade de refletir sobre três problemas econômicos básicos: o que e quanto produzir, como produzir e para que produzir. Esses problemas são uma consequên- cia da escassez dos recursos e impactam de forma significativa a estrutura produtivae, consequentemente, social de uma nação. Administração e Economia – 116 – a) O que e quanto produzir A sociedade deverá decidir quais produtos deverão ser produzidos (carros, alimentos, casas, soja, café, bicicleta, geladeira etc.) e em que quantidades deverão estar disponíveis. Trata-se de uma decisão que extra- pola a esfera puramente econômica. b) Como produzir A sociedade deverá decidir quais recursos técnicos serão utilizados na produção destes bens e se serão utilizados métodos de produção inten- sivos em capital ou em mão de obra, por exemplo. Busca-se pela eficiên- cia produtiva, ou seja, o menor custo por unidade produzida. c) Para quem produzir É necessário decidir como será distribuída a produção, já que a socie- dade é composta por diferentes indivíduos no que diz respeito à renda. Praticamente toda a produção é canalizada para o mercado e irá adquirir quem tiver renda. Quanto mais concentrada for a renda, menor será o mer- cado consumidor. É importante lembrar que, se não houvesse o problema da escassez, essas perguntas não fariam sentido! 5.3 Sistema econômico Sistema econômico é um complexo tecido de relações diretas e indi- retas pelas quais as pessoas chegam a dispor de variadíssima gama de bens capazes de satisfazer suas múltiplas necessidades e desejos materiais. É dessa forma que as pessoas dividem socialmente seu trabalho, funcio- nando de maneira integrada mediante uma corrente de trocas de produtos e prestação de serviços múltiplos. Cabe ressaltar que dois sistemas econômicos procuraram resolver os problemas econômicos: o capitalismo e o socialismo. As nações capitalistas procuraram resolver o que e quanto produ- zir, como produzir e para quem produzir por meio de uma economia de mercado, ou seja, uma economia onde produtores e consumidores são – 117 – Princípios de Economia: Escassez, Trade-offs e Custo de Oportunidade, Fronteira das Possibilidades de Produção, Problemas Econômicos e Sistemas Econômicos livres para definir o que e quanto produzir (demanda e oferta). O desen- volvimento da tecnologia, fruto de maciços investimentos em educação e pesquisa, propiciou um significativo avanço nos modos de produção capi- talista, tornando sustentável o crescimento econômico (como produzir). Com a proliferação da indústria e de uma rede de empresas de comércio e serviços, o mercado de trabalho se expandiu neste sistema gerando um grande contingente de trabalhadores e empresários com renda (salários e lucros), o que propiciou a realização da produção capitalista através do consumo (para quem produzir). O Socialismo procurou resolver os problemas econômicos por meio de uma economia planificada, em que o Estado determina o que e quanto produzir, como produzir e para quem produzir. Porém, foi ineficiente e entrou em colapso no início dos anos de 1990. 5.4 Fronteira das Possibilidades de Produção (FPP) A Fronteira de Possibilidades de Produção (FPP) mostra as combina- ções de produto, como computadores e carros, por exemplo, que uma eco- nomia tem possibilidades de produzir. Uma economia pode produzir qual- quer combinação que se encontre na fronteira ou, até mesmo, fora dela. Entretanto, pontos além da fronteira não são viáveis devido aos recursos da economia. A fronteira de possibilidades de produção é demonstrada a partir de um gráfico, o qual relaciona as possibilidades de produção de dois bens em uma economia se todos os recursos fossem utilizados, como, por exemplo, para a produção de carros e computadores. Ao atingir o limite da fronteira de possibilidade de produção, a única maneira de obter mais de um produto, computador, por exemplo, é obtendo menos do outro produto, carro, por exemplo. Com isso, podemos observar que a fronteira de possibilidades de pro- dução nos mostra um trade-off (situação de escolha conflitante) que as economias enfrentam, ou seja, um custo de oportunidade. Administração e Economia – 118 – Figura 5.1 – Fronteira das Possibilidades de Produção (FPP) Carros Computadores 3.000 1.000 Fronteira das Possibilidades de Produção Fonte: Passos (2010). A fronteira de possibilidade de produção demonstra o trade-off entre a produção de diferentes bens num dado momento, pois o trade-off pode mudar ao longo do tempo. Se houver um avanço tecnológico na indústria de computadores, a economia poderá produzir mais computadores, deslo- cando a curva da fronteira de possibilidade de produção. Podemos entender melhor por meio de um exemplo: suponha uma nação que produz alimentos e/ou máquinas. Esta nação pode fazer diver- sas escolhas, mas há um limite para todas elas. Observe os pontos A, B, C, D, E e F da FPP a seguir (PASSOS, 2010): Figura 5.2 – Pontos da FPP Alimentos (milhões de toneladas) 0 Máquinas (milhares) 2 4 6 8 10 E D C B F10 8 6 4 2 A Fonte: Passos (2010). – 119 – Princípios de Economia: Escassez, Trade-offs e Custo de Oportunidade, Fronteira das Possibilidades de Produção, Problemas Econômicos e Sistemas Econômicos Cada ponto representa uma situação em que é preciso deixar de pro- duzir um dos bens em detrimento de outro. E, aqui, aparece um importante princípio da teoria econômica, o custo de oportunidade. Situações: 2 A: todos os fatores econômicos de produção estão alocados na produção de alimentos. 2 D: todos os fatores econômicos de produção estão alocados na produção de máquinas. 2 B e C: fatores econômicos de produção distribuídos na produção de alimentos e máquinas. 2 A curva ABCD indica todas as possibilidades de produção de alimentos e máquinas nessa economia (Pleno Emprego). 2 E: economia com capacidade ociosa ou com desemprego, ou seja, os fatores econômicos de produção estão subutilizados. 2 F: fatores econômicos de produção insuficientes. Tiramos desse modelo dois conceitos importantes: i) pleno emprego: em que todos os fatores econômicos de produção estão sendo utilizados em sua plenitude e ii) capacidade ociosa: a nação tem os recursos, mas está com desemprego. Por exemplo, uma indústria que tem a capacidade produzir 1.000 produtos por dia, mas está produzindo 700, logo, tem uma capacidade ociosa de 300 produtos, ou 30%. Vale destacar que estamos tratando de uma economia no curto prazo. No longo prazo, os fatores econômicos de produção podem se expandir, alcançando o ponto F, por exemplo. 5.4.1 Custo de oportunidade A fronteira de possibilidades de produção implica na geração de um custo de oportunidade. A transferência dos fatores econômicos de pro- dução de determinado bem, X, para produzir um outro bem, Y, implica um custo de oportunidade, que é igual ao sacrifício de deixar de produzir parte do bem X para produzir mais do bem Y. Administração e Economia – 120 – Mas preste bem atenção, custo de oportunidade é o valor da melhor alternativa que está sendo perdida ou sacrificada. Isso implica em ter que fazer escolhas. Enfrentamos custo de oportunidade em diversas situações de nosso cotidiano: sair para comer uma pizza com os amigos ou estudar economia? Casar ou permanecer solteiro? Ele se repete no mundo corporativo, as empresas também o enfrentam em suas estratégias de tomada de decisão: abrir uma nova filial ou deixar o dinheiro aplicado no mercado financeiro? Investir em programas de treinamento de mão de obra ou comprar novos computadores? E o governo em políticas públicas: ampliar os programas de benefícios sociais ou construir novos hospitais? 5.5 Fluxo circular O fluxo circular é uma representação esquemática (modelo) da orga- nização de uma economia. Numa economia simplificada, as decisões são tomadas por famílias e empresas. As famílias e as empresas interagem no mercado de bens e serviços (em que as famílias são compradoras e as empre- sas vendedoras) e no mercado de fatores de produção (em que as empresas são compradoras e as famílias vendedoras), conforme figura a seguir. Figura 5.3 – Fluxo circular Fluxo monetário Fluxo de bens e serviços MERCADO DE FATORES DE PRODUÇÃO EMPRESASProduzem e vendem bens e serviços e contratam fatores de produção (trabalho) FAMÍLIAS Consomem bens e servi- ços e são proprietárias e vendedoras de trabalho. MERCADO DE BENS E SERVIÇOS Fonte: Passos (2010). – 121 – Princípios de Economia: Escassez, Trade-offs e Custo de Oportunidade, Fronteira das Possibilidades de Produção, Problemas Econômicos e Sistemas Econômicos 5.6 Sistema econômico e os setores de produção Um sistema econômico tem como objetivo a ordem institucional do modo de organização da vida econômica de uma determinada sociedade. Sistema econômico é um complexo tecido de relações diretas e indi- retas pelas quais as pessoas chegam a dispor de variadíssima gama de bens capazes de satisfazer suas múltiplas necessidades e desejos materiais. É dessa forma que as pessoas dividem socialmente seu trabalho, funcio- nando de maneira integrada mediante uma corrente de trocas de produtos e prestação de serviços múltiplos. As atividades produtivas de uma sociedade contemporânea distri- buem-se por inúmeras unidades produtoras (empresas). A organização dos fatores dentro de tais unidades, assim como a direção de suas atividades, cabe a pessoas ou grupos de caráter privado ou público, genericamente denominados organizadores da produção (empresários, governo etc.). As unidades produtoras operantes no quadro de uma nação executam funções que se integram no funcionamento global do sistema. São exem- plos de unidades produtoras: usina siderúrgica, supermercado, cinema, restaurante, indústria automobilística, barbearia, faculdade etc. Para efeito de análise e enfoque, a economia procura classificar as unidades produto- ras de um sistema econômico através de setores, conforme a seguir. a) Setor Primário: agricultura (lavouras), pecuária (criação de animais para abate como gado, suínos, aves e pesca), extração vegetal (produção florestal), ou seja, são os recursos naturais. b) Setor Secundário: indústrias de extração mineral (minerais metálicos e não metálicos), indústrias da transformação (alimen- tos, vestuário, calçados, mecânica, mobiliário etc., ou seja, ativi- dades de transformação), indústria da construção civil (constru- ções e edificações). c) Setor Terciário – subdividido em: Comércio – comercialização de mercadorias no atacado e no varejo. Serviços – produto sem expressão material (educação, trans- porte, comunicação, consultoria e assessoria, governo, diver- são, bancos etc.) Administração e Economia – 122 – No geral, observa-se uma intensa utilização do fator terra no setor primário, do fator capital no setor secundário, ou seja, nas indústrias, e do fator trabalho no setor terciário. A partir da análise simultânea da participação relativa (valores per- centuais em relação ao total) de cada setor de atividade econômica (pri- mário, secundário e terciário), é possível perceber a estrutura produtiva de diversas economias e, consequentemente, compará-las. Além da compa- ração, é essencial conhecer a estrutura produtiva de uma economia para efeito de política e planejamento econômico. 5.6.1 Classificação dos Bens de Produção Os bens de produção são os desejos da sociedade materializados em mercadorias e podem ser classificados segundo sua natureza. a) Bens de consumo: satisfação direta das necessidades humanas, como alimentos, bebidas, roupas, livros, CDs etc. b) Bens de capital: máquinas e equipamentos. c) Bens intermediários: sofrem novas transformações antes de se tornarem bens de consumo ou bens de capital, como, por exem- plo, a matéria-prima. Os bens de produção são considerados como mercadorias tangíveis provenientes dos setores primário, secundário ou terciário. Já os serviços são considerados intangíveis e são provenientes do setor terciário. 5.6.2 Aparelho produtivo O funcionamento das unidades produtoras (empresas) dá origem a dois fluxos simultâneos: o fluxo real, constituído por bens e serviços; e o fluxo nominal, constituído pelos rendimentos distribuídos pelo sistema. Os detentores de rendimento, de um lado, e os ofertantes de mer- cadoria, de outro, encontram-se no mercado, onde a produção atinge seu destino final. No mercado, os preços são determinados segundo os princípios de oferta e demanda e são expressos em unidades monetárias (real, dólar, – 123 – Princípios de Economia: Escassez, Trade-offs e Custo de Oportunidade, Fronteira das Possibilidades de Produção, Problemas Econômicos e Sistemas Econômicos euro, peso etc.), conforme a figura a seguir, onde RN = fator terra (reser- vas naturais); T = fator trabalho (Recursos Humanos); e K = fator capital (máquinas e equipamentos). Figura 5.4 – Aparelho produtivo Tecno- T RN K logia Mercado ProdutoRenda Damanda Oferta Aparelho produtivo Primário Secundário Terciário Remuneração do trabalho (assalariados) Rendas da propriedade (lucros, juros, etc.) Alimentos; Vestuário; Habilitação; Seviços (educação, transporte, etc); equipamentos Organizadores da produção Unidades produtoras Fonte: elaborada pelo autor. 5.6.3 Fatores econômicos de produção A produção pode ser considerada a atividade econômica fundamental de qualquer sistema econômico. Os fatores de produção de uma determi- nada nação são constituídos pelas reservas naturais, pelos recursos huma- nos, pelas diferentes categorias do capital, pela disponibilidade e desen- volvimento de novas tecnologias e pela capacidade empresarial. Logo, os fatores de produção podem ser denominados por: Terra, Trabalho, Capital, Inovação Tecnológica e Empreendedorismo. Como os recursos são escassos, é a partir da eficiência econômica do emprego desses cinco fatores de produção que poderão ser bem ou mal aten- didas as necessidades ilimitadas da coletividade, como destacado por Heil- broner (2001, p. 17) ao mencionar que “o trabalho, a terra e o capital contra- tados ou dispensados em uma sociedade de mercado são chamados fatores Administração e Economia – 124 – de produção, e grande parte da economia tem a ver com o modo como o mercado combina as contribuições essenciais desses fatores à produção”. Entende-se por produção a atividade econômica “principal” – “fun- damental”. Para que ocorra a produção, são necessários os recursos de produção ou os fatores de produção e, a partir de seu emprego, tem-se como resultado o padrão de atendimento das necessidades ilimitadas – individuais e coletivas. a) Fator terra, ou reservas naturais: conjunto dos elementos da natureza utilizados no processo de produção, como solo, sub- solo, água, hidrologia e clima, flora e fauna em geral. Como todos os demais fatores, as reservas naturais são escassas e pas- síveis de exaustão (como o petróleo e a água). O próprio cresci- mento econômico, de certa forma, acelera a exaustão das reser- vas e vem exigindo novas formas governar, o que deu origem ao desenvolvimento sustentável na busca pelo equilíbrio de longo prazo entre crescimento econômico, disponibilidades naturais e desenvolvimento social. A remuneração aos proprietários desse fator é o aluguel. b) Fator trabalho, ou recursos humanos: conjunto de toda a ati- vidade humana através do esforço físico e/ou mental utilizada na produção de bens e serviços. Com o surgimento do sistema capitalista, o trabalho passou a ser utilizado em larga escala, for- mando, assim, o mercado de trabalho, onde ocorre a compra e a venda de serviços de mão de obra entre empresários e trabalha- dores. A remuneração aos proprietários desse fator é o salário. c) Fator capital: é o conjunto de riquezas acumuladas pela socie- dade no decorrer do tempo, abrangendo todos os bens materiais produzidos pela sociedade que são utilizados na produção como: infraestrutura econômica: energia, telecomunicações, transportes. infraestrutura social: educação, saúde, lazer, segurança. construções: fábricas, empresas privadas e públicas, residên- cias etc. – 125 – Princípios de Economia: Escassez, Trade-offs e Custo de Oportunidade, Fronteira das Possibilidadesde Produção, Problemas Econômicos e Sistemas Econômicos transportes: ônibus, caminhões, aeronaves, embarcações, trens. máquinas: utilizadas nos setores primário, secundário e terciário. d) Tecnologia: é o conjunto de conhecimentos e habilidades que dão sustentação ao processo de produção. A capacidade tecno- lógica de uma nação é representada pela expressão know-how, ou seja, “saber fazer”. Essa capacidade deverá estar presente em toda a cadeia produtiva dos bens produzidos em uma nação atra- vés do conhecimento tecnológico, que é gerado e acumulado a partir da Pesquisa e Desenvolvimento (P&D), tendo como con- sequência a inovação tecnológica. e) Empreendedorismo: é importante observar que a mobilização de todos os recursos citados pressupõe a existência de uma capa- cidade empreendedora, ou seja, de empresários e gestores. Para tanto, é preciso que o empreendedor desenvolva as seguintes características: visão estratégica; gestão de riscos; espírito ino- vador; sensibilidade para perceber novas oportunidades; desen- volvimento de projetos; capacidade de organizar o empreendi- mento. Podemos dizer que a necessidade do sistema econômico por pessoas capacitadas para o empreendedorismo criou o Curso de Administração. A remuneração aos proprietários desse fator é o lucro. 5.6.4 Sistema capitalista (breve conceito) Uma simples, mas importante, pergunta que deve ser feita por um administrador ou qualquer cientista social é a seguinte: “de onde viemos?”. Se o administrador conseguir responder essa pergunta, com certeza terá subsídios para uma discussão mais avançada: “para onde estamos indo?”. O sistema econômico capitalista tem um método próprio de autorre- gulação, em que o governo pouco interfere nas decisões econômicas, ou seja, a economia é “regida” pelo mercado através das forças de demanda (desejo de consumir um produto) e oferta (desejo de produzir um bem ou serviço). Administração e Economia – 126 – Todos os fatores de produção (Terra, Trabalho, Capital, Inovação Tecnológica e Empreendedorismo) são de propriedade privada, oriunda da iniciativa privada, impulsionada pelo desejo de alcançar o “lucro” a partir da combinação eficiente entre tais fatores. Mendes (2004, p. 17) faz uma ótima analogia entre os diversos siste- mas econômicos e regimes políticos conhecidos em nossa história: a) Socialismo – você tem duas vacas – o Estado toma uma e a dá a alguém; b) Comunismo – você tem duas vacas – o Estado toma as duas e lhe dá o leite; c) Fascismo – você tem duas vacas – o Estado toma as duas e lhe vende o leite; d) Nazismo – você tem duas vacas – o Estado toma as duas e mata você; e) Capitalismo – você tem duas vacas – você vende uma e compra um touro. A ideia ao apresentar essa analogia - de caráter humorístico - é eviden- ciar a propriedade privada como “mola propulsora” do sistema econômico capitalista no que diz respeito à constituição de uma economia de mercado, ou seja, as atividades econômicas estão nas mãos de homens e mulheres da nossa sociedade que controlam livremente as possibilidades de lucros ou prejuízos, não sendo subordinados ao Estado ou a algum senhor. Antes do sistema capitalista, não havia fatores de produção - a terra, o trabalho e o capital não eram mercadorias à venda. O trabalho, por exem- plo, era parte de um acordo entre servo e senhor. Essas são características do primeiro grande sistema econômico de nossa história, o Feudalismo. Nesse sistema, a base de sustentação era formada por um tripé constituído pelo Estado Monárquico, a Igreja Católica e o senhor feudal. Após significativas transformações históricas, o capitalismo surge como o desfecho revolucionário de tais transformações sendo responsável em tornar a sociedade “livre”, no sentido de produzir e comprar bens e serviços, e mais igualitária, envolvendo todos os cidadãos num grande – 127 – Princípios de Economia: Escassez, Trade-offs e Custo de Oportunidade, Fronteira das Possibilidades de Produção, Problemas Econômicos e Sistemas Econômicos “projeto de vida” que possibilitasse o acesso a todos ao bem-estar social. Para tanto, era necessária uma economia de mercado para que, através do progresso e da não intervenção do Estado, fossem geradas oportunidades a todos. Conforme destacou Heilbroner (2001, p. 26), “o Capitalismo deu origem ao que chamamos de padrão de vida em ascensão – um aumento constante, regular e sistemático do número, da variedade e da quantidade de bens materiais desfrutados pelo grosso da sociedade. Nenhum processo semelhante jamais ocorrera antes”. Com o capitalismo, o tripé continua, porém com outros atores: o Estado Moderno, a Igreja anglo-saxã (poste- riormente a religião evangélica), e o empresário capitalista. Podemos afirmar então que o capitalismo é um sistema que propicia que as “necessidades ilimitadas” sejam saciadas de forma mais eficiente e, consequentemente, mais rápida. Não há dúvidas de que diversas socieda- des alcançaram o bem-estar social através do capitalismo; porém, isso não ocorreu de forma homogênea. Há muita pobreza e desigualdade social em diversos países capitalistas pelo mundo, como é caso do Brasil. Podemos sintetizar o sistema capitalista em cinco características: i. a propriedade privada dos meios de produção (fatores de produção: terra, trabalho, capital, inovação tecnológica e empreendedorismo); dos bens e serviços de consumo (car- ros, café, softwares, correios, passagem aérea, casas etc.) e do dinheiro (crédito para o consumo e para a produção); II. o sistema de preços controla o funcionamento da economia; III. a possibilidade de obter “lucro”; IV. a competição como um incentivo ao desenvolvimento de novas tecnologias; e V. a redução da participação do Estado na economia. É importante refletir que, a partir do momento em que o sistema capi- talista surgiu, a produção de mercadorias foi muito intensa, abundante e diversificada, sendo necessária uma organização eficiente do processo de produção e, consequentemente, de distribuição das mercadorias através de uma administração das matérias-primas, das máquinas, da quantidade Administração e Economia – 128 – produzida, das pessoas, dos estoques, da qualidade, do marketing entre outras atividades. Atividades 1. Sobre os sistemas econômicos de produção, assinale “V” para as afirmações verdadeiras e “F” para as falsas. ( ) O sistema comunista procurou resolver os problemas econômi- cos (o que e quanto, como e para quem produzir) através de uma economia planificada, ou seja, sob a orientação do Estado. ( ) O sistema comunista procurou resolver os problemas econômi- cos (o que e quanto, como e para quem produzir) através de uma economia planificada. ( ) No sistema comunista, a propriedade dos fatores econômicos de produção é privada. ( ) O sistema capitalista procurou resolver os problemas econômi- cos (o que e quanto, como e para quem produzir) através de uma economia planificada, ou seja, sob a orientação do Estado. ( ) O sistema capitalista procurou resolver os problemas econômi- cos (o que e quanto, como e para quem produzir) através de uma economia de mercado, ou seja, sob a orientação do mercado. 2. Sobre os fatores econômicos de produção, assinale “V” para as afir- mações verdadeiras e “F” para as falsas. ( ) O empreendedorismo tem a função de organizar e coordenar a atividade produtiva. ( ) O fator capital refere-se à infraestrutura criada a partir da pro- dução capitalista, bem como das pessoas, o que hoje a literatura denomina capital humano. ( ) Qualquer país pode desenvolver tecnologia, independentemente de sua estrutura educacional. – 129 – Princípios de Economia: Escassez, Trade-offs e Custo de Oportunidade, Fronteira das Possibilidades de Produção, Problemas Econômicos e Sistemas Econômicos ( ) As nações não precisam investir em pesquisa e desenvolvi- mento (P&D), pois uma nova tecnologia pode ser adquirida a qualquer momento. ( ) O fator trabalho refere-se ao conjunto de toda atividadehumana desempenhada pelas pessoas no processo produtivo de uma nação. ( ) Todos os fatores de produção são escassos. ( ) O fator trabalho refere-se ao conjunto de toda a atividade humana empenhada na produção de bens e serviços. ( ) O fator capital refere-se ao volume de dinheiro em circulação na economia. ( ) O desenvolvimento da tecnologia de uma nação depende da sua capacidade de gerar conhecimento através da pesquisa. ( ) A tecnologia é fruto da competição entre as empresas. 3. Estudamos que o capitalismo apresenta cinco características. Assi- nale com “X” a alternativa correta: ( ) Propriedade privada dos meios de produção, tabelamento dos preços, lucro, competição, forte participação do Estado. ( ) Propriedade pública dos meios de produção, tabelamento dos preços, lucro, competição, forte participação do Estado. ( ) Propriedade privada dos meios de produção, sistema de preços controla o funcionamento da economia, lucro, competição, redu- ção da participação do Estado. ( ) Propriedade privada dos meios de produção, sistema de preços controla o funcionamento da economia, lucro, competição, forte participação do Estado. 4. A Confeitaria Rei do Doce é especializada em bolos e tortas. A empresa dispõe de 5 horas por dia para se dedicar ao forno. Em 1 hora, é possível preparar 1 bolo e 2 tortas. Com as informações do quadro abaixo, complete as quantidades produzidas de bolos e de tortas. Preencha os campos de quantidades produzidas. Administração e Economia – 130 – HORAS UTILIZADAS QUANTIDADE PRODUZIDA ESCOLHA BOLOS TORTAS BOLOS TORTAS A 5 0 B 4 1 C 3 2 D 2 3 E 1 4 F 0 5 6 Economia de mercado: modelo microeconômico; demanda e seus determinantes; oferta e seus determinantes; equilíbrio do mercado Você já se questionou alguma vez sobre de onde vem os preços? Ou por que aquele celular dos seus sonhos é tão caro? Uma das principais formas de compreender como os preços se formam é por meio dos Modelos de Demanda e Oferta e, con- sequentemente, o equilíbrio entre essas forças. Sim, demanda e oferta agem como forças da mesma forma que a gravidade age sobre os objetos. Experimente jogar uma caneta para o alto, ela irá cair, rolar pelo chão e parar. Ao parar, ou melhor, quando estiver em equilíbrio, podemos afirmar que a força gravitacional foi a responsável. Administração e Economia – 132 – Em muitos casos os preços, em uma economia de mercado e em um mercado perfeitamente competitivo, são formados pelas for- ças entre a demanda e a oferta. O resultado desse conflito é o preço de equilíbrio, ou, o preço de mercado de um bem ou serviço. Para compreender melhor como isso funciona, vamos estru- turar essas forças em um modelo. O mundo é muito complexo e difuso para compreendê-lo, precisamos estruturar as ideias em modelos que representem a realidade de forma concisa e objetiva. 6.1 Modelo microeconômico Modelo é uma tentativa de representar a realidade a partir de um instrumental matemático, como o uso de diagramas, equações e gráficos. Ele omite, porém, detalhes para que se possa ter uma ideia geral, e em nosso caso uma ideia do funcionamento do mercado. Todos os modelos são construídos a partir de hipóteses. São essenciais três hipóteses para a compreensão da microeconomia e do funcionamento do mercado: 1ª – A alteração em uma das variáveis do modelo, como o nível de preços, tem um reflexo na demanda, desde que as demais variáveis do sistema permaneçam constantes. “cete- ris paribus”. 2ª – Os consumidores e os produtores são racionais. 3ª – Presença de inúmeras empresas no mercado – concor- rência. O modelo também implica em um princípio básico: a quan- tidade demandada varia inversamente proporcional ao movimento nos preços. Essa é a Lei ou o Princípio da Demanda, e implica tam- bém em uma convenção matemática: as curvas de oferta e demanda como funções lineares (retas) de um sistema de coordenadas. A curva de demanda é negativamente inclinada e a curva de oferta é positivamente inclinada. – 133 – Economia de mercado: modelo microeconômico; demanda e seus determinantes; oferta e seus determinantes; equilíbrio do mercado 6.1.1 Representação gráfica O filósofo René Descartes desenvolveu uma forma de análise gráfica em que as equações algébricas são representadas em ter- mos de curvas geométricas: o Sistema de Coordenadas Cartesiano. A partir desse modelo é possível visualizar as relações entre, por exemplo, preço e quantidade demandada, com a utilização de um sistema de coordenadas que proporciona a localização de um deter- minado ponto no espaço. O sistema cartesiano tem por base duas retas perpendicula- res L1 (eixo das abscissas) e L2 (eixo das ordenadas) no plano. O ponto 0 é conhecido como origem. A reta é formada de um con- junto de pontos a partir das atribuições de valores nos eixos x e y, composto por quatro quadrantes. No modelo microeconômico é utilizado apenas o quadrante com ambos os eixos positivos do sis- tema cartesiano, pois a oferta, a demanda e o preço são, em geral, valores positivos, portanto, utilizamos o I Quadrante do sistema de coordenadas. Figura 6.1 – Plano cartesiano IV Q (-/+) L2 Y II Q (+/-) IQ (+/+) 0 x L1 III Q (-/-) Fonte: elaborada pelo autor. Administração e Economia – 134 – Portanto, na análise microeconômica usaremos a seguinte convenção para a elaboração de gráficos: Figura 6.2 – Demanda e oferta Q (quantidade) P (preço) O (oferta) D (demanda) Fonte: adaptada de Passos (2010). Matematicamente, é importante efetuar duas observações em relação às curvas de demanda e de oferta: 1ª – A declividade de uma Curva de Demanda é, normalmente, negativa, pois à medida que o preço aumenta a quantidade procu- rada diminui e vice-versa (são forças inversas). 2ª – A declividade de uma Curva de Oferta é, normalmente, posi- tiva, pois à medida que o preço aumenta a quantidade ofertada aumenta e vice-versa (são forças diretas). 6.2 Funcionamento do mercado: demanda, oferta e equilíbrio Podemos entender o funcionamento do mercado por meio de dois grandes grupos, segundo sua função: compradores e vendedores. Em con- junto, compradores e vendedores interagem originando os mercados. Logo, o mercado é um grupo de vendedores e compradores que interagem entre si resultando na possibilidade da troca. Os mercados estão no centro da ativi- – 135 – Economia de mercado: modelo microeconômico; demanda e seus determinantes; oferta e seus determinantes; equilíbrio do mercado dade econômica, e muitas das questões e temas mais interessantes da eco- nomia estão relacionadas com o modelo de funcionamento dos mercados. O lado dos compradores compõe a demanda por bens e serviços e é composto pelos consumidores. O lado dos vendedores compõe a oferta de bens e serviços sendo composto pelas empresas. Os mercados não são necessariamente pontos no espaço geográfico. Em alguns mercados podemos encontrar os compradores e os vendedores interagindo, como em lojas, em feiras etc. Em outros, como na Bolsa de Valores, existem intermediários que são as corretoras que efetuam as tran- sações para compradores e vendedores. Também é importante destacar o mercado eletrônico, ou seja, as transações de compra e venda que aconte- cem na Internet. Todas essas transações são balizadas pelos preços praticados nesses mercados. O preço tem a função de ajustar a quantidade ofertada com a quantidade demandada formando o preço de equilíbrio. O preço é for- mado conforme o nível de concorrência existente, ou seja, depende da estrutura de mercado (concorrência perfeita, concorrência monopolista, oligopólio, monopólio, oligopsônio, monopsônio, monopólio bilateral, cartel e truste) em que o bem ou serviço se encontra. Estudaremos essas estruturas mais adiante. Pode-se dizer então que o mercado é como se fosse um instrumento de organização da economia. 6.2.1 Demanda Demanda é a quantidade de um determinado bem ou serviço que o consumidor deseja adquirir a cada nível de preço. Percebaque demanda é um desejo, não uma realização, o que quer dizer que todos nós deseja- mos inúmeros bens que ainda não possuímos – necessidades ilimitadas (MANKIW, 2020). O objetivo da Teoria da Demanda é demonstrar as escolhas dos consumidores entre os diversos bens e serviços a partir de seu orça- mento (rendimento). Administração e Economia – 136 – Além do preço de um bem ou serviço e da renda dos consumido- res, outros fatores também determinam a demanda, como os preços dos outros bens (substitutos e complementares), o gosto dos consumidores e a demografia. 6.2.1.1 Determinantes da demanda Existem vários fatores que dão origem ao consumo de bens e servi- ços, em alguns casos até mesmo a cor da embalagem pode determinar a compra de um bem. Vamos focar em seis determinantes da demanda que são de alcance mais geral, ou seja, têm validade para a maioria da população de um país. A – Preço do bem B – Preço dos outros bens C – Renda dos consumidores D – Gosto e preferência dos consumidores E – Demografia F – Expectativas dos agentes econômicos a) Quantidade demandada versus Preço do bem (Princípio geral) Temos uma relação inversa entre o preço e a quantidade demandada. Quando o preço de um bem cai, ficando mais barato em relação aos seus concorrentes, os consumidores deverão aumentar o desejo em adquiri-lo. Quando o preço do bem sobe, os consumidores tendem a diminuir o desejo em adquiri-lo e demandam por outro bem concorrente (MANKIW, 2020). Quando Px: Dx e quando Px : Dx Esta é uma hipótese testada em diversos produtos, mas apresenta a limitação do ceteris paribus. Podemos construir uma curva mostrando a relação entre a demanda e o preço da mercadoria, denominada Curva de Demanda. Ela mostra a relação entre o preço da mercadoria e a quantidade desse bem que o con- sumidor está disposto a adquirir. – 137 – Economia de mercado: modelo microeconômico; demanda e seus determinantes; oferta e seus determinantes; equilíbrio do mercado Figura 6.3 – Curva de Demanda Qx Px D Fonte: adaptada de Mankiw (2020). Quadro 6.1 – Exemplo de demanda de sorvetes Preço do sorvete Quantidade demandada (em mil unidades) R$ 4 20 R$ 6 15 R$ 7 11 R$ 10 5 Fonte: adaptada de Mankiw (2020). Figura 6.4 – Demonstração gráfica da curva de demanda Qx Px D 10,00 7,00 6,00 4,00 5 11 15 20 Fonte: adaptada de Mankiw (2020). Administração e Economia – 138 – b) Quantidade demandada versus Preço dos outros bens O aumento do preço de um determinado bem x poderá causar o aumento ou a redução da demanda do bem y. A reação depende do tipo de relação existente entre os bens x e y. Px: Dy e Dy – depende da relação entre os bens Caso 1: Bens substitutos Px: Dy O aumento no preço do bem x provoca o aumento na demanda pelo bem y. O consumo de um (y) substitui o consumo do outro (x) – bens concorrentes. Exemplo: manteiga e margarina; café e chá; metrô e ônibus, Coca-Cola e Pepsi-Cola etc. Caso 2: Bens complementares Px : Dy O aumento no preço do bem x provoca uma queda na demanda pelo bem y. Isso ocorre porque estes bens são consumidos conjuntamente. Exemplos: pão e margarina; camisa de colarinho e gravata, aparelho de DVD e DVDs, celular e operadora, lapiseira e grafite etc. c) Quantidade demandada versus Renda dos consumidores Em geral, existe uma relação crescente e direta entre a renda e a demanda de um bem. Quando a renda aumenta, a demanda do bem tam- bém deve aumentar. éR: D Figura 6.5 – Demonstração gráfica Efeito da Renda Px D Px0 D’ Qx0 Qx1 Qx Fonte: adaptada de Mankiw (2020). – 139 – Economia de mercado: modelo microeconômico; demanda e seus determinantes; oferta e seus determinantes; equilíbrio do mercado Obs.: o aumento na renda provoca o deslocamento da curva de demanda para a direita. Há, contudo, uma exceção para este padrão. Alguns bens deixam de ser adquiridos quando a renda dos consumidores aumenta. Exceção: Bens inferiores (bens de Giffen). A quantidade deman- dada destes bens varia inversamente proporcional à renda dos consumi- dores. A demanda por estes bens diminui à medida que a renda aumenta. d) Quantidade demandada versus Gosto do consumidor A quantidade que um consumidor escolhe comprar de determinada mercadoria depende também de suas preferências. Se estas preferências mudam, a curva de demanda também deve ser alterada. Desse modo, o marketing, por meio de campanhas publicitárias, provoca o deslocamento da Curva de Demanda para a direita, pois se constitui em um incentivo à demanda. É importante ressaltar que o marketing cria necessidades de consumo nas pessoas estimulando a demanda por um produto específico. Figura 6.6 – Demonstração gráfica Gosto do consumidor Px D Px0 D’ Qx0 Qx1 Qx Fonte: adaptada de Mankiw (2020). e) Demografia A demografia refere-se ao estudo quantitativo (número de pessoas) e qualitativo (onde vivem e como vivem) da população de um país. Con- forme a configuração espacial dessas variáveis, organizam-se os processos de produção e distribuição dos bens e serviços em uma economia. Administração e Economia – 140 – À medida que o número da população aumenta, a demanda por habi- tação, saúde, alimentação, áreas de lazer, roupas etc. também aumenta, deslocando a curva de demanda para a direita, exatamente como os gráfi- cos dos casos “C” e “D”. Atualmente, a população brasileira é de aproximadamente 200 milhões de habitantes distribuídos em mais de 5.500 municípios. A maior parte desta população (80%) está basicamente concentrada nas áreas urba- nas e apresenta uma taxa de crescimento média de aproximadamente 1,4% ao ano, o que representa um contingente de 2,5 milhões de pessoas a mais. Como a maior parte da população se concentra nas áreas urbanas, as regiões metropolitanas vêm se transformando em grandes polos de produ- ção e consumo, sendo denominadas de metrópoles. é Pop: D f) Expectativa dos agentes econômicos A expectativa dos agentes econômicos também é muito importante para a determinação da demanda. Imagine que diversos consumidores acreditam que o preço de um determinado aparelho celular irá reduzir dentro de alguns meses. A demanda será menor inicialmente, pois esses consumidores irão adiar a compra na expectativa de preços menores. E claro, se esses consumidores acreditarem que o preço subirá no futuro, anteciparão suas compras. Mas a expectativa também pode estar relacionada à situação econô- mica e política do país. Um cenário de crise, por exemplo, irá desaquecer a demanda diante da preocupação com o desemprego. 6.2.1.2 Variação da demanda versus Variação na quantidade demandada É muito importante compreender a diferença entre a variação na demanda e a variação na quantidade demandada. Uma variação na demanda diz respeito ao deslocamento da curva de demanda, provocado quando houve uma variação em um dos determi- nantes da demanda que não seja o preço do bem ou serviço. A variação – 141 – Economia de mercado: modelo microeconômico; demanda e seus determinantes; oferta e seus determinantes; equilíbrio do mercado na quantidade demandada diz respeito ao movimento ao longo da curva de demanda, como resposta ao movimento “exclusivamente” dos preços. Com isso, os determinantes da demanda preço dos outros bens, gosto dos consumidores e renda promovem um deslocamento na curva de Demanda, ou seja, uma variação na Demanda; já o Preço do bem e as expectativas provocam uma variação na quantidade demandada de um bem ou serviço. Perceba isso no gráfico a seguir. Figura 6.7 – Deslocamento da curva de demanda Px D Px0 D’ Qx0 Qx1 Qx Px1 b c a Fonte: adaptada de Mankiw (2020). O gráfico apresenta duas simulações, um deslocamento ao longo da curva de demanda, do ponto “a” ao ponto “b”, demonstrando uma varia- ção na quantidade demandada. Já a situação do ponto “b” para o ponto “c”, demonstra um deslocamento da curva de demanda, ou seja, uma variação na demanda. Partiremos agora para o outro lado do mercado, o lado da oferta,dos produtores de bens e serviços. 6.3 Oferta Oferta é a quantidade de bem ou serviço que os produtores desejam produzir e vender a cada nível de preços. Perceba que, como a demanda, a oferta também é um desejo, um plano (MANKIW, 2020). Administração e Economia – 142 – A lógica da oferta, entretanto, difere-se da demanda. Observe o Princípio da Oferta: quanto maio for o preço de um bem, mais interes- sante se torna produzi-lo. A oferta apresenta uma relação direta entre quantidade e nível de preço, enquanto a demanda apresenta uma relação inversa (ceteris paribus). Isso pode ser explicado por meio das margens de lucro no preço, quanto maior o preço maior tende a ser a margem de lucro (ceteris paribus). Você deve estar se questionando: mas isso não faz sentido! Este questionamento será esclarecido mais adiante, quando abordar- mos o equilíbrio de mercado. Figura 6.8 – Curva de oferta Px Qx O Fonte: adaptada de Mankiw (2020). A curva de oferta tem inclinação positiva, demonstrando a relação positiva entre preço e quantidade. Suponha uma sorveteria, à medida que o preço do sorvete aumenta, o empresário se sente estimulado em produzir mais visando mais lucro. Quadro 6.2 – Exemplo de oferta de sorvetes Preço do sorvete Quantidade de ofertada (em mil unidades) R$ 5 10 R$ 8 16 R$ 10 25 Fonte: Mankiw (2020). – 143 – Economia de mercado: modelo microeconômico; demanda e seus determinantes; oferta e seus determinantes; equilíbrio do mercado Figura 6.9 – Demonstração gráfica da Curva de oferta Px 5,00 10 25 Qx 10,00 Fonte: adaptada de Mankiw (2020). 6.3.1 Determinantes da oferta Como a demanda, a oferta também tem seus determinantes. Vamos estudar seis deles. A – Preço do bem B – Preço dos insumos C – Preço dos produtos substitutos D – Número de concorrentes E – Expectativa dos agentes econômicos F – Inovação tecnológica a) Preço do bem Oferta é a quantidade de bem ou serviço que os produtores desejam produzir e vender a cada nível de preços, e quanto maiores os preços, maior será a oferta. Isso provoca um movimento ao longo da curva de oferta, conforme demonstra o gráfico a seguir. Administração e Economia – 144 – Figura 6.10 – Curva de oferta Px 5,00 10 25 Qx 10,00 O Fonte: adaptada de Mankiw (2020). b) Preço dos insumos O preço dos insumos, ou seja, da matéria-prima, tem expressiva influência na oferta de bens e serviços, a ponto de fazer deslocar a curva de oferta devido a uma variação no insumo. Se o preço do insumo aumen- tar, teremos um deslocamento para a esquerda na curva de oferta, caso contrário, para a direita. c) Preço dos produtos substitutos Produtos substitutos, como na demanda, também podem afetar o nível de oferta. Os aparelhos celulares destruíram o mercado de máquinas fotográficas digitais; o mesmo vale para o CD player com a entrada da música digital no mercado. d) Número de concorrentes Quanto maior for o número de empresas em um mercado, maior será a concorrência. Isso promove o deslocamento para a direita da curva de oferta, ou seja, uma variação na oferta. e) Expectativa dos agentes econômicos A expectativa dos agentes econômicos também é muito importante para a determinação da oferta. Os produtores também observam cenários futuros que podem ser positivos ou negativos. Uma crise política, por – 145 – Economia de mercado: modelo microeconômico; demanda e seus determinantes; oferta e seus determinantes; equilíbrio do mercado exemplo, que gera impacto na condução de políticas macroeconômicas afetam tais expectativas, deslocando a curva de oferta para a esquerda. Mas um cenário positivo para a economia mundial tende a deslocar a curva de oferta para a direita, já as empresas percebem que haverá um aumento na demanda em grande escala. f) Inovação tecnológica Uma inovação tecnológica promove o aumento da capacidade produ- tiva de uma empresa sempre que esta consegue produzir mais utilizando a mesma quantidade de insumos. Ou seja, ocorre o aumento na produti- vidade de trabalhadores e/ou máquinas e equipamentos. Logo, a curva de oferta se desloca para a direita. Mas uma nova arma, fruto de uma inovação, pode levar o país a um conflito bélico. A guerra tende a promover uma redução na oferta, deslo- cando-a para a esquerda. 6.4 Equilíbrio do mercado Chegou o momento de esclarecer o questionamento sobre como se formam os preços. No final do século XIX e início do XX havia uma discussão entre os “novos” economistas: o preço era determinado pela demanda ou pela oferta? O grupo estava dividido até a chegada do economista inglês Alfred Marshall. Marshall indagou a todos sobre qual parte de uma tesoura corta a folha de papel, a de cima ou a de baixo? O próprio economista deu a resposta e acabou com a discussão: ambas as partes, disse Marshall. Ou seja, tanto a demanda como a oferta formam os preços. Lembra do exemplo da gravidade? Então, aqui ocorre o mesmo, o conflito entre produtores e consumidores estabelece um preço de mercado, o preço de equilíbrio. O preço em uma economia de mercado é determinado tanto pela demanda quanto pela oferta. A interseção das Curvas de Oferta e Demanda é chamada de Ponto de Equilíbrio, ou Preço de Equilíbrio (E). Administração e Economia – 146 – Nesse ponto (E) a quantidade que os consumidores desejam comprar é exatamente igual à quantidade que os produtores desejam vender. Pode- mos dizer que existe uma coincidência de desejos. Para qualquer preço superior a Px0, a quantidade que os ofertantes desejam vender é maior que a que os consumidores desejam comprar – excesso de oferta. De outra parte, para qualquer preço inferior a Px0, sur- girá um excesso de demanda. Exemplo: equilíbrio, excesso de oferta e escassez de demanda Quadro 6.3 – Demonstração das situações de mercado Demanda e oferta do bem x Preço (em R$) Demanda Oferta Situação de demanda Situação de oferta 100,00 1.300 80 Excesso Escassez 300,00 900 300 Excesso Escassez 500,00 600 600 Equilíbrio Equilíbrio 800,00 400 900 Escassez Excesso 1.000,00 200 1.200 Escassez Excesso Fonte: Mankiw (2020). O gráfico a seguir apresenta a situação de equilíbrio, bem como as áreas de excesso e escassez, tanto de demanda quanto de oferta. Figura 6.11 – Demonstração gráfica da Escassez e do Excedente Px QxQx0 Px0 Dxc d E ba O Fonte: adaptada de Mankiw (2020). – 147 – Economia de mercado: modelo microeconômico; demanda e seus determinantes; oferta e seus determinantes; equilíbrio do mercado 2 Os pontos a, b, c e d, constituem os estados de escassez ou excesso. 2 O ponto “a” demonstra uma escassez de demanda frente ao ponto “b”, um excesso de oferta. Motivo: o preço está acima do equilíbrio, é alto. Então, a distância entre esses dois pontos se refere ao excesso de oferta. 2 O ponto “c” é uma escassez de oferta, frente ao ponto “d”, um excesso de demanda. Motivo: o preço está abaixo do equí- librio. Logo, a distância entre esses dois pontos se refere ao excesso de demanda. Perceba que na prática o preço de mercado não é apenas algo estático, mas sim dinâmico. Formular erroneamente o preço de mercado implica em fazer ajustes; mais do que isso, implica em não conseguir se sustentar em um mercado. Atividades 1. Explique cada uma das hipóteses do Modelo Microeconômico uti- lizado na análise da demanda, oferta e equilíbrio. 2. Um excesso de demanda gera uma escassez de oferta porque o nível de preço aumentou, e neste caso é preciso reduzir o preço para retornar ao equilíbrio original. Esta afirmação é Verdadeira ou Falsa? Justifique. 3. As afirmações a seguir referem-se à demanda de um bem ou serviço. Para as verdadeiras assinale com “V” e para as falsas com “F”. ( ) A quantidade demandada varia inversamente ao movimento nos preços, ou seja, à medida que o preço de um bem ou serviço aumenta, a quantidade demandada reduz. ( ) A curva de demanda é positivamente inclinada porque expressa a relação direta entre o preço de um bem e sua quan- tidade demandada.Administração e Economia – 148 – ( ) Quando um bem X tem um aumento no seu preço e possui um substituto próximo Y, a demanda deste substituto Y aumentará em função da queda na demanda do bem X. ( ) Quando um determinado bem Z é consumido em conjunto com outro bem W, ou seja, de forma complementar, o aumento no preço do bem Z ocasionará um aumento na demanda do bem complementar W. ( ) O Efeito Substituição pode nos demonstrar quão sensível é a demanda de um bem, ou seja, tem uma relação direta com a sen- sibilidade dos consumidores. 4. A divulgação de uma pesquisa científica sobre o consumo da fruta kiwi, demonstrando seus benefícios sobre o emagrecimento, gerou um expressivo aumento na demanda dessa fruta. Como a oferta é rígida no curto prazo, ou seja, não é possível aumentar a produção antes de, pelo menos, seis meses, o que acontece com o nível de preços? Demonstre essa situação graficamente. 7 Moeda, inflação e sistema financeiro 7.1 Moeda A moeda é, sem dúvidas, um dos principais agregados eco- nômicos da atualidade. Se tivéssemos que dar um adjetivo ao sis- tema capitalista nos dias de hoje, seria “capitalismo financeiro”. A complexidade dos sistemas financeiros é cada vez maior, e moeda possui um mercado próprio, o mercado financeiro. Inclu- sive, trataremos de sistema financeiro na parte final deste capítulo. Conforme Passos (2016), basicamente, a moeda possui três funções primordiais: a) Meio de troca – ela deve servir de intermediação nas trocas e transações, sendo a função mais importante; b) Denominador comum de medida de valor i o preço é a expressão monetária do valor de bens e serviços, servindo como instrumento de medição do valor das mercadorias em uma economia. Para tanto, a própria moeda precisa ter “valor”; Administração e Economia – 150 – c) Reserva de valor – é de fundamental importância que seja pos- sível guardar dinheiro para aquisições futuras e para a acumula- ção de riqueza. A moeda deverá assumir essas três funções simultaneamente, sendo, assim, uma moeda forte e confiável. Mas, claramente, nem sempre foi assim. Moeda é uma construção social e existe, de formas diferentes, desde a antiguidade. Podemos considerar que a moeda-mercadoria foi a primeira forma de estabelecer trocas entre as comunidades. O quadro a seguir apresenta um breve histórico. Quadro 7.1 – Fases da moeda-mercadoria Antiguidade até 410 D.C. Região Moeda Egito Cobre Babilônia Cobre, prata, cevada Pérsia Gado Índia Animais domésticos, arroz China Conchas, seda, sal Idade média (410 a 1453) Alemanha Gado, cereais, mel Noruega Gado, escravos, tecido Rússia Gado, prata China Arroz, chá, sal, prata Japão Cobre, pérolas, arroz Idade moderna (1453 a 1789) Estados unidos Fumo, cereais, madeira, gado Canadá Peles, cereais França Metais precioso, cereais Japão Arroz Fonte: adaptado de Passos e Nogami (2016). – 151 – Moeda, inflação e sistema financeiro No entanto, estabelecer trocas dessa forma foi se tornando cada vez mais difícil, pois o escambo depende da dupla coincidência de interes- ses, ou seja, se você produz madeira e quer trocar por alimento, terá que encontrar alguém que produz alimento e deseja madeira. Difícil, não é? A segunda fase da moeda procurou resolver o problema por meio dos metais: com a adoção da moeda metálica, a troca era realizada com o uso de moeda cunhada, e o soberano garantia o valor do metal, cunhagem da esfinge do governante (PASSOS, 2016). Inicialmente, a produção de moeda utilizou do cobre, bronze e ferro, que foram substituídos pela prata e ouro por uma questão de “valor econômico”. Entretanto, surgiu um problema: o transporte a longas distâncias, em função do peso e do risco de assalto. Após o século XIV, o intenso fluxo comercial na Europa exigiu uma nova forma de moeda, a moeda-papel. A moeda-papel, em formato de papel, de fato, foi a emissão de um certificado de depósito em Casas de Custódia, onde se depositavam as moedas metálicas sob “garantia”. Os certificados passaram a circular e tomaram o lugar das moedas metálicas. O papel possuía um lastro, a prata e/ou ouro depositado. Logo, as pessoas aceitavam como meio de troca com segurança e confiança. Algumas Casas de Custódia, no entanto, passaram a emitir recibos sem lastro, gerando inflação e descontrole, necessitando da intervenção do Estado para corrigir o volume de moeda em circulação. Foi assim que surgiram os bancos nacionais (Banco da Inglaterra, Banco da Alemanha etc.). Esses bancos, com o passar do tempo, transformaram-se em Bancos Centrais com o monopólio da emissão de moeda (PASSOS, 2016). Manter o lastro em metais preciosos não era uma tarefa fácil, como vimos anteriormente, a escassez está bastante presente neste caso. Com o avanço do capitalismo após a Segunda Guerra Mundial, emitir moeda com lastro em prata e ouro se tornou insustentável. Com o acordo de Bretton Woods (EUA), em 1944, do qual o Brasil fez parte, a emissão de moeda passou a ser lastreada segundo as reservas Administração e Economia – 152 – em dólar de cada país, processo abandonado em 1971. Atualmente, os sis- temas monetários são fiduciários: moeda fiduciária. Não há mais lastro, a emissão passou a ser gerenciada pelas autoridades monetárias, nesse caso, os Bancos Centrais. Dessa forma, a emissão de moeda deve respeitar a expansão da ativi- dade econômica medida pelo PIB. De outra forma, irá gerar inflação, uma vez que o excesso de moeda reduz as taxas de juros e aumenta o consumo de forma desordenada. Como mencionado anteriormente, a moeda tem seu próprio mercado. Logo, tem seu próprio preço. O preço da moeda é a taxa de juros. A confiança em uma moeda depende, hoje, de austeridade monetária, fruto da gestão da política fiscal e, principalmente, da política monetária de um país. Mas como se formam as taxas de juros? Há uma espécie de “taxa básica” em todas as economias modernas, ou seja, o preço inicial da moeda. No Brasil, conhecemos essa taxa como Selic. O Sistema Especial de Liquidação e Custódia (Selic) é um programa que administra a emissão de títulos públicos do Tesouro Nacional. A origem desses títulos está no déficit do governo. Esse processo evita que o governo emita moeda para pagar suas dívidas, por exemplo, o que oca- sionaria inflação. Então, a partir dos déficits, o governo federal emite títulos que o financiam. É importante ressaltar que a dívida não é necessariamente do governo, mas sim da nação: estradas, aeroportos, hospitais, leitos de UTIs, universidades etc. O governo financia o avanço da sociedade e, muitas vezes, isso ultrapassa seu orçamento, gerando dívida. Quem adquire esses títulos de dívida, a maioria bancos, financia o déficit do governo. Mas não existe almoço de graça, lembra? O governo remunera esses credores por meio de uma taxa de juros, a taxa Selic. A Selic é considerada a taxa básica da economia porque é usada em operações entre o Banco Central e os demais bancos e entre os próprios – 153 – Moeda, inflação e sistema financeiro bancos do sistema financeiro, por isso, tem influência sobre os juros de toda a economia. A partir dela, os bancos também definem quanto cobram em empréstimos a empresas e pessoas físicas. A partir de 1999, o Banco Central do Brasil passou a estabelecer metas para a Selic. A meta da taxa Selic é definida em reuniões do Copom (Comitê de Política Monetária). O Copom foi instituído em 20 de junho de 1996, com o objetivo de estabelecer as diretrizes da política monetária e de definir a taxa de juros. O Copom é comandado pelo presidente do BACEN e formado pelos membros da diretoria. Outros países também possuem esse tipo de insti- tuição: Federal Open Market Committee (FOMC) do Banco Central dos Estados Unidos (Fed); Central Bank Council do Banco Central da Alema- nha; Monetary Policy Committee (MPC) do Banco Central da Inglaterra. O objetivo da meta é anunciar as intenções da política monetária, que pode ser de viés expansionista ou restritivo (estudaremosas políticas macroeconômicas no capítulo 8). E como se formam as demais taxas de juros no sistema financeiro? Basicamente, três motivos influenciam as taxas de juros em todo sistema, segundo Passos (2016). 2 A – A própria Taxa Selic: quando está alta, torna o custo inicial do dinheiro mais dispendioso; 2 B – O risco das operações: vale destacar que, em um cenário de crise, onde empresas passam dificuldades e o desemprego é elevado, o risco de liberar crédito é mais alto, logo, a taxa de juros será maior; 2 C – Concentração do sistema bancário: quanto mais concen- trado for o sistema bancário de um determinado país, maior será a taxa de juros cobrada pelos bancos. Atualmente, temos aproxi- madamente 150 bancos no Brasil, mas apenas cinco deles con- centram 80% do faturamento total. Mas todas as moedas estão vulneráveis ao contágio de um vírus: a inflação. Administração e Economia – 154 – 7.2 Inflação Em período de pandemia, falar em vírus faz todo sentido, não acha? Sim, a inflação é uma espécie de vírus que destrói o valor real de uma moeda. O fenômeno macroeconômico da inflação pode ser definido como o processo persistente de aumento no nível geral de preços, resultando em perda do poder de compra da moeda – aumento contínuo e generalizados dos preços (PASSOS, 2016). Mas por que existe inflação? O fenômeno pode ser explicado a partir de três situações: 2 A – Os choques entre oferta e demanda: os produtos agrícolas são um bom exemplo; 2 B – O problema da inconsistência dinâmica, ou Curva de Phillips: inflação versus desemprego. O gráfico a seguir demonstra a rela- ção inversa entre inflação e desemprego. Determinadas econo- mias apresentam tal problema: quando a taxa de desemprego reduz significativamente, o consumo aumenta muito e rápido, gerando inflação. Figura 7.1 – Curva de Philips Taxa de inflação π π” π µ” µ Taxa de desemprego (µ) A B CP Fonte: Passos (2016). 2 C – Senhoriagem: já comentamos sobre ela, a emissão descon- trolada de moeda. – 155 – Moeda, inflação e sistema financeiro 7.2.1 Tipos de Inflação Conforme Makiw (2020), a inflação pode partir tanto da demanda quanto da oferta. 2 A – Inflação de demanda: ocorre a partir do excesso de demanda agregada em relação à produção (oferta agregada). 2 B – Inflação de custos (de oferta): ocorre a partir do aumento nos preços dos custos de produção decorrentes, por exemplo, da taxa de câmbio (matéria-prima importada), dos pisos dos salários (aumentos reais via sindicatos) e das estruturas de mer- cado (oligopólios e mercados concentrados). 2 C – Inflação inercial: ocorre quando os agentes econômicos adaptam suas expectativas a uma determinada taxa de inflação, sendo esta taxa esperada denominada de inflação inercial. Uma vez incorporada, ela passa a ser integrada em contratos e acor- dos informais. A tendência é que essa taxa de inflação se eleve no decorrer do tempo, em virtude de aumentos nos preços supe- riores às expectativas devido à falta de credibilidade na moeda corrente, o que provocará uma distorção nos preços e uma cami- nhada para a hiperinflação. 7.2.2 Efeitos da Inflação A inflação, como um vírus, tem efeitos nocivos sobre uma economia, e todos os agentes econômicos (pessoas, empresas e governo) são afetados por ela (PASSOS, 2016). 2 A – Distribuição de renda: provoca a redução do poder aquisi- tivo das classes que dependem de rendimento fixo (classe assa- lariada). Na população com baixos rendimentos, por exemplo, a inflação funciona como um imposto (imposto inflacionário), pois desintegra parcela do rendimento mensal; 2 B – Balança comercial: encarece o produto nacional, estimu- lando a importação, o que poderá aumentar o déficit na balança e influenciar na taxa de câmbio; Administração e Economia – 156 – 2 C – Efeito tanzi: corrosão da arrecadação do governo, necessi- tando da indexação dos tributos; 2 D – Expectativas dos agentes econômicos: o setor empresarial é sensível às distorções de preços causadas pela inflação, com- prometendo, assim, as expectativas futuras, ou seja, as decisões empresariais são postergadas. O mesmo tende a ocorrer com o consumo das famílias, a aquisição de bens, em especial financia- dos, ficam para outro momento. O Brasil já passou períodos de inflação elevadíssima, denominado de hiperinflação. Na década de 1980 e início dos anos 1990, a inflação foi avas- saladora, chegamos a quase três mil porcento (3.000%) de inflação ao ano. Os preços subiam todos os dias e alguns diversas vezes no mesmo dia. Mas com o Plano Real, a história mudou. Conseguimos incubar o vírus com uma arquitetura de políticas macroeconômicas conhecida como tripé macroeconômico (metas para inflação, superávit primário e taxa de câmbio). O gráfico a seguir apresenta a série histórica da inflação desde 1980. Figura 7.2 – Série histórica da inflação 0 500 1000 1500 2000 2500 19 80 19 81 19 82 19 83 19 84 19 85 19 86 19 87 19 88 19 89 19 90 19 91 19 92 19 93 19 94 19 95 19 96 19 97 19 98 19 99 20 00 20 01 20 02 20 03 20 04 20 05 20 06 20 07 20 08 20 09 20 10 20 11 20 12 20 13 20 14 20 15 20 16 20 17 20 18 20 19 Inflação - IPCA Fonte: Ipea (Instituto de Pesquisa Aplicada). Perceba que a inflação no início dos anos de 1980 já estava bastante alta, entre 100% e 300%. Após sucessivos fracassos de planos de estabi- lização (Cruzado, Cruzado Novo, Bresser, Verão e Collor), o Plano Real definitivamente enquadrou a inflação. – 157 – Moeda, inflação e sistema financeiro Somente nos três primeiros meses de 1990, a inflação foi de apro- ximadamente 440%. Se acumular o real por 20 anos, não é atingido esse patamar. O mapa a seguir apresenta a inflação para todos os países no ano de 2020. É possível observar que a grande maioria dos países está com infla- ção baixa, entre zero e dez por cento. Uma inflação sob controle é de fundamental importância para uma economia, a estabilização dos preços é prerrogativa para investidores e consumidores. Com os preços estáveis, os empresários podem planejar compras futuras, projetar fluxos de caixa e construir cenários. O mesmo vale para as famílias, que podem comprar a crédito sem se preocupar com os valores futuros das prestações, por exemplo. Figura 7.3 – Inflação pelo mundo – 2020 25% ou mais 10% - 25% 3% - 10% 0% - 3% menos de 0% sem dados Fonte: Fundo Monetário Internacional (FMI). Quando os jornais noticiam que a inflação do mês passado foi 0,78%, você deve ficar imaginando como chegaram nesse valor. Algumas pessoas ficam até desconfiadas, achando que o número é uma manipulação, já que o responsável pelo cálculo é o próprio governo. Administração e Economia – 158 – Porém, é muito difícil manipulá-lo, visto que o método de cálculo é aberto à comunidade. Os dados das pesquisas de campo estão disponíveis. Segundo o Instituto de Geografia e Estatística (IBGE), “inflação é o nome dado ao aumento dos preços de produtos e serviços e é calculada pelos índices de preços, comumente chamados de índices de inflação”. O IBGE é órgão do governo responsável pelo cálculo de índices de preços. 7.2.3 Índices de preços Segundo o IBGE, o propósito de um índice de preços é medir a variação de preços de uma cesta de produtos e serviços consu- mida pela população. O resultado mostra se os preços aumentaram ou diminuíram de um mês para o outro. A cesta é definida pela Pesquisa de Orçamentos Familiares - POF, do IBGE, que, entre outras questões, verifica o que a população consome e quanto do rendimento familiar é gasto em cada produto: arroz, feijão, passagem de ônibus, material escolar, médico, cinema, entre outros. Os índices, portanto, levam em conta não apenas a variação de preço de cada item, mas também o peso que ele tem no orçamento das famílias. O IBGE possui um Sistema Nacional de Índices de Preços ao Consu- midor (SNIPC), que consiste em uma combinação de processos destina- dos a produzir índices de preços ao consumidor. O objetivoé acompanhar a variação de preços de um conjunto de produtos e serviços consumidos pelas famílias. O Índice de Preços ao Consumidor Amplo, o IPCA, é produzido pelo IBGE desde 1980 com o objetivo de medir as variações de preços ao consumidor, refletindo a variação dos preços das cestas de consumo das famílias com recebimento mensal de 1 a 40 salários-mínimos, indepen- dentemente da fonte, e o INPC, das famílias com rendimento mensal de 1 a 8 salários mínimos, com chefes assalariados. É importante destacar que o IPCA é utilizado pelo Bacen para o acompanhamento das metas de inflação. A tabela e o gráfico a seguir apresentam a ponderação do IPCA, for- mado por nove cestas de consumo, cada uma com ponderação correspon- dente, conforme Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF). – 159 – Moeda, inflação e sistema financeiro Tabela 7.1 – Estrutura de ponderação do IPCA Descrição Peso Índice geral 100% Alimentação e Bebidas 19% Habitação 15% Artigos de Residência 4% Vestuário 5% Transportes 21% Saúde e Cuidados Pessoais 13% Despesas pessoais 11% Educação 6% Comunicação 6% Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas. Figura 7.4 – Ponderação do IPCA Alimentação e bebidas Artigos de residência Transportes Despesas pessoais Comunicação Habitação Vesstuário Saúde e cuidados pessoais Educação 6% 6% 19% 15% 11% 13% 21% 5% 4% Fonte: IBGE, Diretoria de Pesquisas. Administração e Economia – 160 – A tabela e o gráfico do IPCA demonstram que, em média, o brasileiro consome 19% de seu rendimento em alimentos e bebidas, 15% em habita- ção, 4% em artigos de residência e assim sucessivamente (IBGE). Quando você lê nos noticiários que a inflação foi de 0,78% no mês passado, por exemplo, isso significa que, em média, os preços subiram 0,78% em relação ao período anterior. Perceba que são nove cestas de consumo com mais de 250 itens no total. Isso significa que, para ter inflação, é preciso que diversos itens de diversas cestas apresentem aumentos contínuos nos preços. Existem outros índices de preços, inclusive, calculados por outras instituições, como o Índice Geral de Preços do Mercado (IGPM) da Fun- dação Getúlio Vargas (FGV), muito conhecido como índice do aluguel, porque é utilizado nos reajustes anuais dos aluguéis de imóveis. Sua meto- dologia é distinta do IPCA, por isso, os resultados são diferentes, mas a lógica é a mesma. 7.2.4 Metas de Inflação do Banco Central (Bacen) Trata-se de um mecanismo pelo qual o Bacen anuncia metas para a inflação que devem ser atingidas a partir das políticas macroeconômicas, em especial a política monetária, ou seja, se a inflação ameaçar sair da meta, os juros se alteram como medida de contenção (BACEN, 2020). A proposta das metas é funcionar como um coordenador de expectati- vas sobre a inflação futura, inibindo a indexação ligada à inflação passada, sendo o IPCA o índice utilizado para tal finalidade. A tabela a seguir apresenta as metas para inflação desde sua implan- tação em 1999 até o ano de 2022. Tabela 7.2 – Metas para a inflação Ano Meta (%) Banda (p.p) Inflação Efetiva (IPCA % a.a.) 1999 8,0 2 8,94 2000 6,0 2 5,97 – 161 – Moeda, inflação e sistema financeiro Ano Meta (%) Banda (p.p) Inflação Efetiva (IPCA % a.a.) 2001 4,0 2 7,67 2002 3,5 2 12,53 2003 4,0 2,5 9,3 2004 5,5 2,5 7,6 2005 4,5 2,5 5,69 2006 4,5 2 3,14 2007 4,5 2 4,46 2008 4,5 2 5,9 2009 4,5 2 4,31 2010 4,5 2 5,91 2011 4,5 2 6,5 2012 4,5 2 5,84 2013 4,5 2 5,91 2014 4,5 2 6,41 2015 4,5 2 10,67 2016 4,5 2 6,29 2017 4,5 1,5 2,95 2018 4,5 1,5 3,75 2019 4,25 1,5 4,31 2020 4,0 1,5 2021 3,75 1,5 2022 3,5 1,5 Fonte: Banco Central do Brasil (2020). Na coluna “Meta”, está o valor esperado para a inflação, mas trata-se de um número muito absoluto, preciso, sabemos que os preços flutuam. Administração e Economia – 162 – Para tanto, o Bacen estipula limite inferior e superior, uma espécie de um leque para a flutuação, os pontos percentuais (p.p.) da coluna “Banda (p.p.)”. Por exemplo: no ano de 2020, a meta é 4%, com limite inferior em 2,5% e limite superior em 5,5% (1,5 p.p. para cima e para baixo). A figura a seguir ilustra bem a trajetória da meta de inflação e seus limites inferiores e superiores. Figura 7.5 – Evolução das metas de inflação Fonte: Banco Central do Brasil (2020). Enquanto a inflação flutuar dentro dos limites inferiores e superiores, não ocorrem medidas por parte da autoridade monetária para inter- ferir nos preços. Como veremos no capítulo 8, as políticas macroeco- nômicas (fiscal, monetária e cambial) atuam em conjunto para cumprir as metas de inflação. 7.3 Sistema Financeiro Nacional Um sistema financeiro nacional é formado pelas instituições de perfil financeiro de uma nação, como, por exemplo: bancos, seguradoras, corretoras, agentes de investimentos, entre outros. – 163 – Moeda, inflação e sistema financeiro Segundo Passos (2016), o Sistema Financeiro Nacional do Brasil se originou a partir da criação do Banco do Brasil, em 1808, por Dom João VI, o primeiro agente financeiro no país. Entretanto, é somente nas déca- das de 1950 e 1960 que os bancos comerciais proliferaram. O Banco Central do Brasil, principal agente do sistema financeiro, foi criado em 1965 para coordená-lo. O caráter de “sistema” aos agentes financeiros no Brasil vem da Lei N. 4.595/64, de 31 de dezembro de 1964, a qual introduziu as diretrizes para uma nova estrutura e a disci- plina para os agentes. Após o ano de 1967, os agentes financeiros marcaram uma nova fase do sistema financeiro nacional através de fusões e incorporações bancá- rias, gerando uma relativa concentração. Em 1987, o Conselho Monetário Nacional (órgão supremo do Sis- tema Financeiro Nacional) determinou que os intermediários financeiros se transformassem em bancos múltiplos. Isso provocou uma grande refor- mulação na estrutura de agências bancárias, visto que elas passaram a ofe- recer uma maior diversidade de produtos financeiros. Entre as décadas de 1980 e meados de 1990, muitas instituições financeiras obtiveram lucros acima da média devido ao processo de hipe- rinflação instalado no país (floating). Isso aconteceu porque as instituições financeiras, como os bancos, eram as primeiras a receber o dinheiro numa economia inflacionada. A partir do Plano Real, o sistema financeiro nacional precisou passar por uma nova reestruturação, em que a qualidade dos serviços financeiros passou a predominar. Na atualidade, apesar de uma forte concentração bancária, novos agentes entraram em ação, como as Cooperativas de Crédito e as Fintechs (startups do mercado financeiro) (PASSOS, 2016). 7.3.1 Estrutura do Sistema Financeiro Nacional O Sistema Financeiro Nacional é formado por dois subsistemas: o sistema normativo e o sistema operativo. O sistema normativo é com- posto pelo Conselho Monetário Nacional (CMN), Banco Central do Brasil Administração e Economia – 164 – (BCB) e Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Já o sistema operativo é composto pelas instituições financeiras públicas e privadas que estão atuando no mercado financeiro. Sistema normativo: 2 Conselho Monetário Nacional (CMN); 2 Banco Central do Brasil (BACEN); 2 Comissão de Valores Mobiliários (CVM). Sistema operativo: 2 Banco do Brasil (BB) e Caixa Econômica Federal (CEF); 2 Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico Social (BNDES); 2 Demais instituições financeiras públicas e privadas. A figura a seguir apresenta a estrutura e lógica do sistema financeiro nacional. Figura 7.6 – Estrutura do Sistema Financeiro Sistema Financeiro Unidades Superavitárias • Governo • Empresas • Famílias Unidades Deficitárias • Governo • Empresas • Famílias Intemediadores Financeiros • Bancos e Caixas Econômicas • Bancos de Investimentos e Financeiras • Fudos de Investimentos • Outros Mercados Financeiros • Capitais • Derivativos • Crédito • Divisa • Outros Ativos Financeiros • Ações • Títulos privados • Derivativos • Títulos públicos • Outros Fonte: elaborada pelo autor. – 165 – Moeda, inflaçãoe sistema financeiro 7.3.1.1 Autoridades monetárias Conforme Passos (2016), as autoridades monetárias do Sistema Financeiro Nacional são o Conselho Monetário Nacional (órgão máximo do sistema), o Banco Central (executor da política monetária) e a Comis- são de Valores Mobiliários (fiscalização do mercado de valores mobiliá- rios, como as Bolsas de Valores). O Conselho Monetário Nacional, o órgão máximo do sistema finan- ceiro nacional, é constituído por três membros: 2 Ministério da Fazenda; 2 Ministério do Planejamento Orçamento; 2 Banco Central. Suas atribuições são: a) A adaptação do volume dos meios de pagamento às demandas da economia nacional; b) A administração do valor da moeda para inibir o processo infla- cionário, em consequência de distúrbios macroeconômicos; c) A regulação do valor externo da moeda no intuito de equilibrar o balanço de pagamentos; d) A orientação da aplicação de recursos de instituições privadas do sistema financeiro; e) A busca pela austeridade monetária, ou seja, por uma moeda forte; f) A busca pela liquidez do sistema econômico, bem como das ins- tituições financeiras; g) A coordenação da política monetária. A Comissão de Valores Mobiliários tem o objetivo de regular o mer- cado de valores mobiliários. É uma autarquia federal vinculada ao Minis- tério da Fazenda. Foi criada pela Lei n. 6.385, com o objetivo de discipli- nar, fiscalizar e promover a expansão, desenvolvimento e funcionalidade Administração e Economia – 166 – do mercado de valores mobiliários, conforme orientação do Conselho Monetário Nacional. Suas atribuições são: a) A fiscalização da emissão e distribuição de valores mobiliários no mercado financeiro, bem como o funcionamento das Bolsas de Valores no território nacional; b) A fiscalização da emissão e distribuição de títulos das socieda- des anônimas, relatórios das demonstrações financeiras (balanço patrimonial, demonstração dos resultados do exercício etc.), compra de ações emitidas pela própria empresa, entre outras; c) A fiscalização de práticas que contrariam os interesses dos investidores. A CVM também tem como finalidade fiscalizar o mercado de títulos de renda variável: a) Emissão e distribuição de valores mobiliários no mercado finan- ceiro; b) Intermediação no mercado mobiliário; c) Operações nas Bolsas de Valores; d) Administração da carteira de valores mobiliários; e) Auditoria das sociedades anônimas. O Banco Central do Brasil (Bacen) foi criado através da Lei n. 4.595 de 1.964 como uma autarquia federal vinculada ao sistema financeiro nacional. Seu objetivo é assegurar o equilíbrio monetário, zelando pela adequação da liquidez do sistema econômico, ao manter as reservas cam- biais em níveis adequados para assegurar a formação de poupança e da estabilidade macroeconômica do sistema financeiro nacional. O Bacen funciona como órgão executor da política monetária no sis- tema financeiro e suas atribuições são as seguintes: a) O banco dos bancos: operação de redesconto; – 167 – Moeda, inflação e sistema financeiro b) Gestão do Sistema Financeiro: fiscalização, normatização e intervenções; c) Execução da política monetária: controle dos meios de paga- mentos através do open market, operação de redesconto e depó- sito compulsório; d) Emissão de moeda: responsável pela emissão dos meios de pagamentos e, consequentemente, do saneamento da economia; e) Banco do governo: financiamento ao Tesouro Nacional; f) Gestor das reservas cambiais: administração das entradas e saí- das de dólares na economia brasileira. Também cabe ao Bacen: a) A emissão de papel-moeda e moeda metálica conforme a demanda do sistema financeiro e da população; b) O recebimento dos depósitos compulsórios dos bancos comer- ciais; c) Realizar a operação de redesconto conforme as necessidades dos bancos comerciais; d) Regulação do serviço de compensação de cheques e outros papéis; e) Efetuar a venda e compra de títulos da dívida pública federal; f) Controlar o crédito, bem como sua multiplicação; g) Fiscalizar e, se necessário, punir as instituições financeiras. 7.4 Estudo de caso: a inflação no Zimbabwe (África) O índice anual de inflação alcançou um nível recorde de 231 milhões por cento no Zimbabwe em meados de 2010. A informação foi publicada pelo jornal estatal “The Herald”, citando estatísticas oficiais do governo. Administração e Economia – 168 – A economia do Zimbabwe está arruinada por uma inflação fora de controle, uma taxa de desemprego próxima dos 80% e uma série de carên- cias básicas. Aproximadamente 80% de sua população vive abaixo do patamar de pobreza. Uma luta política entre o atual governo e a oposi- ção também mantém o país em turbulência. Para tentar frear o aumento dos preços, as autoridades multiplicaram em vão as medidas econômicas, entre elas a desvalorização da moeda e o lançamento de novas notas, com o “corte” de dez zeros – antes, o país chegou a lançar uma nota de 100 bilhões de dólares zimbabuanos. Algumas lojas da capital Harare também foram autorizadas a negociar em moeda estrangeira. Uma nota de 20 mil dólares zimbabuanos já circula no país e são distribuídas em massa pelo governo. As notas são feitas de papel inferior e sem medidas de segurança como marcas d´água. Atividades 1. Qual é o impacto da inflação nas famílias com rendimento fixo, sobretudo nas de baixo rendimento? 2. Qual é o principal objetivo na adoção de um programa de metas para a inflação? 3. Qual a relação da meta de inflação com o planejamento financeiro de médio e longo prazos de uma empresa? 4. Como o governo faz para medir a inflação, em especial, o IPCA? 8 Políticas macroeconômicas e comércio internacional As políticas macroeconômicas são mecanismos do governo federal para gerar estabilidade econômica e, consequentemente, crescimento econômico. As mais utilizadas são as políticas fis- cal, monetária e cambial. A política fiscal é um instrumento que o governo dispõe para arrecadar tributos, controlar as despesas e efetuar investimentos, que está sob a gestão do Ministério da Economia. A política monetária é um instrumento que serve para con- trolar a liquidez do sistema econômico. Dessa forma, controla o nível das taxas de juros em toda a economia e está sob a gestão do Banco Central (Bacen). A política cambial é um instrumento que atua sobre a taxa de câmbio por meio dos regimes cambiais e está sob gestão do Banco Central (Bacen). Vamos compreender e analisar cada uma delas. Administração e Economia – 170 – 8.1 Política Fiscal A política fiscal possui dois fluxos: a arrecadação e os gastos. Quando a arrecadação supera o valor dos gastos, temos um superávit e, quando a arrecadação é menor que os gastos do governo, um déficit. Atenção: déficit é uma situação em que o governo gasta mais do que arrecada, logo, parte de seus gastos não foi financiada pela arrecada- ção. Isso significa que é preciso financiar os gastos públicos, e isso pode ser feito por emissão de moeda, o que tende a gerar inflação, ou por meio da emissão de títulos públicos. A política fiscal, como mencionado, pode gerar crescimento econô- mico através de uma política expansionista. A política fiscal expansionista funciona da seguinte forma: 2 aumento dos gastos públicos (em investimento público, como estradas, portos, aeroportos, universidades, hospitais etc.); 2 redução da carga tributária (estímulo ao investimento privado e ao consumo das famílias). Já a política fiscal restritiva utiliza o processo inverso: 2 redução dos gastos públicos; 2 aumento da carga tributária (desestímulo ao investimento pri- vado e ao consumo das famílias). Uma política fiscal restritiva acontece quando os déficits se tornam elevados e há um descontrole das finanças públicas. O quadro a seguir apresenta os efeitos multiplicadores de políticas fiscais. Quadro 8.1 – Efeitos da Política Fiscal Expansiva Restritiva Aumento dos gastos públicos e redução da carga tributária Reduçãodos gastos públicos e aumento da carga tributária Aumento nos investimentos Aumento no nível de emprego Redução nos investimentos Queda no nível de emprego – 171 – Políticas macroeconômicas e comércio internacional Expansiva Restritiva Aumento dos gastos públicos e redução da carga tributária Redução dos gastos públicos e aumento da carga tributária Aumento na renda Aumento no consumo Crescimento econômico Queda na renda Queda consumo Recessão Fonte: elaborado pelo autor. 8.2 Política Monetária O grande objetivo da política monetária é controlar a oferta da moeda através do Banco Central. O Banco Central possui três canais para controlar a oferta de moeda e, consequentemente, a liquidez do sistema financeiro. 2 Depósitos compulsórios: referem-se aos depósitos que os ban- cos comerciais efetuam junto ao Bacen a partir de seus depósitos à vista (Bacen controla o valor); 2 Operação de open market: é a compra e a venda de títulos públi- cos balizados pela Selic; 2 Redesconto: liberação de recursos do Bacen a bancos comerciais. Todos os depósitos na rede bancária podem ser utilizados pelos ban- cos comerciais para empréstimo, e é assim que os bancos lucram. No entanto, 10% deve ficar nas agências, ou em uma tesouraria, para saques diários. Com isso, sobram 90% dos recursos para empréstimos. Porém, existe um elevado risco se todos os bancos do sistema financeiro empres- tarem esses 90%, uma alta inadimplência e até mesmo os calores. O Banco Central criou uma espécie de trava, o depósito compulsório, para conter esses empréstimos e a multiplicação do dinheiro na economia. Desse modo, o Bacen também pode ter controle sobre as taxas de juros. A operação de open market é o meio de financiar o tesouro. Lem- bra de que, quando temos um déficit, o governo emite títulos públicos? Administração e Economia – 172 – Essa operação é a gestão dos títulos públicos emitidos pelo tesouro. Como os principais compradores são os bancos comerciais, o Bacen, além de intermediar a dívida pública, controla as taxas de juros, trocando títulos por dinheiro e vice-versa. O redesconto é uma situação de socorro aos bancos, usada em casos extremos como uma possível insolvência. A política monetária também é utilizada para gerar estabilidade eco- nômica e crescimento. A política monetária expansionista, ou expansiva, utiliza os canais da seguinte forma: 2 depósito compulsório – Bacen REDUZ taxa do compulsório junto aos bancos; 2 open market – Bacen COMPRA títulos; 2 redesconto – Bacen REDUZ a taxas de empréstimos e AUMENTA prazos para pagamento aos bancos. As consequências desses procedimentos são: 2 AUMENTO da liquidez do sistema econômico; 2 REDUÇÃO nas taxas de juros. Com um maior volume de dinheiro em circulação, as taxas de juros reduzem, estimulando a atividade econômica. Entretanto, assim como a política fiscal, a monetária também pode ser restritiva, da seguinte forma: 2 depósito compulsório – Bacen AUMENTA taxa do compulsó- rio junto aos bancos; 2 open market – Bacen VENDE títulos; 2 redesconto – Bacen AUMENTA a taxas de empréstimos e REDUZ prazos para pagamento aos bancos. Esses procedimentos reduzem o volume de dinheiro na economia e, consequentemente, aumentam as taxas de juros. – 173 – Políticas macroeconômicas e comércio internacional As consequências desses procedimentos são: 2 REDUÇÃO da liquidez do sistema econômico; 2 AUMENTO nas taxas de juros. O quadro a seguir apresenta os efeitos multiplicadores da política monetária expansionista e restritiva. Quadro 8.2 – Efeitos da Política Monetária Expansiva Restritiva Aumento na oferta de moeda Reduz a taxa de juros Eleva o nível de investimentos Eleva o nível de emprego Eleva o nível de renda Aumenta o consumo Crescimento econômico Diminui oferta de moeda Eleva a taxa de juros Reduz o nível de investimentos Reduz o nível de emprego Reduz o nível de renda Reduz o consumo Recessão Fonte: elaborado pelo autor. 8.2.1 Equilíbrio no Mercado Monetário O equilíbrio no mercado monetário ocorre quando a oferta e a demanda por moeda alcançam uma determinada taxa de juros que atenda tanto a demanda quanto a oferta, conforme gráfico a seguir. Figura 8.1 – Equilíbrio: o Mercado Monetário OM (Oferta de Moeda) DM (Demanda de Moeda) Etx Taxa de Juros Quantidade de Moeda Fonte: elaborada pelo autor. Administração e Economia – 174 – Os gráficos em seguida demonstram movimentos na oferta monetária e os impactos na taxa de juros. Figura 8.2 – Política Monetária Expansionista → Efeito: redução na taxa de juros DM Etj1 Taxa de Juros Quantidade de Moeda E´ OM´ OM tj2 Aumento na oferta monetária Fonte: elaborada pelo autor. Figura 8.3 – Política Monetária Restritiva → Efeito: aumento na taxa de juros DM E´tj2 Taxa de Juros Quantidade de Moeda OM OM´ tj1 Redução na oferta monetária E Fonte: elaborada pelo autor. Um aumento na oferta monetária, mantendo as demais variáveis constantes, tende a reduzir as taxas de juros no sistema financeiro. Uma redução tende a gerar um aumento nas taxas de juros. – 175 – Políticas macroeconômicas e comércio internacional Esse movimento é de extrema importância para a atividade econô- mica, pois as taxas de juros no sistema financeiro influenciam o nível de investimento na economia. Dentro desse contexto, a expectativa de lucro é a variável que irá determinar a decisão de investir por parte dos empresários. Entretanto, essa expectativa é baseada a partir da Taxa Interna de Retorno (TIR) de um investimento, a qual é confrontada com o custo do capital, ou seja, com a taxa de juros vigente no mercado financeiro. Logo, a decisão de investir depende das taxas de juros. Quanto maior for a taxa de juros, menor será o nível de investimento e vice-versa, ou seja, o investimento é inverso à taxa de juros. Em um cenário de política monetária restritiva, onde os juros são altos, o investimento privado reduzirá. Em um cenário expansionista, os juros reduzem e os investimentos aumentam. Figura 8.4 – Relação Investimento versus Juros → Um aumento na taxa de juros reduz o nível de investimentos. Taxa de Juros Nível de investimento tj2 tj1 Níve de investimento ni2 ni1 Fonte: elaborada pelo autor. 8.3 Política Cambial O objetivo da política cambial é a administração da taxa de câmbio e o controle das operações cambiais, buscando o equilíbrio das contas externas a partir das relações com o resto do mundo. Administração e Economia – 176 – Taxa de câmbio é o preço de uma moeda em relação a outra. Quando falamos em política cambial, estamos falando na relação entre real (R$) e dólar (US$), pois o dólar se tornou a moeda de referência para transa- ções internacionais. A determinação da taxa de câmbio pode ocorrer de duas formas: 2 institucionalmente – decisão das autoridades econômicas com a fixação periódica das taxas (taxas fixas de câmbio); 2 funcionamento do mercado – as taxas flutuam em decorrên- cia das pressões de oferta e demanda por divisas estrangeiras (taxas flutuantes). Os movimentos de demanda e oferta de moeda estrangeira alteram a taxa de câmbio. Demanda: decorre das importações e de todas as opera- ções que resultam na saída de moeda estrangeira do país. Oferta: é decor- rente das exportações e de todas as operações que dão origem à entrada de moeda estrangeira no país. O gráfico a seguir demonstra um equilíbrio na taxa de câmbio a partir de um determinado nível de demanda e de oferta de dólares, por exemplo. Figura 8.5 – Taxa de Câmbio Taxa de câmbio Quantidade US$ O UU$ D UU$ Fonte: elaborada pelo autor. Deixar a taxa de câmbio completamente livre para flutuar, no entanto, tende a gerar muita incerteza. Imagine uma empresa que vai importar um – 177 – Políticas macroeconômicas e comércio internacional equipamento, cujo pagamento ocorrerá no futuro, ou um exportador que não tem nenhuma previsão sobre o câmbio. Torna-se, assim, muito difícil qualquer tipo de planejamentofinanceiro. Controlar a taxa de câmbio também torna o Banco Central um refém. É necessário passar o dia interferindo no mercado de câmbio. Os bancos centrais costumam interferir na taxa de câmbio de forma distinta, por meio de regimes cambiais. 8.3.1 Regimes Cambiais Regimes cambiais são um conjunto de regras e instituições que regu- lam o funcionamento do mercado cambial. Principais regimes: 2 câmbio fixo – o valor da taxa é determinado pelo Bacen através de intervenções no mercado. 2 câmbio flutuante – a taxa é determinada a partir da oferta e da demanda da moeda estrangeira (mercado). 2 bandas cambiais – adoção de limiares mínimos e máximos para a taxa de câmbio. O Brasil adotou esse regime no período de 1995 a 1999 (isso foi propiciado pela elevada reserva de dólares no país). Figura 8.6 –Bandas Cambiais Cotação Limiar Máximo Limiar Mínimo Fonte: elaborada pelo autor. 2 Dirty floating – a expressão dirty floating quer dizer flutuação suja. Nesse regime, ocorre um misto entre câmbio fixo e câmbio Administração e Economia – 178 – flutuante, ou seja, a taxa de câmbio flutua, mas ocorrem inter- venções do Bacen quando necessário. A maioria dos países utiliza o dirty floating, e as mudanças na taxa de câmbio são denominadas de valorização e desvalorização cambial. Esse regime é parecido com as bandas, ou seja, há um limiar mínimo e um liminar máximo para taxa de câmbio, no entanto, nesse caso, a abertura é maior, a taxa pode flutuar até certo ponto, em que se comprometem os preços internos (inflação), por exemplo. 2 Valorização: a moeda nacional se torna mais forte, é preciso menos reais (R$) por dólar (US$) – significa uma queda na taxa de câmbio. 2 Desvalorização: a moeda nacional se torna mais fraca, é preciso mais reais (R$) por dólar (US$) – significa um aumento na taxa de câmbio. 8.4 Tripé macroeconômico Os três pilares da economia brasileira, estruturados em conjunto com o FMI (Fundo Monetário Internacional), a partir de janeiro de 1999, esta- beleceram metas para inflação, superávit primário e câmbio. A taxa de câmbio flutuante, no regime dirty floating, para ajustar as contas externas; taxa de juro real, para garantir o cumprimento das metas de inflação; supe- rávit primário crescente, para conter o endividamento do setor público. 2 As metas são: 2 metas de inflação; 2 superávit primário; 2 câmbio flutuante. A proposta do tripé é criar um ambiente estável. A estabilidade macroeconômica é fundamental para uma economia gerar investimentos e, consequentemente, crescimento econômico. A Figura 8.7 ilustra a ideia. – 179 – Políticas macroeconômicas e comércio internacional Figura 8.7 – Tripé Macroeconômico Câmbio flutuante Metas fiscais Crescimento sustentado Metas fiscais Fonte: elaborada pelo autor. O que está por trás do “tripé”? Ou seja, de que forma o tripé pode assegurar as metas? As metas são cumpridas por meio das políticas macroeconômicas: 2 política monetária; 2 política cambial; 2 política fiscal. Quando há uma instabilidade macroeconômica e os indicadores começam a sair das metas, inflação e dívida pública elevada, por exemplo, as políticas macroeconômicas entram em ação. Nesse caso, políticas res- tritivas, monetária e fiscal atuam para ajustar preços e dívida. As metas são fundamentais para fornecer uma previsibilidade da con- dução da política econômica ao longo do tempo. Administração e Economia – 180 – 8.5 Comércio Internacional 8.5.1 Balanço de Pagamentos (BP) Conforme o FMI, balanço de pagamentos é o “registro sistemático das transações econômicas, durante um dado período de tempo, entre os seus residentes e os residentes do resto do mundo”. Os registros no BP são normalmente efetuados em dólares norte- -americanos (US$) a partir das seguintes subdivisões: 2 conta corrente – exibe todos os fluxos que afetam diretamente a renda nacional presente. A conta corrente subdivide-se em: balanço comercial, balanço de serviços, balanço de rendas e balanço de transferências unilaterais correntes. Balanço de tran- sações correntes é o somatório dessas quatro subcontas. 2 conta de capital e financeira – registra os fluxos de todos os ativos internacionais que irão afetar a renda nacional futura. A conta capital e financeira subdivide-se em: movimentos de capi- tais autônomos e fluxos de capitais compensatórios. Na perspectiva contábil, o balanço de pagamentos é um registro das transações de um país com o mundo exterior. Na perspectiva econômica, o balanço de pagamentos é o resultado síntese do funcionamento global da economia nacional, é a expressão das condições conjunturais e estru- turais da economia nacional e, também, reflexo de eventos ocorridos na esfera mundial. 8.5.2 Determinantes das exportações a) Renda mundial: um aumento na renda mundial tende a estimu- lar o consumo no âmbito mundial, propiciando um aumento nas exportações. b) Taxa de câmbio: uma desvalorização na taxa de câmbio esti- mula as exportações. c) Preços externos: um aumento nos preços internacionais estimu- lará as exportações. – 181 – Políticas macroeconômicas e comércio internacional d) Preços internos: um aumento dos preços dos produtos exportá- veis no mercado interno provocará uma redução nas exportações. e) Incentivos à exportação: estímulos ao setor exportador como subsídios e políticas públicas tendem a elevar as exportações. 8.5.3 Determinantes das importações a) Renda nacional: um aumento no produto e na renda nacional provocará um aumento nas importações como de matérias-pri- mas, bens de consumo e bens de capital. b) Taxa de câmbio: um aumento na taxa de câmbio, desvalorização cambial, inviabiliza as importações. c) Preços externos: um aumento nos preços externos provocará uma queda nas importações. d) Preços internos: um aumento nos preços dos produtos internos provocará uma elevação nas importações. e) Barreiras: a imposição de barreiras tarifárias e não-tarifárias pode provocar uma redução nas importações. 8.5.4 Balança Comercial (BC) A balança comercial registra as transações de compra (importação) e venda (exportação) de produtos tangíveis ou bens. As mercadorias são registradas pelo valor de mercado no local do embarque sem computar as despesas com seguro e transporte (modalidade free on board). O saldo na balança comercial é a diferença entre a exportação e a importação de bens: BC = Xb – Mb Em que: BC = Saldo da balança comercial Xb = Exportação de bens Mb = Importação de bens Administração e Economia – 182 – Superávit e déficit na balança comercial: 2 Superávit na balança comercial – acontece quando as exporta- ções são maiores (em US$) que as importações, ou seja, há uma entrada maior de divisas (US$) no país, e o saldo é positivo. 2 Déficit na balança comercial – acontece quando as importações são maiores (em US$) que as exportações, ou seja, há uma saída de divisas e o saldo é negativo. O quadro a seguir demonstra um exemplo: Quadro 8.3 – Exemplo: Balança Comercial Economia A Economia B Economia C Xb 200 80 90 Mb 150 120 90 Bc 50 -40 0 Fluxo real saída de bens entrada de bens equilíbrio Fluxo monetário entrada de bens saída de bens equilíbrio Situação superávit comercial déficit comercial equilíbrio Fonte: elaborado pelo autor. 8.5.5 Regulação do Comércio Internacional (GATT e OMC) GATT: Acordo Geral sobre Tarifas e Comércio, firmado em 1947. O objetivo é reduzir tarifas efetivadas no pós-guerra sob liderança dos Esta- dos Unidos e da Inglaterra, constituído por 23 nações. – 183 – Políticas macroeconômicas e comércio internacional Apesar de ser um acordo, na época, provisório, permaneceu por 47 anos até a Rodada do Uruguai, em 1994, quando foi criada a Organização Mundial do Comércio (OMC). Funções da OMC: 2 facilitar a implantação dos acordos e instrumentos jurídicos negociados; 2 servir de foro para negociações de regras multilaterais para a liberalização do comércio; 2 supervisionar a aplicação de regrasacordadas por meio de seus comitês e conselhos; 2 implementar o mecanismo de exame das políticas comerciais; 2 cooperar com o FMI e o Banco Mundial. 8.5.6 Regulação Muitos países utilizam barreiras tarifárias e não tarifárias em suas políticas comerciais. Tarifas de importação: instrumento de política comercial. 2 Imposto específico: montante cobrado por unidade de produto importado; 2 Ad valorem: imposto cobrado como um percentual do preço. Tem como finalidade proteger setores produtivos de uma nação da concorrência externa. As barreiras não tarifárias se transformaram em instrumentos de controle das importações. Exemplo: ISO, padrões de qualidade, medidas fitossanitárias, normas etc. O objetivo da adoção de tarifas é proteger o mercado interno. Mesmo em um ambiente mundial cada vez mais globalizado, a maioria das nações protege seu mercado interno por meio de barreiras tarifárias e não tarifárias. Administração e Economia – 184 – As não tarifárias são, na verdade, barreiras sutis, ou seja, procuram impedir a entrada de um produto em sua economia sem gerar conflito ou retaliação. Muitos países, inclusive os mais desenvolvidos e mais liberais, utilizam, ou já utilizaram, mecanismos protecionistas. 8.5.7 Protecionismo Os principais argumentos para adoção de medidas protecionistas são: 1. Proteção à Indústria Nascente A indústria nascente é a etapa do desenvolvimento em que a indústria ainda não alcançou um nível de produção que lhe permita beneficiar-se das economias de escala. Seu objetivo é garantir certa reserva de mer- cado, tornando-se livre da concorrência com indústrias maduras. É um dos argumentos mais antigos de proteção e foi constatado pelo economista Friedrich List. A proteção à indústria alemã, por exemplo, foi fundamental para sur- gir a vantagem comparativa – a indústria nascente alemã seria asfixiada pela indústria inglesa. Foi a política comercial de países como Estados Unidos, Alemanha e Japão. No Brasil, foi a política comercial do Plano de Metas de JK nos anos de 1950/60. 2. Redução do Desemprego A política externa tem o sentido de geração de empregos, em especial os empregos gerados no setor industrial com disseminação para os demais setores da economia como o terciário. A ausência de uma proteção tende a gerar desemprego no país importador. Exemplo: o aumento da demanda por carros japoneses nos EUA acabou em um acordo entre os governos de tais países – o Japão efetuou restrições às exportações de carros para os EUA. 3. Estímulo à Substituição de Importações Trata-se da política adotada por países menos desenvolvidos, tradi- cionais exportadores de produtos primários e importadores de manufatu- rados. Há casos como da América Latina, em que a capacidade de impor- tar manufaturados essenciais para o crescimento econômico era perdida por falta de divisas (receita cambial). – 185 – Políticas macroeconômicas e comércio internacional Para tanto, há a necessidade de intervenção do Estado para promover o desenvolvimento de uma indústria dinâmica capaz de substituir os pro- dutos importados. No Brasil, o Processo de Substituições de Importação (PSI) é um bom exemplo. 4. Diferença entre Salários (Indústria e Agricultura) Ocorre em economias dualistas, com a presença de um setor agrícola de subsistência e uma indústria dinâmica. Com isso, defender a indústria interna significa fazer uma compensação setorial para equalizar as distor- ções na renda. 5. Impedimento ao Comércio Desleal Cada nação deve exportar seus produtos a preços justos, concorrendo lealmente com a indústria interna da nação importadora. O comércio des- leal distorce e até destrói a vantagem comparativa. As práticas de subsídios e dumping acabam por constituir a própria expressão de relações desleais de negócios internacionais. Subsídio: é a concessão de um benefício por parte do governo para as empresas exportadoras (aumentar exportações e reduzir as importações). O objetivo é a inserção no mercado externo atra- vés de guerra de preços que visa o domínio sobre tal mercado. A prática desleal mais conhecida é o dumping, uma prática comercial em que o preço do produto fica, muitas vezes, abaixo do custo. Ou seja, o preço é inferior ao cobrado pelo próprio país exportador em seu mercado interno. O objetivo é a inserção no mercado externo através de guerra de preços que visa o domínio sobre tal mercado. 8.5.7.1 Tipos de Dumping 2 Dumping predatório: penetração de mercado com o objetivo de expulsar os concorrentes. 2 Dumping esporádico: ocorre em casos de excesso de oferta – o excedente de produção é desovado no mercado externo com preço menor que do mercado interno importador (erro de plane- jamento ou crise local). Administração e Economia – 186 – 2 Dumping persistente: esforço de empresas em concorrên- cia monopolista para maximizar lucro. No mercado interno, a empresa não enfrenta uma concorrência significativa, mas, no mercado externo, a concorrência é mais acirrada. Isso leva as empresas a praticarem um preço mais elevado no mercado interno (baixa concorrência) e um preço mais baixo nos merca- dos externos (elevada concorrência). Medidas antidumping têm sido cada vez mais utilizadas nos negó- cios internacionais. Muitos países adotam tais medidas como uma regra. A maioria das nações procura proteger setores específicos com medidas antidumping, sobretudo setores como: metais (produtos siderúrgicos); bens de capital (máquinas e equipamentos); química, plástico, papel e celulose; têxtil. As medidas antidumping visam anular o dano à indústria doméstica. 8.6 Segurança Nacional Tem como objetivo proteger determinada indústria que é considerada fundamental para a defesa do país. Indústria bélica, energia e agricultura, por exemplo. 8.7 Balanço de pagamentos Desequilíbrios na balança comercial que refletem no balanço de pagamentos podem gerar crises cambiais. O protecionismo se justifica para evitar tais desequilíbrios e crises cambiais. A própria OMC permite restrições às importações para nações que estão com desequilíbrios nas contas externas. Atividades 1. O que define a moeda é sua liquidez, ou seja, a capacidade que possui de ser um ativo prontamente disponível e aceito para as – 187 – Políticas macroeconômicas e comércio internacional mais diversas transações. Além disso, três outras características a definem: (A) Instrumento de troca, valor de troca, ter a esfinge de um líder político; (B) Instrumento de troca, denominador comum e reserva de valor; (C) Valor de troca, compra de bens, possuir valor de face; (D) Denominador comum, possuir valor de face, compra de bens; (E) Gerar inflação, possuir valor de face, instrumento de troca. 2. Leia o texto a seguir sobre a política cambal adotada no Plano Real: Como o câmbio passou a funcionar a partir de 1999, quando pas- sou a ser flutuante? Em meio a uma crise cambial e com as reservas em dólares do Bra- sil esvaziadas, em janeiro de 1999, o BC emitiu um comunicado: “a partir de hoje, o Banco Central deixará que o mercado interbancá- rio defina a taxa de câmbio”. Na prática, isso era uma permissão para que os bancos compras- sem e vendessem dólares entre si, sem o intermédio ou a interven- ção do BC. O valor do dólar em relação ao real deixou de ser a principal forma de controle inflacionário e seu valor passou a osci- lar de acordo com a oferta e a demanda do mercado. O BC, então, parou definitivamente de interferir no câmbio a par- tir de 1999? Não. Ao comunicar o mercado que o câmbio passaria a ser flutu- ante, o BC também informou o seguinte: “o Banco Central poderá intervir nos mercados, ocasionalmente e de forma limitada, com o objetivo de conter movimentos desordenados das taxas de câm- bio”. O que isso significa na prática é que o BC, mesmo com câm- bio flutuante, pode intervir no mercado caso o valor do dólar em relação ao real chegue a um patamar que, por algum motivo, seja considerado muito alto ou muito baixo. Administração e Economia– 188 – É por isso que esse regime cambial é chamado de “flutuante sujo”, ao contrário do “flutuante puro”, em que não há nenhum tipo de interferência. 1994 Câmbio fixo Logo que o real foi adotado como moeda no Brasil, o governo fixou o câmbio em R$1 por dólar. De 1995 a 1999 Câmbio fixo “deslizante” ou Regime de Banda Cambial O BC estabelecia uma banda limitando o crescimento e a queda do câmbio. De 1999 até agora Câmbio flutuante “sujo” O valor do dólar passou a oscilar de acordo com oferta e demanda, porém com algumas ações do BC. Atualmente, o regime cambial utilizado pelo Bacen é o flutuante com intervenção, ou seja, a princípio o Bacen não interfere no mer- cado de câmbio. A partir dessa política, a taxa de câmbio é esta- belecida pela oferta e demanda de dólares na economia brasileira, sofrendo intervenções quando necessário. Suponha que ocorra uma saída expressiva de dólares do país, reduzindo as reservas cam- biais, o que pode ocorrer com as seguintes variáveis? 2.1) Taxa de câmbio (US$). Justifique. 2.2) Preços dos produtos internos que dependem de importa- ção. Justifique. 2.3) Apresente alternativas que o Banco Central possui para rever- ter tal situação de forma rápida. 9 Teoria da firma: produção e custos Quando falamos em produção, é importante pensar não ape- nas nos produtos, mas também nos fatores de produção: Terra, trabalho, capital e empreendedorismo. Além disso, temos a tecnologia: método de combinação dos fatores eco- nômicos de produção, é o conjunto de processos de produção que conhecemos. Para produzir qualquer tipo de bem, como um veículo, por exemplo, é preciso combinar esses fatores econômicos de pro- dução, lembrando que, como tais recursos são escassos, a efi- ciência produtiva é essencial para o crescimento sustentável de uma economia. Com isso, podemos afirmar que a empresa (ou firma) é a unidade básica do sistema econômico, em especial, do sistema capitalista de produção e, consequentemente, de uma economia de mercado. Administração e Economia – 190 – Como já mencionado, a tecnologia é essencial para a utilização efi- ciente dos fatores econômicos de produção, ou seja, é possível produzir de diferentes formas. Por exemplo, utilizando-se de mais mão de obra do que de capital, ou vice-versa. Sendo assim, os conceitos de eficiência técnica e eficiência econômica são fundamentais (PASSOS, 2016). 2 Eficiência Técnica: o método de produção é tecnicamente mais eficiente se permitir a obtenção da mesma quantidade de produto que os outros métodos com a utilização de menor quantidade de todos os fatores econômicos de produção. 2 Eficiência Econômica: o método de produção é economica- mente mais eficiente se permitir a obtenção da mesma quanti- dade de produto que os métodos alternativos ao menor custo. Desse modo, a empresa deve buscar a melhor combinação possível para obter a eficiência. A teoria de produção analisa a empresa como uma unidade produtiva e utiliza instrumentos matemáticos para medição de sua eficiência. Para essa teoria, a empresa funciona como uma função de produção. Existem outros aspectos que refletem na produtividade, o valor do salário, e até subjetivos, como o ânimo dos trabalhadores, mas não serão captados por essa teoria. A função de produção é a relação que indica a quantidade máxima que se pode obter de um produto, em um determinado período de tempo, conforme o volume de utilização de quantidades de fatores econômicos de produção. Então: Q = ƒ (L, K, T) Onde: Q: quantidade produzida L: trabalho K: capital T: terra – 191 – Teoria da firma: produção e custos Os fatores econômicos de produção, conforme Passos (2016), podem ser fixos e variáveis. Os fatores fixos não podem ser alterados no curto prazo. Por exemplo: a ampliação de um parque industrial ou um novo edifício, uma vez que esses exemplos envolvem obras, bem como aquisição de matéria-prima e projeto de viabilidade técnica e econômica. Os fatores variáveis podem se alterar no longo prazo, na verdade, todos os fatores podem mudar no longo prazo. Logo, no longo prazo, o tamanho da empresa pode alterar, ou seja, pode ampliar sua capacidade produtiva com a aquisição de mais máquinas e equipamentos, como pode reduzir sua produção, vendendo tais máquinas e equipamentos. No curto prazo, pelo menos um dos fatores econômicos de produção é fixo. Nos exemplos que iremos utilizar, o fator terra e capital serão fixos, e o fator trabalho variável. No longo prazo, todos os fatores são variáveis – o tamanho da empresa pode mudar (PASSOS, 2016). 9.1.1 Produção no Curto Prazo Uma vez estipulado o período da produção, iremos focar a produção nesse período por meio de um exemplo. Suponha uma fazenda que cultiva trigo. No curto prazo, não é possível ampliar a área, pois o fazendeiro pre- cisaria adquirir novas terrar (se estiverem à venda), tratar a terra e depois iniciar o cultivo. Isso só será possível no longo prazo. Exemplo: Q = ƒ (L) Exemplo: área de cultivo de trigo. Fator terra é fixo. Fator trabalho é variável. Logo, para aumentar a produção, deverá aumentar a mão de obra, ou seja, o fator trabalho. Como a produção se comporta à medida que o número de trabalhadores se altera? Perceba que o fator trabalho é variável porque, normalmente, há mão de obra disponível no mercado de trabalho, bastando fazer uma seleção de pessoas conforme perfil desejado. Administração e Economia – 192 – Curva de Produção Total À medida que combinamos unidades adicionais de um fator de produção variável a um dado montante de fatores de produção fixos, a produção, inicialmente, cresce. Em seguida, atinge um valor máximo e, depois, decresce. Vamos agora para os principais conceitos e fórmulas para medir a produtividade dos fatores econômicos de produção. Produto Médio (Pme), ou Produtividade O Pme é a divisão da produção total (Q) pela quantidade do fator variável, ou seja, neste exemplo, trabalho (L). Pme = QL O Pme aumenta à medida que a quantidade empregada de mão de obra aumenta, alcança um máximo e, então, decresce. Produto Marginal (Pmg) O Pmg é a variação na produção total decorrente da variação de uma unidade no fator de produção variável. Pmg = ▲Q▲L O Pmg inicialmente cresce, depois decresce, chega a zero e pode ser negativo. Por que o produto total (Q), o produto médio (Pme) e o produto mar- ginal (Pmg) têm esse comportamento? Responderemos mais à frente! O exemplo da área de cultivo de trigo está expresso na Tabela 4.1. O fator terra (T) representa 10 hectares e é o fator fixo. O fator trabalho (L) aumenta de uma em uma unidade, formando 9 simulações de nível de pro- dução (de 0 a 8 trabalhadores no cultivo de trigo). A quantidade produzida em toneladas (Q) aumenta à medida que uma unidade a mais do fator tra- balho (L) é inserida no processo, mas para de crescer e, depois, decresce. Na quarta coluna da Tabela 4.1, temos o Pme e, na quinta, o Pmg. – 193 – Teoria da firma: produção e custos Tabela 9.1 – Cultivo de trigo T L Q Pme Pmg Q/L ▲Q/▲L 10 0 0 0 0 10 1 10 10 10 10 2 22 11 12 10 3 39 13 17 10 4 52 13 13 10 5 60 12 8 10 6 60 10 0 10 7 56 8 -4 10 8 48 6 -8 Fonte: elaborada pelo autor a partir de Passos (2016). Perceba que, à medida que se insere uma unidade do fator variável, neste exemplo, o fator trabalho (L), tanto o Pme como o Pmg, assumem o mesmo comportamento: a produção de trigo cresce, estaciona, mesmo com mais uma unidade de “L”, e passa a ser decrescente. As figuras 4.1 e 4.2 demonstram o comportamento das curvas do pro- duto total (Q), ou seja, a quantidade de trigo produzida em cada situação, e as curvas do Pme e do Pmg. Figura 4.1 – Produto Total (Q) 1 2 3 4 5 6 7 8 9 40 50 60 10 20 30 0 70 Fonte: elaborada a partir de Passos (2016) Administração e Economia – 194 – Figura 9.2 – PME E PMG 10 5 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 15 20 – 5 – 10 Pme Pmg Fonte: elaborada a partir de Passos (2016). As formas das curvas de Pme e Pmg derivam do formato da curvade produto total, ou seja, crescem inicialmente, atingem um máximo e depois decrescem. Imagine: se o fazendeiro for inserindo mais pessoas no cultivo de trigo, com uma área fixa, chegará um momento que os trabalhadores machucarão uns aos outros com a enxada. Trata-se, obviamente, de um exemplo exagerado, mas que demonstra que há um número “ótimo” de trabalhadores em uma empresa, seja ela qual for. Imagine agora uma loja de vestuário: quanto mais vendedores ela tiver mais vai atender? Não. Chegará um momento, exagerando também para ilustração, que terá mais vendedores que clientes na loja. O mesmo vale para uma padaria, quanto mais padeiros, mantendo-se fixos o tamanho da cozinha e o número de fornos, chegará um momento que eles ficarão ociosos, pois não haverá mesas, talheres e fornos sufi- cientes para todos produzirem pães. Isso, inclusive, irá acarretar perdas de insumos, reduzindo a produtividade. Qual é o ponto ideal? – 195 – Teoria da firma: produção e custos Levando em consideração o curto prazo, é quando se obtém o maior Pme e o maior Pmg possível. No exemplo da fazenda de cultivo de trigo, seria na situação quatro, com três trabalhadores, onde o produto total (Q) é 39 toneladas, o Pme é 13 e o Pmg 17. A explicação para isso está no princípio (ou Lei) dos rendimentos decrescentes, também conhecido como princípio da produtividade mar- ginal decrescente. Esse princípio é de fundamental importância para as empresas esta- belecerem o volume de produção ideal no curto prazo. Princípio dos Rendimentos Decrescentes Conforme Hubbard (2010), aumentando a quantidade de um fator de produção variável, enquanto os demais permanecem fixos, a produção total aumentará, mas, a partir de certo ponto, os acréscimos resultantes no produto se tornarão menores. Continuando o aumento na quantidade utilizada do fator variável, a produção alcançará um máximo e, depois, decrescerá. 9.2 Teoria dos Custos A grande motivação de fazer negócio é o lucro, mas um dos maiores focos de atenção do gerenciamento de negócios diz respeito aos custos. É preciso maximizar o lucro, no entanto, minimizar os custos é uma questão de sobrevivência no mercado também. De que forma mensurar, controlar e minimizar os custos? A teoria econômica procura contribuir com a gestão empresarial por meio da teo- ria dos custos, demonstrando como os economistas analisam o comporta- mento dos custos. No curto prazo, os custos irão se comportar de forma parecida com as curvas de produção, mas no efeito contrário, ou seja, iniciam em queda, param de cair e passam a aumentar pelo mesmo princípio. Administração e Economia – 196 – A divisão dos custos, conforme Passos (2016), pode ser dada da seguinte forma: 2 Custos Fixos (CF): associados ao emprego dos fatores econô- micos de produção fixos, como, por exemplo: aluguel, juros, seguros, impostos etc. Esses custos independem da produção, isso quer dizer que, se a empresa está produzindo ou não, terá que pagá-los. 2 Custos Variáveis (CV): associados à utilização de fatores econô- micos de produção varáveis – matéria-prima, energia elétrica, mão de obra etc. Esses custos aumentarão à medida que a produção aumentar e diminuirão com uma queda na atividade produtiva. 2 Custo Total (CT): CT = CF + CV Tabela 9.2 – Distribuição de custos total, fixo e variável Q CF CV CT 0 180,00 0,00 180,00 1 180,00 90,00 270,00 2 180,00 120,00 300,00 3 180,00 135,00 315,00 4 180,00 165,00 345,00 5 180,00 225,00 405,00 6 180,00 360,00 540,00 Fonte: elaborada a partir de Passos (2016). – 197 – Teoria da firma: produção e custos Figura 9.3 – Curva de Custo Fixo 200,00 150,00 100,00 250,00 300,00 50,00 0,00 1 2 3 4 5 6 7 CF 350,00 400,00 Fonte: elaborada a partir de Passos (2016). Figura 9.4 – Curva de Custo Variável 200,00 150,00 100,00 250,00 300,00 50,00 0,00 1 2 3 4 5 6 7 CV 350,00 400,00 Fonte: elaborada a partir de Passos (2016). Administração e Economia – 198 – Figura 9.5 – Curvas de Custo Fixo, Variável e Total 400,00 300,00 200,00 500,00 600,00 100,00 0,00 1 2 3 4 5 6 7 CF CV CT Fonte: elaborada a partir de Passos (2016). 9.2.1 Comportamento da Curva de Custo Variável (CV) O formato da curva deriva da Lei dos rendimentos decrescentes. Enquanto os rendimentos decrescentes não vigoram, o CV aumenta a uma taxa decrescente. Após o início dos rendimentos decrescentes, a concavi- dade da curva configura para cima, crescendo a taxas crescentes. É idêntica à curva de custo total. 9.2.2 Custo Fixo Médio (CFme) e Custo Variável Médio (CVme) A curva de custo fixo médio (CFme) é resultado da divisão do custo fixo pela quantidade produzida. CFme = CFQ O custo fixo é constante; o CFme diminui à medida que a produção aumenta, o que significa que cada unidade do produto responde por uma parcela menor de custo fixo. A curva inclina-se para baixo e para a direita. – 199 – Teoria da firma: produção e custos 9.2.3 Custo Fixo Médio (CFme) e Custo Variável Médio (CVme) O custo variável médio (CVme) é resultado da divisão do custo vari- ável pela quantidade produzida. CVme = CVQ Inicialmente decresce, alcança um mínimo e, depois, cresce. A curva tem a forma de “U”. O CVme é igual ao preço do fator variável (L) divi- dido pelo produto médio do fator variável. 9.2.4 Custo Médio (Cme) e Custo Marginal (Cmg) O custo médio (Cme) é resultado da divisão do custo total pelo volume de produção. Cme = CTQ A curva também tem a forma de “U”. De início, enquanto a produção aumenta, tanto a eficiência dos fatores fixos quanto das variáveis aumenta. Depois, o Cme atinge um mínimo e aumenta em seguida. 9.2.5 Médio (Cme) e Custo Marginal (Cmg) O custo marginal (Cmg) é o acréscimo no custo total resultante do acréscimo de uma unidade de produção. Corresponde ao custo adicional em que se incorre ao produzir mais uma unidade de produto. Cmg = ▲CT▲Q A curva também tem forma de “U“. O Cmg será mínimo quando o Pmg for máximo. A tabela e a figura a seguir são exemplos de como se comportam as curvas de custos no curto prazo. Administração e Economia – 200 – Tabela 9.3 – Distribuição dos Custos 1 2 3 4 5 6 7 8 Q CF CV CT CFme CVme Cme Cmg 0 180,00 0,00 180,00 0,00 0,00 0,00 0,00 1 180,00 90,00 270,00 180,00 90,00 270,00 90,00 2 180,00 120,00 300,00 90,00 60,00 150,00 30,00 3 180,00 135,00 315,00 60,00 45,00 105,00 15,00 4 180,00 165,00 345,00 45,00 41,25 86,25 30,00 5 180,00 225,00 405,00 36,00 45,00 81,00 60,00 6 180,00 360,00 540,00 30,00 60,00 90,00 135,00 Fonte: elaborada a partir de Passos (2016). Figura 9.6 – Curvas de Custos CFme CVme Cme Cmg 150,00 100,00 200,00 250,00 50,00 0,00 1 2 3 4 5 6 300,00 Fonte: elaborada a partir de Passos (2016). 9.3 Custos no Longo Prazo No longo prazo, todos os fatores econômicos de produção são variá- veis. E é no longo prazo que as empresas planejam suas atividades. – 201 – Teoria da firma: produção e custos 9.3.1 Economias, Deseconomias, Retornos Constantes de Escala e Economias de Escopo Conforme Passos (2016), o custo médio de longo prazo (CmeLP) tem o formato de “U”, e, à medida que o tamanho da instalação e a escala de operação se tornam maiores, os custos caem, atingem um mínimo e, depois, se elevam. 9.3.2 Economias de Escala e de Escopo Por que as grandes empresas dominam alguns setores e não outros? Por que atividades como paisagismo, alta costura e gastronomia especializada não utilizam economias de escala ou escopo? Qual o tamanho da empresa que deve ser adotado? As economias de escala e escopo estão presentes em processos de produção, distribuição e varejo em larga escala, em que apresentam van- tagens competitivas por meio de redução de custos. Características de economias de escala: 2 quando o custo médio (Cme) é decrescente, 2 pois os custos médios de uma empresa podem diminuir inicial- mente na medida que a empresa dilui os custos fixos pela produ- ção de maior volume ao longo do tempo. 2 por isso ocorrem, por exemplo,fusões. 2 foco da produção ou prestação de serviços em uma única ativi- dade econômica; 2 divisão e especialização do trabalho; 2 preço dos fatores econômicos de produção: compras em grande proporção possibilitam grandes descontos; 2 maior facilidade na obtenção de empréstimos: capacidade de pagamento maior e facilidade na colocação de ações na bolsa de valores; Administração e Economia – 202 – 2 equipamentos robustos: certas máquinas são viáveis apenas em grandes negócios; 2 eficiência do capital: custo unitário menor reduz o custo médio, gerando economias de escala. Características de retornos constantes de escala: 2 o CmeLP não altera ao longo da produção, mesmo com o aumento da empresa. Características de deseconomias de escala 2 CmeLP aumenta. 2 limitação da eficiência administrativa: problemas de gestão; 2 preço crescente dos fatores econômicos de produção: a crescente demanda por fatores econômicos pode elevar os seus preços. Figura 9.7 – O Comportamento do CmeLP ao Longo da Produção CmeLP Economias de escala Retornos constantes de escala Deseconomias de escala Q CmeLP Fonte: elaborada a partir de Passos (2016). Já a economia de escopo existe se a empresa conseguir fazer economias à medida que aumenta a variedade de bens produzidos ou serviços prestados. O foco está no custo total. CT (Qx , Qy) < CT (Qx , 0) + CT (0 , Qy) É mais barato para uma única empresa produzir conjuntamente X e Y do que para uma empresa produzir X e outra Y. – 203 – Teoria da firma: produção e custos Atividades 1. Uma loja de vestuário feminino apresenta 8 situações que relacio- nam o número de trabalhadores (L) e a quantidade de clientes aten- didos por hora (Q). Como não é possível ampliar a loja no curto prazo, há um limite para o número de trabalhadores e clientes aten- didos. Para tanto, calcule a produtividade média e marginal para essa loja, destacando o nível ideal. Após os cálculos, demonstre o comportamento das curvas em um gráfico. OBS: o fator de produção fixo é a loja, o fator variável é o número de trabalhadores e o número de clientes é a produção por hora. Situação Nº Trabalhadores Pessoas atendidas Produtividade L Q Pme Pmg 0 0 A 1 3 B 2 7 C 3 12 D 4 16 E 5 18 F 6 19 G 7 18 H 8 16 2. Suponha uma empresa que apresenta a estrutura de custos conforme o quadro a seguir para atender seus clientes. Calcule as lacunas de custos em branco e demonstre as curvas de CF, CV e CT em um gráfico e as curvas de CFme, CVme, Cme e Cmg em outro gráfico, destacando o ponto ideal. Administração e Economia – 204 – Clientes Estrutura de Custos (Q) CF CV CT Cfme Cvme Cme Cmg 0 20,00 0,00 1 20,00 12,50 2 20,00 19,37 3 20,00 22,50 4 20,00 27,00 5 20,00 32,50 6 20,00 39,00 7 20,00 48,83 8 20,00 61,00 9 20,00 77,00 10 20,00 100,00 3. As formas das curvas de produto total e de produto marginal ser- vem para ilustrar o princípio dos rendimentos decrescentes. Des- creva esse princípio. 4. A curva de custo fixo médio (CFme), diferentemente das demais, não apresenta o formato de “U” no curto prazo. Explique por que essa curva é diferente. 10 Economia Brasileira Contemporânea: Planos de Estabilização, Inserção na Globalização e os Entraves da Economia Brasileira Conforme estudamos no capítulo anterior, o virtuoso cres- cimento econômico da segunda metade dos anos de 1960 e da década de 1970 foram marcados pelo endividamento externo: o crescimento via endividamento. O ano de 1979 marcou os 12 anos desse modelo, mas o Segundo Choque do Petróleo e o cenário externo mudaram a situação. O ministro do planejamento, Mario Henrique Simonsen, alega que a única alternativa seria um ajuste recessivo para con- trolar a economia. O ministro não tolerava a inflação, adotando políticas fiscal e monetária restritivas. Desse modo, muitas crí- ticas do setor privado, bem como do governo, levaram a uma substituição e Delfim Netto retorna ao comando da economia. Administração e Economia – 206 – Como a dívida externa necessita de reservas cambiais (dólares) para o pagamento, Delfim promoveu uma maxidesvalorização cambial em apro- ximadamente 30% para estimular as exportações (captação de divisas sem custos). Tarifas públicas foram corrigidas e gastos em investimentos redu- zidos, pois, segundo Delfim, o déficit alimentava a inflação (Abreu, 2014). Mas o problema é que o câmbio desvalorizado e as tarifas públicas corrigidas aceleraram a inflação, que saltou de 38% para 93% ao final de 1979. O aumento da inflação promoveu um reajuste semestral dos salários, que eram anuais. Aliado à indexação dos contratos, mesmo com taxas de inflação do passado, instala-se um processo de “inflação inercial” no país. No biênio 1979-80, apesar do cenário inflacionário, o PIB cresceu 8%, fruto de uma expansão das exportações e do crescimento inercial do II PND. A partir de 1981, o ajuste explicitamente recessivo reduziu a demanda interna com intuito de gerar excedentes exportáveis. Nas pala- vras do ministro: exportar é o que importa. O objetivo era aumentar a receita cambial para cumprir as dívidas. A política monetária restritiva atuou sobre o balanço de pagamen- tos, reduziu o déficit em conta corrente (queda na demanda) e empurrou as empresas, inclusive públicas, para o mercado internacional (exporta- ção). O PIB encolheu 2,2%, mas houve uma reversão no déficit na balança comercial, tornando-a superavitária. Apesar disso, as reservas cambiais continuaram caindo, e nem os juros altos foram capazes de atrair capital, o cenário externo era muito ruim. O aumento da inflação atacou fortemente as contas públicas, gerando o efeito Tanzi. O ajuste externo foi bem-sucedido, mas por causa da reces- são e do alto desemprego. Em 1984, iniciam-se os Movimentos Diretas Já! 10.1 Planos de Estabilização Econômica Conforme Abreu (2014), o processo inflacionário havia se tornado uma doença crônica na economia brasileira e havia explicações distintas entre os economistas para a origem desse processo. Trata-se das teorias de viés ortodoxa e heterodoxa. – 207 – Economia Brasileira Contemporânea: Planos de Estabilização, Inserção na Globalização e os Entraves da Economia Brasileira Os ortodoxos veem a inflação, essencialmente, como o resultado de um excesso de demanda, promovido por um governo que gasta além do que arrecada, financiando seus gastos por meio da expansão monetária. Não negam a inflação de custos: quando o governo não é o promotor da inflação, está sendo conivente com ela, sancionando a alta de preços por uma política monetária frouxa. A solução seria o ajuste fiscal e a política monetária restritiva. Já os heterodoxos partem do princípio de que existe a possibilidade teórica da inflação de demanda, porém, no mundo real, em especial nas economias em desenvolvimento, existem gargalos de oferta, que se trans- formam em processos inflacionários pela existência do conflito distributivo. As pressões de custos são fonte de aceleração inflacionária, adqui- rindo um caráter inercial. Diferente dos ortodoxos, há uma ênfase nos efeitos da inflação sobre a distribuição de renda. Dessa forma, a expansão monetária é vista como acomodatícia, sendo um resultado da inflação e não a causa. A solução seria não utilizar de ajustes fiscais e política monetária restritiva, que reduzem o produto, mas não os preços, e sim evitar a inér- cia, desindexando a economia. Com isso, as políticas fiscal e monetária se tornam, de fato, eficientes. Para esse grupo de economistas, a inflação inercial e as expectati- vas adaptativas explicam muito bem o processo: os agentes econômicos olham para a inflação passada na hora de definir os preços futuros, pois ela é a melhor previsão para o futuro. Muitos dos planos de estabilização que vamos estudar agora adota- ram uma única vertente ou um mix de ambas. 10.1.1 Plano Cruzado Conforme Abreu (2014), o Plano Cruzado foi o começo de suces- sivos planos de estabilização econômica. Sua implantaçãose deu em 28 de fevereiro de 1986, sob o Governo José Sarney e o ministro da fazenda Dílson Funaro. Administração e Economia – 208 – O Plano buscou frear a hiperinflação por meio de uma reforma mone- tária e o congelamento dos preços, salários e tarifas públicas. O congelamento de preços é uma forma radical de tentar conter a inflação, pois é a atuação do governo sobre a formação de preços da inicia- tiva privada. Arbitrar sobre os preços já havia ocorrido antes, não somente na economia brasileira, e nunca funcionou. A moeda era o cruzeiro (Cr$), e, com a reforma monetária, foram cortados três zeros e deu-se origem a uma nova moeda, o cruzado (Cz$): Cr$ 1.000,00 = Cz$ 1,00. Os objetivos eram: 1. criar a imagem de uma nova moeda, forte e neutra da inflação; 2. intervenção nos contratos – preços congelados e taxa de câm- bio também. Foi criada a Sunab (Superintendência Nacional de Abastecimento e Preços) e publicada uma lista de preços, quem não a respeitasse, seria multado. Surgiram os fiscais do Sarney; 3. desindexação – era proibida a indexação de contratos com pra- zos de um ano; 4. Índices de Preços e Cadernetas de Poupança (IPC) – as poupan- ças passaram a ter rendimentos trimestrais e não mensais; 5. política salarial – congelamento dos salários, com dissídios anu- ais. Para evitar perdas, sempre que a inflação acumulasse 20%, seria pago um “gatilho salarial”, mas o reajuste não poderia ultrapassar 20%. O sucesso inicial foi estrondoso, o IPC, que estava em torno de 15% ao mês, baixou para praticamente zero nos meses seguintes. Com a estabi- lidade, o emprego cresceu 20% em 1986. O crescimento da economia foi puxado pela capacidade ociosa. O nível de utilização passou de 81% para 86% no quarto trimestre de 1986. Esse crescimento elevou a demanda por moeda e o governo acre- ditava que poderia fazer uma expansão monetária para acomodar tal demanda, mas acabou por promover uma expansão exagerada na oferta de – 209 – Economia Brasileira Contemporânea: Planos de Estabilização, Inserção na Globalização e os Entraves da Economia Brasileira moeda, acarretando uma forte redução nas taxas de juros. Isso promoveu uma expansão do crédito e o boom do consumo. A demanda muito aquecida gerou o desabastecimento dos merca- dos. Produtos que estavam em promoção no dia do congelamento (28 de fevereiro), por exemplo, e tiveram que ficar congelados, foram os primeiros a desaparecer. As filas em busca de mercadorias passaram a se tornar comuns e, com isso, o fenômeno do ágio começou a ser utilizado com frequência. O ágio era um valor extra, cobrado pelas empresas, mas, na verdade, funcionava como uma correção dos preços, ou seja, uma inflação camuflada. O governo percebeu que o aquecimento da economia poderia gerar um colapso de abastecimento, já que os preços estavam congelados, mas descongelá-los parcialmente seria difícil de administrar e descongelá-los totalmente poderia acionar o gatilho e piorar a situação. O volume de importações também estava preocupando os resulta- dos da balança comercial e a necessidade de reservas cambiais (dólares) já era presente. Em meio a isso, o governo começou a se dividir nos rumos da política econômica. Em 23 de julho de 1986, é lançado o “Cruzadinho” – um pacote fiscal para desaquecer o consumo. Em paralelo, o governo pretendia, com o pacote, financiar um plano de investimentos em infraestrutura. Porém, o pacote não foi eficiente para ambos os objetivos. Em novembro de 1986, o PMDB venceu as eleições e anunciou um novo plano: Cruzado II. 10.1.2 Plano Cruzado II Conforme Abreu (2014), o Cruzado II foi uma válvula de escape para o abandono do congelamento. Os preços começaram a ser reajustados e a inflação, em janeiro de 1987, chegou a 16,8%. Com a piora nas contas externas, em fevereiro de 1987, foi solicitada a moratória dos juros externos, o que promoveu uma redução de recursos externos no país. Em abril, o então ministro Dilson Funaro e toda sua equipe pedem demissão. Administração e Economia – 210 – É possível apontar nove erros do Cruzado: 1. o diagnóstico de que a inflação era puramente inercial estava equivocado; 2. os abonos salariais promoviam explosão do consumo, que já ocorre após um plano de estabilização; 3. políticas monetária e fiscal frouxas, sendo que deveriam evitar o aquecimento no consumo; 4. o congelamento durou muito (11 meses, sendo que a previsão era de 3 meses); 5. diferente dos salários, os preços foram congelados em nível cor- rente e não médio, gerando distorções de preços; 6. o gatilho salarial agravou a questão da indexação; 7. a economia informal ficou fora do congelamento; 8. o câmbio fixo detonou as contas externas; 9. a defasagem das tarifas públicas piorou a situação fiscal do governo. Em uma economia de mercado, na maior parcela dos casos, os pre- ços são determinados pelo mercado, pelas forças de demanda e oferta, como estudado nos capítulos iniciais. O governo arbitrar por meio de um congelamento não faz sentido, pois, se algum empresário entende que está perdendo margem de lucro com o congelamento, ele fecha as portas. Isso é comum de ocorrer em períodos de congelamento, a oferta reduz, e, somente isso, já basta para uma volta da inflação com mais força ainda. Plano Bresser O Plano Bresser foi lançado em junho 1987 sob o comando do ministro Luiz Carlos Bresser Pereira. Políticas fiscal e monetária rigo- rosas foram usadas no combate à inflação, bem como o congelamento total de preços por três meses. Mas o problema era que a prática da política de congelamento entrou em descrédito e, desse modo, não foi respeitada (ABREU, 2014). – 211 – Economia Brasileira Contemporânea: Planos de Estabilização, Inserção na Globalização e os Entraves da Economia Brasileira A inflação alta e o déficit elevado foram o alvo das políticas. Sendo assim, o governo elevou impostou e reduziu gastos, inclusive com inves- timentos de grande porte. Como a economia estava muito próxima do pleno emprego, tais investimentos eram essenciais e não foram realizados, o que pressionava mais ainda a inflação. O ministro Bresser Pereira demitiu-se em janeiro de 1988, sendo substituído por Maílson da Nóbrega. 10.1.4 Plano Verão O Plano Verão foi implantado em janeiro de 1989, no verão, sob comando do ministro Maílson da Nóbrega. Foi criada uma nova moeda, o cruzado novo (NCz$), que cortou três zeros: Cz$ 1.000,00 = NCz$ 1,00 (Abreu, 2014). O Plano também adotou o congelamento de preços e salários. A infla- ção baixou no primeiro mês de sua implantação (fevereiro), mas, no mês seguinte, entrou em rota ascendente. Ocorreu um grande aumento da infla- ção, que ultrapassou os 80% ao mês na virada do ano de 1989 para 1990. O comportamento da economia no período de 1985 a 1990 foi mar- cado por uma inflação média de 470% ao ano. Apesar disso, obteve um crescimento do PIB de 4,3% ao ano. No início dos planos, a inflação baixava, forçada pelo congelamento, mas, em seguida, retornava com mais força. 10.1.5 Plano Collor Foi implementado pelo então presidente da República Fernando Collor de Mello, eleito de forma democrática (eleições) após décadas, e sob a tutela da ministra da fazenda Zélia Cardoso de Mello (Abreu, 2014). Em março de 1990, foi reintroduzido o cruzeiro (Cr$), e também foi adotado o congelamento de preços. O Plano Collor pode ser dividido em duas etapas, Collor I e Collor II. Administração e Economia – 212 – O Plano Collor I estava diante de uma inflação mensal de 81%, em março de 1990, e a alternativa encontrada pela ministra foi a desmo- netização da economia, por meio do sequestro de liquidez (confisco da poupança). Todas as aplicações financeiras acima de 50 mil (80% delas) foram bloqueadas por 18 meses, com o objetivo de restringir a liquidez para acabar com a inflação inercial. O congelamento causou uma forte redução no comércio e na pro- dução industrial, e a economia retraiu em 4,3%, com uma forte queda na produção industrial.Com a redução da geração de dinheiro de 30% para 9% do PIB, reti- rou 80% da moeda em circulação, e a taxa de inflação caiu de 81% em março para 9% em junho. As principais medidas foram: 2 80% dos depósitos do overnight, das contas correntes ou das cadernetas de poupança acima de NCz$ 50 mil, foram congela- dos por 18 meses, recebendo, durante esse período, uma rentabi- lidade equivalente à taxa de inflação mais 6% ao ano. 2 substituição da moeda corrente, o cruzado novo pelo cruzeiro à razão de NCz$ 1,00 = Cr$ 1,00. 2 criação do IOF, um imposto sobre as operações financeiras. 2 foram congelados preços e salários. Além disso, foram eliminados vários tipos de incentivos fiscais para importações, exportações, agricultura, os incentivos fiscais das Regiões Norte e Nordeste, da indústria de computadores e a criação de um imposto sobre as grandes fortunas, bem como a extinção de vários institutos governamentais e anúncio de intenção do governo de reduzir funcionários públicos. Houve a liberação do câmbio e várias medidas para promover uma gradual abertura na economia brasileira em relação à concorrência externa. Tais reformas foram uma ruptura com o modelo clássico brasileiro de crescimento com elevada participação do Estado e proteções tarifárias. – 213 – Economia Brasileira Contemporânea: Planos de Estabilização, Inserção na Globalização e os Entraves da Economia Brasileira O Plano Collor II foi implementado em janeiro de 1991, e foi marcado pela saída da ministra Zélia e a chegada de Marcílio Marques Moreira no seu lugar, decretando um novo congelamento de preços. No entanto, como em planos anteriores após o Cruzado, o congela- mento de preços estava em total descrédito, devido à falta de credibilidade no governo e no controle de tal intervenção. O confisco da poupança foi uma das atitudes mais questionadas em toda a história da economia brasileira contemporânea. Para a maioria dos economistas, foi um grande equívoco, que acabou por levar ao impeach- ment do presidente Collor em setembro de 1992. Apesar de todos os problemas e equívocos do Plano Collor I e II, houve um avanço em políticas de modernização da economia brasileira. Collor deixou três legados: 2 abertura comercial; 2 privatizações; 2 política industrial e de comércio exterior. Após o impeachment, os anos de 1992 e 1993 foram marcados por um período de alta rotatividade nos ministérios, inclusive com a passagem de Fernando Henrique Cardoso, futuro presidente, e um dos mentores do Plano Real, que viria para acabar de uma vez com o processo inflacionário crônico e promover a estabilidade macroeconômica entre outras medidas até hoje vigentes. 10.1.6 Plano Real e o Governo FHC O Plano Real teve início em fevereiro de 1994, com o lançamento da Medida Provisória nº 434 no governo de Itamar Franco, com Fernando Henrique Cardoso (FHC) como ministro da fazenda. A Medida instituiu a Unidade Real de Valor (URV) (Abreu, 2014). O Plano foi elaborado sob a liderança do ministro da fazenda Fernando Henrique Cardoso com uma equipe de economistas formada por Gustavo Franco, Pérsio Arida, Pedro Malan, Edmar Bacha e André Lara Rezende. Administração e Economia – 214 – A URV pode ser considerada a parte escritural da nossa atual moeda, o real (R$), tendo início obrigatório no dia 1º de março de 1994. Fun- cionou como um índice de preços, servindo como unidade de conta e referência de valor (estudamos as funções da moeda no capítulo 7). No entanto, no dia 1º de julho do mesmo ano, a URV se tornou a nova base monetária, o real. Ao funcionar como um índice de preços, muitos contratos e ativos se indexaram na URV, o que possibilitou a transição para a moeda. As principais medidas foram: 1. política fiscal restritiva: aumento dos impostos e redução dos gastos públicos no sentido de aumentar o controle das contas públicas; 2. criação da URV (Unidade Real de Valor) como método pra desindexar a economia; 3. criar uma moeda forte ao longo prazo; 4. política monetária restritiva: aumento nas taxas de juros – geração de rendimentos elevados aos investidores nacionais e internacionais. 2 Nacionais: depósitos à vista eram enxugados por meio dos depósitos compulsórios; 2 Internacionais: compra de divisa por meio de capital especulativo. Consequência: redução do consumo e queda da inflação, bem como fortalecimento da moeda nacional frente ao dólar; 5. reduzir impostos sobre importação para promover o aumento da concorrência, inibindo preços elevados de empresas nacionais em mercados oligopolizados/cartelizados; 6. controle do câmbio para manter o real valorizado diante o dólar, o que possibilitou a importação e, ao mesmo tempo, a concor- rência interna. O câmbio apreciado (próximo de R$ 1,00 por US$ 1,00) também tinha o objetivo de não gerar uma inflação cambial, ver Tabela 10.1. – 215 – Economia Brasileira Contemporânea: Planos de Estabilização, Inserção na Globalização e os Entraves da Economia Brasileira A valorização cambial foi uma das medidas mais importantes, visto que, além de não provocar uma inflação de custos, possibilitava que os agentes econômicos importassem bens e serviços com grande poder de compra, evitando ainda mais uma inflação. Tabela 10.1 – Taxa de Câmbio R$ x US$ Ano Taxa US$ 1994 0,846 1995 0,973 1996 1,039 1997 1,116 1998 1,209 Fonte: Banco Central do Brasil. Política fiscal e monetária restritiva, por meio de juros elevadíssimos e contenção dos gastos públicos, bem como de um câmbio valorizado, impossibilitaram a continuidade e o surgimento de um processo inflacio- nário, dispensando a necessidade de congelamento de preços. O Plano Real propiciou um ambiente macroeconômico estável, fazendo com que os preços se acomodassem e o próprio mercado ditasse as regras, ou seja, o governo promoveu a estabilidade macroeconômico tão almejada sem intervenções radicais nos mercados, como o congela- mento, por exemplo. A inflação acumulada havia chegado a 758,59% no primeiro semes- tre de 1994. No segundo semestre, a taxa de inflação acumulada foi de 18,72%. Mediante a estabilidade, o PIB cresceu 5,67% em 1994, com o setor industrial apresentando expansão de 7%. A agropecuária apresentou crescimento ainda maior, de 7,6%. A partir do segundo mandato, 1998, a política macroeconômica, em especial a cambial, sofreu alterações importantes. Houve o abandono do regime cambial rígido, ou seja, da valorização cambial, para regime fle- xível. Em 1999, o governo adotou as orientações do Fundo Monetário Administração e Economia – 216 – Internacional (FMI) e implementou o tripé macroeconômico, que vigora até os dias de hoje. O governo Fernando Henrique Cardoso, que perdurou entre 1995 a 2002, foi marcado pela consolidação da estabilização macroeconômica, fundamental para a retomada do crescimento econômico sustentável, e o fim de um processo histórico de 30 anos de indexação (1964 a 1994), associado ao baixo crescimento e aumento da carga tributária. Legado: Um “tripé” de políticas econômicas: metas de inflação, câmbio flutuante e austeridade fiscal (o tripé macroeconômico, que estudamos no capítulo 8). 2 Mudanças estruturais importantes, a Lei de Responsabili- dade Fiscal; a Previdência Social; o ajuste fiscal nos esta- dos; o fim dos monopólios estatais nos setores de petróleo e telecomunicações; 2 Globalização: fluxos de Investimento Externo Direto (IDE) de, na média, quase US$20 bilhões/ano nos oito anos. Mudanças importantes: a) privatizações; b) fim dos monopólios estatais nos setores de petróleo e telecomu- nicações; c) mudança no tratamento do capital estrangeiro; d) saneamento do sistema financeiro (Proer); e) reforma (parcial) da Previdência Social; f) renegociação das dívidas estaduais; g) aprovação da Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF); h) ajuste fiscal a partir de 1999 (metas fiscais); i) criação de uma série de agências reguladoras de serviços de uti- lidade pública; – 217 – Economia Brasileira Contemporânea:Planos de Estabilização, Inserção na Globalização e os Entraves da Economia Brasileira j) estabelecimento do sistema de metas de inflação como modelo de política monetária. A Tabela 10.2 apresenta o resultado de indicadores econômicos no período do governo FHC. Tabela 10.2 – Indicadores Econômicos Governo FHC Indicadores 1995-1998 1999-2002 1995-2002 % ao ano Crescimento do PIB 2,5 2,1 2,3 Inflação (IPCA) 9,7 8,8 9,3 Taxa de Desemprego 6,3 7,7 7,0 Taxa de Investimento 5,2 -3,9 0,7 Fonte: Gremaud (2017). Mas FHC ficou devendo a reforma tributária, e a superação da vulne- rabilidade externa. A Figura 10.1 apresenta a evolução da inflação desde 1980. Figura 10.1 – Evolução do IPCA – 1980 a 2012 0 300 600 900 1200 1500 19 80 19 81 19 82 19 83 19 84 19 85 19 86 19 87 19 88 19 89 19 90 19 91 19 92 19 93 19 94 19 95 19 96 19 97 19 98 19 99 20 00 20 01 20 02 20 03 20 04 20 05 20 06 20 07 20 08 20 09 20 10 20 11 20 12 Inflação - IPCA 1800 2400 2700 Fonte: Ipea. Administração e Economia – 218 – A década de 1980, como já mencionado, inicia com uma inflação na casa dos 100%, chegando a quase 300% em 1985 e baixando no ano de 1986, fruto do congelamento de preços do Plano Cruzado. No entanto, após a intervenção sobre os preços, a inflação, aliada ao aumento dos ágios, explode para próximo de 2.000% nos anos seguintes. Em 1991, a redução tem relação com o congelamento de preços e o con- fisco da poupança no Plano Collor, que agravou ainda mais a situação, e a inflação chegou a quase 3.000% em 1993. Com o Plano Real, a partir de 1994, a inflação nunca mais voltou a patamares dos períodos anteriores, e sem congelamento de preços ou qualquer outro tipo de intervenção governamental que não corrobore a lógica do mercado. Em síntese, o Plano Real promoveu condições para a estabilidade macroeconômica. Além disso, conforme estudamos em capítulos anteriores, uma vez está- vel, o próximo passo da economia é crescer. Apesar de ter alcançado a estabi- lidade, no governo FHC as taxas de crescimento, conforme Tabela 10.2, não foram significativas, um crescimento médio do PIB de 2,3% ao ano. A retomada do crescimento econômico ficaria a cargo do próximo governo, de Luiz Inácio Lula da Silva. 10.1.7 Os Governos Lula e Dilma As eleições de 2002 colocaram Lula no poder, e, antes mesmo de assumir, provocou uma grande turbulência na economia brasileira. Isso porque o Partido dos Trabalhadores (PT), com viés socialista, gerou incertezas sobre os investidores, em especial os estrangeiros, pro- movendo uma fuga de capitais e uma expressiva desvalorização cambial, ou seja, uma crise cambial. O Risco País chegou ao patamar de 2.500 pontos, conforme Figura 10.2, e ficou conhecido como “efeito Lula” pelos mercados financeiros. – 219 – Economia Brasileira Contemporânea: Planos de Estabilização, Inserção na Globalização e os Entraves da Economia Brasileira Figura 10.2 – Risco-país 0 500 1000 1500 2000 2500 3000 out/2002: 3,95 set/2002: 2446 dez/2008: 2,50 out/2008: 677 1999 2000 2001 2002 2003 2004 2005 2006 2007 2008 2009 2010 2011 Risco Brasil - EMBI + Brasil e dólar Comercial Correlação diária entre os índices é alta: 0,55 4,50 4,00 3,50 3,00 2,50 2,00 1,50 1,00 0,50 0,00 Fonte: Ipea. Contudo, ao iniciar os trabalhos como presidente da República, Lula nomeou para o cargo de presidente do Banco Central o ex-presidente mun- dial do Bank Boston, Henrique Meirelles, mantendo, inicialmente, todo o restante da Diretoria anterior, em claro sinal de continuidade. Anunciou as metas de inflação para 2003 e 2004, de 8,5% e 5,5%, respectivamente, que implicavam um forte declínio em relação à taxa efetivamente observada em 2002, reforçando a política anti-inflacionária (Abreu, 2014). Elevou a taxa de juros básica (Selic) nas reuniões do Comitê de Polí- tica Monetária (Copom), mostrando que isso não era mais um problema para o PT. Definiu um aperto da meta de superávit primário, que passou de 3,75% para 4,25% do PIB em 2003 e ordenou cortes do gasto público para viabilizar o objetivo fiscal, deixando de lado antigas promessas de incremento do gasto. Colocou na Lei de Diretrizes Orçamentárias o obje- tivo de manter a meta fiscal, de 4,25% do PIB de superávit primário, para o período de 2004 a 2006. Essas propostas representaram uma mudança completa em relação à maneira como o PT via a política econômica até poucos meses antes. Administração e Economia – 220 – Com essas medidas, a economia brasileira voltou à estabilidade e apre- sentou crescimento econômico superior ao governo anterior (Tabela 10.3). Tabela 10.3 – Indicadores Econômicos do Governo Lula Indicadores 2003-2006 2007-2010 2003-2010 % ao ano Crescimento do PIB 3,5 4,5 4,0 Inflação (IPCA) 6,4 5,1 5,7 Taxa de Desemprego 10,9 8,0 9,5 Taxa de Investimento 15,9 18,0 17,0 Fonte: Gremaud (2017). Grande parte do crescimento no período Lula deveu-se ao cres- cimento da renda mundial e, consequentemente, das exportações de commodities, elevando o país ao investment grade, uma espécie de selo de garantia de bom pagador, pois apresenta baixo risco de default, em abril de 2008. Ademais, apesar da forte recessão causada pela crise financeira inter- nacional de 2008, o Brasil sofreu impactos negativos em 2009, mas reto- mou o crescimento de forma expressiva em 2010, o que pode ser obser- vado pela taxa de crescimento do PIB em 7,5%. O governo Lula promoveu a manutenção da estabilidade macroeco- nômica, promoveu avanços sociais e colocou o Brasil como investment grade, o que possibilitou apontar para um sucessor sem dificuldades nas eleições de 2010, Dilma Rousseff. Dilma tomou ações divergentes do governo Lula, em especial na con- dução da política macroeconômica. Nomeou um novo presidente para o Banco Central uma pessoa de sua confiança e manteve no Ministério do Planejamento Guido Mantega, promovendo uma política com maior parti- cipação do Estado na economia, diversas estatais foram criadas. Mas a mudança na condução da política, com destaque para o aban- dono do tripé macroeconômico, foi marcada pela adoção de medidas – 221 – Economia Brasileira Contemporânea: Planos de Estabilização, Inserção na Globalização e os Entraves da Economia Brasileira heterodoxas de caráter desenvolvimentista, denominada de nova matriz macroeconômica (Abreu, 2014). Nos quatro primeiros anos de seu governo, a taxa de inflação pres- sionou a Meta de Inflação, encostando em seu limiar máximo (no perí- odo de 6,5%) e o endividamento aumentou, em especial com gastos na área social. Após sua reeleição, foi acusada de “pedalada fiscal”, ou seja, por efetuar operações orçamentárias por meio do Tesouro Nacional que não estavam previstas na legislação, e sofreu um processo de impeachment em 2015. Os anos seguintes, sob comando do vice-presidente Michel Temer, foram marcados por uma profunda recessão, com taxas negativas de cres- cimento econômico, aumento do desemprego e ajustes fiscais e mone- tários restritivos, bem como a volta de Henrique Meireles, agora como ministro da fazenda, retomando o tripé macroeconômico para promover a estabilidade novamente (Abreu, 2014). 10.2 Entraves da Economia Brasileira: os velhos problemas que permanecem São inúmeros os entraves da economia brasileira e, apesar de mudan- ças na forma de governo nos últimos 50 anos (democrático, militar, social democracia, socialista, liberal), os problemas ainda perduram. Um dos grandes entraves é a poupança doméstica, que é muito baixa e pressiona os juros elevados, o que tende a travar o empreendedorismo, tornando a taxa de investimentos insuficiente para promover um cresci- mento econômico de longo prazo. A educação também tem reflexo direto sobre a atividade econômica. A baixa produtividade da mão de obra brasileira é resultado de nível de escolaridade baixo e de má qualidade, comprometendo a competitividade da empresa brasileira, em especial no mercado internacional. Para comprometerainda mais, temos uma carga tributária complexa e elevada, com gasto público alto, mas sem retornos para a sociedade. Administração e Economia – 222 – Nossa infraestrutura carece de expressivos investimentos, e a corrupção parece fazer parte do DNA de nossa política. Apesar de bons momentos da economia brasileira em relação ao cres- cimento econômico, a concentração de renda e a desigualdade social asso- lam nossa sociedade. Ainda somos uma Belíndia! Nesses últimos 50 anos, assistimos a um verdadeiro stop and go, apresentando taxas de crescimento alternadas (alta, baixa, negativa) ao longo do tempo. Em diversos momentos, estabilizamos a economia, obti- vemos crescimento, entramos em crise, estabilizamos novamente, gera- mos crescimento, entramos em crise e assim sucessivamente. Para romper com o stop and go e alcançar um crescimento econômico sustentável em busca do desenvolvimento econômico, será preciso um Pro- jeto de Nação, construído não por um governo eleito, mas sim pela socie- dade civil organizada que cobre de forma mais efetiva os governantes. Atividades 1. Destaque os principais objetivos do Plano Cruzado. 2. Estudamos que a maioria dos planos de estabilização utilizaram o mecanismo de congelamento de preços para conter o processo inflacionário, mas nenhuma vez tal processo funcionou. Por quê? 3. O Plano Real foi bem-sucedido em frear o processo inflacionário crônico na economia brasileira. Destaque as principais medidas e mecanismos de estabilização macroeconômica. 4. A partir dos entraves da economia brasileira destacados no final deste capítulo, apresente outros entraves que estão presentes em nossa economia. Gabarito Administração e Economia – 224 – 5. Princípios de Economia: Escassez, Trade-offs e Custo de Oportunidade, Fronteira das Possibilidades de Produção, Problemas Econômicos e Sistemas Econômicos 1. F, V, F, F, V. 2. V, V, F, F, V, V, F, F, V, V. 3. ( X ) Propriedade privada dos meios de produção, sistema de preços controla o funcionamento da economia, lucro, competição, redu- ção da participação do Estado. ( ) Propriedade privada dos meios de produção, sistema de preços controla o funcionamento da economia, lucro, competição, forte participação do Estado. HORAS UTILIZADAS QUANTIDADE PRODUZIDA ESCOLHA BOLOS TORTAS BOLOS TORTAS A 5 0 5 0 B 4 1 4 2 C 3 2 3 4 D 2 3 2 6 E 1 4 1 8 F 0 5 0 10 – 225 – Gabarito 6. Economia de mercado: modelo microeconômico; demanda e seus determinantes; oferta e seus determinantes; equilíbrio do mercado 1. 1ª – A alteração em uma das variáveis do modelo, como o nível de preços, tem um reflexo na demanda, desde que as demais variáveis do sistema permanecem constantes – “ceteris paribus”. 2ª – Os consumidores e os produtores são racionais. 3ª – Presença de inúmeras empresas no mercado – con- corrência. 2. Falsa, pois o excesso de demanda é consequência de um preço mais baixo, e não mais alto. 3. ( V ) ( F ) ( V ) ( F ) ( V ) 4. O estudante deve apresentar um gráfico com a curva de demanda e oferta e o movimento na curva de demanda para a direita (deslocamento da curva para direita). Administração e Economia – 226 – 7. Moeda, inflação e sistema financeiro 1. O impacto é a perda do poder aquisitivo da classe e, consequente- mente, um maior nível de empobrecimento da nação. 2. Estabelecer um nível aceitável de inflação, normalmente baixa, por meio das políticas macroeconômicas. 3. A meta de inflação possibilita aos empresários uma visão mais equi- librada do futuro dos preços em uma economia. Assim, é possível efetuar planejamento financeiro com mais previsibilidade. 4. O governo, através de órgãos competentes, utiliza índices de pre- ços, que são instrumentos de medição dos preços. O IPCA é com- posto por nove cestas de consumo, cada uma com peso específico. Ocorre inflação quando diversos itens de diversas cestas passam a aumentar persistentemente. 8. Políticas macroeconômicas e comércio internacional 1. Alternativa B. 2. 2.1) A taxa de câmbio aumenta. Com a redução na oferta de dólares, a taxa de câmbio sofre desvalorização. 2.2) Os preços aumentam. Componentes importados sofrem rea- juste cambial, ou seja, tornam-se mais caros e os empresários tendem a repassar aos preços. 2.3) A alternativa mais rápida é o Banco Central passar a ven- der dólar à vista. – 227 – Gabarito 9. Teoria da firma: produção e custos 1. Situação Nº Trabalhadores Pessoas atendidas Produtividade L Q Pme Pmg 0 0 0 0 A 1 3 3,0 3,0 B 2 7 3,5 4,0 C 3 12 4,0 5,0 D 4 16 4,0 4,0 E 5 18 3,6 2,0 F 6 19 3,2 1,0 G 7 18 2,6 -1,0 H 8 16 2,0 -2,0 1 0 -1 2 3 -2 -3 4 5 6 A B C D E F G H Pme Pmg 0 Administração e Economia – 228 – 2. Clientes Estrutura de Custos (Q) CF CV CT Cfme Cvme Cme Cmg 0 20,00 0,00 20,00 0,00 - - - 1 20,00 12,50 32,50 20,00 12,50 32,50 12,50 2 20,00 19,37 39,37 10,00 9,69 19,69 6,87 3 20,00 22,50 42,50 6,67 7,50 14,17 3,13 4 20,00 27,00 47,00 5,00 6,75 11,75 4,50 5 20,00 32,50 52,50 4,00 6,50 10,50 5,50 6 20,00 39,00 59,00 3,33 6,50 9,83 6,50 7 20,00 48,83 68,83 2,86 6,98 9,83 9,83 8 20,00 61,00 81,00 2,50 7,63 10,13 12,17 9 20,00 77,00 97,00 2,22 8,56 10,78 16,00 10 20,00 100,00 120,00 2,00 10,00 12,00 23,00 80 60 40 100 120 20 0 140 CF CV CT 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 11 – 229 – Gabarito Cfme 0 15 10 20 25 5 0 1 2 3 4 5 6 7 8 9 10 30 35 CFme, CVme, CMe e CMg Cmg –Cme –Cvme – 3. Aumentando a quantidade de um fator de produção variável, enquanto os demais permanecem fixos, a produção total aumentará, mas, a partir de certo ponto, os acréscimos resultantes no produto se tornarão menores. Ao continuar o aumento na quantidade utilizada do fator variá- vel, a produção alcançará um máximo e, depois, decrescerá. 4. A curva de custo fixo médio (CFme) é resultado da divisão do custo fixo pela quantidade produzida. O custo fixo é constante; o CFme diminui à medida que a produção aumenta, o que significa que cada unidade do produto responde por uma parcela menor de custo fixo. 10. Economia Brasileira Contemporânea: Planos de Estabilização, Inserção na Globalização e os Entraves da Economia Brasileira 1. 1. Criar a imagem de uma nova moeda, forte e neutra da inflação; 2. Intervenção nos contratos – preços congelados e taxa de câm- bio também. Foi criada a Sunab (Superintendência Nacional de Abastecimento e Preços) e publicada uma lista de preços, quem não a respeitasse seria multado. Surgiram os fiscais do Sarney; Administração e Economia – 230 – 3. Desindexação – era proibida a indexação de contratos com prazos de um ano; 4. Índices de Preços e Cadernetas de Poupança (IPC) – as pou- panças passaram a ter rendimentos trimestrais e não mensais; 5. Política Salarial – congelamento dos salários, com dissídios anuais. Para evitar perdas, sempre que a inflação acumulasse 20%, seria pago um “gatilho salarial”, mas o reajuste não poderia ultrapassar 20%. 2. Porque o congelamento de preços interfere de forma direta na for- mação dos preços, impossibilitando eventuais repasses de custo, por exemplo, implicando em uma revisão do negócio por parte do empresário. Em muitos casos, houve redução na oferta, pressio- nando ainda mais o aumento dos preços. Vale destacar que, em uma economia de mercado, quem define os preços é o mercado, não o governo. 3. Política fiscal restritiva, criação da URV (Unidade Real de Valor) como método pra desindexar a economia; política monetária res- tritiva; redução de impostos sobre importação para promover o aumento da concorrência; controle do câmbio para manter o real valorizado diante o dólar. A estabilidade macroeconômica foi alcançada com o tripé macroeconômico com metas fiscal, monetária e cambial. 4. Nesse caso, o estudante deve abordar outros problemas da econo- mia brasileira não mencionados no texto, bem como apresentar suas justificativas. A ideia é promover uma discussão a partir de reflexões sobre nosso país. Referências Administração e Economia– 232 – ABREU, A. F. de.; REZENDE, D. D. A. Tecnologia da informação: apli- cada a sistemas de informação empresariais. 6. ed. São Paulo: Atlas, 2009. ABREU, M. (org.). A ordem do progresso. São Paulo: Campus, 2014. BACHA, E. Belíndia 2.0: fábulas e ensaios sobre o país dos contrastes. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2012. 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M or ei ra Ja ck so n Te ix ei ra B itt en co ur t A Administração é uma ciência universal, utilizada desde a criação humana, na vida pessoal e coletiva, para atingir resultados com recursos que estavam disponíveis sob diversas formas. Os impérios, as migrações, os enriquecimentos e tantos outros fatores deram-se a partir de práticas, rudimentares ou complexas, em que a Administração não era explicitamente registrada. Vivemos um período de transições rápidas e radicais em todos os ramos da atividade humana. São tempos difíceis para as organizações porque mudanças normalmente são traumáticas e causam perdas para aqueles que não se adaptam aos rápidos e novos tempos. Principalmente hoje, são essenciais o estudo, a reflexão, o embasamento nos princípios e fundamentos da Administração e acima de tudo, agilidade e inovação. Os principais temas econômicos da atualidade noticiados pela mídia nacional e internacional estão intrinsecamente relacionados com a própria existência da sociedade moderna, na medida em que esses temas têm influência direta no cotidiano das pessoas. Muitas vezes não conseguimos entender qual a razão de algumas medidas econômicas adotadas por nossos economistas e/ ou dirigentes governamentais, contudo não podemos viver à margem dessas questões, pois elas influenciam ou irão influenciar direta ou indiretamente a vida de todos os cidadãos. Durante os capítulos adiante iremos transitar sobre conceitos básicos, criar significados com base na história dos acontecimentos e ainda dialogar sobre a gestão atual e a economia brasileira. Tudo isso de forma clara e objetiva.