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A Tecnologia como Área do Conhecimento Humano: conceito e evolução histórica APRESENTAÇÃO Vivemos na época em que a tecnologia tornou-se um elemento essencial. Ela está presente nos meios corporativos, educacionais, comerciais, além ter impactado fortemente as relações humanas. Atualmente, convivemos com o grande impacto desses recursos em nossas vidas, pois nos comunicamos por meio das redes sociais, trabalhamos em ambientes virtuais de aprendizagem e intranets, realizamos transações financeiras de forma eletrônica. De modo que a geração atual, não imagina a sua vida sem a influência da tecnologia. Tais reflexões nos levam a pensar sobre as origens desses recursos, verificando como eles evoluíram até chegar aos tempos dos computadores e da internet. Nesta Unidade de Aprendizagem, você conhecerá os conceitos de tecnologia e verá como ela evoluiu através do tempo até se constituir como uma área do conhecimento humano. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Reconhecer o conceito de tecnologia.• Analisar a evolução histórica da tecnologia.• Identificar a tecnologia como uma área do conhecimento humano.• DESAFIO A tecnologia se tornou um elemento chave para o desenvolvimento do homem nas mais diversas áreas do conhecimento. Percebemos esse domínio tecnológico ao entrar em uma farmácia, supermercado, clínicas e hospitais, entre outros. Usamos a tecnologia em casa, em nosso ambiente de trabalho, de estudos, em nosso lazer e esta se tornou parte do nosso dia a dia. 1 Notavelmente a forma como os alunos estudam hoje é diferente do que era no tempo que você tinha 10 anos de idade, as tecnologias utilizadas para auxiliar na aprendizagem, os métodos de ensino, a interação oferecida... diversos aspectos sofreram modificações. Agora, imagine que você está escolhendo uma escola para matricular o seu filho e tem tido a oportunidade de observar o trabalho que vem sendo desenvolvido com os alunos em sala de aula. 1. Descreva abaixo um comparativo sobre o que você está observando sobre o uso da tecnologia na sala de aula atual e o que era usado na sua época de escola. 2. Exponha neste comparativo a sua opinião sobre vantagens e desvantagens que a tecnologia trouxe para a educação. INFOGRÁFICO Veja no Infográfico uma síntese da evolução histórica do desenvolvimento da tecnologia no mundo! CONTEÚDO DO LIVRO A tecnologia é o conjunto dos instrumentos, métodos e técnicas que permitem o aproveitamento 2 prático do conhecimento científico. Em resumo, é possível ver que a tecnologia pode ser relacionada ao uso de instrumentos, arte, sociedade e ideologia. Esse termo vai além do conhecimento de determinadas ferramentas, indo até a sua influência nas formas de pensar e agir em uma sociedade. Portanto, é possível perceber o quanto esse conceito é amplo, e se aplica a vários contextos, daí vem a importância de esclarecer a diferença existente entre os termos tecnologia e técnica. O capítulo A tecnologia como área do conhecimento humano: conceito e evolução histórica, da obra "Educação e Tecnologias", base teórica desta Unidade de Aprendizagem, aborda os principais conceitos de tecnologia, além da evolução histórica desse conceito desde os tempos da pré-história! Boa leitura! 3 A tecnologia como área do conhecimento humano: conceito e evolução histórica Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Conceituar tecnologia. Analisar a evolução histórica da tecnologia. Identificar a tecnologia como uma área do conhecimento humano. Introdução O conceito de tecnologia é amplo e se aplica a diversas áreas, podendo estar relacionado com a arte, a sociedade, o uso de instrumentos, entre tantos outros contextos, desde os pré-históricos até os mais modernos. Para os arqueólogos, a tecnologia diz respeito à evolução das ferramentas utilizadas pelo homem ao longo da história, bem como à evolução das ferramentas que permitem estudar os elementos históricos de forma cada vez mais eficiente e eficaz. Para os biólogos, a tecnologia é aquilo que facilita o estudo das células e da evolução da vida no planeta Terra e fora dele. Já para as pessoas que trabalham com computadores e que acompanham as novidades nesse meio, a tecnologia tem relação com o desenvolvimento de sistemas e aparelhos que trocam informações entre si, de forma cada vez mais rápida, com um alcance crescente de pessoas e empregando técnicas cada vez mais avançadas. 4 Neste capítulo, você vai verificar que a tecnologia sempre existiu e faz parte da história do ser humano na Terra. Você vai estudar o conceito de tecnologia, analisar a sua evolução histórica e identificar os pontos que fazem da tecnologia uma área do conhecimento humano. Conceito de tecnologia Quando se aborda o tema da tecnologia, é comum as pessoas pensarem nos avanços tecnológicos, como computadores cada vez mais potentes, robôs que imitam os seres humanos e carros autônomos utilizados para o deslocamento no trânsito. Porém, o conceito de tecnologia é muito mais amplo do que o utilizado nos sistemas computacionais, por exemplo. Segundo Karasinski (2013), a palavra tecnologia tem sua origem do grego techne, que significa técnica, e logia, que significa estudo de algo ou discussão. De acordo com o dicionário on-line Michaelis, a tecnologia trata do conjunto de processos, métodos, técnicas e ferramentas relacionados à arte, à indústria, à educação, entre outras, bem como do conhecimento técnico e científico e suas aplicações em uma área em particular (TECNOLOGIA, 2019). Dessa forma, é possível concluir que tecnologia é o uso de técnicas e de co- nhecimento adquirido ao longo do tempo para facilitar ou aperfeiçoar os estudos e trabalhos com artes, a resolução de problemas ou a execução de atividades específicas. Ela pode ser aplicada em diversas tarefas e atividades, até mesmo naquelas em que as pessoas não percebem a tecnologia, como as técnicas desen- volvidas na Pré-História para garantir a sobrevivência dos seres humanos na Terra. Evolução histórica da tecnologia A utilização da tecnologia é observada na humanidade desde os primórdios, quando as civilizações antigas dominaram o fogo e produziram suas próprias ferramentas com pedras e materiais rústicos, antes mesmo de dominarem a escrita, buscando sobreviver, melhorar a qualidade de vida e, posteriormente, realizar estudos e experimentos. Segundo Pinsky (2011), lascar pedras batendo umas nas outras foi uma das primeiras técnicas desenvolvidas pelos humanos, com o objetivo de afi á-las para caçar e manusear os alimentos. Nesse contexto, eram desenvolvidas pontas de lanças, como os exemplos da Figura 1. A tecnologia como área do conhecimento humano: conceito e evolução histórica 5 Figura 1. Pedras lascadas na forma de pontas de lanças. Fonte: Rodrigues ([20--], documento on-line). A técnica de lascar pedras começou a ser usada no período Paleolítico. Era uma técnica demorada e trabalhosa e foi a responsável pela descoberta do fogo, que é considerado uma das tecnologias mais importantes da humanidade. Com o fogo, era possível aquecer o grupo e cozinhar alimentos, proporcionando maior sobrevivência e aumento demográfico, além de possibilitar a fundição de metais. O fim do período Paleolítico e o início do período Neolítico são marcados pela Revolução Neolítica, quando os grupos começaram a se fixar em um único local, por conta do domínio da terra e da agricultura, e passaram a utilizar a metalurgia para o desenvolvimento de ligas metálicas fundidas com cobre e estanho, para produzir utensílios e ferramentas. Com o domínio dessas técnicas, reduziram-se os riscos relacionados à caça, à busca por alimento e à migração de um lugar para o outro. Revoluções industriais A Primeira Revolução Industrial se caracteriza pelas mudanças na forma de interação da sociedade com a natureza e pela criação de novasformas de produção. De acordo com Branco ([20--]), ela começou na Inglaterra, em meados do século XVIII, tendo a máquina a vapor e sua aplicação na indústria têxtil como uma das suas principais invenções. Esse maquinário causou grande impacto na economia e na sociedade. Como consequência dessa revolução, as cidades cresceram rapidamente, novas profissões começaram a surgir e os campos passaram a utilizar pro- cessos mecanizados para melhorar e acelerar a produção. Houve a criação das primeiras ferrovias, para deslocar pessoas e produtos de um local para o A tecnologia como área do conhecimento humano: conceito e evolução histórica 6 outro de forma mais eficiente. Nesse período, houve crescimento na utilização da agricultura e na extração mineral, o que causou a exploração de muitos povos, como os africanos. Na Segunda Revolução Industrial, destacou-se o avanço tecnológico, com o surgimento de novas indústrias e o aumento da capacidade produtiva delas — ou seja, novos níveis de industrialização foram atingidos. O ferro, a energia a vapor e o carvão deram lugar ao aço, ao petróleo e à eletricidade, que geraram a possibilidade de automatização do trabalho, como é possível observar na Figura 2. Surgiram indústrias elétricas e químicas, e as tecnologias das indústrias siderúrgicas evoluíram. Figura 2. Automatização dos processos industriais para aumentar a produção industrial. Fonte: Souza ([20--], documento on-line) Com o final da Segunda Guerra Mundial, surgiu a Terceira Revolução Industrial, também conhecida como Revolução Técnico-Científica, que teve como característica principal o surgimento da eletrônica como o centro da modernização industrial. Houve a criação dos primeiros computadores, produtos eletrônicos, satélites e robôs, além da criação de produtos de alto valor agregado, como consequência de investimentos de anos em pesquisas, estudos e testes. Assim, o valor do produto passou a ir além do valor da matéria-prima. A tecnologia como área do conhecimento humano: conceito e evolução histórica 7 Indústria 4.0 De acordo com Ortega (2019), o conceito da Quarta Revolução Industrial, também conhecida como Indústria 4.0, foi desenvolvido pelo diretor e fun- dador do Fórum Econômico Mundial, Klaus Schwab. Schwab defende que a industrialização mais recente tem como resultado a mudança na forma de viver, trabalhar e se relacionar (ORTEGA, 2019). Isso se deve à mudança de paradigma ocasionada pelos avanços nas indústrias, que tendem a ser total- mente automatizadas, combinando robôs com sistemas e processos digitais. Como é possível observar na Figura 3, essa fase é marcada pelos sistemas cibernéticos, pela internet das coisas, pela inteligência artificial, além de nano- tecnologias e robôs. Existe a possibilidade de milhões de vagas de empregos nos países mais industrializados do mundo serem extintas. A consequência disso são os empregos do futuro, que dizem respeito a vagas que ainda não existem. Figura 3. As quatro revoluções industriais. Fonte: Perin (2013, documento on-line). Assim, a tecnologia é utilizada como ferramenta para auxiliar o ser humano a lidar com o presente e, também, preparar-se para o futuro. Atualmente, dados são produzidos de forma exponencial; a maior parte dos dados do A tecnologia como área do conhecimento humano: conceito e evolução histórica 8 mundo foi criada nos últimos anos e funciona como uma forma de alimento para a inteligência artificial. Quanto maior a quantidade de dados, maior a precisão das predições. Tecnologia como área do conhecimento humano De acordo com a Portaria nº. 9 da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pes- soal de Nível Superior, de 23 de janeiro de 2008, foi criada a Grande Área Multidisciplinar, que possui a subárea Interdisciplinar, entre outras, e que, por sua vez, possui a subárea Engenharia, Tecnologia e Gestão, além das subáreas agrárias, de meio ambiente, de saúde e biológicas (CAPES, 2008). Ou seja, a tecnologia é considerada uma área interdisciplinar, isto é, possui aspectos comuns a duas ou mais disciplinas ou áreas de conhecimento. Assim, é possível concluir que, independentemente da área de conheci- mento, é possível utilizar a tecnologia para alcançar melhores resultados e obter os avanços desejados, causando alto impacto no processo da educação. Com os avanços tecnológicos causados pela Indústria 4.0, surgiu também o termo Educação 4.0. Este, segundo Caron (2017), gera a reflexão sobre as necessidades educacionais das novas gerações, em tempos em que a informação e o conteúdo são fartos, abundantes e se somam para dinamizar os processos nos mais diversos segmentos da indústria. Assista ao vídeo disponível no link a seguir e obtenha mais informações sobre a Educação 4.0 — por exemplo, o que esperar dela e como seus aspectos mudam a forma de ensinar e de aprender. https://qrgo.page.link/To6CB Como pode ser observado na Figura 4, no novo modelo de educação, os estudantes utilizam a sala de aula para praticar os conceitos estudados antes de ir para a sala, de forma independente, bem como para tirar dúvidas, caso elas surjam ao longo do processo. Após as aulas, os estudantes precisam revisar o conteúdo e expandir seus aprendizados. A tecnologia como área do conhecimento humano: conceito e evolução histórica 9 Figura 4. Sala de aula invertida. Fonte: Aula... ([201-], documento on-line). Dessa forma, as atividades de sala precisam do apoio da tecnologia para atrair a atenção dos estudantes. Além disso, as atividades independentes precisam do apoio da tecnologia, para que o processo de aprendizagem seja mais efetivo. AULA invertida. EdTech, [201-]. Disponível em: https://sites.google.com/a/ctmsenai. com.br/googleeducator/recursos/aula-invertida. Acesso em: 26 ago. 2019. BRANCO, A. L. Revoluções industriais: primeira, segunda e terceira revoluções. UOL Educa- ção, [20--]. Disponível em: https://educacao.uol.com.br/disciplinas/geografia/revolucoes- -industriais-primeira-segunda-e-terceira-revolucoes.htm. Acesso em: 26 ago. 2019. CAPES. Portaria no. 9, de 23 de janeiro de 2008. Diário Oficial da União, 25 jan. 2008. Disponível em: https://www.capes.gov.br/images/stories/download/legislacao/Por- taria_009.pdf. Acesso em: 26 ago. 2019. CARON, A. A educação 4.0 já é realidade! Positivo Tecnologia Educacional, 2017. Dispo- nível em: https://www.positivoteceduc.com.br/educacao-4-0/a-educacao-40-ja-e- -realidade/. Acesso em: 26 ago. 2019. A tecnologia como área do conhecimento humano: conceito e evolução histórica 10 KARASINSKI, L. O que é tecnologia? Tecmundo, 2013. Disponível em: https://www.tec- mundo.com.br/tecnologia/42523-o-que-e-tecnologia-.htm. Acesso em: 26 ago. 2019. ORTEGA, J. Indústria 4.0: entenda o que é a quarta revolução industrial. StartSe, 2019. Disponível em: https://www.startse.com/noticia/nova-economia/60414/industria-4- -0-entenda-o-que-e-quarta-revolucao-industrial. Acesso em: 26 ago. 2019. PERIN, C. Indústria 4.0: qual o grau de maturidade digital da sua empresa? Blog Cláudio Perin, 2013. Disponível em: https://claudioperin.com.br/industria-4-0-qual-o-grau-de- -maturidade-digital-da-sua-empresa/. Acesso em: 26 ago. 2019. PINSKY, J. As primeiras civilizações. São Paulo: Editora Contexto, 2011. RODRIGUES, P. E. Idade da Pedra. InfoEscola, [20--]. Disponível em: https://www.info- escola.com/pre-historia/idade-da-pedra. Acesso em: 26 ago. 2019. SOUSA, R. Segunda revolução industrial. Brasil Escola, [20--]. Disponível em: https:// brasilescola.uol.com.br/historiag/segunda-revolucao-industrial.htm. Acesso em: 26 ago. 2019. TECNOLOGIA. In: DICIONÁRIO Michaelis On-line. São Paulo: Editora Melhoramentos, 2019. Disponível em: https://michaelis.uol.com.br/moderno-portugues/busca/portugues- -brasileiro/tecnologia/. Acesso em: 26 ago. 2019. Leituras recomendadas ABRANTES, B. Terceira revolução industrial: tudo sobre a chamada revolução infor- macional! Stoodi, 2018. Disponível em: https://www.stoodi.com.br/blog/2018/08/14/ terceira-revolucao-industrial/.Acesso em: 26 ago. 2019. CAPES. Tabela de áreas de conhecimento. 2009. Disponível em: http://www.ufrb.edu. br/pibic/images/repositorio/pdfs/areas_de_conhecimento_capes.pdf. Acesso em: 26 ago. 2019. O QUE é quarta revolução industrial? SalesForce Blog, 2018. Disponível em: https:// www.salesforce.com/br/blog/2018/Janeiro/O-que-e-Quarta-Revolucao-Industrial. html. Acesso em: 26 ago. 2019. A tecnologia como área do conhecimento humano: conceito e evolução histórica 11 DICA DO PROFESSOR A tecnologia tem grande influência na vida da sociedade, atuando em diversas áreas presentes no seu cotidiano. A Dica do Professor desta Unidade de Aprendizagem abordará uma área específica, em que essa evolução trouxe bastante mudança e, hoje, também é aproveitada pelo setor de educação. Acompanhe! Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! EXERCÍCIOS 1) Segundo Karasinski (2013), a palavra tecnologia tem sua origem do grego techne, que significa técnica, e logia, que significa estudo de algo ou discussão. É possível encontrar diferentes definições, mas que conduzem à mesma ideia, ou seja, trata-se de do conjunto de processos, métodos, técnicas e ferramentas relacionados às mais diversas áreas do conhecimento humano. Nessa perspectiva podemos reconhecer que o termo não é simples e objetivo, mas abrangente, tanto em possibilidades quanto nas formas de ser entendido. Diante disso, assinale a alternativa correta: A) É fundamental associarmos a técnica ao estudo desta, se quisermos compreender a tecnologia como um processo que se desenvolve cada vez mais nas universidades. B) Somente depois da primeira revolução industrial que, realmente, podemos dizer que houve o surgimento da tecnologia, pois antes, não havia a máquina realizando o trabalho humano. C) A tecnologia pode ser identificada desde os primeiros instrumentos pré-históricos quando os primitivos criaram as primeiras ferramentas para facilitar o seu trabalho. A automação é a principal característica da técnica associada aos estudos sobre esta, pois éD) 12 no momento em que há autonomia homem-máquina que a ciência reconhece o termo tecnologia. E) O termo é complexo e apoia-se em vertentes ideológicas diversas, dessa forma, ao falar em tecnologia é fundamental a compreensão de qual é a técnica e sua finalidade social. 2) A tecnologia pode ser descrita como o recurso utilizado pelo homem para facilitar seu trabalho, representa diferentes formas de apropriação da natureza em benefício da vida humana. Se observar a evolução tecnológica a partir da 1ª Revolução Industrial pode-se notar: I – A cada cem anos, aproximadamente, ocorreu uma nova revolução tecnológica até o surgimento da automação, robótica, internet, entre outros. II – O desenvolvimento tecnológico tende a crescer nos próximos cem anos, tanto quanto vem crescendo desde a Indústria 1.0. III – A chamada indústria 4.0 evidencia um crescimento exponencial do parque tecnológico. IV – Uma das maiores mudanças trazidas pela indústria 4.0 foi a capacidade de predição cada vez mais precisa em função do aumento do número de informações. Após analisar as assertivas acima, assinale a alternativa correta: A) I, II e IV. B) II, III e IV. C) I, III e IV. D) III e IV. E) I, II, III e IV. 13 3) A tecnologia, como resultado de grandes transformações é, em si, um dos maiores exemplos da quebra de paradigmas. Segundo o dicionário Aurelio (2008) paradigma é um padrão, modelo. Assim, ao quebrar paradigmas, podemos dizer que os modelos ou padrões foram modificados, transformados. Dessa forma, para melhor compreendermos as transformações, relacione o evento ao paradigma que foi alterado: I – 1ª Revolução Industrial II – 2ª Revolução Industrial III – 3ª Revolução Industrial IV – 4ª Revolução Industrial ( ) Seu desenvolvimento foi causado pelo surgimento de novas fontes de energia, como o petróleo e a eletricidade, o paradigma da produção modificou-se e o processo ganhou velocidade. ( ) o paradigma vencido foram as barreiras espaciais, essa revolução modificou o modo de comunicação e transferência de informações e, pelos elevados investimentos o produto passou a ser mais valorizado que sua matéria de origem. ( ) O crescimento urbano e a mudança no modo de produção foram apenas algumas das mudanças, principalmente porque o paradigma vigente era artesanal e havia pouco movimento populacional ou de produtos. ( ) Dentre os paradigmas quebrados podemos citar o modo de trabalho, muitos profissionais ainda não podem prever sua profissão, porque esta ainda não foi criada, mas o esforço de muitas tarefas foi substituído por um simples comando de voz. A relação correta aparece na alternativa: A) I, III, IV e II. B) II, III, IV e I. C) I, IV, III e II. 14 D) IV, III, II e I. E) II, III, I e IV. 4) Como um conhecimento amplo e multidisciplinar, a tecnologia pode ser considerada em diferentes áreas e subáreas, inclusive na Educação. A indústria 4.0 e a Educação 4.0 pertencem a esse momento. Sobre a Educação 4.0, é correto o que se afirma em: A) Com o desenvolvimento da indústria 4.0 foram modificados os materiais com que as escolas realizam suas atividades de ensino, ou seja, cadernos estão sendo substituídos por tablets e as carteiras passa a ser feitas com material antialérgico. B) A interdisciplinaridade é o ponto forte na Educação 4.0, pois por meio da tecnologia todas as disciplinas estão conectadas e os temas discutidos ficam mais claros aos alunos que podem estudar a partir de materiais mais abstratos e voláteis. C) O grande paradigma está na velocidade com que as informações circulam e se modificam, dessa forma, a Educação 4.0 tem como prioridade orientar os alunos quanto ao armazenamento de informações em nuvens e utilização de recursos tecnológicos. D) A Educação 4.0, seguindo as mudanças sociais e no mundo do trabalho passa a oferecer aos alunos novas práticas de ensino, pois informar já não é necessário tendo em vista os meios de comunicação existentes, assim, as metodologias são alteradas. E) A automação e os processos de inteligência artificial chegam às escolas e,aos poucos os professores são substituídos por robôs, os livros por imagens holográficas ou máquinas inteligentes, por isso a educação está se modificando rapidamente. I - A revolução científica representou uma transformação nos modos de produção com apoio de satélites e robôs, além de agregar maior valor aos produtos industrializados. 5) 15 PORQUE II – O surgimento da eletrônica possibilitou mais pesquisas e estudos sobre materiais, modernizando a indústria. Assinale a alternativa correta: A) As assertivas I e II são proposições verdadeiras e a II é uma justificativa correta da I. B) A assertiva I é uma proposição verdadeira e a assertiva II é uma proposição falsa. C) As assertivas I e II são proposições verdadeiras e a II não é uma justificativa correta da I. D) A assertiva I é uma proposição falsa e a assertiva II é uma proposição verdadeira. E) As assertivas I e II são proposições falsas. NA PRÁTICA Cinco recursos tecnológicos impactaram profundamente a vida do homem e mudaram o mundo! Veja como estes recursos influenciaram estas mudanças! 16 17 SAIBA MAIS Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: A evolução cognitiva e as revoluções tecnológicas Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Mapa do conhecimento humano Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Uso da tecnologia em sala de aula desperta interesse Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! 18 Liberdade de expressão, privacidade e direitos humanos APRESENTAÇÃO A liberdade de expressão, o direito à privacidade e o respeito aos direitos humanos são elementos centrais à prática do jornalismo. Como estabelece o próprio Código de Ética do Jornalismo, o direito à informação é fundamental ao cidadão. E, como tal, os jornalistas não podemadmitir que ele seja impedido, razão pela qual a informação deve ser correta, pautada em fatos e com responsabilidade social. No entanto, isso não equivale a dizer que, sob a bandeira da informação, tudo é permitido e que e toda e qualquer informação pode e deve ser divulgada, pois os mesmos princípios reconhecem que todo indivíduo tem direito a ter sua intimidade e vida privada respeitadas. A polêmica principal versa sobre os limites necessários e/ou desejáveis para tal e tem profundo impacto na forma como os jornalistas atuam. Nesta unidade de Aprendizagem, você vai se aprofundar nestes importantes conceitos: liberdade de expressão, privacidade e direitos humanos. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Definir liberdade de expressão.• Relacionar liberdade de expressão, privacidade e direitos humanos.• Analisar os limites da liberdade de expressão e da privacidade.• DESAFIO A liberdade de expressão é tida por juristas e filósofos como um dos princípios basilares de qualquer democracia, sintetizada de forma brilhante na frase da escritora Evelyn Hall (1906): "Não concordo com uma palavra do que dizes, mas defenderei até o último instante o teu direito de dizê-la". 19 A tênue linha que divide a liberdade de expressão e informação e o direito à privacidade é constantemente testada na prática jornalística, em especial na sessão de "colunismo social". Embora sejam consideradas por alguns autores como um "jornalismo menor", publicações de coberturas acerca da vida de personalidades notórias e famosas fazem parte da realidade jornalística há mais de um século, ficando famosa a palavra paparazzo, cunhada para designar repórteres fotográficos que cobrem a vida dos famosos. A própria Constituição brasileira já determina que a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas são invioláveis (inciso X do artigo 5.º), afirmando categoricamente que a casa é o asilo inviolável do indivíduo, sendo que ninguém pode penetrá-la sem o consentimento do morador (inciso XI do mesmo artigo). O desafio a seguir irá colocá-lo no papel de editor-chefe da versão digital de um grande jornal que deverá tomar uma decisão ética acerca de uma publicação. Observe: 20 21 INFOGRÁFICO A Lei dos Direitos Humanos obriga os governos a fazerem algumas coisas e os impede de fazerem outras. Os indivíduos também têm responsabilidades: usufruindo dos seus direitos humanos, devem respeitar os direitos dos outros. Nenhum governo, grupo ou indivíduo tem o direito de fazer qualquer coisa que viole os direitos de outra pessoa. A Organização das Nações Unidas (ONU) é um dos maiores divulgadores e defensores dos direitos humanos, principalmente por conta do seu Fundo das Nações Unidas para a Infância (Unicef), órgão das Nações Unidas que tem como objetivo promover a defesa dos direitos das crianças. Neste Infográfico, você verá os principais direitos humanos baseados no documento Uma introdução à abordagem baseada em direitos humanos, UNICEF Finlândia 2015. Confira. 22 23 CONTEÚDO DO LIVRO Por que o princípio da liberdade de expressão é considerado tão importante que sua proteção teve de ser destacada nas Constituições de diversos países? Onde termina a livre expressão e começa a calúnia, a injúria e a difamação? Os direitos humanos têm sido respeitados? Embora a discussão acerca desses temas já se estenda por décadas, nos últimos 20 anos ela se tornou ainda mais premente por conta das redes sociais e da Internet e da imensa amplitude e alcance que elas conferiram a todos seus integrantes. No cerne dessa discussão, está o jornalista e sua prática profissional, não só no tocante aos direitos e aos limites, mas principalmente aos ataques que vem sofrendo. Reflita mais sobre o assunto. Ele será parte fundamental de sua vida profissional, e, neste exato momento, ocorrem em todo mundo ações, manifestações e determinações que terão impacto positivo ou negativo na forma como você irá exercer sua profissão. No capítulo Liberdade de expressão, privacidade e direitos humanos, da obra Legislação aplicada à Comunicação Social — ênfase em Jornalismo, base teórica desta Unidade de Aprendizagem, você verá como a liberdade de expressão implica muito mais do que simplesmente falar o que se pensa. Você também entenderá essas implicações para um profissional da comunicação, assimilando as relações entre liberdade de expressão, privacidade e direitos humanos. Boa leitura. 24 Liberdade de expressão, privacidade e direitos humanos Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Definir liberdade de expressão. Relacionar liberdade de expressão, privacidade e direitos humanos. Analisar os limites da liberdade de expressão e da privacidade. Introdução É bem provável que, em nenhum outro momento na história da huma- nidade, o debate acerca da liberdade de expressão, privacidade e direitos humanos tenha se tornado assunto tão controverso. Sabemos que a internet trouxe inúmeros benefícios para a humanidade. A comunicação atravessou fronteiras geográficas, permitindo a divulgação de informações em tempo real, facilitou a comunicação entre pessoas, contribuindo para estreitar laços, e beneficiou as relações comerciais. Por outro lado, para muitos estudiosos, o advento da rede trouxe consigo alguns malefícios, como o distanciamento das relações, porque as pessoas se falam muito mais por redes sociais ou aplicativos de conversas do que por ligações, por exemplo. No entanto, de maneira pragmática, podemos entender que a internet não trouxe malefícios. O que acontece é que muitas pessoas não sabem usar a tecnologia de forma responsável. Com isso, tornou-se habitual dizer que a internet é “terra sem sei”, o que não procede, afinal, o Marco Civil da Internet foi proposto justamente para dirimir tal argumento. Um dos principais direitos do cidadão, os direitos humanos, mantém-se preservado, o que inclui, entre outros, a liberdade de opinião e expressão, pilares essenciais à democracia, bem como o direito à privacidade. 25 Neste capítulo, você vai estudar a liberdade de expressão, conside- rando que ela significa muito mais do que simplesmente falar o que pensa. Também vai ler sobre a extensão da nossa liberdade de expressão enquanto profissionais da comunicação. Além disso, você vai conhecer a relação entre liberdade de expressão, privacidade e direitos humanos. Por fim, com base em exemplos reais que repercutiram na mídia, vai conferir os limites que devem nortear o direito à liberdade de expressão e à privacidade. 1 Conceito de liberdade de expressão A liberdade de expressão é um direito garantido na Constituição Federal de 1988, fi xado no art. 5º, parágrafo IV, que diz que “[…] é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato” e no parágrafo IX, que afi rma que “[…] é livre a expressão da atividade intelectual, artística, científi ca e de comunicação, independente de licença ou censura” (BRASIL, 1988, documento on-line). Além disso, a Declaração Universal dos Direitos Humanos (DUDH), proclamada em 10 de dezembro de 1948, na Assembleia Geral das Nações Unidas em Paris, considera esse direito um elemento essencial à democracia: Art. 19 – Todo o indivíduo tem direito à liberdade de opinião e de expressão, este direito implica a liberdade de manter as suas próprias opiniões sem inter- ferência e de procurar, receber e difundir informações e ideias por qualquer meio de expressão independentemente das fronteiras (NAÇÕES UNIDAS, 2009, documento on-line). A liberdade de expressão é uma cláusula pétrea da Constituição Federal, ou seja, é inviolável, não pode ser modificada nem mesmo por decreto ou emenda constitucional. O Marco Civil da Internet foi fundamentado nesse direito. Se analisarmos a definição de cada uma das palavras, liberdade significa “ser livre”, e expressão,“expressar por palavras”. O próprio termo, portanto, corresponde ao fato de ser livre para falar, expressar-se. Por isso, assegura- dos pela lei, todos temos direito a manifestar nossas opiniões sem medo de represálias. Na mesma proporção, temos o direito de receber informação por diferentes meios, de forma independente e sem censura, conforme consta no art. 1° da Lei nº. 5.250, de 9 de fevereiro de 1967, chamada de Lei de Im- prensa: “É livre a manifestação do pensamento e a procura, o recebimento e a difusão de informações ou ideias, por qualquer meio, e sem dependência Liberdade de expressão, privacidade e direitos humanos 26 de censura […]” (NEVES, 2000, p. 111). Isso significa, em partes, que temos o direito de manifestar nossa opinião pessoal ou de um grupo. No entanto, o fato de uma pessoa ter o direito a falar o que quiser, por exemplo, em sua rede social, não quer dizer que ela pode ofender ou xingar a imagem de outra, nem fazer acusações sem comprovação. A célebre frase de Augusto Branco define bem esse contexto: “As pessoas gostam do ideal de liberdade de expressão até o momento em que começam a ouvir aquilo que elas não gostariam que dissessem a respeito delas” (IMAGINIE, 2019, documento on-line). Certamente, a máxima da comunicação nos últimos tempos tem sido “O seu direito termina quando começa o meu” ou “O meu direito termina quando começa o do outro”. A própria Constituição estabelece limites legítimos para a liberdade de expressão do indivíduo, conforme consta no art. 5º (BRASIL, 1988, documento on-line): IV – é livre a manifestação do pensamento, sendo vedado o anonimato; V – é assegurado o direito de resposta, proporcional ao agravo, além da indenização por dano material, moral ou à imagem; X – são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito à indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação. A discussão sobre liberdade de expressão é ampla e muito complexa, pois, constantemente, há situações em que a pessoa se sente censurada ao expressar um pensamento sobre algo ou alguém. Porém, o que é preciso levar em consideração é que existem direitos constitucionais importantes que resguardam o indivíduo e que são instrumentos de proteção do direito penal, por meio dos crimes de injúria, calúnia e difamação, conhecidos como crimes contra a honra. Como profissionais da comunicação, o que precisamos ter em mente é que, sempre que a liberdade de expressão acontecer em excesso, de forma a ofender ou atacar outra pessoa sem provas e com o intuito de depreciar ou caluniar, a lei permite a responsabilização do autor do ato infrator, o que não configura censura. Quando isso acontece, é comum vermos manifestações contra o “politicamente correto”, mas, legalmente falando, trata-se do resguardo de direitos tão indispensáveis quanto o da liberdade de expressão. Trata-se de uma medida de ponderação do próprio direito, em que nenhuma norma ou princípio são absolutos. Como formadores de opinião, os jornalistas precisam considerar que ne- nhuma pessoa é condenada, civil ou criminalmente, por emitir opinião sobre um assunto, ou por fazer humor, ou expor sua visão de mundo. Ela será condenada Liberdade de expressão, privacidade e direitos humanos 27 pelo abuso do seu direito sempre que este ferir os direitos fundamentais de outra pessoa que merece igual proteção. Portanto, injúria, calúnia e difamação são crimes que não devem, de forma alguma, ser confundidos com o direito de liberdade de expressão e manifestação do pensamento. Para saber mais sobre a liberdade do jornalista de manifestar livremente aquilo que o incomoda enquanto profissional da comunicação e cidadão, assista ao filme O custo da coragem, de 2003, dirigido por Joel Schumacher. 2 Liberdade de expressão, privacidade e direitos humanos A relação estabelecida entre os princípios de liberdade de expressão, pri- vacidade e direitos humanos é justamente o direito que cada cidadão tem para se expressar e manifestar sua opinião acerca de qualquer assunto sem a intervenção do Estado. A DUDH, por meio da Resolução 217 A (III), garante — entre muitos outros direitos, como o direito à vida e à liberdade — o direito ao trabalho e à educação, o direito à liberdade de opinião e o direito à expressão, conforme consta em seu art. 19: “Toda pessoa tem direito à liberdade de opinião e expressão; este direito inclui a liberdade de, sem interferência, ter opiniões e de procurar, receber e transmitir informações e ideias por quaisquer meios e independentemente de fronteiras” (NAÇÕES UNIDAS, 2009, documento on-line). Portanto, os direitos humanos são diretrizes que reconhecem e res- guardam a dignidade de todos os povos e regem o modo como a sociedade se relaciona entre si. Segundo Lebre (2018, p. 2): Os direitos humanos, constituindo parte integrante da essência do Homem, e fundamentalmente, enquanto ser social e gregário, tomam um papel determi- nante na manutenção na harmonia e salvaguarda da liberdade, paz e justiça entre os indivíduos, de forma que estes se sintam protegidos de abusos como a discriminação, a intolerância, a injustiça, a opressão e a escravidão que podem surgir nesta convivência bem como sentirem vontade e liberdade em se assumirem com a dignidade daquilo que são — seres humanos. Liberdade de expressão, privacidade e direitos humanos 28 Os direitos humanos, então, não são simplesmente transferidos por outros indivíduos; são, na verdade, características inerentes à condição de ser humano e, por essa razão, não podem ser cassadas por outrem. Um dos campos em que o embate entre a liberdade de expressão e a cen- sura é mais explícito é o das artes. Observe as Figuras 1 e 2. Apesar estarem separadas por quase 100 anos, ambas foram consideradas “degeneradas” e alvo de reprimenda e censura. Figura 1. Imagem censurada — Ecce Homo, de Lovis Corinth (1925). Fonte: Corinth (2020, documento on-line). Liberdade de expressão, privacidade e direitos humanos 29 A Figura 1 apresenta a pintura Ecce Homo, criada pelo pintor expressionista Lovis Corinth, em 1925. Corinth, juntamente com dezenas de artistas, foi classificado como “degenerado” pelo Partido Nazista alemão. Todas as obras de arte e movimentos culturais que não estavam de acordo com a concepção de arte e o ideal de beleza dos nacional-socialistas receberam essa classificação. Figura 2. Imagem censurada — Cruzando Jesus Cristo com Deusa Schiva de Fernando Baril (1996). Fonte: Baril (1996, documento on-line). A Figura 2 apresenta a obra Cruzando Jesus Cristo com Deusa Schiva, de Fernando Baril, de 1996. A obra fez parte da exposição Queermuseu, realizada em 2017, e foi alvo de muita polêmica. Segundo os críticos, a obra é Liberdade de expressão, privacidade e direitos humanos 30 um “desrespeito a figura religiosa” e poderia ser tipificada como crime penal por “[…] vilipendiar publicamente ato ou objeto de culto religioso”, de acordo com art. 208 do Código Penal (BRASIL, 1940, documento on-line). Cientes de que a comunicação é essencial para as relações humanas, a liberdade de expressão é fundamental para o direito ao livre pensamento e expressão do indivíduo. Conforme destacado no início deste capítulo, a Constituição Federal brasileira, em seu art. 5º (BRASIL, 1988), garante a liberdade de pensamento e expressão. Por sua vez, o conceito de liberdade de expressão é extremamente amplo e tem diferentes implicações, que envolvem, desde uma pessoa expor sua opinião até um estadista expor sua ideologia, um jornalista, sua apuração, um artista, sua arte, etc. Da mesma forma, além de garantir a expressão, o direito também corresponde ao livre acesso à infor- mação, partindo de diferentes fontes de informação, independente de licença ou censura. Conforme Cabral (2010, documento on-line): É direito de qualquer um manifestar, livremente, opiniões, ideias e pensamen- tos pessoais sem medo de retaliação ou censura por partedo governo ou de outros membros da sociedade. É um conceito fundamental nas democracias modernas nas quais a censura não tem respaldo moral. Liberdade de pensamento e liberdade de expressão são os dois princípios que norteiam as democracias representativas, que se conciliam com outros direitos, por exemplo, direito à informação, direito à privacidade, etc. Não diferente do que vimos até aqui, o direito à privacidade também é resguardado por leis. Conforme já mencionado, no art. 5º da Constituição Federal, são “[…] direitos invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação” (BRASIL, 1988, documento on-line). Tal direito também é resguardo no art. 12, da Lei nº. 10.406, de 10 de janeiro de 2002, do Código Civil: “A vida privada da pessoa natural é inviolável e o juiz, a reque- rimento do interessado, adotará as providências necessárias para impedir ou fazer cessar ato contrário a esta norma” (BRASIL, 2002, documento on-line). Há uma estreita relação entre os três direitos citados aqui. O direito à liber- dade de expressão, os direitos humanos e o direito à privacidade se relacionam paralelamente e com uma única finalidade: resguardar o cidadão. Para Alves (2003, p. 287), a privacidade é um direito pessoal e: É, portanto, a exclusão do conhecimento alheio em relação àquilo que só diz respeito à própria pessoa, especificamente, quanto ao seu modo de ser. É o Liberdade de expressão, privacidade e direitos humanos 31 direito de resguardar-se a pessoa da ingerência alheia na sua vida privada. É o direito que a pessoa possui de resguardar-se dos sentidos alheios, prin- cipalmente da vista e ouvidos dos outros. Em suma, é o direito de estar só. Esses direitos têm suportes regulamentários garantidos em um mesmo estatuto jurídico: a Constituição Federal. Por isso, como jornalista, você pre- cisa atentar-se aos limites que circundam esses direitos para que não infrinja a lei. Além disso, é de estrema importância compreender que estabelecer limites para a liberdade de expressão não é censurar, e sim resguardar outros direitos, como o da privacidade. Veja no Quadro 1 as definições de liberdade, pensamento e expressão. Fonte: Adaptado de Lebre (2018). Liberdade É um conceito que encerra em si mesmo uma opção ou vontade própria e um constrangimento — o conflito com a liberdade de outra pessoa. Pensamento Natureza racional e exclusiva no homem, é uma manifestação da subjetividade humana, um fenômeno reservado à mente do próprio indivíduo. Pode ser considerado ou representado como uma não ação, no sentido de que não afeta diretamente outrem, exceto quando manifestado ou expressado por uma ação de comunicação (falar, escrever, agir, etc.). Expressão É ação concreta: uma comunicação, uma manifestação objetiva do pensamento. A natureza da interação é sempre em relação com outro, isto é, a expressão é manifestação exterior e objetiva do nosso pensamento em outrem. Ainda assim, a liberdade da expressão não é absoluta, porque ela pode estar limitada na sua ação quando, no seu pleno exercício, corre o risco de colidir com outras liberdades individuais, designadamente, o direito à honra, à integridade moral, à imagem, ao bom nome e à reputação. Quadro 1. Definição de liberdade, pensamento e expressão No próximo tópico, veremos alguns exemplos de veículos ou profissionais que excederam o direito à liberdade de expressão. Liberdade de expressão, privacidade e direitos humanos 32 3 Liberdade de expressão e privacidade Com a expansão da internet e, especialmente, das redes sociais, as relações humanas saíram do espaço privado e ganharam destaque no espaço público. Legitimamente, espaço público é caracterizado por aquele ambiente de uso comum, onde exercemos atividades coletivas e onde é pleno o direito de ir e vir. São os ambientes de circulação, como ruas, avenidas, praças, parques e praias. Já espaço privado é aquele ambiente de propriedade privada, seja por parte de um indivíduo, seja por parte de uma empresa, como casas, lojas comerciais, escolas particulares, shoppings, entre outros. As redes sociais surgem como um espaço público, como forma de interação entre os sujeitos sociais. Para Recuero (2009, p. 16) “[…] essa comunicação [a internet], mais do que permitir aos indivíduos comunicar-se, amplificou a capacidade de conexão, permitindo que redes fossem criadas e expressas nesses espaços: as redes sociais mediadas pelo computador”. Como bem sabemos, nesse ambiente virtual, podemos reencontrar amigos que não vemos há tempos, acompanhar a vida de personalidades da mídia, comprar, ficar informados e nos comunicar. Com muita exposição na internet, como é possível separar o direito à liberdade de expressão e à privacidade? Diariamente, vemos pessoas se posicionando nas redes sociais e fazendo uso do seu direito de fala para dizer o que pensam, muitas vezes sem prestar atenção na forma como se expressam e sem levar em consideração o impacto que sua fala pode provocar. Um exemplo dessa postura é o caso do jornalista Stanley Gusman, apresentador do programa Alterosa Alerta, da TV Alterosa, afiliada do SBT em Minas Gerais. Em julho de 2019, o apresentador afirmou no programa: “Eu sei quem é o dono do Ibope. O nome do cara é Montenegro. Se ele fosse do bem, ele ia chamar Montebranco”. Em seguida, ao que tudo indica, o apresentador foi advertido pelo ponto eletrônico e, rindo desconcertado, desabafou: “Não é de cor não gente. É escuro, escuridão. Céu branco, inferno negro. Ih, vocês também são muito, né?!”. A fala do jornalista repercutiu rapidamente nas redes sociais e gerou revolta pelo teor racista. Os internautas pediram sua prisão por injúria racial, direito previsto em lei. Mostrando-se contrário à postura do jornalista, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais emitiu nota condenando a fala do apresentador e destacando que, em vez de usar a liberdade de expressão para promover temas construtivos e de valorização da igualdade, ele transmitiu uma ideia racista (APRESENTADOR..., 2019, documento on-line). Liberdade de expressão, privacidade e direitos humanos 33 Ao contrário do caso citado acima, que tratou do limite da liberdade de expressão, o exemplo a seguir diz respeito ao direito à privacidade. Em abril de 2020, a atriz Grazi Massafera reclamou, em suas redes sociais, que fotos suas foram tiradas por um pararazzi sem a sua permissão. Na ocasião, a atriz, que estava em distanciamento social por conta da pandemia de coronavírus, estava junto de seu namorado Caio Castro na sacada da varanda de seu apartamento, admirando o pôr do sol da praia de São Conrado, no Rio de Janeiro. Logo, a foto ganhou as páginas dos principais sites do Brasil (OLIVEIRA, 2020). Tempo depois, a atriz voltou às redes sociais e postou a foto de sua cachorri- nha na janela com a seguinte frase: “E noixxx tá como?!” com a observação “Aos que fazem fotos sem permissão da janela das pessoas, apenas parem por favor, ok? Entendedores entenderão” (GRAZI..., 2020a, documento on-line). Automaticamente, a atriz recebeu apoio de amigos indignados com a invasão de privacidade, uma delas a também atriz Fabíula Nascimento, que afirmou: “Um absurdo! É impressionante a confusão feita de: invasão de pri- vacidade com o ‘é o preço da fama’. Uma coisa é estar na rua, num evento… Outra é ter sua casa vigiada” (GRAZI..., 2020b, documento on-line). A fala de Fabíula merece atenção, pois representa exatamente os limites que precisam ser estabelecidos entre liberdade de expressão e privacidade. Por mais que se trate de uma pessoa pública, o direito à privacidade de Grazi Massafera foi violado a partir do momento em que ela foi fotografada em sua casa e a foto divulgada sem sua autorização. Naquele momento, a atriz não estava em seu ambiente de trabalho, muito menos na rua. Além disso, os veículos de comunicação que compartilharama imagem contribuíram para a invasão de privacidade. Nos meios de comunicação, é cada vez mais comum que profissionais cometam abusos em suas publicações. A ética e a responsabilidade em noticiar perdem espaço para a busca por audiência e, muitas vezes, o resultado é a demissão do profissional. Um exemplo a esse respeito ocorreu no fim de 2019. Aaron Tura, responsável pelo site TV Foco e colunista do programa Melhor da Tarde (Bandeirantes), cometeu dois abusos: violou a privacidade da atriz Isis Valverde e distorceu informações sobre a família do falecido apresentador Gugu Liberato. A respeito da atriz Isis Valverde, Aaron Tura destacou a manchete “Isis Valverde mostra os peitos em foto íntima e faz grande anúncio: ‘hoje tem’”, acompanhada de uma foto que a atriz havia publicado na sua rede social. No entanto, ao contrário do que a matéria induzia, a foto mostrava Ísis amamen- tando o filho, e a legenda (escrita pela atriz) dizia: “Hoje tem amor de mãe” (ISIS, 2019, documento on-line). A atriz se manifestou, reclamando pela Liberdade de expressão, privacidade e direitos humanos 34 distorção da notícia e, principalmente, por explorar sua imagem de forma sensual/sexual. Neste caso, a atriz também recebeu apoio de outras atrizes e mulheres anônimas que se solidarizam com a deturpação da imagem de uma mãe amamentando seu filho. O site TV Foco, muitas outras vezes, publicou notícias sensacionalistas e apelativas para gerar audiência. Com isso, tornou-se um meio de comunicação sem credibilidade na rede. Em outra ocasião, Aaron Tura publicou mais uma matéria com informa- ção deturpada. Neste caso, foi a respeito da família do apresentador Gugu Liberato, que faleceu em novembro de 2019. A manchete no site destacava afirmava: “Roberto Cabrini faz descoberta avassaladora na morte de Gugu e é ameaçado pela família: ‘A verdade vai aparecer’” (JORNALISTA..., 2019, documento on-line). A publicação do colunista fazia menção à reportagem feita pelo jornalista Roberto Cabrini, do SBT. As duas polêmicas custaram o emprego do colunista no Melhor da Tarde. Sob forte pressão, o diretor do programa, Rodrigo Riccó, demitiu o profissional, visando não ter a imagem do programa relacionada à postura do colunista. Isso porque, não apenas os envolvidos ficaram indignados com a falta de ética, mas também o público fez críticas e cobrou um posicionamento da apresentadora Cátia Fonseca nas redes sociais do programa. O impacto dos fatos, a revolta dos internautas e a demissão fizeram com que o colunista se afastasse das redes sociais por um tempo e, quando regressou, emitiu um comunicado pedindo desculpas e reconhecendo o erro (JORNALISTA..., 2019). A respeito do direito à privacidade, conforme o inciso X do art. 5º da Constituição, “X – são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação” (BRASIL, 1988, documento on-line). Para os juristas, a chave para a compreensão do inciso está nos conceitos de intimidade, que diz respeito a suas relações sociais mais próximas com a família, e vida privada, que é a relação do indivíduo com a sociedade de forma mais ampla. Imagine um indivíduo que viva em uma casa com sua mãe e seu irmão. Os fatos que ocorrem em sua casa formam a esfera de sua intimidade. Já os fatos que envolvem sua interação com seus colegas e amigos fazem parte de sua vida privada. A privacidade inclui todas as relações que não são públicas, mesmo as que não são tão próximas como a relação que se tem com familiares. Porém, muitas vezes, para informar algum assunto importante à sociedade, a imagem de algumas pessoas é divulgada. Nessas situações, pode haver “[…] um choque entre o direito à imagem e o direito à informação” (CHAGAS, Liberdade de expressão, privacidade e direitos humanos 35 2019, documento on-line). Para não cometer abusos, deve-se, então, observar os seguintes fatores, de acordo com o caso em questão (CHAGAS, 2019): ▪ Veracidade da informação: a informação exposta junto com a imagem era verdadeira? ▪ Justificativa: houve um motivo justo para que a imagem fosse divulgada? Ela era fundamental para a compreensão da matéria? ▪ Grau de consciência do indivíduo: a pessoa cuja imagem foi divulgada sabia que estava sendo fotografada? ▪ Publicidade do local: o local onde a imagem foi captada era público? ▪ Grau de preservação do contexto original da foto: a imagem foi utilizada dentro do contexto em que foi tirada? ▪ Grau de identificação do indivíduo: a pessoa pode ser facilmente reco- nhecida na foto, por exemplo por meio de sua roupa ou de sua identificação na legenda da foto? ▪ Utilização da imagem: a imagem foi usada de forma jornalística ou co- mercial? ▪ Grau de publicidade da pessoa: a pessoa que teve sua imagem utilizada era uma figura pública ou conhecida? Dependendo da resposta a tais perguntas, pode ser que a divulgação de fotos do indivíduo em questão não tenha configurado uma violação à sua imagem. Podemos concluir, desse modo, que é imprescindível ter responsabilidade na hora de se comunicar. O jornalista precisa entender bem a distinção entre responsabilização e censura. Quando uma pessoa comete abuso, ela deve ser penalizada por suas ações. Isso não quer dizer que ela está sofrendo censura. Portanto, compreender conceitos como espaço público, espaço privado, inti- midade e, sobretudo, direito à privacidade e direito à liberdade de expressão, é essencial para o jornalista. ALVES, D. F. A. R. Direito à privacidade e liberdade de expressão. Rev EMERJ, v. 6, n. 24, 2003. Disponível em: https://www.emerj.tjrj.jus.br/revistaemerj_online/edicoes/ revista24/revista24_285.pdf. Acesso em: 10 abr. 2020. APRESENTADOR acusado de fazer comentário racista pede desculpas. Estadão, 10 jul. 2019. Disponível em: https://emais.estadao.com.br/noticias/tv,apresentador-acusado- -de-fazer-comentario-racista-pede-desculpas,70002916067. Acesso em: 13 maio 2020. Liberdade de expressão, privacidade e direitos humanos 36 BARIL, F. Cruzando Jesus Cristo Deusa Schiva. Porto Alegre: RBS, 1996. 1 imagem. Dis- ponível em: https://www.rbsdirect.com.br/imagesrc/23661979.jpg?w=700. Acesso em: 13 maio 2020. BRASIL. [Constituição (1988)]. Constituição da República Federativa do Brasil. Brasília, DF, 1988. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/constituicao/constituicao. htm. Acesso em: 17 abr. 2020. BRASIL. Decreto-Lei nº. 2.848, de 7 de dezembro de 1940. Código penal. Rio de Janeiro, 1940. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848compilado. htm. Acesso em: 13 maio 2020. BRASIL. Lei nº. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o código civil. Brasília, DF, 2002. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/2002/l10406.htm. Acesso em: 13 maio 2020. CABRAL, B. F. Freedom of speech: considerações sobre a liberdade de expressão e de imprensa no direito norte-americano. Jus Navigandi, ano 15, n. 2640, 23 set. 2010. Dispo- nível em: https://jus.com.br/artigos/17476/freedom-of-speech. 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Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. Liberdade de expressão, privacidade e direitos humanos 38 DICA DO PROFESSOR Liberdade de expressão, direito à privacidade e defesa dos direitos humanos são temas historicamente relacionados à prática profissional do jornalista, que há séculos exerce a difícil tarefa de buscar equilíbrio entre esses pontos, investigando, apurando e denunciando ações dos poderosos para a sociedade. De fato, muitos consideram a imprensa o "quarto poder". Dado o alcance e a facilidade de uso, vários jornalistas começaram a utilizar as redes sociais como ferramenta de divulgação de seu trabalho. O que se pode constatar é que o respeito à privacidade, em muitos casos, está longe de ser efetivo, em especial no caso de jornalistas mulheres. Na Dica do Professor, você entenderá melhor essa relação, tendo como foco de análise o Twitter. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! EXERCÍCIOS 1) A liberdade de expressão é um importante preceito democrático, fundamental para a manutenção e a ordem, em grande parte, das sociedades modernas. Justamente por causa disso, o Poder Legislativo reiteradamente busca assegurar tal direito. Dos documentos listados a seguir, somente um não faz alusão à liberdade de expressão. Qual? A) Declaração Universal dos Direitos Humanos. B) Constituição da República Federativa do Brasil. C) Código de Defesa do Consumidor. 39 D) Marco Civil da Internet. E) Código de Ética do Jornalista. 2) Considerando que "Os direitos humanos, constituindo parte integrante da essência do homem, e fundamentalmente, enquanto ser social e gregário, tomam um papel determinante na manutenção na harmonia e salvaguarda da liberdade, paz e justiça entre os indivíduos, de forma que estes se sintam protegidos de abusos como a discriminação, a intolerância, a injustiça, a opressão e a escravidão que podem surgir nesta convivência, bem como sentirem vontade e liberdade em se assumirem com a dignidade daquilo que são – seres humanos", observe as seguintes asserções: I - Os direitos humanos são características inerentes à condição de ser humano. Por isso: II - Podem ser cassados por outrem e transferidos por outros indivíduos. Assinale a alternativa correta. A) A asserção I é falsa, e a asserção II é verdadeira. B) A asserção I é verdadeira, e a asserção II é falsa. C) As asserções I e II são verdadeiras, sendo que a II é uma consequência da I. D) As asserções I e II são verdadeiras, mas a II não é uma consequência da I. E) As asserções I e II são falsas. O artigo 5.o da Constituição assegura os direitos dos cidadãos no tocante à liberdade de pensamento e expressão. "Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos estrangeiros residentes no País 3) 40 a inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade". Com base nesse artigo, considere as seguintes afirmações: I - Os brasileiros só podem ser obrigados a fazer ou deixar de fazer algo se uma lei assim o definir. II - Sendo o catolicismo, a religião oficial do Brasil, seguir outra religião viola o direito de pensamento. III - A expressão artística, intelectual e científica necessita do selo de aprovação dos respectivos Ministérios (das Artes, Cultura e Ciência). IV - O brasileiros podem se associar da forma como quiserem, desde que a associação não seja para fins paramilitares. Estão corretas as afirmativas: A) I e II. B) I e III. C) I e IV. D) II e III. E) II e IV. Em relação à prática do jornalismo, o atual contexto tecnológico cria oportunidades e amplia as modalidades de trabalho e investigação do jornalista. Ao mesmo tempo, com a crescente amplitude de alcance dada pela rede digital, cresce também uma força contrária exercida no sentido de cercear a atuação do jornalista. Considere as seguintes afirmações: I - A liberdade de expressão via canais digitais não é universal, sendo restrita em alguns lugares do planeta. 4) 41 II - Atos terroristas contra órgãos da imprensa são também atentados à liberdade de expressão. III - O narcotráfico e o crime organizado atuam contra os jornalistas muitas vezes com a conivência do aparato de segurança do Estado. IV - Alguns presidentes de países da América têm criticado ou desabonado a prática do jornalismo. Quais das afirmações aplicam-se ao contexto brasileiro? A) I e II. B) I e III. C) I e IV. D) II e III. E) III e IV. Considere o seguinte: No início de 2018, a atriz Paolla Oliveira estava em set de filmagem da Rede Globo de Televisão, em Avaré (SP), onde se realizavam as filmagens da série "Assédio". A atriz foi fotografadaclandestinamente no processo de troca de roupas, e essas fotos passaram a circular pela rede digital. A Rede Globo de TV, em comunicado à imprensa, se solidarizou com a atriz, afirmando que ocorreu um crime de violação do direito à privacidade da atriz. Com base no inciso X do art. 5.o da Constituição, que versa sobre os direitos da privacidade, considere as seguintes afirmativas: I - A atriz não estava ciente de que estava sendo fotografada. II - O local onde a imagem foi captada não era público. 5) 42 III - A personagem interpretada pela atriz aparece nua na minissérie. IV - Sendo uma figura notória, o direito à privacidade da atriz é relativo. Quais afirmações justificam o argumento de que um crime contra o direito à privacidade foi cometido? A) I e II. B) I e III. C) I e IV. D) Ii e III. E) II e IV. NA PRÁTICA A questão acerca da liberdade de expressão é polêmica e tem sido palco de acaloradas discussões há pelo menos um século. Com o advento da Internet e das redes sociais, essa discussão não apenas tornou-se mais complexa como também passou a relacionar-se com os direitos dos cidadãos. A evolução dos meios de comunicação e das tecnologias digitais traz novas vantagens e possibilidades para os cidadãos, mas também cria a oportunidade para novos crimes. À medida que os brasileiros passam a viver e a depender dos seus dados digitais, armazenando informações pessoais e profissionais, passam a ser alvos de criminosos em busca de dados como números de cartões de crédito e informações pessoais. Muitos desses crimes ainda não são tipificados pelo Código Penal brasileiro. Um fato que trouxe notoriedade e incentivou a discussão acerca do direito à privacidade e dos limites à liberdade de expressão ocorreu em 2012 com a atriz Carolina Dieckmann, que teve fotos íntimas roubadas e divulgadas na rede digital, as quais foram acessadas mais de 8 milhões 43 de vezes em apenas quatro dias. Na ocasião da captura dos criminosos, não existia o crime de "invasão de dispositivo informático". Veja, Na Prática, a discussão que se instaurou sobre o direito à privacidade e que gerou a lei que ficou conhecida como "Lei Carolina Dieckmann". Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! SAIBA MAIS Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Observatório da Imprensa – Uma antologia de crítica de mídia no Brasil de 1996 a 2018 O Observatório da Imprensa abriga um extenso acervo de 22 anos de crítica de mídia no Brasil e deu origem à criação de um espaço autônomo e plural de crítica do jornalismo. Textos relevantes desse acervo compõem a compilação “Observatório da Imprensa – Uma antologia de crítica de mídia no Brasil de 1996 a 2018”, organizada pelos jornalistas Pedro Varoni e Lucy Oliveira e publicada em formato de e-book pela Editora Casa da Árvore. Recomendamos a leitura do capítulo 5 - "2016 até hoje — desinformação em rede." Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Ele riu da condenação? Com a palavra, Danilo Gentili O comediante e apresentador do programa "The Noite" foi condenado a seis meses de prisão por piada que fez com a Deputada Maria do Rosário. Nesta entrevista concedida a Leda Nagle, ele explica em detalhes o ocorrido. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Liberdade, privacidade e direitos humanos O Comitê Gestor da Internet, ao longo do ano de 2015, realizou um Ciclo de Conferências com a participação de cientistas, pensadores, inventores, ativistas e personalidades da Internet. A mesa "Liberdade, Privacidade e Direitos Humanos" contou com a participação de Frank La Rue (especialista em direitos humanos e direitos trabalhistas) e James Bamford (jornalista americano 44 especialista em órgãos de inteligência). Confira. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Como a China "apagou da memória" o Massacre da Praça da Paz Celestial, que completa 30 anos A liberdade de expressão não é um direito garantido em todos os países do mundo. Em alguns deles, o Estado utiliza de seu poderio para impedir a livre circulação de informações, e a China é um exemplo. Nesta matéria da BBC, o jornalista John Sudworth mostra como a China apagou fatos do passado recente, como o Massacre da Praça da Paz Celestial. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Bem-vindo a Fahrenheit 451 (Leia-o ou queime-o!) "Se não quiser um homem politicamente infeliz, não lhe dê os dois lados de uma questão para resolver; dê-lhe apenas um. Melhor ainda, não lhe dê nenhum. Deixe que ele se esqueça de que há uma coisa como a guerra. Se o governo é ineficiente, despótico e ávido por impostos, melhor que ele seja tudo isso do que as pessoas se preocuparem com isso." Fahrenheit 451 é um romance de ficção de Ray Bradbury que fala sobre um mundo onde o controle da informação é tamanho que existe uma equipe de profissionais cuja função é queimar livros. Confira essa reflexão do canal "Quebrando a Caixa" sobre o tema. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! 45 Responsabilidade civil subjetiva, objetiva (teoria do risco) e culpa presumida APRESENTAÇÃO A responsabilidade civil prevê que um dano causado a alguém deve ser indenizado pelo agente causador. Assim, no tocante ao elemento subjetivo, a responsabilidade civil tem como espécies: a subjetiva e a objetiva, sendo a culpa elemento integrante ou não da obrigação de reparar o dano. Nesta Unidade de Aprendizagem, você vai aprender sobre os tipos de responsabilidade civil. Vai estudar a evolução histórica do instituto, dos primórdios até os dias atuais, com enfoque na culpa como seu elemento subjetivo. Verá os tipos de responsabilidade civil, os quais são definidos com base na análise da existência ou não do elemento subjetivo, qual seja, a culpa. Além disso, como muitos temas novos surgem com o desenvolvimento da sociedade, você estudará o tratamento dado à responsabilidade civil pelas Cortes Superiores brasileiras. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Verificar a evolução histórica das espécies de responsabilidade civil.• Explorar as espécies de responsabilidade civil.• Analisar a aplicação da responsabilidade civil pelas Cortes Superiores.• DESAFIO Os conceitos de responsabilidade civil se baseiam na obrigação de reparar um dano causado, mesmo que involuntariamente. Com a evolução histórica do instituto, o Estado assumiu a função de regular a resolução de tais conflitos. Analise o seguinte caso e verifique a melhor solução para ele. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! 46 INFOGRÁFICO Com o Código Civil de 2002 a responsabilidade objetiva ingressou efetivamente no ordenamento jurídico brasileiro, mas a prevalência da culpa (responsabilidade subjetiva) continua sendo a regra, porém, com a previsão da responsabilidade objetiva em várias situações. Neste Infográfico você verá os tipos de responsabilidade civil a partir da comprovação ou não do elemento culpa. 47 48 CONTEÚDO DO LIVRO A responsabilidade civil nasceu da necessidade da sociedade resolver de forma institucionalizada os conflitos, oriundos do não cumprimento de uma obrigação. O tema desenvolveu-se passando de uma ideia de vingança até a reparação pecuniária do dano. Leia o capítulo Responsabilidade civil subjetiva, objetiva (teoria do risco) e culpa presumida, da obra Responsabilidade civil, base teórica para esta Unidade de Aprendizagem, em que você verá os tipos de responsabilidade civil, como a subjetiva, a objetiva e a culpa presumida, e também como o tema é tratado pelas Cortes Superiores brasileiras. 49 Responsabilidade civil subjetiva, objetiva (teoria do risco) e culpa presumida Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Verificar a evolução histórica das espéciesde responsabilidade civil. Explorar as espécies de responsabilidade civil. Analisar a aplicação da responsabilidade civil pelas Cortes Superiores. Introdução A responsabilidade civil pressupõe a reparação de um dano causado à vítima por meio de uma indenização. Neste capítulo, você vai aprender sobre os tipos de responsabilidade civil. Estudará a evolução histórica do conceito, dos primórdios até os dias atuais, com enfoque na culpa como o seu elemento subjetivo. Verá os tipos de responsabilidade civil, os quais são definidos com base na análise da existência ou não do elemento subjetivo, ou seja, a culpa. Assim, a culpa define o tipo de responsabilidade, que pode ser subjetiva, objetiva e de culpa presumida. Além disso, como muitos temas novos surgem com o desenvolvimento da sociedade, você estudará o tratamento dado à responsabilidade civil pelas Cortes Superiores brasileiras. Evolução histórica das espécies de responsabilidade civil O instituto da responsabilidade civil se baseia em uma concepção moderna da reparação de danos. Nos primórdios da civilização, não existia a noção de responsabilidade civil como hoje conhecemos e não se avaliava o seu elemento subjetivo: a culpa. C02_Responsabilidade_civil_objetiva_subjetiva_culpa.indd 1 05/04/2018 10:38:49 50 As concepções de justiça que regiam as sociedades antigas embasavam o pensamento de que o dano injusto, decorrente do descumprimento de um de- ver contratual ou pela desobediência a um preceito legal, deveria acarretar ao devedor o dever de indenizar o ofendido. Embora sejam essas as mesmas ideias que perpassam o Direito atual, nem sempre o dever de indenizar recaía sobre o patrimônio do devedor. Nesse sentido, a Lei de Talião — “olho por olho, dente por dente” — transmitiu ao Direito Romano clássico a concepção de que o credor tinha direito de exigir corporalmente do devedor a satisfação da ofensa à obrigação contratual ou a lesão a preceito legal (TEPEDINO, 2006). Em contrapartida, a Lei de Talião traz a primeira ideia de proporcionalidade na reparação do dano. Posteriormente, passou-se à chamada fase da composição tarifada, na qual a Lei das 12 Tábuas fixava, em casos concretos, o valor da pena a ser paga pelo ofensor, a qual deveria ser proporcional àquele sofrido por ela. Nesse momento, o Estado passou a ocupar a posição da vítima, suprindo a sua vontade ao dosar a pena a ser paga pelo agente ofensor, substituindo a composição voluntária por uma composição obrigatória e, inclusive, tarifada, sendo estipulados valores para as diversas espécies de lesão ou dano. Essa evolução teve o seu marco histórico quando, ao assumir a função de punir, o Estado se tornou responsável pela ação repressiva, dando origem à ação de indenização. Prevaleceu no Direito Romano, inicialmente, a responsabilidade civil objetiva, pois não havia a exigência de comprovação do elemento subjetivo “culpa” para a exigência das cruéis penas impostas. Porém, a comprovação da culpa passou a ser necessária a partir da percepção de que as penas corporais constituíam meio impróprio de satisfação do direito lesado e que a sua não exigência acarretava situações injustas (TARTUCE, 2011). A maior evolução da responsabilidade civil ocorreu com o advento da Lex Aquilia, que deu origem à denominação da responsabilidade civil delitual ou extracontratual, também chamada de responsabilidade aquiliana. Nasceu, nesse momento, um princípio geral regulador da reparação do dano, trazendo as primeiras ideias de culpa. Foi também nesse momento que surgiram as primeiras divisões entre responsabilidade civil e responsabilidade penal. Com o advento da Lei Poetelia Papiria (326 a.C.), a responsabilidade civil passou a ser um vínculo jurídico, isto é, imaterial, sendo que o devedor passou a responder pelo débito não mais com seu corpo, mas com o seu patrimônio. Essa é a evolução mais próxima do que atualmente se entende por reparação civil, que é a compensação do dano em valor pecuniário correspondente. Com a criação do código de Napoleão, em 1804, temos o nascimento de um modelo da legislação moderna. Ele buscava impedir a interferência abusiva do Estado na vida dos cidadãos, trazendo o preceito básico da responsabilidade Responsabilidade civil subjetiva, objetiva (teoria do risco) e culpa presumida C02_Responsabilidade_civil_objetiva_subjetiva_culpa.indd 2 05/04/2018 10:38:50 51 civil extracontratual, com fundamento na culpa efetiva e provada. O art. 1.382 do Code é claro ao exigir a culpa como elemento da responsabilidade civil, enunciando que todo ato de homem que cause dano a terceiro obriga o responsável que agiu com culpa a repará-lo (PEREIRA, 1994). Assim, o código francês instituiu um princípio geral, “[...] obrigando a reparar todos os danos que uma pessoa causar a outra por sua culpa” (PEREIRA, 1994, p. 6). A culpa, como condição essencial do dever de indenizar, foi, assim, durante muito tempo ao longo da história, a única regra — e cumpria satisfatoriamente a sua função na responsabilidade civil. Porém, com o passar dos tempos, percebe- mos que a culpa sozinha não poderia embasar todo o instituto da responsabilidade civil, pois existiam situações que exigiam uma reparação de danos mesmo sem a análise do elemento subjetivo culpa. Surgiu, então, a responsabilidade objetiva. No ano de 1897, Louis Josserand apontou a responsabilidade objetiva como marco evolutivo do tema da responsabilidade civil (PEREIRA, 1994). A visão de Josserand era diferenciada e inovadora para a sua época, pois, para ele, o dano levaria em conta o sujeito passivo do prejuízo, ou seja, a vítima. Como aponta Almeida (2007, p. 62), analisando a responsabilidade civil e a obra de Josserand: É verdade que a relevância da matéria está intimamente ligada ao progresso da humanidade. Tal fato não passou despercebido a Louis Josserand, que, já em 1936, observava a existência de causas profundas, ao mesmo tempo de ordem social e mecânica, científica e material, responsáveis pela prodigiosa e acelerada evolução do instituto da res- ponsabilidade civil. O desenvolvimento científico, gerador de conforto por um lado, mas de perigos e acidentes, por outro, tornou-se fonte relevante da responsabilidade civil. Mais adiante, o autor (ALMEIDA, 2007) refere que a responsabilidade civil, a partir dos estudos de Josserand, foi redimensionada para se preocupar mais com a reparação do lesado, chegando-se até a excessos nesse sentido. Da evolução do Direito francês, surgiram dois campos distintos na área da res- ponsabilidade civil. Na maioria dos casos, continuava-se a examinar a conduta do autor do dano e a responsabilidade civil dependia da prova da culpa ou da sua presunção. Porém, em outras situações, surgiu a teoria da responsabilidade Responsabilidade civil subjetiva, objetiva (teoria do risco) e culpa presumida C02_Responsabilidade_civil_objetiva_subjetiva_culpa.indd 3 05/04/2018 10:38:50 52 objetiva, na qual se visava garantir a segurança da vítima com base na teoria do risco ou na desigualdade de condições entre o autor do dano e a vítima. Josserand (1941), defensor da teoria do risco desenvolvida por Raymond Saleilles, traz como causas da evolução da responsabilidade civil o caráter sucessivamente mais perigoso da então vida moderna, na qual o perigo havia se intensificado diante da Revolução Industrial, aliada ao aumento da preocupação com a reparação do dano e com a vítima do prejuízo. A teoria do risco surge como base para a responsabilidade objetiva, na qual os autores defendem que todos devem ser responsáveis não somente por seus atos culposos, mas por todos aqueles atos que causem dano a terceiros. No Brasil, as primeiras noções de responsabilidade civil objetiva surgiram com o Código de Defesa do Consumidor (BRASIL, 1990), o qual prevê algumas hipóteses de proteção do consumidor contra produtos e serviços que lhe ofereces- sem riscos, sem a análise da existência da culpa por parte do causadordo dano. Com o Código Civil de 2002 (BRASIL, 2002), a responsabilidade objetiva ingressou efetivamente no ordenamento jurídico brasileiro. A prevalência da culpa (responsabilidade subjetiva) continua sendo a regra, mas com a previsão da responsabilidade objetiva em várias situações. A preocupação do ordenamento jurídico, assim, passa a ser a reparação do dano, estabelecendo que cada um deve suportar os riscos da sua atividade. Espécies de responsabilidade civil A responsabilidade civil prevê que um dano causado a alguém deve ser in- denizado pelo agente causador. Assim, no tocante ao elemento subjetivo, a responsabilidade civil tem como espécies a subjetiva e a objetiva, sendo a culpa um elemento integrante ou não da obrigação de reparar o dano. Dessa forma, para que haja obrigação de reparação do dano, há a necessidade da demonstração de culpa do agente ofensor. A culpa é a não observância de um dever que o agente podia conhecer e observar. Se efetivamente o conhecia e deliberadamente o violou, ocorre o delito civil, ou, em matéria de contrato, o dolo contratual. Se a violação do dever, podendo ser conhecida e evitada, é involuntária, constitui culpa simples (DIAS, 2006). Assim, na responsabilidade civil subjetiva, a culpa se caracteriza quando o causador do dano não tinha intenção de provocá-lo, mas, por imprudência, negligência, imperícia, causa dano, gerando a obrigação de repará-lo. Entre as modalidades de culpa, destacamos que a imprudência ocorre por precipitação, consistindo em praticar uma ação sem as necessárias precauções. Responsabilidade civil subjetiva, objetiva (teoria do risco) e culpa presumida C02_Responsabilidade_civil_objetiva_subjetiva_culpa.indd 4 05/04/2018 10:38:50 53 Ou seja, o agente age com precipitação, inconsideração, ou inconstância no cumprimento de determinado ato, causando dano. A negligência se dá quando o agente não toma os devidos cuidados, não acompanha a realização do ato com a devida atenção e diligência, não agindo com zelo. O agente, por sua omissão voluntária de cuidado, acarreta a falta ou demora no prevenir ou obstar um dano. A imperícia, por sua vez, ocorre quando o agente acredita estar apto e possuir conhecimentos suficientes para a prática de um ato; entretanto, não está de fato preparado por falta de conhecimento, aptidão, capacidade ou competência. Ela ocorre pela falta de especial habilidade, experiência ou previsão no exercício de determinada função, profissão, arte ou ofício. Para entender melhor as modalidades de culpa, vejamos alguns exemplos. Imprudência: ocorre muito no trânsito, como, por exemplo, quando o condutor trafega pelo acostamento. Negligência: deriva da ausência de um dever de cuidado, como, por exemplo, uma criança que foge da creche. Nesse caso, as pessoas que tinham o dever de cuidar foram negligentes com esse dever. Imperícia: resulta da falta de um conhecimento que o agente acredita ou diz ter. Por exemplo, um médico clínico geral que realiza uma cirurgia plástica. Esse médico não tem conhecimento técnico para realizar o ato e está agindo com imperícia. A responsabilidade civil subjetiva ocorre quando o agente age com culpa. Assim, quando restar comprovada a presença de um dos três elementos (ne- gligência, imperícia ou imprudência), fica caracterizada a culpa do agente, surgindo o dever de reparação, pois, mesmo sem intenção, mas com culpa, o agente causou dano. Para a caracterização da culpa, é necessário que ela seja demonstrada por meio de provas. Entretanto, existe a teoria da culpa presumida, que resulta na hipótese da responsabilidade subjetiva com culpa presumida. Nesse caso, ocorre uma inversão do ônus da prova quanto à culpabilidade. Segundo Ca- valieri Filho (2008, p. 39): [...] diante da complexidade e dificuldade em provar a culpa em determinadas situações e da objeção da doutrina subjetivista em reconhecer a necessidade de imposição da teoria da responsabilidade objetiva, o instituto da culpa presumida foi a ferramenta utilizada para facilitar a situação da vítima quanto à prova da culpa do agente causador do dano. Responsabilidade civil subjetiva, objetiva (teoria do risco) e culpa presumida C02_Responsabilidade_civil_objetiva_subjetiva_culpa.indd 5 05/04/2018 10:38:50 54 Gonçalves (2003, p. 18) afirma que “[...] quando a culpa é presumida, inverte-se o ônus da prova. O autor da ação só precisa provar a ação ou omis- são e o dano resultante da conduta do réu, porque sua culpa já é presumida”. Por fim, temos a responsabilidade objetiva, a qual não depende da com- provação da culpa do agente causador do dano, apenas do nexo de causalidade entre a sua conduta e o dano causado à vítima. Ou seja, mesmo que o agente causador não tenha agido com dolo ou culpa, deverá indenizar a vítima. Por responsabilidade objetiva, enfim, entendemos aquela que dispensa a culpa, bastando a ocorrência do dano. Ela é justificada com base na teoria do risco, a qual defende que, se alguém exerce uma atividade criadora de perigos especiais, deve responder pelos danos que ocasionar a terceiros. Assim, a responsabilidade é decorrente do risco criado pela atividade e não da culpa. Em suma, no ordenamento jurídico atual, há necessidade de demonstração da culpa para configuração da responsabilidade civil, que tem como regra a responsabilidade subjetiva. Entretanto, em detrimento da teoria da culpa, a teoria do risco ganha o seu espaço, estabelecendo também a responsabilidade objetiva, que independe de culpa. A teoria do risco (responsabilidade objetiva) é apresentada em diversas modalidades (PEREIRA, 1994): Risco proveito — Responsabiliza aquele que busca tirar proveito da atividade da- nosa, baseando-se no preceito de que quem aufere o bônus, deve suportar o ônus. Risco profissional — Aqui, o dever de indenizar ocorre sempre que o fato prejudicial de- corre da atividade ou profissão do lesado. Justifica a reparação dos acidentes de trabalho. Risco excepcional — Ocorre quando o dano decorre de situação anormal, es- capando da atividade comum da vítima, ainda que estranho ao trabalho que normalmente exerça. Risco integral — É admitida no âmbito do Direto Administrativo. A responsabilidade decorre da própria atividade, sendo uma forma de repartir por todos os membros da coletividade os danos atribuídos ao Estado, ainda que o dano seja decorrente da atividade da vítima. Risco criado — Ocorre quando aquele que, em razão de sua atividade ou profissão, cria um perigo, estando assim a reparar o dano que causar, salvo prova de haver obedecido a todas as medidas idôneas a evitá-lo. Conforme destaca Caio Mário, a teoria do risco criado é a que melhor se adapta às condições de vida social, fixando-se na ideia de que, se alguém põe em funcionamento qualquer atividade, responde pelos eventos danosos que essa atividade gera para os indivíduos, independentemente de determinar se em cada caso, isoladamente, o dano é devido à imprudência, a um erro de conduta. Responsabilidade civil subjetiva, objetiva (teoria do risco) e culpa presumida C02_Responsabilidade_civil_objetiva_subjetiva_culpa.indd 6 05/04/2018 10:38:51 55 Aplicação da responsabilidade civil pelas Cortes Superiores Quando falamos em aplicação das teorias do Direito e da legislação, devemos focar o estudo nos tribunais de um país. A jurisprudência, assim, surge como refl exo do entendimento e aplicação de institutos e conceitos jurídicos, como no caso em estudo da responsabilidade civil. Assim, a jurisprudência resulta do entendimento e da aplicação em determinado sentido da legislação, sendo que os Tribunais Superiores é que formam a jurisprudência que deve ser se- guida pelos tribunais inferiores e por juízes no país. Os Tribunais Superiores devem observar a aplicação da legislação em consonância com os princípios constitucionais de forma que o ordenamento jurídico se mantenha harmonioso com o que determina a Constituição. Nesse sentido, é importante que analisemoscomo as Cortes Superiores têm entendido e aplicado o instituto da responsabilidade civil nas modalidades da responsabilidade subjetiva, objetiva e ainda a culpa presumida aos novos conflitos que surgem com o desenvolvimento social, como a tecnologia, por exemplo. Além disso, na busca pela defesa de interesses e bens que importem à coletividade, como o meio ambiente. No link a seguir, “Tribunais Superiores: quais são? O que fazem?”, você verá a divisão de competências dos Tribunais Superiores do País, como são compostos e quais matérias cada Tribunal julga: http://goo.gl/69AVWw Para compreender melhor essa ideia, vamos destacar alguns casos que movimentaram as decisões recentes do Superior Tribunal de Justiça (STJ) e do Supremo Tribunal Federal (STF), que compõem a Corte Superior do Brasil. Muito se discutiu sobre o tipo de responsabilidade a ser decretada sobre os provedores de aplicação pelo conteúdo gerado por terceiros e armazenados ou viabilizados pelo provedor. Em acórdão proferido em 12 de dezembro de 2017, a 3ª Turma do STJ, ao julgar o Recurso Especial (REsp) nº. 1.501.603 (BRASIL, 2017a), reiterou que provedores de aplicação somente poderão ser Responsabilidade civil subjetiva, objetiva (teoria do risco) e culpa presumida C02_Responsabilidade_civil_objetiva_subjetiva_culpa.indd 7 05/04/2018 10:38:51 56 responsabilizados se, após avisados sobre conteúdo ofensivo por ordem judicial, não tomarem providências para a retirada do referido conteúdo. Sobre a matéria, está aguardando julgamento no STF do mérito, com reper- cussão geral reconhecida para todas as instâncias, o Recurso Extraordinário (RE) nº. 1.037.396, com base no qual a Corte vai dizer se é constitucional o art. 19 do Marco Civil da Internet (Lei nº. 12.965, de 23 de abril de 2014), referente à responsabilidade de websites e gestores de aplicativos de redes sociais, por danos decorrentes de atos ilícitos praticados por terceiros. Outro assunto de grande importância na atualidade é a proteção do meio ambiente, as multas e o tipo de responsabilidade ambiental em caso de dano. Sobre o assunto, no ano de 2016, a 2ª Turma do STJ decidiu, no julgamento do REsp nº. 1.401.500 (PR) (BRASIL, 2016a), que a responsabilidade administra- tiva em matéria ambiental é subjetiva. O ministro Antônio Herman Benjamin, relator do citado processo, votou pelo provimento do recurso especial ao pugnar pela necessidade de comprovação de culpa, no que foi acompanhado pelos demais julgadores (BRASIL, 2016a): 2. A insurgente opôs Embargos de Declaração com intuito de provocar a manifestação sobre o fato de que os presentes autos não tratam de respon- sabilidade ambiental civil, que seria objetiva, mas sim de responsabilidade ambiental administrativa, que exige a demonstração de culpa ante a sua natureza subjetiva. Entretanto, não houve manifestação expressa quanto ao pedido da recorrente. 3. Cabe esclarecer que, no Direito brasileiro, e de acordo com a jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça, a responsabilidade civil pelo dano ambiental, qualquer que seja a qualificação jurídica do degradador, público ou privado, proprietário ou administrador da área degradada, é de natureza objetiva, solidária e ilimitada, sendo regida pelos princípios do poluidor-pagador, da reparação in integrum, da prioridade da reparação in natura e do favor debilis. 4. Todavia, os presentes autos tratam de questão diversa, a saber, a natureza da responsabilidade administrativa ambiental, bem como a demonstração de existência ou não de culpa, já que a controvérsia é referente ao cabimento ou não de multa administrativa. A decisão do REsp nº. 1.401.500 (PR) é considerada um marco da consolida- ção do entendimento jurisprudencial sobre o assunto, em razão da importância e da repercussão do caso, bem como do porte das empresas envolvidas e do valor da multa. No entanto, é importante destacar que já havia na Corte outras decisões nesse sentido, a exemplo do REsp nº. 1.251.697 (PR) e do Agravo Regimental (AgRg) no Agravo em Recurso Especial (AREsp) nº. 62.584 (RJ), de forma que, no STJ, existe um processo adiantado de consolidação Responsabilidade civil subjetiva, objetiva (teoria do risco) e culpa presumida C02_Responsabilidade_civil_objetiva_subjetiva_culpa.indd 8 05/04/2018 10:38:51 57 da jurisprudência a esse respeito. Porém, como visto no julgado, outro é o entendimento do STJ em caso de responsabilidade civil. Dessa forma, com vistas à responsabilidade civil decorrente de um dano ambiental, a responsabilidade pela reparação do dano é objetiva, ou seja, independe de culpa, e solidária, pois alcança os poluidores diretos e indi- retos. É entendida sob a modalidade do risco integral, sendo que não são admitidos excludentes de responsabilidade, como caso fortuito, força maior, fato ou ato de terceiro. Tais critérios estão definidos pela jurisprudência nos julgados: REsp nº. 1.307.938 (GO), AgRg no REsp nº. 1.494.995 (RS), REsp nº. 1.374.284 (RJ), REsp nº. 1.175.907 (MG), AgRg no AResp nº. 381.567 (SP). Inclusive sobre o rito dos recursos repetitivos, no julgamento do REsp nº. 1.374.284 (MG), ficou decidido que “[...] a responsabilidade por dano ambiental é objetiva, informada pela teoria do risco integral, sendo o nexo de causalidade o fator aglutinante que permite que o risco se integre na unidade do ato” (BRASIL, 2014). Na esfera administrativa, pode estar sujeito à multa aquele que cometeu, diretamente, a infração, sendo que, para que ocorra a responsabilização do poluidor indireto, deve ser examinada a sua responsabilidade subjetiva, ou seja, se ele agiu com culpa. Assim, o poluidor indireto somente responde na medida de sua culpabilidade e de forma proporcional à sua conduta. Exemplo: autuações de empresas e fixação de multas administrativas sem exame da culpa não poderão mais ocorrer. Outro caso sobre a análise do tipo de responsabilidade civil aplicável foi objeto do julgamento pelo STF do RE nº. 635.336 (BRASIL, 2016b), no qual foi fixada a tese sobre o cultivo ilegal de plantas psicotrópicas e a natureza da responsabilidade civil do proprietário das terras, em decorrência da previsão do confisco das terras cultivadas como pena sancionatória. Sendo fixada a tese: “A expropriação prevista no art. 243 da Constituição Federal (CF) pode ser afastada, desde que o proprietário comprove que não incorreu em culpa, ainda que in vigilando ou in eligendo” (BRASIL, 2016b). Assim, o STF decidiu que a responsabilidade do proprietário é subjetiva, dependendo da prova da culpa. Sobre a responsabilidade objetiva, o STJ tem entendimento sumulado no que tange à responsabilidade das instituições bancárias sobre atos e fraudes praticados por terceiros aos seus correntistas que ocasionarem na sua inclusão indevida nos cadastros restritivos de crédito: “Súmula 479: As instituições financeiras respondem objetivamente pelos danos gerados por fortuito interno relativo a fraudes e delitos praticados por terceiros no âmbito de operações bancárias” (BRASIL, 2017b). Responsabilidade civil subjetiva, objetiva (teoria do risco) e culpa presumida C02_Responsabilidade_civil_objetiva_subjetiva_culpa.indd 9 05/04/2018 10:38:51 58 Sobre a culpa presumida, verificamos também a existência de uma súmula do STF sobre o assunto: “Súmula 341: É presumida a culpa do patrão ou comitente pelo ato culposo do empregado ou preposto” (BRASIL, 2017c). O STJ já se manifestou em alguns julgados (Agravo Interno [AgInt] no AREsp nº. 1.162.733, AgInt no AREsp nº. 483.170 [SP], AgRg no AREsp nº. 572.430 [SP]) sobre a presunção da culpa daquele que colide na traseira de outro veículo, em um acidente de trânsito. Esse exemplo é corriqueiro nos tribunais, mas a presunção da culpa não é a sua certeza, da forma que quem sofreu a batida na sua traseira nada precisa provar. Em contrapartida, quem bateu na traseira terá que provar que não teve culpa para se eximir da responsabilidade pelos danos sofridos pelo outro,bem como para res- ponsabilizar o verdadeiro culpado pelos danos que também sofreu. Dessa forma, a questão posta aos Tribunais Superiores da definição quanto ao tipo de responsabilidade civil é aplicável em cada caso nem sempre é óbvia e está prevista na lei. Muitas vezes somente após um grande debate jurídico é possível definir se o agente ou responsável por um dano responderá de forma subjetiva ou objetiva por ele. ALMEIDA, J. L. G. Novos rumos da responsabilidade civil. In: ALMEIDA, J. L. G. (Coord.). Temas atuais de responsabilidade civil. São Paulo: Atlas, 2007. BRASIL. Lei nº. 8.078, de 11 de setembro de 1990. Dispõe sobre a proteção do consumidor e dá outras providências. Brasília, DF, 1990. Disponível em: <http://www.planalto.gov. br/ccivil_03/leis/l8078.htm>. Acesso em: 24 mar. 2018. BRASIL. Lei nº. 10.406, de 10 de janeiro de 2002. Institui o Código Civil. Brasília, DF, 2002. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/CCivil_03/leis/2002/L10406.htm>. Acesso em: 24 mar. 2018. BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Recurso especial nº. 1.374.284 — MG (2012/0108265-7). Relator: Ministro Luis Felipe Salomão. Brasília, DF, 27 ago. 2014. Disponível em: <https:// www.jusbrasil.com.br/diarios/documentos/137672283/recurso-especial-n-1374284- -mg-do-stj>. Acesso em: 24 mar. 2018. BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Recurso especial nº. 1.501.603 — RN (2014/0290071- 6). Relatora: Ministra Nancy Andrighi. DJe, 18 dez. 2017a. Disponível em: <https://ww2. stj.jus.br/processo/revista/documento/mediado/?componente=ITA&sequencial=1 668833&num_registro=201402900716&data=20171218&formato=PDF>. Acesso em: 24 mar. 2018. Responsabilidade civil subjetiva, objetiva (teoria do risco) e culpa presumida C02_Responsabilidade_civil_objetiva_subjetiva_culpa.indd 10 05/04/2018 10:38:52 59 BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. STJ — RESP 1401500 / PR 2013/0293137-0. Relator: Ministro Herman Benjamin. 13 set. 2016a. Disponível em: <http://www.portaljustica. com.br/acordao/1910080>. Acesso em: 24 mar. 2018. BRASIL. Superior Tribunal de Justiça. Súmula 479/STJ — 18/12/2017. STJ, 2017b. Dispo- nível em: <https://www.legjur.com/sumula/busca?tri=stj&num=479>. Acesso em: 25 mar. 2018. BRASIL. Supremo Tribunal Federal. Recurso Extraordinário 635.336 Pernambuco. Re- lator: Ministro Gilmar Mendes. Brasília, DF, 14 dez. 2016b. 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Histórias do Direito: evolução das leis, fatos e pensamentos. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2012. BRASIL. Lei nº. 6.194, de 19 de dezembro de 1974. Dispõe sobre Seguro Obrigatório de Danos Pessoais causados por veículos automotores de via terrestre, ou por sua carga, a pessoas transportadas ou não. Brasília, DF, 1974. Disponível em: <http://www.planalto. gov.br/ccivil_03/leis/L6194.htm>. Acesso em: 24 mar. 2018. CONSELHO NACIONAL DE JUSTIÇA. Tribunais superiores: quais são? O que fazem? Brasília, DF: CNJ, 2012. Disponível em: <http://www.cnj.jus.br/noticias/cnj/59218- -tribunais-superiores-quais-sao-o-que-fazem>. Acesso em: 24 mar. 2018. FARIAS, T. A natureza jurídica da multa administrativa ambiental e o Superior Tribunal de Justiça. Canal Veritas, 2017. Disponível em: <http://canalveritas.com.br/2017/06/28/ multa-admin-ambiental-stj/>. Acesso em: 24 mar. 2018. GOMES, O. G. A crise do Direito. São Paulo: Max Limonad, 1955. Responsabilidade civil subjetiva, objetiva (teoria do risco) e culpa presumida C02_Responsabilidade_civil_objetiva_subjetiva_culpa.indd 11 05/04/2018 10:38:52 60 GONÇALVES, C. R. Direito Civil brasileiro: responsabilidade civil. 12. ed. São Paulo: Saraiva, 2017. v. 4. GONÇALVES, C. R. Direito Civil brasileiro: teoria geral das obrigações. 7. ed. São Paulo: Saraiva, 2010. v. 2. GUIMARÃES, L. R. Responsabilidade civil: histórico e evolução. Conceito e pressupostos. Culpabilidade e imputabilidade. Instituição Toledo de Ensino, 2011. Disponível em: <ht- tps://bdjur.stj.jus.br/jspui/bitstream/2011/19911/Responsablidade%20C%C3%ADvil. pdf>. Acesso em: 24 mar. 2018. STOCO, R. Tratado de responsabilidade civil: doutrina e jurisprudência. 7. ed. São Paulo: Revista dos Tribunais, 2007. Responsabilidade civil subjetiva, objetiva (teoria do risco) e culpa presumida C02_Responsabilidade_civil_objetiva_subjetiva_culpa.indd 12 05/04/2018 10:38:52 61 DICA DO PROFESSOR A legislação busca por meio de seu enunciado identificar um objeto jurídico a ser protegido. A responsabilidade civil, nesse sentido, visa responsabilizar um agente que não cumpre uma obrigação jurídica pelo dano causado à vítima. Porém, com evolução da sociedade, e atualmente com o avanço rápido da tecnologia e a aproximação das pessoas causada por ela, bem como pelo alcance rápido das informações, muitos temas fogem a uma previsão na lei. Disso resulta que esses temas, ao gerarem conflitos, acabam tendo sua solução somente nos tribunais. A Dica do Professor de hoje abordará esse assunto. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! EXERCÍCIOS 1) Indique a resposta correta quanto ao momento da evolução da responsabilidade civil, onde se originou a ação de indenização e as primeiras ideia de culpa: A) com a vingança coletiva. B) com a Lei de Talião. C) com a Lei Aquilia. D) com a Lei das XXII Tábuas. E) com o Código de Napoleão. Dentre as fases da evolução do instituto da responsabilidade civil, é correto afirmar2) 62 que o surgimento da responsabilidade objetiva moderna se deu: A) no Brasil, somente com o Código Civil de 2002. B) no Direito Francês, com base na teoria do risco. C) na Lei das XII Tábuas já estava prevista a responsabilidade objetiva. D) com a Lei Poetelia Papiria, quando o Estado assumiu a função de punir. E) o Código de Napoleão não exigia a culpa, portanto, era baseado na responsabilidade objetiva. 3) Sobre a culpa, é correto afirmar que: A) a imperícia não é uma forma de culpa. B) a culpa nasce da vontade de praticar determinada conduta. C) a imprudência resulta da falta de habilidade técnica. D) a imperícia resulta do excesso de cuidado pelo agente. E) a negligência é a modalidade de culpa em que o agente falta com o dever de cuidado. 4) Sobre os tipos de responsabilidade civil, aponte a alternativa correta: A) Na responsabilidade objetiva não se discute a culpa. 63 B) Na culpa presumida não há a inversão do ônus da prova. C) A teoria do risco justifica a responsabilidade subjetiva. D) A culpa por negligência não precisa ser provada. E) Na responsabilidade objetiva não se discute o dano. 5) Responda qual a alternativa correta quanto ao tratamento do tema da resposanbilidade civil pelas Cortes Superiores do Brasil: A) Para os Tribunais, basta que a lei seja aplicada, sem necessitar muita interpretação. B) Muitos temas modernos não devem ser levados aos Tribunais, pois a lei deve mudar e prever cada caso isoladamente. C) As multas por danos ambientais foram debatidas pelo STJ, foram definidos critérios que estabeleceram que a responsabilidade é objetiva como forma de reparação civil de um dano ambiental, e a responsabilidade é subjetiva no caso de multasadministrativas. D) Segundo os Tribunais, na colisão traseira a culpa é sempre de quem bate atrás. E) Segundo o STJ, as instituições financeiras respondem com culpa pelos danos causados aos seus correntistas, em caso de fraude provocada por terceiros. NA PRÁTICA Na responsabilidade civil a análise da culpa reflete o tipo de obrigação existente, bem como define haverá a obrigação de reparar o dano. A culpa é a não observância de um dever que o agente podia conhecer e observar. 64 Na responsabilidade subjetiva é necessária a prova da culpa, a qual não é examinada na responsabilidade objetiva, bastando a prova do dano. A prática proposta mostra como é feita essa análise do tipo de responsabilidade jurídica na prática. 65 66 SAIBA MAIS Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Responsabilidade objetiva do Estado: Teoria do Risco Administrativo Amplie seus conhecimentos sobre a responsabilidade objetiva do Estado neste vídeo que explica de forma simples como ela funciona. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Responsabilidade civil nas relações de consumo Aprofunde seus conhecimentos sobre a responsabilidade objetiva no Direito do Consumidor. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! 67 Marco civil da internet APRESENTAÇÃO O uso da Internet é cada vez mais parte da vida diária das pessoas. Dois fatores contribuíram para o aumento da utilização da Internet no mundo e, principalmente, no Brasil: o custo cada vez mais acessível dos dispositivos móveis, como smartphones, tablets e computadores, à grande parte da população; a diminuição dos planos de acesso à Internet oferecidos por provedores e operadoras de telefonia nos últimos anos. Para que os usuários possam ter seu direito garantido ao acessar todos os recursos disponíveis, é necessária a criação de leis que poderão assegurar os direitos, os quais já são, em parte, previstos pela Constituição Federal de 1988 e outros dispositivos que surgiram devido ao uso de novas tecnologias. Nesta Unidade de Aprendizagem, você vai estudar o impacto do Marco Civil da Internet, também conhecido como Constituição Brasileira da Internet, e compreender quais são os principais aspectos que envolvem os provedores de acesso à Internet, os provedores de conteúdo ou aplicativos e também as questões que irão nortear as redes privadas das organizações. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Reconhecer os aspectos que gerenciam o Marco Civil da Internet no Brasil.• Analisar os princípios de neutralidade, privacidade na Internet e registro de acessos.• Relacionar a liberdade de expressão dos usuários com a responsabilidade dos provedores de serviços web. • DESAFIO O Marco Civil da Internet é uma lei que estabelece princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da Internet no Brasil. O principal objetivo é regulamentar a rede no País para garantir que a Internet continue livre, não proprietária e culturalmente diversificada. Apesar de a Lei não 68 prever questões em relação às redes privadas das empresas, acaba afetando muitos procedimentos privados. A referida Lei trouxe uma série de dúvidas em relação às políticas internas das empresas. Considere os seguintes artigos desse dispositivo legal: 69 Você faz parte da equipe de segurança da informação da sua empresa. Após analisar os artigos do Marco Civil da Internet, juntamente com o administrador da rede corporativa, elabore as seguintes respostas: a) Qual a responsabilidade da empresa pelos conteúdos propagados a partir dos domínios de sua 70 rede interna? b) Proponha medidas que garantam o alinhamento das premissas estabelecidas pelo Marco Civil da Internet com o uso dos recursos de acesso à Internet da empresa. INFOGRÁFICO Os princípios de neutralidade, privacidade e registro de acessos foram previstos como pontos fundamentais do Marco Civil da Internet. Essa lei garantiu a liberdade de expressão dos usuários, considerou a responsabilidade de quem publica os conteúdos e também a dos provedores de serviços web. Neste Infográfico, você verá uma explicação dos principais aspectos e sua aplicação em relação a todas as partes envolvidas na utilização da rede. 71 72 CONTEÚDO DO LIVRO O Marco Civil da Internet representou um grande avanço no tratamento dos direitos e deveres dos usuários da Internet. Foi uma lei que colocou o Brasil na vanguarda em termos de legislação da Internet. Hoje, muitos países citam a Lei brasileira. No capítulo Marco Civil da Internet, da obra Ética e legislação, base teórica desta Unidade de Aprendizagem, você verá os aspectos que gerenciam o Marco Civil da Internet no Brasil. Boa leitura. 73 Marco civil da internet Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Reconhecer os aspectos que gerenciam o marco civil da internet no Brasil. � Analisar os princípios de neutralidade, privacidade na internet e re- gistro de acessos. � Relacionar a liberdade de expressão dos usuários com a responsabi- lidade dos provedores de serviços web. Introdução Neste capítulo, você vai estudar os principais elementos propostos pelo marco civil da internet. Assim que o marco civil da internet foi instituído, em 23 de abril de 2014, por meio da Lei nº. 12.965, foram estabelecidas as diretrizes para o uso da internet no Brasil, considerando os princípios, as garantias, os direitos e os deveres das partes. O marco civil da internet é muito importante, tanto que é considerado a “constituição da internet” no Brasil. Como você vai ver, muitos elementos de interesse de toda a comunidade da internet foram considerados nele, como: neutralidade, privacidade e liberdade de expressão. 1 Trajetória do marco civil da internet O marco civil da internet foi desenvolvido de forma inédita para o Brasil. Afinal, ele contou com a efetiva participação da sociedade civil por meio de cerca de 2 mil contribuições formais e informais. Assim, a Lei nº. 12.965/2014 foi construída de modo coletivo. A participação em massa da comunidade civil foi de grande contribuição para o projeto como um todo. 74 Em outros países, é possível observar a constante participação da sociedade civil na construção de leis, mas no Brasil isso não é comum, por isso o destaque do marco civil da internet. No Brasil, todo projeto de lei passa por diversos trâmites para ser aprovado. Muitas vezes, tais trâmites envolvem interesses políticos, que nem sempre condizem com os interesses de quem de fato será afetado pela lei. Muitas votações e ajustes podem ocorrer tanto na Câmara dos Deputados quanto no Senado. Além disso, é claro, pode haver vetos presidenciais. Esse processo pode durar meses ou até anos, como ocorreu no caso das discussões que levaram à aprovação do marco civil da internet. No Quadro 1, a seguir, veja os principais pontos do marco civil da internet e a evolução nas discussões: do projeto de lei até a versão final. Temas 2011 (texto original) 2012 (proposta do relator) 2014 (proposta aprovada) Internet livre (neutralidade da rede) Os provedores de internet devem dar tratamento igualitário de acesso e velocidade a todos os sites, a não ser por aspectos técnicos. A neutralidade poderá ser rompida para priorizar emergências (segurança pública, etc.). A regulamentação ocorrerá por decreto presidencial, após consulta ao Comitê Gestor da Internet (CGI). Além do CGI, a Agência Na- cional de Tele- comunicações (Anatel) deverá ser consultada. A regulamentação das exceções será feita por deter- minação consti- tucional de “fiel execução da lei”. Quadro 1. Evolução da criação do marco civil da internet (Continua) Marco civil da internet 75 Temas 2011 (texto original) 2012 (proposta do relator) 2014 (proposta aprovada) Privacidade Os provedores devemguardar o registro de acesso geral à internet, mas não podem manter os registros específicos de acesso a sites. Permanece igual. Sites na internet com fins lucrativos, como Google e Facebook, devem manter o registro de acesso por seis meses. Não podem guardar dados pessoais que extrapolem o serviço. Dados pes- soais e co- municações na internet Os registros de acesso à internet devem prezar pela intimidade, pela vida privada e pela honra. Poderão ser fornecidos somente após ordem judicial. Permanece igual. Dados pessoais e conteúdo de comunicações privadas são incluídos no texto, o que permite que autoridades tenham acesso a eles via ação judicial. Liberdade de expressão versus conteúdo ilegal/ ofensivo Provedores não são punidos por publicações de terceiros. Já sites e aplicações são responsabilizados se não acatarem a Justiça. A viabilidade técnica para serviços retirarem publicações após ordem judicial conta. O conteúdo pode ser substituído pela ordem judicial sobre a retirada. Se o conteúdo tiver imagens de nudez ou de atos sexuais do ofendido, o serviço deverá retirá-lo após notificação, sem necessidade de ação judicial. Quadro 1. Evolução da criação do marco civil da internet (Continua) (Continuação) Marco civil da internet 76 Fonte: Adaptado de Gomes (2015). Temas 2011 (texto original) 2012 (proposta do relator) 2014 (proposta aprovada) Monito- ramento na web Não previa qualquer forma de coleta de dados pessoais na internet. Dados dos usuários poderão ser utilizados para as finalidades que fundamentam a oferta de um serviço e seu uso deverá ser especificado. O usuário pode pedir a exclusão dos seus dados. A utilização deverá ser explicitada já no contrato. Serão nulos os contratos que não permitam ações na Justiça brasileira. O Código do Consumidor passa a valer nessa relação. Quadro 1. Evolução da criação do marco civil da internet (Continuação) O projeto de lei do marco civil da internet teve início em 2009, mas só entrou em pauta de votação em outubro de 2013, por conta de um pedido presidencial denominado “urgência constitucional”. A partir de agora, você vai conhecer todo o trâmite realizado desde as discussões iniciais até a votação e a aprovação da lei. O CGI, em sua terceira reunião ordinária, que ocorreu em 2009, aprovou a Resolução CGI.br/RES/2009/003/P — Princípios para a Governança e Uso da Internet no Brasil, chamado de “decálogo do CGI. br”. Esse foi um dos documentos inspiradores da criação do marco civil da internet (COMITE, 2009). A Secretaria de Assuntos Legislativos do Ministério da Justiça (SAL/MJ), em parceria com a Escola de Direito do Rio de Janeiro, da Fundação Getúlio Vargas (FGV Direito Rio), lançou o projeto para a construção colaborativa de um marco civil da internet no Brasil. Por sua vez, o Ministério da Cultura “concedeu” a sua plataforma para os debates. Durante a primeira fase, entre 29 de outubro e 17 de dezembro de 2009, foram mais de 800 contribuições entre comentários, e-mails e referências propositivas em sites (MARCO..., 2009). Marco civil da internet 77 A partir dos debates e das sugestões da primeira fase, criou-se a minuta do anteprojeto do marco civil, que voltou a ser discutida, em uma segunda fase, por meio de um processo de construção colaborativa com participação da sociedade. Os debates públicos dessa segunda fase foram iniciados em 8 de abril e encerrados em 30 de maio de 2010 (BRASIL, 2010). Em junho de 2010, ocorreu a primeira decisão judicial que menciona a iniciativa do marco civil. A desembargadora Letícia de Faria Sardas, da 20ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ), no Agravo de Instrumento (AI) nº. 0013822-08.2010.8.19.0000, afirmou o seguinte: “O Marco Civil da Internet no Brasil, submetido à segunda consulta pública, estabelece os direitos dos cidadãos brasileiros na internet. [...] Ponto muito importante e positivo do Marco Civil é a forma como propõe regular os direitos e deveres relativos aos vários dados gerados pelo usuário quando navega” (RIO DE JANEIRO, 2010). O projeto de lei do marco civil da internet — Projeto de Lei nº. 2.126, de 2011 — foi então apresentado à Câmara dos Deputados pelo Poder Executivo. Tal projeto estabeleceu “princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da Internet no Brasil” (BRASIL, 2011b). Uma comissão especial foi reunida pela Câmara para analisar a proposta de criação do marco civil da internet em 26 de novembro de 2011. A instalação da comissão ocorreu no dia 28 de março de 2012. Os deputados João Arruda e Manoel Junior foram eleitos, respectivamente, presidente e primeiro vice-presidente do colegiado. Já o relator escolhido foi o deputado Alessandro Molon. Por meio do portal e-Democracia, da Câmara, ocorreu um amplo debate virtual sobre princípios, garantias, direitos e deveres relativos ao uso da in- ternet no Brasil. As contribuições desse debate auxiliaram os trabalhos dos deputados envolvidos com o tema (BRASIL, 2011a; BRASIL, 2012). No dia 20 de julho de 2012, os conselheiros presentes na reunião ordinária do CGI, por unanimidade, declararam amplo apoio ao parecer final do deputado federal Alessandro Molon e à aprovação de tal parecer na comissão especial da Câmara dos Deputados (COMITÊ GESTOR DA INTERNET NO BRASIL, 2012). O cientista britânico Tim Berners-Lee, criador da World Wide Web (WWW), declarou apoio ao projeto do marco civil e incentivou os brasilei- ros a pressionarem para que a votação começasse logo. Segundo ele, o Brasil estava à frente dos demais países porque a proposta partia da perspectiva de direitos humanos (MATURANA, 2013). Além disso, naquele período, ocorreu um fato de repercussão mundial quando o norte-americano Edward Snowden, um analista de sistemas que trabalhou na Central Intelligence Agency (CIA) e na National Security Agency (NSA), tornou públicos detalhes de vários programas que constituem o sistema de vigilância global da NSA, inclusive Marco civil da internet 78 detalhes de como a agência americana espionava a então presidente da Repú- blica Dilma Rousseff. Além disso, foram divulgadas importantes transações milionárias envolvendo o leilão da área de exploração de petróleo do pré-sal (ENTENDA..., 2014). O governo brasileiro precisava dar uma resposta ao mundo em relação à proteção dos dados de seus cidadãos e, principalmente, de membros do Congresso Nacional. Assim, a proposta do marco civil da internet, que estava na Câmara, passou a tramitar em regime de urgência constitucional (GON- ÇALVES, 2014). O presidente da República pode solicitar que projetos de lei de sua autoria tramitem em regime de urgência (art. 65 da Constituição). É a chamada “urgência constitucional”. Nesse caso, a Câmara tem 45 dias para votar a matéria, e o Senado, mais 45 dias para apreciá-la. Se nesse prazo os parlamentares não concluírem a votação, o projeto passará a trancar a pauta de deliberações da casa em que estiver tramitando, ou seja, nada poderá ser votado antes que o projeto em urgência constitucional seja apreciado (AGÊNCIA BRASIL DE NOTÍCIAS, 2004). A então presidente Dilma Rousseff defendeu, em 24 de setembro de 2013, na 68ª Assembleia Geral das Nações Unidas (ONU), o estabelecimento de um marco civil multilateral para a governança e o uso da internet, bem como medidas que garantissem a efetiva proteção dos dados. Dilma afirmou que as revelações sobre as atividades de uma rede global de espionagem eletrô- nica provocaram indignação e repúdio em amplos setores da opinião pública mundial. No Brasil, a situação foi ainda mais grave, pois dados pessoais de cidadãos e da própria presidente da República foram indiscriminadamente objeto de interceptação (PASSARINHO, 2013). O relator do marco civil da internet, deputado Alessandro Molon, apresentou uma nova versão do texto final do seu parecer a pedido de Dilma. No novo texto, ele incluiu regraspara tentar coibir a espionagem de dados de usuários brasileiros por empresas de internet estrangeiras. O novo texto condicionou a uma nova regulamentação, por meio de decreto do governo, a obrigação dos provedores de internet que exercem atividades no Brasil de guardarem os seus dados em data centers no País (BRASIL, 2011c). Marco civil da internet 79 O Plenário da Câmara dos Deputados aprovou o marco civil da internet no dia 25 de março de 2014. A partir de 26 de março de 2014, o projeto passou a tramitar no Senado Federal (Projeto de Lei da Câmara nº. 21, de 2014). O marco civil da internet foi apreciado simultaneamente pelas comissões de ciência, tecnologia, inovação, comunicação e informática; de meio ambiente, defesa do consumidor e fiscalização e controle; e de constituição, justiça e cidadania. Ele pôde receber emendas somente nas comissões de ciência, tecnologia, inovação, comunicação e informática, pelo prazo único de cinco dias úteis (BRASIL, 2014b). O projeto que regulamenta a internet brasileira recebeu 41 emendas de senadores. Acabado o prazo para a apresentação de emendas, os relatores do projeto nas comissões estudaram o assunto e emitiram os seus votos, levando em conta as sugestões dos colegas. O projeto entrou em votação no Senado e foi finalmente aprovado como Lei nº. 12.965 em 23 de abril de 2014. A aprovação ocorreu na véspera de um importante evento sobre internet, o NETmundial — Encontro Multissetorial Global Sobre o Futuro da Governança da Internet, que aconteceu nos dias 23 e 24 de abril de 2014, em São Paulo. Esse evento teve como foco a elaboração de princípios de governança da internet e a proposta de um roteiro para a evolução futura desse ecossistema. O marco civil da internet foi apresentado aos participantes durante o en- contro. Embora não tenha agradado inteiramente a todos os representantes das dezenas de países participantes — e esteja longe de ser um documento perfeito, como reconheceu o presidente do comitê executivo do encontro, o brasileiro Virgílio Almeida —, o texto final apresentado no NETmundial resume as contribuições de diferentes regiões e de diferentes interessados na rede mundial de computadores. Sobretudo, tal texto reafirma importantes princípios para a gestão e o uso da rede mundial de computadores (A GESTÃO..., 2014). Na ocasião, Vint Cerf, inventor do protocolo TCP/IP e considerado o “pai da internet”, opinou sobre o marco civil. Veja o que ele disse: “o grande teste será agora, após a aprovação. Quão efetiva será essa legislação? Como ela será implementada? Muitos especialistas, entre os quais me incluo, que- rem saber como e se o Marco Civil vai realmente funcionar como esperado” (HONORATO, 2014). O marco civil da internet sinalizou que o acesso à internet é um instrumento essencial ao exercício da cidadania e da liberdade de expressão, elevando-o ao patamar de garantia constitucional. O marco civil da internet foi publicado na edição de 24 de abril de 2014 do Diário Oficial da União (BRASIL, 2014a). Marco civil da internet 80 2 Neutralidade, privacidade e registro de acessos A neutralidade de rede está prevista no art. 9º da Lei nº. 12.965/2014. A neutra- lidade, nesse contexto, diz respeito sobretudo ao acesso igualitário à internet, como expressa o dispositivo: “O responsável pela transmissão, comutação ou roteamento tem o dever de tratar de forma isonômica quaisquer pacotes de dados, sem distinção por conteúdo, origem e destino, serviço, terminal ou aplicação” (BRASIL, 2014a). Para garantir a igualdade na rede, a lei buscou proibir que os provedores de conexão restrinjam o acesso dos internautas a determinadas aplicações. Para tanto, definiu uma imposição legal: os provedores/operadoras não po- dem estabelecer pacotes de preços diferenciados para o acesso exclusivo a determinados sites. Seria o caso, por exemplo, de planos que só acessam redes sociais (MACHADO, 2014). Ademais, os usuários, ao contratarem um plano de internet, devem pagar apenas pela velocidade contratada, não podendo haver limitação de acesso a determinados sites ou mesmo serviços. A lei foi taxativa ao proibir atos que violem o princípio da neutralidade de rede, como o estímulo ao acesso a determinadas aplicações. Porém, a própria lei prevê as possíveis exceções à regra, que serão regulamentadas por meio de decreto e somente após consulta prévia ao CGI e à Anatel. Tais exceções dizem respeito apenas aos “requisitos técnicos indispensáveis à prestação adequada dos serviços e aplicações” e à priorização dos serviços de emergência, nos termos do art. 9º, § 1º, da Lei nº. 12.965/2014. Veja (BRASIL, 2014a): Art. 9º O responsável pela transmissão, comutação ou roteamento tem o dever de tratar de forma isonômica quaisquer pacotes de dados, sem distinção por conteúdo, origem e destino, serviço, terminal ou aplicação. § 1º A discriminação ou degradação do tráfego será regulamentada nos termos das atribuições privativas do Presidente da República previstas no inciso IV do art. 84 da Constituição Federal, para a fiel execução desta Lei, ouvidos o Comitê Gestor da Internet e a Agência Nacional de Telecomunicações, e somente poderá decorrer de: I — requisitos técnicos indispensáveis à prestação adequada dos serviços e aplicações; e II — priorização de serviços de emergência. Marco civil da internet 81 Outra questão prevista na lei se refere à proibição de os provedores utiliza- rem comercialmente dados pessoais de seus usuários, exceto se estes consen- tirem expressamente. Assim, se anteriormente os dados dos internautas eram negociados livremente pelos provedores, depois da aprovação do marco civil, foi proibida a utilização do histórico de navegação para fins comerciais. Isso é importante especialmente para limitar as enxurradas de anúncios publicitários personalizados e com temáticas de assuntos pesquisados anteriormente em sites de busca (MACHADO, 2014). Dessa forma, conforme previsão do art. 7º, VII e X, do marco civil da internet, para que os provedores possam utilizar os dados pessoais de um internauta, este deve consentir “livre, expresso e informado”. Ademais, tal autorização pode ser revogada a qualquer momento pelo usuário dos serviços de internet, exigindo-se a “exclusão definitiva dos dados pessoais que tiver fornecido a determinada aplicação de internet”, ressalvando apenas as guardas obrigatórias previstas na lei. Em relação às previsões legais acerca da obrigatoriedade de armazena- mento e disponibilização dos registros de conexão e de acesso a aplicações de internet, além dos dados pessoais e comunicações privadas, os provedores não podem se abster da preservação da intimidade, da vida privada, da honra e da imagem das partes direta ou indiretamente envolvidas (art. 10 da Lei nº. 12.965/2014). As empresas só estarão obrigadas a fornecer tais informações dos usuários a partir de determinação judicial. No entanto, o art. 10, § 3º, do marco civil possibilita que as autoridades ad- ministrativas requisitem dados cadastrais que informem a qualificação pessoal, a filiação e o endereço de determinado usuário. Ora, tal regulamentação deixa uma cláusula aberta ao mencionar apenas a “autoridade administrativa”, sem especificá-la. Assim, há insegurança quanto ao real sigilo das informações pessoais dos usuários. Veja o que a lei afirma (BRASIL, 2014a): Art. 10. A guarda e a disponibilização dos registros de conexão e de acesso a aplicações de internet de que trata esta Lei, bem como de dados pessoais e do conteúdo de comunicações privadas, devem atender à preservação da intimidade, da vida privada, da honra e da imagem das partes direta ou in- diretamente envolvidas. [...] § 3º O disposto no caput não impede o acesso aos dados cadastrais que infor- mem qualificação pessoal, filiação e endereço, na forma da lei, pelas autori- dades administrativas que detenham competência legal para a sua requisição. Marco civil da internet 82 Além disso, o marco civil da internetestabeleceu que todos os provedores de internet devem manter os registros de conexão por um ano (art. 13). Já os registros de acesso a aplicações devem ser mantidos por seis meses (art. 15). Tal regra vale inclusive para empresas estrangeiras que operam no Brasil. Assim, no caso de descumprimento, incidirão sanções que podem ser aplicadas isolada ou cumulativamente. Entre tais sanções, você pode considerar: advertência; multa de até 10% do faturamento do grupo econômico no Brasil; suspensão temporária ou proibição do exercício das atividades (MACHADO, 2014). Contudo, alguns pontos devem ser observados quanto a essa regulamenta- ção. Primeiramente, o fato de os provedores de internet terem de armazenar por um período de tempo considerável os registros de conexão e de acesso a aplicações desencadeia um custo extra às empresas. Estas, por conseguinte, poderão repassar essa despesa aos consumidores. Além disso, outro ponto que merece cuidado se refere ao efetivo sigilo e à inviolabilidade das informações pessoais dos internautas. Afinal, são corriqueiras as notícias relativas a sites públicos e privados invadidos que têm seus dados furtados. A TV Senado exibiu um documentário sobre o marco civil da internet. O vídeo está disponível no YouTube e no site do Observatório do Marco Civil da Internet. Faça uma busca on-line e confira! 3 A liberdade de expressão dos usuários e a responsabilidade dos provedores A liberdade de expressão é um ponto muito importante contemplado pelo marco civil da internet. Como você sabe, a internet oferece um espaço eclético para qualquer tipo de manifestação. Além disso, por meio dela, os usuários podem expressar a sua opinião sobre qualquer tema. Contudo, nem todas as manifestações são realizadas de forma positiva (CRUZ, 2019). Com o marco civil da internet, o direito dos usuários de se expressarem livremente continua garantido. No entanto, assim como acontece no mundo físico, agora os indivíduos podem ser responsabilizados por suas ações na internet. Ao contrário do que muitos ainda podem imaginar, a internet não Marco civil da internet 83 é uma terra sem lei, em que você pode ofender quem quer que seja ou tecer comentários preconceituosos sem que lhe seja imposta nenhuma punição (CRUZ, 2019). O marco civil da internet considera a responsabilidade civil dos provedo- res. A fim de assegurar a liberdade de expressão e impedir a censura, a Lei nº. 12.965/2014 estabelece, em seu art. 19, que os provedores de aplicações de internet só poderão ser responsabilizados civilmente por danos decorrentes de conteúdos gerados por terceiros na hipótese de que, mesmo após determinação judicial, não tomem as medidas pertinentes. Ou seja, os provedores só serão obrigados a retirar determinado conteúdo publicado na rede mediante ordem judicial; se não o fizerem no prazo assinalado, eles poderão ser responsabi- lizados (BRASIL, 2014a). Em consonância com o que já vinha sendo julgado nos tribunais, o art. 18 da lei normatiza o entendimento de que as empresas de conexão de internet não serão responsabilizadas civilmente por danos gerados por conteúdos produzidos por terceiros. Isso se mostra prudente, visto a ingerência das empresas frente ao teor das publicações. A partir do marco civil da internet, a retirada de conteúdos da rede neces- sariamente passa pelo crivo judicial. Porém, a lei não se omitiu quanto aos meios de facilitação de tal medida, conforme o art. 19, § 4º. Tal dispositivo prevê a possibilidade de se antecipar, total ou parcialmente, os efeitos da tutela pretendida. Isso pode ser feito desde que haja prova inequívoca do fato, verossimilhança da alegação do autor, receio fundado de dano irreparável ou de difícil reparação e, o que é inovador, desde que seja observado o “interesse da coletividade na disponibilização do conteúdo na internet” (BRASIL, 2014a). Entende-se que “interesse da coletividade na disponibilização do conteúdo na internet” na verdade foi a forma encontrada pelo legislador para garantir que o magistrado somente conceda a medida antecipatória caso observe que a sua concessão não causará prejuízos ao interesse da coletividade na informação (MACHADO, 2014). No entanto, a lei é clara ao ressalvar que, em casos de nudez e sexo, os provedores são obrigados a retirar o conteúdo ofensivo após mero pedido extrajudicial da vítima, não sendo necessária intervenção judicial (art. 21). Isso se mostra plausível diante da velocidade com que esse tipo de conteúdo se espalha, de modo que é necessária máxima urgência na sua retirada da rede, a fim de evitar o agravamento do dano. Como você deve imaginar, o Judiciário não conseguiria propiciar a celeridade exigível para esses casos. Marco civil da internet 84 Além disso, considere o que afirma o art. 19, § 3º (BRASIL, 2014a): § 3º As causas que versem sobre ressarcimento por danos decorrentes de conteúdos disponibilizados na internet relacionados à honra, à reputação ou a direitos de personalidade, bem como sobre a indisponibilização desses conteúdos por provedores de aplicações de internet, poderão ser apresentadas perante os juizados especiais. Com isso, garante-se às vítimas todas as peculiaridades inerentes aos juizados, como a desnecessidade de patrocínio de advogado para o ingresso com a ação, a isenção de custas em primeiro grau, além da celeridade e da informalidade do rito. Mas, é claro, em ações cumuladas com reparação de danos, os valores pretendidos com a reparação não podem ultrapassar o limite de alçada dos juizados, inclusive no que tange à necessidade do patrocínio de advogado (MACHADO, 2014). Como você viu, muitos esforços foram feitos para que o marco civil da internet pudesse garantir a liberdade de expressão dos usuários, bem como a responsabilidade dos provedores de serviços web. O marco civil da internet trouxe uma série de direitos e deveres para todos os envolvidos com o uso da internet, tanto usuários quanto provedores. Por isso, é fundamental que todo profissional de Tecnologia da Informação (TI) conheça os pontos previstos na lei, a fim de garantir que as empresas adotem mecanismos, regras e técnicas para cumpri-los. Você sabia que a constituição da Islândia foi elaborada de forma colaborativa por meio da internet? Nas redes sociais e no site oficial do conselho criado para a redação do documento, os cidadãos sugeriram itens e opinaram a respeito de mudanças. Para saber mais sobre essa experiência, faça uma pesquisa na internet (SALES, 2013). Marco civil da internet 85 A GESTÃO da Internet. O Estado de S.Paulo, São Paulo, 26 abr. 2014. Disponível em: https://opiniao.estadao.com.br/noticias/geral,a-gestao-da-internet-imp-,1158813. Acesso em: 21 abr. 2020. AGÊNCIA BRASIL DE NOTÍCIAS. Urgência constitucional. Câmara dos Deputados, Brasília, 20 abr. 2004. Disponível em: https://www.camara.leg.br/noticias/47245-urgencia- -constitucional/. Acesso em: 21 abr. 2020. BRASIL. Câmara dos Deputados. Conheça a última versão do Relatório do Marco Civil (11-7). 25 jul. 2012. Disponível em: http://edemocracia.camara.gov.br/web/marco-civil- -da-internet/andamento-do-projeto/-/blogs/conheca-a-ultima-versao-do-relatorio- -do-marco-civil-11-7. Acesso em: 21 abr. 2020. BRASIL. Câmara dos Deputados. Marco Civil da Internet: Guia de discussão. e-Democracia, Brasília, 2011a. Disponível em: http://arquivo.edemocracia.camara.leg.br/web/marco- -civil-da-internet/inicio#.XnJqMC3Oq-s. Acesso em: 21 abr. 2020. BRASIL. Câmara dos Deputados. PL 2126/2011: Projeto de Lei, apresentado em 24 de agosto de 2011. Estabelece princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da Internet no Brasil. Brasília: Câmara dos Deputados, 2011b. Disponível em: http://www.camara.gov. br/proposicoesWeb/fichadetramitacao?idProposicao=517255. Acesso em: 21 abr. 2020. BRASIL. Congresso Nacional. Minuta de anteprojeto de lei para debate colaborativo. Estabelece o Marco Civil da Internet no Brasil. Brasília: Congresso Nacional, 2010. Dis- ponívelem: http://culturadigital.br/marcocivil/files/2010/04/MINUTA-DE-ANTEPRO- JETO-DE-MARCO-CIVIL-DA-INTERNET-PARA-DEBATE-COLABORATIVO.pdf. Acesso em: 21 abr. 2020. BRASIL. Congresso Nacional. Substitutivo ao projeto de lei nº. 2.126, de 2011. Estabelece princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da Internet no Brasil. Brasília: Câmara dos Deputados, 2011c. Disponível em: http://www.camara.gov.br/internet/agencia/ pdf/Relatorio_final_Molon.doc. Acesso em: 21 abr. 2020. BRASIL. Lei nº. 12.965, de 23 de abril de 2014. Estabelece princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da Internet no Brasil. Diário Oficial da União: seção 1. Brasília, ano 151, n. 77, p. 1–3, 24 abr. 2014a. Disponível em: http://pesquisa.in.gov.br/imprensa/ jsp/visualiza/index.jsp?jornal=1&pagina=1&data=24/04/2014. Acesso em: 21 abr. 2020. BRASIL. Senado Federal. Projeto de Lei da Câmara n°. 21, de 2014. Marco Civil da Internet. 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Disponível em: https://www.terra.com.br/noticias/tecnologia/ internet/constituicao-colaborativa-da-islandia-serve-de-exemplo-ao-brasil,f9f3a0b2 993de310VgnVCM3000009acceb0aRCRD.html. Acesso em: 21 abr. 2020. Leituras recomendadas BRASIL. Câmara dos Deputados. Projeto de Lei nº. 2.126 de 2011: Emenda Aglutinativa 1. Brasília: Câmara dos Deputados, 2014. Disponível em: http://www.camara.gov.br/ internet/agencia/pdf/Emenda_aglutinativa_N_1.pdf. Acesso em: 21 abr. 2020. BRASIL. Câmara dos Deputados. Sessão: 359.3.54.O. Debate do Marco Civil da Internet. Brasília: Câmara dos Deputados, 2013. Disponível em: http://www.camara.leg.br/inter- net/sitaqweb/TextoHTML.asp?etapa=3&nuSessao=359.3.54.O&nuQuarto=3&nuOrador =3&nuInsercao=0&dtHorarioQuarto=09:21&sgFaseSessao=CG. Acesso em: 21 abr. 2020. Marco civil da internet 88 DICA DO PROFESSOR O Marco Civil da Internet foi muito importante para garantir os principais aspectos de direitos e deveres dos usuários da rede, porém as constantes evoluções acabam gerando brechas que precisarão ser sanadas com a revisão da lei ou mesmo a criação de leis adicionais. Nesta Dica do Professor, você irá entender um pouco do que se passou desde a criação da Lei e quais são os novos desafios do momento. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! EXERCÍCIOS 1) O Marco Civil da Internet foi estabelecido pela Lei n.o 12.965/2014 e tem como princípio básico o fato de que o responsável pela transmissão, pela comutação ou pelo roteamento tem o dever de tratar de forma igual quaisquer pacotes de dados, sem distinção por conteúdo, origem e destino, serviço, terminal ou aplicação. Isso significa, na prática, que todas as informações que trafegam na rede devem ser tratadas da mesma forma, navegando na mesma velocidade, sendo ilegal o uso de recursos como, por exemplo, traffic shaping. Esse princípio básico do Marco Civil da Internet chama-se: A) neutralidade da rede. B) isonomia de dados. C) finalidade social da rede. D) preservação dos aspectos participativos da redes. 89 E) preservação da estabilidade, segurança e funcionalidade da rede. 2) O Marco Civil da Internet é uma Lei que estabelece princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da Internet no Brasil. O principal objetivo é regulamentar a rede no País para garantir que a Internet continue livre, não proprietária e culturalmente diversificada. A Lei também prevê liberdade de expressão aos seus usuários. A lei tem entre seus princípios: A) a preservação da natureza participativa da rede. B) a livre divulgação dos dados pessoais. C) a proteção do direito de ir e vir. D) o controle pela União dos modelos de negócio da Internet. E) o controle da expressão e da manifestação por parte da União. 3) Para a Lei n.o 12.965/2014, consideram-se: _______________: o sistema constituído do conjunto de protocolos lógicos, estruturado em escala mundial para uso público e irrestrito, com a finalidade de possibilitar a comunicação de dados entre terminais por meio de diferentes redes; _______________: a habilitação de um terminal para envio e recebimento de pacotes de dados pela Internet, mediante a atribuição ou autenticação de um endereço IP; ________________:o conjunto de funcionalidades que podem ser acessadas por meio de um terminal conectado à Internet. Assinale a alternativa que preenche corretamente as lacunas na ordem exposta no enunciado: A) Internet; conexão à Internet; aplicações de Internet. 90 B) Terminal; registro de conexão; registro de acesso a aplicações de Internet. C) Internet; registro de conexão; aplicações de Internet. D) Internet; registro de conexão; registro de acesso a aplicações de Internet. E) Terminal; endereço de protocolo de Internet (endereço IP); aplicações de Internet. 4) A página do Facebook de uma entidade filantrópica começa a receber diversas ofensas dirigidas aos seus colaboradores. Como a empresa deve interagir com o Facebook para que este disponibilize as informações pessoais dos usuários que criaram os perfis (como: “João Justiceiro”; “Em busca de verdades”) que foram responsáveis pelas mensagens ofensivas? Com base no disposto na Lei n.o 12.965/2014, que estabelece princípios, garantias, direitos e deveres para o uso da Internet no Brasil, assinale a alternativa correta: A) A requisição judicial de fornecimento de registros de conexão ou acesso a aplicações de Internet apresentado pela entidade não tem requisitos legais mínimos para ser admitida, devendo, no mínimo, elucidar os fundados indícios da ocorrência de um ilícito. B) Aos usuários responsáveis pela criação dos perfis são assegurados a inviolabilidade e o sigilo do fluxo de suas comunicações pela Internet, que não poderão ser infringidas mesmo mediante de ordem judicial. Portanto, nada poderá ser revelado ao solicitante. C) O caso narrado no enunciado não se aplica à Lei n.o 12.965/2014. O texto faz referência a uma lei complementar do Código Civil. Esses aspectos são tratados como um tipo de contravenção penal. Todo o registro de acesso não poderá ser disponibilizado para qualquer finalidade. A preservação da intimidade, da vida privada, da honra e da imagem dos usuários responsáveis pela criação dos perfis impede o acesso aos dados cadastrais que informem D) 91 qualificação pessoal, filiação e endereço a qualquer requisitante. E) O Facebook somente será obrigado a disponibilizar os registros de conexão e de acesso a aplicações de Internet, de forma autônoma ou associados a dados pessoais ou a outras informações que possam contribuir para a identificação do usuário ou do terminal, mediante ordem judicial. 5) Em 2014, o Brasil sediou o Encontro Multissetorial Global sobre o Futuro da Governança da Internet (NETmundial). Nesse evento, foi sancionado o Projeto de Lei que instituiu o Marco Civil da Internet, considerado uma espécie de Constituição da Internet no Brasil. Assinale a alternativa que aponta os principais aspectos dessa Lei: A) O armazenamento de dados de qualquer empresa que oferece serviços no Brasil deverá ser feito localmente, mesmo que seja uma réplica dos dados armazenados em outros países. B) Os provedores da rede podem ofertar conexões diferenciadas, por exemplo, para acesso apenas a e-mails, YouTube ou redes sociais. C) Os provedores de conexão à Web devem ser responsabilizados pelo uso que os usuários fizerem da rede e por publicações feitas por terceiros, havendo ou não ordem judicial pela retirada dessas publicações. D) Não deve ocorrer nenhum tipo de armazenamento de dados – como telefone, e-mails e filiação – a respeito de qualquer cidadão brasileiro. E) Princípios, garantias, direitos e deveres para usuários e provedores, como a chamada neutralidade da rede. NA PRÁTICA 92 Atualmente, as empresas encontram grandes dificuldades em definir as políticas de segurança que devem proteger tanto os usuários internos quando os tipos de coisas que esses usuários podem fazer na Internet. O Marco Civil da Internet veio com o propósito de regulamentar essas questões e criar regras claras quanto aos deveres e aos direitos dos usuários. Neste Na Prática, você vai saber como ocorre o processo da criação da Política de Privacidade de uma empresa privada, considerando os principais aspectos previstos por lei. 93 94 SAIBA MAIS Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Brasil Justiça - Marco Civil da Internet e Lei Carolina Dieckmann Confira, neste vídeo, os aspectos do Marco Civil da Internet e qual a sua relação com a Lei Carolina Dieckmann. Muitos aspectos omissos da legislação começaram a ganhar atenção na mídia depois que as fotos íntimas da atriz Carolina Dieckmann foram divulgadas na Internet de forma indevida. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Observatório do Marco Civil da Internet Confira, neste portal, os diversos aspectos sobre o Marco Civil da Internet. O conteúdo é vasto e conta com processos e julgados que aplicaram diretamente a Lei n.º 12.965/2014. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Panorama - Lei de Proteção de Dados Pessoais: o que muda? Confira, nesta entrevista, as particularidades da Lei de Proteção de Dados Pessoais e sua correlação com o Marco Civil da Internet. A referida Lei foi criada a partir do Marco Civil a fim de dispor sobre aspectos importantes sobre a proteção de dados pessoais na Internet. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! 95 A legislação sobre a segurança da informação no mundo APRESENTAÇÃO A partir da década de 1990, grande parte dos países começou a implementar leis de proteção de dados, estando diretamente relacionada com a nova dinâmica comercial mundial. Essa nova matriz está balizada pelo mundo digital, ou seja, pela Internet, que possibilitou uma maior transação de dados no âmbito mundial. Essa globalização digital foi a catalizadora para o surgimento de novos controles e regulamentações, tendo a necessidade de repactuar os compromissos institucionais e individuais dentro dessa nova troca entre oferta e demanda. Nesta Unidade de Aprendizagem, você verá as premissas básicas e universais da privacidade de dados aplicada em diversos países. Será possível também reconhecer os benefícios que o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD) trouxe junto à União Europeia (GDPR- EU), e de que forma isso impactou a sociedade. Por fim, será apresentada a forma como os países do continente americano estão se relacionando com as leis de proteção de dados. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Explicar os aspectos comuns quanto à privacidade de dados nos mais diversos países.• Reconhecer a importância do Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD) da União Europeia (GDPR-EU). • Descrever as leis de proteção de dados em outros países americanos.• DESAFIO A RGPD (Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados) apresenta penalidades diferentes para as empresas que violarem a lei, de acordo com a gravidade do incidente. As multas podem ir de 2 a 4% do faturamento global da empresa, ou de €10 milhões a €20 milhões. 96 Sendo assim, quais são os objetivos de se estar aderente a essa legislação? De que forma a organização acaba se adaptando a esse novo cenário? Este que, quando não atendido, poderá ser impactado por multas com valores bem significantes. INFOGRÁFICO O vazamento dos dados de usuários é um risco sério e as organizações precisam estar aptas a tomar as ações necessárias quando isso ocorrer, minimizando, assim, o impacto e gerando a transparência necessária entre os envolvidos na transação. Veja, no Infográfico, a representação de três cenários que podem ocorrer durante um incidente a respeito de um vazamento de dados de usuários que participaram de uma determinada transação entre as partes interessadas. Além disso, clique nos botões referente aos artigos para saber mais. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! 97 CONTEÚDO DO LIVRO A revisão da legislação europeia a respeito da proteção de dados pessoais foi iniciada devido à constatação de queas regras até então existentes não acompanhavam a nova dinâmica do mercado e que cada vez mais seus cidadãos estavam sendo, de certa forma, “usados” perante as organizações para maximizar os seus resultados sem que eles tivessem noção disso. Sendo assim, o órgão Supervisor de Proteção de Dados Europeu emitiu uma diretriz em 2011 solicitando que o bloco reavaliasse suas políticas de proteção de dados, surgindo, assim, o Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD) da União Europeia, também conhecida como (GDPR-EU). No capítulo A legislação sobre a segurança da informação no mundo, da obra Ética e Legislação , você vai entender melhor a importância dessa lei e como os demais países que formam esse grande comércio junto à União Europeia (EU) estão se adaptando a esse cenário cada vez mais globalizado e digital. Boa leitura. 98 A legislação sobre a segurança da informação no mundo Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Explicar os aspectos comuns quanto à privacidade de dados nos mais diversos países. � Reconhecer a importância do Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD) da União Europeia (GDPR–EU). � Descrever as leis de proteção de dados em outros países americanos. Introdução O marco zero da relação entre instituições e indivíduo é a transparência, que possibilita maior liberdade na sociedade. Por vezes, o meio de ga- rantir a transparência é a legislação. Quando está em jogo a segurança da informação, as leis de proteção de dados entram em cena. Por meio delas, é possível verificar e auditar se os dados transacionados estão sendo utilizados adequadamente, e não para outros fins que não aqueles previamente acordados. Diversos países têm criado leis relativas à privacidade de dados. O RGPD, que em inglês tem a sigla GDPR (General Data Protection Regula- tion), por exemplo, é compartilhado pelos países da União Europeia (UE). Por meio do RGPD, esses países buscam padronizar e normatizar as suas legislações, bem como atingir conjuntamente os resultados esperados. Neste capítulo, você vai estudar a legislação relativa à segurança da informação utilizada no mundo. Além de conhecer melhor o RGPD, você vai se familiarizar com a legislação de outros continentes. Como você vai notar, as prerrogativas legais se tornam cada vez mais universais. Afinal, no mundo todo, um simples dado pode proporcionar ganhos estratégicos para as organizações, porém sempre é necessário agir dentro da lei. 99 1 Proteção de dados internacional O RGPD já está em vigor na UE desde 2018. No Brasil, a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) já foi aprovada, porém ainda não está vigorando. Essas duas leis se unem a diversas legislações existentes no globo que também visam à proteção de dados dos cidadãos. Afinal, em um mercado cada vez mais digital e sem fronteiras, são necessárias algumas regulações para preservar as premissas básicas da individualidade das pessoas. Cada país busca identificar as suas particularidades e características ao criar uma lei, porém é normal avaliar as iniciativas em andamento no resto do mundo para identificar o que deu certo e o que deu errado. Atualmente, o RGPD inspira os demais países, pois a não adequação às normas do mercado europeu se reflete no distrato comercial. Esse regulamento exige diversos cuidados, podendo inviabilizar acordos e até mesmo gerar multas aos envolvidos. Ou seja, os países que não se adequarem ao RGPD terão dificuldades para negociar com o bloco europeu. A seguir, você vai ver como alguns países tratam a proteção de dados em seus territórios (GONZÁLEZ, 2020). Alemanha A Alemanha é um dos países pioneiros na regulamentação relativa à privacidade e à proteção de dados. A sua Lei Federal de Proteção de Dados (Bundesdatens- chutzgesetz — BDSG), de 2017, segue os preceitos do RGPD. A BDSG trata dos direitos e deveres de órgãos públicos e privados para as atividades de coleta e processamento de dados. Além disso, há diretrizes específicas que determinam como as empresas devem e podem tratar os dados de seus funcionários. Austrália Na Austrália, a lei máxima sobre segurança e proteção de dados é a Lei de Privacidade, de 1988, que governa tanto as instituições do setor público quanto as do setor privado. A lei foi construída com base nos 13 Princípios Australianos de Privacidade (Australian Privacy Principles — APPs), que discorrem sobre temas como: � uso e divulgação de dados; � direitos do titular dos dados; � manutenção da qualidade dos dados; � transparência e anonimidade. A legislação sobre a segurança da informação no mundo 100 A lei é complementada pelas regulamentações estaduais de privacidade e pelas leis de proteção de dados voltadas para setores específicos. China A mais recente regulamentação chinesa sobre privacidade é a lei Tecnologia da Informação: Especificação Sobre Segurança de Informações Pessoais. Conhecida também apenas como “O Padrão”, a regulamentação traz diretrizes sobre transparência, direitos do titular e consentimento. Antes de essa lei entrar em vigor, em 2017, o conjunto de regras chinesas sobre o tema era formado por diferentes regulamentações, como: � Lei Civil da República Popular da China, de 2017; � Lei de Cibersegurança, de 2017; � Lei Criminal, de 2015; � Decisão de Fortalecer a Proteção das Redes de Informações, de 2012; � Padrão Nacional de Segurança da Tecnologia da Informação, de 2013; � Lei de Proteção ao Consumidor, de 2014. Dinamarca Na Dinamarca, as principais regras sobre o tema estão na Lei Dinamarquesa de Proteção de Dados, de 2018. Anteriormente, a questão era regida pela Lei Dinamarquesa de Processamento de Dados Pessoais, estabelecida em 2000. A lei mais recente serve como complemento e reforço ao RGPD. Dessa forma, a lei dinamarquesa trata de processamento de dados, divulgação de informações pessoais, consentimento, transferência de dados, etc., além de estabelecer multas para casos de violação. Filipinas Em 2016, o país implementou a Lei nº 10.173, também conhecida como “Lei de Privacidade de Dados”. Redigida quatro anos antes, em 2012, essa é a principal legislação sobre o tema nas Filipinas. A lei determina que, para que possa ser feita a coleta dos dados de um indivíduo, ele tem o direito de saber quem a realiza, com que propósito e com que finalidade. Ele também tem o direito de saber como e por quem os dados serão processados e quem terá acesso a eles. A legislação sobre a segurança da informação no mundo 101 Finlândia A Finlândia substituiu sua Lei de Dados Pessoais, de 1999, pela Lei de Proteção de Dados, de 2018, visando a alcançar um maior alinhamento com o RGPD. Contudo, o país ainda tem outras regulamentações sobre proteção de dados específicas para setores do mercado e da indústria, como a Lei de Proteção da Privacidade dos Trabalhadores (Lei nº 759/2004) e o Código de Sociedade da Informação (Lei nº 917/2014), voltado para a confidencialidade de mensagens, cookies e telecomunicações. França A França é outro exemplo de país da UE que atualizou suas normas de proteção de dados para seguir mais explicitamente o RGPD. O país trocou sua Lei de Proteção de Dados pela Lei 2 de Proteção de Dados. A nova regulamentação estabelece as regras para os agentes de tratamento, determinando também que quaisquer tratamentos de dados devem ser feitos para fins específicos e que apenas os dados fundamentais para tais propósitos podem ser coletados. Além disso, a segunda versão da lei firma o direito do titular de saber quem é o agente de tratamento e qual é o propósito da coleta e do tratamento. Grécia A Grécia encontra-se em processo de elaboração de uma nova lei de proteção de dados, que já nascerá alinhada com o RGPD. Enquanto isso, a regulamentação vigente é a Lei nº 2.472/97, que traz regras para controladores e operadores e visa a garantir os princípios da transparência, do tratamento de dados com propósito e da responsabilizaçãodos agentes. O país conta também com duas regulamentações adicionais sobre o tema: o Diretivo de Privacidade Eletrônica (Lei nº 3.471/2006), com normas complementares à lei principal, e o Diretivo de Retenção de Dados (Lei nº 3.917/2011), que trata do armazenamento de dados. Índia A Índia ainda não tem uma única lei central sobre proteção e privacidade de dados, e sim diversas leis e normativas que se complementam. Porém, o país publicou a Lei de Proteção de Dados Pessoais em dezembro de 2019, em análise por uma comissão parlamentar até a data da escrita deste capítulo. Enquanto A legislação sobre a segurança da informação no mundo 102 isso, as normativas mais importantes são a Lei de Tecnologia da Informação (Lei nº 21/2000) e a lista de Regras de Tecnologia da Informação, de 2011. Ambas trazem regras específicas sobre como proteger dados pessoais e outros requerimentos para garantir a privacidade de dados. Há, ainda, conjuntos de regras voltados especificamente para a coleta e o tratamento de dados pessoais nos setores bancário e de saúde. Indonésia O conjunto de regras sobre proteção de dados na Indonésia se constitui pela Lei de Informação e Transações Eletrônicas (Lei nº 11/2018) e sua respectiva emenda, pela Lei nº 19/2016 e pelas Regulações nº 82/2012 e nº 20/2016 (Regu- lação MOCI). Assim como a Índia, a Indonésia também vem trabalhando em uma lei que unifique suas regras sobre o tema: a Lei de Proteção à Privacidade de Dados Pessoais, baseada em grande parte no RGPD. O objetivo é que o texto da lei foque em consentimento, notificação de vazamentos de dados e exclusão de dados, entre outros pontos relacionados. Islândia Em 2018, a Islândia substituiu sua antiga Lei de Processamento de Dados Pes- soais (Lei nº 77/2000) pela Lei de Proteção de Dados e Processamento de Dados Pessoais (Lei nº 90/2018) — também com o objetivo de adequar suas regras às do RGPD. A lei de 2018 traz diretrizes sobre como obter consentimento do titular, quando e como informar o titular sobre tratamentos realizados com seus dados, como armazenar dados devidamente e como fazer transferências internacionais de dados. Japão Desde 2003, a privacidade de dados era regida pela Lei de Proteção de In- formações Pessoais (Lei nº 57/2003). Contudo, em 2017, o Japão colocou em prática a Emenda APPI, que traz preceitos básicos para a proteção de dados pessoais. A Emenda APPI traz regras sobre compartilhamento de dados com terceiros, manutenção de informações em bancos de dados e anonimização de dados e vazamentos, estabelecendo diretrizes para proteger os titulares. Devido à nova legislação, o Japão foi incluído na “lista branca” da UE, que reúne países com leis adequadas de proteção de dados. A legislação sobre a segurança da informação no mundo 103 Malásia Em 2010, a Malásia colocou em vigor a sua primeira legislação sobre o tema, a Lei de Proteção de Dados Pessoais (Lei nº 709). Ela é construída sobre sete princípios: generalidade, notificação e escolha, divulgação, segurança, retenção, integridade de dados e acesso. Essa lei estabelece que, para que um tratamento de dados seja legítimo e legal, o titular deve receber informações por escrito sobre o propósito da coleta e do tratamento, sobre os seus direitos enquanto titular dos dados e sobre quem terá acesso a esses dados. Nova Zelândia A Nova Zelândia controla a privacidade de dados por meio dos 12 Princípios da Privacidade de Informação, estabelecidos em 1993 na Lei de Privacidade do país. Os princípios são focados principalmente em questões como propósito da coleta de dados, formas de armazenamento e acesso, limitações do tratamento e divulgação de dados pessoais. O país também tem legislações de privacidade voltadas para setores específicos, incluindo crédito, saúde e telecomunicações. Até a data da escrita deste capítulo, circulava pelo governo neozelandês a Lei de Priva- cidade de 2018 — que, quando aprovada, substituirá a legislação anterior. As mudanças mais significativas incluem reporte mandatório sobre vazamentos, notificações de compliance e fortalecimento de transferências internacionais de dados. Outra diretriz importante da nova legislação é o direito do titular de fazer uma reclamação sobre a legitimidade de uma coleta ou de um tratamento de dados, que subsequentemente será investigada. Algumas considerações Como você viu, a questão da privacidade de dados não é novidade. Afinal, diversos países já possuem legislações a respeito desse tema. O que fica cada vez mais claro é que o RGPD é a espinha dorsal das legislações que têm surgido. Ele indica o mínimo necessário para que haja cuidado com os dados individuais durante as transações comerciais (PINHEIRO, 2018). A legislação sobre a segurança da informação no mundo 104 A seguir, veja alguns aspectos comuns às diferentes leis nacionais (PINHEIRO, 2018): � o cuidado que as empresas precisam ter com os dados dos cidadãos; � a penalidade a que as empresas estão expostas caso haja algum tipo de vazamento; � a noção de que o usuário é o dono dos seus dados, de modo que precisa saber o pode ser feito com o dado que disponibiliza durante determinada transação. Na Figura 1, veja o grau de aderência dos países às leis de proteção de dados. Como você pode notar, a Argentina e o Uruguai são os países sul-americanos mais aderentes às leis de proteção de dados. Destaca-se também a Guiana Francesa, país que está sujeito às leis francesas e, por consequência, adere totalmente à legislação europeia (SERPRO, 2020). Figura 1. Adequação dos países à proteção de dados. Fonte: Serpro (2020, documento on-line). A legislação sobre a segurança da informação no mundo 105 2 RGPD No dia 27 de abril de 2016, foi consolidado o RGPD. Ele discorre sobre a proteção das pessoas físicas no que diz respeito ao correto tratamento dos dados pessoais e à utilização desses dados pelos mercados, o que implica considerar o livre fluxo de dados ( free data flow). Ficou acordado que a lei entraria efetivamente em vigor após dois anos, quando seriam colocadas em prática as penalidades pertinentes. Até então, as penalidades não seriam aplicadas, pois o momento seria de transição e adequação de todas as partes interessadas. Conforme Pinheiro (2018), a im- plementação do RGPD gerou um efeito dominó, tendo em vista que todos os países que não pertencem à UE enfrentariam algumas barreiras e até mesmo sofreriam impactos financeiros caso não aderissem à legislação da zona do euro. Em um mundo cada vez mais competitivo, os países tiveram de se adaptar às novas exigências para fazer negócios com esse mercado tão importante. O objetivo do RGPD (UNIÃO EUROPEIA, 2016) é contribuir para a ob- tenção de um espaço de liberdade, segurança e justiça. Além disso, o RGPD visa à união econômica para o progresso econômico e social, a consolidação e a convergência das economias no nível do mercado interno e o bem-estar das pessoas físicas. Esse regulamento ainda tem o intuito de assegurar um nível coerente de proteção das pessoas físicas no âmbito da UE e evitar que as divergências constituam um obstáculo à livre circulação de dados pessoais no mercado interno. A ideia é garantir a segurança jurídica e a transparência aos envolvidos no tratamento de dados pessoais, aos órgãos públicos e à sociedade como um todo. São impostas obrigações e responsabilidades iguais aos controladores e processadores. O RGPD busca assegurar um controle coerente do tratamento dos dados pessoais, possibilitando a cooperação efetiva entre as autoridades de controle dos diferentes Estados-membros. A legislação sobre a segurança da informação no mundo 106 Vale a pena destacar que, apesar de essa lei reforçar a importância fun- damental das informações dos cidadãos, ela acaba apenas complementando diversas outras leis nacionais existentes no bloco europeu, como a Carta dos Direitos Fundamentais da UE e o Tratado sobre o Funcionamento da UE. Nesse sentido, é possível fazerum paralelo com o Marco Civil da Internet (Lei nº 12.965, de 23 de abril de 2014) e a Lei do Cadastro Positivo (Lei nº 12.414, de 9 de junho de 2011), ambos do Brasil (PINHEIRO, 2018). No entanto, essa regulamentação se faz necessária no sentido de esclarecer conceitos ambíguos e não factíveis. Foi nesse ponto que o RGPD inovou em relação às demais leis, buscando também padronizar as normas relativas aos atributos qualitativos cobrados e penalizados. No Quadro 1, a seguir, veja como o RGPD põe em prática os itens de conformidade relativos à proteção de dados. Note que esse regulamento busca esclarecer a necessidade do cuidado com os dados e exemplificar os procedi- mentos adequados, indicando como os dados devem ser tratados, protegidos e disponibilizados. Item de conformidade Regime europeu (RGPD) Definição e distinção do que são dados pessoais e dados sensíveis. Tal conceituação busca delimitar os direitos e as informações protegidas pelo ordenamento jurídico. Define que dado pessoal é qualquer informação que identifique ou torne identificável a pessoa natural. Já dados sensíveis são dados pessoais sobre etnia, raça, crenças religiosas, opiniões políticas, dados genéticos/biométricos, além de informações sobre filiações a organizações quaisquer. O RGPD também faz considerações acerca dos dados genéticos, biométricos e relativos à saúde. Obrigatoriedade do consentimento do usuário para a coleta de informações e limitação do tratamento do dado conforme finalidade. Prevê a necessidade de uso do dado conforme a finalidade apontada. Traz exceções de tratamento por motivo de interesse público, segurança e saúde. Quadro 1. Itens de conformidade em relação ao regime europeu (Continua) A legislação sobre a segurança da informação no mundo 107 Fonte: Adaptado de Pinheiro (2018). Item de conformidade Regime europeu (RGPD) Distinção entre titularidade e responsabilidade sobre os dados, assim como delimitação das funções e responsabilidades assumidas no tratamento de dados. Titular é a pessoa natural a quem se referem os dados que são objeto de tratamento; por outro lado, o responsável é a pessoa física ou jurídica, de direito público ou privado, que realiza decisões sobre o tratamento de dados. O controlador é quem realiza as decisões acerca do tratamento de dados; o processador, quem efetua o tratamento dos dados. Ambos são responsáveis pelo tratamento dos dados. Indicação de um encarregado pela comunicação entre os agentes, titulares e órgãos competentes. Aponta que o controlador deve ter uma pessoa responsável por tudo que seja relacionado à proteção de dados (DPO). Aplicação de mecanismos e práticas pautadas no livre acesso à informação e na transparência entre os usuários e as organizações. Os titulares têm direito a informações claras e acessíveis do início ao fim do tratamento do dado, podendo revogar o consentimento a qualquer momento. Aplicação de medidas de segurança e dever de reportar. As empresas devem criar medidas — como pseudonimização e encriptação de dados — para garantir a segurança de forma preventiva. No caso de qualquer incidente, a notificação às autoridades deve ser imediata. Possibilidade de alteração e exclusão do dado pessoal. Os titulares dos dados podem alterar ou excluir seus dados. Aplicação de sanções no caso de descumprimento das regras. Prevê a aplicação de sanções gradativas e multas administrativas, que podem chegar a 20 milhões de euros ou a 4% do faturamento anual da empresa. Criação de um órgão competente para fiscalizar e zelar pela proteção de dados pessoais e pela privacidade. Possui um órgão de controle e fiscalização de proteção de dados pessoais por Estado (28) e aplica o princípio do balcão único. Quadro 1. Itens de conformidade em relação ao regime europeu (Continuação) A legislação sobre a segurança da informação no mundo 108 3 Leis de proteção de dados nas Américas Nas Américas, conforme Lemos et al. (2018), a legislação de proteção dos dados vem ganhando maturidade e mais protagonismo. Isso ocorre tanto de- vido a escândalos de vazamento de dados (como no caso do Banco Inter, que na época perdeu seu certificado digital) quanto pelo uso de informações para eleições (como no caso da Cambridge Analytica e do Facebook nas eleições dos Estados Unidos em 2016). A seguir, você vai ver como alguns países da América tratam a proteção de dados em seus territórios (GONZÁLEZ, 2020). Argentina A Lei de Proteção de Dados da Argentina (Lei nº 25.326) estabelece que a coleta de dados só pode ser feita mediante o consentimento do usuário. A lei, que se aplica a qualquer pessoa ou entidade que lida com dados pessoais no país, diz ainda que o titular dos dados (o indivíduo a quem as informações se referem) tem o direito de acessar, corrigir, deletar e solicitar a exclusão de seus dados. Porém, para deixar as regras de proteção de dados do país mais alinhadas às tendências mundiais estabelecidas pelo RGPD, a Argentina vem trabalhando em uma nova lei sobre o tema, que terá a legislação atual como base e irá ainda mais além — determinando, por exemplo, uma abordagem mais completa e obrigações mais rígidas. Brasil No Brasil, há a LGPD — que foi aprovada, porém, até a data de escrita deste capí- tulo, ainda não estava em vigor, mas já vem promovendo mudanças significativas na forma como as empresas coletam e tratam dados. O direito à privacidade já havia sido estabelecido pelo art. 5 da Constituição Federal de 1988 e pelo Código de Proteção ao Consumidor, instituído em 1990. Outra importante legislação sobre o tema no País é o Marco Civil da Internet, sancionado em 2014. Voltado inteiramente para o uso da internet no País, o Marco Civil traz princípios, garantias, direitos e deveres dos usuários da rede, além de diretrizes sobre como o Estado deve atuar. Ao lado da privacidade, alguns dos outros principais temas abordados são: � neutralidade da rede; � retenção de dados e funções sociais da internet, como liberdade de expressão; � transmissão de conhecimento e responsabilidade civil. A legislação sobre a segurança da informação no mundo 109 Canadá O país conta com um total de 28 regulamentações — entre leis provinciais e federais — que tratam das questões de privacidade e proteção de dados. A legislação nacional referente a isso é a Lei de Proteção de Informações Pessoais e Documentos Eletrônicos (Personal Information Protection and Electronic Documents Act — Pipeda). Válida para todas as províncias do Canadá, a Pipeda apresenta diretrizes referentes à coleta, ao tratamento e à divulgação de dados pessoais coletados por empresas durante o exercício de suas atividades comerciais. Além disso, discorre sobre as transferências internacionais e inter-regionais de dados pessoais. Como complemento a ela, há legislações similares aplicáveis em Alberta, Colúmbia Britânica e Quebec. Estabelecida em 2000, a Pipeda opera com base em 10 princípios de boas práticas a serem seguidos pelas empresas (bastante similares às bases da LGPD brasileira). São elas: 1. as empresas são responsáveis pelos dados pessoais que coletaram e que usam; 2. é preciso identificar claramente os propósitos por trás de uma coleta de dados; 3. é preciso ter o consentimento do titular para coleta, uso e compartilha- mento de seus dados, salvo exceções previstas por lei; 4. podem ser coletados somente os dados necessários dentro do propósito informado; 5. os dados solicitados podem ser usados, divulgados e mantidos pela em- presa apenas da maneira informada e enquanto cumprirem os propósitos; 6. as informações pessoais devem ser verídicas e mantidas atualizadas; 7. os dados devem ser protegidos por medidas adequadas, de acordo com a sensibilidade das informações; 8. a organização precisa fornecer amplamente informações claras e deta- lhadas sobre suas políticas e práticas de segurança e proteção de dados; 9. o titular dos dados tem o direito de receber informaçõessobre a exis- tência de tratamentos de suas informações, assim como de questionar se seus dados são verídicos e estão completos; 10. o titular dos dados tem o direito de questionar as organizações que tratam e coletam suas informações pessoais, dentro dos nove princípios anteriores. A legislação sobre a segurança da informação no mundo 110 Colômbia Na Colômbia, a questão da privacidade e da proteção de dados é regida por quatro regulamentações: o Decreto nº 1.377/2013, a Lei nº 1.581/2012, a Lei nº 1.273/2009 e a Lei nº 1.266/2008. O Decreto nº 1.377/2013 aborda o consen- timento do titular, as transferências internacionais de dados e as políticas de processamento de dados pessoais. Enquanto isso, a Lei nº 1.581/2012 estabelece o direito de cada indivíduo de determinar como seus dados serão coletados, armazenados, usados, processados e transferidos — além de regulamentar os direitos à privacidade na coleta e no processamento de dados pessoais. A Lei nº 1.273/2009, por sua vez, traz diretrizes sobre crimes cibernéticos e estabelece que roubar, vender ou comprar dados pessoais é uma atividade criminosa. Finalmente, a Lei nº 1.266/2008 discorre sobre a privacidade de dados no que tange a dados comerciais e financeiros. Estados Unidos Os Estados Unidos não têm apenas uma lei que governe a privacidade de dados, e sim diversas legislações específicas para diferentes setores ou vigentes em determinados estados. Há cerca de 20 leis voltadas para um único setor ou indústria em âmbito nacional, além de outras cem legislações estaduais de privacidade — o estado da Califórnia é o “lar” de 25 delas. A principal lei californiana de privacidade é a Lei de Privacidade do Consumidor da Califórnia (California Consumer Privacy Act — CCPA), que garante aos consumidores quatro direitos básicos sobre seus dados pessoais: de serem notificados, de terem acesso, de poderem optar (ou não) por uma coleta de dados e de terem acesso igualitário a serviços. Todas as empresas que coletam e/ou tratam dados de cidadãos califor- nianos precisam seguir a CCPA, e não apenas aquelas com sede no estado. Nacionalmente falando, as mais importantes regulamentações são a Lei de Privacidade, de 1974, a Lei de Proteção à Privacidade, de 1980, a Lei Gramm– Leach–Bliley, de 1999, a Lei de Portabilidade e Responsabilidade dos Seguros de Saúde, de 1999, e a Lei de Relatório de Crédito Justo, de 2018. Além disso, os Estados Unidos têm alguns acordos especiais de proteção à privacidade com a UE e a Suíça. A legislação sobre a segurança da informação no mundo 111 México A questão da privacidade de dados no México é regida pela Lei Federal de Proteção de Dados Pessoais em Poder de Particulares — ou seja, estão em jogo dados coletados e tratados por empresas privadas. A lei foi estabelecida em 2010. Essas organizações também são governadas pelas diretrizes da lista de Regulamentações da Lei Federal de Proteção de Dados Pessoais em Poder de Particulares, instituída em 2011, pelas Orientações de Notificações de Privacidade, de 2013, e pelos Parâmetros de Autorregulamentação, de 2014. Para gerenciar todas essas regras, garantir a devida implementação e administrar penalidades, o México conta com o Instituto Federal de Acesso à Informação e Proteção de Dados (Ifai). Algumas considerações Da mesma forma que os demais países, conforme Pinheiro (2018), aqueles localizados no continente americano têm reforçado o cuidado com os dados dos cidadãos. Além disso, têm buscado aplicar a devida penalidade quando as empresas expõem informações de maneira indevida. Ademais, nos países americanos, também é consenso que os usuários têm o direito de saber o que será feito com as suas informações. Como você viu ao longo deste capítulo, a proteção dos dados pessoais é essencial em um ambiente comercial cada vez mais complexo e dinâmico, em que as fronteiras entre o certo e o errado precisam ser claras para viabilizar uma sociedade melhor. GONZÁLEZ, M. Conheça o cenário das leis de proteção de dados ao redor do mundo. 2020. Disponível em: https://blog.idwall.co/protecao-de-dados-cenario-mundial-das-leis/. Acesso em: 13 abr. 2020. LEMOS, R. et al. GDPR: a nova legislação de proteção de dados pessoais da Europa. 2018. Disponível em: https://www.jota.info/paywall?redirect_to=//www.jota.info/opiniao- -e-analise/artigos/gdpr-dados-pessoais-europa-25052018. Acesso em: 16 abr. 2020. PINHEIRO, P. P. Proteção de dados pessoais: comentários à Lei n. 13.709/2018 (LGPD). São Paulo: Saraiva, 2018. A legislação sobre a segurança da informação no mundo 112 SERPRO. Em que "estágio" estamos? Confira o mapa da proteção de dados pessoais no mundo. 2020. Disponível em: https://www.serpro.gov.br/lgpd/menu/a-lgpd/mapa- -da-protecao-de-dados-pessoais. Acesso em: 13 abr. 2020. UNIÃO EUROPEIA. Regulamento (EU) 2016/679 do Parlamento Europeu e do Conselho de 27 de abril de 2016. Relativo à proteção das pessoas singulares no que diz respeito ao tratamento de dados pessoais e à livre circulação desses dados e que revoga a Dire- tiva 95/46/CE (Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados). 2016. Disponível em: https://eur-lex. europa.eu/legal-content/PT/TXT/?uri=uriserv:OJ.L_.2016.119.01.0001.01. POR&toc=OJ:L: 2016:119:FULL. Acesso em: 13 abr. 2020. Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. A legislação sobre a segurança da informação no mundo 113 DICA DO PROFESSOR A legislação de segurança da informação traz, de uma forma objetiva, o que é esperado das organizações para que estas possam, assim, minimizar a chance de um vazamento de dados indevidos, e também que as empresas possam avaliar melhor o motivo da coleta de um determinado dado, identificando, dessa forma, o seu real propósito ao solicitar uma determinada informação. Veja, na Dica do Professor, alguns fatores de sucesso que uma organização pode levar em conta na hora de ficar aderente ao regulamento de proteção de dados. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! EXERCÍCIOS 1) O Regulamento Geral sobre Proteção de Dados (RGPD), criado pelo parlamento do bloco econômico europeu, tem por objetivo definir os artigos exigidos para o devido controle e proteção dos dados sensíveis da sua população. Sendo assim, por que a União Europeia criou uma lei específica para a proteção de dados, sendo que cada país tem uma lei nacional? A) Essa lei tem por objetivo tornar o mercado ainda mais burocrático, sem trazer ganhos de produtividade e prejudicando a economia. B) Essa lei tem por objetivo padronizar e normalizar as diretrizes do bloco, buscando também nivelar o trato com a informação dos cidadãos. C) Essa lei tem por objetivo criar gatilhos para que empresas mal-intencionadas possam utilizar os dados sensíveis em benefício próprio. 114 D) Essa lei tem por objetivo neutralizar completamente a geração de incidentes possibilitando, dessa forma, a proteção total dos dados. E) Essa lei tem por objetivo fomentar a concorrência possibilitando um menor preço no produto final, tendo em vista os riscos minimizados. 2) Os dados sensíveis de uma pessoa talvez não signifiquem muito, porém, quando falamos de informações de diversas pessoas, torna-se possível traçar diversos padrões que, se bem utilizados, podem ser uma ferramenta estratégica para as organizações utilizarem em seu benefício próprio. Sendo assim, a maior parte das leis de proteção de dados tem algumas similaridades entre elas. Quais seriam essas questões em comum? A) As similaridades são os cuidados que as empresas têm que ter com os dados, minimizando o risco de incidentes, e isso ocorrendo, e dependendo da gravidade,a empresa está passível de ser multada e, por fim, que o usuário saiba exatamente o que será feito com a informação que ele está disponibilizando. B) A similaridade está relacionada com a forma que o dado pode ser utilizado, não sendo necessário o aceite e o entendimento por parte do usuário, possibilitando, assim, o livre uso dessas informações por parte de grandes grupos empresarias, que podem utilizar essa ferramenta estratégica. C) As similaridades significam que cada país tem a sua visão a respeito do tratamento das informações, havendo diversas situações em que não se assemelham, até mesmo dentro do bloco europeu, onde cada país, apesar de fazer parte do grupo, não é obrigado a seguir as leis definidas pelo Parlamento da União Europeia. D) As similaridades são pequenas e irrelevantes, pois no final se trata de um mercado livre e, sendo livre, não são necessários esses controles, pois o usuário não tem escolha e também não faz ideia do que é feito com as suas informações, possibilitando, assim, o uso desejado pelas organizações. 115 E) As similaridades significam que cada país tem as suas leis, e que, apesar das fronteiras invisíveis, as suas leis nacionais acabam suprimindo a lei do bloco, possibilitando o uso da maneira desejada pelas organizações, sendo somente necessário que o usuário saiba o que será feito com essa informação. 3) Durante a criação de uma lei é normal que ocorra um tempo adaptação. Este tempo pode variar conforme a lei e as suas características. No caso do RGPD, o tempo dado para a adaptação das organizações foi de em torno de dois anos, após esse período, as empresas, a partir de 27/04/2016, estariam sujeitas à aplicabilidade de multas, caso não estivessem em compliance com o RGPD. Sendo assim, por que esse tempo é necessário e importante para as organizações? A) Esse tempo é necessário devido às necessidades das empresas em conseguir coletar o máximo de dados possível e, dessa forma, utilizar esse conhecimento como ferramenta útil. B) Esse tempo é necessário devido a toda discussão necessária para definir quais seriam os artigos a serem aplicados e demais critérios para aplicar a multa, variando de empresa para empresa. C) Esse tempo é necessário devido às complexidades e ao alcance que a lei tem, sendo necessário que empresa e demais fornecedores de sistemas se adaptem às necessidades dos artigos do RGPD. D) Esse tempo é necessário devido ao avanço do mercado chinês, que cada vez mais busca acessar o mercado europeu com seus produtos e demais políticas agrícolas vigentes na zona do euro. E) Esse tempo é necessário devido às empresas precisarem fazer caixa para se preparar para pagar as multas, tendo em vista que elas não iriam se enquadrar nesse regulamento europeu. 116 4) Uma lei é composta por um conjunto de artigos que, no conjunto do todo, formam os direitos e os deveres de empresas, governos e pessoas. Dentro desses artigos do RGPD existe o conceito do consentimento obrigatório do usuário para que, então, seja feita a coleta de informações, deixando clara a limitação do tratamento do dado e a finalidade. Porém, existem casos em que esse consentimento deixa de ser obrigatório. Quais são eles? A) O consentimento deixa de ser obrigatório quando a solicitação é feita por empresas da inciativa privada ou, então, das áreas governamentais. B) O consentimento deixa de ser obrigatório quando a solicitação é feita por instituições públicas e privadas das áreas da saúde e educação. C) O consentimento deixa de ser obrigatório quando a solicitação é feita por empresas da iniciativa privada das áreas da saúde e educação. D) O consentimento deixa de ser obrigatório quando a solicitação é feita por empresas da iniciativa privada de interesse público, como as redes de TV. E) O consentimento deixa de ser obrigatório quando a solicitação é feita por instituições públicas das áreas da saúde, interesse público e segurança. 5) No Brasil, temos a Lei Geral de Proteção de Dados, que já foi aprovada, porém, ainda não está em vigor, e já vem influenciando mudanças significativas na forma com que as empresas coletam e tratam dados. No entanto, já existem outras leis que complementam a LGPD. Quais são elas? A) As leis são: o direito à privacidade, que também já havia sido estabelecido pelo art. 6 da Constituição Federal brasileira; e o Código de Proteção ao Consumidor. Outra importante legislação sobre o tema no país é o Marco Civil da Internet (Lei n.° 12.966). 117 B) As leis são: o direito à privacidade, que também já havia sido estabelecido pelo art. 4 da Constituição Federal brasileira; e o Código de Proteção ao Consumidor. Outra importante legislação sobre o tema no país é o Marco Civil da Internet (Lei n.° 12.964). C) As leis são: o direito à privacidade, que também já havia sido estabelecido pelo art. 8 da Constituição Federal brasileira; e o Código de Proteção ao Consumidor. Outra importante legislação sobre o tema no país é o Marco Civil da Internet (Lei n.° 12.968). D) As leis são: o direito à privacidade, que também já havia sido estabelecido pelo art. 5 da Constituição Federal brasileira; e o Código de Proteção ao Consumidor. Outra importante legislação sobre o tema no país é o Marco Civil da Internet (Lei n.° 12.965). E) As leis são: o direito à privacidade, que também já havia sido estabelecido pelo art. 2 da Constituição Federal brasileira; e o Código de Proteção ao Consumidor. Outra importante legislação sobre o tema no país é o Marco Civil da Internet (Lei n.° 12.969). NA PRÁTICA A legislação sobre a segurança da informação no mundo se torna cada vez mais complexa e, ao mesmo tempo, cada vez mais padronizada, e isso é necessário, pois, seguindo certas premissas, haverá práticas mais claras e de melhor replicação em qualquer lugar e este acaba sendo um dos objetivos do Regulamento Geral sobre a Proteção de Dados (RGPD), justamente consolidar as boas práticas da proteção de dados dos seus cidadãos. Confira, Na Prática, uma empresa que precisa adequar os seus sistemas a essa nova legislação e de que forma esse trabalho foi conduzido e estruturado. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! SAIBA MAIS 118 Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Jornal Oficial da União Europeia – Regulamentos Neste link é possível verificar a Lei (RGPD) na íntegra em português. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Como a GDPR nos ensina o compliance de medidas protetivas da privacidade Neste site, o autor elaborou um artigo que traz os benefícios que a GPDR trouxe ao compliance em relação à proteção dos dados. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Lei Geral de Proteção de Dados Neste podcast, os autores falam da lei RGPD na Europa e os desafios que ela vai trazer para a LGPD (lei brasileira) e para o mercado publicitário. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Ajustes realizados nos websites brasileiros para conformidade com o RGPD Neste artigo, os autores trazem os desafios que os sites brasileiros terão para se adaptar à norma europeia. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! RGPD aplicado nas PME portuguesas Este artigo apresenta como as empresas portuguesas estão se adaptando à lei europeia de proteção dos dados. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! 119 Crimes digitais APRESENTAÇÃO Em uma era na qual as pessoas vivem digitalmente expostas dentro de uma vida social digital, conectadas à Internet todos os dias durante o dia todo, realizando serviços como transações bancárias e compras on-line, com o acesso ao mundo digital nas mãos, por meio dos smartphones, tablets e notebooks, os crimes digitais têm aumentado vertiginosamente. As redes sociais também contribuem muito com a evolução desses crimes digitais, afinal, informações como dados pessoais, preferências e localidade dos usuários estão expostase abrem inúmeras portas para diversos tipos de crimes: invasão de computadores, mailing, divulgação de informações privadas, injúria, difamação, apologia ao crime, criação de perfis falsos, fraudes, roubos de senhas, sequestro de servidores, invasão de páginas, etc. Nesta Unidade de Aprendizagem, você aprenderá a reconhecer as características de um crime digital. Além disso, entenderá como identificar os elementos que compõem uma classificação de condutas criminosas praticadas no ambiente virtual e os princípios de uma investigação de um crime digital. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Reconhecer as características de um crime digital.• Identificar os tipos mais comuns de crimes digitais.• Descrever os princípios de investigação de crimes digitais.• DESAFIO As pessoas interagem com o mundo digital todos os dias, isso faz parte da rotina: acessam diversos sites, recebem links e verificam os feeds nas redes sociais. O perfil de pesquisa de cada usuário é amplamente monitorado por grandes empresas de softwares e, por meio de uma análise comportamental, é possível traçar o perfil de acesso, que é muito rico para ações de 120 marketing e apresentação de produtos e serviços pelas redes sociais. Com a finalidade de reconhecer as características de um crime digital, analise o contexto acima. Recomende como a situação deveria ser abordada, avalie as possíveis falhas e verifique se esse caso é passível de punição; em caso positivo, em qual o crime se enquadra no Código Penal? INFOGRÁFICO Entre os crimes digitais, o furto de informações pessoais está no topo da lista. Esse tipo de crime afeta muitos usuários da Internet, e a venda de dados pessoais é uma atividade altamente lucrativa para os criminosos. Além dos usuários individuais, as grandes organizações, como e- commerces, bancos, hotéis, etc., também são alvos do crime, e os prejuízos são significativamente maiores, pois além dos danos financeiros, também há prejuízo à imagem da empresa, que perde confiança perante seus clientes. 121 Neste Infográfico, você vai ver como funciona o ciclo desse tipo de crime digital e quais são os métodos de prevenção, assim como possíveis punições. 122 123 CONTEÚDO DO LIVRO O crime é tão antigo quanto o início da humanidade. Há quem diga que desde que o mundo é mundo, existem crimes. Isso não é diferente no mundo digital, pelo contrário, esse ambiente imenso tem a conotação de ser uma terra sem lei devido à sua extensão e à dificuldade de comprovação dos crimes. Entretanto, apesar da legislação não alcançar a mesma velocidade de crescimento da Internet, atualmente, já existem leis e órgãos governamentais específicos para combater esse tipo de crime. Essa legislação vem reforçar a punição para os crimes digitais, que tem uma esfera ampla na aplicação de crimes, apoiando a sociedade. Além disso, busca propiciar uma mudança cultural, motivando que a sociedade tenha um comportamento digital respeitoso e saudável. No capítulo Crimes digitais, da obra Ética e legislação, base teórica desta Unidade de Aprendizagem, você vai ver os conceitos de como esses crimes são caracterizados, os tipos de crimes digitais e os princípios de investigação deles. Boa leitura. 124 Crimes digitais Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Reconhecer as características de um crime digital. � Identificar os tipos mais comuns de crimes digitais. � Apresentar os princípios de investigação de crimes digitais. Introdução Os crimes digitais passaram a fazer parte do dia a dia das pessoas a partir do uso da Internet pela população e também pelas grandes organizações. Como em todos os meios, há oportunidade de os indivíduos realizarem crimes contrariando a lei em busca de benefícios próprios. Os crimes digitais estão ganhando volume devido ao uso massivo da rede de computadores no cotidiano das pessoas. As ações — como estelionato, um crime que existe desde o início da humanidade — se tornaram cada vez mais frequentes no ambiente digital, principalmente pelas redes sociais, ganhando volume estrondoso e gerando inúmeros prejuízos para a sociedade e também para as empresas. Observamos também um volume crescente de crimes de calúnia, difamação e injúrias, a partir de encorajamento das pessoas nas redes sociais, novamente embasados pela falsa percepção de impunidade. Neste capítulo, você vai ver como os crimes são caracterizados, os tipos de crimes digitais e os princípios de investigação de crimes digitais. 1 Características de um crime digital Com o nascimento da Internet nos EUA na década de 1960, que tinha um ideal bélico criado pela Defense Advanced Research Projects Agency para inibir intervenções em suas comunicações pela extinta União Soviética, passamos a ter um sistema de informação interligado, sem localização física ou central específica. 125 Em 1970, foi criado o par de padrões Transfer Control Protocol/Internet Protocol (TCP/IP — Protocolo Controle de Transferência/Protocolo de In- ternet), permitindo a comunicação entre usuários. Na década de 1980, foi criado o conceito de Internet, por meio da ampliação do uso da rede para ações comerciais. A partir de 1990, a rede web ganhou notoriedade, passando a ser um dos principais meios de comunicação. Esse novo modelo trouxe com ele um universo amplo para disponibilização de informações e um novo modelo de convivência na sociedade, no qual podemos conversar com qualquer pessoa a qualquer momento em qualquer lugar do mundo. O uso dessa rede de computadores abriu uma importante porta para os crimes realizados na rede, chamados de crimes digitais. Na década de 1970, foi criado o termo hacker, que é o indivíduo capaz de promover a invasão de sistemas privados a partir de conhecimentos técnicos. Os crimes digitais realizados pelas redes públicas, privadas ou domésticas podem atingir um ou vários indivíduos. Uma característica marcante nesse tipo de crime é a exponencialidade das ações, afinal, um software malicioso utilizado para o furto de dados pode obter dados de vários clientes de uma organização. Segundo estudo da Escola de Magistrados da Justiça Federal da 3ª Região (BRASIL, 2017, p. 19): [...] Com a popularização do acesso à Internet nos últimos anos, os crimes digitais no Brasil alcançam números assustadores. De acordo com a Safer- Net (2017), que controla a Central Nacional de Denúncias, mais de 115 mil denúncias envolvendo exclusivamente crimes contra direitos humanos foram recebidas e processadas no ano de 2016. Com a evolução da Internet, os crimes cibernéticos passaram a ser tão comuns que foram criadas no Brasil delegacias próprias para a realização desse tipo de denúncia, assim como mudanças na legislação, criando um recente amparo legal para julgar e punir crimes dessa natureza. Para entendermos melhor os crimes digitais, é importante entender como a Internet é segmentada: � Surface web (web superficial) — é aquela na qual navegamos e acessa- mos sites de empresas, bancos, redes sociais, entre outros. Utilizamos navegadores como Google Chrome e buscadores como Google, Bing, entre outros, para realizar nossas pesquisas. Apesar da percepção que Crimes digitais2 126 existe um volume estrondoso de dados nesse segmento da rede, há análises de volumes de acessos que afirmam que apenas 4% de toda a informação circulada está na parte da surface web, conforme consta na pesquisa realizada pela empresa Experian (SIRUL, 2018, documento on-line, tradução nossa): [...] Se você é como a maioria das pessoas, é aqui que você passa a maior parte do tempo — fazendo compras on-line, pesquisando informações e comparti- lhando fotos e vídeos nas mídias sociais. No entanto, isso representa apenas cerca de 4% da Internet. � Deep web — ao contrário da surface web, é composta por sites não indexados, portanto, não é possível encontrá-losnos canais de busca, como o Google. As informações presentes lá só podem ser acessadas se você realmente procurar. Quem acessa a deep web utiliza redes cripto- grafadas, que ocultam a sua identidade. Esses sistemas funcionam com navegadores tradicionais, como Chrome, Firefox, entre outros, porém sem endereço IP e dados do usuário, que dificultam a identificação de quem está navegando. Nem todas as pessoas que navegam pela deep web cometem atos ilegais, algumas apenas querem ficar no anonimato, muito comum no mundo corporativo de grandes organizações e também utilizada por órgãos governamentais, entretanto, não podemos descartar que essa parte da Internet é utilizada sim para cometer crimes digitais. � Dark web — também conhecida como zona escura da Internet, a criptografia é extremamente complexa, permitindo que apenas usuá- rios que conheçam esse tipo de criptografia cheguem até ela. A dark web representa uma pequena parte da deep web, entretanto, é nesse espaço da rede que ocorrem os crimes digitais, como troca de informações ilegais, tráfico de drogas, ações de hackers, pedofilia, pornografia, entre outros crimes. Esse tipo de crime ocorre já que nesse ambiente o anonimato é garantido e a polícia tem dificuldades para descobrir quem é o responsável. Apesar de a surface web ser um ambiente criptografado, permitindo uma melhor investigação e punição em casos de crimes, não impede a realização de uma extensa gama de crimes. Existem muitas infrações nessa parte da rede, principalmente crimes relacionados a fraudes, estelionato, calúnia e difamação, sendo estas duas últimas muito comuns nas redes sociais. A Figura 1 faz uma analogia entre os níveis de profundidade da web e um iceberg. Crimes digitais 127 Figura 1. A web como um iceberg. Fonte: Gogoni (2019, documento on-line). A Internet é uma ferramenta-chave para as grandes organizações, permi- tindo a divulgação de seus produtos e aproximando o relacionamento com seus clientes. Entretanto, a Internet torna-se também uma grande preocupação em relação à segurança dos dados, tornando-se umas das maiores fontes de despesas com custos operacionais, como a compra e manutenção de ferra- mentas robustas para garantir a segurança das informações e a confiabilidade perante os clientes. Crimes digitais 128 Nas últimas duas décadas, tivemos uma mudança cultural significativa no comportamento da sociedade a partir da criação das redes sociais. As redes sociais — pelas suas características de exposição impulsionada pelo uso de smartphones — trouxeram consigo um aumento nos crimes digitais a partir de uma exposição muito maior das pessoas. Outro crime que vem ganhando notoriedade com essa mudança comportamental é o aumento significativo de casos de injúrias e difamações, que estão cada vez mais comuns. Assim, o impacto que esse tipo de crime digital gera na vida das pessoas é gigantesco e desastroso. Os usuários das redes sociais encaram suas convivências no mundo virtual como uma porta aberta para escrever o que bem entendem e realizar comen- tários extremamente prejudicais e ofensivos. Um estudo da Symantec, empresa do grupo Norton de segurança digital, indica que quase metade de todas as pessoas mundialmente conectadas à Internet fica feliz em contar mentiras sobre seus detalhes pessoais, incluindo nome, idade, situação financeira, estado civil, aparência e até mesmo sua nacionalidade. Além disso, um terço dos adultos já assumiu identidades falsas on-line — desde um nome falso até uma identidade totalmente fictícia. Os dados mostram que 33% dos adultos já utilizaram um nome falso e 45% mentiram sobre seus dados pessoais. Os alemães são os melhores em fingir: mais da metade já adotou uma identidade falsa on-line ou já mentiu sobre detalhes pessoais on-line (53 e 51%, respectivamente). Mais da metade dos adultos chineses, brasileiros e indianos já admitiu ter mentido sobre as suas informações pessoais on-line (58, 56 e 55%, respectivamente). Cerca de quatro em cada 10 italianos, brasileiros e neozelandeses já usaram identidades falsas on-line (41, 41 e 38%, respectivamente). As pessoas no Reino Unido sentem-se relutantes em fazer o mesmo — elas são as menos propensas a utilizar uma identidade falsa on-line (18%) ou mentir sobre as informações pessoais (33%). Crimes digitais 129 2 Tipos mais comuns de crimes digitais Com o crescente número de usuários na Internet, existe cada vez mais cri- minosos atuando na rede de computadores. Dessa forma, é muito importante entender os possíveis tipos de crimes que ocorrem na rede, ressaltando que os crimes digitais são ações que evoluem com muita velocidade. A cada novo dia, novos modelos de atividades ilícitas estão surgindo, incluindo as ações de mau comportamento dentro da rede, principalmente em redes sociais, transformando seus usuários em criminosos sujeitos a punições legais. Apre- sentamos a seguir alguns dos crimes virtuais mais comuns, que costumam ser praticados pela Internet: � Apologia ao crime — incitar publicamente a prática de crime, fazer, publicamente (art. 287 “Apologia de fato criminoso ou de autor de crime” — Código Penal — Decreto-Lei nº. 2.848, de 7 de dezembro de 1940). � Aplicativos maliciosos (malware) — são programas maliciosos insta- lados sem permissão do usuário, como vírus, para realização de furtos de dados pessoais, para fins fraudulentos. � Ato obsceno — praticar ações de natureza sexual com ofensa ao pudor. � Calúnia — atribuir sem provas a alguém uma ofensa que afete a sua dignidade ou acusar alguém de um crime. � Crimes virtuais contra mulheres — envolvem casos de perseguições, ofensas, difamação, assédio e também a distribuição de fotos e vídeos pessoais. � Crimes de ódio — são ataques racistas, de gênero, misóginos e até terroristas. � Difamação — atribuir a alguém uma acusação pública que afete a sua reputação. � Divulgação de material confidencial — expor publicamente dados de terceiros sem autorização (art. 153 “Divulgar alguém, sem justa causa, conteúdo de documento particular ou de correspondência confidencial, de que é destinatário ou detentor, e cuja divulgação possa produzir dano a outrem” — Código Penal — Decreto-Lei nº. 2.848/1940). � Estupro virtual — envolve coação para produção de conteúdo sexual sob ameaça de divulgação de fotos e vídeos. Crimes digitais 130 � Formulários falsos — envio de mensagens de e-mail falsas para os usuários solicitando que seja preenchido um formulário, assim, os criminosos conseguem várias informações sobre os usuários, incluindo dados bancários. � Injúria — atribuir a alguém uma ofensa desonrosa que afete a sua dignidade. � Lojas virtuais falsas — é um golpe com a divulgação de ofertas falsas, com preços muito abaixo do preço real de produtos, no qual os usuários adquirem os produtos, realizam o pagamento, mas não recebem as mercadorias. � Pedofilia — envolve armazenamento, produção, troca, publicação de vídeos e imagens contendo pornografia infantil ou do adolescente, cometido pela Internet. � Perfil falso — refere-se usuários que criam identidade falsa na Internet para usar redes sociais, aplicar golpes ou realizar fraudes. � Phishing — refere-se a conversas ou mensagens falsas com links fraudulentos. � Plágio — é a cópia de informações veiculadas por terceiros sem a indicação da fonte. � Preconceito ou discriminação — envolve utilizar sites da Internet ou redes sociais para opinar, de forma pejorativa e negativa, envolvendo assuntos como etnia, religião, opção sexual, raças, entre outros. � Spam — são mensagens enviadas sem o consentimento do usuário. Os crimes financeiros afetam inúmeros usuários da Internet, envolvendo desde ações que geram prejuízos individuais até ações que impactam ambien- tes corporativos, nos quais esse risco é muito maior, como o furto de dados confidenciais de seus clientes, o que poderá gerar prejuízos financeiros e à imagem da organização. A Internet é um ambiente aberto, veloz ede fácil acesso. Vivemos em um período em que as crianças já nascem digitalizadas, assim, é nítida a velocidade na mudança dos hábitos da população em função dos usos de novas tecnologias. Por esse motivo, existe um árduo desafio na adaptação e definição de regras de boas condutas dentro do universo digital. Crimes digitais 131 Assim, precisamos refletir sobre a importância da orientação e do acompa- nhamento dessas crianças, que não têm maturidade suficiente para se proteger de todos os perigos existentes no ambiente digital. Observamos mudanças na grade curricular do sistema de ensino, que passou a ser muito mais digitalizado, entretanto, essa digitalização ainda deixa muito espaço para crimes relaciona- dos à pedofilia, que atinge um número imenso de crianças ao redor do mundo. Além das redes sociais, o aplicativo WhatsApp, maior plataforma de men- sagens utilizada massivamente ao redor do mundo, tem sido utilizado com muita frequência para aplicação de muitos dos crimes descritos. A Internet possibilita novas formas de interação social, sendo que esse novo modelo de relacionamento propicia golpes e o cometimento de crimes. Uma recente pesquisa realizada pela PSafe, a desenvolvedora dos aplicativos dfndr, entre os dias 7 de maio e 22 de maio de 2019, revelou que um em cada cinco brasileiros já foi vítima de roubo de identidade na Internet, o que representa 24,2 milhões de potenciais vítimas em todo o País. As respostas à pergunta “Alguma das informações pessoais abaixo já foram usadas por alguém sem a sua permis- são?” nessa pesquisa foram as seguintes (PAVÃO, 2019; PESQUISA..., 2019): � 51,3% — número do telefone; � 44,3% — credenciais de redes sociais; � 37,1% — credenciais de e-mail; � 26,8% — CPF; � 19,3% — credenciais de banco ou cartão de crédito; � 16,0% — credenciais de serviços de compra on-line; � 14,9% — credenciais de serviços de streaming, como Netflix ou Spotify; � 12,9% — outros. No aplicativo de envio e recepção de mensagens mais popular no Brasil, o WhatsApp, as ações de punições podem ser feitas tanto em conversas individuais como em grupos. Em casos de crimes envolvendo conversas divulgadas em grupos, todos os usuários de um grupo poderão ser considerados responsáveis pelo conteúdo que outras pessoas enviam. Crimes digitais 132 3 Princípios de investigação de crimes digitais O grande volume de transações e acessos à Internet tem provocado um aumento significativo nos crimes digitais. Os usuários, apesar da sua desenvoltura para utilizar a Internet e navegar nas redes, ainda estão muito despreparados para reconhecer possíveis tentativas de fraudes e crimes digitais, sofrendo golpes que acabam gerando diversos prejuízos. Muitos usuários não sabem de seus direitos e acabam ficando calados perante os crimes praticados. Apesar de existir uma percepção que os crimes digitais não são punidos, existem leis específicas para julgar esse tipo de crime. Além disso, existe um novo modelo de relacionamento entre países que cooperam com informações, as quais permitem a análise de casos que ultrapassam as fronteiras e as leis locais. Localizar e identificar um criminoso digital é muito desafiador. Em crimes fora da rede, muitos criminosos são identificados por suas digitais, testemunhas ou evidências deixadas na cena do crime. No mundo digital, a busca por esses dados é feita em um enorme repositório de dados, por meio do endereço de IP do usuário da rede, podendo inclusive ter restrições de dados quanto ao conteúdo analisado. Outro ponto em constante evolução são os julgamentos relacionados a crimes de injúria, difamação e calúnia, que ocorrem em grande volume nas redes sociais. Observamos uma evolução judiciária em relação a esses jul- gamentos, objetivando que os usuários examinem os conteúdos postados e evitem comentários indevidos em suas redes sociais. Esse tipo de julgamento somente acontecerá se a vítima acionar os órgãos competentes, realizando boletins de ocorrência e dando continuidade às ações judiciais. A melhor maneira de combater os crimes digitais é aplicar medidas similares ao sistema penal tradicional. Em casos de crimes como roubo de dados, fraudes, pedofilia, entre outros, o processo de investigação não é uma tarefa fácil. Para chegar aos crimino- sos, é necessário descobrir muitas camadas de protocolo, quando estes são rastreáveis. Mesmo após a descoberta dos protocolos, são necessárias muitas autorizações para poder acioná-los judicialmente. Crimes digitais 133 O sistema judiciário brasileiro tem evoluído em relação ao julgamento de crimes ciber- néticos, com a aprovação do novo Marco Civil da Internet (MCI) brasileira, sancionado em 23 de abril de 2014, pela Lei nº. 12.965, de 23 de abril de 2014, que regula o uso da Internet no Brasil, definindo direitos e deveres. Outra lei brasileira específica para crimes digitais, Lei nº. 12.737, de 30 de novembro de 2012, é também conhecida como a Lei Carolina Dieckmann. A lei leva esse nome porque foi aprovada logo após o vazamento de fotos da atriz. Conforme o art. 154-A da Lei Carolina Dieckmann (BRASIL, 2012, do- cumento on-line): Art. 154-A Invadir dispositivo informático alheio, conectado ou não à rede de computadores, mediante violação indevida de mecanismo de segurança e com o fim de obter, adulterar ou destruir dados ou informações sem autorização expressa ou tácita do titular do dispositivo ou instalar vulnerabilidades para obter vantagem ilícita. Pena — detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, e multa. Mesmo o crime ocorrendo na web e caracterizado como crimes digitais poderá ser enquadrado em qualquer outra lei do Código Penal brasileiro, desde que o contexto do crime se aplique ao artigo da lei. Isso ocorre, por exemplo, em casos de calúnia e difamação. Uma barreira em todo esse processo é o enquadramento do ordenamento jurídico, considerando o sistema judiciário brasileiro, pois o local que ocorreu o crime nem sempre será o local do seu julgamento. Grandes instituições financeiras têm impulsionado o governo para aprova- ção de leis contra crimes digitais. Esse interesse está embasado nos imensos prejuízos financeiros sofridos por fraudes que acontecem via rede. Uma reportagem do portal G1 cita que (ROHR, 2016, documento on-line): A Federação Brasileira dos Bancos (Febraban) afirma que instituições fi- nanceiras perderam R$ 1,8 bilhão com fraudes em 2015. Em 2011 (antes da aprovação da lei), a cifra era de R$ 1,5 bilhão. Embora a cifra não tenha crescido muito (ou nada, se for considerada a inflação), é difícil dizer se a “estagnação” dos prejuízos se deve à lei ou aos investimentos milionários dos próprios bancos em segurança. O Quadro 1 apresenta os principais crimes digitais e suas respectivas tipificações. Crimes digitais 134 Crime Tipificação em Lei Furto eletrônico e estelionato (fraudes bancárias) Arts. 155 e 171 do Código Penal — Decreto-Lei nº. 2.848, de 7 de dezembro de 1940 e alterações Invasão de dispositivo informático e furto de dados Art. 154-A do Código Penal Falsificação e supressão de dados Arts. 155, 297, 298, 299, 313-A e 313-B do Código Penal Armazenamento: produção; troca, publicação de vídeos e imagens contendo pornografia infantil Arts. 241 e 241-A do Estatuto da Criança ou do Adolescente (ECA) — Lei nº. 8.069, de 13 de julho de 1990 Assédio e aliciamento de crianças Art. 241-D do ECA Cyberbulling (veiculação de ofensas em blogs e comunidades virtuais) Arts. 138, 139, 140 do Código Penal Incitação e apologia ao crime Arts. 286 e 287 do Código Penal Prática ou incitação de discriminação ou preconceito de raça, cor, etnia, religião ou procedência nacional Art. 20 da Lei nº. 7.716, de 5 de janeiro de 1989 Crimes contra a propriedade intelectual artística e de programa de computador Art.184 do Código Penal e Lei nº. 9.609, de 19 de fevereiro de 1998 Quadro 1. Alguns tipos de crimes digitais e leis utilizadas para o julgamento desses crimes BRASIL. Justiça Federal.Tribunal Regional Federal da 3ª. Região. Escola de Magistrados da Justiça Federal da 3ª. Região. Investigação e prova nos crimes cibernéticos. São Paulo: EMAG, 2017. 352 p. (Cadernos de estudos, 1). Disponível em: https://www.trf3.jus.br/ documentos/emag/Midias_e_publicacoes/Cadernos_de_Estudos_Crimes_Ciberne- ticos/Cadernos_de_Estudos_n_1_Crimes_Ciberneticos.pdf. Acesso em: 28 mar. 2020. BRASIL. Lei Nº 12.737, de 30 de novembro de 2012. Dispõe sobre a tipificação criminal de delitos informáticos; altera o Decreto-Lei nº 2.848, de 7 de dezembro de 1940 - Código Penal; e dá outras providências. Brasília: Casa Civil da Presidência da República, 2012. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2012/lei/l12737. htm. Acesso em: 28 mar. 2020. Crimes digitais 135 GOGONI, R. Deep Web e Dark Web: qual a diferença? Tecnoblog, Americana, 18 mar. 2019. Disponível em: https://tecnoblog.net/282436/deep-web-e-dark-web-qual-a-diferenca/. Acesso em: 28 mar. 2020. PAVÃO, S. 1 em cada 5 brasileiros já foi vítima de roubo de identidade na internet. dfndr blog, San Francisco, 30 out. 2019. Disponível em: https://www.psafe.com/blog/ roubo-de-identidade/. Acesso em: 28 mar. 2020. PESQUISA sobre roubo de identidade. PSafe, San Francisco, maio 2019. Disponível em: https://cdn.blog.psafe.com/blog/wp-content/uploads/2019/05/Pesquisa-PSafe-sobre- -Roubo-de-Identidade.pdf. Acesso em: 28 mar. 2020. ROHR, A. Quem deve investigar e punir um crime on-line: pacotão de segurança. G1 Tecnologia, Rio de Janeiro, 14 abr. 2016. Disponível em: http://g1.globo.com/tecnologia/ blog/seguranca-digital/post/quem-deve-investigar-e-punir-um-crime-line-pacotao- -de-seguranca.html. Acesso em: 28 mar. 2020. SIRUL, E. What Is the Dark Web? Experian, Costa Mesa, 8 abr. 2018. Disponível em: https://www.experian.com/blogs/ask-experian/what-is-the-dark-web/. 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Código Penal. Brasília: Casa Civil da Presidência da República, [1940]. Disponível em: http:// www.planalto.gov.br/ccivil_03/decreto-lei/del2848.htm. Acesso em: 28 mar. 2020. BRASIL. Ministério da Justiça. Lei Nº 7.716, de 5 de janeiro de 1989. Define os crimes resultantes de preconceito de raça ou de cor. Brasília: Casa Civil da Presidência da República, [1989]. Disponível em: http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/l7716.htm. Acesso em: 28 mar. 2020. Crimes digitais 136 Os links para sites da web fornecidos neste capítulo foram todos testados, e seu fun- cionamento foi comprovado no momento da publicação do material. No entanto, a rede é extremamente dinâmica; suas páginas estão constantemente mudando de local e conteúdo. Assim, os editores declaram não ter qualquer responsabilidade sobre qualidade, precisão ou integralidade das informações referidas em tais links. BRASIL. Ministério Público Federal. 2ª. Câmara de Coordenação e Revisão. Crimes cibernéticos. Brasília: MPF, 2018. 275 p. (Coletânea de artigos, 3). Disponível em: http:// www.mpf.mp.br/atuacao-tematica/ccr2/publicacoes/coletaneas-de-artigos/coleta- nea_de_artigos_crimes_ciberneticos. Acesso em: 28 mar. 2020. OLIVEIRA, R. Cinco tipos de crimes digitais devem dominar a internet brasileira em 2019. Jornal Opção, Goiânia, 29 set. 2019. https://www.jornalopcao.com.br/reportagens/ cinco-tipos-de-crimes-digitais-devem-dominar-a-internet-brasileira-em-2019-212858/. Acesso em: 28 mar. 2020. POZZEBOM, R. Quais são os crimes virtuais mais comuns? Oficina da Net, Santa Cruz do Sul, 30 abr. 2015. Disponível em: https://www.oficinadanet.com.br/post/14450-quais- -os-crimes-virtuais-mais-comuns. Acesso em: 28 mar. 2020. SURFACE Web vs Deep Web vs Dark Web vs Shadow Web vs Marianas Web. Techdracula, [S. l.], 22 dez. 2017. Disponível em: https://techdracula.com/surface-vs-deep-vs-dark- -vs-vs-shadow-vs-marianas-web/. Acesso em: 28 mar. 2020. Crimes digitais 137 DICA DO PROFESSOR Os crimes digitais estão cada vez mais frequentes dentro de um universo tão extenso quanto o da Internet, no qual existem milhares de transações todos os dias, fazendo com que esse tipo de criminalidade evolua exponencialmente. Apesar da legislação não ter evoluído na mesma velocidade, já é possível observar conquistas em relação a punições para esses tipos de crime. Nesta Dica do Professor, você vai aprender um pouco mais sobre como identificar esse tipo de crime e quais são as principais punições. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! EXERCÍCIOS 1) A rede de computadores mundial — a Internet —, é um ambiente interligado, sem localização física e central específica, e a sua criação permitiu a fácil comunicação entre a sociedade. Apesar de parecer um ambiente único, a Internet tem mais de um segmento de navegação. Essas partes da Internet não são visíveis a todos os usuários e cada uma delas tem uma característica específica, criando cantos obscuros na rede mundial. Sendo assim, qual é a afirmativa correta? A) A rede web é segmentada em três níveis: surface web, deep web e dark web, sendo o primeiro deles o segmento de maior volume de navegação e tráfico de informações. B) A deep web é um segmento que usa dados criptografados, sendo composta por sites indexados. Ela é composta por tudo aquilo que não é visto livremente na Internet. C) Na deep web é possível utilizar navegadores como Chrome, Firefox, Bing, etc. Porém, não há endereço IP e dados do usuário, o que dificulta a identificação de quem está navegando. 138 D) No segmento deep web ocorre a maioria dos crimes digitais, pois essa parte da Internet colabora com o anonimato e há uma dificuldade em descobrir os responsáveis. E) O segmento dark web é um ambiente não criptografado, no qual todas as pessoas que navegam precisam de conhecimentos específicos para acessar as informações. 2) Com o uso cada vez maior da rede mundial, de aplicativos e redes sociais, observa-se uma mudança significativa no comportamento da população, principalmente nas redes sociais. Em alguns casos, pode ficar a falsa sensação de impunidade, entretanto, a legislação brasileira vem evoluindo a respeito disso e já é possível perceber um aumento no número de condenações para os crimes praticados no ambiente digital. Sendo assim, marque a alternativa correta. A) Calúnia é um ato muito comum nas redes sociais, onde os usuários, por meio de suas postagens e comentários, ofendem outros indivíduos de forma injusta, independentemente dos fatos que envolvem a situação. B) A utilização das redes sociais para opinar de forma pejorativa sobre assuntos como religião, etnia, raças, etc., caracteriza crime digital. Esses crimes são julgados apenas com base nas leis digitais. C) Preconceito, difamação e injúria são crimes que existem há muitos anos na sociedade; atualmente, representam o maior volume de crimes realizados através do meio digital. D) Atribuir a uma pessoa alguma menção desonrosa, seja em qualquer ambiente digital, poderá caracterizar em injúria. E) Usar o ambiente corporativo para divulgação de material próprio da empresaé caracterizado como furto de informações. 139 3) Apesar da evolução das leis em relação aos crimes digitais e da mudança de comportamento da população, observa-se um modelo no qual as vítimas ainda não procuram todos os seus direitos. Essa característica se deve a qual fato? Marque a opção correta. A) A evolução das leis é muito recente e os crimes digitais são julgados somente pelas leis específicas, o que faz com que muitas vítimas desconheçam seus direitos. B) Processos judiciais são demorados, entretanto, em um crime digital que envolva redes sociais e aplicativos, as empresas proprietárias dessas redes têm obrigação de entregar os dados, caso os sistemas legal e judiciário solicitem. C) As penas definidas para os crimes digitais são muito brandas. Por isso, em muitas situações, as vítimas acabam se desmotivando e não dão início a um processo judicial. D) Devido à grande extensão do ambiente digital, a comprovação dos crimes é muito difícil, o que faz com que muitas vítimas não ingressem com ações no sistema judiciário. E) Devido ao modelo judiciário do Brasil, há dificuldade em relação a onde ocorreu e onde será julgado o crime, principalmente em casos em que as vítimas fazem parte de um crime cometido contra grandes organizações. 4) A criação da Internet foi um ponto crucial para todas as organizações ao redor do mundo, oportunizando negócios entre países de forma simples e rápida. Porém, toda essa comodidade também tem seu custo, e essas empesas são frequentemente alvos de criminosos. Considerando essa modalidade de crimes, marque a afirmativa correta. A) Uso de dispositivos, como digitais e reconhecimento facial, são muito seguros e podem ser considerados como soluções adequadas por um longo tempo pelas organizações para combater o crime digital. 140 B) O investimento em soluções de segurança representa uma grande fatia orçamentária das organizações, sendo eficiente no combate ao crime digital. C) O recebimento de e-mails com promoções é natural no ambiente virtual, não caracterizando um crime digital. D) As empresas têm atuado muito no controle de dados e focado em realizar, de forma eficiente, o controle de todos os dados confidenciais. E) As grandes organizações vêm atuando no combate ao crime digital por meio de ações que impulsionam a criação de legislação específica para a tratativa desses crimes. 5) A rede de computadores mundial modificou a maneira como a sociedade passou a se comunicar e a interagir. Com certeza, esse foi um fator determinante para impulsionar a evolução na humanidade, abrindo portas para a criminalidade dentro do ambiente digital. Sendo assim, qual afirmativa está correta? A) A Internet foi criada em 1960 pelo governo dos Estados Unidos com o protocolo TCP/IP ( transfer internet protocol/internet protocol), permitindo a comunicação entre usuários. B) Os primeiro crimes digitais ocorreram na década de 1990, quando a rede web começou a ganhar notoriedade, passando a ser um dos principais meios de comunicação. C) O conceito Internet foi criado na década de 1980, no mesmo período que surgiu a palavra hacker, indivíduo capaz de promover a invasão de sistemas privados a partir de conhecimentos técnicos. D) O surgimento das redes sociais, nas últimas três décadas, abriu uma porta importante para o aumento exponencial da criminalidade digital, devido à exposição dos usuários. 141 E) A extensão da Internet contribui muito com a exponencialidade dos crimes. Estudos provam que um a cada cinco brasileiros já foi vítima de algum tipo de crime digital. NA PRÁTICA Ao contrário do que muitos pensam, o aplicativo WhatsApp não é uma terra sem lei. Diferentemente da comunicação falada, todas as conversas nesse aplicativo ficam registradas, e muitos brasileiros já recorreram à justiça por se sentirem ofendidos por algo escrito ou repassado via WhatsApp. Nesta Na Prática, você vai conhecer um caso real no qual os usuários de um grupo de WhatsApp acionaram a justiça. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! SAIBA MAIS Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Quais são os crimes virtuais mais comuns? Nesta matéria do canal Oficina da Net, você vai encontrar informações interessantes sobre quais são os crimes virtuais mais comuns, a descrição de cada um deles e quais são as delegacias responsáveis por apurá-los em todos os estados brasileiros. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Crimes cibernéticos Este artigo do Ministério Público Federal reflete a importância no combate à criminalidade cibernética na sociedade contemporânea, descrevendo em detalhes o crime de pornografia infantil e suas devidas punições. Confira. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! 142 Introdução à propriedade Intelectual APRESENTAÇÃO A propriedade intelectual é um ramo do Direito que tem por finalidade a proteção dos bens imateriais oriundos da criação humana, sejam eles de cunho artístico, literário, científico ou tecnológico, que são protegidos para que o detentor possua o reconhecimento de sua propriedade, além de poder fazer jus à exploração econômica de sua criação. Nesta Unidade de Aprendizagem, vamos definir a propriedade intelectual e verificar a sua importância, reconhecendo os tipos de invenções que podem ser protegidas, assim como reconhecer a divisão da propriedade intelectual. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Identificar o que é a propriedade intelectual.• Reconhecer quais tipos de criações podem ser protegidas por meio da propriedade intelectual. • Explicar as divisões da propriedade intelectual.• DESAFIO Imagine que você é advogado e é procurado pela esposa e pela família de Marcos, que havia falecido fazia três anos. Marcos era engenheiro mecânico e possuía uma oficina na garagem de casa, onde desenvolvia projetos na busca de melhoria de desempenho de automóveis, gosto adquirido desde muito cedo na oficina mecânica do pai. A família iria mudar de residência e, ao encaixotar seus pertences, descobriu o desenho de um motor elétrico revolucionário no mercado, totalmente inédito, desenvolvido por Marcos e que 143 havia ficado entre os muitos projetos em que ele trabalhava. Você é então procurado e consultado pela família, que busca uma orientação sobre a questão: 1) A família de Marcos pode requerer a patente da invenção? Qual a previsão legal para isso? 2) Quais requisitos devem estar presentes para se considerar uma invenção patenteável? INFOGRÁFICO Você sabe quais são as divisões da propriedade intelectual? Veja no infográfico quais são elas e como são organizadas. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! CONTEÚDO DO LIVRO Na obra Propriedade intelectual, leia o capítulo Introdução à propriedade intelectual, base teórica desta Unidade de Aprendizagem. Você aprenderá sobre o que é propriedade intelectual e que ela se divide em direito autoral, propriedade industrial e proteção sui generis. Além disso, vai saber quais os tipos de criações são passíveis de proteção por propriedade intelectual. Boa leitura. 144 Introdução à propriedade intelectual Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: � Identificar o que é a propriedade intelectual. � Reconhecer quais tipos de criações podem ser protegidas por meio da propriedade intelectual. � Explicar as divisões da propriedade intelectual. Introdução A propriedade intelectual é um ramo do Direito cuja finalidade é a pro- teção dos bens imateriais oriundos da criação humana, sejam eles de cunho artístico, literário, científico ou tecnológico, protegidos para que o detentor possua o reconhecimento da sua propriedade, além de poder fazer jus à exploração econômica da sua criação. Neste capítulo, você vai ler a respeito da definição de propriedade intelectuale verificar a sua importância, analisando os tipos de invenções que podem ser protegidas e a divisão da propriedade intelectual. O que é propriedade intelectual? A propriedade intelectual passou a ser definida pela Convenção da Organização Mundial da Propriedade Intelectual como “a proteção aos direitos relacionados às criações artísticas, literárias, científicas e invenções, marcas, desenhos in- dustriais, softwares e muitos outros”. Nesse sentido, a proteção é dada aos bens imateriais, que são fruto da criação humana. São chamados de imateriais por não necessariamente possuírem uma propriedade física, que possa ser tocada. A propriedade intelectual, por também se tratar de algo pertencente ao possui- dor, gera retorno financeiro; assim, passa a ser considerada um ativo. Normalmente, é o resultado de um investimento que trará lucros e, por esse motivo, deve ser 145 bem protegido para que não se perca ou seja utilizado indevidamente por alguém mal-intencionado ou por alguém que venha a ter a mesma ideia posteriormente. A propriedade intelectual é uma denominação que se dá a patentes, direitos autorais, desenhos industriais, marcas e outros tipos de propriedade intangível que se originam de criações humanas e que não necessariamente precisam possuir corpo físico, ser palpável. Faz referência ao conhecimento que um criador detém ao realizar uma criação/produto, assegurando os seus direitos de explorar a propriedade intelectual, mas, primeiro, será necessário proteger o que foi criado. Para que uma obra possa ser patenteada, precisamos seguir alguns crité- rios, devendo comprovar, diante das autoridades da propriedade intelectual, que a tecnologia que se pretende proteger é específica, difere de qualquer coisa já patenteada antes, não está disponível no mercado ou não tenha sido divulgada. Essa invenção também não deve ser óbvia, deve ter utilidade para algum ramo industrial e ter a possibilidade de ser reaplicada de forma industrial. Diante do exposto, podemos verificar a importância de proteger a propriedade intelectual, como forma de preservar um patrimônio inovador, o que pode ser feito de três formas: � diretamente em uma das sedes do Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI); � via Correio, encaminhando a solicitação via Sedex; � site da Biblioteca Nacional. O INPI foi criado para ser o órgão brasileiro regulatório e fiscalizador responsável, submetido ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (MDIC). Esse órgão é responsável pela concessão dos direitos de propriedade industrial e nele devem ser registradas as inovações, patentes, marcas e desenhos técnicos. Quase todos os produtos utilizados hoje no nosso dia a dia — como, por exemplo, a torneira elétrica, a caneta, a geladeira e o computador — já passaram pela concessão do INPI. Introdução à propriedade intelectual 146 No site do INPI, podemos verificar os serviços oferecidos e como o registro deve ser feito. Podemos também conferir o que já foi registrado, sendo um instrumento importante para quem precisa verificar se uma marca ou produto já foi catalogado por outra pessoa. Para isso, é necessário estar bem informado sobre como funcionam os procedimentos e, se possível, estar bem assessorado por um profissional que possa orientar corretamente a melhor forma de apro- veitar os benefícios desse patrimônio. Para cada espécie de registro, existe um prazo de proteção concedido pela lei, para que a pessoa interessada renove o seu interesse em manter o registro de seu produto e continue a explorar os benefícios de sua inovação. Hoje, iniciar o ato de solicitação de uma patente ou registro de indicação geográfica é algo extremamente simples. Existe a possibilidade de legalizar os direitos autorais, por meio do envio pelos Correios de uma cópia da obra produzida (por meio de Sedex ou carta registrada). Essa correspondência, ao ser recebida, não deve ser aberta, pois, caso seja necessário comprovar a sua autoria, devemos juntá-la ao processo para que passe por perícia. Dessa forma, poderemos comprovar que a obra existe desde a data carimbada no envelope pelos Correios. Outro ato simples, mas com um ótimo custo-benefício, é registrar a obra na Biblioteca Nacional, que possui sede no Rio de Janeiro e postos em 10 Estados do Brasil. A Biblioteca Nacional é responsável pelo registro, pela guarda e pela proteção de toda produção autoral brasileira. Para isso, o autor deve: � acessar o site da Biblioteca Nacional; � imprimir, preencher e assinar o formulário de registro; � anexar as cópias de seus documentos, como registro geral (RG), cadastro de pessoas físicas (CPF), comprovante de endereço e uma reprodução da obra impressa com todas as páginas assinadas; � entregar pessoalmente na sede ou em um dos postos ou, por fim, enviar essa solicitação por Sedex. O registro dessa obra deve sair em cerca de 90 dias. São atos relativamente simples, mas que podem proteger um patrimônio valiosíssimo para quem o produziu. Mesmo que a proteção se dê por tempo determinado, é muito importante fazer algo para que a propriedade intelectual seja protegida, pois essa é a melhor maneira de se garantir uma sustentação legal. Se a inovação não for devidamente registrada, o autor teria que manter o seu trabalho em segredo para proteger a sua criação e para que a sua ideia não seja roubada. Ao proteger e registrar a sua invenção, o criador terá a Introdução à propriedade intelectual 147 tranquilidade de que a obra não será roubada ou copiada e poderá disseminá- -la, com os retornos financeiros contribuindo com o processo de inovação e modernidade do seu país. Tipos de criações que podem ser protegidas por meio da propriedade intelectual Dentro da propriedade intelectual, há várias criações que podem ser protegidas, conforme veremos a seguir. As produções artísticas, literárias e científicas podem se manifestar por meio de: � fotografias; � litografias, que é a impressão em papel de um escrito ou um desenho; � escultura; � música; � projetos de engenharia e arquitetônicos; � demais expressões estéticas. Conforme o art. 7º da Lei nº. 9.610, de 19 de fevereiro de 1998, as obras intelectuais são todas as criações do espírito, expressas por qualquer meio ou fixadas em qualquer suporte, tangível ou intangível, conhecido ou que se invente no futuro, com destaque para (BRASIL, 1998a): � as conferências e os sermões; � as obras coreográficas e pantomimas; � as obras cinematográficas e fotográficas; � as pinturas e esculturas; � as cartas geográficas; � os projetos de engenharia, arquitetura e paisagismo; � as adaptações e traduções; � os programas de computador; � os dicionários e bases de dados. Também poderão ser protegidas e registradas as interpretações de artis- tas, a reprodução e execução musical, bem como as invenções de todos os campos da atividade humana, obedecendo sempre os requisitos estabelecidos em lei específica. Introdução à propriedade intelectual 148 São protegidos, também, por meio do registro de propriedade intelectual, os desenhos industriais. De acordo com o art. 95 da Lei nº. 9.279, de 14 de maio de 1996, o desenho industrial é a: “[...] forma plástica ornamental de um objeto ou o conjunto ornamental de linhas e cores que possa ser aplicado a um produto, proporcionando resultado visual novo e original na sua configuração externa e que possa servir de tipo de fabricação industrial” (BRASIL, 1996). Assim, todo desenho industrial deve apresentar uma forma plástica e original, tridimensional ou que tenha um conjunto de linhas e cores que poderão ser aplicadas a um produto bidimensional, ou seja, que possa sair do papel e ser transformado em um produto que preencha uma finalidade prática. Portanto, o desenho indus- trial deve ter forma de um objeto com duas dimensões, não possuindo requisito essencial de possuir manifestação artística, mas que tenha o requisito da novidade. A marca é protegida por meio do registrode propriedade intelectual. De acordo com o art. 123, I, da Lei nº. 9.279/1996, considera-se marca de um produto ou serviço aquela usada para distinguir produto ou serviço de outro idêntico, semelhante ou afim, de origem diversa, como, por exemplo, no caso de um acho- colatado, em que há produtos idênticos, mas que apresentam um visual diferente, o que facilita ao consumidor distinguir uma marca da outra (BRASIL, 1996). Também é possível registrar um nome empresarial que o empresário adota e utiliza para atuar no mercado, constando no seu contrato ou estatuto das sociedades empresárias. A fim de evitar uma concorrência desleal, não se admite que existam nomes empresariais idênticos ou sequer semelhantes, para que seus clientes não se confundam, mesmo em atividades diferentes. Ocorre que o título de registro, salvo no caso de marcas famosas, não evitará o uso por terceiros em atividades diversas, a menos que induza os clientes a uma confusão. Um exemplo seria uma marca de roupas e uma marca de calçados com o mesmo nome, o que poderia fazer o comprador pensar que ambos os produtos são pertencentes à mesma marca. Por meio do registro de propriedade intelectual, é possível proteger os demais direitos de terreno industrial, científico, literário e artístico. Conforme estabelecido no art. 22 da Lei nº. 9.610/1998, “pertencem ao autor os direitos morais e patrimoniais sobre a obra que criou”, assim, os direitos morais vinculam o autor à sua criação, direitos que são inalienáveis e irrenunciáveis. Estão elencados no art. 24 da mesma lei os direitos morais do autor, como (BRASIL, 1998a): � reivindicar, a qualquer tempo, a autoria da obra; � ter seu nome, pseudônimo ou sinal convencional ligado à obra; � conservar o direito de inédito; Introdução à propriedade intelectual 149 � conservar o direito à integridade da obra; � conservar o direito de modificar a obra; � conservar o direito de extinguir a venda; � conservar o direito de ter acesso ao exemplar único de sua obra para fotografar e preservar a sua memória. No caso de falecimento do autor, os direitos em relação à obra são trans- mitidos aos seus herdeiros ou sucessores, que possuirão os mesmos direitos, ou seja, resguardar a sua manutenção, divulgação e alteração. Não existindo sucessores, a função de proteção desses direitos passará ao Estado, mas não de forma integral, já que a obra passará a ser considerada de domínio público. Haverá o zelo pela conservação da obra, mas seu uso é permitido de forma irrestrita por quem assim o desejar. Divisões da propriedade intelectual A propriedade intelectual possui três divisões principais: � direito autoral; � propriedade industrial; � proteção sui generis. Os direitos autorais estão presentes também no Direito Civil, e a sua proteção não depende de registro formal e pagamentos de taxas. A sua du- ração é de 60 anos, a contar do primeiro dia do ano posterior ao falecimento do autor, de acordo com o art. 41 da Lei nº. 9.610/1998. De acordo com o art. 42 da mesma lei “quando a obra literária, artística ou científica realizada em coautoria for indivisível, o prazo previsto no artigo anterior será contado da morte do último dos coautores sobreviventes” (BRASIL, 1998a). Refere-se à autoria de obras intelectuais nos campos literário, científico e artístico, como, por exemplo, pinturas, livros, artigos científicos, matérias jornalísticas, músicas, imagens, desenhos, software, entre outros. O direito autoral ainda se divide em duas partes: o direito do autor e o direito conexo. O direito do autor se relaciona com criações literárias, artísticas e científicas, tendo por requisito a criação do espírito humano, ou seja, livros e artigos científicos, por exemplo. Já os direitos conexos são os direitos dos artistas, intérpretes ou executantes, produtores fotográficos e empresas de radiodifusão, como, por exemplo, os de filmes, shows, novelas, programas de rádio e televisão. Introdução à propriedade intelectual 150 Um dos requisitos para uma obra ser protegida pela Lei de Direitos Autorais é sua originalidade. Ocorre que esse conceito não é uniforme, visto que a originalidade seria a criatividade, no sentido de criação do intelecto individual, de acordo com a personalidade do seu criador. Isso ocorre quando se exige, por exemplo, o caráter de contribuição pessoal; ou no sentido da origem intelectual de uma obra, que se aplica quando a proteção é dada a uma obra que não seja cópia ou uma apropriação de elementos preexistentes. A propriedade industrial compõe o Direito Comercial e a sua proteção depende da concessão de um título pelo Estado, perante o pagamento de taxas. O seu prazo de proteção é menor do que o dos direitos autorais e a lei estabelece sanções para a sua não exploração. Nesse caso, de acordo com a lei, o registro de propriedade industrial está sujeito ao pagamento de retribuição quinquenal, a partir do segundo quinquênio da data do depósito. O segundo quinquênio deve ser pago durante o quinto ano de vigência do registro. A propriedade industrial tem como foco principal a atividade comercial, englobando: � patente de invenção e de modelo de utilidade; � marca; � desenho industrial; � indicação geográfica; � segredo industrial; � repressão à concorrência desleal. A propriedade industrial está regulamentada pela Lei nº. 9.279/1996 e engloba também direitos e obrigações relacionadas a bens intelectuais, bem como objetos de atividades industriais de empresas ou indivíduos. Assegura, desse modo, ao titular do direito a exclusividade de fabricar, comercializar, importar, usar, vender e ceder. Na propriedade industrial, assim como no direito autoral, há também duas divisões: a patente e a marca. A patente tem como objetos de proteção as invenções ou os modelos de utilidade que envolvem novos produtos, bem como processos que podem ser industrialmente aplicados. Possui como requisitos principais a novidade, atividade inventiva e aplicação industrial, como, por exemplo, máquinas e equipamentos. A marca tem como objetivo de proteção Introdução à propriedade intelectual 151 a logomarca de um produto, empresa ou serviço, possuindo como requisito a compatibilidade com os respectivos ramos de atuação ou de comercialização do empreendimento ou da organização. A novidade exigida na invenção e no modelo de utilidade corresponde a algo que ainda não existe e não é de conhecimento do público em data anterior ao depósito do pedido da patente, a menos que a divulgação tenha se dado no período de 12 meses anteriores ao depósito e que tenha sido feita pelo próprio inventor. A proteção dada ao titular do direito pela patente impede o uso da sua criação por pessoas desautorizadas. O prazo de vigência da patente, de acordo com o art. 40 da Lei nº. 9.279/1996, é de 20 anos para patente de invenção e de 15 anos para modelos de utilidade, a contar da data do depósito no INPI (BRASIL, 1996). Podemos fazer algumas distinções entre direito autoral e propriedade industrial: enquanto as obras protegidas pelos direitos autorais têm como condição a originalidade, as invenções, os modelos de utilidade e os desenhos industriais dependem da condição de novidade, ou seja, requer que esses produtos não sejam de conhecimento geral. Para os desenhos industriais, há uma variedade de formas possíveis. Assim, quando esses desenhos possuem somente o requisito de originalidade relativa, ou seja, é considerado uma novidade de aplicação, não merecem ser protegidos pela Lei de Direitos Autorais, ficando sob a tutela da Lei de Propriedade Industrial. Se o produto for divulgado, por qualquer meio, antes de requisitar tal registro, será considerado de domínio público, tendo a possibilidade de ser explorado livremente por qualquer pessoa. A proteção sui generis é o ramo da topografia de circuitos integrados e de cultivares, assim como de conhecimentos tradicionais e de exploração genética. Nela, cada direito depende de proteção regulamentada porlegislação específica, necessitando ainda de registro em órgão competente, sendo que o prazo de validade varia de acordo com cada espécie. Aqui o objeto de projeção é a configuração tridimensional das camadas sobre uma peça de material semicondutor que visa realizar funções eletrônicas em equipamentos. Possui como requisito a topografia original e que não seja comum para técnicos e especialistas, no momento da sua criação, como, por exemplo, microprocessadores e memórias. Outra questão importante é a proteção de software, que é uma sequência de instruções escritas à propriedade intelectual Introdução 152 interpretadas por um computador com o objetivo de executar tarefas específicas. Pelas características que apresenta, a sua proteção transita entre os direitos autorais e o direito da propriedade industrial, mas o software está diretamente expresso no texto da Lei do Direito de Autor, no seu art. 7º, XII, § 1º. A Lei nº. 9.609/1998 disciplinou os direitos morais do criador de software, que exprimem a relação pessoal entre a obra e o seu autor, atribuindo-a aos direitos morais reduzidos, podendo somente reivindicar a autoria do programa e opor-se a que sejam feitas mudanças no que foi desenvolvido sem a sua prévia autorização. Já os direitos relativos ao patrimônio são reconhecidos pela Lei de Direitos Autorais, no seu art. 28, que confirma o direito do criador, o aproveitamento dos lucros provenientes da sua obra e o direito exclusivo de exploração (BRASIL, 1998b). A proteção de software independe de registro no INPI e é assegurada durante 50 anos, contados a partir de 1º de janeiro do ano subsequente ao da sua publicação ou, na ausência desta, da sua criação, mas é estabelecida a proibição de que esse software seja retirado de circulação para garantir segurança aos seus usuários. O registro no INPI não é obrigatório, mas a taxa periódica para a conservação do sigilo é imposta pela lei. No art. 6º da Lei do Software, foram impostas algumas ressalvas, como (BRASIL, 1998b): � permitir a reprodução de uma cópia do original; � permitir a citação parcial, para fins acadêmicos, com expressa indicação do titular; � não constituir ato ilícito a semelhança de software, pelas características de funcionalidade; � permitir a integração de programas quando indispensáveis às necessi- dades do usuário e para seu uso individual. O Conselho Nacional de Justiça faz uma excelente ex- plicação e distinção do que é propriedade intelectual, as suas divisões, aplicações e proteções. Acesse este link: https://goo.gl/QQUxb5 Introdução à propriedade intelectual 153 BRASIL. Lei nº. 9.610, de 19 de fevereiro de 1998. Altera, atualiza e consolida a legislação sobre direitos autorais e dá outras providências. 1998a. Disponível em: <http://www. planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9610.htm>. Acesso em: 22 jan. 2018. BRASIL. Lei nº. 9.609, de 19 de fevereiro de 1998. Dispõe sobre a proteção da propriedade intelectual de programa de computador, sua comercialização no País, e dá outras providências. 1998b. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/ L9609.htm>. Acesso em: 22 jan. 2018. BRASIL. Lei nº. 9.279, de 14 de maio de 1996. Regula direitos e obrigações relativos à propriedade industrial. 1996. Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/ leis/L9279.htm>. Acesso em: 22 jan. 2018. Leituras recomendadas ENDEAVOR BRASIL. Se tem empreendedorismo, tem inovação. E se tem inovação, tem que ter propriedade intelectual. 2015. Disponível em: <https://endeavor.org.br/propriedade- -intelectual/>. Acesso em: 23 jan. 2018. KAYO, E. K. et al. Ativos intangíveis, ciclo de vida e criação de valor. Revista de Adminis- tração Contemporânea, Curitiba, v. 10, n. 3, p. 73-90, set. 2006. Disponível em: <http:// www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1415-65552006000300005&lng= en&nrm=iso>. Acesso em: 23 jan. 2018. LUPI, A. L. P. B. Proteção jurídica do software: eficácia e adequação. Porto Alegre: Sín- tese, 1998. MANUAL de redação de patentes da organização mundial da propriedade intelectual (ompi). [200-?]. Disponível em: <http://w3.ufsm.br/nit/images/Guias_e_Manuais/ Manual%20OMPI.pdf>. Acesso em: 23 jan. 2018. PAESANI, L. M. Manual de propriedade intelectual. 2. ed. São Paulo: Atlas, 2015. PIMENTEL, L. O. (Org.). A proteção jurídica da propriedade intelectual de software: noções básicas e temas relacionados. Florianópolis: IEL, 2008. SANCHES, H. T. Legislação autoral. São Paulo: LTR, 1999. SANTOS, M. J. dos. Direito autoral: propriedade intelectual. São Paulo: Saraiva, 2013. SLACK, N. et al. Gerenciamento de operações e de processos: princípios e práticas de impacto estratégico. 2. ed. Porto Alegre: Bookman, 2013. SOUZA, T. de J. F. et al. Proposta de melhoria do processo de uma fábrica de polpas por meio da metodologia de análise e solução de problemas. In: ENCONTRO NA- CIONAL DE ENGENHARIA DE PRODUÇÃO, 35., 2015, Fortaleza. Anais... Fortaleza, 2015. Disponível em: <http://www.abepro.org.br/biblioteca/TN_STP_207_228_27341.pdf>. Acesso em: 23 jan. 2018. à propriedade intelectual Introdução 154 DICA DO PROFESSOR Você sabe quais invenções podem ser patenteadas e quais os requisitos para isso? Assista ao vídeo e conheça quais são. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! EXERCÍCIOS 1) Dentro da propriedade intelectual temos a propriedade industrial, os direitos de autor e os chamados sui generis. O que diferencia a propriedade intelectual da propriedade industrial? A) A propriedade intelectual e a propriedade industrial são sinônimos, como podemos observar em vários artigos relacionados ao tema. B) A propriedade intelectual é um ramo do Direito que visa à proteção de todas as criações humanas, sendo elas voltadas para a arte, ciência ou indústria. A propriedade industrial é uma divisão da propriedade intelectual e compreende as criações humanas voltadas para a indústria. C) A propriedade industrial é um dos grupos de proteção com maior importância dentro da propriedade intelectual. D) A propriedade intelectual protege bens intelectuais e a propriedade industrial protege bens da indústria. E) A propriedade intelectual protege bens imateriais e a propriedade industrial protege bens materiais. 155 2) Quais são as subdivisões da propriedade industrial? A) Indicações geográficas, marcas, desenho industrial e patente. B) Indicações geográficas, marcas, modelo industrial e patente. C) Indicações geográficas, marcas, desenho industrial e direitos autorais. D) Indicações geográficas, marcas, sui generis e patente. E) Cultivares, topografia de circuitos integrados, direitos conexos e software. 3) Qual a importância da propriedade intelectual para o Estado e para o criador? A) Com a concessão da exclusividade pelo Estado, por um período, todos os interessados podem explorar economicamente o objeto protegido. B) Com a concessão da exclusividade pelo Estado, por um período, os titulares podem explorar economicamente o objeto protegido, incentivando o uso não autorizado ou indevido por terceiros, ou mesmo autorizando o uso, mas sem um retorno financeiro sobre ele. C) Com a concessão da exclusividade pelo Estado, por um período, os titulares podem explorar economicamente o objeto protegido, evitando o uso não autorizado ou indevido por terceiros, ou mesmo autorizando o uso, mas com um retorno financeiro sobre ele. D) Com a concessão da exclusividade pelo Estado, por um período, os titulares e seus concorrentes podem explorar economicamente o objeto protegido, evitando o uso não autorizado ou indevido por terceiros, ou mesmo autorizando o uso, mas com um retorno financeiro sobre ele. 156 E) Nenhuma das alternativas. 4) Qual a principal diferença entre a propriedade industrial e os direitos autorais? A) A diferença entre propriedade industrial e direitos autorais é que a propriedade industrial é o direito dado à pessoa jurídica e os direitos autorais são os direitos dados à pessoafísica. B) Ambas protegem criações humanas, mas os direitos do autor têm um prazo maior de proteção. C) A propriedade industrial está voltada para a arte e literatura; já os direitos autorais visam à proteção de todas as criações voltadas para a indústria (produção em massa). D) A propriedade industrial visa à proteção de todas as criações voltadas para a indústria (produção em massa); já os direitos autorais protegem todas as criações publicadas, independentemente da categoria. E) A propriedade industrial visa à proteção de todas as criações voltadas para a indústria (produção em massa); já os direitos autorais estão voltados para a arte e literatura. 5) A caneta BIC foi a primeira caneta esferográfica existente, desenvolvida por Laszlo Biro, seu irmão e um amigo. Quais proteções, respectivamente, poderíamos vincular a essa caneta, considerando a tecnologia aplicada, seu design e o nome pelo qual hoje a conhecemos? A) Patente, desenho industrial e marca. B) Marca, desenho industrial e patente. C) Desenho industrial, patente e marca. 157 D) Patente, marca e desenho industrial. E) Direito autoral, desenho industrial e marca. NA PRÁTICA Nesta Unidade de Aprendizagem, você viu diversos conteúdos sobre propriedade intelectual, mas você sabe como é feito na prática um registro de patente de invenção? Veja quais são as etapas. 158 159 SAIBA MAIS Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Propriedade intelectual - marcas Conheça mais sobre marcas, seu conceito e como pode ser protegido por propriedade intelectual. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Fórum - propriedade intelectual Assista a este vídeo e saiba mais sobre propriedade intelectual. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Entenda as diferenças entre registro de marca e registro de patente Você sabe a diferença entre marcas e patentes? Descubra neste link. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Propriedade intelectual: proteção e gestão estratégica do conhecimento Leia este artigo e veja como o conhecimento pode ser protegido pela propriedade intelectual. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! 160 Software: evolução e modalidade de registro APRESENTAÇÃO Software pode ser classificado como uma sequência de dados ou códigos escritos, organizados na forma de comandos específicos, que serão processados ou interpretados por um computador. Hoje, um software pode ser simplesmente reconhecido pela figura dos famosos “aplicativos”, que nada mais são que programas de computadores, presentes cada vez mais em nosso dia a dia, em telefones celulares, televisores, tablets, relógios, entre outros. Nesta Unidade de Aprendizagem, você vai estudar o conceito de software e suas evoluções, as características de seu registro e o procedimento pelo qual ele se dá. Bons estudos. Bons estudos. Ao final desta Unidade de Aprendizagem, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Definir o conceito de software e sua evolução.• Analisar a modalidade de registro de software.• Diferenciar o registro de softwares de outras modalidades de registro de propriedade intelectual. • DESAFIO A proteção dos direitos autorais e patenteáveis de software é um tema ainda em construção na doutrina jurídica. Ainda que a lei 9.609/98 tenha realizado passos importantes para a sua consolidação como um ramo do direito autoral, há a possibilidade de registro de alguns elementos dessa figura como patente, segundo as próprias orientações do Instituto de Propriedade Intelectual do Brasil - INPI. Imagine que você é um consultor em propriedade intelectual, e é procurado com a seguinte 161 situação: A partir das informações acima, responda as seguintes perguntas: 1. Qual a modalidade de registro de propriedade intelectual aplicável a esse caso? Trata-se de direito autoral ou patente? 2. É possível a empresa Y apresentar processo de nulidade administrativo contra o registro realizado pela empresa X Software? INFOGRÁFICO O registro de software possui características dos modelos de patente e de direitos autorais, sendo o primeiro focado em ideias e processos criativos, bem como o produto deles, e o segundo na obra em si, excluídos os elementos subjetivos de sua criação. Neste Infográfico, você vai ver um comparativo desses dois modelos, visando a deixar mais clara a compreensão da discussão ocorrida na formulação do conceito de registro de software. 162 CONTEÚDO DO LIVRO O software é um conjunto de informações responsáveis por comandar determinados mecanismos, possuindo anteriormente uma conexão íntima com o maquinário o qual acompanhava em suas origens, e hoje podendo ser direcionado a mais de um invento, de forma independente. Neste capítulo, você vai conhecer o conceito do software e a sua evolução histórica, bem como as repercussões desses fatos para a sua proteção legal. 163 Leia o capítulo Software: evolução e modalidade de registro, do livro Direito Autoral, base teórica desta Unidade de Aprendizagem. Boa leitura. 164 Software Objetivos de aprendizagem Ao final deste texto, você deve apresentar os seguintes aprendizados: Definir software e a sua evolução. Diferenciar o registro de software de outras modalidades de registro de propriedade intelectual. Analisar o procedimento de registro de software junto ao Instituto Nacional da Propriedade Industrial (INPI). Introdução A proteção dos direitos autorais e patenteáveis de software é um tema ainda em construção na doutrina jurídica. Ainda que a Lei nº. 9.609, de 19 de fevereiro de 1998, tenha dado passos importantes para a sua conso- lidação como um ramo do direito autoral, há a possibilidade de registro de alguns elementos dessa figura como patente segundo as próprias orientações do INPI. Neste capítulo, você vai ler a respeito do conceito de software e das suas evoluções, das características do seu registro e do procedimento pelo qual ocorre. Conceito de software O conceito de software hoje é facilmente identifi cado pela fi gura dos aplicati- vos, programas de computação — presentes nos nossos celulares, televisores, tablets, relógios, etc. — destinados ao atendimento de alguma necessidade de mercado. No entanto, a sua autonomia conceitual é relativamente nova em relação às ciências computacionais. Segundo Bertrand (1996, p. 15): Durante os seus vinte primeiros anos de existência, a indústria da informá- tica era essencialmente baseada na fabricação e na venda do equipamento (hardware). Aliás, até 1970 os programas (software) eram considerados Cap_4_Direito_Autoral.indd 1 06/02/2018 14:52:23 165 apenas “acessórios” dos computadores e não eram fabricados de uma maneira autônoma. Na época, compravam-se os computadores sem a preocupação com os programas com os quais iam ser utilizados. Dessa forma, ao adquirir um computador, o consumidor esperava encontrá- -lo operando as diversas funcionalidades divulgadas pelo seu desenvolvedor, estando atrelados novos serviços a uma nova máquina. Dessa forma, a noção de atualização de funcionalidades a partir da simples troca de programas era completamente fora de propósito ao olhar dos desenvolvedores e juristas nesse primeiro momento, motivo pelo qual o desenvolvimento de software seria protegido pela patente do maquinário ao qual estava vinculado como simples acessório. Essa concepção seria colocada em cheque com a evolução da indústria (BERTRAND, 1996, p. 15): (Na década de 1990) o software é para a informática o que a fita de vídeo é para o aparelho de videocassete. Não é mais um acessório: é “o alimento” e ao mesmo tempo “o motor” da máquina. É o elemento que determina as funções da máquina e que permite assim satisfazer ou não as necessidades de seu usuário. O usuário escolhe os programas em razão de suas funcionalidades e esta escolha vai muitas vezes ditar também a do equipamento no momento em que o programaselecionado só tiver a capacidade de rodar em uma plataforma específica. A existência e a qualidade dos programas se tornaram elementos essenciais do mercado de informática. Assim, a liberdade de escolha do consumidor tornou-se possível pela liberdade de instalação de softwares em determinados aparelhos ou hardwares, independentemente da configuração original da máquina a partir da aquisi- ção de mídias, como CDs, DVDs e, mais tarde, discos de Blu-ray contendo programas de computação, ou mesmo músicas ou vídeos para reprodução nesses aparelhos. A partir dessa independência relativa do software em relação ao hardware, no entanto, a proteção das patentes relacionadas ao hardware passou a perder força em relação ao software, enquanto os seus processos criativos se distan- ciaram, criando empresas especializadas em outro elemento computacional. Foi nesse momento evolutivo que surgiram as primeiras discussões ju- rídicas sobre o regime adequado de proteção dessa figura, que se encontra entre o regime de patentes, relacionado às invenções, e o regime de direitos autorais, vinculado classicamente a obras artísticas e registros literários na sua expressão registral, não abrangendo as ideias ou os processos criativos em si pela dificuldade de cadastrá-los. Software Cap_4_Direito_Autoral.indd 2 06/02/2018 14:52:23 166 Segundo Bertrand (1996, p. 24): [...] já no início dos anos setenta, os juristas europeus começaram enfim a questionar a necessidade de proteger juridicamente os programas, e assim, a extensão possível do direito autoral a esses programas. A opinião dos juristas foi rapidamente dividida. Enquanto já em 1971, o professor alemão Eugen Ulmer defendia a “proteção possível dos programas de computador pelo direito autoral” [...] ao passo que outros juristas dentre os quais o professor Robert Plaisant, eram por sua vez mais do que cépticos quanto à extensão do direito autoral aos programas, salientando a ausência de “caráter literário ou artístico” dos mesmos e o “caráter inadaptado” desse tipo de proteção. A partir das discussões entre as limitações dos institutos clássicos de prote- ção de propriedade industrial, a criação de um conceito sui generis ou próprio de proteção foi proposta. No entanto, na época da discussão internacional, a Organização Mundial da Propriedade Intelectual (OMPI) acabou optando por uma solução que enquadrasse a categoria em tratados já assinados pelos seus integrantes, de modo que o modelo adotado atualmente é uma aproximação dos direitos autorais previstos no Tratado de Berna. É nesse sentido que conclui Silveira (2014, p. 63), que: Mantém a Lei nº. 9.609/98 o mesmo sistema da lei anterior — universalmente adotado até agora — de assemelhar o direito sobre tratamento da informação ao direito de autor sobre a forma de expressão, submetendo o direito do cria- dor de software às normas gerais da lei autoral (Lei nº. 9.610, de 19.02.1998). É importante ressaltar que a Lei de Propriedade Industrial exclui, expressa- mente, “programas de computador em si”, da tutela por meio de patentes (art. 10, V, da Lei n 9.279/96). Assim, a norma brasileira conclui uma jornada iniciada nas origens do software enquanto parte necessariamente atrelada ao seu hardware de origem, protegida pela patente do último para proteger o software como elemento autônomo e autoral. Nesse sentido, o conceito de software trazido pela Lei nº. 9.609, de 19 de fevereiro de 1998, é construído como: [...] a expressão de um conjunto organizado de instruções em linguagem natural ou codificada, contida em suporte físico de qualquer natureza, de emprego necessário em máquinas automáticas de tratamento da informação, dispositivos, instrumentos ou equipamentos periféricos, baseados em técnica digital ou análoga, para fazê-los funcionar de modo e para fins determinados (BRASIL, 1998). Software Cap_4_Direito_Autoral.indd 3 06/02/2018 14:52:23 167 Independentemente do suporte das instruções organizadas que fazem o hardware operar de determinada maneira, seja em suporte físico, como nos primeiros compu- tadores, ou em suporte virtual, como é o caso da nuvem, atualmente esses dados, organizados na forma de comandos específicos que fazem máquinas realizarem as tarefas das quais necessitamos, são programas de computador ou software. Esse conceito se molda inclusive à sua modalidade mais contemporânea na forma dos aplicativos multiplataforma, que abrangem mais de uma máquina e que passaram a assumir de vez a sua natureza imaterial com finalidade própria, independentemente do hardware de origem, uma vez que a sua pro- teção se encontra na sua originalidade e distinção conceitual, não mais em um construto de propriedades distintas e úteis. Distinções e semelhanças da proteção do software e outros gêneros de propriedade intelectual A proteção do software enquanto propriedade intelectual, como visto, em um primeiro momento, assemelha-se à proteção de patentes e, em outro momento, com direitos autorais. Essa situação é derivada da mobilidade do software em relação ao hardware de origem, conforme as ciências computacionais evoluíram de um conceito de mercado baseado em aparelhos (hardware) para focar em aplicativos (software) que funcionam em aparelhos diversos. O sistema de patentes é o primeiro sistema legal a proteger invenções, criado oficialmente em Florença, tendo ocorrências anteriores, como ensina Canalli e Silva ([2011], p. 745): Com o tempo, os homens foram percebendo que as invenções são necessárias ao progresso e que devem ser encorajadas, dando algumas vantagens financeiras e de exploração aos inventores. Embora na colônia grega de Sybaris (720–510 a.C.) tenham sido prometidos privilégios de um ano a quem desenvolvesse receitas culinárias ou artigos de luxo, a primeira patente de invenção foi con- cedida somente em 1421 pelo Conselho dos Lordes da República de Florença. Este privilégio foi concedido ao engenheiro, arquiteto e inventor Filippo Brunelleschi, por um prazo de três anos, pela construção de uma embarcação de carga (Il Badalone) que deveria transportar mármore pelo rio Arno. Software Cap_4_Direito_Autoral.indd 4 06/02/2018 14:52:23 168 Nas suas origens, assim como na atualidade, o sistema de patentes se preocupa com o monopólio de uso e produção de determinada invenção com potencial industrial (reproduzível em escala) e com utilidade para o mercado. O privilégio de monopólio em determinado território torna a atividade inovativa interessante ao criador, uma vez que os seus custos são elevados; por outro lado, a outorga de patente ao inventor traz credibilidade à sua inovação aos olhos do mercado, sinalizando que aquele inventor possui produto ou processo de interesse para a coletividade. O sistema de patentes viria a ser complementado pelo sistema de direitos autorais em relação a obras de cunho lúdico, como a literatura, o teatro e outras áreas culturais, conforme ensina Cavalheiro (2001, p. 212-213): A primeira lei conhecida sobre direitos de autor apareceu na Inglaterra em 1709, baixada pela Rainha Ana (Copyright Act = Direito de cópia ou reprodu- ção), [...] Em 1735, na Inglaterra, foi adotada outra lei, agora para resguardar a arte do desenho e que estabelecia a proibição de ser publicada ou importada, para fim de comércio, qualquer estampa de natureza histórica ou não, cujo autor, desenhista ou proprietário, não permitisse por escrito, a divulgação da mesma. Nos reinados de George II (1739) e George III (1766, 1775 e 1777) foram introduzidas ampliações e aperfeiçoamentos nas legislações existentes. Apesar de a proteção dos direitos dos autores remontar à invenção da imprensa e à possibilidade de cópia facilitada de obras literárias e gravuras, a legislação tardou a tutelar, de maneira organizada, esses direitos, espelhando-se nos direitos de patente, mas limitando-se à proteção da expressão gráfica das obras, não abrangendo as ideias e os projetos que lhes deram origem. Portanto,enquanto o sistema de patentes tradicionalmente abarcou in- venções e modelos de utilidade — como processos industriais voltados à aplicação industrial, abrangendo desde a concepção do produto ou processo de fabricação até sua manifestação física —, o direito autoral tradicionalmente focou na manifestação do processo criativo presente na obra, não abrangendo os processos e as ideias por trás da obra, como uma forma de manter os processos criativos no domínio cultural da humanidade. Ao tratarmos de software, logo, a proteção das patentes, para alguns dou- trinadores, demonstra ser excessiva no sentido da impossibilidade de cópia de processos criativos de interesse do mercado da inovação durante o tempo de exclusividade do autor. Por outro lado, a exclusão dos projetos da proteção autoral de software representa uma quebra de incentivos para a manutenção dos processos únicos da sua criação, tornando a preservação o seu principal diferencial. Isso deixou o processo de design ou planejamento à mercê de Software Cap_4_Direito_Autoral.indd 5 06/02/2018 14:52:23 169 copiadores, enquanto os códigos em si, protegidos pelo sistema de direitos autorais, poderiam ser replicados em linguagem distinta. Nesse sentido, instrui o manual do usuário do INPI: Nas décadas de 70 e 80 muito se discutiu a respeito do tipo de proteção a ser empregada para a recente indústria de software, fundamental para o contínuo aprimoramento da computação. O principal tema dos debates era o tipo de proteção mais adequada aos softwares: se a lei de direito autoral (copyright) ou a lei de propriedade industrial (patentes). Foi escolhida a lei de direito au- toral (copyright). Diversos países são hoje signatários da Convenção de Berna (Proteção de obras literárias e artísticas), incluindo o Brasil desde 1922, que adota na sua Lei nº 9.609/98 esta modalidade de proteção intelectual. A lei de software então passou a ser um ramo da lei do direito autoral. A lei de software e a lei de propriedade industrial (LPI) oferecem diferentes modos de proteção. A proteção dada pela primeira abrange apenas as expres- sões contidas no código utilizado, não os procedimentos ou métodos. Estes podem ser protegidos pela LPI, considerada uma proteção mais abrangente (BRASIL, 2017, p. 4). Assim, mesmo que a comunidade internacional tenha resolvido optar pela adoção do sistema de direitos autorais, menos protetivos ao software enquanto expressões contidas no código utilizado, conforme depreendemos da leitura da Lei nº. 9.609/1998, é possível utilizarmos o sistema de patentes para resguardar os processos e as ideias que levaram à sua criação. Para tanto, devemos observar que esses processos e ideias obedecem aos critérios de novidade e aplicabilidade industrial. Tal qual a proteção dos direitos autorais é “a proteção aos direitos relativos ao programa de computador independe de registro”. No entanto, registrar o programa no INPI garante maior segurança jurídica ao seu detentor, conforme o manual do usuário: [...] caso haja, por exemplo, demanda judicial para comprovar a autoria ou titularidade do programa. Além disso, a proteção não é territorial como no caso das patentes, mas sim, sua abrangência é internacional, compreendendo todos os 175 países signatários da Convenção de Berna (1886) (BRASIL, 2017, p. 5). Assim, embora a Lei nº. 9.609/1998 tenha adotado o sistema de direitos autorais, com a vantagem de proteção do direito de exploração exclusiva dos códigos expressos no programa por 50 anos, é possível usarmos a lei de patentes em relação às ideias e aos processos inovadores que levaram à sua existência, Software Cap_4_Direito_Autoral.indd 6 06/02/2018 14:52:23 170 desde que observados os requisitos de novidade e aplicabilidade industrial e o menor prazo de exploração exclusiva, este de 20 anos a partir do registro. É uma boa estratégia de proteção, conforme indicado pelo próprio INPI, buscar amparo nas duas legislações: assegurar a posse exclusiva dos procedimentos ou do método pelo sistema de patentes e garantir a autoria dos trechos relevantes do código pelo registro de software. Ambos os pedidos são depositados junto ao INPI. Procedimento de registro de software no Brasil O registro do software, seja por meio do sistema de direitos autorais especial regido pela Lei nº. 9.609/1998, seja pelo sistema de patentes, hoje é realizado por meio do INPI, de forma eletrônica. Em razão do requisito da novidade, o registro de patente deve ser precedido por uma busca prévia nos bancos de dados de patentes. Esse serviço é realizado pelo próprio INPI. Segundo o INPI: “Mesmo não sendo obrigatória, a busca é um importante indicativo para decidir se você entra com o pedido ou não. Assim, para avaliar se o pedido atende aos requisitos de patenteabilidade, é aconselhável fazer uma busca prévia”. Para realizá-la, acesse: https://goo.gl/5i9nGD O pedido é realizado por meio de formulário eletrônico de registro de programa de computador (e-RPC) ou e-Patentes, disponível no portal do INPI — www.inpi.gov.br —, no qual podemos realizar um cadastro para habilitação no e-INPI, nos termos da Resolução nº. 25, de 18 de março de 2013. No portal, serão gerados login e senha, utilizados para a emissão da Guia de Recolhimento da União (GRU), além de demais solicitações de serviços a serem executados pelo INPI. Software Cap_4_Direito_Autoral.indd 7 06/02/2018 14:52:24 171 Todos serviços relativos ao e-RPC e e-Patentes podem ser solicitados, pelo titular ou seu procurador, ao INPI, mediante preenchimento do formulário eletrônico. Entende-se por titular aquele que possui os direitos patrimoniais do programa de computador e que vai instruir o pedido de e-RPC ou e-Patente no INPI, podendo ser nomeado um procurador. A Figura 1 mostra as fases do processo de registro de marca. Figura 1. Fases do processo de registro de marca. Fonte: E-marcas (2012). Software Cap_4_Direito_Autoral.indd 8 06/02/2018 14:52:25 172 O sistema verifica a validade da assinatura digital do titular do direito no documento de Declaração de Veracidade (DV), para o e-RPC. Além disso, o requerente deve realizar o pagamento das taxas via GRU. Já no caso de patentes, é necessário: conteúdo técnico, com relatório descritivo, quadro reivindicatório, listagem de sequências (para pedido da área biotecnológica), desenhos (se for o caso) e resumo; comprovante de pagamento da GRU. O solicitante do registro, seja ele o próprio interessado (titular do direito) ou seu procurador, deverá assinar digitalmente (certificado digital ICP-Brasil) o documento DV eletrônico, disponível para download na GRU ou no formulário eletrônico e-RPC, que será disponibilizado na íntegra com as informações do solicitante, seja ele o titular do direito ou do procurador. No caso de o titular do direito ser uma pessoa jurídica, tanto a emissão da GRU quanto a assinatura digital no documento DV, e/ou documentos de patente devem ser feitas pela mesma pessoa jurídica, nunca por uma pessoa física. Já no caso de o titular do direito ser uma pessoa física, os procedimentos devem ser feitos pela mesma pessoa física, nunca por uma pessoa jurídica. Se houver um procurador, o titular de direito atuará como outorgante e é ele que assina digitalmente a procuração eletrônica. O procurador, ou seja, o outorgado, assinará digitalmente o documento eletrônico: DV e/ou pedido de patente. Nesse caso, compete ao procurador a emissão da GRU utilizando o seu login pessoal e senha, definindo, no ato da instrução da GRU, a identificação do seu cliente. O procedimento de RPC é protegido pela função criptográfica hash, que é um algoritmo utilizado para garantir a integridade de um documento eletrônico, de modo que um perito técnico possa comprovar que não houve alteração nesse documento desde a época em que este foi transformado. Assim, uma simples alteração nesse documento acarretará uma alteração do resumo hash original, desconstituindo, assim,a prova de integridade do depósito do programa de computador. Software Cap_4_Direito_Autoral.indd 9 06/02/2018 14:52:25 173 Para realizar o depósito de RPC, é necessário promover a transformação, em resumo digital hash, dos trechos do programa de computador e de outros dados que considerar suficientes e relevantes para identificá-lo, ficando a responsabilidade da guarda do objeto com o titular do direito, pois essa é sua propriedade intelectual e deve ser preservada na sua forma original e em ambiente seguro. O hash é uma prova eletrônica que pode ser obtida a partir de um único arquivo (arquivo de entrada), como, por exemplo, arquivos com extensão .pdf, .txt, .zip, .rar, entre outras. Esse arquivo de entrada é transformado em um resumo digital hash (arquivo de saída, de tamanho fixo), utilizando uma função hash. Note que, no caso de haver muitos arquivos, podemos utilizar um compactador de arquivos (por exemplo, WinZip, WinRAR). É fundamental que esse resumo digital hash possa ser conferido pelo perito do juiz (em caso de comprovação de autoria/titularidade, por exemplo), tendo como base o código-fonte (arquivo de entrada) guardado em sigilo pelo titular do direito. O documento digital (arquivo) pode ser armazenado na forma mais apro- priada e conveniente para o titular do direito. Pode armazená-lo em CD-ROM, DVD, disco rígido, nuvem, pendrive ou outro meio de armazenamento seguro, da sua confiança, pelo tempo que o titular entender necessário para a manu- tenção do seu direito autoral, sendo que esse tempo poderá ser de até 50 anos. É recomendado ao titular que organize e documente a guarda do arquivo (mantendo cópias de segurança), assim como do certificado de registro (que também é um arquivo assinado pelo INPI), de modo a recuperá-lo facilmente quando for do seu interesse. Cada registro no INPI possuirá um hash único, que validará, quando ne- cessário, a autenticidade do software (arquivo) guardado pelo titular. Ainda, o titular pode optar pela autorização à obra derivada, que constitui a criação intelectual nova resultante da transformação da obra originária. O direito autoral no Brasil, previsto nos tratados internacionais, define que a utilização da obra depende de autorização prévia e expressa do autor da obra originária. Software Cap_4_Direito_Autoral.indd 10 06/02/2018 14:52:25 174 Caso o programa de computador objeto do pedido de registro seja derivado de outro, o campo “Derivação Autorizada” deverá ser preenchido com as informações necessárias atinentes ao software que o originou. O campo é de livre preenchimento. Uma vez protocolado o pedido junto ao INPI, é aberto o prazo à oposição de terceiros, observando o devido processo administrativo por meio dos princípios da publicidade e do contraditório. No caso de haver ou não oposição, o pedido será analisado pelo INPI. Se deferido, abre-se o prazo para o pagamento das taxas administrativas finais; se indeferido, abre-se o prazo para recurso, que pode ser deferido (caso deferido, abre-se o prazo para pagamento das taxas administrativas finais) ou indeferido (ocasião em que é arquivado o processo). Uma vez pagas as taxas finais, será publicada a concessão de direitos autorais ou patente ao titular dos direitos e são abertos prazos de 5 anos para requerimento judicial de nulidade do procedimento, se for o caso, ou de 120 dias no caso de nulidade administrativa do procedimento. O RPC em sete passos: acessar o portal do INPI; fazer um cadastro, no qual serão criados login e senha; utilizar o módulo GRU para emissão do boleto de pagamento; baixar o documento DV e assiná-lo digitalmente; pagar a GRU; acessar o formulário eletrônico e-RPC no portal do INPI, preenchê-lo e anexar o documento DV e procuração — se for o caso, assinada digitalmente por quem de direito; conferir as informações declaradas; enviar o formulário eletrônico e-RPC, quando então será gerado o número de pedido. Software Cap_4_Direito_Autoral.indd 11 06/02/2018 14:52:25 175 BERTRAND, A. A proteção jurídica dos programas de computador. Porto Alegre: Livraria do Advogado, 1996. BRASIL. Instituto Nacional da Propriedade Industrial. Programa de computador: manual completo. 2017. Disponível em: < http://www.inpi.gov.br/menu-servicos/programa- -de-computador/programa-de-computador-manual-completo>. Acesso em: 9 jan. 2018. BRASIL. Lei nº. 9.609, de 19 de fevereiro de 1998. Dispõe sobre a proteção da propriedade intelectual de programa de computador, sua comercialização no País, e dá outras providências. 1998. Disponível em: < http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/L9609. htm>. Acesso em: 8 jan. 2018. CANALLI, W. M.; SILVA, R. P. Uma breve história das patentes: analogias entre ciência/ tecnologia e trabalho intelectual/trabalho operacional. [2011]. Disponível em: <http:// www.hcte.ufrj.br/downloads/sh/sh4/trabalhos/Waldemar%20Canalli.pdf>. Acesso em: 8 jan. 2018. CAVALHEIRO, R. da C. R. História dos direitos autorais no brasil e no mundo. Cadernos de Direito, v. 1, n. 1, 2001. Disponível em: <https://www.metodista.br/revistas/revistas- -unimep/index.php/cd/article/view/896/415>. Acesso em: 8 jan. 2018. E-MARCAS. Protocolo do pedido de registro junto ao INPI. 2012. Disponível em: <https://e-marcas.com.br/wp-content/uploads/2012/01/fluxograma_20121.png>. Acesso em: 9 jan. 2018. SILVEIRA, N. Propriedade intelectual. 5. ed. Barueri: Manole, 2014. Software Cap_4_Direito_Autoral.indd 12 06/02/2018 14:52:25 176 DICA DO PROFESSOR A evolução do conceito de software possui importantes implicações para a sua proteção legal. De sua integração necessária, ao hardware de origem, até a sua independência conceitual. Nesta Dica do Professor, você vai conhecer um pouco sobre a evolução histórica do software. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! EXERCÍCIOS 1) O software, ou programa de computador, segundo o conceito da lei 9.609/98, é um conjunto de informações necessárias para a funcionalidade de determinado aparelho. De acordo com o conceito legal de software, escolha a alternativa que corresponde a um exemplo de programa de computador. A) a) iOS B) b) iPhone C) c) Ms Surface D) d) Playstation 4 E) e) Intel Pentium 2) A natureza jurídica da proteção dos softwares, enquanto conjunto de dados expressos, assemelha-se ao instituto de registro de ______________. A) a) cultivares. 177 B) b) direitos autorais. C) c) patente. D) d) topografia de circuitos integrados. E) e) marca. 3) A proteção das ideias por trás dos programas de computadores e seu processo de criação podem ser protegidos no Sistema de Propriedade Intelectual Brasileiro por: A) a) registro de programas de computador. B) b) registro de patentes. C) c) registro de direitos autorais. D) d) Podem ser protegidas tanto no registro de programas de computador, quanto no registro de patentes. E) e) Podem ser protegidas tanto no registro de patentes, quanto no registro de direitos autorais. 4) Qual documento é necessário para o registro de programa de computador, segundo as instruções do Instituto Nacional de Propriedade Industrial - INPI? A) a) Declaração de Veracidade B) b) Desenhos 178 C) c) Relatório Descritivo D) d) Quadro reivindicatório E) e) Listagem de sequências 5) O prazo para a nulidade judicial de processo administrativo de registro de programa de patente de ideias ou processos envolvendo software, de acordo com as normas do Instituto Nacional de Propriedade Industrial e a Lei de Propriedade Industrial (Lei 9.279/96), é de: A) a) 5 anos B) b) 3 anos C) c) 2 anos D) d) 1 ano E) e) 120 dias NA PRÁTICA Na prática, os softwares hoje portam-se como um complexo empresarial em si, como é o caso dos aplicativos. Por exemplo, ao criar o Uber, Garret Camp não criou apenas um conjunto de dados que faz com que um celular opere de determinada forma, mas também criou uma marca e um sistema organizacional inovador ao organizar pessoas físicas como operadoresde Táxi livres das regras tradicionais em um sistema baseado em contratos de serviço dissociados da figura da concessão pública, tal como operavam os veículos cadastrados no serviço de táxi anteriormente. A invenção de Camp, em nosso sistema de registro de propriedade intelectual, poderia enquadrar-se nos seguintes registros: 179 SAIBA MAIS Para ampliar o seu conhecimento a respeito desse assunto, veja abaixo as sugestões do professor: Diferenças entre software e hardware Neste vídeo, você vai descobrir as diferenças entre esses dois conceitos importantes para esta Unidade de Aprendizagem: Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Mecanismos de proteção à propriedade intelectual para software Aprofunde seus conhecimentos ao ler este texto que analisa a proteção aos elementos literais e não literais, a proteção à documentação, o prazo de proteção, os limites da proteção e a proteção da funcionalidade:. Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! Proteção jurídica para aplicativos O presente artigo aborda a proteção da propriedade intelectual dos aplicativos para dispositivos móveis, e como é feita a regulamentação sobre a criação de novas tecnologias, informando, 180 ainda, como isso afeta o desenvolvimento tecnológico na sociedade. Não deixe de ler: Conteúdo interativo disponível na plataforma de ensino! 181