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1 
 
 
PRIVACIDADE E DIREITO AO ESQUECIMENTO NAS 
REDES DIGITAIS 
1 
 
 
 
Sumário 
NOSSA HISTÓRIA .................................................................................. 2 
1. INTRODUÇÃO ................................................................................ 3 
2. CONCEITO DIREITO AO ESQUECIMENTO ................................. 4 
2.1. Aspectos Gerais ........................................................................... 5 
2.2. O Direito ao Esquecimento nos casos “Chacina de Candelária” 
e “Aída Curl” ..................................................................................................... 8 
2.3. Caso Xuxa Meneghel Vs. Google Search .................................... 22 
3. FUNDAMENTOS DO DIREITO AO ESQUECIMENTO ................ 25 
4. HERANÇA DIGITAL E DIREITO AO ESQUECIMENTO .............. 26 
5. CONCLUSÃO ............................................................................... 33 
EFERÊNCIAS ........................................................................................ 34 
 
 
2 
 
 
 
NOSSA HISTÓRIA 
 
 
A nossa história inicia com a realização do sonho de um grupo de 
empresários, em atender à crescente demanda de alunos para cursos de 
Graduação e Pós-Graduação. Com isso foi criado a nossa instituição, como 
entidade oferecendo serviços educacionais em nível superior. 
A instituição tem por objetivo formar diplomados nas diferentes áreas de 
conhecimento, aptos para a inserção em setores profissionais e para a 
participação no desenvolvimento da sociedade brasileira, e colaborar na sua 
formação contínua. Além de promover a divulgação de conhecimentos culturais, 
científicos e técnicos que constituem patrimônio da humanidade e comunicar o 
saber através do ensino, de publicação ou outras normas de comunicação. 
A nossa missão é oferecer qualidade em conhecimento e cultura de forma 
confiável e eficiente para que o aluno tenha oportunidade de construir uma base 
profissional e ética. Dessa forma, conquistando o espaço de uma das instituições 
modelo no país na oferta de cursos, primando sempre pela inovação tecnológica, 
excelência no atendimento e valor do serviço oferecido. 
 
 
 
 
 
 
 
3 
 
 
1. INTRODUÇÃO 
 
 
Até meados do século XX, o esquecimento era algo inerente à natureza 
humana, visto que a memória do homem é um recurso inevitavelmente limitado, 
tanto em relação à quantidade de informações armazenáveis quanto ao tempo 
de armazenamento. Assim, durante a maior parte da história do desenvolvimento 
humano, a regra era o esquecimento. 
Contudo, esse paradigma começou a mudar com o surgimento dos 
computadores, equipados com uma “memória artificial” muito mais desenvolvida 
e potente do que a memória biológica do ser humano e que permite armazenar 
uma enorme quantidade de informações, sem limitação temporal. 
Além disso, com o desenvolvimento e a proliferação da Internet, passou 
a ser possível compartilhar informações em escala mundial de forma 
instantânea. Ou seja, se antes as informações permaneciam confinadas em 
dispositivos pessoais, agora elas são compartilhadas com o mundo todo, 
circulando livre e eternamente pela rede e podendo ser copiadas ou replicadas 
por qualquer usuário que a elas tenha acesso. 
Esse desenvolvimento tecnológico permite afirmar que, uma vez 
veiculadas, as informações passam a circular ad eternum na rede informacional. 
Dessa forma, a regra deixou de ser o esquecimento e passou a ser o registro de 
todos os fatos, dados e informações, caracterizando assim uma sociedade de 
“lembrança total”. 
Nesse cenário, surge a importante discussão sobre o “direito ao 
esquecimento”, isto é, o direito da personalidade que garante aos indivíduos a 
prerrogativa de que determinados fatos, dados e informações acerca da sua 
pessoa não sejam lembrados contra a sua vontade. 
 
 
 
4 
 
 
2. CONCEITO DIREITO AO ESQUECIMENTO 
 
O direito ao esquecimento é o direito que uma pessoa possui de não 
permitir que um fato, ainda que verídico, ocorrido em determinado momento de 
sua vida, seja exposto ao público em geral, causando-lhe sofrimento ou 
transtornos. 
O direito ao esquecimento é um conceito que surgiu e já vem sendo 
amplamente debatido na Europa. 
O direito de ser esquecido (em inglês "right to be forgotten") foi sancionado 
pela corte da União Europeia em 13 maio de 2014. Links para informações 
"irrelevantes" ou "desatualizadas" (assim consideradas pelo tribunal) são 
passíveis de serem apagadas. 
Mais especificamente, a corte da União Europeia, disse que a decisão se 
aplica a informações "inadequadas, não pertinentes ou já não pertinentes ou 
excessivas em relação ao objetivo pelo qual foram processadas tendo em conta 
o tempo decorrido". A gigante Google foi obrigada a prover este serviço aos 
cidadãos da União Europeia quando solicitado redistribuição, transmissão e 
reescrita sem autorização prévia é proibida. 
O direito ao esquecimento, também é chamado de “direito de ser deixado 
em paz” ou o “direito de estar só”. Nos EUA, é conhecido como the right to be let 
alone e, em países de língua espanhola, é alcunhado de derecho al olvido. 
É importante assentar que o exercício do direito ao esquecimento não 
confere a ninguém a liberdade de apagar fatos ou reescrever a própria história, 
mas assegura a possibilidade de discutir o uso que é feito dos fatos pretéritos, 
mais especificamente o modo e a finalidade com que são lembrados. 
Portanto, caso algum fato do passado esteja afetando pela veiculação, 
pode ser que seja o caso de impedir sua veiculação. 
 
5 
 
 
2.1. Aspectos Gerais 
 
A sociedade atual tem como características predominantes o excesso de 
informações midiáticas e a velocidade acelerada com que essas informações se 
espalham entre os indivíduos. 
Sendo a Internet um dos meios mais utilizados por pessoas de todas as 
condições econômicas e sociais, caracteriza-se como o principal instrumento de 
veiculação de notícias, dados e informações científicas na atualidade. 
Não há como negar estamos diante de um novo contexto sobre trocas de 
informações e experiências. As redes digitais, a comunicação à distância pela 
rede mundial, a troca de correspondências eletrônica, as videoconferências, o 
ensino a distância e o comércio digital constituem a realidade atual e são 
exemplos do que se pode chamar de ciberespaço. 
O ciberespaço pode ser definido como o espaço de comunicação aberto 
pela interconexão mundial dos computadores e das memórias dos 
computadores. Essa definição pode englobar, ainda, o conjunto de sistemas de 
comunicação eletrônicos, pois eles transmitem informações provenientes de 
fontes digitais ou destinadas à digitalização. 
Esse novo mundo, permite a movimentação de conteúdos em tempo real, 
esbarra frontalmente no direito à privacidade da imagem, da honra e da 
intimidade do indivíduo, na medida em que um fato ou um dado que diga respeito 
a apenas uma pessoa pode ser reproduzido, por meio da rede mundial, a um 
número incalculável de outras pessoas, de forma contínua e indeterminada. E, 
assim, além do problema da divulgação da informação de forma descontrolada 
(muitas vezes sem permissão do seu titular), surge um problema maior: a 
construção de uma opinião de massa, que influencia, sobremaneira, a partir de 
então, o modo de vida do envolvido. 
Dessa forma, há de se enfrentar a dicotomia da perpetuação de 
informação negativa envolvendo dados sensíveis de um indivíduo e do direito de 
6 
 
 
informação, tendo como base a sociedade da informação e o seu 
aparelhamento. Em outras palavras, tem-se o conflito entre o direito à 
privacidade, à honra ou à imagem e o direito à informação. 
Não se pode olvidar que, por meio da rede mundial de computadores, fora 
promovido um avanço inquestionável na maneira de se transmitir dados e 
informações; não se imagina a possibilidade de existir um futuro semas 
facilidades trazidas por essa verdadeira revolução. No entanto, há de se refletir 
sobre a forma como isso vem sendo feito e até que ponto essas facilidades 
comprometeriam o direito de ser deixado em paz. 
Nesse contexto, em que a celeridade do tráfego de informações modificou 
de forma drástica a maneira dos indivíduos se relacionarem entre si e com a 
sociedade, o direito à privacidade de dados e de imagem vem sofrendo 
constantes arranhões, inobstante ser um direito constitucionalmente previsto e 
de aplicação imediata. A Internet deixou de ser apenas um receptor de 
informações para se revelar um potencial instrumento de compartilhamento de 
dados e informações, com a agravante da possibilidade de ter se constituído 
uma memória digital perene e em escala global. 
Embora o ato de esquecer tenha sido uma constante na história da 
humanidade, permitindo o erro como sendo próprio da essência humana, não se 
pode descartar que, após a criação da memória digital perene e em escala 
global, a sociedade contemporânea “perdeu essa capacidade”, ao menos a partir 
da qualidade ímpar de armazenamento da internet e da utilização generalizada 
das ferramentas digitais. 
Daí se faz necessária a previsão de um instituto que seja capaz de 
delimitar a disseminação de informação enganosa ou inverídica de maneira 
desordenada. O direito ao esquecimento, em um primeiro momento, 
estabelecidos critérios mais específicos na doutrina e na jurisprudência, seria um 
instituto a ser pensado para solucionar o problema apresentado. 
Pode-se afirmar que o direito ao esquecimento incorpora uma expressão 
de controle temporal de dados e preenche com o fator cronológico o requisito de 
7 
 
 
ferramenta protetiva da privacidade. Contudo, não se confunde com a palavra 
privacidade per si, que traz consigo uma conduta atual, e até mesmo material. 
De fato, apesar da aparente confusão inicial, o direito ao esquecimento e 
o direito à privacidade têm objetos jurídicos de proteção diferentes. Enquanto a 
privacidade visa à proteção de dados pessoais e íntimos contemporâneos, o 
direito ao esquecimento objetiva a proteção de dados pretéritos, ou seja, a 
rememoração indevida de fatos passados e consolidados, que já não tenham 
qualquer utilidade (interesse público) ou atualidade. 
Desse modo, não há de se confundir os objetos tratados pela proteção da 
privacidade com a proteção ao esquecimento. O direito ao esquecimento pode 
ser considerado um direito de personalidade, pois engloba direito como nome, 
imagem, honra e privacidade; todavia, pelo fato de aqueles valores intrínsecos à 
pessoa humana, em sua dinâmica de aplicação, possuírem características 
próprias, ele pode ser considerado um direito de personalidade autônomo. 
O direito ao esquecimento tem a sua raiz no princípio da dignidade da 
pessoa humana, se quer resguardar o direito de eliminar o conteúdo sobre fato 
ou dados sensíveis, que digam respeito à vida privada do indivíduo, dos meios 
de comunicação e, mais especificamente, da Internet. 
O que se busca é a preservação dos direitos fundamentais de qualquer 
ser humano, principalmente a chance de reconstruir uma nova vida, com novos 
rumos, diferentes daqueles tomados antes. 
De maneira lógica, o direito ao esquecimento pode ser caracterizado 
como uma esfera de proteção, uma redoma, que permitiria que uma pessoa não 
autorizasse a divulgação de um fato que lhe diga respeito, ainda que verídico, 
por causar-lhe sofrimento ou algum transtorno, levando-se em consideração a 
utilidade e a data de ocorrência que a informação, objeto de proteção, foi 
realizada. 
 
8 
 
 
2.2. O Direito ao Esquecimento nos casos “Chacina de 
Candelária” e “Aída Curl” 
 
Por falta de regulamentação legislativa, o direito ao esquecimento tem 
sido delineado pelo Judiciário brasileiro, que, por sua vez, vem decidindo de 
forma diversa e desconexa em muitos casos apresentados. 
Com a superlotação de demandas, o reduzido número de funcionários e 
a falta de investimento em infraestrutura, o papel atípico do Judiciário de legislar 
transformou-se em um poder comum, típico. 
Não é de se estranhar a prática do ativismo judicial para a solução de 
diversas demandas. E com o direito ao esquecimento não é diferente. 
A matéria, não regulada na legislação brasileira, tem sido motivo de ampla 
discussão no Judiciário. Sobre o tema em questão, há dois julgados marcantes, 
proclamados pelo Superior Tribunal de Justiça, que conseguiram dimensionar a 
importância do tema para o ordenamento jurídico pátrio. 
O Recurso Especial no 1.334-097/RJ, em que o autor, Jurandir Gomes 
França, propôs ação de indenização por danos morais em desfavor da Rede 
Globo de Televisão, baseado nos seguintes fatos: (i) noticiou que foi indiciado 
como coautor/partícipe dos homicídios de oito jovens, seis menores, 
assassinados por policiais militares enquanto dormiam nas imediações da Igreja 
da Candelária, tendo sido denominado o episódio de “Chacina da Candelária”, 
no dia 23 de julho de 1993, na cidade do Rio de Janeiro; (ii) relatou que, 
submetido a Júri, por unanimidade, foi absolvido por negativa de autoria; (iii) 
descreveu que foi procurado pela produção do programa “Linha Direta”, mas se 
recusou a dar entrevista e sequer autorizou a veiculação de sua imagem; e (iv) 
contou que, ainda assim, mesmo sem qualquer autorização, o programa fora 
exibido, apontando o envolvimento direto do autor no crime. 
9 
 
 
Além dos fatos trazidos preliminarmente na petição inicial, outras 
considerações devem ser feitas no presente caso. 
O programa “Linha Direta” tinha como principal característica veicular, 
mediante dramatização, crimes notórios que haviam acontecido no Brasil e que 
tiveram solução ou não. O programa atingia um público considerável, mas que, 
talvez, não tivesse uma capacidade de crítica tão elevada. 
Por isso, além do uso de imagem indevida feita pelo programa, outras 
consequências vieram a atingir o autor da ação com a veiculação do mesmo. A 
transmissão da imagem e do nome de Jurandir reacendeu o ódio social contra a 
sua pessoa, tendo sido ele obrigado a se afastar do seu meio de convivência 
social. 
Ademais, a rememoração do fato pelo programa constrangeu e humilhou 
o autor e seus familiares, os quais passaram a sofrer ameaças constantes, não 
conseguindo mais estabelecer qualquer vínculo trabalhista. 
O autor, que era serralheiro, teve sua oficina invadida e destruída por 
populares, precisando se mudar para outro local na tentativa de reestruturar a 
sua vida. 
Assim, o prejuízo causado foi além daquele estabelecido por danos 
morais, de R$ 50.000,00, pois a vida privada tornou-se pública e o autor teve de 
suportar transtornos de toda ordem. Daí assertivamente o Superior Tribunal de 
Justiça ter concedido, por unanimidade de votos, o direito de ser deixado em paz 
ao interessado. 
O voto do ministro relator, Luís Felipe Salomão, foi acompanhado pelos 
demais colegas, e trouxe argumentos valiosos quanto à aplicabilidade do direito 
ao esquecimento. 
Em primeiro lugar, o ministro levantou a problemática central do tema: 
Na verdade, o mencionado conflito é mesmo imanente à 
própria opção constitucional pela proteção de valores quase 
10 
 
 
sempre antagônicos, os quais, em última análise, 
representam, de um lado, o legítimo interesse de “querer 
ocultar-se” e de outro o não menos legítimo interesse de se 
“fazer revelar”. 
 E, nesse sentido, expôs o compromisso ético que a imprensa precisa ter 
ao transmitir uma informação, a qual deve ser a mais verdadeira possível, 
observando os direitos constitucionais à vida privada, à honra, à imagem e à 
intimidade. 
 Em outras palavras, a imprensa tem um limite de atuação, não como 
forma de censura, mas sim como forma de respeito a todo um sistema de direitos 
e princípios trazidos pela Constituição Federal. 
 Desse modo, o direito de ser informadoe o de buscar a informação devem 
estar em consonância com outros valores trazidos na Carta Magna. Tanto é 
assim que, das linhas do julgado em apreço, é possível extrair a seguinte 
afirmação: 
Não obstante o cenário de perseguição e tolhimento pelo 
qual passou a imprensa brasileira em décadas pretéritas, e 
a par de sua inegável virtude histórica, a mídia do século XXI 
deve fincar a legitimação de sua liberdade em valores atuais, 
próprios e decorrentes diretamente da importância e 
nobreza da atividade. Os antigos fantasmas da liberdade de 
imprensa, embora deles não se possa esquecer jamais, 
atualmente, não autorizam a atuação informativa 
desprendida de regras e princípios a todos impostos. 
Em acréscimo à lição trazida, vale lembrar que nenhum direito 
constitucional é de aplicação absoluta, ou seja, não se pode falar em prevalência 
de um direito em detrimento do outro quando em conflito. Deve haver uma 
harmonização baseada no interesse das partes em cada caso concreto, posto 
que existem casos em que a liberdade de imprensa se faz mais importante, e 
11 
 
 
então é aplicada, assim como há casos em que o interesse íntimo, particular do 
indivíduo, deve prevalecer. 
Contudo, o presente julgado deixou claro que, havendo conflito entre 
esses dois direitos constitucionais, a prevalência deve ser por aquele direito 
inerente ao ser humano, ou seja, o direito à privacidade. Nessa linha de 
raciocínio, o relator esclareceu: 
Nesse passo, a explícita contenção constitucional à 
liberdade de informação, fundada na inviolabilidade da vida 
privada, intimidade, honra, imagem e, de resto, nos valores 
da pessoa e da família, prevista no art. 220, § 1o, art. 221 e 
no § 3o do art. 222 da Carta de 88, parece sinalizar que, no 
conflito aparente entre esses bens jurídicos de 
especialíssima grandeza, há, de regra, uma inclinação ou 
predileção constitucional para soluções protetivas da pessoa 
humana, embora o melhor equacionamento deva sempre 
observar as particularidades do caso concreto. 
 A opção do Superior Tribunal de Justiça para o caso em questão é nítida: 
há de se privilegiar soluções protetivas à pessoa humana. E como o direito ao 
esquecimento decorre do princípio da dignidade da pessoa humana, a decisão 
não poderia ser diferente se não a de acolher aquele direito. 
 Por esse caminho, o acolhimento do direito ao esquecimento não atenta 
contra a liberdade de expressão e de imprensa. Ele simplesmente se transforma 
em uma medida de proteção pertinente ao caso concreto. 
 Os acontecimentos sucessivos que transformaram de maneira negativa a 
vida do autor justificaram uma proteção à sua honra, à sua vida privada e, 
sobretudo, ao direito de não ter sua imagem vinculada ao crime ocorrido. 
 Cumpre acrescentar, ainda sobre o conflito de interesses, que o voto do 
ministro levantou a discussão de um outro aspecto do direito em questão: a 
contemporaneidade da notícia. 
12 
 
 
 A imprensa, qualquer que seja sua especialidade, tem o dever de 
transmitir a notícia de uma forma transparente e o mais próximo possível da 
verdade dos fatos, não divulgando apenas rumores e suposições. 
 No caso em pauta, o programa exibido não teve escrúpulos em tratar de 
um problema antigo, já superado pela sociedade e para o interessado, havendo, 
portanto, a impertinência da veiculação da notícia. 
 Não se pode negar que o crime em questão abalou social e politicamente 
o país, todavia, não existia qualquer pertinência em se rememorar a participação 
de Jurandir no fato delituoso. 
 O programa poderia ter exibido a reportagem da chacina da Candelária 
(fato histórico incontestável) sem ter citado o nome do autor da ação ou utilizado 
a sua imagem de forma negativa, de forma a lhe prejudicar a vida social: 
Nos presentes autos, o cerne da controvérsia transita 
exatamente na ausência de contemporaneidade da notícia 
de fatos passados, a qual, segundo o entendimento do autor, 
reabriu antigas feridas já superadas e reacendeu a 
desconfiança da sociedade quanto à sua índole, 
circunstância que lhe teria causado abalo cuja reparação ora 
se pleiteia. 
 Cabe notar que, não obstante o entendimento do STJ ser avançado e 
garantista, não consegue explicar com maior precisão o aspecto temporal da 
notícia, ou seja, existe um limite de prazo para veicular a notícia? A notícia teria 
um prazo de validade? 
 Essas respostas não foram dadas pelo julgado, mas precisam ser 
enfrentadas quando da regulamentação efetiva da matéria. Se o direito ao 
esquecimento está diretamente relacionado a fatos que ocorreram no passado, 
há de se determinar um lapso temporal em que notícia possa ser dada. 
 A regulamentação para a veiculação atingiria, por óbvio, o respeito à 
memória individual, e não à memória coletiva, importante e necessária para a 
13 
 
 
construção histórica do país. Isso não representa censura, ao contrário, 
configura uma exaltação de valores intrínsecos a qualquer ser humano e uma 
ampliação da capacidade de autodeterminação. 
 Dada a correlação dos argumentos trazidos, cumpre lembrar, neste ponto, 
que o relator traz à baila a questão da historicidade do fato ocorrido como 
argumento para a aplicação do direito ao esquecimento. 
 Não resta dúvida de que o fato retratado pelo programa “Linha Direta” é 
relevante para história da sociedade brasileira, no entanto, a sua divulgação 
deve ser vista com mais cautela. 
 Os fatos a serem rememorados devem ser aqueles ligados à preservação 
da memória social, ou seja, a recordação do fato ocorrido deve estar 
fundamentada em um interesse social e público efetivo. 
 Contudo, é prudente separar o interesse público que diz respeito a 
acontecimentos relevantes à construção de uma sociedade mais justa e 
igualitária do interesse público meramente especulativo, que se traduz em 
boatos para a satisfação de interesses puramente comerciais. 
 O argumento do julgado nesse sentido foi o de que: 
A historicidade da notícia jornalística, todavia, em se 
tratando de jornalismo policial, há de ser vista com cautela 
por razões bem conhecidas por todos. Há, de fato, crimes 
históricos e criminosos famosos, mas também há crimes e 
criminosos que se tornaram artificialmente históricos e 
famosos, obra da exploração midiática exacerbada e de um 
populismo penal satisfativo dos prazeres primários das 
multidões, que simplifica o fenômeno criminal às 
estigmatizadas figuras do bandido vs. Cidadão de bem. 
 Quando ocorre um crime ou uma conduta delituosa, é de interesse público 
que ocorra a punição dos que nele se envolveram. O jus puniendi do Estado 
14 
 
 
deve agir para coibir condutas atentatórias à paz e ao bom andamento do 
conjunto social. 
 Nesse caso, o conhecimento do fato deve ser levado a público para que 
eventuais comportamentos ofensivos não se repitam e a sociedade consiga 
evoluir conceitos importantes, como o respeito à vida, à propriedade privada e à 
coletividade. 
 A historicidade, referência no julgado, diz respeito àqueles casos em que 
a imprensa escrita, virtual ou televisiva ultrapassa os seus limites éticos e morais 
e perpetua a condenação do ser humano. 
 Normalmente, o interesse público, e até mesmo dos meios de informação, 
tendem a desaparecer na medida em que se esgotam todos os meios do 
procedimento criminal para solucionar uma conduta delituosa. E com a extinção 
da pena ou a absolvição do acusado, o objeto do crime e seus autores devem 
se manter no anonimato. Por consequência, não há mais interesse em se 
veicular qualquer notícia ou informativo sobre o caso. 
 O desejo daquele que já cumpriu a determinação legal diante de uma 
atitude criminosa é o de reconstrução de sua própria vida dentro da sociedade, 
e, para tanto, o passado deve ser esquecido. 
 Essa ideia foi confirmada pelo julgado em estudo: 
Com efeito, o reconhecimento do direito ao esquecimento 
dos condenados que cumpriram integralmentea pena e, 
sobretudo, dos que foram absolvidos em processo criminal, 
além de sinalizar uma evolução cultural da sociedade, 
confere concretude a um ordenamento jurídico que, entre a 
memória – que é a conexão do presente com o passado – e 
a esperança – que é o vínculo do futuro com o presente –, 
fez a clara opção pela segunda. E é por essa ótica que o 
direito ao esquecimento revela sua maior nobreza, pois se 
afirma, na verdade, como um direito à esperança, em 
15 
 
 
absoluta sintonia com a presunção legal e constitucional de 
regenerabilidade da pessoa humana. 
 Não há como negar que o Direito funciona como um estabilizador do 
passado, conferindo estabilidade às situações pretéritas e mantendo e o 
equilíbrio das situações presentes e futuras. 
 Na esfera penal, existe um importante estabilizador da relação entre 
passado delituoso e um futuro de esperança, a reabilitação. O instituto está 
previsto no Código Penal (artigo 93 e seguintes), no Código de Processo Penal 
(artigo 743 e seguintes) e na Lei de Execução Penal – Lei no 7.209, de 11 de 
julho de 1984. 
 A reabilitação possibilita àqueles que já cumpriram condenação criminal, 
ou aos que foram absolvidos pela prática de algum crime, os benefícios do sigilo 
de sua folha de antecedentes, bem como a exclusão de registros da condenação 
no instituto de Identificação. 
 Baseado nesse argumento, o ministro relator reafirmou o direito de tais 
pessoas afastarem de si o convívio com qualquer informação que as desabone 
ou que as impossibilite de reestruturar a sua vida em sociedade. 
 A regenerabilidade da pessoa humana, juntamente com o princípio da 
dignidade da pessoa humana e as garantias fundamentais da privacidade, honra 
e imagem, previstas na Constituição, são os argumentos utilizados para afastar 
a perpetuação de notícias depreciativas pela imprensa manipuladora de 
opiniões. 
 Muito embora o indivíduo se envolva em fatos, criminosos ou não, de 
grande repercussão social, não se pode perpetuá-los na lembrança da 
sociedade. A lembrança ou não esquecimento do ocorrido, capaz de causar 
transtorno na vida do indivíduo envolvido no fato relatado, caracteriza claramente 
a violação do princípio da dignidade da pessoa humana. 
 Além disso, o Enunciado no 531, na VI Jornada de Direito Civil promovida 
pelo Conselho de Justiça Federal, reforça a ideia de aplicação da tese do direito 
16 
 
 
ao esquecimento pela Quarta Turma do STJ, ao dizer que: “A tutela da dignidade 
da pessoa humana na sociedade da informação inclui o direito ao 
esquecimento.” 
 Os pontos levantados pelo acórdão analisado foram importantes para 
corporificar a ideia do direito ao esquecimento na jurisprudência brasileira e, 
quiçá, na legislação pátria. 
 Por outro viés, urge ressaltar que o Superior Tribunal de Justiça julgou um 
caso em que rejeitou o pedido do direito ao esquecimento. Trata-se do caso 
“Aída Curi”, Recurso Especial no 1.335.153/RJ: 
RECURSO ESPECIAL. DIREITO CIVIL-
CONSTITUCIONAL. LIBERDADE DE IMPRENSA VS. 
DIREITO DA PERSONALIDADE. LITÍGIO DE SOLUÇÃO 
TRANSVERSAL. COMPETÊNCIA DO SUPERIOR 
TRIBUNAL DE JUSTIÇA. DOCUMENTÁRIO EXIBIDO EM 
REDE NACIONAL. LINHA DIRETA-JUSTIÇA. HOMICÍDIO 
DE REPERCUSSÃO NACIONAL OCORRIDO NO ANO DE 
1958. CASO “AINDA CURI”. VEICULAÇÃO, NO MEIO 
SÉCULO DEPOIS DO FATO, DO NOME E IMAGEM DA 
VÍTIMA. NÃO CONSENTIMENTO DOS FAMILIARES. 
DIREITO AO ESQUECIMENTO. ACOLHIMENTO. NÃO 
APLICAÇÃO NO CASO CONCRETO. RECONHECIMENTO 
DA HISTORICIDADE DO FATO PELAS INSTÂNCIAS 
ORDINÁRIAS. IMPOSSIBILIDADE DE DESVINCULAÇÃO 
DO NOME DA VÍTIMA. ADEMAIS, INEXISTÊNCIA, NO 
CASO CONCRETO, DE DANO MORAL INDENIZÁVEL. 
VIOLAÇÃO AO DIREITO DE IMAGEM. SÚMULA 
N.403/STJ. NÃO INCIDÊNCIA. 
1. Avulta a responsabilidade do Superior Tribunal de 
Justiça em demandas cuja solução é transversal, 
interdisciplinar, e que abrange, necessariamente, uma 
controvérsia constitucional oblíqua, antecedente, ou 
17 
 
 
inerente apenas à fundamentação do acolhimento ou 
rejeição de ponto situado no âmbito do contencioso 
infraconstitucional, questões essas que, em princípio, 
não são apreciadas pelo Supremo Tribunal Federal. 
2. Nos presentes autos, o cerne da controvérsia passa pela 
ausência de contemporaneidade da notícia de fatos 
passados, a qual, segundo o entendimento dos autores, 
reabriu antigas feridas já superadas quanto à morte de 
sua irmã, Aída Curi, no distante ano de 1958. Buscam a 
proclamação do seu direito de esquecimento, de não ter 
revivida, contra a vontade deles, a dor antes 
experimentada por ocasião da morte de Aída Curi, assim 
também pela publicidade conferida ao caso décadas 
passadas. 
3. Assim como os condenados cumpriram pena e os 
absolvidos que se envolveram em processo-crime (Resp. 
n 1.334/09/RJ), as vítimas de crime e seus familiares têm 
direito ao esquecimento – se assim desejarem –, direito 
esse consistente em não se submeterem a 
desnecessárias lembranças de fatos passados que lhe 
causaram, por si, inesquecíveis feridas. Caso contrário, 
chegar-se-ia à antipática e desumana solução de 
reconhecer esse direito ao ofensor (que está relacionado 
com sua ressocialização) e retirá-lo dos ofendidos, 
permitindo que os canais de informação se enriqueçam 
mediante a indefinida exploração das desgraças 
privadas pelas quais passaram. 
4. Não obstante isso, assim como o direito ao esquecimento 
do ofensor – condenado e já penalizado – deve ser 
ponderado pela questão da historicidade do fato narrado, 
assim também o direito dos ofendidos deve observar 
esse mesmo parâmetro. Em um crime de repercussão 
nacional, a vítima – por torpeza do destino – 
frequentemente se torna elemento indissociável do 
18 
 
 
delito, circunstância que, na generalidade das vezes, 
inviabiliza a narrativa do crime caso se pretenda omitir a 
figura do ofendido. 
5. Com efeito, o direito ao esquecimento que ora se 
reconhece para todos, ofensor e ofendidos, não alcança 
os casos dos autos, em que se reviveu, décadas depois 
do crime, acontecimento que entrou para o domínio 
público, de modo que se tornaria impraticável a atividade 
da imprensa para o desiderato de retratar o caso Aída 
Curi, sem Aída Curi. 
6. É evidente ser possível, caso a caso, a ponderação 
acerca de como o crime tornou-se histórico, podendo o 
julgador reconhecer que, desde sempre, o que houve foi 
uma exacerbada exploração midiática, e permitir 
novamente essa exploração significaria conformar-se 
com um segundo abuso só porque o primeiro já ocorrera. 
Porém, no caso em exame, não ficou reconhecida essa 
artificiosidade ou o abuso antecedente na cobertura do 
crime, inserindo-se, portanto, nas execuções 
decorrentes da ampla publicidade a que podem se 
sujeitar alguns direitos. 
7. Não fosse por isso, o reconhecimento, em tese, de um 
direito de esquecimento não conduz necessariamente ao 
dever de indenizar. Em matéria de responsabilidade civil, 
a violação de direitos encontra-se na seara da ilicitude, 
cuja existência não dispensa também a ocorrência de 
dano, com nexo causal, para chegar-se, finalmente, ao 
dever de indenizar. No caso de familiares de vítimas de 
crimes passados, que só querem esquecer a dor pela 
qual passaram em determinado momento da vida, há 
uma infeliz constatação: na medida em que o tempo 
passa e vai se adquirindo um “direito ao esquecimento” 
na contramão, a dor vai diminuindo, de modo que, 
relembrar o fato trágico da vida, a depender do tempo 
19 
 
 
transcorrido, embora possa gerar desconforto, não causa 
o mesmo abalo de antes. 
8. A reportagem contra a qual se insurgiram os autores foi 
ao ar 50 (cinquenta) anos depois da morte de Aída Curi, 
circunstância da qual se conclui não ter havido abalo 
moral apto a gerar responsabilidade civil. Nesse 
particular, fazendo-se a indispensável ponderação de 
valores, o acolhimento do direito ao esquecimento, no 
caso, com a consequenteindenização, consubstancia 
desproporcional corte à liberdade de imprensa, se 
comparada ao desconforto gerado pela lembrança. 
9. Por outro lado, mostra-se inaplicável, no caso concreto, 
a Súmula n. 403/STJ. As instâncias ordinárias 
reconheceram que a imagem da falecida não foi utilizada 
de forma degradante ou desrespeitosa. Ademias, 
segundo a moldura fática traçada nas instâncias 
ordinárias – assim também ao que alegam os próprios 
recorrentes –, não se vislumbra o uso comercial indevido 
da imagem da falecida, com os contornos que tem dado 
a jurisprudência para franquear a via da indenização. 
10. Recurso especial não provido. 
 
Apesar de reconhecer o direito dos familiares de esquecer o episódio, o 
Ministro salientou que o reconhecimento, em tese, de um direito ao 
esquecimento não conduz necessariamente ao dever de indenizar. Como o 
cerne da matéria veiculada foi o crime em si, e não a imagem da vítima, não se 
poderia falar em dano moral. A isso se somaria o fato de que a reportagem contra 
a qual se insurgiram os autores foi ao ar 50 (cinquenta) anos depois da morte de 
Aída Curi, razão pela qual não haveria, nos tempos presentes, o mesmo abalo 
vivenciado à época do acontecimento. É dizer: muito embora tenha gerado 
algum desconforto aos irmãos, seria inexistente o dano moral. 
20 
 
 
Quanto aos pedidos indenizatórios por dano à imagem e dano material, o 
Ministro também os rechaçou. Isso porque durante todo o programa exibido a 
vítima foi retratada mediante dramatizações realizadas por atores contratados, 
tendo havido uma única exposição de sua imagem real. Assim, não seria 
possível que esta única fotografia veiculada ocasionasse um decréscimo ou 
acréscimo na receptividade da reconstituição pelo público expectador. 
A leitura do voto do Ministro, comparada com a conclusão obtida no RESP 
nº 1.334.097-RJ, vem a corroborar que atualmente inexistem critérios únicos e 
definitivos para a ponderação do direito ao esquecimento, bem com em relação 
aos efeitos decorrentes de sua (in) aplicação. O cerne da problemática reside no 
conflito entre liberdade de informação e expressão e proteção da memória 
individual e, em relação ao ponto, os atuais critérios utilizados pela jurisprudência 
(pessoa pública, local público, ocorrência de crime e evento histórico) são, em 
verdade, absolutamente insuficientes, não alcançando a complexidade da 
temática. 
Daí a necessidade de se estabelecer balizas que possam nortear o juiz a 
sopesar o direito ao esquecimento, sem prejuízo da análise pormenorizada do 
caso concreto. Os novos direitos oriundos da era da informação exigem do 
magistrado que se liberte de esquemas pré-moldados para, conforme a hipótese 
fática, encontrar e adaptar as técnicas processuais adequadas aos diferentes 
perfis dos direitos materiais. É nessa linha que, a partir de um estudo 
aprofundado sobre o tema, MARTINEZ sugere cinco parâmetros: 
 
1) Domínio público: para que uma informação ou dado possa ser 
rememorado e sua divulgação possa ser considerada lícita é necessário que, em 
algum momento, tenha sido atingido o domínio público. Não há como atribuir 
viabilidade à divulgação de fatos pretéritos, em violação a direitos individuais 
fundamentais, se o fato rememorado não alcançou anteriormente o 
conhecimento público. Nesse sentido, a prévia divulgação do episódio seria 
requisito essencial para justificar a nova veiculação de fatos pretéritos. 
21 
 
 
2) Preservação do contexto original da informação pretérita: Somente 
seria possível a divulgação da informação se, já pertencente ao domínio público, 
fosse então devidamente contextualizada, consoante o teor integral da notícia 
original, sob pena de o direito de informar ser convertido em abuso. 
3) Preservação dos direitos da personalidade na rememoração: Deve-se, 
sempre que possível, salvaguardar a imagem, a honra, a privacidade e o nome 
do envolvido na informação, evitando violações aos seus direitos fundamentais. 
4) Utilidade da informação: deve ser igualmente observada. A prevalência 
do direito de informar em relação à proteção da memória individual somente será 
legítima e lícita se atender a um efetivo interesse público, que não corresponda 
a mera curiosidade pública. Merecem ser rememorados somente fatos de 
grande impacto na sociedade, devendo necessariamente estar atrelados à 
utilidade real da informação para a coletividade, e não a motivações de caráter 
mercadológico, vexatórias ou que nunca foram objetos de domínio público. 
5) Atualidade da informação: não se busca com isso apagar o passado ou 
impedir a divulgação dos fatos pretéritos, mas tão somente restringir o acesso e 
utilização destes acontecimentos em virtude da ação do tempo, que retirou a 
importância da informação. O magistrado deverá ponderar no caso concreto a 
atualidade da informação, não sendo possível permitir que dados passados 
estejam disponíveis permanentemente, a qualquer tempo e de forma ilimitada. 
Com os critérios mencionados não se pretende atribuir peso ou 
quantificação à ponderação, mas somente edificar um caminho que possa ser 
trilhado pelo julgador quando da análise do caso concreto, sopesando os direitos 
em jogo. Sendo assim, se a divulgação da informação não superar os cinco 
critérios propostos, deve ser priorizada a proteção aos direitos da personalidade, 
com a aplicação do direito ao esquecimento. As sugestões propostas 
representam um norte, sem olvidar o fato de que, dada a atualidade e 
originalidade do direito ao esquecimento, somada à escassez de bibliografia 
especializada, nada impede que sejam construídos novos critérios de aplicação 
nos próximos anos, bem como se proceda à implementação legal do instituto. 
22 
 
 
 
2.3. Caso Xuxa Meneghel Vs. Google Search 
 
Na origem do REsp. 1.316.921 (Rel. Min. Nancy Andrighi, 3ª Turma, 
julgamento em 26.06.2012, DJE de 29.06.2012), a Autora propôs Ação Ordinária 
inominada, com pedido de tutela antecipada, em face da empresa Google Brasil 
Internet Ltda, com o objetivo de ver retirados do sistema Google Search 
resultados de buscas realizadas, envolvendo o nome da Autora ligados aos 
termos “pedofilia” ou “pedófila” ou a divulgação em conjunto com a de qualquer 
outra prática criminosa, baseado nos seguintes fatos: 
 
(i) Xuxa Meneghel em 1982 participou do filme 
denominado “Amor, estranho amor”, onde protagonizava 
uma cena de sexo com um menor de 12 anos; (ii) tempos 
depois a Autora alcançou sucesso nacional, passando a 
ser reconhecida como apresentadora de programas 
infantis; (iii) com o intuito de deletar a impressão 
contraditória que poderia repercutir entre sua condição 
de ídolo infantil e o polêmico filme, Xuxa procurou, ao 
longo de vários anos, inibir a reprodução e circulação do 
filme; (iv) e, diante disso, viu seu nome ser constantemente 
aliado à prática de pedofilia, prejudicando a sua imagem, 
firmada por meio de diversos programas e ações sociais 
infantis. 
 
Insta destacar que o Recurso Especial ora em análise foi oriundo 
de decisão interlocutória onde o Juiz de primeiro grau deferiu o pedido de 
tutela antecipada, determinando que a empresa se abstenha de disponibilizar 
aos seus usuários, no site de buscas GOOGLE, quaisquer resultados/links na 
hipótese de utilização dos critérios de busca ‘Xuxa’, ‘pedófila’, ‘Xuxa Meneghel’, 
ou qualquer outra grafia que se assemelhe a estas, isoladamente ou 
conjuntamente, com ou sem aspas, no prazo de 48 horas, a contar desta 
23 
 
 
intimação, pena de multa cominatória de R$ 20.000,00 por cada resultado 
positivo disponibilizado ao usuário (fls 71/72, e-STJ). 
A referida decisão foi impugnada pela Google via Agravo de Instrumento. 
Em sede de Agravo, o Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro lhe deu 
parcial provimento, restringindo a liminar “apenas às imagens expressamente 
referidaspela parte agravada”, ainda assim sem “exclusão dos links na 
apresentação dos resultados de pesquisas” (fls 310/316, e-STJ). 
Nesse sentido, as partes interpuseram Embargos de Declaração que 
foram rejeitados pelo TJ/RJ. Ainda, a Google interpôs Recurso Especial, 
alegando violação dos artigos 461, § 4º e § 6º do Código de Processo Civil/73 
(tratando-se sobre a modificação do valor da multa e excesso), mais o artigo 248 
do Código Civil (a respeito da prestação impossível), bem como dissídio 
jurisprudencial. 
A Terceira Turma do STJ proveu, por unanimidade, o pedido recursal da 
Requerida. As razões fáticas e jurídicas mais relevantes que influenciaram a 
decisão e que tem ligação com o núcleo o objeto de estudo, podem ser assim 
resumidas: 
Admitiu o STJ que para o serviço sob comento não se poderiam aplicar 
as mesmas razões das decisões que envolvem provedores de conteúdo, não 
havendo por parte do provedor de pesquisa qualquer ingerência no conteúdo de 
links e, dessa forma, não se considerando produto defeituoso (art. 14, do CDC). 
Não podendo delegar ao provedor de pesquisa a discricionariedade acerca da 
retirada ou não de páginas de seus resultados, tendo em vista a subjetividade 
envolvida na classificação de conteúdos como ofensivos ou não à personalidade 
de outrem. 
Não se pode aceitar, reconhecendo a internet como meio de circulação 
de massa, de modo a garantir a liberdade de informação trazida pelo artigo 220, 
§1º, da Constituição Federal, que os provedores de pesquisa eliminem dos seus 
resultados de termos ou expressão, sob o risco de restringir o direito coletivo à 
informação. 
A Relatora Ministra Nancy Andrigh apreciou que não se mostra aceitável 
a exigência de que a pesquisa exclua a reprodução de imagens encontradas no 
resultado de busca, pois seria tecnicamente impossível identificar quais imagens 
24 
 
 
teriam conteúdo ofensivo ou ilícito, sendo que essa retirada indiscriminada de 
todas as imagens implicaria na violação do Direito Constitucional à Informação. 
Ainda, no tocante aos termos “pedófila” ou “pedofilia”, a Ministra 
argumenta que a proibição de que o serviço de busca aponte tais resultados 
impediria os usuários de localizarem reportagens, notícias, denúncias e uma 
infinidade de informações sobre o tema, muitas delas de interesse público. E 
que, inclusive, a vedação restringiria a difusão da entrevista concedida na época, 
pela Autora Xuxa, que abordava a questão da pedofilia que serve de alerta para 
toda a sociedade. E, curiosamente, a vedação dificultaria até mesmo a 
divulgação do próprio resultado do julgamento. 
O Superior Tribunal de Justiça (STJ) conclui, por fim, que não assiste 
razão à Autora demandar judicialmente contra provedor de pesquisa, vez que 
este somente realizaria a facilitação do acesso ao conteúdo. 
No Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro Celso de Mello, embora 
sem adentrar ao mérito do debate, negou seguimento à Reclamação 15955 
ajuizada por Xuxa Meneghel, com o intuito de restabelecer decisão do Tribunal 
de Justiça do Estado do Rio de Janeiro que restringiu a exibição de suas imagens 
nas pesquisas do Google. O ministro, por sua vez, afastou a alegação dos 
advogados da apresentadora de que o acórdão do STJ, que cassou a liminar 
que impunha restrição, teria violado a Súmula Vinculante 10, do STF. Impende 
registrar que o STF analisou apenas processualmente a questão. 
 
 
 
 
 
 
 
25 
 
 
3. FUNDAMENTOS DO DIREITO AO ESQUECIMENTO 
 
A dignidade da pessoa humana é o fundamento sólido e eficaz em que se 
apoia a ideia do Direito ao Esquecimento. Esse princípio é previsto no artigo 1o, 
inciso III da Constituição Federal. 
É de lá que emanam os direitos de que os cidadãos podem usufruir e os 
deveres que terão de ser cumpridos, seja norteando e orientando a aplicação 
prática desse mesmo ordenamento, fazendo com que ele não se distancie dos 
objetivos traçados. 
Com fundamento no citado princípio, na VI Jornada de Direito Civil 
promovida pelo CJF/STJ foi aprovado o enunciado n. 531, cujo teor é: 
ENUNCIADO 531 – A tutela da dignidade da pessoa 
humana na sociedade da informação inclui o direito ao 
esquecimento. 
É o caso também do artigo 11 do código civil que aqui se transcreve: 
Art. 11. Com exceção dos casos previstos em lei, os direitos 
da personalidade são intransmissíveis e irrenunciáveis, não 
podendo o seu exercício sofrer limitação voluntária. 
Portanto existe farta fundamentação jurídica para o pedido do Direito ao 
esquecimento, tanto na legislação pátria como na comparada de outros Estados. 
 
 
 
 
 
 
26 
 
 
4. HERANÇA DIGITAL E DIREITO AO ESQUECIMENTO 
 
A herança digital e o Direito ao Esquecimento vêm sendo discutidos a 
partir dos limites entre o público e o privado e os direitos individuais inerentes à 
dignidade da pessoa humana, como a intimidade, a honra e a privacidade. Há, 
ainda, o direito à informação e a liberdade de expressão. 
A Internet e as RSO são utilizadas em diversas áreas pelas pessoas que, 
ao armazenarem e compartilharem informações, levam à indagação sobre o que 
fazer com o acervo digital dos titulares e quem seriam seus herdeiros após 
ocorrer a inatividade nesse ambiente virtual. Para tanto, é importante apresentar 
o conceito de Direito ao Esquecimento: 
 
O direito ao esquecimento é a faculdade que o titular de um 
dado pessoal tem para vê-lo apagado, suprimido ou 
bloqueado, pelo decurso do tempo, por ter cessado sua 
finalidade ou por afrontar seus direitos fundamentais. Trata-
se de uma espécie de caducidade, em que a informação, 
pelo decurso do tempo, pela expiração da sua finalidade ou 
por sua proximidade com os direitos fundamentais afetos à 
personalidade, perece ou deveria perecer, ainda que por 
imposição de lei. (CHEHAB, 2015, p. 115). 
 
Nesse sentido, o Direito ao Esquecimento guarda estreita relação com a 
garantia da privacidade, a qual colide com a liberdade de expressão. Apesar de 
ter como objetivo proteger a intimidade das pessoas, ela atinge, especialmente, 
os dados pessoais que, na prática, devido aos novos valores trazidos pela 
tecnologia, refletem a privacidade dos dados digitais. Resumidamente, é um 
direito relacionado também ao conteúdo da Internet e ao resultado decorrente 
de sua disponibilidade. 
27 
 
 
Com base nessa ideia, Rodrigues e Oliveira (2015) destacam que a 
expressão a “internet não esquece” vem sendo disseminada na própria rede. 
Segundo as autoras, diante do papel crescente da internet na vida social, coletiva 
e política, talvez uma das principais interrogações, hoje, sobre o tema “memória” 
é que este se faz acompanhar, cada vez mais, do seu aparente reverso, o 
“esquecimento”. 
A fim de trazer respostas às novas demandas da sociedade pelo 
“esquecimento”, na Alemanha, por exemplo, entendeu-se que a proteção 
constitucional da personalidade impede que a imprensa explore, por tempo 
indefinido, a pessoa do criminoso e sua privacidade, se for obstáculo a sua 
ressocialização (TEIXEIRA; PAULA, 2017). 
Tal entendimento encena com maior força o direito ao esquecimento no 
palco das discussões da União Europeia (UE) onde em 25 de janeiro de 2012 a 
vice-presidente da Comissão Europeia e comissária encarregada de assuntos 
de justiça, Viviane Reding, anunciou o projeto de reforma geral das regras 
adotadas pela UE desde o último documento sobre proteção de dados do ano 
1995. Entre as modificações introduzidas nas regras de 1995, encontra-se o 
direito ao esquecimento digital, com a finalidade de auxiliar “[...] os cidadãos a 
melhor gerir os riscos ligados à proteção dos dados na internet.” Por esse 
princípio, os cidadãos poderão “[...] obter a supressão de dados que lhes 
concernem se nenhum motivo legítimo justificar sua conservação.” (UNIÃO 
EUROPÉIA, 2016). 
Em abril de 2016 um novo pacote de proteção de dados foi adotado com 
a finalidade de preparar a Europapara a era digital - Regulamento nº 2016/679 
do parlamento europeu e do conselho, mais conhecido como Regulamento Geral 
de Proteção dos Dados Pessoais da União Europeia (General Data Protection 
Regulation - GDPR), que entrou em vigor em maio de 2018 relativo à proteção 
das pessoas singulares no que diz respeito ao tratamento de dados pessoais e 
à livre circulação desses dados. Este regulamento é a lei mais relevante 
atualmente no cenário internacional e aborda a proteção das pessoas físicas em 
relação ao tratamento dos dados pessoais e a livre circulação desses dados. 
Tem como principal efeito ser de aplicação direta em toda a Europa, sem 
necessidade de ser incorporado pelo ordenamento jurídico de cada estado 
28 
 
 
membro. Contempla os direitos de transparência, direitos de informação, direitos 
de acesso, direitos de retificação, direitos de eliminação ou direito ao 
esquecimento, limitação do tratamento dos dados, portabilidade dos dados e 
direito à oposição (UNIÃO EUROPEIA, 2016). 
Esse regulamento, embora vigorando em território europeu, fez emergir 
em países que tem relações com comunidades da UE ou pretendem alcançar 
essa economia a necessidade de adequarem suas legislações no diz respeito à 
proteção de dados. O Brasil se enquadrou nesse contexto. Conforme destacam 
Ferreira, Marques e (2018, p. 3131-3132): 
No Brasil os impactos do GDPR se fizeram sentir por meio 
da atualização de termos de uso de vários sites e aplicativos, 
tais como Facebook, Instagram, Google, Yahoo. Isso se 
deve ao fato que, mesmo sendo restrito à Europa, as 
empresas tiveram que se adequar à nova legislação para 
continuarem atuando nos países que compõe a União 
Europeia, o que levou à adoção de melhorias nas regras de 
outros países, inclusive do Brasil. Assim, as novas regras 
acabaram por afetar as transações referentes ao 
processamento de informações de cidadãos, não só da 
União Europeia, mas também de organizações localizadas 
fora da Europa. 
 
Cabe salientar no entanto que o Brasil possui em seus dispositivos legais 
formas de regular a proteção de dados, principalmente quando se trata de direito 
ao esquecimento, como por exemplo, o Decreto-Lei nº 2.848 do Código Penal 
que deixa claro em seu Art. 93º que: “A reabilitação alcança quaisquer penas 
aplicadas em sentença definitiva, assegurando ao condenado o sigilo dos 
registros sobre o seu processo e condenação.” (BRASIL, 1940). 
A Lei nº 3.689 em seu Art. 748º determina que “a condenação ou 
condenações anteriores não serão mencionadas na folha de antecedentes do 
reabilitado, nem em certidão extraída dos livros do juízo, salvo quando 
requisitadas por juiz criminal”. (BRASIL, 1941). 
29 
 
 
Os princípios fundamentais como a liberdade de expressão e o princípio 
da intimidade, estão garantidos na Lei nº 11.105: 
Art. 5º- Todos são iguais perante a lei, sem distinção de 
qualquer natureza, garantindo-se aos brasileiros e aos 
estrangeiros residentes no País a inviolabilidade do direito à 
vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade, 
nos termos seguintes: [...] 
IX - é livre a expressão da atividade intelectual, artística, 
científica e de comunicação, independentemente de censura 
ou licença; 
X - são invioláveis a intimidade, a vida privada, a honra e a 
imagem das pessoas, assegurado o direito a indenização 
pelo dano material ou moral decorrente de sua violação. [...]. 
(BRASIL, 1988). 
O direito à intimidade é um direito personalíssimo com a característica 
básica de não expor elementos ou informações da vida íntima. A característica 
da intransmissibilidade se encontra positivada junto à Lei nº 10.406 (BRASIL, 
2002) que a torna impeditiva de transferência hereditária de direitos de 
personalidade, apesar de a tutela de muitos interesses relacionados à 
personalidade manter-se mesmo após a morte. 
Avançando nas discussões sobre proteção de dados e direito ao 
esquecimento uma importante iniciativa se fez com a edição do Enunciado 531 
da VI Jornada de Direito Civil, promovida pelo Conselho da Justiça Federal 
(CJF), em março de 2014. Enunciado preleciona que: “A tutela da dignidade da 
pessoa humana na sociedade da informação inclui o direito ao esquecimento”. 
(BRASÍLIA, 2014). 
Neste mesmo ano, outro dispositivo legal brasileiro - a Lei do Marco Civil 
da Internet (MCI), Lei nº 12.965, sancionada em 23 de abril de 2014 foi 
considerada uma das legislações mais avançadas do mundo na regulação da 
internet e na garantia da neutralidade da rede e seu resultado foi proveniente de 
uma série de discussões iniciadas em anos anteriores já que no Congresso 
30 
 
 
Nacional havia 26 propostas a respeito do tema. (MARQUES; KERR PINHEIRO, 
2014). 
Em seu artigo 7º, o MCI passa a tratar dos direitos dos usuários, nos 
quatro primeiros incisos- o direito à inviolabilidade da intimidade da vida privada, 
à inviolabilidade ao sigilo das comunicações e à inviolabilidade e ao sigilo das 
comunicações privadas armazenadas. No inciso VIII, do mesmo artigo, está 
expresso que é direito do usuário ter informações claras e completas sobre a 
coleta, uso, armazenamento, tratamento e proteção de seus dados pessoais que 
somente poderão ser utilizados para finalidades que (1) justifiquem sua coleta, 
(2) sejam lícitas e (3) estejam previstas em contrato. No inciso X, ainda do artigo 
7º, foi incluído no MCI uma modulação do direito ao esquecimento. O artigo trata 
do direito à exclusão definitiva dos dados pessoais, a pedido do usuário titular, 
ao término das relações entre as partes. 
Nesse contexto, observa- se que apesar dos atuais dispositivos legais 
brasileiros versarem sobre o assunto, havia necessidade de avançar na 
legislação específica sobre proteção de dados para se adequar à realidade da 
sociedade contemporânea, cujo contexto de fluxo informacional se ancora 
fortemente em novos recursos das tecnologias da informação e comunicação. 
Sendo assim, em agosto de 2018 foi sancionada a Lei nº 13.709 (lei geral 
de proteção de dados, LGPD), que altera o MCI e regulamenta o uso, a proteção 
e a transferência de dados pessoais que circulam na Internet, no âmbito 
brasileiro. Em seu escopo a lei possui 65 artigos distribuídos em 10 capítulos 
que dispõem sobre o tratamento, a proteção e a privacidade de dados pessoais 
em meios digitais. A lei indica que sua aplicação é destinada ao tratamento de 
dados pessoais pertencentes ou coletados de cidadãos localizados em território 
brasileiro (BRASIL, 2018). 
Com foco nas redes sociais on-line, preconizasse o princípio da intimidade 
que, conforme relatado anteriormente, tem relação direta com o Direito ao 
Esquecimento, tendo em vista o artigo 5º da Constituição Federal, que, em seu 
inciso X, declara invioláveis a honra e a imagem das pessoas, as quais 
constituem um direito à privacidade ou da intimidade. 
31 
 
 
Com a morte, finda-se a personalidade jurídica e, por conseguinte, a 
pessoa falecida não possuirá mais a aptidão para ser sujeito de direitos e 
obrigações na ordem jurídica, não sendo, portanto, titular de direitos de 
personalidade. No entanto, apesar da morte pôr fim à existência da pessoa física, 
ainda permanece o que se chama de memória do morto, por meio tanto do 
legado moral, quanto do legado digital deixados pela personalidade que um dia 
existiu no universo físico e no universo virtual. 
O direito à honra é fundamental ao de cujus, pois, mesmo que este se 
encontre desprovido de vida, a sua memória se delonga no tempo, sendo digna 
de total zelo pelos legitimados, que buscarão protegê-la de acordo com a 
compreensão mais próxima do que um dia foi à honra para o de cujus. 
Os e-mails de um usuário morto, apesar de haver decisões em contrário, 
não podem ser acessados, como forma de manter a intimidade e a reputação do 
de cujus, pois e-mail é, em regra, pessoal e as informações ali contidas são 
acessadas apenaspelo usuário. Isso difere de um perfil em uma rede social, 
onde as postagens são públicas e podem ser vistas e compartilhadas por outras 
pessoas. Entretanto, necessário se faz pensar em mecanismos que assegure o 
direito à privacidade dos dados pessoais, possibilitando ao usuário decidir e 
escolher a melhor forma de compartilhar suas informações, quer seja na 
atividade, quer seja na inatividade de seu perfil no âmbito das redes sociais 
online. 
O Facebook, RSO norte-americana, tem a política de apresentar duas 
opções para a família. A primeira é transformar a página em memorial, deixando 
o acesso restrito a amigos confirmados pelo de cujus e mantendo apenas o 
conteúdo principal. A segunda opção é apagar todos os dados do usuário. Já a 
Google, empresa de tecnologia, apresenta alternativas, se o usuário preencher 
os termos, pode alertar o Google a respeito do momento em que a conta deve 
ser considerada inativa e, quando isso acontecer, se a empresa pode exclui-la 
automaticamente, para aqueles que desejam dar destinação específica aos 
dados armazenados nos servidores da empresa, numa espécie de testamento 
digital. 
32 
 
 
Seguindo nessa mesma direção, para os usuários que desejam deixar 
comunicações póstumas, alguns portais oferecem a possibilidade de programar 
mensagens que serão enviadas pelas redes sociais para pessoas previamente 
designadas. O usuário pode, ainda, programar sua última postagem em redes 
sociais como Facebook e Twitter, que será publicada pela empresa, uma vez 
que o falecimento seja confirmado. 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
33 
 
 
 
5. CONCLUSÃO 
 
Ainda que não expressamente previsto na Lei Maior, não se pode olvidar 
da fundamentalidade do direito ao esquecimento, especialmente após a edição 
da Lei 12.965/14, que em seu artigo 3º, elenca os princípios do uso da internet 
no Brasil, apontando a proteção da privacidade já em seu inciso II e os próprios 
direitos dos usuários: inviolabilidade da intimidade e da vida privada, sua 
proteção e indenização pelo dano material ou moral decorrente de sua violação. 
Na atual conjuntura, não podemos esquecer que as redes 
sociais possuem um papel informal de controlador social, com imenso poder de 
influenciar positiva e negativamente os sentimentos de todos agregados. Em 
razão de força motriz, deve-se impor algumas limitações, e, talvez, a maior delas 
seja a dignidade da pessoa humana, florescida na essência do direito ao 
esquecimento. 
Mentes sociais camufladas e com inúmeras facetas são formadas diante 
o empoderamento originado pelos perfis virtuais. A presente perspectiva mostra-
se instigante e ao mesmo tempo sensível diante um período da sociedade da 
hiperinformação (e baixa formação), não deixando de considerar o processo de 
democratização que motiva pilares como o amplo acesso à informação e a 
liberdade de expressão, sobretudo a dignidade da pessoa humana que designa 
tutelar todos os demais direitos individuais e sociais inerentes ao homem. 
Cabe ressaltar que, com apenas um “clique” no Google, uma pessoa pode 
reviver todas as mazelas por ela sofridas e até então que estavam esquecidas 
pela sociedade, reaquecendo os amargos já superados – insegurança pessoal 
que não pode ser acobertada de forma omissa pelo Direito. 
 
 
 
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REFERÊNCIAS 
 
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