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Economia do Setor Público Análise do Custo Benefício objetivos de aprendizagem Ao término desta aula, vocês serão capazes de: • entender as condições por trás da avaliação de um projeto público; • compreender conceitos de eficiência e sua relação com o bem-estar social; • identificar as medidas de valoração do bem-estar social; • entender as críticas a essa análise. Caros(as) alunos(as), dando continuidade ao nosso curso vamos fazer uma análise do custo benefício dos gastos públicos. Assim como empresas privadas fazem uma análise de custo/ retorno de seus investimentos, essa análise também precisa ser feita na avaliação dos projetos e investimentos públicos. Vamos ver como a teoria econômica trata esse assunto? Bons estudos! 6ºaula 39 Seções de estudo 1- Introdução 2- Eficiência e bem-estar social 3- Valoração 4- Críticas à análise custo-benefício 1- introdução Quando um projeto vai ser implementado é preciso fazer uma análise do seu custo benefício. Essa regra serve para todo mundo. Quando você vai construir uma casa (projeto: casa própria) vai analisar se é preferível imobilizar o capital na construção da casa ou se você aplica esse capital em outro investimento e com o retorno paga o seu aluguel. O mesmo acontece para uma empresa. Se existe a possibilidade de uma empresa fazer um investimento ela vai analisar se o custo desse investimento trará o benefício pretendido. Se o benefício for maior que o investimento, o projeto pode ser viabilizado, caso contrário, não fará sentido. Essa análise de custo-benefício também é válida na avaliação de projetos por parte do setor público para fornecer parâmetros para a avaliação dos custos e dos benefícios de um projeto. Isso quer dizer que, quando o setor público decide investir em algum projeto, ou seja, realizar o gasto com um determinado fim, é preciso entender o benefício desse investimento. Nesta aula, vamos ver algumas técnicas utilizadas para a definição desses parâmetros. Em aulas anteriores, estudamos o primeiro teorema do bem-estar social que diz que, sob certas condições, o equilíbrio obtido com os agentes econômicos buscando o seu autointeresse é eficiente no sentido de Pareto. Podemos inferir, então, que nas condições desse teorema, um projeto público ou privado pode gerar um ganho de eficiência econômico se, e somente se, ele tiver valor positivo quando avaliado aos preços de equilíbrio de mercado. Entretanto, a análise de custo de benefício de um projeto público não coincide com a análise de um projeto da iniciativa privada. Isso ocorre porque nem sempre a eficiência é o único critério para julgar alternativas sociais. Além disso, as condições sob as quais o primeiro teorema do bem-estar social é válido raramente se verificam plenamente no mundo real. 2- Eficiência e bem-estar social Já vimos que em economia, eficiência costuma ser empregada para designar eficiência paretiana. Um estado social é eficiente no sentido de Pareto quando não é possível melhorar a situação de qualquer indivíduo numa sociedade, sem com isso piorar a situação de pelo menos um outro agente nessa mesma sociedade. Logo, se uma sociedade atingiu em estado Pareto eficiente, todas as possibilidades de ganhos mútuos entre seus membros já foram exploradas. Caso a sociedade não tenha atingido um estado Pareto eficiente, então existe uma possibilidade inexplorada de melhorar a situação de um ou mais de seus membros sem impor piora a seus outros membros. Como essa possibilidade permanece inexplorada, diz-se que a economia se encontra em um estado Pareto ineficiente. A exploração dessa oportunidade, por sua vez, levaria ao que se convencionou chamar de ganho de eficiência ou melhoria paretiana. Entretanto, não só a eficiência deve nortear uma escolha social. É preciso levar em consideração outros critérios como equidade e justiça. Embora o critério de equidade esteja menos sujeito a uma definição consensual, ele é um parâmetro importante na condução de políticas públicas. Muitas vezes essa política abre mão de uma solução eficiente para garantir maior equidade. Há uma ampla evidência teórica e empírica, por exemplo, de que políticas de distribuição de renda costumam ter um custo significativo de eficiência econômica. No entanto, elas continuam a ser perseguidas em nome de uma maior equidade social. Caso a equidade social seja uma preocupação de quem está por decidir sobre a execução ou não de um projeto, então o valor desse projeto a preços de mercado não é mais necessariamente um bom indicador de sua conveniência. Por exemplo, um projeto que tenha um valor presente positivo, mas que implique uma redução na remuneração de mercado da mão de obra desqualificada e uma consequente redução de renda para os indivíduos mais pobres da sociedade, pode não ser considerado socialmente desejável, apesar de ser viável do ponto de vista privado. Sabemos também que o mundo real é muito diferente da teoria. No mundo real há diversos fatores que fazem com que as condições para validar o primeiro teorema do bem-estar social não se verifique. No mundo real temos as externalidades, custos de transação, bens públicos, a má definição dos direitos e propriedade e algumas distorções dos impostos e subsídios. Quando esses fatores estão presentes não há mais como avaliar um projeto do ponto de vista da eficiência econômica a preço de mercado, uma vez que estes podem superestimar o peso de alguns itens e subestimar o peso de outros. Nesse caso, precisamos lançar mão do conceito de preços-sombras. O preço-sombra de um bem, também conhecido como preço social, é um preço que reflete seu verdadeiro custo ou benefício social marginal. O termo “sombra” é escolhido para nos lembrar de que se trata de um preço oculto por trás dos preços efetivamente praticados nos mercados. A avaliação social de um projeto deve ser feita aos preços-sombra e não aos preços de mercado. Caso o formulador de políticas públicas conheça os preços-sombra, então ele será capaz de avaliar o projeto do ponto de vista social. Os trabalhos de especialistas sugerem algumas regras práticas para a obtenção dos preços-sombra de alguns produtos: • Bens comercializados. Em condições bastante gerais, os preços-sombra dos bens comercializados com o resto do mundo são proporcionais aos preços internacionais (na fronteira) desses bens. Isso indica que, caso uma moeda estrangeira seja tomada como unidade de medida para os preços-sombra, os preços-sombra dos bens comercializados com 40Economia do Setor Público o resto do mundo serão exatamente iguais aos preços internacionais desses bens cotados nessa moeda estrangeira. Essa regra depende de algumas condições. A primeira delas é que o governo seja capaz de controlar diretamente (através de cotas) ou indiretamente (através de subsídios ou taxas) os volumes de importação ou exportação de cada um desses bens. Outra condição é que variações no volume de comércio internacional não devem afetar o preço internacional de um bem. • Salário-sombra. O preço-sombra do trabalho reflete o salário de reserva do trabalhador. No caso de um trabalhador desempregado, esse salário de reserva é a desutilidade do trabalho expressa em termos monetários; no caso do trabalhador que migra de um setor informal para o setor formal, esse salário de reserva é seu salário no setor informal. Isso indica que em situações não pouco usuais em países em desenvolvimento, o custo da mão de obra de um projeto pode ser menor, quando avaliado em termos de preço-sombra, do que seria quando avaliado em termos de preço de mercado. • Taxa de desconto. Não existe uma regra geral para o cálculo da taxa de desconto-sombra. Ela depende fortemente da estrutura da economia e do conjunto de instrumentos de política à disposição do planejador. Por exemplo, se o comércio externo for completamente controlado pelo setor público, então, a taxa de desconto-sombra é igual à taxa de juros internacional;caso a produção privada não seja racionada e os preços relativos de mercado sejam iguais aos preços-sombra, então a taxa de desconto- sombra é igual à taxa de retorno privada. • Outros bens. Também não há uma regra geral e simples para a derivação dos preços-sombra de outros bens. De um modo geral, para um bem não comercializável, o seu preço-sombra é uma média ponderada entre os custos marginais de retirar esse bem do consumo e da produção. Essa média não é igual, todavia, há uma média ponderada dos preços de oferta e de demanda. 3- Valoração Seja empregando preços de mercado, seja empregando preços-sombra, o valor de um projeto nada mais é, em última instância, do que a soma dos valores de todos os seus produtos menos o valor de todos os seus insumos. Em geral, pensamos nesses valores como um produto entre quantidade e preço. Assim, o valor da produção de determinado bem decorrente de um projeto nada mais é do que a quantidade produzida desse bem vezes o seu preço de mercado ou seu preço- sombra, dependendo do contexto. O custo de um insumo do projeto, de modo análogo, é calculado pelo produto entre a quantidade empregada desse insumo vezes seu preço de mercado ou seu preço-sombra. No entanto, como determinar o valor de um produto ou de um insumo que não possua preço? Diversos projetos públicos têm “produtos” e utilizam “insumos” que, apesar de afetarem o bem-estar dos cidadãos e as condições de produção das empresas, não possuem preços de mercado. Alguns exemplos de benefícios gerados por projetos que não possuem preço de mercado são: a redução no tempo e a redução no risco de acidentes associados à realização de um projeto rodoviário, a melhoria visual de uma cidade associada a um projeto de reurbanização, a redução no número de mortes associada a um programa de combate a uma doença contagiosa etc. Exemplos de custos sem preços de mercado associados a diversos projetos são a poluição sonora gerada por um aeroporto, o aumento na ameaça de extinção de uma espécie em decorrência da construção de uma represa, o aumento nos níveis de poluição atmosférica decorrente da construção de uma fábrica etc. Quando um resultado de um projeto não pode ter seu valor calculado através de um preço de mercado, é preciso lançar mão de alguma técnica de valoração para estabelecer seu valor. É razoável supor que esse valor deva refletir o valor que os membros da população afetada pelo projeto atribuem ao resultado em questão. Por exemplo, caso os membros de uma sociedade considerem de elevado valor uma redução nos riscos de morbidade e mortalidade decorrentes do programa de combate a uma epidemia, então, na avaliação desse programa, deve-se atribuir um valor elevado aos “produtos”, “redução na taxa de morbidade” e “redução na taxa de mortalidade”. Um processo de valoração adequado deve, então, passar por duas etapas - a primeira delas consiste em determinar os valores que os indivíduos atribuem ao item do projeto que se pretende avaliar; a segunda etapa consiste em determinar a forma de agregação desses valores. 3.1 Medidas de valoração de bem- estar individual Os dois conceitos teóricos de valoração de bem-estar individual mais empregados na análise de custo-benefício são os conceitos de variação compensatória e de variação equivalente. A variação compensatória(VC) indica de quanto deve ser reduzida a renda do indivíduo para que, após a realização do projeto, ele volte ao mesmo nível de bem-estar em que estava antes da realização do projeto. Caso a variação compensatória seja positiva, isso indica que o resultado do projeto é desejado por esse indivíduo. Nesse caso, a variação compensatória pode ser interpretada como sendo a disposição a pagar do indivíduo para que o projeto seja realizado. Caso a variação compensatória seja negativa, o resultado do projeto é indesejável para o indivíduo (i) e o módulo do valor da variação compensatória pode ser interpretado como a compensação monetária que deve ser dada a esse indivíduo caso deseje mantê-lo no mesmo nível de bem-estar em que estava antes da execução do projeto. Nesse caso, o módulo da variação compensatória pode ser entendido como uma disposição a receber do indivíduo para aprovar a execução do projeto. A variação equivalente (VE) indica de quanto deve ser aumentada a renda do indivíduo (i) caso se queira fazer com que ele tenha o mesmo ganho de bem-estar que teria caso o projeto fosse executado. Se ela for positiva, o 41 projeto é desejado por esse indivíduo. Nesse caso, ela pode ser interpretada como uma disposição a receber por parte desse indivíduo para aceitar a não execução do projeto. Caso a variação equivalente seja negativa, então o projeto é indesejável para o indivíduo (i) e a variação equivalente pode ser interpretada como uma disposição a pagar por parte desse indivíduo para que o projeto não seja executado. Os conceitos de variação compensatória e de variação equivalente possuem duas vantagens. A primeira delas é que eles têm uma interpretação clara, seja como disposição a pagar seja como disposição a receber. A segunda vantagem é que eles “medem” variações de bem-estar de indivíduos em uma unidade conveniente, qual seja, a unidade monetária. Isso faz com que sua comparação com itens de custo ou de benefícios de um determinado projeto seja mais simples. Todavia, o seu uso depende da capacidade de mensurar esses conceitos. 4- críticas à análise custo-benefício A crítica mais comum à análise de custo-benefício dirige- se à ideia inerente a essa análise de que é possível comparar custos e benefícios de todos os tipos reduzindo-os a uma única unidade de medida. Os críticos argumentam que há uma hierarquia de valores e que não é legítimo reduzir valores mais elevados e valores menos elevados a um denominador comum. Como, por exemplo, comparar as vidas salvas com investimentos em um hospital com os custos monetários desse investimento? Um estudo de análise de custo-benefício acerca da construção desse hospital não pode se furtar a esse tipo de comparação. É preciso comparar o valor dos recursos investidos na construção do hospital com o valor atribuído ao fato de que graças a esse hospital um grupo de pessoas estará menos sujeito ao risco de morte por insuficiência de oferta de serviços hospitalares. Vale a pena a Leitura – Os Gastos Públicos no Brasil são Produtivos? José oswaldo candido Junior realizou uma análise teórica e empírica da relação entre gastos públicos e crescimento econômico no brasil, no período de 1947 a 1995. O artigo completo está disponível em https:// www.ipea.gov.br/ppp/index.php/PPP/article/view/77/88. A leitura é muito importante para verificar a metodologia utilizada e o embasamento teórico. Vou deixar aqui disponível a conclusão do trabalho. “os efeitos dos gastos públicos, em termos agregados, sobre o crescimento econômico no brasil foram avaliados por duas metodologias. A primeira permite estimar o efeito externalidade dos gastos e o diferencial de produtividade em relação ao setor privado. No conceito que engloba consumo mais transferências, o efeito externalidade foi negativo. Na segunda definição de gasto total (que inclui os investimentos), os resultados indicam uma externalidade positiva, mas o diferencial de produtividade, em relação ao setor privado, apresentou-se negativo, ou seja, a produtividade do setor público representou apenas 60% da produtividade do setor privado. A segunda metodologia capta os efeitos dinâmicos da relação gasto público/produto, e a partir daí estimou-se uma solução de longo prazo. A vantagem dessa estimativa em relação à anterior é que se parte de uma especificação mais geral e chega-se a resultados mais robustos em termos estatísticos. os valores das elasticidades gasto/produto nos dois conceitos foram negativos. A equação de curto prazo mostra que os gastos públicos defasados no período de um ano surtem impacto positivo sobre o Pib. No longo prazo,porém, esse efeito se reverte. Portanto, esse conjunto de resultados sugere que a proporção de gasto público no brasil está acima do seu nível ótimo, bem como a existência de indícios de baixa produtividade. Assim, quando se aumenta a carga tributária os resultados mostram haver transferência de recursos do setor mais produtivo para o menos produtivo. os efeitos sobre o crescimento serão mais danosos quanto mais distorcivo for o sistema tributário e menos produtivo for o gasto público”. Chegamos, assim, ao final da nossa sexta aula. Espero que vocês estejam aproveitando nosso caminho no Estudo da Economia do Setor Público. Não hesitem em tirar dúvidas e procurar materiais complementares para aprofundamento nas questões mais importantes e intrigantes! retomando a aula 1- Introdução Na primeira seção, vimos por que a análise de custo benefício também é válida na avaliação de projetos por parte do setor público para fornecer parâmetros para a avaliação dos custos e dos benefícios de um projeto. 2-Eficiência e Bem-Estar Social Na segunda seção, introduzimos o conceito de eficiência e bem-estar social, e a definição de preço-sombra. 3-Valoração Na terceira seção, vimos por que valorar e quais são as medidas de valoração do bem-estar social. 4- Críticas a Análise Custo-Benefício Na quarta seção, apresentamos algumas considerações críticas sobre a análise custo-benefício. BECkER, Howard Saul. Sociological work. Transaction publishers, 1971. BENDER FILHO, Reisoli. GASTO PÚBLICO E CRESCIMENTO ECONÔMICO: TESTANDO A Vale a pena ler Vale a pena 42Economia do Setor Público HIPÓTESE DA LEI DE wAGNER À ECONOMIA BRASILEIRA (1996-2016). Planejamento e Políticas Públicas, n. 53, 2019. BIDERMAN, Ciro; ARVATE, Paulo Roberto. Economia do setor público no Brasil. Elsevier, 2004. DE MIRANDA, Rubens Augusto. 50 anos da teoria pura das finanças públicas locais: Tiebout or not Tiebout, that’s the question. Revista de Economia e Administração, v. 6, n. 2, 2007. GIAMBIAGI, Fabio; ALEM, Ana; PINTO, Sol Garson Braule. Finanças públicas. Elsevier Brasil, 2017. LUQUINI, Renan Henrique; DA CRUZ, André Diego Souza; DE CASTRO, Gustavo Henrique Leite. Verificação émpírica da curva de Laffer para o Brasil entre os anos de 1996 a 2014. Economia & Região, v. 5, n. 1, p. 31-52. MANkIw, N. Gregory. Introdução à economia. Cengage Learning, 2009. PEREIRA, Luiz Carlos Bresser. Instituições, bom estado e Reforma da Gestão Pública. 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