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Estudo de caso CLIENTE COM CLAUDICAÇÃO INTERMITENTE E ULCERAÇÃO O Sr. Black, 63 anos, apresenta um histórico de doença oclusiva arterial periférica (2 anos), hipertensão arterial, hipercolesterolemia, diabetes melito do tipo 2 e tabagismo. Ele ingere alimentos com baixo teor de gorduras e diminuiu o consumo de cigarros para meio maço por dia. Seus níveis sanguíneos de glicose monitorados no domicílio variam de 180 a 215 mg/dℓ. Como sente dor intensa na panturrilha após caminhar, ele atualmente caminha apenas dois quarteirões por dia – um a partir do domicílio e outro de volta. Atualmente ele recebe tratamento clínico para uma úlcera que não cicatriza na face plantar do pé esquerdo. Ele questiona por que lhe dizem que deve caminhar, uma vez que isso causa dor e imagina como isso pode in�uenciar na cicatrização da sua úlcera. Foco de competência QSEN | Prática baseada em evidências As complexidades inerentes ao atual sistema de saúde desafiam a enfermeira a demonstrar a integração de competências centrais interdisciplinares específicas. Essas competências visam garantir a prestação de cuidados de qualidade e seguros ao cliente (Institute of Medicine, 2003). Os conceitos da Orientação de Qualidade e Segurança para Enfermeiras (QSEN, 2012) são uma referência para o conhecimento, as habilidades e as atitudes (CHAs) necessários à enfermeira, para que demonstre competência nas suas áreas principais: o cuidado centrado no cliente; o trabalho colaborativo em equipe interdisciplinar; a prática baseada em evidência; a melhora da qualidade; a segurança; e a informática Definição de prática baseada em evidências: Integra as melhores evidências atuais ao conhecimento clínico e às preferências e aos valores do cliente/da família para a administração dos cuidados de saúde ideais. COMPETÊNCIAS ESSENCIAIS APLICAÇÃO E REFLEXÃO Conhecimento Discrimine entre os motivos válidos e inválidos para a modi�cação da prática clínica baseada em evidências com base no conhecimento clínico ou nas preferências do cliente/da família. Qual é a força das evidências que indicam que a caminhada é terapêutica para os clientes com doença oclusiva arterial periférica? A dor que o Sr. Black sente é um motivo para ele deixar de caminhar? Identi�que as relações �siopatológicas entre as suas diversas comorbidades, a dor que ele sente e a úlcera sem cicatrização. Como o tabagismo contínuo, apesar de inferior ao que era antes, poderia in�uenciar seus processos de doença? Habilidades Consulte especialistas clínicos antes de decidir se desviar dos protocolos baseados em evidências. Identi�que os membros da equipe de saúde que você consultaria para lhe auxiliar a traçar o plano de cuidados mais apropriado e individualizado para o Sr. Black. Atitudes Reconheça as próprias limitações no conhecimento e na especialidade clínica antes de determinar quando se desviar das melhores práticas baseadas em evidências. Re�ita sobre a complexidade das inter-relações das muitas comorbidades do Sr. Black. Pense no seu desejo de aliviar a dor de um cliente. Como o seu desejo de promover conforto ao Sr. Black poderia comprometer as suas chances de alcançar os melhores resultados? Cronenwett L, Sherwood G, Barnsteiner J et al. (2007). Quality and safety education for nurses. Nursing Outlook, 55(3), 122131. Institute of Medicine. (2003). Health professions education: A bridge to quality. Washington, DC: National Academies Press. QSEN Institute. (2012). Competencies: Prelicensure KSAs. Disponível em: qsen.org/competencies/prelicensureksas 1 2 3 4 5 6 7 Objetivos do aprendizado Após ler este capítulo, você será capaz de: Descrever a relação entre as estruturas anatômicas e a função siológica do sistema cardiovascular. Incorporar a avaliação dos fatores de risco cardíaco na história de saúde e na avaliação física do cliente com doença cardiovascular. Explicar as técnicas adequadas para a avaliação cardiovascular abrangente. Discriminar entre achados normais e anormais da avaliação, identicados por inspeção, palpação, percussão e ausculta do sistema cardiovascular. Reconhecer e avaliar as principais manifestações da disfunção cardiovascular por aplicação de conceitos do histórico de saúde do cliente e dos achados da avaliação física. Discutir as indicações clínicas, o preparo do cliente e outras implicações de enfermagem correlatas para os testes e procedimentos comuns aplicados para avaliar a função cardiovascular e diagnosticar as doenças cardiovasculares. Comparar os diversos métodos de monitoramento hemodinâmico (p. ex., pressão venosa central, pressão da artéria pulmonar e monitoramento da pressão arterial) em relação às indicações para a utilização, possíveis complicações e responsabilidades de enfermagem. Glossário B1: primeira bulha cardíaca produzida pelo fechamento das valvas atrioventriculares (mitral e tricúspide) B2: segunda bulha cardíaca produzida pelo fechamento das valvas semilunares (aórtica e pulmonar) B3: terceira bulha cardíaca, ruído protodiastólico quando há resistência à entrada de sangue em qualquer ventrículo; mais frequentemente decorre da sobrecarga do volume associada à insuciência cardíaca B4: quarta bulha cardíaca, ruído telediastólico quando há resistência à entrada de sangue em qualquer ventrículo durante a contração atrial; é mais frequentemente causado por hipertroa do ventrículo barorreceptores: bras nervosas localizadas no arco aórtico e nas artérias carótidas que são responsáveis pelo controle da pressão arterial cateterismo cardíaco: procedimento invasivo utilizado para aferir as pressões nas câmaras cardíacas e avaliar a perviedade das artérias coronárias clique sistólico: ruído sistólico anormal criado pela abertura de uma valva aórtica ou pulmonar calcicada durante a contração ventricular contratilidade: capacidade do músculo cardíaco de encurtar em resposta a um impulso elétrico débito cardíaco: volume de sangue bombeado por cada ventrículo, em litros por minuto décit de pulso: a diferença entre as velocidades de pulso apical e radial despolarização: ativação elétrica de uma célula causada pelo in物慲uxo de sódio para dentro da célula enquanto o potássio sai da célula diástole: período de relaxamento ventricular, que resulta no enchimento ventricular estalidos de abertura: ruído diastólico anormal gerado durante a abertura de um valva atrioventricular enrijecida fração de ejeção: porcentagem do volume sanguíneo diastólico nal ejetado do ventrículo a cada batimento cardíaco galope de soma: ruídos anormais criados por B3 e B4 durante períodos de taquicardia hipertensão: pressão arterial persistentemente superior a 140/90 mmHg hipotensão: diminuição na pressão arterial para menos de 100/60 mmHg, que compromete a perfusão sistêmica hipotensão postural (ortostática): queda signicativa da pressão arterial (sistólica de 20 mmHg ou mais) após a passagem para a posição ortostática impulso apical: impulso normalmente palpado no quinto espaço intercostal, na linha hemiclavicular esquerda; causado pela contração do ventrículo esquerdo; também denominado ponto de impulso máximo isquemia do miocárdio: condição na qual as células musculares cardíacas recebem menos oxigênio do que o necessário miocárdio: camada muscular do coração responsável pela ação de bombeamento do coração monitoramento hemodinâmico: emprego de dispositivos de monitoramento da pressão para medir diretamente a função cardiovascular nó atrioventricular (AV): marca-passo secundário do coração, localizado na parede atrial direita, próximo à valva tricúspide nó sinoatrial (SA): o marca-passo principal do coração, localizado no átrio direito pós-carga: quantidade de resistência à ejeção de sangue do ventrículo pré-carga: grau de estiramento das bras musculares cardíacas ao nal da diástole prova de esforço cardíaco: teste utilizado para avaliar o funcionamento do coração durante um período de aumento da demanda de oxigênio; pode ser iniciado com exercíciosou medicamentos radioisótopos: átomos instáveis que produzem pequenas quantidades de energia na forma de raios gama na medida em que se decompõem; utilizados em estudos de medicina nuclear cardíaca repolarização: retorno da célula ao estado de repouso, causado pela reentrada de potássio na célula enquanto o sódio sai da célula resistência vascular pulmonar: resistência ao 物慲uxo sanguíneo fora do ventrículo direito criada pelo sistema circulatório pulmonar resistência vascular sistêmica: resistência ao 物慲uxo sanguíneo para fora do ventrículo esquerdo criada pelo sistema circulatório sistêmico ruídos cardíacos normais: produzidos quando as valvas se fecham; as bulhas cardíacas normais são B1 (valvas atrioventriculares) e B2 (valvas semilunares) síndrome coronariana aguda: refere-se à ruptura de uma placa ateromatosa em uma artéria coronária doente, que forma rapidamente um trombo obstrutivo sistema de condução cardíaca: células cardíacas especializadas, localizadas estrategicamente por todo o coração, responsáveis por gerar e coordenar, de modo metódico, a transmissão dos impulsos elétricos para as células do miocárdio sístole: período de contração ventricular, que resulta na ejeção de sangue dos ventrículos para a artéria pulmonar e a aorta sopros: ruídos criados pelo 物慲uxo anormal e turbulento de sangue no coração telemetria: processo de monitoramento eletrocardiográco contínuo por transmissão de ondas de rádio emitidas por um transmissor operado por bateria utilizado pelo cliente volume sistólico: quantidade de sangue ejetada de um dos ventrículos por batimento cardíaco Mais de 82 milhões de norteamericanos apresentam um ou mais tipos de doença cardiovascular (DCV), incluindo hipertensão arterial, doença da artéria coronária (DAC), insuficiência cardíaca (IC), acidente vascular cerebral e defeitos cardiovasculares congênitos (American Heart Association [AHA], 2012). Em virtude da prevalência de DCV, as enfermeiras que trabalham em qualquer ambiente na continuidade dos cuidados, seja em domicílio, consultório, hospital, unidades de longa permanência ou de reabilitação, devem ser capazes de avaliar o sistema cardiovascular. Os principais componentes da avaliação incluem histórico de saúde, avaliação física e monitoramento de diversos resultados de exames laboratoriais e de imagem. Esta avaliação fornece os dados necessários para identificar os diagnósticos de enfermagem, formular um plano de cuidados individualizado, avaliar a resposta do cliente aos cuidados fornecidos e revisar o plano conforme necessário. Visão geral da anatomia e da fisiologia A compreensão da estrutura e da função do coração na saúde e na doença é essencial para o desenvolvimento das habilidades de avaliação cardiovascular. Anatomia do coração O coração é um órgão muscular oco localizado no centro do tórax, onde ocupa o espaço entre os pulmões (mediastino) e repousa sobre o diafragma. Pesa aproximadamente 300 g (10,6 onças); o seu peso e tamanho são influenciados pela idade, pelo sexo, pelo peso corporal, pela extensão do exercício e condicionamento físico, e por cardiopatia. O coração bombeia o sangue para os tecidos, suprindoos com oxigênio e outros nutrientes. O coração é composto por três camadas (Figura 25.1). A camada interna, ou endocárdio, é composta por tecido endotelial e reveste o interior do coração e as valvas. A camada média, ou miocárdio, é composta por fibras musculares e é responsável pela ação de bombeamento. A camada exterior do coração é denominada epicárdio. O coração está encapsulado em um saco fibroso fino denominado pericárdio, que é composto por duas camadas. Aderido ao epicárdio está o pericárdio visceral. Envelopando o pericárdio visceral está o pericárdio parietal, um tecido fibroso resistente que se liga aos grandes vasos, ao diafragma, ao esterno e à coluna vertebral e que ampara o coração no mediastino. O espaço entre estas duas camadas (espaço pericárdico) normalmente é preenchido com aproximadamente 20 mℓ de líquido, que lubrifica a superfície do coração e reduz a fricção durante a sístole. Câmaras cardíacas A ação de bombeamento do coração é realizada por meio do relaxamento e da contração rítmica das paredes musculares das suas duas câmaras superiores (átrios) e das duas câmaras inferiores (ventrículos). Durante a fase de relaxamento, denominada diástole, todas as quatro câmaras relaxam simultaneamente, o que possibilita que os ventrículos sejam preenchidos no preparo para a contração. A diástole normalmente é denominada o período de enchimento ventricular. A sístole referese aos eventos no coração durante a contração dos átrios e dos ventrículos. Diferente da diástole, a sístole atrial e ventricular não são eventos simultâneos. A sístole atrial ocorre primeiro, logo ao final da diástole, e é seguida pela sístole ventricular. Esta sincronização possibilita que os ventrículos sejam completamente preenchidos antes da ejeção do sangue de suas câmaras. O lado direito do coração, composto pelo átrio direito e pelo ventrículo direito, distribui o sangue venoso (sangue não oxigenado) para os pulmões através da artéria pulmonar (circulação pulmonar) para a oxigenação. A artéria pulmonar é a única artéria no corpo que transporta sangue não oxigenado. O átrio direito recebe o sangue venoso que retorna para o coração a partir da veia cava superior (cabeça, pescoço e membros superiores), da veia cava inferior (tronco e membros inferiores) e do seio coronário (circulação coronariana). O lado esquerdo do coração, composto pelo átrio esquerdo e pelo ventrículo esquerdo, distribui o sangue oxigenado para o restante do corpo através da aorta (circulação sistêmica). O átrio esquerdo recebe o sangue oxigenado da circulação pulmonar através de quatro veias pulmonares. O fluxo de sangue pelas quatro câmaras cardíacas é demonstrado na Figura 25.1. Figura 25.1 Estrutura do coração. As setas indicam o sentido do fluxo sanguíneo pelas câmaras cardíacas. A espessura variada das paredes atriais e ventriculares está relacionada com o esforço exigido por cada câmara. A camada miocárdica de ambos os átrios é muito mais fina do que aquela dos ventrículos, tendo em vista que há pouca resistência quando o sangue flui para fora dos átrios e para dentro dos ventrículos durante a diástole. Em contrapartida, as paredes ventriculares são muito mais espessas do que as paredes atriais. Durante a sístole ventricular, os ventrículos direito e esquerdo precisam superar a resistência ao fluxo sanguíneo dos sistemas circulatórios pulmonar e sistêmico, respectivamente. O ventrículo esquerdo é duas a três vezes mais muscular do que o ventrículo direito. Ele precisa sobrepujar as altas pressões aórtica e arterial, enquanto o ventrículo direito contrai contra um sistema de baixa pressão nas artérias pulmonares e nos capilares (Woods, Froelicher, Motzer et al., 2009). A Figura 25.2 identifica as pressões em cada uma dessas áreas. Figura 25.2 Pressões nos grandes vasos e nas câmaras. As pressões são identificadas em milímetros de mercúrio (mmHg) como pressão média ou pressão sistólica sobre diastólica. O coração encontrase em uma posição rodada na cavidade torácica. O ventrículo está localizado anteriormente (logo abaixo do esterno), e o ventrículo esquerdo, posteriormente. Como resultado desta grande proximidade da parede torácica, a pulsação criada durante a contração ventricular normal, denominada impulso apical (ou ponto de impulso máximo [PIM]), é facilmente detectada. No coração normal, o PIM está localizado na intersecção da linha hemiclavicular da parede torácica esquerda com o quinto espaço intercostal (Bickley, 2009;Woods et al., 2009). Valvas cardíacas As quatro valvas no coração possibilitam que o sangue flua em apenas um sentido. As valvas, que são compostas por finas lâminas de tecido fibroso, abrem e fecham em resposta à movimentação do sangue e às alterações da pressão nas câmaras. Existem dois tipos de valvas: AV e semilunares. Valvas atrioventriculares As valvas AV separam os átrios dos ventrículos. A valva tricúspide, assim denominada porque é composta por três válvulas, separa o átrio direito do ventrículo direito. A valva mitral ou bicúspide (duas válvulas) encontrase entre o átrio esquerdo e o ventrículo esquerdo (ver Figura 25.1). Durante a diástole, as valvas tricúspide e mitral estão abertas, possibilitando que o sangue nos átrios flua livremente para os ventrículos relaxados. Quando a a sístole ventricular tem início, os ventrículos contraem e o sangue flui para cima em direção às válvulas das valvas tricúspide e mitral, ocasionando o seu fechamento. Quando a pressão contra estas valvas aumenta, duas estruturas adicionais, os músculos papilares e as cordas tendíneas, mantêm o fechamento da valva. Os músculos papilares, localizados nas laterais das paredes ventriculares, são conectados às válvulas das valvas por meio das cordas tendíneas, que são faixas fibrosas finas. Durante a sístole ventricular, a contração dos músculos papilares faz com que as cordas tendíneas fiquem esticadas, mantendo as válvulas das valvas próximas e fechadas. Esta ação evita o fluxo retrógrado de sangue para os átrios (regurgitação) à medida que o sangue é ejetado para a artéria pulmonar e a aorta. • • Valvas semilunares As duas valvas semilunares são compostas por três válvulas, que têm formato similar ao de meiasluas. A valva entre o ventrículo direito e a artéria pulmonar é denominada valva pulmonar. A valva entre o ventrículo esquerdo e a aorta é denominada valva aórtica. As valvas semilunares são fechadas durante a diástole. Neste ponto, a pressão na artéria pulmonar e na aorta diminui, ocasionando o fluxo sanguíneo retrógrado em direção às valvas semilunares. Esta ação preenche as válvulas com sangue e fecha as valvas. As valvas semilunares são forçadas e abertas durante a sístole ventricular na medida em que o sangue é ejetado dos ventrículos direito e esquerdo para a artéria pulmonar e a aorta. Artérias coronárias As artérias coronárias esquerda e direita e seus ramos fornecem sangue arterial para o coração. Estas artérias originamse da aorta, logo acima das válvulas da valva aórtica. O coração apresenta altas exigências metabólicas, extraindo aproximadamente 70 a 80% do oxigênio administrado (outros órgãos extraem, em média, 25%) (Woods et al., 2009). Diferente das outras artérias, as artérias coronárias são perfundidas durante a diástole. Com uma frequência cardíaca normal de 60 a 80 bpm, há muito tempo durante a diástole para a perfusão do miocárdio. Entretanto, à medida que a frequência cardíaca aumenta, o tempo diastólico é abreviado, o que pode não possibilitar tempo adequado para a perfusão do miocárdio. Como resultado, os clientes correm risco de isquemia do miocárdio (aporte inadequado de oxigênio) durante as taquicardias (frequência cardíaca superior a 100 bpm), especialmente os clientes com DAC. A artéria coronária esquerda possui três ramos. A artéria desde o ponto de origem até o primeiro ramo principal é denominada artéria coronária principal esquerda. Dois ramos têm origem na artéria coronária principal esquerda: a artéria descendente anterior esquerda, que corre para baixo da parede anterior do coração, e a artéria circunflexa, que circula ao redor da parede lateral esquerda do coração. O lado direito do coração é irrigado pela artéria coronária direita, que se estende até a parede inferior do coração. A parede posterior do coração recebe seu suprimento de sangue por um ramo adicional da artéria coronária direta, denominado artéria descendente posterior (ver Figura 27.2). Superficiais às artérias coronárias estão as veias coronárias. O sangue venoso dessas veias retorna para o coração principalmente através do seio coronário, que está localizado posteriormente no átrio direito. Miocárdio O miocárdio é a camada muscular média das paredes atriais e ventriculares. É composto por células especializadas denominadas miócitos, que formam uma rede interconectada de fibras musculares. Estas fibras circundam o coração em um padrão em forma de oito, formando uma espiral a partir da base (topo) do coração até o ápice (parte inferior). Durante a contração, esta configuração muscular facilita um movimento sinuoso e compressivo do coração, que tem início nos átrios e que se movimenta até os ventrículos. O padrão sequencial e rítmico da contração, seguido pelo relaxamento das fibras musculares, maximiza o volume de sangue ejetado a cada contração. Este padrão cíclico de contração miocárdica é controlado pelo sistema de condução. Função do coração Eletrofisiologia cardíaca O sistema de condução cardíaca gera e transmite impulsos elétricos que estimulam a contração do miocárdio. Em circunstâncias normais, o sistema de condução estimula primeiramente a contração dos átrios e em seguida dos ventrículos. A sincronização dos eventos atriais e ventriculares possibilita que os ventrículos sejam preenchidos completamente antes da ejeção ventricular, maximizando, assim, o débito cardíaco. Três características fisiológicas de dois tipos de células elétricas especializadas, as células nodais e as células de Purkinje, proporcionam esta sincronização: Automaticidade: capacidade de iniciar um impulso elétrico Excitabilidade: capacidade de responder a um impulso elétrico • Condutividade: capacidade de transmitir um impulso elétrico de uma célula a outra. O nó sinoatrial (SA) (o marcapasso principal do coração) e o nó atrioventricular (AV) (o marcapasso secundário do coração) são compostos por células nodais. O nó SA está localizado na junção da veia cava superior e do átrio direito (Figura 25.3). O nó SA no coração normal de um adulto em repouso apresenta uma frequência inerente de disparo de 60 a 100 impulsos por minuto; entretanto, a frequência altera em resposta às demandas metabólicas do corpo (Weber e Kelley, 2010). Figura 25.3 Sistema de condução cardíaca. AV, atrioventricular; SA, sinoatrial. Os impulsos elétricos iniciados pelo nó SA são conduzidos ao longo das células miocárdicas dos átrios através de tratos especializados denominados vias internodais. Os impulsos causam estimulação elétrica e a subsequente contração dos átrios. Os impulsos em seguida são conduzidos até o nó AV, que está localizado na parede atrial direita, perto da valva tricúspide (Figura 25.3). O nó AV coordena os impulsos elétricos de entrada a partir do átrio e, após um discreto retardo (que possibilita aos átrios o tempo para a contração e o enchimento ventricular completo), retransmite o impulso para os ventrículos. Inicialmente, o impulso é conduzido por um feixe de tecido de condução especializado, denominado feixe de His, que em seguida se divide no ramo direito (que conduz os impulsos até o ventrículo direito) e no ramo esquerdo (que conduz os impulsos até o ventrículo esquerdo). Para transmitir os impulsos até o ventrículo esquerdo – a maior câmara do coração – o ramo esquerdo dividese nos ramos anterior esquerdo e posterior esquerdo. Os impulsos são transmitidos pelos ramos até alcançar o ponto terminal no sistema de condução, denominado fibras de Purkinje. Estas fibras são compostas pelas células de Purkinje, especializadas nacondução rápida dos impulsos através das paredes espessas dos ventrículos. Este é o ponto no qual as células miocárdicas são estimuladas, causando a contração ventricular. A frequência cardíaca é determinada pelas células miocárdicas com a mais rápida frequência inerente de disparos. Em circunstâncias normais, o nó SA apresenta a frequência inerente mais alta (60 a 100 impulsos por minuto), o nó AV apresenta a segunda frequência inerente mais alta (40 a 60 impulsos por minuto), e os locais de marcapasso ventriculares apresentam a frequência inerente mais baixa (30 a 40 impulsos por minuto) (Woods et al., 2009). Se o nó SA funciona mal, o nó AV em geral assume a função de marcapasso do coração na sua frequência inerentemente mais baixa. Se ambos os nós SA e AV falharem em sua função de marcapasso, um marcapasso no ventrículo irá disparar na sua frequência inerente (bradicárdica) de 30 a 40 impulsos por minuto. Potencial de ação cardíaco As células nodais e de Purkinje (células elétricas) geram e transmitem os impulsos por todo o coração, estimulando • • • • • os miócitos cardíacos (as células atuantes) a se contrair. A estimulação dos miócitos ocorre em virtude da troca de partículas eletricamente carregadas, denominadas íons, entre os canais localizados na membrana celular. Os canais regulam a movimentação e a velocidade de íons específicos – a saber, sódio, potássio e cálcio – na medida em que eles entram e saem da célula. O sódio entra rapidamente na célula através de canais rápidos de sódio, contrariamente ao cálcio, que entra na célula pelos canais lentos de cálcio. No estado de repouso ou polarizado, o sódio é o principal íon extracelular, enquanto o potássio é o principal íon intracelular. Esta diferença na concentração iônica significa que o interior da célula apresenta uma carga negativa, em comparação à carga positiva no exterior. Esta relação é alterada durante a estimulação celular, quando o sódio ou o cálcio cruzam a membrana celular para dentro da célula e os íons potássio saem para o espaço extracelular. Esta troca de íons cria um espaço intracelular positivamente carregado e um espaço extracelular negativamente carregado, que caracterizam o período conhecido como despolarização. Após a conclusão da despolarização, a troca de íons é revertida até o seu estado de repouso; esse período é conhecido como repolarização. O ciclo repetido de despolarização e repolarização é denominado potencial de ação cardíaco. Conforme demonstrado na Figura 25.4, o potencial de ação cardíaco apresenta cinco fases: Fase 0: a despolarização celular tem início na medida em que íons positivos realizam o influxo para dentro da célula. Durante esta fase, os miócitos atriais e ventriculares despolarizam rapidamente na medida em que o sódio se movimenta para dentro das células pelos canais rápidos de sódio. Os miócitos apresentam um potencial de ação de resposta rápido. Por outro lado, as células dos nós SA e AV despolarizam quando o cálcio entra nestas células pelos canais lentos de cálcio. Essas células apresentam um potencial de ação de resposta lento Fase 1: a repolarização celular inicial tem início durante esta fase, na medida em que o potássio sai do espaço intracelular Fase 2: esta fase é denominada fase de platô, tendo em vista que a velocidade de repolarização diminui. Os íons cálcio entram no espaço intracelular Fase 3: esta fase marca a conclusão da repolarização e o retorno das células ao seu estado de repouso Fase 4: esta fase é considerada a fase de repouso antes da próxima despolarização. Períodos refratários As células miocárdicas têm de repolarizar completamente antes que possam despolarizar novamente. Durante este tempo, as células estão em um período refratário. O período refratário apresenta duas fases: o período refratário efetivo (ou absoluto) e o período refratário relativo. Durante o período refratário efetivo, a célula é completamente não responsiva a qualquer estímulo elétrico; ela é incapaz de iniciar uma despolarização inicial. O período refratário efetivo corresponde ao tempo da fase 0 até o meio da fase 3 do potencial de ação. O período refratário relativo corresponde ao breve tempo ao final da fase 3. Durante o período refratário relativo, se um estímulo elétrico for mais forte do que o normal, a célula pode despolarizar prematuramente. As despolarizações iniciais do átrio ou do ventrículo causam contrações prematuras, colocando o cliente em risco de arritmias. As concentrações ventriculares prematuras em determinadas situações, tais como de isquemia do miocárdio, são preocupantes, pois podem acionar arritmias potencialmente fatais, incluindo taquicardia ventricular ou fibrilação ventricular. Diversas circunstâncias tornam o coração mais suscetível à despolarização prematura durante o período refratário relativo, aumentando, assim, o risco de arritmias sérias. (Essas e outras arritmias são discutidas em detalhes no Capítulo 26.) Figura 25.4 Potencial de ação cardíaca de uma fibra de Purkinje de resposta rápida. As setas indicam o tempo aproximado e o sentido do movimento de cada íon que influencia o potencial de membrana. O movimento do Ca++ para fora da célula não está bem definido, mas acreditase que ocorra durante a fase 4. Hemodinâmica cardíaca Um determinante importante do fluxo sanguíneo no sistema cardiovascular é o princípio de que o líquido flui a partir de uma região de pressão mais alta para uma de pressão mais baixa (ver Figura 25.2). As pressões responsáveis pelo fluxo sanguíneo na circulação normal são geradas durante a sístole e a diástole. Ciclo cardíaco O ciclo cardíaco referese aos eventos que ocorrem no coração a partir do início de um batimento cardíaco até o próximo. O número de ciclos cardíacos concluídos em um minuto depende da frequência cardíaca. Cada ciclo cardíaco apresenta três eventos sequenciais importantes: diástole, sístole atrial e sístole ventricular. Esses eventos fazem com que o sangue flua por todo o coração em virtude de alterações nas pressões das câmaras e na função valvar durante a diástole e a sístole. Durante a diástole, todas as quatro câmaras cardíacas ficam relaxadas. Como resultado, as valvas AV abremse e as valvas semilunares se fecham. As pressões em todas as câmaras são mais baixas durante a diástole, o que facilita o enchimento ventricular. O sangue venoso retorna para o átrio direito a partir da veia cava superior e inferior, em seguida para dentro do ventrículo direito. Do lado esquerdo, o sangue oxigenado retorna dos pulmões pelas quatro veias pulmonares para dentro do átrio e do ventrículo esquerdo. Finalizando este período diastólico, a sístole atrial ocorre à medida que os músculos atriais contraem em resposta a um impulso elétrico iniciado pelo nó SA. A sístole atrial aumenta a pressão dentro dos átrios, ejetando o sangue remanescente para dentro dos ventrículos. A sístole atrial aumenta o volume sanguíneo ventricular em 15 a 25% e às vezes é chamada pontapé atrial (Woods et al., 2009). Nesse ponto, a sístole ventricular inicia em resposta a uma propagação do impulso elétrico que teve início no nó SA alguns milissegundos antes. Iniciando a sístole ventricular, a pressão dentro dos ventrículos aumenta rapidamente, forçando o fechamento das valvas AV. Como resultado, o sangue deixa de fluir a partir dos átrios para dentro dos ventrículos, e é evitada a regurgitação (fluxo retrógrado) do sangue para dentro dos átrios. O rápido aumento da pressão dentro dos ventrículos direito e esquerdo força a abertura das valvas pulmonar e aórtica, e o sangue é ejetado para dentro da artéria pulmonar e da aorta, respectivamente. A saída de sangueinicialmente é rápida; em seguida, à medida que a pressão em cada ventrículo e na sua artéria correspondente equaliza, o fluxo de sangue diminui gradualmente. Ao final da sístole, a pressão dentro dos ventrículos direito e esquerdo diminui rapidamente. Como resultado, a pressão arterial pulmonar e a pressão aórtica diminuem, causando o fechamento das valvas semilunares. Esses eventos marcam o início da diástole, e o ciclo cardíaco é repetido. As pressões nas câmaras podem ser medidas com a utilização de cateteres e equipamentos de monitoramento especiais. Essa técnica é denominada monitoramento hemodinâmico. Os métodos de monitoramento hemodinâmico são abordados em mais detalhes ao final deste capítulo. Débito cardíaco O débito cardíaco referese à quantidade total de sangue ejetada por um dos ventrículos em litros por minuto. O débito cardíaco em um adulto em repouso é de 4 a 6 ℓ /min, mas varia muito, dependendo das necessidades metabólicas do corpo. O débito cardíaco é computado pela multiplicação do volume sistólico pela frequência cardíaca. O volume sistólico é a quantidade de sangue ejetada a partir de um dos ventrículos por batimento cardíaco. O volume sistólico médio em repouso é de aproximadamente 60 a 130 mℓ (Woods et al., 2009). Efeito da frequência cardíaca sobre o débito cardíaco. O débito cardíaco responde às alterações nas demandas metabólicas dos tecidos associadas ao estresse, aos exercícios físicos e às doenças. Para compensar essas demandas adicionais, o débito cardíaco é intensificado por aumentos no volume sistólico e na frequência cardíaca. As alterações na frequência cardíaca ocorrem em virtude da inibição ou da estimulação do nó SA mediada pelas divisões parassimpática e simpática do sistema nervoso autônomo. O equilíbrio entre esses dois sistemas de controle reflexo normalmente determina a frequência cardíaca. Os ramos do sistema nervoso parassimpático estendemse até o nó SA por meio do nervo vago. A estimulação do nervo vago reduz a frequência cardíaca. O sistema nervoso simpático aumenta a frequência cardíaca pela inervação dos locais de receptores beta1 localizados no nó SA. A frequência cardíaca é aumentada pelo sistema nervoso simpático por meio do aumento do nível de catecolaminas circulantes (secretadas pelas glândulas suprarrenais) e do excesso de hormônio tireoidiano, que tem um efeito similar ao das catecolaminas. Além disso, a frequência cardíaca é afetada pela atividade do sistema nervoso central e de barorreceptores. Os barorreceptores são células nervosas especializadas localizadas no arco aórtico e nas artérias carótidas internas direita e esquerda (no ponto de bifurcação das artérias carótidas comuns). Os barorreceptores são sensíveis às alterações da pressão arterial (PA). Durante elevações significativas da PA (hipertensão), essas células aumentam a sua frequência de descarga, transmitindo impulsos para a medula cerebral. Essa ação inicia a atividade parassimpática e inibe a resposta simpática, reduzindo a frequência cardíaca e a PA. O oposto é verdadeiro durante a hipotensão (PA baixa). A menor estimulação dos barorreceptores durante períodos de hipotensão ocasiona uma diminuição na atividade parassimpática e intensifica as respostas simpáticas. Esses mecanismos compensatórios tentam elevar a PA por meio da vasoconstrição e do aumento da frequência cardíaca. Efeito do volume sistólico sobre o débito cardíaco. O volume sistólico é determinado principalmente por três fatores: précarga, póscarga e contratilidade. A précarga referese ao grau de estiramento das fibras musculares cardíacas ventriculares ao final da diástole. O final da diástole é o período no qual o volume de enchimento nos ventrículos é o mais alto e o grau de estiramento nas fibras musculares é o maior. O volume de sangue dentro do ventrículo ao final da diástole determina a précarga, que afeta diretamente o volume sistólico. Portanto, a précarga é comumente denominada pressão diastólica final ventricular esquerda. À medida que o volume de sangue que retorna para o coração aumenta, o estiramento da fibra cardíaca também aumenta (aumento da précarga), resultando em contração mais forte e maior volume sistólico. Essa relação, denominada lei de FrankStarling (ou Starling) do coração, é mantida até ser alcançado o limite fisiológico do músculo. A lei de FrankStarling tem por base o fato de que, dentro de limites, quanto maior o comprimento ou estiramento inicial das células musculares cardíacas (sarcômeros), maior o grau de encurtamento que ocorre. Isso é o resultado da interação entre os filamentos espessos e finos nas células musculares cardíacas. A précarga é diminuída por redução no volume de sangue que retorna para os ventrículos. Diurese, agentes venodilatadores (p. ex., nitratos), perda excessiva de sangue ou desidratação (perda excessiva de líquidos corporais em virtude de vômito, diarreia ou diaforese) reduzem a précarga. A précarga é elevada com o aumento do retorno do volume de sangue circulante para os ventrículos. O controle da perda de sangue ou dos líquidos corporais e a reposição de líquidos (i. e., transfusões de sangue e administração intravenosa [IV] de líquido) são alguns meios de aumentar a précarga. A póscarga, ou resistência à ejeção de sangue do ventrículo, é a segunda determinante do volume sistólico. A resistência da PA sistêmica à ejeção ventricular esquerda é denominada resistência vascular sistêmica. A resistência da PA pulmonar à ejeção ventricular direita é denominada resistência vascular pulmonar. Existe uma relação inversa entre a póscarga e o volume sistólico. Por exemplo, a póscarga é aumentada por meio da vasoconstrição arterial, que leva à diminuição do volume sistólico. O oposto ocorre com a vasodilatação arterial, em que a póscarga é reduzida porque há menos resistência à ejeção, e o volume sistólico aumenta. Contratilidade referese à força gerada pelo miocárdio em contração. A contratilidade é intensificada por meio de catecolaminas circulantes, atividade neuronal simpática e determinados medicamentos (p. ex., digoxina, dopamina ou dobutamina). O aumento da contratilidade resulta em aumento do volume sistólico. A contratilidade é deprimida por hipoxemia, acidose e determinados medicamentos (p. ex., agentes de bloqueio betaadrenérgico, tais como atenolol). Pode haver aumento do volume sistólico cardíaco (p. ex., durante exercícios) se a précarga estiver aumentada (pelo aumento do retorno venoso), se a contratilidade estiver aumentada (pela descarga do sistema nervoso simpático), e se a póscarga estiver diminuída (pela vasodilatação periférica com diminuição da pressão aórtica). A porcentagem do volume sanguíneo diastólico final que é ejetada com cada batimento cardíaco é denominada fração de ejeção. A fração de ejeção do ventrículo esquerdo normal é de 55 a 65% (Woods et al., 2009). A fração de ejeção ventricular direita raramente é medida. A fração de ejeção é utilizada como uma medida da contratilidade miocárdica. Uma fração de ejeção inferior a 40% indica que o cliente apresenta diminuição da função ventricular esquerda e provavelmente necessita de tratamento para IC (ver Capítulo 29). Considerações gerontológicas Com a idade ocorrem alterações na estrutura e na função cardíacas. A perda da função das células em todo o sistema de condução retarda a frequência cardíaca. O tamanho do coração aumenta em virtude de hipertrofia (espessamento das paredes do coração), que reduz o volume de sangue que pode ser mantido pelas câmaras. A hipertrofiatambém altera a estrutura do miocárdio, reduzindo a força de contração. Ambas alterações afetam negativamente o débito cardíaco. As valvas, em virtude do enrijecimento, deixam de fechar adequadamente. O fluxo retrógrado de sangue resultante cria sopros cardíacos, um achado comum em idosos (Bickley, 2009; Boltz, Capezuti, Fulmer et al., 2012; Woods et al., 2009). O coração de um indivíduo idoso não consegue compensar rapidamente os aumentos nas demandas metabólicas em virtude de estresse, exercícios ou doença. Nessas situações, ele pode se tornar sintomático, com fadiga, falta de ar ou palpitações, e apresentar novos achados ao exame físico (Boltz et al., 2012). As alterações estruturais e funcionais com o envelhecimento e o histórico correlato e os achados de exame físico estão resumidos na Tabela 25.1. Considerações sobre o sexo As diferenças estruturais entre os corações de homens e mulheres têm implicações significativas. O coração de uma mulher tende a ser menor do que o de um homem. As artérias coronárias de uma mulher também são de diâmetro mais estreito do que as artérias de um homem. Quando ocorre aterosclerose, essas diferenças tornam procedimentos como cateterismo cardíaco e angioplastia tecnicamente mais difíceis. As mulheres tipicamente desenvolvem DAC 10 anos mais tarde do que os homens, graças aos efeitos cardioprotetores do hormônio feminino estrogênio. Os três principais efeitos do estrogênio são (1) elevação das concentrações da lipoproteína de alta densidade (HDL), que transporta o colesterol para fora das artérias; (2) redução das concentrações da lipoproteína de baixa densidade (LDL), que deposita o colesterol nas artérias; e (3) dilatação dos vasos sanguíneos, que intensifica o fluxo sanguíneo para o coração. Quando as mulheres chegam à menopausa, aproximadamente aos 50 anos de idade, os níveis de estrogênio desaparecem lentamente e colocam as mulheres em maior risco de DAC. Aos 65 anos de idade, o risco de DAC das mulheres é equivalente ao dos homens. No passado, a terapia hormonal era prescrita de modo rotineiro para as mulheres na pósmenopausa com a crença de que deteria o início e a progressão da DAC. Entretanto, com base nos resultados do estudo multicêntrico, prospectivo e longitudinal Women’s Health Initiative, a AHA deixou de recomendar a utilização de terapia hormonal como estratégia de prevenção para as mulheres. Nas diretrizes da AHA mais recentemente publicadas sobre prevenção primária de DAC em mulheres, observase que a terapia hormonal (estrogênio) não é efetiva e pode ser prejudicial (Mosca, Benjamin, Berra et al., 2011). Avaliação do sistema cardiovascular A frequência e a magnitude da avaliação de enfermagem da função cardiovascular têm por base diversos fatores, incluindo a intensidade dos sinais e sintomas do cliente, a presença de fatores de risco, o ambiente da prática e a finalidade da avaliação. Um cliente agudamente enfermo com DCV que é admitido em prontosocorro (PS) ou unidade de terapia intensiva (UTI) coronariana precisa de uma avaliação muito diferente daquela de uma pessoa que está sendo examinada por causa de uma condição crônica estável. Embora os principais componentes da avaliação cardiovascular permaneçam os mesmos, as prioridades da avaliação variam de acordo com as necessidades do cliente. Por exemplo, uma enfermeira do PS realiza uma avaliação rápida e focada de um cliente com suspeita de síndrome coronariana aguda (SCA), ou ruptura de uma placa ateromatosa em uma artéria coronária. O diagnóstico e o tratamento devem ser declarados minutos após a chegada ao PS. A avaliação física está senso feita e se concentra na avaliação do cliente em relação a complicações da SCA, tais como arritmias e IC, e na determinação da efetividade do tratamento clínico. TABELA 25.1 Alterações do sistema cardíaco relacionadas com a idade. Estrutura cardiovascular Alterações estruturais Alterações funcionais Histórico e achados físicos Átrios ↑ Tamanho do átrio esquerdo Espessamento do endocárdio ↑ Irritabilidade atrial Ritmo cardíaco irregular em virtude de arritmias atriais Ventrículo esquerdo Fibrose do endocárdio Espessamento do miocárdio (hipertroa) Inltração de lipídios no miocárdio Ventrículo esquerdo rígido e menos complacente Declínio progressivo do débito cardíaco Fadiga ↓ Tolerância aos exercícios Sinais e sintomas de insuciência cardíaca ou arritmias ventriculares ↑ Risco de arritmias ventriculares Prolongamento da sístole Ponto de impulso máximo palpado lateral à linha hemiclavicular ↓ Intensidade de B1, B2; desdobramento de B2 Pode haver B4 Valvas Espessamento e rigidez das valvas AV Calcicação da valva aórtica Fluxo sanguíneo anormal entre as valvas durante o ciclo cardíaco Pode haver sopros O frêmito pode ser palpado, se houver sopro signicativo Sistema de condução Acúmulos de tecido conjuntivo em nó SA, nó AV e ramos ↓ Quantidade de células no nó SA ↓ Quantidade de células AV, em feixe de His e ramos direito e esquerdo Descarga de impulsos pelo nó SA mais lenta Diminuição da condução através do nó AV e do sistema de condução ventricular Bradicardia BAV Alterações no ECG compatíveis com condução mais lenta (↑ intervalo PR, complexo QRS alargado) Sistema nervoso simpático ↓ Resposta à estimulação beta- adrenérgica ↓ Resposta adaptativa aos exercícios: resposta mais lenta da contratilidade e da frequência cardíaca às demandas dos exercícios A frequência cardíaca demora mais tempo para retornar ao valor basal Fadiga Diminuição da tolerância aos exercícios ↓ Capacidade de responder ao estresse Aorta e artérias Enrijecimento da vasculatura ↓ Elasticidade e alargamento da aorta Hipertroa ventricular esquerda Aumento progressivo da PA sistólica; ↑ discreto da PA diastólica Ampliação da pressão diferencial • • • • • • Alongamento da aorta, que desloca a artéria braquiocefálica para cima Pulsação visível acima da clavícula direita Resposta de barorreceptores ↓ Sensibilidade dos barorreceptores na artéria carótida e na aorta com episódios temporários de hipertensão e hipotensão Barorreceptores incapazes de regular a frequência cardíaca e o tônus vascular, causando resposta lenta às alterações posturais na posição corporal Alterações da PA postural e relatos de sensação de tontura, desmaio ao se movimentar de uma posição deitada para sentada ou ortostática AV, atrioventricular; BAV, bloqueio atrioventricular; SA, sinoatrial; ECG, eletrocardiográficas; PA, pressão arterial. Adaptada de Aronow WS, Fleg JL, Pepine CJ et al. (2011). ACCF/AHA 2011 expert consensus document on hypertension in the elderly: A report of the American College of Cardiology Foundation Task Force on Clinical Expert Consensus Documents. Journal of the American College of Cardiology, 57(20), 24342506; Bickley LS. (2009). Bates’ guide to physical examination and history taking (9th ed.). Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins; Boltz M, Capezuti E, Fulmer T et al. (2012). Evidencebased geriatric nursing: Protocols for best practice (4th ed.). New York: Springhouse. Histórico de saúde A capacidade do cliente de reconhecer os sintomas cardíacos e saber o que fazer quando eles ocorrem é essencial para tratamento efetivo com autocuidados. Com muita frequência, os novos sintomas de um cliente, ou aqueles de disfunção cardíaca progressiva, não são reconhecidos. Isso resulta em adiamentos prolongados na busca do tratamento de salvamento da vida. As principais barreiras à busca do tratamento clínico imediato incluem falta de conhecimentos a respeito dos sintomas de cardiopatia, atribuição dos sintomas a uma fonte benigna, negação da importância dos sintomas e sentimento de vergonha por apresentar os sintomas(Moser, Kimble, Alberts et al., 2007). Portanto, durante o histórico de saúde, a enfermeira precisa determinar se o cliente e os familiares envolvidos são capazes de reconhecer os sintomas de um problema cardíaco agudo, tal como SCA ou IC, e buscar o rápido tratamento para esses sintomas. As respostas a este nível de indagação auxiliarão a enfermeira a individualizar o plano para a instrução do cliente e da família. Sintomas comuns Os sinais e os sintomas apresentados por pessoas com DCV estão relacionados com arritmias e problemas de condução (ver Capítulo 26); DAC (ver Capítulo 27); distúrbios estruturais, infecciosos e inflamatórios do coração (ver Capítulo 28); e complicações de DCV, tais como IC e choque cardiogênico (ver Capítulos 29 e 14, respectivamente). Esses distúrbios apresentam muitos sinais e sintomas em comum; portanto, a enfermeira deve ser habilidosa no reconhecimento desses sinais e sintomas, de modo que os clientes recebam cuidados imediatos, e de salvamento da vida. Os seguintes são os sinais e sintomas mais comuns de DCV, com os diagnósticos clínicos correlatos entre parênteses: Dor ou desconforto torácico (angina de peito, SCA, arritmias, valvopatia cardíaca) Dispneia (SCA, choque cardiogênico, IC, valvopatia cardíaca) Edema periférico, ganho ponderal, distensão abdominal em virtude de aumento do baço e do fígado ou ascite (IC) Palpitações (taquicardia em virtude de uma diversidade de causas, incluindo SCA, cafeína ou outros estimulantes, desequilíbrios eletrolíticos, estresse, valvopatia cardíaca, aneurismas ventriculares) Fadiga incomum, por vezes denominada exaustão vital (um sintoma de alerta inicial de SCA, IC ou valvopatia cardíaca, caracterizada pela sensação de cansaço ou fadiga incomum, irritação e abatimento) Tontura, síncope ou alterações no nível de consciência (choque cardiogênico, distúrbios vasculares cerebrais, arritmias, hipotensão, hipotensão postural, episódio vasovagal). Dor torácica A dor torácica e o desconforto torácico são sintomas comuns, que podem ser causados por uma diversidade de problemas cardíacos e não cardíacos. A Tabela 25.2 resume as características e os padrões de causas comuns de dor • • • ou desconforto torácico. Para diferenciar essas causas de dor, a enfermeira solicita ao cliente que identifique a quantidade (0 = nenhuma dor a 10 = pior dor), a localização e a qualidade da dor. A enfermeira avalia em relação à irradiação da dor até outras áreas do corpo e determina se estão presentes sinais e sintomas associados, tais como diaforese ou náuseas. É importante identificar os eventos que precipitam o início dos sintomas, a duração dos sintomas e as medidas que agravam ou aliviam os sintomas. A enfermeira deve ter em mente os importantes pontos a seguir ao avaliar os clientes que relatam dor ou desconforto torácico: A localização dos sintomas torácicos não está bem correlacionada com a causa da dor. Por exemplo, a dor torácica subesternal pode ter várias causas, conforme resumido na Tabela 25.2 A gravidade ou a duração da dor ou do desconforto torácico não prevê a seriedade da sua causa. Por exemplo, quando solicitados a classificar a dor com a utilização de uma escala de 0 a 10, os clientes que apresentam espasmo esofágico podem classificar a sua dor torácica como 10. Por outro lado, os clientes que apresentam um infarto agudo do miocárdio (IAM) agudo, que é um evento potencialmente fatal, podem relatar a apresentação de dor moderada, classificada como quatro a seis na escala da dor Mais de uma condição cardíaca clínica pode ocorrer simultaneamente. Durante um IAM, os clientes podem relatar dor torácica em virtude de isquemia do miocárdio, falta de ar em virtude de IC e palpitações em virtude de arritmias. O IC e as arritmias podem ser complicações de um IAM. (Ver Capítulo 27 para a discussão sobre as manifestações clínicas de SCA, incluindo IAM.) História patológica pregressa, história familiar e história social O histórico de saúde proporciona uma oportunidade para que a enfermeira avalie a compreensão dos clientes a respeito dos seus fatores de risco pessoais para doenças coronarianas, vasculares periféricas e vasculares cerebrais (ver Boxe 27.1), e quaisquer medidas que estejam adotando para modificar esses riscos. Os fatores de risco são classificados pela extensão em que podem ser modificados pela alteração do estilo de vida ou a modificação dos comportamentos pessoais de uma pessoa. TABELA 25.2 Avaliação da dor torácica. Localização Característica Duração Eventos desencadeantes e fatores de agravamento Fatores de alívio Angina de peito SCA (angina instável, IAM) Angina: pressão desconfortável, aperto, ou repleção na área torácica subesternal Pode se irradiar pelo tórax até a face medial de um ou ambos os braços e mãos, mandíbula, ombros, parte superior das costas ou epigástrio Irradiação até os braços e as mãos, descrita como dormência, formigamento, ou dor SCA: Igual à angina de peito A dor ou o desconforto varia de leve a intensa Associada a dispneia, diaforese, palpitações, fadiga incomum e náuseas Angina: 5 a 15 min SCA: > 15 min Angina: Esforço físico, aborrecimento emocional, ingestão de refeição volumosa ou exposição a extremos de temperatura SCA: Transtorno emocional ou esforço físico incomum, ocorrência nas 24 h anteriores ao aparecimento do sintoma Pode ocorrer em repouso ou durante o sono Angina: Repouso, nitroglicerina, oxigênio SCA: Morna, reperfusão da artéria coronária com agente trombolítico (brinolítico) ou intervenção coronariana percutânea ou vômitos Pericardite Dor subesternal ou epigástrica aguda e grave Pode se irradiar até o pescoço, braços e costas Os sintomas correlatos incluem febre, mal-estar, dispneia, tosse, náuseas, tontura e palpitações Intermitente Início súbito A dor piora com a inspiração, deglutição, tosse e rotação do tronco Sentar com as costas retas, analgesia, medicamentos anti-in物慲amatórios Distúrbios pulmonares (pneumonia, embolia pulmonar) Dor subesternal ou epigástrica aguda e grave, com origem na parte inferior da pleura (denominada dor pleurítica) O cliente pode ser capaz de localizar a dor ≥ 30 min Após um processo infeccioso ou não infeccioso (IAM, cirurgia cardíaca, câncer, distúrbios imunes, uremia) A dor pleurítica aumenta com a inspiração, tosse, movimentação e decúbito dorsal Ocorre juntamente com infecções pulmonares contraídas na comunidade ou hospital (pneumonia) ou tromboembolismo venoso (embolismo pulmonar) Tratamento da causa de base Distúrbios esofágicos (hérnia de hiato, esofagite por re物慲uxo ou espasmo) Dor subesternal descrita como aguda, com queimação, ou forte Com frequência mimetiza angina Pode se irradiar até o pescoço, braço ou ombros Cinco a 60 min Decúbito, líquido gelado, exercícios físicos Alimento ou antiácido Nitroglicerina Ansiedade e transtorno do pânico Dor descrita como dor penetrante a fraca Associada a diaforese, palpitações, falta de ar, formigamento das mãos ou da boca, sensação de estar fora da realidade, ou temor de perder o controle Atinge seu máximo em 10 min Pode ocorrer em qualquer horário, inclusive durante o sono Pode ser associada a um fator desencadeante especíco Remoção do estímulo, relaxamento, medicamentos para tratar a ansiedade ou o distúrbio de base Distúrbios musculoesqueléticos (costocondrite) Dor aguda ou penetrante localizada na parte anterior do tórax Com mais frequência unilateral Pode se irradiar pelo tórax até o epigástrio ou as costas Horas a dias Com mais frequência após infecção do trato respiratório com tosse signicativa, exercícios vigorosos ou pós- traumatismo Alguns casos são idiopáticos Exacerbados por inspiraçãoRepouso, gelo ou calor Medicamentos analgésicos ou anti-in物慲amatórios • • • • • • • • • • profunda, tosse, espirros e movimentação da parte superior do torso ou dos braços SCA, Síndrome coronariana aguda; IAM, infarto agudo do miocárdio. Adaptada de Bickley LS. (2009). Bates’ guide to physical examination and history taking (9th ed.). Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins; DeVon HA, Ryan CJ, Rankin SH et al. (2010). Classifying subgroups of patients with symptoms of acute coronary syndrome: A cluster analysis. Research in Nursing and Health, 33, 386397; e Woods SL, Froelicher ES, Motzer SA et al. (2009). Cardiac nursing (6th ed.). Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins. Em um esforço para determinar como o cliente percebe o seu atual status de saúde, a enfermeira deve indagar algumas das perguntas a seguir: Como está a sua saúde? Você observou quaisquer alterações desde o ano passado? Nos últimos 5 anos? Você tem um cardiologista ou médico? Com que frequência você realiza checkups? Quais preocupações de saúde você apresenta? Você tem história familiar de distúrbios genéticos que impliquem risco para DCV (Boxe 25.1)? Quais são os seus fatores de risco para cardiopatia (ver Boxe 27.1)? O que você faz para continuar saudável e cuidar do seu coração? Os clientes que não compreendem que os seus comportamentos ou diagnósticos impõem uma ameaça à sua saúde podem estar menos motivados a alterar o estilo de vida ou tratar da sua doença efetivamente. Entretanto, os clientes que percebem que os seus fatores de risco modificáveis em relação à cardiopatia afetam a sua saúde e que acreditam que têm o poder de modificálos ou alterálos podem apresentar maior probabilidade de alterar esses comportamentos. A AHA publicou diretrizes que identificam intervenções e objetivos de tratamento para cada um dos fatores de risco cardíaco (Smith, Benjamin, Bonow et al., 2011). (O Capítulo 27 fornece uma visão geral sobre essas informações.) Medicamentos As enfermeiras colaboram com os médicos e os farmacêuticos para obter uma lista completa dos medicamentos dos clientes, incluindo dose e frequência. Vitaminas, fitoterápicos e outros medicamentos de venda livre são incluídos nessa lista. Durante esta parte da avaliação de saúde, a enfermeira faz as seguintes perguntas para assegurar que o cliente está administrando de modo seguro e eficaz os medicamentos prescritos Boxe 25.1 GENÉTICA NA PRÁTICA DE ENFERMAGEM Distúrbios cardiovasculares Diversos distúrbios cardiovasculares estão associados a anormalidades genéticas. Alguns exemplos são: Hipercolesterolemia familiar Miocardiopatia hipertróca Síndrome do QT longo Hemocromatose hereditária Elevação dos níveis de homocisteína. Avaliações de enfermagem Avaliação da história familiar • • • • • • • • • • • • • • • • • • • • Avalie todos os clientes com sintomas cardiovasculares em relação à doença da artéria coronária (DAC), independentemente da idade (ocorre DAC de início prematuro) Avalie a história familiar de morte súbita em pessoas que possam ou não ter sido diagnosticadas com DAC (especialmente de início prematuro) Indague a respeito de morte súbita em criança, adolescente ou adulto anteriormente sintomático Indague a respeito de outros familiares com condições bioquímicas ou neuromusculares (p. ex., hemocromatose ou distroa muscular) Avalie se foi realizado teste de mutação de DNA ou outro teste genético em um familiar afetado. Avaliação do cliente Avalie sinais e sintomas de hiperlipidemias (xantomas, arco corneano, dor abdominal de origem inexplicada) Avalie quanto à fraqueza muscular. Manejo de questões especícas à genética Se indicado, encaminhe para aconselhamento genético e avaliação adicional, de modo que a família possa discutir a herança, o risco para outros familiares e a disponibilidade de testes genéticos, bem como intervenções com base genética Ofereça informações e recursos genéticos apropriados Forneça suporte para as famílias recentemente diagnosticadas com doença cardiovascular relacionada com a genética. Recursos sobre genética Consulte no Capítulo 8, Boxe 8.6, os recursos sobre genética. Quais são os nomes e as doses dos seus medicamentos? Qual é a finalidade de cada um desses medicamentos? Como e quando esses medicamentos são administrados? Às vezes você pula uma dose ou se esquece da sua administração? Há alguma precaução especial associada a qualquer um desses medicamentos? Quais sintomas ou problemas você precisa relatar ao seu médico? O ácido acetilsalicílico (AAS) é um medicamento de venda livre que melhora os resultados em clientes com DAC quando administrado diariamente (Levine, Bates, Blankenship et al., 2011). Entretanto, se os clientes não tiverem conhecimento sobre este benefício, podem se sentir inclinados a interromper o uso do AAS se pensarem que este é um medicamento trivial. Um cuidadoso histórico medicamentoso com frequência revela erros de medicação comuns e as causas para a não adesão ao esquema de medicamentos. Nutrição Modificações alimentares, exercícios, perda de peso e monitoramento cuidadoso são estratégias importantes para o tratamento dos três principais fatores de risco cardiovascular: hiperlipidemia, hipertensão e diabetes. Dietas que são restritas em sódio, gorduras, colesterol ou calorias são comumente prescritas. A enfermeira obtém as informações a seguir: A altura e o peso atuais do cliente (para determinar o índice de massa corporal [IMC]); medição da cintura (avaliação em relação à obesidade); PA; e quaisquer resultados de exames laboratoriais, tais como glicose sérica, hemoglobina glicosilada (diabetes melito), colesterol sérico total, níveis de HDL e LDL, e níveis de triglicerídios (hiperlipidemia) Com que frequência o cliente automonitora a PA, a glicose sérica e o peso corporal, conforme apropriado para os diagnósticos clínicos O nível de conhecimento do cliente a respeito dos seus objetivosalvo para cada um dos fatores de risco e qualquer problema para alcançar ou manter esses objetivos O que o cliente normalmente come e bebe em 1 dia típico e quaisquer preferências alimentares (incluindo preferências culturais ou étnicas) Hábitos alimentares (alimentos enlatados ou comercialmente preparados versus alimentos frescos, comida de restaurante versus comida caseira, avaliação em relação a alimentos com alto teor de sódio, ingestão alimentar de gorduras) • Quem compra os mantimentos e prepara as refeições. Eliminação Os hábitos intestinais e vesicais típicos precisam ser identificados. A noctúria (acordar à noite para urinar) é comum em clientes com IC. O líquido acumulado em tecidos dependente da gravidade (membros) durante o dia (i. e., edema) redistribuise no sistema circulatório quando o cliente deita à noite. O aumento do volume circulatório é excretado pelos rins (aumento da produção de urina). Durante a defecação, o cliente faz força para baixo (a manobra de Valsalva), o que aumenta momentaneamente a pressão sobre os barorreceptores. Isso ocasiona uma resposta vagal, fazendo com que a frequência cardíaca diminua e cause síncope em alguns clientes. O esforço durante a micção pode provocar a mesma resposta. Tendo em vista que muitos medicamentos com efeitos cardíacos podem causar efeitos colaterais ou hemorragia digestiva, a enfermeira indaga a respeito de edema, diarreia, constipação intestinal, desconforto estomacal, queimação, perda de apetite, náuseas, e vômito. A triagem em relação ao sangue em urina ou fezes deve ser realizada para os clientes em uso de inibidores plaquetários, tais como ácido acetilsalicílico e clopidogrel; inibidores da agregação plaquetária, tais como abciximabe, eptifibatida e tirofibam; e anticoagulantes, tais como heparina de baixo peso molecular (p. ex., dalteparina,enoxaparina), heparina ou varfarina. Atividade e exercícios As alterações na tolerância do cliente às atividades com frequência são graduais e podem não ser percebidas. A enfermeira determina se há alterações recentes quando compara o atual nível de atividade do cliente ao dos últimos 6 a 12 meses. Novos sintomas ou uma alteração nos sintomas habituais durante a atividade são achados significativos. A angina ou falta de ar induzida por atividades pode indicar DAC. Esses sintomas relacionados com a DAC ocorrem quando há isquemia do miocárdio, em virtude de um suprimento de sangue arterial inadequado para o miocárdio, na condição de aumento da demanda (p. ex., exercícios físicos, estresse ou anemia). Os clientes que apresentam esses tipos de sintomas precisam buscar atenção médica. A fadiga, associada a uma fração de ejeção ventricular esquerda baixa (inferior a 40%) e determinados medicamentos (p. ex., agentes de bloqueio beta adrenérgico), pode resultar em intolerância à atividade. Clientes com fadiga podem se beneficiar do ajuste de seus medicamentos e do aprendizado de técnicas de conservação de energia. Outras áreas que ainda podem ser exploradas são as barreiras físicas do domicílio (escadas, domicílio com muitos desníveis); a participação do cliente na reabilitação cardíaca e seu atual padrão de exercícios, incluindo intensidade, duração e frequência). Sono e repouso Indicações de piora da cardiopatia, em especial da IC, podem ser reveladas por eventos relacionados com o sono. Clientes com piora da IC frequentemente apresentam ortopneia, ou seja, necessidade de se sentar com as costas retificadas ou ficar em pé para evitar a sensação de falta de ar. Clientes que apresentam ortopneia relatam que precisam dormir em posição sentada em uma cadeira ou adicionar travesseiros extras em sua cama. Acordar subitamente com falta de ar, dispneia paroxística noturna, é um sintoma adicional de piora da IC. Este sintoma noturno é causado pela reabsorção de líquido de áreas dependentes do corpo (braços e pernas) de volta para o sistema circulatório dentro de horas após deitar na cama. Esta alteração súbita do líquido aumenta a précarga e impõe o aumento da demanda sobre o coração dos clientes com IC, causando congestão pulmonar súbita. Autopercepção e autoconceito A autopercepção e o autoconceito estão, ambos, relacionados com os processos cognitivos e emocionais que as pessoas utilizam para formular suas crenças e sentimentos a respeito de si mesmas. Uma cardiopatia crônica, tal como IC, ou um evento cardíaco agudo, como um IAM, podem alterar a autopercepção e o autoconceito de um indivíduo. A enfermeira deve compreender que as crenças e os sentimentos dos clientes a respeito da sua saúde são os principais determinantes na adesão às recomendações do esquema de saúde e na recuperação após um evento cardíaco agudo (Heydari, Ahrari e Vaghee, 2011). Para reduzir o risco de futuros problemas de saúde relacionados com o sistema cardiovascular, solicitase aos clientes que realizem alterações difíceis no estilo de vida, como deixar • • • • • de fumar. Os clientes que têm percepções errôneas a respeito das consequências da doença sobre a sua saúde podem não aderir a essas alterações no estilo de vida recomendadas. Baseiase no histórico de saúde para descobrir como os clientes percebem a sua saúde. Podem ser feitas as seguintes perguntas: Qual é a sua condição cardíaca? Como esta doença alterou os seus sentimentos a respeito da sua saúde? O que você acha que causou esta doença? Quais consequências você acha que esta doença terá sobre a sua atividade física, seu trabalho, as relações sociais e o papel na sua família? O quanto você acha que pode controlar essa doença? As respostas do cliente a estas questões podem orientar a enfermeira no planejamento de intervenções para assegurar que o cliente está preparado para tratar a doença e que os serviços adequados estejam disponíveis para o amparo da recuperação do cliente e das necessidades de autotratamento. Papéis e relações As hospitalizações devidas a distúrbios cardíacos diminuíram, e muitos procedimentos cardíacos diagnósticos invasivos, tais como cateterismo cardíaco e intervenção coronariana percutânea (ICP), são realizados como procedimentos ambulatoriais. Portanto, a enfermeira no ambiente hospitalar precisa avaliar os sistemas de suporte aos quais o cliente possa ter acesso após a alta. Para avaliar os sistemas de suporte, a enfermeira precisa indagar: Quem é o médico do cliente? Com quem o cliente vive? Há serviços adequados disponíveis para proporcionar um ambiente domiciliar seguro? A enfermeira também avalia quaisquer efeitos significativos que a cardiopatia teve sobre o papel do cliente na família. Há quaisquer finanças e seguro de saúde? As respostas a estas perguntas ajudam a enfermeira a desenvolver um plano para atender as necessidades de cuidados domiciliares do cliente. Sexualidade e reprodução Embora as pessoas que se recuperam de cardiopatias ou procedimentos cardíacos geralmente se preocupem sobre a sua atividade sexual, provavelmente não solicitarão à sua enfermeira ou a outro profissional de saúde informações que possam as auxiliar na retomada da sua vida sexual normal. Portanto, a enfermeira precisa iniciar uma conversa sobre sexualidade com o cliente. Os motivos mais citados para as alterações na atividade sexual são o temor de outro IAM ou morte súbita; sintomas desfavoráveis, tais como angina, dispneia ou palpitações; e problemas com disfunção erétil ou depressão. Nos homens, a impotência pode se desenvolver como efeito colateral dos medicamentos cardíacos (p. ex., betabloqueadores); por conta disso, alguns homens abandonam o tratamento com esses medicamentos. Outros medicamentos podem ser substituídos, de modo que os clientes devem ser encorajados a discutir este problema com os seus profissionais de saúde. Com frequência, os clientes e suas parceiras não têm informações adequadas a sobre as demandas físicas relacionadas com a atividade sexual e de que modo elas podem ser modificadas. As demandas fisiológicas associadas à atividade sexual variam entre três e cinco equivalentes metabólicos (MET), o que é similar aos MET despendidos durante a atividade leve a moderada. A variação nos MET despendidos reflete a idade, o nível de condicionamento físico e a DCV do cliente (Levine, Steinke, Bakaeen et al., 2012). O compartilhamento dessas informações pode confortar o cliente e sua parceira com a retomada da atividade sexual. Um histórico reprodutivo é necessário para as mulheres em idade fértil, em particular aquelas com função cardíaca seriamente comprometida. O histórico reprodutivo inclui informações a respeito de gestações anteriores, planos para gestações futuras, uso de anticoncepcional oral (especialmente tabagistas com mais de 35 anos), menopausa e utilização de terapia hormonal. Enfrentamento e tolerância ao estresse Ansiedade, depressão e estresse sabidamente influenciam o desenvolvimento e a recuperação de DAC e IC. Níveis altos de ansiedade estão associados a aumento da incidência de DAC e das taxas de complicação hospitalar após IAM. Clientes com diagnóstico de IAM agudo e depressão apresentam maior risco de rehospitalização, morte, • • • • • • angina mais frequente, mais limitações físicas e pior qualidade de vida em comparação aos clientes sem depressão (Brown, Stewart, Stump et al., 2011). Embora a associação entre depressão e DAC não seja completamente compreendida, os fatores biológicos (p. ex., anormalidades plaquetárias,respostas inflamatórias) e os fatores do estilo de vida podem contribuir para o desenvolvimento de DAC. Clientes deprimidos são menos motivados a aderir às alterações no estilo de vida recomendadas e aos esquemas farmacológicos necessários para prevenir eventos cardíacos futuros, tais como IAM (Bigger e Glassman, 2010). Clientes com DAC ou insuficiência cardíaca devem ser avaliados em relação à depressão. Os clientes com depressão exibem sinais e sintomas comuns, tais como sentimentos de inutilidade ou culpa, problemas para dormir ou permanecer acordados, têm pouco interesse ou prazer em realizar coisas de que habitualmente gostam, têm dificuldade de concentração, inquietação e alterações recentes no apetite ou no peso. Uma ferramenta de triagem rápida e simples recomendada pela AHA é o Patient Health Questionnaire de duas perguntas (PHQ2) (Bigger e Glassman, 2010). A enfermeira indaga ao cliente o que segue: Ao longo das últimas 2 semanas, com que frequência você teve algum dos problemas a seguir? Teve pouco interesse ou prazer em fazer coisas Sentiuse desanimado, deprimido ou desesperançado. A enfermeira pontua as respostas do cliente a cada pergunta ao atribuir 0 para “absolutamente nenhuma”, 1 para “alguns dias”, 2 para “mais da metade dos dias”, ou 3 para “quase todos os dias”. A pontuação do PHQ2 varia de 0 a 6. Clientes com uma pontuação de 3 ou superior podem estar com depressão importante e devem ser encaminhados para avaliação adicional e tratamento. O estresse desencadeia várias respostas, incluindo aumento dos níveis de catecolaminas e cortisol, e foi fortemente ligado a eventos cardiovasculares, tais como IAM. Portanto, os clientes precisam ser avaliados em relação às fontes de estresse; a enfermeira deve indagar a respeito de fatores de estresse recentes ou atuais, de estilos de enfrentamento anteriores e eficácia dos mesmos, e da percepção do cliente a respeito do seu humor atual e sua capacidade de enfrentamento. Uma ferramenta muito utilizada para medir o estresse da vida é a Social Readjustment Rating Scale (Escala de Classificação de Reajuste Social) (Homes e Rahe, 1967). Exemplos de itens nesta escala incluem morte de um cônjuge, divórcio e alteração nas responsabilidades no trabalho. Cada item recebe uma pontuação de 11 a 100. Os clientes identificam os itens que ocorreram com eles no ano anterior. Os clientes com uma pontuação inferior a 150 correm risco discreto de doença futura, enquanto uma pontuação de 150 a 299 indica risco moderado. Uma pontuação de 300 ou superior indica alto risco de doença futura. A consulta com psicólogo, psiquiatra ou assistente social é indicada para clientes ansiosos ou deprimidos ou aqueles clientes que apresentam dificuldade de enfrentamento com a sua cardiopatia. Avaliação física A avaliação física é conduzida para confirmar as informações obtidas no histórico de saúde, para estabelecer a condição atual ou basal do cliente, e, nas avaliações subsequentes, avaliar a resposta do cliente ao tratamento. Após a avaliação física inicial ser concluída, a frequência das avaliações futuras é determinada pela finalidade do encontro e pela condição do cliente. Por exemplo, uma avaliação cardíaca focada pode ser realizada a cada consulta ambulatorial, enquanto clientes no ambiente de cuidados agudos podem necessitar de uma avaliação mais minuciosa no mínimo a cada 8 h. Durante a avaliação física, a enfermeira avalia o sistema cardiovascular à procura de desvios do normal (exemplos de anormalidades estão entre parênteses): O coração como uma bomba (redução da pressão diferencial, deslocamento do PIM da linha hemiclavicular no quinto espaço intercostal, ruídos de galope, sopros) Volumes de enchimento e pressões atriais e ventriculares (elevação da distensão venosa jugular, edema periférico, ascite, estertores crepitantes, alterações posturais da PA) Débito cardíaco (redução da pressão diferencial, hipotensão, taquicardia, redução do débito urinário, letargia, ou desorientação) Mecanismos compensatórios (vasoconstrição periférica, taquicardia). Aspecto geral Esta parte da avaliação concentrase no nível de consciência (alerta, letárgico, estuporado, comatoso) e no estado mental (orientado para pessoa, local, tempo; coerência) do cliente. As alterações no nível de consciência e no estado mental podem ser atribuídas à perfusão inadequada do cérebro em virtude de um comprometimento do débito cardíaco ou evento tromboembólico (acidente vascular cerebral). Os clientes são observados em relação a sinais de angústia, que incluem dor ou desconforto, falta de ar ou ansiedade. A enfermeira observa o tamanho do cliente (normal, sobrepeso, subpeso ou caquético). A altura e o peso do cliente são medidos para calcular o IMC (peso em quilogramas/quadrado da altura em metros), bem como a circunferência da cintura (ver Capítulo 5). Estas medidas são utilizadas para determinar se a obesidade (IMC superior a 30 kg/m2) e a gordura abdominal (homens: cintura superior a 101,5 cm; mulheres: cintura superior a 89 cm) colocam o cliente em risco para DAC. Avaliação da pele e dos membros O exame da pele inclui todas as superfícies corporais, e inicia na cabeça e termina nos membros inferiores. A cor, a temperatura e a textura da pele são avaliadas em relação a problemas agudos e crônicos com a circulação arterial ou venosa. A Tabela 25.3 resume os achados cutâneos comuns em clientes com DCV. As alterações mais dignas de nota incluem as seguintes: TABELA 25.3 Achados cutâneos comuns associados à doença cardiovascular. Achados Causas e condições correlatas Baqueteamento dos dedos das mãos ou dos pés (espessamento da pele sob os dedos das mãos ou dos pés) Dessaturação crônica de hemoglobina, mais frequentemente em virtude de cardiopatia congênita e doenças pulmonares avançadas Pele fresca/fria e diaforese Débito cardíaco baixo (p. ex., choque cardiogênico, infarto agudo do miocárdio), que causa estimulação do sistema nervoso simpático com vasoconstrição resultante Frio, dor, palidez das pontas dos dedos das mãos ou dos pés Constrição arteriolar intermitente (doença de Raynaud). A pele muda de cor, de branca para azul e vermelha acompanhada por dormência, formigamento e dor em caráter de queimação Cianose, central (coloração azul observada na língua e na mucosa bucal) Distúrbios cardíacos sérios (edema pulmonar, choque cardiogênico, cardiopatia congênita), que resulta na passagem de sangue venoso pela circulação pulmonar sem ser oxigenado Cianose, periférica (coloração azul, mais frequentemente das unhas e da pele do nariz, dos lábios, dos lóbulos das orelhas e das extremidades) Vasoconstrição periférica, que possibilita mais tempo para que as moléculas de hemoglobina se tornem dessaturadas. Pode ser causada por exposição a ambiente frio, ansiedade ou ↓ débito cardíaco Equimose (coloração azul-arroxeada que desvanece para verde, amarelo ou marrom) Sangue que extravasa dos vasos sanguíneos Equimose é um risco para os clientes em uso de anticoagulantes ou inibidores plaquetários Edema, membros inferiores (acúmulo de líquido nos espaços intersticiais dos tecidos) Insuciência cardíaca e problemas vasculares (DAP, insuciência venosa crônica, trombose venosa profunda, trombo物慲ebite) Hematoma (acúmulo localizado de sangue coagulado no tecido) Sangramento após remoção de cateter/lesão tecidual em clientes que usam agentes anticoagulantes/antitrombóticos Palidez (↓ cor da pele em unhas dos dedos, lábios, mucosa oral e membros inferiores) Anemia ou ↓ perfusão tissular. Suspeita de DAP se os pés desenvolvem palidez após a elevação das pernas em 60° a partir do decúbito dorsal Rubor (coloração avermelhada-azul das pernas, observada em20 s a 2 min após carem dependuradas) Enchimento de capilares dilatados com sangue desoxigenado, indicativo de DAP Úlceras, pés e tornozelos: úlceras superciais e irregulares no maléolo medial. Tecido de granulação vermelho a amarelo Ruptura de pequenos capilares cutâneos em virtude de insuciência venosa crônica Úlceras, pés e tornozelos: úlceras dolorosas, profundas e arredondadas nos pés ou por exposição a pressão. Base do ferimento pálida a preta Isquemia prolongada dos tecidos em virtude de DAP. Pode provocar gangrena Adelgaçamento da pele ao redor de um marca-passo ou desbrilador cardioversor Erosão do dispositivo através da pele • • • • • • implantável Xantelasma (placas amareladas e elevadas, observadas ao longo da porção nasal das pálpebras) Elevação dos níveis de colesterol (hipercolesterolemia) DAP, doença arterial periférica. Adaptada de Bickley LS. (2009). Bates’ guide to physical examination and history taking (9th ed.). Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins; e Woods SL., Froelicher ES, Motzer SA et al. (2009). Cardiac nursing (6th ed.). Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins. Os sinais e sintomas de obstrução aguda do fluxo de sangue arterial nos membros, chamados de os “seis P”, são dor (pain), palidez, ausência de pulso arterial, parestesia, poiquilotermia (frieza) e paralisia. Durante algumas horas após procedimentos cardíacos invasivos (p. ex., cateterismo cardíaco, ICP ou teste de eletrofisiologia cardíaca), os membros afetados devem ser avaliados com frequência em relação a estas alterações vasculares agudas Hematoma, ou um acúmulo localizado de sangue coagulado no tecido, pode ser observado em clientes que foram submetidos a procedimentos cardíacos invasivos. Os principais vasos sanguíneos dos braços e das pernas podem ser utilizados para a inserção de cateter. Durante esses procedimentos, é necessária a anticoagulação sistêmica com heparina, e pode ocorrer contusão ou pequenos hematomas no local de acesso do cateter. Entretanto, grandes hematomas são uma complicação séria, que pode comprometer o volume de sangue circulante e o débito cardíaco. Nos clientes submetidos a estes procedimentos, os locais de acesso de cateter devem ser observados com frequência até que seja alcançada hemostasia adequada. Edema consiste em acúmulo anormal de líquido em áreas mais baixas do corpo. O edema dos pés, dos tornozelos ou das pernas é denominado edema periférico. O edema sacral pode ser observado na área sacral dos clientes em repouso no leito. A enfermeira avalia o edema do cliente aplicando com o polegar uma pressão firme sobre o dorso de cada pé, atrás de cada maléolo medial, sobre as canelas ou a área sacral por cinco segundos. Sinal de Godet (ou cacifo) positivo é o termo utilizado para descrever a endentação na pele criada por esta pressão (Figura 29.2). A quantificação do sinal de Godet positivo depende da avaliação do profissional de saúde sobre a profundidade do edema e do tempo que a endentação permanece após a liberação da pressão. O sinal de Godet ou cacifo positivo é graduado como ausente (0) ou presente em uma escala, desde leve (1+ = até 2 mm) a muito acentuado (4+ = mais de 8 mm) (Weber e Kelley, 2010). É importante que os profissionais de saúde utilizem uma escala que assegure medições clínicas e tratamentos confiáveis. O edema periférico é um achado comum em clientes com insuficiência cardíaca e doenças vasculares periféricas, tais como trombose venosa profunda ou insuficiência venosa crônica O prolongamento do tempo de enchimento capilar indica perfusão arterial inadequada para os membros. Para testar o tempo de enchimento capilar, a enfermeira comprime o leito ungueal brevemente para ocluir a perfusão, e o leito ungueal empalidece. Em seguida, a enfermeira libera a pressão e determina o tempo que a perfusão demora para ser restaurada. Normalmente, a reperfusão ocorre dentro de 2 s, o que é evidenciado pelo retorno da cor ao leito ungueal. O prolongamento do tempo de enchimento capilar indica comprometimento da perfusão arterial, um problema associado ao choque cardiogênico e à IC O baqueteamento dos dedos das mãos e dos pés indica dessaturação crônica de hemoglobina e está associado à cardiopatia congênita Perda de cabelos, unhas quebradiças, pele ressecada ou descamada, atrofia da pele, alterações na cor da pele e ulcerações são indicativas de redução crônica de oxigênio e suprimento de nutrientes para a pele, observadas em clientes com insuficiência arterial ou venosa (ver no Capítulo 30 a descrição completa destas condições) (Weber e Kelley, 2010). Pressão arterial PA sistêmica é a pressão exercida sobre as paredes das artérias durante a sístole e a diástole ventricular. É afetada por fatores tais como débito cardíaco; distensão das artérias; e volume, velocidade e viscosidade do sangue. PA normal em adultos é considerada a PA sistólica inferior a 120 mmHg sobre PA diastólica inferior a 80 mmHg. PA alta, ou hipertensão, é definida pela apresentação de uma PA sistólica que é consistentemente superior a 140 mmHg • • • • • ou uma PA diastólica superior a 90 mmHg. A hipotensão referese a uma PA sistólica e diastólica anormalmente baixa, que pode resultar em vertigem ou desmaio. (Ver no Capítulo 31 definições adicionais, medição e tratamento.) Pressão diferencial A diferença entre as pressões sistólica e diastólica é denominada pressão diferencial. É um reflexo do volume sistólico, da velocidade de ejeção e da resistência vascular sistêmica. A pressão diferencial, que normalmente é de 30 a 40 mmHg, indica quão bem o cliente mantém o débito cardíaco. A pressão diferencial aumenta em condições que elevam o volume sistólico (ansiedade, exercícios, bradicardia), reduzem a resistência vascular sistêmica (febre) ou reduzem a distensibilidade das artérias (aterosclerose, envelhecimento, hipertensão). A diminuição da pressão diferencial reflete a redução do volume sistólico e da velocidade de ejeção (choque, IC, hipovolemia, regurgitação de mitral) ou a obstrução do fluxo sanguíneo durante a sístole (estenose de mitral ou aórtica). A pressão de pulso inferior a 30 mmHg significa redução séria no débito cardíaco e requer avaliação cardiovascular adicional (Woods et al., 2009). Alterações posturais da pressão arterial Ocorre redistribuição gravitacional de aproximadamente 300 a 800 mℓ de sangue para os membros inferiores e para o sistema digestório imediatamente após a pessoa se levantar. Essas alterações reduzem o retorno venoso para o coração, comprometendo a précarga e acabam reduzindo o volume sistólico e o débito cardíaco. Consequentemente, o sistema nervoso autônomo é ativado. O sistema nervoso simpático aumenta a frequência cardíaca e intensifica a vasoconstrição periférica, enquanto a atividade parassimpática do coração por meio do nervo vago é diminuída. Esses mecanismos compensatórios estabilizam a PA (Freeman, Wieling, Axelrod et al., 2011). As respostas posturais normais que ocorrem quando uma pessoa passa da posição deitada para a ortostática incluem (1) aumento na frequência cardíaca de 5 a 20 bpm acima da frequência em repouso; (2) pressão sistólica inalterada, ou discreta diminuição de até 10 mmHg; e (3) discreto aumento de 5 mmHg na pressão diastólica. A hipotensão postural (ortostática) consiste na queda prolongada de no mínimo 20 mmHg na PA sistólica ou de 10 mmHg na PA diastólica nos 3 min seguinte a passagem da posição deitada ou sentada para a ortostática (Freeman et al., 2011). Normalmente é acompanhada por tontura, vertigem ou síncope. A hipotensão postural em clientes com DCV com mais frequência ocorre em virtude de redução significativa na précarga, que comprometeo débito cardíaco. A redução da précarga, que é um reflexo da depleção do volume intravascular, é causada por desidratação em virtude de diurese excessiva, sangramento (em virtude de agentes antiplaquetários ou anticoagulantes, ou após procedimentos intravasculares), ou medicamentos que dilatam os vasos sanguíneos (p. ex., nitratos e agentes antihipertensivos). Nessas situações, os mecanismos habituais necessários para manter o débito cardíaco (aumento da frequência cardíaca e vasoconstrição periférica) não conseguem compensar a perda significativa do volume intravascular. Como resultado, a PA cai e a frequência cardíaca aumenta com a mudança da posição deitada ou sentada para a ortostática (Boxe 25.2). Boxe 25.2 AVALIAÇÃO Avaliação da hipotensão postural Os passos a seguir são recomendados durante a avaliação dos clientes em relação à hipotensão postural: Coloque o cliente em decúbito dorsal por 10 min antes de fazer a aferição inicial da pressão arterial (PA) e da frequência cardíaca Recoloque o cliente em posição sentada com as pernas dependuradas na borda da maca de exame, aguarde 2 min e, em seguida, reavalie as aferições da PA e da frequência cardíaca Se o cliente não apresentar sintomas ou não apresentar diminuições signicativas na PA sistólica ou diastólica, auxilie-o a car de pé, faça as aferições imediatamente, e verique novamente em 2 min; continue as aferições a cada 2 min até um total de 10 min para afastar a possibilidade de hipotensão postural Coloque o cliente novamente em decúbito dorsal se for detectada hipotensão postural, ou se o cliente se tornar sintomático Documente a frequência cardíaca e a PA aferidas em cada posição (p. ex., decúbito dorsal, sentada, e ortostática) e quaisquer sinais ou sintomas que acompanhem as alterações posturais. Adaptado de Woods SL, Froelicher ES, Motzer SA et al. (2009). Cardiac nursing (6th ed.). Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins. O seguinte é um exemplo de aferições da PA e da frequência cardíaca em um cliente com hipotensão postural: Decúbito dorsal: PA 120/70 mmHg, frequência cardíaca 70 bpm Sentado: PA 100/55 mmHg, frequência cardíaca 90 bpm Posição ortostática: PA 98/52 mmHg, frequência cardíaca 94 bpm. Pulsos arteriais As artérias são palpadas para avaliar a frequência de pulso, o ritmo, a amplitude, o contorno e a obstrução do fluxo sanguíneo. Frequência de pulso A frequência de pulso normal varia, pode ser tão baixa quanto 50 bpm em adultos jovens hígidos e atléticos, ou ser muito superior a 100 bpm após exercícios ou durante momentos de excitação. A ansiedade com frequência eleva a frequência de pulso durante o exame físico. Se a frequência for superior à esperada, a enfermeira deve reavaliar o pulso próximo do final do exame físico, quando o cliente pode estar mais relaxado. Ritmo do pulso O ritmo do pulso normalmente é regular. Podem ocorrer variações menores na regularidade do pulso com a respiração. A frequência de pulso pode aumentar durante a inspiração e diminuir durante a exalação em virtude de alterações no fluxo sanguíneo para o coração durante o ciclo respiratório. Esse fenômeno, denominado arritmia sinusal, ocorre mais comumente em crianças e adultos jovens. Para o exame cardíaco inicial, ou se o ritmo do pulso for irregular, a frequência cardíaca deve ser contada com base na ausculta do pulso apical, localizado no PIM, por um minuto inteiro enquanto se palpa simultaneamente o pulso radial. Observase qualquer discrepância entre as contrações ouvidas e os pulsos sentidos. Distúrbios do ritmo (arritmias) frequentemente resultam em déficit de pulso, uma diferença entre as frequências de pulso apical e radial. Os déficits de pulso comumente ocorrem com fibrilação atrial, flutter atrial e extrassístoles ventriculares. Essas arritmias estimulam os ventrículos a contrairse prematuramente, antes do final da diástole. Como resultado, essas extrassístoles ventriculares produzem volume sistólico menor, que pode ser auscultado durante a ausculta, mas que não produzem pulso palpável (ver no Capítulo 26 a discussão detalhada sobre estas arritmias). Amplitude do pulso A amplitude do pulso, indicativa da PA na artéria, é utilizada para avaliar a circulação arterial periférica. A enfermeira avalia a amplitude do pulso bilateralmente e descreve e registra a amplitude de cada artéria. O método mais simples caracteriza o pulso como ausente, diminuído, normal ou limítrofe. Também são utilizadas escalas para classificar a força do pulso. O seguinte é um exemplo de uma escala de zero a quatro: 0: Não palpável ou ausente; +1: Diminuído – pulso fraco e filiforme; difícil de palpar; obliterado com a pressão; +2: Normal – não pode ser obliterado; +3: Moderadamente aumentado – de fácil palpação, pulso total; não pode ser obliterado; +4: Acentuadamente aumentado – pulso forte e latejante; pode ser anormal. A classificação numérica é subjetiva; portanto, ao documentar a amplitude do pulso, especifique a localização da artéria e a variação da escala (p. ex., “radial esquerda +3/+4”) (Weber e Kelley, 2010). Se não houver pulso arterial ou for de difícil palpação, a enfermeira pode utilizar um Doppler de onda contínua. Este dispositivo portátil apresenta um transdutor que é posicionado sobre a artéria. O transdutor emite e recebe feixes de ultrassom. As alterações rítmicas são ouvidas na medida em que as células sanguíneas fluem pelas artérias desobstruídas, enquanto a obstrução do fluxo sanguíneo é evidenciada pela ausência de alterações no som. (As técnicas que utilizam ultrassom são discutidas em mais detalhes no Capítulo 30.) 1. 2. 3. Contorno do pulso O contorno do pulso transmite informações importantes. Em clientes com estenose da valva aórtica, a abertura da valva fica mais estreita, reduzindo a quantidade de sangue ejetado para dentro da aorta. A pressão diferencial é estreita, e o pulso é sentido fraco. Na insuficiência aórtica, a valva aórtica não fecha completamente, possibilitando que o sangue reflua da aorta para dentro do ventrículo esquerdo. A elevação da onda de pulso é abrupta e forte, e sua queda é íngreme – um pulso “em colapso” ou de “golpe de aríete”. O contorno verdadeiro do pulso é mais bem avaliado com a palpação sobre a artéria carótida em vez da artéria radial distal, tendo em vista que as características expressivas da onda de pulso podem ser distorcidas quando o pulso é transmitido para os vasos menores. Palpação dos pulsos arteriais Para avaliar a circulação periférica, a enfermeira localiza e avalia todos os pulsos arteriais. Os pulsos arteriais são palpados em pontos nos quais as artérias estão próximas da superfície da pele e são facilmente comprimidos contra os ossos ou a musculatura firme. Os pulsos são detectados sobre a artéria temporal direita e esquerda, carótida comum, braquial, radial, femoral, poplítea, dorsal do pé e tibial posterior (ver Figura 30.2). Uma avaliação confiável dos pulsos depende da identificação precisa da localização da artéria e da cuidadosa palpação da área. A palpação leve é essencial; a pressão firme com o dedo pode obliterar o pulso temporal, dorsal do pé e tibial posterior e confundir o examinador. Em aproximadamente 10% dos clientes, os pulsos dorsais do pé não são palpáveis (Woods et al., 2009). Nesses casos, ambos normalmente estão ausentes, e as artérias tibiais posteriores isoladamente fornecem suprimento de sangue adequado para os pés. As artérias nos membros geralmente são palpadas simultaneamente para facilitar a comparação da qualidade. Alerta de enfermagem | Qualidade e segurança Não palpe simultaneamente as artérias temporais e carótidas, pois isso pode diminuir o 物慲uxo de sangue para o cérebro. Pulsações venosas jugulares A função do lado direito do coração pode ser estimada por meioda observação das pulsações das veias jugulares do pescoço, que refletem a pressão venosa central (PVC). A PVC é a pressão no átrio direito ou no ventrículo direito ao final da diástole. Se as pulsações jugulares internas forem de difícil observação, podese observar as pulsações das veias jugulares externas. Essas veias são mais superficiais e são visíveis logo acima das clavículas, adjacentes aos músculos esternocleidomastóideos. Em clientes que apresentam volume sanguíneo normal (euvolemia), as veias jugulares normalmente são visíveis em decúbito dorsal, com a cabeceira do leito elevada em 30° (Bickley, 2009). A distensão óbvia das veias com a cabeça do cliente elevada em 45 a 90° indica aumento anormal na PVC. Essa anormalidade é observada em clientes com IC do lado direito, em virtude de hipervolemia, hipertensão pulmonar e estenose pulmonar; menos comumente, com obstrução do fluxo sanguíneo na veia cava superior; e raramente, com embolismo pulmonar maciço agudo. Inspeção e palpação do coração O coração é examinado por inspeção, palpação e ausculta do precórdio ou da parede torácica anterior que recobre o coração e a parte inferior do tórax. É utilizada uma abordagem sistemática para examinar o precórdio nas seis áreas a seguir. A Figura 25.5 identifica esses importantes pontos de referência: Área aórtica: segundo espaço intercostal à direita do esterno. Para determinar o espaço intercostal correto, a enfermeira primeiramente encontra o ângulo de Louis ao localizar a crista óssea próxima do topo do esterno, na junção do esterno e do manúbrio. A partir deste ângulo, podese encontrar a localização do segundo espaço intercostal deslizandose um dedo à esquerda ou à direita do esterno. Os espaços intercostais subsequentes são localizados a partir deste ponto de referência palpandose a caixa torácica. Área pulmonar: segundo espaço intercostal à esquerda do esterno. Ponto de Erb: terceiro espaço intercostal à esquerda do esterno. 4. 5. 6. Área tricúspide: Quarto e quinto espaços intercostais à esquerda do esterno. Área mitral (apical): quinto espaço intercostal esquerdo na linha hemiclavicular. Área epigástrica: abaixo do processo xifoide. Figura 25.5 Áreas do precórdio a serem observadas durante a avaliação da função cardíaca. Os numerais identificam as costelas dos espaços intercostais adjacentes. Durante a maior parte do exame, o cliente permanece em decúbito dorsal, com a cabeceira do leito discretamente elevada. O examinador destro permanece em pé do lado direito do cliente; o examinador canhoto, do lado esquerdo. Cada área do precórdio é inspecionada em relação a pulsações e em seguida é palpada. Impulso apical é um achado normal observado em clientes jovens e adultos que tenham paredes torácicas finas. O impulso apical pode ser sentido como uma pulsação leve, de 1 a 2 cm de diâmetro. É sentido no início da primeira bulha cardíaca e dura por apenas metade da sístole ventricular (ver mais sobre os ruídos cardíacos na próxima seção). A enfermeira utiliza a palma da mão para localizar o impulso apical inicialmente e as pontas dos dedos para avaliar seu tamanho e suas características. A palpação do pulso apical pode ser facilitada pelo reposicionamento do cliente em decúbito lateral esquerdo, que coloca o coração em contato mais próximo com a parede torácica (Figura 25.6). Figura 25.6 Palpação do impulso apical. A. Permaneça do lado direito do cliente e solicite a ele que permaneça em decúbito dorsal. Utilize as pontas dos dedos para palpar o impulso apical na área mitral (quarto ou quinto espaço intercostal na linha hemiclavicular). B. Você pode solicitar ao cliente que vire para o lado esquerdo para sentir melhor o impulso com as superfícies palmares da sua mão. (Fotos de Weber JW, Kelley J. (2014). Health assessment in nursing (5th ed.). Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins.) A enfermeira pode encontrar diferentes anormalidades durante a palpação do precórdio. Normalmente, o impulso apical é palpável em apenas um espaço intercostal; a palpabilidade em dois ou mais espaços intercostais indica aumento ventricular esquerdo. Um impulso apical abaixo do quinto espaço intercostal ou lateral à linha hemiclavicular indica, habitualmente, aumento ventricular esquerdo em virtude de insuficiência ventricular esquerda. Se o impulso apical puder ser palpado em duas áreas distintamente separadas e os movimentos de pulsação forem paradoxais (não simultâneos), podese suspeitar de aneurisma ventricular. Um impulso apical amplo e forte é conhecido como arremesso ou levantamento ventricular esquerdo, tendo em vista que a mão do examinador parece ser levantada da parede torácica durante a palpação. Uma sensação de vibração ou ronronar pode ser sentida sobre as áreas onde há fluxo sanguíneo anormal e turbulento. É mais bem sentida com a palma da mão. Esta vibração é denominada excitação e está associada a um sopro alto. Dependendo da localização da excitação, ela pode ser indicativa de valvopatia cardíaca séria; defeito septal atrial ou ventricular (abertura anormal); ou estenose de uma grande artéria, tal como a artéria carótida. Ausculta cardíaca Um estetoscópio é utilizado para auscultar cada uma das localizações identificadas na Figura 25.5, com exceção da área epigástrica. A finalidade da ausculta cardíaca é determinar a frequência e o ritmo cardíaco e avaliar os ruídos cardíacos. A área apical é auscultada durante 1 min para determinar a frequência de pulso apical e a regularidade do batimento cardíaco. Os ruídos cardíacos normais e anormais detectados durante a ausculta serão descritos a seguir. Ruídos cardíacos normais Os ruídos cardíacos normais, as bulhas conhecidas como B1 e B2, são produzidos pelo fechamento das valvas AV e das valvas semilunares, respectivamente. O período entre B1 e B2 corresponde à sístole ventricular (Figura 25.7). Quando a frequência cardíaca está dentro da variação normal, a sístole é muito mais breve do que o período entre B2 e B1 (diástole). Entretanto, quando a frequência cardíaca aumenta, a diástole é encurtada. Normalmente, B1 e B2 são os únicos ruídos auscultados durante o ciclo cardíaco (Bickley, 2009). B1 – Primeira bulha cardíaca. O fechamento das valvas tricúspide e mitral cria a primeira bulha cardíaca (B1). A palavra “tum” é utilizada para reproduzir o ruído. B1 normalmente é auscultada melhor na área apical. B1é facilmente identificável e atua como ponto de referência para o restante do ciclo cardíaco. A intensidade de B1 aumenta durante as taquicardias ou com a estenose de valva mitral. Nessas circunstâncias, as valvas AV estão amplamente abertas durante a contração ventricular. B1 hiperfonética ocorre quando as valvas AV fecham com mais força do que a normal. De modo similar, as arritmias podem variar a intensidade de B1 a cada batimento em virtude da ausência de contração atrial e ventricular sincronizada. B2 – Segunda bulha cardíaca. O fechamento das valvas pulmonar e aórtica produz a segunda bulha cardíaca (B2), comumente denominada “tá”. O componente aórtico de B2 é mais intenso nos focos aórtico e pulmonar. Entretanto, o componente pulmonar de B2 é um ruído mais suave e é mais bem auscultado no foco pulmonar. Embora estas valvas fechem quase simultaneamente, a valva pulmonar fecha um pouco após a valva aórtica. Em alguns indivíduos, é possível distinguir os fechamentos das valvas aórtica e pulmonar. Quando isso ocorre, diz se que o cliente apresenta um desdobramento de B2. O desdobramento fisiológico normal de B2 é acentuado durante a inspiração e desaparece com a expiração. Durante a inspiração, a pressão intratorácica diminui, e há subsequente aumento no retorno venoso para o átrio e o ventrículo direito.O ventrículo direito demora um pouco mais para ejetar este volume extra, que causa o fechamento da valva pulmonar um pouco depois do que o normal. O desdobramento de B2 que permanece constante durante a inspiração e a expiração é um achado anormal. O desdobramento anormal da segunda bulha cardíaca pode ser causado por diversas condições (valvopatia cardíaca, defeitos dos septos interatrial e interventricular, bloqueios de ramo). O desdobramento de B2 é mais bem auscultado no foco pulmonar. Ruídos cardíacos anormais Os ruídos anormais desenvolvemse durante a sístole ou a diástole quando ocorrem problemas cardíacos estruturais ou funcionais. Esses ruídos são denominados galopes de B3 ou B4, estalidos de abertura, cliques sistólicos e sopros. O ritmo de galope por B3 ou B4 são auscultados durante a diástole. Esses ruídos são criados pela vibração do ventrículo e das estruturas adjacentes na medida em que o sangue encontra resistência durante o enchimento ventricular. O termo galope surgiu em virtude da cadência que é produzida pelo acréscimo de um terceiro ou quarto ruído, similar ao som de um cavalo galopando. Os sons de galope são ruídos de frequência muito baixa e são auscultados com a campânula do estetoscópio pousada muito levemente contra o tórax. Figura 25.7 Ruídos cardíacos normais. A primeira bulha cardíaca (B1) é produzida pelo fechamento das valvas mitral e tricúspide (“tum”). A segunda bulha cardíaca (B2) é produzida pelo fechamento das valvas aórtica e pulmonar (“tá”). As setas representam o sentido do fluxo sanguíneo. B3 – Terceira bulha cardíaca. Uma terceira bulha (“tá”) é auscultada inicialmente na diástole durante o período de enchimento ventricular rápido, na medida em que o sangue flui do átrio para um ventrículo não complacente. É auscultada imediatamente após B2. Empregase “tumtumtá” para imitar o ruído anormal de um coração contraindo quando existe uma B3. Representa um achado normal em crianças e adultos até 35 ou 40 anos de idade. Nesses casos, é denominada B3 fisiológica (Figura 25.8). Em idosos, B3 é um achado significativo, que sugere insuficiência cardíaca. É mais bem auscultada com a campânula do estetoscópio. Se o ventrículo direito estiver envolvido, uma B3 do lado direito é auscultada no foco tricúspide com o cliente em decúbito dorsal. B3 do lado esquerdo é mais bem auscultada na área apical com o cliente em decúbito lateral esquerdo. B4 – Quarta bulha cardíaca. B4 (“tum”) ocorre tardiamente na diástole (ver Figura 25.8). B4 auscultada logo antes de B1 é gerada durante a contração atrial quando o sangue entra de modo forçado em um ventrículo não complacente. Esta resistência ao fluxo de sangue ocorre em virtude da hipertrofia ventricular causada por hipertensão arterial, DAC, miocardiopatias, estenose aórtica e diversas outras condições. “Tumtumtá” é o mnemônico usado para imitar este ruído de galope. B4, produzida no ventrículo esquerdo, é auscultada com a campânula do estetoscópio sobre a área apical com o cliente em decúbito lateral esquerdo. B4 do lado direito, embora menos comum, é mais bem auscultada nao foco tricúspide com o cliente em decúbito dorsal. Há ocasiões em que ocorrem tanto B3 como B4, criando um ritmo quádruplo, que soa como “tumtumtátá”. Durante a taquicardia, os quatro ruídos se combinam em um ruído de alta frequência, denominado galope de soma. Estalidos de abertura e cliques sistólicos. Normalmente, nenhum ruído é produzido quando as valvas se abrem. Entretanto, as válvulas lesionadas das valvas cardíacas criam ruídos anormais quando se abrem durante a diástole ou a sístole. Os estalidos de abertura são ruídos diastólicos anormais auscultados durante a abertura de uma valva AV. Por exemplo, a estenose de mitral pode causar um estalido de abertura, que é um ruído anormalmente alto bem no início da diástole. Este ruído é causado pela alta pressão no átrio esquerdo, que desloca abruptamente ou “estala” na abertura da valva enrijecida. O momento de ocorrência ajuda a distinguir um estalido de abertura dos outros sons de galope. Ele ocorre muito depois de B2 para ser confundido com um desdobramento de B2 e muito inicialmente na diástole para ser confundido com B3. O fato de o ruído ser de alta frequência (agudo) é outro modo de diferenciar um estalido de abertura de uma B3. Esperase escutar um sopro ou o ruído de fluxo sanguíneo turbulento após o estalido de abertura. O estalido de abertura é mais bem auscultado posicionandose o diafragma do estetoscópio medialmente à área apical e ao longo da borda esternal esquerda inferior. De modo similar, a estenose de uma das valvas semilunares cria um ruído breve e agudo protossistólico, imediatamente após B1. Este ruído, denominado clique sistólico, é o resultado da abertura de uma valva aórtica ou pulmonar rígida e calcificada durante a contração ventricular. Cliques sistólicos intermediários a tardios podem ser auscultados em clientes com prolapso de valva mitral ou tricúspide, porque ao válvula disfuncional é deslocada para dentro do átrio durante a sístole ventricular. Esperase auscultar sopros após estes ruídos sistólicos anormais. Estes ruídos são mais altos nas áreas sobre a valva em mau funcionamento. Sopros. Os sopros são criados pelo fluxo turbulento de sangue no coração. As causas da turbulência podem ser uma valva criticamente estreita, uma valva em mau funcionamento que possibilita um fluxo sanguíneo regurgitante, um defeito congênito da parede ventricular, um defeito entre a aorta e a artéria pulmonar, ou aumento do fluxo de sangue através de uma estrutura normal (p. ex., com febre, gestação, hipertireoidismo). Os sopros apresentam diversas características e por isso são descritos de vários modos, com base, por exemplo, no momento em que ocorrem no ciclo cardíaco, sua localização na parede torácica, intensidade, altura, qualidade e padrão de irradiação (Boxe 25.3). Figura 25.8 Sons de galope. B3 (“tá”) é um ruído anormal auscultado imediatamente após B2 (fechamento das valvas semilunares). Este ruído é gerado bem no início da diástole, à medida que o sangue que flui para dentro do ventrículo direito ou esquerdo encontra resistência. B4 é um ruído anormal criado durante a sístole atrial, à medida que o sangue que flui para o ventrículo direito ou esquerdo encontra resistência. As setas representam o sentido do fluxo sanguíneo. Atrito. Um ruído áspero de rangido, que pode ser auscultado na sístole e na diástole, é denominado atrito. É causado pela abrasão das superfícies pericárdicas inflamadas em virtude de pericardite. Tendo em vista que um atrito pode ser confundido com um sopro, devese ter cuidado para identificar o ruído e distinguilo dos sopros que podem ser auscultados na sístole e na diástole. Um atrito pericárdico é mais bem auscultado com o diafragma do estetoscópio, com o cliente sentado e inclinado para frente. Procedimento de ausculta Durante a ausculta, o cliente deve permanecer em decúbito dorsal, e devese manter o máximo de silêncio possível na sala de exame. É necessário um estetoscópio com diafragma e campânula para a ausculta acurada do coração. O examinador coloca primeiro o diafragma do estetoscópio na área apical e progride para cima, ao longo da borda esternal esquerda, até os focos pulmonar e aórtico. Uma opção é iniciar o exame nos focos aórtico e pulmonar e progredir para baixo, até o ápice do coração. Inicialmente, identifica B1e avalia a sua intensidade e se existe desdobramento. Em seguida, identifica B2, verifica sua intensidade e se existe desdobramento. Após a concentração em B1 e B2, o examinador determinase há ruídos extras na sístole e, em seguida, na diástole. Ele também pode fazer as seguintes perguntas, que podem ajudálo: Os ruídos que ausculto são estalidos ou cliques? Ausculto algum ruído aspirativo de alta frequência (agudo)? Este ruído é sistólico, diastólico ou sistodiastólico? O examinador continua movimentando o estetoscópio por todos os focos de ausculta do precórdio, atentando para esses ruídos. Finalmente, o cliente é colocado em decúbito lateral esquerdo, e o examinador posiciona o estetoscópio sobre a área apical, onde B3, B4 e um sopro de mitral são mais rapidamente detectados. Depois de auscultar uma anormalidade, o examinador reavalia toda a superfície torácica para determinar a localização exata do ruído e a sua irradiação. O cliente pode estar preocupado a respeito do exame prolongado e deve ser amparado e tranquilizado. Os achados auscultatórios, especialmente os sopros, são documentados pela identificação das características a seguir (ver Boxe 25.3): localização sobre a parede torácica, intensidade, altura, qualidade e irradiação. Interpretação dos ruídos cardíacos A interpretação dos ruídos cardíacos requer conhecimento detalhado da fisiologia e da fisiopatologia cardíaca. Entretanto, todas as enfermeiras devem ter conhecimento e habilidade adequados para reconhecer os ruídos cardíacos normais (B1, B2) e de ruídos anormais. Quando a avaliação está no seu nível muito básico de prática, os ruídos anormais são relatados para avaliação adicional e tratamento. Habilidades mais avançadas são exigidas das enfermeiras que cuidam de clientes em estado crítico com DCV ou daquelas que assumem funções de práticas avançadas. As enfermeiras nessas funções identificam prontamente os ruídos cardíacos anormais, reconhecem a importância diagnóstica dos seus achados e empregam as suas habilidades de avaliação para verificar as respostas dos clientes às intervenções clínicas. Por exemplo, essas enfermeiras altamente habilidosas monitoram os ruídos cardíacos em clientes com IC para detectar a resolução de uma terceira bulha após o tratamento com diurético. Boxe 25.3 Características dos sopros cardíacos Os sopros cardíacos são descritos em termos de localização, ocasião, intensidade, altura, qualidade e irradiação. Estas características fornecem as informações necessárias para determinar a causa do sopro e a sua importância clínica. Localização Detalhar a localização do sopro ajuda a determinar as estruturas de base que estão envolvidas na geração dos ruídos anormais. As localizações descritas na Figura 25.5 são utilizadas para identicar onde os ruídos mais agudos são detectados. A descrição deve incluir a localização exata a partir da qual o ruído emana, tal como a localização do espaço intercostal e outros pontos de referência importantes (borda esternal direita ou esquerda; linha média do esterno, hemiclavicular, axilar anterior, ou média axilar). Por exemplo, uma comunicação interventricular pode ser localizada na borda esternal esquerda no terceiro e no quarto espaço intercostal. Ocasião Um sopro é descrito em termos de quando ocorre durante o ciclo cardíaco (sístole ou diástole). Os sopros são adicionalmente diferenciados pela identicação exata do momento em que eles são auscultados durante a sístole ou a diástole. Um examinador habilidoso cosegue detectar se o sopro está ocorrendo no início, meio ou nal da diástole ou da sístole. Alguns sopros são sistodiastólicos. Intensidade Um sistema de gradação é utilizado para descrever a intensidade ou a altura de um sopro. Grau 1: Muito fraco e difícil de ser auscultado por examinadores inexperientes Grau 2: Tênue, porém rapidamente percebido pelo examinador experiente Grau 3: Moderadamente alto Grau 4: Alto; pode estar associado a frêmito Grau 5: Muito alto; auscultado com o estetoscópio parcialmente fora do tórax; associado a frêmito Grau 6: Extremamente alto; detectado com o estetoscópio fora do tórax; associado a frêmito. Altura A altura descreve a frequência do ruído, identicada como alta, média ou baixa. Sopros altos (agudos) são mais bem auscultados com o diafragma do estetoscópio, enquanto ruídos baixos (graves) são detectados com a campânula do estetoscópio posicionada levemente sobre a parede torácica. Qualidade A qualidade descreve o ruído que o sopro lembra. Os sopros podem produzir um ruído retumbante, aspirativo, assobio, áspero ou musical. Por exemplo, os sopros causados por regurgitação de mitral ou tricúspide são aspirativos, enquanto a estenose de mitral gera um ruído retumbante. Irradiação Irradiação refere-se à transmissão do sopro a partir do ponto de intensidade máxima até outras áreas na parte superior do tórax. O examinador determina se há irradiação ao ouvir cuidadosamente as áreas do coração adjacentes ao ponto no qual o sopro é mais alto. Se houver irradiação, ele descreve a localização exata. Um sopro associado à estenose aórtica, por exemplo, pode se irradiar até o pescoço, para baixo da borda esternal esquerda, e para a área apical. Avaliação de outros sistemas Pulmões Os detalhes da avaliação respiratória estão descritos no Capítulo 20. Os achados exibidos com frequência pelos clientes com distúrbios cardíacos incluem os seguintes: Hemoptise: A expectoração rosa e espumosa é indicativa de edema pulmonar agudo. Tosse: Tosse seca e curta devida a irritação das pequenas vias respiratórias é comum em clientes com congestão pulmonar em virtude de IC. Estertores crepitantes: IC ou atelectasia associadas ao repouso no leito, imobilização devida a dor isquêmica ou os efeitos de agentes analgésicos, sedativos ou anestésicos geralmente causam o desenvolvimento de estertores crepitantes. Tipicamente, os estertores crepitantes são observados primeiramente nas bases (em virtude do efeito da gravidade sobre o acúmulo de líquido e da diminuição da ventilação do tecido basilar), mas podem progredir até todas as partes dos campos pulmonares. Respirações ruidosas: A compressão das pequenas vias respiratórias em virtude de edema pulmonar intersticial pode causar respiração ruidosa. Agentes de bloqueio betaadrenérgico (betabloqueadores), como propranolol, podem causar estreitamento de vias respiratórias, especialmente em clientes com doença pulmonar de base. Abdome Para o cliente com um distúrbio cardiovascular, diversos componentes do exame abdominal são importantes: Distensão abdominal: Um abdome protuberante, com flancos inchados, indica ascite. A ascite desenvolvese em clientes com IC ventricular direita ou biventricular (IC do lado direito e esquerdo). No coração direito insuficiente, pressões de câmara anormalmente altas impedem o retorno do sangue venoso. Como resultado, o fígado e o baço tornamse ingurgitados com sangue venoso excessivo (hepatoesplenomegalia). À medida que a pressão no sistema portal aumenta, o líquido movimentase do leito vascular para dentro da cavidade abdominal. O líquido ascítico, encontrado nos pontos dependentes ou inferiores no abdome, mudará com as alterações na posição. Refluxo hepatojugular: Este teste é realizado quando há suspeita de IC ventricular direita ou biventricular. O cliente é posicionado de modo que o pulso venoso jugular seja visível na parte inferior do pescoço. Enquanto se observa o pulso venoso jugular, aplicase pressão firme sobre o quadrante superior direito do abdome por 30 a 60 s. Um aumento de 1 cm ou mais na pressão venosa jugular é indicativo de refluxo hepatojugular. Este teste positivo auxilia na confirmação do diagnóstico de IC. Distensão vesical: O débito urinário é um indicador importante da função cardíaca. A redução do débito urinário pode indicar perfusão renal inadequada ou um problema menos sério, tal como o causadopor retenção urinária. Quando o débito urinário está diminuído, o cliente deve ser avaliado em relação a bexiga urinária distendida ou dificuldade de micção. A bexiga urinária pode ser avaliada com uma sonda de ultrassom (ver Figura 53.8) ou pela palpação da área suprapúbica, com atenção a uma massa oval, e pela percussão, com atenção a um som maciço, indicativo de bexiga urinária repleta. Considerações gerontológicas Ao realizar um exame cardiovascular em um cliente mais idoso, a enfermeira pode observar as referidas diferenças, • • • • • como pulsos periféricos mais facilmente palpáveis em virtude da diminuição da elasticidade das artérias e da perda de tecido conjuntivo adjacente. A palpação do precórdio em idosos é afetada pelas alterações no formato do tórax. Por exemplo, um impulso cardíaco pode não ser palpável em clientes com doença pulmonar obstrutiva crônica, tendo em vista que, nesses clientes, o diâmetro torácico anteroposterior geralmente é maior. A cifoescoliose, uma deformidade da coluna que ocorre em muitos clientes idosos, pode mover o ápice cardíaco para baixo, de modo que a palpitação do impulso apical é obscurecida. A hipertensão é um problema comum em idosos, que resulta do enrijecimento da aorta e de outras grandes artérias relacionado com a idade. À medida que as pessoas envelhecem, a sua PA sistólica aumenta gradualmente; no final da meiaidade, a PA diastólica atinge um platô (Aronow, Fleg, Pepine et al., 2011). A hipertensão sistólica isolada ocorre mais comumente entre idosos e está associada a morbidade e mortalidade cardiovascular significativa. A hipotensão ortostática, um resultado do comprometimento da função dos barorreceptores que normalmente regulam a PA, coloca os idosos em risco de quedas. Repouso prolongado no leito, desidratação e muitos medicamentos cardiovasculares (p. ex., betabloqueadores, inibidores da enzima de conversão da angiotensina, bloqueadores de receptor de angiotensina, diuréticos, nitratos) são fatores de risco adicionais que aumentam o risco de hipotensão ortostática. B4 associada à hipertensão arterial é comum em idosos. Acreditase que ocorra em virtude da diminuição da complacência do ventrículo esquerdo. B2 normalmente é desdobrada. Pelo menos 60% dos idosos apresentam sopros, e o mais comum é um sopro de ejeção sistólica suave que resulta de alterações escleróticas das válvulas da valva aórtica (Bickley, 2009) (Tabela 25.1). Avaliação diagnóstica Uma ampla variedade de exames complementares pode ser realizada em clientes com condições cardiovasculares. A enfermeira deve instruir o cliente sobre a finalidade, as expectativas e quaisquer possíveis efeitos colaterais relacionados com esses exames antes dos testes. A enfermeira deve observar tendências nos resultados, tendo em vista que eles fornecem informações a respeito da progressão da doença, bem como da resposta do cliente à terapia. Exames laboratoriais As amostras de sangue do cliente são enviadas ao laboratório pelos seguintes motivos: Para auxiliar na obtenção de um diagnóstico Para a triagem dos fatores de risco associados à DAC Para estabelecer os valores basais antes do início de outros exames complementares, procedimentos ou intervenções terapêuticas Para monitorar a resposta às intervenções terapêuticas Para avaliar as anormalidades no sangue que afetam o prognóstico. Os valores normais para os exames laboratoriais podem variar, dependendo do laboratório e da instituição de saúde. Esta variação ocorre em virtude das diferenças nos equipamentos e nos métodos de medição entre as organizações. Análise de biomarcadores cardíacos O diagnóstico de IAM é realizado pela avaliação do histórico e do exame físico, do eletrocardiograma (ECG) de 12 derivações, e dos resultados de exames laboratoriais que medem os biomarcadores cardíacos séricos. As células miocárdicas que se tornam necróticas em virtude de isquemia prolongada ou traumatismo liberam enzimas específicas (creatinoquinase [CK]), isoenzimas da CK (CKMB) e proteínas (mioglobina, troponina T e troponina I). Essas substâncias extravasam para dentro dos espaços intersticiais do miocárdio e são transportadas pelo sistema linfático para dentro da circulação geral. Como resultado, níveis anormalmente altos dessas substâncias podem ser detectados em amostras de sangue séricas. (Ver no Capítulo 27 mais informações sobre a análise de biomarcadores cardíacos.) Estudos de bioquímica sérica, hematologia e coagulação A Tabela 25.4 fornece informações a respeito de alguns exames laboratoriais séricos comuns e das implicações para os clientes com DCV. A seguir serão descritas as medições de lipídios, peptídio natriurético cerebral (tipo B) (BNP), proteína C reativa (CRP) e homocisteína. Lipidograma Colesterol, triglicerídios e lipoproteínas são medidos para avaliar o risco de uma pessoa de desenvolver DAC, especialmente se ela tiver histórico familiar de cardiopatia prematura, ou para diagnosticar uma anormalidade lipoproteica específica. Colesterol e triglicerídios são transportados no sangue graças à ligação com proteínas plasmáticas para formar lipoproteínas (LDL e HDL). O risco de DAC aumenta à medida que a razão de LDL:HDL ou a razão de colesterol total:HDL aumentam. Embora os níveis de colesterol permaneçam relativamente constantes ao longo de 24 h, a amostra de sangue para lipidograma deve ser obtida após um jejum de 12 h. Níveis de colesterol. O colesterol é um lipídio necessário para a síntese hormonal e a formação da membrana celular; o seu nível normal é inferior a 200 mg/dℓ. O colesterol é encontrado em grandes quantidades no cérebro e no tecido nervoso. As duas principais fontes de colesterol são os alimentos (produtos de origem animal) e o fígado, onde ele é sintetizado. A elevação dos níveis de colesterol sabidamente aumenta o risco de DAC. Os fatores que contribuem para as variações nos níveis de colesterol incluem idade, sexo, dieta, padrões de exercícios, genética, menopausa, tabagismo e níveis de estresse. LDL são os transportadores principais de colesterol e triglicerídios para dentro das células; o seu nível normal é inferior a 160 mg/dℓ . Um efeito prejudicial do LDL é a deposição dessas substâncias nas paredes dos vasos arteriais. Níveis elevados de LDL estão associados a maior incidência de DAC. Em pessoas com DAC conhecida ou diabetes, o objetivo primário para o tratamento lipídico é a redução dos níveis de LDL para menos de 70 mg/dℓ (Smith et al., 2011). Os HDL apresentam uma ação protetora; a variação normal em homens é de 35 a 70 mg/dℓ e em mulheres é de 35 a 85 mg/dℓ. Eles transportam o colesterol para longe do tecido e das células da parede arterial, até o fígado para a excreção. Portanto, existe uma relação inversa entre os níveis de HDL e o risco de DAC. Os fatores que reduzem os níveis de HDL incluem tabagismo, diabetes, obesidade e sedentarismo. Em clientes com DAC, um objetivo secundário do tratamento lipídico é o aumento dos níveis de HDL até mais de 40 mg/dℓ (Smith et al., 2011). Triglicerídios. Compostos por ácidos graxos livres e glicerol, os triglicerídios são armazenados no tecido adiposo e são uma fonte de energia. A variação normal é de 100 a 200 mg/dℓ. Os níveis de triglicerídios aumentam após as refeições e são afetados pelo estresse. Diabetes, consumo de álcool e obesidade podem elevar os níveis de triglicerídios. Esses níveis apresentam correlação direta com o LDL e correlação inversa com o HDL. Peptídio natriurético cerebral (tipo B) O BNP é um neurohormônio que auxilia na regulação da PA e do volume de líquido. É secretado primariamente pelos ventrículos em resposta ao aumento da précarga, comresultante elevação da pressão ventricular. O nível de BNP no sangue aumenta na medida em que as paredes ventriculares se expandem em virtude do aumento da pressão, tornandoo uma ferramenta diagnóstica, de monitoramento e prognóstico útil na condição da IC. Tendo em vista que este exame laboratorial sérico pode ser obtido rapidamente, os níveis de BNP são úteis para o diagnóstico imediato de IC em ambientes como o PS. As elevações no BNP podem ocorrer em virtude de uma diversidade de outras condições, tais como êmbolo pulmonar, IAM e hipertrofia ventricular. Portanto, o clínico correlaciona os níveis de BNP com achados anormais de avaliação física e outros exames diagnósticos antes de obter um diagnóstico definitivo de IC. Um nível de BNP superior a 100 pg/mℓ é sugestivo de IC. Proteína C reativa A CRP é uma proteína produzida pelo fígado em resposta à inflamação sistêmica. Acreditase que a inflamação desempenhe um papel no desenvolvimento e na progressão da aterosclerose. O teste de CRP de alta sensibilidade (hsCRP) é utilizado como um adjunto a outros testes para prever o risco de DCV. Pessoas com níveis altos de hs CRP (3 mg/ℓ ou superiores) podem ter maior risco de DCV em comparação às pessoas com níveis moderados (1 a 3 mg/ℓ) ou baixos (inferiores a 1 mg/mℓ) de hsCRP (Woods et al., 2009). Homocisteína A homocisteína, um aminoácido, está ligada ao desenvolvimento de aterosclerose, tendo em vista que pode lesionar o revestimento endotelial das artérias e promover a formação de trombos. Portanto, acreditase que um nível sérico elevado de homocisteína indique um risco alto de DAC, acidente vascular cerebral e doença vascular periférica, embora não seja um indicador prognóstico independente de DAC. Fatores genéticos e dieta com baixos teores de folato, vitamina B6 e vitamina B12 estão associados à elevação dos níveis de homocisteína. É necessário jejum de 12 h antes da coleta de uma amostra de sangue para uma medição sérica precisa. Os resultados dos testes são interpretados como de risco ideal (inferior a 12 mmol/ℓ), limítrofe (12 a 15 mmol/ℓ) e alto (superior a 15 mmol/ℓ) (Woods et al., 2009). Radiografia torácica e fluoroscopia Uma radiografia torácica é obtida para determinar o tamanho, o contorno e a posição do coração. Ela revela calcificações cardíacas e pericárdicas e demonstra alterações fisiológicas na circulação pulmonar. Embora não auxilie no diagnóstico do IAM agudo, pode auxiliar no diagnóstico de algumas complicações (p. ex., IC). A correta inserção de marcapassos e cateteres de artéria pulmonar também é confirmada pela radiografia torácica. TABELA 25.4 Exames laboratoriais séricos comuns e implicações para os clientes com doença cardiovascular. Exame laboratorial Variação de referência Implicações Bioquímica sérica Ureia sanguínea: 10 a 20 mg/dℓ Ureia e creatinina são produtos nais do metabolismo proteico excretados pelos rins A elevação da ureia re物慲ete a redução da perfusão renal em virtude de diminuição do débito cardíaco ou décit de volume de líquido intravascular como resultado do uso de diuréticos ou desidratação Cálcio (Ca++): 8,6 a 10,2 mg/dℓ O cálcio é necessário para a coagulabilidade sanguínea, atividade neuromuscular e automaticidade das células nodais (nós SA e AV) Hipocalcemia: A diminuição dos níveis de cálcio retarda a função nodal e compromete a contratilidade do miocárdio. O último efeito aumenta o risco de insuciência cardíaca Hipercalcemia: o aumento dos níveis de cálcio pode ocorrer com a administração de diuréticos tiazídicos, tendo em vista que esses medicamentos reduzem a excreção renal de cálcio. A hipercalcemia potencializa intoxicação digitálica, aumenta a contratilidade miocárdica e aumenta o risco de graus variados de BAV e morte súbita em virtude de brilação ventricular Creatinina: 0,7 a 1,4 mg/dℓ A ureia e a creatinina são utilizadas para avaliar a função renal, embora a creatinina seja uma medida mais sensível. O comprometimento renal é detectado pelo aumento da ureia e da creatinina. O nível normal de creatinina e a elevação da ureia sugerem décit de volume de líquido intravascular Magnésio (Mg++): 1,3 a 2,3 mEq/ℓ O magnésio é necessário para a absorção do cálcio, a manutenção dos depósitos de potássio e o metabolismo da adenosina trifosfato. É importante na síntese de proteínas e carboidratos e na contração muscular Hipomagnesemia: a diminuição dos níveis de magnésio ocorre em virtude da intensicação da excreção renal de magnésio por terapia com diurético ou digitálico. Níveis baixos de magnésio predispõem os clientes a taquicardias atriais ou ventriculares Hipermagnesemia: o aumento dos níveis de magnésio é comumente causado pelo uso de catárticos ou antiácidos que contêm magnésio. Esse aumento deprime a contratilidade e a excitabilidade do miocárdio, causando BAV e, se grave, assistolia Potássio (K+): 3,5 a 5 mEq/ℓ O potássio é importante na função eletrosiológica cardíaca Hipopotassemia: a diminuição dos níveis de potássio em virtude da administração de diuréticos que excretam potássio pode causar muitos tipos de arritmias, incluindo taquicardia ou brilação ventricular potencialmente fatal, e predispõe à intoxicação digitálica Hiperpotassemia: o aumento dos níveis de potássio pode resultar do aumento da ingestão de potássio (p. ex., alimentos ricos em potássio ou suplementações de potássio), diminuição da excreção renal de potássio, utilização de diuréticos poupadores de potássio (p. ex., espironolactona), ou utilização de inibidores da enzima conversora da angiotensina, que inibem a função da aldosterona. As consequências sérias da hiperpotassemia incluem BAV, assístole e arritmias ventriculares potencialmente fatais Sódio (Na+): 135 a 145 mEq/ℓ Os níveis baixos ou altos de sódio sérico não afetam diretamente a função cardíaca Hiponatremia: a diminuição dos níveis de sódio indica excesso de líquido e pode ser causada por insuciência cardíaca ou administração de diuréticos tiazídicos Hipernatremia: o aumento dos níveis de sódio indica décits de líquido e pode resultar da diminuição da ingestão de água ou da perda de água por sudorese excessiva ou diarreia Coagulograma A lesão da parede de um vaso ou de um tecido inicia a formação de um trombo. Esta lesão ativa a cascata de coagulação e as interações complexas entre fosfolipídios, cálcio e fatores de coagulação que convertem a protrombina em trombina. A cascata da coagulação apresenta duas vias: intrínseca e extrínseca. O coagulograma é realizado de modo rotineiro antes de procedimentos invasivos, tais como cateterismo cardíaco, estudo eletrosiológico e cirurgia cardíaca Tempo de tromboplastina parcial (TTP): 60 a 70 s Tempo de tromboplastina parcial ativada (TTPa): 20 a 39 s TTP ou TTPa mede a atividade da via intrínseca e é utilizado para avaliar os efeitos da heparina não fracionada. Uma variação terapêutica é de 1,5 a 2,5 vezes os valores basais. O ajuste da dose de heparina é necessário se TTPa < 50 s (↑ dose), ou > 100 s (↓ dose) Tempo de protrombina (TP): 9,5 a 12 s O TP mede a atividade da via extrínseca e é utilizado para monitorar o nível de anticoagulação com varfarina Razão normalizada internacional (RNI): 1 A RNI, relatada com o TP, fornece um método padrão para o relato dos níveis de TP e elimina a variação dos resultados do TP dos diferentes laboratórios. A RNI, em vez do TP isoladamente, é utilizada para monitorar a efetividade da varfarina. A variação terapêutica para a RNI é de 2 a 3,5, embora as variações especícas variem com base no diagnóstico Estudos hematológicos Hemograma completo Identica a contagem total de leucócitos e eritrócitos e de plaquetas, e mede a hemoglobina e o hematócrito. É cuidadosamente monitorado em clientes com doença cardiovascular Hematócrito Homens: 42 a 52% Mulheres: 35 a 47% Hemoglobina Homens: 13 a 18 g/dℓ Mulheres: 12 a 16 g/dℓ O hematócrito representaa porcentagem de eritrócitos encontrada em 100 ml de sangue total. Os eritrócitos contêm hemoglobina, que transporta o oxigênio para as células. Níveis baixos de hemoglobina e hematócrito têm consequências sérias para os clientes com doença cardiovascular, tais como episódios de angina mais frequentes ou infarto agudo do miocárdio Plaquetas: 150.000 a 450.000/mm3 As plaquetas são a primeira linha de proteção contra o sangramento. Após a ativação pela lesão da parede do vaso sanguíneo ou pela ruptura de placa aterosclerótica, as plaquetas são submetidas a alterações químicas que formam um trombo. Diversos medicamentos inibem a função plaquetária, incluindo ácido acetilsalicílico, clopidogrel e inibidores da glicoproteína IIb/IIIa intravenosos (abciximabe, eptibatida e tirobana). Quando esses medicamentos são administrados, é essencial monitorar se ocorre trombocitopenia (contagens de plaquetas baixas) Contagem de leucócitos: 4.500 a 11.000/mm3 As contagens de leucócitos são monitoradas em clientes imunocomprometidos, incluindo aqueles com transplantes de coração ou quando se teme infecções (p. ex., após procedimentos invasivos ou cirurgia) BAV, bloqueio atrioventricular. Adaptada de Woods SL, Froelicher ES, Motzer SA et al. (2009). Cardiac nursing (6th ed.). Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins. A fluoroscopia é uma técnica de imagem radiográfica que possibilita a visualização do coração em uma tela. Revela as pulsações cardíacas e vasculares e contornos cardíacos incomuns. Esta técnica utiliza uma fonte móvel de raios X, o que a torna um auxílio útil para o posicionamento de eletrodos de ritmo transvenosos e para guiar a inserção de cateteres arteriais e venosos durante a cateterismo cardíaco e outros procedimentos cardíacos. • • • • • • Eletrocardiografia O ECG é uma representação gráfica das correntes elétricas do coração. O ECG é obtido por meio de eletrodos descartáveis colocados em posições padrão sobre a pele da parede torácica e dos membros (ver no Capítulo 26 a colocação dos eletrodos). Os registros da corrente elétrica que flui entre dois eletrodos são feitos em papel gráfico ou demonstrados em um monitor. Diversos registros diferentes podem ser obtidos por meio de uma diversidade de combinações de eletrodos, denominadas derivações. Um eletrodo é, simplesmente dizendo, uma visão específica da atividade elétrica do coração. O ECG padrão é composto por 12 eletrodos ou 12 visões diferentes, embora seja possível registrar 15 ou 18 derivações. O ECG de 12 derivações é utilizado para diagnosticar arritmias, anormalidades de condução e aumento de câmaras, bem como isquemia, lesão ou infarto agudo do miocárdio. Também pode sugerir efeitos cardíacos de distúrbios eletrolíticos (níveis altos ou baixos de cálcio e potássio) e os efeitos de medicamentos antiarrítmicos. Um ECG de 15 derivações adiciona três derivações torácicas adicionais no precórdio direito e é utilizado para o diagnóstico inicial de infarto ventricular direito e posterior esquerdo (ventricular). O ECG de 18 derivações adiciona três derivações posteriores ao ECG de 15 derivações e é útil para a detecção inicial de isquemia e lesão do miocárdio. Para intensificar a interpretação do ECG, idade, sexo, PA, altura, peso, sintomas e medicamentos (especialmente agentes digitálicos e antiarrítmicos) do cliente são anotados na requisição do ECG. (Ver mais sobre o ECG no Capítulo 26.) Monitoramento eletrocardiográfico contínuo O monitoramento ECG contínuo é o padrão de tratamento para os clientes que são de alto risco para arritmias. Essa forma de monitoramento cardíaco detecta anormalidades na frequência e no ritmo cardíaco. Muitos sistemas têm a capacidade de monitorar em relação a alterações nos segmentos ST, que são utilizados para identificar isquemia ou lesão do miocárdio (ver Capítulo 27). Dois tipos de técnicas de monitoramento ECG contínuo são utilizadas nos ambientes de saúde: monitoramento cardíaco conectado, encontrado em PS, unidades de cuidados críticos e unidades de cuidados progressivos; e telemetria, encontrada em unidades de cuidados de enfermagem gerais ou programas de reabilitação cardíaca ambulatoriais. Os sistemas de monitoramento cardíaco conectado e telemetria variam em sofisticação; entretanto, a maioria dos sistemas apresenta as seguintes características em comum: Monitora mais de uma derivação do ECG simultaneamente Monitora os segmentos ST (a depressão do segmento ST é um marcador de isquemia do miocárdio; a elevação do segmento ST fornece evidência de IAM em evolução) Fornece alarmes visuais e audíveis graduados (com base na prioridade, a assistolia merece o mais alto grau de alarme) Interpreta e armazena alarmes Apresenta tendência de dados ao longo do tempo Imprime uma cópia dos ritmos de uma ou mais derivações específicas do ECG ao longo de um tempo estabelecido (denominada traçado do ritmo). Alerta de enfermagem | Qualidade e segurança Os clientes colocados em monitoramento ECG contínuo devem ser informados a respeito da sua nalidade e advertidos que ele não detecta falta de ar, dor torácica, ou outros sintomas de SCA. Portanto, os clientes são instruídos a relatar sintomas novos ou piora dos sintomas imediatamente. Monitoramento cardíaco conectado O monitoramento cardíaco conectado é utilizado para observar continuadamente o coração em relação a arritmias e distúrbios de condução com a utilização de uma ou duas derivações do ECG. Um ECG em tempo real é demonstrado em um monitor de cabeceira e em uma estação de monitoramento central. Em unidades de cuidados críticos, componentes adicionais podem ser adicionados ao monitor de cabeceira para monitorar continuadamente os parâmetros hemodinâmicos (PA não invasiva, pressões arteriais, pressões em artéria pulmonar), os parâmetros • • • • respiratórios (frequência respiratória, saturação de oxigênio) e os segmentos ST em relação à isquemia do miocárdio. Telemetria Além do monitoramento cardíaco conectado, o ECG pode ser continuadamente observado por telemetria – a transmissão de ondas de rádio de um transmissor operado a bateria até um banco central de monitores. O benefício principal da aplicação da telemetria é que o sistema é sem fios, o que possibilita que os clientes deambulem enquanto uma ou duas derivações do ECG são monitoradas. O cliente apresenta eletrodos colocados sobre o tórax com um cabo de derivação que se conecta ao transmissor. O transmissor pode ser colocado em uma bolsa descartável e utilizado ao redor do pescoço, ou simplesmente afixado às roupas do cliente. A maioria das baterias do transmissor é trocada a cada 24 a 48 h. Sistemas de derivação O número de eletrodos necessários para o monitoramento cardíaco conectado e com telemetria é ditado pelo sistema de derivação utilizado no ambiente clínico. Os eletrodos precisam ser colocados de modo seguro e preciso sobre a parede torácica. O Boxe 25.4 fornece dicas úteis sobre como aplicar estes eletrodos. Existem sistemas de três, quatro ou cinco derivações disponíveis para o monitoramento do ECG. O tipo de sistema de derivações utilizado determina o número de opções de derivações para o monitoramento. Por exemplo, o sistema de cinco derivações fornece até sete seleções de derivações diferentes. Ao contrário dos outros dois sistemas, o sistema de cinco derivações pode monitorar a atividade da parede anterior do ventrículo esquerdo. A Figura 25.9 apresenta diagramas da colocação dos eletrodos. As duas derivações de ECG selecionadas com mais frequência para o monitoramento ECG contínuo são as derivações II e V1. A derivação II fornece a melhor visualização da despolarização atrial (representada pela onda P). A derivaçãoV1 registra melhor a despolarização ventricular e é mais útil quando do monitoramento em relação a determinadas arritmias (p. ex., contrações ventriculares prematuras, taquicardias, bloqueios de ramo) (ver Capítulo 26). Eletrocardiografia deambulatória A eletrocardiografia deambulatória é um tipo de monitoramento ECG contínuo utilizado para fins diagnósticos no ambiente ambulatorial. Os eletrodos (o número varia com base no modelo utilizado) são conectados com os fios das derivações a um cabo que é inserido em um gravador portátil (i. e., monitor Holter), que registra o ECG em um dispositivo de memória digital. O cliente utiliza o gravador por 24 h para detectar arritmias ou isquemia do miocárdio, que pode ocorrer durante as horas em que está acordado ou dormindo. O cliente mantém um diário, anotando o horário de quaisquer sintomas ou da realização de atividades incomuns. Os dados do dispositivo de memória digital são carregados em um computador para a análise, e os ritmos que precisam de avaliação adicional por um clínico são identificados. A eletrocardiografia deambulatória é utilizada para identificar a etiologia dos sintomas (p. ex., síncope, palpitações) que podem ser causados por arritmias, para detectar episódios de isquemia do miocárdio, e para avaliar a eficácia dos medicamentos cardíacos (p. ex., medicamentos antiarrítmicos, nitratos) ou a função de marcapasso. Boxe 25.4 Aplicação dos eletrodos O sistema de monitoramento requer um sinal elétrico adequado para analisar o ritmo cardíaco do cliente. Ao aplicar os eletrodos, as recomendações a seguir devem ser seguidas para otimizar a aderência à pele e a condução da corrente elétrica do coração: Debride a superfície da pele das células mortas com água e sabão e seque bem (ou conforme recomendado pelo fabricante) Corte (não barbeie) os pelos ao redor do local do eletrodo, se necessário Se o cliente estiver diaforético (suado), aplique uma pequena quantidade de beijoim sobre a pele, evitando a área sob o centro do eletrodo Conecte os eletrodos aos os de derivação antes da sua colocação no tórax (a conexão dos os de derivações quando os eletrodos estão colocados pode ser • • • • desconfortável para alguns clientes) Destaque a parte de trás do eletrodo, e certique-se de que o centro está umedecido com gel para eletrodo Localize a colocação da derivação apropriada, e aplique o eletrodo na pele, mantendo-o seguro no lugar com uma pressão leve Substitua os eletrodos a cada 24 a 48 h (ou conforme recomendado pelo fabricante), examine a pele em relação à irritação, e aplique os eletrodos em locais diferentes Se o cliente for sensível aos eletrodos, utilize eletrodos hipoalergênicos. Adaptado de Drew BJ, Califf RM, Funk M et al. (2005). AHA scientific statement: Practice standards for electrocardiographic monitoring in hospital settings: An American Heart Association scientific statement from the Councils on Cardiovascular Nursing, Clinical Cardiology, and Cardiovascular Disease in the Young: Endorsed by the International Society of Computerized Electrocardiology and the American Association of Critical Care Nurses. Journal of Cardiovascular Nursing, 20(2), 76106. Figura 25.9 Colocação dos eletrodos utilizados no monitoramento eletrocardiográfico contínuo para o sistema de três derivações, colocação em RA, LA e LL; sistema de quatro derivações, colocação em RA, LA, RL e LL; sistema de cinco derivações, colocação em RA, LA, RL, LL e V1. Monitoramento transtelefônico Outro método de avaliação do ECG de um cliente no domicílio é o monitoramento transtelefônico. O cliente conecta um sistema de derivação específico para a transmissão dos sinais e coloca um bocal de telefone fixo sobre a caixa transmissora. O ECG é registrado e avaliado em um local remoto, tal como um consultório médico ou uma agência comunitária. Este método é com frequência utilizado para o diagnóstico de arritmias e para avaliar a função de marcapasso e desfibrilador cardioversor implantável. Sistemas de monitoramento cardíaco móveis sem fio Essa tecnologia possibilita que os profissionais de saúde monitorem e transmitam o ECG de clientes fora do hospital ou do ambiente do consultório continuadamente. O método sem fio apresenta diversas vantagens quando comparado ao monitoramento com Holter e transtelefônico. É leve e pode monitorar o cliente 24 h por dia, 7 dias por semana. Os clientes utilizam um pequeno dispositivo de sensibilização que transmite cada batimento cardíaco para um pequeno monitor. Quando uma arritmia é detectada, o sistema transmite automaticamente o ECG do cliente para um centro de monitoramento, seja pela linha telefônica do cliente quando no domicílio ou por sistemas de comunicação sem fio quando fora do domicílio. Este sistema intensifica a detecção e o tratamento inicial de arritmias que de outro modo podem ser diagnosticadas apenas após o cliente desenvolver sintomas sérios. Intervenções de enfermagem para o monitoramento cardíaco Diversas intervenções de enfermagem facilitam a aquisição de dados precisos e garantem a segurança do cliente quando da utilização de diversas formas de monitoramento cardíaco. A enfermeira deve substituir os eletrodos de acordo com as recomendações do fabricante com a utilização do preparo cutâneo adequado. Durante as trocas dos eletrodos, a pele deve ser avaliada quanto a respostas alérgicas (pele pruriginosa e avermelhada) ao adesivo ou ao gel do eletrodo. Se forem detectadas, os eletrodos devem ser substituídos por eletrodos hipoalergênicos. Além disso, com a finalidade de evitar a solução de continuidade da pele, a colocação dos eletrodos deve ser rotacionada (ver Figura 25.9). A enfermeira deve assegurar que os eletrodos e as conexões de derivação estejam posicionados corretamente. O posicionamento inadequado pode resultar em um traçado de ECG impreciso, que mimetiza isquemia ou arritmias. Devem ser selecionadas duas derivações que forneçam o melhor traçado para o monitoramento da arritmia, normalmente a derivação II e a derivação torácica V1. Além disso, a enfermeira deve manter os registros de ECG livres de artefatos, que são um padrão de ECG anormal causado por atividade muscular, movimentação do cliente, interferência elétrica, ou mau funcionamento do cabo da derivação ou do eletrodo. Os artefatos podem mimetizar arritmias e causar alarmes desnecessários. Para evitar os artefatos, a enfermeira deve preparar a pele do cliente conforme recomendado pelo fabricante e evitar a colocação de eletrodos sobre áreas ósseas do tórax. Os equipamentos elétricos em utilização ao redor do cliente devem ser inspecionados para se assegurar que estejam funcionando adequadamente e que tenham sido verificados recentemente pelo departamento de engenharia clínica de acordo com a política da organização, tendo em vista que equipamentos com funcionamento inadequado também podem causar artefatos. A enfermeira deve responder e corrigir todos os monitores imediatamente. Alarmes de monitoramento inoperante (inop) – utilizados para comunicar que os eletrodos caíram, que as derivações estão soltas ou que a bateria do sistema está baixa (p. ex., telemetria) – são tão significativos quanto os alarmes que indicam que o cliente está taquicárdico, bradicárdico e apresentando outra arritmia potencialmente fatal. As respostas rápidas a todos os alarmes podem prevenir consequências sérias, incluindo a morte. As infecções hospitalares podem ser prevenidas pela manutenção da limpeza dos cabos dos fios de derivações e do equipamento transmissor, de acordo com a política organizacional. Um cliente nunca deve ser conectado a um equipamento de monitoramento que não tenha sido completamentelimpo depois do uso de outro cliente. Se um cliente estiver programado para um implante de dispositivo, tal como um marcapasso, os eletrodos não devem ser colocados sobre o local de incisão planejado. Do mesmo modo, os eletrodos nunca devem ser colocados sobre uma incisão, um dispositivo implantado, ferimentos abertos ou pele inflamada. Os eletrodos devem ser removidos após a interrupção do monitoramento, e a pele deve ser limpa para remover o excesso de gel e adesivo dos eletrodos. Eletrodos que contêm metal devem ser removidos antes do envio do cliente para angiografia por ressonância magnética (ARM). Os transmissores de telemetria e outros equipamentos de monitoramento devem ser mantidos de acordo com as recomendações do fabricante. Os dispositivos de monitoramento de qualquer tipo não devem ser submergidos em água. Um dispositivo de monitoramento pode quebrar se cair; portanto, deve estar afixado ao avental ou às roupas do cliente (Baranchuk, Shaw, Alanazi et al., 2009; Evenson e Farnsworth, 2010; Graham e Cvach, 2010; Hannibal, 2011). Prova de esforço cardíaco Normalmente, as artérias coronárias dilatam até quatro vezes o seu diâmetro habitual em resposta ao aumento das demandas metabólicas de oxigênio e nutrientes. Entretanto, as artérias coronárias afetadas por aterosclerose dilatam menos, comprometendo o fluxo de sangue para o miocárdio e causando isquemia. Portanto, as anormalidades na função cardiovascular têm maior probabilidade de serem detectadas durante ocasiões de aumento da demanda, ou “estresse”. Os procedimentos de prova de esforço cardíaco – prova de esforço físico e o teste de estresse farmacológico – são modos não invasivos de avaliar a resposta do sistema cardiovascular ao estresse. A prova de esforço ajuda a determinar o seguinte: (1) a presença de DAC, (2) a causa da dor torácica, (3) a capacidade funcional do coração após IAM ou cirurgia cardíaca, (4) a eficácia dos medicamentos antiangina ou antiarrítmicos, (5) a ocorrência de arritmias, e (6) os objetivos específicos para um programa de condicionamento físico. As contraindicações a prova de esforço incluem estenose aórtica grave, miocardite ou pericardite aguda, hipertensão grave, suspeita de DAC principal esquerda, IC e angina instável. Tendo em vista que as complicações de prova do esforço podem ser potencialmente fatais (IAM, parada cardíaca, IC e arritmias graves), as instalações de teste devem ter equipe e equipamentos pontos para fornecer tratamento, incluindo suporte à vida cardíaco avançado. A prova de esforço geralmente é combinada com ecocardiografia ou cintigrafia, técnicas utilizadas para capturar imagens do coração. A cintigrafia cardíaca é realizada durante o estado de repouso e imediatamente após a prova de esforço. Prova de esforço físico Procedimento Durante uma prova de esforço físico, o cliente caminha sobre uma esteira elétrica (mais comum), pedala uma bicicleta ergométrica ou aciona uma manivela com o braço (Myers, Arena e Franklin, 2009). A intensidade dos exercícios progride de acordo com protocolos estabelecidos. O protocolo selecionado para o teste tem por base a finalidade do teste e o nível de condicionamento físico e de saúde do cliente (Woods et al., 2009). Durante a prova, monitorase o seguinte: duas ou mais derivações de ECG para determinação da frequência cardíaca, do ritmo cardíaco e de alterações isquêmicas; PA; temperatura da pele; aspecto físico; esforço percebido e sintomas, incluindo dor torácica, dispneia, tontura, cãibra nas pernas e fadiga. A prova é encerrado quando a frequência cardíaca predeterminada é alcançada ou quando o cliente apresenta sinais de isquemia do miocárdio. Outros exames complementares, tais como cateterismo cardíaco, podem ser recomendados se o cliente desenvolver dor torácica, fadiga extrema, diminuição da PA ou da frequência de pulso, arritmias sérias ou alterações no segmento ST ao ECG durante a prova de esforço. Intervenções de enfermagem No preparo para a prova de esforço físco, o cliente é instruído a realizar jejum de 4 h antes do exame e evitar estimulantes, tais como tabaco e cafeína. Os medicamentos podem ser administrados com goles de água. O médico pode instruir o cliente a não usar determinados medicamentos cardíacos, tais como bloqueadores betaadrenérgicos, antes da prova. Devem ser utilizados roupas e tênis ou sapatos com solas de borracha adequados para a prática de exercícios. A enfermeira prepara ao cliente para a prova de esforço descrevendo como esta é realizada, o tipo de equipamento de monitoramento utilizado, a justificativa para a inserção de um cateter IV e quais sintomas devem ser relatados. O método de exercícios é revisado, e solicitase aos clientes que realizem seus melhores esforços nos exercícios. Se o exame precisar ser realizado com ecocardiografia ou cintigrafia (descritos na próxima seção), essas informações também são revisadas. Após o exame, o cliente é monitorado por 10 a 15 min. Assim que estiverem estáveis, os clientes podem retomar as suas atividades habituais. Teste de estresse farmacológico Procedimento Os clientes fisicamente incapacitados ou que não estão condicionados não conseguirão alcançar a sua frequência cardíacaalvo com exercícios em esteira elétrica ou bicicleta. Dois agentes vasodilatadores, dipiridamol e adenosina, administrados por via intravenosa, são utilizados para mimetizar os efeitos dos exercícios ao dilatar de modo máximo as artérias coronárias. Os efeitos do dipiridamol duram aproximadamente 15 a 30 min. Os efeitos colaterais também estão relacionados com a sua ação de vasodilatação e incluem desconforto torácico, tontura, cefaleia, rubor e náuseas. A adenosina apresenta efeitos colaterais similares, embora os clientes relatem estes sintomas como mais graves. A adenosina apresenta meiavida extremamente curta (menos de 10 s), de modo que quaisquer efeitos graves cessam rapidamente. Dipiridamol e adenosina são os agentes preferenciais utilizados em conjunto com técnicas de cintigrafia. Teofilina e outras xantinas, tais como cafeína, bloqueiam os efeitos do dipiridamol e da adenosina, e devem ser evitadas antes dessas provas de esforço farmacológico. A dobutamina também pode ser utilizada se o cliente não puder se exercitar. A dobutamina, um agente simpaticomimético sintético, aumenta a frequência cardíaca, a contratilidade do miocárdio, e a PA, aumentando, assim, as demandas metabólicas do coração. É o agente preferencial quando se emprega ecocardiografia, em virtude dos seus efeitos sobre a alteração da movimentação da parede do miocárdio (devida à intensificação da contratilidade). A dobutamina também é utilizada para clientes que apresentam broncospasmo ou doença pulmonar e que não conseguem tolerar a suspensão das doses de teofilina. Intervenções de enfermagem No preparo para o teste ergométrico farmacológico, o cliente é instruído a não comer ou beber nada por no mínimo 4 h antes do teste. Isso inclui chocolate, cafeína, café descafeinado, chá, bebidas carbonatadas ou medicamentos que contenham cafeína (p. ex., ácido acetilsalicílico e cafeína). Se houver ingestão de cafeína antes de uma prova de esforço com dipiridamol ou adenosina, o exame precisa ser reagendado. Os clientes que recebem aminofilina, teofilina ou dipiridamol são instruídos a deixar de ingerir estes medicamentos por 24 a 48 h antes do teste (se tolerado). O cliente é informado a respeito das sensações temporárias que podem ocorrer durante a infusão do agente vasodilatador, tais como rubor ou náuseas, que desaparecerão rapidamente. O clienteé instruído a relatar a ocorrência de quaisquer outros sintomas durante o teste para o cardiologista ou a enfermeira. O teste de estresse pode demorar aproximadamente uma hora, ou até 3 h se for realizada cintigrafia. Ecocardiografia Ecocardiografia transtorácica A ecocardiografia é um exame não invasivo que utiliza ultrassom utilizado para medir a fração de ejeção e examinar o tamanho, o formato e a movimentação das estruturas cardíacas. É particularmente útil para o diagnóstico de derrames (efusões) pericárdicos; a determinação do tamanho das câmaras e da etiologia dos sopros cardíacos; a avaliação da função das valvas cardíacas, incluindo próteses de valvas cardíacas e a avaliação da movimentação da parede ventricular. Procedimento A ecocardiografia envolve a transmissão de ondas de som de alta frequência para o coração através da parede torácica e o registro dos sinais de retorno. Com a abordagem transtorácica tradicional, o ultrassom é gerado por um transdutor manual aplicado à frente do tórax. O transdutor recebe os ecos e os converte em impulsos elétricos que são registrados e demonstrados em um monitor. Ele cria imagens sofisticadas e espacialmente corretas do coração. Um ECG é registrado simultaneamente para auxiliar na interpretação do ecocardiograma. Com a utilização das técnicas de Doppler, um ecocardiograma também pode demonstrar a direção e a velocidade do fluxo de sangue através do coração. Essas técnicas são utilizadas para a avaliação de “extravasamentos valvares”, condições denominadas regurgitação valvar, e também detectam o fluxo sanguíneo anormal entre os septos cardíacos esquerdo e direito. A ecocardiografia pode ser realizada com uma prova de esforço físico ou farmacológico. As imagens são obtidas em repouso e imediatamente após a frequência cardíacaalvo ser alcançada. A isquemia do miocárdio em virtude da diminuição da perfusão durante o estresse causa anormalidades na movimentação da parede ventricular e é facilmente detectada por ecocardiografia. Uma prova de esforço com a utilização de ecocardiografia é considerado positivo se forem detectadas anormalidades na movimentação da parede ventricular durante o estresse, mas não durante o repouso. Esses achados são altamente sugestivos de DAC e requerem avaliação adicional, tal como cateterismo cardíaco. Intervenções de enfermagem Antes da ecocardiografia transtorácica, a enfermeira informa o cliente a respeito do teste, explicando que ele é indolor. O monitoramento ecocardiográfico é realizado enquanto um transdutor que emite ondas de som é movimentado sobre a superfície da parede torácica. O gel aplicado à pele auxilia na transmissão das ondas de som. Periodicamente, solicitase que o cliente se vire sobre o lado esquerdo ou prenda a respiração. O teste demora aproximadamente 30 a 45 min. Se o cliente precisar ser submetido a uma prova de estresse por exercícios ou farmacológico com ecocardiografia, as informações sobre a prova de esforço também são revisadas com o cliente. Ecocardiografia transesofágica Procedimento Uma limitação significativa da ecocardiografia transtorácica é a má qualidade das imagens produzidas. O ultrassom perde sua clareza ao atravessar os tecidos, os pulmões e os ossos. Uma técnica alternativa envolve a inserção de um pequeno transdutor através da boca e dentro do esôfago. Esta técnica, denominada ecocardiografia transesofágica (ETE), fornece imagens mais claras, tendo em vista que as ondas de ultrassom atravessam menos tecidos. Um agente anestésico tópico e sedação moderada são utilizados durante a ETE em virtude do desconforto associado ao posicionamento do transdutor no esôfago (ver mais sobre sedação moderada no Capítulo 18). Quando o cliente estiver confortável, inserese o transdutor dentro da sua boca e solicitase que ele degluta diversas vezes até que ele esteja posicionado no esôfago. A imagem de alta qualidade obtida durante a ETE torna esta técnica uma importante ferramenta diagnóstica de primeira linha para a avaliação de clientes com muitos tipos de DCV, incluindo IC, valvopatia cardíaca, arritmias e muitas outras condições que colocam o cliente em risco de trombos atriais ou ventriculares. Também pode ser realizado teste de estresse farmacológico com a utilização de dobutamina e ETE. Ela é empregada com frequência durante cirurgia cardíaca para monitorar continuadamente a resposta do coração ao procedimento cirúrgico (p. ex., substituição valvar ou revascularização do miocárdio). As complicações são incomuns durante a ETE; entretanto, se ocorrem, são sérias. Essas complicações são causadas pela sedação e pelo comprometimento da deglutição que resulta da anestesia tópica (depressão respiratória e aspiração) e pela inserção e manipulação do transdutor dentro do esôfago e do estômago (resposta vasovagal ou perfuração esofágica). O cliente deve ser avaliado antes da ETE em relação a histórico de disfagia ou radioterapia torácica, que aumentam a probabilidade de complicações. Intervenções de enfermagem Antes do teste, a enfermeira fornece instruções préprocedimento e assegura que o cliente apresenta uma clara compreensão do que o teste implica e por que ele está sendo realizado, instrui o cliente a não comer ou beber nada por 6 h antes do estudo, e certificase de que foi obtido o consentimento livre e esclarecido. A enfermeira também punciona uma veia periférica ou avalia um acesso IV existente em relação à permeabilidade e solicita ao cliente que remova dentaduras totais ou parciais. Durante o repouso, a enfermeira fornece suporte emocional e monitora o nível de consciência, a PA, o ECG, a respiração e a saturação de oxigênio (SpO2). Durante o período de recuperação, o cliente deve manter o repouso no leito com a cabeceira do leito elevada em 45°. De acordo com a política de sedação moderada da agência, a enfermeira monitora o cliente em relação à dispneia e avalia os sinais vitais, a SpO2, o nível de consciência e o reflexo do vômito, conforme recomendado. Alimentos e líquidos orais são suspensos até que o cliente esteja totalmente alerta e os efeitos do agente anestésico tópico sejam revertidos, normalmente 2 h após o procedimento; se o reflexo do vômito estiver intacto, a enfermeira inicia a alimentação com goles de água, em seguida avança até a dieta préprocedimento. O cliente é informado de que pode ter dor de garganta pelas próximas 24 h; ele ou ela é instruído a relatar dor de garganta persistente, falta de ar ou dificuldade de deglutição. Se o procedimento for realizado em ambiente ambulatorial, um familiar ou amigo deve estar disponível para transportar o cliente até em casa saindo do local do teste. Cintigrafia Estudos de cintigrafia envolvem a utilização de radioisótopos para avaliar, de modo não invasivo, a perfusão da artéria coronária, detectar isquemia e infarto agudo do miocárdio e avaliar a função ventricular esquerda. Radioisótopos são átomos instáveis que produzem pequenas quantidades de energia na forma de raios gama à medida que se decompõem. Quando os radioisótopos são injetados dentro da corrente sanguínea, a energia emitida pode ser detectada por uma câmera de cintilação gama posicionada sobre o corpo. Cintigrafia de perfusão miocárdica Procedimento A cintigrafia de perfusão miocárdica é utilizada em combinação com o teste ergométrico (ou prova de esforço) para comparar as imagens obtidas quando o coração está em repouso às imagens do coração em um estado de estresse que resulta dos exercícios ou medicamentos. Os resultados deste exame auxiliam a determinar se a DAC é a causa da dor torácica ou de outrossintomas relacionados com a DAC. É comumente realizado após IAM agudo para determinar se a perfusão arterial do coração está comprometida durante a atividade e para avaliar a extensão da lesão do miocárdio. A cintigrafia é realizada em dois estágios. Em geral, as imagens em repouso são obtidas primeiro. Uma veia periférica é puncionada para administrar o radioisótopo, e eletrodos são colocados sobre o tórax para monitorar a frequência e o ritmo cardíacos. Os clientes são posicionados em decúbito dorsal, com seus braços sobre a cabeça, sob a câmera de cintigrafia. O procedimento demora aproximadamente 30 min. O segundo exame é repetido após a prova de esforço com exercícios ou farmacológico. Dizse que uma área do miocárdio não é perfundida ou tem redução da perfusão apresenta um “defeito”. A comparação das imagens em repouso às imagens obtidas após a prova de esforço auxilia a diferenciar o miocárdio isquêmico do miocárdio relacionado com o infarto. Após um IAM, ocorre um defeito na área infartada do coração, que permanece do mesmo tamanho durante os exercícios e o repouso. Isso é denominado um efeito fixo, indicando que não existe perfusão naquela área do miocárdio. Os defeitos que aparecem ou que aumentam após a obtenção das imagens do teste de estresse indicam redução da perfusão naquela área do coração. Tendo em vista que o defeito desaparece com o repouso, ele é chamado de defeito reversível. Os defeitos reversíveis constituem achados positivos do teste de estresse. Tipicamente, o cateterismo cardíaco é recomendado após um teste ergométrico positivo para determinar a gravidade das obstruções do fluxo sanguíneo causadas pela DAC. Intervenções de enfermagem O cliente que é submetido a cintigrafia com teste de estresse deve ser preparado em relação ao tipo de estressor a ser utilizado (exercícios ou medicamento), e receber detalhes sobre o que esperar durante cintigrafia. Antes do estudo, a enfermeira punciona uma veia periférica ou verifica se o acesso venoso existente está desobstruído. O cliente pode estar preocupado a respeito da injeção de uma substância radioativa e precisa ser tranquilizado de que estes marcadores são seguros – a exposição à radiação é semelhante à de outros exames complementares. Não são necessárias precauções pósprocedimento a respeito da radiação. Prova de função e movimentação da parede ventricular A angiocardiografia com radionuclídeos de equilíbrio (ARNE), também conhecida como angiografia multissincronizada (MUGA), é uma técnica não invasiva comum, que utiliza uma câmera de cintilação convencional com interface com um computador para registrar imagens do coração durante centenas de batimentos cardíacos. O computador processa os dados e possibilita visualizações sequenciais do coração em funcionamento. As imagens sequenciais são analisadas para avaliar a função ventricular esquerda, a movimentação da parede e a fração de ejeção. É garantido ao cliente que não existe risco conhecido de radiação, e ele é orientado a permanecer imóvel durante o exame. Tomografia computadorizada Procedimento A tomografia computadorizada (TC) cardiovascular é um tipo de exame de imagem cardíaca que utiliza raios X para fornecer imagens anatômicas acuradas das quatro câmaras do coração, das valvas, das artérias, das veias e do pericárdio. Não é comumente utilizada para avaliar a perfusão do miocárdio ou a função valvar. Para a realização da TC, o cliente é colocado sobre uma mesa que se move para dentro de uma estrutura que contém o equipamento de raios X e varredura. As imagens são criadas por análise dos dados obtidos durante o exame com a utilização de algoritmos matemáticos e de computador complexos (Woods et al., 2009). Essas imagens são utilizadas para avaliar a permeabilidade do enxerto, lesões cardíacas congênitas e a espessura das paredes ventriculares esquerda e direita, bem como para localizar tumores e massas cardíacas. A TC é contraindicada durante a gestação e em clientes com insuficiência renal. O agente de contraste utilizado durante a TC é excretado pelos rins; portanto, a função renal deve ser avaliada antes do exame. Hidratação venosa antes e após o exame pode ser indicada para minimizar o efeito do contraste sobre a função renal. Se o cliente apresentar histórico de hipersensibilidade a agentes de contraste, a prémedicação com esteroides e antihistamínicos é indicada (Woods et al., 2009). A angiotomografia computadorizada (ângioTC) é realizada com agentes de contraste IV para intensificar os raios X e melhorar a visualização do lúmen das artérias em relação à estenose. Um dos fatores limitantes da ângio TC é o fato de que a movimentação criada pelas incursões respiratórias e pela frequência e ritmo cardíacos afeta a qualidade desse exame. O cliente pode receber betabloqueadores antes do exame para controlar a frequência e o ritmo cardíacos. Ele é instruído a segurar a sua respiração periodicamente durante todo o exame. A TC com feixes de elétrons (EBCT) é utilizada para determinar a quantidade de depósitos de cálcio nas artérias coronárias, que pode ser indicativa de aterosclerose. A partir deste exame, é obtida uma pontuação do cálcio (escore de cálcio coronariano) que prevê a probabilidade de eventos cardíacos, tais como IAM, ou a necessidade de um procedimento de revascularização no futuro. Atualmente, acreditase que a medição do cálcio coronariano é um exame razoável para a consideração em clientes com risco baixo a intermediário de futuros eventos relacionados com a DAC. Os resultados desse exame podem auxiliar na sua reclassificação como de risco mais alto e, assim, intensificar as medidas de prevenção primária (Greenland, Alpert, Beller et al., 2010). Intervenção de enfermagem A enfermeira fornece os detalhes do procedimento para auxiliar no preparo do cliente para o teste. O cliente é posicionado sobre uma mesa, e o escâner gira ao redor da mesa durante o teste. O procedimento é não invasivo e indolor. Entretanto, para obter imagens adequadas, o ciente deve deitarse completamente imóvel durante o exame. Um acesso venoso é necessário em caso do uso de contraste para realçar as imagens. Devese informar ao cliente que espere rubor, gosto metálico, náuseas ou bradicardia temporários durante a infusão do contraste. Tomografia por emissão de pósitrons A tomografia por emissão de pósitrons (PET) é uma técnica de imagem cardiovascular nuclear não invasiva comumente utilizada. É utilizada para avaliar a gravidade da DAC por meio da avaliação da perfusão do miocárdio. Além disso, avalia a função ventricular esquerda e a extensão da lesão causada pelo IAM. Os resultados deste exame auxiliam os clínicos a estabelecer um plano de tratamento para a DAC (p. ex., revascularização do miocárdio, ICP) (Woods et al., 2009). A enfermeira deve avaliar os clientes em relação ao temor de espaços fechados ou à claustrofobia. Os clientes devem ser tranquilizados de que são administrados medicamentos para ajudálos a relaxar. Os clientes também devem ser tranquilizados de que a exposição à radiação ocorre em níveis seguros e aceitáveis, similares àqueles de outros estudos radiográficos diagnósticos. Procedimento Durante uma PET, radioisótopos são administrados por injeção; um composto é utilizado para determinar o fluxo sanguíneo no miocárdio, e outro determina a função metabólica. A câmera de PET fornece imagens tridimensionais detalhadas dos compostos distribuídos. A viabilidade do miocárdio é determinada comparandose o metabolismo da glicose no miocárdio com o grau de fluxo sanguíneo. Por exemplo, o tecido isquêmico, porém viável,mostra diminuição do fluxo sanguíneo e elevação do metabolismo. Para um cliente com este achado, a revascularização por meio de cirurgia ou angioplastia provavelmente será indicada para melhorar a função cardíaca. As restrições ao consumo de alimentos antes do exame variam entre as instituições, mas, tendo em vista que a PET avalia o metabolismo da glicose, o nível de glicose sérica do cliente deve estar dentro da variação normal antes do teste. Intervenções de enfermagem A enfermeira deve instruir o cliente a evitar o tabagismo e a ingestão de cafeína por 4 h antes da PET. Para preparar o cliente para o exame, a enfermeira providencia um acesso venoso ou avalia um cateter IV existente em relação à permeabilidade, e em seguida descreve o procedimento para o cliente. Um radioisótopo é injetado no acesso IV. Demora aproximadamente uma hora para que o marcador seja absorvido no corpo. Eletrodos são colocados sobre o tórax para monitorar a frequência e o ritmo cardíacos. O cliente deita sobre uma mesa estreita, que é posicionada dentro de um grande escâner similar a um tubo. O teste demora 90 min para ser concluído. Durante este período, o cliente precisa permanecer deitado e imóvel, de modo que imagens claras do coração possam ser obtidas. Angiografia por ressonância magnética Procedimento A ARM é uma técnica não invasiva e indolor utilizada para examinar as propriedades fisiológicas e anatômicas do coração. A ARM utiliza um campo magnético poderoso e imagens geradas por computador para formar imagens do coração e dos grandes vasos. É valiosa no diagnóstico de doenças da aorta, do músculo cardíaco e do pericárdio, bem como de lesões cardíacas congênitas. A aplicação desta técnica para a avaliação da anatomia das artérias coronárias é limitada, tendo em vista que a qualidade das imagens é distorcida pelas incursões respiratórias, pelas contrações cardíacas e por determinados dispositivos implantados (stents e grampos cirúrgicos). Além disso, esta técnica não consegue visualizar adequadamente as pequenas artérias coronárias distais tão precisamente quanto a angiografia convencional realizada durante um cateterismo cardíaco. Portanto, a última técnica permanece o padrão ouro para o diagnóstico da DAC (Bluemke, Achenbach, Budoff et al., 2008). Intervenções de enfermagem Em virtude do campo magnético utilizado durante a ARM, os clientes devem ser triados em relação a contraindicações à sua utilização. A ARM não pode ser realizada em clientes que apresentam um marcapasso, placas metálicas, próteses de articulações, ou outros implantes metálicos, que possam ser deslocados se expostos à ARM. Os clientes são instruídos a remover quaisquer joias, relógios, ou outros itens metálicos (p. ex., derivações de ECG). Adesivos transdérmicos que contêm uma camada aluminizada de condução de calor (p. ex., adesivos de nicotina, testosterona, nitroglicerina, escopolamina, clonidina) devem ser removidos antes da ARM para prevenir a queimadura da pele. Durante a ARM, o cliente é colocado em decúbito dorsal sobre uma mesa localizada dentro de um dispositivo ou tubo de formação de imagens cercado que contém o campo magnético. Um cliente claustrofóbico pode precisar receber um sedativo leve antes de ser submetido a ARM. Um ruído intermitente de tinido ou abafado, que pode ser incômodo, é gerado pelas bobinas magnéticas, de modo que pode ser oferecido ao cliente um fone de ouvido para ouvir música. O escâner é equipado com um microfone, de modo que o cliente possa se comunicar com a equipe. O cliente é orientado a permanecer imóvel durante o exame. Cateterismo cardíaco O cateterismo cardíaco é um procedimento diagnóstico invasivo no qual cateteres arteriais e venosos radiopacos são avançados para dentro do coração direito e esquerdo. Conforme observado anteriormente, é o exame complementar padrãoouro para DAC (Bluemke et al., 2008). O avanço do cateter é guiado por fluoroscopia. Os cateteres são inseridos nos vasos sanguíneos por via percutânea, ou por meio de um procedimento com cortes, se o cliente apresentar acesso vascular ruim. São medidos as pressões e os níveis de saturação de oxigênio nas quatro câmaras cardíacas. O cateterismo cardíaco é realizado para diagnosticar DAC; avaliar a perviedade da artéria coronária; determinar a extensão da aterosclerose e determinar se procedimentos de revascularização, incluindo ICP ou revascularização do miocárdio, podem ser benéficos para o cliente (ver Capítulo 27). O cateterismo cardíaco também é realizado para diagnosticar hipertensão arterial pulmonar e valvopatia cardíaca. Durante o cateterismo cardíaco, o cliente precisa ter um ou mais acessos venosos para a administração dos agentes sedativos, líquidos, heparina e outros medicamentos. O monitoramento da PA e do ECG é necessário para a observação em relação a instabilidade hemodinâmica ou arritmias. O miocárdio pode se tornar isquêmico e acionar arritmias na medida em que os cateteres são posicionados nas artérias coronárias ou durante a injeção dos agentes de contraste radiopacos. Equipamentos de reanimação devem estar prontamente disponíveis, e a equipe deve estar preparada para fornecer medidas cardíacas avançadas de suporte à vida, conforme necessário. Os agentes de contraste radiopacos são utilizados para visualizar as artérias coronárias. Alguns agentes de contraste contêm iodo, e o cliente é avaliado antes do procedimento quanto a reações anteriores a agentes de contraste ou alergias a substâncias que contêm iodo (p. ex., frutos do mar). Se o cliente tiver uma alergia suspeita ou conhecida à substância, antihistamínicos ou metilprednisolona podem ser administrados antes do procedimento. Além disso, os seguintes testes séricos são realizados para identificar anormalidades que possam complicar a recuperação: níveis de ureia sérica (BUN) e creatinina, proporção normalizada internacional e tempo de protrombina, tempo de tromboplastina ativada, valores de hematócrito e hemoglobina, contagem de plaquetas e níveis de eletrólitos. Os clientes submetidos ao cateterismo cardíaco que apresentam comorbidades – incluindo diabetes melito, IC, nefropatia preexistente, hipotensão, desidratação ou idade avançada – correm risco de nefropatia induzida pelo agente de contraste (definida como aumento da creatinina sérica basal de 25% ou mais nos 2 dias seguintes ao procedimento) (Raingruber, KirklandWalsh, Chahon et al., 2011). Embora este tipo de nefropatia aguda seja habitualmente reversível, pode ser necessária diálise temporária. As estratégias preventivas para os clientes de alto risco incluem hidratação préprocedimento e pósprocedimento com infusões IV de soro fisiológico ou bicarbonato de sódio e do antioxidante acetilcisteína (Levine et al., 2011). O cateterismo cardíaco é comumente realizado em esquema ambulatorial e requer 2 a 6 horas de repouso no leito após o procedimento, antes que seja permitido que o cliente deambule. As variações no intervalo de tempo até a deambulação estão relacionadas com o tamanho do cateter utilizado durante o procedimento, ao local de inserção do cateter (artéria femoral ou radial), ao status anticoagulação do cliente e outras variáveis (p. ex., idade avançada, obesidade, distúrbio de sangramento). A utilização de cateteres menores (4 ou 6 Fr) é associada a tempos de recuperação mais curtos. Diversas opções são utilizadas para alcançar a hemostasia arterial após a remoção do cateter. Estão disponíveis dispositivos de compressão especificamente projetados para a utilização com a abordagem arterial transradial. Por exemplo, o Termuo TR BandTM, posicionado sobre a artéria, apresenta um dispositivo que impõe pressão contra a artéria após ser infladocom ar. Ele permanece no local por aproximadamente 2 h. Para a abordagem femoral, pode ser realizada pressão manual isoladamente ou em combinação com dispositivos de compressão mecânica, tais como FemoStopTM (posicionado sobre o local de punção por 30 min). Também estão disponíveis dispositivos de implementação por via percutânea. Esses dispositivos são posicionados no local da punção arterial femoral após a conclusão do procedimento. Eles utilizam uma esponja de gelatina embebida em soro fisiológico, colágeno, suturas, ou uma combinação de colágeno e suturas. Outros produtos que agilizam a hemostasia arterial incluem adesivos externos. Esses produtos são posicionados sobre o local de punção na medida em que o cateter é removido e é aplicada pressão manual por 4 a 10 min. Após ser obtida hemostasia, o adesivo é recoberto com um curativo que permanece no local por 24 h. Diversos fatores, tais como a condição do cliente, custo, disponibilidade institucional destes dispositivos, e a preferência do médico, determinam quais dispositivos de fechamento são utilizados. Os principais benefícios dos dispositivos de fechamento vascular implementados por via percutânea incluem hemostasia confiável e imediata e menos tempo de repouso no leito, sem aumento significativo de sangramentos ou outras complicações. As raras complicações associadas a estes dispositivos incluem sangramento ao redor do dispositivo de fechamento, infecção e obstrução arterial. Os clientes hospitalizados em virtude de angina ou IAM agudo que precisam de cateterismo cardíaco habitualmente retornam aos seus quartos para a recuperação. Em alguns laboratórios de cateterização cardíaca, uma ICP (discutida no Capítulo 27) pode ser realizada durante o cateterismo cardíaco, se houver indicação. Cateterismo do coração direito O cateterismo do coração direito precede, em geral, o cateterismo do coração esquerdo. Consiste na introdução de um cateter a partir de uma veia antecubital ou femoral para o átrio direito, o ventrículo direito, a artéria pulmonar e as arteríolas pulmonares. As pressões e os níveis de saturação de oxigênio destas áreas são obtidos e registrados. Embora o cateterismo do coração direito seja considerado relativamente seguro, as possíveis complicações incluem arritmias, espasmo venoso, infecção do local de inserção, perfuração cardíaca e, raramente, parada cardíaca. Cateterismo do coração esquerdo O cateterismo do coração esquerdo é realizado para avaliar o arco aórtico e seus principais ramos, a permeabilidade das artérias coronárias e a função do ventrículo esquerdo e das valvas mitral e aórtica. Esse procedimento é realizado por cateterismo retrógrado do ventrículo esquerdo. Na abordagem, o médico costumar inserir o cateter na artéria braquial direita ou uma artéria femoral e o avança para até a aorta e o ventrículo esquerdo. As possíveis complicações incluem arritmias, IAM, perfuração do coração ou de grandes vasos e embolização sistêmica. • • • • • • • • • Durante o cateterismo do coração esquerdo, também é realizada a angiografia. A angiografia é uma técnica de imagem que envolve a injeção de um agente de contraste radiopaco no cateter arterial. O agente de contraste é filmado à medida que passa pelas câmaras do coração, pelo arco aórtico e pelas principais artérias. Essas imagens possibilitam a comparação da estrutura e da função do coração ao longo do tempo. A angiografia coronariana é realizada para observar a anatomia da artéria coronária e avaliar o grau de aterosclerose. Um cateter é posicionado nas artérias coronárias direita e esquerda, de modo que o agente de contraste radiopaco possa ser injetado diretamente em cada artéria. A ventriculografia, outra técnica angiográfica, também é realizada para avaliar o tamanho e a função do ventrículo esquerdo. Após o posicionamento do cateter, um grande volume de agente de contraste radiopaco (30 mℓ) é rapidamente injetado no ventrículo. Após o procedimento, o cateter é cuidadosamente retirado e a hemostasia arterial é alcançada com a utilização de pressão manual ou outras técnicas anteriormente descritas. Intervenções de enfermagem As responsabilidades de enfermagem antes do cateterismo cardíaco incluem: Orientar o cliente a realizar jejum, geralmente de 8 a 12 h, antes do procedimento Informar o cliente que se o cateterismo for realizado como um procedimento ambulatorial, um amigo, familiar ou outra pessoa responsável deve transportar o cliente até sua casa Informar o cliente a respeito da duração esperada do procedimento e advertir que haverá necessidade de permanecer deitado sobre uma mesa dura, por até 2 h Tranquilizar o cliente de que medicamentos IV são administrados para manter o conforto Informar o cliente a respeito das sensações percebidas durante o cateterismo. Saber o que esperar pode ajudar o cliente a lidar com a experiência. A enfermeira explica que uma sensação ocasional de palpitação pode ser sentida no tórax em virtude de batimentos cardíacos adicionais, que quase sempre ocorrem, em particular quando a ponta do cateter toca no endocárdio. Podese solicitar ao cliente que tussa e respire profundamente, especialmente após a injeção do agente de contraste. Tossir pode ajudar a interromper uma arritmia e eliminar o agente de contraste das artérias. Respirar profundamente e prender a respiração ajudam a abaixar o diafragma para a melhor visualização das estruturas do coração. A injeção de um agente de contraste em cada lado do coração pode causar sensação de malestar por todo o corpo e uma sensação similar à de urinar, que cessa em um minuto ou menos Encorajar o cliente a expressar os temores e as ansiedades. A enfermeira fornece instruções e reafirmação para reduzir a apreensão. As responsabilidades de enfermagem após cateterismo cardíaco são ditadas pela política hospitalar e pelas preferências do médico e podem incluir: Observação do local de acesso do cateter em relação a sangramentos ou à formação de hematomas e avaliação dos pulsos periféricos no membro afetado (pulsos dorsal do pé e tibial posterior no membro inferior, pulso radial no membro superior) a cada 15 min durante 1 h, a cada 30 min por 1 h, e a cada hora por 4 h, ou até a alta. A PA e a frequência cardíaca também são avaliadas durante esses mesmos intervalos de tempo. Entretanto, um estudo recente não observou uma associação entre as alterações nesses sinais vitais e as complicações de sangramentos (Mert, Intepeler, Bengu et al., 2012). Esses resultados sugerem que o melhor método para a descoberta de sangramento são avaliações de enfermagem frequentes do local de acesso do cateter (Boxe 25.5) Avaliação da temperatura, cor e enchimento capilar do membro afetado durante esses mesmos intervalos de tempo. O cliente é avaliado em relação a dor no membro, sensações de dormência ou formigamento, que podem indicar insuficiência arterial. A melhor técnica a ser utilizada é comparar os achados no membro acometido com o membro íntegro. Quaisquer alterações são imediatamente relatadas Triagem cuidadosa em relação a arritmias por meio da observação do monitor cardíaco ou por meio da avaliação dos pulsos apical e periférico em relação a alterações na frequência e no ritmo. Uma reação vasovagal, composta por bradicardia, hipotensão e náuseas, pode ser precipitada por uma bexiga urinária distendida ou por desconforto em virtude da pressão manual que é aplicada durante a remoção de um cateter arterial ou venoso. A resposta vasovagal é revertida pela imediata elevação dos membros inferiores acima do nível do coração, infusão • • IV de líquido na forma de bolus e administração de atropina IV para tratar a bradicardia Boxe 25.5 PESQUISADE ENFERMAGEM Monitoramento e identicação de sangramentos após intervenção coronariana percutânea Mert H, Intepeler SS, Bengu N et al. (2012). Efficacy of frequent blood pressure and heart rate monitoring for early identication of bleeding following percutaneous coronary intervention. International Journal of Nursing Practice, 18, 52-59. Finalidade Uma importante intervenção de enfermagem após a intervenção coronariana percutânea (ICP) é a avaliação de complicações relacionadas com o procedimento. Por exemplo, o sangramento não detectado no local de inserção de cateter arterial pode apresentar consequências devastadoras. Para minimizar este risco, a prática de enfermagem tradicional envolve a obtenção frequente dos sinais vitais, uma tarefa que demanda muito tempo da enfermeira. Tipicamente, a pressão arterial (PA) e a frequência cardíaca (FC) são obtidas na chegada à unidade de cuidados do cliente, em seguida a cada 15 min por 1 h, a cada 30 min por 1 h, e a cada hora por 4 h. Entretanto, existem poucas evidências na literatura que possam ser utilizadas para denir a melhor prática para a avaliação de enfermagem desta população. A nalidade deste estudo foi determinar a ecácia dos intervalos de rotina para a aferição da PA e da FC para a identicação de complicações de sangramentos em clientes pós-ICP. Metodologia Este estudo descritivo foi realizado em um hospital universitário. Teve 1.292 participantes, predominantemente homens (71,9%) e com idade média de 61,4 anos. Quase dois terços da amostra (62,8%) foram submetidos a cateterismo cardíaco e o restante (37,2%) realizou uma angioplastia coronariana transluminal percutânea. A artéria femoral foi canulada na maioria destes clientes (92,8%). Os sinais vitais e a avaliação em relação a sangramentos foram iniciados após a chegada na unidade de recuperação pós-procedimento e continuaram durante a primeira hora após a deambulação. Achados Houve evidência de sangramento em 118 (9,1%) dos participantes. Apenas 17 (1,3%) participantes apresentaram hematoma pequeno, todos com < 5 cm, enquanto 96 (7,4%) apresentaram drenagem a partir do local de inserção de cateter. Em 1.214 casos (94%), as enfermeiras detectaram a presença de sangramento. Não houve observação de diferenças signicativas entre a média da PA sistólica e da PA diastólica e da FC antes e durante os episódios de sangramento nestes participantes. Os participantes com e sem complicações de sangramentos eram de idade, sexo e histórico de hipertensão arterial similares. Uma pequena porcentagem de participantes com ou sem uma complicação de sangramento apresentou PA anormal (hipertensão ou hipotensão) e FC anormal (taquicardia ou bradicardia). Nesta coorte, não houve diferenças signicativas entre a FC e a PA anormal dos participantes com ou sem sangramento na ocasião da chegada à unidade de cuidados do cliente e em 15, 45 e 60 min pós-ICP. Em 30 min pós-ICP, a PA anormal (PA sistólica elevada) foi signicativamente mais alta nos participantes com sangramento versus nenhum sangramento (152 [11,8%] versus 43 [3,3%]). Após o ajuste em relação a idade, sexo e histórico de hipertensão, as diferenças entre os valores da PA e FC obtidos em diversos momentos não foram prognosticadoras de complicações de sangramentos. Implicações para a enfermagem A prática de enfermagem precisa ser baseada em evidências. Com os resultados deste estudo, observou-se que o monitoramento frequente da PA e da FC a cada 15 min durante a primeira hora após a ICP pode não ser um método efetivo para a detecção das complicações de sangramento nesta população. O tempo das enfermeiras pode ser melhor utilizado com a individualização da frequência dos sinais vitais com base na condição de cada cliente, que fornecerá às enfermeiras mais oportunidades de avaliar o local de inserção do cateter e o membro afetado em relação a sangramentos. Manutenção do repouso no leito por 2 a 6 h após o procedimento. Se tiver sido empregada pressão manual ou um dispositivo mecânico durante uma abordagem da artéria femoral, o cliente permanece em repouso no leito por até 6 h com a perna afetada reta e a cabeceira do leito elevada em não mais do que 30° (Weigand, 2011). Para o conforto, o cliente pode ser virado de cada lado com o membro afetado reto. Se tiver sido utilizado um dispositivo de fechamento vascular percutâneo, a enfermeira verifica os padrões de cuidados de enfermagem locais e antecipa que o cliente terá menos restrições à atividade. Pode ser permitido que o cliente deambule dentro de 2 h (Hammel, 2009). Se foi puncionada a artéria radial, o cliente permanece em repouso no leito por 2 a 3 h ou até que os efeitos da sedação tenham dissipado. O cliente pode sentar no leito. Uma banda ou curativo compressivo para hemostasia pode ser aplicado sobre o local de acesso do cateter. É administrado medicamento analgésico conforme prescrito para o desconforto. Os clientes são instruídos a evitar a movimentação repetida do membro afetado durante 24 a 48 h (Durham, 2012). Os clientes são orientados a evitar dormir sobre o braço afetado por 24 h Instrução do cliente a relatar dor torácica e sangramento ou desconforto súbito dos locais de inserção do cateter • • • • • • • • • imediatamente Monitoramento do cliente em relação à nefropatia induzida pelo agente de contraste por meio da observação de elevações nos níveis séricos de creatinina. A hidratação oral e IV é utilizada para aumentar o débito urinário e eliminar o agente de contraste do sistema urinário; o aporte oral e IV e o débito urinário precisos são registrados Garantir a segurança do cliente ao orientálo a pedir ajuda para levantar da cama pela primeira vez após o procedimento. O cliente é monitorado em relação a sangramentos do local de acesso do cateter e em relação à hipotensão ortostática, indicada por queixas de tontura ou vertigem (Wiegand, 2011; Woods et al., 2009). Para os clientes que recebem alta hospitalar no mesmo dia do procedimento, são fornecidas instruções adicionais (Boxe 25.6). Estudo eletrofisiológico O estudo eletrofisiológico (EEF) é um procedimento invasivo importante para o diagnóstico e o tratamento de arritmias sérias. O EEF pode ser indicado para clientes com síncope, palpitações, ou ambas, e para sobreviventes de parada cardíaca em virtude de fibrilação ventricular (morte súbita cardíaca) (Woods et al., 2009). O EEF é utilizado para distinguir taquicardias atriais de ventriculares quando a determinação não pode ser feita pelo ECG de 12 derivações; para avaliar quão prontamente uma arritmia potencialmente fatal (p. ex., taquicardia ventricular, fibrilação ventricular) pode ser induzida; para avaliar a função do nó AV; para avaliar a efetividade de medicamentos antiarrítmicos na supressão da arritmia; ou para determinar a necessidade de outras intervenções terapêuticas, tais como um marcapasso, desfibrilador cardioversor implantável ou ablação com radiofrequência. (Ver mais sobre EEF no Capítulo 26.) Monitoramento hemodinâmico Clientes em estado crítico necessitam de avaliação contínua do seu sistema cardiovascular para diagnosticar e tratar suas condições clínicas complexas. Este tipo de avaliação é conquistado por meio de sistemas de monitoramento direto da pressão, denominado monitoramento hemodinâmico. Os tipos comuns incluem PVC, pressão da artéria pulmonar e monitoramento da PA intraarterial. Os clientes que necessitam de monitoramento hemodinâmico são tratados em unidades de cuidados críticos. Algumas unidades de cuidados progressivos também admitem clientes estáveis com PVC ou monitoramento da PA intraarterial. Para realizar o monitoramento hemodinâmico, um cateter de PVC, artéria pulmonar ou arterial é introduzido no vaso sanguíneo apropriado ou na câmara cardíaca apropriada. Ele é conectado a um sistema de monitoramento da pressão que apresenta diversos componentes,incluindo: Boxe 25.6 ORIENTAÇÕES AO CLIENTE Automanejo após cateterismo cardíaco Após a alta hospitalar em virtude de cateterismo cardíaco, os clientes devem seguir essas diretrizes para o autocuidado: Se foi puncionada uma artéria no seu braço ou no seu punho: Nas próximas 48 h, evite levantar qualquer objeto com peso superior a 2 kg e evite a movimentação repetida da sua mão e do punho afetado Se foi puncionada uma artéria na região inguinal: Nas próximas 24 h, não dobre a cintura, faça esforço ou levante objetos pesados Não submerja o local de punção em água. Evite banhos de banheira, mas tome banho de chuveiro conforme desejado Converse com seu médico sobre quando você pode retornar ao trabalho, dirigir ou retomar as atividades vigorosas Se ocorrer sangramento, sente-se (em caso de punção de artéria no braço ou no punho) ou deite-se (em caso de punção de artéria na região inguinal), e aplique pressão rme no local de punção por 10 min. Notique o seu médico assim que possível e siga as instruções. Se houver sangramento volumoso, ligue para o número de emergência. Não dirija até o hospital Chame seu médico se ocorrerem quaisquer dos seguintes: edema, novo hematoma ou dor no seu local de punção do procedimento, temperatura igual ou superior a 38,3°C Se os resultados dos exames mostrarem que você apresenta doença da artéria coronária, converse com seu médico a respeito das opções de tratamento, incluindo programas de reabilitação cardíaca na sua comunidade • • • • • • • • • Converse com seu médico a respeito de alterações no estilo de vida para reduzir o seu risco de problemas cardíacos adicionais ou futuros, tais como abandono do tabagismo, reduzir o seu nível de colesterol, iniciar alterações alimentares, iniciar um programa de exercícios, ou perder peso O seu médico pode prescrever um ou mais medicamentos novos, dependendo dos seus fatores de risco (anti-hipertensivos ou fármacos para reduzir os níveis de colesterol; ácido acetilsalicílico ou clopidogrel para prevenir coágulos sanguíneos). Siga as orientações prescritas. Se você achar que qualquer um deles está causando efeitos colaterais, chame seu médico imediatamente. Não interrompa a medicação antes de conversar com seu médico. Adaptado de Durham KA (2012). Cardiac catheterization through the radial artery. American Journal of Nursing, 112(1), 4956; e Woods SL, Froelicher ES, Motzer SA. et al. (2009). Cardiac nursing (6th ed.). Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins. Um sistema de limpeza descartável, composto por soro fisiológico IV (que pode incluir heparina), equipo, válvulas e um dispositivo de limpeza, que proporciona a limpeza contínua e manual do sistema. Soluções glicosadas deixaram de ser indicadas em virtude do risco de infecção (O’Grady, Alexander, Burns et al., 2011) Uma bolsa de pressão inserida ao redor da solução de limpeza, que é mantida à pressão de 300 mmHg. O sistema de limpeza pressurizada administra 3 a 5 mℓ de solução por hora por cateter para prevenir a coagulação e o fluxo retrógrado de sangue para dentro do sistema de monitoramento da pressão Um transdutor para converter a pressão que advém da artéria ou da câmara cardíaca em um sinal elétrico Um amplificador ou monitor, que aumenta o tamanho do sinal elétrico para demonstração em um osciloscópio. As enfermeiras que cuidam de clientes que necessitam de monitoramento hemodinâmico recebem treinamento antes da aplicação desta tecnologia sofisticada. A enfermeira ajuda a garantir os cuidados seguros e efetivos ao aderir às diretrizes a seguir: Assegurar que o sistema esteja configurado e que seja mantido adequadamente. Por exemplo, o sistema de monitoramento da pressão deve seja mantido desobstruído e sem bolhas de ar Verificar que a válvula do transdutor esteja posicionada no nível do átrio antes que o sistema seja utilizado para a obtenção de aferições da pressão. Este ponto de referência é denominado eixo flebostático (Figura 25.10). A enfermeira utiliza um marcador para identificar este nível na parede torácica, o que fornece um ponto de referência estável para as leituras subsequentes da pressão Estabelecer o ponto de referência zero com a finalidade de assegurar que o sistema esteja funcionando adequadamente à pressão atmosférica. Este processo é realizado por meio do posicionamento da válvula do transdutor no eixo flebostático, da abertura do transdutor para o ar e da ativação da chave de função zero no monitor de cabeceira. As aferições da PVC, PA e pressões da artéria pulmonar podem ser realizadas com a cabeceira do leito elevada em até 60°; entretanto, o sistema precisa ser reposicionado para o eixo flebostático para assegurar uma leitura acurada (Woods et al., 2009). As complicações em virtude da utilização dos sistemas de monitoramento hemodinâmico são incomuns e podem incluir pneumotórax, infecção e embolia gasosa. A enfermeira observa se há sinais de pneumotórax durante a inserção dos cateteres com uma abordagem venosa central (cateteres de PVC e artéria pulmonar). Quanto mais tempo quaisquer destes cateteres forem deixados no local (após 72 a 96 h), maior o risco de infecção. Êmbolos gasosos podem ser introduzidos no sistema vascular se as válvulas anexadas aos transdutores de pressão forem manuseadas de modo errôneo durante a coleta de sangue, administração de medicamentos, ou outros procedimentos que exigem a abertura do sistema para o ar. Portanto, as enfermeiras que manuseiam este equipamento precisam demonstrar competência antes de cuidar de modo independente de um cliente que necessita de monitoramento hemodinâmico. Infecções da corrente sanguínea relacionadas com o cateter são as complicações evitáveis mais comuns associadas aos sistemas de monitoramento hemodinâmico. Diretrizes abrangentes para a prevenção destas infecções foram publicadas pelo Centers for Disease Control and Prevention (CDC) (O’Grady et al., 2011). Para minimizar o risco de infecção, um grupo de intervenções com base em evidências, denominado pacote de cuidados, deve ser implementado (ver Boxe 14.2). O CDC apresenta diretrizes de controle de infecções adicionais que pertencem aos cuidados em andamento desses clientes, incluindo cuidados da pele, trocas de curativos e sistemas de monitoramento da pressão, que estão resumidos na Tabela 25.5. • • • • • • • • • • • • Monitoramento da pressão venosa central A PVC é uma aferição da pressão na veia cava ou no átrio direito. As pressões na veia cava, no átrio direito e no ventrículo direito são iguais ao final da diástole; portanto, a PVC também reflete a pressão de enchimento do ventrículo direito (précarga). A PVC normal é de 2 a 6 mmHg. É aferida por meio do posicionamento de um cateter na veia cava ou no átrio direito e da sua conexão a um sistema de monitoramento da pressão. A PVC é de mais valor quando é monitorada ao longo do tempo e correlacionada com as condições clínicas do cliente. Uma PVC superior a 6 mmHg indica elevação da précarga ventricular direita. Há muitos problemas que podem causar elevação da PVC, mas o mais comum é hipervolemia (excesso de líquido circulando no corpo) ou insuficiência cardíaca direita. Em contrapartida, PVC baixa (inferior a 2 mmHg) indica redução da précarga ventricular direita, que ocorre com mais frequência em virtude de hipovolemia. Desidratação, perda excessiva de sangue, vômito ou diarreia e diurese excessiva podem resultar em hipovolemia e PVC baixa. Este diagnóstico pode ser substanciado quando uma infusão rápida de líquido IV eleva a PVC. Figura 25.10 A. O eixo flebostático é o ponto de referência em relação ao átrio quando o cliente está em decúbito dorsal. É a intersecçãode duas linhas na parede torácica: (1) a linha média axilar traçada entre as superfícies anterior e posterior do tórax e (2) a linha traçada através do quarto espaço intercostal. A sua localização é identificada com um marcador cutâneo. A válvula do transdutor utilizada no monitoramento hemodinâmico é “nivelada” nesta marca antes da obtenção das aferições da pressão. B. As aferições podem ser obtidas com a cabeceira do leito (CDL) elevada em até 60°. Observe que o eixo flebostático altera na medida em que a CDL é elevada; portanto, a válvula e o transdutor devem ser resposicionados após cada alteração na posição. TABELA 25.5 Intervenções de enfermagem para prevenir infecções da corrente sanguínea relacionadas com cateteres. Tópico Intervenção Higiene das mãos Lave as mãos com água e sabão ou utilize higienizadores para as mãos à base de álcool antes e após o contato com o cateter por qualquer motivo Curativo Calce luvas limpas ou estéreis ao trocar o curativo Limpe a pele durante as trocas dos curativos com uma preparação de clorexidina > 0,5% com álcool Faça o curativo do local com gaze estéril ou curativo estéril, transparente e semipermeável para recobrir o local do cateter. Se o cliente estiver diaforético ou se o local estiver sangrando ou drenando, utilize um curativo com gaze até que isso seja resolvido Troque os curativos com gaze a cada 2 dias ou os curativos transparentes no mínimo a cada 7 dias, ou sempre que os curativos estiverem úmidos, soltos, ou visivelmente sujos Não utilize pomadas nem cremes antibióticos tópicos nos locais de inserção Local do cateter Avalie o local regularmente – visualmente ao trocar o curativo ou por meio de palpação de um curativo intacto. Remova o curativo para uma avaliação completa se o cliente apresentar sensibilidade no local de inserção, febre sem fonte óbvia ou outros sinais de infecção local ou da corrente sanguínea Sistema de monitoramento da pressão Mantenha todos os componentes do sistema de monitoramento da pressão estéreis Substitua os transdutores, equipos, dispositivos de limpeza contínua e solução de limpeza a cada intervalo de 96 h Não infunda soluções glicosadas no sistema de monitoramento Banho Não submerja o cateter ou o local do cateter em água O banho de chuveiro é permitido, se o cateter e o equipo correlato forem colocados sob uma cobertura • impermeável Instruções ao cliente Solicite aos clientes que relatem quaisquer novos desconfortos do local de cateter Adaptada de O’Grady NP, Alexander A, Burns L et al. (2011). 2011 guidelines for the prevention of intravascular catheter related infections. Disponível em: www.cdc.gov/hicpac/bsi/bsiguidelines2011.html. Antes da inserção de um cateter de PVC, o local é preparado conforme recomendado pelo CDC (ver Boxe 14.2). O local preferido é a veia subclávia; a veia femoral em geral é evitada (O’Grady et al., 2011). É utilizado um agente anestésico local. Durante este procedimento estéril, o médico insere um cateter de lúmen único ou multilúmen em uma veia periférica até alcançar a veia cava, logo acima ou dentro do átrio direito. Após o cateter de PVC ser inserido, ele é fixado, e é aplicado um curativo estéril seco. A posição do cateter é confirmada por radiografia de tórax. Intervenções de enfermagem A frequência das aferições da PVC é ditada pela condição do cliente e pelo plano de tratamento. Além da obtenção das leituras da pressão, o cateter de PVC é utilizado para a infusão de soluções IV, administração de medicamentos IV e coleta de amostras de sangue. Os cuidados de enfermagem do cliente com um cateter de PVC estão resumidos na Tabela 25.5. Monitoramento da pressão da artéria pulmonar O monitoramento da pressão da artéria pulmonar é utilizado nos cuidados críticos para a avaliação da função ventricular esquerda, diagnóstico da etiologia do choque e avaliação da resposta do cliente às intervenções clínicas (p. ex., administração de líquidos, medicamentos vasoativos). São utilizados um cateter de artéria pulmonar e um sistema de monitoramento da pressão. Uma diversidade de cateteres está disponível para a medição do ritmo cardíaco, da oximetria, do débito cardíaco, ou uma combinação de funções. Os cateteres de artéria pulmonar são cateteres com balão na ponta, direcionados pelo fluxo, que apresentam lúmen distal e proximal (Figura 25.11). O lúmen distal apresenta um acesso que se abre na artéria pulmonar. Após a sua conexão ao sistema de monitoramento da pressão, ele é utilizado para aferir as pressões contínuas da artéria pulmonar. O lúmen proximal apresenta um acesso que se abre no átrio direito. É utilizado para administrar medicamentos e soluções IV ou para monitorar as pressões atriais direitas (i. e., PVC). Cada cateter apresenta um local de insuflação do balão e uma válvula. Uma seringa é conectada a esse local, que é utilizado para inflar ou desinflar o balão com ar (capacidade de 1,5 mℓ). A válvula abre e fecha o lúmen de insuflação do balão. Um cateter de artéria pulmonar com funções especializadas apresenta componentes adicionais. Por exemplo, o cateter de termodiluição tem três características adicionais que o possibilitam medir o débito cardíaco: um conector termistor anexado ao computador de débito cardíaco do monitor de cabeceira, um acesso proximal utilizado para a injeção de soluções quando da obtenção do débito cardíaco e um termistor (posicionado perto da porta distal) (ver Figura 25.11). O cateter de artéria pulmonar, recoberto com uma manga estéril, é inserido em uma veia grande, preferencialmente a subclávia, através de uma bainha. Conforme observado anteriormente, a veia femoral é evitada; as técnicas e os protocolos de inserção espelham aqueles utilizados para a inserção de um cateter de PVC (ver discussão anterior) (O’Grady et al., 2011). A bainha é equipada com uma porta lateral para a infusão de líquidos e medicamentos IV. O cateter em seguida é introduzido na veia cava e no átrio direito. No átrio direito, a ponta do balão é inflada, e o cateter é transportado rapidamente pelo fluxo de sangue através da valva tricúspide para o ventrículo direito, através da valva pulmonar, e para dentro de um ramo da artéria pulmonar. Quando o cateter alcança a artéria pulmonar, o balão é desinsuflado e o cateter é fixado com suturas (Figura 25.12). Pode ser utilizada fluoroscopia durante a inserção para visualizar a progressão do cateter através das câmaras do coração direito até a artéria pulmonar. Este procedimento pode ser realizado no centro cirúrgico, no laboratório de cateterismo cardíaco, ou ao lado do leito na unidade de cuidados críticos. Durante a inserção do cateter de artéria pulmonar, o monitor de cabeceira é observado em relação a alterações na pressão e no formato das ondas, bem como arritmias, na medida em que o cateter progride através do coração direito até a artéria pulmonar. Após o posicionamento do cateter, são aferidas as seguintes pressões: atrial direita, sistólica da artéria pulmonar, diastólica da artéria pulmonar, média da artéria pulmonar e de oclusão da artéria pulmonar (ver Figura 25.2 para as pressões normais nas câmaras). O monitoramento da pressão diastólica da artéria pulmonar e de oclusão da artéria pulmonar é particularmente importante em clientes criticamente enfermos, tendo em vista que é utilizado para avaliar as pressões de enchimento ventricular esquerdo (i. e., précarga ventricular esquerda). Figura 25.11 O cateter de artéria pulmonar utilizado para a obtenção de aferições da pressão e do débito cardíaco. A. O sistema de monitoramento da pressão é conectado ao foco (local) do lúmen distal. B. Soluções intravenosas são infundidas através dos focos do lúmen de infusão e injeçãoproximal. C. Uma seringa preenchida com ar conectada à válvula de inflação do balão é utilizada para a inflação do balão durante a inserção do cateter e as aferições da pressão de oclusão da artéria pulmonar. D. Para obter o débito cardíaco, o conector do termistor é inserido no componente do débito cardíaco do monitor cardíaco de cabeceira, e 5 a 10 mℓ de soro fisiológico são injetados em 4 s na porta de injeção proximal. E. O termistor localizado perto do balão é utilizado para calcular o débito cardíaco. (Redesenhada por cortesia da Baxter Healthcare Corporation, Edwards Critical Care Division, Santa Ana, Califórnia.) Figura 25.12 Cateter de artéria pulmonar (AP) e sistemas de monitoramento da pressão. Monitor de cabeceira que se conecta com cabos (A) aos sistemas de monitoramento da pressão (inclui solução intravenosa [IV] em uma bolsa de pressão, equipo IV e dois transdutores com válvulas e dispositivos de limpeza) (B). Este sistema se conecta à porta de infusão proximal, que abre no átrio direito (C) e é utilizada para infundir líquidos ou medicamentos e monitorar as pressões venosas centrais, e à porta de infusão distal (D). Esta porta se abre na AP e é utilizada para monitorar as pressões da AP. E. O conector do termistor é anexado ao monitor cardíaco de cabeceira para a obtenção do débito cardíaco. F. Uma seringa preenchida com ar é anexada à válvula de inflação do balão durante a inserção do cateter e a aferição da pressão de oclusão da AP. G. Cateter de AP posicionado na artéria pulmonar. Observe a manga estéril sobre o cateter de AP. O cateter de AP é inserido através da bainha até que alcance a posição desejada na AP. A porta lateral na bainha é utilizada para infundir medicamentos ou líquidos. ECG, eletrocardiograma; AD, átrio direito. É importante observar que a pressão de oclusão da artéria pulmonar é obtida por meio da inflação da ponta com balão, que faz com que ele flua mais distalmente dentro de uma parte menor da artéria pulmonar, até que esteja ocluído dentro da posição. Esta é uma manobra oclusiva que impede o fluxo sanguíneo através daquele segmento da artéria pulmonar. Portanto, a pressão de oclusão é aferida imediatamente e o balão é desinflado prontamente para restaurar o fluxo sanguíneo. Alerta de enfermagem | Qualidade e segurança Após a aferição da pressão de oclusão da artéria pulmonar, a enfermeira certica-se de que o balão esteja desin物慲ado e que o cateter tenha retornado à sua posição normal. Esta importante intervenção é vericada avaliando-se a forma da onda da pressão da artéria pulmonar demonstrada no monitor de cabeceira. Intervenções de enfermagem Os cuidados do local do cateter são essencialmente os mesmos de um cateter de PVC. Similar à aferição da PVC, o transdutor deve estar posicionado no eixo flebostático para assegurar leituras precisas (Figura 25.10). As complicações sérias incluem ruptura da artéria pulmonar, tromboembolismo pulmonar, infarto pulmonar, dobramento do cateter, arritmias e embolia gasosa. Monitoramento da pressão arterial intraarterial O monitoramento da PA intraarterial é utilizado para a obtenção de aferições diretas e contínuas da PA em clientes criticamente enfermos que apresentam hipertensão ou hipotensão grave. Os cateteres arteriais também são úteis quando medições de gasometria arterial e amostras de sangue precisam ser obtidas com frequência. A artéria radial é o local habitual selecionado. Entretanto, a inserção de um cateter na artéria radial pode comprometer ainda mais a perfusão para uma área que apresenta circulação insuficiente. Como resultado, o tecido distal à artéria canulada pode se tornar isquêmico ou necrótico. Clientes com diabetes melito, doença vascular periférica, hipotensão, vasopressores IV, ou cirurgia anterior são os de mais alto risco para esta complicação. Tradicionalmente, a circulação colateral para o membro acometido era avaliada pelo teste de Allen. Para realizar o teste de Allen, elevase a mão do cliente e solicitase que ele feche o punho por 30 s. A enfermeira comprime as artérias radial e ulnar simultaneamente, fazendo com que a mão fique pálida. Após o cliente abrir a mão, a enfermeira libera a pressão sobre a artéria ulnar. Se o fluxo sanguíneo for restaurado (a mão fica rosa) dentro de 6 s, a circulação para a mão pode ser suficientemente adequada para tolerar a inserção de um cateter de artéria radial. As atuais evidências sugerem agora que a ultrassonografia com Doppler, a aferição da pressão digital e a pletismografia são métodos mais confiáveis para a avaliação da circulação para a mão (Woods et al., 2009). Intervenções de enfermagem O preparo e os cuidados do local são os mesmos dos cateteres de PVC. A solução de limpeza do cateter é a mesma dos cateteres de artéria pulmonar. Um transdutor é anexado, e as pressões são aferidas em milímetros de mercúrio (mmHg). A enfermeira monitora o cliente em relação a complicações, que incluem obstrução local com isquemia distal, hemorragia externa, equimose maciça, dissecção, embolia gasosa, perda de sangue, dor, arterioespasmo e infecção. Dispositivos de monitoramento do débito cardíaco minimamente invasivos O monitoramento do débito cardíaco com a utilização de cateter de artéria pulmonar tem sido a prática padrão nos cuidados críticos desde a sua introdução, há quase 50 anos. Recentemente, com a disponibilidade de novos dispositivos menos invasivos, o seu emprego tem diminuído. Três tipos diferentes de dispositivos estão comercialmente disponíveis. A seleção de um dispositivo específico para a utilização clínica é determinada pela disponibilidade, pelas preferências do médico e pela condição clínica do cliente (Alhasemi, Cecconi e Hofer, 2011). A análise da pressão diferencial utiliza uma forma de onda da pressão arterial para estimar continuadamente o volume sistólico do cliente. Um referido dispositivo, o sistema de monitoramento Vigileo® da Edwards Lifesciences, é conectado a um acesso arterial radial ou femoral existente por meio de seu transdutor FloTrac®. Com a utilização da idade, do sexo, da área de superfície corporal e da PA do cliente, este dispositivo calcula continuadamente o débito cardíaco e outros parâmetros utilizados no tratamento de clientes criticamente enfermos. A principal desvantagem deste dispositivo é que, com a finalidade de capturar dados precisos, ele primeiramente precisa capturar formas de onda arteriais ideais. Portanto, este tipo de dispositivo tem utilidade limitada em clientes com sinais de forma de onda desfavoráveis, diversas arritmias, instabilidade hemodinâmica, e aqueles que possam estar utilizando concomitantemente uma bomba de balão intraaórtico (Alhasemi et al., 2011) (ver Capítulo 29). Sondas de Doppler esofágico são utilizadas para estimar o débito cardíaco de modo não invasivo. A sonda esofágica mede a velocidade do fluxo sanguíneo dentro de uma área transversal da aorta descendente para calcular o débito cardíaco. A utilização deste dispositivo na condição peroperatória demonstrou melhorar os resultados dos clientes, incluindo diminuição das durações das hospitalizações e diminuição geral nas taxas de complicações (Alhasemi et al., 2011). Em clientes que estão sedados, intubados e em ventilação mecânica, o princípio de Fick, que utiliza medidas do dióxido de carbono (CO2), é um método adicional utilizado para estimar o débito cardíaco. Para obter o débito cardíaco nesta população de clientes selecionados, uma alça de reventilação é anexada ao ventilador, juntamente com um sensor infravermelho de CO2, um sensor de fluxo de ar e oxímetro de pulso. Leituras contínuas do débito cardíaco podem ser atualizadasa cada 3 min com a utilização deste dispositivo (Alhasemi et al., 2011). Exercícios de pensamento crítico 1 Você é uma recém-formada que está praticando em uma unidade de hospitalização clínica na qual a mudança de turno é informada ao lado do leito, para incluir o cliente e a família. Esta abordagem proporciona uma oportunidade valiosa para que você observe os clientes e os inclua no plano de cuidados. Muitos clientes nesta unidade são hospitalizados com IC. Quais dos principais achados de avaliação física e dados laboratoriais que indicam melhora na condição do cliente precisam ser discutidos durante o relato? Quais achados podem sugerir que a condição do cliente esteja piorando? Quais perguntas você faria ao cliente e aos familiares para lhe ajudar a avaliar a compreensão deles sobre o autotratamento da IC? Tendo em vista que você tem tempo limitado para conduzir o relato ao lado do leito, como você priorizará as informações de que precisa para a transferência para a próxima enfermeira? 2 Muitos dos clientes em sua prática como enfermeira de uma instituição de cuidados domiciliares são idosos e apresentam DCV. Um dos seus novos clientes, uma mulher de 68 anos de idade que se recupera de uma substituição de quadril esquerdo, queixa-se de que se sente mais cansada do que o normal e que apresenta episódios intermitentes de dormência no braço direito e dor no pescoço. Você relata imediatamente estes sintomas ao médico da cliente, que solicita uma avaliação cardíaca composta por vários exames laboratoriais e complementares para descartar a possibilidade de DAC. Quais são os exames laboratoriais e complementares mais solicitados para diagnosticar DAC? Como você preparará a sua cliente em relação a estes exames e procedimentos? 3 O monitoramento do ECG é uma prática comum em todos os tipos de unidades de internação e é utilizado para manter os clientes seguros contra arritmias potencialmente fatais. Entretanto, os alarmes falsos frequentes podem ser excessivos para as enfermeiras, fazendo com que os alarmes não sejam observados ou sejam ignorados, uma condição conhecida como fadiga de alarme. Discuta as evidências e a força da evidência que identicam a fadiga de alarme como um problema sério. A partir desta evidência, descreva as melhores práticas de monitoramento do ECG que têm por objetivo minimizar o risco de fadiga de alarme. Inclua nesta descrição os cuidados cutâneos, a colocação dos eletrodos, a seleção das derivações e a justicativa para o monitoramento, e os alarmes que você individualizará para atender às necessidades de monitoramento do ECG do cliente. Referências *O asterisco indica pesquisa em enfermagem. **Os asteriscos duplos indicam referência clássica. Livros Bickley, L. S. (2009). Bates’ guide to physical examination and history taking (9th ed.). Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins. Boltz, M., Capezuti, E., Fulmer, T., et al. (2012). Evidencebased geriatric nursing: Protocols for best practice (4th ed.). New York: Springhouse. Weber, J., & Kelley, J. (2010). Health assessment in nursing (4th ed.). Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins. Wiegand, D. L. (2011). AACN procedure manual for critical care (6th ed). St. Louis: Saunders. Woods, S. L., Froelicher, E. S., Motzer, S. A., et al. (2009). Cardiac nursing (6th ed.). Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins. 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De䌌㺃nir o ECG como uma forma de onda que representa o evento elétrico cardíaco em relação à derivação (posicionamento de eletrodos). Analisar os elementos de uma 䌌㺃ta de ritmo de ECG: frequência ventricular e atrial, ritmo ventricular e atrial, complexo QRS e formato, duração do complexo QRS, onda P e formato, intervalo PR e razão P:QRS. Identi䌌㺃car os critérios de ECG, as causas e o manejo de diversas arritmias, incluindo distúrbios de condução. Aplicar o processo de enfermagem como uma estrutura para os cuidados dos clientes com arritmias. Comparar os diferentes tipos de marca-passos, suas utilizações, possíveis complicações e implicações para a enfermagem. Descrever o manejo de enfermagem dos clientes com dispositivos cardíacos implantáveis. Descrever os principais pontos da utilização de um des䌌㺃brilador. Descrever a 䌌㺃nalidade de um des䌌㺃brilador cardioversor implantável, os tipos disponíveis e as implicações para a enfermagem. Descrever os métodos invasivos para o diagnóstico e o tratamento de arritmias recidivantes e discutir as implicações para a enfermagem. Glossário ablação: remoção de material da superfície de um objeto; no contexto da cardiologia, é a destruição proposital de células musculares cardíacas, normalmente como tentativa de controlar a arritmia arritmia: distúrbio da formação ou da condução (ou de ambas) do impulso elétrico no coração, que altera a frequência cardíaca, o ritmo cardíaco, ou ambos, e que possivelmente causa alteração do 䌑懑uxo sanguíneo (também denominada arritmia) artefato: formas de ondas eletrocardiográ䌌㺃cas (ECG) distorcidas, irrelevantes e estranhas automaticidade: capacidade das células cardíacas de iniciar um impulso elétrico cardioversão: corrente elétrica administrada em sincronia com o complexo QRS do próprio cliente para interromper a arritmia complexo QRS: parte do traçado do ECG que re䌑懑ete a condução de um impulso elétrico através dos ventrículos; despolarização ventricular condução: transmissão de impulsos elétricos de uma célula para outra cronotropia: frequência de formação dos impulsos des䌌㺃brilação: corrente elétrica administrada para interromper a arritmia, não sincronizada com o complexo QRS do cliente des䌌㺃brilador cardioversor implantável (DCI): dispositivo implantado no tórax para tratar arritmias despolarização: processo pelo qual as células musculares cardíacas alteram de um estado intracelular mais negativamente carregado para um mais positivamente carregado dromotropia: velocidade de condução indicador de substituição eletiva (ERI): sinal produzido por um marca-passo para indicar uma bateria quase esgotada inotropia: a força de contração miocárdica intervalo PP: duração entre o início de uma onda P e o início da próxima onda P; utilizado para calcular a frequência e o ritmo atrial intervalo PR: parte do traçado do ECG que re䌑懑ete a condução de um impulso elétrico a partir do nó sinoatrial até o nó atrioventricular intervalo QT: parte do traçado do ECG que re䌑懑ete o tempo desde a despolarização ventricular até a repolarização intervalo RR: a duração entre o início de um complexo QRS e o início do próximo complexo QRS; utilizado para calcular a frequência e o ritmo ventricular intervalo TP: parte de um ECG que re䌑懑ete o tempo entre o término da onda T e o início da próxima onda P; utilizado para identi䌌㺃car a linha isoelétrica medicamento antiarrítmico: medicamento que suprime ou previne a arritmia onda P: a parte do traçado de ECG que re䌑懑ete a condução de um impulso elétrico através do átrio; despolarização atrial onda T: parte de um ECG que re䌑懑ete a repolarização dos ventrículos onda U: parte de um ECG que pode re䌑懑etir a repolarização das 䌌㺃bras de Purkinje; normalmente, não é visualizada, exceto se o nível de potássio sérico de um cliente estiver baixo paroxística: arritmia que apresenta início e/ou término súbito e que normalmente é de curta duração pró-arrítmico: agente (p. ex., um medicamento) que causa ou exacerba uma arritmia repolarização: processo pelo qual as células musculares cardíacas retornam à condição intracelular mais negativamente carregada, seu estado de repouso ritmo sinusal: atividade elétrica do coração iniciada pelo nó sinoatrial segmento ST: parte do traçado do ECG que re䌑懑ete o término do complexo QRS até o início da onda T taquicardia supraventricular (TSV): ritmo que tem origem no sistema de condução acima dos ventrículos taquicardia ventricular (TV): ritmo que tem origem nos ventrículos Sem a frequência e ritmo regulares, o coração pode não agir de modo eficiente como uma bomba para circular o sangue oxigenado e outros nutrientes vitais para todos os tecidos e órgãos do corpo (incluindo o próprio coração). Com um ritmo irregular ou errático, o coração é considerado arrítmico. Esta é uma condição potencialmente perigosa. As enfermeiras podem encontrar clientes com muitos tipos diferentes de arritmias em todos os ambientes de saúde, incluindo ambientes de cuidados primários, instalações de enfermagem especializada, ambientes de reabilitação e hospitais. Algumas arritmias são agudas e outras são crônicas; algumas necessitam de intervenções de emergência, e outras não. Tendo em vista que os clientes com arritmias são encontrados com tanta frequência em diversos ambientes, as enfermeiras devem ser capazes de identificar e fornecer o tratamento de primeira linha apropriado das arritmias. ARRITMIAS As arritmias são distúrbios da formação ou da condução (ou de ambas) do impulso elétrico no coração. Esses distúrbios podem causar perturbações da frequência cardíaca, do ritmo cardíaco, ou de ambos. As arritmias inicialmente podem ser evidenciadas pelo efeito hemodinâmico que causam (p. ex., uma alteração na condução pode alterar a ação de bombeamento do coração e causar diminuição da pressão arterial).As arritmias são diagnosticadas por meio da análise da forma de onda eletrocardiográfica (ECG). O seu tratamento tem por base a frequência e a gravidade dos sintomas produzidos. As arritmias são denominadas de acordo com o local de origem do impulso e o mecanismo de formação ou de condução envolvido (Boxe 26.1). Por exemplo, um impulso que tem origem no nó sinoatrial (SA) e ocorre a uma frequência lenta é denominado bradicardia sinusal. Condução elétrica normal O impulso elétrico que estimula e regula o ritmo do músculo cardíaco normalmente tem origem no nó sinoatrial (nó SA), uma área localizada perto da veia cava superior no átrio direito. Normalmente, o impulso elétrico ocorre a uma frequência de 60 a 100 vezes por minuto no adulto. O impulso elétrico movimentase rapidamente desde o nó SA pelos átrios, até o nó atrioventricular (AV) (Figura 26.1); este processo é conhecido como condução. A estimulação elétrica das células musculares dos átrios causa a sua contração. A estrutura do nó AV diminui a velocidade do impulso elétrico, proporcionando aos átrios tempo para contrair e preencher os ventrículos com sangue. Esta parte da contração atrial é geralmente denominada pontapé atrial e é responsável por quase um terço do volume ejetado durante a contração ventricular (Fuster, Walsh e Harrington, 2011). O impulso elétrico em seguida • • • • • • • • • • • • movimentase muito rapidamente pelo feixe de His até os ramos direito e esquerdo e as fibras de Purkinje, localizadas no músculo ventricular. A estimulação elétrica das células musculares dos ventrículos, por sua vez, causa a contração mecânica dos ventrículos (sístole). As células repolarizam e os ventrículos relaxam em seguida (diástole). O impulso elétrico causa a contração mecânica do músculo cardíaco que se segue. Boxe 26.1 Identi䌌㺃cação dos ritmos cardíacos Locais de origem Nó sinoatrial Átrios Nó ou junção atrioventricular Ventrículos Mecanismos de formação ou de condução Ritmo normal (idio) Bradicardia Taquicardia Arritmia Flutter Fibrilação Extrassístoles Bloqueios de condução A estimulação elétrica é denominada despolarização, e a contração mecânica é denominada sístole. O relaxamento elétrico é denominado repolarização, e o relaxamento mecânico é denominado diástole. O processo desde a geração do impulso elétrico no nó sinoatrial até a repolarização ventricular completa o circuito eletromecânico, e o ciclo inicia novamente. (Ver mais sobre a função cardíaca no Capítulo 25.) Influências sobre a frequência cardíaca e a contratilidade A frequência cardíaca é influenciada pelo sistema nervoso autônomo, que é composto por fibras simpáticas e parassimpáticas. As fibras nervosas simpáticas (também denominadas fibras adrenérgicas) estão ligadas ao coração e às artérias, bem como a diversas outras áreas no corpo. A estimulação do sistema simpático aumenta a frequência cardíaca (cronotropia positiva), a condução pelo nó AV (dromotropia positiva) e a força da contração miocárdica (inotropia positiva). A estimulação simpática também contrai os vasos sanguíneos periféricos, aumentando, assim, a pressão arterial. As fibras nervosas parassimpáticas também estão ligadas ao coração e às artérias. A estimulação parassimpática reduz a frequência cardíaca (cronotropia negativa), a condução AV (dromotropia negativa) e a força da contração miocárdica atrial. A diminuição da estimulação simpática resulta em dilatação das artérias, reduzindo, assim, a pressão arterial. A manipulação do sistema nervoso autônomo pode aumentar ou diminuir a incidência de arritmias. O aumento da estimulação simpática (p. ex., causada por exercícios físicos, ansiedade, febre ou administração de catecolaminas, tais como dopamina, aminofilina ou dobutamina) pode aumentar a incidência de arritmias. A diminuição da estimulação simpática (p. ex., com repouso, métodos de redução da ansiedade, tais como comunicação terapêutica ou meditação, ou administração de agentes de bloqueio betaadrenérgico) pode diminuir a incidência de arritmias. Eletrocardiograma O impulso elétrico que se movimenta pelo coração pode ser visualizado por meio da eletrocardiografia, cujo produto final é um eletrocardiograma, ou ECG. Cada fase do ciclo cardíaco é refletida por formas de onda específicas na tela de um monitor cardíaco ou em uma fita de papel gráfico ECG. Figura 26.1 Relação do complexo eletrocardiográfico (ECG), sistema de derivações e impulso elétrico. O coração conduz a atividade elétrica, que o ECG mede e demonstra. As configurações da atividade elétrica demonstradas no ECG variam, dependendo da derivação (ou vista) do ECG e do ritmo do coração. Portanto, a configuração de um traçado de ritmo normal da derivação I (D I) difere da configuração de um traçado de ritmo normal da derivação II (D II). Por sua vez, D II difere da derivação III (D III), e assim por diante. O mesmo acontece com os ritmos anormais e os distúrbios cardíacos. Para analisar precisamente a atividade elétrica do coração ou para identificar onde, quando e quais anormalidades ocorrem, devese avaliar o ECG a partir de cada derivação, e não apenas da D II. Aqui, as diferentes áreas da atividade elétrica são identificadas por cores. RA, braço direito; LA, braço esquerdo; SA, sinoatrial; AV, atrioventricular; LL, perna esquerda. Obtenção de um eletrocardiograma Um ECG é obtido após o posicionamento de eletrodos sobre o corpo, em áreas específicas. Os eletrodos têm diversos formatos e tamanhos, mas todos apresentam dois componentes: (1) uma substância adesiva que adere à pele para manter o eletrodo no local e (2) uma substância que reduz a impedância elétrica da pele, a resistência à condução do sinal elétrico e a detecção da corrente elétrica. A fricção suave da pele com uma gaze seca limpa ajuda a expor a camada condutora interior da epiderme, o que reduzirá a impedância da pele. Embora a limpeza da pele com álcool remova qualquer resíduo oleoso da pele, ela também aumenta a impedância elétrica da pele e impede a • • • • detecção do sinal elétrico cardíaco. Se a quantidade de pelos no tórax impedir que o eletrodo tenha bom contato com a pele e se não houver outro local para o posicionamento do eletrodo, pode ser necessário cortar os pelos. A aderência insuficiente dos eletrodos causa artefato (formas de ondas ECG distorcidas, irrelevantes e estranhas) significativo, que pode distorcer a captura de uma forma de onda ECG precisa. A quantidade e o posicionamento dos eletrodos dependem do tipo de ECG que está sendo obtido. A maioria dos monitores contínuos utiliza dois a cinco eletrodos, normalmente posicionados nos membros e no tórax. Esses eletrodos criam uma linha imaginária, denominada derivação, que atua como um ponto de referência a partir do qual a atividade elétrica é visualizada. Uma derivação é como a lente de uma câmera – apresenta um campo de visão periférica estreito, que visualiza apenas a atividade elétrica diretamente à sua frente. Portanto, as formas de ondas ECG que figuram no papel e no monitor cardíaco representam a corrente elétrica em relação à derivação (Figura 26.1). Uma alteração na forma de onda pode ser causada por uma alteração na corrente elétrica (onde tem origem ou como é conduzida) ou por uma alteração na derivação. Os eletrodos são anexados a fios de cabos, que são conectados a um dos que seguem: Uma máquina de ECG colocada ao lado do cliente para um registro imediato (ECG padrão de 12 derivações) Um monitor cardíaco na cabeceira do cliente para a leitura contínua; este tipo de monitoramento, normalmente denominado monitoramento conectado, é utilizado em unidades de terapia intensiva Uma pequena caixa que o cliente carregae que transmite continuadamente as informações ECG por ondas de rádio para um monitor central localizado em outro local (denominado telemetria) Uma máquina tipo gravador de fita pequena e de peso leve (denominado monitoramento ECG ambulatorial ou um monitor Holter) que o cliente utiliza e que registra continuadamente o ECG, que posteriormente é observado e analisado com um escâner. O cliente pode ser submetido a um estudo eletrofisiológico (EF), no qual eletrodos são posicionados no coração com a finalidade de obter um ECG intracardíaco. Este é utilizado não apenas para diagnosticar a arritmia, mas também para determinar o plano de tratamento mais efetivo. Entretanto, tendo em vista que o estudo EF é invasivo, ele é realizado no hospital e pode exigir a internação do cliente (ver a seguir). Durante uma cirurgia de coração aberto, fios de marcapasso temporário podem ser levemente suturados ao epicárdio e exteriorizados através da parede torácica. Esses fios podem ser utilizados não apenas para a regulação temporária do ritmo, mas também quando conectados ao cabo da derivação V, para obter um ECG atrial, que pode ser útil no diagnóstico diferencial de taquiarritmias (McRae, Chan e ImperialPerez, 2010). O posicionamento dos eletrodos para monitoramento contínuo, telemetria ou monitoramento por Holter varia com o tipo de tecnologia, a finalidade do monitoramento e os padrões da instalação de saúde. Para um ECG padrão de 12 derivações, 10 eletrodos (seis no tórax e quatro nos membros) são colocados sobre o corpo (Figura 26.2). Para prevenir a interferência da atividade elétrica do músculo esquelético, os eletrodos dos membros normalmente são posicionados sobre áreas que não são ósseas e que não apresentam movimentação significativa. Esses eletrodos dos membros fornecem as seis primeiras derivações: derivações I, II, III, aVR (voltagem do braço direito aumentada), aVL (voltagem do braço esquerda aumentada) e aVF (voltagem da perna/do pé esquerda/o aumentada). Os seis eletrodos torácicos são aplicados no tórax em áreas muito específicas. Os eletrodos torácicos fornecem as derivações V ou precordiais, V1 a V6. Para localizar o quarto espaço intercostal e para o posicionamento da V1, são localizados o ângulo esternal e, em seguida, o manúbrio esternal, que se encontra aproximadamente 2,5 a 5 cm abaixo do ângulo esternal. Quando os dedos são movidos imediatamente para a direita do cliente, a segunda costela pode ser palpada. O segundo espaço intercostal é a endentação sentida logo abaixo da segunda costela. A localização do espaço intercostal específico é crítica para o correto posicionamento dos eletrodos torácicos. Podem ocorrer erros no diagnóstico se os eletrodos forem posicionados incorretamente. Às vezes, quando o cliente está no hospital e precisa ser cuidadosamente monitorado em relação a alterações ECG, os eletrodos torácicos são deixados no local para assegurar o mesmo posicionamento para os ECG de acompanhamento. Um ECG padrão de 12 derivações reflete a atividade elétrica principalmente no ventrículo esquerdo. Pode ser necessário o posicionamento de eletrodos adicionais para outras derivações, para a obtenção de informações mais completas. Por exemplo, em clientes com suspeita de lesão cardíaca do lado direito, são necessárias derivações precordiais para avaliar o ventrículo direito (Figura 26.2). Figura 26.2 Posicionamento de eletrodos ECG. As derivações precordiais esquerdas padrão são V1 – quarto espaço intercostal, borda esternal direita; V2 – quarto espaço intercostal, borda esternal esquerda; V3 – diagonal entre V2 e V4; V4 – quinto espaço intercostal, linha média clavicular esquerda; V5 – mesmo nível de V4, linha axilar anterior; V6 (não ilustrada) – mesmo nível que V4 e V5, linha média axilar. As derivações precordiais direitas, colocadas por todo o lado direito do tórax, são o oposto espelhado das derivações esquerdas. RA, braço direito; LA, braço esquerdo; RL, perna direita; LL, perna esquerda. (Adaptada de Molle EA, Kronenberger J, WestStack C et al. (2005). Lippincott Williams & Wilkins’ pocket guide to medical assisting (2nd ed.). Philadelphia: Lippincott Williams & Wilkins.) Interpretação do eletrocardiograma A forma de onda ECG reflete a função do sistema de condução do coração, que normalmente inicia e conduz a atividade elétrica, em relação à derivação. O ECG oferece informações importantes a respeito da atividade elétrica do coração e é útil no diagnóstico de arritmias. As formas de ondas ECG são impressas em papel gráfico, que é dividido por linhas verticais e horizontais claras e escuras em intervalos padrão (Figura 26.3). O tempo e a frequência são medidos no eixo horizontal do gráfico, e a amplitude ou voltagem é medida no eixo vertical. Quando uma forma de onda ECG se movimenta em direção ao topo do papel, é denominada deflexão positiva. Quando se movimenta em direção à parte inferior do papel, é denominada deflexão negativa. Quando um ECG é revisado, cada forma de onda deve ser examinada e comparada às outras. Figura 26.3 Gráfico ECG e componentes comumente medidos. Cada pequeno quadro representa 0,04 s no eixo horizontal e 1 mm ou 0,1 milivolt no eixo vertical. O intervalo PR é medido desde o início da onda P até o início do complexo QRS; o complexo QRS é medido desde o início da onda Q até o término da onda S; o intervalo QT é medido desde o início da onda Q até o término da onda T; e o intervalo TP é medido desde o início da onda T até o início da próxima onda P. Ondas, complexos e intervalos O ECG é composto por formas de ondas (incluindo a onda P, o complexo QRS, a onda T e, possivelmente, uma onda U) e por segmentos e intervalos (incluindo o intervalo PR, o segmento ST e o intervalo QT) (Figura 26.3). A onda P representa o impulso elétrico que tem início no nó SA e que se propaga pelos átrios. Portanto, a onda P representa a despolarização atrial. Normalmente apresenta altura de 2,5 mm ou menos e duração de 0,11 s ou menos. O complexo QRS representa a despolarização ventricular. Nem todos os complexos QRS apresentam todas as três formas de ondas. A onda Q é a primeira deflexão negativa após a onda P. A onda Q normalmente apresenta duração inferior a 0,04 s e menos de 25% da amplitude da onda R. A onda R é a primeira deflexão positiva após a onda P, e a onda S é a primeira deflexão negativa após a onda R. Quando uma onda apresenta altura inferior a 5 mm, são utilizadas letras minúsculas (q, r, s); quando uma onda apresenta mais de 5 mm de altura, são utilizadas letras maiúsculas (Q, R, S) para rotular as ondas. O complexo QRS normalmente apresenta duração inferior a 0,12 s. A onda T representa a repolarização ventricular (quando as células readquirem uma carga negativa; também denominada estado de repouso). Ela segue o complexo QRS e normalmente apresenta a mesma direção que o complexo QRS. A repolarização atrial também ocorre, mas não é visível ao ECG, tendo em vista que ocorre ao mesmo tempo em que a despolarização ventricular (i. e., o QRS). Acreditase que a onda U represente a repolarização das fibras de Purkinje; embora esta onda seja rara, às vezes ela aparece em clientes com hipopotassemia (níveis de potássio baixos), hipertensão ou cardiopatia. Se presente, a onda U segue a onda T e normalmente é menor que a onda P. Se for alta, ela pode ser confundida com uma onda P adicional. O intervalo PR é medido desde o início da onda P até o início do complexo QRS e representa o tempo necessário para a estimulação do nó sinoatrial, a despolarização atrial e a condução pelo nó AV antes da despolarização ventricular. Em adultos, a duração do intervalo PR normalmente varia de 0,12 a 0,20 s. O segmento ST, que representa arepolarização ventricular prematura, apresenta duração desde o término do complexo QRS até o início da onda T. O início do segmento ST normalmente é identificado por uma alteração na espessura ou no ângulo da parte terminal do complexo QRS. O término do segmento ST pode ser mais difícil de identificar, tendo em vista que se funde na onda T. O segmento ST normalmente é isoelétrico (ver discussão posterior sobre o intervalo TP). Ele é analisado para identificar se está acima ou abaixo da linha isoelétrica, que pode ser, entre outros sinais e sintomas, um sinal de isquemia cardíaca (ver Capítulo 27). O intervalo QT, que representa o tempo total para a despolarização e a repolarização ventricular, é medido desde o início do complexo QRS até o término da onda T. O intervalo QT varia com a frequência cardíaca, o sexo e a idade; portanto, o intervalo medido precisa ser corrigido (QTc) em relação a estas variáveis por meio de cálculos específicos. O QTc pode ser calculado automaticamente pela tecnologia ECG, ou a enfermeira pode utilizar um livro de interpretação de ECG ou outro recurso que contenha um quadro destes cálculos. O intervalo QT normalmente apresenta duração de 0,32 a 0,40 s se a frequência cardíaca for de 65 a 95 bpm. Se o intervalo QT tornarse prolongado, o cliente corre risco de uma arritmia ventricular letal denominada torsade de pointes. Embora muitos clientes hospitalizados pudessem se beneficiar do monitoramento do QT, um estudo indicou que as enfermeiras geralmente não têm a habilidade para fazer esta avaliação adequadamente (Pickham, Shinn, Chan et al., 2012). O intervalo TP é medido desde o término da onda T até o início da próxima onda P – um período isoelétrico (Figura 26.3). Quando nenhuma atividade elétrica é detectada, a linha no gráfico permanece achatada; esta é denominada linha isoelétrica. O segmento ST é comparado ao intervalo TP para a detecção de alterações no segmento ST. O intervalo PP é medido desde o início de uma onda P até o início da próxima onda P. O intervalo PP é utilizado para determinar a frequência e o ritmo atrial. O intervalo RR é medido desde um complexo QRS até o próximo complexo QRS. O intervalo RR é utilizado para determinar a frequência e o ritmo ventricular (Figura 26.4). Determinação da frequência cardíaca a partir do eletrocardiograma A frequência cardíaca pode ser obtida a partir da fita de ECG por diversos métodos. Uma fita de 1 min contém 300 quadros grandes e 1.500 quadros pequenos. Portanto, um método fácil e preciso de determinação da frequência cardíaca com um ritmo regular é contar o número de quadros pequenos em um intervalo RR e dividir 1.500 por aquele número. Se, por exemplo, houver 10 pequenos quadros entre duas ondas R, a frequência cardíaca será 1.500/10, ou 150 bpm; se houver 25 quadros pequenos, a frequência cardíaca será 1.500/25, ou 60 bpm (Figura 26.4A). Um método alternativo, porém menos preciso, para a estimativa da frequência cardíaca, que normalmente é utilizado quando o ritmo é irregular, é contar o número de intervalos RR em 6 s e multiplicar aquele número por 10. O topo do papel ECG normalmente é marcado em intervalos de 3 s, que são 15 quadros grandes horizontalmente (Figura 26.4B). Os intervalos RR são contados, em vez dos complexos QRS, tendo em vista que uma frequência cardíaca computada com base nos últimos pode estar inexatamente alta. Os mesmos métodos podem ser utilizados para a determinação da frequência atrial, com a utilização do intervalo PP em vez do intervalo RR. Determinação do ritmo cardíaco a partir do eletrocardiograma Geralmente, o ritmo é identificado ao mesmo tempo que a frequência é determinada. O intervalo RR é utilizado para determinar o ritmo ventricular; e o intervalo PP, para determinar o ritmo atrial. Se os intervalos forem os mesmos ou se a diferença entre os intervalos for inferior a 0,8 s em toda a fita, o ritmo é denominado regular. Se os intervalos forem diferentes, o ritmo é denominado irregular. Análise da fita de ritmo do eletrocardiograma 1. 2. 3. 4. 5. 6. 7. 8. 9. 10. 11. 12. O ECG deve ser analisado de modo sistemático para determinar o ritmo cardíaco do cliente e detectar arritmias e distúrbios de condução, bem como evidências de isquemia, lesão e infarto agudo do miocárdio. O Boxe 26.2 é um exemplo de um método que pode ser utilizado para analisar o ritmo do cliente. Após a realização da análise do ritmo, os achados são comparados e correspondidos aos critérios ECG em relação a arritmias para determinar um diagnóstico. É importante que a enfermeira não apenas identifique a arritmia, mas também avalie o cliente para determinar o efeito fisiológico da arritmia e identificar as possíveis causas. O tratamento de uma arritmia tem por base a avaliação clínica do cliente com a identificação da etiologia e do efeito da arritmia, e não a sua presença isoladamente. Figura 26.4 A. Determinação da frequência cardíaca ventricular e atrial com um ritmo regular; 1.500 divididos pelo número de pequenos quadros entre duas ondas P (frequência atrial) ou entre duas ondas R (frequência ventricular). Neste exemplo, existem 25 pequenos quadros entre as ondas R e as ondas P, de modo que a frequência cardíaca é 60 bpm. B. Determinação da frequência cardíaca se o ritmo é irregular. Existem aproximadamente sete intervalos RR em 6 s, de modo que existem aproximadamente 70 intervalos RR em 60 s (7 × 10 = 70). A frequência cardíaca ventricular é 70 bpm. Boxe 26.2 Interpretação das arritmias | Análise sistemática do eletrocardiograma Ao examinar uma 䌌㺃ta de ritmo de eletrocardiograma (ECG) para saber mais a respeito da arritmia de um cliente: Determine a frequência ventricular. Determine o ritmo ventricular. Determine a duração do QRS. Determine se a duração do QRS é consistente em toda a 䌌㺃ta. Caso negativo, identi䌌㺃que outra duração. Identi䌌㺃que o formato do QRS; se não for consistente, em seguida identi䌌㺃que outros formatos. Identi䌌㺃que as ondas P; existe uma P à frente de cada complexo QRS? Identi䌌㺃que o formato da onda P; identi䌌㺃que se ele é consistente ou não. Determine a frequência atrial. Determine o ritmo atrial. Determine cada intervalo PR. Determine se os intervalos PR são consistentes, irregulares, porém com um padrão para a irregularidade, ou apenas irregulares. Determine quantas ondas P para cada complexo QRS (razão P:QRS). Em muitos casos, a enfermeira pode utilizar uma lista de veri䌌㺃cação e documentar os achados aproximados do critério ECG apropriado. A maioria dos monitoramentos cardíacos apresenta funcionalidades que incluem a capacidade de monitorar continuadamente o ritmo e alertar a equipe de saúde com um alarme auditivo e visual quando ocorre uma alteração significativa no ritmo. Entretanto, a alta frequência de alarmes disparados, especialmente por causa de artefatos, pode levar à “fadiga de alarme do monitor”, que foi relacionada com o comportamento de enfermeiras que ignoram, desabilitam ou silenciam os alarmes (Graham e Cvach, 2010) – com isso as arritmias podem ser ignoradas. Alerta de enfermagem | Qualidade e segurança É vital que a enfermeira avalie a(s) causa(s) de um alarme de monitor cardíaco e em seguida ajuste as con䌌㺃gurações padrão do alarme e individualize os limites e os níveis dos parâmetros do alarme. A avaliação também deve incluir a con䌌㺃rmação, em conversa com o pro䌌㺃ssional primário, de que o cliente precisa permanecer sob monitoramento cardíaco. Ritmo sinusal normal O ritmo sinusal normal ocorre quando o impulso elétrico tem início a uma frequência e um ritmo regular no nó SA e se movimenta pela via de condução normal. O ritmo sinusalnormal apresenta as características a seguir (Figura 26.5): Frequência ventricular e atrial: 60 a 100 bpm no adulto. Ritmo ventricular e atrial: regular. Formato e duração do complexo QRS: habitualmente normais, mas podem ser regularmente anormais. Onda P: formato normal e consistente; sempre à frente do QRS. Intervalo PR: intervalo consistente, entre 0,12 e 0,20 s. Razão P:QRS: 1:1. Embora o ritmo sinusal normal em geral seja indicativo de boa saúde cardiovascular, uma frequência cardíaca em repouso que excede 90 bpm é associada a maior risco de mortalidade por todas as causas e eventos cardiovasculares (PerretGuillaume, Joly e Benetos, 2009). Clientes com este aumento da frequência cardíaca basal devem receber avaliação clínica completa e ser aconselhados a respeito da modificação do estilo de vida, especialmente a manter um programa regular de atividades físicas. Tipos de arritmias As arritmias incluem arritmias sinusais, atriais, juncionais e ventriculares, e suas diversas subcategorias. Arritmias do nó sinoatrial Bradicardia sinusal A bradicardia sinusal ocorre quando o nó SA cria um impulso a uma frequência mais lenta que a normal. As causas incluem menores necessidades metabólicas (p. ex., sono, treinamento atlético, hipotireoidismo), estimulação vagal (p. ex., em virtude de vômito, aspiração, dor intensa), medicamentos (p. ex., bloqueadores de canais de cálcio, amiodarona, betabloqueadores), disfunção do nó sinoatrial idiopática, aumento da pressão intracraniana e doença da artéria coronária (DAC), especialmente infarto agudo do miocárdio (IAM) da parede inferior. A bradicardia instável e sintomática frequentemente ocorre em virtude de hipoxemia. Outras possíveis causas incluem alteração aguda das condições mentais (p. ex., delirium) e insuficiência cardíaca descompensada aguda (Fuster, Walsh et al., 2011). A bradicardia sinusal tem as seguintes características (Figura 26.6): Frequência ventricular e atrial: inferior a 60 bpm no adulto. Ritmo ventricular e atrial: regular. Formato e duração do QRS: habitualmente normais, mas podem ser irregularmente anormais. Onda P: formato normal e consistente; sempre à frente do QRS. Intervalo PR: intervalo consistente, entre 0,12 e 0,20 s. Razão P:QRS: 1:1. • • Figura 26.5 Ritmo sinusal normal na derivação II. Figura 26.6 Bradicardia sinusal na derivação II. Todas as características da bradicardia sinusal são as mesmas daquelas do ritmo sinusal normal, com exceção da frequência. O cliente é avaliado para determinar o efeito hemodinâmico e a possível causa da arritmia. Se a diminuição na frequência cardíaca resultar da estimulação do nervo vago, tal como a força para baixo durante a defecação ou o vômito, tentase prevenir a estimulação vagal adicional. Se a bradicardia for causada por um medicamento, tal como um betabloqueador, o medicamento pode ser suspenso. Se a frequência cardíaca lenta causar alterações hemodinâmicas significativas que resultem em dispneia, alteração aguda do estado mental, angina, hipotensão, alterações no segmento ST ou extrassístoles ventriculares, o tratamento é direcionado para o aumento da frequência cardíaca. Se a frequência cardíaca lenta ocorrer em virtude de disfunção do nó sinoatrial (antes conhecida como síndrome do nó doente), que ocorre com mais frequência em pessoas com mais de 50 anos de idade, pode resultar em diminuição da capacidade para exercícios físicos, fadiga, confusão inexplicada, ou perda da memória (Fuster, Walsh et al., 2011). Síndrome de taquicardiabradicardia é o termo utilizado quando a bradicardia é alternada com taquicardia. Manejo clínico. O manejo clínico depende da causa e dos sintomas. A resolução dos fatores causais pode ser o único tratamento necessário. Se a bradicardia for sintomática (p. ex., tremor, hipotensão, síncope), 0,5 mg de atropina administrado rapidamente como bolus intravenoso (IV) a cada 3 a 5 min até uma dose total máxima de 3 mg é o medicamento de escolha. Raramente, catecolaminas e regulação de ritmo transcutânea de emergência são implementadas quando o ritmo não é responsivo à atropina. A atropina bloqueia a estimulação vagal, possibilitando, assim, a ocorrência de uma frequência normal. Entretanto, deve ser evitada em clientes de transplante cardíaco, tendo em vista que pode causar BAV paradoxal (ver discussão posterior sobre BAV) (Morrison, Deakin, Morley et al., 2010). Em vez disso, podem ser administrados 100 a 200 mg de teofilina IV lentamente aos clientes com bradicardia que se submeteram a um transplante cardíaco, bem como aqueles que apresentaram um IAM de parede inferior ou lesão raquimedular (Morrison et al., 2010). Taquicardia sinusal A taquicardia sinusal ocorre quando o nó sinoatrial cria um impulso em uma frequência mais rápida que a normal. Entre as causas estão as seguintes: Estresse fisiológico ou psicológico (p. ex., perda de sangue aguda, anemia, choque, hipervolemia, hipovolemia, insuficiência cardíaca, dor, estados hipermetabólicos, febre, exercícios físicos, ansiedade) Medicamentos que estimulam a resposta simpática (p. ex., catecolaminas, aminofilina, atropina), estimulantes • • (p. ex., cafeína, nicotina) e drogas ilícitas (p. ex., anfetaminas, cocaína, ecstasy) Intensificação da automaticidade do nó SA e/ou tônus simpático excessivo com redução do tônus parassimpático que é desproporcional às demandas fisiológicas, uma condição denominada taquicardia sinusal inapropriada Disfunção autônoma, que resulta em um tipo de taquicardia sinusal denominada síndrome de taquicardia ortostática postural (STOP). Clientes com STOP apresentam taquicardia sem hipotensão em 5 a 10 min após levantar ou com teste de inclinação ortostática com elevação da cabeceira. Figura 26.7 Taquicardia sinusal na derivação II. A taquicardia sinusal apresenta as características a seguir (Figura 26.7): Frequência ventricular e atrial: superior a 100 bpm no adulto, mas normalmente inferior a 120 bpm. Ritmo ventricular e atrial: regular. Formato e duração do complexo QRS: habitualmente normais, mas podem ser regularmente anormais. Onda P: formato normal e consistente; sempre à frente do complexo QRS, mas pode estar englobada na onda T precedente. Intervalo PR: intervalo consistente, entre 0,12 e 0,20 s. Razão P:QRS: 1:1. Todos os aspectos da taquicardia sinusal são os mesmos daqueles do ritmo sinusal normal, com exceção da frequência. A taquicardia sinusal não inicia ou encerra subitamente ( i. e., é não paroxística). À medida que a frequência cardíaca aumenta, o tempo de preenchimento diastólico diminui, possivelmente resultando em redução do débito cardíaco e subsequentes sintomas de síncope e pressão arterial baixa. Se a frequência rápida persistir e o coração não conseguir compensar a diminuição do preenchimento ventricular, o cliente pode desenvolver edema pulmonar agudo. Manejo clínico. O manejo clínico da taquicardia sinusal é determinado pela gravidade dos sintomas e direcionado à identificação e à abolição da sua causa. Se a taquicardia for persistente e causar instabilidade hemodinâmica, a cardioversão sincronizada é o tratamento preferencial (ver discussão posterior). De outro modo, manobras vagais ou administração de adenosina podem ser consideradas. Betabloqueadores e bloqueadores de canais de cálcio (Tabela 26.1), embora raramente utilizados, também podem ser considerados em uma taquicardia de QRS estreito. Se a taquicardia apresentar um QRS amplo, a adenosina então somente é considerada se o QRS for monomórfico (formato uniforme) e o ritmo ventricular for regular. De outro modo, procainamida, amiodarona e sotalol são as opções na taquicardiade QRS amplo (ver discussão a seguir sobre todos esses medicamentos). A ablação por cateter (discutida adiante neste capítulo) do nó SA pode ser utilizada em casos de taquicardia sinusal inapropriada persistente não responsiva a outros tratamentos. O tratamento para STOP pode incluir aumento da ingestão de líquidos e sódio e a utilização de meias de compressão gradual para prevenir o represamento de sangue nas extremidades inferiores (Fuster, Walsh et al., 2011). TABELA 26.1 Resumo de medicamentos antiarrítmicos.* Classe* Ação Nomes dos fármacos Efeitos colaterais Intervenções de enfermagem IA Depressão moderada da despolarização; prolonga a repolarização Trata e previne arritmias atriais e ventriculares Quinidina Procainamida Disopiramida Diminuição da contratilidade cardíaca Prolongamento do QRS, QT Pró-arrítmicos Hipotensão com a administração por via intravenosa Diarreia com quinidina, constipação intestinal com disopiramida Cinchonismo com quinidina Síndrome tipo lúpus com procainamida Efeitos anticolinérgicos: boca seca, hesitação urinária com disopiramida Observe em relação à IC Monitore a PA com a administração IV Monitore a duração do QRS em relação ao aumento > 50 a partir do valor basal Monitore em relação ao QT prolongado Monitore os valores laboratoriais de N-acetil procainamida (NAPA) durante a terapia com procainamida Se administrados para 䌌㺃brilação atrial, assegure que o cliente tenha sido pré- tratado com um medicamento para controlar a condução AV IB Depressão mínima da despolarização; repolarização abreviada Trata arritmias ventriculares Lidocaína Mexiletina Tocainida Alterações do SNC (p. ex., confusão, letargia) Bradicardia Desconforto GI Tremores Monitore em relação a alterações do SNC e tremores Discuta com o pro䌌㺃ssional principal a diminuição da dose de lidocaína em clientes idosos e clientes com disfunção cardíaca/hepática IC Depressão acentuada da despolarização; pouco efeito sobre a repolarização Trata arritmias atriais e ventriculares Flecainida Propafenona Pró-arrítmicos IC Tontura, distúrbios visuais, dispneia Diminua a dose com disfunção renal e dietas vegetarianas estritas Evite em clientes com cardiopatia estrutural (p. ex., DAC e insu䌌㺃ciência cardíaca) II Diminui a automaticidade e a condução Acebutolol§ Atenolol Bradicardia, BAV Diminuição da Monitore a frequência Trata arritmias atriais e ventriculares Bisoprolol/HCTZ Esmolol§ Labetalol Metoprolol Nadolol Nebivolol Propranolol§ Sotalol (também apresenta ações da classe III)§ contratilidade Broncospasmo Náuseas Hipotensão assintomática e sintomática Mascara a hipoglicemia e a tireotoxicose Distúrbios do SNC (p. ex., confusão, tontura, fadiga, depressão) cardíaca, intervalo PR, sinais e sintomas de IC, especialmente naqueles que recebem bloqueadores de canais de cálcio Monitore o nível de glicose sérica em clientes com diabetes tipo 2 Advirta o cliente a respeito da suspensão abrupta para evitar taquicardia, hipertensão e isquemia do miocárdio III Prolonga a repolarização A amiodarona trata e previne arritmias ventriculares e atriais, especialmente em clientes com disfunção ventricular Dofetilida e ibutilida tratam e previnem arritmias atriais Amiodarona Dofetilida Ibutilida Efeitos tóxicos pulmonares (amiodarona) Microdepósitos corneanos (amiodarona) Fotossensibilidade (amiodarona) Bradicardia Hipotensão, especialmente com a administração por via intravenosa Disritmias ventriculares polimór䌌㺃cas (raras com amiodarona) Náuseas e vômito Potencializa a digoxina (amiodarona) Ver betabloqueadores anteriormente (sotalol) Assegure-se de que o cliente seja enviado para provas de função pulmonar basal (amiodarona) Monitore cuidadosamente o cliente Avalie em relação às contraindicações antes da administração Monitore a duração do QT Monitoramento ECG contínuo com o início de dofetilida e ibutilida Monitore a função renal IV Bloqueia os canais de cálcio Trata e previne arritmias atriais paroxísticas† Verapamil Diltiazem Bradicardia, BAV Hipotensão com a administração IV IC, edema periférico Monitore a frequência cardíaca, intervalo PR Constipação intestinal, tontura, cefaleia, náuseas Monitore a pressão arterial cuidadosamente com a administração por via intravenosa Monitore em relação a sinais e sintomas de IC Não esmague medicamentos de liberação prolongada IV, intravenosa; IC, insuficiência cardíaca; PA, pressão arterial; AV, atrioventricular; SNC, sistema nervoso central; GI, gastrintestinal; HCTZ, hidroclorotiazida; ECG, eletrocardiograma *Com base na classificação de VaughnWilliams. † Existem outros bloqueadores de canais de cálcio, mas eles não são aprovados ou utilizados para arritmias. § Betabloqueador com utilização rotulada para arritmias. Adaptada da American Heart Association. (2010). Advanced cardiac life support provider manual. Dallas: American Heart Association; American Society of Health System Pharmacists. (2012).AHFS drug information. Bethesda, MD: Author; e Fuster V, Walsh RA, Harrington RA (Eds.). (2011). Hurst’s the heart (13th ed.). New York: McGrawHill. Arritmia sinusal A arritmia sinusal ocorre quando o nó sinoatrial cria um impulso a um ritmo irregular; a frequência normalmente aumenta com a inspiração e diminui com a expiração. As causas não respiratórias incluem cardiopatia e doença valvar, mas estas são raras. A arritmia sinusal tem as seguintes características (Figura 26.8): Frequência ventricular e atrial: 60 a 100 bpm no adulto. Ritmo ventricular e atrial: irregular. Formato e duração do QRS: habitualmente normais, mas podem ser regularmente anormais. Onda P: formato normal e consistente; sempre à frente do QRS. Intervalo PR: intervalo consistente, entre 0,12 e 0,20 s. Razão P:QRS: 1:1. Manejo clínico. A arritmia sinusal não causa efeito hemodinâmico significativo e, portanto, não é tratado tipicamente. Arritmias atriais Extrassístole atrial Uma extrassístole atrial é um complexo ECG único que ocorre quando um impulso elétrico tem início no átrio antes do próximo impulso normal do nó sinoatrial. As extrassístoles atriais podem ser causadas por cafeína, álcool etílico, nicotina, miocárdio atrial distendido (p. ex., como na hipervolemia), ansiedade, hipopotassemia (nível de potássio baixo), estados hipermetabólicos (p. ex., com a gestação), ou isquemia, lesão ou infarto atrial. As extrassístoles atriais geralmente são visualizadas com a taquicardia sinusal. As extrassístoles atriais têm as seguintes características (Figura 26.9): Frequência ventricular e atrial: depende do ritmo subjacente (p. ex., taquicardia sinusal). Ritmo ventricular e atrial: irregular por causa de ondas P prematuras, que criam um intervalo PP que é mais curto do que os outros. Isso por vezes é seguido por um intervalo PP mais longo do que o normal, porém que é inferior ao dobro do intervalo PP normal. Esse tipo de intervalo é denominado pausa não compensatória. Formato e duração do QRS: o complexo QRS após a onda P inicial habitualmente é normal, mas pode ser anormal (extrassístole atrial conduzida de modo aberrante). Pode até estar ausente (extrassístole atrial bloqueada). Onda P: uma onda P prematura e diferente pode ser visualizada ou pode estar escondida na onda T; as outras ondas P na fita são consistentes. Intervalo PR: a onda P prematura apresenta um intervalo PR mais curto do que o normal, mas ainda entre 0,12 e 0,20 s. Razão P:QRS: normalmente 1:1. As extrassístoles atriais são comuns em corações normais. O cliente pode dizer: “Meu coração bateu mais rápido.” Pode haver déficit de pulso (diferença entre as frequências de pulso apical e radial). Figura 26.8 Arritmia sinusal na derivação II. Observe os intervalos RR e PP irregulares. Figura 26.9 Extrassístoles atriais naderivação II. Observe que a pausa após a extrassístole atrial é mais longa do que o intervalo PP normal, embora seja inferior ao dobro do intervalo PP normal. Manejo clínico. Se as extrassístoles atriais não forem frequentes, nenhum tratamento é necessário. Se forem frequentes (> 6 por minuto), isso pode anunciar uma piora da doença ou o início de arritmias mais sérias, tais como fibrilação atrial. O manejo clínico é direcionado para a causa de base (p. ex., redução da ingestão de cafeína, correção da hipopotassemia). Flutter atrial O flutter atrial ocorre em virtude de um defeito de condução no átrio e causa frequência atrial rápida e regular, normalmente entre 250 e 400 bpm. Tendo em vista que a frequência atrial é mais rápida do que o nó AV consegue conduzir, nem todos os impulsos atriais são conduzidos para o ventrículo, causando um bloqueio terapêutico no nó AV. Esta é uma característica importante desta arritmia. Se todos os impulsos atriais fossem conduzidos para o ventrículo, a frequência ventricular também seria de 250 a 400 bpm, o que resultaria em fibrilação ventricular, uma arritmia potencialmente fatal. O flutter atrial geralmente ocorre em clientes com doença pulmonar obstrutiva crônica, hipertensão pulmonar, valvopatia e tireotoxicose, bem como após cirurgia de coração aberto e reparo de defeitos cardíacos congênitos (Fuster, Walsh et al., 2011). O flutter atrial apresenta as características a seguir (Figura 26.10): Frequência ventricular e atrial: a frequência atrial varia entre 250 e 400 bpm; a frequência ventricular costuma variar entre 75 e 150 bpm. Ritmo ventricular e atrial: o ritmo atrial é regular; o ritmo ventricular normalmente é regular, mas pode ser irregular em virtude de uma alteração na condução AV. Formato e duração do QRS: habitualmente normais, mas podem ser anormais ou estar ausentes. Onda P: formato de dente de serrote; essas ondas são denominadas ondas F. Intervalo PR: diversas ondas F podem tornar difícil determinar o intervalo PR. Razão P:QRS: 2:1, 3:1, ou 4:1. Manejo clínico. O manejo clínico envolve a utilização de manobras vagais ou a administração de adenosina, que causa bloqueio simpático e diminuição da velocidade da condução no nó AV, e pode encerrar a taquicardia, ou no mínimo possibilitar a melhor visualização das ondas de flutter. A adenosina deve ser administrada por via intravenosa rapidamente, seguida por infusão de 20 mℓ de soro fisiológico para “lavar” o equipo e elevação do braço com o acesso venoso para promover a circulação rápida do medicamento. Se a taquicardia não encerrar em 2 min, pode ser administrada uma dose maior de adenosina (Morrison et al., 2010). Figura 26.10 Flutter atrial na derivação II. O flutter atrial pode causar sinais e sintomas sérios, como dor torácica, dispneia e pressão arterial baixa. A cardioversão elétrica (discutida posteriormente) geralmente é bemsucedida na conversão do ritmo em ritmo sinusal. Se a arritmia tiver durado mais do que 48 h e um ecocardiograma transesofágico não houver confirmado a ausência de coágulos atriais, pode ser indicada anticoagulação adequada, com a utilização dos mesmos critérios da fibrilação atrial, antes da cardioversão ou ablação. Os medicamentos utilizados para diminuir a frequência da resposta ventricular incluem betabloqueadores, bloqueadores de canais de cálcio não dihidropiridínicos e digitálicos, isoladamente ou em combinação (ver Tabela 26.1). A ablação por cateter, em vez de medicamentos antiarrítmicos, atualmente é o tratamento preferencial a longo prazo. O flutter atrial deve ser tratado com agentes antitrombóticos do mesmo modo que a fibrilação atrial (Crandall, Bradley, Packer et al., 2009) (ver discussão posterior). Fibrilação atrial A fibrilação atrial é uma ativação elétrica atrial descoordenada que causa contração rápida, desorganizada e descoordenada da musculatura atrial. A resposta da frequência ventricular depende da capacidade do nó AV de conduzir os impulsos atriais, do nível de tônus simpático e parassimpático, da presença de vias acessórias e dos efeitos de quaisquer medicamentos (Fuster, Rydén, Cannom et al., 2011). Por exemplo, intervalos RR regulares na fibrilação atrial podem indicar a ocorrência de bloqueio atrioventricular (BAV) completo. Pela falta de consistência na descrição do padrão da fibrilação atrial, diversos termos já foram utilizados (p. ex., aguda, crônica, paroxística [i. e., se ocorre subitamente], persistente e permanente). O sistema de classificação recomendado está descrito no Boxe 26.3. Observe que “fibrilação atrial crônica” não está incluído; tendo em vista que ele não apresenta uma definição padrão, devese evitar usar este termo (Calkins, Kuck, Cappoto et al., 2012). Boxe 26.3 Sistema de classi䌌㺃cação da 䌌㺃brilação atrial • • • • • • • • Tipo Descrição Paroxística Recidivante, com início e encerramento súbito; dura ≤ 7 dias Persistente Contínua, com duração > 7 dias Persistente de longa duração Contínua, com duração > 1 ano Permanente Persistente, mas foi tomada a decisão de não restaurar ou manter o ritmo sinusal Adaptado de Calkins H, Kuck KH, Cappato R et al. 2012 HRS/EHRA/ECAS expert consensus statement on catheter and surgical ablation of atrial fibrillation: Recommendations for patient selection, procedural techniques, patient management and followup, definitions, endpoints, and research trial design. Heart Rhythm, 2012; 9(4), 632696. A fibrilação atrial é a arritmia prolongada mais comum, que ocorre em mais de 2 milhões de pessoas nos EUA (Schnabel, Sullivan, Levy et al., 2009). A causa exata da fibrilação atrial não é conhecida; entretanto, focos autônomos e fenômenos de reentrada múltipla estão envolvidos, mais frequentemente com origem não no átrio, mas no tecido adjacente (p. ex., na veia pulmonar) (Crandall et al., 2009). Os fatores de risco para a fibrilação atrial estão descritos no Boxe 26.4. A fibrilação atrial pode ocorrer no período após qualquer cirurgia de grande porte, mas especialmente de cirurgia cardíaca a céu aberto (Cramm, Kirchof, Lip et al., 2010). Também pode ocorrer na cardiopatia estrutural, tal como na valvopatia cardíaca (com mais frequência mitral ou tricúspide); doença inflamatória ou infiltrativa (pericardite, miocardite, amiloidose); miocardiopatia dilatada, hipertrófica e restritiva; doença da artéria coronária (DAC); hipertensão arterial; distúrbio congênito (especialmente comunicação interatrial); e insuficiência cardíaca (diastólica ou sistólica) (Fuster, Rydén et al., 2011). A arritmia também pode ser observada em pessoas com hipertireoidismo, feocromocitoma, hipertensão arterial e embolismo pulmonar, apneia obstrutiva do sono e ingestão moderada a substancial de bebidas alcoólicas (síndrome do “coração pósferiado”), bem como após cirurgia pulmonar ou de coração a céu aberto (Fuster, Rydén et al., 2011). A fibrilação atrial neurogênica que ocorre com a hemorragia subaracnóidea e o AVE não hemorrágico é causada pelo aumento da estimulação vagal ou simpática. Às vezes, a fibrilação atrial ocorre em pessoas com menos de 60 anos sem fisiopatologia de base e é denominada fibrilação atrial solitária (Fuster, Rydén et al., 2011). Muitos estudos indicaram que a fibrose atrial está envolvida na fibrilação atrial persistente, o que levou à investigação de substâncias como endotelina 1, proteína C reativa e interleucina 6 como biomarcadores em relação à fibrilação atrial (Estes, Sacco, AlKhatib et al., 2011). Boxe 26.4 FATORES DE RISCO Fibrilação atrial Envelhecimento Sexo masculino Índice de massa corporal mais alto Pressão arterial sistólica ≥160 mmHg Hipertensão arterial Intervalo PR ≥ 160 ms Sopro cardíaco clinicamente signi䌌㺃cativo (i. e., grau 3 ou superior) Insu䌌㺃ciência cardíaca. Adaptado de Schnabel RB, Sullivan LM, Levy D et al. Development of a risk score for atrial fibrillation (Framingham Heart Study): A communitybased cohort study. Lancet, 2009; 373(9665), 739745. A prevalência da fibrilação atrial está aumentando e está relacionada com o aumento do risco de acidente vascular encefálico, demência e morte prematura (Estes et al., 2011). As hospitalizações em virtude de fibrilação atrial aumentaram em 66% nos últimos 20 anos, e a ocorrência da arritmia aumenta a duração e o custo da estadia hospitalar (Fuster, Rydén et al., 2011). A fibrilação atrial tem as seguintes características (Figura 26.11): Frequência ventricular e atrial: A frequência atrial é de 300 a 600 bpm; a frequência ventricular normalmente é de 120 a 200 bpm na fibrilação atrial não tratada. Ritmo ventricular e atrial: altamente irregular. Formato e duração do QRS: habitualmente normais, mas podem ser anormais. Onda P: nenhuma onda P discernível; ondas irregulares ondulantes que variam em amplitude e formato são observadas e denominadas ondas fibrilatórias, ou f. Intervalo PR: não pode ser medido. Razão P:QRS: Muitas:1. Uma resposta ventricular rápida e irregular reduz o tempo para o preenchimento ventricular, resultando em um volume sistólico menor. Tendo em vista que a fibrilação atrial causa uma perda na sincronia AV (os átrios e os ventrículos contraem em ocasiões diferentes), o pontapé atrial (a última parte da diástole e do preenchimento ventricular, que é responsável por 25 a 30% do débito cardíaco) também é perdido. Isso pode levar a palpitações irregulares e sintomas de insuficiência cardíaca, tais como dispneia, fadiga, intolerância a exercícios físicos e mal estar. Os clientes podem ser assintomáticos ou apresentar colapso hemodinâmico significativo (hipotensão, dor torácica, edema pulmonar e alteração do nível de consciência), especialmente se eles também apresentarem hipertensão, estenose de valva mitral, miocardiopatia hipertrófica ou alguma forma de insuficiência cardíaca restritiva (Fuster, Rydén et al., 2011). Habitualmente há um déficit de pulso – uma diferença numérica entre as frequências de pulso apical e radial. O tempo mais curto em diástole reduz o tempo disponível para a perfusão da artéria coronária, aumentando, assim, o risco de isquemia do miocárdio com o início do desconforto torácico. A contração atrial errática, a alteração do fluxo sanguíneo e a disfunção miocárdica atrial promovem a formação de trombos, especialmente no átrio esquerdo, aumentando o risco de um evento embólico. Além disso, uma resposta de frequência ventricular alta durante a fibrilação atrial pode levar à miocardiopatia ventricular dilatada. A frequência ventricular rápida também pode levar a disfunção da valva mitral, regurgitação de mitral e retardo na condução intraventricular. O controle da frequência ventricular pode evitar e corrigir esses efeitos. Figura 26.11 Fibrilação atrial na derivação II. Manejo clínico. A avaliação clínica da fibrilação atrial deve incluir um histórico e exame físico (para identificar o padrão da fibrilação atrial, sintomas correlatos e quaisquer condições de base); ECG de 12 derivações (para identificar a ocorrência de hipertrofia ventricular, préexcitação em virtude de vias acessórias, defeitos de condução intraventricular e histórico de IAM); ecocardiograma (para avaliar tamanho, espessura e função das câmaras cardíacas; para identificar possíveis causas, tais como miocardiopatia ou disfunção valvar; e para identificar a presença de um trombo); e testes séricos para avaliar tireoide, função renal e hepática quando a frequência ventricular for de difícil controle (Fuster, Rydén et al., 2011). Em clientes submetidos a cirurgia cardíaca que apresentam conexão a fios epicárdicos, a obtenção de um ECG atrial auxilia no diagnóstico da fibrilação atrial e na sua diferenciação de outras arritmias comuns, tais como ritmo juncional acelerado (McRae et al., 2010). Os testes adicionais podem incluir radiografia torácica (para avaliar a vasculatura pulmonar), teste de exercícios físicos (para avaliar o controle da frequência, bem como isquemia do miocárdio), monitoramento por Holter ou de evento, e um estudo EF. O exame físico pode revelar pulso irregular, pulsações venosas jugulares irregulares e sons cardíacos de B1 irregulares. O tratamento da fibrilação atrial depende da causa, do padrão e da duração da arritmia, da frequência de resposta ventricular e do tipo e da gravidade dos sintomas do cliente, bem como da idade e das comorbidades do cliente. O controle do ritmo (conversão em ritmo sinusal) versus controle da frequência é uma decisão clínica no tratamento inicial e em andamento para a fibrilação atrial. Estudos prospectivos demonstraram que o controle da frequência cardíaca (frequência cardíaca em repouso inferior a 80 bpm) é equivalente ao controle do ritmo em termos de qualidade de vida, frequência de hospitalização em virtude de insuficiência cardíaca e incidência de acidente vascular encefálico (Fuster, Rydén et al., 2011; Wyse, Waldo, DiMarco et al., 2002). Entretanto, se a fibrilação atrial persistir em alguns clientes, tais como aqueles que são mais jovens ou que apresentam insuficiência cardíaca, o remodelamento elétrico e estrutural pode então evitar que a restauração do ritmo sinusal sequer ocorra. Portanto, o tratamento da fibrilação atrial pode não apenas ser diferente em clientes diferentes, mas também pode ser alterado ao longo do tempo para qualquer cliente individual. Em alguns clientes, a fibrilação atrial é convertida em ritmo sinusal em 24 h e sem tratamento. A hospitalização pode não ser necessária. A cardioversão elétrica é indicada para clientes com fibrilação atrial que é hemodinamicamente instável e não responde rapidamente aos medicamentos, exceto se apresentarem intoxicação digitálica ou hipopotassemia concomitantes. Em virtude do alto risco de embolização dos trombos atriais, a cardioversão da fibrilação atrial que durou mais de 48 h deve ser evitada, exceto se o cliente tiver recebido varfarina por no mínimo 3 a 4 semanas antes da cardioversão. Alternativamente, a ausência de trombo mural pode ser confirmada por meio de ecocardiograma transesofágico, e pode ser administrada heparina imediatamente antes da cardioversão. Alerta de domínio do conceito O cliente com 䌌㺃brilação atrial está em alto risco para a formação de trombos. Quando a cardioversão elétrica é indicada, a enfermeira pode antecipar que um ecocardiograma transesofágico poderá ser realizado para a avaliação em relação a possíveis trombos atriais. Tendo em vista que a função atrial pode estar comprometida por diversas semanas após a cardioversão, a varfarina é indicada por no mínimo 4 semanas após o procedimento. Os clientes podem receber amiodarona, flecainida, ibutilida, propafenona ou sotalol antes da cardioversão para intensificar o sucesso da cardioversão e prevenir a recidiva da fibrilação atrial (Fuster, Rydén et al., 2011). Os medicamentos que podem ser administrados para alcançar a cardioversão farmacológica em ritmo sinusal incluem amiodarona, dofetilida, ibutilida, flecainida ou propafenona (Fuster, Rydén et al., 2011). Esses medicamentos são mais efetivos se administrados em 7 dias do início da fibrilação atrial. Em virtude da incidência de torsades de pointes, que é um tipo de taquicardia ventricular (TV), a utilização da ibutilida recomenda o monitoramentoECG por no mínimo 4 h após a sua administração. A utilização de dofetilida também requer a hospitalização do cliente para o monitoramento do intervalo QT e da função renal. Se o QRS for amplo e o ritmo ventricular for muito rápido e irregular, sempre deve haver suspeita de fibrilação atrial com uma via acessória. Uma via acessória é um tecido congênito entre os átrios, o feixe de His, o nó AV, as fibras de Purkinje ou o miocárdio ventricular. Esta anomalia é conhecida como síndrome de Wolff ParkinsonWhite (WPW). A cardioversão elétrica é o tratamento preferencial para a fibrilação atrial em casos de síndrome de WPW que causa instabilidade hemodinâmica. Os medicamentos que bloqueiam a condução AV (p. ex., digoxina, diltiazem e verapamil) devem ser evitados em casos de WPW, tendo em vista que podem aumentar a frequência ventricular. Se o cliente estiver hemodinamicamente estável, procainamida, propafenona, flecainida e amiodarona são recomendados para restaurar o ritmo sinusal (Fuster, Rydén et al., 2011). A ablação por cateter é realizada para o tratamento a longo prazo. Para controlar a frequência cardíaca na fibrilação atrial persistente, recomendase administrar um betabloqueador (propranolol, atenolol, metoprolol ou esmolol), ou um bloqueador de canais de cálcio não di hidropiridina (diltiazem ou verapamil) (Fuster, Rydén et al., 2011). Entretanto, pessoas com comprometimento da função ventricular não devem receber verapamil, aqueles com broncospasmo não devem receber um betabloqueador, e aqueles com BAV não devem receber nenhum desses medicamentos. Pode ser administrada digoxina ou amiodarona IV para o controle da frequência em clientes com insuficiência cardíaca ou disfunção ventricular esquerda, mas sem uma via acessória. Procainamida ou ibutilida IV é uma alternativa para o controle da frequência em clientes com uma via acessória. Para as gestantes, digoxina, um betabloqueador ou um bloqueador de canais de cálcio não dihidropiridínico pode ser utilizado para o controle da frequência. Se os medicamentos não conseguirem controlar a frequência cardíaca ou causarem efeitos colaterais significativos, pode ser indicada ablação por cateter (Fuster, Rydén et al., 2011). A fibrilação atrial persistente pode causar disfunção do nó sinoatrial e alteração na musculatura atrial e na função contrátil (choque atrial), que podem persistir por dias ou semanas após a conversão em ritmo sinusal (Crandall et al., 2009). Isso apresenta implicações para o tempo de recuperação e a duração da terapia de anticoagulação necessária após a conversão. A manutenção do ritmo sinusal pode ser obtida com amiodarona, dofetilida, disopiramida, flecainida, propafenona ou sotalol (Fuster, Rydén et al., 2011). Clientes com características específicas que foram observados no hospital podem receber um medicamento para autoadministração fora do hospital se apresentarem recidiva (Fuster, Rydén et al., 2011; Saborido, Hockenhull, Bagust et al., 2010). Diversas abordagens são utilizadas para prevenir a ocorrência da fibrilação atrial pósoperatória; a administração préoperatória de um betabloqueador ou amiodarona é a de mais sucesso (Fuster, Rydén et al., 2011). A implantação de marcapasso, ablação por cateter ou ablação cirúrgica, também denominada procedimento de labirinto (ver discussão posterior), que requer que o cliente seja colocado em bypass cardiopulmonar, podem ser indicadas para clientes que não respondem aos medicamentos. Embora desfibriladores atriais implantáveis tenham sido estudados, a energia média necessária para a cardioversão é de 3 J, o que causa desconforto significativo e inaceitável para o cliente (Fuster, Rydén et al., 2011). A terapia antitrombótica é indicada para todos os clientes com fibrilação atrial, especialmente aqueles em risco de evento embólico, tal como acidente vascular encefálico, e é a única terapia que diminui a mortalidade cardiovascular (Cramm et al., 2010). Esse tipo de terapia deveria ter por base primariamente os riscos de acidente vascular encefálico (Lip, Nieuwlaat, Pisters et al., 2010) em vez do risco de sangramento (Lip, Frison, Halperin et al., 2011) em um cliente em particular (Fuster, Rydén et al., 2011). Clientes com fatores de risco significativos de acidente vascular encefálico (histórico de acidente vascular encefálico, crise isquêmica temporária ou evento embólico anterior, estenose de valva mitral, ou prótese de valva cardíaca) podem iniciar terapia com varfarina (Fuster, Rydén et al., 2011). Se o cliente não apresentar fatores de risco, ele pode receber o tratamento com 81 a 325 mg de ácido acetilsalicílico (AAS) ao dia (Fuster, Rydén et al., 2011). Se o cliente apresentar um fator de risco moderado (hipertensão arterial, diabetes melito, 75 anos ou mais, ou uma fração de ejeção de 35% ou menos [ver Capítulo 25]), a terapia com ácido acetilsalicílico ou varfarina pode ser iniciada (Fuster, Rydén et al., 2011). Se o cliente apresentar mais de um fator de risco moderado, a terapia com varfarina pode ser iniciada (Fuster, Rydén et al., 2011). Outro estudo indicou que a terapia antitrombótica deve ser iniciada se o cliente apresentar um (se mulher) ou dois (se homem) fatores de risco a seguir: 64 a 74 anos de idade, ou histórico de hipertensão arterial, insuficiência cardíaca, diabetes melito ou doença vascular (p. ex., doença arterial periférica), IAM de parede anterior, ou uma placa aórtica (Lip et al., 2010). Se a anticoagulação imediata for necessária, o cliente pode receber heparina até que o nível de varfarina seja terapêutico, o que é normalmente definido como índice de normalização internacional (INR) entre 2 e 3. Se um cliente sofrer um acidente vascular encefálico isquêmico ou for de alto risco, a terapia antitrombótica pode ser aumentada, com meta de INR entre 3 e 3,5 (Fuster, Rydén et al., 2011). Se o cliente for submetido a um procedimento com risco de sangramento, a terapia anticoagulação pode ser suspensa por até 1 semana. Se for necessário mais de 1 semana, pode ser administrada heparina, embora a sua eficiência seja desconhecida. Estão disponíveis diversos anticoagulantes mais novos, como apixabana, rivaroxabana e dabigatrana. Entretanto, acredita se que não haja diferenças profundas entre esses fármacos em termos de eficácia (Lip, Larsen, Skjøth et al., 2012). Estudos recentes demonstraram que inibidores da enzima conversora da angiotensina (ECA) e bloqueadores de receptores de angiotensina (ARB) diminuem a incidência de fibrilação atrial, a quantidade de tentativas de desfibrilação necessárias para restaurar o ritmo sinusal e o número de rehospitalizações (Fuster, Rydén et al., 2011). São necessários mais estudos para esclarecer o papel de inibidores da ECA e ARB na manutenção a longo prazo do ritmo sinusal. Além disso, inibidores da redutase da 3hidroxi3metilglutaril coenzima A (HMGCoA) ( i. e., estatinas) auxiliam na manutenção do ritmo sinusal em clientes com fibrilação atrial solitária persistente (Fuster, Rydén et al., 2011) (ver mais sobre estes fármacos no Capítulo 27). Arritmias juncionais Complexo juncional prematuro Um complexo juncional prematuro é um impulso que tem início na área nodal AV antes de o próximo impulso sinusal normal atingir o nó AV. Os complexos juncionais prematuros são menos comuns do que as extrassístoles atriais; as causas incluem intoxicação digitálica, insuficiência cardíaca e DAC. Os critérios de ECG em relação ao complexo juncional prematuro são os mesmos das extrassístoles atriais, com exceção da onda P e do intervalo PR. A onda P pode estar ausente, pode ocorrerapós o complexo QRS ou pode ocorrer antes dele, mas com um intervalo PR inferior a 0,12 s. Esta arritmia raramente provoca sintomas significativos. O tratamento para os complexos juncionais prematuros frequentes é o mesmo das extrassístoles atriais frequentes. Ritmo juncional O ritmo juncional ou idionodal ocorre quando o nó AV, em vez do nó sinoatrial, se torna o marcapasso do coração. Quando o nó sinoatrial se torna mais lento (p. ex., em virtude de aumento do tônus vagal), ou quando o impulso não pode ser conduzido pelo nó AV (p. ex., em virtude de BAV completo), o nó AV automaticamente descarrega um impulso. O ritmo juncional não causado por BAV completo apresenta as características a seguir (Figura 26.12): Figura 26.12 Ritmo juncional na derivação II; observe os intervalos PR curtos. Frequência ventricular e atrial: frequência ventricular de 40 a 60 bpm; frequência atrial também de 40 a 60 bpm, se ondas P forem discerníveis. Ritmo ventricular e atrial: regular. Formato e duração do complexo QRS: habitualmente normais, mas podem ser anormais. Onda P: pode estar ausente, após o complexo QRS, ou antes do QRS; pode ser invertida, especialmente na derivação II. Intervalo PR: se a onda P estiver à frente do QRS, o intervalo PR é inferior a 0,12 s. Razão P:QRS: 1:1 ou 0:1. Manejo clínico. O ritmo juncional pode produzir sinais e sintomas de redução do débito cardíaco. Se isso ocorrer, o tratamento é o mesmo da bradicardia sinusal. Pode ser necessária a regulação do ritmo de emergência. Taquicardia juncional não paroxística A taquicardia juncional é causada pela intensificação da automaticidade na área juncional, que resulta em um ritmo similar ao ritmo juncional, com exceção de uma frequência de 70 a 120 bpm. Embora este ritmo em geral não provoque efeitos hemodinâmicos prejudiciais, pode indicar uma condição de base séria, tal como intoxicação digitálica, isquemia do miocárdio, hipopotassemia ou doença pulmonar obstrutiva crônica (DPOC). Tendo em vista que a taquicardia juncional é causada pelo aumento da automaticidade, a cardioversão não é efetiva (Fuster, Walsh et al., 2011). Taquicardia por reentrada nodal atrioventricular A taquicardia por reentrada nodal atrioventricular (TRNAV) é uma arritmia comum que ocorre quando um impulso é conduzido até uma área no nó AV que faz com que o impulso seja redirecionado de volta à mesma área inúmeras vezes a uma velocidade muito rápida. Cada vez que o impulso é conduzido por esta área, também é conduzido para baixo e para os ventrículos, com consequente aumento da frequência ventricular. A TRNAV que apresenta início abrupto e cessação abrupta com um QRS de duração normal foi denominada taquicardia atrial paroxística. A TRNAV também ocorre quando a duração do complexo QRS é de 0,12 s ou mais, e sabidamente há bloqueio de ramo. Esta arritmia pode durar segundos ou muitas horas. Os fatores associados ao desenvolvimento de TRNAV incluem cafeína, nicotina, hipoxemia e estresse. As patologias de base incluem DAC e miocardiopatia; entretanto, ocorre com mais frequência em mulheres, e não em associação à cardiopatia estrutural de base. A TRNAV tem as seguintes características (Figura 26.13): Frequência ventricular e atrial: frequência atrial normalmente de 150 a 250 bpm; frequência ventricular normalmente de 120 a 200 bpm. Ritmo ventricular e atrial: regular; início e término súbitos da taquicardia. Formato e duração do complexo QRS: habitualmente normais, mas podem ser anormais. Onda P: normalmente de muito difícil discernimento. Intervalo PR: se a onda P estiver à frente do QRS, o intervalo PR é inferior a 0,12 s. Razão P:QRS: 1:1, 2:1. Os sinais/sintomas clínicos variam com a frequência e a duração da taquicardia e a condição de base do cliente. A taquicardia normalmente é de curta duração, resultando apenas em palpitações. Uma frequência rápida também pode reduzir o débito cardíaco, resultando em sinais e sintomas significativos, como inquietação, dor torácica, dispneia, palidez, hipotensão e perda da consciência. Manejo clínico. Tendo em vista que a TRNAV em geral é uma arritmia benigna, o objetivo do manejo clínico é aliviar os sintomas e melhorar a qualidade de vida. Os clientes que se tornam significativamente sintomáticos e precisam de visitas ao prontosocorro para encerrar o ritmo podem desejar iniciar a terapia imediatamente. Entretanto, aqueles com sintomas mínimos com uma TRNAV que se encerra espontaneamente ou com tratamento mínimo podem optar por monitoramento apenas. O objetivo da terapia é romper a reentrada do impulso. A ablação por cateter é o tratamento preferencial inicial e é utilizada para eliminar a área que possibilita o redirecionamento do impulso que causa a taquicardia (Calkins et al., 2012). Manobras vagais, tais como massagem do seio carotídeo (Figura 26.14), reflexo do vômito, prender a respiração e imersão da face em água gelada, podem ser utilizadas para interromper a TRNAV. Essas técnicas aumentam a estimulação parassimpática, causando a diminuição da velocidade da condução pelo nó AV e o bloqueio da reentrada do impulso redirecionado. Alguns clientes aplicam alguns desses métodos para encerrar o episódio por si próprios. Em virtude do risco de um evento embólico cerebral, a massagem do seio carotídeo é contraindicada em clientes com sons carotídeos. Se as manobras vagais não forem bemsucedidas, o cliente pode receber um bolus de adenosina para corrigir o ritmo; este é quase 100% efetivo no encerramento da TRNAV (Rothman, 2010). Tendo em vista que o efeito da adenosina é muito curto, a TRNAV pode recidivar; a primeira dose pode ser seguida por uma dose maior ou por um bloqueador de canais de cálcio, tal como verapamil, seguido por uma ou duas doses adicionais. A digoxina não é indicada em virtude do seu início lento. Se o cliente estiver instável ou não responder aos medicamentos, a cardioversão é o tratamento preferencial. O cliente instável pode receber adenosina enquanto estão sendo feitos os preparativos para a cardioversão. Para a TRNAV prolongada recidivante, o tratamento com bloqueadores de canais de cálcio, como verapamil e diltiazem, agentes antiarrítmicos de classe 1a, como procainamida e disopiramida, agentes antiarrítmicos de classe 1c, como flecainida e propafenona, e agentes de classe III, como sotalol e amiodarona, pode prevenir uma recidiva. Se o ritmo não for frequente e não houver distúrbio estrutural cardíaco de base, uma dose oral única de flecainida ou uma combinação de diltiazem e propranolol durante um episódio de taquicardia pode ser efetivo. Figura 26.13 Taquicardia de reentrada no nó AV na derivação II. Figura 26.14 Massagem do seio carotídeo. Se as ondas P não puderem ser identificadas, o ritmo pode ser denominado taquicardia supraventricular (TSV), ou taquicardia supraventricular paroxística (TSVP) se apresentar um início súbito, até que o ritmo subjacente e o diagnóstico resultante sejam determinados. A TSV e a TSVP indicam apenas que o ritmo não é de taquicardia ventricular (TV). A TSV pode ser fibrilação atrial, flutter atrial, ou TRNAV, entre outros. Manobras vagais e adenosina podem ser aplicadas para converter o ritmo ou, no mínimo, diminuir a velocidade da condução no nó AV para possibilitar a visualização das ondas P. Se o ECG não auxiliar na diferenciação da arritmia, estudos EF invasivos podem ser necessários para a obtenção do diagnóstico. Arritmias ventriculares Extrassístole ventricular Uma extrassístole ventricular é um impulso que tem início em um ventrículo e é conduzido pelos ventrículos antes do próximo impulso sinusal normal. As extrassístoles ventriculares podem ocorrer em pessoas hígidas, especialmente por causa de ingestão de cafeína,nicotina ou álcool etílico. As extrassístoles ventriculares podem ser causadas por isquemia ou infarto do miocárdio, aumento do esforço sobre o coração (p. ex., insuficiência cardíaca e taquicardia), intoxicação digitálica, hipoxia, acidose ou desequilíbrios eletrolíticos, especialmente hipopotassemia. Em um ritmo denominado bigeminismo, um em cada dois complexos é uma extrassístole ventricular. No trigeminismo, cada terceiro complexo é uma extrassístole ventricular, e no quadrigeminismo, cada quarto complexo é uma extrassístole ventricular. As extrassístoles ventriculares têm as sequintes características (Figura 26.15): Frequência ventricular e atrial: depende do ritmo subjacente (p. ex., ritmo sinusal). Ritmo ventricular e atrial: irregular em virtude de complexo QRS prematuro, que cria um intervalo RR mais curto que os demais. O intervalo PP pode ser regular, indicando que a extrassístole ventricular não despolarizou o nó sinoatrial. Formato e duração do complexo QRS: a duração é de 0,12 s ou mais; o formato é bizarro e anormal. Onda P: a visibilidade da onda P depende da ocasião da extrassístole ventricular; pode estar ausente (escondida no complexo QRS ou na onda T) ou à frente do complexo QRS. Se a onda P ocorrer após o complexo QRS, o formato da onda P pode ser diferente. Intervalo PR: se a onda P estiver à frente do complexo QRS, o intervalo PR é inferior a 0,12 s. Razão P:QRS: 0:1, 1:1. O cliente pode não sentir nada, ou pode dizer que o coração “bateu mais rápido”. O efeito de uma extrassístole ventricular depende da sua ocasião no ciclo cardíaco e de quanto sangue se encontrava nos ventrículos quando eles contraíram. O manejo inicial visa à correção da causa. Manejo clínico. Habitualmente as extrassístoles ventriculares não são graves. As extrassístoles ventriculares frequentes e persistentes podem ser tratadas com amiodarona ou sotalol, mas habitualmente a farmacoterapia a longo prazo apenas para as extrassístoles ventriculares não é indicada. Em clientes com um IAM, estudos recentes observaram que as extrassístoles ventriculares não estão associadas à morte súbita cardíaca e não recomendam terapia mais agressiva (Patton, 2010). No passado, as extrassístoles ventriculares eram consideradas indicativas de maior risco de TV. Entretanto, não se observou que as extrassístoles ventriculares que (1) apresentam frequência superior a seis por minuto, (2) são multifocais ou polimórficas (apresentam formatos e ritmos diferentes), (3) ocorrem uma em seguida da outra (em pares) e (4) ocorrem na onda T (o período vulnerável da despolarização ventricular) sejam precursoras de TV em clientes sem cardiopatia estrutural (Cardiac Arrhythmia Suppression Trial Investigators, 1989; Patton, 2010). As extrassístoles ventriculares não são consideradas um alerta para TV. Taquicardia ventricular A TV é definida como três ou mais extrassístoles ventriculares uma em seguida da outra, que ocorrem em uma frequência superior a 100 bpm. As causas são semelhantes às das extrassístoles ventriculares. Clientes com IAM maiores e frações de ejeção mais baixas correm maior risco de TV letal (ver Capítulo 29). A TV é uma emergência, tendo em vista que o cliente comumente (embora não sempre) não é responsivo e está sem pulso. A TV apresenta as características a seguir (Figura 26.16): Figura 26.15 Extrassístoles ventriculares multifocais em quadrigeminismo na derivação V1. Observe o intervalo PP regular (onda P na extrassístole ventricular). Frequência ventricular e atrial: a frequência ventricular é de 100 a 200 bpm; a frequência atrial depende do ritmo subjacente (p. ex., ritmo sinusal). Ritmo ventricular e atrial: normalmente regular; o ritmo atrial também pode ser regular. Formato e duração do QRS: a duração é de 0,12 s ou mais; formato bizarro e anormal. Onda P: muito difícil de detectar, de modo que a frequência atrial e o ritmo pode ser indetermináveis. Intervalo PR: muito irregular, se as ondas P forem visualizadas. Razão P:QRS: difícil de determinar, mas se as ondas P forem aparentes, normalmente existem mais complexos QRS do que ondas P. A tolerância ou a ausência de tolerância do cliente a este ritmo rápido depende da frequência ventricular e da gravidade da disfunção ventricular. Entretanto, a estabilidade hemodinâmica não prevê o risco de morte (Pelligrini e Schneiman, 2010). Manejo clínico. Diversos fatores determinam o tratamento inicial, incluindo os seguintes: identificação do ritmo como monomórfico (que apresenta um formato do QRS e ritmo consistentes) ou polimórfico (que apresenta diversos formatos de complexo QRS e ritmos), determinação da existência de um intervalo QT prolongado antes do início da TV, quaisquer comorbidades e verificação da função cardíaca do cliente (normal ou diminuída). Se o cliente estiver estável, a continuação da avaliação, especialmente com a obtenção de um ECG de 12 derivações, pode ser a única medida necessária. Entretanto, o cliente pode necessitar de medicamentos antiarrítmicos, regulação do ritmo antitaquicardia ou cardioversão direta ou desfibrilação. A procainamida pode ser utilizada para a TV estável monomórfica em clientes que não apresentam IAM ou insuficiência cardíaca grave (Morrison et al., 2010). Amiodarona por via IV é o medicamento preferencial para um cliente com comprometimento da função cardíaca ou IAM. Sotalol também pode ser considerado para a TV monomórfica estável. Embora a lidocaína tenha sido o medicamento mais prescrito para a terapia imediata e a curto prazo, especialmente para clientes com comprometimento da função cardíaca, não é efetiva em curto ou longo prazo comprovadamente na parada cardíaca (Morrison et al., 2010). A cardioversão é o tratamento preferencial para a TV monofásica em um cliente sintomático. A desfibrilação é o tratamento de escolha para a TV sem pulso. Qualquer tipo de TV em um cliente inconsciente e sem pulso é tratado da mesma maneira que a fibrilação ventricular: a desfibrilação imediata é a medida preferencial. Na TV monitorada e testemunhada, quando um desfibrilador não se encontra imediatamente disponível, pode ser administrado um golpe precordial (um único golpe no esterno com o punho) (Sayre, Koster, Botha et al., 2010). Para o tratamento a longo prazo, os clientes com fração de ejeção inferior a 35% devem ser considerados candidatos a um desfibrilador cardioversor implantável (DCI) (ver a seguir). Aqueles com uma fração de ejeção superior a 35% podem ser tratados com amiodarona. Uma pequena porcentagem de clientes com TV apresenta corações estruturalmente normais e responde bem aos medicamentos e à ablação, e apresenta um excelente prognóstico (Fuster, Walsh et al., 2011). Se a frequência ventricular for superior a 200 bpm, devese suspeitar que existe uma via acessória. Se o ritmo ventricular for irregular, devese suspeitar de fibrilação atrial e esta deve ser tratada de modo adequado (Morrison et al., 2010). Torsades de pointes é uma TV polimórfica precedida por um intervalo QT prolongado, que pode ser congênita ou adquirida. As causas comuns incluem doença do sistema nervoso central; determinados medicamentos; ou níveis baixos de potássio, cálcio ou magnésio. O prolongamento congênito do QT é outra causa. Tendo em vista que este ritmo provavelmente faz com que o cliente piore e fique sem pulso, é necessário o tratamento imediato, que inclui a correção de qualquer desequilíbrio eletrolítico, tal como administração de magnésio IV. Pode ser utilizado isoproterenol IV, mas é contraindicado em caso de isquemia ou hipertensão arterial (Morrison et al., 2010). Betabloqueadores IV ou início de regulação do ritmo atrial ou ventricularcom sobremarcha (ver a seguir) também podem ser utilizados para tratar esta arritmia (Morrison et al., 2010). Fibrilação ventricular A arritmia mais comum em clientes com parada cardíaca é a fibrilação ventricular, que é um ritmo ventricular rápido e desorganizado que causa movimentos não efetivos dos ventrículos. Nenhuma atividade atrial é observada ao ECG. A causa mais comum de fibrilação atrial é a doença da artéria coronária (DAC) e o IAM resultante. Outras causas incluem TV não tratada ou tratada sem sucesso, miocardiopatia, valvopatia cardíaca, diversos medicamentos próarrítmicos, anormalidades acidobásicas e eletrolíticas e choque elétrico. Outra causa é a síndrome de Brugada, na qual o cliente (com frequência de ascendência asiática) tem o coração estruturalmente normal, poucos ou nenhum fator de risco para DAC e história familiar de morte súbita cardíaca. A fibrilação ventricular tem as seguintes características (Figura 26.17): Figura 26.16 Taquicardia ventricular na derivação V1. Figura 26.17 Fibrilação ventricular na derivação II. Frequência ventricular: superior a 300 bpm. Ritmo ventricular: extremamente irregular, sem um padrão específico. Formato e duração do complexo QRS: ondas irregulares e ondulantes sem complexos QRS reconhecíveis. Manejo clínico. A fibrilação ventricular sempre é caracterizada pela ausência de batimento cardíaco audível, pulso palpável e respirações. Tendo em vista que não há atividade cardíaca coordenada, a parada cardíaca e a morte são iminentes se a arritmia não for corrigida. A desfibrilação inicial é crítica para a sobrevida, com a realização imediata de reanimação cardiopulmonar (RCP) por observador até que a desfibrilação esteja disponível. A chance de sobrevida diminui a cada minuto com o retardo da desfibrilação (Jacobs, Sunde, Deakin et al., 2010). Se houver atraso em uma resposta dos serviços de emergência, a RCP pode ser administrada enquanto há o preparo para a desfibrilação (Jacobs et al., 2010). Após a desfibrilação inicial, cinco ciclos adicionais de RCP (aproximadamente 2 min de compressões torácicas contínuas no cliente intubado), iniciando com compressão torácica e alternando com uma verificação do ritmo e desfibrilação, são utilizados para converter a fibrilação ventricular em um ritmo elétrico que produza um pulso. A reanimação cardiocerebral para parada cardíaca com compressões torácicas contínuas, interrompida apenas por desfibrilações, e com menor ênfase no emprego de ventilação com pressão positiva, continua a ser explorada como melhor método para a melhora da sobrevida. A epinefrina deve ser administrada assim que possível após a primeira desfibrilação sem sucesso e em seguida a cada 3 a 5 minutos. Uma dose de vasopressina pode ser administrada em vez da epinefrina se a parada cardíaca persistir. Outros antiarrítmicos (amiodarona, lidocaína ou, possivelmente, magnésio) devem ser administrados assim que possível após a terceira desfibrilação. Para a fibrilação ventricular refratária, a amiodarona é o medicamento de escolha. Entretanto, após o cliente ser intubado, a RCP deve ser administrada continuadamente, não em ciclos. Além disso, fatores de base e de contribuição são identificados e eliminados durante todo o evento (Morrison et al., 2010). As atuais diretrizes de reanimação recomendam a indução de hipotermia leve em adultos comatosos que apresentam parada cardíaca. A hipotermia é definida como uma temperatura corporal central de 32°C a 34°C (Morrison et al., 2010). A indução deve ser iniciada assim que possível após a circulação ser restaurada, preferencialmente em 60 min, e mantida durante 12 a 24 h (Morrison et al., 2010). Normalmente é iniciada com a aplicação de bolsas de gelo na axila e na virilha, bem como com a administração IV de 30 mℓ/kg de soro fisiológico ou Ringer com lactato gelados até que uma máquina de resfriamento seja obtida. Os cuidados de enfermagem para um cliente com hipotermia (passiva ou induzida) exigem monitoramento em relação ao nível apropriado de resfriamento, sedação e paralisia neuromuscular para prevenir convulsões, mioclonia e tremor. A ocorrência de convulsões após a reanimação pode indicar lesão cerebral anóxica grave. A enfermeira também deve monitorar complicações da hipotermia, que incluem desequilíbrio eletrolítico (especialmente em virtude da diurese causada pela hipotermia), hipotensão, pneumonia, sepse, hiperglicemia, arritmias e coagulopatia, especialmente se a temperatura cair abaixo do objetivo pretendido. Em virtude destas inúmeras intervenções de enfermagem, os clientes recebem os cuidados em unidades de terapia intensiva. Ritmo idioventricular O ritmo idioventricular, também denominado ritmo de escape ventricular, ocorre quando o impulso tem início no sistema de condução abaixo do nó AV. Quando o nó sinoatrial não cria um impulso (p. ex., em virtude de aumento do tônus vagal), ou quando o impulso é criado, mas não pode ser conduzido pelo nó AV (p. ex., em virtude de BAV completo), as fibras de Purkinje descarregam automaticamente um impulso. Quando o ritmo idioventricular não é causado por BAV, ele tem as seguintes características (Figura 26.18): Figura 26.18 Ritmo idioventricular na derivação V1. Frequência ventricular: entre 20 e 40 bpm; se a frequência exceder 40 bpm, o ritmo é conhecido como ritmo idioventricular acelerado. Ritmo ventricular: regular. Formato e duração do complexo QRS: formato bizarro e anormal; a duração é de 0,12 s ou mais. Manejo clínico. O ritmo ventricular comumente faz com que o cliente perca a consciência e apresente outros sinais e sintomas de redução do débito cardíaco. Nos referidos casos, o tratamento é o mesmo da assístole e atividade elétrica sem pulso (AESP) se o cliente estiver em parada cardíaca, ou para bradicardia se o cliente não estiver em parada cardíaca. As intervenções incluem a identificação da causa de base; administração por via intravenosa de epinefrina, atropina e medicamentos vasopressores; e início da regulação de ritmo transcutânea de emergência. Em alguns casos, o ritmo idioventricular pode não causar sintomas de redução do débito cardíaco. Entretanto, é prescrito repouso no leito, de modo a não aumentar o esforço cardíaco. Assístole ventricular A assístole ventricular (Figura 26.19) é caracterizada pela ausência de complexos QRS em duas derivações diferentes, embora ondas P possam ocorrer durante um curto período. Não há batimento cardíaco, pulso palpável nem respiração. Sem tratamento imediato, a assístole ventricular é fatal. Manejo clínico. A assístole ventricular é tratada do mesmo modo que a AESP, concentrandose na RCP de alta qualidade com interrupções mínimas e na identificação dos fatores de base e de contribuição. A chave para o sucesso do tratamento é uma avaliação rápida para identificar uma possível causa, que é conhecida como os H e T: hipoxia, hipovolemia, íon hidrogênio (desequilíbrio acidobásico), hipoglicemia ou hiperglicemia, hipopotassemia ou hiperpotassemia, hipertermia, traumatismo, toxinas, tamponamento (cardíaco), pneumotórax de tensão, ou trombo (coronariano ou pulmonar) (Morrison et al., 2010). Após o início da RCP, a intubação e o estabelecimento de acesso IV são as próximas medidas recomendadas, com nenhuma interrupção ou interrupções mínimas nas compressões torácicas. Após o acesso IV ser estabelecido, um bolus de epinefrina IV é administrado e repetido em intervalos de 3 a 5 min. Uma dose de vasopressina pode ser administrada para a primeira ou segunda dose de epinefrina. Em virtude do prognóstico desfavorável associado à assistolia, se o cliente não responder a estas medidas e outras direcionadasà correção das causas de base, os esforços de reanimação em geral são encerrados, exceto se houver circunstâncias especiais (p. ex., em caso de hipotermia, é necessário o transporte até um hospital). Anormalidades da condução Na avaliação da fita de ritmo, primeiramente é identificado o ritmo subjacente (p. ex., ritmo sinusal, arritmia sinusal). Em seguida, o intervalo PR é avaliado em relação à possibilidade de um BAV. O BAV ocorre quando a condução do impulso pela área nodal AV ou do feixe de His é diminuída ou interrompida. Esses bloqueios podem ser causados por medicamentos (p. ex., digitálicos, bloqueadores de canais de cálcio, betabloqueadores), doença de Lyme, isquemia e infarto agudo do miocárdio, distúrbios valvares, miocardiopatia, endocardite ou miocardite. Se o BAV for causado por aumento do tônus vagal (p. ex., treinamento atlético a longo prazo, sono, tosse, aspiração, pressão acima dos olhos ou sobre os grandes vasos, estimulação anal), é comumente acompanhado por bradicardia sinusal. O BAV pode ser temporário e se resolver por si próprio, ou pode ser permanente e exigir regulação do ritmo permanente. Os sinais clínicos e sintomas de BAV variam com a frequência ventricular resultante e a gravidade de quaisquer processos de doença de base. Enquanto o BAV de primeiro grau raramente causa qualquer efeito hemodinâmico, os outros bloqueios podem resultar em diminuição da frequência cardíaca, causando diminuição da perfusão para os órgãos vitais, tais como cérebro, coração, rins, pulmões e pele. Um cliente com BAV de terceiro grau causado por intoxicação digitálica pode estar estável; outro cliente com o mesmo ritmo causado por IAM pode estar instável. Os profissionais de saúde sempre devem ter em mente a necessidade de tratar o cliente, não o ritmo. O tratamento é fundamentado no efeito hemodinâmico do ritmo. Bloqueio atrioventricular de primeiro grau O BAV de primeiro grau ocorre quando todos os impulsos atriais são conduzidos pelo nó AV e daí para os ventrículos a uma frequência mais lenta do que a normal. Esse distúrbio de condução tem as seguintes características (Figura 26.20): Frequência ventricular e atrial: depende do ritmo subjacente. Ritmo ventricular e atrial: depende do ritmo subjacente. Formato e duração do QRS: habitualmente normais, mas podem ser anormais. Onda P: à frente do complexo QRS; demonstra ritmo sinusal e formato regular. Intervalo PR: superior a 0,20 s; a medição do intervalo PR é constante. Razão P:QRS: 1:1. Bloqueio atrioventricular de segundo grau, tipo I (Wenckebach) O BAV de segundo grau, tipo I, ocorre quando há um padrão de repetição, no qual toda uma série de impulsos atriais, com exceção de um, é conduzida pelo nó AV e para os ventrículos (p. ex., todos os quatro de cinco impulsos atriais são conduzidos). Cada impulso atrial demora um pouco mais de tempo para a condução do que o anterior, até que um impulso seja totalmente bloqueado. Tendo em vista que o nó AV não é despolarizado pelo impulso atrial bloqueado, o nó AV tem tempo para repolarizar totalmente, de modo que o próximo impulso atrial pode ser conduzido no menor tempo. O BAV de segundo grau, tipo I, tem as seguintes características (Figura 26.21): Figura 26.19 Assistolia. Sempre verifique duas derivações diferentes para confirmar o ritmo. Figura 26.20 Ritmo sinusal com BAV de primeiro grau na derivação II. Observe que o intervalo PR é constante, porém superior a 0,20 s. Frequência ventricular e atrial: Depende do ritmo subjacente, mas a frequência ventricular é mais lenta do que a frequência atrial. Ritmo ventricular e atrial: O intervalo PP é regular se o cliente apresenta ritmo sinusal normal subjacente; o intervalo RR caracteristicamente reflete um padrão de alteração. Com início no mais longo RR, o intervalo RR gradualmente encurta, até que haja outro intervalo RR longo. Formato e duração do complexo QRS: habitualmente normais, mas podem ser anormais. Onda P: à frente do complexo QRS; o formato depende do ritmo subjacente. Intervalo PR: o intervalo PR tornase mais longo a cada complexo ECG subsequente, até que uma onda P não é seguida por um complexo QRS. As alterações no intervalo PR são repetidas entre cada complexo QRS “desaparecido”, criando um padrão nas medições do intervalo PR irregular. Razão P:QRS: 3:2, 4:3, 5:4, e assim por diante. Bloqueio atrioventricular de segundo grau, tipo II O BAVde segundo grau, tipo II, ocorre quando apenas alguns dos impulsos atriais são conduzidos pelo nó AV e para os ventrículos. O BAVde segundo grau, tipo II, tem as seguintes características (Figura 26.22): Frequência ventricular e atrial: depende do ritmo subjacente, mas a frequência ventricular é inferior à frequência atrial. Ritmo ventricular e atrial: o intervalo PP é regular se o cliente apresenta um ritmo sinusal normal subjacente. O intervalo RR normalmente é regular, mas pode ser irregular, dependendo da razão P:QRS. Formato e duração do complexo QRS: habitualmente anormais, mas podem ser normais. Onda P: à frente do complexo QRS; o formato depende do ritmo subjacente. Intervalo PR: o intervalo PR é constante para aquelas ondas P logo antes dos complexos QRS. Razão P:QRS: 2:1, 3:1, 4:1, 5:1, e assim por diante. Figura 26.21 Ritmo sinusal com bloqueio atrioventricular de segundo grau, tipo I, na derivação II. Observe as durações progressivamente mais longas do PR, até que haja uma onda P não conduzida, indicada pelo asterisco (*). Figura 26.22 Ritmo sinusal com bloqueio atrioventricular de segundo grau, tipo II, na derivação V1. Observe o intervalo PR constante e a presença de mais ondas P do que complexos QRS. Bloqueio atrioventricular de terceiro grau O BAV de terceiro grau ocorre quando nenhum impulso atrial é conduzido pelo nó AV e para os ventrículos. No BAVde terceiro grau, dois impulsos estimulam o coração: um estimula os ventrículos, representado pelo complexo QRS, e um estimula os átrios, representado pela onda P. As ondas P podem ser visualizadas, mas a atividade elétrica atrial não é conduzida para baixo e para os ventrículos para causar o complexo QRS, a atividade elétrica ventricular. A ocorrência de dois impulsos que estimulam o coração resulta em uma condição denominada dissociação AV, que também pode ocorrer durante a TV. O BAV completo (BAV de terceiro grau) tem as seguintes características (Figura 26.23): Frequência ventricular e atrial: depende do ritmo de escape (idionodal ou idioventricular) e do ritmo atrial subjacente, mas a frequência ventricular é inferior à frequência atrial. Ritmo ventricular e atrial: o intervalo PP é regular e o intervalo RR é regular, mas o intervalo PP não é igual ao intervalo RR. Formato e duração do complexo QRS: dependem do ritmo de escape; com o ritmo juncional, o formato e a duração do complexo QRS habitualmente são normais; com o ritmo idioventricular, o formato e a duração do complexo QRS habitualmente são anormais. Onda P: depende do ritmo subjacente. Intervalo PR: muito irregular. Razão P:QRS: Mais ondas P do que complexos QRS. Manejo clínico das anormalidades de condução Com base na causa do BAV e na estabilidade do cliente, o tratamento é direcionado para o aumento da frequência cardíaca para manter um débito cardíaco normal. Se o cliente estiver estável e não apresentar sintomas, nenhum tratamento é indicado, ou pode consistir simplesmente na diminuição ou eliminação da causa (p. ex., suspensão de medicamento ou tratamento). Se o medicamento causal for necessário para o tratamento de outras condições e não houver alternativa efetiva, pode ser indicada a implantação de marcapasso. O tratamento inicial de escolha é um bolus IV de atropina, embora ela não seja efetiva no BAV de segundo grau, tipo II, ou no BAV de terceiro grau. Seo cliente não responder à atropina, apresentar BAV avançado, ou tiver sofrido IAM, pode ser iniciada a regulação do ritmo transcutânea temporária. Se o cliente não apresentar pulso, o tratamento é o mesmo da assistolia ventricular. Um marcapasso permanente pode ser necessário, se o bloqueio persistir. PROCESSO DE ENFERMAGEM • • • Cliente com arritmia Avaliação As principais áreas de avaliação incluem as possíveis causas da arritmia, fatores de contribuição e o efeito da arritmia sobre a capacidade do coração de bombear um volume sanguíneo adequado. Quando o débito cardíaco é reduzido, a quantidade de oxigênio que alcança os tecidos e os órgãos vitais é diminuída. Esta diminuição da oxigenação provoca os sinais e sintomas associados às arritmias. Se esses sinais e sintomas forem graves, ou se ocorrerem com frequência, o cliente pode apresentar angústia significativa e interromper as atividades da vida diária. Figura 26.23 Ritmo sinusal com bloqueio atrioventricular de terceiro grau e ritmo idioventricular na derivação V1. Observe os intervalos PR irregulares. Um histórico de saúde é obtido para identificar ocorrências anteriores de diminuição do débito cardíaco, tais como síncope (desmaio), vertigem, tontura, desconforto torácico e palpitações. As possíveis causas da arritmia (p. ex., cardiopatia, doença pulmonar obstrutiva crônica) precisam ser identificadas. Todos os medicamentos, prescritos e sem prescrição médica (incluindo fitoterápicos e suplementos nutricionais), bem como a via de administração, são revisados. Se um cliente estiver recebendo um medicamento antiarrítmico, é necessária a avaliação em relação a aderência ao tratamento, efeitos colaterais, reações adversas e possíveis contraindicações. Por exemplo, alguns medicamentos (p. ex., digoxina) podem causar arritmias. Os resultados laboratoriais são revisados para avaliar os níveis de medicamentos, bem como os fatores que poderiam contribuir para a arritmia (p. ex., anemia). É realizada uma avaliação psicossocial completa para identificar os possíveis efeitos da arritmia, a percepção do cliente e a compreensão da arritmia e seu tratamento, e se a ansiedade é um fator de contribuição significativo. A enfermeira conduz uma avaliação física para confirmar os dados obtidos a partir do histórico e para observar em relação a sinais de diminuição do débito cardíaco durante o evento arrítmico, em especial alterações do nível de consciência. A enfermeira avalia a pele do cliente, que pode estar pálida e fria. Sinais de retenção de líquido, tais como distensão venosa no pescoço e estertores crepitantes e ruídos adventícios auscultados nos pulmões, podem ser detectados. A frequência e o ritmo dos pulsos apical e periférico também são avaliados, e qualquer déficit de pulso é observado. A enfermeira ausculta em relação a sons cardíacos adicionais (especialmente B3 e B4) e em relação a sopros cardíacos, afere a pressão arterial e determina as pressões diferenciais. Uma pressão diferencial em declínio indica redução do débito cardíaco. Uma avaliação pode não revelar alterações significativas no débito cardíaco; portanto, a enfermeira compara diversos achados de avaliação ao longo do tempo, especialmente aqueles que ocorrem com e sem a arritmia. Diagnóstico Diagnósticos de enfermagem Com base nos dados de avaliação, os principais diagnósticos de enfermagem podem incluir: Débito cardíaco diminuído Ansiedade relacionada com o medo do desconhecido Conhecimento deficiente a respeito da arritmia e do seu tratamento. • • • Problemas colaborativos/complicações potenciais As complicações potenciais podem incluir as seguintes: Parada cardíaca (ver Capítulo 29) Insuficiência cardíaca (ver Capítulo 29) Evento tromboembólico, especialmente com fibrilação atrial (ver Capítulo 29). Planejamento e metas As principais metas para o cliente podem incluir a eliminação ou a diminuição da ocorrência da arritmia (pela diminuição dos fatores de contribuição) para manter o débito cardíaco; minimização da ansiedade; obtenção de conhecimento a respeito da arritmia, dos testes utilizados para diagnosticar o problema, e seu tratamento; e desenvolvimento ou manutenção das habilidades de automanejo. Intervenções de enfermagem Monitoramento e manejo da arritmia A enfermeira avalia continuamente a pressão arterial, a frequência e o ritmo do pulso, a frequência e a profundidade das respirações, e os sons respiratórios do cliente, para determinar o efeito hemodinâmico da arritmia. A enfermeira também indaga o cliente a respeito de episódios de vertigem, tontura ou desmaio como parte da avaliação contínua. Se um cliente com uma arritmia estiver hospitalizado, a enfermeira pode obter um ECG de 12 derivações, monitorar continuadamente o cliente e analisar as fitas de ritmo para rastrear a arritmia. O controle da ocorrência ou do efeito da arritmia, ou de ambos, geralmente é alcançado com medicamentos antiarrítmicos. A enfermeira avalia os benefícios e os efeitos adversos de cada medicamento. Em cooperação com o profissional principal, ela também cuidadosamente administra o medicamento, de modo que é mantido um nível sérico constante do medicamento. A enfermeira também pode conduzir um teste de caminhada de 6 min, conforme prescrito, que é utilizado para identificar a frequência ventricular do cliente em resposta aos exercícios físicos. Solicitase ao cliente que caminhe por 6 min, percorrendo o máximo de distância possível. A enfermeira monitora o cliente em relação aos sintomas. Ao final, registra a distância percorrida e a frequência cardíaca pré e pósexercícios físicos, bem como a resposta do cliente. A enfermeira avalia os fatores que contribuem para a arritmia (p. ex., déficits de oxigênio, desequilíbrios acidobásicos e eletrolíticos, cafeína, ou não aderência ao esquema do medicamento). A enfermeira também monitora as alterações ao ECG (p. ex., alargamento do complexo QRS, prolongamento do intervalo QT, aumento da frequência cardíaca) que aumentam o risco de evento arrítmico. Minimização da ansiedade Quando o cliente apresenta episódios de arritmia, a enfermeira permanece com ele, garantindo a sua segurança e seguridade enquanto mantém uma atitude calma e tranquilizadora. Isso ajuda a reduzir a ansiedade (diminuindo a resposta simpática) e promove uma relação de confiança com o cliente. A enfermeira verifica a visão do cliente sobre os eventos e discute a resposta emocional à arritmia, encorajando a verbalização de sentimentos e temores, fornecendo declarações de apoio ou empatia e auxiliando o cliente a reconhecer sentimentos de ansiedade, raiva ou tristeza. A enfermeira enfatiza os sucessos com o cliente, para promover um senso de automanejo da arritmia. Por exemplo, se um cliente está apresentando episódios de arritmia e é administrado um medicamento que começa a reduzir a incidência da arritmia, a enfermeira comunica aquelas informações ao cliente e estuda a sua resposta e elas. Além disso, a enfermeira pode auxiliar o cliente a desenvolver um sistema para identificar possíveis fatores causais, de influência e de alívio (p. ex., manter um diário). O objetivo de enfermagem é maximizar o controle do cliente e tornar o episódio menos ameaçador. Promoção dos cuidados domiciliar e comunitário Orientação do cliente sobre autocuidados. Ao orientar os clientes a respeito das arritmias, a enfermeira primeiramente avalia a compreensão do cliente, esclarece as informações errôneas, e em seguida compartilha as informações necessárias de modo que sejam compreensíveis e que não sejam assustadoras ou ameaçadoras. A enfermeira explica claramente as opções de tratamento ao cliente e à família. Se necessário,a enfermeira explica a importância da manutenção dos níveis séricos terapêuticos dos medicamentos antiarrítmicos, de modo que o cliente compreenda por que os medicamentos devem ser administrados regularmente todos os dias e a 1. a. b. 2. a. b. 3. a. b. c. d. e. importância dos testes séricos regulares. Se o medicamento apresentar o potencial de alterar a frequência cardíaca, o cliente deve ser orientado sobre como aferir seu pulso antes de cada dose e a notificar o profissional principal se o pulso estiver anormal. Além disso, a relação entre uma arritmia e o débito cardíaco é explicada de modo que o cliente reconheça os sintomas da arritmia e a justificativa para o esquema terapêutico. O cliente e a família precisam saber quais medidas devem ser adotadas para diminuir o risco de recidiva da arritmia. Se o cliente apresentar arritmia possivelmente letal, a enfermeira estabelece com o cliente e a família um plano de medidas a serem adotadas em caso de emergência e, se apropriado, estimula o familiar a obter treinamento em RCP. O cliente e a família também devem ser orientados quanto aos possíveis riscos da arritmia e seus sinais e sintomas. Por exemplo, ao cliente com fibrilação atrial crônica deve ser explicada a possibilidade de evento embólico. Cuidados contínuos. O encaminhamento para cuidados domiciliares normalmente não é necessário para o cliente com arritmia, exceto se o cliente estiver hemodinamicamente instável e apresentar sintomas significativos de diminuição do débito cardíaco. Podem ser recomendados cuidados domiciliares se o cliente apresentar comorbidades significativas, questões socioeconômicas, ou habilidades de automanejo limitadas que possam aumentar o risco de não adesão ao esquema terapêutico. O encaminhamento a cuidados domiciliares também pode ser indicado se o cliente tiver sido submetido à implantação de um dispositivo eletrônico recentemente. Reavaliação Entre os resultados esperados estão: O cliente mantém o débito cardíaco. Demonstra frequência cardíaca, pressão arterial, frequência respiratória e nível de consciência nas variações normais. Demonstra ausência ou diminuição dos episódios de arritmia. O cliente apresenta redução da ansiedade. Expressa uma atitude positiva a respeito da vida com a arritmia. Expressa confiança na capacidade de adotar as medidas apropriadas em caso de emergência. O cliente expressa compreensão sobre a arritmia e seu tratamento. Explica a arritmia e seus efeitos. Descreve o esquema medicamentoso e a sua justificativa. Explica a necessidade de manter um nível sérico terapêutico do medicamento. Descreve um plano para eliminar ou limitar os fatores que contribuem para a arritmia. Declara as medidas a serem adotadas em caso de emergência. MODALIDADES E MANEJOS AUXILIARES Os tratamentos das arritmias dependem de o distúrbio ser agudo ou crônico, bem como da causa da arritmia e de seus reais ou possíveis efeitos hemodinâmicos. As arritmias agudas podem ser tratadas com medicamentos ou com terapia elétrica externa (desfibrilação de emergência, cardioversão ou regulação do ritmo). Muitos medicamentos antiarrítmicos são utilizados para tratar as taquiarritmias atriais e ventriculares (ver Tabela 26.1). A escolha do medicamento depende da arritmia específica e da sua duração, da presença de cardiopatia estrutural (p. ex., insuficiência cardíaca) e da resposta do cliente ao tratamento anterior. A enfermeira é responsável pelo monitoramento e pelo registro das respostas do cliente ao medicamento e por assegurar que o cliente tenha o conhecimento e a capacidade de lidar com o esquema medicamentoso. Se os medicamentos isoladamente forem ineficazes em eliminar ou diminuir a arritmia, determinadas terapias mecânicas auxiliares estão disponíveis. As terapias mais comuns são a cardioversão eletiva e a desfibrilação para taquiarritmia aguda, e dispositivos implantáveis (marcapassos para bradicardia e DCI para taquiarritmias crônicas). Também existem abordagens terapêuticas cirúrgicas, embora sejam menos usadas. A enfermeira é responsável pela avaliação da compreensão do cliente sobre a terapia mecânica e sua resposta, bem como das capacidades de automanejo do cliente. Também deve explicar que a finalidade do dispositivo é ajudar o cliente a continuar a sua vida o mais ativa e produtiva possível. Cardioversão e desfibrilação A cardioversão e a desfibrilação são empregadas para tratar taquiarritmias com a administração de uma corrente elétrica que despolariza massa crítica de células miocárdicas. Quando as células repolarizam, o nó SA normalmente é capaz de recapturar seu papel como o marcapasso do coração. Alerta de domínio do conceito Uma diferença importante entre a cardioversão e a des䌌㺃brilação é o momento da administração da corrente elétrica. Na cardioversão, a administração da corrente elétrica é sincronizada com os eventos elétricos do cliente; na des䌌㺃brilação, a administração da corrente é imediata, e não sincronizada. O mesmo tipo de dispositivo, denominado desfibrilador, é utilizado para a cardioversão e para a desfibrilação. A voltagem elétrica necessária para desfibrilar o coração normalmente é superior àquela necessária para a cardioversão e pode causar mais lesão miocárdica. Os desfibriladores são classificados como monofásicos ou bifásicos. Os desfibriladores monofásicos aplicam corrente em apenas uma direção e necessitam de aumento das cargas de energia. Os desfibriladores bifásicos mais novos aplicam a carga elétrica a partir de uma pá, que em seguida redireciona automaticamente a sua carga para a pá de origem. Este tipo de desfibrilador utiliza voltagem mais baixa e, portanto, há menos lesão miocárdica associada. A corrente elétrica pode ser aplicada externamente através da pele por meio de pás ou almofadas condutoras. As pás ou almofadas podem ser posicionadas à frente do tórax (Figura 26.24) (posicionamento padrão), ou uma pode ser posicionada à frente do tórax e a outra, com um adaptador de cabo logo, no caso de pás, posicionada sob as costas do cliente, logo à esquerda da coluna (posicionamento anteroposterior) (Figura 26.25). Se um desfibrilador monofásico for utilizado para a cardioversão da fibrilação atrial, serão preferidas as pás manuais (Jacobs et al., 2010). Figura 26.24 Posicionamento padrão das pás para a desfibrilação. Figura 26.25 Posicionamento anteroposterior das pás para a desfibrilação. As almofadas condutoras multifuncionais de desfibrilador (Figura 26.26) contêm um meio condutor e são conectadas ao desfibrilador para possibilitar a desfibrilação sem o uso das mãos. Esse método reduz o risco de tocar o cliente durante o procedimento e aumenta a segurança elétrica. Os desfibriladores externos automáticos (DEA), que agora são encontrados em muitas áreas públicas, aplicam este tipo de administração para a corrente elétrica. Alerta de enfermagem | Qualidade e segurança Quando se utilizam pás, o condutor apropriado é aplicado entre as pás e a pele do cliente. Qualquer outro tipo de condutor, tal como gel de ultrassom, não deve ser substituído. Independente de empregar almofadas ou pás, a enfermeira deve observar duas medidas de segurança. Primeiramente, deve ser mantido o bom contato entre as almofadas ou as pás e a pele do cliente (com um meio condutor entre elas) para evitar que a corrente elétrica extravase através do ar (formação de arco elétrico) quando o desfibrilador é descarregado. Em segundo lugar, ninguém deve estar em contato com o cliente ou com qualquer coisa que esteja tocando o cliente quando odesfibrilador é descarregado, para minimizar a chance de que a corrente elétrica seja conduzida até outra pessoa além do cliente (O Boxe 26.5 apresenta uma revisão das responsabilidades de enfermagem quando um cliente é cardiovertido ou desfibrilado). Figura 26.26 Almofadas multifunções para a desfibrilação. Boxe 26.5 Assistência com a des䌌㺃brilação ou cardioversão externa • • • • • • • • • • • Durante o auxílio com a des䌌㺃brilação ou cardioversão externa, a enfermeira deve relembrar estes pontos principais: São utilizadas almofadas ou pás condutoras multifuncionais, com um meio de condução entre as pás e a pele (o meio de condução está disponível na forma de folha, gel ou pasta). Géis ou pastas com má condutividade elétrica (p. ex., gel de ultrassom) não devem ser utilizados As pás ou almofadas devem ser posicionadas de modo que não toquem nas roupas do cliente ou na roupa de cama, e não estejam perto de adesivos (patches) medicamentosos ou no 䌑懑uxo de oxigênio direto Mulheres com mamas grandes devem ter a almofada ou pá esquerda posicionada sob a mama esquerda ou lateralmente a ela Durante a cardioversão, as derivações do monitor devem estar anexadas ao cliente, e o des䌌㺃brilador é con䌌㺃gurado para o modo sincronizado (in sync). Se estiver des䌌㺃brilando, o des䌌㺃brilador não deve estar no modo sincronizado (a maioria das máquinas é predeterminada para o modo not-sync [não sincronizado]) Em caso do uso de pás, devem ser aplicados 9 a 11 kg de pressão com a 䌌㺃nalidade de assegurar o bom contato com a pele Em caso de dispositivo de descarga manual, ele não deve ser carregado até que esteja pronto para o choque; em seguida, os polegares e os dedos devem ser mantidos fora dos botões de descarga até que as pás ou as almofadas estejam sobre o tórax e prontas para administrar a carga elétrica A indicação “Afastar!” deve ser repetida três vezes antes da aplicação do choque elétrico: Quando “Afastar” é indicado pela primeira vez, o pro䌌㺃ssional deve veri䌌㺃car visualmente que não está tocando o cliente, a cama ou o equipamento; na segunda vez, ele deve veri䌌㺃car visualmente que ninguém está tocando a cama, o cliente ou o equipamento, incluindo o tubo endotraqueal ou auxiliares; e quando se indica “Afastar” pela terceira vez, o pro䌌㺃ssional deve assegurar-se de que todas as pessoas estejam afastadas do cliente e que nada o esteja tocando A energia administrada e o ritmo resultante são registrados A reanimação cardiopulmonar (RCP) é retomada imediatamente após a administração da carga de des䌌㺃brilação, se apropriado, iniciando com as compressões torácicas Se for recomendada a RCP, após cinco ciclos (aproximadamente 2 min) de RCP, o ritmo cardíaco é novamente veri䌌㺃cado e outro choque é administrado, se indicado. Um medicamento vasoativo ou antiarrítmico é administrado assim que possível após a veri䌌㺃cação do ritmo Após a conclusão do evento, a pele sob as almofadas ou as pás é inspecionada quanto a queimaduras; se qualquer queimadura for detectada, o pro䌌㺃ssional principal, ou uma enfermeira de cuidados de feridas, é consultado a respeito do tratamento apropriado. Adaptado de Jacobs I, Sunde K, Deakin CD et al. Part 6: Defibrillation: 2010 International Consensus on Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care Science With Treatment Recommendations. Circulation, 2010; 122(Suppl. 2), S325S337; e Morrison LJ, Deakin CD, Morley PT et al. Part 8: Advanced life support: 2010 International Consensus on Cardiopulmonary Resuscitation and Emergency Cardiovascular Care Science With Treatment Recommendations. Circulation, 2010; 122(Suppl. 2), S345S421. Cardioversão elétrica A cardioversão elétrica envolve a administração de uma corrente elétrica “programada” para encerrar uma taquiarritmia. Na cardioversão, o desfibrilador é configurado para a sincronia com o ECG em um monitor cardíaco, de modo que o impulso elétrico ocorra durante a despolarização ventricular (complexo QRS). A sincronização evita que a descarga elétrica ocorra durante o período vulnerável da despolarização (onda T), o que poderia resultar em TV ou fibrilação ventricular. O monitor de ECG conectado ao desfibrilador externo normalmente demonstra uma marca ou uma linha que indica a sensibilização de um complexo QRS. Às vezes a derivação e os eletrodos devem ser alterados para que o monitor reconheça o complexo QRS do cliente. Quando o sincronizador está ligado, nenhuma corrente elétrica é administrada se o desfibrilador não discernir um complexo QRS. Portanto, é importante assegurar que o cliente está conectado ao monitor e selecionar uma derivação (não “pás”) que apresente a sensibilidade mais apropriada do complexo QRS. Tendo em vista que pode haver um breve atraso até o reconhecimento do complexo QRS, os botões de descarga de um desfibrilador manual externo devem ser apertados até que o choque tenha sido administrado. Na maioria dos monitores, o modo de sincronização deve ser reativado se a cardioversão inicial não for efetiva e outra cardioversão for necessária (i. e., o dispositivo é predeterminado para um modo de desfibrilação não sincronizado). Se a cardioversão for eletiva e a arritmia houver perdurado por mais de 48 h, pode ser indicada anticoagulação por algumas semanas antes da cardioversão. A digoxina normalmente é suspensa por 48 h antes da cardioversão para assegurar a retomada do ritmo sinusal com a condução normal. O cliente é instruído a não comer ou beber por no mínimo 4 h antes do procedimento. As pás recobertas por gel ou as almofadas condutoras são posicionadas à frente e nas costas (anteroposteriormente) para a cardioversão. Antes da cardioversão, o cliente recebe sedação IV moderada, bem como um medicamento analgésico ou anestesia. A respiração então é suportada com suplementação de oxigênio, administrada por meio de um dispositivo de máscara com bolsa e válvula com equipamento de aspiração prontamente disponível. Embora os clientes raramente necessitem de intubação, o equipamento deve estar próximo, caso seja necessário. A voltagem utilizada varia de 50 a 360 joules, dependendo da tecnologia do desfibrilador, do tipo e duração da arritmia, e do tamanho e estado hemodinâmico do cliente. Se ocorrer fibrilação ventricular após a cardioversão, o desfibrilador é utilizado para desfibrilar o cliente (o modo de sincronização não é utilizado) (Link, Atkins, Passman et al., 2010). As indicações de uma resposta de sucesso são a conversão em ritmo sinusal, pulsos periféricos adequados e pressão arterial adequada. Em virtude da sedação, as vias respiratórias devem ser mantidas desobstruídas e o estado de consciência do cliente deve ser avaliado. Os sinais vitais e a saturação de oxigênio são monitorados e registrados até que o cliente esteja estável e tenha se recuperado da sedação e dos medicamentos analgésicos ou da anestesia. O monitoramento ECG é necessário durante e após a cardioversão (Link et al., 2010). Desfibrilação A desfibrilação é utilizada em situações de emergência como o tratamento de escolha para a fibrilação ventricular e a TV sem pulso, a causa mais comum de perda abrupta da função cardíaca e morte súbita cardíaca. A desfibrilação não é utilizada para clientes que estão conscientes ou que apresentam pulso. A configuração de energia para os choques iniciais e subsequentes com a utilização de um desfibrilador monofásico deve ser configurada em 360 joules (Jacobs et al., 2010). A configuração de energia para o choque inicial com a utilização de um desfibrilador bifásico pode ser feita em 150 a 200 joules, com a mesma dose ou uma dose crescente com os choques subsequentes (Jacobs et al., 2010). Quanto mais cedo a desfibrilação for aplicada, melhor será a taxa de sobrevivência; se isso for feito em 1 min do início da TV ou da fibrilação ventricular, a taxa de sobrevivênciaserá de 90%; se ela for adiada por 12 min, a taxa de sobrevida será de apenas 2 a 5%. Diversos estudos demonstraram que a desfibrilação inicial realizada por pessoas leigas em um ambiente comunitário pode aumentar a taxa de sobrevivência. Se for fornecida RCP imediata e a desfibrilação for realizada em 5 min, mais adultos em fibrilação ventricular podem sobreviver com função neurológica intacta (Jacobs et al., 2010). A disponibilidade e a utilização de desfibrilador externo automático em locais públicos encurtam o intervalo desde o colapso até o reconhecimento do ritmo e da desfibrilação, o que pode aumentar significativamente a sobrevivência (Jacobs et al., 2010). Epinefrina ou vasopressina é administrada após a desfibrilação para facilitar a conversão da arritmia em um ritmo normal com a próxima desfibrilação. Esses medicamentos também podem aumentar o fluxo sanguíneo arterial cerebral e coronariano. Medicamentos antiarrítmicos, tais como amiodarona, lidocaína ou magnésio, podem ser administrados se a arritmia ventricular persistir (ver Tabela 26.1). Esse tratamento com RCP contínua, administração de medicamentos e desfibrilação continua até a retomada de um ritmo estável ou até que seja determinado que o cliente não pode ser ressuscitado. Terapia com marcapasso Um marcapasso é um dispositivo eletrônico que fornece estímulos elétricos para o músculo cardíaco. Os marca passos normalmente são utilizados quando o cliente tem formação permanente ou temporária de impulsos mais lenta do que o normal, ou um distúrbio de condução AV ou ventricular sintomático. Também podem ser utilizados para controlar algumas taquiarritmias que não respondem aos medicamentos. A regulação do ritmo biventricular (de ambos os ventrículos), também denominada terapia de ressincronização, pode ser empregada para tratar a insuficiência cardíaca avançada que não responde aos medicamentos. A tecnologia de marcapasso também pode ser aplicada em um DCI (p. ex., em clientes com doença da artéria coronária e redução da fração de ejeção). (Ver mais sobre a insuficiência cardíaca no Capítulo 29.) Os marcapassos podem ser permanentes ou temporários. Os marcapassos temporários são utilizados para amparar os clientes até que eles melhorem ou recebam um marcapasso permanente (p. ex., após IAM ou durante cirurgia cardíaca a céu aberto). Os marcapassos temporários são utilizados apenas em ambientes hospitalares. Desenho e tipos de marcapasso Os marcapassos são compostos por dois componentes: o gerador de pulsos eletrônicos e eletrodos de marcapasso, que estão localizados em cabos ou fios. O gerador contém o circuito e baterias que determinam a frequência (medida em batimentos por minuto) e a potência ou saída (medida em miliamperes [mA]) do estímulo elétrico administrado para o coração. O gerador também apresenta circuitos que podem detectar a atividade elétrica intracardíaca, para ocasionar uma resposta apropriada; este componente da regulação do ritmo é denominado sensibilidade e é medido em milivolts (mV). A sensibilidade é configurada no nível que a atividade elétrica intracardíaca deve exceder para ser detectada pelo dispositivo. Os cabos, que transportam o impulso criado pelo gerador até o coração, podem ser inseridos por fluoroscopia através de uma grande veia dentro do coração, normalmente no átrio e no ventrículo direito (cabos endocárdicos), ou podem ser levemente suturados por fora do coração e exteriorizados através da parede torácica durante a cirurgia de coração aberto (fios epicárdicos). Os fios epicárdicos são sempre temporários e são removidos com um puxão cuidadoso alguns dias após a cirurgia. Os cabos endocárdicos podem ser inseridos temporariamente com cateteres através de uma veia (normalmente a veia femoral, subclávia, ou jugular interna [fios transvenosos]), normalmente guiados por fluoroscopia. Os cabos também podem fazer parte de um cateter de artéria pulmonar especializado (ver Capítulo 29). Entretanto, a obtenção de pressão de oclusão da artéria pulmonar pode causar o deslocamento dos cabos da posição de regulação do ritmo. Os fios endocárdicos e epicárdicos são conectados a um gerador temporário, que é aproximadamente do tamanho de um livro em brochura. A fonte de energia para um gerador temporário é uma bateria domiciliar comum. O monitoramento do funcionamento do marcapasso e da bateria é uma responsabilidade de enfermagem. Os cabos endocárdicos também podem ser posicionados permanentemente, inseridos dentro do coração através da veia subclávia, axilar, ou cefálica, e conectados a um gerador permanente. A maioria dos cabos atuais apresenta um mecanismo de fixação (p. ex., um parafuso) na ponta do cabo, que possibilita o posicionamento preciso e evita o deslocamento. O gerador permanente, que geralmente pesa menos de 28 g e é do tamanho de uma caixa de fósforos grande, normalmente é implantado em uma bolsa subcutânea criada na região peitoral, abaixo da clavícula, ou atrás da mama, especialmente em mulheres jovens (Figura 26.27). Esse procedimento normalmente dura cerca de 1 h e é realizado em um laboratório de cateterização cardíaca com um anestésico local e sedação moderada. O cuidadoso monitoramento do estado respiratório é necessário até que o cliente esteja totalmente desperto. Os geradores de marcapassos permanentes são isolados para proteção contra a umidade corporal e o calor e apresentam filtros que os protegem contra a interferência elétrica da maioria dos dispositivos domiciliares, motores e utensílios. Diversas fontes de energia diferentes para os geradores permanentes foram utilizadas e outras foram investigadas, mas unidades celulares de lítio atualmente são as mais frequentemente empregadas. Elas duram cerca de 6 a 12 anos, dependendo do tipo de marcapasso, como ele é programado e com que frequência é utilizado. A maioria dos marcapassos apresenta um indicador de substituição eletiva (ERI), que é um sinal que indica quando a bateria está se aproximando da depleção. O marcapasso continua a funcionar por diversos meses após o aparecimento de um ERI, para assegurar que haja tempo adequado para a substituição de uma bateria. Embora algumas baterias sejam recarregáveis, a maioria não é. Tendo em vista que a bateria é permanentemente selada no marcapasso, todo o gerador deve ser substituído. Para substituir um gerador com falha, os cabos são desconectados, o gerador antigo é removido, e um novo gerador é reconectado aos cabos existentes e reimplantado na bolsa subcutânea já existente. Às vezes, os cabos também são substituídos. A substituição da bateria normalmente é realizada com um anestésico local. É necessário hospitalização para a implantação ou a substituição da bateria; habitualmente o cliente pode receber alta no dia seguinte. Se um cliente repentinamente tiver bradicardia, estiver sintomático, mas apresentar pulso, e não responder à atropina, a regulação do ritmo de emergência pode ser iniciada com a regulação de ritmo transcutânea (atualmente a maioria dos desfibriladores apresenta equipamento para isso). Alguns desfibriladores externos automáticos conseguem realizar a desfibrilação e a regulação de ritmo transcutânea. Grandes eletrodos ECG de regulação do ritmo (às vezes as mesmas pás condutoras utilizadas para a cardioversão e a desfibrilação) são posicionados no tórax e nas costas do cliente. Os eletrodos são conectados ao desfibrilador, que é o gerador de marcapasso temporário (Figura 26.28). Tendo em vista que o impulso deve percorrer a pele e os tecidos do cliente antes de alcançar o coração, a regulação de ritmo transcutâneapode causar desconforto significativo (sensação de queimação e contração muscular involuntária) e deve ser feita apenas em emergências por curtos períodos de tempo. Para esse tipo de regulação do ritmo, é necessário hospitalização. Se o cliente estiver alerta, podem ser realizadas sedação e analgesia. Após a regulação de ritmo transcutânea, a pele sob o eletrodo deve ser inspecionada. Embora se deva esperar eritema, clientes em risco de lesão térmica são os idosos, clientes desidratados, ou que se submeteram a regulação do ritmo por um período mais longo (Fuster, Walsh et al., 2011). A regulação de ritmo transcutânea não é indicada para bradicardia sem pulso. Figura 26.27 Cabo de regulação do ritmo transvenoso implantado (com eletrodo) e gerador de marcapasso. Figura 26.28 Marcapasso transcutâneo com pás de eletrodo conectadas às paredes torácicas anterior e posterior. Funções do gerador de marcapasso • • • • • • Em virtude da sofisticação e da ampla utilização dos marcapassos, foi adotado um código universal para promover um meio de comunicação seguro a respeito da sua função. Tratase do código NASPEBPEG, assim chamado pois foi sancionado pela North American Society of Pacing and Electrophysiology (atualmente conhecida como Heart Rhythm Society) e pelo British Pacing and Electrophysiology Group. O código completo é composto por cinco letras e foi revisado em 2002 (Bernstein, Daubert, Fletcher et al., 2002). A quarta e a quinta letras são utilizadas apenas com marcapassos permanentes (Boxe 26.6). O marcapasso regula o ritmo do átrio e, em seguida, do ventrículo quando nenhuma atividade ventricular é detectada por um período de tempo (o tempo é programado individualmente no marcapasso para cada cliente). Uma linha vertical reta pode ser visualizada ao ECG quando a estimulação cardíaca é iniciada. A linha que representa a regulação do ritmo é denominada espícula do marcapasso. O complexo ECG apropriado deve seguir imediatamente a espícula de regulação do ritmo; portanto, uma onda P deve ocorrer após a espícula de estimulação do ritmo atrial e um complexo QRS deve seguir uma espícula de regulação do ritmo ventricular. Como o impulso tem início em um local diferente do ritmo normal do cliente, o complexo QRS ou a onda P que responde à regulação do ritmo parece ser diferente do complexo ECG normal do cliente. Captura é um termo empregado para descrever que o complexo apropriado seguiu o pico de regulação do ritmo. O tipo de gerador de marcapasso e as configurações selecionadas dependem da arritmia, da função cardíaca de base e da idade do cliente. Os marcapassos em geral são configurados para detectar e responder à atividade intrínseca, que é denominada regulação do ritmo conforme a demanda (Figura 26.29). Se o marcapasso é configurado para regular o ritmo, mas não para detectar, é denominado marcapasso fixo ou assíncrono (Figura 26.30); no código de regulação do ritmo é escrito como AOO ou VOO. O marcapasso regula o ritmo a uma frequência constante, independente do ritmo intrínseco do cliente. A regulação do ritmo VOO pode indicar falha da bateria. A regulação do ritmo VVI (V, regula o ritmo do ventrículo; V, detecta a atividade ventricular; I, regula o ritmo apenas se os ventrículos não despolarizam) causa perda da sincronia AV e do pontapé atrial, que pode causar a diminuição no débito cardíaco e o aumento na distensão atrial e congestão venosa. A síndrome de marcapasso, que causa sintomas como desconforto torácico, dispneia, fadiga, intolerância a atividades e hipotensão postural, é mais comum com a regulação do ritmo VVI (Gillis, Russo, Ellenbogen et al., 2012). Observouse que a regulação do ritmo atrial e a regulação do ritmo de duas câmaras (atrial direita e ventricular direita) reduz a incidência de fibrilação atrial, disfunção ventricular e insuficiência cardíaca (Gillis et al., 2012). Boxe 26.6 Código da North American Society of Pacing and Electrophysiology e do British Pacing and Electrophysiology Group (Código NASPE-BPEG) para a função de gerador de marca-passo A primeira letra do código identi䌌㺃ca a(s) câmara(s) que está(ão) sendo submetida(s) à regulação do ritmo (i. e., a câmara que contém um eletrodo de regulação do ritmo). Os caracteres das letras para este código são A (átrio), V (ventrículo) ou D (duplo, que signi䌌㺃ca A e V) A segunda letra identi䌌㺃ca a(s) câmara(s) que está(ão) sendo detectada(s) pelo gerador do marca-passo. As informações do eletrodo na câmara são enviadas para o gerador para interpretação e ação pelo gerador. Os caracteres das letras são A (átrio), V (ventrículo), D (duplo) e O (que indica que a função de detecção está desligada) A terceira letra do código descreve o tipo de resposta do marca- passo àquilo que é detectado. As letras utilizadas para descrever esta resposta são I (inibida), T (acionada), D (dupla – inibida e acionada) e O (nenhuma). Resposta inibida signi䌌㺃ca que a resposta do marca-passo é controlada pela atividade do coração do cliente – ou seja, quando o coração do cliente bate, o marca- passo não funciona, mas quando o coração não bate, o marca- passo funciona. Contrariamente, uma resposta acionada signi䌌㺃ca que o marca-passo responde (regula o ritmo do coração) quando detecta a atividade cardíaca intrínseca A quarta letra do código está relacionada com a capacidade de um gerador permanente de variar a frequência cardíaca. Esta capacidade está disponível na maioria dos marca-passos atuais. As possíveis letras são O, que indica nenhuma responsividade à frequência, ou R, que indica que o gerador apresenta modulação da frequência (i. e., o marca-passo tem a capacidade de ajustar automaticamente a regulação do ritmo da frequência a cada momento com base em parâmetros como intervalo QT, atividade física, alterações acidobásicas, temperatura corporal, frequência e profundidade das respirações, ou saturação de oxigênio). Um marca-passo com capacidade responsiva à frequência é capaz de melhorar o débito cardíaco durante ocasiões de aumento da demanda cardíaca, tais como exercícios físicos, e diminuir a incidência de 䌌㺃brilação atrial. Todos os marca-passos contemporâneos apresentam algum tipo de sistema de sensor que os possibilita proporcionar a regulação do ritmo adaptativa à fre quência (Gillis, Russo, Ellenbogen et al., 2012) A quinta letra do código tem duas indicações diferentes: (1) o gerador permanente tem capacidade de regulação do ritmo em diversos locais, com as letras A (átrio), V (ventrículo), D (dupla) e O (nenhuma); ou (2) o marca-passo apresenta função antitaquicardia Comumente, apenas as primeiras três letras são utilizadas para um código de regulação do ritmo. Um exemplo de código NASPE-BPEG é DVI: D: V: I: Ambos o átrio e o ventrículo apresentam um eletrodo de regulação do ritmo posicionado. O marca-passo está detectando a atividade apenas do ventrículo. O efeito de estimulação do marca-passo é inibido pela atividade ventricular – em outras palavras, ele não cria um impulso quando o marca-passo detecta que o ventrículo do cliente está ativo. Adaptado de Bernstein AD, Daubert JC, Fletcher RD et al. The revised NASPE/BPEG generic code for antibradycardia, adaptiverate, and multisite pacing. Journal of Pacing and Clinical Electrophysiology, 2002; 25(2), 260264. Figura 26.29 Regulação do ritmo com detecção apropriada (regulação do ritmo conforme a demanda) na derivação V1. As setas indicam o pico de regulação do ritmo. O asterisco (*) indica os batimentos intrínsecos (próprios do cliente); portanto, nenhuma regulação do ritmo. F indica um batimento de fusão, que é a combinação de um batimento intrínseco e um batimento com regulação do ritmo que ocorrem ao mesmo tempo. Figura 26.30 Regulação do ritmo fixa ou perda total da regulação do ritmo de detecção na derivação V1. As setasindicam os picos de regulação do ritmo. A regulação do ritmo de câmara única (AAI) ou regulação do ritmo de câmara dupla (DDD) é recomendada além da VVI em clientes com disfunção do nó sinoatrial (anteriormente denominada síndrome do nó doente), a causa mais comum de bradicardias que precisam de marcapasso, e nó AV funcional (Gillis et al., 2012). A regulação do ritmo AAI assegura a sincronia entre a estimulação atrial e ventricular (e, portanto, a contração), desde que o cliente não apresente distúrbios da condução no nó AV. Os marcapassos de câmara dupla são recomendados como tratamento para clientes com distúrbios da condução AV (Gillis et al., 2012). Demonstrouse que a regulação do ritmo biventricular sincronizada, também denominada terapia ressincronizada cardíaca, modifica os defeitos de condução intraventriculares, interventriculares e atrioventriculares identificados com a disfunção ventricular esquerda moderada a grave sintomática e insuficiência cardíaca (classes funcionais III e IV da New York Heart Association [NYHA]) (Brenyo, Link, Barsheshet et al., 2011). O gerador para a regulação do ritmo biventricular apresenta três cabos: um para o átrio direito; um para o ventrículo direito, como na maioria dos geradores de marcapasso padrão; e um para o ventrículo esquerdo, normalmente posicionado na parede lateral esquerda. Esta terapia melhora a função cardíaca, resultando em diminuição dos sintomas de insuficiência cardíaca e melhora da qualidade de vida. A regulação do ritmo biventricular pode ser realizada com um DCI. • • • • • • • • • • Complicações do uso do marcapasso As complicações associadas aos marcapassos relacionamse à sua presença no corpo e ao funcionamento inadequado (Boxe 26.7). Nas primeiras horas após a inserção de um marcapasso temporário ou permanente, a complicação mais comum é o deslocamento do eletrodo de regulação do ritmo. Minimizar a atividade do cliente pode ajudar a prevenir esta complicação. Se um eletrodo temporário estiver posicionado, a extremidade através da qual o cateter foi avançado é imobilizada. Com um marcapasso permanente, o cliente inicialmente é instruído a restringir a atividade do lado da implantação. O ECG é monitorado muito cuidadosamente para detectar o mau funcionamento do marcapasso. A função imprópria do marcapasso, que pode ocorrer em virtude de falha em um ou mais componentes do sistema de regulação do ritmo, está resumida na Tabela 26.2. Os dados a seguir devem ser anotados no prontuário do cliente: modelo do marcapasso, tipo de gerador, data e horário da inserção, localização do gerador de pulso, limiar de estimulação e configurações do regulador do ritmo (p. ex., frequência, produção de energia [mA], sensibilidade [mV] e duração do intervalo entre os impulsos atriais e ventriculares [retardo AV]). Essas informações são importantes para a identificação do funcionamento normal do marcapasso e para o diagnóstico do mau funcionamento do marcapasso. Boxe 26.7 Complicações da implantação de marca-passo Infecção no local de entrada dos cabos para a regulação temporária do ritmo, ou no local subcutâneo para o posicionamento de um gerador permanente. Antibióticos pro䌌㺃láticos e irrigação da bolsa subcutânea com antibiótico antes do posicionamento do gerador diminuíram a taxa de infecções até uma taxa mínima Pneumotórax; a utilização de bainhas comercializadas como “seguras” reduz este risco Sangramento e hematoma nos locais de entrada dos cabos para a regulação temporária do ritmo, ou no local subcutâneo para o posicionamento de um gerador permanente. Isso normalmente pode ser tratado com compressas frias e descontinuação de medicamentos antiplaquetários e antitrombóticos Hemotórax em virtude da punção da veia subclávia ou da artéria mamária interna Ectopia ventricular e taquicardia em virtude de irritação da parede ventricular pelo eletrodo endocárdico Movimentação ou deslocamento do cabo posicionado por via transvenosa (perfuração do miocárdio) Estimulação do nervo frênico, diafragmática (o soluço pode ser um sinal), ou do músculo esquelético se o cabo estiver deslocado ou se a energia administrada (mA) estiver con䌌㺃gurada alta. A ocorrência desta complicação é evitada por testes durante a implantação do dispositivo Perfuração cardíaca, que resulta em efusão pericárdica e, raramente, tamponamento cardíaco, que pode ocorrer na ocasião da implantação ou meses depois. Esta condição pode ser reconhecida por meio da alteração na morfologia do complexo QRS, estimulação diafragmática ou instabilidade hemodinâmica Pode ocorrer síndrome de Twiddler quando o cliente manipula o gerador, causando deslocamento do cabo ou fratura do cabo Síndrome de marca-passo (instabilidade hemodinâmica causada pela regulação do ritmo ventricular e pela perda da sincronia AV). Adaptado de Fuster V, Walsh RA, Harrington RA (Eds.). (2011). Hurst’s the heart (13th ed.). New York: McGrawHill; e Tracy CM, Epstein AE, Darbar D et al. ACCF/AHA/HRS focused update of the 2008 guidelines for devicebased therapy of cardiac rhythm abnormalities: A report of the American College of Cardiology Foundation/American Heart Association Task Force on Practice Guidelines. Journal of the American College of Cardiology, 2012; 60(14), 12971313. TABELA 26.2 Avaliação do mau funcionamento do marca-passo. Problema Possível causa Considerações de enfermagem Perda de captura: o complexo não segue o pico de regulação do ritmo Estímulo inadequado Deslocamento de cabo Fratura do 䌌㺃o do cabo Mau posicionamento do cateter Descarregamento da bateria Quebra do isolamento eletrônico Alteração de medicamento Isquemia do miocárdio Veri䌌㺃que a segurança de todas as conexões; aumente a miliamperagem Reposicione a extremidade; movimente o cliente para o lado esquerdo Troque a bateria Troque o gerador Detecção insu䌌㺃ciente: o pico da regulação do ritmo ocorre no intervalo pré-con䌌㺃gurado, apesar do ritmo intrínseco do cliente Sensibilidade muito alta Interferência elétrica (p. ex., por um ímã) Gerador com falha Diminua a sensibilidade Elimine a interferência Substitua o gerador Detecção excessiva: perda do artefato de regulação do ritmo; a regulação do ritmo não ocorre no intervalo pré-con䌌㺃gurado, apesar da ausência de ritmo intrínseco Sensibilidade muito baixa Interferência elétrica Depleção da bateria Alteração no medicamento Aumente a sensibilidade Elimine a interferência Troque a bateria Perda da regulação do ritmo: ausência total de picos de regulação do ritmo Detecção excessiva Depleção da bateria Fios soltos ou desconectados Perfuração Troque a bateria Veri䌌㺃que a segurança de todas as conexões Aplique ímã sobre o gerador permanente Obtenha ECG de 12 derivações e radiogra䌌㺃a de tórax com aparelho portátil Veri䌌㺃que se há sopros. Contate o médico Alteração no formato do complexo QRS da regulação do ritmo Perfuração septal Obtenha ECG de 12 derivações e radiogra䌌㺃a de tórax com aparelho portátil Veri䌌㺃que se há sopros. Contate o médico Contração rítmica diafragmática ou da parede torácica, ou soluços Produção muito alta Perfuração da parede miocárdica Diminua a miliamperagem Desligue o marca-passo. Contate o médico imediatamente. Monitore cuidadosamente em relação à diminuição do débito cardíaco ECG, eletrocardiograma. Adaptada de Calkins H, Kuck KH, Cappato R et al. 2012 HRS/EHRA/ECAS expert consensus statement on catheter and surgical ablation of atrial fibrillation: Recommendations for patient selection, procedural techniques, patient management and followup, definitions, endpoints, and research trial design. Heart Rhythm, 2012; 9(4), 632696. Um cliente que apresenta mau funcionamento do marcapasso pode desenvolver bradicardia, bem comosinais e sintomas de diminuição do débito cardíaco. O grau no qual esses sintomas se tornam aparentes depende da gravidade do mau funcionamento, do nível de dependência do marcapasso do cliente e da condição de base do cliente. O mau funcionamento do marcapasso é diagnosticado pela análise do ECG. Pode ser necessária a manipulação dos eletrodos, a alteração das configurações do gerador ou a substituição do gerador ou dos cabos do marcapasso (ou de ambos). A inibição dos marcapassos permanentes ou a reversão para a regulação do ritmo de frequência fixa assíncrona podem ocorrer com a exposição a campos eletromagnéticos fortes (interferência eletromagnética [IEM]). Entretanto, a tecnologia recente de marcapassos possibilita que os clientes utilizem de modo seguro a maioria dos utensílios e dispositivos eletrônicos domiciliares (p. ex., fornos de microondas, ferramentas elétricas). Os motores movidos a gás devem ser desligados antes de se trabalhar com eles. Objetos que contêm ímãs (p. ex., o fone de ouvido de um telefone, grandes altofalantes estéreo, joias) não devem estar próximos do gerador por mais do que alguns segundos. Os clientes são aconselhados a posicionar telefones celulares digitais a no mínimo 15 a 30 cm de distância do gerador do marcapasso e a não transportálos no bolso da camisa. Grandes campos eletromagnéticos, tais como aqueles produzidos por mapeamento por ressonância magnética, torres e linhas de transmissão de rádio e televisão, linhas de transmissão de energia (não as linhas de distribuição que trazem a eletricidade para o domicílio) e subestações elétricas podem causar interferência eletromagnética. Os clientes devem ser advertidos a evitar as referidas situações ou simplesmente se movimentar para longe da área se apresentarem tontura ou sensação de batimentos cardíacos rápidos ou irregulares (palpitações). Devese evitar o uso de soldas e de motosserras. Se tais ferramentas forem utilizadas, aconselhamse medidas de precaução, tais como a limitação da corrente da solda para uma variação de 60 a 130 amperes ou o uso de motosserras elétricas em vez de movidas a gasolina. Além disso, o metal do gerador de marcapasso pode acionar dispositivos antifurto de lojas e livrarias, bem como alarmes de segurança de aeroportos e edifícios; entretanto, esses sistemas de alarme em geral não interferem no funcionamento do marcapasso. Os clientes devem passar por esses dispositivos rapidamente e evitar ficar de pé dentro ou próximo deles. Os dispositivos de rastreamento manuais utilizados em aeroportos podem interferir no funcionamento do marcapasso. Os clientes devem ser advertidos a solicitar à equipe de segurança que realize uma busca manual em vez de usar o dispositivo de rastreamento manual. Os clientes também devem ser orientados a portar ou transportar identificação clínica para alertar a equipe em relação à presença do marcapasso. Verificação do marcapasso Os ambulatórios de marcapassos foram estabelecidos para monitorar os clientes e testar os geradores de pulso em relação à falha iminente da bateria do marcapasso. Um dispositivo computadorizado é mantido sobre o gerador para “interrogálo” com sinais de rádio indolores; ele detecta as configurações do gerador, o estado da bateria e a presença de ERI, o limiar de estimulação cardíaca, a função de detecção, a integridade dos cabos, os dados da regulação do ritmo (p. ex., número de eventos de regulação do ritmo) e outras informações armazenadas. Diversos fatores, como fratura de cabo, inibição muscular e ruptura de isolamento, também podem ser avaliados, dependendo do tipo de marcapasso e do equipamento disponível. Se indicado, o marcapasso é desligado por alguns segundos, com a utilização de um ímã ou um programador, enquanto o ECG é registrado para avaliar o ritmo cardíaco de base do cliente. A transmissão transtelefônica das informações do gerador é outro método de acompanhamento. Equipamentos especiais são utilizados para transmitir as informações a respeito do marcapasso do cliente pelo telefone para um sistema de recebimento em uma clínica de marcapasso. As informações são convertidas em tons; o equipamento na clínica converte esses tons em um sinal eletrônico e os registra em uma fita de ECG. A frequência do marcapasso e outros dados sobre a função do marcapasso são obtidos e avaliados por um cardiologista. Isso simplifica o diagnóstico de um gerador com falha, tranquiliza o cliente e melhora o tratamento quando o cliente está fisicamente longe das instalações de teste do marcapasso. A frequência das verificações do marcapasso varia com a idade e a condição subjacentes do cliente, o grau de dependência do marcapasso, a idade e o tipo do dispositivo e os resultados das verificações anteriores do marcapasso (Tracy, Epstein, Darbar et al., 2012). Um cronograma de acompanhamento (followup) típico é a cada 2 semanas no primeiro mês, a cada 4 a 8 semanas por 3 anos, e a cada 4 semanas posteriormente. Desfibrilador cardioversor implantável O desfibrilador cardioversor implantável (DCI) é um dispositivo eletrônico que detecta e encerra episódios de taquicardia ou fibrilação potencialmente fatais, especialmente os de origem ventricular. Os clientes de alto risco de TV ou fibrilação ventricular e que se beneficiariam de um DCI são aqueles que sobreviveram à síndrome da morte súbita cardíaca, que habitualmente é causada por fibrilação ventricular, ou que apresentaram TV espontânea e sintomática (síncope secundária a TV) não em virtude de uma causa reversível (denominada intervenção de prevenção secundária). O Centers for Medicaid and Medicare Services (CMS, 2005) sugere que pessoas com DAC que estão no período de 40 dias após IAM com disfunção ventricular esquerda moderada a grave (fração de ejeção inferior ou igual a 35%) correm risco de morte súbita cardíaca e, portanto, indicase um DCI (a chamada intervenção de prevenção primária). O CMS também aprovou a implantação de DCI em clientes que foram diagnosticados com miocardiopatia dilatada não isquêmica há no mínimo 9 meses e insuficiência cardíaca nas classes funcionais II ou III da NYHA (CMS, 2005). Os DCI também podem ser implantados em clientes com fibrilação atrial sintomática, recidivante e refratária a medicamentos. Um estudo recente indicou que o uso inadequado de DCI para fins de prevenção primária ocorreu com mais frequência em virtude da preferência do cliente, o que indica a necessidade de instruções aos clientes e do estudo das barreiras impostas pelo cliente ao consentimento desta intervenção que pode salvar vidas (Castellanos, Smith, Varosky et al., 2012). Tendo em vista que pode haver um período de espera para a implantação do DCI, aos clientes em risco de morte súbita cardíaca podese prescrever um desfibrilador automatizado semelhante a um colete, que pode ser vestido e atua justamente como um desfibrilador externo automático, de modo que ocorre um choque menos de 1 min depois da detecção de um ritmo potencialmente fatal (Zishiri, Cronin, Williams et al., 2011) (Figura 26.31). Antes da administração do choque, o colete vibra e emite um alarme para anunciar que um choque está iminente. O colete pesa aproximadamente 450 g, é vestido sob as roupas do cliente e é conectado a um monitor com uma bateria, que é utilizado em um coldre ou em uma correia no ombro. O monitor baixa as informações automaticamente 1 vez/dia, normalmente no meio da noite. O colete deve ser utilizado em todas as ocasiões, mesmo se o cliente estiver hospitalizado e for colocado em um monitor de ECG,e somente deve ser retirado para o banho de chuveiro ou banheira. A bateria precisa ser trocada todos os dias. São fornecidas instruções ao cliente pelo fabricante do dispositivo. Entretanto, a enfermeira deve avaliar a compreensão do cliente a respeito das instruções fornecidas e quaisquer questões que possam evitar que o cliente o utilize. O DCI apresenta um gerador aproximadamente do tamanho de uma caixa de fósforos grande e apresenta no mínimo um cabo ventricular direito, que pode perceber a atividade elétrica intrínseca e administrar um impulso elétrico. O procedimento de implantação, os cuidados pósimplantação e a duração da estadia hospitalar são muito similares àqueles da inserção de um marcapasso (Figura 26.32). Os DCI são projetados para responder a dois critérios: frequência que excede um nível predeterminado e alteração em segmentos da linha isoelétrica. Quando ocorre arritmia, sensores de frequência requerem um período de tempo determinado para detectar a arritmia. Em seguida, o dispositivo carrega automaticamente; após a confirmação da arritmia, ele administra a carga programada através do cabo para o coração. O tempo desde a detecção da arritmia até a descarga elétrica depende do tempo de carregamento, que depende do nível de energia programado (Fuster, Walsh et al., 2011). Entretanto, em um CDI que tem a capacidade de fornecer terapias atriais, o dispositivo pode ser programado para ser ativado pelo cliente, proporcionandolhe tempo para ativar a carga no momento e local de sua escolha. A vida da bateria de lítio é de aproximadamente 9 anos, mas varia conforme a utilização do DCI. A vigilância do DCI é semelhante à do marca passo; entretanto, inclui o armazenamento de ECG endocárdicos, bem como informações a respeito do número e da frequência de choques que foram administrados. Figura 26.31 O colete desfibrilador cardioversor automático que pode ser vestido. (Cortesia de ZOLL LifeVest.) Figura 26.32 O desfibrilador cardioversor implantável é composto por um gerador e um eletrodo de detecção/regulação do ritmo/desfibrilação. Podem ser administrados agentes antiarrítmicos com esta tecnologia, para minimizar a ocorrência da taquiarritmia e para reduzir a frequência da descarga do DCI. Diversos tipos de dispositivos estão disponíveis e podem ser programados para diversos tratamentos (Fuster, Walsh et al., 2011). DCI, o nome genérico, é utilizado como a abreviação para esses diversos dispositivos. Cada dispositivo oferece uma sequência de administração diferente, mas todos são capazes de administrar desfibrilação de alta energia (alta intensidade) para tratar taquicardia (atrial ou ventricular). O dispositivo pode administrar até seis choques, se necessário. Alguns DCI podem responder com (1) regulação do ritmo antitaquicardia, no qual o dispositivo administra impulsos elétricos a uma frequência rápida como tentativa de interromper a taquicardia, (2) cardioversão de baixa energia (baixa intensidade), ou (3) desfibrilação; outros podem utilizar todas as três técnicas (Fuster, Walsh et al., 2011). A regulação do ritmo é utilizada para encerrar as taquicardias causadas por um distúrbio da condução denominado reentrada, que é a reestimulação repetitiva do coração pelo mesmo impulso. Um impulso, ou uma série de impulsos, é administrado para o coração pelo dispositivo a uma frequência rápida, para colidir com e parar os impulsos de condução de reentrada do coração e, portanto, interromper a taquicardia. Alguns DCI também apresentam capacidade de marcapasso se o cliente desenvolver bradicardia, que por vezes ocorre após o tratamento da taquicardia. Normalmente, o modo é VVI (V, regulação do ritmo do ventrículo; V, detecção da atividade ventricular; I, regulação do ritmo apenas se os ventrículos não despolarizarem). Alguns DCI também tratam a fibrilação atrial (Fuster, Rydén et al., 2011). Qual dispositivo é utilizado e como ele é programado depende da(s) arritmia(s) do cliente. O dispositivo pode ser programado de modo diferente para diferentes arritmias (p. ex., fibrilação ventricular, TV com frequência ventricular rápida e TV com frequência ventricular lenta). Assim como os marcapassos, há um código NASPE BPEG para a comunicação das funções dos DCI (Bernstein et al., 2002). A primeira letra representa a(s) câmara(s) que recebem o choque elétrico (O, nenhuma; A, átrio; V, ventrículo; D, ambos, átrio e ventrículo). A segunda letra representa a câmara que pode ser submetida à regulação do ritmo antitaquicardia (O, A, V, D, significando o mesmo que a primeira letra). A terceira letra indica o método utilizado pelo gerador para detectar taquicardia (E, eletrograma; H, hemodinâmica). A última letra representa as câmaras que apresentam regulação do ritmo antibradicardia (O, A, V, D, significando o mesmo que a primeira e a segunda letra do código de DCI). As complicações da implantação do DCI são similares àquelas associadas à inserção de marcapasso. A complicação primária é a infecção relacionada com a cirurgia; seu risco aumenta com a substituição da bateria ou dos cabos (Fuster, Walsh et al., 2011). Poucas complicações estão associadas aos aspectos técnicos do equipamento, como aquelas dos marcapassos, como depleção prematura da bateria e deslocamento ou fratura dos cabos. A administração inadequada da terapia de DCI, normalmente em virtude de percepção excessiva ou taquicardias atriais e sinusais com uma resposta de frequência ventricular rápida, é a complicação mais frequente. Ela requer a reprogramação do dispositivo. Manejo de enfermagem Após a inserção de um dispositivo eletrônico permanente (marcapasso ou DCI), a frequência e o ritmo cardíacos do cliente são monitorados por ECG. As configurações do dispositivo são anotadas e comparadas aos registros do ECG para avaliar o funcionamento do dispositivo. Por exemplo, o mau funcionamento do marcapasso é detectado pela verificação da espícula do marcapasso e da sua relação com os complexos eletrocardiográficos adjacentes (Figura 26.33). Além disso, o débito cardíaco e a estabilidade hemodinâmica são avaliados para identificar a resposta do cliente à regulação do ritmo e a adequação da regulação do ritmo. O aspecto ou o aumento da frequência de arritmias é observado e relatado ao profissional primário. Se o cliente tiver um DCI e desenvolver TV ou fibrilação ventricular, o ECG deve ser registrado para observar o tempo entre o início da arritmia e o início do choque ou da regulação do ritmo antitaquicardia do dispositivo. O local de incisão no qual o gerador foi implantado é observado em relação a sangramentos, formação de hematomas ou infecção, que pode ser evidenciada por edema, sensibilidade incomum, drenagem ou aumento do calor. O cliente pode se queixar de latejamento ou dor contínuos. Esses sintomas são relatados ao médico. Uma radiografia de tórax é habitualmente obtida após o procedimento e antes da alta para documentar a posição dos cabos, além de assegurar que o procedimento não causou um pneumotórax. É necessário avaliar a função do dispositivo durante toda a sua vida útil e especialmente após alterações no esquema de medicamentos do cliente. Por exemplo, agentes antiarrítmicos, betabloqueadores e diuréticos podem aumentar o limiar de regulação do ritmo, enquanto corticosteroides e agentes alfaadrenérgicos podem diminuir o limiar de regulação do ritmo; o efeito oposto ocorre quando o cliente interrompe esses medicamentos. O cliente também é avaliado em relação a ansiedade, depressão ou raiva, que podem ser manifestações de enfrentamento ineficaz da implantação. Além disso,