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2016 Políticas sociais em Habitação Profª. Silvana Braz Wegrzynovski Copyright © UNIASSELVI 2016 Elaboração: Profª. Silvana Braz Wegrzynovski Revisão, Diagramação e Produção: Centro Universitário Leonardo da Vinci – UNIASSELVI Ficha catalográfica elaborada na fonte pela Biblioteca Dante Alighieri UNIASSELVI – Indaial. Impresso por: 360 W411p Wegrzynovski; Silvana Braz Políticas sociais em habitação/ Silvana Braz Wegrzynovski : UNIASSELVI, 2016. 228 p. : il. ISBN 978-85-7830-971-8 1.Serviço social. I. Centro Universitário Leonardo Da Vinci. III aPresentação A disciplina que se inicia neste momento no curso de Serviço Social, Políticas Sociais em Habitação, tem como objetivos a apresentação da história da habitação popular no Brasil, contextualizando o desenvolvimento urbano; a discussão das políticas públicas na área da habitação social e o enfoque em torno da atuação e dos desafios para o profissional do Serviço Social. A disciplina Políticas Sociais em Habitação é essencial para o curso de Serviço Social, pois apresentará eixos fundamentais para entendermos de que forma aconteceu a estruturação dos espaços urbanos. Para compreender melhor essa estruturação, faz-se necessário estudarmos as principais sequelas do sistema capitalista no processo de urbanização das nossas cidades brasileiras e seus reflexos sociais. No contexto da sociedade em que estamos inseridos, precisamos ter a clareza de que uma das bandeiras de luta da sociedade brasileira é a questão social do direito à moradia, pela legalidade dessa e por políticas públicas que atendam a esta demanda. A atuação do assistente social, diante das políticas de habitação de interesse social, é fundamental para a implementação dessa, pois o profissional trabalha diretamente com a população beneficiária. Esta disciplina mostrará determinadas propostas de mobilização social para o enriquecimento do trabalho do assistente social, de forma a orientá-lo em sua trajetória profissional. Vamos aos estudos! Profª. Silvana Braz Wegrzynovski IV Você já me conhece das outras disciplinas? Não? É calouro? Enfim, tanto para você que está chegando agora à UNIASSELVI quanto para você que já é veterano, há novidades em nosso material. Na Educação a Distância, o livro impresso, entregue a todos os acadêmicos desde 2005, é o material base da disciplina. A partir de 2017, nossos livros estão de visual novo, com um formato mais prático, que cabe na bolsa e facilita a leitura. O conteúdo continua na íntegra, mas a estrutura interna foi aperfeiçoada com nova diagramação no texto, aproveitando ao máximo o espaço da página, o que também contribui para diminuir a extração de árvores para produção de folhas de papel, por exemplo. Assim, a UNIASSELVI, preocupando-se com o impacto de nossas ações sobre o ambiente, apresenta também este livro no formato digital. Assim, você, acadêmico, tem a possibilidade de estudá-lo com versatilidade nas telas do celular, tablet ou computador. Eu mesmo, UNI, ganhei um novo layout, você me verá frequentemente e surgirei para apresentar dicas de vídeos e outras fontes de conhecimento que complementam o assunto em questão. Todos esses ajustes foram pensados a partir de relatos que recebemos nas pesquisas institucionais sobre os materiais impressos, para que você, nossa maior prioridade, possa continuar seus estudos com um material de qualidade. Aproveito o momento para convidá-lo para um bate-papo sobre o Exame Nacional de Desempenho de Estudantes – ENADE. Bons estudos! NOTA V VI VII UNIDADE 1 – A URBANIZAÇÃO DA PERIFERIA, UMA CONSEQUÊNCIA DO CAPITALISMO ............................................................................................................ 1 TÓPICO 1 – O AVANÇO DA DESIGUALDADE SOCIAL NO MEIO URBANO ..................... 3 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 3 2 A CIDADE E SUAS DIVERSIDADES............................................................................................. 4 RESUMO DO TÓPICO 1....................................................................................................................... 14 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................ 16 TÓPICO 2 – A CIDADE: LEGAL x ILEGAL ...................................................................................... 17 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 17 2 A EXCLUSÃO SOCIAL E DO DIREITO A CIDADE ................................................................... 17 RESUMO DO TÓPICO 2....................................................................................................................... 33 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................ 35 TÓPICO 3 – A VIOLÊNCIA URBANA E A SEGREGAÇÃO AMBIENTAL ............................... 37 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 37 2 A VIOLÊNCIA URBANA x DESENVOLVIMENTO URBANO ............................................... 37 RESUMO DO TÓPICO 3....................................................................................................................... 46 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................ 48 TÓPICO 4 – A CIDADE OCULTA ....................................................................................................... 49 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 49 2 A CIDADE OCULTA ENTRE O REAL E O IMAGINÁRIO: A REALIDADE BRASILEIRA ......49 LEITURA COMPLEMENTAR .............................................................................................................. 58 RESUMO DO TÓPICO 4....................................................................................................................... 61 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................ 63 UNIDADE 2 – A DEMANDA DA HABITAÇÃO NO BRASIL ..................................................... 65 TÓPICO 1 – DIREITO À MORADIA NO BRASIL COMO UM PROCESSO DE LUTAS E CONQUISTAS ................................................................................................................. 67 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 67 2 MORADIA: LUTAS E CONQUISTAS ............................................................................................ 68 RESUMO DO TÓPICO 1....................................................................................................................... 79 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................ 81 TÓPICO 2 – OS MARCOS LEGAIS DO DIREITO À MORADIA .............................................. 83 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................... 83 2 ENTENDENDO OS MARCOS LEGAIS DO DIREITO À MORADIA .................................... 83 RESUMO DO TÓPICO 2.......................................................................................................................94 AUTOATIVIDADE ................................................................................................................................ 96 sumário VIII TÓPICO 3 – AS POLÍTICAS PÚBLICAS, PLANOS DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL E OS FINANCIAMENTOS HABITACIONAIS ...................................... 97 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 97 2 BREVE HISTÓRICO DA POLÍTICA DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL À SUA EFETIVAÇÃO ....................................................................................................................... 98 RESUMO DO TÓPICO 3..................................................................................................................... 114 AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 116 TÓPICO 4 – UM NOVO OLHAR PARA POLÍTICA HABITACIONAL ................................... 119 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 119 2 OS PLANOS LOCAIS DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL E O PROGRAMA MINHA CASA MINHA VIDA ....................................................................................................... 120 LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................ 137 RESUMO DO TÓPICO 4..................................................................................................................... 140 AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 142 UNIDADE 3 – A ATUAÇÃO DO ASSISTENTE SOCIAL NA POLÍTICA DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL ................................................................ 145 TÓPICO 1 – A EFETIVAÇÃO DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL NA POLÍTICA DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL ....................................... 147 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 147 2 SERVIÇO SOCIAL x PRÁTICA x TEORIA x POLÍTICA DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL ........................................................................................................................ 147 RESUMO DO TÓPICO 1..................................................................................................................... 156 AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 157 TÓPICO 2 – A TRAJETÓRIA HISTÓRIA DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL NA POLÍTICA DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL E AS DIRETRIZES ATUAIS ............................................................................................ 159 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 159 2 SERVIÇO SOCIAL: A SUA ATUAÇÃO NA POLÍTICA DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL ........................................................................................................................ 159 RESUMO DO TÓPICO 2..................................................................................................................... 169 AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 172 TÓPICO 3 – A ADAPTAÇÃO DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL NA PNHIS .... 173 1 INTRODUÇÃO .................................................................................................................................. 173 2 TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL NA PNHIS, SEU COTIDIANO ............................ 174 RESUMO DO TÓPICO 3..................................................................................................................... 187 AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 189 TÓPICO 4 – OS AVANÇOS E DESAFIOS DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL NA PHIS ......................................................................................................... 191 1 INTRODUÇÃO ................................................................................................................................. 191 2 O DESAFIO DO ASSISTENTE SOCIAL NA PHIS .................................................................... 192 LEITURA COMPLEMENTAR ............................................................................................................ 205 RESUMO DO TÓPICO 4..................................................................................................................... 210 AUTOATIVIDADE .............................................................................................................................. 212 REFERÊNCIAS ...................................................................................................................................... 215 1 UNIDADE 1 A URBANIZAÇÃO DA PERIFERIA, UMA CONSEQUÊNCIA DO CAPITALISMO OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS A partir desta unidade você será capaz de: • entender o avanço da desigualdade social no meio urbano; • analisar a cidade considerada legal com a cidade considerada ilegal; • compreender o que é a violência urbana e a segregação ambiental; • despertar um olhar crítico para a cidade oculta. A Unidade 1 está dividida em quatro tópicos. Para um melhor aprofundamento do conteúdo e para fixar melhor seus conhecimentos, no final de cada tópico você terá oportunidade de realizar as atividades propostas. TÓPICO 1 – O AVANÇO DA DESIGUALDADE SOCIAL NO MEIO URBANO TÓPICO 2 – A CIDADE: LEGAL X ILEGAL TÓPICO 3 – A VIOLÊNCIA URBANA E A SEGREGAÇÃO AMBIENTAL TÓPICO 4 – A CIDADE OCULTA 2 3 TÓPICO 1 UNIDADE 1 O AVANÇO DA DESIGUALDADE SOCIAL NO MEIO URBANO 1 INTRODUÇÃO Neste primeiro tópico será discutido como aconteceu o processo de crescimento excludentes das cidades, ou seja, período onde as cidades começaram a se estruturar de forma diferenciada, através do processo de industrialização brasileira, que ocorreu entre as décadas de 1930 até 1980. Foram cinco décadas em que o crescimento populacional urbano se expandiu de tal forma que marcou negativamente toda a década de 80, que ainda contou com o fim do desenvolvimentismo e com novas emergências dos arranjos econômicos internacionais, ampliando descontroladamente o índice de desigualdade social. A importância de realizar primeiramente esse resgate histórico se concretiza pela necessidade de compreender, em outro momento desta importante disciplina, como evoluíram as políticas públicas de habitação e a fundamental atuação do assistente social. O desenvolvimento urbano nos centros populacionais, como as cidades, é decorrente de toda uma história social, cultural, econômica e política que permeou o Brasil durante todo o seu desenvolvimento, até os dias atuais. Entender esse contexto é necessário para conseguir realizar uma leitura das questões sociais emergentes, como no caso a habitação. As demandas habitacionais são frutos de todo o processo de segregação urbana, oriunda do crescimento das cidades. Sendo assim, neste primeiro momento é importante entender o processo de urbanismo nas cidades, para compreendermos as políticas públicas de habitação. Então, chegou a hora de buscar novos conhecimentos. Bons estudos! UNIDADE 1 | A URBANIZAÇÃO DA PERIFERIA, UMA CONSEQUÊNCIA DO CAPITALISMO 4 2 A CIDADE E SUAS DIVERSIDADES FIGURA 1 – CIDADE E SUAS DIFERENÇAS FONTE: Disponívelem: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_ arttext&pid=S0103-40142003000200013>. Acesso em: 25 fev. 16. Ao analisar as grandes cidades do Brasil através das áreas construídas em todo o seu território, pode-se constatar que o uso ilegal do solo e a ilegalidade das edificações em solo urbano podem chegar a mais de 50% da área construída, como é visto nos grandes centros urbanos. Essa é uma informação empírica e fundamentada no conhecimento adquirido cotidianamente pelos diversos meios de comunicação social que existem, porém basta realizar uma pesquisa nos cadastros de imóveis de cada cidade para se constatar tal realidade. O grande elo que existe entre as normas e os fatos constituídos em uma cidade provoca um olhar crítico para a maioria dos técnicos e analistas que atuam sobre as questões urbanas, pois existe uma realidade que é ignorada pela maioria dos governantes. Para a classe dominante, o correto é que o Estado tenha uma atuação de punição para quem mão cumpre as normas. Essas normas, fundamentadas na “legalidade”, historicamente beneficiam determinados grupos sociais, ou políticos, em conformidade com o jogo de interesses que, na maioria das vezes, fica de acordo com os detentores de poder e de riqueza. As cidades vêm desenvolvendo e avançando nos cadastros das áreas de ocupação irregular, através de setores de monitoramento que têm como objetivo fiscalizar os loteamentos clandestinos, invasões de áreas públicas, construções em áreas de risco e núcleos de favelas. Porém, ainda existem muitas cidades brasileiras que não possuem nenhuma ação para esse monitoramento, onde os cadastros municipais estão incompletos e defasados. A falta de um cadastro dessas áreas gera uma cidade ilegal e inexistente, pois o poder público não pode intervir nessas áreas. Nesse sentido ela existe como espaço, mas inexiste como cidade legal, onde a população que reside neste espaço não possui o direito de ter um endereço fixo e o poder público não pode intervir de forma oficial. TÓPICO 1 | O AVANÇO DA DESIGUALDADE SOCIAL NO MEIO URBANO 5 Muitas cidades vêm aumentando qualificadamente e quantitativamente o número de profissionais técnicos para atuarem nas áreas consideradas ilegais, e estes trabalham diretamente nessas áreas, colocando em prática a teoria que vivenciaram quando acadêmicos das mais diversas formações. O planejamento urbano tem se tornado uma prática que vem considerando cada vez mais o mercado imobiliário, através de leis que regulamentam o uso e o zoneamento do solo. Essas propostas, chamadas de “solo criado”, vêm, desde as décadas de 1970 e 1980, envolvendo diversos pensadores com as mais diferentes ideologias, refletindo sobre o acúmulo de análises e de soluções para a resolutividade de vários conflitos, que são gerados entre a propriedade privada e a ocupação ilegal e irregular das áreas urbanas. Na década de 1990, as cidades começaram a efetivar os Planos Diretores (PDs), que objetivavam de forma geral uma totalidade do urbano e do urbanismo moderno. Conforme Maricato (1995, p. 22-23): A incorporação do conceito pós-moderno de fragmentação, valorizando o desenho urbano, não implica necessariamente na visão alienada do planejamento oficial, em encarar a cidade real que exige intervenção emergencial menos generalizante e abstrata. Para grandes áreas do território urbano esta regulamentação nada significa. Gestão e não simples regulamentação, operação, ação administrativa e não apenas planejamento de gabinete é o caminho para a prevenção das tragédias cotidianas que vitimam moradores dos morros e encostas que deslizam a cada chuva, ou moradores das beiras dos córregos atingidos por enchentes, ou bairros inteiros atingidos por epidemias. O distanciamento que existe entre quem pensa a consolidação da cidade nos poderes executivos municipais e quem exerce o controle urbanístico é visível em todos os aspectos. Como, por exemplo, a aprovação e liberação das plantas de construção e o poder policial sobre a ocupação das áreas irregulares. São dissolvidas ou diluídas pelas práticas do favoritismo e do pragmatismo dos interesses individuais e são mediadas pela corrupção que, infelizmente, acaba denegrido a imagem do poder público. Novamente citando Maricato (1995, p. 23): A legislação detalhista e "rigorosa" contribui para a prática de corrupção e constitui um exemplo paradigmático da contradição entre a cidade do direito e a cidade do fato. Pois em um ambiente onde ‘a infração, além de infração, é norma e a norma além de norma é infração, como se deveria esperar de uma contravenção sistemática’, qual é o papel das leis que pretendem regulamentar procedimentos detalhados do universo individual do interior da moradia, quando a maior parte das moradias e do contexto urbano constitui um imenso universo clandestino que ignora normas mais gerais e básicas? UNIDADE 1 | A URBANIZAÇÃO DA PERIFERIA, UMA CONSEQUÊNCIA DO CAPITALISMO 6 Essas práticas favorecidas, que têm sempre um cunho político e eleitoral, são usufruídas não só pelo Poder Executivo, com o famoso “dar o jeitinho”, como também pelo Poder Legislativo, que se aproveita dessas práticas. O correto seria o Poder Legislativo ajustar a legislação conforme a realidade, ou propor, dentro da legalidade, alterações possíveis diante da realidade com a lei, e não usufruir de determinada situação. Esse clientelismo que se alastra nos poderes Executivo e Legislativo municipais fortalece o crescimento das ocupações ilegais, pois a população que reside nesses locais fica à mercê da vontade do poder público. Essas áreas são desprovidas de qualquer infraestrutura para atender as necessidades básicas de moradia. UNI As comunidades formadas em áreas de ocupação irregular são estruturadas por trabalhadores que estão excluídos do direito à cidade, pelo sistema capitalista. Para conseguir sobreviver neste sistema, buscam as alternativas oferecidas pelo próprio sistema. Acabam ocupando áreas irregulares, e não conseguem obter de forma alguma a posse legal da área ocupada. Sem a escritura legal, ficam carentes de investimentos de infraestrutura da parte do poder público. Para resolver essas questões, como, por exemplo, famílias em áreas irregulares que não conseguem o acesso legal de instalação da rede pública de energia e nem a autorização para ser instalada em suas moradias, acabam dando “um jeitinho” e puxam um “gato”, de outro vizinho que possui luz em casa, ou que puxou o “gato” da própria rede pública. Esses chamados “gatos”, “rabichos”, se alastram em toda a área ocupada, gerando um alto consumo e podendo até causar um acidente por curto circuito. Mesmo que sejam instalações visíveis aos olhos dos gestores, não se adota nenhuma intervenção para impedir, proibir ou legalizar as áreas de ocupação irregular através de projetos de reurbanização. A falta de interesse político se dá, pois esses assentamentos são um mecanismo inesgotável de clientelismo eleitoral praticado há muitos anos no Brasil. Como profissional de Serviço Social, trabalhei na relocação de famílias de áreas de risco para um loteamento público. As dificuldades técnicas foram muitas. Uma delas é o apadrinhamento do Poder Legislativo com essa população. A população não consegue perceber que a questão da moradia, de infraestrutura básica, são direitos garantidos na Constituição Federal de 88, e que essa população não deve favor eleitoral para ninguém. Os vereadores diziam, com todas as letras, que os moradores podiam utilizar a luz, com rabicho, pois ele tinha contato pessoal no órgão responsável. E assim, a comunidade vivia presa ao favoritismo eleitoral. TÓPICO 1 | O AVANÇO DA DESIGUALDADE SOCIAL NO MEIO URBANO 7 O surgimento de novas leis que vêm sempre articuladas com os interesses do poder público e do mercado imobiliário acaba colocando em conflito a atuação do Poder Judiciário, que tem como objetivo assegurar os direitos garantidos em leis. A questão da ocupação urbana vem,a cada dia, ganhando mais destaque na atuação do Poder Judiciário e do Ministério Público. São casos que envolvem sérias negociações entre os governos municipais, estaduais e o Poder Judiciário, por vários anos. O senso comum afirma que o Poder Judiciário vem atuando de forma flexível nas questões urbanas e nos casos de ocupações de terras, porém este conceito, desde os anos de 1980, mostra que não é real, pois vários casos que aparecem diariamente na mídia levam para outras conclusões. É importante, diante disso, analisar os intransigentes conflitos nas disputas pelas terras urbanas entre os poderes Judiciário e Executivo. Em muitos casos de ocupações irregulares do solo urbano, a atuação do Poder Judiciário torna a negociação pacífica entre ocupantes e proprietários. Porém, em outros casos, onde existe uma ação de despejo, muitos proprietários não são sensíveis às questões sociais, e utilizam meios mecânicos para destruir as construções edificadas em seus terrenos, com ou sem moradores dentro. Em casos de ocupações em áreas particulares, o poder público não pode intervir. Nestes casos, o que de fato ocorre é que os proprietários legais das terras ganham judicialmente o direito de reintegração de posse de sua propriedade e não entram em acordo com os moradores. DICAS Caro acadêmico, neste link: http://www.conjur.com.br/2012-jan-30/pinheirinho- direito-propriedade-atender-funcao-social você poderá ver elementos verídicos da realidade vivenciada no Brasil, diante da questão da posse da terra. UNIDADE 1 | A URBANIZAÇÃO DA PERIFERIA, UMA CONSEQUÊNCIA DO CAPITALISMO 8 Sendo esta leitura de relevância para nossos estudos, apresentamos um comentário a respeito (MAIOR, 2012): O que aconteceu na localidade conhecida por Pinheirinho, em São José dos Campos, município que possui um dos maiores orçamentos per capita do Brasil, pode ser considerado uma das maiores agressões aos Direitos Humanos da história recente em nosso país. Querem dizer que tudo se deu em nome da lei, mas com tal argumento confere-se ao Direito uma instrumentalidade para o cometimento de atrocidades e tenta-se fazer com que todos os cidadãos sejam cúmplices do fato. Só que o Direito não o corrobora. Senão, vejamos. Na base jurídica do ato cometido, está, dizem, o direito de propriedade. Um terreno foi invadido, obstruindo-se o direito da posse tranquila ao seu titular, e, portanto, precisa ser desocupado. Simples assim. Mas o direito de propriedade, conforme previsto constitucionalmente, deve atender à sua função social (artigo 5º, inciso XXIII, da Constituição Federal). Sem esse pressuposto, nenhum direito de propriedade pode ser exercido. A Constituição ainda garante a todos os cidadãos, como preceito fundamental, o direito à moradia (artigo 6º, inserto no Título II, do Capítulo II, da CF). Perante a situação acima relatada, o próprio Poder Judiciário não consegue aplicar as leis e, por algumas vezes, antes de tentar aplicá-las, realiza acordos como mecanismos de negociação. A decisão judicial vem de encontro com o fim do clientelismo, já citado anteriormente. Muitos dos imóveis que possuem valores irrisórios no mercado imobiliário acabam sendo ocupados de forma irregular e se estruturam sem a intervenção do Estado, independentemente da sua localização geográfica. Quando uma comunidade se desenvolve em área ilegal e começa a ser valorizada por determinados fatores urbanísticos, as relações que se fundam passam a ser regidas pelas legislações federais, estaduais e municipais, conforme a demanda que se apresenta. A diversidade que existe nas cidades e que está oculta (cidade real) para a burguesia ou até mesmo para a classe média, acaba sendo uma área restritiva para as pessoas, ficando isoladas dos centros urbanos. Essa cidade real é decorrente de todo o processo histórico de formação das cidades, e que aconteceu por meio do êxodo rural. O Brasil passou por diferentes momentos em relação ao crescimento de favelas. A taxa de crescimento populacional na década de 90 chegou a ser superior às cidades em sua totalidade. O Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada – IPEA (2014, p. 7) problematiza a oscilação da população que vive em favelas, em diferentes capitais brasileiras, de 2000 até 2010, concluindo que: TÓPICO 1 | O AVANÇO DA DESIGUALDADE SOCIAL NO MEIO URBANO 9 Uma comparação direta entre os censos 2000 e 2010 indica o grau de incompatibilidade dos dados de aglomerados subnormais. O número de domicílios nas áreas de favelas teria dobrado (passando de 1,6 milhão para 3,2 milhões), e a população residente em favelas teria crescido 75%, passando de 6,5 milhões em 2000 para 11,4 milhões em 2010. Isto é, os residentes de favelas teriam crescido de 3,8% da população nacional em 2000, para 6% em 2010. Um processo de favelização tão intenso seria incompatível com a melhoria dos indicadores socioeconômicos, redução da pobreza e da desigualdade registrados na última década. Desde o início do século XX, as políticas públicas no Brasil, voltadas para o planejamento urbano, sempre tiveram como objetivo resolver as demandas sociais da população residente em favelas e nos cortiços, através da retirada dessas pessoas das áreas consideradas valorizadas pelo mercado imobiliário, sem levar em consideração as questões sociais. Autores como Sevcenko (1993), Vaz (1994), Barboza (1995) e Maricato (1995) afirmam que essa prática vem sendo aplicada nas reformas urbanas higienistas que tiveram início no período da República, continuando durante período populista e varguista até a ditadura militar. O interesse econômico é o principal foco das questões das ocupações ilegais, onde o jogo de poder é nítido e sem muita flexibilidade. Diante disso, ocorre uma certa desinformação e desinteresse sobre as condições de habitação e da miséria urbana, gerando assim uma omissão da realidade sobre a exclusão social. Outro fator, além do econômico, que omite as questões sociais por falta de informação, é a atuação representativa das entidades ambientalistas, sendo essa, quase que em sua maioria, em oposição ao mercado imobiliário. Isto significa que muitos militantes dos movimentos ambientalistas são contrários à urbanização e à regularização das áreas ocupadas ilegais, sendo favoráveis à remoção dessas pessoas de um modo geral. E não consideram todo o contexto social e econômico dessas famílias. Segundo Maricato (1995, p. 14): Podemos afirmar, entretanto, sem temer exageros, que a abstração em relação à realidade urbana brasileira, que está presente em toda a sociedade, está também, fortemente presente, nas entidades ecológicas, que, embora reconhecendo os males de uma concentração demográfica considerada "excessiva", desconhecem a real dimensão da ocupação anárquica do solo e as contradições que são inerentes a esse processo. Esse "desconhecimento" sobre a realidade próxima é acompanhado de uma construção ideológica da representação sobre o urbano, que repete a marca das “ideias fora do lugar”, também entre muitas das entidades ambientalistas, atrasando a urgente e necessária defesa do meio ambiente. UNIDADE 1 | A URBANIZAÇÃO DA PERIFERIA, UMA CONSEQUÊNCIA DO CAPITALISMO 10 No Brasil, a maioria das temporadas de chuvas acontece em diferentes regiões e tempo, são infelizmente marcadas por grandes tragédias urbanas, ocasionadas pelos fenômenos ambientais, como as enchentes, desmoronamentos, vendavais, chegando a ocasionar diversas mortes. Esses fenômenos ambientais, até alguns anos atrás, eram comuns de acontecerem somente nas grandes cidades, mas se acompanharmos as mídias, percebemos que estas tragédias ambientais estão em todos os lugares. FIGURA 2 – TRAGÉDIA AMBIENTAL DE 2008 NO VALE DO ITAJAÍ FONTE: Disponível em: <http://zh.clicrbs.com.br/rs/noticias/noticia/2016/02/depois- de-tragedias-rio-e-santa-catarina-decidiram-apostar-na-prevencao-4965861.html>. Acesso em: 27 fev. 16. Quando a mídia apresenta e repete uma notícia sobre uma tragédiaambiental, em momento algum consegue fazer uma análise ou referenciar o processo descontrolado do uso do solo, nem mesmo fazer uma análise da conjuntura em que se encontravam as famílias afetadas, desconsiderando as questões sociais. As questões climáticas há algum tempo vêm afetando não somente a população considerada de baixa renda que mora em encostas, mas sim toda a sociedade, sem escolher lugar. DICAS Caro acadêmico, para entender melhor, assista ao vídeo deste link: <https:// www.youtube.com/watch?v=V1jtBvdxMgg&ebc=ANyPxKoWXLQM1auqC5G1688Sbn_ fQNhtJF3Pn6T-AB0DhqsG8f6adGwkNeihxFxaoHCQS_ZuzwErQi5BiPwC3nwxmCWNiNxg>. TÓPICO 1 | O AVANÇO DA DESIGUALDADE SOCIAL NO MEIO URBANO 11 Revelando a história de formação das cidades, torna-se necessário ressaltar os movimentos urbanos que se destacaram durante os anos 70 no Brasil. Esses movimentos tinham o apoio de intelectuais, e como visavam transformação das cidades, através das ideias da Assembleia Nacional Constituinte, cobravam uma Reforma Urbana. A busca pela Reforma Urbana teve início em 1960, através dos setores progressistas da sociedade que exigiam propostas de mudanças estruturais das questões fundiárias, e que focavam na concretização da Reforma Agrária. Sendo constituída a proposta inicial da reforma urbana em 1963, através do Instituto dos Arquitetos do Brasil (Observatório Internacional do Direito à Cidade), porém não foi viabilizada em decorrência do golpe militar de 1964. Nas décadas de 70 e 80, os temas da Reforma Urbana reaparecem novamente, juntamente com os movimentos populares de luta pela moradia, centralizados em alguns bairros de diversas cidades. A consolidação desses movimentos, nacionalmente, se concretizou na década de 80. Devido aos rumos da conjuntura política, estes movimentos se fortaleceram, ganhando maior visibilidade e relevância nas decisões políticas. Conforme afirma Gohn (2007, p. 278): Na prática surgem novas lutas, como pelo acesso à terra e por sua posse, pela moradia, expressas nas invasões, ocupações de casas e prédios abandonados; articulação dos movimentos dos transportes; surgimentos de organizações macro entre as associações de moradores; movimentos de favelados ou novos movimentos de desempregados; movimentos pela saúde. A Igreja Católica foi fundamental neste período, contribuindo com o lançamento do documento “Ação Pastoral e o Solo”, que defendia ideologicamente a função social da propriedade urbana, se tornando um referencial na luta pela Reforma Urbana. Entre as décadas de 70 e 80, o Estado incorporou os movimentos sociais através dos partidos políticos, visando o monitoramento das ações desses movimentos e até mesmo a criação de diferentes entidades para fins políticos, e que serviam como trampolim para a negociação e cooptação de lideranças populares. Em janeiro de 1986, os movimentos populares e pastorais, através das entidades de assessoria, lançaram o Movimento Nacional pela Constituinte, que incide na articulação de várias plenárias e reuniões de trabalho, focando a iniciativa popular. Este período contou com a participação de vários segmentos profissionais, que compuseram um corpo técnico e reformista, que defendia a democratização do planejamento e da gestão das cidades, com a participação dos mesmos. Esse movimento foi riquíssimo no sentido de envolver a sociedade civil, pesquisadores universitários, representantes de entidades e sindicatos de classe, técnicos ligados à área de planejamento urbano e poder público, num debate sobre os rumos das cidades. UNIDADE 1 | A URBANIZAÇÃO DA PERIFERIA, UMA CONSEQUÊNCIA DO CAPITALISMO 12 ESTUDOS FU TUROS Na próxima unidade será aprofundado como se procedeu a organização desses movimentos. Para Maricato (1995), a expectativa em torno do desenvolvimento e evolução urbana no Brasil foi cenário para a superação do modelo arcaico, antigo, pelo sistema capitalista. A urbanização foi marcada pelo modelo acelerado e concretado do desenvolvimento moderno, que a partir dos anos 80, com o crescimento econômico, teve diversas sequelas negativas, como, por exemplo: a baixa qualidade de vida, a predação do meio ambiente, aumento da miséria social, da violência urbana, entre outros. A autora continua apontando que o desenvolvimento industrial no Brasil, se assegurou categoricamente a partir da chamada Revolução de 1930, convencionou o crescimento urbano com o industrial através dos regimes arcaicos de produção agrícola. O chamado " pacto estrutural”, entre antigos proprietários rurais e a burguesia urbana, aprovou mudanças sem rupturas e a convivência de políticas contraditórias. Com a nova correlação de forças sociais que foram amadurecendo no Brasil neste período, requereu-se a reformulação do aparelho estatal, a regulamentação da relação trabalho e capital e novas regras de crescimento do mercado interno. O Estado passa a desenvolver um modelo centralizador, inventor e protecionista do processo de acumulação urbano-industrial, e institui uma legislação trabalhista, elencando alguns privilégios para o trabalhador urbano sobre o trabalhador rural. Para Maricato (1995, p. 19): Alguns fatos estão na base do gigantesco processo de migração que ocorreu no território brasileiro, neste século, do campo para as cidades: a referida concentração fundiária em primeiro lugar, seguida da introdução de tecnologia em certos setores da produção rural destinada principalmente à exportação e também o desprezo pelo avanço das relações trabalhistas no campo. O processo de migração, para Santos (1993, p. 74), significa: De 1940 a 1980 a população urbana passa de 26,35% do total para 68,86%. No final desse período, aproximadamente 40 milhões de pessoas (33,6% da população) haviam migrado do local de origem. Somente entre 1970 e 1980 incorporam-se à população urbana mais de 30 milhões de novos habitantes. Em 1960 havia no Brasil duas cidades com mais de 1 milhão de habitantes: São Paulo e Rio de Janeiro. Em 1970 havia cinco, em 1980 dez e em 1990 doze. TÓPICO 1 | O AVANÇO DA DESIGUALDADE SOCIAL NO MEIO URBANO 13 O fenômeno da metropolização das cidades esteve diretamente ligado com o crescimento industrial em todo o território brasileiro, resultando na industrialização, urbanização, crescimento da classe média, fixação do salário e produção de bens de consumo duráveis. Consequentemente, o Brasil, pós- década de 50, formou um “simulacro” da modernidade em torno do crescimento urbanístico das cidades. Torna-se perceptível que atualmente as cidades refletem o resultado do processo industrial que foi instalado, e que está fundamentado na intensa exploração entre a força de trabalho e a exclusão social. DICAS Para um aprofundamento dos temas desse tópico, sugerimos que você leia o seguinte livro, que analisa a propriedade urbanística e a edificabilidade em terrenos urbanos, investigando as funções do plano urbanístico e do potencial construtivo na busca de cidades sustentáveis. 14 Neste tópico, vimos que: • As cidades vêm desenvolvendo e avançando nos cadastros das áreas de ocupação irregulares, através de setores de monitoramento de áreas irregulares, que têm como objetivo fiscalizar os loteamentos clandestinos, invasões de áreas públicas, construções em áreas de risco e núcleos de favelas. • Muitas cidades vêm aumentando qualificadamente e quantitativamente o número de profissionais técnicos para atuarem nestas áreas consideradas ilegais. • Na década de 1990, as cidades começaram a efetivar os Planos Diretores (PDs), que objetivavam de forma geral uma totalidade do urbano e do urbanismo moderno. • A imprecisão e incoerência que estão marcadas nas ações do Poder Executivo e Legislativo acabam afetando diretamente o Poder Judiciário, pois é esse que tem como dever garantir os direitos assegurados em lei. • A questão da ocupação urbana vem a cada dia ganhando mais destaque na atuação do Poder Judiciário e do Ministério Público. • Perante a situação acima relatada,o próprio Poder Judiciário não consegue aplicar as leis e, por algumas vezes, antes de tentar aplicá-las realiza acordos como mecanismos de negociação. • A diversidade que existe nas cidades e que está oculta (cidade real) para a burguesia ou até mesmo para a classe média acaba sendo uma área restritiva para as pessoas, ficando isoladas dos centros urbanos. • Desde o início do século XX, as políticas públicas no Brasil, voltadas para o planejamento urbano, sempre tiveram como objetivo resolver as demandas sociais da população residente em favelas e nos cortiços, através da retirada dessas pessoas das áreas consideradas valorizadas pelo mercado imobiliário, sem levar em consideração as questões sociais. • O interesse econômico é o principal foco das questões das ocupações ilegais, onde o jogo de poder é nítido e sem muita flexibilidade. • No Brasil, a maioria das temporadas de chuvas acontece em diferentes regiões e tempo, são infelizmente marcadas por grandes tragédias urbanas, ocasionadas pelos fenômenos ambientais, como as enchentes, desmoronamentos, vendavais, chegando a ocasionar diversas mortes. RESUMO DO TÓPICO 1 15 • Relevando a história de formação das cidades, torna-se necessário ressaltar os movimentos urbanos que se destacaram durante os anos 70 no Brasil. • Esses movimentos tinham o apoio de intelectuais, e como visavam transformação das cidades, através das ideias da Assembleia Nacional Constituinte, cobravam uma Reforma Urbana. • A expectativa em torno do desenvolvimento e evolução urbana no Brasil foi cenário para superação do modelo arcaico, antigo, pelo sistema capitalista. • A urbanização foi marcada pelo modelo acelerado e concretado do desenvolvimento moderno, que a partir dos anos 80, com o crescimento econômico, teve diversas sequelas negativas, como, por exemplo: a baixa qualidade de vida, a predação do meio ambiente, aumento da miséria social, da violência urbana, entre outros. • Com a nova correlação de forças sociais que foram amadurecendo no Brasil neste período, requereu-se a reformulação do aparelho estatal, a regulamentação da relação trabalho e capital e novas regras de crescimento do mercado interno. • O Estado passa a desenvolver um modelo centralizador, inventor e protecionista do processo de acumulação urbano-industrial, e institui uma legislação trabalhista, elencando alguns privilégios para o trabalhador urbano sobre o trabalhador rural. • O fenômeno da metropolização das cidades esteve diretamente ligado com o crescimento industrial em todo o território brasileiro, resultando na industrialização, urbanização, crescimento da classe média, fixação do salário e produção de bens de consumo duráveis. 16 1 O clientelismo é caracterizado como marca especialmente distintiva da República Velha, onde exercia uma relação dominante de articulação entre o sistema político e a sociedade, além de ser referência generalizada para o comportamento político e social daquele tempo (SILVA, 2007, p.40). No entendimento de Grahan apud Seibel e Oliveira (2006, p.136), o clientelismo constituiu a trama de ligação da política no Brasil do século XIX. Durante a primeira república, a vitória eleitoral sempre dependeu do uso competente dessa forma de relação, que incidia sobre a distribuição de cargos oficiais, sobre a concessão de proteção e outros favores, em troca de lealdade política e pessoal. FONTE: Disponível em: <http://pensamentoplural.ufpel.edu.br/edicoes/10/08.pdf>. Acesso em: 11 abr. 2016. Diante da contextualização acima, produza um texto, de no mínimo 10 linhas, conceituando as consequências do Clientelismo político, para o desenvolvimento das cidades. 2 (Adaptado de ENADE, 2010) O Serviço Social como profissão vem ganhando espaços nas discussões inerentes às questões ambientais. A discussão ambiental como política pública, traz diversas possibilidades de estudos interdisciplinares que proporcionam reflexões ligadas ao desenvolvimento urbano, à preservação do meio ambiente e à geração de renda, consideram a importância das questões para a sociedade, e acabam criando oportunidades de atuação profissional para o assistente social. Essas ações acontecem através de mobilização, organização das populações que estão de certa maneira ameaçadas em decorrência da degradação do seu meio ambiente em que vivem ou de educação, visando assim a preservação. A educação ambiental, nesse contexto, passa a ser entendida como um dos mecanismos mais importantes para a edificação de valores, conhecimentos, habilidades e atitudes, e que acaba tendo como objetivos: a) Valorizar somente as práticas preservacionistas pelo senso comum. b) Abonar o sigilo sobre dados ambientais que possam causar prejuízos às comunidades e que comprometam a segurança nacional. c) Valorizar a influência dos povos detentores de consciência ambiental sobre os crescentes procedimentos de destruição do meio. d) Favorecer a responsabilização do poder público na preservação do equilíbrio. e) Instigar e fortalecer uma consciência crítica sobre a problemática ambiental e social. AUTOATIVIDADE 17 TÓPICO 2 A CIDADE: LEGAL x ILEGAL UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Caro acadêmico, este segundo tópico tem o objetivo de apresentar e basear os conceitos que estão fundamentados na cidade através da legalidade e ilegalidade. O direito à cidade, que deveria garantir para toda a população o acesso às políticas públicas básicas, não consegue se concretizar por diversos interesses. Fator que acaba refletindo na exclusão social. A questão da legalidade e da ilegalidade faz parte da nossa vivência em sociedade. Para podermos comprovar o direito de posse e a legalidade de algum bem material, caso não se possua, vive-se na ilegalidade, longe de se ter um endereço fixo e de se conseguir o título de propriedade. Porém, no cotidiano, o profissional de Serviço Social, independentemente de sua área de atuação, irá encontrar demandas relacionadas à cidade, seja ela legal ou ilegal, pois todo o cidadão está inserido em um espaço, urbano ou rural. 2 A EXCLUSÃO SOCIAL E DO DIREITO A CIDADE Durante os anos de 1940, os representantes políticos brasileiros visavam as cidades como sendo o mecanismo de avanço da modernidade, sobre o modelo arcaico que o representava. Nos anos de 1990, essas mesmas cidades que tinham um potencial de urbanização e de industrialização refletiram a figura de um espaço como o avanço da violência urbana, dos maus tratos à criança e ao adolescente, do tráfico de drogas e de pessoas, da poluição e do desmatamento ambiental. Sob o ideário positivista, do lema ordem e progresso, o processo de industrialização e urbanização tinha como propósito abrir caminho para a independência brasileira, que por muitos séculos teve a dominação coronelista. UNIDADE 1 | A URBANIZAÇÃO DA PERIFERIA, UMA CONSEQUÊNCIA DO CAPITALISMO 18 Com o desenvolvimento econômico e o processo de urbanização, a evolução da sociedade sofreu o aumento da pobreza em todas as regiões do país. A sociedade, como um todo, passou a ser dependente do processo de urbanização e de progresso, deixando para trás o modelo da República Velha. O desenvolvimento urbano passou a ser visto como o futuro das cidades, através dele seria possível a realização de conseguir um emprego, de ter o amparo do Estado na assistência social, lazer, cultura, habitação e de constituir uma família com mais filhos, pois as oportunidades eram muitas. Porém o resultado foi outro. Nas primeiras décadas do século XX, o Brasil conseguia atender as demandas que existiam para os imigrantes e migrantes, através da inserção econômica e da melhoria da qualidade de vida, entretanto essas possibilidades foram extintas. Como consequência da extinção dessas oportunidades sociais, culturais e econômicas, aumentou consideravelmente a exclusão social da população em situação de vulnerabilidade social. Diante das condições precárias de sobrevivência, essa população excluída foi obrigada a se isolarem relação a espaço de habitabilidade, formando os chamados “bolsões de pobreza”, “ilhas” no meio do espaço urbano. Uma das expressões mais importantes desse processo de exclusão social foi a segregação ambiental. A segregação ambiental, como parte ativa da exclusão social, aconteceu devido a dificuldades de acesso da população aos serviços de infraestrutura urbana, diminuição do mercado de trabalho e de profissionalização, a disseminação da violência urbana, aumento da discriminação racial, aumento da violência contra mulheres e crianças, escassez dos serviços de lazer e cultura e burocracia para se ter acesso à justiça. Diante das demandas acima citadas, não se consegue determinar um perímetro preciso entre a “população excluída” e a “população incluída”. Essa dificuldade se estabelece no Brasil através dos trabalhadores do setor secundário, com as indústrias de modelo fordista, sendo eliminados do mercado imobiliário privado e passando a habitar as favelas. Essa exclusão é fruto do processo de industrialização, pois as cidades, além de não darem conta de atender a demandas da população, o Estado não cumpre seu papel como mentor das políticas públicas, e as indústrias brasileiras, com os baixos salários para os trabalhadores. Florestan Fernandes (1977, p. 30), refletindo sobre as classes sociais que estão alicerçadas na América Latina, afirma que os “dinamismos nucleares e determinantes” nas sociedades evidenciam as relações “mais adiantadas e ativas do regime de classes". Segundo o autor, existem algumas especificidades nas relações entre a sociedade capitalista europeia e norte-americana, e as sociedades latino- americanas "não se organizam para um desenvolvimento autônomo da economia, da sociedade e da cultura". Ele ainda continua pontuando: TÓPICO 2 | A CIDADE: LEGAL x ILEGAL 19 Ela (a ordem social competitiva) reconhece a pluralização das estruturas econômicas, sociais e políticas como "fenômeno legal". Todavia, não a aceita como "fenômeno social" e, muito menos, como "fenômeno político". Os que são excluídos do privilegiamento econômico, sociocultural e político também são excluídos do "valimento social “e do "valimento político". Os excluídos são necessários para a existência do estilo de dominação burguesa, que se monta dessa maneira. (FERNANDES, 2005, p. 222) A divisão externa e interna do capital excedente econômico, que é uma consequência de vantagens e regalias no desenvolvimento do pensamento burguês, ou seja, heranças do sistema colonial que ficaram enraizadas no processo de modernização e urbanização da sociedade brasileira, trouxe a exclusão das classes sociais de baixa renda no seu processo histórico e social. NOTA Este processo negou a existência de uma classe social formada por cidadãos, com direitos sociais que deveriam ser respeitados. Para Maricato (1995, p. 30): A exclusão social não é passível de mensuração, mas pode ser caracterizada por indicadores como a informalidade, a irregularidade, a ilegalidade, a pobreza, a baixa escolaridade, o oficioso, a raça, o sexo, a origem e, principalmente, a ausência da cidadania. A questão da ilegalidade é um dos instrumentos que permite a criação de critérios para impor conceitos fundamentais para a compreensão da conjuntura, como, por exemplo, o conceito de exclusão, de segregação social, ambiental, cultural, econômica, política. Esses conceitos acabam sendo utilizados pelos diversos grupos sociais conforme o interesse de cada um. Como, por exemplo, um governo municipal pode desenvolver uma política de habitação municipal utilizando-se da sua realidade social, ambiental e outras. Quando se trata da ilegalidade diante das questões relacionadas à propriedade de terra, meio rural e urbano, a questão ambiental tem sido eixo prioritário nas tomadas de decisões, tanto pelo poder público como pelo poder jurídico, e depois vêm os eixos do desenvolvimento social. O autor Baldez (2003) enfatiza que, até os anos de 1850, a forma legítima de conseguir o direito de posse de terra no Brasil acontecia através da ocupação. Para o autor, ainda, a situação do trabalhador livre era acompanhada da emergência de legislação sobre o uso da terra, que iria oferecer garantia e continuidade do comando e domínio dos latifundiários sobre a produção dessa. UNIDADE 1 | A URBANIZAÇÃO DA PERIFERIA, UMA CONSEQUÊNCIA DO CAPITALISMO 20 A estruturação, fortalecimento e o crescimento do mercado imobiliário estão diretamente ligados ao surgimento de leis específicas para as questões urbanas, conforme o interesse de cada grupo. No final do século passado, os municípios foram obrigados a elaborar Códigos Municipais de Posturas. Mesmo sendo uma lei que existe desde o período colonial, não tinha a obrigatoriedade de ser elaborada, e sempre teve o objetivo de ordenar a complexidade existente na vida urbana. Consequentemente, com o crescimento acelerado do meio urbano, os Códigos de Posturas tiveram uma determinada perda de importância, como também desenvolveram uma função de subordinação de algumas áreas da cidade para o capital imobiliário, resultando na expulsão da classe trabalhadora assalariada do centro da cidade. Entretanto, o Código de Posturas se fortaleceu após a Constituição Federal de 1988, quando os municípios passaram a assumir novas funções nas estruturas da política nacional, crescendo elevadamente as posturas municipais em todo o país. Sendo assim, este código teve um papel fundamental na segregação do espaço urbano. Todo o contexto diante das questões existentes entre mercado fundiário, legislação e exclusão social que se evidenciavam nas grandes metrópoles está cada vez mais visível em todas as cidades brasileiras, através da ocupação desordenada em áreas rejeitadas pelo mercado imobiliário, independentemente de ser área privada ou pública, situadas nas encostas dos morros, na beira de córregos, nas áreas em quota de enchente ou de risco, regiões completamente poluídas ou áreas de proteção ambiental. Conforme o Censo Demográfico de 2010, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), o Brasil possui 6.329 aglomerados subnormais, favelas, que são em sua maioria superpovoadas, e ainda não estão localizadas nos mapas geográficos, considerados como vazios cartográficos. FIGURA 3 - LOCALIZAÇÃO DAS FAVELAS FONTE: Disponível em: <http://www.fiapodejaca.com.br/wp-content/uploads/favela- do-Rio-de-Janeiro.jpg>. Acesso em: 2 mar. 2016. TÓPICO 2 | A CIDADE: LEGAL x ILEGAL 21 IMPORTANT E O Censo 2010 mostra as características territoriais dos aglomerados subnormais e suas diferenças das demais áreas das cidades. Dados do Questionário da Amostra do Censo 2010 evidenciam desigualdades entre a população que residia em aglomerados subnormais (assentamentos irregulares conhecidos como favelas, invasões, grotas, baixadas, comunidades, vilas, ressacas, mocambos e palafitas, entre outros) e a que morava nas demais regiões dos municípios, diferenças estas que se evidenciavam também entre as cinco grandes regiões do país. Enquanto 14,7% da população residente em outras áreas tinha concluído o Ensino Superior, nos aglomerados esse percentual era de 1,6%. A informalidade no trabalho também era maior nos aglomerados (27,8% dos trabalhadores não tinha carteira assinada) em relação às outras áreas da cidade (20,5%). As desigualdades também se manifestavam em relação aos rendimentos: 31,6% dos moradores dos aglomerados subnormais tinham rendimento domiciliar per capita até meio salário mínimo, ao passo que nas demais áreas o percentual era de 13,8%. Por outro lado, apenas 0,9% dos moradores dos aglomerados tinham rendimento domiciliar per capita de mais de cinco salários-mínimos, percentual que era de 11,2% nas demais áreas da cidade. Os resultados da Amostra do Censo para os aglomerados subnormais incluem ainda informações sobre escolarização, posse de bens no domicílio e tempo de deslocamento para o trabalho. Em 2010, o Brasil tinha 15.868 setoresem aglomerados subnormais (cerca de 5% do total de setores censitários), que somavam uma área de 169,2 mil hectares e comportavam 3,2 milhões de domicílios particulares permanentes ocupados nos 6.329 aglomerados subnormais identificados. Para ampliar o conhecimento da diversidade dos aglomerados subnormais do país, foi realizado no Censo Demográfico 2010, pela primeira vez, o Levantamento de Informações Territoriais (LIT). O conhecimento dos aspectos territoriais dos aglomerados subnormais é importante complemento à caracterização socioeconômica dessas áreas. O LIT mostrou que 52,5% dos domicílios em aglomerados subnormais do país estavam localizados em áreas predominantemente planas (1.692.567 domicílios), 51,8% tinham acessibilidade predominante por ruas (1.670.618 domicílios), 72,6% não possuíam espaçamento entre si (2.342.558) e 64,6% tinham predominantemente um pavimento (2.081.977). Essas e outras informações estão disponíveis na publicação “Censo Demográfico 2010 – Aglomerados Subnormais – Informações Territoriais” (acessível em http://www.ibge.gov. br/home/estatistica/populacao/censo2010/aglomerados_subnormais_informacoes_ territoriais/default_informacoes_territoriais.shtm) e nas tabelas de resultados da Amostra do Censo 2010 para Aglomerados Subnormais, publicadas no Banco de Dados Agregados do IBGE (SIDRA) (acessível em http://www.sidra.ibge.gov.br/cd/CD2010RGAADAGSN.asp). FONTE: Disponível em: <http://censo2010.ibge.gov.br/noticias- censo.html?view=noticia&id =3&idnoticia=2508&busca=1&t=censo-2010-mostra-caracteristicas-territoriais-aglomerados- subnormais-suas-diferencas-demais-areas-cidades>. Acesso em: 2 mar. 2016. UNIDADE 1 | A URBANIZAÇÃO DA PERIFERIA, UMA CONSEQUÊNCIA DO CAPITALISMO 22 A imprecisão que existe entre o legal e o ilegal vai além da totalidade do conjunto da sociedade, pois não se pode referenciar como um “Estado paralelo”, e sim como uma realidade bem mais intrínseca do que aquela que estamos acostumados a visualizar. No decorrer da história da urbanização das cidades, o Brasil constituiu dois vieses diversificados: de estruturação e acumulação de material, e com a multiplicidade das classes sociais. Mesmo com uma vasta legislação que visa a regularização da urbanização, o Brasil, ainda não consegue evoluir nesta questão, por falta de interesse dos poderes públicos, que tratam o direito à cidade como uma troca de favores meramente políticos. Quando falamos em segregação urbana, podemos afirmar que ela é multidimensional e que a dificuldade do acesso à terra, tanto na área urbana quanto na rural, delineou decisivamente as áreas chamadas de “civilizadas” no Brasil. Juntamente, aconteceram transformações do modelo produtivo campal. Transformações essas que conduziram grande parte da população dependente do campo para as cidades em busca de sobrevivência, aumentando, assim, significativamente, as áreas periféricas dos centros urbanos. Alfonsin (2003, p. 70) afirma que “a terra é toda a hipótese da vida”, que mesmo com toda a sua importância, a história da humanidade mostra que a luta pela posse e propriedade da terra é um processo contínuo e histórico, pois este procedimento iniciou na antiguidade, com a valorização e individualização da terra como sendo um bem particular, e fortalecendo na Idade Moderna, mesmo como decisões jurídicas do Estado Democrático e de Direito. O processo de individualização e de mercantilização do uso da terra estrutura um dos cernes da exclusão populacional do meio rural, sendo definida como Questão Agrária, que é fundamentada com as relações determinadas como pré-capitalistas. Significando deste modo que o direito de continuar ou permanecer na terra foi alterado com o novo modelo capitalista, que mudou as relações entre o trabalho e o capital, permeados na livre concorrência econômica, visando absolutamente o lucro, pela inciativa privada. A ilegalidade mediante a posse da terra passa a ser vinculada diretamente como a questão da exclusão social. O autor Boaventura de Souza Santos (1993), em seu estudo da dimensão jurídico-social de Pasárgada, revela que a população residente em áreas irregulares tem medo de ser despejada, por isso acaba aceitando a situação de ilegalidade em que se encontra. TÓPICO 2 | A CIDADE: LEGAL x ILEGAL 23 NOTAS SOBRE A HISTÓRIA JURÍDICO-SOCIAL DE PASÁRGADA Boaventura de Souza Santos 1 INTRODUÇÃO Este texto faz parte de um estudo sociológico sobre as estruturas internas de uma favela do Rio de Janeiro, a que dou o nome fictício de Pasárgada. Tem por objetivo analisar em profundidade uma situação de pluralismo jurídico com vista à elaboração de uma teoria sobre as relações ente Estado e Direito nas sociedades capitalistas. Existe uma situação de pluralismo jurídico sempre que no mesmo espaço geopolítico vigoram (oficialmente ou não) mais de uma ordem jurídica. Esta pluralidade normativa pode ter uma fundamentação econômica, rácica, profissional ou outra; pode corresponder a um período de ruptura social, como, por exemplo, um período de transformações revolucionárias; ou pode ainda resultar, como no caso de Pasárgada, da conformação específica do conflito de classes numa área determinada da reprodução social - neste caso, a habitação. A favela é um espaço territorial, cuja relativa autonomia decorre, entre outros fatores, da ilegalidade coletiva da habitação à luz do direito oficial brasileiro. Esta ilegalidade coletiva condiciona de modo estrutural o relacionamento da comunidade enquanto tal com o aparelho jurídico-político do Estado brasileiro. No caso específico de Pasárgada, pode detectar-se a vigência não oficial e precária de um direito interno e informal, gerido, entre outros, pela associação de moradores, e aplicável à prevenção e resolução de conflitos no seio da comunidade decorrente da luta pela habitação. Este direito não oficial - o direito de Pasárgada, como poderei chamar - vigora em paralelo (ou em conflito) com o direito oficial brasileiro e é desta duplicidade jurídica que se alimenta estruturalmente a ordem jurídica de Pasárgada. Entre os dois direitos estabelece-se uma relação de pluralismo jurídico extremamente complexa, que só uma análise muito minuciosa pode revelar. Muito em geral pode dizer-se que não se trata de uma relação igualitária, já que o direito de Pasárgada é sempre e de múltiplas formas um direito dependente em relação ao direito oficial brasileiro. Recorrendo a uma categoria da economia política, pode-se dizer que se trata de uma troca desigual de juridicidade entre as classes cujos interesses se espalham num e noutro direito. A análise da ordem jurídica de Pasárgada circunscreve-se, no que interessa para este estudo, aos recursos internos que são mobilizados para prevenir e resolver conflitos decorrentes da propriedade ou posse da terra e dos direitos sobre construções (casas e barracos) que nesta se implantam. É através da análise dos tipos de conflito e dos seus modos de resolução que melhor se surpreende o direito de Pasárgada em ação, isto é, enquanto prática social. Esta análise, feita num certo momento do desenvolvimento de Pasárgada, requer, para ser completa, a inclusão de uma dimensão histórica. Mais concretamente, trata-se de saber como se constituíram e se desenvolveram, a partir da formação da favela, as normas e as formas jurídicas e os órgãos de decisão jurídica, UNIDADE 1 | A URBANIZAÇÃO DA PERIFERIA, UMA CONSEQUÊNCIA DO CAPITALISMO 24 que hoje se centram à volta da associação de moradores e de outros polos de organização comunitária autônoma, que continuam a subsistir, ainda que de modo cada vez mais precário, anos depois do apogeu do desenvolvimento comunitário do início da década de 60. [...] As dificuldades da investigação histórica no domínio sociojurídico são inúmeras, sobretudo quando o objetivo é capturar a gênese das formas e estruturas jurídicas. As dificuldades são ainda maiores quando, como no caso presente, é quase total a carência de documentaçãoescrita. Para as obviar, recorri a entrevistas com os moradores mais antigos de Pasárgada e sobretudo com aqueles que ali viveram desde o início da comunidade. É sabido que este método sociológico tem muitas limitações e que o rigor do conhecimento através dele obtido é sempre muito problemático. E isto é tanto mais assim quando se trata de pesquisar "questões jurídicas" porque, consoante a perspectiva analítica usada pelo entrevistador, tais questões, ou se referem a fatos que não ultrapassam os umbrais de um quotidiano, por vezes longínquo, ou envolvem mitos e tabus à volta dos quais o conhecimento e o desconhecimento social se organizam estratégica e "caprichosamente". [...] OS MAUS E VELHOS TEMPOS Quando os primeiros habitantes se fixaram em Pasárgada em meados da década de 30, existia muita terra disponível. Cada morador demarcava o seu pedaço de terra e construía seu barraco, deixando em geral espaços abertos para o cultivo de verduras, plantio de árvores ou para criação de animais domésticos. Segundo os mais antigos moradores de Pasárgada, naquela época quase não existiam conflitos entre os habitantes envolvendo direitos sobre a terra e as habitações. "Não havia necessidade de brigas", dizem eles. Os barracos eram de construção muito primitiva, pouco valor tendo. Podiam ser construídos ou demolidos em questão de horas. Por outro lado, uma vez que existia muita terra desocupada, qualquer conflito relacionado com a posse da terra (limites, preferências e servidões) poderia ser evitado facilmente com a simples mudança de uma das partes do conflito para outro lugar no morro. Mas o povoado cresceu muito rapidamente e a qualidade das construções melhorou consideravelmente, de tal modo que na segunda metade da década de 40 eram já frequentes os conflitos envolvendo a propriedade e a posse da terra. Quando se pergunta aos moradores mais antigos a maneira como naquela época tais conflitos eram resolvidos, eles respondem invariavelmente: "violência, a lei do mais forte". Quando, a fim de evitar, em alguma medida, distorções de percepção e de memória, se procura obter informações com base num paralelo entre o modo como os conflitos eram tratados naquele tempo e como são tratados agora, é frequente obter-se uma resposta deste teor: "Oh! Agora é diferente. Agora as questões são tratadas em paz e tenta-se decidir de acordo com a justiça. Naquela época, eram resolvidas com facas e revólveres". Este tipo de resposta envolve ainda uma certa distorção, porque não é verdade TÓPICO 2 | A CIDADE: LEGAL x ILEGAL 25 que hoje em dia todos os conflitos sejam pacificamente resolvidos, muito embora não seja menos verdade em Pasárgada do que o é na sociedade brasileira em geral. À luz de informações obtidas e tendo em conta a possibilidade de distorção, é talvez seguro concluir que a probabilidade de relações sociais pacíficas envolvendo a propriedade e a posse da terra e o tratamento também pacífico dos conflitos decorrentes de tais relações é hoje muito mais elevada do que há 20 ou 30 anos. O aumento da violência, numa primeira fase da história de Pasárgada, resulta, obviamente, de uma pluralidade de fatores. Entre eles apenas se referem dois que têm mais pertinência para os objetivos do presente estudo: por um lado, a indisponibilidade ou inacessibilidade estrutural dos mecanismos de ordenação e controle social próprios do sistema jurídico brasileiro; por outro lado, a inexistência de mecanismos alternativos, de origem comunitária, capazes de exercer, ainda que de modo diferente e apenas nos limites da comunidade, funções semelhantes às dos mecanismos oficiais. No que respeita ao primeiro fator, a indisponibilidade diz-se estrutural, sempre que as suas razões transcendem ao domínio motivacional e, portanto, o nível de eventos da interação social, independentemente do grau de universalização desta. Entre os mecanismos oficiais de ordenação e controle social, serão referidos dois: a Polícia e os Tribunais. A Polícia não tinha delegacias em Pasárgada e, mesmo se as tivesse, é improvável que fossem solicitadas pela população para intervir em casos de conflito, e as delegacias policiais nas áreas urbanizadas próximas também não eram chamadas a agir. Quando se pergunta aos moradores mais antigos as razões porque eles não usavam os serviços da Polícia, eles primeiro riem pela surpresa que lhes causa tal pergunta - tão óbvia é a resposta -, depois fazem um esforço para expressar o óbvio. Desde os primórdios da ocupação do morro, a comunidade "entendeu" que estava numa contínua luta com a Polícia. Antes de os terrenos de Pasárgada passarem para o domínio público, várias foram as tentativas empreendidas pela Polícia para expulsar em massa os moradores. E mesmo depois disso, a sobrevivência da comunidade nunca esteve garantida, uma vez que se conheciam casos de remoção de favelas construídas em terrenos do Estado. Chamar a Polícia aumentaria a visibilidade de Pasárgada como comunidade ilegal e poderia eventualmente criar pretextos para remoção. Outros fatores contribuíram ainda para que a Polícia fosse vista como um inimigo pelos moradores de Pasárgada. Criminosos, suspeitos, vagabundos e em geral "maus elementos" eram considerados pela Polícia como formando uma considerável proporção da população de Pasárgada. Por conseguinte, pelo que contam desse tempo (que não é, neste aspecto, muito diferente do tempo presente), a Polícia fazia incursões repressivas, isto é, dava batidas na comunidade com muita frequência. Estas batidas eram tão ineficientes do ponto de vista de objetivos policiais quanto eram repugnantes para os moradores que delas eram vítimas. Aqueles que de fato eram "maus elementos" quase nunca UNIDADE 1 | A URBANIZAÇÃO DA PERIFERIA, UMA CONSEQUÊNCIA DO CAPITALISMO 26 eram apanhados e as pessoas inocentes eram levadas com frequência para prisões de onde não eram libertadas a não ser através de suborno. Neste contexto, e mesmo colocando de lado perigos envolvidos, não existia qualquer propósito útil em chamar a Polícia em caso de conflito. Se a vítima, ou, em geral, a pessoa prejudicada chamasse a Polícia, sabia que esta provavelmente não se disporia a vir (a menos que por outros motivos tivesse nisso interesse) e, se viesse, o culpado e todas as relevantes testemunhas já teriam então desaparecido ou, se não, quando interrogadas, fugiam o possível para não fornecer quaisquer informações úteis. Por outro lado, o morador que chamasse a Polícia seria considerado traidor ou informante (caguete) pelos outros moradores e isso poderia fazer perigar a sua permanência na comunidade. Não existe razão para duvidar da exatidão deste relato, tanto mais que ele se refere a comportamentos e atitudes que continuam ainda hoje a constituir, em grande parte, o quotidiano das relações entre os moradores de Pasárgada e a Polícia. Apesar de ter agora delegacia em Pasárgada, a Polícia continua a desempenhar um papel mínimo na prevenção e na resolução de conflitos. Não obstante os seus esforços no sentido de uma aceitação mais positiva por parte da comunidade, continua a ser vista por esta como uma força hostil investida de funções estritamente repressivas. Para além da Polícia (ou em complemento à ação desta), os tribunais constituem outro mecanismo oficial de ordenação e controle social a que os habitantes de Pasárgada poderiam, em teoria, recorrer para prevenir ou resolver conflitos internos de natureza jurídica. Tal recurso estava, no entanto, igualmente vedado e várias são as razões apontadas pelos moradores mais velhos para tal fato. Em primeiro lugar, juízes e advogados eram vistos como demasiado distanciados das classes baixas para poder entender as necessidades e as aspirações dos pobres. Em segundo lugar, os serviços profissionais dos advogados eram muito caros. Segundo a descrição de um dos moradores, "nós estávamos brigando por barracos e pedaços de terra que, do ponto de vista dos advogados, não valiam nada.Além disso, quando você contrata um advogado, você é de uma classe mais baixa do que a dele e ele fica muito a fim de fazer acordos com outros advogados e com o juiz, que podem prejudicar os seus interesses. Então ele vem a você com aquele jeito de falar de advogado e tenta convencer que foi o melhor que ele podia fazer por você, e que, afinal de contas, o acordo não é tão mau assim. E você não pode fazer nada". Esta observação, embora referida a atitudes para com os advogados na época inicial de Pasárgada, baseia-se provavelmente em experiência e percepções adquiridas muito tempo depois. Em qualquer caso, pressupõe um conhecimento bastante íntimo da ação dos advogados que duvido fosse comum em Pasárgada há 20 ou 30 anos. Comum era (e continua a ser) a ideia de que os serviços dos advogados são muito caros e, por isso, longe do alcance das posses das classes mais baixas. Uma terceira razão invocada pelos moradores de Pasárgada para não recorrerem aos tribunais reside no fato de saberem desde o início que a TÓPICO 2 | A CIDADE: LEGAL x ILEGAL 27 comunidade era ilegal à luz do direito oficial, quer quanto à ocupação da terra, quer quanto aos barracos que nela iam construindo. Na expressão perspicaz de um deles, "nós éramos e somos ilegais". Recorrer aos tribunais para resolver conflitos sobre terras e habitações não só era inútil como perigoso. Era inútil porque "os tribunais têm que seguir o código e pelo código nós não tínhamos nenhum direito". Era perigoso porque trazer a situação ilegal da comunidade à atenção dos serviços do Estado poderia levá-los a "nos jogar na cadeia". Esta série de observações requer uma análise detalhada, porque esclarece alguns aspectos básicos da gênese e estrutura da ordem jurídica interna de Pasárgada. A expressão "nós éramos e somos ilegais", que, no seu conteúdo semântico, liga o status de ilegalidade com a própria condição humana dos habitantes de Pasárgada, pode ser interpretada como indicação de que nas atitudes destes para com o sistema jurídico nacional tudo se passa como se a legalidade da posse da terra se repercutisse sobre todas as outras relações sociais, mesmo sobre aquelas que nada têm com a terra ou com a habitação. Tal seria o caso se, por exemplo, um conflito jurídico de índole estritamente pessoal não fosse levado à atenção dos operadores do sistema jurídico nacional, pela suspeita das partes de que a ilegalidade do seu status residencial afetasse desfavoravelmente o modo como o conflito seria processado pelos tribunais. Não tenho provas cabais do funcionamento deste mecanismo de feedback e julgo que seria muito difícil, senão impossível, obtê-las. Na verdade, apesar de a inacessibilidade dos tribunais em relação aos conflitos envolvendo terras ocupadas por favelas assumir aspectos peculiares à luz da inexistência ou nulidade legal dos respectivos títulos de propriedade e de posse, é necessário reconhecer que tal inacessibilidade é geral em relação aos problemas jurídicos das classes baixas, residindo ou não em favelas e constitui, por isso, uma das manifestações mais evidentes da natureza classista do aparelho jurídico do Estado numa sociedade capitalista. No entanto, em muitas entrevistas com os moradores de Pasárgada obtive declarações nas quais a ideia do mecanismo de feedback é subentendida. Eis uma declaração típica: "parece que, somente porque a terra não é nossa, o Estado não tem obrigação de nos fornecer água e luz elétrica e a Polícia pode invadir nossas casas quando bem entende. Existem mesmo patrões que recusam candidatos a emprego quando estes dão endereço numa favela". O significado implícito deste extrato de entrevista é que, de acordo com os princípios de justiça, a ilegalidade da posse da terra nas favelas não se deveria repercutir sobre a provisão de serviços públicos pelo Estado ou sobre o comportamento da Polícia e dos patrões. No contexto em que esta declaração foi feita, significa também que o mecanismo de feedback, embora existindo de fato, não é sequer legal em face do sistema jurídico oficial. Na realidade, o feedback é legal no que respeita à provisão de serviços públicos referidos. De acordo com as leis gerais e com as disposições do código urbano, o fornecimento por parte do Estado de serviços públicos, tais como água, esgoto, luz elétrica, pavimentação, é limitada a áreas cuja utilização tenha sido aprovada nos termos da legislação em vigor. UNIDADE 1 | A URBANIZAÇÃO DA PERIFERIA, UMA CONSEQUÊNCIA DO CAPITALISMO 28 No que respeita ao comportamento da Polícia, foi possível, depois de algumas entrevistas com policiais trabalhando noutras favelas, confirmar a disparidade entre o direito nos livros e o direito na prática. Indiferente ao disposto na lei, a Polícia tende a agir segundo o princípio de que, uma vez que os favelados estão ilegalmente domiciliados, não têm razões para reclamar quando a Polícia invade suas casas "no cumprimento do dever”. A análise da expressão "nós éramos e somos ilegais" parece indicar que a ideia de uma capitis diminutio geral (de uma ilegalidade quase existencial) e a prática social em que ela se espelhou e reforçou agiram como fatores bloqueantes do acesso aos tribunais. O estatuto (e, portanto, os limites) desta declaração de ilegalidade encontra-se precisado na expressão, também já mencionada, de que "os tribunais têm que observar o código e pelo código nós não tínhamos nenhum direito". Juntamente com a anterior, esta citação mostra a ambiguidade profunda da consciência popular do direito nas sociedades caracterizadas por grandes diferenças de classes. Por um lado, a apreciação realista de que o direito do Estado é o que está nos códigos e de que nem estes nem os juízes, que têm por obrigação aplicá-lo, se preocupam com as exigências de justiça social. Por outro lado, o reconhecimento implícito da existência de um outro direito, para além dos códigos e muito mais justo que estes, à luz do qual são devidamente avaliadas as condições duríssimas em que as classes baixas são obrigadas a lutar pelo direito à habitação. CONCLUSÃO Da discussão procedente conclui-se que, para além das razões diretamente econômicas, o estatuto de ilegalidade da comunidade favelada e o bloqueamento ideológico que lhe foi concomitante criaram uma situação de indisponibilidade ou inacessibilidade estrutural dos mecanismos oficiais de ordenação e controle social. Esta situação poderia ter sido de algum modo neutralizada, se, entretanto, se tivessem desenvolvido na comunidade mecanismos internos, informais e não oficiais, capazes de articular e exercer uma legalidade e uma jurisdição alternativas para vigorar dentro da comunidade. Sucede, no entanto, que na fase da história de Pasárgada que estamos a analisar, tais mecanismos não surgiram e nem surpreende que assim tenha sido. A existência de tais mecanismos pressupõe um índice bastante elevado de organização comunitária, que obviamente não existia ao tempo. Mesmo hoje, numa altura em que Pasárgada é já uma velha e estável comunidade, a sua organização é ainda baseada numa pluralidade de redes de ação social frouxamente estruturadas. É de suspeitar que, quando a comunidade era muito mais jovem e ainda em processo de formação, a sua organização social fosse ainda mais precária e totalmente desprovida de qualquer polo centralizador. A indisponibilidade estrutural dos mecanismos oficiais da ordenação e controle social e a ausência de mecanismos não oficiais comunitários criaram uma situação que designarei por privatização possessiva do direito. É uma TÓPICO 2 | A CIDADE: LEGAL x ILEGAL 29 situação susceptível de ocorrer, por exemplo, em sociedades muito jovens constituídas à margem dos estatutos organizativos definidos, como é o caso da sociedade de fronteira, ou em sociedades em fase de ruptura (devido a revolução, guerra, etc.) e de desestruturação e reestruturação profundas. Esta situação caracteriza-se pela apropriação individual da criação e aplicaçãodas normas que regem potencialmente a conduta social. Cada unidade social constitui-se em centro de produção de juridicidade com uma vocação universalizante circunscrita à esfera dos interesses econômicos ou outros dessa mesma unidade. Na medida em que a realização social de tais interesses se processa harmoniosamente, isto é, sem ocorrência de conflitos entre os vários centros individuais de juridicidade, a relação entre estes é de extrema autonomia e tolerância recíprocas. No momento, porém, em que os conflitos surgem, o choque não é meramente entre reivindicações fáticas ou normas jurídicas isoladas, é antes entre duas ordens jurídicas, duas pretensões globais de juridicidade ou ainda entre duas vocações contraditórias (mutuamente exclusivas) de universalização jurídica. Nestas condições, o conflito atinge rapidamente uma intensidade extrema, pois que tende a generalizar-se a todas as relações sociais entre as partes conflitantes, inclusivamente àquelas não envolvidas inicialmente no conflito. O conflito é entre dois poderes soberanos entre os quais nenhum poder mediador pode interceder. É um conflito global e insolúvel. Cria-se, assim, uma situação de suspensão jurídica, ou melhor, de a juridicidade cuja superação tende a ser determinada pela violência. A privatização possessiva do direito constitui-se por uma dialética entre a tolerância extrema e a violência próxima. É esta a dialética que se detecta em Pasárgada na fase da sua história que estivemos a analisar. FONTE: Adaptado de <http://www.dhnet.org.br/direitos/militantes/boaventura/boaventura1d.html>. Acesso em: 4 mar. 2016. Em relação à produção ilegal das cidades, pode-se afirmar que os governos municipais são os maiores responsáveis em controlar tal ato, porém estes se tornam tolerantes e acabam não respeitando as leis de ocupação do solo. A gestão pública urbana segue uma ideia centralizadora, reprovando a inclusão no orçamento público para resolver as questões emergentes das demandas que surgem sobre o processo de urbanização. As ações públicas acabam sendo restritas e pontuais em períodos eleitorais ou então em troca de favorecimento político, constituindo um ciclo vicioso de fortalecimento do chamado “clientelismo político”. Partindo de uma análise, sem muita profundidade, de todas as cidades brasileiras, pode-se perceber que a relação entre a moradia e a degradação ambiental é estreita e direta, isso significa que a produção imobiliária privada ou pública afeta diretamente o meio ambiente. Como, por exemplo, a construção de um condomínio habitacional, tanto construído por uma incorporada do mercado imobiliário, como um condomínio popular, destinado a atender à demanda UNIDADE 1 | A URBANIZAÇÃO DA PERIFERIA, UMA CONSEQUÊNCIA DO CAPITALISMO 30 habitacional de uma cidade, está inserido em uma área da cidade, a qual tem uma relação ambiental determinante, e que acaba sendo afetada, por diversos fatores, como um desmatamento, obras de saneamento, calçamento e outras. Além de outros exemplos, como a construção de áreas de lazer, unidades de saúde, escolas, todas diretamente afetam o meio ambiente. Cabe aqui, como acadêmicos e futuros profissionais, percebermos que a grande maioria das áreas urbanas que são consideradas de proteção ambiental já está ameaçada pela ocupação habitacional irregular e desordenada. A população em vulnerabilidade social não teve alternativas para buscar uma solução ao acesso à moradia. Esse processo acaba tendo consequências graves para toda a cidade, que vão desde a baixa qualidade da água consumida pela população, pela contaminação dos rios, bem como a contaminação por doenças. Para Maricato (1995, p. 35): Se, de um lado, o crescimento urbano foi intenso e o Estado teve dificuldades de responder às dimensões da demanda, de outro, a tolerância para com essa ocupação anárquica do solo está coerente com a lógica do mercado fundiário capitalista, restrito, especulativo, discriminatório e com o investimento público concentrado. Os governos municipais, para tentar atender às demandas das questões da urbanização, no final dos anos 80 e início dos anos 90, começam a investir em muitas cidades e na urbanização ou verticalização das favelas. Maricato (1995, p.36) relata um dos casos concretos desse período: Durante a construção de conjunto habitacional em Goiânia, em 1985, cujo apelo publicitário se referia ao fato como “O mutirão de Goiás: mil casas em cada um dia”, uma câmara de TV foi fixada em um mesmo ponto durante as 24 horas de montagem das casas, montagem esta que foi feita com os componentes e painéis previamente produzidos e localizados em cada lote. Toda a produção para o performático evento foi minuciosamente planejada, com vários meses de antecedência. O filme resultante, projetado largamente na mídia, em velocidade acelerada, mostrava o milagre do erguimento das mil casas em um minuto. Após esse dia, 1000 famílias foram retiradas da cidade e isoladas em um conjunto situado a 12 km das áreas urbanizadas de Goiânia. Perderam as poucas oportunidades de ganho devido à precariedade e ao alto custo dos transportes, mas em compensação, o então governador de Goiás conseguiu indicar seu secretário de Planejamento, idealizador do “mutirão das mil casas em um dia”, para o Ministério do Desenvolvimento Urbano do governo federal, logo depois. Outro exemplo podemos perceber na gestão da prefeita Luiza Erundina, 1989/1993, em São Paulo, que iniciou o subprograma do Programa de Urbanização de Favelas, a verticalização das favelas, e durante 1993/1995, o prefeito Paulo Maluf realizou a entrega de 840 apartamentos, o chamado Projeto Cingapura, que incidiu na mudança de barracos, casebres nas favelas, por apartamentos em edifícios. Essa verticalização passou a ideia de que todas as favelas da cidade estavam sendo substituídas por condomínios habitacionais, dando uma maior visibilidade e valorização pelo mercado imobiliário. TÓPICO 2 | A CIDADE: LEGAL x ILEGAL 31 FIGURA 4 – PROJETO CINGAPURA FONTE: Disponível em: <http://postcolonialist.com/civil-discourse/licoes-de-sao- paulo-uma-mudanca-merecida-na-politica-urbana/:>. Acesso em: 6 mar. 2016. Por meio de avaliações técnicas urbanísticas, nas quais vários fatores eram considerados, não era viável a verticalização, já que o processo de urbanização era muito mais econômico que a construção de novos edifícios. As favelas passaram por transformações através dos projetos de urbanização das áreas irregulares e da integração urbanística dessas comunidades com o contexto local. Sendo assim, mais famílias poderiam ser beneficiadas. Porém, o conceito de modernidade, explorado em campanhas publicitárias, é explícito através das imagens dos edifícios construídos no lugar das favelas, ou de resolutividade das demandas urbanísticas e habitacionais em soluções rápidas e concretas. ESTUDOS FU TUROS Esses dois projetos, de resolutividade das demandas urbanísticas e habitacionais em soluções rápidas e concretas serão avaliados no decorrer dos próximos tópicos. UNIDADE 1 | A URBANIZAÇÃO DA PERIFERIA, UMA CONSEQUÊNCIA DO CAPITALISMO 32 NOTA Vamos aprofundar os estudos? Faça a leitura do livro abaixo que trata de uma pesquisa qualitativa de natureza etnográfica realizada em duas periferias da cidade de São Paulo. Seu objetivo é refletir sobre os jogos de poder e as relações de força que explicam a violência urbana, bem como as relações de trabalho. 33 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, vimos que: • Durante os anos de 1940, os representantes políticos brasileiros tinham visões diferentes. Alguns visavam as cidades como sendo o mecanismo de avanço e outros como um modelo de erradicação da modernidade. • Nos anos de 1990, essas mesmas cidades tinham um potencial de urbanização e de industrialização. • O desenvolvimento urbano passou a ser visto como futuro das cidades. • A divisão externa e interna do capital excedente econômico, que é uma consequência de vantagense regalias no desenvolvimento do pensamento burguês, ou seja, heranças do sistema colonial que ficaram enraizadas no processo de modernização e urbanização, trouxe a exclusão das classes sociais de baixa renda no seu processo histórico e social. • A questão da ilegalidade é um dos instrumentos que permite a criação de critérios para impor conceitos fundamentais para a compreensão da conjuntura, como, por exemplo, o conceito de exclusão, de segregação social, ambiental, cultural, econômica, política. • A estruturação, o fortalecimento e o crescimento do mercado imobiliário estão diretamente ligados ao surgimento de leis específicas para as questões urbanas, conforme o interesse de cada grupo. • A imprecisão que existe entre o legal e o ilegal vai além da totalidade do conjunto da sociedade, pois não se pode referenciar como um “Estado paralelo”, e sim como uma realidade bem mais intrínseca do que aquela que estamos acostumados a visualizar. • O processo de individualização e de mercantilização do uso da terra estrutura um dos cernes da exclusão populacional do meio rural, sendo definida como Questão Agrária. • Em relação à produção ilegal das cidades, pode-se afirmar que os governos municipais são os maiores responsáveis em controlar tal ato, porém estes se tornam tolerantes e acabam não respeitando as leis de ocupação do solo. • As ações públicas acabam sendo restritas e pontuais em períodos eleitorais ou então em troca do favorecimento político, constituindo um ciclo vicioso de fortalecimento do chamado “clientelismo político”. 34 • Os governos municipais, para tentar atender às demandas das questões da urbanização, no final dos anos 80 e início dos anos 90, começam a investir em muitas cidades e na urbanização ou verticalização das favelas. • Por meio de avaliações técnicas urbanísticas, onde vários fatores eram considerados, não era viável a verticalização, na qual o processo de urbanização era muito mais econômico que a construção de novos edifícios. 35 1 Analisando os artigos 182 e 183 da Constituição Federal, é possível constar que os mesmos tem como objetivo estabelecer os parâmetros para a política urbana, os quais estão regulamentados na Lei nº 10.257, de julho de 2001, o Estatuto da Cidade. Diante do Estatuto da Cidade, avalie os itens abaixo, sobre a constituição de uma diretriz para a elaboração da política urbana. I- Prevê o planejamento do desenvolvimento das cidades brasileiras. II- Dispõe sobre a regularização fundiária e urbanização de áreas ocupadas, por população com baixa renda mensal. III- Obriga a desapropriação de solo urbano para fins somente da constituição de zonas de interesse social. IV- Cria o imposto territorial progressivo para terrenos subutilizados nas zonas urbanas centrais da cidade. V- Planeja a relação de integração e complementaridade entre as atividades urbanas e rurais, com vista para o desenvolvimento socioeconômico do município e do território sob sua área de influência. Estão corretos apenas os itens: a) ( ) I, II e III. b) ( ) I, II e V. c) ( ) I, III e IV. d) ( ) II, IV e V. e) ( ) III, IV e V. AUTOATIVIDADE 36 37 TÓPICO 3 A VIOLÊNCIA URBANA E A SEGREGAÇÃO AMBIENTAL UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Este terceiro tópico tem como foco apresentar as sequelas do desenvolvimento urbano através da violência urbana. A questão social da moradia é um dos direitos humanos fundamentais que está garantido na Constituição Federal de 1988. Atualmente, uma das maiores demandas da questão habitacional está no atendimento para a população que possui um menor poder de aquisição. Mesmo que nos últimos anos o investimento na Política Nacional de Habitação tenha sido bem maior, ainda não se consegue efetivar de fato uma universalização deste direito. A compreensão da violência urbana precisa ser feita de maneira crítica e reflexiva, pois se faz necessário avaliar as políticas públicas desenvolvidas pelas autoridades políticas, visando a diminuição do índice desse tipo de violência. A violência urbana é uma questão social que está inserida na realidade da sociedade neste milênio, sendo um reflexo do crescimento desordenado das nossas cidades brasileiras. Como assistente social, precisamos ter a clareza da atuação profissional sobre essas mazelas do sistema capitalista. 2 A VIOLÊNCIA URBANA x DESENVOLVIMENTO URBANO Neste novo milênio, uma das questões sociais de maior relevância para a população que reside nas cidades é a violência urbana que está inserida em todas as cidades de grande, médio e pequeno porte. Independentemente do tamanho das cidades, as diversas delinquências ocorrem, deixando a população ansiosa e com medo das causas do excessivo aumento dos números da violência. Na sociedade contemporânea, o acesso à informação é muito rápido, os meios de comunicação, através de toda forma de mídia, estão atualizando a população a todo momento sobre as diferentes notícias que acontecem, e não é diferente em relação à violência. Ao acessarmos as redes sociais, somos soterrados por assuntos de crimes e atos delituosos. Em tempos não tão remotos, não se tinha 38 UNIDADE 1 | A URBANIZAÇÃO DA PERIFERIA, UMA CONSEQUÊNCIA DO CAPITALISMO tanto acesso às notícias como em tempos atuais. Falar em violência em cidades de médio e pequeno porte era uma realidade tão distante, que estava associada ao surgimento dos chamados bolsões de pobreza. Para Pinheiro (2003), o tema violência urbana altera as funções das cidades, reduzindo os poucos recursos públicos, afetando de forma dilaceradora jovens, crianças, idosos, famílias. Ao abordarmos o tema sobre violência urbana, precisamos levar em consideração os aspectos sociais influenciados pela política econômica, seus impactos para as instituições públicas, sociais e privadas, a forma como essa questão vem se polarizando nos espaços urbanos, principalmente nas áreas consideradas como favelas, e quais são as estratégicas que essa população precisa criar para conseguir sobreviver ao sistema capitalista. A violência urbana, como uma questão social, está sendo generalizada pela mídia, passando a responsabilidade para a população carente e excluída sem levar em consideração todo o contexto social e econômico. Como futuros profissionais, temos que ter zelo para não reproduzirmos o censo comum sobre os fatos e realizarmos uma análise conjuntural do todo. Perante isso, é preciso compreender que as cidades eram consideradas como um meio de civilização, e atualmente são vistas como um organismo segregado e longe de ser civilizado. Relacionado às divisões territoriais, Pedrazzini (2006) afirma que as sociedades urbanas instauraram diferentes técnicas de ocupações irregulares no interior das cidades, como forma de mostrar as diversas classes sociais. O empobrecimento da classe média, causada pelos baixos salários e o aumento do desemprego, tem aumentado, ao longo da história do Brasil, o número de pessoas em situação de vulnerabilidade social, gerando assim diferentes crimes, como furtos, roubos e assaltos contra o patrimônio. A sociedade brasileira está passando por momentos de conflito interno, pois além dos crimes contra o patrimônio, é possível elencar uma série de atos que são consequências do crescimento desordenado de nossas cidades, como, por exemplo: a ocupação de áreas irregulares e de obras em construção, a depreciação dos equipamentos destinados a uso coletivo, a depredação e agressão ao meio ambiente, drogadição e outros. Estes sintomas mostram o quanto os centros urbanos, cidades, expandiram- se, fazendo surgir áreas periféricas. Consequentemente, devido às precárias condições de vida das pessoas e também da degradação ambiental, tem-se como reflexo a violência urbana. A exclusão e a exploração das classes sociais são o resultado do sistema capitalista. O reflexo dessa sociedade desigual acontece através da criação do mercado, da industrialização, da proletarização dos trabalhadores e das fábricas.TÓPICO 3 | A VIOLÊNCIA URBANA E A SEGREGAÇÃO AMBIENTAL 39 O autor Pedrazzini (2006) defende que as divisões urbanas estabelecidas não são e não atuam de forma socialmente neutras, elas operam e atuam em benefício dos interesses da minoria e contra a maioria, ou seja, dos trabalhadores, da classe menos favorecida, e isto preocupa muitos pensadores, pela ideologia que defendem. Desprovida de qualquer meio de sobrevivência, a população em situação de vulnerabilidade social precisa criar mecanismos para conseguir se inserir no contexto da sociedade, mediada pelos princípios neoliberais. DICAS Reveja o conceito de neoliberalismo no seu caderno de estudos da disciplina: O Serviço Social e o Capitalismo. A desestruturação das cidades, em todos os seus aspectos mais visíveis, como a informalidade do espaço, da economia e social, se solidificou no decorrer da história como configurações de reprodução social, contextualizada na família, no trabalho e na educação. A população residente nesses espaços informais acostuma-se com a situação imposta de vulnerabilidade, ou até do senso comum, e não consegue compreender de maneira crítica o que a levou a estar em tal situação. Um exemplo de senso comum, neste contexto, é quando se referem às favelas como um espaço de violência urbana, de tráfico de drogas, ou então, outros exemplos, que se ouve muito: “São pobres porque querem, emprego tem! ”. “Todo pobre não dá valor ao que ganha!”.... Segundo Pedrazzini (2006, p. 91), a violência urbana: [...] deve ser analisada como parte de um sistema socioespacial dinâmico cujos elementos estruturantes seriam a economia liberal globalizada e a cidade como modelo ambiental hegemônico. Diante desses dois elementos fundadores da nossa “civilização”, entrariam outros componentes especificamente sociais (crescimento das desigualdades), políticos (criminalidade da pobreza), espaciais (fragmentação do território) ou ideológicos (sujeição da democracia à segurança), os quais se combinam entre si para traçar um projeto de sociedade selvagem e inquietante. O autor reforça a importância de analisar a forma como os principais setores da economia instauram modelos de urbanismo, de arquitetura e das chamadas “cidades globais”, e desde quando a urbanização contemporânea e globalizada começou a desenvolver práticas que elevaram o índice da violência urbana. 40 UNIDADE 1 | A URBANIZAÇÃO DA PERIFERIA, UMA CONSEQUÊNCIA DO CAPITALISMO A divisão das cidades contemporâneas em “pedaços” antagônicos torna- se um espaço de convivência perigosa, pois os conflitos existentes se transformam em um jogo de forças de interesses econômicos, políticos e sociais. Na década de 80, os programas de estabilização da macroeconomia e também pelo ajuste estrutural determinado pelo Fundo Monetário Internacional (FMI) e do Banco Mundial aos países que estavam em desenvolvimento, visavam a renegociação das dívidas, resultando no empobrecimento de milhões de pessoas. Alguns programas, como o Programa de Ajuste Estrutural (PAES), colaboraram para a desestabilização das moedas nacionais e queda da economia dos países que estavam em desenvolvimento. Segundo Chossudovsky (1999), o PAES teve uma atuação importante na alteração da economia nacional dos países que estavam endividados com o FMI e com o Banco Mundial, recompondo-os na economia global. Essa nova economia provocou algumas mudanças nas estruturas de produção e de consumo nacionais, acarretando na diminuição dos custos da mão de obra e no declínio dos níveis de consumo de massa, pela maioria da população. Enquanto a grande maioria da população teve uma queda no seu poder de consumo, a classe considerada de alta renda teve um aumento no consumo de bens duráveis e de luxo. A disparidade entre as classes sociais trouxe à tona uma consecutiva onda de violência urbana. Pedrazzini (2006, p. 73) defende que essas causalidades: Apesar de difíceis de serem comprovadas pela natureza de sua complexidade e superposição dos múltiplos níveis de realidade – não impedem que o observador dos fatos sociais urbanos questione a violência urbana na sociedade contemporânea. Diante da afirmação do autor, como profissionais, precisamos ter a compreensão da realidade vivida pela população, e também contextualizar e entender os problemas sociais em que ela está envolvida, como a questão do acesso à saúde, do saneamento básico, da habitação e outros, pois essas questões sociais moldam a forma de ser, pensar e agir das pessoas. Devemos estar desprovidos de qualquer forma de “pré-conceitos” sobre os tipos de conflitos urbanos, temos que identificar a violência urbana e sua origem, e sair do senso comum que a sociedade impõe, onde a violência acontece somente nos territórios mais pobres, com menor condição de habitabilidade. O nosso papel é desmistificar essa situação que acaba fragmentando ainda mais as cidades. Faz-se necessário ir a campo, ir até à população, ir para a periferia, atuar profissionalmente nestas áreas, utilizando todos os instrumentos oferecidos pelas políticas públicas e também pelo setor privado e social. Buscar junto a essa população as respostas sobre as questões da violência urbana. TÓPICO 3 | A VIOLÊNCIA URBANA E A SEGREGAÇÃO AMBIENTAL 41 Não se pode negar que as áreas mais afetadas pelos conflitos do desenvolvimento urbano, pelas articulações da globalização e pela sociedade capitalista, são os territórios mais pobres, as ocupações irregulares, pois são os resultados concretos das consequências da política liberal mundial. Outro fator que não se pode negar é que os governantes são os principais responsáveis por esta situação, pela falta de políticas públicas que ofereçam proteção à população em todos os sentidos, não apenas em relação à violência urbana, mas que ofereçam habitação, emprego e renda, saúde, assistência social, cultura, esporte, lazer etc. O fenômeno da violência urbana é instituído por inúmeras situações de conflitos incontroláveis, pelo domínio de todos os poderes públicos, pela iniciativa privada e pelo terceiro setor. Perante toda a complexidade das questões relacionadas à violência urbana, torna-se necessário compreendê-la e pesquisá-la em um conjunto interdisciplinar, para que tenhamos uma base teórica e um conhecimento científico, e que os resultados possam contribuir com a redução desse tipo de violência, por meio da elaboração e implementação das políticas públicas que visem o planejamento do desenvolvimento urbano e ambiental. O que temos hoje é uma sociedade enfraquecida de suas origens tradicionais, com seus valores solidários rompidos, onde a individualização do ser humano passou a ser um quesito no processo do desenvolvimento urbano. Estamos vivendo em uma sociedade individualista e de consumo. Individualista porque o cidadão é levado a se isolar de uma vida comunitária, entrando na onda da competitividade do sistema capitalista; e de consumo, pois os meios de comunicação oferecem, minuto a minuto, produtos que concebem a imagem dos padrões de conforto. A felicidade plena, nesse sistema, só é possível com o poder de posse de diversos bens materiais. Pode-se constatar que os moradores das cidades têm se isolado em suas próprias habitações, tornando-as imensas fortalezas, onde não somente nas cidades de grande porte, metrópoles ou capitais, mas em todas as cidades de médio e pequeno porte, têm suas residências tomadas por grades de ferro nas janelas, cercas elétricas, sistema de segurança via internet e até placas identificando a empresa de segurança privada que fazem o monitoramento destas casas 24 horas por dia. Com certeza, você deve estar se perguntado: o que isso tudo tem a ver com as políticas de habitação e com o desenvolvimento urbano? Para Maricato (1995, p. 45): A violência e o medo passam a fazer parte do cotidiano nas áreas concentradoras de pobreza. À violência presente nas condições ambientais e urbanas de vida e também na relação de trabalho, soma-se a convivênciacom a execução sumária de parentes, amigos ou vizinhos, mais frequentemente de jovens. As mortes podem ter origens nas brigas de gangues, mas também podem resultar de ação de bandidos ou dos próprios policiais. 42 UNIDADE 1 | A URBANIZAÇÃO DA PERIFERIA, UMA CONSEQUÊNCIA DO CAPITALISMO Diante dessa realidade, os segmentos populares estabelecem uma afinidade ambígua e interligada ao medo e ao temor, em relação aos infratores e os agentes da lei. Essa população vive o seu dia a dia entre o mundo da violência, dos ladrões, bandidos e criminosos e também da coerção policial, que, muitas vezes, pode se apresentar como abuso de poder. Maricato (1995, p. 45), em seu livro Metrópole na Periferia do Capitalismo: Ilegalidade, Desigualdade e Violência, apresenta um breve resumo da pesquisa realizada pelo sociólogo e professor da Universidade de Binghamton, em Binghamton, Nova York: James Petra, professor da Universidade do Estado de Nova York, pesquisou a relação entre desindustrialização e delinquência em cinco cidades norte-americanas - Detroit, Nova York, Boston, Chicago e Newark - durante um período de 38 anos, de 1950 a 1988, para concluir que há uma relação direta entre desemprego industrial e aumento da delinquência. Segundo Petra, não é apenas a pobreza, causa direta do aumento de roubos e homicídios, mas a perda da integração à sociedade, a estabilidade da família, como também a perda da autoridade do chefe de família desempregado. Sem perspectiva de trabalho ou pelo menos a segurança de um trabalho regular; sem estímulo para estudar, discriminada pela cor e pela pobreza; envolvida por uma intensa publicidade que liga felicidade ao padrão de consumo inatingível; partícipe de uma realidade social desigual e arbitrária além de fetichista, na qual convivem extremos de carências básicas e o consumo conspícuo; submetida a uma relação de favor com os políticos; crescendo em contato com a violência no cotidiano e tendo o crescente aumento das drogas como possibilidade de fuga e eventualmente de ganhos rápidos e fartos, essa é a realidade da imensa massa de jovens que habitam as periferias metropolitanas. Essa falta de cidadania, onde os direitos sociais são inexistentes, onde não existe o investimento de políticas públicas, o crime organizado ganha espaço e se fortalece por meio, principalmente, do tráfico de drogas, usando como meio de repasse crianças, adolescentes, jovens e adultos, fortalecendo a exclusão social. Quando falamos em exclusão temos que pensar nela em sua mais profunda totalidade, em seus diferentes aspectos. Como exemplo pode ser citada a discriminação por raça, cor, gênero, origem, idade, cultura, econômica, política, social e ambiental. A consequência principal destes aspectos da exclusão é sem dúvida a violência, que de certa maneira acaba discriminando a população pela renda per capita, pelo nível de educação e/ou pelas condições de moradia. A exclusão traz como centro de seu processo a ilegalidade, seja ela nas relações de trabalho, por meio do subemprego, a ilegalidade no cumprimento das leis e da ação policial, a ilegalidade nas condições de moradia, a ausência do Estado, que não deixa de ser uma forma de ilegalidade, conforme a Constituição Federal de 1988, agindo de forma paternalista, clientelista e repressora. TÓPICO 3 | A VIOLÊNCIA URBANA E A SEGREGAÇÃO AMBIENTAL 43 Em todas as esferas governamentais é visível o desprezo que os governantes têm em relação ao contexto da cidade, com o espaço, o território e os recursos ambientais, gerando assim sérios problemas decorrentes das ocupações irregulares. Esse desprezo com o todo vem desde o período do descobrimento do Brasil, através da exploração predatória extensiva, como o Ciclo do Pau–Brasil ao esgotamento das grandes reservas naturais. Essas ações, até o final do século XX, eram descuidadas, visavam um retorno rápido e imediato. FIGURA 5 - DESMATAMENTO FONTE: Disponível em: <http://www.jornalrondoniavip.com.br/noticia/crime-ambiental- desmate-na-amazonia-sobe-195-em-marco,geral,18127.html>. Acesso em: 11 mar. 2016. As áreas mais dramáticas das ocupações irregulares estão concentradas nas cidades metrópoles e atingem uma grande quantidade de pessoas, devido às grandes contradições e desigualdades impostas pelo sistema, tornando-se impossível a separação entre o espaço construído e a sociedade. Sabe-se que o espaço é o meio de produção e que está submetido em algumas relações de apropriação, é a forma como o ambiente é construído que resulta na força produtiva. Alguns filósofos e sociólogos, como Lefebvre, Foucault e Harvey, destacam a importância que o espaço tem para o exercício do poder, onde é um elemento ontológico de igual importância para a relação do capital e do trabalho. Esses pensadores ainda defendem que o Estado gera a construção estrutural de poder no contexto do espaço, por meio da hierarquização das relações, e que são estratégicas para a sobrevivência do capitalismo. Lefebvre (1974) defende que a hegemonia do Estado é o espaço abstrato em contraposição ao espaço social, fundamentado em valores, normas e regras que modelam o espaço em mercadores e acarretam a segregação socioespacial. Para o autor, o urbanismo é considerado como um inimigo do urbano, pois contribui na construção de um mercado imobiliário capitalista, permeado nas relações de subordinação, de repressão social e de segregação do espaço urbano. 44 UNIDADE 1 | A URBANIZAÇÃO DA PERIFERIA, UMA CONSEQUÊNCIA DO CAPITALISMO FIGURA 6 – SEGREGAÇÃO SOCIOESPACIAL FONTE: Disponível em: <http://www.ebah.com.br/content/ABAAAfqvoAB/a- segregacao-grupos-imigrantes-no-concelho-viana-castelo>. Acesso em: 11 mar. 2016. É diante deste contexto de segregação socioespacial que se encontram os aspectos associados à violência urbana, e que refletem na legalidade e ilegalidade deste processo. Já Maricato (1995, p. 47) expõe que: Observando as áreas de concentração de pobreza nas metrópoles brasileiras, entretanto, o conflito que se estabelece não é entre o espaço social, construído através de relações complexas, libertárias, no cotidiano e o Estado normalizador e homogeneizador, apenas. Esse conflito de fato está presente nas lutas pela regularização fundiária (reconhecimento pelo Estado normalizador) ou pela implantação de infraestrutura nas áreas de ocupação ilegal. Mas existe, paralelamente, um anseio por integrar-se à cidade legal. ESTUDOS FU TUROS Na próxima unidade iremos abordar especificamente as questões relacionadas à regularização fundiária, mas já se pode relatar que a população que reside em áreas irregulares e passa pelo processo de urbanização e regularização fundiária se manifesta de forma muito favorável e satisfatória ao saber que aquele espaço territorial agora tem um proprietário, mesmo que isso resulte na cobrança de imposto predial e territorial - IPTU. TÓPICO 3 | A VIOLÊNCIA URBANA E A SEGREGAÇÃO AMBIENTAL 45 Historicamente, a política habitacional implementada no Brasil consiste em implementar conjuntos habitacionais com localização distante do centro urbano das cidades, e não dissociado da sociedade de forma desigual e discriminatória. Pode-se afirmar que a discriminação social e a segregação ambiental são duas formas de exclusão e ambas estão em sintonia, ou seja, no mesmo caminho. A diferença entre elas está nas características do mercado imobiliário, vigente na sociedade capitalista. Então, caros acadêmicos, com a segregação urbana, temos reflexos negativos em nossa sociedade, como o aumento do desemprego e a disseminação e reprodução da violência. A mudança desse panorama da segregação urbana só acontecerá se houver investimentos nas políticas públicas ambientais, em todas as regiões brasileiras, e que tenham como foco programas de geração de emprego e renda. DICAS Para um aprofundamento dos temas desse tópico, sugerimos que você leia o seguinte livro: As características do Brasil urbano impõem tarefas desafiadoras, e osarquitetos e planejadores urbanos não têm conhecimento acumulado nem experiência para lidar com elas. A dimensão da tragédia urbana brasileira está a exigir o desenvolvimento de respostas que devem partir, acreditamos, do conhecimento da realidade empírica, respaldado pelas informações científicas sobre o ambiente construído para evitar a formulação das “ideias fora do lugar”, tão características do planejamento urbano no Brasil. O objetivo deste livro é contribuir para um maior conhecimento da realidade brasileira e para o desmonte das construções ideológicas presentes, tanto nas representações sobre as nossas cidades quanto nos planos mágicos que nos propõem outros saltos para o futuro, além daqueles que uma parcela da sociedade brasileira já deu, buscando atalhos e ignorando o destino da maior parte da população restante. 46 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, vimos que: • Uma das questões sociais de maior relevância para a população que reside nas cidades é a violência urbana. • Na sociedade contemporânea, o acesso à informação é muito rápido, os meios de comunicação, através de toda forma de mídia, estão atualizando a população a todo momento sobre as diferentes notícias que acontecem, e não é diferente em relação à violência. • O tema sobre violência urbana precisa levar em consideração os aspectos sociais, influenciados pela política econômica e quais são seus impactos para as instituições públicas, sociais e privadas, e de que forma essa questão vem se polarizando nos espaços urbanos. • A nossa sociedade brasileira está passando por momentos de conflito interno, pois além dos crimes contra o patrimônio, é possível elencar uma série de atos que são consequências do crescimento desordenado de nossas cidades. • Os centros urbanos, cidades, expandiram-se, fazendo surgir áreas periféricas. Consequentemente, devido às precárias condições de vida das pessoas e também da degradação ambiental, tem-se como reflexo a violência urbana. • A desestruturação das cidades, em todos os seus aspectos mais visíveis, como a informalidade do espaço, da economia e social, se solidificou no decorrer da história como configurações de reprodução social, contextualizada na família, no trabalho e na educação. • A divisão das cidades contemporâneas em “pedaços” antagônicos torna-se um espaço de convivência perigosa, pois os conflitos existentes se transformam em um jogo de forças de interesses econômicos, políticos e sociais. • Como profissional, devemos estar desprovidos de qualquer forma de preconceitos sobre os tipos de conflitos urbanos, temos que identificar a violência urbana e sua origem, e sair do senso comum que a sociedade impõe, onde a violência acontece somente nos territórios mais pobres, com menor condição de habitabilidade. • Não se pode negar que as áreas mais afetadas pelos conflitos do desenvolvimento urbano, pelas articulações da globalização e pela sociedade capitalista, são os territórios mais pobres. 47 • O fenômeno da violência urbana é instituído por inúmeras situações de conflitos incontroláveis, pelo domínio de todos os poderes públicos, pela iniciativa privada e pelo terceiro setor. • O que temos hoje é uma sociedade enfraquecida de suas origens tradicionais, com seus valores solidários rompidos, onde a individualização do ser humano passou a ser um quesito no processo de desenvolvimento urbano. Estamos vivendo em uma sociedade individualista e de consumo. • Diante dessa realidade, os segmentos populares estabelecem uma afinidade ambígua e interligada ao medo e ao temor, em relação aos infratores e aos agentes da lei. • Com a falta de cidadania, onde os direitos sociais são inexistentes, onde não existe o investimento de políticas públicas, o crime organizado ganha espaço e se fortalece, por meio principalmente do tráfico de drogas. • Em todas as esferas governamentais é visível o desprezo que os governantes têm em relação ao contexto da cidade, com o espaço, o território e os recursos ambientais, gerando assim sérios problemas decorrentes das ocupações irregulares. • A áreas mais dramáticas das ocupações irregulares estão concentradas nas cidades metrópoles e atingem uma grande quantidade de pessoas, pelas grandes contradições e desigualdades impostas pelo sistema. • Historicamente, a política habitacional implementada no Brasil consiste em implementar conjuntos habitacionais com localização distante do centro urbano das cidades, e não dissociado da sociedade de forma desigual e discriminatória. 48 1 (Adaptado de ENADE, 2013) No dia a dia, somos levados por uma enxurrada de informações e noticiários sobre a questão da violência, e que perpassam na atuação do assiste social, como por exemplo, na violência contra crianças e mulheres, homofobia, violência urbana e outras, revelando a violação de direitos humanos fundamentais. Diante do projeto ético-político do Serviço Social, o profissional, quando se depara com essa situação, precisa: a) Agir de forma pontual e localizada. b) Não deve considerar a relação entre o singular e o universal. c) Estar restrito somente às relações domésticas. d) Agir de forma integrada , como o movimento que a produz e reproduz a violência, considerando toda a sociedade, através de condições sócio- históricas específicas, ultrapassando a imediaticidade e a sua naturalização. 2 “Analisar as múltiplas expressões da violência na contemporaneidade e suas relações com o Serviço Social nos diversos espaços sócio-ocupacionais em que os assistentes sociais atuam profissionalmente (IAMAMOTO; CARVALHO, 1985) é condição básica para um exercício teórico-prático crítico que se proponha a perseguir, perquirir e reconstruir (ainda que não exatamente) o movimento do real como ‘concreto pesado’ (MARX, 1989). Trata-se de uma iniciativa que, certamente, não se limita ao Serviço Social, mas o desafia no sentido de discutir a violência como uma categoria que se objetiva (heterogeneamente, mas não isoladamente), sob dadas condições sócio-históricas, como um complexo social que envolve essa profissão e seus profissionais e exige deles posicionamentos e ações que possam criar, reafirmar ou inibir processos violentos”. FONTE: Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pi- d=S1414-49802008000200012>. Acesso em: 18 mar. 2016. Com base na citação acima, apresente, através do seu ponto de vista, conceitos das questões de violência urbana, habitação e segregação social, ainda fazendo uma relação entre os três. AUTOATIVIDADE 49 TÓPICO 4 A CIDADE OCULTA UNIDADE 1 1 INTRODUÇÃO Chegamos ao último tópico da primeira unidade, que tem como tema a discussão sobre a cidade oculta. A expansão e o crescimento urbano no Brasil estão contextualizados por alguns aspectos e características particulares de grandes diversidades entre as classes sociais. O que vem a ser resultado do jogo de interesses sociais, econômicos, políticos, culturais e outros que se materializam mediante nossa estrutura de sociedade, e são beneficiadas conforme o interesse de cada grupo. A organização dos espaços urbanos se consolidou no Brasil para fornecer às cidades um instrumento histórico e social, mesmo que o conceito de cidade legal seja algo cada vez mais simbólico. O que se pretende apresentar neste tópico são ideias que, mesmo limitadas ao território brasileiro, poderão contribuir com novos subsídios para entender quais os elementos que visam uma unidade entre as diferentes realidades ocultas nas cidades, realidade dos centros urbanos x periferias. 2 A CIDADE OCULTA ENTRE O REAL E O IMAGINÁRIO: A REALIDADE BRASILEIRA No censo demográfico realizado pelo IBGE no ano de 2010, dados apontam que 84,40% da população brasileira vive nas cidades, e a tendência de construção de um país cada dia mais urbano vem se consolidando a cada momento. As barreiras e fronteiras formadas entre o meio rural e o meio urbano estão se tornando cada vez mais difusas, onde os hábitos e a culturaurbana permeiam também os espaços rurais. Como consequência, aumenta a importância das pequenas e médias cidades no meio urbano do Brasil, mas as metrópoles continuam concentrando a maior parte de renda e de riqueza da população. 50 UNIDADE 1 | A URBANIZAÇÃO DA PERIFERIA, UMA CONSEQUÊNCIA DO CAPITALISMO A estruturação atual das cidades faz com que elas ofereçam ao mesmo tempo ensejos diferentes, pois oferecem propriedades civilizatórias e de expressão das tendências à segregação e à desigualdade, que distinguem qual é a estrutura social em que estamos incluídos. O déficit habitacional, as carências da infraestrutura de saneamento básico, as demandas de mobilidade urbana, como o caos no trânsito, a carência e deficiência no atendimento de todas as políticas sociais e também a violência urbana, propagam-se nas cidades, como apresentado no tópico anterior. Historicamente, a urbanização brasileira vem se caracterizando pela expansão horizontal das fronteiras, gerando os vazios urbanos em seus espaços territoriais e internos para que se reproduza capital especulativo. As áreas como as favelas, os cortiços, os loteamentos clandestinos e irregulares assinalam o cenário das cidades de grande, médio e pequeno porte. Esses cenários se tornam fundamentais para a segregação urbana da população pobre, como também para a reprodução da força de trabalho e a redução dos custos, que são inerentes ao sistema capitalista. Contrapondo-se a este modelo de exclusão urbana, os subúrbios das cidades são ocupados pela classe média, através da edificação de condomínios fechados, reforçando a segregação socioespacial. Na história da sociedade brasileira, a produção e reprodução do déficit habitacional acontece expressando-se através das carências e precariedades de todas as regiões do país. A Fundação João Pinheiro (FJP), desde o ano de 1995, tem elaborado estudos sobre o déficit habitacional e sobre a inadequação dos domicílios construídos no Brasil. O estudo mais recente realizado pela FJP, sobre o Déficit Habitacional no Brasil, aconteceu entre 2011-2012, contendo informações sobre as necessidades habitacionais do nosso país, e é elaborado a partir dos dados das Pesquisas Nacionais por Amostras de Domicílios (PNAD) 2007-2012, que é elaborada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). DICAS Caro acadêmico: Acesse este link e aprofunde seus conhecimentos. <http:// www.cidades.gov.br/images/stories/ArquivosSNH/ArquivosPDF/Publicacoes/capacitacao/ publicacoes/deficit_habitacional_2011-2012.pdf>. Conforme os estudos da FJP, em 2012 o déficit habitacional estimado correspondia a 5,430 milhões de domicílios, sendo que 4,664 milhões, ou 85,9% são localizados nas áreas urbanas. O estudo ainda afirma que em relação ao estoque de domicílios particulares que são permanentes e improvisados, o déficit é correspondente a 8,5%, sendo 8,5% em áreas urbanas e 8,8% nas áreas rurais. TÓPICO 4 | A CIDADE OCULTA 51 Entre os anos 2011 e 2012 houve uma ligeira queda no percentual das unidades habitacionais urbanas, onde de 8,7% em 2011 foi para 8,5% em 2012. Já na área rural essa queda foi maior, passou em 2011 de 10,7% para 8,8% em 2012, isto significa um decréscimo de 151 mil unidades habitacionais no déficit habitacional brasileiro entre 2011 e 2012. Analisando, (FJP, 2015): Do total do déficit habitacional em 2012, 38,8% localizam-se na região Sudeste, o que corresponde a 2,108 milhões de unidades. Em seguida vem a região Nordeste, com 1,777 milhão de moradias estimadas como déficit, o que corresponde a 32,7% do total (gráf. 3.1). As nove áreas metropolitanas do país selecionadas pela Pnad possuem 1,556 milhão de domicílios classificados como déficit, o que representa 28,7% das carências habitacionais do país. No ano de 2003, no primeiro mandato do Presidente da República Luís Inácio Lula da Silva, foi criado o Ministério das Cidades (MC), que teve como principal foco desenvolver ações que visassem suprir o déficit habitacional, por meio de construções de unidades habitacionais, com ações articuladas juntamente com a mobilidade urbana, saneamento básico e o planejamento do desenvolvimento das cidades. Considerando o documento da FJP (2015), percebe-se que após a criação do MC, houve um aumento significativo nos investimentos em habitação e infraestrutura urbana, gerando assim um aumento expressivo nas ofertas de novas linhas de crédito habitacional do setor público, registrou-se um crescimento no volume de empréstimos através do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE), houve uma valorização nas aplicações do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) , além da definição de linhas para o orçamento destinado à urbanização de loteamentos irregulares e assentamentos precários, por intermédio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). Analisando os investimentos no setor habitacional, após a criação do MC, na ordem de R$ 7 bilhões no ano de 2002 para mais de R$ 62 milhões no ano de 2009. Em 2002 o SBPE aplicava o valor de R$ 1,7 bilhão e no ano de 2009 atingiu investimentos de R$ 33 bilhões. (BRASIL, 2013) Segundo uma pesquisa realizada pelo IPEA, em 2012: Em 2012, aproximadamente 74% do déficit era composto por famílias em domicílios com renda de até três salários mínimos, um aumento de 4%, se comparado aos valores observados em 2007. Houve redução para as demais faixas: o estrato com renda domiciliar entre três e cinco salários mínimos apresentou redução de 11,5% no período; no de renda domiciliar entre cinco e dez salários mínimos houve um decréscimo de cerca de 10% na sua participação do déficit; e o de renda domiciliar acima de dez salários mínimos reduziu sua participação em cerca de 30% no período. Isto reitera que o déficit continua sendo majoritariamente dos domicílios que estão no estrato de renda mais baixo. FONTE: Disponível em: <http://www.ipea.gov.br/portal/images/sto- ries/PDFs/nota_tecnica/131125_notatecnicadirur05.pdf>. Acesso em: 14 mar. 2016. 52 UNIDADE 1 | A URBANIZAÇÃO DA PERIFERIA, UMA CONSEQUÊNCIA DO CAPITALISMO Analisando Romagnoli (2016), percebe-se que a meta inicial estipulada do Programa Minha Casa Minha Vida (PMCMV) era a construção de um milhão de moradias para famílias com renda de até 10 salários mínimos, por meio da parceria do poder municipal e estadual, juntamente com a iniciativa privada e com um investimento da ordem de R$ 34 bilhões, tendo como meta a redução de 14% do déficit habitacional do Brasil. Após a Medida Provisória nº 510/2010, a meta estipulada para a construção de novas moradias foi mais de dois milhões de unidades habitacionais até o final de 2014. Na primeira fase do PMCMV, entre os anos de 2009 e 2010, foram edificadas aproximadamente 626 mil unidades habitacionais, sendo 492 mil unidades destinadas para famílias com renda de três a 10 salários mínimos. O PMCMV trouxe inovações no que se refere às questões da regularização fundiária de assentamentos urbanos consolidados, facilitando a obtenção da titularidade das moradias em nome dos beneficiários finais, como previne a obrigatoriedade de assistência técnica e/ou para a habitação de interesse social, e também do acompanhamento da implementação e execução das obras, através de representantes dos beneficiários do Programa, acontecendo assim um afastamento do PMCMV do Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social. Na primeira fase de industrialização do Brasil, a bandeira da Reforma Urbana foi adepta das lutas da população pobre em situação de vulnerabilidade social, e contra a segregação social e as precárias condições de moradia nas cidades brasileiras, ganhando espaço no decorrer do movimento pelas Reformas de Base, no governo João Goulart, quando se precipitava o processo de urbanização do país, juntamente com o período de industrialização da década de 1950. Para Alves e Cavenaghi (2016), até a década de 1950 o Brasil era considerado um país rural, tinha 64% da sua populaçãomorando no campo. Em passos acelerados, abriu espaço para um Brasil urbano, sendo que em 1960, 45% da população já estava vivendo nas cidades, chegando em 56% em 1970, durante o período da ditadura militar. A Reforma Urbana de 1963 teve como pauta a construção de moradias populares, domínio, controle do preço dos aluguéis e dos subsídios à população de baixa renda, agilidade nos procedimentos de desapropriação por interesse social e um acirrado controle da especulação imobiliária, que foi contida pela ditadura militar. Porém, a ditadura militar não conseguiu reprimir os processos sociais causados pela urbanização. A classe trabalhadora do país começou a ocupar novamente o cenário, ressurgindo com força no fim da década de 1970, com as lutas diretas contra o favoritismo, nos movimentos urbanos, na busca dos direitos essenciais, como o acesso ao saneamento básico, transporte público, saúde, educação, assistência social e moradia. Porém, a cidade, diante da dinâmica capitalista, visa atender aos interesses e necessidades de alguns grupos. TÓPICO 4 | A CIDADE OCULTA 53 Neste período, os construtores, loteadores, incorporadores imobiliários, empresas do setor de transporte urbano, empresas privadas e concessionárias de serviços públicos ficaram mais atuantes e se tornaram orgânicos no processo de espoliação do crescimento urbano, que dominou a sociedade do Brasil durante os últimos 30 anos. O Censo Demográfico de 2010 feito pelo IBGE aponta que com o desenvolvimento conservador com que a sociedade brasileira foi moldada, juntamente como os anos neoliberais, o resultado foi uma ampliação da pobreza urbana. Atualmente, temos mais de 84% da população residindo nas cidades, com este número o resultado que se tem é o aumento na segregação territorial, como o desenvolvimento de condomínios fechados e a expulsão da classe mais pobre das áreas consideradas mais valorizadas pelo mercado imobiliário. As cidades são tomadas pelo processo de mercantilização de seus espaços, podendo ser observado na esfera cultural, onde os shopping centers passam a se tornar a referência de lazer e de encontro cotidiano da população, onde antes aconteciam nas praças centrais das cidades. Diante da conexão com a lógica do sistema capitalista, de exclusão, o número de favelas no Brasil aumentou. O IBGE, no Censo Demográfico de 2010, classifica esses espaços como Aglomerados Subnormais. DICAS Aglomerados Subnormais: é o conjunto constituído por 51 ou mais unidades habitacionais caracterizadas por ausência de título de propriedade e pelo menos uma das características abaixo: - irregularidade das vias de circulação e do tamanho e forma dos lotes e/ou - carência de serviços públicos essenciais (como coleta de lixo, rede de esgoto, rede de água, energia elétrica e iluminação pública). Disponível em: <http://www.ibge.gov.br/home/ presidencia/noticias/imprensa/ppts/00000015164811202013480105748802.pdf Acessado em>. Acesso em: 15 mar. 2016. 54 UNIDADE 1 | A URBANIZAÇÃO DA PERIFERIA, UMA CONSEQUÊNCIA DO CAPITALISMO IMPORTANT E Caro acadêmico, é importante você acessar o site www.datafavela.com.br, do Instituto Data Favela, e analisar a realidade pesquisada: O Brasil tem 11.7 milhões de pessoas morando em favelas, o que equivale ao 5º estado do Brasil em população. As transformações, entretanto, não podem ser ignoradas, pois nos últimos dez anos, os moradores da classe média nas favelas brasileiras cresceram de 33% para 65%. Valendo ressaltar que estes moradores possuem renda anual de R$ 63.2 bilhões, o equivalente ao consumo total de países como Paraguai e Bolívia, sendo certo que mais de metade desse percentual está concentrada no Sudeste do Brasil. FONTE: Disponível em: <http://datafavela.com.br/ >. Acesso em: 15 mar. 2016. As situações fundiárias da grande maioria desses aglomerados são irregulares, e estes encontram-se localizados em áreas consideradas de risco, como encostas íngremes, sujeitas a desmoronamentos, áreas alagadiças, com cotas de enchentes, ou em áreas onde o solo é considerado instável. A população que reside nessas áreas está exposta a grandes riscos de tragédias urbanas decorrentes das chuvas. A carência de saneamento básico e de políticas públicas para a implementação faz desses espaços um dos maiores responsáveis pelas demandas da saúde pública no Brasil, além de ser uma ofensiva ao meio ambiente. FIGURA 7 - FALTA DE SANEAMENTO BÁSICO FONTE: Disponível em: <http://www.revistaecologico.com.br/noticia.php?id=2770>. Acesso em: 15 mar. 2016. Tendo em vista a realidade desses espaços, consegue-se realizar uma leitura sobre essa situação: TÓPICO 4 | A CIDADE OCULTA 55 DESENVOLVIMENTO URBANO O desenvolvimento urbano e a realidade das cidades Um estudo inédito sobre desenvolvimento urbano, denominado “How to make a city great” (Como fazer uma grande cidade), apontou algo já sabido, mas que não custa nada relembrar e, se possível, a todo o momento: uma grande cidade, para ser bem-sucedida, deve se destacar por três aspectos – economia, meio ambiente e sociedade. Outra constatação da pesquisa, e algo largamente discutido, é que não dá para ser uma grande cidade se não começar cuidando das questões primárias. Os três aspectos destacados no estudo realizado pela consultoria global McKinsey fomentam características decisivas para a cidade que tem como meta ser “grande” – e não é no sentido físico: capacidade de buscar crescimento inteligente e fazer mais com menos. Mas para se chegar ao objetivo é preciso foco no planejamento da cidade em si e de sua região metropolitana, na integração com o meio ambiente e na concepção de que todos devam se beneficiar da prosperidade do lugar. Esse tipo de constatação trazido à tona pelo levantamento só reforça que o básico não pode ser deixado de lado e que para ser uma grande cidade é preciso crescer; e só se cresce de forma saudável investindo, também, no bem- estar da população. Mas nem sempre é isso o que se vê em tantos e tantos municípios do extenso território brasileiro, que não terão a mínima chance de serem “grandes cidades” se não fizerem a lição de casa como se deve. Começar pelo básico – e essencial – é indiscutivelmente o melhor dos caminhos. E quando falamos em básico, saneamento é mandatório, afinal, é um tema tão relevante para uma cidade e sua população quanto educação e saúde. E mais: o saneamento é um direito essencial garantido constitucionalmente no Brasil. Esse reconhecimento legal é reflexo das profundas implicações desses serviços para a saúde pública e do ambiente, na medida em que sua carência pode influenciar de forma negativa campos como educação, trabalho, economia, biodiversidade etc. Mais uma prova de que o resultado do estudo que tratamos acima é urgente. UM ESTUDO REAL Ao observarmos os últimos números anunciados, mais uma vez nos deparamos com tal realidade. Embora os dados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD), realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), apresentados recentemente, tenham mostrado evolução para 1,5 milhão o número de domicílios atendidos com rede coletora de esgoto no ano de 2013, ainda há muito que se fazer. 56 UNIDADE 1 | A URBANIZAÇÃO DA PERIFERIA, UMA CONSEQUÊNCIA DO CAPITALISMO Mesmo com o aumento na proporção de domicílios que dispunham de saneamento básico em todas as regiões do país, de 63,3% em 2012 para 64,3% em 2013, atingindo 41,9 milhões de unidades atendidas, de acordo com a PNAD, os avanços são considerados lentos. O déficit na rede coletora de esgoto de 40,9% registrado em 2009, passados cinco anos, ainda está na casa dos 35%. Mais um estudo recente – Ranking do Saneamento Básico nas 100 Maiores Cidades do país com base no Sistema Nacional de Informação sobre Saneamento (SNIS, 2012) –, divulgado em agosto último pelo Instituto Trata Brasil, reforça esse fato. A média de população atendida por coleta de esgotos nos 100 locais pesquisados em 2012 foi de 62,46%.Quase 40 cidades possuem mais de 80% da população com coleta, entretanto, em 29% dos municípios, menos de 40% das pessoas têm acesso ao serviço. Contra os números não há o que negar. Eles revelam que os avanços nos serviços de água e esgotos, assim como na redução das perdas de água nas 100 maiores cidades, continuam lentos. Atentem para este dado: o volume de esgotos não tratados nesses lugares, portanto descartados por dia na natureza, foi de 2.959 piscinas olímpicas. Isso mostra que a falta de saneamento, além de um problema de saúde pública, continuará prejudicando a quantidade e qualidade dos recursos hídricos brasileiros. O ponto crucial é que, a se manterem os mesmos níveis de evolução encontrados de 2008 a 2012, não ocorrerá a tão sonhada universalização dos serviços em 20 anos! Assim, de volta ao começo, fica mais do que comprovado: é inviável a uma cidade querer se tonar “grande” sem atender o básico de seus munícipes. As pedras desse caminho são grandes, mas existe solução. Empresas especializadas em tecnologias para saneamento podem oferecer a assessoria para a realização de projetos de saneamento por meio da disponibilidade de experiências, produtos, profissionais qualificados, estrutura pré e pós- instalação e soluções integradas, que atendam a municípios de diversos tamanhos e variadas necessidades. FONTE: Adaptado de <http://www.revistaecologico.com.br/noticia.php?id=2770>. Acesso em: 15 mar. 2016. Outra demanda das cidades é em relação ao transporte coletivo de qualidade, o seu fornecimento, pois o que vem ocorrendo é a existência de monopólios privados de baixa qualidade e visando somente o lucro, sem a garantia de um serviço que zele pela segurança da população, onde são oferecidas frotas de ônibus sucateadas. Outros serviços fundamentais, como o fornecimento de energia elétrica e telefonia, estão em poder dos grupos privados, e que acabam oferecendo péssimos serviços para a população, com altas tarifas. Para enfrentar este cenário da precarização dos serviços é necessário que as forças sociais tenham uma maior compreensão global de como a dinâmica urbana se configura diante deste cenário nas cidades brasileiras. Com este foco, TÓPICO 4 | A CIDADE OCULTA 57 pode-se dizer que a Reforma Urbana passa a ser a base de um movimento pelo “direito à cidade”, como sendo um espaço democrático, coletivo e civilizado, onde garanta a igualdade das políticas públicas para todos. A Reforma Urbana luta por uma habitação de qualidade e digna para todos os cidadãos, propondo uma preservação de todas as reservas ambientais, como os mananciais e manguezais, buscando a conscientização para que não aconteça a ocupação de áreas consideradas de risco, prezando por transporte coletivo de qualidade, através da ampliação e ofertas de linhas e lutando pela concepção das cidades com ciclovias. A base da Reforma Urbana é solidificada pela falta de investimento público nas políticas de habitação popular e saneamento básico, como também em obras que ofereçam infraestrutura nos equipamentos das políticas públicas de saúde, educação, assistência social, transporte e outras. Mesmo que o governo federal tenha investido nos últimos anos nas políticas sociais para conseguir garantir o atendimento para toda a população em situação de vulnerabilidade social, é necessário que os subsídios de financiamento saiam da esfera burocrática administrada pelos bancos públicos, e que através de normas instituídas pelo Conselho Monetário Nacional, sejam criados preceitos onde os bancos privados, obrigatoriamente, ofereçam novas linhas de financiamento para a população de baixa renda. 58 UNIDADE 1 | A URBANIZAÇÃO DA PERIFERIA, UMA CONSEQUÊNCIA DO CAPITALISMO LEITURA COMPLEMENTAR A URBANIZAÇÃO E IMPACTOS AMBIENTAIS: UM FATO ANTIGO NA HISTÓRIA DO CAPITALISMO Prof. Dr. João Sette Whitaker Ferreira e Arq. Luciana Ferrara - LABHAB/FAUUSP Não é novidade que processos de urbanização estejam diretamente ligados ao aumento dos impactos ambientais. Em primeiro lugar porque, historicamente, o crescimento das cidades ocorre concomitantemente à industrialização, geralmente em territórios contíguos, e sabe-se dos efeitos desta última pela poluição do meio ambiente. Mas, além dos setores industriais, as aglomerações urbanas por si só são também impactantes, mesmo se representam, na história da humanidade, a solução mais racional para a convivência de uma população cada vez mais numerosa no planeta. Produzem grande consumo energético, movimentações de terra e impermeabilização do solo, desflorestamento, alto nível de emissões de gases poluentes, poluição dos corpos d’água, contaminação do solo, problemas ambientais diretamente decorrentes da urbanização. O processo civilizatório, em especial a partir da Revolução Industrial e do crescimento inexorável do consumo dos recursos naturais, não tem resistido a um balanço geral mais minucioso: os bens da natureza não só são exageradamente explorados como são extremamente mal repartidos. Sabe-se que, no mundo, cerca de 1.200 indivíduos mais ricos possuem patrimônio de 4,5 trilhões de dólares, superior ao dos 4 bilhões mais pobres, e que produzimos alimentos largamente suficientes para satisfazer a população mundial, embora se estime que cerca de um bilhão de habitantes da Terra passem fome. Esse desequilíbrio no desenvolvimento é a síntese da insustentabilidade e se rebate, evidentemente, nos processos de urbanização, que são o reflexo espacial das dinâmicas econômicas, culturais e políticas da nossa sociedade. Por isso, no âmbito das cidades, o balanço também é bastante negativo. Desde a Revolução Industrial, os países desenvolvidos tiveram que arcar com o pesado custo ambiental de seu crescimento econômico, que ocorreu de mãos dadas com o processo de urbanização. Por exemplo, na França, no período em que o país viveu sua mais intensa urbanização, passando de uma taxa de 62% para mais de 75% da sua população urbana, o parque de automóveis, símbolo da indústria do século 20, multiplicou-se da mesma forma que aumentaram as emissões de poluentes do ar, que atingiram seus mais altos índices entre as décadas de 1960 e 1990: o óxido de nitrogênio em ambientes urbanos, notadamente, passou de 20% para 60% do total das emissões, no período. Nenhum país que tenha promovido ou promova processos de crescimento econômico com urbanização poderá escapar de um aumento considerável dos impactos ambientais. É a realidade que atinge hoje os chamados países TÓPICO 4 | A CIDADE OCULTA 59 emergentes. Na virada do século 21, os embates ambientais nesses países aumentaram justamente em decorrência da pressão urbanizadora e da falta de alternativas imediatas para conter esse conflito. Os países desenvolvidos, diante da constatação do agravamento da questão ambiental, conseguiram refrear as emissões poluentes a partir dos anos 1990, ampliando a conscientização acerca da questão ambiental, gerando acordos internacionais de redução de emissões e promovendo políticas nacionais específicas, associadas à modernização tecnológica (como a intensificação do uso da energia elétrica). Porém, isso não impediu que esses países, em conjunto, ainda liderem as emissões de poluentes e enfrentem múltiplas desigualdades socioeconômicas e espaciais que se acentuam com a crise econômica e evidenciam problemáticas ambientais cada vez mais parecidas com as dos países do Sul. Mas disso não decorre que toda urbanização deva ser, obrigatoriamente, negativa. Como todo o processo de desenvolvimento da humanidade, ela se dá baseada no domínio da natureza e na permanente descoberta de tecnologias e, em teoria, deveríamos ser capazes de encontrar meios de superar a aparente impossibilidade de se promover um desenvolvimento e uma urbanização “sustentáveis”. No início do século 21, não é mais aceitável tratar da questão dos impactos ambientais urbanos a partir dos mesmos referenciais dos séculos passados, como se a única alternativapara os países do Sul fosse repetir os mesmos processos predatórios ocorridos no Norte. Todo o desafio está em repensar as lógicas urbanas em novos padrões de gestão e governança, que alavanquem urbanização e crescimento econômico, desta vez com sustentabilidade urbana ou, melhor dizendo, com justiça ambiental. FONTE: Disponível em: <http://www.cidades.gov.br/images/stories/ArquivosSNH/ArquivosPDF/ Publicacoes/capacitacao/publicacoes/habitacao_social.pdf>. Acesso em: 16 mar. 2016. 60 UNIDADE 1 | A URBANIZAÇÃO DA PERIFERIA, UMA CONSEQUÊNCIA DO CAPITALISMO DICAS Caro acadêmico, para aprofundar seus estudos é fundamental que você leia os livros abaixo indiciados: Cidades entre o real e o imaginário: organização de Everaldo Batista da Costa e Rafael da Silva Oliveira, da editora Expressão Popular do ano de 2011. Neste livro, o interesse dos autores é sobre a mais importante obra de arte, que é a cidade (...) que além de trazer em seu espaço as marcas da economia, as relações sociais e culturais, representa o território por excelência das utopias de arquitetos, urbanistas e planejadores. É o único lugar onde se podem tornar realidade tais utopias que se fundam em ideais, visões do mundo e reflexões filosóficas, ao longo dos diferentes momentos históricos. (...) Composto por três artigos e uma entrevista, a publicação é marcada por uma perspectiva clara - visível também em toda trajetória política e teórica da autora: a de que com o desenvolvimento do capitalismo gesta-se uma “crise urbana”, cuja saída só pode ser pensada e realizada a partir da luta dos trabalhadores. O principal objetivo de Para Entender a Crise Urbana é contribuir na erradicação do “analfabetismo urbanístico”, isto é, trazer reflexões teóricas e políticas que auxiliem a compreensão da lógica de funcionamento e de organização do espaço urbano a partir da perspectiva da luta de classes. Esta se dá entre o capital imobiliário, industrial e financeiro que conta com o apoio do Estado e da mídia, e o trabalho cuja força reside na organização e na luta popular. 61 RESUMO DO TÓPICO 4 Neste tópico, vimos que: • No censo demográfico realizado pelo IBGE no ano de 2010, dados apontam que 84,40% da população brasileira vive nas cidades. • A estruturação atual das cidades faz com que elas ofereçam ao mesmo tempo ensejos diferentes, pois oferecem propriedades civilizatórias e de expressão das tendências à segregação e à desigualdade, que distinguem qual é a estrutura social em que estamos incluídos. • Historicamente, a urbanização brasileira vem se caracterizando pela expansão horizontal das fronteiras. • As áreas como as favelas, os cortiços, os loteamentos clandestinos e irregulares assinalam o cenário das cidades de grande, médio e pequeno porte, esses cenários se tornam fundamentais para a segregação urbana da população pobre. • Na história da sociedade brasileira, a produção e reprodução do déficit habitacional acontecem expressando-se através das carências e precariedades de todas as regiões do país. • No ano de 2003, no primeiro mandato do Presidente da República Luís Inácio Lula da Silva, foi criado o Ministério das Cidades (MC), que teve como principal foco desenvolver ações que visassem suprir o déficit habitacional. • Após a criação do MC, houve um aumento significativo nos investimentos em habitação e infraestrutura urbana, gerando assim um aumento expressivo nas ofertas de novas linhas de crédito habitacional do setor público, registrou- se um crescimento no volume de empréstimos através do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE), houve uma valorização nas aplicações do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), além da definição de linhas para o orçamento destinado à urbanização de loteamentos irregulares e assentamentos precários, por intermédio do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). • A Fundação João Pinheiro (FJP), desde a ano de 1995, tem elaborado estudos sobre o déficit habitacional e sobre a inadequação dos domicílios construídos no Brasil. O estudo mais recente realizado pela FJP, sobre o Déficit Habitacional no Brasil, aconteceu entre 2011-2012, contendo informações sobre as necessidades habitacionais do nosso país, e é elaborado a partir dos dados das Pesquisas Nacionais por Amostras de Domicílios (PNAD) 2007-2012, elaboradas pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). 62 • A Reforma Urbana de 1963 teve como pauta a construção de moradias populares, domínio, controle do preço dos aluguéis e dos subsídios à população de baixa renda, agilidade nos procedimentos de desapropriação por interesse social e um acirrado controle da especulação imobiliária. • A classe trabalhadora do país começou a ocupar novamente o cenário, ressurgindo com força no fim da década de 1970. • Diante da conexão com a lógica do sistema capitalista, de exclusão, o número de favelas no Brasil aumentou. O IBGE, no Censo Demográfico de 2010, classifica esses espaços como Aglomerados Subnormais. • As situações fundiárias da grande maioria desses aglomerados são irregulares, e estes encontram-se localizados em áreas consideradas de risco. • A carência de saneamento básico e de políticas públicas para a implementação faz dos Aglomerados Subnormais um dos maiores responsáveis pelas demandas da saúde pública no Brasil. • A base da Reforma Urbana é solidificada pela falta de investimento público nas políticas de habitação popular e saneamento básico, como também em obras que ofereçam infraestrutura nos equipamentos das políticas públicas de saúde, educação, assistência social, transporte e outras. 63 AUTOATIVIDADE 1 “De acordo com o artigo 21, inciso XIX da Constituição, é competência privativa da União instituir diretrizes para o desenvolvimento urbano, inclusive habitação, saneamento básico e transportes urbanos, cabendo a União estabelecer as normas gerais de direito urbanístico, no âmbito da competência legislativa concorrente com os Estados (artigo 24, I)”. FONTE: Disponível em: <http://www.polis.org.br/uploads/833/833.pdf>. Acesso em: 11 abr. 2016. Diante do contexto descrito acima, descreva quais os avanços na política habitacional em seu município após Constituição de 1998. 2 O profissional de serviço social, nos últimos anos vem ganhando espaço para atuar na gestão de políticas públicas, gerando novas oportunidade de atuação, na elaboração, gestão e na avalição das políticas. Neste contexto, o foco do trabalho do assistente social é a questão social, e na área das políticas públicas voltadas para a questão urbana a realidade social se fundamenta através da pesquisa social, por quê: a) Na área da gestão de políticas, requer acumulação de informações sobre a contexto social, que submerge dados referentes às várias formas de aparecimento das contradições e sua existência pelos sujeitos sociais. b) As informações da conjuntura social, e que são lançadas pelos institutos oficiais de pesquisa, não podem serem disponiblizados para a sociedade. c) A pesquisa da realidade social e conjuntural é uma atribuição privativa somente do assistente social. d) Ao profissional de serviço social, cabe ação somente da pesquisa social. 64 UNIDADE 1 | A URBANIZAÇÃO DA PERIFERIA, UMA CONSEQUÊNCIA DO CAPITALISMO FECHAMENTO DA UNIDADE Caro acadêmico Concluímos a primeira unidade deste tão importante caderno de estudo, agora é hora de concluirmos o que foi estudado até o presente momento. Nesta primeira unidade do caderno de ensino da disciplina Políticas Sociais em Habitação, que teve como foco principal apresentar para você, caro(a) acadêmico(a), quais foram as consequências que as cidades sofreram com a sua urbanização e das periferias, através do sistema capitalista. Os tópicos desta unidade de ensino apresentaram um conjunto de dados e de fatos, que, mesmo não sistemáticos, visam destacar a articulações contraditória entre as normas de ocupação do espaço das cidades brasileiras. A leitura ou a representaçãoque a cidade perpassa como espaço que ocupa no Estado e na sociedade, se faz importante pelo discurso das práticas implementadas, pois se descobre a realidade que nem sempre estamos habituados a conviver ou visualizar. Neste momento, foram realizadas algumas reflexões e referências de fatores fundamentais que marcaram a construção da sociedade brasileira, com foco, especialmente, na relação do trabalhador com o processo histográfico da sua relação com o sistema capitalista. É importante ressalta que o as reflexões citadas acima, estão interligadas com o momento da história brasileira, que vai da década de 1930 até 1980, com a industrialização e urbanização das cidades, com a intervenção do Estado, no contexto econômico e político, e que resultou em referências numéricas que mostrou e evidenciou o crescimento econômico e do acúmulo de riquezas, refletindo na estruturação das cidades, e elevando o chamado “crescimento da pobreza”. Até a próxima unidade... 65 UNIDADE 2 A DEMANDA DA HABITAÇÃO NO BRASIL OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS Esta unidade tem por objetivos: • compreender o que significa o direito à moradia no Brasil como um processo de lutas e conquistas; • analisar os marcos legais do direito à moradia; • compreender as políticas públicas, planos de habitação de interesse social e os financiamentos habitacionais; • criar um novo olhar para a política habitacional. A Unidade 2 está dividida em quatro tópicos. Para um melhor aprofundamento do conteúdo e para fixar melhor seus conhecimentos, no final de cada tópico você terá oportunidade de realizar as atividades propostas. TÓPICO 1 – DIREITO À MORADIA NO BRASIL COMO UM PROCESSO DE LUTAS E CONQUISTAS TÓPICO 2 – OS MARCOS LEGAIS DO DIREITO À MORADIA TÓPICO 3 – AS POLÍTICAS PÚBLICAS, PLANOS DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL E OS FINANCIAMENTOS HABITACIONAIS TÓPICO 4 – UM NOVO OLHAR PARA A POLÍTICA HABITACIONAL 66 67 TÓPICO 1 DIREITO À MORADIA NO BRASIL COMO UM PROCESSO DE LUTAS E CONQUISTAS UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO A exaustão, a degradação, o empobrecimento e também a deterioração dos espaços urbanos são compreendidos, junto à população, como uma ação orgânica do excessivo crescimento ou do envelhecimento natural da conjuntura, e não como o resultado do sistema socioeconômico atual e vigente. Para a autora Maricato (2001), essas ações não se deterioram devido ao envelhecimento natural, mas acabam empobrecendo enquanto serviço público, pois não são visíveis na mesma proporção que as construções de obras, como edifícios e empresas, e acabam sem acesso à população com vulnerabilidade social. Neste primeiro tópico iremos discutir o direito à moradia no Brasil como um processo de lutas e conquistas, como um processo de transformação de concepções, a partir da organização social, por meio dos movimentos sociais. É importante perceber que o direito à moradia é uma necessidade básica do ser humano e que o acesso à cidade só acontece se todas as necessidades básicas humanas forem saciadas. A conquista de uma habitação digna perpassa o espaço físico, está na relação socioespacial onde essa se localiza, e, diante disso, as políticas públicas de habitação precisam ser respeitadas como um direito adquirido dos cidadãos. O profissional de Serviço Social precisa não só saber como realizar um trabalho técnico social com os usuários beneficiários, precisa também erguer a bandeira de luta deste direito social. UNIDADE 2 | A DEMANDA DA HABITAÇÃO NO BRASIL 68 2 MORADIA: LUTAS E CONQUISTAS Ao afirmarmos que os frutos da terra são originários do trabalho humano no meio rural, podemos constatar que, no meio urbano, a riqueza, a configuração e a organização do espaço em que são produzidos também resultam do trabalho do homem. Sendo assim, deve-se considerar as cidades como sendo frutos socialmente produzidos pelo trabalho humano. O “direito à cidade”, tão falado nas últimas décadas, foi proclamado por Henri Lefébvre, na sua obra-manifesto Le droit à la ville (O Direito à Cidade), publicado em 1968. Onde o autor repele a maneira determinista e metafísica do modelo de urbanismo modernista, entrando em pauta nos cursos, seminários e conferências internacionais na década de 1970. No Brasil, essa discussão ocorreu durante a Eco 92, que aconteceu na cidade do Rio de Janeiro. Por meio das abordagens e redefinições que foram constituídas nesses momentos de debates sobre o tema, a cidade passou a ser idealizada como direito de todos os cidadãos, independentemente do contexto atual em que se encontra, onde muitas ações foram determinadas mediante as demandas, seja tanto de produzir, consumir e de habitar, conforme o contexto apresentado. Em decorrência do processo reivindicativo e mediante as expressões que se fortaleceram, especialmente das Organizações Não Governamentais (ONG’s) e dos movimentos sociais que apoiam as questões urbanas, ou as que defendem o direito à cidade e à moradia no Brasil, a partir da Constituição de 1988 e do Estatuto da Cidade de 2001, tornaram-se direitos consubstanciados. IMPORTANT E Todo cidadão possui o direito de usufruir dos serviços e dos benefícios ofertados legalmente pelas cidades. Com a Constituição Federal de 1988, a moradia deixou de ser mais um sonho para se tornar um direito de toda a população brasileira, como também passou a ser um dever do Estado, diferentemente da conjuntura do país entre os anos de 1930 e 1970, onde o acesso a uma moradia era sonho de uma vida inteira para o cidadão que possuísse um baixo rendimento mensal. O conceito de moradia deve ser compreendido além da estrutura física ou de uma casa. Deve-se ter uma visão do todo, do contexto social, econômico, político, cultural, ambiental e geográfico em que esta edificação se encontra, inclusive como um espaço habitado por pessoas, onde cada uma tem sua particularidade. TÓPICO 1 | DIREITO À MORADIA NO BRASIL COMO UM PROCESSO DE LUTAS E CONQUISTAS 69 Historicamente, a moradia vem desenvolvendo uma função na vida dos seres humanos, que é a de proteger e abrigar, perante a realidade vivenciada em nossas cidades. Essa proteção “possibilita” para as pessoas uma condição de acessibilidade universal na garantia dos direitos relativos, como: a vida, a segurança, a privacidade, liberdade, propriedade, intimidade e outros. A conquista desses direitos aconteceu por meio das manifestações e lutas populares, através da organização dos movimentos sociais, das organizações internacionais, entidades não governamentais e governamentais. A discussão da questão urbana e de sustentabilidade do planeta sempre foi liderada pela Organização das Nações Unidas, a ONU, por meio de conferências, fóruns, conselhos e outros tantos eventos. Os eventos mais relevantes são: • Conferência de Meio Ambiente e Desenvolvimento do Rio de Janeiro - ECO 92. • Conferência sobre Assentamentos Humanos em Istambul em 1996, conhecida por Habitat II. • Rio+20, em 2012. • 21ª Conferência do Clima (COP 21) realizada em dezembro de 2015, em Paris. DICAS Caro acadêmico, aprofunde seus conhecimentos sobre os eventos citados. Acesse os links abaixo citados: <http://www.rio20.gov.br/>. <http://www.cop21paris.org/>. Segundo Kowarick (1994), até a metade do século XX, mais de 300 movimentos e conflitos adentraram em cena para acabar e romper com a falta de acesso à cidade e à moradia. Tinham como foco, além de romper com as demandas urbanas, mostrar que os brasileiros não são passivos como mostra a história do Brasil, por meio dos livros didáticos. Porém, a realidade do povo brasileiro é outra, realidade permeada por lutas, conquistas e principalmente resistência dos movimentos sociais. Um exemplo dessa resistência é o Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM), que, de acordo com Silveira (2014) desde a sua retomada na década de 1980, prossegue defendendo o direito à moradia e à cidade. São mais de 30 anos na organização populare na luta por um espaço para morar e viver. UNIDADE 2 | A DEMANDA DA HABITAÇÃO NO BRASIL 70 IMPORTANT E Oficialmente, o Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM) foi fundado nacionalmente em 1990, no Encontro Nacional dos Movimentos de Moradia. Na cidade de Santa Maria-RS ocorreu a primeira ocupação de terras, realizada pelo MNLM, na antiga Fazenda Santa Marta, no mês de dezembro de 1991. Depois de muitas lutas para que houvesse melhorias, foi consolidado como um bairro da cidade. A organização do MNLM acontece em diversos lugares do Brasil, através da participação de integrantes que buscam por meio das ocupações a garantia de um lugar para morar, de um teto. O MNLM utiliza-se dos meios formais e não formais de participação popular para que suas demandas e reivindicações sejam aceitas pelas autoridades tanto do setor público como privado. Segundo Castels (1983), os Movimentos Sociais Urbanos (MSU) têm como principal foco a mobilização comunitária envolta nas questões urbanas, através das reinvindicações da regularização fundiária dos loteamentos irregulares e clandestinos, implementação de equipamentos comunitários de educação, saúde, praças e, também, a implantação de infraestrutura básica. Neste contexto dos MSU, é de suma importância enfatizar o Movimento Nacional de Reforma Urbana (MNRU), que originou a organização para a elaboração de propostas da Assembleia Constituinte de 1987. Desde 2003 o MNRU passou a ter representatividade no Conselho Nacional das Cidades. A partir dos anos de 1980, diante de toda uma conjuntura mundial, grande parte dos países registrou grandes avanços institucionais no que se refere ao direito à cidade e à moradia, por meio do empoderamento jurídico da função social do domínio e do reconhecimento de direitos concretizados. Diante destes avanços institucionais, o principal, no Brasil, foi a regulamentação dos artigos 182 e 183 da Constituição Federal de 1988, por meio da Lei nº 10.257, de outubro de 2001, denominada Estatuto da Cidade, sendo aprovada somente após longos 11 anos de tramitação no Congresso Nacional. TÓPICO 1 | DIREITO À MORADIA NO BRASIL COMO UM PROCESSO DE LUTAS E CONQUISTAS 71 IMPORTANT E Para entender a base legal do Estatuto da Cidade, analise os dois artigos da Constituição Federal de 1988: Art. 182. A política de desenvolvimento urbano, executada pelo poder público municipal, conforme diretrizes gerais fixadas em lei, tem por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e garantir o bem-estar de seus habitantes. (Regulamento) § 1º O Plano Diretor, aprovado pela Câmara Municipal, obrigatório para cidades com mais de 20 mil habitantes, é o instrumento básico da política de desenvolvimento e de expansão urbana. § 2º A propriedade urbana cumpre sua função social quando atende às exigências fundamentais de ordenação da cidade expressas no Plano Diretor. § 3º As desapropriações de imóveis urbanos serão feitas com prévia e justa indenização em dinheiro. § 4º É facultado ao poder público municipal, mediante lei específica para área incluída no Plano Diretor, exigir, nos termos da lei federal, do proprietário do solo urbano não edificado, subutilizado ou não utilizado, que promova seu adequado aproveitamento, sob pena, sucessivamente, de: I- parcelamento ou edificação compulsórios; II- imposto sobre a propriedade predial e territorial urbana progressivo no tempo; III- desapropriação com pagamento mediante títulos da dívida pública de emissão previamente aprovada pelo Senado Federal, com prazo de resgate de até dez anos, em parcelas anuais, iguais e sucessivas, assegurados o valor real da indenização e os juros legais. Art. 183. Aquele que possuir como sua área urbana de até duzentos e cinquenta metros quadrados, por cinco anos, ininterruptamente e sem oposição, utilizando-a para sua moradia ou de sua família, adquirir-lhe-á o domínio, desde que não seja proprietário de outro imóvel urbano ou rural. (Regulamento) § 1º O título de domínio e a concessão de uso serão conferidos ao homem ou à mulher, ou a ambos, independentemente do estado civil. § 2º Esse direito não será reconhecido ao mesmo possuidor mais de uma vez. § 3º Os imóveis públicos não serão adquiridos por usucapião. FONTE: Disponível em: <http://www.jusbrasil.com.br/busca?q=Art.+183+da+Constitui%- C3%A7%C3%A3o+Federal+de+88>. Acesso em: 21 mar. 2016. O Estatuto da Cidade institui as diretrizes da política urbana e apresenta um conjunto de instrumentos que precisarão ser exercidos pelo poder público, no enfrentamento das dificuldades e desafios colocados pela necessidade dos conceitos de desenvolvimento sustentável postos para as cidades, como também recomendando o acesso à cidade como um direito de todos os cidadãos. Partindo dos pressupostos da política fundiária no Brasil, o Estatuto da Cidade é considerado um instrumento fundamental na garantia da função social da propriedade, através, primeiramente, do reconhecimento dos direitos das pessoas que ocupam as áreas de terras irregulares e da criação de mecanismo que permite melhorar, de forma legal, o acesso à terra para a população em situação de vulnerabilidade social. Esses mecanismos têm como objetivo conter o modelo UNIDADE 2 | A DEMANDA DA HABITAÇÃO NO BRASIL 72 especulativo regular do uso da terra, passando a agir de forma legal para que a questão urbana assuma sua função no exercício social da cidade. O Estatuto da Cidade, por meio desses mecanismos, consegue fazer com que o Estado tenha um controle maior sobre o uso e as ocupações do espaço urbano, como também um controle por parte da população. A aplicabilidade dos instrumentos contidos no Estatuto da Cidade só acontecerá dependendo das propostas apresentadas no Plano Diretor dos municípios. A obrigatoriedade do Plano Diretor é para municípios que apresentam mais de 20 mil habitantes. Conforme Estatuto da Cidade (2005), o Plano Diretor representa, por meio de lei municipal, um plano imperativo, urbanístico e territorial, que se apresenta por meio de normas, diretrizes e também de condutas, as quais a coletividade de uma cidade fica forçada a respeitar. Sendo assim, o Plano Diretor incide em diversas regras que proferem a ação e atitudes dos agentes públicos e privados no que consiste à utilização da cidade. A elaboração dessas regras deve contar com a participação de toda a sociedade e de seus segmentos de representatividade. Após a definição das normas gerais para o município, se faz necessária sua concretização, através da chamada Lei Orgânica do Município, a qual tem por função determinar as metodologias, procedimentos, organismo de participação popular e do tempo determinado para a elaboração, aprovação, implementação e fiscalização do Plano Diretor. Com estes mecanismos que têm como foco conduzir, gerenciar e fiscalizar a política urbana das cidades, elas não acabam reféns do favoritismo político dos gestores públicos, mas sim, passam a ser geridas através de regras e normas federais, estaduais e municipais. Em conformidade com a Constituição Federal de 1988, e pelo Estatuto da Cidade, gerenciar um município, independentemente de seu porte, é de responsabilidade da prefeitura, juntamente com os seus munícipes. O Estatuto da Cidade (2005, p. 53) enfatiza: O município conta com: o Plano Diretor e a Lei Orgânica do Município, que disciplinam: o Parcelamento e Ocupação do solo; Zoneamento Ambiental; Plano Plurianual; Diretrizes Orçamentárias e Orçamento Anual; Gestão Orçamentária Participativa; Planos, programas, projetos setoriais e Planos de Desenvolvimento Econômico e Social. Também está previsto, no inciso 20 do artigo 40 do Estatuto da Cidade, que o município tem competência para promover o planejamento sobre todo o seu território (incluindo urbano e rural), regulando seu uso, ocupação e seu parcelamento, conforme as leis federais. Com os subsídios hierárquicos das normas e condutas, a Constituição Federal de 1988 é o mecanismo normativosuperior que aponta as diretrizes específicas e corretas para regulamentação do uso da propriedade imobiliária. A Constituição Federal regulariza e legitima o poder público em nível municipal a ser responsável pela fiscalização da função social da propriedade, verificando se o seu uso está sendo correto ou não, pelos proprietários. TÓPICO 1 | DIREITO À MORADIA NO BRASIL COMO UM PROCESSO DE LUTAS E CONQUISTAS 73 Analisando o artigo 2º do Estatuto da Cidade (2005), pode-se considerar que esse tem o propósito de estabelecer as diretrizes gerais da política urbana e que deverão estar inclusas nos planos diretores municipais. Art. 2º A política urbana tem por objetivo ordenar o pleno desenvolvimento das funções sociais da cidade e da propriedade urbana, mediante as seguintes diretrizes gerais: I- Garantia do direito a cidades sustentáveis, entendido como o direito à terra urbana, à moradia, ao saneamento ambiental, à infraestrutura urbana, ao transporte e aos serviços públicos, ao trabalho e ao lazer, para as presentes e futuras gerações. II- Gestão democrática por meio da participação da população e de associações representativas dos vários segmentos da comunidade na formulação, execução e acompanhamento de planos, programas e projetos de desenvolvimento urbano. III- cooperação entre os governos, a iniciativa privada e os demais setores da sociedade no processo de urbanização, em atendimento ao interesse social. IV- Planejamento do desenvolvimento das cidades, da distribuição espacial da população e das atividades econômicas do município e do território sob sua área de influência, de modo a evitar e corrigir as distorções do crescimento urbano e seus efeitos negativos sobre o meio ambiente. V- Oferta de equipamentos urbanos e comunitários, transporte e serviços públicos adequados aos interesses e necessidades da população e às características locais. VI- ordenação e controle do uso do solo, de forma a evitar: a) a utilização inadequada dos imóveis urbanos; b) a proximidade de usos incompatíveis ou inconvenientes; c) o parcelamento do solo, a edificação ou o uso excessivos ou inadequados em relação à infraestrutura urbana; d) a instalação de empreendimentos ou atividades que possam funcionar como polos geradores de tráfego, sem a previsão da infraestrutura correspondente; e) a retenção especulativa de imóvel urbano, que resulte na sua subutilização ou não utilização; f) a deterioração das áreas urbanizadas; g) a poluição e a degradação ambiental; h) a exposição da população a riscos de desastres. (Incluído pela Lei nº 12.608, de 2012). VII- integração e complementaridade entre as atividades urbanas e rurais, tendo em vista o desenvolvimento socioeconômico do município e do território sob sua área de influência. UNIDADE 2 | A DEMANDA DA HABITAÇÃO NO BRASIL 74 VIII- adoção de padrões de produção e consumo de bens e serviços e de expansão urbana compatíveis com os limites da sustentabilidade ambiental, social e econômica do município e do território sob sua área de influência. IX- Justa distribuição dos benefícios e ônus decorrentes do processo de urbanização. X- Adequação dos instrumentos de política econômica, tributária e financeira e dos gastos públicos aos objetivos do desenvolvimento urbano, de modo a privilegiar os investimentos geradores de bem-estar geral e a fruição dos bens pelos diferentes segmentos sociais. XI- recuperação dos investimentos do poder público de que tenha resultado a valorização de imóveis urbanos. XII- proteção, preservação e recuperação do meio ambiente natural e construído, do patrimônio cultural, histórico, artístico, paisagístico e arqueológico. XIII- audiência do poder público municipal e da população interessada nos processos de implantação de empreendimentos ou atividades com efeitos potencialmente negativos sobre o meio ambiente natural ou construído, o conforto ou a segurança da população. XIV- regularização fundiária e urbanização de áreas ocupadas por população de baixa renda mediante o estabelecimento de normas especiais de urbanização, uso e ocupação do solo e edificação, consideradas a situação socioeconômica da população e as normas ambientais. XV- Simplificação da legislação de parcelamento, uso e ocupação do solo e das normas edilícias, com vistas a permitir a redução dos custos e o aumento da oferta dos lotes e unidades habitacionais. XVI- isonomia de condições para os agentes públicos e privados na promoção de empreendimentos e atividades relativos ao processo de urbanização, atendido o interesse social. XVII- estímulo à utilização, nos parcelamentos do solo e nas edificações urbanas, de sistemas operacionais, padrões construtivos e aportes tecnológicos que objetivem a redução de impactos ambientais e a economia de recursos naturais. (Incluído pela Lei nº 12.836, de 2013). XVIII- tratamento prioritário às obras e edificações de infraestrutura de energia, telecomunicações, abastecimento de água e saneamento. (Incluído pela Lei nº 13.116, de 2015). FONTE: Disponível em: <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/leis/LEIS_2001/L10257.htm>. Acesso em: 22 de mar. 2016. TÓPICO 1 | DIREITO À MORADIA NO BRASIL COMO UM PROCESSO DE LUTAS E CONQUISTAS 75 Conforme o Quadro 1 abaixo, pode-se considerar como: QUADRO 1 – DIRETRIZES GERAIS DA POLÍTICA URBANA FONTE: Adaptado de Estatuto da Cidade (2005) Função social da cidade e da propriedade • Deve ser entendida como a supremacia do interesse comum sobre o direito individual de propriedade, como também do uso socialmente justo e correto do espaço urbano para que todos os cidadãos se apropriem do território, e que consigam democratizar os seus espaços de poder, de produção e de cultura, mediante os parâmetros de justiça social e também o de criação de condições ambientais sustentáveis. Justa distribuição dos benefícios da cidade • Deve fundamentar-se na segurança de que todos os cidadãos tenham acesso aos equipamentos urbanos e a toda e qualquer melhoria realizada pelo poder público, superando a atual situação de concentração de investimentos em determinadas áreas da cidade, enquanto sobre outras recaem apenas os ônus. Recuperação dos investimentos públicos • Visa inibir a reserva especulativa de proprietários privados que aguardam a crescente valorização da propriedade através da implantação da infraestrutura e de outros serviços, beneficiando-se com recursos públicos. Ordenação e controle do solo • Tem por objetivo evitar a utilização inadequada dos imóveis urbanos, que resulte na sua subutilização, não utilização ou deterioração das áreas urbanizadas. Gestão democrática da cidade • Entendida como ampliação da participação popular na gestão das cidades, através de mecanismos institucionais diretos ou de legislação semidireta, como o plebiscito, o referendo e a iniciativa popular de leis. • A gestão democrática da cidade deverá ficar assegurada a todos os citadinos, bem como o amplo acesso às informações sobre políticas públicas de forma a planejar, produzir, operar e governar as cidades, submetendo as iniciativas ao controle e participação da sociedade civil, destacando-se como prioritário o fortalecimento e autonomia dos poderes locais e a participação popular. Isto significa implementar fóruns de participação popular e mecanismos que auxiliem na gestão democrática das cidades. No II Fórum Social Mundial, que foi realizado em Porto Alegre no ano de 2001, foi apresentada a Carta da Cidade, que em seu conteúdo predispõe o usufruto equitativo da cidade, com a participação efetiva do Fórum Nacional de Reforma Urbana (FNRU), de lideranças políticas e comunitárias brasileiras e de representantes internacionais, e o Brasil foi um dos países que se comprometeu com o conteúdo. Caro acadêmico, abaixo está o conteúdo da Carta da Cidade, é importante que você a conheça: UNIDADE 2 | A DEMANDA DA HABITAÇÃO NO BRASIL 76 1. Todas as pessoas devem ter direito a uma cidade sem discriminaçãode gênero, idade, raça, etnia e orientação política e religiosa, preservando a memória e a identidade cultural em conformidade com os princípios e normas que se estabelecem nesta Carta. 2. O Direito à Cidade é definido como o usufruto equitativo das cidades dentro de princípios de sustentabilidade, democracia e justiça social; é um direito que confere legitimidade à ação e organização, baseado em seus usos e costumes, com o objetivo de alcançar o pleno exercício do direito a um padrão de vida adequado. 3. O Direito à Cidade é interdependente a todos os direitos humanos internacionalmente reconhecidos, concebidos integralmente e inclui os direitos civis, políticos, econômicos, sociais, culturais e ambientais. Inclui também o direito à liberdade de reunião e organização, o respeito às minorias e à pluralidade étnica, racial, sexual e cultural; respeito aos imigrantes e a garantia da preservação e herança histórica e cultural. 4. A cidade é um espaço coletivo culturalmente rico e diversificado que pertence a todos os seus habitantes. 5. As cidades, em corresponsabilidade com as autoridades nacionais, se comprometem a adotar medidas até o máximo de recursos que disponham, para conseguir progressivamente, por todos os meios apropriados, inclusive em particular a adoção de medidas legislativas e normativas, a plena efetividade dos direitos econômicos, sociais, culturais e ambientais, sem afetar seu conteúdo mínimo essencial. 6. Para os efeitos desta Carta se denomina cidade toda vila, aldeia, capital, localidade, subúrbio, município, povoado, organizado institucionalmente como uma unidade local de governo de caráter municipal ou metropolitano, e que inclui as proporções urbana, rural ou semirrural. Para efeitos desta Carta, consideram-se cidadãos(ãs) todas as pessoas que habitam de forma permanente ou transitória em cidades (INSTITUTO PÓLIS, 2004.). Simultaneamente a todas as novas conquistas e do novo conceito de cidades, no ano de 2003 foi criado o Ministério das Cidades (MC), através da Lei nº 10.683, durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. Para os movimentos sociais, foi considerada uma grande conquista no que diz respeito às lutas pelo acesso à moradia. O Ministério das Cidades atua como coordenador e formulador da Política Nacional de Desenvolvimento Urbano (PNDU), abrangendo de maneira interligada todas as políticas públicas relacionadas à cidade, e traz para sua responsabilidade a coordenação técnica e política das questões urbanas. Outras incumbências do Ministério das Cidades são as de articular e de qualificar entes federados, a elaboração de ações estratégicas para que as demandas urbanas sejam solucionadas, por meio de transformações fundamentadas no Estatuto das Cidades. Sendo assim, as políticas de Habitação, Mobilidade Urbana, Saneamento e Política Urbana estão sob a coordenação do Ministério das Cidades, que tem como foco desenvolver ações globais para as cidades, promovendo assim uma maior integração entre todas. Diante disso, o Ministério das Cidades adota o conceito de cidade que foi definido pelo Estatuto das Cidades: TÓPICO 1 | DIREITO À MORADIA NO BRASIL COMO UM PROCESSO DE LUTAS E CONQUISTAS 77 A cidade é fruto do trabalho coletivo de uma sociedade. Nela está materializada a história de um povo, suas relações sociais, políticas, econômicas e religiosas. Sua experiência é determinada pela necessidade humana de se agregar, de se inter-relacionar, de se organizar em torno do bem-estar comum; de produzir e trocar bens e serviços, de criar cultura e arte, de manifestar sentimentos e anseios que só se concretizam na diversidade que a vida urbana proporciona. (ESTATUTO DA CIDADE, 2005, p. 17). Diante da definição da cidade como sendo um direito que compete a todos os cidadãos, do Estado é o dever de elaborar, implementar e executar as políticas públicas de desenvolvimento das cidades, de modo que consiga garantir para sua população uma cidade com padrões voltados ao bem-estar social, cultural, econômico e ambiental. Baseando-se na Constituição Federal, do direito à política urbana, artigos 182 e 183, e do direito ao meio ambiente, artigo 225, do direito à política urbana, artigos 182 e 183, e do direito à gestão democrática e do direito à moradia, artigo 6º, os governos em todas as esferas (municipais, estaduais, federal) devem administrar a política urbana separada das demais, como, por exemplo: a política de habitação deve ser separada da política de assistência social. Segundo Prestes (2008), o direito à cidade está baseado na dignidade humana e necessitará ser exercido por todos os cidadãos, mediante qualquer posição democrática e que represente a pretensão e vontade da maioria, para que se consiga garantir o direito ao abastecimento de água e saneamento básico, o acesso ao fornecimento de energia elétrica, transporte de qualidade e moradia, como tudo o que envolve o usufruto da cidade e envolve o direito à cidade. Além de garantir às pessoas em situação de vulnerabilidade social o direito de solicitar a tarifa social dos serviços básicos, fazendo com que o Estado intervenha junto às concessionárias, visando a garantia desses serviços. Como apresentado até o momento, todos os direitos que formam o conjunto que fundamenta o direito à cidade estão fundamentados na Constituição Federal de 1988, como: o direito ao meio ambiente, à educação, à saúde, à assistência social, ao consumidor, à paz, ao patrimônio cultural e comum da humanidade, tendo a titularidade indefinida, pois, para conseguir abarcar todo o conjunto da sociedade, muitas vezes se faz necessário ter posturas clássicas da matriz liberal, diante de uma visão de direitos e justiça distributiva. Para Prestes (2008), o direito à cidade nasce como uma resposta à desigualdade social apresentada, atendendo à dupla realidade que se apresenta em uma cidade, ou seja, a cidade de ricos e pobres. Por essa razão é que o Estatuto das Cidades se conecta à democratização da terra urbana, visando a garantia do direito social e da propriedade. Mesmo que existam diferentes instrumentos e diretrizes que definem as políticas urbanísticas instituídas na legislação, dando um controle maior ao poder público, bem como para a população, no Brasil eles estão numa corrente contrária ao modelo neoliberal, que visa a absoluta minimização do papel do Estado, e que se institucionalizou desde 1990 no país. UNIDADE 2 | A DEMANDA DA HABITAÇÃO NO BRASIL 78 O Ministério das Cidades (2006), no Relatório da 1ª e 2ª Conferências de Habitação realizadas em Brasília em 2004, aponta diversos fatores que continuam a obstaculizar a gestão das cidades e a aplicação dos instrumentos do Estatuto da Cidade, dentre os quais podem ser citados: • pobreza e desigualdade extremas; • volume reduzido de recursos não compatíveis com a demanda; • fragmentação entre a política habitacional e a política urbana; • perda de recursos nas diferentes esferas de governo; • mentalidade tecnocrática; • prática reiterada de despejos forçados e atuação deficitária do Poder Judiciário no trato dos conflitos fundiários; • planos e projetos estratégicos para a cidade sem a participação popular; • falhas e morosidade nas reformas agrária e fundiária; • falta de capacitação técnica dos gestores e técnicos que atuam na política urbana; • falha na socialização de informações nos três níveis de governo; e • descontinuidade dos programas e projetos nas mudanças de governo nos três níveis. FONTE: Adaptado de Ministério das Cidades (2006) É diante dessa realidade antagônica que os movimentos sociais e as entidades que defendem o direito à cidade e os direitos humanos, atualmente, estão amparados na legalidade na Constituição Federal e no Estatuto da Cidade, e são instrumentos fundamentais para cobrar que o Estado realize seu papel na elaboração e implementação de planos e projetos que efetivem uma cidade igualitária para todos. DICAS Caro acadêmico, vamos aprofundar osseus estudos? Então siga a dica e faça a leitura do livro indicado abaixo. Fruto das reflexões que a urbanista Raquel Rolnik elaborou durante e imediatamente após o término de seu mandato como relatora para o Direito à Moradia Adequada da ONU, Guerra dos lugares aborda o processo global de financeirização das cidades e seu impacto sobre os direitos à terra e à moradia dos mais pobres e vulneráveis. Nas duas primeiras partes, Rolnik descreve e analisa as transformações recentes nas políticas habitacionais e fundiárias em vários países do mundo, no marco da expansão de uma economia neoliberal globalizada, controlada pelo sistema financeiro, que provocaram um processo global de insegurança da posse. Na terceira, a urbanista explora a mesma questão, com foco no Brasil. A originalidade da obra reside no enfoque global do fenômeno, investigado a partir da vivência direta de uma autora brasileira olhando as condições de moradia no mundo. A leitura da evolução recente das políticas habitacionais e urbanas no Brasil – inclusive na era Lula – à luz desses processos globais ajuda a pensar as especificidades e as diferenças da crise urbana no país. Também é original o entrelaçamento entre as políticas habitacionais e a política urbana, articuladas pela autora através da construção da hegemonia da propriedade individual e da transmutação dos imóveis em ativos. 79 RESUMO DO TÓPICO 1 Neste tópico, vimos que: • As cidades são consideradas como um direito que pertence a todos os cidadãos, independentemente do contexto atual em que se encontram, todos têm e terão o direito à cidade. • Com a Constituição Federal de 1988, a moradia deixou de ser mais um sonho para se tornar um direito de toda a população brasileira, como também passou a ser um dever do Estado. • O conceito de moradia deve ser compreendido além da estrutura física ou de uma casa. Deve-se ter uma visão do todo, do contexto social, econômico, político, cultural, ambiental e geográfico em que esta edificação se encontra, inclusive como um espaço habitado por pessoas, onde cada uma tem sua particularidade. • A conquista desses direitos aconteceu por meio de manifestações e lutas populares, através da organização dos movimentos sociais, das organizações internacionais, entidades não governamentais e governamentais. • A discussão da questão urbana e de sustentabilidade do planeta sempre foi liderada pela Organização das Nações Unidas, a ONU, por meio de conferências, fóruns, conselhos. • Um exemplo dessa resistência é o Movimento Nacional de Luta pela Moradia (MNLM), que, de acordo com Silveira (2014), desde a sua retomada na década de 1980, prossegue defendendo o direito à moradia e à cidade. São mais de 30 anos na organização popular e na luta por um espaço para morar e viver. • A partir dos anos de 1980, diante de toda uma conjuntura mundial, grande parte dos países registrou grandes avanços institucionais no que se refere ao direito à cidade e à moradia. • O Estatuto da Cidade institui as diretrizes da política urbana e apresenta um conjunto de instrumentos que precisarão ser exercidos pelo poder público. • O Estatuto da Cidade, por meio desses mecanismos, consegue fazer com que o Estado tenha um controle maior sobre o uso e as ocupações do espaço urbano, como também um controle por parte da população. • Conforme Estatuto da Cidade (2005), o Plano Diretor representa, por meio de lei municipal, um plano imperativo, urbanístico e territorial, que se apresenta por meio de normas, diretrizes e também de condutas, as quais a coletividade de uma cidade fica forçada a respeitar. 80 • No ano de 2003 foi criado o Ministério das Cidades (MC), através da Lei nº 10.683, durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva. • O Ministério das Cidades atua como coordenador e formulador da Política Nacional de Desenvolvimento Urbano (PNDU). 81 AUTOATIVIDADE 1 Conforme o texto: No ano de 1984 o país foi às ruas para se manifestar pacificamente pedindo eleição direta para presidente. A partir daí, movimentos sociais pela moradia popular foram crescendo e contagiando o país, emergindo no contexto social e político brasileiro com uma capacidade mobilizadora, organizada e criativa. Na cidade de São Paulo, mais precisamente na região Leste II, multiplicavam-se os movimentos pela moradia, o que apontava no país a progressiva ampliação e diversidade de organizações populares que contavam com o apoio de líderes populares, interlocutores políticos e da Igreja Católica. Na linha de frente desse movimento aparece Dalcides Neto, que, ao longo desses 30 anos de movimento, realizou parcerias e alianças, abriu diálogos e negociações com interlocutores políticos e trabalhadores para a concretização das mais de 35 mil moradias conquistadas durante todos esses anos. Outro ponto do movimento que precisa ser destacado é o fato de que, ao longo dos anos, muitas bandeiras de luta foram agregadas às mobilizações e uma formação das lideranças populares fez com que o movimento fosse além da luta por moradia, abarcando tudo que envolve a cidadania na região. O líder popular gosta de se referir ao movimento como uma “grande orquestra”, que teve momentos no início dos anos 80 de muita dificuldade com a resistência do governo Jânio em reconhecer a legitimidade dos movimentos populares e a agressividade com que combatia às manifestações. FONTE: Disponível em: <http://movimentopelamoradia.com.br/consciencia-de-direitos-e- exercicio-da-cidadania-na-luta-pela-moradia/>. Acesso em: 5 maio 2016. Diante da contextualização acima, escreva um texto com o mínimo de 20 linhas, descrevendo os reflexos da organização popular na luta pela moradia, o papel do Movimento de Luta pela Moradia no Brasil e as conquistas até o atual momento. 2 Os artigos 182 e 183 da Constituição Federal estabelecem parâmetros para a política urbana, os quais estão regulamentados na Lei nº 10.257, de julho de 2001, o Estatuto da Cidade. De acordo com essa Lei, avalie se cada um dos itens a seguir constitui uma diretriz para a elaboração da política urbana. 82 I- Planejamento do desenvolvimento das cidades. II- Regularização fundiária e urbanização de áreas ocupadas por população de baixa renda. III- Desapropriação de solo urbano para fins da constituição de zonas de interesse social. IV- Instituição do imposto territorial progressivo para terrenos subutilizados nas zonas urbanas centrais da cidade. V- Integração e complementaridade entre as atividades urbanas e rurais, tendo em vista o desenvolvimento socioeconômico do município e do território sob sua área de influência. Estão CORRETOS apenas os itens: a) ( ) I, II e III. b) ( ) I, II e V. c) ( ) I, III e IV. d) ( ) II, IV e V. e) ( ) III, IV e V. 83 TÓPICO 2 OS MARCOS LEGAIS DO DIREITO À MORADIA UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Conforme apontam os conhecimentos até o presente momento desta disciplina de estudo, a questão da moradia deve ser compreendida como elemento do processo de habitar. Não pode ser reduzida apenas a bem físico, edificado e com quatro paredes, mas sim deve corresponder ao espaço na sua totalidade. Essa totalidade deve corresponder ao espaço dividido e frequentado por diferentes pessoas e grupos, e que consiga identificar o homem em um determinado espaço geográfico. [...] a moradia entendida como espaço relacional, “faz parte da vida cotidiana das pessoas”; “[...] a vida começa fechada, protegida, agasalhada no seio da casa”; e ainda, “[...] a imagem da casa é como a topografia de nosso ser íntimo”. [...] a casa é como “primeiro mundo do ser humano [...] é um corpo de imagens que dá ao homem razões ou ilusões de estabilidade” (BACHELARD, 1978, p. 23-31, grifos da autora). Diante da citação acima, o ditado popular “Quem casa quer casa” reafirma a necessidade de uma moradia para a construção de uma nova vida e de uma família. Este tópico tem como foco apresentar quais são os marcos legais do direito à moradia. Conhecer os marcoslegais de conquista a uma moradia digna apontará diretrizes para desenvolvermos, como profissionais de Serviço Social, diversos instrumentos para realizar o trabalho mediante as políticas públicas de habitação. 2 ENTENDENDO OS MARCOS LEGAIS DO DIREITO À MORADIA Segundo o dicionário online Michaelis, o significado de habitação é: “ato ou efeito de habitar, lugar ou casa onde se habita; moradia; residência”. Nesse sentido, Lefébvre complementa afirmando que “[...] casa e a linguagem são dois aspectos complementares do ser humano” (LEFÈBVRE, 1999, p. 81). UNIDADE 2 | A DEMANDA DA HABITAÇÃO NO BRASIL 84 A palavra casa tem seu significado fundamentado do latim, que é casamentrum, terreno com uma habitação instalada, “início de um contrato de casal”, conforme Carnelutti apud Souza (2008, p. 31), analisando o dicionário de Direito Romano, o domicílio tem por raiz domicilium e domus, que significa domínio, senhor com posses, domingo dia do Senhor, ou ainda é compreendido como sede do grupo familiar. No conceito jurídico existe diferença etimológica entre domicílio, residência, habitação e moradia: [...] O domicílio é a sede jurídica da pessoa natural, onde ela se presume presente para efeitos de direito e onde exerce ou pratica, habitualmente, seus atos e negócios jurídicos, sendo o domicílio a qualificação jurídica atribuída pela lei para reconhecer o local da pessoa e o centro de suas atividades. A residência é o lugar em que a pessoa natural habita, com intenção de permanecer, mesmo que dele se ausente temporariamente. A residência, pelo direito positivo, é o local onde a pessoa se fixa ou efetivamente habita, com intenção de permanecer, podendo, por vezes, identificar-se com domicílio, quando haja a existência de várias residências onde alternativamente viva ou tenha vários centros de ocupações. Já a noção de habitação tem como prisma uma relação de fato, sendo o local em que a pessoa permanece, temporária ou acidentalmente. A habitação conceitua-se como o direito ao exercício de uma faculdade humana conferida a alguém por norma jurídica ou por outrem, permitindo a fixação em um lugar determinado, não só física, como também onde se fixam os interesses naturais da vida cotidiana, exercendo-os, porém, de forma temporária ou acidental, iniciando-se e extinguindo-se sobre determinado local ou bem, tratando-se de uma relação de fato, sendo, porém, a relação humana e imóvel, objeto de direito, logo tutelável juridicamente. A moradia, conceitualmente, é um bem da personalidade, com proteção constitucional e civil. É um bem irrenunciável da pessoa natural, indissolúvel da sua vontade, exercendo-se de forma definitiva pelo indivíduo; secundariamente, recai o seu exercício em qualquer pouso ou local, mas é objeto de direito protegido juridicamente. O bem moradia é inerente à pessoa e independente de objeto físico para a sua existência e proteção jurídica. Existe independentemente de lei, porque também tem substrato no direito natural [...] (SOUZA, 2008, p. 45-46, grifos do autor). É importante ressaltar que a moradia é um bem extrapatrimonial, que está além da relação com o direito de propriedade, pois o cidadão pode desempenhar a moradia através de outras formas, como o contrato de locação residencial ou comandado, dependendo da situação e necessidade. Tanto o domicílio, como a residência fixa e a moradia, formam um conjunto que define o conceito de personalidade, pois todos são considerados primordiais e indispensáveis para o viver de um cidadão, de uma pessoa, de um indivíduo, mediante a necessidade de um referencial de localização fixa para realizar seus atos, por meio de exercícios plenos de uma boa convivência em sociedade, independentemente de a habitação ser permanente ou provisória. TÓPICO 2 | OS MARCOS LEGAIS DO DIREITO À MORADIA 85 Conceitualmente falando, a questão da moradia (ou o ato de morar) está envolvida diretamente com a natureza humana, por meio de um contexto político, social, econômico e espacial. Desde os primórdios o homem já morava, independentemente de a moradia se tornar um direito ou não. Sendo assim, o ato de morar está representado num processo de relações entre o homem e seu espaço, com diferentes alterações no decorrer da história da sociedade e da humanidade, considerando os aspectos físicos, funcionais, econômicos, sociais e espacial. Consegue-se concluir, assim, que a moradia faz parte de uma das necessidades primordiais do ser humano, sendo a razão da existência das cidades. “Se numa cidade se habita ou não se pode falar de cidade. A habitação é decisiva na natureza urbana” (GUIMARÃES, 2005, p. 65). Como a moradia é uma necessidade básica e primária do homem, este criou várias formas de casa para saciar esta demanda. Estudando a Pré-história, o homem fazia das cavernas um abrigo para se proteger das intempéries da natureza, no dia a dia. Durante a Idade Antiga, e conforme a região, as casas eram edificadas de pedras, madeiras ou mistas, e foi nesse período que se iniciou a diferenciação entre os espaços habitados pelos ricos ou pelos pobres. Durante o período da Idade Média e início do século XX, as pessoas em situação de vulnerabilidade social, e que residiam na Europa, tinham suas casas em condições precárias, essas eram pequenas e possuíam um só cômodo, o que servia apenas como um abrigo para as pessoas passarem a noite. Essa situação de habitabilidade precária afetava a estrutura familiar, pois nesses pequenos espaços residiam famílias com crianças de diferentes tamanhos e idades. Diante das condições precárias, as crianças maiores eram separadas de suas famílias de origem e levadas para trabalhar como criados e aprendizes em famílias com maior condição financeira. Segundo Rybczynski (1996), a casa do morador da cidade, ou a casa típica de um burguês, além de servir de moradia, servia como um local de trabalho, até o surgimento da Revolução Industrial, durante o século XVIII, onde a maioria da população trabalhava em casa. Entretanto, existiam algumas profissões onde o provedor da casa era obrigado a sair para trabalhar, como no caso dos vendedores. Após a Revolução Industrial, os meios de produção passaram por muitas mudanças. As configurações do trabalho também sofreram transformações, consequentemente, a moradia teve mudanças em sua estrutura e funcionalidade. Para Rybczynski (1996, p. 87): A casa e o trabalho tiveram uma separação drástica; ela deixou de ser um local de trabalho, diminuiu de tamanho e, o mais importante, deixou de ser pública, ficando apenas um lugar pessoal e íntimo da família. O trabalho passou a ser realizado nas fábricas, separando o trabalhador dos meios de produção e do convívio com o seu entorno, pois antes as pessoas circunvizinhas frequentavam a casa uns dos outros, a fim de comprar ou trocar produtos confeccionados pelos diferentes artesãos – sapateiros, costureiras, padeiros, etc. –, mantendo os vínculos de vizinhança; após a instituição da fábrica a casa deixou de ter centralidade para a classe trabalhadora. UNIDADE 2 | A DEMANDA DA HABITAÇÃO NO BRASIL 86 Com a Revolução Industrial, as vidas das pessoas e de suas famílias foram alteradas completamente em todas as esferas, onde a atividade doméstica dos trabalhadores ficou interligada com o local de trabalho, com as fábricas, precarizando a qualidade de vida da classe trabalhadora. Conforme Engels (1979, p. 24): De onde provém a crise da habitação? Como nasceu? [...] ela é produto da forma social burguesa: uma sociedade não pode existir sem problemas de habitação quando uma grande massa de trabalhadores dispõe apenas do seu salário, isto é, da soma dos meios indispensáveis à sua subsistência e à sua reprodução; quando os melhoramentos mecânicos deixam massas de operários sem trabalho; quando violentas e cíclicas crises industriais determinam, por um lado, a existência de um grande exército de reserva de desempregados e, por outro lado, atiram periodicamente à ruavolumosa massa de trabalhadores; quando os proletários se amontoam nas grandes cidades, vindos do campo, sem seus meios de produção, e isso se dá num ritmo mais rápido que a construção de habitações nas circunstâncias atuais e se encontram sempre inquilinos para a mais infeta das pocilgas; quando, enfim, o proprietário de uma casa, na qualidade de capitalista, tem não só dinheiro, mas também em certa medida, graças à concorrência, o dever de exigir, sem escrúpulos, aluguéis elevados. Engels (1979) afirma que a questão da moradia deve ser considerada uma questão social remota e que está inserida nas classes sociais oprimidas, tornando- se cada vez mais grave com o crescimento do processo de industrialização e expansão das cidades. Com todo o processo de industrialização descrito acima, as questões de moradia tornaram-se uma demanda de conceito estrutural diante da produção capitalista, consequência da grande desigualdade na distribuição de renda, trazendo o acentuado crescimento da riqueza em determinados grupos sociais. Em seus escritos, Engels (1979) critica a sociedade burguesa, que discriminava as condições das habitações dos trabalhadores, enfatizava a possível contaminação de doenças infecciosas, devido às condições de insalubridades das moradias, defendendo que a situação se dava em decorrência do próprio modelo de produção. Sendo assim: “O capital, e isso está definitivamente estabelecido, não quer suprir a penúria de habitações; mesmo que pudesse fazê-lo. Restam então apenas duas opções: o auxílio mútuo dos trabalhadores e a ajuda do Estado”. (ENGELS, 1979, p. 38). Como já discutimos anteriormente, a moradia é uma necessidade primária e básica, e sempre interligada às decisões conjunturais estruturais de contrassenso entre o trabalho e o capital. Mediante a dimensão estrutural, a questão da moradia é um elemento que está inserido na ampliação do capitalismo, no contexto urbano. Maricato (2006, p. 211) afirma que, após a Revolução Industrial, os costumes, a cultura e as formas de moradia de toda a população mundial sofreram grandes alterações: “o trabalho era livre, mas a casa e a terra tornaram-se mercadorias”. TÓPICO 2 | OS MARCOS LEGAIS DO DIREITO À MORADIA 87 Neste contexto, a moradia é considerada como sendo uma mercadoria de grande valor, em relação à sua produção e sua distribuição. Comparando entre todas as mercadorias de consumo, a moradia é a mais cara, a que possui um valor financeiro bem maior. Alguns bens de consumo também têm seu valor elevado, como, por exemplo um automóvel, mas não é considerado um bem de consumo primário. A autora Maricato (1998) defende que a moradia é uma mercadoria de consumo privado, e possuí caráter e consumo especial diante das sociedades capitalistas, e que isso está atrelado a alguns fatores importantes, como: “1 A vinculação da moradia com a terra, ou seja, bem não reproduzível. 2 O alto custo da moradia para a compra. 3 O longo tempo de giro do capital empregado na construção, o que exige constantemente financiamento à produção”. (MARICATO, 1998, p. 2). O que a autora afirma é que para a efetivação desta construção é preciso capital para realizar a compra de instalações e dos equipamentos, da matéria-prima e força de trabalho. Com o período do pós-guerra, a falta de moradias tornou-se um sério problema social na Europa, mas com a efetivação do Welfare State Keynesiano (Estado de bem-estar social, que teve origem no pensamento de John Maynard Keynes) primeiramente neste continente, o direito à moradia passou a se configurar como fundamental, através da Declaração Universal dos Direitos do Homem em 1948, que em seu artigo XXV, item I, prevê: “Todo homem tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família saúde e bem-estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação, cuidados médicos e serviços sociais indispensáveis.” (SAULE JÚNIOR, 1999, p. 76). A constitucionalidade do direito à moradia no Brasil só se tornou efetiva com a promulgação da Constituição Federal de 1988. O direito à moradia é tratado, porém não garantido. Com a Lei nº 4.380, de 21 de agosto de 1964, que “institui a correção monetária nos contratos imobiliários de interesse social, o sistema financeiro para aquisição da casa própria, cria o Banco Nacional da Habitação (BNH), e Sociedades de Crédito Imobiliário, as Letras Imobiliárias, o Serviço Federal de Habitação e Urbanismo e dá outras providências”. Ou seja, dá sustentabilidade jurídica aos contratos habitacionais entre o BNH e os mutuários de programas habitacionais. Segundo Silva (1999, p. 277), a moradia como direito social fundamental de todos cidadãos deve ser garantia do Estado, pois: [...] dimensões dos direitos fundamentais do homem, são prestações positivas proporcionadas pelo Estado direta ou indiretamente, enunciadas em normas constitucionais, que possibilitam melhores condições de vida aos mais fracos, direitos que tendem a realizar a igualização de situações desiguais. São, portanto, direitos que se ligam ao direito de igualdade. Valem como pressupostos do gozo dos direitos individuais na medida em que criam condições materiais propícias ao aferimento da igualdade real, o que, por sua vez, proporciona condição mais compatível com o exercício efetivo da liberdade. UNIDADE 2 | A DEMANDA DA HABITAÇÃO NO BRASIL 88 Caro acadêmico, se analisarmos esses direitos fundamentais de defesa da população, podemos perceber claramente que todos os direitos garantem certa proteção, porém na prática não possuem condições mínimas para se estruturar. Então, no que consiste o direito à moradia? Essa deve ser uma das perguntas que você deve estar se fazendo nesse momento. Podemos concluir que o direito à moradia consiste no domínio exclusivo, e com o tempo variado e razoável, de um determinado espaço que possa garantir proteção para o cidadão, respeitando à liberdade, intimidade de cada um. Essa proteção deve garantir ao cidadão o direito de descansar, de se alimentar adequadamente, de realizar sua higiene pessoal, como também perpetuar a espécie humana. Segundo Souza (2008, p. 137): “A moradia no direito constitucional brasileiro, com base nas declarações internacionais, foi reconhecida como direito apresentando como características legais a universalidade, a inalienabilidade, a imprescritibilidade, a irrenunciabilidade, a inviolabilidade e a complementaridade”. Analisando as características citadas pelo autor, o direito à moradia é compreendido como um direito interdependente dos demais direitos, e fica atrelado à questão da personalidade do ser humano, ou seja, o direito de personalidade humana, e que estão interligados entre si. Souza (2008, p. 32) defende que estes devem ser compreendidos como: “[...] a) os próprios da pessoa em si (os signatários), existentes por sua natureza, como ente humano, com o nascimento e b) e os referentes às suas projeções para o mundo exterior (a pessoa como ente moral e social, ou seja, em seu relacionamento com a sociedade)”. Nesse sentido, Souza (2008) ainda defende que os direitos conexos à questão da moradia são classificados em oito categorias. QUADRO 2 – CLASSIFICAÇÃO DAS CATEGORIAS CONEXAS À MORADIA CLASSIFICAÇÃO SÍNTESE DIREITO À VIDA • O direito à moradia inicia com o nascimento de todo ser humano, permanecendo até sua morte. • Sem o exercício do direito à moradia fere-se o próprio direito à vida ou a sua integridade física, especialmente no tocante à criança e ao adolescente, conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente. DIREITO À INTIMIDADE • Está tutelado nos direitos da personalidade, o qual, muitas vezes, vem descrito como privacidade, segredo ou recato. • É o direito à reserva, ligado à moral e à liberdade à própria intimidade. Pertence à esfera secreta do indivíduo, sendo impedida qualquer intrusão ou publicidade. DIREITO AO SEGREDO DOMÉSTICO • Apresenta-se como recurso utilizado pelo ser humano para esconder determinadas situaçõesfactíveis ou práticas que estão situadas no ponto mais profundo dos círculos concêntricos do resguardo do indivíduo. • Dá concretude à própria liberdade de pensamento. TÓPICO 2 | OS MARCOS LEGAIS DO DIREITO À MORADIA 89 FONTE: Adaptado de Souza (2008) DIREITO AO SOSSEGO • Compreende a necessidade vital do ser humano de permanecer em harmonia com aquilo que o envolve sem a interrupção alheia, de forma a não o tirar daquilo a que a pessoa se predispôs ou simplesmente do exercício do descanso ou do aconchego. DIREITO À PROPRIEDADE • No Direito Civil compreende-se por propriedade o direito de ter e possuir, usar, fruir e dispor da coisa. DIREITO À INTEGRIDADE FÍSICA • O direito à moradia mantém estreita relação com esse direito, pois envolve também a saúde e a vida, uma vez que não basta a existência do direito à moradia; é preciso que tal direito seja usufruído com o preenchimento das necessidades básicas da pessoa, evitando a falta de saneamento básico e as construções defeituosas ou insuficientes, de modo a garantir a proteção e integridade física do indivíduo e de sua família. DIREITO À SEGURANÇA E À SAÚDE • Trata-se do gozo de construir e de fazer melhorias ou adaptações necessárias para melhor usufruir da moradia, no intuito de garantir maior segurança e saúde para a família ou a vizinhança, além de utilizá-la para fins comerciais ou industriais, dependendo da legislação municipal vigente. DIREITO À LIBERDADE • Na compreensão do mundo jurídico, refere-se à liberdade física especializada, isto é, da inviolabilidade do domicílio ou da casa. • O indivíduo exerce com liberdade a moradia quando não sofre limitações imotivadas no seu exercício. • É um poder de fazer ou não fazer tudo o que não é ordenado ou proibido por lei em seu ambiente residencial. A moradia institui-se como a primazia da vida do ser humano, da forma que sem ela os outros direitos não se efetivam de maneira plena e que satisfaça os anseios das pessoas. Podemos afirmar que o direito à moradia é considerado como uma ferramenta compatível com a dignidade do ser humano, ultrapassando os valores materiais. A questão da moradia está relacionada também ao valor patrimonial da família, através de um direito sucessório deixado aos descendentes e ascendentes de uma família, podendo se tornar o eixo para uma nova estruturação imobiliária, como, por exemplo, onde as pessoas que recebem de herança uma moradia com valorização no mercado imobiliário fazem a troca por uma quantia equivalente de imóveis. Souza (2008, p. 117-118) define: O direito à moradia detém outra característica dos direitos fundamentais: a ilicitude de sua violação. Há a violação do direito à moradia sempre que for implantado um sistema infraconstitucional ou qualquer ato advindo de autoridade pública que importe em lesão a esse direito, em redução, desproteção ou atos que inviabilizem o seu exercício, porque o direito à moradia goza de proteção fundamental, tratando-se de um dever inerente ao Estado (por intermédio dos três poderes) de respeitar, proteger, ampliar e facilitar esse direito fundamental. Dessa forma, toda e qualquer legislação infraconstitucional que suprima, dificulte ou impossibilite o exercício do direito à moradia por um indivíduo – tem-se a sua violação, ainda que por norma validamente constituída e promulgada – é tida como violadora do direito à moradia. UNIDADE 2 | A DEMANDA DA HABITAÇÃO NO BRASIL 90 Diante de todo o conhecimento adquirido até o momento, fica certo que o Estado tem o dever de garantir o direito à moradia como um direito essencial e fundamental de todos os cidadãos, através da implementação de políticas públicas que possam garantir uma moradia digna para toda a população. Citando novamente Souza (2008, p. 66): “[...] a Declaração sobre o Direito ao Desenvolvimento de 1986, adotada pela Resolução n.º 42/128 da ONU e aprovada pelo Brasil, em seu artigo 8º, inciso 1, já estabelecia como um dever do Estado a tomada de medidas que atendessem às prerrogativas do direito à moradia”. IMPORTANT E Caro acadêmico, é importante também considerar a discussão apresentada na Agenda Habitat, afirmando que todo cidadão tem o direito de uma moradia digna, e que o Estado deve assumir algumas medidas, como: • a) promover o acesso a todas as pessoas à água potável, ao saneamento, especialmente as pessoas que vivem na pobreza, as mulheres, os grupos vulneráveis e os desfavorecidos; • b) estimular tecnologias de construção que sejam disponíveis, sobretudo as que estiverem in loco, que sejam apropriadas, acessíveis, seguras, eficientes e que não causem impacto negativo ao meio ambiente; • c) elaborar e aplicar normas destinadas ao acesso de pessoas deficientes, em conformidade com as normas uniformes sobre a igualdade de oportunidades para as pessoas com deficiência; • d) aumentar a oferta de moradias acessíveis, estimulando as diversas formas de moradia, tais como a propriedade individual, a propriedade coletiva por meio de cooperativas, a moradia de aluguel, por meio de parcerias entre os setores público e privado e comunidade; • e) estimular a melhoria do patrimônio de moradias existentes, mediante a reabilitação e a manutenção de oferta adequada de serviços e instalações básicas; • f) erradicar a discriminação ao acesso à moradia e aos serviços básicos, por qualquer motivo, ou seja, raça, cor, sexo, língua, opinião política, origem nacional ou social, nacionalidade, deficiências, e garantir a proteção jurídica contra tal discriminação. FONTE: Disponível em: <http://polis.org.br/publicacoes/agenda-habitat-resultados-da-conferencia- de-istambul-em-junho-de-1996-nossos-direitos-e-propostas/>. Acesso em: 30 mar. 2016. DICAS Para saber mais sobre a Agenda Habitat, acesse: <http://www.comciencia.br/ reportagens/cidades/cid04.htm>. TÓPICO 2 | OS MARCOS LEGAIS DO DIREITO À MORADIA 91 O Ministério das Cidades, fundamentado na Constituição Federal de 1988 e nas determinações internacionais, reafirma o compromisso do Estado com o direito à moradia digna para toda população, através do seguinte conceito: Moradia digna é aquela localizada em terra urbanizada, com situação de propriedade regular, provida de redes de infraestrutura (transporte coletivo, água, esgoto, luz, coleta de lixo, telefone, pavimentação, dentre outros), servida por equipamentos sociais como: escolas, postos de saúde, praças, apoio na segurança pública, etc., que apresente instalações sanitárias adequadas, condições mínimas de conforto e habitabilidade; utilização por uma única família (a menos de outra opção voluntária), dispondo de pelo menos um dormitório para cada dois moradores adultos e, por fim, que possibilite a vida com qualidade e o acesso à cidade (MINISTÉRIO DAS CIDADES, 2008). Para uma moradia estar em condição plena de habitabilidade, ela precisa estar adequada em diversas dimensões, como, por exemplo: espaço físico, segurança, privacidade, iluminação, ventilação, aquecimento, estabilidade estrutural, durabilidade, posse, infraestrutura básica, água, luz, saneamento, tratamento de resíduos. Em outras palavras, o direito à moradia é a base para o direito à cidade. Para Saule Júnior (1999), essas dimensões acima citadas representam um conjunto de elementos fundamentais no que se refere à questão do direito à moradia, conforme o quadro abaixo. QUADRO 3 – DIMENSÕES DE HABITABILIDADE DIMENSÕES SÍNTESE INCLUSÃO À CIDADE • A moradia deverá estar inclusa na malha urbana, possibilitando a seus moradores o acesso aos serviços e benefícios que a cidade oferece, entre os quais: acesso fácil ao trabalho, à rede comercial (padaria, farmácias, bancos, lojas, restaurantes, sistema de telefonia, etc.), bem como a equipamentos públicos, entre os quais: postos de saúde, praças, escolas, etc. • Neste quesito está incorporado o endereço regularizado no mapa da cidade. ACESSO À INFRAESTRUTURA BÁSICA • A moradia deverá estar servida de redes de abastecimento de água,esgotamento sanitário, drenagem de águas pluviais, vias de acesso e sua pavimentação, transporte de qualidade, coleta regular de lixo e tratamento de resíduos sólidos, serviços de energia elétrica e iluminação pública. UNIDADE 2 | A DEMANDA DA HABITAÇÃO NO BRASIL 92 HABITABILIDADE E QUALIDADE CONSTRUTIVA • Correspondente ao número de habitantes que ali residem; entendida como a obediência às normas técnicas proporcionando segurança construtiva, durabilidade (é dada pela qualidade dos materiais, elementos e componentes que possibilitam maior vida útil a uma edificação) e habitabilidade. Neste quesito de qualidade construtiva podem ser inclusos os seguintes aspectos: funcionalidade: cada espaço deve ser pensado em relação à atividade a ser executada que demanda necessidade de mobiliário, pessoal e espaço de circulação; flexibilidade: cada espaço deve ser pensado não como uma camisa- de-força, vendo a possibilidade de ampliação e de transformação para atendimento a outras demandas futuras; e racionalidade das soluções do espaço: é a relação entre a área bruta da construção e a área útil, ou seja, o que quantitativamente será aproveitado do espaço, levando em conta o tamanho. ACESSO ÀS POLÍTICAS PÚBLICAS • Os moradores de qualquer casa precisam ter acesso às demais políticas públicas: transporte, saúde, educação, lazer, trabalho e segurança, dentre outras, que possibilitem viver em determinado espaço urbano. ACESSO À PARTICIPAÇÃO, CONVIVÊNCIA COMUNITÁRIA E ADEQUAÇÃO CULTURAL • Respeito à produção social do habitat de modo que se assegure o direito à diversidade cultural, aos padrões habitacionais oriundos dos usos e costumes das comunidades e grupos sociais. • Neste quesito está inclusa a relação equilibrada com a vizinhança dos conjuntos habitacionais, ou qualquer outra modalidade de intervenção por parte do poder público, de modo que a população beneficiária possa construir um processo participativo e de convivência interna (próprio conjunto ou comunidade), bem como externamente com seu entorno, de modo que se possibilite a construção de laços de vizinhança e de pertencimento ao bairro e à cidade. ACESSIBILIDADE UNIVERSAL • Toda e qualquer pessoa tem o direito de acessar sua própria moradia, seja idoso, cadeirante ou criança, pois é preciso garantir, nas diferentes tipologias construídas ou adaptadas, a viabilidade de acesso a todos os cômodos da casa e mesmo na parte externa dessa. DIREITO À POSSE DA TERRA E DA MORADIA • Todo morador deverá possuir um grau de segurança da posse que lhe garanta a proteção legal contra despejos forçados, expropriação, deslocamentos e outras ameaças. • Portanto, toda moradia deverá estar munida de um documento público que lhe assegure a posse legal do imóvel, seja por escritura pública ou por instrumentos previstos no Estatuto da Cidade. FONTE: Adaptado de Saule Júnior (1999) Como discutido até o momento, a questão da moradia é um direito de todo cidadão, garantido na Constituição Federal de 1988, passando a ser considerada como uma política pública. Na condição de política pública, a questão da moradia passa a ser de responsabilidade do Estado, que tem o dever de apresentar programas e projetos que vão além de uma política de governo, de um mandato, mas sim que se torne ação efetiva, visando resultados a curto, longo e médio prazo, por meio de planos que efetivem o direito à moradia. TÓPICO 2 | OS MARCOS LEGAIS DO DIREITO À MORADIA 93 DICAS Caro acadêmico, o livro abaixo indicado é fundamental para o aprofundamento de seus conhecimentos. Abordagem dos aspectos que têm relevância para o perfeito entendimento da temática. Análise sob o enfoque hermenêutico, balizado em fontes legislativas, jurisprudenciais e bibliográficas. Normas definidoras dos direitos e garantias fundamentais à moradia. Discussão sobre os governos e a responsabilidade pela adoção de medidas para promover, assegurar e proteger a realização do direito à moradia. 94 RESUMO DO TÓPICO 2 Neste tópico, vimos que: • A moradia é um bem extrapatrimonial, que está além da relação com o direito de propriedade. • Conceitualmente falando, a questão da moradia, ou o ato de morar, está envolvido diretamente com a natureza humana, por meio de um contexto político, social, econômico e espacial. • Como a moradia é uma necessidade básica e primária do homem, esse criou várias formas de casa para saciar esta demanda. • Diante das condições precárias, as crianças maiores eram separadas de suas famílias de origem e levadas para trabalhar como criados e aprendizes em famílias com maior condição financeira. • Engels (1979) afirma que a questão da moradia deve ser considerada uma questão social remota e que está inserida nas classes sociais oprimidas, tornando- se cada vez mais grave com o crescimento do processo de industrialização e expansão das cidades. • Maricato (2006) afirma que, após a Revolução Industrial, os costumes, a cultura e as formas de moradia de toda a população mundial sofreram grandes alterações: “o trabalho era livre, mas a casa e a terra tornaram-se mercadorias”. • A autora Maricato (1998) defende que a moradia é uma mercadoria de consumo privado, e possuí caráter e consumo especial diante das sociedades capitalistas. • Com o período do pós-guerra, a falta de moradias tornou-se um sério problema social na Europa, mas com a efetivação do Welfare State Keynesiano primeiramente neste continente, o direito à moradia passou a se configurar como fundamental. • O direito à moradia consiste no domínio exclusivo, e com o tempo variado e razoável, de um determinado espaço, que possa garantir proteção para o cidadão, respeitando a liberdade, intimidade de cada um. • O direito à moradia é compreendido como um direito interdependente dos demais direitos, e fica atrelado à questão da personalidade do ser humano, ou seja, o direito de personalidade humana, e que estão interligados entre si. 95 • A questão da moradia está relacionada também ao valor patrimonial da família, através de um direito sucessório deixado aos descendentes e ascendentes de uma família, podendo se tornar o eixo para uma nova estruturação imobiliária, como, por exemplo, onde as pessoas que recebem de herança uma moradia com certa valorização no mercado imobiliário fazem a troca por uma quantia equivalente de imóveis. • Na condição de política pública, a questão da moradia passa a ser de responsabilidade do Estado, que tem o dever de apresentar programas e projetos que vão além de uma política de governo, de um mandato, mas sim que se torne ação efetiva, visando resultandos a curto, longo e médio prazo, por meio de planos que efetivem o direito à moradia. • A moradia faz parte de uma das necessidades primordiais do ser humano, sendo a razão da existência das cidades. 96 AUTOATIVIDADE 1 Toda família precisa de uma moradia. Todos moram em algum lugar, ainda que seja numa mansão em condomínio fechado ou num barraco sob um viaduto. O estoque de moradias é resultante dos diferentes arranjos existentes no interior do conjunto formado pelo mercado privado, pela promoção pública e pela promoção informal (o que inclui ainda arranjos mistos) em diferentes situações históricas de uma dada sociedade. A estrutura de provisão de moradias se refere à construção, manutenção e distribuição de um estoque, que se forma a partir de diversas formas de provisão de habitação: promoção privada de casas, apartamentos ou loteamentos, promoção pública de casas ou apartamentos, autoconstrução no lote irregular ou na favela, autopromoção da casa unifamiliar de classe média ou média alta, loteamento irregular, entre outros. FONTE: Disponível em: <http://www.cadernosmetropole.net/download/cm_artigos/cm21_147. pdf>. Acesso em: 1º abr. 2016. Analisando a citação acima, que enfatiza o direito à moradia, descreva, em um texto, qual o seu entendimento sobre o direito à moradia, como esse direito se tornou fundamental para odesenvolvimento das cidades. 2 O direito à moradia ingressou no art. 6º da Constituição Federal por força da Emenda Constitucional nº 26/2000. Essa mudança constitucional trouxe um novo entendimento na aplicabilidade da lei, principalmente no que diz respeito à garantia do bem de família previsto na legislação citada. A segurança ao bem de família dispõe da conjuntura em que: I- O proprietário foi executado por dívida de pensão alimentícia e de desemprego por justa causa. II- O proprietário apresenta o único imóvel de sua propriedade como garantia hipotecária de dívida assumida com terceiro. III- O proprietário aluga seu único imóvel para terceiros e, com o valor do aluguel recebido, paga seu próprio aluguel. IV- A pessoa reside sozinha no único imóvel de sua propriedade. Diante das afirmações acima, assinale a alternativa CORRETA: a) ( ) I e II b) ( ) II e IV. c) ( ) III e IV. d) ( ) I, II e III. e) ( ) II, III e IV. 97 TÓPICO 3 AS POLÍTICAS PÚBLICAS, PLANOS DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL E OS FINANCIAMENTOS HABITACIONAIS UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO Neste terceiro tópico pretende-se apresentar, estudar e discutir as políticas públicas, planos de habitação de interesse social e os financiamentos habitacionais. Analisando as últimas quatro décadas, no que se refere ao processo de planejamento, avaliação e monitoramento das políticas públicas, pode-se constatar que aconteceu um crescimento no estímulo para que esses processos se estabelecessem através do incentivo aos movimentos de ajustes com teor político- institucional, e delimitado nos rumos neoliberais. Os movimentos sociais das mais diversas políticas, em especial os que lutam pela efetivação das reformas urbanas, em contradição vêm implementando instrumentos que colaboram com a concretude da reforma do Estado, nos aspectos político, administrativo e legal. Nesse sentido, tem-se como objetivo traçar a mesma direção e seguir a racionalidade, buscando alcançar uma maior eficiência em relação ao uso de recursos visando a obtenção de resultados e sua eficácia. No que diz respeito às políticas públicas urbanas, como a Política de Habitação de Interesse Social (PHIS), a Política de Mobilidade Urbana, a Política de Saneamento Básico e Pluviométrico, a Política de Limpeza Urbana e de Infraestrutura, cada uma vem de forma particularizada se organizando, através dos planos nacionais, estaduais e municipais, visando dar conta das exigências da sociedade civil organizada e com resultados realmente efetivos. Sendo assim, é importante saber que a legitimidade, a duração e a efetividade social das políticas sociais são postas como questões que dependem do ponto de vista social ou do ponto de vista político. Os diversos atores sociais que executam os planos, programas e projetos são os responsáveis por realizar a avaliação e o monitoramento contínuos destes instrumentos e efetivação das políticas públicas. Esses devem contribuir para o desenvolvimento da eficiência e da efetividade das ações propostas, estabelecendo de forma social sua legitimidade. 98 UNIDADE 2 | A DEMANDA DA HABITAÇÃO NO BRASIL DICAS Para aprofundar melhor o conhecimentos sobre as Políticas Públicas citadas acimas, acesse o site: <http://www.cidades.gov.br/>. 2 BREVE HISTÓRICO DA POLÍTICA DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL À SUA EFETIVAÇÃO Podemos afirmar que as políticas urbanas correspondem ao: [...] conjunto de políticas públicas e de ações do poder público sobre processos urbanos. Implica, portanto, um conjunto de metas, objetivos, diretrizes e procedimentos que orientam a ação do poder público em relação a um conjunto de relações, necessidades ou demandas sociais, expresso ou latente dos aglomerados urbanos (ALVIM; CASTRO; ZIONI, 2010, p. 13). As políticas urbanas devem ser, em geral, qualificadas como as políticas públicas que têm como princípio e objetivos as demandas e as práticas sociais, que são expressadas sobre a ocorrência das questões locais e, consequentemente, interagem na vida cotidiana de toda população. Neste sentido, as questões urbanas dever ser consideradas como um conjunto particular e individualizado de políticas, e as políticas urbanas, segundo os autores citados acima, são definidas como: [...] aquelas que orientam as ações do poder público dirigidas à organização do território das cidades, à população e distribuição de espaços, infraestrutura, serviços e equipamentos públicos e à regulamentação das atividades e das construções públicas e privadas no espaço urbano (ALVIM; CASTRO; ZIONI, 2010, p. 14). Pode-se afirmar que as políticas públicas urbanas estão focadas nos processos e nas práticas sociais que visam a transformação das mesmas, por meio da apropriação do ambiente construído e efetivado. De acordo com Nalin (2013), no Brasil, a Política de Habitação de Interesse Social (PHIS) precisa sem entendida como parte da relação existente entre o Estado, os movimentos sociais e a política urbana, no contexto da sociedade capitalista. Diante disso, está caracterizada pelas fragmentações históricas do processo de legitimação do acesso à cidade, ao solo urbanizado e à moradia, pela população em vulnerabilidade social. Segundo Lago e Ribeiro (1996), no início da industrialização no Brasil, a conjuntura esteve pouco voltada para as demandas habitacionais da época, meados de 1930, onde aproximadamente 90% da população de trabalhadores urbanos moravam de aluguel e o restante era proprietário de imóveis. Nessa época, TÓPICO 3 | AS POLÍTICAS PÚBLICAS, PLANOS DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL E OS FINANCIAMENTOS HABITACIONAIS 99 a classe média também morava de aluguel, não havia linhas de financiamento e outros subsídios habitacionais disponíveis que facilitassem o acesso mais rápido à compra de moradias ou terrenos legalizados, tanto nas áreas centrais como periféricas. Bonduki (2011) afirma que nesse período somente os proprietários de terras possuíam condições de construir imóveis em seus próprios terrenos. A moradia passou a ser considerada uma das mercadorias mais caras do sistema capitalista. Maricato (1998, p. 68) diz que essa valorização aconteceu em razão do caráter especial assumido diante de dois eixos centrais, que eram: “a terra e o financiamento”. O mercado de trabalho sempre desprezou a classe trabalhadora, através de baixos salários, trabalhos informais e amplas jornadas de trabalho. Já o mercado imobiliário acabava estreitando e dificultando a possibilidade de acesso à moradia por parte da classe mais vulnerável. Para Silva (1989, p. 34): [...] a habitação se constitui num problema social para a força de trabalho no contexto da superexploração, que tem caracterizado o desenvolvimento do capitalismo no Brasil, com a retirada do salário do valor correspondente para custeio de uma habitação que abrigue o trabalhador e a sua família, obrigando-o a lançar mão de estratégias variadas e, sobretudo, precárias para se reproduzir como força de trabalho, o que representa, igualmente, o interesse para reprodução e ampliação do capital. Como vimos até o momento, a moradia é um bem de consumo caro, que por isso deve ter uma vida útil que ultrapasse gerações, e por ser um produto caro, dificulta o acesso das classes menos privilegiadas. A dificuldade e a falta de acesso à moradia devem-se principalmente aos baixos salários. A Consolidação das Leis do Trabalho (CLT) prevê salário mínimo, que deve dar subsídio para os trabalhadores urbanos custearem os gastos com a habitação e sobreviverem no espaço urbano. Segundo Souza (2008, p. 301): Salário mínimo, fixado em lei, nacionalmente unificado, capaz de atender às suas necessidades vitais básicas e às suas famílias com moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social, com reajustes periódicos que lhe preservem o poder aquisitivo, sendo vedada sua vinculação para qualquer fim. Historicamente, no Brasil, os ganhos mensais dos trabalhadoresassalariados não proporcionavam nenhuma condição para que as necessidades básicas de moradia fossem supridas, instituindo uma lacuna, onde o Estado passou a assumir a responsabilidade de subsidiar o acesso à moradia, por meio de programas e planos de habitação popular, que visassem a minimização da demanda habitacional. 100 UNIDADE 2 | A DEMANDA DA HABITAÇÃO NO BRASIL A autora Valladares (1991) expõe em seus escritos que a evolução do entendimento do significado da pobreza urbana tem uma relação estreita com a direção e a trajetória realizada no processo de urbanização e de edificação das moradias, com a inclusão da classe em vulnerabilidade no contexto urbano. Abaixo será resgatada, de acordo com Nalin (2013), a historicidade de cada período do Brasil que mostra um panorama das políticas de habitação de interesse social: • 1889-1930 (República Velha): As políticas de habitação de interesse social foram nulas. A iniciativa privada tinha como objetivo atender à demanda habitacional da classe operária, por meio dos aluguéis, que na época eram chamados de aluguéis rentistas. Segundo a autora que continua, o Estado repassava recursos para a construção de unidades habitacionais, denominadas de cortiços, que tinham como foco facilitar o acesso dos trabalhadores aos seus postos de trabalho, pois essas unidades eram construídas em áreas centrais. As indústrias também estavam nesta mesma direção, pois construíam casas ao redor das fábricas, através da isenção de impostos, o que acabava tendo como meta disciplinar a classe trabalhadora. Essas eram conhecidas como as Vilas Operárias, e suas casas eram alugadas e/ou cedidas para os operários com maior qualificação e sua família, mantendo assim a contínua reprodução da força de trabalho. Com isso o trabalhador estava ligado na rotina e na ideologia da fábrica, onde seu tempo de deslocamento era diminuído, e poderia ser convocado a qualquer momento, mediante a necessidade de produção, e não havia nenhum aumento de salário. • 1930-1945 (Era Vargas): As políticas de habitação eram condizentes com o projeto nacional-desenvolvimentista, por meio de uma lógica conservadora. A demanda de habitação passou a ser uma condição básica de reprodução da força de trabalho e como fator econômico estratégico e fundamental para a industrialização e desenvolvimento do país em 1942. O predomínio da concepção keynesiana e o aumento do fascismo e do socialismo na Europa propuseram um clima favorável para que o Estado tivesse uma ampla intervenção na economia e nos provimentos destinados aos trabalhadores, perante suas condições básicas para sobreviver no país, considerando as demandas habitacionais. Silva (1989) expõe que atrelado a este novo modelo de conjuntura política e ao movimento organizado dos inquilinos e moradores dos cortiços que não conseguiam mais arcar com os custos dos aluguéis, em conjunto com os trabalhadores que lutavam por melhores salários e proteção social, aliado à tentativa do governo Vargas de se legitimar, configuraram uma série de medidas intervencionistas de cunho estatal. Nalin (2013) mostra que as primeiras ações do governo foram de ver a questão da moradia como um problema social, e não como um direito, e a medida tomada foi o congelamento do valor dos aluguéis, através da Lei do Inquilinato TÓPICO 3 | AS POLÍTICAS PÚBLICAS, PLANOS DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL E OS FINANCIAMENTOS HABITACIONAIS 101 em 1942, que resultou, por um lado, na diminuição do fervor do movimento dos trabalhadores que já estavam na condição de inquilino, e, por outro, o mercado imobiliário diminuiu a oferta de moradias, aumentando a oferta de locação para as pessoas que desejavam locar imóveis. Bonduki (2011) afirma que, com essa conjuntura posta, houve um excessivo aumento no número de despejos e coações por parte dos proprietários dos imóveis para tentar burlar a lei através de bonificações extraoficiais ou por meio de assédio aos inquilinos. Como a Lei do Inquilinato teve uma baixa resolutividade, acabou se distinguindo e banalizando o conceito oficial sobre as demandas da habitação, onde não significava ficar equacionada aos investimentos privados, e sim a uma intervenção do poder público. Com isso, um novo período se iniciou, por meio de um processo de incentivo à casa própria, através de campanhas governamentais das mídias locais, como, por exemplo, nos programas de rádio, e por meio do slogan “o sonho da casa própria”, que era uma conquista realizada com muito empenho, trabalho e sacrifício da população em situação de vulnerabilidade social. Visando sustentar a repercussão positiva dos discursos sobre os problemas habitacionais, em razão da crise decorrente da desestruturação do mercado rentista, e pela inaptidão do Estado de financiar e promover a produção em grande escala de unidades habitacionais, foi posta em prática a Lei Federal de n º 58, de 1937, que tinha como princípio regulamentar o loteamento de terrenos periféricos. No Brasil, na década de 1940, desenvolveu-se uma provisão de moradias com estrutura para as maiores cidades. Essa estrutura era composta por três categorias: • A produção popular, estruturada no loteamento nas periferias e no sistema de autoconstrução da moradia. • A produção estatal direta e indireta. • A produção empresarial sob o domínio do regime da incorporação imobiliária. O autor Bonduki (2011) arrisca afirmar que a estrutura acima citada foi responsável pela segregação das classes populares mais extensas e periféricas, bem como pela divulgação da casa própria, até a década de 1980. Outra ação de nível governamental, que liberou a construção de novas unidades habitacionais e que deve ser destacada, é o incentivo dos fundos dos Institutos de Aposentadorias e Pensões, conforme a categoria profissional, sendo essas entregues aos beneficiários, através de contrato de locação, e com um valor bem abaixo do mercado. Entre os anos de 1937 a 1964, o Instituto de Aposentadoria e Pensões dos Industriários (IPAI) entregou um total de 140 mil unidades habitacionais em todas as regiões do Brasil. 102 UNIDADE 2 | A DEMANDA DA HABITAÇÃO NO BRASIL Segundo Bonduki (2011), a dúvida do conceito de política de habitação social do momento levou o Estado, de um lado, a regulamentar as locações, financiar e produzir, ele mesmo, moradias; e, de outro, a afastar-se no processo de periferização das moradias autoconstruídas. Na visão de diversos autores, o sistema de autoconstrução depara-se com a omissão do Estado no que se refere ao processo de construção informal das moradias. • 1946-1950 (Governo Eurico Gaspar Dutra): Com a destituição de Getúlio Vargas do poder, o seu sucessor, Eurico Gaspar Dutra, adotou uma política populista, aprovando, logo no início do seu mandato, a criação da Fundação da Casa Popular, por meio da Lei nº 9.218, de 10 de maio de setembro de 1946. A criação dessa Fundação trouxe um prestígio para o governo, pois tinha como objetivo a provisão para construção de unidades habitacionais para as classes populacionais de menor poder econômico. A Fundação Casa Popular foi considerada um dos principais mecanismos no contexto da política de habitação durante os governos de Vargas, Dutra, Kubitschek, 1956-1960, e Quadros e Goulart, entre 1961 e 1964. Durante o governo de Jânio Quadros, e logo após a renúncia de João Goulart (1961-1964), a política populista teve sua atuação intensificada, onde tentou-se instaurar a retomada do nacionalismo desenvolvimentista. Nesse período foi criado o Plano de Assistência Habitacional, que a longo prazo foi intitulado como o Instituto Brasileiro de Habitação (IBH), que foi o antecessor do Banco Nacional de Habitação (BNH). • 1964-1985 (Ditadura Militar): Com a instauração do regime militar, a partir de 1º de abril de 1964, sob o comando do general Castelo Branco (1964-1967), a Fundação Casa Popular foi extinta, pois passou a ser considerada como um espaço de corruptos sem competênciae com uma visão populista. Este período tinha como justificativa política enfraquecer as “necessidades das massas”, buscando legitimar o novo governo e o desenvolvimento econômico, sendo lançado o Plano de Ação Econômica do Governo Castelo Banco (PAEG), que dava um destaque especial para as demandas habitacionais, onde se criou o Banco Nacional de Habitação (BNH), o Plano Nacional de Habitação e o Serviço Federal de Habitação e Urbanismo, através da Lei n.º 4.380, de 21 de agosto de 1964. O Banco Nacional de Habitação (BNH), inicialmente, estava vinculado ao Ministério da Fazenda, pois foi instituído como sendo uma entidade autárquica do governo; no decorrer do governo ficou atrelado ao Ministério do Interior e, finalmente, ao Ministério do Desenvolvimento Urbano. Este último passou a ser o gestor do Sistema Financeiro de Habitação (SFH). Pode-se afirmar, de acordo com o que apresenta Nalin (2013), que o Banco Nacional de Habitação (BNH) se destacou em três aspectos relevantes: ser um TÓPICO 3 | AS POLÍTICAS PÚBLICAS, PLANOS DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL E OS FINANCIAMENTOS HABITACIONAIS 103 banco, os financiamentos que eram concedidos estavam previstos através de um sistema de compensação inflacionária e de correção monetária, com reajuste automático de débitos e prestações determinadas por índices correspondentes às taxas de inflação; e por último, por se constituir em um sistema que visava a articulação do setor público, como agente financiador principal, e o setor privado, como o instrumento executor da política de habitação. Para os autores Azevedo e Andrade (1981), a soma de recursos financeiros, jurídicos, administrativos e publicitários colocados à disposição do Banco Nacional de Habitação marcou o período militar, pois nutriu a esperança do povo brasileiros quanto ao acesso à casa própria, dando visibilidade aos feitos governamentais do período. Botega (2008), Azevedo e Andrade (1991) afirmam que a designação do Banco Nacional de Habitação como gestor financeiro do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS) e a implementação do Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) aumentaram o capital do banco, tornando-o uma das principais instituições do país. Freitas (1996) afirma que o Sistema Financeiro de Habitação, durante os governos militares de Costa e Silva (1976-1968) e Médici (1969-1973), tinha como objetivo minimizar todas as formas de investimento a fundo perdido. A gestão passou a ser centralizada no Governo Federal, onde os estados e municípios tinham a mínima intervenção possível. Esse modelo estava baseado no financiamento do produto e não no usuário ou beneficiário final. Diante desse contexto, citando novamente Azevedo e Andrade (1991), no ano de 1973 o Banco Nacional de Habitação (BNH) deixou de ser autarquia para se tornar uma empresa pública, como um banco de segunda linha, exercendo o controle e a fiscalização das operações, porém a operacionalização direta acontecia por meio de um complexa rede de agências de economia mista, chamadas de Companhia de Habitação (COHAB), estaduais ou municipais, que tinham sua estrutura funcional sob o escudo do Banco Nacional de Habitação (BNH) e atendiam famílias com renda mensal entre três e cinco salários mínimos. Referente ao financiamento habitacional, Nalin (2013) aponta que o atendimento à população acontecia conforme as faixas de mercado, e pelos distintos estratos de rendimento. Em resumo, as classes mais carentes economicamente, que recebiam até cinco salários mínimos, eram atendidas pelas Companhias Estaduais ou Municipais de Habitação, na qualidade de agente promotor. Segundo Maricato (1982, p. 80): “Progressivamente, especialmente na década de 1970, o BNH afastou-se da aplicação de seus recursos na habitação popular e passou a investir em habitações de alto e médio custo e ainda para obras de infraestrutura.” O marco inicial do Banco Nacional de Habitação era atender a demanda habitacional das famílias que recebiam uma faixa salarial entre um a três salários 104 UNIDADE 2 | A DEMANDA DA HABITAÇÃO NO BRASIL mínimos mensais. Seu desenvolvimento concentrou-se em realizar ações voltadas para as classes com rendimentos mais altos, entre três e cinco salários. De acordo com Azevedo e Andrade (1981), este processo foi o custo pago para sanear financeiramente o banco e as COHABs. Na década de 1970, devido aos altos índices de inadimplência, muitos dos programas habitacionais tiveram que ser suspensos, contribuindo para que estes programas passassem a serem elitizados. Segundo Santos (2000), o Brasil estava iniciando um processo de desestabilização econômica através do choque do petróleo, a elevação da inflação, a queda no índice de crescimento, o aumento da dívida externa e a intensificação do enfraquecimento do poder de compra do trabalhador. Entre os anos de 1974-1979, no governo do general Ernesto Geisel, o Banco Nacional de Habitação começou a realizar financiamentos totais da produção de unidades habitacionais, que eram agenciadas pela COHAB, por meio da antecipação dos financiamentos diretamente para as construtoras. Já durante o governo do presidente João Figueiredo, 1979-1985, o Brasil entrou em um período inflacionário, levando a uma recessão econômica histórica. Para Silva (1989), o governo adotou uma política contra a crise recessiva, com o objetivo de enfraquecer o processo inflacionário que na época chegou a 110% em 1980, 211% em 1983 e níveis superiores a 200% em 1984. Mediante a pauperização da classe trabalhadora brasileira, o arrocho salarial e o aumento do índice de desemprego marcaram o período. No ano de 1984, dos 4,5 milhões de mutuários existentes, 1,1 milhão se encontravam em atraso; desses, 30% já estavam inadimplentes, com mais de mais de três parcelas não pagas. • 1985-1990 (Nova República): O primeiro representante da nova República, José Sarney, ao assumir o cargo de Presidente da República, deparou como carro- chefe da política de habitação, o Banco Nacional de Habitação, em uma crise institucional, onde vinha apresentando um desempenho social abaixo do nível esperado, um grande índice de inadimplência e baixo número de liquidez do sistema por parte dos mutuários em todo o país. Através do Decreto nº 2.291, de 21 de novembro de 1986, o Banco Nacional de Habitação foi extinto, apesar de várias estratégias para reverter o índice deficitário, não resistiu às curvas cíclicas da economia, principalmente pelo aumento da inflação nos anos 80. Em 1985, como o fim do regime militar, a sociedade acreditava em uma reestruturação da política de habitação do Brasil, porém o que ocorreu foi a extinção do Banco Nacional de Habitação, colocando fim em um mecanismo nacional que, ao longo da história, tinha se tornado referência na política habitacional. Todas as atribuições do Banco Nacional de Habitação, em agosto de 1986, foram transferidas para a Caixa Econômica Federal, e a política de habitação passou a ser vinculada ao Ministério do Desenvolvimento Urbano e Meio Ambiente, porém a Caixa Econômica Federal, no organograma do Governo Federal, estava vinculada ao Ministério da Fazenda. TÓPICO 3 | AS POLÍTICAS PÚBLICAS, PLANOS DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL E OS FINANCIAMENTOS HABITACIONAIS 105 DICAS Caro acadêmico, aprofunde seus conhecimentos. Acesse os cadernos organizados pelo Ministério das Cidades (2006), por meio do link abaixo, pois eles apresentam as diversas mudanças que ocorreram na política de habitação de interesse social a partir de março de 1987, até ser transferida para a Caixa. <http://www.capacidades.gov.br/biblioteca/detalhar/id/128/titulo/cadernos-mcidades-6--- politica-nacional-de-mobilidade-urbana-sustentavel>. Após a Constituição de 1988, e com base na descentralização, as demandas habitacionais de interesse social passaram a ser de responsabilidade dos estados e dos municípios, bem como sua efetivação. Conforme Alfonsin (2003, p. 78): [...] “não havia a contrapartidafinanceira e técnica, tendo em vista que a grande maioria dos municípios brasileiros não dispunha de estrutura para dar conta das diferentes políticas públicas”. Logo após o impeachment do presidente Fernando Collor, o vice-presidente Itamar Franco (1992-1924), que assumiu a Presidência da República, buscou investir novamente na política de habitação, através do lançamento de dois programas: o Habitar Brasil e o Morar em Município, que tinham como objetivo atender a demandas habitacionais para a população de baixa renda. Diante de toda burocracia legal para conseguir acessar os recursos disponibilizados, muitos municípios acabaram não conseguindo. O presidente Fernando Henrique Cardoso-FHC (1995-2002) manteve em seu governo o Programa Habitar Brasil e criou a Secretaria de Política Urbana (Sepurb), sendo vinculada ao Ministério do Planejamento. No mandato de FHC foram criados outros programas voltados à demanda habitacional, que são: Pró-Moradia, Apoio à Produção, Carta de Crédito Individual e Associativo e Programa de Arrendamento Residencial. Segundo Ribeiro e Azevedo (1996), durante este período avançou o reconhecimento sobre a necessidade de iniciar o processo de regularização fundiária, avançando também o debate da participação popular e de uma visão integrada da questão habitacional. Essa nova concepção não foi posta em prática devido à orientação neoliberal do governo e às restrições impostas pelos bancos internacionais. No primeiro mandato do presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, no ano de 2003, foi criado o Ministério das Cidades, que no ano seguinte lançou a Política Nacional de Habitação (PNH), que foi regulamentada através da Lei nº 11.124/2005, e que se tornou o principal instrumento de implementações de estratégias e de ações determinadas pelo Governo Federal, em parceria com a sociedade não governamental, em especial as entidades e movimentos sociais que defendem a implementação da política de habitação. 106 UNIDADE 2 | A DEMANDA DA HABITAÇÃO NO BRASIL De acordo com Nalin (2013), a PNH está estruturada institucionalmente, apresentando aspectos que são favoráveis para dar ênfase aos sistemas designados para organizar os programas de habitação e de interesse social. Com essa estruturação, a política habitacional e a política de desenvolvimento urbano agem de maneira integrada, por meio da articulação entre os níveis de governo federal, estadual e municipal, visando resultados que sejam definitivos e eficientes para as demandas habitacionais; buscam adotar um padrão na aplicabilidade dos recursos que seja descentralizado, além da implantação de mecanismos como os conselhos, que têm o objetivo de fiscalizar as ações dos estados, municípios e Distrito Federal, e de analisar os critérios de aplicação dos recursos destinados a esta política pública. A autora continua dizendo que a implantação da Política Nacional de Habitação e do Sistema Nacional de Habitação teve que ocorrer de forma gradual, seguindo algumas fases que são sucessivas e complementares uma a outra, por meio de medidas também complementares, de cunho legal e operativo. O Ministério das Cidades (2004) destaca que a Política Nacional de Habitação é estruturada de acordo com o conjunto de instrumentos citados abaixo: • Sistema Nacional de Habitação (SNH) é o principal instrumento da PNH. Estabelece as bases do desenho institucional e prevê a integração entre os três níveis de governo e com os agentes públicos e privados envolvidos com a questão habitacional, bem como define regras que asseguram a articulação financeira de recursos onerosos e não onerosos necessários à implantação da PNH. • Desenvolvimento Institucional trata de viabilizar um plano de capacitação institucional para a implantação da política habitacional de forma descentralizada, o que requer a estruturação institucional dos estados, Distrito Federal e municípios, bem como a capacitação dos agentes públicos, sociais, técnicos e privados. • Sistema de Informação, Avaliação e Monitoramento da Habitação (SIMAHAB) é instrumento estratégico para garantir um processo permanente de revisão e redirecionamento da política habitacional e de seus programas. Prevê o desenvolvimento de uma base de informações, o monitoramento e a avaliação permanentes dos programas e projetos da PNH, de forma articulada aos demais aspectos da política de desenvolvimento urbano. • Plano Nacional de Habitação de Interesse Social – PNHIS estabelece metas de médio e longo prazo, linhas de financiamento e os programas de provisão, urbanização e modernização da produção habitacional a serem executadas, a partir de prioridades regionais de intervenção e critérios para a distribuição regional de recursos, de acordo com o perfil do déficit habitacional no âmbito nacional. A partir do Plano Nacional, os estados e municípios de todo o território nacional deverão elaborar seus respectivos planos, obedecendo aos critérios estabelecidos pelo Ministério das Cidades. FONTE: Adaptado de Ministério das Cidades (2004) TÓPICO 3 | AS POLÍTICAS PÚBLICAS, PLANOS DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL E OS FINANCIAMENTOS HABITACIONAIS 107 A Política Nacional de Habitação, através dos eixos estruturantes e pretendendo garantir o direito à moradia de qualidade e digna para toda a população, definiu os seguintes objetivos: • universalizar o acesso à moradia digna em um prazo a ser definido no Plano Nacional de Habitação, levando-se em conta a disponibilidade de recursos existentes no sistema, a capacidade operacional do setor produtivo e da construção, e dos agentes envolvidos na implementação da PNH; • promover a urbanização, regularização e inserção dos assentamentos precários à cidade; • fortalecer o papel do Estado na gestão da política e na regulamentação dos agentes privados; • tornar a questão habitacional uma prioridade nacional, integrando, articulando e mobilizando os diferentes níveis de governo e fontes, objetivando potencializar a capacidade de investimentos com vistas a viabilizar recursos para sustentabilidade da PNH; • democratizar o acesso à terra urbanizada e ao mercado secundário de imóveis; • ampliar a produtividade e melhorar a qualidade na produção habitacional; • incentivar a geração de empregos e renda dinamizando a economia, apoiando-se na capacidade que a indústria da construção apresenta em mobilizar mão de obra, utilizar insumos nacionais sem a necessidade de importação de materiais e equipamentos e contribuir com parcela significativa do Produto Interno Bruto (PIB). (MINISTÉRIO DAS CIDADES, 2010, p. 31) Permeando a Política Nacional de Habitação estão os seguintes princípios: • direito à moradia, enquanto um direito humano, individual e coletivo, previsto na Declaração Universal dos Direitos Humanos e na Constituição Brasileira de 1988. O direito à moradia deve ter destaque na elaboração dos planos, programas e ações, colocando os direitos humanos mais próximos do centro das preocupações de nossas cidades; • moradia digna como direito e vetor de inclusão social, garantindo padrão mínimo de habitabilidade, infraestrutura, saneamento ambiental, mobilidade, transporte coletivo, equipamentos, serviços urbanos e sociais; • função social da propriedade urbana, buscando implementar instrumentos de reforma urbana a fim de possibilitar melhor ordenamento e maior controle do uso do solo, de forma a combater a retenção especulativa e garantir acesso à terra urbanizada; • questão habitacional como uma política de Estado, uma vez que o poder público é agente indispensável na regulação urbana e do mercado imobiliário, na provisão da moradia e na regularização de assentamentos precários, devendo ser, ainda, uma política pactuada com a sociedade e que extrapole um só governo; • gestão democrática com participação dos diferentes segmentos da sociedade, possibilitando controle social e transparência nas decisões e procedimentos; • articulação das ações de habitação àpolítica urbana de modo integrado com as demais políticas sociais e ambientais. (MINISTÉRIO DAS CIDADES, 2010, p. 31). 108 UNIDADE 2 | A DEMANDA DA HABITAÇÃO NO BRASIL DICAS Para aprofundar seus conhecimentos, acesse o site do Ministério das Cidades e conheças todas as diretrizes da Política Nacional de Assistência Social. <http://www.cidades.gov.br/images/stories/ArquivosSNH/ArquivosPDF/4PoliticaNaciona- lHabitacao.pdf>. O Sistema Nacional de Habitação (SNH) emergiu como um projeto de iniciativa popular, aproximando as entidades organizadas da sociedade civil na defesa de ações de caráter propositivo em relação à questão da moradia, sendo que esse tramitou no Congresso Nacional durante o período de 13 anos e foi aprovado pelo Senado Federal em 24 de maio de 2005. A Lei n.º 11.124/2005, que dispõe sobre o Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social e cria o Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social (FNHIS) e seu Conselho Gestor, representa como instrumento legal a organização dos agentes que operam e atuam na área da habitação e se torna um mecanismo para agregar os esforços dos governos federal, estadual e municipal, do setor privado e das organizações não governamentais, para buscar combater as demandas habitacionais. Conforme o Ministério das Cidades (2010), os principais agentes públicos que compõem o Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social (SNH) são: QUADRO 4 – AGENTES PÚBLICOS DE PNHIS AGENTES PÚBLICOS FUNÇÃO MINISTÉRIO DAS CIDADES • Por meio da Secretaria Nacional de Habitação (SNH), é o órgão central responsável pela formulação da PNH, que deve ser articulada com a Política Nacional de Desenvolvimento Urbano (PNDU) e com as políticas ambientais e de inclusão social. Cabe ao Ministério, subsidiado pelo Conselho das Cidades: definir diretrizes, prioridades, estratégias e instrumentos da Política Nacional de Habitação; elaborar o marco legal da PNH e do SNH; definir critérios e regras para aplicação dos recursos no SNH, incluindo a política de subsídios; elaborar orçamentos, planos de aplicação e metas anuais e plurianuais dos recursos a serem aplicados em habitação; e oferecer subsídios técnicos para a criação de fundos e respectivos conselhos estaduais e municipais. É responsável pela formulação do Plano Nacional de Habitação e pela coordenação das ações e da implementação do Sistema, que inclui os orçamentos destinados a moradia, estímulo à adesão ao Sistema por parte dos estados e municípios, bem como firmar a adesão e coordenar sua operacionalização. TÓPICO 3 | AS POLÍTICAS PÚBLICAS, PLANOS DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL E OS FINANCIAMENTOS HABITACIONAIS 109 CONSELHO NACIONAL DAS CIDADES • É um órgão colegiado de natureza deliberativa e consultiva integrante da estrutura do Ministério das Cidades, que tem por finalidade propor diretrizes para a formulação e concretização da Política Nacional de Desenvolvimento Urbano (PNDU), em especial as políticas de gestão do solo urbano, de habitação, de saneamento ambiental e de mobilidade e transporte urbano, além de emitir orientações e recomendações sobre a aplicação do Estatuto da Cidade. É uma instância de negociação em que os atores sociais participam do processo de tomada de decisão sobre políticas públicas executadas pelo Ministério das Cidades. CAIXA • É o agente operador do sistema e é responsável pela operação dos programas habitacionais promovidos com recursos do FGTS e do FNHIS, pois possui o papel de responsável pela coordenação do FGTS e, como operador, perfaz também a função de analista da capacidade aquisitiva das etapas para liberação de recursos de outras fontes. Além da Caixa, o Banco do Brasil foi designado desde 2012 para atender os programas do Ministério das Cidades, especialmente o PMCMV. ÓRGÃOS DESCENTRALIZADOS • Constituídos pelos estados, Distrito Federal e municípios, conselhos das três instâncias, com atribuições específicas de habitação no âmbito local. AGENTES PROMOTORES • São representados por associações, sindicatos, cooperativas e outras entidades que desempenham atividades na área de habitação. AGENTES FINANCIADORES • São agentes financeiros autorizados pelo Conselho Monetário Nacional. FONTE: Adaptado de Ministério das Cidades (2010) A estrutura do SNH deverá funcionar articuladamente com os papéis complementares em cada um dos agentes com representação e que estejam instituídos por legislações específicas e competências compatíveis à função e que passam a responder pela Política Nacional de Habitação, devendo distinguir os programas e projetos que já estão estabelecidos pela política. Para uma melhor organização, o Sistema Nacional de Habitação (SNH) está subdividido em dois segmentos, que se complementam: o Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social (SNHIS); e o Sistema Financeiro Imobiliário (SFI). O diferencial um do outro são dois fatores: as fontes de recursos e as formas de financiamento. O Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social (SNHIS) tem como objetivo atender a faixa de interesse social. Os recursos que não têm um custo elevado passam pela aprovação do Fundo Nacional de Interesse Social e pelo Conselho Nacional de Habitação de Interesse Social. O Sistema Financeiro Imobiliário (SFI) compõe-se dos recursos que são onerosos, este é o responsável pelo financiamento desta linha de crédito. Uma das ações realizadas pelo Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social foi a criação do Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social (FNHIS) e o Conselho Gestor do Fundo Nacional Habitação de Interesse Social. 110 UNIDADE 2 | A DEMANDA DA HABITAÇÃO NO BRASIL A Lei n.º 11.124/2005, no artigo 8º, aponta as fontes de recursos do Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social (FNHIS) que estão deliberados para os programas habitacionais de interesse social. Sendo assim, os recursos do FNHIS somente serão disponibilizados para os programas habitacionais que sejam compatíveis com as diretrizes determinadas na Política Nacional de Habitação, tendo assim como objetivo viabilizar e garantir o acesso à moradia, por meio de diferentes ações para os setores da sociedade em maior situação de vulnerabilidade social. É importante destacar que os recursos acima citados poderão ser aplicados em ações que estão vinculadas aos programas de habitação de interesse social, porém devem estar articulados com a política de desenvolvimento urbano, expressa pelo Plano Diretor. DICAS Caro acadêmico, a leitura detalhada do Plano Nacional de Habitação é fundamental para você aprofundar seus estudos. Então, acesse o link e leia com atenção o material indicado. <http://www.cidades.gov.br/images/stories/ArquivosSNH/ArquivosPDF/Publicacoes/ Publiicacao_PlanHab_Capa.pdf>. O Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social (SNHIS) tem como pertinência a centralização de todos os programas e projetos que visam o atendimento da demanda habitacional de interesse social. Esse atuará subordinado à Secretaria Nacional de Habitação. No que diz respeito ao Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social (FNHIS), é considerado um componente essencial ao SNHIS, pois centraliza os recursos orçamentários da União ou que são administrados por ela, essenciais para a moradia de baixa renda. As dotações responsáveis por nutrirem o FNHIS são originárias do Orçamento Geral da União (OGU), destinados à habitação, além de recursos que são oriundos do Fundo de Apoio ao Desenvolvimento Social (FAS), do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS), dos recursos derivados de empréstimos externos e internos, como também receitas patrimoniais e operacionais. O FNHIS tem como gestor o Conselho Gestor e como agente operador a Caixa, e a aplicabilidade desses recursos destina-se somente às ações vinculadas aos programas de habitação de interesse social, contemplados pela Lei n.º 11.125/2005. O FNHIS tem seus recursos aplicados de maneira descentralizada, através dos entes federados queaderiram ao Sistema, garantindo dessa forma o atendimento prioritário para as famílias com baixa renda, através de uma política de subsídios financeiros. Para garantir o acesso aos recursos do FNHIS, os municípios, estados e Distrito Federal precisam atender aos requisitos definidos pelo Ministério das Cidades (2010), que são: TÓPICO 3 | AS POLÍTICAS PÚBLICAS, PLANOS DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL E OS FINANCIAMENTOS HABITACIONAIS 111 • formalizar adesão ao SNHIS; • constituir o Fundo Habitacional de Interesse Social, com dotação orçamentária própria, destinado a implementar a Política de Habitação de Interesse Social; • criar o Conselho Gestor do Fundo; • elaborar o Plano Local de Habitação de Interesse Social, identificando as prioridades de investimentos, com foco na população de menor renda, que compõe a quase totalidade do déficit habitacional do país, e elaborar relatórios de gestão. FONTE: Adaptado de Ministério das Cidades (2006) A figura abaixo define como o SNHIS deve se organizar, ou seja, o seu fluxograma. FIGURA 8 - FLUXOGRAMA DO SNHIS FONTE: Rodrigues (2006, p. 82) Todo este conjunto de instrumentos de caráter jurídico-legal tem como foco a integração dos três níveis de governo, por meio de princípios e diretrizes estabelecidos pelo Governo Federal, resultando em ações planejadas que facilitam o investimento na área habitacional. Segundo o Ministério das Cidades (2010), os fundos estaduais e municipais deverão ser criados por lei pelos entes federados, com recursos orçamentários próprios, a fim de acessar os recursos disponíveis no FNHIS. Sendo que Conselhos Gestores dos Fundos deverão ser formados de forma paritária pelo poder público, segmentos sociais, entidades públicas e associações profissionais vinculadas à área habitacional, com representação democraticamente eleita, disponibilizando ¼ das vagas aos movimentos populares, tendo por papel deliberar sobre o uso e destino dos recursos. 112 UNIDADE 2 | A DEMANDA DA HABITAÇÃO NO BRASIL No próximo tópico será discutida a importância dos Planos de Habitação de Interesse Social que são de responsabilidade dos estados, Distrito Federal e municípios, onde a elaboração se dá de forma participativa, como a descrição de um diagnóstico da questão habitacional e determinando as diretrizes, metas e objetivos dos programas de interesse social. Em 2007, no segundo governo do mandato do presidente Luís Inácio Lula da Silva, surgem outros programas paralelos ao PNHIS, como o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) e a Portaria nº 411, de 28 de agosto de 2008, o Manual de Instruções para Aprovação e Execução dos Programas e Ações do Ministério das Cidades inseridos no Programa de Aceleração do Crescimento – PAC. Em conformidade com o Ministério das Cidades (2004, p. 4), o PAC “prevê a execução de alguns eixos, que são Transporte, Energia, Cidade Melhor, Comunidade Cidadã, Minha Casa Minha Vida e Água e Luz para Todos. Além desses, há também o eixo de Apoio à Elaboração de Planos de Habitação de Interesse Social”. O Governo Federal, com o lançamento do PAC, ostentou perante a sociedade brasileira o compromisso de executar obras de infraestrutura necessárias para o Brasil, resgatar os princípios de desenvolvimento e se tornar um país mais competitivo, e estimular o uso de recursos públicos e privados para gerar mais emprego e reduzir o nível de desigualdades sociais existente em todas as regiões brasileiras. Através dos investimentos dos segmentos estruturantes do país, o PAC teve resultado positivo, pois houve aumento de emprego e de geração de renda, aumentando o poder aquisitivo das pessoas. Durante a execução do PAC foi instituído o Programa Minha Casa Minha Vida (PMCMV), por meio da Medida Provisória nº 459/2009, e transformada na Lei nº 11.977/2009, e que depois foi alterada pela Medida Provisória nº 514/2010 e convertida na Lei nº 12.424, de 16 de junho de 2011. A Política Nacional de Habitação de Interesse Social (PHIS) passou a considerar o PMCMV seu principal instrumento para implementação das políticas públicas de habitação. FIGURA 9 - PMCMV FONTE: Disponível em: <http://www.caixa.gov.br/poder-publico/programas-uniao/ habitacao/minha-casa-minha-vida/Paginas/default.aspx>. Acesso em: 8 abr. 2016. TÓPICO 3 | AS POLÍTICAS PÚBLICAS, PLANOS DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL E OS FINANCIAMENTOS HABITACIONAIS 113 Com o PMCMV, por ter em seu procedimento a liberação de oferta pública de recursos, essas operações foram autorizadas pelo Banco Centro do Brasil (BACEN) e pelos agentes financeiros que integram o Sistema Financeiro da Habitação (SFH). Conforme a Lei do PMCMV, esse compreende ainda: • Programa Nacional de Habitação Urbana (PNHU): proposto às famílias com renda mensal de até dez salários mínimos, tendo direito aos subsídios habitacionais aquelas com renda familiar de até seis salários mínimos. • Programa Nacional de Habitação Rural (PNHR): destinado às famílias com renda mensal de até dez salários mínimos, tendo direito aos subsídios habitacionais aquelas com renda familiar de até seis salários mínimos, enquanto o PNHR tem como objetivo a concessão de subsídios aos agricultores rurais para a construção de moradia em área rural, por meio da aquisição de material de construção, conforme a faixa de renda familiar de até R$ 10.000,00 anuais. FONTE: Adaptado de <http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_ato2011-2014/2011/lei/l12424.htm>. Acesso em: 8 abr. 2016. Toda a demanda cadastrada pelos governos estaduais e municipais deverá ser inclusa no Cadastro Único (CadÚnico) e, após, avaliada pela Caixa ou pelo agente financeiro que operacionaliza os recursos. (BRASIL, 2011, p. 1). No próximo tópico será analisado o PMCMV, além de discutirmos a elaboração e implementação dos Planos Locais de Habitação de Interesse Social. DICAS Caro acadêmico, a leitura desta obra é fundamental para o seu conhecimento. Esta obra, composta por três volumes, é resultado de 17 anos de pesquisas e estudos, coordenados pelo arquiteto e urbanista Nabil Bonduki, realizados na Universidade de São Paulo. Reunindo documentação inédita e uma análise original, constitui a mais ampla e completa publicação sobre habitação social já realizada no país. Neste primeiro volume, Bonduki narra e analisa a história da produção pública de habitação no Brasil do começo do século XX até os dias de hoje, onde ele tece uma crítica ao papel dos órgãos públicos criados ao longo dos últimos cem anos para gerir um dos mais graves problemas da atualidade nas cidades brasileiras. 114 RESUMO DO TÓPICO 3 Neste tópico, vimos que: • As políticas urbanas devem ser, em geral, qualificadas como as políticas públicas que têm como princípio e objetivos as demandas e as práticas sociais, que são expressas sobre a ocorrência das questões locais e, consequentemente, interagem na vida cotidiana de toda a população. • No Brasil, a Política de Habitação de Interesse Social (PHIS) precisa ser entendida como parte da relação existente entre o Estado, os movimentos sociais e a política urbana, no contexto da sociedade capitalista. • A moradia passou a ser considerada uma das mercadorias mais caras do sistema capitalista. • A dificuldade e a falta de acesso à moradia devem-se principalmente aos baixos salários. • Historicamente, no Brasil, os ganhos mensais dos trabalhadores assalariados não proporcionavam nenhuma condição para que as necessidades básicas de moradia fossem supridas. • Durante o período de 1889-1930 (República Velha), as políticas de habitação de interesse social foram nulas. A iniciativa privada tinha como objetivo atender a demanda habitacional da classe operária, por meio dos aluguéis, que na época eram chamados de aluguéis rentistas. • No período de 1930-1945 (Era Vargas), as políticas de habitação eram condizentes com o projeto nacional-desenvolvimentista, por meio de uma lógica conservadora. • No período de 1946-1950 (Governo Eurico Gaspar Dutra),com a destituição de Getúlio Vargas do poder, o seu sucessor, Eurico Gaspar Dutra, adotou uma política populista, aprovando logo no início do seu mandato a criação da Fundação Casa Popular, por meio da Lei nº 9.218, de 10 de maio de 1946. • No período entre 1964 –1985 (Ditadura Militar), com a instauração do regime militar, a partir de 1º de abril de 1964, sob o comando do general Castelo Branco (1964-1967), a Fundação Casa Popular foi extinta, pois passou a ser considerada como um espaço de corruptos sem competência e com uma visão populista. 115 • No período entre 1985-1990 (Nova República), o primeiro representante da Nova República, José Sarney, ao assumir o cargo de Presidente da República, deparou com o carro-chefe da política de habitação, o Banco Nacional de Habitação, em uma crise institucional, onde vinha apresentando um desempenho social abaixo do nível esperado, um grande índice de inadimplência e baixo número de liquidez do sistema por parte dos mutuários em todo o país. • Através do Decreto nº 2.291, de 21 de novembro de 1986, o Banco Nacional de Habitação foi extinto. • Após a Constituição de 1988, e com base na descentralização, as demandas habitacionais de interesse social passaram a ser de responsabilidade dos estados e dos municípios, bem como sua efetivação. • Com o impeachment do presidente Fernando Collor, o vice-presidente Itamar Franco (1992-1924), que assumiu a Presidência da República, buscou investir novamente na política de habitação, através do lançamento de dois programas: o Habitar Brasil e o Morar em Município. • O presidente Fernando Henrique Cardoso-FHC (1995-2002) manteve em seu governo o Programa Habitar Brasil e criou a Secretaria de Política Urbana (Sepurb), sendo vinculada ao Ministério do Planejamento. • No primeiro mandato do presidente da República Luiz Inácio Lula da Silva, no ano de 2003, foi criado o Ministério das Cidades, que no ano seguinte lança a Política Nacional de Habitação (PNH), que foi regulamenta através da Lei n.º 11.124/2005. • O Programa Minha Casa Minha Vida (PMCMV) foi instituído por meio da Medida Provisória nº 459/2009, transformada na Lei nº 11.977/2009, e que depois foi alterada pela Medida Provisória nº 514/2010 e convertida na Lei nº 12.424, de 16 de junho de 2011. 116 1 As cidades brasileiras vêm enfrentando, ao longo da história, sérios problemas relacionados ao déficit qualitativo e quantitativo de habitação de interesse social. Através do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) foram previstos recursos para diminuir esse déficit. Mediante as condições atuais da estrutura urbana das cidades, muitas delas, no Plano Diretor, contemplam a política habitacional e outras diretrizes, porém é comum entre elas: I- Determinar Zonas Especiais de Interesse Social em prédios vazios do centro das cidades, ponderando o processo de esvaziamento de sua área central. II- Propor a fronteira de reabilitação e preservação nas áreas adjacentes à degradada de ferrovias abandonadas, pelos programas de edificação de habitação de interesse social. III- Estabelecer programas de regularização fundiária, com recuperação das unidades habitacionais e das condições urbanísticas da área. IV- Estabelecer zonas exclusivas de habitação, propostas a cada segmento social, fora da área central das cidades. Considerando que os recursos do PAC só poderão financiar diretrizes ancoradas nos princípios de política urbana estabelecidos constitucionalmente, as diretrizes que ATENDEM às exigências do programa são: a) ( ) I e II, apenas. b) ( ) III e IV, apenas. c) ( ) I e III, apenas. d) ( ) I, II e IV, apenas. e) ( ) I, II, III e IV. 2 A Lei Federal 11.124, de 16 de junho de 2005, instituiu o Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social – SNHIS e criou o Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social – FNHIS. O SNHIS foi criado com os seguintes objetivos: I- Viabilizar para a população de menor renda o acesso à terra urbanizada e à habitação digna e sustentável. II- Implementar políticas e programas de investimentos e subsídios, promovendo e viabilizando o acesso à habitação voltada à população de menor renda. III- Articular, compatibilizar, acompanhar e apoiar a atuação das instituições e órgãos que desempenham funções no setor da habitação. Para isso, o SNHIS centraliza todos os programas e projetos destinados à habitação de interesse social, observada a legislação específica. AUTOATIVIDADE 117 A lei também cria o Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social – FNHIS, de natureza contábil, que tem o objetivo de centralizar e gerenciar recursos orçamentários para os programas estruturados no âmbito do SNHIS. FONTE: Disponível em: <http://solucoesparacidades.com.br/habitacao/7-leis-habitacao/ sistema-nacional-de-habitacao-de-interesse-social-snhis/>. Acesso em: 8 abr. 2016. Conforme o texto acima, escreva uma síntese sobre a Política Nacional de Habitação de Interesse Social, de no mínimo 10 linhas. 118 119 TÓPICO 4 UM NOVO OLHAR PARA POLÍTICA HABITACIONAL UNIDADE 2 1 INTRODUÇÃO O ano de 2003 se tornou uma referência histórica para a política urbana, por meio das questões habitacionais e fundiárias no Brasil, decorrente das ações do novo Governo Federal. A reorganização de toda a estrutura institucional responsável pela gestão dessas políticas, com a mudança do foco de atendimento da população e com o significativo aumento dos recursos, distingue o Governo Lula e o Governo Dilma. Com todos os avanços que aconteceram nas questões habitacionais e fundiárias que estão inseridas na política urbana, pode-se constatar que a PNHIS viabilizou a construção de moradias em proporção expressiva e em quantidade, comparando os investimentos que eram realizados em períodos anteriores. Através desse novo olhar sobre as políticas de desenvolvimento urbano, com ênfase nas políticas habitacionais, os movimentos sociais e entidades de luta pela moradia passam a fazer parte do Sistema Nacional de Habitação, defendendo seus princípios e reivindicações históricas de luta e auxiliando na implementação das diretrizes e dos programas definidos na operacionalização da política de habitação. O novo olhar para a política habitacional garantiu, por exemplo, que o princípio da autogestão, que era adotado pelos estados e municípios, passasse a ser incorporado nos programas do Governo Federal, através de um novo modelo de política pública. Para os movimentos urbanos e os de luta pela moradia, isto significou uma importante conquista, pois programas federais importantes foram lançados, como: o Plano de Aceleração do Crescimento (PAC) e o Minha Casa, Minha Vida (MCMV), que consequentemente elevaram o volume dos recursos destinados e aplicados para essas políticas, sendo que parte desses foi destinada exclusivamente para a população de baixa renda. Pode-se afirmar que este período de grande alavancagem nas políticas habitacionais no Brasil trouxe como objetivo apresentar a política habitacional que foi implementada pelo Governo Lula, e que teve continuidade no Governo Dilma. 120 UNIDADE 2 | A DEMANDA DA HABITAÇÃO Paralelo à PMCMV, o Governo Federal lançou os Planos Locais de Habitação de Interesse Social (PLHIS), conforme denominados pelo Ministério das Cidades, sendo que representam um instrumento para a gestão da Política de Habitação de Interesse Social (PHIS) em todo o Brasil. A implantação dos PLHIS se tornou obrigatória desde 2010, para todos os municípios com mais de 50 mil habitantes ou que sejam localizados nas regiões consideradas metropolitanas. Sendo assim, neste último tópico será analisado o PMCMV, além de discutirmos a elaboração e implementação dos Planos Locais de Habitação de Interesse Social. 2 OS PLANOS LOCAIS DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL E O PROGRAMA MINHA CASA MINHA VIDA Para dar agilidade na elaboração e no desenvolvimento dos PLHIS se faz necessário seguir dois aspectos fundamentais, que são apresentados pelo Manualde orientação à elaboração do PLHIS – simplificado (2011): • Diagnóstico do Setor Habitacional: deve reunir todas as informações que dizem respeito ao déficit habitacional, quantitativo e qualitativo. • Estratégias de Ação: devem apontar as diretrizes e os objetivos da política de habitação, as linhas programáticas e as ações, descrever as leis e as normativas, informar as fontes de recursos, elencar as fontes de recursos financeiros, detalhar os critérios de atendimento, e os dados de monitoramento e avaliação. DICAS No link abaixo você, caro acadêmico, irá encontrar o Manual de elaboração do PLHIS simplificado. <http://www.cidades.gov.br/images/stories/ArquivosSNH/ArquivosPDF/Manuais/Manual_ PLHIS_simplificado.pdf>. Diante das especificidades de cada território e das suas normativas e legislação pertinentes à questão urbana, os PLHIS, segundo (PLANHAB, 2009, p. 21), devem abranger em seu contexto elementos estruturantes que desenvolvam ações e procedimentos específicos, como: TÓPICO 4 | UM NOVO OLHAR PARA POLÍTICA HABITACIONAL 121 • Provisão de Infraestrutura Urbana e Habitacional. • Regularização Fundiária Adequada. • Regularização e Gestão Ambiental. • Participação e Trabalho Social. Os PLHIS devem estar conceituados da seguinte maneira: Um conjunto de objetivos, metas, diretrizes e instrumentos de ação de intervenção que expressam o entendimento dos governos locais e dos agentes sociais e institucionais quanto à orientação do planejamento local do setor habitacional, especialmente à habitação de interesse social, tendo por base o entendimento dos principais problemas habitacionais identificados na localidade (PLANHAB, 2009, p. 59). A elaboração do PLHIS não pode ser compreendida como uma ação separada ou isolada que se conclui com a elaboração e apresentação do documento, como um resultado final, mas sim como o marco inicial de um processo de planejamento contínuo para atender as demandas habitacionais no país. Os PLHIS que foram elaborados, na sua grande maioria, apontam de forma genérica alguns pressupostos fundamentais para o desenvolvimento dos mesmos, como a função social da cidade e da propriedade; moradia digna e adequada; conceito de sustentabilidade; defesa da dignidade do ser humano; modelo de gestão democrática e participativa da política habitacional; compatibilidade e integração com todas as esferas de governo e planejamento habitacional. Levando em consideração as diferentes regiões brasileiras e suas culturas e linguagens que se distinguem visivelmente, os PLHIS seguem a mesma lógica dos PlanHab, no que se refere à função social das cidades e da propriedade, moradia digna e gestão democrática e participativa da política habitacional. O objetivo principal dos PLHIS defendido pelos Estados, suas capitais e municípios, segue a mesma linha do PlanHab: Planejar as ações públicas e privadas, no médio e longo prazo, com o propósito de formular uma estratégia do Governo Federal para enfrentar as necessidades habitacionais do país, considerando o perfil do déficit habitacional, a demanda futura por moradia e a diversidade do território nacional (PLANHAB, 2009, p. 45). Para Nalin (2013), é através da elaboração dos planos que o poder público concretiza diferentes instâncias, conjunto de ações que proporcionam meios de instalar um roteiro que dê condições de avançar para atingir o objetivo principal da PNHIS, que é garantir a universalidade ao acesso à moradia de qualidade e digna para toda a população brasileira, independentemente de sua classe social. Abaixo estão descritas as prioridades a serem perseguidas: 122 UNIDADE 2 | A DEMANDA DA HABITAÇÃO 1. Prioridade para planos, programas e projetos habitacionais para a população de menor renda, articulados no âmbito federal, estadual, do Distrito Federal e municipal. 2. Utilização prioritária de incentivos ao aproveitamento de áreas dotadas de infraestrutura não utilizadas ou subutilizadas, inseridas na malha urbana. 3. Utilização prioritária de terrenos de propriedade do poder público para a implantação de projetos habitacionais de interesse social. 4. Sustentabilidade econômica, financeira e social dos programas e projetos implementados. 5. Incentivo à implementação dos diversos institutos jurídicos que regulamentam o acesso à moradia, previstos no Estatuto da Cidade e outros. 6. Incentivo à pesquisa, incorporação de desenvolvimento tecnológico e de formas alternativas de produção habitacional. 7. Adoção de mecanismos de acompanhamento e avaliação e de indicadores de impacto social das políticas, planos e programas. 8. Observação de mecanismos de quotas para idosos, deficientes e famílias chefiadas por mulheres dentre o grupo identificado com o de menor renda. 9. Desenvolvimento institucional para que a atuação local tenha cada vez mais institucionalidade, com a criação de órgão próprio ou com a internalização de algum órgão já estruturado e relacionado com a problemática da habitação e que possa contar com os meios administrativos, técnicos e financeiros necessários (PLANHAB, 2009, p. 76). Como é visto, uma das prioridades importantes é a oitava, que prevê e designa quotas para pessoas idosas, deficientes e famílias chefiadas por mulheres. Na grande maioria das famílias em situação de vulnerabilidade social, as mulheres assumem a função de chefes de domicílios. Para a Comissão Econômica para a América Latina (CEPAL, 2004), esse fenômeno é denominado de “feminização da pobreza”. Uma outra prioridade ao atendimento das demandas habitacionais está respaldada no processo de envelhecimento de toda a população do país. Segundo o Instituto Nacional de Pesquisa Aplicada (IPEA, 2010), cerca de 30% dos idosos são responsáveis por mais de 90% do rendimento familiar, devido à aposentadoria e outros benefícios. Após a efetivação do Estatuto do Idoso, Lei n º 10.741/2003, os idosos passaram a ter uma função social mais preponderante, o que fez ampliar as demandas habitacionais. Atualmente, ainda existe um contrassenso que envolve a política de financiamento habitacional, destinada para a faixa de renda entre três a seis salários mínimos do PMCMV II. Isso acontece devido à ampliação da expectativa de vida, sendo que na faixa de renda que está compreendida entre zero a três salários mínimos não foi determinado limite para a contratação. Porém, junto à Caixa e ao Banco do Brasil, o limite para contratação de novos contratos habitacionais é de 60 anos de idade, e precisa de uma entrada de 20% sobre o valor total do imóvel. TÓPICO 4 | UM NOVO OLHAR PARA POLÍTICA HABITACIONAL 123 IMPORTANT E Em síntese, a idade e os anos de financiamento não podem ultrapassar o total de 80 anos total, e o contratante não pode comprometer mais de 30% da sua renda mensal com as prestações do financiamento habitacional. Outra prioridade nos programas habitacionais de interesse social é a demanda que existe da pessoa com deficiência. Conforme o Censo de 2010 (IBGE, 2010), 24,5 milhões de pessoas portadoras de algum tipo de deficiência, física e mental, representam 14,5% da população. Esses dados podem variar ano a ano, perante o crescente número de acidentes de trânsito nas vias públicas em todo o Brasil, pois muitas pessoas sofrem lesões, e que são irreversíveis, no que se refere à sua mobilidade. Como outros programas governamentais, o PMCMV destina quotas específicas para idosos, pessoas portadoras de deficiência e para as mulheres chefes de família, mas essas medidas, que de certo modo são isoladas, acabam não dando conta da demanda, pois as cidades precisam repensar a lógica da estruturação urbana, e não priorizar somente a construção de edifícios, chamados arranha-céus, e que não são adaptados para receber as pessoas com deficiência, ou idosos, e sim, pensar em espaços de convívio social e coletivo. A realização do planejamento da política habitacional impacta em algumas variáveis, porém algumas discussões são necessárias: • o crescimentopopulacional: varia de acordo com a taxa de fecundidade, da mortalidade infantil e da expectativa de vida. • o percentual de pobreza no país: o contingente populacional mais pobre concentra 83% do déficit habitacional no Brasil, sendo a faixa populacional que mais cresce. FONTE: Adaptado de IBGE (2010) Conforme IBGE (2010), o quesito analisado sobre o crescimento geométrico da população do Brasil mostra que desde o primeiro recenseamento, que ocorreu em 1872, o maior percentual de crescimento populacional no país ocorreu em 1950, através de uma taxa anual de 2,99%, e a menor média anual foi 1,17%. Em 138 anos, a população brasileira cresceu 20 vezes. Conforme o Censo demográfico realizado pelo IBGE (2010), o Brasil conta com: 124 UNIDADE 2 | A DEMANDA DA HABITAÇÃO 190.732.694 habitantes, onde 15,65% do total vivem no campo (29.852.986 pessoas), contra 84,35% da população na zona urbana (160.879.708 em pessoas). As maiores taxas anuais de crescimento foram observadas nas regiões Norte (2,09%) e Centro-Oeste (1,91%). O montante populacional brasileiro está distribuído de forma irregular em 5.564 municípios. O IBGE (2010) aponta ainda que nos últimos dez anos a população brasileira teve um aumento em 12,3%, totalizando 20.933.524 pessoas. Porém, a partir de 2020 o patamar de crescimento populacional irá diminuir, será menos de 0,5% ao ano. Os dados divulgados pelo IBGE (2010) apontam comparativamente o crescimento populacional do Brasil com outros continentes. Sendo que o crescimento populacional brasileiro apresenta taxas relativamente bem próximas da Europa, com 1,34%, abaixo da média da América Latina, com 2,5%. Os outros continentes apresentam taxas de 1,9% na América do Norte, 2,39% na Oceania, 2,54% na Ásia e 4,97% na África, sendo este o continente cuja população mais cresce no mundo. Para o IBGE, no ano de 2000, os estados mais populosos eram: São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Pará, Bahia, Paraná, Ceará e Rio Grande do Sul. “E no Censo de 2010, o ranking dos estados mais populosos passou a ser formado pelos seguintes estados: São Paulo, Minas Gerais, Rio de Janeiro, Pará, Ceará, Goiás, Bahia e Maranhão.” (IBGE, 2010). Outro índice importante na formulação dos programas habitacionais é o índice de fecundidade da mulher que se encontra em idade reprodutiva. Mediante o IBGE (2010), até os anos de 1980 era de 3,4 (filhos) por mulher, passando para 2,6 (filhos) em 1990, representando uma queda de 20% em apenas dez anos. No ano de 2000 girava em torno de 2,13 (filhos) por mulher, e em 2010 passou para a média de 1,82 filhos. A região Norte do Brasil concentra as maiores taxas, sendo 2,47 (filhos) por mulher. Nas regiões Sudeste e Sul esse índice é de apenas 1,7 (filhos) por mulher. Segundo o IBGE (2010), a média brasileira fica abaixo de países como o México, onde a taxa é de 2,27 (filhos) por mulher, o Haiti com 2,98, e a Uganda, na África, que chega a 6,14 (filhos) por mulher. Mesmo que a média de fecundidade no Brasil tenha diminuído, essa taxa entre as mulheres mais pobres e com baixa instrução é alta, e chega à média de três (filhos) por mulher, diferente das mulheres que possuem Ensino Superior completo e com melhor poder aquisitivo, quando chega apenas a 1,14 (filhos) por mulher IBGE (2010) Outro dado apontado pelo IBGE (2010) é a tendência de as mulheres mais pobres e com um grau baixo de instrução terem filho precocemente, entre 18 e 24 anos. Já entre as mulheres com nível superior e com uma renda mensal melhor, a média de idade fica entre 30 e 34 anos. Uma das consequências positivas sobre a redução do número de filhos é a diminuição nas taxas de mortalidade de crianças menores de um ano no Brasil, que passou de 35,3 óbitos por mil nascidos, em 2000, para 19,4 óbitos por mil nascidos, em 2010. (IBGE, 2010). TÓPICO 4 | UM NOVO OLHAR PARA POLÍTICA HABITACIONAL 125 Analisando esses dados, pelas regiões brasileiras, a queda da mortalidade entre os anos de 2000 a 2010 aconteceu na região Nordeste, que era de 44,7 por mil nascidos para 19,4 (p/m) óbitos, porém, de acordo com IBGE (2010), continua sendo a região com maior índice de mortalidade infantil do país. Em 2010 o Brasil alcançou o quarto Objetivo de Desenvolvimento do Milênio (ODM), que tinha como meta reduzir em 2/3, até 2015, a mortalidade de crianças menores de um ano, tendo 1990 como ano-base para o início da série temporal. O IBGE (2010) sinaliza que a taxa de chefia, que é a faixa etária que retribui à capacidade jurídica e econômica para comprar, assumir um financiamento ou pagar um aluguel, fica em torno dos 24,4 anos, sendo essa a média de idade em que os jovens iniciam a vida profissional e contraem núpcias. Existem outras faixas etárias que são demandantes da aquisição de novas habitações, e se concentram entre 35-39 anos e 45-60 anos, por estarem, em muitos casos, “recomeçando” novas uniões, após separações e divórcios. O jovem de famílias mais pobres tem a tendência de casar mais cedo, entre os 20 anos de idade. Segundo o último Censo, é a população que mais cresce. IMPORTANT E A Declaração do Milênio, da qual o Brasil é signatário, é um compromisso firmado entre 189 países-membros da ONU. Esses se comprometeram no ano de 2000 a alcançar até 2015 um conjunto de seis metas: a) reduzir pela metade o número de pessoas que sofrem com a fome e vivem com menos de um dólar por dia; b) promover a educação primária universal e de qualidade; c) promover a igualdade de gênero; d) reduzir a mortalidade infantil; e) assegurar a sustentabilidade ambiental; f) promover a parceria em nível global visando o desenvolvimento. FONTE: Disponível em: <http://www.pnud.org.br/milenio.>. Acesso em: 12 abr. 2016. Enfatizando as questões urbanas, o Censo de 2010 comprovou que o tipo de esgotamento sanitário é de grande importância para definir as causas e níveis de mortalidade infantil, com crianças até cinco anos de idade. Apontou que em domicílios que possuem rede geral de esgoto, a taxa de mortalidade de crianças que possuem até um ano de idade chega a 14,6 por mil nascidos e 16,8 óbitos, com crianças da mesma idade. Já os índices inferiores foram observados com crianças até um ano de idade e 24,8 óbitos por mil crianças até cinco anos de idade. A conclusão real é que as condições de salubridade das cidades e das respectivas moradias interferem diretamente no nível de desenvolvimento e mortalidade infantil. 126 UNIDADE 2 | A DEMANDA DA HABITAÇÃO Uma outra variável importante para ser analisada é o crescimento de vida, que está atrelada à expectativa de vida da população. Segundo o IBGE (2010), o Brasil é um país que está vivenciando um processo de envelhecimento, pois até a década de 1960 suas características demográficas indicavam uma população jovem. Nos últimos 50 anos aumentou a idade média em 25,4%. Segundo análise do IBGE, a expectativa de vida em 2010 era de 72 anos e 10 meses, contraditório à taxa de 1960, em que a média era de 46 anos. O IBGE (2010) aponta ainda que para os anos de 2023 a perspectiva da média de vida é de 75 anos, ficando parecido com os índices dos países mais desenvolvidos de todo o mundo. Isso significa que no ano de 2040 teremos ¼ da população idosa, ou seja, com mais de 60 anos, sendo essa uma demanda para os investimentos de ações e programas habitacionais. UNI No que diz respeito ao percentual de pobreza: Um novo relatório do Banco Mundial sobre erradicação da pobreza na América Latina mostra que o Brasil conseguiu praticamente erradicar a extrema pobreza, e o fez mais rápido que os países vizinhos. Intitulado “Prosperidade Compartilhada e Erradicação da Pobreza na América Latina e Caribe”, o relatório mostra que, entre 2001 e 2013, o percentual da população vivendo em extrema pobreza caiu de 10% para 4%”. De acordo com o relatório, entre 2001 e 2013, o percentual da população vivendo em extrema pobreza caiu de 10% para 4%”. “De 1990 a 2009, cerca de 60% dos brasileiros passarama um nível de renda maior. Ao todo, 25 milhões de pessoas saíram da pobreza extrema ou moderada. Disponível em: <http://www.brasil.gov.br/cidadania-e-justica/2015/04/brasil-lidera-erradicacao- da-extrema-pobreza-na-america-latina>. Acesso em: 14 abr. 2016. O processo de favelização das cidades brasileiras, segundo Devis (2006, p. 34), “atinge a ordem de 36,6% da população, representando 52 milhões de pessoas”. O Movimento Nacional de Luta Pela Moradia (MNLM), durante a Conferência Rio+20, apontou que existem 16.700 mil favelas distribuídas em aproximadamente 333 municípios do país, e estimou um déficit quantitativo na ordem de 11 milhões e quantitativo ultrapassando os 15 milhões de unidades habitacionais. Sobre a favelização das cidades, conforme os dados divulgados pelo IBGE (2010), um total de 11.424.644 de pessoas, o que equivale a 6% da população brasileira, reside em aglomerados subnormais, nome técnico dado pelo IBGE para designar os locais como as favelas, invasões e comunidades com o mínimo de 51 domicílios, que representa um déficit quantitativo. TÓPICO 4 | UM NOVO OLHAR PARA POLÍTICA HABITACIONAL 127 A análise dos dados citados acima e que foram divulgados traz questionamentos referentes à realidade habitacional existente, acabando por comprometer diretamente as ações, as estratégias, as metas e os recursos estabelecidos na elaboração dos Planos de Habitação de Interesse Social. O IBGE (2010) aponta, através das hipóteses, que o crescimento das favelas no território brasileiro ultrapassa a variável do crescimento vegetativo da população do país, porém prende-se ao processo histórico desde 1850, de concentração de renda e de terras. Sendo importante considerar que a crise econômica que se instalou no Brasil, durante as décadas de 70 e 90 do século XX, aumentou o índice de pobreza. Conforme CEPAL (2004), a maioria da população considerada pobre era constituída por trabalhadores com baixos salários, e que estavam em postos de trabalho pouco qualificados, necessitando constantemente de proteção social, por meio de ações do Estado. O Brasil, segundo o IPEA (2010), é considerado a sétima economia mundial, e ainda apresenta um índice de salários baixos. O último Censo, realizado em 2010, mostra que, dos 190 milhões de brasileiros, 8,5% vivem com uma renda de R$ 70,00 por pessoa (IBGE, 2010). Em relação à renda per capita da população brasileira, o IPEA (2010) aponta que existe uma tendência de diminuição da pobreza no país, que é maior do que a queda da desigualdade social, continuando a alta concentração de renda, onde 40% das pessoas mais pobres vivem com 10% da renda nacional e os 10% mais ricos vivem com mais de 40%. Entretanto, nas últimas duas décadas aconteceu uma migração das classes D e E para a A, B e C. Sendo constatado, através de números absolutos, que a classe média brasileira registrou uma maior alta neste período. Porém, o percentual de crescimento dos segmentos A e B foi superior, ou seja, a classe alta também cresce. O IPEA (2010) aponta que este relativo esvaziamento das classes E e D em favorecimento do aumento da classe C tem como indicador geral o acréscimo de bem-estar, pois o consumo deste setor intermediário da economia está centrado para a moradia, para o transporte, para a educação e para a saúde. Como principais fatores que colaboraram para a inserção da economia do Brasil no comércio internacional e para o aumento das exportações, podem ser destacados: a estabilização da economia, com o aumento dos salários nos segmentos da construção civil e indústria, por exemplo, e pela implantação de políticas de distribuição de renda, através dos programas o Bolsa Família e o Benefício de Prestação Continuada (BPC), além do grande incentivo com a diminuição dos impostos para a aquisição de eletrodomésticos, entre outros. Para o IPEA (2010), a população mais pobre teve uma certa melhora em sua renda per capita. Falta muito para que o Brasil consiga se tornar um país igualitário no que se refere à economia, pois está entre as 12 nações do mundo com maior índice de desigualdade. 128 UNIDADE 2 | A DEMANDA DA HABITAÇÃO No que se refere às questões das demandas habitacionais e outras questões relevantes à habitação nos países subdesenvolvidos, existe uma complexa tarefa em dimensionar para os espaços socioterritoriais, a novos investimentos habitacionais. A Fundação João Pinheiro (2012, p. 12) traz um estudo que se tornou referência para o Ministério das Cidades sobre as necessidades habitacionais, através de dois focos: déficit habitacional e inadequação habitacional. Como déficit habitacional entende-se a noção mais imediata e intuitiva de necessidade de construção de novas moradias para a solução de problemas sociais e específicos de habitação detectados em certo momento. Por outro lado, inadequação de moradias reflete problemas na qualidade de vida dos moradores: não estão relacionados ao dimensionamento do estoque de habitações e sim às suas especificidades internas. Seu dimensionamento visa ao delineamento de políticas complementares à construção de moradias, voltadas para a melhoria dos domicílios. Sendo assim, o déficit habitacional está relacionado à quantidade de novas moradias que devem ser construídas para dar conta de atender às demandas acumuladas durante todo o processo histórico do Brasil, e as inadequações habitacionais dizem respeito às necessidade de realização das melhorias nas unidades, como, por exemplo, a realização de melhorias em infraestrutura básica, na questão da regularização fundiária, ressaltando que as inadequações não implicam diretamente com as construções de novas unidades. Se analisarmos todos os PLHIS, fica claro que a maior concentração do déficit habitacional está concentrada na faixa de zero a três salários mínimos, em todas as regiões do Brasil. Ribeiro e Azevedo (1996, p. 14) fazem uma observação sobre a questão de analisar o déficit habitacional com a renda, onde afirmam: [...] percebe-se que a esmagadora maioria se encontra nas famílias que possuem renda mensal até três salários mínimos. Como se trata de baixos rendimentos familiares, necessita de políticas diferenciadas, cabendo ao Estado um papel estratégico, especialmente em busca de políticas cooperativas entrelaçadas que possam envolver os três níveis de governo, como ocorre com o Sistema Único de Saúde – SUS. Conforme o PlanHab (2009), o Governo Federal, com a intenção de combater o déficit habitacional quantitativo e qualitativo, tem a projeção de até o ano de 2023 atingir a meta de 226.988.353 intervenções, através de novas construções e adequações habitacionais. Os PLHIS, em geral, apontam que os recursos financeiros para reduzir o déficit habitacional mais utilizados são: Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social (FNHIS); Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS); Fundo de Arrendamento Residencial (FAR); Fundo de Desenvolvimento Social (FDS); Orçamento Geral da União (OGU); Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT); e TÓPICO 4 | UM NOVO OLHAR PARA POLÍTICA HABITACIONAL 129 Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE). E existem também os recursos oriundos dos Fundos de Habitação de Interesse Social dos estados e municípios, porém os que apresentaram quantidade de financiamento são os acima citados. Através do Sistema Financeiro de Habitação estão previstos recursos específicos para serem aplicados em programas e projetos de interesse social, através do fortalecimento dos órgãos públicos, tanto municipais como estaduais, visando a implantação de políticas habitacionais. Cabe ressaltar que o modelo de financiamento habitacional, que é implementado no Brasil desde 1966, é baseado em instrumentos de captura por meio de poupanças, que são: o Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE) e o Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (FGTS). Os recursos oriundos do FGTS são destinados especificamente para o investimento habitacional e para investimentosem saneamento ambiental. Desde a sua constituição em 1960, é um patrimônio dos trabalhadores, a principal fonte de recursos para o financiamento das políticas de habitação de interesse social no Brasil. De acordo com Oliveira (2000), no período dos anos de 1964-1986, a atuação do BNH garantiu as cadernetas de poupanças privadas, com abrangência de recursos oriundos do FGTS, porém, os recursos destinados às classes de baixa renda foram desviados para a classe média. Quando o BNH foi extinto, os recursos do FGTS passaram a ser um elemento de disputa entre os grupos do Governo Federal, onde existia a tendência de utilizá-los nas diretrizes políticas e econômicas e/ou como “moeda de troca”, nas negociações de cunho clientelista, que serviam como base política à Nova República no Brasil. Com a crise que se instaurou no Brasil durante a década de 1990 e por exigência do FMI, em 1998 o acesso ao FGTS foi limitado aos órgãos governamentais. Para Oliveira (2000), estes recursos ficaram escassos para os investimentos de habitação e infraestrutura, os governos estaduais e municipais tiveram que assumir essa responsabilidade, dependendo exclusivamente de seus recursos próprios ou de financiamentos internacionais, como o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) e o Banco Mundial. Segundo Iamamoto (2009, p. 30): “O capital financeiro avança sobre o fundo público, formado tanto pelo lucro do empresariado quanto pelo trabalho necessário dos assalariados, que são apropriados pelo Estado sob a forma de impostos e taxas”. O FGTS, através da Medida Provisória nº 252, de 2003, se tornou alvo de alterações, onde o saque dos recursos foi permitido somente num intervalo de quatro anos, e se esse recurso se destinasse na utilização de um imóvel residencial ou então para amortização de financiamento habitacional, já adquirido. 130 UNIDADE 2 | A DEMANDA DA HABITAÇÃO Uma outra medida, que se tornou a principal no que se refere aos financiamentos habitacionais, é a Resolução n.º 460 do Conselho Gestor do FGTS, de 14 de dezembro de 2004, que entrou em vigor somente no ano de 2005. Essa consentiu instituir um sistema de desconto, onde os custos de financiamentos eram reduzidos, através dos recursos do Fundo, e assim beneficiando setores de menor renda e não comprometendo a gestão financeira do FGTS. A consequência dessa medida foi a ampliação dos financiamentos para as famílias com renda mensal de até três salários mínimos. No ano de 2004 foi lançado o Programa Crédito Solidário, que tinha como foco o atendimento para as demandas habitacionais da população de baixa renda, e que estavam organizadas em cooperativas ou em associações, que tinham como objetivo a construção e aquisição de novas unidades habitacionais, ou o término de reformas das moradias que já existiam, perante a aprovação de financiamentos diretamente aos beneficiários. Os recursos desse programa eram do Fundo de Desenvolvimento Social (FDS), criado em 1993. O Programa de Crédito Solidário foi uma grande conquista para os movimentos de luta pela moradia, pois puderam contar com recursos de nível federal para a realização das ações habitacionais, fundamentadas na autogestão. Os recursos do Fundo de Arrendamento Residencial (FAR) foram destinados ao PMCMV e tinham como objetivo financiar os empréstimos para a habitação, realizados às famílias com renda mensal de até três salários mínimos. Esses recursos são administrados pelo Ministério das Cidades, são operacionalizados pela Caixa e incidem na compra de terrenos e para a edificação ou melhorias habitacionais, para o empreendimento em condomínios ou em loteamentos, constituídos por apartamentos ou em casas, e depois entregues aos beneficiários através do processo de alienação. Os referidos recursos são administrados pelo Ministério das Cidades e operacionalizados pela Caixa e consistem em aquisição de terreno e construção ou requalificação de imóveis contratados como empreendimentos habitacionais em regime de condomínio ou loteamento constituído por apartamentos ou casas que, depois de concluídos, são alienados às famílias. Os recursos do FGTS, mediante as diretrizes do Conselho Curador do Fundo de Garantia por Tempo de Serviço (CCFGTS), têm como foco financiar as empresas da área da construção civil e o mercado imobiliário para a construção de habitação de interesse popular, objetivando atender famílias com renda de até R$ 5.000,00, priorizando a faixa entre R$ 1.600,00 a R$ 3.100,00. TÓPICO 4 | UM NOVO OLHAR PARA POLÍTICA HABITACIONAL 131 IMPORTANT E O atendimento nacional dos programas habitacionais observa os seguintes critérios, levando em consideração o número de habitantes e o déficit habitacional: a) possuam um projeto básico para áreas de intervenção habitacionais; b) possuam projeto executivo; c) atendam à população residente em áreas sujeitas a situações de risco de vida, insalubridade ou locais impróprios para moradia; d) atendam a demandas habitacionais de segmentos específicos; e) constituam ações avaliadas como prioritárias pelo conselho municipal ou estadual ou órgão de caráter equivalente; f) sejam proporcionadas por entes federados não contemplados, no ano anterior ao da realização da seleção, pelos demais programas de habitação de interesse social geridos pela União; g) atendam demanda habitacional decorrente de crescimento demográfico resultante do impacto de grandes empreendimentos de infraestrutura; h) sejam apresentadas por município que possua Termo de Ajustamento de Conduta (TAC) assinado com o Ministério Público para implementação de ações voltadas a atender à população objeto da intervenção proposta; i) sejam apresentadas por municípios que possuam maior valor percentual de déficit habitacional em relação ao total de domicílios dos municípios; j) atendam a demandas apresentadas por movimentos sociais, associações e grupos representativos de segmentos da população; k) atendam à população com problemas de coabitação familiar ou ônus excessivo de pagamento de aluguel; l) atendam à população residente em área de conflito fundiário urbano. Porém, o PMCMV considera os critérios através da seleção das propostas que consistem cumulativamente na: a) realocação de famílias situadas em áreas insalubres ou de risco; b) nos municípios com déficit habitacional acima da média da UF correspondente; c) nos municípios em situação de calamidade pública; d) no atendimento a demanda habitacional decorrente do crescimento demográfico resultante do impacto de grandes empreendimentos de infraestrutura; e) em municípios com andamento de obra em situação normal no Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) Habitação; f) na maior contrapartida do setor público local. Outros critérios foram instituídos a partir do Decreto n.º 7.499/2011. FONTE: Adaptado de <http://www.sst.sc.gov.br/arquivos/id_submenu/230/manual_fnhis_ melhorias_cond_habitabilidade.pdf>. Acesso em: 6 jun. 2016 Os PLHIS estabelecem para população que necessita de uma moradia os indicativos com diversas variações, em especial no que se refere a renda máxima e mínima. Esses critérios comuns encontrados na PlanHab (2009) são firmados em alguns PLHIS, e se apresentam da seguinte forma. 132 UNIDADE 2 | A DEMANDA DA HABITAÇÃO QUADRO 5 - CRITÉRIOS PARA O ATENDIMENTO DA POPULAÇÃO QUE NECESSITA DE MORADIA FONTE: Adaptado de PlanHab (2009) Critérios Especificações 1 CRITÉRIO Atender prioritariamente famílias com renda familiar até três salários mínimos. 2 CRITÉRIO Atender famílias de até cinco salários mínimos com recursos públicos e onerosos (conforme os critérios estabelecidos nos programas dos entes públicos pesquisados, sendo que a faixa poderá chegar a seis salários mínimos). 3 CRITÉRIO Atender famílias com renda acima de cinco até dez salários mínimos por meio de parcerias ou incentivos (com recursos onerosos). (Este critério, dependendo do ente público, não foi citado no PLHIS, bem como a faixa de rendapoderá variar entre seis e dez salários mínimos). O PlanHab, sendo um plano nacional, é composto de cinco faixas de grupos para atendimento, em conformidade com a capacidade de obter um financiamento, sendo considerado a renda per capita, a análise da cesta de consumo e tipologia dos municípios, conforme cada situação, ou dos exemplos de simulação que são apresentados de um financiamento e de subsídios específicos para cada ente federado. O PlanHab (2009) apresenta as principais linhas programáticas que acabam sendo seguidas nos PLHIS, onde os mais comuns são: o PMCMV, o Reassentamento e a Regularização Urbanística e Fundiária. E programas mais comuns com maiores destaques são: o Programa de Reassentamento, Programa de Urbanização e Regularização Fundiária e o Programa Minha Casa Minha Vida. O foco do Programa de Reassentamento é a relocação de: famílias em situação de risco geológico, hidrológico, ou outras situações de inadequação de moradia, ou em função de obras de interesse público, tais como implementação de vias, resolução de conflitos fundiários com ações de reintegração de posse, execução de obras de saneamento ambiental, e ainda, viabilização da urbanização de vilas, favelas ou núcleos irregulares contemplados pelo Programa de Regularização Fundiária. (PLANHAB, 2009, p. 89). Já o Programa de Regularização Fundiária se destaca por estar atuando diretamente nas ocupações irregulares já consolidadas, sobre as áreas públicas e privadas, focando na garantia da permanência e na melhoria da qualidade de vida das famílias no local onde já residem. O processo de regularização fundiária trabalha visando a integração da cidade informal à formal, buscando manter as características e particularidades de cada comunidade. A definição do Programa de Regularização Urbanística e Fundiária pode ser fundamentada da seguinte forma: TÓPICO 4 | UM NOVO OLHAR PARA POLÍTICA HABITACIONAL 133 Trata-se de um processo de intervenção pública, sob os aspectos jurídico, físico e social, que objetiva legalizar a permanência de populações moradoras de áreas urbanas ocupadas em desconformidade com a lei para fins de habitação, implicando acessoriamente melhorias no ambiente urbano do assentamento, no resgate da cidadania e da qualidade de vida da população beneficiária (ALFONSIN, 1997, p. 24). Os PHIS precisam estar fundamentados legalmente. Sendo assim, estes planos têm as principais leis e normativas comuns aos entes federados, que são as seguintes: • Constituição Federal de 1988. • Estatuto da Cidade – Lei n.º 10.257/2001. • Regularização Fundiária de Interesse Social em Imóveis da União - Lei n.º 11.481/2007. • Regularização Fundiária de Assentamentos Localizados em Áreas Urbanas – Lei n.º 11.977/2009. • Lei do Zoneamento (conforme leis municipais de regulamentação). • Lei do Solo Criado (leis estaduais e municipais). • Lei do Parcelamento do Solo (leis estaduais e municipais). • PLHIS e FHIS (conforme leis locais). • PMCMV – Lei n.º 12.424/2011. A implementação dos PLHIS só se efetivará se o poder público, a sociedade civil e os conselhos de entidades, que atuam ou apoiam a política habitacional de interesse social, atuarem de forma conjunta, por meio de parcerias. Os principais atores sociais dessa parceria podem ser evidenciados através do: Ministério Público, Caixa, Banco do Brasil, Comissão Nacional das Associações de Moradores (CONAM), Movimento de Luta pela Moradia (MLM), Sindicatos da Construção Civil, porém esse tem como meta acompanhar de perto as revisões dos Planos Diretores e de Habitação, para não perderem o controle do mercado. O Fórum Nacional da Reforma Urbana tem como amplo questionamento a parceria que existe com a Caixa em todo o Brasil, como o PLHIS, em virtude de que essa, enquanto instituição financeira, facilita a implementação de programas habitacionais, sendo o principal operador dos recursos do FGTS. Já a sua estrutura institucional está subordinada ao Ministério da Fazenda e não ao Ministério das Cidades, resultando em muitas operações e decisões pela dialética bancária. A autora Icasuriaga (2008) esclarece que todo o espaço institucional determinado para a política urbana, inclusive para a política habitacional, é formado por um conjunto de órgãos firmados nos diferentes setores da administração pública nacional, estadual e municipal. E com a criação do Ministério das Cidades, existe uma tarefa realizada com esforço no sentido de concentrar e articular as ações inerentes à política de cunho habitacional, fundiária e urbana, estabelecendo uma harmonia com o Estatuto da Cidade e com a Constituição Federal. Em relação à Avaliação e Monitoramento do PLHIS, o PlanHab (2009) dispõe de alguns requisitos a serem cumpridos até o ano de 2023, conforme o quadro abaixo: 134 UNIDADE 2 | A DEMANDA DA HABITAÇÃO QUADRO 6 - ETAPAS DE AVALIAÇÃO E MONITORAMENTO DO PLHIS FONTE: Adaptado de <http://www.cidades.gov.br/images/stories/ArquivosSNH/ ArquivosPDF/Publicacoes/Publiicacao_PlanHab_Capa.pdf.>. Acesso em: 6 jun. 2016 ETAPAS A SEREM REALIZADAS DESCRIÇÃO DE CADA ETAPA ELABORAÇÃO Os PLHIS precisarão estar prontos e aprovados, após consulta popular, pelo Ministério das Cidades até o final de 2012. MONITORAMENTO Entre o período (2011, 2015, 2019 e 2023) devem ser monitorados os dados que compõem o Diagnóstico Habitacional, composto pelo: déficit habitacional, de inadequação, crescimento demográfico, custos, disponibilização de recursos, disponibilização de terras. IMPACTO NO DÉFICIT Precisarão ser avaliados e monitorados os planos, projetos e ações dos três entes federados, de modo a indicar o impacto na diminuição do déficit e da inadequação habitacional, obedecendo aos períodos indicados a cada quatro anos. REVISÃO Os PLHIS deverão ser revisados a cada quatro anos, a fim de manter atualizados os dados quantitativos e qualitativos do déficit habitacional, conforme já se faz nos Planos Plurianuais. A partir dos resultados da avaliação do período anterior e análise dos novos cenários e projeções, deverão ser elaboradas novas metas e objetivos capazes de orientar o período seguinte. Sendo assim, os diagnósticos habitacionais dos entes federados deverão ser revistos e os objetivos e metas redimensionados, conforme o crescimento vegetativo da população e a nova realidade presente num período de cada quatro anos. O Ministério das Cidades, perante a perspectiva de constatar o potencial de cada estado e de cada município, da viabilidade de pôr em prática o SNHIS, fez um levantamento e divulgou alguns pontos fracos que ainda continuam nas três instâncias de governo, e que necessitam ser revistos, como: a) Frágil institucionalidade do setor habitacional, com ausência de órgãos responsáveis pela formulação e gestão de políticas habitacionais ou, quando existentes, com baixa capacidade institucional. b) Modelos institucionais inadequados para o processo de planejamento e promoção habitacional realizada de forma descoordenada por mais de um setor na mesma esfera governamental. c) Estruturas institucionais em contínuo processo de mudança, sem que seja dada a devida importância aos aspectos da governança do setor. d) Ações não complementares e, em certos casos, conflitantes, na promoção habitacional realizada por estados e municípios. e) Ausência de instância regional que articule a ação de estados e municípios nas aglomerações urbanas e regiões metropolitanas. f) Falta de cultura técnica e gerencial nos órgãos gestores subnacionais tanto para as ações de caráter executivo quanto de planejamento. g) A intervenção habitacional se dá sem a preocupação de que esta esteja associada ao processo de planejamento territorial e urbano, à questão fundiária e a uma política habitacional previamente definida e pactuada com a sociedade civil organizada. (MINISTÉRIO DAS CIDADES, 2009, p. 49). TÓPICO 4 | UM NOVO OLHAR PARA POLÍTICA HABITACIONAL 135 Mesmo com todo o avanço da PNHIS, o cenário brasileiro aindaé de uma política de clientelismo, de uma cultura de promessas políticas, com atendimento de uma demanda focalizada. Muitos são os limites que se aprestam para a efetivação da PNHIS, como, por exemplo, a falta de vontade de prioridade política, a falta de quadro pessoal e qualificado para atuar nas equipes técnicas multidisciplinares da política, planejamento e avaliação urbana e ambiental, trabalho social contínuo, recursos necessários que consigam obter um resultado positivo. Baseando-se na opinião dos três níveis governamentais no que se refere à implementação do PLHIS, pode-se afirmar que a estruturação e organização da PNHIS ainda é frágil em todo o Brasil, decorrente da falta de preparo e experiência da maioria dos municípios, tanto para assumir a coordenação local e regional para implantação da SNHIS, como na elaboração e gestão dos planos habitacionais. Para que aconteça a efetivação da PNHIS, algumas definições deverão ser situadas através dos Planos Diretores das cidades, onde devem estar inclusos os instrumentos previstos no Estatuto da Cidade, além de defender a sua efetivação, através da priorização da população que reside nas áreas consideradas irregulares, informais ou de riscos. O PMCMV, conforme aponta Nalin (2013), tornou-se o carro-chefe das políticas públicas do Governo Federal, porém a sua efetivação está atrelada ao planejamento do PLHIS. Esse depende do acesso e do financiamento da terra, e que vem sendo apontado para a verticalização dos empreendimentos que são subsidiados com recursos do fundo público federal. As prefeituras brasileiras vêm, em grande maioria, tendo dificuldade na gestão da política habitacional e urbana, em decorrência do PMCMV, que instiga a captação de recursos dos fundos públicos, o que dificulta a aplicação dos mecanismos defendidos no Estatuto da Cidade. O PMVCV tem sua lógica criticada por Maricato (2012), em razão de que 97% dos recursos foram propostos à oferta e produção direta para construtoras privadas e apenas 3% a cooperativas e movimentos sociais, sendo que essa conformação consentiu em um atendimento maior para as famílias na faixa de renda entre três a dez salários mínimos, mesmo que o déficit habitacional se encontre em uma faixa de renda entre zero a três salários mínimos. O PLHIS pressupõe um conjunto de alternativas habitacionais para os custos unitários com valor reduzido do total de uma moradia, como o valor dos lotes urbanizados, materiais de construção, assistência técnica e mão de obra, potencializando o atendimento de um número maior de beneficiários do PMCMV, porém o programa ateve-se exclusivamente na edificação de unidades habitacionais prontas, conforme os anseios do setor da construção civil. 136 UNIDADE 2 | A DEMANDA DA HABITAÇÃO DICAS Para conhecer alguns modelos de PLHIS, acesse: <http://www.cidades.gov.br/habitacao-cidades/biblioteca/61-snh-secretaria-nacional/ biblioteca/164-banco-referencial-de-plhis>. <http://www.cidades.gov.br/images/stories/ArquivosSNH/ArquivosPDF/Publicacoes/ capacitacao/publicacoes/habitacao_social.pdf.>. Nalin (2013) reforça que o PMCMV não deve ser confundido com PlanHab, pois o programa, parcialmente, incorporou algumas propostas dos planos, visando uma maior agilidade para diminuir o déficit habitacional e agilizar a economia do país. O objetivo do PlanHab tem um foco mais extenso e estratégico: diminuir a longo prazo o déficit habitacional. DICAS Caro acadêmico, para aprofundar seus conhecimentos sobre esse tópico é necessário que você realize a leitura do livro sugerido abaixo: Temas de Discriminação e Inclusão é o sugestivo título da nova e singular obra coordenada por Élida Séguin, Evanna Soares e Lucíola Cabral, que reúne autores de várias regiões do Brasil preocupados com o estudo, o compartilhamento de inquietações e de experiências, bem como a indicação de possíveis soluções para o tormentoso problema da discriminação e inclusão das vítimas nos diversos setores da sociedade. Composto de 15 capítulos, o livro traz não apenas a visão jurídica, mas também de especialistas e pesquisadores ligados à engenharia, arquitetura, urbanismo, medicina, psicologia e filosofia, em textos que se interligam, tais como a discussão de um modelo inclusivo de cidade, a capacidade de as cidades superarem as tragédias da natureza, a mobilidade e ocupação dos espaços urbanos e o problema dos estacionamentos e as políticas públicas de habitação popular à luz do programa Minha Casa Minha Vida. TÓPICO 4 | UM NOVO OLHAR PARA POLÍTICA HABITACIONAL 137 LEITURA COMPLEMENTAR QUESTÃO URBANA NO CAPITALISMO CONTEMPORÂNEO No seu texto clássico “O direito à cidade”, Henry Lefèbvre propõe um programa político de reforma urbana que não se define pelas possibilidades da sociedade atual, ao reivindicar a imaginação para criar, inventar e propor a nova vida na cidade. Nesse sentido, afirma o autor, a reforma, sob esses parâmetros, não se limita a um reformismo. Trata-se de uma direção política para construir enfrentamentos à questão urbana, às formas pelas quais as cidades e a realidade urbana reproduzem, na subordinação ao mercado pelo desenvolvimento do processo produtivo, a estrutura desigual das classes sociais, a exploração e a acumulação da riqueza e da propriedade. A complexidade do debate sobre o direito à cidade na perspectiva de um projeto social e político emancipatório demanda reflexões teóricas e analíticas “para esclarecer os princípios do movimento histórico e, pelo menos implicitamente, os pontos nos quais a ação política poderia intervir com mais eficácia”, como afirma Ellen Wood. As condições objetivas das cidades brasileiras expressam os efeitos do modelo de desenvolvimento urbano de caráter neoliberal, perverso e desigual, adotado pelo país nas últimas décadas, caracterizando-se por profundas desigualdades econômicas, sociais, políticas, culturais e ambientais, marcado pelo caráter predatório da industrialização, destruição dos recursos naturais, despejo de diferentes populações de suas terras e moradias de origem, desemprego e baixos salários, trabalho informal, precarização da educação e saúde, pobreza nas áreas urbanas e criminalização dos movimentos sociais. As raízes desse processo estão relacionadas à modernização conservadora e excludente do Brasil, marcada por uma urbanização que combinou um gigantesco processo migratório do campo para as cidades com a expansão das cidades por periferização, com a reprodução da força de trabalho pela via da subsistência e espoliação territorial. A defesa de cidades justas e com igualdade substantiva reafirma nossos valores, princípios e diretrizes na perspectiva de uma sociedade sem exploração de classe, dominação/opressão de gênero, raça, etnia, religião, orientação sexual, identidade de gênero, idade e condição física. Como já afirmamos no CFESS Manifesta Direito à cidade para todos e todas: “A defesa do direito à cidade está na luta pelo acesso universal aos serviços, na distribuição democrática dos bens produzidos, no incentivo ao diálogo intercultural. O direito à cidade é, eminentemente, a luta pela defesa da construção de um modo de viver com ética, pautado na igualdade e liberdade substantivas e na equidade social”. O Conjunto CFESS-CRESS reafirmou, no 29º Encontro Nacional, realizado em Maceió (AL) no ano de 2000, a perspectiva do direito à cidade, 138 UNIDADE 2 | A DEMANDA DA HABITAÇÃO apontando para uma concepção de seguridade social ampliada, incorporando a ela outras políticas sociais, e afirmando, sobretudo, como um campo de luta e de formação de consciências críticas em relação à desigualdade social no Brasil, de organização dos trabalhadores e das trabalhadoras. Um terreno de embate que requer competência teórica, política e técnica. Que exige uma rigorosa análise crítica da correlação de forças entre classes e segmentos de classe, que interferem nas decisões em cada conjuntura. Que força a construção de proposições quese contraponham às reações das elites político-econômicas do país, difusoras de uma responsabilização dos pobres pela sua condição, ideologia que expressa uma verdadeira indisposição de abrir mão de suas taxas de lucro, de juros, de sua renda da terra”. Nesse sentido, o Serviço Social brasileiro tem pautado questões que se somam à luta para romper com a desigualdade social e que compõem a agenda do Conjunto CFESS-CRESS, que incorpora também estratégias em defesa do direito à cidade, nas dimensões urbana e rural, que apontam para: • participação nos conselhos de políticas, conferências e fóruns de reforma urbana; • articulação e apoio às lutas dos movimentos sociais pelo direito à terra, pela moradia digna, pelos direitos dos povos originários, quilombolas, população em situação de rua e catadores de materiais recicláveis; • promoção de debates no âmbito do Conjunto CFESS-CRESS sobre o direito à cidade em suas dimensões ética, política e social e sua transversalidade nas políticas públicas e na garantia dos direitos humanos; • intensificação da discussão, no Conjunto CFESS-CRESS, sobre a questão indígena no Brasil, a população quilombola e comunidades tradicionais, o aparato legal (legislação) que as regem, o estudo sobre o acesso desses segmentos às políticas públicas, apoiando a luta pela demarcação das terras; • acompanhamento e criação de estratégias para fiscalização do processo de implementação do Sistema Nacional de Habitação de Interesse Social e do Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social (SNHIS/ FNHIS) e a criação dos sistemas no âmbito dos estados e dos municípios, considerando a possibilidade de alteração da lei federal que cria o Serviço Nacional de Assistência Técnica/Habitação de Interesse Social, com a inclusão do serviço de assistência técnica nas áreas social e jurídica; • debate com a categoria sobre os impactos da realização de megaeventos, dos grandes projetos de intervenção urbanística, a exemplo da Copa 2014 e das hidroelétricas, no conteúdo urbano, reforçando o direito à moradia e o controle democrático da sociedade; TÓPICO 4 | UM NOVO OLHAR PARA POLÍTICA HABITACIONAL 139 • garantia da participação popular nas discussões no âmbito do planejamento das intervenções urbanas, conforme determina o Estatuto da Cidade, através de audiências públicas, assembleias locais, reuniões distritais; • integração à luta junto com os movimentos sociais em defesa da mobilidade urbana com o transporte público gratuito como direito social; • apoio à luta do Movimento Nacional da População de Rua (MNPR), para acesso às políticas sociais e o direito de usufruto e permanência nas cidades; • viabilização das atividades da campanha da gestão do Conjunto CFESS-CRESS (2011-2014): “Combater a violência no enfrentamento da desigualdade social: toda violação de direitos é uma forma de violência”; • apoio às lutas no âmbito da sociedade civil contra o racismo institucional, ampliando a realização de debates com a categoria acerca do tema e participando em ações, como: realização de audiências públicas, articulação com movimentos negros e com outros sujeitos coletivos; • empenho para viabilizar o direito à acessibilidade para as pessoas com deficiência em todos os espaços e atividades realizadas pelo Conjunto CFESS- CRESS ou em parceria com outras entidades; • defesa da reforma agrária, posicionando-se frente às violências ocorridas no campo; • apoio à luta do MNPR pela federalização dos crimes de lesa-humanidade que atingem esse e outros grupos populacionais, tendo em vista a identificação e punição dos responsáveis; No contexto de uma reforma urbana que defende o direito à cidade, o CFESS Manifesta que essas estratégias de luta reafirmam a agenda política do Serviço Social brasileiro e reforçam uma concepção de seguridade social ampla. Neste sentido, reafirma a importância da luta em defesa da Seguridade Social pública no país, donde se insere o direito à cidade como direito: ao trabalho, à educação, à diversidade humana, à liberdade de orientação e de expressão sexual, à livre identidade de gênero e respeito à questão étnico-racial, à cultura, ao lazer, à segurança pública e à participação política. FONTE: Disponível em: <http://www.cfess.org.br/arquivos/cfessmanifesta2011_questaourbana_ REVISADO.pdf>. Acesso em: 17 abr. 2016. 140 RESUMO DO TÓPICO 4 Neste tópico, vimos que: • A elaboração do PLHIS não pode ser compreendida como uma ação separada ou isolada, que se conclui com a elaboração e apresentação do documento, como um resultado final, mas sim como o marco inicial de um processo de planejamento contínuo para atender as demandas habitacionais no país. • Os PLHIS seguem a mesma lógica do PlanHab, no que se refere à função social das cidades e da propriedade, moradia digna e gestão democrática e participativa da política habitacional. • O PMCMV destina quotas específicas para idosos, pessoas portadoras de deficiência e para as mulheres chefes de família, mas essas medidas, que de certo modo são isoladas, acabam não dando conta da demanda, pois as cidades precisam repensar a lógica da estruturação urbana. • O déficit habitacional está relacionado à quantidade de novas moradias que devem ser construídas para dar conta de atender às demandas acumuladas durante todo o processo histórico do Brasil, e as inadequações habitacionais dizem respeito às necessidade de realização das melhorias nas unidades, como, por exemplo, a realização de melhorias em infraestrutura básica, na questão da regularização fundiária, ressaltando que as inadequações não implicam diretamente com a construções de novas unidades habitacionais. • Os recursos oriundos do FGTS são destinados especificamente para o investimento habitacional e para investimentos em saneamento ambiental. • Os PLHIS estabelecem, para a população que necessita de uma moradia, os indicativos com diversas variações, em especial no que se refere a renda máxima e mínima. • O PlanHab, sendo um plano nacional, é composto de cinco faixas de grupos para atendimento, em conformidade com a capacidade de obter um financiamento, sendo considerada a renda per capita, a análise da cesta de consumo e a tipologia dos municípios. • A implementação dos PLHIS só se efetivará se o poder público, a sociedade civil e os conselhos de entidades, que atuam ou apoiam a política habitacional de interesse social, atuarem de forma conjunta, por meio de parcerias. 141 • Os PLHIS pressupõem um conjunto de alternativas habitacionais para os custos unitários com valor reduzido do total de uma moradia, com o valor dos lotes urbanizados, materiais de construção, assistência técnica e mão de obra, potencializando o atendimento de um número maior de beneficiários do PMCMV, porém o programa ateve-se exclusivamente na edificação de unidades habitacionais prontas, conforme os anseios do setor da construção civil. 142 1 Aos municípios e estados cabe realizar o planejamento e a gestão definidos no PLHIS, e ao Ministério das Cidades cabe fortalecer essas ações. No Brasil, após a extinção do Banco Nacional da Habitação (BNH), no ano de 1985, instalou-se um processo irregular e inseguro no campo das políticas de desenvolvimento urbano, de saneamento e habitação, até a criação do Ministério das Cidades. Em relação ao Plano Nacional de Habitação, considere as afirmativas: I- A prioridade do Ministério das Cidades é para o financiamento da habitação para pessoas com renda acima de 10 salários-mínimos. II- O Mistério das Cidades instituiu novas políticas e novos sistemas que viabilizem o investimento coerente e integrado. III- Cabe ao Ministério das Cidades eliminar os constantes desperdícios de recursos decorrentes da descontinuidade de projetos. IV- O Ministério das Cidades solicita a integração intermunicipal e combate a falta de controle social e público. A afirmativa CORRETA é: a) ( ) Apenas alternativa I. b) ( ) Apenas as alternativas I e II. c)( ) Apenas as alternativas I, II e III. d) ( ) Apenas as alternativas II, III e IV. 2 A Política Urbana é fundamentada na Constituição Federal de 1998 e no Estatuto da Cidade. Diante disso, é correto afirmar: a) Com o objetivo de garantir uma gestão democrática, poderão ser utilizados os seguintes instrumentos, em todas as esferas governamentais, defendidos na Constituição Federal de 1988: órgãos colegiados de política urbana; debates, audiências e consultas públicas; e conferências sobre assuntos de interesse urbano. b) O direito de propriedade é circunscrito e limitado, através de um ordenamento jurídico brasileiro, onde a propriedade urbana deverá cumprir uma função social. c) O Plano Diretor, aprovado pela Câmara Municipal, obrigatório para cidades com mais de 30 mil habitantes, é o instrumento básico da política de desenvolvimento e de expansão urbana. AUTOATIVIDADE 143 d) Aquele que possuir, como sua área urbana, até duzentos e cinquenta metros quadrados, por cinco anos, ininterruptamente e sem oposição, utilizando-a para sua moradia ou de sua família, adquirir-lhe-á o domínio, desde que não seja proprietário de outro imóvel urbano ou rural. e) No caso de subutilização ou da não utilização do solo urbano, cada município deverá proceder à aplicação do imposto sobre a propriedade predial e territorial urbana (IPTU) progressivo no tempo, conforme o aumento da alíquota pelo prazo de oito anos consecutivos. 144 UNIDADE 2 | A DEMANDA DA HABITAÇÃO FECHAMENTO DA UNIDADE Caro acadêmico Concluímos a segunda unidade de ensino da disciplina de Políticas Sociais em Habitação, apresentando as demandas habitacionais do Brasil. No primeiro tópico foi apresentada a questão da moradia como um processo de lutas e conquistas do país, através de um resgate histórico, que se enfatizou pela falta de políticas públicas durante cinco décadas da história brasileira. No segundo tópico foram apresentados os marcos legais do direito à moradia, a ênfase deste debate foi compreendida como sendo um instrumento no processo de habitar. Como profissional de Serviço Social é fundamental conhecer os marcos legais de conquista de uma moradia digna. No terceiro tópico foram apresentadas as Políticas Públicas, Planos de Habitação de Interesse Social e os Financiamentos Habitacionais, que diz respeito ao processo de planejamentos, avaliação e de monitoramento das políticas públicas. Constata-se que houve um aumento no incentivo para que esses processos se estabelecessem através do incentivo dos movimentos de ajustes com teor político- institucional, e delimitado nos rumos neoliberais. No último tópico foram apresentadas a nova política habitacional implementada desde o ano 2003, que se tornou marco para história para as que política urbana, por meio das questões de habitacional e fundiária no Brasil, decorrente das ações do novo Governo Federal. Até a próxima unidade... 145 UNIDADE 3 A ATUAÇÃO DO ASSISTENTE SOCIAL NA POLÍTICA DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL OBJETIVOS DE APRENDIZAGEM PLANO DE ESTUDOS Esta unidade tem por objetivos: • estudar sobre a trajetória histórica do trabalho do assistente social na política de habitação de interesse social e as diretrizes atuais; • compreender a atuação do trabalho do assistente social na PHIS; • analisar os avanços e desafios do trabalho do assistente social na PNHIS; • avaliar a proposta de mobilização social para o enriquecimento do trabalho do assistente social. A Unidade 3 está dividida em quatro tópicos. Para um melhor aprofundamento do conteúdo e fixar melhor seus conhecimentos, no final de cada tópico você terá oportunidade de realizar as atividades propostas. TÓPICO 1 – A EFETIVAÇÃO DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL NA POLÍTICA DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL TÓPICO 2 – A TRAJETÓRIA HISTÓRICA DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL NA POLÍTICA DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL E AS DIRETRIZES ATUAIS TÓPICO 3 – A ADAPTAÇÃO DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL NA PNHIS TÓPICO 4 – OS AVANÇOS E DESAFIOS DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL NA PHIS 146 147 TÓPICO 1 A EFETIVAÇÃO DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL NA POLÍTICA DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO A última unidade desta importante disciplina tem como objetivo mostrar e fundamentar teoricamente como se dá o processo de atuação do profissional de serviço social nas Políticas Habitacionais de Interesse Social, resgatando primeiramente a sua trajetória histórica, ética e política perante essa demanda. Realizar um estudo sobre a efetivação do assistente social na Política de Habitação de Interesse Social na trajetória histórica do trabalho requer um estudo sobre a diferente realidade, buscando um olhar para a composição de um conjunto de fatores existentes entre a habitação social e a questão urbana. As diversidades sociais, econômicas, políticas, culturais, religiosas, ambientais e outras, que formam nossas cidades, através do modo de vida da sua população, tanto no uso do solo como nas arquiteturas das moradias, delineiam o espaço edificado pelo homem, através da materialização de seu trabalho e da divisão sociotécnica em que vive. Sendo assim, a cidade é considerada uma concretização humana, e que vai, ao longo da história, tornando-se o espaço fundamental do assistente social. Este tópico apresentará de forma discursiva toda a trajetória do Serviço Social diante das questões relacionadas às demandas habitacionais e a forma como o assistente social permeou sua atuação diante das questões urbanas no Brasil. Bons estudos! 2 SERVIÇO SOCIAL x PRÁTICA x TEORIA x POLÍTICA DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL O assistente social, inserido na Política de Habitação de Interesse Social, nas esferas governamentais, federais, estaduais e municipais, deve ter sua atuação analisada perante a contextualização no conjunto das ações do Estado e das políticas públicas, em decorrência deste profissional se fundamentar na expectativa da garantia de direitos humanos. UNIDADE 3 | A ATUAÇÃO DO ASSISTENTE SOCIAL NA POLÍTICA DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL 148 Antes de iniciar esta análise é preciso rever alguns conceitos fundamentais. O termo público, que qualifica a política, para Pereira (2009, p. 287), se pondera da seguinte forma: [...] a política pública não pode ser confundida com política estatal, ou de governo, e muito menos com a iniciativa privada, mesmo que, para sua realização, ela requeira a participação do Estado, dos governos e da sociedade e atinja grupos particulares e indivíduos. A mesma autora defende ainda que: O termo público associado à política não é uma referência exclusiva do Estado. Refere-se, antes, à coisa pública, do latim res (coisa), publica (de todos), ou seja, coisa de todos, para todos, que compromete todos, inclusive a lei que está acima do Estado - no atendimento de demandas e necessidades sociais, sob a égide de um mesmo direito e com o apoio de uma comunidade de interesse. Embora a política pública seja regulada e frequentemente promovida pelo Estado, ela também engloba demandas, escolhas e decisões privadas, podendo e devendo ser controlada pelos cidadãos. Isso se chama de controle democrático. (PEREIRA, 2009, p. 173-174). As políticas públicas são deliberadas como sendo um conjunto de ações de iniciativa do Estado, focando o bem comum de todo o coletivo. Ou, em outras palavras, pode-se considerar como um instrumento de planejamento, de racionalização e de participação da sociedade civil. As políticas públicas possuem elementos que são os designados sob a ação governamental, como a ação governamental e metas nas quais se chega ao fim, os meios restritos para a efetivação das metas e, por fim, o processo de realização. Para Ramos (2002), as políticas públicas se solidificam através das leis, dos orçamentos, dos planos, dos projetos e dos programas que antecipam ações exclusivaspara o poder público, considerando também a forma e o monitoramento de gestão. Os autores Behring e Boschetti (2006) e Vieira (1992), em seus estudos, apontam que as políticas públicas, em particular nas periferias urbanas, são condicionadas pelas características das políticas e economias do Estado, e não são dissociadas pela maneira como se estabelece e se constitui a sociedade capitalista. Diante disso, conclui-se que as políticas públicas são os frutos das relações complexas e difusas que se instituem entre o Estado e a sociedade civil, diante dos conflitos e das lutas de classe que se fundamentam no modelo de produção e de reprodução do sistema capitalista, em seus ciclos contínuos. Para alguns autores, as políticas públicas: [...] fazem parte de um conjunto de iniciativas públicas, com objetivo de realizar, fora da esfera privada, o acesso a bens, serviços e renda. Seus objetivos são amplos e complexos, podendo organizar-se não apenas para a cobertura de riscos sociais, mas também para a equalização de oportunidades, o enfrentamento das situações de destituição e pobreza, o combate às desigualdades sociais e a melhoria das condições sociais da população (JACCOUD apud BEHRING; BOSCHETTI, 2006, p. 107). TÓPICO 1 | A EFETIVAÇÃO DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL NA POLÍTICA DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL 149 As políticas públicas, sob a visão da cidadania, devem ter como referencial a construção de modelos e padrões baseados na igualdade de todos, nos direitos que constituem o objeto e a medida de implementação da política. O conceito utilizado de Estado é amplo e com diferentes concepções. Existem três elementos que o constituem: a) um conjunto de instituições e prerrogativas, entre as quais o poder coercitivo, que só o Estado possui, por delegação da própria sociedade; b) o território, isto é, um espaço geograficamente delimitado onde o poder estatal é exercido. Muitos denominam esse território de sociedade, ressaltando a sua relação com o Estado, embora esse mantenha relações com outras sociedades, para além de seu território; c) um conjunto de regras e condutas reguladas dentro de um território, que fazem parte da sociedade nacional ou do que muitos chamam de nação (PEREIRA, 2009, p. 289). A autora Pereira (2009) indica que a existência desses elementos tem como base um conceito mais ideal do que real, pois na prática o Estado apresenta uma grande dificuldade em exercer o seu poder e regular a sociedade. Sendo que “o Estado não existe em abstrato (sem vinculações com a realidade e com a história) e nem de forma absoluta (assumindo sempre uma única configuração)”. (PEREIRA, 2009, p. 290). A profissão de Serviço Social é reconhecida como uma especialização do trabalho, com um elemento das relações sociais que se estruturam na sociedade atual (capitalista). Segundo Iamamoto, (2009, p. 25), “estas relações [...] também são geradoras da questão social em suas dimensões objetivas e subjetivas”. Por meio da inserção na sociedade é que o Serviço Social tem revelado sua atuação profissional, conforme Yazbek (2009, p. 126): [...] “no contexto de relações mais amplas que constituem a sociedade capitalista, particularmente no âmbito das respostas que esta sociedade e o Estado constroem, frente à questão social e às suas manifestações, em múltiplas dimensões”. Nesse contexto, da inserção do profissional na sociedade, Iamamoto (2001, p. 67) enfatiza que o Serviço Social “[...] é socialmente necessário, porque ele atua sobre questões que dizem respeito à sobrevivência social e material dos setores majoritários da população trabalhadora”. Conforme Yazbek (2009), a valorização e importância do Serviço Social como profissão societária se dá em conformidade com a sua legitimidade no conjunto de instrumentos reguladores, na esfera das políticas sociais, e que são realizadas em nível de Estado, mesmo sendo uma profissão considerada liberal pelo Ministério do Trabalho, através da Portaria nº 35, de 19 de abril de 1949, com foco no atendimento às mazelas das demandas sociais. UNIDADE 3 | A ATUAÇÃO DO ASSISTENTE SOCIAL NA POLÍTICA DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL 150 Historicamente, no Serviço Social, o Estado é considerado o maior empregador de assistentes sociais, conferindo uma característica ao profissional, de servidor público. Consequentemente, segundo Iamamoto (2008, p. 460), pode-se confundir erradamente o Serviço Social como sendo uma política pública, pois: [...] o Serviço Social enquanto profissão não é o mesmo que política pública, esta é de responsabilidade do Estado e dos governos. A diluição da visibilidade das ações profissionais no campo dessas políticas tem sérias consequências em nível de identidade profissional e do reconhecimento da particularidade da área de Serviço Social no campo da produção de conhecimento. Diante da citação acima é importante ressaltar que o Serviço Social, como profissão, em hipótese alguma deve ser confundido como uma política pública ou então como um partido político, independentemente da sua ideologia partidária. Iamamoto (2009) defende ainda que o Serviço Social não deve identificar- se com as relações de poder, existentes entre governados e governantes, e que o profissional assistente social possa igualmente desempenhar suas funções de governo. Para os profissionais de Serviço Social, as políticas públicas representam instrumentos legais e transversais ao trabalho técnico, nos espaços ocupacionais, possuindo instrumentos contraditórios que permeiam os processos históricos das instituições, atuam e, ainda, possuem a representatividade do embate e de resistência na luta pela garantia de direitos. Cabe ressaltar que as instituições, aparecem determinadas demandas que surgem nas instituições, como confronto existente entre as classes, sabe-se que os grupos de maior poder, ou os privilegiados, conseguem fazer valer seus pleitos. Para Souza (1982, p. 82): “[...] Valores, normas e ideologias, assim como práticas institucionais, têm, pois, este caráter que em geral esconde a defesa específica da ordem social assumida como função principal.” Para o Serviço Social superar as diversas e diferentes incoerências e contradições, que são impostas pelo sistema capitalista, é necessário ter competência ético-política, teórico-metodológica e técnico-operativa para atuar, e uma capacidade para realizar mediação entre a correlação de forças que existem nas instituições, principalmente sobre as que ainda temem em não garantir os direitos humanos, depostos legalmente, fazendo valer as práticas assistencialistas ou clientelistas para os usuários. Para Iamamoto (2009, p. 344), os espaços ocupacionais mantidos pelos assistentes sociais são vistos da seguinte maneira: TÓPICO 1 | A EFETIVAÇÃO DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL NA POLÍTICA DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL 151 [...] um produto histórico, condicionado tanto pelo nível de luta pela hegemonia que se estabelece entre as classes fundamentais e suas respectivas alianças, bem como pelo tipo de respostas teórico- práticas densas de conteúdo político dadas pela categoria profissional. Essa afirmativa fundamenta-se no reconhecimento de ser o trabalho profissional tanto resultante da história quanto dos agentes que a ele se dedicam. Para Iamamoto (2002, p. 13), a nova configuração, ou a reconfiguração “dos espaços ocupacionais é resultante das profundas transformações sócio-históricas, com as mudanças regressivas nas relações entre o Estado e a sociedade em um quadro de recessão na economia internacional, submetida à ordem financeira do grande capital”. Todos os espaços ocupacionais, de atuação do Serviço Social, passam por significativas e contínuas transformações, e não estão separados do processo da reestruturação produtiva existentes, da intensificação e desregulamentação do trabalho técnico, além da perda dos direitos sociais já conquistados, e também da historicidade da classe trabalhadora e da reorganizaçãodo Estado, mediante os ideais liberais. As mudanças que ocorrem na sociedade, e com a interferência mundial do capital, interferem diretamente nos trabalhos dos profissionais de Serviço Social, que estão atuando nas instituições. Estas mudanças, para Iamamoto (2009, p. 26), “[...] têm profundas repercussões na órbita das políticas públicas e suas conhecidas diretrizes de focalização, descentralização, desfinanciamento e regressão do legado dos direitos do trabalho”. Um componente das expressões das demandas sociais, ou seja, da questão social, é a limitação do acesso à moradia digna e à cidade. Resultando na contratação de assistente social para elaborar e implementar programas, projetos e propostas para enfrentar a demanda, principalmente no setor público. UNIDADE 3 | A ATUAÇÃO DO ASSISTENTE SOCIAL NA POLÍTICA DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL 152 IMPORTANT E O Brasil tem hoje mais de 120 mil profissionais que atuam, predominantemente, na formulação, planejamento e execução de políticas públicas como educação, saúde, previdência, assistência social, habitação, transporte, entre outras, movidos/as pela perspectiva de defesa e ampliação dos direitos da população brasileira. Trabalham também na esfera privada, principalmente no âmbito do repasse de serviços, benefícios e na organização de atividades vinculadas à produção material, e atuam em processos de organização e formação política de segmentos da classe trabalhadora. O tempo presente é marcado pela reestruturação produtiva, que precariza as condições de trabalho por contrarreformas que empreendem a redução dos direitos sociais, por uma política econômica de juros altos, que favorece o capital financeiro em detrimento do capital produtivo. A lógica destrutiva do capital aprofunda a concentração de renda, acirra as desigualdades, agudiza a pobreza e o desemprego e precariza as condições de vida e de trabalho. As políticas sociais se reconfiguram com tendências focalizadoras, compensatórias e regressivas. Institucionaliza-se a precarização da formação profissional e das relações de trabalho, sendo frequentes os ataques aos direitos da pessoa idosa, da infância, da adolescência e da juventude, das pessoas com deficiência, dos trabalhadores e trabalhadoras do campo e da cidade, além da reprodução cotidiana da violência contra a mulher, lésbicas, gays, travestis e transexuais. FONTE: Disponível em: <http://www.cfess.org.br/estrutura_frentes.php>. Acesso em: 20 abr. 2016. Perante a relação existente entre a política pública, Estado e a atuação do assistente social na PHIS, se faz necessário compreender a importância deste profissional na política habitacional. Pesquisa realizada em 2013, com o foco de estudar a atuação dos assistentes sociais que atuam nos órgãos governamentais da região Sul e da Secretaria Nacional de Habitação/Ministério das Cidades e que são responsáveis pelo PHIS em todos os níveis de governamentais, foi concluída e apresentada através de tese de doutorado, por Nalin (2013). QUADRO 7 – ATUAÇÃO DOS ASSISTENTES SOCIAIS NA HABITAÇÃO PESQUISA RESULTADO Assistente Social: 2 - Secretaria Nacional de Habitação – SNH/M. das Cidades Assistente Social: 14 - Companhia de Habitação do Estado do Paraná - COHAPAR Assistente Social: 28 - Companhia de Habitação Popular de Curitiba - COHAB-CT Assistente Social: 14 - Companhia de Habitação do Estado de S. Catarina - COHAB-SC Assistente Social: 10 -S. M. de H. e Saneamento Ambiental de Florianópolis - SMHSA Assistente Social: 1 - Secretaria Especial de Habitação e Saneamento do RS - SEHABS Assistente Social: 10 - Departamento Municipal de Habitação - DEMHAB- Porto Alegre 8 TÓPICO 1 | A EFETIVAÇÃO DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL NA POLÍTICA DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL 153 PERFIL DAS PROFISSIONAIS DE SERVIÇO SOCIAL NOS ESPAÇOS OCUPACIONAIS 100% são do sexo feminino, sendo que o tempo de atuação na instituição varia entre cinco a dez anos, sendo estas 80% das respondentes e somente duas, ou seja, 8%, chegam a 25 anos na mesma política. QUANTO AO REGIME DE TRABALHO PREDOMINANTE Em relação às Companhias de Habitação (economia mista), as assistentes sociais atuam sob regime celetista, com jornada de seis horas diárias ou 30 semanais. Nas secretarias e departamentos denominados públicos. O regime de trabalho é estatutário, com jornada de oito horas diárias ou 40 semanais, com exceção da Secretaria Municipal de Florianópolis, que é de seis horas diárias. A representação estatística corresponde no primeiro caso em 54%, e no segundo, 46%. Dos espaços sócio-ocupacionais visitados na região Sul, a COHAB de Curitiba apresenta melhor espaço físico de trabalho para os assistentes sociais, bem como o número de profissionais para atender as demandas. FONTE: Adaptado de <http://repositorio.pucrs.br/dspace/ bitstream/10923/5552/1/000452191-Texto%2BCompleto-0.pdf>. Acesso em: 20 abr. 2016. Um dos quesitos dos Programas Habitacionais é o trabalho social, e este tem se instituído como um mecanismo fundamental para garantir o acesso de famílias de baixa renda à moradia, e também para fortalecer o debate sobre a sustentabilidade de gênero, que está proposta pela PHIS. E o que se constata através da pesquisa acima citada é que a inserção do assistente social nesta política ainda está abaixo do necessário. O Serviço Social no Brasil surgiu na década de 1930, e foi delineado pelo contexto da industrialização do país, como vinha acontecendo durante a Revolução Industrial, sendo o processo onde as pessoas deixaram o campo e vieram viver nas cidades, buscando trabalho e melhores condições de vida. As demandas habitacionais emergem durante uma conjuntura nacional marcada por enormes mudanças, com a remodelação do espaço urbano, diante do surgimento do capital industrial. Pois a quantidade de imóveis que existem é insuficiente, onde a população é levada a criar moradias menores, os cubículos, para alugar ou serem transformadas em casas comuns. Segundo Pechman e Ribeiro (1983), há o agrupamento de misérias e de condições habitacionais precárias, anti-higiênicas, o que beneficiará o aparecimento de epidemias. Analisando as cidades brasileiras, existe um grande número de habitações que foram construídas fora do mercado formal, enfatizando assim a negligência das políticas públicas e da vontade política perante a demanda habitacional. Conforme Maricato (2001, p. 131): “A autoconstrução em loteamentos ilegais nas periferias urbanas e os domicílios em favelas tornaram-se prioridade para a habitação dos trabalhadores e da população pobre de um modo geral, a partir de 1930.” UNIDADE 3 | A ATUAÇÃO DO ASSISTENTE SOCIAL NA POLÍTICA DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL 154 A ocupação do solo teve seu modelo fundado no estilo Laisseferiano, onde o sistema político é caracterizado pela ausência de um planejamento urbano, definindo-se por um conjunto de interesses privados e lucrativo. Segundo Maricato (2007, p. 28): A ilegalidade é, portanto, funcional para as relações políticas arcaicas, para um mercado imobiliário restrito e especulativo, para aplicação arbitrária da lei, de acordo com a relação de favor. [...] a segregação territorial e todos os corolários que a acompanham, falta de saneamento ambiental, riscos de desmoronamentos, riscos de enchentes, violência – estão a ele vinculados. Diante do exposto, a atuação do assistente social é avaliada como sendo uma mediação do acesso da população aos serviços, programas e projetos oferecidos pelas instituições. A questão social é o objeto em diferentes expressões das contradições da sociedade. Iamamoto (2003, p. 28) faz a seguinte análise: É nesta tensão entre produção da desigualdade e produção da rebeldia e da resistência, que trabalham os assistentes sociais, situados nesse terreno movido por interesses sociais distintos, aos quais não é possível abstrair ou deles fugir porque tecem a vida em sociedade. O assistente social, em toda a sua ação, noque se refere em especial à PLHIS, tem a responsabilidade de compreender a dinâmica dos conflitos em que está intervindo, além das diversidades que sua ação perpassa, e de democratizar ao usuário o acesso às informações referentes ao programa em que está inserido, fortalecendo assim o vínculo entre instituição e população, como também incentivar a participação popular para acompanhar tais programas. O assistente social deve assessorar os usuários a criarem condições que consistam em se reconhecer no espaço físico em que serão inseridos. TÓPICO 1 | A EFETIVAÇÃO DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL NA POLÍTICA DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL 155 DICAS Caro acadêmico, abaixo segue a dica de um livro para que você aprofunde seus conhecimentos. Este é um trabalho coletivo, como bem assinala Luciana Correa do Lago no prefácio deste livro, desenvolvido por Luis Carlos Toledo e pelos jovens arquitetos Petar e Verônica, cujo talento, criatividade e comprometimento despertaram no autor a vontade de enfrentar o desafio de revisitar o tema da habitação de interesse social numa época em que os grandes eventos, com seus megaprojetos, monopolizam a atenção do público e de boa parte dos arquitetos. O livro nasceu do estudo de novas alternativas para o projeto e construção das habitações de interesse social, parte integrante da pesquisa desenvolvida pela Rede FINEP sobre Moradia e Tecnologia Social. A Seleção Pública de Projetos para Patrocínio, em boa hora lançada pelo CAU/RJ, possibilitou esta edição. Petar Vrcibradic vem desenvolvendo uma carreira brilhante que se inicia com um período de um ano no Escritório Morphosis, do arquiteto Thom Mayne, seguido pelo mestrado na Faculdade de Arquitetura de Columbia em 2004/2005, que o credenciou para trabalhar no escritório de Frank Gehry durante três anos, até retornar ao Brasil. TOLEDO. Luis Carlos. Repensando as habitações de interesse social. Rio de Janeiro: Letra Capital, 2015. 156 Neste tópico, vimos que: • As políticas públicas são deliberadas como sendo um conjunto de ações de iniciativa do Estado, focando o bem comum de todo o coletivo. Ou, em outras palavras, pode-se considerar como um instrumento de planejamento, de racionalização e de participação da sociedade civil. • As políticas públicas, sob a visão da cidadania, devem ter como referencial a construção de modelos e padrões baseados na igualdade de todos, nos direitos que constituem o objeto e a medida de implementação da política. • A profissão de Serviço Social é reconhecida como uma especialização do trabalho, com um elemento das relações sociais que se estruturam na sociedade atual. • É importante ressaltar que o Serviço Social, como profissão, em hipótese alguma deve ser confundido como uma política pública ou então como um partido político, independentemente da sua ideologia partidária. • Para o Serviço Social superar as diversas e diferentes incoerências e contradições, que são impostas pelo sistema capitalista, é necessário ter competência ético- política, teórico-metodológica e técnico-operativa para atuar, e uma capacidade para realizar mediação entre a correlação de forças que existem nas instituições. • As mudanças que ocorrem na sociedade, e com a interferência mundial do capital, interferem diretamente nos trabalhos dos profissionais de Serviço Social, que estão atuando nas instituições. • Um dos quesitos dos Programas Habitacionais é o trabalho social, e este tem se instituído como um mecanismo fundamental para garantir o acesso de famílias de baixa renda à moradia, e também para fortalecer o debate sobre a sustentabilidade de gênero, que está proposta pela PHIS. • As demandas habitacionais emergem durante uma conjuntura nacional marcada por enormes mudanças, com a remodelação do espaço urbano, diante do surgimento do capital industrial. • O assistente social deve assessorar os usuários a criarem condições que consistam em se reconhecer no espaço físico em que serão inseridos. RESUMO DO TÓPICO 1 157 1 O trabalho social no campo urbano tem um significado sócio-histórico, e refletir sobre esse significado supõe considerar a realidade social e as contradições presentes nas relações sociais, além de identificar as determinações históricas que conferem legitimidade e direção social à atuação profissional. Em tempos de modernização excludente das cidades (MARICATO, 2011), cujo crescimento acontece com base na mercantilização e na estrutura desigual das classes sociais no acesso ao uso da terra urbana, é preciso apreender as transformações urbanas e as mudanças que as mesmas provocam no processo de produção e reprodução da vida social de segmentos da classe trabalhadora. FONTE: Disponível em: <http://cress-mg.org.br/publicacoes/Home/Lei/27>. Acesso em: 20 abr. 2016. Diante da contextualização referenciada acima, escreva um texto com no mínimo 20 linhas, enfatizado qual é o contexto teórico e político que deve orientar o trabalho do assistente social nas demandas habitacionais. 2 Perante as demandas habitacionais de seu município, pesquise se existe algum Programa de Habitação de Interesse Social, qual o número de assistentes sociais que atuam nesta política, qual o trabalho que realizam. Descreva sua pesquisa através de um texto, e traga para debater em sala de aula, com seu(sua) tutor(a) externo(a)e demais colegas de aula. AUTOATIVIDADE 158 159 TÓPICO 2 A TRAJETÓRIA HISTÓRIA DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL NA POLÍTICA DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL E AS DIRETRIZES ATUAIS UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO Este segundo tópico tem como objetivo resgatar a trajetória histórica do trabalho do assistente social na Política de Habitação de Interesse Social e elucidar quais a diretrizes atuais para realizar seu trabalho profissional. Nossas cidades têm suas histórias permeadas pelas multiplicidades de suas construções e pela forma como as ocupações do solo aconteceram. As consequências dessa diversidade refletem na condição de vida da população, pois geram outras cidades dentro de uma cidade, e acabam excluindo as pessoas. Essa exclusão, chamada de mazelas do capitalismo, surge nos mais diferentes contextos, como na solidificação das favelas, nas ocupações de loteamentos irregulares e invasões de terras, constituindo a maior parte dos territórios urbanos de nossas cidades. O Serviço Social, como profissão, vem se firmando mediante as políticas públicas de habitação, como um elo fundamental na efetivação desse direito, e discutir toda a trajetória da ação profissional se faz necessário para compreendermos quais os desafios na atual conjuntura. 2 SERVIÇO SOCIAL: A SUA ATUAÇÃO NA POLÍTICA DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL A história do Serviço Social, no contexto da política habitacional em todo o território brasileiro, tem sua trajetória permeada em um debate, em que toda a historicidade é considerada como uma categoria inerente ao método dialético-crítico. Prates (2003, p. 95) afirma que: “[...] historicidade é categoria integrante do método dialético-crítico e através dela pode-se reconhecer a ‘processualidade do movimento e da transformação do homem, da realidade e dos fenômenos sociais’”. Enfatiza-se que o surgimento do Serviço Social, como profissão, teve suas condições “[...] vinculadas a uma ordem social e ao projeto político que viabilizou sua instauração e desenvolvimento” (MONTAÑO, 2009, p. 45). 160 UNIDADE 3 | A ATUAÇÃO DO ASSISTENTE SOCIAL NA POLÍTICA DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL Para as autoras Oliveira, Paz e Raichelis (2008, p. 242), a atuação social na área habitacional consiste em: “[...] o trabalho social em programas de habitação voltados para a população de baixa renda deve ser considerado a partir da análise da política vigente em cada contexto histórico, em sociedades determinadas”. A atuação do Serviço Social nas políticas habitacionais tem sua historicidade, em conjunto com o trabalho em comunidades, como o objetivo de incentivar a participação eorganização comunitária, e com o incentivo dos grupos integrantes da burguesia, apoiados pela Igreja Católica, são levados ao caminho da institucionalização e da legitimação, contando com a influência do modelo europeu. Paz e Taboada (2010) afirmam que, no Brasil, as primeiras escolas que surgiram nos estados de São Paulo (1936) e Rio de Janeiro (1937) têm como alicerce o fundamento da doutrina católica, que evidencia o indivíduo, tratando a questão social como uma questão de ordem ética e moral. Este período é vinculado ao contexto da crise econômica mundial, em decorrência da queda da Bolsa de Valores de 1929, nos Estados Unidos, e também referenciado no conjunto de diversos fatores, entre o desenvolvimento urbano, industrial capitalista tardio dos pós–Segunda Guerra Mundial, onde a ONU disseminou uma proposta de trabalho de Desenvolvimento Comunitário, para acabar com os subdesenvolvimentos e as mazelas do pós-guerra, com a adesão de governos de diversos países e dos assistentes sociais. As experiências de desenvolvimento comunitário vinham sendo apontadas no Brasil desde 1940, através de entidades particulares e públicas. Esta atuação comunitária demonstrava ter um resultado mais rápido e abrangente que um trabalho individual, pois os profissionais do Serviço Social e voluntários realizavam atividades em comunidades carentes, para diminuir os problemas existentes. Para Souza (1993), o Serviço Social, como profissão, tinha como objetivo a reconstrução das comunidades edificadas nas áreas urbanas das cidades, que acabaram se desestruturando como modelo do sistema capitalista, em especial com a chamada revolução urbano-industrial. Essa revolução exigia dos trabalhadores uma sobrecarga de trabalho, muito além das horas já trabalhadas nas fábricas, e sem a valorização salarial. Com o êxodo rural e com a imigração oriunda de outros países, as famílias começaram a desenvolver outras funções de produção econômica. Valladares (2005) defende que os profissionais de Serviço Social atuaram no contexto de gestão da pobreza delimitado pelo clientelismo, interligado com a proteção social e um controle da pobreza. Para o autor, os assistentes sociais trabalhavam através da realização de inquéritos familiares e no levantamento socioeconômico nas comunidades carentes em que estavam trabalhando. Esse levantamento consistia em uma pesquisa, onde eram avaliadas as condições de habitabilidade, situação do saneamento básico, abastecimento de água e fornecimento de luz, além da situação econômica; e moral, como estado civil, alcoolismo, promiscuidade. Também era pesquisado o grau de escolaridade das pessoas que moravam nessas comunidades. TÓPICO 2 | A TRAJETÓRIA HISTÓRIA DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL NA POLÍTICA DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL E AS DIRETRIZES ATUAIS 161 As pesquisas realizadas tinham uma abordagem voltada para as mazelas urbanas. A importância dessas pesquisas sociais deriva de uma leitura da realidade, onde essa passa a ser percebida, basicamente, a partir da coleta de dados empíricos e de sua definição morfológica, desconsiderando as determinações estruturais e as teorias sociais críticas. Os assistentes sociais, visando o resgate dos vínculos comunitários e da dignidade humana perdidos no decorrer da nova estruturação da sociedade, focavam o trabalho na organização e na mobilização das comunidades carentes, com bases teórico-metodológicas e técnico-operativas que estavam em vigor no período, através de uma abordagem profissional como de Caso, Grupo e Comunidade. O trabalho tinha cunho voltado ao coletivo e comunitário, onde o assistente social que atuava na política habitacional visava o desenvolvimento de comunidade. O Serviço Social, desde a década de 1940, esteve presente como mediador na relação existente entre a população em situação de vulnerabilidade social, o Estado e o Serviço Social, por meio dos programas e projetos direcionados às comunidades carentes, devido ao grande crescimento desses espaços e também pelo aumento do processo de urbanização e industrialização implementados no Brasil. Para Gomes e Pelegrino (2005), as favelas aumentavam como uma alternativa de sobrevivência para as pessoas que não tinham condição suficiente para suprir as necessidades básicas para viver. Mesmo estando inseridas no mercado de trabalho, os salários eram baixos. Os mesmos autores defendem que a atuação educativa do Serviço Social nestes espaços tinha como princípio básico que essas comunidades urbanas carentes ocupavam estas áreas de maneira irregular, ou seja, a invasão sem a compra legal do direito à propriedade. Esta visão estava fundamentada também no movimento higienista, que acabava justificando a conservação de certas populações na margem das cidades. Para Yazbeck (1999), os profissionais de Serviço Social exerciam uma função de tutela, com ação educativa e que viabilizava a assistência e demais serviços, tornando-se, assim, agentes importantes para disciplinar o cidadão brasileiro, pois essas populações eram vistas como inadaptadas, incapazes, dependentes, e que exigiam uma intervenção técnico-social. Diante deste mesmo contexto, Gomes e Pelegrino (2005) apontam que o acompanhamento aos moradores das comunidades carentes, pelos assistentes sociais, durante este período, tinha como hipótese uma determinada incapacidade por parte do morador em gerir sua moradia, tanto no quesito econômico, como também do relacionamento social, ou seja, a dificuldade de se relacionar vizinho com vizinho. Sendo assim, para o profissional, tratava-se de assistir a comunidade, de maneira educativa, para que não prejudicasse o restante da comunidade, no que se refere a higiene, limpeza e bons modos. Porém, alguns grupos de profissionais passaram a questionar o paradigma hegemônico que estava sendo utilizado até o momento. 162 UNIDADE 3 | A ATUAÇÃO DO ASSISTENTE SOCIAL NA POLÍTICA DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL Mesmo com a questão desenvolvimentista, o país estava vivendo uma das fases mais difíceis e polêmicas de sua história política. O Ato Institucional nº 5 (Al-5), que foi promulgado no ano de 1968, pelo presidente General Costa e Silva, determinou medidas repressivas para toda e qualquer forma de manifestação coletiva, abrangendo o Congresso Nacional, as Assembleias Legislativas e as Câmara Municipais. Com essas medidas, nesse período aconteceu a retirada das favelas, encabeçadas pelo Estado, nas mais diferentes cidades do Brasil, e os assistentes sociais estiveram presentes, porém sem criticar as manobras impostas sobre a expulsão forçada da comunidade das favelas. Na época, o que se entendia era que a melhor gestão era remover os barracos, casebres, para acabar com os problemas de violência e minimizar os problemas de saúde. Conforme as autoras Oliveira, Paz e Raichelis (2008, p. 242), em relação ao BNH, delineavam-se programas e projetos voltados para a população carente e de baixa renda: Nos denominados programas de interesse social registram-se, desde os anos 1970, propostas de programas habitacionais considerados especiais ou alternativos destinados à população com renda mensal inferior a três salários mínimos, mas seus resultados não foram significativos frente à produção habitacional do BNH e do SFH. Esses programas (PROMORAR, PROFILURB, João de Barro, etc.), carregavam o estigma de ‘moradia para pobre’, de baixo padrão de qualidade, precário sistema construtivo e ausência de serviços de infraestrutura. O BNH visava o atendimento, em parte, da relocação das favelas, em especial as localizadas próximas aos centros urbanos, para os chamados conjuntos habitacionais, áreas periféricas, e que eram desprovidos de qualquer serviço básico urbano. Oliveira, Paz e Raichelis (2008) expõem que o Serviço Social começou a rever e questionar as remoções forçadas, através do pensamento de Paulo Freire, e das alterações que ocorreram na Igreja Católica, baseada no Encontro de Medellin (1968), da Teologiada Libertação, do Movimento de Reconceituação na América Latina, que estava sintonizado sobre o crivo da teoria crítico-social, e como viés de postura estruturalista. Para os assistentes sociais, o Movimento de Reconceituação teve uma importante contribuição para os profissionais ligados ao desenvolvimento comunitário. DICAS O debate sobre a ética profissional do Serviço Social instaura-se na profissão no início dos anos 1980, e tinha como foco romper com a ética da neutralidade e com o tradicionalismo, afirmando pela primeira vez, em 1986, o compromisso com a classe trabalhadora, através da aprovação do novo Código de Ética Profissional. No contexto da formação profissional buscou-se ir além do tradicionalismo teórico-metodológico e ético-político, com a revisão curricular de 1982 e, no campo da atuação política, inúmeros profissionais engajaram-se nas lutas por democracia e melhores condições de vida. TÓPICO 2 | A TRAJETÓRIA HISTÓRIA DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL NA POLÍTICA DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL E AS DIRETRIZES ATUAIS 163 As Companhias de Habitação (COHAB) iniciaram suas atividades após a criação do BNH (1964), que tinha como objetivo atender a população de baixa renda e em situação de vulnerabilidade social. Os assistentes sociais focavam sua atuação profissional para acompanhamento aos trabalhadores, desde a formação das cooperativas habitacionais, na discussão e execução das obras, bem como o acompanhamento das mudanças das famílias para sua nova moradia, ou conjuntos habitacionais. Nesta política, o assistente social, sociólogos, ou profissionais da área social, eram avaliados e considerados pela instituição como uma profissão não tão importante quanto os engenheiros, arquitetos e advogados, sendo assim, o trabalho social era considerado secundário. O Primeiro Encontro Nacional dos Profissionais da COHAB aconteceu no ano de 1972, e “a partir daí estruturaram-se equipes, definiram-se diretrizes e o arcabouço metodológico do trabalho social em habitação” (PAZ; TABOADA, 2010, p. 46). Desde então, o BNH começou a autorizar as COHABs para incluírem nas prestações dos mutuários taxas para dar cobertura aos gastos relacionados com a manutenção dos conjuntos habitacionais e de todos os seus equipamentos comunitários, e para os pagamentos dos assistentes sociais, que estivessem trabalhando como profissionais do Serviço Social nos espaços já edificados, através da execução de um plano de trabalho social. Paz e Taboada (2010, p. 46) defendem que o trabalho social da época [...] tinha um caráter mais administrativo, pois se preocupava com a seleção da demanda, o acompanhamento da adimplência dos mutuários e a organização comunitária, especialmente com a constituição de associações de moradores nos conjuntos habitacionais, para que essas pudessem administrar os espaços comunitários construídos nos conjuntos habitacionais (centros comunitários), por meio de comodatos. Analisando a composição das COHABs, poderia se verificar a composição das equipes multidisciplinares, através da participação de psicólogos, sociólogos, assistentes sociais, mas as práticas entre estes profissionais eram isoladas, não havia uma prática comum ou que fosse corrente entre os agentes executores, visando unificar uma metodologia do trabalho social. As equipes profissionais que atuavam no trabalho social junto com a população beneficiária tinham suas abordagens diferenciadas, de acordo com a filosofia acordada do programa habitacional e seus objetivos. Os programas que eram aplicados para as comunidades carentes tinham algumas frentes a serem trabalhadas, como, por exemplo: Educação, Saúde, Capacitação profissional, treinamento de lideranças, cultura geral e outras. 164 UNIDADE 3 | A ATUAÇÃO DO ASSISTENTE SOCIAL NA POLÍTICA DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL Com a orientação do BNH, a partir de 1975, que propôs redimensionar sua atuação para a população de baixa renda, isto é, até três salários mínimos, bem como erradicar as sub-habitações localizadas em áreas irregulares, sem, no entanto, removê-las, ou seja, reurbanizando as áreas já ocupadas, nos Programas Habitacionais das Companhias de Habitação e nos Programas de Cooperativas Habitacionais o trabalho social passou a ser uma exigência. Todas as COHABs tiveram que contratar profissionais específicos e elevou-se o Subprograma de Desenvolvimento Comunitário (SUDEC). Nos programas destinados à população de baixa renda, entre os quais: Programa de Erradicação da Sub-habitação (PROMORAR), Programa João de Barro, Programa de Lotes Urbanizados (PROFILURB), bem como nos Programas de Saneamento para População de Baixa Renda (PROSANEAR), “o trabalho social adquiriu um caráter menos administrativo e orientava-se no sentido de que o mutuário se assumisse como cidadão, com consciência de seus direitos e deveres e da importância de sua participação ou protagonismo social” (PAZ; TABOADA, 2010, p. 46-47) Este período tinha como foco o cerceamento de atividades organizativas e os trabalhos sociais objetivavam: [...] a discussão dos direitos e deveres dos cidadãos que adquiriam uma unidade habitacional, o acompanhamento da construção dos conjuntos habitacionais, a preparação para mudança, o apoio na organização da nova comunidade, a capacitação para viver em condomínio, no caso das construções verticalizadas, o apoio, a organização e acompanhamento de grupos de interesses específicos (crianças, jovens, mulheres), a constituição de associações de moradores, a discussão do uso e manutenção do equipamento comunitário e a integração da comunidade entre si e com o entorno. Cabe ressaltar que, majoritariamente, os assistentes sociais lideravam e ocupavam postos de chefia e coordenação dos programas. (PAZ; TABOADA, 2010, p. 47). O trabalho social, vinculado à comunidade carente, priorizava a discussão da mudança de qualidade de vida, na medida em que a política habitacional, diante do olhar governamental, retrocedia para as comunidades carentes e de baixa renda, em especial a população moradora de favelas, reduzindo-se ao atendimento emergencial e relocação de moradores e famílias para conjuntos habitacionais, localizados na periferia das cidades e desprovidos de qualquer serviço público, com ou sem qualidade. Na grande maioria, os municípios assumiam os programas, porém, passavam toda a responsabilidade de execução, planejamento de trabalho social para secretarias ou diretorias de assistência social. Para Paz e Taboada (2010), apesar do enfoque na política habitacional, a presença de técnicos da área social se tornou um instrumento necessário e importante para a luta por melhores condições de vida. TÓPICO 2 | A TRAJETÓRIA HISTÓRIA DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL NA POLÍTICA DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL E AS DIRETRIZES ATUAIS 165 Durante a década de 1980, teve início o período das lutas pela redemocratização do país. Aconteceram muitas conferências internacionais e nacionais, que foram fundamentais no processo de participação dos assistentes sociais no Movimento Nacional pela Reforma Urbana (MNRU) e no Fórum Nacional pela Reforma Urbana (FNRU), e também de prestar assessoria para os movimentos organizados em nível local e regional, através das Organizações Não Governamentais (ONGs). Nesse momento, o Serviço Social se articulou com outras categorias profissionais na luta pela moradia e defesa dos direitos sociais. Segundo Paz e Taboada (2010), os assistentes sociais que trabalhavam na política habitacional começaram a se “opor ao modelo de remoção”, e o objetivo do trabalho social foi a inclusão na negociação juntamente com as famílias que estavam sendo foco para desocupação das áreas consideradas de risco e ou irregulares para moradia, sendo considerada também a preocupação com as questões do meio ambiente e com a sustentabilidade das famílias, por meio do início da discussão de geração de trabalho e renda, e projetos de educação ambiental. Conforme Silva (1989),neste período, uma grande crise econômica afetou o SFH, além de outras medidas econômicas adotadas pelo governo da época. O Brasil precisou voltar a utilizar recursos externos para conseguir efetivar seus programas de prestação de serviços públicos. Com a parceria realizada entre governo federal brasileiro, através do Ministério da Fazenda e CAIXA, com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o trabalho social passou a ser considerado um instrumento fundamental nas intervenções, com foco em urbanização, saneamento, regularização fundiária e habitação. De acordo com Paz e Taboada (2010), O Ministério das Cidades em 2003, fundamentado no Programa Habitar Brasil – BID, definiu como obrigatoriedade o trabalho social em todos os programas habitacionais, e nos programas de saneamento ambiental, que hoje integram o Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC. A obrigatoriedade do trabalho social na PHIS passou a ser de responsabilidade do poder público local, no âmbito estadual ou municipal. A Portaria nº 465, de 3 de outubro de 2011, dispõe sobre as diretrizes gerais do PMCMV, mas se estende aos demais programas, conforme prevê o chamado Caderno de Orientação Técnico-Social (COTS), que apresenta de que forma deve ser a organicidade das atividades da equipe técnica social envolvida na execução dos programas de desenvolvimento urbano promovidos pelo governo federal. No COTS consta a Instrução Normativa nº 8, que se propõe: “[...] orientar as equipes técnicas dos estados, Distrito Federal, municípios, Entidades Organizadoras/Construtoras e Empresas Credenciadas para o desenvolvimento do Trabalho Técnico Social nos programas operacionalizados pela CAIXA [...]”, a qual é responsável pela avaliação dos projetos enviados pelos estados, municípios e Distrito Federal (CAIXA, 2010, p. 2). 166 UNIDADE 3 | A ATUAÇÃO DO ASSISTENTE SOCIAL NA POLÍTICA DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL A execução do trabalho social deve ser feita junto com as famílias ou comunidades beneficiárias do PMCMV, de reassentamento de áreas irregulares e/ou risco e de regularização fundiária. O trabalho social deve estar em constante sintonia com o andamento das obras físicas e dando continuidade por um determinado período, após o término das obras, que normalmente vai entre nove a 12 meses. O objetivo geral do trabalho técnico social é, segundo a Portaria da PMCMV, n. 465, de 3 de outubro de 2011: Proporcionar a execução de um conjunto de ações de caráter informativo e educativo junto aos beneficiários, que promova o exercício da participação cidadã, favoreça a organização da população e a gestão comunitária dos espaços comuns; na perspectiva de contribuir para fortalecer a melhoria da qualidade de vida das famílias e a sustentabilidade dos empreendimentos. FONTE: Disponível em: http://www.cbic.org.br/sites/default/files/ PORTARIA%20465%20MCIDADES%2003102011%20COMPACTADA. pdf>. Acesso em: 31 maio 2016. Conforme a Portaria nº 465 do PMCMV, os objetivos específicos do trabalho social na PHIS são: a) disseminar informações detalhadas sobre os programas, o papel de cada agente envolvido e os direitos e deveres dos beneficiários; b) fomentar a organização comunitária visando a autonomia na gestão democrática dos processos implantados; estimular o desenvolvimento da consciência da coletividade e dos laços sociais e comunitários, por meio de atividades que fomentem o sentimento de pertencimento da população local; c) assessorar e acompanhar, quando for o caso, a implantação da gestão condominial, orientando a sua formação nos aspectos legais e organizacionais; d) disseminar noções de educação patrimonial e ambiental, de relações de vizinhança e participação coletiva, visando a sustentabilidade do empreendimento, por meio de atividades informativas e educativas e discussões coletivas; e) orientar os beneficiários em relação ao planejamento e gestão do orçamento familiar; f) estimular a participação dos beneficiários nos processos de discussão, implementação e manutenção dos bens e serviços, a fim de adequá-los às necessidades e à realidade local; g) promover articulação do trabalho social com as demais políticas públicas e ações de saúde, saneamento, educação, cultura, esporte, assistência social, justiça, trabalho e renda, e com os conselhos setoriais e de defesa de direito, associações e demais instâncias de caráter participativo, na perspectiva da inserção dos beneficiários nestas políticas pelos setores competentes; h) articular e promover programas e ações de geração de trabalho e renda existentes na região, indicando as vocações produtivas e potencialidades dos grupos locais e do território; i) promover capacitações e ações geradoras de trabalho e renda; j) acompanhar, junto aos órgãos responsáveis no município, as providências para o acesso dos beneficiários às tarifas sociais. FONTE: Disponível em <http://www.cbic.org.br/sites/default/files/POR- TARIA%20465%20MCIDADES%2003102011%20COMPACTADA.pdf>. Acesso em: 31 maio 2016. TÓPICO 2 | A TRAJETÓRIA HISTÓRIA DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL NA POLÍTICA DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL E AS DIRETRIZES ATUAIS 167 A Portaria ainda apresenta como diretrizes principais: a) estímulo ao exercício da participação cidadã; b) formação de entidades representativas dos beneficiários, estimulando a sua participação e exercício do controle social; c) intersetorialidade na abordagem do trabalho social; d) disponibilização de informações sobre as políticas de proteção social; e) articulação com outras políticas públicas de inclusão social; f) desenvolvimento de ações visando à elevação socioeconômica e à qualidade de vida das famílias e sustentabilidade dos empreendimentos FONTE: Disponível em: http://www.cbic.org.br/sites/default/files/ PORTARIA%20465%20MCIDADES%2003102011%20COMPACTA- DA.pdf>. Acesso em: 31 maio 2016. DICAS Acadêmico, acesse o link e tenha disponível o Caderno de Orientação Técnico-Social. <http://portal.cnm.org.br/sites/6700/6745/caderno_de_orientacao.pdf>. Diante das diretrizes estabelecidas pelo Ministério das Cidades, os entes federados não poderão acessar os recursos do Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social, em que se tenha qualquer programa ou ação sem desenvolver obrigatoriamente o trabalho social. Este está organizado em três eixos fundamentais: • Mobilização e Organização Comunitária (MOC), • Educação Sanitária e Ambiental (ESA) e • Geração de Trabalho e Renda (GTR). FONTE: Disponível em: <http://www.cbic.org.br/sites/default/files/ PORTARIA%20465%20MCIDADES%2003102011%20COMPACTA- DA.pdf>. Acesso em: 31 maio 2016. A efetivação desses três eixos forma uma série de ações, para serem desenvolvidas antes, durante e após o término das obras físicas, e com o objetivo de acompanhar e apoiar a população beneficiária no novo espaço de moradia. No tópico a seguir será discutida a conformação do trabalho social, onde serão considerados aspectos relevantes para a implantação da PHIS, como: as diferentes formas de inserção da PHIS, principais demandas, o objeto de intervenção, os meios e o produto do trabalho, os subsídios teórico-metodológicos que foram usados. 168 UNIDADE 3 | A ATUAÇÃO DO ASSISTENTE SOCIAL NA POLÍTICA DE HABITAÇÃO DE INTERESSE SOCIAL DICAS Caro acadêmico, a leitura do livro indicado abaixo é fundamental para que você aprimore seus conhecimentos sobre o Desenvolvimento em Comunidade e a prática do Serviço Social. Boa leitura! O objetivo da autora não é dar a última palavra sobre o Desenvolvimento de Comunidade: importa que o tema seja discutido e confrontado, produzindo novas experiências de produção de conhecimentos e habilidades, ajudando a chegar ao necessário amadurecimento na prática desse assunto. SOUZA, Maria Luiza de. Desenvolvimento de Comunidade e Participação. 11. ed. São Paulo: Cortez, 2015. 169 Neste tópico, vimos que: • A história do Serviço Social, no contexto da política habitacional em todo o territóriobrasileiro, tem sua trajetória permeada em um debate, em que toda a historicidade é considerada como uma categoria inerente ao método dialético-crítico. • A atuação do Serviço Social, nas políticas habitacionais, tem sua historicidade em conjunto com trabalhos em comunidades, com o objetivo de incentivar a participação e organização comunitária. • As experiências de desenvolvimento comunitário vinham sendo apontadas no Brasil desde 1940, através de entidades particulares e públicas. • Esta atuação comunitária demonstrava ter um resultado mais rápido e abrangente que um trabalho individual, pois os profissionais do Serviço Social e voluntários realizavam atividades em comunidades carentes, para diminuir os problemas existentes. • Os profissionais de Serviço Social atuaram no contexto de gestão da pobreza delimitado pelo clientelismo, interligado com a proteção social e um controle da pobreza. (VALLADARES, 2005) • As pesquisas realizadas tinham uma abordagem voltada para as mazelas urbanas. A importância dessas pesquisas sociais deriva de uma leitura da realidade, onde a mesma é percebida basicamente a partir da coleta de dados empíricos e de sua definição morfológica, desconsiderando as determinações estruturais e as teorias sociais críticas. • Os assistentes sociais, visando o resgate dos vínculos comunitários e da dignidade humana perdidos no decorrer da nova estruturação da sociedade, focavam o trabalho na organização e na mobilização das comunidades carentes. • O Serviço Social, desde a década de 1940, esteve presente como mediador na relação existente entre a população em situação de vulnerabilidade social, o Estado e o Serviço Social, por meio de programas e projetos direcionados às comunidades carentes, devido ao grande crescimento desses espaços e também pelo aumento do processo de urbanização e industrialização implementados no Brasil. RESUMO DO TÓPICO 2 170 • Mesmo com a questão desenvolvimentista, nosso país estava vivendo uma das fases mais difíceis e polêmicas de sua história política. O Ato Institucional nº 5 (Al-5) foi promulgado no ano de 1968, pelo presidente General Costa e Silva, que determinou medidas repressivas para toda e qualquer forma de manifestação coletiva, abrangendo o Congresso Nacional, as Assembleias Legislativas e as Câmara Municipais. • O BNH visava o atendimento, em parte, da relocação das favelas, em especial as localizadas próximas aos centros urbanos, para os chamados conjuntos habitacionais, áreas periféricas, e que eram desprovidos de qualquer serviço básico urbano. • As Companhias de Habitação (COHAB) iniciaram suas atividades após a criação do BNH (1964), que tinha como objetivo atender a população de baixa renda e em situação de vulnerabilidade social. • O Primeiro Encontro Nacional dos Profissionais da COHAB aconteceu em 1972, e “a partir daí estruturaram-se equipes, definiram-se diretrizes e o arcabouço metodológico do trabalho social em habitação”. (PAZ; TABOADA, 2010, p. 46). • Desde então, o BNH começou a autorizar as COHABs a incluírem nas prestações dos mutuários taxas para dar cobertura aos gastos relacionados com a manutenção dos conjuntos habitacionais e de todos os seus equipamentos comunitários, e para os pagamentos dos assistentes sociais que estivessem trabalhando como profissionais do Serviço Social nos espaços já edificados, através da execução de um plano de trabalho social. • A composição das COHABs poderia verificar a composição das equipes multidisciplinares, através da participação de psicólogos, sociólogos, assistentes sociais, mas a práticas entre estes profissionais eram isoladas, não havia uma prática comum ou que fosse corrente entre os agentes executores, visando unificar uma metodologia do trabalho social. • O trabalho social, vinculado a comunidades carentes, priorizava a discussão da mudança de qualidade de vida, na medida em que a política habitacional, diante do olhar governamental, retrocedia para as comunidades carentes e de baixa renda, em especial a população moradora de favelas. • Com a parceria realizada entre governo federal brasileiro, através do Ministério da Fazenda e CAIXA, com o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID), o trabalho social passou a ser considerado um instrumento fundamental nas intervenções, com foco em urbanização, saneamento, regularização fundiária e habitação. 171 • O Ministério das Cidades (2003), fundamentado no Programa Habitar Brasil – BID, definiu como obrigatoriedade o trabalho social em todos os programas habitacionais e nos programas de saneamento ambiental, que hoje integram o Programa de Aceleração do Crescimento, o PAC. • A Portaria nº 465, de 3 de outubro de 2011, dispõe sobre as diretrizes gerais do PMCMV, mas se amplia aos demais programas, conforme prevê o chamado Caderno de Orientação Técnico-Social (COTS). • A execução do trabalho social deve ser feita junto com as famílias ou comunidades beneficiárias do PMCMV, de reassentamento de áreas irregulares e/ou risco e de regularização fundiária. 172 AUTOATIVIDADE 1 O Trabalho Técnico-Social é o conjunto de ações que visam promover a autonomia e o protagonismo social, planejadas para criar mecanismos capazes de viabilizar a participação dos beneficiários nos processos de decisão, implantação e manutenção dos bens/serviços, adequando-os às necessidades e à realidade dos grupos sociais atendidos, além de incentivar a gestão participativa para a sustentabilidade do empreendimento. As diretrizes para elaboração e implantação do TTS são definidas pelo Ministério das Cidades, cabendo à CAIXA apoiar os entes públicos na formulação dos projetos e acompanhar e atestar sua execução. FONTE: Disponível em: <http://portal.cnm.org.br/sites/6700/6745/caderno_de_orientacao. pdf>. Acesso em: 26 abr. 2016. Perante a citação acima, pesquise sobre as fases do Trabalho Técnico- Social nos programas do Ministério das Cidades, e descreva cada uma delas. 2 Diante das diretrizes estabelecidas pelo Ministério das Cidades, os entes federados não poderão acessar os recursos do Fundo Nacional de Habitação de Interesse Social em que tenha qualquer programa ou ação sem desenvolver obrigatoriamente o trabalho social. Este está organizado em eixos fundamentais, sendo eles: a) Mobilização e Organização Comunitária (MOC). b) Educação Sanitária e Ambiental (ESA). c) Geração de Trabalho e Renda (GTR). d) Mobilização e Organização Comunitária (MOC), Educação Sanitária e Ambiental (ESA), Geração de Trabalho e Renda (GTR). e) Educação Sanitária e Ambiental (ESA), Geração de Trabalho e Renda (GTR). 173 TÓPICO 3 A ADAPTAÇÃO DO TRABALHO DO ASSISTENTE SOCIAL NA PNHIS UNIDADE 3 1 INTRODUÇÃO O terceiro tópico desta última unidade tem como foco discutir como o profissional de Serviço Social vem se adaptando na PNHIS. Como apresentado até o momento, desde o ano de 2003 a PNHIS ganhou um outro olhar, uma nova visão e uma nova forma de garantir o direito à moradia para toda a população, através do PMCMV, onde o trabalho do assistente social é obrigatório. Atualmente, sabe-se que a maior parte dos assistentes sociais realiza o trabalho da PHIS através das instituições públicas, sendo inseridas na chamada divisão sociogênica do trabalho. O Serviço Social, ao longo de sua história, é reconhecido como uma profissão que possui suas particularidades, e vem, ao logo da trajetória, acumulando diversos conhecimentos e competências, por meio das dimensões ética, política, teórica, metodológica e operativa, que lastram a atuação nas manifestações da questão social, sendo estes o objeto de atuação profissional. (IAMAMOTO, 2009). Dessa forma, o trabalho do assistente social na PHIS não pode acontecer de forma isolada, ou individualizada, precisa estar incluído em uma estrutura hierárquica e de cunho organizacional, que traga definições objetivas em relação à demanda de trabalho, integrado com as demais políticas públicas. Na PHIS, os profissionais de Serviço Social