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MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO SECRETARIA DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA UNIVERSIDADE ABERTA DO BRASIL Fernando Haddad - Ministro da Educação Carlos Eduardo Bielschowsky - Secretário SEED/MEC Celso Costa - Diretor da UAB Maria Lúcia Cavalli Neder - Reitora UFMT Francisco José Dutra Souto - Vice-Reitor Valéria Calmon Cerisara - Pró-Reitora Administrativa Elizabete Furtado de Mendonça - Pró-Reitora de Planejamento Luis Fabrício Cirillo de Carvalho – Pró-Reitor de Cultura, Extensão e Vivência Myrian Thereza de Moura Serra - Pró-Reitora de Ensino e Graduação Leny Caselli Anzai - Pró-Reitora de Pós-Graduação Adnauer Tarquínio Daltro - Pró-Reitor de Pesquisa Carlos Rinaldi - Coordenador UAB/UFMT Kátia Morosov Alonso - Diretora do Instituto de Educação Roseméry Celeste Petter – Coordenadora do Curso de Licenciatura em Pedagogia (Ênfase em Educação Infantil) MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO SECRETARIA DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA UNIVERSIDADE ABERTA DO BRASIL Psicologia IV Identidade Profissional: pensando a diferenciação do(a) Professor(a) na Educação Infantil Licenciatura em Pedagogia - (Ênfase em Educação Infaltil) - Modalidade a Distância MINISTÉRIO DA EDUCAÇÃO SECRETARIA DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA UNIVERSIDADE ABERTA DO BRASIL Conselho Editorial: Profa. Kátia Morosov Alonso - UFMT Profa. Sandra Regina Geiss Lorensini – UFMT Profa. Maria de Lourdes De Lamonica Freire – UFMT Prof. Oreste Preti – UFMT Profa. Roseméry Celeste Petter - UFMT Conselho Editorial: EdUFMT Ilustração Capa: Cerâmica Antígua Indústria e Comércio Ltda Projeto Gráfico e Editoração Eletrônica: Eduardo Butakka Revisão: Marta Maria Covezzi Ficha Catalográfica Índice para catálogo sistemático Instituto de Educação Núcleo de Educação Aberta e a Distância Av. Fernando Corra da Costa, s/nº Campus Universitário Cuiabá, MT Tel: 65 3615-8438/ 3628-2819 www.nead.ufmt.br Cuiabá – MT 2009 M839p Moreira, Ana Rosa Costa Picanço Psicologia IV: identidade profissional – pensando a diferenciação do(a) professor(a) na educação infantil / Ana Rosa Costa Picanço Moreira, Daniela Barros da Silva Freire Andrade. – Cuiabá : EdUFMT/ UAB, 2009. 61p. : il. ; color. Inclui bibliografia 1.Psicologia educacional. 2. Psicologia da aprendizagem. 3. Psicologia 4. Educação infantil 5. Educação a distância I. Andrade, Daniela Barros da Silva Freire. II. Título. III. Título: Identidade profissional: pensando a diferenciação do(a) professor(a) na educação infantil. CDU – 37.015.3 ANA ROSA COSTA PICANÇO MOREIRA DANIELA BARROS DA SILVA FREIRE ANDRADE Psicologia IV IDENTIDADE PROFISSIONAL: PENSANDO A DIFERENCIAÇÃO DO(A) PROFESSOR(A) NA EDUCAÇÃO INFANTIL Cuiabá – MT 2009 Caro estudante, A nossa caminhada pelas contribuições da Psicologia à Educação Infantil chega a sua quarta e última parada, pelo menos no contexto deste curso de formação. Esperamos que os nossos textos lhe tenham auxiliado neste percurso. O que se propõe, no Fascículo 4, é o exercício reflexivo de se reconhecer no outro por meio das diferenças e similaridades que nos caracterizam como seres sociais em processo de diferenciação. Este exercício pode ser realizado de múltiplas formas, tantas quantas diferenças existirem entre os seres humanos, por isso vamos eleger a criança como o outro do adulto, neste caso, o (a) professor (a) da Educação Infantil. Esta é uma das formas de respondermos à pergunta: quem é o(a) professor(a) da Educação Infantil? Esperamos que, na busca pela resposta a esta pergunta, você possa descobrir novas facetas identitárias que compõem essa complexidade que é ser você mesmo! Grande abraço, Ana Rosa e Daniela Sumário Contextualizando o fascículo 8 Identidade como representação de si e do outro 11 A criança como o outro do(a) professor(a) na Educação Infantil I 31 Rede de significados em torno da qual se constitui a identidade do (a) profissional da Educação Infantil 46 Psicologia IV 8 Contextualizando o fascículo Ao acompanhar as temáticas dos quatro fascículos dedicados à Psicologia, é possível identificar as principais abordagens teóricas e conceitos relevantes para o entendimento desta ciência. O primeiro fascículo cumpriu a função de introduzi-los no contexto da ciência psicológica. Na sequência, o segundo fascículo apresentou o estudo do processo de desenvolvimento e aprendizagem do ser humano, tal como proposto por Piaget, Vygotsky e Wallon. Como decorrência do debate teórico apresentado no segundo fascículo, foram expostas, no terceiro fascículo, algumas possibilidades de se pensar a teoria na articulação com questões específicas da Educação Infantil, tais como o processo de adaptação e inserção, a organização do tempo e espaço coletivo, o potencial formativo da brincadeira e da interação social. A formação do docente, no entanto, exige mais do que informações sobre o desenvolvimento e a aprendizagem do ser humano, ela trata de saberes que se referem à construção subjetiva do próprio docente acerca da profissão e dele mesmo enquanto profissional e ser humano que é. A prática do professor é uma síntese desses diferentes saberes e a chamada identidade profissional deve ser compreendida como uma unidade integradora que irá identificar, mas, ao mesmo tempo, diferenciar os profissionais. Por isso, no presente fascículo, você encontrará algumas discussões sobre o conceito de identidade do(a) professor(a) da Educação Infantil. O foco dirige-se à questão da identidade profissional com destaque para os principais pressupostos que sustentam o trabalho junto à criança até seis anos. Para tanto, privilegiou-se a abordagem psicossocial acerca do conceito de identidade, entendida, segundo a definição de Zavalloni (1984, apud Fischer, 1996), como uma estrutura organizadora das representações de si e dos outros, que se origina do conjunto de representações construídas na relação indivíduo e sociedade. Ao levar em consideração o conceito de identidade ora adotado, procurou-se atender o pressuposto que afirma a importância do outro na construção de si mesmo. Neste caso, elegeu-se a criança Psicologia IV 9 como o outro do(a) professor(a) da Educação Infantil. Uma forma por meio da qual nos definimos, tomando como referência as diferenças e similaridades entre adultos e crianças. Os significados que sustentam as representações acerca do(a) professor(a) da Educação Infantil são muitos, no entanto, para efeitos deste fascículo, serão abordados aqueles associados a: o feminino, a criança, o cuidar, o educar e o brincar. Desta forma, este fascículo está organizado em quatro capítulos. O primeiro, intitulado Identidade como representação de si e do outro, apresenta uma exploração inicial em torno do conceito. O segundo e terceiro capítulos, nomeados A criança como o outro do(a) professor(a) na Educação Infantil I e II, buscam articular a questão identitária do(a) educador com as discussões da Sociologia da Infância e da Psicologia Social com o objetivo de explorar a diferença constitutiva das identidades de crianças e adultos. Já o último capítulo, Rede de significados orientadores da identidade profissional na Educação Infantil, explora a discussão sobre os pressupostos do trabalho da Educação Infantil e as suas repercussões na identidade profissional do professor(a), sendo esta, por sua vez, influenciada pelas representações do feminino partilhadas na cultura. Psicologia IV 10 Eu etiqueta Carlos Drummond de Andrade Em minha calça está grudado um nome Que não é meu de batismo ou de cartório Um nome... estranho. Meu blusão traz lembrete de bebida Que jamais pus na boca, nessa vida, Em minha camiseta, a marca de cigarro Que não fumo, até hoje não fumei. Minhas meias falam de produtos Que nunca experimentei Mas são comunicados a meus pés. Meu tênis é proclama colorido De alguma coisa não provada Por este provador de longa idade. Meu lenço, meu relógio, meu chaveiro, Minha gravata e cinto e escova e pente, Meu copo,minha xícara, Minha toalha de banho e sabonete, Meu isso, meu aquilo. Desde a cabeça ao bico dos sapatos, São mensagens, Letras falantes, Gritos visuais, Ordens de uso, abuso, reincidências. Costume, hábito, permência, Indispensabilidade, E fazem de mim homem-anúncio itinerante, Escravo da matéria anunciada. Estou, estou na moda. É duro andar na moda, ainda que a moda Seja negar minha identidade, Trocá-la por mil, açambarcando Todas as marcas registradas, Todos os logotipos do mercado. Com que inocência demito-me de ser Eu que antes era e me sabia Tão diverso de outros, tão mim mesmo, Ser pensante sentinte e solitário Com outros seres diversos e conscientes De sua humana, invencível condição. Agora sou anúncio Ora vulgar ora bizarro. Em língua nacional ou em qualquer língua (Qualquer principalmente.) E nisto me comparo, tiro glória De minha anulação. Não sou - vê lá - anúncio contratado. Eu é que mimosamente pago Para anunciar, para vender Em bares festas praias pérgulas piscinas, E bem à vista exibo esta etiqueta Global no corpo que desiste De ser veste e sandália de uma essência Tão viva, independente, Que moda ou suborno algum a compromete. Onde terei jogado fora Meu gosto e capacidade de escolher, Minhas idiossincrasias tão pessoais, Tão minhas que no rosto se espelhavam E cada gesto, cada olhar Cada vinco da roupa Sou gravado de forma universal, Saio da estamparia, não de casa, Da vitrine me tiram, recolocam, Objeto pulsante mas objeto Que se oferece como signo dos outros Objetos estáticos, tarifados. Por me ostentar assim, tão orgulhoso De ser não eu, mas artigo industrial, Peço que meu nome retifiquem. Já não me convém o título de homem. Meu nome novo é Coisa. Eu sou a Coisa, coisamente. Psicologia IV 11 Identidade como representação de si e do outro Daniela Freire ... Hoje estou melancólica e suspirosa como minha mãe, choveu muito, a água invadiu este porão de lembranças, bóiam na enxurrada a caminho do rio. Deixo que naveguem, pois não as perderei. O rio é dentro de mim. Adélia Prado Introdução Estudar a identidade é algo complexo, não se pode analisá- la isoladamente. É preciso levar em consideração a história de vida dos indivíduos, seus grupos de pertencimento e os sistemas de significação e representação partilhados. A identidade, por sua vez, é instável, contraditória, fragmentada, inconsistente e inacabada. A identidade é construção, um processo de produção ligado a estruturas discursivas e narrativas que possui estreitas conexões com as relações de poder. O estudo ora apresentado sobre o conceito de identidade privilegiará a abordagem psicossocial considerando-a como representação de si, a resposta que se dá à pergunta: quem é você? A atividade proposta refere-se à análise do filme O sorriso de Monalisa, cujo enredo trata do lugar social da mulher norte-americana na década dos 50, bem como seus reflexos na construção identitária de uma professora e suas alunas. 1. Compreendendo o conceito O debate em torno da noção de identidade é extenso no âmbito da Filosofia, da Antropologia, da Sociologia e da Psicologia. Fischer (1996) identifica três abordagens teóricas que discutem o conceito de identidade: a psicanalítica, a sociológica e a psicossocial. A abordagem psicanalítica apresenta a contribuição de Erikson (1972-1974), a identidade como ambiente interno. Seus Psicologia IV 12 pressupostos orientam-se pela teoria do desenvolvimento afetivo do indivíduo, tomando-o como base para funções estruturais de certo número de etapas correspondentes a diferentes idades da vida. A identidade aparece como lugar no qual são interiorizadas as normas sociais, por meio da socialização da personalidade. Segundo Fischer (1996), para Erikson, o conceito de identidade traduz-se pela definição de si, ou seja, pelas características que o indivíduo identifica como de acordo com aquelas por meio das quais pode afirmar-se e reconhecer-se. Já na abordagem sociológica, a noção de identidade é discutida com base em duas orientações filosóficas: a marxista e a funcionalista. A orientação marxista afirma que identidade se estabelece em um processo de interiorização de valores que não são separados da ideologia dominante de uma sociedade. O conceito de identidade define a alienação, isto é, a consciência que o indivíduo tem da realidade não corresponde às condições objetivas que a determinam. Desta forma, tem-se a identidade como uma adaptação à sociedade através daquilo que o indivíduo aprende e reconhece como seu lugar e compreende as regras do jogo social. Segundo esta orientação, toda construção identitária comporta dois aspectos: 1. resistência com relação às falsas identidades que são impostas do exterior; 2. capacidade de se definir como ator de sua própria vida, que intervém para modificar as condições que envolvem os indivíduos em uma forma de existência determinada socialmente. Neste sentido, tem-se a falsa identidade em oposição à verdadeira identidade, esta seria construída por meio de lutas sociais que permitem revelar a ilusão da identidade. O nascimento de uma nova identidade estabelece uma crítica às ilusões da identidade anterior e se realiza por meio de um conflito dialético das relações sociais que implica o rompimento da ● ● ● Identidade como fruto do processo de socialização; sua função é inserir a personalidade no contexto social, se inscreve como aprendizagem da interiorização de normas. ● ● ● Psicologia IV 13 consciência para operar a ação histórica que permite rejeitar o status dos papéis anteriores. O estudo da identidade, para a orientação marxista, corresponde a uma análise das relações sociais por meio da qual o indivíduo emerge da espessura do contexto social no qual está submerso para se definir como ator da história, por meio de oposições que é capaz de assumir. A orientação funcionalista descreve a identidade como o reflexo, em nível individual, dos valores comumente aceitos em uma sociedade. Em toda sociedade, existem identidades-tipos que são modelos de conduta social que representam a realidade objetiva e engendram uma sociedade com as quais os indivíduos se identificam. Esta orientação foi desenvolvida notadamente por Berger e Luckman (1966), os autores definem a sociedade como um reservatório de identidades-tipos que constroem socialmente a realidade e propõem aos indivíduos comportamentos adequados em função de circunstâncias típicas em que se encontram. A identidade é, então, uma realidade objetiva e estável, à qual os indivíduos podem referir-se à medida que é objeto de consenso. Nesta perspectiva, a formação da identidade é resultado de uma interação entre a consciência individual e a estrutura social; ela é a construção de uma harmonia social que se consegue à medida que as pessoas adotam identidades-tipos para desempenharem o seu papel. ● ● ● A identidade não é outra coisa senão um reflexo de uma sociedade consensual, expressa por indivíduos adaptados ao sistema de valores que são partilhados por todos. ● ● ● ● ● ● Identidade é o produto da aprendizagem social, ela remete a um não saber sobre si mesmo, visto que este lhe é imposto de fora. Traduz formas de submissão e dependência, uma falsa consciência sobre sua própria condição. ● ● ● Psicologia IV 14 Por sua vez, a abordagem psicossocial define identidade por meio de uma problemática da interação, integrando os aspectos individuais e os componentes psicológicos conectados à personalidade (ao si) com as variáveis sociológicas associadas à noção de papéis sociais e de pertencimento a um grupo. George Mead (1934), Allport (1970), Miller (1975), Tajfel (1982) e Zavalloni (1984) são identificados por Fischer (1986) como representantes desta abordagem. Neste contexto, quando se refere ao conceito de identidade, utilizam-se expressões, como imagem, representações e conceito de si, caracterizando um conjunto de traços,de imagens, de sentimentos que o indivíduo reconhece como fazendo parte dele próprio. Os referenciais europeus adotam a noção representação de si para caracterizar um conjunto de representações que responde à pergunta quem és? Os conteúdos que compõem as representações do eu vão desde a aparência física até as representações abstratas, como os valores, sentimentos e afetos ligados ao si, as pertenças significativas associadas à definição do eu, às identificações; os modelos e os projetos que o indivíduo se fixa como ideais, são exemplos. Observe as imagens de Tonucci (2003) e analise sob a luz da compreensão da orientação psicossocial. Por falar nisso, você já pensou sobre a origem de seu nome? A identidade engloba certas dimensões da realidade social, tais como a representação ou a influência social. Ela explica como esses fenômenos se incorporam à personalidade, por constituir o núcleo do que o indivíduo pensa, a maneira como ele representa os outros e como ele avalia sua própria posição. Psicologia IV 15 Na orientação psicossocial, o conceito de identidade é analisado sob a perspectiva cognitiva centrada na determinação das estruturas de conhecimento do indivíduo concernente ao seu próprio lugar no mundo. Porém, a referida orientação não ignora a ação da afetividade na constituição da representação de si. Analise a imagem ao lado e identifique os aspectos socioculturais que influenciam a construção da identidade tanto de meninas quanto de meninos. Além de delimitar o tipo de brincadeira e de brinquedo, a interferência do adulto revela seu sistema de regras e valores. Com isso, pode-se perceber a emergência de mensagens subliminares. Quais são elas? Procure identificá-las. Você conhece a música de Joyce sobre o que é ser menina? Se não, observe: Feminia JOYCE Ô mãe, me explica, me ensina, me diz o que é feminina? Não é no cabelo, ou no dengo, ou no olhar, é ser menina por todo lugar. Ô mãe, então me ilumina, me diz como é que termina? Termina na hora de recomeçar, dobra uma esquina no mesmo lugar. Costura o fio da vida só pra poder cortar Depois se larga no mundo pra nunca mais voltar Ô mãe, me explica, me ensina, me diz o que é feminina? Não é no cabelo, ou no dengo, ou no olhar, é ser menina por todo lugar. Ô mãe, então me ilumina, me diz como é que termina? Termina na hora de recomeçar, dobra uma esquina no mesmo lugar. Prepara e bota na mesa com todo o paladar Depois, acende outro fogo, deixa tudo queimar Ô mãe, me explica, me ensina, me diz o que é feminina? Não é no cabelo, ou no dengo, ou no olhar, é ser menina por todo lugar. Ô mãe, então me ilumina, me diz como é que termina? Termina na hora de recomeçar, dobra uma esquina no mesmo lugar. Psicologia IV 16 Agora que você observou outro discurso sobre o que é ser menina, responda: Existe alguma diferença com relação ao conteúdo ou significado apresentado na imagem de Tonucci, daquele revelado pela letra da música de Joyce? Continuando... Fischer (1996), em seu capítulo intitulado Identidade Social, afirma que o conceito de identidade se apresenta, na Psicologia Social, como uma síntese entre a articulação do psicológico com o social que exprime o resultado das interações complexas entre o indivíduo, os outros e a sociedade. Uma construção representativa de si na sua relação com o outro e com a sociedade. A identidade também é a consciência social que o indivíduo possui dele mesmo, à medida que a relação com o outro lhe confere a existência de qualidades particulares. Especificamente, este texto se orientará pela abordagem psicossocial, sendo compreendida como uma representação de si. A mera resposta à pergunta quem é você? permite observar que o eu que se anuncia é um objeto de representação que se mostra ao outro por meio de valores, crenças e, por que não dizer, idealizações que se sustentam em uma rede de significações culturalmente construída e socialmente partilhada. Para Zavalonni (1984, apud Fischer, 1996), a identidade é concebida como uma estrutura cognitiva ligada ao pensamento representacional, o conceito designa as modalidades de organização, por um dado indivíduo, de representações que ele possui sobre si mesmo - representação de si - e de representações de grupos aos quais ele pertence. A abordagem psicossocial de Zavalloni reconhece a importância da linguagem como instrumento de ação e de reprodução de uma determinada ordem social. Cada grupo desenvolve um vocabulário para marcar sua identidade e, ao mesmo tempo, se diferenciar de outros grupos. Neste exercício, elabora novos significados As representações e significados apresentados pelos indivíduos refletem o ambiente imaginário e simbólico dos mesmos. As representações estão vinculadas às palavras e aos temas emergentes no discurso dos sujeitos tendo uma ressonância que Psicologia IV 17 capta os aspectos da identidade bem como as experiências, as lembranças e as imagens pessoais. Quando se tem uma narrativa acerca de si, a mesma se encontra associada à representação que se tem do mundo que, por sua vez, deriva de atividades mentais ligadas à memória, afetos e experiências pelas quais o sujeito já passou. A identidade aparece como uma estrutura organizadora das representações de si e dos outros, que se origina do conjunto de representações vivenciado na relação indivíduo e sociedade. A autora define identidade como um ambiente interior operatório de uma pessoa, que se constitui de imagens, conceitos e julgamentos concernentes à relação do si com o outro e com o mundo social. Os processos identitários são componentes da subjetividade humana e constituem a parte de um conjunto psíquico e orgânico cuja função é interagir com o ambiente. O sistema identitário atua como produto e instrumento desta atividade transacional e pode ser visto como espaço de memória que se amplia progressivamente nas transações com o mundo externo e consigo mesmo. Para a autora, a identidade constitui-se em três dimensões diferenciadas porém interligadas: as representações que o indivíduo possui de si mesmo, dos outros (pares ou grupos) e da sociedade. A identidade é uma construção social da realidade que se constitui com base no relacionamento com o outro e aborda a consciência deste relacionamento em relação à consciência de pertencimento. A consciência de si é inseparável da consciência do outro. A identidade aparece como um objeto privilegiado para compreender a construção da realidade social à medida que o relacionamento no mundo se estabelece por meio de diversas pertenças sociais e culturais do indivíduo. Nesta perspectiva, pode-se deduzir que a identidade pessoal contém a identidade social e vice-versa. Santos (1996), citando Tap (1979), afirma que a identidade é um conjunto de representações, sentimentos e opiniões que o indivíduo tem sobre si mesmo. Esse processo concorre para que o indivíduo estabeleça o seu lugar e assuma posições na sociedade Psicologia IV 18 através de apropriação da cultura e das instituições sociais (família, escola, trabalho) mediadas pelo outro (pais, professores, colegas de trabalho, alunos). Disso decorre o entendimento de que a identidade se forma no jogo das relações sociais na medida em que o indivíduo se apropria1 das regras, valores, normas e formas de pensar de sua cultura. Notas para os interessados na reflexão sobre o desenvolvimento da identidade de gênero: Duveen (1993), em seus estudos sobre representações sociais de gênero por crianças, contribui no sentido de demonstrar as implicações do feminino e do masculino na constituição de si e do outro. O autor indica que a criança, com frequência, é o elemento mais conservador na cultura de gênero e no contexto da sala de aula. As representações sociais de gênero, na infância, constituem-se em torno da oposição bipolar na condição de núcleo figurativo, oferecendo clareza através de uma simplicidade coerente, acompanhada de uma capacidadelimitada de elaboração cognitiva. O autor também identificou uma resistência da criança em admitir uma voz igualitária nas representações de gênero, possivelmente influenciada pela necessidade de não perder a imagem clara do mundo. Desta forma, a oposição bipolar cristaliza um estado de entendimento infantil que fusiona, na forma de conhecimento, sua estrutura categorial com o seu conteúdo. Tal fusão caracteriza- se pela separação entre coisas masculinas e coisas femininas. Esta separação pode delinear o padrão de interação e a dinâmica do interjogo, na atividade e no entendimento capazes de sustentar os momentos de interações por longos períodos de tempo. Para as crianças, a oposição bipolar também representaria hierarquias e relações de força, marcando a diferença entre os gêneros, saturando-as. Para as crianças pesquisadas por Duveen (1993), masculino e feminino não são iguais e 1 Apropriação é o termo utilizado com o objetivo de destacar o caráter ativo e transformador do indivíduo na sua relação com o contexto sócio-histórico que, por sua vez é resultado da ação humana como externalização do seu psiquismo e que volta a se interiorizar transformado em um processo contínuo de articulação entre o individual e o social. E agora? O que esta imagem quer retratar? Quais as posições ou os papéis sociais que as crianças parecem estar assumindo? Psicologia IV 19 essa desigualdade pode ser valorizada no mesmo grupo de gênero, levando a uma desvalorização do grupo de gênero oposto. No caso das meninas, a reprodução da hierarquia de gênero traz uma desvalorização de seu próprio gênero. Não coincidentemente, é dentro desse grupo que são encontradas evidências da hegemonia de uma oposição bipolar restrita. Duveen (1993) acredita que, ainda entre crianças, gênero não é um terreno inteiramente incontestável e que as relações de desigualdade podem gerar resistência por parte das mesmas. Continuando... Ao analisar a contribuição do psicólogo francês contemporâneo Lucien Sève (1989), Jacques (1998) destaca que o homem concreto se constitui a partir de um suporte biológico responsável por lhe dar condições gerais de possibilidades, próprias da espécie, e condições particulares de realidade, próprias de sua carga genética. Junto a isso, as características humanas historicamente desenvolvidas encontram-se objetivadas na forma de relações sociais que cada indivíduo encontra como dado existente, como formas históricas de individualidade, e que são apropriadas no desenrolar de sua existência através da mediação do outro. Nesta perspectiva, a identidade pode ser qualificada em: identidade pessoal ou consciência de si – atributos específicos • do indivíduo. Identidade pessoal pode ser compreendida como um sistema de representações de si, conjunto de características físicas, psicológicas, morais, jurídicas, sociais e culturais a partir das quais a pessoa pode se definir, se conhecer e se fazer conhecer, ou a partir das quais o outro pode defini-la, situá-la ou reconhecê-la. (SANTOS, 1996; p. 61-62) identidade social – atributos que assinalam a pertença a • grupos ou categorias, tais como nacionalidade, idade, estado civil, gênero, etnia, religião, profissão, atividade esportiva, política, por exemplo. Nesta perspectiva, a identidade social, conforme é caracterizada, se desdobra em identidade étnica, religiosa e profissional. Identidade social como aspecto de si resultante da cognição dos indivíduos acerca de seu pertencimento social, se exprime pela valorização e pela significação afetiva de suas pertenças baseadas na categorização e na homogeneidade da representação social de si, sua Psicologia IV 20 _____________ 2 Sobre esse aspecto, consultar citação atribuída a Leontiev (1983) apresentada no Fascículo 2. ● ● ● A identidade se estrutura na convergência entre a dimensão individual e sócio-histórica em uma dinâmica que lhe confere a dupla condição de determinada e determinante. Determinada porque a dimensão sócio-histórica exerce uma forte influência na constituição da identidade, orientando-a por meio de seus significados historicamente constituídos e determinantes porque o indivíduo possui um papel ativo na construção deste mesmo contexto, tendo em conta a sua inserção e apropriação. Identidade é o produto dos processos interativos operante entre o indivíduo e o campo social, e não somente um elemento de características individuais. A identidade é uma dimensão da relação social que se atualiza na representação de si. ● ● ● 2. Explorando a categoria Identidade: O sorriso de Monalisa A análise das personagens do filme O sorriso de Monalisa apresenta-se como um exercício para a compreensão daquilo que está em jogo quando se discute a identidade de uma pessoa ou de um grupo. A escolha desta narrativa não está dissociada de um conteúdo ideológico, uma vez que tal fato é simplesmente impossível de ocorrer. Ao escolher este ou aquele significado, deve-se levar em conta a consequência dessa escolha no contexto da construção da subjetividade2. Conforme argumenta Leontiev (1983), quando o indivíduo não possui um idioma próprio de significações elaborado por ele mesmo, a conscientização dos fenômenos da realidade só pode operar-se no ser humano por meio de significações elaboradas pelo contexto social. Conhecimento, conceitos e pontos de vista são identificados a partir da comunicação interpessoal, ou de massa; podem, perfeitamente, conter significados fantásticos e deformados, berço de estereótipos e ideologias que somente poderão ser questionadas diante de sérias confrontações. Desta forma, torna-se necessário que a consciência do indivíduo produza uma ressignificação do conteúdo em um contexto onde os mesmos lutem pela construção de suas consciências. Psicologia IV 21 Portanto, neste ponto, penso que Cazuza, bem ao estilo da orientação marxista, estava com a razão quando disse: - Ideologia, eu quero uma pra viver! No caso da narrativa escolhida, o que se destaca é a construção identitária da mulher americana na década de 50. Não obstante o filme tratar da realidade norte-americana, pode-se notar que os significados em questão são, em larga medida, os mesmos que têm se apresentado à mulher brasileira e perante os quais ela tem sido instigada a se posicionar. Desta forma, o que se propõe é um exercício de análise do filme, tomando como pano de fundo o conceito de identidade segundo a orientação psicossocial. Na medida do possível, recomenda-se que o leitor desenvolva, em paralelo, reflexão sobre aspectos de sua construção identitária. Sorriso de Monalisa Ilustração 1: Imagem à esquerda corresponde ao quadro de Leonardo Da Vinci intitulado Mona Lisa Psicologia IV 22 Enredo3 O texto foi escrito por dois homens - Lawrence Konner e Mark Rosenthal. Seu título faz referência a Mona Lisa, o quadro de Da Vinci, que 10 anos depois do ano de referência do filme — 1963 — seria levado aos Estados Unidos para exposição em Nova Iorque. Mona Lisa (também conhecida como A Gioconda) é a famosa mulher pintada por Leonardo da Vinci, cuja expressão introspectiva e leve, enigmático e triste sorriso foi analisado e celebrado por inúmeros críticos. Alguns sugerem que a obra seria um autorretrato de Leonardo. Outros, que se trataria de Isabella de Aragão, e que estaria triste porque seu marido era impotente, alcoólatra e batia nela frequentemente. É descrita como a mais infeliz esposa do mundo. Todas estas teorias são interessantes quando resgatadas pelo enredo com o tema da esposa que não é feliz apesar de aparentar ser, ou do papel da mulher, enquanto ressonância da vida do marido, sem identidade própria. A própria Katherine, por sua vez, tem um sorriso calmo e terno, não demonstrando emoções beligerantes ou amargas, mesmo quando colocada em situações de conflito, embora Julia Roberts tenha uma alegria própria e um sorriso singular que dificilmente parecerá triste. Em cenas em que ela estáplena, sozinha, mostra uma vitalidade interior, uma força decorrente de uma vida em que busca a arte, o desenvolvimento, o questionamento, como forma de se autorrealizar, bem distinto do ideal proposto para as alunas de Wellesley, com suas vidas já organizadas e estruturadas sobre determinados esquemas prontos. _____________ 3 Síntese encontrada em: http://buscador.terra.com.br/ImgFrame. aspx?imgurl=http://neteducacao.globo.com/site/usenet/imagens/SorrisoMonaLisa23. jpg&imgrefurl=http://laerciofasb.blogspot.com/2008/05/20-de-maro-7-aula.html&h= 209&w=140&sz=11&tbnh=71&tbnw=106&previmg=http://images-partners.google. com/images?q=tbn:DcDIOxXLCD_ZDM:neteducacao.globo.com/site/usenet/ imagens/SorrisoMonaLisa23.jpg, acesso: 18.10.2008. Psicologia IV 23 Em 1953, quando o papel das mulheres era rigidamente definido, a professora de história da arte Katherine Watson (Julia Roberts) começa a lecionar na famosa faculdade feminina Wellesley College, que apesar de sua reputação acadêmica, é um ambiente onde o sucesso é medido pelo casamento das alunas. Encorajando estas mulheres a lutarem por um futuro melhor, Watson desafia a administração e inspira suas alunas a olhar além das imagens e considerar as possibilidades do que elas poderiam ser. Durante o enredo, desenvolvem-se os pares românticos, há um casamento, há dores de amor, há desilusão, ou seja, tudo aquilo que envolve o velho conceito do amor entre um homem e uma mulher, quando mediados pela cerimônia do casamento e suas premissas. Estes romances, os pedidos de casamento, os desencontros amorosos, funcionam como contraponto ao empenho de Katherine em criar outros pontos de interesse para as garotas, como seres humanos que são, e não como eternas “noivas ou esposas”. Katherine, embora lutando pelo desenvolvimento mental e cultural das jovens, será, ela também, envolvida nos temas que tanto preocupavam as alunas de Wellesley: o amor, as festas, o brilho na sociedade. Ela transita, com sucesso e beleza, neste meio, acabando por se apaixonar pelo professor de Italiano. O filme, porém, trará à tona, embora de forma não profunda, temas fundamentais que Ilustração 2 : Quadro à direita - “Les Demoiselles d´Avignon”, de Picasso, uma das mais importantes obras do que se chamaria Arte Moderna. Trata-se de mulheres em um bordel, em posições sedutoras, mas pintadas de forma plana e não com linhas arredondadas, como é o clássico corpo feminino. O espaço entre as linhas é branco, como se fosse um vidro cortado, necessitando do nosso olhar para se mostrar inteiro. O resultado é que elas nos olham e nos solicitam um posicionamento. Katherine as olha e terá que se posicionar durante o enredo do filme, sobre questões centrais do papel feminino. Psicologia IV 24 começam a ser discutidos naquele momento como a aceitação da infidelidade masculina e a obrigatoriedade da sua compreensão pela mulher, a possibilidade de uma mulher escolher uma carreira, em detrimento do casamento, e assim por diante. Contexto Wellesley College foi uma das únicas instituições a permitir que as alunas estudassem arte moderna, começando com um curso de Arte moderna no final dos anos vinte, ministrado por Alfred Barr, Jr., que mais tarde fundou o Museu de Arte Moderna. A escola, porém, respondia ao ideal social da época. É uma escola importante, onde estudaram pessoas como Hillary Clinton, esposa do ex-presidente Clinton. Foi um texto da Sra. Bill Clinton que levou os roteiristas Lawrence Konner e Mark Rosenthal a pesquisar mais sobre esta escola frequentada apenas por mulheres. Considerada machista, Wellesley é colhida em uma etapa em que a sociedade gestava os primeiros passos do movimento feminista, a ocorrer poucos anos depois. Não se tratava, portanto, de uma escola fácil para se implantar uma mentalidade liberal, em pleno início da década de 50. Ilustração 3: vista no Wellesley College, em 22 de junho de 2006. Psicologia IV 25 Caracterização das personagens principais Katherine Watson (Julia Roberts), uma professora de arte que, educada na liberal Universidade Berkeley, na Califórnia, enfrenta uma escola feminina, tradicionalista – Wellesley College, onde as melhores e mais brilhantes jovens mulheres dos Estados Unidos recebem uma dispendiosa educação para se transformarem em cultas esposas e responsáveis mães. No filme, a professora tentará abrir a mente de suas alunas para um pensamento liberal, enfrentando a administração da escola e as próprias garotas. Ela também está imbuída da idéia de que através de suas aulas é possível dar maior autonomia e preparo para que suas alunas enfrentem o mundo. Sua personagem também é obrigada a renovar o fôlego do curso que ministra com algumas variações didáticas pouco comuns ao universo da faculdade em que trabalha. A jovem professora de história da arte vivida por Roberts é, entretanto, muito mais que uma profissional em busca de renovação em seu trabalho pedagógico, ela é o protótipo de mulher moderna, livre, desimpedida e que quer quebrar as barreiras do mundo machista em que vive. Julia encarna um feminismo antecipado em alguns anos. É uma mulher que está além de seu tempo e que não se conforma com o fato de suas alunas irem à faculdade para estudar sem as perspectivas futuras de tornarem-se profissionais e ingressarem no mercado de trabalho. Não há outro desejo nas estudantes que frequentam suas aulas senão o de se tornarem futuras esposas, dedicadas e preparadas para transformar a vida de seus maridos numa existência confortável onde as aparências são mantidas (mesmo que cinicamente) a qualquer custo (ainda que isso signifique o sacrifício de suas honras e esperanças). Katherine Psicologia IV 26 Betty Warren (Kirsten Dunst), a líder do grupo e editora do jornal da universidade, culta, crítica e defensora determinada dos valores de Wellesley, por sua vez, tomou o caminho do casamento, por força de pressão social e acaba por constatar que ele não é garantia de felicidade e nem de segurança social. Seu mundo desmorona quando descobre que o marido a trai, mas, no processo, ela se retoma e se abre para tomar suas próprias decisões, na medida de sua coragem e da afetividade que vai progressivamente vivendo e descobrindo em si mesma. Joan Brandwyn (Julia Stiles), melhor amiga de Betty, é a mais brilhante do grupo, um pouco mais cabeça aberta, mas ainda assim destinada a se casar e cuidar da casa, é o pivô da oposição que se forma entre Katherine e Betty. No entanto, ela consegue sair da posição e tomar sua própria decisão em função do amor e da escolha da vida conjugal, vivida como parceria, abrindo mão de sua carreira. Momentaneamente ou não, o importante é que faz uma escolha e, nela, é livre. Betty Joan Psicologia IV 27 Giselle é uma personagem forte no filme, é a problemática filha de pais divorciados que se interessa por homens mais velhos tendo uma vida liberal e se apaixonando por homens mais velhos, especialmente Bill Dunbar, o professor de italiano que é conhecido por ter relacionamentos com as alunas. Apesar de aparentar ser construída como um caráter discutível, Giselle, ao final, abrirá a possibilidade de uma leitura mais aberta do que Katherine propõe como independência de pensamento. Ela admira Katherine e ama Bill Dunbar, embora tenha que lidar com a sua preferência por Katherine. Outra aluna, Connie, (Ginnifer Goodwin), esta é a gordinha sonhadora do grupo, depende da aprovação masculina para se sentir bela, protagoniza o drama da garota que não se acha bonita e que acaba iniciando um romance com Charlie, primo de Betty. Giselle Constance, Connie Psicologia IV 28 3. A faceta identitária das mulheres em O sorriso de Monalisa: um exercício de análise 3.1 Ao considerar a abordagem psicossocial para o debate acerca da identidade, é importante levar em consideração alguns aspectos, tais como: a. Identidade é o produto dos processos interativos operante entre o indivíduo e o campo social,e não somente um elemento de características individuais. - quais são os indivíduos cuja análise da identidade está posta em questão?; - identifique o campo social que envolve os processos interativos e a construção simbólica das personagens. b. A identidade se estrutura na convergência entre a dimensão individual e sociohistórica em uma dinâmica que lhe confere a dupla condição de determinada e determinante... - considerando os perfis das personagens, identifique as diferenças individuais e os pontos em comum que operam na construção identitária de todas elas. Leve em consideração os conflitos apresentados por cada uma das personagens. - de que forma podemos identificar o caráter sociohistórico do significado central enfatizado pelo filme? c. ... Determinada porque a dimensão sociohistórica exerce uma forte influência na constituição da identidade, orientando-a por meio de seus significados historicamente constituídos... - quais os significados operantes no contexto das interações sociais estabelecidas entre a professora e suas alunas?; - quais os significados operantes no contexto das interações sociais estabelecidas entre a professora, seus colegas e a direção da escola? - todos os significados eram coerentes entre si ou a negociação e a partilha dos mesmos geravam conflitos? Por quê? Psicologia IV 29 d. ... Determinantes porque o indivíduo possui um papel ativo na construção deste mesmo contexto tendo em conta a sua inserção e apropriação. - Quais os significados identitário assumidos pela professora? - De que forma tais significados orientaram a sua ação pedagógica? - Qual a influência da ação pedagógica da professora na construção identitária de suas alunas? - todos os significados eram coerentes entre si ou a negociação e a partilha dos mesmos geravam conflitos? Por quê? Psicologia IV 30 Referências FISCHER, G-N. Les concepts fondamentaux de la psychologie sociale. Paris:Dunod, 1996. SANTOS, M. F. S. A velhice na zona rural:representação e identidade. In: SCHULZE, C. N. Novas contribuições para a teorização e pesquisa em representação social. Florianópolis: [s.n], 1996. TONUCCI, F. Com olhos de criança. Porto Alegre: Artes Médicas, 1997. Psicologia IV 31 A criança como o outro do(a) professor(a) na Educação Infantil I Ana Rosa Eu tenho um ermo enorme dentro do olho. Por motivo do ermo não fui um menino peralta. Agora tenho saudade do que não fui. Acho que o que faço agora é o que não pude fazer na infância. Faço outro tipo de peraltagem... Introdução Este capítulo tem o objetivo de discutir a construção da identidade da infância nas unidades de Educação Infantil e como essa identidade afeta a construção da identidade do educador da infância. Para orientar o debate, destaco algumas questões: O que é infância?; Qual infância estamos querendo formar?; Como as unidades de educação infantil estão propiciando a construção das infâncias?; Como a identidade da infância afeta a construção da identidade do educador? 2.1 Infância – um conceito social e historicamente construído A infância não é apenas uma questão cronológica: ela é uma condição da experiência. (KOHAN, 2007: p.14) Analisando etimologicamente, infância é um termo latino que surgiu há mais de vinte séculos, relacionado com as normas e o direito e não, como era de se esperar, com o universo familiar. Vejamos então: De acordo com os etimólogos Castello e Mársico (2007, apud KOHAN, 2007), uma pessoa com pouca idade é chamada de infans, termo esse que pode ser desmembrado em: in (prefixo relativo à privação) + fari (falar), que significa aquele que não fala ou que é incapaz de falar. Psicologia IV 32 Explicando melhor ... Muito mais do que uma pessoa com pouca idade que ainda não sabe falar, como é o caso da criança pequena e do bebê, a idéia de infância está vinculada a uma incapacidade de testemunhar, ou seja, a uma não-autorização para falar. No direito, o infans é aquele que não pode usar a palavra para dar testemunho, pois seu discurso não é confiável. É muito comum que os adultos desconsiderem as informações das crianças por acreditarem erroneamente que elas não sabem o que dizem ou que falam bobagens brincando com as palavras. Na verdade, os adultos tendem a crer que as crianças não falam coisas sérias, pois as coisas sérias devem fazer parte do mundo adulto. Então, a palavra infância relaciona a criança àquele que apresenta uma lacuna, uma falta – aquele que não está habilitado para participar, falar, produzir significados e sentidos e que fica excluído do âmbito social. Essa exclusão não é recente; ela remonta da Grécia clássica e está presente no modo como os adultos lidam com as crianças. É bem verdade que, na Antiguidade, a idéia de infância, tal como a conhecemos na Modernidade, não existia. Ou melhor, a infância não existia como categoria social. No entanto, a invisibilidade da infância ainda hoje está presente na não-escuta dos pequenos, no menosprezo das necessidades da criança de agir no mundo, enfim , no não-reconhecimento da criança como sujeito. A idéia da falta, contida na palavra infância, tem orientado muitas propostas pedagógicas para crianças pequenas, as quais se baseiam na visão adultocêntrica4 de educação. Por conseguinte, esta visão autoritária tem reforçado a crença da incapacidade das crianças para participarem ativamente da construção do conhecimento de si e do mundo, reforçando as práticas assistencialistas e diretivas dos adultos. Podemos dizer, então, que quanto menos o adulto escuta a criança mais ele age com autoritarismo. _____________ 4 A visão adultocêntrica refere-se à idéia de que o adulto já está pronto, completo e sabe, sempre, o que é melhor para a criança. Psicologia IV 33 Você poderia ilustrar algumas dessas práticas com breves relatos de situações pedagógicas? Faça uma análise crítica desse material com base na poesia de Gianni Rodari O homem da orelha verde Um dia num campo de ovelhas Vi um homem de orelhas verdes Ele era bem velho, bastante idade tinha Só sua orelha ficara verdinha Sentei-me então a seu lado A fim de ver melhor, com cuidado Senhor, desculpe minha ousadia, mas na sua idade de uma orelha tão verde, qual a utilidade? Ele me disse, já sou velho, mas veja que coisa linda De um menininho tenho a orelha ainda É uma orelha-criança que me ajuda a compreender O que os grandes não querem mais entender Ouço a voz de pedras e passarinhos Nuvens passando, cascatas e riachinhos Das conversas de crianças, obscuras ao adulto Compreendo sem dificuldade o sentido oculto Foi o que disse o homem de verdes orelhas Me disse no campo de ovelhas. A concepção adultocêntrica da educação tem suas raízes no nascimento do sentimento moderno de infância. Não é o nosso propósito apresentar a história da infância no mundo ocidental, tão bem estudada por Philippe Áries (1978), mas é importante frisar que a ideia de infância se origina da sociedade capitalista, urbano-industrial, apontando para a mudança da inserção e do papel social da criança na comunidade. Isso não quer dizer que antes da modernidade as crianças não existiam. As crianças sempre existiram. Mas considerar as crianças como um grupo etário específico, com características identitárias particulares e com necessidades e direitos próprios, isso é bem recente. _____________ 5 Áries investigou a transformação da concepção de infância e família, examinando pinturas, diários e testamentos, túmulos e outros. Este estudo é encontrado na obra História social da criança e da família, publicado pela primeira vez em 1973, na França. Psicologia IV 34 Nas palavras de Sarmento (2001: p.14), é mesmo um projeto inacabado da modernidade. A infância é uma produção da história. Como salienta Kramer (1982), se na sociedade feudal a criança desempenhava o papel de adulto (era concebida como adulto em miniatura), participando das mais variadas atividades da vidacotidiana (trabalho, festividades, jogos etc.), na sociedade burguesa, ela passa a ter o espaço, o tempo e as experiências limitadas ao cuidado, à escolarização e à preparação para ser adulta. Assim, se na Idade Média a infância não existia, na Modernidade ela se apresenta como um devir, marcada por experiências preparatórias para a própria vida. Segundo Jobim (2000: p. 94), Uma das conseqüências (sic) mais radicais do sentimento moderno de infância foi, portanto, o afastamento do adulto da criança. A educação das crianças que acontecia diretamente ligada à vida nas reuniões de trabalho e lazer foi substituída pela aprendizagem escolar. É interessante destacar que, com o nascimento social da infância, um novo adulto também emergiu. As primeiras experiências da infância foram orientadas por duas atitudes contraditórias e complementares dos adultos: uma que entendia a criança como um ser ingênuo, frágil e inocente; a outra considerava a criança como um ser imperfeito e incompleto. No entanto, tanto uma quanto a outra imprimiram na infância a marca da dependência do adulto. Essa dependência se materializou numa educação simultaneamente baseada na paparicação e moralização de crianças, que eram, e ainda são, vistas como objeto de intervenção do adulto, este o sujeito da ação. Ao entender a criança como um ser naturalmente frágil, o adulto tende a paparicá-la, fazendo coisas para ela, como alimentando-a, higienizando-a, vestindo-a, entre outros, menosprezando suas capacidades. Esta fragilidade e incompletude, entretanto, longe de ser natural, é uma produção do mundo moderno adulto, que a inventou para camuflar a autoridade social. Nas palavras de Kramer (1982: p. 21), Essa idéia (sic) de natureza, porém, dissimula ideologicamente as relações da criança com o adulto na medida em que este exerce uma autoridade constante que é social, e não natural, e que reproduz as formas de autoridade de uma sociedade. A dependência social da Psicologia IV 35 criança é transformada em dependência natural, sendo justificada pelo adulto de forma absoluta. Fala-se da dependência da criança como se todas as crianças dependessem dos adultos da mesma forma. No entanto, diferentes inserções das crianças no social acarretam diversas formas de dependência. Por exemplo, uma criança que cuida da casa e dos irmãos menores tem uma relação de dependência diferente de outra que fica em casa brincando quando volta da escola. Por isso, é importante considerar as condições sociais, como classe social, práticas culturais, tempos da infância na formação da identidade das crianças. A sociologia da infância tem destacado as crianças como “atores sociais” (SARMENTO E PINTO, 1997; DELGADO & MÜLLER, 2005). Segundo esses autores, valorizar a criança como ator social significa reconhecer desde cedo sua capacidade simbólica de produzir sentidos para as suas ações e seus contextos, isto é, enxergar a criança como protagonista do processo educativo. Delgado e Müller (idem) destacam que, para a construção de uma Pedagogia da Infância, é necessário dar voz às crianças, e isso implica conhecer a criança a partir do que ela fala, através da sua oralidade e/ou do seu corpo. Há uma forte tendência na sociedade globalizada de conceber a infância como uma categoria universal, única, na qual um modelo, considerado o correto, deve ser tomado como regra. É o mito da infância ideal que é disseminado pelas diferentes mídias, determinando as identidades coletivas para uma geração. Assim, temos as vestimentas, os brinquedos, as linguagens que norteiam uma só infância mundial, com diferenças e desigualdades (SARMENTO, 2001). Por exemplo, se a Barbie é a boneca referência para as meninas, muitas delas, hoje, podem tê-la devido às facilidades de compra (parcelamento da dívida). No entanto, dependendo do lugar que a criança ocupa na pirâmide social, ela vai ter um modelo de Barbie, com preço e qualidade variada. Assista ao filme Crianças invisíveis (2005) e discuta com seus colegas a relação de dependência dessas crianças com os adultos e como elas formam suas identidades. Psicologia IV 36 Isso também ocorre nas unidades de Educação Infantil, por exemplo, quando os educadores decidem sozinhos como organizar as salas de atividades. Os murais e enfeites das paredes são selecionados a partir da forte influência da cultura estrangeira (cultura Disney, principalmente), os quais reproduzem personagens dos desenhos animados veiculados pela mídia televisiva. E onde ficam as produções gráficas das crianças? Não é raro observarmos os desenhos dos adultos em local de destaque e os das crianças, numa área menos visível da sala. Como a identidade daquele grupo vai sendo formada? Peço permissão para entrar nesta conversa. O texto da Professora Ana Rosa levou-me a pensar em muitas questões, uma delas apresento logo a seguir. Sobre este assunto, retome o Fascículo 3 da Psicologia, mais especificamente os textos: Pensando o espaço na Educação Infantil a partir do conceito de espaço narrativo e Organização do espaço e do tempo, após, analise a imagem a seguir e reflita: Ao enclausurarmos as crianças nas instituições educativas, submetendo- as a rituais extremados de disciplina, ordem e higiene, não estaremos também aprisionando o adulto que com ela trabalha, à medida que o mesmo assume, na maior parte do tempo, a sua condição de domestificador, abrindo mão de outras possibilidades de ser e estar nas relações de trabalho? Não estariam ambos diante da negação dos seus corpos, desejos, de seus modos de interpretar a realidade e a si mesmos? As instituições educativas não estariam caracterizadas e vivenciadas como lugares lineares em detrimento de assumirem seu potencial narrativo? Psicologia IV 37 2.2 A construção da identidade de infância na Educação Infantil O Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (MEC/SEF, 1998) recomenda que as unidades de Educação Infantil tornem acessíveis a todas as crianças que a frequentam os artefatos culturais que enriqueçam o seu desenvolvimento e inserção social. Neste sentido, elas devem cumprir um papel socializador, propiciando o desenvolvimento da identidade das crianças por meio de diferentes experiências, realizadas em situações de interação com as outras crianças e com os adultos que convivem com ela. Quando falamos de identidade, logo pensamos na diferença que existe entre as pessoas. Essas diferenças começam pelo nome e sobrenome (o lugar que ocupa na família e na sociedade), seguidas de todas as características físicas (altura, cor dos olhos e cabelos etc.), do modo de agir e de pensar, da história de vida de cada indivíduo. Seu processo de construção é gradativo e se dá por meio de interações sociais estabelecidas, onde a criança ora imita, ora se funde com o outro, para assim diferenciar-se dele, muitas vezes utilizando-se da oposição, como explica Wallon. Assim, a IMITAÇÃO compreende dois momentos: 1° - A criança se funde ao modelo, anulando-se em função do outro. Fusão 2° - A criança se apropria de determinadas características do outro, imprimindo a sua marca. Diferenciação O espelho se apresenta como um importante recurso para a construção da identidade. Na creche, ao brincar na frente do espelho, a criança vai reconhecendo a sua imagem e suas características físicas que a tornam diferente das outras. Ao mesmo tempo, ela tem a oportunidade de perceber as semelhanças entre os colegas. O outro também funciona como um espelho. A forma como cada criança vê a si própria depende muito de como ela é vista pelo outro (adulto ou criança). Um exemplo típico ocorre quando uma criança cai e olha para o adulto. Se ele se desespera, geralmente a criança chora. Mas, se a criança cai e o adulto se mostra tranquilo, a criança tende a se levantar e a ir brincar novamente. Isso também ocorre inversamente. Assim, podemos dizer que a criança se regula pelo adulto e este se regulapela criança. Psicologia IV 38 Ao ingressar na creche, a criança traz consigo e compartilha com seus companheiros e educadores sua história, seus afetos, suas crenças, seus valores, suas expectativas, enfim, sua identidade. A identidade de cada uma vai sendo construída e transformada nas interações cotidianas. Assim, as crianças de um determinado grupo apresentam características específicas, construídas nas relações com seus pares (colegas e educadores), que as fazem diferentes de um outro grupo. Por exemplo, Maria faz parte da turma do Maternal 1, da professora Ana ... Sistematizando: A identidade da criança se forma na interação com o outro. Na unidade de Educação Infantil, os educadores e as crianças são parceiros na construção de suas identidades. Por isso, a identidade é um conceito co-construído e que se transforma nas e pelas interações sociais. Experimente observar crianças de um mesmo grupo e elencar algumas características que as diferenciem de outros grupos. Procure conhecer a identidade desse grupo numa unidade de educação. Psicologia IV 39 Referências ARIÈS, P. História social da criança e da família. Rio de Janeiro: Zahar, 1978. BRASIL. Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil. Brasília: MEC/SEF, 1998. Vol. I-III. KOHAN, W. O. Infância, estrangeiridade e ignorância – ensaios de Filosofia e Educação. Belo Horizonte: Autêntica, 2007. KRAMER, S. Pesquisando infância e educação: um encontro com Walter Benjamin. In: Kramer, S.; Leite, M. I. Infância: fios e desafios da pesquisa. 6 ed. Campinas: Papirus, 1996. KRAMER, S. A política do pré-escolar no Brasil. – a arte do disfarce. São Paulo: Cortez, 1982. SARMENTO, M. J. A globalização e a infância: impactos na condição social e na escolaridade. In: Garcia, R. L.; Leite Filho, A. (org) Em defesa da educação infantil. Rio de Janeiro: D P&A, 2001. Psicologia IV 40 A criança como o outro do (a) professor (a) na Educação Infantil II Daniela Freire ... Então eu trago as minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas. Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina. É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor. Eu tenho que essa visão oblíqua vem de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde havia transfusão da natureza e comunhão com ela. Era menino e os bichinhos. Era o menino e o sol. Era o menino e o rio. Era o menino e as árvores. Manoel de Barros Antropólogos e psicólogos concordam que a mente de todo ser humano é constituída pelos discursos nos quais estão envolvidos, tanto no âmbito privado quanto no público e por isso a ação humana é intrinsecamente relacionada com a procura de significado dentro da cultura. Disso decorre que, necessariamente, a vida mental é vivida com os outros, sendo construída para ser comunicada e se desenvolve com o auxílio de códigos culturais, tradições e outras coisas desta natureza. Podemos dizer que, tradicionalmente, os significados mais sedimentados na nossa cultura são aqueles que se baseiam em um discurso essencialista baseado na lógica binária, regido pelo pensamento lógico formal, típico do mundo adulto, orientado por uma linearidade. Este modo de compreender a realidade se estrutura a partir de uma relação binária que coloca em contraposição o bom e o mau, o certo e o errado, o normal e o patológico, o masculino e o feminino, a heterossexualidade e o homoerotismo, a mulher e o homem, o branco e o negro, o adulto e a criança. Esse discurso, baseado no modelo binário do pensamento formal, orientou a ciência moderna e a formação de várias gerações. Se olharmos para a Educação Infantil, a partir da lente do binarismo, certamente o raciocínio se estabelecerá dentro de uma perspectiva gerontocrática, isto é, o foco para se pensar as ações e políticas para a criança estará centrado nas necessidades do adulto, na forma como ele entende o certo e o errado, o normal e Psicologia IV 41 o patológico, a ordem e a desordem, dentre outros aspectos da realidade. Essa abordagem, muito presente na intimidade cotidiana da Educação Infantil, tem levado a um estado de intolerância para com as peculiaridades infantis e ao estabelecimento de uma relação na qual o poder se dá de forma unilateral, que estabelece as regras a partir do ponto de vista do adulto. Neste panorama, o adulto passa a relacionar-se com as crianças de forma fragmentada, tomando-as como instrumento, objeto de manipulação a serviço da realização dos desejos de um eu intitulado modelo, referência. Com base nesse modelo, definem-se os critérios da norma que estabelecem como prioridades a manutenção da higiene, do controle da sexualidade e da organização. A Educação Infantil, nesta perspectiva, passa a ser concebida como caminho de mão única, sendo o atendimento à criança pequena atingido pelo processo de naturalização e homogeneização. As exceções passam a ser definidas como distúrbios de diferentes ordens. O brincar da criança, por exemplo, é tomado como bagunça, como incômodo que deve ser, se não evitado, regrado, orientado para o tempo e o espaço estipulado pelo adulto como adequado. O que se vê são rotinas robotizadas nas quais as crianças fazem ou não fazem segundo uma orientação externa que as governa. Em casos extremos, tem-se uma espécie de crianças paredes, isto é, uma a uma, sentadas lado a lado e encostadas na parede por muito tempo, em especial depois que já tomaram banho e estão prontas para ir embora. Não há dúvida sobre o fato de que a organização estrutura o psiquismo humano, se não fosse pela rotina, a criança não conseguiria se localizar no mundo. Isto é fato. No entanto, a supervalorização da ordem em detrimento das peculiaridades infantis tem marcado de forma decisiva a prática do cuidar e do educar as crianças pequenas e isto é um problema, sobretudo quando se pensa na educação emancipatória. Essa diferença de status social entre adultos e crianças se repete, na relação entre creche e pré-escola e se manifesta em toda a sua binaridade. Neste processo, a criança acaba por internalizar este modo de interpretar a realidade. Psicologia IV 42 Isso se explica porque toda criança, cresce e a maioria delas é incentivada a abandonar o pensamento mágico em função do pensamento lógico, com o pretexto de que o primeiro é menos elaborado que o segundo. E assim passamos a experienciar uma homogeneização do discurso e uma grande massa humana passa a entender o mundo a partir de uma mesma ótica, chamamos isso de a invenção da verdade. O resultado é desastroso porque sem a transição entre o imaginário e o real o ser humano se vê desprovido de defesas simbólicas que auxiliam na relativização da verdade e na elaboração de conflitos ao longo do seu desenvolvimento. Na ausência de uma maneira particular e inventiva de compreender a realidade, o ser humano apega-se ao discurso oficial, tomando-o de forma rígida para, com isso, buscar organizar o seu mundo interior. Nesse processo se estrutura a sua identidade. Uma vez regido pelo pensamento lógico formal, típico do mundo adulto, o ser humano orienta-se por uma linearidade pouco útil ao princípio da emancipação. Ao concordar com a noção piagetiana de autonomia como a capacidade de se conduzir e tomar decisões por si próprio, levando em conta regras, valores, a perspectiva pessoal e a perspectiva do outro, estamos assumindo uma concepção de criança como ser com vontade própria, capaz e competente na contradição de todo e qualquer ser humano, nas mais diferentes idades. Porém, um ser que consegue, dentro de suas possibilidades, interferir no meio em que vive e construir conhecimentos. Se ainda assim se aposta na educação orientada pela emancipação, deve-se assumir que a construção da autonomia é um processo que requer recursos internos no plano da afetividade e da cognição e externos, tais como os aspectos sociais e culturais. Assim, também devemos considerar que se dá, não pela simplesobediência, mas, sobretudo, pela capacidade de pensar segundo o princípio da reciprocidade, da cooperação e do autogoverno. Para isso, a criança precisa usufruir gradativamente de uma independência do agir, experimentar situações de escolhas e tomadas de decisões e participar, segundo suas possibilidades, do estabelecimento de regras e sanções. Psicologia IV 43 Pensar a criança e a orientação pedagógica da Educação Infantil a partir deste referencial significa que o educador deve abrir mão do poder gerontocrático, que lhe dá permissão para chantagear, castigar, bater e controlar pelo medo, para aprender uma nova forma de educar na perspectiva da emancipação. As referências de um contradiscurso têm influenciado as reflexões educacionais e vem contribuindo para sublinhar a importância do reconhecimento da diferença entre adultos e crianças, sem com isso atestar o uso de um poder arbitrário por parte do adulto. Esse contradiscurso considera que o pensamento da criança em muito se assemelha ao pensamento do poeta porque nos dois casos está presente a rebeldia de um imaginário fecundo. O pouco compromisso com a normatização do pensamento leva-os a uma atmosfera de inventividade que se sustenta no desejo de dizer algo que lhes seja peculiar. Desta forma, a criança pode ser retratada como um poeta aprendiz, revelando a cumplicidade entre a infância e a criatividade presente no exercício da reinvenção dos sentidos, em um impulso que leva o ser humano a compreender o mundo e a si mesmo. Esse desejo de se inserir no mundo de forma original é a porta de entrada para a constituição de um processo de desenvolvimento humano que também pode ser reconhecido como um processo de construção da identidade, muito marcado pela busca de afeto, pertencimento e reconhecimento de suas diferenças. A literatura infantil vem dando visibilidade a essa forma de conceber a criança. Nas produções brasileiras, por exemplo, veja a boneca Emília criada por Monteiro Lobato. Na sua contradição, Emília é a imagem do humano que ora é amiga fiel, ora arrebatada por um desejo de traição, ora é companheira e logo depois se revela egoísta, ou, ainda, amanhece tagarela e, antes de adormecer, se silencia. Emília, assim como vários outros personagens, expõe a contradição do ser humano, a sua mobilidade entre os dois pólos presentes no binarismo e esse movimento entre o bem e o mal, o normal e o patológico é orientado a partir de uma dinâmica que se revela de maneira diferenciada ao longo do desenvolvimento humano. Psicologia IV 44 Este é o nosso desafio, compreender que a Educação Infantil sugere a construção do ser humano na relação com o outro e que esse processo está diretamente ligado às questões relativas ao respeito, à democracia, à criatividade, à afetividade e à autonomia. Isso requer uma revisão dos discursos e dos significados tradicionalmente propagados. Uma das formas de se pensar esta educação inclui o uso da narrativa como instrumento de emancipação. Como exemplo, destaca-se a desconstrução que a professora Katherine promoveu ao apresentar para suas alunas um novo significado do ser mulher. Ao observar a diferença entre as narrativas da professora Katherine, da diretora do Wellesley College ou mesmo da mãe da Betty, pode-se pensar que a narrativa tradicional instaura um significado do ser mulher orientada pela ameaça, pelo medo e pela indiferenciação, em nome de uma obediência, para que no final a mulher seja salva pelo marido. Já na narrativa da professora Katherine, a mulher supera seus medos a partir de seus recursos inventivos, sua capacidade de simbolizar, criar, produzir, o que permitiu uma desconstrução da imagem do homem, como possuidor de um poder que a oprime. A submissão foi desconstruída por meio da ressignificação do ser mulher, orientada pela autonomia e diferenciação. Em uma transposição para a Educação Infantil, o que se deseja é que adultos e crianças desconstruam a imagem polarizada de um poder gerontocrático para que a relação de poder possa emergir a partir de um princípio ético: Que o poder circule entre mais velhos e mais novos! Dito de outra forma, o que se deseja é desmontar a lógica binária, desconstruir a lógica dos sistemas tradicionais de pensamento, deslocando os termos, demonstrando que cada um está presente no outro, bem como evidenciar que as oposições são histórica e linguisticamente construídas. Desmontar a lógica binária na Educação Infantil inicia pelo reconhecimento da complementaridade entre crianças e adultos tomados como diferentes e equivalentes do ponto de vista do humano. Segundo este princípio, é possível defender a idéia de que a Psicologia IV 45 instituição de Educação Infantil deve ser essencialmente um espaço narrativo para crianças e adultos, um espaço onde as pessoas se comunicam e, ao fazê-lo, brincam e, ao brincarem, constroem suas representações relativas a si mesmo e ao outro. Psicologia IV 46 Rede de significados em torno da qual se constitui a identidade do (a) profissional da Educação Infantil Daniela Freire Há um menino Há um moleque Morando sempre no meu coração Toda vez que o adulto balança Ele vem pra me dar a mão Há um passado no meu presente O sol bem quente lá no meu quintal Toda vez que a bruxa me assombra Ele vem pra me dar a mão... Milton Nascimento Introdução Este capítulo foi organizado com a intenção de abordar duas diferentes, porém complementares, linhas de reflexão acerca da identidade do(a) profissional da Educação Infantil. A primeira reflexão, muito próxima do exemplo do primeiro capítulo, refere-se às contribuições de Cerisara (2002), em sua análise sobre o feminino e a identidade profissional do (a) educador (a). A segunda reflexão, relacionada ao valor da alteridade para a identidade do docente, será útil para a compreensão tanto das questões de gênero, implicadas na construção identitária, quanto das questões geracionais que envolvem a criança como o outro do professor. Neste sentido, se aproxima das proposições apresentadas no segundo capítulo. Psicologia IV 47 2. Profissionais da Educação Infantil: entre o feminino e o profissional Cerisara (2002) afirma que as profissionais da Educação Infantil [...] têm sido mulheres, de diferentes classes sociais, de diferentes idades, de diferentes raças, com diferentes trajetórias pessoais e profissionais, com diferentes expectativas frente a sua vida pessoal e profissional e que trabalham em uma instituição que transita entre o espaço público e o espaço doméstico, em uma profissão que guarda um traço de ambigüidade entre a função materna e a função docente. A autora acredita que a profissão de educador da Educação Infantil se fez no feminino e neste contexto as discussões sobre a identidade profissional do(a) profissional da Educação Infantil deve passar pela compreensão da categoria gênero. Ao basear-se nas contribuições de Joan Scott (1990), Cerisara lembra que gênero define-se como elemento constitutivo de relações sociais fundadas sobre diferenças percebidas entre os sexos, primeiro modo de dar significado às relações de poder. Além de uma categoria biológica, o gênero também é uma categoria histórica. Fazer-se homem ou mulher não é algo que se dá no nascimento, em função das características biológicas de cada um, este processo se dá em meio a práticas sociais masculinizantes e feminilizantes, de acordo com diferentes significados que lhes são atribuídos nas sociedades. Os modos como as sociedades representam o gênero, servem- se dele para articular as regras de relações sociais ou para construir o sentido da experiência. É pela linguagem que se constroem os processos de significações, a construção de sentidos. Quais são os significados atribuídos ao vocábulo mulher apresentados na letra da música abaixo? Considerando que os significados são construídos ao longo do processo histórico, pode- se identificar diferentes significados característicosde diferentes momentos históricos? Quais são eles? Psicologia IV 48 Mulheres do Brasil Joyce no tempo em que a maçã foi inventada antes da pólvora, da roda e do jornal a mulher passou a ser culpada pelos deslizes do pecado original. guardiã de todas as virtudes santas e megeras, pecadoras e donzelas filhas de Maria ou deusas lá de Hollywood são irmãs porque a mãe Natureza fez todas tão belas. oh! mãe, oh! mãe nossa mãe, abre o teu colo generoso parir, gerar, criar e provar nosso destino valoroso. são donas-de-casa professoras, bailarinas moças operárias, prostitutas meninas lá do breu das brumas, vem chegando a bandeira saúda o povo e pede passagem a mulher brasileira. De outro modo, é importante salientar que a construção social de gênero não é um processo unilateral de imposição da sociedade, uma vez que homens e mulheres são sujeitos ativos e ao mesmo tempo determinados, recebendo e respondendo às determinações e contradições sociais. Segundo Anyon (1990) homens e mulheres utilizam diferentes estratégias de acomodação e resistência frente aos papéis sexuais. Neste sentido, a construção das personagens do filme O sorriso de Monalisa é bastante ilustrativa. A categoria gênero também é caracterizada como uma categoria relacional, isto porque, para interpretar a realidade, dialoga com outras categorias, tais como classe social, raça, faixa etária e também porque os estudos de gênero não se encerram nos estudos sobre a mulher, mas buscam compreender o outro sexo, uma vez que homens e mulheres se constituem mutuamente em presença ou ausência. Ao analisar o lugar da mulher na vida humana da sociedade ocidental, especialmente a brasileira, Fleury (1994) identifica uma forte carga negativa marcada pela passividade, infantilização, impulsividade e submissão ao modelo masculino marcado pela racionalidade e objetividade e valorizado como modelo, padrão. Cerisara (2002), por sua vez, apoia-se em diferentes estudos para destacar que a negatividade presente na representação do Psicologia IV 49 ser mulher pode ser identificada em alguns discursos que atribuem às professoras primárias e, por sua vez, às profissionais de Educação Infantil, uma negatividade, opondo de forma excludente a competência profissional e o modelo feminino da prática docente. Este último ancorado nas características do trabalho doméstico que se caracteriza pela atenção dispersa por várias tarefas, acúmulo simultâneo de funções, o improviso e troca temporária de funções. Assim, o trabalho da mulher, em especial, no campo da Educação é caracterizado pela maternagem e pelo trabalho doméstico associados ao afeto, carinho, amor, em contraposição aos discursos associados à competência técnica e profissional. Junto a isso, destaca-se que o próprio trabalho no interior da escola se dá na fronteira entre a esfera pública e a doméstica. Desta forma, estudos têm procurado compreender melhor a relação entre trabalho doméstico, maternagem e o ofício de ensinar. A princípio, a forte associação do trabalho docente à vocação, ao amor e ao gostar de crianças era interpretada como a naturalização das práticas sociais feminilizantes no contexto escolar. Atualmente, pesquisadores chamam a atenção para a tensão existente entre razão e emoção subjacente a esse discurso, e para o perigo de se eleger a razão orientada pelas práticas sociais masculinizantes como base do discurso acerca da competência técnica e profissional. Isto porque, junto a esse discurso, está presente um modelo de impessoalidade dos espaços públicos, característica que não se aplica aos contextos educacionais. Pesquisadores como Carvalho (1992, apud CERISARA, 2002), defendem que a feminização do ofício de ensinar seja encarada como um processo que traz conseqüências contraditórias, tanto positivas quanto negativas para a organização do trabalho docente e para a identidade profissional dos trabalhadores. Como indicador, observa-se a necessidade de se preservar as formas femininas de se relacionar, em que estão presentes a afetividade, os vínculos pessoais e a informalidade na relação dos profissionais com as crianças e suas famílias. Psicologia IV 50 Frente a isso, Cerisara (2002) apresenta vários questionamentos, tais como: Não terá a afetividade um papel fundamental na construção das • relações adultos e crianças até seis anos?; Será possível pensar o trabalho com estas crianças sem • atividades que incluam a maternagem e práticas ligadas ao trabalho doméstico?; Serão estas atividades excludentes da competência • profissional?; Como construir uma identidade profissional, se as práticas que • são desenvolvidas se mesclam com as práticas domésticas? 3. O feminino como paradigma civilizacional Andrade (2007), ao discutir sobre o lugar feminino na escola, destaca a construção social do feminino, tomando como referencial os discursos científicos que ao interagirem com o senso comum, constroem representações sociais, um tipo de saber ingênuo que regula as ações, orientam práticas e as justificam, transformando-se em referenciais identitários. As práticas comuns ancoradas no feminino são facilmente identificadas no cotidiano de homens e mulheres e são reveladas desde os processos de socialização infantil, no âmbito familiar, passando pelos rituais escolares, chegando até mesmo a regular o processo de profissionalização e a elaboração de políticas públicas, em especial, as de assistência às crianças pequenas cujas mães são trabalhadoras. São fartos os exemplos explorados pela indústria cinematográfica. Para citar alguns: Psicologia IV 51 Tais processos são passíveis de discussão dentro de uma perspectiva histórica que remonta desde os registros bíblicos até a atualidade, revelando a consistência da temática no tecido cultural do ocidente. O feminino, neste sentido, caracteriza-se por ser uma temática recorrente nas interações sociais, sendo os sentidos que engendram capazes de mediar trocas linguísticas e simbólicas presentes nas constantes negociações relativas à socialidade. Com isso, destaca-se a existência de uma estrutura discursiva e intergeracional que orienta o pensamento dos grupos sociais. Neste sentido, as teorias científicas tanto quanto as teorias do pensamento ingênuo, funcionam como crivos de leitura da realidade, criam categorias de pensamento que instrumentalizam o ser humano a interpretar o mundo. Para a finalidade do presente texto, destaca-se a caracterização do feminino pelo discurso psicanalítico que o concebe como posição subjetiva inconsciente caracterizada pela atitude de abertura para o outro, podendo ser esta assumida tanto por mulheres quanto por homens. Para tanto, basta observar os registros sobre a vida do sociólogo brasileiro Herbert de Souza, carinhosamente conhecido como Betinho, e da Doutora Zilda Arns, brasileira indicada para o Prêmio Nobel da Paz. O feminino estaria em oposição à dinâmica social da atualidade, que segundo Birman (2000) se caracteriza pela ênfase no aspecto estético das coisas, em detrimento do seu conteúdo e significado, levando a subjetividade a esculpir-se em função do olhar do outro em um conteúdo narcísico e individualista que conduz o desejo a uma direção exibicionista e autocentrada. Psicologia IV 52 Tal configuração remete a relação eu-outro marcadamente instrumental, onde o outro é manipulado em função da necessidade do incremento da autoimagem do eu de se mostrar, em um cenário espetacular. Quando fora de suas funções, o outro é prontamente descartado. Neste sentido, o feminino é assumido como uma posição subjetiva ou mesmo como força produtora de identidade e de diferenças que anuncia um sujeito movido pelo emocional, impulsivo e, de certa forma, irracional, em permanente tentativa de inscrição de sua singularidade. Com isso, o feminino sugere um novo paradigma para se pensar a diferença, apontando para as questões relativas à alteridade e à subjetivação.Próximos à reflexão psicanalítica acerca do feminino, Muraro e Boff (2002: p.75) contribuem quando declaram que o feminino caracteriza-se por ser uma construção cultural que, mesmo portadora de uma aura misteriosa, constitui-se a partir do princípio da complementaridade com o masculino. Tanto o significado do masculino quanto do feminino atuam na produção de subjetividades, funcionando como paradigmas. O feminino e o masculino assim compreendidos mobilizaram Muraro e Boff (2002) à reflexão sobre a necessidade da emergência de um novo paradigma civilizacional. Este paradigma deverá recuperar a dimensão una e diversa do ser humano, haja vista que a negação do feminino ao longo da história propiciou a construção de um obstáculo cultural que produziu, ao longo dos anos, um relacionamento de gênero desintegrado e injusto para cada uma das partes. Como paradigma, o feminino orienta as formas de subjetivação e seus reflexos podem ser percebidos tanto nas manifestações em nível pessoal, quanto coletivo. Tal assimetria vem distorcendo perversamente as instituições, além de marcar definitivamente a história de vida das pessoas, afastando-as da linha da colaboração e da solidariedade. Nesta perspectiva, Muraro e Boff (2002) acreditam na possibilidade de uma desconstrução dos relatos que destroem a harmonia masculino e feminino e na construção de novos símbolos Psicologia IV 53 inspiradores de práticas civilizatórias humanizadoras para ambos os sexos. Neste caso, o feminino revela-se como uma matriz cujo conteúdo origina uma complexa rede de significados e caracteriza-se por ser uma construção cultural que se constitui a partir do princípio da complementaridade com o masculino. A análise desses autores permite observar que a diferença primeira vivenciada pelo ser humano a partir da distinção do sexo, pode ser compreendida como ponto de referência para o estabelecimento de valores e práticas que orientam a relação deste mesmo ser humano com outras formas de diferenças, como, por exemplo, a diferença geracional estabelecida na interação adulto e criança. Pensando na relação eu-outro no contexto da Educação Infantil, o que se quer sublinhar é a relação adulto-criança cujas questões foram abordadas nos capítulos A criança como o outro do(a) professor(a) da Educação Infantil I e II. Para Birman (2002), são as formas de subjetividades que definem os alvos e as finalidades das práticas educacionais concretas, ao mesmo tempo em que as mesmas refletem o que se pretende delinear com estas práticas. Neste raciocínio, Birman (2002) compreende que o questionamento sobre a produção de subjetividade na escola corresponde ao debate em torno da pergunta: qual forma de cidadania se pretende engendrar com as práticas educativas no interior da escola? Acrescenta-se: no interior das instituições de Educação Infantil? O estudo sobre a manifestação do feminino na escola manifesta uma preocupação com a constituição de formas de subjetivação articuladas no interior das instituições educacionais, as quais se inspiram, dentre outros, no discurso construído em torno do sexo como suporte para a organização social e elaboração de valores. As reflexões apresentadas ecoam nos debates sobre a educação e, de forma frutífera, suscitam diferentes apontamentos, sobretudo aqueles que buscam compreender a construção da identidade profissional do docente e as relações de gênero no Psicologia IV 54 contexto escolar nas suas implicações com a dimensão curricular e com o desenvolvimento da identidade de gênero. 4. Por uma cultura da infância: a manifestação do feminino no contexto da Educação Infantil Kramer (2000), em sua reflexão sobre a relação estabelecida entre linguagem, cultura e alteridade6, baseia-se nas contribuições de Adorno e Walter Benjamim, filósofos da Escola de Frankfurt, para discorrer sobre Educação e emancipação. No contexto de seu artigo, defende a representação da infância a partir de seu poder de criação, crianças enquanto pessoas que produzem cultura, além de serem nela produzidas, que possuem um olhar crítico e maroto que vira do avesso a ordem das coisas, subvertendo essa ordem.(p.155) Frente a essa representação, a autora sugere ao adulto educador que não só compreenda as crianças, mas que procure ver o mundo [...] com o olhar da criança, questionando o adultocentrismo presente nas instituições, a dominação e a didatização existentes nas diferentes modalidades de educação e nas diversas instâncias da cultura. (KRAMER, 2000:p.155) Para tanto, é preciso que o adulto conheça a criança, o que faz, de que brinca, como inventa, de que fala. E mais, é preciso que o adulto entenda que é preciso que as crianças falem mais, uma vez que é a força da narrativa que confere humanidade aos sujeitos sociais. Nesta mesma direção, Quinteiro (2005: p.29) destaca a necessidade de professores aumentarem o seu raio de leitura dos mundos sociais e culturais da infância e, baseando-se na Sociologia da Infância, alerta: [...] olhar a infância e não apenas sobre ela exige o descentramento do olhar do adulto como condição essencial para se perceber a criança. E ainda acrescenta, Não basta observar a criança, de fora, como também não basta prestar-se a seus brinquedos; é preciso penetrar, além do círculo mágico que dela nos separa, em suas _____________ 6 O sentido de alteridade refere-se à consciência de que existe um outro e de que o eu também é o outro à medida que entre o eu e o outro se estabelece uma relação de complementaridade. Psicologia IV 55 preocupações, suas paixões, é preciso viver o brinquedo. (BASTIDE, 1979, apud QUINTEIRO 2005:p.30) Galzerani (2005: p.65-66), inspirando-se em Benjamim, afirma a sua esperança quando escreve: [...] questionemos o nosso olhar em relação à criança, que passemos a encará-la na sua inteireza e nas suas singularidades historicamente dadas, que nos aproximemos de fato desse universo infantil; que saibamos romper esses muros, esses hiatos, construídos culturalmente entre adulto e a criança, entre o mundo do adulto e o mundo da criança, universos tão distintos, tão hierarquizados. Enfatizo, igualmente, que esta possibilidade deve partir de nós adultos, que nós nos relacionemos com a criança através de um momento de construção, da recuperação da tessitura de uma experiência vivida, ou da prática da narrativa, nos termos benjaminianos; que a constituição desta relação seja plena de sentidos, para todos os envolvidos, que esteja fundada não na posse imobilizadora de uma única verdade, mas na troca de visões de mundo e de sensibilidades. As discussões em torno desses questionamentos têm orientado a expressão Pedagogia da Educação Infantil como ponto de convergência para a construção da identidade dos profissionais da Educação Infantil. Por Pedagogia da Educação Infantil, entende-se: [...] a construção de um trabalho junto às crianças até seis anos de idade que, apesar de ser formalmente estruturado pretende garantir a elas viver plenamente a sua infância sem imposição de práticas ritualísticas inflexíveis, tais como se cristalizam nas rotinas domésticas, escolares e hospitalares. O que se reivindica é o espaço para a vida, para a vivência dos afetos – alegrias e tristezas-, para as relações entre coetâneos Psicologia IV 56 e não coetâneos, para os conflitos e encontros, para a ampliação do repertório vivencial e cultural das crianças a partir de um compromisso dos adultos baseado na responsabilidade de organizar o estar das crianças em instituições educativas que lhes permitam construir sentimentos de respeito, troca, compreensão, alegria, apoio, amor, confiança, solidariedade, entre outros; enfim, que ajudem a acreditar em si mesmas e no seu direito de viver de forma digna e prazerosa. (CERISARA, 2002: p.108-109) Uma das questões orientadoras refere-se às seguintes afirmações: As instituições de educação infantil deverão ser espaços que garantamo imprevisto (e não a improvisação) e que possibilitarão o convívio das mais variadas diferenças, apontando para a arbitrariedade das regras (daí o jogo e as brincadeiras serem tão importantes, iniciando o exercício da contradição, da provisoriedade e da necessidade de transformações). (Faria, 2000 apud CERISARA, 2002: p.108) Sobre o profissional de Educação Infantil, sobretudo aqueles(as) que trabalham com crianças de até três anos: [...] deve ser entendida como profissional que ao trazer para a esfera pública e coletiva a referência à maternidade e ao universo doméstico, resignifica (sic) a identidade tanto da mãe quanto da professora de ensino fundamental em direção à construção de uma nova identidade que implica nesta simultaneidade de papéis vividos pelas mulheres de forma complementar e contraditória. (CERISARA, 2002: p.108) O novo que se apresenta assume o nome de maternagem social, diferenciado da maternidade e do magistério, não implicando a exclusão das formas femininas de se relacionar, em que estão presentes a afetividade, os vínculos pessoais e a informalidade nas relações. De certa forma, falar em maternagem social remete à compreensão do binômio organizador dos atuais discursos sobre a Educação Infantil: cuidar e educar. Segundo Costa (2008), na Educação Infantil, todo o conteúdo educativo está vinculado ao gesto de cuidar, este, por sua vez, refere- se à atenção afetuosa, alegre, disponível e promotora da progressiva autonomia da criança. Assis (2008:p.98), ao citar Didonet (2003), acrescenta, [...] Não Psicologia IV 57 há um “ensino”, seja um conhecimento ou um hábito, que utilize uma via diferente da atenção afetuosa, alegre, disponível e promotora da progressiva autonomia da criança. Em seu levantamento bibliográfico acerca do termo cuidar, na Educação Infantil, Costa (2008) destaca as seguintes contribuições: Leninger apud Veríssimo (2001) refere-se genericamente aos atos de assistir, apoiar, facilitar, melhorar uma condição humana; o termo cuidado refere-se, geralmente, aos atributos, ações e qualidades de assistir aos outros em suas necessidades. Waldow (1995) comportamentos e ações que envolvem conhecimentos, valores, habilidades e atitudes, empreendidas no sentido de favorecer as potencialidades das pessoas para manter ou melhorar a condição humana. Mayeroff apud Veríssimo (2001) cuidar da criança até seis anos é ajudá- la a crescer e realizar-se. [...] é um processo, uma forma de relação com o outro que envolve desenvolvimento. [...] mediante o cuidado do outro, servido pelo cuidado, o homem vive o significado de sua própria vida. Rossetti-Ferreira (2003) cuidado não é sinônimo de atividade e, se concebido como tal pode nos encaminhar a aberrações e distorções inconcebíveis na realidade. Amorim; Yazlen; Rossetti- Ferreira (1999) os cuidados não podem ser negligenciados, desvalorizados, postergados e tampouco reduzidos à satisfação de condições exclusivamente orgânicas na criança. Cuidar, em seu duplo sentido, refere-se ao sentido de cuidado, tomar conta, encarregar-se e ao sentido de interessar, prestar atenção, ter desvelo, preocupar, acolher, observar, pensar, refletir e planejar, mais próximo de uma preocupação social mais geral, complementar aos cuidados familiares e à noção de respeito à individualidade da criança. Mais especificamente, cuidar também implica o atendimento das necessidades infantis de proteção, segurança, bem-estar e saúde, estar atento aos seus afetos, emoções e sentimentos, às relações com os outros, com as coisas e com o ambiente e planejar um espaço que estimule a inteligência e a imaginação dos pequenos, permitindo descobertas e o aguçar da curiosidade. Psicologia IV 58 Portanto, o cuidar está associado à sobrevivência e ao desenvolvimento da identidade da criança. Este, por sua vez, não está isolado do contexto histórico já que é proporcionado por sujeitos com seus componentes individuais, psíquicos e culturais, estejam eles presentes na interação criança e adulto; criança e mãe ou mesmo criança e criança. Além disso, cuidar exige ambiente adequado que considere as necessidades integrais da criança, respeitando suas peculiaridades, como sujeito ativo do seu próprio desenvolvimento no contexto mais amplo de sua vida. Assis (2008), explorando o termo educar afirma, que o profissional da Educação Infantil que cuida, educa, e o que educa, cuida, ambas ações são inerentes à profissão docente na Educação infantil e, portanto, cuidar é parte integrante do fazer docente na Educação Infantil e não a parte menos nobre ou o mal necessário desse fazer. Não se trata de caridade ou favor que o profissional presta à criança. Segundo o Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil (1998:p.23), Educar significa, portanto, propiciar situações de cuidados, brincadeiras e aprendizagens orientadas de forma integrada e que possam contribuir para o desenvolvimento das capacidades infantis de relação interpessoal, de ser e estar com os outros em uma atitude básica de aceitação, respeito e confiança e o acesso, pelas crianças, aos conhecimentos mais amplos da realidade social e cultural. Ao analisar o termo educar, a autora destaca a indissolubilidade entre cuidar, educar e brincar como forma de desconstruir o entendimento tradicional do primeiro termo. Neste exercício, afirma que, na Educação Infantil, educar não implica a reprodução de práticas comuns ao Ensino Fundamental e às outras etapas da escolarização. O educar, na Educação Infantil, associa-se ao brincar, isto porque, na brincadeira, o profissional pode intervir pedagogicamente nas ações de cuidado e educação em um exercício de mediação entre a criança e o conhecimento. Por sua vez, neste contexto, a criança encontra condições para se apropriar ativamente do mundo. Psicologia IV 59 A brincadeira, compreendida segundo a abordagem sócio- histórica e apresentada no Fascículo 3, passa a ser considerada um importante elemento organizador do binômio educar e cuidar, uma vez que se apresenta como atividade que propicia mudanças qualitativas na psique infantil implicando o domínio da realidade e a inserção social. Ao pensar a identidade do profissional da Educação Infantil, levando em conta os termos cuidar, educar e brincar, conclui- se, ao menos temporariamente, que, este se caracteriza como um adulto identificado com a dimensão da infância, com a estética e a linguagem infantil. Um adulto sensível à interpretação do mundo pela ótica infantil e cuja formação pessoal e profissional lhe dê suporte para estabelecer uma relação de continência e reciprocidade, orientada pela idéia de um tutor ou par mais desenvolvido, responsável por organizar espaços e tempos que atuem no processo de diferenciação das crianças. Um educador cuja intencionalidade pedagógica oriente intervenções que leve em consideração a forma e os discursos infantis, identificando os sentidos e significados subjacentes a eles. Deste modo, a relação adulto-criança, defendida no contexto da Educação Infantil, baseia-se na idéia de horizontalidade e respeito às diferenças, sendo necessário o exercício de se considerar o ponto de vista do outro, bem como o descentramento da lógica gerontocrática. Nesta perspectiva, sublinha-se a importância do reconhecimento da alteridade entre adultos e crianças, sem com isso atestar o uso de um poder arbitrário por parte deste último. Assim, defende-se o estabelecimento de relações de reciprocidade, cooperação e de autorregulação em prol do desenvolvimento de graus de autonomia. Para isso, a criança precisa usufruir de uma gradual independência do agir, experimentar situações de escolhas e tomadas de decisões e participar, segundo suas possibilidades, do estabelecimento de regras e sanções. Portanto, o trabalho junto às crianças pequenas sugere uma preocupação com o seu desenvolvimento físico, psicológico, social, cultural o que envolve, sobretudo,a sua necessidade de diferenciação e de formação da sua consciência moral. Psicologia IV 60 Referências ANYON, J. Intersecções de gênero e classe social: acomodação e resistência de mulheres e meninas à ideologia dos papéis sexuais. Cadernos de Pesquisa, São Paulo: Cortez/ Fundação Carlos Chagas, n. 73, maio 1990, p. 13-25. aSSiS, M. S.S. Práticas de Cuidado e de Educação na Instituição de Educação Infantil: o olhar das professoras. In: ANGOTTI, M. (org.) Educação Infantil: para que, para quem e por quê? Campinas, São Paulo: Alínea, 2008. BIRMAN, J. Mal-estar na atualidade: a Psicanálise e as novas formas de subjetivação. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000. ______. Subjetividade, contemporaneidade e educação. In: CANDAU, V. M. (Org.). Cultura, linguagem e subjetividade no ensinar e aprender. 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MURARO, R. M.; BOFF, L. Feminino e masculino: uma nova consciência para o encontro das diferenças. Rio de Janeiro: Sextante. 2002. Psicologia IV 61 QUINTEIRO, J. Infância e Educação no Brasil: Um campo de estudo em construção. In: FARIA, A. L. G; DEMARTINI, Z.B.F; PRADFO, P. D. (orgs.) Por uma cultura da infância: metodologias de pesquisa com crianças. Campinas, SP: Autores Associados, 2005. SCOTT, J. Gênero: uma categoria útil de análise histórica. Educação e Realidade, Porto Alegre, Faced/UFRJ, n. 16 (2), jul./dez. 1990, p.5- 22. Psicologia IV 62 Considerações nem sempre finais Ao final do quarto fascículo da Psicologia, a metáfora do caminho parece propícia para alinhavar os principais aspectos teóricos e metodológicos abordados ao longo do percurso. A construção do ser diferenciado pode ser considerada o eixo norteador, a principal sinalização que integrou todas as temáticas dos fascículos em especial os três últimos. No Fascículo 2, Desenvolvimento e Aprendizagem de crianças pequenas ou de como nos tornamos seres diferenciados, observa- se a construção dos processos de diferenciação afetiva, cognitiva e psicomotora ao longo do desenvolvimento humano. No Fascículo 3, Questões do cotidiano educacional, a diferenciação do sujeito é apresentada como fenômeno a ser considerado na caracterização da ação docente, no contexto da Educação Infantil. Dentre algumas temáticas destaca-se a ludicidade e a narrativa como elementos centrais da organização do tempo e dos espaços coletivos destinados à criança pequena. Já no Fascículo 4, Identidade Profissional: pensando a diferenciação do (a) professor (a) na Educação Infantil, finalmente explicita-se o seguinte raciocínio: adultos e crianças são dois lados da mesma viajem. Ainda continuando com Milton Nascimento, sempre haverá o registro da infância na constituição identitária adulta: Há um menino, há um moleque morando sempre no meu coração. Esta constatação sugere a seguinte indagação: levando em conta que as instituições de Educação Infantil são espaços dedicados à inserção social da criança na cultura, qual forma de cidadania se pretende engendrar com as práticas educativas no seu interior? Outra pergunta pode ser feita, desta vez colocando o (a) educador (a) no centro da cena: levando em conta que o trabalho docente pode ser compreendido como espaço de construção identitária, marcado pelo atravessamento de significados variados que se revelam desde a infância do próprio (a) educador (a), qual forma de cidadania se pretende engendrar com as práticas educativas no interior da Educação Infantil? Que as respostas possam ser construídas a cada leitura, a cada debate, a cada olhar sensível à expressividade infantil. Psicologia IV 64