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2a edição | Nead - UPE 2009 Dados Internacionais de Catalogação-na-Publicação (CIP) Núcleo de Educação à Distância - Universidade de Pernambuco - Recife Patrício, Lucivânia Magalhães Prática de ensino II. leitura e produção em diferentes gêneros textuais. / Lucivânia, Magalhães Patrício. – Recife: UPE/NEAD, 2009. 36 p.: il. – (Letras). ISBN 978-85-7856-029-4 Conteúdo: fasc. 1 – Reflexões sobre o processo ensino-aprendizagem da leitura e da escrita no contexto escolar; fasc. 2 – Gêneros textuais: ferramentas para o ensino da leitura e da escrita. 1. Leitura 2. Gêneros Textuais 3. Educação a distância I. Universidade de Pernambuco, Núcleo de Educação à Distância II. Título CDU 82.01 P314p Impresso no Brasil - Tiragem 150 exemplares Av. Agamenon Magalhães, s/n - Santo Amaro Recife - Pernambuco - CEP: 50103-010 Fone: (81) 3183.3691 - Fax: (81) 3183.3664 Coordenador Geral Coordenador Adjunto Assessora da Coordenação Geral Coordenação de Curso Coordenação Pedagógica Coordenação de Revisão Gramatical Administração do Ambiente Coordenação de Design e Produção Equipe de design Coordenação de Suporte EDIção 2009 Reitor Vice-Reitor Pró-Reitor Administrativo Pró-Reitor de Planejamento Pró-Reitor de Graduação Pró-Reitora de Pós-Graduação e Pesquisa Pró-Reitor de Extensão e Cultura Prof. Carlos Fernando de Araújo Calado Prof. Reginaldo Inojosa Carneiro Campello Prof. Paulo Roberto Rio da Cunha Prof. Béda Barkokébas Jr. Prof.ª Izabel Cristina de Avelar Silva Prof.ª Viviane Colares S. de Andrade Amorim Prof. Álvaro Antônio Cabral Vieira de Melo UNIVERSIDADE DE PERNAmbUCo - UPE Prof. Renato Medeiros de Moraes Prof. Walmir Soares da Silva Júnior Prof.ª Waldete Arantes Prof.ª Silvania Núbia Chagas Prof.ª Maria Vitória Ribas de Oliveira Lima Prof.ª Patrícia Lídia do Couto Soares Lopes Prof. Walmir Soares da Silva Júnior Prof.ª Angela Maria Borges Cavalcanti Prof.ª Eveline Mendes Costa Lopes Prof.ª Célia Barbosa da Silva Oliveira . José Alexandro Viana Fonseca Prof. Marcos Leite Anita Sousa Gabriela Castro Rafael Efrem Rodrigo Sotero Romeu Santos Susiane Santos Adonis Dutra Afonso Bione Prof. Jáuvaro Carneiro Leão NEAD - NÚCLEo DE EDUCAção A DISTÂNCIA 5 Leitura e Produção em diferentes Gêneros textuais Prof.a Lucivânia magalhães Patrício Carga Horária | 30 horas ementa Estudo dos processos e mecanismos sócio-cognitivos, interacionais e linguísti- cos para a formação do leitor/produtor e para o desenvolvimento da prática pedagógica. Elaboração de projeto e execução de pesquisa sobre o ensino de leitura e produção textual no contexto escolar. Relação entre os diversos gêneros textuais, aspectos ideológicos e condições de produção. objetivo GeraL Proporcionar ao futuro professor de Língua Portuguesa fundamentações te- óricas e vivências de práticas que poderão contribuir para uma reflexão-ação sobre o processo de formação de leitores e produtores de texto aPresentação da disciPLina Através da disciplina Prática II – Leitura e Produção em Diferentes Gêneros Textuais, pretende-se promover uma reflexão acerca do processo de ensino-apren- dizagem da leitura e gêneros textuais diversos, evidenciando-os como principais objetos de ensino da Língua Portuguesa no contexto escolar. Para isso, apresen- tamos, em níveis teórico e prático, algumas concepções de leitura e produção escrita que, além de promover a reflexão em torno do ato de ler e escrever, pode- rão subsidiar a organização da prática pedagógica, atendendo às perspectivas do futuro professor. A nossa proposta é realizar um trabalho dinâmico, envolvendo leituras, pesqui- sas em links, webQuest, fóruns e atividades diversificadas. Vamos, desde já, iniciar os nossos estudos! 7 7 Fascículo 1 refLexões sobre o Processo ensino-aPrendizaGem da Leitura e da escrita no contexto escoLar Prof.a Lucivânia magalhães Patrício Carga Horária | 15 horas objetivos esPecíficos Compreender alguns dos diversos aspectos que constituem a leitura no am- biente escolar, reconhecendo a importância do ensino da língua materna, tendo como objetos de ensino a leitura e a escrita; Identificar os principais objetivos para o ensino da leitura e da produção textual, para assim desenvolver estratégias adequadas e eficientes para a con- cretização desses objetivos; Distinguir gêneros textuais, percebendo a sua forma e os traços específicos que os caracterizam. 1. a Leitura na escoLa oLá, PessoaL! Com este tópico, daremos início aos nossos estudos, fazendo uma abordagem avaliativa sobre o processo de ensino da leitura no contexto escolar. Apesar de entender que aprender português é aprender a produzir textos orais e escritos, as nossas escolas encon- tram-se ainda um pouco distantes desta realidade. O en- sino da língua é, muitas vezes, centrado no ensino de nomenclaturas gramaticais, totalmente desvinculadas do aspecto funcional da língua. Os gêneros textuais que circulam na escola são ainda utilizados como pretexto para o ensino da gramática e, assim, o texto acaba perdendo a sua essência, já que este só existe a partir da relação interativa entre dois sujeitos: aquele que produz e aquele que o lê, compreendendo o seu sentido. As modalidades textuais ainda são bastante utilizadas como instrumentos exclusi- vos para a prática da leitura oral apenas como um fim em si mesma. Essa prática precisa englobar outras finalidades. Torna-se mais útil, mais fácil para o leitor oralizar, quando a compreensão leitora antecede a leitura oral. 8 Fascículo 1 aluno o desenvolvimento do senso crítico, trans- formando-o num cidadão capaz de agir e intera- gir em prol de uma sociedade mais justa, é ainda uma prática limitada na escola, apesar de que al- gumas instituições já apresentam mudanças, pois a popularização do tema tem inquietado parte dos educadores, porém é preciso que a conscientização acerca da importância do ato de ler aconteça em todos os docentes. Não é suficiente que a leitura seja um objeto de ensino, é necessário que também seja objeto de aprendizagem, permitindo ao aluno perceber os elementos implícitos, estabelecendo relações entre o texto lido e outros textos já lidos, aspecto que promoverá condições para que o leitor, em suas produções escritas e orais, apresente elementos de textualidade como, por exemplo, a intertextualidade, tornando os seus textos mais ricos e, consequente- mente, cumpridores da sua função comunicativa. A leitura como objeto de ensino da língua não se pode deter apenas a um tipo, a monossêmica, ex- cluindo a possibilidade de uma leitura polissêmica, pois essa ação impedirá qualquer ação produtiva por parte do leitor, o que descaracteriza o próprio processo. A ênfase deve ser dada à leitura polissê- mica, que oferece ao interlocutor/leitor o poder de produzir múltiplas e diferentes interpretações de textos. Enfim, se utilizados como deveriam, os textos seriam uma rica mediação para manter viva - na escola e fora dela - a troca de experiência, o tra- balho de reflexão, a vontade de criar e a tentativa de continuar, favorecendo assim também o ensino- aprendizagem relacionado a outras áreas. É muito importante você refletir sobre a prática pe- dagógica referente ao ensino da língua. Acredita-se que o professor bem preparado e consciente pode- rá ampliar, em suas aulas, o espaço para a leitura, não só ampliar mas também enriquecê-lo. Conclu- ímos com a afirmação de SILVA (1995, p. 19) que diz: “sem a presença atuante do professor, sem o seu trabalho constante, jamais se conseguirá pro- duzir o que a sociedade espera e deseja, ou seja, leitores assíduos e maduros.” atividade | Leia a narrativa “O segredo da mãe de Ben Carson”, do link sugerido abaixo e, tendo como referências os fatos evidencia- dos pelo narrador e também sua experiênciacomo leitor, faça um comentário reflexivo so- bre a importância e a função social da leitura. Solicita-se aos alunos que leiam para treinar a de- codificação e a fluência, negando a estes a oportu- nidade de perceber, compreender o que estão len- do. ZILBERMAN (1985, p. 25-26), ao falar sobre o ato de ler, afirma “que todas as propostas cur- riculares analisadas reconhecem a importância do processo de leitura e, em alguns textos analisados, encontram-se reflexões teóricas sobre o assunto, enquanto outros implicitamente o revelam através da ênfase dada às atividades de ler. Segundo a au- tora, os documentos por elas observados revelam que o valor da leitura se deve ao fato de esta: • Ser um instrumento de comunicação entre os homens; • Constituir-se em patrimônio histórico-cultu- ral, através do qual o aluno estabelece relações entre o presente e o passado; • Representar um documento social que permi- te ao aluno reconhecer o meio em que vive; • Funcionar como um recurso para o ajusta- mento social do aluno; • Contribuir para a formação integral do ho- mem através do desenvolvimento do pensa- mento e da postura crítica; • Atuar como um meio para atingir os objetivos da educação, não se constituindo um fim em si mesmo. Essas proposições ratificam o quanto o ensino da língua materna deve focar a leitura. Faz-se necessá- rio entendê-la e entender o que é ensiná-la, vê-la como oportunidade para que os alunos desenvol- vam habilidades diversas, como a de produzir gêne- ros textuais variados, percebendo suas característi- cas, sua função e relação com o contexto em que são produzidos. Devido ao uso inadequado do texto, essa finalidade básica citada pelo autor não tem se concretizado de maneira satisfatória. A realização de leituras como práticas geradoras de reflexão que propiciam ao Fo nt e: N ov a Es co la – A no X VI – n º 14 5 – se t/ 20 01 “Ler para compreender os textos, participando criticamente da dinâmi- ca do mundo da escrita e posicionando-se frente à realidade, é a finalidade básica que estabelece- mos para as práticas de leitura na escola.” (SILVA, Ezequiel Theodoro da. São Paulo: Ed. Ática, 1991, p.48) 9Fascículo 1 escrito e pronto! A compreensão foi eficiente, e a técnica cumpriu a sua função. Compreender um texto não significa, simplesmen- te, decifrar o que o autor disse naquele espaço, mas atribuir-lhe significação e relacioná-lo a outros textos lidos. A leitura como decodificação é uma prática ainda bastante utilizada em algumas instituições de en- sino, apesar de ser bastante criticada por alguns especialistas que a veem como um gesto mecâni- co de decifrar sinais que em nada contribui para a construção de sentido e para a relação interativa entre o leitor e o texto. De acordo com KLEIMAN (1995, p.21), algumas atividades propostas em livros didáticos contri- buem para que os alunos apenas decodifiquem palavras, pois, segundo ela, “são atividades que se compõem de uma série de automatismos de identi- ficação e pareamento das palavras do texto com as palavras idênticas numa pergunta ou comentário”, dispensando um processo mais complexo em que leitor e texto interajam e se modifiquem. É certo que os livros di- dáticos têm sido melhor preparados, e os autores têm tido a preocupação de trazer as atividades de leitura de modo que esta seja realmente um elo de interação entre leitor e texto. Entretanto, vemos, ainda, em alguns livros, atividades que dispensam do aluno qualquer tipo de inferência. Sobre isso, KLEIMAN (1995, p. 21) afirma: “o aluno precisa, para responder a pergunta, apenas entrar e pene- trar como sinônimos, sem sequer ler o texto.” A leitura vista como processo de decodificação é uma prática não muito significativa que trouxe e ainda traz consequências indesejáveis, entre elas o fato de que uma grande parte de leitores lê sem compreender o que lê. Em algumas aulas presenciais, em turmas do tercei- ro ano do ensino médio e também em turmas do curso de letras, foi proposto aos alunos que fizes- sem um teste. Achei que seria interessante utilizá- lo, porém com outro objetivo. O meu propósito http://escoladominical.net/forum/viewtopic. php?f=9&t=595 Faça pesquisas! Pense! Leia sobre os entraves que impedem, no contexto escolar, a vivência de práticas de leitura que contribuam para desenvolver a capacidade leitora dos alunos, tornando-os sujeitos agentes de transformação no contexto social. 2. concePções de Leitura O que é concepção de leitura? O que pensou ao ler a temática deste tópico? Já leu sobre o assunto? Qual a sua concep- ção de leitura? É legal parar um pouco e refletir sobre as pergun- tas! Este procedimento é significativo para a nossa compreensão como leitor. Tendo ainda como tema Reflexões sobre o proces- so ensino-aprendizagem da escrita e da leitura no contexto escolar, faremos agora uma análise acerca de algumas concepções referentes ao ato de ler. Na primeira delas, a leitura é vista como uma deci- fração da escrita; na segunda, como um processo de compreensão e na terceira, como um processo de interpretação. 2.1. a Leitura como Processo de decodificação Esse processo consiste em ler decodificando os sig- nos, com a dicção, entonação, pronúncia, esque- cendo-se do espaço de significação mais profunda, obtida através da leitura interpretativa, nas entreli- nhas, tipo de atividade que habilita o aluno a reali- zar operações mentais necessárias à construção do pensamento crítico. Na maioria das situações, a leitura é entendida como algo que se restringe apenas à decodificação dos significados superficiais e explícitos. O proces- so é visto como decifração do código escrito por meio do qual a mensagem foi transmitida ou en- viada pelo autor. Basta o aluno traduzir o que está Fo nt e: N ov a Es co la – A no X VI – n º 14 5 – se t/ 20 01 10 Fascículo 1 era o de analisar o nível de percepção dos alunos relacionado ao ato de ler. atividade | Que tal você também fazer esse teste? Busque-o no link: http://br.geocities. com/corerjnaweb/dinamicas/testedostresmi- nutos.html E aí? O que você achou? É aceitável que a limitação de tempo possa ter le- vado o aluno à realização de todos os comandos, porém não se pode descartar a causa principal: ele apenas decodificou os sinais, não compreendeu a mensagem, consequência da vivência constante da prática de leitura como decodificação. 2.2. a Leitura como Processo de comPreensão Nesta concepção, a leitura é vista como uma fun- ção mais complexa, porém mais significativa e pro- dutiva. Nesse caso, ela não é um objeto mecânico, mas sim, um processo de decifrar, explorando o sentido do texto, ou seja, a leitura como processo de compreensão explora também o aspecto cogni- tivo e inclui diversas habilidades, como comparar, estabelecer hipóteses, fazer comparações e anteci- pações, enfim são vários os componentes mentais acionados para construir o sentido do texto. KLEIMAN (2004) menciona que: a compreensão de textos envolve processos cognitivos múl- tiplos, justificando assim o nome de ‘faculdade’ que era dado ao conjunto de processos, atividades, recursos e estra- tégias mentais próprios do ato de compreender. As habilidades supracitadas relacionam-se intrin- secamente com a utilização do conhecimento já adquirido. Ainda, segundo KLEIMAN: o leitor utiliza, na leitura, o que ele já sabe, o conhecimen- to adquirido ao longo de sua vida. É mediante a interação de diversos níveis de conhecimento linguístico, o textual, o conhecimento de mundo, que o leitor consegue construir o sentido do texto. Aqui o ato de ler constitui-se como um processo interativo no qual autor/leitor participam como produtores de sentidos. 2.3. a Leitura como Processo de interPretação A leitura interpretativa é vista como um processo social. O leitor lê e interpreta de acordo com asua experiência pessoal. Assim, a leitura é polissêmi- ca, apresenta múltiplas e variadas interpretações, já que cada indivíduo possui conhecimentos va- riados que o fazem ler e compreender o texto a sua maneira. BOFF (1997, p. 9), através de uma metáfora, nos leva a compreender melhor a condição do leitor neste processo: Ler significa reler e compreender, interpretar. Cada um lê com os olhos que tem e interpreta a partir de onde os pés pisam. Todo ponto de vista é a vista de um ponto. Para en- tender como alguém lê, é necessário saber como são os seus olhos e qual é sua visão de mundo. Isso faz da leitura sem- pre uma releitura. A cabeça pensa a partir de onde os pés pisam. Para compreender, é essencial conhecer o lugar so- cial de quem olha. Vale dizer: como alguém vive, com quem convive, que experiência tem, em que trabalha, que desejos alimenta, como assume os dramas da vida e da morte e que esperanças o animam. Isso faz da compreensão sempre uma interpretação. Sendo assim, fica evidente que cada lei- tor é co-autor. Porque cada um lê e relê com os olhos que tem. Porque lê e interpreta a partir do mundo que habita. E agora? Volto a perguntar: Qual a sua concepção de leitura? atividade 1. Leia o trecho abaixo, relacionando-o com o que vimos sobre as diferentes concep- ções de leitura. Como a manhã, que na manhã do poema de João Cabral se perfazia pelo entrelaçamento do canto de muitos galos, também a leitura, principalmente a literária, parece constituir um tecido ao mesmo tempo individual e co- letivo. Cada leitor na individualidade de sua vida vai entrelaçando o significado pessoal de suas leituras com os vários significados que ao longo da história de um texto, este foi acu- mulando. Leitor maduro é aquele que, em contato com o texto novo, faz convergir para o significado deste o significado de todos os textos que leu. Marisa Lajolo Do mundo da leitura para a leitura do mundo 11Fascículo 1 2. Faça a análise de alguns livros didáticos, observando os tipos de leituras propostos. Registre seu ponto de vista, tendo como referencial as concepções de leitura estu- dadas. 3. objetivos de Leitura Oi! Falaremos agora sobre os objetivos de leitura. Entendemos ser importante para a sua prática pe- dagógica como também para o desempenho do aluno como leitor, a definição dos objetivos a que se propõem alcançar. Dessa forma, o professor se- lecionará adequadamente os textos a serem utiliza- dos, e os alunos leitores, quando conhecedores dos objetivos, poderão direcionar a leitura de modo a atingir tais objetivos. O processo de leitura cumprirá melhor a sua função quando o leitor estiver ciente da intenção que justi- fica o ato de ler. Identificar o que lê e saber para que ler é primordial para a eficiência dessa atividade. 3.1. objetivos de Leitura sob o Ponto de vista do Professor O professor deve sempre ter determinados os obje- tivos que espera alcançar dos seus alunos. A partir daí, a seleção do material escrito como também o direcionamento que dará para as atividades que irá realizar para a concretização de suas metas devem ser prioridades. SILVA (1991, p. 48) afirma: se a nossa preocupação, em termos de meta ou objetivo, estiver voltada para a compreensão e crítica de certos as- pectos da realidade, então os textos selecionados devem permitir ao leitor a revelação objetiva deles e não seu apa- gamento ou mascaramento. Como a realidade é complexa e dificilmente pode ser expressa através de um único texto, deverá existir variação, gradação e sequência de leituras, de modo que os desafios cognitivos ocorram ao leitor. Se, caso o professor tenha como objetivo estimular a capacidade interpretativa do aluno, deverá optar por textos cujo conteúdo dê margem à plurissigni- ficação, como, por exemplo, textos literários. Cabe salientar que o contexto escolar nem sempre favorece à delineação dos objetivos específicos que espera atingir em relação às atividades de leitura, sendo os textos usados apenas como um pretexto para cópias, elaboração de resumos e exercícios re- lacionados à análise linguística, fato contrastante com a vivência do aluno fora desse contexto. Sobre isso, (KLEIMAN, 2004, p.30) observa: “enquanto fora da escola, o estudante é perfeitamente capaz de planejar as ações que o levarão a um objetivo pré-determinado (por exemplo, elogiar alguém para conseguir um favor), quando se trata de lei- tura, de interação a distância através do texto. Na maioria das vezes, esse estudante começa a ler sem ter ideia de onde quer chegar, e, portanto, a ques- tão de como irá chegar lá (isto é, das estratégias de leitura) nem sequer se põe. Concluindo, pessoal, nenhuma atividade de leitu- ra deveria ser iniciada sem um propósito; é preciso esclarecer os objetivos para que o leitor possa se sentir motivado para buscar o sentido do texto. São os objetivos determinados que definem a for- ma com a qual o leitor se situa diante do texto. 3.2. objetivos de Leitura sob o Ponto de vista do Leitor como ser sociaL São bastante variados os objetivos que os leitores podem apresentar com relação aos textos, sendo o contexto em que se inserem, os interesses, o mo- mento vivido que determina a escolha desses obje- tivos. Quando conscientes da intenção textual, o leitor desenvolve melhor as estratégias para deci- frar, compreender e interpretar o que lê e, por essa razão, todos os objetivos devem ser vivenciados nas diversas situações de ensino. SOLÉ (1998, p. 93 - 101) enumera alguns objetivos que devem ser considerados: Fo nt e: N ov a Es co la – A no X XI – n º 19 4 – ag o/ 20 06 12 Fascículo 1 • “Ler para obter uma informação precisa”: lê- se para obter uma informação que é de nosso interesse. Trata-se de uma leitura bastante sele- tiva; seleciona-se grande quantidade de infor- mações para encontrar a necessária. Exemplo: a consulta a um jornal para ver horário e local de exibição de um determinado filme. • “Ler para seguir instrução”: lemos com o ob- jetivo de direcionar as nossas ações, o nosso agir. Exemplo: ler a receita de um bolo. • “Ler para obter uma informação de caráter geral”: neste caso, lemos um texto para saber de que se trata e, partindo daí, decidirmos se continuaremos ou não a leitura. Exemplo: a leitura de uma reportagem. • “Ler para aprender”: é o tipo de leitura que fazemos com finalidade explícita de adquirir conhecimentos. Exemplo: a leitura de livro in- dicado pelo professor na universidade. • “Ler para revisar um escrito próprio”: é a leitura que se faz para revisar o que escreveu. Trata-se de uma leitura crítica e útil que nos ajuda a escrever com mais eficiência. • “Ler por prazer”: lê-se simplesmente pelo pra- zer. Nesse caso, a leitura é uma questão pessoal. • “Ler para comunicar um texto a um auditó- rio”: lê-se para emitir uma mensagem com a finalidade de que as pessoas para as quais a leitura é dirigida possam compreendê-la. Finalizando a nossa aula, veremos mais dois obje- tivos, estes tipicamente escolares e que são citados também por SOLÉ (1998, p. 98-99): • “Ler para praticar a leitura em voz alta”: a lei- tura é realizada para que os alunos leiam com clareza, rapidez, fluência e correção, pronun- ciando, de forma adequada, em consonância com as normas de pontuação e com a entoa- ção requerida. • “Ler para verificar o que se compreendeu”: a leitura é realizada para aferir o nível de com- preensão do aluno. Não há dúvidas de que a diversidade de objetivos específicos existentes é significativa, cabendo a cada um refletir sobre aquele que é adequado para a proposta de leitura. atividade | Crie uma proposta de leitura e elabore três objetivos específicos e um geral. 4. estratéGias e comPreensão Leitora Não podemos deixar de falar em estratégias, uma vez que falamos no tópico anterior em objetivos. Os dois apresentam-se entrelaçadosno que se re- fere à aquisição da compreensão leitora. Enquanto estes são os propósitos para a realização do ato de ler, aquelas são espécies de procedimentos facili- tadores para a abordagem do texto em busca da compreensão. A minha intenção é que, através das observações re- gistradas neste espaço, você possa se sentir estimula- do a fazer um estudo mais profundo sobre o assunto: Quais as funções das estratégias? Estas são realmente procedimentos? Elas devem ser ensinadas? Como e por que ensiná-las? Neste tópico, teremos uma explanação breve sobre o tema. No entanto, convido você para uma via- gem mais longa em busca de outras fundamenta- ções teóricas referentes às estratégias de leitura. De acordo com SOLÉ (1998), nós costumamos, em nossas ações diárias, se determinados a resolvê-las efi- cientemente, usar a nossa capacidade de pensamen- to estratégico. Muitas vezes, paramos e pensamos: Que ações farei primeiro? Que escolha trará para mim um melhor resultado? PARA REFLETIR! Diante da diversidade d e objetivos de leitura, como agir na escolha de stes para o desenvol- vimento da prática leito ra no ambiente esco- lar, a fim de contribuir pa ra a formação de um leitor apto para a vivên cia no contexto social no qual está inserido? Fonte: Nova Escola – Ano XVI – nº 145 – set/2001 13Fascículo 1 Essas ações são procedimentos. Daí então, a jus- tificativa para a nossa definição de estratégias, pois, assim como os procedimentos, as estraté- gias são, como afirma VALLS (1990), utilizadas “para regular a atividade das pessoas, à medida que sua aplicação permite selecionar, avaliar, persistir ou abandonar determinadas ações para conseguir a meta a que nos propomos.” As estratégias, porém, “não detalham nem prescre- vem totalmente o curso de uma ação; são hipóteses, suspeitas inteligentes” do caminho a ser seguido. Ainda, segundo a autora, tratando-se da leitura, mais especificamente da compreensão leitora, os procedimentos são mais complexos e envolvem a de- finição de objetivos, as ações, a avaliação diagnóstica e possível mudança. Ela explica que esta afirmação apresenta várias implicações e salienta duas delas: 1. Se as estratégias de leitura são procedimentos, e os procedimentos são conteúdos de ensino, então é preciso ensinar estratégias para a compreensão dos textos. Estas não amadurecem, nem se desenvolvem, nem emergem, nem aparecem. Ensinam-se - ou não se ensinam - e se aprendem - ou não se aprendem. 2. Se as estratégias de leitura são procedimentos de ordem elevada que envolve o cognitivo e o metacog- nitivo, no ensino elas não podem ser tratadas como técnicas precisas, receitas infalíveis ou habilidades específicas. “O que caracteriza a mentalidade estra- tégica é sua capacidade de representar e analisar os problemas e a flexibilidade para encontrar soluções”. Retomando esta última proposição, ressalta-se a importância de o professor promover situações que despertam no aluno o desejo de descobertas, pro- porcionando-lhe meios significativos, colocando- os frente a textos que permitam uma leitura aten- ta, crítica, rica em análises e inferências, fazendo-o perceber com clareza o jogo de intenções que existe em todo o processo de interação e, dessa forma, possa adquirir maneiras diversas para a aquisição de conhecimento e de acesso aos bens simbólicos. Clareza, coerência textual, conhecimento prévio do leitor, habilidades linguísticas são necessários para que haja compreensão leitora, porém não são suficientes. Usar estratégias, intensificando a com- preensão do que se lê é também um recurso impor- tante para viabilizar o entendimento do que se lê. 4.1. cLassificação das estratéGias O leitor quando lê é consciente do que entende e do que não entende, certo? Quando não entende, busca resolver as falhas de compreensão. Assim, se conscientes, utiliza, tam- bém, de modo consciente, as estratégias que o aju- darão na construção do sentido. Ao se referir a essa consciência, KLEIMAN (1995) classifica as estratégias em: • Estratégias cognitivas; • Estratégias metacognitivas. Dizemos que são cognitivas quando consistem em operações inconscientes do leitor, isto é, são as ações realizadas por ele para atingir algum objetivo, sem que este tenha chegado ao nível consciente. Quando se lê um texto, acionando, por exemplo, o conhecimento de mundo que tem para a constru- ção do sentido, a de ser um leitor experiente, infe- rindo, portanto, as ideias subjacentes ao texto. Já as estratégias metacognitivas são aquelas realizadas com um determinado objetivo. Caso você fosse convidado a fazer um resumo de um texto, com a experiência que já tem, como agiria? Certamente, para atingir o seu objetivo, tentaria identificar as ideias básicas de cada parágrafo e, partindo da condensação dessas ideias, construiria o sentido global do texto. Para tanto, teria que re- alizar algumas operações, como ler, reler, destacar pontos significativos, enfim, iria adotar diversas formas para resolver o problema. O leitor teria que estar consciente da sua falha na compreensão, ou seja, por não compreender o texto, lançar mão de alguns procedimentos para obter a compreensão. atividade | Leia o texto do link: http://picpedagogia.blogspot.com/2008/06/ leitura-o-que-leitura-o-que-ler.html Para obter a compreensão leitora, acredito que você, além do conhecimento prévio, utilizou estratégias. Comente-as, levando em conside- ração as estratégias cognitivas e metacognitivas. Reflita sobre os questionamentos da página 14 Fascículo 1 inicial deste tópico. Saiba mais sobre o assunto. 5. dificuLdades no Processo de Leitura na escoLa É comum ouvir dos profes- sores a frase: “o meu aluno não gosta de ler” – e é tam- bém facilmente verificável, em qualquer ambiente esco- lar, que a maioria dos alunos realmente não gosta de ler. E você? Gosta de ler? É sempre que faz leituras? Que tipo de leitura gosta mais? Ler requer concentração, interpretação, pensar, re- fletir, mas essas práticas são consideradas difíceis pelos educandos. A era tecnológica trouxe, a par do progresso, grandes transformações na rotina dos alunos. O próprio ritmo da vida moderna, repleta de ansiedade, correria, e apelos constantes dos recursos audiovisuais têm aguçado ainda mais o desinteresse, o não gostar de ler. Mas não é ape- nas isso que afasta cada vez mais o aluno da leitu- ra, como ato prazeroso. O elo se perde quando o livro deixa de ser entretenimento para ser “ficha de leitura” para o cumprimento do programa escolar. Na verdade, são diversas as variáveis que se ali- nham, quando se trata da questão de despertar o gosto pela leitura, e são algumas dessas variáveis que serão exploradas neste tópico. 5.1. a Leitura como decodificação Não nos deteremos neste item, uma vez que já falamos sobre o assunto num momento anterior, quando discutíamos as concepções de leitura. A leitura como decodificação consiste, apenas, na de- codificação de signos. A interpretação, a compre- ensão, a leitura nas entrelinhas em busca de uma significação mais profunda perdem espaço para uma leitura mecânica, denotativa. 5.2. a Leitura como avaLiação Esta prática é bastante vivenciada nas aulas de lei- tura, inibindo bastante o aluno, fazendo com que ele conceba o ato de ler como sendo um martírio e jamais um momento de interação entre o leitor e autor. Tal prática acontece já nas séries iniciais e consiste em perceber, através da leitura em voz alta, se o aluno está entendendo ou não. É certo que, se o leitor ler em voz alta para alguém, ficará preocupado apenas com a forma, a pontuação, a pronúncia, sem entender o que está lendo, ou seja, a leitura acontece de forma superficial. Um outro agravante nesse exercício é quando a linguagem do aluno não é a padrão, pois ele ain- da terá de traduzir a linguagem padrão do texto para a sua linguagem. Sem contar queo professor poderá exigir que a pronúncia do aluno também seja padrão, então tudo isso sobrecarrega o leitor de forma exagerada, impedindo o desenvolvimen- to da compreensão leitora, uma vez que haverá também várias interrupções durante a leitura para possíveis correções, provocando, assim, um grande constrangimento para quem lê. Condena-se aqui o ato de ler puramente para pra- ticar a leitura em voz alta. Sabe-se que essa prática contribui para que o aluno leia com clareza, rapi- dez, fluência e correção, pronunciando adequada- mente, respeitando as normas de pontuação e com a entonação requerida. Mas esses méritos também podem ser alcançados através da leitura silenciosa, individual. O leitor pode adquirir muitas dessas habilidades no contato estreito com o texto, por- tanto não se justifica a utilização constante e única dessa técnica, mesmo porque também para ler em voz alta, requer-se a compreensão anterior do texto. Ler fluentemente não pode ser o único objetivo da leitura na escola. A compreensão não pode fi- car em um nível secundário. Se o primordial para desenvolver a linguagem, o senso crítico, o poder argumentativo é a leitura com a compreensão do texto, o aluno deve ter a oportunidade de ler com essa finalidade. 5.3. o texto como Pretexto Utilizar o texto como pretexto para o ensino da gramática é uma atitude comum entre os autores de livros didáticos e professores de Língua Portu- guesa. KLEIMAN (1995, p. 17) afirma: O professor se utiliza do texto para desenvolver uma série de atividades gramaticais, analisando, para isso, a língua enquanto conjunto de classes e funções gramaticais, frases e orações. Essa prática impede que o aluno descubra a ver- dadeira essência do texto, pois o contato com o 15Fascículo 1 escrito se resume, apenas, na leitura superficial de palavras isoladas, que eventualmente contenham dígrafos, encontros vocálicos, consonantais ou ou- tro aspecto gramatical determinado pelo professor. Os textos não são escritos para serem pretextos para nada. O autor quando escreve tem a intenção de interagir com o leitor, mantendo um diálogo pra- zeroso. Quando isso não acontece, o aluno perde a oportunidade de sentir curiosidade e vontade de ler, pois ler para ele passa a não ter atrativo algum. À medida que o aluno lê com frequência, indepen- dente de o professor utilizar o texto como pretexto para o uso da gramática, vai desenvolvendo a sua competência linguística. A ortografia, a estrutura textual, a pontuação, a utilização dos verbos e ou- tros aspectos vão se tornando familiar para o leitor e, consequentemente, passa-se a utilizar bem a língua, a produzir textos eficazes, possibilitando, assim, a interação discursiva. Portanto, é inútil utilizar o tex- to apenas como pretexto para análises linguísticas. 5.4. a imPosição e cobrança no ato de Ler Todas essas variáveis que comprometem o processo de leitura na escola resumem-se numa concepção autoritária no que se refere ao ato de ler. Essa con- cepção parte do pressuposto de que há apenas uma maneira de abordar o texto e uma interpretação a ser alcançada. Isso é imposto ao aluno no momen- to em que é impedido de formular hipóteses por meio de pistas fornecidas pelo próprio autor do texto, pois muitas vezes as hipóteses são formula- das pelo professor, sem levar em consideração o raciocínio, o pensamento crítico do leitor. É cobra- do de quem lê aquilo que se deseja que ele perceba no texto, através da leitura e não, o significado que ele próprio construiu na medida em que foi intera- gido com o autor. Essa concepção equivocada do processo de leitura resulta, também, numa falta de interesse por parte do aluno. Não se pode cobrar do leitor algo que, muitas vezes, ele não consegue ler no texto. Enfocando de outra maneira essa imposição, lem- bremos aqui que o tipo de texto que o professor impõe muitas vezes não corresponde ao gosto do aluno e a sua realidade. Para que se goste da lei- tura, é preciso que haja uma identificação com o escrito, é importante que o leitor se veja em parte das situações apresentadas pelo autor. atividade | Que outras variáveis, além das estudadas neste tópico, são percebidas na es- cola e também fora dela, que dificultam o pro- cesso de ensino da leitura? 6. os Gêneros textuais e sua funcionaLidade Você gosta de escrever? Para você, é mais fácil utilizar a linguagem escrita ou falada? Já parou para pensar no porquê dessa sua preferência? Como é o seu contato com os gêneros textuais? Quais os gêneros mais utilizados por você? É importante responder mentalmente a essas ques- tões. As suas respostas serão ponte para adentrar no assunto que irei abordar a partir de ago- ra. Vivemos hoje num mundo no qual a co- municação está cada vez mais fácil. Os meios utilizados para comunicar aproxima as pessoas, permite a cria- ção de laços, rompe fronteiras e contribui para a socialização do homem. Não se fala em comunicação sem fazer referência aos gêneros textuais. Mas, o que são gêneros textuais? Em que eles podem contribuir para a vida das pessoas no convívio com o seu semelhante? Pois bem! Identificamos como gêneros textuais to- dos os textos que apresentam características próprias e que circulam num dado contexto sócio-histórico, http://www.letramagna.com/ literatura.pdf http://www.maxwell.lambda.ele .puc-rio.br/cgi-bin/PRG_0599. EXE/12237_3.PDF?NrOco Sis=39915&CdLinPrg=pt texto comPLementar 16 Fascículo 1 estabelecendo a comunicação entre as pessoas. Existe hoje uma quantidade ilimitada de gêneros, eles vão surgindo a partir da necessidade do ho- mem em comunicar. Alguns têm perdido um pou- co o espaço para outros, porém não perde a sua importância. A carta pessoal, por exemplo, que era muito utilizada, foi praticamente substituída por gêneros de mais praticidade, como o e-mail, men- sagens telefônicas, entre outros. São gêneros verbais e não-verbais, escritos ou fala- dos que devem circular no ambiente escolar, como elementos indispensáveis de uma prática indissoci- ável com a prática de leitura. Conhecer os textos, perceber a sua função social, identificar as características próprias de cada um é fundamental para a prática pedagógica do profes- sor de língua materna. Assim sendo, iremos, neste tópico, iniciar o estudo da composição formulaica de alguns gêneros. Antes, porém, vale distinguir gênero textual de ti- pologia textual. São tipologias: descrição, narração, dissertação, ex- posição e injunção. • Descrição: texto em que se descreve por escrito um objeto, um lugar, uma pessoa. Caracteriza- se pelo uso constante do adjetivo. • Narração: modalidade em que se conta um fato fictício ou não, que ocorreu num deter- minado tempo e lugar, envolvendo certos per- sonagens. • Dissertação: texto com posicionamentos pes- soais e exposição de ideias. Tem por base a argumentação, apresentar de forma lógica e coerente, a fim de defender um ponto de vista. • Exposição: apresenta informações sobre assun- tos, expõe ideias, explica, avalia, reflete. • Injunção: indica como realizar uma ação; aconselha. Caracteriza-se pelo uso dos verbos no modo imperativo. 7. Gêneros textuais e tiPoLoGia narrativa Alguns gêneros pertencentes a esta modalidade con- tam fatos, fictícios ou não, que ocorrem num deter- minado espaço e apresenta personagens, narrador- observador ou narrador-personagem. Observador, se apenas relata os fatos sem fazer parte deles; perso- nagem, se relata os fatos e também faz parte deles. Alguns textos apresentam predominância tipológi- ca narrativa, entretanto, pode apresentar outras se- quências, como sequência descritiva, dialogada etc. 7.1. conto O conto é uma narrativa curta, composta de ele- mentos como personagens, enredo, espaço e tem- po. É um texto que apresenta concisão, linearida- de e unidade. O conto deve construir uma história focada em um conflitobásico e apresentar o desen- volvimento e a resolução desse conflito. Por ser curto, o conto não admite muitas complica- ções quanto ao desenvolvimento do enredo. É pelo mesmo motivo que não é possível trabalhar com muitos personagens. Os contos costumam ser es- critos para serem publicados em livros. Em alguns casos, também circulam em revistas. Os leitores de contos normalmente são pessoas que encontram nas narrativas ficcionais um espaço para refletir sobre a realidade, que buscam, nos cenários criados pela imaginação, uma maneira de escapar do estresse em que vivem, ou até mesmo, que leem pelo prazer. O fato de serem narrativas mais curtas, também acabam conquistando um maior número de leito- res, pois estes não apresentam disponibilidade de tempo no mundo contemporâneo. 7.2. estrutura do conto Por ser uma narrativa curta, é essencial que o pro- dutor do gênero planeje cuidadosamente a articu- lação dos elementos narrativos. E um texto ficcio- nal deve apresentar espaço e tempo definidos. Um narrador em 1ª ou 3ª pessoa será o encarregado de contar o que acontece com tais personagens. O autor decidirá exatamente que função o foco narrativo, personagens, espaço e tempo deverão as- sumir na história, determinando o entrelaçamento dos elementos narrativos. SAIBA MAIS! Link http://www.algosobre.com.b r/gramatica/genero-textual- e-tipologia-textual.html 17Fascículo 1 O texto deve apresentar uma ordem que, através dos elementos da narrativa, será quebrada pelo surgimento de um conflito, entretanto, é a resolu- ção desse conflito que promoverá a reorganização da ordem. A linguagem dos contos é comum à linguagem dos textos literários: ela deve ser trabalhada pelo autor do texto de modo a alcançar o maior nível de significação. De que maneira a leitura de contos contribuirá para o desenvolvimento da escrita? Sendo o conto um gênero de características lite- rária e ficcional, vale a pena utilizá-lo na escola? atividade 1. Elabore uma aula prática, utilizando con- tos da literatura brasileira para vivenciá-la com seus colegas de curso. 2. Registre os pontos positivos e os pontos negativos observados na realização dessa atividade. 8. Gêneros textuais arGumentativos Vamos continuar? O texto argumentativo é muito utilizado nas aulas de redação, com o objetivo de se trabalhar a organização de ideias e a ex- posição de um ponto de vista. São diversos os gêneros da or- dem argumentativa: disserta- ção, editorial, artigo de opinião, carta argumenta- da, tira, charge, carta ao leitor, entre outros. Você percebe que nesta relação o texto dissertativo apareceu como gênero? Mas a dissertação é gênero ou tipologia textual? SAIBA MAIS! Leia contos, identificand o os traços caracterís- ticos desse gênero. http://www.releituras.com/re leituras.asp http://www.bestiário.com.br/ 3.html Antes de falarmos especificamente sobre gêne- ro argumentativo, acho convincente pensarmos nesta questão. Vários gêneros textuais são produzidos no contexto escolar, fazendo parte do cotidiano da instituição, constituindo as atividades didáticas pedagógicas e sendo objeto de ensino da produção escrita, com o propósito de desenvolver a competência comuni- cativa do aluno. Sobre a produção escrita na escola, KOCH (2002, p. 59) afirma que, dentre os gêneros escolarizados, estão a narração escolar, a descrição escolar, a dis- sertação. Este último “seria o protótipo por exce- lência desse tipo de gêneros, visto que é feito para a escrita, para o ensino da escrita, para toda a escola- ridade e não existe, evidentemente, fora da escola.” O pensamento da linguista confirma o ponto de vista de que a dissertação é um gênero textual. No entanto, embora Koch declare que o gênero disser- tação só existe na escola, pesquisas têm demonstra- do que esse gênero vem ultrapassando sua esfera comunicativa, fazendo parte das práticas sociais, haja vista sua solicitação em exames vestibulares, no ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio), nos concursos públicos e outros. Em todas essas práticas sociais, esse gênero é visto como instru- mento de avaliação da competência linguístico-dis- cursiva, ou seja, é através dele que se pode conhe- cer melhor o produtor, as suas ideias, o seu ponto de vista, seu “poder” argumentativo. Como objeto de ensino da escola, a dissertação desenvolve, no aluno, diversas habilidades, como a capacidade de discursar sobre determinado tema, seguindo um raciocínio lógico, articular adequadamente as ideias usando seus conhecimentos gramaticais ad- quiridos durante a vida escolar. Como cabe à escola valorizar o propósito comu- nicativo da dissertação, cabe a ela criar situações pertinentes que possibilitem a exigência de voz do indivíduo em formação. 8.1. a dissertação como Gênero O estudo mais específico desse gênero é primordial para subsidiar a sua prática pedagógica. Porém, percebo que apenas a assimilação das teorias não é suficiente, faz-se necessária a prática constante dessa modalidade textual. Será mais fácil preparar Fo nt e: C on st ru ir N ot íc ia s – An o VI I – n º 41 – ju l-a go /2 00 8 18 Fascículo 1 produtores eficientes quando também se produz com eficiência. Já ouvi muitos profissionais da área afirmarem que são peritos em corrigir, contudo, sentem um pouco de dificuldade para redigir. 8.1.1. definição A dissertação é uma exposição escrita na qual se discute um tema, sustentando-se um ponto de vis- ta como a ajuda de argumentos coerentes e convin- centes, com base em provas ou razões íntimas. É um texto que se caracteriza por analisar, explicar, interpretar e avaliar os vários aspectos associados a uma determinada questão. A finalidade da dis- sertação é, portanto, explicitar um ponto de vista claro e articulado sobre um tema específico. Em alguns casos, o texto apresenta argumentos. Quan- do isso ocorre, tem-se a dissertação-argumentativa. Dependendo da finalidade da tarefa a que está as- sociada, poderá ter caráter mais expositivo ou ar- gumentativo. Caso o objetivo seja apresentar um determinado tema, informando ao leitor quais os principais as- pectos a ele relacionados, a dissertação terá predo- minância expositiva. Caso a dissertação se dedique a apresentar um tema para analisá-lo sob diferentes perspectivas, de modo a defender explicitamente uma tese, terá predominância argumentativa. Apesar da semelhança estrutural com outros textos argumentativos, como editorial, artigo de opinião, a dissertação não costuma circular em jornais e re- vistas, seu contexto de produção fez com que fique restrita aos espaços escolares e universitários, onde é prioritariamente utilizada como instrumento avaliativo para avaliar a capacidade de exposição e argumentação dos alunos. 8.1.2. estrutura A dissertação apresenta três partes: introdução, de- senvolvimento e conclusão. • Introdução: parte da dissertação que anuncia ao leitor o que será desenvolvido e pode valer- se de uma definição teórica, um fato histórico, um acontecimento recente divulgado pela im- prensa, uma pergunta ou parágrafo que expres- se a temática a ser desenvolvida. • Desenvolvimento: é nos parágrafos do de- senvolvimento que o produtor desenvolve os pontos de vista, expondo dados, informações sobre o tema, argumentando, comparando, le- vantando hipóteses. • Conclusão: parte do texto que tem a função de finalizar a discussão. Assim como a intro- dução, deve ser breve, demonstrando ao lei- tor que o desenvolvimento terminou. A con- clusão não deve contar nenhuma ideia nova e nenhum exemplo. Normalmente, traz uma expressão inicial, a reafirmação do tema e uma observação final. Trata-se de um resumo bas- tante sucinto da dissertação. Essas informações são muito gerais, haja vista que cada uma dessas partes engloba outros elementos estruturais, como tema, tese, antítese e síntese. O tema é mencionado implícitae explicitamente em todo o corpo do texto. O redator deve valer-se de conhecimentos adquiridos por meio de leituras e discussões como também da leitura habitual de livros, jornais e revistas, além da participação inte- ressada em debates e palestras, realizadas dentro e fora da escola, e a atenção aos programas jornalísti- cos de qualidade transmitidos pela televisão. Não se pode confundir tema com título. Enquanto este é uma referência um tanto mais vaga ao as- sunto em forma de expressão curta, aquele é uma afirmação sobre determinado assunto que apresen- ta uma tomada de posição; é uma oração que apre- senta começo, meio e fim. Muitos textos dissertativo-argumentativos utilizam o recurso de oposição de ideias e argumentos (tese e antítese) em busca de um resultado (síntese). É o que se chama de plano dialético. SAIBA MAIS! PLano diaLético • Tese - desenvolva argume ntos e exemplos a favor da ideia enuncia da. Os argumen- tos aparecem numa or dem lógica e, se possível, crescente. • Antítese - os argumento s apresentados são contrários em qua ntidade mais ou menos igual aos da tese . • Síntese - é o resultado do confronto entre a tese e a antítese, o res ultado e a avalia- ção da discussão preced ente. A síntese é a resposta à questão ap resentada na in- trodução, tomando um ou outro partido ou, em alguns casos, ap enas surgiu uma posição. 19Fascículo 1 Geralmente, os textos solicitados aos alunos são do tipo dissertativo-argumentativo. O parágrafo argumentativo apresenta uma ideia a ser defendida que pode aparecer no início ou no final do parágrafo (em forma de conclusão) ou es- tar nas entrelinhas. Este tipo de parágrafo adota os seguintes elementos: Estes elementos nem sempre se apresentam na mesma ordem, podendo, até mesmo, cada um de- les compor um parágrafo ou parte dele. atividade 1. A dissertação é um texto que se desenvol- ve por meio da análise de diversos aspec- tos associados à questão central; assim sen- do, apresenta algumas características bem definidas com relação à linguagem. Saiba mais. Pesquise e liste essas características. 2. Escolha um tema. Escreva um texto dis- sertativo-argumentativo e, em seguida, identifique todos os elementos estruturais utilizados para a construção do texto. 3. Qual a importância da argumentação diante dos diversos aspectos que caracte- rizam o mundo contemporâneo? Pense sobre essa temática. 9. Gêneros textuais e a sequência injuntiva Falando em sequência, estamos nos remetendo à terminologia de Adam (1992), que denomina sequências textuais de “esquemas linguísticos” básicos, chamados de ti- pos textuais por outros autores. Os textos, independentemente do gênero a que pertencem, apresentam sequências com caracterís- IDeIA – ArgumenTO – exempLO – cOncLuSãO ticas linguísticas, como os tipos verbais utilizados, classes gramaticais, organização sintática, relações de sentido. Assim, dependendo dessas característi- cas, temos os diferentes tipos textuais. Como vimos, enquanto os gêneros textuais abran- gem uma quantidade ilimitada de textos (receitas, relato pessoal, conta de água, conto etc.), as se- quências ou tipos de texto são poucos: narração, descrição, dissertação, argumentação, exposição e injunção. É este último que estudaremos agora. Buscaremos correlacionar o estudo da sequência textual injuntiva ao estudo de gêneros nos quais este se faz presente. Identificar os gêneros e as sequências permite nos entender os processos de organização linguístico- textual e o funcionamento sócio-discursivo da lin- guagem humana. 9.1. características básicas da sequência injuntiva A sequência injuntiva permite a comunicação en- tre os indivíduos, orientando-os na realização de tarefas ou práticas sociais. A palavra injunção sig- nifica ordem formal, imposição, exigência; assim é o uso de verbos no modo imperativo, do futuro do indicativo e, às vezes, do infinitivo ou outras formas que indicam ordem, orientação. É frequen- te o uso da 2ª pessoa do singular (ou do pronome você(s) com o verbo na 3ª pessoa) ou da 1ª pessoa do plural (quando o autor se inclui). Os textos injuntivos exemplificam bem o uso da linguagem apelativa (ou conativa). De acordo com a sua função, propõe uma ação (questões de provas ou textos de engajamento po- lítico, moral, social), dá conselhos (receitas culiná- rias, manuais de instruções, rótulos, bulas, etc.); na publicidade, recomenda a compra de um produto. Já nos rótulos, a injunção ocorre no modo de prepa- ro de alimentos, sugestões de receitas, instruções de uso e precauções. Nas bulas, a injunção ocorre nas informações ao pa- ciente, contraindicações, na posologia. Na publicidade, recomenda-se a compra de um produto, aquisição de um serviço ou podem apare- cer outras solicitações de gênero apelativo. Existe uma diversidade de suportes nos quais a injun- Fo nt e: N ov a Es co la – A no XV I – nº 1 45 – s et /2 00 1 20 Fascículo 1 ção se faz presente. Dentre esses suportes, temos as caixas/embalagens dos produtos onde aparecem gê- neros com predominância de sequências injuntivas. Um gênero textual apresenta o seu conteúdo forma- do por mais de uma sequência ao mesmo tempo. A sequência injuntiva pode compor qualquer gênero. Mesmo que o gênero seja formado por mais de uma sequência, uma delas se apresenta como pre- ponderante sobre as demais. Levando-se em consi- deração tal aspecto, os textos supracitados através das figuras são textos injuntivos, cuja circulação é extensa no contexto social em que vivemos. atividade | Pesquise, entreviste professores, questione sobre a utilização dos gêneros de sequência injuntiva no ambiente escolar. De que modo eles têm explorado esses gêneros na sala de aula? Qual a importância da injunção nos diversos gêneros textuais? Bula Propaganda Leia as seguintes afirmativas que se referem ao título do texto. I. O uso da palavra febre para indicar modismos é um uso figurado que serve para dar a ideia da intensidade desses modismos, como em “febre do piercing”. II. O uso da palavra febre vai ao encontro da informação de que a plástica em adolescentess tem crescido no Brasil. III. A palavra teen é um estrangeirismo, ou seja, uma palavra não originaria do português. IV. A palavra teen vem sendo empregada, em português, para refletir-se a tudo que possa caracterizar o universo adolescente. V. O uso das palavras febre e teen imprime um tom coloquial ao texto. É correto o que se afirma em: a) I, III, IV e V, apenas. b) I, II, III e IV, apenas. c) I, II, IV e V, apenas. d) II, III, IV e V, apenas. e) I, III, IV e V. comandos para a realização de uma tarefa Realizar tarefas Receita 21Fascículo 1 reSumO A leitura na escola, mesmo sendo o melhor caminho para despertar, no educando, diver- sas habilidades que farão dele um ser capaz de melhor comunicar-se e entender o mundo, ainda não é integralmente vivenciada de maneira satisfatória. A concepção de leitura en- quanto processo interativo é substituída por outras práticas pouco produtivas para o aluno. Vimos a leitura sob três concepções: a leitura como processo de decifração da escrita, que consiste no ato de ler através da decodificação de sinais; a leitura como processo de compreensão, através da qual o leitor adota aspectos cognitivos para construir o sentido do texto e, finalmente, a leitura como processo de interpretação, isto é, lê-se e interpreta- se a partir de uma perspectiva e da experiência pessoal. Há uma diversidade significativa de objetivos de leitura, alguns utilizados apenas no contexto escolar, enquanto outros representam as finalidades pelas quais os indivíduos, como seres sociais realizam suas leituras a fim de satisfazerem as suas intenções pessoais. Evidencia-se aqui a reflexão consciente para o estabelecimento dos objetivos específicos, tamanha a sua importância para a eficácia do processo deleitura. Estratégias de leitura são procedimentos para obter a compreensão do sentido do texto. Estas se classificam em cognitivas – as operações inconscientes de leitura e as meta- cognitivas – são aquelas realizadas com um objetivo já em mente. É fato que, na escola, algumas práticas vivenciadas só fazem impedir o desenvolvimento da leitura. Diversas são as causas identificadas que comprometem a formação do aluno leitor. Aqui discutimos quatro delas: a leitura como decodificação, a leitura como avalia- ção, o texto como pretexto e a imposição e cobrança no ato de ler. Gêneros textuais são textos que apresentam características em comum. Essas característi- cas dizem respeito à estrutura como também ao contexto de circulação. Diversos são os gêneros que circulam estabelecendo a comunicação entre autor/leitor; entre eles, temos o conto, gênero literário. Entre os gêneros da ordem argumentativa, a dissertação aqui teve destaque. Trata-se de texto de maior circulação no contexto escolar, muito embora tenha ultrapassado sua es- fera comunicativa, fazendo parte de várias outras práticas sociais. A dissertação é um gênero textual que analisa, interpreta, explica e avalia os dados de uma realidade. A injunção é uma sequência textual presente nos gêneros, que tem como objetivo expor um pedido, ordem, sugestão e conselho. Esse tipo de sequência é bastante frequente em textos publicitários, manuais de instruções, horóscopo etc. Os verbos utilizados são, principalmente, os verbos no modo imperativo: ligue, compre, estude. 21 22 Fascículo 1 gLOSSÁrIO textualidade – conjunto de características que fazem com que o texto seja um texto, e não, apenas um amontoado de frases. intertextualidade – recorrência ao conhecimento prévio de outros textos. Ocorre quando o autor de um texto repe- te expressões, informações ou trechos de outros textos, ou então, o estilo de certo autor ou de certo tipo de discurso. automatismos – estratégias, recursos para identificar. inferência – operação pela qual, fazendo uso de seu co- nhecimento de mundo, o receptor de um texto estabelece uma relação implícita entre dois elementos (frases ou tre- chos) desse texto que ele procura compreender e interpretar. reFerÊncIAS DIONÍSIO, Ângela da Silva Bezerra & BESERRA, N. da Silva (Org.). Tecendo textos, construindo experiências. Rio de Janeiro: Lucerna, 2003. ______. & Judith Chambliss Hoffnagel. Gêne- ros textuais, tipificação e interação. São Paulo: Cortez, 2005. GRANATIC, Branca. Técnicas básicas de reda- ção. 2 ed. São Paulo: Scipione, 1995. KLEIMAN, Ângela. Oficina de leitura: teoria e prática. 3 Ed., Campinas, SP: Pontes, 1995. ___________. Texto e leitor: aspectos cognitivos da leitura. 9 Ed.,Campinas, SP: Pontes, 2004. KOCHI, I. G. V. Desvendando os segredos do texto. São Paulo: Cortez, 2002. LOPES, Luiz Paulo Moita. Oficina de linguística aplicada à natureza social e educacional dos processos de ensino/aprendizagem de línguas. Campinas – SP: Mercado das Letras. SILVA, Ezequiel Theodoro. De olhos abertos: re- flexões sobre o desenvolvimento da leitura no Brasil. São Paulo: Editora Ática, 1991. SOLÉ, Isabel. Estratégias de Leitura. 6 ed. Porto Alegre: Artmed, 1998. ZILBERMAN, Regina (org.). Leitura em crise na escola: alternativas do professor. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1985. 23 objetivos esPecíficos Reconhecer a importância dos gêneros textuais na vivência de práticas rela- cionadas à escrita e à leitura, percebendo que quanto maior a diversidade de textos utilizada na escola, com adequação e criatividade, maior a capacidade do aluno de comunicar, compreender e se fazer compreender; Elaborar projetos que viabilizem o processo ensino-aprendizagem da escrita e da leitura no contexto escolar. 1. o Gênero como ferramenta de ensino Não nos comunicamos usando palavras ou frases soltas, não é verdade? A comunicação se dá através de textos dos mais diversos. Textos escritos, orais, verbais, não-verbais. Quando estamos numa situação de interação verbal, a escolha do texto não é totalmente espontânea, considera-se um conjunto de coerções dadas pela própria si- tuação comunicativa: quem fala, com quem fala, com qual finalidade e qual é o assunto do texto. Por exemplo, quando desejamos contar uma história, como ocorreu um fato, fazemos uso de um texto narrativo; ensinar alguém a fazer um bolo, fazemos uso de um texto instrucional. Todos os elementos in- fluenciam na escolha do interlocutor, que, de forma consciente ou não, usa o gênero mais adequado para se comunicar. Sendo os gêneros “ferramentas”, isto é, instrumentos que possibilitam uma ação linguística sobre a realidade, não se justifica o ensino da língua sem ser a partir de gêneros textuais. O uso dos gêneros resulta na ampliação das capacidades in- dividuais do usuário e na ampliação do conhecimento a respeito do objeto sobre o qual a ferramenta é utilizada. Assim, o ensino dos diversos gêneros que circu- lam socialmente entre nós contribui para desenvolver a competência linguística 23 Gêneros textuais: ferramentas Para o ensino da Leitura e da escrita Prof.a Lucivânia magalhães Patrício Carga Horária | 15 horas Fascículo 2 24 Fascículo 2 e discursiva dos alunos, preparando-os para eventuais práticas e ampliando sua compreensão de mundo, mostrando-lhes maneiras concretas de participação social como cidadão. Quando um professor ensina para o seu aluno como fazer uma carta argumentativa ou de reclamação, por exemplo, está lhe oferecendo não somente a oportunidade de aprender a parte estrutural, as informações sobre o seu conteúdo, a linguagem para a escrita desses gêneros mas também o leva a tomar consciência de que os cidadãos devem reclamar os seus direitos e solicitar providências das autoridades responsáveis. Todos os alunos devem aprender a escrever todos os tipos de texto. Até bem pouco tempo, o ensino da pro- dução escrita resumia-se apenas no ensino da dissertação, descrição e narração – tipologia clássica, como se todos os textos tivessem a mesma estrutura e não oferecessem dificuldades específicas em sua elaboração. 1.1. Gêneros textuais e a LinGuaGem mista Alguns gêneros textuais são classificados como gêneros mistos pelo fato de apresentarem em sua formação a palavra (linguagem verbal) e a imagem (linguagem não-verbal). Histórias em quadrinhos, cartuns, char- ges são alguns desses gêneros. São textos que expõem assuntos do cotidiano, críticas acerca de problemas sociais e ações das autoridades e, quando utilizados como ferramenta para o ensino da leitura e da escrita, proporcionam ao aluno o desenvolvimento de estratégias e habilidades diversas, entre elas: • Capacidade para inter-re- lacionar a imagem à parte verbal do texto, compreen- dendo a relação de sentido; • Compreensão múltipla do texto; • Desenvolvimento do senso crítico argumentativo. 1.1.1. cartum É um texto humorístico que utiliza a linguagem não-verbal, combinada ou não com a lin- guagem verbal. Trata-se de uma espécie de uma anedota que satiriza o comportamento hu- mano. Em geral, situações atem- porais e universais, isto é, que poderiam acontecer em qual- quer tempo ou lugar. 25Fascículo 2 atividade 1. Leia os textos abaixo e, em seguida, informe uma das interpretações que o aluno/leitor poderia ter após a leitura de cada um deles. Texto I Texto II 2. Escreva um texto, tendo como referencial a mensagem apreendida com a leitura deste cartum. SAIBA MAIS! Links http://www.filologia.org.br/ix cnlf/9/09.htm http://www.lucerna.com.br/d ownloads/8586930180.pdf (sugestão de leitura) PARA REFLETIR nós, como falantes de u ma língua, reconhece- mos – e usamos – mane iras diferentes de or- ganizar a nossa fala cad a vez que estamos em situações diferentes. Como os diferentes gêneros textuais se relacio- nam com a situação de prod ução? 26 Fascículo 2 2.Histórias em quadrinHos na saLa de auLa Citadas anteriormente como gêneros de lingua- gem mista, as histórias em quadrinhos são textos geralmente associados à ideia de diversão e assim considerados por alguns educadores que assumem uma postura ainda bastante tradicional, como ina- dequados para utilização em sala de aula. O que você pensa a esse respeito? Será mesmo inadequado? A linguagem utilizada em algumas das histórias em quadrinhos pode influenciar negativamente na oralidade e na escrita do aluno? As histórias em quadrinhos podem ser definidas como arte sequencial, pois são desenhos em se- quência que narram uma história; podem ou não apresentar humor. A comunicação se faz através de imagens que os interlocutores identificam. A leitu- ra se dá partindo da relação que é feita entre a ima- gem (icônicos) e a parte verbal (elementos linguís- ticos), percebendo-se as relações de causa e efeito. A imagem pode reforçar a mensagem verbal (ou vice-versa) ou podem estar, ambas, desvinculadas, resultando num efeito humorístico. Há, porém, histórias que apresentam apenas a parte não-ver- bal, exigindo do aluno mais estratégias para que haja a compreensão leitora. A mensagem linguística nesse tipo de texto apre- senta-se sob dois aspectos: • O narrativo (descrição do quadro, da situação, das ações; marcador do tempo); • O diálogo, geralmente, aparece dentro dos ba- lões, incorporando-se à imagem. O contorno dos balões pode indicar fala, pensa- mento, palavras grifadas ou sussurradas. Para que o aluno/leitor compreenda o que lê, é ne- cessário ter um conhecimento prévio que o faça reco- nhecer onomatopeias, sequência de leitura dos diá- logos e dos quadrinhos e demais símbolos utilizados. As mensagens veiculadas nas histórias em quadri- nhos são as mais diversas, muitas com o único ob- jetivo de entreter; outras, apresentam valor instru- cional _ podem ser usadas para uma campanha de economia de energia, para alertar sobre riscos de doenças ou para transmitir informativos de trânsi- to, por exemplo. Na sala de aula, após as leituras constantes dessa modalidade textual, os alunos vão tornando-se ap- tos para a produção de histórias em quadrinhos, motivando-se para a escrita e adquirindo habilida- des criativas. A imagem, atualmente, vem ocupando espaço e interferindo cada vez mais no cotidiano das pesso- 27Fascículo 2 3. Gênero Literário e não-Literário Olá, pessoal! Não falta assunto quando a inten- ção é falar sobre gêneros textuais. Vimos no tó- pico anterior “Histórias em quadrinhos na sala de aula”. Certamente, você pôde apreender, através das ideias expostas, links visitados e realização das atividades, muitas infor- mações para a sua “bagagem” de conhecimentos e direcionamentos para a sua prática pedagógica. Agora, iremos fazer uma distinção entre gêneros literários e não-literários. Como você os distingue? Por que alguns gêneros são considerados literários e outros não? A preocupação com a identificação de gêneros não começou com os estudos gramaticais nem com os textos que utilizamos no dia-a-dia. Foi na literatura que surgiram as primeiras classificações sobre os gêneros, fato que passa a ser intensificado no fi- nal do século XX, quando os estudos que abordam a linguagem humana (os estudos linguísticos e os gramaticais) começam a se preocupar com o texto. 3.1. o Literário Muitos entendem o texto literário como um texto que apresenta rimas, versos, palavras diferentes, um mundo imaginário, distante da nossa realida- de. Mas, não é bem assim! Para ser literário, o texto deve apresentar uma linguagem literária, em que se apresentem recursos expressivos que chamem atenção para a maneira como ela própria está sen- do construída. A diferença entre o texto literário do não-literário está na relevância do plano de ex- pressão, que, nele, serve não apenas para veicular conteúdos mas também para recriá-los em sua or- ganização, enquanto o não-literário não apresenta esta característica. 3.2. o não-Literário Este tem objetivo claramente utilitário: visa infor- mar o leitor/ouvinte sobre um conhecimento con- siderado científico. Apresenta linguagem objetiva e impessoal, e a função de linguagem predominan- te é a referencial. as; assim, justifica-se, além das leituras dos textos verbais apresentados nos livros em geral, a leitura da imagem através dos diversos suportes: jornais, livros didáticos, gibis, etc. atividade 1. Leia, apenas, a parte verbal dos quadri- nhos abaixo; em seguida, leia, apenas, a parte não-verbal. a. Sem as imagens, a história teria sentido completo? b. E sem a linguagem verbal? c. Qual a relação entre essas duas linguagens nessa história em quadrinhos? 2. Monte uma história em quadrinhos. Crie personagens, capriche no aspecto visual! A mensagem deve ser em torno de uma discussão sobre o uso de histórias em qua- drinhos na sala de aula. SAIBA MAIS! Links http://www.intercom.org.br/p apers/nacionais/2003/ www/pdf/2003_NP11_santos _roberto.pdf http://www.burburinho.com/ 20051029.html http://www.burburinho.com/ 20051030.html PARA REFLETIR Os quadrinhos afastam as cr ianças e os adoles- centes do mundo dos livros ou podem representar um valio so recurso pedagógico em sala de aula? Fo nt e: Jo rn al O G lo bo , 2 7 de a go . 2 00 2 28 Fascículo 2 Tanto os textos literários quanto os não-literários são assim classificados por um conjunto de fatores que não podem ser vistos de maneira isolada. A sua função pode variar, e isso depende da função predominante que o texto exercer na interação. Dessa forma, nem o tema nem a maneira de orga- nizar e explorar o vocabulário podem, por si sós, justificar uma classificação. Os textos não-literários priorizam a informação, pois esta é a sua finalidade maior, enquanto os as- pectos considerados estéticos, como a sonoridade, a linguagem figurada, elementos estruturais especí- ficos, ficam em segundo plano, aspectos estes evi- denciados nos textos literários. atividade | Leia o texto que segue, analise-o e informe a classificação do gênero, fazendo as justificativas necessárias. visuaL rebuscado, fraseado simPLes Uma pesquisa con- duzida na Univer- sidade de Havard (EUA) mostrou que os saguis-cabeça-de- algodão (Saguinus oedipus), espécie da Colômbia, são capa- zes de identificar e memorizar estruturas simples de frases, mas não, os modelos com- plexos usados pelos humanos. No experimento, os macacos usaram dois tipos de sequências com uma gramática fictícia, que utili- zam sílabas formadas por uma consoante e uma vogal, chamadas de A e B. Na primeira série, A era seguido de B; na segunda, as primeiras e últimas sílabas eram A e B, como se estivessem espelhadas. Ao escutarem “frases” similares, mas agora com alguns erros de sintaxe, os saguis identificavam as incorreções apenas nas estruturas simples. A descoberta pode parecer óbvia, mas confir- ma uma teoria defendida pelo linguista Noam Chomsky e pelos autores do estudo – os biólogos William Tecumseh Fitch, da Universidade de Saint Andrews (Reino Unido), e Mark Hauser, de Havard. Eles afirmam que o desenvolvimento da sintaxe foi essencial para que a linguagem huma- na surgisse dentro do processo evolutivo. (Revista Galileu, n.151, fev. 2004, p. 8) A variedade de gêneros é muito heterogênea. Há uma infinidade de gêneros que circulam cumprindo uma função sociocomunicativa. Eles não apresentam li- mites definidos e sobrepõem-se frequentemente. Marcuschi (2002) lista alguns:horóscopo, carta pes- soal, bula de remédios, aula expositiva, telefonema, conversação espontânea, edital de concurso, carta comercial, bilhete, inquérito policial, entre outros. A carta pessoal já foi bastante utilizada como um tipo de correspondência enviada a amigos e fami- liares, quando queríamos tratar de assuntos parti- culares e de maneira mais detalhada que no bilhe- te. Hoje, este gênero vem perdendo espaço para outros gêneros. Quais são eles? Quais as vantagens e/ou desvantagens que isso trouxe para as pessoas? Função referencial: quando o foco recai sobre o referente, sobre o assunto. A comunicação visa, predominantemente, discorrer sobre um assunto de maneira denotativa. SAIBA MAIS! Links http://educacao.uol.com.br/p ortugues/ult1693u17.jhtm http://www3.unisul.br/pagina s/ensino/pos/linguagem/ cd/Port/53.pdf Fo nt e: K on ra d W ot he / M in de n Pi ct ur es Saguis cabeça-de- algodão só entendem gramática normal. 29Fascículo 2 4. o Gênero Poético na escoLa os Poemas Os poemas são pássaros que chegam não se sabe de onde e pousam no livro que lês. Quando fechas o livro, eles alçam vôo como de um alçapão. Eles não têm pouso nem porto alimentam-se um instante em cada par de mãos e partem. E olhas, então, essas tuas mãos vazias, no maravilhoso espanto de saberes que o alimento deles já estava em ti... Fonte: QUINTANA, Mário. Esconderijos do tempo. Porto Alegre: L&PM,1980. Você gosta de textos poéticos? Costuma ler este gênero? A que você atribui o gostar ou não gostar de poesias? A poesia é um texto literário, disposto em versos; caracteriza-se por explorar a sonoridade, fazer uso de imagens, empregar a linguagem com sentido co- notativo e expressar a subjetividade do eu lírico. O poema é um gênero textual, a unidade de poesia. O poema, muitas vezes, passa a ser a parte mais “sacrificada” da literatura, devido ao tratamen- to dado a esse gênero na sala de aula. Em geral, sugere-se primeiramente a leitura silenciosa, um “reconhecimento” do texto e, nesse momento, o aluno é levado a procurar algo que será desenvolvi- do nas aulas de português, ou seja, o que acontece é uma abordagem utilitária e mecanicista, que não adentra no texto. Este será um instrumento para se resolverem exercícios sobre conceitos gramaticais. Outra estratégia sugerida pelos livros didáticos é a leitura dos poemas para dramatização, jogral. Esse tipo de atividade é válido, mas é preciso uma pre- paração para evitar uma redução nas possibilida- des de exploração do texto. Um outro agravante diz respeito a falhas na escolha dos poemas. Pode estar aí a justificativa para explicar o fato de que muitos professores (por ter sido assim trabalhados na época de estudantes) e alunos (por vivencia- rem hoje dinâmicas nada atrativas) não gostarem de poesia. CHIAPPINI (2007) observa: Os mais variados assuntos (desde a ordem alfabética até as diferentes escolas literárias) fazem com que o texto poético esteja presente em sala de aula”. Assim, justifica que essa relação criada entre o poema e o conteúdo programático pode comprometer a escolha, trazendo distorções diversas. É preciso escolher, então, entre nossos grandes po- etas os poemas que encontram maior ressonância no aluno, e ninguém melhor do que o professor para fazer essa escolha, pois é ele quem conhece bem o aluno, os seus interesses e gostos. Aspectos, como exploração do sentimento e do sensorial, tema, ritmo, rima, linguagem, de exten- são dos versos, devem ser levados em consideração no momento da escolha. Conhecer bem o plano de expressão linguístico, saber explorar a sonoridade e a significação das pa- lavras é imprescindível para o professor. É preciso estar envolvido para envolver. SAIBA MAIS! Versos, sons, ritmos. 3 e d., de norma golds- tein. ed. Ática. Links http://www.crmariocovas.sp.g ov.br/lei_a.php?t=020#artigo http://www.filologia.org.br/so letras/8sup/6.htm http://www.partes.com.br/ed ucacao/poesiaemaula.asp PARA REFLETIR O que, dentro e fora do con texto escolar, interfere no interesse dos alu nos no que tange ao texto poétic o? 30 Fascículo 2 atividade 1. Leia o poema. soneto Luís de Camões Quem diz que Amor é falso ou enganoso, ligeiro, ingrato, vão, desconhecido, Sem falta lhe terá bem merecido Que lhe seja cruel ou rigoroso. Amor é brando, é doce e é piedoso; Quem o contrário diz não seja crido: Seja por cego e apaixonado tido, E aos homens e inda aos deuses odioso. Se males faz Amor, em mim se vêem; Em mim mostrando todo o seu rigor, Ao mundo quis mostrar quanto podia. Mas todas suas iras são de amor; Todos estes seus males são um bem, Que eu por todo outro bem não trocaria. 2. Interprete o poema lido. 3. De que forma, você exploraria o poema de Camões numa sala de aula? 5. Projetos: faciLitando o ensino-aPrendizaGem Despertar o interesse do aluno para a aquisição da aprendizagem no contexto atual não é fácil. Vi- vemos num período de transição, as informações chegam até nós com uma velocidade em nada com- parável com a forma como chegavam em décadas passadas. Vive-se num contexto no qual o lúdico, os jogos eletrônicos, a Internet, a TV chamam, muitas vezes, mais atenção do que qualquer outra prática vivenciada na escola. Essa realidade exige dos edu- cadores habilidades diversas no sentido de atrair os educandos para atividades que proporcionem a aprendizagem, quando estes não foram preparados para tanto em sua formação inicial. Além disso, muitos professores precisam assumir mais de um emprego devido aos baixos salários recebidos, não lhes sobrando tempo para investir na sua formação continuada e/ou mesmo para se atualizarem, esta- cionando numa prática pedagógica pouco dinâmi- ca e, consequentemente, menos atrativa e eficiente. E aí? O que fazer? Depois da publicação dos Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN), muito tem se falado em “pro- jeto”, como prática estratégica para o ensino. A realização de projetos na escola facilita o ensino- aprendizagem, alcançando excelentes resultados. Saber mais sobre projetos será válido para você, fu- turo professor! Assim, poderá criar e desenvolvê-los em consonância com a sua realidade, seja ela qual for. 5.1. Projetos: o que são? A palavra projeto significa plano geral de constru- ção para realizar qualquer ato, empreendimento e está baseado na participação. São instrumentos que possibilitam uma melhor forma de se trabalha- rem os conceitos de maneira voltada para o aluno, percebendo diferentes formas de aprender, os dife- rentes níveis de interesse assim como as dificulda- des e o potencial de cada um. Permite também ao aluno a busca de novos conhecimentos e o apro- fundamento dos antigos, resultando numa expe- riência repleta de realizações fundamentais para o seu desenvolvimento como um todo. GARDNER (pai da Teoria das Inteligências Múlti- plas) revela-nos: um projeto proporciona uma oportunidade para os alunos ordenarem conceitos e habilidades previamente domina- das, a serviço de um novo objetivo ou empreendimento. Assim, vale salientar que um verdadeiro Projeto vai além de simples atividades, ou trabalhos de pes- quisa sobre um determinado assunto. A sua ela- boração exige cooperação, esforço pessoal, comu- nicação, criatividade, planejamento, estratégias, “exigências”, tais que dão a oportunidade para os alunos organizarem os conceitos adquiridos numa prática dinâmica e eficiente. Sobre o trabalho com projetos, SMOLE (1996) afirma que o modo de trabalhar com projetos não deve ser rígido, e a situação de cada momento orientará a forma de cada etapa do trabalho. No entanto, isso não significa que se deva ter uma ati- 31Fascículo 2 tude espontaneísta na condução das atividades: é importante que haja um planejamento sobre oque vai ser feito a cada dia, sobre qual material será necessário a cada etapa, e onde ou a quem será fei- ta consultas para obter informações ou ajuda nas questões sugeridas durante a elaboração ou realiza- ção do projeto. Sistematizando algumas das informações já repas- sadas anteriormente, os projetos devem conter: • Objetivos; • Planejamento; • Diagnóstico; • Estratégias; • Levantamento de dados e de hipóteses práticas; • Avaliação. Devem proporcionar: • A melhoria da prática pedagógica; • Valorização dos profissionais da educação; • O engajamento dos alunos em atividades prá- ticas e funcionais; • Produção e distribuição de material escrito por educadores e educandos; • Melhoria das relações educadores e educandos e vice-versa, da escola e da comunidade. Devem: • Ser coerentes com os diagnósticos e objetivos; • Prever ações que assegurem mudanças; • Apresentar cronograma detalhado das atividades. Você já elaborou algum projeto didático? Imagina ser difícil? Que projeto criaria para despertar nos alunos o gosto pela leitura? Apenas pense! Prepare-se para elaborar o seu! Leia mais sobre a temática. No próximo tópico, este será o assunto em discussão. até Lá! 6. os Projetos na escoLa Dando continuidade ao tópico anterior, falare- mos sobre projetos, agora de forma mais específica quanto ao espaço de sua realização. Vamos lá? Definindo amplamente projetos, estes são planos, estudos, pesquisa; o que se tem a intenção de fazer; desígnio, intento... tudo isso com um fim, um pro- pósito. Trazendo para o contexto escolar, definiría- mos projeto como uma forma de trabalho para vi- venciar os conteúdos, visando à aprendizagem, de maneira mais prática e atraente, focada no aluno, buscando perceber as dificuldades e potencialida- des de cada um, conforme vimos na introdução do tema, no tópico anterior. Os projetos desenvolvi- dos na escola fazem parte de um processo de ino- vação aberto, a partir de uma necessidade inicial e que vai passando por transformações. Esses proje- tos podem ser um passo a mais no replanejamento que a escola faz no seu trabalho pedagógico, a fim de conseguir melhores resultados relacionados ao ensino-aprendizagem. Seria, também, uma forma de vincular a teoria com a prática, relação esta em que os projetos constituiriam uma concretização de ações previstas. 6.1. Projetos didáticos São conjuntos organizados e sequenciados de in- tervenções pedagógicas relacionadas com um tema específico que, vivenciados na escola, têm como finalidade alcançar a aprendizagem de forma mais dinâmica e concreta. Essa proposição justifica o fato de que os projetos didáticos não podem ser vistos como uma sequência de atividades, uma apresentação linear de um tema. É preciso que apresente problematizações que levem o aluno a questionamentos, buscando respostas, agindo e transformando situações. 32 Fascículo 2 Este tipo de projeto permite o diagnóstico das difi- culdades da aprendizagem, o desenvolvimento das habilidades e competências diversas nos educan- dos, além da construção e aplicação de conceitos, seleção, organização, interpretação de dados e in- formações representadas de diferentes formas, esta- belecendo conexões entre áreas de conhecimento. O projeto didático também permite ao aluno a exposição de suas opiniões assim como o contato com outros pontos de vista; a vivência de situações nas quais ele argumenta e faz pesquisa; a autoava- liação dentro do processo, tornando-o mais autô- nomo e responsável pelo seu próprio processo de construção do conhecimento. O professor, ao realizar projetos didáticos, também tem a oportunidade de aprender, envolvendo-se de forma ativa, conhecendo mais sobre as temáticas, ampliando suas possibilidades de intervenção, criando estratégias diversas para possibilitar uma avaliação mais significativa do processo de apren- dizagem. É o professor quem coordena as ativida- des, levando em consideração a sua lógica como também a lógica das outras pessoas inseridas no processo; planeja suas ações, organizando o tempo de forma global; cria espaços para as investigações, para o estudo e para as pesquisas. 6.2. estrutura do Projeto didático O projeto didático deve focar itens, como: • Proposta ou apresentação: neste espaço, ante- cipa-se o assunto, apresentando-se o produto que será desenvolvido; • Justificativa: explicita-se a escolha do tema, justificando como o projeto contempla a aprendizagem; • Objetivos: evidenciam-se os objetivos didáti- cos relacionados às disciplinas envolvidas; • Desenvolvimento: apresentam-se as ativida- des, relacionando-as aos objetivos a serem al- cançados, organizando-as em sequências ideais para a concretização da aprendizagem; • Avaliação do aluno e do professor: os indica- dores relacionados aos objetivos e aos conte- údos do projeto; os critérios relacionados aos objetivos didáticos; situações de avaliação ini- cial, formativa e somativa; instrumentos utili- zados são, neste item, apresentados. 7. etaPas Para eLaboração de um Projeto no ambiente escoLar Toda e qualquer prática pedagógica desenvolvida na escola deve ter um por- quê que a justifique. Concorda? A prática de projetos não é diferente. A ideia de produção de um projeto surge a partir de um levan- tamento dos problemas existentes na escola, reali- zado após observação/análise de um diagnóstico. É justamente nesta fase que se precisa definir: • Para quem? • Por quê? • Recursos? • Onde? • Duração • Critérios e alternativas Assim estaremos num processo de elaboração do planejamento de um projeto. Esta é uma fase mui- to importante, pois é através desse planejamento que se busca a maximização dos resultados, trazen- do diversas vantagens para a escola como um todo. SAIBA MAIS! A organização do currícu lo por projetos de tra- balho: o conhecimento é um caleidoscópio, de Fernando Hernández/m ontserrat Ventura. ed. Artmed. Links http://www.educacional.com. br/projetos/comomontar.asp projeto didático – planejam ento: conteúdo, ques- tões conceituais, procedi mentais, atitudinais. – Sílvia pereira: http://www.construirnoticias. com/ PARA REFLETIR Qual a importância dos pro jetos didáticos na escola? De que modo eles podem co ntribuir para a eficiência do ensino-a prendizagem? 33Fascículo 2 QUEIROZ, BRAGA e LEICK (2001), no livro Pe- dagogia de Projetos, cita algumas dessas vantagens: a. Os envolvidos sabem aonde querem chegar; b. Todos passam a saber o porquê do caminho escolhido; c. Estimula o crescimento individual e coletivo; d. Utiliza e valoriza os envolvidos (educadores e educandos). Enfim, o planejamento permite buscar formas adequadas e racio- nais para se alcançarem os objetivos desejados, o que não determina uma rota única, rígida, dogmática, mas a bus- ca de caminhos facilitadores, ecléticos para o alcance dos objetivos propostos. Uma outra etapa vinda logo após o planejamen- to do projeto é o desenvolvimento das estratégias; estas devem estar em consonância com as condi- ções e realidade da escola, mas ao mesmo tempo, compatíveis com as tendências atuais e que possam favorecer a resolução dos problemas, o desenvolvi- mento das habilidades e competências dos educan- dos e educadores. Para o êxito na execução de projetos na escola, é também importante que se observe o ambiente interno e externo, pois eles influenciam direta e indiretamente a escola e permitem: prever – pla- nejar – organizar – executar e avaliar. O ambiente interno precisa estar preparado para aceitar e pro- mover as mudanças. Ter uma visão clara e precisa da realidade fora da escola é também fundamental. O contexto externo e social no qual os alunos e a comunidade escolar estão inseridos reflete na sala de aula, no cotidiano dos professores e dos alunos. Sendo a escola uma instituição social, ela é fruto deuma cultura com crenças, valores, regras de compor- tamento. Dessa forma, quando os valores são claros e aceitos, a escola funciona mais harmoniosamente. Pensar os objetivos é também uma etapa a ser segui- da. Estes devem levar em consideração a filosofia e serem pautados nos valores e na missão da escola. A avaliação deve aparecer na sequência, objetivan- do avaliar os resultados periodicamente para assim se rever planos e corrigir possíveis falhas. Nesse caso, não se recomenda a avaliação em forma de testes, oral ou dissertativa, para que não se alterem as emoções e a autoestima, já que assim se coloca em evidência a competência de alguns e incompe- tência de outros. atividade 1. Responda: a. Qual a sua definição para projeto? b. Como se constrói um projeto? 2. Interprete e comente a proposição referen- te à execução de projetos no contexto esco- lar: “É preciso tratar os erros com carinho e redimensionar os projetos.” 3. Podemos considerar a sociedade atual como uma sociedade de projetos? Por quê? Pense sobre isso! 8. Projetos de Leitura e escrita Após refletir sobre a importância dos projetos para a eficiência do ensino dos conteúdos no ambiente escolar e as habilidades que estes ajudam a desen- volver tanto no aluno quanto no educador, o que você, estudante de Letras, tem como metas para fa- zer da sua prática pedagógica uma prática satisfató- ria, trazendo cada vez mais o aluno para o universo escolar, com prazer e vontade de aprender? Tratando-se do processo de leitura e da escrita e, tendo em vista que esses são os eixos que fundamen- tam o ensino da língua, é imprescindível ficarmos atentos a práticas inovadoras e, ao mesmo tempo, estimulantes que despertem o gosto pela leitura e, paralelo a isso, despertem também o gosto pelo ato de escrever com criatividade, coerência e coesão. Não se pode cair na tentação de ter como refe- rência para o ensino da língua o quadro e textos pobres em significação, distantes da realidade do aluno. Muitos professores revelam-se contraditó- rios ao assumirem uma prática totalmente diferen- 34 Fascículo 2 te da concepção que defendem na teoria, ou seja, defendem as concepções avançadas de educação, mas, na verdade, no dia-a- dia, na prática de sala de aula, agem de forma conservadora, tradicional, em nada contribuindo para a formação de um cida- dão crítico, capaz de comunicar e fazer-se entender com mais êxito. Assumindo determinadas posturas inadequadas, o professor comete alguns “pecados”, no que tange a um trabalho com a leitura e a escrita. Esse fato é muito bem mostrado nos cartuns da Mafalda, ide- alizados pelo cartunista Quino. Veja! As duas tiras mostram situações em que a professo- ra propõe textos sem relação com as necessidades e a vida do aluno. Assim, faz-se necessário pensar em ações inteligíveis e concretas. Os projetos de leitura e escrita (práticas inseparáveis) constituem um excelente procedimento para o ensino-aprendi- zagem, priorizando a linguagem, vivenciando-a de forma significativa. De acordo com os Parâmetros Curriculares Nacio- nais: Língua Portuguesa – vol. 2 – p. 63, 2001: os projetos são situações em que linguagem oral, linguagem escrita, leitura e produção de textos se inter-relacionam de forma contextualizada, pois quase sempre envolvem ta- refas que articulam esses diferentes conteúdos. São situ- ações linguisticamente significativas, em que faz sentido, por exemplo, ler para escrever, escrever para ler, ler para decorar, escrever para não esquecer, ler em voz alta, em tom adequado. Nos projetos, em que é preciso expor ou ler oralmente para uma gravação que se destina a pessoas ausentes, por exemplo, uma circunstância interessante se apresenta: o fato de os interlocutores não estarem fisica- mente presentes obriga a adequar a fala ou a leitura, a fim de favorecer sua compreensão, analisando o tom de voz e a dicção, planejando as pausas, a entonação, etc. Os projetos de leitura são excelentes situações para contextualizar ne- cessidade de ler e, em determinados casos, a própria leitura oral e suas convenções. SAIBA MAIS! A criança e o livro: guia prático de estímulo ao livro (Laura c. Sandroni / Luiz raul machado – org.) ed. Ática. Literatura Infantil: Teoria e prática (maria An- tonieta Antunes cunha) ed. Ática. como incentivar o hábit o pela leitura (richard Bamberger) ed. Ática. Links http://www.educarede.org .br/educa/index.cfm?pg= ensinar_e_aprender.turbine_in terna&id_dica=198 http://www.abrelivros.org.br/ abrelivros/texto.asp?id=1590 35Fascículo 2 reSumO Os gêneros textuais são considerados ferramentas que possibilitam a eficiência da apren- dizagem nas diversas áreas do ensino, redefinindo a concepção adotada por muitos pro- fessores em apenas trabalhar a tipologia clássica: narração, descrição e dissertação, permitindo ao aluno se especializar nas diferentes modalidades textuais, orais e escritas, de uso social. Vimos as historinhas em quadrinhos como sendo textos que também podem ser utilizados em sala de aula, despertando o gosto do aluno pela leitura assim como o desenvolvimen- to de diversas habilidades úteis à sua formação como leitor e produtor de textos. Vimos que os gêneros podem ser classificados como literários e não-literários, enquanto aqueles apresentam uma função estética, estes têm uma função mais utilitária (informar, convencer, explicar, responder, ordenar, etc.). O texto poético é um gênero literário, assim classificado devido à sonoridade, plano expressivo, imagens de sentido, conteúdos e linguagem apresentada. É um texto, muitas vezes, marginalizado pela maneira como é utilizado em sala de aula. Os projetos são práticas estratégicas que visam à melhoria e à eficiência do ensino; são iniciativas diversificadas, elaboradas partindo do conhecimento da realidade, gerando o aprendizado e conceitos de valores. Utilizar projetos para o ensino constitui uma excelente opção para a eficiência da aprendizagem. Os projetos vivenciados na escola são uma forma de organização das situações didáticas, objetivando a superação de práticas habituais, possibilitando aprendizagens significativas. O planejamento para a elaboração de um projeto se faz necessário assim como a defi- nição dos passos a serem seguidos, levando-se em consideração a realidade do aluno e da própria escola. Essas atitudes em muito contribuem para a qualidade e eficiência dos projetos. Alguns desses passos são: planejar os objetivos, as estratégias e a avaliação. As propostas de projetos de leitura e de escrita dizem respeito a situações concretas de leitura e produção escrita que favorecem determinadas práticas cotidianas de sala de aula, que normalmente, quando descontextualizadas, não fazem sentido para o aluno. reFerÊncIAS CEREJA, William Roberto e MAGALHÃES, The- reza Cochar. Português Linguagens. Vol. Único. 1 ed. São Paulo: Moderna, 2003. CHIAPPINI, Lígia. Aprender e ensinar com textos não escolares. 5 ed. São Paulo: Cortez, 2002. FIORIN, José Luís e SAVIOLI, Francisco Platão. Lições de Texto: leitura e redação. 4 ed. São Paulo: Ed. Ática, 2001. LEITE, Lúcia Helena Alvarez. Pedagogia de Pro- jetos: intervenção no presente. Revista Presen- ça Pedagógica. Ano 2, nº 7, Nov. 1998/jan., 1999. ______. Pedagogia dos projetos: intervenção no presente. Revista Presença Pedagógica, v. 2, no 8, março/abril de 1996. pág. 24-33. QUEIROZ, Tânia Dias; BRAGA, Márcia M. V.; 36 Fascículo 2 LEICK, Elaine Penha. Pedagogia de projetos in- terdisciplinares. ROJO, Roxane (org.). A prática de linguagem em sala de aula: praticando os PCNs. São Pau- lo/Campinas: Educ/Mercado de Letras. 2000. SARMENTO, Leila Lauar. Oficina de redação. 3 ed. São Paulo: Moderna, 2006. SILVA, Ezequiel Theodoro. Unidades de leitura. Campinas, SP: Autores Associados, 2003.