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DIREITOS HUMANOS – CAIO PAIVA 
CURSO CEI - AULA 01 – 03.05.2021 
 
 
CONCEITO, TERMINOLOGIA E 
FUNDAMENTAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS 
 
1. Conceito 
Há pelo menos duas técnicas distintas por meio das quais podemos 
chegar ao conceito de direitos humanos. 
A primeira técnica, que classifico como generalista, não diferencia 
direitos humanos de direitos fundamentais; para esta técnica direitos 
humanos seriam conjunto de direitos essenciais para consecução de 
uma vida digna para todos os srres humanos independentemente de 
condição social; trabalha com um conceito de direitos humanos 
material, no sentido de não separar – ao menos de forma rígida – as ordens 
jurídicas interna e internacional, incluindo naquela categoria todos os 
direitos essenciais à consecução de uma vida digna, estejam eles pre- 
vistos em Constituições nacionais ou em tratados internacionais. 
A técnica específica temos que diferenciar direitos humanos de direitos 
fundamentais seja porque os mecanismos de proteção são diferentes 
seja porque o direito internacional dos direitos humanos se constitui um 
ramo autônomo em comparação com direito internacional. Os direitos 
humanos seriam apenas aqueles essenciais para vida digna porém 
previstos em instrumentos internacionais de proteção. 
A segunda técnica, que classifico como específica, trabalha com um 
conceito de direitos humanos formal, no sentido de considerar como 
integrante desse catálogo de direitos essenciais à consecução de uma 
vida digna somente aqueles previstos em instrumentos internacionais, 
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no que eles se diferenciam, portanto, dos direitos fundamentais, que são 
assegurados pelas Constituições nacionais e protegidos pela ordem jurí- 
dica interna. 
O professor adota o seguinte conceito: direitos humanos são o conjunto 
de direitos previstos em instrumentos internacionais que proporcionam 
a todos os seres, independentemente de qualquer condição, a base 
essencial para que tenham uma vida digna e para que se protejam 
contra violações praticadas ou toleradas pelo Estado. 
A expressão direitos humanos com certeza está mais presente no 
vocabulário e no imaginário popular do que a expressão direitos 
fundamentais, sendo muito utilizada, por exemplo, nas lutas sociais por 
reivindicação de direitos e na denominação de departamentos ou órgãos 
estatais que têm como objetivo a promoção e a proteção dos direitos 
essenciais ao ser humano. No entanto, embora a uniformização 
conceitual em torno dos direitos humanos e dos direitos fundamentais 
tenha seus méritos, tratando-se do ambiente acadêmico ou doutrinário, 
em que é exigida a precisão terminológica, o professor filia-se à técnica 
específica e associo os direitos humanos à ordem jurídica internacional, 
no que eles se diferenciam dos direitos fundamentais, que são protegidos 
pela ordem jurídica interna. 
O professor considera que a técnica específica tem uma grande 
vantagem sobre a técnica generalista, que consiste na compreensão dos 
direitos humanos como uma disciplina autônoma, não se confundindo, 
portanto, com o Direito Constitucional. Embora exista uma grande 
similaridade no catálogo dos direitos humanos (previstos em 
instrumentos internacionais) e dos direitos fundamentais (previstos em 
Constituições nacionais), seus mecanismos de proteção e o intérprete 
autêntico dos textos que lhes protegem não se confundem. 
No Brasil, por exemplo, enquanto os direitos fundamentais previstos nos 
textos constitucionais encontram no Supremo Tribunal Federal a última 
instância de proteção, os direitos humanos assegurados em tratados 
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rompem a barreira da jurisdição nacional para submeter o Estado a um 
processo de responsabilidade perante tribunais internacionais. Assim, 
para os fins desse curso, adota-se a técnica específica para promover a 
autonomia da disciplina de Direitos Humanos ou Direito Internacional 
dos Direitos Humanos, conceituando os direitos humanos como sendo 
o conjunto de direitos previstos em instrumentos internacionais que 
proporcionam a todos os seres humanos, independentemente de 
qualquer condição, a base essencial para que tenham uma vida digna e 
para que se protejam contra violações praticadas ou toleradas pelo 
Estado. 
Vejamos separadamente cada parte desse conceito para sua melhor 
compreensão: 
1) ao conceituar direitos humanos como sendo o conjunto de direitos 
previstos em instrumentos internacionais, o professor manifesta – como 
já afirmado anteriormente – a sua adesão ao entendimento que os 
associa à ordem jurídica internacional; 
2) a titularidade dos direitos humanos também compõe o seu conceito 
ao estabelecer que eles se aplicam a todos os seres humanos, 
independentemente de qualquer condição, decorrendo disso uma das 
características mais marcantes dos direitos humanos, que é a sua 
universalidade; 
3) o professor considera importante incorporar ao conceito de direitos 
humanos também a sua delimitação objetiva, no sentido de dizer que 
nem todos os direitos titularizados pelos seres humanos devem ser 
elevados a essa categoria, mas somente aqueles que integram a base 
essencial para a vida digna e para proteção contra violações; e 
4) a última parte do conceito de direitos humanos ressalta que na ordem 
jurídica internacional somente o Estado responde pela violação 
desses direitos, o que pode ocorrer tanto por conduta praticada 
diretamente por seus agentes quanto pelo descumprimento de 
obrigações positivas de adotar as medidas necessárias para proteger os 
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direitos humanos nas relações interindividuais. 
2. Terminologia 
Prosseguindo, para fixar a base conceitual que irá nortear os rumos 
desse curso, confrontemos o conceito atribuído à expressão direitos 
humanos com as diversas terminologias mencionadas anteriormente: 
1) a expressão direitos fundamentais, conforme já explicado, surgiu 
no contexto da proteção nacional dos direitos essenciais do ser humano, 
não sendo adequada, portanto, para designar os direitos previstos em 
tratados internacionais; 
2) a expressão direitos do homem, utilizada, por exemplo, na 
Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (França, 1789), na 
Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem (Bogotá, 1948) 
e na Convenção Europeia dos Direitos o Homem (Roma, 1950), tem sido 
cada vez menos utilizada após a Declaração Universal dos Direitos 
Humanos, pois pode ser interpretada com um caráter sexista no sentido 
de preterir os direitos da mulher; 
3) as expressões liberdades públicas e liberdades fundamentais, 
muito utilizadas pela doutrina francesa, devem ser evitadas atualmente 
por representarem mais os direitos de liberdade ou de primeira geração, 
sem abrigar os direitos de igualdade ou de segunda geração, o que 
também se aplica à expressão direitos individuais; 
4) e a expressão direitos humanos fundamentais, utilizada, por 
exemplo, no preâmbulo de Declaração Universal dos Direitos Humanos 
e também por um setor doutrinário, segue a técnica generalista 
anteriormente exposta, podendo provocar confusão conceitual a 
depender do ambiente em que for empregada. 
Qual a proteção mais ampla: a dos direitos humanos ou a dos 
direitos fundamentais? No aspecto territorial, a proteção dos direitos 
humanos se revela mais ampla, na medida em que ultrapassa as 
fronteiras do país e encontra mecanismos de monitoramento em 
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instâncias e tribunais internacionais. Por outro lado, no aspecto 
material, a proteção dos direitos fundamentais pode ser mais ampla, 
principalmente em países como o Brasil, em que a Constituição é prolixa 
na previsão de direitos fundamentais e sociais, como, por exemplo, os 
direitos ao FGTS, ao terço de férias etc. 
3. Fundamentação dos direitos humanos 
Quando se fala em fundamentação dos direitos humanos, busca-se a 
sua razão justificativa ou a sua fonte legitimadora. Trata-se de um 
assunto mais ligado à Filosofiado Direito do que, especificamente, ao 
Direito Internacional dos Direitos Humanos. 
Existem diversas teorias que se propõem a fundamentar os direitos 
humanos, sendo as principais a jusnaturalista e a positivista, 
havendo, ainda, a teoria negacionista (que veremos em primeiro lugar). 
Para a teoria negacionista, cujo maior expoente é Norberto Bobbio, é 
impossível encontrar um fundamento único ou absoluto para os direitos 
humanos, e isso por pelo menos três razões: 
1) a expressão “direitos humanos” é muito vaga e desprovida de 
consenso quanto ao seu significado; 
2) trata-se de uma categoria que varia conforme a sua evolução 
histórica; e 
3) os direitos humanos formam uma categoria heterogênea. Por isso, 
Bobbio afirma que “o problema grave do nosso tempo, com relação aos 
direitos humanos, não é mais o de fundamentá-los e sim o de protegê-
los”. 
Para a teoria jusnaturalista, o ser humano possui direitos naturais, 
anteriores e superiores ao Estado sejam eles oriundos de Deus (escola 
de direito natural de razão divina) ou da natureza inerente do ser 
humano (escola de direito natural moderno). 
Costuma-se apontar dois pontos frágeis da teoria jusnaturalista: 
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a) não há possibilidade de comprovação empírica ou mesmo teórica dos 
direitos naturais; se opõe à característica da historicidade (os direitos 
humanos não nasceram todos de uma vez mas a cada etapa da história 
a gente foi adquirindo direitos humanos); e 
b) há uma grande dificuldade em explicar a imutabilidade dos direitos 
naturais em razão da constante alteração do conteúdo de direitos 
essenciais ao indivíduo ao longo dos séculos. 
Para a teoria positivista, não há que se falar em direito natural, 
anterior e superior ao Estado, de modo que a fundamentação dos 
direitos humanos somente pode ser encontrada no ordenamento 
jurídico internacional (tratados, convenções, declarações etc.). 
Entre as críticas à teoria positivista, destaca-se a seguinte: aceita sem 
maiores questionamentos a não observância das normas internacionais 
de direitos humanos se não houver a aceitação ou incorporação da 
norma pela ordem interna de um Estado. 
Tanto a teoria jusnaturalista quanto a teoria positivista contribuíram 
para o processo de formação do Direito Internacional dos Direitos 
Humanos. 
FONTES, CLASSIFICAÇÕES, PRINCÍPIOS DE INTERPRETAÇÃO 
DOS TRATADOS DE DIREITOS HUMANOS E CARACTERÍSTICAS 
DOS DIREITOS HUMANOS NO DIREITO INTERNACIONAL 
1. Fontes 
No contexto jurídico, a expressão fontes é utilizada para identificar a 
gênese ou a origem dos direitos que protegem a pessoa. Assim, na 
disciplina de Direitos Humanos, quando buscamos as suas fontes, 
queremos encontrar a resposta para a seguinte pergunta: de onde vêm 
ou como nascem os direitos humanos? A doutrina, partindo da 
premissa de que a disciplina de Direitos Humanos seria um ramo 
específico do Direito Internacional Público – embora com independência 
e particularidades que analisaremos durante esse curso –, aceita que as 
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fontes dos direitos humanos estão previstas (em rol não exaustivo) no art. 
38.1 do Estatuto da Corte Internacional de Justiça, sendo elas: 
a) as convenções internacionais, quer gerais, quer especiais, que 
estabeleçam regras expressamente reconhecidas pelos Estados litigantes; 
b) o costume internacional, como prova de uma prática geral aceita como 
sendo o direito; 
c) os princípios gerais de direito reconhecidos pelas Nações civilizadas; e 
d) as decisões judiciais e a doutrina dos publicistas mais qualificados das 
diferentes Nações, como meio auxiliar para a determinação das regras de 
direito. Não há uma ordem hierárquica ou sucessiva na aplicação das 
fontes dos direitos humanos dispostas no art. 38.1 do ECIJ. No entanto, 
pela segurança jurídica que promovem, principalmente pelo fato de 
serem normas escritas e contarem com mecanismos de aferição da 
responsabilidade do Estado, os tratados indiscutivelmente são a fonte 
“primordial” dos direitos humanos. 
Vejamos rapidamente em que consiste cada fonte dos direitos humanos. 
1.1. Convenções internacionais 
No Direito Internacional dos Direitos Humanos, o conceito de tratado é 
previsto na Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados (CVDT), de 
1969, promulgada no Brasil pelo Decreto nº 7.030/2009, cujo art. 2.1 
estabelece que “tratado significa um acordo internacional concluído 
por escrito entre Estados e regido pelo Direito Internacional, quer 
conste de um instrumento único, quer de dois ou mais instrumentos 
conexos, qualquer que seja sua denominação específica”. 
Além da expressão tratados, outras também são utilizadas como 
sinônimos, como, por exemplo, carta, pacto, protocolo e convenção (o 
termo declaração, por sua vez, costuma ser utilizado para instrumentos 
soft law). 
A doutrina e os tribunais internacionais reconhecem que há uma 
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diferença entre tratados de direitos humanos e tratados que cuidem de 
outras matérias. Nesse sentido, a CIJ, em sua opinião consultiva sobre 
as reservas à Convenção para a Prevenção e Punição do Delito de 
Genocídio, afirmou que “nesse tipo de tratados [de direitos humanos], os 
Estados não têm interesses próprios; somente possuem, acima de tudo, 
um interesse comum: a consecução dos propósitos que são a razão de 
ser da Convenção”. 
A Corte Interamericana também se manifestou assim em sua Opinião 
Consultiva nº 2: 
“29. A Corte deve enfatizar, porém, que os 
tratados modernos sobre direitos humanos, em 
geral, e, em particular, a Convenção Americana, 
não são tratados multilaterais do tipo 
tradicional, concluídos em função de um 
intercâmbio recíproco de direitos, para o 
benefício mútuo dos Estados contratantes. Seu 
objeto e fim são a proteção dos direitos 
fundamentais dos seres humanos, 
independentemente de sua nacionalidade, tanto 
frente a seu próprio Estado como frente aos 
outros Estados contratantes. Ao aprovar esses 
tratados sobre direitos humanos, os Estados se 
submetem a uma ordem geral dentro da qual 
eles, pelo bem comum, assumem várias 
obrigações, não em relação aos outros Estados, 
mas sim em relação aos indivíduos sob a sua 
jurisdição”. 
Quando um tratado entra em vigor e se torna obrigatório para os Estados 
partes, estes devem observar alguns princípios, quais sejam: a) princípio 
pacta sunt servanda, previsto no art. 26 da CVDT – “Todo tratado em 
vigor obriga as partes e deve ser cumprido por elas de boa fé”; b) princípio 
da primazia do direito internacional, previsto no art. 27 da CVDT – 
“Uma parte não pode invocar as disposições de seu direito interno para 
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justificar o inadimplemento de um tratado”; e c) princípio da 
interpretação de boa fé, previsto no art. 31.1 da CVDT – “Um tratado 
deve ser interpretado de boa fé segundo o sentido comum atribuível aos 
termos do tratado em seu contexto e à luz de seu objetivo e finalidade”. 
1.2. Costume internacional 
Como fonte dos direitos humanos, o costume internacional pode ser 
conceituado como a prática generalizada dos Estados aceita como sendo 
o direito, nos termos do art. 38.1.b do ECIJ. 
Esse conceito abriga dois elementos: 1) um elemento material, que é a 
prática generalizada; e 2) um elemento subjetivo, que é a crença de que 
esta prática é obrigatória. 
Diferentemente dos tratados, o costume internacional obriga os Estados 
tacitamente, sem exigir uma manifestação explícita de aceitação nem 
uma incorporação formal na ordem jurídica interna. Aceita-se, 
majoritariamente, que um Estado somente pode deixar de cumprir um 
costume internacional quando tenha se comportado como um “objetor 
persistente”, comportamento este que deve ocorrer durante o processo de 
formação dos costumes internacionais, mediante manifestações 
permanentes e inequívocas de sua objeção a serem obrigados pelo 
respectivo costume. 
A figura do “objetor persistente”, porém, não se aplica às normas dejus cogens, também conhecidas como normas imperativas ou 
cogentes. São exemplos de normas cogentes a proibição do genocídio, da 
tortura, da escravidão e da discriminação racial. 
1.3. Princípios gerais do Direito 
Os princípios gerais do Direito são as normas de caráter mais genérico e 
abstrato que incorporam as concepções fundamentais da maioria dos 
sistemas jurídicas mundiais, sendo exemplos pertinentes ao Direito 
Internacional dos Direitos Humanos a proteção da dignidade da pessoa 
humana, o pacta sunt servanda, a boa-fé, o devido processo legal etc. 
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1.4. Decisões judiciais e doutrina dos publicistas 
Decisões judiciais são as sentenças, resoluções, recomendações, 
comentários gerais, entre outros provimentos emanados de órgãos 
judiciais ou quase-judiciais internacionais, podendo compreender 
também a jurisprudência nacional. A doutrina dos publicistas mais 
qualificados, naturalmente, não é qualquer doutrina, mas somente 
aquela com vocação e reconhecimento internacional, escrita por autor 
experiente e academicamente inserido nos mais diversos foros de 
discussão. No Brasil, pode-se citar a doutrina de Antônio Augusto 
Cançado Trindade. 
2. Classificações 
Entre as classificações dos direitos humanos, as duas mais conhecidas 
são as seguintes: 
Classificação dos direitos humanos em gerações. Karel Vasak, em 
Conferência proferida no Instituto Internacional de Direitos Humanos de 
Estrasburgo, França, em 1979, inspirado nos ideias da revolução 
francesa – liberdade, igualdade e fraternidade –, classificou os direitos 
humanos em três gerações: os direitos de primeira geração envolvem os 
direitos de liberdade (exemplo: direito à vida); os direitos de segunda 
geração envolvem os direitos de igualdade (exemplo: direito à educação); 
e os direitos de terceira geração envolvem os direito de fraternidade ou 
solidariedade (exemplo: direito ao meio ambiente equilibrado). 
Posteriormente, outros autores, como o brasileiro Paulo Bonavides, 
propuseram novas gerações: os direitos de quarta geração decorreriam 
da globalização política (exemplo: direito à democracia) e os direitos de 
quinta geração decorreriam do direito à paz (que, na classificação de 
Vasak, integra a terceira geração). 
A classificação dos direitos humanos em gerações recebe diversas críticas 
da doutrina, sendo essas as principais: 
a) transmite a ideia de que uma geração substitui a anterior; 
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b) transmite uma ideia equivocada de historicidade das gerações (no 
Direito Internacional dos Direitos Humanos, por exemplo, os direitos de 
segunda geração foram positivados antes dos direitos de primeira 
geração, nas Convenções da OIT); 
c) favorece a fragmentação dos direitos humanos, em ofensa à 
indivisibilidade; e 
d) ignora novas interpretações sobre o conteúdo dos direitos (exemplo: os 
direitos de primeira geração também exigem prestações positivas dos 
Estados, não se podendo falar em direito à vida – digna – sem saúde, 
moradia, educação etc.). 
Classificação conforme o Direito Internacional dos Direitos 
Humanos. No Direito Internacional dos Direitos Humanos, 
principalmente em decorrência do conflito ideológico no contexto da 
Guerra Fria entre os blocos capitalista e socialista, não foi possível a 
elaboração de um tratado (logo, com natureza vinculante) que protegesse 
todas as espécies de direitos humanos. Por isso, os direitos humanos 
foram classificados – e separados – em dois blocos: de um lado, os 
direitos civis e políticos, e de outro, os direitos econômicos, sociais 
e culturais. 
 
3. Princípios ou métodos de interpretação dos tratados de direitos 
humanos 
A Convenção de Viena sobre Direito dos Tratados apresenta uma regra 
geral de interpretação dos tratados, prevendo em seu art. 31.1 que todo 
tratado deve ser interpretado: a) de boa-fé; b) conforme o sentido comum 
atribuível aos seus termos (interpretação gramatical ou semântica); c) 
levando-se em conta o seu contexto (interpretação sistemática); e d) à luz 
do seu objetivo e da sua finalidade (interpretação teleológica). 
O art. 32 da CVDT ainda prevê meios suplementares de interpretação dos 
tratados a fim de confirmar o sentido de suas disposições, como, por 
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exemplo, o recurso aos trabalhos preparatórios e às circunstâncias de 
sua conclusão. 
A partir dessa regra geral prevista na CVDT, a doutrina e a jurisprudência 
(internacional) desenvolveram princípios ou métodos específicos para 
interpretação dos tratados de direitos humanos, entre os quais destaco 
os seguintes: 
1. Princípio pro homine ou pro persona. O princípio pro homine ou pro 
persona – como preferem alguns autores, para evitar uma distinção de 
gênero – decorre do regime objetivo ou uniliteral dos tratados de direitos 
humanos, em que não vigora a lógica da reciprocidade entre Estados, 
mas sim a proteção dos direitos da pessoa humana. Por isso, o princípio 
pro persona indica que a interpretação dos tratados de direitos humanos 
deve sempre ter como objetivo a proteção da pessoa. Como consequência 
do princípio pro persona, tem-se o subprincípio da primazia da norma 
mais favorável, seja ela um produto do direito nacional ou do direito 
internacional. Outro subprincípio do princípio pro persona é o da máxima 
efetividade (também conhecido por effet utile), segundo o qual, 
deparando-se com duas ou mais interpretações a respeito de norma 
prevista em tratado de direitos humanos, o intérprete deve preferir a que 
mais proteja e efetive os direitos humanos. 
2. Princípio da eficácia direta ou da autoexecutoriedade. Os tratados 
de direitos humanos são autoexecutáveis, de modo que os Estados não 
podem alegar a ausência de regulamentação interna para descumpri-
los. No Brasil, cito como exemplo a discussão envolvendo a audiência de 
custódia, em que um setor expressivo da doutrina e da jurisprudência 
defendia que o art. 7.5 da Convenção Americana sobre Direitos 
Humanos, ao prever que toda pessoa presa deve ser conduzida sem 
demora à presença de uma autoridade judicial, para ser aplicado no 
Brasil, precisaria de regulamentação interna. Essa interpretação ofende 
o princípio da eficácia direta ou da autoexecutoriedade dos tratados e 
felizmente não foi acolhida pelo STF. 
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3. Princípio da interpretação autônoma. Os tratados de direitos 
humanos são produzidos levando-se em conta distintas realidades 
nacionais, o que pode fazer com o que o resultado normativo alcance um 
sentido próprio, nem sempre em conformidade com o direito interno de 
determinado país. Por isso, os termos constantes de tratados de direitos 
humanos devem ser interpretados de forma autônoma, e não conforme o 
direito interno. 
4. Princípio da interpretação evolutiva ou dinâmica. Pelo princípio da 
interpretação evolutiva ou dinâmica, os tratados de direitos humanos 
devem ser interpretados de acordo com a realidade e com o sistema 
jurídico no momento de sua aplicação (e não, portanto, segundo o que 
vigorava no momento de sua aprovação). A partir desse princípio, os 
tribunais internacionais têm decidido que os tratados de direitos 
humanos são “instrumentos vivos”. 
5. Teoria da margem de apreciação. Conforme a lição de André de 
Carvalho Ramos, “Essa tese [da teoria da margem de apreciação] é 
baseada na subsidiariedade da jurisdição internacional e prega que 
determinadas questões polêmicas relacionadas com as restrições estatais 
a direitos protegidos devem ser discutidas e dirimidas pelas comunidades 
nacionais, não podendo o juiz internacional apreciá-las. Assim, caberia, 
a princípio, ao próprio Estado estabelecer os limites e as restrições ao 
gozo de direitos em face do interesse público” (Teoria Geral..., p. 73). 
Trata-se de um princípio de interpretação utilizado com frequência pela 
Corte Europeia de Direitos Humanos e mais excepcionalmente pela Corte 
Interamericana. 
4. Características dos direitos humanos 
As característicasdos direitos humanos não nasceram todas de uma só 
vez, tendo sido resultado de um processo histórico – ainda em curso – de 
afirmação e consolidação dos direitos humanos nos mais diversos 
ambientes, como, por exemplo, nas grandes conferências (regionais ou 
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mundiais), na positivação em tratados, na construção doutrinária e 
jurisprudencial etc. 
1. Universalidade. A universalidade dos direitos humanos foi ressaltada 
na aprovação da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) e 
posteriormente ratificada nas Conferências Mundiais de Direitos 
Humanos de Teerã (1968) e de Viena (1993). A característica da 
universalidade indica que os direitos humanos constituem uma categoria 
comum a todas as culturas. O universalismo recebe a crítica dos adeptos 
do relativismo cultural, teoria que defende que a concepção de direitos 
humanos adotada na Declaração Universal seria ocidental e 
desconsideraria as diferentes culturas existentes no mundo. Para 
superar esse – suposto – embate entre universalismo e relativismo 
cultural, surgiram algumas propostas filosóficas como a de Boaventura 
de Souza Santos (a hermenêutica diatópica) e a de Herrera Flores (o 
universalismo de chegada ou de confluência. Boaventura parte da ideia 
do multiculturalismo e dos valores que devem ser respeitados de cada 
cultura. Herrera Flores não nega que os direitos humanos possam 
alcançar a universalidade, mas afirma que esse universalismo não pode 
ser de partida, e sim de chegada, devendo ser construído 
democraticamente a partir de diálogos construtivos entre as diferentes 
culturas. 
2. Unidade, indivisibilidade e interdependência. Todos os direitos 
humanos possuem a mesma hierarquia e a dignidade humana somente 
é respeitada quando todos os direitos humanos são protegidos. Essas 
características conjuntas da unidade, indivisibilidade e interdependência 
foram ressaltadas nas Conferências Mundiais de Direitos Humanos da 
ONU em Teerã (1958) e em Viena (1993). 
3. Indisponibilidade ou irrenunciabilidade. O titular não pode dispor 
do núcleo essencial ou mínimo dos seus direitos humanos. 
4. Inalienabilidade. Os direitos humanos não são objetos de comércio. 
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5. Limitabilidade ou relatividade. A maioria dos direitos humanos pode 
ser relativizado, como a liberdade de expressão, a liberdade de locomoção, 
os direitos políticos etc., havendo, porém, alguns direitos absolutos, como 
o de não ser torturado ou escravizado. 
6. Abertura ou não tipicidade ou inexauribilidade. Há sempre a 
possibilidade de surgirem novos direitos humanos, não havendo, 
portanto, um catálogo taxativo. Nesse sentido, prevê a Convenção 
Americana que “Nenhuma disposição desta Convenção pode ser 
interpretada no sentido de excluir outros direitos e garantias que são 
inerentes ao ser humano ou que decorrem da forma democrática 
representativa de governo” (art. 29.c), e a CF, igualmente, dispõe que “Os 
direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros 
decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados 
internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte” (art. 
5º, § 2º). 
7. Historicidade. Os direitos humanos resultam de um processo 
histórico em que, gradativamente, por meio de lutas, foram sendo 
conquistados. Essa característica colide com a tese do jusnaturalismo. 
8. Imprescritibilidade. A pretensão de respeito aos direitos humanos é 
imprescritível, mas a pretensão de reparação econômica do dano pode 
não ser. 
9. Vedação do retrocesso. Os direitos humanos não admitem o regresso, 
no sentido da diminuição do seu catálogo ou dos meios de proteção.

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