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1 DIREITOS HUMANOS – CAIO PAIVA CURSO CEI - AULA 01 – 03.05.2021 CONCEITO, TERMINOLOGIA E FUNDAMENTAÇÃO DOS DIREITOS HUMANOS 1. Conceito Há pelo menos duas técnicas distintas por meio das quais podemos chegar ao conceito de direitos humanos. A primeira técnica, que classifico como generalista, não diferencia direitos humanos de direitos fundamentais; para esta técnica direitos humanos seriam conjunto de direitos essenciais para consecução de uma vida digna para todos os srres humanos independentemente de condição social; trabalha com um conceito de direitos humanos material, no sentido de não separar – ao menos de forma rígida – as ordens jurídicas interna e internacional, incluindo naquela categoria todos os direitos essenciais à consecução de uma vida digna, estejam eles pre- vistos em Constituições nacionais ou em tratados internacionais. A técnica específica temos que diferenciar direitos humanos de direitos fundamentais seja porque os mecanismos de proteção são diferentes seja porque o direito internacional dos direitos humanos se constitui um ramo autônomo em comparação com direito internacional. Os direitos humanos seriam apenas aqueles essenciais para vida digna porém previstos em instrumentos internacionais de proteção. A segunda técnica, que classifico como específica, trabalha com um conceito de direitos humanos formal, no sentido de considerar como integrante desse catálogo de direitos essenciais à consecução de uma vida digna somente aqueles previstos em instrumentos internacionais, 2 no que eles se diferenciam, portanto, dos direitos fundamentais, que são assegurados pelas Constituições nacionais e protegidos pela ordem jurí- dica interna. O professor adota o seguinte conceito: direitos humanos são o conjunto de direitos previstos em instrumentos internacionais que proporcionam a todos os seres, independentemente de qualquer condição, a base essencial para que tenham uma vida digna e para que se protejam contra violações praticadas ou toleradas pelo Estado. A expressão direitos humanos com certeza está mais presente no vocabulário e no imaginário popular do que a expressão direitos fundamentais, sendo muito utilizada, por exemplo, nas lutas sociais por reivindicação de direitos e na denominação de departamentos ou órgãos estatais que têm como objetivo a promoção e a proteção dos direitos essenciais ao ser humano. No entanto, embora a uniformização conceitual em torno dos direitos humanos e dos direitos fundamentais tenha seus méritos, tratando-se do ambiente acadêmico ou doutrinário, em que é exigida a precisão terminológica, o professor filia-se à técnica específica e associo os direitos humanos à ordem jurídica internacional, no que eles se diferenciam dos direitos fundamentais, que são protegidos pela ordem jurídica interna. O professor considera que a técnica específica tem uma grande vantagem sobre a técnica generalista, que consiste na compreensão dos direitos humanos como uma disciplina autônoma, não se confundindo, portanto, com o Direito Constitucional. Embora exista uma grande similaridade no catálogo dos direitos humanos (previstos em instrumentos internacionais) e dos direitos fundamentais (previstos em Constituições nacionais), seus mecanismos de proteção e o intérprete autêntico dos textos que lhes protegem não se confundem. No Brasil, por exemplo, enquanto os direitos fundamentais previstos nos textos constitucionais encontram no Supremo Tribunal Federal a última instância de proteção, os direitos humanos assegurados em tratados 3 rompem a barreira da jurisdição nacional para submeter o Estado a um processo de responsabilidade perante tribunais internacionais. Assim, para os fins desse curso, adota-se a técnica específica para promover a autonomia da disciplina de Direitos Humanos ou Direito Internacional dos Direitos Humanos, conceituando os direitos humanos como sendo o conjunto de direitos previstos em instrumentos internacionais que proporcionam a todos os seres humanos, independentemente de qualquer condição, a base essencial para que tenham uma vida digna e para que se protejam contra violações praticadas ou toleradas pelo Estado. Vejamos separadamente cada parte desse conceito para sua melhor compreensão: 1) ao conceituar direitos humanos como sendo o conjunto de direitos previstos em instrumentos internacionais, o professor manifesta – como já afirmado anteriormente – a sua adesão ao entendimento que os associa à ordem jurídica internacional; 2) a titularidade dos direitos humanos também compõe o seu conceito ao estabelecer que eles se aplicam a todos os seres humanos, independentemente de qualquer condição, decorrendo disso uma das características mais marcantes dos direitos humanos, que é a sua universalidade; 3) o professor considera importante incorporar ao conceito de direitos humanos também a sua delimitação objetiva, no sentido de dizer que nem todos os direitos titularizados pelos seres humanos devem ser elevados a essa categoria, mas somente aqueles que integram a base essencial para a vida digna e para proteção contra violações; e 4) a última parte do conceito de direitos humanos ressalta que na ordem jurídica internacional somente o Estado responde pela violação desses direitos, o que pode ocorrer tanto por conduta praticada diretamente por seus agentes quanto pelo descumprimento de obrigações positivas de adotar as medidas necessárias para proteger os 4 direitos humanos nas relações interindividuais. 2. Terminologia Prosseguindo, para fixar a base conceitual que irá nortear os rumos desse curso, confrontemos o conceito atribuído à expressão direitos humanos com as diversas terminologias mencionadas anteriormente: 1) a expressão direitos fundamentais, conforme já explicado, surgiu no contexto da proteção nacional dos direitos essenciais do ser humano, não sendo adequada, portanto, para designar os direitos previstos em tratados internacionais; 2) a expressão direitos do homem, utilizada, por exemplo, na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão (França, 1789), na Declaração Americana dos Direitos e Deveres do Homem (Bogotá, 1948) e na Convenção Europeia dos Direitos o Homem (Roma, 1950), tem sido cada vez menos utilizada após a Declaração Universal dos Direitos Humanos, pois pode ser interpretada com um caráter sexista no sentido de preterir os direitos da mulher; 3) as expressões liberdades públicas e liberdades fundamentais, muito utilizadas pela doutrina francesa, devem ser evitadas atualmente por representarem mais os direitos de liberdade ou de primeira geração, sem abrigar os direitos de igualdade ou de segunda geração, o que também se aplica à expressão direitos individuais; 4) e a expressão direitos humanos fundamentais, utilizada, por exemplo, no preâmbulo de Declaração Universal dos Direitos Humanos e também por um setor doutrinário, segue a técnica generalista anteriormente exposta, podendo provocar confusão conceitual a depender do ambiente em que for empregada. Qual a proteção mais ampla: a dos direitos humanos ou a dos direitos fundamentais? No aspecto territorial, a proteção dos direitos humanos se revela mais ampla, na medida em que ultrapassa as fronteiras do país e encontra mecanismos de monitoramento em 5 instâncias e tribunais internacionais. Por outro lado, no aspecto material, a proteção dos direitos fundamentais pode ser mais ampla, principalmente em países como o Brasil, em que a Constituição é prolixa na previsão de direitos fundamentais e sociais, como, por exemplo, os direitos ao FGTS, ao terço de férias etc. 3. Fundamentação dos direitos humanos Quando se fala em fundamentação dos direitos humanos, busca-se a sua razão justificativa ou a sua fonte legitimadora. Trata-se de um assunto mais ligado à Filosofiado Direito do que, especificamente, ao Direito Internacional dos Direitos Humanos. Existem diversas teorias que se propõem a fundamentar os direitos humanos, sendo as principais a jusnaturalista e a positivista, havendo, ainda, a teoria negacionista (que veremos em primeiro lugar). Para a teoria negacionista, cujo maior expoente é Norberto Bobbio, é impossível encontrar um fundamento único ou absoluto para os direitos humanos, e isso por pelo menos três razões: 1) a expressão “direitos humanos” é muito vaga e desprovida de consenso quanto ao seu significado; 2) trata-se de uma categoria que varia conforme a sua evolução histórica; e 3) os direitos humanos formam uma categoria heterogênea. Por isso, Bobbio afirma que “o problema grave do nosso tempo, com relação aos direitos humanos, não é mais o de fundamentá-los e sim o de protegê- los”. Para a teoria jusnaturalista, o ser humano possui direitos naturais, anteriores e superiores ao Estado sejam eles oriundos de Deus (escola de direito natural de razão divina) ou da natureza inerente do ser humano (escola de direito natural moderno). Costuma-se apontar dois pontos frágeis da teoria jusnaturalista: 6 a) não há possibilidade de comprovação empírica ou mesmo teórica dos direitos naturais; se opõe à característica da historicidade (os direitos humanos não nasceram todos de uma vez mas a cada etapa da história a gente foi adquirindo direitos humanos); e b) há uma grande dificuldade em explicar a imutabilidade dos direitos naturais em razão da constante alteração do conteúdo de direitos essenciais ao indivíduo ao longo dos séculos. Para a teoria positivista, não há que se falar em direito natural, anterior e superior ao Estado, de modo que a fundamentação dos direitos humanos somente pode ser encontrada no ordenamento jurídico internacional (tratados, convenções, declarações etc.). Entre as críticas à teoria positivista, destaca-se a seguinte: aceita sem maiores questionamentos a não observância das normas internacionais de direitos humanos se não houver a aceitação ou incorporação da norma pela ordem interna de um Estado. Tanto a teoria jusnaturalista quanto a teoria positivista contribuíram para o processo de formação do Direito Internacional dos Direitos Humanos. FONTES, CLASSIFICAÇÕES, PRINCÍPIOS DE INTERPRETAÇÃO DOS TRATADOS DE DIREITOS HUMANOS E CARACTERÍSTICAS DOS DIREITOS HUMANOS NO DIREITO INTERNACIONAL 1. Fontes No contexto jurídico, a expressão fontes é utilizada para identificar a gênese ou a origem dos direitos que protegem a pessoa. Assim, na disciplina de Direitos Humanos, quando buscamos as suas fontes, queremos encontrar a resposta para a seguinte pergunta: de onde vêm ou como nascem os direitos humanos? A doutrina, partindo da premissa de que a disciplina de Direitos Humanos seria um ramo específico do Direito Internacional Público – embora com independência e particularidades que analisaremos durante esse curso –, aceita que as 7 fontes dos direitos humanos estão previstas (em rol não exaustivo) no art. 38.1 do Estatuto da Corte Internacional de Justiça, sendo elas: a) as convenções internacionais, quer gerais, quer especiais, que estabeleçam regras expressamente reconhecidas pelos Estados litigantes; b) o costume internacional, como prova de uma prática geral aceita como sendo o direito; c) os princípios gerais de direito reconhecidos pelas Nações civilizadas; e d) as decisões judiciais e a doutrina dos publicistas mais qualificados das diferentes Nações, como meio auxiliar para a determinação das regras de direito. Não há uma ordem hierárquica ou sucessiva na aplicação das fontes dos direitos humanos dispostas no art. 38.1 do ECIJ. No entanto, pela segurança jurídica que promovem, principalmente pelo fato de serem normas escritas e contarem com mecanismos de aferição da responsabilidade do Estado, os tratados indiscutivelmente são a fonte “primordial” dos direitos humanos. Vejamos rapidamente em que consiste cada fonte dos direitos humanos. 1.1. Convenções internacionais No Direito Internacional dos Direitos Humanos, o conceito de tratado é previsto na Convenção de Viena sobre o Direito dos Tratados (CVDT), de 1969, promulgada no Brasil pelo Decreto nº 7.030/2009, cujo art. 2.1 estabelece que “tratado significa um acordo internacional concluído por escrito entre Estados e regido pelo Direito Internacional, quer conste de um instrumento único, quer de dois ou mais instrumentos conexos, qualquer que seja sua denominação específica”. Além da expressão tratados, outras também são utilizadas como sinônimos, como, por exemplo, carta, pacto, protocolo e convenção (o termo declaração, por sua vez, costuma ser utilizado para instrumentos soft law). A doutrina e os tribunais internacionais reconhecem que há uma 8 diferença entre tratados de direitos humanos e tratados que cuidem de outras matérias. Nesse sentido, a CIJ, em sua opinião consultiva sobre as reservas à Convenção para a Prevenção e Punição do Delito de Genocídio, afirmou que “nesse tipo de tratados [de direitos humanos], os Estados não têm interesses próprios; somente possuem, acima de tudo, um interesse comum: a consecução dos propósitos que são a razão de ser da Convenção”. A Corte Interamericana também se manifestou assim em sua Opinião Consultiva nº 2: “29. A Corte deve enfatizar, porém, que os tratados modernos sobre direitos humanos, em geral, e, em particular, a Convenção Americana, não são tratados multilaterais do tipo tradicional, concluídos em função de um intercâmbio recíproco de direitos, para o benefício mútuo dos Estados contratantes. Seu objeto e fim são a proteção dos direitos fundamentais dos seres humanos, independentemente de sua nacionalidade, tanto frente a seu próprio Estado como frente aos outros Estados contratantes. Ao aprovar esses tratados sobre direitos humanos, os Estados se submetem a uma ordem geral dentro da qual eles, pelo bem comum, assumem várias obrigações, não em relação aos outros Estados, mas sim em relação aos indivíduos sob a sua jurisdição”. Quando um tratado entra em vigor e se torna obrigatório para os Estados partes, estes devem observar alguns princípios, quais sejam: a) princípio pacta sunt servanda, previsto no art. 26 da CVDT – “Todo tratado em vigor obriga as partes e deve ser cumprido por elas de boa fé”; b) princípio da primazia do direito internacional, previsto no art. 27 da CVDT – “Uma parte não pode invocar as disposições de seu direito interno para 9 justificar o inadimplemento de um tratado”; e c) princípio da interpretação de boa fé, previsto no art. 31.1 da CVDT – “Um tratado deve ser interpretado de boa fé segundo o sentido comum atribuível aos termos do tratado em seu contexto e à luz de seu objetivo e finalidade”. 1.2. Costume internacional Como fonte dos direitos humanos, o costume internacional pode ser conceituado como a prática generalizada dos Estados aceita como sendo o direito, nos termos do art. 38.1.b do ECIJ. Esse conceito abriga dois elementos: 1) um elemento material, que é a prática generalizada; e 2) um elemento subjetivo, que é a crença de que esta prática é obrigatória. Diferentemente dos tratados, o costume internacional obriga os Estados tacitamente, sem exigir uma manifestação explícita de aceitação nem uma incorporação formal na ordem jurídica interna. Aceita-se, majoritariamente, que um Estado somente pode deixar de cumprir um costume internacional quando tenha se comportado como um “objetor persistente”, comportamento este que deve ocorrer durante o processo de formação dos costumes internacionais, mediante manifestações permanentes e inequívocas de sua objeção a serem obrigados pelo respectivo costume. A figura do “objetor persistente”, porém, não se aplica às normas dejus cogens, também conhecidas como normas imperativas ou cogentes. São exemplos de normas cogentes a proibição do genocídio, da tortura, da escravidão e da discriminação racial. 1.3. Princípios gerais do Direito Os princípios gerais do Direito são as normas de caráter mais genérico e abstrato que incorporam as concepções fundamentais da maioria dos sistemas jurídicas mundiais, sendo exemplos pertinentes ao Direito Internacional dos Direitos Humanos a proteção da dignidade da pessoa humana, o pacta sunt servanda, a boa-fé, o devido processo legal etc. 10 1.4. Decisões judiciais e doutrina dos publicistas Decisões judiciais são as sentenças, resoluções, recomendações, comentários gerais, entre outros provimentos emanados de órgãos judiciais ou quase-judiciais internacionais, podendo compreender também a jurisprudência nacional. A doutrina dos publicistas mais qualificados, naturalmente, não é qualquer doutrina, mas somente aquela com vocação e reconhecimento internacional, escrita por autor experiente e academicamente inserido nos mais diversos foros de discussão. No Brasil, pode-se citar a doutrina de Antônio Augusto Cançado Trindade. 2. Classificações Entre as classificações dos direitos humanos, as duas mais conhecidas são as seguintes: Classificação dos direitos humanos em gerações. Karel Vasak, em Conferência proferida no Instituto Internacional de Direitos Humanos de Estrasburgo, França, em 1979, inspirado nos ideias da revolução francesa – liberdade, igualdade e fraternidade –, classificou os direitos humanos em três gerações: os direitos de primeira geração envolvem os direitos de liberdade (exemplo: direito à vida); os direitos de segunda geração envolvem os direitos de igualdade (exemplo: direito à educação); e os direitos de terceira geração envolvem os direito de fraternidade ou solidariedade (exemplo: direito ao meio ambiente equilibrado). Posteriormente, outros autores, como o brasileiro Paulo Bonavides, propuseram novas gerações: os direitos de quarta geração decorreriam da globalização política (exemplo: direito à democracia) e os direitos de quinta geração decorreriam do direito à paz (que, na classificação de Vasak, integra a terceira geração). A classificação dos direitos humanos em gerações recebe diversas críticas da doutrina, sendo essas as principais: a) transmite a ideia de que uma geração substitui a anterior; 11 b) transmite uma ideia equivocada de historicidade das gerações (no Direito Internacional dos Direitos Humanos, por exemplo, os direitos de segunda geração foram positivados antes dos direitos de primeira geração, nas Convenções da OIT); c) favorece a fragmentação dos direitos humanos, em ofensa à indivisibilidade; e d) ignora novas interpretações sobre o conteúdo dos direitos (exemplo: os direitos de primeira geração também exigem prestações positivas dos Estados, não se podendo falar em direito à vida – digna – sem saúde, moradia, educação etc.). Classificação conforme o Direito Internacional dos Direitos Humanos. No Direito Internacional dos Direitos Humanos, principalmente em decorrência do conflito ideológico no contexto da Guerra Fria entre os blocos capitalista e socialista, não foi possível a elaboração de um tratado (logo, com natureza vinculante) que protegesse todas as espécies de direitos humanos. Por isso, os direitos humanos foram classificados – e separados – em dois blocos: de um lado, os direitos civis e políticos, e de outro, os direitos econômicos, sociais e culturais. 3. Princípios ou métodos de interpretação dos tratados de direitos humanos A Convenção de Viena sobre Direito dos Tratados apresenta uma regra geral de interpretação dos tratados, prevendo em seu art. 31.1 que todo tratado deve ser interpretado: a) de boa-fé; b) conforme o sentido comum atribuível aos seus termos (interpretação gramatical ou semântica); c) levando-se em conta o seu contexto (interpretação sistemática); e d) à luz do seu objetivo e da sua finalidade (interpretação teleológica). O art. 32 da CVDT ainda prevê meios suplementares de interpretação dos tratados a fim de confirmar o sentido de suas disposições, como, por 12 exemplo, o recurso aos trabalhos preparatórios e às circunstâncias de sua conclusão. A partir dessa regra geral prevista na CVDT, a doutrina e a jurisprudência (internacional) desenvolveram princípios ou métodos específicos para interpretação dos tratados de direitos humanos, entre os quais destaco os seguintes: 1. Princípio pro homine ou pro persona. O princípio pro homine ou pro persona – como preferem alguns autores, para evitar uma distinção de gênero – decorre do regime objetivo ou uniliteral dos tratados de direitos humanos, em que não vigora a lógica da reciprocidade entre Estados, mas sim a proteção dos direitos da pessoa humana. Por isso, o princípio pro persona indica que a interpretação dos tratados de direitos humanos deve sempre ter como objetivo a proteção da pessoa. Como consequência do princípio pro persona, tem-se o subprincípio da primazia da norma mais favorável, seja ela um produto do direito nacional ou do direito internacional. Outro subprincípio do princípio pro persona é o da máxima efetividade (também conhecido por effet utile), segundo o qual, deparando-se com duas ou mais interpretações a respeito de norma prevista em tratado de direitos humanos, o intérprete deve preferir a que mais proteja e efetive os direitos humanos. 2. Princípio da eficácia direta ou da autoexecutoriedade. Os tratados de direitos humanos são autoexecutáveis, de modo que os Estados não podem alegar a ausência de regulamentação interna para descumpri- los. No Brasil, cito como exemplo a discussão envolvendo a audiência de custódia, em que um setor expressivo da doutrina e da jurisprudência defendia que o art. 7.5 da Convenção Americana sobre Direitos Humanos, ao prever que toda pessoa presa deve ser conduzida sem demora à presença de uma autoridade judicial, para ser aplicado no Brasil, precisaria de regulamentação interna. Essa interpretação ofende o princípio da eficácia direta ou da autoexecutoriedade dos tratados e felizmente não foi acolhida pelo STF. 13 3. Princípio da interpretação autônoma. Os tratados de direitos humanos são produzidos levando-se em conta distintas realidades nacionais, o que pode fazer com o que o resultado normativo alcance um sentido próprio, nem sempre em conformidade com o direito interno de determinado país. Por isso, os termos constantes de tratados de direitos humanos devem ser interpretados de forma autônoma, e não conforme o direito interno. 4. Princípio da interpretação evolutiva ou dinâmica. Pelo princípio da interpretação evolutiva ou dinâmica, os tratados de direitos humanos devem ser interpretados de acordo com a realidade e com o sistema jurídico no momento de sua aplicação (e não, portanto, segundo o que vigorava no momento de sua aprovação). A partir desse princípio, os tribunais internacionais têm decidido que os tratados de direitos humanos são “instrumentos vivos”. 5. Teoria da margem de apreciação. Conforme a lição de André de Carvalho Ramos, “Essa tese [da teoria da margem de apreciação] é baseada na subsidiariedade da jurisdição internacional e prega que determinadas questões polêmicas relacionadas com as restrições estatais a direitos protegidos devem ser discutidas e dirimidas pelas comunidades nacionais, não podendo o juiz internacional apreciá-las. Assim, caberia, a princípio, ao próprio Estado estabelecer os limites e as restrições ao gozo de direitos em face do interesse público” (Teoria Geral..., p. 73). Trata-se de um princípio de interpretação utilizado com frequência pela Corte Europeia de Direitos Humanos e mais excepcionalmente pela Corte Interamericana. 4. Características dos direitos humanos As característicasdos direitos humanos não nasceram todas de uma só vez, tendo sido resultado de um processo histórico – ainda em curso – de afirmação e consolidação dos direitos humanos nos mais diversos ambientes, como, por exemplo, nas grandes conferências (regionais ou 14 mundiais), na positivação em tratados, na construção doutrinária e jurisprudencial etc. 1. Universalidade. A universalidade dos direitos humanos foi ressaltada na aprovação da Declaração Universal dos Direitos Humanos (1948) e posteriormente ratificada nas Conferências Mundiais de Direitos Humanos de Teerã (1968) e de Viena (1993). A característica da universalidade indica que os direitos humanos constituem uma categoria comum a todas as culturas. O universalismo recebe a crítica dos adeptos do relativismo cultural, teoria que defende que a concepção de direitos humanos adotada na Declaração Universal seria ocidental e desconsideraria as diferentes culturas existentes no mundo. Para superar esse – suposto – embate entre universalismo e relativismo cultural, surgiram algumas propostas filosóficas como a de Boaventura de Souza Santos (a hermenêutica diatópica) e a de Herrera Flores (o universalismo de chegada ou de confluência. Boaventura parte da ideia do multiculturalismo e dos valores que devem ser respeitados de cada cultura. Herrera Flores não nega que os direitos humanos possam alcançar a universalidade, mas afirma que esse universalismo não pode ser de partida, e sim de chegada, devendo ser construído democraticamente a partir de diálogos construtivos entre as diferentes culturas. 2. Unidade, indivisibilidade e interdependência. Todos os direitos humanos possuem a mesma hierarquia e a dignidade humana somente é respeitada quando todos os direitos humanos são protegidos. Essas características conjuntas da unidade, indivisibilidade e interdependência foram ressaltadas nas Conferências Mundiais de Direitos Humanos da ONU em Teerã (1958) e em Viena (1993). 3. Indisponibilidade ou irrenunciabilidade. O titular não pode dispor do núcleo essencial ou mínimo dos seus direitos humanos. 4. Inalienabilidade. Os direitos humanos não são objetos de comércio. 15 5. Limitabilidade ou relatividade. A maioria dos direitos humanos pode ser relativizado, como a liberdade de expressão, a liberdade de locomoção, os direitos políticos etc., havendo, porém, alguns direitos absolutos, como o de não ser torturado ou escravizado. 6. Abertura ou não tipicidade ou inexauribilidade. Há sempre a possibilidade de surgirem novos direitos humanos, não havendo, portanto, um catálogo taxativo. Nesse sentido, prevê a Convenção Americana que “Nenhuma disposição desta Convenção pode ser interpretada no sentido de excluir outros direitos e garantias que são inerentes ao ser humano ou que decorrem da forma democrática representativa de governo” (art. 29.c), e a CF, igualmente, dispõe que “Os direitos e garantias expressos nesta Constituição não excluem outros decorrentes do regime e dos princípios por ela adotados, ou dos tratados internacionais em que a República Federativa do Brasil seja parte” (art. 5º, § 2º). 7. Historicidade. Os direitos humanos resultam de um processo histórico em que, gradativamente, por meio de lutas, foram sendo conquistados. Essa característica colide com a tese do jusnaturalismo. 8. Imprescritibilidade. A pretensão de respeito aos direitos humanos é imprescritível, mas a pretensão de reparação econômica do dano pode não ser. 9. Vedação do retrocesso. Os direitos humanos não admitem o regresso, no sentido da diminuição do seu catálogo ou dos meios de proteção.