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ANESTÉSICOS LOCAIS – ANESTESIOLOGIA Patrick Richard - 108 Mecanismos de ação dos anestésicos locais - As fibras nervosas são classificadas de acordo com o tamanho, a velocidade de condução e função, da seguinte maneira: - A energia necessária para a propagação e manutenção do potencial elétrico é mantida na superfície das células por desequilíbrios iônicos através de membranas celulares permeáveis. - O fluxo iônico responsável pelos potenciais de ação é medido por uma grande variedade de canais e de bombas, tendo os canais de sódio como principais. - Os anestésicos locais induzem anestesia e analgesia por meio de interações diretas com os canais de sódio através da ligação, de forma reversível, com a porção intracelular dos canais de sódio controlados por voltagem. Além disso, os anestésicos produzem uma queda na corrente máxima de sódio dependente da concentração. - Os anestésicos locais bloqueiam os nervos periféricos pela interrupção da transmissão dos potenciais de ação ao longo das fibras nervosas. - O grau de bloqueio depende da concentração e do volume do anestésico local. - O bloqueio diferencial está relacionado ao diâmetro da fibra nervosa e ao comprimento de exposição (fibras com diâmetros menores e as fibras menores precisam de uma exposição de comprimento menor). - Os anestésicos locais ligam-se aos canais de sódio durante a sístole e dissociam-se durante a diástole. A dissociação da bupivacaína dos canais de sódio é mais lenta que da lidocaína durante a diástole cardíaca. Incorporação do anestésico local à membrana plasmática - A concentração efetiva mínima é a menor concentração de anestésico necessária para cessar a condução de um impulso nervoso. Essa concentração depende dos seguintes fatores: 1. Espessura da fibra nervosa: quanto mais espessa a fibra, maior a concentração necessária para o bloqueio. 2. pH: quanto maior o pH do meio, maior o número de moléculas de anestésico local na forma não ionizada capazes de penetrar na célula para agir. 3. Hipocalemia e hipercalcemia: estão relacionadas com a hiperpolarização da membrana e, por isso, com maior chance de os canais de sódio dependentes de voltagem estarem no estado de repouso, em que são menos suscetíveis à ação dos anestésicos locais. 4. Frequência de estimulação: fibras de alta taxa de disparo, com as fibras que conduzem a sensibilidade álgica, por permaneceram mais tempo com os canais de sódio na forma aberta ou inativada, são bloqueadas com mais facilidade pelos anestésicos locais. 5. Temperatura: O aumento da temperatura eleva a potência e duração dos anestésicos locais por mudar a distribuição, o seu pKa e o aumento da afinidade com proteínas da membrana plasmática do nervo. Farmacologia e farmacodinâmica - Estrutura química do anestésico local: anel benzênico conectado a um grupo amida através de uma amina ou éster, dividindo em aminoésteres e aminoamidas. - Os anestésicos são bases fracas e tem a forma neutra solúvel em lipídeos ou forma hidrofílica com carga: BH+ -> B + H+. - Uma concentração alta da forma lipossolúvel favorece a penetração nas células devido a absorção passiva através da membrana celular, então, clinicamente, a alcalinização da solução anestésica aumenta a proporção da forma lipossolúvel, facilitando a penetração do medicamento. - A adição de epinefrina prolonga o bloqueio anestésico, aumenta a intensidade do bloqueio e diminui a absorção do anestésico das seguintes maneiras: · A vasoconstrição aumenta o tempo de ação do anestésico local pela antagonização dos efeitos vasodilatadores inerentes do fármaco, diminuindo a absorção sistêmica. · A epinefrina adicionada à solução anestésica local parece desempenhar efeito analgésico por meio da interação com receptores adrenérgicos na medula espinal. - Os opioides adicionados à solução de anestésicos locais, colocada no espaço peridural ou subaracnóideo, não aumentam a toxicidade. - A combinação de anestésicos de ação intermediária ou prolongada com dexametasona prolonga a duração da analgesia por +/- 50% depois da aplicação para bloqueio do plexo braquial. Farmacocinética - A redução na absorção sistêmica dos anestésicos locais aumenta a margem de segurança em usos clínicos. - A absorção depende dos seguintes fatores: 1. Sítio de injeção (intercostal > caudal > plexo braquial > ciático ou femoral) 2. Dose 3. Propriedades físico-químicas 4. Adição de epinefrina - A distribuição depende de fatores como fluxo sanguíneo, coeficiente de partição do anestésico e da ligação proteica (sequestro pelas proteínas alfa-1GP “segura” o anestésico, aumentando sua ação local). - A eliminação de anestésicos locais à base de aminoéster (procaína, tetracaína e cocaína) depende da depuração da colinesterase plasmática, que é a enzima que converte o anestésico em PABA (potencial alergênico). A depuração da enzima está diminuída em casos de gestação, doenças hepáticas, uremia e alterações do intervalo QT. - As aminoamidas (lidocaína, bupivacaína, ropivacaína) são transformadas por caboxilesterases hepáticas e por enzimas do citocromo P450. Sendo assim, há uma redução nessa reação em pacientes com doenças hepáticas. - Uso clínico de anestésicos locais: · Anestesia e analgesia regionais · Anestesia regional intravenosa · Bloqueio de nervos periféricos · Tópico (via aérea, olhos e pele) · Bloqueio de respostas à IOT · Bupivacaína: infiltração, bloqueio de nervos periféricos e anestesia peridural. · Lidocaína: infiltração, regional intravenoso, bloqueio de nervos periféricos, anestesia peridural, tópico · Mepivacaína: infiltração, bloqueio de nervos periféricos, anestesia peridural e anestesia raquidiana. Propriedades físico-químicas Lipossolubilidade - A lipossolubilidade está diretamente relacionada com a potência do anestésico local, uma vez que a principal forma de entrar na célula é pela interação com a membrana lipídica. - A lipossolubilidade depende da estrutura do anel aromático, do tamanho da cadeia de hidrocarbonetos, do grupo amina e do grau de ionização, que é dado pelo pKa da droga e do pH do sítio que foi injetada. pKa - Os anestésicos locais costumam apresentar pKa ligeiramente acima do pH fisiológico, então, predomina-se sua forma ionizada, menos lipossolúvel e com menor capacidade de entrar na célula. Por conta disso, as drogas não têm efeito esperados em meios ácidos como os abscessos. - Isso explica porque anestésicos locais como a mepivacaína (pKa 7,7) ou a lidocaína (pKa 7,8) em comparação com outros como a bupivacaína ou a ropivacaína (pKa 8,1) têm uma latência menor, uma vez que têm a proporção da forma ionizada menor, logo, a forma não-ionizada fica em maior proporção em relação aos outros exemplos, entrando mais nas células e agindo mais rápido. - Mesmo sendo fundamental para a latência, o pKa não é mais importante do que a dose administrada. Toxicidade - Os anestésicos locais atravessam a barreira hematoencefálica podendo gerar efeitos tóxicos no SNC resultante da absorção sistêmica ou injeção direta. - Os fatores que aumentam a toxicidade no SNC incluem: ligação proteica, acidose, vasoconstrição e circulação causa pela adição de epinefrina. - A toxicidade no SCV é rápida e se dá quando se faz injeção do fármaco IV; na injeção intraarterial (cervical), a complicação vai para o SNC. - A toxicidade lenta é por absorção sistêmica e afeta o SNC. - Toxicidade ao SNC gera sintomas como: tontura, vertigem, zumbido, desorientação, sonolência, tremores, espasmos e convulsão. - A cadeia lateral butílica maior na bupivacaína pode também ter mais de um efeito cardiodepressivo, em oposição à cadeia lateral propílica da ropivacaína. - A bupivacaína por ser mais potente e mais lipossolúvel pode causar complicações cardiovasculares piores como colapso súbito por arritmias cardíacas ventriculares resistentes a ressuscitação. Tratamento de toxicidade - Basicamente, o tratamento de toxicidade sistêmica é de suporte. - Em casos de toxicidade cardíaca por bupivacaína, administra-se lipídeos intravenoso para remover o anestésico local dos sítios deação. - O tratamento pode ter as seguintes condutas: · Suspender as injeções de anestésicos locais · Administrar oxigênio suplementar · Aplicar ventilação de suporte · Inserir tubo orotraqueal e controlar ventilação · Suprimir atividades convulsivas (tiopental, midazolam, propofol) · Tratar arritmias ventriculares - Os sintomas neurológicos transitórios (dor ou anormalidades sensoriais na região lombar e nas extremidades) ocorrem após a administração de todos os anestésicos locais utilizados na anestesia raquidiana. - A neurotoxicidade depende: da concentração; do posicionamento do paciente (litotomia); deambulação precoce; traumas causados por agulhas; isquemia neural e má distribuição.