Logo Passei Direto
Buscar
Material
páginas com resultados encontrados.
páginas com resultados encontrados.

Prévia do material em texto

Beatriz Gambini
Questão:
A transição da escravidão para o imperialismo “renovado” causou grandes transformações
na África. O processo abolicionista internacional estartado no século XIX teve de
enfrentar, no continente africano, a complexa situação deixada pelo sistema escravista
europeu. Tais transformações contaram, para tanto, com novos constructos ideológicos
que, teoricamente, poderiam ser implementados através de reformas jurídicas. A realidade,
entretanto, não seguiu a previsão ideal. Com base no contexto de transição das formas
jurídicas dos séculos XIX-XX na África, explique como a nova ideologia lidou com a
mudança de estatutos da mão-de-obra e sua consequência a curto prazo no continente.
O século XIX estreou, na Europa, a ideia de uma nova colonização em África, cujo
principal objetivo era, em suma, encerrar por vez a escravidão existente no continente.
Havia, nesta ideia apurada de imperialismo, a concepção de incongruência entre
escravidão e colonialismo - além da violação fundamental do conceito internacional de
mão-de-obra livre, e que, para a civilização africana finalmente prosseguir, necessitava-se
da intervenção ativa das Nações europeias.
O apagamento das outras dimensões violentas da lógica colonialista deu lugar à
caracterização fundamental do africano amoral e, portanto, desprovido de capacidade
civilizacional. Este constructo permeou as ações coloniais ao longo do século XIX e XX,
sobretudo ao lidar com a questão da transição de estatuto da mão-de-obra empregada em
África. O fim da escravidão não significou, de imediato, à condição de trabalhadores
livres. A falta de disciplina de tempo e a inexistência da lógica de mercado dos africanos,
sob julgamento europeu, fizeram com que as iniciativas imperiais tivessem caráter
incisivo.
A colonização era então moral. E a mudança das condições jurídicas, gradativa -
controlada pelas metrópoles. Os africanos, atrasados, não se tornariam espontaneamente
em uma classe proletária assalariada. Para fins desenvolvimentistas na África, portanto,
exigia a implementação do trabalho forçado. Fora esta a solução racionalizada pelas
potências europeias. A “particularidade africana” carecia de incentivo à modernização
prescrita para a implementação do trabalho livre.
Para tanto, o recrutamento forçado e o trabalho não remunerado foram
flexibilizados em todo o continente. A justificativa do emprego de mão-de-obra em
construções públicas - e mesmo o emprego para fins particulares - fizeram desta prática
corriqueira e de difícil controle. Tampouco a escravidão diminiuiu em território africano.
O fim do tráfico, ocorrido em torno dos anos de 1850, aumentou drasticamente a
utilização de escravizados no continente. A compatibilidade entre o imperialismo
pretendido e escravidão, ou trabalhos análogos à escravidão, demonstrava-se, deste modo,
evidente.
O sistema colonial repousava sob a frágil relação entre os preceitos liberais
europeus e a economia escravista existente na África. O caminho possível, fora, assim, a
tentativa de conciliar o abolicionismo formal com o mínimo de mudanças nas estruturas
sociais vigentes. A flexibilização do que era então considerado como escravidão resultou
nas péssimas condições de trabalho daqueles que, juridicamente, já não mais se
enquadravam como escravizados.
O chibalo (trabalho forçado e, por vezes, não remunerado) e o casamento
apresentaram-se como formas desta elasticidade dos estatutos. As condições asseguradas
do primeiro, por exemplo, não se cumpriam na prática. O recrutamento para outras
regiões, mesmo que em teoria com prazos estabelecidos, não havia verdadeiras
expectativas de retorno, assim como os salários não eram assegurados. O rapto feminino
tampouco se enquadrava na questão da escravidão, mas antes em relações matrimoniais.
As mudanças sociais provocadas por estas novas relações de trabalho foram
drásticas. Apesar das tentativas de certa manutenção das tradições sociais aldeãs e
geracionais, os chefes nativos perderam sua autonomia. Se antes administravam os
espaços e funções ocupadas pelos membros do coletivo, nesta nova versão tornaram-se
membros cooptados e de ação limitada do Estado colonial. Em suma, sua função
baseava-se no recrutamento repetido de mão-de-obra forçada para o abastecimento das
regiões (urbanas e rurais) que assim necessitava.
O descompasso entre a rigidez do trabalho imaginada pelos europeus e a forma de
trabalho africano transformou, também, a própria natureza das relações de trabalho. Se o
objetivo esperado era a conformação da mão-de-obra aos moldes estrangeiros, o que se
desenvolveu na África foram os trabalhos sazonais - com grande rotatividade/migração de
trabalhadores em busca de melhores condições e ofertas. Tais relações, no entanto,
estabeleceram-se em termos tradicionais, estipuladas pelos próprios africanos.
A mudança de pensamento, em meados do século XX, ocorreu, sobretudo, por
pressão africana. A capacidade organizacional agrícola nativa somada ao alinhamento com
questões políticas, promoveu avanços significativos na questão trabalhista colonial.
Apesar das relutâncias das metrópoles, especialmente na insistência do mito da
peculiaridade africana no setor da mão-de-obra assalariada, a ascensão dos produtores
africanos e sua possível articulação possibilitou, enfim, as progressões almejadas - mas
incapazes de serem promovidas pelos europeus.
Bibliografia:
COOPER, Frederick. Condições análogas à escravidão. Imperialismo e ideologia da
mão-de-obra livre na África. In: COOPER, F; HOLT, T.; SCOTT, R. Além da escravidão.
RJ: Civilização brasileira, 2005. pp. 201-270.
ZAMPARONI, V. Entre narros & mulungos. Colonialismo e paisagem social em Lourenço
Marques c. 1890- c.1940. Tese de Doutorado, USP, 1998. Cáp. 3: Trabalho compelido:
formas e dimensões. pp. 87-139

Mais conteúdos dessa disciplina