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DANIEL AULA 3 Prof. Antonio Carlos da Silva 2 DUAS VISÕES APOCALÍPTICAS DE DANIEL (CAPÍTULOS 7 E 8) CONVERSA INICIAL A 1ª parte do livro, capítulos 1 ao 6, é reconhecida por muitos como histórica. Agora passamos a estudar as visões dos capítulos 7 e 8 de Daniel que estão inseridas na parte apocalíptica do livro. O assunto do capítulo 7 relaciona- se com o do capítulo 2, que narra o sonho de Nabucodonosor envolvendo quatro reinos. No capítulo 2, por meio de Nabucodonosor, a revelação estaria voltada para uma perspectiva política dos impérios; já no capítulo 7, a revelação estaria voltada para uma perspectiva moral e espiritual, sendo representada por quatro animais apontando para cumprimentos apocalípticos envolvendo toda a humanidade. Pensando na cronologia do livro, há base histórica para se pensar que os fatos relatados no capítulo 5 aconteceram antes do que está escrito nos capítulos 7 e 8. Até aqui, Daniel interpretou sonhos do rei, mas a partir daqui ele vai passar pela experiência de ter sonhos e os deixará registrados para que o povo de Israel tenha sempre à disposição um referencial histórico de como ocorreram as principais intervenções de Deus durante o período do exílio babilônico e em parte medo-persa. No capítulo 7, além de ter uma visão sobre as quatro feras, ele também contempla a aparição de um ser celestial que lhe explica o que haverá de ocorrer com a humanidade nos tempos futuros. Mas é certo que ele não entende exatamente o sentido daquilo que viu. No capítulo 8, Daniel vê um carneiro e um bode com detalhes que serão vistos a seguir. Pode ser que as visões destes dois capítulos estivessem voltadas histórica e politicamente para o fim do governo de Belsazar, mas, tanto no capítulo 7 como no capítulo 8, o conteúdo também é profético e precisa ser interpretado com cuidado. TEMA 1 – A VISÃO DAS QUATRO FERAS (CAP. 7: 1-8) Daniel escreveu o sonho e relatou, provavelmente, o resumo daquilo que viu. Ele relata que quatro ventos se chocavam sobre o mar e, então, quatro 3 animais grandes emergiram. Ele apresenta em sequência cada um dos animais e o que cada um fez. Literalmente, o texto não aparenta nenhum sentido real. Entretanto, é possível observar em detalhes o que pode ser extraído deste trecho da Bíblia. De Nabucodonosor a Rômulo Augusto, este seria o período inicialmente previsto pela visão. 1.1 O sonho de Daniel O sonho ocorre no primeiro ano do rei Belsazar. Todos os elementos e aspectos que fazem parte do sonho vêm sendo interpretados histórica e metaforicamente. Por essa razão, há a necessidade de analisar detalhadamente o conteúdo deste trecho bíblico. Quatro ventos do céu agitavam o mar grande: a. Os “quatro ventos” representariam os quatro pontos cardeais; b. O “mar grande” representaria a humanidade que se agita e se movimenta. 1.2 As quatro feras No sonho, Daniel vê quatro animais grandes e diferentes. Cada um dos animais simbolizando a atuação de uma nação e/ou de um reino na história da humanidade, principalmente no mundo oriental. Quanto à interpretação sobre o significado destas quatro feras comentaremos mais à frente, mas, neste momento, é possível mencionar o texto do capítulo 2, versículo 17: “Estes quatro grandes animais, que são quatro, são quatro reis que se levantarão da terra”. Pensemos, primeiramente, sobre os animais: Um como leão com asas de águia (Babilônia); Um como urso (medo-persa); Um como leopardo (grego); Um com uma aparência impressionante (romano). Podemos estudar algumas peculiaridades a respeito deles para averiguarmos a relevância histórica e teológica desta visão no livro de Daniel. 1.3 Características – Babilônia Leão – Douglas (1995, p. 913) comenta que o leão era símbolo de realeza no antigo Oriente. Russell Shedd (1997, p. 1238) escreve que o símbolo nacional 4 da Babilônia era uma figura com a cabeça humana, o corpo de um leão, com asas de águia, conforme certos artefatos arqueológicos que ainda existem. Douglas (1995, p. 187) menciona que, no cenário babilônico, os mitos ilustram um caráter antropomórfico e dão ideia de qualquer objeto (exemplo: uma estátua) era imbuído de vida. No cenário religioso babilônico, um leão alado seria um símbolo adequado para representar a Babilônia. No cenário artístico, a representação do leão era frequente nas obras de arte babilônicas. O leão alado é uma das formas desse animal-símbolo que, com frequência, é representado combatendo junto a Marduque, o deus patrono de Babilônia (Douglas, 1995, p. 186). O profeta Jeremias faz uso da figura de um leão para descrever, em sua profecia, as ações que a Babilônia realizaria (Bíblia. Jeremias, 4: 7). 1.4 Características – medo-Persa Urso – Pensando sobre as características dos animais em termos de sua natureza, Douglas (1995, p. 1643) escreve que o urso era mais temido do que o leão, visto que sua força era maior e suas ações menos previsíveis. O fato de o urso se levantar, conforme descreve o autor bíblico, denotaria uma ação muito rude e hostil. Quando lemos o início da descrição da visão, percebemos que Daniel pouco interpreta e nem mesmo identifica os primeiros três reinos representados pelos três animais. No entanto, pensando de modo histórico-político, o urso corresponde ao segundo metal da estátua do capítulo 2 e estaria indicando a ascensão do Império Medo-Persa. Na estátua do capítulo 2, a prata indicada seria inferior ao ouro. Para alguns estudiosos, isto se daria entendendo que a representatividade do urso em termos naturais é inferior à do leão, mas não há consenso sobre esta interpretação. 1.5 Características – grego Leopardo – Douglas (1995, p. 922) comenta que, quando se menciona o animal leopardo nos textos bíblicos, as referências são proverbiais e figuradas. Pensando sobre a história das conquistas gregas, Russell Shedd (1997, p.1238) escreve que as quatro asas nas costas do leopardo, conforme descreve o autor, estariam representando os quatro generais de Alexandre, o grande conquistador https://pt.wikipedia.org/wiki/Imp%C3%A9rio_Medo-Persa 5 grego, e eles dominaram rapidamente o mundo na faixa que incluía a região da Grécia até a Índia. Há quem associe a figura do leopardo com ferocidade e rapidez para atacar e derrotar sua presa. Ryrie (1994, p. 1085) menciona que após a morte de Alexandre, o Grande, o império grego teve quatro cabeças, mas ele não associa com a figura dos generais gregos e sim com as nações/regiões conquistadas. Elas seriam a Síria, o Egito, a Macedônia e a Ásia Menor. Há quem interprete que este terceiro animal é a Grécia, identificada no capítulo 8, versículo 21, do livro de Daniel. Além dessas características, também se pode mencionar que o período conhecido como Helenístico tem início nesta ocasião de conquistas gregas. 1.6 Características – romano Animal aterrorizante (terrível e espantoso) – O autor bíblico escreve que o quarto animal era diferente de todos os animais anteriores e tinha a peculiaridade de ter dez chifres. Davidson (1997, p. 825) comenta que, no aramaico, o termo “diferente” pode ser traduzido por "agia diferentemente". Para o estudioso Ryrie (1994, p. 1085), este animal representa o Império Romano. Pensando sobre o poderio do Império Romano, Russell Shedd (1997, p. 1238) comenta que suas conquistas se davam por meio de armas de ferro e não poupava nada à sua frente. A descrição das características tem sido explorada por muitos estudiosos quando se pensa em escatologia. Davidson (1997, p. 825) destaca que há três aspectos que merecem atenção especial sobre este quarto animal. Primeiro, é sobre o próprio animal; segundo, a informação da existência dos dez chifres; e, terceiro, a aparição de um pequeno chifre. Quanto aos dentes de ferro, a expressão pode ter o sentidofigurado, representando crueldade e força. Bem como o animal rasgava e devorava suas presas, assim Roma conquistava nações e povos por meio de práticas cruéis. Algumas vezes destruía cidades inteiras, como no caso de Corinto em 146 a.C. Outras vezes, reinos, tais como Macedônia e os domínios selêucidas, os que eram divididos e convertidos em províncias. Pensando sobre os dez chifres, existem algumas opiniões sobre esta expressão. H.H. Halley (2002, p. 350) entende que eles podem corresponder aos dez dedos dos pés da estátua com que Nabucodonosor sonha no capítulo 2, nos versículos 41 e 42. Para ele, trata-se de dez reis ou reinados nos quais o Império 6 Romano foi dividido. Ele chega a pensar que os dez chifres podem referir-se a um grupo organizado composto por dez nações contemporâneas. Ao estudarmos sobre o pequeno chifre, vemos que ainda mesmo pequeno no começo, ele é descrito posteriormente como "maior que os anteriores". Douglas (1995, p. 390) comenta que, associando este texto ao texto do capítulo 8, versículos de 17 a 26, pensando profeticamente, ele pode representar um rei escatológico do Norte que se oporá ao anticristo. Para Halley (2002, p. 351), esse chifre é entendido como uma referência histórica a Antíoco Epifânio. A interpretação historicista afirma que o pequeno chifre simboliza a continuação do poder do Império Romano mediante a Igreja Romana. Quando lemos a expressão no capítulo 7, versículo 8, "três dos primeiros dez chifres são arrancados diante do pequeno chifre", segundo alguns estudiosos, o "chifre pequeno" pode ser visto como um símbolo da Roma Papal. Já os três chifres arrancados representariam a destruição de três das nações bárbaras (os hérulos, os vândalos e os ostrogodos). Há ainda uma interpretação alegórica aplicada ao início do século XX. Segundo ela, o chifre pequeno refere-se ao Reino Unido, os três chifres foram derrotados durante a Primeira Guerra Mundial, quando a Tríplice Entente, liderada pelo Reino Unido, derrotou a Tríplice Aliança (Alemanha, Áustria- Hungria e Itália). Outras possibilidades de interpretação estão relacionadas à relevância das características desses animais, mas, quando tratarmos da interpretação desta visão, investigaremos mais alguns detalhes. TEMA 2 – A CENA CELESTIAL DA VISÃO (CAP. 7: 9-14) Uma vez realizada a descrição da visão, Daniel, a partir do versículo 9, vai contar que continuou olhando e algo especial aconteceu. A linguagem utilizada pelo autor e os elementos apresentados são encontrados em literaturas apocalípticas que normalmente descrevem cenas envolvendo seres celestiais e suas ações para explicar e esclarecer o que há de acontecer na esfera natural, em um futuro próximo ou distante. https://pt.wikipedia.org/wiki/B%C3%A1rbaros https://pt.wikipedia.org/wiki/B%C3%A1rbaros https://pt.wikipedia.org/wiki/H%C3%A9rulos https://pt.wikipedia.org/wiki/V%C3%A2ndalos https://pt.wikipedia.org/wiki/Ostrogodos https://pt.wikipedia.org/wiki/Tr%C3%ADplice_Entente https://pt.wikipedia.org/wiki/Tr%C3%ADplice_Alian%C3%A7a_(1882) 7 2.1 O ancião de dias O ser descrito no versículo é apresentado em algumas versões como o ancião de dias, que literalmente seria avançado em dias. A cena descrita aponta para a realização de um julgamento justo. Vejamos algumas das expressões literais que o texto apresenta: “Foram postos uns tronos e o Ancião de dias se assentou.” Indicação de um lugar para julgar; “Sua veste era branca como a neve”. Indicação da pureza e justiça do Juiz; “cabelos da cabeça como pura lã”. Indicação da respeitabilidade e idoneidade de um magistrado; “o seu trono eram chamas de fogo [...] suas rodas eram fogo ardente [...] um rio de fogo manava e saía de diante dele”. A palavra “fogo” é um simbolismo usado para representar a presença gloriosa do Deus de Israel; “milhares de milhares o serviam [...] miríades de miríades estavam diante dele”. Numa perspectiva história, pode indicar um grande reino, no qual o juiz contava com o serviço de multidões súditas de seu reino. Em uma perspectiva escatológica, as multidões de anjos que se mantêm servindo ao Deus de Israel; “Assentou-se o tribunal”. Em um tribunal convencional, o silêncio que se estabelece para que o julgamento comece (Supremo Juiz); “Abriram-se os livros”. Os registros das realizações da humanidade; “um chifre ousado sem temor [...] A quarta fera foi morta e o corpo entregue para ser queimado”; “dos outros animais foi tirado o domínio". Surge, por fim, o Filho do Homem (Daniel 7: 13), um título frequentemente aplicado a Cristo. “[...] O Filho do Homem, e dirigiu-se ao Ancião de dias". Indicação da presença de duas figuras divinas. Aparentemente uma submissa à outra. “[...] foi-lhe dado domínio, e glória, e o reino, para que os povos, nações e homens de todas as línguas o servissem” (Daniel 7: 14). Indicação de um reinado global. Há quem interprete que este texto refere-se ao Milênio de 8 Cristo (o Ungido do Senhor), previsto no capítulo 20 do livro de Apocalipse. TEMA 3 – A INTERPRETAÇÃO DA VISÃO (CAP. 7: 15-28) Em termos literais, Daniel confessa que se sente abatido e pede para alguém que está perto lhe explicar o significado daquela visão. No versículo 17, ele recebe a explicação: os quatro animais serão quatro reis que se levantarão da terra. Talvez por serem símbolos comuns na época de Daniel, os três primeiros animais não lhe geraram curiosidade, mas a aparência do quarto animal o intrigou e ele, em seguida, recebeu a interpretação. 3.1 Interpretações Este sonho/visão (Daniel 7: 1) tem tido interpretações diferentes. As que mais se destacam são as históricas e as doutrinárias relacionadas, em especial, com o livro do Apocalipse. Em geral, os quatro animais representam quatro grandes impérios, sendo que, historicamente, há evidências de que tudo o que foi previsto no capítulo 7 de Daniel já se cumpriu. 1. Leão – Babilônico (Neobabilônico 605-539 a.C.); 2. Urso – medo-persa (538-331 a.C.); 3. Leopardo – grego (331-168 a.C.); 4. Terrível e espantoso – Romano (168 a.C. a 476 d.C.). Quanto ao Império Romano, alguns fatos podem ser observados com peculiar atenção. Próximo ao ano 200 a.C., quando Cartago não era mais rival à altura, Roma já havia dominado a região do Mediterrâneo ocidental e havia começado a se relacionar com o Oriente, o qual dominaria em 197 a.C. Roma derrotou a Macedônia e colocou os Estados Gregos sob sua proteção. Em 190 a.C., Roma derrotou Antíoco III e tomou o território selêucida pelo Leste até os montes do Tauro. Em 168 a.C., na Batalha de Pidna, Roma acabou com a monarquia da Macedônia, dividindo-a em quatro confederações. Em 146 a.C., Roma anexou a Macedônia como província e colocou a maior parte das cidades gregas sob o governador da Macedônia. 9 Se no capítulo 2 a estátua tinha 10 dedos nos pés, o animal espantoso do sonho tinha 10 chifres. Isso pode indicar força e rudeza diante de eventuais inimigos/adversários. Embora historicamente os romanos tenham agido com muita crueldade para avançar em suas conquistas, eles não seriam o quarto animal. Aqui surge o espaço para se fazerem interpretações doutrinárias escatológico- apocalípticas. O quarto animal, por suas características de difícil compreensão, vem sendo interpretado por alguns estudiosos como o Império Romano restaurado nos séculos XX e XXI, tendo como figura central o anticristo, sempre vinculado à história da Igreja Católica. Alguns aspectos como alianças políticas e religiosas vêm sendo identificadas como sinais do cumprimento desta parte da profecia do capítulo 7 de Daniel. TEMA 4 – A VISÃO DE UM CARNEIRO E UM BODE (CAP. 8: 1-14) Esta visão acontece ainda sob o reinado de Belsazar em meio ao Império Babilônico. Daniel se vê na cidade de Susã, na província de Elão (Daniel 8: 2). Essa cidade émencionada no livro de Neemias (1: 1) e no de Ester (1: 2) e ficava a cerca de 400 quilômetros a leste da cidade Babilônia (Ryrie, 1994, p. 1086). Na época destes relatos bíblicos, ela sediava um exuberante palácio construído por Dario e, mais tarde, ampliado por Xerxes (486-462 a.C.). Documentos encontrados em Susã evidenciam que Xerxes viveu nela ao menos durante parte de seu reinado (Thompson, 2007, p. 250). Tratando-se de uma visão, como foi essa experiência de Daniel ao se ver em uma cidade tão importante no reinado Medo-Persa, sendo que o reino ainda pertencia aos babilônicos? Susã, no sudoeste da Pérsia, foi ocupada, praticamente, desde os tempos pré-históricos até o tempo em que foi abandonada pelos selêucidas. O arqueólogo William Loftus escavou essa região pela primeira vez em 1851, e operações extensas subsequentes têm sido realizadas por arqueólogos franceses (Douglas, 1995, p. 1551). A seguir, abordaremos alguns aspectos que podem ajudar a esclarecer o alcance da visão observando alguns detalhes sobre os animais. 10 4.1 O carneiro Daniel viu diante de um rio um carneiro que tinha dois chifres, um maior do que o outro, sendo que o mais alto subiu por último. A simbologia profética aqui é a mesma do capítulo 2, em que os braços da estátua representariam Dario e Ciro (Daniel 8: 20). Indicando o reino medo-persa; Marradas para o norte e o sul. Indicando as guerras em que os persas se envolveriam. 4.2 O bode peludo Gabriel conta a Daniel (Daniel 8: 21) que o bode peludo é o rei da Grécia. Vinha do Ocidente. Indicando o líder do exército grego, Alexandre, o Grande; Alexandre foi discípulo de Aristóteles, de quem teria recebido instruções filosóficas e estratégias de guerra. O império de Alexandre era composto por quatro generais. 4.3 A divisão do Império Grego Depois de muitas lutas, o Império Grego foi dividido em quatro: Macedônia, Trácia, Síria e Egito. Essas nações que fazem parte dos relatos bíblicos do início da Era Cristã; Na Síria, surge o monarca selêucida, Antioco Epifâneo (215-162 a.C.), época dos macabeus. 4.4 Antíoco (figura do anticristo) Quais foram os feitos deste rei sírio: Destituiu o sumo sacerdote; Proibiu o sacrifício diário no templo; Erigiu um altar a Zeus; Vendeu milhares de famílias judias como escravas; Foi enfrentado pelos asmonianos (movimento apelidado de macabeu). 11 TEMA 5 – A INTERPRETAÇÃO DA VISÃO (CAP. 8: 15-27) Daniel tentou entender a visão e, de repente, surgiu à sua frente “um semelhante a homem” pedindo que Gabriel explicasse o significado da visão. Então foi dito a Daniel o seguinte: “Entende, filho do homem, pois esta visão se refere ao tempo do fim” (Daniel 8: 17). Esta expressão “tempo do fim” poderia ser entendida em relação ao fim do exílio, ou seja, o povo judeu voltaria para sua terra natal; ou ainda ao fim do reino da Babilônia. Essas duas possibilidades, historicamente, ocorreram não muito distantes da época de Daniel. 5.1 Retorno dos judeus para Jerusalém Observando as conquistas dos persas a partir de 539 a.C., por meio de Ciro, nota-se que há uma inversão na política de deportação em relação aos assírios e babilônicos. Os judeus ganham permissão para retornar à Palestina e reconstruir a cidade de Jerusalém, os muros e o templo. Após Ciro, surge Dario, rei da Pérsia que teria reinado de 521 a 486 a.C. Contemporâneo a Esdras, Neemias, Ageu, Zacarias, Zorobabel e Josué. Nesta recapitulação da história, observamos, após Dario, o surgimento e as conquistas dos gregos interpretados como sendo o carneiro na visão de Daniel. 5.2 O surgimento dos macabeus Do ramo sírio do Império Grego, surge o monarca selêucida Antíoco (figura do anticristo, príncipe destruidor em Daniel 8: 24). A expressão “tardes e manhãs”, em Daniel 8: 14, indica que o período total das abominações deste rei se estenderia de 171 a.C. a 165 a.C. (Davidson, 1997, p. 828). Flavio Josefo (1999, livro VII, p. 158) escreve que Antíoco cometeu diversas atrocidades contra os judeus. Dos versículos 23 a 25, são fornecidos detalhes a respeito de Antíoco e da perseguição feita por ele contra os judeus. No versículo 25, a atitude de blasfêmia de Antíoco é contra o Deus de Israel (Shedd, 1997, p. 1241). Surge aqui a resistência do movimento macabeu por meio de Matatias e seus filhos (vide livro apócrifo de 1 Macabeus 1-6). 12 5.3 A resistência dos macabeus Macabeus foi um grupo de judeus (asmonianos) que resistiu à ocupação da Palestina. O livro apócrifo de 1 Macabeus cobre os acontecimentos entre os anos 175 a 134 a.C., período em que estes judeus guerrearam contra as tropas de Antíoco Epifânio (Douglas, 1995, p. 94). Matatias, o libertador, em 167 a.C.; Judas, Simão e Eleazar retomam a cidade de Jerusalém; Em 106 a.C., Jerusalém passa a ser administrada pelos romanos. 5.4 Interpretação alegórica do capítulo 8: atentado terrorista em 11/09/2001 O atentado que chocou o mundo no dia 11 de setembro de 2001 foi uma ação inesperada para quase todos no Ocidente. Tratou-se de um dos maiores atos de intolerância religiosa até aquele momento. O ataque às Torres Gêmeas do World Trade Center (WTC), em Manhattan, Nova Iorque, causou a morte de ao menos três mil pessoas. No dia 11 de setembro de 2010, vários documentários foram exibidos no History Channel revelando os momentos mais marcantes da tragédia: “Hotel Ground Zero”, “102 Minutos que Mudaram o Mundo”, “O Homem que Previu o 11 de Setembro” e “O Milagre da Escadaria B”. Rick Rescorla, vice-presidente de segurança da Morgan Stanley/Dean Witter, a maior instituição financeira do WTC naquela ocasião, sabendo dos riscos que o prédio corria, por seu simbolismo e pela sua fama, preparou-se para um possível desastre. Ele treinava simulações de incêndio, evacuações e procedimentos de emergência, mantendo-se sempre atento. E, na tragédia, colocou em prática tudo o que aprendeu. Ele não teve uma profecia, mas uma forte intuição dos riscos que as torres corriam diante do terrorismo, já que, em 26 de fevereiro de 1996, o WTC havia sofrido um ataque a bomba. Pensando neste relato, torna-se pertinente mencionar algumas semelhanças do ocorrido com a descrição de alguns elementos do texto bíblico de Daniel, capítulo 8. “[...] Junto ao rio Ulai” – junto ao rio Hudson; 13 Carneiro – Estados Unidos; Duas pontas/chifres – Torres Gêmeas: torre norte mais alta que a torre sul; O bode não toca no chão – Rebeldes do Islã sequestram os aviões; O carneiro é ferido – Queda das duas torres. Essa interpretação mostra que há pessoas que, ao lerem os textos bíblicos, conseguem encontrar na história da humanidade fatos previstos pelos autores bíblicos, pois há quem entenda que a Bíblia pode ser um livro de relatos do passado, mas de advertências e orientações para o futuro. NA PRÁTICA As visões de Daniel são complexas de se compreender. Em relação ao cenário apocalíptico que o livro apresenta, existem os que acreditam se tratar de um conteúdo histórico, isto é, já aconteceu e pode apenas ter influência didática para a atualidade. E existem os que classificam o livro de Daniel como um mito e sua narrativa, um arranjo literário. Entretanto, em relação aos capítulos 7 e 8, o historiador Flavio Josefo (75 d.C.) escreveu que Alexandre, o Grande, foi anunciado por Daniel (8: 21) antes de acontecer. O profeta Ezequiel reconhece Daniel como personagem histórico (Ezequiel14: 14, 20; 28: 3). Eles foram contemporâneos no exílio babilônico. Comunicações de Deus a fim de revelar o futuro. FINALIZANDO Nesta aula vimos que Daniel, em pleno exílio e em pleno exercício de influência neste exílio, teve visões sobre o futuro do reino do qual fazia parte e dos que surgiriam após este. A interligação do capítulo 7 com o 2 deixa transparecer que existemgovernantes terrenos com seus anseios e comportamentos, mas que nada passa desapercebido aos olhos do Deus de Israel. A ascensão e a queda são reais em todos os reinos terrenos. Como confirmação dessa realidade, surge a promessa de que há um reino eterno e que “o domínio e a majestade dos reinos debaixo de todo o céu serão dados ao povo santo do Altíssimo” (7: 27). 14 A literatura apocalíptica precisa ser estudada com muita responsabilidade e respeito. 15 REFERÊNCIAS A MULTIPLICAÇÃO da ciência. WGospel.com. Disponível em: <https://www.wgospel.com/a-multiplicacao-da-ciencia/>. Acesso em: 9 set. 2019. A REVOLTA dos macabeus. Cronologia da Bíblia, 13 jul. 2011. Disponível em: <https://cronologiadabiblia.wordpress.com/2011/06/13/a-revolta-dos- macabeus/>. Acesso em: 9 set. 2019. AGUIAR, H. H. Palestina: antes e depois de Cristo – Parte II. Revista de Informação Legislativa, Brasília a. 41 n. 164 out./dez. 2004. Disponível em: <http://www.egov.ufsc.br/portal/sites/default/files/anexos/22182-22183-1- PB.pdf>. Acesso em: 9 set. 2019. AGUIAR, H. H. Palestina: antes e depois de Cristo: parte II. Brasília: Revista de Informação Legislativa, 2004. BEAULIEU, P. A. 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