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Pregando Cristo a partir de Daniel © 2017, Editora Cultura Cristã. Publicado originalmente em inglês com o título Preaching Christ from Daniel © 2012 Sidney Greidanus por Wm. B. Eerdmans Publishing Co. 2140 Oak Industrial Drive N.E., Grand Rapids, Michigan 49505. Todos os direitos são reservados. Conselho Editorial Antônio Coine Carlos Henrique Machado Cláudio Marra (Presidente) Produção Editorial Filipe Fontes Tradução Heber Carlos de Campos Jr. Neuza Batista da Silva Marcos André Marques Revisão Misael Batista do Nascimento Vagner Barbosa Tarcízio José de Freitas Carvalho Sandra Couto Sandra Dantas Editoração, e-book e capa OM Designers Grá�cos G824pGreidanus, Sidney Pregando Cristo a partir de Daniel / Sidney Greidanus ; Traduzido por Neuza Batista da Silva. _ São Paulo: Cultura Cristã, 2017 Recurso eletrônico (ePub) ISBN 978-85-7622-889-9 Tradução Preaching Christ from Daniel 1. Estudo Bíblico 2. Homilética 3. Pregação I. Título CDU 27-277 A posição doutrinária da Igreja Presbiteriana do Brasil é expressa em seus “símbolos de fé”, que apresentam o modo Reformado e Presbiteriano de compreender a Escritura. São esses símbolos a Confissão de Fé de Westminster e seus catecismos, o Maior e o Breve. Como Editora o�cial de uma denominação confessional, cuidamos para que as obras publicadas espelhem sempre essa posição. Existe a possibilidade, porém, de autores, às vezes, mencionarem ou mesmo defenderem aspectos que re�etem a sua própria opinião, sem que o fato de sua publicação por esta Editora represente endosso integral, pela denominação e pela Editora, de todos os pontos de vista apresentados. A posição da denominação sobre pontos especí�cos porventura em debate poderá ser encontrada nos mencionados símbolos de fé. Rua Miguel Teles Júnior, 394 – CEP 01540-040 – São Paulo – SP Fones: 0800-0141963 / (11) 3207-7099 www.editoraculturacrista.com.br – cep@cep.org.br Superintendente: Haveraldo Ferreira Vargas Editor: Cláudio Antônio Batista Marra Dedico este livro à igreja de Jesus que sofre perseguição. Que as mensagens reconfortantes de Daniel incentivem todos os cristãos a manterem-se fiéis até o fim. “Eu estava olhando... e eis que vinha com as nuvens do céu um como o Filho do Homem...” Daniel 7.13 “Eu sou [o Messias], e vereis o Filho do Homem assentado à direita do Todo-Poderoso e vindo com as nuvens do céu.” Jesus. Marcos 14.62 “Eis que vem com as nuvens, e todo olho o verá, até quantos o traspassaram.” João. Apocalipse 1.7 Prefácio Recordo-me que, quando jovem pregador, procurei por livros com modelos de sermão que me ajudassem a preparar sermões bíblicos relevantes. Infelizmente, achei pouca ajuda. Nem mesmo o meu doutorado em Hermenêutica e Homilética Bíblica forneceu ajuda significativa na pregação de um livro tão difícil como Daniel. Consequentemente, em meus oito anos como pastor de uma igreja, preguei apenas um sermão sobre Daniel – sobre Daniel 2 (uma passagem relativamente fácil), que eu preguei sob o tema: “O reino de Deus substituirá todos os reinos humanos” (3 de março de 1974). Agora, quase quarenta anos depois e tendo me aposentado do ensino no seminário, tive tempo para pesquisar o livro de Daniel em profundidade e perceber quantas boas-novas eu perdi quando mais jovem. Contudo, estou ciente de que não poderia ter pregado este livro controverso de forma responsável quando tinha que produzir dois sermões diferentes por semana. O objetivo deste livro é auxiliar os atarefados pregadores e professores de Bíblia a proclamarem as boas-novas de Daniel. Este livro os capacitará a identificar de imediato os blocos de construção importantes para a produção de sermões e aulas sobre Daniel: detectar a linha da história (enredo) de cada uma das seis narrativas e das quatro visões; formular o núcleo da mensagem de Israel no exílio (o tema); descobrir o objetivo do autor (propósito, intenção) ao enviar esta mensagem a Israel e, por analogia, o objetivo do pastor ao pregar essa mensagem à sua igreja hoje; descobrir várias maneiras de vincular cada texto da pregação a Jesus Cristo no Novo Testamento; e a obter exposição bíblica relevante de cada passagem. Como um companheiro dos meus livros Pregando Cristo a partir de Gênesis e Pregando Cristo a partir de Eclesiastes, este livro destina-se ainda mais a demonstrar e a reforçar o método cristocêntrico histórico- redentivo – desta vez demonstrando-o com a pregação do gênero apocalíptico. Conquanto a pregação cristocêntrica seja sempre teocêntrica, ela se move para além do foco teocêntrico, para a plenitude da autorrevelação de Deus em Jesus Cristo. Como o apóstolo João explica: “Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é quem o revelou” (Jo 1.18). Eu sigo o mesmo padrão básico para cada texto de pregação. Esse padrão se baseia nos dez passos do texto ao sermão que eu desenvolvi para seminaristas do primeiro ano (veja Apêndice 1). Ele gradualmente conduz os estudantes de uma relação casual com o texto a um envolvimento cada vez mais profundo, até que estejam prontos para escrever o sermão. A repetição resultante em cada capítulo tem a intenção de inculcar uma abordagem hermenêutico-homilética básica ao texto bíblico. Primeiramente, estabelecemos os parâmetros do texto da pregação (a unidade literária) e verificamos o seu contexto. Em seguida, notamos aspectos literários importantes, especialmente o enredo, o que é importante não só para a compreensão dessas passagens, mas também para pregar o sermão de uma forma narrativa. Depois da interpretação teocêntrica, buscamos formular o tema textual e objetivo. Com o tema em mente, podemos investigar vários caminhos legítimos desta passagem até Jesus Cristo no Novo Testamento. Depois de ter visto a mensagem do Antigo Testamento no contexto do Novo, estamos prontos para estender o tema textual e objetivo ao tema e objetivo do sermão. Cada capítulo termina com uma seção maior de “Exposição do Sermão”, que não apenas explica o significado dos versículos do texto da pregação, mas também fornece (muitas vezes em notas de rodapé) opiniões de muitos comentaristas que os pregadores podem querer incorporar aos seus sermões. Essas seções procuram fornecer um modelo para sermões usando o estilo oral, tanto quanto possível, dando a referência do versículo antes de citá-lo, para que a congregação possa ler junto (a compreensão é muito melhor quando a congregação não só ouve, mas lê as palavras), e mantendo o sermão em movimento (a maioria das citações, argumentos complexos e detalhes técnicos são relegados a notas de rodapé). Nessas seções, também assinalo onde e como no sermão eu faria a conexão com Cristo. Em consonância com o objetivo do sermão citado, faço aplicações breves; nos sermões reais, essas aplicações terão de ser desenvolvidas com ilustrações e sugestões concretas adequadas para a situação da congregação. Uma vez que estas seções procuram explicar cada versículo do texto, para os textos de pregação mais longos os pregadores terão que selecionar os versículos- chave para a exposição. Os professores de Bíblia podem atribuir as diversas seções da “Exposição do Sermão” aos seus alunos para estudarem Daniel em onze lições. O Apêndice 2 fornece o modelo de sermão expositivo que eu desenvolvi para seminaristas do primeiro ano. Este modelo visa fazer sermões que sejam bíblicos, relevantes e bem organizados. Um ex-aluno meu, Ryan Faber, combinou a revisão deste livro com a preparação e pregação de uma série de onze sermões sobre Daniel. Com sua permissão, incluí dois desses sermões nos Apêndices 3 e 4. Salvo disposição em contrário, a versão da Bíblia citada é a ARA (Almeida Revista e Atualizada). Quando a NVI (Nova Versão Internacional) é citada, é a versão mais recente (2011). Os itálicos nas citações bíblicas indicam a(s) palavra(s) que considero importante(s) para a interpretação e/ou gostaria de salientar na leitura. As referências nas notas de rodapé foram mantidas a um mínimo; referências completas podem ser encontradas na bibliografia.Quando um livro ou artigo não está incluído na Bibliografia Selecionada, a informação completa encontra-se na nota de rodapé. Minha esperança e oração são votos de que este livro ajude pregadores e professores a edificarem a fé, a esperança, o amor e a perseverança do povo sofredor de Deus com as mensagens de Daniel sobre a soberania de Deus sobre todos os reinos humanos e a certeza da vinda do reino de Deus. Grand Rapids, Michigan Sidney Greidanus Agradecimentos Antes de tudo, gostaria de agradecer aos meus quatro revisores pelo excelente trabalho. Em ordem alfabética, eles foram meus ex-alunos, o Rev. Ryan Faber, de Pella, IA; meu irmão, Rev. Morris N. Greidanus, de Grand Rapids, MI; meu colega, Rev. Dr. Arie C. Leder, de Grand Rapids, MI; e meu ex-aluno, Rev. Joel Schreurs, de Denver, CO. As correções, perguntas e sugestões fizeram este livro muito melhor do que eu poderia ter produzido sem a contribuição deles. Também expresso o meu apreço à biblioteca do Calvin College e do Calvin Theological Seminary pela sua generosa política de empréstimos para o corpo docente e ao seu pessoal pelo serviço prestimoso. Agradeço ao pessoal da Eerdmans Publishing Company, especialmente ao editor de cópia dos meus últimos quatro livros, Milton Essenburg, por habilmente preparar este livro para publicação. Mais uma vez expresso minha gratidão à minha esposa, Marie, por cuidar da maioria das tarefas domésticas para que eu pudesse me concentrar totalmente na pesquisa e escrita deste livro. Acima de tudo, sou grato a Deus por me dar saúde, força, inspiração e alegria para completar este trabalho. Visto que Daniel foi originalmente escrito para confortar e encorajar Israel, que sofria no exílio, dedico este livro à igreja de Jesus que está sofrendo perseguição. Abreviaturas AS Aramaic Studies AT Acta Theologica AUSS Andrews University Seminary Studies AV Authorized Version BAR Biblical Archaeology Review BBR Bulletin for Biblical Research Bib Bíblica BSac Bibliotheca Sacra BTB Biblical Theology Bulletin CBQ Catholic Biblical Quarterly CBR Currents in Biblical Research cf. confira, compare CTJ Calvin Theological Journal CovQ Covenant Quarterly CQ The Congregational Quarterly ed(s) organizador(es) ESV English Standard Version ET English Translation EvQ Evangelical Quarterly EvRT Evangelical Review of Theology ExpTim Expository Times HBT Horizons in Biblical Theology Heb. Hebraico HervTS Hervormde Teologiese Studies HUCA Hebrew Union College Annual IB Interpreter’s Bible Int Interpretação JATS Journal of the Adventist Theological Society JBL Journal of Biblical Literature JETS Journal of the Evangelical Theological Society JHS Journal of Hebrew Scriptures JQR Jewish Quarterly Review JSHJ Journal for the Study of the Historical Jesus JSOT Journal for the Study of the Old Testament JSS Journal of Semitic Studies JTS Journal of Theological Studies LXX Septuaginta MT Texto Massorético do Antigo Testamento hebraico n(n). nota(s) de rodapé(s) NASB New American Standard Bible NEB New English Bible NIV New International Version (2011) NRSV New Revised Standard Version NICOT New International Commentary on the Old Testament NIDOTTE New International Dictionary of Old Testament Theology and Exegesis OG Grego antigo p(p). página(s) par(s). paralelo(s) PRSt Perspectives in Religious Studies PSBul Princeton Seminary Bulletin RevExp Review and Expositor RR Reformed Review RSV Revised Standard Version TDNT Theological Dictionary of the New Testament TDOT Theological Dictionary of the Old Testament TJ Trinity Journal trad. Traduzido por TSFBul Theological Students Fellowship Bulletin TynBul Tyndale Bulletin Vol. Volume VT Vetus Testamentum VTSup Vetus Testamentum, Supplements W&W Word & World WTJ Westminster Theological Journal INTRODUÇÃO Dificuldades na pregação de Cristo a partir de Daniel Embora as histórias de Daniel sejam muito apreciadas pelas crianças da Escola Dominical, em geral os estudiosos do Antigo Testamento concordam que esse livro é um dos mais difíceis para pregadores. André Lacocque afirma que a mensagem de Daniel “é apresentada de uma forma cheia de armadilhas e ciladas para o leitor”.1 Brent Sandy e Martin Abegg afirmam que “o gênero apocalíptico tem sido submetido a algumas das interpretações mais falaciosas que se possa imaginar, em grande parte porque os cristãos nem sempre tomam o devido cuidado de entender a intenção original do autor e o significado da mensagem para os ouvintes da época. Qualquer porção da Escritura divorciada de sua cultura original e da intenção do seu autor é como uma criança sem teto vagando pelas ruas, vulnerável a abusos violentos.”2 Milhares, ou talvez dezenas de milhares de páginas, foram escritas sobre problemas introdutórios do livro de Daniel. Um dos principais tópicos se refere à data de sua composição, e questões conexas dizem respeito ao seu autor(es) e ao seu público original. Na verdade, modernos estudiosos críticos, dispensacionalistas e outros têm gerado tanta controvérsia sobre a data do livro, sua historicidade e se Daniel pode ser usado para prever “o fim do mundo”3 que muitos pregadores evitam até mesmo tentar pregar sobre Daniel. O Lecionário Comum seleciona apenas três passagens de Daniel para o seu ciclo de três anos: ele atribui a leitura de Daniel 12.1-3 para todos os três anos no domingo de Páscoa à noite; Daniel 7.1-3, 15-18 no Ano C para o Dia de Todos os Santos; e Daniel 7.9-14 no Ano B para um domingo no final da temporada de Pentecostes. Sibley Towner coloca a questão vividamente: “Por que pregadores deveriam arriscar levar aos seus púlpitos as bombas-relógio acionadas no Livro de Daniel?”4 Visto que o meu objetivo principal ao escrever este livro é ajudar pastores a pregarem mensagens em Daniel, e como que as discussões sobre as questões introdutórias complexas podem prejudicar o objetivo, remeto o leitor a outros autores para ver discussões introdutórias mais detalhadas.5 Peter Craigie afirma, com razão: “Nós não compreenderemos a relevância do livro combatendo as batalhas da crítica histórica; eventualmente, a mensagem deste livro é revelada àqueles que tentam compartilhar a visão de seu autor”.6 Contudo, não podemos evitar as questões introdutórias inteiramente. Visto que sua posição em relação à data de composição, o autor(es) e o público original têm impacto sobre a exposição, o objetivo e a aplicação de uma passagem,7 devemos, pelo menos, indicar o nosso ponto de partida e algumas das razões para isso. O contexto histórico e geográfico de Daniel O livro de Daniel retrata acontecimentos na vida de Daniel e seus amigos nos anos de 605 a.C. (“No ano terceiro do reinado de Jeoaquim”; 1.1) a 536 a.C. (“No terceiro ano de Ciro”; 10.1). Registra também as visões de Daniel concernentes a épocas posteriores, incluindo o governo de Antíoco IV (8.9- 12, 23-25; 11.21-35; 175-163 a.C.) e o “tempo do fim” (por exemplo, 11.40; 12.1-3, 13). A tabela8 a seguir fornece uma visão geral das principais datas, impérios, pessoas e eventos, juntamente com referências a Daniel. História coberta por Daniel Data a.C. 625- 539 IMPÉRIO BABILÔNICO Dn 2.37-38 605- 562 Nabucodonosor Dn 1-4; 7.4 605 Daniel e seus amigos levados para a Babilônia Dn 1.3-4 597 Jerusalém tomada; muitos judeus exilados 2Rs 24.10-17 587 Jerusalém destruída; templo queimado; remanescente judeu exilado 2Rs 25.8-21 562- 560 Amel-Marduque (Evil-Merodaque) 2Rs 25.27-30 560- 556 Neriglissar, genro de Nabucodonosor 556 Labashi-Marduque 556- Nabonide 539 550- 539 Belsazar (corregente com seu pai Nabonide) Dn 5; 7.1; 8.1 539- 331 IMPÉRIO MEDO-PERSA Dn 2.39a 550- 530 Ciro/Dario, rei medo-persa Dn 1.21; 5.31; 6.1, 28; 8.3-4, 20; 9.1; 10.1; 11.1 539 Babilônia cai para Ciro Dn 5.24-30 538 Retorno do remanescente de judeus exilados 2Cr 36.22-23; Ed 1-2 530- 522 Cambises Dn 11.2 522 Esmérdis Dn 11.2 522- 486 Dario I Dn 11.2 520- 516 Reconstrução do templo Ed 6.15 486- 465 Xerxes I/Assuero em Ester Dn 11.2 465- 424 Artaxerxes I 423 Xerxes II 423- 404Dario II 404- 358 Artaxerxes II Nótus 358- 338 Artaxerxes III Ocus 338- 336 Arses 336- 331 Dario III Codomano 331- 63 IMPÉRIO GREGO Dn 2.39b 336- 323 Alexandre, o Grande Dn 8.5-8, 21; 10.20; 11.3 331 Alexandre vence Dario III Dn 11.3 301 Império grego dividido entre os quatro Diádocos Dn 8.8, 22; 11.4 EGITO (Ptolomeus) SIRIA (Selêucidas) 323- 285 Ptolomeu I Dn 11.5 311- 280 Seleuco I Dn 11.5 285- 246 Ptolomeu II Dn 11.6 280- 261 Antíoco I Soter 261- 246 Antíoco II Theos Dn 11.6 252 Berenice, filha de Ptolomeu II, se casa com Antíoco II Dn 11.6 246- 226 Seleuco II Calínico Dn 11.7-9 246- 221 Ptolomeu III Euergetes I Dn 11.7-9 226- 223 Seleuco III Cerauno Dn 11.10 223- 187 Antíoco III, o Grande Dn 11.10-19 221- 204 Ptolomeu IV Filópatro Dn 11.11-12, 14 204- 181 Ptolomeu V Epifânio Dn 11.13-19 193 Ptolomeu V se casou com Cleópatra, filha de Antíoco III Dn 11.17 187 Morte de Antíoco III Dn 11.18-19 187- 175 Seleuco IV Filópatro Dn 11.20 181- 146 Ptolomeu VI Filômetro (reinou junto com Ptolomeu VII) Dn 11.25-27 175- 164 Antíoco IV Epifânio Dn 8.9-12, 23-25; 11.21-35 (-39?) 169 1ª Guerra de Antíoco contra o Egito Dn 11.25-28 168 2ª Guerra de Antíoco contra o Egito Dn 11.29 168 Antíoco expulso do Egito pelo cônsul romano Dn 11.30 167 Altar para Zeus perto do templo de Jerusalém Dn 11.31 167- 163 Perseguição aos judeus Dn 11.33-35 163 Morte de Antíoco IV Dn 8.25 63 a.C. – 476 d.C. – IMPÉRIO ROMANO Dn 2.40 “O TEMPO DO FIM” Dn 8.17; 11.35, 40; 12.4, 9, 13 Tempo de angústia Dn 7.25; 12.1 Liberto o povo de Deus Dn 7.27; 12.1 Ressurreição dos mortos Dn 12.2, 13 Reino de Deus na terra Dn 2.35, 44; 7.14, 27; 9.24; 12.3, 13 Como se pode ver nesta tabela, o livro de Daniel trata de quatro grandes impérios mundiais: Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia (especialmente o Egito e a Síria) e Roma. O mapa na página 23 mostra a localização desses países, com Israel situado no meio. O livro de Daniel contém seis narrativas sobre Daniel e seus amigos (capítulos 1–6) e quatro visões de Daniel (capítulos 7–12). Tradicionalmente, a sinagoga, bem como a igreja, sustenta que Daniel escreveu este livro no século 6º a.C. Essa opinião mudou nos tempos modernos. Uma composição do século 2o a.C. No século 3º depois de Cristo, um crítico pagão do Cristianismo, Porfírio, atacou a posição tradicional, alegando que profecia não pode prever eventos com 400 anos de antecedência. Ele sustentou que o autor de Daniel era um falsificador que escreveu o livro no século 2º a.C., depois de esses eventos terem ocorrido (vaticinium ex eventu). A igreja declarou a posição de Porfírio como herética, e a posição tradicional foi mantida pela igreja até os tempos modernos. “Mas, durante o tempo do Iluminismo, no século 18, todos os elementos sobrenaturais na Bíblia foram postos sob suspeita; e a teoria de Porfírio recebeu apoio crescente”.9 Como Porfírio,10 esses estudiosos críticos presumiram que a profecia não pode prever o futuro em detalhes.11 Eles também alegaram que o relato de Daniel do exílio do século 6º é bastante vago, se não “confuso”,12 enquanto as informações dele sobre os séculos 3º e 2º a.C., no capítulo 11, são incrivelmente precisas (veja a tabela acima). Eles argumentaram, portanto, que o autor(es) deve(m) ter escrito este livro não no século 6º a.C., mas no século 2º, após esses eventos terem ocorrido. De acordo com James Montgomery, o autor escreveu este livro “nos primeiros anos da revolta dos Macabeus, 168-165 a.C.”,13 embora provavelmente tenha feito uso de material anterior nos capítulos 1–6.14 Seu objetivo era encorajar Israel a aderir ao levante e se libertar do jugo do cruel rei selêucida Antíoco IV Epifânio (175-163 a.C.).15 Esses estudiosos respaldam a sua posição ao apontar “erros” supostos históricos sobre o século 6º a.C. nos primeiros seis capítulos de Daniel. Por exemplo, Daniel 1.1 afirma: “No ano terceiro do reinado de Jeoaquim, rei de Judá, veio Nabucodonosor, rei da Babilônia, a Jerusalém e a sitiou”, enquanto Jeremias atribui este evento ao “ano quarto de Jeoaquim” (25.1, 9). Norman Porteous afirma confiantemente: “A primeira afirmação no capítulo 1 pode ser demonstrada como imprecisa”.16 Em Daniel 4.30, o rei Nabucodonosor diz: ”Não é esta a grande Babilônia que eu edifiquei para a casa real, com o meu grandioso poder e para glória da minha majestade?” Mas a Babilônia existia muito antes de Nabucodonosor, e os historiadores antigos não se referem a Nabucodonosor como o construtor da Babilônia. Daniel 5.1 afirma: “O rei Belsazar deu um grande banquete a mil dos seus grandes e bebeu vinho na presença dos mil” (cf. 8.1). H. H. Rowley chama isso de “grave erro histórico”, pois nenhum outro texto foi encontrado que o chama de “rei”.17 Daniel 5.11 e 18 falam de Nabucodonosor como o “pai” de Belsazar. Rowley afirma que “isto é manifestamente incorreto, uma vez que Belsazar é conhecido por ter sido o filho de Nabonide”.18 Daniel 5.30- 31 diz que, quando Belsazar foi morto, “Dario, o medo, com cerca de sessenta e dois anos, se apoderou do reino”. Rowley alega que “Daniel está definitivamente errado na atribuição do trono a Dario, após a queda do império neobabilônico”.19 Todos estes “erros” em relação ao século 6º a.C., prossegue a argumentação, apontam para um autor que viveu séculos depois desses acontecimentos. Por exemplo, John Collins escreve: “O equívoco do autor sobre o pai e posto de Belsazar... sugere que a história, na forma como a temos, foi escrita numa época em que a memória daquele príncipe se enfraquecera”.20 Esses estudiosos fortificaram ainda mais sua posição em favor de uma data do século 2º com argumentos linguísticos, observando que o autor usou palavras persas, estrangeirismos gregos e, supostamente, hebraico e aramaico tardios.21 Seus argumentos são tão extensos que a maioria dos comentaristas modernos rejeita uma data do século 6º para o livro de Daniel. Em vez disso, colocam a data de composição entre 168 e 164 a.C., embora algumas das histórias sobre Daniel e seus amigos possam ser datadas no século 3º ou 4º a.C. Mesmo que esses comentaristas estejam certos, eles não podem negar que o “autor implícito” do livro de Daniel é o Daniel do século 6º e que o “leitor implícito” é Israel no exílio na Babilônia. Isto significa que a intenção do “verdadeiro autor” é que seus leitores ouçam e entendam essas histórias e visões no contexto do século 6º a.C. Uma composição do século 6o a.C. Porém, os argumentos desses estudiosos modernos não são convincentes. Primeiro, conforme o próprio Collins ressalta, os esforços para mostrar a relevância dos capítulos 1–6 para a perseguição sob Antíoco IV não são convincentes: “Considerações cuidadosas dos relatos não apoiam a ideia de que eles foram compostos tendo em mente essa situação [de Antíoco IV]”.22 Apesar de Nabucodonosor ter uma natureza cruel e um temperamento terrível, ele não profanou o templo de Deus como Antíoco fez pela instalação de um altar a Zeus sobre o altar de Yahweh. Pelo contrário, no fim, Nabucodonosor confessou que o Deus de Israel era o Deus Soberano, “o Altíssimo” (Dn 4.34-35). Belsazar se aproxima mais de Antíoco quando ele desafiou o Deus de Israel bebendo nas taças sagradas do templo de Deus em seu banquete etílico (Dn 5.2-4), mas isto ainda não está perto de profanar o próprio templo, consagrando-o a Zeus, abolindo “o sacrifício diário” para Deus e oferecendo porcos no altar – a “transgressão assoladora” (Dn 8.11-14; 11.31). Dario é o oposto de Antíoco IV: ele “ficou muito penalizado” por seu amigo Daniel e se empenhou por salvá-lo dos leões até o pôr do sol; ele deseja: “O teu Deus... que ele te livre!”; ele decreta que “em todo o domínio do meu reino, os homens tremam e temam perante o Deus de Daniel” e termina com uma doxologia inspiradora ao Deus de Daniel como “o Deus vivo” (6.14, 16, 25-27). Segundo, não precisamos aceitar o pressuposto moderno de que a profecia não pode prever o futuro em detalhes.23 É verdade que os profetas dirigem suas mensagensaos seus contemporâneos, mas, ao fazê-lo, certamente podem prever o futuro, mesmo em detalhes (veja, por exemplo, 1Rs 13.2 e Is 44.7, 28). Deus conhece o futuro em detalhes (p. ex., Is 41.21-23; 46.8- 11) e pode revelar esse futuro a um profeta.24 Por exemplo, Isaías prediz em detalhes o que ia acontecer ao Servo de Deus: Era desprezado e o mais rejeitado entre os homens; homem de dores e que sabe o que é padecer... Ele foi oprimido e humilhado, mas não abriu a boca... Porquanto foi cortado da terra dos viventes; por causa da transgressão do meu povo... Designaram-lhe a sepultura com os perversos... mas com o rico esteve na sua morte… (Is 53.3, 7-9) Esta profecia foi cumprida na vida e morte de Jesus, cerca de seiscentos anos depois. O próprio Jesus, “começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras” (Lc 24.27, veja também os v. 44-47). Até mesmo Jesus citou Daniel para alertar sobre futuras perseguições: “Quando, pois, virdes o abominável da desolação de que falou o profeta Daniel, no lugar santo (quem lê entenda), então, os que estiverem na Judeia fujam para os montes” (Mt 24.15-16). Aqui Jesus não só chama Daniel de “profeta”, mas também admitiu que ele estava prevendo um evento futuro, “o abominável da desolação no lugar santo”, que aconteceria no futuro.25 De fato, de acordo com Deuteronômio 18.21-22, pode-se distinguir um profeta verdadeiro de um falso verificando se sua previsão foi cumprida. A profecia pode, portanto, prever o futuro, bem como sua descendente, a literatura apocalíptica.26 Terceiro, o autor/editor de Daniel afirma que Daniel escreveu as visões que recebeu no século 6º a.C.: “No primeiro ano de Belsazar, rei da Babilônia, teve Daniel um sonho e visões... escreveu logo o sonho... Eu [Daniel] estava olhando, durante a minha visão” (7.1-2). Uma vez que as outras três visões são escritas na primeira pessoa, Daniel presumivelmente também escreveu essas visões: “No ano terceiro do reinado do rei Belsazar, eu, Daniel, tive uma visão depois daquela que eu tivera a princípio. Quando a visão me veio, pareceu-me estar” (8.1-2); “No primeiro ano de Dario... no primeiro ano do seu reinado, eu, Daniel, entendi” (9.1-2); “No terceiro ano de Ciro, rei da Pérsia... No dia vinte e quatro do primeiro mês, estando eu à borda do grande rio Tigre, levantei os olhos e olhei” (10.1,4-5). Além disso, Daniel foi instruído: “Encerra as palavras e sela o livro” (12.4). Os seis primeiros capítulos descrevem o que aconteceu com Daniel e seus amigos, no século 6º a.C. Uma vez que estes capítulos são escritos na terceira pessoa, é possível que alguém que não seja Daniel os tenha escrito. Archer aponta, no entanto, que um autor antigo “geralmente escrevia sobre si mesmo na terceira pessoa, como era costume entre os autores antigos de memórias históricas... Em geral, aparentemente era considerado de mau gosto um escritor falar de si mesmo na primeira pessoa – prática que tem indícios da vanglória dos soberanos assírios e persas.”27 Seja como for, uma vez que Daniel foi levado para o exílio no século 6º a.C. (Dn 1.1-6) e que o livro é uma unidade,28 é uma boa hipótese de trabalho, até o presente, assumir que o livro inteiro data do século 6º a.C. Quarto, outra razão para entender Daniel como sendo um documento do século 6º a.C. é que os erros históricos citados pelos estudiosos críticos para defender uma data posterior foram subsequentemente refutados e demonstrados como principalmente erros desses estudiosos. Acontece que Daniel 1.1 não está errado quando diz: “No ano terceiro do reinado de Jeoaquim, rei de Judá, veio Nabucodonosor, rei da Babilônia, a Jerusalém e a sitiou”. Na Babilônia, Daniel usou o “método do ano de ascensão”, no qual o ano de ascensão não era contado, enquanto Jeremias usou o método palestino-judaico “o ano de não ascensão”, em que o ano de ascensão era contado como o primeiro ano. A tabela de Gerhard Hasel mostra claramente que o “terceiro ano” e o “quarto ano” de Joaquim são o mesmo ano.29 Método do Ano de Ascensão Método do Ano de não Ascensão (Dn 1.1) (Jr 25.1, 9; 46.2) Ano de Ascensão 1º ano 1º ano 2º ano 2º ano 3º ano 3º ano 4º ano O fato de o autor de Daniel ter usado o método do ano de ascensão babilônico também confirma que ele “escreveu de uma perspectiva babilônica”.30 Quanto à vanglória de Nabucodonosor, “Não é esta a grande Babilônia que eu edifiquei...?”, arqueólogos descobriram registros do mesmo tipo de vanglória do século 6º a.C. em palavras quase idênticas. Hasel observa que “esta precisão histórica é intrigante para aqueles que sugerem que Daniel foi escrito no século 2º a.C”. 31 Quanto a Belsazar ser chamado de “rei”, “a informação descoberta esclarece explicitamente que seu pai, o rei Nabonide, confiou a Belsazar ‘realeza’ (sarrutim)”.32 Desde Heródoto, que (450 a.C.) lista Nabonide como o último rei da Babilônia, “tornou-se assustadoramente claro que o escritor de Daniel estava muito mais bem informado sobre a história dos 540 a.C. na Babilônia do que Heródoto em 450 a.C”. Esta descoberta é mais um “argumento poderoso em favor de uma data no século 6º para a redação do livro”.33 Mas por que Daniel chama Nabucodonosor de “pai” de Belsazar (5.18) quando Nabonide era o seu pai biológico? A resposta é que “a palavra ‘pai’ em línguas semíticas, incluindo hebraico, também pode significar avô, um ancestral físico mais remoto, ou mesmo um predecessor no cargo”.34 Finalmente, é verdade que Dario, o medo, ainda não é conhecido da literatura extrabíblica. Joyce Baldwin segue D. J. Wiseman (1957) na identificação de Dario com Ciro, o Grande.35 Mais recentemente, Andrew Steinmann fez um argumento semelhante: “Daniel conhece este rei tanto por seu nome mais familiar Ciro (1.21; 6.28; 10.1) quanto como Dario (5.31; 6.1, 6, 9, 25, 28; 9.1; 11.1). Daniel equivale os dois em 6.28 por meio de waw epexegético”.36 Assim, Daniel 6.28 diz: “No reinado de Dario e [“que é”, ou “a saber”] no reinado de Ciro”. Steinmann continua: “A utilização que Daniel faz do nome ‘Dario’ pode ser a sua maneira de enfatizar o cumprimento das palavras dos profetas, que falaram dos medos como os que realizariam a queda da Babilônia (Is 13.17; 21.2; Jr 51.11, 28). O próprio Daniel fala sobre a queda do reino da Babilônia, que seria dado ‘aos medos e aos persas’ (Dn 5.28).”37 Stephen Miller observou que “o autor de Daniel exibiu um conhecimento mais amplo de eventos do século 6º do que parece possível para um escritor do século 2º. R. H. Pfeiffer (que argumentou que a obra contém erros) reconheceu que Daniel relata alguns detalhes históricos surpreendentes: ‘Provavelmente nós nunca saberíamos, como o nosso autor soube, que a nova Babilônia foi criação de Nabucodonosor (4.30) [Hb 4.27], como as escavações revelaram... e que Belsazar, mencionado apenas nos registros da Babilônia, em Daniel, e em Baruque 1.11, que é baseado em Daniel, estava atuando como rei quando Ciro tomou a Babilônia, em 538 [539] (c. 5)’.”38 Quinto, ainda outra razão para compreender Daniel como um documento do século 6º a.C. é que os argumentos linguísticos para uma data posterior podem ser virados de ponta-cabeça para apoiar a data antecipada. Por um lado, Miller aponta que “o pequeno número de termos gregos no livro de Daniel é um argumento mais convincente de que a profecia não foi produzida no período dos Macabeus, o coração da era grega. Por volta do ano 170 a.C., a Babilônia e a Palestina tinham sido tomadas por governos de língua grega já há 150 anos, e seria de se esperar termos gregos numerosos em um trabalho produzido durante este tempo.”39 Por outro lado, Andrew Hill observa que “os estrangeirismos persas para termos administrativos e oficiais sugerem uma forma final do livro quando o domínio persa na Mesopotâmia já estava firmemente estabelecido. O mal- entendido aparente desses termos por parte dos tradutores gregos posteriores das versões da LXX consubstancia ainda mais uma data pré- helenística para o livro.”40 O aramaico deDaniel também indica uma data anterior para o livro, conforme Hasel conclui: “Com base em evidências atualmente disponíveis, o aramaico de Daniel pertence ao aramaico oficial e pode ter sido escrito já no final do século 6º a.C.; evidência linguística que é claramente contra uma data do século 2º a.C.”41 Baldwin resume os muitos argumentos contra e a favor da seguinte maneira: “Quando todos os fatores relevantes são levados em conta, incluindo os argumentos para a unidade do livro [ver abaixo], uma data do final do século 6º ou começo do século 5º para a redação do livro é a que melhor se adequa às evidências”. 42 Visto que a data da última visão é “no terceiro ano de Ciro” (Dn 10.1), que é de 536 a.C., as memórias e visões de Daniel devem ter sido compiladas pouco tempo depois dessa data,43 embora alguma edição/atualização posterior seja possível. O(s) autor(es)/editor(es) e o público de Daniel Se o livro de Daniel tiver sido escrito no século 6º a.C., ele pode ter sido escrito pelo próprio Daniel.44 Como vimos acima, até mesmo os relatos na terceira pessoa dos capítulos 1–6 poderiam ter sido escritos por Daniel. Parece improvável, porém, que Daniel os tenha escrito: “[Este] Daniel, pois, prosperou no reinado de Dario e no reinado de Ciro, o persa” (6.28). Pode muito bem ser, então, que um editor final tenha compilado o livro de Daniel, usando as próprias memórias e registros das visões de Daniel.45 Portanto, ainda podemos considerar Daniel o autor principal do livro que leva seu nome. As mensagens de Daniel foram dirigidas a públicos diferentes em diferentes momentos. Visto que as primeiras cinco narrativas de Daniel tratam dos reis babilônios Nabucodonosor e Belsazar e suas três visões são cuidadosamente datadas no primeiro e no terceiro anos do rei Belsazar (7.12; 8.1; 550 a.C. e 548 a.C.) e no primeiro ano de Dario (9.1; 539 a.C.), podemos admitir que Daniel originalmente apresentou todas as suas mensagens (exceto a sua visão final) a Israel no exílio, antes de um remanescente voltar para a Terra Prometida, em 538 a.C.46 Esses exilados precisavam ser encorajados a permanecerem fiéis a Deus e ouvir as mensagens reconfortantes de que Deus estava no controle dos impérios do mal e que traria seu povo de volta para a Terra Prometida e estabeleceria o seu reino eterno. O segundo horizonte histórico é o do próprio livro de Daniel. Visto que a data da última visão foi “no terceiro ano de Ciro” (10.1; 536 a.C.) e que o livro foi concluído após essa data (entre 536 a.C. e 515 a.C.),47 o livro de Daniel se dirigia aos israelitas que permaneceram no exílio, depois que um remanescente voltou para a Terra Prometida, em 538 a.C., bem como ao restante que pelejava na Palestina. Este livro seria lido também em tempos posteriores, é claro, como no século 2º a.C., quando Israel, na Palestina, seria perseguido por Antíoco IV, justamente o tempo sobre o qual Daniel escreveu nos capítulos 8 e 11. Naquela época, o livro começou a pulsar com nova relevância. Quatrocentos anos antes, Deus havia falado deste tempo. O seu Deus soberano estava no controle então, e continuava no controle enquanto eles sofriam perseguição. Deus iria resgatá-los se eles permanecessem fiéis a ele.48 O terceiro grande horizonte histórico é dado pelo Novo Testamento, quando Jesus usou especialmente Daniel para proclamar: “O reino de Deus está próximo” (Mc 1.15; cf. Dn 2.44); para prever “o abominável da desolação de que falou o profeta Daniel, no lugar santo” (Mt 24.15; cf. Dn 11.31): e para reivindicar, diante do sumo sacerdote, que “desde agora, vereis o Filho do Homem assentado à direita do Todo-Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu” (Mt 26.64; cf. Dn 7.13-14). Por meio desses três horizontes históricos, precisamos determinar as mensagens de Deus em Daniel para a igreja no século 21. Questões literárias de Daniel Hebraico e aramaico em Daniel Uma peculiaridade sobre o livro de Daniel é que ele foi escrito em duas línguas: começou com o hebraico (1.1-2.4a), foi seguido pelo aramaico (2.4b - 7.28) e concluiu com o hebraico (8.1-12.13). Várias teorias têm sido propostas para explicar as razões da troca de idiomas. Uma vez que o aramaico era a língua internacional,49 Miller sugere que “aramaico foi reservado para as partes do livro que tinham apelo universal ou especial relevância para as nações dos gentios, e o hebraico foi utilizado para as partes que mais se relacionavam com os judeus”.50 No entanto, pode ser que o uso do hebraico indique que o público-alvo consistia de judeus de língua hebraica, pois os “outros povos do império falavam aramaico; mas nenhum outro povo falava hebraico”.51 O uso adicional do aramaico indica que este público-alvo também entendia o aramaico, o que seria o caso dos muitos dos judeus nascidos no exílio babilônico. Gêneros e formas literárias de Daniel É difícil citar um único gênero literário para todo o livro de Daniel. Esse problema é ilustrado pelo fato de que o Tanak judaico52 classifica este livro nos “Escritos”, entre os livros de Ester e Esdras-Neemias, enquanto as Bíblias em inglês colocam Daniel nos “Proféticos”, entre os Profetas Maiores e os Profetas Menores. Os seis primeiros capítulos são, definitivamente, narrativos e, portanto, caberiam melhor nos “Escritos” do que nos “Proféticos”. Os últimos seis capítulos, no entanto, parecem mais como profecias e, portanto, caberiam melhor nos “Proféticos”. Entretanto, esses capítulos com quatro visões de Daniel são um tipo especial de profecia: elas são apocalípticas.53 Daniel, portanto, consiste de dois principais gêneros literários: narrativo e apocalíptico.54 Narrativa Histórico-redentiva Os estudiosos classificam as narrativas de muitas maneiras diferentes: romances, Midrash, lendas, mitos, folclores, contos de sabedoria didática, contos da corte ou uma combinação de alguns desses recursos.55 Collins afirma que “a categorização mais aceita dessas histórias é, sem dúvida, ‘contos de tribunal’.”56 Se entendermos essas histórias no contexto de uma forma popular de narrativa no antigo Oriente Próximo, a categoria de conto de tribunal parece bastante apropriada. Mas visto que essas narrativas funcionam agora no contexto da Bíblia, uma categoria mais apropriada é a narrativa histórico-redentiva. Este termo indica que essas narrativas são parte da tradição literária de narrativas que retratam a antiga história de Deus redimindo e salvando o seu povo. Ele também indica que essas narrativas não devem ser lidas como relatos históricos objetivos nem como contos morais ou histórias de exemplo moral,57 mas como kerygma de Deus, as boas-novas de Deus para o seu povo sofredor. A classificação de narrativa histórico-redentiva é confirmada pelo fato que “o envolvimento de Deus é crucial na mudança do meio para o final da trama em todas as seis histórias”.58 Quanto à estrutura literária, todas as narrativas têm um enredo composto pela maioria dos seguintes componentes: um cenário para a história, alguns incidentes preliminares, um incidente que gera o conflito, o acúmulo de tensão até chegar a um clímax, a reviravolta na narrativa para o começo de uma solução, a solução completa, um desfecho e talvez uma conclusão. Podemos diagramar os elementos típicos de uma única trama da seguinte forma:59 A maioria das narrativas tem uma única trama relatando a narrativa de um único conflito e solução (Daniel 1, 2, 3, 6, e, possivelmente, 5). Pelo menos um, no entanto, tem uma trama complexa, relacionando um conflito e solução apenas para desencadear um novo conflito que leva a outra solução (Daniel 4, e, possivelmente, 5). Literatura apocalíptica Os sonhos, as visões e suas interpretações podem ser classificados como literatura apocalíptica. O Grupo Apocalipse do Projeto de Gêneros do SBL (1975-1978) define apocalipse como “um gênero de literatura de revelação com uma estrutura de narrativa, na qual uma revelação é mediada por um ser de outro mundo para um receptor humano, revelando uma realidade transcendente que é simultaneamente temporal, na medidaem que prevê a salvação escatológica, e espacial, na medida em que envolve outro mundo, sobrenatural”. Discussões posteriores levaram à adição da função (objetivo) do apocalipse: “Destina-se a interpretar as circunstâncias terrenas presentes à luz do mundo sobrenatural e do futuro, e influenciar tanto a compreensão quanto o comportamento do público por meio de autoridade divina”.60 Thomas Long observa que a “literatura apocalíptica abre as cortinas e permite que o leitor veja a vitória escatológica de Deus, que já foi alcançada sobre quaisquer que sejam as forças, mesmo que, no momento, estejam minando a comunidade de fé”. Ele descreve apocalipse vividamente como “um gênero ‘193’, para momentos de emergência – não apenas o estresse de problemas de rotina – em que os meios comuns para enfrentar as dificuldades da vida simplesmente não são suficientes”.61 Apocalipses têm uma estrutura literária como a das narrativas.62 Collins63 lista a seguinte estrutura para os dois apocalipses, em Daniel 7 e 8 (observe como eles duplicam os componentes das narrativas acima): uma indicação das circunstâncias [cenário]; uma descrição da visão, introduzida por um termo como “eis” [incidente ocasionador]; um pedido de interpretação, muitas vezes por causa do medo [tensão crescente]; uma interpretação, geralmente por um anjo [resolução]; material de conclusão, o que pode incluir a reação do vidente, instruções, ou parênese [desfecho/conclusão]. A unidade e as estruturas retóricas de Daniel Embora Daniel consista de duas partes, as histórias sobre Daniel e seus amigos (cs. 1–6) e os quatro apocalipses (cs. 7–12), o livro apresenta-se como uma unidade. “A unidade global de Daniel é mostrada pela estrutura de narrativa, que estabelece a identidade de Daniel nos capítulos 1–6 e, no capítulo 12, diz-lhe para selar o livro, como se tudo fosse uma única revelação”.64 Por outro lado, “a primeira parte prepara para a segunda, e a segunda se refere de volta à primeira. Assim, o capítulo 7 desenvolve mais plenamente o que foi introduzido no capítulo 2, como também acontece com o capítulo 8. Contudo, nem o 7 nem o 8 são compreensíveis sem o 2. O capítulo 2 também prepara o caminho para as revelações de 9, 10, 11 e 12.”65 A unidade de Daniel também é apoiada por duas estruturas quiásticas. Lenglet foi o primeiro a publicar a estrutura quiástica que une a parte aramaica de Daniel (cs. 2–7).66 A Quatro impérios e a vinda do reino de Deus (c. 2) B Prova de fogo e libertação por Deus (c. 3) C Um rei advertido, castigado e libertado (c. 4) C’ Um rei advertido, desafiante e deposto (c. 5) B’ Prova na cova dos leões e a libertação por Deus (c. 6) A’ Quatro impérios e o reino eterno de Deus (c. 7) As três visões em hebraico também podem ser concebidas como uma estrutura quiástica:67 A Detalhes sobre os reinos pós-babilônicos (c. 8) B Jerusalém restaurada (c. 9) A’ Mais detalhes sobre os reinos pós-babilônicos (cs. 10–12) Steinmann argumenta que essas duas estruturas quiásticas estão interligadas porque o capítulo 7 “serve tanto como final do primeiro quiasma, em virtude de seus quatro reinos paralelos ao sonho de Nabucodonosor e sua língua aramaica quanto como introdução para as visões, em virtude de seu estilo visionário e sua colocação cronológica, no primeiro ano de Belsazar”.68 Paul Tanner concorda que o capítulo 7 serve como a articulação entre as duas metades porque “ele reitera a sucessão de reinos gentios antigos [o tema dos cs. 2–6], no entanto, fornece mais detalhes sobre os “últimos dias”, quando o anticristo [“o ‘pequeno chifre’, que sai do quarto animal”] vai chegar [o tema dos cs. 7–12]”.69 Por isso Tanner propõe a seguinte estrutura geral de Daniel:70 Esta estrutura global nos permitirá compreender melhor cada capítulo no contexto do livro de Daniel. A mensagem e o objetivo de Daniel Uma vez que cada texto deve ser interpretado no seu contexto, devemos observar brevemente alguns dos grandes temas em Daniel, antes de estudar as narrativas e visões individuais. A mensagem geral de Daniel Ao longo de seu livro, Daniel enfatiza a soberania de Deus:71 Deus está no controle e é capaz de salvar os seus fiéis mesmo da morte certa (os amigos de Daniel, do fogo e Daniel, dos leões). Em um nível mais amplo, Deus está no controle dos impérios da terra, usando suas ações para promover seu próprio plano, julgando os impérios do mal72 enquanto protege o seu povo sofredor, e, no final, trazendo o seu reino perfeito à terra.73 Tremper Longman afirma: “Mesmo que haja um contraste dramático em gênero entre as duas metades do livro... a mensagem geral do livro é uniforme: apesar das aparências presentes, Deus está no controle”.74 Daniel Block sugere o seguinte tema geral: “A soberania dominante de Yahweh, o Deus único e verdadeiro, demonstrada no julgamento de potências mundiais rebeldes e na defesa dos fiéis em cumprimento dos seus compromissos pactuais com Israel”. “Cada capítulo do livro”, ele escreve, “faz uma contribuição significativa para este tema”.75 Les Bruce formula a mensagem geral de Daniel mais sucintamente: “Só Deus é verdadeiramente soberano e ele vai estabelecer seu reino eterno”. Este tema, ele afirma, “fornece coerência para todo o Livro de Daniel”.76 Este tema também é apoiado por duas declarações explícitas em Daniel: “O Deus do céu suscitará um reino que não será jamais destruído” (2.44) e “eu estava olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha com as nuvens do céu um como o Filho do Homem... o seu domínio é domínio eterno, que não passará, e o seu reino jamais será destruído” (7.13-14). O objetivo de Daniel O discernimento do objetivo de Daniel depende das circunstâncias do público ao qual ele se dirigia. Visto que o nosso ponto de partida é que o livro foi dirigido primeiro a Israel no exílio na Babilônia, o principal objetivo era o de confortar e encorajar o povo de Deus enquanto sofria no exílio. Ele sofria ao se lembrar de Jerusalém e do templo onde Deus habitava. Agora, o templo estava destruído, a terra estava devastada e Israel estava na distante Babilônia: “Às margens dos rios da Babilônia, nós nos assentávamos e chorávamos, lembrando-nos de Sião” (Sl 137.1). Eles também sofriam “enquanto eram forçados a trabalhar para o bem da nação que os oprimia”. E eles sofriam “quando se encontravam em situações em que eram pressionados a ceder ou então enfrentar consequências terríveis. A mensagem de Daniel de que Deus é Todo-Poderoso e está no controle, apesar das condições presentes, tem como objetivo apresentar um poderoso incentivo para essas pessoas.”77 Até mesmo as visões de Daniel do futuro serviram ao propósito de consolar e encorajar o povo de Deus no exílio. Block observa: “A intenção da apocalíptica não foi traçar o plano de Deus para o futuro, para que, assim, as gerações futuras pudessem elaborar calendários, mas garantir à geração da época que – talvez contrário à aparência – Deus ainda está no trono (cf. Dn 7.18,21-22,27; 8.25; 12.1-4) e que o futuro está firmemente seguro em suas mãos.”78 Dificuldades na pregação de Cristo a partir de Daniel Uma série de sermões sobre Daniel Daniel é ideal para uma série de sermões. Por exemplo, uma vez que as seis narrativas estão em ordem cronológica, pode-se preparar uma série de seis sermões sobre essas histórias. Pode-se também preparar uma série de cinco sermões sobre as quatro visões: um sermão sobre cada uma das três primeiras visões e dois sermões sobre a quarta visão, que é mais longa (Dn 10–12). Ou pode-se considerar uma pequena série em capítulos selecionados de Daniel, por exemplo, uma série de quatro sermões sobre Daniel 1, 2, 7 e 9. Seleção do texto de pregação O texto da pregação deve ser uma unidade literária, não uma frase ou um versículo. A seleção de um texto de pregação adequado em Daniel não é difícil, uma vez que existem quebras claras entre suas unidades literárias. Cada uma das seis narrativas tem seu próprio capítulo nas Bíblias em inglês.79 Cada uma das três primeiras visões também tem seu própriocapítulo (7, 8, 9). O único problema a enfrentar na seleção do texto é a quarta visão, que abrange três capítulos (10–12). Visto que essa visão oferece demasiado material para um único sermão, é preciso decidir como dividi-lo em subunidades literárias mais gerenciáveis. O tema e o objetivo do texto A fim de concentrar o sermão e orientar seu desenvolvimento, antes de escrever o sermão devemos declarar a mensagem do texto como um tema, ou seja, uma declaração resumida da ideia central do texto. O tema deve ser formulado como uma frase concisa com sujeito e predicado. Ele faz uma única declaração, o tema central do texto. O desafio é manter o sermão focado neste tema da passagem e não se desviar para moralizar,80 pois tais morais podem ser tiradas a partir de quase qualquer história, incluindo a da Chapeuzinho Vermelho. Os pregadores que desejam pregar a Palavra de Deus procurarão fazê-lo pregando a mensagem pretendida pelo autor inspirado como entendida no contexto de toda a Bíblia. Os melhores sermões são bem focados, de modo que têm o impacto de uma bala que penetra no coração, em vez de chumbinhos que apenas raspam a superfície. Se uma declaração do tema é importante para a pregação das narrativas, ela pode ser ainda mais crucial para as visões de Daniel, pois frequentemente pregadores têm usado as visões de Daniel para especular sobre os seus detalhes e fizeram mal uso delas para prever o fim do mundo.81 Sandy e Abegg apresentam uma de suas diretrizes para a interpretação: “Procure entender o ponto principal de um texto apocalíptico”. Eles justificam essa exigência da seguinte forma: “A apocalíptica tende a ser impressionista, mais como uma pintura abstrata que comunica uma impressão geral... Às vezes os detalhes na apocalíptica se destinam ao efeito dramático; pode não haver nenhuma importância, a não ser como a imagem da cena é reforçada pelos detalhes. Os detalhes na apocalíptica não devem ser vistos como alegóricos no sentido de que cada detalhe tenha uma realidade correspondente.”82 A declaração do tema vai ajudar a manter os sermões sobre as visões de Daniel nos trilhos. Também devemos indicar a meta ou objetivo/propósito do autor em comunicar esta mensagem. O objetivo é a resposta às questões por trás do texto: Por que o autor conta a Israel no exílio esta história ou visão em particular? Que necessidades ele procura abordar? Que resposta(s) ele procura? Será que ele procura convencê-los da soberania de Deus? Assegurar-lhes a fidelidade de Deus? Confortá-los com sua mensagem? Dar esperança? Incentivar a fidelidade? O objetivo do autor deve orientar os pregadores na aplicação da mensagem para a igreja de hoje.83 A questão da identificação do(s) objetivo(s) do autor é, em última análise, a questão de relevância do sermão. A relevância de Daniel para a igreja hoje Mesmo quando formulamos cuidadosamente o objetivo de Daniel, os pregadores podem, ainda, enfrentar um problema na aplicação de mensagens de Daniel para a igreja hoje. O problema é este: Daniel dirigiu suas mensagens a Israel, que estava sofrendo no exílio, enquanto muitos pregadores atuais pregam suas mensagens não para igrejas que sofrem perseguição subsidiada pelo Estado, mas para igrejas que vivem em relativa liberdade. Como podemos preencher essa lacuna? Como podemos aplicar as mensagens destinadas a Israel no exílio às igrejas que vivem em relativa liberdade? Uma maneira de fazer isso é lembrar à congregação a questão da igreja perseguida hoje e da unidade da igreja. “Há somente um corpo e um Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos” (Ef 4.4- 6); “Se um membro sofre, todos sofrem com ele” (1Co 12.26). Portanto, mesmo que apenas uma igreja sofra perseguição, todas as igrejas sofrem com ela. É por causa da nossa solidariedade com a igreja perseguida que as mensagens de Daniel podem ser aplicadas à igreja hoje.84 Mas há também uma maneira mais direta. A igreja hoje, mesmo quando vive em relativa liberdade, ainda está no exílio. Desde que Deus expulsou os nossos primeiros pais do paraíso, temos vivido no exílio, a oriente do Éden. Este mundo pecaminoso despedaçado não é o nosso lar. Podemos nos intitular cidadãos de um determinado país, mas, na verdade, Paulo diz: “A nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Fp 3.20). É por isso que Pedro dirige sua primeira carta “aos eleitos que são forasteiros da Dispersão” (1Pe 1.1) e Tiago, “às doze tribos que se encontram na Dispersão” (Tg 1.1). Jesus também disse aos seus seguidores: “Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário, dele vos escolhi, por isso, o mundo vos odeia... Se me perseguiram a mim, também perseguirão a vós outros” (Jo 15.19-20). Mesmo que as igrejas às quais nos dirigimos não sofram perseguição ostensiva, subsidiada pelo Estado, ainda assim elas sofrem as consequências de viver a oriente do Éden. As pessoas a quem nos dirigimos se debatem com cardos e abrolhos, terremotos e furacões; penam com a inimizade de Satanás, relacionamentos partidos, dor, morte e assassinato (Gn 3–4). Assim, as mensagens reconfortantes de Daniel, destinadas a Israel no exílio, também são relevantes e dão vida à igreja hoje. A forma do sermão Uma vez que textos comunicam com a sua forma bem como o conteúdo, a forma do sermão deve respeitar a forma do texto. As seis narrativas em Daniel podem ser mais bem pregadas em uma forma narrativa híbrida, ou seja, o sermão segue a linha da história, mas suspende a história de tempos em tempos para oferecer explicações sobre detalhes históricos ou costumes, ilustrações, movimentos cristocêntricos ou aplicações. A forma narrativa de sermão não só nos permite seguir o enredo do texto, mas também envolve os nossos ouvintes de forma holística, ou seja, torna-os totalmente envolvidos no sermão, lado direito do cérebro, bem como o lado esquerdo. As quatro visões também podem ser pregadas em uma forma narrativa híbrida porque, como vimos, sua forma tem componentes semelhantes aos de uma narrativa típica (veja a p. 35). Algumas das narrativas e, especialmente, as visões apocalípticas pintam quadros gráficos e símbolos: uma enorme estátua é esmagada por uma pedra que rola (Dn 2.34), bestas bizarras sobem do mar (Dn 7.2-8), um bode persegue um carneiro e o pisoteia (Dn 8.5-7), sobre o rio aparece um homem com um rosto como um relâmpago, os olhos como tochas de fogo e uma voz como a voz de uma multidão (Dn 10.5-6). A forma do sermão deve respeitar estes símbolos apocalípticos, envolvendo a imaginação com imagens vívidas. Jeffrey Arthurs sugere: “Uma maneira de recriar a qualidade panorâmica da literatura visionária é com ilustrações panorâmicas”.85 Embora a forma do sermão deva respeitar a forma do texto, ela não pode ser exatamente igual. Assim como um sermão sobre a oração (p. ex., Sl 142) não será na forma de uma oração, também um sermão sobre um apocalipse não será na forma exata do apocalipse. Isso fica evidente especialmente quando o apocalipse fala em linguagem velada. Por exemplo, as visões de Daniel contêm muitos verbos passivos que ocultam Deus como o ator (passivos divinos). O sermão, ao contrário, exige clareza e, portanto, precisa transformar os passivos divinos na voz ativa: Deus fez isso! Pregando Cristo a partir de Daniel Este livro não é apenas sobre a pregação do livro de Daniel, mas especificamente sobre a pregação de Cristo a partir de Daniel. Alguns estudiosos negam que Daniel fale sobre a vinda de um Messias real.86 Mas, mesmo que Daniel não fale da vinda de um Messias real, ainda podemos pregar Cristo a partir deste livro, porque há mais maneiras de pregar Cristo do que cumprimento de promessa. Em Pregando Cristo a partir do Antigo Testamento, defini pregar Cristo como “pregar sermões que autenticamente integram a mensagem do texto com o clímax da revelaçãode Deus na pessoa, trabalho e/ou ensino de Jesus Cristo conforme revelado no Novo Testamento”.87 Identifiquei sete formas (às vezes se sobrepondo) com as quais os pregadores podem se mover legitimamente a partir de uma passagem do Antigo Testamento para Jesus Cristo no Novo Testamento, da periferia para o centro. Estas sete maneiras são: 1. Progressão histórico-redentiva: ver a mensagem da passagem no contexto da história da redenção do começo ao fim, especialmente após a progressão da história da redenção, à medida que ela avança a partir do contexto histórico do texto para a primeira e/ou segunda vinda de Jesus. 2. Cumprimento de promessa: mostrar que a promessa da vinda do Messias foi cumprida na primeira vinda de Jesus ou será cumprida em sua segunda vinda. 3. Tipologia: mover-se de um tipo de Antigo Testamento que prefigura Jesus para a figura, o próprio Jesus. 4. Analogia: notar a semelhança entre o ensino ou o objetivo do texto e o ensino ou objetivo de Jesus. 5. Temas longitudinais: traçar o tema (ou subtema) do texto através do Antigo Testamento até Jesus Cristo no Novo Testamento. 6. Referências do Novo Testamento: deslocar-se do texto da pregação para Jesus por meio de versículos do Novo Testamento que citam ou fazem alusão ao texto pregado e o vinculam a Cristo.88 7. Contraste: observar o contraste entre a mensagem do texto e a do Novo Testamento, um contraste que existe porque Cristo veio.89 Nos capítulos seguintes, vamos verificar cada texto de pregação para ver as várias maneiras como podem ser usados para pregar Cristo e selecionar os mais importantes para a seção “Exposição do Sermão”. Estilo oral de sermão Muitos sermões não conseguem comunicar porque são pregados em um estilo complexo, como por escrito. Para se comunicar bem, os pregadores devem escrever e pregar os seus sermões em um estilo oral, que os ouvintes podem entender imediatamente. As características típicas de estilo oral são as seguintes:90 1. Frases curtas: principalmente cláusulas principais, poucas cláusulas relativas. 2. Palavras familiares curtas. 3. Palavras de imagem vívidas: linguagem que nos ajude a ver a ação. 4. Substantivos e verbos fortes: palavras que nos permitam ver a ação sem adjetivos e advérbios complicados. 5. Linguagem específica, concreta, em vez de linguagem geral ou abstrata. 6. A voz ativa em vez da passiva: a ordem natural de sujeito, verbo, objeto. 7. Narração no tempo presente, não no tempo passado.91 8. Referência do versículo antes de citá-lo, de modo que os ouvintes possam ler junto. 9. Citação direta do diálogo de personagens, ao invés de indireta. 10. Uso do modo indicativo em vez do imperativo. 11. Uso de perguntas para envolver as pessoas. 12. Uso de uma linguagem inclusiva de gênero sem chamar a atenção para ela. 13. Uso da primeira pessoa do plural, “nós”, em vez de a segunda pessoa, “vós”. 14. Pontuação verbal com palavras como “e”, “bem”, “agora”, “a propósito”. 15. Palavras importantes no final ou no início de orações e frases. 16. Uso de repetição e paralelismo. Nos capítulos seguintes, vou demonstrar como formular o tema e o objetivo da pregação de cada texto, e, como (a maioria) dos sete caminhos levam a Jesus Cristo no Novo Testamento, formular o tema e o objetivo do sermão e oferecer exposições de sermão para todas as passagens. Especialmente nas exposições de sermão, vou moldar o estilo oral tanto quanto for possível nas apresentações. 1 Lacocque, Book of Daniel, 1. Ele acrescenta: “O Livro de Daniel apresenta problemas extremamente numerosos e complexos para o crítico. Não apenas a linguagem apocalíptica é intencionalmente obscura e suas alusões históricas deliberadamente enigmáticas, mas, o que é mais importante, o trabalho é pseudoepigráfico, antecipado, bilíngue e afetado por influências literárias e espirituais de diversas origens estrangeiras, sendo ainda representado por versões gregas de maior amplitude e, muitas vezes, de caráter divergente em relação ao texto semita, etc.”. 2 Sandy e Abegg, “Apocalyptic”, 187. 3 Muitas vezes na história da igreja, Daniel foi usurpado para prever o fim do mundo. Por exemplo, na década de 1840, William Miller, líder dos mileritas, entendeu os 2.300 dias de Daniel 8, como 2.300 anos e concluiu que Cristo retornaria em algum momento entre 21 de março de 1843 e 21 de março de 1844. O livro de Hal Lindsey, The Late Great Planet Earth (Grand Rapids: Zondervan, 1970), tornou-se um best-seller na década de 1970. Harold Camping, locutor de rádio da Califórnia, declarou em outdoors: “Reserve a Data. Retorno de Cristo. 21 de maio de 2011”. Quando isso não aconteceu, ele mudou a data para 21 de outubro de 2011. Helge Kvanzig, em “The Relevance of the Biblical Visions of the End Time”, HBT 11/1 (1989) 35, observa: “Grande parte das aplicações das visões bíblicas do fim dos tempos tem sido uma história de decepção”. Para os seguidores de Cristo, parece bem presunçoso definir a data quando o próprio Jesus disse: “Mas a respeito daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão o Pai” (Mt 24.36). 4 Towner, Daniel, 1-2. 5 Veja, p. ex., Montgomery, The Book of Daniel, 1-109; Young, Prophecy of Daniel, 294-306; Baldwin, Daniel, 13-74; Goldingay, Daniel, XXV-LIII, 320-34; Collins, Daniel, 1-71; Redditt, Daniel, 1-39; Longman, Daniel, 19-40; Lucas, Daniel, 17-43, 306-25; e Steinmann, Daniel, 1-73. 6 Peter C. Craigie, The Old Testament: Its Background, Growth, and Content (Nashville: Abingdon, 1986), 248. 7 Os comentaristas se dividem sobre a questão de se o ponto de partida faz diferença para a interpretação. Por um lado, Miller, Daniel, 22-23, afirma: “A visão da pessoa a respeito da autoria e da data é importante porque, em última instância, determina a interpretação de todos os aspectos desta profecia”. Por outro lado, Goldingay, Daniel, xl, conclui sua Introdução: “Quer os relatos sejam história ou ficção, as visões sejam de fato profecias ou quase profecias, escritas por Daniel ou por outra pessoa, no século 6º a.C., no 2º em algum momento no meio, faz surpreendentemente pouca diferença para a exegese do livro”. Assim também Lucas, Daniel, 18. Nós vamos ter que esperar para ver se faz diferença para a exegese, mas certamente o objetivo do autor muda com a decisão de se ele está se dirigindo a Israel que sofre no exílio na Babilônia ou a Israel na Palestina sendo perseguido por Antíoco IV – e com ele o objetivo do pregador moderno e aplicação devem mudar também. Num cenário do século 6º a.C., os objetivos primordiais do autor teriam sido confortar Israel com mensagens sobre a soberania e a fidelidade de seu Deus e incentivá-lo a ser fiel a Deus. Num cenário do século 2º a.C., o objetivo principal do autor teria sido “galvanizar a resistência espiritual dos judeus piedosos contra a perseguição de Antíoco IV e dos helenistas” (Lacocque, Book of Daniel, 10). Cf. Russell, Daniel, 11, “Esses relatos... devem ser entendidos no contexto do século 2º a.C. no reinado de Antíoco Epifânio. Seu propósito é confortar e encorajar o povo judeu em um ambiente em rápida mutação e em meio a uma cultura estrangeira que, em muitos aspectos, era bastante hostil ao ensino e à prática de seus pais”. Cf. Portier-Young, Apocalypse against Empire, 229: “Os escritores de Daniel delinearam um programa de resistência não violenta para seu público ao édito e à perseguição de Antíoco e aos sistemas de hegemonia e dominação que apoiaram o seu governo”. P.S.: Após estudar todos os doze capítulos, descobri que a data que a pessoa assumir para Daniel faz uma grande diferença nas narrativas. Por exemplo, que tipo de conforto Daniel 3 e 6 podem dar se a mensagem de que Deus é capaz de salvar o seu povo da morte certa for um relato de ficção? Mas a data faz uma diferença ainda maior no discernimento e na pregação das mensagens das visões de Daniel (Dn 7–12). Sobre a suposição da data do século 2º a.C e o quarto reino ser a Grécia, as visões se concentram em Antíoco IV e mal passam dele, certamente não até a plenitudedo reino de Deus. Veja, p. ex., Redditt, Daniel, 146, “Daniel 8 foi mal interpretado como se a morte de Antíoco fosse trazer o reino de Deus”. 8 Eu compilei esta tabela com dados de Baldwin, Daniel, 73; Lucas, Daniel, 43; Miller, Daniel, 292-304; Steinmann, Daniel, 521; Towner, Daniel, 16-18; and Young, Prophecy of Daniel, 302-3. 9 Archer, “Daniel”, 13, que menciona “J. D. Michaelis (1771), J. G. Eichhorn (1780), L. Berthold (1806), F. Bleek (1812), e muitos outros depois dele”. Cf. John Collins, Daniel, 25-26, e Adela Yarbro Collins, “The Rise of Historical Criticism”, in ibid., p. 121-23. 10 Collins, Daniel, 25, admite que “a linha de raciocínio de Porfírio é essencialmente semelhante à dos críticos modernos: a correspondência entre as predições de Daniel, especialmente no capítulo 11, e os eventos da era helenista é mais bem explicada pela suposição de que a predição teria sido escrita após o fato.” 11 Por exemplo, Towner, Daniel, 115: “Precisamos assumir que a visão [Daniel 8] como um todo é uma profecia após o fato. Por quê? Porque os seres humanos são incapazes de prever com precisão eventos futuros séculos antes.” Cf. Collins, Apocalyptic Vision, 8, “Em Daniel 11.29-39, a segunda campanha de Antíoco é descrita com tal precisão que é claramente um vaticinium ex eventu”. 12 “As referências à história helenista no capítulo 11 são essencialmente precisas, enquanto as referências sobre os períodos babilônico e persa nos capítulos iniciais são notoriamente confusas”. Collins, Daniel, 26. 13 Montgomery, Book of Daniel, 96. Cf. Collins, Daniel, 26: “A estimativa da probabilidade é de longe em favor de uma data macabeia, pelo menos para as revelações dos capítulos 7–12, que claramente têm seu foco neste período”. Collins, ibid., 324, data Daniel 7 “precisamente no final de 167 a.C... algo antes das revelações hebraicas dos capítulos 8–12”. Cf. Seow, Daniel, 7, “164 a.C.” 14 Montgomery, Book of Daniel, 96, data os capítulos 1–6 no período pré-Macabeu, aproximadamente no século 3º. O mesmo faz Collins, Daniel, 47-48. 15 Veja as citações relevantes na nota 7, acima. 16 Porteous, Daniel, 25. Cf. Collins, Daniel, 132, “Dn 1.1 está historicamente errado”. 17 Rowley, “The Historicity of the Fifth Chapter of Daniel”, JTS 32 (1930) 12.Também Redditt, Daniel, 2. 18 Ibid., 20. Cf. Collins, Daniel, 32, “Embora ‘filho’ possa valer para ‘neto’ ou mesmo ‘descendente’, Nabonide não era descendente de Nabucodonosor de forma alguma”. 19 Ibid., 31. Em outro lugar ele chamou a informação de que Dario, o Medo que “ocupou o trono da Babilônia entre a morte de Belsazar e o reinado de Ciro… o problema histórico mais sério do livro... Pois é conhecido com certeza que quem derrubou o império neobabilônico foi Ciro”. H. H. Rowley, Darius the Mede and the Four World Empires in the Book of Daniel: A Historical Study of Contemporary Theories (Cardiff, 1935; reimpressão 1964), 9. Cf. Collins, Daniel, 30: “Nenhuma pessoa como Dario, o Medo, é conhecida em outro lugar a não ser na narrativa de Daniel”. 20 Collins, Daniel, 33. Cf. Rowley, “The Historicity of the Fifth Chapter of Daniel”, JTS 32 (1930) 31: “O autor de Daniel não estava escrevendo história autêntica e muito certamente não estava escrevendo história contemporânea”. 21 Veja, p. ex., Montgomery, Book of Daniel, 22: “Conforme as evidências disponíveis, estas palavras gregas devem inclinar a balança em favor de uma data mais tardia”. Cf. Porteous, Daniel, 13, capítulos 2.4a–7.28 “[estão] em um tardio (não antes do século 3º a.C., talvez século 2º) dialeto aramaico, enquanto o resto do livro está em hebraico tardio”. 22 Collins, Daniel, 33. Collins continua: “O caso de Rowley é mais fraco em relação a Daniel 6, onde o monarca gentio singularmente se inclina para Daniel e a conspiração contra o herói judeu é inspirada pela inveja pela sua carreira de sucesso na corte. O Sitz-im-Leben implícito nessa história não é perseguição religiosa, mas os perigos da minoria judaica que procura ter sucesso no mundo gentio... Apesar de os argumentos de Rowley e outros, não há nenhuma passagem em Daniel 1–6 que seja necessariamente entendida como uma alusão ao tempo de Antíoco Epifânio ou seja agora geralmente aceita como tal.” Cf. Collins, Apocalyptic Vision, 9-10; e von Rad, Old Testament Theology, II, 309-10. 23 Cf. Baldwin, Daniel, 184-85: “Com relação à profecia como predição, a igreja tem certamente perdido sua coragem. Um humanismo racionalista terreno invadiu de tal maneira o pensamento cristão que tingiu com um leve ridículo todas as reivindicações para se ver na Bíblia algo mais do que as referências mais vagas a eventos futuros. O pensamento humano, entronizado, julgou um capítulo como Daniel 11 como história escrita após o evento, ao passo que Deus entronizado, aquele que esteve presente no início do tempo e estará presente quando o tempo acabar, pode seguramente clamar com razão: ‘Anuncie as coisas futuras, as coisas que hão de vir!’ (Is 44.7).” 24 Leupold, Exposition of Daniel, 471-72, menciona Jeremias 50; 51; Zacarias 9.1-8; Isaías 13; 14; 21.1-10. 25 Veja também Mateus 26.64, onde Jesus fala de si mesmo como Daniel “Filho do Homem... vindo sobre as nuvens do céu”. 26 Com respeito a Daniel 11, Lucas ressalta que as “Profecias acadianas” têm uma forma literária semelhante a Daniel 8.23-25 e 11.3-45. Esta semelhança, ele escreve, “é mais bem explicada se elas [Dn 8 e 11] se tiverem se originado na diáspora babilônica e se o autor fosse bem familiarizado com a literatura profética babilônica, alguém especializado na linguagem e letras dos caldeus, conforme o relato de Daniel 1 indica”. Lucas, Daniel, 272. 27 Archer, “Daniel”, 4. 28 Veja abaixo no item “A unidade e retórica das estruturas de Daniel”. Veja Baldwin, Daniel, 39, “O problema com a autoria composta é que o livro traz tão poucos vestígios dos supostamente diferentes pontos de vista. Como uma obra literária, ele manifesta unidade de propósito e esquema. S. R. Driver assumiu que um autor único foi responsável pelo todo, e R. H. Pfeiffer não viu nenhuma razão para questionar a unidade do livro, mas, como muitos outros, achou ‘em ambas as partes a mesma finalidade e o mesmo fundo histórico’.” Cf. Young, Prophecy of Daniel, 19-20. Rowley, em “The Unity of the Book Daniel”, 250-60, oferece uma revisão de uma infinidade de teorias dos dois últimos séculos sobre a unidade de Daniel ou de suas divisões. O próprio Rowley defende a unidade do livro (p. 260-80), mas coloca-o na “era dos Macabeus”. 29 Hasel, “The Book of Daniel: Evidences Relating to Persons and Chronology”, AUSS 19/1 (1981) 48-49. Cf. Baldwin, Daniel, 20-21, e Steinmann, Daniel, 260-63. 30 Archer, “Daniel”, 14. 31 Hasel, “Book of Daniel”, AUSS 19/1 (1981) 38. Até mesmo Montgomery, Book of Daniel, 243- 44, tem de admitir: “O panorama da cena e autocomplacência do rei em sua gloriosa Babilônia são surpreendentemente coerentes com a história. Todo estudioso da Babilônia relembra estas palavras orgulhosas ao ler os próprios registros, Nabucodonosor sobre sua criação da nova Babilônia; por exemplo, (Grotefend Cylinder, KB iii, 2, p. 39): ‘Então eu construí o palácio sede da minha realeza... a união da raça dos homens, a habitação da exaltação e regozijo’.” 32 Hasel, “Book of Daniel”, AUSS 19/1 (1981) 42-43. Montgomery, Book of Daniel, 67, também assevera: “A história da Bíblia está correta quanto à posição de rei dada a Belsazar”. Cf. p. 70: “Ele teria sido, conforme a tradição nativa, o último rei da Babilônia”. Cf. Baldwin, Daniel, 21-22. Veja também Alan Millard, “Daniel and Belshazzar in History”, BAR 11/3 (1985) 72-78. 33 Archer, “Daniel”, 16. 34 Hasel, “Book of Daniel”, AUSS 19/1 (1981) 44. Cf. Baldwin, Daniel, 22-23, e Archer, “Daniel”, 16. 35 Baldwin, Daniel, 26-28. 36 Steinmann, Daniel, 295. Um “waw epexegético” é a palavra waw, “e”, seguida pelas palavras para explicar as palavras anteriores. A palavra “e”, portanto, “tem a força de ‘a saber ’ ou ‘isto é’”. Baldwin, Daniel, 132. 37 Steinmann, Daniel, 295. Cf. Lucas, Daniel,137: “Ciro, o conquistador real da Babilônia, era parcialmente medo e governou tanto a Média bem como a Pérsia. Isso é enfatizado, dando-lhe o nome alternativo ‘Dario, o Medo’”. Veja também Miller, Daniel, 171-77. Outros argumentam que, “na maior parte do primeiro ano depois da queda da Babilônia, Ciro não reivindicou o título de ‘Rei da Babilônia’, indicando que outra pessoa estava atuando como rei sob vassalagem a Ciro”. Hasel, “Book of Daniel”, AUSS 19/1 (1981) 48-49. Cf. Baldwin, Daniel, 24-25. 38 Miller, Daniel, 26. Veja Baldwin, Daniel, 19-29, para mais detalhes. Baldwin faz um resumo na p. 29: “Ao concluir esta seção sobre as suposições históricas do escritor do livro de Daniel, afirmo com confiança que não existem razões para questionar seu conhecimento histórico. As indicações são que ele tinha acesso a informações que ainda não estão disponíveis aos historiadores contemporâneos e que, onde provas conclusivas ainda estão faltando, ele deve receber crédito de fidedignidade.” 39 Miller, Daniel, 30. Cf. ibid, 32: “A evidência linguística não necessita de uma data tardia de composição para o livro de Daniel e, em vários casos, ao invés disso fortemente apoia uma data anterior”. Cf. Archer, “Daniel”, 22: “Tudo isto [referindo-se aos estrangeirismos gregos e persas] aponta inquestionavelmente para uma composição no Período Persa (c. 530 a.C.). Mas demonstra que uma data posterior ao Período pós-Alexandrino é linguisticamente impossível.” 40 Hill, “Daniel”, 27. Cf. Steinmann, Daniel, 11: “Nem os estrangeirismos gregos nem os persas oferecem qualquer prova de que Daniel seja uma composição tardia”. 41 Hasel, “The Book of Daniel and Matters of Language”, AUSS 19/3 (1981) 225; confira as páginas.216-25 para ver as razões desta conclusão.Veja também Waltke, “The Date of the Book of Daniel”, BSac 133 (1973), 322-23; Harman, Study Commentary on Daniel, 22-25; e Archer, “Daniel”, 23-24. 42 Baldwin, Daniel, 46. Cf. Longman, Daniel, 23, “Em vista das provas e, apesar das dificuldades, interpreto o livro a partir da conclusão de que as profecias vêm do século 6º a.C. Eu acho que os problemas passíveis de soluções hipotéticas e as questões teológicas de uma data tardia são difíceis de superar.” 43 “O livro em si não pode ter existido na sua forma atual antes de 536 a.C., uma vez que é a data da última visão... Dado o fato de que Daniel estava, provavelmente, no começo dos seus oitenta anos a esta altura, é pouco provável que ele tenha escrito muito depois de 530 a.C”. Steinmann, Daniel, 3. 44 Para ver argumentos que consideram Daniel como uma figura histórica, veja Block, “Preaching Old Testament Apocalyptic to a New Testament Church”, CTJ 41/1 (2006) 24-27. 45 Veja Aalders, Het Boek Daniel, 33. Cf. Hill, “Daniel”, 25: “O livro foi provavelmente composto na diáspora babilônica por Daniel, ou mais provavelmente por associados que sobreviveram a ele, algum tempo depois de 536 a.C. (a última data formulada no livro, 10.1) e antes de 515 a.C. (já que a composição não faz referência à reconstrução do segundo templo de Jerusalém)”. 46 Por exemplo, a oração de Daniel pela restauração de Jerusalém (9.17-19), datada de 539 a.C. (9.1), obviamente, ocorreu antes de 538 a.C., assim como a resposta de Deus: “Sabe e entende: desde a hora em que a palavra saiu para restaurar e reconstruir Jerusalém até a hora de um príncipe ungido, haverá sete semanas” (Dn 9.25). 47 Veja a nota 45 acima. 48 Baldwin, Daniel, 66: “Esse processo [de perseguição] veio à tona no tempo de Antíoco Epifânio, e o livro os prepara, antes deste tempo, para que a fé deles não vacile quando a provação chegar”. Cf. Lucas, Daniel, 308: “Ao dar a previsão tão adiantadamente, Deus assegura ao povo do século 2º a.C. que ele tem realmente o controle da história, incluindo a situação em que eles mesmos se encontram. Não se pode negar que este [argumento] tem certa plausibilidade.” 49 “O aramaico era a língua dos antigos arameus, mencionados pela primeira vez nos textos cuneiformes do século 12 a.C... A partir do século 8º a.C., o aramaico se tornou a língua internacional, a língua franca, do Oriente Próximo e os israelitas parecem ter aprendido a língua aramaica durante o exílio. Historicamente, o aramaico é dividido em diversos grupos maiores: (1) ‘Aramaico Antigo’... usado até 700 a.C.; (2) ‘Aramaico Oficial’... usado ‘de 700 a 300 a.C.’; (3) ‘Aramaico Médio’, usado de ‘300 a.C. até os primeiros séculos d.C.’; e (4) ‘Aramaico Tardio’, usado daí em diante”. Hasel, “The Book of Daniel and Matters of Language”, AUSS 19/ 3 (1981) 216-17, com referências a R. Degen e E. Y. Kutscher. 50 Miller, Daniel, 48. Cf. Baldwin, Daniel, 30, e Archer, “Daniel”, 6. Para mais explicações por muitos outros autores, veja Valeta, “The Book of Daniel in Recent Research (Part 1)”, CBR6/3 (2008) 340-43. 51 Dorsey, Literary Structure, 259. 52 Um acrônimo para as 3 divisões judaicas do Antigo Testamento: Torah (Lei), Nabhiim (Proféticos), e Kethubhim (os Escritos). 53 “Apocalipses diferem dos textos proféticos em sua combinação do uso abundante de técnicas como visão-reação-interpretação e jornadas celestiais, interesse intenso no mundo sobrenatural, e escatologia, que inclui transcendência da morte”. Murphy, “Introduction to Apocalyptic Literature”, New Interpreter’s Bible Old Testament Survey, 359. 54 Esta classificação não é tão fácil como pode parecer. “Daniel tem afinidades com profecias mais imediatas bem como apocalípticas posteriores”. Morris, Apocalyptic, 79. No entanto, Apocalipse é singular pelo fato de ser diferente das profecias antigas e apocalípticas extrabíblicas posteriores. Por isso James Sims, “Daniel”, 326, argumenta que “no cômputo geral, a melhor classificação genérica do livro é profecia apocalíptica”. Porteous, Daniel, 16, sugere: “Talvez o mais sensato seja tomar o Livro de Daniel como uma peça de literatura distintiva com um testemunho claramente próprio e observar as várias maneiras nas quais ele pega emprestado e é colorido pela literatura profética antiga, a literatura Sapiencial e os Salmos e tem seus sucessores nos apocalipses, embora estes frequentemente exibam uma extravagância e uma imaginação fantástica que são menos proeminentes no livro de Daniel”. Veja também a nota 59 adiante. 55 Veja p. ex., Collins, Daniel, 42-47; Lucas, Daniel, 22-27; Goldingay, Daniel, 6-7, 321; Miller, Daniel, 45; Valeta, “The Book of Daniel in Recent Research (Part 1)”, CBR 6/3 (2008) 333-36; e Redditt, Daniel, 11-13, que também menciona propostas estruturalistas. 56 Collins, Daniel, 42. 57 Por exemplo, George M. Schwab, Hope in the Midst of a Hostile World: The Gospel according to Daniel, 6, argumenta a favor da leitura destas histórias como histórias de exemplos: “Daniel e seus amigos foram exemplos a seguir, modelos para igualar. Vá e faça o mesmo.” Veja também as páginas 31-33, “Daniel as Role Model”. 58 Lucas, Daniel, 28. 59 Adaptado de Tremper Longman III, Literary Approaches to Biblical Interpretation (Grand Rapids: Zondervan, 1987), 92, que dá crédito para o modelo a V. Poythress e J. Beekman. 60 Semeia 14 (1979) 9. Definição reimpressa em Adela Yarbro Collins, “Introduction: Early Christian Apocalypticism”, Semeia 36 (1986) 2, com acréscimo na p. 7. Também impresso em Collins, Daniel, 54. Cf. Sandy e Abegg, “Apocalyptic”, 188: “A função de um texto apocalíptico é a chave para compreendê-lo. Embora os autores apocalípticos tenham algo importante para comunicar, é mais esperança para o futuro do que informação sobre o futuro. Visto que o significado de uma passagem é intimamente ligado ao impacto que a passagem é designada para ter sobre os leitores, a apocalíptica não é geralmente um relato cronológico do futuro, mas um tratamento de choque literário de imagens explícitas e gráficas para desviar a nossa atenção dos problemas que estamos enfrentando no momento e nos dar esperança de que Deus terá uma vitória retumbante sobre o mal. 61 Long, “Preaching Apocalyptic Literature”, RevExp 90/3 (1993) 376-77 e 374. 62 Veja a definição acima,“um gênero de literatura revelatória com o arcabouço de narrativa”. Cf. Murphy, “Introduction to Apocalyptic Literature”, 356: “Todos os apocalipses são narrativas, histórias que descrevem a revelação, por um ser celestial, de segredos que seriam inacessíveis de outra maneira para um vidente humano”. Cf. Jeffrey Arthurs, Preaching with Variety, 187: “O apocalipse possui os rudimentos da narrativa. Existem atores, trama, panorama e ponto de vista, mas estes elementos são modificados.” 63 Collins, Daniel, 54-55. 64 Collins, Daniel (1984), 33. Cf. Murphy, “Introduction to Apocalyptic Literature”, 362: “Os capítulos 1–6 são posicionados nas cortes reais dos impérios babilônico, medo e persa [império medo-persa], onde Daniel se destacou tanto como um campeão de piedade judaica quanto como intérprete divinamente inspirado de sonhos e sinais. Este retrato de Daniel faz dele um mediador ideal de segredos celestiais... Nos capítulos 7–12, Daniel tem suas próprias visões de noite, interpretadas para ele por um anjo.” Para outras referências sobre a unidade de Daniel, veja nota 28. 65 Young, Prophecy of Daniel, 19. 66 A. Lenglet, “La Structure Litteraire de Daniel 2-7”, Bib 53 (1972) 169-90. O texto no diagrama é de Baldwin, “Theology of Daniel”, NIDOTTE, 4:499. Cf. Dorsey, Literary Structure, 260. 67 Steinmann, Daniel, 22. A estrutura de quiasma é apoiada por termos hebraicos usados nos capítulos 8 e 10–12. Veja H. J. M. van Deventer, “Struktuur en Boodskap(pe) in die Boek Daniel”, HervTS 59/1 (2003) 209. 68 Steinmann, ibid., 23. 69 Tanner, “The Literary Structure of the Book of Daniel”, BSac 160 (2003) 278, 282.Cf. Block, “Preaching Old Testament Apocalyptic”, CTJ 41/1 (2006) 29: “Cronologicamente, o capítulo [7] se encaixaria mais naturalmente antes do capítulo 5, mas a sua localização depois do capítulo 6 força o leitor a lê-lo à luz do anterior e em antecipação do que se segue”. 70 Tanner, ibid., 277. 71 Para ver declarações explícitas da soberania de Deus por vários personagens, Block, “Preaching Old Testament Apocalyptic”, CTJ 41/1 (2006) 32-35, lista Daniel 2.20-23,37-38,44-45,47; 3.29; 4.2- 3,16-17,31-32,34-35,37; 6.26-27; 7.13-14,26-27. 72 “A ideia de um julgamento cósmico escatológico não é um tema importante de qualquer um dos livros do Antigo Testamento, exceto Daniel”. Beale, “The Influence of Daniel upon the Structure and Theology of John’s Apocalypse”, JETS 27/4 (1984) 414. 73 “O tema que é central para Daniel, como não é para nenhum outro livro no Antigo Testamento, é o reino de Deus”. Goldingay, Daniel, 330. 74 Longman, Daniel, 19. Cf. Steinmann, Daniel, 19: “A razão pela qual Daniel enfatiza o controle de Deus sobre todas as coisas é que isto serve aos quatro principais temas teológicos do livro: o reino messiânico de Deus, Deus como protetor de seu povo, a superioridade de Deus sobre os falsos deuses e encorajamento para o povo de Deus a manter a fé nele com integridade”. 75 Block, “Preaching Old Testament Apocalyptic”, CTJ 41/1 (2006) 37. Cf. Archer, “Daniel”, 8: “O tema que perpassa todo o livro é que o destino dos reis e os assuntos dos homens estão sujeitos a decretos de Deus, e que ele é capaz de realizar sua vontade, apesar da oposição mais determinada dos potentados mais poderosos do planeta”. Cf. Towner, Daniel, 4: “Este livro brilha com a profunda convicção de que Deus não deixará de cumprir seus propósitos redentores”. 76 Bruce, “Discourse Theme and the Narratives of Daniel”, BSac 160 (2003) 175, 186. 77 Longman, Daniel, 20. Cf. Block, “Preaching Old Testament Apocalyptic”, CTJ 41/1 (2006) 36: “Se o propósito das revelações registradas em Daniel era tranquilizar a geração de exilados que a história não tinha acabado, este foi também o propósito por trás da composição do livro”. 78 Block, “Preaching Old Testament Apocalyptic”, CTJ 41/1 (2006) 52. Cf. ibid., 39: “Para um povo desiludido e zangado com o fracasso de Yahweh em defendê-lo dos babilônios, as revelações por e através de Daniel oferecem esperança de que Yahweh seja, verdadeiramente, o Deus vivo que permanece fiel à sua palavra”. Cf. Tanner, “Discourse Theme and the Narratives of Daniel”, BSac160 (2003) 182: “A seção apocalíptica não é dada primariamente para predizer o futuro, para contar ao povo quais reinos iriam emergir no futuro. Em vez disso, esta seção é dada para encorajar o povo de Deus a viver no âmbito dos reinos terrenos aterradores permanecendo confiante de que somente o reino de Deus vai durar para sempre, pois ele é verdadeiramente soberano.” 79 As divisões do capítulo são as mesmas na Bíblia hebraica, exceto 4.1-3, que é 3.31-33 em aramaico, e 5.31, que é 6.1. 80 “Moralizar” é traçar uma ou mais morais do texto pregado quando o autor do texto não teve a intenção de fazer tal aplicação(ões) para o seu público original. 81 Veja a nota 3 acima. 82 Sandy e Abegg, “Apocalyptic”, 189. 83 “A pregação autoritativa da mensagem dos textos apocalípticos exige… que tracemos as aplicações para o presente a partir dos pontos principais – em vez de nos engajarmos em especulação sem fim sobre a importância espiritual dos detalhes”. Block, “Preaching Old Testament Apocalyptic”, CTJ 41/1 (2006) 52. 84 Cf. Helge Kvanvig, “The Relevance of the Biblical Visions of the End of Time”, HBT 11/1 (1989) 52: “Diretamente, os apocalipses são endereçados àqueles que tinham perdido qualquer possibilidade de lutar contra o que quer que fosse... Eles são escritos para aqueles que sofrem sob a tirania da opressão e perseguição... E quando nós, que somos apenas indiretamente endereçados nos apocalipses, os lemos, só podemos fazê-lo em solidariedade… com aqueles diretamente endereçados, porque compartilhamos a esperança deles”. 85 Arthurs, Preaching with Variety, 194. 86 Por exemplo, Umhau Wolf, “Daniel and the Lord’s Prayer”, Int 15 (1961) 410: “Não existe Filho de Davi ou Messias real em Daniel. Não existe verdadeiramente ‘Ungido’… Não há indicação forte de um Messias pessoal”. Confira os contra-argumentos de Block: “Preaching Old Testament Apocalyptic”, CTJ 41/1 (2006) 42-51. 87 Greidanus, Preaching Christ from the Old Testament, 10. 88 “O livro de Daniel é um dos livros da Escritura que é citado ou aludido na maioria dos escritos do Novo Testamento... O índice no Nestle-Aland Novum Testamentum Graece (27ª ed.), que combina citações e alusões, lista cerca de 200 referências. Proporcionalmente, isso coloca Daniel na mesma categoria que Isaías e os Salmos, os livros mais frequentemente citados e aludidos no Novo Testamento.” Evans, “Daniel in the New Testament: Visions of God’s Kingdom”, in Book of Daniel, II, 490. Cf. Stefanovic, Daniel, 36: “Daniel era um dos livros preferidos de Jesus, talvez o seu favorito”. 89 Para obter descrições detalhadas dessas maneiras e muitos exemplos, veja o meu Preaching Christ from the Old Testament, 203-77. 90 Para mais esclarecimentos sobre muitas dessas características, veja Mark Galli e Craig Brian Larson, Preaching That Connects: Using the Techniques of Journalists to Add Impact to Your Sermons (Grand Rapids: Zondervan, 1994). 91 A narração no tempo presente é mais viva e imediata do que no tempo passado. Infelizmente, visto que as traduções inglesas das narrativas usam o tempo passado, haverá alguma inconsistência no tempo entre a citação do texto e sua releitura. CAPÍTULO 1 Daniel e seus amigos levados para a Babilônia Daniel 1.1-21 Resolveu Daniel, firmemente, não contaminar-se com as finas iguarias do rei, nem com o vinho que ele bebia; então, pediu ao chefe dos eunucos que lhe permitisse não contaminar-se. (Daniel 1.8)1 Há cerca de vinte anos, ouvi um sermão em que o pregador focava em Daniel e sua rejeição às rações reais de comida e vinho. Ele encorajou os jovens: “Como Daniel, vocês devem evitar os alimentos calóricos; como Daniel, vocês devem evitar o álcool; e como Daniel, vocês devem evitar o sexo”.2 Pelo lado positivo, eu me lembro desse sermão – mesmo depois de 20 anos! Pelo lado negativo, o pregador entusiasmado perdeu a boa notícia de Deus para nósnesta passagem. Tais aplicações com transferência direta normalmente perdem o significado pretendido pelo autor; atravancam o sermão; e, no contexto do Novo Testamento, podem ser não bíblicas.3 Os israelitas no exílio não foram informados sobre esta história de Daniel para imitá-lo em evitar alimentos pouco saudáveis e vinho – rações de comida real e vinho nem sequer estavam no cardápio deles. Infelizmente, pastores ocupados podem acabar procurando aplicações antes de examinar e compreender a mensagem do autor para Israel e o objetivo (propósito) dele em enviar a mensagem para o povo. O livro de Daniel foi dirigido ao povo de Deus que sofria no exílio. Esta primeira narrativa é um bom texto de pregação para as pessoas que estão profundamente perturbadas com a perseguição de cristãos em todo o mundo atual. De acordo com as últimas estimativas, cem milhões de cristãos são perseguidos em todo o mundo.4 Onde está Deus em tudo isso? Será que ele é impotente para acabar com a opressão do seu povo? Muitas pessoas, especialmente na Europa, têm desistido de sua fé em um Deus soberano e amoroso e adotado um estilo de vida secular. Outras estão se perguntando: “Como vamos reagir quando a perseguição chegar até nós? Será que vamos desistir de nossa fé cristã ou vamos permanecer firmes?” Texto e contexto Ao pregar esta narrativa não só devemos evitar moralizar,5 como também evitar quebrar esta narrativa única em textos menores, mais manejáveis, de pregação. Por exemplo, um guia de pregação bem conhecido de Daniel recomenda que “o pedido do rei conquistador para que levem jovens judeus qualificados para serem educados na língua e literatura caldeia (v. 3-4)” pode ser trabalhado em dois sermões diferentes: “(1) a importância e os limites da educação e (2) as atitudes alternativas que as comunidades religiosas/cristãs podem tomar para com a cultura secular”.6 Mas certamente não se pode basear um sermão sobre “os requisitos e custos de uma educação secular” no detalhe da narrativa de que os jovens judeus “deveriam ser instruídos na literatura e na língua dos caldeus” (v. 4). Este guia de pregação oferece outras propostas de sermões em segmentos dessa narrativa,7 mas nenhuma delas chega nem perto de captar o tema da narrativa de Daniel. Autores bíblicos comunicam suas mensagens não em poucas palavras ou frases, mas em unidades literárias. A fim de fazer justiça ao autor bíblico e pregar a sua mensagem inspirada, precisamos primeiro determinar a unidade literária que vai funcionar como texto de pregação e, na sequência, o tema que ele aborda em toda essa unidade. Começaremos, portanto, com o estabelecimento dos parâmetros da unidade literária que vai funcionar como texto de pregação e, em seguida, trabalharemos na determinação do tema que esta unidade procura comunicar a Israel no exílio. Em contraste com a dificuldade de discernir as principais unidades literárias em um livro como Eclesiastes, é fácil detectar as unidades textuais em Daniel. Daniel 1.1 começa com um marco cronológico: “No ano terceiro do reinado de Jeoaquim, rei de Judá, veio Nabucodonosor, rei da Babilônia, a Jerusalém e a sitiou”. O versículo 21 conclui a unidade com outro marco cronológico: “Daniel continuou até ao primeiro ano do rei Ciro”. Daniel 2.1 começa uma nova unidade literária com outro marco cronológico: “No segundo ano do reinado de Nabucodonosor, teve este um sonho”. O texto de pregação, portanto, é Daniel 1.1-21. Em seu contexto veterotestamentário, Daniel 1 se liga com 2Crônicas 36.6-7: “Subiu, pois, contra ele [Jeoaquim] Nabucodonosor, rei da Babilônia, e o amarrou com duas cadeias de bronze, para o levar à Babilônia. Também alguns dos utensílios da Casa do SENHOR levou Nabucodonosor para a Babilônia, onde os pôs no seu templo”. Em Daniel 1.2, o narrador relata que o rei trouxe esses utensílios para a “terra de Sinar” – um lembrete das pessoas que, em desafio a Deus, se estabeleceram na “terra de Sinar” (Gn 11.2) e construíram a torre de Babel. Esse eco das narrativas de Babel relembra ao leitor que a Babilônia é um lugar que se opõe a Deus e ao reino de Deus. A descrição de Daniel como um homem jovem e bonito (v. 4) que foi levado à força para o exílio (v. 6), recebeu um nome estrangeiro (v. 7), recebeu de Deus “misericórdia e compreensão da parte do chefe dos eunucos” (v. 9) e a “inteligência de todas as visões e sonhos” (v. 17) e que se tornou “governador” da Babilônia (2.48) evoca a história de José, que também foi descrito como um homem jovem e bonito (Gn 39.6b) que foi levado à força para o exílio (Egito; Gn 37.36), recebeu um nome estrangeiro (Gn 41.45), “logrou mercê” aos olhos de seu senhor (Gn 39.4; 41.37), recebeu de Deus a capacidade de interpretar sonhos (Gn 41.39) e se tornou governador do Egito (Gn 41.41-45). O narrador retrata Daniel como outro José, um filho de Deus, a quem Deus vai usar para fazer avançar a causa do seu reino, mesmo em uma terra estrangeira.8 Visto que o primeiro capítulo serve como uma introdução para o livro de Daniel, ele também tem muitas ligações com os capítulos seguintes. O versículo 1 introduz Nabucodonosor, o rei da Babilônia, que irá desempenhar um papel importante nos primeiros quatro capítulos. O versículo 2 registra que Nabucodonosor levou “alguns dos utensílios da Casa de Deus... e os pôs na casa do tesouro do seu deus”. Esta informação nos prepara para o capítulo 5.3, onde se lê que Belsazar profanou estes vasos por beber neles em seu banquete. O versículo 6 nos apresenta três amigos de Daniel que se juntam a Daniel em sua resistência (v. 11). Esses amigos vão desempenhar um papel importante no capítulo 3, quando se recusam a se curvar diante da estátua do rei e são jogados na fornalha de fogo ardente. O versículo 17 diz: “A estes quatro jovens Deus deu o conhecimento e a inteligência em toda cultura e sabedoria”, o que qualificou os três amigos de Daniel para altos cargos na Babilônia (2.49). O versículo 17 continua: “Mas a Daniel deu inteligência de todas as visões e sonhos”, o que nos prepara para os capítulos 2 e 4, nos quais ele interpreta os sonhos de Nabucodonosor, para o capítulo 5, em que ele interpreta a escrita na parede, e para as visões nos capítulos 7–12. Características literárias O narrador usa hipérbole quando escreve que o rei achou Daniel e seus amigos “dez vezes mais doutos do que todos os magos e encantadores que havia em todo o seu reino” (v. 20). Uma vez que “dez” é o número da plenitude, eles eram muito superiores (cf. os “sete vezes mais” em 3.19). As principais características literárias que vamos explorar a fim de entender melhor essa narrativa e seu tema são a estrutura da narrativa, o enredo, a descrição do personagem e a repetição. Estrutura da narrativa Esta narrativa é composta de três cenas:9 Cena 1: Jerusalém, no “terceiro ano do reinado de Jeoaquim” (1.1-2) A. O Senhor permite que Nabucodonosor capture Jerusalém (1.2a) B. Nabucodonosor leva utensílios da casa de Deus para a Babilônia (1.2b) Personagens: Nabucodonosor e o Senhor. Cena 2: Babilônia: Daniel e seus amigos são reeducados (1.3-17) A. Daniel e seus amigos são levados para a Babilônia (1.3-7) B. Daniel resolve não se contaminar com a comida real (1.8) C. Daniel levanta a questão com o chefe do serviço do palácio, que fica com medo (1.9-10) D. O guarda concorda em reter o alimento real por dez dias (1.11- 14) E. O guarda concorda em continuar a reter a comida real (1.15-16) F. Deus dá sabedoria aos quatro jovens (1.17) Personagens: Daniel/amigos e o chefe do serviço do palácio; quando o chefe do serviço do palácio deixa o palco, é substituído pelo guarda. Cena 3: Três anos mais tarde, no palácio do rei: hora do exame (1.18-21) A. O rei entrevista Daniel e seus amigos (1.18-19) B. O rei instala Daniel e seus amigos em sua corte (1.19-21) Personagens: Daniel/amigos e o rei. O enredo Para compreender a narrativa, captar seu ponto principal (tema) e recontar a história no sermão, é crucial discernir o enredo. O panorama literário desta narrativa é que o Senhorentrega Jeoaquim, rei de Judá, nas mãos de Nabucodonosor e permite que este leve alguns dos vasos da casa de Deus para a Babilônia (v. 1-2). Os incidentes preliminares são a ordem do rei para trazer alguns jovens brilhantes para a Babilônia para a reeducação e eventual serviço no palácio do rei. O rei designa-lhes porções diárias de rações reais de alimento e vinho. Daniel e seus três amigos estão entre os moços. O chefe dos eunucos do palácio substitui seus nomes hebraicos por nomes babilônicos (v. 3-7). O incidente motivador é a determinação de Daniel em desobedecer a ordem do rei e não comer as rações reais de comida e vinho, a fim de não contaminar-se (v. 8). O ritmo da história desacelera neste cruzamento importante. Além disso, “o sujeito das palavras de ação se desloca do governo para a ação resoluta de um cativo. Agora, a história passa a ser modelada pela decisão do cativo”.10 A tensão aumenta quando o chefe dos eunucos do palácio, que gosta de Daniel, mas teme o rei, se recusa a atender ao pedido de Daniel de não se contaminar com a comida e vinho reais (v. 9- 10). O narrador diminui o ritmo ainda mais nos versículos 10-13, usando discurso direto, em vez de indireto, aumentando, assim, o suspense. A tensão aumenta ainda mais quando Daniel aborda um oficial inferior, o cozinheiro-chefe, responsável pela guarda de Daniel e seus amigos, com a proposta de que, em vez da comida e do vinho real, eles recebam legumes e água por dez dias (v. 11-13). O guarda concorda em fazer o teste (v. 14). A tensão começa a se dissipar quando, após os 10 dias, Daniel e seus amigos mostram aparência melhor e mais robusta do que os outros jovens, e o guarda continua a reter suas rações reais e vinho (v.15-16). A tensão se dissolve ainda mais quando o narrador relata que, além do bem-estar físico, Deus dá a estes quatro jovens conhecimento, inteligência e sabedoria (v. 17). A tensão é totalmente dissolvida quando, ao final de três anos, o rei examina todos os jovens, conclui que Daniel e seus amigos são muito superiores e os instala em sua corte (v. 18-19). O desfecho é que o rei acha Daniel e seus amigos “dez vezes mais doutos do que todos os magos e encantadores que havia em todo o seu reino” (v. 20). A narrativa termina com a informação de que Daniel continua na corte do rei, sobrevivendo a todos os reis da Babilônia, até o primeiro ano de Ciro, rei da Pérsia (v. 21). Podemos esboçar a narrativa como uma única trama: Descrição da personagem O narrador relata esta história na terceira pessoa. Ele descreve Daniel e seus amigos como “filhos de Israel, tanto da linhagem real como dos nobres, jovens sem nenhum defeito, de boa aparência, instruídos em toda a sabedoria, doutos em ciência, versados no conhecimento e que fossem competentes para assistirem no palácio do rei” (v. 3-4). Todos os quatro são “filhos de Judá” (v. 6). Após o teste de dez dias, a aparência deles era melhor e estavam mais robustos do que os outros homens jovens (v. 15). Além disso, Deus lhes “deu o conhecimento e a inteligência em toda cultura e sabedoria; mas a Daniel deu inteligência de todas as visões e sonhos” (v. 17). “Em toda matéria de sabedoria e de inteligência”, o rei os achou “dez vezes mais doutos” do que os outros homens sábios (v. 20). O caráter de Daniel é ainda mais desenvolvido por suas ações: ele mostra sua coragem e sua fidelidade à lei de Deus por meio da resolução de “não contaminar-se com as finas iguarias do rei, nem com o vinho” (v. 8). O narrador descreve o chefe dos serviços do palácio como tendo “misericórdia e compreensão” para com Daniel (v. 9) e “medo” do rei (v. 10). Sua recusa em atender ao pedido de Daniel de receber alimento kosher confirma o medo que o mestre do palácio tinha do rei (v. 10). A descrição que o narrador faz de Deus, discutiremos na “Interpretação teocêntrica”, abaixo. Repetição O narrador também usa a repetição de forma eficaz para enfatizar certas ideias. Por exemplo, no versículo 2 “a repetição da palavra ‘casa’ (três vezes) e ‘seu deus’ (duas vezes), evidente no texto hebraico, mas não na versão grega, seguida pela NRSV,11 ressalta a crise teológica que este evento criou para aqueles que acreditam no Deus de Israel e Judá. A dupla referência a ‘seu deus’ está em oposição ao ‘Deus’ do templo de Jerusalém”.12 Daniel e seus amigos estão em uma terra controlada por deuses estrangeiros. No versículo 8, o narrador também ressalta com repetição que Daniel estava determinado a não contaminar-se: “Resolveu Daniel, firmemente, não contaminar-se com as finas iguarias do rei, nem com o vinho que ele bebia; então, pediu ao chefe dos eunucos que lhe permitisse não contaminar-se”. Além disso, “em hebraico, tanto o versículo 7 quanto o versículo 8 começam com a mesma forma verbal, yāśem, ‘ele resolveu/decidiu’”,13 o que sugere que a determinação de Daniel de não se contaminar (v. 8.) é uma resposta direta à substituição do seu nome hebraico, feita pelo chefe dos serviços do palácio, pelo nome babilônico Beltessazar (“que Bel [Marduque, o principal deus babilônico] proteja a sua vida”; v. 7). Daniel não quer ser um “Beltessazar” babilônico, mas um verdadeiro israelita, “Daniel”, “Deus é meu juiz”. Três vezes o narrador menciona que o teste com legumes e água era de 10 dias (v. 12, 14, 15), destacando que a natureza miraculosa da aparência de Daniel e seus amigos era melhor do que a dos outros, depois de apenas 10 dias. Especialmente digno de nota é que o narrador repete três vezes que “o Senhor/Deus deu” (nātan; v. 2,9,17; veja “Interpretação teocêntrica”, abaixo). A repetição também nos alerta para estruturas literárias mais complexas, tais como inclusio (A-A’), paralelismo (A-B; A’-B’), paralelismo invertido (A-B; B’-A’) e quiasma (por exemplo, ABCB’A’). Goldingay sugere que o narrador apresenta esta história como uma estrutura quiástica geral, com um quiasma interno (C1,2, C’2,1): A Babilônios derrotam Israel (v. 1-2) B Moços levados para treinamento (v. 3-7) C 1 Daniel quer evitar a contaminação (v. 8) 2 e passa por um teste (v. 9-14) C’ 2 Daniel é aprovado no teste (v. 15) 1 e evita a contaminação (v. 16) B’ Moços bem-sucedidos no treinamento (v. 17-20) A’ Daniel sobrevive aos babilônios (v. 21) Uma vez que o núcleo deste quiasma relata como Daniel evita a contaminação (CC’), os pregadores podem ser tentados a entender e a pregar essa história antropocentricamente, por exemplo, focando totalmente no personagem do corajoso Daniel com a aplicação previsível: Imitem Daniel!14 Goldingay corretamente aponta, no entanto, que mesmo que “a história seja dominada pela tomada de decisão e atividade de seus participantes humanos... cada painel duplo [AB, CC’, B’A’] refere-se uma vez à atividade de Deus, cada vez usando o verbo nātan, ‘dar/fazer’ [v. 2,9,17]”.15 Interpretação teocêntrica A fim de fazer justiça ao texto e evitar a tentação de interpretação e pregação horizontal, antropocêntrica, devemos fazer a pergunta: Onde está Deus nesta história? O que Deus está fazendo? Às vezes, Deus trabalha discretamente nos bastidores, como no livro de Ester. Mas, nesta história, o narrador acentua que o soberano Deus está ativamente envolvido na história humana. Em três grandes momentos, ele destaca a atividade de Deus com as palavras “o Senhor/Deus deu (nātan)”. No cenário da narrativa, ele nos informa que “o Senhor lhe entregou [a Nabucodonosor] nas mãos a Jeoaquim, rei de Judá” (v. 2). Embora Nabucodonosor fosse forte, foi o Senhor (a̕dōnāy), o dono de tudo, que entregou Judá nas mãos babilônicas. Na tensão crescente de Daniel, que se encontra no exílio, “Deus concedeu a Daniel misericórdia e compreensão da parte do chefe dos eunucos” (v. 9). Da mesma forma que Deus, há muito tempo, tinha dado a José “mercê perante o carcereiro” (Gn 39.21),16 Deus dá aqui a Daniel o favor do mestre do palácio. Este bom relacionamento permite a Daniel fazer seu pedido por comida kosher, sem medo de punição. Infelizmente, o amedrontado mestre do palácio recusa seu pedido, mas o guarda de escalão inferiorconcorda em fazer um teste de 10 dias. Que diferença pode fazer uma simples dieta em apenas 10 dias? Nos bastidores, Deus silenciosamente abençoa o teste para que, em apenas dez dias, Daniel e seus amigos pareçam mais bem nutridos do que os outros jovens. Finalmente, para resolver a tensão, “a estes quatro jovens Deus deu o conhecimento e a inteligência em toda cultura e sabedoria” (v. 17), de modo que eles foram designados para a corte do rei. A história não poderia ter sido do jeito que aconteceu sem o envolvimento ativo do Deus de Israel. Longman corretamente assevera: “Embora a história seja centrada no nível da superfície das ações dos personagens humanos, o capítulo pretende principalmente nos ensinar sobre Deus”. 17 Tema textual e objetivo Usando essas ideias, agora devemos ser capazes de formular o tema desta narrativa. A repetição de “Deus deu” no cenário, a tensão crescente e a solução da narrativa indicam que Deus é o sujeito do tema. Longman sugere como tema: “A soberania de Deus ultrapassa de longe o poder até mesmo do mais poderoso dos governantes humanos”. Embora este seja um bom tema, é muito geral, como Longman também se dá conta quando ele chama isso de “uma grande preocupação do livro”.18 Steinmann sugere um tema similar: “Deus está no controle de todas as coisas que acontecem entre os seres humanos”.19 Este também é um bom tema, mas, novamente, é muito geral; poderia servir como um tema para muitas passagens bíblicas; não é textualmente específico. Outro olhar sobre o enredo vai ajudar-nos a discernir o tema desta história específica. Como Deus permitiu a Nabucodonosor dominar Israel (Judá), Daniel e seus amigos são levados para a Babilônia para serem reeducados, a fim de servir na corte do rei. Mas Daniel se recusa a se contaminar com a comida real; ele obedece ao seu Deus, em vez de um rei humano. Deus dá a Daniel o favor do chefe dos eunucos do palácio para que haja um modo de Daniel e seus amigos não se contaminarem. Deus também lhes dá conhecimento, habilidade e sabedoria para que o rei os selecione para o serviço em sua corte. Um tema textualmente específico pode ser formulado da seguinte forma: “O Senhor soberano guia Daniel e seus amigos fiéis a posições de poder na Babilônia”. Este é um bom resumo da história, mas não consegue captar a mensagem de Daniel 1. Qual é a mensagem que os exilados deviam ouvir através desta história? Imaginando-nos na situação desses exilados sofredores, ouvimos a mensagem: O Senhor soberano que levou Daniel e seus amigos fiéis a posições de poder na Babilônia conduzirá o seu povo fiel, mesmo no exílio.20 A questão agora é: Por que Daniel comunica essa mensagem para o povo de Deus? Qual era o seu objetivo ou intento? Em sintonia com o tema, o principal objetivo do narrador é confortar o povo de Deus com a mensagem de que seu soberano Senhor guia seus fiéis, mesmo no exílio.21 Mas o narrador pode ter um objetivo secundário em mente também. Ele apresenta Daniel e seus amigos como verdadeiros israelitas, fiéis a Deus, mesmo quando longe da Terra Prometida: fiéis a Deus no que diz respeito à comida que comem (capítulo 1); fiéis a Deus em não ajoelharem e adorarem um ídolo (capítulo 3); fiéis a Deus no que diz respeito às orações diárias (capítulo 6); em suma, mesmo no exílio, eles permaneceram fiéis a Deus, obedecendo à sua lei. O narrador pretende que os israelitas se identifiquem com Daniel e seus amigos – não no sentido de imitarem todas as suas ações, evitando alimentos reais e vinho,22 que de qualquer modo eles não dispõem, mas no sentido de saber que um verdadeiro israelita é fiel a Deus e à sua lei, mesmo no exílio.23 Portanto, um objetivo secundário do narrador é incentivar o povo de Deus a ser fiel a Deus e à sua lei, mesmo no exílio. Maneiras de pregar a Cristo Nesta seção, vamos estudar as formas possíveis de nos movermos no sermão desta narrativa do Antigo Testamento para Jesus Cristo, no Novo Testamento. Normalmente a melhor maneira de fazer isso é estender o tema textual a Jesus Cristo. Como não há nenhuma promessa da vinda do Messias neste capítulo, nem um grande contraste com o Novo Testamento, vamos explorar sucessivamente as cinco maneiras restantes para avançar até Cristo: progressão histórico-redentiva, tipologia, analogia, temas longitudinais e referências do Novo Testamento. Progressão histórico-redentiva A progressão histórico-redentiva oferece um caminho direto até Jesus no Novo Testamento. Daniel 1 enfatiza que Deus “deu/entregou”: “O Senhor lhe entregou nas mãos [de Nabucodonosor] a Jeoaquim, rei de Judá” (v. 2). Mas, mesmo quando o seu povo está no exílio, Deus continua envolvido com ele: Deus deu a Daniel o favor do chefe dos eunucos do palácio (v. 9) e “Deus deu o conhecimento e a inteligência” (v. 17). Deus guia, protege e salva o seu povo, entrando na história humana e dando-lhes o que eles precisam, mesmo quando estão no exílio. Na plenitude dos tempos, Deus deu a dádiva mais preciosa de todas: “Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). Mateus 1 destaca esta progressão na história da redenção, descrevendo catorze gerações desde Abraão até Davi (quatorze é o número hebraico do nome “Davi”), catorze de Davi até o exílio, e catorze do exílio a Jesus Cristo: “De sorte que todas as gerações, desde Abraão até Davi, são catorze; desde Davi até ao exílio na Babilônia, catorze; e desde o exílio na Babilônia até Cristo, catorze” (Mt 1.17). Jesus é outro rei Davi. Ele é o Rei Messias que nasceu para salvar o povo de Deus do exílio no mundo e restaurá-lo à Terra Prometida. Em sua oração sacerdotal, Jesus disse ao Pai: “Eu lhes tenho dado a tua palavra, e o mundo os odiou, porque eles não são do mundo, como também eu não sou... Eles não são do mundo, como também eu não sou” (Jo 17.14,16). Hoje o povo de Deus na terra ainda vive no exílio, a leste do Éden. Podemos nos intitular cidadãos de um determinado país, mas, na verdade, Paulo diz: “A nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Fp 3.20; cf. 1Pe 1.1; Tg 1.1). Jesus voltará e nos levará do exílio neste mundo mal e pecaminoso para a Terra Prometida, ou seja, o perfeito reino de Deus na Terra. Tipologia A tipologia também fornece uma maneira de pregar a Cristo porque Daniel prefigura (é um tipo de) Jesus Cristo. Observe as seguintes analogias, bem como gradações entre Daniel e Jesus: Como o Senhor soberano permitiu a Daniel ser levado da Terra Prometida e ir para o exílio na Babilônia pecaminosa, também Deus, o Pai, enviou o seu Filho único do céu a este mundo pecaminoso (Jo 3.16). Como Daniel foi um verdadeiro israelita, também Jesus foi um verdadeiro israelita, o próprio Filho de Deus. Daniel na Babilônia foi obediente a Deus em relação à comida e bebida; Jesus foi obediente a Deus em todas as coisas. Deus deu a Daniel sabedoria e habilidade; Deus deu sabedoria e habilidade a Jesus (“Todos os que o ouviam muito se admiravam da sua inteligência e das suas respostas” [Lc 2.47]). Deus guiou Daniel a um lugar de grande autoridade na Babilônia; Deus guiou o seu Filho Jesus para um lugar de maior autoridade ainda: “Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho... e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai” (Fp 2.9-11). Analogia A analogia fornece outro caminho para Jesus no Novo Testamento. Podemos fazer uma analogia entre a mensagem de Daniel para Israel no exílio e a mensagem de Pedro aos cristãos no exílio: “Aos eleitos que são forasteiros da Dispersão... segundo a presciência de Deus Pai, em santificação do Espírito, para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus Cristo” (1Pe 1.1-2). Podemos também traçar a analogia a partir do objetivo do autor: como Daniel 1 conforta o povo de Deus com a mensagem de que o Senhor soberano vai guiar o seu povo, mesmo no exílio, também Jesus conforta seus seguidores:“Não temais, ó pequenino rebanho; porque vosso Pai se agradou em dar-vos o seu reino” (Lc 12.32). Temas longitudinais Pode-se também traçar o tema do soberano Deus guiando seu povo do Antigo para o Novo Testamento. Pode-se começar com Abraão, a quem Deus tirou de “Ur dos caldeus” (Gn 11.31), terra que veio a ser a Babilônia mais tarde, para a Terra Prometida; depois, passar para Jacó, que Deus levou da Terra Prometida para Padã-Arã (também na Babilônia mais tarde) e de volta para a Terra Prometida; em seguida, passar a José, que, como Daniel, foi forçado ao exílio, mas a quem Deus também deu grande sabedoria e poder de interpretar os sonhos para que ele se tornasse o segundo no poder depois de Faraó e, assim, fosse capaz de salvar o povo de Deus da fome. José morreu no Egito, mas instruiu os israelitas a enterrá-lo na Terra Prometida: “Certamente Deus vos visitará, e fareis transportar os meus ossos daqui” (Gn 50.25). Anos mais tarde, Deus libertou Israel do exílio no Egito, e os israelitas levaram o corpo de José com eles para enterrá-lo na Terra Prometida (Êx 13.19; Js 24.32). Deus guiou o seu povo durante o período dos juízes, dos reis, do exílio e o retorno de um remanescente, até a vinda de Cristo. Quando Jesus completou seu trabalho na terra e estabeleceu sua igreja, ele prometeu guiar sua igreja: “Eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (Mt 28.20). Em sermões, é preciso lidar com os temas longitudinais com cuidado, pois desenvolver um tema em detalhes pode rapidamente se tornar algo entediante para a congregação. Referências em linhas gerais são, muitas vezes, mais eficazes do que uma viagem longa e morosa através das Escrituras. Referências no Novo Testamento O apêndice do Novo Testamento grego enumera João 3.35 como uma alusão a Daniel 1.2, e Apocalipse 2.10 como uma alusão aos “10 dias” em Daniel 1.12,14. Nenhuma destas referências é útil para a pregação de Cristo. Verificar o tema da providência de Deus em uma concordância nos leva ao ensino de Jesus relativo à liderança de Deus sobre seu povo. Por exemplo, Jesus ensinou: “Não se vendem cinco pardais por dois asses? Entretanto, nenhum deles está em esquecimento diante de Deus. Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não temais! Bem mais valeis do que muitos pardais” (Lc 12.6-7). Além disso, em sua oração sacerdotal, Jesus orou: “Pai santo, guarda-os [os seguidores de Jesus]... Quando eu estava com eles, guardava-os no teu nome... e protegi-os... Mas, agora, vou para junto de ti... Não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do mal” (Jo 17.11-15). Paulo também liga seu ensinamento sobre a providência de Deus com Jesus Cristo: “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles que amam a Deus... Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada?... Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8. 28-39). Tema, objetivo e necessidade do sermão Tendo vasculhado o Novo Testamento, especialmente em busca de conexões com o tema textual, agora estamos prontos para formular o tema e objetivo do sermão. Por causa da progressão na história da redenção e revelação, o tema do sermão pode, por vezes, ser diferente do tema textual, embora deva ser sempre enraizado nele. Formulamos o tema textual como: “ O Senhor soberano que levou Daniel e seus amigos fiéis a posições de poder na Babilônia conduzirá o seu povo fiel, mesmo no exílio”. Visto que o Novo Testamento não muda esta mensagem, podemos fazer do tema textual o tema sermão – exceto por uma frase. A frase “mesmo no exílio” levanta várias questões: a igreja de hoje está “no exílio” da forma que Israel esteve? Vimos acima que Paulo ensina que o povo de Deus está no exílio, porque vive em um mundo mau e pecaminoso: “A nossa pátria está nos céus” (Fp 3.20). Pedro também se dirige à igreja do Novo Testamento como “os exilados da Dispersão” (1Pe 1.1; cf. Tg 1.1). Portanto, poderíamos manter “no exílio” no tema do sermão. Mas uma vez que “exílio” pode não ser claro para as pessoas, e o tema deve ser absolutamente claro, vamos mudar “no exílio” para “no mundo”. Outra questão é: será que é surpreendente (“mesmo”) que Deus guia a igreja no mundo? Uma vez que Jesus prometeu estar com sua igreja “até a consumação do século” (Mt 28.20) e derramou o Espírito Santo sobre sua igreja, não é de estranhar que Deus guie sua igreja no mundo. Portanto, podemos abandonar a palavra “mesmo”. O tema sermão, então, torna-se: O Senhor soberano, que guiou Daniel e seus amigos fiéis a posições de poder na Babilônia, guiará o seu povo fiel no mundo. Concluímos que o autor pode ter tido dois objetivos com a sua mensagem: o objetivo principal, “confortar o povo de Deus com a mensagem de que seu soberano Senhor guiará o seu povo fiel, mesmo no exílio”, e um objetivo secundário, “incentivar o povo de Deus a ser fiel a Deus, mesmo no exílio”. O sermão pode ter os mesmos dois objetivos para a igreja de hoje, embora devamos mudar novamente “mesmo no exílio” para “no mundo”. O duplo objetivo de24 pregar este sermão então é: confortar o povo de Deus com a mensagem de que seu soberano Senhor guiará o seu povo fiel no mundo e o incentivará a ser fiel a Deus. Com um objetivo duplo será mais difícil, é claro, manter o sermão focado e unificado do que com um objetivo único. Mas se o autor bíblico parece ter tido um objetivo duplo em mente, devemos aceitar o desafio de pregar um sermão unificado com o objetivo dual. Em qualquer caso, este objetivo duplo aponta para uma necessidade congregacional dupla, que o sermão deve abordar: por causa da perseguição que sofre ou observa neste mundo, o povo de Deus tende a questionar se Deus está realmente no controle dos poderes do mal neste mundo e é tentado a se afastar da lei de Deus. Exposição do sermão A introdução do sermão pode divulgar a relevância deste sermão com uma ilustração de pessoas que ficaram tão horrorizadas com a perseguição a si mesmas ou a outros cristãos que elas começaram a duvidar da existência de um Deus amoroso, perderam sua fé em Deus e começaram a viver um estilo de vida secular.25 Por exemplo, muitas pessoas afirmam ter perdido sua fé em Deus por causa das atrocidades de Auschwitz. Junto com milhões de judeus, muitos cristãos morreram nos campos de concentração nazistas. Em seguida, levante a questão de se podemos perder nossa fé em Deus quando a perseguição chegar: ataques à igreja patrocinados pelo Estado ou mesmo quando somos atormentados no trabalho por causa das nossas crenças cristãs. Quando nos concentramos sobre a perseguição ao povo de Deus, é fácil perdermos a fé em um Deus soberano que ama o seu povo. Certamente foi fácil para Israel perder a sua fé em Deus quando seu pequeno país foi invadido pelas forças babilônicas e as pessoas, arrastadas para o exílio. Elas foram levadas para o exílio em três lotes. Primeiro, em 605 a.C., os babilônios levaram jovens da nobreza, incluindo Daniel e seus três amigos (Dn 1.1-6). Oito anos mais tarde, os babilônios tomaram um grande grupo de elite: o Rei Jeoaquim, seus funcionários, a família real, os guerreiros, os artesãos e ferreiros (2Rs 24.10-17). Finalmente, em 587 a.C., levaram todos os judeus restantes, exceto as pessoas mais pobres. Eles destruíram os muros de Jerusalém e queimaram o santo templo de Deus até o alicerce (2Rs 25.1-21). Onde estava Deus? Que tipo de Deus não tem força para proteger sua cidade e seu próprio templo? Parecia que os deuses da Babilônia eram muito mais fortes do que o Deus de Israel. Foi fácil para Israel no exílio perder sua fé no Senhor seu Deus. Isaías relata que Israel reclamou: “O SENHOR me desamparou, o SENHOR seesqueceu de mim” (49.14). Por que não servir a Marduque, o grande deus da Babilônia? O livro de Daniel se dirige a estes exilados que sofriam e duvidavam. Os versículos 1 e 2, “No ano terceiro do reinado de Jeoaquim, rei de Judá, veio Nabucodonosor, rei da Babilônia,26 a Jerusalém e a sitiou. O Senhor lhe entregou nas mãos a Jeoaquim, rei de Judá, e alguns dos utensílios da Casa de Deus; a estes,27 levou-os para a terra de Sinar, para a casa do seu deus, e os pôs na casa do tesouro do seu deus”. O autor usa a expressão “terra de Sinar” para nos lembrar de Gênesis 11, onde lemos sobre pessoas fixando residência na “terra de Sinar” e, em desafio a Deus, construindo a torre de Babel. Desde o início, então, somos lembrados de que a Babilônia é um lugar do mal, o reino das trevas. Seu povo é orgulhoso e desafiador, inimigo de Deus e do seu povo.28 Observe ainda que o versículo 2 afirma que “O Senhor lhe entregou nas mãos a Jeoaquim”, ou seja, nas mãos de Nabucodonosor. Um historiador moderno diria que Judá caiu porque foi subjugado pela nação mais poderosa do planeta. Um sacerdote babilônico teria dito que os deuses poderosos da Babilônia simplesmente venceram o Deus de Israel. Mas nosso texto nos dá uma perspectiva totalmente diferente sobre a tragédia de Judá: “O Senhor lhe entregou nas mãos [de Nabucodonosor] a Jeoaquim, rei de Judá”. Literalmente, o texto diz que: “O Senhor entregou o rei Jeoaquim de Judá a Nabucodonosor”. A palavra hebraica usada aqui para “Senhor” é (a̕dōnāy), que “enfatiza a posse de Deus, o seu controle”.29 Então, desde o início, Daniel nos informa que o Senhor de Israel é o Deus soberano que possui e controla todas as coisas. Os deuses da Babilônia não chegam nem perto.30 Por que, então, o soberano Senhor permitiu que esse desastre acontecesse com o seu próprio povo? Encontramos a resposta em Daniel 9. Daniel confessa na sua oração: “Todo o Israel transgrediu a tua lei, desviando-se, para não obedecer à tua voz; por isso, a maldição e as imprecações que estão escritas na Lei de Moisés, servo de Deus, se derramaram sobre nós, porque temos pecado contra ti” (Dn 9.11).31 A desobediência contínua de Israel foi a razão por que Deus permitiu Judá cair no poder da Babilônia. O Senhor até mesmo permitiu a Nabucodonosor levar “alguns dos utensílios32 da Casa de Deus” – sua própria casa sagrada. Lemos no versículo 2: “Levou-os para a terra de Sinar, para a casa do seu deus, e os pôs na casa do tesouro do seu deus”.33 A remoção desses vasos de ouro e prata era “um sinal da vitória de Nabucodonosor e seu deus sobre o rei israelita e seu deus. As guerras eram travadas em nome do deus e os despojos, portanto, pertenciam a ele”.34 Nos versículos 3 e 4, lemos: “Disse o rei a Aspenaz, chefe dos seus eunucos, que trouxesse alguns dos filhos de Israel, tanto da linhagem real como dos nobres, jovens sem nenhum defeito, de boa aparência, instruídos em toda a sabedoria, doutos em ciência, versados no conhecimento,35 e que fossem competentes para assistirem no palácio do rei e lhes ensinasse a cultura e a língua dos caldeus”.36 Estes jovens eram a nata da cultura. Eles eram da classe alta, adolescentes que poderiam facilmente ser novamente treinados, no auge da condição física, bem-educados e “versados no conhecimento e que fossem competentes”, isto é, com um QI alto. Eles eram o tipo de rapazes especialistas em todas as matérias e excelentes em todos os esportes da universidade. Eles deveriam ser levados para a Babilônia e ali se “lhes ensinasse a cultura e a língua dos caldeus”. Em outras palavras, eles deveriam ser reeducados nos modos e na língua da Babilônia.37 Eles seriam “reprogramados”. Nabucodonosor faria uma lavagem cerebral nesses adolescentes israelitas e os transformaria em sábios homens babilônicos. O rei tinha várias razões para trazer israelitas inteligentes para a Babilônia. Isso traria as melhores mentes em Israel para a corte do rei da Babilônia. Seria deixar claro para Israel que eles estavam agora sujeitos à Babilônia e desencorajaria rebelião em Judá.38 O versículo 5 acrescenta que “determinou-lhes o rei a ração diária, das finas iguarias da mesa real e do vinho”. Não é que o rei quisesse mimar estes meninos judeus. Ao contrário, ele queria afastá-los da dieta que Deus lhes dera. Eles tinham que se tornar babilônios até na sua comida e bebida.39 Eles tinham que ser babilônios em cada momento da sua existência. Os versículos 5 e 6 continuam: Eles deviam ser educados “por três anos,40 ao cabo dos quais assistiriam diante do rei. Entre eles, se achavam, dos filhos de Judá, Daniel, Hananias, Misael e Azarias”. Eles tinham nomes hebraicos bonitos que os pais piedosos teriam significativamente dado aos seus filhos. Todos os quatro nomes testemunham o Deus de Israel, o Senhor. Daniel significa “El (Deus) é meu juiz”. Hananias significa “Yah (Yahweh) tem sido gracioso”. Misael significa “Quem é como El (Deus)?” E Azarias significa “Yah (Yahweh) tem ajudado”.41 Infelizmente, a primeira coisa que o chefe dos eunucos do palácio fez foi trocar os lindos nomes deles. Era urgente separar esses jovens do passado e do Deus deles.42 A identidade deles tinha de ser mudada de jovens israelitas para sábios babilônicos. Então o chefe dos eunucos do palácio substituiu os belos nomes hebraicos por nomes babilônicos com referências aos deuses babilônicos. Verso 7: “O chefe dos eunucos lhes pôs outros nomes, a saber: a Daniel, o de Beltessazar”, que, provavelmente, significa, “que Bel proteja a sua vida” – Bel significa “senhor”, referindo-se ao deus babilônico principal, Marduque. “A Hananias, o de Sadraque”, que significa “o comando de Aku”, o deus da lua, ou “o comando de Marduque”, o deus principal. “A Misael, o de Mesaque”, que pode significar “quem é como Aku?”. E, finalmente, a “Azarias, o de Abede-Nego”, que significa “servo de Nebo”, o deus babilônico da sabedoria e da agricultura.43 Em vez de servir ao Senhor, o Deus de Israel, a partir de agora estes jovens estão a serviço da Babilônia e seus deuses. O versículo 8: “Resolveu Daniel, firmemente, não contaminar-se com as finas iguarias do rei, nem com o vinho que ele bebia; então, pediu ao chefe dos eunucos que lhe permitisse não contaminar-se”. Resistência entre os cativos! Daniel não podia impedir de ser levado para a Babilônia. Ele também não poderia deixar de ter seu nome alterado, embora deva ter percebido que este era um primeiro passo para se tornar um bom babilônico. Mas, quando se trata de consumir rações reais de comida e vinho, Daniel resiste.44 Ele resolve não se contaminar. Para indicar que Daniel está falando sério sobre isso, o narrador repete duas vezes no versículo 8 que ele decidiu “não contaminar-se”. Por que as rações reais de comida e vinho contaminariam Daniel?45 A palavra “contaminar” (gāʾal) é um termo cúltico, religioso. As pessoas que se contaminam tornam-se “impuras”, ou seja, profanas, não são aceitas na santa presença de Deus. Então a primeira coisa que vem à mente é que essas rações reais não eram kosher. Talvez incluíssem carne de porco e outras carnes proibidas. Mesmo que fosse a carne que Deus permitia que se comesse, os animais não eram abatidos corretamente porque o sangue deles não era drenado.46 De acordo com a lei de Deus,47 comer essa carne tornaria imundo um israelita. Mas isso não explicaria a recusa de Daniel em beber o vinho do rei, que era kosher para todos os israelitas, exceto para os nazireus (Nm 6.3). Há uma segunda razão pela qual Daniel pode ter recusado as rações reais de comida e vinho. Normalmente, uma parte da carne e do vinho da mesa do rei era oferecida primeiramente aos deuses babilônicos. “Participar deste alimento teria sido um ato indireto de adorar as divindades babilônicas”.48 Quando Daniel toma sua posição de não comer a comida real e beber o vinho do rei, ele toma sua posição contra os deuses babilônicos e em favor do Deus de Israel.49 Esta é uma posição perigosa para se tomar. Daniel podia ser executado por tomar esta posição. Quatrocentos anos depois,sob Antíoco IV, muitos judeus foram mortos por se recusarem a comer alimentos impuros. Um livro dessa época, 1Macabeus, nos informa: “Apesar de tudo, muitos em Israel ficaram firmes e se mostraram irredutíveis em não comerem nada de impuro. Aceitaram antes morrer que contaminar-se com os alimentos e profanar a aliança sagrada, como de fato morreram” (1Mb 1.62-63)”.50 Daniel toma uma posição perigosa. No entanto, ele corajosamente “pediu ao chefe dos eunucos que lhe permitisse não contaminar-se”. Se Aspenaz relatasse essa resistência ao rei, isto poderia custar a vida de Daniel. Mas lemos no versículo 9: “Deus concedeu a Daniel misericórdia e compreensão da parte do chefe dos eunucos”. Assim como Deus anteriormente “entregou” Judá nas mãos de Nabucodonosor (v. 2), de modo similar agora Deus “deu” a Daniel o favor e a compaixão do chefe dos eunucos do palácio.51 O Deus de Israel controla a história humana. O Deus de Israel pode operar também na distante Babilônia. Ele permitiu que Daniel recebesse “misericórdia e compreensão da parte do chefe dos eunucos”. A história de Daniel se parece muito com a de José, quando no exílio no Egito. Nós lemos em Gênesis: “O SENHOR, porém, era com José, e lhe foi benigno, e lhe deu mercê perante o carcereiro” (Gn 39.21). O Deus de Israel é o Deus soberano. Ele estava no Egito para ajudar o seu povo e ele está agora na Babilônia para ajudar o seu povo. Deus dá a Daniel misericórdia e compreensão da parte de Aspenaz. Contudo, embora Aspenaz tivesse se agradado de Daniel, ele não estava disposto a desobedecer às ordens do rei. Versículo 10: “Disse o chefe dos eunucos a Daniel: Tenho medo do meu senhor, o rei, que determinou a vossa comida e a vossa bebida; por que, pois, veria ele o vosso rosto mais abatido do que o dos outros jovens da vossa idade? Assim, poríeis em perigo a minha cabeça para com o rei”. Aspenaz tinha medo do rei. Reter o alimento real podia custar-lhe a cabeça. Nabucodonosor podia ter um de seus ataques de fúria e mandar matar Aspenaz. O rei era conhecido por seus ataques de fúria. Em Daniel 2.12, lemos sobre a fúria e ordem do rei: “que matassem a todos os sábios da Babilônia”. Em Daniel 3, lemos novamente sobre sua ira ao ordenar que os amigos de Daniel fossem jogados na fornalha de fogo ardente. Aspenaz conhecia o rei bem demais e não estava disposto a arriscar sua própria cabeça por Daniel. O que é que Daniel podia fazer? Aspenaz tinha medo que uma dieta restrita fizesse Daniel emagrecer e que o rei percebesse isso. Então Daniel esboçou um plano, passando por cima do medroso Aspenaz desta vez. Ele vai a um oficial inferior. Os versículos 11 a 13: “Então, disse Daniel ao cozinheiro-chefe, a quem o chefe dos eunucos havia encarregado de cuidar de Daniel, Hananias, Misael e Azarias: Experimenta, peço-te, os teus servos dez dias; e que se nos deem legumes a comer e água a beber. Então, se veja diante de ti a nossa aparência e a dos jovens que comem das finas iguarias do rei; e, segundo vires, age com os teus servos.” Daniel sugere que o guarda dê a ele e aos seus amigos apenas legumes para comer e água para beber durante um período de dez dias.52 Com certeza um período de teste de 10 dias não podia fazer nenhum mal. Eles ficariam lá por três anos. No final de dez dias, o guarda pôde comparar a aparência deles com a dos outros jovens. Daniel ficou desconfortável enquanto esperava a resposta do guarda. Mas ele não teve que esperar muito. Lemos no versículo 14: “Ele [o guarda] atendeu e os experimentou dez dias”. Dificilmente dez dias seria tempo suficiente para fazer uma grande diferença. O narrador enfatiza este curto período repetindo a frase “10 dias” três vezes. Mas nunca se sabe, talvez eles emagrecessem. Estranhamente, exatamente o oposto acontece. Versículo 15: “No fim dos dez dias, a sua aparência era melhor; estavam eles mais robustos do que todos os jovens que comiam das finas iguarias do rei”. O guarda notou que a “sua aparência era melhor; estavam eles mais robustos”, ou seja, mais saudáveis, mais bem nutridos.53 Como é possível que eles ficassem mais bem nutridos, alimentando-se apenas de legumes e água, do que todos os jovens com a dieta de comida calórica e vinho? O autor não precisa nos contar como isso foi possível. Por agora sabemos que Deus trabalha na história humana. “O Senhor lhe entregou nas mãos [do rei de Babilônia] a Jeoaquim, rei de Judá” (v. 2). “Deus concedeu a Daniel misericórdia e compreensão da parte do chefe dos eunucos” (v. 9). Obviamente Deus operou um milagre fazendo com que Daniel e seus amigos, em apenas 10 dias, ficassem mais bem nutridos do que os outros jovens.54 Este resultado positivo convenceu o guarda. No versículo 16 lemos: “Com isto, o cozinheiro-chefe tirou deles as finas iguarias e o vinho que deviam beber e lhes dava legumes”. Daniel e seus amigos não tiveram que se contaminar. Durante três anos, continuaram com a dieta de vegetais e água. Eles sempre souberam que a sua boa aparência física não era devido ao alimento calórico da Babilônia, mas devido à bênção de seu Deus. E ainda mais. O versículo 17 acrescenta: “A estes quatro jovens Deus deu o conhecimento e a inteligência em toda cultura e sabedoria; mas a Daniel deu inteligência de todas as visões e sonhos”. Aqui, pela terceira vez, o narrador escreve: “Deus deu/entregou”. Deus entregou Judá nas mãos da Babilônia, (v. 2). Deus “deu” a Daniel o favor e a compaixão do chefe dos eunucos do palácio (v. 9); e, agora, “Deus deu o conhecimento e a inteligência em toda cultura e sabedoria” a estes quatro jovens. Os três dons especiais foram dados para esses jovens, e somente para eles: o conhecimento, a inteligência em toda cultura e a sabedoria. Os termos “denotam conhecimento sobrenaturalmente revelado”.55 Mas, para Daniel, Deus deu um dom especial adicional: “Mas a Daniel deu inteligência de todas as visões e sonhos”. Este dom especial viria a ser importante nos próximos capítulos, quando Daniel interpreta sonhos e recebe visões. Os versículos 18 e 19 trazem: “Vencido o tempo determinado pelo rei para que os trouxessem, o chefe dos eunucos os trouxe à presença de Nabucodonosor. Então, o rei falou com eles; e, entre todos, não foram achados outros como Daniel, Hananias, Misael e Azarias; por isso, passaram a assistir diante do rei.” Observe que o narrador identifica os quatro jovens por seus nomes hebraicos. “Esta pode ser a maneira de o contador da história atribuir a competência dos quatro ao Deus a quem seus nomes hebraicos davam testemunho”.56 O próprio rei os examinou e achou que Daniel e seus amigos eram muito superiores aos outros jovens. Assim, o rei instalou estes quatro judeus em sua corte para serem seus assessores. O rei da Babilônia ficou extremamente satisfeito com o trabalho de Daniel e seus amigos. De fato, o versículo 20 nos diz: “Em toda matéria de sabedoria e de inteligência sobre que o rei lhes fez perguntas, os achou dez vezes mais doutos do que todos os magos e encantadores que havia em todo o seu reino”. Eles eram muito superiores até mesmo a todos os sábios experientes em seu reino. O rei pode ter pensado que este sucesso era devido ao seu excelente sistema educacional. Mas nós, os leitores desta história, sabemos da verdade. Deus deu “o conhecimento, e a inteligência em toda cultura e sabedoria”.57 A narrativa termina com o versículo 21: “Daniel continuou até ao primeiro ano do rei Ciro”. Rei Ciro era o rei da Pérsia, o atual Irã. Ele conquistou a Babilônia (atual Iraque) e, em seu primeiro ano, permitiu que os israelitas retornassem à Terra Prometida. A história de Daniel começou em 605 a.C., quando os primeiros judeus foram levados para o exílio, e agora ele ainda está vivo, quando um remanescente de exilados retorna, em 539 a.C., quase 70 anos mais tarde.58 Daniel está na casa dos oitenta anos agora. Deus o abençoou com uma vida tão longa que ele sobreviveu até mesmo ao grande império babilônico e aos seus seis reis.59 Daniel experimentou a fidelidade de Deus, mesmo no exílio. Daniel, no Antigo Testamento,prefigura Jesus Cristo, no Novo. Observe as analogias. Como o soberano Senhor permitiu que seu filho Daniel fosse levado da Terra Prometida para a pecaminosa Babilônia, também Deus, o Pai, enviou seu único Filho do céu a este mundo pecaminoso: “Porque Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). Como Daniel na Babilônia foi obediente às leis de Deus, também Jesus foi obediente à vontade de Deus em todas as coisas. Mesmo quando se tornou claro que a vontade de Deus para Jesus era a de oferecer a sua própria vida, Jesus orou: “Meu Pai, se não é possível passar de mim este cálice sem que eu o beba, faça-se a tua vontade” (Mt 26.42). Da mesma forma que Deus conduziu Daniel para um lugar de grande autoridade na Babilônia, Deus guiou o seu Filho Jesus a um lugar de maior autoridade ainda: “Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho... e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai” (Fp 2.9-11). Os israelitas no exílio que ouviram esta história de Daniel e seus amigos devem ter sido incentivados a permanecerem fiéis ao seu Deus fiel. Eles não tinham de lidar com as questões de comida real que não era kosher. Os problemas deles eram um pouco diferentes, mas o princípio era o mesmo: seja fiel a Deus, obedecendo às suas leis. Como cristãos, também somos chamados a sermos fiéis a Deus, mesmo em circunstâncias perigosas. Para nós, não é uma questão de comer comida kosher, pois “considerou ele [Jesus] puros todos os alimentos” (Mc 7.19). E o mesmo fez Deus ao dar a Pedro uma visão sobre animais impuros que Deus tinha purificado (At 10.9-16). Mas Jesus também declarou que, como cristãos, vivemos no mundo, mas não somos do mundo. Em sua oração sacerdotal, Jesus disse ao Pai: “Manifestei o teu nome aos homens que me deste do mundo. Eram teus, tu mos confiaste, e eles têm guardado a tua palavra... Eu lhes tenho dado a tua palavra, e o mundo os odiou, porque eles não são do mundo, como também eu não sou. Não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do mal. Eles não são do mundo, como também eu não sou. Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade. Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo” (Jo 17. 6; 14-18). O que torna os cristãos distintos neste mundo é que eles não se conformam com o mundo e seus padrões, mas permanecem fiéis a Deus. Eles procuram honrar a Deus em tudo o que fazem e dizem. Jesus disse aos seus seguidores: “Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade edificada sobre um monte... Assim brilhe também a vossa luz diante dos homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que está nos céus” (Mt 5.14,16; cf. 1Pe 2.12). No livro de Apocalipse, o Senhor ressuscitado encoraja sua igreja perseguida e sofrida: “Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida” (Ap 2.10). A história de Daniel consolou os israelitas que sofriam no exílio. Apesar das aparências, deu-lhes esperança de que o Deus deles não tinha sido conquistado pelos deuses babilônicos. O Deus de Israel ainda estava no controle e estava guiando seu povo, mesmo no exílio. Jesus também confortou seus seguidores que iriam enfrentar perseguição e martírio. Jesus nos ensinou a confiar em nosso Pai celestial. Ele disse: “Não se vendem cinco pardais por dois asses? Entretanto, nenhum deles está em esquecimento diante de Deus. Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não temais! Bem mais valeis do que muitos pardais” (Lc 12. 6- 7). Jesus nos encorajou quando disse: “Não temais, ó pequenino rebanho; porque vosso Pai se agradou em dar-vos o seu reino” (Lc 12.32). Como vamos reagir quando a perseguição chegar até nós? Quando perdermos nosso emprego por causa das nossas crenças cristãs? Quando nossa família nos renegar porque nos tornamos cristãos? Quando pai e mãe forem levados porque são cristãos? Como vamos reagir quando o culto público cristão for proibido? Quando os nossos bens terrenos forem confiscados? Jesus diz: “Não temais, ó pequenino rebanho; porque vosso Pai se agradou em dar-vos o seu reino”. Deus, o Pai, é soberano. Ele está no controle. Ele é fiel e vai nos dar vitória. E ele vai nos dar “o reino”! Em Romanos 8, Paulo pergunta: “Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada?... Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou.” Paulo não diz que, apesar das dificuldades, ainda somos mais que vencedores. Não, “em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm 8.35-39). Como cristãos, podemos contar com isto, que nada no mundo pode nos separar do amor de Cristo. Deus será fiel a nós. Sejamos fiéis a ele, não importa o que aconteça.60 1 Para cada um dos capítulos, selecionei um ou dois versículos para focar a atenção do leitor numa questão central. Este versículo-chave não se destina a ser utilizado como o texto da pregação; o texto da pregação é toda a unidade literária. 2 Eu não me lembro de como ele vinculou “sem sexo” com Daniel. No entanto, é provável que os babilônios tenham tornado eunucos a Daniel e seus amigos. Esta probabilidade é baseada, em parte, na profecia de Isaías a Ezequias: “Dos teus próprios filhos, que tu gerares, tomarão, para que sejam eunucos no palácio do rei da Babilônia” (Is 39.7; 2Rs 20.18; veja Steinmann, Daniel, 89-91). Se eles tiverem, de fato, sido feito eunucos, o pregador estaria com mais problemas do que percebeu com suas aplicações de transferência direta. 3 “Está claro que não podemos pautar nossa conduta diária na de Samuel, quando ele corta Agague em pedaços, ou na de Sansão, quando comete suicídio, ou na de Jeremias, quando prega traição”. Clowney, “Preaching and Biblical Theology” (Grand Rapids: Eerdmans, 1961), 80. 4 “‘Open Doors’ 2009 World Watch List”. Para exemplos e nações específicas, veja Paul Marshall, Their Blood Cries Out: The Worldwide Tragedy of Modern Christians Who Are Dying for Their Faith. Para exemplos atualizados, veja, p. ex., a Wikipédia. Pesquisando no Google “Perseguição aos Cristãos”, você encontrará uma abundância de fontes. 5 “Moralizar” é tirar uma ou mais conclusões de fundo moral do texto de pregação quando o autor deste texto nunca teve esta intenção para com a sua audiência original. 6 John G. Gammie, Daniel, 11. 7 Veja ibid., p. 14 para três possíveis sermões sobre Daniel 1.5-8 (“Então você vai para a faculdade”; “Sobre ser sozinho”; e “Além das fronteiras”); p. 17 para um “sermão pré-Quaresma chamado ‘Dieta e disposição’” em Daniel 1.9-16; e p. 18 para um sermão sobre “Os tipos de sabedoria”, baseado em Daniel 1.17-21. 8 “Pela providência de Deus, Daniel foi enviado para a Babilônia [em 604 a.C.] como um destacamento avançado para preparar a chegada da primeira onda de exilados, em 598 a.C”. Block, “Preaching Old Testament Apocalyptic”, CTJ 41 (2006) 26. 9 “Cada cena apresenta os acontecimentos de um determinado lugar e tempo, concentrando a atenção do público nas ações e nas palavras faladas”. Jacob Licht, Storytelling in the Bible (Jerusalém: Magnes, 1978), 29. Apesar de cada cena ter geralmente apenas dois personagens (Robert Alter, The Art of Biblical Narrative [Nova York: Basic Books, 1985], 72), um grupo, como Daniel e seus amigos, pode funcionar como um caráter coletivo, como podemos ver nas cenas 2 e 3. Além disso, como podemos ver na cena 2, em uma única cena um dos dois personagens, às vezes, pode ser substituído por outro personagem. 10 Lederach, Daniel, 37. 11 Cf. NASB, “A casa [bêt] de Deus”, “a casa [bêt]de seu deus” e “a casa [bêt] do tesouro do seu deus”. 12 Seow, Daniel, 22. 13 Lucas, Daniel, 49. 14 Veja p. 46–47, acima. 15 Goldingay, Daniel, 8. Cf. Seow, Daniel, 14: “Esta ênfase na doação de Deus desde o início deve imediatamente sinalizar que o livro é principalmente sobre o poder e a atividade de Deus e apenas secundariamente sobre qualquer modelo de excelência humano”. 16 Seow, Daniel, 27, sugere que “a referência a ‘mercê’ não aponta tanto para o favor do carcereiro (como a NRSV sugere), mas para ‘a graça e a misericórdia’ de Deus diante do carcereiro”. 17 Longman, Daniel, 56. Cf. Seow, Daniel, 21, “A abertura do capítulo de Daniel é em primeiríssimo lugar sobre a soberania e liberdade de Deus e apenas secundariamente sobre um modelo de conduta humana justa e fiel”. 18 Longman, Daniel, 46. Ênfase minha. Sua outra sugestão focaliza mais neste capítulo em particular: “Apesar do exílio, Deus dá ao seu povo a capacidade de prosperar tanto quanto de ser fiel”. Ibid., 42. 19 Steinmann, Daniel, 77. 20 Cf. Seow, Daniel, 30, “A história é sobre o triunfo de Deus não através de manifestações comuns de poder, mas através da doação múltipla de Deus - mesmo em meio a sofrimentos, mesmo em meio a sinais de impotência, mesmo em meio à ameaça de morte”. 21 Cf. Longman, Daniel, 56, “A soberania de Deus exibida sutilmente, mas claramente aqui e em outras partes do livro tem um efeito planejado de confortar seu povo. Do ponto de vista humano limitado, eles pensam que são apenas peões nas mãos de forças hostis. Daniel 1 contorna essa percepção falsa, mas compreensível, apontando-os a realidade da soberania divina.” 22 Veja, p. ex., Collins, Daniel, 145: “A história tem um objetivo prático específico: encorajar os judeus da diáspora a evitarem contaminação na sua alimentação enquanto participavam ativamente da vida cultural de seu meio ambiente”. 23 Para a diferença entre pregação superficial de imitação de personagem e identificação com personagens bíblicos, bem como os cuidados em relação ao uso deste último, veja o meu Modern Preacher, 175-81. 24 Para que o sermão seja unificado, ele deve ter um único tema. Mas um objetivo duplo (aplicação) é certamente possível se os objetivos dos autores bíblicos o requerem. 25 Para outra opção de uma introdução relevante, ver o sermão de Ryan Faber no Apêndice 3. 26 “Nabucodonosor, rei da Babilônia (o hebraico traz, literalmente, ‘rei de Babel’), está tentando ressaltar Deus. Nabucodonosor vem de Babel a Jerusalém e se apodera dos vasos sagrados da casa de Deus. O poderio militar se atreve a desafiar o poder de Deus”. Seow, Daniel, 23. 27 O termo “estes” parece referir-se a Jeoaquim e aos vasos (cf. 2Cr 36.6-7). Embora Jeoaquim possa ter sido levado para a Babilônia, talvez para jurar lealdade a Nabucodonosor, ele logo voltou a Jerusalém para servir como um rei vassalo da Babilônia (cf. 2Rs 24.1). Veja Steinmann, Daniel, 84. 28 “Sinar como um termo para a Babilônia, a parte sudeste do Iraque moderno, é um arcaísmo no Antigo Testamento... O nome sugere especialmente um lugar da religião falsa, vontade própria e autoengrandecimento (Gn 11. 1-9; Zc 5.11)”. Goldingay, Daniel, 15. Cf. Porteous, Daniel, 27: “Desde o início... é sugerido que o ambiente dos judeus exilados, cujas aventuras serão contadas, contém um elemento hostil à fé”. 29 Longman, Daniel, 46. 30 “Os nomes divinos ‘Senhor’ e ‘Deus’ podem servir como contraponto, enfatizando a supremacia de um Deus hebraico único sobre os muitos ‘não deuses’ do panteão babilônico”. Hill, “Daniel”, 48. 31 Para ver as maldições pactuais sobre a desobediência, veja Deuteronômio 28.15-68. Cf. Jeremias 21.17; 25. 8-14. 32 Alguns desses vasos eram as taças de ouro e de prata que o rei Belsazar, mais tarde, profanou, utilizando-as em seu banquete pagão (Dn 5.2-4). 33 “Este ato reflete uma antiga prática comum do Oriente Próximo. Um exército vitorioso saqueava o templo da nação derrotada e colocava os símbolos do deus derrotado em seu próprio templo”. Longman, Daniel, 47. 34 Goldingay, Daniel, 15. Ele observa ainda: “Muitos eram feitos de metais preciosos... e a pilhagem valeria a pena... Eles também tinham importância religiosa, sendo a coisa no templo de Jerusalém mais próxima de imagens”. Ibid. Cf. Smith-Christopher, “Book of Daniel”, 38: “Os babilônios eram altamente conscientes do valor da propaganda de colocar símbolos religiosos capturados ‘sob’ os deuses babilônicos nos templos imperiais da Babilônia, simbolizando, assim, o cativeiro dos deuses conquistados, bem como das pessoas”. 35 “As três expressões referentes às capacidades intelectuais... provavelmente devem ser consideradas como sinônimos para “alunos superdotados” em vez de significar aspectos distintivos da inteligência humana (cf. Miller, [Daniel], 61). O efeito cumulativo da tríade simplesmente salienta a importância que o rei Nabucodonosor dava à capacidade intelectual inerente”. Hill, “Daniel”, 50. 36 “O Kaldu era um povo do sul da Babilônia ao qual o pai de Nabucodonosor, Nabopolassar pertencia; eles eram, assim, a casta dominante na Babilônia durante o exílio. No Antigo Testamento, no entanto, caldeus é a palavra comum para o povo da Babilônia em geral”. Goldingay, Daniel, 16. 37 “Provavelmente, a língua suméria sagrada junto com a escrita cuneiforme altamente complicada e os mitos e rituais sagrados e textos de presságios característicos da religião babilônica”. Porteous, Daniel, 27. 38 Veja Baldwin, Daniel, 79, e Goldingay, Daniel, 15. 39 “Os antigos regulamentos judaicos sobre comida seriam deixados de lado – junto com todos os outros hábitos e costumes de seus pais. Os últimos fios que os amarravam ao seu próprio povo teriam se cortado – daí o cardápio prescrito”. Veldkamp, Dreams and Dictators, 12. 40 “De acordo com algumas fontes persas e gregas antigas, [três anos] era o período-padrão para o ensino superior, que normalmente começava quando os meninos tinham 14 anos de idade e durava até que completassem dezesseis ou dezessete anos”. Seow, Daniel, 24. 41 Veja Leupold, Exposition of Daniel, 64; Goldingay, Daniel, 17; e Steinmann, Daniel, 88. 42 Cf. Calvin, Commentaries on Daniel, I, 96: “Os nomes foram trocados para abolir a lembrança do reino de Judá de seus corações”. 43 Steinmann, Daniel, 88-89. Veja também Collins, Daniel, 141, e Miller, Daniel, 65-66. Steinmann, ibid., 92, observa que “os novos nomes que eles receberam são, provavelmente, todos formas corrompidas de nomes babilônicos teofóricos em homenagem aos deuses do panteão babilônico... O elemento teofórico em cada nome contém uma corrupção envolvendo uma adição, exclusão ou alteração de uma ou mais consoantes”. Ele acredita que Daniel pode ter corrompido os nomes de propósito para indicar que “eles pessoalmente não aprovavam o fato de terem nomes associados a deuses pagãos, ao invés de associados ao seu Deus”. 44 A mudança de nome de Daniel e seus amigos “tinha o propósito de simbolizar que eles tinham se tornado bons babilônios. Neste ponto, Daniel decide tomar uma posição, como os verbos de abertura dos versículos 7 e 8 indicam. O cortesão chefe ‘pôs’ (wayyāśem) os nomes nos judeus e, em resposta, Daniel ‘pôs (wayyāśem) em seu coração’ não comer da comida e do vinho do rei”. Lucas, Daniel, 57-58. 45 Para uma análise de várias possibilidades, veja Goldingay, Daniel, 18-19, e Steinmann, Daniel, 99. 46 “Na Babilônia, o sangue não era drenado quando o animal era abatido para consumo, de modo que a contaminação por sangue era praticamente inevitável”. Stefanovic, Daniel, 62. 47 Veja Levítico 11; 17.10-14; Deuteronômio 12.23-25; 14.3-21. 48 Miller, Daniel, 67, com uma referência a L. Wood, A Commentary to Daniel (Grand Rapids: Zondervan, 1973), 37. Cf. Archer, “Daniel”, 33-34: “Provavelmente a maioria dos itens de carne no cardápio eram retirados de animais sacrificados aos deuses padroeiros da Babilônia (Marduque, Nebo e Istar, por exemplo) e, sem dúvida, o vinho da mesa do rei (v. 5) tinha sido primeiramente parte da oferenda a essas divindades. Portanto,mesmo aquelas porções de alimentos e bebida não inerentemente impuros tinham sido contaminadas pelo contato com o uso em culto pagão”. 49 Veja Lucas, Daniel, 54-55. 50 1Macabeus 1.62-63, The Jerusalem Bible (A Bíblia de Jerusalém). Veja 2Macabeus 7 acerca de sete irmãos junto com a mãe sendo torturados e mortos, um após o outro, por se recusarem a comer carne de porco, o que a lei proibia. 51 “Por trás dessa tradução inglesa vemos o mesmo verbo que encontramos no v. 2, ‘Deus deu’. Enquanto os babilônios pensavam que eles estavam no controle do mundo e da cena local, a narrativa hebraica deixa claro, mais uma vez, que o verdadeiro Deus é aquele que orquestra os acontecimentos para o bem do seu povo”. Longman, Daniel, 53-54. 52 “Uma vez que o alimento contaminado por sacrifícios a ídolos era carne e vinho, uma parte da primeira era colocada sobre o altar, e uma parte do último era derramado como libação. “‘Legumes’, zērō’îm, ‘coisas semeadas’, estariam fora dos limites das coisas impuras”. Leupold, Exposition of Daniel, 70. 53 “Mais robustos” literalmente: “mais gordos de carne”. “Esta frase não significa necessariamente que os jovens tornaram-se gordos, mas é uma expressão de saúde, a ideia de que uma pessoa bem alimentada não parece magra”. Miller, Daniel, 70, n. 71. 54 “A aparência robusta, geralmente alcançada por uma alta parcela calórica de carnes e vinhos, é milagrosamente obtida através de uma dieta de legumes. Só Deus poderia ter feito isso”. Longman, Daniel, 53. Cf. Portier-Young, Apocalypse against Empire, 211, “Com a lembrança do maná no deserto, este detalhe enfatiza o milagre da provisão divina”. 55 Goldingay, Daniel, 20. 56 Lederach, Daniel, 41. Cf. Woodard, “Literary Strategies and Authorship in the Book of Daniel”, JETS 37/1 (1994) 46: “Eles são identificados pelos nomes hebraicos, não pelos nomes babilônicos. Grande coisa os decretos de Nabucodonosor!”. 57 “Neste ponto da história, o cenário está montado para o Deus dos hebreus triunfar sobre o panteão babilônico. Os jovens triunfaram graças à providência de Deus e não do rei”. Stefanovic, Daniel, 65. 58 Jeremias predisse o cativeiro babilônico e acrescentou: “Acontecerá, porém, que, quando se cumprirem os setenta anos, castigarei a iniquidade do rei da Babilônia e a desta nação, diz o SENHOR, como também a da terra dos caldeus; farei deles ruínas perpétuas” (Jr 25.12). 59 “A presença do israelita chamado Daniel na corte real de sete [seis?] monarcas babilônicos e o primeiro rei da Pérsia foi um lembrete tangível de que Deus é quem estabelece os reis e os destitui” (Dn 2.21). Hill, “Daniel”, 56. 60 Um sermão sobre Daniel 1 está incluso no Apêndice 3, p. 427–33. CAPÍTULO 2 O sonho que Nabucodonosor teve de uma grande estátua Daniel 2.1-49 Mas, nos dias destes reis, o Deus do céu suscitará um reino que não será jamais destruído; este reino não passará a outro povo; esmiuçará e consumirá todos estes reinos, mas ele mesmo subsistirá para sempre. Daniel 2.44 Daniel 2 é um excelente texto de pregação para pessoas que tendem a ficar tão envolvidas com seus próprios problemas que perdem de vista o panorama da história humana. Esta passagem irá centrar a atenção delas na soberania de Deus e nas promessas de Deus de que o seu reino perfeito, que irá substituir todos os reinos da terra, de fato está vindo. Contudo, ao preparar um sermão sobre o capítulo 2, há duas armadilhas em especial em que devemos evitar cair. Primeira, devemos evitar dispersar a atenção incluindo no sermão parte das intermináveis discussões sobre a identidade dos reinos de ouro, prata, bronze e ferro, especialmente sobre os pés e os dedos dos pés de ferro e barro.1 Segunda, novamente devemos evitar moralização. Com o incentivo de vários comentaristas será tentador sair da pista estabelecida pelo tema da narrativa e seguir pequenas trilhas de coelhos, que parecem mais práticas. Por exemplo, assim como Daniel chamou seus amigos para orar, quando confrontados com uma catástrofe, nós também devemos fazer.2 E assim como Daniel reservou tempo para agradecer a Deus por ouvir a sua oração, assim também devemos fazer.3 É claro que devemos. Mas esse não é o tema desta narrativa. Também não é o tema que, como Daniel (2.27-28), não devemos nos vangloriar sobre nós mesmos, mas louvar a Deus;4 ou que, se quisermos ser tão bem-sucedidos quanto Daniel (2.48), devemos ser tão piedosos e sábios como ele.5 O antídoto para evitar moralização é distinguir entre enxergar Daniel como modelo para imitação de todas as suas ações (o que ele não é)6 e enxergá-lo como modelo de identificação (o que ele foi para Israel) e manter o sermão focado no tema e objetivo desta passagem. Texto e contexto A unidade textual é fácil de identificar. Ela começa com o marco cronológico, “No segundo ano do reinado de Nabucodonosor, teve este um sonho; o seu espírito se perturbou, e passou-se-lhe o sono” (2.1). A unidade termina em 2.49: “A pedido de Daniel, constituiu o rei a Sadraque, Mesaque e Abede-Nego sobre os negócios da província da Babilônia; Daniel, porém, permaneceu na corte do rei.” Esta conclusão é semelhante à conclusão de Daniel 1: “Daniel continuou até ao primeiro ano do rei Ciro” (1.21). Daniel 3.1 começa uma nova unidade, como indicado pelo novo tema: “O rei Nabucodonosor fez uma estátua de ouro”. Nosso texto pregação, portanto, é Daniel 2.1-49. Quanto ao contexto, o capítulo 2 continua a história de Daniel e seus três amigos do capítulo 1, utilizando tanto seus nomes hebraicos quanto os babilônicos (2.17,49; cf. 1.7). O capítulo 2 também tem muitas ligações com os capítulos seguintes. As informações sobre Daniel e seus amigos sendo promovidos a altos cargos na Babilônia (2.48-49) nos prepara para o capítulo 3, onde os astrólogos invejosos informam a Nabucodonosor que os amigos de Daniel não se curvam diante da estátua do rei e ele ordena que eles sejam jogados na fornalha de fogo ardente. Muitas das expressões e ideias encontradas no capítulo 2 são retomadas no capítulo 4, onde Daniel interpreta outro sonho de Nabucodonosor.7 Os quatro reinos de Daniel 2 reaparecem no capítulo 7, quando quatro animais saem do mar.8 E a declaração de Daniel em sua oração, de que Deus “revela o profundo e o escondido” (2.22), conquanto diretamente relacionada com o sonho de Nabucodonosor, prepara o caminho para a revelação, por Deus, das coisas ocultas, nas quatro visões de Daniel, nos capítulos 7–12. Daniel 2 também apresenta muitos paralelos com outras passagens do Antigo Testamento. As semelhanças com José interpretando o sonho do Faraó (Gn 41) são óbvias: ambos, José e Daniel, reconhecem que só Deus pode interpretar sonhos (Gn 40.8; 41.16; Dn 2.28), asseguram ao rei que a interpretação dada vai acontecer (Gn 41.25, 28; Dn 2.28) e recebem proeminência por causa da sua capacidade de interpretar sonhos (Gn 41.40; Dn 2.48).9 Daniel 2 também contém muitos ecos de Isaías 40–66. Nas palavras de Goldingay: “Aqueles capítulos, também, sugerem que prata e ouro, bronze e ferro, acabam inúteis como argila (40.19; 45.2; 41.25), moídos e levados como palha (41.15-16; também 41.12; cf. Dn 2.35). Eles, também, veem o Deus de Israel como o Senhor até mesmo de coisas ocultas nas trevas, o Senhor da luz e das trevas (45.3,7; cf. Dn 2.22). Eles, também, imaginam as nações e seus reis fazendo reverência diante dos exilados e seu Deus (45.3,14; 49.23; 60.6-7,14)... [cf. Dn 2.46-47]. Eles também prometem uma consumação definitiva do reinado do Senhor (44.6; 52.7 [cf. Dn 2.44-45])”.10 Características literárias Em Daniel 2.4, “os caldeus disseram ao rei [em aramaico]”, a linguagem muda do hebraico para o aramaico e permanece em aramaico, até que volta para o hebraico no capítulo 8.1.11 A narrativa, como esperado, é escrita em prosa, mas muda para a poesia na oração de Daniel (2.20-23). A seguir, vamos analisar mais detalhadamente a estrutura da narrativa, seu enredo, a descrição do personagem e a repetição. Estrutura da narrativa As cenas podem ser geralmente identificadas por uma mudança no local,no tempo e em pelo menos um dos personagens. Cada cena tem geralmente dois personagens.12 Esta narrativa é composta por cinco cenas organizadas como uma estrutura quiástica, ABCB’A’, centrando-se em Deus revelando “o mistério” para Daniel e Daniel bendizendo a Deus.13 Cena 1: Sala do trono do rei: o fracasso dos sábios da Babilônia (2.1-13) A. O rei está atribulado por causa de seus sonhos (2.1) B. Ele ordena aos seus sábios que lhe contem o seu sonho; eles fracassam (2.2-11) C. O rei decreta a morte de todos os homens sábios (2.12-13) Personagens: Rei Nabucodonosor e seus sábios. Cena 2: O palácio do rei: Daniel pede mais tempo (2.14-16) A. Daniel pergunta a Arioque por que o decreto é tão severo (2.14- 15) B. Daniel pede mais tempo (2.16) Personagens: Daniel e Arioque Cena 3: Casa de Daniel: Deus revela o sonho do rei (2.17-23) A. Daniel e seus amigos suplicam a Deus (2.17-18) B. Deus revela o mistério em uma visão (2.19) C. Daniel bendiz a Deus (2.20-23) Personagens: Daniel/amigos e Deus Cena 4: O palácio do rei: Daniel pede para ver o rei (2.24-25) A. Daniel pede a Arioque que o leve ao rei (2.24) B. Arioque fala ao rei sobre Daniel (2.25) Personagens: Daniel e Arioque Cena 5: Sala do trono do rei: Daniel conta o sonho e a sua interpretação (2.26-49) A. Daniel testemunha sobre o “Deus do céu” ao rei (2.26-30) B. Daniel narra o sonho ao rei (2.31-35) C. Daniel dá ao rei a interpretação do sonho (2.36-45) D. O rei responde honrando Daniel, seu Deus e seus amigos (2.46- 49) Personagens: Daniel e o rei Este arranjo quiástico focando a cena 3 vai nos ajudar a discernir o tema desta narrativa. O narrador destaca, ainda, mais estes versículos, passando de prosa para poesia, quando chega à oração de Daniel bendizendo a Deus (2.20-23). O enredo Traçar a linha de enredo não apenas nos ajuda a discernir o tema desta narrativa, mas também a conceber uma forma narrativa para o sermão. Daniel 2.1a informa o cenário: “No segundo ano do reinado de Nabucodonosor”. Não há incidentes preliminares; o narrador começa imediatamente com o incidente causador: “Nabucodonosor teve este um sonho; o seu espírito se perturbou, e passou-se-lhe o sono”. O rei pede aos seus sábios para lhe contarem seu sonho (2.1b-3). O tempo da narrativa tomado pelo diálogo entre o rei e os seus sábios (2.3-11) é o retardo do ritmo, o que aumenta gradualmente a tensão. O conflito começa quando os sábios pedem ao rei para contar-lhes o sonho, para que possam interpretá-lo, mas o rei se recusa, ameaçando de punição severa se eles não conseguirem contar-lhe o seu sonho, mas oferecendo recompensas se o fizerem (2.4-6). A tensão aumenta quando os sábios novamente pedem ao rei que lhes conte o seu sonho e o rei os acusa de conspirar para mentir para ele. Desta vez, o rei não oferece recompensas, apenas uma punição severa para o fracasso (2.7-9). A tensão aumenta ainda mais quando os astrólogos dizem que o rei está pedindo o impossível. O rei fica furioso e decreta a pena de morte para todos os sábios da Babilônia (2.10-12).14 A tensão aumenta ainda mais quando o narrador nos informa que Daniel e seus amigos também serão executados (2.13). Daniel pergunta ao carrasco chefe por que o rei está com tanta pressa de executar seus sábios. Ao ouvir a explicação, Daniel pede mais tempo e diz que vai dar ao rei a sua interpretação (2.14-16). Em seguida, Daniel vai para casa e chama seus amigos para orarem junto com ele pedindo a misericórdia de Deus (2.17-18). A virada para a solução vem na resposta de Deus às orações deles: “Então, foi revelado [passivo divina]15 o mistério a Daniel numa visão de noite” (2.19). Antes de contar ao rei, ele “Daniel bendisse o Deus do céu”, que “remove reis e estabelece reis... Ele revela o profundo e o escondido” (2.20-23). Em seguida, ele pede a Arioque, o carrasco chefe, para levá-lo até o rei (2.24-25). O rei pede a Daniel para contar-lhe o sonho e sua interpretação, mas, antes que Daniel faça isso, ele credita a revelação do mistério a Deus (2.26-30). Em seguida, Daniel relata o sonho e dá a sua interpretação: “Mas, nos dias destes reis, o Deus do céu suscitará um reino que não será jamais destruído” (2.31-45). Há, ainda, certa tensão: Será que o rei vai aceitar a interpretação de Daniel? A tensão fica totalmente resolvida quando o rei cai sobre seu rosto diante de Daniel e elogia o Deus de Daniel (2.46-47). O resultado é que o rei promove Daniel e seus amigos (2.48-49). Podemos esboçar o enredo como um enredo único: Descrição dos personagens Os personagens são esboçados em parte pela descrição do personagem, o que é incomum, e, portanto, importante na narrativa hebraica, mas principalmente pelo diálogo. O narrador começa por descrever o rei como estando “perturbado” (2.1; cf. 2.3), observando também que ele “muito se irou e enfureceu” (2.12). O caráter do rei é mais desenvolvido ainda pelos seus discursos, que mostram que ele era desconfiado, irracional, teimoso, mal-humorado, irritado e cruel. Os sábios do rei, por outro lado, parecem ser pacientes, mas impotentes. Depois que Daniel conta ao rei o seu sonho e a sua interpretação, o discurso de encerramento do rei honra ao Deus de Daniel, revelando ser ele profundamente religioso, enquanto sua ação na promoção de Daniel e seus amigos mostra que ele também pode ser generoso. O narrador descreve o personagem de Daniel como prudente e discreto (2.14). Sua pergunta a Arioque (2.15) confirma a prudência e discrição de Daniel, enquanto sua declaração, mesmo antes de Deus lhe revelar o sonho, de que “ele revelaria ao rei a interpretação” (2.16) mostra a sua ousadia e confiança em Deus. A oração de Daniel revela ainda a sua piedade, enquanto seu longo discurso ao rei revela sua fé na revelação de Deus (2.28) e sua humildade (2.30). Repetição Também devemos observar algumas das repetições, uma vez que elas, muitas vezes, indicam o que o autor deseja destacar. A narrativa começa com Nabucodonosor tendo sonhos. O narrador usa a palavra “sonho” quinze vezes (hălôm, em 2.1,2,3 [2x], e hĕlem, em 2.4,5,6 [2x],7,9 [2x], 26,28,36,45). Junto com a palavra “sonho”, ele repete a palavra “interpretação” treze vezes (pes̆ar, em 2.4,5,6 [2x],7,9,16,24,25,26,30,36,45). Ele enumera quatro categorias de homens sábios: “os magos, os encantadores, os feiticeiros e os caldeus” (2.2), e repete uma lista semelhante em 2.10 e 27.16 O narrador usa a palavra “mistério” oito vezes (rāz, em 2.18,19,27,28,29,30,47 [2x]) e a palavra “revelar” seis vezes (gelah, em 2.19,22,28,29,30, 47). Três vezes Daniel afirma que Deus revela os mistérios (2.22-23, 28,29) – um pensamento mais tarde ecoado pelo próprio Nabucodonosor (2.47). Daniel repete duas vezes “do que há de ser/o que há de ser” (2.29,45). Ele também menciona duas vezes que a pedra foi cortada “sem auxílio de mãos” (2.34, 45). Quatro vezes ele chama Deus de “Deus do céu” (2.18,19,37,44) – “o nome fala da transcendência e supremacia de Deus sobre tudo o que é temporal e terreno”.17 E talvez o mais importante para discernir o tema, na interpretação do sonho ele repete a palavra “reino” nove vezes (2.37,39 [2x],40,41,42,44 [3x]). Interpretação teocêntrica Nesta narrativa, Deus oferece a solução para o problema. O rei exige que os sábios lhe contem o seu sonho, mas eles, corretamente, respondem: “A coisa que o rei exige é difícil, e ninguém há que a possa revelar diante do rei, senão os deuses, e estes não moram com os homens” (2.11). Em resposta à oração de Daniel e seus amigos, o Deus do céu revela (passivo divino no original) o mistério a Daniel. Daniel bendiz “o Deus do céu” – o Deus que é muito superior aos deuses babilônicos de sol, lua e estrelas. Daniel ora: “Seja bendito o nome de Deus, de eternidade a eternidade, porque dele é a sabedoria e o poder, é ele quem muda... remove reis e estabelece reis... Ele revela o profundo e o escondido... A ti, ó Deus de meus pais, eu te rendo graças e te louvo, porque me deste sabedoria e poder” (2.20-23). Quando Daniel chega diante do rei, a primeira coisa que elediz é: “O mistério que o rei exige, nem encantadores, nem magos nem astrólogos o podem revelar ao rei; mas há um Deus no céu, o qual revela os mistérios” (2.27-28). E, na interpretação do sonho, ele diz claramente ao grande rei que “o Deus do céu [lhe] conferiu o reino, o poder, a força e a glória” (2.37). Mas isso não vai durar. Deus vai dar o reino de Nabucodonosor para outro, para outro e para outro até que, finalmente, “o Deus do céu suscitará um reino que não será jamais destruído... esmiuçará e consumirá todos estes reinos, mas ele mesmo subsistirá para sempre” (2.44). Por fim, o próprio rei pagão confessa (2.47): “Certamente, o vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos reis, e o revelador de mistérios, pois pudeste revelar este mistério”. Tema e objetivo textual Os comentaristas não concordam sobre o que constitui o coração e o espírito desta narrativa. Alguns focam na confissão do rei Nabucodonosor: “A mensagem teológica da história é resumida no versículo 47, quando Nabucodonosor confessa que o Deus a quem Daniel serve, é o Deus dos deuses, e o Senhor dos reis, e o revelador de mistérios, pois pudeste revelar este mistério’”.18 Outros focam na oração de Daniel: “O centro teológico do capítulo não é o sonho e a sua interpretação, mas a oração de Daniel (2.20- 23). Esta oração funde os dois grandes temas teológicos no capítulo: Deus governa toda a história humana e só Deus concede conhecimento e sabedoria.”19 Mas, pode-se perguntar, por que procurar pelo tema da narrativa na confissão de um rei pagão ou na oração de um israelita fiel? Afinal de contas, toda a narrativa (veja o enredo acima) gira em torno da questão da revelação de Deus a Nabucodonosor em um sonho sobre o que “há de ser depois disto” (2.29). Em resposta à oração, Deus revela esse “mistério” a Daniel (2.19), que relata ao rei (2.27-45): “O Grande Deus fez saber ao rei o que há de ser futuramente. Certo é o sonho, e fiel, a sua interpretação” (2.45). Venter diz que “sessenta e seis por cento do tempo total de discurso é gasto em... [v. 29-45], contar o conteúdo do sonho e seu significado futuro”. Ele conclui, portanto, que “o tema básico da narrativa é o sonho e o seu significado. Este é o objeto procurado e encontrado no enredo. Deus dá a revelação e o problema do rei está resolvido. O poema [oração] refere-se a esse tema e torna-o explícito para o leitor.”20 Centrando-se no sonho e sua interpretação, o tema textual poderia ser formulado como “o reino celestial e eterno de Deus está chegando para substituir todos os reinos humanos”.21 Mas visto que o narrador destacou a oração de Daniel sob a forma de poesia e fez dela uma parte do centro de uma estrutura quiástica, também devemos considerar a incorporação de suas ideias no tema. Na oração, Daniel diz que o Deus do céu “remove reis e estabelece reis” (2.21) – como podemos ver na interpretação do sonho, reinos indo e vindo. Ele diz ainda que o Deus do céu “revela o profundo e o escondido” (2.22) – como faz quando revela o “mistério” do sonho de Daniel (2.19), bem como sua interpretação (2.28). Levando em conta também essas ideias, o tema textual pode ser formulado da seguinte maneira: O Deus do céu, que depõe e estabelece reis, revela que, no final, substituirá todos os reinos humanos pelo seu reino eterno. O objetivo do autor em apresentar esta mensagem a Israel depende das circunstâncias históricas em que os primeiros leitores se encontravam. Goldingay observa: “Como o capítulo 1, Daniel 2 pressupõe um ambiente em uma comunidade na dispersão, onde os judeus são uma minoria étnica e religiosa”.22 O capítulo 1 lembrou a Israel que a Babilônia era um reino pecador (“terra de Sinar”; 1.2),23 que rejeitou o Deus do céu e oprimia o povo de Deus. O objetivo do autor no capítulo 2, portanto, era dar esperança aos israelitas no exílio de que o cativeiro não duraria para sempre, porque o seu Deus podia depor reis e, no final, iria substituir todos os reinos humanos pelo seu reino eterno.24 Maneiras de pregar a Cristo Nesta seção, procuramos listar todas as formas legítimas de chegar a Jesus Cristo no Novo Testamento. Quando escrevemos o sermão, podemos selecionar um ou mais dos caminhos mais claros para Cristo. Como não há nenhuma promessa de Cristo nesta narrativa nem um contraste de sua mensagem com a do Novo Testamento,25 vamos explorar as restantes cinco maneiras: progressão histórico-redentiva, tipologia, analogia, temas longitudinais e referências no Novo Testamento. Progressão histórico-redentiva O tema textual é: “O Deus do céu, que depõe e estabelece reis, revela que, no final, substituirá todos os reinos humanos pelo seu reino eterno”. No princípio, Deus estabeleceu seu reino na terra (Gn 1–2). Infelizmente, por causa da queda humana no pecado (Gn 3), as pessoas começaram a construir seus próprios reinos autônomos na terra: Caim construiu uma cidade (Gn 4.17); mais tarde, em desafio a Deus, as pessoas se estabeleceram na terra de Sinar26 e construíram Babel (Gn 11.14). Mas Deus determinou restaurar o seu reino na terra. Ele chamou Abraão para deixar seu país (Babilônia), parentes e a casa de seu pai para formar uma nação separada na Terra Prometida. Mas os descendentes de Abraão, Israel, falharam em sua vocação de ser uma nação santa. Por fim, Deus lançou Israel fora da Terra Prometida e o enviou de volta para a terra de Sinar (Babilônia). Enquanto Israel sofria no exílio sob vários reis pagãos, Deus tinha uma mensagem de esperança para ele. Ele deu ao rei Nabucodonosor um sonho e revelou o sonho e seu significado a Daniel. No sonho, a série de reinos humanos foi descrita como uma enorme estátua de metais preciosos, mas tinha pés de ferro misturado com barro. Uma pedra foi cortada, não por mãos humanas, e chocou-se contra os pés da estátua, quando então todos esses reinos humanos esmiuçaram-se em pedaços e desapareceram da face da terra. Mas a pedra “se tornou em grande montanha, que encheu toda a terra” (Dn 2.35). O reino de Deus irá substituir os reinos humanos e “subsistirá para sempre” (Dn 2.44). Nos tempos do Novo Testamento, o anjo Gabriel anunciou a Maria que ela daria à luz um filho, e “ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e o seu reinado não terá fim” (Lc 1.33). Quando Jesus começou o seu ministério, ele veio “pregando o evangelho de Deus, dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo” (Mc 1.14-15). Jesus disse claramente: “O meu reino não é deste mundo” (Jo 18.36). Com pregações e milagres, Jesus trouxe o reino de Deus a este mundo. Jesus disse: “Se, porém, eu expulso demônios pelo Espírito de Deus, certamente é chegado o reino de Deus sobre vós” (Mt 12.28). Mas o reino romano ainda estava no comando. Na verdade, quando os soldados romanos crucificaram Jesus, pareceu que o reino de Deus havia falhado. O Deus soberano, no entanto, transformou a derrota em vitória. Ele ressuscitou Jesus da morte. Quando os discípulos encontraram o Senhor ressurreto, eles lhe perguntaram: “Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel?”. Eles não perceberam, naquele momento, que o reino de Deus estava chegando em duas etapas: o “já” com a primeira vinda de Jesus e o “ainda não” com a sua segunda vinda. Jesus respondeu: “Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou pela sua exclusiva autoridade” (At 1.6-7). Então Jesus subiu ao céu, onde ele reina à destra de Deus (At 2.32-36). Mas ele prometeu voltar no tempo determinado pelo Pai (Jo 14.3; cf. Mt 26.64). Em seguida, o “ainda não” do reino de Deus também se tornará o “já”. João confirmou isso, quando ouviu do céu grandes vozes proclamando: “O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos” (Ap 11.15). Tipologia A pedra que “foi cortada sem auxílio de mãos” (2.34) é um tipo de Cristo.27 Jerônimo pensou que esta frase se referia ao nascimento virginal de Jesus. Outros intérpretes pensam que esta frase se refere à origem celestial do reino que Jesus inaugurou. Jesus disse: “O meu reino não é deste mundo. Seo meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por mim, para que não fosse eu entregue aos judeus; mas agora o meu reino não é daqui” (Jo 18.36). Acho que ambas as interpretações estão certas. De acordo com o Novo Testamento, a concepção de Jesus foi “não por mãos humanas”, mas pelo Espírito Santo (Mt 1.20). Jesus também se viu como a pedra. Ele perguntou ao povo: “Nunca lestes nas Escrituras: A pedra que os construtores rejeitaram [ou seja, Jesus], essa veio a ser a principal pedra, angular [Sl 118.22]; isto procede do Senhor e é maravilhoso aos nossos olhos? Portanto, vos digo que o reino de Deus vos será tirado e será entregue a um povo que lhe produza os respectivos frutos. Todo o que cair sobre esta pedra ficará em pedaços; e aquele sobre quem ela cair ficará reduzido a pó” (Mt 21.42-45). Na última frase, Jesus claramente faz alusão a Daniel 2, pois a pedra atingiu os pés da estátua e os esmagou; então toda a estátua tombou, caiu sobre a pedra e foi quebrada em pedaços. No entanto, quando a pedra se torna uma grande montanha que enche “toda a terra” (2.35), isto só pode se referir ao reino de Deus, que Jesus traz. A pedra, por isso, é um tipo de Jesus e seu reino. Também é possível apresentar Daniel novamente como um tipo de Cristo, embora as analogias não sejam tantas como no primeiro capítulo. Nesta narrativa, Daniel arriscou sua vida para salvar a vida dos “sábios da Babilônia” (2.24); Jesus não apenas arriscou sua vida, mas voluntariamente desistiu dela para salvar judeus e gentios que creem nele. Além disso, Daniel era um homem de oração que buscava a misericórdia do “Deus do céu”; Jesus também era um homem de oração que nos ensinou: “Vós orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus” (Mt 6.9). Além disso, Daniel foi capaz de revelar o mistério da vinda do reino de Deus; Jesus, especialmente em suas parábolas (p. ex., Mc 4.26-32), revelou o mistério da vinda do reino de Deus. E assim como Deus guiou Daniel para um lugar de grande autoridade na Babilônia, assim também Deus guiou Jesus para um lugar de muito maior autoridade. Jesus disse ao sumo sacerdote: “Respondeu-lhe Jesus: Tu o disseste; entretanto, eu vos declaro que, desde agora, vereis o Filho do Homem assentado à direita do Todo-Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu” (Mt 26.64). Depois de sua ressurreição, ele disse aos seus discípulos: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mt 28.18). Entretanto, visto que não se deve apresentar dois tipos diferentes de Cristo em um mesmo sermão, eu selecionaria aquele mais estreitamente relacionado com o tema. Neste caso, seria a pedra que “foi cortada sem auxílio de mãos” (2.34). Analogia No sermão também podemos traçar nosso caminho até Cristo, no Novo Testamento, por analogia. Assim como Daniel 2 ensina que o reino de Deus vai crescer e encher “toda a terra” (2.35), Jesus também ensina que “O reino dos céus é semelhante a um grão de mostarda, que um homem tomou e plantou no seu campo; o qual é, na verdade, a menor de todas as sementes, e, crescida, é maior do que as hortaliças, e se faz árvore, de modo que as aves do céu vêm aninhar-se nos seus ramos” (Mt 13.31-32). Para realizar este crescimento, Jesus instruiu seus discípulos: “Sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra” (At 1.8). Outra analogia pode ser feita a partir do objetivo do autor: assim como Daniel deu esperança aos exilados com a mensagem de que o reino de Deus viria a substituir todos os reinos humanos, Jesus também dá esperança aos seus discípulos e à igreja: “Não temais, ó pequenino rebanho; porque vosso Pai se agradou em dar-vos o seu reino” (Lc 12.32). Além disso, quando Jesus envia os seus discípulos a um mundo hostil, ele os conforta: “E eis que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (Mt 28.20). Temas longitudinais Também podemos usar o modo de temas longitudinais para seguirmos para Jesus Cristo. Sob a progressão histórico-redentiva acima já traçamos a história da vinda do reino de Deus através de sucessivas épocas da história redentora.28 Também podemos traçar o tema da vinda do reino de Deus sobre a terra a partir da intenção original de Deus em Gênesis 1 e 2 para a intenção de Deus depois da queda no pecado, a saber, restaurar seu reino na terra, chamando para fora do mundo um povo santo (Abraão/Israel) para representar o seu reino. Através de seus profetas, Deus prometeu: Pois eis que eu crio novos céus e nova terra; e não haverá lembrança das coisas passadas, jamais haverá memória delas. Mas vós folgareis e exultareis perpetuamente no que eu crio; porque eis que crio para Jerusalém alegria e para o seu povo, regozijo. E exultarei por causa de Jerusalém e me alegrarei no meu povo, e nunca mais se ouvirá nela nem voz de choro nem de clamor... Eles edificarão casas e nelas habitarão; plantarão vinhas e comerão o seu fruto... O lobo e o cordeiro pastarão juntos, e o leão comerá palha como o boi; pó será a comida da serpente. Não se fará mal nem dano algum em todo o meu santo monte, diz o Senhor. (Is 65.17-25; cf. Is 11.6-9; Mq 4.1-5) Outras passagens acrescentam que, em contraste com os reinos humanos, o reino de Deus durará para sempre. O salmista proclama: O teu reino é o de todos os séculos, e o teu domínio subsiste por todas as gerações. (Sl 145.13; cf. Sl 10.16; 29.10; 146.10) No Novo Testamento, Gabriel anuncia a Maria que o filho dela “reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e o seu reinado não terá fim” (Lc 1.33). Pedro também promete a seus leitores que “vos será amplamente suprida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2Pe 1.11). A carta aos Hebreus proclama: “Mas acerca do Filho: o teu trono, ó Deus, é para todo o sempre” (Hb 1.8). O livro de Apocalipse declara: “Àquele que nos ama, e, pelo seu sangue, nos libertou dos nossos pecados, e nos constituiu reino, sacerdotes para o seu Deus e Pai, a ele a glória e o domínio pelos séculos dos séculos. Amém!” (Ap 1.5-6).29 João acrescenta sua visão do reino perfeito de Deus vindo sobre a terra: Vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não existe. Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus, ataviada como noiva adornada para o seu esposo. Então, ouvi grande voz vinda do trono, dizendo: Eis o tabernáculo de Deus com os homens. Deus habitará com eles. Eles serão povos de Deus, e Deus mesmo estará com eles. E lhes enxugará dos olhos toda lágrima, e a morte já não existirá, já não haverá luto, nem pranto, nem dor, porque as primeiras coisas passaram. (Ap 21.1-4) Referências no Novo Testamento O apêndice do Novo Testamento grego relaciona em torno de trinta e quatro referências ou alusões do Novo Testamento a Daniel 2. Várias delas nós já utilizamos anteriormente para apoiar os vários caminhos a Cristo. Algumas das outras referências são passagens paralelas dos Evangelhos ou não se referem a Cristo, mas à utilização de Daniel 2 por outros escritores do Novo Testamento. Ainda outras referências, no entanto, se referem a Jesus ou aos seus ensinamentos. Para Daniel 2.28, “o que há de ser nos últimos dias”, o apêndice apresenta a declaração de Jesus em Mateus 24.6 (e paralelos): “Ouvireis falar de guerras e rumores de guerras; vede, não vos assusteis, porque é necessário assim acontecer, mas ainda não é o fim”. Para Daniel 2.47, “é o Deus dos deuses, e o Senhor dos reis, e o revelador de mistérios”, o apêndice lista as palavras de Jesus em Marcos 4.11: “A vós outros vos é dado conhecer o mistério [mystēri”n] do reino de Deus” e a frase do Apocalipse 17.14, “o Cordeiro os vencerá, pois é o Senhor dos senhores e o Rei dos reis” (Veja também Apocalipse 19.16: “Tem no seu manto e na sua coxa um nome inscrito: REI DOS REIS E SENHOR DOS SENHORES”). Tema, objetivo e necessidade do sermão Formulamos o tema textual como: “O Deus do céu, que depõe e estabelece reis, revela que, no final, substituirá todos os reinos humanos pelo seu reinoeterno”. Embora Jesus viesse para inaugurar o reino de Deus, ele não fez com sua primeira vinda a substituição de todos os reinos humanos. Visto que essa substituição ainda está no futuro (o “já” e o “ainda não” do reino vindouro de Deus), podemos manter o tema textual como tema do sermão: O Deus dos céus, que depõe e estabelece reis, revela que, no final, substituirá todos os reinos humanos pelo seu reino eterno. Formulamos o objetivo do autor como “dar esperança aos israelitas no exílio de que o cativeiro não duraria para sempre, porque o Deus deles podia depor reis e, no final, substituiria todos os reinos humanos pelo seu reino eterno”. Com uma pequena mudança, podemos fazer do objetivo do autor o objetivo deste sermão: Dar esperança ao povo de Deus hoje com a mensagem de que o nosso Deus pode depor reis e, no final, substituirá todos os reinos humanos com seu reino eterno. Esta meta revela a necessidade a ser abordada neste sermão: O povo de Deus, hoje, carece de esperança por causa de toda a perseguição e dor que ele vê e sofre neste mundo. Leitura bíblica e introdução do sermão Devido à extensão da narrativa, alguns sugeriram pregar sermões em “episódios” mais curtos da narrativa.30 Mas esta não é uma boa ideia, pois o narrador procura defender sua ideia com a narrativa inteira, não com “episódios individuais”. Visto que esta narrativa é bastante longa, pode-se optar por omitir sua leitura antes do sermão e informar à congregação que a leitura bíblica vai ser integrada no sermão. Claro que, no sermão, não é necessário falar de cada versículo, como faço na “Exposição do sermão”, abaixo. Portanto, pode ser possível ler toda a narrativa antes do sermão. Por uma questão de interesse, sugiro que as partes do narrador e os vários personagens sejam divididos entre vários bons leitores. É preciso, também, considerar a possibilidade de incluir uma introdução formal no sermão. Por exemplo, pode-se começar o sermão com uma ilustração dos cristãos que sofrem perseguição hoje e, em seguida, relacioná-los aos israelitas que sofreram no exílio (“Às margens dos rios da Babilônia, nós nos assentávamos e chorávamos” [Sl 137.1]). Neste cenário, ouça a boa notícia como foi falada a Israel naquela época e à igreja que sofre hoje. Mas, uma vez que o texto é uma narrativa e como a história tem o poder inerente de atrair pessoas, pode-se também omitir uma introdução formal do sermão e começar imediatamente com a narrativa. Na exposição seguinte, eu vou omitir uma introdução formal e começar imediatamente com o “cenário” da narrativa. Exposição do sermão O grande rei Nabucodonosor acorda todo suado. Ele teve um sonho assustador novamente – um pesadelo! Ele está ficando mais e mais chateado. Ele tinha sido um general bem-sucedido. Ele tinha conquistado muitas nações. Aqui, ele é o rei da nação mais poderosa da terra e não consegue voltar a dormir. Qual é o significado desses sonhos horríveis? Nos sonhos, ele viu uma enorme estátua de um homem. O homem tinha uma cabeça de ouro, peito e braços de prata, cintura e coxas de bronze, pernas de ferro e pés em parte de ferro e em parte de barro. De repente, uma pedra é cortada da montanha. Ela rola para baixo e esmaga a estátua até o pó. O vento sopra o pó pra longe. Não fica nenhum vestígio da grande estátua. Mas, estranhamente, a pedra começa a crescer. Torna-se uma montanha enorme, tão grande que enche toda a terra.31 O sonho se repete noite após noite.32 Ele enche o rei de pavor. Na Babilônia, as pessoas acreditavam que os deuses frequentemente falavam por meio de sonhos. A mensagem deve ser importante para o sonho voltar noite após noite. Mas o rei não sabe o que o sonho quer dizer. Este é apenas o seu segundo ano como rei da Babilônia.33 Ele provavelmente quer saber se os deuses estão tentando lhe dizer que ele é a enorme estátua de um homem. Existe um inimigo lá fora que vai moer seu grande império até virar pó?34 Existe um assassino lá fora esperando para matá-lo?35 Lemos no versículo 1 que “Nabucodonosor teve este um sonho; o seu espírito se perturbou, e passou-se-lhe o sono”. “Seu espírito se perturbou”. Ele ficou tão agitado que não conseguia mais dormir. Se pelo menos ele conseguisse descobrir o significado do sonho – o que os deuses estão tentando lhe dizer. Bem, isso não deve ser problema para o rei. Versículos 2-4: “Então, o rei mandou chamar os magos, os encantadores, os feiticeiros e os caldeus [os astrólogos],36 para que declarassem ao rei quais lhe foram os sonhos; eles vieram e se apresentaram diante do rei. Disse-lhes o rei: Tive um sonho, e para sabê-lo está perturbado o meu espírito.37 Os caldeus [astrólogos] disseram ao rei em aramaico: Ó rei, vive eternamente! Dize o sonho a teus servos, e daremos a interpretação.” Os sábios do rei estão reunidos na sala do trono, à exceção de Daniel e seus amigos. Talvez não tivessem sido convidados por causa da inveja que alguns nutriam desses jovens, judeus brilhantes. De qualquer forma, tinham apenas acabado de se formar pelo programa de reeducação, então os sábios de Babilônia podem passar sem estes novatos. Com tantos especialistas presentes – mágicos, encantadores, feiticeiros e astrólogos – eles cobrem todas as áreas e certamente serão capazes de ajudar o rei.38 Mas, primeiro, o rei deve contar-lhes o sonho. Eles não podem interpretar um sonho sem saber o seu conteúdo. Muito tempo atrás, o Faraó do Egito também contou aos seus sábios seus sonhos sobre as vacas e as espigas (Gn 41.17-24).39 Então, aqui os astrólogos dizem ao rei: “Diga o rei o sonho a seus servos, e lhe daremos a interpretação”. Uma vez que soubessem o sonho, poderiam verificar seus manuais de sonho40 para ver o que o sonho quer dizer. Mas o rei se recusa a contar-lhes o seu sonho. Versículos 5 e 6: “Respondeu o rei e disse aos caldeus: Uma coisa é certa: se não me fizerdes saber o sonho e a sua interpretação, sereis despedaçados, e as vossas casas serão feitas monturo; mas, se me declarardes o sonho e a sua interpretação, recebereis de mim dádivas, prêmios e grandes honras; portanto, declarai-me o sonho e a sua interpretação”. Três vezes o rei insiste que eles lhe contem o sonho e sua interpretação. Ele recebeu uma importante mensagem dos deuses. Ele quer ter certeza de que os sábios o interpretam corretamente. Se ele lhes contar seu sonho, eles podem dar uma interpretação qualquer. Como é que o rei vai saber que a interpretação está correta? Mas se eles puderem contar primeiro o sonho, o rei vai saber que eles estão, de fato, em contato com os deuses. Então o rei vai saber que a interpretação deles é confiável. O rei usa a motivação da vara e da cenoura. Se eles não contarem a ele tanto o sonho quanto a sua interpretação, serão dilacerados. Isso é a vara. Eles serão desmembrados quer por terem seus membros arrancados ou por serem cortados em pedaços. Este tipo de castigo cruel era muito comum no antigo Oriente.41 Nabucodonosor não está blefando. No capítulo seguinte, ele manda jogar os amigos de Daniel na fornalha de fogo ardente. Posteriormente, mata os filhos do rei Zedequias, diante dos olhos de Zedequias e, em seguida, vaza-lhe os olhos (2Rs 25.7). Nabucodonosor não está blefando. Mas, além da grande vara, ele também oferece uma cenoura. Se eles contarem o sonho e sua interpretação, receberão dádivas, prêmios e grande honra do rei. Que situação difícil para os sábios! Eles não podem dar uma interpretação sem conhecer o sonho. Versículos 7-9: “Responderam segunda vez e disseram: Diga o rei o sonho a seus servos, e lhe daremos a interpretação. Tornou o rei e disse: Bem percebo que quereis ganhar tempo, porque vedes que o que eu disse está resolvido, isto é: se não me fazeis saber o sonho, uma só sentença será a vossa; pois combinastes palavras mentirosas e perversas para as proferirdes na minha presença, até que se mude a situação; portanto, dizei-me o sonho, e saberei que me podeis dar-lhe a interpretação.” O rei aumenta os riscos. Nesta segunda rodada, ele tira a cenoura e menciona apenas a vara: “Se não me fazeissaber o sonho, uma só sentença será a vossa”, isto é, serão dilacerados. O rei acusa seus sábios, “quereis ganhar tempo”, porque sabem que ele vai executar seu decreto. Ele também os acusa, “pois combinastes palavras mentirosas e perversas para as proferirdes na minha presença, até que se mude a situação” para melhor. O rei está ficando com raiva agora. Melhor mesmo é que os sábios descubram o sonho, e bem depressa. Pela terceira e última vez, os sábios se atrevem a falar ao rei. Versículos 10 e 11: “Responderam os caldeus na presença do rei e disseram: Não há mortal sobre a terra que possa revelar o que o rei exige; pois jamais houve rei, por grande e poderoso que tivesse sido, que exigisse semelhante coisa de algum mago, encantador ou caldeu. A coisa que o rei exige é difícil, e ninguém há que a possa revelar diante do rei, senão os deuses, e estes não moram com os homens.” Os sábios desistem. O que o rei está pedindo é impossível. Nenhum rei nunca pediu isso aos seus sábios. Aqui estão eles, todos os sábios da Babilônia – mágicos, encantadores, feiticeiros e astrólogos. Eles desistem. Eles dizem: “A coisa que o rei exige é difícil, e ninguém há que a possa revelar diante do rei, senão os deuses”, que não vivem com os seres humanos. Os sábios admitem que não têm contato com os deuses. Versículo 12: “Então, o rei muito se irou e enfureceu; e ordenou que matassem a todos os sábios da Babilônia”. Depois do primeiro diálogo, o rei ofereceu uma vara e uma cenoura; após o segundo, ameaçou somente com a vara dilacerá-los membro a membro; agora ele ordena que a vara seja utilizada e os sábios da Babilônia sejam dilacerados membro a membro. Versículo 13: “Saiu o decreto, segundo o qual deviam ser mortos os sábios; e buscaram a Daniel e aos seus companheiros, para que fossem mortos”. Embora Daniel e seus amigos não estivessem na sala do trono, eles não estão fora do decreto. Eles haviam se formado no programa de reeducação e agora pertencem à classe dos sábios. Então, estão prestes a ser executados junto com os outros sábios da Babilônia. Daniel e seus amigos estão prestes a ser mortos. O que devem fazer? Daniel tem um plano que ainda pode salvar a eles e a todos os sábios da Babilônia. Ele procura o carrasco chefe, justamente ele. Versículos 14 e 15: “Então, Daniel falou, avisada e prudentemente, a Arioque, chefe da guarda do rei, que tinha saído para matar os sábios da Babilônia. E disse a Arioque, encarregado do rei: Por que é tão severo o mandado do rei?” [Por que é que o rei está com tanta pressa de executar todos os seus sábios?] Então, Arioque explicou o caso a Daniel”. Quando Arioque explica a Daniel, Daniel responde que ele é capaz de contar o sonho e a sua interpretação, mas precisa de tempo. Arioque concorda. Lemos no versículo 16: “Foi Daniel ter com o rei e lhe pediu que designasse o tempo, e ele revelaria ao rei a interpretação”.42 Versículos 17 e 18: “Então, Daniel foi para casa e fez saber o caso a Hananias, Misael e Azarias,43 seus companheiros, para que pedissem misericórdia ao Deus do céu sobre este mistério, a fim de que Daniel e seus companheiros não perecessem com o resto dos sábios da Babilônia”. O mistério aqui é o conteúdo do sonho do rei e sua interpretação.44 Está em jogo a vida de Daniel, de seus companheiros e dos outros sábios da Babilônia. Você pode imaginar que Daniel e seus amigos oraram fervorosamente ao Deus do céu – o Deus transcendente, o Deus, que criou e controla o sol, a lua e as estrelas, os deuses dos babilônios – o Deus do céu, que controla toda a história. Naquela mesma noite, versículo 19: “Então, foi revelado o mistério a Daniel numa visão de noite;45 Daniel bendisse o Deus do céu”. Daniel reage à revelação milagrosa de Deus com uma oração de agradecimento.46 Ele diz, no versículo 20: “Seja bendito o nome de Deus, de eternidade a eternidade, porque dele é a sabedoria e o poder”. Daniel ora para que o nome de Deus, isto é, o próprio Deus, seja louvado de eternidade a eternidade “porque dele é a sabedoria e o poder”. Na sequência, Daniel explica a sabedoria e o poder de Deus. Ele começa no versículo 21, ilustrando o poder de Deus: “É ele quem muda o tempo e as estações, remove reis e estabelece reis [como Daniel viu na visão noturna]”. Em suma, Deus é digno de ser louvado de eternidade a eternidade porque controla as estações da natureza, bem como a história deste mundo. Em seguida, ele explica a sabedoria de Deus: “Ele dá sabedoria aos sábios47 ele dá sabedoria aos sábios e entendimento aos inteligentes. Ele revela o profundo e o escondido [como Daniel acaba de passar]; conhece o que está em trevas, e com ele mora a luz”. Que conforto para Israel no exílio saber que Deus conhece o que está nas trevas! E Deus não só conhece, mas também tem o poder de fazer algo sobre isso. Isso dá a Israel esperança de um futuro melhor. Deus também “conhece o que está nas trevas” hoje. Ficamos consternados ao ler que hoje “100 milhões de cristãos são perseguidos no mundo inteiro”48 – 100 milhões! Mas também podemos nos consolar com o fato de que “Deus conhece o que está nas trevas”. Ficamos chocados ao ouvir sobre as calamidades que atingem nossos amigos e famílias. Mas também podemos ser consolados com o fato de que ele “conhece o que está nas trevas”. E o nosso Deus tem o poder de fazer algo sobre isso. Ele controla a história humana! Daniel conclui sua oração de ação de graças no versículo 23: “A ti, ó Deus de meus pais, eu te rendo graças e te louvo, porque me deste sabedoria e poder; e, agora, me fizeste saber o que te pedimos, porque nos fizeste saber este caso do rei”. Depois de dar graças a Deus por ter lhe revelado o sonho do rei, lemos nos versículos 24 e 25: “Por isso, Daniel foi ter com Arioque, ao qual o rei tinha constituído para exterminar os sábios da Babilônia; entrou e lhe disse: Não mates os sábios da Babilônia; introduze-me na presença do rei, e revelarei ao rei a interpretação. Então, Arioque depressa introduziu Daniel na presença do rei e lhe disse: Achei um dentre os filhos dos cativos de Judá, o qual revelará ao rei a interpretação”. Arioque, é claro, não tinha encontrado ninguém; Daniel o tinha procurado. Mas Arioque queria levar algum crédito por resolver a crise nacional: “Achei um... o qual revelará ao rei a interpretação”. A interpretação! Mas o rei quer ouvir o sonho de modo a saber que a interpretação é confiável. Não surpreendentemente, versículo 26: “Respondeu o rei e disse a Daniel, cujo nome era Beltessazar:49 Podes tu fazer-me saber o que vi no sonho e a sua interpretação?”. Daniel não responde com um rápido “Sim, eu posso”. Em vez de tomar o crédito para si da forma que Arioque tinha feito, Daniel dá a Deus o crédito. Ele responde ao rei nos versos 27 a 30: “O mistério que o rei exige, nem encantadores, nem magos nem astrólogos o podem revelar ao rei; mas há um Deus no céu, o qual revela os mistérios,50 pois fez saber ao rei Nabucodonosor o que há de ser nos últimos dias” [isto é, “os dias finais da história... quando Deus trará este reino”].51 O teu sonho e as visões da tua cabeça, quando estavas no teu leito, são estas: Estando tu, ó rei, no teu leito, surgiram-te pensamentos a respeito do que há de ser depois disto. Aquele, pois, que revela mistérios te revelou o que há de ser. E a mim me foi revelado este mistério, não porque haja em mim mais sabedoria do que em todos os viventes, mas para que a interpretação se fizesse saber ao rei, e para que entendesses as cogitações da tua mente.” Daniel novamente se recusa a tomar qualquer crédito. Não é a sua sabedoria, nem a educação recebida na Babilônia. Todo o crédito pertence ao Deus dos céus que revela os mistérios.52 A esta altura, podemos imaginar o rei ficando um pouco impaciente. Será que Daniel está tentando ganhar tempo como os sábios? Mas, finalmente, Daniel está pronto para relatar o sonho do rei. Versículos 31 a 33: “Tu, ó rei, estavas vendo,53 e eis aqui uma grande estátua; esta, que era imensa e de extraordinário esplendor, estava em pé diante de ti;e a sua aparência era terrível. [Não é de admirar que o espírito do rei estivesse perturbado]. A cabeça era de fino ouro, o peito e os braços, de prata, o ventre e os quadris, de bronze; as pernas, de ferro,54 os pés, em parte, de ferro, em parte, de barro”. Note-se que a estátua é um projeto e construção humana, assim como a torre de Babel (Gn 11). Só que, aqui, em vez de tijolos e betume, este monumento é feito de metais preciosos: ouro, prata, bronze, ferro e barro.55 É uma estátua de um ser humano feito por mãos humanas. Os versículos 34 e 35 contrastam a estátua com a pedra: “Quando estavas olhando, uma pedra [uma pedra sem valor, insignificante]56 foi cortada sem auxílio de mãos,57 feriu a estátua nos pés de ferro e de barro e os esmiuçou. Então, foi juntamente esmiuçado o ferro, o barro, o bronze, a prata e o ouro, os quais se fizeram como a palha das eiras no estio, e o vento os levou, e deles não se viram mais vestígios.58 Mas a pedra que feriu a estátua se tornou em grande montanha,59 que encheu toda a terra”.60 Agora, suponha que o novo rei, apenas em seu segundo ano, pensasse que esta estátua o representava. Em seu sonho, ele vê uma pedra cortada golpear a estátua, reduzindo-o a pó. E depois a pedra se torna uma grande montanha, enchendo toda a terra. Deve haver um inimigo à espreita, pronto para destruí-lo.61 Não é de admirar que seu espírito estivesse perturbado. Não admira que ele insistisse em obter uma interpretação confiável. Mas Daniel é capaz de tranquilizar o rei. Versículos 36 a 38: “Este é o sonho;62 e também a sua interpretação diremos ao rei. Tu, ó rei, rei de reis, a quem o Deus do céu conferiu o reino, o poder, a força e a glória; a cujas mãos foram entregues os filhos dos homens, onde quer que eles habitem, e os animais do campo e as aves do céu, para que dominasses sobre todos eles, tu és a cabeça de ouro”. Isso faz o rei se sentir muito melhor. Ele é a cabeça de ouro – precioso. Ele dá as ordens. Ele tem poder sobre os seres humanos e até mesmo sobre “os animais do campo”. Como um símbolo de seu poder sobre os animais selvagens,63 ele até mantém leões ferozes na cova dos leões. Nabucodonosor64 é a cabeça de ouro. Mas note que Daniel insiste que este “rei de reis” não se tornou a cabeça de ouro pela sua própria força e capacidade. O Deus do céu lhe deu “o reino, o poder, a força, e a glória”. Não importa quão grande é o rei, em última análise, tudo o que ele tem foi-lhe dado pelo Deus do céu. O Deus do céu é o Deus soberano. Ele é “o Senhor dos reis” (v. 47). Ele controla a história e o destino de reis e povos. Daniel continua nos versículos 39-43: “Depois de ti, se levantará outro reino, inferior ao teu [ainda um reino esplêndido, de prata, mas não tão glorioso quanto o da Babilônia], e um terceiro reino, de bronze, o qual terá domínio sobre toda a terra.65 O quarto reino será forte como ferro; pois o ferro a tudo quebra e esmiúça; como o ferro quebra todas as coisas, assim ele fará em pedaços e esmiuçará.66 Quanto ao que viste dos pés e dos artelhos, em parte, de barro de oleiro e, em parte, de ferro, será esse um reino dividido; contudo, haverá nele alguma coisa da firmeza do ferro, pois que viste o ferro misturado com barro de lodo. Como os artelhos dos pés eram, em parte, de ferro e, em parte, de barro, assim, por uma parte, o reino será forte e, por outra, será frágil.67 Quanto ao que viste do ferro misturado com barro de lodo, misturar-se-ão mediante casamento,68 mas não se ligarão um ao outro, assim como o ferro não se mistura com o barro.”69 Estes quatro reinos têm sido tradicionalmente identificados como Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia (Alexandre, o Grande) e Roma.70 Mas mais importante do que identificar estes reinos é identificar a mensagem desta narrativa.71 Essa mensagem se torna clara no versículo 44: “Mas, nos dias destes reis,72 o Deus do céu suscitará um reino que não será jamais destruído; este reino não passará a outro povo; esmiuçará e consumirá todos estes reinos, mas ele mesmo subsistirá para sempre”. Depois de todos esses reinos humanos, “o Deus do céu suscitará um reino que não será jamais destruído”. Os reinos humanos ruem, um após o outro. Eles têm “pés de barro”. Mas o reino de Deus é eterno. Ele “não será jamais destruído”. “Este reino não passará a outro povo”. Quando o reino da Babilônia caiu, ele foi deixado para o povo medo-persa, e, quando esse reino entrou em colapso, foi deixado para o povo grego, e, quando esse reino desabou, foi deixado para o povo romano. Não é assim com o reino de Deus. Ele é eterno. Não vai se desintegrar nem vai passar a outro povo. Pelo contrário, Daniel diz nos versículos 44-45 que o reino de Deus “esmiuçará e consumirá todos estes reinos... como viste que do monte foi cortada uma pedra, sem auxílio de mãos, e ela esmiuçou o ferro, o bronze, o barro, a prata e o ouro”. Quando o reino de Deus vier em sua plenitude, ele não coexistirá lado a lado com reinos humanos; mas destruirá esses reinos malignos.73 E então o reino de Deus, como a pedra no sonho, vai crescer e encher toda a Terra. Daniel conclui no versículo 45: “O Grande Deus fez saber ao rei o que há de ser futuramente. Certo é o sonho, e fiel, a sua interpretação”. Nos versículos 46 e 47, o rei responde a esta mensagem: “Então, o rei Nabucodonosor se inclinou, e se prostrou rosto em terra perante Daniel, e ordenou que lhe fizessem oferta de manjares e suaves perfumes. Disse o rei a Daniel: Certamente, o vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos reis, e o revelador de mistérios, pois pudeste revelar este mistério.” Perguntamos por que o humilde Daniel agora permite que o rei o adore e até mesmo faça oferendas a ele. Será que Daniel se lembrou das profecias de Isaías, onde Deus prometeu: “Reis... diante de ti se inclinarão... saberás que eu sou o SENHOR e que os que esperam em mim não serão envergonhados” (Is 49.23; cf. 60.14)? O rei havia ordenado a morte de Daniel. Mas Daniel e seus amigos suplicaram a Deus e não foram envergonhados. O rei que ordenou a execução de Daniel agora se curva diante dele, pois Daniel representa esse Deus do céu.74 O rei chama o Deus de Daniel de “revelador de mistérios”. Onde os sábios da Babilônia falharam, Daniel venceu. Onde os deuses da Babilônia foram cegos e ineptos, o Deus de Daniel revelou o mistério. Por isso o rei chama o Deus de Daniel de “Deus dos deuses”. Ele é maior que os deuses babilônicos. E chama-lhe: “Senhor dos reis”, pois o Deus de Daniel havia dado ao rei seu reino e daria este reino a outros reis até colocar um ponto final em todos os reinos humanos e inaugurar o seu próprio reino perfeito. O Deus de Daniel é soberano sobre tudo: “Deus dos deuses e o Senhor dos reis”. A história termina nos versículos 48 e 49: “Então, o rei engrandeceu a Daniel, e lhe deu muitos e grandes presentes, e o pôs por governador de toda a província da Babilônia, como também o fez chefe supremo de todos os sábios da Babilônia. A pedido de Daniel, constituiu o rei a Sadraque, Mesaque e Abede-Nego sobre os negócios da província da Babilônia; Daniel, porém, permaneceu na corte do rei.” A mensagem que Deus dá a Nabucodonosor é que o reino da Babilônia será substituído por outro reino, e outro e outro, até que finalmente o reino de Deus substituirá todos os reinos humanos. Esta mensagem é posteriormente registrada para o povo de Deus que sofre no exílio. Imagine a esperança que ela lhes trouxe: nós podemos estar muito longe da Terra Prometida, podemos chorar aqui no exílio, mas o nosso Deus “remove reis e estabelece reis” (2.21). O reino da Babilônia não vai durar; ele será substituído por outro reino, e outro até que o reino de Deus venha. O reino de Deus está a caminho, substituirá todos os reinos humanos e encherá toda a terra; ele durará para sempre. Algo como 500 anos mais tarde, Jesus vem à Terra. Os reinos da Babilônia, Medo-Pérsia e Grécia tinham desaparecido há muito tempo. Roma agora governa o mundo. O anjo Gabriel anuncia o nascimento de Jesus a Maria: “Ele [Jesus] reinará para sempre sobre a casade Jacó, e o seu reinado não terá fim” (Lc 1.33). Cerca de trinta anos mais tarde, Jesus começa seu ministério. Ele proclama “o evangelho de Deus, dizendo: O tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo” (Mc 1.14-15).75 Com pregações e milagres, Jesus mostra o reino de Deus ao mundo. Jesus diz: “Se, porém, eu expulso demônios pelo Espírito de Deus, certamente é chegado o reino de Deus sobre vós” (Mt 12.28). Mas o reino de Deus não veio totalmente durante a vida de Jesus. O reino romano ainda estava no comando. Na verdade, quando os soldados romanos crucificaram Jesus, parecia que o reino de Deus tinha falhado. O Deus soberano, porém, pode transformar a derrota em vitória. Ele ressuscitou Jesus da morte. Quando os discípulos encontraram o Senhor ressurreto, perguntaram-lhe: “Senhor, será este o tempo em que restaures o reino a Israel?”. Eles não percebiam que o reino de Deus virá em duas etapas: primeiro, o “já” do reino com a primeira vinda de Jesus e, depois, o “ainda não” da plenitude do reino de Deus, na segunda vinda de Jesus. Jesus responde: “Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou pela sua exclusiva autoridade” (At 1.6-7). Em vez de satisfazer a curiosidade deles, Jesus envia seus discípulos em uma missão: “Sereis minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos confins da terra” (At 1.8). O reino de Deus começa a se espalhar pelos confins da terra. Soa justamente como a pedra no sonho, não é mesmo? “A pedra que feriu a estátua se tornou em grande montanha, que encheu toda a terra” (Dn 2.35). Aliás, Jesus também se vê como a pedra. Em certo momento, Jesus pergunta ao povo: “Nunca lestes nas Escrituras: A pedra que os construtores rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra, angular...? Todo o que cair sobre esta pedra ficará em pedaços; e aquele sobre quem ela cair ficará reduzido a pó” (Mt 21.42-44). No sonho, a pedra atingiu os pés da estátua e os esmagou; então toda a estátua tombou e caiu sobre a pedra e se quebrou em pedaços. A pedra é Jesus. Mas, quando ele começa a crescer e encher toda a terra, é também o seu reino.76 O reino de Deus, o reino de Jesus Cristo, está chegando. Ele substituirá todos os reinos humanos. Muitos cristãos sofrem hoje nas mãos de vários Estados. Desde 1990, cerca de 160 mil cristãos são martirizados a cada ano.77 Cento e sessenta mil a cada ano! É difícil imaginar a dor nessas comunidades cristãs. Claro, existem outras formas de perseguição que não a execução. Os cristãos são detidos, presos, torturados e colocados na lista negra para que não consigam encontrar trabalho. Como mencionado anteriormente, de acordo com as últimas estimativas, cerca de 100 milhões de cristãos são perseguidos em todo o mundo, em países como a Coreia do Norte, Arábia Saudita e Irã.78 Porém, mesmo em países onde há uma relativa liberdade, as pessoas sofrem por causa da corrupção no governo, guerras injustas, fraude, suborno, leis tendenciosas, más decisões que levam à injustiça. Os reinos humanos não estão melhorando. Eles podem ser cruéis e maus. Mas aqui está a boa notícia: o reino de Deus chegou com a primeira vinda de Jesus e virá em perfeição com a sua segunda vinda. Pouco antes de Jesus ser crucificado, ele disse ao sumo sacerdote: “Desde agora, vereis o Filho do Homem assentado à direita do Todo-Poderoso e vindo sobre as nuvens do céu” (Mt 26.64). Mesmo agora Jesus está assentado nos céus à destra de Deus Pai (Mc 16.19), governando sua igreja do seu trono celestial (At 2.32- 36). Quando Jesus voltar, seu reino substituirá todos os reinos da terra e encherá toda a terra. Então, como lemos em Apocalipse (11.15), “o reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos”. Então, tenham bom ânimo! Quaisquer que sejam nossas circunstâncias, o reino de paz e justiça de Deus está a caminho. O próprio Jesus nos oferece uma boa esperança. Ele nos encoraja: “Não temais, ó pequenino rebanho; porque vosso Pai se agradou em dar-vos o seu reino” (Lc 12.32). Jesus reinará onde quer que o sol faça seus percursos sucessivos; seu reino se estende de costa a costa, até que a lua derreta e não brilhe mais. Bênçãos abundam onde quer que ele reine: os prisioneiros pulam para soltar suas cadeias, os cansados encontram descanso eterno, e todos os que sofrem falta são abençoados.79 1 Veja p. 19–30. Até o século 19, havia consenso geral de que os reinos de ouro, prata, bronze e ferro representavam a Babilônia, a Pérsia, a Grécia e Roma. Miller, Daniel, 96, afirma que “Josefo e 2Esdras 12.10-51 identificaram o quarto império como Roma. Childs reconhece que os escritores dos Evangelhos do Novo Testamento consideravam que o império romano fosse o quarto reino, e Walton comenta: “A evidência nos escritos dos pais da igreja é enorme e uníssona em favor da interpretação romana”. Mas tudo isso mudou nos tempos modernos. Aqueles que negam a previsão profética do futuro e sustentam que Daniel foi compilado durante o século 2º a.C. identificam o quarto reino com a Grécia. Towner, Daniel, 36, afirma: “A maioria dos intérpretes modernos concorda que as épocas históricas simbolizadas pelas quatro partes da estátua são o império babilônico (a cabeça de ouro), o ‘império medo’ (embora dificilmente tenha existido na história real de fato, mas aqui equivale à parte superior do tronco, de prata), o império persa (a parte inferior do tronco, de bronze) e os domínios do rei helenista dos ptolomeus no Egito e dos selêucidas na Antioquia, na Síria (as pernas de ferro e os pés de barro)”. Towner admite que realmente não houve um império medo separado, mas afirma que isso “não invalida a lista dada acima”. Ele argumenta: “Se alguém começar com a equação ‘a cabeça de ouro é igual à Babilônia’, como o próprio texto demanda, e identificar os reinos divididos da época do escritor com os regimes helenísticos dos selêucidas e dos ptolomeus após 323 a.C., nenhuma outra lista de quatro impérios mundiais é realmente possível”. 2 Por exemplo, Miller, Daniel, 88: “Daniel também ilustrou a necessidade da oração coletiva quando convocou seus amigos para se juntarem a ele”; e Harman, Study Commentary on Daniel, 62: “Sempre crer que os filhos de Deus, quando diante de um perigo, devem se voltar em oração a Deus, como Daniel”. 3 “Não deveríamos nós, assim como Daniel, agradecer e louvar a Deus pela riqueza do seu dom para nós, apreciar esta fonte de sabedoria celestial e compartilhá-lo com nossos semelhantes perplexos?”. Duguid, Daniel, 26. Cf. p. 24 Cf. Miller, Daniel, 88: “Daniel não se esqueceu de agradecer a Deus pelas orações respondidas, o que é mais uma lição para nós”. 4 “Existe um modelo aqui para todos nós em nossos relacionamentos com aqueles que não conhecem o nosso Deus”. Duguid, Daniel, 33. Na p. 43, Duguid usa mesmo o cruel rei Nabucodonosor como um modelo para a imitação: Nabucodonosor “reconheceu: ‘Certamente, o vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos reis e o revelador dos mistérios, pois pudeste revelar este mistério’ (Dn 2.46-47). Esta mesma resposta deve ser também a nossa”. É de se perguntar em que base se poderia isolar esse elemento para a imitação e ignorar a ira do rei, seu decreto para executar todos os sábios, incluindo Daniel e seus amigos (v. 13), sua adoração a Daniel e o oferecimento de cereais e incenso a ele (2.46). 5 Towner, Daniel, 42, com razão, se opõe a essa ideia “anelante e simplista”: “Afinal de contas, a segunda metade do livro é muito consciente de que mesmo os sábios ‘cairão pela espada e pelo fogo, pelo cativeiro e pelo roubo’ (Dn 11.33-35)”. 6 Veja o capítulo 1, p. 46–47. 7 Por exemplo, a primeira convocação de Nabucodonosor aos seus sábios (4.6), a lista dos sábios e sua incapacidade de interpretar (4.7), e, finalmente, Daniel chega (4.8), sendo o “chefe dos magos” (4.9), e dá a interpretação correta (4.10-27). Veja ainda, Goldingay, Daniel, 38. 8 Daniel 2 e 7 são a primeira e a última narrativas na seção em aramaico de Daniel, formando, assim, os delimitadoresde uma estrutura quiástica ABCC’B’A’. Veja a Introdução, p. 36–37. 9 Para mais detalhes, veja Collins, Daniel, 39-40, e Segal, “From Joseph to Daniel: The Literary Developments of the Narrative in Daniel 2”, VT 59/1 (2009) 142. Collins, Daniel, 39, escreve: “Embora algumas dessas semelhanças derivem do cenário comum de um tribunal do Oriente Próximo e da preocupação comum para com a interpretação dos sonhos, as correspondências verbais tornam altamente provável que o autor de Daniel conhecesse e tenha sido influenciado pela história de José”. 10 Goldingay, Daniel, 37-38. 11 Para mais informações sobre a língua aramaica e as possíveis razões para isso em Daniel, consulte a Introdução acima, p. 32. 12 Os comentaristas discordam sobre o que constitui uma cena e, portanto, chegam a números diferentes de cenas. Por exemplo, Towner, Daniel, 31, lista cinco cenas (2.1-12, 13-23, 24-30, 31-45, 46-49), no que é seguido por Goldingay, Daniel, 41-42, e Redditt, Daniel, 51 (diferente das minhas cinco cenas, com foco em mudanças de local), enquanto Lucas, Daniel, 67, lista seis “atos” e Venter, “The Function of Poetic Speech in the Narrative in Daniel 2”, HervTS 49 / 4 (1993) 1015, aparece com “três episódios e oito cenas”. Eu vou seguir a definição de Jacob Licht, Storytelling in the Bible (Jerusalém: Magnes, 1978), 29: “Cada cena apresenta os acontecimentos de um determinado lugar e época, concentrando a atenção do público sobre as ações e as palavras ditas”. Outro marcador para a detecção de cenas é que, geralmente, cada cena tem apenas dois personagens (veja Robert Alter, The Art of Biblical Narrative [Nova York: Basic Books, 1985], 72). 13 Estou em débito para com o meu revisor, Ryan Faber, por identificar que Daniel 2.24-25 é uma cena separada, de modo que as cenas formam a estrutura quiástica. 14 Para esta escalada de punição e recompensa para punição à pena de morte, veja Michael Segal, “From Joseph to Daniel: The Literary Developments of the Narrative in Daniel 2”, VT 59/1 (2009) 125. 15 Os narradores usam um “passivo divino” quando desejam indicar a atividade de Deus de maneira velada. A implicação aqui é que Deus revelou o mistério a Daniel. Sobre o passivo divino, veja ainda abaixo, p. 81, nota 27, e p. 98, nota 79. 16 “Eles são todos sinônimos variantes para os adivinhos da Babilônia, cujo papel era fundamental para a vida política e religiosa da Babilônia, embora o autor use uma série de termos combinados para transmitir a impressão dos vários grupos”. Goldingay, Daniel, 46. 17 Hill, “Daniel”, 64. 18 Lucas, Daniel, 78. Cf. p. 77: “Os termos utilizados para ‘seu’ Deus (de Daniel) na confissão de Nabucodonosor (47) resumem, de fato, a mensagem desta história”. Igualmente, Anderson, Signs and Wonders, 26: “A confissão de Nabucodonosor de que o Deus de Daniel é verdadeiro, ‘o vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos reis, e o revelador de mistérios... ’ (v. 47), é o ponto culminante do capítulo”. Cf. Collins, Apocalyptic Vision, 13: “O efeito do... capítulo [2] não é primariamente apresentar uma visão escatológica, mas demonstrar a superioridade de Daniel sobre os sábios pagãos. O rei reage louvando ao Deus de Daniel por seu poder de revelar segredos – não por seu poder de controlar a história”. Cf. Smith-Christopher, “Book of Daniel”, 51: “O tema, como muitos estudiosos têm apontado, é que a sabedoria do mundo se revelará impotente diante do conhecimento do verdadeiro Deus”. Longman, Daniel, 73, formula o tema dessa narrativa como: “Somente a sabedoria de Deus pode revelar os mistérios da vida”. Ele acrescenta: “Não é o conteúdo da revelação do futuro que é primário; o que é mais importante aqui é o fato de que é apenas o Deus de Daniel que conhece esse futuro”. Veja também ibid., p. 84. 19 Steinmann, Daniel, 109. Cf. p. 124. Goldingay, Daniel, 41, vê duas facetas, “um tema dentro de um tema”: “Ambas as facetas (e todo o capítulo) refletem o poder soberano único do Deus de Israel, simultaneamente desvendado a Nabucodonosor e escondido dele, em quem Daniel confia, revelado por e em sonho/visão e reconhecido por Nabucodonosor. Só Deus controla a história e só ele revela o que ela esconde”. 20 Venter, “The Function of Poetic Speech in the Narrative in Daniel 2”, HervTS 49/4 (1993) 1.016 e 1.019. 21 Porteous, Daniel, 37, fala da “revelação a respeito do curso e clímax da história do mundo que o capítulo registra e que forma o seu núcleo”. 22 Goldingay, Daniel, 44. Veja também p. 51: “Os leitores implícitos de Daniel no período persa, talvez desiludidos e deprimidos como aqueles a quem profecias em Ageu, Zacarias e Isaías 56-66 foram dirigidas, são convidados a se apegarem à convicção de que o colosso caldeu não vai durar para sempre. Ele tem pés de barro”. Cf. Towner, Daniel, 31. 23 “Sinar como um termo para a Babilônia, no sudeste do Iraque moderno, é um arcaísmo no Antigo Testamento... O nome sugere especialmente um lugar da religião falsa, de vontade própria e autoengrandecimento (Gn 11.1-9; Zc 5.11)”. Goldingay, Daniel, 15. 24 Cf. Ferguson, Daniel, 66: “O povo de Deus tem a garantia da palavra de Deus do triunfo final do reino de Deus. No sonho e em sua interpretação, este é o fato central”. 25 Evans, “Daniel in the New Testament: Visions of God’s Kingdom”, 513, vê um contraste entre a oração de Daniel de que Deus “dá sabedoria aos sábios e entendimento aos inteligentes” (2.21b) e Jesus agradecendo seu Pai “porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos pequeninos” (Mt 11.25). Mas o uso de “sábios” por Jesus é bem diferente do uso de “sábio” por Daniel, que recebe essa sabedoria sobrenatural por revelação. 26 Veja a nota 23, acima. 27 “A pedra, mencionada nos versículos 34-35 e interpretada no versículo 44 como o reino de Deus, pertence à esfera messiânica. Isso segue-se de Gênesis 28.10-22 e, acima de tudo, de um texto abundantemente reutilizado por Daniel, Gênesis 49.24. Deus, como ‘a rocha de Israel’, apoia José”. Lacocque, Book of Daniel, 52. 28 As formas de progressão histórico-redentivas e temas longitudinais são intimamente relacionadas e, muitas vezes, entrelaçadas. 29 Cf. Apocalipse 11.15: “O sétimo anjo tocou a trombeta, e houve no céu grandes vozes, dizendo: O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos”. 30 Por exemplo, John G. Gammie, Daniel, 21-34, propõe um sermão separado em cada um dos “cinco episódios”: v. 1-11, “O sonho perturbador”; v. 12-23, “A urgência de destruir”; v. 24-35, “O propósito do conselho”; v. 36-45, “Pois teu é o reino”; e v. 46-49, “Atenas se volta para Jerusalém”. 31 Embora o narrador não divulgue o sonho até a quinta e última cena (2.31-35), uma vez que a maioria das pessoas conhece esta história, acho que é vantajoso descrevê-la brevemente nesta fase. Presumo, também, ao contrário de alguns comentaristas (por exemplo, Calvino, Commentaries on Daniel, I, 119-20, e Baldwin, Daniel, 87-88), que o rei se lembrava de seu sonho; por que mais ele ficaria tão agitado que não conseguia dormir? Além disso, Young, Prophecy of Daniel, 58, observa que “isto parece estabelecido pelo seu desejo de testar os sábios (v. 9)”. Miller, Daniel, 81, acrescenta que este era “o entendimento dos sábios, que continuavam a implorar-lhe [o rei] que o revelasse”. Veja também a nota 37 abaixo. 32 “Sonhos”, em 2.1, é plural, enquanto as narrativas seguintes registram apenas um sonho. Collins, Daniel, 155, entende esse uso como sendo “idiomático” para o singular. Miller, Daniel, 77, entende o plural no sentido de que “o rei estava em um estado de sonho”. Leupold, Exposition of Daniel, 82, escreve que “o rei teve vários sonhos, um deles finalmente o despertou e perturbou”. Eu prefiro a sugestão de Wallace, The Lord Is King, 49, de que era um sonho recorrente: “No entanto, noite após noite acontecia este sonho!”. Assim também Redditt, Daniel, 51. 33 Questiona-se como Daniel e seus amigos poderiam ter sido treinados durante três anos (1.5), quando este é apenas o segundo ano de Nabucodonosor(2.1). Várias respostas têm sido sugeridas: (1) Uma vez que eles contavam uma parte de ano como um ano, a formação de Daniel poderia ter sido menos de dois anos (Miller, Daniel, 77). (2) Nabucodonosor primeiro reinou com seu pai e depois sozinho; este é o segundo ano do seu governo solo (Calvino, Commentaries on Daniel, I, 116). (3) Miller, Daniel, 76, escreve: “Driver explica os três anos com base no ano de ascensão empregado na Babilônia... [veja a Introdução acima, p. 28]. Por este método, o tempo até o primeiro Nisã (março-abril) é considerado o ano de ascensão do rei, não o seu primeiro ano (veja tabela). Anos de treinamento Ano de reinado do rei Data Primeiro Ano da ascensão De setembro de 605 a.C. (quando Nabucodonosor assumiu o trono) a Nisã (março/abril de 604 a.C.) Segundo Primeiro ano Nisã (604 a.C. a 603 a.C.) Terceiro Segundo ano Nisã (603 a.C. a 602 a.C.) 34 “Sabemos por outras fontes históricas que sua política expansionista encontrou resistência feroz durante os primeiros anos de seu reinado”. Ferguson, Daniel, 50. 35 “Dois dentre os três reis seguintes da Babilônia foram assassinados”. Miller, Daniel, 82. 36 “O termo pode ser entendido de duas maneiras em Daniel: ou para se referir ao povo da Babilônia, em geral, num sentido étnico (veja 1.4) ou (em um sentido mais restrito) para delinear uma classe especial de sacerdotes babilônios... Sem dúvida, a experiência deles inclui, mas não se restringe à astrologia, como evidenciado pelo uso do termo em outras partes de Daniel (por exemplo, 2.5,10; 4.7; 5.7,11). “Hill”, Daniel, 62. 37 “O rei diz (literalmente): ‘Tive um sonho, e para sabê-lo está perturbado o meu espírito’. Será que isso significa que ele tinha esquecido o sonho, como infere Josefo (Ant. 10.10.3)?... Parece razoável entender ‘saber’, aqui, no sentido de ‘perceber o significado de, entender’”. Lucas, Daniel, 70. Por isso a NRSV traduz como “compreender”, e a NVI, “para saber o que isso significa”. 38 “A variação dos termos nas diferentes listas mostra que o escritor não os usa com intento de grande exatidão, mas está simplesmente acumulando uma série de termos para dar uma imagem de um impressionante grupo de especialistas cujo fracasso põe em movimento o sucesso de Daniel”. Lucas, Daniel, 70. 39 Para ver as semelhanças e diferenças entre Gênesis 41 e Daniel 2, veja Goldingay, Daniel, 37 e 42-43. Cf. Michael Segal, “From Joseph to Daniel: The Literary Developments of the Narrative in Daniel 2”, VT 59/1 (2009) 142-43. 40 “Vários livros oníricos foram encontrado na Mesopotâmia, autênticas obras de referência que os adivinhos antigos consultavam em cada cenário concebível de sonho”. Seow, Daniel, 39. 41 Veja Montgomery, Book of Daniel, 146. 42 “O relato é evidentemente condensado neste ponto pela omissão de alguns detalhes óbvios de etiqueta da corte. Pois todo mundo ainda sabe, e mais seguramente sabia na época de Daniel, que era impensável qualquer homem aventurar-se a entrar na presença do rei sem aviso prévio ou sem ser chamado, cf. Ester 4.11”. Leupold, Exposition of Daniel, 96. 43 Ao convidar seus companheiros para se juntar a ele em oração ao Deus do céu, o autor usa seus nomes hebraicos, que dão testemunho do Deus de Israel, respectivamente, como Yahweh, El e Yahweh. Consulte o capítulo 1 acima, p. 63. 44 “Inicialmente, aqui, a conotação [da palavra rāz, ‘mistério’] parece ser simplesmente o enigma do sonho, mas o sonho em si denota a divulgação de um mistério escatológico. A palavra rāz pode implicar a expectativa de que o sonho contenha alguma revelação significativa”. Collins, Daniel, 159. Cf. Lucas, Daniel, 72: “Nos rolos do Mar Morto ela [a palavra rāz] parece ser quase um termo técnico para o que só pode ser compreendido por meio de revelação divina, especialmente o propósito oculto de Deus na história”. 45 Observe o passivo divino. Anderson, Signs and Wonders, 15, observa: “Ali, naquela breve declaração, está contido um dos elementos essenciais do livro. O Deus dos céus governa o curso da história e revelou isso ao seu fiel servo”. 46 Para uma análise detalhada desta oração, veja Venter, “The Function of Poetic Speech in the Narrative of Daniel 2”, HervTS 49/4 (1993) 1,009-14. 47 “A ‘sabedoria’ dos versos 20-23 é, novamente, entendimento sobrenatural, em vez de conhecimento empírico e racional. Não é algo que os humanos consigam, mas algo que recebem de Deus pela revelação, equivalente ao conhecimento dos propósitos de Deus que os profetas recebem por serem aceitos no conselho de Yahweh”. Goldingay, Daniel, 48. 48 “Open Doors’ 2009 World Watch List”. 49 Ironicamente, Daniel, que foi rebatizado Beltessazar segundo o deus Bel do rei, “vem ao rei como um judeu exilado (v. 25) que havia recebido sua revelação do Deus de seu pai (v. 23)”. Goldingay, Daniel, 57. 50 Observe o paralelo e o contraste com a declaração dos sábios nos versículos 10-11. 51 Porteous, Daniel, 44. Alguns comentaristas entendem a frase “nos últimos dias” em Daniel (2.28 e 10.14) como se referindo a “uma mudança definitiva no futuro, mas não ao fim da história” (p. ex., Collins, Daniel, 161, e Seow, Daniel, 43), enquanto outros entendem como referindo-se ao “tempo de cumprimento”, neste contexto, com uma “perspectiva escatológica” (p. ex., Goldingay, Daniel, 48, 56; cf. Miller, Daniel, 90), e outros ainda entendem-no mais especificamente como “a era messiânica” (Steinmann, Daniel, 26, 133), “a vinda da era messiânica que Deus vai trazer como o clímax da história” (Russell, Daniel, 47). O contexto em Daniel 2 deixa claro que “nos últimos dias” refere-se ao fim da história humana, quando os reinos humanos serão substituídos pelo reino de Deus (v. 44). Cf. a mesma frase em hebraico em 10.14 no contexto da visão final com a sua ressurreição dupla (12.2, 13) e da plenitude do reino de Deus (12.3). 52 “O sucesso de Daniel não se deve nem aos seus dons pessoais, nem à sua educação caldeia, mas à sabedoria e poder de Deus somente”. Seow, Daniel, 37. 53 “O verbo ‘ser’ com o particípio (hāzēh) é uma maneira distintiva de o aramaico expressar ação continuada que é encontrada com frequência neste livro. Retrata como o rei estava encantado com a vista, incapaz de tirar seus olhos do que ele via”. Leupold, Exposition of Daniel, 107. 54 “Em seu Works and Days, 109-201, ele [o poeta grego Hesíodo (século 8º a.C.)] dividiu a história em cinco eras. Quatro são caracterizadas por metais, na sequência de ouro, prata, cobre e ferro. Entre a era de bronze e ferro, ele insere a era dos heróis gregos, sem vinculá-la a qualquer metal. Essa sequência de metais... parece repousar na memória histórica da transição da Idade do Bronze à Idade do Ferro. Ao descrever a era do bronze, o poeta comenta: ‘De bronze eram seus instrumentos: não havia ferro negro’ (linha 151)”. Lucas, Daniel, 73. Cf. Collins, Daniel, 162-65. 55 “À medida que se desce na sequência de metais na estátua, seu esplendor se dissipa (de ouro a ferro e barro), mas aumenta a sua dureza (de ouro ao ferro)”. Hill, “Daniel”, 67. Cf. Baldwin, Daniel, 92: “Da sua cabeça de ouro aos seus pés frágeis de porcelana envidraçada misturado com ferro, ela representava uma figura superpesada, passível de desabar até a sua ruína”. 56 “A estátua valiosa e preciosa contrasta diretamente com a pedra inexpressiva, sem brilho e sem valor. A diferença entre a pedra e a estátua é que a mão de ninguém tocou na pedra”. Nel, “A Literary-Historical Analysis of Daniel 2”, Acta Theologica 22/1 (2002) 88”. 57 “‘Uma pedra foi cortada sem auxílio de mãos’ humanas, uma expressão que ocorre também em 8.25 e provavelmente significa que se originou pela vontade e poder divinos (veja também Jó 34.20)...”. Seow, Daniel, 44. Cf. Anderson, Signs and Wonders, 20: “A independência completa da pedra destrutiva é afirmada. Ela não requereu nenhum auxílio humano para existir, nem qualquer ajuda humana para agir. No entanto, o resultado é eminentemente eficaz e a narração dele é tão breve quanto dramática”. 58 “O vento varrendo os restos da estátua (2.35) apontapara este sonho como tendo significado histórico e escatológico. A imagem do joio sendo arrastado pelo vento é familiar no Antigo Testamento [veja Is 41.15-16]. Esta metáfora combina os conceitos de transitoriedade e impermanência com a facilidade com que Deus pode varrer os seres humanos e suas realizações”. Steinmann, Daniel, 135-36. 59 Cf. Isaías 2.2 (par. Mq 4.1): “Nos últimos dias, acontecerá que o monte da Casa do SENHOR será estabelecido no cimo dos montes...”. 60 Cf. Isaías 11.9: “Não se fará mal nem dano algum em todo o meu santo monte, porque a terra se encherá do conhecimento do SENHOR, como as águas cobrem o mar”. 61 Veja Baldwin, Daniel, 92. 62 “Enquanto o plural pode denotar deferência/mansidão (cf. v. 30), havendo menos referência provável ao conselho divino ou o uso do plural de majestade, a ênfase incidental, mas deliberada, incluindo os amigos nos versos 17-18, 23, 49, sugere que este é também o caso aqui”. Goldingay, Daniel, 35. 63 “Os reis babilônicos geralmente fingiam ter governo sobre os animais selvagens e as aves selvagens. Eles mantinham animais capturados enquanto caçavam nas reservas, provavelmente como símbolos de sua dominação universal”. Lacocque, Book of Daniel, 50. Cf. Jeremias 27.6; 28.14. 64 “Muitas vezes nas Escrituras os termos ‘rei’ e ‘reino’ são empregados como sinônimos, visto que o rei era considerado a personificação do reino... Nabucodonosor era o Império Neobabilônico, pois, depois de seus quarenta e três anos de reinado, o reino durou apenas cerca de 23 anos”. Miller, Daniel, 93. Cf. Young, Prophecy of Daniel, 73-74. 65 “Não pode haver dúvida de que tal descrição [“domínio sobre toda a terra”] se aplica com muito mais precisão ao reinado de Alexandre, o Grande, que ao da Pérsia... A Grécia era universal em sua influência”. Young, Messianic Prophecies, 21. Cf. Ferguson, Daniel, 62-63: “Aqui nós instintivamente pensamos na ascensão notável de Alexandre, o Grande, ao poder, de quem se diz que chorou quando, ainda na casa dos vinte anos, não havia mais terras para conquistar”. 66 “Cinco termos são utilizados neste versículo (‘quebra’, ‘esmiúça’, ‘quebra’, ‘fará em pedaços’, ‘esmiuçará’) para enfatizar o poder tremendo que este quarto império exerceria. Roma dominava as nações com mão de ferro e, como um enorme taco de ferro, quebrou todos os que resistiram à sua vontade”. Miller, Daniel, 95. 67 “Essa falta de coesão significa a eventual dissolução do império romano, mas a influência contínua de suas instituições. Assim, grande parte do patrimônio de Roma dura até hoje, especialmente no Ocidente (Europa e Américas), mas todas as tentativas na história subsequente de reviver um arremedo do Império Romano com o seu poder falharam”. Steinmann, Daniel, 137. 68 Leupold, Exposition of Daniel, 120, sugere que isso se refere à “descendência romana e germânica e outras descendências intercasamentárias – um experimento de caldeira de fusão – mas a descendência resultante não foi o material de que são feitos impérios duradouros”. Em contraste, Collins, Daniel, 170, vê este versículo como “uma referência a um ou outro dos casamentos interdinásticos dos ptolomeus e selêucidas, sendo o primeiro o de Antíoco II com Berenice, em 252 a.C.; o segundo, o de Ptolomeu Epifânio com Cleópatra, filha de Antíoco III, em 193-192 a.C. Esses casamentos são mencionados em Daniel 11.6, 17”. 69 “A qualidade dos respectivos impérios se deteriora quando o olhar se move para baixo, da cabeça de ouro (Babilônia) para o peito de prata, o ventre e as coxas de bronze, as pernas de ferro, e, finalmente, os pés de uma mistura de ferro e barro, mas o quadro como um todo é tão impressionante como a torre de Babel em Gênesis 11. Este é um monumento glorioso à realização política humana. No entanto, os pés de ferro e de barro implicam numa instabilidade fundamental para o colosso”. Block, “Preaching Old Testament Apocalyptic”, CTJ 41/1 (2006) 40. 70 Veja a nota em Daniel 2.32-43 na Bíblia de Estudo NVI. Muitos comentaristas modernos argumentam em favor de Babilônia, Média, Pérsia e Grécia. Veja p. 70, nota 1 acima. 71 Longman, Daniel, 82, alerta: “Embora ele [o sonho] comece no presente concreto, é uma estratégia errada seguir pela história e associar os diferentes estágios da estátua com impérios em particular. A visão pretende comunicar algo mais geral, mas também maior: Deus é soberano; ele está no controle apesar das condições presentes”. Cf. Lucas, Daniel, 79: “O ‘mistério’ que ele [o sonho] revela não são os detalhes do curso dos eventos na história, mas o fato de que a história está sob o controle de Deus e que ela tem um propósito, que será alcançado”. Cf. Duguid, Daniel, 37: “A passagem em si virtualmente não nos dá dados sobre as características destes reinos, porque ela pretende nos dar uma filosofia da história em vez de uma análise precisa da história por vir”. Estes autores obviamente desejam evitar os debates intermináveis e infrutíferos sobre a identidade destes reinos. Mas a solução não reside no enfraquecimento da especificidade desta revelação, transformando-a em uma filosofia generalizada da história (Dn 2.37-38 claramente identifica o reino da Babilônia, enquanto Dn 8.20-21 fala especificamente do reino Medo-Persa e o reino da Grécia), mas em focar na mensagem específica desta narrativa. 72 “Os dedos do pé, em geral, representam os reinos em que o Império Romano se separou quando a desintegração ocorreu... O número dez é definitivamente um número simbólico como geralmente os números são em sonhos ou visões desse tipo... Dez representa a totalidade de qualquer número que exista”. Leupold, Exposition of Daniel, 122. O número “dez” é muitas vezes retomado deste capítulo quando se mencionam os “dez chifres” em Daniel 7.7. A suposição é de que a estátua deve ter tido dez dedos do pé, já que as pessoas normais têm dez dedos. Mas já que o número “dez” não é mencionado neste capítulo, não devemos complicar o sermão, criando um problema aqui. 73 “Quando chegar a hora de Deus, o seu reino vai requerer a destruição dos reinos terrenos, em vez de seu trabalho através deles”. Goldingay, Daniel, 59. 74 “Daniel é honrado pelo que seu Deus fez, não pelo que ele próprio fez”. Longman, Daniel, 82. 75 Para ver argumentos de que “o livro de Daniel pode ser o pano de fundo primário para o ensino dos Evangelhos sobre o Reino”, veja David Wenham, “The Kingdom of God and Daniel”, ExpTim 98/5 (1987) 132-34; veja também Craig Evans, “Daniel in the New Testament: Visions of God’s Kingdom”, 490-527. Para a influência mais geral de Daniel sobre o Novo Testamento, veja Adela Yarbro Collins, “The Influence of Daniel on the New Testament”, 90-123. 76 Veja p. 94, nota 64 acima. 77 David Barrett e Todd M. Johnson, World Christian Encyclopedia (2 ed. Nova York: Oxford University Press, 2001), I, 11. Eles estimam que o número de mártires cristãos no século 20 foi de 45 milhões de pessoas. 78 “Open Doors’ 2009 World Watch List”. Para ver perseguição em países específicos, veja Paul Marshall, Their Blood Cries Out: The Worldwide Tragedy of Modern Christians Who Are Dying for Their Faith. 79 Isaac Watts, 1719, “Jesus Shall Reign”, alt. CAPÍTULO 3 Os amigos de Daniel na fornalha de fogo ardente Daniel 3.1-30 “E quem é o deus que vos poderá livrar das minhas mãos?”. “Não há outro deus [a não ser o Deus de Israel] que possa livrar como este”. Daniel 3.15, 29 Daniel 3 relata uma história fascinante sobre a capacidade de Deus de libertar seu povo, mesmo da morte certa. Atualmente, esta história oferece conforto ao sofrido povo de Deus do mesmo modo como confortou Israel quando penava no exílio. Ela também encoraja o povo de Deus a permanecer fiel a ele, independentemente das ameaças que enfrentar. Infelizmente, alguns comentaristas induzem os pregadores na direção da moralização antropocêntrica. Um afirma: “É interessante observar que havia apenas três homens em toda a vasta multidão que se recusaram a se curvar diante da imagem de Nabucodonosor [3.12]. Isso destaca o fato de que defendera causa de Deus será, muitas vezes, uma atividade solitária. Há momentos na vida de cada um que, a fim de fazer o certo, não se pode simplesmente esconder no meio da multidão; é preciso aguentar praticamente sozinho”.1 Isso pode ser verdade, mas este não é o foco da passagem. Outro comentarista usa até mesmo a raiva do rei (3.19) como um exemplo de advertência: “Você reage com raiva desmedida como Nabucodonosor?... O antídoto para a raiva excessiva, ou qualquer outra resposta idólatra ao não conseguir fazer a sua vontade é desistir do ídolo por amor a Deus”.2 A única maneira de evitar esse moralismo esmagador é focar a aplicação sobre a meta original do autor para Israel no exílio. Novamente, um sermão é mais eficaz quando tem o formato de uma bala que penetra no coração, em vez de chumbinhos que mal arranham a superfície. Texto e contexto A unidade textual, mais uma vez, é bastante óbvia. Daniel 3.1 prepara o terreno para a nova narrativa: “O rei Nabucodonosor fez uma imagem de ouro... na província da Babilônia”. Depois da recusa de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego em reverenciar a imagem, a punição de serem jogados na fornalha de fogo e a salvação milagrosa, a história termina, assim como o capítulo 2.49, com o rei promovendo-os “na província da Babilônia” (3.30).3 O texto da pregação, portanto, é Daniel 3.1-30. Embora não seja tão longo quanto o capítulo 2, Daniel 3 é, também, um longo capítulo.4 Leupold afirma, com razão: “Será difícil partir o capítulo em vários textos para sermões separados. É uma peça coesa demais para isso”. Em vez de vários textos de pregação, ele sugere a leitura de todo o capítulo antes do sermão “e, depois, talvez, escolher os versículos 24-27 como um texto, lançando mão de todo o capítulo no decurso do sermão quando necessário”.5 Concordo que toda a narrativa deve ser lida antes do sermão, especialmente para que as pessoas ouçam a história inteira e não percam a sátira evidente na repetição consecutiva das longas listas de “todos os oficiais das províncias” (v. 2-3) e “de toda sorte de música” (v. 5,7; consulte “Recursos literários”, abaixo). Mas eu sugiro que toda a narrativa sirva de texto de pregação, porque selecionar apenas os versículos 24-27 negligencia a poderosa tensão na história: “Se o nosso Deus... quer livrar-nos, ele nos livrará da fornalha de fogo ardente... Se não, não serviremos a teus deuses” (v. 17-18). Além disso, selecionar apenas uma parte da narrativa pode levar a um tema errado.6 No livro de Daniel, esta narrativa sobre os três amigos de Daniel segue naturalmente até 2.49, que nos informa que “constituiu o rei a Sadraque, Mesaque e Abede-Nego sobre os negócios da província da Babilônia; Daniel, porém, permaneceu na corte do rei”. Isso explica a presença dos três amigos nessa narrativa e, possivelmente, a ausência de Daniel na planície de Dura. A história em que Deus salva os amigos de Daniel da fornalha de fogo ardente tem sua contrapartida no capítulo 6, onde Deus salva Daniel dos leões.7 A frase “povos, nações e homens de todas as línguas” (3.4) é repetida não só em 3.7 e 3.29 (singular), mas também em 4.1; 5.19; 6.25; 7.14. Isso ressalta a perspectiva universal dessas narrativas aramaicas. No contexto bíblico mais amplo, uma frase semelhante a “toda tribo, língua, povo e nação” é repetida muitas vezes no livro do Apocalipse.8 Esta narrativa também tem alguns paralelos com as histórias de José e Ester. “O movimento [nas três histórias] é de acusação indecente, punição injusta e morte iminente para resgate milagroso”.9 Mais significativamente, a linguagem de Daniel 3.5, “vos prostrareis e adorareis a imagem de ouro”, ecoa as palavras do Decálogo: “Não as adorarás, nem lhes darás culto” (Êx 20.5). A infidelidade de Israel ao Senhor, curvando-se e adorando outros deuses, o levou ao seu exílio (p. ex., Dt 4.25-27; 29.25-28; Ez 22.3-4,15; Am 5.26-27). O fato de os amigos de Daniel se recusarem a curvar-se diante da estátua do rei e a adorar os seus deuses os define como verdadeiros israelitas. Além disso, a história do povo de Deus sendo salvo da fornalha de fogo ardente tem alguns paralelos metafóricos interessantes no Antigo Testamento. Deuteronômio 4.20 fala do Egito como “fornalha de ferro”: “O SENHOR vos tomou e vos tirou da fornalha de ferro do Egito, para que lhe sejais povo de herança”.10 Mais tarde, Isaías (48.10) fala do exílio na Babilônia como uma “fornalha da aflição”: o Senhor diz: “Eis que te acrisolei, mas disso não resultou prata; provei-te na fornalha da aflição”.11 Características literárias Antes de explorar as principais características literárias que nos ajudarão a entender o ponto desta narrativa, vamos primeiro identificar alguns artifícios retóricos menores. A pergunta do rei, no versículo 15, “quem é o deus que vos poderá livrar das minhas mãos?”, é uma pergunta retórica que espera a resposta “não há tal deus”. Aquecer “a fornalha sete vezes mais do que se costumava” (v. 19) é uma hipérbole. Uma vez que o número “sete” é o número da perfeição, isso significa, neste contexto, alimentar a fornalha tanto quanto possível. O relato de que os próprios servos que “se prostraram... e adoraram a imagem de ouro” (v. 7) tornaram-se as primeiras testemunhas do milagre de Deus na preservação dos seus (v. 27) é ironia dramática.12 Vamos agora analisar as principais características literárias de estrutura narrativa, enredo, descrição da personagem e repetição. Estrutura da narrativa A narrativa consiste de quatro cenas:13 Cena 1: Na planície de Dura (3.1-7) A. O rei Nabucodonosor fabrica uma imagem de ouro e manda buscar seus oficiais (3.1-3) B. O arauto proclama: Ao ouvirdes o som, adorem a imagem (3.4-6) C. Todo mundo se ajoelha e adora a imagem de ouro (3.7) Personagens: Rei Nabucodonosor/arauto e todos os seus oficiais Cena 2: Na presença do rei (3.8-20) A. Alguns caldeus acusam os amigos de Daniel (3.8-12) B. O rei ameaça os amigos de Daniel (3.13-15) C. Os amigos de Daniel se recusam a adorar a imagem de ouro (3.16-18) D. O rei ordena que os amigos de Daniel sejam jogados na fornalha (3.19-20) Personagens: Caldeus/o rei e os amigos de Daniel Cena 3: Na fornalha de fogo ardente (3.21-25) A. Soldados amarram os três amigos e os jogam na fornalha (3.21- 23) B. O rei vê quatro homens, soltos, andando no fogo (3.24-25) Personagens: soldados/rei/conselheiros e os amigos de Daniel Cena 4: Perto da fornalha (3.26-30) A. O rei manda os amigos de Daniel saírem do fogo (3.26) B. Os oficiais do rei testemunham o milagre (3.27) C. O rei bendiz a Deus, decreta liberdade para adorar esse Deus e promove os amigos de Daniel (3.28-30) Personagens: O rei/os oficiais e os amigos de Daniel O enredo O narrador descreve o cenário em 3.1: o rei Nabucodonosor fez uma imagem de ouro gigante e “levantou-a no campo de Dura, na província da Babilônia”. Na sequência, ele relata os incidentes preliminares: o rei convidou todas as autoridades das províncias “para que viessem à consagração da imagem” (v. 2); eles vêm (v. 3); o arauto apregoa que todos devem se prostrar ao som da música e adorar a imagem ou serão, “no mesmo instante”, jogados na fornalha de fogo ardente (v. 4-6); eles ouvem a música e todos se ajoelham e adoram a imagem (v. 7). O incidente ocasionador começa no versículo 8, com a cena 2. Alguns caldeus acusam os amigos de Daniel de desobedecerem ao rei por não adorarem a imagem de ouro (v. 8-12). A tensão aumenta à medida que o rei, “irado e furioso”, manda buscar os três homens. Será que ele vai mandar jogá-los “no mesmo instante” (v. 6) na fornalha? Mas o rei não confia realmente nos caldeus. Não podia acreditar que alguém se atrevesse a desobedecê-lo. A tensão se prolonga quando o rei pergunta aos três amigos, sem conseguir acreditar: “É verdade?” (v. 14). Ele lhes dará a oportunidade de demonstrar que não é verdade. A orquestra vai tocar mais uma vez e, se eles se ajoelharem e adorarem a imagem, tudo ficará bem. “Porém, se não a adorardes, sereis, no mesmo instante, lançados na fornalha de fogo ardente. Equem é o deus que vos poderá livrar das minhas mãos?” (v. 13-15). O que eles vão fazer? Eles respondem enfaticamente que eles não veem necessidade de resposta: “Quanto a isto não necessitamos de te responder” (v. 16). Independentemente de o Deus deles livrá-los da fornalha ou não, eles não vão servir aos deuses do rei nem adorar a imagem de ouro (v. 16- 18). A tensão aumenta: o que o rei faz agora? Ele está tão bravo com essa insolência que seu rosto se contorce numa careta e ele ordena que a fornalha seja alimentada para atingir calor máximo. Na sequência, ordena que seus soldados mais fortes amarrem os três homens e os lancem ao fogo (v. 19- 20). Os soldados amarram os três homens e os lançam ao fogo, perdendo a própria vida ao fazê-lo (v. 21-22). A narrativa atinge seu clímax no versículo 23: “Sadraque, Mesaque e Abede-Nego caíram14 atados dentro da fornalha sobremaneira acesa”, sem qualquer possibilidade de escapar. O narrador mantém a tensão no clímax por não nos informar imediatamente sobre a resolução deste conflito. Ele nos permite ver o que está acontecendo através dos olhos do rei. O rei fica surpreso e se levanta rapidamente. O que ele vê? O narrador usa o diálogo para diminuir o ritmo (atraso de ritmo). O rei pergunta aos seus conselheiros: “Não lançamos nós três homens atados dentro do fogo?”. Eles respondem: “É verdade, ó rei”. Ele responde: “Eu, porém, vejo quatro homens soltos, que andam passeando dentro do fogo, sem nenhum dano; e o aspecto do quarto é semelhante a um filho dos deuses” (v. 24-25). O rei, então, corre até a abertura inferior da fornalha e grita para Sadraque, Mesaque e Abede-Nego saírem do fogo, e eles saem (v. 26). Mas eles estão feridos? Os oficiais do rei conferem e descobrem que “o fogo não teve poder algum sobre os corpos destes homens; nem foram chamuscados os cabelos da sua cabeça, nem os seus mantos se mudaram, nem cheiro de fogo passara sobre eles” (v. 27). O conflito foi totalmente resolvido. O desfecho é que o rei bendiz a Deus, decreta que qualquer pessoa que blasfeme contra este Deus seja executada e declara que “não há outro deus que possa livrar como este” (v. 28-29). Na conclusão, o rei promove os amigos de Daniel (v. 30). Podemos esboçar o enredo como uma única trama: Descrição do personagem Nabucodonosor é o antagonista. “Ele é o único personagem ‘de pleno direito’ na história. Ele fala, age e mostra emoções”.15 Duas vezes o narrador descreve a raiva do rei, “irado e furioso” e “se encheu de fúria”, na segunda vez acrescentando o vívido “transtornado o aspecto do seu rosto” (v. 13,19). Quando viu quatro homens no fogo, em vez de três, ele “se espantou” (v. 24). Seu personagem é mais bem desenvolvido por suas palavras e ações: ele mostrou seu orgulho quando fabricou a imagem de ouro que todos os povos deviam adorar; revelou sua arrogância quando perguntou: “E quem é o deus que vos poderá livrar das minhas mãos?”. (v. 15); ratificou sua raiva furiosa e hostilidade quando ordenou que a fornalha fosse aquecida sete vezes mais do que o normal (v. 19). Mas, quando viu a libertação milagrosa, foi rápido em bendizer o Deus de Israel, decretar que aqueles que blasfemarem contra este Deus serão executados, fazer uma declaração surpreendente para um politeísta: “Não há outro deus que possa livrar como este” e promover os amigos de Daniel (v. 28-30). O narrador retrata os servos da Babilônia como criaturas frias, mecânicas. Ele usa a sátira16 na repetição consecutiva da lista de servos. Lendo esta lista em voz alta, não se pode deixar de sorrir: “Então, o rei Nabucodonosor mandou ajuntar os sátrapas, os prefeitos, os governadores, os juízes, os tesoureiros, os magistrados, os conselheiros e todos os oficiais das províncias, para que viessem à consagração da imagem que o rei Nabucodonosor tinha levantado. Então, se ajuntaram os sátrapas, os prefeitos, os governadores, os juízes, os tesoureiros, os magistrados, os conselheiros e todos os oficiais das províncias, para a consagração da imagem que o rei Nabucodonosor tinha levantado; e estavam em pé diante da imagem que Nabucodonosor tinha levantado” (v. 2,3). Tudo soa muito empolado e mecânico.17 Os servos da Babilônia aparecem como marionetes. Logo a banda vai tocar e todos eles vão ajoelhar. O narrador repete a lista de servos três vezes (v. 2,3, e uma versão mais curta no v. 27) e a lista de instrumentos musicais, quatro vezes (v. 5,7,10,15).18 Os amigos de Daniel são os protagonistas. O narrador os descreve como verdadeiros israelitas que se recusam a se curvar e adorar outros deuses e bravamente sofrem as consequências. Ele os descreve como sendo “atados com os seus mantos, suas túnicas e chapéus e suas outras roupas” (v. 21) – que se inflamariam rapidamente. Também, quando foram examinados depois, “o fogo não teve poder algum sobre os corpos destes homens; nem foram chamuscados os cabelos da sua cabeça, nem os seus mantos se mudaram, nem cheiro de fogo passara sobre eles” (v. 27). No final, o rei os descreve como confiantes em seu Deus, desobedecendo à ordem do rei, e “preferindo entregar o seu corpo a servirem e adorarem a qualquer outro deus, senão ao seu Deus” (v. 28).19 A única fala deles na narrativa (v. 16-18) mostra-os como israelitas fiéis, corajosos, que escolheram a possibilidade de morte em vez de servirem aos deuses do rei e adorarem sua imagem de ouro. Repetição A repetição também pode nos ajudar a discernir onde o narrador deseja colocar a tônica. Nove vezes ele repete que Nabucodonosor “fez/tinha levantado/levantou” uma imagem de ouro (v. 1,2,3 [2x],5,7,12,14,18). Três vezes o narrador repete a frase “povos, nações e homens de todas as línguas” (v. 4,7,29 no singular): Nabucodonosor exige submissão universal. O narrador repete os termos “prostrar e adorar” cinco vezes (v. 5,6,10,11,15). Ele esclarece o significado de prostrar-se diante da imagem, ligando quatro vezes adorar a imagem de ouro com o servir (pelāʾ) aos deuses do rei (v. 12,14,18,28). Ele usa a mesma palavra, pelāʾ, para servir ao Deus de Israel (v. 17). Ele menciona “a fornalha de fogo ardente” nove vezes (v. 6, 11, 15, 17, 20, 21, 22, 23, 26). Treze vezes ele cita “Sadraque, Mesaque e Abede- Nego” (v.12,13,14,16,19,20,22,23,26 [2x],28,29,30). Três vezes o narrador nos informa que eles “foram atados” (v. 21,23,24), levando à sua reversão maravilhosa no fogo: “soltos” (v. 25). O mais importante para detectar o tema desta narrativa é a repetição da palavra “livrar”; o rei faz a pergunta retórica: “E quem é o deus que vos poderá livrar (shêzāb) das minhas mãos?” (v. 15); os amigos de Daniel duas vezes repetem a palavra “livrar”: “Se o nosso Deus, a quem servimos, quer livrar-nos, ele nos livrará da fornalha de fogo ardente e das tuas mãos, ó rei” (v. 17). Finalmente, o rei reconhece, com uma palavra aramaica diferente, que “não há outro deus que possa livrar (neṣal) como este” (v. 29). Lucas propõe uma estrutura quiástica para esta narrativa: A Nabucodonosor decreta a adoração da imagem de ouro (1-7) B Os judeus acusados (8-12) C Os judeus ameaçados (13-15) D Os judeus confessam a sua fé (16-18) C’ Os judeus punidos (19-23) B’ Os judeus vindicados (24-27) A’ O decreto de Nabucodonosor honrando os judeus e seu Deus (28-30) Lucas observa: “Isso mostra uma estrutura quiástica que destaca as palavras ditas por Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, nos versículos 16-18, que são as únicas palavras que eles falam em toda a história. Este é claramente um ponto-chave na história.”20 Interpretação teocêntrica Uma vez que Deus é mencionado cinco vezes na última metade da narrativa (v. 17,26,28 [2x],29), parece que a ênfase teocêntrica está concentrada nessa última metade. Mas, compreendido corretamente, o foco teocêntrico é evidente desde o início. Na narrativa precedente, o rei Nabucodonosor disse a Daniel: “Certamente, o vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos reis” (2.47). Talvez devido à passagem do tempo (veja p. 115, nota 37), o rei tenha se esquecido desta maravilhosa confissão, pois, em Daniel 3, eledesafia diretamente “o Deus dos deuses, e o Senhor dos reis”. Em qualquer caso, o orgulho do rei leva a melhor sobre ele. Ele fez uma imagem de ouro e ordenou que todos os “povos, nações e homens de todas as línguas” se curvassem e adorassem a imagem – o que implica a não servir “o Deus dos deuses”, mas os deuses do rei (veja 3.12,14,18,28). Todos os oficiais das várias províncias babilônicas obedecem, à exceção dos três amigos de Daniel, que se recusam a servir aos deuses do rei (3.12,14). O rei pergunta arrogantemente: “E quem é o deus que vos poderá livrar das minhas mãos?” (3.15). O rei, que derrotou Israel e o seu Deus (1.2), acha que ele (e seus deuses) é mais poderoso que o Deus de Israel. Os amigos de Daniel respondem: “Se o nosso Deus, a quem servimos, quer livrar-nos, ele nos livrará da fornalha de fogo ardente e das tuas mãos, ó rei.21 Se não, fica sabendo, ó rei, que não serviremos a teus deuses, nem adoraremos a imagem de ouro que levantaste” (3.17-18). Eles escolheram “o Deus dos deuses”. E quem é o deus que vos poderá livrar das minhas mãos? Mas o rei ainda se agarra à ideia de que ele, com seus deuses, é mais poderoso do que o Deus de Israel. Então, manda jogar os servos de Deus na fornalha de fogo ardente. Para grande espanto do rei, eles não são incinerados. Em vez disso, o rei relata: “Eu, porém, vejo quatro homens soltos, que andam passeando dentro do fogo, sem nenhum dano; e o aspecto do quarto é semelhante a um filho dos deuses” (3.25). Logo em seguida, o rei identifica esta quarta pessoa como um anjo enviado por Deus (3.28). Este milagre de salvação convence o rei, mais uma vez, que o Deus dos três homens é, de fato, “o Deus dos deuses”. Ele chama: “Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, servos do Deus Altíssimo, saí e vinde!” (3.26), e bendiz o Deus deles, “que enviou o seu anjo e livrou os seus servos, que confiaram nele” (3.28). O rei, então, decreta que “todo povo, nação e língua que disser blasfêmia contra o Deus de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego seja despedaçado, e as suas casas sejam feitas em monturo; porque não há outro deus que possa livrar como este” (3.29). Embora o rei continuasse politeísta, ele confessa que “não há outro deus que possa livrar como este”. O Deus de Israel é “o Deus dos deuses”, o único que pode libertar o seu povo de uma fornalha de fogo ardente. Tema e objetivo textual O enredo, as repetições e a interpretação teocêntrica parecem tornar a mensagem desta narrativa bastante fácil de discernir. Podemos formular o tema da seguinte forma: “Por intermédio de um anjo, Deus livra seus filhos fiéis da morte certa na fornalha ardente de Nabucodonosor”.22 Este é um bom resumo da narrativa, mas não é a mensagem que Israel iria ouvir. Ele também não consegue captar a tensão na história: “Se o nosso Deus... quer livrar-nos, ele nos livrará da fornalha de fogo ardente. Se não... não serviremos a teus deuses” (3.17-18). Os amigos levantam a questão sobre a capacidade de Deus salvá-los da fornalha ardente. Em seguida, corajosamente declaram que, mesmo que o seu Deus não queira livrá-los, eles não servirão aos deuses da Babilônia. A questão é sobre a recusa deles em servir a outros deuses.23 Significativamente, esta mensagem é dirigida aos israelitas que sofrem no exílio porque adoraram a outros deuses.24 A mensagem textualmente específica, portanto, é: Nosso Deus soberano é capaz de livrar seus filhos oprimidos que se recusam a servir a outros deuses – mesmo de uma fornalha de fogo ardente. Para determinar o objetivo do autor em proclamar esta mensagem, devemos novamente considerar as circunstâncias do público original. Os israelitas no exílio estavam sofrendo com o que Deus chamou de “fornalha da aflição” (Is 48.10; cf. Dt 4.20).25 Essas pessoas tinham ouvido falar que o rei Nabucodonosor tinha levado os utensílios da casa de Deus em Jerusalém e os colocado “na casa do tesouro do seu deus” (1.2; 605 a.C.). Eles também tinham ouvido falar que o rei havia retornado em 587 a.C. e tinha arrasado os muros de Jerusalém, queimado o santo templo de Deus e levado a maioria dos habitantes para o exílio. Ao que tudo indica, os deuses babilônicos haviam derrotado o Deus de Israel; eles pareciam ser muito mais poderosos do que o Senhor. Portanto, o primeiro objetivo do autor com esta narrativa era reafirmar ao povo oprimido de Deus no exílio que o Deus deles é soberano e capaz de livrá-los da fornalha do exílio. Mas provavelmente o autor tinha um segundo objetivo em mente também. Ele esboçou os amigos de Daniel como verdadeiros israelitas. Muito embora não tivessem certeza de que Deus os salvaria da fornalha de fogo ardente, eles corajosamente disseram ao rei: “Fica sabendo, ó rei, que não serviremos a teus deuses, nem adoraremos a imagem de ouro que levantaste” (3.18). Eles foram fiéis ao seu Deus e obedientes à sua lei: “Não as adorarás, nem lhes darás culto” (Êx 20.5). Mesmo com a morte à sua frente, eles permaneceram fiéis ao Deus da aliança. Nas palavras do rei, “não quiseram cumprir a palavra do rei, preferindo entregar o seu corpo, a servirem e adorarem a qualquer outro deus, senão ao seu Deus” (3.28). Os israelitas que ouviram esta história no exílio teriam se identificado com esses verdadeiros israelitas. Um segundo objetivo desta narrativa, portanto, era encorajar o povo de Deus no exílio a não servir outros deuses, mesmo que tal recusa pudesse resultar em morte.26 Maneiras de pregar a Cristo À primeira vista, a pregação de Cristo a partir de Daniel 3 parece bastante simples. Pregadores, passados e atuais, muitas vezes identificaram a quarta pessoa na fornalha ardente como uma aparição do Cristo pré-encarnado.27 Mesmo que essa interpretação seja linguisticamente possível – muitos comentaristas pensam que não é28 – ela por si só não faz um sermão cristocêntrico. Ao contrário, pregar um sermão cristocêntrico é integrar a mensagem de texto do Antigo Testamento com o clímax da autorrevelação de Deus em seu Filho, Jesus, no Novo Testamento.29 Como, então, vamos avançar com esta mensagem para a pessoa, obra, e/ou ensino de Jesus Cristo no Novo Testamento? Como não há nenhuma promessa da vinda do Messias nesta narrativa, nem um contraste com a mensagem do Novo Testamento, vamos verificar as cinco maneiras restantes. Progressão histórico-redentiva A progressão histórico-redentiva oferece uma boa opção. No início da história da redenção, Deus enviou seu anjo para libertar seu povo de Israel da escravidão no Egito (Êx 14.19). Moisés chamou o Egito de “fornalha de ferro” (Dt 4.20; cf. 1Rs 8.51; Jr 11.4). Mais tarde, Deus prometeu libertar seu povo do exílio babilônico (Is 43.1-7), que ele chamou de “fornalha da aflição” (Is 48.10,20). Enquanto Israel estava no exílio, Deus enviou seu anjo para livrar Sadraque, Mesaque e Abede-Nego da fornalha de fogo ardente de Nabucodonosor. Na plenitude dos tempos, Deus enviou seu único Filho para salvar seu povo da fornalha do inferno. Jesus disse que, no fim dos tempos, “Mandará o Filho do Homem os seus anjos, que ajuntarão do seu reino todos os escândalos e os que praticam a iniquidade e os lançarão na fornalha acesa;30 ali haverá choro e ranger de dentes. Então, os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai. Quem tem ouvidos [para ouvir], ouça” (Mt 13.42-43). Tipologia A tipologia oferece outra opção para irmos a Jesus Cristo. Na história da interpretação e da pregação cristã, a quarta pessoa que se juntou aos três amigos na fornalha ardente tem sido muitas vezes identificada com o Cristo pré-encarnado.31 Mas esta identificação repousa sobre uma base fraca, pois o texto não fala do Anjo do Senhor, mas de “o aspecto... é semelhante a um filho dos deuses” e “anjo” de Deus (3.25,28). Uma defesa melhor pode ser ver o anjo como um tipo de Cristo.32 Jerônimo considera o anjo como “uma prefiguração tipológica de Cristo”.33 Observe as analogias e escalações: como o anjo representa a presença de Deus com o seu povo, também Jesus representa a presença de Deus com o seu povo – só que de uma forma mais direta: o próprioFilho de Deus conosco, o Emanuel, “Deus conosco” (Mt 1.23). Assim como o anjo salvou os três amigos de queimarem na “fornalha de fogo ardente”, também Jesus salva o povo de Deus de queimar na “fornalha acesa” do fogo eterno (Mt 13.42-43; cf. Jo 3.16). Talvez pensando nessa história da fornalha de fogo ardente,34 Jesus chama o inferno de “fornalha acesa; ali haverá choro e ranger de dentes” (Mt 13.42). Além disso, embora o anjo tenha salvado os três amigos da morte, eles ainda iriam morrer num momento posterior. Mas Jesus salva o povo de Deus da morte para nunca morrer novamente. Jesus diz: “Todo o que vive e crê em mim não morrerá, eternamente” (Jo 11.26). Além disso, embora o anjo tenha se juntado aos amigos na fornalha, ele não deu a sua vida para salvá-los. Jesus entrou para a humanidade e deu a sua própria vida para salvar o povo de Deus. Analogia Pode-se também usar a analogia como um caminho para Cristo no Novo Testamento. Assim como Nabucodonosor tentou os amigos de Daniel, “prostrai-vos e adorai a imagem que fiz”, assim também o diabo tentou Jesus: “Mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a glória deles e lhe disse: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares”.35 Os amigos de Daniel disseram ao rei: “não serviremos a teus deuses” (Dn 3.18). Jesus disse ao diabo: “Retira-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a ele darás culto” (Mt 4.9-10). Pode-se, também, elaborar uma analogia a partir do objetivo do autor. Como o objetivo do autor era incentivar o povo de Deus no exílio a não servir a outros deuses, mesmo que tal recusa pudesse resultar em morte, igualmente Jesus exortou seus seguidores a serem fiéis até a morte. Pode-se apoiar essa analogia com os ensinamentos de Jesus: “Eis que eu vos envio como ovelhas para o meio de lobos... por minha causa sereis levados à presença de governadores e de reis, para lhes servir de testemunho, a eles e aos gentios... Sereis odiados de todos por causa do meu nome; aquele, porém, que perseverar até ao fim, esse será salvo” (Mt 10.16-22). E, novamente, “Digo-vos ainda: todo aquele que me confessar diante dos homens, também o Filho do Homem o confessará diante dos anjos de Deus; mas o que me negar diante dos homens será negado diante dos anjos de Deus” (Lc 12.8-9). Jesus também disse: “Quem ama a sua vida perde-a; mas aquele que odeia a sua vida neste mundo preservá-la-á para a vida eterna. Se alguém me serve, siga-me, e, onde eu estou, ali estará também o meu servo. E, se alguém me servir, o Pai o honrará” (Jo 12.25-26). Temas longitudinais Pode-se, também, traçar do Antigo para o Novo Testamento o tema da presença de Deus com seu povo, a fim de livrá-lo. Deus estava com José quando ele chegou como um escravo no Egito, livrou-o da prisão e o colocou em um alto cargo (Gn 39.2,23; 41.38-40). Deus também estava com Moisés quando ele o mandou de volta ao Egito para libertar seu povo (Êx 3.12). Deus mostrou sua presença no Egito com sinais e prodígios e libertou a Israel (Êx 7-12, 15). Deus, na forma de seu anjo, estava com Sadraque, Mesaque e Abede-Nego na fornalha ardente e os livrou (Dn 3.25). Posteriormente, na cova dos leões, Daniel disse: “O meu Deus enviou o seu anjo e fechou a boca aos leões, para que não me fizessem dano” (Dn 6.22). Por intermédio de Sofonias, Deus prometeu: “O SENHOR, teu Deus, está no meio de ti, poderoso para salvar-te... naquele tempo, procederei contra todos os que te afligem... Naquele tempo, eu vos farei voltar e vos recolherei” (Sf 3.17-20). Finalmente, Deus mostrou a sua presença entre nós, vindo à Terra em seu Filho, Emanuel, “Deus conosco” (Mt 1.23). Um anjo disse a José para chamar a criança de “Jesus, porque ele salvará o seu povo dos pecados deles” (Mt 1.21). Paulo escreve que Deus “nos libertou do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor, no qual temos a redenção, a remissão dos pecados” (Cl 1.13-14). Referências no Novo Testamento O apêndice do Novo Testamento grego relaciona umas dezessete referências ou alusões a versículos ou frases em Daniel 3, mas apenas algumas delas, como Mateus 13.42,50 (citado acima), são úteis para passar de Daniel 3 a Jesus Cristo no Novo Testamento. Uma concordância tópica, no entanto, vai levar a outras citações do Novo Testamento que podem ser usadas no sermão. Ao falar da perseguição iminente, Jesus disse aos seus discípulos: “Digo- vos, pois, amigos meus: não temais os que matam o corpo e, depois disso, nada mais podem fazer. Eu, porém, vos mostrarei a quem deveis temer: temei aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno. Sim, digo-vos, a esse deveis temer. Não se vendem cinco pardais por dois asses? Entretanto, nenhum deles está em esquecimento diante de Deus. Até os cabelos da vossa cabeça [‘nem foram chamuscados os cabelos da sua cabeça’; Dn 3.27] estão todos contados. Não temais! Bem mais valeis do que muitos pardais” (Lc 12.4-7). Paulo sofreu perseguição e ainda assim desejava permanecer fiel a Cristo. Ele escreveu aos cristãos de Filipos: “Segundo a minha ardente expectativa e esperança de que em nada serei envergonhado; antes, com toda a ousadia, como sempre, também agora, será Cristo engrandecido no meu corpo, quer pela vida, quer pela morte. Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o morrer é lucro” (Fp 1.20-21). Pedro encorajou os cristãos que sofriam perseguição: “Santificai a Cristo, como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós, fazendo-o, todavia, com mansidão e temor, com boa consciência” (1Pe 3.15-16). Pedro pode ter tido a fornalha de fogo ardente em mente quando escreveu: “Amados, não estranheis o fogo ardente que surge no meio de vós, destinado a provar-vos, como se alguma coisa extraordinária vos estivesse acontecendo; pelo contrário, alegrai-vos na medida em que sois coparticipantes dos sofrimentos de Cristo, para que também, na revelação de sua glória, vos alegreis exultando. Se, pelo nome de Cristo, sois injuriados, bem-aventurados sois, porque sobre vós repousa o Espírito da glória e de Deus” (1Pe 4.12-14; cf. 1Pe 1.6-7). O próprio Senhor ressurreto encorajou a igreja perseguida em Esmirna: “Não temas as coisas que tens de sofrer. Eis que o diabo está para lançar em prisão alguns dentre vós, para serdes postos à prova, e tereis tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida. Quem tem ouvidos, ouça o que o Espírito diz às igrejas: O vencedor de nenhum modo sofrerá dano da segunda morte” (Ap 2.10-11). Tema, objetivo e necessidade do sermão Formulamos o tema textual como: “Nosso Deus soberano é capaz de livrar os seus filhos oprimidos que se recusam a servir a outros deuses, mesmo de uma fornalha de fogo ardente”. Visto que o Novo Testamento confirma o poder de Deus para salvar, podemos manter o mesmo tema para o sermão, interpretando a fornalha de fogo ardente tanto no sentido literal quanto metafórico: O nosso Deus soberano é capaz de livrar seus filhos oprimidos que se recusam a servir outros deuses, mesmo de uma fornalha de fogo ardente. Concluímos que o autor provavelmente tinha um duplo objetivo em mente: “Tranquilizar o povo de Deus oprimido no exílio e reassegurar que o Deus de Israel é soberano e é capaz de livrá-los da fornalha do exílio” e “encorajar o povo de Deus no exílio a não servir a outros deuses, mesmo que tal recusa possa resultar em morte”. Em um sentido muito real, a igreja de Cristo hoje também está no exílio, pois os reinos deste mundo não são o nosso lar, mas o reino de Deus é. Jesus disse claramente: “O meu reino não é deste mundo” (Jo 18.36) e “Eles [meus discípulos] não são do mundo, como também eu não sou, não pertencem ao mundo, assim como eu não pertenço ao mundo” (Jo 17.16). Paulo escreve: “A nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Fp 3.20; cf. Rm 12.2 e 2Co 5.1-9). Jesus prometeu: “Na casa de meu Pai há muitas moradas... E, quando eu for e vos preparar lugar, voltareie vos receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também” (Jo 14.2-3). Visto que o povo de Deus neste mundo ainda está no “exílio”, apenas uma ligeira mudança fará com que do objetivo textual duplo seja objetivo duplo do sermão: reassegurar ao povo de Deus, hoje, que o nosso Deus é soberano e capaz de nos livrar da fornalha de “exílio” hoje, e encorajar o povo de Deus a não servir a outros deuses, mesmo que tal recusa possa resultar em morte.36 Este objetivo duplo aponta para uma necessidade dupla a ser abordada. Por um lado, o povo de Deus pode ser muito pequeno: ele pode duvidar de que Deus é “poderoso para salvar”, mesmo da morte certa. Por outro lado, as pessoas podem estar servindo a deuses modernos, como o materialismo, o consumismo, e/ou o hedonismo. Pode-se começar a introdução do sermão ilustrando essa dupla necessidade da sociedade contemporânea com a história de uma pessoa que não tem esperança em Deus para o futuro e, portanto, vive totalmente para o prazer no aqui e agora. Em seguida, pergunte se esta atitude contemporânea também se infiltrou na igreja. Em seguida, relacione como Israel no exílio tendia a pensar que os deuses babilônicos haviam derrotado o Deus de Israel (o Deus deles era muito pequeno) e que eles se sentiam tentados a adorar esses deuses babilônicos. Então reconte a história dos amigos de Daniel, suspendendo-a aqui e ali para explicação, vá para Cristo e faça a aplicação. Em uma série de sermões, no entanto, pode-se também dispensar uma apresentação formal do sermão e começar imediatamente com a narrativa depois de um curto parágrafo, relacionando-a com a última narrativa. Na exposição do sermão abaixo, vou demonstrar esta possibilidade. Exposição do sermão Na última vez em que ouvimos falar do rei Nabucodonosor, ele estava realmente impressionado com a capacidade do Deus de Daniel de relatar- lhe seu sonho sobre a enorme estátua com a cabeça de ouro. Ele ficou ainda mais impressionado com a interpretação: “Tu [Nabucodonosor] és a cabeça de ouro” (2.38). O rei disse a Daniel: “Certamente, o vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos reis” (2.47). Então o rei havia promovido Daniel a governador de toda a província da Babilônia, cuja sede era na corte do rei, na cidade da Babilônia. E os amigos de Daniel, Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, tornaram-se administradores sobre a província da Babilônia (2.48-49). É aí que essa história sobre os amigos de Daniel começa. Muitos anos se passaram.37 Aparentemente o rei se esquecera de sua maravilhosa confissão: “Certamente, o vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos reis” (2.47). Não sei se por velhice ou apenas esquecimento normal, a memória do rei era curta. Ele tinha sido muito bem-sucedido em expandir seu império. Contudo, nem tudo correu bem. No ano de 594 a.C., ele teve que reprimir uma rebelião na Babilônia. Ele também teve de fazer “uma viagem pelas suas províncias ocidentais para cobrar os tributos de seus vassalos” e manter e acalmar as coisas.38 Ele não queria deixar seu império se esfacelar. O fato de ele ser a cabeça de ouro da estátua deve ter lhe subido à cabeça. Ele quer ser mais do que apenas uma cabeça de ouro. Ele quer ser uma estátua inteira de ouro.39 Ele quer que seu império dure eternamente. Lemos no capítulo 3.1: “O rei Nabucodonosor fez uma imagem de ouro que tinha sessenta côvados de altura e seis de largura; levantou-a no campo de Dura,40 na província da Babilônia”. Sessenta côvados equivalem aproximadamente a vinte e sete metros de altura - a altura de um prédio de nove andares. Isso provavelmente incluía a base em que ela estava. Mas a estátua tinha apenas seis côvados de largura, dois metros e setenta. Isso faz com que estudiosos pensem que a estátua era um pilar alto, parcialmente esculpido, talvez com o busto de um ser humano.41 Podemos imaginar a estátua como uma coluna da altura de nove andares com uma figura esculpida na parte superior. A estátua inteirinha era revestida em ouro. A estátua de ouro inteira representava o grande rei Nabucodonosor,42 bem como seus deuses.43 Só a cabeça de ouro nada! Nove vezes44 este capítulo repete que Nabucodonosor “fez/levantou” esta estátua de ouro. No capítulo 2, Daniel disse ao rei que o Deus do céu é que lhe tinha dado o reino (2.37), mas este seria substituído por um reino de prata; em seguida, por um reino de bronze, e, finalmente, por um de ferro, com pés de ferro e barro. Bem, o rei não ia esperar para ver sua dinastia derrubada. Ele desafiou o Deus do céu. Ele fabricou a sua própria estátua, inteiramente de ouro, e, certamente, sem pés de barro. Curiosamente, o rei levantou sua estátua “na província da Babilônia”. Esse é o lugar (Sinar) onde as pessoas, há muito tempo, construíram a torre de Babel. Disseram: “Vinde, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre cujo tope chegue até aos céus e tornemos célebre o nosso nome, para que não sejamos espalhados por toda a terra” (Gn 11.4). O mesmo orgulho impulsiona o rei Nabucodonosor: “Eu vou fazer um nome para mim mesmo”. A mesma motivação também o move: ele não vai permitir que seu império desmorone. A estátua de ouro servirá para unificar o seu reino. Versículo 2: “Então, o rei Nabucodonosor mandou ajuntar os sátrapas, os prefeitos, os governadores, os juízes, os tesoureiros, os magistrados, os conselheiros e todos os oficiais das províncias, para que viessem à consagração da imagem que o rei Nabucodonosor tinha levantado”. As autoridades estão listadas na ordem de importância. Elas devem vir de todas as províncias da Babilônia. A esta altura, Nabucodonosor tinha conquistado muitas nações, cada uma com a sua própria cultura e língua. O perigo de revoluções é bem real, elas podem explodir e desintegrar seu império. Assim, o rei precisa de algo que solidifique a unidade do seu império. Ele precisa de uma demonstração concreta da lealdade de todos estes diversos povos a ele, o grande rei Nabucodonosor.45 Portanto, ele ordena a todos estes oficiais que venham à consagração da sua gigante estátua de ouro. E eles vêm. Versículos 3 a 6: “Então, se ajuntaram os sátrapas, os prefeitos, os governadores, os juízes, os tesoureiros, os magistrados, os conselheiros e todos os oficiais das províncias, para a consagração da imagem que o rei Nabucodonosor tinha levantado; e estavam em pé diante da imagem que Nabucodonosor tinha levantado. Nisto, o arauto apregoava em alta voz: Ordena-se a vós outros, ó povos,46 nações e homens de todas as línguas: no momento em que ouvirdes o som da trombeta, do pífaro, da harpa, da cítara, do saltério, da gaita de foles e de toda sorte de música,47 vos prostrareis e adorareis a imagem de ouro que o rei Nabucodonosor levantou. Qualquer que se não prostrar e não a adorar será, no mesmo instante, lançado na fornalha de fogo ardente.” Eles todos tinham de se prostrar com o rosto no chão e adorar a estátua. A estátua representava o rei e seus deuses. Adorar a estátua de ouro era o mesmo que adorar os deuses da Babilônia. Quem se recusar a fazê-lo será lançado imediatamente na fornalha de fogo ardente. As autoridades sabem que essa não é uma ameaça vã. A punição de queimar pelo fogo era muito comum no mundo antigo.48 Jeremias cita dois indivíduos “os quais o rei da Babilônia assou no fogo”.49 Não muito longe da estátua, os oficiais podem ver a fornalha de fogo ardente, expelindo fumaça para o claro céu azul. A fornalha provavelmente fora usada para queimar os tijolos,50 necessários para construir a base e a estrutura da estátua. A fornalha devia ter sido em forma de cone, como as usinas de energia nuclear hoje.51 Uma grande abertura no topo criava uma corrente de ar forte e permitia a adição de combustível para o fogo, enquanto uma abertura menor na parte inferior permitia extrair os tijolos queimados. A fornalha provavelmente se situava próximo de uma encosta, de modo que o combustível podia ser adicionado através da abertura superior. Isso lhe dava a vantagem adicional de que, caso alguém se recusasse a se ajoelhar e adorar a estátua, poderiaser imediatamente jogado para baixo através da parte superior da fornalha.52 Versículo 7: “Portanto, quando todos os povos ouviram o som da trombeta, do pífaro, da harpa, da cítara, do saltério e de toda sorte de música, se prostraram os povos, nações e homens de todas as línguas e adoraram a imagem de ouro que o rei Nabucodonosor tinha levantado”. “O original diz literalmente: ‘tão logo começaram a ouvir, eles se jogaram no chão’. Houve resposta completa e imediata.”53 Como robôs sem cérebro, todos os oficiais se prostraram e adoraram a estátua de ouro e os deuses babilônicos que ela representava. Quando o rei olhou para a planície de Dura, tudo o que ele podia ver era uma massa de pessoas deitadas de bruços diante da estátua de ouro que ele tinha fabricado. O rei ficou satisfeito: missão cumprida. Mas a alegria dele durou pouco. O versículo 8 diz que “no mesmo instante, se chegaram alguns homens caldeus [os astrólogos]54 e acusaram os judeus”. Literalmente, o texto diz que os astrólogos “comeram pedaços dos judeus”. Podemos dizer que “eles fizeram picadinho” desses judeus.55 Eles tinham inveja dos três judeus. Eles odiavam esses estrangeiros que o rei havia colocado acima deles. Eles queriam devorá-los. Finalmente, têm a evidência que iria destruir os judeus. Os três judeus certamente serão jogados na fornalha de fogo ardente e serão queimados vivos. Versículos 9 a 12: “[Os caldeus] disseram ao rei Nabucodonosor: Ó rei, vive eternamente! Tu, ó rei, baixaste um decreto pelo qual todo homem que ouvisse o som da trombeta, do pífaro, da harpa, da cítara, do saltério, da gaita de foles e de toda sorte de música se prostraria e adoraria a imagem de ouro; e qualquer que não se prostrasse e não adorasse seria lançado na fornalha de fogo ardente. Há uns homens judeus, que tu constituíste sobre os negócios da província da Babilônia: Sadraque, Mesaque e Abede-Nego; estes homens, ó rei, não fizeram caso de ti, a teus deuses não servem, nem adoram a imagem de ouro que levantaste.” Estas acusações são graves. Esses amigos de Daniel,56 “estes homens, ó rei, não fizeram caso de ti, a teus deuses não servem, nem adoram a imagem de ouro que levantaste”. Claramente adorar a estátua de ouro equivale a servir aos deuses do rei.57 Literalmente, eles dizem: “Eles não servem aos seus deuses, e a sua estátua de ouro que você levantou eles não adoram”. “A colocação enfática de ‘seus deuses’ na acusação... destaca que o que está em jogo não é apenas a autoridade civil (o poder real do rei), mas a lealdade religiosa e a crença teológica”.58 Esta é uma rebelião perigosa nos mais altos escalões. Os amigos de Daniel não só desobedeceram à ordem do grande rei, mas rejeitaram também seus deuses. De acordo com seu edital, eles deveriam ser imediatamente jogados na fornalha de fogo ardente. Os astrólogos têm seus rivais exatamente onde eles querem. Eles ainda citam a punição ameaçada do rei: “Qualquer que se não prostrar e não a adorar será, no mesmo instante, lançado na fornalha de fogo ardente”. Eles têm um caso blindado. Versículos 13 e 14: “Então, Nabucodonosor, irado e furioso, mandou chamar Sadraque, Mesaque e Abede-Nego. E trouxeram estes homens perante o rei. Falou Nabucodonosor e lhes disse: É verdade, ó Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, que vós não servis a meus deuses, nem adorais a imagem de ouro que levantei?”.59 “É verdade?” O rei parece não confiar nos acusadores. Ele conhece as invejas profissionais. Ele não vai jogar estes sábios judeus imediatamente no fogo ardente. Ele vai dar-lhes outra chance. Ele vai mandar a sua orquestra tocar a música de novo, somente para os três. Versículo 15: “Agora, pois, estai dispostos e, quando ouvirdes o som da trombeta, do pífaro, da cítara, da harpa, do saltério, da gaita de foles, prostrai-vos e adorai a imagem que fiz; porém, se não a adorardes, sereis, no mesmo instante, lançados na fornalha de fogo ardente. E quem é o deus que vos poderá livrar das minhas mãos?”. Se você fosse um israelita no exílio, neste ponto da história você estaria roendo as unhas. O que os amigos de Daniel vão fazer? Seria tão fácil apenas cair de joelhos diante da estátua – com reservas, é claro. Eles não têm que tomar isto como verdadeira adoração. A estátua não é um deus de verdade, de qualquer maneira. Se eles podem curvar-se diante dela e salvar a vida, por que não? Não vai fazer mal a ninguém... Mas, então, há o mandamento de Deus: “Não as adorarás [os ídolos], nem lhes darás culto” (Êx 20.5; cf. Dt 6.13). O que eles vão fazer? Se obedecerem ao mandamento de Deus, o rei vai jogá-los na fornalha de fogo ardente imediatamente. A pergunta do rei ecoa em sua mente: “E quem é o deus que vos poderá livrar das minhas mãos?”. O rei acredita que a resposta é óbvia. Nenhum deus! Nenhum deus pode – nenhum deus irá – livrá-los de suas mãos porque nenhum deus é maior do que o rei Nabucodonosor.60 Nenhum deus pode salvá-los do fogo ardente. Versículo 16: “Sadraque, Mesaque e Abede-Nego responderam ao rei: “Ó Nabucodonosor, quanto a isto [nós]61 não necessitamos de te responder”. Mais literalmente, eles dizem: “Ó Nabucodonosor, não precisamos dar uma resposta sobre esse assunto”. A “questão” é a declaração do rei de que nenhum deus pode livrá-lo de suas mãos.62 Os amigos de Daniel não precisam contestar essa afirmação; somente o Deus a quem eles servem pode respondê-la. Eles continuam nos versículos 17 a 18: “Se o nosso Deus, a quem servimos, quer livrar-nos, ele nos livrará da fornalha de fogo ardente e das tuas mãos, ó rei. Se não,63 fica sabendo, ó rei, que não serviremos a teus deuses, nem adoraremos a imagem de ouro que levantaste.” Aparentemente, os amigos de Daniel não têm certeza se o Deus deles é capaz de livrá-los do inferno que veem diante de si.64 Isso não é surpreendente, visto que, no passado, Deus nunca havia livrado pessoas de um fogo ardente literal. Deus tinha feito muitos milagres para libertar o seu povo do Egito, mas livrá-los de um fogo em brasa não foi um deles. Tampouco Deus os tinha livrado da fornalha do exílio babilônico. Então, eles não têm certeza. Se ele puder, que Deus os livre. “Se não”, eles bravamente dizem ao rei: “não serviremos a teus deuses, nem adoraremos a imagem de ouro que levantaste”. A incerteza deles sobre a capacidade de Deus livrá-los do fogo faz com que a lealdade deles a Deus seja ainda mais impressionante. Eles obedecem à lei de Deus não porque sabem que ele os livrará. Eles obedecem à lei de Deus porque isso será recompensado, porque Deus os recompensará por sua lealdade.65 Eles obedecem a Deus simplesmente por causa da fidelidade deles a Deus. Seu Deus livrou seus antepassados da escravidão no Egito, fez um pacto com eles e lhes deu sua lei sagrada: “Não farás para ti imagem de escultura... Não as adorarás, nem lhes darás culto” (Êx 20.4-5). Eles vão ser leais e fiéis ao Deus da aliança, não importa o que aconteça. Eles não vão adorar os deuses da Babilônia. Ao ouvir o testemunho ousado, lemos nos versículos 19 e 20: “Então, Nabucodonosor se encheu de fúria e, transtornado o aspecto do seu rosto contra Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, ordenou que se acendesse a fornalha sete vezes mais do que se costumava. Ordenou aos homens mais poderosos que estavam no seu exército que atassem a Sadraque, Mesaque e Abede-Nego e os lançassem na fornalha de fogo ardente.” O rei está com tanta raiva que ordena que aqueçam a fornalha “sete vezes mais do que se costumava”, ou seja, o mais quente possível.66 E depois ordenou que alguns dos seus soldados mais fortes amarrassem os três amigos e os jogassem na abertura do topo da fornalha de fogo ardente. Versículo 21: “Então, estes homens foram atados com os seus mantos, suas túnicas e chapéus e suas outras roupas e foram lançados na fornalha sobremaneira acesa”. O rei estava tão com pressa em punir os três rebeldes que não houve nem mesmo tempo de tirar as roupas deles. Completamente vestidos, eles são amarrados e jogados na fornalha incandescente. Suas roupas vão pegar fogo imediatamente. E, estando amarrados,eles não podem fugir pela abertura inferior da fornalha. Não há absolutamente nenhuma maneira de escapar. O versículo 22 destaca que não há escapatória possível para os três amigos: “Porque a palavra do rei era urgente e a fornalha estava sobremaneira acesa, as chamas do fogo mataram os homens que lançaram de cima para dentro a Sadraque, Mesaque e Abede-Nego”. Aparentemente as chamas lambiam para fora da abertura do topo da fornalha. Elas chegaram a matar os soldados fortes que atiraram para baixo os três amigos na fornalha.67 E então acontece, versículo 23: “Estes três homens, Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, caíram atados dentro da fornalha sobremaneira acesa”. Que tragédia! As únicas pessoas fiéis a Deus caem no fogo em brasa. E elas estão amarradas. Deus prometeu em Isaías (43.2): “Quando passares pelas águas, eu serei contigo; quando, pelos rios, eles não te submergirão; quando passares pelo fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti”. Mas isto era linguagem figurada. Será que os três amigos não se queimarão? Será que a chama não os consumirá do mesmo modo que consumiu os soldados superfortes? Ao ponderar esta questão, o narrador conduz nosso olhar para o rei, que está olhando através da abertura na parte inferior do forno. O rei quer ver os rebeldes queimarem. Versículos 24 e 25: “Então, o rei Nabucodonosor se espantou, e se levantou depressa, e disse aos seus conselheiros: Não lançamos nós três homens atados68 dentro do fogo? Responderam ao rei: É verdade, ó rei. Tornou ele e disse: Eu, porém, vejo quatro homens soltos, que andam passeando dentro do fogo, sem nenhum dano; e o aspecto do quarto é semelhante a um filho dos deuses.” O que estava acontecendo? Três homens foram lançados ao fogo. Agora, há quatro. Os três estavam amarrados. Agora eles estão “soltos, que andam passeando dentro do fogo”, Além disso, eles estavam “sem nenhum dano” na fornalha, enquanto seus soldados mais fortes foram incinerados fora da fornalha. “E o aspecto do quarto é semelhante a um filho dos deuses”.69 Quem é a quarta pessoa? No versículo 28, o rei explicará que Deus enviou seu anjo para livrar seus servos.70 Será que Deus faz uso de anjos para proteger o seu povo? E pode este Deus livrar os seus servos, mesmo de um fogo ardente? Note que o rei vê “quatro homens soltos, que andam passeando dentro do fogo”. “O texto não dá nenhuma indicação de os três homens serem resgatados do fogo. Ao contrário, a história é que eles estão acompanhados por ser divino no meio do fogo. Os três homens se deparam com presença divina no meio do fogo”.71 O rei corre até a porta da fornalha. Versículo 26: “Então, se chegou Nabucodonosor à porta da fornalha sobremaneira acesa, falou e disse: Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, servos do Deus Altíssimo, saí e vinde!”. Observe que o rei chama Deus de “o Deus Altíssimo” novamente. “Então, Sadraque, Mesaque e Abede-Nego saíram do meio do fogo”. Eles realmente caminharam e saíram do fogo infernal. Mas eles estão feridos? O rei, olhando pela abertura para o fogo, pensa que não estavam feridos, mas não se pode ter certeza com tal fogo abrasador. Então ele chama alguns de seus oficiais novamente para examinar os três homens. Estes são os próprios oficiais que, ao som da música, haviam caído de joelhos e adorado automaticamente a imagem. Ironicamente, os idólatras irracionais agora se tornam as primeiras testemunhas de um milagre incrível operado pelo “Deus Altíssimo”. Versículo 27: “Ajuntaram-se os sátrapas, os prefeitos, os governadores e conselheiros do rei e viram que o fogo não teve poder algum sobre os corpos destes homens; nem foram chamuscados os cabelos da sua cabeça, nem os seus mantos se mudaram, nem cheiro de fogo passara sobre eles”. É simplesmente incrível. Os oficiais determinam que o fogo em brasa não tivera poder “sobre os corpos destes homens”. Não têm nenhuma queimadura de terceiro grau. Não têm queimadura nenhuma. E as roupas deles estavam intactas. “Nem cheiro de fogo passara sobre eles”. Quando você se senta perto de uma fogueira à noite, você ainda pode sentir o cheiro da fumaça em suas roupas na manhã seguinte. Aqui não havia nem mesmo o cheiro de fogo.72 É como se eles nunca tivessem estado perto do fogo. E “nem foram chamuscados os cabelos da sua cabeça”. Deus teve cuidado até com o cabelo da cabeça deles. No Novo Testamento, Jesus adverte seus seguidores sobre a perseguição iminente, mas assegura-lhes: “Contudo, não se perderá um só fio de cabelo da vossa cabeça” (Lc 21.18). Isso porque Deus é capaz de proteger seu povo até os mínimos detalhes. Em outra ocasião, Jesus diz: “Até os cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não temais!” (Lc 12.7). Os amigos de Daniel puderam testemunhar o fato de que Deus foi fiel à sua promessa em Isaías: “Quando passares pelo fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti” (Is 43.2). Deus salvou seus filhos fiéis até do fogo ardente. Deus mostrou ao rei Nabucodonosor quem está realmente no comando. O rei tinha se gabado: “E quem é o deus que vos poderá livrar das minhas mãos?”. O Deus de Israel livrou os três amigos das mãos do rei. Deus também poderia ter apagado o fogo, é claro. Mas ele estava com eles no fogo. Calvino escreve que Deus queria que o fogo “queimasse à vista de todos, para tornar o poder desta libertação mais visível”.73 A mensagem é clara: o Deus soberano de Israel é capaz de livrar seus filhos oprimidos que se recusam a servir a outros deuses. Ele é capaz de livrá-los mesmo de uma fornalha de fogo ardente. O Deus soberano de Israel livrou seus filhos fiéis ao longo de sua história.74 Mesmo antes de Israel se tornar uma nação, Deus enviou seu anjo (Êx 14.19) para libertar seu povo da escravidão no Egito. Moisés chamou o Egito “fornalha de ferro” (Dt 4.20). Quando Israel foi infiel a Deus servindo a outros deuses, Deus o enviou para o exílio na Babilônia. Deus chamou a Babilônia de “fornalha da aflição” (Is 48.10). Mas Deus prometeu libertar seu povo desta “fornalha”, também (Is 40.1-31; 48.20). Em Daniel 3, Deus demonstra sua capacidade de libertar seu povo, mesmo de uma fornalha de fogo literal. O anjo de Deus livrou os amigos de Daniel da fornalha de fogo ardente do rei. Esta história sobre a capacidade de Deus de salvar, mesmo de uma fornalha de fogo ardente, deu esperança a seu povo exilado: Deus é capaz de livrá-los da fornalha também do exílio. Eles conheciam os seus Salmos: “O anjo do SENHOR acampa-se ao redor dos que o temem e os livra” (Sl 34.7). E: “Nenhum mal te sucederá, praga nenhuma chegará à tua tenda. Porque aos seus anjos dará ordens a teu respeito, para que te guardem em todos os teus caminhos” (Sl 91.10-11). A libertação dos três amigos de Daniel por Deus era apenas um pequeno sinal da libertação que Deus traria alguns anos depois, quando Israel poderia voltar para a Terra Prometida. Na plenitude dos tempos, Deus enviou seu único Filho para salvar seu povo de outra fornalha de fogo ardente. A igreja de Cristo hoje também está no exílio. Os reinos deste mundo não são a nossa casa, mas o reino de Deus é. Jesus afirmou claramente: “O meu reino não é deste mundo” (Jo 18.36). Além disso, ele disse: “Eles [os meus seguidores] não são do mundo, como também eu não sou” (Jo 17.16). Paulo escreve: “Pois a nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Fp 3.20). Jesus prometeu: “Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim não fora, eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar. E, quando eu for e vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também” (Jo 14.2-3). Portanto, Jesus vai nos salvar de nosso exílio neste mundo pecaminoso. Mas Jesus vai nos salvar de uma “fornalha de fogo ardente” em um sentido ainda mais profundo. Ele disse que no final dos tempos “mandará o Filho do Homem os seus anjos, que ajuntarão do seu reino todos os escândalos e os que praticam a iniquidade e os lançarão na fornalha acesa;75 ali haverá choro e ranger de dentes. Então, os justos resplandecerãocomo o sol, no reino de seu Pai” (Mt 13.41-43). Jesus veio salvar seu povo do fogo do inferno e levá-lo para o reino de seu Pai. O Senhor ressurreto proclama no livro do Apocalipse: “Estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos dos séculos e tenho as chaves da morte e do inferno” (Ap 1.18). Nosso Salvador ressurreto pode salvar-nos do fogo do inferno e levar-nos para o reino de seu Pai. Quando o rei Nabucodonosor ouve que os três amigos estão em excelente forma, como se nunca tivessem estado no fogo de forma alguma, ele finalmente reconhece Deus novamente como “o Deus dos deuses”. Ele diz nos versículos 28 e 29: “Bendito seja o Deus de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, que enviou o seu anjo e livrou os seus servos, que confiaram nele, pois não quiseram cumprir a palavra do rei, preferindo entregar o seu corpo, a servirem e adorarem a qualquer outro deus, senão ao seu Deus. Portanto, faço um decreto pelo qual todo povo, nação e língua que disser blasfêmia contra o Deus de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego seja despedaçado, e as suas casas sejam feitas em monturo;76 porque não há outro deus que possa livrar como este.” Anteriormente, no versículo 15, o rei, arrogantemente, disse: “E quem é o deus que vos poderá livrar das minhas mãos?”. Os amigos de Daniel responderam com a condicional: “Se o nosso Deus... quer livrar-nos, ele nos livrará da fornalha de fogo ardente e das tuas mãos, ó rei”. Se ele for capaz.*77 Depois de testemunhar a libertação milagrosa de Deus, o rei declara: “Não há outro deus que possa livrar 78 como este”. O Deus de Israel é capaz de libertar seu povo, mesmo quando ele está numa fornalha de fogo ardente. Versículo 30: “Então, o rei fez prosperar a Sadraque, Mesaque e Abede- Nego na província da Babilônia”. A história acaba bem para os amigos de Daniel. Eles obedeceram ao seu Deus em vez de ao rei babilônico. Embora não tivessem certeza que Deus quisesse salvá-los da fornalha de fogo ardente, eles corajosamente disseram ao rei: “Se não, fica sabendo, ó rei, que não serviremos a teus deuses, nem adoraremos a imagem de ouro que levantaste” (3.18). Eles eram fiéis ao Deus da aliança e à sua lei: “Não as [as imagens] adorarás, nem lhes darás culto” (Êx 20.5). Mesmo enfrentando a morte, eles se recusaram a curvar-se aos ídolos da Babilônia. Nas palavras do rei, no versículo 28, “não quiseram cumprir a palavra do rei, preferindo entregar o seu corpo,79 a servirem e adorarem a qualquer outro deus, senão ao seu Deus”. Os amigos de Daniel eram verdadeiros israelitas: fiéis a Deus e à sua lei, nos bons e maus momentos. A fidelidade deles teria incentivado os israelitas no exílio a se recusarem a se curvar aos ídolos e a permanecerem fiéis ao seu Deus soberano até a morte. Esta história também nos encoraja a fugir da idolatria80 e a permanecermos fiéis a Deus até a morte. Os deuses modernos são diferentes dos deuses babilônicos, mas têm a mesma atração devastadora, mas sedutora. Na América do Norte, somos bombardeados com mensagens para perseguirmos riqueza e prazer, a vivermos isso, a vivermos para nós mesmos.81 Mas ceder a essas mensagens é sermos infiéis a Deus e à sua lei. Jesus disse que a essência da vida cristã é “amarás o Senhor, teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento... Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22.37-40). Algumas nações do mundo, como a antiga Babilônia, são estados policiais onde lealdade absoluta ao Estado é exigida. Amar a Deus com todo o seu coração resultará em perseguição e até a morte (veja Ap 13.11-18). Pedro pode ter tido a história da fornalha ardente em mente quando escreveu aos primeiros cristãos: “Amados, não estranheis o fogo ardente que surge no meio de vós, destinado a provar-vos, como se alguma coisa extraordinária vos estivesse acontecendo; pelo contrário, alegrai-vos na medida em que sois coparticipantes dos sofrimentos de Cristo, para que também, na revelação de sua glória, vos alegreis exultando. Se, pelo nome de Cristo, sois injuriados, bem-aventurados sois, porque sobre vós repousa o Espírito da glória e de Deus” (1Pe 4.12-14). O Espírito de Deus está conosco no meio do nosso sofrimento (cf. Rm 8.35-39). Deus pode não levar a perseguição e a dor para longe de nós, mas certamente estará conosco em nosso sofrimento. O próprio Senhor ressurreto incentivou a igreja perseguida em Esmirna: “Não temas as coisas que tens de sofrer. Eis que o diabo está para lançar em prisão alguns dentre vós, para serdes postos à prova, e tereis tribulação de dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida” (Ap 2.10). Pedro escreve sobre o último dia, o dia do Senhor, quando “os céus passarão com estrepitoso estrondo, e os elementos se desfarão abrasados” (2Pe 3.10). O mundo inteiro vai ser uma fornalha de fogo ardente da qual ninguém poderá escapar. O que vai acontecer com as pessoas que permaneceram fiéis a Deus, aquelas que se recusaram a servir outros deuses? Deus é capaz de salvá-las também desse fogo; ele as salvará. Pedro escreveu: “Nós, porém, segundo a sua promessa, esperamos novos céus e nova terra, nos quais habita justiça” (2Pe 3.13). O livro do Apocalipse ressoa essa boa notícia. Ele explica que as pessoas vestidas de branco são Os que vêm da grande tribulação, lavaram suas vestiduras e as alvejaram no sangue do Cordeiro, razão por que se acham diante do trono de Deus e o servem de dia e de noite no seu santuário; e aquele que se assenta no trono estenderá sobre eles o seu tabernáculo. Jamais terão fome, nunca mais terão sede, não cairá sobre eles o sol, nem ardor algum, pois o Cordeiro que se encontra no meio do trono os apascentará e os guiará para as fontes da água da vida. E Deus lhes enxugará dos olhos toda lágrima (Ap 7.14-17). 1 Duguid, Daniel, 50. Miller, Daniel, 120, se perde por causa de uma tradução questionável do versículo 17: “Aqui está uma lição pertinente para os crentes de hoje. Será que Deus tem todo o poder? Sim. Será que Deus é capaz de livrar os crentes de todos os problemas e provações? Sim. Mas Deus livra os crentes de todas as provações? Não...”. 2 Schwab, Daniel, 53. 3 A única questão é saber se 4.1-3, que é 3.31-33, no aramaico, conclui esta narrativa ou pertence à próxima narrativa. Parece claro que estes três versículos pertencem à próxima narrativa (veja p. 131– 32, abaixo). 4 Os pregadores católicos romanos terão de lidar com uma narrativa muito mais longa, visto que a Septuaginta e as versões da Vulgata inserem após 3.23 os versículos 24-90, que consistem de “A Canção de Azarias na Fornalha” e “A Canção dos Três Jovens”, de modo que a narrativa completa compõe-se de 97 versículos (veja p. ex., a Bíblia de Jerusalém). 5 Leupold, Exposition of Daniel, 165. 6 Por exemplo, Gammie, Daniel, 42-44, sugere um sermão em Dn 3.24-30 intitulado “O Holocausto: Passado e Presente”. 7 “O Deus dos judeus pode livrar; esta palavra temática reverbera sua primeira utilização na pergunta sarcástica do rei (v. 15) e no seu uso experimental, mas fiel, no testemunho dos judeus (v. 17). Ela vai reverberar novamente na prova de Daniel na cova dos leões no capítulo 6 e, finalmente, no momento da libertação divina universal (12.1)”. Towner, Daniel, 56. 8 Collins, Daniel, 183, menciona Apocalipse 5.9; 7.9; 10.11; 13.7; 14.6; 17.15. 9 Anderson, Signs and Wonders, 27. 10 “A conjunção de Daniel 3 com este texto foi certamente reconhecida pelo autor e seus leitores israelitas”. Lacocque, Book of Daniel, 60. Veja também 1Reis 8.51 e Jeremias 11.4. 11 Cf. Malaquias, que fala do juízo final como “o fogo do ourives” (3.2) e o dia “arde como fornalha” (4.1). 12 Hill, “Daniel”, 86. 13 O aramaico marca novas seções com “Então, Nabucodonosor” e “Então, o rei Nabucodonosor” em 3.13,19,24,26. Veja Collins, Daniel, 179. Esta frase marca novos atos do rei, mas não necessariamente o início de uma nova cena. 14 Em vez de eles caírem sobre seus joelhos (nepal, nos v. 5,6,7,10,11,15) e adorarem a imagem de ouro, eles caem (v. 23) no fogo. 15 Lucas, Daniel, 87. 16 “A principal fontede sátira deriva do contraste entre o comportamento mecânico e automático dos pagãos e o comportamento assertivo e piedoso de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego”. Avalos, “The Comedic Function of the Enumerations of Officials and Instruments in Daniel 3”, CBQ 53 (1991) 584. Cf. Baldwin, Daniel, 102. 17 “A reprodução mecânica e imediata da enumeração do v. 2 em v. 3 é um reflexo efetivo da aceitação imediata e mecanicista do pedido do rei por toda a burocracia pagã”. Avalos, ibid., 585. 18 “Os seis instrumentos específicos, além da fórmula geral (‘e todo tipo de música’), poderiam ter sido mencionados uma vez. A iteração deles é consistente com a descrição das ações mecanicistas em comédia por Bergson... Com efeito, a iteração de enumerações ajuda a retratar esses pagãos como uma versão de cães de Pavlov”. Ibid. 19 “A rejeição da idolatria e confiança no Senhor [é] fundamental para o relacionamento pactual de Israel com Deus (Sl 31.6, 14; Is 26.3-4; Jr 17.5, 7)”. Hill, “Daniel”, 85. 20 Lucas, Daniel, 86. 21 Para ver diversas traduções deste versículo veja p. 120-121, nota 64, abaixo. 22 “O objetivo específico do capítulo no livro não deve ser perdido de vista. Este propósito não é meramente mostrar o poder de Deus em proteger os seus, mas especificamente o fato de que ‘o poder do mundo não pode pôr em risco a segurança dos santos de Deus.’” Leupold, Exposition of Daniel, 165. 23 “Um dos temas principais da história da imagem de ouro é adoração (3.5-6, 10-12, 14-15, 18, 28)”. Lederach, Daniel, 76. Cf. p. 83, “A questão é a fidelidade, se os crentes irão rejeitar a idolatria e recusar a dividir suas lealdades mesmo quando suas vidas estão em jogo”. 24 Veja p. ex., Deuteronômio 4.25-27; 29.25-28; Ezequiel 22.3-4,15; Amós 5.26-27. 25 “O próprio exílio é um cadinho incandescente que prova com a ameaça de consumir (veja Sl 66.10-12). Para muitos judeus que não estão ameaçados por uma fornalha literal, o último dá forma concreta à imagem de andar no fogo”. Goldingay, Daniel, 74. 26 “O objetivo deste capítulo é incentivar os judeus a manterem uma lealdade inabalável à sua própria fé e rejeitar todas as armadilhas do culto pagão. Eles devem dar as boas-vindas até à morte, em vez de desviar-se da fé (veja v. 17-18)”. Hammer, Daniel, 38. 27 Veja, p. ex., Boice, Daniel: “Não é difícil saber quem era essa quarta pessoa. Era Jesus Cristo numa forma pré-encarnada”. Assim também Anderson, Unfolding Daniel’s Prophecies, 65: “Foi uma teofania, uma aparição pré-encarnada de nosso Senhor, que mais tarde nasceu em Belém”. Cf. Miller, Daniel, 123-24: “O mais provável é que o quarto homem no fogo fosse o anjo do Senhor, ele mesmo, na pessoa de seu Filho Jesus Cristo, Deus”. Assim também Steinmann, Daniel, 193-95: “É bem possível que o quarto homem que ele observou fosse o Cristo pré-encarnado, visto que a segunda pessoa da Santíssima Trindade existe desde a eternidade... e poderia se manifestar nos tempos veterotestamentários” (p.193). 28 Começando com Jerônimo, que argumentou teologicamente: “Eu não sei como um rei ímpio poderia ter merecido uma visão do Filho de Deus” (citado por Steinmann, Daniel, 194). Ainda outros consideram esta identificação impossível por razões linguísticas. Por exemplo, Porteous, Daniel, 61: “A ideia de que a quarta figura na fornalha é Cristo é impossível e, na verdade, contrária ao significado literal do autor. O bar ʾĕlāhîn aqui é um ser de uma classe de seres que são chamados em hebraico de bĕnê ʼlōhîm e são considerados como atendentes da divindade”. Veja Lucas, Daniel, 92. 29 Veja meu livro Pregando Cristo a partir do Antigo Testamento, 10 e 197. 30 “A fornalha de fogo (kaminon tou pyros; Mt 13.42, 50) parece ser uma referência a Daniel 3.6, kaminontou pyros”. Veja Evans, “Daniel in the New Testament”, Book of Daniel, II, 522. 31 Veja nota 27, na página anterior. 32 Veja Towner, Daniel, 56, e Longman, Daniel, 112. 33 Collins, Daniel, 190. 34 Veja nota 30, na página anterior. 35 Evans, “Daniel in the New Testament”, Book of Daniel, II, 521, sugere um eco entre o “ajoelhar e adorar” (pesōn proskynēsē) de Daniel 3.6,10,15, e “prostrado, me adorares” (pesōn proskynēsēs) de Mateus 4.9. 36 Com um objetivo duplo será mais um desafio produzir um sistema unificado, um sermão bem focado, mas a nossa responsabilidade principal é fazer justiça ao texto bíblico, conforme ele foi dirigido à Israel. 37 As versões gregas acrescentam a data, “no décimo-oitavo ano”, em 3.1, que seria 586 a.C. Cf. Jeremias 52.12,29 e 2Reis 25.8. Esta data significaria que esta história se passou depois de Nabucodonosor saquear Jerusalém, queimar o templo e levar a maioria do povo para o exílio. “A data enfatiza o ponto de Nabucodonosor estar substituindo o Deus de Israel pelo seu deus”. Hammer, Daniel, 39. Steinmann, Daniel, 167, comparando Jeremias e as crônicas existentes sobre o reinado de Nabucodonosor, sugere uma data de “fins de dezembro de 594 ou janeiro de 593 a.C.”. Se ele estiver correto, isto colocaria a narrativa nove anos após a de Daniel 2. 38 Veja Steinmann, Daniel, 167. 39 Schwab, Hope, 47, sugere que Nabucodonosor “fabricou uma estátua de ouro em rebelião contra a visão da Babilônia limitada a uma cabeça de ouro na história do mundo. Nabucodonosor erigiu uma “imagem” de ouro [estátua], ṣĕlem em aramaico, a mesma palavra que usou em seu sonho em Daniel 2.31, destacando a equação entre elas”. 40 O local não foi identificado positivamente. Alguns acham que era uma planície fora das muralhas da Babilônia (a palavra acadiana duru refere-se a um “lugar murado”), enquanto outros pensam que deve ter sido mais longe. Miller, Daniel, 111, sugere que o local fica “a cerca de 26 km ao sul da Babilônia e é chamado Tulul Dura (sitio de Dura), onde Oppert pensou ter descoberto a base da estátua”. 41 Montgomery, Book of Daniel, 196. 42 Redditt, Daniel, 70, faz uma observação a respeito do versículo 19a: “O Texto Massorético inclui a palavra aramaica ṣĕlem antes da palavra ‘face’. Esta é a palavra usada para ‘imagem’ ou ‘estátua’ usada em 3.1,2,3,5,7,10,12,14,15,18. O narrador estava relembrando ao leitor mais uma vez que o rei se parecia com a sua estátua”. Veja também Young, Prophecy of Daniel, 84. 43 Os versículos 12,14,18, 28 conectam a adoração da estátua de ouro com servir aos deuses do rei. 44 Daniel 3.1, 2, 3 (2x), 5, 7, 12, 14, e 18. 45 “As várias categorias de pessoas na lista são as autoridades políticas de todo o império, o que pode ser sinal de que se tratava da tentativa de Nabucodonosor solidificar seu controle sobre os diversos elementos de seu vasto império”. Longman, Daniel, 98. Cf. Steinmann, Daniel, 168: “Visto que duas vezes nos três primeiros versículos nos é dito que ‘todos os príncipes das províncias’... vieram para a consagração, devemos inferir que era uma cerimônia cuidadosamente concebida para garantir a lealdade dos oficiais fora da Babilônia, como sugerido por comparação com os eventos registrados na Crônica Babilônica”. 46 Os povos de todo o mundo conhecido “foram representados pelos oficias reunidos”. Collins, Daniel, 183. 47 “O som de uma variedade tão heterogênea de instrumentos musicais esganiçando, soprando e vibrando ao mesmo tempo pareceria verdadeiramente bárbaro para nós. Mas é preciso lembrar que eles tocaram apenas um sinal e a intenção era impressionar os ouvintes pela variedade e volume de som”. Leupold, Exposition of Daniel, 144. 48 A respeito da punição pelo fogo dos babilônios, persas e gregos, veja Goldingay, Daniel, 70. Veja também Gênesis 38.24; Levítico 20.14; 21.9; Josué 7.15; 1Crônicas 14.12. 49 Jeremias 29.21-22. 50 “Fornalhas na Babilônia estavam relacionadas com a queima de tijolos (cf. Gn 11.3), que eram amplamente utilizados na ausência de pedra. O combustível era carvão, que, tendo em conta a necessidade da corrente de ar, produzia a temperatura elevada necessária na fornalha de tijolos”. “Estima-se que a temperatura atingia 900-1000 °C”. Baldwin, Daniel, 99, 103, nota 3. 51 Montgomery, Book of Daniel, 202, sugere que deve “ter sidosemelhante aos nossos fornos comuns de queimar tijolos, com uma abertura perpendicular no topo e uma abertura no fundo para tirar o barro cozido”. 52 Daniel 3.23 diz: “Estes três homens... caíram atados dentro da fornalha sobremaneira acesa”. Miller, Daniel, 122, observa que eles “‘caíram dentro’ (nĕpalû legô, literalmente ‘caíram dentro, no meio da’) fornalha. A linguagem sugere que eles foram jogados dentro dela por meio de uma abertura na parte superior”. 53 Baldwin, Daniel, 103. 54 Devido às frases contrastantes “homens caldeus” e “homens judeus”, muitos comentaristas entendem caldeu aqui como uma identificação étnica. Outros entendem os caldeus como sendo os “astrólogos” (assim como a NVI). Para ver uma lista de comentaristas de ambos os lados, veja Steinmann, Daniel, 182, nota 5. Eu prefiro entender os “caldeus” como os “astrólogos” por três razões: primeira, a continuidade com 2.2,4,5,10; 4.7 argumenta em favor disto. Segunda, eles parecem agir por inveja profissional (veja 3.12; 6.3-4). Terceira, não é razoável pensar que caldeus comuns fossem recebidos na presença do rei para acusar seus altos oficiais. 55 Russell, Daniel, 65. 56 Se a pergunta “Onde estava Daniel?” for feita, a resposta é provavelmente dada no versículo 2.49: “Daniel permaneceu na corte do rei”. Assim sendo, ele não foi convocado para esta cerimônia de consagração para “oficiais das províncias”. Veja Steinmann, Daniel, 183-84. Archer, “Daniel”, 55-56, oferece diversas possibilidades, tais como: Daniel estava ausente da Babilônia na ocasião; ele podia estar doente (cf. 8.27); como vizir do rei, a lealdade dele foi tomada como fato. 57 Veja também os versículos 14, 18, e 28. 58 Steinmann, Daniel, 182-83. Cf. Redditt, Daniel, 69, “Com efeito, o narrador fez com que os próprios caldeus ligassem a adoração da estátua com a adoração dos deuses babilônicos”. Cf. Hill, “Daniel”, 79: “O comportamento de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego é tanto um ato de traição (visto que eles não serviram aos deuses do rei, v. 12) quanto um ato de insubordinação (já que eles se recusaram a obedecer ao édito do rei e se curvarem diante da estátua de ouro, v. 12)”. 59 Literalmente: “É verdade... que vós não servis a meus deuses, nem adorais a imagem de ouro que levantei? Visto que ‘meus deuses’ está na posição enfática tanto em 3.12 quanto em 3.14... o foco da pressão intensa agora imposta sobre os três judeus é religioso e teológico – uma questão de fé e culto”. Steinmann, ibid., 184. 60 “Agora, ele faz a alegação arrogante e blasfema... de possuir um poder humano tão grande que não existe poder divino algum para as vítimas procurarem ajuda. Vemos aqui o poder mundano absolutamente confiante de que não há limite para a sua autoridade”. Porteous, Daniel, 59. Cf. Collins, Daniel, 187: “A pergunta lembra a provocação do rei da Assíria em Isaías 36.19-20; 37.11- 12 (2Rs 18.33-35; 19.12-13)”. 61 “A ordem das palavras em aramaico no verso 16 coloca uma ênfase no pronome “nós”, o que implica que é o próprio Senhor quem vai lidar com este rei que pensa que é soberano na terra”. Archer, “Daniel”, 54. 62 “O texto aramaico diz simplesmente que não há necessidade de ‘dar de volta’ ou ‘dar retorno’ ao rei sobre o assunto. O fato é que estes homens não sentem nenhuma compunção por não darem um retorno, por assim dizer, “quanto a isto”, ou seja, o desafio teológico levantado por Nabucodonosor: ‘E quem é o deus que vos poderá livrar das minhas mãos?’” Seow, Daniel, 56. 63 Coxon, “Daniel III 17: A Linguistic and Theological Problem”, VT 26 (1976) 408, ressalta que a resposta dos amigos de Daniel: “Se o nosso Deus... quer livrar-nos, ele nos livrará... Se não, fica sabendo, ó rei...” baseia-se na sentença condicional anterior (v. 15) do rei: “Agora, pois, estai dispostos... prostrai-vos e adorai a imagem... porém, se não a adorardes...”. Seow, Daniel, 56-57, acrescenta que “os três homens mudam a questão da pessoa deles (“vocês estão”) para a pessoa de Deus (“Deus é”) – de eles estarem prontos a não se prostrarem e adorarem a construção de Nabucodonosor para Deus ser capaz de livrá-los. A questão não é se eles são ou não, mas se Deus é!... Ao estruturar o diálogo usando ponto e contraponto, o narrador indica que a questão decisiva a ser tratada não é realmente a coragem dos judeus, embora esse aspecto faça parte da história. Em vez disso, a questão crítica é a presença e o poder de Deus: visto que existe um Deus que é capaz, depende totalmente dele se fará isso ou não”. 64 Diferentes versões da Bíblia e comentaristas diversos se dividem sobre a tradução e interpretação deste versículo. A questão é: será que o autor retrata os amigos de Daniel como não tendo certeza sobre a capacidade de Deus de salvá-los do fogo? Será que eles duvidam da onipotência de Deus? As versões mais antigas da Bíblia (KJV, RV, RSV) e algumas mais recentes (como a NASB e NVI) procuram evitar essa impressão. Por exemplo, a NVI mais antiga, bem como a versão de 2011, traduz o versículo 17: “Se formos atirados na fornalha em chamas, o Deus a quem prestamos culto pode livrar-nos, e ele nos livrará da tua mão, ó rei”. A TNIV 2005 traduz: “Se o Deus a quem servimos quer livrar-nos, ele nos livrará da fornalha de fogo ardente e da mão de sua Majestade”. A última tradução é semelhante à da NRSV. Alguns exemplos recentemente descobertos de uma construção semelhante em hebraico não bíblico podem muito bem ser a razão para a mudança. De qualquer maneira, parece bastante elementar observar que a doutrina da onipotência de Deus não deve influenciar a tradução ou interpretação deste versículo. Para ver a história da tradução deste versículo e os argumentos pró e contra, veja Lucas, Daniel, 84-85, 90-91. Veja também Montgomery, Book of Daniel, 206-7; Coxon, “Daniel III 17: A Linguistic and Theological Problem”, VT 26 (1976) 400-409; Towner, Daniel, 51-53, e Miller, Daniel, 119, n. 57. 65 “A negação do versículo 18 certamente tem a ver com o poder de Deus. Pode ser que Deus não seja capaz de salvá-los, mas isso não é suficiente para minar a fidelidade dos três mártires”. A ligação deles com Deus é totalmente sem a expectativa de uma recompensa (veja Jó 1.9; 13.15... Cf. Gn 22)”. Lacocque, Book of Daniel, 63. 66 “De acordo com uma tradição antiga, o rei mandou seus homens jogarem nafta e piche na fornalha para fazer o fogo ainda mais quente”. Jeske, Daniel, 61. 67 “A ideia é que a chama salta acima da abertura do topo e mata os que ali estavam”. Collins, Daniel, 189. 68 “Observe a posição enfática de ‘atados’... no final da pergunta em aramaico”. Steinmann, Daniel, 193. 69 “O quarto personagem visto pelo rei era como ‘um filho dos deuses’. Esta é uma expressão semítica para um membro da classe dos ‘deuses’. Para um politeísta como Nabucodonosor, isto significaria um membro do panteão”. Lucas, Daniel, 92. 70 “Pensava-se que os anjos eram assistentes de Deus, ou membros de sua corte, que podiam ser enviados com mensagens ou que poderiam ser agentes através dos quais a vontade divina era realizada... A presença do anjo simboliza a presença do próprio Deus com seus servos fiéis”. Hammer, Daniel, 42. 71 Seow, Daniel, 59. Cf. p. 18. Cf. Romanos 8.37: “Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou”. 72 “Mesmo o teste mais sutil de todos, o teste da fumaça, pôde ser satisfeito, pois ordinariamente a mera proximidade de um fogo é suficiente para que o cheiro de fumaça passe para as vestes. No caso, nem o cheiro da fumaça pôde ser detectado”. Leupold, Exposition of Daniel, 160. 73 “Deus poderia extinguir o fogo da fornalha, mas ele queria que ele queimasse à vista de todos, para tornar o poder desta libertação mais visível.” Calvino, Commentaries on Daniel, 234. 74 No início, eu ia usar tipologia aqui para seguir para Cristo. Mas eu descobri que demonstrar as analogias e escalações entre o anjo e Cristo era bastante teórico e poderia alongar o sermão. Progressão histórico-redentiva e referências no Novo Testamento fornecem uma forma mais interessante.75 “Jesus adverte seus contemporâneos que, no final dos tempos, “mandará o Filho do Homem os seus anjos, que ajuntarão do seu reino todos os escândalos e os que praticam a iniquidade os lançarão na fornalha acesa [kaminon tou pyros]” (Mt 13.41-42). Esta imagem gráfica pode derivar da ameaça de Nabucodonosor de lançar aqueles que se recusam a adorar a sua imagem ‘na fornalha de fogo ardente’ [kaminon tou pyros]” (Dn 3.6). Evans, “Daniel in the New Testament”, Book of Daniel, II, 522. 76 Para os judeus no exílio, isso significava a liberdade de religião. Eles podiam adorar seu Deus, sem medo de perseguição, sem medo de serem jogados em uma fornalha de fogo ardente. Veja Goldingay, Daniel, 75. 77* Conforme argumentação acima, o autor usa uma tradução inglesa que diz: “Se o nosso Deus for capaz” (N. do R.). 78 “É capaz” (ʾ’tai... ykl) nos versos 17 e 29. 79 Veja-se Apocalipse 12.11: “Mesmo em face da morte, não amaram a própria vida”. 80 Paulo exorta os cristãos de Corinto: “Fugi da idolatria” (1Co 10.14). Significativamente, João conclui sua primeira carta: “Filhinhos, guardai-vos dos ídolos” (1Jo 5.21). Cf. Apocalipse 14.9-12: “Se alguém adora a besta e a sua imagem e recebe a sua marca na fronte ou sobre a mão, também esse beberá do vinho da cólera de Deus, preparado, sem mistura, do cálice da sua ira, e será atormentado com fogo e enxofre... A fumaça do seu tormento sobe pelos séculos dos séculos... Aqui está a perseverança dos santos, os que guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus”. 81 Paulo escreve: “Sabei, pois, isto: nenhum incontinente, ou impuro, ou avarento, que é idólatra, tem herança no reino de Cristo e de Deus” (Ef 5.5). Lederach, Daniel, 88-89, aplica a mensagem desta história ao ídolo moderno “Deus e o País”: “Hoje isto assume a forma de religião civil, ou nacionalismo religioso, no qual a nação é o objeto de adoração e glorificação, no qual os valores nacionais são religiosidades, heróis nacionais são divinizados e as ações da nação são equiparadas à obra redentora de Deus”. CAPÍTULO 4 O sonho que Nabucodonosor teve de uma grande árvore Daniel 4.1-371 Esta sentença é por decreto... a fim de que conheçam os viventes que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens; e o dá a quem quer e até ao mais humilde dos homens constitui sobre eles. Daniel 4.17 Daniel 4 é a última narrativa sobre o rei Nabucodonosor. Ela relata como Deus humilha o orgulhoso rei de toda a terra (4.22) e o restaura novamente, quando o rei reconhece que o Deus de Israel é “o Altíssimo”, “o rei dos céus” (4.34,37). É uma mensagem poderosa para aqueles que estão amedrontados ou intimidados pelo poder de reis e reinos humanos. A grande armadilha a se evitar ao pregar esta narrativa é a moralização. Um comentarista afirma abertamente: “Nabucodonosor é um exemplo – um alerta de como não se deixar desencaminhar por poder e conquista, um modelo de como responder ao castigo e à humilhação”.2 Pregadores se sentem realmente tentados a usar Nabucodonosor como um exemplo de advertência contra o orgulho que leva à queda, ainda mais que a narrativa termina com a declaração do rei de que Deus “pode humilhar os que andam na soberba” (4.37). Longman escreve: “A lição é aprendida e a moral da história é a última palavra: ‘Ele tem capacidade para humilhar aqueles que andam na soberba’”.3 Entretanto, a capacidade que Deus tem de humilhar os que andam na soberba não é o tema principal desta narrativa (veja “Prova textual”, abaixo). Se desejarmos pregar contra o pecado do orgulho humano, devemos selecionar um texto que aborde essa questão diretamente – como, por exemplo, Provérbios 16.18: “A soberba precede a ruína, e a altivez do espírito, a queda”.4 Nesse caso, certamente podemos usar o orgulho e a queda de Nabucodonosor para ilustrar o tema de Provérbios 16.18. Mas se o texto de pregação é Daniel 4, temos de concentrar o sermão sobre o tema e objetivo pretendidos pelo autor. Há outro comentarista que também quer que nos identifiquemos com Nabucodonosor: “Podemos nos tornar como Nabucodonosor – especialmente se o nosso trabalho árduo nos rendeu alguma realização aparentemente sólida”.5 Em seguida, este comentarista passa do rei levantando os olhos ao céu (v. 34) para a necessidade de os pastores ajudarem os membros de sua igreja a desviarem “o olhar de si mesmos, suas emoções e humores, suas dificuldades e problemas mentais, e ‘fixarem ambos os olhos’... na misericórdia de Deus”.6 Entretanto, é bem pouco provável que o autor bíblico tivesse em mente ver os exilados se identificarem e imitarem a própria pessoa que os levara para o cativeiro e destruíra Jerusalém e o santo templo de Deus. Ainda outro comentarista encontra uma aplicação nas palavras de Nabucodonosor, no versículo 2: “Pareceu-me bem fazer conhecidos”: “’É o meu prazer” [NVI] mostra que foi uma verdadeira alegria para o rei compartilhar o que Deus havia feito em sua vida – livrou-o da loucura. Esta deveria ser a atitude de qualquer crente. “Se Deus fez algo maravilhoso para um indivíduo, ele deveria ter prazer em compartilhar a experiência com os outros”.7 Mais uma vez, o rei pagão é um personagem bastante improvável para servir de identificação e imitação por Israel. Daniel é um personagem mais provável para ser usado como identificação por Israel. Mas aqui, também, temos de ter cuidado para não isolar fragmentos textuais para imitação. Por exemplo, o rei diz que em Daniel “há o espírito dos deuses santos” (v. 8). Esta informação leva um comentarista a alegar: “Havia algo de especial em Daniel... a habilidade de Daniel de interpretar sonhos era que Deus habitava nele, e este é o prerrequisito para a compreensão espiritual hoje”.8 Outro comentarista usa o comparecimento de Daniel diante do rei para interpretar o sonho (o mesmo v. 8) para afirmar que todos nós precisamos de um bom amigo: “O fato de Daniel estar lá com este homem neste momento é um lembrete para nós da nossa própria necessidade do outro, às vezes, quando as coisas, de forma semelhante, estão difíceis para nós e difíceis de entender”.9 O mesmo comentarista usa a franqueza de Daniel, “és tu, ó rei” (v. 22), para lembrar aos pregadores que eles devem ser francos em sua aplicação: “Aqueles de nós que são pastores, quando pregamos nossos sermões, deslizamos demasiadas vezes em uma aplicação da palavra de modo tão geral e vago que ninguém consegue se ofender e nenhuma vida pode eventualmente ser mudada”.10 Observe que essas aplicações estão ligadas a meros elementos no texto e são transferidas diretamente para os ouvintes de hoje. Embora essas aplicações não sejam necessariamente antibíblicas, elas desrespeitam o gênero específico de narrativa histórico-redentiva, a unidade da narrativa e sua mensagem e vai além do objetivo (intenção) do autor bíblico inspirado. Se quisermos fazer justiça ao autor bíblico, devemos primeiro fazer as perguntas hermenêuticas importantes: Como é que o autor pretende que a sua audiência original entenda esta narrativa? Qual é o tema desta narrativa e qual é o objetivo do autor? Antes de podermos responder a estas questões, no entanto, primeiro precisamos nos informar sobre o texto, seu contexto e suas características literárias. Texto e contexto Uma vez que o texto aramaico termina o capítulo 3 no capítulo 4.3 de nossas versões inglesas, a questão é se os versículos 4.1-3 devem ser incluídos no capítulo 3 ou 4. Embora houvesse algumas razões para incluir 4.1-3 no capítulo 3,11 existem razões ainda melhores para incluir estes versículos na narrativa presente. O versículo 1 marca essa narrativa como sendo na forma de uma carta, uma proclamação do rei para todos os povos. Por isso o verso 4 continua na primeira pessoa: “Eu, Nabucodonosor, estava tranquilo em minha casa e feliz no meu palácio”. Além disso, no versículo 2, o rei escreve sobre “os sinais e maravilhas que Deus, o Altíssimo, tem feito para comigo”, o que se aplica mais a Deus restaurando o rei de sua insanidade no capítulo 4 do que a Deus salvando os amigos de Daniel da fornalha de fogoardente no capítulo 3.12 E, finalmente, o louvor do rei a Deus no versículo 3, O seu reino é reino sempiterno, e o seu domínio, de geração em geração, é correspondido (paralelismo invertido) por seu louvor no versículo 34, cujo domínio é sempiterno, e cujo reino é de geração em geração. Este inclusio marca os limites desta unidade literária em 4.1-37. O capítulo 5.1 começa uma nova narrativa sobre um novo personagem, o rei Belsazar. Portanto, nosso texto de pregação é Daniel 4.1-37.13 Quanto ao contexto, esta narrativa final sobre o rei Nabucodonosor forma um par com o capítulo 5 – outra narrativa sobre a punição dada por Deus a um rei babilônico, desta vez, com resultados desastrosos. Na verdade, o autor reconta brevemente a história do capítulo 4 em 5.18-21. A narrativa de sonho do capítulo 4 também está relacionada, é claro, à primeira narrativa de sonho (capítulo 2), quando o rei Nabucodonosor é perturbado por um sonho e seus sábios não são capazes de relatar o sonho ou a sua interpretação, mas Daniel é bem-sucedido em ambos os casos.14 A diferença de Daniel 4 é que o rei conta seu sonho e, ainda assim, seus sábios não conseguem dar-lhe a interpretação, enquanto Daniel o faz. Os “povos, nações e homens de todas as línguas” (v. 1), que são convidados a ouvir o testemunho do rei sobre a grandeza do Deus Altíssimo, são os mesmos “povos, nações e homens de todas as línguas” que antes foram ordenados a cair de joelhos e adorar a estátua de ouro (3.4; cf. 3.29). Além disso, a confissão de Nabucodonosor de que o “reino [de Deus] é reino sempiterno” (veja v. 3 e 34 acima) é ecoada pela confissão semelhante do rei Dario (6.26-27) e pela visão do reino vindouro (7.14,27; cf. Dn 2.44 e Sl 145.13). Esta narrativa também tem muitas conexões para passagens além de Daniel. Como no capítulo 2, o narrador esboça Daniel como outro José, que Deus usa no exílio para interpretar os sonhos de um rei estrangeiro. Faraó descreveu José como um homem “em quem há o Espírito de Deus” (plural ʾĕlōʼm; Gn 41.38). Nesta narrativa, o rei descreve três vezes Daniel como sendo aquele “no qual há o espírito dos deuses santos” (4.8,9,18; cf. 5.11,14). José disse a Faraó que Deus daria sete anos de fartura seguidos de sete anos de fome (Gn 41.28-31). Nesta narrativa, Daniel diz ao rei que ele viverá como um animal por “sete tempos” (4.25). O rei sonha com uma grande árvore cujo topo alcança o céu, embaixo da qual os animais encontram sombra e na qual as aves fazem ninhos. A interpretação é que o rei Nabucodonosor é a grande árvore. Ezequiel 31.1- 14 apresenta uma descrição semelhante do Faraó, rei do Egito, sendo uma grande árvore com ninhos de pássaros em seus galhos e animais que parem seus filhotes debaixo de seus galhos. Em ambos os casos, as árvores orgulhosas caem sob o julgamento de Deus e são cortadas (cf. Ez 17.1- 10).15 O subtema de Deus punindo o orgulhoso pode ser traçado de volta a Deus expulsando o primeiro casal humano do jardim por desejar ser “como Deus” (Gn 3.56) e espalhando os construtores da torre de Babel que desejavam construir “uma torre cujo tope chegue até aos céus” para “tornar célebre” o seu nome (Gn 11.4). O tema mais específico de Deus punir reis orgulhosos que pensam que são deuses também é encontrado em Isaías 10.5-12; 14.12-15 e Ezequiel 28.1-10.16 A afirmação repetida de que “o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens; e o dá a quem quer” (4.17,25,32) é semelhante à palavra de Deus em Jeremias: “[Eu] dou àquele a quem for justo. Agora, eu entregarei todas estas terras ao poder de Nabucodonosor, rei da Babilônia, meu servo; e também lhe dei os animais do campo para que o sirvam” (27.5-6). A adição de “e o dá a quem quer e até ao mais humilde dos homens” (4.17) se refere a Deus exaltando o humilde – um tema comum no Antigo e no Novo Testamento (o cântico de Ana, em 1Sm 2.7-8; Jó 5.11; Sl 113.7-8; Ez 17.24; o cântico de Maria, em Lc 1.52; 1Co 1.26-29; e Fp 2.6-11). Finalmente, o conselho de Daniel para que o rei pratique a “justiça” e mostre “misericórdia para com os pobres” (4.27) é similar aos mandamentos de Deus através de seus profetas; por exemplo, “atendei à justiça, repreendei ao opressor” (Is 1.17).17 Características literárias Este capítulo consiste de uma variedade de gêneros literários. Como já foi referido, ele se encontra na forma de uma carta escrita “a todos os povos, nações e homens de todas as línguas que habitam em toda a terra” (4.1). “Esta forma de ‘carta régia’ dá autoridade especial ao conteúdo da história”.18 Embora na maior parte seja escrito em prosa, ele também contém seções de poesia, como pode ser visto nos paralelismos em 4.3,10- 12,14-17,34b-35,37b.19 A epístola começa com uma doxologia (4.2-3), continua com uma narrativa (4.4-36) e conclui com outra doxologia (4.37). A narrativa em si contém as formas literárias de uma visão simbólica (4.10- 17), um oráculo (4.14-17) e uma admoestação (4.27).20 Uma vez que o gênero é, em geral epístola, a maior parte dela está escrita na primeira pessoa do singular, “eu, Nabucodonosor”, à exceção de 4.19-33, que é narrativa na terceira pessoa. A melhor explicação para a mudança para a terceira pessoa é que, na seção 4.19-27, o rei não está mais no controle, mas é completamente dependente da interpretação de Daniel e até mesmo de admoestação, e, em 4.28-33, ele perde a razão e, assim, não pode relatar suas experiências. Mas quando a sua razão retorna “ao fim daqueles dias, eu, Nabucodonosor” volta (4.34-37).21 Estrutura da narrativa A narrativa em si tem três cenas, que são marcadas pela mudança de lugar e tempo. Cena 1: No palácio do rei (4.4-27) A. O sonho do rei (primeira pessoa) (4.4-18) B. Interpretação e conselhos de Daniel (terceira pessoa) (4.19-27) Personagens: Rei Nabucodonosor e Daniel Cena 2: Doze meses depois, no terraço do palácio (4.28-33) A. O orgulho do rei (terceira pessoa) (4.29-30) B. A punição por Deus (terceira pessoa) (4.31-33) Personagens: Rei Nabucodonosor e Deus (“voz do céu”) Cena 3: Sete tempos mais tarde, no campo (4.34-37) A. O rei reconhece o Altíssimo (primeira pessoa) (4.34-35) B. O rei é restaurado ao seu reino (primeira pessoa) (4.36-37) Personagens: Rei Nabucodonosor e Deus (“o rei dos céus”) O enredo Os versos de abertura (v. 1-3) não são parte da narrativa propriamente dita. O versículo 2, “os sinais e maravilhas que Deus, o Altíssimo, tem feito para comigo”, declara o desfecho positivo antes mesmo do começo da história. Após tal abertura, o narrador vai ter que trabalhar duro para criar suspense. Ele fornece o cenário no versículo 4: “ Eu, Nabucodonosor, estava tranquilo em minha casa e feliz no meu palácio”. Tudo está bem com o rei e seu reino. De repente, o clima muda. Versículo 5: “Tive um sonho, que me espantou; e, quando estava no meu leito, os pensamentos e as visões da minha cabeça me turbaram”. O sonho do rei é o incidente ocasionador. Qual foi o sonho horrível? O narrador nos mantém em suspense.22 Primeiramente ele nos fala sobre o decreto do rei de que seus sábios sejam trazidos para contar a interpretação do sonho (v. 6). Os sábios vêm, mas não conseguem (v. 7). “Por fim, se me apresentou Daniel” (v. 8), mas temos que esperar até o versículo 10 para que o rei relate o seu sonho sobre a bela e grande árvore. Até aí, não há nada no sonho que possa ter assustado o rei. Temos que esperar até o versículo 14 para sermos informados sobre o que o assustou: “Um vigilante, um santo” clamando “derribai a árvore” e predizendo como as coisas ficariam cada vez piores: “Cortai-lhe os ramos, derriçai-lhe as folhas, espalhai o seu fruto; afugentem-se os animais de debaixo dela e as aves, dos seus ramos. Mas a cepa, com as raízes, deixai na terra, atada com cadeias de ferro e de bronze, na erva do campo. Seja ela molhada do orvalho do céu, e a sua porção seja, com os animais, a erva da terra. Mude-se-lhe o coração, para que não seja mais coração de homem, e lhe seja dado coração de animal; e passem sobre ela sete tempos” (v. 14- 16). É um pesadelo! O que issosignifica? O rei pede a Daniel para dar-lhe a interpretação. Mas, antes de Daniel fazer isso, o narrador esboça a primeira reação de Daniel: “Então, Daniel... esteve atônito por algum tempo, e os seus pensamentos o turbavam” (v. 19). Do mesmo modo que o rei havia se turbado pelo sonho, assim Daniel estava turbado com o seu significado. O que há de tão terrível com o significado do sonho? Mais uma vez o narrador nos mantém em suspense. Vamos ter que esperar até o versículo 22, para ele nos informar que a árvore representa o rei e sua derrubada significa que o rei será humilhado: ele será “expulso de entre os homens”, habitará com os animais, comerá grama como os bois e dormirá ao ar livre até que se passem sete tempos, até que o rei aprenda “que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem quer” (v. 25). O castigo de Deus sobre o rei será severo. Mas há esperança para a restauração se o rei finalmente reconhecer que Deus é o Rei dos reis (v. 26). Daniel aconselha o rei a romper com os seus pecados promovendo a “justiça” e mostrando “misericórdia para com os pobres; e talvez se prolongue a tua tranquilidade” (v. 27). Será que o rei vai consertar seus caminhos? Passado um ano, o rei olha para fora, contempla os muitos edifícios da Babilônia e se gaba de seu “grandioso poder” e da “glória da minha majestade” (v. 30). Nabucodonosor fala de si mesmo como se fosse Deus. O castigo de Deus é imediato: o rei perde a razão, é expulso da sociedade humana, passa a viver ao ar livre com os animais e a comer erva como os bois. Ele até mesmo passa a se parecer com um animal, com cabelos longos como as penas das águias e unhas como as garras das aves (v. 33). Quão baixo o poderoso rei caiu! O rei que, como uma árvore, havia abrigado animais, tornou-se, nada mais, nada menos, um mero animal. A virada para a resolução ocorre no versículo 34: “Mas ao fim daqueles dias, eu, Nabucodonosor, levantei os olhos ao céu, tornou-me a vir o entendimento, e eu bendisse o Altíssimo, e louvei, e glorifiquei ao que vive para sempre, cujo domínio é sempiterno, e cujo reino é de geração em geração”. O rei finalmente reconhece Deus como o Altíssimo, o Rei dos reis. O resultado é que o rei é restabelecido no seu reino (v. 36). A conclusão segue: “Agora, pois, eu, Nabucodonosor, louvo, exalço e glorifico ao Rei do céu” (v. 37). Podemos esboçar o enredo desta narrativa como complexo.23 Este enredo é útil para discernir o movimento na história, seus ápices e resoluções e a forma mais adequada para o sermão – uma forma de narrativa híbrida, embora o gênero em geral seja de epístola. Descrição do personagem O personagem principal desta narrativa é Nabucodonosor. Ele se descreve como “Eu, Nabucodonosor, estava tranquilo em minha casa e feliz no meu palácio” (v. 4). Em nítido contraste, o sonho o assusta e o aterroriza (v. 5). Mas, quando Daniel fica apavorado com o significado do sonho, o rei mostra sua compaixão por ele: “Beltessazar, não te perturbe o sonho, nem a sua interpretação” (v. 19). Daniel descreve o rei da seguinte forma: “És tu, ó rei, que cresceste e vieste a ser forte; a tua grandeza cresceu e chega até ao céu, e o teu domínio, até à extremidade da terra” (v. 22). O rei revela seu orgulho quando diz para si mesmo: “Não é esta a grande Babilônia que eu edifiquei para a casa real, com o meu grandioso poder e para glória da minha majestade?” (v. 30).24 Ele é imediatamente punido com a perda de sua razão, passando a habitar ao relento com os animais e a comer capim como bois (v. 33). Quando os sete tempos se completam, o rei alça seus olhos ao céu e sua razão retorna (v. 34). Então, o rei dá glória a Deus: “Agora, pois, eu, Nabucodonosor, louvo, exalço e glorifico ao Rei do céu, porque todas as suas obras são verdadeiras, e os seus caminhos, justos, e pode humilhar aos que andam na soberba” (v. 37). Daniel é um coadjuvante nesta narrativa. O rei descreve Daniel três vezes como sendo aquele “no qual há o espírito dos deuses santos” (v. 8,9,18). Quando Daniel ouve o sonho, ele “esteve atônito por algum tempo” e “seus pensamentos o turbavam” (v. 19a). Seu personagem é mais desenvolvido por seu discurso, o que mostra sua preocupação com o rei: “O sonho seja contra os que te têm ódio” (v. 19c). Ele também mostra sua coragem ao transmitir ao rei a má notícia e até mesmo ao oferecer-lhe o conselho profético de “põe termo, pela justiça, em teus pecados e em tuas iniquidades, usando de misericórdia para com os pobres; e talvez se prolongue a tua tranquilidade” (v. 25-27). Na verdade, Daniel funciona como um porta-voz de Deus, pois Deus é o outro personagem principal desta história.25 Deus é descrito como “Deus, o Altíssimo” (v. 2; cf. 3.26), “o Altíssimo” (v. 17,24,25,32,34), “o céu” (metonímia no v. 26), “uma voz do céu” (v. 31) e, como clímax, “Rei do céu” (v. 37). O reino de Deus é descrito como um “reino sempiterno”, e sua soberania como sendo “de geração em geração” (v. 3,34). O personagem de Deus é mais desenvolvido por suas ações: a paciência com o rei advertindo-o com um sonho e dando- lhe tempo para se arrepender e sua soberania sobre tudo, humilhando o poderoso rei de Babilônia e, depois, restaurando-o ao seu trono. Repetição O autor mais uma vez usa a repetição para mostrar suas ênfases. Já observamos algumas repetições acima: o rei descreve Daniel três vezes como aquele “no qual há o espírito dos deuses santos” e os vários nomes usados para Deus (“Deus, o Altíssimo”, “o Altíssimo”, “o céu”, “uma voz do céu” e “Rei do céu”). “Altíssimo ocorre neste capítulo com mais frequência do que em qualquer outro capítulo” (v. 2,17,24,25,32,34).26 Neste capítulo, e só aqui, o autor usa o termo “vigilante” três vezes (v. 13,17,23). O autor usa a palavra “terra” dez vezes,27 “quatro das quais dizem respeito à impressão de poder de Nabucodonosor sobre a terra (v. 10,11,20,22)”, e a palavra “céu”, dezesseis vezes,28 “a maioria em conexão com o domínio e o poder de Deus”.29 Seow conclui: “É evidente no capítulo que o que está em jogo é a relação entre o poder terreno e o poder celestial – o poder de Nabucodonosor versus o poder de Deus”.30 Significativamente, a última vez que o narrador usa a palavra “céu”, ele fala de Deus como “Rei do céu”, uma expressão encontrada somente aqui no Antigo Testamento.31 Esta frase, “Rei do céu”, une os conceitos de domínio e poder com reinado. O autor usa as palavras “rei” e “reino” tantas vezes que Goldingday conclui: “O capítulo 4 se preocupa centralmente com o reinado de Nabucodonosor e o reinado ou governo do Altíssimo (Deus) ou do (o Rei/Senhor do) Céu (cf. 4.17,18,22,24,25,26,30,31,32,34,36,37)”.32 De particular importância para discernir o ponto desta narrativa é a repetição tríplice por três diferentes personagens: O vigilante santo adverte: “A fim de que conheçam os viventes que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens; e o dá a quem quer” (v. 17). Daniel diz: “Até que conheças que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem quer” (v. 25; cf. v. 26). E a voz do céu declara: “Até que aprendas que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem quer” (v. 32). As várias repetições também podem ser evidências de estruturas literárias mais complexas. Baldwin sugere estrutura A B B’ A’: “O rei começa e termina com uma atribuição de louvor ao Altíssimo (v. 1-3; 34-37), enquanto a história principal se divide em duas partes: 1. Nabucodonosor narra seu sonho (v. 4-18); e 2. A interpretação e cumprimento (v. 19-33)”.33 Mais recentemente, Shea sugeriu a seguinte estrutura quiástica:34 Prólogo: Proclamação Pós-cumprimento - Poema I (v. 1-3) A Sonho recebido (v. 4-7) X Diálogo I. Rei para Daniel (v. 8-9) B Exposição do sonho (v. 10-17) Y Diálogo II. Rei para Daniel; Daniel para o rei (v. 18-19) B’ Interpretação do sonho (v. 20-26) Z Diálogo III. Daniel para o rei (v. 27) A’ Cumprimento do sonho (v. 28-33) Epílogo: Restauração Pós-cumprimento - Poema II (v. 34-37) Embora este quiasma não seja útil para discernir o tema porqueos versículos 18-19 não são o ponto focal desta epístola, ele mostra que a passagem foi cuidadosamente elaborada. Interpretação teocêntrica Uma vez que Deus é um dos principais personagens desta narrativa, quase podemos pular esta etapa de interpretação teocêntrica. Mas, por causa da nossa inclinação para traçar aplicações, principalmente a partir dos personagens humanos (veja p. 128–30, acima), ela será boa para destacar como o autor apresenta Deus. Já mencionamos que Deus é chamado de “Deus, o Altíssimo” (v. 2) e “o Altíssimo” (v. 17,24,25,32,34).35 Evidentemente, neste capítulo o autor deseja se concentrar particularmente na soberania de Deus. Além de destacar estes nomes para Deus, a narrativa também focaliza a soberania de Deus: Deus mudou a mente do rei de um ser humano para a de um animal (v. 16; passivos divinos). Deus levou-o para longe da sociedade humana e fê-lo habitar com os animais selvagens (v. 25; passivos divinos).36 E Deus mostra sua soberania novamente “devolvendo” a razão do rei e “restaurando” a majestade e esplendor dele (v. 36, passivos divinos). Dentro da narrativa o autor repete três vezes que “o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens” (v. 17,25,32; cf. v. 26). Ele ressalta ainda mais a soberania de Deus no fim da narrativa, com o poderoso rei da Babilônia, louvando, exaltando e honrando o “Rei do céu” (v. 37). Além disso, o autor norteia a narrativa com uma descrição magnífica do reino de Deus: em contraste com os reinos humanos, o de Deus “é reino sempiterno, e o seu domínio, de geração em geração” (v. 3, 34). Tema e objetivo textual Alguns comentaristas afirmam que “o tema principal da história é a humilhação e restauração de Nabucodonosor”.37 O objetivo que combinaria com este tema seria alertar contra o orgulho humano (veja p. 128–29, acima). Mas observamos anteriormente que este é um subtema e que Israel, humilhado como estava no exílio, dificilmente precisava de uma advertência contra o orgulho. Towner afirma, com razão, que o “capítulo 4 é a história de duas soberanias”38 (veja p. 137–38, acima). Seow chama a atenção para o louvor confessional de Nabucodonosor a Deus tanto no início (4.2-3) como no final deste capítulo (4.34-37). Ele conclui: “De fato, por este enquadramento, a questão teológica fundamental neste capítulo é identificada como a soberania de Deus em oposição ao reino humano e, por isso, os termos de soberania e reinos... são reiterados ao longo do capítulo (v. 3,17,18,22,25,26,31,32,34,36)”.39 Podemos, portanto, formular o tema como “o Deus Altíssimo é soberano sobre os reinos terrenos”. Este tema, no entanto, é muito geral, pois muitas outras passagens bíblicas poderiam ser pregadas com este tema. Precisamos formular um tema que seja mais específico textualmente. Observe que o narrador afirma claramente o objetivo da narrativa nas palavras do vigilante santo: “Esta sentença é por decreto dos vigilantes, e esta ordem, por mandado dos santos; a fim de que conheçam os viventes que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens; e o dá a quem quer” (v. 17). Esta ideia é repetida mais duas vezes (v. 25,32; cf. v. 26). Como o tema e objetivo estão relacionados, podemos voltar muitas vezes para o tema da meta estabelecida. Podemos, portanto, formular o tema da seguinte forma: O Deus Altíssimo, sendo soberano sobre os reinos terrenos, os dá a quem ele quer.40 Como indicado, o “vigilante, um santo”, declara o objetivo como “a fim de que conheçam os viventes que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens” (v. 17). Com sua ênfase em “a fim de que conheçam” (v. 17), podemos ser tentados a formular o objetivo do autor como “ensinar às pessoas que o Deus Altíssimo é soberano sobre os reinos terrenos e os dá a quem ele quer”. Mas podemos ser capazes de formular o objetivo mais existencialmente, considerando as circunstâncias do público original deste livro. Israel está sofrendo no exílio na Babilônia. Parece que os deuses babilônicos conquistaram o Deus de Israel. Por meio desta carta do rei mais poderoso da terra, no entanto, o autor informa aos exilados que o Deus deles está derrubando o poderoso rei da Babilônia até que ele confesse que o Deus de Israel é o Altíssimo e dá o reino a quem quer. O objetivo do autor, portanto, é mais do que simplesmente ensinar; ele procura assegurar aos israelitas sofredores, desnorteados, que, apesar das aparências, o seu Deus é soberano sobre os reinos terrenos e os dá a quem ele quer.41 Maneiras de pregar a Cristo Como não há nenhuma promessa da vinda do Messias neste capítulo,42 nem um tipo de Cristo,43 nem um contraste de sua mensagem com a de Jesus no Novo Testamento, vamos explorar os quatro caminhos restantes para pregar a Cristo. Progressão histórico-redentiva A progressão histórico-redentiva oferece uma boa maneira de irmos do sermão de Daniel 4, no Antigo Testamento, para Jesus Cristo, no Novo Testamento. Daniel 4 proclama que Deus, o Altíssimo, sendo soberano sobre os reinos terrenos, os dá a quem ele quer. O primeiro sonho de Nabucodonosor, sobre a estátua de ouro, prata, bronze e ferro, retratava este tema vividamente quando Deus deu o reino babilônico primeiro para a Média-Pérsia, em seguida, para a Grécia, depois para Roma (Dn 2). No tempo do Império Romano, o soberano Deus enviou seu Filho, Jesus, a este mundo para batalhar contra o governante mais poderoso da terra, Satanás. Jesus chamou Satanás de “o príncipe do mundo” (Jo 12.31; 14.30; 16.11). Assim que Jesus começou sua missão, Satanás o atacou: “Levou-o ainda o diabo a um monte muito alto, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a glória deles e lhe disse: Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares. Então, Jesus lhe ordenou: Retira-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a ele darás culto” (Mt 4.8-10). Jesus resistiu à tentação de Satanás e começou a ganhar esta batalha feroz. Jesus curou pessoas e expulsou demônios. Seus discípulos relataram: “Senhor, os próprios demônios se nos submetem pelo teu nome!”. Mas ele lhes disse: “Eu via Satanás caindo do céu como um relâmpago” (Lc 10.17-18). Mas Satanás conseguiu fazer com que Jesus fosse morto e pensou que tinha vencido a batalha. A vitória dele foi também sua derrota, pois Jesus ressuscitou vitoriosamente dos mortos, conquistando, assim, o pecado e a morte. Depois de sua ressurreição, Jesus declarou: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mt 28.18). Daquele momento em diante, o poder de Satanás foi severamente limitado. O livro de Apocalipse descreve Satanás como um dragão feroz que agora está preso com uma grande corrente (Ap 20.1-2). Ele também prediz que, no final deste período de tempo, Satanás será solto e procurará destruir a igreja em todo o mundo (Ap 20.7-9). Apocalipse descreve isto como uma guerra: Satanás e seus exércitos “pelejarão contra o Cordeiro, e o Cordeiro os vencerá, pois é o Senhor dos senhores e o Rei dos reis” (Ap 17.14). O Cordeiro, Jesus, será completamente vitorioso sobre Satanás. Um anjo clama: “Caiu a grande Babilônia” (Ap 14.8). Assim, “o reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos” (Ap 11.15). No final, o Altíssimo Deus dá o reino ao seu Filho Jesus Cristo. Analogia A analogia também oferece várias possibilidades para nos deslocarmos do nosso texto até Cristo, no Novo Testamento. Por exemplo, como Daniel 4.17 ensina “que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens; e o dá a quem quer e até ao mais humilde dos homens constitui sobre eles”, também Jesus disse a Pilatos: “Nenhuma autoridade terias sobre mim, se de cima não te fosse dada” (Jo 19.11). Ainda outra analogia poderia ser: como o soberano Deus rebaixou o rei babilônico, também Jesus venceu “o príncipe do mundo”, ainda mais poderoso: Satanás.44 Jesus disse: “Chegou o momento de ser julgado este mundo, e agora o seu príncipe será expulso” (Jo 12.31). Também podemos fazer uma analogia do objetivo do autor, “encorajar os israelitas sofridos e desnorteados com a mensagem de que, apesardas aparências, o Deus deles é soberano sobre os reinos terrenos e os dá a quem ele quer”. Da mesma forma Jesus encorajou seus seguidores. Ele disse: “Eis que eu vos envio como ovelhas para o meio de lobos... E, quando vos entregarem, não cuideis em como ou o que haveis de falar, porque, naquela hora, vos será concedido o que haveis de dizer, visto que não sois vós os que falais, mas o Espírito de vosso Pai é quem fala em vós” (Mt 10.16,19- 20; cf. Mt 28.19-20). Mais uma vez, Jesus disse: “Não temais, ó pequenino rebanho; porque vosso Pai se agradou em dar-vos o seu reino” (Lc 12.32; cf. Mt 6.25.34). Temas longitudinais Os temas longitudinais oferecem outra maneira de pregar a Cristo. Embora se possa traçar o subtema de que Deus vai humilhar os orgulhosos (como ele humilhou Nabucodonosor) e exaltar os humildes (4.17), como dito na canção de Ana (1Sm 2.78), na canção de Maria (Lc 1.52 ), em 1Coríntios 1.26-29 e, finalmente, em Filipenses 2.6-11, isto é capaz de desviar a atenção dos ouvintes do tema do texto, “o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens; e o dá a quem quer”. Para um sermão bem focado, é muito melhor rastrear temas longitudinais que fazem parte do tema textual. Neste caso, podemos traçar o tema de Deus sendo soberano desde Daniel 4 até Daniel 7, onde o Ancião de Dias dá a um semelhante ao Filho do Homem “domínio, e glória, e o reino... o seu domínio é domínio eterno, que não passará, e o seu reino jamais será destruído” (7.14). Deste lugar se pode ir para o Novo Testamento, onde Jesus se identifica como “o Filho do Homem” e, depois, para sua afirmação após a ressurreição: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mt 28.18). Outra possibilidade é seguir essa parte do tema textual que fala de Deus dando o reino “a quem quer”, talvez focando em “até ao mais humilde dos homens constitui sobre eles [os seres humanos]” (4.17). Na história de Israel, Deus colocou sobre o seu reino o jovem Davi, ignorando seus irmãos mais velhos; ele escolheu o mais jovem, Salomão, em vez de Adonias. Isaías profetizou sobre o Servo escolhido de Deus, que “era desprezado e o mais rejeitado entre os homens” (53.3), mas Deus lhe concedeu que “com os poderosos repartirá ele o despojo” (53.12). De lá, pode-se ir para o Novo Testamento, para Jesus, que nasceu num estábulo, pobre, desprezado, foi crucificado, mas afirmou, depois de sua ressurreição, que Deus havia dado a ele “toda a autoridade... no céu e na terra” (Mt 28.18). Esta afirmação foi ecoada no hino cristão primitivo: Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho, nos céus, na terra e debaixo da terra, e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai. (Fp 2.9-11) Referências no Novo Testamento O apêndice do Novo Testamento grego lista Mateus 13.32 (e paralelos, Mc 4.32 e Lc 13.19) como uma alusão a Daniel 4.9 (12) e 18 (21). O rei sonhou com uma árvore tão grande que “debaixo dela os animais do campo achavam sombra, e as aves do céu faziam morada nos seus ramos” (4.12,21). Jesus disse: “Disse mais: A que assemelharemos o reino de Deus? Ou com que parábola o apresentaremos? É como um grão de mostarda, que, quando semeado, é a menor de todas as sementes sobre a terra; mas, uma vez semeada, cresce e se torna maior do que todas as hortaliças e deita grandes ramos, a ponto de as aves do céu poderem aninhar-se à sua sombra” (Mc 4.30-32). Collins supõe que a mudança de uma grande árvore mundial para um arbusto de mostarda “foi provavelmente deliberada no ensino de Jesus: o reino será manifesto na ordem social, mas não da maneira que seu público espera. Não vai ser um império internacional poderoso, mas, mesmo assim, vai dar um lar para os seus membros”.45 Observe, contudo, que em Mateus 13.32 “o maior dos arbustos... torna-se uma árvore”.46 Uma concordância pode oferecer algumas outras referências adequadas. Por exemplo, Jesus nos ensinou a orar: “Pai nosso, que estás nos céus, [“Rei do céu”, Dn 4.37], venha o teu reino” (Mt 6.9-10). Paulo escreve a respeito da ressurreição: “Cada um, porém, por sua própria ordem: Cristo, as primícias; depois, os que são de Cristo, na sua vinda. E, então, virá o fim, quando ele entregar o reino ao Deus e Pai, quando houver destruído todo principado, bem como toda potestade e poder” (1Co 15.23-24). Paulo também escreve a respeito de Jesus Cristo: “Nele, foram criadas todas as coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos, sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por meio dele e para ele” (Cl 1.16). Pedro exorta os cristãos: “Por isso, irmãos, procurai, com diligência cada vez maior, confirmar a vossa vocação e eleição... Pois desta maneira é que vos será amplamente suprida a entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2Pe 1.10-11). Tema, objetivo e necessidade do sermão O tema e o objetivo do sermão devem ser baseados no tema e no objetivo textuais. Como não há contraste entre este tema textual e o Novo Testamento, podemos usá-lo como nosso tema do sermão o Deus Altíssimo, sendo soberano sobre os reinos terrenos, os dá a quem ele quer. Formulamos o objetivo do autor como “reassegurar aos israelitas sofridos e desnorteados que, apesar das aparências, o Deus deles é soberano sobre os reinos terrenos e os dá a quem ele quer”. Podemos adotar um objetivo semelhante para o sermão: assegurar ao povo de Deus sofrido e desnorteado hoje que, apesar das aparências, nosso Deus é soberano sobre os reinos terrenos e os dá a quem ele quer. Este objetivo aponta para a necessidade que deve ser abordada neste sermão: devido à perseguição patrocinada pelo Estado em todo o mundo, o povo de Deus começa a questionar se Deus é realmente soberano sobre os reinos terrenos. A introdução do sermão poderia ilustrar isso questionando a soberania de Deus (Por que Deus não impede a terrível perseguição de seu povo em todo o mundo?), vincular esse questionamento às nossas perguntas hoje, mover-se para questões de Israel sobre a soberania de Deus enquanto sofria no exílio e, em seguida, começar a exposição. Mas em uma série de sermões e uma vez que esta é a última narrativa sobre o rei Nabucodonosor, pode-se também analisar rapidamente as histórias anteriores sobre o rei47 e depois passar para a exposição. Vou demonstrar abaixo esta possibilidade. Exposição do sermão Daniel 4 é a história final sobre o rei Nabucodonosor. O rei chegou ao auge de seu poder. Nós o encontramos pela primeira vez em Daniel 1, quando ele cercou Jerusalém, tomou alguns vasos de ouro e de prata da casa de Deus e os colocou na casa de seus deuses. Ele também capturou moços, que levou para o seu palácio para uma reeducação completa. Entre eles estavam Daniel e seus três amigos. Daniel se recusou a comer os alimentos não kosher do rei e solicitou legumes e água para si e seus amigos. Deus abençoou a fidelidade deles e lhes deu sabedoria superior. Por isso, o rei os nomeou para cargos em seu palácio. Em Daniel 2, lemos que Nabucodonosor teve um sonho estranho com uma enorme estátua com uma cabeça de ouro, peito e braços de prata, cintura e coxas de bronze, pernas de ferro e pés de ferro e barro. Em seguida, uma pedra foi cortada e feriu a estátua nos pés de ferro e de barro, destruindo-a. “Mas a pedra que feriu a estátua se tornou em grande montanha, que encheu toda a terra” (2.35). Quando seus sábios não conseguiram narrar o sonho, o rei ameaçou assassinar todos eles. Mas Deus revelou o mistério do sonho, bem como a sua interpretação, a Daniel. Deus havia dado o grande reino da Babilônia a Nabucodonosor, a cabeça de ouro, mas depois o daria para a Média-Pérsia, em seguida, para os gregos, e, finalmente, para os romanos. Mas, no fim, Deus substituiria todos estes reinos humanos pelo seu próprio reino – um reino que “subsistirá para sempre” (2.44). Em Daniel 3, lemos que o rei Nabucodonosor queria ser mais do que a cabeça de ouro. Ele fez uma enorme estátuapara si e cobriu toda a imagem de ouro. Então ele forçou todos os “povos, nações e homens de todas as línguas... vos prostrareis e adorareis a imagem de ouro” (3.4-5). Todos caíram de joelhos à exceção dos três amigos de Daniel. O rei deu-lhes outra chance, mas eles se recusaram a adorar os deuses do rei. Então o rei mandou jogá-los na fornalha de fogo ardente. Mas Deus estava com eles no meio do fogo e os salvou. Em resposta, o rei decretou que ninguém podia proferir blasfêmia contra o Deus dos três amigos “porque não há outro deus que possa livrar como este” (3.29). Os acontecimentos de Daniel 4 se passam cerca de vinte anos mais tarde.48 Estamos agora no auge do reinado do rei. O rei tinha terminado suas batalhas para expansão do seu reino. Ele havia saqueado o Egito, Tiro, Israel e outras nações e levado os tesouros deles para a Babilônia. Ele os usou para embelezar os templos existentes e construir novos (4.30). Para sua esposa, construiu os famosos Jardins Suspensos, que se tornaram uma das sete maravilhas do mundo antigo. Havia paz em seu reino (4.4). O rei tinha chegado. Então o rei escreve uma carta. Capítulo 4:1: “O rei Nabucodonosor a todos os povos, nações e homens de todas as línguas, que habitam em toda a terra: Paz vos seja multiplicada!”. O rei a destina “a todos os povos, nações e homens de todas as línguas”. À semelhança dos reis assírios antes dele, o rei Nabucodonosor se considera o rei de toda a terra.49 E, na verdade, ele governa a maior parte do mundo conhecido da época. O reino dele se estende desde o Golfo Pérsico, a leste, ao Mar Mediterrâneo, a oeste, ao Egito, ao sul, e ao Irã, ao norte. Rei de toda a terra! Mas nos versículos 2 e 3 este rei de toda a terra faz uma declaração surpreendente: “Pareceu-me bem fazer conhecidos os sinais e maravilhas50 que Deus, o Altíssimo, tem feito para comigo.51 Quão grandes são os seus sinais, e quão poderosas, as suas maravilhas! O seu reino é reino sempiterno, e o seu domínio, de geração em geração”. Ele declara abertamente que existe rei maior e um reino maior que o seu: o reino de Deus, o Altíssimo, é “reino sempiterno, e o seu domínio, de geração em geração”. Como Nabucodonosor descobriu que havia um rei maior e um reino maior que o dele? Versículo 4: “Eu, Nabucodonosor, estava tranquilo em minha casa e feliz no meu palácio”. Os tempos eram bons. Havia paz em seu reino. O rei podia viver à vontade em sua casa e prosperar em seu palácio. Ele estava satisfeito.52 Mas, de repente, seu humor mudou bruscamente.53 Ele passou de satisfeito para aterrorizado. O que aconteceu? O rei escreve no versículo 5: “Tive um sonho, que me espantou; e, quando estava no meu leito, os pensamentos e as visões da minha cabeça me turbaram”. Anos antes, o rei teve um sonho estranho que o perturbou (2.1,3). Mas este era um pesadelo que o assustava. Ele acordou encharcado de suor. E, quanto mais refletia sobre o sonho, mais amedrontado ficava.54 O que o rei de toda a terra faz quando fica apavorado por um pesadelo? Ele faz um decreto, é claro. Ele escreve nos versículos 6 e 7: “Por isso, expedi um decreto, pelo qual fossem introduzidos à minha presença todos os sábios da Babilônia, para que me fizessem saber a interpretação do sonho. Então, entraram os magos, os encantadores, os caldeus e os feiticeiros, e lhes contei o sonho; mas não me fizeram saber a sua interpretação.” Esses sábios haviam falhado antes. Não sabemos por que o rei ainda contou com eles. Talvez tivesse presumido que Daniel estaria com eles, mas Daniel podia estar viajando.55 De qualquer forma, ele não estava com os sábios e esses sábios não puderam dar uma interpretação do sonho. Então o rei de toda a terra continuou apavorado. Versículos 8 e 9: “Por fim, se me apresentou Daniel, cujo nome é Beltessazar, segundo o nome do meu deus,56 e no qual há o espírito dos deuses santos;57 e eu lhe contei o sonho, dizendo: “Beltessazar, chefe dos magos, eu sei que há em ti o espírito dos deuses santos, e nenhum mistério58 te é difícil; eis as visões do sonho que eu tive; dize-me a sua interpretação”. Por fim, chegamos a ouvir o sonho que tanto assustou o rei. Versículos 10 a 12: “Eram assim as visões da minha cabeça quando eu estava no meu leito: eu estava olhando e vi uma árvore no meio da terra, cuja altura era grande; crescia a árvore e se tornava forte, de maneira que a sua altura chegava até ao céu; e era vista até aos confins da terra”. A frase “a sua altura chegava até ao céu” nos lembra do desafio contra Deus, quando as pessoas decidiram construir a Torre de Babel “cujo tope chegue até aos céus” (Gn 11.4). O rei continua: “A sua folhagem era formosa, e o seu fruto, abundante, e havia nela sustento para todos; debaixo dela os animais do campo achavam sombra, e as aves do céu faziam morada nos seus ramos, e todos os seres viventes se mantinham dela”. Até aqui, tudo em ordem. Com exceção de “a sua altura chegava até ao céu”,59 é uma imagem bonita, tranquila. Nada que pudesse assustar o rei. Eu posso imaginar que este sonho lembrou o rei de si mesmo. Não era o seu reino visível “até aos confins da terra”? Será que ele não oferece “sustento para todos”? Porventura, muitas nações não encontravam abrigo no seu grande reino? Sim, o sonho é sobre o rei Nabucodonosor! Mas então por que ele estava tão assustado, até mesmo apavorado? Finalmente, o rei chega ao x da questão. Versículo 13: “No meu sonho, quando eu estava no meu leito, vi um vigilante, um santo,60 que descia do céu”. A frase “descia do céu” novamente nos lembra a Torre de Babel: “Então, desceu o SENHOR para ver a cidade e a torre, que os filhos dos homens edificavam” (Gn 11.5). Vigilantes santos vigiam a terra para Deus.61 Eles são mensageiros de Deus. Podemos pensar em anjos. No versículo 14, lemos a mensagem do vigilante santo: “Derribai a árvore, cortai-lhe os ramos, derriçai-lhe as folhas, espalhai o seu fruto;62 afugentem-se os animais de debaixo dela e as aves, dos seus ramos”. É um desastre! Não admira que o rei esteja assustado. Ele tinha se identificado com a grande árvore e, agora, ouve as ordens para cortá-la. Deve ser destruída. Seus galhos grandes devem ser cortados; sua folhagem, derriçada; seus frutos, dispersos. E os animais e aves que tinham se abrigado devem ser afugentados. Não ficará nada. Exceto um toco. Versículo 15: “Mas a cepa, com as raízes, deixai na terra, atada com cadeias de ferro e de bronze, na erva do campo”. Esta é uma nota de esperança. Recordamos as palavras familiares de Isaías: “Do tronco de Jessé sairá um rebento, e das suas raízes, um renovo” (11.1).63 Muito embora a árvore real de Davi tenha sido cortada, um broto mais tarde viria a nascer do toco, o grande filho de Davi, Jesus Cristo. Então, aqui no sonho de Nabucodonosor, a árvore é cortada, mas o toco permanece no chão, com “cadeias de ferro e de bronze” em torno dele. As cadeias de ferro e de bronze, provavelmente, são colocadas para proteger o toco.64 De qualquer modo, embora o toco seja evidência do desastre que ocorreu, ele oferece uma nota de esperança para o futuro. No meio do versículo 15, a imagem de repente muda da árvore que seria cortada para uma pessoa que vai ser derrubada. Nós lemos: “Seja ela molhada do orvalho do céu, e a sua porção seja, com os animais, a erva da terra. Mude-se-lhe o coração, para que não seja mais coração de homem, e lhe seja dado coração de animal; e passem sobre ela sete tempos”. A bela, grande e forte árvore representa uma pessoa poderosa. Ela será cortada – apenas um toco será deixado. Um pobre reflexo do seu antigo eu. Esta pessoa que abrigava os animais vai se transformar em um animal. Ela estará no campo com os animais. Ela será “molhada do orvalho do céu”. “No Oriente Médio há um orvalho pesado quase todas as noites, porque os dias são quentes e as noites são frias. A temperatura da noite condensa a umidade do ar”.65 Ela será exposta aos elementos, tempestades e chuva. E a sua mente humana, sua razão, será alterada para a mente de um animal. Essa punição vai durar por sete tempos.Visto que sete é o número hebraico da completude, “sete tempos” significa um período completo de tempo.66 Não admira que o rei estivesse assustado com o sonho e aterrorizado por suas reflexões sobre o seu significado. Quem é a pessoa mais poderosa do mundo? O rei, claro. Ele é o rei de toda a terra. Será que o sonho quer dizer que ele vai ser derrubado? Que ele será deposto? Apenas um toco deixado no chão? Isto soa ameaçador. O rei está apavorado. Não há nenhuma maneira de escapar disto? O vigilante santo conclui sua mensagem no versículo 17 “Esta sentença é por decreto dos vigilantes, e esta ordem, por mandado dos santos; a fim de que conheçam os viventes que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens; e o dá a quem quer e até ao mais humilde dos homens constitui sobre eles”. O “decreto dos vigilantes” é o decreto do próprio Deus, como Daniel explica no versículo 24: “É o decreto do Altíssimo”.67 Deus dá este decreto, diz o versículo 17, “a fim de que conheçam os viventes que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens; e o dá a quem quer e até ao mais humilde dos homens constitui sobre eles”.68 Esta é a frase-chave neste capítulo. Todos os que vivem devem saber que Deus, o Altíssimo, é soberano sobre os reinos terrenos e os dá a quem ele quer. O rei continua sua carta no versículo 18: “Isto vi eu, rei Nabucodonosor, em sonhos. Tu, pois, ó Beltessazar, dize a interpretação, porquanto todos os sábios do meu reino não me puderam fazer saber a interpretação, mas tu podes; pois há em ti o espírito dos deuses santos”. Versículo 19: “Então, Daniel, cujo nome era Beltessazar, esteve atônito por algum tempo, e os seus pensamentos o turbavam”. No início, o sonho tinha assustado o rei, e os seus pensamentos sobre ele o aterrorizavam. Agora é a vez de Daniel ficar aterrorizado. Ele sabe o significado do sonho, e isso é uma notícia terrível para o rei – mas também pode ser uma notícia terrível para Daniel. Ele sabe que o rei tem um temperamento violento. O rei tem uma reputação de atirar no mensageiro. Quando os sábios do rei não puderam interpretar o sonho anterior, “o rei muito se irou e enfureceu; e ordenou que matassem a todos os sábios da Babilônia” (Dn 2.12). Quando os amigos de Daniel se recusaram a adorar a estátua do rei, ele ficou enfurecido e ordenou que o fogo fosse alimentado sete vezes mais e os amigos de Daniel foram lançados ao fogo (3.19-20). O que será que o rei vai fazer com o mensageiro que lhe disser que ele vai perder não só o seu reino, mas também sua razão? É com razão que Daniel hesita por algum tempo. O rei percebe que Daniel está apavorado. Ele diz para Daniel: “Beltessazar, não te perturbe o sonho, nem a sua interpretação”. E, diplomaticamente, Daniel responde: “Senhor meu, o sonho seja contra os que te têm ódio, e a sua interpretação, para os teus inimigos”. Mas Daniel sabe que a má notícia não é para os inimigos do rei, mas para o próprio rei. Então, relutantemente, ele começa a falar. Ele não quer dar a má notícia imediatamente. Assim, ele começa com as características positivas, repetindo o relato do sonho do rei quase palavra por palavra. Versículos 20 a 22: “A árvore que viste, que cresceu e se tornou forte, cuja altura chegou até ao céu, e que foi vista por toda a terra, cuja folhagem era formosa, e o seu fruto, abundante, e em que para todos havia sustento, debaixo da qual os animais do campo achavam sombra, e em cujos ramos as aves do céu faziam morada, és tu, ó rei, que cresceste e vieste a ser forte; a tua grandeza cresceu e chega até ao céu, e o teu domínio, até à extremidade da terra”.69 É justo como o rei pensou. Ele é a árvore grande e forte:70 o rei de toda a terra. Mas, quando Daniel chega à má notícia, ele tenta suavizar o golpe. Ele tenta poupar o rei do constrangimento, abreviando a longa descrição da destruição da árvore. Ele também ignora diplomaticamente as partes que dizem que o rei vai perder a razão e que Deus coloca sobre o reino o “mais humilde dos homens”.71 Versículos 23 a 25: “Quanto ao que viu o rei, um vigilante, um santo, que descia do céu e que dizia: Cortai a árvore e destruí- a, mas a cepa com as raízes deixai na terra, atada com cadeias de ferro e de bronze, na erva do campo; seja ela molhada do orvalho do céu, e a sua porção seja com os animais do campo, até que passem sobre ela sete tempos, esta é a interpretação, ó rei, e este é o decreto do Altíssimo, que virá contra o rei, meu senhor: serás expulso de entre os homens, e a tua morada será com os animais do campo, e dar-te-ão a comer ervas como aos bois,72 e serás molhado do orvalho do céu; e passar-se-ão sete tempos por cima de ti, até que conheças que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem quer.” O rei será deposto e expulso da sociedade; ele viverá com os animais, comendo capim73 como os bois. Mas esta punição terá duração limitada. Ela vai durar “sete tempos”, isto é, a punição do rei vai durar um período de tempo indeterminado, mas completo.74 Este período de tempo vai terminar, Daniel explica, “até que conheças que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens”. Aqui aparece aquela frase importante novamente. No versículo 17, ela era “a fim de que conheçam os viventes que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens”. Aqui é o rei Nabucodonosor, especificamente, que tem de aprender “até que conheças que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens”. Ele pode ser o rei de toda a terra, mas Deus é rei do universo. Ele é “o Altíssimo”. E ele tem soberania sobre todos os reinos da terra. O rei é rei só pela permissão do Altíssimo. O rei é rei sob Deus, “o Senhor dos reis” (Dn 2.47). Daniel continua nos versículos 26 e 27: “Quanto ao que foi dito, que se deixasse a cepa da árvore com as suas raízes, o teu reino tornará a ser teu, depois que tiveres conhecido que o céu [isto é, o Deus do céu]75 domina.76 Portanto, ó rei, aceita o meu conselho e põe termo, pela justiça, em teus pecados e em tuas iniquidades, usando de misericórdia para com os pobres; e talvez se prolongue a tua tranquilidade”. Daniel se atreve a oferecer alguns conselhos ao rei. A tradução “expiar seus pecados” em inglês [“põe termo... em teus pecados” na ARA] é confusa, pois não podemos expiar nossos pecados – somente Cristo pode. Como a nota de rodapé indica, talvez Daniel tenha dito literalmente “romper com seus pecados” – como interromper uma conversa.77 Quebrar, descontinuar os seus pecados e fazer o que é certo. A NVI traduz: “Renuncia a teus pecados... pratica a justiça”. Daniel conhece o temperamento volátil do rei. No entanto, ele tem a coragem de nomear os pecados do rei especificamente. Ele segue: “Põe termo, pela justiça, em teus pecados e em tuas iniquidades, usando de misericórdia para com os pobres”. Ele se concentra em um dos grandes pecados do rei: oprimir os pobres e desvalidos impiedosamente.78 Sabemos, pela história, que o rei Nabucodonosor oprimiu muitos povos, destruiu suas cidades, exilou-os para diferentes regiões do seu império, arrebanhou os mais brilhantes para servi- lo e usou o trabalho escravo para construir sua bela Babilônia. “Põe termo em... tuas iniquidades, usando de misericórdia para com os pobres”.79 O resultado, Daniel sugere, poderia ser que “talvez se prolongue a tua tranquilidade”. Talvez o julgamento de Deus seja adiado se ele romper com suas iniquidades orgulhosas e arrogantes, “usando de misericórdia para com os pobres”. No Novo Testamento, Jesus ensina: “Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia” (Mt 5.7). Talvez o rei receba a misericórdia de Deus, se for misericordioso para com os oprimidos. Aparentemente, o rei não se preocupou em seguir os conselhos de Daniel. Ele não começou a mostrar misericórdia para com os oprimidos, pois lemos no versículo 28: “Todas estas coisas sobrevieram ao rei Nabucodonosor”. Tudo o que Daniel predisse sobreveio ao rei. E assim aconteceu. Versículo 29: “Ao cabo de doze meses, passeando sobre o palácio real da cidade de Babilônia”. O palácio tinha uma coberturaplana para que o rei pudesse relaxar e caminhar por lá na brisa fresca. Do terraço, olhou para baixo, para a avenida processional que ele tinha “pavimentado com calcário e decorado com figuras de leões”.80 Ele também podia ver os famosos jardins suspensos que tinha construído para sua esposa. Um pouco mais abaixo, viu o templo que havia construído para seu deus, Marduque. E, ao lado dele, a torre zigurate, que consistia de sete níveis, a parte superior tendo aproximadamente 88 metros de altura – uma torre de trinta andares. Ele também podia ver muitos dos cinquenta e três templos que tinha construído ou embelezado. E havia o muro interno duplo, com suas grandes torres defensivas. E, mais além do muro interno, podia-se ver o enorme muro duplo exterior que ele havia construído e alguns dos oito portões enormes que davam acesso à cidade. “A cidade da Babilônia era uma das cidades mais proeminentes da história e, durante o reinado de Nabucodonosor... a mais magnífica (e provavelmente a maior) da terra”.81 Apenas 12 meses depois de seu terrível sonho, o rei parece esquecido disso, porque, enquanto se apoia na cobertura do seu palácio e se embebeda de toda a beleza e força de sua capital, diz ele, no versículo 30: “Não é esta a grande Babilônia,82 que eu edifiquei para a casa real, com o meu grandioso poder e para glória da minha majestade?”83 O rei de toda a terra se orgulha de suas realizações. Em vez de dar glória a Deus, ele se orgulha da “glória da minha majestade”. Versículos 31 e 32: “Falava ainda o rei quando desceu uma voz do céu” – isto é, a voz de Deus.84 Deus diz: “A ti se diz, ó rei Nabucodonosor: Já passou de ti o reino. Serás expulso de entre os homens, e a tua morada será com os animais do campo; e far-te-ão comer ervas como os bois, e passar- se-ão sete tempos por cima de ti, até que aprendas que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem quer”.85 Há aquela frase importante novamente: “Até que aprendas que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem quer”. Versículo 33: “No mesmo instante, se cumpriu a palavra sobre Nabucodonosor; e foi expulso de entre os homens e passou a comer erva como os bois, o seu corpo foi molhado do orvalho do céu, até que lhe cresceram os cabelos como as penas da águia, e as suas unhas, como as das aves”. O sonho está sendo cumprido. No exato instante em que o rei se gaba de suas realizações e dá a glória a si mesmo, ele perde a razão. O rei fica louco e perde o seu reino. Numa época em que não havia hospitais psiquiátricos ou casas de repouso, o rei foi simplesmente expulso da sociedade humana. Ele passou a viver ao ar livre com os animais. Ali, como o gado, ele come capim. Ele pensa que é um animal. Ele provavelmente tem o que os psicólogos chamam de “licantropia”86 – a ilusão de acreditar-se um animal. Essa doença, embora rara, ainda ocorre na atualidade.87 Aparentemente o rei George III da Inglaterra (1738-1820) também sofreu desta enfermidade.88 Nabucodonosor pensa que é um boi. Ele fica ao ar livre, dia e noite, e seu corpo fica sendo exposto aos elementos do tempo: sol ardente durante o dia e névoa fria à noite. Depois de certo tempo, ele até começa a se parecer com um animal. O versículo 33 nos diz que “lhe cresceram os cabelos como as penas da águia, e as suas unhas, como as das aves” – longos e emaranhados como penas de águias. E “e as suas unhas [crescendo tanto tempo começaram a enrolar], como as das aves”. Até que ponto o poderoso rei caiu! O rei de toda a terra, que tinha recebido domínio também sobre o mundo animal (Dn 2.37-38; cf. Jr 27.5-6), tornou-se, ele próprio, um animal. “E passar-se-ão sete tempos por cima de ti”, diz o texto. O rei vai ficar nesse estado animal por um período completo de tempo, até que aprenda “que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens”. O rei tem que aprender que Deus é o Rei dos reis. Nabucodonosor é rei sob Deus e deve dar a glória não a si mesmo, mas a Deus. O rei relata no versículo 34: “Mas ao fim daqueles dias, eu, Nabucodonosor, levantei os olhos ao céu”. Levantar os olhos para o céu é buscar a ajuda de Deus. O salmista diz: “A ti, que habitas nos céus, elevo os olhos!”89 Então, o rei levanta os olhos ao céu.90 Ao fazer isso, ele reconhece a soberania de Deus. Desse modo, ele satisfaz a condição de Deus para suspender a maldição: “Até que aprendas que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens” (v. 32). E logo Deus o cura de sua doença. O rei relata que “me tornou a vir o entendimento”. Imediatamente, ele é capaz de proclamar a soberania de Deus.91 O relato do rei continua no versículo 34: “Eu bendisse92 o Altíssimo, e louvei, e glorifiquei ao que vive para sempre, cujo domínio é sempiterno, e cujo reino é de geração em geração. Todos os moradores da terra são por ele reputados em nada;93 e, segundo a sua vontade, ele opera com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão,94 nem lhe dizer: Que fazes?”. Nem mesmo o rei de toda a terra pode opor-se às ações de Deus ou levantar objeções ao que ele está fazendo.95 Nabucodonosor fala por dolorosa experiência. Que poderosa garantia as palavras do rei devem ter sido para Israel no exílio! Seu Deus é o Deus soberano. Ele está no controle até mesmo dos seus captores. Ele pode livrá-los de seu exílio, a qualquer momento que desejar. No versículo 36, o rei relata o final feliz: “Tão logo me tornou a vir o entendimento, também, para a dignidade do meu reino, tornou-me a vir a minha majestade e o meu resplendor; buscaram-me os meus conselheiros e os meus grandes; fui restabelecido no meu reino, e a mim se me ajuntou extraordinária grandeza”. Como prometido, Deus restaurou o rei ao seu trono; ele o restabeleceu sobre seu reino porque o rei agora reconheceu que “o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens; e o dá a quem quer” (v. 17,25,32). O rei conclui sua carta com mais louvor a Deus. “Agora, pois, eu, Nabucodonosor, louvo, exalço e glorifico ao Rei do céu, porque todas as suas obras são verdadeiras, e os seus caminhos, justos, e pode humilhar aos que andam na soberba”. Este é o único lugar no Antigo Testamento, onde Deus é chamado de “Rei do céu”.96 O rei de toda a terra reconhece mais uma vez que há um rei maior, um rei que tem domínio sobre tudo – o Rei do céu. E ele confessa que “todas as suas obras são verdadeiras, e os seus caminhos, justos,97 e pode humilhar aos que andam na soberba” – isto é, aqueles que testam o seu poder contra o do Rei do céu.98 A mensagem de Daniel 4 é que Deus é soberano sobre os reis humanos e os reinos terrenos. Ele pode dar os reinos terrenos a quem ele quiser. Mesmo enquanto estou refazendo este capítulo, ditadores de longo prazo estão sendo derrubados na Tunísia e no Egito, enquanto outros ditadores estão cambaleando.*99 Quem poderia prever essas abdicações mesmo alguns meses atrás? Deus é soberano sobre os reinos terrestres e pode dá-los a quem ele quiser. Que encorajamento esta mensagem deve ter sido para os israelitas que sofriam no exílio na Babilônia!100 Os reis babilônicos podem parecer grandes, mas o Deus de Israel é maior. Os reis babilônicos podem parecer poderosos, mas o Deus de Israel é Todo-Poderoso. Ele pode derrubar o mais poderoso rei humano simplesmente confundindo a sua mente. O Deus de Israel é o Rei dos reis. Israel pode não entender por que ainda está sofrendo no exílio. Mas a mensagem de que o seu Deus é soberano sobre os reis humanos lhe dá esperança da libertação. Certamente este Deus pode libertá- lo e levá-lo de volta para a Terra Prometida. Deus revela sua soberania não só no Antigo Testamento, mas especialmente no Novo. Deus enviou seu Filho, Jesus, a este mundo para fazer guerra contra o ser mais poderoso do mundo, Satanás. Jesus chamou Satanás de “o príncipe do mundo” (Jo 12.31; 14.30; 16.11). Assim que Jesus começou sua missão, Satanás o atacou: “Levou-o ainda o diabo a um monte muito alto, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a glória deles e lhe disse: Tudo isto te darei se, prostrado, meadorares. Então, Jesus lhe ordenou: Retira-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a ele darás culto” (Mt 4.8-10). Jesus resistiu à tentação de Satanás e começou a ganhar esta batalha feroz. Jesus curou pessoas e expulsou demônios. Ele enviou setenta seguidores em uma viagem missionária. Quando retornaram, eles relataram: “Senhor, os próprios demônios se nos submetem pelo teu nome! Mas ele lhes disse: Eu via Satanás caindo do céu como um relâmpago” (Lc 10.17-18; cf. Cl 2.15). Mas Satanás conseguiu fazer com que Jesus fosse morto e, por um tempo, parecia que ele tinha vencido a batalha. Porém, a vitória dele foi também a sua derrota, pois Jesus ressuscitou vitoriosamente dos mortos. Ele venceu o pecado e a morte. Daquele momento em diante, o poder de Satanás foi severamente limitado. A Bíblia descreve Satanás como um dragão feroz que agora está preso com uma grande corrente, preso em um abismo, “para que não mais enganasse as nações até se completarem os mil anos” (Ap 20.1-3). Ele ainda pode fazer mal, mas não é livre para fazer o seu pior. A Bíblia também diz que, no final dos “mil anos”, este período completo de tempo,101 Satanás será solto e procurará destruir a igreja em todo o mundo (Ap 20.7-9). O livro de Apocalipse descreve isso como uma guerra: Satanás e seus exércitos “pelejarão contra o Cordeiro, e o Cordeiro os vencerá, pois é o Senhor dos senhores e o Rei dos reis” (Ap 17.14). 102 O Cordeiro, Jesus, será vitorioso. Então, nas conhecidas palavras de Apocalipse: “O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos” (Ap 11.15). Hoje vivemos no intervalo entre a primeira e a segunda vinda de Jesus. Embora Satanás esteja preso, estamos perplexos com toda a perseguição que vemos no mundo. A igreja ainda está em guerra. Algumas nações procuram acabar com a igreja cristã. Milhares de cristãos são mortos todos os dias. Outros estão presos, torturados ou na lista negra. De acordo com as últimas estimativas, 100 milhões de cristãos são perseguidos em todo o mundo, em países como a Coreia do Norte, Arábia Saudita e Irã.103 Mesmo onde não há perigo de perseguição aberta, paira no ar o medo de que uma nação pária possa lançar um míssil nuclear, ou terroristas possam atacar de maneiras inimagináveis. Quando pensamos nos milhões de cristãos que sofrem perseguição hoje, podemos começar a questionar a soberania de Deus. Se Deus é um Deus soberano e amoroso, por que o seu povo sofre tanto neste mundo? Se Deus é soberano, por que ele não resgata o seu povo do sofrimento? Não há respostas fáceis para essas perguntas. Mas a mensagem de Daniel 4 é incontestável: Deus é soberano sobre os reinos terrenos. Ele pode substituir os governantes à vontade. Nabucodonosor há muito desapareceu. Nero morreu há muito tempo. Hitler, Stalin, Mao (Zedong), Kim Jong Il – todos se foram. Mas Deus continua aqui. E o seu reino veio com a vinda de Jesus e virá em perfeição quando Jesus vier novamente.104 Este reino substituirá todos os reinos da terra. Então a nova terra transbordará de justiça e paz e todos louvarão o Rei dos reis e Senhor dos senhores. Graças a Deus. 1 Aramaico 3.3 – 4.34. 2 Goldingay, Daniel, 97, citado com aprovação por Lucas, Daniel, 118. O próprio Lucas esboça Nabucodonosor pela primeira vez como um modelo positivo: em contraste com 3.29, onde o rei confiou no poder de força física para impedir blasfêmias contra Deus, aqui ele confia “no poder do testemunho pessoal. Infelizmente, as igrejas cristãs têm dado, por vezes, lugar à tentação de agir mais como Nabucodonosor 3.29 do que em 4.1-3”. Ibid., 114. Em seguida, ele usa Nabucodonosor como exemplo de aviso: “Há uma mensagem aqui não só para os governantes nacionais: pais, professores, administradores de empresas, políticos e muitos outros têm, em alguma medida, o papel de ser a ‘árvore da vida’ para os outros. Se essa função não for realizada com a devida humildade, o resultado pode ser desastroso para todos os interessados (4.14)”. Ibid., 115-16. Goldingay, Daniel, 87 e 91, acerta muito mais no alvo quando escreve: “Nabucodonosor não representa a humanidade comum sendo julgada por orgulho humano comum”; e “O capítulo refere-se à pergunta: ‘Quem é o rei?’”. 3 Longman, Daniel, 122. 4 Cf. Provérbios 29.23: “A soberba do homem o abaterá, mas o humilde de espírito obterá honra”. 5 Wallace, The Lord Is King, 73. 6 Ibid., 81. 7 Miller, Daniel, 129. 8 Miller, ibid., 131. Cf. Lucas, Daniel, 115, “Embora a experiência de Daniel retratada nesta história esteja muito longe do que a do crente comum, o discernimento espiritual intuitivo que ele mostra é algo que todos os crentes precisam... Assim como a percepção de Daniel cresceu da sua estreita relação com Deus (Dn 4.8), igualmente o cristão não pode esperar “ter a mente de Cristo”, sem desenvolver um modo cristão de vida”. 9 Wallace, The Lord Is King, 79. 10 Ibid., 82. Cf. W. G. Heslop, Diamonds from Daniel (cidade?: Nazarene, 1937), 71 “O profeta fala de forma clara e incisiva... Conquanto nós não possamos gritar, enraivecer, ou espumar contra os pecadores, sob o pretexto de temperamento quente ou zelo, não devemos, por outro lado, usar palavras lisonjeiras e transigir com o pecado, sob o pretexto de ganhar pecadores para a igreja, ou manter os jovens”. 11 Quando as divisões de capítulos foram introduzidas, no século 13, a Vulgata incluiu os versículos 4.1-3 no capítulo 3 (3.31-33). A razão dessa divisão foi, provavelmente, porque esses versículos incluem louvor a Deus, que, normalmente, vem no fim das narrativas de Daniel, como em 4.34-37. Mais tarde, as divisões de capítulos da Vulgata foram adicionadas ao texto hebraico/aramaico, mas tanto Lutero como Calvino mudaram estes três versículos para o capítulo 4. Veja, p.ex., Collins, Daniel, 221-22; Lucas, Daniel,107-8; e Steinmann, Daniel, 209. 12 Veja Leupold, Exposition of Daniel, 167. 13 Poder-se-ia pedir a três bons leitores para ler as partes de Nabucodonosor (4.1-18,30,34,37), de Daniel (4.19-27) e do narrador (incluindo a voz do céu; 4.28-29,31-33). Mas se o tempo for uma consideração importante, pode-se também considerar informar à congregação que a leitura da Escritura vai ser incorporada no próprio sermão. 14 Para ver onze pontos de similaridade entre Daniel 2 e 4, veja Stefanovic, Daniel, 158. 15 Para ver os paralelos, veja Steinmann, Daniel, 233-34, e Lucas, Daniel, 109-10. 16 Porteous, Daniel, 65. 17 Para ver algumas das referências acima, veja Collins, Daniel, 228, 230. Para ver sobre a obrigação do rei de praticar a justiça, veja também Jeremias 22.15-16 e Salmo 72.2, 4. 18 Lucas, Daniel, 103. “A forma como ele começa, com a identificação do escritor e dos destinatários e uma saudação, é uma característica normal das cartas aramaicas”. Ibid. Este tipo de introdução também é encontrado na maioria das epístolas do Novo Testamento (veja, p. ex., Rm 1.1- 7; 1Co 1.1-3; 2Co 1.1-2; Gl 1.15; Ef 1.1-2). 19 Estas são as seções que a NRSV imprimiu como poesia. Uma vez que a linha entre prosa e poesia é algo fluido, os tradutores nem sempre entram em acordo sobre onde traçar a linha. A NVI imprime como poesia só 4.3 e 34b-35. 20 Veja Collins, Daniel (1984), 61-64. 21 Veja Lacocque, Book of Daniel, 83, e Lucas, Daniel, 104. 22 Veja Goldingay, Daniel, 84, e Lucas, Daniel, 102. 23 Uma única linha de enredo também é possível com o clímax de Deus castigando o rei (v. 31-33) e a virada para a resolução com o rei levantando os olhos para o céu (v. 34). Mas um enredo complexo pode fazer mais justiça às cenas com a pergunta na cena 1: Será Daniel capaz de interpretar o sonho, quando os sábios não puderam? E as perguntas nas cenas 2 e 3: Será que o rei vai emendar- se ou será que o sonho vai se cumprir? Será que o rei vai honrar a Deus e ser restaurado? 24 Conforme traduzida, esta é uma pergunta retórica, mas há o argumento de que “hălā (tradicionalmente entendido como ‘não é?’) não introduz uma pergunta retórica, mas marca uma exclamação”. Veja Steinmann, Daniel, 250.25 “O foco real e centro desta história é o próprio Nabucodonosor; aqui até mesmo Daniel carece de personalidade e caráter e funciona meramente como um canal para a mensagem do Altíssimo. Neste sentido, pode-se dizer que os verdadeiros protagonistas desta narrativa são dois soberanos, um do céu e um da Babilônia”. Towner, Daniel, 59. 26 Lederach, Daniel, 92. 27 4.1,10,11,15 (2x),20,22,23,35 (2x). 28 4.11,12,13,15,20,21,22,23 (2x),25,26,31,33,34,35,37. 29 Seow, Daniel, 65. 30 Ibid. 31 Collins, Daniel, 232, observa que “Daniel usa a frase ‘o Senhor do céu’ em 5.23”. 32 Goldingay, Daniel, 87. Cf. nota 25, acima. 33 Baldwin, Daniel, 107. 34 Shea, “Further Literary Structures in Daniel 2-7: An Analysis of Daniel 4”, AUSS 23/2 (1985) 202. 35 Goldingay, Daniel, 85-86, observa que nenhum outro capítulo do Antigo Testamento usa o título “Altíssimo” com a frequência deste capítulo. 36 Redditt, Daniel, 82. 37 Por exemplo, Collins, Daniel (1984), 62. Mas veja também ibid., 65: “A intenção de Daniel 4 se torna bastante explícita no v. 22 [25]: Nabucodonosor é informado que sua humilhação durará “até que aprendas que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem quer”. Lederach, Daniel, 92, afirma: “O forte motivo de orgulho humano ou especialmente real é secundário para a ênfase principal na soberania divina, como mostrado na razão para o decreto... (4.17)”. 38 Towner, Daniel, 59: “O capítulo 4 é uma história sobre duas soberanias. Ele vem justapor a força ou poder do maior de todos os soberanos humanos (fazendo do termo aramaico t-q-f, ‘crescer forte, poderoso’ uma espécie de pivô – cf. v. 11,20,22,30, aplicados a Nabucodonosor, e v. 3, aplicado ao Deus Altíssimo) com a força e o poder do Altíssimo”. 39 Seow, Daniel, 64. 40 Cf. Porteous, Daniel, 65: “O tema deste capítulo é resumido no versículo 25, naquilo que viria a ser descoberto por Nabucodonosor após ser disciplinado por Deus, isto é, que ‘o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens; e o dá a quem quer’”. Assim também Parry, “Desolation of the Temple and Messianic Enthronement in Daniel 11:36-12:3”, JETS 54/3 (2011) 487. 41 Cf. Longman, Daniel, 122: “O objetivo da história é incentivar a confiança de Israel, em função da sua impotência diante de um governante aparentemente todo-poderoso”. Cf. p. 126: “O povo de Deus é chamado a se consolar com esta verdade”. Collins, Daniel (1984), 65: “A importância desta mensagem para os judeus a serviço de um rei pagão foi que ela lhes garantiu que o Deus deles estava no controle, apesar de aparência em contrário”. 42 Towner, Daniel, 67, sugere que “a soberania absoluta de Deus parece ser uma promessa. Para os judeus que definhavam no exílio babilônico, é a base de uma base de longo prazo para a esperança”. Mas não há nenhuma promessa da vinda do Messias nesta passagem. 43 Gregory Beale argumenta convincentemente que o título de “Senhor dos senhores e o Rei dos reis” em Apocalipse 17.14 tem sua origem em Daniel 4.37 (LXX). E conclui: “Através da aplicação deste título a Cristo, o autor [de Apocalipse] pode visualizar a humilhação soberana do rei da Babilônia por Deus em Daniel 4 como uma profecia tipológica da derrota soberana do inimigo por Cristo no fim dos tempos, que está intimamente associada com a Babilônia escatológica”. Embora o autor de Apocalipse possa muito bem ter visto Deus derrotar o poderoso rei da Babilônia como um tipo de Cristo derrotando Satanás, não podemos usar esta linha de raciocínio no sermão, já que Daniel 4.37 (LXX) é “uma expansão interpretativa de Daniel 4.32 do Texto Massorético”, e, portanto, não se encontra em nossas versões em inglês. 44 “O livro de Apocalipse, muitas vezes comparando as forças do mal com a Babilônia antiga, mostra a vitória final de Deus em favor de seu povo fiel”. Longman, Daniel, 128. 45 Collins, Daniel, 107. 46 Além disso, o apêndice vê alusões a Daniel 4.27 [30], “não é esta a grande Babilônia que eu edifiquei para a casa real, com o meu grandioso poder e para glória da minha majestade?”, em Efésios 1.19, “a suprema grandeza do seu poder” e em Apocalipse 14. 8, “caiu, caiu a grande Babilônia!”. Para Daniel 4.31 [34], “eu bendisse o Altíssimo, e louvei, e glorifiquei ao que vive para sempre”, ele lista Apocalipse 4.9, as criaturas vivas que dão “glória, honra e ações de graças ao que se encontra sentado no trono, ao que vive pelos séculos dos séculos”. Nenhuma dessas alusões funciona como ponte forte para Jesus Cristo. 47 Veja, p. ex., Boice, Daniel, 52-53. 48 Miller, Daniel, 127-28, calcula que “este incidente deve ter ocorrido o mais tardar no trigésimo quarto ano (571 a.C.) de seu reinado, que durou quarenta e três anos (605-562 a.C.)”. Steinmann, Daniel, 208, chega a uma conclusão semelhante: “O mais provável é que Daniel 4 date de algum momento durante 573-569 a.C.)”. 49 “Os reis assírios e babilônicos se consideravam reis de toda a terra e, em suas inscrições, eles estavam acostumados a falar assim de si mesmos. Essa prática também estava em voga entre os governantes persas... [cf.] 6.25”. Young, Prophecy of Daniel, 97. 50 “Estes sinais eram eventos de natureza extraordinária ou milagrosa, e a palavra ‘maravilhas’ serve para designar o efeito que produziam”. Ibid. Seow, Daniel, 65, ressalta que “a referência à realização divina de ‘sinais e maravilhas’ recorda a manifestação do poder de Deus na libertação de Israel da escravidão (Êx 7.3; Dt 6.22; 7.19, Sl 135.9). Além disso, a divindade é chamada de “o Deus Altíssimo”, um epíteto de Deus como governante supremo do céu e da terra (veja, p. ex., Gn 14.19- 20; Nm 24.16)”. Hill, “Daniel”, 90, acrescenta: “O relatório de ‘sinais e maravilhas’ divinos estabelece que Deus continua fazendo milagres para o seu povo – a comunidade hebraica no exílio precisava dessa certeza”. 51 “O rei ainda está profundamente impressionado com o que acaba de lhe acontecer... Este foi um livramento insólito que o rei experimentou”. Leupold, Exposition of Daniel, 171. 52 “‘Satisfeito’ é uma tradução da palavra aramaica s̆ĕlēh, que significa propriamente ‘à vontade’ ou ‘em repouso’, transmitindo tanto contentamento quanto segurança”. Miller, Daniel, 130. 53 “A brusquidão com que este versículo é introduzido constitui artifício literário para indicar quão inesperadamente o sonho chegou”. Leupold, Exposition of Daniel, 172-73. Cf. Anderson, Signs and Wonders, 41: “O contraste entre o seu estado de espírito nos versos 4 e 5 é dramático. O narrador fez isto em apenas duas frases curtas”. 54 “Aparentemente despertado pelo sonho, embora ainda esteja deitado, ele está alarmado também por seus ‘pensamentos’ na sua cama, as reflexões deflagradas pelo sonho. Além disso, certas fantasias ou imagens desfocadas reminiscentes do sonho, aqui chamadas de “as visões da minha cabeça”, contribuíram para o mesmo resultado”. Leupold, Exposition of Daniel, 173. 55 “A explicação mais simples é que Daniel não estava no palácio com os outros sábios quando a convocação foi feita, e este pode ser um fato”. Miller, Daniel, 131. 56 “Do ponto de vista de um leitor judeu, há ironia na utilização que Nabucodonosor faz da etimologia popular (‘Bel’ interpretado como um título para Marduque) para vincular Daniel (e, presumivelmente, sua coragem) com Marduque, o deus da Babilônia”. Lucas, Daniel, 109. 57 “A única pessoa caracterizada assim nas Escrituras é José, sobre quem Faraó diz: ‘Em quem há o Espírito de Deus’ (Gn 41.38). O fato de Daniel preservar este comentário sinaliza que ele está traçando um paralelo entre José e ele próprio... Ele quer enfatizar que o Deus de Israel – que protegia José, capacitou-o a prosperar na corte de Faraó e eventualmente conduziu seu povo para fora da escravidão no Egito – ainda estava com o seu povo exilado na Babilônia e, eventualmente, iria libertá-lo da escravidão ali”. Steinmann, Daniel, 233. 58 “Um mistério desses é um mistério criado por Deus e, portanto, só ele pode resolver. Contudo, ele usa intermediários humanos para isto, aqueles em que o espírito de Deus de fato habita, aqueles