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Pregando Cristo a partir de Daniel

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Prévia do material em texto

Pregando Cristo a partir de Daniel © 2017, Editora Cultura Cristã. Publicado originalmente em
inglês com o título Preaching Christ from Daniel © 2012 Sidney Greidanus por Wm. B. Eerdmans
Publishing Co. 2140 Oak Industrial Drive N.E., Grand Rapids, Michigan 49505. Todos os direitos são
reservados.
Conselho Editorial
Antônio Coine
Carlos Henrique Machado
Cláudio Marra (Presidente) Produção Editorial
Filipe Fontes Tradução
Heber Carlos de Campos Jr. Neuza Batista da Silva
Marcos André Marques Revisão
Misael Batista do Nascimento Vagner Barbosa
Tarcízio José de Freitas Carvalho Sandra Couto
Sandra Dantas
Editoração, e-book e capa
OM Designers Grá�cos
G824pGreidanus, Sidney
Pregando Cristo a partir de Daniel / Sidney Greidanus ;
Traduzido por Neuza Batista da Silva. _ São Paulo:
Cultura Cristã, 2017
Recurso eletrônico (ePub)
ISBN 978-85-7622-889-9
Tradução Preaching Christ from Daniel
1. Estudo Bíblico 2. Homilética 3. Pregação I. Título
CDU 27-277
A posição doutrinária da Igreja Presbiteriana do Brasil é expressa em seus “símbolos de fé”, que apresentam o modo Reformado e
Presbiteriano de compreender a Escritura. São esses símbolos a Confissão de Fé de Westminster e seus catecismos, o Maior e o
Breve. Como Editora o�cial de uma denominação confessional, cuidamos para que as obras publicadas espelhem sempre essa
posição. Existe a possibilidade, porém, de autores, às vezes, mencionarem ou mesmo defenderem aspectos que re�etem a sua
própria opinião, sem que o fato de sua publicação por esta Editora represente endosso integral, pela denominação e pela Editora, de
todos os pontos de vista apresentados. A posição da denominação sobre pontos especí�cos porventura em debate poderá ser
encontrada nos mencionados símbolos de fé.
Rua Miguel Teles Júnior, 394 – CEP 01540-040 – São Paulo – SP
Fones: 0800-0141963 / (11) 3207-7099
www.editoraculturacrista.com.br – cep@cep.org.br
Superintendente: Haveraldo Ferreira Vargas
Editor: Cláudio Antônio Batista Marra
Dedico este livro à igreja de
Jesus que sofre perseguição.
Que as mensagens reconfortantes de
Daniel incentivem todos os cristãos
a manterem-se fiéis até o fim.
“Eu estava olhando...
e eis que vinha com as nuvens do céu
um como o Filho do Homem...”
Daniel 7.13
“Eu sou [o Messias],
e vereis o Filho do Homem
assentado à direita do Todo-Poderoso
e vindo com as nuvens do céu.”
Jesus. Marcos 14.62
“Eis que vem com as nuvens,
e todo olho o verá,
até quantos o traspassaram.”
João. Apocalipse 1.7
Prefácio
Recordo-me que, quando jovem pregador, procurei por livros com
modelos de sermão que me ajudassem a preparar sermões bíblicos
relevantes. Infelizmente, achei pouca ajuda. Nem mesmo o meu doutorado
em Hermenêutica e Homilética Bíblica forneceu ajuda significativa na
pregação de um livro tão difícil como Daniel. Consequentemente, em meus
oito anos como pastor de uma igreja, preguei apenas um sermão sobre
Daniel – sobre Daniel 2 (uma passagem relativamente fácil), que eu preguei
sob o tema: “O reino de Deus substituirá todos os reinos humanos” (3 de
março de 1974). Agora, quase quarenta anos depois e tendo me aposentado
do ensino no seminário, tive tempo para pesquisar o livro de Daniel em
profundidade e perceber quantas boas-novas eu perdi quando mais jovem.
Contudo, estou ciente de que não poderia ter pregado este livro controverso
de forma responsável quando tinha que produzir dois sermões diferentes
por semana.
O objetivo deste livro é auxiliar os atarefados pregadores e professores de
Bíblia a proclamarem as boas-novas de Daniel. Este livro os capacitará a
identificar de imediato os blocos de construção importantes para a produção
de sermões e aulas sobre Daniel: detectar a linha da história (enredo) de
cada uma das seis narrativas e das quatro visões; formular o núcleo da
mensagem de Israel no exílio (o tema); descobrir o objetivo do autor
(propósito, intenção) ao enviar esta mensagem a Israel e, por analogia, o
objetivo do pastor ao pregar essa mensagem à sua igreja hoje; descobrir
várias maneiras de vincular cada texto da pregação a Jesus Cristo no Novo
Testamento; e a obter exposição bíblica relevante de cada passagem.
Como um companheiro dos meus livros Pregando Cristo a partir de
Gênesis e Pregando Cristo a partir de Eclesiastes, este livro destina-se
ainda mais a demonstrar e a reforçar o método cristocêntrico histórico-
redentivo – desta vez demonstrando-o com a pregação do gênero
apocalíptico. Conquanto a pregação cristocêntrica seja sempre teocêntrica,
ela se move para além do foco teocêntrico, para a plenitude da
autorrevelação de Deus em Jesus Cristo. Como o apóstolo João explica:
“Ninguém jamais viu a Deus; o Deus unigênito, que está no seio do Pai, é
quem o revelou” (Jo 1.18).
Eu sigo o mesmo padrão básico para cada texto de pregação. Esse padrão
se baseia nos dez passos do texto ao sermão que eu desenvolvi para
seminaristas do primeiro ano (veja Apêndice 1). Ele gradualmente conduz
os estudantes de uma relação casual com o texto a um envolvimento cada
vez mais profundo, até que estejam prontos para escrever o sermão. A
repetição resultante em cada capítulo tem a intenção de inculcar uma
abordagem hermenêutico-homilética básica ao texto bíblico.
Primeiramente, estabelecemos os parâmetros do texto da pregação (a
unidade literária) e verificamos o seu contexto. Em seguida, notamos
aspectos literários importantes, especialmente o enredo, o que é importante
não só para a compreensão dessas passagens, mas também para pregar o
sermão de uma forma narrativa. Depois da interpretação teocêntrica,
buscamos formular o tema textual e objetivo. Com o tema em mente,
podemos investigar vários caminhos legítimos desta passagem até Jesus
Cristo no Novo Testamento. Depois de ter visto a mensagem do Antigo
Testamento no contexto do Novo, estamos prontos para estender o tema
textual e objetivo ao tema e objetivo do sermão.
Cada capítulo termina com uma seção maior de “Exposição do Sermão”,
que não apenas explica o significado dos versículos do texto da pregação,
mas também fornece (muitas vezes em notas de rodapé) opiniões de muitos
comentaristas que os pregadores podem querer incorporar aos seus sermões.
Essas seções procuram fornecer um modelo para sermões usando o estilo
oral, tanto quanto possível, dando a referência do versículo antes de citá-lo,
para que a congregação possa ler junto (a compreensão é muito melhor
quando a congregação não só ouve, mas lê as palavras), e mantendo o
sermão em movimento (a maioria das citações, argumentos complexos e
detalhes técnicos são relegados a notas de rodapé). Nessas seções, também
assinalo onde e como no sermão eu faria a conexão com Cristo. Em
consonância com o objetivo do sermão citado, faço aplicações breves; nos
sermões reais, essas aplicações terão de ser desenvolvidas com ilustrações e
sugestões concretas adequadas para a situação da congregação. Uma vez
que estas seções procuram explicar cada versículo do texto, para os textos
de pregação mais longos os pregadores terão que selecionar os versículos-
chave para a exposição. Os professores de Bíblia podem atribuir as diversas
seções da “Exposição do Sermão” aos seus alunos para estudarem Daniel
em onze lições.
O Apêndice 2 fornece o modelo de sermão expositivo que eu desenvolvi
para seminaristas do primeiro ano. Este modelo visa fazer sermões que
sejam bíblicos, relevantes e bem organizados. Um ex-aluno meu, Ryan
Faber, combinou a revisão deste livro com a preparação e pregação de uma
série de onze sermões sobre Daniel. Com sua permissão, incluí dois desses
sermões nos Apêndices 3 e 4.
Salvo disposição em contrário, a versão da Bíblia citada é a ARA
(Almeida Revista e Atualizada). Quando a NVI (Nova Versão
Internacional) é citada, é a versão mais recente (2011). Os itálicos nas
citações bíblicas indicam a(s) palavra(s) que considero importante(s) para a
interpretação e/ou gostaria de salientar na leitura.
As referências nas notas de rodapé foram mantidas a um mínimo;
referências completas podem ser encontradas na bibliografia.Quando um
livro ou artigo não está incluído na Bibliografia Selecionada, a informação
completa encontra-se na nota de rodapé.
Minha esperança e oração são votos de que este livro ajude pregadores e
professores a edificarem a fé, a esperança, o amor e a perseverança do povo
sofredor de Deus com as mensagens de Daniel sobre a soberania de Deus
sobre todos os reinos humanos e a certeza da vinda do reino de Deus.
Grand Rapids, Michigan
Sidney Greidanus
Agradecimentos
Antes de tudo, gostaria de agradecer aos meus quatro revisores pelo
excelente trabalho. Em ordem alfabética, eles foram meus ex-alunos, o Rev.
Ryan Faber, de Pella, IA; meu irmão, Rev. Morris N. Greidanus, de Grand
Rapids, MI; meu colega, Rev. Dr. Arie C. Leder, de Grand Rapids, MI; e
meu ex-aluno, Rev. Joel Schreurs, de Denver, CO. As correções, perguntas
e sugestões fizeram este livro muito melhor do que eu poderia ter produzido
sem a contribuição deles.
Também expresso o meu apreço à biblioteca do Calvin College e do
Calvin Theological Seminary pela sua generosa política de empréstimos
para o corpo docente e ao seu pessoal pelo serviço prestimoso. Agradeço ao
pessoal da Eerdmans Publishing Company, especialmente ao editor de
cópia dos meus últimos quatro livros, Milton Essenburg, por habilmente
preparar este livro para publicação. Mais uma vez expresso minha gratidão
à minha esposa, Marie, por cuidar da maioria das tarefas domésticas para
que eu pudesse me concentrar totalmente na pesquisa e escrita deste livro.
Acima de tudo, sou grato a Deus por me dar saúde, força, inspiração e
alegria para completar este trabalho.
Visto que Daniel foi originalmente escrito para confortar e encorajar
Israel, que sofria no exílio, dedico este livro à igreja de Jesus que está
sofrendo perseguição.
Abreviaturas
AS Aramaic Studies
AT Acta Theologica
AUSS Andrews University Seminary Studies
AV Authorized Version
BAR Biblical Archaeology Review
BBR Bulletin for Biblical Research
Bib Bíblica
BSac Bibliotheca Sacra
BTB Biblical Theology Bulletin
CBQ Catholic Biblical Quarterly
CBR Currents in Biblical Research
cf. confira, compare
CTJ Calvin Theological Journal
CovQ Covenant Quarterly
CQ The Congregational Quarterly
ed(s) organizador(es)
ESV English Standard Version
ET English Translation
EvQ Evangelical Quarterly
EvRT Evangelical Review of Theology
ExpTim Expository Times
HBT Horizons in Biblical Theology
Heb. Hebraico
HervTS Hervormde Teologiese Studies
HUCA Hebrew Union College Annual
IB Interpreter’s Bible
Int Interpretação
JATS Journal of the Adventist Theological Society
JBL Journal of Biblical Literature
JETS Journal of the Evangelical Theological Society
JHS Journal of Hebrew Scriptures
JQR Jewish Quarterly Review
JSHJ Journal for the Study of the Historical Jesus
JSOT Journal for the Study of the Old Testament
JSS Journal of Semitic Studies
JTS Journal of Theological Studies
LXX Septuaginta
MT Texto Massorético do Antigo Testamento hebraico
n(n). nota(s) de rodapé(s)
NASB New American Standard Bible
NEB New English Bible
NIV New International Version (2011)
NRSV New Revised Standard Version
NICOT New International Commentary on the Old Testament
NIDOTTE New International Dictionary of Old Testament Theology and
Exegesis
OG Grego antigo
p(p). página(s)
par(s). paralelo(s)
PRSt Perspectives in Religious Studies
PSBul Princeton Seminary Bulletin
RevExp Review and Expositor
RR Reformed Review
RSV Revised Standard Version
TDNT Theological Dictionary of the New Testament
TDOT Theological Dictionary of the Old Testament
TJ Trinity Journal
trad. Traduzido por
TSFBul Theological Students Fellowship Bulletin
TynBul Tyndale Bulletin
Vol. Volume
VT Vetus Testamentum
VTSup Vetus Testamentum, Supplements
W&W Word & World
WTJ Westminster Theological Journal
INTRODUÇÃO
Dificuldades na pregação de Cristo a partir de
Daniel
Embora as histórias de Daniel sejam muito apreciadas pelas crianças da
Escola Dominical, em geral os estudiosos do Antigo Testamento concordam
que esse livro é um dos mais difíceis para pregadores. André Lacocque
afirma que a mensagem de Daniel “é apresentada de uma forma cheia de
armadilhas e ciladas para o leitor”.1 Brent Sandy e Martin Abegg afirmam
que “o gênero apocalíptico tem sido submetido a algumas das
interpretações mais falaciosas que se possa imaginar, em grande parte
porque os cristãos nem sempre tomam o devido cuidado de entender a
intenção original do autor e o significado da mensagem para os ouvintes da
época. Qualquer porção da Escritura divorciada de sua cultura original e da
intenção do seu autor é como uma criança sem teto vagando pelas ruas,
vulnerável a abusos violentos.”2
Milhares, ou talvez dezenas de milhares de páginas, foram escritas sobre
problemas introdutórios do livro de Daniel. Um dos principais tópicos se
refere à data de sua composição, e questões conexas dizem respeito ao seu
autor(es) e ao seu público original. Na verdade, modernos estudiosos
críticos, dispensacionalistas e outros têm gerado tanta controvérsia sobre a
data do livro, sua historicidade e se Daniel pode ser usado para prever “o
fim do mundo”3 que muitos pregadores evitam até mesmo tentar pregar
sobre Daniel. O Lecionário Comum seleciona apenas três passagens de
Daniel para o seu ciclo de três anos: ele atribui a leitura de Daniel 12.1-3
para todos os três anos no domingo de Páscoa à noite; Daniel 7.1-3, 15-18
no Ano C para o Dia de Todos os Santos; e Daniel 7.9-14 no Ano B para
um domingo no final da temporada de Pentecostes. Sibley Towner coloca a
questão vividamente: “Por que pregadores deveriam arriscar levar aos seus
púlpitos as bombas-relógio acionadas no Livro de Daniel?”4
Visto que o meu objetivo principal ao escrever este livro é ajudar pastores
a pregarem mensagens em Daniel, e como que as discussões sobre as
questões introdutórias complexas podem prejudicar o objetivo, remeto o
leitor a outros autores para ver discussões introdutórias mais detalhadas.5
Peter Craigie afirma, com razão: “Nós não compreenderemos a relevância
do livro combatendo as batalhas da crítica histórica; eventualmente, a
mensagem deste livro é revelada àqueles que tentam compartilhar a visão
de seu autor”.6 Contudo, não podemos evitar as questões introdutórias
inteiramente. Visto que sua posição em relação à data de composição, o
autor(es) e o público original têm impacto sobre a exposição, o objetivo e a
aplicação de uma passagem,7 devemos, pelo menos, indicar o nosso ponto
de partida e algumas das razões para isso.
O contexto histórico e geográfico de Daniel
O livro de Daniel retrata acontecimentos na vida de Daniel e seus amigos
nos anos de 605 a.C. (“No ano terceiro do reinado de Jeoaquim”; 1.1) a 536
a.C. (“No terceiro ano de Ciro”; 10.1). Registra também as visões de Daniel
concernentes a épocas posteriores, incluindo o governo de Antíoco IV (8.9-
12, 23-25; 11.21-35; 175-163 a.C.) e o “tempo do fim” (por exemplo, 11.40;
12.1-3, 13). A tabela8 a seguir fornece uma visão geral das principais datas,
impérios, pessoas e eventos, juntamente com referências a Daniel.
História coberta por Daniel
Data
a.C.
625-
539
IMPÉRIO BABILÔNICO Dn 2.37-38
605-
562
Nabucodonosor Dn 1-4; 7.4
605 Daniel e seus amigos levados para a Babilônia Dn 1.3-4
597 Jerusalém tomada; muitos judeus exilados 2Rs 24.10-17
587 Jerusalém destruída; templo queimado;
remanescente judeu exilado
2Rs 25.8-21
562-
560
Amel-Marduque (Evil-Merodaque) 2Rs 25.27-30
560-
556
Neriglissar, genro de Nabucodonosor
556 Labashi-Marduque
556- Nabonide
539
550-
539
Belsazar (corregente com seu pai Nabonide) Dn 5; 7.1; 8.1
539-
331
IMPÉRIO MEDO-PERSA Dn 2.39a
550-
530
Ciro/Dario, rei medo-persa Dn 1.21; 5.31; 6.1,
28; 8.3-4, 20; 9.1; 10.1; 11.1
539 Babilônia cai para Ciro Dn 5.24-30
538 Retorno do remanescente de judeus exilados 2Cr 36.22-23; Ed 1-2
530-
522
Cambises Dn 11.2
522 Esmérdis Dn 11.2
522-
486
Dario I Dn 11.2
520-
516
Reconstrução do templo Ed 6.15
486-
465
Xerxes I/Assuero em Ester Dn 11.2
465-
424
Artaxerxes I
423 Xerxes II
423-
404Dario II
404-
358
Artaxerxes II Nótus
358-
338
Artaxerxes III Ocus
338-
336
Arses
336-
331
Dario III Codomano
331-
63 IMPÉRIO GREGO Dn 2.39b
336-
323
Alexandre, o Grande
Dn 8.5-8, 21; 10.20; 11.3
331 Alexandre vence Dario III Dn 11.3
301 Império grego dividido entre os quatro Diádocos Dn 8.8, 22; 11.4
EGITO (Ptolomeus) SIRIA (Selêucidas)
323-
285
Ptolomeu I Dn 11.5
311-
280
Seleuco I Dn 11.5
285-
246
Ptolomeu II Dn 11.6
280-
261
Antíoco I Soter
261-
246
Antíoco II Theos Dn 11.6
252 Berenice, filha de Ptolomeu II, se
casa com Antíoco II
Dn 11.6
246-
226
Seleuco II Calínico Dn 11.7-9
246-
221
Ptolomeu III Euergetes I Dn 11.7-9
226-
223
Seleuco III Cerauno Dn 11.10
223-
187
Antíoco III, o Grande Dn 11.10-19
221-
204
Ptolomeu IV Filópatro Dn 11.11-12, 14
204-
181
Ptolomeu V Epifânio Dn 11.13-19
193 Ptolomeu V se casou com Cleópatra,
filha de Antíoco III
Dn 11.17
187 Morte de Antíoco III Dn 11.18-19
187-
175
Seleuco IV Filópatro Dn 11.20
181-
146
Ptolomeu VI Filômetro (reinou junto
com Ptolomeu VII) Dn 11.25-27
175-
164
Antíoco IV Epifânio Dn 8.9-12, 23-25;
11.21-35 (-39?)
169 1ª Guerra de Antíoco contra
o Egito
Dn 11.25-28
168 2ª Guerra de Antíoco contra
o Egito
Dn 11.29
168 Antíoco expulso do Egito
pelo cônsul romano
Dn 11.30
167 Altar para Zeus perto do
templo de Jerusalém
Dn 11.31
167-
163
Perseguição aos judeus Dn 11.33-35
163 Morte de Antíoco IV Dn 8.25
63 a.C. – 476 d.C. – IMPÉRIO ROMANO Dn 2.40
“O TEMPO DO FIM” Dn 8.17; 11.35, 40; 12.4, 9, 13
Tempo de angústia Dn 7.25; 12.1
Liberto o povo de Deus Dn 7.27; 12.1
Ressurreição dos mortos Dn 12.2, 13
Reino de Deus na terra Dn 2.35, 44; 7.14, 27; 9.24; 12.3, 13
Como se pode ver nesta tabela, o livro de Daniel trata de quatro grandes
impérios mundiais: Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia (especialmente o Egito
e a Síria) e Roma. O mapa na página 23 mostra a localização desses países,
com Israel situado no meio.
O livro de Daniel contém seis narrativas sobre Daniel e seus amigos
(capítulos 1–6) e quatro visões de Daniel (capítulos 7–12).
Tradicionalmente, a sinagoga, bem como a igreja, sustenta que Daniel
escreveu este livro no século 6º a.C. Essa opinião mudou nos tempos
modernos.
Uma composição do século 2o a.C.
No século 3º depois de Cristo, um crítico pagão do Cristianismo, Porfírio,
atacou a posição tradicional, alegando que profecia não pode prever eventos
com 400 anos de antecedência. Ele sustentou que o autor de Daniel era um
falsificador que escreveu o livro no século 2º a.C., depois de esses eventos
terem ocorrido (vaticinium ex eventu). A igreja declarou a posição de
Porfírio como herética, e a posição tradicional foi mantida pela igreja até os
tempos modernos. “Mas, durante o tempo do Iluminismo, no século 18,
todos os elementos sobrenaturais na Bíblia foram postos sob suspeita; e a
teoria de Porfírio recebeu apoio crescente”.9 Como Porfírio,10 esses
estudiosos críticos presumiram que a profecia não pode prever o futuro em
detalhes.11 Eles também alegaram que o relato de Daniel do exílio do século
6º é bastante vago, se não “confuso”,12 enquanto as informações dele sobre
os séculos 3º e 2º a.C., no capítulo 11, são incrivelmente precisas (veja a
tabela acima). Eles argumentaram, portanto, que o autor(es) deve(m) ter
escrito este livro não no século 6º a.C., mas no século 2º, após esses eventos
terem ocorrido. De acordo com James Montgomery, o autor escreveu este
livro “nos primeiros anos da revolta dos Macabeus, 168-165 a.C.”,13 embora
provavelmente tenha feito uso de material anterior nos capítulos 1–6.14 Seu
objetivo era encorajar Israel a aderir ao levante e se libertar do jugo do cruel
rei selêucida Antíoco IV Epifânio (175-163 a.C.).15
Esses estudiosos respaldam a sua posição ao apontar “erros” supostos
históricos sobre o século 6º a.C. nos primeiros seis capítulos de Daniel. Por
exemplo, Daniel 1.1 afirma: “No ano terceiro do reinado de Jeoaquim, rei
de Judá, veio Nabucodonosor, rei da Babilônia, a Jerusalém e a sitiou”,
enquanto Jeremias atribui este evento ao “ano quarto de Jeoaquim” (25.1,
9). Norman Porteous afirma confiantemente: “A primeira afirmação no
capítulo 1 pode ser demonstrada como imprecisa”.16 Em Daniel 4.30, o rei
Nabucodonosor diz: ”Não é esta a grande Babilônia que eu edifiquei para a
casa real, com o meu grandioso poder e para glória da minha majestade?”
Mas a Babilônia existia muito antes de Nabucodonosor, e os historiadores
antigos não se referem a Nabucodonosor como o construtor da Babilônia.
Daniel 5.1 afirma: “O rei Belsazar deu um grande banquete a mil dos seus
grandes e bebeu vinho na presença dos mil” (cf. 8.1). H. H. Rowley chama
isso de “grave erro histórico”, pois nenhum outro texto foi encontrado que o
chama de “rei”.17 Daniel 5.11 e 18 falam de Nabucodonosor como o “pai”
de Belsazar. Rowley afirma que “isto é manifestamente incorreto, uma vez
que Belsazar é conhecido por ter sido o filho de Nabonide”.18 Daniel 5.30-
31 diz que, quando Belsazar foi morto, “Dario, o medo, com cerca de
sessenta e dois anos, se apoderou do reino”. Rowley alega que “Daniel está
definitivamente errado na atribuição do trono a Dario, após a queda do
império neobabilônico”.19 Todos estes “erros” em relação ao século 6º a.C.,
prossegue a argumentação, apontam para um autor que viveu séculos depois
desses acontecimentos. Por exemplo, John Collins escreve: “O equívoco do
autor sobre o pai e posto de Belsazar... sugere que a história, na forma como
a temos, foi escrita numa época em que a memória daquele príncipe se
enfraquecera”.20
Esses estudiosos fortificaram ainda mais sua posição em favor de uma
data do século 2º com argumentos linguísticos, observando que o autor usou
palavras persas, estrangeirismos gregos e, supostamente, hebraico e
aramaico tardios.21 Seus argumentos são tão extensos que a maioria dos
comentaristas modernos rejeita uma data do século 6º para o livro de
Daniel. Em vez disso, colocam a data de composição entre 168 e 164 a.C.,
embora algumas das histórias sobre Daniel e seus amigos possam ser
datadas no século 3º ou 4º a.C.
Mesmo que esses comentaristas estejam certos, eles não podem negar que
o “autor implícito” do livro de Daniel é o Daniel do século 6º e que o “leitor
implícito” é Israel no exílio na Babilônia. Isto significa que a intenção do
“verdadeiro autor” é que seus leitores ouçam e entendam essas histórias e
visões no contexto do século 6º a.C.
Uma composição do século 6o a.C.
Porém, os argumentos desses estudiosos modernos não são convincentes.
Primeiro, conforme o próprio Collins ressalta, os esforços para mostrar a
relevância dos capítulos 1–6 para a perseguição sob Antíoco IV não são
convincentes: “Considerações cuidadosas dos relatos não apoiam a ideia de
que eles foram compostos tendo em mente essa situação [de Antíoco IV]”.22
Apesar de Nabucodonosor ter uma natureza cruel e um temperamento
terrível, ele não profanou o templo de Deus como Antíoco fez pela
instalação de um altar a Zeus sobre o altar de Yahweh. Pelo contrário, no
fim, Nabucodonosor confessou que o Deus de Israel era o Deus Soberano,
“o Altíssimo” (Dn 4.34-35). Belsazar se aproxima mais de Antíoco quando
ele desafiou o Deus de Israel bebendo nas taças sagradas do templo de Deus
em seu banquete etílico (Dn 5.2-4), mas isto ainda não está perto de
profanar o próprio templo, consagrando-o a Zeus, abolindo “o sacrifício
diário” para Deus e oferecendo porcos no altar – a “transgressão
assoladora” (Dn 8.11-14; 11.31). Dario é o oposto de Antíoco IV: ele “ficou
muito penalizado” por seu amigo Daniel e se empenhou por salvá-lo dos
leões até o pôr do sol; ele deseja: “O teu Deus... que ele te livre!”; ele
decreta que “em todo o domínio do meu reino, os homens tremam e temam
perante o Deus de Daniel” e termina com uma doxologia inspiradora ao
Deus de Daniel como “o Deus vivo” (6.14, 16, 25-27).
Segundo, não precisamos aceitar o pressuposto moderno de que a profecia
não pode prever o futuro em detalhes.23 É verdade que os profetas dirigem
suas mensagensaos seus contemporâneos, mas, ao fazê-lo, certamente
podem prever o futuro, mesmo em detalhes (veja, por exemplo, 1Rs 13.2 e
Is 44.7, 28). Deus conhece o futuro em detalhes (p. ex., Is 41.21-23; 46.8-
11) e pode revelar esse futuro a um profeta.24 Por exemplo, Isaías prediz em
detalhes o que ia acontecer ao Servo de Deus:
Era desprezado e o mais rejeitado entre os homens;
homem de dores e que sabe o que é padecer...
Ele foi oprimido e humilhado,
mas não abriu a boca...
Porquanto foi cortado da terra dos viventes;
por causa da transgressão do meu povo...
Designaram-lhe a sepultura com os perversos...
mas com o rico esteve na sua morte…
(Is 53.3, 7-9)
Esta profecia foi cumprida na vida e morte de Jesus, cerca de seiscentos
anos depois. O próprio Jesus, “começando por Moisés, discorrendo por
todos os Profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as
Escrituras” (Lc 24.27, veja também os v. 44-47). Até mesmo Jesus citou
Daniel para alertar sobre futuras perseguições: “Quando, pois, virdes o
abominável da desolação de que falou o profeta Daniel, no lugar santo
(quem lê entenda), então, os que estiverem na Judeia fujam para os montes”
(Mt 24.15-16). Aqui Jesus não só chama Daniel de “profeta”, mas também
admitiu que ele estava prevendo um evento futuro, “o abominável da
desolação no lugar santo”, que aconteceria no futuro.25 De fato, de acordo
com Deuteronômio 18.21-22, pode-se distinguir um profeta verdadeiro de
um falso verificando se sua previsão foi cumprida. A profecia pode,
portanto, prever o futuro, bem como sua descendente, a literatura
apocalíptica.26
Terceiro, o autor/editor de Daniel afirma que Daniel escreveu as visões
que recebeu no século 6º a.C.: “No primeiro ano de Belsazar, rei da
Babilônia, teve Daniel um sonho e visões... escreveu logo o sonho... Eu
[Daniel] estava olhando, durante a minha visão” (7.1-2). Uma vez que as
outras três visões são escritas na primeira pessoa, Daniel presumivelmente
também escreveu essas visões: “No ano terceiro do reinado do rei Belsazar,
eu, Daniel, tive uma visão depois daquela que eu tivera a princípio. Quando
a visão me veio, pareceu-me estar” (8.1-2); “No primeiro ano de Dario... no
primeiro ano do seu reinado, eu, Daniel, entendi” (9.1-2); “No terceiro ano
de Ciro, rei da Pérsia... No dia vinte e quatro do primeiro mês, estando eu à
borda do grande rio Tigre, levantei os olhos e olhei” (10.1,4-5). Além disso,
Daniel foi instruído: “Encerra as palavras e sela o livro” (12.4). Os seis
primeiros capítulos descrevem o que aconteceu com Daniel e seus amigos,
no século 6º a.C. Uma vez que estes capítulos são escritos na terceira
pessoa, é possível que alguém que não seja Daniel os tenha escrito. Archer
aponta, no entanto, que um autor antigo “geralmente escrevia sobre si
mesmo na terceira pessoa, como era costume entre os autores antigos de
memórias históricas... Em geral, aparentemente era considerado de mau
gosto um escritor falar de si mesmo na primeira pessoa – prática que tem
indícios da vanglória dos soberanos assírios e persas.”27 Seja como for, uma
vez que Daniel foi levado para o exílio no século 6º a.C. (Dn 1.1-6) e que o
livro é uma unidade,28 é uma boa hipótese de trabalho, até o presente,
assumir que o livro inteiro data do século 6º a.C.
Quarto, outra razão para entender Daniel como sendo um documento do
século 6º a.C. é que os erros históricos citados pelos estudiosos críticos para
defender uma data posterior foram subsequentemente refutados e
demonstrados como principalmente erros desses estudiosos. Acontece que
Daniel 1.1 não está errado quando diz: “No ano terceiro do reinado de
Jeoaquim, rei de Judá, veio Nabucodonosor, rei da Babilônia, a Jerusalém e
a sitiou”. Na Babilônia, Daniel usou o “método do ano de ascensão”, no
qual o ano de ascensão não era contado, enquanto Jeremias usou o método
palestino-judaico “o ano de não ascensão”, em que o ano de ascensão era
contado como o primeiro ano. A tabela de Gerhard Hasel mostra claramente
que o “terceiro ano” e o “quarto ano” de Joaquim são o mesmo ano.29
Método do Ano de Ascensão Método do Ano de não Ascensão
(Dn 1.1) (Jr 25.1, 9; 46.2)
Ano de Ascensão 1º ano
1º ano 2º ano
2º ano 3º ano
3º ano 4º ano
O fato de o autor de Daniel ter usado o método do ano de ascensão
babilônico também confirma que ele “escreveu de uma perspectiva
babilônica”.30
Quanto à vanglória de Nabucodonosor, “Não é esta a grande Babilônia
que eu edifiquei...?”, arqueólogos descobriram registros do mesmo tipo de
vanglória do século 6º a.C. em palavras quase idênticas. Hasel observa que
“esta precisão histórica é intrigante para aqueles que sugerem que Daniel
foi escrito no século 2º a.C”. 31
Quanto a Belsazar ser chamado de “rei”, “a informação descoberta
esclarece explicitamente que seu pai, o rei Nabonide, confiou a Belsazar
‘realeza’ (sarrutim)”.32 Desde Heródoto, que (450 a.C.) lista Nabonide
como o último rei da Babilônia, “tornou-se assustadoramente claro que o
escritor de Daniel estava muito mais bem informado sobre a história dos
540 a.C. na Babilônia do que Heródoto em 450 a.C”. Esta descoberta é mais
um “argumento poderoso em favor de uma data no século 6º para a redação
do livro”.33
Mas por que Daniel chama Nabucodonosor de “pai” de Belsazar (5.18)
quando Nabonide era o seu pai biológico? A resposta é que “a palavra ‘pai’
em línguas semíticas, incluindo hebraico, também pode significar avô, um
ancestral físico mais remoto, ou mesmo um predecessor no cargo”.34
Finalmente, é verdade que Dario, o medo, ainda não é conhecido da
literatura extrabíblica. Joyce Baldwin segue D. J. Wiseman (1957) na
identificação de Dario com Ciro, o Grande.35 Mais recentemente, Andrew
Steinmann fez um argumento semelhante: “Daniel conhece este rei tanto
por seu nome mais familiar Ciro (1.21; 6.28; 10.1) quanto como Dario
(5.31; 6.1, 6, 9, 25, 28; 9.1; 11.1). Daniel equivale os dois em 6.28 por meio
de waw epexegético”.36 Assim, Daniel 6.28 diz: “No reinado de Dario e
[“que é”, ou “a saber”] no reinado de Ciro”. Steinmann continua: “A
utilização que Daniel faz do nome ‘Dario’ pode ser a sua maneira de
enfatizar o cumprimento das palavras dos profetas, que falaram dos medos
como os que realizariam a queda da Babilônia (Is 13.17; 21.2; Jr 51.11, 28).
O próprio Daniel fala sobre a queda do reino da Babilônia, que seria dado
‘aos medos e aos persas’ (Dn 5.28).”37
Stephen Miller observou que “o autor de Daniel exibiu um conhecimento
mais amplo de eventos do século 6º do que parece possível para um escritor
do século 2º. R. H. Pfeiffer (que argumentou que a obra contém erros)
reconheceu que Daniel relata alguns detalhes históricos surpreendentes:
‘Provavelmente nós nunca saberíamos, como o nosso autor soube, que a
nova Babilônia foi criação de Nabucodonosor (4.30) [Hb 4.27], como as
escavações revelaram... e que Belsazar, mencionado apenas nos registros da
Babilônia, em Daniel, e em Baruque 1.11, que é baseado em Daniel, estava
atuando como rei quando Ciro tomou a Babilônia, em 538 [539] (c. 5)’.”38
Quinto, ainda outra razão para compreender Daniel como um documento
do século 6º a.C. é que os argumentos linguísticos para uma data posterior
podem ser virados de ponta-cabeça para apoiar a data antecipada. Por um
lado, Miller aponta que “o pequeno número de termos gregos no livro de
Daniel é um argumento mais convincente de que a profecia não foi
produzida no período dos Macabeus, o coração da era grega. Por volta do
ano 170 a.C., a Babilônia e a Palestina tinham sido tomadas por governos
de língua grega já há 150 anos, e seria de se esperar termos gregos
numerosos em um trabalho produzido durante este tempo.”39 Por outro lado,
Andrew Hill observa que “os estrangeirismos persas para termos
administrativos e oficiais sugerem uma forma final do livro quando o
domínio persa na Mesopotâmia já estava firmemente estabelecido. O mal-
entendido aparente desses termos por parte dos tradutores gregos
posteriores das versões da LXX consubstancia ainda mais uma data pré-
helenística para o livro.”40
O aramaico deDaniel também indica uma data anterior para o livro,
conforme Hasel conclui: “Com base em evidências atualmente disponíveis,
o aramaico de Daniel pertence ao aramaico oficial e pode ter sido escrito já
no final do século 6º a.C.; evidência linguística que é claramente contra
uma data do século 2º a.C.”41
Baldwin resume os muitos argumentos contra e a favor da seguinte
maneira: “Quando todos os fatores relevantes são levados em conta,
incluindo os argumentos para a unidade do livro [ver abaixo], uma data do
final do século 6º ou começo do século 5º para a redação do livro é a que
melhor se adequa às evidências”. 42 Visto que a data da última visão é “no
terceiro ano de Ciro” (Dn 10.1), que é de 536 a.C., as memórias e visões de
Daniel devem ter sido compiladas pouco tempo depois dessa data,43 embora
alguma edição/atualização posterior seja possível.
O(s) autor(es)/editor(es) e o público de Daniel
Se o livro de Daniel tiver sido escrito no século 6º a.C., ele pode ter sido
escrito pelo próprio Daniel.44 Como vimos acima, até mesmo os relatos na
terceira pessoa dos capítulos 1–6 poderiam ter sido escritos por Daniel.
Parece improvável, porém, que Daniel os tenha escrito: “[Este] Daniel,
pois, prosperou no reinado de Dario e no reinado de Ciro, o persa” (6.28).
Pode muito bem ser, então, que um editor final tenha compilado o livro de
Daniel, usando as próprias memórias e registros das visões de Daniel.45
Portanto, ainda podemos considerar Daniel o autor principal do livro que
leva seu nome.
As mensagens de Daniel foram dirigidas a públicos diferentes em
diferentes momentos. Visto que as primeiras cinco narrativas de Daniel
tratam dos reis babilônios Nabucodonosor e Belsazar e suas três visões são
cuidadosamente datadas no primeiro e no terceiro anos do rei Belsazar
(7.12; 8.1; 550 a.C. e 548 a.C.) e no primeiro ano de Dario (9.1; 539 a.C.),
podemos admitir que Daniel originalmente apresentou todas as suas
mensagens (exceto a sua visão final) a Israel no exílio, antes de um
remanescente voltar para a Terra Prometida, em 538 a.C.46 Esses exilados
precisavam ser encorajados a permanecerem fiéis a Deus e ouvir as
mensagens reconfortantes de que Deus estava no controle dos impérios do
mal e que traria seu povo de volta para a Terra Prometida e estabeleceria o
seu reino eterno.
O segundo horizonte histórico é o do próprio livro de Daniel. Visto que a
data da última visão foi “no terceiro ano de Ciro” (10.1; 536 a.C.) e que o
livro foi concluído após essa data (entre 536 a.C. e 515 a.C.),47 o livro de
Daniel se dirigia aos israelitas que permaneceram no exílio, depois que um
remanescente voltou para a Terra Prometida, em 538 a.C., bem como ao
restante que pelejava na Palestina. Este livro seria lido também em tempos
posteriores, é claro, como no século 2º a.C., quando Israel, na Palestina,
seria perseguido por Antíoco IV, justamente o tempo sobre o qual Daniel
escreveu nos capítulos 8 e 11. Naquela época, o livro começou a pulsar com
nova relevância. Quatrocentos anos antes, Deus havia falado deste tempo. O
seu Deus soberano estava no controle então, e continuava no controle
enquanto eles sofriam perseguição. Deus iria resgatá-los se eles
permanecessem fiéis a ele.48
O terceiro grande horizonte histórico é dado pelo Novo Testamento,
quando Jesus usou especialmente Daniel para proclamar: “O reino de Deus
está próximo” (Mc 1.15; cf. Dn 2.44); para prever “o abominável da
desolação de que falou o profeta Daniel, no lugar santo” (Mt 24.15; cf. Dn
11.31): e para reivindicar, diante do sumo sacerdote, que “desde agora,
vereis o Filho do Homem assentado à direita do Todo-Poderoso e vindo
sobre as nuvens do céu” (Mt 26.64; cf. Dn 7.13-14). Por meio desses três
horizontes históricos, precisamos determinar as mensagens de Deus em
Daniel para a igreja no século 21.
Questões literárias de Daniel
Hebraico e aramaico em Daniel
Uma peculiaridade sobre o livro de Daniel é que ele foi escrito em duas
línguas: começou com o hebraico (1.1-2.4a), foi seguido pelo aramaico
(2.4b - 7.28) e concluiu com o hebraico (8.1-12.13). Várias teorias têm sido
propostas para explicar as razões da troca de idiomas. Uma vez que o
aramaico era a língua internacional,49 Miller sugere que “aramaico foi
reservado para as partes do livro que tinham apelo universal ou especial
relevância para as nações dos gentios, e o hebraico foi utilizado para as
partes que mais se relacionavam com os judeus”.50 No entanto, pode ser que
o uso do hebraico indique que o público-alvo consistia de judeus de língua
hebraica, pois os “outros povos do império falavam aramaico; mas nenhum
outro povo falava hebraico”.51 O uso adicional do aramaico indica que este
público-alvo também entendia o aramaico, o que seria o caso dos muitos
dos judeus nascidos no exílio babilônico.
Gêneros e formas literárias de Daniel
É difícil citar um único gênero literário para todo o livro de Daniel. Esse
problema é ilustrado pelo fato de que o Tanak judaico52 classifica este livro
nos “Escritos”, entre os livros de Ester e Esdras-Neemias, enquanto as
Bíblias em inglês colocam Daniel nos “Proféticos”, entre os Profetas
Maiores e os Profetas Menores. Os seis primeiros capítulos são,
definitivamente, narrativos e, portanto, caberiam melhor nos “Escritos” do
que nos “Proféticos”. Os últimos seis capítulos, no entanto, parecem mais
como profecias e, portanto, caberiam melhor nos “Proféticos”. Entretanto,
esses capítulos com quatro visões de Daniel são um tipo especial de
profecia: elas são apocalípticas.53 Daniel, portanto, consiste de dois
principais gêneros literários: narrativo e apocalíptico.54
Narrativa Histórico-redentiva
Os estudiosos classificam as narrativas de muitas maneiras diferentes:
romances, Midrash, lendas, mitos, folclores, contos de sabedoria didática,
contos da corte ou uma combinação de alguns desses recursos.55 Collins
afirma que “a categorização mais aceita dessas histórias é, sem dúvida,
‘contos de tribunal’.”56 Se entendermos essas histórias no contexto de uma
forma popular de narrativa no antigo Oriente Próximo, a categoria de conto
de tribunal parece bastante apropriada. Mas visto que essas narrativas
funcionam agora no contexto da Bíblia, uma categoria mais apropriada é a
narrativa histórico-redentiva. Este termo indica que essas narrativas são
parte da tradição literária de narrativas que retratam a antiga história de
Deus redimindo e salvando o seu povo. Ele também indica que essas
narrativas não devem ser lidas como relatos históricos objetivos nem como
contos morais ou histórias de exemplo moral,57 mas como kerygma de
Deus, as boas-novas de Deus para o seu povo sofredor. A classificação de
narrativa histórico-redentiva é confirmada pelo fato que “o envolvimento de
Deus é crucial na mudança do meio para o final da trama em todas as seis
histórias”.58
Quanto à estrutura literária, todas as narrativas têm um enredo composto
pela maioria dos seguintes componentes: um cenário para a história, alguns
incidentes preliminares, um incidente que gera o conflito, o acúmulo de
tensão até chegar a um clímax, a reviravolta na narrativa para o começo de
uma solução, a solução completa, um desfecho e talvez uma conclusão.
Podemos diagramar os elementos típicos de uma única trama da seguinte
forma:59
A maioria das narrativas tem uma única trama relatando a narrativa de um
único conflito e solução (Daniel 1, 2, 3, 6, e, possivelmente, 5). Pelo menos
um, no entanto, tem uma trama complexa, relacionando um conflito e
solução apenas para desencadear um novo conflito que leva a outra solução
(Daniel 4, e, possivelmente, 5).
Literatura apocalíptica
Os sonhos, as visões e suas interpretações podem ser classificados como
literatura apocalíptica. O Grupo Apocalipse do Projeto de Gêneros do SBL
(1975-1978) define apocalipse como “um gênero de literatura de revelação
com uma estrutura de narrativa, na qual uma revelação é mediada por um
ser de outro mundo para um receptor humano, revelando uma realidade
transcendente que é simultaneamente temporal, na medidaem que prevê a
salvação escatológica, e espacial, na medida em que envolve outro mundo,
sobrenatural”. Discussões posteriores levaram à adição da função (objetivo)
do apocalipse: “Destina-se a interpretar as circunstâncias terrenas presentes
à luz do mundo sobrenatural e do futuro, e influenciar tanto a compreensão
quanto o comportamento do público por meio de autoridade divina”.60
Thomas Long observa que a “literatura apocalíptica abre as cortinas e
permite que o leitor veja a vitória escatológica de Deus, que já foi alcançada
sobre quaisquer que sejam as forças, mesmo que, no momento, estejam
minando a comunidade de fé”. Ele descreve apocalipse vividamente como
“um gênero ‘193’, para momentos de emergência – não apenas o estresse de
problemas de rotina – em que os meios comuns para enfrentar as
dificuldades da vida simplesmente não são suficientes”.61
Apocalipses têm uma estrutura literária como a das narrativas.62 Collins63
lista a seguinte estrutura para os dois apocalipses, em Daniel 7 e 8 (observe
como eles duplicam os componentes das narrativas acima):
uma indicação das circunstâncias [cenário];
uma descrição da visão, introduzida por um termo como “eis” [incidente ocasionador];
um pedido de interpretação, muitas vezes por causa do medo [tensão crescente];
uma interpretação, geralmente por um anjo [resolução];
material de conclusão, o que pode incluir a reação do vidente, instruções, ou parênese
[desfecho/conclusão].
A unidade e as estruturas retóricas de Daniel
Embora Daniel consista de duas partes, as histórias sobre Daniel e seus
amigos (cs. 1–6) e os quatro apocalipses (cs. 7–12), o livro apresenta-se
como uma unidade. “A unidade global de Daniel é mostrada pela estrutura
de narrativa, que estabelece a identidade de Daniel nos capítulos 1–6 e, no
capítulo 12, diz-lhe para selar o livro, como se tudo fosse uma única
revelação”.64 Por outro lado, “a primeira parte prepara para a segunda, e a
segunda se refere de volta à primeira. Assim, o capítulo 7 desenvolve mais
plenamente o que foi introduzido no capítulo 2, como também acontece
com o capítulo 8. Contudo, nem o 7 nem o 8 são compreensíveis sem o 2. O
capítulo 2 também prepara o caminho para as revelações de 9, 10, 11 e
12.”65
A unidade de Daniel também é apoiada por duas estruturas quiásticas.
Lenglet foi o primeiro a publicar a estrutura quiástica que une a parte
aramaica de Daniel (cs. 2–7).66
A Quatro impérios e a vinda do reino de Deus (c. 2)
B Prova de fogo e libertação por Deus (c. 3)
C Um rei advertido, castigado e libertado (c. 4)
C’ Um rei advertido, desafiante e deposto (c. 5)
B’ Prova na cova dos leões e a libertação por Deus (c. 6)
A’ Quatro impérios e o reino eterno de Deus (c. 7)
As três visões em hebraico também podem ser concebidas como uma
estrutura quiástica:67
A Detalhes sobre os reinos pós-babilônicos (c. 8)
B Jerusalém restaurada (c. 9)
A’ Mais detalhes sobre os reinos pós-babilônicos (cs. 10–12)
Steinmann argumenta que essas duas estruturas quiásticas estão
interligadas porque o capítulo 7 “serve tanto como final do primeiro
quiasma, em virtude de seus quatro reinos paralelos ao sonho de
Nabucodonosor e sua língua aramaica quanto como introdução para as
visões, em virtude de seu estilo visionário e sua colocação cronológica, no
primeiro ano de Belsazar”.68
Paul Tanner concorda que o capítulo 7 serve como a articulação entre as
duas metades porque “ele reitera a sucessão de reinos gentios antigos [o
tema dos cs. 2–6], no entanto, fornece mais detalhes sobre os “últimos
dias”, quando o anticristo [“o ‘pequeno chifre’, que sai do quarto animal”]
vai chegar [o tema dos cs. 7–12]”.69 Por isso Tanner propõe a seguinte
estrutura geral de Daniel:70
Esta estrutura global nos permitirá compreender melhor cada capítulo no
contexto do livro de Daniel.
A mensagem e o objetivo de Daniel
Uma vez que cada texto deve ser interpretado no seu contexto, devemos
observar brevemente alguns dos grandes temas em Daniel, antes de estudar
as narrativas e visões individuais.
A mensagem geral de Daniel
Ao longo de seu livro, Daniel enfatiza a soberania de Deus:71 Deus está no
controle e é capaz de salvar os seus fiéis mesmo da morte certa (os amigos
de Daniel, do fogo e Daniel, dos leões). Em um nível mais amplo, Deus está
no controle dos impérios da terra, usando suas ações para promover seu
próprio plano, julgando os impérios do mal72 enquanto protege o seu povo
sofredor, e, no final, trazendo o seu reino perfeito à terra.73 Tremper
Longman afirma: “Mesmo que haja um contraste dramático em gênero
entre as duas metades do livro... a mensagem geral do livro é uniforme:
apesar das aparências presentes, Deus está no controle”.74
Daniel Block sugere o seguinte tema geral: “A soberania dominante de
Yahweh, o Deus único e verdadeiro, demonstrada no julgamento de
potências mundiais rebeldes e na defesa dos fiéis em cumprimento dos seus
compromissos pactuais com Israel”. “Cada capítulo do livro”, ele escreve,
“faz uma contribuição significativa para este tema”.75 Les Bruce formula a
mensagem geral de Daniel mais sucintamente: “Só Deus é verdadeiramente
soberano e ele vai estabelecer seu reino eterno”. Este tema, ele afirma,
“fornece coerência para todo o Livro de Daniel”.76 Este tema também é
apoiado por duas declarações explícitas em Daniel: “O Deus do céu
suscitará um reino que não será jamais destruído” (2.44) e “eu estava
olhando nas minhas visões da noite, e eis que vinha com as nuvens do céu
um como o Filho do Homem... o seu domínio é domínio eterno, que não
passará, e o seu reino jamais será destruído” (7.13-14).
O objetivo de Daniel
O discernimento do objetivo de Daniel depende das circunstâncias do
público ao qual ele se dirigia. Visto que o nosso ponto de partida é que o
livro foi dirigido primeiro a Israel no exílio na Babilônia, o principal
objetivo era o de confortar e encorajar o povo de Deus enquanto sofria no
exílio. Ele sofria ao se lembrar de Jerusalém e do templo onde Deus
habitava. Agora, o templo estava destruído, a terra estava devastada e Israel
estava na distante Babilônia: “Às margens dos rios da Babilônia, nós nos
assentávamos e chorávamos, lembrando-nos de Sião” (Sl 137.1). Eles
também sofriam “enquanto eram forçados a trabalhar para o bem da nação
que os oprimia”. E eles sofriam “quando se encontravam em situações em
que eram pressionados a ceder ou então enfrentar consequências terríveis. A
mensagem de Daniel de que Deus é Todo-Poderoso e está no controle,
apesar das condições presentes, tem como objetivo apresentar um poderoso
incentivo para essas pessoas.”77
Até mesmo as visões de Daniel do futuro serviram ao propósito de
consolar e encorajar o povo de Deus no exílio. Block observa: “A intenção
da apocalíptica não foi traçar o plano de Deus para o futuro, para que,
assim, as gerações futuras pudessem elaborar calendários, mas garantir à
geração da época que – talvez contrário à aparência – Deus ainda está no
trono (cf. Dn 7.18,21-22,27; 8.25; 12.1-4) e que o futuro está firmemente
seguro em suas mãos.”78
Dificuldades na pregação de Cristo a partir de
Daniel
Uma série de sermões sobre Daniel
Daniel é ideal para uma série de sermões. Por exemplo, uma vez que as
seis narrativas estão em ordem cronológica, pode-se preparar uma série de
seis sermões sobre essas histórias. Pode-se também preparar uma série de
cinco sermões sobre as quatro visões: um sermão sobre cada uma das três
primeiras visões e dois sermões sobre a quarta visão, que é mais longa (Dn
10–12). Ou pode-se considerar uma pequena série em capítulos
selecionados de Daniel, por exemplo, uma série de quatro sermões sobre
Daniel 1, 2, 7 e 9.
Seleção do texto de pregação
O texto da pregação deve ser uma unidade literária, não uma frase ou um
versículo. A seleção de um texto de pregação adequado em Daniel não é
difícil, uma vez que existem quebras claras entre suas unidades literárias.
Cada uma das seis narrativas tem seu próprio capítulo nas Bíblias em
inglês.79 Cada uma das três primeiras visões também tem seu própriocapítulo (7, 8, 9). O único problema a enfrentar na seleção do texto é a
quarta visão, que abrange três capítulos (10–12). Visto que essa visão
oferece demasiado material para um único sermão, é preciso decidir como
dividi-lo em subunidades literárias mais gerenciáveis.
O tema e o objetivo do texto
A fim de concentrar o sermão e orientar seu desenvolvimento, antes de
escrever o sermão devemos declarar a mensagem do texto como um tema,
ou seja, uma declaração resumida da ideia central do texto. O tema deve ser
formulado como uma frase concisa com sujeito e predicado. Ele faz uma
única declaração, o tema central do texto.
O desafio é manter o sermão focado neste tema da passagem e não se
desviar para moralizar,80 pois tais morais podem ser tiradas a partir de quase
qualquer história, incluindo a da Chapeuzinho Vermelho. Os pregadores que
desejam pregar a Palavra de Deus procurarão fazê-lo pregando a mensagem
pretendida pelo autor inspirado como entendida no contexto de toda a
Bíblia. Os melhores sermões são bem focados, de modo que têm o impacto
de uma bala que penetra no coração, em vez de chumbinhos que apenas
raspam a superfície.
Se uma declaração do tema é importante para a pregação das narrativas,
ela pode ser ainda mais crucial para as visões de Daniel, pois
frequentemente pregadores têm usado as visões de Daniel para especular
sobre os seus detalhes e fizeram mal uso delas para prever o fim do
mundo.81 Sandy e Abegg apresentam uma de suas diretrizes para a
interpretação: “Procure entender o ponto principal de um texto
apocalíptico”. Eles justificam essa exigência da seguinte forma: “A
apocalíptica tende a ser impressionista, mais como uma pintura abstrata que
comunica uma impressão geral... Às vezes os detalhes na apocalíptica se
destinam ao efeito dramático; pode não haver nenhuma importância, a não
ser como a imagem da cena é reforçada pelos detalhes. Os detalhes na
apocalíptica não devem ser vistos como alegóricos no sentido de que cada
detalhe tenha uma realidade correspondente.”82 A declaração do tema vai
ajudar a manter os sermões sobre as visões de Daniel nos trilhos.
Também devemos indicar a meta ou objetivo/propósito do autor em
comunicar esta mensagem. O objetivo é a resposta às questões por trás do
texto: Por que o autor conta a Israel no exílio esta história ou visão em
particular? Que necessidades ele procura abordar? Que resposta(s) ele
procura? Será que ele procura convencê-los da soberania de Deus?
Assegurar-lhes a fidelidade de Deus? Confortá-los com sua mensagem? Dar
esperança? Incentivar a fidelidade? O objetivo do autor deve orientar os
pregadores na aplicação da mensagem para a igreja de hoje.83 A questão da
identificação do(s) objetivo(s) do autor é, em última análise, a questão de
relevância do sermão.
A relevância de Daniel para a igreja hoje
Mesmo quando formulamos cuidadosamente o objetivo de Daniel, os
pregadores podem, ainda, enfrentar um problema na aplicação de
mensagens de Daniel para a igreja hoje. O problema é este: Daniel dirigiu
suas mensagens a Israel, que estava sofrendo no exílio, enquanto muitos
pregadores atuais pregam suas mensagens não para igrejas que sofrem
perseguição subsidiada pelo Estado, mas para igrejas que vivem em relativa
liberdade. Como podemos preencher essa lacuna? Como podemos aplicar
as mensagens destinadas a Israel no exílio às igrejas que vivem em relativa
liberdade?
Uma maneira de fazer isso é lembrar à congregação a questão da igreja
perseguida hoje e da unidade da igreja. “Há somente um corpo e um
Espírito, como também fostes chamados numa só esperança da vossa
vocação; há um só Senhor, uma só fé, um só batismo; um só Deus e Pai de
todos, o qual é sobre todos, age por meio de todos e está em todos” (Ef 4.4-
6); “Se um membro sofre, todos sofrem com ele” (1Co 12.26). Portanto,
mesmo que apenas uma igreja sofra perseguição, todas as igrejas sofrem
com ela. É por causa da nossa solidariedade com a igreja perseguida que as
mensagens de Daniel podem ser aplicadas à igreja hoje.84
Mas há também uma maneira mais direta. A igreja hoje, mesmo quando
vive em relativa liberdade, ainda está no exílio. Desde que Deus expulsou
os nossos primeiros pais do paraíso, temos vivido no exílio, a oriente do
Éden. Este mundo pecaminoso despedaçado não é o nosso lar. Podemos nos
intitular cidadãos de um determinado país, mas, na verdade, Paulo diz: “A
nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o Salvador, o
Senhor Jesus Cristo” (Fp 3.20). É por isso que Pedro dirige sua primeira
carta “aos eleitos que são forasteiros da Dispersão” (1Pe 1.1) e Tiago, “às
doze tribos que se encontram na Dispersão” (Tg 1.1). Jesus também disse
aos seus seguidores: “Se vós fôsseis do mundo, o mundo amaria o que era
seu; como, todavia, não sois do mundo, pelo contrário, dele vos escolhi, por
isso, o mundo vos odeia... Se me perseguiram a mim, também perseguirão a
vós outros” (Jo 15.19-20).
Mesmo que as igrejas às quais nos dirigimos não sofram perseguição
ostensiva, subsidiada pelo Estado, ainda assim elas sofrem as consequências
de viver a oriente do Éden. As pessoas a quem nos dirigimos se debatem
com cardos e abrolhos, terremotos e furacões; penam com a inimizade de
Satanás, relacionamentos partidos, dor, morte e assassinato (Gn 3–4).
Assim, as mensagens reconfortantes de Daniel, destinadas a Israel no exílio,
também são relevantes e dão vida à igreja hoje.
A forma do sermão
Uma vez que textos comunicam com a sua forma bem como o conteúdo, a
forma do sermão deve respeitar a forma do texto. As seis narrativas em
Daniel podem ser mais bem pregadas em uma forma narrativa híbrida, ou
seja, o sermão segue a linha da história, mas suspende a história de tempos
em tempos para oferecer explicações sobre detalhes históricos ou costumes,
ilustrações, movimentos cristocêntricos ou aplicações. A forma narrativa de
sermão não só nos permite seguir o enredo do texto, mas também envolve
os nossos ouvintes de forma holística, ou seja, torna-os totalmente
envolvidos no sermão, lado direito do cérebro, bem como o lado esquerdo.
As quatro visões também podem ser pregadas em uma forma narrativa
híbrida porque, como vimos, sua forma tem componentes semelhantes aos
de uma narrativa típica (veja a p. 35).
Algumas das narrativas e, especialmente, as visões apocalípticas pintam
quadros gráficos e símbolos: uma enorme estátua é esmagada por uma
pedra que rola (Dn 2.34), bestas bizarras sobem do mar (Dn 7.2-8), um
bode persegue um carneiro e o pisoteia (Dn 8.5-7), sobre o rio aparece um
homem com um rosto como um relâmpago, os olhos como tochas de fogo e
uma voz como a voz de uma multidão (Dn 10.5-6). A forma do sermão
deve respeitar estes símbolos apocalípticos, envolvendo a imaginação com
imagens vívidas. Jeffrey Arthurs sugere: “Uma maneira de recriar a
qualidade panorâmica da literatura visionária é com ilustrações
panorâmicas”.85
Embora a forma do sermão deva respeitar a forma do texto, ela não pode
ser exatamente igual. Assim como um sermão sobre a oração (p. ex., Sl
142) não será na forma de uma oração, também um sermão sobre um
apocalipse não será na forma exata do apocalipse. Isso fica evidente
especialmente quando o apocalipse fala em linguagem velada. Por exemplo,
as visões de Daniel contêm muitos verbos passivos que ocultam Deus como
o ator (passivos divinos). O sermão, ao contrário, exige clareza e, portanto,
precisa transformar os passivos divinos na voz ativa: Deus fez isso!
Pregando Cristo a partir de Daniel
Este livro não é apenas sobre a pregação do livro de Daniel, mas
especificamente sobre a pregação de Cristo a partir de Daniel. Alguns
estudiosos negam que Daniel fale sobre a vinda de um Messias real.86 Mas,
mesmo que Daniel não fale da vinda de um Messias real, ainda podemos
pregar Cristo a partir deste livro, porque há mais maneiras de pregar Cristo
do que cumprimento de promessa. Em Pregando Cristo a partir do Antigo
Testamento, defini pregar Cristo como “pregar sermões que autenticamente
integram a mensagem do texto com o clímax da revelaçãode Deus na
pessoa, trabalho e/ou ensino de Jesus Cristo conforme revelado no Novo
Testamento”.87 Identifiquei sete formas (às vezes se sobrepondo) com as
quais os pregadores podem se mover legitimamente a partir de uma
passagem do Antigo Testamento para Jesus Cristo no Novo Testamento, da
periferia para o centro. Estas sete maneiras são:
1. Progressão histórico-redentiva: ver a mensagem da passagem no
contexto da história da redenção do começo ao fim, especialmente
após a progressão da história da redenção, à medida que ela
avança a partir do contexto histórico do texto para a primeira e/ou
segunda vinda de Jesus.
2. Cumprimento de promessa: mostrar que a promessa da vinda do
Messias foi cumprida na primeira vinda de Jesus ou será cumprida
em sua segunda vinda.
3. Tipologia: mover-se de um tipo de Antigo Testamento que
prefigura Jesus para a figura, o próprio Jesus.
4. Analogia: notar a semelhança entre o ensino ou o objetivo do
texto e o ensino ou objetivo de Jesus.
5. Temas longitudinais: traçar o tema (ou subtema) do texto através
do Antigo Testamento até Jesus Cristo no Novo Testamento.
6. Referências do Novo Testamento: deslocar-se do texto da
pregação para Jesus por meio de versículos do Novo Testamento
que citam ou fazem alusão ao texto pregado e o vinculam a
Cristo.88
7. Contraste: observar o contraste entre a mensagem do texto e a do
Novo Testamento, um contraste que existe porque Cristo veio.89
Nos capítulos seguintes, vamos verificar cada texto de pregação
para ver as várias maneiras como podem ser usados para pregar
Cristo e selecionar os mais importantes para a seção “Exposição
do Sermão”.
Estilo oral de sermão
Muitos sermões não conseguem comunicar porque são pregados em um
estilo complexo, como por escrito. Para se comunicar bem, os pregadores
devem escrever e pregar os seus sermões em um estilo oral, que os ouvintes
podem entender imediatamente. As características típicas de estilo oral são
as seguintes:90
1. Frases curtas: principalmente cláusulas principais, poucas
cláusulas relativas.
2. Palavras familiares curtas.
3. Palavras de imagem vívidas: linguagem que nos ajude a ver a
ação.
4. Substantivos e verbos fortes: palavras que nos permitam ver a ação
sem adjetivos e advérbios complicados.
5. Linguagem específica, concreta, em vez de linguagem geral ou
abstrata.
6. A voz ativa em vez da passiva: a ordem natural de sujeito, verbo,
objeto.
7. Narração no tempo presente, não no tempo passado.91
8. Referência do versículo antes de citá-lo, de modo que os ouvintes
possam ler junto.
9. Citação direta do diálogo de personagens, ao invés de indireta.
10. Uso do modo indicativo em vez do imperativo.
11. Uso de perguntas para envolver as pessoas.
12. Uso de uma linguagem inclusiva de gênero sem chamar a atenção
para ela.
13. Uso da primeira pessoa do plural, “nós”, em vez de a segunda
pessoa, “vós”.
14. Pontuação verbal com palavras como “e”, “bem”, “agora”, “a
propósito”.
15. Palavras importantes no final ou no início de orações e frases.
16. Uso de repetição e paralelismo.
Nos capítulos seguintes, vou demonstrar como formular o tema e o
objetivo da pregação de cada texto, e, como (a maioria) dos sete caminhos
levam a Jesus Cristo no Novo Testamento, formular o tema e o objetivo do
sermão e oferecer exposições de sermão para todas as passagens.
Especialmente nas exposições de sermão, vou moldar o estilo oral tanto
quanto for possível nas apresentações.
1 Lacocque, Book of Daniel, 1. Ele acrescenta: “O Livro de Daniel apresenta problemas
extremamente numerosos e complexos para o crítico. Não apenas a linguagem apocalíptica é
intencionalmente obscura e suas alusões históricas deliberadamente enigmáticas, mas, o que é mais
importante, o trabalho é pseudoepigráfico, antecipado, bilíngue e afetado por influências literárias e
espirituais de diversas origens estrangeiras, sendo ainda representado por versões gregas de maior
amplitude e, muitas vezes, de caráter divergente em relação ao texto semita, etc.”.
2 Sandy e Abegg, “Apocalyptic”, 187.
3 Muitas vezes na história da igreja, Daniel foi usurpado para prever o fim do mundo. Por
exemplo, na década de 1840, William Miller, líder dos mileritas, entendeu os 2.300 dias de Daniel 8,
como 2.300 anos e concluiu que Cristo retornaria em algum momento entre 21 de março de 1843 e
21 de março de 1844. O livro de Hal Lindsey, The Late Great Planet Earth (Grand Rapids:
Zondervan, 1970), tornou-se um best-seller na década de 1970. Harold Camping, locutor de rádio da
Califórnia, declarou em outdoors: “Reserve a Data. Retorno de Cristo. 21 de maio de 2011”. Quando
isso não aconteceu, ele mudou a data para 21 de outubro de 2011. Helge Kvanzig, em “The
Relevance of the Biblical Visions of the End Time”, HBT 11/1 (1989) 35, observa: “Grande parte das
aplicações das visões bíblicas do fim dos tempos tem sido uma história de decepção”. Para os
seguidores de Cristo, parece bem presunçoso definir a data quando o próprio Jesus disse: “Mas a
respeito daquele dia e hora ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, senão o Pai” (Mt
24.36).
4 Towner, Daniel, 1-2.
5 Veja, p. ex., Montgomery, The Book of Daniel, 1-109; Young, Prophecy of Daniel, 294-306;
Baldwin, Daniel, 13-74; Goldingay, Daniel, XXV-LIII, 320-34; Collins, Daniel, 1-71; Redditt,
Daniel, 1-39; Longman, Daniel, 19-40; Lucas, Daniel, 17-43, 306-25; e Steinmann, Daniel, 1-73.
6 Peter C. Craigie, The Old Testament: Its Background, Growth, and Content (Nashville:
Abingdon, 1986), 248.
7 Os comentaristas se dividem sobre a questão de se o ponto de partida faz diferença para a
interpretação. Por um lado, Miller, Daniel, 22-23, afirma: “A visão da pessoa a respeito da autoria e
da data é importante porque, em última instância, determina a interpretação de todos os aspectos
desta profecia”. Por outro lado, Goldingay, Daniel, xl, conclui sua Introdução: “Quer os relatos sejam
história ou ficção, as visões sejam de fato profecias ou quase profecias, escritas por Daniel ou por
outra pessoa, no século 6º a.C., no 2º em algum momento no meio, faz surpreendentemente pouca
diferença para a exegese do livro”. Assim também Lucas, Daniel, 18. Nós vamos ter que esperar para
ver se faz diferença para a exegese, mas certamente o objetivo do autor muda com a decisão de se ele
está se dirigindo a Israel que sofre no exílio na Babilônia ou a Israel na Palestina sendo perseguido
por Antíoco IV – e com ele o objetivo do pregador moderno e aplicação devem mudar também. Num
cenário do século 6º a.C., os objetivos primordiais do autor teriam sido confortar Israel com
mensagens sobre a soberania e a fidelidade de seu Deus e incentivá-lo a ser fiel a Deus. Num cenário
do século 2º a.C., o objetivo principal do autor teria sido “galvanizar a resistência espiritual dos
judeus piedosos contra a perseguição de Antíoco IV e dos helenistas” (Lacocque, Book of Daniel,
10). Cf. Russell, Daniel, 11, “Esses relatos... devem ser entendidos no contexto do século 2º a.C. no
reinado de Antíoco Epifânio. Seu propósito é confortar e encorajar o povo judeu em um ambiente em
rápida mutação e em meio a uma cultura estrangeira que, em muitos aspectos, era bastante hostil ao
ensino e à prática de seus pais”. Cf. Portier-Young, Apocalypse against Empire, 229: “Os escritores
de Daniel delinearam um programa de resistência não violenta para seu público ao édito e à
perseguição de Antíoco e aos sistemas de hegemonia e dominação que apoiaram o seu governo”.
P.S.: Após estudar todos os doze capítulos, descobri que a data que a pessoa assumir para Daniel
faz uma grande diferença nas narrativas. Por exemplo, que tipo de conforto Daniel 3 e 6 podem dar
se a mensagem de que Deus é capaz de salvar o seu povo da morte certa for um relato de ficção? Mas
a data faz uma diferença ainda maior no discernimento e na pregação das mensagens das visões de
Daniel (Dn 7–12). Sobre a suposição da data do século 2º a.C e o quarto reino ser a Grécia, as visões
se concentram em Antíoco IV e mal passam dele, certamente não até a plenitudedo reino de Deus.
Veja, p. ex., Redditt, Daniel, 146, “Daniel 8 foi mal interpretado como se a morte de Antíoco fosse
trazer o reino de Deus”.
8 Eu compilei esta tabela com dados de Baldwin, Daniel, 73; Lucas, Daniel, 43; Miller, Daniel,
292-304; Steinmann, Daniel, 521; Towner, Daniel, 16-18; and Young, Prophecy of Daniel, 302-3.
9 Archer, “Daniel”, 13, que menciona “J. D. Michaelis (1771), J. G. Eichhorn (1780), L. Berthold
(1806), F. Bleek (1812), e muitos outros depois dele”. Cf. John Collins, Daniel, 25-26, e Adela
Yarbro Collins, “The Rise of Historical Criticism”, in ibid., p. 121-23.
10 Collins, Daniel, 25, admite que “a linha de raciocínio de Porfírio é essencialmente semelhante à
dos críticos modernos: a correspondência entre as predições de Daniel, especialmente no capítulo 11,
e os eventos da era helenista é mais bem explicada pela suposição de que a predição teria sido escrita
após o fato.”
11 Por exemplo, Towner, Daniel, 115: “Precisamos assumir que a visão [Daniel 8] como um todo é
uma profecia após o fato. Por quê? Porque os seres humanos são incapazes de prever com precisão
eventos futuros séculos antes.” Cf. Collins, Apocalyptic Vision, 8, “Em Daniel 11.29-39, a segunda
campanha de Antíoco é descrita com tal precisão que é claramente um vaticinium ex eventu”.
12 “As referências à história helenista no capítulo 11 são essencialmente precisas, enquanto as
referências sobre os períodos babilônico e persa nos capítulos iniciais são notoriamente confusas”.
Collins, Daniel, 26.
13 Montgomery, Book of Daniel, 96. Cf. Collins, Daniel, 26: “A estimativa da probabilidade é de
longe em favor de uma data macabeia, pelo menos para as revelações dos capítulos 7–12, que
claramente têm seu foco neste período”. Collins, ibid., 324, data Daniel 7 “precisamente no final de
167 a.C... algo antes das revelações hebraicas dos capítulos 8–12”. Cf. Seow, Daniel, 7, “164 a.C.”
14 Montgomery, Book of Daniel, 96, data os capítulos 1–6 no período pré-Macabeu,
aproximadamente no século 3º. O mesmo faz Collins, Daniel, 47-48.
15 Veja as citações relevantes na nota 7, acima.
16 Porteous, Daniel, 25. Cf. Collins, Daniel, 132, “Dn 1.1 está historicamente errado”.
17 Rowley, “The Historicity of the Fifth Chapter of Daniel”, JTS 32 (1930) 12.Também Redditt,
Daniel, 2.
18 Ibid., 20. Cf. Collins, Daniel, 32, “Embora ‘filho’ possa valer para ‘neto’ ou mesmo
‘descendente’, Nabonide não era descendente de Nabucodonosor de forma alguma”.
19 Ibid., 31. Em outro lugar ele chamou a informação de que Dario, o Medo que “ocupou o trono
da Babilônia entre a morte de Belsazar e o reinado de Ciro… o problema histórico mais sério do
livro... Pois é conhecido com certeza que quem derrubou o império neobabilônico foi Ciro”. H. H.
Rowley, Darius the Mede and the Four World Empires in the Book of Daniel: A Historical Study of
Contemporary Theories (Cardiff, 1935; reimpressão 1964), 9. Cf. Collins, Daniel, 30: “Nenhuma
pessoa como Dario, o Medo, é conhecida em outro lugar a não ser na narrativa de Daniel”.
20 Collins, Daniel, 33. Cf. Rowley, “The Historicity of the Fifth Chapter of Daniel”, JTS 32 (1930)
31: “O autor de Daniel não estava escrevendo história autêntica e muito certamente não estava
escrevendo história contemporânea”.
21 Veja, p. ex., Montgomery, Book of Daniel, 22: “Conforme as evidências disponíveis, estas
palavras gregas devem inclinar a balança em favor de uma data mais tardia”. Cf. Porteous, Daniel,
13, capítulos 2.4a–7.28 “[estão] em um tardio (não antes do século 3º a.C., talvez século 2º) dialeto
aramaico, enquanto o resto do livro está em hebraico tardio”.
22 Collins, Daniel, 33. Collins continua: “O caso de Rowley é mais fraco em relação a Daniel 6,
onde o monarca gentio singularmente se inclina para Daniel e a conspiração contra o herói judeu é
inspirada pela inveja pela sua carreira de sucesso na corte. O Sitz-im-Leben implícito nessa história
não é perseguição religiosa, mas os perigos da minoria judaica que procura ter sucesso no mundo
gentio... Apesar de os argumentos de Rowley e outros, não há nenhuma passagem em Daniel 1–6 que
seja necessariamente entendida como uma alusão ao tempo de Antíoco Epifânio ou seja agora
geralmente aceita como tal.” Cf. Collins, Apocalyptic Vision, 9-10; e von Rad, Old Testament
Theology, II, 309-10.
23 Cf. Baldwin, Daniel, 184-85: “Com relação à profecia como predição, a igreja tem certamente
perdido sua coragem. Um humanismo racionalista terreno invadiu de tal maneira o pensamento
cristão que tingiu com um leve ridículo todas as reivindicações para se ver na Bíblia algo mais do que
as referências mais vagas a eventos futuros. O pensamento humano, entronizado, julgou um capítulo
como Daniel 11 como história escrita após o evento, ao passo que Deus entronizado, aquele que
esteve presente no início do tempo e estará presente quando o tempo acabar, pode seguramente
clamar com razão: ‘Anuncie as coisas futuras, as coisas que hão de vir!’ (Is 44.7).”
24 Leupold, Exposition of Daniel, 471-72, menciona Jeremias 50; 51; Zacarias 9.1-8; Isaías 13; 14;
21.1-10.
25 Veja também Mateus 26.64, onde Jesus fala de si mesmo como Daniel “Filho do Homem...
vindo sobre as nuvens do céu”.
26 Com respeito a Daniel 11, Lucas ressalta que as “Profecias acadianas” têm uma forma literária
semelhante a Daniel 8.23-25 e 11.3-45. Esta semelhança, ele escreve, “é mais bem explicada se elas
[Dn 8 e 11] se tiverem se originado na diáspora babilônica e se o autor fosse bem familiarizado com a
literatura profética babilônica, alguém especializado na linguagem e letras dos caldeus, conforme o
relato de Daniel 1 indica”. Lucas, Daniel, 272.
27 Archer, “Daniel”, 4.
28 Veja abaixo no item “A unidade e retórica das estruturas de Daniel”. Veja Baldwin, Daniel, 39,
“O problema com a autoria composta é que o livro traz tão poucos vestígios dos supostamente
diferentes pontos de vista. Como uma obra literária, ele manifesta unidade de propósito e esquema. S.
R. Driver assumiu que um autor único foi responsável pelo todo, e R. H. Pfeiffer não viu nenhuma
razão para questionar a unidade do livro, mas, como muitos outros, achou ‘em ambas as partes a
mesma finalidade e o mesmo fundo histórico’.” Cf. Young, Prophecy of Daniel, 19-20. Rowley, em
“The Unity of the Book Daniel”, 250-60, oferece uma revisão de uma infinidade de teorias dos dois
últimos séculos sobre a unidade de Daniel ou de suas divisões. O próprio Rowley defende a unidade
do livro (p. 260-80), mas coloca-o na “era dos Macabeus”.
29 Hasel, “The Book of Daniel: Evidences Relating to Persons and Chronology”, AUSS 19/1
(1981) 48-49. Cf. Baldwin, Daniel, 20-21, e Steinmann, Daniel, 260-63.
30 Archer, “Daniel”, 14.
31 Hasel, “Book of Daniel”, AUSS 19/1 (1981) 38. Até mesmo Montgomery, Book of Daniel, 243-
44, tem de admitir: “O panorama da cena e autocomplacência do rei em sua gloriosa Babilônia são
surpreendentemente coerentes com a história. Todo estudioso da Babilônia relembra estas palavras
orgulhosas ao ler os próprios registros, Nabucodonosor sobre sua criação da nova Babilônia; por
exemplo, (Grotefend Cylinder, KB iii, 2, p. 39): ‘Então eu construí o palácio sede da minha realeza...
a união da raça dos homens, a habitação da exaltação e regozijo’.”
32 Hasel, “Book of Daniel”, AUSS 19/1 (1981) 42-43. Montgomery, Book of Daniel, 67, também
assevera: “A história da Bíblia está correta quanto à posição de rei dada a Belsazar”. Cf. p. 70: “Ele
teria sido, conforme a tradição nativa, o último rei da Babilônia”. Cf. Baldwin, Daniel, 21-22. Veja
também Alan Millard, “Daniel and Belshazzar in History”, BAR 11/3 (1985) 72-78.
33 Archer, “Daniel”, 16.
34 Hasel, “Book of Daniel”, AUSS 19/1 (1981) 44. Cf. Baldwin, Daniel, 22-23, e Archer,
“Daniel”, 16.
35 Baldwin, Daniel, 26-28.
36 Steinmann, Daniel, 295. Um “waw epexegético” é a palavra waw, “e”, seguida pelas palavras
para explicar as palavras anteriores. A palavra “e”, portanto, “tem a força de ‘a saber ’ ou ‘isto é’”.
Baldwin, Daniel, 132.
37 Steinmann, Daniel, 295. Cf. Lucas, Daniel,137: “Ciro, o conquistador real da Babilônia, era
parcialmente medo e governou tanto a Média bem como a Pérsia. Isso é enfatizado, dando-lhe o
nome alternativo ‘Dario, o Medo’”. Veja também Miller, Daniel, 171-77. Outros argumentam que,
“na maior parte do primeiro ano depois da queda da Babilônia, Ciro não reivindicou o título de ‘Rei
da Babilônia’, indicando que outra pessoa estava atuando como rei sob vassalagem a Ciro”. Hasel,
“Book of Daniel”, AUSS 19/1 (1981) 48-49. Cf. Baldwin, Daniel, 24-25.
38 Miller, Daniel, 26. Veja Baldwin, Daniel, 19-29, para mais detalhes. Baldwin faz um resumo na
p. 29: “Ao concluir esta seção sobre as suposições históricas do escritor do livro de Daniel, afirmo
com confiança que não existem razões para questionar seu conhecimento histórico. As indicações são
que ele tinha acesso a informações que ainda não estão disponíveis aos historiadores contemporâneos
e que, onde provas conclusivas ainda estão faltando, ele deve receber crédito de fidedignidade.”
39 Miller, Daniel, 30. Cf. ibid, 32: “A evidência linguística não necessita de uma data tardia de
composição para o livro de Daniel e, em vários casos, ao invés disso fortemente apoia uma data
anterior”. Cf. Archer, “Daniel”, 22: “Tudo isto [referindo-se aos estrangeirismos gregos e persas]
aponta inquestionavelmente para uma composição no Período Persa (c. 530 a.C.). Mas demonstra
que uma data posterior ao Período pós-Alexandrino é linguisticamente impossível.”
40 Hill, “Daniel”, 27. Cf. Steinmann, Daniel, 11: “Nem os estrangeirismos gregos nem os persas
oferecem qualquer prova de que Daniel seja uma composição tardia”.
41 Hasel, “The Book of Daniel and Matters of Language”, AUSS 19/3 (1981) 225; confira as
páginas.216-25 para ver as razões desta conclusão.Veja também Waltke, “The Date of the Book of
Daniel”, BSac 133 (1973), 322-23; Harman, Study Commentary on Daniel, 22-25; e Archer,
“Daniel”, 23-24.
42 Baldwin, Daniel, 46. Cf. Longman, Daniel, 23, “Em vista das provas e, apesar das dificuldades,
interpreto o livro a partir da conclusão de que as profecias vêm do século 6º a.C. Eu acho que os
problemas passíveis de soluções hipotéticas e as questões teológicas de uma data tardia são difíceis
de superar.”
43 “O livro em si não pode ter existido na sua forma atual antes de 536 a.C., uma vez que é a data
da última visão... Dado o fato de que Daniel estava, provavelmente, no começo dos seus oitenta anos
a esta altura, é pouco provável que ele tenha escrito muito depois de 530 a.C”. Steinmann, Daniel, 3.
44 Para ver argumentos que consideram Daniel como uma figura histórica, veja Block, “Preaching
Old Testament Apocalyptic to a New Testament Church”, CTJ 41/1 (2006) 24-27.
45 Veja Aalders, Het Boek Daniel, 33. Cf. Hill, “Daniel”, 25: “O livro foi provavelmente composto
na diáspora babilônica por Daniel, ou mais provavelmente por associados que sobreviveram a ele,
algum tempo depois de 536 a.C. (a última data formulada no livro, 10.1) e antes de 515 a.C. (já que a
composição não faz referência à reconstrução do segundo templo de Jerusalém)”.
46 Por exemplo, a oração de Daniel pela restauração de Jerusalém (9.17-19), datada de 539 a.C.
(9.1), obviamente, ocorreu antes de 538 a.C., assim como a resposta de Deus: “Sabe e entende: desde
a hora em que a palavra saiu para restaurar e reconstruir Jerusalém até a hora de um príncipe ungido,
haverá sete semanas” (Dn 9.25).
47 Veja a nota 45 acima.
48 Baldwin, Daniel, 66: “Esse processo [de perseguição] veio à tona no tempo de Antíoco
Epifânio, e o livro os prepara, antes deste tempo, para que a fé deles não vacile quando a provação
chegar”. Cf. Lucas, Daniel, 308: “Ao dar a previsão tão adiantadamente, Deus assegura ao povo do
século 2º a.C. que ele tem realmente o controle da história, incluindo a situação em que eles mesmos
se encontram. Não se pode negar que este [argumento] tem certa plausibilidade.”
49 “O aramaico era a língua dos antigos arameus, mencionados pela primeira vez nos textos
cuneiformes do século 12 a.C... A partir do século 8º a.C., o aramaico se tornou a língua
internacional, a língua franca, do Oriente Próximo e os israelitas parecem ter aprendido a língua
aramaica durante o exílio. Historicamente, o aramaico é dividido em diversos grupos maiores:
(1) ‘Aramaico Antigo’... usado até 700 a.C.; (2) ‘Aramaico Oficial’... usado ‘de 700 a 300 a.C.’;
(3) ‘Aramaico Médio’, usado de ‘300 a.C. até os primeiros séculos d.C.’; e (4) ‘Aramaico Tardio’,
usado daí em diante”. Hasel, “The Book of Daniel and Matters of Language”, AUSS 19/ 3 (1981)
216-17, com referências a R. Degen e E. Y. Kutscher.
50 Miller, Daniel, 48. Cf. Baldwin, Daniel, 30, e Archer, “Daniel”, 6. Para mais explicações por
muitos outros autores, veja Valeta, “The Book of Daniel in Recent Research (Part 1)”, CBR6/3 (2008)
340-43.
51 Dorsey, Literary Structure, 259.
52 Um acrônimo para as 3 divisões judaicas do Antigo Testamento: Torah (Lei), Nabhiim
(Proféticos), e Kethubhim (os Escritos).
53 “Apocalipses diferem dos textos proféticos em sua combinação do uso abundante de técnicas
como visão-reação-interpretação e jornadas celestiais, interesse intenso no mundo sobrenatural, e
escatologia, que inclui transcendência da morte”. Murphy, “Introduction to Apocalyptic Literature”,
New Interpreter’s Bible Old Testament Survey, 359.
54 Esta classificação não é tão fácil como pode parecer. “Daniel tem afinidades com profecias mais
imediatas bem como apocalípticas posteriores”. Morris, Apocalyptic, 79. No entanto, Apocalipse é
singular pelo fato de ser diferente das profecias antigas e apocalípticas extrabíblicas posteriores. Por
isso James Sims, “Daniel”, 326, argumenta que “no cômputo geral, a melhor classificação genérica
do livro é profecia apocalíptica”. Porteous, Daniel, 16, sugere: “Talvez o mais sensato seja tomar o
Livro de Daniel como uma peça de literatura distintiva com um testemunho claramente próprio e
observar as várias maneiras nas quais ele pega emprestado e é colorido pela literatura profética
antiga, a literatura Sapiencial e os Salmos e tem seus sucessores nos apocalipses, embora estes
frequentemente exibam uma extravagância e uma imaginação fantástica que são menos proeminentes
no livro de Daniel”. Veja também a nota 59 adiante.
55 Veja p. ex., Collins, Daniel, 42-47; Lucas, Daniel, 22-27; Goldingay, Daniel, 6-7, 321; Miller,
Daniel, 45; Valeta, “The Book of Daniel in Recent Research (Part 1)”, CBR 6/3 (2008) 333-36; e
Redditt, Daniel, 11-13, que também menciona propostas estruturalistas.
56 Collins, Daniel, 42.
57 Por exemplo, George M. Schwab, Hope in the Midst of a Hostile World: The Gospel according
to Daniel, 6, argumenta a favor da leitura destas histórias como histórias de exemplos: “Daniel e seus
amigos foram exemplos a seguir, modelos para igualar. Vá e faça o mesmo.” Veja também as páginas
31-33, “Daniel as Role Model”.
58 Lucas, Daniel, 28.
59 Adaptado de Tremper Longman III, Literary Approaches to Biblical Interpretation (Grand
Rapids: Zondervan, 1987), 92, que dá crédito para o modelo a V. Poythress e J. Beekman.
60 Semeia 14 (1979) 9. Definição reimpressa em Adela Yarbro Collins, “Introduction: Early
Christian Apocalypticism”, Semeia 36 (1986) 2, com acréscimo na p. 7. Também impresso em
Collins, Daniel, 54. Cf. Sandy e Abegg, “Apocalyptic”, 188: “A função de um texto apocalíptico é a
chave para compreendê-lo. Embora os autores apocalípticos tenham algo importante para comunicar,
é mais esperança para o futuro do que informação sobre o futuro. Visto que o significado de uma
passagem é intimamente ligado ao impacto que a passagem é designada para ter sobre os leitores, a
apocalíptica não é geralmente um relato cronológico do futuro, mas um tratamento de choque
literário de imagens explícitas e gráficas para desviar a nossa atenção dos problemas que estamos
enfrentando no momento e nos dar esperança de que Deus terá uma vitória retumbante sobre o mal.
61 Long, “Preaching Apocalyptic Literature”, RevExp 90/3 (1993) 376-77 e 374.
62 Veja a definição acima,“um gênero de literatura revelatória com o arcabouço de narrativa”. Cf.
Murphy, “Introduction to Apocalyptic Literature”, 356: “Todos os apocalipses são narrativas,
histórias que descrevem a revelação, por um ser celestial, de segredos que seriam inacessíveis de
outra maneira para um vidente humano”. Cf. Jeffrey Arthurs, Preaching with Variety, 187: “O
apocalipse possui os rudimentos da narrativa. Existem atores, trama, panorama e ponto de vista, mas
estes elementos são modificados.”
63 Collins, Daniel, 54-55.
64 Collins, Daniel (1984), 33. Cf. Murphy, “Introduction to Apocalyptic Literature”, 362: “Os
capítulos 1–6 são posicionados nas cortes reais dos impérios babilônico, medo e persa [império
medo-persa], onde Daniel se destacou tanto como um campeão de piedade judaica quanto como
intérprete divinamente inspirado de sonhos e sinais. Este retrato de Daniel faz dele um mediador
ideal de segredos celestiais... Nos capítulos 7–12, Daniel tem suas próprias visões de noite,
interpretadas para ele por um anjo.” Para outras referências sobre a unidade de Daniel, veja nota 28.
65 Young, Prophecy of Daniel, 19.
66 A. Lenglet, “La Structure Litteraire de Daniel 2-7”, Bib 53 (1972) 169-90. O texto no diagrama
é de Baldwin, “Theology of Daniel”, NIDOTTE, 4:499. Cf. Dorsey, Literary Structure, 260.
67 Steinmann, Daniel, 22. A estrutura de quiasma é apoiada por termos hebraicos usados nos
capítulos 8 e 10–12. Veja H. J. M. van Deventer, “Struktuur en Boodskap(pe) in die Boek Daniel”,
HervTS 59/1 (2003) 209.
68 Steinmann, ibid., 23.
69 Tanner, “The Literary Structure of the Book of Daniel”, BSac 160 (2003) 278, 282.Cf. Block,
“Preaching Old Testament Apocalyptic”, CTJ 41/1 (2006) 29: “Cronologicamente, o capítulo [7] se
encaixaria mais naturalmente antes do capítulo 5, mas a sua localização depois do capítulo 6 força o
leitor a lê-lo à luz do anterior e em antecipação do que se segue”.
70 Tanner, ibid., 277.
71 Para ver declarações explícitas da soberania de Deus por vários personagens, Block, “Preaching
Old Testament Apocalyptic”, CTJ 41/1 (2006) 32-35, lista Daniel 2.20-23,37-38,44-45,47; 3.29; 4.2-
3,16-17,31-32,34-35,37; 6.26-27; 7.13-14,26-27.
72 “A ideia de um julgamento cósmico escatológico não é um tema importante de qualquer um dos
livros do Antigo Testamento, exceto Daniel”. Beale, “The Influence of Daniel upon the Structure and
Theology of John’s Apocalypse”, JETS 27/4 (1984) 414.
73 “O tema que é central para Daniel, como não é para nenhum outro livro no Antigo Testamento,
é o reino de Deus”. Goldingay, Daniel, 330.
74 Longman, Daniel, 19. Cf. Steinmann, Daniel, 19: “A razão pela qual Daniel enfatiza o controle
de Deus sobre todas as coisas é que isto serve aos quatro principais temas teológicos do livro: o reino
messiânico de Deus, Deus como protetor de seu povo, a superioridade de Deus sobre os falsos deuses
e encorajamento para o povo de Deus a manter a fé nele com integridade”.
75 Block, “Preaching Old Testament Apocalyptic”, CTJ 41/1 (2006) 37. Cf. Archer, “Daniel”, 8:
“O tema que perpassa todo o livro é que o destino dos reis e os assuntos dos homens estão sujeitos a
decretos de Deus, e que ele é capaz de realizar sua vontade, apesar da oposição mais determinada dos
potentados mais poderosos do planeta”. Cf. Towner, Daniel, 4: “Este livro brilha com a profunda
convicção de que Deus não deixará de cumprir seus propósitos redentores”.
76 Bruce, “Discourse Theme and the Narratives of Daniel”, BSac 160 (2003) 175, 186.
77 Longman, Daniel, 20. Cf. Block, “Preaching Old Testament Apocalyptic”, CTJ 41/1 (2006) 36:
“Se o propósito das revelações registradas em Daniel era tranquilizar a geração de exilados que a
história não tinha acabado, este foi também o propósito por trás da composição do livro”.
78 Block, “Preaching Old Testament Apocalyptic”, CTJ 41/1 (2006) 52. Cf. ibid., 39: “Para um
povo desiludido e zangado com o fracasso de Yahweh em defendê-lo dos babilônios, as revelações
por e através de Daniel oferecem esperança de que Yahweh seja, verdadeiramente, o Deus vivo que
permanece fiel à sua palavra”. Cf. Tanner, “Discourse Theme and the Narratives of Daniel”, BSac160
(2003) 182: “A seção apocalíptica não é dada primariamente para predizer o futuro, para contar ao
povo quais reinos iriam emergir no futuro. Em vez disso, esta seção é dada para encorajar o povo de
Deus a viver no âmbito dos reinos terrenos aterradores permanecendo confiante de que somente o
reino de Deus vai durar para sempre, pois ele é verdadeiramente soberano.”
79 As divisões do capítulo são as mesmas na Bíblia hebraica, exceto 4.1-3, que é 3.31-33 em
aramaico, e 5.31, que é 6.1.
80 “Moralizar” é traçar uma ou mais morais do texto pregado quando o autor do texto não teve a
intenção de fazer tal aplicação(ões) para o seu público original.
81 Veja a nota 3 acima.
82 Sandy e Abegg, “Apocalyptic”, 189.
83 “A pregação autoritativa da mensagem dos textos apocalípticos exige… que tracemos as
aplicações para o presente a partir dos pontos principais – em vez de nos engajarmos em especulação
sem fim sobre a importância espiritual dos detalhes”. Block, “Preaching Old Testament
Apocalyptic”, CTJ 41/1 (2006) 52.
84 Cf. Helge Kvanvig, “The Relevance of the Biblical Visions of the End of Time”, HBT 11/1
(1989) 52: “Diretamente, os apocalipses são endereçados àqueles que tinham perdido qualquer
possibilidade de lutar contra o que quer que fosse... Eles são escritos para aqueles que sofrem sob a
tirania da opressão e perseguição... E quando nós, que somos apenas indiretamente endereçados nos
apocalipses, os lemos, só podemos fazê-lo em solidariedade… com aqueles diretamente endereçados,
porque compartilhamos a esperança deles”.
85 Arthurs, Preaching with Variety, 194.
86 Por exemplo, Umhau Wolf, “Daniel and the Lord’s Prayer”, Int 15 (1961) 410: “Não existe
Filho de Davi ou Messias real em Daniel. Não existe verdadeiramente ‘Ungido’… Não há indicação
forte de um Messias pessoal”. Confira os contra-argumentos de Block: “Preaching Old Testament
Apocalyptic”, CTJ 41/1 (2006) 42-51.
87 Greidanus, Preaching Christ from the Old Testament, 10.
88 “O livro de Daniel é um dos livros da Escritura que é citado ou aludido na maioria dos escritos
do Novo Testamento... O índice no Nestle-Aland Novum Testamentum Graece (27ª ed.), que combina
citações e alusões, lista cerca de 200 referências. Proporcionalmente, isso coloca Daniel na mesma
categoria que Isaías e os Salmos, os livros mais frequentemente citados e aludidos no Novo
Testamento.” Evans, “Daniel in the New Testament: Visions of God’s Kingdom”, in Book of Daniel,
II, 490. Cf. Stefanovic, Daniel, 36: “Daniel era um dos livros preferidos de Jesus, talvez o seu
favorito”.
89 Para obter descrições detalhadas dessas maneiras e muitos exemplos, veja o meu Preaching
Christ from the Old Testament, 203-77.
90 Para mais esclarecimentos sobre muitas dessas características, veja Mark Galli e Craig Brian
Larson, Preaching That Connects: Using the Techniques of Journalists to Add Impact to Your
Sermons (Grand Rapids: Zondervan, 1994).
91 A narração no tempo presente é mais viva e imediata do que no tempo passado. Infelizmente,
visto que as traduções inglesas das narrativas usam o tempo passado, haverá alguma inconsistência
no tempo entre a citação do texto e sua releitura.
CAPÍTULO 1
Daniel e seus amigos levados para a Babilônia
Daniel 1.1-21
Resolveu Daniel, firmemente, não contaminar-se com as
finas iguarias do rei, nem com o vinho que ele bebia; então,
pediu ao chefe dos eunucos que lhe permitisse não
contaminar-se.
(Daniel 1.8)1
Há cerca de vinte anos, ouvi um sermão em que o pregador focava em
Daniel e sua rejeição às rações reais de comida e vinho. Ele encorajou os
jovens: “Como Daniel, vocês devem evitar os alimentos calóricos; como
Daniel, vocês devem evitar o álcool; e como Daniel, vocês devem evitar o
sexo”.2 Pelo lado positivo, eu me lembro desse sermão – mesmo depois de
20 anos! Pelo lado negativo, o pregador entusiasmado perdeu a boa notícia
de Deus para nósnesta passagem. Tais aplicações com transferência direta
normalmente perdem o significado pretendido pelo autor; atravancam o
sermão; e, no contexto do Novo Testamento, podem ser não bíblicas.3 Os
israelitas no exílio não foram informados sobre esta história de Daniel para
imitá-lo em evitar alimentos pouco saudáveis e vinho – rações de comida
real e vinho nem sequer estavam no cardápio deles. Infelizmente, pastores
ocupados podem acabar procurando aplicações antes de examinar e
compreender a mensagem do autor para Israel e o objetivo (propósito) dele
em enviar a mensagem para o povo.
O livro de Daniel foi dirigido ao povo de Deus que sofria no exílio. Esta
primeira narrativa é um bom texto de pregação para as pessoas que estão
profundamente perturbadas com a perseguição de cristãos em todo o mundo
atual. De acordo com as últimas estimativas, cem milhões de cristãos são
perseguidos em todo o mundo.4 Onde está Deus em tudo isso? Será que ele
é impotente para acabar com a opressão do seu povo? Muitas pessoas,
especialmente na Europa, têm desistido de sua fé em um Deus soberano e
amoroso e adotado um estilo de vida secular. Outras estão se perguntando:
“Como vamos reagir quando a perseguição chegar até nós? Será que vamos
desistir de nossa fé cristã ou vamos permanecer firmes?”
Texto e contexto
Ao pregar esta narrativa não só devemos evitar moralizar,5 como também
evitar quebrar esta narrativa única em textos menores, mais manejáveis, de
pregação. Por exemplo, um guia de pregação bem conhecido de Daniel
recomenda que “o pedido do rei conquistador para que levem jovens judeus
qualificados para serem educados na língua e literatura caldeia (v. 3-4)”
pode ser trabalhado em dois sermões diferentes: “(1) a importância e os
limites da educação e (2) as atitudes alternativas que as comunidades
religiosas/cristãs podem tomar para com a cultura secular”.6 Mas
certamente não se pode basear um sermão sobre “os requisitos e custos de
uma educação secular” no detalhe da narrativa de que os jovens judeus
“deveriam ser instruídos na literatura e na língua dos caldeus” (v. 4). Este
guia de pregação oferece outras propostas de sermões em segmentos dessa
narrativa,7 mas nenhuma delas chega nem perto de captar o tema da
narrativa de Daniel. Autores bíblicos comunicam suas mensagens não em
poucas palavras ou frases, mas em unidades literárias. A fim de fazer justiça
ao autor bíblico e pregar a sua mensagem inspirada, precisamos primeiro
determinar a unidade literária que vai funcionar como texto de pregação e,
na sequência, o tema que ele aborda em toda essa unidade. Começaremos,
portanto, com o estabelecimento dos parâmetros da unidade literária que vai
funcionar como texto de pregação e, em seguida, trabalharemos na
determinação do tema que esta unidade procura comunicar a Israel no
exílio.
Em contraste com a dificuldade de discernir as principais unidades
literárias em um livro como Eclesiastes, é fácil detectar as unidades textuais
em Daniel. Daniel 1.1 começa com um marco cronológico: “No ano
terceiro do reinado de Jeoaquim, rei de Judá, veio Nabucodonosor, rei da
Babilônia, a Jerusalém e a sitiou”. O versículo 21 conclui a unidade com
outro marco cronológico: “Daniel continuou até ao primeiro ano do rei
Ciro”. Daniel 2.1 começa uma nova unidade literária com outro marco
cronológico: “No segundo ano do reinado de Nabucodonosor, teve este um
sonho”. O texto de pregação, portanto, é Daniel 1.1-21.
Em seu contexto veterotestamentário, Daniel 1 se liga com 2Crônicas
36.6-7: “Subiu, pois, contra ele [Jeoaquim] Nabucodonosor, rei da
Babilônia, e o amarrou com duas cadeias de bronze, para o levar à
Babilônia. Também alguns dos utensílios da Casa do SENHOR levou
Nabucodonosor para a Babilônia, onde os pôs no seu templo”. Em Daniel
1.2, o narrador relata que o rei trouxe esses utensílios para a “terra de Sinar”
– um lembrete das pessoas que, em desafio a Deus, se estabeleceram na
“terra de Sinar” (Gn 11.2) e construíram a torre de Babel. Esse eco das
narrativas de Babel relembra ao leitor que a Babilônia é um lugar que se
opõe a Deus e ao reino de Deus.
A descrição de Daniel como um homem jovem e bonito (v. 4) que foi
levado à força para o exílio (v. 6), recebeu um nome estrangeiro (v. 7),
recebeu de Deus “misericórdia e compreensão da parte do chefe dos
eunucos” (v. 9) e a “inteligência de todas as visões e sonhos” (v. 17) e que
se tornou “governador” da Babilônia (2.48) evoca a história de José, que
também foi descrito como um homem jovem e bonito (Gn 39.6b) que foi
levado à força para o exílio (Egito; Gn 37.36), recebeu um nome
estrangeiro (Gn 41.45), “logrou mercê” aos olhos de seu senhor (Gn 39.4;
41.37), recebeu de Deus a capacidade de interpretar sonhos (Gn 41.39) e se
tornou governador do Egito (Gn 41.41-45). O narrador retrata Daniel como
outro José, um filho de Deus, a quem Deus vai usar para fazer avançar a
causa do seu reino, mesmo em uma terra estrangeira.8
Visto que o primeiro capítulo serve como uma introdução para o livro de
Daniel, ele também tem muitas ligações com os capítulos seguintes. O
versículo 1 introduz Nabucodonosor, o rei da Babilônia, que irá
desempenhar um papel importante nos primeiros quatro capítulos. O
versículo 2 registra que Nabucodonosor levou “alguns dos utensílios da
Casa de Deus... e os pôs na casa do tesouro do seu deus”. Esta informação
nos prepara para o capítulo 5.3, onde se lê que Belsazar profanou estes
vasos por beber neles em seu banquete. O versículo 6 nos apresenta três
amigos de Daniel que se juntam a Daniel em sua resistência (v. 11). Esses
amigos vão desempenhar um papel importante no capítulo 3, quando se
recusam a se curvar diante da estátua do rei e são jogados na fornalha de
fogo ardente. O versículo 17 diz: “A estes quatro jovens Deus deu o
conhecimento e a inteligência em toda cultura e sabedoria”, o que
qualificou os três amigos de Daniel para altos cargos na Babilônia (2.49). O
versículo 17 continua: “Mas a Daniel deu inteligência de todas as visões e
sonhos”, o que nos prepara para os capítulos 2 e 4, nos quais ele interpreta
os sonhos de Nabucodonosor, para o capítulo 5, em que ele interpreta a
escrita na parede, e para as visões nos capítulos 7–12.
Características literárias
O narrador usa hipérbole quando escreve que o rei achou Daniel e seus
amigos “dez vezes mais doutos do que todos os magos e encantadores que
havia em todo o seu reino” (v. 20). Uma vez que “dez” é o número da
plenitude, eles eram muito superiores (cf. os “sete vezes mais” em 3.19). As
principais características literárias que vamos explorar a fim de entender
melhor essa narrativa e seu tema são a estrutura da narrativa, o enredo, a
descrição do personagem e a repetição.
Estrutura da narrativa
Esta narrativa é composta de três cenas:9
Cena 1: Jerusalém, no “terceiro ano do reinado de Jeoaquim” (1.1-2)
A. O Senhor permite que Nabucodonosor capture Jerusalém (1.2a)
B. Nabucodonosor leva utensílios da casa de Deus para a Babilônia
(1.2b)
Personagens: Nabucodonosor e o Senhor.
Cena 2: Babilônia: Daniel e seus amigos são reeducados (1.3-17)
A. Daniel e seus amigos são levados para a Babilônia (1.3-7)
B. Daniel resolve não se contaminar com a comida real (1.8)
C. Daniel levanta a questão com o chefe do serviço do palácio, que
fica com medo (1.9-10)
D. O guarda concorda em reter o alimento real por dez dias (1.11-
14)
E. O guarda concorda em continuar a reter a comida real (1.15-16)
F. Deus dá sabedoria aos quatro jovens (1.17)
Personagens: Daniel/amigos e o chefe do serviço do palácio; quando o
chefe do serviço do palácio deixa o palco, é substituído pelo guarda.
Cena 3: Três anos mais tarde, no palácio do rei: hora do exame (1.18-21)
A. O rei entrevista Daniel e seus amigos (1.18-19)
B. O rei instala Daniel e seus amigos em sua corte (1.19-21)
Personagens: Daniel/amigos e o rei.
O enredo
Para compreender a narrativa, captar seu ponto principal (tema) e recontar
a história no sermão, é crucial discernir o enredo. O panorama literário
desta narrativa é que o Senhorentrega Jeoaquim, rei de Judá, nas mãos de
Nabucodonosor e permite que este leve alguns dos vasos da casa de Deus
para a Babilônia (v. 1-2). Os incidentes preliminares são a ordem do rei para
trazer alguns jovens brilhantes para a Babilônia para a reeducação e
eventual serviço no palácio do rei. O rei designa-lhes porções diárias de
rações reais de alimento e vinho. Daniel e seus três amigos estão entre os
moços. O chefe dos eunucos do palácio substitui seus nomes hebraicos por
nomes babilônicos (v. 3-7).
O incidente motivador é a determinação de Daniel em desobedecer a
ordem do rei e não comer as rações reais de comida e vinho, a fim de não
contaminar-se (v. 8). O ritmo da história desacelera neste cruzamento
importante. Além disso, “o sujeito das palavras de ação se desloca do
governo para a ação resoluta de um cativo. Agora, a história passa a ser
modelada pela decisão do cativo”.10 A tensão aumenta quando o chefe dos
eunucos do palácio, que gosta de Daniel, mas teme o rei, se recusa a atender
ao pedido de Daniel de não se contaminar com a comida e vinho reais (v. 9-
10). O narrador diminui o ritmo ainda mais nos versículos 10-13, usando
discurso direto, em vez de indireto, aumentando, assim, o suspense. A
tensão aumenta ainda mais quando Daniel aborda um oficial inferior, o
cozinheiro-chefe, responsável pela guarda de Daniel e seus amigos, com a
proposta de que, em vez da comida e do vinho real, eles recebam legumes e
água por dez dias (v. 11-13). O guarda concorda em fazer o teste (v. 14).
A tensão começa a se dissipar quando, após os 10 dias, Daniel e seus
amigos mostram aparência melhor e mais robusta do que os outros jovens, e
o guarda continua a reter suas rações reais e vinho (v.15-16). A tensão se
dissolve ainda mais quando o narrador relata que, além do bem-estar físico,
Deus dá a estes quatro jovens conhecimento, inteligência e sabedoria (v.
17). A tensão é totalmente dissolvida quando, ao final de três anos, o rei
examina todos os jovens, conclui que Daniel e seus amigos são muito
superiores e os instala em sua corte (v. 18-19).
O desfecho é que o rei acha Daniel e seus amigos “dez vezes mais doutos
do que todos os magos e encantadores que havia em todo o seu reino” (v.
20). A narrativa termina com a informação de que Daniel continua na corte
do rei, sobrevivendo a todos os reis da Babilônia, até o primeiro ano de
Ciro, rei da Pérsia (v. 21).
Podemos esboçar a narrativa como uma única trama:
Descrição da personagem
O narrador relata esta história na terceira pessoa. Ele descreve Daniel e
seus amigos como “filhos de Israel, tanto da linhagem real como dos
nobres, jovens sem nenhum defeito, de boa aparência, instruídos em toda a
sabedoria, doutos em ciência, versados no conhecimento e que fossem
competentes para assistirem no palácio do rei” (v. 3-4). Todos os quatro são
“filhos de Judá” (v. 6). Após o teste de dez dias, a aparência deles era
melhor e estavam mais robustos do que os outros homens jovens (v. 15).
Além disso, Deus lhes “deu o conhecimento e a inteligência em toda cultura
e sabedoria; mas a Daniel deu inteligência de todas as visões e sonhos” (v.
17). “Em toda matéria de sabedoria e de inteligência”, o rei os achou “dez
vezes mais doutos” do que os outros homens sábios (v. 20). O caráter de
Daniel é ainda mais desenvolvido por suas ações: ele mostra sua coragem e
sua fidelidade à lei de Deus por meio da resolução de “não contaminar-se
com as finas iguarias do rei, nem com o vinho” (v. 8).
O narrador descreve o chefe dos serviços do palácio como tendo
“misericórdia e compreensão” para com Daniel (v. 9) e “medo” do rei (v.
10). Sua recusa em atender ao pedido de Daniel de receber alimento kosher
confirma o medo que o mestre do palácio tinha do rei (v. 10). A descrição
que o narrador faz de Deus, discutiremos na “Interpretação teocêntrica”,
abaixo.
Repetição
O narrador também usa a repetição de forma eficaz para enfatizar certas
ideias. Por exemplo, no versículo 2 “a repetição da palavra ‘casa’ (três
vezes) e ‘seu deus’ (duas vezes), evidente no texto hebraico, mas não na
versão grega, seguida pela NRSV,11 ressalta a crise teológica que este
evento criou para aqueles que acreditam no Deus de Israel e Judá. A dupla
referência a ‘seu deus’ está em oposição ao ‘Deus’ do templo de
Jerusalém”.12 Daniel e seus amigos estão em uma terra controlada por
deuses estrangeiros.
No versículo 8, o narrador também ressalta com repetição que Daniel
estava determinado a não contaminar-se: “Resolveu Daniel, firmemente,
não contaminar-se com as finas iguarias do rei, nem com o vinho que ele
bebia; então, pediu ao chefe dos eunucos que lhe permitisse não
contaminar-se”. Além disso, “em hebraico, tanto o versículo 7 quanto o
versículo 8 começam com a mesma forma verbal, yāśem, ‘ele
resolveu/decidiu’”,13 o que sugere que a determinação de Daniel de não se
contaminar (v. 8.) é uma resposta direta à substituição do seu nome
hebraico, feita pelo chefe dos serviços do palácio, pelo nome babilônico
Beltessazar (“que Bel [Marduque, o principal deus babilônico] proteja a sua
vida”; v. 7). Daniel não quer ser um “Beltessazar” babilônico, mas um
verdadeiro israelita, “Daniel”, “Deus é meu juiz”.
Três vezes o narrador menciona que o teste com legumes e água era de 10
dias (v. 12, 14, 15), destacando que a natureza miraculosa da aparência de
Daniel e seus amigos era melhor do que a dos outros, depois de apenas 10
dias. Especialmente digno de nota é que o narrador repete três vezes que “o
Senhor/Deus deu” (nātan; v. 2,9,17; veja “Interpretação teocêntrica”,
abaixo).
A repetição também nos alerta para estruturas literárias mais complexas,
tais como inclusio (A-A’), paralelismo (A-B; A’-B’), paralelismo invertido
(A-B; B’-A’) e quiasma (por exemplo, ABCB’A’). Goldingay sugere que o
narrador apresenta esta história como uma estrutura quiástica geral, com um
quiasma interno (C1,2, C’2,1):
A Babilônios derrotam Israel (v. 1-2)
B Moços levados para treinamento (v. 3-7)
C 1 Daniel quer evitar a contaminação (v. 8)
2 e passa por um teste (v. 9-14)
C’ 2 Daniel é aprovado no teste (v. 15)
1 e evita a contaminação (v. 16)
B’ Moços bem-sucedidos no treinamento (v. 17-20)
A’ Daniel sobrevive aos babilônios (v. 21)
Uma vez que o núcleo deste quiasma relata como Daniel evita a
contaminação (CC’), os pregadores podem ser tentados a entender e a
pregar essa história antropocentricamente, por exemplo, focando totalmente
no personagem do corajoso Daniel com a aplicação previsível: Imitem
Daniel!14 Goldingay corretamente aponta, no entanto, que mesmo que “a
história seja dominada pela tomada de decisão e atividade de seus
participantes humanos... cada painel duplo [AB, CC’, B’A’] refere-se uma
vez à atividade de Deus, cada vez usando o verbo nātan, ‘dar/fazer’ [v.
2,9,17]”.15
Interpretação teocêntrica
A fim de fazer justiça ao texto e evitar a tentação de interpretação e
pregação horizontal, antropocêntrica, devemos fazer a pergunta: Onde está
Deus nesta história? O que Deus está fazendo? Às vezes, Deus trabalha
discretamente nos bastidores, como no livro de Ester. Mas, nesta história, o
narrador acentua que o soberano Deus está ativamente envolvido na história
humana. Em três grandes momentos, ele destaca a atividade de Deus com
as palavras “o Senhor/Deus deu (nātan)”. No cenário da narrativa, ele nos
informa que “o Senhor lhe entregou [a Nabucodonosor] nas mãos a
Jeoaquim, rei de Judá” (v. 2). Embora Nabucodonosor fosse forte, foi o
Senhor (a̕dōnāy), o dono de tudo, que entregou Judá nas mãos babilônicas.
Na tensão crescente de Daniel, que se encontra no exílio, “Deus concedeu a
Daniel misericórdia e compreensão da parte do chefe dos eunucos” (v. 9).
Da mesma forma que Deus, há muito tempo, tinha dado a José “mercê
perante o carcereiro” (Gn 39.21),16 Deus dá aqui a Daniel o favor do mestre
do palácio. Este bom relacionamento permite a Daniel fazer seu pedido por
comida kosher, sem medo de punição. Infelizmente, o amedrontado mestre
do palácio recusa seu pedido, mas o guarda de escalão inferiorconcorda em
fazer um teste de 10 dias. Que diferença pode fazer uma simples dieta em
apenas 10 dias? Nos bastidores, Deus silenciosamente abençoa o teste para
que, em apenas dez dias, Daniel e seus amigos pareçam mais bem nutridos
do que os outros jovens. Finalmente, para resolver a tensão, “a estes quatro
jovens Deus deu o conhecimento e a inteligência em toda cultura e
sabedoria” (v. 17), de modo que eles foram designados para a corte do rei.
A história não poderia ter sido do jeito que aconteceu sem o envolvimento
ativo do Deus de Israel. Longman corretamente assevera: “Embora a
história seja centrada no nível da superfície das ações dos personagens
humanos, o capítulo pretende principalmente nos ensinar sobre Deus”. 17
Tema textual e objetivo
Usando essas ideias, agora devemos ser capazes de formular o tema desta
narrativa. A repetição de “Deus deu” no cenário, a tensão crescente e a
solução da narrativa indicam que Deus é o sujeito do tema. Longman sugere
como tema: “A soberania de Deus ultrapassa de longe o poder até mesmo
do mais poderoso dos governantes humanos”. Embora este seja um bom
tema, é muito geral, como Longman também se dá conta quando ele chama
isso de “uma grande preocupação do livro”.18 Steinmann sugere um tema
similar: “Deus está no controle de todas as coisas que acontecem entre os
seres humanos”.19 Este também é um bom tema, mas, novamente, é muito
geral; poderia servir como um tema para muitas passagens bíblicas; não é
textualmente específico.
Outro olhar sobre o enredo vai ajudar-nos a discernir o tema desta história
específica. Como Deus permitiu a Nabucodonosor dominar Israel (Judá),
Daniel e seus amigos são levados para a Babilônia para serem reeducados, a
fim de servir na corte do rei. Mas Daniel se recusa a se contaminar com a
comida real; ele obedece ao seu Deus, em vez de um rei humano. Deus dá a
Daniel o favor do chefe dos eunucos do palácio para que haja um modo de
Daniel e seus amigos não se contaminarem. Deus também lhes dá
conhecimento, habilidade e sabedoria para que o rei os selecione para o
serviço em sua corte. Um tema textualmente específico pode ser formulado
da seguinte forma:
“O Senhor soberano guia Daniel e seus amigos fiéis a posições de poder
na Babilônia”. Este é um bom resumo da história, mas não consegue captar
a mensagem de Daniel 1. Qual é a mensagem que os exilados deviam ouvir
através desta história? Imaginando-nos na situação desses exilados
sofredores, ouvimos a mensagem: O Senhor soberano que levou Daniel e
seus amigos fiéis a posições de poder na Babilônia conduzirá o seu povo
fiel, mesmo no exílio.20
A questão agora é: Por que Daniel comunica essa mensagem para o povo
de Deus? Qual era o seu objetivo ou intento? Em sintonia com o tema, o
principal objetivo do narrador é confortar o povo de Deus com a mensagem
de que seu soberano Senhor guia seus fiéis, mesmo no exílio.21 Mas o
narrador pode ter um objetivo secundário em mente também. Ele apresenta
Daniel e seus amigos como verdadeiros israelitas, fiéis a Deus, mesmo
quando longe da Terra Prometida: fiéis a Deus no que diz respeito à comida
que comem (capítulo 1); fiéis a Deus em não ajoelharem e adorarem um
ídolo (capítulo 3); fiéis a Deus no que diz respeito às orações diárias
(capítulo 6); em suma, mesmo no exílio, eles permaneceram fiéis a Deus,
obedecendo à sua lei. O narrador pretende que os israelitas se identifiquem
com Daniel e seus amigos – não no sentido de imitarem todas as suas ações,
evitando alimentos reais e vinho,22 que de qualquer modo eles não dispõem,
mas no sentido de saber que um verdadeiro israelita é fiel a Deus e à sua lei,
mesmo no exílio.23 Portanto, um objetivo secundário do narrador é
incentivar o povo de Deus a ser fiel a Deus e à sua lei, mesmo no exílio.
Maneiras de pregar a Cristo
Nesta seção, vamos estudar as formas possíveis de nos movermos no
sermão desta narrativa do Antigo Testamento para Jesus Cristo, no Novo
Testamento. Normalmente a melhor maneira de fazer isso é estender o tema
textual a Jesus Cristo. Como não há nenhuma promessa da vinda do
Messias neste capítulo, nem um grande contraste com o Novo Testamento,
vamos explorar sucessivamente as cinco maneiras restantes para avançar até
Cristo: progressão histórico-redentiva, tipologia, analogia, temas
longitudinais e referências do Novo Testamento.
Progressão histórico-redentiva
A progressão histórico-redentiva oferece um caminho direto até Jesus no
Novo Testamento. Daniel 1 enfatiza que Deus “deu/entregou”: “O Senhor
lhe entregou nas mãos [de Nabucodonosor] a Jeoaquim, rei de Judá” (v. 2).
Mas, mesmo quando o seu povo está no exílio, Deus continua envolvido
com ele: Deus deu a Daniel o favor do chefe dos eunucos do palácio (v. 9) e
“Deus deu o conhecimento e a inteligência” (v. 17). Deus guia, protege e
salva o seu povo, entrando na história humana e dando-lhes o que eles
precisam, mesmo quando estão no exílio.
Na plenitude dos tempos, Deus deu a dádiva mais preciosa de todas:
“Deus amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para
que todo o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16).
Mateus 1 destaca esta progressão na história da redenção, descrevendo
catorze gerações desde Abraão até Davi (quatorze é o número hebraico do
nome “Davi”), catorze de Davi até o exílio, e catorze do exílio a Jesus
Cristo: “De sorte que todas as gerações, desde Abraão até Davi, são catorze;
desde Davi até ao exílio na Babilônia, catorze; e desde o exílio na Babilônia
até Cristo, catorze” (Mt 1.17). Jesus é outro rei Davi. Ele é o Rei Messias
que nasceu para salvar o povo de Deus do exílio no mundo e restaurá-lo à
Terra Prometida. Em sua oração sacerdotal, Jesus disse ao Pai: “Eu lhes
tenho dado a tua palavra, e o mundo os odiou, porque eles não são do
mundo, como também eu não sou... Eles não são do mundo, como também
eu não sou” (Jo 17.14,16).
Hoje o povo de Deus na terra ainda vive no exílio, a leste do Éden.
Podemos nos intitular cidadãos de um determinado país, mas, na verdade,
Paulo diz: “A nossa pátria está nos céus, de onde também aguardamos o
Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Fp 3.20; cf. 1Pe 1.1; Tg 1.1). Jesus
voltará e nos levará do exílio neste mundo mal e pecaminoso para a Terra
Prometida, ou seja, o perfeito reino de Deus na Terra.
Tipologia
A tipologia também fornece uma maneira de pregar a Cristo porque
Daniel prefigura (é um tipo de) Jesus Cristo. Observe as seguintes
analogias, bem como gradações entre Daniel e Jesus: Como o Senhor
soberano permitiu a Daniel ser levado da Terra Prometida e ir para o exílio
na Babilônia pecaminosa, também Deus, o Pai, enviou o seu Filho único do
céu a este mundo pecaminoso (Jo 3.16). Como Daniel foi um verdadeiro
israelita, também Jesus foi um verdadeiro israelita, o próprio Filho de Deus.
Daniel na Babilônia foi obediente a Deus em relação à comida e bebida;
Jesus foi obediente a Deus em todas as coisas. Deus deu a Daniel sabedoria
e habilidade; Deus deu sabedoria e habilidade a Jesus (“Todos os que o
ouviam muito se admiravam da sua inteligência e das suas respostas” [Lc
2.47]). Deus guiou Daniel a um lugar de grande autoridade na Babilônia;
Deus guiou o seu Filho Jesus para um lugar de maior autoridade ainda:
“Deus o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo
nome, para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho... e toda língua
confesse que Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai” (Fp 2.9-11).
Analogia
A analogia fornece outro caminho para Jesus no Novo Testamento.
Podemos fazer uma analogia entre a mensagem de Daniel para Israel no
exílio e a mensagem de Pedro aos cristãos no exílio: “Aos eleitos que são
forasteiros da Dispersão... segundo a presciência de Deus Pai, em
santificação do Espírito, para a obediência e a aspersão do sangue de Jesus
Cristo” (1Pe 1.1-2).
Podemos também traçar a analogia a partir do objetivo do autor: como
Daniel 1 conforta o povo de Deus com a mensagem de que o Senhor
soberano vai guiar o seu povo, mesmo no exílio, também Jesus conforta
seus seguidores:“Não temais, ó pequenino rebanho; porque vosso Pai se
agradou em dar-vos o seu reino” (Lc 12.32).
Temas longitudinais
Pode-se também traçar o tema do soberano Deus guiando seu povo do
Antigo para o Novo Testamento. Pode-se começar com Abraão, a quem
Deus tirou de “Ur dos caldeus” (Gn 11.31), terra que veio a ser a Babilônia
mais tarde, para a Terra Prometida; depois, passar para Jacó, que Deus
levou da Terra Prometida para Padã-Arã (também na Babilônia mais tarde)
e de volta para a Terra Prometida; em seguida, passar a José, que, como
Daniel, foi forçado ao exílio, mas a quem Deus também deu grande
sabedoria e poder de interpretar os sonhos para que ele se tornasse o
segundo no poder depois de Faraó e, assim, fosse capaz de salvar o povo de
Deus da fome. José morreu no Egito, mas instruiu os israelitas a enterrá-lo
na Terra Prometida: “Certamente Deus vos visitará, e fareis transportar os
meus ossos daqui” (Gn 50.25). Anos mais tarde, Deus libertou Israel do
exílio no Egito, e os israelitas levaram o corpo de José com eles para
enterrá-lo na Terra Prometida (Êx 13.19; Js 24.32). Deus guiou o seu povo
durante o período dos juízes, dos reis, do exílio e o retorno de um
remanescente, até a vinda de Cristo. Quando Jesus completou seu trabalho
na terra e estabeleceu sua igreja, ele prometeu guiar sua igreja: “Eis que
estou convosco todos os dias até à consumação do século” (Mt 28.20).
Em sermões, é preciso lidar com os temas longitudinais com cuidado, pois
desenvolver um tema em detalhes pode rapidamente se tornar algo
entediante para a congregação. Referências em linhas gerais são, muitas
vezes, mais eficazes do que uma viagem longa e morosa através das
Escrituras.
Referências no Novo Testamento
O apêndice do Novo Testamento grego enumera João 3.35 como uma
alusão a Daniel 1.2, e Apocalipse 2.10 como uma alusão aos “10 dias” em
Daniel 1.12,14. Nenhuma destas referências é útil para a pregação de
Cristo. Verificar o tema da providência de Deus em uma concordância nos
leva ao ensino de Jesus relativo à liderança de Deus sobre seu povo. Por
exemplo, Jesus ensinou: “Não se vendem cinco pardais por dois asses?
Entretanto, nenhum deles está em esquecimento diante de Deus. Até os
cabelos da vossa cabeça estão todos contados. Não temais! Bem mais valeis
do que muitos pardais” (Lc 12.6-7). Além disso, em sua oração sacerdotal,
Jesus orou: “Pai santo, guarda-os [os seguidores de Jesus]... Quando eu
estava com eles, guardava-os no teu nome... e protegi-os... Mas, agora, vou
para junto de ti... Não peço que os tires do mundo, e sim que os guardes do
mal” (Jo 17.11-15).
Paulo também liga seu ensinamento sobre a providência de Deus com
Jesus Cristo: “Sabemos que todas as coisas cooperam para o bem daqueles
que amam a Deus... Quem nos separará do amor de Cristo? Será tribulação,
ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo, ou espada?...
Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por meio
daquele que nos amou. Porque eu estou bem certo de que nem a morte, nem
a vida, nem os anjos, nem os principados, nem as coisas do presente, nem
do porvir, nem os poderes, nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer
outra criatura poderá separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo
Jesus, nosso Senhor” (Rm 8. 28-39).
Tema, objetivo e necessidade do sermão
Tendo vasculhado o Novo Testamento, especialmente em busca de
conexões com o tema textual, agora estamos prontos para formular o tema e
objetivo do sermão. Por causa da progressão na história da redenção e
revelação, o tema do sermão pode, por vezes, ser diferente do tema textual,
embora deva ser sempre enraizado nele. Formulamos o tema textual como:
“ O Senhor soberano que levou Daniel e seus amigos fiéis a posições de
poder na Babilônia conduzirá o seu povo fiel, mesmo no exílio”. Visto que
o Novo Testamento não muda esta mensagem, podemos fazer do tema
textual o tema sermão – exceto por uma frase. A frase “mesmo no exílio”
levanta várias questões: a igreja de hoje está “no exílio” da forma que Israel
esteve? Vimos acima que Paulo ensina que o povo de Deus está no exílio,
porque vive em um mundo mau e pecaminoso: “A nossa pátria está nos
céus” (Fp 3.20). Pedro também se dirige à igreja do Novo Testamento como
“os exilados da Dispersão” (1Pe 1.1; cf. Tg 1.1). Portanto, poderíamos
manter “no exílio” no tema do sermão. Mas uma vez que “exílio” pode não
ser claro para as pessoas, e o tema deve ser absolutamente claro, vamos
mudar “no exílio” para “no mundo”. Outra questão é: será que é
surpreendente (“mesmo”) que Deus guia a igreja no mundo? Uma vez que
Jesus prometeu estar com sua igreja “até a consumação do século” (Mt
28.20) e derramou o Espírito Santo sobre sua igreja, não é de estranhar que
Deus guie sua igreja no mundo. Portanto, podemos abandonar a palavra
“mesmo”. O tema sermão, então, torna-se: O Senhor soberano, que guiou
Daniel e seus amigos fiéis a posições de poder na Babilônia, guiará o seu
povo fiel no mundo.
Concluímos que o autor pode ter tido dois objetivos com a sua mensagem:
o objetivo principal, “confortar o povo de Deus com a mensagem de que
seu soberano Senhor guiará o seu povo fiel, mesmo no exílio”, e um
objetivo secundário, “incentivar o povo de Deus a ser fiel a Deus, mesmo
no exílio”. O sermão pode ter os mesmos dois objetivos para a igreja de
hoje, embora devamos mudar novamente “mesmo no exílio” para “no
mundo”. O duplo objetivo de24 pregar este sermão então é: confortar o povo
de Deus com a mensagem de que seu soberano Senhor guiará o seu povo
fiel no mundo e o incentivará a ser fiel a Deus.
Com um objetivo duplo será mais difícil, é claro, manter o sermão focado
e unificado do que com um objetivo único. Mas se o autor bíblico parece ter
tido um objetivo duplo em mente, devemos aceitar o desafio de pregar um
sermão unificado com o objetivo dual. Em qualquer caso, este objetivo
duplo aponta para uma necessidade congregacional dupla, que o sermão
deve abordar: por causa da perseguição que sofre ou observa neste mundo,
o povo de Deus tende a questionar se Deus está realmente no controle dos
poderes do mal neste mundo e é tentado a se afastar da lei de Deus.
Exposição do sermão
A introdução do sermão pode divulgar a relevância deste sermão com
uma ilustração de pessoas que ficaram tão horrorizadas com a perseguição a
si mesmas ou a outros cristãos que elas começaram a duvidar da existência
de um Deus amoroso, perderam sua fé em Deus e começaram a viver um
estilo de vida secular.25 Por exemplo, muitas pessoas afirmam ter perdido
sua fé em Deus por causa das atrocidades de Auschwitz. Junto com milhões
de judeus, muitos cristãos morreram nos campos de concentração nazistas.
Em seguida, levante a questão de se podemos perder nossa fé em Deus
quando a perseguição chegar: ataques à igreja patrocinados pelo Estado ou
mesmo quando somos atormentados no trabalho por causa das nossas
crenças cristãs. Quando nos concentramos sobre a perseguição ao povo de
Deus, é fácil perdermos a fé em um Deus soberano que ama o seu povo.
Certamente foi fácil para Israel perder a sua fé em Deus quando seu
pequeno país foi invadido pelas forças babilônicas e as pessoas, arrastadas
para o exílio. Elas foram levadas para o exílio em três lotes. Primeiro, em
605 a.C., os babilônios levaram jovens da nobreza, incluindo Daniel e seus
três amigos (Dn 1.1-6). Oito anos mais tarde, os babilônios tomaram um
grande grupo de elite: o Rei Jeoaquim, seus funcionários, a família real, os
guerreiros, os artesãos e ferreiros (2Rs 24.10-17). Finalmente, em 587 a.C.,
levaram todos os judeus restantes, exceto as pessoas mais pobres. Eles
destruíram os muros de Jerusalém e queimaram o santo templo de Deus até
o alicerce (2Rs 25.1-21). Onde estava Deus? Que tipo de Deus não tem
força para proteger sua cidade e seu próprio templo? Parecia que os deuses
da Babilônia eram muito mais fortes do que o Deus de Israel. Foi fácil para
Israel no exílio perder sua fé no Senhor seu Deus. Isaías relata que Israel
reclamou: “O SENHOR me desamparou, o SENHOR seesqueceu de mim”
(49.14). Por que não servir a Marduque, o grande deus da Babilônia? O
livro de Daniel se dirige a estes exilados que sofriam e duvidavam.
Os versículos 1 e 2, “No ano terceiro do reinado de Jeoaquim, rei de Judá,
veio Nabucodonosor, rei da Babilônia,26 a Jerusalém e a sitiou. O Senhor
lhe entregou nas mãos a Jeoaquim, rei de Judá, e alguns dos utensílios da
Casa de Deus; a estes,27 levou-os para a terra de Sinar, para a casa do seu
deus, e os pôs na casa do tesouro do seu deus”. O autor usa a expressão
“terra de Sinar” para nos lembrar de Gênesis 11, onde lemos sobre pessoas
fixando residência na “terra de Sinar” e, em desafio a Deus, construindo a
torre de Babel. Desde o início, então, somos lembrados de que a Babilônia é
um lugar do mal, o reino das trevas. Seu povo é orgulhoso e desafiador,
inimigo de Deus e do seu povo.28
Observe ainda que o versículo 2 afirma que “O Senhor lhe entregou nas
mãos a Jeoaquim”, ou seja, nas mãos de Nabucodonosor. Um historiador
moderno diria que Judá caiu porque foi subjugado pela nação mais
poderosa do planeta. Um sacerdote babilônico teria dito que os deuses
poderosos da Babilônia simplesmente venceram o Deus de Israel. Mas
nosso texto nos dá uma perspectiva totalmente diferente sobre a tragédia de
Judá: “O Senhor lhe entregou nas mãos [de Nabucodonosor] a Jeoaquim,
rei de Judá”. Literalmente, o texto diz que: “O Senhor entregou o rei
Jeoaquim de Judá a Nabucodonosor”. A palavra hebraica usada aqui para
“Senhor” é (a̕dōnāy), que “enfatiza a posse de Deus, o seu controle”.29
Então, desde o início, Daniel nos informa que o Senhor de Israel é o Deus
soberano que possui e controla todas as coisas. Os deuses da Babilônia não
chegam nem perto.30
Por que, então, o soberano Senhor permitiu que esse desastre acontecesse
com o seu próprio povo? Encontramos a resposta em Daniel 9. Daniel
confessa na sua oração: “Todo o Israel transgrediu a tua lei, desviando-se,
para não obedecer à tua voz; por isso, a maldição e as imprecações que
estão escritas na Lei de Moisés, servo de Deus, se derramaram sobre nós,
porque temos pecado contra ti” (Dn 9.11).31 A desobediência contínua de
Israel foi a razão por que Deus permitiu Judá cair no poder da Babilônia.
O Senhor até mesmo permitiu a Nabucodonosor levar “alguns dos
utensílios32 da Casa de Deus” – sua própria casa sagrada. Lemos no
versículo 2: “Levou-os para a terra de Sinar, para a casa do seu deus, e os
pôs na casa do tesouro do seu deus”.33 A remoção desses vasos de ouro e
prata era “um sinal da vitória de Nabucodonosor e seu deus sobre o rei
israelita e seu deus. As guerras eram travadas em nome do deus e os
despojos, portanto, pertenciam a ele”.34
Nos versículos 3 e 4, lemos: “Disse o rei a Aspenaz, chefe dos seus
eunucos, que trouxesse alguns dos filhos de Israel, tanto da linhagem real
como dos nobres, jovens sem nenhum defeito, de boa aparência, instruídos
em toda a sabedoria, doutos em ciência, versados no conhecimento,35 e que
fossem competentes para assistirem no palácio do rei e lhes ensinasse a
cultura e a língua dos caldeus”.36 Estes jovens eram a nata da cultura. Eles
eram da classe alta, adolescentes que poderiam facilmente ser novamente
treinados, no auge da condição física, bem-educados e “versados no
conhecimento e que fossem competentes”, isto é, com um QI alto. Eles
eram o tipo de rapazes especialistas em todas as matérias e excelentes em
todos os esportes da universidade. Eles deveriam ser levados para a
Babilônia e ali se “lhes ensinasse a cultura e a língua dos caldeus”. Em
outras palavras, eles deveriam ser reeducados nos modos e na língua da
Babilônia.37 Eles seriam “reprogramados”. Nabucodonosor faria uma
lavagem cerebral nesses adolescentes israelitas e os transformaria em sábios
homens babilônicos.
O rei tinha várias razões para trazer israelitas inteligentes para a
Babilônia. Isso traria as melhores mentes em Israel para a corte do rei da
Babilônia. Seria deixar claro para Israel que eles estavam agora sujeitos à
Babilônia e desencorajaria rebelião em Judá.38
O versículo 5 acrescenta que “determinou-lhes o rei a ração diária, das
finas iguarias da mesa real e do vinho”. Não é que o rei quisesse mimar
estes meninos judeus. Ao contrário, ele queria afastá-los da dieta que Deus
lhes dera. Eles tinham que se tornar babilônios até na sua comida e bebida.39
Eles tinham que ser babilônios em cada momento da sua existência. Os
versículos 5 e 6 continuam: Eles deviam ser educados “por três anos,40 ao
cabo dos quais assistiriam diante do rei. Entre eles, se achavam, dos filhos
de Judá, Daniel, Hananias, Misael e Azarias”.
Eles tinham nomes hebraicos bonitos que os pais piedosos teriam
significativamente dado aos seus filhos. Todos os quatro nomes
testemunham o Deus de Israel, o Senhor. Daniel significa “El (Deus) é meu
juiz”. Hananias significa “Yah (Yahweh) tem sido gracioso”. Misael
significa “Quem é como El (Deus)?” E Azarias significa “Yah (Yahweh)
tem ajudado”.41
Infelizmente, a primeira coisa que o chefe dos eunucos do palácio fez foi
trocar os lindos nomes deles. Era urgente separar esses jovens do passado e
do Deus deles.42 A identidade deles tinha de ser mudada de jovens israelitas
para sábios babilônicos. Então o chefe dos eunucos do palácio substituiu os
belos nomes hebraicos por nomes babilônicos com referências aos deuses
babilônicos. Verso 7: “O chefe dos eunucos lhes pôs outros nomes, a saber:
a Daniel, o de Beltessazar”, que, provavelmente, significa, “que Bel proteja
a sua vida” – Bel significa “senhor”, referindo-se ao deus babilônico
principal, Marduque. “A Hananias, o de Sadraque”, que significa “o
comando de Aku”, o deus da lua, ou “o comando de Marduque”, o deus
principal. “A Misael, o de Mesaque”, que pode significar “quem é como
Aku?”. E, finalmente, a “Azarias, o de Abede-Nego”, que significa “servo
de Nebo”, o deus babilônico da sabedoria e da agricultura.43 Em vez de
servir ao Senhor, o Deus de Israel, a partir de agora estes jovens estão a
serviço da Babilônia e seus deuses.
O versículo 8: “Resolveu Daniel, firmemente, não contaminar-se com as
finas iguarias do rei, nem com o vinho que ele bebia; então, pediu ao chefe
dos eunucos que lhe permitisse não contaminar-se”. Resistência entre os
cativos! Daniel não podia impedir de ser levado para a Babilônia. Ele
também não poderia deixar de ter seu nome alterado, embora deva ter
percebido que este era um primeiro passo para se tornar um bom
babilônico. Mas, quando se trata de consumir rações reais de comida e
vinho, Daniel resiste.44 Ele resolve não se contaminar. Para indicar que
Daniel está falando sério sobre isso, o narrador repete duas vezes no
versículo 8 que ele decidiu “não contaminar-se”.
Por que as rações reais de comida e vinho contaminariam Daniel?45 A
palavra “contaminar” (gāʾal) é um termo cúltico, religioso. As pessoas que
se contaminam tornam-se “impuras”, ou seja, profanas, não são aceitas na
santa presença de Deus. Então a primeira coisa que vem à mente é que essas
rações reais não eram kosher. Talvez incluíssem carne de porco e outras
carnes proibidas. Mesmo que fosse a carne que Deus permitia que se
comesse, os animais não eram abatidos corretamente porque o sangue deles
não era drenado.46 De acordo com a lei de Deus,47 comer essa carne tornaria
imundo um israelita. Mas isso não explicaria a recusa de Daniel em beber o
vinho do rei, que era kosher para todos os israelitas, exceto para os nazireus
(Nm 6.3).
Há uma segunda razão pela qual Daniel pode ter recusado as rações reais
de comida e vinho. Normalmente, uma parte da carne e do vinho da mesa
do rei era oferecida primeiramente aos deuses babilônicos. “Participar deste
alimento teria sido um ato indireto de adorar as divindades babilônicas”.48
Quando Daniel toma sua posição de não comer a comida real e beber o
vinho do rei, ele toma sua posição contra os deuses babilônicos e em favor
do Deus de Israel.49 Esta é uma posição perigosa para se tomar. Daniel
podia ser executado por tomar esta posição. Quatrocentos anos depois,sob
Antíoco IV, muitos judeus foram mortos por se recusarem a comer
alimentos impuros. Um livro dessa época, 1Macabeus, nos informa:
“Apesar de tudo, muitos em Israel ficaram firmes e se mostraram
irredutíveis em não comerem nada de impuro. Aceitaram antes morrer que
contaminar-se com os alimentos e profanar a aliança sagrada, como de fato
morreram” (1Mb 1.62-63)”.50
Daniel toma uma posição perigosa. No entanto, ele corajosamente “pediu
ao chefe dos eunucos que lhe permitisse não contaminar-se”. Se Aspenaz
relatasse essa resistência ao rei, isto poderia custar a vida de Daniel. Mas
lemos no versículo 9: “Deus concedeu a Daniel misericórdia e compreensão
da parte do chefe dos eunucos”. Assim como Deus anteriormente
“entregou” Judá nas mãos de Nabucodonosor (v. 2), de modo similar agora
Deus “deu” a Daniel o favor e a compaixão do chefe dos eunucos do
palácio.51 O Deus de Israel controla a história humana. O Deus de Israel
pode operar também na distante Babilônia. Ele permitiu que Daniel
recebesse “misericórdia e compreensão da parte do chefe dos eunucos”. A
história de Daniel se parece muito com a de José, quando no exílio no
Egito. Nós lemos em Gênesis: “O SENHOR, porém, era com José, e lhe foi
benigno, e lhe deu mercê perante o carcereiro” (Gn 39.21). O Deus de Israel
é o Deus soberano. Ele estava no Egito para ajudar o seu povo e ele está
agora na Babilônia para ajudar o seu povo. Deus dá a Daniel misericórdia e
compreensão da parte de Aspenaz.
Contudo, embora Aspenaz tivesse se agradado de Daniel, ele não estava
disposto a desobedecer às ordens do rei. Versículo 10: “Disse o chefe dos
eunucos a Daniel: Tenho medo do meu senhor, o rei, que determinou a
vossa comida e a vossa bebida; por que, pois, veria ele o vosso rosto mais
abatido do que o dos outros jovens da vossa idade? Assim, poríeis em
perigo a minha cabeça para com o rei”. Aspenaz tinha medo do rei. Reter o
alimento real podia custar-lhe a cabeça. Nabucodonosor podia ter um de
seus ataques de fúria e mandar matar Aspenaz. O rei era conhecido por seus
ataques de fúria. Em Daniel 2.12, lemos sobre a fúria e ordem do rei: “que
matassem a todos os sábios da Babilônia”. Em Daniel 3, lemos novamente
sobre sua ira ao ordenar que os amigos de Daniel fossem jogados na
fornalha de fogo ardente. Aspenaz conhecia o rei bem demais e não estava
disposto a arriscar sua própria cabeça por Daniel.
O que é que Daniel podia fazer? Aspenaz tinha medo que uma dieta
restrita fizesse Daniel emagrecer e que o rei percebesse isso. Então Daniel
esboçou um plano, passando por cima do medroso Aspenaz desta vez. Ele
vai a um oficial inferior. Os versículos 11 a 13: “Então, disse Daniel ao
cozinheiro-chefe, a quem o chefe dos eunucos havia encarregado de cuidar
de Daniel, Hananias, Misael e Azarias: Experimenta, peço-te, os teus servos
dez dias; e que se nos deem legumes a comer e água a beber. Então, se veja
diante de ti a nossa aparência e a dos jovens que comem das finas iguarias
do rei; e, segundo vires, age com os teus servos.” Daniel sugere que o
guarda dê a ele e aos seus amigos apenas legumes para comer e água para
beber durante um período de dez dias.52 Com certeza um período de teste de
10 dias não podia fazer nenhum mal. Eles ficariam lá por três anos. No final
de dez dias, o guarda pôde comparar a aparência deles com a dos outros
jovens.
Daniel ficou desconfortável enquanto esperava a resposta do guarda. Mas
ele não teve que esperar muito. Lemos no versículo 14: “Ele [o guarda]
atendeu e os experimentou dez dias”. Dificilmente dez dias seria tempo
suficiente para fazer uma grande diferença. O narrador enfatiza este curto
período repetindo a frase “10 dias” três vezes. Mas nunca se sabe, talvez
eles emagrecessem.
Estranhamente, exatamente o oposto acontece. Versículo 15: “No fim dos
dez dias, a sua aparência era melhor; estavam eles mais robustos do que
todos os jovens que comiam das finas iguarias do rei”. O guarda notou que
a “sua aparência era melhor; estavam eles mais robustos”, ou seja, mais
saudáveis, mais bem nutridos.53 Como é possível que eles ficassem mais
bem nutridos, alimentando-se apenas de legumes e água, do que todos os
jovens com a dieta de comida calórica e vinho? O autor não precisa nos
contar como isso foi possível. Por agora sabemos que Deus trabalha na
história humana. “O Senhor lhe entregou nas mãos [do rei de Babilônia] a
Jeoaquim, rei de Judá” (v. 2). “Deus concedeu a Daniel misericórdia e
compreensão da parte do chefe dos eunucos” (v. 9). Obviamente Deus
operou um milagre fazendo com que Daniel e seus amigos, em apenas 10
dias, ficassem mais bem nutridos do que os outros jovens.54
Este resultado positivo convenceu o guarda. No versículo 16 lemos: “Com
isto, o cozinheiro-chefe tirou deles as finas iguarias e o vinho que deviam
beber e lhes dava legumes”. Daniel e seus amigos não tiveram que se
contaminar. Durante três anos, continuaram com a dieta de vegetais e água.
Eles sempre souberam que a sua boa aparência física não era devido ao
alimento calórico da Babilônia, mas devido à bênção de seu Deus.
E ainda mais. O versículo 17 acrescenta: “A estes quatro jovens Deus deu
o conhecimento e a inteligência em toda cultura e sabedoria; mas a Daniel
deu inteligência de todas as visões e sonhos”. Aqui, pela terceira vez, o
narrador escreve: “Deus deu/entregou”. Deus entregou Judá nas mãos da
Babilônia, (v. 2). Deus “deu” a Daniel o favor e a compaixão do chefe dos
eunucos do palácio (v. 9); e, agora, “Deus deu o conhecimento e a
inteligência em toda cultura e sabedoria” a estes quatro jovens. Os três dons
especiais foram dados para esses jovens, e somente para eles: o
conhecimento, a inteligência em toda cultura e a sabedoria. Os termos
“denotam conhecimento sobrenaturalmente revelado”.55 Mas, para Daniel,
Deus deu um dom especial adicional: “Mas a Daniel deu inteligência de
todas as visões e sonhos”. Este dom especial viria a ser importante nos
próximos capítulos, quando Daniel interpreta sonhos e recebe visões.
Os versículos 18 e 19 trazem: “Vencido o tempo determinado pelo rei para
que os trouxessem, o chefe dos eunucos os trouxe à presença de
Nabucodonosor. Então, o rei falou com eles; e, entre todos, não foram
achados outros como Daniel, Hananias, Misael e Azarias; por isso,
passaram a assistir diante do rei.” Observe que o narrador identifica os
quatro jovens por seus nomes hebraicos. “Esta pode ser a maneira de o
contador da história atribuir a competência dos quatro ao Deus a quem seus
nomes hebraicos davam testemunho”.56 O próprio rei os examinou e achou
que Daniel e seus amigos eram muito superiores aos outros jovens. Assim,
o rei instalou estes quatro judeus em sua corte para serem seus assessores.
O rei da Babilônia ficou extremamente satisfeito com o trabalho de Daniel
e seus amigos. De fato, o versículo 20 nos diz: “Em toda matéria de
sabedoria e de inteligência sobre que o rei lhes fez perguntas, os achou dez
vezes mais doutos do que todos os magos e encantadores que havia em todo
o seu reino”. Eles eram muito superiores até mesmo a todos os sábios
experientes em seu reino. O rei pode ter pensado que este sucesso era
devido ao seu excelente sistema educacional. Mas nós, os leitores desta
história, sabemos da verdade. Deus deu “o conhecimento, e a inteligência
em toda cultura e sabedoria”.57
A narrativa termina com o versículo 21: “Daniel continuou até ao
primeiro ano do rei Ciro”. Rei Ciro era o rei da Pérsia, o atual Irã. Ele
conquistou a Babilônia (atual Iraque) e, em seu primeiro ano, permitiu que
os israelitas retornassem à Terra Prometida. A história de Daniel começou
em 605 a.C., quando os primeiros judeus foram levados para o exílio, e
agora ele ainda está vivo, quando um remanescente de exilados retorna, em
539 a.C., quase 70 anos mais tarde.58 Daniel está na casa dos oitenta anos
agora. Deus o abençoou com uma vida tão longa que ele sobreviveu até
mesmo ao grande império babilônico e aos seus seis reis.59 Daniel
experimentou a fidelidade de Deus, mesmo no exílio.
Daniel, no Antigo Testamento,prefigura Jesus Cristo, no Novo. Observe
as analogias. Como o soberano Senhor permitiu que seu filho Daniel fosse
levado da Terra Prometida para a pecaminosa Babilônia, também Deus, o
Pai, enviou seu único Filho do céu a este mundo pecaminoso: “Porque Deus
amou ao mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo
o que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna” (Jo 3.16). Como Daniel
na Babilônia foi obediente às leis de Deus, também Jesus foi obediente à
vontade de Deus em todas as coisas. Mesmo quando se tornou claro que a
vontade de Deus para Jesus era a de oferecer a sua própria vida, Jesus orou:
“Meu Pai, se não é possível passar de mim este cálice sem que eu o beba,
faça-se a tua vontade” (Mt 26.42). Da mesma forma que Deus conduziu
Daniel para um lugar de grande autoridade na Babilônia, Deus guiou o seu
Filho Jesus a um lugar de maior autoridade ainda: “Pelo que também Deus
o exaltou sobremaneira e lhe deu o nome que está acima de todo nome, para
que ao nome de Jesus se dobre todo joelho... e toda língua confesse que
Jesus Cristo é Senhor, para glória de Deus Pai” (Fp 2.9-11).
Os israelitas no exílio que ouviram esta história de Daniel e seus amigos
devem ter sido incentivados a permanecerem fiéis ao seu Deus fiel. Eles
não tinham de lidar com as questões de comida real que não era kosher. Os
problemas deles eram um pouco diferentes, mas o princípio era o mesmo:
seja fiel a Deus, obedecendo às suas leis.
Como cristãos, também somos chamados a sermos fiéis a Deus, mesmo
em circunstâncias perigosas. Para nós, não é uma questão de comer comida
kosher, pois “considerou ele [Jesus] puros todos os alimentos” (Mc 7.19). E
o mesmo fez Deus ao dar a Pedro uma visão sobre animais impuros que
Deus tinha purificado (At 10.9-16). Mas Jesus também declarou que, como
cristãos, vivemos no mundo, mas não somos do mundo. Em sua oração
sacerdotal, Jesus disse ao Pai: “Manifestei o teu nome aos homens que me
deste do mundo. Eram teus, tu mos confiaste, e eles têm guardado a tua
palavra... Eu lhes tenho dado a tua palavra, e o mundo os odiou, porque
eles não são do mundo, como também eu não sou. Não peço que os tires do
mundo, e sim que os guardes do mal. Eles não são do mundo, como
também eu não sou. Santifica-os na verdade; a tua palavra é a verdade.
Assim como tu me enviaste ao mundo, também eu os enviei ao mundo” (Jo
17. 6; 14-18).
O que torna os cristãos distintos neste mundo é que eles não se
conformam com o mundo e seus padrões, mas permanecem fiéis a Deus.
Eles procuram honrar a Deus em tudo o que fazem e dizem. Jesus disse aos
seus seguidores: “Vós sois a luz do mundo. Não se pode esconder a cidade
edificada sobre um monte... Assim brilhe também a vossa luz diante dos
homens, para que vejam as vossas boas obras e glorifiquem a vosso Pai que
está nos céus” (Mt 5.14,16; cf. 1Pe 2.12). No livro de Apocalipse, o Senhor
ressuscitado encoraja sua igreja perseguida e sofrida: “Sê fiel até à morte, e
dar-te-ei a coroa da vida” (Ap 2.10).
A história de Daniel consolou os israelitas que sofriam no exílio. Apesar
das aparências, deu-lhes esperança de que o Deus deles não tinha sido
conquistado pelos deuses babilônicos. O Deus de Israel ainda estava no
controle e estava guiando seu povo, mesmo no exílio. Jesus também
confortou seus seguidores que iriam enfrentar perseguição e martírio. Jesus
nos ensinou a confiar em nosso Pai celestial. Ele disse: “Não se vendem
cinco pardais por dois asses? Entretanto, nenhum deles está em
esquecimento diante de Deus. Até os cabelos da vossa cabeça estão todos
contados. Não temais! Bem mais valeis do que muitos pardais” (Lc 12. 6-
7). Jesus nos encorajou quando disse: “Não temais, ó pequenino rebanho;
porque vosso Pai se agradou em dar-vos o seu reino” (Lc 12.32).
Como vamos reagir quando a perseguição chegar até nós? Quando
perdermos nosso emprego por causa das nossas crenças cristãs? Quando
nossa família nos renegar porque nos tornamos cristãos? Quando pai e mãe
forem levados porque são cristãos? Como vamos reagir quando o culto
público cristão for proibido? Quando os nossos bens terrenos forem
confiscados? Jesus diz: “Não temais, ó pequenino rebanho; porque vosso
Pai se agradou em dar-vos o seu reino”. Deus, o Pai, é soberano. Ele está no
controle. Ele é fiel e vai nos dar vitória. E ele vai nos dar “o reino”!
Em Romanos 8, Paulo pergunta: “Quem nos separará do amor de Cristo?
Será tribulação, ou angústia, ou perseguição, ou fome, ou nudez, ou perigo,
ou espada?... Em todas estas coisas, porém, somos mais que vencedores, por
meio daquele que nos amou.” Paulo não diz que, apesar das dificuldades,
ainda somos mais que vencedores. Não, “em todas estas coisas, porém,
somos mais que vencedores, por meio daquele que nos amou. Porque eu
estou bem certo de que nem a morte, nem a vida, nem os anjos, nem os
principados, nem as coisas do presente, nem do porvir, nem os poderes,
nem a altura, nem a profundidade, nem qualquer outra criatura poderá
separar-nos do amor de Deus, que está em Cristo Jesus, nosso Senhor” (Rm
8.35-39). Como cristãos, podemos contar com isto, que nada no mundo
pode nos separar do amor de Cristo. Deus será fiel a nós. Sejamos fiéis a
ele, não importa o que aconteça.60
1 Para cada um dos capítulos, selecionei um ou dois versículos para focar a atenção do leitor numa
questão central. Este versículo-chave não se destina a ser utilizado como o texto da pregação; o texto
da pregação é toda a unidade literária.
2 Eu não me lembro de como ele vinculou “sem sexo” com Daniel. No entanto, é provável que os
babilônios tenham tornado eunucos a Daniel e seus amigos. Esta probabilidade é baseada, em parte,
na profecia de Isaías a Ezequias: “Dos teus próprios filhos, que tu gerares, tomarão, para que sejam
eunucos no palácio do rei da Babilônia” (Is 39.7; 2Rs 20.18; veja Steinmann, Daniel, 89-91). Se eles
tiverem, de fato, sido feito eunucos, o pregador estaria com mais problemas do que percebeu com
suas aplicações de transferência direta.
3 “Está claro que não podemos pautar nossa conduta diária na de Samuel, quando ele corta Agague
em pedaços, ou na de Sansão, quando comete suicídio, ou na de Jeremias, quando prega traição”.
Clowney, “Preaching and Biblical Theology” (Grand Rapids: Eerdmans, 1961), 80.
4 “‘Open Doors’ 2009 World Watch List”. Para exemplos e nações específicas, veja Paul Marshall,
Their Blood Cries Out: The Worldwide Tragedy of Modern Christians Who Are Dying for Their
Faith. Para exemplos atualizados, veja, p. ex., a Wikipédia. Pesquisando no Google “Perseguição aos
Cristãos”, você encontrará uma abundância de fontes.
5 “Moralizar” é tirar uma ou mais conclusões de fundo moral do texto de pregação quando o autor
deste texto nunca teve esta intenção para com a sua audiência original.
6 John G. Gammie, Daniel, 11.
7 Veja ibid., p. 14 para três possíveis sermões sobre Daniel 1.5-8 (“Então você vai para a
faculdade”; “Sobre ser sozinho”; e “Além das fronteiras”); p. 17 para um “sermão pré-Quaresma
chamado ‘Dieta e disposição’” em Daniel 1.9-16; e p. 18 para um sermão sobre “Os tipos de
sabedoria”, baseado em Daniel 1.17-21.
8 “Pela providência de Deus, Daniel foi enviado para a Babilônia [em 604 a.C.] como um
destacamento avançado para preparar a chegada da primeira onda de exilados, em 598 a.C”. Block,
“Preaching Old Testament Apocalyptic”, CTJ 41 (2006) 26.
9 “Cada cena apresenta os acontecimentos de um determinado lugar e tempo, concentrando a
atenção do público nas ações e nas palavras faladas”. Jacob Licht, Storytelling in the Bible
(Jerusalém: Magnes, 1978), 29. Apesar de cada cena ter geralmente apenas dois personagens (Robert
Alter, The Art of Biblical Narrative [Nova York: Basic Books, 1985], 72), um grupo, como Daniel e
seus amigos, pode funcionar como um caráter coletivo, como podemos ver nas cenas 2 e 3. Além
disso, como podemos ver na cena 2, em uma única cena um dos dois personagens, às vezes, pode ser
substituído por outro personagem.
10 Lederach, Daniel, 37.
11 Cf. NASB, “A casa [bêt] de Deus”, “a casa [bêt]de seu deus” e “a casa [bêt] do tesouro do seu
deus”.
12 Seow, Daniel, 22.
13 Lucas, Daniel, 49.
14 Veja p. 46–47, acima.
15 Goldingay, Daniel, 8. Cf. Seow, Daniel, 14: “Esta ênfase na doação de Deus desde o início deve
imediatamente sinalizar que o livro é principalmente sobre o poder e a atividade de Deus e apenas
secundariamente sobre qualquer modelo de excelência humano”.
16 Seow, Daniel, 27, sugere que “a referência a ‘mercê’ não aponta tanto para o favor do
carcereiro (como a NRSV sugere), mas para ‘a graça e a misericórdia’ de Deus diante do carcereiro”.
17 Longman, Daniel, 56. Cf. Seow, Daniel, 21, “A abertura do capítulo de Daniel é em
primeiríssimo lugar sobre a soberania e liberdade de Deus e apenas secundariamente sobre um
modelo de conduta humana justa e fiel”.
18 Longman, Daniel, 46. Ênfase minha. Sua outra sugestão focaliza mais neste capítulo em
particular: “Apesar do exílio, Deus dá ao seu povo a capacidade de prosperar tanto quanto de ser
fiel”. Ibid., 42.
19 Steinmann, Daniel, 77.
20 Cf. Seow, Daniel, 30, “A história é sobre o triunfo de Deus não através de manifestações
comuns de poder, mas através da doação múltipla de Deus - mesmo em meio a sofrimentos, mesmo
em meio a sinais de impotência, mesmo em meio à ameaça de morte”.
21 Cf. Longman, Daniel, 56, “A soberania de Deus exibida sutilmente, mas claramente aqui e em
outras partes do livro tem um efeito planejado de confortar seu povo. Do ponto de vista humano
limitado, eles pensam que são apenas peões nas mãos de forças hostis. Daniel 1 contorna essa
percepção falsa, mas compreensível, apontando-os a realidade da soberania divina.”
22 Veja, p. ex., Collins, Daniel, 145: “A história tem um objetivo prático específico: encorajar os
judeus da diáspora a evitarem contaminação na sua alimentação enquanto participavam ativamente
da vida cultural de seu meio ambiente”.
23 Para a diferença entre pregação superficial de imitação de personagem e identificação com
personagens bíblicos, bem como os cuidados em relação ao uso deste último, veja o meu Modern
Preacher, 175-81.
24 Para que o sermão seja unificado, ele deve ter um único tema. Mas um objetivo duplo
(aplicação) é certamente possível se os objetivos dos autores bíblicos o requerem.
25 Para outra opção de uma introdução relevante, ver o sermão de Ryan Faber no Apêndice 3.
26 “Nabucodonosor, rei da Babilônia (o hebraico traz, literalmente, ‘rei de Babel’), está tentando
ressaltar Deus. Nabucodonosor vem de Babel a Jerusalém e se apodera dos vasos sagrados da casa de
Deus. O poderio militar se atreve a desafiar o poder de Deus”. Seow, Daniel, 23.
27 O termo “estes” parece referir-se a Jeoaquim e aos vasos (cf. 2Cr 36.6-7). Embora Jeoaquim
possa ter sido levado para a Babilônia, talvez para jurar lealdade a Nabucodonosor, ele logo voltou a
Jerusalém para servir como um rei vassalo da Babilônia (cf. 2Rs 24.1). Veja Steinmann, Daniel, 84.
28 “Sinar como um termo para a Babilônia, a parte sudeste do Iraque moderno, é um arcaísmo no
Antigo Testamento... O nome sugere especialmente um lugar da religião falsa, vontade própria e
autoengrandecimento (Gn 11. 1-9; Zc 5.11)”. Goldingay, Daniel, 15. Cf. Porteous, Daniel, 27:
“Desde o início... é sugerido que o ambiente dos judeus exilados, cujas aventuras serão contadas,
contém um elemento hostil à fé”.
29 Longman, Daniel, 46.
30 “Os nomes divinos ‘Senhor’ e ‘Deus’ podem servir como contraponto, enfatizando a
supremacia de um Deus hebraico único sobre os muitos ‘não deuses’ do panteão babilônico”. Hill,
“Daniel”, 48.
31 Para ver as maldições pactuais sobre a desobediência, veja Deuteronômio 28.15-68. Cf.
Jeremias 21.17; 25. 8-14.
32 Alguns desses vasos eram as taças de ouro e de prata que o rei Belsazar, mais tarde, profanou,
utilizando-as em seu banquete pagão (Dn 5.2-4).
33 “Este ato reflete uma antiga prática comum do Oriente Próximo. Um exército vitorioso
saqueava o templo da nação derrotada e colocava os símbolos do deus derrotado em seu próprio
templo”. Longman, Daniel, 47.
34 Goldingay, Daniel, 15. Ele observa ainda: “Muitos eram feitos de metais preciosos... e a
pilhagem valeria a pena... Eles também tinham importância religiosa, sendo a coisa no templo de
Jerusalém mais próxima de imagens”. Ibid. Cf. Smith-Christopher, “Book of Daniel”, 38: “Os
babilônios eram altamente conscientes do valor da propaganda de colocar símbolos religiosos
capturados ‘sob’ os deuses babilônicos nos templos imperiais da Babilônia, simbolizando, assim, o
cativeiro dos deuses conquistados, bem como das pessoas”.
35 “As três expressões referentes às capacidades intelectuais... provavelmente devem ser
consideradas como sinônimos para “alunos superdotados” em vez de significar aspectos distintivos
da inteligência humana (cf. Miller, [Daniel], 61). O efeito cumulativo da tríade simplesmente salienta
a importância que o rei Nabucodonosor dava à capacidade intelectual inerente”. Hill, “Daniel”, 50.
36 “O Kaldu era um povo do sul da Babilônia ao qual o pai de Nabucodonosor, Nabopolassar
pertencia; eles eram, assim, a casta dominante na Babilônia durante o exílio. No Antigo Testamento,
no entanto, caldeus é a palavra comum para o povo da Babilônia em geral”. Goldingay, Daniel, 16.
37 “Provavelmente, a língua suméria sagrada junto com a escrita cuneiforme altamente complicada
e os mitos e rituais sagrados e textos de presságios característicos da religião babilônica”. Porteous,
Daniel, 27.
38 Veja Baldwin, Daniel, 79, e Goldingay, Daniel, 15.
39 “Os antigos regulamentos judaicos sobre comida seriam deixados de lado – junto com todos os
outros hábitos e costumes de seus pais. Os últimos fios que os amarravam ao seu próprio povo teriam
se cortado – daí o cardápio prescrito”. Veldkamp, Dreams and Dictators, 12.
40 “De acordo com algumas fontes persas e gregas antigas, [três anos] era o período-padrão para o
ensino superior, que normalmente começava quando os meninos tinham 14 anos de idade e durava
até que completassem dezesseis ou dezessete anos”. Seow, Daniel, 24.
41 Veja Leupold, Exposition of Daniel, 64; Goldingay, Daniel, 17; e Steinmann, Daniel, 88.
42 Cf. Calvin, Commentaries on Daniel, I, 96: “Os nomes foram trocados para abolir a lembrança
do reino de Judá de seus corações”.
43 Steinmann, Daniel, 88-89. Veja também Collins, Daniel, 141, e Miller, Daniel, 65-66.
Steinmann, ibid., 92, observa que “os novos nomes que eles receberam são, provavelmente, todos
formas corrompidas de nomes babilônicos teofóricos em homenagem aos deuses do panteão
babilônico... O elemento teofórico em cada nome contém uma corrupção envolvendo uma adição,
exclusão ou alteração de uma ou mais consoantes”. Ele acredita que Daniel pode ter corrompido os
nomes de propósito para indicar que “eles pessoalmente não aprovavam o fato de terem nomes
associados a deuses pagãos, ao invés de associados ao seu Deus”.
44 A mudança de nome de Daniel e seus amigos “tinha o propósito de simbolizar que eles tinham
se tornado bons babilônios. Neste ponto, Daniel decide tomar uma posição, como os verbos de
abertura dos versículos 7 e 8 indicam. O cortesão chefe ‘pôs’ (wayyāśem) os nomes nos judeus e, em
resposta, Daniel ‘pôs (wayyāśem) em seu coração’ não comer da comida e do vinho do rei”. Lucas,
Daniel, 57-58.
45 Para uma análise de várias possibilidades, veja Goldingay, Daniel, 18-19, e Steinmann, Daniel,
99.
46 “Na Babilônia, o sangue não era drenado quando o animal era abatido para consumo, de modo
que a contaminação por sangue era praticamente inevitável”. Stefanovic, Daniel, 62.
47 Veja Levítico 11; 17.10-14; Deuteronômio 12.23-25; 14.3-21.
48 Miller, Daniel, 67, com uma referência a L. Wood, A Commentary to Daniel (Grand Rapids:
Zondervan, 1973), 37. Cf. Archer, “Daniel”, 33-34: “Provavelmente a maioria dos itens de carne no
cardápio eram retirados de animais sacrificados aos deuses padroeiros da Babilônia (Marduque, Nebo
e Istar, por exemplo) e, sem dúvida, o vinho da mesa do rei (v. 5) tinha sido primeiramente parte da
oferenda a essas divindades. Portanto,mesmo aquelas porções de alimentos e bebida não
inerentemente impuros tinham sido contaminadas pelo contato com o uso em culto pagão”.
49 Veja Lucas, Daniel, 54-55.
50 1Macabeus 1.62-63, The Jerusalem Bible (A Bíblia de Jerusalém). Veja 2Macabeus 7 acerca de
sete irmãos junto com a mãe sendo torturados e mortos, um após o outro, por se recusarem a comer
carne de porco, o que a lei proibia.
51 “Por trás dessa tradução inglesa vemos o mesmo verbo que encontramos no v. 2, ‘Deus deu’.
Enquanto os babilônios pensavam que eles estavam no controle do mundo e da cena local, a narrativa
hebraica deixa claro, mais uma vez, que o verdadeiro Deus é aquele que orquestra os acontecimentos
para o bem do seu povo”. Longman, Daniel, 53-54.
52 “Uma vez que o alimento contaminado por sacrifícios a ídolos era carne e vinho, uma parte da
primeira era colocada sobre o altar, e uma parte do último era derramado como libação. “‘Legumes’,
zērō’îm, ‘coisas semeadas’, estariam fora dos limites das coisas impuras”. Leupold, Exposition of
Daniel, 70.
53 “Mais robustos” literalmente: “mais gordos de carne”. “Esta frase não significa necessariamente
que os jovens tornaram-se gordos, mas é uma expressão de saúde, a ideia de que uma pessoa bem
alimentada não parece magra”. Miller, Daniel, 70, n. 71.
54 “A aparência robusta, geralmente alcançada por uma alta parcela calórica de carnes e vinhos, é
milagrosamente obtida através de uma dieta de legumes. Só Deus poderia ter feito isso”. Longman,
Daniel, 53. Cf. Portier-Young, Apocalypse against Empire, 211, “Com a lembrança do maná no
deserto, este detalhe enfatiza o milagre da provisão divina”.
55 Goldingay, Daniel, 20.
56 Lederach, Daniel, 41. Cf. Woodard, “Literary Strategies and Authorship in the Book of Daniel”,
JETS 37/1 (1994) 46: “Eles são identificados pelos nomes hebraicos, não pelos nomes babilônicos.
Grande coisa os decretos de Nabucodonosor!”.
57 “Neste ponto da história, o cenário está montado para o Deus dos hebreus triunfar sobre o
panteão babilônico. Os jovens triunfaram graças à providência de Deus e não do rei”. Stefanovic,
Daniel, 65.
58 Jeremias predisse o cativeiro babilônico e acrescentou: “Acontecerá, porém, que, quando se
cumprirem os setenta anos, castigarei a iniquidade do rei da Babilônia e a desta nação, diz o SENHOR,
como também a da terra dos caldeus; farei deles ruínas perpétuas” (Jr 25.12).
59 “A presença do israelita chamado Daniel na corte real de sete [seis?] monarcas babilônicos e o
primeiro rei da Pérsia foi um lembrete tangível de que Deus é quem estabelece os reis e os destitui”
(Dn 2.21). Hill, “Daniel”, 56.
60 Um sermão sobre Daniel 1 está incluso no Apêndice 3, p. 427–33.
CAPÍTULO 2
O sonho que Nabucodonosor teve de uma grande
estátua
Daniel 2.1-49
Mas, nos dias destes reis, o Deus do céu suscitará um reino
que não será jamais destruído; este reino não passará a
outro povo; esmiuçará e consumirá todos estes reinos, mas
ele mesmo subsistirá para sempre.
Daniel 2.44
Daniel 2 é um excelente texto de pregação para pessoas que tendem a
ficar tão envolvidas com seus próprios problemas que perdem de vista o
panorama da história humana. Esta passagem irá centrar a atenção delas na
soberania de Deus e nas promessas de Deus de que o seu reino perfeito, que
irá substituir todos os reinos da terra, de fato está vindo.
Contudo, ao preparar um sermão sobre o capítulo 2, há duas armadilhas
em especial em que devemos evitar cair. Primeira, devemos evitar dispersar
a atenção incluindo no sermão parte das intermináveis discussões sobre a
identidade dos reinos de ouro, prata, bronze e ferro, especialmente sobre os
pés e os dedos dos pés de ferro e barro.1 Segunda, novamente devemos
evitar moralização. Com o incentivo de vários comentaristas será tentador
sair da pista estabelecida pelo tema da narrativa e seguir pequenas trilhas de
coelhos, que parecem mais práticas. Por exemplo, assim como Daniel
chamou seus amigos para orar, quando confrontados com uma catástrofe,
nós também devemos fazer.2 E assim como Daniel reservou tempo para
agradecer a Deus por ouvir a sua oração, assim também devemos fazer.3 É
claro que devemos. Mas esse não é o tema desta narrativa. Também não é o
tema que, como Daniel (2.27-28), não devemos nos vangloriar sobre nós
mesmos, mas louvar a Deus;4 ou que, se quisermos ser tão bem-sucedidos
quanto Daniel (2.48), devemos ser tão piedosos e sábios como ele.5 O
antídoto para evitar moralização é distinguir entre enxergar Daniel como
modelo para imitação de todas as suas ações (o que ele não é)6 e enxergá-lo
como modelo de identificação (o que ele foi para Israel) e manter o sermão
focado no tema e objetivo desta passagem.
Texto e contexto
A unidade textual é fácil de identificar. Ela começa com o marco
cronológico, “No segundo ano do reinado de Nabucodonosor, teve este um
sonho; o seu espírito se perturbou, e passou-se-lhe o sono” (2.1). A unidade
termina em 2.49: “A pedido de Daniel, constituiu o rei a Sadraque,
Mesaque e Abede-Nego sobre os negócios da província da Babilônia;
Daniel, porém, permaneceu na corte do rei.” Esta conclusão é semelhante à
conclusão de Daniel 1: “Daniel continuou até ao primeiro ano do rei Ciro”
(1.21). Daniel 3.1 começa uma nova unidade, como indicado pelo novo
tema: “O rei Nabucodonosor fez uma estátua de ouro”. Nosso texto
pregação, portanto, é Daniel 2.1-49.
Quanto ao contexto, o capítulo 2 continua a história de Daniel e seus três
amigos do capítulo 1, utilizando tanto seus nomes hebraicos quanto os
babilônicos (2.17,49; cf. 1.7). O capítulo 2 também tem muitas ligações
com os capítulos seguintes. As informações sobre Daniel e seus amigos
sendo promovidos a altos cargos na Babilônia (2.48-49) nos prepara para o
capítulo 3, onde os astrólogos invejosos informam a Nabucodonosor que os
amigos de Daniel não se curvam diante da estátua do rei e ele ordena que
eles sejam jogados na fornalha de fogo ardente. Muitas das expressões e
ideias encontradas no capítulo 2 são retomadas no capítulo 4, onde Daniel
interpreta outro sonho de Nabucodonosor.7 Os quatro reinos de Daniel 2
reaparecem no capítulo 7, quando quatro animais saem do mar.8 E a
declaração de Daniel em sua oração, de que Deus “revela o profundo e o
escondido” (2.22), conquanto diretamente relacionada com o sonho de
Nabucodonosor, prepara o caminho para a revelação, por Deus, das coisas
ocultas, nas quatro visões de Daniel, nos capítulos 7–12.
Daniel 2 também apresenta muitos paralelos com outras passagens do
Antigo Testamento. As semelhanças com José interpretando o sonho do
Faraó (Gn 41) são óbvias: ambos, José e Daniel, reconhecem que só Deus
pode interpretar sonhos (Gn 40.8; 41.16; Dn 2.28), asseguram ao rei que a
interpretação dada vai acontecer (Gn 41.25, 28; Dn 2.28) e recebem
proeminência por causa da sua capacidade de interpretar sonhos (Gn 41.40;
Dn 2.48).9 Daniel 2 também contém muitos ecos de Isaías 40–66. Nas
palavras de Goldingay: “Aqueles capítulos, também, sugerem que prata e
ouro, bronze e ferro, acabam inúteis como argila (40.19; 45.2; 41.25),
moídos e levados como palha (41.15-16; também 41.12; cf. Dn 2.35). Eles,
também, veem o Deus de Israel como o Senhor até mesmo de coisas ocultas
nas trevas, o Senhor da luz e das trevas (45.3,7; cf. Dn 2.22). Eles, também,
imaginam as nações e seus reis fazendo reverência diante dos exilados e seu
Deus (45.3,14; 49.23; 60.6-7,14)... [cf. Dn 2.46-47]. Eles também
prometem uma consumação definitiva do reinado do Senhor (44.6; 52.7 [cf.
Dn 2.44-45])”.10
Características literárias
Em Daniel 2.4, “os caldeus disseram ao rei [em aramaico]”, a linguagem
muda do hebraico para o aramaico e permanece em aramaico, até que volta
para o hebraico no capítulo 8.1.11 A narrativa, como esperado, é escrita em
prosa, mas muda para a poesia na oração de Daniel (2.20-23). A seguir,
vamos analisar mais detalhadamente a estrutura da narrativa, seu enredo, a
descrição do personagem e a repetição.
Estrutura da narrativa
As cenas podem ser geralmente identificadas por uma mudança no local,no tempo e em pelo menos um dos personagens. Cada cena tem geralmente
dois personagens.12 Esta narrativa é composta por cinco cenas organizadas
como uma estrutura quiástica, ABCB’A’, centrando-se em Deus revelando
“o mistério” para Daniel e Daniel bendizendo a Deus.13
Cena 1: Sala do trono do rei: o fracasso dos sábios da Babilônia (2.1-13)
A. O rei está atribulado por causa de seus sonhos (2.1)
B. Ele ordena aos seus sábios que lhe contem o seu sonho; eles
fracassam (2.2-11)
C. O rei decreta a morte de todos os homens sábios (2.12-13)
Personagens: Rei Nabucodonosor e seus sábios.
Cena 2: O palácio do rei: Daniel pede mais tempo (2.14-16)
A. Daniel pergunta a Arioque por que o decreto é tão severo (2.14-
15)
B. Daniel pede mais tempo (2.16)
Personagens: Daniel e Arioque
Cena 3: Casa de Daniel: Deus revela o sonho do rei (2.17-23)
A. Daniel e seus amigos suplicam a Deus (2.17-18)
B. Deus revela o mistério em uma visão (2.19)
C. Daniel bendiz a Deus (2.20-23)
Personagens: Daniel/amigos e Deus
Cena 4: O palácio do rei: Daniel pede para ver o rei (2.24-25)
A. Daniel pede a Arioque que o leve ao rei (2.24)
B. Arioque fala ao rei sobre Daniel (2.25)
Personagens: Daniel e Arioque
Cena 5: Sala do trono do rei: Daniel conta o sonho e a sua
interpretação (2.26-49)
A. Daniel testemunha sobre o “Deus do céu” ao rei (2.26-30)
B. Daniel narra o sonho ao rei (2.31-35)
C. Daniel dá ao rei a interpretação do sonho (2.36-45)
D. O rei responde honrando Daniel, seu Deus e seus amigos (2.46-
49)
Personagens: Daniel e o rei
Este arranjo quiástico focando a cena 3 vai nos ajudar a discernir o tema
desta narrativa. O narrador destaca, ainda, mais estes versículos, passando
de prosa para poesia, quando chega à oração de Daniel bendizendo a Deus
(2.20-23).
O enredo
Traçar a linha de enredo não apenas nos ajuda a discernir o tema desta
narrativa, mas também a conceber uma forma narrativa para o sermão.
Daniel 2.1a informa o cenário: “No segundo ano do reinado de
Nabucodonosor”. Não há incidentes preliminares; o narrador começa
imediatamente com o incidente causador: “Nabucodonosor teve este um
sonho; o seu espírito se perturbou, e passou-se-lhe o sono”. O rei pede aos
seus sábios para lhe contarem seu sonho (2.1b-3). O tempo da narrativa
tomado pelo diálogo entre o rei e os seus sábios (2.3-11) é o retardo do
ritmo, o que aumenta gradualmente a tensão.
O conflito começa quando os sábios pedem ao rei para contar-lhes o
sonho, para que possam interpretá-lo, mas o rei se recusa, ameaçando de
punição severa se eles não conseguirem contar-lhe o seu sonho, mas
oferecendo recompensas se o fizerem (2.4-6). A tensão aumenta quando os
sábios novamente pedem ao rei que lhes conte o seu sonho e o rei os acusa
de conspirar para mentir para ele. Desta vez, o rei não oferece recompensas,
apenas uma punição severa para o fracasso (2.7-9). A tensão aumenta ainda
mais quando os astrólogos dizem que o rei está pedindo o impossível. O rei
fica furioso e decreta a pena de morte para todos os sábios da Babilônia
(2.10-12).14 A tensão aumenta ainda mais quando o narrador nos informa
que Daniel e seus amigos também serão executados (2.13). Daniel pergunta
ao carrasco chefe por que o rei está com tanta pressa de executar seus
sábios. Ao ouvir a explicação, Daniel pede mais tempo e diz que vai dar ao
rei a sua interpretação (2.14-16). Em seguida, Daniel vai para casa e chama
seus amigos para orarem junto com ele pedindo a misericórdia de Deus
(2.17-18).
A virada para a solução vem na resposta de Deus às orações deles:
“Então, foi revelado [passivo divina]15 o mistério a Daniel numa visão de
noite” (2.19). Antes de contar ao rei, ele “Daniel bendisse o Deus do céu”,
que “remove reis e estabelece reis... Ele revela o profundo e o escondido”
(2.20-23). Em seguida, ele pede a Arioque, o carrasco chefe, para levá-lo
até o rei (2.24-25). O rei pede a Daniel para contar-lhe o sonho e sua
interpretação, mas, antes que Daniel faça isso, ele credita a revelação do
mistério a Deus (2.26-30). Em seguida, Daniel relata o sonho e dá a sua
interpretação: “Mas, nos dias destes reis, o Deus do céu suscitará um reino
que não será jamais destruído” (2.31-45). Há, ainda, certa tensão: Será que
o rei vai aceitar a interpretação de Daniel? A tensão fica totalmente
resolvida quando o rei cai sobre seu rosto diante de Daniel e elogia o Deus
de Daniel (2.46-47). O resultado é que o rei promove Daniel e seus amigos
(2.48-49).
Podemos esboçar o enredo como um enredo único:
Descrição dos personagens
Os personagens são esboçados em parte pela descrição do personagem, o
que é incomum, e, portanto, importante na narrativa hebraica, mas
principalmente pelo diálogo. O narrador começa por descrever o rei como
estando “perturbado” (2.1; cf. 2.3), observando também que ele “muito se
irou e enfureceu” (2.12). O caráter do rei é mais desenvolvido ainda pelos
seus discursos, que mostram que ele era desconfiado, irracional, teimoso,
mal-humorado, irritado e cruel. Os sábios do rei, por outro lado, parecem
ser pacientes, mas impotentes. Depois que Daniel conta ao rei o seu sonho e
a sua interpretação, o discurso de encerramento do rei honra ao Deus de
Daniel, revelando ser ele profundamente religioso, enquanto sua ação na
promoção de Daniel e seus amigos mostra que ele também pode ser
generoso.
O narrador descreve o personagem de Daniel como prudente e discreto
(2.14). Sua pergunta a Arioque (2.15) confirma a prudência e discrição de
Daniel, enquanto sua declaração, mesmo antes de Deus lhe revelar o sonho,
de que “ele revelaria ao rei a interpretação” (2.16) mostra a sua ousadia e
confiança em Deus. A oração de Daniel revela ainda a sua piedade,
enquanto seu longo discurso ao rei revela sua fé na revelação de Deus
(2.28) e sua humildade (2.30).
Repetição
Também devemos observar algumas das repetições, uma vez que elas,
muitas vezes, indicam o que o autor deseja destacar. A narrativa começa
com Nabucodonosor tendo sonhos. O narrador usa a palavra “sonho”
quinze vezes (hălôm, em 2.1,2,3 [2x], e hĕlem, em 2.4,5,6 [2x],7,9 [2x],
26,28,36,45). Junto com a palavra “sonho”, ele repete a palavra
“interpretação” treze vezes (pes̆ar, em 2.4,5,6
[2x],7,9,16,24,25,26,30,36,45). Ele enumera quatro categorias de homens
sábios: “os magos, os encantadores, os feiticeiros e os caldeus” (2.2), e
repete uma lista semelhante em 2.10 e 27.16 O narrador usa a palavra
“mistério” oito vezes (rāz, em 2.18,19,27,28,29,30,47 [2x]) e a palavra
“revelar” seis vezes (gelah, em 2.19,22,28,29,30, 47). Três vezes Daniel
afirma que Deus revela os mistérios (2.22-23, 28,29) – um pensamento
mais tarde ecoado pelo próprio Nabucodonosor (2.47). Daniel repete duas
vezes “do que há de ser/o que há de ser” (2.29,45). Ele também menciona
duas vezes que a pedra foi cortada “sem auxílio de mãos” (2.34, 45). Quatro
vezes ele chama Deus de “Deus do céu” (2.18,19,37,44) – “o nome fala da
transcendência e supremacia de Deus sobre tudo o que é temporal e
terreno”.17 E talvez o mais importante para discernir o tema, na
interpretação do sonho ele repete a palavra “reino” nove vezes (2.37,39
[2x],40,41,42,44 [3x]).
Interpretação teocêntrica
Nesta narrativa, Deus oferece a solução para o problema. O rei exige que
os sábios lhe contem o seu sonho, mas eles, corretamente, respondem: “A
coisa que o rei exige é difícil, e ninguém há que a possa revelar diante do
rei, senão os deuses, e estes não moram com os homens” (2.11). Em
resposta à oração de Daniel e seus amigos, o Deus do céu revela (passivo
divino no original) o mistério a Daniel. Daniel bendiz “o Deus do céu” – o
Deus que é muito superior aos deuses babilônicos de sol, lua e estrelas.
Daniel ora: “Seja bendito o nome de Deus, de eternidade a eternidade,
porque dele é a sabedoria e o poder, é ele quem muda... remove reis e
estabelece reis... Ele revela o profundo e o escondido... A ti, ó Deus de
meus pais, eu te rendo graças e te louvo, porque me deste sabedoria e
poder” (2.20-23).
Quando Daniel chega diante do rei, a primeira coisa que elediz é: “O
mistério que o rei exige, nem encantadores, nem magos nem astrólogos o
podem revelar ao rei; mas há um Deus no céu, o qual revela os mistérios”
(2.27-28). E, na interpretação do sonho, ele diz claramente ao grande rei
que “o Deus do céu [lhe] conferiu o reino, o poder, a força e a glória”
(2.37). Mas isso não vai durar. Deus vai dar o reino de Nabucodonosor para
outro, para outro e para outro até que, finalmente, “o Deus do céu suscitará
um reino que não será jamais destruído... esmiuçará e consumirá todos estes
reinos, mas ele mesmo subsistirá para sempre” (2.44). Por fim, o próprio rei
pagão confessa (2.47): “Certamente, o vosso Deus é o Deus dos deuses, e o
Senhor dos reis, e o revelador de mistérios, pois pudeste revelar este
mistério”.
Tema e objetivo textual
Os comentaristas não concordam sobre o que constitui o coração e o
espírito desta narrativa. Alguns focam na confissão do rei Nabucodonosor:
“A mensagem teológica da história é resumida no versículo 47, quando
Nabucodonosor confessa que o Deus a quem Daniel serve, é o Deus dos
deuses, e o Senhor dos reis, e o revelador de mistérios, pois pudeste revelar
este mistério’”.18 Outros focam na oração de Daniel: “O centro teológico do
capítulo não é o sonho e a sua interpretação, mas a oração de Daniel (2.20-
23). Esta oração funde os dois grandes temas teológicos no capítulo: Deus
governa toda a história humana e só Deus concede conhecimento e
sabedoria.”19
Mas, pode-se perguntar, por que procurar pelo tema da narrativa na
confissão de um rei pagão ou na oração de um israelita fiel? Afinal de
contas, toda a narrativa (veja o enredo acima) gira em torno da questão da
revelação de Deus a Nabucodonosor em um sonho sobre o que “há de ser
depois disto” (2.29). Em resposta à oração, Deus revela esse “mistério” a
Daniel (2.19), que relata ao rei (2.27-45): “O Grande Deus fez saber ao rei o
que há de ser futuramente. Certo é o sonho, e fiel, a sua interpretação”
(2.45). Venter diz que “sessenta e seis por cento do tempo total de discurso
é gasto em... [v. 29-45], contar o conteúdo do sonho e seu significado
futuro”. Ele conclui, portanto, que “o tema básico da narrativa é o sonho e o
seu significado. Este é o objeto procurado e encontrado no enredo. Deus dá
a revelação e o problema do rei está resolvido. O poema [oração] refere-se a
esse tema e torna-o explícito para o leitor.”20
Centrando-se no sonho e sua interpretação, o tema textual poderia ser
formulado como “o reino celestial e eterno de Deus está chegando para
substituir todos os reinos humanos”.21 Mas visto que o narrador destacou a
oração de Daniel sob a forma de poesia e fez dela uma parte do centro de
uma estrutura quiástica, também devemos considerar a incorporação de
suas ideias no tema. Na oração, Daniel diz que o Deus do céu “remove reis
e estabelece reis” (2.21) – como podemos ver na interpretação do sonho,
reinos indo e vindo. Ele diz ainda que o Deus do céu “revela o profundo e o
escondido” (2.22) – como faz quando revela o “mistério” do sonho de
Daniel (2.19), bem como sua interpretação (2.28). Levando em conta
também essas ideias, o tema textual pode ser formulado da seguinte
maneira: O Deus do céu, que depõe e estabelece reis, revela que, no final,
substituirá todos os reinos humanos pelo seu reino eterno.
O objetivo do autor em apresentar esta mensagem a Israel depende das
circunstâncias históricas em que os primeiros leitores se encontravam.
Goldingay observa: “Como o capítulo 1, Daniel 2 pressupõe um ambiente
em uma comunidade na dispersão, onde os judeus são uma minoria étnica e
religiosa”.22 O capítulo 1 lembrou a Israel que a Babilônia era um reino
pecador (“terra de Sinar”; 1.2),23 que rejeitou o Deus do céu e oprimia o
povo de Deus. O objetivo do autor no capítulo 2, portanto, era dar
esperança aos israelitas no exílio de que o cativeiro não duraria para
sempre, porque o seu Deus podia depor reis e, no final, iria substituir todos
os reinos humanos pelo seu reino eterno.24
Maneiras de pregar a Cristo
Nesta seção, procuramos listar todas as formas legítimas de chegar a Jesus
Cristo no Novo Testamento. Quando escrevemos o sermão, podemos
selecionar um ou mais dos caminhos mais claros para Cristo. Como não há
nenhuma promessa de Cristo nesta narrativa nem um contraste de sua
mensagem com a do Novo Testamento,25 vamos explorar as restantes cinco
maneiras: progressão histórico-redentiva, tipologia, analogia, temas
longitudinais e referências no Novo Testamento.
Progressão histórico-redentiva
O tema textual é: “O Deus do céu, que depõe e estabelece reis, revela que,
no final, substituirá todos os reinos humanos pelo seu reino eterno”. No
princípio, Deus estabeleceu seu reino na terra (Gn 1–2). Infelizmente, por
causa da queda humana no pecado (Gn 3), as pessoas começaram a
construir seus próprios reinos autônomos na terra: Caim construiu uma
cidade (Gn 4.17); mais tarde, em desafio a Deus, as pessoas se
estabeleceram na terra de Sinar26 e construíram Babel (Gn 11.14). Mas Deus
determinou restaurar o seu reino na terra. Ele chamou Abraão para deixar
seu país (Babilônia), parentes e a casa de seu pai para formar uma nação
separada na Terra Prometida. Mas os descendentes de Abraão, Israel,
falharam em sua vocação de ser uma nação santa. Por fim, Deus lançou
Israel fora da Terra Prometida e o enviou de volta para a terra de Sinar
(Babilônia). Enquanto Israel sofria no exílio sob vários reis pagãos, Deus
tinha uma mensagem de esperança para ele. Ele deu ao rei Nabucodonosor
um sonho e revelou o sonho e seu significado a Daniel. No sonho, a série de
reinos humanos foi descrita como uma enorme estátua de metais preciosos,
mas tinha pés de ferro misturado com barro. Uma pedra foi cortada, não por
mãos humanas, e chocou-se contra os pés da estátua, quando então todos
esses reinos humanos esmiuçaram-se em pedaços e desapareceram da face
da terra. Mas a pedra “se tornou em grande montanha, que encheu toda a
terra” (Dn 2.35). O reino de Deus irá substituir os reinos humanos e
“subsistirá para sempre” (Dn 2.44).
Nos tempos do Novo Testamento, o anjo Gabriel anunciou a Maria que
ela daria à luz um filho, e “ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e o
seu reinado não terá fim” (Lc 1.33). Quando Jesus começou o seu
ministério, ele veio “pregando o evangelho de Deus, dizendo: O tempo está
cumprido, e o reino de Deus está próximo” (Mc 1.14-15). Jesus disse
claramente: “O meu reino não é deste mundo” (Jo 18.36). Com pregações e
milagres, Jesus trouxe o reino de Deus a este mundo. Jesus disse: “Se,
porém, eu expulso demônios pelo Espírito de Deus, certamente é chegado o
reino de Deus sobre vós” (Mt 12.28).
Mas o reino romano ainda estava no comando. Na verdade, quando os
soldados romanos crucificaram Jesus, pareceu que o reino de Deus havia
falhado. O Deus soberano, no entanto, transformou a derrota em vitória. Ele
ressuscitou Jesus da morte. Quando os discípulos encontraram o Senhor
ressurreto, eles lhe perguntaram: “Senhor, será este o tempo em que
restaures o reino a Israel?”. Eles não perceberam, naquele momento, que o
reino de Deus estava chegando em duas etapas: o “já” com a primeira vinda
de Jesus e o “ainda não” com a sua segunda vinda. Jesus respondeu: “Não
vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai reservou pela sua
exclusiva autoridade” (At 1.6-7). Então Jesus subiu ao céu, onde ele reina à
destra de Deus (At 2.32-36). Mas ele prometeu voltar no tempo
determinado pelo Pai (Jo 14.3; cf. Mt 26.64). Em seguida, o “ainda não” do
reino de Deus também se tornará o “já”. João confirmou isso, quando ouviu
do céu grandes vozes proclamando: “O reino do mundo se tornou de nosso
Senhor e do seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos” (Ap 11.15).
Tipologia
A pedra que “foi cortada sem auxílio de mãos” (2.34) é um tipo de
Cristo.27 Jerônimo pensou que esta frase se referia ao nascimento virginal de
Jesus. Outros intérpretes pensam que esta frase se refere à origem celestial
do reino que Jesus inaugurou. Jesus disse: “O meu reino não é deste mundo.
Seo meu reino fosse deste mundo, os meus ministros se empenhariam por
mim, para que não fosse eu entregue aos judeus; mas agora o meu reino não
é daqui” (Jo 18.36). Acho que ambas as interpretações estão certas. De
acordo com o Novo Testamento, a concepção de Jesus foi “não por mãos
humanas”, mas pelo Espírito Santo (Mt 1.20). Jesus também se viu como a
pedra. Ele perguntou ao povo: “Nunca lestes nas Escrituras: A pedra que os
construtores rejeitaram [ou seja, Jesus], essa veio a ser a principal pedra,
angular [Sl 118.22]; isto procede do Senhor e é maravilhoso aos nossos
olhos? Portanto, vos digo que o reino de Deus vos será tirado e será
entregue a um povo que lhe produza os respectivos frutos. Todo o que cair
sobre esta pedra ficará em pedaços; e aquele sobre quem ela cair ficará
reduzido a pó” (Mt 21.42-45). Na última frase, Jesus claramente faz alusão
a Daniel 2, pois a pedra atingiu os pés da estátua e os esmagou; então toda a
estátua tombou, caiu sobre a pedra e foi quebrada em pedaços. No entanto,
quando a pedra se torna uma grande montanha que enche “toda a terra”
(2.35), isto só pode se referir ao reino de Deus, que Jesus traz. A pedra, por
isso, é um tipo de Jesus e seu reino.
Também é possível apresentar Daniel novamente como um tipo de Cristo,
embora as analogias não sejam tantas como no primeiro capítulo. Nesta
narrativa, Daniel arriscou sua vida para salvar a vida dos “sábios da
Babilônia” (2.24); Jesus não apenas arriscou sua vida, mas voluntariamente
desistiu dela para salvar judeus e gentios que creem nele. Além disso,
Daniel era um homem de oração que buscava a misericórdia do “Deus do
céu”; Jesus também era um homem de oração que nos ensinou: “Vós
orareis assim: Pai nosso, que estás nos céus” (Mt 6.9). Além disso, Daniel
foi capaz de revelar o mistério da vinda do reino de Deus; Jesus,
especialmente em suas parábolas (p. ex., Mc 4.26-32), revelou o mistério da
vinda do reino de Deus. E assim como Deus guiou Daniel para um lugar de
grande autoridade na Babilônia, assim também Deus guiou Jesus para um
lugar de muito maior autoridade. Jesus disse ao sumo sacerdote:
“Respondeu-lhe Jesus: Tu o disseste; entretanto, eu vos declaro que, desde
agora, vereis o Filho do Homem assentado à direita do Todo-Poderoso e
vindo sobre as nuvens do céu” (Mt 26.64). Depois de sua ressurreição, ele
disse aos seus discípulos: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra”
(Mt 28.18).
Entretanto, visto que não se deve apresentar dois tipos diferentes de Cristo
em um mesmo sermão, eu selecionaria aquele mais estreitamente
relacionado com o tema. Neste caso, seria a pedra que “foi cortada sem
auxílio de mãos” (2.34).
Analogia
No sermão também podemos traçar nosso caminho até Cristo, no Novo
Testamento, por analogia. Assim como Daniel 2 ensina que o reino de Deus
vai crescer e encher “toda a terra” (2.35), Jesus também ensina que “O reino
dos céus é semelhante a um grão de mostarda, que um homem tomou e
plantou no seu campo; o qual é, na verdade, a menor de todas as sementes,
e, crescida, é maior do que as hortaliças, e se faz árvore, de modo que as
aves do céu vêm aninhar-se nos seus ramos” (Mt 13.31-32). Para realizar
este crescimento, Jesus instruiu seus discípulos: “Sereis minhas
testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e até aos
confins da terra” (At 1.8).
Outra analogia pode ser feita a partir do objetivo do autor: assim como
Daniel deu esperança aos exilados com a mensagem de que o reino de Deus
viria a substituir todos os reinos humanos, Jesus também dá esperança aos
seus discípulos e à igreja: “Não temais, ó pequenino rebanho; porque vosso
Pai se agradou em dar-vos o seu reino” (Lc 12.32). Além disso, quando
Jesus envia os seus discípulos a um mundo hostil, ele os conforta: “E eis
que estou convosco todos os dias até à consumação do século” (Mt 28.20).
Temas longitudinais
Também podemos usar o modo de temas longitudinais para seguirmos
para Jesus Cristo. Sob a progressão histórico-redentiva acima já traçamos a
história da vinda do reino de Deus através de sucessivas épocas da história
redentora.28 Também podemos traçar o tema da vinda do reino de Deus
sobre a terra a partir da intenção original de Deus em Gênesis 1 e 2 para a
intenção de Deus depois da queda no pecado, a saber, restaurar seu reino na
terra, chamando para fora do mundo um povo santo (Abraão/Israel) para
representar o seu reino. Através de seus profetas, Deus prometeu:
Pois eis que eu crio novos céus
e nova terra;
e não haverá lembrança das coisas passadas,
jamais haverá memória delas.
Mas vós folgareis e exultareis perpetuamente no que eu crio;
porque eis que crio para Jerusalém alegria
e para o seu povo, regozijo.
E exultarei por causa de Jerusalém
e me alegrarei no meu povo,
e nunca mais se ouvirá nela
nem voz de choro nem de clamor...
Eles edificarão casas e nelas habitarão;
plantarão vinhas e comerão o seu fruto...
O lobo e o cordeiro pastarão juntos,
e o leão comerá palha como o boi;
pó será a comida da serpente.
Não se fará mal nem dano algum em todo o meu santo monte,
diz o Senhor.
(Is 65.17-25; cf. Is 11.6-9; Mq 4.1-5)
Outras passagens acrescentam que, em contraste com os reinos humanos,
o reino de Deus durará para sempre. O salmista proclama:
O teu reino é o de todos os séculos,
e o teu domínio subsiste por todas as gerações.
(Sl 145.13; cf. Sl 10.16; 29.10; 146.10)
No Novo Testamento, Gabriel anuncia a Maria que o filho dela “reinará
para sempre sobre a casa de Jacó, e o seu reinado não terá fim” (Lc 1.33).
Pedro também promete a seus leitores que “vos será amplamente suprida a
entrada no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2Pe
1.11). A carta aos Hebreus proclama: “Mas acerca do Filho: o teu trono, ó
Deus, é para todo o sempre” (Hb 1.8). O livro de Apocalipse declara:
“Àquele que nos ama, e, pelo seu sangue, nos libertou dos nossos pecados,
e nos constituiu reino, sacerdotes para o seu Deus e Pai, a ele a glória e o
domínio pelos séculos dos séculos. Amém!” (Ap 1.5-6).29 João acrescenta
sua visão do reino perfeito de Deus vindo sobre a terra:
Vi novo céu e nova terra, pois o primeiro céu e a primeira terra passaram, e o mar já não
existe. Vi também a cidade santa, a nova Jerusalém, que descia do céu, da parte de Deus,
ataviada como noiva adornada para o seu esposo. Então, ouvi grande voz vinda do trono,
dizendo:
Eis o tabernáculo de Deus com os homens.
Deus habitará com eles.
Eles serão povos de Deus,
e Deus mesmo estará com eles.
E lhes enxugará dos olhos toda lágrima,
e a morte já não existirá,
já não haverá luto, nem pranto, nem dor,
porque as primeiras coisas passaram. (Ap 21.1-4)
Referências no Novo Testamento
O apêndice do Novo Testamento grego relaciona em torno de trinta e
quatro referências ou alusões do Novo Testamento a Daniel 2. Várias delas
nós já utilizamos anteriormente para apoiar os vários caminhos a Cristo.
Algumas das outras referências são passagens paralelas dos Evangelhos ou
não se referem a Cristo, mas à utilização de Daniel 2 por outros escritores
do Novo Testamento. Ainda outras referências, no entanto, se referem a
Jesus ou aos seus ensinamentos.
Para Daniel 2.28, “o que há de ser nos últimos dias”, o apêndice apresenta
a declaração de Jesus em Mateus 24.6 (e paralelos): “Ouvireis falar de
guerras e rumores de guerras; vede, não vos assusteis, porque é necessário
assim acontecer, mas ainda não é o fim”.
Para Daniel 2.47, “é o Deus dos deuses, e o Senhor dos reis, e o revelador
de mistérios”, o apêndice lista as palavras de Jesus em Marcos 4.11: “A vós
outros vos é dado conhecer o mistério [mystēri”n] do reino de Deus” e a
frase do Apocalipse 17.14, “o Cordeiro os vencerá, pois é o Senhor dos
senhores e o Rei dos reis” (Veja também Apocalipse 19.16: “Tem no seu
manto e na sua coxa um nome inscrito: REI DOS REIS E SENHOR DOS
SENHORES”).
Tema, objetivo e necessidade do sermão
Formulamos o tema textual como: “O Deus do céu, que depõe e
estabelece reis, revela que, no final, substituirá todos os reinos humanos
pelo seu reinoeterno”. Embora Jesus viesse para inaugurar o reino de Deus,
ele não fez com sua primeira vinda a substituição de todos os reinos
humanos. Visto que essa substituição ainda está no futuro (o “já” e o “ainda
não” do reino vindouro de Deus), podemos manter o tema textual como
tema do sermão: O Deus dos céus, que depõe e estabelece reis, revela que,
no final, substituirá todos os reinos humanos pelo seu reino eterno.
Formulamos o objetivo do autor como “dar esperança aos israelitas no
exílio de que o cativeiro não duraria para sempre, porque o Deus deles
podia depor reis e, no final, substituiria todos os reinos humanos pelo seu
reino eterno”. Com uma pequena mudança, podemos fazer do objetivo do
autor o objetivo deste sermão: Dar esperança ao povo de Deus hoje com a
mensagem de que o nosso Deus pode depor reis e, no final, substituirá
todos os reinos humanos com seu reino eterno.
Esta meta revela a necessidade a ser abordada neste sermão: O povo de
Deus, hoje, carece de esperança por causa de toda a perseguição e dor que
ele vê e sofre neste mundo.
Leitura bíblica e introdução do sermão
Devido à extensão da narrativa, alguns sugeriram pregar sermões em
“episódios” mais curtos da narrativa.30 Mas esta não é uma boa ideia, pois o
narrador procura defender sua ideia com a narrativa inteira, não com
“episódios individuais”. Visto que esta narrativa é bastante longa, pode-se
optar por omitir sua leitura antes do sermão e informar à congregação que a
leitura bíblica vai ser integrada no sermão. Claro que, no sermão, não é
necessário falar de cada versículo, como faço na “Exposição do sermão”,
abaixo. Portanto, pode ser possível ler toda a narrativa antes do sermão. Por
uma questão de interesse, sugiro que as partes do narrador e os vários
personagens sejam divididos entre vários bons leitores.
É preciso, também, considerar a possibilidade de incluir uma introdução
formal no sermão. Por exemplo, pode-se começar o sermão com uma
ilustração dos cristãos que sofrem perseguição hoje e, em seguida,
relacioná-los aos israelitas que sofreram no exílio (“Às margens dos rios da
Babilônia, nós nos assentávamos e chorávamos” [Sl 137.1]). Neste cenário,
ouça a boa notícia como foi falada a Israel naquela época e à igreja que
sofre hoje. Mas, uma vez que o texto é uma narrativa e como a história tem
o poder inerente de atrair pessoas, pode-se também omitir uma introdução
formal do sermão e começar imediatamente com a narrativa. Na exposição
seguinte, eu vou omitir uma introdução formal e começar imediatamente
com o “cenário” da narrativa.
Exposição do sermão
O grande rei Nabucodonosor acorda todo suado. Ele teve um sonho
assustador novamente – um pesadelo! Ele está ficando mais e mais
chateado. Ele tinha sido um general bem-sucedido. Ele tinha conquistado
muitas nações. Aqui, ele é o rei da nação mais poderosa da terra e não
consegue voltar a dormir. Qual é o significado desses sonhos horríveis? Nos
sonhos, ele viu uma enorme estátua de um homem. O homem tinha uma
cabeça de ouro, peito e braços de prata, cintura e coxas de bronze, pernas de
ferro e pés em parte de ferro e em parte de barro. De repente, uma pedra é
cortada da montanha. Ela rola para baixo e esmaga a estátua até o pó. O
vento sopra o pó pra longe. Não fica nenhum vestígio da grande estátua.
Mas, estranhamente, a pedra começa a crescer. Torna-se uma montanha
enorme, tão grande que enche toda a terra.31
O sonho se repete noite após noite.32 Ele enche o rei de pavor. Na
Babilônia, as pessoas acreditavam que os deuses frequentemente falavam
por meio de sonhos. A mensagem deve ser importante para o sonho voltar
noite após noite. Mas o rei não sabe o que o sonho quer dizer. Este é apenas
o seu segundo ano como rei da Babilônia.33 Ele provavelmente quer saber
se os deuses estão tentando lhe dizer que ele é a enorme estátua de um
homem. Existe um inimigo lá fora que vai moer seu grande império até
virar pó?34 Existe um assassino lá fora esperando para matá-lo?35 Lemos no
versículo 1 que “Nabucodonosor teve este um sonho; o seu espírito se
perturbou, e passou-se-lhe o sono”. “Seu espírito se perturbou”. Ele ficou
tão agitado que não conseguia mais dormir. Se pelo menos ele conseguisse
descobrir o significado do sonho – o que os deuses estão tentando lhe dizer.
Bem, isso não deve ser problema para o rei.
Versículos 2-4: “Então, o rei mandou chamar os magos, os encantadores,
os feiticeiros e os caldeus [os astrólogos],36 para que declarassem ao rei
quais lhe foram os sonhos; eles vieram e se apresentaram diante do rei.
Disse-lhes o rei: Tive um sonho, e para sabê-lo está perturbado o meu
espírito.37 Os caldeus [astrólogos] disseram ao rei em aramaico: Ó rei, vive
eternamente! Dize o sonho a teus servos, e daremos a interpretação.”
Os sábios do rei estão reunidos na sala do trono, à exceção de Daniel e
seus amigos. Talvez não tivessem sido convidados por causa da inveja que
alguns nutriam desses jovens, judeus brilhantes. De qualquer forma, tinham
apenas acabado de se formar pelo programa de reeducação, então os sábios
de Babilônia podem passar sem estes novatos. Com tantos especialistas
presentes – mágicos, encantadores, feiticeiros e astrólogos – eles cobrem
todas as áreas e certamente serão capazes de ajudar o rei.38
Mas, primeiro, o rei deve contar-lhes o sonho. Eles não podem interpretar
um sonho sem saber o seu conteúdo. Muito tempo atrás, o Faraó do Egito
também contou aos seus sábios seus sonhos sobre as vacas e as espigas (Gn
41.17-24).39 Então, aqui os astrólogos dizem ao rei: “Diga o rei o sonho a
seus servos, e lhe daremos a interpretação”. Uma vez que soubessem o
sonho, poderiam verificar seus manuais de sonho40 para ver o que o sonho
quer dizer.
Mas o rei se recusa a contar-lhes o seu sonho. Versículos 5 e 6:
“Respondeu o rei e disse aos caldeus: Uma coisa é certa: se não me fizerdes
saber o sonho e a sua interpretação, sereis despedaçados, e as vossas casas
serão feitas monturo; mas, se me declarardes o sonho e a sua interpretação,
recebereis de mim dádivas, prêmios e grandes honras; portanto, declarai-me
o sonho e a sua interpretação”. Três vezes o rei insiste que eles lhe contem
o sonho e sua interpretação. Ele recebeu uma importante mensagem dos
deuses. Ele quer ter certeza de que os sábios o interpretam corretamente. Se
ele lhes contar seu sonho, eles podem dar uma interpretação qualquer.
Como é que o rei vai saber que a interpretação está correta? Mas se eles
puderem contar primeiro o sonho, o rei vai saber que eles estão, de fato, em
contato com os deuses. Então o rei vai saber que a interpretação deles é
confiável.
O rei usa a motivação da vara e da cenoura. Se eles não contarem a ele
tanto o sonho quanto a sua interpretação, serão dilacerados. Isso é a vara.
Eles serão desmembrados quer por terem seus membros arrancados ou por
serem cortados em pedaços. Este tipo de castigo cruel era muito comum no
antigo Oriente.41 Nabucodonosor não está blefando. No capítulo seguinte,
ele manda jogar os amigos de Daniel na fornalha de fogo ardente.
Posteriormente, mata os filhos do rei Zedequias, diante dos olhos de
Zedequias e, em seguida, vaza-lhe os olhos (2Rs 25.7). Nabucodonosor não
está blefando. Mas, além da grande vara, ele também oferece uma cenoura.
Se eles contarem o sonho e sua interpretação, receberão dádivas, prêmios e
grande honra do rei.
Que situação difícil para os sábios! Eles não podem dar uma interpretação
sem conhecer o sonho. Versículos 7-9: “Responderam segunda vez e
disseram: Diga o rei o sonho a seus servos, e lhe daremos a interpretação.
Tornou o rei e disse: Bem percebo que quereis ganhar tempo, porque vedes
que o que eu disse está resolvido, isto é: se não me fazeis saber o sonho,
uma só sentença será a vossa; pois combinastes palavras mentirosas e
perversas para as proferirdes na minha presença, até que se mude a
situação; portanto, dizei-me o sonho, e saberei que me podeis dar-lhe a
interpretação.”
O rei aumenta os riscos. Nesta segunda rodada, ele tira a cenoura e
menciona apenas a vara: “Se não me fazeissaber o sonho, uma só sentença
será a vossa”, isto é, serão dilacerados. O rei acusa seus sábios, “quereis
ganhar tempo”, porque sabem que ele vai executar seu decreto. Ele também
os acusa, “pois combinastes palavras mentirosas e perversas para as
proferirdes na minha presença, até que se mude a situação” para melhor. O
rei está ficando com raiva agora. Melhor mesmo é que os sábios descubram
o sonho, e bem depressa.
Pela terceira e última vez, os sábios se atrevem a falar ao rei. Versículos
10 e 11: “Responderam os caldeus na presença do rei e disseram: Não há
mortal sobre a terra que possa revelar o que o rei exige; pois jamais houve
rei, por grande e poderoso que tivesse sido, que exigisse semelhante coisa
de algum mago, encantador ou caldeu. A coisa que o rei exige é difícil, e
ninguém há que a possa revelar diante do rei, senão os deuses, e estes não
moram com os homens.” Os sábios desistem. O que o rei está pedindo é
impossível. Nenhum rei nunca pediu isso aos seus sábios. Aqui estão eles,
todos os sábios da Babilônia – mágicos, encantadores, feiticeiros e
astrólogos. Eles desistem. Eles dizem: “A coisa que o rei exige é difícil, e
ninguém há que a possa revelar diante do rei, senão os deuses”, que não
vivem com os seres humanos. Os sábios admitem que não têm contato com
os deuses.
Versículo 12: “Então, o rei muito se irou e enfureceu; e ordenou que
matassem a todos os sábios da Babilônia”. Depois do primeiro diálogo, o
rei ofereceu uma vara e uma cenoura; após o segundo, ameaçou somente
com a vara dilacerá-los membro a membro; agora ele ordena que a vara seja
utilizada e os sábios da Babilônia sejam dilacerados membro a membro.
Versículo 13: “Saiu o decreto, segundo o qual deviam ser mortos os
sábios; e buscaram a Daniel e aos seus companheiros, para que fossem
mortos”. Embora Daniel e seus amigos não estivessem na sala do trono,
eles não estão fora do decreto. Eles haviam se formado no programa de
reeducação e agora pertencem à classe dos sábios. Então, estão prestes a ser
executados junto com os outros sábios da Babilônia. Daniel e seus amigos
estão prestes a ser mortos. O que devem fazer?
Daniel tem um plano que ainda pode salvar a eles e a todos os sábios da
Babilônia. Ele procura o carrasco chefe, justamente ele. Versículos 14 e 15:
“Então, Daniel falou, avisada e prudentemente, a Arioque, chefe da guarda
do rei, que tinha saído para matar os sábios da Babilônia. E disse a Arioque,
encarregado do rei: Por que é tão severo o mandado do rei?” [Por que é que
o rei está com tanta pressa de executar todos os seus sábios?] Então,
Arioque explicou o caso a Daniel”. Quando Arioque explica a Daniel,
Daniel responde que ele é capaz de contar o sonho e a sua interpretação,
mas precisa de tempo. Arioque concorda. Lemos no versículo 16: “Foi
Daniel ter com o rei e lhe pediu que designasse o tempo, e ele revelaria ao
rei a interpretação”.42
Versículos 17 e 18: “Então, Daniel foi para casa e fez saber o caso a
Hananias, Misael e Azarias,43 seus companheiros, para que pedissem
misericórdia ao Deus do céu sobre este mistério, a fim de que Daniel e seus
companheiros não perecessem com o resto dos sábios da Babilônia”. O
mistério aqui é o conteúdo do sonho do rei e sua interpretação.44 Está em
jogo a vida de Daniel, de seus companheiros e dos outros sábios da
Babilônia. Você pode imaginar que Daniel e seus amigos oraram
fervorosamente ao Deus do céu – o Deus transcendente, o Deus, que criou e
controla o sol, a lua e as estrelas, os deuses dos babilônios – o Deus do céu,
que controla toda a história.
Naquela mesma noite, versículo 19: “Então, foi revelado o mistério a
Daniel numa visão de noite;45 Daniel bendisse o Deus do céu”. Daniel reage
à revelação milagrosa de Deus com uma oração de agradecimento.46 Ele
diz, no versículo 20:
“Seja bendito o nome de Deus, de eternidade a eternidade,
porque dele é a sabedoria e o poder”.
Daniel ora para que o nome de Deus, isto é, o próprio Deus, seja louvado
de eternidade a eternidade “porque dele é a sabedoria e o poder”.
Na sequência, Daniel explica a sabedoria e o poder de Deus. Ele começa
no versículo 21, ilustrando o poder de Deus:
“É ele quem muda o tempo e as estações,
remove reis e estabelece reis [como Daniel viu na visão noturna]”.
Em suma, Deus é digno de ser louvado de eternidade a eternidade porque
controla as estações da natureza, bem como a história deste mundo. Em
seguida, ele explica a sabedoria de Deus:
“Ele dá sabedoria aos sábios47
ele dá sabedoria aos sábios e entendimento aos inteligentes.
Ele revela o profundo e o escondido [como Daniel acaba de passar];
conhece o que está em trevas, e com ele mora a luz”.
Que conforto para Israel no exílio saber que Deus conhece o que está nas
trevas! E Deus não só conhece, mas também tem o poder de fazer algo
sobre isso. Isso dá a Israel esperança de um futuro melhor.
Deus também “conhece o que está nas trevas” hoje. Ficamos consternados
ao ler que hoje “100 milhões de cristãos são perseguidos no mundo
inteiro”48 – 100 milhões! Mas também podemos nos consolar com o fato de
que “Deus conhece o que está nas trevas”. Ficamos chocados ao ouvir sobre
as calamidades que atingem nossos amigos e famílias. Mas também
podemos ser consolados com o fato de que ele “conhece o que está nas
trevas”. E o nosso Deus tem o poder de fazer algo sobre isso. Ele controla a
história humana!
Daniel conclui sua oração de ação de graças no versículo 23:
“A ti, ó Deus de meus pais, eu te rendo graças e te louvo,
porque me deste sabedoria e poder;
e, agora, me fizeste saber o que te pedimos,
porque nos fizeste saber este caso do rei”.
Depois de dar graças a Deus por ter lhe revelado o sonho do rei, lemos
nos versículos 24 e 25: “Por isso, Daniel foi ter com Arioque, ao qual o rei
tinha constituído para exterminar os sábios da Babilônia; entrou e lhe disse:
Não mates os sábios da Babilônia; introduze-me na presença do rei, e
revelarei ao rei a interpretação. Então, Arioque depressa introduziu Daniel
na presença do rei e lhe disse: Achei um dentre os filhos dos cativos de
Judá, o qual revelará ao rei a interpretação”. Arioque, é claro, não tinha
encontrado ninguém; Daniel o tinha procurado. Mas Arioque queria levar
algum crédito por resolver a crise nacional: “Achei um... o qual revelará ao
rei a interpretação”. A interpretação! Mas o rei quer ouvir o sonho de modo
a saber que a interpretação é confiável.
Não surpreendentemente, versículo 26: “Respondeu o rei e disse a Daniel,
cujo nome era Beltessazar:49 Podes tu fazer-me saber o que vi no sonho e a
sua interpretação?”. Daniel não responde com um rápido “Sim, eu posso”.
Em vez de tomar o crédito para si da forma que Arioque tinha feito, Daniel
dá a Deus o crédito. Ele responde ao rei nos versos 27 a 30: “O mistério que
o rei exige, nem encantadores, nem magos nem astrólogos o podem revelar
ao rei; mas há um Deus no céu, o qual revela os mistérios,50 pois fez saber
ao rei Nabucodonosor o que há de ser nos últimos dias” [isto é, “os dias
finais da história... quando Deus trará este reino”].51 O teu sonho e as visões
da tua cabeça, quando estavas no teu leito, são estas: Estando tu, ó rei, no
teu leito, surgiram-te pensamentos a respeito do que há de ser depois disto.
Aquele, pois, que revela mistérios te revelou o que há de ser. E a mim me
foi revelado este mistério, não porque haja em mim mais sabedoria do que
em todos os viventes, mas para que a interpretação se fizesse saber ao rei, e
para que entendesses as cogitações da tua mente.” Daniel novamente se
recusa a tomar qualquer crédito. Não é a sua sabedoria, nem a educação
recebida na Babilônia. Todo o crédito pertence ao Deus dos céus que revela
os mistérios.52
A esta altura, podemos imaginar o rei ficando um pouco impaciente. Será
que Daniel está tentando ganhar tempo como os sábios? Mas, finalmente,
Daniel está pronto para relatar o sonho do rei. Versículos 31 a 33: “Tu, ó rei,
estavas vendo,53 e eis aqui uma grande estátua; esta, que era imensa e de
extraordinário esplendor, estava em pé diante de ti;e a sua aparência era
terrível. [Não é de admirar que o espírito do rei estivesse perturbado]. A
cabeça era de fino ouro, o peito e os braços, de prata, o ventre e os quadris,
de bronze; as pernas, de ferro,54 os pés, em parte, de ferro, em parte, de
barro”. Note-se que a estátua é um projeto e construção humana, assim
como a torre de Babel (Gn 11). Só que, aqui, em vez de tijolos e betume,
este monumento é feito de metais preciosos: ouro, prata, bronze, ferro e
barro.55 É uma estátua de um ser humano feito por mãos humanas.
Os versículos 34 e 35 contrastam a estátua com a pedra: “Quando estavas
olhando, uma pedra [uma pedra sem valor, insignificante]56 foi cortada sem
auxílio de mãos,57 feriu a estátua nos pés de ferro e de barro e os esmiuçou.
Então, foi juntamente esmiuçado o ferro, o barro, o bronze, a prata e o ouro,
os quais se fizeram como a palha das eiras no estio, e o vento os levou, e
deles não se viram mais vestígios.58 Mas a pedra que feriu a estátua se
tornou em grande montanha,59 que encheu toda a terra”.60
Agora, suponha que o novo rei, apenas em seu segundo ano, pensasse que
esta estátua o representava. Em seu sonho, ele vê uma pedra cortada golpear
a estátua, reduzindo-o a pó. E depois a pedra se torna uma grande
montanha, enchendo toda a terra. Deve haver um inimigo à espreita, pronto
para destruí-lo.61 Não é de admirar que seu espírito estivesse perturbado.
Não admira que ele insistisse em obter uma interpretação confiável.
Mas Daniel é capaz de tranquilizar o rei. Versículos 36 a 38: “Este é o
sonho;62 e também a sua interpretação diremos ao rei. Tu, ó rei, rei de reis, a
quem o Deus do céu conferiu o reino, o poder, a força e a glória; a cujas
mãos foram entregues os filhos dos homens, onde quer que eles habitem, e
os animais do campo e as aves do céu, para que dominasses sobre todos
eles, tu és a cabeça de ouro”. Isso faz o rei se sentir muito melhor. Ele é a
cabeça de ouro – precioso. Ele dá as ordens. Ele tem poder sobre os seres
humanos e até mesmo sobre “os animais do campo”. Como um símbolo de
seu poder sobre os animais selvagens,63 ele até mantém leões ferozes na
cova dos leões. Nabucodonosor64 é a cabeça de ouro.
Mas note que Daniel insiste que este “rei de reis” não se tornou a cabeça
de ouro pela sua própria força e capacidade. O Deus do céu lhe deu “o
reino, o poder, a força, e a glória”. Não importa quão grande é o rei, em
última análise, tudo o que ele tem foi-lhe dado pelo Deus do céu. O Deus do
céu é o Deus soberano. Ele é “o Senhor dos reis” (v. 47). Ele controla a
história e o destino de reis e povos.
Daniel continua nos versículos 39-43: “Depois de ti, se levantará outro
reino, inferior ao teu [ainda um reino esplêndido, de prata, mas não tão
glorioso quanto o da Babilônia], e um terceiro reino, de bronze, o qual terá
domínio sobre toda a terra.65 O quarto reino será forte como ferro; pois o
ferro a tudo quebra e esmiúça; como o ferro quebra todas as coisas, assim
ele fará em pedaços e esmiuçará.66 Quanto ao que viste dos pés e dos
artelhos, em parte, de barro de oleiro e, em parte, de ferro, será esse um
reino dividido; contudo, haverá nele alguma coisa da firmeza do ferro, pois
que viste o ferro misturado com barro de lodo. Como os artelhos dos pés
eram, em parte, de ferro e, em parte, de barro, assim, por uma parte, o reino
será forte e, por outra, será frágil.67 Quanto ao que viste do ferro misturado
com barro de lodo, misturar-se-ão mediante casamento,68 mas não se ligarão
um ao outro, assim como o ferro não se mistura com o barro.”69
Estes quatro reinos têm sido tradicionalmente identificados como
Babilônia, Medo-Pérsia, Grécia (Alexandre, o Grande) e Roma.70 Mas mais
importante do que identificar estes reinos é identificar a mensagem desta
narrativa.71 Essa mensagem se torna clara no versículo 44: “Mas, nos dias
destes reis,72 o Deus do céu suscitará um reino que não será jamais
destruído; este reino não passará a outro povo; esmiuçará e consumirá todos
estes reinos, mas ele mesmo subsistirá para sempre”.
Depois de todos esses reinos humanos, “o Deus do céu suscitará um reino
que não será jamais destruído”. Os reinos humanos ruem, um após o outro.
Eles têm “pés de barro”. Mas o reino de Deus é eterno. Ele “não será jamais
destruído”. “Este reino não passará a outro povo”. Quando o reino da
Babilônia caiu, ele foi deixado para o povo medo-persa, e, quando esse
reino entrou em colapso, foi deixado para o povo grego, e, quando esse
reino desabou, foi deixado para o povo romano. Não é assim com o reino de
Deus. Ele é eterno. Não vai se desintegrar nem vai passar a outro povo.
Pelo contrário, Daniel diz nos versículos 44-45 que o reino de Deus
“esmiuçará e consumirá todos estes reinos... como viste que do monte foi
cortada uma pedra, sem auxílio de mãos, e ela esmiuçou o ferro, o bronze, o
barro, a prata e o ouro”. Quando o reino de Deus vier em sua plenitude, ele
não coexistirá lado a lado com reinos humanos; mas destruirá esses reinos
malignos.73 E então o reino de Deus, como a pedra no sonho, vai crescer e
encher toda a Terra. Daniel conclui no versículo 45: “O Grande Deus fez
saber ao rei o que há de ser futuramente. Certo é o sonho, e fiel, a sua
interpretação”.
Nos versículos 46 e 47, o rei responde a esta mensagem: “Então, o rei
Nabucodonosor se inclinou, e se prostrou rosto em terra perante Daniel, e
ordenou que lhe fizessem oferta de manjares e suaves perfumes. Disse o rei
a Daniel: Certamente, o vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos
reis, e o revelador de mistérios, pois pudeste revelar este mistério.”
Perguntamos por que o humilde Daniel agora permite que o rei o adore e até
mesmo faça oferendas a ele. Será que Daniel se lembrou das profecias de
Isaías, onde Deus prometeu: “Reis... diante de ti se inclinarão... saberás que
eu sou o SENHOR e que os que esperam em mim não serão envergonhados”
(Is 49.23; cf. 60.14)?
O rei havia ordenado a morte de Daniel. Mas Daniel e seus amigos
suplicaram a Deus e não foram envergonhados. O rei que ordenou a
execução de Daniel agora se curva diante dele, pois Daniel representa esse
Deus do céu.74 O rei chama o Deus de Daniel de “revelador de mistérios”.
Onde os sábios da Babilônia falharam, Daniel venceu. Onde os deuses da
Babilônia foram cegos e ineptos, o Deus de Daniel revelou o mistério. Por
isso o rei chama o Deus de Daniel de “Deus dos deuses”. Ele é maior que os
deuses babilônicos. E chama-lhe: “Senhor dos reis”, pois o Deus de Daniel
havia dado ao rei seu reino e daria este reino a outros reis até colocar um
ponto final em todos os reinos humanos e inaugurar o seu próprio reino
perfeito. O Deus de Daniel é soberano sobre tudo: “Deus dos deuses e o
Senhor dos reis”.
A história termina nos versículos 48 e 49: “Então, o rei engrandeceu a
Daniel, e lhe deu muitos e grandes presentes, e o pôs por governador de
toda a província da Babilônia, como também o fez chefe supremo de todos
os sábios da Babilônia. A pedido de Daniel, constituiu o rei a Sadraque,
Mesaque e Abede-Nego sobre os negócios da província da Babilônia;
Daniel, porém, permaneceu na corte do rei.”
A mensagem que Deus dá a Nabucodonosor é que o reino da Babilônia
será substituído por outro reino, e outro e outro, até que finalmente o reino
de Deus substituirá todos os reinos humanos. Esta mensagem é
posteriormente registrada para o povo de Deus que sofre no exílio. Imagine
a esperança que ela lhes trouxe: nós podemos estar muito longe da Terra
Prometida, podemos chorar aqui no exílio, mas o nosso Deus “remove reis
e estabelece reis” (2.21). O reino da Babilônia não vai durar; ele será
substituído por outro reino, e outro até que o reino de Deus venha. O reino
de Deus está a caminho, substituirá todos os reinos humanos e encherá toda
a terra; ele durará para sempre.
Algo como 500 anos mais tarde, Jesus vem à Terra. Os reinos da
Babilônia, Medo-Pérsia e Grécia tinham desaparecido há muito tempo.
Roma agora governa o mundo. O anjo Gabriel anuncia o nascimento de
Jesus a Maria: “Ele [Jesus] reinará para sempre sobre a casade Jacó, e o seu
reinado não terá fim” (Lc 1.33). Cerca de trinta anos mais tarde, Jesus
começa seu ministério. Ele proclama “o evangelho de Deus, dizendo: O
tempo está cumprido, e o reino de Deus está próximo” (Mc 1.14-15).75 Com
pregações e milagres, Jesus mostra o reino de Deus ao mundo. Jesus diz:
“Se, porém, eu expulso demônios pelo Espírito de Deus, certamente é
chegado o reino de Deus sobre vós” (Mt 12.28). Mas o reino de Deus não
veio totalmente durante a vida de Jesus. O reino romano ainda estava no
comando. Na verdade, quando os soldados romanos crucificaram Jesus,
parecia que o reino de Deus tinha falhado.
O Deus soberano, porém, pode transformar a derrota em vitória. Ele
ressuscitou Jesus da morte. Quando os discípulos encontraram o Senhor
ressurreto, perguntaram-lhe: “Senhor, será este o tempo em que restaures o
reino a Israel?”. Eles não percebiam que o reino de Deus virá em duas
etapas: primeiro, o “já” do reino com a primeira vinda de Jesus e, depois, o
“ainda não” da plenitude do reino de Deus, na segunda vinda de Jesus.
Jesus responde: “Não vos compete conhecer tempos ou épocas que o Pai
reservou pela sua exclusiva autoridade” (At 1.6-7). Em vez de satisfazer a
curiosidade deles, Jesus envia seus discípulos em uma missão: “Sereis
minhas testemunhas tanto em Jerusalém como em toda a Judeia e Samaria e
até aos confins da terra” (At 1.8). O reino de Deus começa a se espalhar
pelos confins da terra.
Soa justamente como a pedra no sonho, não é mesmo? “A pedra que feriu
a estátua se tornou em grande montanha, que encheu toda a terra” (Dn
2.35). Aliás, Jesus também se vê como a pedra. Em certo momento, Jesus
pergunta ao povo: “Nunca lestes nas Escrituras: A pedra que os construtores
rejeitaram, essa veio a ser a principal pedra, angular...? Todo o que cair
sobre esta pedra ficará em pedaços; e aquele sobre quem ela cair ficará
reduzido a pó” (Mt 21.42-44). No sonho, a pedra atingiu os pés da estátua e
os esmagou; então toda a estátua tombou e caiu sobre a pedra e se quebrou
em pedaços. A pedra é Jesus. Mas, quando ele começa a crescer e encher
toda a terra, é também o seu reino.76 O reino de Deus, o reino de Jesus
Cristo, está chegando. Ele substituirá todos os reinos humanos.
Muitos cristãos sofrem hoje nas mãos de vários Estados. Desde 1990,
cerca de 160 mil cristãos são martirizados a cada ano.77 Cento e sessenta mil
a cada ano! É difícil imaginar a dor nessas comunidades cristãs. Claro,
existem outras formas de perseguição que não a execução. Os cristãos são
detidos, presos, torturados e colocados na lista negra para que não consigam
encontrar trabalho. Como mencionado anteriormente, de acordo com as
últimas estimativas, cerca de 100 milhões de cristãos são perseguidos em
todo o mundo, em países como a Coreia do Norte, Arábia Saudita e Irã.78
Porém, mesmo em países onde há uma relativa liberdade, as pessoas sofrem
por causa da corrupção no governo, guerras injustas, fraude, suborno, leis
tendenciosas, más decisões que levam à injustiça. Os reinos humanos não
estão melhorando. Eles podem ser cruéis e maus.
Mas aqui está a boa notícia: o reino de Deus chegou com a primeira vinda
de Jesus e virá em perfeição com a sua segunda vinda. Pouco antes de Jesus
ser crucificado, ele disse ao sumo sacerdote: “Desde agora, vereis o Filho
do Homem assentado à direita do Todo-Poderoso e vindo sobre as nuvens
do céu” (Mt 26.64). Mesmo agora Jesus está assentado nos céus à destra de
Deus Pai (Mc 16.19), governando sua igreja do seu trono celestial (At 2.32-
36). Quando Jesus voltar, seu reino substituirá todos os reinos da terra e
encherá toda a terra. Então, como lemos em Apocalipse (11.15), “o reino do
mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará pelos
séculos dos séculos”.
Então, tenham bom ânimo! Quaisquer que sejam nossas circunstâncias, o
reino de paz e justiça de Deus está a caminho. O próprio Jesus nos oferece
uma boa esperança. Ele nos encoraja: “Não temais, ó pequenino rebanho;
porque vosso Pai se agradou em dar-vos o seu reino” (Lc 12.32).
Jesus reinará onde quer que o sol
faça seus percursos sucessivos;
seu reino se estende de costa a costa,
até que a lua derreta e não brilhe mais.
Bênçãos abundam onde quer que ele reine:
os prisioneiros pulam para soltar suas cadeias,
os cansados encontram descanso eterno,
e todos os que sofrem falta são abençoados.79
1 Veja p. 19–30. Até o século 19, havia consenso geral de que os reinos de ouro, prata, bronze e
ferro representavam a Babilônia, a Pérsia, a Grécia e Roma. Miller, Daniel, 96, afirma que “Josefo e
2Esdras 12.10-51 identificaram o quarto império como Roma. Childs reconhece que os escritores dos
Evangelhos do Novo Testamento consideravam que o império romano fosse o quarto reino, e Walton
comenta: “A evidência nos escritos dos pais da igreja é enorme e uníssona em favor da interpretação
romana”. Mas tudo isso mudou nos tempos modernos. Aqueles que negam a previsão profética do
futuro e sustentam que Daniel foi compilado durante o século 2º a.C. identificam o quarto reino com
a Grécia. Towner, Daniel, 36, afirma: “A maioria dos intérpretes modernos concorda que as épocas
históricas simbolizadas pelas quatro partes da estátua são o império babilônico (a cabeça de ouro), o
‘império medo’ (embora dificilmente tenha existido na história real de fato, mas aqui equivale à parte
superior do tronco, de prata), o império persa (a parte inferior do tronco, de bronze) e os domínios do
rei helenista dos ptolomeus no Egito e dos selêucidas na Antioquia, na Síria (as pernas de ferro e os
pés de barro)”. Towner admite que realmente não houve um império medo separado, mas afirma que
isso “não invalida a lista dada acima”. Ele argumenta: “Se alguém começar com a equação ‘a cabeça
de ouro é igual à Babilônia’, como o próprio texto demanda, e identificar os reinos divididos da
época do escritor com os regimes helenísticos dos selêucidas e dos ptolomeus após 323 a.C.,
nenhuma outra lista de quatro impérios mundiais é realmente possível”.
2 Por exemplo, Miller, Daniel, 88: “Daniel também ilustrou a necessidade da oração coletiva
quando convocou seus amigos para se juntarem a ele”; e Harman, Study Commentary on Daniel, 62:
“Sempre crer que os filhos de Deus, quando diante de um perigo, devem se voltar em oração a Deus,
como Daniel”.
3 “Não deveríamos nós, assim como Daniel, agradecer e louvar a Deus pela riqueza do seu dom
para nós, apreciar esta fonte de sabedoria celestial e compartilhá-lo com nossos semelhantes
perplexos?”. Duguid, Daniel, 26. Cf. p. 24 Cf. Miller, Daniel, 88: “Daniel não se esqueceu de
agradecer a Deus pelas orações respondidas, o que é mais uma lição para nós”.
4 “Existe um modelo aqui para todos nós em nossos relacionamentos com aqueles que não
conhecem o nosso Deus”. Duguid, Daniel, 33. Na p. 43, Duguid usa mesmo o cruel rei
Nabucodonosor como um modelo para a imitação: Nabucodonosor “reconheceu: ‘Certamente, o
vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos reis e o revelador dos mistérios, pois pudeste revelar
este mistério’ (Dn 2.46-47). Esta mesma resposta deve ser também a nossa”. É de se perguntar em
que base se poderia isolar esse elemento para a imitação e ignorar a ira do rei, seu decreto para
executar todos os sábios, incluindo Daniel e seus amigos (v. 13), sua adoração a Daniel e o
oferecimento de cereais e incenso a ele (2.46).
5 Towner, Daniel, 42, com razão, se opõe a essa ideia “anelante e simplista”: “Afinal de contas, a
segunda metade do livro é muito consciente de que mesmo os sábios ‘cairão pela espada e pelo fogo,
pelo cativeiro e pelo roubo’ (Dn 11.33-35)”.
6 Veja o capítulo 1, p. 46–47.
7 Por exemplo, a primeira convocação de Nabucodonosor aos seus sábios (4.6), a lista dos sábios e
sua incapacidade de interpretar (4.7), e, finalmente, Daniel chega (4.8), sendo o “chefe dos magos”
(4.9), e dá a interpretação correta (4.10-27). Veja ainda, Goldingay, Daniel, 38.
8 Daniel 2 e 7 são a primeira e a última narrativas na seção em aramaico de Daniel, formando,
assim, os delimitadoresde uma estrutura quiástica ABCC’B’A’. Veja a Introdução, p. 36–37.
9 Para mais detalhes, veja Collins, Daniel, 39-40, e Segal, “From Joseph to Daniel: The Literary
Developments of the Narrative in Daniel 2”, VT 59/1 (2009) 142. Collins, Daniel, 39, escreve:
“Embora algumas dessas semelhanças derivem do cenário comum de um tribunal do Oriente
Próximo e da preocupação comum para com a interpretação dos sonhos, as correspondências verbais
tornam altamente provável que o autor de Daniel conhecesse e tenha sido influenciado pela história
de José”.
10 Goldingay, Daniel, 37-38.
11 Para mais informações sobre a língua aramaica e as possíveis razões para isso em Daniel,
consulte a Introdução acima, p. 32.
12 Os comentaristas discordam sobre o que constitui uma cena e, portanto, chegam a números
diferentes de cenas. Por exemplo, Towner, Daniel, 31, lista cinco cenas (2.1-12, 13-23, 24-30, 31-45,
46-49), no que é seguido por Goldingay, Daniel, 41-42, e Redditt, Daniel, 51 (diferente das minhas
cinco cenas, com foco em mudanças de local), enquanto Lucas, Daniel, 67, lista seis “atos” e Venter,
“The Function of Poetic Speech in the Narrative in Daniel 2”, HervTS 49 / 4 (1993) 1015, aparece
com “três episódios e oito cenas”. Eu vou seguir a definição de Jacob Licht, Storytelling in the Bible
(Jerusalém: Magnes, 1978), 29: “Cada cena apresenta os acontecimentos de um determinado lugar e
época, concentrando a atenção do público sobre as ações e as palavras ditas”. Outro marcador para a
detecção de cenas é que, geralmente, cada cena tem apenas dois personagens (veja Robert Alter, The
Art of Biblical Narrative [Nova York: Basic Books, 1985], 72).
13 Estou em débito para com o meu revisor, Ryan Faber, por identificar que Daniel 2.24-25 é uma
cena separada, de modo que as cenas formam a estrutura quiástica.
14 Para esta escalada de punição e recompensa para punição à pena de morte, veja Michael Segal,
“From Joseph to Daniel: The Literary Developments of the Narrative in Daniel 2”, VT 59/1 (2009)
125.
15 Os narradores usam um “passivo divino” quando desejam indicar a atividade de Deus de
maneira velada. A implicação aqui é que Deus revelou o mistério a Daniel. Sobre o passivo divino,
veja ainda abaixo, p. 81, nota 27, e p. 98, nota 79.
16 “Eles são todos sinônimos variantes para os adivinhos da Babilônia, cujo papel era fundamental
para a vida política e religiosa da Babilônia, embora o autor use uma série de termos combinados
para transmitir a impressão dos vários grupos”. Goldingay, Daniel, 46.
17 Hill, “Daniel”, 64.
18 Lucas, Daniel, 78. Cf. p. 77: “Os termos utilizados para ‘seu’ Deus (de Daniel) na confissão de
Nabucodonosor (47) resumem, de fato, a mensagem desta história”. Igualmente, Anderson, Signs and
Wonders, 26: “A confissão de Nabucodonosor de que o Deus de Daniel é verdadeiro, ‘o vosso Deus é
o Deus dos deuses, e o Senhor dos reis, e o revelador de mistérios... ’ (v. 47), é o ponto culminante do
capítulo”. Cf. Collins, Apocalyptic Vision, 13: “O efeito do... capítulo [2] não é primariamente
apresentar uma visão escatológica, mas demonstrar a superioridade de Daniel sobre os sábios pagãos.
O rei reage louvando ao Deus de Daniel por seu poder de revelar segredos – não por seu poder de
controlar a história”. Cf. Smith-Christopher, “Book of Daniel”, 51: “O tema, como muitos estudiosos
têm apontado, é que a sabedoria do mundo se revelará impotente diante do conhecimento do
verdadeiro Deus”. Longman, Daniel, 73, formula o tema dessa narrativa como: “Somente a sabedoria
de Deus pode revelar os mistérios da vida”. Ele acrescenta: “Não é o conteúdo da revelação do futuro
que é primário; o que é mais importante aqui é o fato de que é apenas o Deus de Daniel que conhece
esse futuro”. Veja também ibid., p. 84.
19 Steinmann, Daniel, 109. Cf. p. 124. Goldingay, Daniel, 41, vê duas facetas, “um tema dentro de
um tema”: “Ambas as facetas (e todo o capítulo) refletem o poder soberano único do Deus de Israel,
simultaneamente desvendado a Nabucodonosor e escondido dele, em quem Daniel confia, revelado
por e em sonho/visão e reconhecido por Nabucodonosor. Só Deus controla a história e só ele revela o
que ela esconde”.
20 Venter, “The Function of Poetic Speech in the Narrative in Daniel 2”, HervTS 49/4 (1993) 1.016
e 1.019.
21 Porteous, Daniel, 37, fala da “revelação a respeito do curso e clímax da história do mundo que
o capítulo registra e que forma o seu núcleo”.
22 Goldingay, Daniel, 44. Veja também p. 51: “Os leitores implícitos de Daniel no período persa,
talvez desiludidos e deprimidos como aqueles a quem profecias em Ageu, Zacarias e Isaías 56-66
foram dirigidas, são convidados a se apegarem à convicção de que o colosso caldeu não vai durar
para sempre. Ele tem pés de barro”. Cf. Towner, Daniel, 31.
23 “Sinar como um termo para a Babilônia, no sudeste do Iraque moderno, é um arcaísmo no
Antigo Testamento... O nome sugere especialmente um lugar da religião falsa, de vontade própria e
autoengrandecimento (Gn 11.1-9; Zc 5.11)”. Goldingay, Daniel, 15.
24 Cf. Ferguson, Daniel, 66: “O povo de Deus tem a garantia da palavra de Deus do triunfo final
do reino de Deus. No sonho e em sua interpretação, este é o fato central”.
25 Evans, “Daniel in the New Testament: Visions of God’s Kingdom”, 513, vê um contraste entre a
oração de Daniel de que Deus “dá sabedoria aos sábios e entendimento aos inteligentes” (2.21b) e
Jesus agradecendo seu Pai “porque ocultaste estas coisas aos sábios e instruídos e as revelaste aos
pequeninos” (Mt 11.25). Mas o uso de “sábios” por Jesus é bem diferente do uso de “sábio” por
Daniel, que recebe essa sabedoria sobrenatural por revelação.
26 Veja a nota 23, acima.
27 “A pedra, mencionada nos versículos 34-35 e interpretada no versículo 44 como o reino de
Deus, pertence à esfera messiânica. Isso segue-se de Gênesis 28.10-22 e, acima de tudo, de um texto
abundantemente reutilizado por Daniel, Gênesis 49.24. Deus, como ‘a rocha de Israel’, apoia José”.
Lacocque, Book of Daniel, 52.
28 As formas de progressão histórico-redentivas e temas longitudinais são intimamente
relacionadas e, muitas vezes, entrelaçadas.
29 Cf. Apocalipse 11.15: “O sétimo anjo tocou a trombeta, e houve no céu grandes vozes, dizendo:
O reino do mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos
séculos”.
30 Por exemplo, John G. Gammie, Daniel, 21-34, propõe um sermão separado em cada um dos
“cinco episódios”: v. 1-11, “O sonho perturbador”; v. 12-23, “A urgência de destruir”; v. 24-35, “O
propósito do conselho”; v. 36-45, “Pois teu é o reino”; e v. 46-49, “Atenas se volta para Jerusalém”.
31 Embora o narrador não divulgue o sonho até a quinta e última cena (2.31-35), uma vez que a
maioria das pessoas conhece esta história, acho que é vantajoso descrevê-la brevemente nesta fase.
Presumo, também, ao contrário de alguns comentaristas (por exemplo, Calvino, Commentaries on
Daniel, I, 119-20, e Baldwin, Daniel, 87-88), que o rei se lembrava de seu sonho; por que mais ele
ficaria tão agitado que não conseguia dormir? Além disso, Young, Prophecy of Daniel, 58, observa
que “isto parece estabelecido pelo seu desejo de testar os sábios (v. 9)”. Miller, Daniel, 81, acrescenta
que este era “o entendimento dos sábios, que continuavam a implorar-lhe [o rei] que o revelasse”.
Veja também a nota 37 abaixo.
32 “Sonhos”, em 2.1, é plural, enquanto as narrativas seguintes registram apenas um sonho.
Collins, Daniel, 155, entende esse uso como sendo “idiomático” para o singular. Miller, Daniel, 77,
entende o plural no sentido de que “o rei estava em um estado de sonho”. Leupold, Exposition of
Daniel, 82, escreve que “o rei teve vários sonhos, um deles finalmente o despertou e perturbou”. Eu
prefiro a sugestão de Wallace, The Lord Is King, 49, de que era um sonho recorrente: “No entanto,
noite após noite acontecia este sonho!”. Assim também Redditt, Daniel, 51.
33 Questiona-se como Daniel e seus amigos poderiam ter sido treinados durante três anos (1.5),
quando este é apenas o segundo ano de Nabucodonosor(2.1). Várias respostas têm sido sugeridas:
(1) Uma vez que eles contavam uma parte de ano como um ano, a formação de Daniel poderia ter
sido menos de dois anos (Miller, Daniel, 77). (2) Nabucodonosor primeiro reinou com seu pai e
depois sozinho; este é o segundo ano do seu governo solo (Calvino, Commentaries on Daniel, I,
116). (3) Miller, Daniel, 76, escreve: “Driver explica os três anos com base no ano de ascensão
empregado na Babilônia... [veja a Introdução acima, p. 28]. Por este método, o tempo até o primeiro
Nisã (março-abril) é considerado o ano de ascensão do rei, não o seu primeiro ano (veja tabela).
Anos de
treinamento
Ano de
reinado do rei
Data
Primeiro Ano da
ascensão
De setembro de 605 a.C. (quando Nabucodonosor assumiu o trono)
a Nisã (março/abril de 604 a.C.)
Segundo Primeiro ano Nisã (604 a.C. a 603 a.C.)
Terceiro Segundo ano Nisã (603 a.C. a 602 a.C.)
34 “Sabemos por outras fontes históricas que sua política expansionista encontrou resistência feroz
durante os primeiros anos de seu reinado”. Ferguson, Daniel, 50.
35 “Dois dentre os três reis seguintes da Babilônia foram assassinados”. Miller, Daniel, 82.
36 “O termo pode ser entendido de duas maneiras em Daniel: ou para se referir ao povo da
Babilônia, em geral, num sentido étnico (veja 1.4) ou (em um sentido mais restrito) para delinear
uma classe especial de sacerdotes babilônios... Sem dúvida, a experiência deles inclui, mas não se
restringe à astrologia, como evidenciado pelo uso do termo em outras partes de Daniel (por exemplo,
2.5,10; 4.7; 5.7,11). “Hill”, Daniel, 62.
37 “O rei diz (literalmente): ‘Tive um sonho, e para sabê-lo está perturbado o meu espírito’. Será
que isso significa que ele tinha esquecido o sonho, como infere Josefo (Ant. 10.10.3)?... Parece
razoável entender ‘saber’, aqui, no sentido de ‘perceber o significado de, entender’”. Lucas, Daniel,
70. Por isso a NRSV traduz como “compreender”, e a NVI, “para saber o que isso significa”.
38 “A variação dos termos nas diferentes listas mostra que o escritor não os usa com intento de
grande exatidão, mas está simplesmente acumulando uma série de termos para dar uma imagem de
um impressionante grupo de especialistas cujo fracasso põe em movimento o sucesso de Daniel”.
Lucas, Daniel, 70.
39 Para ver as semelhanças e diferenças entre Gênesis 41 e Daniel 2, veja Goldingay, Daniel, 37 e
42-43. Cf. Michael Segal, “From Joseph to Daniel: The Literary Developments of the Narrative in
Daniel 2”, VT 59/1 (2009) 142-43.
40 “Vários livros oníricos foram encontrado na Mesopotâmia, autênticas obras de referência que os
adivinhos antigos consultavam em cada cenário concebível de sonho”. Seow, Daniel, 39.
41 Veja Montgomery, Book of Daniel, 146.
42 “O relato é evidentemente condensado neste ponto pela omissão de alguns detalhes óbvios de
etiqueta da corte. Pois todo mundo ainda sabe, e mais seguramente sabia na época de Daniel, que era
impensável qualquer homem aventurar-se a entrar na presença do rei sem aviso prévio ou sem ser
chamado, cf. Ester 4.11”. Leupold, Exposition of Daniel, 96.
43 Ao convidar seus companheiros para se juntar a ele em oração ao Deus do céu, o autor usa seus
nomes hebraicos, que dão testemunho do Deus de Israel, respectivamente, como Yahweh, El e
Yahweh. Consulte o capítulo 1 acima, p. 63.
44 “Inicialmente, aqui, a conotação [da palavra rāz, ‘mistério’] parece ser simplesmente o enigma
do sonho, mas o sonho em si denota a divulgação de um mistério escatológico. A palavra rāz pode
implicar a expectativa de que o sonho contenha alguma revelação significativa”. Collins, Daniel,
159. Cf. Lucas, Daniel, 72: “Nos rolos do Mar Morto ela [a palavra rāz] parece ser quase um termo
técnico para o que só pode ser compreendido por meio de revelação divina, especialmente o
propósito oculto de Deus na história”.
45 Observe o passivo divino. Anderson, Signs and Wonders, 15, observa: “Ali, naquela breve
declaração, está contido um dos elementos essenciais do livro. O Deus dos céus governa o curso da
história e revelou isso ao seu fiel servo”.
46 Para uma análise detalhada desta oração, veja Venter, “The Function of Poetic Speech in the
Narrative of Daniel 2”, HervTS 49/4 (1993) 1,009-14.
47 “A ‘sabedoria’ dos versos 20-23 é, novamente, entendimento sobrenatural, em vez de
conhecimento empírico e racional. Não é algo que os humanos consigam, mas algo que recebem de
Deus pela revelação, equivalente ao conhecimento dos propósitos de Deus que os profetas recebem
por serem aceitos no conselho de Yahweh”. Goldingay, Daniel, 48.
48 “Open Doors’ 2009 World Watch List”.
49 Ironicamente, Daniel, que foi rebatizado Beltessazar segundo o deus Bel do rei, “vem ao rei
como um judeu exilado (v. 25) que havia recebido sua revelação do Deus de seu pai (v. 23)”.
Goldingay, Daniel, 57.
50 Observe o paralelo e o contraste com a declaração dos sábios nos versículos 10-11.
51 Porteous, Daniel, 44. Alguns comentaristas entendem a frase “nos últimos dias” em Daniel
(2.28 e 10.14) como se referindo a “uma mudança definitiva no futuro, mas não ao fim da história”
(p. ex., Collins, Daniel, 161, e Seow, Daniel, 43), enquanto outros entendem como referindo-se ao
“tempo de cumprimento”, neste contexto, com uma “perspectiva escatológica” (p. ex., Goldingay,
Daniel, 48, 56; cf. Miller, Daniel, 90), e outros ainda entendem-no mais especificamente como “a era
messiânica” (Steinmann, Daniel, 26, 133), “a vinda da era messiânica que Deus vai trazer como o
clímax da história” (Russell, Daniel, 47). O contexto em Daniel 2 deixa claro que “nos últimos dias”
refere-se ao fim da história humana, quando os reinos humanos serão substituídos pelo reino de Deus
(v. 44). Cf. a mesma frase em hebraico em 10.14 no contexto da visão final com a sua ressurreição
dupla (12.2, 13) e da plenitude do reino de Deus (12.3).
52 “O sucesso de Daniel não se deve nem aos seus dons pessoais, nem à sua educação caldeia, mas
à sabedoria e poder de Deus somente”. Seow, Daniel, 37.
53 “O verbo ‘ser’ com o particípio (hāzēh) é uma maneira distintiva de o aramaico expressar ação
continuada que é encontrada com frequência neste livro. Retrata como o rei estava encantado com a
vista, incapaz de tirar seus olhos do que ele via”. Leupold, Exposition of Daniel, 107.
54 “Em seu Works and Days, 109-201, ele [o poeta grego Hesíodo (século 8º a.C.)] dividiu a
história em cinco eras. Quatro são caracterizadas por metais, na sequência de ouro, prata, cobre e
ferro. Entre a era de bronze e ferro, ele insere a era dos heróis gregos, sem vinculá-la a qualquer
metal. Essa sequência de metais... parece repousar na memória histórica da transição da Idade do
Bronze à Idade do Ferro. Ao descrever a era do bronze, o poeta comenta: ‘De bronze eram seus
instrumentos: não havia ferro negro’ (linha 151)”. Lucas, Daniel, 73. Cf. Collins, Daniel, 162-65.
55 “À medida que se desce na sequência de metais na estátua, seu esplendor se dissipa (de ouro a
ferro e barro), mas aumenta a sua dureza (de ouro ao ferro)”. Hill, “Daniel”, 67. Cf. Baldwin, Daniel,
92: “Da sua cabeça de ouro aos seus pés frágeis de porcelana envidraçada misturado com ferro, ela
representava uma figura superpesada, passível de desabar até a sua ruína”.
56 “A estátua valiosa e preciosa contrasta diretamente com a pedra inexpressiva, sem brilho e sem
valor. A diferença entre a pedra e a estátua é que a mão de ninguém tocou na pedra”. Nel, “A
Literary-Historical Analysis of Daniel 2”, Acta Theologica 22/1 (2002) 88”.
57 “‘Uma pedra foi cortada sem auxílio de mãos’ humanas, uma expressão que ocorre também em
8.25 e provavelmente significa que se originou pela vontade e poder divinos (veja também Jó
34.20)...”. Seow, Daniel, 44. Cf. Anderson, Signs and Wonders, 20: “A independência completa da
pedra destrutiva é afirmada. Ela não requereu nenhum auxílio humano para existir, nem qualquer
ajuda humana para agir. No entanto, o resultado é eminentemente eficaz e a narração dele é tão breve
quanto dramática”.
58 “O vento varrendo os restos da estátua (2.35) apontapara este sonho como tendo significado
histórico e escatológico. A imagem do joio sendo arrastado pelo vento é familiar no Antigo
Testamento [veja Is 41.15-16]. Esta metáfora combina os conceitos de transitoriedade e
impermanência com a facilidade com que Deus pode varrer os seres humanos e suas realizações”.
Steinmann, Daniel, 135-36.
59 Cf. Isaías 2.2 (par. Mq 4.1): “Nos últimos dias, acontecerá que o monte da Casa do SENHOR
será estabelecido no cimo dos montes...”.
60 Cf. Isaías 11.9: “Não se fará mal nem dano algum em todo o meu santo monte, porque a terra se
encherá do conhecimento do SENHOR, como as águas cobrem o mar”.
61 Veja Baldwin, Daniel, 92.
62 “Enquanto o plural pode denotar deferência/mansidão (cf. v. 30), havendo menos referência
provável ao conselho divino ou o uso do plural de majestade, a ênfase incidental, mas deliberada,
incluindo os amigos nos versos 17-18, 23, 49, sugere que este é também o caso aqui”. Goldingay,
Daniel, 35.
63 “Os reis babilônicos geralmente fingiam ter governo sobre os animais selvagens e as aves
selvagens. Eles mantinham animais capturados enquanto caçavam nas reservas, provavelmente como
símbolos de sua dominação universal”. Lacocque, Book of Daniel, 50. Cf. Jeremias 27.6; 28.14.
64 “Muitas vezes nas Escrituras os termos ‘rei’ e ‘reino’ são empregados como sinônimos, visto
que o rei era considerado a personificação do reino... Nabucodonosor era o Império Neobabilônico,
pois, depois de seus quarenta e três anos de reinado, o reino durou apenas cerca de 23 anos”. Miller,
Daniel, 93. Cf. Young, Prophecy of Daniel, 73-74.
65 “Não pode haver dúvida de que tal descrição [“domínio sobre toda a terra”] se aplica com muito
mais precisão ao reinado de Alexandre, o Grande, que ao da Pérsia... A Grécia era universal em sua
influência”. Young, Messianic Prophecies, 21. Cf. Ferguson, Daniel, 62-63: “Aqui nós
instintivamente pensamos na ascensão notável de Alexandre, o Grande, ao poder, de quem se diz que
chorou quando, ainda na casa dos vinte anos, não havia mais terras para conquistar”.
66 “Cinco termos são utilizados neste versículo (‘quebra’, ‘esmiúça’, ‘quebra’, ‘fará em pedaços’,
‘esmiuçará’) para enfatizar o poder tremendo que este quarto império exerceria. Roma dominava as
nações com mão de ferro e, como um enorme taco de ferro, quebrou todos os que resistiram à sua
vontade”. Miller, Daniel, 95.
67 “Essa falta de coesão significa a eventual dissolução do império romano, mas a influência
contínua de suas instituições. Assim, grande parte do patrimônio de Roma dura até hoje,
especialmente no Ocidente (Europa e Américas), mas todas as tentativas na história subsequente de
reviver um arremedo do Império Romano com o seu poder falharam”. Steinmann, Daniel, 137.
68 Leupold, Exposition of Daniel, 120, sugere que isso se refere à “descendência romana e
germânica e outras descendências intercasamentárias – um experimento de caldeira de fusão – mas a
descendência resultante não foi o material de que são feitos impérios duradouros”. Em contraste,
Collins, Daniel, 170, vê este versículo como “uma referência a um ou outro dos casamentos
interdinásticos dos ptolomeus e selêucidas, sendo o primeiro o de Antíoco II com Berenice, em 252
a.C.; o segundo, o de Ptolomeu Epifânio com Cleópatra, filha de Antíoco III, em 193-192 a.C. Esses
casamentos são mencionados em Daniel 11.6, 17”.
69 “A qualidade dos respectivos impérios se deteriora quando o olhar se move para baixo, da
cabeça de ouro (Babilônia) para o peito de prata, o ventre e as coxas de bronze, as pernas de ferro, e,
finalmente, os pés de uma mistura de ferro e barro, mas o quadro como um todo é tão impressionante
como a torre de Babel em Gênesis 11. Este é um monumento glorioso à realização política humana.
No entanto, os pés de ferro e de barro implicam numa instabilidade fundamental para o colosso”.
Block, “Preaching Old Testament Apocalyptic”, CTJ 41/1 (2006) 40.
70 Veja a nota em Daniel 2.32-43 na Bíblia de Estudo NVI. Muitos comentaristas modernos
argumentam em favor de Babilônia, Média, Pérsia e Grécia. Veja p. 70, nota 1 acima.
71 Longman, Daniel, 82, alerta: “Embora ele [o sonho] comece no presente concreto, é uma
estratégia errada seguir pela história e associar os diferentes estágios da estátua com impérios em
particular. A visão pretende comunicar algo mais geral, mas também maior: Deus é soberano; ele está
no controle apesar das condições presentes”. Cf. Lucas, Daniel, 79: “O ‘mistério’ que ele [o sonho]
revela não são os detalhes do curso dos eventos na história, mas o fato de que a história está sob o
controle de Deus e que ela tem um propósito, que será alcançado”. Cf. Duguid, Daniel, 37: “A
passagem em si virtualmente não nos dá dados sobre as características destes reinos, porque ela
pretende nos dar uma filosofia da história em vez de uma análise precisa da história por vir”. Estes
autores obviamente desejam evitar os debates intermináveis e infrutíferos sobre a identidade destes
reinos. Mas a solução não reside no enfraquecimento da especificidade desta revelação,
transformando-a em uma filosofia generalizada da história (Dn 2.37-38 claramente identifica o reino
da Babilônia, enquanto Dn 8.20-21 fala especificamente do reino Medo-Persa e o reino da Grécia),
mas em focar na mensagem específica desta narrativa.
72 “Os dedos do pé, em geral, representam os reinos em que o Império Romano se separou quando
a desintegração ocorreu... O número dez é definitivamente um número simbólico como geralmente os
números são em sonhos ou visões desse tipo... Dez representa a totalidade de qualquer número que
exista”. Leupold, Exposition of Daniel, 122. O número “dez” é muitas vezes retomado deste capítulo
quando se mencionam os “dez chifres” em Daniel 7.7. A suposição é de que a estátua deve ter tido
dez dedos do pé, já que as pessoas normais têm dez dedos. Mas já que o número “dez” não é
mencionado neste capítulo, não devemos complicar o sermão, criando um problema aqui.
73 “Quando chegar a hora de Deus, o seu reino vai requerer a destruição dos reinos terrenos, em
vez de seu trabalho através deles”. Goldingay, Daniel, 59.
74 “Daniel é honrado pelo que seu Deus fez, não pelo que ele próprio fez”. Longman, Daniel, 82.
75 Para ver argumentos de que “o livro de Daniel pode ser o pano de fundo primário para o ensino
dos Evangelhos sobre o Reino”, veja David Wenham, “The Kingdom of God and Daniel”, ExpTim
98/5 (1987) 132-34; veja também Craig Evans, “Daniel in the New Testament: Visions of God’s
Kingdom”, 490-527. Para a influência mais geral de Daniel sobre o Novo Testamento, veja Adela
Yarbro Collins, “The Influence of Daniel on the New Testament”, 90-123.
76 Veja p. 94, nota 64 acima.
77 David Barrett e Todd M. Johnson, World Christian Encyclopedia (2 ed. Nova York: Oxford
University Press, 2001), I, 11. Eles estimam que o número de mártires cristãos no século 20 foi de 45
milhões de pessoas.
78 “Open Doors’ 2009 World Watch List”. Para ver perseguição em países específicos, veja Paul
Marshall, Their Blood Cries Out: The Worldwide Tragedy of Modern Christians Who Are Dying for
Their Faith.
79 Isaac Watts, 1719, “Jesus Shall Reign”, alt.
CAPÍTULO 3
Os amigos de Daniel na fornalha de fogo ardente
Daniel 3.1-30
“E quem é o deus que vos poderá livrar das minhas mãos?”.
“Não há outro deus [a não ser o Deus de Israel] que possa
livrar como este”.
Daniel 3.15, 29
Daniel 3 relata uma história fascinante sobre a capacidade de Deus de
libertar seu povo, mesmo da morte certa. Atualmente, esta história oferece
conforto ao sofrido povo de Deus do mesmo modo como confortou Israel
quando penava no exílio. Ela também encoraja o povo de Deus a
permanecer fiel a ele, independentemente das ameaças que enfrentar.
Infelizmente, alguns comentaristas induzem os pregadores na direção da
moralização antropocêntrica. Um afirma: “É interessante observar que
havia apenas três homens em toda a vasta multidão que se recusaram a se
curvar diante da imagem de Nabucodonosor [3.12]. Isso destaca o fato de
que defendera causa de Deus será, muitas vezes, uma atividade solitária.
Há momentos na vida de cada um que, a fim de fazer o certo, não se pode
simplesmente esconder no meio da multidão; é preciso aguentar
praticamente sozinho”.1 Isso pode ser verdade, mas este não é o foco da
passagem. Outro comentarista usa até mesmo a raiva do rei (3.19) como um
exemplo de advertência: “Você reage com raiva desmedida como
Nabucodonosor?... O antídoto para a raiva excessiva, ou qualquer outra
resposta idólatra ao não conseguir fazer a sua vontade é desistir do ídolo por
amor a Deus”.2 A única maneira de evitar esse moralismo esmagador é
focar a aplicação sobre a meta original do autor para Israel no exílio.
Novamente, um sermão é mais eficaz quando tem o formato de uma bala
que penetra no coração, em vez de chumbinhos que mal arranham a
superfície.
Texto e contexto
A unidade textual, mais uma vez, é bastante óbvia. Daniel 3.1 prepara o
terreno para a nova narrativa: “O rei Nabucodonosor fez uma imagem de
ouro... na província da Babilônia”. Depois da recusa de Sadraque, Mesaque
e Abede-Nego em reverenciar a imagem, a punição de serem jogados na
fornalha de fogo e a salvação milagrosa, a história termina, assim como o
capítulo 2.49, com o rei promovendo-os “na província da Babilônia”
(3.30).3 O texto da pregação, portanto, é Daniel 3.1-30.
Embora não seja tão longo quanto o capítulo 2, Daniel 3 é, também, um
longo capítulo.4 Leupold afirma, com razão: “Será difícil partir o capítulo
em vários textos para sermões separados. É uma peça coesa demais para
isso”. Em vez de vários textos de pregação, ele sugere a leitura de todo o
capítulo antes do sermão “e, depois, talvez, escolher os versículos 24-27
como um texto, lançando mão de todo o capítulo no decurso do sermão
quando necessário”.5 Concordo que toda a narrativa deve ser lida antes do
sermão, especialmente para que as pessoas ouçam a história inteira e não
percam a sátira evidente na repetição consecutiva das longas listas de
“todos os oficiais das províncias” (v. 2-3) e “de toda sorte de música” (v.
5,7; consulte “Recursos literários”, abaixo). Mas eu sugiro que toda a
narrativa sirva de texto de pregação, porque selecionar apenas os versículos
24-27 negligencia a poderosa tensão na história: “Se o nosso Deus... quer
livrar-nos, ele nos livrará da fornalha de fogo ardente... Se não, não
serviremos a teus deuses” (v. 17-18). Além disso, selecionar apenas uma
parte da narrativa pode levar a um tema errado.6
No livro de Daniel, esta narrativa sobre os três amigos de Daniel segue
naturalmente até 2.49, que nos informa que “constituiu o rei a Sadraque,
Mesaque e Abede-Nego sobre os negócios da província da Babilônia;
Daniel, porém, permaneceu na corte do rei”. Isso explica a presença dos três
amigos nessa narrativa e, possivelmente, a ausência de Daniel na planície
de Dura. A história em que Deus salva os amigos de Daniel da fornalha de
fogo ardente tem sua contrapartida no capítulo 6, onde Deus salva Daniel
dos leões.7 A frase “povos, nações e homens de todas as línguas” (3.4) é
repetida não só em 3.7 e 3.29 (singular), mas também em 4.1; 5.19; 6.25;
7.14. Isso ressalta a perspectiva universal dessas narrativas aramaicas.
No contexto bíblico mais amplo, uma frase semelhante a “toda tribo,
língua, povo e nação” é repetida muitas vezes no livro do Apocalipse.8 Esta
narrativa também tem alguns paralelos com as histórias de José e Ester. “O
movimento [nas três histórias] é de acusação indecente, punição injusta e
morte iminente para resgate milagroso”.9 Mais significativamente, a
linguagem de Daniel 3.5, “vos prostrareis e adorareis a imagem de ouro”,
ecoa as palavras do Decálogo: “Não as adorarás, nem lhes darás culto” (Êx
20.5). A infidelidade de Israel ao Senhor, curvando-se e adorando outros
deuses, o levou ao seu exílio (p. ex., Dt 4.25-27; 29.25-28; Ez 22.3-4,15;
Am 5.26-27). O fato de os amigos de Daniel se recusarem a curvar-se
diante da estátua do rei e a adorar os seus deuses os define como
verdadeiros israelitas.
Além disso, a história do povo de Deus sendo salvo da fornalha de fogo
ardente tem alguns paralelos metafóricos interessantes no Antigo
Testamento. Deuteronômio 4.20 fala do Egito como “fornalha de ferro”: “O
SENHOR vos tomou e vos tirou da fornalha de ferro do Egito, para que lhe
sejais povo de herança”.10 Mais tarde, Isaías (48.10) fala do exílio na
Babilônia como uma “fornalha da aflição”: o Senhor diz: “Eis que te
acrisolei, mas disso não resultou prata; provei-te na fornalha da aflição”.11
Características literárias
Antes de explorar as principais características literárias que nos ajudarão a
entender o ponto desta narrativa, vamos primeiro identificar alguns
artifícios retóricos menores. A pergunta do rei, no versículo 15, “quem é o
deus que vos poderá livrar das minhas mãos?”, é uma pergunta retórica que
espera a resposta “não há tal deus”. Aquecer “a fornalha sete vezes mais do
que se costumava” (v. 19) é uma hipérbole. Uma vez que o número “sete” é
o número da perfeição, isso significa, neste contexto, alimentar a fornalha
tanto quanto possível. O relato de que os próprios servos que “se
prostraram... e adoraram a imagem de ouro” (v. 7) tornaram-se as primeiras
testemunhas do milagre de Deus na preservação dos seus (v. 27) é ironia
dramática.12 Vamos agora analisar as principais características literárias de
estrutura narrativa, enredo, descrição da personagem e repetição.
Estrutura da narrativa
A narrativa consiste de quatro cenas:13
Cena 1: Na planície de Dura (3.1-7)
A. O rei Nabucodonosor fabrica uma imagem de ouro e manda
buscar seus oficiais (3.1-3)
B. O arauto proclama: Ao ouvirdes o som, adorem a imagem (3.4-6)
C. Todo mundo se ajoelha e adora a imagem de ouro (3.7)
Personagens: Rei Nabucodonosor/arauto e todos os seus oficiais
Cena 2: Na presença do rei (3.8-20)
A. Alguns caldeus acusam os amigos de Daniel (3.8-12)
B. O rei ameaça os amigos de Daniel (3.13-15)
C. Os amigos de Daniel se recusam a adorar a imagem de ouro
(3.16-18)
D. O rei ordena que os amigos de Daniel sejam jogados na fornalha
(3.19-20)
Personagens: Caldeus/o rei e os amigos de Daniel
Cena 3: Na fornalha de fogo ardente (3.21-25)
A. Soldados amarram os três amigos e os jogam na fornalha (3.21-
23)
B. O rei vê quatro homens, soltos, andando no fogo (3.24-25)
Personagens: soldados/rei/conselheiros e os amigos de Daniel
Cena 4: Perto da fornalha (3.26-30)
A. O rei manda os amigos de Daniel saírem do fogo (3.26)
B. Os oficiais do rei testemunham o milagre (3.27)
C. O rei bendiz a Deus, decreta liberdade para adorar esse Deus e
promove os amigos de Daniel (3.28-30)
Personagens: O rei/os oficiais e os amigos de Daniel
O enredo
O narrador descreve o cenário em 3.1: o rei Nabucodonosor fez uma
imagem de ouro gigante e “levantou-a no campo de Dura, na província da
Babilônia”. Na sequência, ele relata os incidentes preliminares: o rei
convidou todas as autoridades das províncias “para que viessem à
consagração da imagem” (v. 2); eles vêm (v. 3); o arauto apregoa que todos
devem se prostrar ao som da música e adorar a imagem ou serão, “no
mesmo instante”, jogados na fornalha de fogo ardente (v. 4-6); eles ouvem a
música e todos se ajoelham e adoram a imagem (v. 7).
O incidente ocasionador começa no versículo 8, com a cena 2. Alguns
caldeus acusam os amigos de Daniel de desobedecerem ao rei por não
adorarem a imagem de ouro (v. 8-12). A tensão aumenta à medida que o rei,
“irado e furioso”, manda buscar os três homens. Será que ele vai mandar
jogá-los “no mesmo instante” (v. 6) na fornalha? Mas o rei não confia
realmente nos caldeus. Não podia acreditar que alguém se atrevesse a
desobedecê-lo. A tensão se prolonga quando o rei pergunta aos três amigos,
sem conseguir acreditar: “É verdade?” (v. 14). Ele lhes dará a oportunidade
de demonstrar que não é verdade. A orquestra vai tocar mais uma vez e, se
eles se ajoelharem e adorarem a imagem, tudo ficará bem. “Porém, se não a
adorardes, sereis, no mesmo instante, lançados na fornalha de fogo ardente.
Equem é o deus que vos poderá livrar das minhas mãos?” (v. 13-15).
O que eles vão fazer? Eles respondem enfaticamente que eles não veem
necessidade de resposta: “Quanto a isto não necessitamos de te responder”
(v. 16). Independentemente de o Deus deles livrá-los da fornalha ou não,
eles não vão servir aos deuses do rei nem adorar a imagem de ouro (v. 16-
18).
A tensão aumenta: o que o rei faz agora? Ele está tão bravo com essa
insolência que seu rosto se contorce numa careta e ele ordena que a fornalha
seja alimentada para atingir calor máximo. Na sequência, ordena que seus
soldados mais fortes amarrem os três homens e os lancem ao fogo (v. 19-
20). Os soldados amarram os três homens e os lançam ao fogo, perdendo a
própria vida ao fazê-lo (v. 21-22). A narrativa atinge seu clímax no
versículo 23: “Sadraque, Mesaque e Abede-Nego caíram14 atados dentro da
fornalha sobremaneira acesa”, sem qualquer possibilidade de escapar.
O narrador mantém a tensão no clímax por não nos informar
imediatamente sobre a resolução deste conflito. Ele nos permite ver o que
está acontecendo através dos olhos do rei. O rei fica surpreso e se levanta
rapidamente. O que ele vê? O narrador usa o diálogo para diminuir o ritmo
(atraso de ritmo). O rei pergunta aos seus conselheiros: “Não lançamos nós
três homens atados dentro do fogo?”. Eles respondem: “É verdade, ó rei”.
Ele responde: “Eu, porém, vejo quatro homens soltos, que andam passeando
dentro do fogo, sem nenhum dano; e o aspecto do quarto é semelhante a um
filho dos deuses” (v. 24-25). O rei, então, corre até a abertura inferior da
fornalha e grita para Sadraque, Mesaque e Abede-Nego saírem do fogo, e
eles saem (v. 26). Mas eles estão feridos? Os oficiais do rei conferem e
descobrem que “o fogo não teve poder algum sobre os corpos destes
homens; nem foram chamuscados os cabelos da sua cabeça, nem os seus
mantos se mudaram, nem cheiro de fogo passara sobre eles” (v. 27). O
conflito foi totalmente resolvido. O desfecho é que o rei bendiz a Deus,
decreta que qualquer pessoa que blasfeme contra este Deus seja executada e
declara que “não há outro deus que possa livrar como este” (v. 28-29). Na
conclusão, o rei promove os amigos de Daniel (v. 30).
Podemos esboçar o enredo como uma única trama:
Descrição do personagem
Nabucodonosor é o antagonista. “Ele é o único personagem ‘de pleno
direito’ na história. Ele fala, age e mostra emoções”.15 Duas vezes o
narrador descreve a raiva do rei, “irado e furioso” e “se encheu de fúria”, na
segunda vez acrescentando o vívido “transtornado o aspecto do seu rosto”
(v. 13,19). Quando viu quatro homens no fogo, em vez de três, ele “se
espantou” (v. 24). Seu personagem é mais bem desenvolvido por suas
palavras e ações: ele mostrou seu orgulho quando fabricou a imagem de
ouro que todos os povos deviam adorar; revelou sua arrogância quando
perguntou: “E quem é o deus que vos poderá livrar das minhas mãos?”. (v.
15); ratificou sua raiva furiosa e hostilidade quando ordenou que a fornalha
fosse aquecida sete vezes mais do que o normal (v. 19). Mas, quando viu a
libertação milagrosa, foi rápido em bendizer o Deus de Israel, decretar que
aqueles que blasfemarem contra este Deus serão executados, fazer uma
declaração surpreendente para um politeísta: “Não há outro deus que possa
livrar como este” e promover os amigos de Daniel (v. 28-30).
O narrador retrata os servos da Babilônia como criaturas frias, mecânicas.
Ele usa a sátira16 na repetição consecutiva da lista de servos. Lendo esta
lista em voz alta, não se pode deixar de sorrir: “Então, o rei Nabucodonosor
mandou ajuntar os sátrapas, os prefeitos, os governadores, os juízes, os
tesoureiros, os magistrados, os conselheiros e todos os oficiais das
províncias, para que viessem à consagração da imagem que o rei
Nabucodonosor tinha levantado. Então, se ajuntaram os sátrapas, os
prefeitos, os governadores, os juízes, os tesoureiros, os magistrados, os
conselheiros e todos os oficiais das províncias, para a consagração da
imagem que o rei Nabucodonosor tinha levantado; e estavam em pé diante
da imagem que Nabucodonosor tinha levantado” (v. 2,3). Tudo soa muito
empolado e mecânico.17 Os servos da Babilônia aparecem como marionetes.
Logo a banda vai tocar e todos eles vão ajoelhar. O narrador repete a lista
de servos três vezes (v. 2,3, e uma versão mais curta no v. 27) e a lista de
instrumentos musicais, quatro vezes (v. 5,7,10,15).18
Os amigos de Daniel são os protagonistas. O narrador os descreve como
verdadeiros israelitas que se recusam a se curvar e adorar outros deuses e
bravamente sofrem as consequências. Ele os descreve como sendo “atados
com os seus mantos, suas túnicas e chapéus e suas outras roupas” (v. 21) –
que se inflamariam rapidamente. Também, quando foram examinados
depois, “o fogo não teve poder algum sobre os corpos destes homens; nem
foram chamuscados os cabelos da sua cabeça, nem os seus mantos se
mudaram, nem cheiro de fogo passara sobre eles” (v. 27). No final, o rei os
descreve como confiantes em seu Deus, desobedecendo à ordem do rei, e
“preferindo entregar o seu corpo a servirem e adorarem a qualquer outro
deus, senão ao seu Deus” (v. 28).19 A única fala deles na narrativa (v. 16-18)
mostra-os como israelitas fiéis, corajosos, que escolheram a possibilidade
de morte em vez de servirem aos deuses do rei e adorarem sua imagem de
ouro.
Repetição
A repetição também pode nos ajudar a discernir onde o narrador deseja
colocar a tônica. Nove vezes ele repete que Nabucodonosor “fez/tinha
levantado/levantou” uma imagem de ouro (v. 1,2,3 [2x],5,7,12,14,18). Três
vezes o narrador repete a frase “povos, nações e homens de todas as
línguas” (v. 4,7,29 no singular): Nabucodonosor exige submissão universal.
O narrador repete os termos “prostrar e adorar” cinco vezes (v.
5,6,10,11,15). Ele esclarece o significado de prostrar-se diante da imagem,
ligando quatro vezes adorar a imagem de ouro com o servir (pelāʾ) aos
deuses do rei (v. 12,14,18,28). Ele usa a mesma palavra, pelāʾ, para servir
ao Deus de Israel (v. 17).
Ele menciona “a fornalha de fogo ardente” nove vezes (v. 6, 11, 15, 17,
20, 21, 22, 23, 26). Treze vezes ele cita “Sadraque, Mesaque e Abede-
Nego” (v.12,13,14,16,19,20,22,23,26 [2x],28,29,30). Três vezes o narrador
nos informa que eles “foram atados” (v. 21,23,24), levando à sua reversão
maravilhosa no fogo: “soltos” (v. 25). O mais importante para detectar o
tema desta narrativa é a repetição da palavra “livrar”; o rei faz a pergunta
retórica: “E quem é o deus que vos poderá livrar (shêzāb) das minhas
mãos?” (v. 15); os amigos de Daniel duas vezes repetem a palavra “livrar”:
“Se o nosso Deus, a quem servimos, quer livrar-nos, ele nos livrará da
fornalha de fogo ardente e das tuas mãos, ó rei” (v. 17). Finalmente, o rei
reconhece, com uma palavra aramaica diferente, que “não há outro deus que
possa livrar (neṣal) como este” (v. 29).
Lucas propõe uma estrutura quiástica para esta narrativa:
A Nabucodonosor decreta a adoração da imagem de ouro (1-7)
B Os judeus acusados (8-12)
C Os judeus ameaçados (13-15)
D Os judeus confessam a sua fé (16-18)
C’ Os judeus punidos (19-23)
B’ Os judeus vindicados (24-27)
A’ O decreto de Nabucodonosor honrando os judeus
e seu Deus (28-30)
Lucas observa: “Isso mostra uma estrutura quiástica que destaca as
palavras ditas por Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, nos versículos 16-18,
que são as únicas palavras que eles falam em toda a história. Este é
claramente um ponto-chave na história.”20
Interpretação teocêntrica
Uma vez que Deus é mencionado cinco vezes na última metade da
narrativa (v. 17,26,28 [2x],29), parece que a ênfase teocêntrica está
concentrada nessa última metade. Mas, compreendido corretamente, o foco
teocêntrico é evidente desde o início. Na narrativa precedente, o rei
Nabucodonosor disse a Daniel: “Certamente, o vosso Deus é o Deus dos
deuses, e o Senhor dos reis” (2.47). Talvez devido à passagem do tempo
(veja p. 115, nota 37), o rei tenha se esquecido desta maravilhosa confissão,
pois, em Daniel 3, eledesafia diretamente “o Deus dos deuses, e o Senhor
dos reis”. Em qualquer caso, o orgulho do rei leva a melhor sobre ele. Ele
fez uma imagem de ouro e ordenou que todos os “povos, nações e homens
de todas as línguas” se curvassem e adorassem a imagem – o que implica a
não servir “o Deus dos deuses”, mas os deuses do rei (veja 3.12,14,18,28).
Todos os oficiais das várias províncias babilônicas obedecem, à exceção
dos três amigos de Daniel, que se recusam a servir aos deuses do rei
(3.12,14). O rei pergunta arrogantemente: “E quem é o deus que vos poderá
livrar das minhas mãos?” (3.15). O rei, que derrotou Israel e o seu Deus
(1.2), acha que ele (e seus deuses) é mais poderoso que o Deus de Israel. Os
amigos de Daniel respondem: “Se o nosso Deus, a quem servimos, quer
livrar-nos, ele nos livrará da fornalha de fogo ardente e das tuas mãos, ó
rei.21 Se não, fica sabendo, ó rei, que não serviremos a teus deuses, nem
adoraremos a imagem de ouro que levantaste” (3.17-18). Eles escolheram
“o Deus dos deuses”.
E quem é o deus que vos poderá livrar das minhas mãos?
Mas o rei ainda se agarra à ideia de que ele, com seus deuses, é mais
poderoso do que o Deus de Israel. Então, manda jogar os servos de Deus na
fornalha de fogo ardente. Para grande espanto do rei, eles não são
incinerados. Em vez disso, o rei relata: “Eu, porém, vejo quatro homens
soltos, que andam passeando dentro do fogo, sem nenhum dano; e o aspecto
do quarto é semelhante a um filho dos deuses” (3.25). Logo em seguida, o
rei identifica esta quarta pessoa como um anjo enviado por Deus (3.28).
Este milagre de salvação convence o rei, mais uma vez, que o Deus dos três
homens é, de fato, “o Deus dos deuses”. Ele chama: “Sadraque, Mesaque e
Abede-Nego, servos do Deus Altíssimo, saí e vinde!” (3.26), e bendiz o
Deus deles, “que enviou o seu anjo e livrou os seus servos, que confiaram
nele” (3.28). O rei, então, decreta que “todo povo, nação e língua que disser
blasfêmia contra o Deus de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego seja
despedaçado, e as suas casas sejam feitas em monturo; porque não há outro
deus que possa livrar como este” (3.29). Embora o rei continuasse
politeísta, ele confessa que “não há outro deus que possa livrar como este”.
O Deus de Israel é “o Deus dos deuses”, o único que pode libertar o seu
povo de uma fornalha de fogo ardente.
Tema e objetivo textual
O enredo, as repetições e a interpretação teocêntrica parecem tornar a
mensagem desta narrativa bastante fácil de discernir. Podemos formular o
tema da seguinte forma: “Por intermédio de um anjo, Deus livra seus filhos
fiéis da morte certa na fornalha ardente de Nabucodonosor”.22 Este é um
bom resumo da narrativa, mas não é a mensagem que Israel iria ouvir. Ele
também não consegue captar a tensão na história: “Se o nosso Deus... quer
livrar-nos, ele nos livrará da fornalha de fogo ardente. Se não... não
serviremos a teus deuses” (3.17-18). Os amigos levantam a questão sobre a
capacidade de Deus salvá-los da fornalha ardente. Em seguida,
corajosamente declaram que, mesmo que o seu Deus não queira livrá-los,
eles não servirão aos deuses da Babilônia. A questão é sobre a recusa deles
em servir a outros deuses.23 Significativamente, esta mensagem é dirigida
aos israelitas que sofrem no exílio porque adoraram a outros deuses.24 A
mensagem textualmente específica, portanto, é: Nosso Deus soberano é
capaz de livrar seus filhos oprimidos que se recusam a servir a outros
deuses – mesmo de uma fornalha de fogo ardente.
Para determinar o objetivo do autor em proclamar esta mensagem,
devemos novamente considerar as circunstâncias do público original. Os
israelitas no exílio estavam sofrendo com o que Deus chamou de “fornalha
da aflição” (Is 48.10; cf. Dt 4.20).25 Essas pessoas tinham ouvido falar que o
rei Nabucodonosor tinha levado os utensílios da casa de Deus em Jerusalém
e os colocado “na casa do tesouro do seu deus” (1.2; 605 a.C.). Eles
também tinham ouvido falar que o rei havia retornado em 587 a.C. e tinha
arrasado os muros de Jerusalém, queimado o santo templo de Deus e levado
a maioria dos habitantes para o exílio. Ao que tudo indica, os deuses
babilônicos haviam derrotado o Deus de Israel; eles pareciam ser muito
mais poderosos do que o Senhor. Portanto, o primeiro objetivo do autor
com esta narrativa era reafirmar ao povo oprimido de Deus no exílio que o
Deus deles é soberano e capaz de livrá-los da fornalha do exílio.
Mas provavelmente o autor tinha um segundo objetivo em mente também.
Ele esboçou os amigos de Daniel como verdadeiros israelitas. Muito
embora não tivessem certeza de que Deus os salvaria da fornalha de fogo
ardente, eles corajosamente disseram ao rei: “Fica sabendo, ó rei, que não
serviremos a teus deuses, nem adoraremos a imagem de ouro que
levantaste” (3.18). Eles foram fiéis ao seu Deus e obedientes à sua lei: “Não
as adorarás, nem lhes darás culto” (Êx 20.5). Mesmo com a morte à sua
frente, eles permaneceram fiéis ao Deus da aliança. Nas palavras do rei,
“não quiseram cumprir a palavra do rei, preferindo entregar o seu corpo, a
servirem e adorarem a qualquer outro deus, senão ao seu Deus” (3.28). Os
israelitas que ouviram esta história no exílio teriam se identificado com
esses verdadeiros israelitas. Um segundo objetivo desta narrativa, portanto,
era encorajar o povo de Deus no exílio a não servir outros deuses, mesmo
que tal recusa pudesse resultar em morte.26
Maneiras de pregar a Cristo
À primeira vista, a pregação de Cristo a partir de Daniel 3 parece bastante
simples. Pregadores, passados e atuais, muitas vezes identificaram a quarta
pessoa na fornalha ardente como uma aparição do Cristo pré-encarnado.27
Mesmo que essa interpretação seja linguisticamente possível – muitos
comentaristas pensam que não é28 – ela por si só não faz um sermão
cristocêntrico. Ao contrário, pregar um sermão cristocêntrico é integrar a
mensagem de texto do Antigo Testamento com o clímax da autorrevelação
de Deus em seu Filho, Jesus, no Novo Testamento.29 Como, então, vamos
avançar com esta mensagem para a pessoa, obra, e/ou ensino de Jesus
Cristo no Novo Testamento? Como não há nenhuma promessa da vinda do
Messias nesta narrativa, nem um contraste com a mensagem do Novo
Testamento, vamos verificar as cinco maneiras restantes.
Progressão histórico-redentiva
A progressão histórico-redentiva oferece uma boa opção. No início da
história da redenção, Deus enviou seu anjo para libertar seu povo de Israel
da escravidão no Egito (Êx 14.19). Moisés chamou o Egito de “fornalha de
ferro” (Dt 4.20; cf. 1Rs 8.51; Jr 11.4). Mais tarde, Deus prometeu libertar
seu povo do exílio babilônico (Is 43.1-7), que ele chamou de “fornalha da
aflição” (Is 48.10,20). Enquanto Israel estava no exílio, Deus enviou seu
anjo para livrar Sadraque, Mesaque e Abede-Nego da fornalha de fogo
ardente de Nabucodonosor. Na plenitude dos tempos, Deus enviou seu
único Filho para salvar seu povo da fornalha do inferno. Jesus disse que, no
fim dos tempos, “Mandará o Filho do Homem os seus anjos, que ajuntarão
do seu reino todos os escândalos e os que praticam a iniquidade e os
lançarão na fornalha acesa;30 ali haverá choro e ranger de dentes. Então, os
justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai. Quem tem ouvidos
[para ouvir], ouça” (Mt 13.42-43).
Tipologia
A tipologia oferece outra opção para irmos a Jesus Cristo. Na história da
interpretação e da pregação cristã, a quarta pessoa que se juntou aos três
amigos na fornalha ardente tem sido muitas vezes identificada com o Cristo
pré-encarnado.31 Mas esta identificação repousa sobre uma base fraca, pois
o texto não fala do Anjo do Senhor, mas de “o aspecto... é semelhante a um
filho dos deuses” e “anjo” de Deus (3.25,28). Uma defesa melhor pode ser
ver o anjo como um tipo de Cristo.32 Jerônimo considera o anjo como “uma
prefiguração tipológica de Cristo”.33 Observe as analogias e escalações:
como o anjo representa a presença de Deus com o seu povo, também Jesus
representa a presença de Deus com o seu povo – só que de uma forma mais
direta: o próprioFilho de Deus conosco, o Emanuel, “Deus conosco” (Mt
1.23). Assim como o anjo salvou os três amigos de queimarem na “fornalha
de fogo ardente”, também Jesus salva o povo de Deus de queimar na
“fornalha acesa” do fogo eterno (Mt 13.42-43; cf. Jo 3.16). Talvez
pensando nessa história da fornalha de fogo ardente,34 Jesus chama o
inferno de “fornalha acesa; ali haverá choro e ranger de dentes” (Mt 13.42).
Além disso, embora o anjo tenha salvado os três amigos da morte, eles
ainda iriam morrer num momento posterior. Mas Jesus salva o povo de
Deus da morte para nunca morrer novamente. Jesus diz: “Todo o que vive e
crê em mim não morrerá, eternamente” (Jo 11.26). Além disso, embora o
anjo tenha se juntado aos amigos na fornalha, ele não deu a sua vida para
salvá-los. Jesus entrou para a humanidade e deu a sua própria vida para
salvar o povo de Deus.
Analogia
Pode-se também usar a analogia como um caminho para Cristo no Novo
Testamento. Assim como Nabucodonosor tentou os amigos de Daniel,
“prostrai-vos e adorai a imagem que fiz”, assim também o diabo tentou
Jesus: “Mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a glória deles e lhe disse:
Tudo isto te darei se, prostrado, me adorares”.35 Os amigos de Daniel
disseram ao rei: “não serviremos a teus deuses” (Dn 3.18). Jesus disse ao
diabo: “Retira-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor, teu Deus,
adorarás, e só a ele darás culto” (Mt 4.9-10).
Pode-se, também, elaborar uma analogia a partir do objetivo do autor.
Como o objetivo do autor era incentivar o povo de Deus no exílio a não
servir a outros deuses, mesmo que tal recusa pudesse resultar em morte,
igualmente Jesus exortou seus seguidores a serem fiéis até a morte. Pode-se
apoiar essa analogia com os ensinamentos de Jesus: “Eis que eu vos envio
como ovelhas para o meio de lobos... por minha causa sereis levados à
presença de governadores e de reis, para lhes servir de testemunho, a eles e
aos gentios... Sereis odiados de todos por causa do meu nome; aquele,
porém, que perseverar até ao fim, esse será salvo” (Mt 10.16-22). E,
novamente, “Digo-vos ainda: todo aquele que me confessar diante dos
homens, também o Filho do Homem o confessará diante dos anjos de Deus;
mas o que me negar diante dos homens será negado diante dos anjos de
Deus” (Lc 12.8-9). Jesus também disse: “Quem ama a sua vida perde-a;
mas aquele que odeia a sua vida neste mundo preservá-la-á para a vida
eterna. Se alguém me serve, siga-me, e, onde eu estou, ali estará também o
meu servo. E, se alguém me servir, o Pai o honrará” (Jo 12.25-26).
Temas longitudinais
Pode-se, também, traçar do Antigo para o Novo Testamento o tema da
presença de Deus com seu povo, a fim de livrá-lo. Deus estava com José
quando ele chegou como um escravo no Egito, livrou-o da prisão e o
colocou em um alto cargo (Gn 39.2,23; 41.38-40). Deus também estava
com Moisés quando ele o mandou de volta ao Egito para libertar seu povo
(Êx 3.12). Deus mostrou sua presença no Egito com sinais e prodígios e
libertou a Israel (Êx 7-12, 15). Deus, na forma de seu anjo, estava com
Sadraque, Mesaque e Abede-Nego na fornalha ardente e os livrou (Dn
3.25). Posteriormente, na cova dos leões, Daniel disse: “O meu Deus enviou
o seu anjo e fechou a boca aos leões, para que não me fizessem dano” (Dn
6.22). Por intermédio de Sofonias, Deus prometeu: “O SENHOR, teu Deus,
está no meio de ti, poderoso para salvar-te... naquele tempo, procederei
contra todos os que te afligem... Naquele tempo, eu vos farei voltar e vos
recolherei” (Sf 3.17-20). Finalmente, Deus mostrou a sua presença entre
nós, vindo à Terra em seu Filho, Emanuel, “Deus conosco” (Mt 1.23). Um
anjo disse a José para chamar a criança de “Jesus, porque ele salvará o seu
povo dos pecados deles” (Mt 1.21). Paulo escreve que Deus “nos libertou
do império das trevas e nos transportou para o reino do Filho do seu amor,
no qual temos a redenção, a remissão dos pecados” (Cl 1.13-14).
Referências no Novo Testamento
O apêndice do Novo Testamento grego relaciona umas dezessete
referências ou alusões a versículos ou frases em Daniel 3, mas apenas
algumas delas, como Mateus 13.42,50 (citado acima), são úteis para passar
de Daniel 3 a Jesus Cristo no Novo Testamento. Uma concordância tópica,
no entanto, vai levar a outras citações do Novo Testamento que podem ser
usadas no sermão.
Ao falar da perseguição iminente, Jesus disse aos seus discípulos: “Digo-
vos, pois, amigos meus: não temais os que matam o corpo e, depois disso,
nada mais podem fazer. Eu, porém, vos mostrarei a quem deveis temer:
temei aquele que, depois de matar, tem poder para lançar no inferno. Sim,
digo-vos, a esse deveis temer. Não se vendem cinco pardais por dois asses?
Entretanto, nenhum deles está em esquecimento diante de Deus. Até os
cabelos da vossa cabeça [‘nem foram chamuscados os cabelos da sua
cabeça’; Dn 3.27] estão todos contados. Não temais! Bem mais valeis do
que muitos pardais” (Lc 12.4-7).
Paulo sofreu perseguição e ainda assim desejava permanecer fiel a Cristo.
Ele escreveu aos cristãos de Filipos: “Segundo a minha ardente expectativa
e esperança de que em nada serei envergonhado; antes, com toda a ousadia,
como sempre, também agora, será Cristo engrandecido no meu corpo, quer
pela vida, quer pela morte. Porquanto, para mim, o viver é Cristo, e o
morrer é lucro” (Fp 1.20-21).
Pedro encorajou os cristãos que sofriam perseguição: “Santificai a Cristo,
como Senhor, em vosso coração, estando sempre preparados para responder
a todo aquele que vos pedir razão da esperança que há em vós, fazendo-o,
todavia, com mansidão e temor, com boa consciência” (1Pe 3.15-16). Pedro
pode ter tido a fornalha de fogo ardente em mente quando escreveu:
“Amados, não estranheis o fogo ardente que surge no meio de vós,
destinado a provar-vos, como se alguma coisa extraordinária vos estivesse
acontecendo; pelo contrário, alegrai-vos na medida em que sois
coparticipantes dos sofrimentos de Cristo, para que também, na revelação
de sua glória, vos alegreis exultando. Se, pelo nome de Cristo, sois
injuriados, bem-aventurados sois, porque sobre vós repousa o Espírito da
glória e de Deus” (1Pe 4.12-14; cf. 1Pe 1.6-7).
O próprio Senhor ressurreto encorajou a igreja perseguida em Esmirna:
“Não temas as coisas que tens de sofrer. Eis que o diabo está para lançar em
prisão alguns dentre vós, para serdes postos à prova, e tereis tribulação de
dez dias. Sê fiel até à morte, e dar-te-ei a coroa da vida. Quem tem ouvidos,
ouça o que o Espírito diz às igrejas: O vencedor de nenhum modo sofrerá
dano da segunda morte” (Ap 2.10-11).
Tema, objetivo e necessidade do sermão
Formulamos o tema textual como: “Nosso Deus soberano é capaz de
livrar os seus filhos oprimidos que se recusam a servir a outros deuses,
mesmo de uma fornalha de fogo ardente”. Visto que o Novo Testamento
confirma o poder de Deus para salvar, podemos manter o mesmo tema para
o sermão, interpretando a fornalha de fogo ardente tanto no sentido literal
quanto metafórico: O nosso Deus soberano é capaz de livrar seus filhos
oprimidos que se recusam a servir outros deuses, mesmo de uma fornalha
de fogo ardente.
Concluímos que o autor provavelmente tinha um duplo objetivo em
mente: “Tranquilizar o povo de Deus oprimido no exílio e reassegurar que
o Deus de Israel é soberano e é capaz de livrá-los da fornalha do exílio” e
“encorajar o povo de Deus no exílio a não servir a outros deuses, mesmo
que tal recusa possa resultar em morte”. Em um sentido muito real, a igreja
de Cristo hoje também está no exílio, pois os reinos deste mundo não são o
nosso lar, mas o reino de Deus é. Jesus disse claramente: “O meu reino não
é deste mundo” (Jo 18.36) e “Eles [meus discípulos] não são do mundo,
como também eu não sou, não pertencem ao mundo, assim como eu não
pertenço ao mundo” (Jo 17.16). Paulo escreve: “A nossa pátria está nos
céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Fp
3.20; cf. Rm 12.2 e 2Co 5.1-9). Jesus prometeu: “Na casa de meu Pai há
muitas moradas... E, quando eu for e vos preparar lugar, voltareie vos
receberei para mim mesmo, para que, onde eu estou, estejais vós também”
(Jo 14.2-3). Visto que o povo de Deus neste mundo ainda está no “exílio”,
apenas uma ligeira mudança fará com que do objetivo textual duplo seja
objetivo duplo do sermão: reassegurar ao povo de Deus, hoje, que o nosso
Deus é soberano e capaz de nos livrar da fornalha de “exílio” hoje, e
encorajar o povo de Deus a não servir a outros deuses, mesmo que tal
recusa possa resultar em morte.36
Este objetivo duplo aponta para uma necessidade dupla a ser abordada.
Por um lado, o povo de Deus pode ser muito pequeno: ele pode duvidar de
que Deus é “poderoso para salvar”, mesmo da morte certa. Por outro lado,
as pessoas podem estar servindo a deuses modernos, como o materialismo,
o consumismo, e/ou o hedonismo. Pode-se começar a introdução do sermão
ilustrando essa dupla necessidade da sociedade contemporânea com a
história de uma pessoa que não tem esperança em Deus para o futuro e,
portanto, vive totalmente para o prazer no aqui e agora. Em seguida,
pergunte se esta atitude contemporânea também se infiltrou na igreja. Em
seguida, relacione como Israel no exílio tendia a pensar que os deuses
babilônicos haviam derrotado o Deus de Israel (o Deus deles era muito
pequeno) e que eles se sentiam tentados a adorar esses deuses babilônicos.
Então reconte a história dos amigos de Daniel, suspendendo-a aqui e ali
para explicação, vá para Cristo e faça a aplicação. Em uma série de
sermões, no entanto, pode-se também dispensar uma apresentação formal
do sermão e começar imediatamente com a narrativa depois de um curto
parágrafo, relacionando-a com a última narrativa. Na exposição do sermão
abaixo, vou demonstrar esta possibilidade.
Exposição do sermão
Na última vez em que ouvimos falar do rei Nabucodonosor, ele estava
realmente impressionado com a capacidade do Deus de Daniel de relatar-
lhe seu sonho sobre a enorme estátua com a cabeça de ouro. Ele ficou ainda
mais impressionado com a interpretação: “Tu [Nabucodonosor] és a cabeça
de ouro” (2.38). O rei disse a Daniel: “Certamente, o vosso Deus é o Deus
dos deuses, e o Senhor dos reis” (2.47). Então o rei havia promovido Daniel
a governador de toda a província da Babilônia, cuja sede era na corte do rei,
na cidade da Babilônia. E os amigos de Daniel, Sadraque, Mesaque e
Abede-Nego, tornaram-se administradores sobre a província da Babilônia
(2.48-49).
É aí que essa história sobre os amigos de Daniel começa. Muitos anos se
passaram.37 Aparentemente o rei se esquecera de sua maravilhosa confissão:
“Certamente, o vosso Deus é o Deus dos deuses, e o Senhor dos reis”
(2.47). Não sei se por velhice ou apenas esquecimento normal, a memória
do rei era curta. Ele tinha sido muito bem-sucedido em expandir seu
império. Contudo, nem tudo correu bem. No ano de 594 a.C., ele teve que
reprimir uma rebelião na Babilônia. Ele também teve de fazer “uma viagem
pelas suas províncias ocidentais para cobrar os tributos de seus vassalos” e
manter e acalmar as coisas.38 Ele não queria deixar seu império se esfacelar.
O fato de ele ser a cabeça de ouro da estátua deve ter lhe subido à cabeça.
Ele quer ser mais do que apenas uma cabeça de ouro. Ele quer ser uma
estátua inteira de ouro.39 Ele quer que seu império dure eternamente.
Lemos no capítulo 3.1: “O rei Nabucodonosor fez uma imagem de ouro
que tinha sessenta côvados de altura e seis de largura; levantou-a no campo
de Dura,40 na província da Babilônia”. Sessenta côvados equivalem
aproximadamente a vinte e sete metros de altura - a altura de um prédio de
nove andares. Isso provavelmente incluía a base em que ela estava. Mas a
estátua tinha apenas seis côvados de largura, dois metros e setenta. Isso faz
com que estudiosos pensem que a estátua era um pilar alto, parcialmente
esculpido, talvez com o busto de um ser humano.41 Podemos imaginar a
estátua como uma coluna da altura de nove andares com uma figura
esculpida na parte superior. A estátua inteirinha era revestida em ouro.
A estátua de ouro inteira representava o grande rei Nabucodonosor,42 bem
como seus deuses.43 Só a cabeça de ouro nada! Nove vezes44 este capítulo
repete que Nabucodonosor “fez/levantou” esta estátua de ouro. No capítulo
2, Daniel disse ao rei que o Deus do céu é que lhe tinha dado o reino (2.37),
mas este seria substituído por um reino de prata; em seguida, por um reino
de bronze, e, finalmente, por um de ferro, com pés de ferro e barro. Bem, o
rei não ia esperar para ver sua dinastia derrubada. Ele desafiou o Deus do
céu. Ele fabricou a sua própria estátua, inteiramente de ouro, e, certamente,
sem pés de barro.
Curiosamente, o rei levantou sua estátua “na província da Babilônia”.
Esse é o lugar (Sinar) onde as pessoas, há muito tempo, construíram a torre
de Babel. Disseram: “Vinde, edifiquemos para nós uma cidade e uma torre
cujo tope chegue até aos céus e tornemos célebre o nosso nome, para que
não sejamos espalhados por toda a terra” (Gn 11.4). O mesmo orgulho
impulsiona o rei Nabucodonosor: “Eu vou fazer um nome para mim
mesmo”. A mesma motivação também o move: ele não vai permitir que seu
império desmorone. A estátua de ouro servirá para unificar o seu reino.
Versículo 2: “Então, o rei Nabucodonosor mandou ajuntar os sátrapas, os
prefeitos, os governadores, os juízes, os tesoureiros, os magistrados, os
conselheiros e todos os oficiais das províncias, para que viessem à
consagração da imagem que o rei Nabucodonosor tinha levantado”. As
autoridades estão listadas na ordem de importância. Elas devem vir de todas
as províncias da Babilônia. A esta altura, Nabucodonosor tinha conquistado
muitas nações, cada uma com a sua própria cultura e língua. O perigo de
revoluções é bem real, elas podem explodir e desintegrar seu império.
Assim, o rei precisa de algo que solidifique a unidade do seu império. Ele
precisa de uma demonstração concreta da lealdade de todos estes diversos
povos a ele, o grande rei Nabucodonosor.45 Portanto, ele ordena a todos
estes oficiais que venham à consagração da sua gigante estátua de ouro. E
eles vêm.
Versículos 3 a 6: “Então, se ajuntaram os sátrapas, os prefeitos, os
governadores, os juízes, os tesoureiros, os magistrados, os conselheiros e
todos os oficiais das províncias, para a consagração da imagem que o rei
Nabucodonosor tinha levantado; e estavam em pé diante da imagem que
Nabucodonosor tinha levantado. Nisto, o arauto apregoava em alta voz:
Ordena-se a vós outros, ó povos,46 nações e homens de todas as línguas: no
momento em que ouvirdes o som da trombeta, do pífaro, da harpa, da cítara,
do saltério, da gaita de foles e de toda sorte de música,47 vos prostrareis e
adorareis a imagem de ouro que o rei Nabucodonosor levantou. Qualquer
que se não prostrar e não a adorar será, no mesmo instante, lançado na
fornalha de fogo ardente.”
Eles todos tinham de se prostrar com o rosto no chão e adorar a estátua. A
estátua representava o rei e seus deuses. Adorar a estátua de ouro era o
mesmo que adorar os deuses da Babilônia. Quem se recusar a fazê-lo será
lançado imediatamente na fornalha de fogo ardente. As autoridades sabem
que essa não é uma ameaça vã. A punição de queimar pelo fogo era muito
comum no mundo antigo.48 Jeremias cita dois indivíduos “os quais o rei da
Babilônia assou no fogo”.49
Não muito longe da estátua, os oficiais podem ver a fornalha de fogo
ardente, expelindo fumaça para o claro céu azul. A fornalha provavelmente
fora usada para queimar os tijolos,50 necessários para construir a base e a
estrutura da estátua. A fornalha devia ter sido em forma de cone, como as
usinas de energia nuclear hoje.51 Uma grande abertura no topo criava uma
corrente de ar forte e permitia a adição de combustível para o fogo,
enquanto uma abertura menor na parte inferior permitia extrair os tijolos
queimados. A fornalha provavelmente se situava próximo de uma encosta,
de modo que o combustível podia ser adicionado através da abertura
superior. Isso lhe dava a vantagem adicional de que, caso alguém se
recusasse a se ajoelhar e adorar a estátua, poderiaser imediatamente jogado
para baixo através da parte superior da fornalha.52
Versículo 7: “Portanto, quando todos os povos ouviram o som da
trombeta, do pífaro, da harpa, da cítara, do saltério e de toda sorte de
música, se prostraram os povos, nações e homens de todas as línguas e
adoraram a imagem de ouro que o rei Nabucodonosor tinha levantado”. “O
original diz literalmente: ‘tão logo começaram a ouvir, eles se jogaram no
chão’. Houve resposta completa e imediata.”53 Como robôs sem cérebro,
todos os oficiais se prostraram e adoraram a estátua de ouro e os deuses
babilônicos que ela representava. Quando o rei olhou para a planície de
Dura, tudo o que ele podia ver era uma massa de pessoas deitadas de bruços
diante da estátua de ouro que ele tinha fabricado. O rei ficou satisfeito:
missão cumprida.
Mas a alegria dele durou pouco. O versículo 8 diz que “no mesmo
instante, se chegaram alguns homens caldeus [os astrólogos]54 e acusaram
os judeus”. Literalmente, o texto diz que os astrólogos “comeram pedaços
dos judeus”. Podemos dizer que “eles fizeram picadinho” desses judeus.55
Eles tinham inveja dos três judeus. Eles odiavam esses estrangeiros que o
rei havia colocado acima deles. Eles queriam devorá-los. Finalmente, têm a
evidência que iria destruir os judeus. Os três judeus certamente serão
jogados na fornalha de fogo ardente e serão queimados vivos.
Versículos 9 a 12: “[Os caldeus] disseram ao rei Nabucodonosor: Ó rei,
vive eternamente! Tu, ó rei, baixaste um decreto pelo qual todo homem que
ouvisse o som da trombeta, do pífaro, da harpa, da cítara, do saltério, da
gaita de foles e de toda sorte de música se prostraria e adoraria a imagem de
ouro; e qualquer que não se prostrasse e não adorasse seria lançado na
fornalha de fogo ardente. Há uns homens judeus, que tu constituíste sobre
os negócios da província da Babilônia: Sadraque, Mesaque e Abede-Nego;
estes homens, ó rei, não fizeram caso de ti, a teus deuses não servem, nem
adoram a imagem de ouro que levantaste.”
Estas acusações são graves. Esses amigos de Daniel,56 “estes homens, ó
rei, não fizeram caso de ti, a teus deuses não servem, nem adoram a imagem
de ouro que levantaste”. Claramente adorar a estátua de ouro equivale a
servir aos deuses do rei.57 Literalmente, eles dizem: “Eles não servem aos
seus deuses, e a sua estátua de ouro que você levantou eles não adoram”.
“A colocação enfática de ‘seus deuses’ na acusação... destaca que o que está
em jogo não é apenas a autoridade civil (o poder real do rei), mas a lealdade
religiosa e a crença teológica”.58
Esta é uma rebelião perigosa nos mais altos escalões. Os amigos de
Daniel não só desobedeceram à ordem do grande rei, mas rejeitaram
também seus deuses. De acordo com seu edital, eles deveriam ser
imediatamente jogados na fornalha de fogo ardente. Os astrólogos têm seus
rivais exatamente onde eles querem. Eles ainda citam a punição ameaçada
do rei: “Qualquer que se não prostrar e não a adorar será, no mesmo
instante, lançado na fornalha de fogo ardente”. Eles têm um caso blindado.
Versículos 13 e 14: “Então, Nabucodonosor, irado e furioso, mandou
chamar Sadraque, Mesaque e Abede-Nego. E trouxeram estes homens
perante o rei. Falou Nabucodonosor e lhes disse: É verdade, ó Sadraque,
Mesaque e Abede-Nego, que vós não servis a meus deuses, nem adorais a
imagem de ouro que levantei?”.59 “É verdade?” O rei parece não confiar nos
acusadores. Ele conhece as invejas profissionais. Ele não vai jogar estes
sábios judeus imediatamente no fogo ardente. Ele vai dar-lhes outra chance.
Ele vai mandar a sua orquestra tocar a música de novo, somente para os
três.
Versículo 15: “Agora, pois, estai dispostos e, quando ouvirdes o som da
trombeta, do pífaro, da cítara, da harpa, do saltério, da gaita de foles,
prostrai-vos e adorai a imagem que fiz; porém, se não a adorardes, sereis,
no mesmo instante, lançados na fornalha de fogo ardente. E quem é o deus
que vos poderá livrar das minhas mãos?”.
Se você fosse um israelita no exílio, neste ponto da história você estaria
roendo as unhas. O que os amigos de Daniel vão fazer? Seria tão fácil
apenas cair de joelhos diante da estátua – com reservas, é claro. Eles não
têm que tomar isto como verdadeira adoração. A estátua não é um deus de
verdade, de qualquer maneira. Se eles podem curvar-se diante dela e salvar
a vida, por que não? Não vai fazer mal a ninguém...
Mas, então, há o mandamento de Deus: “Não as adorarás [os ídolos], nem
lhes darás culto” (Êx 20.5; cf. Dt 6.13). O que eles vão fazer? Se
obedecerem ao mandamento de Deus, o rei vai jogá-los na fornalha de fogo
ardente imediatamente. A pergunta do rei ecoa em sua mente: “E quem é o
deus que vos poderá livrar das minhas mãos?”. O rei acredita que a resposta
é óbvia. Nenhum deus! Nenhum deus pode – nenhum deus irá – livrá-los de
suas mãos porque nenhum deus é maior do que o rei Nabucodonosor.60
Nenhum deus pode salvá-los do fogo ardente.
Versículo 16: “Sadraque, Mesaque e Abede-Nego responderam ao rei: “Ó
Nabucodonosor, quanto a isto [nós]61 não necessitamos de te responder”.
Mais literalmente, eles dizem: “Ó Nabucodonosor, não precisamos dar uma
resposta sobre esse assunto”. A “questão” é a declaração do rei de que
nenhum deus pode livrá-lo de suas mãos.62 Os amigos de Daniel não
precisam contestar essa afirmação; somente o Deus a quem eles servem
pode respondê-la.
Eles continuam nos versículos 17 a 18: “Se o nosso Deus, a quem
servimos, quer livrar-nos, ele nos livrará da fornalha de fogo ardente e das
tuas mãos, ó rei. Se não,63 fica sabendo, ó rei, que não serviremos a teus
deuses, nem adoraremos a imagem de ouro que levantaste.”
Aparentemente, os amigos de Daniel não têm certeza se o Deus deles é
capaz de livrá-los do inferno que veem diante de si.64 Isso não é
surpreendente, visto que, no passado, Deus nunca havia livrado pessoas de
um fogo ardente literal. Deus tinha feito muitos milagres para libertar o seu
povo do Egito, mas livrá-los de um fogo em brasa não foi um deles.
Tampouco Deus os tinha livrado da fornalha do exílio babilônico. Então,
eles não têm certeza. Se ele puder, que Deus os livre. “Se não”, eles
bravamente dizem ao rei: “não serviremos a teus deuses, nem adoraremos a
imagem de ouro que levantaste”. A incerteza deles sobre a capacidade de
Deus livrá-los do fogo faz com que a lealdade deles a Deus seja ainda mais
impressionante. Eles obedecem à lei de Deus não porque sabem que ele os
livrará. Eles obedecem à lei de Deus porque isso será recompensado,
porque Deus os recompensará por sua lealdade.65 Eles obedecem a Deus
simplesmente por causa da fidelidade deles a Deus. Seu Deus livrou seus
antepassados da escravidão no Egito, fez um pacto com eles e lhes deu sua
lei sagrada: “Não farás para ti imagem de escultura... Não as adorarás, nem
lhes darás culto” (Êx 20.4-5). Eles vão ser leais e fiéis ao Deus da aliança,
não importa o que aconteça. Eles não vão adorar os deuses da Babilônia.
Ao ouvir o testemunho ousado, lemos nos versículos 19 e 20: “Então,
Nabucodonosor se encheu de fúria e, transtornado o aspecto do seu rosto
contra Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, ordenou que se acendesse a
fornalha sete vezes mais do que se costumava. Ordenou aos homens mais
poderosos que estavam no seu exército que atassem a Sadraque, Mesaque e
Abede-Nego e os lançassem na fornalha de fogo ardente.”
O rei está com tanta raiva que ordena que aqueçam a fornalha “sete vezes
mais do que se costumava”, ou seja, o mais quente possível.66 E depois
ordenou que alguns dos seus soldados mais fortes amarrassem os três
amigos e os jogassem na abertura do topo da fornalha de fogo ardente.
Versículo 21: “Então, estes homens foram atados com os seus mantos,
suas túnicas e chapéus e suas outras roupas e foram lançados na fornalha
sobremaneira acesa”. O rei estava tão com pressa em punir os três rebeldes
que não houve nem mesmo tempo de tirar as roupas deles. Completamente
vestidos, eles são amarrados e jogados na fornalha incandescente. Suas
roupas vão pegar fogo imediatamente. E, estando amarrados,eles não
podem fugir pela abertura inferior da fornalha. Não há absolutamente
nenhuma maneira de escapar.
O versículo 22 destaca que não há escapatória possível para os três
amigos: “Porque a palavra do rei era urgente e a fornalha estava
sobremaneira acesa, as chamas do fogo mataram os homens que lançaram
de cima para dentro a Sadraque, Mesaque e Abede-Nego”.
Aparentemente as chamas lambiam para fora da abertura do topo da
fornalha. Elas chegaram a matar os soldados fortes que atiraram para baixo
os três amigos na fornalha.67
E então acontece, versículo 23: “Estes três homens, Sadraque, Mesaque e
Abede-Nego, caíram atados dentro da fornalha sobremaneira acesa”. Que
tragédia! As únicas pessoas fiéis a Deus caem no fogo em brasa. E elas
estão amarradas. Deus prometeu em Isaías (43.2): “Quando passares pelas
águas, eu serei contigo; quando, pelos rios, eles não te submergirão; quando
passares pelo fogo, não te queimarás, nem a chama arderá em ti”. Mas isto
era linguagem figurada. Será que os três amigos não se queimarão? Será
que a chama não os consumirá do mesmo modo que consumiu os soldados
superfortes?
Ao ponderar esta questão, o narrador conduz nosso olhar para o rei, que
está olhando através da abertura na parte inferior do forno. O rei quer ver os
rebeldes queimarem. Versículos 24 e 25: “Então, o rei Nabucodonosor se
espantou, e se levantou depressa, e disse aos seus conselheiros: Não
lançamos nós três homens atados68 dentro do fogo? Responderam ao rei: É
verdade, ó rei. Tornou ele e disse: Eu, porém, vejo quatro homens soltos,
que andam passeando dentro do fogo, sem nenhum dano; e o aspecto do
quarto é semelhante a um filho dos deuses.”
O que estava acontecendo? Três homens foram lançados ao fogo. Agora,
há quatro. Os três estavam amarrados. Agora eles estão “soltos, que andam
passeando dentro do fogo”, Além disso, eles estavam “sem nenhum dano”
na fornalha, enquanto seus soldados mais fortes foram incinerados fora da
fornalha. “E o aspecto do quarto é semelhante a um filho dos deuses”.69
Quem é a quarta pessoa? No versículo 28, o rei explicará que Deus enviou
seu anjo para livrar seus servos.70 Será que Deus faz uso de anjos para
proteger o seu povo? E pode este Deus livrar os seus servos, mesmo de um
fogo ardente?
Note que o rei vê “quatro homens soltos, que andam passeando dentro do
fogo”. “O texto não dá nenhuma indicação de os três homens serem
resgatados do fogo. Ao contrário, a história é que eles estão acompanhados
por ser divino no meio do fogo. Os três homens se deparam com presença
divina no meio do fogo”.71
O rei corre até a porta da fornalha. Versículo 26: “Então, se chegou
Nabucodonosor à porta da fornalha sobremaneira acesa, falou e disse:
Sadraque, Mesaque e Abede-Nego, servos do Deus Altíssimo, saí e vinde!”.
Observe que o rei chama Deus de “o Deus Altíssimo” novamente. “Então,
Sadraque, Mesaque e Abede-Nego saíram do meio do fogo”. Eles realmente
caminharam e saíram do fogo infernal. Mas eles estão feridos? O rei,
olhando pela abertura para o fogo, pensa que não estavam feridos, mas não
se pode ter certeza com tal fogo abrasador. Então ele chama alguns de seus
oficiais novamente para examinar os três homens. Estes são os próprios
oficiais que, ao som da música, haviam caído de joelhos e adorado
automaticamente a imagem. Ironicamente, os idólatras irracionais agora se
tornam as primeiras testemunhas de um milagre incrível operado pelo
“Deus Altíssimo”.
Versículo 27: “Ajuntaram-se os sátrapas, os prefeitos, os governadores e
conselheiros do rei e viram que o fogo não teve poder algum sobre os
corpos destes homens; nem foram chamuscados os cabelos da sua cabeça,
nem os seus mantos se mudaram, nem cheiro de fogo passara sobre eles”. É
simplesmente incrível. Os oficiais determinam que o fogo em brasa não
tivera poder “sobre os corpos destes homens”. Não têm nenhuma
queimadura de terceiro grau. Não têm queimadura nenhuma. E as roupas
deles estavam intactas. “Nem cheiro de fogo passara sobre eles”. Quando
você se senta perto de uma fogueira à noite, você ainda pode sentir o cheiro
da fumaça em suas roupas na manhã seguinte. Aqui não havia nem mesmo
o cheiro de fogo.72 É como se eles nunca tivessem estado perto do fogo. E
“nem foram chamuscados os cabelos da sua cabeça”. Deus teve cuidado até
com o cabelo da cabeça deles.
No Novo Testamento, Jesus adverte seus seguidores sobre a perseguição
iminente, mas assegura-lhes: “Contudo, não se perderá um só fio de cabelo
da vossa cabeça” (Lc 21.18). Isso porque Deus é capaz de proteger seu
povo até os mínimos detalhes. Em outra ocasião, Jesus diz: “Até os cabelos
da vossa cabeça estão todos contados. Não temais!” (Lc 12.7). Os amigos
de Daniel puderam testemunhar o fato de que Deus foi fiel à sua promessa
em Isaías: “Quando passares pelo fogo, não te queimarás, nem a chama
arderá em ti” (Is 43.2). Deus salvou seus filhos fiéis até do fogo ardente.
Deus mostrou ao rei Nabucodonosor quem está realmente no comando. O
rei tinha se gabado: “E quem é o deus que vos poderá livrar das minhas
mãos?”. O Deus de Israel livrou os três amigos das mãos do rei. Deus
também poderia ter apagado o fogo, é claro. Mas ele estava com eles no
fogo. Calvino escreve que Deus queria que o fogo “queimasse à vista de
todos, para tornar o poder desta libertação mais visível”.73 A mensagem é
clara: o Deus soberano de Israel é capaz de livrar seus filhos oprimidos que
se recusam a servir a outros deuses. Ele é capaz de livrá-los mesmo de uma
fornalha de fogo ardente.
O Deus soberano de Israel livrou seus filhos fiéis ao longo de sua
história.74 Mesmo antes de Israel se tornar uma nação, Deus enviou seu anjo
(Êx 14.19) para libertar seu povo da escravidão no Egito. Moisés chamou o
Egito “fornalha de ferro” (Dt 4.20). Quando Israel foi infiel a Deus servindo
a outros deuses, Deus o enviou para o exílio na Babilônia. Deus chamou a
Babilônia de “fornalha da aflição” (Is 48.10). Mas Deus prometeu libertar
seu povo desta “fornalha”, também (Is 40.1-31; 48.20). Em Daniel 3, Deus
demonstra sua capacidade de libertar seu povo, mesmo de uma fornalha de
fogo literal. O anjo de Deus livrou os amigos de Daniel da fornalha de fogo
ardente do rei.
Esta história sobre a capacidade de Deus de salvar, mesmo de uma
fornalha de fogo ardente, deu esperança a seu povo exilado: Deus é capaz
de livrá-los da fornalha também do exílio. Eles conheciam os seus Salmos:
“O anjo do SENHOR acampa-se ao redor dos que o temem e os livra” (Sl
34.7). E: “Nenhum mal te sucederá, praga nenhuma chegará à tua
tenda. Porque aos seus anjos dará ordens a teu respeito, para que te guardem
em todos os teus caminhos” (Sl 91.10-11). A libertação dos três amigos de
Daniel por Deus era apenas um pequeno sinal da libertação que Deus traria
alguns anos depois, quando Israel poderia voltar para a Terra Prometida.
Na plenitude dos tempos, Deus enviou seu único Filho para salvar seu
povo de outra fornalha de fogo ardente. A igreja de Cristo hoje também está
no exílio. Os reinos deste mundo não são a nossa casa, mas o reino de Deus
é. Jesus afirmou claramente: “O meu reino não é deste mundo” (Jo 18.36).
Além disso, ele disse: “Eles [os meus seguidores] não são do mundo, como
também eu não sou” (Jo 17.16). Paulo escreve: “Pois a nossa pátria está nos
céus, de onde também aguardamos o Salvador, o Senhor Jesus Cristo” (Fp
3.20). Jesus prometeu: “Na casa de meu Pai há muitas moradas. Se assim
não fora, eu vo-lo teria dito. Pois vou preparar-vos lugar. E, quando eu for e
vos preparar lugar, voltarei e vos receberei para mim mesmo, para que,
onde eu estou, estejais vós também” (Jo 14.2-3). Portanto, Jesus vai nos
salvar de nosso exílio neste mundo pecaminoso.
Mas Jesus vai nos salvar de uma “fornalha de fogo ardente” em um
sentido ainda mais profundo. Ele disse que no final dos tempos “mandará o
Filho do Homem os seus anjos, que ajuntarão do seu reino todos os
escândalos e os que praticam a iniquidade e os lançarão na fornalha acesa;75
ali haverá choro e ranger de dentes. Então, os justos resplandecerãocomo o
sol, no reino de seu Pai” (Mt 13.41-43). Jesus veio salvar seu povo do fogo
do inferno e levá-lo para o reino de seu Pai. O Senhor ressurreto proclama
no livro do Apocalipse: “Estive morto, mas eis que estou vivo pelos séculos
dos séculos e tenho as chaves da morte e do inferno” (Ap 1.18). Nosso
Salvador ressurreto pode salvar-nos do fogo do inferno e levar-nos para o
reino de seu Pai.
Quando o rei Nabucodonosor ouve que os três amigos estão em excelente
forma, como se nunca tivessem estado no fogo de forma alguma, ele
finalmente reconhece Deus novamente como “o Deus dos deuses”. Ele diz
nos versículos 28 e 29: “Bendito seja o Deus de Sadraque, Mesaque e
Abede-Nego, que enviou o seu anjo e livrou os seus servos, que confiaram
nele, pois não quiseram cumprir a palavra do rei, preferindo entregar o seu
corpo, a servirem e adorarem a qualquer outro deus, senão ao seu Deus.
Portanto, faço um decreto pelo qual todo povo, nação e língua que disser
blasfêmia contra o Deus de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego seja
despedaçado, e as suas casas sejam feitas em monturo;76 porque não há
outro deus que possa livrar como este.”
Anteriormente, no versículo 15, o rei, arrogantemente, disse: “E quem é o
deus que vos poderá livrar das minhas mãos?”. Os amigos de Daniel
responderam com a condicional: “Se o nosso Deus... quer livrar-nos, ele nos
livrará da fornalha de fogo ardente e das tuas mãos, ó rei”. Se ele for
capaz.*77 Depois de testemunhar a libertação milagrosa de Deus, o rei
declara: “Não há outro deus que possa livrar 78 como este”. O Deus de
Israel é capaz de libertar seu povo, mesmo quando ele está numa fornalha
de fogo ardente.
Versículo 30: “Então, o rei fez prosperar a Sadraque, Mesaque e Abede-
Nego na província da Babilônia”. A história acaba bem para os amigos de
Daniel. Eles obedeceram ao seu Deus em vez de ao rei babilônico. Embora
não tivessem certeza que Deus quisesse salvá-los da fornalha de fogo
ardente, eles corajosamente disseram ao rei: “Se não, fica sabendo, ó rei,
que não serviremos a teus deuses, nem adoraremos a imagem de ouro que
levantaste” (3.18). Eles eram fiéis ao Deus da aliança e à sua lei: “Não as
[as imagens] adorarás, nem lhes darás culto” (Êx 20.5). Mesmo enfrentando
a morte, eles se recusaram a curvar-se aos ídolos da Babilônia. Nas palavras
do rei, no versículo 28, “não quiseram cumprir a palavra do rei, preferindo
entregar o seu corpo,79 a servirem e adorarem a qualquer outro deus, senão
ao seu Deus”. Os amigos de Daniel eram verdadeiros israelitas: fiéis a Deus
e à sua lei, nos bons e maus momentos. A fidelidade deles teria incentivado
os israelitas no exílio a se recusarem a se curvar aos ídolos e a
permanecerem fiéis ao seu Deus soberano até a morte.
Esta história também nos encoraja a fugir da idolatria80 e a
permanecermos fiéis a Deus até a morte. Os deuses modernos são diferentes
dos deuses babilônicos, mas têm a mesma atração devastadora, mas
sedutora. Na América do Norte, somos bombardeados com mensagens para
perseguirmos riqueza e prazer, a vivermos isso, a vivermos para nós
mesmos.81 Mas ceder a essas mensagens é sermos infiéis a Deus e à sua lei.
Jesus disse que a essência da vida cristã é “amarás o Senhor, teu Deus, de
todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento...
Amarás o teu próximo como a ti mesmo” (Mt 22.37-40).
Algumas nações do mundo, como a antiga Babilônia, são estados policiais
onde lealdade absoluta ao Estado é exigida. Amar a Deus com todo o seu
coração resultará em perseguição e até a morte (veja Ap 13.11-18). Pedro
pode ter tido a história da fornalha ardente em mente quando escreveu aos
primeiros cristãos: “Amados, não estranheis o fogo ardente que surge no
meio de vós, destinado a provar-vos, como se alguma coisa extraordinária
vos estivesse acontecendo; pelo contrário, alegrai-vos na medida em que
sois coparticipantes dos sofrimentos de Cristo, para que também, na
revelação de sua glória, vos alegreis exultando. Se, pelo nome de Cristo,
sois injuriados, bem-aventurados sois, porque sobre vós repousa o Espírito
da glória e de Deus” (1Pe 4.12-14). O Espírito de Deus está conosco no
meio do nosso sofrimento (cf. Rm 8.35-39).
Deus pode não levar a perseguição e a dor para longe de nós, mas
certamente estará conosco em nosso sofrimento. O próprio Senhor
ressurreto incentivou a igreja perseguida em Esmirna: “Não temas as coisas
que tens de sofrer. Eis que o diabo está para lançar em prisão alguns dentre
vós, para serdes postos à prova, e tereis tribulação de dez dias. Sê fiel até à
morte, e dar-te-ei a coroa da vida” (Ap 2.10).
Pedro escreve sobre o último dia, o dia do Senhor, quando “os céus
passarão com estrepitoso estrondo, e os elementos se desfarão abrasados”
(2Pe 3.10). O mundo inteiro vai ser uma fornalha de fogo ardente da qual
ninguém poderá escapar. O que vai acontecer com as pessoas que
permaneceram fiéis a Deus, aquelas que se recusaram a servir outros
deuses? Deus é capaz de salvá-las também desse fogo; ele as salvará. Pedro
escreveu: “Nós, porém, segundo a sua promessa, esperamos novos céus e
nova terra, nos quais habita justiça” (2Pe 3.13).
O livro do Apocalipse ressoa essa boa notícia. Ele explica que as pessoas
vestidas de branco são
Os que vêm da grande tribulação, lavaram suas vestiduras e as alvejaram no sangue do
Cordeiro, razão por que se acham diante do trono de Deus e o servem de dia e de noite no
seu santuário; e aquele que se assenta no trono estenderá sobre eles o seu tabernáculo.
Jamais terão fome, nunca mais terão sede, não cairá sobre eles o sol, nem ardor algum, pois
o Cordeiro que se encontra no meio do trono os apascentará e os guiará para as fontes da
água da vida. E Deus lhes enxugará dos olhos toda lágrima (Ap 7.14-17).
1 Duguid, Daniel, 50. Miller, Daniel, 120, se perde por causa de uma tradução questionável do
versículo 17: “Aqui está uma lição pertinente para os crentes de hoje. Será que Deus tem todo o
poder? Sim. Será que Deus é capaz de livrar os crentes de todos os problemas e provações? Sim. Mas
Deus livra os crentes de todas as provações? Não...”.
2 Schwab, Daniel, 53.
3 A única questão é saber se 4.1-3, que é 3.31-33, no aramaico, conclui esta narrativa ou pertence à
próxima narrativa. Parece claro que estes três versículos pertencem à próxima narrativa (veja p. 131–
32, abaixo).
4 Os pregadores católicos romanos terão de lidar com uma narrativa muito mais longa, visto que a
Septuaginta e as versões da Vulgata inserem após 3.23 os versículos 24-90, que consistem de “A
Canção de Azarias na Fornalha” e “A Canção dos Três Jovens”, de modo que a narrativa completa
compõe-se de 97 versículos (veja p. ex., a Bíblia de Jerusalém).
5 Leupold, Exposition of Daniel, 165.
6 Por exemplo, Gammie, Daniel, 42-44, sugere um sermão em Dn 3.24-30 intitulado “O
Holocausto: Passado e Presente”.
7 “O Deus dos judeus pode livrar; esta palavra temática reverbera sua primeira utilização na
pergunta sarcástica do rei (v. 15) e no seu uso experimental, mas fiel, no testemunho dos judeus (v.
17). Ela vai reverberar novamente na prova de Daniel na cova dos leões no capítulo 6 e, finalmente,
no momento da libertação divina universal (12.1)”. Towner, Daniel, 56.
8 Collins, Daniel, 183, menciona Apocalipse 5.9; 7.9; 10.11; 13.7; 14.6; 17.15.
9 Anderson, Signs and Wonders, 27.
10 “A conjunção de Daniel 3 com este texto foi certamente reconhecida pelo autor e seus leitores
israelitas”. Lacocque, Book of Daniel, 60. Veja também 1Reis 8.51 e Jeremias 11.4.
11 Cf. Malaquias, que fala do juízo final como “o fogo do ourives” (3.2) e o dia “arde como
fornalha” (4.1).
12 Hill, “Daniel”, 86.
13 O aramaico marca novas seções com “Então, Nabucodonosor” e “Então, o rei Nabucodonosor”
em 3.13,19,24,26. Veja Collins, Daniel, 179. Esta frase marca novos atos do rei, mas não
necessariamente o início de uma nova cena.
14 Em vez de eles caírem sobre seus joelhos (nepal, nos v. 5,6,7,10,11,15) e adorarem a imagem de
ouro, eles caem (v. 23) no fogo.
15 Lucas, Daniel, 87.
16 “A principal fontede sátira deriva do contraste entre o comportamento mecânico e automático
dos pagãos e o comportamento assertivo e piedoso de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego”. Avalos,
“The Comedic Function of the Enumerations of Officials and Instruments in Daniel 3”, CBQ 53
(1991) 584. Cf. Baldwin, Daniel, 102.
17 “A reprodução mecânica e imediata da enumeração do v. 2 em v. 3 é um reflexo efetivo da
aceitação imediata e mecanicista do pedido do rei por toda a burocracia pagã”. Avalos, ibid., 585.
18 “Os seis instrumentos específicos, além da fórmula geral (‘e todo tipo de música’), poderiam ter
sido mencionados uma vez. A iteração deles é consistente com a descrição das ações mecanicistas em
comédia por Bergson... Com efeito, a iteração de enumerações ajuda a retratar esses pagãos como
uma versão de cães de Pavlov”. Ibid.
19 “A rejeição da idolatria e confiança no Senhor [é] fundamental para o relacionamento pactual
de Israel com Deus (Sl 31.6, 14; Is 26.3-4; Jr 17.5, 7)”. Hill, “Daniel”, 85.
20 Lucas, Daniel, 86.
21 Para ver diversas traduções deste versículo veja p. 120-121, nota 64, abaixo.
22 “O objetivo específico do capítulo no livro não deve ser perdido de vista. Este propósito não é
meramente mostrar o poder de Deus em proteger os seus, mas especificamente o fato de que ‘o poder
do mundo não pode pôr em risco a segurança dos santos de Deus.’” Leupold, Exposition of Daniel,
165.
23 “Um dos temas principais da história da imagem de ouro é adoração (3.5-6, 10-12, 14-15, 18,
28)”. Lederach, Daniel, 76. Cf. p. 83, “A questão é a fidelidade, se os crentes irão rejeitar a idolatria
e recusar a dividir suas lealdades mesmo quando suas vidas estão em jogo”.
24 Veja p. ex., Deuteronômio 4.25-27; 29.25-28; Ezequiel 22.3-4,15; Amós 5.26-27.
25 “O próprio exílio é um cadinho incandescente que prova com a ameaça de consumir (veja Sl
66.10-12). Para muitos judeus que não estão ameaçados por uma fornalha literal, o último dá forma
concreta à imagem de andar no fogo”. Goldingay, Daniel, 74.
26 “O objetivo deste capítulo é incentivar os judeus a manterem uma lealdade inabalável à sua
própria fé e rejeitar todas as armadilhas do culto pagão. Eles devem dar as boas-vindas até à morte,
em vez de desviar-se da fé (veja v. 17-18)”. Hammer, Daniel, 38.
27 Veja, p. ex., Boice, Daniel: “Não é difícil saber quem era essa quarta pessoa. Era Jesus Cristo
numa forma pré-encarnada”. Assim também Anderson, Unfolding Daniel’s Prophecies, 65: “Foi uma
teofania, uma aparição pré-encarnada de nosso Senhor, que mais tarde nasceu em Belém”. Cf. Miller,
Daniel, 123-24: “O mais provável é que o quarto homem no fogo fosse o anjo do Senhor, ele mesmo,
na pessoa de seu Filho Jesus Cristo, Deus”. Assim também Steinmann, Daniel, 193-95: “É bem
possível que o quarto homem que ele observou fosse o Cristo pré-encarnado, visto que a segunda
pessoa da Santíssima Trindade existe desde a eternidade... e poderia se manifestar nos tempos
veterotestamentários” (p.193).
28 Começando com Jerônimo, que argumentou teologicamente: “Eu não sei como um rei ímpio
poderia ter merecido uma visão do Filho de Deus” (citado por Steinmann, Daniel, 194). Ainda outros
consideram esta identificação impossível por razões linguísticas. Por exemplo, Porteous, Daniel, 61:
“A ideia de que a quarta figura na fornalha é Cristo é impossível e, na verdade, contrária ao
significado literal do autor. O bar ʾĕlāhîn aqui é um ser de uma classe de seres que são chamados em
hebraico de bĕnê ʼlōhîm e são considerados como atendentes da divindade”. Veja Lucas, Daniel, 92.
29 Veja meu livro Pregando Cristo a partir do Antigo Testamento, 10 e 197.
30 “A fornalha de fogo (kaminon tou pyros; Mt 13.42, 50) parece ser uma referência a Daniel 3.6,
kaminontou pyros”. Veja Evans, “Daniel in the New Testament”, Book of Daniel, II, 522.
31 Veja nota 27, na página anterior.
32 Veja Towner, Daniel, 56, e Longman, Daniel, 112.
33 Collins, Daniel, 190.
34 Veja nota 30, na página anterior.
35 Evans, “Daniel in the New Testament”, Book of Daniel, II, 521, sugere um eco entre o “ajoelhar
e adorar” (pesōn proskynēsē) de Daniel 3.6,10,15, e “prostrado, me adorares” (pesōn proskynēsēs) de
Mateus 4.9.
36 Com um objetivo duplo será mais um desafio produzir um sistema unificado, um sermão bem
focado, mas a nossa responsabilidade principal é fazer justiça ao texto bíblico, conforme ele foi
dirigido à Israel.
37 As versões gregas acrescentam a data, “no décimo-oitavo ano”, em 3.1, que seria 586 a.C. Cf.
Jeremias 52.12,29 e 2Reis 25.8. Esta data significaria que esta história se passou depois de
Nabucodonosor saquear Jerusalém, queimar o templo e levar a maioria do povo para o exílio. “A data
enfatiza o ponto de Nabucodonosor estar substituindo o Deus de Israel pelo seu deus”. Hammer,
Daniel, 39. Steinmann, Daniel, 167, comparando Jeremias e as crônicas existentes sobre o reinado de
Nabucodonosor, sugere uma data de “fins de dezembro de 594 ou janeiro de 593 a.C.”. Se ele estiver
correto, isto colocaria a narrativa nove anos após a de Daniel 2.
38 Veja Steinmann, Daniel, 167.
39 Schwab, Hope, 47, sugere que Nabucodonosor “fabricou uma estátua de ouro em rebelião
contra a visão da Babilônia limitada a uma cabeça de ouro na história do mundo. Nabucodonosor
erigiu uma “imagem” de ouro [estátua], ṣĕlem em aramaico, a mesma palavra que usou em seu sonho
em Daniel 2.31, destacando a equação entre elas”.
40 O local não foi identificado positivamente. Alguns acham que era uma planície fora das
muralhas da Babilônia (a palavra acadiana duru refere-se a um “lugar murado”), enquanto outros
pensam que deve ter sido mais longe. Miller, Daniel, 111, sugere que o local fica “a cerca de 26 km
ao sul da Babilônia e é chamado Tulul Dura (sitio de Dura), onde Oppert pensou ter descoberto a
base da estátua”.
41 Montgomery, Book of Daniel, 196.
42 Redditt, Daniel, 70, faz uma observação a respeito do versículo 19a: “O Texto Massorético
inclui a palavra aramaica ṣĕlem antes da palavra ‘face’. Esta é a palavra usada para ‘imagem’ ou
‘estátua’ usada em 3.1,2,3,5,7,10,12,14,15,18. O narrador estava relembrando ao leitor mais uma vez
que o rei se parecia com a sua estátua”. Veja também Young, Prophecy of Daniel, 84.
43 Os versículos 12,14,18, 28 conectam a adoração da estátua de ouro com servir aos deuses do
rei.
44 Daniel 3.1, 2, 3 (2x), 5, 7, 12, 14, e 18.
45 “As várias categorias de pessoas na lista são as autoridades políticas de todo o império, o que
pode ser sinal de que se tratava da tentativa de Nabucodonosor solidificar seu controle sobre os
diversos elementos de seu vasto império”. Longman, Daniel, 98. Cf. Steinmann, Daniel, 168: “Visto
que duas vezes nos três primeiros versículos nos é dito que ‘todos os príncipes das províncias’...
vieram para a consagração, devemos inferir que era uma cerimônia cuidadosamente concebida para
garantir a lealdade dos oficiais fora da Babilônia, como sugerido por comparação com os eventos
registrados na Crônica Babilônica”.
46 Os povos de todo o mundo conhecido “foram representados pelos oficias reunidos”. Collins,
Daniel, 183.
47 “O som de uma variedade tão heterogênea de instrumentos musicais esganiçando, soprando e
vibrando ao mesmo tempo pareceria verdadeiramente bárbaro para nós. Mas é preciso lembrar que
eles tocaram apenas um sinal e a intenção era impressionar os ouvintes pela variedade e volume de
som”. Leupold, Exposition of Daniel, 144.
48 A respeito da punição pelo fogo dos babilônios, persas e gregos, veja Goldingay, Daniel, 70.
Veja também Gênesis 38.24; Levítico 20.14; 21.9; Josué 7.15; 1Crônicas 14.12.
49 Jeremias 29.21-22.
50 “Fornalhas na Babilônia estavam relacionadas com a queima de tijolos (cf. Gn 11.3), que eram
amplamente utilizados na ausência de pedra. O combustível era carvão, que, tendo em conta a
necessidade da corrente de ar, produzia a temperatura elevada necessária na fornalha de tijolos”.
“Estima-se que a temperatura atingia 900-1000 °C”. Baldwin, Daniel, 99, 103, nota 3.
51 Montgomery, Book of Daniel, 202, sugere que deve “ter sidosemelhante aos nossos fornos
comuns de queimar tijolos, com uma abertura perpendicular no topo e uma abertura no fundo para
tirar o barro cozido”.
52 Daniel 3.23 diz: “Estes três homens... caíram atados dentro da fornalha sobremaneira acesa”.
Miller, Daniel, 122, observa que eles “‘caíram dentro’ (nĕpalû legô, literalmente ‘caíram dentro, no
meio da’) fornalha. A linguagem sugere que eles foram jogados dentro dela por meio de uma
abertura na parte superior”.
53 Baldwin, Daniel, 103.
54 Devido às frases contrastantes “homens caldeus” e “homens judeus”, muitos comentaristas
entendem caldeu aqui como uma identificação étnica. Outros entendem os caldeus como sendo os
“astrólogos” (assim como a NVI). Para ver uma lista de comentaristas de ambos os lados, veja
Steinmann, Daniel, 182, nota 5. Eu prefiro entender os “caldeus” como os “astrólogos” por três
razões: primeira, a continuidade com 2.2,4,5,10; 4.7 argumenta em favor disto. Segunda, eles
parecem agir por inveja profissional (veja 3.12; 6.3-4). Terceira, não é razoável pensar que caldeus
comuns fossem recebidos na presença do rei para acusar seus altos oficiais.
55 Russell, Daniel, 65.
56 Se a pergunta “Onde estava Daniel?” for feita, a resposta é provavelmente dada no versículo
2.49: “Daniel permaneceu na corte do rei”. Assim sendo, ele não foi convocado para esta cerimônia
de consagração para “oficiais das províncias”. Veja Steinmann, Daniel, 183-84. Archer, “Daniel”,
55-56, oferece diversas possibilidades, tais como: Daniel estava ausente da Babilônia na ocasião; ele
podia estar doente (cf. 8.27); como vizir do rei, a lealdade dele foi tomada como fato.
57 Veja também os versículos 14, 18, e 28.
58 Steinmann, Daniel, 182-83. Cf. Redditt, Daniel, 69, “Com efeito, o narrador fez com que os
próprios caldeus ligassem a adoração da estátua com a adoração dos deuses babilônicos”. Cf. Hill,
“Daniel”, 79: “O comportamento de Sadraque, Mesaque e Abede-Nego é tanto um ato de traição
(visto que eles não serviram aos deuses do rei, v. 12) quanto um ato de insubordinação (já que eles se
recusaram a obedecer ao édito do rei e se curvarem diante da estátua de ouro, v. 12)”.
59 Literalmente: “É verdade... que vós não servis a meus deuses, nem adorais a imagem de ouro
que levantei? Visto que ‘meus deuses’ está na posição enfática tanto em 3.12 quanto em 3.14... o foco
da pressão intensa agora imposta sobre os três judeus é religioso e teológico – uma questão de fé e
culto”. Steinmann, ibid., 184.
60 “Agora, ele faz a alegação arrogante e blasfema... de possuir um poder humano tão grande que
não existe poder divino algum para as vítimas procurarem ajuda. Vemos aqui o poder mundano
absolutamente confiante de que não há limite para a sua autoridade”. Porteous, Daniel, 59. Cf.
Collins, Daniel, 187: “A pergunta lembra a provocação do rei da Assíria em Isaías 36.19-20; 37.11-
12 (2Rs 18.33-35; 19.12-13)”.
61 “A ordem das palavras em aramaico no verso 16 coloca uma ênfase no pronome “nós”, o que
implica que é o próprio Senhor quem vai lidar com este rei que pensa que é soberano na terra”.
Archer, “Daniel”, 54.
62 “O texto aramaico diz simplesmente que não há necessidade de ‘dar de volta’ ou ‘dar retorno’
ao rei sobre o assunto. O fato é que estes homens não sentem nenhuma compunção por não darem
um retorno, por assim dizer, “quanto a isto”, ou seja, o desafio teológico levantado por
Nabucodonosor: ‘E quem é o deus que vos poderá livrar das minhas mãos?’” Seow, Daniel, 56.
63 Coxon, “Daniel III 17: A Linguistic and Theological Problem”, VT 26 (1976) 408, ressalta que
a resposta dos amigos de Daniel: “Se o nosso Deus... quer livrar-nos, ele nos livrará... Se não, fica
sabendo, ó rei...” baseia-se na sentença condicional anterior (v. 15) do rei: “Agora, pois, estai
dispostos... prostrai-vos e adorai a imagem... porém, se não a adorardes...”. Seow, Daniel, 56-57,
acrescenta que “os três homens mudam a questão da pessoa deles (“vocês estão”) para a pessoa de
Deus (“Deus é”) – de eles estarem prontos a não se prostrarem e adorarem a construção de
Nabucodonosor para Deus ser capaz de livrá-los. A questão não é se eles são ou não, mas se Deus
é!... Ao estruturar o diálogo usando ponto e contraponto, o narrador indica que a questão decisiva a
ser tratada não é realmente a coragem dos judeus, embora esse aspecto faça parte da história. Em vez
disso, a questão crítica é a presença e o poder de Deus: visto que existe um Deus que é capaz,
depende totalmente dele se fará isso ou não”.
64 Diferentes versões da Bíblia e comentaristas diversos se dividem sobre a tradução e
interpretação deste versículo. A questão é: será que o autor retrata os amigos de Daniel como não
tendo certeza sobre a capacidade de Deus de salvá-los do fogo? Será que eles duvidam da
onipotência de Deus? As versões mais antigas da Bíblia (KJV, RV, RSV) e algumas mais recentes
(como a NASB e NVI) procuram evitar essa impressão. Por exemplo, a NVI mais antiga, bem como
a versão de 2011, traduz o versículo 17: “Se formos atirados na fornalha em chamas, o Deus a quem
prestamos culto pode livrar-nos, e ele nos livrará da tua mão, ó rei”. A TNIV 2005 traduz: “Se o
Deus a quem servimos quer livrar-nos, ele nos livrará da fornalha de fogo ardente e da mão de sua
Majestade”. A última tradução é semelhante à da NRSV. Alguns exemplos recentemente descobertos
de uma construção semelhante em hebraico não bíblico podem muito bem ser a razão para a
mudança. De qualquer maneira, parece bastante elementar observar que a doutrina da onipotência de
Deus não deve influenciar a tradução ou interpretação deste versículo. Para ver a história da tradução
deste versículo e os argumentos pró e contra, veja Lucas, Daniel, 84-85, 90-91. Veja também
Montgomery, Book of Daniel, 206-7; Coxon, “Daniel III 17: A Linguistic and Theological Problem”,
VT 26 (1976) 400-409; Towner, Daniel, 51-53, e Miller, Daniel, 119, n. 57.
65 “A negação do versículo 18 certamente tem a ver com o poder de Deus. Pode ser que Deus não
seja capaz de salvá-los, mas isso não é suficiente para minar a fidelidade dos três mártires”. A ligação
deles com Deus é totalmente sem a expectativa de uma recompensa (veja Jó 1.9; 13.15... Cf. Gn 22)”.
Lacocque, Book of Daniel, 63.
66 “De acordo com uma tradição antiga, o rei mandou seus homens jogarem nafta e piche na
fornalha para fazer o fogo ainda mais quente”. Jeske, Daniel, 61.
67 “A ideia é que a chama salta acima da abertura do topo e mata os que ali estavam”. Collins,
Daniel, 189.
68 “Observe a posição enfática de ‘atados’... no final da pergunta em aramaico”. Steinmann,
Daniel, 193.
69 “O quarto personagem visto pelo rei era como ‘um filho dos deuses’. Esta é uma expressão
semítica para um membro da classe dos ‘deuses’. Para um politeísta como Nabucodonosor, isto
significaria um membro do panteão”. Lucas, Daniel, 92.
70 “Pensava-se que os anjos eram assistentes de Deus, ou membros de sua corte, que podiam ser
enviados com mensagens ou que poderiam ser agentes através dos quais a vontade divina era
realizada... A presença do anjo simboliza a presença do próprio Deus com seus servos fiéis”.
Hammer, Daniel, 42.
71 Seow, Daniel, 59. Cf. p. 18. Cf. Romanos 8.37: “Em todas estas coisas, porém, somos mais que
vencedores, por meio daquele que nos amou”.
72 “Mesmo o teste mais sutil de todos, o teste da fumaça, pôde ser satisfeito, pois ordinariamente a
mera proximidade de um fogo é suficiente para que o cheiro de fumaça passe para as vestes. No caso,
nem o cheiro da fumaça pôde ser detectado”. Leupold, Exposition of Daniel, 160.
73 “Deus poderia extinguir o fogo da fornalha, mas ele queria que ele queimasse à vista de todos,
para tornar o poder desta libertação mais visível.” Calvino, Commentaries on Daniel, 234.
74 No início, eu ia usar tipologia aqui para seguir para Cristo. Mas eu descobri que demonstrar as
analogias e escalações entre o anjo e Cristo era bastante teórico e poderia alongar o sermão.
Progressão histórico-redentiva e referências no Novo Testamento fornecem uma forma mais
interessante.75 “Jesus adverte seus contemporâneos que, no final dos tempos, “mandará o Filho do Homem os
seus anjos, que ajuntarão do seu reino todos os escândalos e os que praticam a iniquidade os lançarão
na fornalha acesa [kaminon tou pyros]” (Mt 13.41-42). Esta imagem gráfica pode derivar da ameaça
de Nabucodonosor de lançar aqueles que se recusam a adorar a sua imagem ‘na fornalha de fogo
ardente’ [kaminon tou pyros]” (Dn 3.6). Evans, “Daniel in the New Testament”, Book of Daniel, II,
522.
76 Para os judeus no exílio, isso significava a liberdade de religião. Eles podiam adorar seu Deus,
sem medo de perseguição, sem medo de serem jogados em uma fornalha de fogo ardente. Veja
Goldingay, Daniel, 75.
77* Conforme argumentação acima, o autor usa uma tradução inglesa que diz: “Se o nosso Deus
for capaz” (N. do R.).
78 “É capaz” (ʾ’tai... ykl) nos versos 17 e 29.
79 Veja-se Apocalipse 12.11: “Mesmo em face da morte, não amaram a própria vida”.
80 Paulo exorta os cristãos de Corinto: “Fugi da idolatria” (1Co 10.14). Significativamente, João
conclui sua primeira carta: “Filhinhos, guardai-vos dos ídolos” (1Jo 5.21). Cf. Apocalipse 14.9-12:
“Se alguém adora a besta e a sua imagem e recebe a sua marca na fronte ou sobre a mão, também
esse beberá do vinho da cólera de Deus, preparado, sem mistura, do cálice da sua ira, e será
atormentado com fogo e enxofre... A fumaça do seu tormento sobe pelos séculos dos séculos... Aqui
está a perseverança dos santos, os que guardam os mandamentos de Deus e a fé em Jesus”.
81 Paulo escreve: “Sabei, pois, isto: nenhum incontinente, ou impuro, ou avarento, que é idólatra,
tem herança no reino de Cristo e de Deus” (Ef 5.5). Lederach, Daniel, 88-89, aplica a mensagem
desta história ao ídolo moderno “Deus e o País”: “Hoje isto assume a forma de religião civil, ou
nacionalismo religioso, no qual a nação é o objeto de adoração e glorificação, no qual os valores
nacionais são religiosidades, heróis nacionais são divinizados e as ações da nação são equiparadas à
obra redentora de Deus”.
CAPÍTULO 4
O sonho que Nabucodonosor teve de uma grande
árvore
Daniel 4.1-371
Esta sentença é por decreto... a fim de que conheçam os
viventes que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos
homens; e o dá a quem quer e até ao mais humilde dos
homens constitui sobre eles.
Daniel 4.17
Daniel 4 é a última narrativa sobre o rei Nabucodonosor. Ela relata como
Deus humilha o orgulhoso rei de toda a terra (4.22) e o restaura novamente,
quando o rei reconhece que o Deus de Israel é “o Altíssimo”, “o rei dos
céus” (4.34,37). É uma mensagem poderosa para aqueles que estão
amedrontados ou intimidados pelo poder de reis e reinos humanos.
A grande armadilha a se evitar ao pregar esta narrativa é a moralização.
Um comentarista afirma abertamente: “Nabucodonosor é um exemplo – um
alerta de como não se deixar desencaminhar por poder e conquista, um
modelo de como responder ao castigo e à humilhação”.2 Pregadores se
sentem realmente tentados a usar Nabucodonosor como um exemplo de
advertência contra o orgulho que leva à queda, ainda mais que a narrativa
termina com a declaração do rei de que Deus “pode humilhar os que andam
na soberba” (4.37). Longman escreve: “A lição é aprendida e a moral da
história é a última palavra: ‘Ele tem capacidade para humilhar aqueles que
andam na soberba’”.3
Entretanto, a capacidade que Deus tem de humilhar os que andam na
soberba não é o tema principal desta narrativa (veja “Prova textual”,
abaixo). Se desejarmos pregar contra o pecado do orgulho humano,
devemos selecionar um texto que aborde essa questão diretamente – como,
por exemplo, Provérbios 16.18: “A soberba precede a ruína, e a altivez do
espírito, a queda”.4 Nesse caso, certamente podemos usar o orgulho e a
queda de Nabucodonosor para ilustrar o tema de Provérbios 16.18. Mas se o
texto de pregação é Daniel 4, temos de concentrar o sermão sobre o tema e
objetivo pretendidos pelo autor.
Há outro comentarista que também quer que nos identifiquemos com
Nabucodonosor: “Podemos nos tornar como Nabucodonosor –
especialmente se o nosso trabalho árduo nos rendeu alguma realização
aparentemente sólida”.5 Em seguida, este comentarista passa do rei
levantando os olhos ao céu (v. 34) para a necessidade de os pastores
ajudarem os membros de sua igreja a desviarem “o olhar de si mesmos,
suas emoções e humores, suas dificuldades e problemas mentais, e ‘fixarem
ambos os olhos’... na misericórdia de Deus”.6 Entretanto, é bem pouco
provável que o autor bíblico tivesse em mente ver os exilados se
identificarem e imitarem a própria pessoa que os levara para o cativeiro e
destruíra Jerusalém e o santo templo de Deus.
Ainda outro comentarista encontra uma aplicação nas palavras de
Nabucodonosor, no versículo 2: “Pareceu-me bem fazer conhecidos”: “’É o
meu prazer” [NVI] mostra que foi uma verdadeira alegria para o rei
compartilhar o que Deus havia feito em sua vida – livrou-o da loucura. Esta
deveria ser a atitude de qualquer crente. “Se Deus fez algo maravilhoso para
um indivíduo, ele deveria ter prazer em compartilhar a experiência com os
outros”.7 Mais uma vez, o rei pagão é um personagem bastante improvável
para servir de identificação e imitação por Israel.
Daniel é um personagem mais provável para ser usado como identificação
por Israel. Mas aqui, também, temos de ter cuidado para não isolar
fragmentos textuais para imitação. Por exemplo, o rei diz que em Daniel
“há o espírito dos deuses santos” (v. 8). Esta informação leva um
comentarista a alegar: “Havia algo de especial em Daniel... a habilidade de
Daniel de interpretar sonhos era que Deus habitava nele, e este é o
prerrequisito para a compreensão espiritual hoje”.8 Outro comentarista usa o
comparecimento de Daniel diante do rei para interpretar o sonho (o mesmo
v. 8) para afirmar que todos nós precisamos de um bom amigo: “O fato de
Daniel estar lá com este homem neste momento é um lembrete para nós da
nossa própria necessidade do outro, às vezes, quando as coisas, de forma
semelhante, estão difíceis para nós e difíceis de entender”.9 O mesmo
comentarista usa a franqueza de Daniel, “és tu, ó rei” (v. 22), para lembrar
aos pregadores que eles devem ser francos em sua aplicação: “Aqueles de
nós que são pastores, quando pregamos nossos sermões, deslizamos
demasiadas vezes em uma aplicação da palavra de modo tão geral e vago
que ninguém consegue se ofender e nenhuma vida pode eventualmente ser
mudada”.10
Observe que essas aplicações estão ligadas a meros elementos no texto e
são transferidas diretamente para os ouvintes de hoje. Embora essas
aplicações não sejam necessariamente antibíblicas, elas desrespeitam o
gênero específico de narrativa histórico-redentiva, a unidade da narrativa e
sua mensagem e vai além do objetivo (intenção) do autor bíblico inspirado.
Se quisermos fazer justiça ao autor bíblico, devemos primeiro fazer as
perguntas hermenêuticas importantes: Como é que o autor pretende que a
sua audiência original entenda esta narrativa? Qual é o tema desta narrativa
e qual é o objetivo do autor? Antes de podermos responder a estas questões,
no entanto, primeiro precisamos nos informar sobre o texto, seu contexto e
suas características literárias.
Texto e contexto
Uma vez que o texto aramaico termina o capítulo 3 no capítulo 4.3 de
nossas versões inglesas, a questão é se os versículos 4.1-3 devem ser
incluídos no capítulo 3 ou 4. Embora houvesse algumas razões para incluir
4.1-3 no capítulo 3,11 existem razões ainda melhores para incluir estes
versículos na narrativa presente. O versículo 1 marca essa narrativa como
sendo na forma de uma carta, uma proclamação do rei para todos os povos.
Por isso o verso 4 continua na primeira pessoa: “Eu, Nabucodonosor, estava
tranquilo em minha casa e feliz no meu palácio”. Além disso, no versículo
2, o rei escreve sobre “os sinais e maravilhas que Deus, o Altíssimo, tem
feito para comigo”, o que se aplica mais a Deus restaurando o rei de sua
insanidade no capítulo 4 do que a Deus salvando os amigos de Daniel da
fornalha de fogoardente no capítulo 3.12 E, finalmente, o louvor do rei a
Deus no versículo 3,
O seu reino é reino sempiterno,
e o seu domínio, de geração em geração,
é correspondido (paralelismo invertido) por seu louvor no versículo 34,
cujo domínio é sempiterno,
e cujo reino é de geração em geração.
Este inclusio marca os limites desta unidade literária em 4.1-37. O
capítulo 5.1 começa uma nova narrativa sobre um novo personagem, o rei
Belsazar. Portanto, nosso texto de pregação é Daniel 4.1-37.13
Quanto ao contexto, esta narrativa final sobre o rei Nabucodonosor forma
um par com o capítulo 5 – outra narrativa sobre a punição dada por Deus a
um rei babilônico, desta vez, com resultados desastrosos. Na verdade, o
autor reconta brevemente a história do capítulo 4 em 5.18-21. A narrativa
de sonho do capítulo 4 também está relacionada, é claro, à primeira
narrativa de sonho (capítulo 2), quando o rei Nabucodonosor é perturbado
por um sonho e seus sábios não são capazes de relatar o sonho ou a sua
interpretação, mas Daniel é bem-sucedido em ambos os casos.14 A diferença
de Daniel 4 é que o rei conta seu sonho e, ainda assim, seus sábios não
conseguem dar-lhe a interpretação, enquanto Daniel o faz.
Os “povos, nações e homens de todas as línguas” (v. 1), que são
convidados a ouvir o testemunho do rei sobre a grandeza do Deus
Altíssimo, são os mesmos “povos, nações e homens de todas as línguas”
que antes foram ordenados a cair de joelhos e adorar a estátua de ouro (3.4;
cf. 3.29). Além disso, a confissão de Nabucodonosor de que o “reino [de
Deus] é reino sempiterno” (veja v. 3 e 34 acima) é ecoada pela confissão
semelhante do rei Dario (6.26-27) e pela visão do reino vindouro (7.14,27;
cf. Dn 2.44 e Sl 145.13).
Esta narrativa também tem muitas conexões para passagens além de
Daniel. Como no capítulo 2, o narrador esboça Daniel como outro José, que
Deus usa no exílio para interpretar os sonhos de um rei estrangeiro. Faraó
descreveu José como um homem “em quem há o Espírito de Deus” (plural
ʾĕlōʼm; Gn 41.38). Nesta narrativa, o rei descreve três vezes Daniel como
sendo aquele “no qual há o espírito dos deuses santos” (4.8,9,18; cf.
5.11,14). José disse a Faraó que Deus daria sete anos de fartura seguidos de
sete anos de fome (Gn 41.28-31). Nesta narrativa, Daniel diz ao rei que ele
viverá como um animal por “sete tempos” (4.25).
O rei sonha com uma grande árvore cujo topo alcança o céu, embaixo da
qual os animais encontram sombra e na qual as aves fazem ninhos. A
interpretação é que o rei Nabucodonosor é a grande árvore. Ezequiel 31.1-
14 apresenta uma descrição semelhante do Faraó, rei do Egito, sendo uma
grande árvore com ninhos de pássaros em seus galhos e animais que parem
seus filhotes debaixo de seus galhos. Em ambos os casos, as árvores
orgulhosas caem sob o julgamento de Deus e são cortadas (cf. Ez 17.1-
10).15
O subtema de Deus punindo o orgulhoso pode ser traçado de volta a Deus
expulsando o primeiro casal humano do jardim por desejar ser “como
Deus” (Gn 3.56) e espalhando os construtores da torre de Babel que
desejavam construir “uma torre cujo tope chegue até aos céus” para “tornar
célebre” o seu nome (Gn 11.4). O tema mais específico de Deus punir reis
orgulhosos que pensam que são deuses também é encontrado em Isaías
10.5-12; 14.12-15 e Ezequiel 28.1-10.16
A afirmação repetida de que “o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos
homens; e o dá a quem quer” (4.17,25,32) é semelhante à palavra de Deus
em Jeremias: “[Eu] dou àquele a quem for justo. Agora, eu entregarei todas
estas terras ao poder de Nabucodonosor, rei da Babilônia, meu servo; e
também lhe dei os animais do campo para que o sirvam” (27.5-6). A adição
de “e o dá a quem quer e até ao mais humilde dos homens” (4.17) se refere
a Deus exaltando o humilde – um tema comum no Antigo e no Novo
Testamento (o cântico de Ana, em 1Sm 2.7-8; Jó 5.11; Sl 113.7-8; Ez 17.24;
o cântico de Maria, em Lc 1.52; 1Co 1.26-29; e Fp 2.6-11). Finalmente, o
conselho de Daniel para que o rei pratique a “justiça” e mostre
“misericórdia para com os pobres” (4.27) é similar aos mandamentos de
Deus através de seus profetas; por exemplo, “atendei à justiça, repreendei
ao opressor” (Is 1.17).17
Características literárias
Este capítulo consiste de uma variedade de gêneros literários. Como já foi
referido, ele se encontra na forma de uma carta escrita “a todos os povos,
nações e homens de todas as línguas que habitam em toda a terra” (4.1).
“Esta forma de ‘carta régia’ dá autoridade especial ao conteúdo da
história”.18 Embora na maior parte seja escrito em prosa, ele também
contém seções de poesia, como pode ser visto nos paralelismos em 4.3,10-
12,14-17,34b-35,37b.19 A epístola começa com uma doxologia (4.2-3),
continua com uma narrativa (4.4-36) e conclui com outra doxologia (4.37).
A narrativa em si contém as formas literárias de uma visão simbólica (4.10-
17), um oráculo (4.14-17) e uma admoestação (4.27).20
Uma vez que o gênero é, em geral epístola, a maior parte dela está escrita
na primeira pessoa do singular, “eu, Nabucodonosor”, à exceção de 4.19-33,
que é narrativa na terceira pessoa. A melhor explicação para a mudança
para a terceira pessoa é que, na seção 4.19-27, o rei não está mais no
controle, mas é completamente dependente da interpretação de Daniel e até
mesmo de admoestação, e, em 4.28-33, ele perde a razão e, assim, não pode
relatar suas experiências. Mas quando a sua razão retorna “ao fim daqueles
dias, eu, Nabucodonosor” volta (4.34-37).21
Estrutura da narrativa
A narrativa em si tem três cenas, que são marcadas pela mudança de lugar
e tempo.
Cena 1: No palácio do rei (4.4-27)
A. O sonho do rei (primeira pessoa) (4.4-18)
B. Interpretação e conselhos de Daniel (terceira pessoa) (4.19-27)
Personagens: Rei Nabucodonosor e Daniel
Cena 2: Doze meses depois, no terraço do palácio (4.28-33)
A. O orgulho do rei (terceira pessoa) (4.29-30)
B. A punição por Deus (terceira pessoa) (4.31-33)
Personagens: Rei Nabucodonosor e Deus (“voz do céu”)
Cena 3: Sete tempos mais tarde, no campo (4.34-37)
A. O rei reconhece o Altíssimo (primeira pessoa) (4.34-35)
B. O rei é restaurado ao seu reino (primeira pessoa) (4.36-37)
Personagens: Rei Nabucodonosor e Deus (“o rei dos céus”)
O enredo
Os versos de abertura (v. 1-3) não são parte da narrativa propriamente
dita. O versículo 2, “os sinais e maravilhas que Deus, o Altíssimo, tem feito
para comigo”, declara o desfecho positivo antes mesmo do começo da
história. Após tal abertura, o narrador vai ter que trabalhar duro para criar
suspense.
Ele fornece o cenário no versículo 4: “ Eu, Nabucodonosor, estava
tranquilo em minha casa e feliz no meu palácio”. Tudo está bem com o rei e
seu reino. De repente, o clima muda. Versículo 5: “Tive um sonho, que me
espantou; e, quando estava no meu leito, os pensamentos e as visões da
minha cabeça me turbaram”. O sonho do rei é o incidente ocasionador.
Qual foi o sonho horrível? O narrador nos mantém em suspense.22
Primeiramente ele nos fala sobre o decreto do rei de que seus sábios sejam
trazidos para contar a interpretação do sonho (v. 6). Os sábios vêm, mas não
conseguem (v. 7). “Por fim, se me apresentou Daniel” (v. 8), mas temos que
esperar até o versículo 10 para que o rei relate o seu sonho sobre a bela e
grande árvore. Até aí, não há nada no sonho que possa ter assustado o rei.
Temos que esperar até o versículo 14 para sermos informados sobre o que o
assustou: “Um vigilante, um santo” clamando “derribai a árvore” e
predizendo como as coisas ficariam cada vez piores: “Cortai-lhe os ramos,
derriçai-lhe as folhas, espalhai o seu fruto; afugentem-se os animais de
debaixo dela e as aves, dos seus ramos. Mas a cepa, com as raízes, deixai na
terra, atada com cadeias de ferro e de bronze, na erva do campo. Seja ela
molhada do orvalho do céu, e a sua porção seja, com os animais, a erva da
terra. Mude-se-lhe o coração, para que não seja mais coração de homem, e
lhe seja dado coração de animal; e passem sobre ela sete tempos” (v. 14-
16). É um pesadelo! O que issosignifica?
O rei pede a Daniel para dar-lhe a interpretação. Mas, antes de Daniel
fazer isso, o narrador esboça a primeira reação de Daniel: “Então, Daniel...
esteve atônito por algum tempo, e os seus pensamentos o turbavam” (v. 19).
Do mesmo modo que o rei havia se turbado pelo sonho, assim Daniel estava
turbado com o seu significado. O que há de tão terrível com o significado
do sonho? Mais uma vez o narrador nos mantém em suspense. Vamos ter
que esperar até o versículo 22, para ele nos informar que a árvore representa
o rei e sua derrubada significa que o rei será humilhado: ele será “expulso
de entre os homens”, habitará com os animais, comerá grama como os bois
e dormirá ao ar livre até que se passem sete tempos, até que o rei aprenda
“que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem
quer” (v. 25). O castigo de Deus sobre o rei será severo. Mas há esperança
para a restauração se o rei finalmente reconhecer que Deus é o Rei dos reis
(v. 26). Daniel aconselha o rei a romper com os seus pecados promovendo a
“justiça” e mostrando “misericórdia para com os pobres; e talvez se
prolongue a tua tranquilidade” (v. 27). Será que o rei vai consertar seus
caminhos?
Passado um ano, o rei olha para fora, contempla os muitos edifícios da
Babilônia e se gaba de seu “grandioso poder” e da “glória da minha
majestade” (v. 30). Nabucodonosor fala de si mesmo como se fosse Deus. O
castigo de Deus é imediato: o rei perde a razão, é expulso da sociedade
humana, passa a viver ao ar livre com os animais e a comer erva como os
bois. Ele até mesmo passa a se parecer com um animal, com cabelos longos
como as penas das águias e unhas como as garras das aves (v. 33). Quão
baixo o poderoso rei caiu! O rei que, como uma árvore, havia abrigado
animais, tornou-se, nada mais, nada menos, um mero animal.
A virada para a resolução ocorre no versículo 34: “Mas ao fim daqueles
dias, eu, Nabucodonosor, levantei os olhos ao céu, tornou-me a vir o
entendimento, e eu bendisse o Altíssimo, e louvei, e glorifiquei ao que vive
para sempre, cujo domínio é sempiterno, e cujo reino é de geração em
geração”. O rei finalmente reconhece Deus como o Altíssimo, o Rei dos
reis. O resultado é que o rei é restabelecido no seu reino (v. 36). A
conclusão segue: “Agora, pois, eu, Nabucodonosor, louvo, exalço e
glorifico ao Rei do céu” (v. 37).
Podemos esboçar o enredo desta narrativa como complexo.23
Este enredo é útil para discernir o movimento na história, seus ápices e
resoluções e a forma mais adequada para o sermão – uma forma de
narrativa híbrida, embora o gênero em geral seja de epístola.
Descrição do personagem
O personagem principal desta narrativa é Nabucodonosor. Ele se descreve
como “Eu, Nabucodonosor, estava tranquilo em minha casa e feliz no meu
palácio” (v. 4). Em nítido contraste, o sonho o assusta e o aterroriza (v. 5).
Mas, quando Daniel fica apavorado com o significado do sonho, o rei
mostra sua compaixão por ele: “Beltessazar, não te perturbe o sonho, nem a
sua interpretação” (v. 19). Daniel descreve o rei da seguinte forma: “És tu, ó
rei, que cresceste e vieste a ser forte; a tua grandeza cresceu e chega até ao
céu, e o teu domínio, até à extremidade da terra” (v. 22). O rei revela seu
orgulho quando diz para si mesmo: “Não é esta a grande Babilônia que eu
edifiquei para a casa real, com o meu grandioso poder e para glória da
minha majestade?” (v. 30).24 Ele é imediatamente punido com a perda de
sua razão, passando a habitar ao relento com os animais e a comer capim
como bois (v. 33). Quando os sete tempos se completam, o rei alça seus
olhos ao céu e sua razão retorna (v. 34). Então, o rei dá glória a Deus:
“Agora, pois, eu, Nabucodonosor, louvo, exalço e glorifico ao Rei do céu,
porque todas as suas obras são verdadeiras, e os seus caminhos, justos, e
pode humilhar aos que andam na soberba” (v. 37).
Daniel é um coadjuvante nesta narrativa. O rei descreve Daniel três vezes
como sendo aquele “no qual há o espírito dos deuses santos” (v. 8,9,18).
Quando Daniel ouve o sonho, ele “esteve atônito por algum tempo” e “seus
pensamentos o turbavam” (v. 19a). Seu personagem é mais desenvolvido
por seu discurso, o que mostra sua preocupação com o rei: “O sonho seja
contra os que te têm ódio” (v. 19c). Ele também mostra sua coragem ao
transmitir ao rei a má notícia e até mesmo ao oferecer-lhe o conselho
profético de “põe termo, pela justiça, em teus pecados e em tuas
iniquidades, usando de misericórdia para com os pobres; e talvez se
prolongue a tua tranquilidade” (v. 25-27). Na verdade, Daniel funciona
como um porta-voz de Deus, pois Deus é o outro personagem principal
desta história.25 Deus é descrito como “Deus, o Altíssimo” (v. 2; cf. 3.26),
“o Altíssimo” (v. 17,24,25,32,34), “o céu” (metonímia no v. 26), “uma voz
do céu” (v. 31) e, como clímax, “Rei do céu” (v. 37). O reino de Deus é
descrito como um “reino sempiterno”, e sua soberania como sendo “de
geração em geração” (v. 3,34). O personagem de Deus é mais desenvolvido
por suas ações: a paciência com o rei advertindo-o com um sonho e dando-
lhe tempo para se arrepender e sua soberania sobre tudo, humilhando o
poderoso rei de Babilônia e, depois, restaurando-o ao seu trono.
Repetição
O autor mais uma vez usa a repetição para mostrar suas ênfases. Já
observamos algumas repetições acima: o rei descreve Daniel três vezes
como aquele “no qual há o espírito dos deuses santos” e os vários nomes
usados para Deus (“Deus, o Altíssimo”, “o Altíssimo”, “o céu”, “uma voz
do céu” e “Rei do céu”). “Altíssimo ocorre neste capítulo com mais
frequência do que em qualquer outro capítulo” (v. 2,17,24,25,32,34).26
Neste capítulo, e só aqui, o autor usa o termo “vigilante” três vezes (v.
13,17,23). O autor usa a palavra “terra” dez vezes,27 “quatro das quais
dizem respeito à impressão de poder de Nabucodonosor sobre a terra (v.
10,11,20,22)”, e a palavra “céu”, dezesseis vezes,28 “a maioria em conexão
com o domínio e o poder de Deus”.29 Seow conclui: “É evidente no capítulo
que o que está em jogo é a relação entre o poder terreno e o poder celestial
– o poder de Nabucodonosor versus o poder de Deus”.30 Significativamente,
a última vez que o narrador usa a palavra “céu”, ele fala de Deus como “Rei
do céu”, uma expressão encontrada somente aqui no Antigo Testamento.31
Esta frase, “Rei do céu”, une os conceitos de domínio e poder com
reinado. O autor usa as palavras “rei” e “reino” tantas vezes que
Goldingday conclui: “O capítulo 4 se preocupa centralmente com o reinado
de Nabucodonosor e o reinado ou governo do Altíssimo (Deus) ou do (o
Rei/Senhor do) Céu (cf. 4.17,18,22,24,25,26,30,31,32,34,36,37)”.32 De
particular importância para discernir o ponto desta narrativa é a repetição
tríplice por três diferentes personagens:
O vigilante santo adverte:
“A fim de que conheçam os viventes que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos
homens; e o dá a quem quer” (v. 17).
Daniel diz:
“Até que conheças que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem
quer” (v. 25; cf. v. 26).
E a voz do céu declara:
“Até que aprendas que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem
quer” (v. 32).
As várias repetições também podem ser evidências de estruturas literárias
mais complexas. Baldwin sugere estrutura A B B’ A’: “O rei começa e
termina com uma atribuição de louvor ao Altíssimo (v. 1-3; 34-37),
enquanto a história principal se divide em duas partes: 1. Nabucodonosor
narra seu sonho (v. 4-18); e 2. A interpretação e cumprimento (v. 19-33)”.33
Mais recentemente, Shea sugeriu a seguinte estrutura quiástica:34
Prólogo: Proclamação Pós-cumprimento - Poema I (v. 1-3)
A Sonho recebido (v. 4-7)
X Diálogo I. Rei para Daniel (v. 8-9)
B Exposição do sonho (v. 10-17)
Y Diálogo II. Rei para Daniel; Daniel para o rei (v. 18-19)
B’ Interpretação do sonho (v. 20-26)
Z Diálogo III. Daniel para o rei (v. 27)
A’ Cumprimento do sonho (v. 28-33)
Epílogo: Restauração Pós-cumprimento - Poema II (v. 34-37)
Embora este quiasma não seja útil para discernir o tema porqueos
versículos 18-19 não são o ponto focal desta epístola, ele mostra que a
passagem foi cuidadosamente elaborada.
Interpretação teocêntrica
Uma vez que Deus é um dos principais personagens desta narrativa, quase
podemos pular esta etapa de interpretação teocêntrica. Mas, por causa da
nossa inclinação para traçar aplicações, principalmente a partir dos
personagens humanos (veja p. 128–30, acima), ela será boa para destacar
como o autor apresenta Deus. Já mencionamos que Deus é chamado de
“Deus, o Altíssimo” (v. 2) e “o Altíssimo” (v. 17,24,25,32,34).35
Evidentemente, neste capítulo o autor deseja se concentrar particularmente
na soberania de Deus. Além de destacar estes nomes para Deus, a narrativa
também focaliza a soberania de Deus: Deus mudou a mente do rei de um
ser humano para a de um animal (v. 16; passivos divinos). Deus levou-o
para longe da sociedade humana e fê-lo habitar com os animais selvagens
(v. 25; passivos divinos).36 E Deus mostra sua soberania novamente
“devolvendo” a razão do rei e “restaurando” a majestade e esplendor dele
(v. 36, passivos divinos). Dentro da narrativa o autor repete três vezes que
“o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens” (v. 17,25,32; cf. v.
26). Ele ressalta ainda mais a soberania de Deus no fim da narrativa, com o
poderoso rei da Babilônia, louvando, exaltando e honrando o “Rei do céu”
(v. 37). Além disso, o autor norteia a narrativa com uma descrição
magnífica do reino de Deus: em contraste com os reinos humanos, o de
Deus “é reino sempiterno, e o seu domínio, de geração em geração” (v. 3,
34).
Tema e objetivo textual
Alguns comentaristas afirmam que “o tema principal da história é a
humilhação e restauração de Nabucodonosor”.37 O objetivo que combinaria
com este tema seria alertar contra o orgulho humano (veja p. 128–29,
acima). Mas observamos anteriormente que este é um subtema e que Israel,
humilhado como estava no exílio, dificilmente precisava de uma
advertência contra o orgulho.
Towner afirma, com razão, que o “capítulo 4 é a história de duas
soberanias”38 (veja p. 137–38, acima). Seow chama a atenção para o louvor
confessional de Nabucodonosor a Deus tanto no início (4.2-3) como no
final deste capítulo (4.34-37). Ele conclui: “De fato, por este
enquadramento, a questão teológica fundamental neste capítulo é
identificada como a soberania de Deus em oposição ao reino humano e, por
isso, os termos de soberania e reinos... são reiterados ao longo do capítulo
(v. 3,17,18,22,25,26,31,32,34,36)”.39 Podemos, portanto, formular o tema
como “o Deus Altíssimo é soberano sobre os reinos terrenos”. Este tema, no
entanto, é muito geral, pois muitas outras passagens bíblicas poderiam ser
pregadas com este tema. Precisamos formular um tema que seja mais
específico textualmente.
Observe que o narrador afirma claramente o objetivo da narrativa nas
palavras do vigilante santo: “Esta sentença é por decreto dos vigilantes, e
esta ordem, por mandado dos santos; a fim de que conheçam os viventes
que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens; e o dá a quem
quer” (v. 17). Esta ideia é repetida mais duas vezes (v. 25,32; cf. v. 26).
Como o tema e objetivo estão relacionados, podemos voltar muitas vezes
para o tema da meta estabelecida. Podemos, portanto, formular o tema da
seguinte forma: O Deus Altíssimo, sendo soberano sobre os reinos terrenos,
os dá a quem ele quer.40
Como indicado, o “vigilante, um santo”, declara o objetivo como “a fim
de que conheçam os viventes que o Altíssimo tem domínio sobre o reino
dos homens” (v. 17). Com sua ênfase em “a fim de que conheçam” (v. 17),
podemos ser tentados a formular o objetivo do autor como “ensinar às
pessoas que o Deus Altíssimo é soberano sobre os reinos terrenos e os dá a
quem ele quer”. Mas podemos ser capazes de formular o objetivo mais
existencialmente, considerando as circunstâncias do público original deste
livro. Israel está sofrendo no exílio na Babilônia. Parece que os deuses
babilônicos conquistaram o Deus de Israel. Por meio desta carta do rei mais
poderoso da terra, no entanto, o autor informa aos exilados que o Deus
deles está derrubando o poderoso rei da Babilônia até que ele confesse que
o Deus de Israel é o Altíssimo e dá o reino a quem quer. O objetivo do
autor, portanto, é mais do que simplesmente ensinar; ele procura assegurar
aos israelitas sofredores, desnorteados, que, apesar das aparências, o seu
Deus é soberano sobre os reinos terrenos e os dá a quem ele quer.41
Maneiras de pregar a Cristo
Como não há nenhuma promessa da vinda do Messias neste capítulo,42
nem um tipo de Cristo,43 nem um contraste de sua mensagem com a de
Jesus no Novo Testamento, vamos explorar os quatro caminhos restantes
para pregar a Cristo.
Progressão histórico-redentiva
A progressão histórico-redentiva oferece uma boa maneira de irmos do
sermão de Daniel 4, no Antigo Testamento, para Jesus Cristo, no Novo
Testamento. Daniel 4 proclama que Deus, o Altíssimo, sendo soberano
sobre os reinos terrenos, os dá a quem ele quer. O primeiro sonho de
Nabucodonosor, sobre a estátua de ouro, prata, bronze e ferro, retratava este
tema vividamente quando Deus deu o reino babilônico primeiro para a
Média-Pérsia, em seguida, para a Grécia, depois para Roma (Dn 2).
No tempo do Império Romano, o soberano Deus enviou seu Filho, Jesus,
a este mundo para batalhar contra o governante mais poderoso da terra,
Satanás. Jesus chamou Satanás de “o príncipe do mundo” (Jo 12.31; 14.30;
16.11). Assim que Jesus começou sua missão, Satanás o atacou: “Levou-o
ainda o diabo a um monte muito alto, mostrou-lhe todos os reinos do
mundo e a glória deles e lhe disse: Tudo isto te darei se, prostrado, me
adorares. Então, Jesus lhe ordenou: Retira-te, Satanás, porque está escrito:
Ao Senhor, teu Deus, adorarás, e só a ele darás culto” (Mt 4.8-10). Jesus
resistiu à tentação de Satanás e começou a ganhar esta batalha feroz. Jesus
curou pessoas e expulsou demônios. Seus discípulos relataram: “Senhor, os
próprios demônios se nos submetem pelo teu nome!”. Mas ele lhes disse:
“Eu via Satanás caindo do céu como um relâmpago” (Lc 10.17-18).
Mas Satanás conseguiu fazer com que Jesus fosse morto e pensou que
tinha vencido a batalha. A vitória dele foi também sua derrota, pois Jesus
ressuscitou vitoriosamente dos mortos, conquistando, assim, o pecado e a
morte. Depois de sua ressurreição, Jesus declarou: “Toda a autoridade me
foi dada no céu e na terra” (Mt 28.18). Daquele momento em diante, o
poder de Satanás foi severamente limitado. O livro de Apocalipse descreve
Satanás como um dragão feroz que agora está preso com uma grande
corrente (Ap 20.1-2). Ele também prediz que, no final deste período de
tempo, Satanás será solto e procurará destruir a igreja em todo o mundo (Ap
20.7-9). Apocalipse descreve isto como uma guerra: Satanás e seus
exércitos “pelejarão contra o Cordeiro, e o Cordeiro os vencerá, pois é o
Senhor dos senhores e o Rei dos reis” (Ap 17.14). O Cordeiro, Jesus, será
completamente vitorioso sobre Satanás. Um anjo clama: “Caiu a grande
Babilônia” (Ap 14.8). Assim, “o reino do mundo se tornou de nosso Senhor
e do seu Cristo, e ele reinará pelos séculos dos séculos” (Ap 11.15). No
final, o Altíssimo Deus dá o reino ao seu Filho Jesus Cristo.
Analogia
A analogia também oferece várias possibilidades para nos deslocarmos do
nosso texto até Cristo, no Novo Testamento. Por exemplo, como Daniel
4.17 ensina “que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens; e o dá
a quem quer e até ao mais humilde dos homens constitui sobre eles”,
também Jesus disse a Pilatos: “Nenhuma autoridade terias sobre mim, se de
cima não te fosse dada” (Jo 19.11).
Ainda outra analogia poderia ser: como o soberano Deus rebaixou o rei
babilônico, também Jesus venceu “o príncipe do mundo”, ainda mais
poderoso: Satanás.44 Jesus disse: “Chegou o momento de ser julgado este
mundo, e agora o seu príncipe será expulso” (Jo 12.31).
Também podemos fazer uma analogia do objetivo do autor, “encorajar os
israelitas sofridos e desnorteados com a mensagem de que, apesardas
aparências, o Deus deles é soberano sobre os reinos terrenos e os dá a quem
ele quer”. Da mesma forma Jesus encorajou seus seguidores. Ele disse: “Eis
que eu vos envio como ovelhas para o meio de lobos... E, quando vos
entregarem, não cuideis em como ou o que haveis de falar, porque, naquela
hora, vos será concedido o que haveis de dizer, visto que não sois vós os
que falais, mas o Espírito de vosso Pai é quem fala em vós” (Mt 10.16,19-
20; cf. Mt 28.19-20). Mais uma vez, Jesus disse: “Não temais, ó pequenino
rebanho; porque vosso Pai se agradou em dar-vos o seu reino” (Lc 12.32;
cf. Mt 6.25.34).
Temas longitudinais
Os temas longitudinais oferecem outra maneira de pregar a Cristo.
Embora se possa traçar o subtema de que Deus vai humilhar os orgulhosos
(como ele humilhou Nabucodonosor) e exaltar os humildes (4.17), como
dito na canção de Ana (1Sm 2.78), na canção de Maria (Lc 1.52 ), em
1Coríntios 1.26-29 e, finalmente, em Filipenses 2.6-11, isto é capaz de
desviar a atenção dos ouvintes do tema do texto, “o Altíssimo tem domínio
sobre o reino dos homens; e o dá a quem quer”.
Para um sermão bem focado, é muito melhor rastrear temas longitudinais
que fazem parte do tema textual. Neste caso, podemos traçar o tema de
Deus sendo soberano desde Daniel 4 até Daniel 7, onde o Ancião de Dias
dá a um semelhante ao Filho do Homem “domínio, e glória, e o reino... o
seu domínio é domínio eterno, que não passará, e o seu reino jamais será
destruído” (7.14). Deste lugar se pode ir para o Novo Testamento, onde
Jesus se identifica como “o Filho do Homem” e, depois, para sua afirmação
após a ressurreição: “Toda a autoridade me foi dada no céu e na terra” (Mt
28.18).
Outra possibilidade é seguir essa parte do tema textual que fala de Deus
dando o reino “a quem quer”, talvez focando em “até ao mais humilde dos
homens constitui sobre eles [os seres humanos]” (4.17). Na história de
Israel, Deus colocou sobre o seu reino o jovem Davi, ignorando seus irmãos
mais velhos; ele escolheu o mais jovem, Salomão, em vez de Adonias.
Isaías profetizou sobre o Servo escolhido de Deus, que “era desprezado e o
mais rejeitado entre os homens” (53.3), mas Deus lhe concedeu que “com
os poderosos repartirá ele o despojo” (53.12). De lá, pode-se ir para o Novo
Testamento, para Jesus, que nasceu num estábulo, pobre, desprezado, foi
crucificado, mas afirmou, depois de sua ressurreição, que Deus havia dado
a ele “toda a autoridade... no céu e na terra” (Mt 28.18). Esta afirmação foi
ecoada no hino cristão primitivo:
Pelo que também Deus o exaltou sobremaneira
e lhe deu o nome que está acima de todo nome,
para que ao nome de Jesus se dobre todo joelho,
nos céus, na terra e debaixo da terra,
e toda língua confesse que Jesus Cristo é Senhor,
para glória de Deus Pai. (Fp 2.9-11)
Referências no Novo Testamento
O apêndice do Novo Testamento grego lista Mateus 13.32 (e paralelos,
Mc 4.32 e Lc 13.19) como uma alusão a Daniel 4.9 (12) e 18 (21). O rei
sonhou com uma árvore tão grande que “debaixo dela os animais do campo
achavam sombra, e as aves do céu faziam morada nos seus ramos”
(4.12,21). Jesus disse: “Disse mais: A que assemelharemos o reino de
Deus? Ou com que parábola o apresentaremos? É como um grão de
mostarda, que, quando semeado, é a menor de todas as sementes sobre a
terra; mas, uma vez semeada, cresce e se torna maior do que todas as
hortaliças e deita grandes ramos, a ponto de as aves do céu poderem
aninhar-se à sua sombra” (Mc 4.30-32). Collins supõe que a mudança de
uma grande árvore mundial para um arbusto de mostarda “foi
provavelmente deliberada no ensino de Jesus: o reino será manifesto na
ordem social, mas não da maneira que seu público espera. Não vai ser um
império internacional poderoso, mas, mesmo assim, vai dar um lar para os
seus membros”.45 Observe, contudo, que em Mateus 13.32 “o maior dos
arbustos... torna-se uma árvore”.46
Uma concordância pode oferecer algumas outras referências adequadas.
Por exemplo, Jesus nos ensinou a orar: “Pai nosso, que estás nos céus, [“Rei
do céu”, Dn 4.37], venha o teu reino” (Mt 6.9-10). Paulo escreve a respeito
da ressurreição: “Cada um, porém, por sua própria ordem: Cristo, as
primícias; depois, os que são de Cristo, na sua vinda. E, então, virá o fim,
quando ele entregar o reino ao Deus e Pai, quando houver destruído todo
principado, bem como toda potestade e poder” (1Co 15.23-24). Paulo
também escreve a respeito de Jesus Cristo: “Nele, foram criadas todas as
coisas, nos céus e sobre a terra, as visíveis e as invisíveis, sejam tronos,
sejam soberanias, quer principados, quer potestades. Tudo foi criado por
meio dele e para ele” (Cl 1.16). Pedro exorta os cristãos: “Por isso, irmãos,
procurai, com diligência cada vez maior, confirmar a vossa vocação e
eleição... Pois desta maneira é que vos será amplamente suprida a entrada
no reino eterno de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo” (2Pe 1.10-11).
Tema, objetivo e necessidade do sermão
O tema e o objetivo do sermão devem ser baseados no tema e no objetivo
textuais. Como não há contraste entre este tema textual e o Novo
Testamento, podemos usá-lo como nosso tema do sermão o Deus Altíssimo,
sendo soberano sobre os reinos terrenos, os dá a quem ele quer.
Formulamos o objetivo do autor como “reassegurar aos israelitas sofridos
e desnorteados que, apesar das aparências, o Deus deles é soberano sobre os
reinos terrenos e os dá a quem ele quer”. Podemos adotar um objetivo
semelhante para o sermão: assegurar ao povo de Deus sofrido e
desnorteado hoje que, apesar das aparências, nosso Deus é soberano sobre
os reinos terrenos e os dá a quem ele quer.
Este objetivo aponta para a necessidade que deve ser abordada neste
sermão: devido à perseguição patrocinada pelo Estado em todo o mundo, o
povo de Deus começa a questionar se Deus é realmente soberano sobre os
reinos terrenos. A introdução do sermão poderia ilustrar isso questionando a
soberania de Deus (Por que Deus não impede a terrível perseguição de seu
povo em todo o mundo?), vincular esse questionamento às nossas perguntas
hoje, mover-se para questões de Israel sobre a soberania de Deus enquanto
sofria no exílio e, em seguida, começar a exposição. Mas em uma série de
sermões e uma vez que esta é a última narrativa sobre o rei Nabucodonosor,
pode-se também analisar rapidamente as histórias anteriores sobre o rei47 e
depois passar para a exposição. Vou demonstrar abaixo esta possibilidade.
Exposição do sermão
Daniel 4 é a história final sobre o rei Nabucodonosor. O rei chegou ao
auge de seu poder. Nós o encontramos pela primeira vez em Daniel 1,
quando ele cercou Jerusalém, tomou alguns vasos de ouro e de prata da casa
de Deus e os colocou na casa de seus deuses. Ele também capturou moços,
que levou para o seu palácio para uma reeducação completa. Entre eles
estavam Daniel e seus três amigos. Daniel se recusou a comer os alimentos
não kosher do rei e solicitou legumes e água para si e seus amigos. Deus
abençoou a fidelidade deles e lhes deu sabedoria superior. Por isso, o rei os
nomeou para cargos em seu palácio.
Em Daniel 2, lemos que Nabucodonosor teve um sonho estranho com
uma enorme estátua com uma cabeça de ouro, peito e braços de prata,
cintura e coxas de bronze, pernas de ferro e pés de ferro e barro. Em
seguida, uma pedra foi cortada e feriu a estátua nos pés de ferro e de barro,
destruindo-a. “Mas a pedra que feriu a estátua se tornou em grande
montanha, que encheu toda a terra” (2.35). Quando seus sábios não
conseguiram narrar o sonho, o rei ameaçou assassinar todos eles. Mas Deus
revelou o mistério do sonho, bem como a sua interpretação, a Daniel. Deus
havia dado o grande reino da Babilônia a Nabucodonosor, a cabeça de ouro,
mas depois o daria para a Média-Pérsia, em seguida, para os gregos, e,
finalmente, para os romanos. Mas, no fim, Deus substituiria todos estes
reinos humanos pelo seu próprio reino – um reino que “subsistirá para
sempre” (2.44).
Em Daniel 3, lemos que o rei Nabucodonosor queria ser mais do que a
cabeça de ouro. Ele fez uma enorme estátuapara si e cobriu toda a imagem
de ouro. Então ele forçou todos os “povos, nações e homens de todas as
línguas... vos prostrareis e adorareis a imagem de ouro” (3.4-5). Todos
caíram de joelhos à exceção dos três amigos de Daniel. O rei deu-lhes outra
chance, mas eles se recusaram a adorar os deuses do rei. Então o rei
mandou jogá-los na fornalha de fogo ardente. Mas Deus estava com eles no
meio do fogo e os salvou. Em resposta, o rei decretou que ninguém podia
proferir blasfêmia contra o Deus dos três amigos “porque não há outro deus
que possa livrar como este” (3.29).
Os acontecimentos de Daniel 4 se passam cerca de vinte anos mais tarde.48
Estamos agora no auge do reinado do rei. O rei tinha terminado suas
batalhas para expansão do seu reino. Ele havia saqueado o Egito, Tiro,
Israel e outras nações e levado os tesouros deles para a Babilônia. Ele os
usou para embelezar os templos existentes e construir novos (4.30). Para
sua esposa, construiu os famosos Jardins Suspensos, que se tornaram uma
das sete maravilhas do mundo antigo. Havia paz em seu reino (4.4). O rei
tinha chegado.
Então o rei escreve uma carta. Capítulo 4:1: “O rei Nabucodonosor a
todos os povos, nações e homens de todas as línguas, que habitam em toda
a terra: Paz vos seja multiplicada!”. O rei a destina “a todos os povos,
nações e homens de todas as línguas”. À semelhança dos reis assírios antes
dele, o rei Nabucodonosor se considera o rei de toda a terra.49 E, na verdade,
ele governa a maior parte do mundo conhecido da época. O reino dele se
estende desde o Golfo Pérsico, a leste, ao Mar Mediterrâneo, a oeste, ao
Egito, ao sul, e ao Irã, ao norte. Rei de toda a terra!
Mas nos versículos 2 e 3 este rei de toda a terra faz uma declaração
surpreendente: “Pareceu-me bem fazer conhecidos os sinais e maravilhas50
que Deus, o Altíssimo, tem feito para comigo.51 Quão grandes são os seus
sinais, e quão poderosas, as suas maravilhas! O seu reino é reino
sempiterno, e o seu domínio, de geração em geração”. Ele declara
abertamente que existe rei maior e um reino maior que o seu: o reino de
Deus, o Altíssimo, é “reino sempiterno, e o seu domínio, de geração em
geração”. Como Nabucodonosor descobriu que havia um rei maior e um
reino maior que o dele?
Versículo 4: “Eu, Nabucodonosor, estava tranquilo em minha casa e feliz
no meu palácio”. Os tempos eram bons. Havia paz em seu reino. O rei
podia viver à vontade em sua casa e prosperar em seu palácio. Ele estava
satisfeito.52
Mas, de repente, seu humor mudou bruscamente.53 Ele passou de satisfeito
para aterrorizado. O que aconteceu? O rei escreve no versículo 5: “Tive um
sonho, que me espantou; e, quando estava no meu leito, os pensamentos e
as visões da minha cabeça me turbaram”. Anos antes, o rei teve um sonho
estranho que o perturbou (2.1,3). Mas este era um pesadelo que o assustava.
Ele acordou encharcado de suor. E, quanto mais refletia sobre o sonho, mais
amedrontado ficava.54
O que o rei de toda a terra faz quando fica apavorado por um pesadelo?
Ele faz um decreto, é claro. Ele escreve nos versículos 6 e 7: “Por isso,
expedi um decreto, pelo qual fossem introduzidos à minha presença todos
os sábios da Babilônia, para que me fizessem saber a interpretação do
sonho. Então, entraram os magos, os encantadores, os caldeus e os
feiticeiros, e lhes contei o sonho; mas não me fizeram saber a sua
interpretação.” Esses sábios haviam falhado antes. Não sabemos por que o
rei ainda contou com eles. Talvez tivesse presumido que Daniel estaria com
eles, mas Daniel podia estar viajando.55 De qualquer forma, ele não estava
com os sábios e esses sábios não puderam dar uma interpretação do sonho.
Então o rei de toda a terra continuou apavorado.
Versículos 8 e 9: “Por fim, se me apresentou Daniel, cujo nome é
Beltessazar, segundo o nome do meu deus,56 e no qual há o espírito dos
deuses santos;57 e eu lhe contei o sonho, dizendo: “Beltessazar, chefe dos
magos, eu sei que há em ti o espírito dos deuses santos, e nenhum mistério58
te é difícil; eis as visões do sonho que eu tive; dize-me a sua interpretação”.
Por fim, chegamos a ouvir o sonho que tanto assustou o rei. Versículos 10
a 12: “Eram assim as visões da minha cabeça quando eu estava no meu
leito: eu estava olhando e vi uma árvore no meio da terra, cuja altura era
grande; crescia a árvore e se tornava forte, de maneira que a sua altura
chegava até ao céu; e era vista até aos confins da terra”. A frase “a sua
altura chegava até ao céu” nos lembra do desafio contra Deus, quando as
pessoas decidiram construir a Torre de Babel “cujo tope chegue até aos
céus” (Gn 11.4). O rei continua: “A sua folhagem era formosa, e o seu
fruto, abundante, e havia nela sustento para todos; debaixo dela os animais
do campo achavam sombra, e as aves do céu faziam morada nos seus
ramos, e todos os seres viventes se mantinham dela”. Até aqui, tudo em
ordem. Com exceção de “a sua altura chegava até ao céu”,59 é uma imagem
bonita, tranquila. Nada que pudesse assustar o rei. Eu posso imaginar que
este sonho lembrou o rei de si mesmo. Não era o seu reino visível “até aos
confins da terra”? Será que ele não oferece “sustento para todos”?
Porventura, muitas nações não encontravam abrigo no seu grande reino?
Sim, o sonho é sobre o rei Nabucodonosor! Mas então por que ele estava
tão assustado, até mesmo apavorado?
Finalmente, o rei chega ao x da questão. Versículo 13: “No meu sonho,
quando eu estava no meu leito, vi um vigilante, um santo,60 que descia do
céu”. A frase “descia do céu” novamente nos lembra a Torre de Babel:
“Então, desceu o SENHOR para ver a cidade e a torre, que os filhos dos
homens edificavam” (Gn 11.5). Vigilantes santos vigiam a terra para
Deus.61 Eles são mensageiros de Deus. Podemos pensar em anjos.
No versículo 14, lemos a mensagem do vigilante santo: “Derribai a
árvore, cortai-lhe os ramos, derriçai-lhe as folhas, espalhai o seu fruto;62
afugentem-se os animais de debaixo dela e as aves, dos seus ramos”. É um
desastre! Não admira que o rei esteja assustado. Ele tinha se identificado
com a grande árvore e, agora, ouve as ordens para cortá-la. Deve ser
destruída. Seus galhos grandes devem ser cortados; sua folhagem,
derriçada; seus frutos, dispersos. E os animais e aves que tinham se
abrigado devem ser afugentados. Não ficará nada. Exceto um toco.
Versículo 15: “Mas a cepa, com as raízes, deixai na terra, atada com
cadeias de ferro e de bronze, na erva do campo”. Esta é uma nota de
esperança. Recordamos as palavras familiares de Isaías: “Do tronco de
Jessé sairá um rebento, e das suas raízes, um renovo” (11.1).63 Muito
embora a árvore real de Davi tenha sido cortada, um broto mais tarde viria a
nascer do toco, o grande filho de Davi, Jesus Cristo. Então, aqui no sonho
de Nabucodonosor, a árvore é cortada, mas o toco permanece no chão, com
“cadeias de ferro e de bronze” em torno dele. As cadeias de ferro e de
bronze, provavelmente, são colocadas para proteger o toco.64 De qualquer
modo, embora o toco seja evidência do desastre que ocorreu, ele oferece
uma nota de esperança para o futuro.
No meio do versículo 15, a imagem de repente muda da árvore que seria
cortada para uma pessoa que vai ser derrubada. Nós lemos: “Seja ela
molhada do orvalho do céu, e a sua porção seja, com os animais, a erva da
terra. Mude-se-lhe o coração, para que não seja mais coração de homem, e
lhe seja dado coração de animal; e passem sobre ela sete tempos”. A bela,
grande e forte árvore representa uma pessoa poderosa. Ela será cortada –
apenas um toco será deixado. Um pobre reflexo do seu antigo eu. Esta
pessoa que abrigava os animais vai se transformar em um animal. Ela estará
no campo com os animais. Ela será “molhada do orvalho do céu”. “No
Oriente Médio há um orvalho pesado quase todas as noites, porque os dias
são quentes e as noites são frias. A temperatura da noite condensa a
umidade do ar”.65 Ela será exposta aos elementos, tempestades e chuva. E a
sua mente humana, sua razão, será alterada para a mente de um animal.
Essa punição vai durar por sete tempos.Visto que sete é o número hebraico
da completude, “sete tempos” significa um período completo de tempo.66
Não admira que o rei estivesse assustado com o sonho e aterrorizado por
suas reflexões sobre o seu significado. Quem é a pessoa mais poderosa do
mundo? O rei, claro. Ele é o rei de toda a terra. Será que o sonho quer dizer
que ele vai ser derrubado? Que ele será deposto? Apenas um toco deixado
no chão? Isto soa ameaçador. O rei está apavorado. Não há nenhuma
maneira de escapar disto?
O vigilante santo conclui sua mensagem no versículo 17 “Esta sentença é
por decreto dos vigilantes, e esta ordem, por mandado dos santos; a fim de
que conheçam os viventes que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos
homens; e o dá a quem quer e até ao mais humilde dos homens constitui
sobre eles”. O “decreto dos vigilantes” é o decreto do próprio Deus, como
Daniel explica no versículo 24: “É o decreto do Altíssimo”.67 Deus dá este
decreto, diz o versículo 17, “a fim de que conheçam os viventes que o
Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens; e o dá a quem quer e até
ao mais humilde dos homens constitui sobre eles”.68 Esta é a frase-chave
neste capítulo. Todos os que vivem devem saber que Deus, o Altíssimo, é
soberano sobre os reinos terrenos e os dá a quem ele quer.
O rei continua sua carta no versículo 18: “Isto vi eu, rei Nabucodonosor,
em sonhos. Tu, pois, ó Beltessazar, dize a interpretação, porquanto todos os
sábios do meu reino não me puderam fazer saber a interpretação, mas tu
podes; pois há em ti o espírito dos deuses santos”.
Versículo 19: “Então, Daniel, cujo nome era Beltessazar, esteve atônito
por algum tempo, e os seus pensamentos o turbavam”. No início, o sonho
tinha assustado o rei, e os seus pensamentos sobre ele o aterrorizavam.
Agora é a vez de Daniel ficar aterrorizado. Ele sabe o significado do sonho,
e isso é uma notícia terrível para o rei – mas também pode ser uma notícia
terrível para Daniel. Ele sabe que o rei tem um temperamento violento. O
rei tem uma reputação de atirar no mensageiro. Quando os sábios do rei não
puderam interpretar o sonho anterior, “o rei muito se irou e enfureceu; e
ordenou que matassem a todos os sábios da Babilônia” (Dn 2.12). Quando
os amigos de Daniel se recusaram a adorar a estátua do rei, ele ficou
enfurecido e ordenou que o fogo fosse alimentado sete vezes mais e os
amigos de Daniel foram lançados ao fogo (3.19-20). O que será que o rei
vai fazer com o mensageiro que lhe disser que ele vai perder não só o seu
reino, mas também sua razão? É com razão que Daniel hesita por algum
tempo.
O rei percebe que Daniel está apavorado. Ele diz para Daniel:
“Beltessazar, não te perturbe o sonho, nem a sua interpretação”. E,
diplomaticamente, Daniel responde: “Senhor meu, o sonho seja contra os
que te têm ódio, e a sua interpretação, para os teus inimigos”. Mas Daniel
sabe que a má notícia não é para os inimigos do rei, mas para o próprio rei.
Então, relutantemente, ele começa a falar. Ele não quer dar a má notícia
imediatamente. Assim, ele começa com as características positivas,
repetindo o relato do sonho do rei quase palavra por palavra.
Versículos 20 a 22: “A árvore que viste, que cresceu e se tornou forte, cuja
altura chegou até ao céu, e que foi vista por toda a terra, cuja folhagem era
formosa, e o seu fruto, abundante, e em que para todos havia sustento,
debaixo da qual os animais do campo achavam sombra, e em cujos ramos
as aves do céu faziam morada, és tu, ó rei, que cresceste e vieste a ser forte;
a tua grandeza cresceu e chega até ao céu, e o teu domínio, até à
extremidade da terra”.69 É justo como o rei pensou. Ele é a árvore grande e
forte:70 o rei de toda a terra.
Mas, quando Daniel chega à má notícia, ele tenta suavizar o golpe. Ele
tenta poupar o rei do constrangimento, abreviando a longa descrição da
destruição da árvore. Ele também ignora diplomaticamente as partes que
dizem que o rei vai perder a razão e que Deus coloca sobre o reino o “mais
humilde dos homens”.71 Versículos 23 a 25: “Quanto ao que viu o rei, um
vigilante, um santo, que descia do céu e que dizia: Cortai a árvore e destruí-
a, mas a cepa com as raízes deixai na terra, atada com cadeias de ferro e de
bronze, na erva do campo; seja ela molhada do orvalho do céu, e a sua
porção seja com os animais do campo, até que passem sobre ela sete
tempos, esta é a interpretação, ó rei, e este é o decreto do Altíssimo, que
virá contra o rei, meu senhor: serás expulso de entre os homens, e a tua
morada será com os animais do campo, e dar-te-ão a comer ervas como aos
bois,72 e serás molhado do orvalho do céu; e passar-se-ão sete tempos por
cima de ti, até que conheças que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos
homens e o dá a quem quer.”
O rei será deposto e expulso da sociedade; ele viverá com os animais,
comendo capim73 como os bois. Mas esta punição terá duração limitada. Ela
vai durar “sete tempos”, isto é, a punição do rei vai durar um período de
tempo indeterminado, mas completo.74 Este período de tempo vai terminar,
Daniel explica, “até que conheças que o Altíssimo tem domínio sobre o
reino dos homens”. Aqui aparece aquela frase importante novamente. No
versículo 17, ela era “a fim de que conheçam os viventes que o Altíssimo
tem domínio sobre o reino dos homens”. Aqui é o rei Nabucodonosor,
especificamente, que tem de aprender “até que conheças que o Altíssimo
tem domínio sobre o reino dos homens”. Ele pode ser o rei de toda a terra,
mas Deus é rei do universo. Ele é “o Altíssimo”. E ele tem soberania sobre
todos os reinos da terra. O rei é rei só pela permissão do Altíssimo. O rei é
rei sob Deus, “o Senhor dos reis” (Dn 2.47).
Daniel continua nos versículos 26 e 27: “Quanto ao que foi dito, que se
deixasse a cepa da árvore com as suas raízes, o teu reino tornará a ser teu,
depois que tiveres conhecido que o céu [isto é, o Deus do céu]75 domina.76
Portanto, ó rei, aceita o meu conselho e põe termo, pela justiça, em teus
pecados e em tuas iniquidades, usando de misericórdia para com os pobres;
e talvez se prolongue a tua tranquilidade”.
Daniel se atreve a oferecer alguns conselhos ao rei. A tradução “expiar
seus pecados” em inglês [“põe termo... em teus pecados” na ARA] é
confusa, pois não podemos expiar nossos pecados – somente Cristo pode.
Como a nota de rodapé indica, talvez Daniel tenha dito literalmente
“romper com seus pecados” – como interromper uma conversa.77 Quebrar,
descontinuar os seus pecados e fazer o que é certo. A NVI traduz:
“Renuncia a teus pecados... pratica a justiça”. Daniel conhece o
temperamento volátil do rei. No entanto, ele tem a coragem de nomear os
pecados do rei especificamente. Ele segue: “Põe termo, pela justiça, em teus
pecados e em tuas iniquidades, usando de misericórdia para com os
pobres”. Ele se concentra em um dos grandes pecados do rei: oprimir os
pobres e desvalidos impiedosamente.78 Sabemos, pela história, que o rei
Nabucodonosor oprimiu muitos povos, destruiu suas cidades, exilou-os para
diferentes regiões do seu império, arrebanhou os mais brilhantes para servi-
lo e usou o trabalho escravo para construir sua bela Babilônia. “Põe termo
em... tuas iniquidades, usando de misericórdia para com os pobres”.79
O resultado, Daniel sugere, poderia ser que “talvez se prolongue a tua
tranquilidade”. Talvez o julgamento de Deus seja adiado se ele romper com
suas iniquidades orgulhosas e arrogantes, “usando de misericórdia para com
os pobres”. No Novo Testamento, Jesus ensina: “Bem-aventurados os
misericordiosos, porque alcançarão misericórdia” (Mt 5.7). Talvez o rei
receba a misericórdia de Deus, se for misericordioso para com os
oprimidos.
Aparentemente, o rei não se preocupou em seguir os conselhos de Daniel.
Ele não começou a mostrar misericórdia para com os oprimidos, pois lemos
no versículo 28: “Todas estas coisas sobrevieram ao rei Nabucodonosor”.
Tudo o que Daniel predisse sobreveio ao rei. E assim aconteceu.
Versículo 29: “Ao cabo de doze meses, passeando sobre o palácio real da
cidade de Babilônia”. O palácio tinha uma coberturaplana para que o rei
pudesse relaxar e caminhar por lá na brisa fresca. Do terraço, olhou para
baixo, para a avenida processional que ele tinha “pavimentado com calcário
e decorado com figuras de leões”.80 Ele também podia ver os famosos
jardins suspensos que tinha construído para sua esposa. Um pouco mais
abaixo, viu o templo que havia construído para seu deus, Marduque. E, ao
lado dele, a torre zigurate, que consistia de sete níveis, a parte superior
tendo aproximadamente 88 metros de altura – uma torre de trinta andares.
Ele também podia ver muitos dos cinquenta e três templos que tinha
construído ou embelezado. E havia o muro interno duplo, com suas grandes
torres defensivas. E, mais além do muro interno, podia-se ver o enorme
muro duplo exterior que ele havia construído e alguns dos oito portões
enormes que davam acesso à cidade. “A cidade da Babilônia era uma das
cidades mais proeminentes da história e, durante o reinado de
Nabucodonosor... a mais magnífica (e provavelmente a maior) da terra”.81
Apenas 12 meses depois de seu terrível sonho, o rei parece esquecido
disso, porque, enquanto se apoia na cobertura do seu palácio e se embebeda
de toda a beleza e força de sua capital, diz ele, no versículo 30: “Não é esta
a grande Babilônia,82 que eu edifiquei para a casa real, com o meu
grandioso poder e para glória da minha majestade?”83 O rei de toda a terra
se orgulha de suas realizações. Em vez de dar glória a Deus, ele se orgulha
da “glória da minha majestade”.
Versículos 31 e 32: “Falava ainda o rei quando desceu uma voz do céu” –
isto é, a voz de Deus.84 Deus diz: “A ti se diz, ó rei Nabucodonosor: Já
passou de ti o reino. Serás expulso de entre os homens, e a tua morada será
com os animais do campo; e far-te-ão comer ervas como os bois, e passar-
se-ão sete tempos por cima de ti, até que aprendas que o Altíssimo tem
domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem quer”.85 Há aquela frase
importante novamente: “Até que aprendas que o Altíssimo tem domínio
sobre o reino dos homens e o dá a quem quer”.
Versículo 33: “No mesmo instante, se cumpriu a palavra sobre
Nabucodonosor; e foi expulso de entre os homens e passou a comer erva
como os bois, o seu corpo foi molhado do orvalho do céu, até que lhe
cresceram os cabelos como as penas da águia, e as suas unhas, como as das
aves”.
O sonho está sendo cumprido. No exato instante em que o rei se gaba de
suas realizações e dá a glória a si mesmo, ele perde a razão. O rei fica louco
e perde o seu reino. Numa época em que não havia hospitais psiquiátricos
ou casas de repouso, o rei foi simplesmente expulso da sociedade humana.
Ele passou a viver ao ar livre com os animais. Ali, como o gado, ele come
capim. Ele pensa que é um animal. Ele provavelmente tem o que os
psicólogos chamam de “licantropia”86 – a ilusão de acreditar-se um animal.
Essa doença, embora rara, ainda ocorre na atualidade.87 Aparentemente o rei
George III da Inglaterra (1738-1820) também sofreu desta enfermidade.88
Nabucodonosor pensa que é um boi. Ele fica ao ar livre, dia e noite, e seu
corpo fica sendo exposto aos elementos do tempo: sol ardente durante o dia
e névoa fria à noite. Depois de certo tempo, ele até começa a se parecer com
um animal. O versículo 33 nos diz que “lhe cresceram os cabelos como as
penas da águia, e as suas unhas, como as das aves” – longos e emaranhados
como penas de águias. E “e as suas unhas [crescendo tanto tempo
começaram a enrolar], como as das aves”. Até que ponto o poderoso rei
caiu! O rei de toda a terra, que tinha recebido domínio também sobre o
mundo animal (Dn 2.37-38; cf. Jr 27.5-6), tornou-se, ele próprio, um
animal.
“E passar-se-ão sete tempos por cima de ti”, diz o texto. O rei vai ficar
nesse estado animal por um período completo de tempo, até que aprenda
“que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens”. O rei tem que
aprender que Deus é o Rei dos reis. Nabucodonosor é rei sob Deus e deve
dar a glória não a si mesmo, mas a Deus.
O rei relata no versículo 34: “Mas ao fim daqueles dias, eu,
Nabucodonosor, levantei os olhos ao céu”. Levantar os olhos para o céu é
buscar a ajuda de Deus. O salmista diz: “A ti, que habitas nos céus, elevo os
olhos!”89 Então, o rei levanta os olhos ao céu.90 Ao fazer isso, ele reconhece
a soberania de Deus. Desse modo, ele satisfaz a condição de Deus para
suspender a maldição: “Até que aprendas que o Altíssimo tem domínio
sobre o reino dos homens” (v. 32). E logo Deus o cura de sua doença. O rei
relata que “me tornou a vir o entendimento”.
Imediatamente, ele é capaz de proclamar a soberania de Deus.91 O relato
do rei continua no versículo 34: “Eu bendisse92 o Altíssimo, e louvei, e
glorifiquei ao que vive para sempre, cujo domínio é sempiterno, e cujo
reino é de geração em geração. Todos os moradores da terra são por ele
reputados em nada;93 e, segundo a sua vontade, ele opera com o exército do
céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter a mão,94 nem lhe
dizer: Que fazes?”. Nem mesmo o rei de toda a terra pode opor-se às ações
de Deus ou levantar objeções ao que ele está fazendo.95 Nabucodonosor fala
por dolorosa experiência.
Que poderosa garantia as palavras do rei devem ter sido para Israel no
exílio! Seu Deus é o Deus soberano. Ele está no controle até mesmo dos
seus captores. Ele pode livrá-los de seu exílio, a qualquer momento que
desejar.
No versículo 36, o rei relata o final feliz: “Tão logo me tornou a vir o
entendimento, também, para a dignidade do meu reino, tornou-me a vir a
minha majestade e o meu resplendor; buscaram-me os meus conselheiros e
os meus grandes; fui restabelecido no meu reino, e a mim se me ajuntou
extraordinária grandeza”. Como prometido, Deus restaurou o rei ao seu
trono; ele o restabeleceu sobre seu reino porque o rei agora reconheceu que
“o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens; e o dá a quem quer”
(v. 17,25,32).
O rei conclui sua carta com mais louvor a Deus. “Agora, pois, eu,
Nabucodonosor, louvo, exalço e glorifico ao Rei do céu, porque todas as
suas obras são verdadeiras, e os seus caminhos, justos, e pode humilhar aos
que andam na soberba”. Este é o único lugar no Antigo Testamento, onde
Deus é chamado de “Rei do céu”.96 O rei de toda a terra reconhece mais
uma vez que há um rei maior, um rei que tem domínio sobre tudo – o Rei
do céu. E ele confessa que “todas as suas obras são verdadeiras, e os seus
caminhos, justos,97 e pode humilhar aos que andam na soberba” – isto é,
aqueles que testam o seu poder contra o do Rei do céu.98
A mensagem de Daniel 4 é que Deus é soberano sobre os reis humanos e
os reinos terrenos. Ele pode dar os reinos terrenos a quem ele quiser.
Mesmo enquanto estou refazendo este capítulo, ditadores de longo prazo
estão sendo derrubados na Tunísia e no Egito, enquanto outros ditadores
estão cambaleando.*99 Quem poderia prever essas abdicações mesmo alguns
meses atrás? Deus é soberano sobre os reinos terrestres e pode dá-los a
quem ele quiser.
Que encorajamento esta mensagem deve ter sido para os israelitas que
sofriam no exílio na Babilônia!100 Os reis babilônicos podem parecer
grandes, mas o Deus de Israel é maior. Os reis babilônicos podem parecer
poderosos, mas o Deus de Israel é Todo-Poderoso. Ele pode derrubar o mais
poderoso rei humano simplesmente confundindo a sua mente. O Deus de
Israel é o Rei dos reis. Israel pode não entender por que ainda está sofrendo
no exílio. Mas a mensagem de que o seu Deus é soberano sobre os reis
humanos lhe dá esperança da libertação. Certamente este Deus pode libertá-
lo e levá-lo de volta para a Terra Prometida.
Deus revela sua soberania não só no Antigo Testamento, mas
especialmente no Novo. Deus enviou seu Filho, Jesus, a este mundo para
fazer guerra contra o ser mais poderoso do mundo, Satanás. Jesus chamou
Satanás de “o príncipe do mundo” (Jo 12.31; 14.30; 16.11). Assim que
Jesus começou sua missão, Satanás o atacou: “Levou-o ainda o diabo a um
monte muito alto, mostrou-lhe todos os reinos do mundo e a glória deles e
lhe disse: Tudo isto te darei se, prostrado, meadorares. Então, Jesus lhe
ordenou: Retira-te, Satanás, porque está escrito: Ao Senhor, teu Deus,
adorarás, e só a ele darás culto” (Mt 4.8-10). Jesus resistiu à tentação de
Satanás e começou a ganhar esta batalha feroz. Jesus curou pessoas e
expulsou demônios. Ele enviou setenta seguidores em uma viagem
missionária. Quando retornaram, eles relataram: “Senhor, os próprios
demônios se nos submetem pelo teu nome! Mas ele lhes disse: Eu via
Satanás caindo do céu como um relâmpago” (Lc 10.17-18; cf. Cl 2.15).
Mas Satanás conseguiu fazer com que Jesus fosse morto e, por um tempo,
parecia que ele tinha vencido a batalha. Porém, a vitória dele foi também a
sua derrota, pois Jesus ressuscitou vitoriosamente dos mortos. Ele venceu o
pecado e a morte. Daquele momento em diante, o poder de Satanás foi
severamente limitado. A Bíblia descreve Satanás como um dragão feroz que
agora está preso com uma grande corrente, preso em um abismo, “para que
não mais enganasse as nações até se completarem os mil anos” (Ap 20.1-3).
Ele ainda pode fazer mal, mas não é livre para fazer o seu pior. A Bíblia
também diz que, no final dos “mil anos”, este período completo de
tempo,101 Satanás será solto e procurará destruir a igreja em todo o mundo
(Ap 20.7-9). O livro de Apocalipse descreve isso como uma guerra: Satanás
e seus exércitos “pelejarão contra o Cordeiro, e o Cordeiro os vencerá, pois
é o Senhor dos senhores e o Rei dos reis” (Ap 17.14). 102 O Cordeiro, Jesus,
será vitorioso. Então, nas conhecidas palavras de Apocalipse: “O reino do
mundo se tornou de nosso Senhor e do seu Cristo, e ele reinará pelos
séculos dos séculos” (Ap 11.15).
Hoje vivemos no intervalo entre a primeira e a segunda vinda de Jesus.
Embora Satanás esteja preso, estamos perplexos com toda a perseguição
que vemos no mundo. A igreja ainda está em guerra. Algumas nações
procuram acabar com a igreja cristã. Milhares de cristãos são mortos todos
os dias. Outros estão presos, torturados ou na lista negra. De acordo com as
últimas estimativas, 100 milhões de cristãos são perseguidos em todo o
mundo, em países como a Coreia do Norte, Arábia Saudita e Irã.103 Mesmo
onde não há perigo de perseguição aberta, paira no ar o medo de que uma
nação pária possa lançar um míssil nuclear, ou terroristas possam atacar de
maneiras inimagináveis.
Quando pensamos nos milhões de cristãos que sofrem perseguição hoje,
podemos começar a questionar a soberania de Deus. Se Deus é um Deus
soberano e amoroso, por que o seu povo sofre tanto neste mundo? Se Deus
é soberano, por que ele não resgata o seu povo do sofrimento? Não há
respostas fáceis para essas perguntas. Mas a mensagem de Daniel 4 é
incontestável: Deus é soberano sobre os reinos terrenos. Ele pode substituir
os governantes à vontade. Nabucodonosor há muito desapareceu. Nero
morreu há muito tempo. Hitler, Stalin, Mao (Zedong), Kim Jong Il – todos
se foram. Mas Deus continua aqui. E o seu reino veio com a vinda de Jesus
e virá em perfeição quando Jesus vier novamente.104 Este reino substituirá
todos os reinos da terra. Então a nova terra transbordará de justiça e paz e
todos louvarão o Rei dos reis e Senhor dos senhores. Graças a Deus.
1 Aramaico 3.3 – 4.34.
2 Goldingay, Daniel, 97, citado com aprovação por Lucas, Daniel, 118. O próprio Lucas esboça
Nabucodonosor pela primeira vez como um modelo positivo: em contraste com 3.29, onde o rei
confiou no poder de força física para impedir blasfêmias contra Deus, aqui ele confia “no poder do
testemunho pessoal. Infelizmente, as igrejas cristãs têm dado, por vezes, lugar à tentação de agir mais
como Nabucodonosor 3.29 do que em 4.1-3”. Ibid., 114. Em seguida, ele usa Nabucodonosor como
exemplo de aviso: “Há uma mensagem aqui não só para os governantes nacionais: pais, professores,
administradores de empresas, políticos e muitos outros têm, em alguma medida, o papel de ser a
‘árvore da vida’ para os outros. Se essa função não for realizada com a devida humildade, o resultado
pode ser desastroso para todos os interessados (4.14)”. Ibid., 115-16. Goldingay, Daniel, 87 e 91,
acerta muito mais no alvo quando escreve: “Nabucodonosor não representa a humanidade comum
sendo julgada por orgulho humano comum”; e “O capítulo refere-se à pergunta: ‘Quem é o rei?’”.
3 Longman, Daniel, 122.
4 Cf. Provérbios 29.23: “A soberba do homem o abaterá, mas o humilde de espírito obterá honra”.
5 Wallace, The Lord Is King, 73.
6 Ibid., 81.
7 Miller, Daniel, 129.
8 Miller, ibid., 131. Cf. Lucas, Daniel, 115, “Embora a experiência de Daniel retratada nesta
história esteja muito longe do que a do crente comum, o discernimento espiritual intuitivo que ele
mostra é algo que todos os crentes precisam... Assim como a percepção de Daniel cresceu da sua
estreita relação com Deus (Dn 4.8), igualmente o cristão não pode esperar “ter a mente de Cristo”,
sem desenvolver um modo cristão de vida”.
9 Wallace, The Lord Is King, 79.
10 Ibid., 82. Cf. W. G. Heslop, Diamonds from Daniel (cidade?: Nazarene, 1937), 71 “O profeta
fala de forma clara e incisiva... Conquanto nós não possamos gritar, enraivecer, ou espumar contra os
pecadores, sob o pretexto de temperamento quente ou zelo, não devemos, por outro lado, usar
palavras lisonjeiras e transigir com o pecado, sob o pretexto de ganhar pecadores para a igreja, ou
manter os jovens”.
11 Quando as divisões de capítulos foram introduzidas, no século 13, a Vulgata incluiu os
versículos 4.1-3 no capítulo 3 (3.31-33). A razão dessa divisão foi, provavelmente, porque esses
versículos incluem louvor a Deus, que, normalmente, vem no fim das narrativas de Daniel, como em
4.34-37. Mais tarde, as divisões de capítulos da Vulgata foram adicionadas ao texto
hebraico/aramaico, mas tanto Lutero como Calvino mudaram estes três versículos para o capítulo 4.
Veja, p.ex., Collins, Daniel, 221-22; Lucas, Daniel,107-8; e Steinmann, Daniel, 209.
12 Veja Leupold, Exposition of Daniel, 167.
13 Poder-se-ia pedir a três bons leitores para ler as partes de Nabucodonosor (4.1-18,30,34,37), de
Daniel (4.19-27) e do narrador (incluindo a voz do céu; 4.28-29,31-33). Mas se o tempo for uma
consideração importante, pode-se também considerar informar à congregação que a leitura da
Escritura vai ser incorporada no próprio sermão.
14 Para ver onze pontos de similaridade entre Daniel 2 e 4, veja Stefanovic, Daniel, 158.
15 Para ver os paralelos, veja Steinmann, Daniel, 233-34, e Lucas, Daniel, 109-10.
16 Porteous, Daniel, 65.
17 Para ver algumas das referências acima, veja Collins, Daniel, 228, 230. Para ver sobre a
obrigação do rei de praticar a justiça, veja também Jeremias 22.15-16 e Salmo 72.2, 4.
18 Lucas, Daniel, 103. “A forma como ele começa, com a identificação do escritor e dos
destinatários e uma saudação, é uma característica normal das cartas aramaicas”. Ibid. Este tipo de
introdução também é encontrado na maioria das epístolas do Novo Testamento (veja, p. ex., Rm 1.1-
7; 1Co 1.1-3; 2Co 1.1-2; Gl 1.15; Ef 1.1-2).
19 Estas são as seções que a NRSV imprimiu como poesia. Uma vez que a linha entre prosa e
poesia é algo fluido, os tradutores nem sempre entram em acordo sobre onde traçar a linha. A NVI
imprime como poesia só 4.3 e 34b-35.
20 Veja Collins, Daniel (1984), 61-64.
21 Veja Lacocque, Book of Daniel, 83, e Lucas, Daniel, 104.
22 Veja Goldingay, Daniel, 84, e Lucas, Daniel, 102.
23 Uma única linha de enredo também é possível com o clímax de Deus castigando o rei (v. 31-33)
e a virada para a resolução com o rei levantando os olhos para o céu (v. 34). Mas um enredo
complexo pode fazer mais justiça às cenas com a pergunta na cena 1: Será Daniel capaz de interpretar
o sonho, quando os sábios não puderam? E as perguntas nas cenas 2 e 3: Será que o rei vai emendar-
se ou será que o sonho vai se cumprir? Será que o rei vai honrar a Deus e ser restaurado?
24 Conforme traduzida, esta é uma pergunta retórica, mas há o argumento de que “hălā
(tradicionalmente entendido como ‘não é?’) não introduz uma pergunta retórica, mas marca uma
exclamação”. Veja Steinmann, Daniel, 250.25 “O foco real e centro desta história é o próprio Nabucodonosor; aqui até mesmo Daniel carece
de personalidade e caráter e funciona meramente como um canal para a mensagem do Altíssimo.
Neste sentido, pode-se dizer que os verdadeiros protagonistas desta narrativa são dois soberanos, um
do céu e um da Babilônia”. Towner, Daniel, 59.
26 Lederach, Daniel, 92.
27 4.1,10,11,15 (2x),20,22,23,35 (2x).
28 4.11,12,13,15,20,21,22,23 (2x),25,26,31,33,34,35,37.
29 Seow, Daniel, 65.
30 Ibid.
31 Collins, Daniel, 232, observa que “Daniel usa a frase ‘o Senhor do céu’ em 5.23”.
32 Goldingay, Daniel, 87. Cf. nota 25, acima.
33 Baldwin, Daniel, 107.
34 Shea, “Further Literary Structures in Daniel 2-7: An Analysis of Daniel 4”, AUSS 23/2 (1985)
202.
35 Goldingay, Daniel, 85-86, observa que nenhum outro capítulo do Antigo Testamento usa o
título “Altíssimo” com a frequência deste capítulo.
36 Redditt, Daniel, 82.
37 Por exemplo, Collins, Daniel (1984), 62. Mas veja também ibid., 65: “A intenção de Daniel 4
se torna bastante explícita no v. 22 [25]: Nabucodonosor é informado que sua humilhação durará “até
que aprendas que o Altíssimo tem domínio sobre o reino dos homens e o dá a quem quer”. Lederach,
Daniel, 92, afirma: “O forte motivo de orgulho humano ou especialmente real é secundário para a
ênfase principal na soberania divina, como mostrado na razão para o decreto... (4.17)”.
38 Towner, Daniel, 59: “O capítulo 4 é uma história sobre duas soberanias. Ele vem justapor a
força ou poder do maior de todos os soberanos humanos (fazendo do termo aramaico t-q-f, ‘crescer
forte, poderoso’ uma espécie de pivô – cf. v. 11,20,22,30, aplicados a Nabucodonosor, e v. 3,
aplicado ao Deus Altíssimo) com a força e o poder do Altíssimo”.
39 Seow, Daniel, 64.
40 Cf. Porteous, Daniel, 65: “O tema deste capítulo é resumido no versículo 25, naquilo que viria a
ser descoberto por Nabucodonosor após ser disciplinado por Deus, isto é, que ‘o Altíssimo tem
domínio sobre o reino dos homens; e o dá a quem quer’”. Assim também Parry, “Desolation of the
Temple and Messianic Enthronement in Daniel 11:36-12:3”, JETS 54/3 (2011) 487.
41 Cf. Longman, Daniel, 122: “O objetivo da história é incentivar a confiança de Israel, em função
da sua impotência diante de um governante aparentemente todo-poderoso”. Cf. p. 126: “O povo de
Deus é chamado a se consolar com esta verdade”. Collins, Daniel (1984), 65: “A importância desta
mensagem para os judeus a serviço de um rei pagão foi que ela lhes garantiu que o Deus deles estava
no controle, apesar de aparência em contrário”.
42 Towner, Daniel, 67, sugere que “a soberania absoluta de Deus parece ser uma promessa. Para os
judeus que definhavam no exílio babilônico, é a base de uma base de longo prazo para a esperança”.
Mas não há nenhuma promessa da vinda do Messias nesta passagem.
43 Gregory Beale argumenta convincentemente que o título de “Senhor dos senhores e o Rei dos
reis” em Apocalipse 17.14 tem sua origem em Daniel 4.37 (LXX). E conclui: “Através da aplicação
deste título a Cristo, o autor [de Apocalipse] pode visualizar a humilhação soberana do rei da
Babilônia por Deus em Daniel 4 como uma profecia tipológica da derrota soberana do inimigo por
Cristo no fim dos tempos, que está intimamente associada com a Babilônia escatológica”. Embora o
autor de Apocalipse possa muito bem ter visto Deus derrotar o poderoso rei da Babilônia como um
tipo de Cristo derrotando Satanás, não podemos usar esta linha de raciocínio no sermão, já que
Daniel 4.37 (LXX) é “uma expansão interpretativa de Daniel 4.32 do Texto Massorético”, e,
portanto, não se encontra em nossas versões em inglês.
44 “O livro de Apocalipse, muitas vezes comparando as forças do mal com a Babilônia antiga,
mostra a vitória final de Deus em favor de seu povo fiel”. Longman, Daniel, 128.
45 Collins, Daniel, 107.
46 Além disso, o apêndice vê alusões a Daniel 4.27 [30], “não é esta a grande Babilônia que eu
edifiquei para a casa real, com o meu grandioso poder e para glória da minha majestade?”, em
Efésios 1.19, “a suprema grandeza do seu poder” e em Apocalipse 14. 8, “caiu, caiu a grande
Babilônia!”. Para Daniel 4.31 [34], “eu bendisse o Altíssimo, e louvei, e glorifiquei ao que vive para
sempre”, ele lista Apocalipse 4.9, as criaturas vivas que dão “glória, honra e ações de graças ao que
se encontra sentado no trono, ao que vive pelos séculos dos séculos”. Nenhuma dessas alusões
funciona como ponte forte para Jesus Cristo.
47 Veja, p. ex., Boice, Daniel, 52-53.
48 Miller, Daniel, 127-28, calcula que “este incidente deve ter ocorrido o mais tardar no trigésimo
quarto ano (571 a.C.) de seu reinado, que durou quarenta e três anos (605-562 a.C.)”. Steinmann,
Daniel, 208, chega a uma conclusão semelhante: “O mais provável é que Daniel 4 date de algum
momento durante 573-569 a.C.)”.
49 “Os reis assírios e babilônicos se consideravam reis de toda a terra e, em suas inscrições, eles
estavam acostumados a falar assim de si mesmos. Essa prática também estava em voga entre os
governantes persas... [cf.] 6.25”. Young, Prophecy of Daniel, 97.
50 “Estes sinais eram eventos de natureza extraordinária ou milagrosa, e a palavra ‘maravilhas’
serve para designar o efeito que produziam”. Ibid. Seow, Daniel, 65, ressalta que “a referência à
realização divina de ‘sinais e maravilhas’ recorda a manifestação do poder de Deus na libertação de
Israel da escravidão (Êx 7.3; Dt 6.22; 7.19, Sl 135.9). Além disso, a divindade é chamada de “o Deus
Altíssimo”, um epíteto de Deus como governante supremo do céu e da terra (veja, p. ex., Gn 14.19-
20; Nm 24.16)”. Hill, “Daniel”, 90, acrescenta: “O relatório de ‘sinais e maravilhas’ divinos
estabelece que Deus continua fazendo milagres para o seu povo – a comunidade hebraica no exílio
precisava dessa certeza”.
51 “O rei ainda está profundamente impressionado com o que acaba de lhe acontecer... Este foi um
livramento insólito que o rei experimentou”. Leupold, Exposition of Daniel, 171.
52 “‘Satisfeito’ é uma tradução da palavra aramaica s̆ĕlēh, que significa propriamente ‘à vontade’
ou ‘em repouso’, transmitindo tanto contentamento quanto segurança”. Miller, Daniel, 130.
53 “A brusquidão com que este versículo é introduzido constitui artifício literário para indicar quão
inesperadamente o sonho chegou”. Leupold, Exposition of Daniel, 172-73. Cf. Anderson, Signs and
Wonders, 41: “O contraste entre o seu estado de espírito nos versos 4 e 5 é dramático. O narrador fez
isto em apenas duas frases curtas”.
54 “Aparentemente despertado pelo sonho, embora ainda esteja deitado, ele está alarmado também
por seus ‘pensamentos’ na sua cama, as reflexões deflagradas pelo sonho. Além disso, certas
fantasias ou imagens desfocadas reminiscentes do sonho, aqui chamadas de “as visões da minha
cabeça”, contribuíram para o mesmo resultado”. Leupold, Exposition of Daniel, 173.
55 “A explicação mais simples é que Daniel não estava no palácio com os outros sábios quando a
convocação foi feita, e este pode ser um fato”. Miller, Daniel, 131.
56 “Do ponto de vista de um leitor judeu, há ironia na utilização que Nabucodonosor faz da
etimologia popular (‘Bel’ interpretado como um título para Marduque) para vincular Daniel (e,
presumivelmente, sua coragem) com Marduque, o deus da Babilônia”. Lucas, Daniel, 109.
57 “A única pessoa caracterizada assim nas Escrituras é José, sobre quem Faraó diz: ‘Em quem há
o Espírito de Deus’ (Gn 41.38). O fato de Daniel preservar este comentário sinaliza que ele está
traçando um paralelo entre José e ele próprio... Ele quer enfatizar que o Deus de Israel – que protegia
José, capacitou-o a prosperar na corte de Faraó e eventualmente conduziu seu povo para fora da
escravidão no Egito – ainda estava com o seu povo exilado na Babilônia e, eventualmente, iria
libertá-lo da escravidão ali”. Steinmann, Daniel, 233.
58 “Um mistério desses é um mistério criado por Deus e, portanto, só ele pode resolver. Contudo,
ele usa intermediários humanos para isto, aqueles em que o espírito de Deus de fato habita, aqueles

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