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00-1431 CDD-305.800981
Cop right © b Roberto Gambini
ISB I: 85-85554-14-2 (edição em língua portuguesa)
ISB : 85-85554-13-4 (edição em língua inglesa)
Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (ClP)
(Câmara Brasileira do Livro, SP,Brasil)
Gambini, Roberto
Espelho índio: a formação da alma brasileira / Roberto
Gambini / [coordenação Mary Lou Paris, Caio Kugelmas].
- São Paulo: Axis Mundi: Terceiro Nome, 2000.
Bibliografia.
ISBN 85-85554-14-2 (Axis Mundi)
1. Brasil - 'História 2. Características nacionais
brasileiras 3. Identidade social - Brasil 4. índios da
América do Sul - Brasil - História 5. Jesuítas - Brasil
6. Jung,Carl Gustav, 1875-1961 I. Paris, Mary Lou.
11. Kugelmas, Caio. 111. Título.
índice para catálogo sistemático:
1. Brasil: Identidade nacional: Psicologia social
305.800981
T-odosos direitos reservados a:
AXIS MUNDI EDITORA LTDA.
Rua Rui Godoy Costa, 29 04549-030 - São Paulo - SP
Tel./fax: (11) 3846-6229 e-mail: axismundi@uol.com.br
EDITORA TERCEIRO NOME LTDA.
Rua João Felipe Silva, 52 04638-030 - São Paulo - SP
Tel./fax: (11) 240-5540 e-mail: marylou@originet.com.br
o 10
8. A formação da alma brasileira
Não sei se algum dia terá fim a procura que há longos anos venho fazen-
do por um entendimento psicológico, com base histórica e sociológica,
desse complexo fenômeno a que dou o nome de "alma brasileira", Na
qualidade de terapeuta junguiano, atividade à qual me dedico integral-
mente há mais de vinte anos, convenci-me de que a compreensão da
p2lgue individual nunca se com leta sem o concomitante conhecimento
da coletividade à ual Qertence. Se tenho a pretensão de poder trabalhar
com a substância psíquica de meus compatriotas, é inelutável que igual-
mente me preocupe com a alma do Brasil, já que cada um de nós, cons-
ciente ou inconscientemente, carrega um drama que se reflete no todo. A
proposta que aqui faço é que se exercite uma leitura psicológica da
História do Brasil.
Desde o século XIX, pensadores brilhantes e historiadores das melhores
procedências têm construído excelentes análises de nossa realidade do
ponto de vista econômico e político, ou pelo prisma das relações interna-
cionais, da dialética entre metróQole e colônia, da organização social do
Brasil da casa- rande e senzala Iáse estudou a contribuição indígena e
africana na construção da nacionalidade, a história da imigração, a indus-
trialização, o êxodo rural e o processo de urbanização. Há histórias das
constituições brasileiras, da evolução do Direito, da literatura e do pensa-
mento gerados neste país. Mais recentemente os es uisadores têm volta-
do sua aten ão ara as mentalidades e a vida rivada. Mas ainda está por
se conceber uma História do Brasil pelo prisma psicológico, a busca de
um fio que nos ajude a entender como se formou a alma brasileira - e,
quando emprego esse termo, atenho-me a seu uso comum: um âmago,
uma essência que nos faz ser quem somos e sobre a qual se constrói uma
identidade coletiva. Como essa essência também tem uma história, come-
cemos pelo início.
158
Descobrimento não houve nenhum, e sim invasão de um território habitado em sua
totalidade, do Alasca à Patagônia.
Nossa primeira idéia de Brasil começa a tomar corpo quando aprendemos
na escola que somos fruto de um descobrimento movido pelo acaso, por
calmarias e desvios de rotas, por uma delirante chegada às índias. O rela-
to dessa encenação, já ue desde o século XIV havia ma as e rotas
tr~adas a ontando ~ara terras existentes no Ocidente, Rer etuou-se .-i2[
meio de certa eda o _ia mistificadora e acabou adguirindo o status de
verdadeiro mito de origem. Nossa terra foi descoberta. Essapalavra evoca
fantasias de que algo maravilhoso, que sempre estivera oculto, de repente
apareceu, o que viria a nos instituir uma condição especial de origem.
Orà, descobrimento não houve nenhum, e sim invasão de um território
habitado em sua totalidade, do Alasca à Patagônia, por milhares de gru-
pos culturais autônomos e diferenciados. Os achados arqueológicos,
redutivamente interpretados à luz de teorias que hoje não mais se susten-
tam, foram reiteradamente usados como "prova" da curta extensão da
história do homem americano, concedendo-lhe antiguidade não superior
a 5 ou 6 mil anos.
É bastante recente a constatação, por certo ainda não assimilada pela
consciência coletiva, de que o território brasileiro já estava ocupado por
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André Thevet/ 7575
André Thevet/ 7575
seres humanos há 30 mil anos, talvez guarenta. Um passado curto, "cien-
tificamente" demonstrado, acaba por nos subtrair qualquer vestígio de
uma autêntica dignidade ancestral; e ficamos marcados como fim de linha
da longa descida de hordas humanas que no decorrer de milênios, a par-
tir do estreito de Behring, buscaram o Sul. Neste fim de mundo nada teria
começado, nosso lugar seria aquele onde todo movimento cessa.
Ora, o território americano era habitado de norte a sul, havia pelo menos
30 mil anos, por povos que criaram alma, aquilo que chamo de "alma
ancestral". O grande drama de nossa origem, na data de 1500, é precisa-
mente a negação de gue os indígenas tivessem alma, dL ue havia alma
nas Américas. Para podermos compreender o alcance desse momento cru-
cial no século XVI, é preciso ter presente o que exatamente foi negado
pela atitude do invasor. O que nos foi negado - nossa alma ancestral - é
a experiência humana acumulada no decorrer de milhares e milhares de
anos, por meio da qual as questões fundamentais da humanidade foram
sendo pouco a pouco resolvidas.
No Brasil do século XVI, as grandes questões da humanidade já haviam
sido equacionadas havia milênios, tarefa perene de qualquer cultura.
Como dissemos, o índio brasileiro aprendera a sobreviver, encontrar e
preQarar alimentos, Qroteger-se da natureza e de seus eSQíritos, formar vín-
culos sociais e estabelecer formas de convívio criar uma lingua~,
encontrar meios de curàr ferimentos ou doenças, achar graça e beleza na.
vida, distin uir o benéfico e o maléfico, encontrar resp-ostas_pa@..9surgi.::-
mento da vida e o mistério do Qós-morte, descobrir o IlJgflr do h.9m~
cosmo e quais as forças que regem o ilimitado. Ou seja: organizaçãõ
social, tecnologia material, arte, língua, mitologia, religião, lazer, pro-
dução, filosofia, metafísica, valores, vontade de viver. Isso tudo foi ma-
ravilhosamente resolvido pelos 6,10 ou talvez 12 milhões de índios que
deviam habitar o Brasil no século XVI, distribuídos por mais de mil gru-
pos culturais distintos.
Talvez houvesse aqui mil línguas diferentes e um conjunto vastíssimo de
mitologias que narravam o mito da Criação das mais variadas formas -
casamento do Sol com a.J.ua ou de divindades não [2ersonalizadas, Q
nascimento do primeiro homem esculpido em argila, ou talhado num
tronco de árvore, ou saído em fila indiana de dentro do oco de uma pedra
no fundo de um rio, ou um animal humanizado. Nesse imenso pan-
demônio de imagens arquetípicas está Qresente a briga entre dois irmãos,
a proibição do incesto entre [2ais e filhos ou entre irmãos, ª-grande inun-
dação, a origem do fogo roubado do céu, as fontes da bebida embria-
gadora, da agricultura da cerâmica e da tecela em, das danças e dos ri-
tuais. Todas essas atividades humanas estavam mitificadas no Brasil da
mesma maneira que estiveram na índia védica de 5 mil anos atrás, no
Egito antigo, na Mesopotâmia, no Mediterrâneo, na África, na China e na
Grécia. Mas ficamos olhando para os outros, para os mitos e conceitos das
160
outras veneráveis culturas, ara a re ra universal da roibi ão do incesto
tida or Freud ou Lévi-Strauss como fundamento da cultura e reduzid o
mito de Édi o, fazendo com ue todo o edifício teórico da psicanálise se
a óie nesse mito, quando temos dezenas de versões desse mesmo mitolo-
gerna'" no Brasil, para não falar de outras tantas versões do Gênese.
Tínhamos então, e ainda nos sobrou mais do que conseguimos acolher,
uma verdadeira enciclopédia de mitos, imagens e sentidos, e isso se
chama alma. Alma antiga ligada à Terra, arraigada no solo. A alma estava
na luz doSol, no escuro da noite, nos astros, nas árvores, nos rios, na
semente que brotava, nos animais. Os antropólogos do século XIX pejo-
rativamente chamaram essas concepções de animismo, um modo primiti-
vo de funcionamento psíquico por atribuir sacralidade às coisas. O fato é
que o território brasileiro como um todo estava impregnado de sacrali-
dade, porque o homem anterior ao "descobrimento" comungava, ao viver,
com a natureza e com tudo ue a ovoav. Essetesouro humano, criação
lentamente configurada no decorrer de milênios, foi destruído de um só
golpe por obra de um olhar estrangeiro que o distorceu e negou.
Dizem os lingüistas modernos que uma língua leva mais ou menos mil
anos para ser criada. A estrutura de um tronco lingüístico não é inventa-
da, mas brota inteira do inconsciente coletivo de um grupo, passando
então a ser enriquecida por onomatopéias ou assimilações e variações de
palavras usadas por grupos vizinhos. A língua é um milagre da psigue, ~
no Brasil foram criadas mais de mil variações, cada uma lastreada em
períodos longuíssimos de tempo. Hoje restam em nosso país não mais que
170 línguas indígenas. Algumas nem chegaram a ser estudadas e estão em
extinção, faladas apenas por um punhado de sobreviventes. Somos
campeões de línguas perdidas e mitologias deletadas. Sobreviverão talvez
apenas aquelas para as quais já há um ensino voltado às novas gerações,
ao lado do português. Mas a perda ocorrida nestes quinhentos anos é
absolutamente irreparável. Não se resgata uma língua quando desapare-
ceram o povo que a falava e a cultura cujos mitos ela narrava.
Nesse terrível processo de destruição cultural e humana, que historiadores
como Capistrano de Abreu ousaram qualificar de "a maior obra civiliza-
tória já vista na História", imagens preciosas do inconsciente coletivo pro-
tobrasileiro se perderam; desapareceram complexos e elaborados estados
de alma - sentimentos, maneiras de ver, compreender e valorizar o
mundo; propostas para atravessar o curso da vida com dignidade e senti-
do. Esse conjunto de bens do espírito caiu num escuro fosso sem fundo,
num buraco negro que a tudo tragou sem possibilidade de volta. O que
nos resta são hoje os fragmentos que carregamos em nós, nessa camada
profunda e aglutinadora da psique a que Jung deu o nome de inconsciente
coletivo, que não se limita à nossa biografia pessoal, sendo antes um ines-
gotável lençol freático, um len 01 de á_ua oculto e [2rotegido nas I2rofun-
dezas da terra. Se formos capazes de perfurar um poço artesiano que o
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atinja, essa antiga água matriz vem à tona e com ela voltam imagens, sím-
bolos e mitos que podem reaparecer, como fantasmas que retornam do
Além, em nossos sonhos contemporâneos, nos devaneios artísticos ou nos
estados de criatividade absolutamente aberta. Ou então, tristemente, como
imagens e atitudes à primeira vista impenetráveis nos delírios psicóticos.
Na psicose brasileira a ferida da alma perdida se revela crua e nua.
Somos um povo que nasce concomitantemente a uma irreparável e grave
perda e está mais do que na hora de tentarmos começar a compreendê-
Ia. O século XVI é um momento muito particular da história da
humanidade, por corresponder ao terceiro quartil da Era de Peixes, ini-
ciada juntamente com a Era Cristã. O ano de 1500 situa-se, por assim
dizer, na metade do segundo peixe, de acordo com o simbolismo
astrológico. É em torno desse onto na linha do tem o ue foi descober:-.
ta a imprensa, a p-ersp-ectiva na p-intura, os esbo os roféticos de Leonar 0-
da Vinci sobre tecnologias futuras; é o momento em que os anatomistas
identificam os órgãos do corpo humano e descobrem a circulação do
sangue, paralelamente à descoberta astronômica de que os planetas cir-
culam em torno do Sol e não da Terra.
Naquela conjuntura descobriu-se o uso da pólvora para fins bélicos e as
técnicas da grande navegação orientada por mapas e bússola. Depois da
batalha de Ceuta, em 1415, os europeus livram-se do Outro, do diferente
de si ex ulsando os mouros, assim como as Cruzadas reconquistarão
Jerusalém das mãos dos turcos. A Europa católica livra-se do pagão, do
mouro, do judeu, de tudo aquilo que lhe é estranho e ·incontrolável no
plano externo. Essa vitória material corresponde, no plano psicológico, a
um tremendo acúmulo de energia em torno do núcleo coletivo do ego e
da racional idade, que buscará daí em diante um crescimento e uma
expansão ilimitados.
Ora, exatamente no momento em que a Europa afasta o Outro exterior, o
Outro interior lhe surgirá diante dos olhos, nas Américas, como incômodo
e indecifrável espelho. E quatrocentos anos se passarão até que a psicolo-
gia iniciada por Freud reconheça que o mal não está exclusivamente
depositado no Outro, como crê o ego, autoproclarnado senhor do mundo e
da psique, ma.? igualmente dentro de cada um de nós" a partir de onde se
projeta, se lança para fora até encontrar um suporte capaz de carregá-Io por
imputação. Até o alvorecer do século XVI o mal sempre estava no Outro, no
diverso; quando não há mais pagãos, gentios, ímpios, judeus ou mouros
para perseguir, e não podendo a consciência européia percebê-I o em sua
própria substância interior, surge o momento necessário para encontrar um
novo Outro externo. É exatamente nesse contexto psicológico inconsciente
que se desenvolvem a cartografia e a navegação, propiciadoras do fantásti-
co encontro entre duas parcelas diametralmente opostas da humanidade,
fundadas sobre dois arquétipos não necessariamente irreconciliáveis a
longo prazo, porém claramente opostos no confronto imediato.
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Um tremendo acúmulo de energia em torno do núcleo coletivo do ego e da racional idade ...
~--------------~~~----~--~------~~----------------------~-,~
Uma das parcelas, a civilização européia, vinha há séculos (na verdade,
desde o classicismo grego) estruturando uma consciência crescente-
mente baseada numa racional idade percebida como atributo humano
vitorioso sobre os deuses. O pensamento racional, a linha reta, a não-
contradição, a lógica aristotélica e a superação do senso de limite
imposto por um poder maior passarão a permear a consciência européia
de maneira cada vez mais imperiosa. Pretendendo-se soberana, ela não
suporta dividir o domínio da mente e sua visão de mundo com outro
princípio ou outros valores que a contradigam. Excludente e fria, a razão
só se satisfaz com mono ólios.
Esse mundo - no nosso caso representado pela Península Ibérica - regido
pela consciência racional católica encontra outro, estruturado sobre um
estilo de consciência baseado no p'rincípio oposto da não-racional idade.
As Américas representariam, portanto, o mundo do inconsciente, um
mundo regido pelo pensamento não-linear, não lógico, mas dlalógico,
associado aos sentidos, à observação do natural e ao respeito pelo sobre-
natural, mas nem por isso menos pensamento. Capaz, como vem demons-
trando a antropologia pós-evolucionista, de classificações, exp-lica ões e
Um gigantesco confronto entre o consciente e o inconsciente ...
164
J.
A força vital indígena servindo de base para a glória portuguesa ...
previsões baseadas em regularidades, mas jamais .dissociado do senti- ,
mento, da intuição e de um eculiar senso de maravilhamento diante dos
mistérios da vida e da natureza, com a ual convivia de modo não ÇQJJ,-
fi ituoso, sem nunca pretender domá-Ia, transformá-Ia ou destruí-Ia.
Ora, a cena que evocamos no século XVI não envolvia apenas um embate
de conquista, mas um gigantesco confronto entre o consciente e o incons-
ciente, entre racional idade e não-racional idade, tarefa esta que só no
século XX o homem ocidental se disporá a enfrentar no seu devido ter-
reno, ou seja, no interior de sua própria psique. É precisamente esse o
pano de fundo que nos ajudará a compreender o tipo de psicologia que
será inaugurada a ferro e fogo no Novo Mundo, porque é desse nasce-
douro que brotará o germe de mente e de identidade que a partir de 1500
será o "Brasil". Brasa nova para queimar antiqüíssimas raizes ..
Minha proposta, para acompanharmos essedrama arquetípico, é uma
postura segundo a qual exercitamos o que eu chamaria de psicologização
da História: usar a imaginação e a empatia como recurso para descons-
truir toda e qualquer cena ou visão erigida pelo oficialismo historiográfi-
co do conquistador. Em 22 de abril do ano 2000 não cabem festejos; esse
é um dia que deveria propiciar um momento de profunda reflexão coleti-
va, uma hora nacional de silêncio. O troar dos rojões e a verborragia dos
discursos em nada colaboram para entendermos os abortos consecutivos
de que é feita nossa mal resolvida identidade.
165
Na cena originária evoca da, na data oficial, os portugueses desembarcam
na costa da Bahia e deparam índios nus que os recebem movidos pela
curiosidade, pelo deslumbramento de verem artefatos desconhecidos flu-
tuando no mar e, logo em seguida, homens de aparência diversa, barba-
dos, cobertos de grossos panos e portadores de metais reluzentes.
Surpresa diante do inaudito, mas não de todo ingênua, já que a própria
mitolo ia tu i- uarani rofetizava o a arecimento, pelo mar, de um
homem novo ue mostraria o caminho ara a Terra sem Mal motivo esse,
aliás, de long~intermináveis migrações p-or todo o nosso vasto ter-
ritório. Assim sendo, quando desembarcaram os conquistadores, já estava
constelada na imaginação indígena a chegada de um portador de boas
novas. E os índios os receberam de braços abertos. Pode-se perceber, por-
tanto, da parte destes, a existência de uma projeção positiva focalizada
sobre a figura dos navegantes. Isso significa, recordemos, que um conteú-
do psíquico pertencente aos índios recaiu sobre um objeto externo, perce-
bido como idêntico ao conteúdo projetado. Esse traço, proveniente dos
domínios de Eros, de receber o Outro diverso e ercebê.-Io comQ_l2ortaQOr
do novo e da salvação, é parte integrante da alma indígena, sendo tecni-
camente uma projeção positiva. Os marinheiros das caravelas também
viveram uma percepção projetiva, só que oposta. Uma e outra cruzaram-
se no céu como dois pássaros em vôo contrário, e esse choque de pro-
jeções é a matriz da alma brasileira e da dolorosa destruição da alma
ancestral da terra.
A alma brasileira nasce, portanto, de uma projeção cruzada. A projeção
portuguesa, como vimos, tinha dois aspectos: a percepção do litoral
baiano como o Paraíso terrestre e a dos índios como filhos do Demônio e
encarnação do mal.
A fantasia do Paraíso, como bem demonstrou Sérgio Buarque de Holanda
em Visão do Paraíso, em si mesma um tema arquetípico recorrente em
várias épocas e culturas, estava particularmente ativada no inconsciente
coletivo europeu por ocasião dos grandes "descobrimentos", fazendo-se
presente tanto na literatura e na arte como em projetos navais de con-
quista. Fiel à tradição do Gênese, ela evoca as delícias de um jardim opu-
lento, povoado por animais dóceis e habitado por um homem e uma mu-
lher em estado de inocência e nus, sem pecado, eternamente entregues a
uma infância que ainda não sabe de nada. Como vimos ao examinar as
Cartas Jesuíticas, os missionários literalmente acreditavam ter encontrado
essa porção divina e mágica do planeta. Com uma diferença apenas:
como pecadores natos por desconhecerem a verdade da Revelação, esse
Adão índio será captado, pelo olhar português projetivo, como um tra-
balhador braçal à espera de feitores e essa Eva nativa como um objeto
gratuito de desejC? Adão corta pau-brasil e Eva, por via de estupro,
sedução ou mesmo entrega voluntária, é apropriada como mulher.
As esquadras navais, de Vespúcio, Colombo, Cortez, Pizarro ou Cabral,
166
não traziam mulheres a bordo. Eram aventuras fálicas, nesse e no sentido
complementar de serem regidas exclusivamente pelo princípio fálico de
penetrar no desconhecido, Qenetrar e g~. apossando-se do que
estivesse ao alcance da mão. As mulheres portuguesas foram deixadas em
casa como enlutadas viúvas de vivos, à espera de maridos que talvez não
voltassem nunca mais. Essas mulheres viviam sob os rígidos cânones
morais e comportamentais de um catolicismo atacado em suas hipocrisias
pelo movimento da Reforma. Não é difícil imaginar essa mulher como um
ser reprimido, submisso, dominado pela fobia do pecado. Ora, quando
marinheiros abstinentes à força pela longa travessia lançam o olhar sobre
as índias, cuja beleza física já vem retratada na carta de Pero Vaz de
Caminha, estando de antemão preparada a via de projeção para a figura
de Eva, eles dão-se imediatamente conta de que ali, naquele paraíso
meridional, sua luxúria era não só permitida como incentivada pela
autoridade máxima do próprio sistema no qual se inscrevia seu código
moral. Pois o papa Alexandre VI não havia pontificado que não existia
pecado ao sul do Equador? O que em Lisboa seria pecado, ali não era.
Mas essa lógica dogmática ocultava a r2erversão de não incluir os índios
nessa ausência de l2ecado, em franca contradição com o próprio mito pa-
radisíaco ativado na psique. Ou seja: somente o português está no Paraíso,
só ele pode pecar sem que seu ato seja pecaminoso. Ainda mais or ue
essa Eva, inicialmente mítica mas logo em seguida desmitificada, nem
humana seria, mas semi-animal or faltar-lhe uma alma. A posse desse
corpo vinha assim referendada por beneplácitos religiosos, morais,
racionais e sofismaticamente míticos, não bastasse o mero desejo cego e
simples. E não seria de todo insensato imaginar que essa mulher, movida
por sua projeção positiva, sentisse uma humana atração por esse homem
diferente de tudo o que jamais havia visto. Só que ela não sabia o preço
que iria pagar por esse arriscado encontro.
O segundo elemento da projeção portuguesa é a percepção dos índios
como portadores do mal e à espera de redenção. Como vimos ao analisar
as Cartas, desde 1549 vai tomando corpo uma antropologia da conquista
segundo a qual o povo 9a terra vive em estado de pecado e promis-
cuidade, sem reis a quem obedecer, sem leis nem regras, sem deuses ou
qualquer regra moral, preguiçoso, indisciplinado, desalmado, uma folha
em branco pronta para a escrita, "conhecimento" do Outro que culmina
na conclusão de que o mesmo foi criado pelo Demônio. A "prova'; é de
uma racional idade espantosa: se tivessem sido criados por Deus, os índios
imediatamente reconheceriam a verdade da palavra dos jesuítas e a
acatariam com gratidão.
Poucos anos após o desembarque em Salvador, em 1549, os jesuítas já
estavam falando, em tupi, de Deus, de pecado original, de batismo, co-
lhendo "provas" que reforçassem sua atitude missionária e convertendo
sob coerção. Percorrendo progressivamente a costa ao norte e ao sul da
167
Martius/ 7856
Piratininga, fundado em 1554 por José de Anchieta, é o claro protótipo
disso. Num pequeno planalto, abaixo do qual localizavam-se aldeamen-
tos indígenas, ~rul2avam-se meninos a artados dos ais aos uais se
a licava a edagQgia do es uecimento da origem e da emula ão da iden.-
tidade do mestre. Do meu ponto de vista, dar o nome de Anchieta para
tantas escolas por este Brasil afora demonstra uma ignorância histórica
quase irônica, unicamente baseada numa idealização mal informada.
A pedagogia missionária dizia à criança índia: "Esqueça quem você é,
quem são seus pais e de onde você veio. Isso tudo não vale nada.
Abandone sua identidade, desvencilhe-se de sua alma, olhe para mim,
espelhe-se em mim, queira e fique igual a mim". Mas funcionava. Os
meninos aprendiam português, catecismo, trabalho manual. Nas missões
do' Rio Grande do Sul, cujas ruínas parecem ainda contar uma história
muda, os índios moravam em casas alinhadas ao longo de avenidas, cons-
truíam mobília e órgãos, imprimiam catecismos, cantavam na missa em
latim, teciam batinas para os padres. Mas um dia abandonaram tudo e
voltaram ara o mato. Foi com essa eda o ia de eSl2elhamento ue um
grupo crescente de mamelucos desenvolveu o núcleo inicial da uela ~
viria a ser a terceira maior cidade do mundo. E foi preciso que em 1822
se inventasse um país - volto a Darcy Ribeiro - paraque enfim essa massa
amorfa de gente sem história e com cara de nada Qudesse dizer ue-ª-tencia a ai uma coisa.
Vemos assim que nosso povo se funda negando e desprezando suas
raízes, seu maior tesouro, silenciando a voz do feminino e oficializando a
fala masculina da impunidade. Essa fala silenciada de Eros ou do rin '-
Rio feminino da coml2aixão, da memória e do sentimento é a única ca az
de contar a história de nossa alma. Isso só será possível quando se alçar
do mundo sem formas uma eloqüência nova, forte o bastante para que-
brar o cimento que endurece e encolhe nossa consciência de nação e
desconstruir o discurso fálico oficial que não tolera outras dimensões de
significado como ameaça à história que conta. Uma eloqüência nova
capaz de elaborar sentidos do seguinte tipo: o padrão de Porto Seguro,
marco de pedra fincado em 1500 no outeiro sobre o mar em que apor-
taram as caravelas, trazendo numa face as armas de Portugal e na outra a
cruz de Cristo - lembremos o fincamento da bandeira norte-americana na
superfície lunar em 1969 -, possui conotações que não costumam ser le-
vadas em conta. Pois a cruz de Cristo, em nome da qual foi feita a con-
quista, equivale à espada.
Por meio da catequese, a cruz de Cristo é uma espada cravada no peito
indígena para matar sua alma. A tela acadêmica que retrata a primeira
missa no Brasil, ritual exótico no meio da selva, assistida por índios nos
galhos das árvores e até por animais, como se o padre fosse Orfeu, osten-
ta um tosco crucifixo contra o céu, apoiado sobre um altar recoberto pela
mais alva toalha branca. Que vitória! Mas esse crucifixo na verdade é um
174
punhal. No momento da Eucaristia, pão e vinho transubstanciam-se no
corpo e no sangue de Cristo e a hóstia que os representa será engolida
para promover a absorção da essência de Cristo. Ora, a Eucaristia que
ocorre na primeira missa no Brasil não é essa, mas outra, perversa, em que
a alma indígena deverá transubstanciar-se em alma cristã. A hóstia, por-
tanto, não é o corpo de Cristo, mas a alma ancestral da terra que será
antropofagicamente deglutida pelos cristãos, não para ser absorvida, mas
para ser digerida e defecada. O,..2ortuguês não estava interessado nessa
alma mas no cor o da índia e no braço escravo do marido dela.
À luz de antigas gravuras, que funcionam como sonhos compensatórios às
belas histórias engendradas pela consciência européia, percebemos clara-
mente que a força subjacente à Conquista foi o translado da religião, essa
missa contínua e flutuante que atravessava os sete mares para justificar e
beatificar o ferro e o fogo das invasões.
O ue se deu no Brasil foi uma mistura física e não uma comunhão 11
almas, f20rgue o conguistador não reconhecia um valor mínimo nas ua-
!idades humanas da ueles gue sub'ugill@, - somos de fato um povo de
raças misturadas. Misturadas biologicamente, geneticamente, mas a mis-
tura psíquica, a fertilização mútua entre as almas, esta ainda não se deu.
O padrão de Porto Seguro precisa de outra leitura. A primeira missa pre-
cisa de outra leitura. E assim, igualmente, toda uma galeria de imagens
apropriadas pela história oficial deve ser substituída por outra que conte
u,ma história da alma. Mas a isso só che aremos or meio da em atia~
it"!:@ginação, do resgate de vozes silenciadas e da retomada de bizarras
ima _ens - algumas das quais presentes neste livro - que retratam de modo
inequívoco o que de fato aconteceu no contato entre essas duas parcelas
da humanidade. Trabalhar com imagens - visuais ou reconstruídas por
meio da imaginação - talvez seja a única via que nos resta para nos
reconectarmos com a linguagem perdida da alma. Os jesuítas, como
vimos no decorrer do livro, extraíam sua extraordinária força de ação de
imagens gravadas na psique, pelo método de Inácio de Loyola, que fun-
cionava como um verdadeirorcondicionamento mental>
Cada um de nós que ocupe, neste vasto país, uma posição de poder é, vo-
luntariamente ou não, continuador desse drama não assumido conscien-
temente. O brasileiro é extrovertido, tem emoções dionisíacas e não gosta
r:!1uito destes assuntos.. Mas nós, terapeutas de todas as escolas, sabemos
que não há outro jeito. Chega um momento em que é preciso olhar de
frente o sofrimento, o insucesso, o eterno permanecer abaixo do poten-
cial, o subdesenvolvimento material e psíquico. Cada brasileiro carrega
esse drama dentro de si, não importa de quem seja descendente, porque
moramos aqui e nosso chão está impregnado pela alma brasileira. Cabe-
nos investir energia numa batalha que requer, em primeiro lugar, uma
compreensão de certa história oculta; em segundo, um desejo de
mudança; e, em terceiro, uma capacidade de sonhar um sonho de Brasil,
um sonho de nossa identidade, sonhar uma utopia que nos caiba.
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Essa missa contínua e flutuante que atravessa os sete mares ...
A minha utopia, usando um paralelo alquímico, é a da extração da quin-
tessência. O plantei genético brasileiro talvez seja o mais rico do planeta,
o que garante futuro e mutabilidade. Os genes já estão todos entrelaça-
dos, já estamos todos unidos. O_l2roblema está em nossas osturas me -
tais. Não será a Constituição que irá resolvê-Io, nem leis antidiscrimi-
natórias ou promotoras de solidariedade social! A mudança possível só
poderá resultar de um aprofundamento da consciência coletiva, por meio
do gual emerjam novos símbolos ue nos a·udem a ressi nificar os con-
ceitos de diferen a mistura, fusão e inter enetracão,
A consciência brasileira não sabe encarar um índio. Não sabe o que ele
é. Nela, o índio não tem lugar. Ou" tomamos sua terra, ou criamos um par-
que nacional, ou o convidamos para um show étnico, ou escrevemos uma
tese acadêmica. E isso por quê? Porque o índio tem outra estrutura de
consciência. O negro está mais perto das categorias da consciência domi-
nante, até porque foi forçado a um convívio mais próximo. Com o fim da
escravidão, ele foi assimilado na camada inferior da sociedade brasileira.
Fala-se muito da contribuição de ambas as raças para a constituição da
rica "cultura brasileira", mas muito se cala sobre o que não pôde ser
assimilado: sua o inião sua visão de aís, sua possível interferência_nos
destinos da coletividade, s~ Ihes fosse reconhecida a idéia profunda (só na
palavra) de i_ualdade. O que fará amadurecer a identidade brasileira será
a capacidade de olhar para sua dimensão inconsciente, que despreza e
inferioriza o Outro e seu modo peculiar de ser.
Transcendendo a coloração das peles, o que verdadeiramente importa é o
mito que coletivamente estamos vivendo. Ainda somos prisioneiros do
mito da mistura, não chegamos ao da síntese. No primeiro caso,
justapõem-se qualidades distintas, mas a possibilidade de reinstalar a
separação original está sempre presente. No segundo, substâncias opostas
e contraditórias são depositadas no mesmo vaso alquímico para sofrerem
um processo de transmutação, ao término do qual surge uma terceira
substância diversa de ambas, que supera a oposição das polaridades até
então inconciliáveis. E o alquimista não se contentava com a terceira, pre-
tendia alcançar a quinta e mais depurada essência. A meu ver, é desse
mito que o Brasil precisa.
Talvez a América Latina ainda seja um terreno de possíveis sínteses
alquímicas, mas para isso é preciso que seja outra a educação das ge-
rações vindouras, porque certamente esse trabalho não será feito por nós,
mas por gente com uma cabeça formada de maneira diferente do que foi
a nossa, em contato com essa raiz profunda, deixando que esse mundo
admirável de imagens venha à tona e que desse manancial todo surjam
criações novas na literatura e nas artes, figuras novas, idéias novas. Que
surgirão na hora em que consciências não contaminadas e com um olhar
novo puderem abrigar um processo alquímico - uma alquimia coletiva e
individual ao mesmo tempo. Creio que há milhões de pessoas no Brasil
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que anseiam por essa renovação mítica, mas o caminho só se abrirá com
eloqüência e trabalho psíquico.
Enquanto não houver um avanço da consciência, estaremos condenados
à repetição - e aqui junguianos e freudianos se dão as mãos.
Continuaremosa repetir a derrubada do pau-brasil, a educa ão dos curu- .
mins por espelhamento, o casamento do -ªLl2.atºgêni~o com a mã
~esgualificada. Essa é a nossa maldição, como a que se abateu sobre as
famílias de Tebas e Micenas, que não nos permite desenvolver nossa
potencial idade plena. Só num estado redimido de maldição deixaremos
de ser sub: subdesenvolvidos ou sub-brasileiros.
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