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FUNDAMENTOS HISTÓRICOS E TEÓRICO- METODOLÓGICOS DO SERVIÇO SOCIAL II Professora Me. Juliana Cristina Teixeira Domingues Chiappetta Professora Esp. Daniela Sikorski Professora Esp. Rafaela Cristina Bernardo GRADUAÇÃO Unicesumar C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a Distância; SIKORSKI, Daniela; CHIAPPETTA, Juliana Cristina Teixeira Domingues; BERNARDO, Rafaela Cristina. Fundamentos Históricos e Teórico-Metodológicos do Serviço Social II. Daniela Sikorski; Juliana Cristina Teixeira Domingues Chiappetta; Rafaela Cristina Bernardo. Maringá-Pr.: UniCesumar, 2015. Reimpresso em 2020. 197 p. “Graduação - EaD”. 1. Históricos. 2. Teórico. 3. Serviço Social. 4. EaD. I. Título. ISBN 978-85-459-0079-5 CDD - 22 ed. 360 CIP - NBR 12899 - AACR/2 Ficha catalográfica elaborada pelo bibliotecário João Vivaldo de Souza - CRB-8 - 6828 Impresso por: Reitor Wilson de Matos Silva Vice-Reitor Wilson de Matos Silva Filho Pró-Reitor de Administração Wilson de Matos Silva Filho Pró-Reitor de EAD Willian Victor Kendrick de Matos Silva Presidente da Mantenedora Cláudio Ferdinandi NEAD - Núcleo de Educação a Distância Direção Operacional de Ensino Kátia Coelho Direção de Planejamento de Ensino Fabrício Lazilha Direção de Operações Chrystiano Mincoff Direção de Mercado Hilton Pereira Direção de Polos Próprios James Prestes Direção de Desenvolvimento Dayane Almeida Direção de Relacionamento Alessandra Baron Head de Produção de Conteúdos Rodolfo Encinas de Encarnação Pinelli Gerência de Produção de Conteúdos Gabriel Araújo Supervisão do Núcleo de Produção de Materiais Nádila de Almeida Toledo Supervisão de Projetos Especiais Daniel F. Hey Coordenador de Conteúdo Maria Cristina Araujo de Brito Cunha Design Educacional Paulo Victor Souza e Silva Iconografia Isabela Soares Silva Projeto Gráfico Jaime de Marchi Junior José Jhonny Coelho Arte Capa Arthur Cantareli Silva Editoração Robson Yuiti Saito Qualidade Textual Hellyery Agda Ana Carolina de Abreu Jaquelina Kutsunugi Ilustração André Luís Onishi Em um mundo global e dinâmico, nós trabalhamos com princípios éticos e profissionalismo, não so- mente para oferecer uma educação de qualidade, mas, acima de tudo, para gerar uma conversão in- tegral das pessoas ao conhecimento. Baseamo-nos em 4 pilares: intelectual, profissional, emocional e espiritual. Iniciamos a Unicesumar em 1990, com dois cursos de graduação e 180 alunos. Hoje, temos mais de 100 mil estudantes espalhados em todo o Brasil: nos quatro campi presenciais (Maringá, Curitiba, Ponta Grossa e Londrina) e em mais de 300 polos EAD no país, com dezenas de cursos de graduação e pós-graduação. Produzimos e revisamos 500 livros e distribuímos mais de 500 mil exemplares por ano. Somos reconhecidos pelo MEC como uma instituição de excelência, com IGC 4 em 7 anos consecutivos. Estamos entre os 10 maiores grupos educacionais do Brasil. A rapidez do mundo moderno exige dos educa- dores soluções inteligentes para as necessidades de todos. Para continuar relevante, a instituição de educação precisa ter pelo menos três virtudes: inovação, coragem e compromisso com a quali- dade. Por isso, desenvolvemos, para os cursos de Engenharia, metodologias ativas, as quais visam reunir o melhor do ensino presencial e a distância. Tudo isso para honrarmos a nossa missão que é promover a educação de qualidade nas diferentes áreas do conhecimento, formando profissionais cidadãos que contribuam para o desenvolvimento de uma sociedade justa e solidária. Vamos juntos! Seja bem-vindo(a), caro(a) acadêmico(a)! Você está iniciando um processo de transformação, pois quando investimos em nossa formação, seja ela pessoal ou profissional, nos transformamos e, consequentemente, transformamos também a sociedade na qual estamos inseridos. De que forma o fazemos? Criando oportu- nidades e/ou estabelecendo mudanças capazes de alcançar um nível de desenvolvimento compatível com os desafios que surgem no mundo contemporâneo. O Centro Universitário Cesumar mediante o Núcleo de Educação a Distância, o(a) acompanhará durante todo este processo, pois conforme Freire (1996): “Os homens se educam juntos, na transformação do mundo”. Os materiais produzidos oferecem linguagem dialógica e encontram-se integrados à proposta pedagógica, con- tribuindo no processo educacional, complementando sua formação profissional, desenvolvendo competên- cias e habilidades, e aplicando conceitos teóricos em situação de realidade, de maneira a inseri-lo no mercado de trabalho. Ou seja, estes materiais têm como principal objetivo “provocar uma aproximação entre você e o conteúdo”, desta forma possibilita o desenvolvimento da autonomia em busca dos conhecimentos necessá- rios para a sua formação pessoal e profissional. Portanto, nossa distância nesse processo de cresci- mento e construção do conhecimento deve ser apenas geográfica. Utilize os diversos recursos pedagógicos que o Centro Universitário Cesumar lhe possibilita. Ou seja, acesse regularmente o Studeo, que é o seu Ambiente Virtual de Aprendizagem, interaja nos fóruns e enquetes, assista às aulas ao vivo e participe das dis- cussões. Além disso, lembre-se que existe uma equipe de professores e tutores que se encontra disponível para sanar suas dúvidas e auxiliá-lo(a) em seu processo de aprendizagem, possibilitando-lhe trilhar com tranqui- lidade e segurança sua trajetória acadêmica. Professora Esp. Daniela Sikorski Graduada em Bacharelado em Serviço Social, pela Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), Especialista em Política Social e Gestão de Serviços Sociais, pela Universidade Estadual de Londrina, experiência profissional na área de Serviço Social na Educação, Terceiro Setor, Responsabilidade Social e Gestão na Área da Saúde. Contato: daniela.sikorski@unicesumar.edu.br. Professora Me. Juliana Cristina Teixeira Domingues Chiappetta Graduada em Serviço Social pela Universidade Estadual de Londrina (2000), especialista em Política Social e gestão de Serviços Sociais pela Universidade Estadual de Londrina (2003), mestre em Ciências Sociais pela Universidade Estadual de Londrina (2009), Doutoranda em Scienze Politiche e Sociali - Programma di Geopolitica pela Università di Pisa - Italia (2012-2014). Atualmente é professora assistente B da Universidade Estadual do Paraná. Tem experiência na área de Serviço Social, com ênfase em Políticas Públicas e Sociais, atuando principalmente nos seguintes temas: assistência social, políticas públicas, desigualdade social e mundo do trabalho. Professora Esp. Rafaela Cristina Bernardo Graduada em Serviço Social pela Faculdade Estadual de Ciências Econômicas de Apucarana (2010). Especialização em Gestão e Planejamento de Projetos Sociais pelo Centro Universitário Maringá (2013) e Mestranda em Educação pela Universidade Estadual de Maringá (2014). A U TO R A S SEJA BEM-VINDO(A)! Seja bem-vindo(a), caro(a) aluno(a)! É um grande prazer poder trabalhar com você esta disciplina tão relevante para sua formação profissional. Este material foi construído com a finalidade de apresentar, por meio de uma linguagem clara e de fácil compreensão, os temas relacionados aos Fundamentos Históricos e Teórico-Metodológicos do Serviço Social II, caracterizados entre o período de 1980 até os dias atuais. O objetivo da disciplina Fundamentos Históricos e Teórico-Metodológicos do Serviço Social II é apresentar as mutações ocorridas no mundo econômico a partir de 1980 nos contextos: mundial, latino-americano e brasileiro. Por conseguinte, seus reflexos na pro- fissão de Serviço Social. Isto porque, as transformações ocorridas no cenário econômi- co após o fim do Sistema Socialista, configurado através da queda do muro de Berlim em 1989, caracterizaram a migração definitiva do modelo de economia nacional para aquele de mercado. Tal transformação econômica ainda hoje influencia os projetos so- cietários tanto do capital como da classetrabalhadora. E, consequentemente, é respon- sável pelo agravamento dos problemas relacionados à luta de classes e à Questão Social. Sendo esta de suma importância para a construção do projeto ético-político do Serviço Social na contemporaneidade. Sendo assim, a unidade I verificará o surgimento e o enfraquecimento do Modelo de Produção Socialista e seus reflexos para os contextos mundial, latino-americano e brasi- leiro, bem como suas implicações para o Serviço Social. A unidade II, na mesma perspectiva histórica, verificará a constituição do processo ne- oliberal e de internacionalização do capital, bem como seus reflexos na questão Social. Vamos observar que as atuais manifestações sociais estão interligadas com o falimento do modelo estatal de bem-estar social, mediante a ofensiva neoliberal de desmantela- mento do Estado e de políticas públicas. Tal reflexão é necessária para aprofundarmos o entendimento dos rumos que a profissão de Serviço Social deve afrontar no futuro próximo, reforçando o papel de garantidor de acessibilidade de direitos. Na unidade III iremos discutir como os anos 1990 foram importantes para o fortaleci- mento da matriz teórico-metodológica marxista, ao mesmo tempo que concorrerão perspectivas teórico-metodológicas relacionadas à crise sociocultural capitalista como o pensamento pós-moderno. Na unidade IV iremos compreender por que o projeto profissional do Serviço Social é um projeto ético político, e por que o embate entre projetos societários antagônicos exige a compreensão da profissão a fim de construir as competências profissionais para alcançar uma nova ordem social sem exploração de classe, livre e emancipada. Na unidade V discutiremos os desafios da contemporaneidade para o alcance do proje- to ético político do Assistente Social e da intervenção destesprofissionais frente às de- mandas emergentes da realidade brasileira. Esperamos que este livro possibilite que você, futuro(a) assistente social, compreenda o desenvolvimento da profissão, seus avanços e retrocessos, que tenha clareza que diante APRESENTAÇÃO FUNDAMENTOS HISTÓRICOS E TEÓRICO- METODOLÓGICOS DO SERVIÇO SOCIAL II das contradições da sociedade capitalista é preciso que a profissão anule perspecti- vas profissionais tradicionais, conservadoras e pontuais, e desenvolva suas compe- tências de maneira crítica, ética e transformadora. Prezado(a) aluno(a), é de extrema importância que você faça a leitura do material previamente e resolva todas as questões propostas no final de cada unidade, pois isso contribuirá amplamente para seu processo de aprendizagem, no qual estare- mos prontamente disponíveis para atendê-lo(a). Deixamos aqui nossos sinceros agradecimentos por poder compartilhar nossos co- nhecimentos e contribuir para o processo de sua formação profissional. Desejamos um ótimo estudo e sucesso a você! Um grande abraço! Professora Me. Juliana Cristina Teixeira Domingues Chiappetta Professora Daniele Sikorski Professora Rafaela Cristina Bernardo APRESENTAÇÃO SUMÁRIO 09 UNIDADE I O CONTEXTO SÓCIOPOLÍTICO E ECONÔMICO EM ÂMBITO MUNDIAL, LATINO-AMERICANO E BRASILEIRO COM O FIM DO SOCIALISMO 15 Introdução 16 O Surgimento do Modelo de Produção Socialista Europeu 26 O Modelo de Produção Socialista Europeu e a Guerra Fria 29 A Queda do Modelo de Produção Socialista Europeu 30 Os Reflexos do Fim do Modelo de Produção Socialista Europeu para a América Latina e o Brasil 34 Considerações Finais UNIDADE II O SURGIMENTO DO NEOLIBERALISMO E O AGRAVAMENTO DA QUESTÃO SOCIAL 41 Introdução 42 O Surgimento do Neoliberalismo 47 A Transição da Economia Nacional para a Economia de Mercado 51 O Conceito de Questão Social 55 O Agravamento da Questão Social 69 Considerações Finais SUMÁRIO UNIDADE III A CONSTRUÇÃO DO PROJETO PROFISSIONAL DO SERVIÇO SOCIAL 77 Introdução 78 Breves Considerações Acerca das Tendências Históricas e Téorico-Metodológicas do Debate Profissional 85 O Serviço Social nos Anos 80: As Tendências Históricas e Teórico-Metodológicas do Debate Profissional 91 O Serviço Social nos Anos 90: As Tendências Históricas e Teórico-Metodológicas do Debate Profissional 98 Considerações Finais UNIDADE IV OS PROJETOS SOCIETÁRIOS, OS PROJETOS PROFISSIONAIS E O PROJETO ÉTICO-POLÍTICO DO SERVIÇO SOCIAL 109 Introdução 110 Os Projetos Societários da Classe Trabalhadora e os Projetos Societários do Capital 116 Projetos Profissionais e Projeto Ético-Político 118 O Desenvolvimento dos Projetos Profissionais no Marco do Movimento de Reconceituação 125 Projeto Ético-Político do Serviço Social 134 Considerações Finais SUMÁRIO 11 UNIDADE V O MOVIMENTO SÓCIO-HISTÓRICO E AS DEMANDAS TRADICIONAIS E EMERGENTES NA SOCIEDADE BRASILEIRA COLOCADAS À PROFISSÃO 143 Introdução 144 O Serviço Social na Contemporaneidade 158 Demandas Tradicionais e Emergentes na Sociedade Brasileira Colocadas à Profissão e Sua Relação com a Questão Social 176 Considerações Finais 187 CONCLUSÃO 189 REFERÊNCIAS U N ID A D E I Professora Me. Juliana Cristina Teixeira Domingues O CONTEXTO SÓCIOPOLÍTICO E ECONÔMICO EM ÂMBITO MUNDIAL, LATINO-AMERICANO E BRASILEIRO COM O FIM DO SOCIALISMO Objetivos de Aprendizagem ■ Apresentar como ocorreu o processo de surgimento do Modelo de Produção Socialista Europeu. ■ Apresentar como ocorreu a queda do Modelo de Produção Socialista Europeu. ■ Apresentar os reflexos do fim do Modelo de Produção Socialista Europeu para a América Latina e o Brasil. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ O surgimento do Modelo de Produção Socialista Europeu ■ O Modelo de Produção Socialista Europeu e a Guerra Fria ■ A queda do Modelo de Produção Socialista Europeu ■ Os reflexos do fim do Modelo de Produção Socialista Europeu para a América Latina e o Brasil INTRODUÇÃO Olá, caro(a) aluno(a), daremos início à primeira unidade da disciplina de Fundamentos Históricos e Teórico-Metodológicos do Serviço Social II. Salientamos inicialmente que foi um enorme prazer escrever esta unidade para você! Esperamos que estas discussões deem continuidade ao conhecimento cons- truído com a disciplina de fundamentos I. A unidade I se dedicará a analisar a influência da Primeira e Segunda Guerra Mundial, Guerra Fria e queda do Muro de Berlim. Este mergulho no tempo é necessário para a compreensão da atual economia mundial e sua configura- ção para a complexificação dos problemas sociais contemporâneos, isto porque estas guerras representaram o que houve de mais contundente no plano político e ideológico das relações sociais capitalistas que promovem embates, conflitos e resistências. Também veremos como se configurou o modelo de produção socialista euro- peu, que fatores influenciaram a sua queda e quais os impactos desse processo no avanço das relações sociais de produção capitalista no mundo com a incor- poração da reestruturação produtiva e do pacote de programas neoliberais como mecanismos de retomada do crescimento da taxa de lucros e de acumulação. E, por fim, serão apresentados os reflexos deste acontecimento para a América Latina e o Brasil. Pretendemos despertar em você através desta leitura alguns questionamen- tos e curiosidades, principalmente no sentido de relacionar os acontecimentos políticos e ideológicos que movimentaram o mundo no século XX e que represen- taram mudanças no plano político, econômico e social dos países que envolveram as alianças capitalistas e socialistas. Estas discussões são de suma importância para discutir os rumos do Serviço Social diante deste movimento global, pois, a profissão não se desenvolve de maneira endógena, muito pelo contrário, a sua imagem e posicionamento ético, político, teórico-metodológico e técnico operativo materializam os interesses societários em disputa. 15 Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al eL ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . O CONTEXTO SÓCIOPOLÍTICO E ECONÔMICO EM ÂMBITO MUNDIAL, Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I Esperamos que esta leitura seja o primeiro passo de investigação e pesquisa sobre o tema, pois as discussões não se esgotam com esta unidade, assim faça a leitura dos materiais complementares e de outras fontes de conhecimento, pes- quise o referencial bibliográfico sugerido e aproveite ao máximo a disciplina. Esperamos que faça grandes descobertas! O SURGIMENTO DO MODELO DE PRODUÇÃO SOCIALISTA EUROPEU Para compreendermos a importância dos desdobramentos que a queda do Modelo de Produção Socialista Europeu causou na economia mundial e, consequen- temente, a profissão de Serviço Social, devemos inicialmente compreender a configuração histórica de tal evento. Dessa forma, é de suma importância conhecer antes de qualquer análise em relação à eliminação desse Modelo de Produção, o contexto histórico de seu surgimento e desenvolvimento, para somente depois entender os motivos que levaram a sua superação. O modelo de Produção Socialista, ou Socialismo, como comumente é conhecido, teve início nos primeiros anos do século XX no continente Europeu, especificamente na Rússia. Esse evento ocorreu devido à crise econômica e política agravada após a Primeira Guerra Mundial e pelo autoritarismo do governo czariano de Nicolau II. Esses fatores contribuíram para o agravamento da desigualdade social e eco- nômica entre a nobreza e o campesinato agrário russo, tornando esse quadro insustentável pelas classes populares. Graças aos posicionamentos políticos do Czar, a Rússia do início do século XX tinha se tornado a mais atrasada das nações europeias, sua economia baseava-se no setor agrário, mantendo-se sob o domínio industrial e tecnológico de países como Inglaterra e Alemanha. Para Gorodetzky (1947, s/p): 17 O Surgimento do Modelo de Produção Socialista Europeu Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Para a Rússia da segunda metade do século XIX e princípios do século XX, a tarefa de vital importância era a supressão da servidão feudal no campo e do atraso medieval na economia e na política do país. Nisto estava interessada a esmagadora maioria do povo, quase toda a nação com exceção de um pequeno círculo de latifundiários. Esta era, justa- mente, a tarefa necessária para os interesses da nação inteira. E como a servidão e o medievalismo manifestavam-se, sobretudo, nas relações da terra, a solução do problema agrário adquiria uma importância ra- dical de primeira grandeza. Tal situação favoreceu o fortalecimento de lideranças políticas que desde 1915 vinham se manifestando contra a monarquia. Entre essas lideranças, destacava- -se o posicionamento do Partido Operário Social-Democrata Russo (POSDR), embasado sob duas alas distintas: os mencheviques e bolcheviques. ■ Os mencheviques (do russo menshe, que significava “minoria”): liderados por Georgy Plekanov e Yuly Martov, mantinham uma visão ortodoxa do marxismo pautada na social democracia. Defendiam a ideia que a lide- rança da nova república (com o fim da monarquia czariana) deveria estar nas mãos da burguesia russa, a qual seria responsável pela ampliação das forças produtivas com o intuito de uma revolução socialista acontecer décadas mais tarde. ■ Os bolcheviques (do russo bolshe, que significava “maioria”): sob a lide- rança de Vladimir Lênin, defendiam a ideia que o governo deveria ser diretamente controlado pelos trabalhadores, sendo a revolução proletária a responsável direta pelas transformações que modernizariam a economia russa e dariam fim aos contrastes sociais que marcavam o país. Nesse contexto conflituoso, Nicolau II propõe uma aliança, prometendo: reformas, eleições para o parlamento e o estabelecimento de um governo constitucional. Tais propostas foram imediatamente aceitas pela ala menchevique, todavia, os bolcheviques exigiam o fim da monarquia e um governo liderado pela classe tra- balhadora. De acordo com Gorodetzky (1947, s/p): Na Rússia existia somente um partido político capaz de levantar as massas e levá-las à ofensiva contra o capitalismo. Quando alguns de- mocratas no Ocidente estranham de que o povo soviético reconheça um só partido — o Partido Bolchevique — podemos dizer-lhes, no melhor dos casos, que eles não conhecem a história da revolução, a história do país. O CONTEXTO SÓCIOPOLÍTICO E ECONÔMICO EM ÂMBITO MUNDIAL, Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I Como resposta por parte da monarquia Russa, verificou-se uma severa repressão contra os focos revolucionários, contudo, as ações de coerção do governo não foram suficientes para impedir as manifestações por parte do proletariado russo, culminando na derrubada do império (conhecida como Revolução Burguesa), em fevereiro de 1917, e na instituição do Governo Provisório. Nas palavras de Gorodetzky (1947, s/p): Em fevereiro de 1917, o tzarismo foi derrotado. Triunfou a revolução burguesa-democrática; porém depois disto o poder estatal na Rússia caiu, como se sabe, nas mãos dos representantes da burguesia e dos latifundiários aburguesados. A revolução de fevereiro não mudou qua- se em nada o regime social da Rússia. O estado de servidão não foi destruído. A burguesia, chegando ao poder, conservou inteiramente a essência da política interior e exterior do tzarismo. Isso porque a formação desse novo governo não contava com representantes da ala bolchevique. Como esperado, o Governo Provisório não foi capaz de resol- ver os problemas sociais. Em 25 de outubro de 1917, liderados por Lênin, os bolcheviques tomam o poder em Petrogrado, hoje San Petersburgo. Tal mani- festação ficou conhecida historicamente como Revolução de Outubro, ou mais comumente como Revolução Russa. A importância da Revolução Russa no contexto histórico mundial se caracte- riza por ser, depois da Revolução Francesa, a mais expressiva manifestação de mudança das normas e das relações sociais de uma determinada sociedade. Nas palavras de Barros (1998, p. 19): O que é a Revolução? Pense se as mudanças radicais nas relações sociais capitalistas só podem acontecer por meio da força revolucionária. Fonte: a autora. 19 O Surgimento do Modelo de Produção Socialista Europeu Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . A exemplo da Revolução Francesa, a de outubro de 1917 é um dos pou- cos acontecimentos históricos que fazem jus integralmente ao título de revolução, entendida como a completa transformação das normas e relações sociais vigentes. Como sua antecessora francesa, a Revolução Russa parece haver quebrado uma linha de continuidade de padrões de comportamento e de organização social inaugurando novo período histórico, moldado, em grande medida, sob sua inspiração. Da mesma maneira que a Revolução Francesa condicionaria, como nenhum outro evento singular, o desenvolvimento posterior do quadro social, polí- tico e ideológico do século XIX, a Revolução de Outubro iria marcar de modo profundo a evolução das sociedades nacionais e das relações internacionais em nosso século. Isso porque, como salienta Gorodetzky (1947, s/p), citando Stalin: (...) a vitória da Revolução de Outubro significa uma mudança radi- cal na história da humanidade, nos destinos históricos do capitalismo mundial, no movimento libertador do proletariado mundial, nos mé- todos de luta e formas de organização, no estado e tradições, na cultura e ideologia das massas exploradas de todo o mundo. A Revolução de Outubro de 1917 na Rússia foi uma revolução socia- lista. O caráter socialista da Revolução de Outubro demonstrou-se, so- bretudo, no fato de que a classe operária — a mais revolucionáriaentre todas as classes oprimidas existentes até estes tempos — tomou o poder e iniciou a construção socialista da sociedade. Neste contexto é criada a República Socialista Federativa Soviética Russa que mediante seu exército (conhecido como Exército Vermelho) desencadeia uma verdadeira Guerra Civil. Por meio da invasão das tropas russas em diversos territórios do antigo Império Czariano, os partidos comunistas locais che- gam ao poder, culminando na criação, em 1922, da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS), caracterizada pela unificação da Rússia, Ucrânia, Bielorrússia, Transcaucásia e as Repúblicas da Ásia Central. O CONTEXTO SÓCIOPOLÍTICO E ECONÔMICO EM ÂMBITO MUNDIAL, Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I Após a Guerra Civil, a economia da URSS estava praticamente destruída. Dessa forma, por uma iniciativa governamental, inicia-se a construção de um articulado mecanismo econômico, baseado nas teorias de Nikolai Kondratiev, por intermédio de uma planificação diretiva e centralizada como forma de ges- tão e funcionamento da economia socialista (MIKHAILOVA, 2012, p. 3). A primeira forma de planificação econômica da então recém-criada URSS se deu pelo Plano Estatal da Eletrificação Russa – GOELRO. O GOELRO tinha o objetivo de garantir o fornecimento de energia elétrica e o crescimento do setor energético nacional. A partir da experiência do GOELRO, é lançado, em 1921, o Órgão Estatal de Planificação GOSPLAN, presente na estrutura governamen- tal até o fim do regime socialista (MIKHAILOVA, 2012). Para superar a crise pós Guerra Civil, o governo soviético decide retornar por tempo determinado e de forma parcial a economia de mercado, permitindo atividades privadas em setores secundários da economia. Tal posicionamento político ficou conhecido como Nova Política Econômica ou NEP, idealizada por Kondratiev, que defendia como alternativa pensar uma economia mista, ou seja, com elementos da economia de mercado juntamente com a planificação centralizada. Nas palavras de Mikhailova (2012, p. 3): No entanto, já em 1921, para retirar a economia do caos pós-revolucio- nário e o da guerra civil, necessitaram-se medidas urgentes. Decidiu-se voltar temporariamente e parcialmente aos mecanismos da economia de mercado, permitindo a atividade de empresas privadas em setores secundários e liberalizando o setor do comércio, entre outras medidas. Esta política ficou conhecida como NEP (Nova Política Econômica). O teórico e ideólogo principal da NEP foi Kondratiev. Ele e seus pro- ponentes defenderam a ideia da economia mista, ou seja, de que ins- trumentos da planificação centralizada e os de mercado poderiam ser utilizados juntos na economia. A política da NEP permitiu reanimar a economia em poucos anos. Conforme algumas estimativas, no período da NEP, a economia cresceu em média 18% por ano. Assim, caro(a) aluno(a), por meio da Revolução Russa, Guerra Civil e a cria- ção da URSS. surge pela primeira vez, em cinco séculos de história econômica capitalista, outra alternativa de mercado, o SOCIALISMO. O que essa alterna- tiva provocou? 21 O Surgimento do Modelo de Produção Socialista Europeu Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . O novo governo Russo, administrado por políticos oriundos das classes populares, dissolve o conceito de propriedade privada, expropriando da nobreza, capitalistas e latifundiários russos: fábricas, terras, bancos etc., transformando esses bens em propriedade estatal. Tal transformação social de bens significou a transferência da riqueza nacional para as mãos da população da URSS de forma igualitária. Nas palavras de Gorodetzky (1947, s/p): De um só golpe a Revolução Socialista de Outubro terminou com a situação semi-colonial do país e criou condições para o grande desen- volvimento e crescimento da independente e grande Rússia Soviética: a expropriação dos latifundiários e capitalistas, a supressão da proprie- dade privada da terra, das fábricas e usinas e sua transferência para a propriedade comum de todo o povo, a nacionalização dos bancos e a instituição do monopólio do comércio exterior. Todas estas conquistas da revolução socialista eram uma base sólida para a criação da inde- pendência técnico-econômica do Estado soviético. É importante compreender que embora a Revolução Russa tenha alcançado seu objetivo, Lênin, mesmo através de toda luta armada, ideológica e política, não foi capaz de eliminar dentro do POSDR o pensamento Social-Democrata. Assim, após a sua morte, em meados de 1920, reinicia uma disputa interna dentro do partido entre Leon Trostky, seguidor da linha revolucionária Marxista e do ideal de vida de Lênin, e Josef Stalin, inimigo histórico do Lenismo. Lênin idealizava uma sociedade mundialmente socialista. Acreditava que tal ideal somente era possível por intermédio da luta armada ou revolução. Fonte: a autora. O CONTEXTO SÓCIOPOLÍTICO E ECONÔMICO EM ÂMBITO MUNDIAL, Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I Como apresentam Munchen e Koln (2004, s/p): Em aberta oposição às posições defendidas por Stalin e Kamenev, Lenin destacou a importância da dialética no domínio da formulação da tática revolucionária, demonstrando a mais plena inatualidade da velha fórmula bolchevique de luta por uma Ditadura Democrática Revolucionária do Proletariado e do Campesinato, em face do novo contexto histórico. Desse modo, conseguiu derrotar a concepção estratégica colaboracio- nista de Stalin e Kamenev de composição de uma comissão mista, vi- sando ao fomento da unidade de todos os sociais-democratas, incluin- do os defensores da pátria burguesa reacionária na guerra imperialista. Apesar dos esforços de Trostky em continuar a linha de pensamento de Lênin dentro do Partido Comunista, Stalin, que no momento era secretário geral, con- segue eliminar a oposição e assume o comando da URSS, dando início a uma nova fase para o modelo de Economia Planificada por meio do I Plano Quinquenal (1928 a 1932). Surge assim, dentro do par- tido, duas correntes que discutiam o futuro econômico da URSS – União das Repúblicas Socialistas Soviéticas. ■ De um lado, se mantinha o pensamento de Kontratiev, no qual se defendia a ideia que a economia deveria se basear na análise de mercados e na conjuntura real da economia em âmbito mundial, ou seja, que a planificação econômica deveria ser pen- sada mediante a análise dos aspectos teóricos e científicos da economia mundial em detrimento de posicionamentos ideológicos e políticos. Os defensores dessa linha eram chamados de “genéticos”. ■ Já a segunda corrente defendia que o fator determinante do sucesso eco- nômico estava na formulação de objetivos concretos e na elaboração das metas, ou seja, fundamentada em quesitos ideo-políticos sem sus- tentação científica. Essa corrente era chamada “teleológica”. Segundo 23 O Surgimento do Modelo de Produção Socialista Europeu Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Mikhailova (2012, p. 4): No decorrer da elaboração do I Plano Quinquenal, houve grande discussão entre duas correntes contraditórias na economia socialista emergente. Defensores da primeira corrente, a qual Kontratiev também pertenceu, chamaram-se “genéticos”. Eles pensavam que diretrizes dos planos devem basear na análise das tendências existentes na economia, levar em conta disponibilidade de recursos e conjuntura real econômi- ca. A esta corrente pertenceram, em geral, especialistas da elite profis- sional e intelectual da Rússia tzarista, os quais não eram, na maioria, membros do Partido Comunista. [...] A segunda corrente defendeu a abordagem teleológica, e seus proponentes chamaram-se “teleólogos”. Eles consideravam a formulaçãode objetivos e a elaboração das me- tas de desenvolvimento como a etapa mais importante da planificação. Para o cumprimento das metas, devem ser buscados recursos neces- sários, alterada conjuntura econômica e formadas novas tendências. Sendo assim, o plano basear-se-ia mais nas diretrizes centrais do que nas previsões científicas. Os proponentes da segunda corrente foram, na maioria, membros do Partido Comunista e aqueles economistas que prefeririam seguir pela linha geral do Partido. O que seria essa Economia Planificada? Neste contexto, e, sinteticamente resu- mida, pode-se dizer que a Economia Planificada se caracterizava na exigência que a produção de todos os setores da economia estivessem rigorosamente pla- nejados, mediante os Planos Quinquenais. Tal modelo possibilitou uma rápida industrialização e coletivização da produção, bem como garantiu ao socialismo um papel crucial como força econômica após a Segunda Guerra Mundial. No interior desse modelo bem-sucedido se escondia outra realidade. Stalin governava a URSS com mãos de ferro, sendo um verdadeiro ditador. Não economizava esforços para manter o poder. A coletivização da produção era mantida de forma forçada, com jornadas de trabalho de 10 a 16 horas diá- rias, sendo que era condenada à morte, por traição, qualquer pessoa que se recusasse a trabalhar, ou fosse contrária ao regime. Fonte: a autora. O CONTEXTO SÓCIOPOLÍTICO E ECONÔMICO EM ÂMBITO MUNDIAL, Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I Ainda em Mikhailova (2012, p. 4): No início do período do I Plano Quinquenal, a política da NEP foi revogada como contraditória às ideias socialistas. Os proponentes da NEP e defensores da corrente “genética” foram reprimidos. O próprio Kondratiev foi dispensado do Instituto de Conjuntura, em 1928, preso, em 1930 e executado, em 1938, por ordem de Stalin. Muitos profissio- nais, os quais poderiam contribuir para o desenvolvimento científico da teoria da planificação, compartilharam o destino trágico de Kondratiev. Como resultado disso, o processo de planificação centralizada, desde o seu início, submeteu-se à esfera ideológica, tornando-se dependente das decisões políticas, às vezes voluntaristas e não profissionais. Em certa medida, a ideologização e a politização excessiva da planificação econômica predeterminaram várias desproporções no desenvolvimen- to socioeconômico em todo o período soviético. Os resultados do I Plano Quinquenal (1928-1932) foram positivos. Este, asso- ciado ao II Plano Quinquenal (1933-1937), possibilitou à indústria da URSS taxas de crescimento em torno de 16% ao ano, sendo o resultado principal des- ses dois planos a consolidação da base material do socialismo. Nas palavras de Mikhailova (2012, p. 4): Como resultado principal de dois primeiros planos quinquenais foi a formação da base material do socialismo. Em 1936, o XVIII Congresso do Partido Comunista da URSS, nomeado Congresso dos Vencedo- res, declarou a finalização, em princípio, da construção do socialismo. Naquele momento, a participação do setor estatal na produção total e, também, na capacidade produtiva total ampliou até 99%. Para compa- rar, os mesmos indicadores, no ano de 1924, contavam só por volta de 35% (ABALKHIN, 1978, p. 3). No entanto, para tal sucesso da econo- mia, os esforços e sacrifícios da população foram grandes. O III Plano Quinquenal (1938-1943) foi marcado por uma nova prioridade industrial soviética. Com a indústria de base concretizada, a URSS passa para um segundo estágio de evolução. Superado o atraso tecnológico do período que ante- cedeu a Revolução Russa, a URSS inicia o processo de militarização econômica. Esse processo foi expressivo para a economia soviética, pois enquanto as taxas de crescimento industrial entre 1938 a 1940 apresentavam crescimento de 13% por ano, a indústria bélica festejava o percentual de crescimento anual de 39% no mesmo período, chegando a 45% em 1941. Tal período de crescimento somente 25 O Surgimento do Modelo de Produção Socialista Europeu Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . foi interrompido graças ao início da Segunda Guerra Mundial (MIKHAILOVA, 2012). Assim, embora a URSS se configurasse como uma alternativa ao modelo de produção capitalista, ela não impediu que as décadas sucessivas à Primeira Guerra Mundial tornassem a situação econômica, social e política menos con- flituosa em âmbito mundial que seu período anterior. Com o advento da Segunda Guerra Mundial, a URSS em um primeiro momento se manteve isolada graças ao acordo firmado com a Alemanha Nazista, todavia tal acordo é quebrado em 1941 com a invasão das tropas de Adolf Hitler ao território soviético, dando início ao maior e mais sangrento teatro de guerra da história. Ao final da Segunda Guerra Mundial, a URSS mantém em seu poder territó- rios que conquistou na Europa Central e Oriental durante o período de guerra, pertencentes às Potências do Eixo (Alemanha Nazista, Itália Fascista e Império do Japão). Esses territórios passaram a fazer parte dos Estados satélites soviéti- cos, também denominados de Bloco Oriental europeu. Como Estados satélites, encontravam-se diversos países: Polônia, Bulgária, Tchecoslováquia, Hungria, Iugoslávia, Romênia, Albânia, e, a mais estratégica de todas as áreas conquistadas, a parte oriental de Berlim na Alemanha, que depois da Segunda Guerra passou a fazer parte da URSS. Segundo Pereira (2009, p. 15): A produção de guerra foi controlada, a indústria alemã desconcentra- da (descartelização), e o país ficou obrigado a pagar reparações deter- minadas dentro de cada zona. Em contrapartida, os três aliados não chegaram a um acordo sobre as fronteiras e o estatuto da Alemanha. Fixou-se provisoriamente a fronteira oriental sobre a linha Oder-Neis- se, sendo os territórios a leste desta linha entregues às administrações polonesa ou soviética. A rápida recuperação econômica e o prestígio político em âmbito mundial, alcançados graças ao papel desempenhado pela URSS na derrota nazista, desenca- dearam diferenças ideológicas e políticas com o lado ocidental (bloco ocidental). Alemanha e Inglaterra, referências europeias do pós-guerra com relação ao modelo capitalista, liderados pelos Estados Unidos, começaram a ver a URSS como ameaça à ordem social. O CONTEXTO SÓCIOPOLÍTICO E ECONÔMICO EM ÂMBITO MUNDIAL, Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I Por isso, a URSS, peça central para derrota do nazismo na Segunda Guerra Mundial e país pertencente ao bloco dos Aliados, passa a ser um perigo eminente ao sistema capitalista. A partir de então, se inicia pelos dois lados a forma- ção de diversos pactos econômicos e militares que culminaram na Guerra Fria (PEREIRA, 2009). O MODELO DE PRODUÇÃO SOCIALISTA EUROPEU E A GUERRA FRIA O jogo ideológico e político inicia quando, ao final da Segunda Guerra Mundial, os países da Europa praticamente destruídos e totalmente desprovidos de recur- sos para a sua reconstrução recebem ajuda financeira dos Estados Unidos para se recompor. Os Estados Unidos, com medo da ameaça de efetivação do Socialismo em países da Europa Ocidental, propõe a criação de um amplo plano econômico conhecido como Plano Marshall, o qual se resumia na concessão, como tam- bém em uma série de empréstimos a juros baixos e investimento público em países que não fizessem parte do bloco oriental. Conforme Xavier (2010, p. 6): Externada a guerra ideológica e geopolítica entre os EUA e a URSS, principalmente após a preocupação pioneira de Winston Churchill, primeiro estadista a perceber o avanço comunista; em 12 de março de 1947, Truman pronunciou diante do Congresso estadunidense a sua doutrina instada a “defender o mundo capitalista contra a ameaça co- munista”. Tal Doutrina marcou, de fato, o início das disputas geopolíti-cas da Guerra Fria, e ela foi aprofundada com o anúncio do secretário de Estado, George Marshall, de um plano que visava o apoio econômi- co e militar dos EUA à Grécia e à Turquia, e a outros países europeus – denominado de Plano Marshall. A Doutrina Truman foi elaborada mediante a concepção de que o expansionismo comunista soviético deveria ser tolhido. Como resposta, a URSS cria o Conselho para Assistência Econômica Mútua (COMECON) com o intuito de impedir que os países satélites se interessassem 27 O Modelo de Produção Socialista Europeu e a Guerra Fria Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . nos investimentos oferecidos pelos Estados Unidos por intermédio do Plano Marshall. Ainda em Xavier (2010, p. 6): Diante do Plano Marshall, e com sua autoconfiança perturbada, Stalin anunciou a criação do COMINFORM, em setembro de 1947, em lugar do antigo COMINTERN, implantando, destarte, a ortodoxia no mo- vimento comunista internacional. Seu propósito era coordenar ações entre partidos comunistas sob orientação soviética, bem como respon- der às divergências dos países do Leste Europeu quanto comparecer ou não à conferência do Plano Marshall em Paris. Além deste orga- nismo, Stalin também criou o COMECON, versão soviética do Plano Marshall, qual seja, um conselho planejado para incrementar o auxílio econômico mútuo entre os países do bloco comunista. A consolidação de sua presença no Leste europeu dependia apenas da solução a ser encontrada para a Alemanha. Paralelamente ao jogo ideo-político e econômico, a demonstração de força militar era fundamental para manter o clima de paz entre essas duas superpotências, pois enquanto se mantivesse o equilíbrio bélico, a ameaça de um confronto armado era nula. Isso porque os dois lados temiam um enfrentamento direto. De acordo com Xavier (2010, p. 6), temos: Trata-se de uma guerra marcada pela existência da paz armada. As duas potências envolveram-se numa corrida armamentista, espalhan- do exércitos e armamentos em seus territórios e nos países aliados. En- quanto houvesse um equilíbrio bélico entre as duas potências, a paz estaria garantida, pois haveria o medo do ataque inimigo. Para se proteger de tal ameaça, em 1949, os Estados Unidos juntamente com o Canadá e a maioria dos países da Europa Ocidental criaram a Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN), uma aliança militar com o objetivo de pro- teção internacional em caso de um suposto ataque dos países do leste europeu. Em resposta à OTAN, a URSS firmou em 1955 com seus aliados o Pacto de Varsóvia, com a finalidade de unir as forças militares da Europa Oriental. Ainda consoante Xavier (2010, p. 6): [...] Formaram-se, então, dois blocos militares, em abril de 1949, a OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), liderada pelos O CONTEXTO SÓCIOPOLÍTICO E ECONÔMICO EM ÂMBITO MUNDIAL, Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I EUA, com suas bases militares nos países aliados, principalmente na Europa Ocidental, e em resposta, a URSS estabeleceu o Pacto de Var- sóvia, em 1955, que representou a organização militar dos países socia- listas no leste europeu. Sob o mesmo argumento, Rodrigues (2006, p. 120) apresenta: Em 1949, os EUA e seus parceiros europeus criaram a aliança mili- tar até hoje existente, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, OTAN, ao que a URSS e seus aliados irão responder pouco mais tarde constituindo, em 1955, o Pacto de Varsóvia. Embora o clima de corrida armamentista promovida pelo temor de um possí- vel ataque militar estivesse presente em ambos os regimes produtivos, isso não significou que a disputa em torno do setor econômico tenha se tornado menos acurada em relação ao bélico. Diante do que discutimos sobre a Guerra fria, podemos estabelecer o seguinte quadro: PLANO MARSHALL CONSELHO PARA ASSISTÊNCIA ECONÔMICA MÚTUA (COMECON) ORGANIZAÇÃO DO TRATADO DO ATLÂNTICO NORTE (OTAN) PACTO DE VARSÓVIA 1947 1949 1949 1955 EUA URSS EUA E CANADÁ URSS Apoio Econômico e Bélico dos Estados Unidos para os países da Europa Ocidental com o objetivo de reduzir o risco do avanço socialista. Apoio Econômico da Rússia para os países do bloco comunista com o intuito de im- pedir que inclinassem para os interesses dos EUA. Aliança internacional com o objetivo de proteger os países do bloco capitalista de possíveis ataques do bloco socialista – URSS/ Leste Europeu. Coalizão Militar de países do bloco socialista URSS/ Leste Europeu. Quadro 1: Alianças formadas pelos blocos capitalistas e socialistas no contexto da Guerra Fria Fonte: a autora. © shutterstock 29 A Queda do Modelo de Produção Socialista Europeu Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . A QUEDA DO MODELO DE PRODUÇÃO SOCIALISTA EUROPEU Caro(a) aluno(a), agora que compreendemos o que foi a Guerra Fria, vamos avançar nos estudos buscando analisar como ocorre a queda do modo de pro- dução socialista na Europa. Para falarmos sobre esse assunto, vamos nos apropriar das discussões do autor Robert Kurz, que escreveu o livro “O Colapso da Modernização – Da derrocada do Socialismo de Caserna à Crise da Economia Mundial” no início de 1990, apre- sentando de uma forma inovadora a derrocada do Socialismo. Inovadora, porque abordou o assunto de maneira diferente da maioria dos autores, que até então escreviam sobre o tema e defendiam a ideia de o colapso do modelo socialista ser resultado dos problemas de gestão, derivados da incapacidade do modelo de planejamento, centralizado em dar conta de uma economia complexa como estava se tornando o mercado mundial naquele período. Kurz, que vem de uma escola de pensamento Marxista, avalia tal período afastando da discussão as categorias mercado e planejamento/Estado, analisando o fenômeno apenas em seu contexto por uma perspectiva de produção de mercadorias. A chave do raciocínio de Kurz está no fato de que as economias socialistas nunca deixaram de fazer parte do sistema mundial de produção de mercadorias, sendo presentes no contexto da URSS todas as categorias que fundamentam o Capital, ou seja: preço, salário e, com uma nova roupagem, o lucro. Uma nova roupagem, porque, em relação ao modelo socialista, o lucro significava o ganho das empresas estatais. O CONTEXTO SÓCIOPOLÍTICO E ECONÔMICO EM ÂMBITO MUNDIAL, Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I Assim, a Revolução de Outubro de 1917, que caracterizou o início do Modelo Socialista de produção não inaugurou outra fase da história, mas desenvolveu um novo e próprio sistema produtor de mercadorias. Em outras palavras, não ocorreu a superação da sociedade do trabalho, uma vez que surge através do socialismo um novo e moderno sistema produtor de mercadoria, diferen- ciando-se do modelo capitalista por abolir a concorrência interna e por ser comandado inteiramente pelo Estado. Durante um determinado período, a abolição de concorrência proporcionou um significativo crescimento econômico, levando a crer que poderia superar as economias capitalistas. Caro(a) aluno(a), é de suma importância ressaltar que no mesmo período ocorria uma grande conturbação econômica e política nos países capitalistas. Su- perada essa fase, a dinâmica do sistema de produtos de mercadorias se impôs, apontando os limites da economia de comando estatal. O pa- drão de produtividade que emerge de um sistema cada vez mais mun- dial não permite a coexistência de economias que não privilegiem o emprego de novas tecnologias (MARQUES, 1993). O fim desse modelo de produção nessa realidade era inevitável. OS REFLEXOS DO FIM DO MODELO DE PRODUÇÃO SOCIALISTA EUROPEU PARA A AMÉRICA LATINA E O BRASIL O fim do Modelo de Produção Socialista Europeu abriuum novo capítulo na história da América Latina e do Brasil. Isso porque, com o fim da Guerra Fria e a consagração do Sistema Capitalista como único modelo de produção, dimi- nuíram ou simplesmente desapareceram os recursos financeiros destinados aos países em desenvolvimento para subsidiar o crescimento interno ou propiciar ajuda humanitária. 31 Os Reflexos do Fim do Modelo de Produção Socialista Europeu Para a América Latina e o Brasil Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Com o fim da ameaça socialista, não interessava mais ao Capital manter programas de subsídios, pois o conflito ideológico tinha acabado e o sistema capitalista havia vencido. Dessa forma, o interesse do capital aos países perifé- ricos novamente se voltou a questões meramente de mercado ou econômicas. Nas palavras de Almeida (2009, p. 9): No plano estratégico, como os países periféricos deixaram de ser, mo- mentaneamente, terreno de disputa por posições chaves no grande xa- drez da Guerra Fria, eles não mais precisam ser cortejados, comprados ou de alguma forma sustentados por alguns dos contendores em confli- to ideológico, o grande jogo tático resumiu-se, novamente, a conquis- tas puramente econômicas ou comerciais. Isso significou para a América Latina, caro(a) aluno(a), a entrada pela porta dos fundos no contexto de globalização. Endividados e dependentes economicamente, os países latino-americanos não tinham condições de combater diretamente os preços dos produtos dos países industrializados, em especial o norte-americano. Sendo assim, a economia latino-americana entra em crise. Inicia-se um vasto processo de reforma estrutural, que se resumiu no des- mantelamento do Estado em prol do aumento do poder de mercado, forçando os países que compõem essa localização geográfica a abrirem seus mercados aos grandes fluxos globais de mercadorias. Para as empresas latino-americanas, era uma questão de sobrevivência: ou se abria o mercado, ou se declarava falência. Segundo Albano e Costa (2005, p. 278): O Banco Mundial e o Fundo Monetário Internacional - FMI propu- seram os Programas de Ajustes Estruturais - PAEs em 1980, quando muitos países em desenvolvimento atravessavam uma profunda reces- são ocasionada, em parte, por fatores fora do seu controle, e estavam com grande endividamento com os órgãos internacionais. Foi o caso do Brasil e de vários países subdesenvolvidos, que em 1980 estava com uma elevada dívida externa e precisava de ajuda do FMI e do Banco Mundial para quitar os débitos. [...] Para receber a ajuda financeira os países subdesenvolvidos tinham que por em prática, por pressão do FMI e do Banco Mundial, os PAEs. Um PAE típico implicava na libe- ralização do comércio, redução do gasto com programas sociais (saú- de, educação), eliminação de subsídios à alimentação e aumento dos preços pagos a produtores de culturas para o mercado externo. (Grifo Nosso) O CONTEXTO SÓCIOPOLÍTICO E ECONÔMICO EM ÂMBITO MUNDIAL, Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I Nesta conjuntura são implantados organismos específicos para administrar tal contexto. No hemisfério norte emerge o Tratado de Livre Comércio da América do Norte (NAFTA), composto pelos Estados Unidos, Canadá e México, tendo o Chile como país associado. Ao sul, é criado o Mercado Comum do Sul (MERCOSUL), representado em sua formação original pelo Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai, aderindo em 2006 a Venezuela. O objetivo dessas associações foi criar condições para a eliminação das barreiras alfandegárias entre esses países. Conforme Herz (2002, p. 85): Os anos de 1990 foram marcados por algumas mudanças significativas nas relações entre os Estados Unidos e a América Latina. A indefini- ção de uma política hemisférica clara se aliava à ênfase nos interesses econômicos, à afirmação do modelo neoliberal e à perspectiva de um multilateralismo limitado porém emergente. Depois de um período dominado pelas expressões da Segunda Guerra Fria no continente, as iniciativas da administração Bush concentraram-se em estreitar os laços econômicos entre os EUA e a América Latina, negociando o Acordo de Livre Comércio da América do Norte (Nafta) e lançando a Iniciativa para as Américas. A mudança teve caráter paradigmático, havendo um translado de uma política mais coerciva e ideológica para uma perspectiva que enfatizava a cooperação, maiores investimentos e comércio. As duas administrações seguintes, sob liderança de Bill Clin- ton, mantiveram objetivos similares. A partir de janeiro de 1994 passou a vigorar o Nafta, dando continuidade ao processo de integração das economias dos Estados Unidos, Canadá e México, além de alguns paí- ses da bacia do Caribe. O problema para a América Latina com essa nova configuração política concen- tra-se no fato de que o processo ocorre de forma unilateral. Isto é, os mercados latinos abriram suas portas e alfândegas para os produtos norte-americanos, todavia, as barreiras alfandegárias dos países industrializados se mantiveram fechadas para os produtos latino-americanos. Como exemplo, verifica-se o ocorrido no setor agrícola, um dos primeiros segmentos latino-americanos a sofrer os reflexos da abertura de mercado, em que os Programas de Ajustes Estruturais, nesse caso específico o Acordo sobre a Agricultura de 1993, estipulavam a diminuição das tarifas aos produtos agríco- las importados. Nesse sentido, Mandeley (2003, apud ALBANO; COSTA 2005, p. 279) salienta que mediante esse acordo: 33 Os Reflexos do Fim do Modelo de Produção Socialista Europeu Para a América Latina e o Brasil Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . (...) os países não poderão aumentar a sua proteção ao setor agrícola acima do nível que já existia antes de 1993. Os países industrializados que já arcavam com altos níveis de proteção podem mantê-los, mas os países em desenvolvimento não podem elevar seus níveis. Assim sendo, as consequências desse processo foram catastróficas para o âmbito social latino-americano e brasileiro. Mas por que foram catastróficas? Foram catastróficas, caro(a) aluno(a), porque como resultado verificou-se a apropriação de empresas públicas e privadas pelo capital mundializado, bem como terras nacionais. Com o desmantelamento do Estado, a luta de organismos sociais para a efetivação de políticas sociais públicas, como a luta dos trabalha- dores da saúde para a reforma do sistema sanitário, por exemplo, que na década de 1980 era expressivas na América Latina, enfraqueceu. O crescimento econômico nas décadas sucessivas está baseado na lógica do consumo, não em questões voltadas à emancipação econômica, cultural ou inte- lectual, surgindo assim novos contextos na luta de classes e no agravamento da desigualdade social desencadeado pela emancipação. De acordo com Iamamoto (2006, p. 4): O resultado tem sido uma ampla radicalização da concentração de ren- da, da propriedade e do poder, na contrapartida de um violento em- pobrecimento da população; uma ampliação brutal do desemprego e do subemprego; o desmonte dos direitos conquistados e das políticas sociais universais, impondo um sacrifício forçado a toda a sociedade. À reestruturação da produção e dos mercados apoiada mais em métodos de consumo intensivo da força de trabalho do que em inovações cientí- ficas e tecnológicas de última geração somam-se mudanças regressivas na relação entre o Estado e sociedade quando a referência é a vida de todos e os direitos conquistados pelas grandes maiorias. Esses são os principais impactos causados pela incorporação de mecanismos polí- tico/ideológicos de ajuste estrutural que colocam o neoliberalismo na ordem do dia para garantir que o movimento econômico global de mundialização de mer- cados se realize. Tais medidaspossibilitaram preparar o chão de fábrica necessário para receber empresas multinacionais e transnacionais que se aproveitaram de mão de obra barata e incentivos fiscais para produzir o processo mais custoso de produção, enquanto ditavam as regras do jogo nos países periféricos na ordem capitalista global e financeira que se instalava. O CONTEXTO SÓCIOPOLÍTICO E ECONÔMICO EM ÂMBITO MUNDIAL, Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. I Por isso, vamos avançar nas discussões sobre os impactos do neoliberalismo na realidade brasileira, e como a questão social sofre com tal processo. Esse fato exige do leitor estabelecer a relação entre a intervenção profissional do assis- tente social e o movimento contraditório da realidade com os aspectos políticos, econômicos e sociais que interferem no desenvolvimento de políticas sociais e de redefinição dos papéis do Estado na sua relação com o capital e sociedade. CONSIDERAÇÕES FINAIS Caro(a) aluno(a), esperamos que tenha compreendido de forma clara a impor- tância de discutir os aspectos políticos, sociais e econômicos que se manifestam no cenário internacional a partir do desenvolvimento do regime socialista euro- peu e seus desdobramentos no confronto com interesses político/ideológicos capitalistas. Tal confronto gerou violentos embates por meio da luta armada, que visam muito mais do que orquestrar um cenário de guerra com o objetivo de conquistar novos territórios, mas expressam a face mais incontrolável da con- tradição entre capital e trabalho que, para garantir a manutenção das relações sociais de produção capitalistas, violentam a vida dos sujeitos e atingem todas as esferas e proporções da vida social. A Segunda Guerra Mundial e a Guerra Fria – que realizaram o combate no plano político — foram exemplos materiais desse processo, cada um ao seu tempo redefiniu e influenciou a vida social no contexto global, exigindo que os países se posicionassem frente ao embate entre socialismo e capitalismo, e que se submetessem aos ditames dos blocos hegemônicos no processo de abertura econômica e desnacionalização das economias dos países da América Latina. Essa questão não é livre de interferências e colocou para os países latino- -americanos a tarefa de criarem alianças para fortalecer os mercados regionais em detrimento da mundialização de mercados. Verificamos também que essas medidas não impediram que as consequências desse processo avançassem, ques- tão que será discutida na unidade II. Desejamos a você bons estudos! 35 1. Com o fortalecimento de lideranças políticas russas em 1915, que se manifesta- vam contra a monarquia, destacava-se o Partido Operário Social-Democrata Rus- so (POSDR) embasado sob duas alas distintas: os mencheviques e bolcheviques. Descreva as características e posicionamento de cada um deles. 2. Diante do que foi apresentado sobre a Guerra Fria, podemos completar o quadro abaixo a partir das alianças estabelecidas pelos blocos capitalistas e socialistas. Ano de criação País ou Países Envolvidos Objetivo/Descrição Plano Marshall Conselho para Assistência Econômica Mútua (COME- CON) Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) Pacto de Varsóvia 3. A partir da Revolução Russa, Guerra Civil e a criação da URSS, surge pela primei- ra vez, em cinco séculos de história econômica capitalista, outra alternativa de mercado, o SOCIALISMO. Aponte quais foram as mudanças provocadas pelo So- cialismo. TESES EQUIVOCADAS SOBRE A ORDEM MUNDIAL PÓS-GUERRA FRIA - CARACTE- RÍSTICAS DA ORDEM PÓS-45 (...) Retrospectivamente, quatro características parecem ter sido as mais significativas da or- dem da Guerra Fria: 1. A bipolaridade estratégico-militar; 2. A primazia econômica dos Estados Unidos; 3. O “compromisso liberal”; 4. A importância do Terceiro Mundo enquanto ator político. A bipolaridade estratégico-militar EUA-União Soviética e a dissuasão nuclear como forma de controle do conflito entre as duas superpotências constituem as características definidoras daquela ordem. A sua principal implicação foi dar certa medida de estabi- lidade ao sistema mundial, com base em dois processos. Por um lado, o congelamento dos conflitos locais e regionais anteriores à Segunda Guerra, resultado de sua vinculação ao conflito político-ideológico bipolar, permitiu às duas superpotências administrá-los e controlá-los, tendo em vista seus respectivos interesses político-estratégicos. Por outro, a dissuasão nuclear controlava o conflito entre as duas superpotências, uma vez que ao disporem, ambas, de second-strike capability, nenhuma delas tinha incentivo para usar suas armas contra a outra. Ademais, o status na hierarquia internacional e a superiorida- de estratégico-militar, conferidos pelas armas atômicas, proviam um incentivo especial aos EUA e à União Soviética para controlar a proliferação dessas armas cuja posse asse- guraria a condição de grande potência a quem a obtivesse, mesmo nos países de suas respectivas esferas de influência. Uma consequência relevante da emergência das armas atômicas na política mundial foi quebrar o vínculo entre poder militar e poder econômico que tem caracterizado o moderno sistema internacional. O ciclo de emergência e queda das grandes potências evidencia uma correlação significativa, ao longo do tempo, entre capacidade econômi- ca e força militar (Kennedy, 1989; Gilpin, 1981). A erosão desta combinação histórica é fruto do paradoxo das armas nucleares: a escala da violência tornada possível pela capa- cidade destrutiva das armas nucleares ultrapassou exponencialmente o espaço físico no qual a violência poderia ser empregada, tornando essas armas inúteis do ponto de vista de sua utilização em um conflito real. O teste de força entre as superpotências foi deslo- cado para a periferia, não ocorrendo um enfrentamento direto entre elas. Entretanto, o que mantinha a bipolaridade e o status de superpotência eram as armas nucleares, inde- pendentemente de eventuais reduções de fato nas respectivas capacidades econômi- cas. Ademais, ao atenuar o “dilema de segurança”, em especial dos membros da aliança do Ocidente, o guarda-chuva nuclear acabou por permitir que alguns destes (Alemanha e Japão) se tornassem potências econômicas, sem serem necessariamente potências militares. Finalmente, a própria monopolização do jogo estratégico pelas duas superpo- tências deslocou o espaço de manobra das demais para o campo econômico. 37 Um aspecto importante da Guerra Fria foi sua funcionalidade para as duas superpo- tências. Desta forma, o sistema de Guerra Fria expressava e reforçava o domínio destas na política mundial, pois não apenas ajudava a controlar os aliados mais rebeldes no continente europeu, como provia uma justificativa para sua intervenção nos assuntos domésticos dos países periféricos. De fato, a rivalidade estratégico-militar operava com vantagem para as superpotências: permitia o controle do Leste Europeu pela União Soviética, gerando estabilidade em uma região tradicionalmente instável; continha as ambições alemãs na área; e, por último, assegurava a hegemonia dos EUA na Europa, empurrando os países da Europa Ocidental para os braços norte-americanos (Cox, 1994; Lynch, 1992; Waltz, 1964). A primazia econômica dos Estados Unidos constitui outra característica relevante da antiga ordem. Esta é incontestável nos primeiros vinte anos do pós-Segunda Guerra, momento em que é mais acentuado o diferencial econômico entre os Estados Unidos e os demais países capitalistas. Em 1950, o PIB americano era três vezes maior que o da União Soviética, oito vezes o da Alemanha Ocidental e o da França e doze vezes o do Japão (Kennedy, 1989, p. 353). Foram esta primazia econômica e a rivalidade bipolar os responsáveis pela disposição norte-americana de investir recursos não apenas na re- construção européia no pós-guerra, mas na montagem de um arcabouço institucional multilateral nos planos políticoe econômico cuja importância para a normalização das relações econômicas internacionais não foi desprezível. Essa combinação entre supe- rioridade econômica e rivalidade estratégica também foi relevante para a reintegração dos vencidos na Segunda Guerra em especial Alemanha e Japão à aliança do Ocidente, patrocinada pelos EUA, muitas vezes contra a vontade dos demais parceiros da aliança (Keohane, 1982). Fonte: LIMA, Maria Regina Soares. Teses Equivocadas Sobre a Ordem Mundial Pós-Guerra Fria. Re- vista SciELO, São Paulo, v. 39, n. 3, 1996. Disponível em: <http://www.scielo.br/scielo.php?scrip- t=sci_arttext&pid=S0011-52581996000300005>. Acesso em: 05 maio 2015. http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0011-52581996000300005 http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0011-52581996000300005 MATERIAL COMPLEMENTAR Da Guerra Fria À Nova Ordem Mundial Ricardo de Moura e Monica Liz Miranda Editora: Contexto Sinopse: Esta obra foge do lugar comum à maior parte das interpretações sobre a “paz armada” que marcou, a partir do final da Segunda Guerra Mundial, a relação entre os EUA e a ex-URSS. O livro faz ainda uma pertinente reflexão sobre os rumos da humanidade. Crise do Socialismo à Ofensiva Neoliberal Jose Paulo Netto Editora: Cortez Sinopse: Neste volume, os temas são tratados sob uma perspectiva crítica. A crise do socialismo é abordada não como signo do “fim da história”, mas como esgotamento de um padrão da transição social que se revelou incapaz de realizar a dupla socialização que compete ao período pós-revolucionário - a socialização do poder político e a socialização da economia. Já a ofensiva neoliberal é enfocada como expressão da incompatibilidade entre o capitalismo contemporâneo e as instituições democráticas. Uma tese articula os dois ensaios deste livro - enquanto a sociedade estiver subordinada ao capital, a história continuará mobilizada pelas lutas dos trabalhadores na direção de uma ordem societária sem exploração, sem opressão e sem alienações. Para saber mais sobre Stalin, acesse: Dicionário Político <https://www.marxists.org/portugues/dicionario/verbetes/s/stalin.htm>. Na web, você pode acessar o site da OTAN e entender melhor qual é a sua função em relação aos países do bloco capitalista. <http://www.nato.int/>. https://www.marxists.org/portugues/dicionario/verbetes/s/stalin.htm http://www.nato.int/ U N ID A D E II Professora Me. Juliana Cristina Teixeira Domingues O SURGIMENTO DO NEOLIBERALISMO E O AGRAVAMENTO DA QUESTÃO SOCIAL Objetivos de Aprendizagem ■ Apresentar como ocorreu o processo de reabsorção do modelo liberal pelo mercado capitalista intitulado como neoliberalismo. ■ Apresentar como ocorreu o processo de transição da economia tradicional para economia de mercado e as repercussões desse modelo para o agravamento dos problemas relacionados à Questão Social. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ O surgimento do Neoliberalismo ■ A transição da economia nacional para a economia de mercado ■ O conceito de Questão Social ■ O agravamento da Questão Social INTRODUÇÃO Olá, caro(a) aluno(a)! Estamos iniciando a unidade II do Livro de Fundamentos II e esperamos que você compreenda o que é o neoliberalismo, como foi incorporado na reali- dade brasileira, de que forma impactou nos desdobramentos da questão social e por que é importante que o Serviço Social entenda seus impactos para desenvolver suas competências profissionais articuladas com os direitos da classe trabalha- dora. Por isso, veremos como se iniciou o processo político do neoliberalismo e quais os seus reflexos diretos na política de bem-estar em âmbito mundial, bem como esse processo interferiu no desmantelamento do Estado, na economia de mercado, no processo de globalização e no agravamento da Questão Social. Você verá que o desenvolvimento da política neoliberal se consolidou como o principal mecanismo político ideológico de reafirmação do capitalismo central na América Latina, e de conformação de desenvolvimento de uma nova socia- bilidade pautada em ordenamentos individualistas, de incentivo ao consumo, à concorrência e à competição. Compreenderá que o neoliberalismo incorporado no Brasil expressou o estreitamento das relações políticas e econômicas com os organismos interna- cionais, como o Banco Mundial e o FMI, ao mesmo tempo em que tornou o Brasil chão de fábrica para a abertura de mercados e de desnacionalização da Economia. É importante que faça também a relação desses impactos econômicos neo- liberais no campo dos direitos sociais, os quais foram desmantelados através da precarização de políticas sociais como saúde e educação a favor de incenti- vos para a política econômica e de abertura do setor privado e terceiro setor na oferta desses serviços pela via do mercado e do voluntariado. Esperamos que essa discussão contribua para ampliar a compreensão sobre o desenvolvimento do Serviço Social dos últimos vinte anos. Bons estudos a você! 41 Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . O SURGIMENTO DO NEOLIBERALISMO E O AGRAVAMENTO DA QUESTÃO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II O SURGIMENTO DO NEOLIBERALISMO As origens que definem e distinguem o neoliberalismo do simples liberalismo clássico do século XIX tiveram início após a II Guerra Mundial, especificamente na Europa e na América do Norte, países onde imperava a vertente capitalista. Tal movimento se caracterizou por ser uma reação teórica e política contrá- ria ao posicionamento do Estado como agente intervencionista e de bem-estar (ANDERSON, 1995). Os principais representantes do neoliberalismo em seu primeiro estágio foram: Milton Friedman, Karl Popper, Lionel Robbins, Ludwing Von Mises, Walter Eupken, Walter Lipman, Michael Polanyi, Salvador de Madariaga, entre outros. Estes se caracterizavam não somente por serem adversários do Estado de Bem-Estar europeu, mas também inimigos do New Deal norte-americano (ANDERSON, 1995). Os defensores do neoliberalismo se fundamentavam na ideia de combater a qualquer preço o keynesianismo e o solidarismo e preparar um novo modelo para o capitalismo, que se caracterizaria como livre de regras. Argumentavam que a desigualdade era um valor positivo para o mercado, pois através desta as possibilidades de crescimento e as vantagens competitivas eram reforçadas, sendo úteis às sociedades ocidentais (ANDERSON, 1995). A chegada da grande crise do modelo econômico do pós-guerra, em 1973, quando todo o mundo capitalista avançado caiu numa longa e profunda recessão, combinando, pela primeira vez, baixas taxas de cres- cimento com altas taxas de inflação, mudou tudo. A partir daí as idéias neoliberais passaram a ganhar terreno. As raízes da crise, afirmavam Hayek e seus companheiros, estavam localizadas no poder excessivo e nefasto dos sindicatos e, de maneira mais geral, do movimento ope- rário, que havia corroído as bases de acumulação capitalista com suas pressões reivindicativas sobre os salários e com sua pressão parasitária para que o Estado aumentasse cada vez mais os gastos sociais. Esses dois processos destruíram os níveis necessários de lucros das empresas e desencadearam processos inflacionários que não podiam deixar de terminar numa crise generalizada das economias de mercado. O remé- dio, então, era claro: manter um Estado forte, sim, em sua capacidade de romper o poder dos sindicatos e no controle do dinheiro, mas parco em todos os gastos sociais e nas intervenções econômicas. A estabili- dade monetária deveria ser a meta suprema de qualquer governo. Para isso seria necessária uma disciplina orçamentária, com a contenção dos 43 O Surgimento do Neoliberalismo Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en ale L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . gastos com bem-estar, e a restauração da taxa “natural” de desemprego, ou seja, a criação de um exército de reserva de trabalho para quebrar os sindicatos. Ademais, reformas fiscais eram imprescindíveis, para in- centivar os agentes econômicos. Em outras palavras, isso significava re- duções de impostos sobre os rendimentos mais altos e sobre as rendas. Desta forma, uma nova e saudável desigualdade iria voltar a dinamizar as economias avançadas, então às voltas com uma estagflação, resulta- do direto dos legados combinados de Keynes e de Beveridge, ou seja, a intervenção anticíclica e a redistribuição social, as quais haviam tão desastrosamente deformado o curso normal da acumulação e do livre mercado. O crescimento retornaria quando a estabilidade monetária e os incentivos essenciais houvessem sido restituídos (ANDERSON, 1995, s/p.). O texto que fundamentou a tese neoliberal foi escrito por Friedrich Hayek em 1944 e intitulado “O Caminho da Servidão”. Tal texto trata-se de um ataque apai- xonado contra a limitação exercida pelo Estado contra a liberdade de mercado. Caracterizava o Estado de Bem-estar como uma ameaça letal para a liberdade econômica e política, igualando-o ao nazismo alemão. Embora a crítica se fun- damentasse contra o modelo de bem-estar, na verdade, o alvo de Hayek era o Partido Trabalhista inglês que estava disputando as eleições em 1945, o qual, mesmo com a ofensiva por parte dos neoliberais, chegou ao poder com a maio- ria dos votos dos ingleses (ANDERSON, 1995). O SURGIMENTO DO NEOLIBERALISMO E O AGRAVAMENTO DA QUESTÃO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II ANO ACONTECIMENTO Início de 1970 Iniciou no Chile sob a ditadura de Pinochet. Aquele regime tem a honra de ter sido o verdadeiro pioneiro do ciclo neoliberal da história contemporânea. O Chile de Pinochet começou seus programas de maneira dura: desregulação, desemprego massivo, repressão sindi- cal, redistribuição de renda em favor dos ricos, privatização de bens públicos. Tudo isso foi começado no Chile, quase um decênio antes de Teatcher, na Inglaterra. No Chile, naturalmente, a inspiração teóri- ca da experiência pinochetista era mais norte-americana do que aus- tríaca. Friedman, e não Hayek, como era de se esperar nas Américas... 1979 Na Inglaterra foi eleito o governo Teatcher, o primeiro regime de um país capitalista avançado publicamente empenhado em por em prá- tica o programa neoliberal. 1980 Reagan chegou à presidência dos Estados Unidos... 1982 Khol derrotou o regime social liberal de Helmut Schimidt, na Alemanha... 1983 A Dinamarca, Estado modelo do bem-estar Escandinavo, caiu sob o controle de uma coalizão clara de direita, o governo de Schluter. Em seguida, quase todos os países do norte da Europa Ocidental, com exceção da Suécia e da Áustria, também viraram de direita... O governo socialista na França se viu forçado pelos mercados finan- ceiros internacionais a mudar seu curso dramaticamente e reorien- tar-se para fazer uma política muito próxima à ortodoxia neoliberal, com prioridade para a estabilidade monetária, a contenção do orça- mento, concessões fiscais aos detentores de capital e abandono do pleno emprego... Na Espanha, o governo de Gonzáles jamais tratou de realizar uma política keynesiana ou redistributiva. Ao contrário, desde o início, o regime do partido no poder se mostrou firmemente monetarista em sua política econômica: grande amigo de capital financeiro, favorá- vel ao princípio de privatização e sereno quando o desemprego na Espanha rapidamente alcançou o recorde europeu de 20% da popu- lação ativa... Na Austrália e Nova Zelândia, o mesmo padrão assumiu proporções verdadeiramente dramáticas. Sucessivos governos trabalhistas ul- trapassaram os conservadores locais de direita com programas de neoliberalismo radical - na Nova Zelândia, provavelmente o exemplo mais extremo de todo o mundo capitalista avançado, desmontou-se o Estado de bem-estar muito mais completa e ferozmente do que Theacher na Inglaterra... 45 O Surgimento do Neoliberalismo Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 1985 Na América Latina também proveu-se a experiência piloto para o ne- oliberalismo do oriente pós-soviético. Nesse caso, com relação à Bo- lívia, onde, em1985, Jeffrey Sachs já aperfeiçoou seu tratamento de choque, mais tarde aplicado na Polônia e na Rússia, mas preparado originariamente para o governo do general Banzer, depois aplicado imperturbavelmente por Victor Paz Estenssoro, quando surpreen- dentemente este último foi eleito presidente, em vez de Banzer. Na Bolívia, no fundo da experiência, não havia necessidade de quebrar um movimento operário poderoso, como no Chile, mas parar a hipe- rinflação. O regime que adotou o plano de Sachs não era nenhuma ditadura, mas o herdeiro do partido populista que havia feito a revo- lução social de 1952. Em outras palavras, a América Latina também iniciou a variante neoliberal “progressista”, mais tarde difundida no sul da Europa, nos anos de euro-socialismo... 1990 Peru. 1991 a 1993 Suécia, a social-democracia, que havia resistido ao avanço neoliberal nos anos 80, foi derrotada por uma frente unida de direita em 1991. Na Itália, Berlusconi – uma espécie de Reagan italiano - chegou ao poder à frente de uma coalizão na qual um dos integrantes era um partido oficialmente fascista até recentemente... (ANDERSON, 1995, p. 17) 1994 No Brasil tem início a aplicação de um projeto neoliberal que vem avançando com dificuldades, mas sempre dando passos avançados para uma clara política de abertura da economia para o capital inter- nacional, desnacionalização via privatizações de grandes empresas estatais, tentativas ainda frágeis de desregulamentação das normas trabalhistas, dentre outras não menos significantes. Trata-se na reali- dade de uma constatação do predomínio de forma hegemônica do neoliberalismo. 1998 México e Argentina. 1999 Venezuela. Quadro 2: Cronologia do Processo de Neoliberalização Política Fonte: Sitientibus (2008, p. 169-189). A hegemonia desse programa não aconteceu do dia para a noite, levou mais de uma década, segundo Cerqueria (2008, p. 180-183): O SURGIMENTO DO NEOLIBERALISMO E O AGRAVAMENTO DA QUESTÃO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II Nessa perspectiva, as principais ideias neoliberais colocadas em prática, com variação em um ou outro país, a depender da especificidade de cada um, podem ser resumidas da seguinte forma: • Aproveitar o momento de recessão econômica, com uma das suas consequências mais dramáticas e socialmente injustas que é o de- semprego, para enfraquecer o movimento sindical organizado, le- vando no todo dessa proposição à perda de vantagens adquiridas e acumuladas ao longo dos anos por parte dos trabalhadores, prin- cipalmente, nas décadas 50 e 60 quando da pujança crescente do capitalismo. Estas medidas são consideradas de suma importância, pois contribuirão para a acumulação de capital das empresas, que assim obterão poupança para novos investimentos; • O equilíbrio da balança de pagamentos é essencial e, melhor ain- da, se houver superávit nas transações comerciais e de serviços, que redundará em mais recursos para as empresas e tranquilidade para o país, consequentemente gerando divisas e disponibilidade financeira para propiciar investimentos básicos em infraestruturas próprias e expansão da iniciativa privada; • Retirada da participação do Estado na economia como agente pro- dutivo e em determinadas situações saindo também de funções de regulamentação ou de setores produtivos da economia através de uma política de desestatização. Como exemplo desta prática têm-se os governos Teatcher: ...se lançaram num amplo programa de privatização,começando por habitação pública e passando em seguida à indústria básica, como o aço, a eletricidade, o petróleo, o gás e a água... • Viabilização das reformas fiscais por parte do Estado, como forma de incentivar os agentes econômicos. Isto significa a redução da taxação sobre os mais altos investimentos, no sentido de fomentar as desigualdades. • ... Ademais, reformas fiscais eram imprescindíveis para incenti- var os agentes econômicos. Em outras palavras, isso significava reduções de impostos sobre os rendimentos mais altos e sobre rendas. Desta forma, uma nova e saudável desigualdade iria vol- 47 A Transição da Economia Nacional para a Economia de Mercado Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . tar a dinamizar as economias avançadas, então às voltas com uma estagflação, resultado direto dos legados combinados de Keynes e de Beveridge, ou seja, a intervenção anticíclica e a redistribuição social, as quais haviam tão desastradamente deformados o curso normal da acumulação e do livre mercado. O crescimento retor- naria quando a estabilidade monetária e os incentivos essenciais houvessem sido restituídos... • A redução constante e progressiva dos gastos públicos nas áreas sociais – saúde, educação, previdência, de assistência ao trabalha- dor desempregado (via seguro desemprego) entre outras. Em sín- tese, a diminuição do Estado de bem-estar (CERQUEIRA, 2008, p. 172-173). Paralelamente a essas transformações políticas, no mundo econômico também ocorreram transformações no sentido de adaptar a nova fase do capitalismo. Com a diminuição de proteção estatal para os mercados, especialmente aque- les de países centrais, a economia passou por mudanças profundas, iniciando o processo de globalização ou internacionalização do capital e a transição da eco- nomia até então nacionalista pela economia de mercado. A TRANSIÇÃO DA ECONOMIA NACIONAL PARA A ECONOMIA DE MERCADO Como visto na unidade I, os anos de 1980 foram cruciais para a criação do modelo capitalista contemporâneo, pautado na mundialização/internacionalização/glo- balização do capital. Isso ocorreu devido à crise do modelo socialista vivenciada naquele período, verificou-se em âmbito mundial a efetivação da hegemonia do modelo capitalista. Para se afirmar como força hegemônica, o sistema capitalista “lança mão” de uma série de novos conceitos oriundos das escolas america- nas de administração de empresas (Havard, Columbia e Stanford), publicados mundialmente por meio de livros e artigos de marketing. Entre esses conceitos, destacava-se a ideia de economia global, ou globalização (OLIVEIRA, 2012). © sh ut te rs to ck O SURGIMENTO DO NEOLIBERALISMO E O AGRAVAMENTO DA QUESTÃO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II A ideia central do con- ceito caracterizava-se em demonstrar aos dirigentes industriais, políticos ameri- canos e europeus o potencial lucrativo mediante aliança/ cooperação entre os mes- mos, em oposto à ideia vigente de manutenção da disputa de poder baseada em taxas de câmbio e na manipulação da política industrial, desencadeando o processo de união dos mais variados tipos de empresas da época, consolidando assim os oligopólios internacionais ou empresas multinacionais (OLIVEIRA, 2012). A novidade desse processo foi a criação de monopólios em países “subdesen- volvidos”, o que significou a unificação de empresas monopolistas internacionais, até então localizadas em países “desenvolvidos”, com empresas nacionais de países “periféricos”, transformando ambas em empresas mundiais. O resultado disso, por conseguinte, foi a unificação do capital nacional (valores relacionados à pro- dução de bens de uma nação) perante o capital estrangeiro (valores relacionados ao investimento financeiro internacional), a superação das contradições geradas pela disputa de mercados e pelas fontes de matérias-primas entre as empresas nacionais, em novas formas de relação política interna e na reorganização das relações de trabalho (OLIVEIRA, 2012, p. 3). O domínio e a consolidação desse processo se deram graças a três pro- cedimentos inter-relacionados. O primeiro deles se refere à necessidade de transferência de capital entre as multinacionais e suas filiais criadas princi- palmente após a II Guerra Mundial para a reconstrução da Europa e depois o Japão. Devido ao grande fluxo de capitais internacionais entre as empresas nesse momento, ocorre a expansão de transações financeiras internacionalmente. Essas transações originaram um novo filão para as empresas que capitalizavam seus investimentos por meio da venda de títulos e ações aos investidores de forma globalizada. ©shutterstock 49 A Transição da Economia Nacional para a Economia de Mercado Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . A partir desse momento, tornou-se acessível aos investidores em âmbito mundial comprar títulos e ações de empresas não loca- lizadas necessariamente em seus países de origem, desen- cadeando uma nova forma de reproduzir o lucro sem produção direta de bens, a cosi detta (expressão em ita- liano que quer dizer a assim conhecida) especulação financeira. Esse processo resultou que um aumento de fluxo de capital privado (títulos e ações) não associado à multinacional fosse maior que o investimento direto (pro- dução direta de bens) dessas empresas e na financeirização da economia. Devido a essa transformação no mercado mundial, as últimas crises do sistema capitalista são denominadas crises financeiras e não crise de produção (OLIVEIRA, 2012). Como financeirização da economia, comungamos com as ideias de Ches- nais, as quais sinalizam que o processo de acumulação do sistema capitalis- ta fundamentado na produção e reprodução do trabalho é redefinido, pois, o capitalismo industrial (produção e reprodução do trabalho) é superado pelo capitalismo financeiro (ações, grandes bancos e fundos de pensão), re- presentado pelos rendimentos superiores cotados pelas bolsas de valores de todo o mundo. Fonte: as autoras. O SURGIMENTO DO NEOLIBERALISMO E O AGRAVAMENTO DA QUESTÃO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II Em segundo lugar ocorre a internacionalização da produção capitalista, pois, por intermédio do processo de financeirização econômica, há uma mudança expressiva na estrutura de produção do capitalismo, graças principalmente às transformações tecnológicas que permitiram às multinacionais reduzir custos, especialmente por meio da robótica e pelo processo de terceirização da produção, desencadeando o aumento na precarização do mundo do trabalho e o desman- telamento da organização da classe trabalhadora. O terceiro ponto se refere à criação de orga- nismos internacionais para proteção dessas transações, como a criação do Fundo Monetário Internacional – FMI e do Banco Mundial, de organismos relacio- nados aos Estados nação como União Europeia— UE, Tratado Americano de Livre Comércio— NAFTA e o Mercado Comum do Sul – MERCOSUL, onde se for- mularam (e formulam) as normas para o funcionamento e manutenção desse sistema em suas regiões. Um exemplo claro de como funcionam esses organis- mos pode ser visto pelas regras estabelecidas pelo Washington Consesus para a concessão de financiamento aos países endividados, as quais preveem primei- ramente estabilização econômica através de ajustes e reformas estruturais, tais como: privatizações e liberalização financeira/comercial para somente então con- ceder os empréstimos, verificando-se a superioridade do mercado em relação às economias nacionais (OLIVEIRA, 2012). Iamamoto (2006, p. 2) nos explica que: O caráter conservador do projeto neoliberal se expressa, de um lado, na naturalização do ordenamento capitalistae das desigualdades sociais a ele inerentes tidas como inevitáveis, obscurecendo a presença viva dos sujeitos sociais coletivos e suas lutas na construção da história; e, de outro lado, em um retrocesso histórico condensado no desmonte das conquistas sociais acumuladas, resultantes de embates históricos das classes trabalhadoras, consubstanciadas nos direitos sociais univer- 51 O Conceito de Questão Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . sais de cidadania, que têm no Estado uma mediação fundamental. As conquistas sociais acumuladas são transformadas em “problemas ou dificuldades”, causa de “gastos sociais excedentes”, que se encontrariam na raiz da crise fiscal dos Estados. Inevitavelmente neste contexto ocorre o agravamento dos problemas sociais, especificamente relacionados à Questão Social, o que sintetiza a importância dessa discussão no que tange ao conhecimento e teorização do Serviço Social, pois sendo a Questão Social objeto profissional, os mecanismos que a movi- mentam, tanto no sentido positivo como o de sua complexificação, são de suma importância para entender e criar os rumos do trabalho do assistente social e do próprio Serviço Social. O CONCEITO DE QUESTÃO SOCIAL Segundo Netto (2001), a expressão “questão social” tem história recente. Seu emprego data de cerca de cento e setenta anos. Começou a ser utilizada na ter- ceira década do século XIX e foi divulgada até a metade daquele centenário, principalmente por críticos da sociedade e filantropos situados nos mais varia- dos espaços do segmento político. Para Netto (2001, p. 42): Desde um legitimista francês como Armand de Melun a um jovem re- volucionário alemão como F. Engels, curiosamente a expressão “ques- tão social” emerge praticamente ao mesmo tempo em que surge, no vocabulário político, a palavra socialismo. Dessa forma, a expressão surge para dar conta do fenômeno mais evidente da história da Europa Ocidental que experimentava os impactos da primeira onda industrializante, iniciada na Inglaterra nas quatro últimas décadas do século XVIII, o pauperismo. Como efeito, a pauperização massiva da população tra- balhadora constituiu o aspecto mais imediato da instauração do capitalismo em seu primeiro estágio industrial-concorrencial e, não por acaso, engendrou uma significativa base teórica. Consoante Paulo Netto (2001, p. 42): O SURGIMENTO DO NEOLIBERALISMO E O AGRAVAMENTO DA QUESTÃO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II O texto de Engels “A Situação da Classe Trabalhadora na Inglaterra”, é apenas um exemplo de uma larga bibliografia, na qual concorreram autores de posições das mais diversas com destaque para Villermé, Ducpétiaux, Buret até mesmo o conservador Tocqueville ocupou-se do problema, na sua obra “Mémoire Sur lê Paupérisme” apresentada à academia de Cherbourg em 1835. Assim, para os mais críticos observadores da época, independentemente da sua posição ideológica ou política, tornou-se claro que se tratava de um fenômeno novo, sem precedentes na história anterior conhecida. Com efeito, se por um lado não era inédita a desigualdade entre as várias camadas sociais, sendo tão antiga a diferente apropriação dos bens sociais por aqueles que detinham o poder (clero, nobreza) a aqueles que se subordinavam a ele (escravos, vassalos, artesãos), por outro era radicalmente nova a dinâmica da pobreza que então se generalizava. Isso porque, segundo Paulo Netto (2001), a pobreza crescia na razão direta em que aumentava a capacidade social de produzir riquezas. Tanto mais a socie- dade se revelava capaz de, progressivamente, produzir mais bens e serviços, mais aumentava o contingente de seus membros que, além de não terem acesso efe- tivo a tais bens, viam-se despossuídos das condições materiais de vida de que dispunham anteriormente. Para Paulo Netto (2001, p. 43): Isso significa que nas formas de sociedades precedentes à sociedade burguesa, a pobreza estava ligada a um quadro geral de escassez, fenô- meno este que se dissolve com o advento do capitalismo, devido aos índices nunca antes visto de produção. A pobreza, ou pauperização, aumentava na mesma proporção que a riqueza socialmente produzida. O diferencial deste contexto estava no fato de que a classe operária, por um deter- minado momento, se manteve dentro dos limites deste quadro, mas logo iniciou a luta por melhorias. Luta essa que teve sua maior expressão nos acontecimen- tos de 1848. De acordo com Paulo Netto (2001, p. 43): O divisor de águas, também aqui, é a Revolução de 1848. O ano de 1848 marcou o continente europeu com movimentos revolucionários que, a partir de Paris, tiveram rápida propagação nos grandes centros urba- nos. A consolidação do poder político da burguesia e o surgimento do proletariado industrial, enquanto força política, foram os reflexos mais importantes daquele ano, que também foi marcado pela publicação do “Manifesto Comunista” de Marx e Engels. De um lado, os eventos de 53 O Conceito de Questão Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 1848 - cerrando um ciclo progressista da ação de classes da burguesia - impedem, a partir de então, aos intelectuais a ela vinculados a com- preensão dos nexos entre economia, sociedade e pauperização, por não ter como explicar o fenômeno. A partir desse momento, o pauperismo passa a configurar uma ameaça real às instituições sociais existentes, conformando à ordem burguesa, numa perspec- tiva efetiva de inversão, o que designou questão social. Nessa mesma linha de raciocínio, Iamamoto (2001) apresenta que, embora os processos sociais traduzam questão social, encontra-se no centro da análise de Marx a sociedade capitalista. A expressão é estranha ao universo marxista, tendo sido cunhada por volta de 1830. Dessa forma, a questão social historica- mente foi tratada sob o ângulo do poder, visto a ameaça que a luta de classes, em especial o protagonismo da classe operária, representava à ordem instituída. Segundo Iamamoto (2001, p. 11): Isso porque, nessa tradição intelectual, o regime capitalista de produ- ção é tanto um processo de produção das condições materiais da vida humana, quanto um processo que se desenvolve sob relações sociais- -históricas-econômicas de produção específicas. Em sua dinâmica pro- duz e reproduz seus expoentes: suas condições materiais de existência, as relações sociais contraditórias e formas sociais através das quais se expressam. A autora Yazbek (2001, p. 33), no entanto, aponta que a questão social é o objeto do Serviço Social, por estarem nela as condições de miserabilidade e exclusão social, categorias latentes para o exercício profissional. Resgata a importância de se ter, na definição de questão social, a concentração da luta entre a burgue- sia e a classe trabalhadora. Obviamente, parto do debate acumulado no âmbito do Serviço Social que situa a “questão social” como referência para a ação profissional, estou colocando a questão da divisão da sociedade em classes, cuja apropriação da riqueza socialmente gerada é extremamente diferencia- da. [...] Questão que se reforma e se redefine, mas permanece substan- cialmente a mesma por se tratar de uma questão estrutural, que não se resolve numa formação econômico social por natureza excludente. Embora haja divergência entre autores, a questão social ainda é consenso como objeto de intervenção profissional dentro do Serviço Social. Fonte: as autoras. O SURGIMENTO DO NEOLIBERALISMO E O AGRAVAMENTO DA QUESTÃO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II Por fim, Pereira (2001) faz uma crítica à atualidade literária a respeito de uma “nova questão social”, e se posiciona contrária a esse movimento, por acreditarque os “novos reflexos” apenas atualizam as novas formas administrativas de acumu- lação do capital. Assim, a questão social continua se manifestando por meio de lutas de forças entre o capital e o trabalho. Nas palavras de Pereira (2001, p. 51): [...] se partimos do princípio de que o conceito de questão social sem- pre expressou a relação dialética entre estrutura e ação, na qual sujeitos estrategicamente situados assumiram papéis políticos fundamentais na transformação de necessidades sociais em questões – com vista a in- corporá-las na agenda pública e nas arenas decisórias [...] não há nada de novo, somente uma nova roupagem para a contradição entre capital e trabalho. Dessa forma, é possível definir o conceito de questão social como sendo os reflexos ocasionados pela exclusão da produção socialmente adquirida pelo estranha- mento da classe trabalhadora e pela sua permanente luta contra a hegemonia da classe burguesa. São reflexos da questão social: o aumento da violência; da misé- ria/pobreza; os altos índices de desigualdade social e desemprego. © istock 55 O Agravamento da Questão Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . O AGRAVAMENTO DA QUESTÃO SOCIAL O advento do neoliberalismo e, consequentemente, o processo de globalização ou internacionalização do capital ocasionou ao mundo do trabalho significativas transformações, tais como: aumento do desemprego, precarização do trabalho assalariado, proliferação de terceirização, subcontratações e flexibilização dos direitos trabalhistas, categorias essas expostas na unidade anterior. Assim, Antunes (2000) apresenta os primeiros dados referentes ao impacto desse novo paradigma de produção, representados pela perda massiva de pos- tos de trabalho. Salienta a eliminação de um (01) milhão de postos de trabalho na Itália entre as décadas de 1970 e 1990 e a redução de empregos na Europa Ocidental como um todo, principalmente no setor industrial, sendo que, segundo o autor, em pouco mais de meio século, 50% dos postos de trabalho na indús- tria europeia desapareceriam. Antunes (2000, p. 51) afirma: Pode-se dizer que nos principais países industrializados da Europa Ocidental, os efetivos de trabalhadores ocupados na indústria repre- sentavam cerca de 40% da população ativa no começo dos anos 40. [...] Hoje, sua proporção se situa próxima dos 30%. Calcula-se que baixará a 25 ou 20% no começo do próximo século. O SURGIMENTO DO NEOLIBERALISMO E O AGRAVAMENTO DA QUESTÃO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II Segundo dados do DIEESE (2006), tais projeções se concretizaram. Na Europa, as taxas de desemprego chegaram a 26% em 2002, especificamente na Itália (levando em consideração toda a sua particularidade, entre norte e sul), seguida da Espanha com 22,2%, o que demonstra a eficiência dada ao novo processo em substituir trabalho vivo por trabalho morto, como salienta Antunes (2000). Com essa massiva perda de postos de trabalho, veem-se conjugadas movimentações sociais de todas as formas, em resposta à segregação social à qual os trabalhado- res europeus foram submetidos. Entre as manifestações, pode-se exemplificar a revolta dos estudantes franceses em 2006 (IAMAMOTO, 2007). São os países periféricos, todavia, os mais prejudicados com essa nova con- juntura, chegando a índices alarmantes de desemprego, como: na África do Sul 44,2%, Argentina 38,2% e Brasil 17,9%, conforme apresenta a tabela 1. PAÍSES POPULAÇÃO (EM MILHÕES) 2004 PNB PER CAPITA (US$) 2004 TAXA DE DESEMPREGO PEA DE 15 A 24 ANOS 2002 Alemanha 82,6 30.120 9,7 Áustria 8,1 32.300 5,4 Espanha 41,3 21.210 22,2 Estados Unidos 293,5 41.400 12,0 Itália 57,6 26.120 26,3 Japão 127,8 37.180 10,1 Reino Unido 59,4 33.940 11,0 África do Sul 45,6 3.630 44,2 Argentina 38,2 3.720 31,8 Brasil 178,7 3.090 17,9 México 103,8 6.770 4,9 Tabela 1: Indicadores Sociais Países Selecionados 2000-2004 Fonte: Banco Mundial – World Development Indicators. ©shutterstock 57 O Agravamento da Questão Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Nessa perspectiva, vários estudos apontam o agrava- mento da situação social nas duas últimas décadas. Para Kliksberg (2001, p. 15), a América Latina é a “terra mais desigual do mundo”, sendo vista pelo mundo desenvolvido como o “caso antiexemplar mais relevante em matéria dos efeitos regressivos decorrentes de altos níveis de desigualdade”. Segundo o relatório da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL), em 2007, 43,8% da população da América Latina encontra- vam-se em situação de pobreza. A indigência diminuiu de 19% para 18,5% no mesmo período. Trata-se de 211 milhões de pessoas em situação de pobreza, das quais mais de 89 milhões se encontravam em condição de indigência (tabela 2). O percentual de pobres, que decresceu ao longo da década, voltou a subir em 2005, tendo sido maior que dez anos atrás. Quanto à renda, em países como o Brasil, Bolívia, Nicarágua, a renda dos 20% mais ricos supera em 30 vezes a renda dos 20% mais pobres. Na relação entre a renda dos 10% mais ricos e os 40% mais pobres, a maior distância está no Brasil, onde os 10% mais ricos têm renda 32 vezes superior à soma dos 40% dos mais pobres, enquanto a média da região equivale a 19,3% (CEPAL, 2006, p. 18). ANO POBRES INDIGENTES Total Urbano Rural Total Urbano Rural Mi % Mi % Mi % Mi % Mi % Mi % 1980 135,9 40,5 62,9 29,8 73,0 59,9 62,4 18,6 22,5 10,6 39,9 32,7 1990 200,2 48,3 121,7 41,4 78,5 65,4 93,4 22,5 45,0 15,3 48,4 40,4 1999 201,5 45,7 125,9 38,7 75,6 65,1 91,6 20,8 44,3 13,6 47,4 40,8 2002 203,8 43,5 125,7 36,5 78,2 63,0 88,8 19,0 42,2 12,3 46,6 37,6 2006 211,4 43,8 134,2 37,1 77,2 63,7 89,4 18,5 43,0 11,9 46,4 38,3 Tabela 2: Pobres e Indigentes na América Latina - 1980-2007 Fonte: CEPAL (2006). O SURGIMENTO DO NEOLIBERALISMO E O AGRAVAMENTO DA QUESTÃO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II Especificamente, em relação ao contexto brasileiro, a taxa de desemprego quadru- plicou na última década, alcançando 8,6% da força de trabalho em 2006, pouco mais de 18 milhões de pessoas, em contraste com 4,6 em 1996. O desemprego atingiu, principalmente, a população urbana, sendo que, entre 1990 e 2006, a taxa aumentou de 5,5% para 10,8% (CEPAL, 2006, p. 21). Isso pode ser visuali- zado nas figuras 1 e 2, nas quais os coeficientes de emprego formal encontram-se entre 0 e 5 (representados pelas cores vermelho, laranja e amarelo – acesse a ver- são colorida do livro disponível no AVA) em pelo menos 70% do país. Apenas a Região Sul e o Estado de São Paulo apresentaram coeficientes satisfatórios de empregabilidade (POCHMANN et al., 2003). N S LO Santa Catarina Rio Grande do Sul Paraná São Paulo Rio de Janeiro Espírito Santo Índice de Emprego Formal* Índice de Emprego Formal 1980 *Quanto maior o índice melhor a situação social 0.000 a 0.218 0.219 a 0.342 0.343 a 0.596 0.597 a 1.000 Distrito Federal Sergipe Alagoas Minas Gerais Mato Grosso do Sul Mato GrossoRondônia Acre Amazonas Roraima Goiás Bahia Piauí Maranhão Pará Amapá Ceará Rio Grande do Norte Paraíba Pernambuco Figura 1: Emprego Formal 1980 Fonte: Atlas da Exclusão Social no Brasil (2003). 59 O Agravamento da Questão Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Figura 2 - Emprego Formal 2000 Fonte: Atlas da Exclusão Social no Brasil (2003) Verifica-se, pelas figuras 1 e 2, que a condição de pobreza de grande parcela da população brasileira, longe de ser superada, agravou-se entre os anos de 1980 e 2000, em que ocorreram as principais mudanças tecnológicas,organizacionais e políticas que fundamentaram o modelo econômico neoliberal. Questão recor- rente (essencialmente política), objeto de intensa polêmica, não apenas quanto à base de dados e indicadores, mas também quanto à concepção de pobreza. Assim, pode-se entender por pobreza o que se convencionou chamar, na lin- guagem popular, de “carência” ou de “pessoas carentes” de certos recursos para a satisfação de certas necessidades tidas como básicas e vitais. As condições sociais de existência, nesse caso, subtraem das pessoas o direito à escolha, a ter preferência e a buscar o que proporciona maior satisfação. Dessa forma, as mani- festações imediatas e visíveis da pobreza indicam Estado ou condição de privação, N S LO Santa Catarina Rio Grande do Sul Paraná São Paulo Rio de Janeiro Espírito Santo Índice de Emprego Formal* Índice de Emprego Formal 2000 *Quanto maior o índice, melhor a situação social 0.000 a 0.218 0.219 a 0.342 0.343 a 0.596 0.597 a 1.000 Sergipe Alagoas Minas Gerais Mato Grosso do Sul Mato GrossoRondônia Acre Amazonas Roraima Goiás Tocantins Bahia Piauí Maranhão Pará Amapá Ceará Rio Grande do Norte Paraíba Pernambuco Distrito Federal © sh ut te rs to ck O SURGIMENTO DO NEOLIBERALISMO E O AGRAVAMENTO DA QUESTÃO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II vulnerabilidade, fragilidade, dificuldade ou insegurança (CASTEL, 2005). Nessa mesma linha, Pochmann et al. (2003, p. 103) apresentam que, com o processo de minimiza- ção do Estado e da abertura de mercado ocorrido nos anos de 1990, graças, prin- cipalmente, ao aumento do desemprego, precarização do trabalho assalariado, proliferação de terceirização, subcontratação e flexibilização dos direitos trabalhistas, houve um salto em rela- ção à pobreza e, consequentemente, em relação à desigualdade social no Brasil, entre os anos de 1980 e 2000. Nas palavras de Pochmann et al. (2003, p. 103), isso ocorre, [...] principalmente após o processo de financeirização da economia, ao gerar uma pressão suplementar sobre o processo de valorização do capital. Implicou numa flexibilização do trabalho, do emprego e con- sequentemente do salário, passando o sistema econômico em nome do aumento da taxa média de lucro a exigir para sua produção e reprodu- ção a precarização e a intensificação do trabalho. Esses fatores podem ser visualizados nas figuras 3 e 4, nas quais se expõe que, na década de 1980, apenas o Nordeste e o Estado do Acre encontravam-se em índi- ces significativos de desigualdade, representados pelas cores vermelha, laranja e amarela (figura 2), no ano de 2000, apenas a Região Sul e os Estados de São Paulo e Rio de Janeiro apresentavam certo conforto em relação ao tema, representada pela cor verde (figura 3). Nas outras regiões do país, agravou-se a distância entre os 10% mais ricos e os 40% mais pobres. 61 O Agravamento da Questão Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . N S LO Santa Catarina Rio Grande do Sul Paraná São Paulo Rio de Janeiro Espírito Santo Índice de Desigualdade Social 1980 *Quanto maior o índice, melhor a situação social 0.000 a 0.068 0.069 a 0.153 0.154 a 0.228 0.229 a 1.000 Distrito Federal Sergipe Alagoas Minas Gerais Mato Grosso do Sul Mato GrossoRondônia Acre Amazonas Roraima Goiás Bahia Piauí Maranhão Pará Amapá Ceará Rio Grande do Norte Paraíba Pernambuco Índice de Desigualdade Social* Figura 3: Índice de Desigualdade Social 1980 Fonte: Atlas da Exclusão Social no Brasil (2003). O SURGIMENTO DO NEOLIBERALISMO E O AGRAVAMENTO DA QUESTÃO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II Figura 4: Índice de Desigualdade Social 2000 Fonte: Atlas da Exclusão Social no Brasil (2003). Dessa forma, trata-se, com efeito, de um fenômeno multidimensional que, embora se expresse preponderantemente pela ausência ou insuficiência de renda, resulta da combinação e condensação de outras formas de subalternidade e apartação social, todas elas vinculadas à “questão social” e às políticas sociais, tais como: o modo de inserção ocupacional, o local de moradia, as relações de gênero, as formas de inserção ou exclusão sociopolítica, as relações inter-raciais, as formas de convívio intergeracional etc. Para Castel (2005), trata-se de um processo de “desfiliação social”, exclusão, pela ruptura de vínculos, pela tensão dos “elos de continuum social” que ten- dem a afrouxar-se, com os efeitos avassaladores da coesão social. “Não se trata, portanto, de exclusão, mas de inclusão subalternizada ou de inserção precária” (CASTEL, 2005, p. 15). É certo que se trata de uma visão conservadora, mas é igualmente válido que se presta a pôr em questão o projeto societário em torno do qual se busca tal coesão. Por essa razão, na sociedade contemporânea, o combate à pobreza N S LO Santa Catarina Rio Grande do Sul Paraná São Paulo Rio de Janeiro Espírito Santo Índice de Desigualdade Social 2000 *Quanto maior o índice, melhor a situação social Sergipe Alagoas Minas Gerais Mato Grosso do Sul Mato GrossoRondônia Acre Amazonas Roraima Goiás Tocantins Bahia Piauí Maranhão Pará Amapá Ceará Rio Grande do Norte Paraíba Pernambuco Distrito Federal 0.000 a 0.068 0.069 a 0.153 0.154 a 0.228 0.229 a 1.000 Índice de Desigualdade Social* 63 O Agravamento da Questão Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . comparece à agenda de ricos e pobres, de conservadores e progressistas, de governos de direita e esquerda. O combate à pobreza é uma exigência da “gover- nabilidade”, o que equivale a dizer de estabilidade social, ainda que sob diferentes motivações político-ideológicas no âmbito das quais se articulam e se defendem interesses econômicos financeiros (SILVA, 2007). Dessa forma, riqueza e pobreza são expressões cúmplices da mesma sociabi- lidade que produz, reproduz e legitima a desigual apropriação da riqueza social. A literatura em volta do tema demonstra a exaustão que a pobreza, síntese de múltiplas determinações (entre elas o aumento do desemprego), constitui expres- são das relações sociais, sendo condição inerente ao modelo capitalista, como decorrência do chamado livre mercado (PAULO NETTO, 2001). Paulo Netto (2001) salienta que no embate entre as propostas de combate à pobreza, embora passíveis de crítica por serem vinculadas à legitimação do neo- liberalismo, é possível identificar diversas tendências de amenização da exclusão social, todas elas articuladas com políticas sociais públicas que, embora inci- pientes perante a gravidade do problema, têm sua importância por revelar a significância do Estado nesse processo. ■ A primeira tendência diz respeito às “políticas sociais seletivas e focalizadas”, a partir da identificação de bolsões de pobreza, segundo determinados indicadores de desenvolvimento ou de exclusão social, como parte de estratégia neoliberal de favorecimento de mercado, impondo-se condi- ção secundária à ação social do Estado. ■ A segunda, articulada à reforma do Estado, refere-se à revitalização da “cultura da benemerência” que contempla o apelo às várias formas de soli- dariedade, destacando-se o voluntariado. ■ A terceira é a reedição, na “filantropia empresarial”, pelo apelo à respon- sabilidade social, ao compromisso com a preservação ambiental, com a “compatibilização economicamente correta” de lucro e ética empresa- rial, à observância de princípios com “disclosure e social accountability”. O SURGIMENTO DO NEOLIBERALISMO E O AGRAVAMENTO DA QUESTÃO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II ■ A quarta trata da defesa do “investimento em capital humano”, por meio daeducação, contemplando a chamada “inclusão digital”. Nesse caso, longe de se tratar da formação ampla e crítica do cidadão, a proposta tem um sentido de controle quando se identifica com as metas para o desen- volvimento, preconizadas pela ONU, com ênfase na “educação sexual e reprodutiva, no planejamento familiar e no controle demográfico” (PAULO NETTO, 2001, p. 109), ou de sentido adaptativo às exigências culturais e econômicas do capital. ■ A quinta trata de uma educação reprodutora da ideologia do capital, patrocinada pelo Banco Mundial. Por último, a postulação da “retomada do crescimento econômico” e consequentemente geração de emprego e renda, a defesa de “estratégias redistributivas da renda nacional” por meio de reforma tributária, revisão do salário mínimo, garantia de renda mínima, provisão de meios para a segurança social. ■ Uma sexta tendência é a “economia solidária”, terminologia que serve para designar práticas econômicas populares que estão fora do assalaria- mento formal, como comércio ambulante, pequenas oficinas, serviços autônomos, as quais foram elevadas à categoria de políticas públicas em 2003 (BARBOSA, 2008), mas que também não respondem à questão do desemprego. É apenas mais uma medida paliativa para amenizar os reflexos da questão social aos trabalhadores excluídos e um novo mer- cado para o capital. “Sobre variadas atividades de geração de trabalho e renda que emergiram ao longo dos anos de 1990, existem aquelas que passaram a ser nomeadas como economia solidária e que em 2003, no Governo Luiz Inácio Lula da Silva, foram elevadas à categoria de política pública através do Ministério do Trabalho e Emprego”. Fonte: BARBOSA, Rosangela Nair de Carvalho. Economia Solidária: estraté- gias de governo no contexto da desregulamentação social do trabalho. In: SILVA, Maria Ozanira da Silva e; YAZBEK, Maria Carmelita (Org.). Políticas pú- blicas de trabalho e renda no Brasil contemporâneo. 2. ed. São Paulo: Ed. Cortez, 2008. p. 90-160. 65 O Agravamento da Questão Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . A crítica em torno desse modelo de política pública está no fato de que, embora importante, não tem o cunho emancipador, mas (mesmo que tenha ocorrido uma progressiva evolução) resquícios de “clientelismo”, como é o caso do Programa Bolsa Família, o qual tem a função de garantir redistribuição de renda, no entanto não há medidas conjuntas que possam “libertar” o trabalhador dos ditames do capital. Nesse contexto, Soares (1999) apresenta os aspectos administrativos e políticos que fundamentam a ineficiência da política social no Brasil, conforme apresenta o quadro 3. Para Soares (1999), um projeto de Política Social que supere as condições anteriormente assinaladas insere o combate à desigualdade social no centro da agenda nacional, enfrentando o modelo econômico submisso à ditadura de mercado, buscando reverter a forte tendência de exclusão social e promover a cidadania. Trata-se de resgatar o papel social do Estado, instrumento privilegiado na realização de tal projeto, pelo qual se preconiza a superação e a sustentação das condições sociais e econômicas. A política social de maior importância para este estudo diz respeito à polí- tica de trabalho e renda, devido ao fato de o capital, para obter a flexibilização necessária à produção, suscitar novas exigências do perfil do trabalhador e pro- mover segmentação entre eles. Os mais qualificados têm mais possibilidade de permanecer (o que significa segurança total) no mercado formal e, potencial- mente, têm condição de viabilizar uma relação mais estreita entre o trabalho manual e intelectual. Aqueles que não preenchem os requisitos da polivalência e qualificação veem-se excluídos do mercado de trabalho. As políticas de trabalho e renda, todavia, se adequaram ao neoliberalismo, visando à adequação das condições econômicas e sociais às leis do mercado, eli- minando progressivamente as chamadas regulações governamentais protetoras, acusadas de inviabilizar a expansão, a produtividade e a competitividade do capi- tal, limitando-se aos mínimos sociais. Dessa forma, a política de trabalho e renda nacional cumpre eficazmente apenas o papel garantido junto a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), subsidiando os programas legais de PIS, PASEP e seguro desemprego. As outras políticas, como qualificação de mão de obra, são relegadas a plano superficial e conjuntural do interesse do capital. O SURGIMENTO DO NEOLIBERALISMO E O AGRAVAMENTO DA QUESTÃO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II Um exemplo concreto é o financiamento disponibilizado pelo Fundo de Amparo ao Trabalhador (FAT) para capacitação na área de construção civil, devido à necessidade de profissionais nessa área para efetivar as obras para sediar as olimpíadas e a copa do mundo. Não há medidas políticas para se enfrentar o problema do aumento do desemprego de forma estrutural e, tratado como con- juntura, o imediato resolve. Aspectos Financeiros • Contribuições regressivas • Opacidade ou transparência do gasto social – controle sobre o gasto • Financiamento regressivo ou progressivo • Cálculo de custos Problemas de impacto redis- tributivo • Não cumprimento da vocação de universalidade • Polarização regional do gasto social • Desatenção com setores pobres da população • Concentração de subsídios em grupos privilegiados (efeitos regressivos) • Filtrações do gasto com setores que não são o objeto Segundo o Ministério de Desenvolvimento Social e Combate Fome (MDS), “O Programa Bolsa Família (PBF) é um programa de transferência direta de renda com condicionalidades, que beneficia famílias em situação de pobre- za (com renda mensal por pessoa de R$ 70 a R$ 140) e extrema pobreza (com renda mensal por pessoa de até R$ 70), de acordo com a Lei 10.836, de 09 de janeiro de 2004 e o Decreto nº 5.209, de 17 de setembro de 2004”. Para saber mais a respeito do programa, acesse: <http://www.mds.gov.br/ bolsafamilia> Fonte: MDS. Bolsa Família. Brasília. Disponível em: <http://www.mds.gov. br/bolsafamilia>. Acesso em: 20 maio 2015. http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2004/Lei/L10.836.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2004/Lei/L10.836.htm http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2004-2006/2004/Decreto/D5209.htm http://www.mds.gov.br/bolsafamilia http://www.mds.gov.br/bolsafamilia http://www.mds.gov.br/bolsafamilia http://www.mds.gov.br/bolsafamilia 67 O Agravamento da Questão Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Aspectos ad- ministrativos e institucionais • Ausência de trajetória orgânica, coordenada e coerente das políticas • Tradicionalismo, inércia e descontinuidade • Competição entre as diversas instituições da política social • Fragmentação, superposição, duplicidade Objetivos das políticas • Contradição entre perspectiva de solidariedade e diretrizes de cálculos diferenciais de serviços • Contradição entre intervenções setoriais e busca de globali- dade • Ausência de diretrizes nacionais para as políticas • Indefinição dos problemas, sua natureza e dimensão Aspectos polí- ticos • Participação da burocracia nas decisões • Clientelismo e privilégio versus universalidade e seletividade progressiva • Corporativismo em diversos níveis • Debilidade da base social de apoio às políticas devido ao conflito distributivo e à crise fiscal • Regimes políticos não democráticos • Insatisfação dos usuários com os serviços • Pressões externas para a redução do espaço de ação estatal Qualidade dos Serviços • Inadequação em face do crescimento da população • Baixa eficiência da cobertura • Inadequação às necessidades • Baixos rendimentos • Segmentação com acesso desigual e diversidadede presta- ções em detrimento dos politicamente mais fracos. • Influências corporativas Eficácia dos serviços e do gasto social • Custos administrativos excessivos • Baixa produtividade do investimento • Corrupção na administração dos fundos © is to ck O SURGIMENTO DO NEOLIBERALISMO E O AGRAVAMENTO DA QUESTÃO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. II Efeitos negati- vos da política econômica sobre a social • Mecanismos regressivos da política econômica • Redução inadequada do gasto social • Redução da receita devido a contrações no emprego • Pressões sobre o gasto para atender a setores que não podem satisfazer suas necessidades devido a fatores de distribuição de renda • Efeitos regressivos da política econômica na estrutura da receita • Inadequada participação de diversos grupos sociais no finan- ciamento do gasto social Efeitos negati- vos da estrutu- ra econômica sobre a políti- ca social • Excessiva concentração dos ativos com repercussões na pobreza estrutural • Estrutura concentrada da renda Quadro 3: Problemas da Política Social no Brasil Fonte: Soares (1999). Dessa forma, conclui-se que a pobreza decorre dos padrões dominantes de produção, podendo ser minorada ou agravada segundo o modelo capitalista para as políticas sociais. O modelo neoliberal adotado em face da crise capitalista contem- porânea, longe de combater, aprofundou a desigualdade social agravando a pobreza. O Estado, nesse contexto, que deveria ser o aparato mediador no antagonismo entre o capital e o trabalho, defende os interesses do capital, minimizando os gastos com política pública de enfrentamento da pobreza e, prin- cipalmente, relegando as questões de política de emprego e renda à condição de problema conjuntural e não estrutural. 69 Considerações Finais Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . CONSIDERAÇÕES FINAIS Finalizando nossa unidade, esperamos que você tenha compreendido que o neoliberalismo é muito mais que uma ideologia que preconiza a submissão do Estado de direitos ao mercado e às liberdades individuais. É um instrumento político e ideológico apropriado nos anos 1990, com o intuito de construir uma nova sociabilidade que pudesse atender ao processo de reestruturação produ- tiva, globalização e mundialização de mercados. Esta nova sociabilidade preza o individualismo, a concorrência e a competi- tividade aliada em detrimento dos valores como a solidariedade e o voluntariado a fim de interferir nas relações contraditórias entre Capital e Trabalho, substi- tuindo as responsabilidades do Estado no atendimento dos desdobramentos da questão social, principalmente na garantia de políticas sociais dadas como públi- cas, mas que, na realidade, revelam serviços públicos preconizados e incapazes de garantir o bem-estar social de todos os cidadãos. Essas políticas, por sua vez, passam a ser determinadas pelo consenso global nos organismos multilaterais como o Banco Mundial e o FMI, que passam a determinar o papel dos países latino-americanos no âmbito das relações comerciais internacionais, e que diante de financiamentos e empréstimos ditam de que forma as políticas sociais serão pensadas a fim de atender aos interesses globais. Deste modo, pudemos observar que as atuais manifestações sociais estão interligadas com o falimento do modelo estatal de bem-estar social, mediante a ofensiva neoliberal de desmantelamento do Estado e de políticas públicas, como também nos oferece subsídios para discutir o agravamento da questão social no âmbito da ofensiva neoliberal. Tal reflexão é necessária para aprofundarmos o entendimento dos rumos que a profissão de Serviço Social deve afrontar no futuro próximo, reforçando o papel de garantidor de acessibilidade de direitos. 1. A partir do quadro 03, “Problemas da Política Social no Brasil”, apresentado nesta unidade, procure relacionar cada aspecto com a devida descrição: ( 01 ) Aspectos Financeiros ( 02 ) Problemas de Impacto Redistributivo ( 03 ) Aspectos Administrativos e Institucionais ( 04 ) Objetivos das Políticas ( 05 ) Aspectos Políticos ( 06 ) Qualidade dos Serviços ( 07 ) Eficácia dos Serviços e do Gasto Social ( 08 ) Efeitos Negativos da Política Econômica sobre a Social ( 09 ) Efeitos Negativos da Estrutura Econômica sobre a Política Social ( ) Mecanismos regressivos da política econômica / Redução inadequada do gasto social / Redução da receita devido à contrações no emprego / Pressões sobre o gasto para atender a setores que não podem satisfazer suas necessida- des, devido a fatores de distribuição de renda / Efeitos regressivos da política econômica na estrutura da receita / Inadequada participação de diversos grupos sociais no financiamento do gasto social. ( ) Não cumprimento da vocação de universalidade / Polarização regional do gasto social / Desatenção com setores pobres da população / Concentração de subsídios em grupos privilegiados (efeitos regressivos) / Filtrações do gasto com setores que não são o objeto. ( ) Participação da burocracia nas decisões / Clientelismo e privilégio versus universalidade e seletividade progressiva / Corporativismo em diversos níveis / Debilidade da base social de apoio às políticas devido ao conflito distributivo e à crise fiscal / Regimes políticos não democráticos / Insatisfação dos usuários com os serviços / Pressões externas para a redução do espaço de ação estatal. ( ) Contribuições regressivas / Opacidade ou transparência do gasto social – controle sobre o gasto / Financiamento regressivo ou progressivo / Cálculo de custos. ( ) Inadequação em face do crescimento da população / Baixa eficiência da cobertura / Inadequação às necessidades / Baixos rendimentos / Segmentação com acesso desigual e diversidade de prestações em detrimento dos politica- mente mais fracos / Influências corporativas. ( ) Ausência de trajetória orgânica, coordenada e coerente das políticas / Tra- dicionalismo, inércia e descontinuidade / Competição entre as diversas institui- ções da política social / Fragmentação, superposição, duplicidade. 71 ( ) Excessiva concentração dos ativos com repercussões na pobreza estrutural / Estrutura concentrada da renda. ( ) Contradição entre perspectiva de solidariedade e diretrizes de cálculos dife- renciais de serviços / Contradição entre intervenções setoriais e busca de glo- balidade / Ausência de diretrizes nacionais para as políticas / Indefinição dos problemas, sua natureza e dimensão. ( ) Custos administrativos excessivos / Baixa produtividade do investimento / Corrupção na administração dos fundos. 2. Conforme visto ao longo desta unidade, pudemos perceber que o advento do neoliberalismo e, consequentemente, o processo de globalização ou internacio- nalização do capital, ocasionou ao mundo do trabalho significativas transforma- ções. Cite algumas delas. 3. De acordo com o que vimos na unidade II, o agravamento dos problemas sociais sintetiza a importância dessa discussão no contexto de conhecimento e teori- zação do Serviço Social, pois, sendo a ___________ objeto desse profissional, os mecanismos que a movimentam, tanto no sentido positivo como o de sua complexificação, são de suma importância para entender e criar os rumos do trabalho do assistente social e do próprio Serviço Social. a. ( ) Situação Social. b. ( ) Invenção Social. c. ( ) Questão Social d. ( ) Discordância Social. e. ( ) Religião Social. O SOCIAL-LIBERALISMO E A GLOBALIZAÇÃO DA “QUESTÃO SOCIAL” (...) Até aqui dissertamos sobre como o neoliberalismo incorporou, na sua estratégica hege- mônica, o debate sobre a “questão social”, sem furtar-se, contudo, a afirmar a primazia do mercado como espaço social de regulação das atividades humanas. Resta saber as causas desta mudança tão importante para a compreensão dos atuaismecanismos de exploração e dominação capitalistas. Apresentam-se, assim, duas hipóteses centrais de trabalho que buscam explicar os múl- tiplos nexos estruturais desta nova fase do neoliberalismo: (1) a deterioração do mundo do trabalho no centro e na periferia do mercado mundial e (2) as lutas e as resistências contra hegemônicas globais dos movimentos sociais exigem formas contemporâneas de disciplina da força de trabalho – subsunção formal e real do trabalho à lógica do capi- tal, coerção direta promovida pelo Estado e o poder da ideologia –, apagando tentativas de rebelião na periferia e até mesmo no centro do mercado mundial. Em suma, procu- ramos as causas centrais do porquê o neoliberalismo sofrer uma inflexão ideo-política e propor uma “agenda social”. O neoliberalismo ocasionou uma enorme regressão social para a humanidade, em espe- cial para a classe trabalhadora. Segundo a OIT, mais de 500 milhões de seres humanos vivem com menos de US$ 1 por dia (miseráveis), e 1,374,6 bilhão com menos de US$ 2 (pobres). Tais números dizem respeito a quase metade da força de trabalho mundial. Já o BIRD afirma que a desigualdade social, medida pelo índice de Gini, piorou na década de 90 em relação aos anos 1980 em todas as regiões do planeta. Vasapollo (2005) mos- tra diversas estatísticas e situações concretas na Europa, da deterioração do mundo do trabalho e a pobreza e as desigualdades sociais que lhe acompanham. Lá, no Antigo Continente, se tomarmos como parâmetro a zona da União Européia, já são mais de 55 milhões de pobres e a tendência deste número é aumentar com o passar dos anos. Nos Estados Unidos, recente relatório do Bureau of Census divulga que há, no país mais rico do planeta, 37 milhões de cidadãos vivendo abaixo da linha da pobreza, o que equivale a 12% da população estadunidense. E mais: a pobreza e a desigualdade de renda vêm aumentando sensivelmente nos últimos anos, particularmente nos dois mandatos do presidente Bush. Ou seja, a regressão experimentada pelo mundo do trabalho não é uma exclusividade dos países periféricos; ela também está fincada no centro do merca- do mundial. Em uma palavra, a “questão social” tornou-se global. Fonte: BRANCO, Rodrigo Castelo. O social-liberalismo e a globalização da “questão social”. IV Conferencia Internacional “La obra de Carlos Marx y los desafios del siglo XXI”. La Habana, 5-8 maio 2008. Cuba Siglo XXI. Disponível em: <https://www.nodo50.org/ cubasigloXXI/congreso08/conf4_castelob.pdf>. Acesso em: 24 abr. 2015. Material Complementar MATERIAL COMPLEMENTAR Dimensões da Globalização Giovane Alves Editora: Praxis Sinopse: O livro Dimensões da Globalização é um resultado teórico-prático de um percurso de reflexão intelectual buscando compreender, numa perspectiva dialética, um tema maldito: o problema da globalização. É um livro de ensaios, o que significa que possui ainda um caráter iniciático e inacabado, sugerindo algumas linhas de reflexões que procuram sair do lugar-comum sobre a discussão da “globalização”. O livro procura estar organizado em três partes: a primeira, que dá título ao livro, Dimensões da Globalização; a segunda, Sociologia da Globalização; e a terceira, Globalização e Trabalho. O Neoliberalismo - História e Implicações David Harvey Editora: Loyola Sinopse: Os futuros historiadores poderão considerar os anos 1978-1980 um ponto de ruptura revolucionário na história social e econômica do mundo: Deng Xiaoping deu os primeiros passos que iriam transformar a China de um remoto país fechado num centro aberto de dinamismo capitalista. U N ID A D E III Professora Me. Juliana Cristina Teixeira Domingues Chiappetta Professora Esp. Daniela Sikorski A CONSTRUÇÃO DO PROJETO PROFISSIONAL DO SERVIÇO SOCIAL Objetivos de Aprendizagem ■ Apresentar como ocorreram as mudanças estruturais dentro do Serviço Social nas décadas de 1980 e 1990 no Brasil. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ Breves considerações acerca das tendências históricas e téorico-metodológicas do debate profissional ■ O Serviço Social nos anos 80: as tendências históricas e teórico-metodológicas do debate profissional ■ O Serviço Social nos anos 90: as tendências históricas e teórico-metodológicas do debate profissional INTRODUÇÃO Caro(a) aluno(a), nesta unidade poderemos averiguar quais foram os reflexos do fim do socialismo e do advento do neoliberalismo para o Serviço Social bra- sileiro. Isso porque, como visto na Disciplina de Fundamentos I, por meio da ameaça socialista, ocorreu uma série de investimentos financeiros por parte dos EUA para evitar que a ideologia socialista se efetivasse na América Latina e con- sequentemente no Brasil. O Serviço Social é uma das áreas contempladas por estes investimentos, especialmente, mediante a técnica de Serviço Social de grupo e comunidade e a criação do sistema “S”: SENAI, SESI e SESC. O objetivo principal dessas ações era capacitar o trabalhador para a implantação das multinacionais no país, todavia, possibilitou também a reflexão profissional mediante a constatação dos problemas ocasionados pela dicotomia capital versus trabalho, desencadeando o processo de teorização profissional ou, como José Paulo Neto intitulou, processo de ruptura. Dessa forma, com o fim da ameaça socialista e do posicionamento con- servador do Serviço Social, as décadas de 1980 e de 1990 foram marcadas pela reorganização teórica, metodológica, técnica e ético-política, assuntos esses que serão tratados nas próximas seções. Esta unidade visa, sobretudo, ampliar o conhecimento e discussão acerca dos fundamentos históricos, teóricos e metodológicos do serviço social, orien- tando você, enquanto acadêmico(a), para a prática profissional do assistente social. Assim, entendemos que não é possível a análise e entendimento da prática profissional (e tudo que a compreende), se não tivermos claros alguns pontos rele- vantes de nossa profissão e o seu fortalecimento enquanto categoria profissional. O estudo desta unidade possibilitará a sua integração com a história da pro- fissão, integrando a sua formação e todos os conhecimentos necessários para que possa futuramente desempenhar um ótimo trabalho enquanto assistente social. Sabendo as origens do serviço social, você terá capacidade de entender a sua trajetória, podendo contribuir com propostas coerentes com a área em que irá atuar, em sintonia com os valores, diretrizes e realidade social. Desejo a você uma ótima leitura e bom estudo! 77 Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . A CONSTRUÇÃO DO PROJETO PROFISSIONAL DO SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. III BREVES CONSIDERAÇÕES ACERCA DAS TENDÊNCIAS HISTÓRICAS E TÉORICO-METODOLÓGICAS DO DEBATE PROFISSIONAL Caro(a) aluno(a), este tópico tem por finalidade introduzir as discussões que serão apresentadas nos dois tópicos seguintes e fornecer elementos para a compreen- são da próxima unidade de estudo. Aproveite esta síntese para se familiarizar um pouco mais com a história da nossa profissão. Vamos lá? Boa leitura e sucesso! O Serviço Social não pode ser desvinculado da dinâmica social. Ele é fruto dessa dinâmica, aparecendo na sociedade como uma exigência da dinâmica capi- tal/trabalho. A expansão de um mercado nacional de trabalho se dá em torno da década de 50 e início da década de 60, guardando uma íntima relação com o processo de redimensionamento do capital. O Estado (que era e ainda é o principal empregador de assistentes sociais, além das médias e grandes empresas privadas e estatais) reorganiza-se, racionali- za-se, reequaciona-se, não só no sentido das políticas setoriais (prioritariamente voltadas para favorecer o grande capital), mas, especialmente, em toda a malha organizacional encarregada de planejá-lase executá-las. Tal processo levará a se reclamar da profissão um novo tipo de formação pro- fissional (não mais confessional, porém, mais técnica), necessitando um influxo da sociologia, da psicologia social, da antropologia. Um dos elementos caracterizadores da renovação do Serviço Social é sua laicização, pois como ela vem sendo feita a diferenciação e a disputa pela hege- monia (projetos de formação, órgãos de representação), por um lado implicará um pluralismo profissional, por outro, sua proximidade com as disciplinas das ciências sociais, das quais ele passa a ser um interlocutor e não meramente um consumidor. Esta requisição do Serviço Social, por parte do capital, faz com que cresçam o número de empregos e de cursos de Serviço Social em todo o país. ©istock ©shutterstock Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . 79 A profissão, quando passa a ter um estatuto de ensino superior, se insere nas universidades, e as agências formadoras até então são transformadas em instituições do ensino superior. A convivência acadêmica cria, por outro lado, a emergência de uma determinada massa crítica, isto é, instaura condições para a formação de Serviço Social de acordo com as suas necessidades e inte- resses. A autocracia burguesa cria condições para gestarem alternativas às práticas e às concepções profissionais que ela demandava, a partir do questionamento das bases dessa autocracia. A emergência de um debate teórico-metodológico, principalmente a partir dos meados da década de 70, está diretamente vinculada à inserção da profissão no circuito universitário: a pesquisa, a investigação, que subjazem àquele debate seria impensável sem as condições próprias do trabalho acadêmico. Os colóquios, seminários, encontros e congressos profissionais se reve- lam como território de polêmica e a própria profissão se torna objetivo de pesquisa, se questiona, se investiga. A crise do chamado “Serviço Social Tradicional” (confessional) esteve longe de configurar-se como um processo restrito às nossas fronteiras, vindo à tona nos anos 60, sendo um fenômeno internacional. O exau- rimento de um padrão de desenvolvimento capitalista, o das “ondas longas” de cresci- mento, que vinham seguras desde o final da II Guerra Mundial, encontram o seu último momento de vigência precisamente na década de 60, tencionam as estruturas sociais no mundo capitalista, quer nas suas áreas centrais, quer nas periferias, gestando um quadro favorável para a Breves Considerações Acerca das Tendências Históricas © is to ck A CONSTRUÇÃO DO PROJETO PROFISSIONAL DO SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. III mobilização das classes sociais subalternas em defesa de seus interesses imedia- tos. Esses movimentos põem em questão a racionalidade do Estado burguês e suas instituições, nas suas expressões mais radicais. Na América Latina, a ruptura do Serviço Social Tradicional se inscreve na dinâmica de rompimento das amarras imperialistas, na luta pela libertação nacional e pela transformação da estrutura capitalista excludente, concentradora, exploradora. Além disso, contribuem também: a revisão crítica que se processa na fronteira das chamadas ciências sociais, o adensamento de alternativas teo- lógicas que justificam posturas concretamente anticapitalistas e antiburguesas e o movimento estudantil, perturbando o próprio local de formação. Esse processo erosivo, que se explicitou na América Latina a partir de 1965, e que teve a sua curva ascendente por quase uma década, foi chamado movi- mento de “Reconceituação ou Reconceptualização do Serviço Social”. José Paulo Netto, estudando esse fenômeno no Brasil, identifica nele três direções, denominadas de perspectiva modernizadora, perspectiva de reatuali- zação do conservadorismo e perspectiva de intenção de ruptura. A perspectiva modernizadora aceita como dado inquestionável a ordem sociopolítica derivada de abril, que aborta de certa maneira lastros mais crí- ticos que se gestavam então na profissão. Ela coloca a proposta de um Serviço Social interveniente, dinamizador e integrador no processo de desenvolvimento. O subdesenvolvimento é entendido como uma etapa do processo cumulativo, que submetido a intervenções racionais e plane- jadas conduziria ao desenvolvimento, daí a necessidade de induzir mudanças (a quase identificação entre o processo de desenvol- vimento com processo de modernização). Você sabe o que quer dizer o termo autocracia? O termo apareceu algumas vezes no texto. Segue uma definição que separei para você, e fica a dica, sempre que tiver dúvida, pesquise, se informe e procure ampliar seus co- nhecimentos. “A autocracia trata-se de uma forma de governança com poder centraliza- do, não permitindo a participação de outros indivíduos ou grupos sociais. Esse modelo de governo foi característica em alguns instantes históricos da humanidade, embora hoje o modelo mais aplicado no mundo seja a de- mocracia, isto não impede que alguns personagens políticos coloquem-se sobre os outros poderes para manter lugar por tempo indefinido. A palavra autocracia deriva do termo grego “autos” que significa um só e “kratos” que significa governo. Definindo assim que autocracia significa um só governo. A autocracia é um tipo de governo que, mesmo sendo eleito diretamente ou não, é a governança por somente uma pessoa, podendo ter origens diferen- tes: militar, profissional, sindical etc. Sendo assim, não significa que seja um elemento determinante, na história dos governos autocráticos contamos com líderes de diferente estrato social. Entretanto, podemos dizer que o elemento determinante desse governo é a personalidade e caráter do líder, cujos planos ou decisões são impostos com firmeza. (...) ” Fonte: QUECONCEITO. Conceito de Autocracia. Disponível em: <http:// queconceito.com.br/autocracia#ixzz3Xi1A92PB>. Acesso em: 10 abr. 2015. 81 Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Resulta desse entendimento uma preocupação em dotar a profissão de uma “cientificidade”, presente nas discussões, que vinha sendo promovida pelo CBCISS (Centro Brasileiro de Cooperação e Intercâmbio de Serviços Sociais), dos quais merecem destaque o de Araxá, em 1967, e o de Terezópolis, em 1970. Para saber mais sobre o CBCISS, acesse o link disponível na seção “Material Complementar - Na Web”, ao final desta unidade. Ela procurou extrair sua base do estrutural-funcionalismo norte-americano. Ela se reporta aos valores das concepções “tradicionais”, não para superá-los, ou negá-los, mas para inseri-los numa moldura teórica e metodológica, subordi- nando seus vieses “modernos”. Foi a expressão da renovação profissional adequada à autocracia burguesa. Breves Considerações Acerca das Tendências Históricas ©shutterstock A CONSTRUÇÃO DO PROJETO PROFISSIONAL DO SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. III A crise da autocracia burguesa vai propiciar as condições para que a partir da segunda metade da década de 70 se reduza progressivamente a polarização intelec- tual que exerceu. De um lado, seu conteúdo reformista não atende às expectativas do segmento profissional que resiste ao movimento de laicização (tornar leigo, contrário do religioso, aquilo que não é religioso). De outro, seu traço conserva- dor e de colagem à ditadura, incompatibilizam-na com os segmentos profissionais críticos comprometidos com a resistência democrática, que ganha mais densi- dade quanto mais a autocracia burguesa experimenta o seu acaso. Prova disso foram os colóquios realizados no Rio de Janeiro, pelo CBCISS: o de Sumaré, em 1978, e o de Boa Vista, em 1984. Nenhum dos dois teve a reper- cussão que cercou os precedentes.Estes exibiram uma extrema pobreza teórica em comparação com as discussões, que aconteciam nos foros acadêmicos, cul- turais e políticos da profissão e fora dela. A perspectiva de reatualização do conservadorismo procura recuperar cer- tos componentes da herança histórica e conservadora da profissão, como: valores universais, autodeterminação, valor absoluto da pessoa, embora sobre bases distintas, filosóficas (retiradas da fenomenologia e do existencialismo) e não mais como postulados (mandamento), mas revitalizadas acriticamente, que os repõe sobre uma base teórico-metodológica que se reclama nova, repudiando 83 Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . simultaneamente os padrões vinculados tanto à tradição positivista como ao pensamento crítico-dialético, de raiz marxiana. Em primeiro lugar, capitaliza a um aparentemente distanciamento em face da ditadura que cercou a emergência de tendências irracionalistas (notadamente, a utilização de Heidegger) na universidade brasileira, distanciamento que pode até deixar a impressão de crítica discreta, e este não é um dado desimportante na medida em que isenta essa perspectiva de qualquer instrumentalização direta por parte da autocracia, flanco demasiadamente aberto na perspectiva modernizadora. Em segundo lugar, ao conceder um relevo destacado às dimensões da sub- jetividade, esta atende às requisições fortemente psicologistas que surgem em amplos estratos profissionais: sabe-se que a retórica irracionalista da “humani- zação” (cristã tradicional ou de fundo existencialista) adquire saliência especial em contextos capitalistas de rápido desenvolvimento das forças produtivas: a crescente burocratização “massificadora” da vida social, que opõe à valorização profunda da “personalidade”, das “realidades psíquicas”, das “situações existenciais”. A terceira direção, identificada por José Paulo Netto, no processo de reno- vação do Serviço Social no Brasil, é a perspectiva que se propõe como intenção de ruptura com o Serviço Social “tradicional”. Na sua constituição, é visível o resgate crítico de tendências que, no pré-1964, supunham rupturas político-so- ciais de porte para adequar as respostas profissionais às demandas estruturais do desenvolvimento brasileiro. Na sua evolução e explicitação ela recorre progressivamente à tradição mar- xista. Sua emersão inicial, configurada no célebre Método Belo Horizonte, resulta de experiências e formulações efetivadas entre 1972 e 1975 por um núcleo docente da Escola de Serviço Social da Universidade Católica de Minas Gerais. Quando a autocracia burguesa entra na defensiva e se processa, a transição democrática empolga vanguardas profissionais. Na primeira metade dos anos 80, é essa perspectiva que dá o tom de polêmica profissional e fixa as caracte- rísticas da retórica politizada, passando a assumir uma hegemonia no universo profissional. No tocante a tal perspectiva, pode-se afirmar que esta sofreu apro- ximações, desde o viés estruturalista, mais especificamente no seu início, até a descoberta de outras fontes (Gramsci, Lukács, Goldmann), até o mergulho direto na fonte original: a obra de Marx. Breves Considerações Acerca das Tendências Históricas © sh ut te rs to ck A CONSTRUÇÃO DO PROJETO PROFISSIONAL DO SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. III Como já foi dito, a profissão só pode ser pensada dentro da dinâmica da sociedade e não fora dela. Essa dinâmica precisa ser apreendida, e ela só o é pelo processo da investigação, no qual se procure reproduzir idealmente o movi- mento real (efetuado por um sujeito cognoscente), situado em um contexto histórico e social. Além dessa preocupação com o “como fazer”, no sentido de empreitada de uma prática profissional, situada dentro de uma contradição, na qual, por um lado se reitera o processo capitalista (que exige isto da profissão), e por outro, na busca de formas (a partir do entendimento da existência de certo espaço de autonomia relativa) que possibilitem uma reflexão de questões estruturais e conjunturais, a partir do imediato que se apresenta como motivo de recorrência da população ao Serviço Social ou de intervenção do profissional, a profissão deve respon- der a novos desafios colocados pela dinâmica da ordem burguesa, tais como: a ofensiva neoliberal sobre a falência do welfare state, a crise do chamado “socia- lismo real” e o pretenso discurso de desqualificação da obra de Marx, movidos por setores neoliberais e pós-modernos, bem como um quadro social e econô- mico internacional, decorrente do processo do desenvolvimento capitalista, em que a concentração de riquezas e o aumento da pobreza são cada vez maiores. 85 Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . O SERVIÇO SOCIAL NOS ANOS 80: AS TENDÊNCIAS HISTÓRICAS E TEÓRICO-METODOLÓGICAS DO DEBATE PROFISSIONAL Caro(a) aluno(a), vamos dar início às discussões retomando que, por intermédio do processo de reconceituação profissional, o Serviço Social perpassou por várias vertentes teóricas, se destacando a fenomenológica e a marxista. No entanto, foi a teoria marxista que apresentou maior teor de informação e sustentação teórica para explicar as complexas transformações sociais ocasionadas pelo modelo de produção capitalista. De acordo com a autora Yazbek (2009, p. 10), É, sobretudo com Iamamoto (1982) no início dos anos 80 que a teoria social de Marx inicia sua efetiva interlocução com a profissão. Como matriz teórico‐metodológica esta teoria apreende o ser social a partir de mediações. Ou seja, parte da posição de que a natureza relacional do ser social não é percebida em sua imediaticidade. “Isso porque, a estrutura de nossa sociedade, ao mesmo tempo em que põe o ser so- cial como ser de relações, no mesmo instante e pelo mesmo processo, oculta a natureza dessas relações ao observador” (NETTO, 1995) Ou seja, as relações sociais são sempre mediatizadas por situações, insti- tuições etc., que ao mesmo tempo revelam/ocultam as relações sociais imediatas. Por isso, nesta matriz o ponto de partida é aceitar fatos, da- dos como indicadores, como sinais, mas não como fundamentos últi- mos do horizonte analítico. Trata-se, portanto de um conhecimento que não é manipulador e que apreende dialeticamente a realidade em seu movimento contraditório. Movimento no qual é através do qual se engendram, como totalidade, as relações sociais que configuram a sociedade capitalista. É no âmbito da adoção do marxismo como refe- rência analítica, que se torna hegemônica no Serviço Social no país, a abordagem da profissão como componente da organização da socieda- de inserida na dinâmica das relações sociais participando do processo de reprodução dessas relações (IAMAMOTO, 1982). Ainda em Yazbek (2009, p. 10), é possível compreender que o referencial indica uma direção de pensamento e não uma regra absoluta que deve ser seguida à risca. As teorias e referenciais auxiliam o profissional na leitura da realidade, contribuindo assim para o exercício de sua prática profissional. O Serviço Social nos anos 80 A CONSTRUÇÃO DO PROJETO PROFISSIONAL DO SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. III Este referencial, a partir dos anos 80 e avançando nos anos 90, vai im- primir direção ao pensamento e à ação do Serviço Social no país. Vai permear as ações voltadas à formação de assistentes sociais na socieda- de brasileira (o currículo de 1982 e as atuais diretrizes curriculares); os eventos acadêmicos e aqueles resultantes da experiência associativa dos profissionais, como suas Convenções, Congressos, Encontros e Semi- nários; está presente na regulamentação legal do exercício profissional e em seu Código de Ética. Sobsua influência ganha visibilidade um novo momento e uma nova qualidade no processo de recriação da pro- fissão na busca de sua ruptura com seu histórico conservadorismo (cf. NETTO, 1996, p. 111) e no avanço da produção de conhecimentos, nos quais a tradição marxista aparece hegemonicamente como uma das re- ferências básicas. Nesta tradição o Serviço Social vai apropriar-se a par- tir dos anos 80 do pensamento de Antonio Gramsci e particularmente de suas abordagens acerca do Estado, da sociedade civil, do mundo dos valores, da ideologia, da hegemonia, da subjetividade e da cultura das classes subalternas. Vai chegar a Agnes Heller e à sua problematização do cotidiano, à Georg Lukács e à sua ontologia do ser social fundada no trabalho, à E.P. Thompson e à sua concepção acerca das “experiências humanas”, à Eric Hobsbawm um dos mais importantes historiadores marxistas da contemporaneidade e a tantos outros cujos pensamentos começam a permear nossas produções teóricas, nossas reflexões e po- sicionamentos ídeo-políticos. Esse processo não foi consensual e simples, mas necessário para a criação de um debate denso e plural, com o intuito de consolidar a base teórica do Serviço Social brasileiro. As teorias sociais auxiliam na explicação das relações entre os homens, de forma geral ajudam a entender a interpretação dos homens com os outros homens e com seu ambiente. As teorias sociais são formuladas por pensadores que se preocupam com a situação da sociedade e tentam elaborar um conjunto de ideias, analisando o processo histórico-social. Para Yazbek (2009, p. 12): Obviamente, este processo de construção da hegemonia de novos re- ferenciais teórico-metodológicos e interventivos, a partir da tradição marxista, para a profissão ocorre em um amplo debate em diferentes fóruns de natureza acadêmica e/ou organizativa, além de permear a produção intelectual da área. Trata-se de um debate plural, que implica na convivência e no diálogo de diferentes tendências, mas que supõe uma direção hegemônica. A questão do pluralismo, sem dúvida uma 87 Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . das questões do tempo presente, desde aos anos 80 vem-se constituin- do objeto de polêmicas e reflexões do Serviço Social. Temática comple- xa que constitui como afirma Coutinho (1991, p. 5-15) um fenômeno do mundo moderno e da visão individualista do homem. É o autor em questão que problematiza a proposta de hegemonia com pluralis- mo, no necessário diálogo e no debate de idéias, apontando os riscos de posicionamentos ecléticos (que conciliam o inconciliável ao apoia- rem-se em pensamentos divergentes). Assim, em diferentes espaços, o conjunto de tendências teórico-metodológicas e posições ideopolíticas se confrontam, sendo inegável a centralidade assumida pela tradição marxista nesse processo. Esse fator possibilitou o fortalecimento e o adensamento da literatura profissio- nal. Segundo Yazbek (2009, p. 12): Este debate se expressa na significativa produção teórica do Serviço So- cial brasileiro, que vem gerando uma bibliografia própria, e que tem na criação e expansão da pós-graduação, com seus cursos de mestrado e doutorado, iniciada na década de 70, um elemento impulsionador. É importante lembrar que a pós-graduação configura-se, por definição, como espaço privilegiado de interlocução e diálogo entre as áreas do saber e entre diversos paradigmas teórico-metodológicos. Neste espaço o Serviço Social brasileiro vem dialogando e se apropriando do deba- te intelectual contemporâneo no âmbito das ciências sociais do país e do exterior. Também neste espaço, o Serviço Social brasileiro desen- volveu-se na pesquisa acerca da natureza de sua intervenção, de seus procedimentos, de sua formação, de sua história e, sobretudo acerca da realidade social, política, econômica e cultural onde se insere como profissão na divisão social e técnica do trabalho. Avançou na compre- ensão do Estado capitalista, das políticas sociais, dos movimentos so- ciais, do poder local, dos direitos sociais, da cidadania, da democracia, do processo de trabalho, da realidade institucional e de outros tantos temas. Enfrentou o desafio de repensar a assistência social colocando-a como objeto de suas investigações. Obteve o respeito de seus pares no âmbito interdisciplinar e alcançou visibilidade na interlocução com as ciências sociais, apesar das dificuldades decorrentes da falta de experi- ência em pesquisa, do fato de defrontar com restrições por se constituir em disciplina interventiva (de “aplicação”) e das dificuldades na apro- priação das teorias sociais. Nesta década o serviço Social ganha espaço no CNPq como área de pesquisa. O Serviço Social nos anos 80 © sh ut te rs to ck A CONSTRUÇÃO DO PROJETO PROFISSIONAL DO SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. III Neste momento, caro(a) aluno(a), façamos uma pequena pausa para uma refle- xão. É importante frisar que o serviço social não é a junção de várias teorias sociais, mas uma profissão de caráter interventivo na sociedade, a qual as teorias sociais tentam explicar de acordo com o contexto social. Como o próprio nome já lembra, nossa intervenção está ligada aos problemas sociais, às relações sociais e humanas dos indivíduos. Desta maneira, para se conhecer as várias interpre- tações que os cientistas sociais propõem para os diversos problemas, você deve estar atento(a) para compreender que são interpretações, e não soluções, se não são soluções, nenhuma teoria social fornece uma receita para a intervenção. Também não se escolhe uma teoria social em função dos problemas que serão encontrados, para obter a melhor solução e assim buscar a mudança do quadro social. Devemos e podemos trabalhar para melhorar as condições de vida, mas é impossível via qualquer profissão se alterar estruturalmente uma sociedade. Voltando assim a Yazbek, Cabe também assinalar que nos anos 80 começam a se colocar para o Serviço Social brasileiro, demandas, em nível de pós-graduação, de ins- tituições portuguesas, e latino americanas (Argentina, Uruguai, Chile), o que vem permitindo ampliar a influência do pensamento profissional brasileiro nestes países. Também no âmbito da organização e represen- tação profissional o quadro que se observa no Serviço Social brasileiro é de maturação (NETTO, 1996, p. 108-111). Maturação que expressa na passagem dos anos 80 para os anos 90 rupturas com o seu tradicio- nal conservadorismo, embora como bem lembre o autor “essa ruptura © sh ut te rs to ck 89 Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . não signifique que o conservadorismo (e com ele, o reacionarismo) foi superado no interior da categoria profissional” (p. 111). Pois, a herança conservadora e antimoderna, constitutiva da gênese da profissão atu- aliza-se e permanece presente nos tempos de hoje. Essa maturidade profissional que avança no início do novo milênio, se expressa pela democratização da convivência de diferentes posicionamentos teóri- co-metodológicos e ideopolíticos desde o final da década de 1980. Ma- turação que ganhou visibilidade na sociedade brasileira, entre outros aspectos, pela intervenção dos assistentes sociais, através de seus orga- nismos representativos, nos processos de elaboração e implementação da Lei Orgânica da Assistência Social - LOAS (dezembro de 1993). É também no âmbito da implementação da LOAS, e de outras políticas sociais públicas, com os processos descentralizadores que se instituem no país, no âmbito dessas políticas, que observa-se a diversificação das demandas ao profissional de serviço social (YAZBEK, 2009, p. 13) Embora a constituição de 1988 tenha garantido finalmente a política de Assistência Social como direito, as transformaçõeseconômicas em âmbito mundial fizeram com que esse processo fosse implantado tendo como ponto negativo o desman- telamento do Estado. Conforme Yazbek (2009, p. 13): O Serviço Social nos anos 80 A CONSTRUÇÃO DO PROJETO PROFISSIONAL DO SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. III É nesse contexto histórico, pós Constituição de 1988 que os profissio- nais de serviço social, iniciam o processo de ultrapassagem da condição de executores de políticas sociais, para assumir posições de planeja- mento e gestão dessas políticas. A conjuntura econômica é dramática, dominada pela distância entre minorias abastadas e massas miseráveis. Não devemos esquecer que nos anos 80 (a “década perdida” do ponto de vista econômico para a CEPAL) a pobreza vai se converter em tema central na agenda social, quer por sua crescente visibilidade, pois a dé- cada deixou um aumento considerável do número absoluto de pobres, quer pelas pressões de democratização que caracterizaram a transição. A situação de endividamento (que cresce 61% nos anos 80), a presença dos organismos de Washington (FMI, BANCO MUNDIAL), o consen- so de Washington, as reformas neoliberais e a redução da autonomia nacional, a adoção de medidas econômicas e o ajuste fiscal vão se ex- pressar no crescimento dos índices de pobreza e indigência. É sempre oportuno lembrar que, nos anos 80 e 90 a somatória de extorsões que configurou um novo perfil para a questão social brasileira, particular- mente pela via da vulnerabilização do trabalho, conviveu com a erosão do sistema público de proteção social, caracterizada por uma pers- pectiva de retração dos investimentos públicos no campo social, seu reordenamento e pela crescente subordinação das políticas sociais às políticas de ajuste da economia, com suas restrições aos gastos públicos e sua perspectiva privatizadora (cf. YAZBEK, 2004). É nesse contexto, e na “contra mão” das transformações que ocorrem na ordem econômica internacional mundializada que o Brasil vai instituir constitucional- mente em 1988, seu sistema de Seguridade Social. As políticas sociais no contexto neoliberal atendem as necessidades de quem? Da classe trabalhadora, ou do capital? Fonte: as autoras. ©istock 91 Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . O SERVIÇO SOCIAL NOS ANOS 90: AS TENDÊNCIAS HISTÓRICAS E TEÓRICO-METODOLÓGICAS DO DEBATE PROFISSIONAL O Serviço Social adentra a década de 1990 com um conflito interno, apenas aprovada na Constituição de 1988 como política pública, se depara com um contingente de ações desmanteladoras do Estado, bem como o aumento dos problemas relacionados à questão social. Problemas esses que são reflexos da diminuição de investimento por parte do Estado em políticas sociais. Consoante Yazbek (2009, p. 14): Inicialmente, não podemos esquecer que, nos marcos da reestruturação dos mecanismos de acumulação do capitalismo globalizado, os anos 80 e 90 foram anos adversos para as políticas sociais e se constituíram em terreno particularmente fértil para o avanço da regressão neoliberal que erodiu as bases dos sistemas de proteção social e redirecionou as intervenções do Estado em relação à questão social. Nestes anos, em que as políticas sociais vêm sendo objeto de um processo de reorde- namento, subordinado às políticas de estabilização da economia, em que a opção neoliberal na área social passa pelo apelo à filantropia e à solidariedade da sociedade civil e por programas seletivos e focalizados de combate à pobreza no âmbito do Estado (apesar da Constituição de 1988), novas questões se colocam ao Serviço Social, quer do ponto de vista de sua intervenção, quer do ponto de vista da construção de seu corpo de conhecimentos. Paralelamente ao desmantelamento do Estado, o neoliberalismo atacou de forma intransigente o mundo do trabalho. Facilitado pelo processo de terceirização, a fragilização das orga- nizações sindicais ou de representação do trabalhador foi inevitável, e a classe trabalhadora viu os seus direitos con- quistados em décadas de luta ser eliminados paulatinamente. Ainda em Yazbek (2009, p. 15): O Serviço Social nos anos 90 © sh ut te rs to ck A CONSTRUÇÃO DO PROJETO PROFISSIONAL DO SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. III Assim, a profissão enfrenta o desafio de decifrar algumas lógicas do capitalismo contemporâneo particularmente em relação às mudanças no mundo do trabalho e sobre os processos desestruturadores dos sis- temas de proteção social e da política social em geral. Lógicas que rei- teram a desigualdade e constroem formas despolitizadas de abordagem da questão social, fora do mundo público e dos fóruns democráticos de representação e negociação dos interesses em jogo nas relações Estado / Sociedade. Efetivamente, a opção neoliberal por programas seletivos e focalizados de combate à pobreza e o avanço do ideário da “sociedade solidária” que implica no deslocamento para sociedade das tarefas de enfrentar a pobreza e a exclusão social, começa a parametrar diferentes modalidades de intervenção no campo social na sociedade capitalis- ta contemporânea. Exemplos desta opção podem ser observados em diversos países do Continente latino‐americano como no Chile e na Argentina. Tais ataques reavivaram a prática social eliminada do Serviço Social na década de 1980, reiniciando um pro- cesso de refilantropização como alternativa para as manifestações relacionadas à pobreza e exclusão social, ocasionadas por esse pro- cesso. Para Yazbek (2009, p. 15): Inserido neste processo contraditório o Serviço Social da década de 90, se vê confrontado com este conjunto de transformações societárias no qual é desafiado a compreender e intervir nas novas configurações e manifestações da “questão social”, que expressam a precarização do trabalho e a penalização dos trabalhadores na sociedade capitalista contemporânea. Trata-se de um contexto em que são apontadas alter- nativas privatistas e refilantropizadas para questões relacionadas à po- breza e à exclusão social. Cresce o denominado terceiro setor, amplo conjunto de organizações e iniciativas privadas, não lucrativas, sem clara definição, criadas e mantidas com o apoio do voluntariado e que desenvolvem suas ações no campo social, no âmbito de um vastíssimo conjunto de questões, em espaços de desestruturação (não de elimi- nação) das políticas sociais, e de implementação de novas estratégias © is to ck 93 Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . programáticas como, por exemplo, os programas de Transferência de Renda, em suas diferentes modalidades. Neste contexto conflitante, o profissional se depara com novos problemas ocasio- nados pela dinâmica social, a qual, como já salientado, é viva e mutável. Entre esses novos problemas encontram-se as drogas e a expansão da AIDS, por exemplo, somadas à velha agenda da Questão Social. Nas palavras de Yasbek (2009, p.15): Nessa conjuntura, emergem processos e dinâmicas que trazem para a profissão, novas temáticas, novos e os de sempre, sujeitos sociais e questões como: o desemprego, o trabalho precário, os sem terra, o tra- balho infantil, a moradia nas ruas ou em condições de insalubridade, a violência doméstica, as discriminações por questões de gênero e etnia, as drogas, a expansão da AIDS, as crianças e adolescentes de rua, os do- entes mentais, os indivíduos com deficiências, o envelhecimento sem recursos, e outras tantas questões e temáticas relacionadas à pobreza, à subalternidade e à exclusão com suas múltiplas faces. Ao longo da dé- cada a profissão se coloca diante destas e de outras questões (YAZBEK, 2009, p.15). Outro ponto importante a ser salientado em relaçãoàs transformações ocorri- das no Serviço Social na década de 1990, especificamente após a homologação da Constituição de 1988, diz respeito às temáticas centrais ou “eixos articulado- res”, os quais são cruciais para ação e produção do profissional. Como apresenta Yazbek (2009, p.16, grifo nosso): O Serviço Social nos anos 90 A CONSTRUÇÃO DO PROJETO PROFISSIONAL DO SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. III Seguridade Social, em construção no país, após a Carta Constitucional de 1988, que afirma o direito dos cidadãos brasileiros a um conjunto de direitos no âmbito das políticas sociais (Saúde, Previdência e Assis- tência Social). A noção de Seguridade supõe que os cidadãos tenham acesso a um conjunto de certezas e seguranças que cubram, reduzam ou previnam situações de risco e de vulnerabilidades sociais. Essa co- bertura é social e não depende do custeio individual direto. A inserção do Serviço Social brasileiro nos debates sobre essa obertura social mar- cou a década. Assistência Social, qualificada como política pública, de Proteção So- cial, constitutiva da Seguridade Social, constituiu-se em tema de estu- dos, pesquisas e campo de interlocução do Serviço Social com amplos movimentos da sociedade civil que envolveram fóruns políticos, enti- dades assistenciais e representativas dos usuários de serviços assisten- ciais. A questão da municipalização e da descentralização das políticas sociais públicas e outros aspectos daí decorrentes, seja na ótica da ra- cionalização de recursos, humanos e sociais com vistas a seus efetivos resultados, tanto na perspectiva de aproximar a gestão destas políticas dos cidadãos. Notável é desde os anos de 1990, em todo o território nacional a presença e o protagonismo do assistente social em fóruns e conselhos vinculados às políticas de saúde, de assistência social, da criança e do adolescente, entre outras, participando ativamente na de- fesa de direitos e no controle social das políticas públicas. De acordo com Yazbek (2009, p. 16): É importante observar que esta presença tem início em uma conjuntura contraditória e adversa, na qual os impactos devastadores sobre o pro- cesso de reprodução social da vida se fazem notar de múltiplas formas, mas, sobretudo pela precarização do trabalho e pela desmontagem de direitos. É fundamental assinalar que as transformações societárias que caracterizam esta década, vão encontrar um Serviço Social consolida- do e maduro na sociedade brasileira, uma profissão com avanços e acú- mulos, que, ao longo desta década construiu, com ativa participação da categoria profissional, através de suas entidades representativas um projeto ético político profissional para o Serviço Social brasileiro, que integra valores, escolhas teóricas e interventivas, ideológicas, políticas, éticas, normatizações acerca de direitos e deveres, recursos político-or- ganizativos, processos de debate, investigações e, sobretudo interlocu- ção crítica com o movimento da sociedade na qual a profissão é parte e expressão (cf. NETTO, 1999). A direção social que orienta este pro- jeto de profissão tem como referência a relação orgânica com o projeto das classes subalternas, reafirmado pelo Código de Ética de 1993, pelas 95 Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Diretrizes Curriculares de 1996 e pela Legislação que regulamenta o exercício profissional (Lei n. 8662 de 07/06/93). Por fim, a autora sinaliza que as mudanças ocorridas no contexto social, eco- nômico e político, após a implantação do neoliberalismo, também refletiram no interior da profissão, especialmente, através da precarização do trabalho do Assistente Social. Devido ao fato que embora o Assistente Social seja um profis- sional liberal, este, pelas particularidades da profissão, está inserido no quadro geral e mais amplo do mercado de trabalho e sujeito às mesmas condições de mudança que perpassam o mundo do trabalho. Conforme Yazbek (2009, p. 17): Cabe ainda assinalar outra questão que permeou o debate dos assis- tentes sociais nesta conjuntura: trata‐se do movimento de precarização e de mudanças no mercado de trabalho dos profissionais brasileiros, localizado no quadro mais amplo de desregulamentação dos mercados de trabalho de modo geral, quadro em que se alteram as profissões, re- definem‐se suas demandas, monopólios de competência e as próprias relações de trabalho. Aqui situamos processos como a terceirização, os contratos parciais, temporários, a redução de postos de trabalho, a emergência de novos espaços de trabalho como o Terceiro Setor, a exi- gência de novos conhecimentos técnico‐operativos, ao lado do declínio da ética do trabalho e do restabelecimento exacerbado dos valores da competitividade e do individualismo. Não podemos esquecer que a re- estruturação dos mercados de trabalho no capitalismo contemporâneo vem se fazendo via rupturas, apartheid e degradação humana. Neste contexto conflituoso e complexo, que tornara a organização social con- temporânea, entram em crise os modelos analíticos explicativos das ciências sociais, colocando em evidência o debate em relação às referências teórico-me- todológicas e a utilização da abordagem pós-moderna como método de análise. O problema está no fato de que o pós-modernismo nega a luta de classes e afirma a superação desse paradigma, nivelando o positivismo com a teoria marxista. Nas palavras de Yazbek (2009, p. 17): Do ponto de vista das referências teórico-metodológicas a questão pri- meira que se coloca para a profissão já no início da década é o con- fronto com a denominada “crise” dos modelos analíticos, explicativos nas ciências sociais, que buscam captar o que está acontecendo no fim de século e as grandes transformações que alcançam múltiplos aspec- tos da vida social. No mundo do conhecimento começam as interfe- rências, não sem conflitos, do denominado pensamento pós moder- O Serviço Social nos anos 90 A CONSTRUÇÃO DO PROJETO PROFISSIONAL DO SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. III no, “notadamente em sua versão neoconservadora” (NETTO, 1996, p. 114) que questiona e nivela os paradigmas marxista e positivista. Estes questionamentos se voltam contra os diferentes “modelos” explicativos por suas macroabordagens apontando que nestas macronarrativas são deixados de lado valores e sentimentos fundamentais dos homens, seu imaginário, suas crenças, afeições, a beleza, os saberes do cotidiano, os elementos étnicos, religiosos, culturais, os fragmentos da vida enfim. A abordagem pós-moderna dirige sua crítica à razão afirmando-a como instrumento de repressão e padronização, propõe a superação das uto- pias, denuncia a administração e o disciplinamento da vida, recusa a abrangência das teorias sociais com suas análises totalizadoras e onto- lógicas sustentadas pela razão e reitera a importância do fragmento, do intuitivo, do efêmero e do microssocial (em si mesmos) restaurando o pensamento conservador e antimoderno. Seus questionamentos são também dirigidos à ciência que esteve mais a serviço da dominação do que da felicidade dos homens. Assim ao afirmar a rejeição à ciência o pensamento pós-moderno rejeita as categorias da razão (da Moderni- dade) que transformaram os modos de pensar da sociedade, mas não emanciparam o homem, não o fizeram mais feliz e não resolveram pro- blemas de sociedades que se complexificam e se desagregam. O posi- cionamento pós-moderno busca resgatar valores negados pela moder- nidade e cria um universo descentrado, fragmentado relativo e fugaz. Para Harvey (1992) as características da pós-modernidade são produ- zidas historicamente e se relacionam com a emergência de modos mais flexíveis de acumulação do capital. Observe-se que a complexidade da questão não está na abordagem de questões microsociais, locais ou que envolvam dimensões dos valores, afetos e da subjetividade humana (questões de necessário enfrentamento), mas está na recusa da Razão e na descontextualização, na ausência de referentes históricos, estru- turais no não reconhecimento de que os sujeitos históricos encarnam processos sociais, expressam visões de mundo e tem suas identidades sociais construídas na tessitura das relações sociais mais amplas. Rela- ções que se explicam em teorias sociais abrangentes, que configuram visões de mundo onde o particular ganha sentido referido ao genérico. Cabe assinalar ainda que, todo este debate que é apresentado no âmbito das ciências sociais contemporâneas como crise de paradigmas, em ter- mos da capacidade explicativa das teorias recoloca a polêmica Razão/ Intuição que tem repercussões significativas na pesquisa, na constru- ção de explicações sobre a realidade e na definição de caminhos para a ação. 97 Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Embora o Serviço Social mantenha a tradição teórica marxista como principal modelo de explicação para a realidade social e tenha como projeto ético-político um posicionamento contrário ao da ordem capitalista, essas questões também são colocadas no interior da profissão, seja pela introdução de autores de várias tendências teóricas, seja pelos desdobramentos em relação aos paradigmas clás- sicos. No entanto, a discussão interna em relação à crise de referenciais teóricos perpassa pelo confronto interno com o conservadorismo que se renova no con- texto moderno. Segundo Yazbek (2009, p. 12): Especificamente no Serviço Social estas questões também se colocam, apesar da vitalidade do marxismo como paradigma de análise e com- preensão da realidade e apesar da manutenção da hegemonia do pro- jeto profissional caracterizado pela ruptura com o conservadorismo que caracterizou a trajetória do Serviço Social no país. Colocam-se nos desdobramentos e nas polêmicas em torno dos paradigmas clás- sicos e na busca de construção de novos paradigmas; se colocam pela apropriação do pensamento de autores contemporâneos de diversas tendências teórico-metodológicas como Anthony Giddens, Hannah Arendt, Pierre Bourdieu, Michel Foucault, Juergen Habermas, Edgard Morin, Boaventura Souza Santos, Eric Hobsbawm, E.P. Thompson e tantos outros. Se colocam também nas formas de abordagem das temá- ticas relevantes para a profissão nesta transição de milênio, na busca de interligação entre sujeito e estrutura e entre concepções macro e micro da vida social, na retomada e valorização das questões concernentes à cultura das classes subalternas e em outras clivagens e questões rela- tivas aos dominados tanto no plano das relações culturais como nas lutas pelo empowerment e contra a discriminação pelo gênero, pela etnia, pela idade. No âmbito da produção inspirada na tradição marxis- ta, estas questões aparecem com o recurso a pensadores que abordam temáticas da cultura das classes subalternas, do sujeito e da experiência cotidiana da classe como Gramsci, Heller e Thompson. Efetivamente, os desdobramentos desta “crise” de referenciais analíticos, permeiam polêmica profissional dos dias atuais e se expressam pelos confrontos com o conservadorismo que atualiza-se em tempos pós-modernos. O Serviço Social nos anos 90 A CONSTRUÇÃO DO PROJETO PROFISSIONAL DO SERVIÇO SOCIAL Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. III Tal processo é ameaçador para a profissão, devido ao perigo de retornarmos às práticas assistencialistas ocorridas nos primórdios da mesma, na qual se repro- duziam os mecanismos excludentes do modelo de produção capitalista. Com a compreensão de que os problemas sociais superam a explicação positivista de centralidade humana, o maior desafio hoje à profissão é defender a tese de centralidade do mundo do trabalho como resposta aos antagonismos sociais, ocasionados pela luta de classes. CONSIDERAÇÕES FINAIS Caro(a) aluno(a), verificou-se que entre os desafios colocados à profissão ao longo de toda a década de 90, e neste início de milênio, a consolidação dos projetos ético-políticos, teórico-metodológicos e operativos, construídos sob a influên- cia da tradição marxista, está sendo ameaçada. Isso ocorre porque, incorporou outros componentes teóricos de outras fontes e vertentes, sem vincos estreitos ou sectários com o marxismo, conectadas ao ideal de sociabilidade, posto pelo programa da modernidade. Neste sentido, tais matrizes não são ‘marxistas’, nem dizem respeito ape- nas aos marxistas, mas remetem a um largo rol de conquistas civilizatórias e, do ponto de vista profissional, concretizam um avanço que é pertinente a todos os profissionais que, na luta contra o conservadorismo, não abrem mão daquilo que o velho Lukács chamava de ‘herança cultural’ (NETTO, 1996, p. 117). O serviço social busca pautar-se num referencial teórico e metodológico que possibilite uma análise da realidade social. Sendo assim, nas décadas de 1970/1980, pontuado pela crise econômica acompanhada de rearticulação polí- tica da sociedade civil, o serviço social coloca a revisão curricular e a formação profissional como uma necessidade histórica. Nesse contexto se apresenta o movimento de reconceituação, por meio dos documentos produzidos nos encontros realizados em Araxá, Teresópolis, Sumaré e Belo Horizonte. 99 Considerações Finais Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Em relação ao referencial teórico metodológico, a partir de 1970, a perspec- tiva marxista começa a se colocar no contexto do serviço social, pois é a corrente marxista que irá remeter à profissão a consciência de seu papel na sociedade de classe. No bojo da rearticulação política da sociedade civil e na ampliação das políticas sociais alocadas de forma explícita, surgem novas demandas para o serviço social, já que o movimento de reconceituação passa a orientar a for- mação profissional numa perspectiva dialética. O serviço social busca então o fortalecimento da prática institucional, entendendo-se como uma profissão que irá realizar a mediação entre o estado e a sociedade civil, bem como contri- buir para o avanço da organização dos movimentos sociais. Como já citado anteriormente, a década de 1980 a 1990 é expressa pelo ama- durecimento teórico-político profissional, ao longo da sua história, no que diz respeito ao seu posicionamento e compromisso a favor da democracia, da liber- dade e justiça social. Dessa forma, e pensando um caminho diverso a este, foi construído o pro- jeto ético-político do serviço social, o qual será tratado a seguir. 1. Quais as principais tendências do Serviço Social, nos anos 80, do ponto de vista da produção de conhecimentos e do exercício profissional? 2. Quais as principais tendências do Serviço Social, nos anos 90, do ponto de vista da produção de conhecimentos e do exercício profissional? 3. A emergência de um debate teórico-metodológico, principalmente a partir dos meados_________, está diretamente vinculada à inserção da profissão no cir- cuito universitário: a pesquisa, a investigação, que subjazem àquele debate seria impensável sem as condições próprias do trabalho acadêmico. a) da década de 70. b) da década de 60. c) da década de 90. d) de 2005. e) de 1940. 101 PESQUISA E PRODUÇÃO DE CONHECIMENTOS EM SERVIÇO SOCIAL: AS CONTRIBUIÇÕES DO ENFOQUE CRÍTICO-DIALÉTICO A preocupação com a pesquisa e a produção de conhecimento em Serviço Social é re- cente se comparada com algumas importantes “áreas” das Ciências Humanas e Sociais Aplicadas. Essa tendência, conforme anteriormente indicado, se consolidou mais inten- samente a partir do processo de reconceituação latino-americano, incorporando os limi- tes e os avanços propiciados por estemovimento. A absoluta falência do “Serviço Social tradicional” (NETTO, 1991) e as diversas alternativas a ele formuladas, recuperaram – mesmo que inicialmente de forma pontual – a necessidade da pesquisa para sintonizar a profissão com os imensos desafios da segunda metade do século XX. O caráter hete- rogêneo, eclético e empirista/formalista que marcou o processo de reconceituação em suas principais e diversas vertentes há pouco relacionadas (NETTO, 1991), estabeleceu parâmetros e bases teóricas diferenciadas que repercutiram decisivamente em diferen- tes perspectivas e formas de pesquisa em nível de Serviço Social. O balanço crítico da reconceituação e a maturidade do Serviço Social como uma pro- fissão que concentra, simultaneamente, forte carisma interventivo e densidade teóri- ca (particularmente e com maior intensidade na perspectiva de “intenção de ruptura”), criaram as condições objetivas para um resgate mais denso sobre o papel desempenha- do pela pesquisa e pela produção do conhecimento em nível de Serviço Social. Tudo isso tem indicado claramente os parâmetros universais sustentadores de uma formação profissional atual, densa, sólida e fortemente atrelada aos desafios impostos à profissão. Isso, no entanto, por si só, não garante que as múltiplas mediações necessárias para a explicação da realidade enfrentada pelos assistentes sociais em seus diversos espaços de atuação na contemporaneidade, estejam sendo devidamente reconstruídas. É neste contexto e sob as condições objetivas propiciadas pela década de noventa do século XX que a pesquisa é reivindicada como um passo importante e crucial para a formação e para a intervenção profissional dos assistentes sociais. A produção do conhecimento – também em nível de Serviço Social – carece de um exercício crítico que não abdica nem supervaloriza a razão humana, ou seja, o profis- sional-pesquisador se debruça sobre determinada realidade material, reconstruindo-a como “concreto pensado” (MARX apud FERNANDES (org.), 1989, p. 410). Nesse sentido, o que se busca é a “lógica da coisa” (materialmente fincada na realidade) e não a “coisa da lógica” (sustentada na cabeça do profissional), reconstruindo categorias que neces- sariamente fazem parte da estrutura do real e exprimem “formas de vida, determina- ções de existência” (MARX apud FERNANDES, org., 1989, p. 415). Portanto, as categorias não são construções unicamente teóricas criadas pela razão e sistematizadas em “títulos conceituais”, mas sim reconstruções possíveis da dinâmica do real em uma dada histori- cidade. Os assistentes sociais – e não somente eles – lidam com temas e objetos de es- tudo inseridos no mundo e imbricados com a vida de seres sociais. Reivindica-se, então, a unidade/diversa entre a ontologia (fundada na vida e na natureza de determinados seres que possuem história e historicidade) e a gnosiologia (o movimento intelectual que persegue, indaga, desmonta e remonta a realidade com o inseparável auxílio da razão), não identificando ou separando totalmente estas dimensões. É preciso, portanto, reconstruir mentalmente – o mais fielmente possível – a totalidade do movimento da realidade complexa e contraditória que, por sua vez, possui uma dinâmica própria que não é abstratamente criada. O singular (parte constitutiva da totalidade), ou seja, a forma como o universal aparece imediatamente aos olhos dos assistentes sociais na esfera da vida cotidiana (HELLER, 1989) – que é plena, mas tende a aparecer através de múltiplas, caóticas e fragmentadas demandas –, serve de ponto de partida e deve ser desconstruído na sua imediaticida- de. A busca e a reconstrução da mediaticidade, do não aparente, é passo necessário para apanhar o fenômeno na sua totalidade (processo jamais capturado pelo sujeito na sua exatidão), momento em que transbordam múltiplas mediações, isto é, conexões e passagens explicativas inseridas na própria realidade, capazes de explicar as particulari- dades que unem o universal (composto por elementos explicativos mais gerais, recons- truídos a partir do imediatamente dado) e o singular (a forma como o universal se revela imediatamente na vida cotidiana). (...) Posto isso, é possível e necessário avançar na análise sobre a pesquisa e a produção do conhecimento em nível de Serviço Social. Um primeiro desafio básico nesta direção é rever a tendência que, sob diferentes espectros teóricos, realiza a ruptura entre a teoria e a prática e, portanto, inviabiliza qualquer possibilidade da práxis. Ao assumir a prática como uma dimensão prioritária e emasculadora da teoria crítica (considerada, por essa perspectiva, uma ação prolixa e desnecessária – SILVA, 2005), o assistente social esta- rá reforçando a perversa identidade social e historicamente atribuída ao Serviço Social desde sua origem (MARTINELLI, 1993): “[...] somos profissionais “da prática” e, por isso, o que é o pior, não é necessário um esforço teórico e investigativo consistente (atribuído às outras áreas do conhecimento das Ciências Humanas e Sociais Aplicadas)”. Por outro lado, tendências teoricistas também são nefastas, pois não se apropriam dos temas ne- vrálgicos e necessários à profissão. Não há, neste perverso cenário, a menor possibilida- de de qualquer atitude séria – por mais bem intencionada que seja – capaz de orientar a sistematização de dados ou, mais ainda, a organização, a análise e a produção de co- nhecimento no âmbito do Serviço Social. Em outras palavras, não existe pesquisa – nem de longe – sob essas condições. Fonte: SILVA, José Fernando Siqueira. Pesquisa e produção de conhecimentos em Serviço Social: as contribuições do enfoque crítico-dialético. Revista Eletronica [Textos e Contextos], Porto Ale- gre, v. 6, n. 2., p. 282-297, jul./dez. 2007. Disponível em: <http://revistaseletronicas.pucrs.br/fass/ ojs/index.php/fass/article/view/2319/3248>. Acesso em: 24 abr. 2015. http://revistaseletronicas.pucrs.br/fass/ojs/index.php/fass/article/view/2319/3248 http://revistaseletronicas.pucrs.br/fass/ojs/index.php/fass/article/view/2319/3248 103 AS DIMENSÕES ÉTICO-POLÍTICAS E TEÓRICO-METODOLÓGICAS NO SERVIÇO SOCIAL CONTEMPORÂNEO (...) Para analisar a profissão como parte das transformações históricas da sociedade presen- te, é necessário transpor o universo estritamente profissional, isto é, romper com uma visão endógena da profissão, prisioneira em seus muros internos. E buscar entender como essas transformações atingem o conteúdo e direcionamento da própria atividade profissional; as condições e relações de trabalho nas quais se realizam; afetam as atribui- ções, competências e requisitos da formação do assistente social. Essa perspectiva exige alargar os horizontes para o movimento das classes sociais e do Estado em suas relações com a sociedade, não para perder ou diluir as particularidades profissionais, mas, ao contrário, para iluminá-las com maior nitidez; extrapolar o uni- verso do Serviço Social para melhor apreendê-lo na história da sociedade da qual ele é parte e expressão. O atual quadro sócio-histórico não se reduz, portanto, a um pano de fundo para que se possa, depois, discutir o trabalho profissional. Ele atravessa e conforma o cotidiano do exercício profissional do assistente social afetando as suas condições e as relações em que se realiza o exercício profissional, assim como a vida da população usuária dos serviços sociais. A análise crítica desse quadro requer um diagnóstico não liberal sobre os processos so- ciais e a profissão neles inscrita. Uma análise do Serviço Social que afirme a centralidade do trabalho na conformação da questão social e dos direitos sociais consubstanciados em políticas sociais universais, em contraposição às alternativas focalizadas e fragmen- tadas de combate à pobreza e à miséria, que trata as maiorias como residuais. Como pensar o Serviço Social nesse contexto? Desde a década de oitenta, vem sendo reiterado que a profissão de Serviço Social é uma especialização do trabalho dasociedade, inscrita na divisão social e técnica do trabalho social, o que supõe afirmar o primado do trabalho na constituição dos indivíduos so- ciais. Ao indagar-se sobre significado social do Serviço Social no processo de produção e reprodução das relações sociais, tem-se um ponto de partida e um norte. Este não é a prioridade do mercado - ou da esfera da circulação -, tão cara aos liberais. Para eles, a esfera privilegiada na compreensão da vida social é a esfera da distribuição da riqueza, visto que as leis históricas que regem a sua produção são tidas como leis “naturais”, isto é, assemelhadas àquelas da natureza, de difícil alteração por parte da ação humana. A análise do Serviço Social no âmbito das relações sociais capitalistas visa superar os in- fluxos liberais que grassam as análises sobre a chamada “prática profissional”, vista como prática do indivíduo isolado, desvinculada da trama social que cria sua necessidade e condiciona seus efeitos na sociedade. Os processos históricos são reduzidos a um “con- texto” distinto da prática profissional, que a condiciona ”externamente”. A “prática” é tida como uma relação singular entre o assistente social e o usuário de seus serviços -, seu “cliente”- desvinculada da “questão social” e das políticas sociais. Essa visão histórica e focalista tende a subestimar o rigor teórico-metodológico para a análise da sociedade e da profissão, - desqualificado como “teoricismo” - em favor das visões empiristas, pragmáticas e descritivas da sociedade e do exercício profissional, enraizadas em um positivismo camuflado sob um discurso progressista de esquerda. Nessa perspectiva, a formação profissional deve privilegiar a construção de estratégias, técnicas e formação de habilidades – centrando-se no “como fazer” – a partir da justifica- tiva que o Serviço Social é uma “profissão voltada à intervenção no social”. Esse caminho está fadado a criar um profissional que aparentemente sabe fazer, mas não consegue explicar as razões, o conteúdo, a direção social e os efeitos de seu trabalho na sociedade. Corre-se o perigo do assistente social ser reduzido a um mero “técnico”, delegando a outros - cientistas sociais, filósofos, historiadores, economistas, etc - a tarefa de pensar a sociedade. O resultado é um profissional mistificado e da mistificação, dotado de uma frágil identidade com profissão. Certamente o Serviço Social é uma profissão que, como todas as demais, envolve uma atividade especializada - que dispõe de particularidades na divisão social e técnica do trabalho coletivo e requer fundamentos teórico-metodo- lógicos, a eleição de uma perspectiva ética e a formação de habilidades densas de políti- ca. A perspectiva de análise da profissão, ora apresentada, contrapõe-se às concepções liberais e (neo)conservadoras do exercício profissional. A reprodução das relações sociais na sociedade capitalista, a partir da teoria social crí- tica, é entendida como reprodução da totalidade concreta desta sociedade, em seu movimento e em suas contradições. É reprodução de um modo de vida que envolve o cotidiano da vida social: um modo de viver e de trabalhar socialmente determinado. O processo de reprodução das relações sociais não se reduz, pois, à reprodução da força viva de trabalho e dos meios materiais de produção, ainda que os abarque. Ele refere-se à reprodução das forças produtivas sociais do trabalho e das relações de produção na sua globalidade, envolvendo sujeitos e suas lutas sociais, as relações de poder e os an- tagonismos de classes. Envolve a reprodução da vida material e da vida espiritual, isto é, das formas de consciência social – jurídicas, religiosas, artísticas, filosóficas e científicas - através das quais os homens tomam consciência das mudanças ocorridas nas condições materiais de produção, pensam e se posicionam perante a vida em sociedade. Fonte: IAMAMOTO, Marilda Vilela. As Dimensões Ético-políticas e Teórico-metodológicas no Serviço Social Contemporâneo. 2009. Disponível em: <http://www.fnepas.org.br/pdf/servico_ social_saude/texto2-2.pdf>. Acesso em: 24 abr. http://www.fnepas.org.br/pdf/servico_social_saude/texto2-2.pdf http://www.fnepas.org.br/pdf/servico_social_saude/texto2-2.pdf Material Complementar MATERIAL COMPLEMENTAR Para saber mais sobre o CBCISS - Centro Brasileiro de Cooperação e Intercâmbio de Serviços Sociais (como surgiu, atividades realizadas etc.), acesse a página: <www.cbciss.org> Sociabilidade Burguesa e Serviço Social Alzira Lewgoy, Ana Elizabeth Mota (org.) Editora: Lumen Juris Sinopse: Esta obra se constitui - no contexto atual de reprodução ampliada do capital – numa excelente problematização sobre as tensões entre a sociabilidade burguesa e o Serviço Social, tema esse tratado por intelectuais da maior envergadura no campo das ciências sociais e humanas, que mesclam trajetórias acadêmico- científicas com militância política. Seu mérito principal reside no eixo articulador do conjunto dos capítulos que entrelaça, compreende e explica a dinâmica da vida social centralizada no trabalho enquanto pressuposto fundante da gênese, constituição, sociabilidade e emancipação do ser social; constituinte de uma nova ordem societária: sem exploração de classe, sem discriminação de gênero, geração e etnia e que rompe com os processos de alienação e coisificação humana, próprios da sociabilidade burguesa. Seguramente, o material que vem a público se constitui como referência teórica, política e ética à luz da teoria social de Marx, no Serviço Social e para consolidação do Projeto Ético-Político, do Serviço Social brasileiro. http://www.cbciss.org MATERIAL COMPLEMENTAR Globalização, Correlação de Forças e Serviço Social Vicente de Paula Faleiros Editora: Cortez Sinopse: Este livro trata das relações entre globalização, serviço social e prática profissional na perspectiva da correlação de forças, de fortalecimento de poder dos dominados e sujeitos de direitos dos serviços sociais. Aprofunda a discussão da atuação profissional nas condições de mercadorização capitalista global, agravamento das desigualdades e precarização do trabalho. Serviço Social: Direitos e Competências Profissionais CFESS Editora: CFESS Sinopse: O livro oferece a discussão sobre as competências ético- politicas, teórico-metodológicas e técnico-operativas nos mais variados campos sócio ocupacionais de trabalho do Assistente Social. Uma coletânea de textos que é obrigatória para os estudantes e assistentes sociais. U N ID A D E IV Professora Esp. Rafaela Cristina Bernardo OS PROJETOS SOCIETÁRIOS, OS PROJETOS PROFISSIONAIS E O PROJETO ÉTICO-POLÍTICO DO SERVIÇO SOCIAL Objetivos de Aprendizagem ■ Discutir a natureza ontológica dos projetos societários. ■ Compreender a relação entre projetos societários e projetos profissionais. ■ Relacionar o desenvolvimento do projeto ético político profissional no marco de projetos societários concorrentes. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ Os projetos societários da classe trabalhadora e os projetos societários do capital ■ Projetos Profissionais e projeto ético-político ■ O desenvolvimento dos projetos profissionais no marco do movimento de reconceituação ■ Projeto ético-político do serviço social INTRODUÇÃO Olá, caro(a) aluno(a)! Estamos iniciando a unidade IV do livro de Fundamentos Históricos e Teórico-Metodológicos do Serviço Social II, discutindo o desenvol- vimento do Projeto Ético-Político do Serviço Social. Nesta unidade vamos discutir o que são os projetos societários e projetos pro- fissionais, compreendendo quais as suas características, os interesses societários, por que são projetos coletivos, e principalmente entender a influência dos proje- tos societários no desenvolvimento do projeto ético-político do Serviço Social. Para empreender esta análise, devemos fazê-la na perspectiva crítica, que nos apresenta que a realidade social é um complexo de múltiplasdetermina- ções que se movimentam a partir da contradição de classes. Diante das relações sociais desenvolvidas pelo modo de produção capitalista, essa contradição esta- belece instrumentos político-ideológicos de luta, reivindicação e resistência, mas principalmente de manutenção da ordem social vigente, buscando manter into- cadas as relações sociais de exploração que causam conflitos e principalmente o agravamento da questão social. Essas relações geram embates e resistências e estabelecem projetos de classe antagônicos, com interesses antagônicos, que imprimem ao Serviço Social a necessidade de se posicionar frente a esses projetos e construir um projeto pro- fissional que esteja aliado a um ideal de sociedade emancipada, de sujeitos sociais livres, com ideais de democracia, cidadania e justiça social para além dos limi- tes do capital. A relevância desta discussão está na preocupação de estabelecer uma rela- ção com o movimento da realidade e o desenvolvimento da profissão no Brasil, compreendendo que não se pode realizar uma análise interna da profissão desco- nectada dos aspectos políticos, econômicos e sociais que movimentam a história no âmbito das relações sociais capitalistas. Esperamos com esta unidade que você compreenda que a direção ética, polí- tica e profissional do Serviço Social, bem como o seu aporte teórico-metodológico marxista e o levantamento de instrumentais técnico operativos estarão relacio- nados a um projeto de sociedade, que exige do assistente social a clareza sobre esse direcionamento por meio dos aspectos político-organizativos e legais da 109 Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . OS PROJETOS SOCIETÁRIOS, OS PROJETOS PROFISSIONAIS E O PROJETO ÉTICO-POLÍTICO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IV categoria profissional que foram construídos a partir da década de 1990 e repre- sentam a organização da categoria profissional frente aos desafios estruturais que a realidade brasileira impõe ao quotidiano profissional e que exige o constante processo de análise e compreensão da realidade. Bons estudos para você! OS PROJETOS SOCIETÁRIOS DA CLASSE TRABALHADORA E OS PROJETOS SOCIETÁRIOS DO CAPITAL Para compreendermos o que são os projetos societários, precisamos resgatar dois conceitos: a natureza do modo de produção capitalista e o princípio onto- lógico do ser social. Sobre o primeiro, precisamos saber que o capitalismo, ao desenvolver relações sociais de produção baseadas na compra e venda de mer- cadorias (não esqueça que a força de trabalho é uma mercadoria), movimenta a história a partir do antagonismo de classes que é gerado conforme o processo de exploração entre capital e trabalho. Com essa questão, estamos tentando elucidar que o modo de produção capi- talista é compreendido como o desenvolvimento de relações sociais de natureza contraditória, que diante da necessidade de acumulação depende da exploração de uma classe sobre a outra, classes essas que são a burgue- sia e o proletariado. Sobre o princípio onto- lógico do ser social, devemos mencionar que o ser social é o sujeito que projeta na natu- reza os meios para atender as suas necessidades. Essa proje- ção é mediada pelo trabalho, 111 Os Projetos Societários da Classe Trabalhadora e os Projetos Societários do Capital Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . o qual permite que o sujeito desenvolva sua consciência, linguagem e estabe- leça as suas relações sociais com os outros sujeitos. Tais elementos exprimem que o trabalho é o princípio fundante do ser social, pois é por intermédio dele que o sujeito desenvolve a sua práxis, que é o conjunto de objetivações huma- nas mediadas pelo trabalho. Com relação à práxis, Netto (2005, p. 3) complementa: Nessa incessante dinâmica da história, os homens vão tornando cada vez mais complexas suas relações e cada vez mais mediadas suas for- mas de vida social, o que equivale dizer que eles vão criando, cada vez mais, formas de objetivação na realidade, as quais podemos chamar de práxis. No desenvolvimento histórico do ser social, conhecemos duas formas de práxis: aquelas “voltadas para o controle e exploração da na- tureza e [aquelas] voltadas para influir no comportamento e na ação humana” que é o que peculiariza a práxis profissional. Diante dessa questão, podemos perceber que é a partir do trabalho que os homens conseguem materializar— objetivar – a sua consciência, vida, identidade, relações sociais, cultura, valores morais, ética, educação e, no caso da nossa discussão, idealizar um determinado tipo de sociedade, aliás, um determinado projeto societário. Agora que retomamos esses dois conceitos, podemos relacioná-los e estabe- lecer a seguinte conclusão: conforme são desenvolvidas as relações sociais no modo de produção capitalista, mediadas pelo trabalho, a burguesia e prole- tariado idealizam um determinado tipo de sociedade que busca atender aos seus interesses de classe, os quais visam, ou a manutenção dessa relação, ou a sua superação, buscando uma sociedade livre, sem exploração de classe. Os projetos societários exprimem a construção de uma sociedade ideal de acordo com os interesses em disputa e partem da contradição existente na rela- ção entre capital e trabalho. O conflito de classes nos apresenta diferentes projetos societários que no seu desenvolvimento contraditório movimentam a história. Segundo Marx e Engels (1998, p. 41), “a história da sociedade até os nossos dias tem sido a história da luta de classes”. © sh ut te rs to ck OS PROJETOS SOCIETÁRIOS, OS PROJETOS PROFISSIONAIS E O PROJETO ÉTICO-POLÍTICO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IV Dito isso, Netto (1999) apresenta algumas características sobre os proje- tos societários que merecem destaque: ■ A concorrência entre diferentes projetos societários é um fenômeno pró- prio da democracia política; é quando se conquistam e se garantem as liberdades políticas fundamentais que distintos projetos podem confron- tar-se e disputar a adesão dos membros da sociedade. ■ Os projetos societários que correspondem aos interesses da classe traba- lhadora sempre dispõem de condições menos favoráveis para enfrentar ou superar os projetos societários burgueses. Entretanto, isso não signi- fica que não possam ser alcançados, mas dependem de crises estruturais criadas pela própria incontrolabilidade de acumulação capitalista para que haja a sua superação e a incorporação de um novo projeto de sociedade. ■ São projetos que se constituem como macroscópicos e somente eles têm essa característica. De acordo com Netto (1999, p. 2), “Trata-se daqueles projetos que apresentam uma imagem de sociedade a ser construída, que reclamam determinados valores para justificá-la e que privilegiam certos meios (materiais e culturais) para concretizá-la”. ■ Nos projetos societários há necessariamente uma dimensão política que envolve relações de poder; essa questão coloca o Estado como mediador da relação entre capital e trabalho, e de acordo com um determinado pro- jeto societário, manifesta no terreno político as relações de poder. © is to ck 113 Os Projetos Societários da Classe Trabalhadora e os Projetos Societários do Capital Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . ■ A experiência histórica demonstra que são projetos que constituem estru- turas flexíveis e cambiantes, buscando superar crises e restabelecer as relações sociais de produção de acordo com o movimento da história. Isso explica os mecanismos político-ideológicos apropriados pelo capital para retomar o processo de acumulaçãoem tempos de crise. ■ Os projetos societários podem visar dois tipos de relações sociais – e con- sequentemente de sociedade: garantir a manutenção das relações sociais capitalistas, ou superá-las, almejando a sua transformação para outra forma de sociabilidade, que diante da contradição visaria a eliminação de classes, da exploração e de seus desdobramentos, como à desigualdade e a pobreza. Conforme as características apresentadas anteriormente, podemos compreender que os projetos societários são dimensões inerentes das relações sociais dos sujeitos, e que do mesmo modo que são criados pela mão e pela cabeça humana – mediados pelo trabalho e pela práxis – também podem ser supe- rados por eles. Essa questão demonstra a impossibilidade de conceber a história como um fim pronto e acabado, como se o modo de produção capitalista fosse algo natural da vida social, que não pode ser superado. Embora o poder da classe dominante seja o poder dominante, a história já demonstrou que este pode mudar de mãos, diante da própria contradição exis- tente nas relações sociais, pois são nos conflitos e nos embates que os problemas se agravam e exigem cada vez mais medidas radicais para serem superados. Esse aspecto pode ser algo distante da nossa compreensão, mas sugerimos que assista a filmes que retratam os séculos XVI, XVII e XVIII na Europa. Você verá que a classe que detinha o poder não era a burguesia, mas a monarquia e o clero, os quais sustentavam uma relação social feudal, concebida como algo determinado por Deus e como tal não poderia ser contestado. © sh ut te rs to ck OS PROJETOS SOCIETÁRIOS, OS PROJETOS PROFISSIONAIS E O PROJETO ÉTICO-POLÍTICO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IV Diante das necessidades sociais que faziam os homens se objetivarem pelo trabalho, a religião foi perdendo a sua força e no seu lugar a ciência começa a responder os problemas que a fé não conseguia explicar, abrindo caminhos para novas descobertas, inclusive comerciais através das navegações que se aventu- ravam pelo mundo, e que fizeram da monarquia e da igreja um poder obsoleto frente ao que estava por vir. A Revolução Francesa é um marco desse processo, em que a burguesia toma o poder junto do desenvolvi- mento de um novo projeto societário muito diverso do anterior. As discussões levan- tadas nas unidades I e II deste livro apresentam que no século XX os projetos societários continuam em constante disputa, de um lado o bloco capitalista e do outro a aliança socialista que demonstrou a sua força no Leste Europeu. Diante das condições concretas, a classe que detém o poder político econômico, ideoló- gico e bélico continua sendo o capital, porém isso não significa que não existam resistências a esse projeto; Cuba é um exemplo disso. Por isso, caro(a) aluno(a), devemos ter clareza que os projetos societá- rios em disputa exigem que os projetos profissionais sejam projetos políticos, pois o direcionamento do projeto profissional se relaciona com as idealiza- ções dos projetos societários, e neste aspecto não cabe a existência de um projeto profissional neutro. ©karelnoppe 115 Os Projetos Societários da Classe Trabalhadora e os Projetos Societários do Capital Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Conforme discutimos, na segunda metade dos anos 1960 e início da década de 1970, diante do processo de crise econô- mica, de surgimento e enfraquecimento da ditadura militar e da efervescência dos movi- mentos sociais, a história oferece os subsídios necessários para que esses projetos societá- rios entrem em confronto direto, apontando de um lado o projeto do capital financiado pela burguesia brasileira e pelo impe- rialismo norte-americano por meio da ditadura civil militar, e de outro o projeto societário da classe trabalhadora que se organizava e reivindicava por democra- cia e direitos sociais plenos. O projeto societário da classe trabalhadora era representado pelos diver- sos movimentos sociais que se organizavam. Entre eles podemos destacar o Partido dos Trabalhadores (PT), a Central Única dos Trabalhadores (CUT), a União Nacional dos Estudantes (UNE), o Movimento dos Trabalhadores sem Terra (MST), a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Movimento Sanitário, entre muitos outros, que de modo geral reivindicavam por um projeto societário que buscava, através da luta democrática, conquistar direitos sociais plenos, melho- res condições de vida, trabalho e divisão da riqueza socialmente produzida. Isso ocorria, principalmente, porque conforme a teoria marxista vai avançando para o interior da profissão a partir dos anos 1980, as demandas emergentes vão evi- denciando a extrema condição de exploração e pobreza da classe trabalhadora junto de um Estado ausente, aspectos esses que se colocam como exigências para construir um projeto profissional que dê conta de compreender o que de fato é a sociedade capitalista e conceber a questão social como objeto de trabalho e a classe trabalhadora como sujeito da intervenção profissional. A partir dessas escolhas, o próximo passo é construir competências teóri- co-metodológicas, ético-políticas e técnico-operativas que no aspecto jurídico legal materializam a Lei de Regulamentação da Profissão 8662/93, o Código de Ética Profissional de 1993 e as Diretrizes Curriculares de 1996. Esses três dispo- sitivos representam o Projeto Ético-Político do Serviço Social. © sh ut te rs to ck OS PROJETOS SOCIETÁRIOS, OS PROJETOS PROFISSIONAIS E O PROJETO ÉTICO-POLÍTICO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IV PROJETOS PROFISSIONAIS E PROJETO ÉTICO-POLÍTICO No desenvolvimento da profissão no Brasil, a realidade econômica, política e social colocou ao Serviço Social a tarefa de desenvolver o seu projeto profissional, que em determinados momentos incorporou as matrizes positivistas, funcionalis- tas e marxistas, que influíram no campo teórico de produção de conhecimento, mas principalmente no quotidiano de intervenção profissional a fim de respon- der aos problemas que se apresentavam ao assistente social. Essas matrizes levaram a profissão para caminhos muito diferentes, que esta- beleceram projetos profissionais com objetivos e ideais que reproduziam nos seus instrumentos jurídico-legais, principalmente nos códigos de ética, os interesses da categoria na sua relação com o Estado, sociedade e capital. A disciplina de Fundamentos I explicou tais questões, ou seja, ao retomar o processo de surgimento da profissão no seio da Igreja Católica e da sua institu- cionalização incorporando-se ao Estado, revelou um Serviço Social que através de uma prática ajustadora, funcionalista e munida de uma concepção teórica superficialmente neutra, tornou-se instrumento de legitimação do capital. Aliando-se aos interesses burgueses, o Serviço Social mediava as relações entre capital e classe trabalhadora, buscando adequar os indivíduos ao meio, como se fossem desajustados que não poderiam questionar a sua condição na sociedade capitalista, já que para esse Serviço Social de um projeto profissional acrítico e ©shutterstock 117 Projetos Profissionais e Projeto Ético-Político Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . tradicional, os desdobramentos da questão social como a fome, desemprego, vio- lência, falta de saneamento, educação e saúde eram considerados problemas dos indivíduos e não do sistema. Embora a neutralidade – prin- cípio positivista que influenciou a profissão no decorrer dos anos 1940 a 1960— inibisse um posi- cionamento declarado sobre a profissão frente ao conflito de clas- ses com interesses antagônicos, a própria aceitação da neutralidade automaticamente reafirmavauma perspectiva de classe. Em outras palavras, na medida em que a profissão assumia não questionar o capi- talismo, sua estrutura e dinâmica, consequentemente, se posicionava a favor da ordem burguesa, buscando manter intocadas as relações sociais. Na medida em que a história avança e manifesta o embate na dimensão inter- nacional de projetos societários diversos, de um lado o socialismo e de outro o capitalismo, o Serviço Social Latino-Americano, e principalmente o brasileiro, busca, a partir dos anos 1960, com o Movimento de Reconceituação e a Intenção de Ruptura com referência ao Método BH, questionar o aparato teórico, ético e prático para realinhar o seu projeto profissional em uma realidade social repleta de contradições, conflitos e lutas. No debate realizado pela categoria no âmbito desse movimento, o livro de Fundamentos I e as unidades I, II e III de Fundamentos II nos trazem deta- lhadamente como esse processo de revisão interna ocorreu, mas para efeito de compreensão, ao avançarmos na análise, vamos apresentar as principais caracte- rísticas desse movimento e sua relação com a construção do projeto ético-político do Serviço Social. © sh ut te rs to ck OS PROJETOS SOCIETÁRIOS, OS PROJETOS PROFISSIONAIS E O PROJETO ÉTICO-POLÍTICO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IV O DESENVOLVIMENTO DOS PROJETOS PROFISSIONAIS NO MARCO DO MOVIMENTO DE RECONCEITUAÇÃO Segundo Netto (2005), o ano de 1965 é mar- cado pelo Movimento de Reconceituação do Serviço Social latino-americano, momento em que o Serviço Social assume certas inquie- tações e questionamentos que sua visão tradicional e conservadora sobre o modo de produção capitalista não conseguia responder. Reformulações teóricas, políticas, metodológicas e operativas surgem no arca- bouço do Serviço Social latino-americano, impondo a necessidade de construção de um novo projeto profissional que se posicionasse frente ao conflito de classes. Na década de 1960, os assistentes sociais organizaram vários encontros – nacionais e regionais – para pôr em pauta assuntos de grande interesse para a categoria, que de modo geral buscava questionar o posicionamento da profissão em relação ao imperialismo norte-americano que impulsionava no Brasil a era desenvolvimentista. Dentre esses encontros, destaca-se o II Congresso Brasileiro realizado no Rio de Janeiro, em 1961, que discutiu o tema “Desenvolvimento nacional para o bem-estar social”. No ano seguinte ocorreu a Conferência Internacional Petrópolis que discutiu o tema “Desenvolvimento de comunida- des urbanas e rurais” (NETTO, 2005). A partir de 1965 começa a ocorrer uma profunda erosão do Serviço Social tradicional em muitos países, que historicamente se explicava por uma crise do capitalismo nesse período. Esse período compreendido entre as décadas de 1960 e 1970 foi marcado por uma forte crítica às práticas empíricas, burocratizadas, funcionalistas da profissão, as quais visavam ajustar o indivíduo ao capitalismo, ©istock 119 O Desenvolvimento dos Projetos Profissionais no Marco do Movimento de Reconceituação Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . orientadas pela ética liberal-burguesa. Crescia, também, a onda de movimen- tos reivindicatórios das classes subalternas que se opunham à ordem burguesa, inclusive a categoria do Serviço Social. A Reconceituação teve caráter heterogêneo e contraditório, pois apresen- tava distintas perspectivas sobre a profissão. Na particularidade latino-americana, a Reconceituação expressou a crítica ao Serviço Social tradicional, e como Faleiros (2004, p. 51) apontava: a “ruptura com o Serviço Social tradicional se inscreve na dinâmica de rompimento das amarras imperialistas, de luta pela libertação nacional e de transformações da estrutura capitalista excludente, concentra- dora, exploradora”. A esse respeito, Netto (2005) e Faleiros (2004) afirmam que durante as ditaduras civis militares, patrocinadas pelos Estados Unidos, o Serviço Social latino-americano atentou para a urgência de se desvincu- lar do conservadorismo e tradicionalismo profissionais. Afinal, o momento era pro- pício para o levantamento de temas que defendiam a abertura democrática diante de tamanha repressão militar alçada por interesses burgueses. Diante da repressão intensificada nos anos 1970, a Reconceituação foi obrigada a desacelerar as discussões, mas isso não significou o fim do debate, muito pelo contrário, pois foi a partir da repressão militar e das consequentes manifesta- ções da classe trabalhadora que o Serviço Social pôde encontrar subsídios para iniciar o processo de renovação na profissão. Acerca dessa questão, Netto (1999, p. 11) salienta, A luta contra a ditadura e a conquista da democracia política possibili- taram o rebatimento, no interior do corpo profissional, da disputa en- tre projetos societários diferentes, que se confrontavam no movimento das classes sociais. As aspirações democráticas e populares, irradiadas a partir dos interesses dos trabalhadores, foram incorporadas e até in- tensificadas pelas vanguardas do Serviço Social. OS PROJETOS SOCIETÁRIOS, OS PROJETOS PROFISSIONAIS E O PROJETO ÉTICO-POLÍTICO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IV Nessa conjuntura o Serviço Social busca compreender que o conservadorismo é insuficiente para atender aos interesses das classes subalternas, que começam a fazer parte do universo da categoria profissional e, como tal, demandam inves- tigações teórico-críticas. Segundo Netto (1999, p. 10): É neste contexto que o histórico conservadorismo do Serviço Social brasileiro, tantas vezes reciclado e metamorfoseado, confrontou-se pela primeira vez com uma conjuntura em que a sua dominância no corpo profissional (que, sofrendo as incidências do “modelo econômico” da ditadura, começa a reconhecer-se como inserido no conjunto das ca- madas trabalhadoras) podia ser contestada – uma vez que, no corpo profissional, repercutiam as exigências políticas e sociais postas na or- dem do dia pela ruptura do regime ditatorial. Observa-se que pela primeira vez a profissão passou a reconhecer a existência de projetos societários diversos e que deveria compreender a profissão inserida nessa dinâmica de classes, permitindo ao Serviço Social promover o questio- namento e confronto. Esse questionamento se dá pela vinculação da profissão às ciências sociais e aos movimentos sociais que se fortaleciam, como o movi- mento estudantil e de trabalhadores. De modo geral, a Reconceituação permitiu as seguintes mudanças: ■ A necessidade de intercâmbio entre os países da América Latina e uma grande união em reivindicações entre eles. ■ Explicitou a dimensão política da ação profissional. ■ Permitiu ao Serviço Social se aproximar do aspecto crítico das ciências sociais (inclusive com o marxismo). ■ O pluralismo profissional, ou seja, a influência de diversas fontes do conhecimento; e, principalmente, a reivindicação da categoria pelo poder de planejar e pesquisar as políticas sociais e não apenas executá-las. Isso trouxe nova imagem ao Serviço Social, que estava trilhando o caminho como campo intelectual. ■ A construção da teoria e da práxis do Serviço Social constitui-se no seu próprio movimento existencial, desde as primeiras conjunturas teóricas, formulações, busca de fundamentos, elaboração de processos e técnicas para a conquista de objetivos e propósitos assumidos (NETTO, 2005). © istock 121 O Desenvolvimento dos Projetos Profissionais no Marco do Movimento de Reconceituação Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Nesse sentido, o movimento de Reconceituação representou um marco decisivo no desencadeamento do processo de revisãocrítica do Serviço Social, como tam- bém um saldo qualitativo que foi estruturando uma profissão interventiva no combate das desigualdades sociais, e ainda um marco no processo de politiza- ção e mobilização de profissionais e estudantes com participação nos sindicatos em todo o país (NETTO, 2005). Enfim, o movimento de Reconceituação envolveu reelaborações por um grande número de profissionais, na busca de conhecimentos teórico-práticos que pudessem instrumentalizar a ação profissional coerente com o posiciona- mento de classes em disputa (FALEIROS, 2004). A partir dos anos 1980, a Reforma Universitária produzida pela Ditadura Militar proporcionou ao Serviço Social avançar em âmbito acadêmico, princi- palmente com o surgimento de cursos de pós-graduação e, logo em seguida, os programas de mestrado e doutorado na área. Nesses espaços acadêmicos, o Serviço Social passa a produzir pesquisas e acumular uma massa crítica signifi- cativa para a profissão, possibilitando intercambiar com outras categorias e áreas do saber, enriquecendo as reflexões profissionais. Dessa forma, a produção teó- rica no Serviço Social incorporou sua principal característica, a teoria Marxista com método crítico dialético, capaz de dar respostas aos questionamentos da realidade social em seu contexto sócio-histórico. Conforme Netto (1999, p. 12): Na acumulação teórica operada pelo Serviço Social é notável o fato de, naquilo que ela teve e tem de maior relevância, incorporar matrizes teóricas e metodológicas compatíveis com a ruptura com o conserva- dorismo profissional – nela se empregaram abertamente vertentes crí- ticas, destacadamente as inspiradas na tradição marxista. OS PROJETOS SOCIETÁRIOS, OS PROJETOS PROFISSIONAIS E O PROJETO ÉTICO-POLÍTICO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IV A ruptura com a visão conservadora possibilitou abrir debates junto às organi- zações da categoria para tornar a formação profissional homogênea, no sentido de construir respostas teórico-metodológicas, técnico-operativas e ético-polí- ticas, possíveis para atender aos desdobramentos da questão social no cenário democrático que surgia. Dessa forma, podemos até o presente momento compreender que a forma- ção desse novo perfil profissional e do projeto ético-político da categoria teve a contribuição crítica e política do movimento de Reconceituação e da legitimi- dade acadêmica iniciada a partir de 1980, com grande participação da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC/SP) e da produção do Método BH. O processo de renovação do Serviço Social, expresso na vertente de ruptura com o conservadorismo e tradicionalismo na profissão, desenvolve-se no interior da autocracia burguesa em plena vigência do regime ditatorial, em um contexto de espraiamento das lutas contra a ditadura e no processo de democratização do país, aliadas à luta anti-imperialista, anticapitalista e no horizonte socialista. Fonte: ABRAMIDES, Maria Beatriz Costa. O Projeto Ético-Político Profissio- nal do Serviço Social Brasileiro. Tese (Doutorado) - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2006. Por que a intenção de ruptura com o Serviço Social tradicional teve sua maior expressão a partir dos anos 1970? Fonte: a autora. 123 O Desenvolvimento dos Projetos Profissionais no Marco do Movimento de Reconceituação Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Nesse processo de revisão teórica e construção de parâmetros básicos para a formação profissional que foram, segundo Netto (1995, p. 3), “ressignificadas modalidades prático-interventivas tradicionais e emergindo novas áreas e cam- pos de intervenção, com o que se veio configurando, numa dinâmica que está em curso até hoje, um alargamento da prática profissional”, alargamento esse que se deu através da própria produção científica e contribuiu para a construção de bases teóricas sólidas capazes de clarificar a visão da categoria frente ao projeto de sociedade que estavam almejando. Em 1979 ocorre o Congresso da Virada que representou a organização da bancada mais progressista da profissão, também representou em 1980 a inten- ção de ruptura do Serviço Social, no sentido de “sintetizar o período de consolidação teórico-política da vertente de ruptura do Serviço Social brasileiro e tem sua expressão na organização da categoria: política-sindical, formação acadêmica e exercício profissional” (ABRAMIDES, 2006, p. 30). Desse modo, observamos que no marco do Movimento de Reconceituação surgem, de maneira heterogênea, três diferentes projetos profissionais que estiveram em concorrência no decorrer dos anos 1960 a 1980, são eles: ■ A perspectiva modernizadora – buscava modernizar a profissão para responder aos ordenamentos tecnocráticos do governo militar, colocando para o Serviço Social a tarefa de atualizar os seus instrumentos e a sua prática no âmbito da gestão e planejamento dos serviços, programas e políticas, ampliando o campo de intervenção para além do atendimento direto aos usuários. Essa perspectiva buscava atualizar a profissão apenas na esfera interventiva e não alterava a sua visão conservadora e acrítica sobre a realidade social, continuando a exercer o ajustamento dos indi- víduos à ordem social vigente. OS PROJETOS SOCIETÁRIOS, OS PROJETOS PROFISSIONAIS E O PROJETO ÉTICO-POLÍTICO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IV ■ A reatualização do conservadorismo – esta perspectiva pensava alterar os pressupostos teóricos da profissão em relação à realidade e às deman- das, contudo, partiam da inspiração fenomenológica, apropriando-se de uma visão do sujeito singular, pessoa e comunidade, realizando análises que não partiam da relação social que esses sujeitos estabelecem entre si, mas, de uma concepção isolada dos sujeitos. Essa tendência, que no Serviço Social brasileiro vai priorizar as concepções de pessoa, diálogo e transformação social (dos sujeitos singulares), é analisada por Netto (2008) como uma forma de reatualizar o conservadorismo que esteve presente no pensamento inicial da profissão. ■ Intenção de Ruptura – esta vertente buscava romper com a visão con- servadora da profissão a partir das referências teórico-metodológicas marxistas, remetendo a consciência da inserção da profissão na socie- dade de classes, que no Brasil vai configurar-se, num primeiro momento, na aproximação do Marxismo, mas um marxismo sem Marx. Segundo Netto (2008), esse primeiro momento tem como referência o desenvolvi- mento de um grupo de estudos da Universidade Católica de Minas Gerais, conhecido como Método BH. Esse grupo tinha como ponto de partida a análise crítica do marxismo de Louis Altusser que discutia ser as insti- tuições o aparelho ideológico do Estado. Essa apropriação se caracteriza, quer pelas abordagens reducionistas do marxismo, quer pela influência do cientificismo e do formalismo metodológico com bases estruturalis- tas presentes no marxismo althusseriano, que vai influenciar a proposta marxista do Serviço Social nos anos 1970. Observamos que, em relação à intenção de ruptura, o debate teórico marxista esvaziado de Marx trouxe para a profissão a militância política, mas não ofereceu de fato a constru- ção de um projeto profissional munido dos referenciais teórico-críticos da teoria marxista em sua origem. ©istock 125 Projeto Ético-Político do Serviço Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Dito isso, caro(a) aluno(a), temos con- dição de avançar no debate e compreender que, diante do agravamento da questão social aliada à influência da matriz teórico-meto- dológica marxista, o debate sobre o projeto ético-político profissional é ampliado no interior da categoria e torna-sehegemônico a partir de 1990. Por isso, vamos conceituar os projetos profissionais no âmbito do desen- volvimento sócio-histórico da profissão a partir de 1990, que vai configurá-lo com o PROJETO ÉTICO-POLÍTICO. PROJETO ÉTICO-POLÍTICO DO SERVIÇO SOCIAL Além da requalificação profissional ocasionada pela produção crítica e da con- tribuição de novas possibilidades prático-interventivas à categoria profissional, a construção do projeto ético-político teve intensa interferência da luta por direi- tos civis, sociais e políticos que acompanharam a quebra do regime ditatorial e a abertura do regime democrático, culminando na Promulgação da Constituição Federal de 1988. Por isso, é necessário remeter à conjuntura política e social desse processo que retratou a crise do capital internacional na década de 1970 e que teve inten- sos desdobramentos na economia brasileira, que havia incorporado o modelo econômico capitalista norte-americano, e que devido aos elevados empréstimos realizados junto ao Fundo Monetário Internacional (FMI), quando eclodiu a crise, iniciou a crise da ditadura (BEHRING, BOSCHETTI, 2006). Essa situação gerou o fortalecimento dos movimentos sociais, entre eles pode- mos destacar a União Nacional dos Estudantes (UNE) e os movimentos sindicais, OS PROJETOS SOCIETÁRIOS, OS PROJETOS PROFISSIONAIS E O PROJETO ÉTICO-POLÍTICO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IV como o do Partido dos Trabalhadores (PT) e da Central Única dos Trabalhadores (CUT), os quais serviram de base para viabilizar a abertura política e tornar pos- sível a construção da Constituição Federal de 1988 (CORBUCCI, 1998). O Estado, para tentar sanar a crise econômica, inicia em 1980 mudanças nos processos de trabalho, mediante a reestruturação produtiva, dando início à terceira revolução industrial, substituindo o trabalho vivo pelo trabalho morto, aumentando os níveis de produtividade em busca dos superlucros. Tais mudan- ças propiciaram uma onda de desemprego estrutural. Enquanto a reestruturação produtiva atuava como ferramenta para o desen- volvimento econômico dentro das indústrias, na contramão, acabava por aumentar o índice de desemprego criando um ‘mercado de substituição’ (BEHRING; BOSCHETTI, 2006, p. 117). A retomada da taxa de lucros no mercado econômico perpassou por uma série de reformas tanto em seu contexto comércio-industrial como no seu projeto societário, posteriormente com a incorporação da política neoliberal em substi- tuição ao liberalismo econômico e social. Dentre as medidas tomadas pelo Estado, Behring e Boschetti (2006, p. 41) pontuam as principais e mais significativas: [...] a exemplo do Brasil [...] em situação de penúria e endividamento. Mandel analisa os esforços do capital para uma retomada das taxas de lucro nos anos de 1980, que passaram por: eliminação, absorção ou redução da atividade de empresas menos rentáveis; introdução de téc- nicas de produção mais avançadas; redução da produção de produtos com demanda em estagnação e aumento daqueles com maior procura; investimentos de racionalização de custos com matérias-primas, ener- gia, força de trabalho e emprego de capital fixo; crescimento da veloci- dade de circulação do capital; intensificação dos processos de trabalho, no sentido de aumentar de maneira mais durável a taxa de mais valia relativa; redistribuição de antigos mercados, dentre outros. Para Behring e Boschetti (2006, p. 124), essas medidas implicaram em uma “ati- tude defensiva e ainda mais corporativa dos trabalhadores formais e um intenso processo de desorganização política de resistência operária e popular”, na qual a defesa por um novo modelo de organização política e econômica surte efeito com massificação das classes sociais na conquista da democracia e da extinção da ditadura militar. 127 Projeto Ético-Político do Serviço Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Desta forma, o Serviço Social incorpora esse processo de lutas, e nos dizeres de Abramides (2006, p. 33), a “vinculação com o movimento social se torna constitutivamente determinante na construção do Projeto Ético Político Profissional, [...] que supõe o compromisso com os interesses imediatos e históricos da classe trabalhadora”. Sobre essa questão, a autora Teixeira salienta a principal razão de o projeto profissional do Serviço Social ser um Projeto Ético-Político: Assim, temos um pressuposto fundante do projeto ético-político: a sua relação ineliminável com os projetos de transformação ou de conservação da ordem social. Dessa forma, nosso projeto filia-se a um ou outro projeto de sociedade não se confundindo com ele. Não há dúvidas de que o projeto ético-político do Serviço Social brasilei- ro está vinculado a um projeto de transformação da sociedade. Essa vinculação se dá pela própria exigência que a dimensão política da intervenção profissional põe. Ao atuarmos no movimento contradi- tório das classes, acabamos por imprimir uma direção social às nossas ações profissionais que favorecem a um ou a outro projeto societário. Nas diversas e variadas ações que efetuamos como plantões de atendi- mento, salas de espera, processos de supervisão e/ou planejamento de serviços sociais, das ações mais simples às intervenções mais comple- xas do cotidiano profissional, nelas mesmas, embutimos determinada direção social entrelaçada por uma valoração ética específica. As de- mandas (de classes, mescladas por várias outras mediações presentes nas relações sociais) que se apresentam a nós manifestam-se, em sua empiria, às vezes, revestidas de um caráter mistificador, nem sempre revelando seus reais determinantes e as questões sociais que portam, daí que essas demandas devem ser processadas teoricamente. Tendo consciência ou não, interpretando ou não as demandas de classes (e suas necessidades sociais) que chegam até nós em nosso cotidiano profissional, dirigimos nossas ações favorecendo interesses sociais distintos e contraditórios (TEIXEIRA, 2009, p. 6, grifo nosso). © sh ut te rs to ck OS PROJETOS SOCIETÁRIOS, OS PROJETOS PROFISSIONAIS E O PROJETO ÉTICO-POLÍTICO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IV Diante dessa concepção sobre o Projeto Ético-Político do Serviço Social, o seu desenvolvimento requer uma estrutura básica, apresentada por Netto (1999, p. 3): Os projetos profissionais apresentam a auto-imagem de uma profissão, elegem os valores que a legitimam socialmente, delimitam e priorizam seus objetivos e funções, formulam os requisitos (teóricos, práticos e institucionais) para o seu exercício, prescrevem normas para o com- portamento dos profissionais e estabelecem as bases das suas relações com os usuários de seus serviços, com as outras profissões e com as organizações e instituições sociais privadas e públicas (inclusive o Esta- do, a que cabe o reconhecimento jurídico dos estatutos profissionais). Partindo dessa estrutura básica, a profissão busca materializar os aspectos sócio- históricos, mas o que estamos querendo dizer com isso? A autora Teixeira (2009, p. 7) explica que a partir destes aspectos a profissão concretiza “os seus valores éticos, a matriz teórico/metodológica marxista, a crítica radical à ordem social vigente [...] e as lutas e posicionamentos políticos acumulados pela cate- goria profissional em aliança aos setores mais progressistas da sociedade”. Para que o projeto ético-político profissional seja reconhecido pela cate- goria e executado no quotidiano profissional, algumas características são necessárias, quais sejam: ■ Os projetos profissionais são construídos por um sujeito coletivo, ou seja, a categoria profissional, e que deve obrigatoriamente envolver todos os sujeitos que dão instrumentalidade para a profissão. Segundo Netto (1999, p. 4), estes sujeitos são: 129Projeto Ético-Político do Serviço Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . É através da sua organização (envolvendo os profissionais, as institui- ções que os formam, os pesquisadores, os docentes e os estudantes da área, seus organismos corporativos, acadêmicos e sindicais etc.) que um corpo profissional elabora o seu projeto. Se considerarmos o Ser- viço Social no Brasil, tal organização compreende o sistema CFESS/ CRESS, a ABEPSS, a ENESSO, os sindicatos e as demais associações de assistentes sociais. ■ Dentro da estrutura e organização de projetos profissionais, a dimensão política deve estar presente, já que entre diferentes projetos há também a concorrência de projetos coletivos, inerente ao debate democrático, por isso, um projeto profissional é obrigatoriamente um projeto político. Sobre essa questão, já observamos que mesmo que um projeto não assuma sua posição frente aos interesses concorrentes entre projetos coletivos e societários, automaticamente está assumindo um posicionamento, seja ele transformador ou conservador. ■ Sobre o caráter político dos projetos, o autor Netto (1995, p. 5) explica: É importante ressaltar que os projetos profissionais também têm ineli- mináveis dimensões políticas, seja no sentido amplo (referido às suas relações com os projetos societários), seja em sentido estrito (referido às perspectivas particulares da profissão). Porém, nem sempre tais di- mensões são explicitadas, especialmente quando apontam para dire- ções conservadoras ou reacionárias. Um dos traços mais característi- cos do conservadorismo consiste na negação das dimensões políticas e ideológicas. ■ Diante do conflito de interesses que está na diversidade de concepções que existem no interior da categoria profissional, um fator determinante para equilibrar essa problemática é o respeito da presença do pluralismo. Por isso, é preciso ter clareza de que até mesmo o projeto ético-político é resultado da construção coletiva e hegemônica da categoria profissio- nal, estabelecendo aspectos imperativos e indicativos, o debate teórico, ético e político deve respeitar os posicionamentos contrários e realizá-los por meio do debate no plano das ideias e jamais pela coerção, pressão ou violência. Por isso, o pluralismo é importante para movimentar e propor respostas efetivas para atender aos problemas que emergem constante- mente para a profissão. Temos como principal instrumento legal de legitimação profissional que compõe um dos regramentos ético-políticos profissionais a Lei de Regula- mentação da Profissão, qual seja a Lei 8662/93. Esta estabelece as compe- tências e atribuições privativas do assistente social. Para saber mais sobre a Lei 8662/93 de regulamentação da profissão, acesse o link <http://www. cfess.org.br/arquivos/legislacao_lei_8662.pdf>. Fonte: BRASIL. Lei Nº 8.662, de 7 de junho de 1993. Regulamentação da profissão. Dispõe sobre a profissão de Assistente Social e dá outras provi- dências. Conselho Federal de Serviço Social, Brasília, DF, 7 jun. 1993. Dis- ponível em: <http://www.cfess.org.br/arquivos/legislacao_lei_8662.pdf>. Acesso em: 13 maio 2015. OS PROJETOS SOCIETÁRIOS, OS PROJETOS PROFISSIONAIS E O PROJETO ÉTICO-POLÍTICO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IV ■ Os projetos profissionais requerem componentes imperativos, pois são elementos obrigatórios a todos que exercem a profissão. Os elementos imperativos são os aspectos jurídicos legais e jurídicos políticos que regu- lam toda a categoria profissional. Os aspectos jurídicos legais são todas as leis, resoluções e portarias que regem o exercício profissional, dentre elas as principais são a Lei de Regulamentação da profissão (8662/93), o Código de Ética Profissional de 1993, e as Diretrizes Curriculares de 1996. Os aspectos jurídicos políticos são todas as leis que partem do artigo 6º da Constituição Federal, que prevê a garantia dos direitos sociais e que, de maneira transversal, representam os princípios ético-políticos profissio- nais, por exemplo, a Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS), Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), Estatuto do Idoso, Lei Orgânica da Saúde (LOS) (NETTO, 1995; TEIXEIRA, 2009). http://www.cfess.org.br/arquivos/legislacao_lei_8662.pdf 131 Projeto Ético-Político do Serviço Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . ■ Os projetos profissionais requerem componentes indicativos. Segundo Netto (1995, p. 8), são aqueles “em torno dos quais não há um consenso mínimo que garanta seu cumprimento rigoroso e idêntico por todos os membros do corpo profissional”. Sobre os indicativos, Netto fala do código de ética, que embora componha o arcabouço jurídico legal da pro- fissão, sendo passível de punição caso haja o seu descumprimento, é um componente passível de contestações de práticas diferenciadas sob um mesmo princípio. ■ Os projetos profissionais possuem instâncias político-organizativas; segundo Teixeira (2005), essas instâncias representam os espaços demo- cráticos de organização para debater sobre a profissão, seus rumos, revisões, enfrentamentos, alianças e principalmente sobre o projeto ético-político. O conjunto Conselho Federal de Serviço Social (CFESS)/Conselho Regional de Serviço Social (CRESS), a Associação Brasileira de Ensino e Pesquisa em Serviço Social (ABEPSS), os Centros e Diretórios Acadêmicos, a Executiva Nacional de Estudantes de Serviço Social (ENESSO) são exem- plos dessas instâncias (TEIXEIRA, 2005). ■ Os projetos profissionais produzem conhecimento teórico-crítico. Na medida em que a profissão avança no campo científico de produção de conhecimentos relacionados às ciências sociais, desenvolve-se a investi- gação acerca da realidade social subsidiada pela teoria histórico-crítica marxista, que direciona a profissão na esfera interventiva para a defesa de projetos societários da classe trabalhadora, para recusa de concepções conservadoras e tradicionais que não conseguem explicar a realidade e para propor alternativas de enfrentamento para os problemas e desdo- bramentos da questão social (TEIXEIRA, 2005). ■ Os projetos profissionais requerem sempre uma fundamentação de natureza ética que extrapola o ordenamento jurídico legal e impõe o aprofundamento ético, ideológico e político do profissional para além do código de ética. Este, por sua vez, não deve ser considerado um manual de direitos e deveres a ser seguido, uma vez que só tem real efetividade se o profissional idealizar objetivamente, no âmbito político-ideológico, os princípios éticos pensados por toda a profissão. OS PROJETOS SOCIETÁRIOS, OS PROJETOS PROFISSIONAIS E O PROJETO ÉTICO-POLÍTICO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IV Diante das características estruturantes do Projeto Ético-Político do Serviço Social, devemos ressaltar que é um projeto profissional articulado com o pro- jeto societário de transformação social. Compreende-se a profissão no âmbito do conflito de classes, partindo das suas contradições e do interesse em fortalecer a consciência de classe para alcançar uma sociedade justa, emancipada, demo- crática e livre que garanta a divisão da riqueza socialmente produzida. Com isso, estamos falando não só de trabalho e renda, mas da emancipação dos sujeitos sociais na sua complexidade. Por essas questões, temos um projeto ético-político e devemos materializá-lo na prática profissional por meio de uma intervenção consciente e pautada na análise crítica, ancorada numa teoria que consiga expli- car o movimento do real. Pode parecer utópico alcançar uma sociedade para além do capital, mas a história nos dá provas constantes de que a classe que luta é a classe que tem o futuro nasmãos. É importante trazer uma frase para finali- zar esta unidade, que nos diz: Uma coisa me parece clara: as contradições da ordem burguesa, exponen- ciadas nos últimos 30 anos, terão o seu desfecho. Uma possibilidade é o pro- cesso revolucionário capaz de suprimir a ordem burguesa. Outra é, simples- mente, a destruição da vida sobre o planeta. A alternativa concreta é, pois, socialismo ou barbárie. Fonte: Netto (2011, p. 340) ©shutterstock 133 Projeto Ético-Político do Serviço Social Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Cabe a nós, assistentes sociais, decidir a que projeto societário o projeto pro- fissional atenderá, a transformação ou a manutenção! Como reforçar e consolidar esse projeto político profissional em um terreno profundamente adverso? Como atualizá-lo ante o novo contexto social, sem abrir mão dos princípios ético-políticos que o norteiam? Fonte: Abramides (2006). OS PROJETOS SOCIETÁRIOS, OS PROJETOS PROFISSIONAIS E O PROJETO ÉTICO-POLÍTICO Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. IV CONSIDERAÇÕES FINAIS Caro(a) aluno(a), estamos finalizando a unidade IV e podemos compreender que o projeto ético-político profissional do Serviço Social não é apenas um con- junto de instrumentos legais que regulamentam o exercício da profissão, mas é um processo que representa o debate no interior da categoria sobre os rumos da profissão frente ao confronto de classes. Esse confronto revela que a socie- dade capitalista se movimenta pelas relações sociais contraditórias entre capital e trabalho, que buscam construir mecanismos políticos e ideológicos da ideali- zação de projetos de sociedade. Estes são os projetos societários que apresentam de um lado a busca pela manutenção dessas relações sociais capitalistas, ou a sua superação, almejando uma sociedade livre, justa, emancipada e igual para todos. O posicionamento da categoria profissional frente a tais projetos de socie- dade se modificou ao longo da história, apresentando que a visão tradicional do Serviço Social, em relação à realidade social, demonstrava que o seu projeto profissional não era um projeto ético-político, mas um projeto conservador e incapaz de compreender de fato o que é a sociedade capitalista. Na medida em que a história avança e se agravam os conflitos de classe, principalmente com o fortalecimento da consciência da classe trabalhadora em luta por direitos, o debate teórico-metodológico incorpora a teoria marxista e, por intermédio de lentes que possibilitaram sair da aparência dos fenômenos e compreender a essência desse modo de produção e de relações sociais, a cate- goria busca, a partir do movimento de reconceituação e principalmente após a queda do regime militar, construir o que denominamos de projeto ético-polí- tico profissional. Esse projeto ético-político profissional busca na sua essência construir um projeto profissional articulado com os interesses societários da classe trabalha- dora de transformação social, que diante da sua condição de exploração se alia a projetos coletivos profissionais para buscar a superação dessas relações e subs- titui-las por meios de produção e de vida que garantam a divisão da riqueza socialmente produzida e com ela e emancipação humana dos sujeitos na sua complexidade. Por essas questões devemos caminhar, mesmo que a passos len- tos, para uma sociedade livre, justa e igual para todos. 135 Considerações Finais Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Devemos salientar que essa posição ética e política não é construída sob bases manipulatórias e argumentos vazios, muito pelo contrário, é produto teórico e prático dessas mesmas relações sociais que, a partir do método de apreensão do movimento do real e de teoria do real, nos permitiu e continua permitindo elevar ao pensamento a essência do modo de produção capitalista, e a partir da compreensão clara da sua estrutura e dinâmica é impossível conceber esta socie- dade como a melhor possibilidade de vida social para todos. Partindo desse pressuposto, uma sociedade livre não é a que pensa. “O meu direito termina quando começa o do outro”, isso é uma concepção individualista de sociedade. Mas, é realmente livre, para todos e na mesma medida, quando passa a se reconhecer enquanto classe, como sujeitos coletivos que somos. Essa frase que parece ser algo justo e civilizado é transformada na seguinte concep- ção: “O meu direito termina quando também termina o direito do outro!” Esperamos que tenha compreendido a unidade e avançado nos estudos da disciplina de Fundamentos II. 1. De acordo com a unidade IV do livro, quais são os principais aspectos jurídicos legais que materializam o projeto ético-político do Serviço Social? 2. No âmbito do Movimento de Reconceituação, quais foram as três vertentes que apresentaram projetos profissionais diferentes? 3. Por que o projeto profissional hegemônico do Serviço Social é um projeto Ético -Político? 137 LUTAS SOCIAIS, PROJETOS PROFISSIONAIS E SERVIÇO SOCIAL (...) Em se pensando a filiação teórica de tal projeto e a direção por ele posta, se por um lado temos a legitimidade do vínculo com as lutas sociais e populares, por outro, ao pensar a contradição entre capital e trabalho, não estaremos numa situação confortável como poderíamos supor: (1) se é fato, e o é, que o projeto ético-político do Serviço Social tem como horizonte histórico a construção de outra ordem societária sem dominação-exploração de classe, etnia e gênero e tendo como valor central a liberdade, nada mais antagônico ao propos- to pela ordem social vigente, logo, nada mais difícil que a defesa e implementação de tal projeto; (2) se a defesa de tal projeto se antagoniza com a ordem social vigente, a posição do pro- fissional não deveria ser a da cooperação, mas a de confronto e de superação do mesmo, contudo, ao pensarmos os vínculos empregatícios do profissional de Serviço Social, e o que é esperado dele em tais espaços, podemos supor que na esmagadora maioria das vezes não será solicitada do profissional nenhuma proposta transformadora, quando muito reformista; (3) mesmo considerando a direção hegemônica posta para a profissão vinculada à pers- pectiva histórico-crítica, ainda assim, não seria possível uma vinculação plena da pro- fissão com as lutas sociais e populares, pois, se não foi permitida ao Serviço Social a ruptura total com seu histórico conservadorismo, reafirmar essa unilateralidade seria um equívoco teórico-metodológico, pois, conforme se argumentou até aqui, os proje- tos profissionais não são monolíticos e homogêneos, constituem-se no contraditório do movimento real da história, nos processos de produção e reprodução social, reconhecer essa construção plural e a existência de projetos profissionais antagônicos é reconhecer sua construção dialética e sua determinação sócio-histórica, onde pelo mesmo objeto de intervenção profissional reproduza: (...) pela mesma atividade, interesses contrapostos que convivem em tensão. Responde tanto a demandas do capital como do trabalho e só pode fortalecer um ou outro pólo pela mediação do seu oposto. Participa tanto dos mecanismos de dominação e explo- ração como, ao mesmo tempo e pela mesma atividade, da resposta às necessidades de sobrevivência da classe trabalhadora e da reprodução do antagonismo nesses inte- resses sociais, reforçando as contradições que constituem o móvel básico da história. A partir dessa compreensão é que se pode estabelecer uma estratégia profissional e política para fortalecer as metas do capital ou do trabalho, mas não se pode excluí-las do contexto da prática profissional, visto que as classes só existem inter-relacionadas. É isto, inclusive, que viabiliza a possibilidade de o profissionalcolocar-se no horizonte das classes trabalhadoras (IAMAMOTO, 2009, p. 75). E nesse processo de disputas pela hegemonia entre projetos profissionais, situam-se basicamente duas tendências: 1) Neoconservadora: com tendências pós-modernas, que situam a ação profissional como um campo de fragmentos restritos às demandas do mercado de trabalho, que não permite extrapolar a aparência dos fenômenos sociais e reafirmam a base refor- mista e ideo-política da ordem burguesa, ainda que sob um discurso de apoio às lutas populares. 2) Da tradição Marxista: cuja ação profissional calcada em uma perspectiva de totalida- de, legitimando o caráter histórico-ontológico, buscando efetivar a leitura teórico-crítica do atual processo de desenvolvimento capitalista e suas particularidades no Brasil e no campo das políticas públicas, bem como seus rebatimentos no exercício profissional. Dessa forma, é na estreita articulação com os movimentos, entidades e forças políticas dos trabalhadores em defesa dos direitos humanos e sociais que se consolidam as bases para o fortalecimento da segunda tendência apontada. O Serviço Social, como profissão historicamente determinada, reconhece a sua com- plexidade, inserida e construída no movimento real da formação social capitalista. O problema que se apresenta não seria de articulação, mas de condução do mesmo, de acordo com as situações propostas anteriormente, quais sejam: pelo enfrentamento di- reto ao capitalismo; pelas organizações que o contratam; pela vinculação orgânica com suas raízes conservadoras; pela forma mesma de organização de nossa sociedade onde a contradição está posta para todos os níveis da vida social. Para tanto, é preciso investir em um projeto coletivo tendo em vista superar as contradi- ções engendradas pela ordem social burguesa. O conhecimento contribui para a conso- lidação de uma prática calcada em uma perspectiva histórico-crítica. Nesse processo, o projeto profissional constitui-se em um guia para a intervenção, articula, em uma pers- pectiva de totalidade, na relação entre teleologia e causalidade, pois estabelece finali- dades e antecipa resultados, não se converte no âmbito exclusivo do imediato, está, a princípio na esfera da intencionalidade, porém implica em compreender a racionalidade que permeia as requisições instrumentais, sempre recolocadas como uma necessidade urgente e imediata. Implica ainda, apreender o movimento das classes sociais e do Esta- do, para iluminar a leitura da realidade. Fonte: ALVES, Lelis Glaucia; VIEIRA, Luiz Augusto. Lutas Sociais, Projetos Profissionais e Serviço Social. Em Pauta: revista Libertas, da Faculdade de Serviço Social, Universidade Federal de Juiz de Fora, Minas Gerais, v. 14, n. 1, 2014. Disponível em: <http://libertas.ufjf. emnuvens.com.br/libertas/article/view/2864/2158>. Acesso em: 19 maio 2015. http://libertas.ufjf.emnuvens.com.br/libertas/article/view/2864/2158 http://libertas.ufjf.emnuvens.com.br/libertas/article/view/2864/2158 Material Complementar MATERIAL COMPLEMENTAR Projeto Ético-Político do Serviço Social - Contribuições à Sua Crítica Valeria Forti e Yolanda Guerra Demetrio Editora: Lumen Juris Sinopse: A coletânea que vem a público expressa o compromisso histórico e político na trajetória de uma profissão, em prol da defesa de uma sociedade emancipada. Em tempos de desmonte dos direitos sociais conquistados, de financeirização e mercantilização da vida, de criminalização dos movimentos sociais, em particular, de ataque à educação e à formação crítica do Serviço Social, temos em mãos uma publicação que nos fortalece, nos encoraja e reanima o caminhar ético e político de nosso projeto profissional. A inquietação, os desafios e os nossos princípios fundamentais dirigem os artigos aqui presentes. É disso que precisamos, é assim que se faz ciência, política e História. Materialização do Projeto Ético-Político do Serviço Social Marcela Mary Jose da Silva Editora: Lumen Juris Sinopse: O livro teve por objetivo investigar como os assistentes sociais percebem a materialização do Projeto Ético-Político da profissão em seu cotidiano de trabalho, mapeando a compreensão de seu fazer profissional sobre o que é Projeto Ético-Político da Profissão do Serviço Social e observando a relação da formação profissional com essa possibilidade de materialização do Projeto. A autora fez um resgate crítico da história da profissão, discutiu como a história desse Projeto foi se consolidando até chegar à conformidade que tem, resultado do Código de Ética Profissional, da Lei de Regulamentação da Profissão (Lei 8662/93) e das Novas Diretrizes Curriculares dos Cursos de Serviço Social. Para a concretização do trabalho foi feita uma pesquisa, na qual 40 profissionais, com atuações nas esferas pública e privada, tanto da capital quando do interior do Estado da Bahia, oriundas de diversas escolas de formação e de Estados diferentes, responderam a um questionário com perguntas abertas sobre como eles compreendem a respeito do que seja o Projeto Ético-Político do Serviço Social. O livro convida aos profissionais e estudantes para refletirem sobre o projeto ético-político do Serviço Social brasileiro como fundado no ideal de transformação da sociedade, partindo das condições operativas em que se manifesta a realidade das práticas profissionais. U N ID A D E V Professora Esp. Daniela Sikorski O MOVIMENTO SÓCIO-HISTÓRICO E AS DEMANDAS TRADICIONAIS E EMERGENTES NA SOCIEDADE BRASILEIRA COLOCADAS À PROFISSÃO Objetivos de Aprendizagem ■ Apresentar o Serviço Social na contemporaneidade. ■ Proporcionar a articulação entre os conteúdos trabalhados na disciplina. ■ Contextualizar quanto à prática profissional do Assistente Social na atualidade, analisando os movimentos sócio-históricos. Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: ■ O Serviço Social na contemporaneidade ■ Demandas tradicionais e emergentes na sociedade brasileira colocadas à profissão e sua relação com a questão social INTRODUÇÃO Seja bem-vindo(a) à última etapa da nossa unidade de estudo da disciplina de Fundamentos Históricos e Teóricos Metodológicos do Serviço Social II. Esta uni- dade apresentará um conteúdo riquíssimo, pois vem estabelecer relação entre o Serviço Social, sua história, questão social e as demandas de trabalho do assis- tente social, de forma que o Serviço Social esteja atrelado à questão social e suas expressões. Nesta unidade, além de resgatarmos alguns pontos históricos da profissão, teremos a oportunidade de refletir sobre elementos relevantes para o exercício profissional junto à demanda usuária atingida diretamente pelas questões sociais. Assim, abordaremos a real necessidade de compreender o cotidiano na sua profundidade, de sairmos do mundo das aparências e analisá-las criticamente, pois é no cotidiano que se revelam todas as problemáticas sociais. A partir do cotidiano, que é vivido e sentido pelo usuário, o assistente social estabelece sua intervenção profissional. Trataremos ainda da discussão a respeito do assistente social como profis- sional inserido no contexto do sistema capitalista, apresentando-se como um assalariado, vivendo as mesmas tensões que os demais indivíduos da sociedade. Como então ser um profissional que atua no enfrentamento das questões sociais, se ao mesmo tempo também é atingido por elas? Esta unidade contribuirá para muitos esclarecimentos que ainda permeiam a sua caminhada enquanto profissional em processo de formação e contudo deixará instalado em você uma série de novas indagações e inquietações que construirá o seu conhecimento. Este é o mundo dinâmico, pois é a partir das inquietações que as investigações acontecem, e a profissão vai ganhando corpo teórico e avançando para a análise e decodificação de muitos outros problemas. Uma profissão em constante transformação que conta com você para con- tinuar a construir essa história. Conto com você nesta etapa,sucesso! Bons estudos! Um grande abraço! Professora Daniela Sikorski. 143 Introdução Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . O MOVIMENTO SÓCIO-HISTÓRICO E AS DEMANDAS TRADICIONAIS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V O SERVIÇO SOCIAL NA CONTEMPORANEIDADE Para darmos seguimento nesta última unidade, é muito importante que você tenha se dedicado ao estudo das unidades anteriores, pois elas trazem elemen- tos significativos que contribuirão para entendermos as demandas do Serviço Social na atualidade, bem como o papel do Serviço Social junto ao enfrenta- mento das expressões sociais agravadas em nosso país. Sugerimos que você realize as leituras complementares nos momentos indi- cados para que possa ter maior compreensão da discussão proposta. Veremos alguns dos desafios postos para o Serviço Social e como a categoria profissional vem se direcionando para sermos profissionais atualizados e ante- nados com os tempos atuais. Teremos a contribuição de autores como Marilda Vilela Iamamoto, José Paulo Neto, Vicente de Paula Faleiros, entre outros estudio- sos que enquanto assistentes sociais também se dedicam a construir e apresentar análises da nossa profissão. Contamos com você, com a certeza de que juntos iremos construir uma bonita história. Sua dedicação e empenho são imprescindíveis para enriquecer- mos nosso estudo! Propomos uma pausa para leitura complementar: “Serviço Social e Contemporaneidade: Afirmação de direitos e emancipação política?”, inserida no final de nossa unidade, visto que ela irá lhe auxiliar ao longo desta unidade de estudo, boa leitura! Então, caro(a) aluno(a), a leitura vai te ajudar a contextualizar o Serviço Social e a alguns dos desafios postos na atualidade? Espero que sim, logo, vamos dar continuidade no nosso estudo, ok? Muitos estudos e pesquisas trazem a discussão acerca do Serviço Social nos dias atuais, e esse tema vem se renovando, pois as mudanças são constantes e permanentes. A autora Marilda Vilela Iamamoto é uma das autoras que realiza seus estudos sobre o Serviço Social na contemporaneidade, o sistema capitalista, o mercado de trabalho e afins. 145 O Serviço Social na Contemporaneidade Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Um dos pontos para que a autora chama atenção é o fenômeno da globalização, pois ele produz o desemprego estrutural, é o chamado subemprego, ou também o não emprego forçado. Esse desemprego estrutural amplia em demasiado a exclusão de diversas camadas da população mundial, agravando sobremaneira as múltiplas expressões da questão social, base sócio-histórica da requisição da profissão. No âmbito do processo de trabalho do assistente social, é possível atestar o crescimento da demanda por serviços sociais, o aumento da seletividade no âmbito das políticas sociais, a diminuição dos recursos, dos salários, a imposi- ção de critérios mais restritivos nas possibilidades da população ter acesso aos direitos sociais, materializados em serviços sociais políticos. A realidade sócio-histórica da sociedade brasileira influencia também o coti- diano da atividade profissional do assistente social, afeta as condições e relações de trabalho da nossa profissão (assim como de outras profissões) e a condição de vida da população usuária do Serviço Social. Pensar o Serviço Social na contemporaneidade requer os olhos abertos para decifrá-lo e participar de sua recriação. Um grande pensador ale- mão do século XIX dizia o seguinte: ‘a crítica não arranca flores ima- ginárias dos grilhões para que os homens suportem os grilhões sem fantasia e consolo, mas para que se livrem deles e possam brotar as flores vivas’. É esse o sentido da crítica: tirar as fantasias que encobrem os grilhões para que se possa livrar deles, libertando os elos que aprisio- nam o pleno desenvolvimento dos indivíduos sociais (IAMAMOTO, 2007, p.19). © is to ck O MOVIMENTO SÓCIO-HISTÓRICO E AS DEMANDAS TRADICIONAIS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V Considerando o exposto susodito, a autora ainda pontua que um dos desafios da profissão é: [...] inquirir a realidade buscando pelo seu deciframento, o desenvol- vimento de um trabalho pautado no zelo pela qualidade dos serviços prestados, na defesa da universalidade dos serviços públicos, na atuali- zação dos compromissos ético-políticos com os interesses coletivos da população usuária (IAMAMOTO, 2007, p. 19-20). Toda e qualquer análise sobre a nossa profissão não pode estar desconecta com a realidade, não podemos simplesmente fazer um recorte que mais nos agrada, devemos ter um olhar crítico apurado e capacidade analítica aguçada, não fan- tasiosa, romântica ou encantada. É muito importante que você, enquanto futuro(a) assistente social, rompa com a visão simplista da profissão, procure se conectar com os acontecimen- tos da nossa sociedade e busque analisá-los relacionando os impactos em nossa profissão, assim irá exercitando a sua criticidade, tornando-se um(a) profissio- nal cada vez mais antenado(a) e capaz de propor soluções aptas a contribuir para o enfrentamento das múlti- plas expressões das questões sociais. Leia com calma e aten- ção a citação a seguir, pois, após tudo o que você estu- dou ao longo das unidades anteriores, irá compreender como a história da profis- são contribuiu para que hoje possamos atuar enquanto assistentes sociais: ©Monkey Business Images 147 O Serviço Social na Contemporaneidade Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . [...] para garantir a sintonia do Serviço Social com os tempos atuais, é necessário romper com uma visão endógena, focalista, uma visão ‘de dentro’ do Serviço Social, prisioneira em seus muros internos. Alar- gar os horizontes, olhar para mais longe, para o movimento das classes sociais e do Estado em suas relações com a sociedade; não para perder ou diluir as particularidades profissionais, mas, ao contrário, para ilu- miná-las com maior nitidez. Extrapolar o Serviço Social para melhor apreendê-lo na história da sociedade da qual ele é parte e expressão. É importante sair da redoma de vidro que aprisiona os assistentes sociais numa visão de dentro e para dentro do Serviço Social, como precondi- ção para que se possa captar as novas mediações e requalificar o fazer profissional, identificando suas particularidades e descobrir alternati- vas de ação (IAMAMOTO, 2007, p. 20). Para você que deseja ser um profissional qualificado e capacitado no mercado, é preciso que transcenda a ideia do Serviço Social como uma simples profissão, desenvolva habilidades e competências que o coloquem como um profissional diferenciado e não um mero executor de tarefas. Um dos desafios dos assisten- tes sociais há algum tempo é romper com a atividade meramente burocrática, prio- rizar as atividades rotineiras, pois a ação profissional vai além disso. A ação profissio- nal que se espera é: O MOVIMENTO SÓCIO-HISTÓRICO E AS DEMANDAS TRADICIONAIS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V [...] uma ação de um sujeito profissional que tem competência para propor, para negociar com a instituição os seus projetos, para defen- der o seu campo de trabalho, suas qualificações e funções profissionais. Requer, pois, ir além das rotinas institucionais e buscar apreender o movimento da realidade para detectar tendências e possibilidades nela presentes passíveis de serem impulsionadas pelo profissional (IAMA- MOTO, 2007, p. 21). Analisando a colocação supracitada de Iamamoto (2007), propomos uma ativi- dade a partir de outra reflexão da mesma autora: Umdos desafios do assistente social é o de desenvolver sua capacida- de de decifrar a realidade e construir propostas de trabalho criativas e capazes de preservar e efetivar direitos, a partir de demandas emer- gentes no cotidiano. Enfim, ser um profissional propositivo e não só executivo. Enfim, ser um profissional propositivo e não só executivo (IAMAMOTO, 2007, p. 20). Você que está neste processo formativo profissional, deve estar aberto ao novo, a descontruir e reconstruir conceitos, formar a sua visão de ser humano e de mundo. Hoje, o próprio mercado demanda, além de um trabalho na esfera da execu- ção, a formulação de políticas públicas e a gestão de políticas sociais. Não se trata de tornar-se um “superman”, ou então “mulher mara- vilha”, o assistente social não deve ser encarado ou compreendido a partir de uma proposta messiânica, heroica, e sim colaborativa, formadora, educadora e viabilizadora dos direitos e autono- mia humana. Caro(a) aluno(a), após essa explanação, pense consigo: o que o(a) levou a optar pelo curso de Serviço Social? Quais foram as suas motivações? O que você imaginava fazer um(a) assistente social? Até o presente momento, alguma concepção inicial mudou? Qual? Por quê? Fonte: a autora. 149 O Serviço Social na Contemporaneidade Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Outra questão a ser considerada é que o Serviço Social é uma especialização do trabalho, uma profissão particular inscrita na divisão social e técnica do trabalho coletivo da sociedade. Quando o Estado se “amplia”, passando a tratar a questão social não só pela coerção, mas buscando um consenso na sociedade, são cria- das as bases históricas de nossa demanda profissional. As mudanças que vêm ocorrendo no mundo do trabalho e na esfera estatal, em suas relações com a sociedade civil, incidem diretamente sobre os rumos do desenvolvimento dessa profissão na sociedade. A abordagem do Serviço Social como trabalho supõe apreender a chamada “prática profissional” profundamente condicionada pelas re- lações entre Estado e a Sociedade Civil, ou seja, pelas relações entre as classes na sociedade, rompendo com endogenia no Serviço Social, aceita-se, como senso comum, que a profissionalização do Serviço So- cial surge de uma tecnificação da filantropia. Inclusive é esta a tônica do discurso da maioria dos pioneiros e da literatura especializada – mesmo na época do movimento de reconceituação -, que sustenta que o Serviço Social se torna profissão ao se atribuir uma base técnico-cien- tífica às atividades de ajuda, à filantropia. Esta é uma visão de dentro e por dentro das fronteiras do Serviço Social, como se ele fosse fruto de uma evolução interna e autônoma das formas de proteção e de apoio social (IAMAMOTO, 2007, p. 23). Interessante a observação da autora, uma vez que neste contexto podemos com- preender que o Serviço Social enquanto profissão não é estático na sociedade, influencia e também é influenciado por ela, acompanha o movimento histórico- -social e se configura enquanto uma profissão contextualizada, isso não significa que tais mudanças sejam pacíficas ou consensuais. © sh ut te rs to ck O MOVIMENTO SÓCIO-HISTÓRICO E AS DEMANDAS TRADICIONAIS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V A partir do momento em que o Serviço Social se configura enquanto força de trabalho inserida no universo de mercantilização, concebemos que o assis- tente social realiza o seu trabalho em troca de uma remuneração, ou seja, de um salário. O assistente social é: [...] um trabalhador especializado, que vende a sua capacidade de tra- balho para algumas entidades empregadoras, predominantemente de caráter patronal, empresarial ou estatal, que demandam essa força de trabalho qualificada e a contratam. Esse processo de compra e venda da força de trabalho especializada em troca de um salário faz com que o Serviço Social ingresse no universo da mercantilização, no universo do valor. A profissão passa a constituir-se como parte do trabalho so- cial produzido pelo conjunto da sociedade, participando da criação e prestação de serviços que atendem às necessidades sociais, isto é, têm um valor de uso, uma utilidade social (IAMAMOTO, 2007, p. 23-24). A reflexão da autora não se encerra aí, continuemos a nossa leitura: [...] Por outro lado, os assistentes sociais também participam, como trabalhadores assalariados, do processo de produção e/ou de redistri- buição da riqueza social. Seu trabalho não resulta apenas em serviços úteis, mas ele tem um efeito na produção ou na redistribuição do valor e da mais-valia. Assim, por exemplo, na empresa, o assistente social © sh ut te rs to ck 151 O Serviço Social na Contemporaneidade Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . pode participar do processo de reprodução da força de trabalho coleti- vo, produtivo da mais-valia. Já na esfera do Estado, no campo da pres- tação de serviços sociais, pode participar do processo de redistribuição da mais-valia, via fundo público (IAMAMOTO, 2007, p.23-24). O Serviço Social, sendo trabalho, participa da pro- dução/reprodução da vida social. Quando se fala nessa produção/reprodução, não é apenas a dimensão econô- mica que é ressaltada, mas a reprodução das relações sociais de indivíduos, grupos e classes sociais. Essas rela- ções sociais envolvem poder, sendo relações de luta e con- fronto entre as classes e segmentos sociais, que têm no Estado uma expressão condensada da trama do poder vigente na sociedade. A questão social (e suas múltiplas expressões, tais como a fome, o desem- prego, a doença etc.) é a base da fundação do Serviço Social como especialização do trabalho. É o conjunto das expressões das desigualdades da sociedade capi- talista moderna, que tem como raiz comum: a produção social cada vez mais coletiva e a apropriação dos seus frutos mantendo-se privada, monopolizada por uma parte da sociedade (IAMAMOTO, 2007). De acordo com Iamamoto (2007, p. 28), as bases da produção da riqueza na sociedade capitalista fazem crescer a distância entre a concentração/acumula- ção de capital e a produção crescente da miséria, da pauperização que atinge a maioria da população nos vários países, inclusive naqueles mais desenvolvidos. Nessa tensão entre produção da desigualdade e produção da rebeldia e da resistência, situadas nos terrenos movidos por interesses sociais distintos, aos quais não é possível abstrair ou deles fugir, porque tecem a vida em sociedade, é que trabalha o assistente social. ©shutterstock O MOVIMENTO SÓCIO-HISTÓRICO E AS DEMANDAS TRADICIONAIS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V Os assistentes sociais trabalham com a questão social nas mais varia- das expressões quotidianas, tais como os indivíduos as experimentam no trabalho, na família, na área habitacional, na saúde, na assistência social pública, etc. questão social que sendo desigualdade é também rebeldia, por envolver sujeitos que vivenciam as desigualdades e a ela resistem e se opõem (IAMAMOTO, 2007, p. 28). As tendências do mercado de trabalho, apon- tadas por inúmeros estudiosos, indicam uma classe trabalhadora polarizada, com uma pequena parcela com emprego estável, dotada de força de trabalho qualificada e com acesso a direitos trabalhistas e sociais, e uma larga parcela da população com trabalhos precá- rios, temporários, subcontratados etc. A autora chama a nossa atenção para o fenômeno de uma nova pobreza de amplos segmentos da população, cuja força de traba- lho não tem preço, porque não tem mais lugar no mercado de trabalho. São estoques de força de trabalho descartáveis para o mercado de trabalho, colocando em risco para esses segmentos a possibilidade dedefesa e reprodução da própria vida. As lutas sindicais encontram-se fragilizadas e a defesa do trabalho é difi- cultada diante do crescimento das taxas de desemprego. As transformações no mundo do trabalho vêm acompanhadas de profundas mudanças na esfera do Estado, consubstanciadas na reforma do Estado exigida pelas “políticas de ajuste”, tal como recomendada pelo consenso de Washington. Em função da crise fiscal do Estado em um contexto recessivo, são reduzidas as possibilidades de finan- ciamento dos serviços públicos; ao mesmo tempo, preceitua-se o “enxugamento” dos gastos governamentais, segundo os parâmetros neoliberais. Logo, O momento presente desafia os assistentes sociais a se qualificarem para acompanhar, atualizar e explicar as particularidades da questão social nos níveis nacional, regional e municipal, diante das estratégias de descentralização das políticas públicas, os assistentes sociais en- contram-se em contato direto e cotidiano com as questões de saúde ©istock 153 O Serviço Social na Contemporaneidade Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . pública, da criança e do adolescente, da terceira idade, da violência, da habitação, da educação, etc., acompanhando as diferentes maneiras como essas questões são experimentadas pelos sujeitos (IAMAMATO, 2007, p. 41). As diversas alterações na sociedade, no cenário político, social e econômico pos- suem impacto direto na vida profissional de trabalho, inclusive do assistente social, configurando e reconfigurando os espaços de atuação, por exemplo: o aumento da atuação do Serviço Social na área de recursos humanos das empresas, na esfera da assessoria gerencial e na criação dos comportamentos produtivos favoráveis para a força de trabalho, também denominado “clima social”. Ampliam-se as demandas ao nível da atuação nos círculos de controle de qualidade total, voltados ao controle da qualidade, ao estímulo de uma maior aproximação entre gerência e trabalhadores do chão da fábrica, valorizando um discurso de chamamento à participação. Verifica-se uma sensível mudança nas formas de pagamento, centrada em premiações e em sistemas meritocráti- cos de incentivos. A prática profissional não tem o poder miraculoso de revelar-se. Ela adquire inteligibilidade e sentido na história da sociedade da qual é parte e expressão. Assim, desvendar a prática profissional cotidiana supõe inseri-la no quadro das relações sociais fundamentais da sociedade, ou seja, entendê-la no jogo tenso das relações entre as classes sociais, suas frações e as relações destas com o Estado brasileiro. O MOVIMENTO SÓCIO-HISTÓRICO E AS DEMANDAS TRADICIONAIS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V Em segundo lugar, a autora Marilda Iamamoto sublinha o papel funda- mental da produção da vida real, da produção dos indivíduos sociais que têm no trabalho a atividade fundante, porque é no mundo da produção e não no da distribuição e consumo que está a fonte criadora da riqueza social e da consti- tuição dos sujeitos sociais. O terceiro pressuposto é a centralidade da história, por ser ela a fonte de nossos problemas e a chave de suas soluções. A seguir, Iamamoto (2007) indica alguns “temas ocultos” no debate profis- sional que não estão sendo objeto de reflexão na profissão: ■ A profissão tem olhado menos para a sociedade e mais para o Estado. A hipótese da autora é de que as reflexões sobre o fazer estão priorizando a análise da intervenção do Estado via políticas sociais públicas, por isso são extraídos os seus efeitos na sociedade. É imprescindível que olhemos para a sociedade, para o movimento das classes sociais, que têm sido relegadas a uma posição de relativa secundariedade no debate do Serviço Social. ■ Tendência a uma análise politicista das demandas profissionais, ou seja, uma análise da política que, muitas vezes, se descola das determinações econômicas: ao resvalarmos para uma análise politicista dos direitos sociais e das políticas sociais, absolveremos o capitalismo, caindo numa perspectiva no máximo distributiva da riqueza social, reconhecendo a sociedade capitalista e suas desigualdades como naturais. ■ Tendência a considerar a sociedade brasileira numa ótica meramente urbana: dificilmente em nossos debates os processos sociais agrários apa- recem articulados à questão urbana, correndo o perigo de reincidirmos no velho dualismo rural-urbano. Coerente com tais premissas, a autora inicia uma reflexão sobre o processo de pauperização em nossa sociedade, enraizada na órbita do trabalho. Por um lado, temos a modernidade econômica para o grande capital, que vem contando com o decisivo apoio do Estado via subsídios fiscais, de crédito e outras formas protecionistas estimuladas com a expansão monopolista, sob a égide do capitalismo financeiro. Por outro lado, a barbárie na reprodução das condições de vida da população trabalhadora, com a qual nos defrontamos coti- dianamente em nosso exercício profissional. A minimização da ação estatal na garantia das condições básicas de vida © is to ck 155 O Serviço Social na Contemporaneidade Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . do conjunto dos trabalhadores - resguardando-se contra a face de um Estado máximo para o capital - é campo fértil para a disseminação e reatualização de práticas de favor e do arbítrio, que têm na violência a sua contrapartida. Ao longo deste primeiro ponto, vimos diversas considerações relevantes quanto ao trabalho do assistente social, desafios e reflexões que irão nortear a sua ação. Separamos para você alguns pontos, leia e reflita: ■ Devemos como assistentes sociais romper com a visão de dentro para fora do Serviço Social. ■ Sair da “redoma de vidro” - romper certos paradigmas. ■ Olhar para fora - olhar o mundo, a sociedade, analisar o que se passa quando “olhamos para fora”, sentir o que se passa, apreender a realidade, trazendo descobertas reais/verdadeiras, captando as novas relações, para identificar os fatos e propor ações coerentes e efetivas. © is to ck O MOVIMENTO SÓCIO-HISTÓRICO E AS DEMANDAS TRADICIONAIS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V ■ É preciso olhar além do que se apresenta em sua frente, pois nem tudo é o que parece ser inicialmente (podemos nos enganar e sermos enganados). ■ Qual então o desafio do Assistente Social hoje? ■ Decifrar a realidade e então construir propostas de trabalhos criativos e capazes de preservar e efetivar direitos a partir de demandas emergen- tes no cotidiano (IAMAMOTO, 2009). ■ O Assistente Social tem que ter a capacidade de propor de maneira inteligente/capacitada, sendo um pro- fissional que entende e assume o que fala e se impõe sem medo! ■ Afinal, o profissional tem relação direta com as pessoas. ■ Não pode se manter e se contentar ape- nas com o fato em si, tem que entender o que envolve tal fato. ■ Não se deter apenas ao burocrático à rotina, mas ser e agir como um pro- fissional culto, pensante, consciente e crítico, para não se fechar em sua redoma de vidro (profissional alienado). ■ Competência para propor, negociar, defender, argumentar, criticar e assu- mir seus enganos e limitações. ■ Bola de cristal - Cartola mágica: não são daí que saem as alternativas, o mercado não dá espaço (ou não deveria) para quem é preguiçoso mental e as alternativas não caem prontas e acabadas do céu. Ser um constante investigador, um curioso nato que se atualiza constantemente. ■ Transformar as descobertas em propostas de ação. ■ “Essa compreensão é muito importante para se evitar uma atitude fata- lista do processo histórico...”, ou seja, se a realidade muda constantemente, as leis mudam, a política muda, as relações mudam,onde e como fica o assistente social? ©istock 157 O Serviço Social na Contemporaneidade Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . ■ Não ser um “João-Bobo”, nem cair no conformismo: “eu não posso, eu não consigo, não tenho forças”. ■ Não vamos mudar o mundo, contudo, devemos estar sempre confrontando as situações, tendo sempre a consci- ência de nossos limites e limitações (humanas e científicas). ■ “Olhar para fora do Serviço Social é condição para se romper tanto com uma visão rotineira, reiterativa e burocrática do Serviço Social, que impede vislumbrar possibilidades inovadoras para a ação, quanto com uma visão ilusória e desfocada da realidade, que não conduz a ações inócuas (inofensivas). Ambas têm um ponto em comum: estão de costas para a história, para os processos sociais contemporâneos” (IAMAMOTO, 1999, p. 22). ■ O Serviço Social se insere na divisão técnica do trabalho, somos assalaria- dos, como as demais profissões, devemos prezar a base técnica-científica, em todo e qualquer lugar em que nos encontrarmos (vendemos nosso serviço). ■ Como profissionais estamos sempre a serviço de determinado grupo que necessitar. ■ Para todos os profissionais, mas para nós especificamente, estarmos cien- tes que “... as desigualdades sociais sempre existiram e sempre existirão o que se pode fazer é minimizar as manifestações extremas de pauperização, por meio de uma melhor distribuição dos produtos do trabalho desde que mantida intocada a distribuição dos meios de produzir e, portanto, as bases sociais em que exige-se a sociedade de classes” (IAMAMOTO, 1999, p. 25). ■ Marx e Engels: “... o primeiro pressuposto de toda existência humana e, portanto, de toda a história, é que os homens devem estar em condições de viver para poder fazer história”, mas para poder viver é preciso comer, beber, ter habilitação, vestir-se e algumas coisas a mais. O primeiro ato histórico é, portanto, a produção de meios que permitam a satisfação dessas necessidades, a produção da própria vida material (IAMAMOTO, 1999, p. 26). O MOVIMENTO SÓCIO-HISTÓRICO E AS DEMANDAS TRADICIONAIS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V ■ As relações sociais abrangem “formas de pensar, isto é, formas de cons- ciência, através das quais se apreende a vida social” (IAMAMOTO, 1999, p. 27), relacionando-se com suas várias dimensões. DEMANDAS TRADICIONAIS E EMERGENTES NA SOCIEDADE BRASILEIRA COLOCADAS À PROFISSÃO E SUA RELAÇÃO COM A QUESTÃO SOCIAL Ao darmos continuidade a esta unidade de estudo, é importante que você tenha em mente toda a história da profissão já vista até aqui, bem como conceitos importantes já pontuados em todas as disciplinas do curso, assim, você conse- guirá compreender que todas as disciplinas se relacionam direta ou indiretamente. Você pode-se perguntar por quê. Dizemos que não é possível compreen- der as ações e objetivos da profissão na atualidade, sem que tenhamos claros os caminhos trilhados pela mesma ao longo de sua trajetória. Sendo assim, nada de preguiça, quando tiver dúvidas, recorra a outros materiais, pesquise, inves- tigue, se aprofunde. Assim, vamos analisar o trabalho do assistente social frente às manifesta- ções das questões sociais. Esse assunto dá margem para muitas reflexões, pois, como a profissão possui um amplo leque de atuação, podemos estabelecer discus- sões riquíssimas, já que faz parte do seu cotidiano; o que faremos é uma leitura crítica e profissional da realidade. Cabe também a reflexão acerca do contexto político e a sua relação com o enfrentamento das questões sociais e a atuação profissional nesse meio. Neste contexto, se faz necessário refrescar a memória dizendo que no Brasil, no início do século XX, a questão social resumia-se à “questão da moral” (ligada à religião, à higiene), ao comportamento dos indivíduos e à ordem. Lembra disso? ©istock 159 Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Lembre que as ações do profissional de Serviço Social eram focalizadas no indivíduo, e este era o principal responsável pelos seus problemas, a ele eram atribuídos as suas necessidades e problemas, o sujeito era considerado um fra- cassado social, como incapaz de gerir sua própria vida. A análise da conjuntura realizada pelo profissional de Serviço Social se limitava ao mundo de cada pessoa que estava sendo atendida, com o objetivo de melhorar seus comportamentos e suas condições, para que voltasse a se ajustar à sociedade, pois até então ele era um desajustado social. A extração de classes dos profissionais somada à ideologia religiosa conformava um perfil de assistente social que desconsiderava as condições concretas de vida do proleta- riado. A neutralidade sempre inexistiu no meio profissional, pois era bastante claro o conteúdo político que atravessava a prática desenvolvida. Ocorria um processo de “cul- pabilização” do proletário por sua situação: ele era considerado portador de uma “igno- rância natural”, baixo nível cultural, fraca formação moral, insuficiente em recursos econômicos, enfim, era presa fácil da “fanfarra subversiva”. O discurso caracterizava-se por ser doutrinário e moralista, ou seja, os pro- fissionais assumiam outra postura de conhecimento e decisão sobre o que era melhor para o outro; o julgamento moral tem como fundamento o esque- cimento das bases materiais das relações sociais. Na década de 70, na sociedade brasileira, tornou-se comum encontrar refe- rência a uma questão social caracterizada por uma série de novos problemas, novas formas de pobreza, nova exclusão social ou antigos problemas superdi- mensionados, por exemplo, aumento do desemprego e vulnerabilidade social. Demandas Tradicionais e Emergentes na Sociedade Brasileira Os assistentes sociais estão situados numa sociedade que é movida por inte- resses distintos e contraditórios, e procuram diariamente buscar esclarecer e servir de ponte para decifrar as mediações que na atualidade permeiam a questão social desfazendo os seus nós. Fonte: Iamamoto (2006). O MOVIMENTO SÓCIO-HISTÓRICO E AS DEMANDAS TRADICIONAIS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V Assim, a visão do Serviço Social em relação à questão social começa a deslo- car-se da “moral” para a observação/estudo/pesquisa do coletivo. Começa-se lentamente a atuar no contexto do modo de produção do trabalho, articulando a harmonia social e relação entre Estado/sociedade, atuando na melhoria das condições de vida no que tange à comunidade, onde se valoriza a participação dos grupos e líderes ativos em busca de um bem comum. A partir de então, percebemos o Serviço Social vinculado mais claramente aos problemas sociais oriundos do processo de industrialização, vendo o indi- víduo como parte do todo e não isolado das situações da época. Conclui-se que não é preciso mudar o homem, mas a realidade na qual ele está inserido. Ao olharmos para o Serviço Social enquanto profissão de relevância social, notamos que ele se gesta e se desenvolve como profissão: [...] tendo por pano de fundo o desenvolvimento capitalista industrial e a expansão urbana [...] - a constituição e expansão do proletariado e a burguesia industrial - as modificações verificadas na composição dos grupos e frações de classes que compartilham o poder de Estado em conjunturas históricas específicas (IAMAMOTO, 1997, p. 77). Ao mesmo tempo, procuram projetar e dar mais visibilidade às formas de resis- tência e luta por vezes oculta, mas, presentes na realidade. O Serviço Social atua junto às questões sociais somadas aos indivíduos que as experimentam no trabalho, na família, na saúde, no acesso aos serviços públicos ou nas formas de sociabilidade. Os sujeitos que as vivenciam, aelas se opõem e resistem. 161 Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . O Assistente Social trabalha nas mais variadas expressões cotidianas da questão social, e em se tratando de desigualdades também envolve sujeitos que resistem e se opõem a elas. Portanto, [...] “o assistente social trabalha nesta ten- são entre produção da desigualdade e produção da rebeldia e da resistência, terreno movido por interesses sociais distintos que tecem a vida em sociedade” (IAMAMOTO, 2007 p. 27). Sabe-se que o Serviço Social surgiu da emergência da Questão Social, conjunto das expressões da desigualdade social, econômica e cultural, ou seja, problemas da sociedade capitalista, do antagonismo entre o capital e o trabalho, possuindo três grandes momentos: ■ Entre os anos de 1930 a 1945, coincidindo com dois grandes fatos polí- tico-sociais: a Segunda Guerra Mundial (Europa) e o período do Estado Novo (Brasil). Os modelos importados não se enquadravam na realidade brasileira e fizeram com que o Serviço Social fosse assistencial, caritativo, missionário e beneficente. ■ Entre os anos de 1945 a 1958, acompanhando o desenvolvimento da tec- nologia moderna, científica e cultural houve maior intercâmbio entre o Brasil e os Estados Unidos. Os profissionais conscientizaram-se da neces- sidade de criar novos métodos e técnicas adaptados à realidade brasileira. “O assistente social trabalha nesta tensão entre produção da desigualdade e produção da rebeldia e da resistência, terreno movido por interesses sociais distintos que tecem a vida em sociedade”. Como você imagina a atuação do assistente social nessa sociedade confli- tuosa? Fonte: Iamamoto (2007, p. 27). Demandas Tradicionais e Emergentes na Sociedade Brasileira O MOVIMENTO SÓCIO-HISTÓRICO E AS DEMANDAS TRADICIONAIS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V ■ A partir da década de 1960 até hoje, caracterizando-se pelo movimento de reconceituação e tendo como marco referencial a procura de um modelo teórico-prático para nossa realidade. De acordo com Iamamoto (2003, p. 27), “o serviço social tem na questão social a base de sua fundação como especialização do Trabalho”. A questão social sempre permeou o Serviço Social, desde seu surgimento enquanto categoria profissional junto ao sistema capitalista, recebendo várias nomenclatu- ras dentro do processo histórico da profissão, evoluindo de acordo com a época e realidade social. No Serviço Social, a questão social é tema recorrente e objeto de sua inter- venção desde o início da profissão. Como seu fundamento recebe interpretações diferentes, nem sempre estas superam o “feitiço da ajuda” e da caridade, que, por sinal, somente nos anos 90 do século XX começa a ser desmitificado. Tudo tem um porquê, uma explicação. De acordo com Iamamoto (2003, p. 27), [...] “a tarefa do assistente social é não só decifrar as formas e expressões da questão social na contemporaneidade mas atribuir transparência às iniciativas voltadas à sua reversão e/ou enfrentamento imediato”. A questão social - enquanto manifestação no cotidiano da vida social, da con- tradição entre essas classes - servirá como base de justificação para a ação do assistente social, para além da caridade da repressão. A pauperização absoluta ou relativa gera o fenômeno do lumpen-proleta- riado, que não será mais absorvido pelo mercado de trabalho. A socialização É, portanto, no contexto do desenvolvimento do capitalismo industrial e da expansão urbana, que se coloca a necessidade do Serviço Social, enquanto mediador das classes fundamentais de então: burguesia industrial e prole- tariado fabril. Fonte: Iamamoto (2006). © is to ck 163 Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . dos custos de reprodução dessa força de traba- lho exige a presença do Estado no que se refere à constituição de políticas sociais. O Serviço Social não tem um caráter de autonomia plena, não se pode pensar a pro- fissão no processo de reprodução das relações sociais independentes/desvinculadas de orga- nizações institucionais a que se vincula, como se a atividade profissional se encerrasse em si mesma e seus efeitos sociais derivassem, exclu- sivamente, da atuação profissional. No processo de constituição de sua hegemonia, o Estado não pode desconsiderar por completo as necessidades/interesses das classes dominadas, como condição mesma de sua legitimação; a incorporação dessas necessidades se dá de forma subordinada, não afetando os interesses da classe capitalista como um todo. No ingresso do Serviço Social como profissão, uma das pré-condições é a transformação de sua força de trabalho em mercadoria e de seu trabalho em ati- vidade subordinada à classe capitalista. A mesma lógica que preside o trabalho da classe trabalhadora também preside a intervenção do Serviço Social. O Serviço Social não se afirma no mercado como profissional liberal por não dispor de condições objetivas para essa realização, visto que necessita das políticas sociais, de cunho público ou privado, para o exercício profissional se concretizar. É no campo das instituições/organizações que se dá o enfrentamento das questões sociais. Fonte: Iamamoto (2006). Demandas Tradicionais e Emergentes na Sociedade Brasileira O MOVIMENTO SÓCIO-HISTÓRICO E AS DEMANDAS TRADICIONAIS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V O Serviço Social não é função diretamente produtiva, pois participa, ao lado de outras profissões, da tarefa de implementação de condições necessárias ao processo de reprodução no seu conjunto, integrada como está a divisão sócio- -técnica do trabalho. A produção e reprodução capitalista inclui, também, uma gama de ati- vidades, que não sendo diretamente produtivas, são indispensáveis ou facilitadoras do movimento do capital. Embora não sejam geradoras de valor, tornam mais eficiente o trabalho produtivo, reduzem o limite negativo colocado à valorização do capital, não deixando de ser para ele uma fonte de lucro (CARVALHO; IAMAMOTO, 1990, p. 1). O Assistente Social se situa na sua condição de intelectual, para tanto se utiliza de Gramsci para subsidiar sua análise. Cada classe possui seus próprios intelectuais, que têm o papel de contribuir na luta pela direção sociocultural dessas classes na sociedade. O intelectual é o organizador, dirigente e técnico que coloca sua capacidade a serviço da criação de condições favoráveis à organização da pró- pria classe a que se encontra vinculado. O Assistente Social na sua qualidade de intelectual, tem como instru- mento de trabalho a linguagem; historicamente, não constitui atividade proeminente para essa categoria profissional a produção de conheci- mento científico (CARVALHO; IAMAMOTO, 1990, p. 1). Quando falamos das relações sociais e do Serviço Social, temos que considerar a contraditoriedade presente nas relações sociais. Ressalta-se, assim, a necessidade de uma reflexão sobre o caráter político da prática profissional. Essa reflexão é O Serviço Social emerge e se afirma em sua evolução como uma categoria voltada para a intervenção na sociedade. A cisão entre trabalho intelectual e manual se desenvolve à medida que se aprofunda o capitalismo. Fonte: Carvalho e Iamamoto (1990). 165 Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . condição para o estabelecimento de uma estratégia teórico-prática que possi- bilite, dentro de uma perspectiva histórica, a alteração do caráter de classe da legitimidade desse exercício profissional. As políticas sociais são constituídas a partir de dimensões particulares e parti- cularizadas da situação de vida dos trabalhadores: saúde, educação,habitação, alimentação etc. Dessa forma, a fragmentação não permite ao trabalhador a aqui- sição de uma consciência mais coletiva sobre seus problemas. Na linguagem do poder, os “benefícios” sociais são algumas vezes deno- minados “salário indireto”, já que são encarados como uma “complementação salarial” preferível (para os patrões, é claro!) à elevação real dos salários, à pro- porção que podem ser descontados total ou parcialmente dos “beneficiários”, ou de impostos governamentais. Os Serviços Sociais tornam-se, portanto, um meio de reduzir os custos de reprodução da força de trabalho. A rede de Serviços Sociais viabiliza ao capital uma ampliação de seu campo de investimentos, subordinando a satisfação das necessidades humanas às necessi- dades de reprodução ampliada do capital. A pauperização acentuada determina um ambiente fértil à emergência de uto- pias, de inconformismos que são potencialmente ameaçadores à ordem vigente. Controlar e prever as ameaças têm sido estratégias políticas do poder, e como o empobrecimento generalizado não tem solução nos marcos do capitalismo, o que o Estado faz é administrar e controlar a situação de descontentamento. Os múltiplos e complexos problemas com a qual se depara a classe traba- lhadora - fome, desemprego, miséria, doença - são expressões de questão social que, por seu turno, corresponde às desigualdades oriundas da lógica capitalista de produção/reprodução das mercadorias. Fonte: Carvalho e Iamamoto (1990). Demandas Tradicionais e Emergentes na Sociedade Brasileira O MOVIMENTO SÓCIO-HISTÓRICO E AS DEMANDAS TRADICIONAIS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V Os Serviços Sociais têm significados diferentes a partir da lógica de consti- tuição das classes; para os capitalistas, representam um caráter complementar à reprodução da força de trabalho a menor custo; do ponto de vista dos represen- tantes do trabalho, os Serviços Sociais respondem às necessidades legítimas, à medida que são, muitas vezes, temas de lutas político-reivindicatórias da classe trabalhadora, no empenho de terem seus direitos sociais reconhecidos como estratégia de defesa de sua própria sobrevivência. Logo, perceba você que não podemos subestimar a importância e a força dessa profissão de Serviço Social, pois ela é um instrumento auxiliar e subsidi- ário, ao lado de outros de maior eficácia política e mais ampla abrangência, na concretização do objeto supramencionado. O modo capitalista de produzir supõe outro modo de pensar, ou seja, não é a forma como pensa o capitalista, mas, antes de tudo, a forma necessária de toda a sociedade pensar e agir, fundamental à reelaboração das bases de sustentação - ideológicas e sociais - do capitalismo. Portanto, ...o controle social não se reduz ao controle governamental e institu- cional; é exercido, também, através de relações diretas, expressando o poder de influência de determinados agentes sociais sobre o cotidiano de vida dos indivíduos, reforçando a internalização de normas e com- portamentos legitimados socialmente. Entre esses agentes institucio- nais encontra-se o profissional do Serviço Social. Importante ressaltar que a ideologia dominante é um meio de obtenção do consentimento dos dominados e oprimidos socialmente, adaptando-os à ordem vigen- te. Em outros termos: a difusão e reprodução da ideologia dominante é uma das formas de exercício do controle social (CARVALHO; IAMA- MOTO, 1990, p. 1). Há possibilidades de construírem-se outras formas de pensar e agir, no espa- ço da prática profissional? Fonte: a autora. 167 Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Vale ressaltar que o cotidiano não está apenas mergulhado no falso, mas referido ao possível. A descoberta do cotidiano é também a descoberta das possibilida- des de transformação da realidade. Por isso, a reflexão sobre o cotidiano acaba sendo crítica e comprometida com o possível, visto que este é o “solo” da pro- dução e reprodução das relações sociais. A compreensão do cotidiano não se reduz aos aspectos mais aparen- tes, triviais e rotineiros; se eles são parte da vida em sociedade, não a esgotam. O cotidiano é expressão de um modo de vida, historicamente circunscrito, onde se verifica não só a reprodução de suas bases, mas onde são também gestados os fundamentos de uma prática inovadora (CARVALHO; IAMAMOTO, 1990, p. 1). O acesso que temos às histórias de vida dos sujeitos, muitas vezes, se caracteriza por ser uma “invasão” de privacidade da “clientela”. Situa-se aqui a importância do compromisso social do profissional, orientado no sentido de solidarizar-se com o projeto de vida do trabalhador ou de usar esse acesso para objetivos que lhe são estranhos. Ao aprofundarmos nossa reflexão acerca da questão social e suas expressões/ manifestações (fome, desemprego, doença etc.), vemos que esta é o eixo que deu origem ao nascimento da profissão. Toda profissão surge de uma necessidade social, algo que precisa ser sanado na vida do ser humano. A profissão está ligada às desigualdades oriundas do sistema capitalista de produção, no qual o lucro se mantém na mão de poucos; esses poucos se apro- priam dos frutos da produção, os quais são monopolizados por um pequeno grupo. O ideal a ser feito é a partilha, uma vez que tudo o que é produzido resulta da ação de vários atores, mas sabemos que não é assim que acontece. Não podemos achar que essa exploração é característica apenas de países subdesenvolvidos, pois isso também acontece nas sociedades tidas como de “pri- meiro mundo”; lá também existem miséria, crescente pauperização, situações de vulnerabilidade e desigualdade que afetam boa parte da população. Logo, temos o trabalho do assistente social atuando nesse território tenso e desigual, num contexto que apresenta interesses distintos e contraditórios da classe dominante e dominada. Recebendo uma demanda muitas vezes desesperada por algum tipo de auxílio para que supere assim as suas vulnerabilidades, essas situações que se apresentam ao profissional devem ser entendidas e encaradas Demandas Tradicionais e Emergentes na Sociedade Brasileira O MOVIMENTO SÓCIO-HISTÓRICO E AS DEMANDAS TRADICIONAIS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V dentro de um contexto maior. É necessário que o assistente social seja capaz de entender que a realidade vista é fruto de acontecimentos históricos, reprodu- zidos ao longo do tempo, situações que se arrastam nesse processo atingindo principalmente aqueles mais fragilizados. Cada indivíduo atingido, vítima dessa desigualdade, reage aos acontecimen- tos de uma forma, nem todos ficam na passividade, na aceitação da exploração e consequente carência. Temos indivíduos que no auge do desespero da fome se tornam assaltantes, outros, matadores de aluguel, alguns por falta de moradia invadem juntamente com suas famílias espaços públicos/privados abandonados. Temos ainda o ingresso no mundo das drogas, álcool, aumento significativo da violência doméstica e até mesmo suicídio. Você pode estar pensando que o profissional de Serviço Social está a postos na sociedade somente para lidar com a tragédia humana e sucessivos proble- mas, na verdade, estamos atuando no seu enfrentamento, na superação de tais situações. Não é intenção do Serviço Social acabar com o sistema capitalista, mas contribuir para uma sociedade capaz de ser muito mais justa e igualitária. Atualmente temos uma diminuição do emprego formal/estável, como pude- mos estudar anteriormente, vivenciamos o crescimento do trabalho informal, por tempo determinado, temporário, sem contar que em nosso país ainda temos registro de trabalho escravo e subumano. A necessidade do trabalho é inerente ao ser humano, por meio dele o homem pretende garantir a sua subsistência e de sua família. Cabe a cada um prover o mínimo/básicopara si e seus depen- dentes, e quando o homem não consegue, acaba ingressando nos programas de assistência e políticas sociais. Muitos indivíduos na situação de não emprego aceitam o fato como uma situ- ação passageira, outros acabam por se acomodar com a providência de auxílio por parte de instituições públicas e organizações governamentais, outros ainda não aceitam a situação, tratam-na como degradante e vergonhosa. Independente do caso, todos, de uma forma ou outra, tornam-se demanda em potencial para o Serviço Social. Sabemos que a situação de não emprego, quando prolongada por muito tempo, acaba por desencadear muitas outras problemáticas. Com o neolibera- lismo, uma das formas de redução do custo da força de trabalho é o contrato 169 Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . da mão de obra infantil. Quando 30% da população economicamente ativa do mundo está desempregada, cresce o desemprego de adultos e aumenta, contra- ditoriamente, o emprego infantil. Para possibilitar a sobrevivência da família, quando o pai se encontra desempregado e a mãe já está no mercado de trabalho, uma terceira possibilidade que se apresenta é as crianças trabalharem. Com muita tristeza, vemos ainda crianças trabalhando em minas de car- vão, ou nas colheitas massacrantes, deixando a escola de lado, com o objetivo de garantir alguns trocados para a família. Temos em nosso país ações de enfrenta- mento à pobreza que visam contribuir com a reversão dessa situação, contudo, quem vivencia essa realidade degradante opta pela ação ilegal a morrer de fome. Os usuários do Serviço Social (mulheres, crianças, idosos, adolescentes, famí- lia, desempregados, pessoas com deficiência, doentes, drogados, alcoólatras etc.) são diretamente atingidos pelos resultados da questão social existente, e exigem dos sujeitos responsáveis (o Estado, o mercado e a sociedade civil organizada) um devido enfrentamento, pautado na análise e estratégia eficaz e eficiente. Os usuários do Serviço Social dia a dia recorrem às devidas políticas, para que consigam superar as necessidades não sanadas, porém ainda percebe-se um ranço muito grande de assistencialismo, paternalismo, conservadorismo, clientelismo. Hoje é objetivo das políticas o incentivo, mediante as ações dos profissionais, a promoção e à construção/resgate de um cidadão autônomo, que assume o papel de protagonista de sua história. Para isso, é necessário o desmonte de ações/medidas parciais, focalizadas e fragmentadas. Logo, chegamos à conclusão de que o Estado, mercado e sociedade civil organizada devem tornar-se mais ativos e definirem políticas de inserção pelo trabalho, contra exclusões sociais. Constituem respostas do Estado: o apoio e o incentivo às microempresas, geração de ocupação e renda, qualificação para o mercado de trabalho e econo- mias solidárias. A reforma previdenciária, como resposta às problemáticas do mundo do trabalho, sob o argumento de eliminar privilégios, direitos conquis- tados, tem de fato fragilizado a situação social do trabalhador emprega- do, levando voluntariamente à aposentadoria expressivo contingente de trabalhadores, sacramentando a exclusão ou a nunca inclusão de uma minoria que esteve sempre fora de qualquer sistema de proteção social (TELLES, 1996, p. 86). Demandas Tradicionais e Emergentes na Sociedade Brasileira © shutterstock O MOVIMENTO SÓCIO-HISTÓRICO E AS DEMANDAS TRADICIONAIS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V Vale ressaltar que as respostas às expressões da questão social variam no âmbito estadual e municipal, onde algumas experiências de poder local, administração participativa, renda mínima, orçamento participativo, atividades comunitárias e autogestionárias (cooperativas, hortas, padarias) sinalizam para uma demo- cratização do Estado e socialização do poder, de traços mais universalizantes. Do lado do mercado, as políticas sociais privadas e empresariais vêm se voltando mais para responder às demandas emergentes. Os projetos sociais vêm fazendo avançar a filantropia empresarial. Em vez de as empresas realiza- rem donativos de caridade, mesmo que fossem para se libertar dos impostos, as doações são estruturadas ou realizadas como investimento social, na contem- poraneidade (KAMEYAMA, 1998). Algumas empresas passam a desenvolver programas sociais nas áreas de educação, promoção social, cultura, saúde, meio ambiente, agricultura, políti- cas públicas, ciência e tecnologia, crianças e adolescentes, esportes. Para isso, vem crescendo consideravelmente a presença do profissional de Serviço Social em tais espaços. 171 Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Para tanto, é mais que necessário imprimir às políticas sociais públicas e/ ou privadas, no trabalho ao enfrentamento às manifestações da questão social, caráter de universalidade de direitos de cidadania, que exige, portanto, reorde- namento e articulação entre os diferentes sujeitos sociais. A empresa do final do século passado e do início deste não responde mais ao capital e ao trabalho, levando em conta apenas a qualidade, o serviço, o preço de padrão mundial e o marketing inteligente como diferenciais de competição. A vantagem competitiva agora são as políticas empresariais dirigidas às corpora- ções e seus executivos, pois atraem o mercado, gratificam funcionários e reforçam a boa imagem da empresa. O setor de Recursos Humanos passa a ser estraté- gico nesse sentido, sendo ele inclusive espaço novo de intervenção do Serviço Social, a partir de ações estratégicas de educação, treinamento e desenvolvimento, envolvimento de funcionários, bem-estar e satisfação de suas necessidades, arti- culando gestão e planejamento, desempenho e recompensa. A sociedade civil organizada também se ordenou de forma a contribuir com as demandas sociais que emergiram na sociedade. Atualmente é possível per- ceber sua atuação por meio de movimentos sociais, organizações sociais (OS), entidades profissionais, setores da igreja, partidos, sindicatos e o terceiro setor com as organizações não governamentais (ONGs) que podem atuar isoladamente ou em forma de parcerias. A sociedade civil ainda se manifesta trabalhando na defesa de direitos ao emprego, à terra, à formação profissional e técnica, à educação, a um meio ambiente saudável, além da orientação de reformas cons- titucionais e elaboração. Como a construção de uma sociedade alternativa, a capitalista - utopia realizável - não se consolida, as organizações da sociedade civil avançam por intermédio de denúncias ao Ministério Público, como forma de resistência (sin- dicato), organizam cooperativas de produção, montam empresas associativas civis e econômicas, prestam assessoria, serviços públicos, capacitam lideranças, realizam campanhas (ONGs), desempenhando papel importante nas parcerias com o governo. A parceria, no entanto, como forma nova de gestão das respos- tas públicas/privadas às expressões da questão social, deve ser constantemente avaliada de forma a evitar o reforço nas políticas sociais das marcas do cliente- lismo, da privatização e da focalização. Demandas Tradicionais e Emergentes na Sociedade Brasileira © is to ck ©istock O MOVIMENTO SÓCIO-HISTÓRICO E AS DEMANDAS TRADICIONAIS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V Quando paramos para pensar sobre quais são os problemas existentes em nossa sociedade, logo uma lista imensa nos vem à cabeça, e podepodendo ser grandes ou peque- nos, conforme o local onde vivemos. Desta maneira, devemos estar atentos à realidade na qual estamos inseridos, pois saiba você que, como assistentes sociais, não possu- ímos uma bola de cristal que nos possibilita descobrir quais os problemas mais agravadose sua repercussão na vida do indivíduo. Isso se dá a partir de uma boa análise da realidade, embasada num referencial teórico consistente e utilização correta dos instrumentos e técnicas da profissão. Para tanto, no processo de formação profissio- nal seguem-se as diretrizes previstas, pois toda profissão possui seus objetos de intervenção e objetivos de acordo com sua especificidade e necessidade social. Com o Serviço Social não acontece diferente, para atuarmos no enfrenta- mento das questões sociais é necessário alguns conhecimentos mínimos, nada é estudado por acaso, priorizando esta ou aquela parcela da população. Sabe-se bem que as expressões sociais, se manifes- tam tanto no meio urbano quanto no meio rural, dessa maneira a compreensão de todos os mecanismos operantes na sociedade é necessária. Importante que você saiba quais as diretrizes da profissão que escolheu, a qual está lotada na Resolução Nº 15, de 13 de março de 2002, que prevê o per- fil dos formandos, ou seja, ao findar a graduação o aluno deve estar apto a ser reconhecido como: Profissional que atua nas expressões da questão social, formulando e implementando propostas de intervenção para seu enfrentamento, com capacidade de promover o exercício pleno da cidadania e a inser- ção criativa e propositiva dos usuários do Serviço Social no conjunto das relações sociais e no mercado de trabalho (BRASIL, 2002). Saiba que as diretrizes e pressupostos da proposição curricular do curso de Serviço Social foram estabelecidas a partir de duas considerações básicas - a dimensão 173 Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . interventora da profissão nas suas inter-relações nos processos de exclusão cul- tural, social, política e econômica, e no âmbito da questão social, remodelada pela dinâmica da sociedade a partir do reordenamento do capital e do trabalho, consequência do processo de reestruturação produtiva no Brasil. Dessa forma, alguns pressupostos foram estabelecidos e estão citados na resolução sobredita, a saber, os pressupostos norteadores da formação e futura intervenção profissional são: 1. O Serviço Social se particulariza nas relações sociais de produção e reprodução da vida social como uma profissão interventiva. Reco- nhecer essa dimensão implica em reconhecer que o Serviço Social se altera e se transforma quando se alteram e se transformam o que é o fundamento de sua existência, ou seja, a questão social e os processos de exclusão. Outra decorrência desse reconhecimento é a necessidade de compreensão dos processos sociais e de um ins- trumental heurístico para tal tarefa. Dessa forma, teoria, método e história não se constituem em eixos curriculares ou em disciplinas, mas perpassam a formação profissional como pressupostos para a compreensão do movimento histórico e concreto da realidade e aspectos focais da mesma, os quais se constituem em objetos de intervenção profissional. 2. A relação do Serviço Social com a questão social e com processos de exclusão social é mediatizada por um conjunto de processos sócio-históricos e teórico-metodológicos que se constituem no seu processo de trabalho e objetivam um produto concreto. Esse processo de trabalho é integrado por elementos tidos como cons- titutivos da profissão: objeto, objetivos, papéis e funções, instru- mentos e técnicas de atuação - dimensões técnico-políticas e teó- rico-metodológicas do fazer profissional. Assim, a questão social para o assistente social é visualizada com um olhar que é próprio e determinado pela profissão em sua constituição histórica e pelo significado a ela atribuído pela sociedade. 3. As alterações no modo de organização do capital e do trabalho introduzem modificações nas demandas profissionais e alteram o mercado profissional, pois provocam mudanças na esfera da pro- dução que operam refrações nos mecanismos de reprodução so- cial - âmbito privilegiado da intervenção do Serviço Social. 4. O processo de trabalho no Serviço Social é determinado por con- figurações estruturais e conjunturais da questão social, processos de exclusão e as formas que a sociedade dispõe e implementa para Demandas Tradicionais e Emergentes na Sociedade Brasileira O MOVIMENTO SÓCIO-HISTÓRICO E AS DEMANDAS TRADICIONAIS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V atenuá-los. As demandas que hoje se apresentam à profissão têm configurações que dão novas dimensões aos velhos fenômenos, como os novos papéis da sociedade civil, a segmentação social dos usuários, as novas formas de organização do trabalho, reeditando situações do século passado nos dias atuais (ABEPSS - Diretrizes Gerais para o Curso de Serviço Social, 2002). Nessa citação são expostas informações sobre a formação do profissional. Com a fixação do perfil profissional e a elaboração dos pressupostos, preten- de-se obter um assistente social capacitado para ações específicas da profissão, ações qualificadas nos planos teórico-metodológico, prático-operativo e ético- -político. Apontamos agora para as diretrizes curriculares que dão sustentação a uma formação profissional que possibilite ao assistente social: 1. Apreensão crítica do processo histórico; 2. Investigação sobre a formação histórica e os processos sociais con- temporâneos que conformam a sociedade brasileira, no sentido de apreender a constituição e desenvolvimento do capitalismo e do Serviço Social no país; 3. Apreensão do significado social da profissão desvelando as possi- bilidades de ação contidas na realidade; 4. Apreensão das demandas - consolidadas e emergentes - postas ao Serviço Social via mercado de trabalho, visando formular respos- tas profissionais que potenciem o enfrentamento da questão social, considerando as novas articulações entre o público e o privado; 5. Exercício profissional cumprindo as competências e atribuições previstas na Legislação Profissional em vigor e que atenda as exi- gências do Código de Ética Profissional. (ABEPSS - Diretrizes Ge- rais para o Curso de Serviço Social, 2002). A partir da leitura dos pressupostos para a formação profissional, citados anteriormente, reflita os pontos que considerou importante. Fonte: a autora. ©istock 175 Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . De nada adiantaria abordar as origens da questão social, no mundo e no Brasil, a atuação do Serviço Social e sua relação com a questão social, se não falásse- mos um pouco sobre o processo de formação profissional, não é mesmo? As alterações no padrão de acu- mulação capitalista, sob a égide da hegemonia do capital financeiro, onde se amplia a competitividade intercapita- lista nos mercados mundiais e nacionais, modificam as relações entre o Estado e a socie- dade civil, conforme parâmetros estabelecidos por organismos internacionais, a partir do “Consenso de Washington”, em 1989, que recomendam uma ampla reforma do Estado, segundo diretrizes políticas de raiz neoliberal. Dar conta da questão social, hoje, é não somente “[...] decifrar as desigualdades sociais - de classes - em seus recortes de gênero, raça, etnia, religião, nacionalidade, meio ambiente etc., mas decifrar também as formas de resistência e rebeldia com que são vivenciadas pelos sujeitos sociais” (IAMAMOTO, 1999, p. 114). O problema da insegurança do trabalho ou da redução de postos de traba- lho não é peculiar aos assistentes sociais, visto que o seu enfrentamento exige, ao contrário, ações comuns que fortaleçam a capacidade de articulação e orga- nização mais ampla de coletivos de trabalhadores. Como reforçar o projeto político profissional do assistente social em um ter- reno profundamente adverso? Como atualizá-lo ante o novo contexto so- cial, sem abrir mão dos princípios ético-políticos que o norteiam?Fonte: a autora. Demandas Tradicionais e Emergentes na Sociedade Brasileira O MOVIMENTO SÓCIO-HISTÓRICO E AS DEMANDAS TRADICIONAIS Reprodução proibida. A rt. 184 do Código Penal e Lei 9.610 de 19 de fevereiro de 1998. V A recuperação de alguns dos pontos básicos da proposta governamental permite perceber que a execução da Reforma do Estado choca-se, radicalmente, com as conquistas sociais obtidas na Carta Constitucional de 88. Os princípios de privatização, descentralização e focalização direcionam as ações no campo das políticas sociais públicas. Esse processo amplia o espaço das grandes corpo- rações empresariais e das organizações não governamentais - ONGs - na gestão e execução de políticas sociais, com amplas repercussões nas condições de tra- balho e no mercado de trabalho especializado. Considerando todo o exposto nesta unidade de estudo, percebemos que temos muito ainda a estudar sobre a nossa profissão, a qual possui uma história muito interessante de reflexões e sobretudo de autorreflexão. Você terá a seguir algumas atividades que lhe auxiliarão na síntese da uni- dade, aproveite e faça as suas anotações e considerações, organizando assim as suas ideias e novos conhecimentos. CONSIDERAÇÕES FINAIS Estamos chegando ao fim de mais uma etapa, então é hora de juntar as peças e “montar o quebra-cabeça”, você é capaz de fazê-lo? Pense em tudo o que foi visto e comece esse exercício. Lembre-se que não existem caixinhas no processo de formação, tudo está muito bem articulado, e é falando em articulação que fecha- mos esta unidade. Não se esqueça de que precisamos sempre olhar o todo, sem perder de foco o específico. A sociedade é complexa porque os homens também são. Ao lidarmos com o usuário mais vulnerabilizado, não podemos deixar de analisar aquele indivíduo que está na outra ponta da linha, uma vez que existe um ser dominado (exclu- ído), porque há alguém que o domina (exclui), e não precisamos prever ações de combate e enfreamento para tal processo. Discutimos ao longo da unidade a relação estabelecida entre o Serviço 177 Considerações Finais Re pr od uç ão p ro ib id a. A rt . 1 84 d o Có di go P en al e L ei 9 .6 10 d e 19 d e fe ve re iro d e 19 98 . Social no Brasil e a Questão Social. Refletimos acerca do processo de acirra- mento das relações sociais próprias do sistema capitalista que culminaram no agravamento da questão social. Aprendemos que foi nesse contexto que emerge o Serviço Social e se desenvolvem os inúmeros campos de trabalho da profis- são. Contemplamos ainda alguns pontos das origens da profissão, bem como os contextos histórico/social/político/econômico da sociedade em que o Serviço Social sempre esteve inserido. Enfatizamos as configurações da questão social no Brasil, bem como as tenta- tivas de enfrentamento dos problemas a ela relacionados, por meio da implantação de políticas sociais. Em um processo de avanços e recuos, que acompanhou o movimento dinâmico da história e enfrentou muitos desafios, essa profissão ins- titucionalizou-se em solo brasileiro, ocupando seu espaço na divisão social do trabalho, próprio de uma sociedade capitalista. Continuam, entretanto, os questionamentos com relação ao Serviço Social, suas possibilidades e limites, frente aos desafios do mundo contemporâneo. De que forma essas transformações têm repercutido na profissão? Como foram enfrentados os desafios da profissão em seu desenvolvimento histórico, e como você visualiza o futuro da sua profissão? Como percebo a preparação da profis- são, consigo visualizar os campos de atuação, consigo estabelecer relações entre as teorias sociais que norteiam a profissão e a prática profissional? O objetivo de se resgatar questões históricas é fazer que seus elementos contribuam para discussões atuais, pois não se discute sobre aquilo que não se conhece. A partir dos estudos, somos capazes de buscar respostas aos seus ques- tionamentos em relação às mudanças projetadas para o futuro. Obrigada pela oportunidade, foi um prazer contribuir um pouco mais com a sua formação. Parabéns por mais esta conquista e sucesso! Grande abraço e até a próxima! Professora Esp. Daniela Sikorski. 1. Qual a base da fundação do Serviço Social como especialização do trabalho? a) A vontade do povo americano em auxiliar os mais necessitados na África do Sul. b) A questão do aquecimento global no planeta. c) A questão social (e suas múltiplas expressões, tais como a fome, o desemprego, a doença etc.). d) A diminuição do Imposto de Renda para as empresas que contratassem um pro- fissional para tratar dos problemas de drogadição dos funcionários. e) A vontade do Pe. João em auxiliar os seus paroquianos. 2. (TRE-PA) Na acepção de Marilda V. Iamamoto, o conjunto de problemas sociais gerados pelas desigualdades e contradições próprias do antagonismo de classes na sociedade capitalista, assim como pelo processo de reprodução social destas mesmas classes, denomina-se: a) Situação social problema. b) Sociedade civil desorganizada. c) Demandas sociais. d) Mais valia relativa. e) Questão social. 3. Assinale a alternativa incorreta: a) É fato que as questões sociais não dizem respeito somente à atuação de apenas uma categoria profissional. b) A interdisciplinaridade permite sair do mundo dos discursos, além de estimular a criatividade, originalidade e diversidade de conhecimentos. c) A questão social (e suas múltiplas expressões, tais como a fome, o desemprego, a doença etc.) é a base da fundação do Serviço Social como especialização do trabalho. d) O assistente social é o único profissional responsável pelo enfrentamento das questões sociais. e) A questão social é a gênese das desigualdades sociais, em um contexto no qual a acumulação de capital não rima com equidade. 4. Com relação à Questão Social e o Serviço Social, assinale a alternativa incorreta: 179 a) A questão social passou a existir no mundo após a criação do profissional de Ser- viço Social, visto que este é o principal responsável por sua resolução. O assisten- te social deve ser o principal gerenciador dos problemas humanitários criados pelo sistema capitalista no qual estamos inseridos. b) Os “assistentes sociais estão (...) situados nesse terreno movido por interesses sociais distintos, aos quais não é possível abstrair ou deles fugir porque tecem a vida em sociedade” (IAMAMOTO, 2007, p. 28). c) Cabe ao assistente social “decifrar novas ‘mediações’ por meio das quais se ex- pressa a questão social” (IAMAMOTO, 2007, p. 28). d) (...) Apreender a questão social é também captar as múltiplas formas de pressão social, de invenção e de reinvenção da vida construída no cotidiano. e) Diz respeito ao assistente social “Decifrar múltiplas expressões da questão social, sua gênese e as novas características que assume na contemporaneidade, atri- buindo transparência às iniciativas voltadas à sua reversão e/ou enfrentamento imediato” (IAMAMOTO, 2007, p. 28). 5. Sugestão de atividade: como forma de organizar o conteúdo, você poderá ela- borar uma pasta física ou arquivo digital com textos variados, referentes às di- versas expressões/manifestações da questão social no Brasil, ou então montar um arquivo digital, desde que devidamente referendado. Ao dividir por tema, ficará mais fácil para você aumentar seu acervo, bem como facilitar o processo de pesquisa quando necessário. Os temas sugeridos são: • Criança e Adolescente. • Educação. • Família. • Gênero. • Habitação. • Idoso. • Igualdade Racial. • Mulher. • Pessoa com deficiência. • Saúde. • Sócio Jurídico. • Violência. • Entre outros. SERVIÇO SOCIAL E CONTEMPORANEIDADE: AFIRMAÇÃO DE DIREITOS E EMANCI- PAÇÃO POLÍTICA? José Fernando Siqueira da Silva (...) O artigo apresentado aborda alguns dos principais desafios demandados ao Serviço Social e indica elementos atuais e necessários para uma inserção profissional crítica na contemporaneidade. Oferece, para isso, pistaspara analisar o trabalho profissional do assistente social, a partir dos limites da emancipação política (incluindo a afirmação de direitos e suas particularidades em países como o Brasil), bem como discute possíveis contribuições da profissão – sem romantismos – à emancipação humana. (...) 1. Considerações introdutórias: situando o debate (...) O Serviço Social, como uma profissão inserida na divisão social e técnica do trabalho (IAMAMOTO & CARVALHO, 1985), possui uma funcionalidade na gestão das múltiplas tensões sociais cotidianamente enfrentadas pelos assistentes sociais em seus espaços sócio-ocupacionais particulares. São inegáveis os vínculos conservadores da profissão desde a sua origem, marcada pelo capitalismo na era dos monopólios (PAULO NETTO, 1992) e pela agudização da questão social reconhecida, no caso brasileiro, pelo modelo urbano-industrial, claramente assumido no primeiro governo de Getúlio Vargas (1930- 1945) e pela tendência crescente da Igreja Católica - nessa mesma época - em “recristia- nizar” a sociedade apoiando-se na modernização das ações leigas. O aprofundamento dessa ordem societária (necessariamente contraditória), marcada pela modernização conservadora do país ao longo das décadas de 40, 50, 60 e 70 do século XX, impôs à pro- fissão uma revisão do “Serviço Social tradicional” (PAULO NETTO, 1991) - manifestada no chamado “processo de reconceituação” - que, com todos os seus limites, teve o mérito de recolocar questões centrais para o Serviço Social: a formação profissional (nos seus aspectos teórico, metodológico, técnico-instrumental e interventivo), a interlocução com outras áreas do conhecimento, a importância da pesquisa e da produção de co- nhecimentos no âmbito da profissão, entre outros aspectos. Esse rico contexto permitiu um debate mais intenso sobre as diferentes orientações teóricas na profissão (para além da Doutrina Social da Igreja), desencadeando uma interlocução com matrizes do conhe- cimento presentes nas Ciências Sociais. A redemocratização política (“lenta e gradual”) desencadeada na primeira metade dos anos 80 do século passado e todo processo que culminou com a elaboração da cons- tituição de 1988, ofereceu condições objetivas para importantes discussões acerca do desmonte do “entulho autoritário” (legado do processo contra-revolucionário desenca- deado nos anos 60-70 do século XX em todo continente latino-americano). É nesse con- texto de aprofundamento e amadurecimento das discussões reconceituadas, de arrefe- 181 cimento do regime ditatorial (guardiã da autocracia burguesa, naquela oportunidade) e das discussões sobre a redemocratização política da sociedade brasileira (marcada por diferentes e antagônicas forças sociais que tinham como palavra de ordem as eleições diretas em todos os níveis e a formulação da nova constituição), que o Serviço Social se desenvolve na era pós-reconceituada e inicia os anos 1990. A década de 90 do século XX impõe ao Serviço Social inúmeros desafios. As profundas mudanças na esfera produtiva e seus imensos impactos na existência do ser social se materializaram, para o assistente social, por meio de inúmeras demandas sociais que se particularizaram tendo como base o aprofundamento da questão social em tempos de democracia política. Por outro lado, o legado da década de 1980 apontava para a consolidação de um conjunto de legislações sociais edificadas a partir do desmonte do aparato autoritário-militar: O Sistema Único de Saúde (SUS), o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA), a Lei Orgânica da Assistência Social (LOAS), as discussões na área da assistência (hoje objetivadas no Sistema Único de Assistência Social - SUAS), as políticas com idosos e mulheres (recentemente aprofundadas com o Estatuto do Idoso e com a Lei Maria da Penha), entre outras conquistas jamais inscritas nos quinhentos anos de história oficial do Brasil. Entretanto, tais conquistas - sem a menor intenção de descaracterizá-las - já nasceram condenadas por profundas restrições de ordem orçamentária que, em última instân- cia, foi um mero reflexo do novo padrão de acumulação em curso (marcado por um discurso liberal mais radical implantado nos quatro cantos do planeta). Os anos 1990 inauguram, no Brasil, inicialmente na era Collor de Melo (1990-1992) e mais profunda- mente nos dois governos de Fernando Henrique Cardoso (1995-2002) e de Lula da Silva (2003 - em curso), um período de contra-reformas (BEHRING, 2003), de reestruturação dos Estados (com pequenas variações de um governo para outro), de sucessivas polí- ticas econômicas afinadas com o cumprimento de metas demarcadas pelo superávit primário (consideradas necessárias para o equilíbrio das contas públicas e para a atração de investimentos externos especulativos ou não) e, evidentemente, por políticas sociais precárias com investimentos recentemente significativos (particularmente na era Lula), porém pulverizados e focados em ações voltadas à pobreza absoluta e sustentados em parcerias com o chamado terceiro setor (MONTAÑO, 2002). No âmbito do Serviço Social, com todos os estudos sistematizados por importantes qua- dros da profissão - que, inegavelmente, expressaram avanços significativos no âmbito da formação profissional, na participação ativa da categoria na luta por direitos, na cons- trução de inúmeras legislações sociais, na construção do projeto ético-político, na dis- cussão, aprovação e implantação das diretrizes curriculares, a partir da segunda metade dos anos 1990, entre outras importantes conquistas -, o que se percebeu foi uma crença persistente dos assistentes sociais (dentro e fora das universidades, com variações não desprezíveis - convicção esta advinda dos anos 1980), de que a afirmação de direitos e a implantação e maior radicalização da democracia seria o caminho para a construção de “uma outra sociedade” com indivíduos emancipados. Esse cenário foi adoçado pela eleição de Lula da Silva para a presidência do Brasil, lide- rança política esta originada na esquerda sindical-operária e oposição atuante desde a fundação do Partido dos Trabalhadores (PT). Alguns importantes quadros do Serviço Social, no entanto, já apontavam os problemas desse equívoco, que se escancarou a partir de 2003, com a eleição de Lula (ainda que fossem previstos embates no interior do governo). (...) O que se coloca objetivamente para o Serviço Social nos dias atuais é, se não existe ainda - e certamente há -, uma crença de que a emancipação humana (MARX, 2005) será alcançada por meio da emancipação política ou de sua radicalização (LESSA, 2007). Esse contexto se torna ainda mais grave e praticamente inviável (com certa dose de in- genuidade em determinadas situações), quando consideramos o tipo de emancipação política particularmente possível no Brasil (e em toda América Latina - guardadas suas especificidades nacionais), sustentada em “eleições livres”, em certa democracia política e em direitos sociais muito próximos da abstração e, portanto, com pequena efetivida- de prática para a realização do cidadão real (mesmo quando entendido no seu sentido estrito de consumidor). Portanto, não se trata apenas de questionar a emancipação polí- tica genericamente (sua configuração sob os limites de mercado), mas também a forma possível de sua realização, sob as condições objetivas do capitalismo brasileiro. (...) Não há como pensar e atuar propositivamente e criticamente nos imensos desafios contemporaneamente impostos ao Serviço Social - superando diferentes formas de romantismos ou de fatalismos (IAMAMOTO, 1994) -, sem que sejam consideradas tais ponderações. É exatamente a partir desses parâmetros, ou seja, de uma maior precisão teórico-prática e sócio histórica (de existência do ser social na história e sob dada histo- ricidade), com determinada finalidade ético-política e rigorosa apreensão da lógica da realidade (MARX, 2005-2, p. 39), que será possível sintonizar, criticamente, a profissão com as principais demandasapresentadas ao Serviço Social na atualidade. (...) Fonte: SILVA, José Fernando Siqueira da. SERVIÇO SOCIAL E CONTEMPORANEIDADE: AFIRMAÇÃO DE DIREITOS E EMANCIPAÇÃO POLÍTICA? Revista ciências humanas, Uni- versidade de Taubaté (UNITAU), Brasil, v. 1, n. 2, 2008. Disponível em: <http://www.uni- tau.br/revistahumanas>. Acesso em: 11 abr. 2015. http://www.unitau.br/revistahumanas http://www.unitau.br/revistahumanas 183 CONTEMPORANEIDADE E SERVIÇO SOCIAL: CONTRIBUIÇÃO PARA INTERPRETA- ÇÃO DAS METAMORFOSES SOCIETÁRIAS (...) MUDANÇAS NO ESPAÇO OCUPACIONAL DO SERVIÇO SOCIAL Se bem foi constatado através de investigações sobre o mercado de trabalho de Serviço Social realizadas em diversas regiões, que no Brasil ainda não tem ocorrido uma redução global de demandas de Assistentes Sociais, encontramos uma sensível diminuição de postos de trabalho no Estado, (vagas que já não são mais preenchidas) com cortes dos recursos orçamentários para as políticas sociais e um aumento de trabalhadores volun- tários e de terceirização dos serviços. Se as políticas sociais, como observa Carlos Montaño (1997:117) se constituem em fa- tor de sustentação funcional ocupacional dos assistentes sociais (sua funcionalidade, sua instrumentalidade, sua legitimidade) se estas foram significativamente alteradas no atual contexto sócio-econômico e político (suas orientações e funcionalidade) podemos pois, afirmar que a base de sustentação funcional-ocupacional do Serviço Social tem sofrido (ou ainda estão sofrendo) transformações relevantes. Com base nestas observações é importante destacar que apesar do maior empregador ainda ser o Estado, também existe uma tendência de abertura para novos postos de tra- balho em outras esferas, como nas Organizações Não Governamentais, ampliação das consultorias devido à terceirização dos serviços, e nos serviços privados de saúde entre outros. Registra-se no atual contexto, mudanças nas atividades que já foram atribuídas ao Assis- tente Social, atualmente exige-se, cada vez mais, que integre equipes interdisciplinares, que atue no âmbito da formulação e implementação das políticas sociais, impulsiona- das pelo processo de municipalização; que tenha contato com o mundo da informática e conheça as novas tecnologias e as formas de gestão administrativa - entre outros as- pectos. No bojo das discussões, a preocupação que é mais saliente refere-se ao Serviço Social como profissão, que deve ir de encontro a esta nova realidade, pois existe o perigo la- tente deste vir a tornar-se uma prática residual. O desafio profissional radica em não fe- char-se em si mesmo, ampliar os horizontes procurando compreender as mudanças que estão acontecendo no mundo e principalmente na América Latina. Em quanto a este problema, sustentamos que é possível e necessário que a profissão como um todo inicie um debate e participe ativamente na definição de sua base de sustentação ocupacional, podendo assim os assistentes sociais converter-se em atores desse processo. Como afirma Netto (1996: 89) as profissões não são só os resultados de processos ma- croscópicos, devem também ser tratadas, cada qual como corpus teórico e políticos que condensam projetos sociais, onde emanam dimensões ideológicas que dão a direção aos mesmos processos sociais. Portanto, devemos avançar e conquistar um efetivo mercado de trabalho, mas devemos preocupar também por melhorar o nível da formação profissional. Estes seguimentos estão estreitamente inter-relacionados, pois existe uma correlação entre as dificuldades da prática profissional atual, os baixos salários, o aumento da clientela a ser atendida, e o preparo dos outros profissionais que disputam o mesmo espaço ocupacional. Só através da formação profissional acorde as novas exigências do mercado de trabalho e a retroalimentação constante de novos conhecimentos permeados por uma reflexão crítica é que poderemos tornar competentes, podendo assim competir lado a lado com outras profissões da área de humanas. Redimensionar o perfil profissional que exige na atualidade um conhecimento de lín- guas estrangeiras, de informática, sintonias com as mudanças e atenção a qualificação contínua. Requisita-se um profissional crítico com competência teórico-metodológica, técnico operativa e ético-política, dotado de habilidades como criatividade, versatilida- de, iniciativa, liderança, capacidade de negociação, resolutiva e de argumentação, ha- bilidade para o trabalho interdisciplinar e para atuar no campo da consultoria (KROIKE :1997). Nesta ótica, o desafio para o Serviço Social como profissão no limiar do próximo sécu- lo e participar como um agente ativo na formulação de políticas públicas, inserido em equipes interdisciplinares, atuando no mundo da informática, vinculando-se nas redes mundiais. Capacitando-se permanentemente e abordando também as novas técnicas e discursos gerenciais. Por último, as grandes mudanças na sociedade como um todo e nas organizações, ins- tituições governamentais, não governamentais ou empresas, aconteceram nos últimos anos na maioria dos países ocidentais estas mudanças como: a tendência à privatização, a terceirização de setores das organizações, a grande revolução do setor da comunica- ção e da tecnologia, a globalização da economia e o avanço do neoliberalismo afetaram o mundo do trabalho e o espaço ocupacional do Serviço Social e levaram aos países latino-americanos onde impera a desigualdade social, à redução paulatina das res- ponsabilidades do Estado sobre a seguridade social e os direitos sociais da população. O desafio, portanto, é realizar uma leitura reflexiva processual para determinar as re- percussões das transformações que se estão produzindo em Brasil, especificamente o processo de avanço do neoliberalismo que realmente existe, com suas particularidades próprias em nosso país e na América Latina. Fonte: ABREO, Ana Carolina Santini B. de. Contemporâneidade e Serviço Social: Contri- buição para Interpretação das Metamorfoses Societárias. Serviço Social em Revista, UEL, Londrina. Disponível em: <http://www.uel.br/revistas/ssrevista/c_v2n1_contemp. htm>. Acesso em: 15 maio 2015. http://www.uel.br/revistas/ssrevista/c_v2n1_contemp.htm http://www.uel.br/revistas/ssrevista/c_v2n1_contemp.htm Material Complementar MATERIAL COMPLEMENTAR Você conseguiu compreender a relação do Serviço Social com as questões sociais? O porquê da estrutura de formação profissional? Caso você tenha curiosidade, sugerimos a leitura na íntegra das diretrizes: DIRETRIZES CURRICULARES PARA OS CURSOS DE SERVIÇO SOCIAL <http://www.cfess.org.br/arquivos/legislacao_diretrizes_cursos.pdf>. Se você quiser saber mais sobre os parâmetros de atuação de algumas das áreas de trabalho do assistente social, você pode consultar o site do CFESS (Conselho Federal de Serviço Social). Você pode ler online, ou fazer download dos livros. Livros, brochuras e outros <http://www.cfess.org.br/visualizar/livros>. Serviço Social em tempo de capital fetiche - capital financeiro, trabalho e questão social Marilda Villela Iamamoto Editora: Cortez Sinopse: Nesta nova obra, Marilda Villela Iamamoto, uma referência indispensável ao Serviço Social e ao pensamento crítico brasileiro e latino-americano, que vem formando gerações, realiza uma densa análise do significado da profissão à luz da dinâmica contemporânea do capital. Aqui encontra-se sua síntese da crítica marxista da economia política atual - o tempo do capital fetiche - para lançar luzes sobre a radicalização das expressões da questão social e seus impactos para o exercício e a formação profissionais, em uma clara atualização do texto fundador de 1982. São visíveis o fôlego, a inquietude e a tenacidade da investigação, que teve sua primeira versão para o concurso de professor titular na Faculdade de Serviço Social da UERJ, onde tenho o privilégio da convivência teórico-política com a autora. Há ainda passagens polêmicas acerca da categoria questão social e da relaçãoentre Serviço Social e trabalho que há muito mereciam vir a público na forma de livro, suscitando e precisando os termos do debate. Neste momento em que as forças conservadoras querem um Serviço Social que não pensa, que apenas executa, o novo trabalho de Marilda desmistifica e enfrenta o sono da razão, aquele que faz despertar os monstros, parafraseando Goya. MATERIAL COMPLEMENTAR Serviço Social na contemporaneidade: trabalho e formação profissional Villela Iamamoto Editora: Cortez Sinopse: Ao voltar-se para os cenários e tendências do Serviço Social - diante do contraditório contexto de transformações societárias que se observam no capitalismo contemporâneo - o livro comporta uma extensa, nova e inquietante agenda de questões para o trabalho e para a formação profissional do assistente social, dimensões complementares na inserção da profissão na história contemporânea. CONCLUSÃO 187 Chegamos ao final de mais uma etapa! Esperamos que você tenha aprendido um pouco mais com os temas abordados neste material. Nossa preocupação foi ofere- cer elementos históricos, teóricos e metodológicos que explicam o desenvolvimen- to do Serviço Social e seu projeto ético-político profissional. Nesta unidade, buscamos explicitar como os movimentos político, econômico e so- cial internacional dos anos 1970 a 1990 impactaram, na realidade brasileira, o deba- te no interior da categoria profissional. Observamos que, no decorrer do desenvolvimento da profissão no Brasil, os inte- resses societários, junto da incorporação de pressupostos teórico-metodológicos, imprimiram ao Serviço Social projetos profissionais diferentes, e que, a partir da apropriação da teoria marxista com a maturidade acadêmica e o movimento con- traditório de conflito de classes dos anos 1990, a profissão incorporou ao seu proje- to profissional essas lutas e construiu saberes e competências articulados aos proje- tos societários para além do capital. Discutimos também a relação entre neoliberalismo e questão social, bem como seus impactos nas políticas sociais e na conformação de uma nova sociabilidade que na sua essência busca fragmentar uma luta que é coletiva em prol de valores capitalistas, em tempos de globalização e mundialização de mercados. Diante de tais obstáculos, buscamos finalizar o livro discutindo os desafios para o Serviço Social na contemporaneidade e a necessidade de apropriar a teoria marxis- ta na relação entre teoria e prática, a fim de desvelar as contradições e buscar alter- nativas de enfrentamento às demandas emergentes que estejam em consonância com o atual projeto ético-político. Conte sempre conosco! Os Professores da Unicesumar estão sempre à disposição. Um grande abraço e sucesso na sua vida acadêmica, pessoal e profissional. CONCLUSÃO REFERÊNCIAS 189 ABRAMIDES, Maria Beatriz Costa. O Projeto Ético-Político Profissional do Serviço Social Brasileiro. Tese (Doutorado) - Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2006. ABREO, Ana Carolina Santini B. de. Contemporaneidade e Serviço Social: Contribui- ção para Interpretação das Metamorfoses Societárias. Serviço Social em Revista, UEL, Londrina. Disponível em: <http://www.uel.br/revistas/ssrevista/c_v2n1_con- temp.htm>. Acesso em: 15 maio 2015. ALVES, Lelis G; VIEIRA, Luiz A. Lutas Sociais, Projetos Profissionais e Serviço Social. Em Pauta: revista Libertas, da Faculdade de Serviço Social, Universidade Federal de Juiz de Fora, Minas Gerais, v. 14, n. 1, 2014. Disponível em: <http://libertas.ufjf.emnu- vens.com.br/libertas/article/view/2864/2158>. Acesso em: 19 maio 2015. ANDERSON, Pery. Balanço Neoliberal. Disponível em: <www.cefetsp.br/edu/eso/ globalizacao/balanconeolib.html>. Acesso em: set. 2014. ANTUNES, Ricardo. Adeus ao trabalho? Ensaio sobre as metamorfoses e a centrali- dade do mundo do trabalho. 4. ed. São Paulo: Cortez/UNICAMP, 1997. ______. Adeus ao trabalho? 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Os mencheviques (do russo menshe, que significava “minoria”), liderados por Georgy Plekanov e Yuly Martov, mantinham uma visão ortodoxa do marxismo pautada na social democracia e defendiam a ideia de que a liderança da nova re- pública deveria estar nas mãos da burguesia russa, a qual seria responsável pela ampliação das forças produtivas com o intuito de que uma revolução socialista acontecesse décadas mais tarde. Bolcheviques (do russo bolshe, que significava “maioria”), sob a liderança de Vla- dimir Lênin defendiam a ideia de que o governo deveria ser diretamente contro- lado pelos trabalhadores, sendo a revolução proletária a responsável direta pelas transformações que modernizariam a economia russa e daria fim aos contrates sociais que marcavam o país. 2. Ano de criação País ou Países Envolvidos Objetivo/Descrição Plano Marshall 1947 EUA Apoio Econômico e Bélico dos Estados Unidos para os Países da Europa Ocidental com o objetivo de reduzir o risco do avanço socialista. Conselho para As- sistência Econômica Mútua (COMECON) 1949 URSS Apoio Econômico da Rús- sia para os países do bloco comunista com o intuito de impedir que inclinassem para os interesses dos EUA. Organização do Trata- do do Atlântico Norte (OTAN) 1949 EUA e CANADÁ Aliança internacional com o objetivo de proteger os países do bloco capitalista de possí- veis ataques do bloco socialis- ta - URSS/Leste Europeu. Pacto de Varsóvia 1955 URSS Coalizão Militar de países do bloco socialista - URSS/Leste Europeu. GABARITO 3. O novo governo russo administrado por políticos oriundos das classes popu- lares dissolvem o conceito de propriedade privada, expropriando da nobreza, capitalistas e latifundiários russos: fábricas, terras, bancos etc., transformando esses bens em propriedade estatal. Tal transformação social de bens significou a transferência da riqueza nacional para as mãos da população da URSS de forma igualitária. UNIDADE II 1. 08 02 05 01 06 03 09 04 07 2. Aumento do desemprego, precarização do trabalho assalariado, proliferação de terceirização, subcontratações e flexibilização dos direitos trabalhistas, catego- rias expostas na unidade anterior. 3. Resposta certa: “C”. UNIDADE III 1. O materialismo histórico enquanto método de apreensão da realidade e de teo- ria do real é difundido no âmbito das pesquisas em Serviço Social. 2. Emerge nos anos 1990 o debate pós-moderno, porém anula o materialismo histórico enquanto matriz teórico-metodológica da profissão, uma vez que as categorias ditas pós-modernas não dão conta de explicar as múltiplas determi- nações do objeto. 3. Resposta correta: alternativa “A” - da década de 70. UNIDADE IV 1. A Lei de Regulamentação da Profissão 8662/93, o Código de Ética Profissional de 1993 e as Diretrizes Curriculares de 1996. 2. Perspectiva Modernizadora, Reatualização do Conservadorismo e Intenção de Ruptura. GABARITO 197 3. Porque, ao se aliar ao projeto societário que visa à transformação das relações sociais vigentes, se insere no embate entre projetos societários com interesses antagônicos e alia-se ao projeto societário do proletariado na luta por uma so- ciedade sem exploração de classes, livre, emancipada, justa e democrática para todos. UNIDADE V 1. Resposta Certa: “C”. 2. Resposta Certa: “E”. 3. Resposta Certa: “C”. 4. Resposta Certa: “D”. 5. Atividade livre que pode ser realizada como forma de autoestudo, com a devida organização do aluno(a). UNIDADE I O CONTEXTO SÓCIOPOLÍTICO E ECONÔMICO EM ÂMBITO MUNDIAL, latino-americano E brasileiro COM O FIM DO SOCIALISMO Introdução O Surgimento do Modelo de Produção Socialista Europeu O Modelo de Produção Socialista Europeu e a Guerra Fria A Queda do Modelo de Produção Socialista Europeu Os Reflexos do Fim do Modelo de Produção Socialista Europeu Para a América Latina e o Brasil Considerações Finais UNIDADE II O SURGIMENTO DO NEOLIBERALISMO E O AGRAVAMENTO DA QUESTÃO SOCIAL Introdução O Surgimento do Neoliberalismo A Transição da Economia Nacional para a Economia de Mercado O Conceito de Questão Social O Agravamento da Questão Social Considerações Finais UNIDADE III A CONSTRUÇÃO DO PROJETO PROFISSIONAL DO SERVIÇO SOCIAL Introdução Breves Considerações Acerca das Tendências Históricas e Téorico-Metodológicas do Debate Profissional O Serviço Social nos Anos 80: As Tendências Históricas e Teórico-Metodológicas do Debate Profissional O Serviço Social nos Anos 90: As Tendências Históricas e Teórico-Metodológicas do Debate Profissional Considerações Finais UNIDADE IV OS PROJETOS SOCIETÁRIOS, os PROJETOS PROFISSIONAIS E O PROJETO ÉTICO-POLÍTICO DO SERVIÇO SOCIAL Introdução Os Projetos Societários da Classe Trabalhadora e os Projetos Societários do Capital Projetos Profissionais e Projeto Ético-Político O Desenvolvimento dos Projetos Profissionais no Marco do Movimento de Reconceituação Projeto Ético-Político do Serviço Social Considerações Finais UNIDADE V O MOVIMENTO SÓCIO-HISTÓRICO E AS DEMANDAS TRADICIONAIS E EMERGENTES NA SOCIEDADE BRASILEIRA COLOCADAS À PROFISSÃO Introdução O Serviço Social na Contemporaneidade Demandas Tradicionais e Emergentes na Sociedade Brasileira Colocadas à Profissão e Sua Relação com a Questão Social Considerações Finais Conclusão Referências