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ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL PROFESSORES Dr. Osmar Moreira de Souza Júnior Me. Bruno Martins Ferreira ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 2 DIREÇÃO UNICESUMAR Reitor Wilson de Matos Silva, Vice-Reitor Wilson de Matos Silva Filho, Pró-Reitor de Administração Wilson de Matos Silva Filho, Pró-Reitor de EAD William Victor Kendrick de Matos Silva, Presidente da Mantenedora Cláudio Ferdinandi. NEAD - NÚCLEO DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA Direção Executiva de Ensino Janes Fidélis Tomelin, Diretoria Operacional de Ensino Kátia Coelho, Direção de Operações Chrystiano Mincoff, Direção de Polos Próprios James Prestes, Direção de Desenvolvimento Dayane Almeida, Direção de Relacionamento Alessandra Baron, Head de Produção de Conteúdos Celso L. Filho, Gerência de Produção de Conteúdo Diogo R. Garcia, Gerência de pro- jetos especiais Daniel F. Hey, Supervisão do Núcleo de Produção de Materiais Nádila de Almeida Toledo, Coordenador(a) de Contéudo Mara Cecilia Rafael Lopes, Projeto Gráfico José Jhonny Coelho, Editoração Humberto Garcia da Silva, Designer Educacional Barbara Neves, Qualidade Textual Hellyery Agda, Revisão Textual Cíntia Prezoto Ferreira , Ilustração Marcelo Goto, Fotos Shutterstock. C397 CENTRO UNIVERSITÁRIO DE MARINGÁ. Núcleo de Educação a Distância; SOUZA JÚNIOR, Osmar Moreira de; FERREIRA, Bruno Martins. Esportes Coletivos: Futsal e Futebol. Osmar Moreira de Souza Júnior; Bruno Martins Ferreira. Maringá - PR.:UniCesumar, 2018. 228 p. “Graduação em Educação Física - EaD”. 1. Futebol. 2. Futsal. 3. EaD. I. Título. ISBN 978-85-459-1144-9 CDD - 22ª Ed. 701.1 CIP - NBR 12899 - AACR/2 NEAD Núcleo de Educação a Distância Av. Guedner, 1610, Bloco 4 Jd. Aclimação - Cep 87050-900 Maringá - Paraná www.unicesumar.edu.br | 0800 600 6360 Impresso por: Wilson Matos da Silva Reitor da Unicesumar Em um mundo global e dinâmico, nós trabalhamos com princípios éticos e profissionalismo, não somente para oferecer uma educação de qualidade, mas, acima de tudo, para gerar uma conversão integral das pessoas ao conhecimento. Baseamo- nos em 4 pilares: intelectual, profissional, emocional e espiritual. Iniciamos a Unicesumar em 1990, com dois cursos de graduação e 180 alunos. Hoje, temos mais de 100 mil estudantes espalhados em todo o Brasil: nos quatro campi presenciais (Maringá, Curitiba, Ponta Grossa e Londrina) e em mais de 300 polos EAD no país, com dezenas de cursos de graduação e pós-graduação. Produzimos e revisamos 500 livros e distribuímos mais de 500 mil exemplares por ano. Somos reconhecidos pelo MEC como uma instituição de excelência, com IGC 4 em 7 anos consecutivos. Estamos entre os 10 maiores grupos educacionais do Brasil. A rapidez do mundo moderno exige dos educadores soluções inteligentes para as necessidades de todos. Para continuar relevante, a instituição de educação precisa ter pelo menos três virtudes: inovação, coragem e compromisso com a qualidade. Por isso, desenvolvemos, para os cursos de Engenharia, metodologias ativas, as quais visam reunir o melhor do ensino presencial e a distância. Tudo isso para honrarmos a nossa missão que é promover a educação de qualidade nas diferentes áreas do conhecimento, formando profissionais cidadãos que contribuam para o desenvolvimento de uma sociedade justa e solidária. Vamos juntos! boas-vindas Prezado(a) Acadêmico(a), bem-vindo(a) à Comunidade do Conhecimento. Essa é a característica principal pela qual a Unicesumar tem sido conhecida pelos nossos alunos, professores e pela nossa sociedade. Porém, é importante destacar aqui que não estamos falando mais daquele conhecimento estático, repetitivo, local e elitizado, mas de um conhecimento dinâmico, renovável em minutos, atemporal, global, democratizado, transformado pelas tecnologias digitais e virtuais. De fato, as tecnologias de informação e comunicação têm nos aproximado cada vez mais de pessoas, lugares, informações, da educação por meio da conectividade via internet, do acesso wireless em diferentes lugares e da mobilidade dos celulares. As redes sociais, os sites, blogs e os tablets aceleraram a informação e a produção do conhecimento, que não reconhece mais fuso horário e atravessa oceanos em segundos. A apropriação dessa nova forma de conhecer transformou-se hoje em um dos principais fatores de agregação de valor, de superação das desigualdades, propagação de trabalho qualificado e de bem-estar. Logo, como agente social, convido você a saber cada vez mais, a conhecer, entender, selecionar e usar a tecnologia que temos e que está disponível. Da mesma forma que a imprensa de Gutenberg modificou toda uma cultura e forma de conhecer, as tecnologias atuais e suas novas ferramentas, equipamentos e aplicações estão mudando a nossa cultura e transformando a todos nós. Então, priorizar o conhecimento hoje, por meio da Educação a Distância (EAD), significa possibilitar o contato com ambientes cativantes, ricos em informações e interatividade. É um processo desafiador, que ao mesmo tempo abrirá as portas para melhores oportunidades. Como já disse Sócrates, “a vida sem desafios não vale a pena ser vivida”. É isso que a EAD da Unicesumar se propõe a fazer. Willian V. K. de Matos Silva Pró-Reitor da Unicesumar EaD Seja bem-vindo(a), caro(a) acadêmico(a)! Você está iniciando um processo de transformação, pois quando investimos em nossa formação, seja ela pessoal ou profissional, nos transformamos e, consequentemente, transformamos também a sociedade na qual estamos inseridos. De que forma o fazemos? Criando oportunidades e/ou estabelecendo mudanças capazes de alcançar um nível de desenvolvimento compatível com os desafios que surgem no mundo contemporâneo. O Centro Universitário Cesumar mediante o Núcleo de Educação a Distância, o(a) acompanhará durante todo este processo, pois conforme Freire (1996): “Os homens se educam juntos, na transformação do mundo”. Os materiais produzidos oferecem linguagem dialógica e encontram-se integrados à proposta pedagógica, contribuindo no processo educacional, complementando sua formação profissional, desenvolvendo competências e habilidades, e aplicando conceitos teóricos em situação de realidade, de maneira a inseri-lo no mercado de trabalho. Ou seja, estes materiais têm como principal objetivo “provocar uma aproximação entre você e o conteúdo”, desta forma possibilita o desenvolvimento da autonomia em busca dos conhecimentos necessários para a sua formação pessoal e profissional. Portanto, nossa distância nesse processo de crescimento e construção do conhecimento deve ser apenas geográfica. Utilize os diversos recursos pedagógicos que o Centro Universitário Cesumar lhe possibilita. Ou seja, acesse regularmente o Studeo, que é o seu Ambiente Virtual de Aprendizagem, interaja nos fóruns e enquetes, assista às aulas ao vivo e participe das discussões. Além disso, lembre-se que existe uma equipe de professores e tutores que se encontra disponível para sanar suas dúvidas e auxiliá-lo(a) em seu processo de aprendizagem, possibilitando-lhe trilhar com tranquilidade e segurança sua trajetória acadêmica. boas-vindas Janes Fidélis Tomelin Diretoria Executiva de Ensino Kátia Solange Coelho Diretoria Operacional de Ensino 6 autores Professor Doutor Osmar Moreira de Souza Júnior Doutor em Educação Física pela FEF-Unicamp, em 2013 (título da tese: Futebol como projeto profis- sional de mulheres: interpretação da busca pela legitimidade); Mestre em Ciências da Motricidade pela Unesp, em 2003 (título da dissertação: Co-educação, futebol e Educação Física escolar); Gra- duado em Licenciatura em Educação Física pela Unesp-Rio Claro, em 1992. Professor Adjunto no Departamento de Educação Física e Motricidade Humana (DEFMH) da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar). Co-autor do livro Para ensinar Educação Física: possibilidades de intervenção na escola. Líder do Grupo de Estudos e Pesquisas dos Aspectos Pedagógicose Sociais do Futebol (ProFut-U- FSCar); membro do Grupo de Estudos e Pesquisas de Futebol (GEF-Unicamp) e do Laboratório de Estudos e Trabalhos Pedagógicos em Educação Física (LETPEF-Unesp de Rio Claro). Experiência na área de Educação Física escolar, tendo atuado como professor e coordenador de Educação Física no Ensino Fundamental e Médio de 1997 a 2008. Link para o currículo lattes: <http://lattes.cnpq.br/9176123942671062>. Professor Mestre Bruno Martins Ferreira Graduado em Educação Física pela UFSCar e Universitat de València (UV - Espanha). Mestre em Educação pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar), na linha de Práticas Sociais e Processos Educativos. Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas dos Aspectos Pedagógicos e Sociais do Fu- tebol (ProFut). Membro do Grupo de Estudos e Pesquisas sobre Processos Educativos de Crianças. Membro do Núcleo de Estudos e Pesquisas sobre Educação Física Infantil. Premiado por pesquisas sobre futebol em Congressos Acadêmicos: II Congreso Mundial de Entrenadores de Fútbol - Se- vilha, Espanha; Congresso Internacional de Pedagogia do Esporte (CONIPE) - Campinas, Brasil; V Congresso Estadual de Educação Física Escolar/II Congresso Nacional de Educação Física Escolar; X Congresso Internacional de Educação Física e Motricidade Humana (CIEFMH)/ XVI Simpósio Paulista de Educação Física. Experiência nas áreas de Educação Física Escolar e da Pedagogia do Futebol, tendo atuado em clubes do Brasil e Espanha de 2013 até os dias atuais. Link para currículo Lattes: <http://lattes.cnpq.br/0398347132356776>. apresentação Esportes Coletivos: Futsal e Futebol Prezado(a) aluno(a), convidamos você para uma viagem pelas trilhas do fantástico universo do futebol e do futsal. Neste livro, você aprenderá que o futebol e o futsal são muito mais que um jogo com 22 ou 10 pessoas correndo atrás de uma bola. Parafraseando o título do saboroso livro de José Miguel Wisnik, “Veneno remédio: o futebol e o Brasil”, é possível admitir que o futebol está presente em nosso dia a dia para o bem e para o mal, quer você queira ou não dar atenção a ele. É justamente por este motivo que o futebol tem um apelo todo peculiar, que não pode deixar de ser tratado pedagogicamente no campo da educação, afinal de contas, como bem falou Franklin Foer no título de seu livro Como o futebol explica o mundo, o futebol pode se constituir em um poderoso fenômeno que nos ajuda a melhor compreender o mundo em que vivemos. Para isso, no entanto, não devemos nos restringir a ensinar nossos(as) alu- nos(as) a simplesmente jogar futebol. Pensar uma pedagogia para o ensino do futebol requer pensar em mecanismos que permitam que os(as) aprendizes se apropriem desse esporte tanto do ponto de vista do praticante como do consumidor e do espectador. Isto é, além de aprender a jogar, é preciso aprender a conhecer o futebol por dentro e por fora. Você já deve estar se perguntando onde fica o futsal nessa história toda, visto que a modalidade também dá nome a esta disciplina. No decorrer dos capítulos do livro, essa escolha deverá ficar mais clara. Por ora, é importante adiantar apenas que reconhecemos o futebol como um fenômeno maior, que de alguma maneira, enquanto linguagem, abriga em seu âmbito outras modalidades, como o futsal. Tal compreensão não pretende diminuir o espaço do futsal ou indicar que este não possui uma identidade própria. Na verdade, o futsal é uma modalidade distinta do futebol, com suas regras e identidade próprias, contudo, do ponto de vista do ensino, em especial na iniciação, assumimos que não seja necessário fazer grandes distinções entre as duas modalidades. Este material está dividido em cinco unidades: Unidade I - “Sociogênese do futebol ao futsal”: aborda o processo de espor- tivização das práticas corporais até a consolidação do esporte moderno, com destaque para o futebol nesse processo, e a forma como o futebol de salão, que posteriormente dá origem ao futsal, encontra-se neste processo. Unidade II - “Futebol como objeto de estudo”: desvendando as lógicas interna e externa”: caracteriza o futebol como conhecimento dotado de expressivo poten- cial educacional e conceitua e discute as possibilidades de tratamento didático do futebol a partir de suas lógicas interna e externa. Unidade III - “O ensino do futebol para aprender a jogar: ênfase na lógica interna”: discute o ensino do futebol na perspectiva do ensinar a jogar, ou seja, a partir de sua lógica interna, dando relevo à natureza tática do jogo como eixo orientador do processo de ensino e aprendizagem. Unidade IV - “O ensino do futebol para aprender a apreciar e consumir”: dis- cute o ensino do futebol na perspectiva da lógica externa, colocando em relevo os aspectos sociais, culturais, históricos, políticos etc., que atravessam a modalidade. Unidade V - “Um outro futebol é possível”: aborda alternativas à monocultura do futebol espetáculo gerido pelo sistema FIFA/afiliadas, apresentando propostas como o futebol praticado por mulheres, o fútbol callejero e o futebol com classi- ficação funcional. Este livro tem por objetivo contribuir para a formação de professores e pro- fissionais de Educação Física comprometidos com um ensino do futebol que não seja centrado nos aspectos técnicos da modalidade, e sim no sujeito que aprende, assumindo a metodologia proposto por João Batista Freire que, em seu livro Peda- gogia do futebol, reivindica que ensinemos o futebol a partir de quatro princípios pedagógicos: ensinar futebol a todos(as), ensinar bem futebol a todos(as), ensinar mais do que futebol a todos(as) e ensinar a gostar do esporte. Caro(a) aluno(a), como última mensagem desta breve apresentação, lembramos o grande educador Rubem Alves que afirma que o professor e a escola em geral dão a faca e o queijo para os alunos aprenderem, mas muitas vezes se esquecem que é preciso despertar a fome nestes alunos. Esperamos que você saboreie este livro com esta fome e no futuro saiba despertar a fome do conhecimento em seus alunos e suas alunas. Abraços fraternos e um bom curso! Prof. Dr. Osmar Moreira de Souza Júnior Prof. Me. Bruno Martins Ferreira sumário UNIDADE I SOCIOGÊNESE DO FUTEBOL AO FUTSAL 14 Sociogênese do Futebol 20 Esporte e Futebol como Reservas Historica- mente Masculinas 28 Do Futebol ao Futsal 36 Reinventando a História do Futebol 40 Considerações finais 47 Referências 50 Gabarito UNIDADE II FUTEBOL COMO OBJETO DE ESTUDO: DESVENDANDO AS LÓGICAS INTERNA E EXTERNA 56 A Importância de se Estudar o Futebol 60 Princípios Pedagógicos no Ensino do Futebol 64 Futebol, Educação Física e Proposta de Ensino 68 Praxiologia Motriz: Lógica Interna, Lógica Externa 71 Considerações finais 77 Referências 79 Gabarito UNIDADE III O ENSINO DO FUTEBOL PARA APRENDER A JOGAR: ÊNFASE NA LÓGICA INTERNA 84 Lógica Interna no Futebol: Foco nas Tomadas de Decisão E Ações no Jogo 88 Os Aspectos Tático-Técnicos: Motivações e Apresentação dos Princípios Operacionais em Diálogo com os Indicadores de Jogo na Lógica Interna 94 Aprender a Jogar Pelo Jogo: Atividades Pensa- das a Partir da Relação com a Bola 104 Aprender a Jogar Pelo Jogo: Atividades Pensa- das a Partir da Relação com a Estruturação do Espaço 114 Aprender a Jogar Pelo Jogo: Atividades Pensadas a Partir da Relação com a Comuni- cação na Ação 124 Considerações finais 130 Referências 132 Gabarito UNIDADE IV O ENSINO DO FUTEBOL PARA APRENDER A APRECIAR E CONSUMIR: ÊNFASE NA LÓGICA EXTERNA 138 Lógica Externa no Futebol: como o Futebol Explica o Mundo 140 O Dom de Jogar Bola: Mitos e Verdades 148 Futebol e Política 164 Futebol e Gênero 172 O Futebol Espetacularizado: Mídia, Torcidas, Violência 183 Considerações finais 191 Referências 194 Gabarito UNIDADE V UM OUTRO FUTEBOL É POSSÍVEL 200 Futebóis para Pessoas com Deficiências 206 Futebol de Botão 212 Fútbol Callejero 218 Considerações finais 225 Referências 227 Gabarito 228 Conclusão Geral Professor Dr. Osmar Moreira de Souza JúniorProfessor Me. Bruno Martins Ferreira Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: • Sociogênese do futebol • Esporte e futebol como reservas historicamente masculinas • Do futebol ao futsal • Reinventando a história do futebol Objetivos de Aprendizagem • Entender o processo de consolidação do futebol como esporte. • Identificar e criticar a construção generificada do campo esportivo e do futebol em especial. • Reconhecer o futsal como modalidade esportiva autônoma, mas derivada do futebol. • Refletir sobre estratégias didáticas para o ensino dos processos históricos do futebol. SOCIOGÊNESE DO FUTEBOL AO FUTSAL I unidade INTRODUÇÃO O lá caro(a) aluno(a), seja bem-vindo(a) à primeira unidade da disciplina “Esportes coletivos: futsal e futebol”. Para iniciar- mos nossas reflexões sobre a temática sociogênese do futebol, propomos algumas questões iniciais. Quem inventou o fute- bol? Aliás, será que o futebol foi inventado por alguém? Nesta unidade, você irá compreender que o futebol não é uma prática que surgiu de alguma invenção pessoal de algum ser humano, mas sim fruto de um processo de amadurecimento de uma série de jogos com bola que, desde a antiguidade, influenciaram para a consolidação do fu- tebol da forma como o conhecemos hoje. Para tal fim, adotamos como categoria de análise o esporte moderno, que se diferencia das práticas corporais com motivações ritualísticas, re- ligiosas, bélicas etc., assumindo um sentido próprio. Compreender esse processo de construção social, que aqui chamaremos de sociogênese do futebol, é importante para o reconhecimento da conso- lidação da modalidade como patrimônio imaterial da humanidade, bem como para a identificação das causas e efeitos do processo de esportivização das práticas corporais - processo este, que não pode ser analisado de manei- ra descolada do processo civilizatório da humanidade de uma forma geral. A unidade discute o processo de esportivização do futebol, bem como a discriminação de gênero presente no campo esportivo e no futebol em especial, que faz com que as mulheres enfrentem uma série de barreiras para transitarem por esses campos. O surgimento do futebol de salão, que dá origem ao futsal, também merece destaque na unidade, evidenciando que embora tenha sua ori- gem intimamente vinculada ao futebol, o futsal se consolida como uma modalidade esportiva à parte. Por fim, o último tópico discute possibilidades didáticas para o ensino da história do futebol e apresenta uma estratégia nesse sentido, denominada “reinventando a história do futebol”. Bons estudos! ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 14 Estimado(a) aluno(a), partiremos da premissa de que o esporte moderno surgiu na Grã-Bretanha, en- tre os séculos XVIII e XIX. Partindo dessa perspecti- va, compreendemos que o futebol, enquanto esporte moderno, só pode existir graças a um conjunto de circunstâncias que estiveram presentes apenas na sociedade britânica da transição entre estes séculos. Isto é, qualquer outra tentativa de reivindicar a paternidade do futebol por outra nação, em outro Sociogênese do Futebol Fonte: Blog do Ale’Italia (2012, on-line)1. momento histórico, não passa de um mal-enten- dido que confunde esporte com práticas corporais pré-modernas. Falamos isso por concordar com Dunning (2003), quando o autor assegura que foi no contexto de uma sociedade cada vez mais pací- fica e submetida a formas mais eficazes de legisla- ção parlamentar, que começaram a surgir formas modernas e reconhecíveis de esporte baseadas em regras escritas. 15 EDUCAÇÃO FÍSICA procurando arremessar uma bola de borracha maciça – pesando cerca de três quilos – no campo adversário com o objetivo de fazê-la tocar o chão. Cada toque da bola no chão contava um ponto negativo para a equi- pe, sendo que esses débitos podiam ser anulados caso conseguisse-se introduzi-la em um dos dois aros de pedra fixados nos muros laterais do campo. Em sua origem, o tlachtli ocorria em um pátio que separava dois templos, consistindo em um rito cosmológico e, ao menos no princípio, suspeita-se que o capitão da equipe perdedora era sacrificado por decapitação. OS JOGOS ANTECESSORES DO FUTEBOL O historiador Hilário Franco Júnior (2007) dá início a seu livro A Dança dos Deuses: futebol, sociedade, cultura alertando para as problemáticas envolvendo as questões históricas a propósito de possíveis ori- gens longínquas do futebol. Segundo o autor, diz uma lenda que, na China, entre 2000 e 1500 a.C., guerreiros inventaram uma macabra diversão para relaxar logo após as sangrentas batalhas que tra- vavam: chutar o crânio de um inimigo com o ob- jetivo de fazê-lo ultrapassar uma meta simbolizada por duas estacas de bambu fincadas no chão. Dessa comemoração hedionda surgiu, no século III a.C. o tsu chu, um exercício para treinamento militar, que consistia também em colocar a cabeça – neste caso, simbolizada por uma bola de couro de cerca de 22 cm recheada com crina – em uma meta de varas de bambu. Além do treinamento militar, a disputa adquiria simbolismo cosmológico, sendo praticada por 12 jogadores representando os signos do zodía- co, o formato quadrilátero do campo representando o céu e a bola representando o sol. No século III, o jogo foi importado pelos japone- ses tendo seu nome traduzido para kemari, que tinha o mesmo significado: “chutar a bola”. Contudo, no Japão, o jogo perdeu seu caráter militar, adquirindo uma co- notação cerimonial, cuja dinâmica consistia em con- trolar a bola sem que ela tocasse o solo, circulando en- tre oito jogadores (FRANCO JÚNIOR, 2007). O tlachtli, jogado na América Central desde, aproximadamente, 900 a.C., é considerado outro pro- vável antepassado do futebol. De acordo com Fran- co Júnior (2007), esse jogo consistia em uma disputa na qual dois grupos, geralmente de sete jogadores, enfrentavam-se em um campo retangular (25 a 63 metros de comprimento por seis a doze de largura), O epyskiros surgiu na Grécia clássica a partir do sé- culo IV a.C. e o seu derivado, harpastum, na Roma antiga do século III a.C. Foram jogos que simula- vam batalhas. O harpastum destinava-se inicialmen- te a aprimorar as capacidades físicas e a inteligência tática dos soldados romanos. Uma hipótese muito difundida por alguns estudiosos do assunto é que o harpastum teria sido introduzido pelas tropas roma- nas nas ilhas britânicas, sendo um legítimo anteces- Figura 1 - Pintura com representação do jogo de tlachtli Fonte: Guerra Fria: Política e Futebol (2014, on-line)2. ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 16 sor do futebol moderno naquelas terras, porém, tal tese não tem documentação que confira a necessária credibilidade científica (FRANCO JÚNIOR, 2007). Na Florença renascentista do século XIV, prati- cava-se o calcio (nome que os italianos atribuem ao futebol ainda hoje), provavelmente um descendente do harpastum, que para muitos estudiosos pode ser considerado o primeiro jogo antecessor do futebol com uma codificação de regras mais rígidas e orga- nização tática sofisticada. Segundo Franco Júnior (2007), o calcio fioren- tino realizava-se no principal espaço público da ci- dade de Florença, a piazza Santa Croce. O jogo era disputado por duas equipes de 27 jogadores cada, uniformizados (um grupo verde e outro branco) e distribuídos de forma rígida pelo espaço de jogo (três primeiros defensores, quatro outros defenso- res, cinco intermediários e quinze atacantes). Para controlar as ações desses jogadores, criou-se a figura do árbitro, sendo que dez árbitros faziam a media- ção de uma partida que realizava-se no período de Carnaval, com uma hora de duração, em um espaço retangular de cem por 48 metros e uma bola com dimensões semelhantes às das bolas modernas. No norte da França, desde, pelo menos, meados da Idade Média, praticava-se um jogo ou um conjunto de jogos denominados de soule. Wisnik (2007) re- vela que tal jogocaracterizava-se como uma espécie de vale tudo da bola, empreendido por grupos que compreendiam centenas de pessoas que, usando os pés e as mãos, entravam em choques agressivos na disputa pela bola. O objetivo dessa batalha entre po- pulações de aldeias vizinhas consistiria em conduzir a bola para dentro do território do adversário ou de resgatar a bola do grupo adversário e trazê-la para seus domínios, entronizando-a em sua própria igre- ja ou outro ponto acordado. Cronistas registram desde os séculos XI e XII a ocorrência dessas duas modalidades de dis- puta, certamente complementares mas indi- cativas, também, de uma alternância prática entre o modelo guerreiro e o religioso. Porque, num caso, trata-se de atacar, conduzindo a bola agressivamente em direção ao território a ser conquistado; no outro, trata-se de resgatar o trunfo, entre escaramuças e emboscadas, re- conduzindo-o para o território de origem como a restituição sacral de um bem (à maneira da demanda do Graal) (WISNIK, 2007, p. 78). Na Inglaterra propriamente dita, desde 1174, existem registros da prática de jogos com bola. Esses jogos aconteciam anualmente em come- moração à expulsão dos dinamarqueses, na festa popular denominada Schrovetide (que coincidia com a Terça-feira Gorda do calendário cristão). A bola era considerada a representação da cabeça do comandante invasor dinamarquês. A difusão dos jogos com bola nas ilhas britânicas foi tão grande que, em 1365, o rei Eduardo III proibiu-o sob a alegação de que desviava a atenção de práti- cas mais nobres e úteis. Figura 2 - Gravura com representação de jogo do calcio fiorentino, na Piazza Santa Croce em Florença-ITA Fonte: Wikimedia Commons (2016, on-line)3. 17 EDUCAÇÃO FÍSICA Franco Júnior (2007) conclui que, apesar de pontos em comum entre as referidas práticas com bola, tais como: caráter ritual, campo de sentido cós- mico, bola representando cabeça humana etc., não se pode traçar uma linha de continuidade entre elas. Mais do que as similitudes, o autor coloca em relevo as diferenças significativas entre as formas antigas e a atual de conceber o jogo de bola com os pés. Hoje o jogo é coletivo, enquanto o soule e o footbal opunham grupos, mas tinham como vencedor um indivíduo, aquele que levasse a bola até determinada meta. O epyskiros grego, como outros jogos com bola, era visto apenas como diversão, sem o estatuto esportivo e cí- vico da corrida, do salto, do arremesso de dis- co, do arremesso de dardo, da luta, do boxe, do pancrácio. O individualismo daquela sociedade excluía os jogos coletivos dos grandes concur- sos atléticos pan-helênicos, inclusive do mais importante deles, a Olimpíada. O harpastum romano possivelmente fosse jogado mais com as mãos do que com os pés [...]. O tlachtli me- so-americano era jogado com diversas partes do corpo, exceto mãos e pés. Enquanto o jogo atual possui regramento escrito e estrito, o de séculos passados (com exceção do calcio fioren- tino) baseava-se em tradições orais muito vagas e variadas de região para região [...] Enfim, cada uma das práticas precedentemente lembradas respondia a condições culturais es- pecíficas, o que torna muito frágil tentar vê-las como antepassadas do futebol (FRANCO JÚ- NIOR, 2007, p. 19-20). O SURGIMENTO DO FUTEBOL MODERNO Segundo Dunning (2003), em comparação com seus antecedentes populares, o rúgbi e o futebol são exemplos de esportes mais civilizados ao me- nos em 6 sentidos: 1. limitação do número de participantes; 2. especialização da utilização de mãos ou pés; 3. comitês que centralizam as regras; 4. manuais de regras exigindo autocontrole so- bre a força física; 5. definição de sanções às infrações cometidas no jogo; 6. institucionalização das regras do jogo legiti- mando o papel do árbitro. Diferentemente dos portadores de chicotes e porre- tes que dirigiam os jogos na Grécia Antiga, o árbitro do esporte moderno não precisam recorrer à força física ou às ameaças para garantir o cumprimento de suas ordens. Apenas à sanções específicas do jogo que não implicam castigos físicos. Dunning (2003) entende que como chineses, ja- poneses, gregos, italianos, romanos, ingleses, fran- ceses e celtas praticaram, em algum período de sua história, jogos que, com distintos graus de plausibi- lidade, têm sido propostos como “a” forma ancestral do futebol, seria razoável adotar a hipótese de que os jogos similares ao futebol tiveram origens múltiplas, sendo praticados de distintas formas em todas ou quase todas as sociedades com capacidade tecnoló- gica para fabricar bolas adequadas. Considerando a delimitação entre os jogos pré- -modernos e o esporte moderno futebol, concorda- mos com Damo (2007), quando recorrendo a Mont- serrat Guibernau, admite que: [...] a relação que se pode estabelecer entre o football association e as formas de football não codificadas – por vezes tratadas como folk foo- tball ou jogos pré-modernos – é análoga à ma- neira como se processou a codificação das lín- guas oficiais em certos Estados-nações que se caracterizavam pela diversidade de práticas em seus territórios (DAMO, 2007, p. 36). ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 18 Do mesmo modo, como Dunning (2003), acredita- mos que o padrão básico do jogo, caracterizado pelo seu caráter popular em forma de lutas entre grupos, o prazer próprio que gera uma batalha, o caráter de- sordenado e o grau relativamente alto de tolerância à violência física, mantêm-se muito similar em todos os lugares em que este jogo é praticado, levando-nos a crer que estes jogos procediam de um mesmo mol- de que transcendia as diferenças em relação aos seus nomes e às tradições locais específicas. As primeiras regras escritas sobre o futebol pro- cedem da escola pública inglesa de “Rugby”, em 1845. Mais tarde, outras escolas adotaram estas re- gras. As escolas públicas inglesas surgem na Idade Média, e no século XVIII foram ocupadas por mem- bros da aristocracia e da alta burguesia, adquirindo caráter elitista. Nesse contexto, essas escolas passam por uma onda de violência, em meio à qual o Rugby, sob a tutela do pedagogo Thomas Arnold, consegue recuperar a ordem e, junto com a regulação das re- lações de autoridade, surgem ali formas regradas e civilizadas de jogar futebol. Em Rugby, os alunos mais velhos estiveram diretamente envolvidos na construção das regras (DUNNING, 2003). As escolas públicas de Eton e Rugby, rivais, es- tão diretamente ligadas às razões da separação do futebol do rúgbi. Nas regras de Eton, a proibição ab- soluta do uso das mãos é evidente. A bifurcação só se institucionalizou quando o futebol foi admitido como jogo para adultos, momento em que membros das classes alta e média fundaram clubes com pro- pósito específico da prática do futebol e criaram-se associações com a intenção de dar corpo a uma le- gislação a nível nacional. Dunning (2003) afirma que a partir de uma sé- rie de reuniões em Londres, em 1863, procurou-se criar um código de futebol unificado. A maioria defendia o jogo sem as mãos e com menos contato físico, criando a Footbal Association (FA), mas havia um grupo que era partidário da versão mais “rude”. Este grupo retirou-se das conversações e, em 1871, fundou a Rugby Footbal Union (RFU). Esses dados sugerem que as primeiras fases do desenvolvimento do esporte moderno implicaram um transformação para uma maior civilização. Esportes, como boxe, futebol e rúgbi, representaram a eliminação de cer- tas formas de violência física e a exigência de que os participantes exercessem um controle mais estri- to sobre o contato físico e os impulsos agressivos de origem social. Dunning (2003) entende que, hoje, podemos dizer que o esporte passa por um processo desci- vilizador, mediado pela comercialização, profissio- nalização e internacionalização, que aumentam a importância da vitória, aumentando a pressão com- petitiva e empreendendo uma regressão aos níveis de violência que caracterizavam oesporte na Anti- guidade e Idade Média. Futebol se joga no estádio? Futebol se joga na praia, futebol se joga na rua, futebol se joga na alma. (Carlos Drummond de Andrade) REFLITA 19 EDUCAÇÃO FÍSICA ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 20 Esporte e Futebol como Reservas Historicamente Masculinas Figura 3 - Dick Kerr’s Ladies 1921 Fonte: A Raft of Apples (2012, on-line)4. Caro(a) aluno(a), ao ler sobre a história da origem do futebol, você não sen- tiu falta de alguma coisa? Pelo título deste tópico, você já deve ter entendido qual a provocação inicial. Pois é, as mulheres pouco aparecem nessa história e quando aparecem são tratadas como meras figurantes; mas qual seria o mo- tivo dessa distinção entre o masculino e o feminino no processo de evolução histórica do futebol? É exatamente dessa inquietação que pretendemos tratar no tópico que, agora, será apresentado. Bons estudos! 21 EDUCAÇÃO FÍSICA O ESPORTE COMO RESERVA MASCULINA O esporte moderno, surgido na Inglaterra entre os séculos XVIII e XIX, esteve pautado na codificação e institucionalização de práticas corporais ou passa- tempos que eram regidos por tradições locais e ad- quiriam sentidos e significados associados às esferas religiosa e/ou militar. Uma característica que pode passar despercebida na descrição dessa história diz respeito à ausência (ou ao menos ao silenciamento da presença) das mulheres. Dunning (2003) argumenta sobre essa ausência referindo-se ao esporte como uma das principais áre- as de validação da masculinidade, na medida em que carrega uma série de sentidos que se tornaram ex- pressão cultural dos valores masculinos tradicionais. O autor chama a atenção para o fato de mudan- ças socioeconômicas e familiares corroerem as ba- ses tradicionais da identidade e dos privilégios dos homens. A participação cada vez mais efetiva das mulheres nos cenários político, cultural, social, eco- nômico e esportivo masculino repercutiu em uma reação machista no sentido de garantir a manuten- ção de alguns desses privilégios e, deste modo, po- de-se atestar que uma gama de esportes, em especial aqueles que assumem características de combate, como as lutas, o futebol, o rúgbi, o futebol ameri- cano etc., estabeleceram-se como um dos últimos bastiões de um exercício tido como autêntico das expressões de masculinidade. Jennifer Hargreaves (1993) afirma que o lazer em geral e o esporte em particular são expressões do poder cultural dos homens, na medida em que eles possuem acesso a um maior número de atividades dessa natureza e, ao mesmo tempo, dedicam uma quantidade de tempo consideravelmente superior às mulheres a estas atividades. No entanto, ainda que a construção social da maioria dos esportes esteja ba- seada em uma clássica história de dominação mas- culina e subordinação feminina, o poder masculino no esporte nunca foi exercido de forma absoluta. A autora revela ainda que, ao final do século XIX e início do século XX, iniciou-se um desenvolvimen- to gradual da prática esportiva pelas mulheres, que teve continuidade no período entre guerras e pós-Se- gunda Guerra Mundial, e tem se intensificado cada vez mais nos últimos anos. Prova disso é o aumento considerável na quantidade de mulheres que hoje dedicam suas horas de lazer à prática esportiva e a variedade de esportes que essas mulheres praticam. FUTEBOL DE MULHERES: ROMPENDO PARADIGMAS DE GÊNERO Desde sua origem, tanto em sua fase elitizada como em seu período mais popular, tudo indica que o fute- bol manteve-se como uma prática majoritariamente masculina. Talvez, diferentemente do período dos jogos pré-modernos, tendo em vista que, ao menos em algumas de suas manifestações, retratam a parti- cipação de multidões que poderiam incluir crianças, mulheres e idosos (SOUZA JÚNIOR, 2013). Entendemos que os fatores que contribuem para essa mudança podem estar ligados justamente aos ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 22 valores vinculados ao futebol, visando formar uma elite britânica com fibra moral para governar o país, tributários de sua gênese na transição do século XVIII para o XIX, nas public schools inglesas, nas quais o “embrião” daqueles que viriam a ser o futebol e o rúgbi teriam sido utilizados como ferramentas para a restituição da ordem que havia sido destituída por uma série de rebeliões e distúrbios causados pe- los alunos (DUNNING, 2003). Sustentada por uma visão de mundo “modelada” pelo legado do patriar- cado, essa elite governante não incluiria as mulheres que, desse modo, deveriam ser alijadas desta esfera política, restringindo-se ao espaço privado (SOUZA JÚNIOR, 2013). Uma lacuna para a participação da mulher no futebol é aberta com o advento da Primeira Guerra Mundial. Nesse período, Franco Júnior (2007) rela- ta que- apesar de algumas experiências isoladas em fins do século XIX- até 1914, o futebol tinha sido exclusividade do público masculino. Com a guerra, mulheres da classe operária inglesa foram traba- lhar nas fábricas de munição e, no bojo do proces- so geral de emancipação feminina, apropriaram-se também do futebol. Newsham (1997) revela que, no período da Primeira Guerra Mundial, surgem inúmeras equi- pes de futebol formadas por mulheres em toda Inglaterra, com o propósito principal de levantar fundos para caridade. Naquele período, com a en- trada maciça das mulheres na indústria de arma- mentos, o governo inglês adotou uma política de incentivo à prática de esportes para essas mulhe- res, tendo em vista o bem-estar físico e o fomento ao trabalho em equipes. O futebol foi o esporte de maior interesse por parte das mulheres, refletindo no surgimento de diversas equipes de mulheres nas fábricas do Reino Unido. Apesar do sucesso indiscutível dos jogos de fu- tebol das mulheres, sempre houve algum tipo de resistência a esse fenômeno. O argumento da ina- dequação do corpo feminino para a prática do fu- tebol desde cedo mobilizou uma boa parcela da população. Em detrimento dessa oposição, os jogos de futebol de mulheres se desenvolveram de forma crescente entre os anos de 1917 e 1921, atraindo aos estádios públicos bastante expressivos. Um dos times de futebol de mulheres de maior expressão à época foi o Dick, Kerr Ladies, formado por trabalhadoras da fábrica do mesmo nome. A equipe teve uma trajetória de vitórias memoráveis no país e no exterior e costumava encher os estádios por onde passava. As coisas começaram a mudar para o promissor e crescente futebol de mulheres, quando a entida- de máxima do futebol inglês e mundial à época, a Football Association (FA), passou a sentir-se in- comodada com o sucesso das mulheres e decidiu criar barreiras para os seus jogos. Assim, o golpe fatal que determinou a mudança nos rumos dos jo- gos de futebol de mulheres veio com a resolução da FA, em 5 de outubro de 1921, que requisitava aos clubes a ela filiados, para que não concedessem seus campos de futebol para jogos de mulheres (NEWSHAM, 1997). De acordo com Souza Júnior (2013), a experi- ência dos jogos de futebol de mulheres nos anos de 1920, na Inglaterra, e principalmente a trajetó- ria de sucesso do Dick, Kerr Ladies desconstroem uma série de paradigmas que ainda hoje se per- petuam quando se discute o “futebol feminino”. A suposta fragilidade das mulheres para jogar futebol já fora desmistificada desde aquela época; aliás, o histórico de jogos do Dick, Kerr Ladies ao longo de 1921 e o registro de que não há relatos 23 EDUCAÇÃO FÍSICA de contusões graves das atletas são provas desse fato. A multiplicação de equipes de norte a sul do Reino Unido e em países vizinhos, como a França, o interesse do público, manifestado pelas multi- dões presentes nas partidas e as rendas expressivas obtidas sinalizam para uma possibilidade concre- ta de que o futebol de mulheres seria o que hoje chamamos de esporte espetáculo. Pensar que, em plena década de 20, mulhe- res teriam protagonizado espetáculos de tamanha magnitude,com equipes se multiplicando e refor- çando-se em busca de adversárias cada vez mais fortes, cruzando o país, as fronteiras com outros países e o oceano em busca desses desafios é algo de muito significativo para a história do futebol (SOUZA JÚNIOR, 2013). Já no Brasil, a história do futebol seguiu por ou- tros caminhos, pois a influência dos ingleses em sua sociogênese esteve mais ligada à apresentação da modalidade por um viés aristocrático permeado pe- los laços econômico-industriais entre os dois países. Tomando por base alguns estudos majoritaria- mente circunscritos ao Rio de Janeiro, é possível vis- lumbrar ao menos um recorte das primeiras aproxi- mações das mulheres com o esporte no Brasil como espectadoras, ainda que de maneira tímida. Nesse sentido, Salles, Silva e Costa (1996) admitem que, antes do surgimento do futebol, os esportes da elite brasileira, particularmente, eram o remo e a equita- ção (ou turfe), obtendo também a atenção das mu- lheres, porém, na condição de espectadoras. Com a chegada do futebol, o turfe e o remo foram perdendo espaço como esportes preferidos pela sociedade, deixando também de ser o esporte predileto das mulheres, que passaram a ser vistas nos estádios trajadas como se estivessem em uma festa de gala. Segundo Moura (2003), em 28 de junho de 1921, a imprensa de São Paulo divulgou que jogariam no campo do Tremembé F.C. as “Senhoritas Tremem- benses” versus “Senhoritas Cantareirenses”. Para muitos, este teria sido o primeiro jogo de futebol entre mulheres realizado no país, mas a escassez de registros de tantas outras possibilidades de ex- periências que não mereceram atenção de jornais à época, ou mesmo antes desse episódio, nos sugere um pouco mais de comedimento ao elegê-lo como marco inaugural da presença feminina nos grama- dos brasileiros. Moura (2003) relata que, na década de 30, as prá- ticas corporais realizadas pelas mulheres deixaram definitivamente de ter apenas como foco a ginástica e a dança, consolidando sua presença no campo es- portivo, que iria incorporar, inclusive, o basquetebol e o futebol enquanto “esportes femininos”. Segundo Malaia (2011), no início do século XX, as mulheres frequentavam os estádios de futebol apresentando-se bem-vestidas, usando luvas, chapéus, longos vestidos e ti- nham o hábito de assistir às partidas apertan- do os objetos que tivessem em mãos, além de contorcerem-se, pularem, gesticularem e soltarem gritos para chamar o nome de seus atletas prediletos. Estes, atletas em sua maio- ria também sócios dos clubes e considerados bons partidos. “Esse era o comportamento inusitado que tanto chamou a atenção da imprensa e da sociedade e que configurou um novo personagem do futebol do período: as ‘torcedoras’”. Fonte: adaptado de Malaia (2011). SAIBA MAIS ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 24 De acordo com Moura (2003), no ano de 1940, o futebol de mulheres ganha destaque na imprensa carioca. Inicialmente, o interesse das mulheres dos subúrbios na prática do futebol despertou curio- sidade da população de uma maneira geral, sendo amplamente explorado pela imprensa, que desti- nou um espaço significativo para o assunto. Alguns médicos também se mostraram favoráveis à prática do futebol pelas mulheres, fazendo apenas ressalvas com relação à necessidade de maiores estudos so- bre o assunto para a adoção de “normas racionais” e de um “método científico” que dispusessem sobre a dosagem e duração dessa prática no intuito de “pro- teger” o “organismo feminino”. O autor ainda reforça que não era consensual o apoio ao futebol de mulheres, que recebia severas críticas da comunidade social e científica da época, como revela a carta encaminhada pelo cidadão José Fuzeira ao presidente da República Getúlio Vargas, em 25 de abril de 1940. O teor da carta revelava a preocupação do cidadão com a popularização do futebol entre as mulheres, que segundo ele confi- gurava-se em uma “calamidade prestes a desabar sobre a juventude feminina”. Fuzeira alertava o pre- sidente para a crescente quantidade de “clubes fe- mininos de futebol” que se formavam nas grandes capitais do país, que seriam “núcleos destroçadores da saúde de futuras mães”. Franzini (2005) acres- centa que essa carta sensibilizou a comunidade científica, ganhando respaldo da Divisão de Edu- cação Física do Ministério da Educação e Saúde, que a encaminhou para a Subdivisão de Medicina Especializada, na qual recebeu parecer favorável, iniciando, assim, uma cruzada em perseguição à prática do futebol por mulheres. Castellani Filho (1988) lembra que o decreto-lei nº 3.199, de 14 de abril de 1941, estabelece as bases do esporte em todo o país, fundando o Conselho Nacio- nal dos Desportos (CND) (BRASIL, 1941). Em seu artigo 54, o decreto compreende o seguinte texto: Às mulheres não se permitirá a prática de despor- tos incompatíveis com as condições de sua natu- reza, devendo, para este efeito, o Conselho Nacio- nal de Desportos baixar as necessárias instruções às entidades desportivas do país (Brasil, 1941). Segundo Souza Júnior (2013), provavelmente, as restrições legais tenham contribuído de maneira de- cisiva para o suposto desaparecimento da mídia de relatos da prática do futebol pelas mulheres durante este período, mas não é demais lembrar que não sig- nifica que ela não existia por haver a proibição legal e a ausência de registros. Um episódio que ajuda a focalizar a possibilidade de que as mulheres conti- nuavam a praticar o futebol, muitas vezes alheias e/ ou desinformadas em relação à proibição vigente, refere-se a uma iniciativa individual, que teve ori- gem,. em 1958, na cidade de Araguari, no Triângulo Mineiro, indicando que o futebol de mulheres não esteve totalmente adormecido (CUNHA, 2016). Reforçando a onda oposicionista à prática espor- tiva pelas mulheres, em 1965, o CND baixou as se- guintes instruções às entidades desportivas do país: Deliberação – CND – Nº 7/65 Nº 1 – Às mulheres se permitirá a prática de des- portos na forma, modalidades e condições esta- belecidas pelas entidades internacionais dirigen- tes de cada desporto, inclusive em competições, observado o disposto na presente deliberação. Nº 2 – Não é permitida a prática de lutas de qualquer natureza, futebol, futebol de salão, fu- tebol de praia, pólo aquático, pólo, rugby, hal- terofilismo e baseball (CASTELLANI FILHO, 1988, p. 62-63). 25 EDUCAÇÃO FÍSICA Moura (2003) recorda que a proibição da prática do futebol pelas mulheres acaba tendo desdobramentos até mesmo nas aulas de educação física escolar. As- sim, na escola, que seria o ambiente propício para as meninas terem contato com essa prática, as alunas não puderam ter contato com o futebol. Apenas no ano de 1979, a proibição da prática do futebol pelas mulheres foi revogada por meio da deliberação nº 10 do CND (BRASIL, 1979), permi- tindo o reconhecimento de que era necessário esti- mular as mulheres nas diversas modalidades (CAS- TELLANI FILHO, 1988; REIS; ESCHER, 2006). Não podemos, também, desconsiderar que, no panorama político, o país respirava novos ares em 1979, com o processo de abertura política, a crise econômica e o recuo do governo militar que, preo- cupado com a insatisfação generalizada da popula- ção, passava a fazer concessões, como a anistia aos presos políticos cassados pelo Regime Militar e o restabelecimento do pluripartidarismo, ambos os episódios ocorridos no mesmo ano de 1979, evi- denciando que a legalização da prática do futebol e de outras modalidades vetadas às mulheres pelos decretos anteriores fazia parte de um processo de redemocratização da sociedade brasileira (SOUZA JÚNIOR, 2013). Segundo Souza Júnior (2013), é preciso des- tacar, ainda na década de 80, a equipe de futebol feminino do Esporte Clube Radar, do Rio de Ja- neiro, que construiu uma invejável trajetória de conquistas nacionais e internacionais. O clube angariou, naquele período, a fama de equipe in- vencível no circuitodo futebol feminino, conta- bilizando dois pentacampeonatos (carioca e bra- sileiro), além de um currículo impressionante, contando com apenas quatro derrotas em trezen- tas partidas disputadas. Além do Radar, outras equipes, como o Guara- ni de Campinas e o SAAD, merecem destaque no disputado cenário do futebol feminino brasileiro nos anos 1980. Com o encerramento da equipe do Radar, em 1988, o futebol feminino no país sofre um profundo golpe, pois a equipe representava o país nas poucas competições ou partidas internacionais nas quais o Brasil figurou, no final dos anos de 1980. Darido (2002) afirma que, somente em janeiro de 1991, os dirigentes voltaram a procurar as jogadoras para formar uma seleção para o mundial na China. Tratando da década de 90, Souza Júnior (2013) lembra que entra em cena um movimento que busca a popularização do “futebol feminino” no Brasil, por meio de uma estratégia de marketing que se basea- va no “embelezamento das atletas”, reforçando mais uma vez os equívocos de uma política de inclusão da mulher no esporte. Isto é, para ter direito à partici- pação no futebol não bastava a ela jogar bem, tinha que ser bonita. Bonita para quê? À primeira vista, tal procedimento poderia ser julgado como uma maneira de se dar o pontapé ini- cial para a popularização do futebol de mulheres, que, apesar da conotação preconceituosa e discrimi- natória, poderia produzir alguns efeitos positivos, como o aumento do número de praticantes. No en- tanto, as estratégias de vinculação de uma “estética feminina” com o futebol passaram a ser recorrentes. Prova disso foi a peneira (seletiva ou draft, como de- nominaram os organizadores) realizada para a sele- ção de atletas que disputariam o Campeonato Pau- lista de 2001, organizado pela FPF e pela empresa Pelé Sports & Marketing. O projeto elaborado por essas entidades estabelecia que o embelezamento das atletas estaria entre os objetivos principais para o sucesso do torneio (ARRUDA, 2001). ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 26 De acordo com o então presidente da FPF, Edu- ardo José Farah, havia a “necessidade de se mos- trar uma nova roupagem no futebol feminino, que se encontrava reprimido pelo machismo”. Assim, segundo o dirigente, seria preciso “tentar unir a imagem do futebol à feminilidade”. Para tanto, co- locou-se no regulamento da competição um limite máximo de 23 anos de idade para as participantes, tendo em vista a maior possibilidade forjar uma representação erotizada valendo-se da juventude. Além disso, de acordo com Knijnik e Vasconcellos (2003), evidenciou-se uma preferência pelas can- didatas de cabelos compridos, sendo barradas as jogadoras com as cabeças raspadas. ‘Aqui, com cabelo raspado não joga. Está no regulamento’, disse o vice-presidente da FPF, Renato Duprat, responsável pela organização do torneio paulista, o dirigente ainda comple- menta dizendo que ‘se tivermos de escolher uma menina feia que jogue bem ou uma bonita que jogue mais ou menos, escolheremos a feia. Pode ter certeza’ (ARRUDA, 2001, p. D5). A história do futebol de mulheres brasileiro e de outros países tem demonstrado a recorrente estraté- gia de privilegiar a aparência das atletas e de impor padrões rígidos de feminilidade para essas mulhe- res, no que discordamos que seja o melhor caminho para consolidar ou promover qualquer esporte. [...] em 1996 a prática do futebol por mulheres passou a fazer parte da programação televi- siva brasileira na telenovela infantojuvenil Malhação, que passou a desenvolver uma trama baseada nesse tema, contando com um elenco de atrizes jovens e alinhadas com os padrões de beleza socialmente vigentes, representando garotas que jogavam futebol. O Saad Esporte Clube, percebendo que o inte- resse das moças pelo futebol crescia, fez um projeto de marketing cujo grupo de jogadoras obedeceria ao “novo perfil da modalidade”, de atletas jovens e sempre que possível atraen- tes. E acrescentava: “não é que as feias não entram mais, a novidade é que as bonitas estão chegando, e são bem-vindas”. Fonte: Souza Júnior (2013). SAIBA MAIS 27 EDUCAÇÃO FÍSICA Em se tratando do futebol praticado por mulhe- res, podemos dizer que o Brasil ainda carece de condições e de infraestrutura necessárias para o mínimo de organização de clubes e competições oficiais, sendo praticamente inexistentes as polí- ticas públicas e privadas direcionadas a elas, con- forme atesta Goellner (2005). De acordo com Souza Júnior (2013), apesar das recentes conquistas – como as medalhas de pra- ta nos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, e Pe- quim, em 2008, do vice-campeonato mundial tam- bém em Pequim, em 2007, da medalha de ouro nos Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, em 2007 (com o Maracanã lotado) e das conquistas pessoais da jogadora Marta, eleita cinco vezes consecutivas (nas temporadas de 2006 a 2010) a melhor jogado- ra do mundo –, os dirigentes dos clubes de futebol, das federações estaduais, da Confederação Brasi- leira de Futebol (CBF), os secretários e ministros do Esporte que se sucedem no cargo e suas equi- pes ainda não se sensibilizaram com as precárias condições vivenciadas por mulheres que idealizam viver com dignidade e sustentar-se como profissio- nais do futebol. Figura 4 - Brasil e Suécia se enfrentam na semifinal dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro - 2016 (vitória da Suécia na disputa de pênaltis) Fonte: Wikimedia Commons (2017, on-line)5. Souza Júnior (2013) considera que a desestru- turação de ideologias sexistas e a construção de novas oportunidades para mulheres em relação à participação esportiva poderiam ser mecanismos mais efetivos para o aumento da popularidade do futebol de mulheres, para a democratização da modalidade de fato ainda inconclusa no país e para o empoderamento dessas mulheres por meio do futebol. ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 28 Prezado(a) aluno(a), cabe ressaltar que assumimos a perspectiva de tratar o futebol enquanto fenômeno so- cial maior, que abrange outras práticas esportivas, tais como o futsal e o beach soccer, por exemplo. Contudo, tendo em vista o importante papel exercido pelo fut- sal, e em virtude da arquitetura das escolas e centros de treinamento compreenderem como equipamentos esportivos, via de regra, as quadras e não os campos de futebol, abriremos um tópico para dar maior visibili- dade ao futsal. Uma boa leitura! A ORIGEM DO FUTSAL Conforme comentado anteriormente, o futebol de salão foi precursor do futsal. Tal fato, ainda nos dias atuais, acarreta em uma confusão entre essas duas Do Futebol ao Futsal Figura 5 - Jogo entre Brasil e Argentina nos Jogos Panamericanos de 2007 Fonte: Wikimedia Commons (2014, on-line)6. distintas modalidades tão comumente entendidas como sinônimas. Porém, antes de falarmos sobre essa transição e seus desdobramentos históricos, faz-se relevante compreender um pouco da repre- sentatividade e origem de um dos esportes em maior ascensão em nosso país. O futsal tem muita semelhança com o futebol, prova disso é que dificilmente alguém que tenha jo- gado futsal não jogou futebol e vice-versa. Porém, é necessário que se faça as devidas distinções entre ambas as práticas, tendo em vista que são modali- dades esportivas com suas respectivas particulari- dades, o que as torna autônomas uma em relação à outra, embora estejam vinculadas a uma mesma instituição, a FIFA. 29 EDUCAÇÃO FÍSICA De maneira geral, tanto o futebol quanto o fut- sal pertencem ao grupo das modalidades espor- tivas de invasão que, segundo a literatura, pode ser definida como o grupo de esportes cujo obje- tivo consiste em invadir o espaço defendido pelo oponente para colocar a bola na meta contrária à defendida, ao mesmo tempo em que se defende a própria meta (GONZÁLEZ; BRACHT, 2012). Entretanto, quando se trata do conjunto de regras específicas, essas duas modalidades possuem dife- renças significativas. As regras que melhor caracterizam e distinguemo futsal do futebol podem ser representadas confor- me o Quadro 1. Quadro 1 - Comparação entre regras do futebol e do futsal Regras Futebol Futsal Tempo de jogo Dois tempos de 45 minutos corridos. Dois tempos de 20 minutos cronometra-dos. Espaço de jogo Campo gramado, medindo entre 90 e 120 metros de comprimento por 64 a 75 metros de largura. Quadra de cimento, madeira ou material sintético, medindo 40 metros de compri- mento por 20 de largura. Jogadores A equipe titular é composta por um goleiro e dez jogadores de linha, poden- do ser realizadas três substituições no decorrer da partida, sem o retorno dos jogadores substituídos. A equipe titular é composta por um goleiro e quatro jogadores de linha, podendo ser feitas substituições ilimitadas, com possi- bilidade de retorno dos jogadores substi- tuídos. Cobrança de tiros/ arremessos laterais Realizados com as mãos. Realizados com os pés. Punições individuais e coletivas por infrações Apenas individuais, que são punidas com cartão amarelo (advertência) e vermelho (exclusão). Além das punições individuais por cartões idênticas ao futebol, os jogadores são ex- cluídos da partida (com direito à substitui- ção) quando cometem cinco faltas. Quan- do a equipe comete seis faltas coletivas em um período de jogo é punida com cobran- ça de tiro livre direto sem barreira, de uma distância da meta contrária de dez metros. Impedimento A jogada ofensiva da equipe será pa- ralisada sempre que atender a duas situações simultaneamente: um jogador que ataca estiver mais próximo da linha de meta contrária do que seu penúltimo defensor e interferir na jogada em curso, em beneficie de sua própria equipe. Não existe a regra do impedimento. Fonte: os autores. ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 30 Vale destacar que, para além das regras, esse esporte tem peculiaridades pertinentes, que, acreditamos, devem estar contagiando nossa população, princi- palmente pelo fato de poder ser jogado com poucas pessoas e por sua dinâmica de jogo. Necessitando de um espaço dimensional menor para ser realizado, exige, ao mesmo tempo, que os jogadores tenham maior contato com a bola, que intensifiquem o seu modo de atuar nas partidas devido à necessidade de rapidez em tomadas de decisão. O Diagnóstico Nacional do Esporte (Diespor- te), no ano de 2013, por uma investigação vinculada ao Ministério do Esporte, entrevistou 8.902 pessoas entre 14 e 75 anos, em todas as regiões do Brasil, e trouxe dados que nos possibilitam compreender a dimensão e a representatividade do futsal na vida de nossa população. Segundo o Diesporte (BRASIL, 2015), somadas as práticas por gênero, o futsal é considerado o 7º esporte mais praticado no Brasil, (6º entre os homens e 9º entre as mulheres), sen- do para 3,3% dos entrevistados o primeiro esporte praticado na vida, representando, assim, a 4ª colo- cada dentre as práticas esportivas indicadas como a primeira a ser praticada pelos sujeitos da pesquisa. Esses indicadores são demonstrativos da inegável crescente que o esporte teve nos últimos anos. Muito se discute sobre o local de surgimento do futsal, existindo duas vertentes explicativas que buscam sua paternidade geográfica. A primeira, e mais adotada corrente, referencia que a prática ini- ciou-se no Uruguai, mais precisamente em Monte- vidéu, no ano de 1930, por jovens rapazes da Asso- ciação Cristã de Moços (ACM), no contexto de um país que acabara de se tornar campeão da primeira Copa do Mundo de futebol, realizada no próprio Uruguai, em 1930, e seguindo os triunfos da então consagrada “celeste olímpica” (em alusão à cor azul celeste, do uniforme da equipe) bicampeã Olímpi- ca – 1924 nos jogos de Paris, na França, e 1928 em Amsterdã, na Holanda. Com o futebol em alta no país e sendo nossos vizinhos a referência futebolística da época, surge, na ACM uruguaia, a adaptação do futebol para um espaço menor, devido à falta de campos na cidade e pela possibilidade de ser praticado em condições meteorológicas desfavoráveis (BARBIERI, 2009). Lembrando muito mais um futebol com adequações e jogado em quadra do que propriamente o futsal, o jogo da quadra evidencia o forte vínculo com o esporte bretão. A outra corrente, menos referenciada nas tenta- tivas de interpretação do surgimento do futsal, traz que devido ao constante intercâmbio dentro das ACMs e seus membros, os brasileiros advindos da ACM da cidade de São Paulo levaram de lá o hábito de jogar em quadras de basquete (VOSER; GIUSTI, 2015) e de hóquei, aproveitando as traves utilizadas na prática desse esporte. Para além das controvérsias sobre a gênese do futsal, alguns eventos no trajeto histórico se apre- sentam unânimes para as investigações do contínuo temporal da modalidade. Autores, como Fonseca (1997), Barbieri (2009), Voser e Giusti (2015), in- dicam que por volta de 1933, o professor uruguaio Juan Carlos Ceriani redigiu algumas regras do hoje conhecido futsal, batizando, na época, como Indoor foot-ball ou futebol de salão. Fundamentado principalmente no futebol en- quanto essência de jogo, o futebol de salão distin- guia-se do futebol de campo em determinados as- pectos, tais como o número de jogadores, o espaço e o terreno de jogo e o peso da bola, que era confec- cionada, por vezes, a partir de enchimento de serra- gem ou de crina vegetal e pesando cerca de 1 kg, ou 31 EDUCAÇÃO FÍSICA seja, mais de duas vezes o peso de uma bola de futsal atual, justificando o título de “esporte da bola pesa- da” (FONSECA, 1997; COSTA, 2007). Inspirando-se em outros esportes com bola, Ceriani transferiu as regras do basquetebol, no que tange ao tamanho da quadra, ao tempo de jogo e às substituições. O handebol inspirou-o no que diz respeito à validação dos gols, às dimensões das traves e à área do goleiro e, por fim, no polo aquático, no tocante às regulamentações das ações do goleiro no jogo. Ainda na década de 30, ocorreu, em Montevi- déu, um curso organizado pelo Instituto Técnico da Federação Sul-Americana das ACMs, contando com representantes de toda América do Sul, inclu- sive o Brasil, na qual foram entregues as cópias das regras, permitindo, assim, a difusão da ascendente modalidade praticada em pátios, quadras e salões de baile, por isso do advento da nomenclatura fu- tebol de salão. Os brasileiros logo se identificaram com a prá- tica, porém argumentaram, questionaram e propu- seram alterações no jogo, visando uma maior dinâ- mica, tomando, por exemplo, o fato de jogarem sete pessoas em cada equipe, ideia a qual não agradava aos praticantes. Atendendo a essas mudanças, Roger Grain, no ano de 1936, formulou e regulamentou a prática do futebol de salão no Brasil, registrando-a na Revista de Educação Física nº 6 (BARBIERI, 2009). Outro fato convergente entre os pesquisadores que transitam pela história do futsal é que, embo- ra exista a discussão sobre seu local de surgimento, não há como negar que foi no Brasil que o esporte se organizou e desenvolveu. Você, agora, deve estar se perguntado: mas afinal, o futsal é brasileiro ou uruguaio? Lamentamos decepcioná-lo, mas preferi- mos deixar essa questão em aberto, tendo em vista que não existe um consenso, nem mesmo entre os historiadores e, neste sentido, qualquer tentativa de afirmar de forma categórica a paternidade do fute- bol de salão não passaria de mera especulação e de nada nos acrescentaria em termos da compreensão da sociogênese dessa modalidade esportiva. Na década de 40, o futebol de salão ganhou sig- nificativa popularidade, tendo nos clubes recreativos e nas escolas regulares seus principais propulsores. Por uma lógica inerente da modalidade, a adesão e expansão do futebol de salão se davam nessas ins- tituições por razões dimensionais em comparativo aos campos de futebol. Nessa lógica, destacam-se as possibilidades de realização de jogos em espaços menores, bem como pela necessidade de menos in- tegrantes para compor equipes também em compa-rativo ao futebol. Ao final da década seguinte, a prática se alastra- va massivamente pelo Brasil. Nessa direção, havia a necessidade de uma maior e mais ampla unificação das regras por todo território nacional. Foi quando a Confederação Brasileira de Desportos, extinta CBD, em 1958, oficializou o Futebol de Salão, abrindo es- paço para organização de competições em âmbito nacional, como o I Campeonato Brasileiro de Sele- ções, ocorrido em São Paulo (FIGUEIREDO, 1996). Nos anos 1960, o aumento de público nas com- petições despertou o interesse de entidades sul-a- mericanas, que viam no Brasil uma espécie de pro- tagonismo no campo político (BARBIERI, 2009), legitimado pelos vários campeonatos ocorridos e em curso, que demonstravam expressivo contin- gente de adeptos e interessados pela modalidade. Assim, ao final dessa década, 1969, surgia a Con- federação Sul-Americana de Futebol de Salão, pro- motora no mesmo ano do primeiro campeonato Sul-Americano de Clubes. ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 32 A década de 70 apresenta dois marcos impor- tantes no campo institucional do futebol de salão. Em 1971, foi criada a Federação Internacional de Futebol de Salão (FIFUSA), contando com 32 paí- ses membros que praticavam o esporte nos moldes brasileiros (FERREIRA, 1998). Já em 1979, após a extinção da CBD, ocorre a criação da Confederação Brasileira de Futebol de Salão (CBFS). É nos anos 1980, porém, que residem as mais consideráveis transformações que incidem na prá- tica do futsal até os dias atuais. Foi nesse momento histórico, mais precisamente em 1989, que após vá- rias investidas por parte da Fédération Internationale de Football Association (FIFA) ao longo da década, a FIFUSA aceita unificar o futebol de salão com o já praticado “futebol de 5” da própria FIFA, passando a chamar-se futsal, o que antes era chamado de fu- tebol jogado em superfície reduzida segundo a pró- pria FIFA (SANTANA, 2009). Esse ponto merece destaque em nossa leitura, pois cabe chamar a atenção para o paradoxo ligado à questão do futsal ser submisso ao sistema FIFA. Nesse sentido, se por um lado o domínio do futsal ficou à mercê de uma das federações mais envol- vidas e investigadas por escândalos de corrupção na história do esporte moderno – muito bem des- critos em livros, como Jogo sujo: o mundo secreto da FIFA (JENNINGS, 2011) e Um jogo cada vez mais sujo: o padrão FIFA de fazer negócios e manter tudo em silêncio (JENNINGS, 2014) –, por outro lado é inegável que regendo a modalidade, por seu poder de mercado e influência política (SANTA- NA, 2009), atribui-se à mesma FIFA a difusão do esporte que, ao final dos anos 2000, testemunhava mais de 130 países afiliados, contando agora com grandes e importantes confederações que não eram membros da FIFUSA. Transcendendo a discussão paradoxal, se a FIFA foi veneno ou remédio para a modalidade, fato é que institucionalmente, em 1989, surge o futsal. Rele- vante nesse episódio todo é atentarmos que a maior diferença entre o futebol de salão e o futsal se encon- trou no âmbito político, relativo a quem organizava e quem hoje organiza as modalidades. Existem sim diferenças quanto às regras (peso da bola, punições), porém a história nos permite considerar que a tran- sição do futebol de salão, precursor da “jovem” mo- dalidade do futsal, emergiu pela necessidade de ade- quação e internacionalização aguda do esporte em escala global, encontrando na Federação que hoje a rege (bem ou mal) o agenciador desse processo ao longo dos últimos quase 30 anos. E o que aconteceu com o futebol de salão? A FI- FUSA, em acordo comum com a FIFA, dissolveu-se no ano de 1989. Atualmente, a prática ainda existe, conservada em suas regras originais (distintas do futsal), tendo, desde 2002, na Associação Mundial de Futsal (AMF), a organização que regula a prática do futebol de salão em todo mundo. Desde 1989, ano em que ocorreu a primeira Copa do Mundo de Futsal masculina, organiza- da pela FIFA de quatro em quatro anos, o Brasil é considerado potência no esporte, ganhando cinco e estando presente nas sete edições dos mundiais. Logo em seguida vem a Espanha, com os outros dois títulos e sendo a maior vencedora europeia, bem como o país onde mais se pratica futsal, atrás, novamente, do Brasil. 33 EDUCAÇÃO FÍSICA MULHERES NO FUTSAL Infelizmente, assim como na maioria dos outros es- portes, também no futsal as mulheres sofreram com o preconceito e as imposições de nossa sociedade machista. Dessa forma, como destacado no tópico 3 desta unidade, as figuras masculinas historicamente quase sempre são apontadas e tidas como protago- nistas das transformações e mudanças dos esportes ao longo dos tempos. Não diferente, ao tratar da his- tória do futsal no Brasil, encontramos diversos mar- cadores da discriminação e da omissão que afetaram a prática por parte das mulheres. Segundo Santana e Reis (2003), até o ano de 1983, as meninas eram proibidas de jogar futebol de salão, sendo legalizada somente 47 anos depois dos homens. A proibição de quase meio século não extinguiu o gosto, tampouco a competência das mu- lheres ao praticar a modalidade. Isso pode ser in- dicado pelo expansivo número de competições, tí- tulos (BARBIERI, 2009) e pelo jovem público que aderiu ao jogo como prática esportiva. Embora seja uma história recente de pouco mais de 30 anos, o futsal feminino vem se expandindo, entre outros fa- tores, pela organização e criação de competições, o que contribui para um melhor desempenho técnico e tático das participantes, bem como auxiliando na visibilidade do esporte em âmbito nacional e legiti- mando a prática enquanto direito das mulheres. Desde 1992, data em que ocorreu a 1ª edição da Taça Brasil organizada pela CBFS, a promoção dos eventos de futsal feminino vem aumentando e atraindo adeptas gradativamente. Exemplo disso está no contínuo da principal competição nacional, a Liga de Futsal Feminina, que ocorre desde o ano de 2005, organizado pela mesma CBFS. Outro fator re- levante na história do futsal feminino são os títulos O programa olímpico, segundo o Comitê Olím- pico Internacional (COI), contempla um máxi- mo de 28 esportes, em uma lógica segundo a qual para a inclusão de uma nova modalidade torna-se necessária a exclusão de alguma do programa. Nesse sentido, o futsal vem sen- do utilizado como moeda de troca pelo COI para fazer barganha nas Olimpíadas. O fato é que o COI entende o poder de mercado do futebol e considera a valorização que esse esporte agrega em prestígio e receita em um evento como os Jogos Olímpicos. A FIFA, por sua vez, em tramitações políticas junto ao COI, acordou um limite em formato de regra para liberar apenas três jogadores acima de 23 anos de idade para cada seleção nos Jogos. O que isso representa? Se a FIFA autorizasse todos os jogadores, teríamos uma Copa do Mundo a cada dois anos a grosso modo. O que não ocorre porque ela, FIFA, não quer em hipótese alguma que a Olimpíada roube o brilho da Copa do Mundo. Fonte: Barbieri (2009) SAIBA MAIS Atualmente, pelas projeções e pelos estudos existe uma tendência de maior expansão do futsal, devido à criação de clubes e ao aumento da transmissão de jogos no Brasil e no mundo. Tal expectativa é refle- xo dos últimos 30 anos, em que o mais jovem e 7º colocado dentre os 10 esportes mais praticados em nosso país. Segundo o Diesporte (BRASIL, 2015), cada vez mais agrega adeptos, gerando um mutua- lismo ao encontrar, no Brasil, uma espécie de berço, identificando-se historicamente quanto esporte, e o brasileiro encontrando no futsal uma modalidade esportiva na qual se identifica e se reconhece. ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 34 que nossa seleção possui. Embora sem o reconhe- cimento oficial da FIFA, a seleção feminina de fut- sal é hexacampeã do designado “Torneio Mundial de Futsal Feminino”, postulando-se a maior e única vencedora das seis edições do torneio, que é análogo à Copado Mundo de Futsal Masculino, obtendo um título a mais do que a consagrada e mais conhecida seleção masculina de futsal, a brasileira. Ainda que se tenha obtido avanços desde a re- vogação da proibição de sua prática pelas mulheres, em 1983, a jovem modalidade sofre preconceitos semelhantes aos do futebol feminino, confrontan- do rotineiramente com a falta de investimentos e de políticas públicas que assegurem de modo digno o direito à prática desse esporte que, embora minado pela discriminação e invisibilidade social, mostra-se promissor pela crescente aderência de jovens prati- cantes (SANTANA; REIS, 2003), o que pode ser re- presentado como a renovação, manutenção e adesão do futsal feminino por parte das mulheres. 35 EDUCAÇÃO FÍSICA ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 36 Prezado(a) aluno(a), estamos chegando ao final de nossa primeira Unidade. Esperamos realmente que, até esse momento, o mesmo prazer que temos em apresentar e compartilhar com você alguns saberes pertinentes ao futebol, você o tenha ao poder signi- ficar e incorporar tais conhecimentos para seu pro- cesso formativo. Em outras palavras, esperamos que chegar até aqui conosco “tenha valido o ingresso”, dito popular que remete à satisfação após o fim de um bom espetáculo. Mas ainda não acabamos! Nos acréscimos desta unidade, você irá notar que este tópico se apresenta um pouco diferente Reinventando a História do Futebol Figura 6 - Ilustração “Futebol na Pré-História: a origem do futebol” (Andrea Gatti, 1998) Fonte: Ludopedio ([2017], on-line)7. dos anteriores. As sugestões deste tópico passam por indicar encaminhamentos didáticos no trato da história do futebol e do futsal. As orientações que aqui se seguem não pretendem “engessar” sua prática como futuro docente, mas sim intenciona- mos que você reflita sobre as estratégias e as otimi- ze dentro de seus contextos. Como em qualquer grande jogo, os últimos mi- nutos sempre podem nos guardar as maiores emo- ções e surpresas. Que tal, juntos, comemorarmos nossa participação e empenho nesse primeiro 1/5 de campo já percorrido? 37 EDUCAÇÃO FÍSICA PRELEÇÃO A curiosidade pelo saber deve sim partir do aluno, mas isso não isenta a responsabilidade do professor ou treinador em despertá-la. Sugerimos que você, em sua futura prática docente, desafie seus alunos com indagações, pois é a partir de desafios que instigamos a superação, a criatividade, o pensamento crítico e as conexões dos saberes de nossos interlocutores. No contexto tratado até o momento, em espe- cial referente à história do futebol, algumas boas questões podem ser disparadoras para diálogos en- riquecedores nas aulas: “Como vocês acham que o futebol surgiu? Alguém o inventou ou ele sempre existiu? Porque alguém inventou a lâmpada, mas a luz sempre existiu, certo?” (SOUZA JUNIOR, 2007). Após tais indagações, é pertinente que se explique aos alunos e às alunas, que o tema desta(s) aula(s) diz respeito justamente à origem do futebol, e que a partir dela tentaremos entender melhor de onde surgiu esta ideia de se fazer um jogo no qual se chuta bola com os pés. Com este intuito, passamos, a partir deste mo- mento, a descrever algumas estratégias de ensino que contribuem para tornar mais atraente a apren- dizagem de conhecimentos relacionados à história do futebol e aos temas afins. Pedimos licença para conversar com você aluno(a), colocando-o(a) na perspectiva de professor(a), para que já se acostu- me com a tarefa de assumir as rédeas do processo de ensino e aprendizagem que se tornará, em breve, a tônica de sua vida profissional. A apresentação seguirá o desenho de uma uni- dade didática – um conjunto de aulas que se orien- ta por um eixo temático comum – focada no ensino da história do futebol. A unidade não será apresen- tada em formato de planos de aula, mas sim de um conjunto de momentos seguindo uma ordem cro- nológica de acontecimentos, que poderá ser trans- formada em um conjunto de aulas por você alu- no(a)-professor(a). VIVÊNCIA 1 – FUTEBOL PRÉ-HISTÓRICO Uma possibilidade de vivência no contexto originá- rio do futebol passa pela organização junto e com sua turma na escola, de um jogo com regras arcai- cas, lembrando a pré-história do futebol (SOUZA JUNIOR, 2011). Essa vivência pode ser iniciada por uma roda de conversa com a turma, na qual seja apresentada a proposta de se recriar o processo de desenvolvimento do futebol, que surge a partir de um jogo rudimentar que se regulamentou por de- mandas diversas. A partir desta problematização, o desafio é que os alunos proponham um jogo de bola que lembre vagamente o futebol, mas possua o míni- mo possível de regramento. Caso a turma tenha dificuldade em pensar a desconstrução do futebol como eles(as) bem o conhecem, faça você mes- mo uma primeira alteração na estrutura do jogo. Diga que somente será permitido a utilização das linhas de fundo e não das laterais, ignore as traves e faça com que somente ultrapassando a linha de fundo com a bola em domínio e sendo conduzida se valide o gol etc. Algo que facilita tal atividade deve-se pelo fato de requerer a participação de muitas pessoas para que configure uma desordem em relação ao co- nhecido número de jogadores de futebol ou futsal. Como sugestão, elabore junto e com seus futuros alunos(as) três ou quatro equipes, para que joguem ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 38 simultaneamente. Também não defina a questão da contagem de pontos e, além disso, as equipes não te- rão goleiros, podendo a bola ser conduzida com os pés e com as mãos. Após alguns minutos, o jogo deve ser inter- rompido para que seja feita uma roda de conversa na qual os(as) alunos(as) e alunas definam algumas regras, que, na opinião deles, poderão facilitar a or- ganização da partida. Após a definição das regras, o jogo é reiniciado (SOUZA JUNIOR, 2007). Depois de um tempo pedagógico suficiente para o desenvolvimento desse jogo, é importan- te que ele tenha desdobramentos. Para isso, po- demos perguntar à turma sobre quais elementos diferenciam o esporte do jogo, bem como enca- minhar um diálogo, salientando a importância da formatação de acordos em moldes de regras. Tais discussões devem ser encaminhadas no sentido de favorecer a percepção de alunos e alunas em re- lação ao esporte, diferentemente do jogo possuir regras universais. Você pode estar se perguntando, “mas qual a relação dessa vivência com o ensinar futebol?”. Vamos explicar. Quando pensamos nas ações do- centes, sua intervenção, seu desdobramento e seus encaminhamentos, pensamos ser fundamental es- tarmos conscientes do “por quê?” e “para quê?” desse ou daquele conhecimento ser ensinado. Pode parecer que estamos operando com um simples jogo de palavras, mas quando queremos saber o por quê de algo, estamos preocupados com os motivos e, quando nossa preocupação é com o para que, nos voltamos para as finalidades. Nesse sentido, as duas perguntas anteriores podem servir como referên- cias na hora de pensarmos a prática. Por que motivo jogar um jogo que não é o fute- bol que conhecemos hoje em dia? Por que motivo modificar os acordos em moldes de regras, se ainda assim não será jogado o dito “verdadeiro” futebol jogado atualmente? A resposta não é tão complexa. Ao se vivenciar jogos “pré-futebol”, têm-se con- tato com um tipo de prática corporal, talvez inédita na vida de muitas pessoas. Rica em valor simbóli- co, permitirá aos alunos experienciar uma constru- ção histórica da humanidade, remetendo-os a um passado nem tão longínquo e que pode muito bem auxiliar na reflexão em como chegamos ao esporte futebol tal como o conhecemos hoje. Quando pensamos um “jogo”, ele pode ter re- gras diferentes, passíveis de mudanças, e ainda as- sim pode ocorrer de um mesmo jogo ser conhecido por diferentes nomes, de acordo com a região em que está inserido. Exemplo disso é o jogo no qual duas equipes se enfrentam arremessando uma bola nos integrantes daequipe contrária, na tentativa de eliminá-lo da área de jogo. Tal jogo pode ganhar diferentes nomes dependendo da localidade em que é jogado. Em São Paulo costuma ser chama- do de “queimada”, “queima”, “bola queimada” ou outros nomes; na Bahia ganha o nome de “balea- do”; em alguns locais do Paraná e do Rio Grande do Sul é conhecido por “caçador”; no Ceará como “carimba”. No entanto, não é apenas o nome desse jogo que varia de acordo com a região, suas regras também ganham um contorno particular, que varia de região para região do país, de cidade para cida- de, às vezes de um bairro para o outro. Já quando pensamos em esportes, em nosso caso o futebol, ele possuirá as mesmas regras, independentemente do local onde for praticado. 39 EDUCAÇÃO FÍSICA Portanto, os motivos ou razões que nos levam a propor a vivência desse “protofutebol” ou “fute- bol arcaico” passa pela importância de que nos- sos alunos e alunas compreendam que o futebol no Brasil, na Argentina, na África do Sul ou no Japão será disputado dentro de regras universais consideradas oficiais, demarcando claramente as diferenças entre o que é jogo e o que é esporte, e também que compreendam que o esporte, tal qual o conhecemos hoje, é produto de muitas adapta- ções ao longo da história. Mas para quê nossos alunos e nossas alunas devem aprender isso? Qual a finalidade? Principal- mente, para que possam ser protagonistas no pro- cesso de reconhecimento de que o esporte moderno é uma construção histórica, e não um mero produ- to da sociedade capitalista. Nesse sentido, o futebol é passível de reapropriações por parte de distintos grupos sociais, que assim como os praticantes dos seus jogos ancestrais, serão sim seus “proprietários”. Trocando em miúdos, queremos dizer que os alunos e as alunas aprenderão que têm autonomia para jo- gar futebol ou futsal de acordo com suas demandas e interesses, sem a necessidade de se enquadrar nos “padrões FIFA”. VIVÊNCIA 2 - REINVENTANDO A HISTÓ- RIA DO FUTEBOL Uma segunda possibilidade, que aqui compartilhamos com você, provém de experiências bem-sucedidas enquanto práticas no ambiente escolar. Apoiados na ludicidade em seu sentido educativo (SCHWARTZ, 2004), entendemos que a história do futebol, embo- ra possa ser explicada com e pela prática, também se fortalece em compreensão quando a tratamos didati- camente por meio de conhecimentos conceituais. Para que tais conhecimentos ultrapassem o campo da informação, a atividade de reinvenção do futebol se apresenta como uma ferramenta edu- cativa atraente pela necessidade de imaginação e criação que o brincar evoca (SOMMERHALDER; ALVES, 2011), em mesma medida não sendo ou tendo menos valia que qualquer outra forma de tratamento pedagógico. Como primeiro passo, sugerimos a organiza- ção da turma em grupos que compreendam um número entre três e seis integrantes, para que cada um deles escreva de modo mais criativo pos- sível, associando com datas, locais e eventos que marcaram a história da humanidade, uma outra história fictícia para a origem do futebol. Poste- riormente, peça para que os grupos comparti- lhem com seus colegas suas histórias inventadas, procurando, neste sentido, promover e defender a sua invenção como a versão oficial para a origem do futebol. De forma conclusiva a essa atividade, apresente aos alunos dados bibliográficos sobre a origem do futebol. Outra estratégia para essa mesma atividade é que dentro dos grupos seja feita uma espécie de rodízio do texto, no qual o grupo escreve em conjunto a introdução e a conclusão, e o meio do texto tenha que ser escrito um parágrafo por cada integrante do grupo, resultando em uma espécie de “texto frankeinstein”. Por fim, uma outra sugestão seria que se fizesse a leitura e a interpretação dos textos criados sob a óti- ca do marcador de gênero, analisando como ficou a participação das mulheres nas distintas histórias do futebol e sugerir que elas sejam repensadas a partir da inclusão das mulheres. Aproveite os conhecimen- tos dos demais tópicos desta unidade para fomentar esses debates. 40 considerações finais A qui, queremos reforçar e reafirmar nosso propósito de jogo com você, prezado(a) aluno(a). Não é difícil encontrarmos companhei- ros de graduação, futuros companheiros de trabalho e até mesmo atuais profissionais de nosso ramo laboral queixando-se pela falta de material didático na Educação Física, incluindo os que se referem ao ensino do futebol. Assumimos a legitimidade de tais queixas, contudo, não estamos aqui ofertando nenhum tipo de fórmula mágica do sucesso para as práticas e ações junto de futuros alunos. Estamos, na verdade, alertando-o da responsabi- lidade que temos quando lidamos com a formação de pessoas, e mais que isso, compartilhando com você o mesmo estímulo que nos move, que é a chance de poder fazer a diferença na vida dos outros, com e pelo futebol. Por isso, não caia no perigoso risco de achar que seu papel é dispensável, ou que a informação por si só gera conhecimento. Seu papel, futuro(a) professor(a), é o do verdadeiro camisa 10 de um time. Você pode e fará a diferença a partir do momento que estiver disposto a jogar o jogo, e como nós do outro lado já apresentamos o estilo em que jogamos, que- remos que você entenda que não jogará sozinho, pois já somos de um mesmo time. O time daqueles e daquelas que querem e acreditam que a educação não pode mudar o mundo, mas pode transformar as pessoas. E as pessoas, sim, po- dem transformar o mundo. Se educamos pelo bem comum, temos como função de um bom camisa 10 articular a jogada, só que dessa vez é entre as pessoas e o mundo, pois assim como no futebol, tal mundo é coletivo e se, sem atletas não há jogo, sem pessoas não há mundo. É engraçado pensar que o implemento central do jogo de futebol, a bola, tenha formato circular igual ao do nosso planeta. Talvez por isso, de modo ro- mântico, acreditamos que ela, assim como a terra, não pode parar, tem que estar em fluxo contínuo, para ensinar e emocionar, nos fazer pensar e nos fazer viver. Agora é com você, o jogo foi apresentado… Assuma para si a magia de ser o 10 deste jogo, e conte com a gente, estaremos torcendo junto contigo! 41 atividades de estudo 1. A partir da leitura do tópico 1, da Unidade I, você acredita que o futebol foi inventado por alguém? Justifique sua resposta argumen- tando com base nos conhecimentos adqui- ridos ao longo desta unidade. 2. Considerando o processo de desenvolvimento dos jogos pré-modernos que deram origem ao futebol moderno, assinale como Verdadeiro (V) ou Falso (F) as afirmações a seguir: ( ) Tsu chu (China), kemari (Japão), tlachtli (América Central), epyskiros (Grécia), harpastum (Roma Antiga), calcio (Itália), soule (França) são exemplos de jogos pré-modernos. ( ) Limitação do número de participantes; espe- cialização da utilização de mãos ou pés; comitês que centralizam as regras; manuais de regras exigindo au- tocontrole sobre a força física; definição de sanções às infrações cometidas no jogo; institucionalização das regras do jogo legitimando o papel do árbitro são elementos que diferem o futebol enquanto es- porte moderno dos jogos antecessores. ( ) Os jogos calcio e soule são exemplos de es- portes modernos, porém não são reconhecidos mundialmente. 3. Partindo das afirmações sobre o desenvolvi- mento histórico do futebol praticado por mu- lheres no Brasil e no mundo, analise as afirma- ções a seguir: I. Em 1921, o futebol praticado por mulheres sofreu uma sanção por parte da FA (Football Association), que exigiu que os clubes a ela fi- liados não liberassem seus campos de futebol para jogos de mulheres. II. No Brasil, o futebol praticado por mulheres, embora sofra com a marginalização e precon- ceito, nunca teve sua prática proibida. III. O fracasso de nível técnico, de público e de renda por parte do Dick, Kerr Ladies, time in- glês da década de 20, foi o responsável pela massificação da ideia deque o futebol femini- no não era atrativo. IV. Embora a FA tenha proibido a prática do fu- tebol por mulheres em 1921, a FIFA historica- mente nunca se opôs a tal prática. V. O Brasil orgulha-se de nunca ter utilizado de estratégias que visam explorar a imagem eroti- zada da mulher, para tornar o futebol atrativo. Avaliando as afirmações analisadas, assinale a resposta correta: a. Apenas a afirmativa III está correta. b. Apenas as afirmativa IV e V estão corretas. c. Nenhuma das afirmativa está correta. d. Apenas a afirmativa I está correta. e. Todas as afirmativa estão corretas. 4. Considerando as reflexões sobre o esporte e o futebol como reservas masculinas trazidas no tópico 2 desta unidade, assinale como verda- deiro (V) ou falso (F) as afirmações a seguir. ( ) A desconstrução da ideologia sexista é impor- tante para a pretendida maior afirmação do futebol praticado por mulheres no Brasil. ( ) Embora o Brasil seja campeão olímpico na mo- dalidade do futebol feminino, não temos representati- vidade em escala mundial pela falta de reconhecimen- to de qualquer grande jogadora de futebol no mundo. ( ) As competências técnicas são as únicas quali- dades avaliadas no futebol praticado por mulheres para dimensionar sua valorização, tanto pelos meios de comunicação como pelos dirigentes esportivos e pelo público em geral. 42 atividades de estudo 5. Com base nos conhecimentos tratados sobre o desenvolvimento do futsal a partir do futebol tratados no tópico 3 desta unidade, analise as afirmações a seguir: I. No Brasil, o futsal é, somado às práticas por gênero (6º entre os homens 9º entre as mu- lheres), o 7º esporte mais praticado do país. II. Muito se discute sobre a paternidade do fut- sal, sendo Uruguai e Brasil os dois países que requerem para si o reconhecimento de legíti- mos criadores desse esporte. III. Futsal e futebol de salão são sinônimos, utili- zando nomenclaturas diferentes, mas se refe- rindo a um mesmo esporte. IV. O Brasil, embora não seja um país em que o futsal ganhe novos adeptos, já foi uma grande potência do esporte. V. O fato de necessitar de poucos participantes e de espaços reduzidos em relação ao fute- bol faz com que o futsal cada vez mais ganhe adeptos. Após analisar as afirmações, assinale a alternativa correta: a. Apenas a afirmativa V está correta. b. Apenas as afirmativa I, II, III e V estão corretas. c. Todas as afirmativa estão corretas. d. Apenas as afirmativa I, II e V estão corretas. e. Nenhuma das afirmativa está correta. 6. Tendo em vista o processo de desenvolvimento do futsal abordado no tópico 3 desta unidade, assinale como Verdadeiro (V) ou Falso (F) as afirmações a seguir. ( ) Entre os 10 esportes mais praticados no Brasil, o futsal é o mais novo. ( ) Diferentemente do futebol, o futsal feminino recebe mais apoio, prestígio e é menos discriminado. ( ) O futsal e o futebol, embora sejam jogados em dimensões e em número de jogadores diferentes, em nada se alteram em relação às outras regras do jogo. 7. Por que jogar um jogo próximo e um anteces- sor ao futebol que conhecemos hoje em dia pode servir enquanto ferramenta educativa? Para quem isso importa? 43 LEITURA COMPLEMENTAR No “país do futebol”, se dá bola para as mulheres? Em Atenas, na Grécia de 1896, ocorreu a primeira realiza- ção dos Jogos Olímpicos Modernos, que contou apenas com as provas de atletismo, esgrima, luta livre, ginástica, halterofilismo, ciclismo, natação e tênis. O futebol já sur- ge nos Jogos Olímpicos seguintes, em 1900. [...] Apesar do grande histórico de conquistas do futebol masculino para o Brasil, em diferentes eventos esportivos, o tão sonhado ouro olímpico chega para os jogadores brasi- leiros somente em agosto de 2016, nos Jogos Olímpicos realizados no Rio de Janeiro. Já o futebol feminino não encontrou tais facilidades de se inserir nesse evento, al- cançando seu ingresso tardiamente apenas em 1996. [...] A seleção feminina do Brasil experimentou chegar às fi- nais do evento em Atenas (2004) e em Pequim (2008), mas ainda não alcançou o tão sonhado ouro olímpico, ficando em quarto lugar no Rio de Janeiro (2016). Ape- sar dessa classificação, há muito do que se discutir sobre o fazer histórico do futebol feminino do Brasil que vem, atualmente, ganhando conhecimento maior sobre suas instabilidades e que reforçaram midiaticamente o que os estudiosos da área já sabem, a necessidade crescen- te de maiores investimentos nesse esporte na categoria feminina. [...] As Olimpíadas, desde a entrada das mu- lheres na competição, apareciam como espaço para as mulheres que vai além do caráter competitivo, servindo de lugar de luta social e política por afirmação no mundo esportivo. Os Jogos de Londres, em 2012, entraram para a história, entre vários motivos, por terem contemplado o maior número de representação de mulheres na com- petição e pela presença delas em todos os esportes pos- síveis, além dos números melhores nos resultados de participação das mulheres brasileiras. Agora em 2016, estes Jogos realizados em nosso país conseguiram um aumento de divulgação da imagem da atleta, [...] para o mundo, que exibiram a existência das capacidades das mulheres esportivas e o seu pertencimento nesse terre- no culturalmente ainda perpetuado de desconfianças e desvalorização como nunca aconteceu antes. Mas, após o evento de porte mundial e apesar de toda essa con- quista de reconhecimento momentâneo para as atletas do Brasil, o silêncio sobre o futebol feminino do Brasil vem retornando. Parece que elas só mereciam ganhar apoio se alcançassem o ouro. A derrota da nossa seleção feminina no jogo contra a equipe do Canadá, no dia 14 de agosto, expressada no rosto e nas falas da Marta, jogadora profissional de fute- bol, brasileira, respeitada e admirada em todo o mundo, com o título de cinco vezes melhor jogadora de futebol do mundo, não representava apenas a compreensão da derrota de um jogo olímpico por parte da atleta. Nesse caso, representava, também, o entendimento da perda de maiores reconhecimentos para a modalidade, que poderiam surgir se o ouro olímpico, ou ao menos o bron- ze, tivesse sido alcançado. “Desculpa” e “Por favor, não deixem de apoiar o futebol feminino!” foram palavras que a Marta, entre o choro, conseguiu dizer para a trans- missão da Globo após a equipe não conseguir o bronze. Um pedido que surge mais como um apelo emocionado da nossa melhor do mundo. Ela sabe muito bem que a derrota de hoje tem mais a ver com a desvalorização, o desrespeito e o descrédito dados a elas enquanto joga- doras profissionais e às outras jogadoras de futebol do 44 LEITURA COMPLEMENTAR Brasil, que impossibilita um trabalho melhor e a longo prazo, do que com toda a habilidade, a determinação e o empenho que essas jogadoras colocaram desde o início da competição. O pedido de desculpas deveria ser nosso às jogadoras. Enquanto as jogadoras brasileiras faziam gols, a torcida do Brasil comemorava o resultado imediatista esperado por ela e vibrava ansiosa pelos próximos jogos, mas sem conhecer os percursos históricos do futebol feminino no Brasil. Quando a ausência de gol chegou e depois, a derrota, o primeiro movimento divulgado pensando em modificações foi a provável desestruturação da seleção permanente criada no início do ano de 2015 pela CBF. A verdade, no caso do futebol feminino, é que esse quar- to lugar foi uma batalha de poucos. Além das jogadoras e de sua equipe técnica, sabemos que existem estudio- sos, ex-jogadoras e pessoas que conhecem a história desse esporte e estão lutando também do lado de fora dos gramados por mais valorização. [...] A torcida surgiu agora, no momento do jogo (e que bom que ao menos nesse momento surgiu. A esperança é que se multiplique para campeonatos pequenos e grandes). No entanto, no momento de maiores apoios financeiros, psicológicos e tantos outrosinvestimentos e visibilidade, que seriam fatores decisivos de longo prazo para uma equipe mais qualificada dentro do nível de uma Olimpíada, essa mes- ma nação representada por brasileiros, muitas vezes, virou as costas. [...] “O Brasil tem um número enorme de mulheres que jogam futebol. 400 mil que o praticam regularmente, conforme o Atlas do Esporte”. (GREGORY, 2014, p. 13). Deveria ser uma modalidade já considerada cultural- mente pelo país como espaço também para as mulheres. Entretanto, “é nessa modalidade que as desigualdades de gênero se somam com mais força às desigualdades de classe e étnico-raciais” (GREGORY, 2014, p 13). O que esperar do futebol feminino do Brasil nas próximas competições mundiais? Se queremos o ouro, queremos opinar sobre as condições de atuações das jogadoras e bater no peito, nos sentindo tão em campo representa- dos por “guerreiras”, temos que ser torcedores e apoia- dores também presentes, incentivar a longo prazo, abrir as portas das escolas e oferecer possibilidades de me- ninas também correrem atrás da bola, marcarem gols e realizarem lindas defesas com outras meninas e com os meninos também, investir em políticas públicas que in- centivem projetos sociais, escolinhas de base até a fase adulta, campeonatos locais e internacionais e planos de carreira [...] Fonte: Maia (2016, on-line)8. 45 EDUCAÇÃO FÍSICA Sociologia do esporte e os processos civilizatórios Eric Dunning Editora: Annablume Sinopse: o livro compõe-se por dez artigos de Eric Dunning divididos em duas partes. Na primeira, o autor aborda de modo bastante claro e elucidativo a teoria do processo civilizatório de Norbert Elias. Na segunda, dedica-se a reflexões sobre a sociologia do esporte, dando atenção especial ao futebol. Indicação para Ler Mulheres na área: gênero, diversidade e inserções no futebol Cláudia Samuel Kessler (organizadora) Editora: Editora da UFRGS Sinopse: essa obra contesta a convencional posição de que o Brasil é somente o país do futebol de homens. Esse livro é um convite para que se possa entender melhor a participação das mulheres em um campo esportivo bastante familiar à cultura brasileira. É um rico material para os interessados no futebol, seja o público geral ou o pesquisador acadêmico, representando a atual produção de conhecimento na área esportiva. Eis uma leitura que permitirá entender melhor o futebol, ou melhor, um outro futebol, ainda invisível. Indicação para Ler ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 46 Lições de um sonho Ano: 2010 Sinopse: o jovem professor Konrad Koch é contratado para ensinar inglês em uma escola alemã de meninos muito rigorosa, em 1874. Von Merfeld, o diretor da escola – aberto a reformas e com o objetivo de renovar os ares da embolora- da instituição – contrata Koch, que seria o primeiro professor de inglês de uma escola de ensino médio na Alemanha. Para aumentar o interesse dos alunos pela língua estrangeira, Koch, formado em Harvard, apela para métodos heterodo- xos, apresentando um esporte intrigante que vem da Grã-Bretanha: o futebol. Indicação para Assistir Apresentação: o site trata o futebol a partir de um olhar interdisciplinar, vin- culado às diversas áreas das Ciências Humanas, objetivando criar uma rede de informações, de pesquisadores e de interessados no tema futebol. Disponível em: < http://www.ludopedio.com.br/>. Indicação para Acessar 47 referências ARRUDA, E. FPF institui jogadora-objeto no Pau- lista. Folha de S. Paulo, São Paulo, 16 set. 2001, Caderno Esporte, p. D5. Disponível em: <http:// acervo.folha.com.br/fsp/2001/09/16/20>. Acesso em: 21 set. 2012. BARBIERI, F. A. 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O futebol não foi uma invenção de alguém, e sim uma construção que perpassou por diferentes práticas corporais, sofrendo diversas modificações em suas estruturas desde a antiguidade para chegar até o esporte futebol, representante de um fenô- meno moderno, produto de uma revolução esportiva, que teve origem na Inglaterra ao final do século XVIII. 2. (V), (V), (F). 3. D - Apenas afirmativa I está correta. 4. (V), (F), (F). 5. D - Apenas I, II e V estão corretas. 6. (V), (F), (F). 7. Que os futuros alunos tenham contato com um tipo de prática corporal, talvez iné- dito, rico em valor simbólico, e que permitirá a eles experienciar uma construção histórica da humanidade. E isso é importante para quem tem o direito de saber di- ferenciar o que é um jogo e o que é um esporte, auxiliando na reflexão sobre como chegamos no futebol tal qual o conhecemos hoje, sendo produto de muitas adapta- ções ao largo da história. UNIDADE II Professor Dr. Osmar Moreira de Souza Júnior Professor Me. Bruno Martins Ferreira Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: • A importância de se estudar o futebol • Princípios pedagógicos no ensino do futebol • Futebol, Educação Física e proposta de ensino • Praxiologia Motriz: lógica interna, lógica externa Objetivos de Aprendizagem • Compreender a relevância do futebol enquanto patrimônio sociocultural da humanidade, suas significações no contexto brasileiro e o legítimo direito ao seu acesso nas escolas. • Compreender a importância de estabelecer princípios pedagógicos que orientem o ensino do futebol em uma perspectiva cidadã. • Refletir sobre a importância do ensino do futebol. • Conhecer a Praxiologia Motriz, em especial o que tange às lógicas interna e externa, enquanto aporte teórico para o estudo do futebol. FUTEBOL COMO OBJETO DE ESTUDO: DESVENDANDO AS LÓGICAS INTERNA E EXTERNA II unidade INTRODUÇÃO C aro(a) aluno(a), compreendemos, pela Unidade I, os processos e as diferenças das práticas corporais ao longo dos tempos, a sociogênese do futebol e as questões históricas que auxiliaram na hegemonia do futebol como reserva masculina. Tratamos também de explorar um pouco mais sobre o futsal e as possibilidades didáticas de ensino sobre a história do futebol. Agora, é chegado o mo- mento de, juntos, explorarmos um pouco mais sobre a importância do futebol e o necessário estudo que esse fenômeno carece. Não é difícil nos depararmos com alguma manifestação relativa ao futebol em nosso dia a dia. Um tema tão presente em nosso cotidiano merece atenção especial, principalmente porque muita gente fala de fu- tebol, mas poucas pessoas entendem do assunto para além do senso co- mum. Reconhecer o papel desse esporte em nossa sociedade, interpretar e interagir de modo consciente com essa prática é, sobretudo, um exercí- cio de cidadania pela aproximação junto a esse patrimônio cultural. Nesta unidade, você poderá apropriar-se de conhecimentos que legi- timam o futebol, enquanto direito previsto por lei, e seu espaço na ins- tituição escolar. Vai, também, melhor se guarnecer de informações que conduzem à desmistificação do ensino do futebol, partindo de uma pro- posta contemplativa para todos e todas. Finalmente, ao término desta unidade, você terá embasamento para poder relacionar-se com o futebol enquanto prática corporal, de modo consciente e crítico ao reconhecer que essa cultura deve ser assegura- da para as futuras gerações, bem como notar o potencial educativo que esse esporte pode possibilitar em suas lógicas interna e externa. Assim, finalizando esta unidade, queremos melhor apresentar essas duas facetas de nosso esporte predileto e que conta com sua participação para que, juntos,possamos sair tabelando por toda essa jornada que já se iniciou. O árbitro já sinalizou o fim da parada técnica, vamos retornar ao campo? ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 56 O esporte mais popular do mundo (FRANCO JU- NIOR, 2007), para além do alcance global, traz con- sigo uma série de saberes e possibilidades de ensino. Sua representatividade pode ser entendida quando olhamos para os 193 países membros registrados na Organização das Nações Unidas – ONU (ONU, 2016), enquanto que a Fédération Internationale de Football Association – FIFA, instituição que organiza o futebol no mundo, conta com 209 federações filia- das (FIFA, 2016). A Importância de se Estudar o Futebol Figura 1 - Crianças brincando de futebol - Marrocos Desde sua introdução no Brasil, ao final do sé- culo XIX (SILVA; SANTOS, 2006), comumente o futebol esteve nos movimentos históricos, políticos e culturais de nosso povo. Praticar, vivenciar e dia- logar sobre futebol auxiliou na construção e legiti- mação da identidade brasileira (RIBEIRO, 2003). Segundo o músico e ensaísta, José Miguel Wisnik (2008), esse esporte tem, assim como a música popular, a criação de alguma coisa na qual o Brasil se reconhe- ce, e o mundo reconhece o Brasil. Wisnik ainda indica 57 EDUCAÇÃO FÍSICA O antropólogo Roberto DaMatta (2011) assume a não significação imanente do futebol, podendo este, desta forma, sofrer transformações em seu sentido, de acordo com os modos com que uma dada sociedade dele se apropria. Portanto, é possí- vel concluir que o futebol nada mais é senão aquilo que dele fazemos. No Brasil, aprender a jogar futebol, segundo Gi- glio et al. (2008), sempre esteve respaldado no signi- ficado cultural, permitindo às pessoas se relaciona- rem das mais diferentes formas com a modalidade. Talvez, antes mesmo de você possuir um nome, já possuía um time para torcer, não é mesmo? Isso é reflexo da cultura de nosso país, que passou a in- corporar tal prática esportiva por variadas motiva- ções, e que se comunica, por exemplo, ao presentear as pessoas com bolas e uniformes, ou indicar aquele ou esse time para o qual você deveria torcer, fora o bombardeio midiático que tanto dissemina a dita “paixão nacional”. Embora existam vários esportes, “jogar bola” faz quase sempre referência a jogar futebol, confirman- do a expressiva significação do esporte no cenário na- cional, em que, segundo Jocimar Daólio (1998, p. 1), “um país encontrou no futebol a sua melhor tradu- ção, fazendo dele uma de suas maiores expressões”. Sobre o futebol, os mais distintos apontamen- tos são feitos pela sociedade, na mesma medida em que ela é produtora e transformadora de cultura. Esse pressuposto revela a pertinência dele, futebol, como promotor do desenvolvimento humano e so- cial, capaz de conceder às pessoas uma aproxima- ção que gera quebra de paradigmas sociais, como os de classe, religião, raça e, por vezes, até de gênero (FERREIRA, 2015). O futebol é um maravilhoso meio educativo: ensina a ganhar e a perder, ensina a convi- ver com a frustração, e só quem não tem a menor sensibilidade é capaz de dizer que a plateia do futebol é uma plateia de passivos. Porque ninguém me convence de que não fiz junto com o Basílio aquele gol que libertou o Corinthians de vinte e dois anos sem título; ninguém me convence de que não subi com Pelé na cabeçada que deu o primeiro gol con- tra a Itália, na Copa de 70. [...] Sempre dou como exemplo do oposto da alienação que as pessoas teimam em ver no futebol uma frase que adoro, de Bill Shankley, o técnico e manager escocês do Liverpool: “É claro que o futebol não é uma questão de vida ou morte, o futebol é muito mais importante que isso”. Foi num campo de futebol que se abriu, pela primeira vez na história, uma faixa pela anistia aos presos políticos brasileiros. [...] Não entender todas essas características, e que o futebol imita a vida, como pouquíssimas áreas da atividade humana, é, no mínimo, uma pena. Fonte: Kfouri (2000). SAIBA MAIS o futebol como linguagem, ao dizer que o brasileiro, de modo geral, futeboliza a vida, fazendo-se presente em nossas falas, nos ensinando sua linguagem, seu modo de expressão, comunicação e diálogo com o mundo. Você já refletiu em quantas representações so- ciais a modalidade evoca e pode manifestar-se? Esti- mado(a) aluno(a), Valentim e Coelho (2005, p. 185) nos auxiliam a pensar tal questionamento quando indicam que, [...] seja pela competição racionalizada ou im- pregnada pelo sentimento lúdico, utilizado pelo Estado ou até atuando na coesão social, o futebol é um esporte que desempenha um pa- pel central na nossa cultura. ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 58 Acreditamos que até aqui você já teria indicati- vos suficientes para entender qual é a importância do estudo do futebol, sobretudo no Brasil, local que ele encontrou uma espécie de berço e é pauta de conversas nas padarias, nas igrejas, nos eventos de família e nas festas. Contudo, como é que esse futebol vem sendo tratado? Ele é conteúdo da Educação Física? Como ele pode ser melhor explorado? Você sabia que as- segurar o direito de aprender sobre essa parte da cultura corporal de movimento está previsto por lei? É partindo desses questionamentos que segui- remos nossa unidade. Está curioso(a)? Venha com Figura 2 - Ensino do futebol pelo método analítico-sintético tudo e desafie-se pela busca de saber mais. Convi- damos você para correremos juntos esse magnífico campo. FUTEBOL ENQUANTO DIREITO Já faz algum tempo que a tarefa de se ensinar futebol foi e é delegada às chamadas “escolinhas de futebol”; espaços fora da instituição escolar, em que geral- mente prioriza-se o ensino do esporte pelo método analítico-sintético, desconsiderando o patrimônio cultural relacionado aos jogos de futebol (RODRI- GUES et al., 2011, p. 42). 59 EDUCAÇÃO FÍSICA Portanto, cabe ao futebol ser um meio educacio- nal não com um fim em si mesmo, ou seja, a prática pela prática, sem propósitos ou exploração do que esta pode gerar. O futebol como meio educacional pode e deve fazer com que os estudantes utilizem os conhecimentos aprendidos de maneira eficaz, junto e a favor de uma sociedade melhor para todos. Enfatizamos que ensinar futebol está para além de leis, parâmetros ou diretrizes. Ao transcender to- dos esses aspectos, assumimos o futebol como para- digma educacional, muito disso devido ao notável modo pelo qual ele pode explicar o mundo e auxiliar na leitura deste. Esse patrimônio histórico imaterial deve ser desmistificado para que a sociedade possa melhor se relacionar com essa cultura, bem como deve ser apresentando e ensinado às novas gerações, de modo a assegurar possibilidades de saberes e co- nhecimentos que tal fenômeno permite. Tamanha expansão das escolinhas e devido à ade- rência e assiduidade de seus frequentadores, fortale- ceu-se uma falsa ideia de que o futebol não precisa- ria ser ensinado, tampouco trabalhado no ambiente escolar e nas aulas de Educação Física. Devido à predileção desse esporte por parte dos estudantes, não é absurdo dizer que o futebol po- deria e pode ser o terror daqueles profissionais que negam o ensino desse conteúdo no espaço escolar, ao pensar os inúmeros pedidos para “jogar bola” nas aulas de Educação Física. Para se evitar tal situação, é digno de lembrete aos docentes e futuros docentes, que é previsto em lei, mais especificamente no artigo 71, do Estatuto da Criança e do Adolescente – ECA (BRASIL, 1990), que os alunos têm direito à “informação, à cultura, ao lazer, aos esportes, às diversões, aos espetáculos e aos produtos e serviços que respeitem sua condição peculiar de pessoa em desenvolvimento”. Pense com a gente, em qual dos itens listados acima o futebol não pode ser tratado? Ele é grande! Para além do ECA, aprender a jogar, aprender sobre o futebol na esfera sociocultural e como com- ponente da cultura corporal de movimento na esco- la encontra-sepresente nos Parâmetros Curriculares Nacionais – PCN (BRASIL, 1998), amparados pela Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional – LDB (BRASIL, 1996), que por sua vez é embasada pela Constituição Federal (BRASIL, 1988), lei máxi- ma que define direitos e deveres dos cidadãos. O que isso quer dizer? Quer dizer que efetiva- mente, a Constituição Federal legitima o direito do ensino do futebol na escola e, mais especifi- camente na Educação Física escolar, em especial no que se refere ao exercício de cidadania, que se apresenta como ponto comum entre os diversos documentos legislativos. ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 60 Querido(a) aluno(a), você já se deu conta do quão desafiador é o ensino do futebol? Mais que isso, você notou a dimensão de satisfação e responsa- bilidade que se apresentam na mesma medida ao longo desse processo de ensino? Por isso, o ensino do futebol não pode ser tratado com um rigor que Princípios Pedagógicos no Ensino do Futebol Figura 3: Aprendizagens guiadas pelo professor não permita avanços nos saberes ou que represen- te estagnação no que até hoje as formas de conhe- cimento alcançaram. Porém, convenhamos, tam- bém não pode ser tratado de qualquer jeito esse esporte que pode promover tantos avanços para a sociedade de modo geral. 61 EDUCAÇÃO FÍSICA É essencial que tenhamos claro o que fundamenta e o que irá servir como orientação para a nossa prática. É necessário termos princípios pedagógi- cos no ensino do futebol. Para isso, convidamos a campo o professor João Batista Freire, que, de modo singular, contribuiu para melhor pensarmos e, dessa forma, compartilharmos os princípios que regem a nossa jornada. Ensinar futebol a todos; Ensinar futebol bem a todos; Ensinar mais que futebol a todos; Ensinar a gostar do esporte (FREIRE, 2003). Estes são os quatro princípios que irão nortear o seguimento de nossas ações com você. Agora, que tal conhe- cermos como atua cada um dos integrantes desse quarteto mágico? Ensinar futebol a todos – É prática comum dar atenção somente àqueles que, por algum motivo, apresentam maiores habilidades na prática de al- gum esporte. Contudo, aqui vamos questionar al- gumas coisas para que, juntos, possamos pensar melhor sobre isso. Será que realmente aqueles alunos menos habi- lidosos, tendo menos atenção, não sendo estimula- dos, não jogando um tempo razoável que lhes per- mitam maior intimidade e contato com a bola irão jogar melhor? Outro questionamento pertinente, que nos per- mite refletir e que podemos utilizar como contra- -argumento com quem defende a ideia de que no futebol o que decide é o componente genético, é per- guntar: será que o filho do Pelé, Maradona, Zico, Só- crates, Beckenbauer, Cruyff jogarão igual seus pais? Algum tempo depois de abertas as tais es- colinhas, surgiu um sério problema: saber jogar não significava necessariamente saber ensinar. Quem aprendia na rua continua- va aprendendo melhor que os alunos das escolinhas. [...] Na rua, todo mundo ensina todo mundo; é criança ensinando criança, é mais velho ensinando mais novo. A rua tem a pedagogia da liberdade, da criatividade, do desafio e até a da crueldade. Já os craques professores das escolinhas, com raras ex- ceções, não conseguiam levar para dentro delas a pedagogia da rua que um dia lhes ensinou tão bem. [...] Ensinar – e todos os que ensinam sabem disso – é trabalho pesado, é ciência e arte; uma das mais difíceis e estafantes tarefas humanas, não importa se se trata de futebol ou de matemática. Conseguir ensinar futebol no Brasil é, no mínimo, aproximar-se do nível de competência pedagógica da rua. Tarefa que exige, entre outras coisas, trazer a cul- tura futebolística do brasileiro para dentro da escola. Fonte: Freire (2003). SAIBA MAIS Pensando nisso, gostaríamos de explicar o que entendemos por princípios, pois são por eles que iremos fundamentar nossa proposta. Se consultar- mos os dicionários, iremos encontrar que princípios são as razões e as bases na qual se sustenta qualquer temática, assim regendo condutas e pensamentos. Você já deve estar percebendo aonde queremos che- gar, não é mesmo? ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 62 Você ser filho do Antônio, do João ou do Pedro não irá definir sua competência futebolística, pelo menos não pelo atributo genético. Respondendo à pergunta anterior a essa, obviamente que quanto menos você, enquanto futuro professor, fornecer possibilidades e explorar os potenciais de seu aluno ou atleta para a prática a ser aprendida, menor será o rendimento que terá deles. O mais importante, ao falarmos sobre ensinar a todos, é a convicção que sustentamos de que to- das as pessoas podem aprender a jogar, superando a ideia de seleção natural de quem pode ou não pode aprender a jogar futebol. Os meninos e meninas, para aprender a jogar melhor, devem ser devida- mente instruídos, sendo que [...] aqueles que já sabem jogar devem ser orien- tados para aprender a jogar melhor; aqueles que sabem muito pouco ou nada de futebol de- vem receber toda a atenção até que aprendam, no mínimo, o suficiente (FREIRE, 2003, p. 8). Ensinar bem futebol a todos – Ensinar não é o bastan- te. É preciso que se ensine de modo que todos possam jogar um futebol com boa qualidade, focado nas toma- das de decisão que uma leitura inteligente do contexto de jogo irá demandar; mas, afinal, o que seriam as to- madas de decisão? E uma leitura de jogo inteligente? Em um jogo existirão as mais variadas situações, que irão requerer do aluno sua capacidade de tomar decisões em relação às demandas táticas exigidas no momento. Isso é a ação cognitiva do aluno em foco, seu momento de reconhecer, orientar e regular suas ações motoras dentro do esporte. Desse modo, uma leitura inteligente de jogo nada mais é do que as in- terpretações do que se pode, deve e o melhor mo- mento sobre o “fazer”, dentro do que o próprio jogo pede enquanto dinâmica. O professor Júlio Garganta, nome representati- vo no ensino do futebol, partindo da lógica do ensi- no dos esportes coletivos, traz que o professor deve compreender o aluno como um ser decisor (GAR- GANTA, 2004). Alinhado a isso, consideramos que você, futuro(a) professor(a), ao mesmo tempo que considere, desconsidere o nível de habilidade de seus alunos. “Como assim?”, você deve estar pensan- do. Deixe-nos explicar melhor. Deve considerar tal nível de habilidade para saber de onde partimos e com que aluno estamos lidando (diagnosticando a turma e quem a integra); e descon- siderando o nível de habilidade em relação ao aluno que está iniciando e se apropriando dessa prática cor- poral, pois de forma complementar ao primeiro prin- cípio pedagógico, devemos ensinar a todos, pois sem- pre há o que aprender e, agora, sabemos que, mais do que ensinar, devemos ensinar bem a todos. Ensinar mais que futebol a todos – É comum escutar que “futebol é muito mais que um jogo”. Tal bordão é utilizado para expressar que pelo futebol muitos aprendizados são realizados. E você, acredi- ta que o futebol pode nos ensinar algo? João Batis- ta Freire nos ajuda nessa questão. Segundo o autor (FREIRE, 2003), o futebol pode desenvolver habili- dades diversas, como conviver em grupos, construir regras, discutir e discordar de regras, modificar a es- trutura de jogo, contribuir para o desenvolvimento moral e social dos alunos. Um outro questionamento que poderá estar pas- sando em sua cabeça é: “mas como será que eu posso cumprir efetivamente com essa tarefa educacional?”. Tenha consigo, querido(a) aluno(a), que a partir do momento em que a formação humana sobrepor-se à formação de craques ou atletas dentro do espaço escolar, já estaremos caminhando na direção de en- sinar mais do que só o futebol em sua forma jogada. 63 EDUCAÇÃO FÍSICA Adiantamos que dada a importância desse princípio, aprofundaremos a temática sobre ensi- nar mais do que futebol nos capítulos que se se- guem, pois aqui reforçamos aideia de mais do que um jogo de 22 pessoas correndo atrás de uma bola, o futebol tem muito o que ensinar para além das quatro linhas. Ensinar a gostar do esporte – O último, e não menos importante princípio, poderia muito bem ser o primeiro, até por um sentido lógico, em que po- demos nos perguntar: “como eu consigo gostar de futebol se eu não consigo gostar do esporte?” Não é difícil concluir que se a pessoa não gostar do que faz não haverá razão para que ela incorpore isso de modo voluntário em seus hábitos de vida. Quando falamos de ensinar a gostar do espor- te, estamos falando sobre formas de inserir o es- porte na vida dos alunos. Nos parece fundamental – seguindo a linha de pensamento do professor João Batista Freire (2003) – ensinarmos com brin- cadeiras, diversão, carinho, atenção, liberdade, pois muito possivelmente os ensinamentos serão traduzidos em conhecimentos que auxiliarão os próprios indivíduos a interpretarem, compreen- derem e significarem o mundo a sua volta. ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 64 Valorizando o papel dos docentes em âmbito escolar ou de treinamento, o educador Freire (2003) indica que para além do tratamento relativo às especificida- des e das responsabilidades profissionais, os profes- sores e/ou treinadores são especialistas em ensinar, devendo se orientar por ideias, teorias e princípios, sempre levando em consideração os conhecimentos trazidos pelo aluno. Futebol, Educação Física e Proposta de Ensino Figura 4 - O aprender futebol - sua prática, atitudes e conceitos Você já havia pensado sobre o quanto um ambiente compartilhado como a rua pode ensinar? Afinal, a rua deve ser temida ou va- lorizada como espaço de interação de nossas crianças e jovens? REFLITA 65 EDUCAÇÃO FÍSICA Nessa mesma direção, o professor Alcides Scaglia, ou- tro importante referencial no que tange ao ensino do futebol, destaca o que até aqui com você, prezado(a) aluno(a), buscamos discernir. Segundo ele, ensinar futebol não pode se resumir mais ao aprendizado de gestos técnicos estereotipados e descontextualizados de suas razões de ser (SCAGLIA, 2011). O apontamento de Scaglia, referente ao ensino do futebol para além das competências táticas e téc- nicas, tende superar o estigma de que saber jogar futebol é uma questão única e exclusivamente de detentores do dom (GIGLIO et al., 2008). Mais que isso, Scaglia busca legitimar a necessidade de diálo- go sobre conceitos e aspectos pedagógicos e socioló- gicos do futebol. Existem profissionais que, tanto dentro quanto fora dos campos, são conscientes e sabem se posicionar. Um representante dessa classe trabalhadora é Paulo André, futebolista com passagem em grandes clubes do futebol brasileiro, que denuncia em seu livro O jogo da minha vida: histórias e reflexões de um atleta a urgente modificação estrutural no processo de en- sino-aprendizagem do futebol, em que acredita: Quero deixar evidente a necessidade de mu- danças no formato atual de formação de crian- ças e jovens (atletas ou não) em nosso país, pois não podemos admitir que uma pessoa que ten- tou ser jogador chegue aos 20 anos só sabendo jogar bola e não tenha evoluído em outros seto- res da vida (BENINI, 2012, p. 256). Paulo André, com seus dizeres, permite-nos pro- blematizar ainda mais uma questão pertinente em relação ao processo de formação de futebolistas no país. As mazelas formativas dos jogadores brasilei- ros, como bem indicadas pelo autor, receberão o devido tratamento ao longo de nosso livro. Por ora, destaquemos o fragmento em que o autor indica “a necessidade de mudanças no formato atual da for- mação de crianças e jovens (atletas ou não)”. Reflita conosco, estimado(a) aluno(a): se con- sagrados cientistas, vários importantes pesquisa- dores, atletas profissionais e, o mais importante, você conseguem minimamente identificar que não se pode negar o ensino do futebol, e que o “como” ensinar tem implicação direta no modo pelo qual crianças e jovens irão se relacionar com essa parte da cultura corporal de movimento, é sinal de que podemos avançar nossa linha ofensiva e partir para cima das possibilidades de como podemos otimi- zar a formação de nossa juventude e infância acerca do ensino do futebol. O futebol nas aulas de educação física não poderá limitar-se a reproduzir movimentos (sequências pedagógicas) ou vivenciar uma infinidade de “joguinhos” desprovidos de um contexto e de um ambiente facilitador capaz de provar nos alunos a apropriação do conhecimento à medida que são capa- zes de ressignificar, deixando seu próprio contributo. [...] Entendemos que nas aulas de educação física não basta deixar jogar. Até porque, se fôssemos considerar apenas deixar jogar, os alunos aprenderiam muito mais fora das nossas aulas, frente o tempo disponível e as diversas possibilidades de experiências de corpo inteiro que têm ao brincarem nas ruas, subir em muros, escalar árvores. E tam- bém, temos de reconhecer que muito dos nossos alunos já chegam à escola sabendo jogar futebol. Fonte: Reverdito (2008). SAIBA MAIS ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 66 Ao tratar do processo estrutural de ensino, tal qual se apresenta hoje, temos que as pretensões edu- cacionais perpassam pela utilização de conhecimen- tos aprendidos de maneira eficaz por parte dos jo- vens, numa perspectiva em que estes saibam se valer de tais conhecimentos junto e a favor de uma socie- dade melhor para todos. Já o professor ou profissional de Educação Fí- sica deve propiciar aos alunos uma reflexão acer- ca dessa dimensão da cultura, contribuindo com suas formações (SOUZA JÚNIOR, 2001, p. 83). Nessa mesma direção, vale ressaltar que a Educa- ção Física escolar, na concepção de disciplina, ob- jetiva formar indivíduos capazes de serem críticos e agirem de modo autônomo na esfera da cultura corporal de movimento, além de contribuir para a formação política dos sujeitos (GONZÁLEZ; FENSTERSEIFER, 2010, p. 12). Pensar o ensino do futebol no âmbito escolar ou do treinamento, portanto, é pensar uma prática pedagógica, desenvolvida dentro de um processo de ensino-aprendizagem, em que o aluno seja levado em consideração, podendo ser protagonista ao longo do processo de construção de conhecimentos. Neste sentido, como futuro professor e/ou treinador, é im- portante que em suas relações com seus futuros alu- nos e alunas ocorra a troca de experiências e saberes relativos ao futebol, para que, partindo do que eles sabem, seja possível a ampliação de conhecimentos nessa simbiose de culturas e leituras de mundo. Contudo, algo que você talvez tenha vivenciado ou ouvido falar diz respeito às possíveis experiên- cias um tanto quanto frustrantes durante as aulas de Educação Física ou sessões de treinamento de fute- bol. Na tentativa de experienciar diferentes práticas corporais, o ensino do futebol por parte de alguns profissionais podem levar os alunos a não desfruta- rem, tampouco compreenderem o que estão fazen- do e para que estão fazendo. Sobretudo, quando abordado no “modelo tradi- cional de ensino”, tem-se que os aspectos técnicos, o gestual motor, entre outras frentes, podem servir como ferramentas segregadoras dos ditos “mais ha- bilidosos” e “aptos” dos supostamente “menos habi- lidosos” e “inaptos”, e isso ocorre entre outras moda- lidades, mas também com o futebol. Dito isso, esperamos que você passe a enxer- gar que não se trata apenas do conteúdo a ser en- sinado, mas sim o quanto nós, como docentes e/ ou profissionais da área, podemos contribuir para que esse processo de ensino-aprendizagem re- presente uma prática significativa junto aos nos- sos(as) alunos(as). Nós, assim como Jorba e Sanmarti (2003, p. 23), acreditamos na prática significativa, aquela que visa contribuir com a formação cidadã e que dialoga muito bem com todo sistema educacional previsto nas leis e orientações documentadas sobre o ensino em nosso país. Pensar uma prática significativa no futebol exi-girá, primeiramente do professor ou futuro docen- te, superar alguns estigmas, que alimentam discur- sos rasos dentro da própria Educação Física, por exemplo, o fato do professor ter que ser especialista em futebol; saber executar bem os movimentos; transformar as aulas de Educação Física em espé- cies de treinamento para, entre outros objetivos, descobrir talentos. 67 EDUCAÇÃO FÍSICA O professor que pensa a prática significativa do futebol junto e com seus alunos precisa proporcio- nar suas atividades de forma enriquecedora (ASSIS; COLPAS, 2013), caracterizando, assim, o exercício educativo que é fundamentalmente humano em seu caráter formador, como bem nos recorda o patrono da Educação no Brasil, Paulo Freire (1996, p. 33). Assim, visando colocar em prática essa empreita- da de proporcionar um ensino significativo aos seus futuros alunos, trazemos novamente para o jogo os professores Fernando González e Alex Fraga (2012), que nos fornecem importantes encaminhamentos para que o futebol receba um tratamento didático que ultrapasse a esfera do “ensinar a jogar”. Os autores sugerem que o ensino do futebol deve se dividir em duas frentes, sendo uma delas responsável por pro- porcionar aos alunos uma competência de jogo em que eles “se virem” em uma partida de futebol (sa- beres corporais) e, por outra frente, adquiram uma compreensão do futebol enquanto fenômeno social, para além do senso comum (saberes conceituais). Portanto, nosso compromisso será de “conven- cê-lo” sobre a importância de ensinar seus alunos a jogar futebol de forma proficiente, ao mesmo tem- po que eles passarão a compreender o futebol de maneira crítica. Nessa mesma linha de pensamento e visando con- tribuir com sua formação, começaremos, no próximo tópico, a apresentar uma proposta metodológica que irá correr junto conosco neste desafio. Esta aborda- gem técnico-tática promete, e muito, colaborar para a obtenção de nossos objetivos, dentro e fora dos cam- pos e das quadras. Convido você a conhecer a Praxio- logia Motriz, reforço de peso para a nossa equipe. ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 68 Vamos retomar alguns pontos, caro(a) aluno(a)? Vi- mos que aprender futebol está para além do apren- dizado do jogo e de seus fundamentos (SCAGLIA, 2011). Reiteramos que isso é parte fundamental do todo, mas que o futebol deve ser entendido como fator cultural que pode desencadear valores sociais que auxiliam em uma melhor convivência em nossa sociedade. Vimos também que o futebol é e pode ser significado por diversas formas (MARTINS, 2015) como paixão, sonho, lazer, profissão. Por fim, tam- Praxiologia Motriz: Lógica Interna, Lógica Externa Figura 5 - O jogo dentro do campo em sua lógica interna e as influências externas a ele no contexto da lógica externa bém verificamos que o ensino do futebol é direito dos cidadãos em instituição escolar, previsto nas au- las de Educação Física, por pertencerem aos espor- tes coletivos, parte da cultura corporal de movimen- to (GONZÁLEZ; BRACHT, 2012). Pensando em possibilitar o exercício da cidada- nia você, enquanto futuro profissional, tem que estar comprometido com o ensino da prática do futebol e sua compreensão. Agora, então, iremos apresentar a “fórmula mágica” para isso! Brincadeira à parte, iremos 69 EDUCAÇÃO FÍSICA apresentar a Praxiologia Motriz. Esta, se fosse um joga- dor, por mais importante e representativo que seja, não iria resolver a partida se fosse escalado. Irá depender inteiramente de você, se a colocará para campo ou não, assim como na consagrada frase no meio futebolístico que prevê: “treinador não ganha jogo, quem ganha jogo são os jogadores, mas eles só jogam se o treinador esca- lar”. A decisão é sua, porém alertamos que depois de se familiarizar com a proposta, dificilmente a Praxiologia não será a capitã de sua equipe. PRAXIOLOGIA MOTRIZ E SUAS IMPLI- CAÇÕES Ao final da década de 60, um professor francês que se chama Pierre Parlebas, notando a dificuldade da Educação Física em estabelecer um objeto próprio de estudo, lançou mão da “teoria da ação motriz”, definida por ele mesmo como o processo de adap- tação das condutas motrizes de um ou de vários su- jeitos ativos em uma determinada situação motriz (PARLEBAS, 1981, p. 173). A chamada teoria da ação motriz é também, hoje, conhecida como Praxiologia Motriz (nomenclatura mais usual), que consiste no estudo da lógica interna dos jogos e esportes, assim, estabelecendo critérios para compreender a lógica de funcionamento das ações motrizes que emergem dos próprios jogos, es- portes e daquilo que se observa ao exterior dessas práticas, compondo uma determinada situação mo- triz (RIBAS, 2008). Resumidamente, a Praxiologia Motriz é uma teo- ria que estuda as práticas motrizes a partir das ações motrizes e da lógica interna e externa dessas práti- cas. Prática motriz é uma nomenclatura utilizada pela Praxiologia Motriz, a fim de se referir a todo tipo de atividade, seja ela jogo, dança, luta, esporte, brincadei- ra, entre outras. Ação motriz é uma terminologia uti- lizada pela Praxiologia Motriz para classificar as ações de determinada prática motriz, de forma a não sepa- rar as vertentes tática, técnica, psicológica, afetiva etc. Podemos concluir que o futebol é a prática mo- triz que consiste em nosso objeto de estudo neste li- vro. Já as ações motrizes que iremos estudar passam por vários aspectos, tais como: as linhas de passe, as coberturas defensivas e ofensivas, as interpretações das regras, as orientações do treinador etc. A Praxiologia Motriz objetiva, sobretudo, [...] desvendar a lógica interna de um jogo ou es- porte, conhecendo assim as características estru- turais que permitam estabelecer semelhanças e diferenças entre as práticas (RIBAS, 2008, p. 127) Auxiliando na identificação das consequências que tais práticas exercem sobre a personalidade de seus protagonistas. Contudo, você deve se lembrar que a Praxiologia Motriz também é responsável pelo estudo da lógi- ca externa das práticas corporais, não é? Tenha um pouco de paciência que logo chegaremos nela, mas, primeiro, vamos desvendar melhor o universo da ló- gica interna do futebol. LÓGICA INTERNA Você já percebeu que, aqui, estamos falando o tem- po todo sobre lógica interna? Ainda que as palavras nos forneçam subsídios para tentar entender do que se trata, que tal vermos sua definição segundo seu próprio autor? Por conceito, segundo Parlebas (2001, p. 302), lógica interna é o sistema de características próprias de uma situação motora e das consequências que esta situação demanda para a realização de uma ação ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 70 motora. Essa ideia do que é a lógica interna ainda te parece estranha? Entenda a lógica interna como as particularidades e exigências de uma modalidade que, durante sua prática, fazem com que seus joga- dores atuem de um jeito específico. Por exemplo, no caso do futebol, o fato dos jogadores, à exceção dos goleiros, serem impedidos de usarem as mãos, os obriga a criar soluções distintas para situações-pro- blemas, fazendo uso de outras partes de seus corpos, em especial os pés. A Figura 6 ilustra muito bem tal contexto, na medida em que, no campo alagado, sem a possibilidade de jogar a bola rasteira, os garotos solucionam o problema com as bolas aéreas, reali- zando seus malabarismos com o corpo. possível pensarmos nas representações que o futebol assume no mundo islâmico, em especial no que tan- ge às mulheres que enfrentam uma série de barreiras para acessar o espaço público. Figura 6 - Meninos jogando futebol em campo alagado Tranquilo até aqui? Seguimos! LÓGICA EXTERNA Existe também a outra lógica, a lógica externa, que se refere às características e aos significados sociais que uma prática esportiva apresenta ou adquire num de- terminado contexto histórico e cultural (GONZÁ- LEZ; BRACHT, 2012). Em nosso caso, é dizer tudo que envolve e engloba o futebol paraalém das qua- tro linhas, como no exemplo da Figura 7, na qual é Figura 7 - Mulher vestida com traje típico muçulmano com bola de futebol Chegamos, assim, à metade do caminho, meio tem- po de nossa partida, em que já apresentamos os jogos ancestrais ao futebol, seu nascimento, ele em nosso país, seu potencial educativo, o direito à sua prática, uma estrutura enquanto proposta de ensi- no, entre outras particularidades. Já ouviu falar que “o primeiro tempo é importante, mas o segundo é o que define o jogo”? Brincando com a analogia, não se trata aqui, em nossos estudos, definir nada, porém a importância desta segunda etapa, na qual iremos propor mais efetivamente o desenvolvimento de atividades para ensinar o futebol em suas lógicas interna e externa, é a que fará a diferença enquanto atuação docente em sua vida e na vida de quem seu aluno ou aluna for. Por isso, mantenha o foco, encare o desafio e tabele com a gente para ganharmos juntos mais esse peda- ço de campo! 71 considerações finais C aro(a) aluno(a), você consegue imaginar-se no comando de um grande time? Sendo técnico ou técnica da seleção de seu país? Cabendo a você orientar as pessoas que podem garantir façanhas exitosas e que farão diferença na vida de muita gente, inclusive nas delas mesmo? Você ago- ra, enquanto técnica ou técnico, faça o exercício de alteridade e transporte-se para uma sala de aula. No comando de futuros profissionais das mais diferentes áreas, de uma geração de pessoas que podem fazer bonito na ideia de um mundo melhor e mais justo para todos e todas. Já se imaginou sendo aquele ou aquela que será lembrado(a) eternamente por ter feito a diferença na hora certa e por ter formado mais do que alunos, cidadãos? Não tome isso como pressão, mas sim como o poder de modificação e trans- formação de muitas realidades. Você, após acompanhar e explorar conosco a importância do estudo sobre futebol, especialmente os princípios assumidos por nós, e as sinalizações de como podemos conduzi-los, já deve ter se dado conta de que será uma das peças-chave mais importantes na vida de muita gen- te, pois você, como legítimo(a) capitão(ã) de seu time ou turma, é um(a) for- mador(a) de opinião. Ao largo da nossa trajetória, buscamos dar esse toque refinado para você. Passando a bola que agora está contigo, buscamos trazer subsídios que te pos- sibilitem o entendimento necessário de quem assume a faixa da capitania e, ainda assim, em meio a tantos outros jogadores, não se considera nem menos nem mais, apenas o responsável por todos. Que essa seja sua postura daqui a poucos anos no papel de professor ou treinador. Além de já termos dito, ao final da Unidade I, que você pode assumir a camisa 10 para fazer bonito, agora pas- samos a você as obrigações e satisfações que todo grande líder tem, ao mesmo tempo que o legitima. A faixa é sua. Munido da “10 e da faixa”, lembre-se de que esse jogo é coletivo, então, pra esse momento e os que estão para vir, conte conosco, conte com essa grande equipe. 72 atividades de estudo 1. Segundo Wisnik (2008), o futebol tem, assim como a música popular, a criação de alguma coisa na qual o Brasil se reconhece, e o mun- do reconhece o Brasil. A afirmação do autor indica que o futebol pode ser tratado como: a. Aspecto da identidade cultural brasileira. b. Produto da sociedade capitalista. c. Componente curricular da Educação Física escolar. d. Prática de atividade física que contribui para a qualidade de vida. e. Aspecto lúdico da sociedade brasileira. 2. Sobre o ensino do futebol pelo método analíti- co-sintético, é possível dizer que: a. Deve ser sempre adotado no espaço escolar, pois somente por esse método se aprende a jogar futebol. b. É o modelo mais comum nas escolinhas de futebol e caracteriza-se pela fragmentação do jogo em seus aspectos técnicos. c. É o modelo que enfatiza o ensino pelo jogo, fa- vorecendo a aprendizagem das técnicas para, posteriormente, juntá-las no jogo formal. d. Não deve ser adotado em condição alguma, pois não contribui para a aprendizagem do fu- tebol devido à sua ênfase na técnica. e. Deve ser adotado apenas nas escolinhas de futebol, que são instituições voltadas para o treinamento; na escola deve-se evitá-lo, pois é um espaço educacional. 3. Com relação ao ensino do futebol no sistema escolar e às políticas públicas previstas para o esporte, assinale Verdadeiro (V) ou Falso (F) nas afirmações a seguir: ( ) De acordo com os Parâmetros Curriculares Na- cionais, o ensino do futebol é obrigatório em todas as disciplinas escolares. ( ) É previsto pelo Estatuto da Criança e do Ado- lescente que os alunos têm direito à informação, à cultura, ao lazer, aos esportes, às diversões, aos espe- táculos e aos produtos e serviços. ( ) Aprender a jogar, aprender sobre o futebol na esfera sociocultural e como componente da cultura corporal de movimento na escola encontra-se pre- sente nos Parâmetros Curriculares Nacionais. ( ) O futebol deve ser reconhecido como patrimô- nio histórico imaterial, devendo ser transmitido de geração para geração. 4. Sobre os princípios pedagógicos para o ensino do futebol: I. Ensinar futebol a todos. II. Ensinar futebol sempre. III. Ensinar mais que futebol. IV. Ensinar a jogar com motivação. Assinale a alternativa correta: a. Apenas I e II estão corretas. b. Apenas I, II e III estão corretas. c. Apenas I e III estão corretas. d. Apenas I, II e IV estão corretas. e. Todas as alternativas estão corretas. 5. Com relação ao princípio pedagógico de ensi- nar futebol a todos, é correto afirmar que: a. É preciso dar prioridade aos menos habilido- sos, pois os mais habilidosos já possuem ta- lento por natureza. b. Não se pode tratar os alunos de forma diferen- ciada, pois todos devem ter o mesmo ensino, independentemente do nível de habilidade. c. É preciso garantir que todos os alunos te- nham a oportunidade de aprender, indepen- dentemente do nível de habilidade. 73 atividades de estudo d. Não se deve dar uma atenção especial a ne- nhum grupo de aluno, pois todos têm a mes- ma capacidade de aprender e devem se es- forçar para isso. e. Cada aluno aprende no seu próprio ritmo e, por esse motivo, o professor precisa ensinar cada um deles de forma particular. 6. Segundo João Batista Freire: “O mais importan- te [...] é a convicção que sustentamos de que todas as pessoas podem aprender a jogar, su- perando a ideia de seleção natural de quem pode ou não pode aprender a jogar futebol”. Essa afirmação do autor refere-se a qual dos princípios pedagógicos por ele apresentados? a. Ensinar a gostar do esporte. b. Ensinar mais do que futebol. c. Ensinar futebol a todos. d. Ensinar a jogar com motivação. e. Ensinar os menos habilidosos. 7. “Quero deixar evidente a necessidade de mu- danças no formato atual da formação de crian- ças e jovens (atletas ou não) em nosso país, pois não podemos admitir que uma pessoa que ten- tou ser jogador chegue aos 20 anos só saben- do jogar bola e não tenha evoluído em outros setores da vida”. Essa afirmação, proferida pelo futebolista Paulo André, revela um problema presente nas categorias de base dos clubes de futebol do Brasil. Qual a relação dessa proble- mática com a Educação Física escolar? a. Nenhuma, pois o futebol profissional e a es- cola são instituições com funções distintas na sociedade. b. Na escola, o treinamento de atletas deve es- tar voltado para uma formação ampliada, pois eles precisam estar prontos para o mercado da bola, que está cada vez mais competitivo. c. O futebol precisa ser ensinado nas aulas de Educação Física da mesma forma que é en- sinado nos clubes, pois na escola, os alunos possuem conhecimentos de outras áreas. d. Os alunos que jogam futebol nos clubes preci- sam treinar nas aulas de Educação Física outros esportes para ampliar sua cultura esportiva. e. Os jovens que saem dos clubes sabendo ape- nas jogar futebol poderiam ampliar seus co- nhecimentos sobre as dificuldadesdo merca- do da bola nas aulas de Educação Física. 8. Partindo do entendimento do referencial teóri- co da Praxiologia Motriz, assinale Verdadeiro (V) ou Falso (F) nas afirmações a seguir: ( ) A Praxiologia Motriz é uma teoria que estuda as práticas motrizes a partir das ações motrizes e da lógica interna e externa dessas práticas. ( ) O futebol é uma ação motriz. ( ) O basquetebol é uma prática motriz. ( ) O jogo coletivo é uma das características da ló- gica interna do futebol. ( ) As diferenças culturais de apropriação do fute- bol por distintos países é uma característica da lógica interna do futebol. 9. Apresente um exemplo de um aspecto da lógi- ca interna e outro da lógica externa do futebol. 10. Ao discutir o princípio pedagógico “ensinar bem futebol a todos”, enfatizamos a impor- tância de se ensinar de modo que todos pos- sam jogar um futebol com boa qualidade, focado nas tomadas de decisão. Qual é o sig- nificado desse ensino focado nas tomadas de decisão? 74 LEITURA COMPLEMENTAR Na volta do jogo, o pai dirigindo o carro, a mãe ao seu lado, o garoto no banco de trás, ninguém dizia nada. Fi- nalmente, o pai não se aguentou e falou: • Você não podia ter perdido aquela bola, Rogério. • Luiz Otávio... - começou a dizer a mãe, mas o pai continuou: • Foi a bola do jogo. Você não dividiu, perdeu a bola e eles fizeram o gol. • Deixa o menino, Luiz Otávio. • Não. Deixa o menino não. Ele tem que aprender que, numa bola dividida como aquela, se entra pra rachar. O outro, o loirinho, que é do mesmo tamanho dele, dividiu, ficou com a bola, fez o passe para o gol e eles ganharam o jogo. • O loirinho se chama Rubem. É o melhor amigo dele. • Não interessa, Margarete. Nessas horas não tem ami- go. Em bola dividida, não existe amigo. • E se ele machucasse o Rubem? • E se machucasse? O Rubem teve medo de machucar ele? Não teve. Entrou mais decidido do que ele na bola, ficou com ela e eles ganharam o jogo. • Você está dizendo para o seu filho que é mais impor- tante ficar com a bola do que não machucar um amigo? • Estou dizendo que em bola dividida ganha quem en- tra com mais decisão. Amigo ou não. • É apenas futebol, Luiz Otávio. • Aí é que você se engana. Não é apenas futebol. É a vida. Ele tem que aprender que na vida dele haverão várias ocasiões em que ele terá que dividir a bola pra rachar e.... • Haverá - disse Rogério, no banco de trás. • O quê? • Acho que não é “haverão”. É “haverá”. O verbo ha- ver não... • Ah, agora estão corrigindo meu português. Muito bem! Eu não sou apenas o pai insensível, que quer ver o filho quebrando pernas pra vencer na vida. Também não sei gramática. • Luiz Otávio... • Pois fiquem sabendo que o que se aprende na vida é muito mais importante do que o que se aprende na escola. Está me ouvindo, Rogério? Um dia você ainda vai agradecer ao seu pai por ter lhe ensinado que na vida vence quem entra nas divididas pra valer. • Como você, Luiz Otávio? • O quê? • Você dividiu muitas bolas pra subir na vida, Luiz Otá- vio? Não parece, porque não subiu. • Ora, Margarete... • Conta pro Rogério em quantas divididas você entrou na sua vida. Conta porque o Simão acabou chefe da sua seção enquanto você continuou onde estava. Conta! • Margarete... • Conta! • Eu estava falando em tese... Fonte: Veríssimo (2001). 75 EDUCAÇÃO FÍSICA Como o futebol explica o mundo: um olhar inesperado sobre a globalização Franklin Foer Editora: Zahar Sinopse: o futebol é mais do que um esporte, ou mesmo um modo de vida; abrange questões complexas que ultrapassam a arte do jogo. As histórias co- lecionadas – extravagantes, violentas, engraçadas, trágicas – ilustram desde o choque de civilizações à economia internacional e revelam como o futebol e seus fiéis seguidores podem expor as mazelas de uma sociedade, sejam elas a pobreza, o antissemitismo ou o fanatismo religioso. Original, inteligente, escrito com paixão e humor, o livro nos ajuda a compreender nossa turbulenta época. Indicação para Ler Jogos e Esportes: fundamentos e reflexões da Praxiologia Motriz. João Francisco Magno Ribas Editora: Editora UFSM Sinopse: a Praxiologia Motriz consiste no estudo da lógica interna das práticas físicas no sentido de desvelar a essência de cada jogo ou esporte. Neste livro, que foi baseado em estudos do Grupo de Estudos Praxiológicos, encontramos dois momentos: no primeiro, desenvolvem-se os conhecimentos básicos da Teoria da Ação Motriz, com o propósito de dar as primeiras ferramentas para o leitor situ- ar essa disciplina; e, no segundo, definem-se os âmbitos da Educação Física nos quais é possível demonstrar alguma possibilidade de debate da Praxiologia Mo- triz. Temos aqui uma tentativa de apresentar a Praxiologia Motriz da forma mais clara e fiel para o exigente público brasileiro. Indicação para Ler ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 76 Uma história de futebol Ano: 1998 Sinopse: curta-metragem dirigido por Paulo Machline, com duração de 22 mi- nutos, “Uma história de futebol” é baseado no depoimento de Zuza, um compa- nheiro de infância de Dico (mais tarde Pelé). O filme se passa na cidade de Bau- ru, no ano de 1950, quando o time “7 de Setembro” enfrenta seu maior rival, o “Barão do Noroeste”. Este curta está disponível para exibição on-line em: <www. portacurtas.com.br>. Indicação para Assistir Apresentação: no website “Pedagogia do futsal”, Wilton C. Santana (doutor em Educação Física pela UNICAMP-SP e docente da UEL-PR) reúne um acervo de materiais diversificados, como editoriais, artigos, vídeos, dicas de cursos etc., abarcando o universo da pedagogia do futsal. Disponível em: <http://www.pedagogiadofutsal.com.br/> Indicação para Acessar 77 referências ASSIS, J. V.; COLPAS, R. D. A pedagogia esportiva e o ensino do futebol na escola. 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Lógica interna: a obrigatoriedade de se jogar apenas com os pés; o fato de ser jogado coletivamente; o enfrentamento simultâneo entre as equipes adversárias etc. Lógica externa: a mobilização de torcedores em torno dos clubes de futebol; a idolatria pelos jogadores considerados foras de série; a desigualdade entre as condições desfrutadas por homens e mulheres futebolistas etc. 10. Ao discutir o princípio pedagógico “ensinar bem futebol a todos”, enfatizamos a im- portância de se ensinar de modo que todos possam jogar um futebol com boa qual- idade, focado nas tomadas de decisão. Qual é o significado desse ensino focado nas tomadas de decisão? Ao invés da ênfase recair sobre como fazer os movimentos ou técnicas do futebol, a ênfase do ensino deve recair sobre as situações-problemas que se oferecem no decorrer da partida, para que os alunos busquem alternativas criativas para superá-las, ou seja, saibam tomar as decisões mais acertadas frente a uma demanda do jogo. Assim, não se trata de saber simplesmente executar um bom passe, mas de analisar todas as variáveis (companheiros, adversários, setor do campo, posição da bola etc.) e fazer as escolhas referentes ao por quê, o que, quando e enfim como fazer. Professor Dr. Osmar Moreira de Souza Júnior Professor Me. Bruno Martins Ferreira Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: • Lógica interna no futebol: foco nas tomadas de decisão e ações do jogo • Os aspectos tático-técnicos: motivações e apresentação dos princípios operacionais em diálogo com os indicadores de jogo na lógica interna • Aprender a jogar pelo jogo: atividades pensadas a partir da relação com a bola • Aprender a jogar pelo jogo: atividades pensadas a partir da relação com a estruturação do espaço • Aprender a jogar pelo jogo: atividades pensadas a partir da relação com a comunicação na ação Objetivos de Aprendizagem • Compreender os fundamentos e princípios que embasam o ensino do futebol na lógica interna. • Identificar as razões do ensino do futebol a partir das demandas táticas, bem como tomar ciência dos princípios operacionais em seus possíveis diálogos com os indicadores do jogo. • Apropriar-se de atividades contextualizadas na lógica interna do futebol com enfoque nas relações e interações com a bola. • Adquirir competência no ensino de atividades contextualizadas na lógica interna do futebol com enfoque nas relações e interações com a estruturação do espaço. • Desenvolver competência no ensino de atividades contextualizadas na lógica interna do futebol com enfoque nas relações e interações com a comunicação nas ações. O ENSINO DO FUTEBOL PARA APRENDER A JOGAR: ÊNFASE NA LÓGICA INTERNA III unidade INTRODUÇÃO E stimado(a) aluno(a), entendemos que, até o presente momento, na tentativa de estimular a busca por novos conhecimentos, aguçamos o seu querer em conhecer e saber de propostas mais concretas para sua futura atuação profissional. É exatamente esse o papel de um técnico de futebol. Entendendo, segundo a psicologia esportiva, que os estímulos dependem dos fatores externos, mas que a motivação é sempre interna, ou seja, pessoal. Espe- ramos que você tenha chegado até aqui com a mesma expectativa e prazer que temos de apresentar atividades que, acreditamos, possam contribuir com a sua aprendizagem. Dito isso, recordamos que não se tratam de fórmulas mágicas, manual de instruções de procedimentos, tampouco que você abra mão de sua autonomia, e sim propostas coerentes com o que tratamos nas Unidades I e II, e que muito se relacionam com as unidades que estão por vir. Esta unidade fornecerá subsídios para que você compreenda o que funda- mentalmente rege o ensino do futebol pela lógica interna, ou seja, as tomadas de decisões e as ações de jogo em suas intenções táticas. Por intermédio de ati- vidades contextualizadas da própria lógica interna, enfocaremos em diferentes tópicos as relações e interações com a bola, com a estruturação do espaço e as comunicações nas ações. Damos fé que o aprendizado do futebol pelo próprio jogo, além de se apre- sentar como uma metodologia efetiva e cientificamente comprovada, pode romper com paradigmas, lançando novas e promissoras sementessobre um campo que costumava ser contaminado por diferentes entraves, tais como as desigualdades em termos de níveis de habilidade apresentados, aptidão física e de gênero, por exemplo. Saber “o que”, “quando” e “como” fazer ao jogar futebol devem ser ações condicionadas, não no sentido de mecanizar o pensar e agir no momento crucial, mas sim de guarnecer o praticante minimamente de modo que este saiba como interpretar, relacionar-se e interagir com o futebol. Aquecidos, orientados e em campo estamos. Que recomece o jogo! ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 84 Lógica Interna no Futebol: Foco nas Tomadas de Decisão e Ações no Jogo Figura 1 - Representação do pensar o jogo - O jogo pensado 85 EDUCAÇÃO FÍSICA “Futebol é um coletivo”, essa é uma frase e tanto! Ela revela dois importantes conceitos: que futebol não se joga sozinho e que estamos falando de um espor- te coletivo. O atleta estadunidense Michael Jordan, o “Pelé” do basquetebol, não nos deixa esquecer da importância do sentido de coletividade, quando diz que “o talento vence jogos, mas só o trabalho em equipe ganha campeonatos”. Jordan, embora tenha feito inúmeros pontos, toca em um que nos parece fundamental para tratarmos contigo e para o qual queremos chamar sua atenção. Pesquise pela internet, pergunte aos seus pais, familiares e amigos sobre os lances de futebol ines- quecíveis em suas vidas. Você poderá constatar que em sua grande maioria serão remetidas às lembran- ças de alguma jogada individual: um gol inesquecí- vel, uma defesa memorável, uma cobrança de falta bem batida, um drible, um quase gol etc. Porém, a reflexão que gostaríamos de encaminhar nesse mo- mento é: você já parou para pensar como essas joga- das se iniciaram? Ou melhor, quem mais participou efetivamente da composição dessas jogadas? Seguimos aqui para fazer com que você pense na relação entre os protagonistas e coadjuvantes de tais momentos marcantes do futebol. Você concor- da que já pelo fato de pensarmos em “protagonista”, para o seu existir é necessário a presença de coad- juvantes? Mas até que ponto os entendidos “coad- juvantes” de fato o são? Que tal alguns bons exemplos para melhor ana- lisarmos? Vamos lá! Será que Messi, no Barcelona, conseguiria realizar tantos feitos se não existisse um tipo de jogo em que o time todo conseguisse exercer várias funções e, assim, permitir sua competência técnica aflorar? Será que Ronaldo, o fenômeno, em 2002, na Copa do Mundo, conseguiria reeditar sua história no esporte, se não fossem os passes de Ri- valdo e Ronaldinho Gaúcho, o apoio e a contenção de Kléberson, Gilberto Silva e Edmilson, a compac- tação da linha defensiva de Lúcio, Roque Júnior e Marcos, a criação de linhas de passe oferecidas pelos laterais Cafu e Roberto Carlos? Será que Romário efetivamente seria, como ele mesmo gosta de se intitular “o cara”, se não existis- se um Bebeto que, voluntariosamente, recompunha o sistema defensivo no mundial de 1994 tão bem como atacava? Por que será que a seleção brasileira de 1982 e a holandesa de 1974 são tão lembradas ainda que sem ter ganho os mundiais da época? Pode ser que você esteja se perguntando: “mas afinal, aonde eles querem chegar com isso?” Aqui respondemos! Para os lances épicos, aqueles que marcaram sua história ou a história do futebol de modo geral, é evidente que existiu um protagonis- ta, uma espécie de autor. Contudo, para que tal obra ganhasse vida, houve, certamente, uma boa troca de passes, ou uma recuperação da posse de bola, ou após a incidência de uma falta sofrida por estarem atacando, ou pela velocidade em que se concretizou um lance, ou pelo bom encaixe defensivo que o time se propôs a fazer, para que as jogadas ofensivas ocor- ressem com maior frequência, enfim. O jogo de futebol é uma espécie de engrenagem e, assim, como pondera em seus discursos, o atual técnico da seleção brasileira Tite, para que as indi- vidualidades apareçam, é preciso um jogo coletivo forte. “Mas professores, vocês não estão querendo demais? Querem que o coletivo seja forte e ao mes- mo tempo que meus alunos saibam jogar em todas as posições, e mais que isso, que a equipe toda seja protagonista? Isso é possível?”. Digamos que sim. Acreditamos que devemos ensinar, o quanto antes, que o futebol é coletivo, que nesse jogo seria impossível realizar todas as ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 86 ações se entre os membros da própria equipe não houver cooperação e que, a partir do aprendizado tático individual, você conseguirá evoluir e ajudar seus companheiros de equipe a evoluírem em outras competências – porque, afinal, vocês fazem parte de um todo, de uma já dita “engrenagem”. Assim como Júlio Garganta (1998) ao discutir a natureza dos Jogos Esportivos Coletivos, enten- demos que o futebol possui dois traços funda- mentais relacionados ao apelo à cooperação e ao apelo à inteligência. O apelo à cooperação refere-se ao modo de se comunicar por meio do recurso de sistemas de referência comuns, de natureza motora. Para obter êxito nas disputas com adversários, é ne- cessário desenvolver nos jogadores o espírito de colaboração e entreajuda, constituindo o jogo em um espaço no qual os participantes possam exibir suas qualidades individuais, mas saibam colocá- -las sempre de forma subordinada a um projeto coletivo, que deve ter como propósito-fim os in- teresses da equipe. Com relação ao apelo à inteligência, é entendido como a capacidade de adaptação a novas situações, ou seja, a capacidade de elaborar respostas adequa- das colocadas por situações aleatórias e imprevisí- veis, que se sucedem no decorrer do jogo. Neste sentido, Gréhaigne e Guillon (1992, apud GARGANTA, 1998) descrevem o problema central do Jogo Esportivo Coletivo – e do futebol por con- sequência – como o desafio de coordenar as ações com a finalidade de recuperar, conservar e fazer pro- gredir a bola, quando os jogadores se encontram em situação de oposição, objetivando criar situações de finalização para pontuar/fazer gols. “Cientificamente, a expressão popular ‘caixi- nha de surpresa’, utilizada pelos torcedores para mencionar a imprevisibilidade do jogo de futebol, pode ser explicada pelo fato do futebol se desenvolver em um contexto de relações abertas, no qual a ação de um jogador é consequência da interação das suas capacidades táticas, técnicas, físicas e psicológicas, que coordenadas, juntamente com todas as ações de outros jogadores (adversários e companheiros), possibilitará recuperar, conservar e mover a bola para atingir o objetivo do jogo(...)”. Não é raro assistir a um jogo e perceber que a equipe que se sobressaiu técnica e taticamente durante o mesmo foi derrotada, ou que a equipe que passou maior parte do tempo com a posse de bola marcou menos gols. Por vezes, é possível observar uma equipe atingir a vitória no jogo com menos posse de bola e com um único chute a gol, sim- plesmente porque aproveitou o momento de desequilíbrio ou de perturbação na or- ganização da equipe adversária. Fonte: Ramos, SAAD e MILISTETD (2013, p. 44). SAIBA MAIS 87 EDUCAÇÃO FÍSICA A partir desse entendimento, é possível afirmar que existem três categorias de subproblemas, que precisam ser considerados no ensino do jogo: 1. No plano espacial e temporal: no ataque, uti- lizar a bola individual e coletivamente, para superar obstáculos; na defesa, produzir obs- táculos para dificultar a movimentação do ataque, visando recuperar a bola. 2. No plano da informação: produzir incerteza para os adversários e certeza para os compa- nheiros de equipe. 3. No plano da organização: transição de um projeto individual para um coletivo, ofere- cendo o melhor de si para a equipe. Os princípios da lógica interna estão fundamenta- dos nas regras e no estatuto práxico de todo o jogo (PARLEBAS, 2001). Nos parece bem coerente essa linha de raciocínio, porque é a partir das regras de um determinado esporte, que é possívelse pensar o que se pode ou não fazer, não é mesmo? O modo como utilizamos o espaço e as formas de interação motriz durante a prática do jogo nos permite melhor pensar e estruturar o ensino junto aos alunos. Assumindo que estudar a lógica interna significa investigar o modo singular do jogador de realizar as ações motrizes (RIBAS, 2008, p. 130), mas que tam- bém nos permite entender a “natureza” dos jogos (GONZÁLEZ; DARIDO; OLIVEIRA, 2014), passa- mos, agora, a discutir um pouco mais sobre a análise do futebol a partir da lógica interna. ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 88 Uma estratégia que você já pode ter notado é de que adotamos uma série de perguntas para melhor conduzir a nossa progressão na compreensão de conceitos e saberes do futebol. Nesse exercício de problematizações, aqui seguimos e sugerimos que você, enquanto futuro docente, tente e aplique essa forma didática de interação, pois ao desafiar seus alunos e suas alunas, você estará propondo e, paralelamente, por meio das respostas, avaliando a evolução de seus discentes. Volta a rolar bola! Os Aspectos Tático-Técnicos: Motivações e Apresentação dos Princípios Operacionais em Diálogo com os Indicadores de Jogo na Lógica Interna Figura 2 - Representação das explicações táticas do futebol - O jogo pensado Fonte: Imgrum Org ([2017], on-line)1. [...] Para muitos ex-jogadores, o problema do futebol no Brasil passa pela ascensão dos professores que ganham espaço no mercado de formação de atletas. [...] Isso é de uma pobreza intelectual absurda, e o 7x1 é o resul- tado que resume bem isso, pois na Alemanha o “problema” daqui foi a solução. (Paulo Calçade, 2016) REFLITA 89 EDUCAÇÃO FÍSICA Para avaliar o futebol partindo da lógica interna, González e Bracht (2012) sinalizam sobre a impor- tância de iniciarmos a análise nos perguntando: que demandas ou exigências motoras as regras do fute- bol impõem aos participantes? Há interferências di- retas do adversário durante a execução de uma ação dentro do campo? Há colaboração entre os compa- nheiros? Quais funções no desenvolvimento do jogo são competentes aos seus participantes? Compartilhamos da crença de Julio Garganta e Amândio Graça (1995), pois eles acreditam na prática de jogos coletivos como meio de aprendiza- gem motora e intelectual. No futebol, vários jogos coletivos reduzidos são interessantes para o desen- volvimento das habilidades. É durante o jogo que o aluno, segundo Assis e Colpas (2013), necessita pensar e criar alternativas para utilizar suas capa- cidades, desenvolvendo seus potenciais de acordo com o que ele sabe. A melhoria na leitura do jogo, a tomada de deci- são sobre o que fazer frente às alternativas identifi- cadas no contexto do próprio jogo, assim como exe- cutar da melhor forma os movimentos básicos para as ações de jogo implicam na necessária sintonia do processo do “ensinar” com a lógica interna. Os indicadores citados sobre a lógica interna necessitam, também, serem relacionados com o que “o jogo me pede”. É dizer que estamos para além do reconhecimento básico da natureza do jogo, pro- pondo-nos a pensar na organização de nossas ações, principalmente no que diz respeito às ações globais de ataque e defesa no futebol. Devemos, então, à medida que defendemos, ler o jogo e tomar as melhores decisões nas mais diversas situações que se apresentam, atentando para o que o jogo me pede enquanto defensor: anulando situ- ações de finalização (ao pressionar, fechar espaços, impedir arremates contra meu gol defendido); re- cuperar a bola (assegurando a manutenção da pos- se de bola); impedir a progressão do oponente (é a não permissão de ganho de espaço dimensional por parte de quem está a atacar minha equipe); proteger meu gol (marcando e desarmando os oponentes que Tudo é tática no futebol. A maneira de pensar e agir no esporte das multidões têm caracte- rísticas próprias e, às vezes, místicas, o que confere ao tema uma atmosfera de cons- tantes procedimentos táticos. A maioria das atitudes tomadas num clube de futebol tem como objetivo alcançar dividendos táticos nos 90 minutos de jogo. Sob este raciocínio, admi- te-se que o universo das táticas no futebol é vasto e envolve questões dos mais variados âmbitos, como escalação do time, sistema táti- co de jogo, esquematizações táticas, detalhes extracampo, elementos psicológicos, intuição, conceitos e segredos. [...] Falar sobre futebol se assemelha mais ou menos ao seguinte: você vê uma linha pendurada do lado de fora da gaveta, e quando a puxa vem o novelo todo. Um assunto nunca está sozinho; anda sempre acompanhado de várias possibilida- des de análise e interpretação. Fonte: Drubscky (2003, p. 19). SAIBA MAIS ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 90 buscam fazer o gol contra minha equipe); reduzir o espaço de jogo do oponente (buscando fazer com que as possibilidades de avanço do meu oponente sejam limitadas ao máximo, condicionando, assim, ao erro ou a uma resposta por mim esperada, facili- tando a recuperação da posse de bola). Devemos, então, enquanto atacantes, ler o jogo e tomar as melhores decisões nas mais diver- sas situações que se apresentam, atentando para o que o jogo me pede enquanto postura ofensiva: conservando a posse de bola (por meio de joga- das que prezam pelas trocas de passe, criação de linhas de passe etc.); construindo jogadas ofen- sivas (quanto maior o número de possibilidades e construções de jogadas, maior a chance de êxi- to nas minhas ações); progredir pelo campo do oponente de jogo (assim aproximando-se da meta contrária, na qual devo ter por objetivo e sempre concretizar em gols minhas jogadas); criação de situações de finalização da jogada (criação das já mencionadas oportunidades para que aconteçam os gols); finalizar (ação primária para ganhar o jogo por meio do gol). Para orientar o ensino do futebol nessa pers- pectiva, é certo que não basta centrarmos nossas ações no aprimoramento dos fundamentos téc- nicos, na medida em que tais elementos consti- tuem apenas a parte visível da concretização das jogadas no futebol, ou seja, a execução de todo um processo que inclui, ao menos, mais duas eta- pas importantíssimas que passam pela leitura ou percepção da situação de jogo e pela tomada de decisão a partir de escolhas frente a essa situação. Assim sendo, para fomentar esses mecanismos de percepção e tomada de decisão, é preciso que o ensino do futebol seja pautado por situações-pro- blemas, e não pela reprodução de movimentos mecanizados. Segundo Garganta (1998), desde os primeiros momentos de aprendizagem, é importante que os praticantes sejam expostos a situações que os auxi- liem na assimilação de uma série de princípios refe- rentes a não somente o modo como cada um deles se relaciona com a bola, mas também à forma de se comunicar (com os companheiros) e contracomu- nicar (com os adversários), passando pela noção de ocupação racional dos espaços de jogo. A exploração desses princípios deve privilegiar o jogo ou as formas acessíveis de jogo, com regras menos complexas, número reduzido de jogadores e espaço reduzido de jogo, de modo que se permita a fluência e continuidade das jogadas e um aumento no número de finalizações. Dos momentos iniciais (fase anárquica) até o mais elevado nível de jogo (fase de elaboração), Garganta (1998) reconhece algumas fases em fun- ção das características reveladas pelos praticantes; relativamente há três importantes indicadores: • estruturação do espaço de jogo; • utilização dos aspectos de comunicação na ação; • relação com a bola. No quadro a seguir, o autor aponta as característi- cas dos praticantes em cada uma das fases classi- ficadas por níveis de jogo, segundo os três indica- dores descritos. 91 EDUCAÇÃO FÍSICA Quadro 1 - Níveis de Jogo, segundo Garganta (1998) Fases Comunicação na Ação Estruturação do Espaço Relação com a Bola Jogo Anárquico • Centração na bola • Subfunções • Problemasna compreen- são do jogo • Abuso da verbalização, so- bretudo para pedir a bola • Aglutinação em torno da bola e subfunções • Elevada utilização da visão central Descentração • A função não depende apenas da posição da bola • Prevalência da verbalização • Ocupação do espaço em função dos elemen- tos do jogo • Da visão central para a periférica Estruturação • Consciencialização da co- ordenação das funções • Verbalização e comunica- ção gestual • Ocupação racional do espaço (tática individual e de grupo) • Do controle visual para o proprioceptivo Elaboração • Ações inseridas na estra- tégia da equipe • Prevalência da comunica- ção motora • Polivalência funcional. Coordenação das ações (tática coletiva) • Otimização das capaci- dades proprioceptivas Fonte: adapitado de Garganta (1985, p. 19). Ora, se o jogador atua fortemente condicionado pelo modo como ele percebe e entende o jogo, en- tão é preciso reconhecer no processo de ensino tanto a centralidade da dimensão tático-estratégica quanto dos processos cognitivos ocultos na ação tática e, ainda, a estreita relação entre conhecimento e tomada de decisão, pois as representações mentais guiam ou possuem um papel fundamental no comportamento dos jogadores. [...] Portanto, cientes de que a inteligência tem como fonte a diversidade de experiências, de que os jogadores, para serem criativos, precisam enfrentar problemas emergenciais nos quais possam, sob pressão temporal, aprender a reconhecer o que é essencial e produzir respostas variadas e adequadas, que fomentamos neste livro contextos de exercitação tática, que pretendem gerar uma cultura de jogo que suporte uma maneira inteligente (decidir bem) e criativa (decidir bem inovando) de jogar. Fonte: Santana, Ribeiro e França (2014, p. 16). SAIBA MAIS ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 92 Partindo do pressuposto de que a intenção do en- sino do futebol deve visar o desenvolvimento dos alunos com vistas a acessar níveis cada vez mais altos de desempenho no jogo, nos tópicos seguin- tes, iremos nos pautar nesse quadro e em ativida- des com ênfase nos três indicadores, esperando ga- rantir um ensaio sobre como se configuraria uma proposta para o ensino do futebol nos termos que defendemos. Para facilitar a visualização da forma como se efetivaria tal proposta, unitizaremos como exem- plo turmas escolares de referência. Neste sentido, iremos adotar as quatro fases relativas aos níveis de jogo propostos por Garganta (1998) na quadro anterior descrita e provocaremos uma aproximação delas com quatro séries escolares. Nossas quatro turmas de referência são com- postas por 20 estudantes, sendo 10 meninos e 10 meninas. A primeira turma refere-se ao 2º ano do Ensino Fundamental (faixa etária de 7 a 8 anos) e encontra-se na fase anárquica; a segunda turma é a do 4º ano do Ensino Fundamental (entre 9 e 10 anos) e encontra-se na fase de descentração; a ter- ceira turma é a do 7º ano do Ensino Fundamental (entre 12 e 13 anos) e está na fase de estruturação; a quarta e última turma é a do 9º ano do Ensino Fundamental (entre 14 e 15 anos) e encontra-se na fase de elaboração. Obviamente que as turmas escolares apresen- tam heterogeneidade em uma série de aspectos e não poderia ser diferente em relação aos níveis de jogo de seus alunos e alunas. Contudo, nossa pro- posta é de garantir que, mesmo considerando tais diferenças, seja possível garantir que alunas e alu- nos adquiram uma proficiência mínima para parti- cipar em jogos de futebol com relativa competência tático-técnica. Por fim, cabe lembrar que estamos tratando do futebol e do futsal como sinônimos do ponto de vista do aprender a jogar e, nesse sentido, nos- sas aulas serão pensadas para as quadras. Como não estou buscando só o desempe- nho, o mais importante passa a ser justa- mente a dificuldade que eles têm de en- tender uns aos outros. Estimulo para que percebam que a habilidade está relacionada com a experiência, e não porque alguém é mais esperto ou mais inteligente que o outro. A questão é: o mais experiente já co- meça experiente? Nasceu sabendo? Não. Então, por que não dar uma força para o colega? Por que não ajudá-lo? Como o ob- jetivo final não é formar o jogador, nossa maior preocupação não é com a técnica. Assim, eu posso dar esse espaço para mim e para eles poderem conviver dessa forma mais solidária. Fonte: Carrano (2000, p. 130). SAIBA MAIS 93 EDUCAÇÃO FÍSICA ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 94 Aprender a Jogar Pelo Jogo: Atividades Pensadas a Partir da Relação com a Bola Uma das maiores angústias daqueles que pensam em ensinar o futebol, ou algum outro esporte a partir das abordagens táticas como a que estamos propon- do, diz respeito ao fato de não se iniciar pelos funda- mentos técnicos que, segundo o senso comum, for- neceriam repertório necessário para a aprendizagem do jogo. “Não dá pra entrar no jogo de futebol se a Figura 3 - Contato direto de praticantes com o elemento fundamental ao jogo de futebol, a bola Fonte: Ludopédio (2016, on-line)2. pessoa não consegue dominar uma bola ou realizar um passe!” é uma das afirmações que costumamos ouvir daqueles que continuam reféns da abordagem analítico-sintética. Nossa opção por balizar o ensino do futebol pelas demandas táticas, ao invés da dimensão téc- nica, também considera importante que os alunos 95 EDUCAÇÃO FÍSICA ou atletas adquiram um mínimo de competência técnica para participar de forma eficaz nos jogos. Contudo, acreditamos que tal competência pode ser adquirida jogando e que o segredo para con- quistar essa “competência técnica” não reside na repetição de gestos técnicos isolados com o olhar biomecânico. O segredo reside no aumento das ex- periências com bola e de experiências significativas Quadro 2 - Legenda das representações gráficas Desenhos Representação de: Bola Jogador de uma equipe Jogador de outra equipe Jogador de uma terceira equipe Goleiro Professor Pratos sinalizadores Traves Mini traves Passe Condução de bola Movimentação do jogador sem bola Chute ao gol Fonte: os autores. em contextos ricos em desafios, que levem nossos alunos a resolver problemas que irão se oferecer nos jogos propriamente ditos. Nesse sentido, é preciso fortalecer tais experiên- cias por meio do indicador de jogo de relação com a bola, de forma a propiciar que os alunos evoluam de uma visão centrada na bola para uma relação orien- tada pela capacidades proprioceptivas. ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 96 TURMA 1 (FASE ANÁRQUICA) SIGA O ESPELHO, SIGA GOLEANDO Objetivo Manter o controle da bola em deslocamentos com mudança de direção e de ritmo, e acertar alvos. Material 40 pratos sinalizadores (cones), 20 bolas de futebol ou futsal. Organização do espaço e dos jogadores Em um espaço de uma quadra de futsal jogam 20 jogadores. Dentro desse espaço, haverá 20 mini- traves representadas por pratos sinalizadores (ou material similar como garrafas pet), com distâncias e angulações diferentes entre eles. Na medida do possível, é importante que pelo menos na repre- sentação de cada minitrave, as cores sejam idên- ticas, para facilitar as variações. Divididos em du- plas, um jogador será o decisor das trajetórias de condução pelo espaço, cabendo ao outro jogador acompanhar e tentar executar todas as ações de seu parceiro, que deverá estar em sua frente, se- jam elas os modos de condução, finalização, local da finalização e manejos da bola. Desenvolvimento Livremente no raio onde estão as minitraves, em duplas, e cada um com sua bola. Num primeiro momento, um jogador deverá conduzi-la pelos es- paços do campo de jogo de acordo com os pedidos do professor, e seu parceiro deverá o seguir em todas as ações. Existem dois comandos possíveis do professor, o conduz e o goleia. Ao comando de conduz, o primeiro da dupla deverá conduzir a bola, passando por dentro da minitrave, e seu parceiro deverá fazer o mesmo. Ao comandode goleia, o primeiro da dupla deverá escolher uma minitrave e chutar em um dos alvos. Sempre após o comando, quem era guiado na dupla, passa a ser o guia. Não se pode fazer gol ou conduzir a bola em uma minitrave já utilizada por outra dupla. Variações Pode-se diferenciar as minitraves com cores e, ao comando de conduz ou goleia, acrescentar o nome da cor na qual as ações requisitadas pelo professor devem ocorrer. Pode-se, também, pedir durante o desenvolvimento do jogo a mudança das duplas. 97 EDUCAÇÃO FÍSICA Conduz!! (ou) Goleia!! Figura 4 - Siga o espelho, siga goleando Fonte: os autores. ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 98 TURMA 2 (FASE DE DESCENTRAÇÃO): COR DO ATAQUE, COR DA DEFESA Objetivo Manter o controle da bola em deslocamentos com mudança de direção e ritmo, finalizar no alvo e transitar entre postura ofensiva e defensiva. Material 40 pratos sinalizadores, 20 bolas de futebol ou fut- sal, 20 coletes (10 de cada cor). Organização do espaço e dos jogadores Em um espaço de uma quadra de futsal jogam 20 jogadores. Dentro desse espaço haverá 20 minitraves representadas por pratos sinalizado- res (ou material similar como garrafas pet), com distâncias e angulações diferentes entre elas. Na medida do possível, é importante que pelo menos na representação de cada minitrave as cores se- jam idênticas, para facilitar as variações. A turma deverá ser dividida em dois grupos com número igual de participantes. Desenvolvimento Livremente no raio onde estão as minitraves, cada jogador deverá conduzir sua bola pelos espaços do campo de jogo de acordo com os pedidos do professor. O professor se valerá de dois comandos nesse jogo, que serão utilizados em conjunto com a divisão por cores. Ele deverá falar a ação espe- rada, ataca ou defende, junto à cor de colete que os jogadores estiverem utilizando. Exemplificando: supondo que os coletes sejam de cor azul e outro de cor amarela, ao comando de “azul ataca, ama- relo defende”, todos os jogadores de azul deverão, conduzindo ou chutando na minitrave mais próxi- ma dele, realizar a ação ofensiva pedida, enquanto que caberá ao time de amarelo defender o mini- gol mais próximo. As regras básicas nesse jogo são que não se pode atacar nem defender uma mini- trave que já esteja sendo ocupada, e não se pode nem atacando e nem defendendo repetir as duplas de atuação. Variações A variação do jogo “cor do ataque, cor da defesa” passa pelo comando de, ao invés de chutar da dis- tância que se queira, estipular uma distância mí- nima para tal, bem como implementar o “drible”, para que valha pontuação, no caso da tentativa de condução da bola. 99 EDUCAÇÃO FÍSICA Figura 5 - Cor do ataque, cor da defesa Fonte: os autores. Branco ataca, preto defende!! ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 100 Objetivo Jogar coletivamente mantendo a posse de bola, recu- perar a posse de bola coletivamente, finalizar no alvo. Material 16 pratos sinalizadores, 1 bola, 12 coletes de duas cores diferentes (6 de cada cor). Organização do espaço e dos jogadores Em um espaço correspondente à metade da qua- dra jogam 10 jogadores, sendo 4 por fora do su- bespaço a ser demarcado por pratos sinalizadores, e os outros 6 por dentro. Os jogadores que jogam por dentro do subespaço serão divididos em duas equipes de 3 jogadores cada. Já os 4 jogadores que jogam por fora do subespaço são comuns as duas equipes. Esse subespaço deverá ocupar a dimen- são de metade da quadra, reduzido em 2 metros para dentro de cada lado do retângulo. Por fim, deverá existir um minigol posicionado na linha do próprio gol da metade da quadra, porém em uma dimensão reduzida. TURMA 3 (FASE DE ESTRUTURAÇÃO): DECIDE AÍ Desenvolvimento Esse jogo consiste em, após a troca de 7 passes en- tre os jogadores de mesma equipe, que podem ou não contar com os jogadores que jogam por fora, fazer o gol no minigol destinado. As regras gerais se desenham da seguinte maneira: a cada intercep- tação ou recuperação da bola, é considerada posse de bola para a equipe que tocou por último. Os jo- gadores que jogam por fora podem apenas dar um toque na bola, enquanto os jogadores que jogam por dentro jogam sem limites de toques. A princi- pal regra desse jogo está na fase de transição do jogo entre passes para a etapa de finalização. Após execução dos 7 passes, deverão sair dois jogadores que detinham a posse de bola e um jogador que tentava recuperar, sendo que a dupla que saiu tem que realizar o gol, e o marcador tem que evitá-lo. Paralelamente, realizam-se dois jogos idênticos, um em cada metade da quadra, com 10 jogadores cada. Variações Pode-se estipular um número maior ou menor de troca de passes; limitar o número de toques na bola para quem joga por dentro; igualar o número de defensores em relação aos dois jogadores que saem do subespaço após a efetivação de 7 passes. 101 EDUCAÇÃO FÍSICA Figura 6 - Decide aí Fonte: os autores. 7 passes Por dentro jogadores com toques na bola à vontade Por fora jogadores com apenas um toque na bola ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 102 Objetivo Jogar coletivamente com a criação de linhas de pas- se e otimizar a capacidade proprioceptiva por meio das tomadas de decisão. Material 2 ou 3 bolas, pratos sinalizadores e coletes. Organização do espaço e dos jogadores Em um espaço que corresponda à, aproximada- mente, metade de uma quadra de futsal, existirá dois metros para dentro do retângulo; um subes- paço. Dentro do subespaço, jogarão 4 contra 4 e mais 2 jogadores curingas. TURMA 4 (FASE DE ELABORAÇÃO) JOGO DOS DEZ PASSES Desenvolvimento O jogo consiste na troca de passes, objetivando a troca de dez passes, podendo fazer uso dos dois curingas no jogo. A cada dez passes realizados com sucesso, é contabilizado um ponto. Quando recu- pera-se a bola, o início da contagem passa a ser por parte da equipe que está com o controle e domí- nio da bola. Paralelamente, realizam-se dois jogos idênticos, um em cada metade da quadra. Variações Variar o número de curingas. Estipular um tempo limite de posse de bola independentemente da sua perda (em caso de perda da posse, a bola retorna para a equipe atacante até o final do seu tempo) e, a cada duração de tempo estipulado, altera-se a de posse de bola. 103 EDUCAÇÃO FÍSICA Figura 7 - Jogo dos dez passes Fonte: os autores. ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 104 Aprender a Jogar Pelo Jogo: Atividades Pensadas a Partir da Relação com a Estruturação do Espaço Com relação à estruturação do espaço, é impor- tante que, com o passar do tempo, os alunos to- mem consciência da importância de se jogar sem a posse da bola. A característica marcante da fase anárquica nesse indicador refere-se à aglutinação indiscriminada de todos os participantes do jogo em torno da bola. Na fase desse nível de entendimento do jogo, para os jogadores, a bola é o jogo, ou seja, quem não está na disputa da bola parece não estar par- 105 EDUCAÇÃO FÍSICA Figura 8 - Disposição de futebolistas em treinamento que considera a condição estrutural do jogo ticipando do jogo. Nesse sentido, nosso principal problema tático consiste em convencer os alunos de que “existe jogo além da bola”. A descentração, portanto, visa colocar em relevo a importância do jogo sem bola para a concretização do sucesso da equipe no plano coletivo. Aspectos como o reco- nhecimento das zonas do campo de jogo tanto no sentido longitudinal (zonas defensiva, intermedi- ária e ofensiva) como transversal (corredores la- terais direito e esquerdo e central) permitem uma ocupação mais racional dos espaços e um jogo mais organizado. ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 106 Objetivo Reconhecer as zonas defensiva, intermediária e ofensiva, além de explorar o jogo em profundidade. Material 2 bolas de futebol, futsal ou similar. Organização do espaço e dos jogadores Dividir a quadra em dois espaços simétricos, com gols de cerca de 1 metrodemarcados por cones nas linhas laterais. Em cada meia quadra, enfren- tam-se duas equipes de 5 jogadores cada. Cada meia quadra é dividida com demarcação por prati- nhos ou linhas riscadas de giz, em zonas defensiva, intermediária e ofensiva. TURMA 1 (FASE ANÁRQUICA): JOGO EM SETORES DEFENSIVO, INTERMEDIÁRIO E OFENSIVO Desenvolvimento Cada equipe deve distribuir seus jogadores pelas zonas da quadra da seguinte forma: 2 defensores, 1 meio-campista e 2 atacantes. Os jogadores só podem atuar na faixa de campo que lhes foi de- signada, havendo rodízio de zonas de tempos em tempos. O jogo transcorre como um jogo de futsal convencional. Variações Passar o jogo para a quadra toda, colocar goleiros nas metas e determinar que a bola deve passar pe- las três zonas para que o gol seja válido. 107 EDUCAÇÃO FÍSICA Figura 9 - Jogo em setores defensivo, intermediário e ofensivo Fonte: os autores. ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 108 Objetivo Reconhecer os corredores laterais (direito e es- querdo) e central da quadra, e tirar vantagem tática da circulação da bola na largura da quadra. Organização do espaço e dos jogadores Dividir a quadra em dois espaços simétricos, com gols de cerca de 2 metros demarcados por cones nas linhas laterais. Em cada meia quadra se enfren- tam duas equipes de 5 jogadores cada. Cada meia quadra é dividida com demarcação por pratinhos ou linhas riscadas de giz, em corredores laterais di- reito e esquerdo e central. Desenvolvimento Cada equipe deve distribuir seus jogadores pelos corredores da quadra da seguinte forma: 1 goleiro, 1 ala direita, 1 ala esquerda, 1 central defensivo e 1 central ofensivo. Os jogadores só podem atuar na faixa de campo que lhes foi designada, haven- do rodízio de zonas de tempos em tempos. O jogo transcorre como um jogo de futsal convencional, havendo a necessidade da bola ser passada pelos dois corredores para que o gol seja válido. Variações Passar o jogo para a quadra toda, permitindo que o central defensivo faça apoio ao central ofensivo no momento em que conseguir passar a bola para ele, abrindo ainda a possibilidade desses dois cen- trais fornecerem apoio aos alas de forma alternada (quando um deles entrar no corredor de um dos alas, o outro deve permanecer no corredor central). TURMA 2 (FASE DE DESCENTRAÇÃO): JOGO DOS CORREDORES 109 EDUCAÇÃO FÍSICA Figura 10 - Jogo em setores defensivo, intermediário e ofensivo Fonte: os autores. ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 110 Objetivo Ocupar taticamente os espaços predeterminados, orientar-se no espaço para finalizar nos alvos. Material Pratos sinalizadores, bolas, coletes, 4 minitraves. Organização do espaço e dos jogadores Em uma quadra inteira, jogarão 7 contra 7, além dos 5 curingas. No espaço de jogo serão espalha- dos 5 subespaços de 2x2m, nos quais ficarão os curingas (1 em cada subespaço). No espaço de jogo também existirão 5 minitraves espalhadas pelo terreno. TURMA 3 (FASE DE ESTRUTURAÇÃO): JOGO DAS ZONAS PROIBIDAS Desenvolvimento O objetivo do jogo consiste em realizar gols após a efetivação de 6 passes. O passe com os coringas é liberado, sendo que dentro de seus subespaços eles não podem ser marcados. Após a concretização de 6 passes, de modo livre, podendo seguir tocando ou não na bola, a ideia é que busque-se fazer o gol em um dos cinco mini gols presentes no espaço. Variações As variações podem se dar no número de jogado- res, colocados em superioridade e inferioridade numérica; aumento e diminuição do número de minigols; tempo limite de ações ofensivas, tempo limite de ações defensivas; limitação de toque na bola por parte dos jogadores que não os curingas; número de curingas. 111 EDUCAÇÃO FÍSICA Zonas proibidas demarcadas pelos Após 6 passes trocados entre a mesma equipe, podendo contar com os coringas, buscar fazer os gols Figura 11 - Jogo das Zonas proibidas Fonte: os autores. ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 112 Material 3 jogos de coletes, sendo 6 de cada uma das 3 co- res, uma bola, 2 cones. Organização do espaço e dos jogadores No espaço dimensional de uma quadra, jogam duas equipes de 6 pessoas cada. Uma terceira equipe aguarda na outra metade da quadra. Pen- sando a quadra dividida em sua metade, existirá, entre a linha de meta e a linha central, uma outra divisão demarcada com pratos sinalizadores, para fins de estabelecer campo de ataque e campo de defesa de cada metade da quadra. Desenvolvimento O jogo consiste em tentar realizar o maior número de gols possíveis, sendo que após estipulada a du- ração de cada jogo, a equipe vencedora vai para a outra metade da quadra para jogar contra a equi- pe que a espera; após um segundo jogo seguido, a equipe que jogou em sequência aguardará, in- dependentemente do resultado de seu segundo jogo, enquanto quem acabou de jogar irá para seu segundo jogo seguido na outra metade da quadra, onde a equipe anteriormente derrotada à espera. A regra geral dessa atividade é o fato de que, para validar os gols, é necessário que não mais do que a metade + 1 (no caso 4 jogadores) esteja na zona ofensiva (demarcada pelos pratos sinalizadores em cada intermediária da quadra), representando, as- sim, o equilíbrio ofensivo e defensivo. Variações Número de jogadores; implementação de curingas; mudança de jogo em confronto a cada gol feito. TURMA 4 (FASE DE ELABORAÇÃO): FUTEBOL ALEMÃO OBJETIVO: REALIZAR TRANSIÇÕES ENTRE AS FASES DE JOGO GARANTINDO O BALANÇO ENTRE OS SETORES DEFENSIVO E OFENSIVO. 113 EDUCAÇÃO FÍSICA FIgura 12 - Futebol Alemão Fonte: os autores. ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 114 Aprender a Jogar Pelo Jogo: Atividades Pensadas a Partir da Relação com a Comunicação na Ação 115 EDUCAÇÃO FÍSICA Conforme já foi dito, a comunica- ção na ação abrange tanto a comu- nicação com os companheiros de equipe como a contracomunicação com os jogadores adversários. Pen- sando que na fase anárquica os alu- nos ainda possuem formas muito rudimentares de comunicação, nos- so objetivo é pensar em atividades que os conduza progressivamente a substituir a comunicação verbal de forma desordenada – e que acaba por revelar suas intenções aos ad- versários –, por formas mais sofisti- cadas de comunicação, que passam pela comunicação gestual até chegar na motora. ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 116 Objetivo Jogar coletivamente e comunicar-se de forma não verbal. Material 4 bolas de futsal, futebol ou similares. Organização do espaço e dos jogadores A quadra deve ser dividida em quatro quadran- tes simétricos (linha central e linha imaginária traçada de um centro do gol ao outro). Em cada espaço ficarão grupos de 5 alunos, sendo 4 ata- cantes e 1 defensor. TURMA 1 (FASE ANÁRQUICA): JOGO DE BOBINHO Desenvolvimento Os atacantes deverão se espalhar pelo quadran- te ficando distantes uns dos outros e devem trocar passes, evitando, assim, que o defensor toque na bola. O defensor terá como objetivo to- car na bola de forma a interceptar um passe. A cada 2 ou 3 minutos, promova a troca do bobi- nho caso este não obtenha sucesso na tentativa de tocar a bola. Variações Inserir a regra do silêncio, na qual não será permi- tido falar entre os atacantes. No entanto, eles de- vem ser incentivados a se comunicar de forma não verbal para pedir a bola e para chamar a atenção dos companheiros. 117 EDUCAÇÃO FÍSICA Figura 13 - Jogo de bobinho Fonte: os autores. ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 118 Objetivo Jogar coletivamente, observando antes de agir. Material 3 bolas de futsal, futebol ou alguma ou similar. Organização do espaço e dos jogadores A quadra deve ser dividida em três espaços simétri- cos, sendo dois deles das linhas de fundo até pró- ximo da linha de 3 metros da quadra de voleibol e outro no centro entre as duas linhas de três metros do voleibol. Em cada espaço ficarão grupos de 7 ou 6 alunos. Dependendo do número de participantes porespaço de jogo (6 ou 7), será feito o jogo em situação de 3 contra 3 ou de 4 pegadores contra 3 fugitivos. Desenvolvimento Em cada um dos espaços de jogo será realizada uma partida na qual os pegadores terão a posse de uma bola e deverão realizar passes com ela de forma a aproximar-se de algum dos 3 jogadores fugitivos para, com a posse da bola, toca-lo com uma das mãos, eliminando-o do jogo. O objetivo é eliminar do jogo os três fugitivos, para que as funções de pegador e fugitivo sejam invertidas. Variações Inicialmente, determine que os participantes só poderão se deslocar andando, sem correr. Após algum tempo, quando os alunos já demonstrarem um melhor entendimento do jogo, permita que eles se desloquem correndo. TURMA 2 (FASE DE DESCENTRAÇÃO): JOGO DE PEGADOR COLETIVO OFENSIVO COM BOLA 119 EDUCAÇÃO FÍSICA Figura 14 - Jogo do pegador coletivo ofensivo com bola Fonte: os autores. ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 120 Objetivo Jogar coletivamente observando antes de agir. Material 3 bolas de futsal, futebol ou similar. Organização do espaço e dos jogadores A quadra deve ser dividida em três espaços, sendo dois deles das linhas de fundo até próximo da linha de 3 metros da quadra de voleibol e outro no cen- tro entre as duas linhas de três metros do voleibol. Em cada espaço ficarão grupos de 7 ou 6 alunos. Um dos alunos sem bola será o pegador, enquanto os demais, com a posse coletiva de uma bola, serão os fugitivos. Desenvolvimento Em cada um dos espaços de jogo será realizada uma partida na qual o pegador terá que capturar os fugitivos que estiverem sem a posse da bola, pois o jogador de posse de bola estará salvo. Por- tanto, os fugitivos deverão trocar passes de forma a proteger o companheiro que estiver sendo ame- açado pelo pegador. Variações Inicialmente, determine que os participantes só poderão se deslocar andando, sem correr. Após algum tempo, quando os alunos já demonstrarem um melhor entendimento do jogo, permita que eles se desloquem correndo. 5.3 TURMA 3 (FASE DE ESTRUTURAÇÃO): JOGO DE PEGADOR COLETIVO “BOLA SALVA” 121 EDUCAÇÃO FÍSICA Figura 15 - Jogo de pegador coletivo “bola salva” Fonte: os autores. ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 122 Objetivo Jogar coletivamente observando antes de agir. Material 4 bolas de futsal, futebol ou similar. Organização do espaço e dos jogadores Inicialmente, a quadra será dividida em quatro qua- drantes simétricos (linha central e linha imaginária traçada de um centro do gol ao outro). Em cada es- paço ficarão grupos de 5 alunos, sendo 4 ladrões (fugitivos) e 1 policial (pegador). O círculo central será a cadeia que será comum para os quatro jo- gos que acontecem paralelamente. Na variação, os quadrantes deixam de existir e os jogos paralelos ocorrem na quadra toda. Desenvolvimento Em cada um dos espaços de jogo será realizada uma partida na qual o policial-pegador terá que capturar os ladrões-fugitivos que estiverem sem a posse da bola, pois o jogador de posse de bola estará imune ao policial. Para pegar os ladrões, basta o policial encostar uma das mãos nos neles que, nesse caso, deverão ficar presos na cadeia do círculo central. Para se manterem salvos, os ladrões deverão trocar passes de forma a prote- ger o companheiro que estiver sendo ameaçado pelo policial. Quando na prisão, os ladrões pode- rão ser salvos no momento em que conseguirem receber um passe de um ladrão e devolvê-lo para outro companheiro, completando uma tabela. Após o policial capturar 3 dos 4 ladrões ou após 3 ou 4 minutos, caso não ocorra essa captura; promova o rodízio do papel de policial para que todos os alunos tenham a oportunidade de atuar nessa função. Variações Continuar com os quatro jogos acontecendo para- lelamente, mas sem que a quadra esteja dividida em quadrantes. Isto é, cada grupo de cinco alunos (1 policial e 4 ladrões) joga apenas entre si, mas os jogos se misturam no espaço da quadra, requeren- do atenção redobrada dos participantes. TURMA 4 (FASE DE ELABORAÇÃO): JOGO DE POLÍCIA E LADRÃO 123 EDUCAÇÃO FÍSICA Figura 16 - Jogo de polícia e ladrão Fonte: os autores. 124 considerações finais E speramos que você esteja na mesma situação de uma criança que é cha- mada para dentro de sua casa no melhor momento da brincadeira. Pas- ma com o fascínio desse esporte e com aquele “gostinho de quero mais”, típico da criança que teve sua brincadeira cerceada pelo adulto. Pois bem, cabe aqui somente causar um alarde para sinalizar que a partir de agora já estamos naquele momento em que o final se aproxima. Porém, não va- mos “puxar pela orelha” ninguém, tampouco furar a bola com que se brinca ou justificar o fim de nosso vínculo pelo passar do tempo. Apenas gostaríamos de manifestar a satisfação que nos passa a ideia de que você, a essa altura do campe- onato, já deve estar se “coçando” para ensinar também a outras pessoas o futebol. Querido(a) aluno(a), e se você escutasse que futebol é apenas mais um jogo, fica difícil de acreditar não é mesmo? Cabe ressaltar que o conteúdo apresentado nesta unidade faz parte da vanguarda dos conhecimentos produzidos sobre a pedagogia do futebol, portanto, encare-o como um lançamento primoroso que fizemos para ti, ainda que compreendendo nosso distanciamento. Os indicadores de jogo, representados pela relação com a bola, a estruturação do espaço e a comunicação na ação, estabelecem um novo paradigma de ensino que vem para superar a lógica de ensino pela técnica. Esses indicadores dialogam intimamente com os contextos próprios do jogo, nos fornecendo parâmetros para identificar os níveis de jogo dos praticantes, favorecendo o mapeamento de um contínuo que considera a fase atual e as expectativas de aprendizagem que se deve almejar no processo de ensino. Estamos falando sobre o que nos causa paixão para além do jogo propria- mente dito. Estamos falando do futebol para além das 4 linhas. O convite, a partir de agora, é para que você desfrute do novo, de muitas possivelmente inéditas propostas e olhares que o futebol nos permitiu ao longo dos anos, e que quere- mos contigo compartilhar. Não querendo estragar a brincadeira, nosso recado é “aproveite o jogo!” Entramos no último quarto de jogo, e depois dele teremos somente os valiosos acréscimos! 125 atividades de estudo 1. Quais os dois traços fundamentais dos jogos es- portivos coletivos apontados por Júlio Garganta? a. Apelo à cooperação e apelo ao individualismo. b. Apelo à estratégia e apelo ao talento. c. Apelo à cooperação e apelo à inteligência. d. Apelo à tática e apelo à técnica. e. Apelo à estratégia e apelo ao componente tá- tico-técnico. 2. Gréhaigne e Guillon compreendem que o pro- blema fundamental do Jogo Esportivo Coletivo – e do futebol por consequência – pode ser descrito da seguinte forma: a. Numa situação de oposição, os jogadores de- vem coordenar as ações com a finalidade de recuperar, conservar e fazer progredir a bola, tendo como objetivo criar situações de finali- zação para a marcação do gol/ponto. b. Numa situação de cooperação, os jogadores devem coordenar suas ações para conservar a posse da bola, tendo como objetivo passar a bola entre si sem perder o controle. c. Numa situação de oposição, os jogadores devem coordenar suas ações com a equipe adversária com a finalidade de construir uma coreografia de ataque e defesa como em um jogo de capoeira. d. Numa situação de cooperação, os jogado- res devem se comunicar com a equipe ad- versária no sentido de promover uma troca de informações que garanta um jogo equili- brado e disputado. e. Numa situação de oposição e cooperação, as equipes devem, ao mesmo tempo, enfrentar- -se e cooperar entre si, garantindo um am- biente de harmonia e fair play. 3. Garganta afirma que existem três categorias de subproblemas que devem ser consideradas no ensino do jogo. I. Os problemas no plano da informação estão ligados à produção de incertezas para osad- versários e certezas para os companheiros. II. Os problemas no plano da organização con- sistem em transitar de um projeto individual para o coletivo. III. O problema no plano espaço-temporal ofen- sivo consiste em superar obstáculos móveis. IV. O problema no plano espaço-temporal defen- sivo consiste em produzir obstáculos para di- ficultar o ataque. Assinale a alternativa correta: a. Apenas I e II estão corretas. b. Apenas I, II e III estão corretas. 126 atividades de estudo c. Apenas I está correta. d. Todas as afirmativas estão corretas. e. Nenhuma das afirmativas está correta. 4. Em relação à fase ofensiva do jogo, assinale Verdadeiro (V) ou Falso (F). ( ) Conservar a posse de bola pela troca de passes. ( ) Buscar a progressão para o campo adversário para se aproximar da meta. ( ) Criar situações propícias para recuperar a posse de bola. 5. Em relação à fase defensiva do jogo, assinale Verdadeiro (V) ou Falso (F). ( ) Buscar a recuperação da posse de bola. ( ) Buscar situações de finalização próximo ao gol adversário. ( ) Reduzir o espaço de jogo da equipe adversária. 6. São características da fase anárquica dos níveis de desenvolvimento de jogo dos alunos: I. Abuso de verbalização. II. Aglutinação em torno da bola. III. Ocupação dos espaços em função dos ele- mentos do jogo. IV. Prevalência da comunicação gestual. Assinale a alternativa correta: a. Apenas a afirmativa I está correta. b. Apenas as afirmativas I e II estão corretas. c. As afirmativas I, II e IV estão corretas. d. As afirmativas II, III e IV estão corretas. e. Todas as afirmativas estão corretas. 7. Os indicadores dos níveis de jogo propostos por Júlio Garganta são: a. Relação com a bola, estruturação do espaço e comunicação na ação. b. Relação com os companheiros, relação com os adversários e relação com a bola. c. Comunicação com os jogadores, relação com a bola e transição defensiva-ofensiva. d. Ocupação do espaço, posse de bola e estra- tégia de jogo. e. Relação com a bola, relação com o alvo e rela- ção com os jogadores. 8. Qual a importância da consideração das fases indicativas dos níveis de jogo para o ensino do futebol? 9. Elabore ou reproduza a descrição de um jogo que conheça, relacionando-o com algum dos indicadores dos níveis de jogo propostos por Júlio Garganta. 127 LEITURA COMPLEMENTAR Princípios e orientações no ensino do futebol escolar vivência motora, com espaços e bolas diferentes; 6º a 9º ano do ensino fundamental, com o objetivo de mesclar atividades técnicas com formas recreativas; e o Ensino Médio, continuidade nos processos anteriores, elevando o grau de dificuldade tática e técnica. Sadi assim como Freire, Scaglia, Voser e Giusti, defende que os anos escolares iniciais devem estar voltados para a iniciação, para o período preparatório, buscando a apren- dizagem e as diversas experiências motoras, e não espe- cificamente as habilidades do futebol. A partir dos 10 e 11 anos, os alunos devem estar mais próximos aos movi- mentos e às habilidades do futebol, introduzindo a prática de pequenos e grandes jogos, possibilitando a criação e o desenvolvimento de suas vivências. Com isso, a partir dos 14 e 15 anos, com o ingresso no ensino médio, o aluno poderá desenvolver sua capacidade cognitiva quanto às situações de jogo, pois a complexidade de movimentos possibilitará uma maior necessidade de exploração de ha- bilidades motoras e intelectuais. Fatos históricos, sociais e políticos podem ser pedagogizados neste momento. [...] O ensinamento de gestos motores são essenciais para a aprendizagem do futebol na escola, mas só a exe- cução do gesto em si não possibilita com que o aluno aprenda a jogar. Se a escola não é o lugar para desempe- nho e resultados, a aprendizagem dos movimentos não deve ser capaz de serem eficientes e corretos, mas efica- zes perante às situações de ataque e defesa encontradas pelo aluno durante o jogo. Para Freire, dentro do ambiente escolar, uma aula de futebol deve incluir cinco etapas. A primeira parte se inicia com uma conversa sobre o que vai ser a aula. Na segunda parte, o professor deve orientar jogos adapta- dos de futebol ou brincadeiras, referentes ao tema da aula anterior, observando erros e corrigindo alguns ges- tos. A terceira parte se dá com os exercícios específicos para determinada habilidade do futebol. A quarta parte é novamente um jogo adaptado ou alguma brincadeira, tendo como tema a habilidade aprendida na aula atual. E, por fim, a quinta parte será uma roda da conversa em que os alunos deverão falar sobre a experiência na aula. [...] Segundo Scaglia, a aula deve ter o seu momento de conversa entre o professor e os alunos, sempre no co- meço e no fim da aula, na qual se estimule o aluno a recordar o tema e as atividades da aula anterior, para depois explicar o tema da atual, com o intuito dele perce- ber e ter consciência da sequência de seu aprendizado. A conversa final tem como tema os acontecimentos da aula, o desenvolvimento das brincadeiras e os possíveis problemas que surgiram. Sendo muito importante que, durante a aula, o professor reúna os alunos para uma melhor explicação em caso de dúvidas ou em outras si- tuações necessárias. Voser e Giusti ainda defendem que a divisão em séries possibilita uma sequência interessante para o desenvol- vimento do aprendizado. Ele divide em: Educação infan- til até o 5º ano do ensino fundamental, tempo de muita 128 LEITURA COMPLEMENTAR Scaglia e Freire veem o jogo como uma oportunidade do aluno desenvolver e criar suas habilidades. Os jogos po- pulares, aqueles praticados na rua e em outros contex- tos, além do jogo transformado e adaptado fazem parte do futebol e são essenciais no processo de ensino. Em se tratando de jogo transformado, Kunz defende a teoria da transformação didática do esporte dentro do ambiente escolar. No futebol, isso pode ser comprovado em jogos e atividades que não sejam apenas a reprodu- ção do futebol com suas regras originais. O professor pode criar alternativas que possibilitem com que os pró- prios alunos criem suas regras e possam, a partir disso, conhecer mais a respeito do futebol. Desenvolvendo a autonomia na compreensão do futebol em seu caráter total, seja dentro ou fora da escola. [...] Garganta e Graça acreditam na prática de jogos co- letivos como meio de aprendizagem motora e intelec- tual. No futebol, vários jogos coletivos reduzidos são interessantes para o desenvolvimento das habilidades. É durante o jogo que o aluno necessita pensar e criar alternativas para utilizar suas capacidades coordenativas motoras. É durante a atividade que o aluno irá criar o de- senvolvimento de seus fundamentos da maneira em que ele conseguir, de acordo com o que ele sabe. Durante as aulas de futebol na escola, o professor não precisa saber executar bem o movimento e nem ser es- pecialista em futebol para ensinar futebol, ele precisa an- tes de tudo ser um professor capaz de proporcionar suas atividades de forma enriquecedora. Voser e Giusti destacam alguns pontos importantes que o professor deve se ater durante as aulas de fu- tebol. Como estabelecer vínculo afetivo com seus alu- nos, transmitindo apoio e segurança, sempre usando a motivação. Promover a convivência entre meninos e meninas, assim como a participação de todos. Escolher atividades que se encaixem ao fundamento específico, permitindo a adaptação da criança ao jogo na sua re- lação com as bolas, os colegas e os adversários. Incen- tivar os alunos à criação e à reformulação de regras e, acima de tudo, mostrar-se organizado perante os obje- tivos e o desenvolvimento da aula. As aulas devem ser diversificadas e lúdicas, com o plane- jamento feito com antecedência. Todos os alunos, prin- cipalmente na fase de aprendizagem e iniciação, devem atuar em todas as posições durante o jogo, além de pro- porcionar adaptaçõesnas regras do jogo, dando prefe- rência a jogos em pequenos grupos. O processo de avaliação é muito importante no proces- so de ensino do futebol. Segundo Freire, a avaliação tem por finalidade classificar de forma qualitativa e quanti- tativa a evolução dos alunos, po rmeio de observações subjetivas de aulas e competições. Fonte: Assis e Colpas (2013). 129 EDUCAÇÃO FÍSICA O ensino dos jogos desportivos Amândio Graça e José Oliveira Editora: Faculdade de Ciências Desportivas Educação Física Sinopse: desejando transpor um conjunto de questões de natureza teórica e con- ceitual do meio acadêmico, para o terreno da concretização pedagógica, assim efetivando o trabalho teórico-prático do todo. Sabendo das dificuldades ainda hoje vigentes para o ensino dos esportes coletivos, esse material para além do futebol, pretende auxiliar no ensino de outras modalidades. Indicação para Ler A rua é pública Ano: 2010 Sinopse: um grupo de amigos acorda com vontade de jogar uma pelada na rua. A busca por um espaço acaba percorrendo outro caminho: o da luta pelo terri- tório livre do brincar. Indicação para Assistir Apresentação: Revista Digital de Futebol, que oferta informações sobre técnica, tática, preparação física, saúde esportiva, psicologia esportiva etc. para que os conhecimentos e práticas de treinamento se aperfeiçoem e consigam o êxito esportivo. disponível em: <http://www.futbol-tactico.com/pt>. Indicação para Acessar 130 referências ASSIS, J. V.; COLPAS, R. D. A pedagogia esportiva e o ensino de futebol na es- cola. EFDeportes.com, Revista Digital. Buenos Aires, ano 18, n. 185. Disponí- vel em: <http://www.efdeportes.com/efd185/a-pedagogia-esportiva-e-o-futebol. html>. 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Futsal: apontamentos pedagógicos na iniciação e na especiali- zação. 2. ed. Campinas: Autores Associados, 2008. SANTANA, W. C.; RIBEIRO, D. A.; FRANÇA, V. S. 70 Contextos de exercitação tática para o treinamento do futsal. Londrina: Compania Esportiva, 2014. SCAGLIA, A. J. O futebol e as brincadeiras de bola. São Paulo: Phorte, 2011. YOUTUBE. Paulo Calçade cita pobreza intelectual no futebol brasileiro. Disponí- vel em: <https://www.youtube.com/watch?v=3ztutlxhqnc>. Acesso em: 10 dez. 2016. Referências On-line 1 Em: <http://www.imgrum.org/media/1004375759374364444_1790195362/>. Acesso em: 08 ago. 2017. 2 Em: <http://www.ludopedio.com.br/futebol-arte/futebol-em-duplas/>. Acesso em: 08 ago. 2017. 132 gabarito 1. c. Apelo à cooperação e apelo à inteligência. 2. a. Numa situação de oposição, os jogadores devem coordenar as ações com a fina- lidade de recuperar, conservar e fazer progredir a bola, tendo como objetivo criar situações de finalização para a marcação do gol/ponto. 3. d.Todas as afirmativas estão corretas. 4. (F), (V) (V), (F). 5. (V), (F), (V). 6. b. Apenas as afirmativas I e II estão corretas. 7. a. Relação com a bola, estruturação do espaço e comunicação na ação. 8. A consideração das fases é importante para identificar os principais problemas táti- cos a serem contemplados no ensino a partir dos indicadores de relação com a bola, estruturação do espaço e comunicação na ação. 9. Não é conveniente sugerir atividades como resposta, mas espera-se que seja des- crito algum jogo e que seja feita a devida relação com o indicador de relação com a bola, estruturação do espaço ou comunicação na ação. UNIDADEIV Professor Dr. Osmar Moreira de Souza Júnior Professor Me. Bruno Martins Ferreira Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: • A lógica externa no futebol: como o futebol explica o mundo • O dom de jogar bola: mitos e verdades • Futebol e política • Futebol e gênero • O futebol espetacularizado: mídia, torcidas, violência Objetivos de Aprendizagem • Reconhecer a forma como os conhecimentos que atravessam o futebol impactam na visão de mundo e contribuem para a compreensão deste. • Refletir sobre as especulações em torno de um suposto dom para jogar futebol e adquirir conhecimentos que permitam a ressignificação da categoria dom a partir de referenciais teóricos e empíricos. • Compreender as relações que o futebol pode estabelecer com o campo político e de que forma isso pode contribuir para a formação de cidadãos críticos. • Identificar as desigualdades de gênero presentes no universo futebolístico e refletir sobre a importância de políticas de equidade de gênero no futebol. • Reconhecer o processo de espetacularização do futebol, seus atores e algumas de suas implicações. O ENSINO DO FUTEBOL PARA APRENDER A APRECIAR E CONSUMIR: ÊNFASE NA LÓGICA EXTERNA IV unidade INTRODUÇÃO C aro(a) aluno(a), após uma inserção nos gramados e nas qua- dras de futebol e futsal, com o intuito de construirmos juntos as ferramentas voltadas para pensar o ensinar a jogar futebol, chegou a hora de lançarmos nosso olhar para as manifestações que dialogam com o futebol para além da aprendizagem do jogo. Trata-se de uma dimensão que compreende os conhecimentos que atravessam o futebol e ajudam a interpretá-lo na condição de consumidor e/ou apre- ciador do jogo.Estamos falando da lógica externa do futebol. Daqueles aspectos que não impactam diretamente no saber jogar de seus futuros alunos e alu- nas, mas que nem por isso são de menor importância. Na realidade, são tão importantes quanto os conhecimentos ligados ao saber jogar e mere- cem receber um tratamento didático que contribua para que seus futuros alunos apreciem e consumam o futebol de maneira crítica e consciente. O primeiro tópico trata-se de uma breve introdução à proposta de ensino do futebol a partir de sua lógica externa e os outros quatro tópi- cos trazem as temáticas selecionadas. No Tópico 2, discorremos sobre a problematização da equivocada ideia de que existiria um dom natural ou divino para se jogar futebol. O Tópico 3 trata das relações entre futebol e política no sentido amplo, abarcando manifestações, como o racismo, a religiosidade, a identidade etc. O Tópico 4 retoma nossas análises so- bre as questões de gênero no futebol, mas com uma preocupação mais centrada nos dilemas vividos por mulheres que buscam o futebol como profissão. Por fim, o Tópico 5 trata da matriz espetacularizada do futebol a partir de olhares para a mídia, as torcidas e a questão da violência. Cada um dos quatro temas finaliza-se com uma sugestão de tratamento didáti- co, que estamos chamando de “ensaios pedagógicos”. Esperamos que aproveite bem a leitura e consiga significá-lo para seu processo de formação e para a sua futura prática pedagógica. Bons estudos! ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 138 Estimado(a) aluno(a), a lógica interna diz respeito ao ensinar a jogar futebol; tratamos disso na unida- de anterior. A lógica externa diz respeito aos conhe- cimentos que se relacionam ao jogo de futebol, mas não estão diretamente assentados nos requisitos que operam no nível do saber jogar. Você já parou para pensar so- bre o quanto o futebol está presente em seu cotidiano, mesmo à sua revelia? A programação te- levisiva, a conver- sa na padaria, os comentários em seu ambiente de trabalho ou na própria facul- dade, suas redes sociais, a nave- gação na internet e tantas outras em- boscadas certamente estarão lhe aguardan- do no decorrer deste dia, mesmo que você insista em fugir do futebol. Bill Shankly, ex-treinador do clube inglês Liverpool, tem uma frase que ficou célebre no futebol e que expressa um pouco a forma como esse esporte é vivido por inúmeros ci- dadãos brasileiros e pelo mundo afora. Segundo Shankly: “o futebol não é uma questão de vida ou de morte, é muito mais que isso”. Lógica Externa no Futebol: como o Futebol Explica o Mundo Para muitos, a afirmação do ex-treinador pode soar como um exagero absurdo, para outros nem tanto, e para alguns, ainda, pode ser tomado como um lema a ser seguido a risca em suas vidas. Torce- dores que vivem em função de seus clubes de cora- ção são bons exemplos disso. Porém, como devemos nos po- sicionar em relação a isso? Re- almente o futebol não deve ser encarado como uma questão de vida ou de morte, mas é impor- tante que reconhe- çamos que este fenômeno ultra- passa a quadra- tura dos campos de jogo, trans- bordando para nossas relações sociais cotidianas. Em seu livro Como o futebol explica o mundo: um olhar inesperado sobre a globalização, o jornalista es- tadunidense Franklin Foer apre- senta um registro sobre a economia e a política global a partir do seu olhar para o universo do futebol, que compreende cenários, tais como o conflito religioso entre católicos e pro- testantes vivido por Celtic e Rangers na Escócia, no capítulo “A obscenidade das seitas”; ou o jogo entre Dínamo Zagreb e Estrela Vermelha, como palco e Figura 1: O planeta futebol 139 EDUCAÇÃO FÍSICA geografia, sociologia, antropologia, dentre outras áre- as de conhecimento que nos ajudam a melhor com- preender o mundo no qual vivemos. Não é por simples coincidência que González e Fraga (2012) optam pelo futebol, para apresentarem uma unidade didática que trata da temática identi- dades, em seu livro Afazeres da Educação Física na escola: planejar, ensinar, partilhar – unidade didática, aliás, que recomendamos como leitura obrigatória. Na referida obra, os autores apresentam o fute- bol como fenômeno social, colocando em relevo a forma como este produz identidades por meio da marcação de diferenças. Para tanto, González e Fra- ga (2012) elencam uma série de temáticas que tan- genciam a questão de identidades: o Brasil sempre foi o país do futebol?; futebol, esporte de meninos?; “bom de bola”: dom ou suor?. Por fim, optaram por adensar a unidade didática tratando da questão das identidades a partir da temática do pertencimento clubístico, ou seja, do ato de torcer para um clube e os desdobramentos desse vínculo identitário. O que estamos levando a cabo nesta unidade didática não é muito diferente disso. Para pensar o futebol a partir de sua lógica externa, também opta- mos por elencar temas que nos ajudem a entendê-lo enquanto fenômeno histórico, político, cultural e social, avançando para além de seus aspectos táticos e técnicos, que foram contemplados na Unidade III. Para este fim, escolhemos falar do futebol a partir de quatro temas descritos nos próximos tópicos: o mito do dom de jogar bola; futebol e política; futebol e gênero; e o futebol espetacularizado. A organização dos referidos tópicos consiste em uma apresentação inicial que discorra sobre o tema a partir da literatu- ra pesquisada, seguida da descrição de uma possibi- lidade de tratamento pedagógico do tema nas aulas, que chamaremos de “ensaio pedagógico”. estopim para o início da guerra que iria provocar o desmembramento da antiga Iugoslávia em seis repú- blicas, na década de 90, no capítulo “O paraíso dos gângsteres”; ou, ainda, a forma como os episódios de racismo se proliferam em meio ao processo de globalização do futebol, com a chegada de jogadores nigerianos em uma Ucrânia recém-saída do regime de comunismo da antiga União Soviética, em “Os negros dos cárpatos”. O livro retrata a rivalidade política-histórica entre Barcelona e Madrid, dramatizada até os dias atuais por seus clubes de futebol (no capítulo “O discreto charme do nacionalismo burguês”); a estrutura clubística bra- sileira que permite aos dirigentes, aqui chamados de cartolas, amealharem pequenas ou grandes fortunas às custas do patrimônio desses clubes associativos e de negociatas escusas tão comuns no meio futebolístico, como pode ser visto no capítulo “Os novos oligarcas”; o futebol como representação de um novo (para a dé- cada de 80) estilo de vida norte-americano (chamado yuppie), no qual os pais desafiariam a hegemonia da violência do futebol americano e o estresse psicoló- gico do beisebol para, supostamente, transferirem os valores que acreditavam aos seus filhos, por meio daquele esporte pouco conhecido por aquela socieda- de, encontrado no intitulado capítulo “As guerras cul- turais nos Estados Unidos”; o futebol como símbolo de resistência subversiva no regime fundamentalista do Irã, no capítulo “A esperança do Islã”; o paradoxo entre o processo de globalização e modernização do futebol, por meio do investimento de capital estran- geiro, vivenciado pelo clube inglês Chelsea e o saudo- sismo dos antigos hooligans, torcedores do clube que se veem perdidos em meio a esse processo, presentes no capítulo “O hooligan sentimental” (FOER, 2005). Enfim, estes são alguns exemplos de como o futebol pode nos proporcionar verdadeiras aulas de história, ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 140 Pelé, certa vez, em entrevista a um canal esportivo, disse que Deus o havia dado o dom de jogar futebol e que coube a ele, Pelé, preparar-se treinando muito duro, quase sempre mais que seus companheiros de equipe. O depoimento do melhor jogador de futebol de todos os tempos, que serve de abertura para este tópico, nos proporciona uma importante represen- tação do imaginário popular em relação ao suposto dom quealguns jogadores possuem para a prática do futebol. O termo dom, usado no sentido de representar uma dádiva divina, com a qual algumas pessoas são agraciadas e a grande maioria não, nos oferece uma justificativa nada plausível, mas, ao mesmo tempo, muito sedutora para aqueles que não estão preo- O Dom de Jogar Bola: Mitos e Verdades Figura 2 - O brasileiro e sua maneira de jogar futebol. Produto de treinamento ou dom como condição inata? cupados em compreender as condições que contri- buem para que sejam forjados talentos esportivos, como Pelé, Romário, Ronaldo, Messi, dentre tantos outros exemplos. O próprio Pelé, em sua fala, nos dá pistas de que o assunto é muito mais complexo, na medida em que expressa uma série de contradições ao apresen- tar seu talento como herança divina, mas justificá-lo pelo treinamento duro ao qual se dedicava, mesmo após os treinos regulares do clube. Então é dom ou é treino, Pelé? E você, caro(a) aluno(a), a que atribui a performance excepcional de notáveis futebolis- tas, como aqueles que citamos aqui, treinamento ou dom? Pois é justamente dessa discussão que preten- demos tratar no presente tópico. 141 EDUCAÇÃO FÍSICA O dom como dádiva divina é problemático no sentido de desqualificar todo um processo que in- clui experiências, estímulos e treinamentos, além do próprio componente genético, que contribuem para a expressão de performances exitosas tidas como ex- traordinárias para jogadores de futebol. Além disso, conforme afirmam Garganta et al. (2013), o pressuposto de que o talento natural deter- mina o sucesso dos futebolistas implica na ideia de que o futebol não se ensina. Tal conclusão, segundo os autores, configura-se em um dos erros de pers- pectiva que mais tem prejudicado a evolução dos jogadores e das equipes de futebol. Tal perspectiva é evidenciada também por Giglio et al. (2008) como visão recorrente de professores que ensinam futebol. Segundo os autores, muitos profes- sores afirmam saber identificar com apenas um olhar as crianças detentoras do dom, classificadas como craques. Nessa lógica, essas crianças “abençoadas com esses dons” poderiam ser lapidadas, tornando-se exímios jogadores, enquanto os não detentores atin- giriam apenas um estágio intermediário, indepen- dentemente dos investimentos desses professores. Da mesma forma, Scaglia (1999) constatou que a maioria dos professores de escolinhas de futebol participantes de sua pesquisa entendem que o fu- tebol é uma questão de dom, sendo, portanto, im- possível de ser ensinado. Tal afirmação nos causa enorme espanto e preocupação, na medida em que, ao assumir essa perspectiva e vender aos pais e aos seus filhos a ilusão de que irá ensinar futebol a essas crianças, nos parece que esses “profissionais” esta- riam cometendo nada menos do que estelionato. Muitos de seus futuros alunos e talvez algumas de suas futuras alunas certamente alimentarão o so- nho de se tornarem jogadores de futebol, motivados pela glamourização que essa carreira adquiriu na so- ciedade brasileira, vendendo a imagem de jogadores milionários e famosos, que inspiram o estilo de vida espetacularizado, ostentador e consumista tão valo- rizado por grande parcela da juventude. Este imaginário, aliado à crença de que al- guns desses jovens estudantes foram abençoados por um suposto dom para jogar bola, cria uma armadilha que pode comprometer severamente a idealização e concretização de projetos de vida potencialmente bem-sucedidos. Nesse sentido, a desmistificação da “ideologia do dom” torna-se importante tema a ser abordado por professores e profissionais de Educação Física. De acordo com Damo (2007), o dom é um termo tão importante no universo do futebol, que tornou-se necessário investigar os sentidos que os agentes lhe atribuem. Um dos sentidos habituais é assumir o dom como sinônimo de talento, o que, segundo o autor, não é encarado como grande problema. O verdadeiro problema surge quando se assume o sentido de que o dom seria sinônimo de dádiva divina. Também Garganta et al. (2013) discorrem so- bre essa problemática ao afirmarem que, infeliz- mente, ainda persiste a ideia de que aqueles que alcançam o estrelato no futebol nasceram dotados de características biomotoras que certificam e ga- rantem a sua vocação para exibirem suas perfor- mances exitosas. ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 142 De forma diametralmente oposta a esses profes- sores, somos adeptos da tese de que se por um lado existem diferenças entre os praticantes nos níveis de aprendizagens, fazendo com que alguns tenham condições de se tornarem profissionais, enquanto outros não terão condições de atingir este nível, por outro lado todos e todas têm condições de aprender a jogar futebol com relativa proficiência, desde que adequadamente estimulados e ensinados. No sentido de contestar a ilusão sobre o “talen- to inato”, Gladwell (2008 spud GARGANTA et al., 2013, p. 200) afirma que: […] à medida que os cientistas examinam as carreiras dos seres humanos mais proficientes, em várias atividades, menor parece ser o papel atribuído ao “talento inato” e mais significativo se afigura o contributo da aprendizagem e do treino. De facto, os executantes excepcionais parecem ser beneficiários de “vantagens escon- didas”, oportunidades extraordinárias e legados culturais que lhes permitem aprender e traba- lhar bastante. Syed (2010 apud GARGANTA et al., 2013) cor- robora essa afirmação ao assegurar que mesmo os prodígios infantis, que apresentam uma precoci- dade quase inexplicável, na realidade concentram quantidades significativas de prática em seu cur- to período de vida. Isto é, o sucesso em atividades de valor cultural, como a música e o esporte, o sucesso não parece ser proveniente tanto de con- dições genéticas, mas sim de habilidades circuns- tanciais aprendidas. Para explicar o fenômeno do suposto dom para jogar bola de maneira mais sistematizada, Damo (2007) desenvolve o conceito de capitais futebolís- ticos, referente a uma modalidade de capital cor- poral que, combinada aos capitais convencionais, com destaque para os capitais social e simbólico, é recrutado para a legitimação do futebolista no campo profissional. O autor reconhece, ainda, qua- tro atributos que estariam diretamente ligados a esse capital futebolístico: a. técnica individual, com execução mais eco- nômica dos movimentos, com consequente ganho de espaço a partir do ganho de tempo; b. percepção tática, conseguindo transpor as qualidades individuais para o grupo; c. resistência às adversidades com menor desgaste psíquico, em especial às exigências de perfor- mances regulares em circunstâncias diversas; d. disciplina em todos os sentidos, contribuin- do para que o trabalho em equipe seja exito- so, incluindo o convívio prolongado e inten- so com grupo restrito de pessoas. Essa “ideologia do dom” mascara uma série de mazelas que permeiam a carreira dos futebolistas, na medida em que os meios de comunicação con- tribuem para a legitimação de uma compreensão glamorosa da profissão, repercutindo quase que exclusivamente as histórias de jogadores bem-su- cedidos, provenientes das classes subalternas, que conseguiram vencer na vida e proporcionar uma condição de conforto (alicerçada pela lógica do consumo) aos seus familiares. 143 EDUCAÇÃO FÍSICA Figura 3 - Lionel Messi, ícone da elite do futebol espetáculo ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 144 Damo (2007) revela o equívoco contumaz de tal perspectiva, na medida em que a profissão exige al- tos investimentos em termos de tempo para a for- mação de um futebolista, algo que, segundo o autor, corresponderia a um curso superior, ou aproxima- damente 5.000 horas distribuídas ao longo dos 10 anos de treinamento, que corresponderiam ao perí- odo de formação ou categorias de base pelos quais os atletas, de uma forma geral, precisam se submeter para ingressar na carreira futebolística. Acrescenta- -se aisso o fato desse alto investimento não garantir qualquer expectativa de retorno, conforme aponta- do por Helal (2005 apud ROCHA et al., 2011), que revela dados da Confederação Brasileira de Futebol (CBF) de 2009, que apontavam que 84% dos joga- dores de todas as divisões do futebol profissional do Brasil recebiam salários de até R$ 1.000,00; sendo que 13% recebiam entre R$ 1.000,00 e R$ 9.000,00, e apenas 3% recebiam acima de R$ 9.000,00 por mês. Some-se a isso a precarização das carreiras dos fu- tebolistas do ponto de vista da estabilidade do em- prego, na medida em que matéria do jornal Folha de São Paulo, do dia 14 de março de 2010 – “No país da bola, futebol se torna um subemprego” –, que revela que dois terços dos contratos de jogadores registra- dos na CBF têm duração de até quatro meses, fa- zendo da profissão um serviço temporário (COBOS, 2010). O autor revela, ainda, a face oculta da pro- fissão, que corresponde a uma série de percalços que permeiam a carreira dos futebolistas, tais como as carreiras curtas, o auge precoce, a difícil reconversão, as restrições do mercado laboral e as discrepâncias salariais. Paulo André, jogador de futebol e um dos artífi- ces do movimento Bom Senso Futebol Clube, apre- senta, em seu livro O jogo da minha vida: histórias e reflexões de um atleta, um relato fiel sobre os dramas da profissão de futebolista: [...] à medida que subíamos de categoria [...] muitos colegas ficavam para trás [...]. Essas questões me faziam questionar o siste- ma, a real necessidade de ser dessa maneira. Eu pensava muito sobre o valor das escolhas e das prioridades que havíamos assumido tão cedo. Pergunto-me até hoje por que eu e tantos ou- tros tivemos de passar tanto tempo ali dentro, alojados, concentrados? Por que treinar em dois períodos nessa idade, tão jovens? Será que o corpo não pagará caro por isso na fase adulta? Por que se especializar tão cedo em uma área e deixar todo o resto de lado? Na minha cabeça, éramos tratados como cavalos que comem e descansam bem para depois correr. E qual era a garantia de que aquilo daria certo? Praticamente nenhuma, porque dos que conhe- ci, quase ninguém conseguiu se tornar um pro- fissional de sucesso. A maioria ficou pelo cami- nho sem saber que rumo tomar na vida, porque não fazíamos mais nada além de jogar futebol. Até hoje penso no que deixamos de viver e aprender nesse período (BENINI, 2012, p. 35- 36, grifos nossos). O relato de Paulo André explicita uma série de as- pectos que circunscrevem a formação dos futebo- listas, evidenciando os conflitos e dilemas enfren- tados por aqueles que investem todas as esperanças de um futuro promissor em apenas uma forma de atuação no mercado, que, conforme já analisamos, 145 EDUCAÇÃO FÍSICA configura-se em uma empreitada que envolve altos riscos e – como alerta Paulo André – praticamente nenhuma garantia. Em pesquisa na qual investigaram os projetos de vida de jovens futebolistas das categorias de base de um clube do interior de São Paulo, Ferreira et al. (2014) analisaram a forma como os aspirantes a profissionais do futebol ponderavam entre a valoração atribuída aos estudos e aos treinamentos futebolísticos. Quando questionados sobre o que seria mais do- loroso em suas vidas: “perder um campeonato impor- tante ou reprovar um ano escolar?”, oito entrevista- dos revelaram que consideram mais doloroso perder o campeonato, enquanto seis informam que reprovar um ano os afeta mais do que a derrota esportiva. De uma maneira geral, as justificativas de ambos os posi- cionamentos é recorrente entre os entrevistados e se equiparam em ambos os polos, conforme podemos atestar na reprodução das falas destacadas a seguir. Por que na escola você pode fazer de novo, sabe, a gente pode aprender de novo, mas num campeonato, vai ser difícil conquistar, de novo. (Breno, 16 anos) Ah, porque campeonato se você perder você não tem outro que você pode fazer igual daque- le lá. Se for título, vai ser eterno. Agora aqui na escola você pode fazer outro ano normal. (Kaio Alves, 16 anos) Eu, não, pra mim no caso, de verdade mesmo seria na escola. Porque eu já joguei muitos campeonatos, antes chorava; agora, igual, já to maior já, fico triste, mas não é tudo aquilo. Mas na escola é um ano perdido, campeonato você vai ter outro, na escola você perde um ano, você praticamente... é complicado. (Rodrigo, 16 anos) (FERREIRA ET AL., 2014, P. 9) De acordo com Ferreira et al. (2014), ao indicar o ônus de ter que cursar novamente todo um ano esco- lar, tanto Rodrigo como aqueles que o acompanham nessa perspectiva, assumem uma racionalidade ins- trumental, mensurando o alto custo em especial relacionado à dimensão temporal que implicaria a reprovação. Os autores entendem que tal lógica en- contra respaldo na opinião pública de uma manei- ra geral e consideram que seria sensato a adotarmos sem maiores restrições. Contudo, a recorrente opção dos jovens futebolistas pela conquista do campeona- to, mesmo mediante o ônus da reprovação escolar, os levou a refletir sobre o valor social atribuído à escola, e em especial à escola pública, no sentido de balizar a concretização de projetos de vida bem-sucedidos, em especial nos círculos de pertencimento desses jo- vens, em sua grande maioria provenientes de bairros periféricos da cidade e de escolas da rede pública. A ausência dessas referências de profissionais bem-sucedidos alicerçados pela trajetória escolar contribui para que esses jovens apoiem-se na incerta expectativa de uma ascensão social pelo futebol, que permitiria o usufruto de todas as benesses desfru- tadas pelos jogadores famosos, que são seus ídolos, que têm suas vidas super expostas pelos meios de comunicação, veiculando valores relacionados ao consumo e à ostentação, comuns no atual modelo de sociedade do espetáculo (FERREIRA et al., 2014). O problema, segundo Soares et al. (2011), é que grande parte dos atletas que avançam até a categoria sub-20 não são aproveitados em equipes profissionais, ficando à margem do mercado da bola e, nesse caso, aqueles que fracassam nessa empreitada, com baixo capital cultural, encontram dificuldades para se recolo- car no mercado fora do esporte (SOUZA et al., 2008). ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 146 Rocha et al. (2011) admitem que é evidente que o investimento nos estudos amplia as chances de uma carreira melhor sucedida em diferentes áreas na vida adulta, contudo, a recompensa está distante da perspectiva imediatista de muitos jovens que, vis- lumbram no futebol uma falsa impressão de possibi- lidade de concretização imediata de seus desejos de mobilidade econômica e social, contemplando suas ambições de usufruir do universo do consumismo, da ostentação e da espetacularização de seus feitos. E tudo isso com a suposta vantagem de não depen- der do “doloroso ônus” do investimento prolongado na formação escolar. Corroborando tal cenário, Damo (2007) reco- nhece que, apesar dos riscos, a carreira exerce um fascínio nos jovens, fazendo-os minimizar ou mes- mo ignorar tais restrições, investindo toda a energia característica da idade, pelo fato de se reconhecerem como pop stars em potencial, sendo exceções àque- les que conseguem ter discernimento para não se deixar levar pelas promessas fugazes que raramente se confirmam. ENSAIO PEDAGÓGICO: FUTEBOL COM CLASSIFICAÇÃO FUNCIONAL Para contextualizar a questão do dom de jogar bola, sugerimos a realização de um jogo de futebol cujo critério para a divisão das equipes colocará em evi- dência as diferenças de performance dos alunos, mas buscará provocar a reflexão sobre o fato das diferen- ças serem legítimas e fundamentadas nas experiên- cias vividas por cada um, mas não devem ser motivo de exclusão ou de desigualdade de oportunidades. Antes do jogo, sugerimos a exibição do curta metragem “Uma história de futebol”, de Paulo Ma- chline (disponível no material complementar - web). O filme irá suscitaruma série de reflexões que o professor poderá levar a cabo com suas turmas, mas para a abordagem do presente tema, destaca- mos apenas a questão do respeito às diferenças, que fica evidente na apresentação dos garotos que compõem o time de futebol que protagoniza o cur- ta (o gordinho, o menino de óculos, o pouco ha- bilidoso, o japonês, o magricelo, o baixinho etc.) e a forma como o protagonista Dico demonstra uma fascinação pelo futebol que o leva a praticar a modalidade de forma incessante (contrariando o discurso do dom/dádiva inato). Cabe, ainda, co- locar em relevo o fato de Dico dedicar-se exausti- vamente ao treinamento para conseguir realizar a jogada da bicicleta inspirada em Leônidas da Silva. Por fim, vale a pena assistir ao curta com um olhar atento para as falas e imagens que nos ajudam a interpretar a “ideologia do dom” a partir dos argu- mentos que a literatura nos traz neste texto. Após a exibição e discussão do curta-metra- gem, vamos para o jogo de futebol! A proposta é adotar como critério para a divisão das equi- pes a classificação funcional, que é usada para a composição de equipes de esportes coletivos no esporte paralímpico. No caso dos esportes coletivos, a classificação funcional fornece uma espécie de ferramenta de ni- velamento entre as equipes no sentido de permitir a participação de atletas com diferentes tipos e graus de deficiência. Ela consiste em atribuir uma pontua- ção a cada atleta de acordo com o seu comprometi- mento físico-motor ou sensorial. Tomando como exemplo o basquetebol em ca- deira de rodas, temos que cada atleta é classificado de acordo com seu comprometimento físico-motor numa escala de 0,5 a 4,5. Para facilitar a classificação e participação dos atletas que apresentam qualida- 147 EDUCAÇÃO FÍSICA des de uma e outra classe distinta (os chamados ca- sos limítrofes), foram criadas classes intermediárias: 1,5; 2,5 e 3,5. O número máximo de pontuação em quadra não pode ultrapassar 14 e vale a regra de que quanto maior a deficiência, menor a classe. Isto é, como são cinco jogadores em quadra, não é possível escalar, ao mesmo tempo, quatro atletas com baixo grau de deficiência (4,0 ou 4,5, por exem- plo). Com este critério, as equipes são obrigadas a combinar atletas com deficiências leves e severas e coloca-se em relevo o trabalho em equipe, na me- dida em que um ou dois jogadores isolados, por melhores que sejam, não conseguem fazer frente ao trabalho em equipe de cinco. Pois então, nosso desafio é o de fazer com que os alunos incorporem o “espírito da ideia da clas- sificação funcional” e de forma autodeclarativa, baseados em suas experiências anteriores com o futebol, classifiquem-se para que a turma seja divi- dida em duas equipes com diferentes e proporcio- nais matizes de pontuação. Cada equipe irá contar, ainda, com um técnico, responsável por escalar to- dos os jogadores que deverão participar da mesma quantidade de tempo de jogo, que irá durar tanto tempo quanto for necessário para permitir a parti- cipação equitativa de todos. Após a realização do jogo, retoma-se a discus- são sobre o dom e sobre a forma como um suposto talento diferenciado por parte de alguns alunos não deve ser tomado como justificativa de privilégios no acesso aos tempos e espaços das aulas e dos jogos. ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 148 Prezado(a) aluno(a), queremos aqui salientar que compreender o esporte, em especial o futebol, signi- fica compreendê-lo em sua própria vida, na socieda- de e para além da prática. Pensando nos valores éticos e sociais vinculados à prática do futebol (GONZÁLEZ; BRACHT, 2012), quando falamos das relações entre futebol e política, estamos nos referindo a um espectro amplo de cená- rios que pode se estender desde as negociações entre Futebol e Política Figura 4 - Símbolo de resistência Africana, o presidente Nelson Mandela desfila com a taça da Copa do Mundo, no mundial de 2010 em seu país - Africa do Sul Fonte: Ludopédio ([2017], on-line)1. nações para sediarem mundiais da modalidade até a cena do encontro entre garotos palestinos e israelen- ses descrita na epígrafe de José Miguel Wisnik que inicia este tópico. Não pretendemos, portanto, encerrar nossas re- flexões sobre política em qualquer dimensão mais restrita do campo acadêmico. Nossa proposta é de abarcar o sentido mais amplo de política referente à arte da negociação de interesses. 149 EDUCAÇÃO FÍSICA esportivo, a equipe era considerada em “situação irregular”. Imaginar que a presença de um joga- dor negro em um time de futebol já foi entendido por violação, indica o grau de complexidade do problema a ser enfrentado. Vários fatores explicam, porém não justifi- cam, tais ações preconceituosas e racistas. Via- jando no tempo conosco, lembramos você que o Brasil, em termos históricos, foi o último país na América a abolir formalmente a escravidão em 1881. Pensando que o futebol, pela maior parcela de historiadores, data o início de seus registro no Brasil o ano de 1895, estamos falando de pouco tempo entre um desfecho de um ciclo dos mais vergonhosos na história de nossa nação e do nas- cimento e apropriação do nosso país em relação ao futebol. Uma longa e profunda herança colonialista e escravista pesava ainda nas nossas estruturas so- ciais e o futebol absorveu, direta ou indiretamente, essas influências (POÊYS, 2014). Indesejadamen- te, podemos afirmar que o racismo em conjunto a um elitismo social marcado pelo centramento de rendas e exclusão de pessoas é uma das marcas dos primeiros anos de futebol no Brasil (ROSSI; MEN- DES JÚNIOR, 2015). O problema, de modo geral, é que episódios do tipo seguiram ocorrendo, e seguem, infelizmente, até os dias de hoje no esporte; mas no futebol ganha maior visibilidade pela já mencionada representati- vidade global. Seguindo um contínuo histórico sobre o racismo em nosso país, alguns fatos são alarmantes e gosta- ríamos de compartilhar com você aluno(a), até para que esse resgate histórico nos ensine sobre o que nunca reproduzir ou sobre o que combater diante das mais diversas manifestações racistas. Você acredita que o futebol se relaciona e está presente em meio a cenários dos mais diversos na esfera política? Vamos trazer alguns exemplos de como futebol e política configuram-se como campos que se entrecruzam de forma recorrente na história da humanidade. O tópico se organiza em dois subtó- picos, sendo o primeiro intitulado “Como o futebol explica o mundo: ideologias e metáforas do planeta bola”, seguido de um Ensaio Pedagógico intitulado como “Queimada espanhola”. COMO O FUTEBOL EXPLICA O MUNDO: IDEOLOGIAS E METÁFORAS DO PLANE- TA BOLA Em uma recente pesquisa realizada pelo Ministério dos Esportes (DIESPORTE, 2017), quando o(a) bra- sileiro(a) é perguntado(a) sobre o que vem à cabeça quando pensa esporte, adivinhe a resposta? Futebol, sim senhor(a)! Essa palavra de 4 consoantes mais 3 vogais “trissilabicamente” é dita por mais da metade dos entrevistados (53% dos investigados), ou como melhor forma representativa, em meio às mais de 600 modalidades existentes no mundo (GONZÁ- LEZ; BRACHT, 2012), o futebol se destaca absoluto em nosso país. O futebol, da maneira que conhecemos hoje, teve seu início na Inglaterra, como bem tratamos na Unidade I do nosso livro. Vale a pena reforçar que ele era uma modalidade praticada em essência pela elite inglesa da época, diferentemente do popular es- porte dos dias atuais. Em nosso país, o futebol também chegou com restrições. Para você ter ideia, caro(a) alu- no(a), no início do século XX, mais precisamente nas década de 10 e 20, se um cidadão brasileiro afrodescendente jogasse futebol em algum clube ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 150 Você já pensou quanto um título mundial, no caso do futebol a Copa do Mundo, incide na pai- xão, investimento, adesão e visibilidade do esporte? Pois bem, não é pouco. Mais que isso, já pensouque, por muito pouco, não deixamos de ser campeões da Copa do Mundo em 1958 (data que marca nossa primeira conquista) por ideologias racistas? Em 1950, a Copa do Mundo ocorreu no Brasil. Naquela época, os jogadores negros já figuravam en- tre os selecionados para defender o país no mundial. Um time que houvera feito campanha exitosa até a chegada na final da competição, passaria a ser, depois da final daquela Copa, perpetuado como a seleção do “Maracanaço”. Pior que a fama por uma entendida tragédia esportiva em nosso país, uma cortina racista cobriu esse episódio e agora vamos contar. O jogo da final da Copa do Mundo de 1950 é tido como um dos marcos inglórios na história do futebol do Brasil e carrega o subtítulo de Maracana- ço, em alusão à dimensão do estádio do Maracanã, mesclado ao modo espanhol, língua do Uruguai, de pronunciar qualquer coisa em escala aumentativa. Mais do que perder um jogo em que houvera sido anunciado pela imprensa de todo mundo e entendi- do pela torcida que o Brasil não precisaria nem jogar, pois o título pertenceria aos “donos da casa”, tentou-se terceirizar a culpa, ou o fracasso daquele episódio, não para os méritos da seleção Uruguai, tampouco para o coletivo brasileiro, que, embora tivesse saído na frente do placar, sofrera o revés, mas sim para a “ala negra” da seleção, mais precisamente ao goleiro Barbosa. A jogada do gol uruguaio, que decretou a “Ce- leste Olímpica” como bicampeã mundial, ocorreu em uma situação em que dois marcadores da seleção brasileira, Bigode e Juvenal, além do goleiro Barbo- sa, compunham o quadro defensivo brasileiro. Ain- da que existindo controvérsias sobre quem seria o autor da falha que custou o título para o Brasil, algo na ocasião era um postulado: a seleção brasileira perdeu por conta dos negros do time. Figura 5 - O racismo exacerbado. Cartaz no Uruguai em referência a vitória deles (uruguaios) contra o Brasil na Copa do Mundo de 1950 Fonte: Gazeta do Povo (2014, on-line)2. 151 EDUCAÇÃO FÍSICA Os jornais na época, a população (não só a brasi- leira) em uma considerável parcela e o clima hostil que a perda de uma Copa do Mundo sendo jogada em casa pode causar teve seus desdobramentos para quase uma década, vetando em grande número a presença de negros na seleção, ou para melhor dese- nhar o todo, até o Mundial de 1958. Sem muito se prolongar pela questão que nos causa repúdio, os jogadores negros novamente fo- ram olhados com cisma dentro do futebol, tidos como verdadeiras pragas amaldiçoadas (ROSSI; MENDES JÚNIOR, 2015). Talvez o grande marco para a desconstrução do mito da “maldição dos jo- gadores negros” tenha surgido com a escalação da dupla Pelé e Garrincha na seleção brasileira de 1958. Contra o talento, contra a arte, contra a expressão e a marca registrada de nossa forma de jogar futebol, com a chamada “alegria nos pés”, não há doutrina racial que vença. Na Copa do Mundo de 1958, após jogar um modesto mundial em 1954, na Suíça, nossa se- leção foi para a Suécia, ainda vivendo a estigma de um time despreparado psicologicamente, fra- co emocionalmente e que não deveria, ainda que tendo dois dos maiores nomes da história do fu- tebol mundial no banco de reservas, fazer uso de muitos negros em campo, vide o fatídico episódio do Maracanaço. As coisas não caminhavam novamente bem para o Brasil na Copa, ameaçados de não passar pela pri- meira fase da competição após um empate em 0x0 contra o selecionado Inglês, apresentando um fute- bol nada vistoso e que, ao certo, não representava o fascínio que causava a ginga do brasileiro Didi junto a Nílton Santos, jogadores símbolos daquela seleção, tomaram partido da situação e fizeram exigências junto ao técnico do time, Vicente Feola. Os dois jogadores intercederam por ninguém menos que Pelé, um jovem garoto negro, e Garrin- cha, um descendente de índios, e o nordestino Vavá para que assumissem a titularidade do time. Por resistência ideológica, esses três consagra- dos jogadores – um pela cor da pele, outro por sua descendência indígena e outro por sua origem nor- destina – sofriam retaliações de um país que vivia resquícios de pensamentos preconceituosos herda- dos de um longo histórico de uma ordem aristocrá- tica e escravista. Figura 6 - Garrincha e Pelé Fonte: 21Mais (2016, on-line)3. ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 152 Ainda que contrariado, Feola os escalou e a seleção brasileira conquistou seu primeiro título mundial, com destaque para a atuação desses três craques da história de nosso esporte, que ajudaram, ainda que indiretamente naquele momento, a desconstruir ou pelo menos problematizar uma série de preconcei- tos cristalizadas na sociedade brasileira. Atualmente, notamos, ainda, a sombra do racis- mo em nosso país, que se manifesta e ganha noto- riedade no futebol. Embora não seja um problema local, não detectamos ações políticas que consigam rechaçar atos e manifestações do tipo, ou que punam severamente tais atrocidades. O fato do futebol ter uma legislação própria, concentrada no Código Brasileiro de Justiça Des- portiva (ROSSI; MENDES JÚNIOR, 2015), dá brechas e abre precedentes para que dentro dos campos de futebol ocorram situações que ficam impunes, mas que, sob o ponto de vista do Código Penal brasileiro, poderiam resultar em encarcera- mento dos infratores. Um episódio pode servir de exemplo ilustrativo da falta de rigor no julgamento de atos de racismo no futebol brasileiro. Em um jogo entre as equipes do Palmeiras e do Atlético Paranaense, um zaguei- ro palmeirense cuspiu no rosto de um jogador da equipe contrária e o chamou de macaco, um típi- co xingamento racista, que pretende inferiorizar o ofendido comparando-o com o animal em virtude da cor de sua pele. Após ser julgado na esfera esportiva pela cuspa- rada, o zagueiro palmeirense recebeu seis jogos de suspensão e pelo ato racista outros cinco jogos. Por- tanto, podemos concluir que qualificamos, nos cam- pos, ações racistas como menos agressivas que uma cusparada. Somente para finalizarmos este subtópi- co, o mais preocupante é o fato de que no julgamen- to desse caso, um dos auditores sequer considerou ofensa racial o ato do zagueiro palmeirense (ROSSI; MENDES JÚNIOR, 2015, p. 39). O mundo como o conhecemos é produto de re- voluções, guerras e convenções; mas onde estaria o futebol em meio aos grandes acontecimentos histó- ricos? Sendo ele um esporte de, aproximadamente, 150 anos, adotamos esse marco para lhe contar qual foi o seu papel, direta ou indiretamente, em muitos episódios da história recente da humanidade. Co- meçamos nosso giro da bola tratando das relações políticas entrelaçadas com as questões religiosas. A racionalidade não é capaz de tudo explicar (OLI- VEIRA, 2000). Podemos dizer que esse raciocínio pode ser válido tanto quando nos referimos à reli- gião quanto no caso do futebol. O teólogo Leonardo Boff (2014) admite que o futebol assume comumen- te características próprias das religiões e, por vezes, ocupa o lugar destas na vida de muitas pessoas. A religião, segundo Geertz (1997), baseia seus argumentos na revelação; enquanto que a ciência na metodologia; e as ideologias na paixão moral. Esses três segmentos: religião, ciência e paixão caminham lado a lado pelos campos de futebol e fora deles. Para aproximarmos mais ainda o futebol do campo religioso, tomaremos como exemplo um dos maiores clássicos do futebol mundial. Um dérbi disputado na cidade de Glasgow, na Escócia, envol- vendo além de rivalidades entre torcidas, questões geopolíticas e marcos civis (FOER, 2005). 153 EDUCAÇÃO FÍSICA Dérbi expressa uma partida jogada entre equipes de uma mesma cidade. Em contex- to histórico, na Inglaterra da Idade Média, mais precisamente no condado de Derbyshi- re, ocorriam partidas de jogos ancestrais ao futebol, sendo esses jogados por toda a po- pulação de Derbyshire. Fonte: Foer (2005). SAIBA MAIS Além dessa gama de fatores, sãoas divergências re- ligiosas presentes desde a época da reforma protes- tante, no Reino Unido no século XVI, que regem um dos maiores clássicos do mundo. Trata-se do jogo entre os Rangers Football Club e o Celtic Football Club, conhecido como Old Firm (traduzido como Velha Firma). Sinônimo de emoções, tensões e espetáculo, esse jogo traz como protagonistas as equipes dos Rangers, que têm, em sua história, a tradição de ser um clube de torcedores protestantes, enquanto que o Celtic é tradicionalmente um time católico. Por ambos se- rem de Glasgow, os entraves foram e são complexos. Vamos entender melhor a questão? A Velha Firma não iniciou-se como um clássi- co violento, mas sim transformou-se em tal (FOER, 2005). Nas duas primeiras décadas do século XX, a Escócia, em especial Glasgow, sentiu e acusou, as- sim como na Reforma Protestante, no século XVI, a ferocidade das mudanças globais. O ocorrido dessa vez era a “Grande Depressão” (ou “crise de 29”), a maior e mais longa crise econômica do século XX, que efervesceu os ânimos da população escocesa. O ódio étnico começou, a partir de então, a re- troalimentar-se pelo viés desses dois clubes de fu- tebol. Porém, esse sentimento hostil, filho do ca- pitalismo agudo, também queria se servir dele. O panorama para os gestores de Celtic e Rangers, em alguma medida, permitia pensar que a manipulação das emoções dos torcedores e moradores de Glas- gow poderia se converter em atrativos financeiros. E se converteu. Por envolver e movimentar questões financei- ras, o clássico entre Rangers e Celtic despertou e chamou atenção dos gestores de seus res- pectivos clubes. Em uma lógica comercial e de propagação desse clássico que atrai olhares de todo mundo, como o jogo transcende os campos e chegou em um panorama financei- ro/atrativo, também ganhou-se tal apelidação. Fonte: Foer (2005). SAIBA MAIS A lógica se baseava no fato de Glasgow não ser uma grande cidade, não sendo difícil que jogadores e torcedores se cruzassem (FOER, 2005, p. 48). Se já existe metade de uma cidade que torce contra um jogador, esse não vai querer ser hostilizado por sua própria torcida, não é mesmo? Com uma intensa competição por um núme- ro limitado de empregos, segundo o jornalista estadunidense Franklin Foer (2005), a inevitável transferência de culpa recaiu nos “bodes expiató- rios” religiosos. Como já não bastassem as com- preensões étnicas diferentes, entrava em cena e servia como estopim uma crise que potencializou ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 154 e fez germinar um sentimento hostil entre protes- tantes e católicos, mais especificamente expressos entre Rangers e Celtic. Duas filosofias antagônicas são representadas por esses clubes e tamanhas diferenças fizeram com que esse clássico fosse conhecido como o de maior ódio recíproco do mundo (FOER, 2005), título que agrada os radicais torcedores das duas equipes. Os devotos protestantes do Rangers carregam em sua bandeira a imagem da Rainha do Reino Unido (Elizabeth II), em menção à liderança anglicana da Monarca. Por sua vez, o Celtic representa a heredita- riedade do povo celta e carregava consigo a bandeira do falecido papa João Paulo II, assim manifestando uma clara identidade católica. Se os embates e enfrentamentos se dessem por opiniões e preceitos diferentes, poderíamos dizer que não haveria muito problema. A questão é que existe uma linha tênue entre as divergências ideoló- gicas e as diversas manifestações mútuas de intole- rância, que não raramente se manifestam em forma de violência. Junta-se à cultura familiar, a presença do ído- lo que perpetua a condição rival e mais toda a questão religiosa introjetada desde o século XVI, e pronto! Ganha-se forma um complexo quadro geopolítico. Lucrativo para quem o gere, parado- xal para um país rico economicamente, porém vulnerável no que diz respeito à tolerância étnica e que nos auxilia a entender os enlaces, interesses e capítulos históricos relacionados ao futebol, à política e à religião. O embate das mais distintas realidades sociais, as- sim como dos católicos e protestantes de Celtic e Ran- gers, segundo Machado (2000), encontra no futebol um espaço liberto para manifestos e expressões. Tal raciocínio nos permite pensar, junto ao antropólogo e sociólogo Roberto DaMatta (1994), que embora nos campos de futebol existam as particularidades de cada sujeito, ali também são agregadas a ele, sujeito, as mais diversas concepções sociais, inclusive a cidadania. Infelizmente ao que parece, um triste persona- gem da história mundial também sabia o que Da- Matta relatava em 1994. Um ditador alemão, muito famoso, entendeu que não eram apenas os dogmas religiosos que se vinculavam ao futebol. Cabendo, portanto, a manifestação de ideologias por meio do esporte bretão. Um dos casos mais famosos fora o proveito do time preferido dos trabalhadores alemães próximo à metade do século XX. O “Schalke 04”, time utilizado como símbolo do nacionalismo Alemão e da ideolo- gia nazista durante o período da II Guerra Mundial (MONTEIRO, 2015). O líder do ideal nazista Adolf Hitler, ainda que não fosse aficcionado por futebol, entendia o quan- to aquele esporte poderia mobilizar socialmente o povo e o ajudar em sua deturpada missão de ani- quilação de purificação da raça humana, partindo de uma Alemanha ariana, forte e soberana. 155 EDUCAÇÃO FÍSICA O lado bom (se é que existe algum lado bom em período de guerra) é que para cada novo título e triunfo por parte do Schalke 04 em campanhas com favorecimentos dentro das competições (ajuda de arbitragem, decretos de ganhos de partida por “su- postos atrasos” de outras equipes etc.), existia um Borussia Dortmund. O time de Dortmund era gerido por opositores ao regime totalitário e tinha em seu elenco jogadores que não se envergavam ao ditador Hitler. A esquer- da da Alemanha se dava, pelo menos nos campos, pelo time do Borussia. Tamanha exposição frente à extrema direita de Hitler e do partido nazista custou perseguições, sequestros, desaparecimentos e exter- mínio de várias pessoas ligadas ao Borussia Dort- mund nessa época, que “coincidentemente” fora a mais vitoriosa do Schalke. O movimento de apoio ideológico-político, mais precisamente no que tange às propagan- das desses ideais, não se restringiam à Alemanha nazista. A Itália, outro grande centro do futebol mundialmente conhecido, teve na figura de Benito Mussolini, ditador e líder da ideologia política fas- cista no país, a representação da autocracia. Entre outros clubes, a equipe da Lazio, time de Mussolini, desde as épocas da Itália fascista, até hoje chama atenção pela resistência e apoio aos ideais totalitá- rios de uma forma de governo que prega o radica- lismo e o autoritarismo. O jornalista Mauro Cezar Pereira, em reporta- gem ao site esportivo da ESPN, conta que até hoje nos estádios é comum ver bandeiras, cartazes e cân- ticos que perpetuam uma ideologia das mais sangui- nárias da história da humanidade (PEREIRA, 2013). Tais apontamentos nos dão mostras de que a paz sim é soberana, mas que existem ainda muita gente a fim de “complicar o jogo”. As manifestações políticas na Itália têm, por parte da legislação, uma forma de proteção que as resguardam, em nosso ponto de vista, até demais. É raro acompanhar nos jogos do campeonato italiano algum que não tenha alguma manifestação política- -ideológica. Algumas claramente são mais preocu- pantes, como representadas nas imagens a seguir. Figura 7 - Jogadores do Schalke fazem reverência nazista antes de partida da década de 30 Fonte: Rapid (2011, on-line)4. ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 156 O uso do futebol para campanhas políticas ultra- passou o velho continente. Por aqui na América, as- sistimos regimes ditatoriais que se apropriaram da beleza, do encanto e da mobilização do futebol para fortalecer seus governos. Destaques negativos para: Augusto Pinochet, no Chile, em suasgrandes reuniões de seguidores nos estádios de futebol, sendo que aqueles que eram “convocados” a participar nas manifestações de apoio ao ditador e não comparecessem eram torturados ou assassinados; Governo Militar no Brasil, durante o período de ditadura como um todo, tendo de 1964 até 1985 vários capítulos nos quais, para o mundo e para o povo brasileiro, vendia-se a imagem de um país forte e soberano, mas que, na verdade, investia na busca e obtenção de títulos para se criar uma sen- timento ufanista e reforçar o nacionalismo (CHAIM, 2014); na Argentina, a mais sanguinária das ditadu- ras com quase 30 mil mortes de civis, na qual o Go- verno Militar em manobras políticas conseguiu tra- zer para o país, em pleno regime ditatorial, a Copa do Mundo em 1978, sendo vencida pela própria Argentina, com destaque para uma goleada aplica- da sobre a seleção peruana, que custou ao Brasil, em critérios de desempate por saldo de gols, a desclas- sificação no mundial, e a sequência até o êxito final do selecionado argentino. Esse jogo causa polêmica e desconfiança até hoje, pelos moldes em que se deu. Contudo, não só de episódios conturbados ou manchados o futebol aparece na história do mun- do. Trouxemos para você, estimado(a) aluno(a), além de indicações nos conteúdos complementares de nosso capítulo, um pouco mais da história de Didier Drogba. Esse atleta, nascido na Costa do Marfim, é, sem dúvida, um marco e símbolo maior do fim de uma Guerra Civil, que já durava 5 anos em seu país. Dro- gba fez carreira na Europa, atuando em vários dos principais clubes do mundo, com destaque para sua passagem pelo Chelsea, da Inglaterra, onde foi Cam- peão da Liga dos Campeões da Europa, fazendo gols na semifinal e final. Adorado por todo seu país, seu continente e por muitos seguidores no mundo, o já na época consa- grado jogador ultrapassou as barreiras dos discursos formais por valores humanos. Figura 8 - Faixas com os dizeres (traduzidos do italiano) “Auschwitz vossa Pátria, os fornos vossas casas”, presentes na torcida da Lazio durante partida no Estádio Olímpico de Roma Fonte: ESPN (2013, on-line)5. 157 EDUCAÇÃO FÍSICA Ao não suportar mais ver as mazelas de seu povo, em um jogo pelas eliminatórias para a Copa da África, em 2007, Drogba, fazendo uso de sua força política e representatividade nacional, exigiu que o jogo contra a equipe do Senegal fosse marca- do no Bouaké Stadium. Bouaké era simplesmente o epicentro da rebelião dessa guerra, que se arrastava para mais de meia década. O jogo reuniu e uniu rebeldes e simpatizantes ao governo em um mesmo local. A seleção liderada por Drogba fora conduzida ao estádio por um tanque de guerra rebelde e recebida por pessoas ligadas ao gover- no. Antes do começo da partida, 25 mil pessoas (ou 25 mil fãs de Drogba) cantaram juntas o hino da Costa do Marfim, dando mostras de que a ação desse jogador ha- via surtido efeito positivo na reconstrução de seu país. Figura 9 - Jogo em Bouaké Stadium. Drogba conseguiu, na ocasião, reunir Governo e opositores rebeldes ao governo pelo jogo da paz na Costa do Marfim Fonte: Ariel Segal (2011, on-line)6. Querido(a) aluno(a), estamos falando sobre como o futebol ajuda a explicar o mundo, com fatos e capítulos dos mais relevantes no contexto social e político. Por isso, trazer até você um importante acontecimento em nosso país, no que diz respeito a um movimento democrático, em meio a Ditadura Militar, vai nos ajudar a compreender a força do fu- tebol e sua visibilidade e ver que, no Brasil, também existiram processos interessantes na construção de nosso estado livre e democrático. O ano era 1982, o time era o Corinthians. Mais do que um clube com uma das maiores torcidas de nosso país, esse clube até hoje porta o codinome de “time do povo”. Após um ano de fracassos nos gra- mados, Waldemar Pires assumia a presidência do Corinthians em substituição ao folclórico e autori- tário Vicente Matheus, que exerceu o cargo por dez anos consecutivos. O choque de gestão se deu muito em função da nomeação de Adílson Monteiro Alves, um sociólogo, como diretor de futebol. ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 158 Ao assumir a diretoria, Adilson reconheceu aos próprios atletas que pouco entendia de fute- bol, mas que estava disposto a compartilhar com eles o compromisso de reerguer o Corinthians e colocá-lo de volta na primeira divisão do campeo- nato nacional. Por uma feliz coincidência, o elenco do clube contava com jogadores que partilhavam da opinião de que seria possível uma organização mais horizontal entre todos os agentes de um clube de futebol. Estava plantada aí a semente do mo- vimento que, posteriormente, ganharia o título de “Democracia Corinthiana”. Conforme relato de Wladimir, lateral esquerdo do time do Corinthians daquela época e uma das principais referências do movimento, a chegada de Paulo César Caju, campeão mundial de 1970 com a seleção brasileira, pode ter sido um dos motivadores para o surgimento daquele revolucionário movimen- to do futebol brasileiro (CARDOSO, 2014, p. 73): [...] o Caju era uma excelente pessoa, mas era o Paulo César Caju, tricampeão do mundo, o cara que tinha jogado na França, que tinha um sistema de vida totalmente diferente do nosso, acostumado a todos os tipos de regalia. Ele tinha acabado de chegar ao Corinthians. Veio botando banca. [...] Decidimos, em con- junto, que jogadores individualistas como o Caju não podiam fazer parte do elenco. Tam- bém começamos a discutir o comportamento de outros jogadores. O Rafael, o goleiro, por exemplo, ficava indignado de disputar po- sição com o César. Pela primeira vez, desde que eu chegara ao clube, um diretor estava decidido a tomar decisões importantes junto com os jogadores. Não era por insegurança. O Adilson tinha um histórico de luta pela de- mocracia. Não fazia sentido chegar ao clube e abraçar um modelo de gestão que ele comba- tera intensamente fora dele. Após um início de campeonato pífio, o Corinthians encontrou o caminho para as vitórias, fortalecendo, dentro dos gramados, uma dupla de bastante suces- so, formada por Sócrates e Casagrande, e fora deles uma trinca, com o acréscimo de Wladimir, começou a chamar a atenção pela revolução que estavam fa- zendo na forma como jogadores, comissão técnica e dirigentes se relacionavam no futebol. De acordo com Cardoso (2014), em menos de seis meses, esses jogadores e o diretor Adilson Mon- teiro Alves conseguiram implantar um sistema de gestão inédito no futebol brasileiro que faria ruir uma série de paradigmas. O novo modelo tinha como princípio o caráter democrático do futebol, que acolhe torcedores de todas as classes sociais e, neste sentido, não poderia ser administrado de for- ma arcaica, ditatorial, considerando a opinião ape- nas de dirigentes pouco comprometidos com os ide- ais da democracia. O país vivia o período de uma gradual reaber- tura política, com algumas concessões dos enfra- quecidos militares, no poder desde o golpe de 1964. Porém, no Corinthians, o ritmo não seria o “lento, gradual e seguro”, proposto pelos militares. A refor- ma democrática no clube exigia pressa para se es- tabelecer uma nova filosofia, que consistia em uma série de concessões inéditas aos atletas no futebol, representadas pelo exercício do elemento basilar da democracia, que é o voto (CARDOSO, 2014). Enquanto os cidadãos brasileiros tinham sua cidadania parcialmente sequestrada pelos militares desde a década de 60, por meio do impedimento do exercício da escolha de seus representantes pelo voto direto, no clube do Parque São Jorge tudo passou a ser decidido nas urnas. Comissão técnica, roupei- ros, massagistas e jogadores passaram a decidir pelo voto desde aspectos mais técnicos, como o fim das 159 EDUCAÇÃO FÍSICA concentrações ou a contratação de jogadores, até a estrutura econômica e política do clube, por meio da presença de representantes nas reuniões do con- selho,com direito a voto. O engajamento social da Democracia Corin- thiana extrapolou os limites do clube, fazendo-se presente em manifestações, como o protesto dos desempregados que acampavam no Parque do Ibi- rapuera em frente à Assembleia Legislativa de São Paulo e participando ativamente em debates que iam ao encontro do processo de redemocratização do país e tinham como fóruns desde centros acadê- micos universitários até centrais sindicais. Dois episódios emblemáticos da participação política do movimento corinthiano revelam-se na final do Campeonato Paulista de 1983 e na partici- pação de atletas do clube no comício pelas eleições diretas no mesmo ano. Na final do Paulista contra o São Paulo, os joga- dores do Corinthians entram no gramado do está- dio do Morumbi, que recebia um público de cerca de 90 mil torcedores, com uma faixa escrita “Ganhar ou perder, mas sempre com democracia” (FLOREN- ZANO, 2009). A mensagem era clara, o processo de redemocratização do país era mais importante do que o espetáculo futebolístico ou, ainda, revelaria uma predisposição a trocar a vitória esportiva pela vitória política da democracia. Outra interpretação possível para a faixa, diz respeito ao processo de des- gaste que o movimento enfrentava naquele momen- to, evidenciado, principalmente, por uma persegui- ção midiática que pretendia desqualificar o projeto de autogestão vivido no Parque São Jorge. Assim, a faixa também simbolizava a defesa do modelo de participação democrática do clube frente ao futebol de resultados almejado pelos torcedores e veiculado e explorado pelos meios de comunicação. Com relação ao comício pelas Diretas Já, no Vale do Anhangabaú, em São Paulo, no dia 16 de abril de 1984, o protagonista foi Sócrates. Em meio ao assé- dio dos clubes italianos que à época constituíam o epicentro do futebol mundial, pagando os maiores salários do planeta, Sócrates subiu ao palanque junto aos companheiros Wladimir, Casagrande e Juninho e, recebendo a palavra do locutor Osmar Santos, fez a seguinte declaração: Sócrates: “Se a emenda Dante de Oliveira for aprovada na Câmara e no Senado, não vou em- bora do meu país”. Osmar Santos: “ O que acontece se ela passar, Doutor?” Sócrates: “Não vou embora do nosso país” (FLORENZANO, 2009, p. 439). Figura 10 - Faixa exposta na final do Campeonato Paulista 1983. Jogo entre o Corinthians e a equipe do São Paulo Fonte: Ornitorrinco Zine (2014, on-line)7. ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 160 De acordo com Florenzano (2009), a experiência corinthiana criava a possibilidade de redimensio- nar o valor da conquista no futebol, dando con- cretude dentro e fora dos gramados aos princípios abstratos da liberdade e igualdade. “O simples fato de exercitá-la, de conferir-lhe materialidade no co- tidiano dos atletas, já representava, por si só, um grande feito” (FLORENZANO, 2009, p. 405). Na Espanha, talvez tenhamos o cenário mais eloquente do que política, ideologias, futebol e lei- turas de mundo que permitem acontecer. Nesse país estão dois dos maiores clubes de futebol do mundo. Em um panorama cada vez mais globalizado sobre futebol, Real Madrid e Barcelona, além de muita ri- validade e de protagonizar jogos memoráveis para os amantes do esporte, tocam as questões separistas de um passado recente e de um futuro cada vez mais incerto na Espanha. Durante o Regime ditatorial Franquista, a equi- pe de Madri era a representação de uma Espanha forte, unificada e soberana, e para legitimar tais sta- tus, o próprio governo do ditador Franco financia- va com generosos recursos públicos o time símbolo de seu regime. Pessoas ligadas ao Real Madrid na época do regime franquista, entre os anos de 1935 até 1979, negavam tais relações de favorecimentos, mas para a maior parcela dos espanhóis isso era mui- to claro. Bastava ler o nome da antiga rua onde fica localizado o estádio do time em Madri, “Ge- neralíssimo Franco”. Além da antiga rua levar o nome do ditador que arrasou toda uma Espanha, o nome do estádio, “Santhiago Bernabeu”, leva como homenageado um amigo íntimo do falecido ditador Franco. Pense conosco, um time é favorecido dentro de um país por ser o time da capital, o time da repre- sentação política da nação, time de coração de um ditador, logo quem mais do que seu arquirrival para sofrer as consequências? O Barcelona pagou esse preço, sendo muitos anos (e para alguns especialistas no assunto, até hoje) vítima dos processos políticos e empodera- mento do clube da capital. Mais do que grandes equipes, estava desenhado um quadro no qual seria impossível não levar para dentro de campo, nos jogos, as questões envolvidas fora dele. Madri, centro de governo, e Barcelona, ca- pital da Catalunha, como eterna reivindicadora de sua separação de toda Espanha. Os ânimos exalta- dos pela opressão de Madri sobre Barcelona refletia em campo com verdadeiras “guerras”, para além da própria guerra civil que o país se encontrava. A guerra acabou, mas até hoje os times dos clubes das duas cidades carregam consigo o jeito próprio de se portar, a maneira ímpar de serem identificados dentro de campo. O Real Madrid, com ataques rápidos, con- tundentes, transições da parte defensiva para a porção ofensiva de campo e as resoluções de jogadas em se- gundos, confunde-se com o jeito político da própria ca- pital em solucionar e lidar com os ocorridos históricos. O Barcelona, de toque de bola envolvente, de ex- pressão coletiva de resistência por querer recuperar a posse de bola com muitos jogadores e contra ata- car com mais jogadores do que defendeu, também é retrato de uma região onde se aprendeu desde cedo a se opor em massa e a demonstrar sua força pela re- sistência de seu povo, que transfere como espécie de legado essa mesma energia aos times do Barcelona dentro de campo (FOER, 2005). 161 EDUCAÇÃO FÍSICA O “Barça”, como é popularmente chamado, car- rega em seu estádio “Camp Nou” (traduzido por Campo Novo), os dizeres de que é “Mais que um clube”, por ali mesmo, naquele espaço, terem ocor- rido episódios de resistência do povo Catalão, em resposta aos ataques aéreos de bombas por parte da capital Madri. Esse estádio foi, como muitos outros monumentos da cidade e Barcelona, alvo de ataques, que para além de vidas, acabavam com símbolos de orgulho da comunidade Catalã. É bastante emblemático e significativo o fato dos jogadores do Barcelona, que compunham a seleção espanhola campeã mundial em 2010, ostentarem or- gulhosamente a bandeira vermelha e amarela da Ca- talunha durante a comemoração do título na África do Sul, conforme mostra a Figura 11. Dá para entender por que tamanha atenção mundial para um jogo que envolve Real Madrid e Barcelo- na? Sim aluno(a), não é somente mais um jogo de futebol, mas o estopim de credos ideológicos, repre- sentações políticas e expressões de resistências ao largo dos anos. No futebol, o encontro dessas duas equipes pode até se restringir aos campos, mas é cla- ro que ali são retratos históricos que ajudam a con- tar e explicar um pouco mais de como o mundo se fez mundo, de como a própria história é importan- te para assegurarmos a cultura e os fatos ocorridos para as novas gerações e para que não voltemos a reproduzir os erros do passado. Você gostaria de saber como poderíamos levar essa interessante história entre Barça e Real em formato de um jogo, no ambiente escolar? Pois bem, aqui iremos oferecer uma possibilidade de ensino, na qual brin- cando e jogando poderá ser um instrumento de muita valia em sua futura ação docente enquanto professor. ENSAIO PEDAGÓGICO: QUEIMADA ES- PANHOLA Em um espaço similar às dimensões de uma qua- dra de voleibol, serão divididas duas equipes com números iguais de integrantes, sendo que uma irá representar “Madri” e a outra “Barcelona”. As regras basicamente se restringem a atingir a equipe oponente por meio do contato das bolas com o corpo do adversário, configurando assim o “quei- mar”. Diferentementede um jogo de queimada no qual tradicionalmente se arremessa a bola com as mãos, na queimada espanhola a bola, na verdade, as bolas partem de chutes com os pés. Para esse jogo, você irá precisar de 7 cones pequenos (ou garrafas tipo pet), 20 bolas e um espaço estrutural similar a uma quadra de futsal. Figura 11 - Jogadores da seleção espanhola (Puyol e Xavi, ambos do Bar- celona) com a taça da Copa do Mundo de 2010 e a bandeira da Catalunha Fonte: Catalan Assembly ([2017], on-line)8. ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 162 A equipe que irá representar Barcelona terá, para cada um de seus integrantes, um pequeno cone, sen- do que estes devem ser espalhados no território de quadra destinado ao time catalão. Tais pequenos co- nes deverão ser protegidos pelos integrantes de Bar- celona. O objetivo do jogo consiste em “queimar” os integrantes da outra equipe até que todos sejam atingidos, decretando assim a equipe vencedora. Vale lembrar que somente as mãos podem operar a defesa, sendo a parte do corpo que neutraliza as jo- gadas de ataque. Os diferenciais de ataque na atividade são os seguintes: a equipe que representa Madri poderá escolher entre queimar os jogadores de Barcelona Figura 12 - Queimada espanhola Fonte: os autores. ou seus pequenos cones, porém não podem atacar pelos corredores laterais do campo, nem tampouco trocarem passes entre os integrantes para arrematar. Deverá, nesse sentido, executar a jogada de ataque com apenas um toque e, para além de seu território dentro do campo de jogo, só poderá fazer uso do fundo de quadra; a equipe que representa Barcelo- na terá como alvo único os jogadores de Madri, mas tendo como possibilidade de ampliação territorial o fundo de quadra e os corredores laterais. Mais uma regra que acompanha o time de Barcelona é a obri- gação de três passes entre os integrantes, estejam eles posicionados em qualquer setor de quadra, para efetuar o arremate. 163 EDUCAÇÃO FÍSICA Discussões possíveis: após algumas rodadas da ativi- dade, alguns pontos possíveis para se abrir em diálo- go junto as turmas são: • por que a equipe de Barcelona somente tem como alvo os integrantes do time de Madri? • por que o time de Madri pode atacar os inte- grantes de Barcelona e seus pequenos cones? • o que representam os pequenos cones no jogo? • qual o sentimento da equipe Barcelona? Opressão? Coibição? Desvantagem? • quais são as motivações que definem o modo de atacar “tabelando” do time de Barcelona, com o modo de atacar incisivo de Madri? Es- ses modos são manifestos no estilo de jogo dessas duas equipes? Fomentar ou auxiliar a discussão nos moldes histó- ricos irá contribuir no modo de ensino de seus fu- turos(as) alunos(as). Para além de aprender com e pelo movimento o que são características esperada nas aulas de Educação Física, você irá ensinar con- ceitos-chaves na compreensão de uma parte impor- tante da história atual. Nós explicamos. Neste jogo, a vantagem de Madri poder acer- tar dois alvos (corpos dos integrantes de Barcelona e suas garrafas) representa um quadro similar ao ocorrido na guerra civil espanhola. A força militar Espanhola coibia o pensamento e as ações separatis- tas da Catalunha (região onde se localiza o time e a cidade de Barcelona), bombardeando, para além da população, prédios e símbolos históricos da cidade, que no jogo fazem alusão às garrafas postas. Nesse sentido, por uma lógica interna do jogo proposto, a equipe do Barcelona se voltará apenas a se defender, enquanto que a equipe de Madri irá subjugar sua oponente, bombardeando-a com bolas na tentativa de êxito em missão. Embora com dimensões similares de territórios de quadra, é claro que o território de Barcelona no jogo, assim como na história, virará marco de resis- tência de ofensivas de Madri, e a Madri cabe a supe- ração da união Catalã. Detalhe e lembrete final é que essa queimada espanhola ocorre com as ações ofensivas por meio de chutes. Gostou da ideia? Separe bolas que preser- vem a integridade física dos participantes (exemplos como bolas de espuma, de meia ou bolas tipo inicia- ção esportiva), instrua suas turmas e divirta-se! ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 164 Futebol e Gênero Fonte: Torcedores (2017, on-line)9. “Eu só peço que não desistam da gente, porque a gente jamais vai desistir.” - Formiga 165 EDUCAÇÃO FÍSICA Prezado(a) aluno(a), a proposta deste tópico con- siste em ampliar a discussão iniciada no Tópico 3, da Unidade I, cujo tema foi “Esporte e futebol como reservas historicamente masculinas”. Conforme já discutimos naquele tópico, o esporte tem sua origem e seu desenvolvimento assentado em uma lógica e ambiente controlados por homens e feito para eles, tendo as mulheres que reivindicar, lutar e resistir para garantir o direito de acesso e permanência no campo esportivo. Também vimos que, no caso do futebol, esse cenário de desigualdade de gênero não foi diferen- te, sendo, inclusive, mais acentuado na maioria das vezes. Argumentos de fundo biológico e leis foram responsáveis por manter as mulheres relativamente distantes do futebol durante muitas décadas. A fra- se da jogadora Formiga, destacada na epígrafe deste tópico, revela um pouco do misto de desespero e re- sistência que sempre marcaram e continuam mar- cando a história do futebol praticado por mulheres em nosso país. EM VEZ DE FUTEBOL FEMININO, FUTE- BOL DE MULHERES O título deste subtópico, inicialmente, pode soar como um tanto sem sentido, como um simples jogo de palavras sem maiores desdobramentos. Contudo, pretendemos desenvolver, ao longo desse texto, uma argumentação que sustente nossa opção por evitar a expressão “futebol feminino” e substituí-la por ou- tras, como futebol praticado por mulheres ou fute- bol de mulheres, por exemplo. De acordo com algumas estudiosas do assunto, como Carmen Rial, Silvana Goellner, Claudia Kes- sler, Ludmila Mourão, dentre outras, a substituição da expressão futebol feminino por uma outra cate- goria de análise que pode ser expressada por termos, como futebol praticado por mulheres ou futebol de mulheres, faz parte de uma estratégia política no sentido de afirmar a legitimidade da apropriação do futebol por parte das mulheres em detrimento de um futebol tido como pouco relevante, que preci- saria ser adjetivado de feminino, como se evocasse uma outra ética e estética. Concordamos com as autoras na medida em que identificamos no termo “futebol feminino” os mes- mos equívocos por elas apontados. Acrescentamos a isso o fato de não ser necessário acrescentar a de- signação de gênero quando nos referimos ao futebol dos homens, ou seja, não precisamos falar “Copa do Mundo de Futebol Masculino” ou “Campeonato Brasileiro de Futebol Masculino” ou, ainda, “Copa Libertadores da América Masculina”. Na realidade, subentende-se que o futebol considerado legítimo ou “de verdade” é o praticado por homens, não ne- cessitando de complemento. O complemento faz-se necessário para aquele futebol socialmente conside- rado menor, pouco importante, marginal, que é o praticado pelas mulheres, adjetivado como feminino. Portanto, interpretamos que a adjetivação do futebol como feminino é carregada de intenciona- lidades, dentre as quais destacamos a de inferiorizar esta prática e a de associar a ela uma feminilidade hegemônica e desejada socialmente por uma visão de mundo machista. ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 166 Neste sentido, assumimos a lógica de que o fenôme- no do qual estamos tratando é sempre o mesmo, ou seja, o futebol, sendo que os praticantes é que podem ser distintos. Da mesma forma que não nos referi- mos ao “futebol idoso”, “futebol deficiente”, “futebol indígena” ou “futebol infantil”, não aceitamos a cate- goria “futebol feminino”. Em todos os casos, estamos tratando do mesmo futebol, cabendo apenas a varia- ção dos praticantes, ou seja, futebol praticado por idosos, por pessoas com deficiência, por indígenas,por crianças e por mulheres. É este o mesmo viés assumido pelos autores e pelas autoras que escrevem sobre a relação das mulheres com o futebol na obra Mulheres na área: gênero, diversidade e inserções no futebol, organizada por Claudia Kessler (2016). FUTEBOL COMO PROFISSÃO PARA MU- LHERES Em uma pesquisa desenvolvida em três clubes parti- cipantes do Campeonato Paulista de Futebol Femi- nino, do ano de 2012, Souza Júnior (2013) realizou observações de jogos e treinamentos dessas equi- pes, entrevistas com treinadores(as) e dirigentes, e grupos focais (uma espécie de entrevista em grupo) com atletas de dois dos clubes. Figura 13 - Partida de futebol de mulheres na Espanha 167 EDUCAÇÃO FÍSICA Em síntese, os três clubes pesquisados podem ser descritos da seguinte forma: • Clube A: era o protagonista do projeto do fu- tebol feminino (a prefeitura municipal atuava como intermediária em relação ao pagamen- to das atletas, apenas para tentar desconfigu- rar o vínculo empregatício com o clube); não possuía parcerias ou patrocínios para manter o futebol feminino; pagava salários às atletas, que variavam entre R$350,00 e R$5.000,00; o clube subsidiava as mensalidades para as atle- tas que cursavam o ensino superior. • Clube B: existia uma parceria entre o clube e a prefeitura municipal, sendo uma funda- ção municipal de esporte a principal respon- sável pelo projeto do futebol feminino; uma série de pequenas parcerias eram firmadas com patrocinadores, que viabilizavam pe- quenas despesas; o clube, por intermédio da fundação municipal de esportes, pagava sa- lários às atletas que variavam entre R$400,00 e R$1.000,00; o clube não subsidiava cursos superiores e tampouco estabelecia parceria com alguma faculdade que concedesse bolsas de estudos às atletas. • Clube C: existia uma parceria entre a prefei- tura municipal e uma faculdade local; o clube constituía meramente um veículo de formali- zação de vínculo com a Federação Paulista de Futebol (FPF); o clube não possuía parceria ou patrocínio algum em virtude de impedi- mento imposto pela legislação municipal; as atletas do clube não recebiam salários; a fa- culdade parceira do clube oferecia bolsas de estudos integrais às atletas em qualquer um de seus cursos superiores. Conforme se observa, as condições oferecidas por cada um dos clubes pesquisados às suas atletas são bastante distintas, tendo em comum o fato de serem todas muito distantes da estrutura encontrada nos clubes de futebol de homens, ao menos dos clubes da elite do futebol brasileiro. Os depoimentos das jogadoras, treinadores(as) e dirigentes na pesquisa revelam o quanto o futebol praticado por mulheres se afasta de uma matriz pro- fissionalizada em nosso país, assim como na maioria dos países ao redor do mundo. A legislação esportiva brasileira preconiza que, para se configurar como regime profissional de tra- balho, é necessário que seja firmado um contrato es- pecial de trabalho com a entidade organizadora da modalidade e o registro em carteira de trabalho pelo clube ao qual o atleta está vinculado. Portanto, podemos observar que as leis a res- peito da profissionalização só se efetivam de direito com o contrato especial de trabalho registrado na entidade (confederação) e o vínculo empregatício com alguma entidade de prática esportiva (via de regra um clube). No entanto, a profissionalização de fato ocorre quando os atletas recebem salário e be- nefícios, mesmo que sem contrato de trabalho, pro- vando sua relação com a entidade de prática despor- tiva com a participação em jogos, treinos e outras sessões preparatórias de competições, preserva suas condições físicas e exercita-se em sua atividade des- portiva profissional (conforme previsto no artigo 35 da lei n° 9.615/1998, mais conhecida como Lei Pelé). As falas das jogadoras participantes da pesquisa manifestam as contradições vivenciadas por mulhe- res futebolistas, na medida em que estão submetidas a um regime de trabalho não contemplado pela le- gislação esportiva brasileira. De acordo com Souza Júnior (2013), a insegu- rança proveniente do descumprimento da legislação pelos clubes se traduz na instabilidade dos projetos de vida das jogadoras, que apontam a fragilidade ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 168 dos vínculos com os clubes como uma das princi- pais, senão a principal preocupação que assola sua “carreira profissional”. A fala de algumas das atletas participantes da pesquisa, principalmente aquelas que já estão há mais tempo no futebol, revela uma nítida preocu- pação de suas famílias em relação à instabilidade de uma carreira no futebol e “o preço” a ser pago por uma formação escolar e profissional deficitária, pro- vocada pelas exigências da dedicação ao futebol. GISLAINE (29 anos): Em casa, não é que não apoia, só que pela minha mãe eu não estaria no futebol, estaria empregada, registrada... É por- que é assim, você vai jogando e você não tem um apoio para você depois. Acabou esse ano aqui, se você não for jogar em mais nenhum time, você tá sem registro, você não tem nada. Você não tem experiência com nada. E a maio- ria das atletas não tem estudo. ELIANE (24 anos): Eu não tenho carteira ainda... ISAURA (21 anos): Minha carteira tá limpi- nha... (Grupo focal com jogadoras do Clube B) (SOUZA JÚNIOR, 2013, P. 258). Como podemos observar, os “custos sociais” que as atletas precisam assumir para empreender uma car- reira no futebol são altos. A falta de cumprimento da legislação existente para o exercício da atividade profissional coloca em xeque, para essas jogadoras e suas famílias, a legitimidade, inclusive da existência de uma carreira, como fica evidenciado na fala de Patrícia, ao afirmar que o futebol não é uma carreira e que a mãe se preocupa por ela não ter um emprego. A falta do registro em carteira de trabalho parece ser o ônus mais impactante para as atletas no tocante a essa questão, como mostra a preocupação de Eliane e Isaura, ao afirmarem não possuir carteira ou que ela está “limpinha” (sem qualquer registro de trabalho). Portanto, apesar de a Lei nº 12.395/2011 regu- lamentar a atuação do atleta profissional, estabele- cendo a exigência de profissionalização de atletas de futebol – garantindo, assim, a atuação profissional também às mulheres, tendo em vista que a lei não faz distinção dos gêneros –, equivocadamente e de for- ma oportunista, podemos inferir que o futebol femi- nino equipara-se aos demais esportes, que na mesma legislação não são obrigados, mas apenas facultados, a adotarem o regime profissional, proporcionando às associações esportivas a oportunidade de ficarem à margem da lei para diminuir custos com impostos e direitos trabalhistas dos atletas, ainda que exista ju- risprudência no assunto (SOUZA JÚNIOR, 2013). Enfim, Gislaine resume bem o desalento provo- cado por essa situação, ao afirmar que a atleta que fica sem clube para jogar não tem experiência com nada, tampouco estudo, ou seja, as chances de reconversão do tempo dedicado ao futebol para outra área de atu- ação profissional são praticamente inexistentes. Segundo Souza Júnior (2013), o desalento e a revolta demonstrados pelas atletas em relação às condições nas quais desenvolvem suas carreiras no futebol indicam o reconhecimento de que a ques- tão da profissionalização do futebol de mulheres extrapola os parâmetros pessoais, como o desejo de jogar e a dedicação aos treinamentos e às demais rotinas de atletas. Recorrendo à legislação esportiva que atua de forma solidária com a legislação trabalhista, Souza Júnior (2013) identifica que nenhum dos clubes pes- quisados cumpre com as diretrizes legais, tendo em vista que submetem as atletas de suas equipes às exi- gências previstas como deveres de atletas profissio- nais na Lei Pelé, mas não oferecem a contrapartida que seria a remuneração pactuada por um contrato de trabalho esportivo. 169 EDUCAÇÃO FÍSICA ENSAIO PEDAGÓGICO: FUTEBOL GENE- RIFICADOO futebol generificado, de autoria do Professor Os- mar Moreira de Souza Júnior (2016), consiste em um jogo de futebol ou futsal no qual a quadra/cam- po é dividida basicamente em dois tipos de setores. Os setores defensivos de cada equipe (áreas de meta) e o setor de jogo de enfrentamento entre as equipes (compreendido por todo o espaço restante, ou seja, de uma área de meta até a outra). As equipes são formadas por meninos e me- ninas, sendo que as meninas (cerca de duas na quadra e três ou quatro no campo) jogam apenas na área defensiva, enquanto os meninos (cerca de quatro na quadra e 10 no campo) atuam apenas na área de jogo de enfrentamento. Sobre as linhas de fundo dentro de cada área são colocados alvos (como cones ou garrafas) espalhados em grande quantidade, preferencialmente agrupados em for- ma de pinos de boliche. O objetivo do jogo é derrubar esses alvos que de- verão ser protegidos pelas meninas defensoras ape- nas com os pés. Cada alvo derrubado contará um ponto para a equipe atacante. Quando isso aconte- cer, as defensoras devem repor a bola ao jogo e reor- ganizar os alvos, sendo que caso os adversários con- sigam derrubar novos alvos antes dessa organização os pontos contarão em dobro. Após algum tempo de jogo, algumas regras são alteradas. Passa-se a permitir que as meninas atuem na área de enfrentamento, porém a defesa continua sendo de responsabilidade exclusiva delas, e os pon- tos anotados por elas contam apenas metade dos pontos dos meninos. PESQUISADOR: vocês se consideram profis- sionais do futebol? RE: até hoje me vejo como atleta profissional, [...] a gente tem que tá aqui durante sema- na, tem os treinamentos, é o nosso trabalho, nossa profissão [...]. (Adaptado de Souza Júnior). REFLITA Equipe A Amarelo Equipe B Verde Figura 14 - Representação ilustrativa do jogo de futebol generificado, Eq Fonte: os autores. Após a realização do jogo, promove-se uma roda de conversa na qual é feita uma discussão a respeito da relação existente entre os papéis desempenhados por meninos e meninas no jogo de futebol generificado e os papéis esperados para homens e mulheres na sociedade de maneira geral. Em seguida, devem ser apresentados algumas questões que podem orientar essa discussão na roda de conversa. ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 170 • Como meninos e meninas se sentiram com os papéis que exerceram nesse jogo? • Quais as semelhanças entre os papéis desem- penhados por meninos e meninas no jogo e aqueles desempenhados por homens e mu- lheres na sociedade? • Como poderíamos representar os espaços de jogo do futebol generificado em nossa sociedade? • Como poderíamos relacionar com a nossa sociedade o fato de apenas os meninos faze- rem os pontos e as meninas ficarem restritas a cuidar dos alvos de defesa? • O que simboliza, no jogo, a possibilidade das meninas passarem a sair da área de de- fesa para o jogo de enfrentamento? E o fato delas continuarem a se responsabilizar pela área de defesa? • Como analisar o fato dos pontos das meninas valerem apenas metade dos pontos dos me- ninos frente à participação dos homens e das mulheres no mercado de trabalho? • O que poderíamos propor para que haja uma equidade de gênero tanto no futebol generifi- cado como em nossa sociedade? Espera-se que, a partir dessas questões disparado- ras, apareçam, na discussão, temas como os suge- ridos a seguir: • a atribuição de papéis de protagonismo para os meninos e coadjuvante para as me- ninas no jogo; • a relação desses papéis com os papéis sociais de homem provedor e mulher cuidadora; • a relação dos espaços de jogo com a socieda- de, de maneira que a área de meta ocupada pelas meninas representaria o espaço privado da casa e o restante da quadra ocupado pelos meninos seria o espaço público, especialmen- te o mercado de trabalho; • a relação entre a marcação de gols e os ga- nhos salariais e, por consequência, a valoriza- ção dos homens como provedores; • a relação entre a proteção dos alvos pelas me- ninas e a exigência de reorganizá-los o quan- to antes, com os cuidados domésticos que são exigidos das mulheres; • a relação entre a saída das meninas para a área de jogo com a saída das mulheres para o mer- cado de trabalho, mas acompanhado da dupla ou tripla jornada marcada pela necessidade de ainda cuidar da casa e trabalhar fora de casa; • a desigualdade salarial entre homens e mu- lheres no mercado de trabalho representada pela pontuação das meninas contablilizarem apenas a metade dos pontos dos meninos. Enfim, essas são sugestões que o(a) professor(a) poderá adotar no caso de questões como estas não surgirem de forma espontânea, mas é importante que o(a) professor(a) atue como mediador(a) desse processo de aprendizagem, buscando que os alunos e alunas sejam protagonistas na construção desses conhecimentos. 171 EDUCAÇÃO FÍSICA ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 172 Estimado(a) aluno(a), como último tema seleciona- do para abordar a lógica externa do futebol, tratare- mos do futebol espetacularizado e a forma como ele estabelece relações com os meios de comunicação, como se manifesta a relação entre os clubes de fute- bol e seus torcedores e as manifestações de violência associadas ao futebol. Para compreendermos um pouco sobre o que estamos chamando de futebol espetacularizad,o é necessário que façamos uma breve retomada a res- peito da trajetória histórica dessa modalidade. De acordo com Reis e Escher (2006), alguns es- portes, como o futebol, hoje praticados em todo o mundo, tiveram origem na Inglaterra, na segunda O Futebol Espetacularizado: Mídia, Torcidas, Violência Figura 15 - Estádio como cenário de guerra metade do século XIX. Os jogos ou passatempos ingleses esportivizados nos séculos XIX e XX são classificados como esportes modernos. Entre esses esportes modernos, o futebol requer uma maior atenção, considerando que se transformou no es- porte com maior aceitação entre a grande maioria das nações espalhadas pelos cinco continentes. Em seus primórdios, segundo Franco Júnior (2007), o futebol moderno teria sido praticado por indivíduos da classe média alta, fundadores da Football Association (FA); contudo, logo o esporte conquistou o interior da Inglaterra, atraindo a classe média baixa e, inclusive, o operariado. 173 EDUCAÇÃO FÍSICA Contudo, essa transição de uma matriz eliti- zada para uma matriz popular do futebol não se concretizou de maneira simples e linear. A matriz elitizada, reivindicando para si a origem e a posse do fenômeno esportivo, defendia tal “patrimônio” por meio do discurso do amadorismo. Por outro lado, tornava-se cada vez mais forte o discurso contrário que defendia a profissionalização do fu- tebol, que abriria as portas para a sua apropriação pelas classes trabalhadoras. De acordo com Damo (2007, p. 70), [...] a sociogênese da remuneração dos fute- bolistas corresponde à alegada compensação pecuniária, exigida pelos egressos das classes trabalhadoras, como contrapartida ao tempo dedicado ao esporte e, portanto, ao tempo não trabalhado. Segundo o autor, esse seria o argumento oficial sus- tentado pelos defensores do profissionalismo, que buscavam a legalização do pagamento dos salários, em contraposição aos adeptos do amadorismo, que re- pudiavam a associação de dinheiro à prática esportiva com a mesma intensidade que repudiavam a aproxima- ção dos trabalhadores aos esportes praticados pela elite. O amadorismo, como ideologia elitista, respon- sável pela ideologização do conceito de fair play, teve suas bases esgarçadas pelo processo de popu- larização dos esportes. Características como o auto- controle e o refinamento das atitudes – sensibilida- des evocadas pelo amadorismo, estranhas às classes trabalhadoras – não impediram que o proletariado aderisse ao processo de esportivização, aproprian- do-se à sua forma, principalmente do futebol, en- contrando nos clubes um espaço de sociabilidadee pertencimento que cumpria o papel de massificar as emoções à flor da pele (DAMO, 2007). Com o passar do tempo, multidões mostravam-se dispostas a pagar para assistir aos jogos das equipes de suas cidades. Comerciantes passaram a destinar recur- sos para financiar clubes, e os jogadores mais hábeis foram convidados a trocar seus clubes por rivais, que acenaram com ofertas de emprego mais vantajosas. A elite dirigente, que tratava o futebol como lazer educativo, combatia a configuração daquilo que se convencionou chamar de profissionalismo marrom (FRANCO JÚNIOR, 2007). Dunning e Sheard (apud DAMO, 2007) entendem que essa relutância à intro- dução da remuneração no esporte decorreria menos de uma questão moral, própria ao ethos amador, e mais de uma estratégia para manter os membros das classes trabalhadoras afastados de certos circuitos de sociabilidade. Indiretamente, a adesão ao amado- rismo limitava o acesso dos operários, pois eles não dispunham de tempo para treinos, jogos e viagens; privilégios garantidos aos jovens da elite cujo ingres- so no mercado de trabalho poderia ser retardado ou conciliado com suas práticas de lazer. Reis e Escher (2006) afirmam que o grande avanço do futebol na sua popularização pelo mundo afora está diretamente relacionado à sua profissio- nalização, que ocorreu inicialmente na Inglaterra, a partir de 1885. No Brasil, sua profissionalização deu-se em 1933, fato que contribuiu muito para o interesse do público, já que, com a dedicação ex- clusiva aos treinamentos, os jogadores tornaram-se mais habilidosos e as equipes mais atrativas. Franco Júnior (2007) afirma que o imperialis- mo inglês, além de exportar uma série de produtos industriais e de serviços, difundia fenômenos so- ciais e culturais, mesmo sem premeditação, sendo que a origem inglesa traduzia-se na chancela que conferia ares de modernidade a essas práticas, in- cluindo-se, neste rol, o futebol. Desse modo, no fi- ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 174 nal do século XIX e início do século XX, o futebol moderno, gerado na Inglaterra, espalhava-se pelo mundo afora, constituindo clubes, ligas, federações e competições, inicialmente, em âmbito nacional e, posteriormente, internacional. O futebol era, às vezes, como reforça Franco Jú- nior (2007), “transplantado” por ingleses que traba- lhavam ou estudavam no exterior, e outras vezes por pessoas que iam estudar na Inglaterra e, na volta, in- troduziam o futebol em seus países de origem. De acordo com Franco Júnior (2007), a intro- dução do futebol no Brasil apresenta aspectos rela- tivamente semelhantes à sua origem na Inglaterra. De acordo com o autor, por aqui também a elite se apresentou como criadora e organizadora da moda- lidade, sendo sua introdução, apesar das controvér- sias, atribuída ao paulistano Charles William Miller, filho de um engenheiro escocês radicado no Brasil. Enviado à Inglaterra aos nove anos para comple- tar seus estudos, Miller conheceu o futebol, que, na- quele país, já fazia parte da rotina das public schools, e, em 1894, retornou trazendo em sua bagagem dois uniformes, um livro de regras, um par de chuteiras, duas bolas e uma bomba de ar. O objetivo do jovem era o de difundir o futebol entre seus pares. Para tanto, promoveu, em 1895, aquele que é considerado por muitos como o primeiro “jogo oficial” de futebol em terras brasileiras, realizado na várzea do Carmo, entre sócios do São Paulo Athletic Club e funcioná- rios da São Paulo Railway Company. Miller era liga- do as duas equipes (sócio da primeira e funcionário da segunda), disputando a partida pela segunda, que venceu por 4 a 2 (FRANCO JÚNIOR, 2007). O autor adverte para se ter cautela ao circuns- crever a origem do futebol brasileiro a esse even- to, lembrando que o país tem a tradição de eleger como protagonistas de sua história personalidades provenientes da elite. Nesse sentido, lembra, ainda, que existem relatos de jogos de futebol em colégios confessionais e laicos de São Paulo, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul, desde a década de 80, bem como notícias de que marinheiros ingleses teriam jogado futebol nas praias brasileiras em seus dias de folga, até antes desta data, portanto, bem antes de Miller ter voltado da Inglaterra. A partir de então, sua implantação ocorreu de maneira bastante acelerada. Os primeiros clubes de futebol surgiram em São Paulo, ao final do século XIX, organizados pela colônia inglesa ligada às com- panhias de gás, ferrovias e bancos da Inglaterra ins- talados no Brasil. Em seguida, surgiram clubes de brasileiros, inicialmente nas camadas altas e, poste- riormente, nas médias da sociedade (BETTI, 1997). O futebol praticado pela classe alta conservou seu caráter puramente amador, condizente com sua origem aristocrática inglesa. Lentamente as classes mais baixas puderam ter contato com o nobre espor- te bretão por meio das famosas “peladas”, nas quais os meninos pobres, sobretudo os negros e mulatos, que não iam à escola, desenvolviam suas habilidades neste novo esporte. Damo (2007) entende que as “peladas” con- figuram-se em uma manifestação da moda- lidade que classifica como futebol bricolado, caracterizado pela flexibilidade ou distorções em relação ao football association, que pode- ria também ser classificado como futebol de improviso ou informal. Fonte: Damo (2007). SAIBA MAIS 175 EDUCAÇÃO FÍSICA A popularidade do futebol, que atraía um público crescente e o status de importância dos clubes, que concentrava interesses financeiros cada vez maiores, dependiam do desempenho de suas equipes futebo- lísticas. Para tal, foi necessário recrutar jogadores das camadas mais baixas, nas quais havia jogadores talentosos que praticavam o futebol com dedicação e nele viam um canal de ascensão social. De acordo com Reis (2006), o futebol como es- petáculo é originário de seu processo de esportiviza- ção, na medida em que o interesse pela assistência ao futebol na Inglaterra acompanhou o seu desenvolvi- mento, provocando a cobrança de ingressos para as partidas já nas últimas duas décadas do século XIX. A partir do momento em que existia um público disposto a pagar para assistir a um jogo e jogado- res com dedicação integral, abriu-se o caminho ao profissionalismo. Embora este demore mais de três décadas para ser gestado após sua introdução no Brasil, de acordo com Reis (2006), o futebol já chega ao país em sua versão espetacularizada. Para Reis (2006), a profissionalização do futebol na Inglaterra, em 1885, e no Brasil, a partir de 1933, contribuiu muito para o aumento do interesse do público, visto que com a dedicação integral os jo- gadores tornaram-se mais habilidosos e as equipes mais atrativas. A estética do futebol inglês, que ga- rantiria os elementos para que este se profissionali- zasse, foi gestada pela população desempregada do país que, com grande disponibilidade de tempo, in- corporou ao futebol novas formas, estas mais habili- dosas e atraentes. Já a elite inglesa passou a afastar-se do futebol sob o argumento de que não aceitava os novos valores vinculados ao futebol que não os do amadorismo. Configurava-se, desse modo, uma dis- puta de classes dissimulada por uma transição entre o ethos amador e o ethos profissional. Ao analisar a matriz espetacularizada do fute- bol, Damo (2007) admite que o primeiro ponto a ser considerado na distinção dessa matriz em re- lação a outras, como a escolar ou a comunitária, por exemplo, diz respeito ao fato da primeira ser caracterizada pela presença do público. O públi- co, aliás, frequenta os jogos por razões claramente definidas, que não se referem à possibilidade de apreciar uma exibição de alto refinamento técnico por parte dos jogadores apenas. Na realidade, para muitos isso é o que menos importa. O torcedor está ali porque seu time de coração está em campo. Conforme revela o autor: [...] se a vitória for coroada por muitos gols e lances excepcionais, tanto melhor, masnão é isso que move o público futebolístico. Tampou- co é a vitória pura e simples que interessa aos torcedores. O que cativa é o drama inerente à possibilidade de ganhar e perder junto com o time vinculado ao clube que representa uma comunidade afetiva. Se quisermos entender por que um jogo pode vir a ser um drama para certos indivíduos e uma banalidade para ou- tros, será preciso compreender os investimen- tos emocionais em torno das disputas futebo- lísticas (DAMO, 2007, p. 49). De acordo com Souza Júnior (2013), a chave in- terpretativa para esse dilema parece localizar-se no vínculo identitário próprio ao futebol espetáculo, que Damo (2007) classifica como pertencimento clubístico, ou simplesmente “clubismo”. Trata-se da constituição dos clubes – que em sua origem restringiam-se a espaços de sociabilidade – em ob- jetos de admiração, orgulho e devoção, evocando sentimentos de pertencimento que representam uma modalidade de investimento emocional, que é passado entre as gerações, instituindo um com- ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 176 plexo sistema de afinidades e rivalidades. Essa mo- dalidade de engajamento emocional configura-se em um dos principais ingredientes da espetacu- laridade do futebol, carregando de dramaticidade o ato de torcer, que assume a dimensão da trans- cendência do indivíduo, que passa a se reconhecer como membro de uma coletividade, que deposita no clube seus anseios, outorgando-lhe a legitimi- dade para lhe representar. Ao discutir a mercadorização dos jogadores de futebol, Damo (2007) afirma que a sociogêne- se da esportivização foi marcada pela codificação dos jogos, visando restringir a violência, ampliar o campo de disputas e demarcar as diferenças entre os esportes. Já a espetacularização e a profissionali- zação foram movimentos subsequentes, matizados pelas especificidades nacionais, regionais e locais. O autor admite, ainda, que a espetacularização do esporte, especialmente do futebol, é indissociável da espetacularização da própria sociedade ociden- tal, marcada pelo advento do aumento do tempo livre, da laicização, da urbanização e da emergência do consumo em larga escala. Assim, podemos assumir que a espetaculariza- ção do futebol teria sido um importante ingredien- te que pavimentou o caminho rumo ao processo de profissionalização da modalidade. A esse respeito, Damo (2007) sustenta que o clubismo seria um ele- mento imprescindível para se entender a autono- mização da profissão de futebolista, uma vez que proporcionou um aumento do aporte financeiro nos clubes, permitindo a consolidação de uma base patrimonial e o investimento na formação e no re- crutamento de atletas. O PAPEL DO TORCEDOR NO FUTEBOL ESPETACULARIZADO O sentimento de pertencimento a um coletivo que se identifica com um clube, segundo Damo (2007), é um dos principais ingredientes do processo de es- petacularização do futebol. Uma parte considerável das emoções experimentadas nos jogos é conferida pelo fato do sujeito se reconhecer como membro de uma coletividade que o transcende. Alex, em entrevista disponível no youtube, fala sobre a CBF : “Só acho que a CBF (Confederação brasileira de futebol) não tem uma interferência no futebol tão grande. A CBF cuida da Seleção brasileira, quem cuida do futebol brasileiro é a Globo (rede de televisão). A Globo é quem coman- da. A gente joga bola às dez horas da noite. A gente brinca (os jogadores de futebol) que o negócio da globo é a novela! Eu brinco com os caras aqui (outros jogadores), que o jogo de quarta feira é depois do último beijo da novela, é que então vai entrar lá o narrador que tiver trabalhando. A CBF para os clubes brasileiros, a posição dela na verdade é só uma sala de reuniões, está lá como salão de reuniões”. Fonte: youtube (on-line)10. SAIBA MAIS Figura 16 - Torcedores apoiando seu clube em estádio 177 EDUCAÇÃO FÍSICA tencimento que ainda restam ao cidadão brasileiro, principalmente o de baixa renda que vive nas gran- des metrópoles. A hipótese do autor é de que talvez o clube para o qual o indivíduo torça represente uma das poucas possibilidades de sucesso em sua vida. Além disso, o futebol oferece a possibilidade de catalisar expe- riências de igualdade que se manifestam quase que exclusivamente naquele ambiente. Para torcer por uma equipe não é necessário ter renda mínima, grau de instrução ou emprego fixo. Basta ter amor ao time. Não importa se o meio de transporte para se chegar ao estádio foi o carro próprio ou o ônibus superlotado. Lá den- tro, todos têm a mesma função e o mesmo dese- jo: a vitória de seu time (DAOLIO, 2003, p. 175). O FUTEBOL ESPETACULARIZADO E SUAS RELAÇÕES COM A VIOLÊNCIA Heloisa Reis (2006) também discute, em sua obra Futebol e violência, o ato de torcer. Para a autora, desde a infância somos mobilizados pela paixão clu- bística. Torcer por um clube torna-se uma herança familiar para muitos de nós, em geral transmitida pelos pais, em especial aos filhos homens. Reis (2006) defende a tese de que o futebol já chega ao Brasil em sua versão espetacularizada, vis- to que desde as últimas décadas do século XIX já era corrente na Inglaterra a cobrança de ingressos nos jogos, bem como a consolidação de um público cati- vo para esses jogos, conferindo-lhes a caracterização de um espetáculo. Já no século XXI, o esporte moderno caracteri- za-se por ser uma prática altamente especializada, burocratizada e qualificada, voltada para uma ten- dência obstinada à busca do recorde e da melhoria Segundo Daolio (2003), as emoções vividas pelo torcedor no estádio podem ser comparadas a suas emoções cotidianas. Para o torcedor, uma derrota de seu clube por goleada é uma vivência de humilha- ção; a marcação de um gol pode ser comparada ao gozo, ao sentimento de prazer; o “frango” do goleiro causa vergonha ao torcedor; um gol marcado nos acréscimos de uma partida faz esse torcedor expres- sar sua fé divina; vencer um jogo de virada remete ao sentimento de vingança; a derrota que é atribuída à atuação da arbitragem gera o sentimento de ódio. Daolio (2003) afirma ainda que, se por um lado o futebol possibilita ao torcedor a expressão de sentimentos cotidianos, em contrapartida existem sentimentos e comportamentos que ganham legiti- midade apenas nos estádios de futebol ou em am- bientes a eles relacionados (bares e sedes de torcidas organizadas, por exemplo) e que seriam conside- rados descontextualizados fora desses espaços. Os xingamentos direcionados a jogadores e torcedores da equipe adversária ou à arbitragem são exemplos desse tipo de comportamento. O autor lembra situações como o convívio mais próximo entre pessoas de diferentes classes sociais e etnias que o ato de torcer possibilita, em detrimen- to das relações cotidianas demarcadas por barreiras claras ou implícitas, ou o comportamento de choro de homens, tido como sinal de fraqueza ou de que- bra da “masculinidade”, que nos estádios passa a ser legítimo tanto nas vitórias como nas derrotas do clu- be de coração. Sobre a questão da violência, Daolio (2003) entende que o futebol torna-se um espaço de ritu- alização da violência que não pode ser expressada na vida diária. Havendo, portanto, uma “permissão cultural” para a violência nos estádios. O clube de futebol torna-se uma das poucas vivências de per- ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 178 de resultados. “A vitória já não é suficientemente satisfatória; além de vencer, é necessário quebrar recordes” (REIS, 2006, p. 11). As características apontadas, segundo a autora, demonstram uma relação muito próxima entre o es- porte e a sociedade industrial globalizada, especial- mente no que tange às características da racionaliza- ção social e econômica, da centralização da ciência e da tecnologia, do apogeu dos meios de comunicação de massa, com a concomitante revolução tecnológi- ca que vivemos atualmente. O futebol destaca-se como uma das principais atividades de lazeresportivo no século XX, tendo esse sucesso estreita ligação com os investimentos do meios de comunicação para convertê-lo em eixo da informação esportiva, visando a captação de clientes. Reis (2006) afirma que uma certa dose de vio- lência sempre esteve presente no universo de fute- bol, tanto nos gramados como nas arquibancadas. O futebol foi criado sob valores de masculinidade, valores que colocavam em relevo expressões, como a virilidade, a força e a sobrepujança. Embora tal con- figuração remonte à sociedade europeia da segunda metade do século XIX, em sociedades como as nos- sas, patriarcais, caracterizadas pelo predomínio de valores de masculinidade, o futebol encontrou um terreno fértil para solidificar-se e render muitos di- videndos ao capital. As raízes da violência relacionada ao futebol es- tão na sociedade brasileira. Desde a sociabilidade primária, passando pela juventude e vida adulta, é possível identificar tendências a manifestações mais agressivas e violentas ou apáticas nos indivíduos de uma maneira geral. As sociedades mais desenvolvidas conseguem lidar de forma relativamente satisfatória em relação às regras sociais, nas quais indivíduos com alto grau de agressividade, que colocam em risco a integri- dade de pessoas e bens materiais, são punidos ou hospitalizados (REIS, 2006). Já no Brasil, a autora considera que o sistema judiciário não possui a credibilidade necessária e desejada, e os trâmites legais são marcados pela mo- rosidade, deixando livres pessoas que deveriam es- tar sob custódia da justiça. O quadro estrutural da sociedade brasileira, portanto, contribui para que tenhamos indivíduos frustrados, desiludidos, que podem expressar seus sentimentos de forma agres- siva (REIS, 2006). Se o futebol é um espaço de reduto mascu- lino, a necessidade de vivência e de repro- dução da masculinidade sem dúvida é a raiz explicativa do hooliganismo e da violência no futebol. Isso é um traço comum em todos os países nos quais o futebol se tornou um dos esportes mais populares. Temos então como raiz a questão da produção e reprodução da masculinidade em redutos masculinos, ainda mais em eventos de massa. Fonte: Ludopédio (2011, on-line)11. SAIBA MAIS A violência do torcedor de futebol também se rela- ciona diretamente com a formação dos indivíduos e com o entorno social no qual vivem. É possível iden- tificar variados tipos de violência, dentre os quais a autora destaca a violência racional, que se caracteri- za pela intenção premeditada de indivíduos e gru- pos em realizar confrontos violentos, planejando a forma de agredir o rival. Normalmente, segundo Reis (2006), a violência com agressões físicas ocorre precedida de agressões de violência simbólica. 179 EDUCAÇÃO FÍSICA Segundo Reis (2006), a participação de jovens em grupos que protagonizam episódios violentos, vin- culadas à identificação desses jovens com clubes de futebol, estão diretamente ligadas à construção de sua identidade. Essa é o que possibilita que o indi- víduo reconheça suas ideias e seus desejos, sendo capaz de estabelecer um limite entre sua individuali- dade e o seu entorno. O sentimento de identidade tem de ser sólido para que, em situações de incerteza ou de re- chaço, a pessoa seja capaz de manter seus cri- térios e seu comportamento, modificando-se somente por convicção e não por medo (REIS, 2006, p. 40). A identificação simbólica que existe na cultura es- portiva está diretamente relacionada com as relações agressivas dos aficcionados por futebol. Essa iden- tificação pode levar indivíduos que não têm uma identidade própria a não identificar os limites entre sua vida pessoal e seu clube de coração, ou entre sua vida e a vida de um jogador idolatrado, fazendo com que viva suas emoções por meio de acontecimentos esportivos relacionados às vitórias e às derrotas de seu clube (REIS, 2006). Para Reis (2006), a probabilidade de uma pes- soa se transformar em um torcedor fanático tem relação íntima com a construção de sua identidade. Nesse sentido, torna-se imprescindível o desenvol- vimento de relações e valores próprios que o au- xiliarão a delinear o limite entre ele e seu clube e entre ele e seus ídolos. O FUTEBOL ESPETACULARIZADO E OS MEIOS DE COMUNICAÇÃO De acordo com Escher (2007), a expansão do fute- bol e sua espetacularização mantém forte ligação com os meios de comunicação, sendo tal ligação expressa pela aliança entre futebol e espetáculo no estádio, no rádio, no noticiário e, mais recentemen- te, na televisão. O futebol não teria o desenvolvimento avas- salador que tomou forma em sua história, se não fosse sua aproximação primeiramente com os jornais impressos, com o imaginário do rá- dio pós-década de 20 e, principalmente, com a expansão das transmissões televisivas a partir da década de 70. Para Escher (2007), a forma de apreciar o futebol modificou-se de maneira abrupta com o advento das transmissões televisivas. A imagem do jogo aproxi- ma-se do (tel)espectador. Os grandes craques ficam mais próximos. O imaginário dos torcedores modifica-se radicalmente. Acostumados a acompanhar o futebol pelas notícias do jornal ou pelas locuções no rádio, ou então a terem de ir aos estádios para ver seus ídolos, a televisão transforma o modo de acompanhar o futebol (ESCHER, 2007, p. 40). Figura 17 - Episódio de violência em estádio de futebol ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 180 Segundo Escher (2007), a relação intensa entre fu- tebol e televisão, principalmente a partir da década de 90, quando as cotas televisivas passaram a figurar como principal fonte de renda dos clubes, transfor- ma o futebol em espetáculo essencialmente televisi- vo no Brasil. O autor admite que o modelo atual de nosso futebol está diretamente delineado pela pre- sença da televisão. O autor chama atenção para o fato de que não existe uma transposição direta entre as emoções vi- venciadas em um estádio de futebol e a experiência de assistir ao mesmo jogo pela televisão. Embora as emissoras de TV tentem nos convencer do contrá- rio, repercutindo a mensagem de que vão fazer o te- lespectador se sentir dentro de um estádio, essas são emoções completamente distintas. Existe uma falsa tentativa de convencer o torce- dor de que as câmeras televisivas estariam reprodu- zindo a sensação do olho humano. Porém, isso é im- possível, pois quem assiste ao jogo dentro do estádio consegue uma visão de totalidade e não apenas da parte que as emissoras selecionam para exibir como se fosse o todo. O olho humano é falho, limitado, simplificado, ao passo que a câmera seria vista como infalível, sendo a certeza da verdade, o indubitável. A câmera não ape- nas elucida nossas dúvidas, ela é a verdade absoluta. Quem assiste a um jogo pela TV só sai com certezas, o gol realmente valeu, o jogador com certeza estava impedido, a falta foi clara, as câ- meras mostraram tudo, não tem como discutir (ESCHER; REIS, 2005, p. 28-29). Segundo Escher e Reis (2005), é como se o que ocor- re na televisão fosse a realidade e aquilo que ocor- re dentro do estádio, visto pelos olhos do torcedor, fosse o virtual, o falso, o questionável, que carece de atestação por meio das imagens televisivas que lhe conferem legitimidade. “O torcedor sai do es- tádio com dúvidas sobre o impedimento, sobre o gol legítimo e com vontade de assistir aos melhores momentos da partida em casa pela TV” (ESCHER; REIS, 2005, p. 29). Escher (2007) afirma que os torcedores frequen- tadores dos estádios vivenciam, observam e anali- sam um futebol distinto daquele que é transmitido e comentado exaustivamente pela televisão. Segundo ele, são dois mundos completamente distintos. Aqueles que possuem apenas conhecimento do futebol a partir da televisão estão propensos a tor- narem-se reféns das imagens televisivas, pré-selecio- nadas e pré-digeridas, bem como das intermináveis discussões que se multiplicam pelos programas es- portivos, as “falações” esportivas que seprestam a discutir, interpretar e analisar o jogo pelos telespec- tadores (ESCHER, 2007). Escher (2007) conclui que a assistência do fu- tebol por meio da televisão possui diferenças subs- tanciais em relação à assistência do futebol em estádios. A forma descontextualizada e fragmenta- da do futebol apresentada pela televisão cria uma nova realidade ao universo do futebol, realidade essa mais individualista e comprometida com a ló- gica do mercado. 181 EDUCAÇÃO FÍSICA ENSAIO PEDAGÓGICO: FUTEBOL ESPE- TACULARIZADO Este ensaio pedagógico inicia-se com uma roda de conversa com as alunas e alunos, no sentido de pro- blematizar os sentidos e significados veiculados pe- los meios de comunicação na cobertura dos jogos de futebol. Para esse fim, sugerimos algumas questões orientadoras e algumas possibilidades de mediação da discussão para o professor. Questões orientadoras: Ao assistir a uma partida de qualquer modalidade esportiva pela TV, podemos afirmar que teremos uma reprodução fiel daquele jogo, como se estivés- semos no estádio ou ginásio? Por quê? Alguém já acompanhou uma partida de futebol pelo rádio? O que achou da experiência? Ouvir o jogo pelo rádio, assistir ao jogo pela TV e assistir ao jogo ao vivo são experiência distintas em quais sentidos? O discur- so dos narradores e comentaristas esportivos possui intencionalidades ou mantém uma neutralidade dis- cursiva? Quais as implicações dessa situação para o espectador que recebe esse discurso? Sugestão de mediação do professor/treinador: Refletir com os alunos sobre o fato da transmissão dos jogos constituírem-se em um recorte possível do jogo em si, na medida em que existe uma espécie de “editoração do jogo”, na medida em que as emisso- ras escolhem o que e como exibir e omitir durante o jogo, os planos de exibição, a ênfase em determi- nados aspectos nas narrações e comentários, dentre outros aspectos, tornando a experiência de assistir ao jogo relativamente condicionada por esses parâ- metros. Cabe refletir, ainda, sobre as linguagens bas- tante distintas entre o rádio e a televisão, dadas pelo fato do rádio ter o desafio de criar no seu ouvinte uma interpretação daquilo que estaria acontecendo no campo, sem o auxílio do suporte visual, ao passo que a televisão possui o desafio de não ser tão óbvia em sua narrativa, na medida em que o espectador está munido pelas imagens. Como consequência te- mos uma narrativa mais detalhada, rápida e marca- da pelas ações do jogo no rádio em oposição a uma narrativa mais lenta, pausada e marcada por comen- tários acessórios na televisão. Para enriquecer o tratamento didático dessa discussão, o professor pode preparar a aula levando para os alunos um trecho da narração de um jogo pelo rádio, da transmissão desse mesmo jogo (se possível) pela TV e uma ou mais matérias jornalísti- cas sobre esse jogo. A ideia seria apresentar tais frag- mentos, para alimentar a discussão a respeito das distintas narrativas sobre jogo e como elas propor- cionam diferentes sentidos e experiências em seus receptores. Um outro vídeo engraçado e ilustrativo para balizar essa análise é o da participação do hu- morista Marcelo Adnet no evento de premiação dos destaques do Campeonato Brasileiro de 2010, onde ele apresenta, de forma hilária e muito fidedigna, como seria a narração de um mesmo lance de um jogo de futebol no rádio e na televisão. O link do vídeo se encontra nos materiais complementares - web, desta unidade. ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 182 Vivência do jogo de futsal com cobertura midiáti- ca: a turma será dividida de forma a cumprir uma série de papéis. Um grupo irá participar como jo- gador em uma partida de futsal, com jogadores ti- tulares, alguns reservas e treinadores, além de uma dupla de árbitros e um ou dois mesários. Haverá também as equipes de imprensa e os espectadores. Dois ou três alunos farão a cobertura jornalística do jogo, para isso eles irão escrever um texto sobre o jogo, podendo utilizar fotos tiradas na partida e entrevistar jogadores, treinadores e árbitros para ilustrar a matéria. Uma dupla ou trio fará a cober- tura do jogo por rádio, sendo um narrador e ou- tro(s) comentarista(s); juntamente com esse grupo, haverá um grupo de alunos que serão os espectado- res do rádio, ou seja, não poderão assistir ao jogo, ficarão de costas ou atrás de algum tipo de antepa- ro que os impeça de visualizar a partida, ficando apenas ouvindo a narração e os comentários dos colegas. Dependendo do tamanho da turma, pode- -se incluir um grupo de torcedores de cada equipe que assistirão à partida presencialmente e até uma outra equipe que fará a cobertura de TV, filmando o jogo por celular ou outro meio (filmadora), com narrador e comentarista, para que todos possam assistir a essa transmissão após o término da parti- da. É importante que os alunos tenham um tempo para preparar a cobertura midiática, criando jar- gões, identificando pelos nomes todos os jogadore e os nomes das equipes excluídos pelos integrantes de cada uma delas. Roda de conversa pós-jogo: após a realização do jogo de futsal com cobertura midiática, é impor- tante realizar uma discussão com a turma, partin- do dos depoimentos das pessoas que assumiram os diferentes papéis, para expressarem seus pontos de vista em relação aos sentidos que o jogo assu- me para cada um desses emissores e receptores do “espetáculo”. Antes ou após esses depoimentos, vale à pena pedir para que o grupo que escreveu a matéria jornalística apresente seu texto para a turma, assim como o grupo da TV faça a exibi- ção de sua gravação com narração e comentários. Após os depoimentos e as exibições das cobertu- ras do jogo, o professor pode mediar essa discus- são, com provocações como: “Podemos dizer que temos um mesmo jogo na perspectiva de quem jogou, de quem ouviu, de quem narrou, de quem comentou, de quem assistiu, de quem torceu ou de quem escreveu uma matéria?”; “Quando a câme- ra escolhe mostrar um lance do jogo e não outro, repetir exaustivamente uma jogada, ou optar por um plano mais aberto no campo todo ou por um close no jogador com a posse da bola, ou quando o narrador e o comentarista optam por destacar as virtudes de determinado jogador ou equipe, ou por apontar as deficiências destes, fica evidente que se escolhe uma dentre inúmeras possibilidades de se contar a história do jogo. Qual o impacto disso na formação de opinião dos espectadores e como estes podem se comportar para não se tornarem reféns do discurso midiático?”. 183 considerações finais Querido(a) aluno(a), ao final dessa nossa Unidade IV, acreditamos que a men- sagem mais importante, a que deverá te acompanhar em suas futuras ações, fala e, mais que isso, deverá estar incorporada contigo, é que ensinar futebol está e estará sempre para muito além do ensinar a jogar. A lógica externa do futebol normalmente causa fascínio e surpresa, tamanha a dimensão que tem. Ela compreende as questões que permeiam o futebol, mas, além disso, ela toca em questões que tornam permissivas a prática desse esporte que, metaforicamente e materialmente, tão bem representa a humanidade em seus dilemas, evolução e conflitos. Obviamente que o futebol, não pode ocupar nem tampouco substituir a ri- queza das aulas de história, geografia, filosofia, sociologia, artes etc., de mesmo modo que apenas um auxiliar no âmbito educacional. Quando falamos de jogos e esportes, estamos falando de fenômenos presentes desde os primórdios da hu- manidade. Assim sendo, a utilização do futebol como ferramenta educativa para além do próprio jogo que fornece aprendizados pelo movimento, a compreensão do movimento, a intenção deste, onde esteve, porque esteve, se não esteve nutre os educadores de informações e, por esperada consequência, os(as) alunos(as) de conhecimentos a serem ressignificados em suas vidas. Se alcançamos nesta unidade, junto com você, aluno(a), fazer com que com- preenda no que implicaas relações existentes entre futebol e mundo, e que o futebol está para muito além de um simples jogo de onze contra onze (ou que o futebol também está para a mais alta complexidade de um jogo de onze contra onze), temos o sinal de que nosso objetivo enquanto Unidade está cumprido. Vamos para os acréscimos de nossa corrida pelos campos e fora deles? Dizem que as mais fortes emoções estão guardadas para o final. Convidamos a ir conos- co neste desafio! Sigamos então, até porque o jogo só termina quando o árbitro apita seu final. 184 LEITURA COMPLEMENTAR O futebol, indiscutivelmente, faz parte da vida dos brasileiros. Pode-se dizer que esse esporte atravessa, de alguma forma, a vida da maioria das pessoas no país, à medida que muitos o praticam semanalmente ou o consomem por meio dos meios de comu- nicação (televisão, rádio, jornal, internet, entre outros) ou se deslocando aos estádios para torcer pelo seu clube do coração. Mesmo aqueles que não gostam do esporte (con)vivem com pessoas – pais, filhos(as), namorados(as), colegas de trabalhos etc., que dedicam tempo para acompanhar esse fenômeno. Nesse “caldo cultural” é grande o número de meninos e, cada vez mais, meninas que sonham em ser jogadores de futebol e obter, assim, sucesso profissional. Essa projeção de futuro “[...] é muito frequente, principalmente nas classes populares, que veem no esporte uma das únicas possibilidades de ascensão na vida” (KUNZ, 2003, p. 45). Como ressaltam Marques e Samulski (2009, p. 103), o futebol “[...] é visto como uma oportuni- dade de ascensão social e profissional para jovens oriundos de famílias de baixa renda”. Isso não significa que o futebol seja exclusivamente um esporte da classe popular, mas a valorização da profissão se dá em proporções diferentes nas classes sociais. Damo (2005), em sua pesquisa, constatou que, entre escolares porto-alegrenses, ser jogador de futebol está entre as profissões mais prestigiadas, entretanto, a preferência dos alu- nos da rede pública é maior quando comparada aos discentes da rede particular. Nessa linha, Souza et al. (2008, p. 107) refletem que: [...] a escola pública talvez não represente uma experiência que ofereça con- dições reais para a ascensão social e econômica. Sem perspectiva de ingres- sar em uma universidade ou curso técnico de prestígio como os oferecidos pelas Escolas Técnicas Federais, resta aos jovens homens sonharem com ou- tras possibilidades. Nessa perspectiva, muitos meninos procuram entrar no universo futebolístico e en- xergam nos clubes uma possibilidade concreta de realizar esse sonho. De acordo com Amaral, Thiengo e Oliveira (2007, p. 1), esse desejo também é influenciado pela “[...] mídia esportiva, que enfatiza principalmente o lado ‘positivo’ da profissão, destacando o sucesso de alguns dos nossos principais jogadores”. Segundo os mesmos autores, esse fato “[...] faz com que muitos jovens, seduzidos por uma vida social de status e independência financeira e incentivados por seus pais, visualizem a carreira de jogador de futebol profissional como uma das mais promissoras” (p. 1). 185 LEITURA COMPLEMENTAR A maioria dos que conseguem permanecer por algum tempo nesse mundo (categorias juvenil e juniores) parece depositar no desejo de chegar a um time grande todas as suas expectativas e, por isso, direcionam os seus esforços para alcançar o objetivo de viver dessa profissão. Quando isso acontece, coloca-se em jogo, além do sonho e da vontade, um potencial abandono de outros investimentos sociais (estudos, formação profissional, experiência laboral) que se realizam majoritariamente na juventude. Logo, os jovens apos- tam tudo nessa aspiração e não acreditam em outra possibilidade a não ser tornar-se jogador de futebol profissional. De acordo com Alcântara (2006), uma das frases mais ditas entre meninos de 12 a 16 anos de idade no Brasil é: “Vou ser jogador de futebol profis- sional” e alguns efetivamente arriscam seu futuro para fazer do dito uma aposta de vida. No entanto, o que se observa é que um grande número desses atletas, que idealizam ser jogadores profissionais de futebol, não conseguem o objetivo de manter-se ou sequer chegam a atuar em uma grande equipe. Estima-se que um percentual muito baixo (cerca de 3,5%) de atletas federados consegue fazer parte da elite do futebol brasileiro. De acor- do com Tega (2014), a cada 3 mil crianças que entram nas categorias de base de um clube esportivo, apenas uma jogará futebol profissionalmente. Nessa lógica, a cada 300 mil crianças e jovens que têm a pretensão de serem jogadores de futebol, apenas 100 terão êxito. Desses jogadores, o referido autor faz a seguinte projeção: 15% estarão desempre- gados, 70% ganharão de 1 a 5 salários mínimos, 10% receberão entre 5 e 20 salários e apenas 5% terão remuneração superior a 20 salários. Com base nessa perspectiva, o au- tor conclui que o futebol tem gerado imensamente mais frustrações do que realizações. Neste contexto, tem um grupo jogadores que se convertem em atletas “profissionais”, no entanto, não alcançam um lugar nos grandes clubes e passam a circular em equi- pes menos estruturadas do futebol brasileiro, convivendo com realidades de: baixos salários, falta de estabilidade profissional, condições precárias para treinar e exercer sua profissão. Essas circunstâncias, muitas vezes, influenciam o abandono da carreira esportiva e fragilizam o processo de transição para uma vida de não atleta. A respeito deste tema, Brandão et al. (2000) apontam que as transições são intrínsecas à carreira esportiva. Pois, o atleta, durante sua trajetória, passa por diferentes estágios, cada um com suas exigências, requerendo ajustamentos nas esferas ocupacionais, financeiras, sociais e psicológicas. O abandono da profissão faz parte dessas transições e, como todas as outras, necessita ser realizado com sucesso para não comprometer a vida dos sujeitos. Fonte: González et al. (2015). 186 atividades de estudo 1. O futebolista Paulo André, em seu livro, con- testa a forma como são administradas as cate- gorias de base dos clubes de futebol no Brasil. Qual das alternativas a seguir indica a críti- ca tecida por Paulo André?. a. Os clubes pagam salários muito baixos para os atletas das categorias de base. b. As instalações dos centros de treinamento são inadequadas para um trabalho de qualidade. c. Os profissionais que trabalham nas categorias de base não possuem formação adequada. d. Os jovens das categorias de base não se de- dicam de forma adequada aos treinamentos. e. Os jovens são alojados desde muito cedo nos centros de treinamento não tendo uma for- mação para além do futebol. 2. A partir da compreensão da ideologia do “dom de jogar bola” tratada no Tópico 2 desta unida- de, assinale Verdadeiro (V) ou Falso (F) nas sentenças a seguir. ( ) Alguns jovens foram abençoados com o dom para jogar futebol e obterão maior sucesso na profissão do que outros. ( ) Um dos principais problemas em se assumir o dom como dádiva divina é desconsiderar o treinamento e os estímulos recebidos. ( ) Se a criança não possui o dom para o futebol é im- possível que se desenvolva adequadamente nas es- colinhas de futebol. ( ) Mesmo os prodígios infantis, que apresentam uma precocidade quase inexplicável, na realidade con- centram quantidades significativas de prática em seu curto período de vida. 3. O movimento denominado de Democracia Co- rinthiana teve como principal objetivo: Assinale a alternativa correta: a. Resgatar o futebol arte que havia sido perdido no Corinthians. b. Instituir um modelo de jogo democrático no clube, onde todos os jogadores deveriam se comprometer com todas as funções dentro de campo. c. Permitir que os jogadores recebam salários dignos dentro de uma faixa igualitária. d. Compartilhar a gestão do clube, fazendo com que as decisões fossem tomadas de forma horizontal com a participação de todos. e. Promover o acesso dos torcedoresaos jogos do clube de forma democrática, incluindo os torcedores de baixa renda. 4. O Brasil tem ao largo de sua história a infeliz presença do racismo. No futebol, não diferen- temente, ele surge em alguns episódios relata- dos no Tópico 3, como: I. A história da apelidação da torcida do Flumi- nense de “pó de arroz”. II. O caso da cusparada seguida de ofensa racial do zagueiro palmeirense contra o jogador do Atlético Paranaense. III. A vinda de Cristiano Ronaldo ao Brasil e a re- cepção do povo brasileiro com insultos ao jo- gador português e aos Europeus. IV. A terceirização da culpa do fracasso da Copa do Mundo de 1950 para os jogadores negros do time. 187 atividades de estudo São alternativas verdadeiras: a. Apenas I e II. b. Apenas I, II e III. c. Apenas I e IV. d. Apenas I, II e IV. e. Nenhuma das alternativas são verdadeiras. 5. Quais países e, respectivamente, ideologias, que estão presentes no Tópico 3 (Futebol e po- lítica), utilizaram do futebol para disseminar e propagar modelos políticos que aterrorizaram a sociedade? a. Brasil - anarquismo; Bélgica - neoliberalismo; Inglaterra - capitalismo. b. Itália - fascismo; Brasil - comunismo; Alema- nha - economia do bem comum. c. Alemanha - nazismo; Itália - fascismo; Espanha - franquismo. d. Espanha - franquismo, Alemanha -nazismo, In- glaterra - socialismo. e. Argentina - nacionalismo, Itália - nazismo, Es- panha - anarquismo. 6. O clássico da Velha Firma representa para além de um Dérbi da cidade de Glasgow, ou- tras significações. Assinale a alternativa que apresenta apenas informações verdadeiras sobre as significações desse clássico: a. Esse jogo representa o entrave político/reli- gioso representado entre as equipes do Man- chester United (Inglaterra) e o Celtic (Escócia), ligados à tensão geopolítica da divisão terri- torial entre os países e os embates entre os ateus do Manchester e os católicos do Celtic. b. Esse jogo representa a paz e é indicador do mais alto grau de civilidade encontrado na Escócia desde o século XVI, em que histo- ricamente os moradores de Glasgow esco- lhiam as equipes dos Rangers ou do Celtic para torcer em jogos ancestrais ao conheci- do futebol dos dias de hoje. c. Esse jogo, conhecido como o clássico de maior ódio recíproco do mundo, representa a intolerância religiosa e política por parte dos torcedores de Celtic, time de essência católica, e os Rangers, time ligado ao Protes- tantismo. Tendo, desde o século XVI, a hosti- lidade causada em um contexto de Reforma Anglicana, passando pelas divisões territo- riais do Reino Unido, e a orientação religio- sa, a pólvora de um dos jogos mais tensos do mundo. d. Este jogo marca o embate pelas questões de modelo econômico do Reino Unido. De um lado o capitalismo provindo da Revolu- ção Industrial, que tem no time do Arsenal seu melhor representante, e de outro o so- cialismo tão defendido pelo Athletic Club, time idealizado como forma de resistência ao modelo capital na Inglaterra. e. Esse Dérbi marca o modelo de autogestão de times de futebol, pois o Rangers, time es- cocês, é o único modelo de equipe em que somente jogam atletas nascidos na cidade de Glasgow, enquanto que no Celtic, des- de sua fundação até hoje, é modelo de um time cosmopolitano, conhecido por contra- tações de atletas das mais afastadas regi- ões do mundo. ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 188 7. Com relação ao Tópico 4 desta unidade, que trata do futebol praticado por mulheres, as- sinale Verdadeiro (V) ou Falso (F) nas afir- mações a seguir: ( ) A opção pelo termo futebol de mulheres ao invés de futebol feminino refere-se ao fato de que mulhe- res e homens compartilham do mesmo futebol que não deve receber uma adjetivação de gênero. ( ) As mulheres futebolistas deveriam ter seus vínculos empregatícios formalizados assim como os homens, caso a legislação esportiva fosse cumprida também para elas. ( ) O futebol feminino não se desenvolve no Brasil principalmente devido à falta de competência técni- ca e tática das jogadoras que não possuem a mesma aptidão para o jogo que os homens. ( ) O jogo de futebol generificado apresentado no ensaio pedagógico do Tópico 4 (Futebol e gênero) tem por objetivo usar o futebol como pano de fun- do para discutir as relações de homens e mulheres na sociedade. 8. Sobre a violência relacionada ao futebol, é cor- reto afirmar que: I. A probabilidade de uma pessoa se transfor- mar em um torcedor fanático tem relação ín- tima com a construção de sua identidade. II. A responsabilidade pela violência nos estádios de futebol deve ser atribuída exclusivamente aos torcedores organizados, que são, na ver- dade, marginais travestidos de torcedores. III. As raízes da violência relacionada ao fute- bol estão na sociedade brasileira. Desde a sociabilidade primária, passando pela juven- tude e vida adulta, é possível identificar ten- dências a manifestações mais agressivas e violentas ou apáticas nos indivíduos de uma maneira geral. IV. O quadro estrutural da sociedade brasileira contribui para que tenhamos indivíduos frus- trados, desiludidos, que podem expressar seus sentimentos de forma agressiva, inclusi- ve no futebol. São alternativas verdadeiras: a. I, II e III. b. I, III e IV. c. II e IV. d. II, III e IV. e. Todas estão corretas. 9. Descreva um ensaio pedagógico em que se possa trabalhar alguma temática apresen- tada no percurso da Unidade IV ou outra que se relacione com essa lógica. Suges- tões: jogo sobre os regimes ditatoriais na América Latina; jogo que retrate uma guerra civil de alguma localidade no mundo; jogo que recorra a segmentos históricos, tais como o racismo, a questão do gênero, a midiatização do esporte. 189 EDUCAÇÃO FÍSICA Futebol Paixão e Política Paulo Cesar Rodrigues Carrano, Nilva Alves, Regina Leite Garcia, VIctor Andrade de Melo, Jocimar Daolio, Juca Kfouri, Marcos Gomes, Inês de Oliveira, Silvana Goellner, Eduardo Galeano, Salman Rushdie, Gilmar de Magalhães Couto. Editora: DP&A Sinopse: perceber a onipresença do futebol não passa de uma obviedade. Mas qual a importância do esporte nacional para a educação: como aproveitar o tema futebol na Escola? Esse livro, que reúne diferentes pensadores e profissionais, como Eduardo Galeano e Salman Rushdie, assim como uma entrevista com Juca Kfouri, tenta captar o momento atual do esporte brasileiro e mundial em época de globalização. Quais e como se dão as relações do futebol com o mercado, com o dinheiro, com o poder e os donos do poder? Como a escola pode absorvê-lo em um sentido didático e ampla- mente educativo? Estas são as motivações que geraram esse livro. Indicação para Ler Os Rebeldes do Futebol (título original: Les Rebelles du foot) Ano: 2012 Sinopse: Eric Cantona, considerado, por votação pelos torcedores, o maior jo- gador da história do clube inglês Manchester United, conta a história de cinco jogadores de futebol, Sócrates (Brasil), Didier Drogba (Costa do Marfim), Carlos Caszely (Chile), Rachid Mekloufi (Argélia) e Predrag Pasic (Bósnia). Além de serem futebolistas consagrados pelos feitos em campo, eram capazes de resistir e lutar contra as ideologias políticas que dominavam seus países. Indicação para Assistir Ser Campeão é detalhe - Democracia Corinthiana Ano: 2011 Sinopse: o movimento da Democracia Corinthiana, contada em sua origem e desenvolvimento, a partir do depoimento de ex-jogadores do Corinthians que participaram de tal movimento, como Sócrates, Wladimir, Zenon e Biro-Biro. Tal longa conta, também, com as contribuições do publicitário Washington Olivetto e o jornalista Juca Kfouri, que foram testemunhas oculares da maior expressão esportiva no campo político de nosso país. Indicação para Assistir ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 190 Apresentação: a Universidade do Futebol é uma instituição que estuda, pesqui- sa, produz, divulga e propõe mudanças nas diferentes áreas e setores relaciona- dos ao universo do futebol,enquanto atividade econômica e importante mani- festação do patrimônio cultural brasileiro, nas dimensões socioeducativas e no alto rendimento, conquistando nos últimos anos o reconhecimento e a credibi- lidade da comunidade do futebol. Com presença em mais de 30 países e cursos em português e espanhol, a Universidade do Futebol é hoje uma das principais referências em produção de conhecimento no futebol em nosso país. Disponível em: <http://universidadedofutebol.com.br/>. Indicação para Acessar Apresentação: vídeo da premiação do Campeonato Brasileiro de futebol do ano de 2010. Nele, o comediante Marcelo Adnet satiriza as narrações de rádio e de televisão em uma divertida representação de como são passadas as informa- ções narradas em um jogo de futebol. Disponível em: <https://www.youtube.com/watch?v=vf2S4G09DUI>. Indicação para Acessar Apresentação: uma história de futebol é um curta-metragem produzido por Paulo Machline, em 1998. A história se baseia na narração de um amigo de in- fância de Pelé, que passa a contar seus feitos desde a idade mais tenra. Disponível em: <http://portacurtas.org.br/filme/?name=uma_historia_de_futebol>. Indicação para Acessar 191 referências BENINI, P. A. C. 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Tendo desde o século XVI, a hostilidade causada em um contexto de Reforma Anglicana, passando pelas divisões territoriais do Reino Unido, e a orientação religiosa, a pólvora de um dos jogos mais tensos do mundo. 7. (V), (V), (F), (V). 8. b. I, III e IV. 9. Sugestões: jogo sobre os regimes ditatoriais na América Latina; jogo que retrate uma guerra civil de alguma localidade no mundo; jogo que recorra a segmentos históri- cos, tais como o racismo, a questão do gênero, a midiatização do esporte. Dado o caráter aberto e criativo da questão, não iremos indicar um tipo de resposta, mas apenas a importância de se sugerir uma atividade pautada por algum jogo no qual se faça presente uma temática que dialogue com o universo do futebol. UNIDADE V Professor Dr. Osmar Moreira de Souza Júnior Professor Me. Bruno Martins Ferreira Plano de Estudo A seguir, apresentam-se os tópicos que você estudará nesta unidade: • Futebóis para pessoas com deficiências • Futebol de botão • Fútbol callejero Objetivos de Aprendizagem • Refletir sobre as possibilidades de inclusão de pessoas com deficiência no futebol e de sensibilização das pessoas em geral para os futebóis para pessoas com deficiência. • Reconhecer e resgatar o futebol de botão como patrimônio da cultura popular e apropriar-se de conhecimentos que possibilitem o desenvolvimento de projetos pedagógicos a partir do futebol de botão. • Conhecer o fútbol callejero enquanto metodologia de educação popular e apropriar-se dessa metodologia com vistas à formação de sujeitos críticos. UM OUTRO FUTEBOL É POSSÍVEL V unidade INTRODUÇÃO P rezado(a) aluno(a), estamos chegando ao final de nosso jogo. A propos- ta desta última unidade é de chamar sua atenção para a importância de se dar visibilidade a outros futebóis para além do futebol e do futsal de alto rendimento e espetacularizado, tão presente nos meios de comuni- cação (neste caso, o futebol especificamente). Nos três tópicos desta última unidade, trataremos dos futebóis para pessoas com deficiência, do futebol de botão e do fútbol callejero. Cada uma dessas possi- bilidades configura-se como importante espaço de inclusão por meio do futebol e, ao mesmo tempo, reveste-lhe de um poderoso instrumento de educação, com destaque para os aspectos atitudinais. Ao apresentarmos o futebol de 5 e o futebol de 7, e explicitar que pessoas com deficiência visual ou paralisia cerebral podem praticar o futebol, inclusive em nível de alto rendimento, trazemos para o nosso jogo uma parcela da população que é comumente invisibilizada e excluída do convívio social de uma maneira geral. A proposta consiste justamente em reconhecer as diferenças e valorizá-las com vistas à participação e inclusão do todos(as) os(as) alunos(as). O futebol de botão está nesta unidade, tanto para promover o resgate de jogos da cultura popular, que tem sido substituídos pelos jogos digitais ou vir- tuais, como pela oportunidade de representação de competições oficiais, atri- buindo-lhes um tratamento didático que esse jogo propicia. Outra aprendi- zagem propiciada por esta unidade consiste na construção coletiva de regras por parte dos(as) alunos(as), viabilizando experiências concretas de práticas democráticas. Por fim, o fútbol callejero traz para o jogo uma possibilidade de maior hu- manização do futebol, na medida em que subverte a lógica da competição, coloca meninos e meninas para jogarem juntos, abdica da arbitragem e tem como elemento chave os valores da solidariedade, cooperação e respeito. Isto é, propõe um futebol democrático, feito por todos(as) e para todos(as). Bons estudos! ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 200 Caro(a) aluno(a), você sabe um dos motivos pelo qual o futebol fascina muitas pessoas? A nossa hi- pótese de resposta conta com as últimas palavras da frase anterior. Porque “muitas pessoas” conseguem, por meio desse esporte, fazer transformações em suas próprias vidas que nenhuma outra coisa, situ- ação ou prática conseguiriam intermediar. É assim que aqui iniciamos nosso diálogo com você sobre o futebol para pessoas com deficiências. Durante nossas unidades anteriores, você pode notar que ao futebol coube a missão de ser muito mais do que propriamente um jogo. Porém, o que fazer quando a missão mais complexa do futebol Futebóis para Pessoas com Deficiências Figura 1 - Partida de futebol de 5 passa a ser tornar-se apenas um jogo? Melhor dizen- do, e quando a intenção de se “jogar” futebol encon- tra-se ameaçada por “fatalidades da vida”? Se todo mundo fosse cego, como será que a gente viveria? [...] Vivo por aí em busca dessa utopia. Tentando a cada dia ampliar a nossa visão. Para que a gente possa enxergar cada vez menos com os olhos, e mais com o coração. (Fabio Brazza) REFLITA 201 EDUCAÇÃO FÍSICA Você deve se recordar que, em nossa Unidade II apontamos, os princípios que regeriam nossa proposta de ensino, pois bem, uma delas, em es- pecial, ganha relevo aqui. Trata-se do princípio pedagógico “ensinar futebol a todos”, proposto por Freire (2003). Se falamos que devemos en- sinar a todos e, assumindo, assim, que todose todas podem jogar futebol, iremos dentro deste tópico tratar sobre as próprias possibilidades de inclusão de pessoas com deficiência a partir das modalidades dos futebóis de 5 e de 7. Para tanto, faremos juntos um “reconhecimento de gramado”, apresentando os referidos futebóis em conjunto com seus protagonistas, numa perspecti- va de pensar na alteridade. Partindo do mundo das pessoas com deficiência, a proposta consiste em sen- sibilizarmos-nos sobre suas dificuldade enquanto praticantes, seus avanços no panorama da qualidade de suas vidas e refletirmos sobre o valor do jogar fu- tebol para esse público. Traremos à luz uma breve contextualização his- tórica sobre as modalidades, começando pelo futebol de 5, popularmente conhecido por “futebol de cegos”. Não se sabe ao certo em que local no mundo o futebol praticado por deficientes visuais tenha se ini- ciado. Vimos, em nossa Unidade I, que o futebol, tal como conhecemos hoje, surgiu pouco antes do iní- cio do século XX. Ao buscarmos os registros sobre o início do futebol praticado por cegos em nosso país, temos que foi a partir da década de 50 que começou a ser praticado no Brasil, ainda que não contando com as normativas e regras dos dias atuais (COSTA; SOUSA, 2004). Quando dizem que futebol é o esporte das “mas- sas”, temos no futebol para cegos um expoente re- presentante da metáfora. A bola, desde a década de 50, fazia-se atrativa para um público que, ainda que não a enxergando, conseguia perceber o que ela per- mitia em sensações e sentimentos. Na mesma década, dois fatores marcam a as- censão do futebol para cegos em nosso país, que viria se converter na modalidade do futebol de 5. O primeiro fator, segundo Costa e Sousa (2004), passou pela contemplação da Educação Física bra- sileira junto às atividades voltadas para pessoas com deficiência. O segundo fator foram as práticas similares ao futebol convencional, praticado por pessoas com deficiência visual, sendo jogado em quadras e espaços dentro das instituições que abri- gavam tais populações, com a diferença de, em vez do uso de uma bola, os chutes eram efetuados em latinhas de alumínio. A vontade expressa e manifesta dos deficientes visuais, em conjunto da disseminação do esporte em nosso país (PARAOLIMPÍADAS, 2016), muito colaborou para os avanços na prática do futebol para os cegos. Ao olhar suas necessidades e, assim, me- lhor compreender o que deveria ser adequado para o desenvolvimento da atividade, teve-se a normati- zação e regramento do futebol de cegos. O jogo que antes não contava com um padrão relativo às desvantagens dos indivíduos entre ter ou não mais visão, a partir de 1980 (PARAOLIMPÍA- DAS, 2016), foi solucionado com o uso de vendas nos olhos, assim igualando as condições de jogo para todos os participantes. As latas que, antes, ser- viam como bola, embora apresentassem a vantagem do som produzido do atrito entre a lata e o solo, fora substituído por uma bola de futsal com guizo dentro. A lógica é simples, segundo Castelli e Fontes (2006), devido à ausência de visão dos jogadores, a orien- tação dá-se pela audição; portanto, o objeto usado como bola deveria produzir, durante o seu desloca- mento, um som audível para efeito de localização. ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 202 Para além dos acessórios utilizados dentro do campo de jogo, como a bola com guizo e a venda, algo que caracterizou a mudança do status de futebol de ce- gos para a modalidade de futebol de 5 foi a presença da colocação de um “chamador” no jogo. Trata-se de uma pessoa que fica atrás do gol do oponente, orientando as jogadas de sua equipe, fazendo assim uso do me- canismo auditivo na tentativa de otimizar as ações na partida. Em jogadas específicas, como as faltas a serem cobradas direto no gol, ou cobrança de pênalti, cabe ao chamador, por meio de uma barra de ferro, chocar tal paramento junto às balizas do gol atacado, para assim orientar quem está efetuando a cobrança. No futebol de 5, outra regra bastante importan- te é sobre a atuação do goleiro. Esse não joga com venda nos olhos, sendo ele também o único jogador apto a jogar a modalidade ainda que não tenha de- ficiência visual como limitadora das ações de jogo. O futebol de 5 é praticado em um campo com as dimensões de uma quadra de futsal, coberto com gra- ma artificial sintetica. Segundo a Confederação Bra- sileira de Desportos para Deficientes Visuais (CBDV, 2017), um jogo do futebol de 5 conta com dois tem- pos, de 25 minutos cada, e um intervalo de 10 mi- nutos. No futebol de 5 existem bandas, uma espécie de proteção especial que impede a saída de bola, tor- nando, assim, as partidas mais dinâmicas. Caso a bola ultrapasse a banda, é cobrado lateral com os pés. O futebol de 5, no Brasil, em comparativo ao res- tante do mundo, pode se orgulhar. Temos o maior número de equipes regulamentadas junto à Confe- deração responsável pela modalidade, bem como o maior número de competições (PARALIMPÍADAS, 2016). Somado a isso, vale o informe de que esse es- porte entrou no Programa Paralímpico, desde 2004, em Atenas, e viu o Brasil ser o único campeão da modalidade em suas 4 edições até o momento. Outra incrível modalidade que gostaríamos de te apresentar, querido(a) aluno(a), é do futebol de 7. Essa modalidade, diferentemente do futebol de 5, em que não se sabe ao certo seu local de origem, registra a Escócia como país criador e o ano de 1978 datado como de origem do esporte (PARA- LIMPÍADAS, 2016). O futebol de 7 contempla a população com pa- ralisia cerebral, doença não progressiva que afeta o desenvolvimento do sistema nervoso central (AN- DRADE; FLEURY; SILVA, 2005), caracterizada por alterar movimentos, tônus muscular e postura de quem é acometido por tal patologia. O Brasil não consegue fazer o melhor jogador do mundo no futebol desde 2007, quando Kaká ganhou a Bola de Ouro. Mas no futebol de cinco para cegos, o país tem um atleta que já ganhou o prêmio duas vezes e é o atual detentor da coroa. Ele atende pelo nome de Ricardo Steinmetz Alves, ou simplesmente Ricardinho. [...] Em 2006, com apenas 16 anos, foi eleito o melhor do mundo logo em sua primeira participação no Mundial, no qual o Brasil foi vice perdendo para a Argentina. A segunda premiação veio em 2014, quando o Brasil foi campeão mundial. [...] “Meu sonho de ser um jogador de futebol renasceu e deu tudo muito certo. Em apenas seis anos saí do zero para o mais alto nível”, afirmou Ricardinho, que se diz fã de Messi e até acredita ter uma certa semelhança com o craque argentino. Habilidade com a bola no pé não lhe falta. “Se me dessem a oportunida- de de enxergar por um momento, ele seria o jogador que eu gostaria de ver, com certeza. Ele é o mais completo de todos”, completou o melhor do mundo. Fonte: Revista D+ (2016, on-line)1. SAIBA MAIS 203 EDUCAÇÃO FÍSICA Algo importante a se dizer sobre a paralisia cere- bral é que ela, em geral, afeta as funções físicas, mas que não existe uma relação de causa-efeito para com as funções intelectuais (CAMARGOS et al., 2012). O paralisado cerebral encontrou no futebol de 7 uma possibilidade de modalidade que muito se aproxima do futebol convencional. Ele é jogado com as regras da própria FIFA, sofrendo poucas adequações, a exemplificar: dimensão do campo de jogo que mede 75 metros de comprimento por 55 de largura; inexistência de impedimento; núme- ro de jogadores por equipe que se restringe a 7 em campo e 5 no banco de reservas; duração da parti- da realizada por dois tempos de 30 minutos cada (COSTA; SOUSA, 2004). No futebol de 7, algo que merece atenção trata sobre a composição das equipes. Os jogadores são classificados de 5 a 8, sendo o maior número da es- cala atribuído para os jogadores com maior poten- cial funcional, e o menor número da escala sendo destinado para os jogadores com menor potencial funcional (PARALIMPÍADAS, 2016). O que isso implica no jogo? Segundo as regrasdo futebol de 7, faz-se obrigatória a presença de no mínimo um jo- gador da classe 5 ou 6, e no máximo dois jogadores da classe 8 para que se configure uma partida nos moldes legais regulamentados. Sim, estimado(a) aluno(a), impressiona, e mui- to, o quanto o futebol mobiliza as pessoas. Ele se faz generoso, molda-se, adapta-se, e, ainda que sem pe- dir nada diretamente, dá, ou melhor dizendo, pro- porciona para populações marginalizadas pela so- ciedade sensações que dificilmente seriam possíveis usufruídas por outras experiências. Você, ao acompanhar os breves históricos das modalidades paralímpicas e seus desenvolvimentos enquanto jogos, talvez tenha se perguntado sobre como poderá otimizar suas ações enquanto futu- ro(a) docente em relação à inclusão e à integração das populações de pessoas com deficiências junto à sociedade. Nesse ínterim, aluno(a), é importante tratarmos e melhor explanarmos sobre alguns con- ceitos, para que assim possamos transcender as limi- tações condicionadas pela falta de informação, que tanto assola as possibilidades da aprendizagem pelo movimento. Um primeiro ponto de grande relevância que, aqui, corroboramos com Artioli (2006) diz respeito à integração e à inclusão de pessoas com deficiência principalmente no âmbito escolar. A autora traz que, tanto a integração quanto a inclusão não passam somente pelas políticas educacionais, mas também pela forma como a pessoa com deficiência é vista pela sociedade. Para tal mudança paradigmática de como a sociedade compreende as pessoas com de- ficiência, nada mais oportuno do que fazermos uso do futebol como meio educativo. Nossa proposta é que você, enquanto possibili- dade pedagógica, desenvolva, junto a suas futuras turmas, um jogo em que mescle o futebol de 5 e o futebol de 7. Basicamente, ela segue as regras do fu- tebol de 7 com a implementação de, no mínimo, 2 jogadores ou jogadoras de cada equipe com os olhos vendados, para melhor caracterizar as condições de quem pratica futebol sem a visão, ou seja, o futebol de 5. Complementar a isso, o jogo contará com dois chamadores, um para cada equipe. Ainda na busca de aproximar as distintas reali- dades dos futebóis para pessoas com deficiência e o futebol convencional, o restante dos integrantes dos times que não estiverem fazendo uso das vendas que caracterizam deficientes visuais terão restringidas algumas ações motoras, para caracterizar as pesso- as com paralisia cerebral, ou seja, os praticantes do ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 204 futebol de 7. Pode-se, nessa ideia, restringir o uso da perna dominante da pessoa durante a partida, res- tringir a movimentação de membros superiores dis- tais, restringir o giro do corpo para algum lado pre- viamente determinado etc. O jogo acontecerá com uma bola adaptada envolta com um saco plástico ou a própria bola de guizo. O lançar mão de uma atividade como essa, parte com o propósito essencial de mais do que somente se fazer a experiência de jogar e desfrutar modali- dades anteriormente desconhecidas, ou novas, em sensações orgânicas pelos limites físicos sugeridos. Ao se jogar como a pessoa com paralisia cerebral jogaria ou como o deficiente visual joga, estamos novamente entrando na esfera da alteridade. Essa palavra nos acompanhou em quase todo livro e aqui ganhará novo destaque. Assim como na vida, na universidade, no traba- lho, na escola e no futebol, ainda que consigamos reconhecer as diferenças entre as pessoas com defi- ciência e as pessoas sem deficiência, não nos damos conta das dificuldades que estas têm em integrar um meio social. Ainda que o sentimento de inclusão seja subjetivo, talvez você já tenha presenciado situações em que as pessoas com deficiência estão à margem da sociedade. Ao participar de um jogo como esse, podemos viver o que o outro vive ainda que por um tempo ín- fimo, mas suficiente para sensibilizar e chamar aten- ção para as problemáticas físicas e sociais que en- volvem as vidas das pessoas com deficiência. Omote (1999) relatava, há quase 20 anos, que as pessoas com deficiência passavam por um descrédito social. Esse quadro será que se alterou? Esse questionamen- to também se faz oportuno dentro das salas de aula junto aos (às) seus (suas) alunos(as). Entendemos que a inclusão social nada mais é do que uma questão de atitude em relação ao ser humano, que demanda e requer organização de di- versas frentes sociais para condições de vida digna a todos. Caso concorde com esse pensamento, você não acredita que o futebol pode, e muito, colaborar com a questão inclusiva? Obviamente que a habilidade docente será exi- gida frente aos novos desafios, e não diferente será quando você, professor(a), deparar-se com alu- nos(as) com deficiência. A questão passa a ser como tirar da margem essa população, integrando e fa- zendo com que eles mesmos, deficientes, as pessoas com quem eles convivem e as que estarão a conviver compreendam que é no próprio convívio, na rua, em casa, na escola e, porque não, no futebol, que se pode gerar e entrelaçar valores de respeito, soli- dariedade, companheirismo, acolhimento e enten- dimento sobre uma relação mais humana e menos preconceituosa. Por isso e com isso, futuro(a) professor(a), assim como Artioli (2006) nos recorda, a integração edu- cacional passa por nós e gera um ambiente que de- senvolva a convivência sã entre os diferentes pode, sim, fazer a diferença na forma de ver, tratar e pen- sar as diversidades. 205 EDUCAÇÃO FÍSICA ESPORTES COLETIVOS: FUTSAL E FUTEBOL 206 Você já jogou futebol de botão alguma vez? Se já jo- gou, o que achou dessa experiência? Se não jogou, pense em quais motivos o levaram a não se interes- sar ou não ter a oportunidade de experimentar esse jogo que já foi muito popular algumas décadas atrás. Essas reflexões fazem com que pensemos que o futebol de botão não é uma prática presente na vida de todos nós e tem se tornado cada vez mais distante das novas gerações, que têm substituído os jogos e brincadeiras tradicionais por jogos virtuais/digitais/ eletrônicos. Futebol de Botão Fonte: arquivo pessoal do professor Osmar Moreira de Souza Júnior Observe a imagem e reflita sobre as implica- ções da revolução tecnológica sobre as for- mas de brincar nas crianças de hoje e sobre como o futebol de botão se relaciona com esse cenário. REFLITA 207 EDUCAÇÃO FÍSICA Não defendemos a negação ou exorcização dos jogos digitais em prol da prática de jogos tradicionais que envolvam um componente motor mais efetivo. Con- tudo, trabalharemos com a tese de que os jogos digitais são bem-vindos, inclusive no contexto escolar, desde que não se transformem em atividade hegemônica. Nesse sentido, defendemos que a escola abra espaço para os jogos digitais e para o resgate e a valorização de jogos da cultura popular, como o futebol de botão. Sim, a ideia é levarmos o futebol de botão para as aulas de Educação Física, como forma de resgate e valorização da cultura desse jogo. Alguns podem contra-argumentar afirmando que não se trata de uma atividade física com componente motor desta- cado ou, ainda, que não se pode assumir esse jogo como parte do conteúdo futebol nos programas de Educação Física, visto que não guarda qualquer re- lação com jogar futebol. Pois então, vamos às nossas argumentações em defesa do ensino do futebol de botão nas aulas de Educação Física e como tema coerente com o con- teúdo futebol. Figura 2 - Tecnologias versus brinquedos populares Fonte: Charges do Bruno (2015, on-line)2. Primeiramente, podemos afirmar que o futebol de botão exige, sim, um componente de motrici- dade fina, que não pode ser desprezado, tampou- co inferiorizado a partir de qualquer tentativa de “escala motora”, que enquadraria algumas práticas como mais e outras como menos motoras, afinal de contas “não temos um corpo”, “somos corpo”, supe- rando a perspectiva de uma suposta fragmentação entre corpo e mente. Quanto