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Discussões de gênero e sexualidade por professores de Biologia: uma análise de artigos publicados em revistas enquadradas na área de ensino de ciências Discussions On Gender And Sexuality By Biology Teachers: An Analysis Of Articles Published In Magazines Fitted In The Area Of Science Education Suse Mayre Martins Moreira Azevedo¹ Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB, susiazevedo13@hotmail.com Marcos Lopes de Souza² Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB marcoslsouza@ig.com.br Resumo Este trabalho procurou verificar por meio de artigos publicados em revistas da área de ensino de ciências o que as pesquisas têm apontado sobre a relação dos professores de ciências e biologia com a temática gênero e sexualidade. O levantamento foi feito em revistas da área de ensino de ciências que tiveram o conceito qualis A e B de acordo com a CAPES, totalizando 20 periódicos. Nestes foram encontrados 15 artigos, os quais foram lidos, analisados e agrupados em quatro categorias. Os principais aspectos evidenciados nas pesquisas foram: os materiais didáticos de ciências ainda contribuem pouco para repensar nas abordagens normativas e essencialistas de gênero e sexualidade, reforça-se a identidade profissional dos educadores de ciências em trabalhar com a temática, além da ausência de investigações discutindo a formação continuada de professores de ciências e biologia, os currículos e práticas educativas desses docentes e as dificuldades em debater essas questões. Palavras-Chave: educação, gênero, sexualidade,. Abstract This paper examined through articles published in journals of the science teaching area what studies have shown about the relationship of science and biology teachers and the theme gender and sexuality. The survey was done in science education area journals which had the concept qualis A and B according to CAPES, totaling 20 journals. In these, 15 articles were found, which were read, analyzed and grouped in four categories. The main aspects highlighted in the research were: instructional science materials have contributed little to rethink normative and essentialist gender and sexuality approaches; the professional identity of science educators is reinforced to work with this theme; the lack of research discussing continuing education of science and biology teachers; curricula and educational practices of these teachers and the difficulties in discussing these issues. Keywords: education, gender, sexuality, Introdução Dentre os locais onde devem ser abordados temas como gênero e sexualidade com adolescentes a escola ocupa um lugar privilegiado para esta discussão. Por meio de atividades formais desenvolvidas pelos educadores e pela escola e informalmente em rodas de conversas entre os adolescentes surgem com grande freqüência discussões a respeito destes temas onde estes, têm oportunidade de exporem as suas opiniões, as suas dúvidas e seus anseios sobre os temas em questão. É importante lembrar que é na escola que os jovens passam a maior parte do seu dia e adquirem parte de sua formação como cidadãos e dependendo do que vivenciarem neste espaço, isso pode impactar positivamente na construção de suas ideais sobre gênero, sexualidade e temas afins. O sistema educacional no Brasil apresenta documentos diversos que apontam e orientam as escolas na realização de trabalhos nessa área, focando, principalmente nas questões sobre sexualidade, gênero, diversidade sexual e saúde sexual e reprodutiva. Os Parâmetros Curriculares Nacionais (PCN) para o ensino fundamental (BRASIL, 1998) apresentam as questões sobre gênero e orientação sexual como temas transversais a serem trabalhados nas séries iniciais por todas as disciplinas integrantes da matriz curricular. A inserção desses temas nas salas de aula trouxe um grande desafio para os professores (ZAGURY, 2006). Eles, de certa forma, podem ser considerados leigos sobre essas discussões e apresentam dificuldades para lidar com assuntos tão complexos que envolvem, além de conhecimentos específicos, posturas que variam em função da cultura familiar, social e das experiências pessoais. Esse tema transversal é, segundo Zagury (2006), aquele no qual os professores se sentem mais inseguros e menos preparados, embora estejam razoavelmente motivados. A autora afirma que: [...] além da complexidade, há outra característica que deve ser pensada e discutida. Para alcançar seus objetivos é preciso envolver os jovens de forma muito significativa, caso contrário transforma-se numa mera aula de ciências na qual se estuda o ciclo reprodutivo humano. Além disso, esse trabalho deve incluir discussões filosóficas, políticas, éticas e culturais. E é preciso considerar que nem sempre as famílias desejam ver seus filhos orientados por pessoas de quem não conhecem o pensamento, a visão de mundo e a orientação de vida, assim como não desejam que seus filhos se orientem de forma diversa daquela na qual acreditam (p.132-3). Dessa forma, o trabalho sobre sexualidade a ser realizado nas escolas encontra-se diante de vários desafios, como a falta de segurança e formação do professor, a necessidade de uma aprendizagem significativa para o estudante e a opção da orientação que as famílias desejam para seus filhos. Para a abordagem destes temas no ensino médio, no ano de 2006 foi implantado pelo MEC as Orientações Curriculares para o Ensino Médio, complementando os Parâmetros Curriculares Nacionais para o ensino Médio (PCNEM) lançado no ano 2000 (BRASIL, 2000). Esse documento sugere que temas referentes ao ser humano sejam abordados na disciplina de biologia destacando que compete ao ensino da Biologia, especialmente, o desenvolvimento de assuntos ligados à saúde, ao corpo humano, à adolescência e à sexualidade (BRASIL, 2006). Essas propostas apontam para um compromisso a ser partilhado por professores de todas as áreas do ensino fundamental, conforme sugere os PCN, não deixando de destacar o papel do professor de biologia na discussão dos temas citados, de acordo com as Orientações Curriculares para o Ensino Médio. Tomando como base as Diretrizes Curriculares Nacionais para os Cursos de Ciências Biológicas, homologado no ano de 2001, este documento cita apenas a abordagem sobre gênero como umas das competências e habilidades do aluno do referido curso onde diz que o mesmo deve: Reconhecer formas de discriminação racial, social, de gênero, etc. que se fundem inclusive em alegados pressupostos biológicos, posicionando-se diante delas de forma crítica, com respaldo em pressupostos epistemológicos coerentes e na bibliografia de referência (BRASIL, 2001). Ao se comparar as Orientações Curriculares para o Ensino Médio e as Diretrizes Curriculares Nacional para os cursos de graduação em Ciências Biológicas encontra-se certa incoerência, na medida em que é sugerido que o professor de biologia trabalhe esses temas na escola, porém, na sua formação o tema não aparece na organização curricular, ou quando está, é restrito às questões biológicas. Reconhecendo a relevância do professor de ciências e biologia em também discutir as questões de sexualidade na escola, este trabalho procurou verificar por meio de artigos publicados em revistas da área de ensino de ciências o que as pesquisas têm apontado sobre a relação dos professores de ciências e biologia com a temática gênero e sexualidade. A análise destes artigos poderá trazer informações importantes a respeito da relação existente entre o professor de biologia e a abordagem do tema em aspectos como: a formação inicial deste professor e as discussões sobre sexualidade; os conhecimentos conceituais, procedimentais e atitudinais abordados em relação à sexualidade; as dificuldades em trabalhar com o tema sexualidade etc. Percurso Metodológico Para a realização desta pesquisa foi feito, inicialmente, um levantamento das revistas existentes na área de ensino de ciências que tivessem o conceitoqualis A e B de acordo com a CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e neste levantamento identificamos um total de 20 revistas. Em todas as revistas encontradas consultamos todas as edições onde procuramos selecionar os artigos que abordassem a questão de gênero e sexualidade por professores de Biologia, por meio do título ou resumo desses artigos. Essa forma de pesquisa, segundo Carvalho (1987) é denominada pesquisa bibliográfica caracterizando-se como uma atividade de localização e consulta de fontes diversas de informações escritas, para coletar dados gerais ou específicos a respeito de um tema, utilizando-se como fonte de pesquisa: publicações impressas ou digitais em forma de livros, dicionários, enciclopédias, periódicos, resenhas, monografias, dissertações, teses, apostilas, boletins etc. Nas revistas selecionadas para fazerem parte da pesquisa encontramos um total de 15 artigos com a abordagem que procurávamos. Esses artigos foram agrupados em quatro categorias que foram sendo criadas à medida que procedemos a leitura de cada um deles na íntegra. As categorias criadas a partir da análise dos trabalhos que relacionavam os professores de ciências e biologia e a temática gênero e sexualidade foram: formação inicial e continuada de professores de ciências e biologia; currículo de ciências e biologia e materiais didáticos; possibilidades, limitações e problemas para as discussões da temática e identidade profissional do educador de ciências e biologia e a temática gênero e sexualidade. A tabela 1 demonstra na coluna 1 as categorias criadas, na coluna 2 os títulos do artigo referentes a categoria e na coluna 3 o nome dos(as) autores(as). A seguir serão feitas as discussões sobre as categorias. Tabela 1: Categorias, títulos e autores dos artigos selecionados na pesquisa. CATEGORIAS TÍTULO DO ARTIGO AUTORES/AS Formação de professores e educadores para abordagem de educação sexual na escola: o que mostram as pesquisas Regina Célia Pinheiro Silva Jorge Megid Neto Discursos sobre homossexualidade e gênero na formação docente em biologia. Leandro Corsico Souza Nilson Fernandes Dinis Formação inicial e continuada de professores de ciências e biologia para abordagem dos temas gênero e sexualidade. Estratégias didáticas de educação sexual na formação de professores de ciências e biologia Nora Ney Santos Barcelos Daniela Franco C. Jacobucci Abordagem da sexualidade humana em livro didático de ciências- Desvelando os bastidores de uma proposta. Margarida C. de Santana Mônica de Cássia V. Waldhelm Os papéis de gênero nos livros didáticos de ciências. Eliecília de Fátima Martins Zara Hoffmann Sexualidade, prazeres e vulnerabilidade: implicações educativas. Dagmar E. Estermann Meyer Carin Klein Sandra dos Santos Andrade O cotidiano de educandos trabalhado na prática educativa de professores de biologia. Marcos Lopes Souza Denise de Freitas Gênero, sexualidade e educação: notas para uma “epistemologia”. Maria Rita de Assis César Presença de discussões sobre gênero e sexualidade no currículo de ciências e biologia, incluindo os materiais didáticos. O ensino de ciências sob uma perspectiva da formação moral Júlio Cesar Castilho Razera O tema transversal orientação sexual nos PCN e a atitude dos professores: convergentes ou divergentes? Andréia Lira Zélia Jofili Possibilidades, problemas e limitações para abordagem de gênero e sexualidade por professores de ciências e biologia. Educação sexual como parte curricular da disciplina de biologia e auxilio a adolescentes: Dificuldades e desafios. Welson Barbosa Santos Rone Cardoso Juliano da Silva M. de Almeida Fernanda Arantes Moreira Educação sexual: qual o profissional designado para esta tarefa? Mary Neide Damico Figueiró Orientação sexual em uma escola: recortes de corpo e gênero. Helena Altmann Educação Sexual em uma escola da reprodução à prevenção. Helena Altmann A identidade profissional dos educadores de ciências e biologia e sua relação com a abordagem de gênero e sexualidade no espaço escolar. O ensino de ciências sob uma perspectiva da formação moral Júlio Cesar Castilho Razera Discussão das categorias a) Formação inicial e continuada Os artigos sobre a formação inicial e continuada mostram que a proposta de discussão da Educação Sexual nas escolas, por meio da portaria interministerial no ano de 1992 decorre da preocupação com o aumento de casos de AIDS entre adolescentes e não pelo interesse em discutir sexualidade. No trabalho de Silva e Megid Neto e (2006) é feito um levantamento de produções de pós-graduação brasileira sobre formação de professores para o trabalho com educação sexual. Neste é relatado que os autores compreendem que a preparação envolve a formação global do educador e não só a aquisição de informações e ressaltam a importância de incluir a educação sexual em todos os cursos de graduação, com ênfase maior em Pedagogia e Ciências Biológicas. Isto nos mostra que existe ainda, mesmo pelos pesquisadores, a ideia de que esses temas devam ser abordados, pioritariamente, por professores dessa área. Foi observado ainda pelo autor, que os trabalhos analisados priorizam temas como gravidez e prevenção em DST/AIDS com enfoque na relação saúde/doença, numa concepção biologicista. É importante destacar que esta visão biologicista pode ser direcionada pela forma como o professor é orientado a trabalhar, pois, os estudos que analisam o currículo dos cursos de biologia dizem que as ementas desses cursos tratam o tema de modo restrito às explicações biológicas e características anatômicas, fisiológicas e patológicas, sem sugerirem em nenhum momento a abordagem sociocultural a respeito da sexualidade. O autor conclui que em face as dificuldades dos professores em tratarem o assunto, os mesmos preferem abordar apenas os aspectos biológicos, e para isso atribui-se esta função ao professor de ciência e biologia, sendo esta uma justificativa dos professores das outras áreas para o não-envolvimento com o tema. O artigo de Souza e Dinis (2010) discute as concepções sobre gênero e sexualidade na formação em ciências biológicas destacando a visão dos professores sobre homossexualidade e as possibilidades de mudanças curriculares das ciências biológicas para orientação aos docentes no trabalho de gênero e diversidade sexual. O autor justifica a especificidade do curso escolhido pelo fato de ser difícil determinar a fronteira que separa os conceitos científicos das ciências naturais, atribuídos aos professores desta área, de um discurso moralizante em relação ao sexo, para crianças e adolescentes. Neste trabalho foram investigados alunos do curso de ciências biológicas de uma universidade a fim de observar a inclusão dos temas durante o curso e a importância para a sua prática docente. Após análise dos dados os autores concluíram que a abordagem dos temas na universidade não é uma determinação programática e está condicionada a opção do professor. Observa-se ainda que, mesmo discutindo esses temas, os formandos/as não se sentem confortáveis para falar deles com seus discentes e a maioria desconhece ou conhece muito pouco acerca dos Parâmetros Curriculares Nacionais no que tange a Educação Sexual. O artigo de Barcelos e Jacobucci (2011) relata o acompanhamento de uma prática docente no curso de licenciatura em ciências biológicas onde se utilizou estratégias didáticas focalizando temas polêmicos sobre sexualidade humana, onde os alunos participaram ativamente das atividades propostas. Os depoimentos dos licenciandos após as atividades mostraram a importância de trabalhar esses temas de forma interativa por meio de estratégias didáticas que permitam o diálogo, fundamentadas em subsídios teóricos, e aponta a necessidade de uma reflexão coletiva entre licenciandos e formadores levando os sujeitos a refletirem sobresuas próprias crenças e concepções já construídas. Os trabalhos incluídos nesta categoria nos levam a refletir a seguinte questão: se na formação dos professores de ciências e biologia, que é o profissional que a escola entende como o mais apto a discutir essas questões, mesmo em uma visão puramente biologicista, esses temas não fazem parte da sua formação de que forma eles serão trabalhados por professores de outras disciplinas como sugerem os PCN? Novamente nos cabe ressaltar que é imprescindível que as IES pensem sobre a inclusão desses temas nos conteúdos a serem trabalhados nos cursos de graduação. b) Currículo de ciências e biologia incluindo os materiais didáticos e as discussões de gênero e sexualidade Nos trabalhos que discutem a presença dos temas sexualidade e gênero nos materiais didáticos e nos currículos de ciência e biologia na educação básica é consenso entre os autores que, embora os temas devam ser trabalhados de forma interdisciplinar é nessas disciplinas que as discussões surgem em sala de aula devido a proximidade de assuntos como reprodução humana e tudo que está ligado ao corpo. Diante disto é importante conhecer de que forma esses temas se apresentam nos livros didáticos destas disciplinas. O artigo de Santana e Waldhelm (2009) relata o processo vivido por autores de livros didáticos de ciências destacando a abordagem da sexualidade humana neste material e suas interfaces com a ciência e a saúde. O trabalho mostra a preocupação desses autores com textos e imagens que não reforcem tabus e preconceitos e nem disseminem informações errôneas procurando estimular a vivência prazerosa e responsável da sexualidade. As autoras ressaltam que não pretendem superestimar o papel do livro didático, mas não podem desconsiderar este instrumento como referência na seleção de conteúdos e estratégias de ensino. Com relação a abordagem da diversidade sexual nos livros didáticos a omissão acaba por atribuir ao professor a responsabilidade de trazer o tema à sala de aula. Para organização do livro, relatado neste artigo, as autoras chamam a atenção para a preocupação em não incluir as questões relacionadas à sexualidade ao final do livro, onde, provavelmente, o professor não chega e a inclusão de gênero ausente nos livros mais usados pelos professores da educação básica. A questão sobre as identidades de gênero nos livros didático de ciências também é abordada por Martins e Hoffmann (2007) em um dos artigos analisados, onde as autoras analisam diversos livros de ciências e chamam a atenção para uma conduta comum entre eles que tendem a mostrar uma visão estereotipada sobre os papeis socialmente aceitos e recomendados para cada gênero. Para análise dos livros levou-se em consideração o uso de roupas e acessórios e as brincadeiras de meninos e meninas ilustradas nesses livros, bem como, a representação do trabalho e dos papeis atribuídos a homens e mulheres. As autoras concluem que esses livros sugerem que a identidade feminina está subordinada em favor da dominação masculina contribuindo desta forma para o controle patriarcal das vidas femininas reforçando, a partir das relações de gênero, as condições que legitimam as estruturas de poder existentes. Com relação a discussões sobre gênero e sexualidade no currículo de ciências e biologia serão apresentados neste trabalho os artigos de Meyer, Klein e Andrade (2007), César (2009) e Razera (2007). Meyer reforça que a abordagem dos temas estão reguladas a partir de uma ênfase marcada pelo campo das ciências biológicas e naturais determinadas e justificadas por pressupostos da biologia – elegendo o corpo (e o seu funcionamento) como fundamento e substrato principal de suas explicações. Segundo a autora as discussões que abarcam a construção de gênero, sexualidade, prazer, corpo e saúde envolvem dimensões políticas e sociais que, por sua vez, estão implicadas com a escola e com a função docente, sobretudo na direção de perceber que os conhecimentos escolares estão imbricados com a produção e atribuição das diferenças de gênero, da educação que institui a heterossexualidade como norma e com a exclusão ou silenciamento dos prazeres e vivências juvenis. O trabalho de César (2009) traça uma linha histórica da criação da educação sexual no Brasil destacando que as primeiras tentativas do século XX em defesa da educação sexual nas escolas brasileiras se deu por meio de pressupostos higienistas e eugênicos. Após várias tentativas e proibições, em 1968 foi apresentado um projeto de lei propondo a introdução de educação sexual obrigatória nas escolas primárias e secundárias do pais, porém como a ditadura impôs um regime de controle e moralização dos costumes influenciado pelo grupo conservador da igreja católica, a educação sexual foi banida de qualquer discussão pedagógica por parte do estado e qualquer iniciativa foi suprimida com rigor. No inicio dos anos 1980 as práticas pedagógicas sobre sexualidade e educação sexual começaram a se fortalecer como campo específico da saúde. Assim, o discurso da saúde e da biologia ocupara por completo esse espaço “epistemológico’. Esse discurso foi reforçado no início dos anos 1990, com a epidemia da AIDS que traz um grande impacto na educação, na medida em que crescia o paradigma da informação como “arma” contra a epidemia. Assim a escola foi tomada como um lugar fundamental para a propagação das informações sobre a doença e as formas de prevenção e por estar ligada a questões de saúde foi reforçada a idéia de se trabalhar essas questões em disciplinas que cuidassem do corpo, neste caso ciências e biologia. Apenas na segunda metade dos anos 1990, com a reforma educacional e produção dos PCN a educação sexual foi instituída como um dos temas transversais que deveria ser abordado de forma interdisciplinar. O artigo de Razera (2007) destaca o ensino de ciências sob uma perspectiva de formação moral e que devemos rejeitar a visão arcaica da ciência entendida em critérios de neutralidade e verdades absolutas acumuladas ao longo do tempo. O autor ressalta que integrar a ciência e seu ensino por meio de contextualizações e mais um desafio a ser enfrentado pelos professores. Em se tratado de aulas de ciências é comum que surjam temas polêmicos e repletos de ambigüidades e dilemas a exemplo de sexualidade, aborto, entre outros. Nestes casos o professor não pode se eximir das discussões e dar aos temas apenas um tratamento científico, pois, a própria ciência é um processo de construção humana e por isso impregnada de ideologias e interesses. O autor ressalta ainda que questões de ética e responsabilidade social inevitavelmente fazem parte da educação em ciência e que esta disciplina trabalha com muitas possibilidades de conteúdos polêmicos, que são sempre “palco” para discussões éticas e morais. Nesta mesma linha de discussão sobre os temas que emergem nas disciplinas de ciências e ‘biologia o trabalho de Souza e Freitas (2004) faz uma investigação da prática de professores de biologia sobre o conceito e a abordagem do cotidiano na prática pedagógica, indicando que as questões relacionadas ao corpo e a sexualidade surgem nessas discussões o que pode demonstrar uma relação entre esses temas e a disciplina biologia. O trabalho ressalta a necessidade de se utilizar esses momentos em que ocorrem essas indagações para dialogar com os educandos e fazê-los repensar sobre estes questionamentos permitindo uma análise mais profunda e integradora. Os autores ressaltam que um fator limitante do trabalho com situações do cotidiano de alunos é o dilema tempo versus conteúdo, pois, o professor tem a idéia de que, ao discutir essas situações está deixando de lado o conhecimento científico em sala de aula. Ao analisar os trabalhos desta categoria observamos que é necessário que ocorra uma reestruturação nos livros didáticos de ciências oferecendo espaço para discussão de outros temas para além da visão biologicista da sexualidade.Em relação a forma como a abordagem de gênero e sexualidade se insere nos componentes curriculares da educação básica é importante que sejam legitimados tempos e espaços para discussões permitindo aos educandos desenvolverem uma visão critica, pois, apenas desta forma iremos mudando a visão puramente biologicista a respeito desses temas. c) Possibilidades, problemas e limitações para abordagem de gênero e sexualidade por professores de ciências e biologia Os artigos de Lira e Jofili (2010) e Santos et al. (2011) apontam dificuldades na abordagem dos temas por professores de ciências e biologia, mas, mostram alguns caminhos para que estes possam superar essas dificuldades. Lira e Jofili (2010) buscou conhecer atitudes convergentes e divergentes de professores de Ciências Biológicas nas aulas de orientação sexual. Para esta análise foram criadas características que os PCN apontam como necessárias para desenvolvimento do tema. A pesquisa aponta que há um desconhecimento por parte dos educadores das recomendações dos PCN para a abordagem da orientação sexual onde afirmam que o documento não faz parte de sua prática pedagógica. Tanto Lira e Jofili ( (2010) como Santos et al. (2011) apontam como limitações para o trabalho com esses temas falta de políticas públicas de apoio ao educador, principalmente na esfera da formação inicial e educação continuada. Ressaltamos que esta questão foi alvo de discussão na categoria referente à formação inicial e continuada no início deste trabalho. Observa-se ainda nestes trabalhos que as discussões de questões sexuais apresentam-se muito distante das necessidades dos alunos por ser limitado ao âmbito anatômico-fisiológico, prescritivo e preventivo. O ensino dialógico é apontado por Santos et al. (2011) como possibilidade para tratar questões da sexualidade com adolescentes na escola, no entendimento de que educar é um processo que não separa os aspectos afetivos, sociais e culturais, e dentre eles estão os sexuais. O autor ressalta ainda que o ensino do conteúdo de biologia como atividade humana, consciente e intencional, pode deixar de existir na configuração como e tem sido entendido, ou seja, restrito e distante da realidade dos educandos. d) A identidade profissional dos educadores de ciências e biologia e sua relação com a abordagem de gênero e sexualidade no espaço escolar Apesar de não ser nossa intenção apontar os professores de ciências e biologia como o único profissional responsável em trabalhar esses temas na escola, encontramos no nosso estudo os trabalhos de Figueiró (1997) e Altmann (2003) que fazem uma abordagem sobre esta questão. O artigo de Figueiró (1996) baseia-se no estado da arte da educação sexual no Brasil, no período de 1980 a 1993. Nos trabalhos analisados alguns autores apontam diretamente o professor de Biologia como profissional adequado para abordagem dos temas na escola, apesar de atribuírem a função aos professores de uma forma geral. Essa visão pode ser justificada pelo fato de, segundo Altmann (2003), historicamente os orientadores educacionais dividirem com os professores de ciências a responsabilidade de trabalhar esse tema na escola. A pesquisa de Altmann (2003) buscou conhecer de que moda a orientação sexual era trabalhada transversalmente em uma escola por meio de observações nas aulas que aconteciam em um Núcleo de Adolescentes Multiplicadores e foram utilizados para o trabalho relatos dos/as adolescentes. Nessas falas a professora de ciências foi mencionada como a única a falar sobre gênero e sexualidade e eles a consideravam a pessoa mais adequada para fazê-lo, devido à especificidade de sua matéria e seu maior conhecimento a respeito dos temas. A autora relata que durante a fase exploratória do trabalho de campo foram realizadas visitas em 10 instituições escolares e em todas elas o professor de ciências foi citado como o único profissional que abordava os temas em sala de aula e em todas elas os temas apresentados eram sempre os mesmos: anticoncepção, doenças sexualmente transmissíveis e gravidez. É importante observar que nesses trabalhos citados o professor de ciências é identificado como o profissional ideal para a abordagem de temas como gênero e sexualidade. Porém, também é relatado que a abordagem gira em torno das doenças e das consequências do exercício da sexualidade, como a gravidez não planejada e o aborto. Isto nos leva a crer que há uma intenção em causar medo e tentar desvincular a sexualidade do prazer. Apontamentos sobre as pesquisas envolvendo professores de ciências e biologia A análise dos artigos apontou alguns elementos relevantes para o debate sobre as pesquisas com a temática gênero e sexualidade envolvendo professores de ciências e biologia. Destaca-se que esses temas não aparecem na formação inicial dos professores de ciências e biologia e quando surgem advém do interesse individual e não emergem das construções curriculares dos cursos. Quando acontecem as abordagens dessas temáticas, priorizam-se ainda os aspectos conceituais com poucas discussões sobre a transposição didática desses assuntos para a sala de aula. Dessa forma, os licenciandos ficam inseguros sobre a abordagem dessas discussões. Não foram identificados trabalhos envolvendo a formação continuada de docentes de ciências e biologia com a temática gênero e sexualidade. As investigações evidenciaram a presença marcante do professor de ciências e biologia nas discussões sobre gênero e sexualidade nas escolas devido às ideias veiculadas no âmbito de escolar de que essas questões estão mais diretamente ligadas à área de biologia desconsiderando as outras dimensões da sexualidade. Em virtude disso as escolas responsabilizam o professor de ciências e biologia pelas discussões de sexualidade. Em relação às questões curriculares, os trabalhos também apontaram que o professor de ciências e biologia ainda não prioriza os debates sobre gênero e sexualidade, tendo dificuldades em debater outros aspectos da sexualidade senão aqueles envolvidos com o corpo biológico e saúde sexual. Sobre os materiais didáticos de ciências, estes ainda reforçam alguns estereótipos de gênero e poucos apresentam informações sobre diversidade sexual, sexismo ou homofobia. Considerações finais Este trabalho procurou verificar por meio de artigos publicados em revistas da área de ensino de ciências o que as pesquisas têm apontado sobre a relação dos professores de ciências e biologia com a temática gênero e sexualidade. Foi importante observar que a escola entende o professor de ciências e biologia como profissional mais apto para a abordagem desses temas em salas de aula na educação básica por associarem sexualidade apenas às questões biológicas. Percebemos a presença de trabalhos que discutem a ausência dos temas na formação inicial dos professores de biologia, porém, não foram encontrados artigos que debatessem sobre gênero e sexualidade na formação continuada de professores de ciências. Nos artigos pesquisados não identificamos trabalhos envolvendo o currículo dos cursos de graduação em ciências biológicas e que discutissem a prática docente dos professores de ciências e biologia na abordagem de gênero e sexualidade. Notamos também a ausência de artigos que relatassem as dificuldades encontradas pelos professores na abordagem desses temas por docentes dessas áreas. É importante ressaltar a importância de um trabalho interdisciplinar voltado para esses temas, porém, não podemos desconsiderar o destaque dado aos professores de ciências e biologia para a abordagem dessas questões na escola. Dessa forma faz-se necessário que este professor seja orientado, desde a sua formação inicial ou em cursos de formação continuada, para desenvolver esses temas com enfoques outros para além do biológico, proporcionando um maior espaço para discussões em que os estudantes tenham oportunidade de exporem as suas dúvidas e opiniões. Concluiu-se sobre a relevânciada ampliação das investigações relacionadas à abordagem de gênero e sexualidade por parte dos professores de ciências e biologia a fim de que se possam compreender os múltiplos aspectos relacionados a essas discussões e que, a partir disso, também se amplie as possibilidades de se repensar o ensino sobre gênero e sexualidade no espaço escolar. Referências ALTMANN, H. Orientação sexual em uma escola: recortes de corpo e gênero. Cadernos Pagu (21), p. 281-315, 2003. _____________. Educação Sexual em uma escola da reprodução à prevenção. Cadernos de Pesquisa, v. 39, n. 136, p. 175-200, jan/abr, 2009. BARCELOS, N.N.S, JACOBUCCI, D.F. Estratégias didáticas de educação sexual na formação de professores de ciências e biologia. Revista Electrónica de Enseñanza de las Ciencias, v.10, n.2, 334-345, 2011. BRASIL. Secretaria de Educação Básica. Orientações curriculares para o ensino médio. Brasília: MEC/SEF, 2006. BRASIL. Secretaria de Educação Básica. 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