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Discussões de gênero e sexualidade por professores de 
Biologia: uma análise de artigos publicados em revistas 
enquadradas na área de ensino de ciências 
Discussions On Gender And Sexuality By Biology Teachers: An 
Analysis Of Articles Published In Magazines Fitted In The Area 
Of Science Education 
Suse Mayre Martins Moreira Azevedo¹ 
 Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB, 
susiazevedo13@hotmail.com 
Marcos Lopes de Souza² 
Universidade Estadual do Sudoeste da Bahia – UESB 
marcoslsouza@ig.com.br 
Resumo 
Este trabalho procurou verificar por meio de artigos publicados em revistas da área de ensino 
de ciências o que as pesquisas têm apontado sobre a relação dos professores de ciências e 
biologia com a temática gênero e sexualidade. O levantamento foi feito em revistas da área de 
ensino de ciências que tiveram o conceito qualis A e B de acordo com a CAPES, totalizando 
20 periódicos. Nestes foram encontrados 15 artigos, os quais foram lidos, analisados e 
agrupados em quatro categorias. Os principais aspectos evidenciados nas pesquisas foram: os 
materiais didáticos de ciências ainda contribuem pouco para repensar nas abordagens 
normativas e essencialistas de gênero e sexualidade, reforça-se a identidade profissional dos 
educadores de ciências em trabalhar com a temática, além da ausência de investigações 
discutindo a formação continuada de professores de ciências e biologia, os currículos e 
práticas educativas desses docentes e as dificuldades em debater essas questões. 
Palavras-Chave: educação, gênero, sexualidade,. 
Abstract 
This paper examined through articles published in journals of the science teaching area what 
studies have shown about the relationship of science and biology teachers and the theme 
gender and sexuality. The survey was done in science education area journals which had the 
concept qualis A and B according to CAPES, totaling 20 journals. In these, 15 articles were 
found, which were read, analyzed and grouped in four categories. The main aspects 
highlighted in the research were: instructional science materials have contributed little to 
rethink normative and essentialist gender and sexuality approaches; the professional identity 
of science educators is reinforced to work with this theme; the lack of research discussing 
continuing education of science and biology teachers; curricula and educational practices of 
these teachers and the difficulties in discussing these issues. 
Keywords: education, gender, sexuality, 
Introdução 
Dentre os locais onde devem ser abordados temas como gênero e sexualidade com 
adolescentes a escola ocupa um lugar privilegiado para esta discussão. Por meio de atividades 
formais desenvolvidas pelos educadores e pela escola e informalmente em rodas de conversas 
entre os adolescentes surgem com grande freqüência discussões a respeito destes temas onde 
estes, têm oportunidade de exporem as suas opiniões, as suas dúvidas e seus anseios sobre os 
temas em questão. É importante lembrar que é na escola que os jovens passam a maior parte 
do seu dia e adquirem parte de sua formação como cidadãos e dependendo do que 
vivenciarem neste espaço, isso pode impactar positivamente na construção de suas ideais 
sobre gênero, sexualidade e temas afins. 
O sistema educacional no Brasil apresenta documentos diversos que apontam e orientam as 
escolas na realização de trabalhos nessa área, focando, principalmente nas questões sobre 
sexualidade, gênero, diversidade sexual e saúde sexual e reprodutiva. Os Parâmetros 
Curriculares Nacionais (PCN) para o ensino fundamental (BRASIL, 1998) apresentam as 
questões sobre gênero e orientação sexual como temas transversais a serem trabalhados nas 
séries iniciais por todas as disciplinas integrantes da matriz curricular. 
A inserção desses temas nas salas de aula trouxe um grande desafio para os professores 
(ZAGURY, 2006). Eles, de certa forma, podem ser considerados leigos sobre essas discussões 
e apresentam dificuldades para lidar com assuntos tão complexos que envolvem, além de 
conhecimentos específicos, posturas que variam em função da cultura familiar, social e das 
experiências pessoais. Esse tema transversal é, segundo Zagury (2006), aquele no qual os 
professores se sentem mais inseguros e menos preparados, embora estejam razoavelmente 
motivados. A autora afirma que: 
[...] além da complexidade, há outra característica que deve ser pensada e 
discutida. Para alcançar seus objetivos é preciso envolver os jovens de 
forma muito significativa, caso contrário transforma-se numa mera aula de 
ciências na qual se estuda o ciclo reprodutivo humano. Além disso, esse 
trabalho deve incluir discussões filosóficas, políticas, éticas e culturais. E é 
preciso considerar que nem sempre as famílias desejam ver seus filhos 
orientados por pessoas de quem não conhecem o pensamento, a visão de 
mundo e a orientação de vida, assim como não desejam que seus filhos se 
orientem de forma diversa daquela na qual acreditam (p.132-3). 
Dessa forma, o trabalho sobre sexualidade a ser realizado nas escolas encontra-se diante de 
vários desafios, como a falta de segurança e formação do professor, a necessidade de uma 
aprendizagem significativa para o estudante e a opção da orientação que as famílias desejam 
para seus filhos. 
Para a abordagem destes temas no ensino médio, no ano de 2006 foi implantado pelo MEC as 
Orientações Curriculares para o Ensino Médio, complementando os Parâmetros Curriculares 
Nacionais para o ensino Médio (PCNEM) lançado no ano 2000 (BRASIL, 2000). Esse 
documento sugere que temas referentes ao ser humano sejam abordados na disciplina de 
biologia destacando que compete ao ensino da Biologia, especialmente, o desenvolvimento de 
assuntos ligados à saúde, ao corpo humano, à adolescência e à sexualidade (BRASIL, 2006). 
Essas propostas apontam para um compromisso a ser partilhado por professores de todas as 
áreas do ensino fundamental, conforme sugere os PCN, não deixando de destacar o papel do 
professor de biologia na discussão dos temas citados, de acordo com as Orientações 
Curriculares para o Ensino Médio. 
Tomando como base as Diretrizes Curriculares Nacionais para os Cursos de Ciências 
Biológicas, homologado no ano de 2001, este documento cita apenas a abordagem sobre 
gênero como umas das competências e habilidades do aluno do referido curso onde diz que o 
mesmo deve: 
Reconhecer formas de discriminação racial, social, de gênero, etc. que se 
fundem inclusive em alegados pressupostos biológicos, posicionando-se 
diante delas de forma crítica, com respaldo em pressupostos 
epistemológicos coerentes e na bibliografia de referência (BRASIL, 2001). 
Ao se comparar as Orientações Curriculares para o Ensino Médio e as Diretrizes Curriculares 
Nacional para os cursos de graduação em Ciências Biológicas encontra-se certa incoerência, 
na medida em que é sugerido que o professor de biologia trabalhe esses temas na escola, 
porém, na sua formação o tema não aparece na organização curricular, ou quando está, é 
restrito às questões biológicas. 
Reconhecendo a relevância do professor de ciências e biologia em também discutir as 
questões de sexualidade na escola, este trabalho procurou verificar por meio de artigos 
publicados em revistas da área de ensino de ciências o que as pesquisas têm apontado sobre a 
relação dos professores de ciências e biologia com a temática gênero e sexualidade. A análise 
destes artigos poderá trazer informações importantes a respeito da relação existente entre o 
professor de biologia e a abordagem do tema em aspectos como: a formação inicial deste 
professor e as discussões sobre sexualidade; os conhecimentos conceituais, procedimentais e 
atitudinais abordados em relação à sexualidade; as dificuldades em trabalhar com o tema 
sexualidade etc. 
Percurso Metodológico 
Para a realização desta pesquisa foi feito, inicialmente, um levantamento das revistas 
existentes na área de ensino de ciências que tivessem o conceitoqualis A e B de acordo com a 
CAPES (Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior) e neste 
levantamento identificamos um total de 20 revistas. Em todas as revistas encontradas 
consultamos todas as edições onde procuramos selecionar os artigos que abordassem a 
questão de gênero e sexualidade por professores de Biologia, por meio do título ou resumo 
desses artigos. 
Essa forma de pesquisa, segundo Carvalho (1987) é denominada pesquisa bibliográfica 
caracterizando-se como uma atividade de localização e consulta de fontes diversas de 
informações escritas, para coletar dados gerais ou específicos a respeito de um tema, 
utilizando-se como fonte de pesquisa: publicações impressas ou digitais em forma de livros, 
dicionários, enciclopédias, periódicos, resenhas, monografias, dissertações, teses, apostilas, 
boletins etc. 
Nas revistas selecionadas para fazerem parte da pesquisa encontramos um total de 15 artigos 
com a abordagem que procurávamos. Esses artigos foram agrupados em quatro categorias que 
foram sendo criadas à medida que procedemos a leitura de cada um deles na íntegra. As 
categorias criadas a partir da análise dos trabalhos que relacionavam os professores de 
ciências e biologia e a temática gênero e sexualidade foram: formação inicial e continuada de 
professores de ciências e biologia; currículo de ciências e biologia e materiais didáticos; 
possibilidades, limitações e problemas para as discussões da temática e identidade 
profissional do educador de ciências e biologia e a temática gênero e sexualidade. 
A tabela 1 demonstra na coluna 1 as categorias criadas, na coluna 2 os títulos do artigo 
referentes a categoria e na coluna 3 o nome dos(as) autores(as). A seguir serão feitas as 
discussões sobre as categorias. 
Tabela 1: Categorias, títulos e autores dos artigos selecionados na pesquisa. 
CATEGORIAS TÍTULO DO ARTIGO AUTORES/AS 
Formação de professores e educadores 
para abordagem de educação sexual na 
escola: o que mostram as pesquisas 
Regina Célia Pinheiro Silva 
Jorge Megid Neto 
Discursos sobre homossexualidade e 
gênero na formação docente em 
biologia. 
Leandro Corsico Souza 
Nilson Fernandes Dinis 
Formação inicial e 
continuada de 
professores de 
ciências e biologia 
para abordagem dos 
temas gênero e 
sexualidade. Estratégias didáticas de educação sexual 
na formação de professores de ciências 
e biologia 
Nora Ney Santos Barcelos 
Daniela Franco C. Jacobucci 
 
Abordagem da sexualidade humana em 
livro didático de ciências- Desvelando 
os bastidores de uma proposta. 
Margarida C. de Santana 
Mônica de Cássia V. 
Waldhelm 
Os papéis de gênero nos livros didáticos 
de ciências. 
Eliecília de Fátima Martins 
Zara Hoffmann 
Sexualidade, prazeres e vulnerabilidade: 
implicações educativas. 
Dagmar E. Estermann Meyer 
Carin Klein 
Sandra dos Santos Andrade 
O cotidiano de educandos trabalhado na 
prática educativa de professores de 
biologia. 
Marcos Lopes Souza 
Denise de Freitas 
Gênero, sexualidade e educação: notas 
para uma “epistemologia”. 
Maria Rita de Assis César 
Presença de 
discussões sobre 
gênero e sexualidade 
no currículo de 
ciências e biologia, 
incluindo os materiais 
didáticos. 
O ensino de ciências sob uma 
perspectiva da formação moral 
Júlio Cesar Castilho Razera 
 
O tema transversal orientação sexual 
nos PCN e a atitude dos professores: 
convergentes ou divergentes? 
Andréia Lira 
Zélia Jofili 
 
Possibilidades, 
problemas e 
limitações para 
abordagem de gênero 
e sexualidade por 
professores de 
ciências e biologia. 
Educação sexual como parte curricular 
da disciplina de biologia e auxilio a 
adolescentes: Dificuldades e desafios. 
Welson Barbosa Santos 
Rone Cardoso 
Juliano da Silva M. de 
Almeida 
Fernanda Arantes Moreira 
Educação sexual: qual o profissional 
designado para esta tarefa? 
Mary Neide Damico Figueiró 
Orientação sexual em uma escola: 
recortes de corpo e gênero. 
Helena Altmann 
Educação Sexual em uma escola da 
reprodução à prevenção. 
Helena Altmann 
A identidade 
profissional dos 
educadores de 
ciências e biologia e 
sua relação com a 
abordagem de gênero 
e sexualidade no 
espaço escolar. 
 
O ensino de ciências sob uma 
perspectiva da formação moral 
Júlio Cesar Castilho Razera 
Discussão das categorias 
a) Formação inicial e continuada 
Os artigos sobre a formação inicial e continuada mostram que a proposta de discussão da 
Educação Sexual nas escolas, por meio da portaria interministerial no ano de 1992 decorre da 
preocupação com o aumento de casos de AIDS entre adolescentes e não pelo interesse em 
discutir sexualidade. No trabalho de Silva e Megid Neto e (2006) é feito um levantamento de 
produções de pós-graduação brasileira sobre formação de professores para o trabalho com 
educação sexual. Neste é relatado que os autores compreendem que a preparação envolve a 
formação global do educador e não só a aquisição de informações e ressaltam a importância 
de incluir a educação sexual em todos os cursos de graduação, com ênfase maior em 
Pedagogia e Ciências Biológicas. Isto nos mostra que existe ainda, mesmo pelos 
pesquisadores, a ideia de que esses temas devam ser abordados, pioritariamente, por 
professores dessa área. 
Foi observado ainda pelo autor, que os trabalhos analisados priorizam temas como gravidez e 
prevenção em DST/AIDS com enfoque na relação saúde/doença, numa concepção 
biologicista. É importante destacar que esta visão biologicista pode ser direcionada pela forma 
como o professor é orientado a trabalhar, pois, os estudos que analisam o currículo dos cursos 
de biologia dizem que as ementas desses cursos tratam o tema de modo restrito às explicações 
biológicas e características anatômicas, fisiológicas e patológicas, sem sugerirem em nenhum 
momento a abordagem sociocultural a respeito da sexualidade. 
O autor conclui que em face as dificuldades dos professores em tratarem o assunto, os 
mesmos preferem abordar apenas os aspectos biológicos, e para isso atribui-se esta função ao 
professor de ciência e biologia, sendo esta uma justificativa dos professores das outras áreas 
para o não-envolvimento com o tema. 
O artigo de Souza e Dinis (2010) discute as concepções sobre gênero e sexualidade na 
formação em ciências biológicas destacando a visão dos professores sobre homossexualidade 
e as possibilidades de mudanças curriculares das ciências biológicas para orientação aos 
docentes no trabalho de gênero e diversidade sexual. O autor justifica a especificidade do 
curso escolhido pelo fato de ser difícil determinar a fronteira que separa os conceitos 
científicos das ciências naturais, atribuídos aos professores desta área, de um discurso 
moralizante em relação ao sexo, para crianças e adolescentes. 
Neste trabalho foram investigados alunos do curso de ciências biológicas de uma universidade 
a fim de observar a inclusão dos temas durante o curso e a importância para a sua prática 
docente. Após análise dos dados os autores concluíram que a abordagem dos temas na 
universidade não é uma determinação programática e está condicionada a opção do professor. 
Observa-se ainda que, mesmo discutindo esses temas, os formandos/as não se sentem 
confortáveis para falar deles com seus discentes e a maioria desconhece ou conhece muito 
pouco acerca dos Parâmetros Curriculares Nacionais no que tange a Educação Sexual. 
O artigo de Barcelos e Jacobucci (2011) relata o acompanhamento de uma prática docente no 
curso de licenciatura em ciências biológicas onde se utilizou estratégias didáticas focalizando 
temas polêmicos sobre sexualidade humana, onde os alunos participaram ativamente das 
atividades propostas. Os depoimentos dos licenciandos após as atividades mostraram a 
importância de trabalhar esses temas de forma interativa por meio de estratégias didáticas que 
permitam o diálogo, fundamentadas em subsídios teóricos, e aponta a necessidade de uma 
reflexão coletiva entre licenciandos e formadores levando os sujeitos a refletirem sobresuas 
próprias crenças e concepções já construídas. 
Os trabalhos incluídos nesta categoria nos levam a refletir a seguinte questão: se na formação 
dos professores de ciências e biologia, que é o profissional que a escola entende como o mais 
apto a discutir essas questões, mesmo em uma visão puramente biologicista, esses temas não 
fazem parte da sua formação de que forma eles serão trabalhados por professores de outras 
disciplinas como sugerem os PCN? Novamente nos cabe ressaltar que é imprescindível que as 
IES pensem sobre a inclusão desses temas nos conteúdos a serem trabalhados nos cursos de 
graduação. 
b) Currículo de ciências e biologia incluindo os materiais didáticos e as 
discussões de gênero e sexualidade 
Nos trabalhos que discutem a presença dos temas sexualidade e gênero nos materiais 
didáticos e nos currículos de ciência e biologia na educação básica é consenso entre os autores 
que, embora os temas devam ser trabalhados de forma interdisciplinar é nessas disciplinas que 
as discussões surgem em sala de aula devido a proximidade de assuntos como reprodução 
humana e tudo que está ligado ao corpo. Diante disto é importante conhecer de que forma 
esses temas se apresentam nos livros didáticos destas disciplinas. 
O artigo de Santana e Waldhelm (2009) relata o processo vivido por autores de livros 
didáticos de ciências destacando a abordagem da sexualidade humana neste material e suas 
interfaces com a ciência e a saúde. O trabalho mostra a preocupação desses autores com 
textos e imagens que não reforcem tabus e preconceitos e nem disseminem informações 
errôneas procurando estimular a vivência prazerosa e responsável da sexualidade. 
As autoras ressaltam que não pretendem superestimar o papel do livro didático, mas não 
podem desconsiderar este instrumento como referência na seleção de conteúdos e estratégias 
de ensino. Com relação a abordagem da diversidade sexual nos livros didáticos a omissão 
acaba por atribuir ao professor a responsabilidade de trazer o tema à sala de aula. 
Para organização do livro, relatado neste artigo, as autoras chamam a atenção para a 
preocupação em não incluir as questões relacionadas à sexualidade ao final do livro, onde, 
provavelmente, o professor não chega e a inclusão de gênero ausente nos livros mais usados 
pelos professores da educação básica. 
A questão sobre as identidades de gênero nos livros didático de ciências também é abordada 
por Martins e Hoffmann (2007) em um dos artigos analisados, onde as autoras analisam 
diversos livros de ciências e chamam a atenção para uma conduta comum entre eles que 
tendem a mostrar uma visão estereotipada sobre os papeis socialmente aceitos e 
recomendados para cada gênero. Para análise dos livros levou-se em consideração o uso de 
roupas e acessórios e as brincadeiras de meninos e meninas ilustradas nesses livros, bem 
como, a representação do trabalho e dos papeis atribuídos a homens e mulheres. 
As autoras concluem que esses livros sugerem que a identidade feminina está subordinada em 
favor da dominação masculina contribuindo desta forma para o controle patriarcal das vidas 
femininas reforçando, a partir das relações de gênero, as condições que legitimam as 
estruturas de poder existentes. 
Com relação a discussões sobre gênero e sexualidade no currículo de ciências e biologia serão 
apresentados neste trabalho os artigos de Meyer, Klein e Andrade (2007), César (2009) e 
Razera (2007). Meyer reforça que a abordagem dos temas estão reguladas a partir de uma 
ênfase marcada pelo campo das ciências biológicas e naturais determinadas e justificadas por 
pressupostos da biologia – elegendo o corpo (e o seu funcionamento) como fundamento e 
substrato principal de suas explicações. Segundo a autora as discussões que abarcam a 
construção de gênero, sexualidade, prazer, corpo e saúde envolvem dimensões políticas e 
sociais que, por sua vez, estão implicadas com a escola e com a função docente, sobretudo na 
direção de perceber que os conhecimentos escolares estão imbricados com a produção e 
atribuição das diferenças de gênero, da educação que institui a heterossexualidade como 
norma e com a exclusão ou silenciamento dos prazeres e vivências juvenis. 
O trabalho de César (2009) traça uma linha histórica da criação da educação sexual no Brasil 
destacando que as primeiras tentativas do século XX em defesa da educação sexual nas 
escolas brasileiras se deu por meio de pressupostos higienistas e eugênicos. Após várias 
tentativas e proibições, em 1968 foi apresentado um projeto de lei propondo a introdução de 
educação sexual obrigatória nas escolas primárias e secundárias do pais, porém como a 
ditadura impôs um regime de controle e moralização dos costumes influenciado pelo grupo 
conservador da igreja católica, a educação sexual foi banida de qualquer discussão pedagógica 
por parte do estado e qualquer iniciativa foi suprimida com rigor. No inicio dos anos 1980 as 
práticas pedagógicas sobre sexualidade e educação sexual começaram a se fortalecer como 
campo específico da saúde. Assim, o discurso da saúde e da biologia ocupara por completo 
esse espaço “epistemológico’. Esse discurso foi reforçado no início dos anos 1990, com a 
epidemia da AIDS que traz um grande impacto na educação, na medida em que crescia o 
paradigma da informação como “arma” contra a epidemia. Assim a escola foi tomada como 
um lugar fundamental para a propagação das informações sobre a doença e as formas de 
prevenção e por estar ligada a questões de saúde foi reforçada a idéia de se trabalhar essas 
questões em disciplinas que cuidassem do corpo, neste caso ciências e biologia. 
Apenas na segunda metade dos anos 1990, com a reforma educacional e produção dos PCN a 
educação sexual foi instituída como um dos temas transversais que deveria ser abordado de 
forma interdisciplinar. 
O artigo de Razera (2007) destaca o ensino de ciências sob uma perspectiva de formação 
moral e que devemos rejeitar a visão arcaica da ciência entendida em critérios de neutralidade 
e verdades absolutas acumuladas ao longo do tempo. O autor ressalta que integrar a ciência e 
seu ensino por meio de contextualizações e mais um desafio a ser enfrentado pelos 
professores. Em se tratado de aulas de ciências é comum que surjam temas polêmicos e 
repletos de ambigüidades e dilemas a exemplo de sexualidade, aborto, entre outros. Nestes 
casos o professor não pode se eximir das discussões e dar aos temas apenas um tratamento 
científico, pois, a própria ciência é um processo de construção humana e por isso impregnada 
de ideologias e interesses. 
O autor ressalta ainda que questões de ética e responsabilidade social inevitavelmente fazem 
parte da educação em ciência e que esta disciplina trabalha com muitas possibilidades de 
conteúdos polêmicos, que são sempre “palco” para discussões éticas e morais. 
Nesta mesma linha de discussão sobre os temas que emergem nas disciplinas de ciências e 
‘biologia o trabalho de Souza e Freitas (2004) faz uma investigação da prática de professores 
de biologia sobre o conceito e a abordagem do cotidiano na prática pedagógica, indicando que 
as questões relacionadas ao corpo e a sexualidade surgem nessas discussões o que pode 
demonstrar uma relação entre esses temas e a disciplina biologia. O trabalho ressalta a 
necessidade de se utilizar esses momentos em que ocorrem essas indagações para dialogar 
com os educandos e fazê-los repensar sobre estes questionamentos permitindo uma análise 
mais profunda e integradora. 
Os autores ressaltam que um fator limitante do trabalho com situações do cotidiano de alunos 
é o dilema tempo versus conteúdo, pois, o professor tem a idéia de que, ao discutir essas 
situações está deixando de lado o conhecimento científico em sala de aula. 
Ao analisar os trabalhos desta categoria observamos que é necessário que ocorra uma 
reestruturação nos livros didáticos de ciências oferecendo espaço para discussão de outros 
temas para além da visão biologicista da sexualidade.Em relação a forma como a abordagem 
de gênero e sexualidade se insere nos componentes curriculares da educação básica é 
importante que sejam legitimados tempos e espaços para discussões permitindo aos 
educandos desenvolverem uma visão critica, pois, apenas desta forma iremos mudando a 
visão puramente biologicista a respeito desses temas. 
c) Possibilidades, problemas e limitações para abordagem de gênero e 
sexualidade por professores de ciências e biologia 
Os artigos de Lira e Jofili (2010) e Santos et al. (2011) apontam dificuldades na abordagem 
dos temas por professores de ciências e biologia, mas, mostram alguns caminhos para que 
estes possam superar essas dificuldades. 
Lira e Jofili (2010) buscou conhecer atitudes convergentes e divergentes de professores de 
Ciências Biológicas nas aulas de orientação sexual. Para esta análise foram criadas 
características que os PCN apontam como necessárias para desenvolvimento do tema. A 
pesquisa aponta que há um desconhecimento por parte dos educadores das recomendações 
dos PCN para a abordagem da orientação sexual onde afirmam que o documento não faz parte 
de sua prática pedagógica. Tanto Lira e Jofili ( (2010) como Santos et al. (2011) apontam 
como limitações para o trabalho com esses temas falta de políticas públicas de apoio ao 
educador, principalmente na esfera da formação inicial e educação continuada. Ressaltamos 
que esta questão foi alvo de discussão na categoria referente à formação inicial e continuada 
no início deste trabalho. Observa-se ainda nestes trabalhos que as discussões de questões 
sexuais apresentam-se muito distante das necessidades dos alunos por ser limitado ao âmbito 
anatômico-fisiológico, prescritivo e preventivo. 
O ensino dialógico é apontado por Santos et al. (2011) como possibilidade para tratar 
questões da sexualidade com adolescentes na escola, no entendimento de que educar é um 
processo que não separa os aspectos afetivos, sociais e culturais, e dentre eles estão os 
sexuais. O autor ressalta ainda que o ensino do conteúdo de biologia como atividade humana, 
consciente e intencional, pode deixar de existir na configuração como e tem sido entendido, 
ou seja, restrito e distante da realidade dos educandos. 
d) A identidade profissional dos educadores de ciências e biologia e sua 
relação com a abordagem de gênero e sexualidade no espaço escolar 
Apesar de não ser nossa intenção apontar os professores de ciências e biologia como o único 
profissional responsável em trabalhar esses temas na escola, encontramos no nosso estudo os 
trabalhos de Figueiró (1997) e Altmann (2003) que fazem uma abordagem sobre esta questão. 
O artigo de Figueiró (1996) baseia-se no estado da arte da educação sexual no Brasil, no 
período de 1980 a 1993. Nos trabalhos analisados alguns autores apontam diretamente o 
professor de Biologia como profissional adequado para abordagem dos temas na escola, 
apesar de atribuírem a função aos professores de uma forma geral. Essa visão pode ser 
justificada pelo fato de, segundo Altmann (2003), historicamente os orientadores educacionais 
dividirem com os professores de ciências a responsabilidade de trabalhar esse tema na escola. 
A pesquisa de Altmann (2003) buscou conhecer de que moda a orientação sexual era 
trabalhada transversalmente em uma escola por meio de observações nas aulas que 
aconteciam em um Núcleo de Adolescentes Multiplicadores e foram utilizados para o trabalho 
relatos dos/as adolescentes. Nessas falas a professora de ciências foi mencionada como a 
única a falar sobre gênero e sexualidade e eles a consideravam a pessoa mais adequada para 
fazê-lo, devido à especificidade de sua matéria e seu maior conhecimento a respeito dos 
temas. A autora relata que durante a fase exploratória do trabalho de campo foram realizadas 
visitas em 10 instituições escolares e em todas elas o professor de ciências foi citado como o 
único profissional que abordava os temas em sala de aula e em todas elas os temas 
apresentados eram sempre os mesmos: anticoncepção, doenças sexualmente transmissíveis e 
gravidez. 
É importante observar que nesses trabalhos citados o professor de ciências é identificado 
como o profissional ideal para a abordagem de temas como gênero e sexualidade. Porém, 
também é relatado que a abordagem gira em torno das doenças e das consequências do 
exercício da sexualidade, como a gravidez não planejada e o aborto. Isto nos leva a crer que 
há uma intenção em causar medo e tentar desvincular a sexualidade do prazer. 
Apontamentos sobre as pesquisas envolvendo professores de 
ciências e biologia 
A análise dos artigos apontou alguns elementos relevantes para o debate sobre as pesquisas 
com a temática gênero e sexualidade envolvendo professores de ciências e biologia. 
Destaca-se que esses temas não aparecem na formação inicial dos professores de ciências e 
biologia e quando surgem advém do interesse individual e não emergem das construções 
curriculares dos cursos. Quando acontecem as abordagens dessas temáticas, priorizam-se 
ainda os aspectos conceituais com poucas discussões sobre a transposição didática desses 
assuntos para a sala de aula. Dessa forma, os licenciandos ficam inseguros sobre a abordagem 
dessas discussões. Não foram identificados trabalhos envolvendo a formação continuada de 
docentes de ciências e biologia com a temática gênero e sexualidade. 
As investigações evidenciaram a presença marcante do professor de ciências e biologia nas 
discussões sobre gênero e sexualidade nas escolas devido às ideias veiculadas no âmbito de 
escolar de que essas questões estão mais diretamente ligadas à área de biologia 
desconsiderando as outras dimensões da sexualidade. Em virtude disso as escolas 
responsabilizam o professor de ciências e biologia pelas discussões de sexualidade. 
Em relação às questões curriculares, os trabalhos também apontaram que o professor de 
ciências e biologia ainda não prioriza os debates sobre gênero e sexualidade, tendo 
dificuldades em debater outros aspectos da sexualidade senão aqueles envolvidos com o corpo 
biológico e saúde sexual. Sobre os materiais didáticos de ciências, estes ainda reforçam 
alguns estereótipos de gênero e poucos apresentam informações sobre diversidade sexual, 
sexismo ou homofobia. 
Considerações finais 
Este trabalho procurou verificar por meio de artigos publicados em revistas da área de ensino 
de ciências o que as pesquisas têm apontado sobre a relação dos professores de ciências e 
biologia com a temática gênero e sexualidade. Foi importante observar que a escola entende o 
professor de ciências e biologia como profissional mais apto para a abordagem desses temas 
em salas de aula na educação básica por associarem sexualidade apenas às questões 
biológicas. Percebemos a presença de trabalhos que discutem a ausência dos temas na 
formação inicial dos professores de biologia, porém, não foram encontrados artigos que 
debatessem sobre gênero e sexualidade na formação continuada de professores de ciências. 
Nos artigos pesquisados não identificamos trabalhos envolvendo o currículo dos cursos de 
graduação em ciências biológicas e que discutissem a prática docente dos professores de 
ciências e biologia na abordagem de gênero e sexualidade. Notamos também a ausência de 
artigos que relatassem as dificuldades encontradas pelos professores na abordagem desses 
temas por docentes dessas áreas. 
É importante ressaltar a importância de um trabalho interdisciplinar voltado para esses temas, 
porém, não podemos desconsiderar o destaque dado aos professores de ciências e biologia 
para a abordagem dessas questões na escola. Dessa forma faz-se necessário que este professor 
seja orientado, desde a sua formação inicial ou em cursos de formação continuada, para 
desenvolver esses temas com enfoques outros para além do biológico, proporcionando um 
maior espaço para discussões em que os estudantes tenham oportunidade de exporem as suas 
dúvidas e opiniões. 
Concluiu-se sobre a relevânciada ampliação das investigações relacionadas à abordagem de 
gênero e sexualidade por parte dos professores de ciências e biologia a fim de que se possam 
compreender os múltiplos aspectos relacionados a essas discussões e que, a partir disso, 
também se amplie as possibilidades de se repensar o ensino sobre gênero e sexualidade no 
espaço escolar. 
Referências 
ALTMANN, H. Orientação sexual em uma escola: recortes de corpo e gênero. Cadernos 
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