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Esquizofrenia Resumo A esquizofrenia caracteriza-se por psicose (perda do contato com a realidade), alucinações (percepções falsas), delírios (crenças falsas), discurso e comportamento desorganizados, embotamento afetivo (variação emocional restrita), deficits cognitivos (comprometimento do raciocínio e da solução de problemas) e disfunção ocupacional e social. A causa é desconhecida, porém, há fortes evidências de algum componente genético e ambiental. Os sintomas geralmente começam na adolescência ou no início da idade adulta. Um ou mais episódios de sintomas devem durar, no ≥ 6 meses antes que o diagnóstico seja feito. O tratamento é feito com fármacos, terapia cognitiva e reabilitação psicossocial. A detecção e o diagnóstico precoces melhoram o funcionamento em longo prazo. Etiologia Embora sua causa específica seja desconhecida, a esquizofrenia tem uma base biológica, como evidenciado por • Alterações na estrutura do cérebro (p. ex., ventrículos cerebrais aumentados, afinamento do córtex, menor tamanho do hipocampo anterior e de outras regiões do cérebro) • Alterações neuroquímicas, especialmente alteração da atividade dos marcadores da transmissão de dopamina e glutamato • Fatores de risco genéticos recém-demonstrados Alguns especialistas sugerem que a esquizofrenia ocorre com mais frequência nas pessoas com vulnerabilidades de neurodesenvolvimento e que o início, a remissão e a recorrência dos sintomas são resultantes das interações entre essas vulnerabilidades duradouras e os estressores ambientais. Vulnerabilidade do neurodesenvolvimento Embora a esquizofrenia raramente se manifeste na primeira infância, os fatores da infância influenciam o início da doença na idade adulta. Esses fatores incluem • Predisposição genética • Complicações intrauterinas, do parto ou pós-natais • Infecções virais do sistema nervoso central • Trauma e negligência na infância Embora muitas pessoas com esquizofrenia não tenham história familiar, fatores genéticos estão fortemente implicados. Pessoas com um parente de 1º grau com esquizofrenia manifestam risco de desenvolver o transtorno de aproximadamente 10% a 12%, em comparação ao risco de 1% da população geral. Gêmeos monozigóticos têm concordância de cerca de 45%. Exposição materna à inanição e influenza no 2º trimestre de gestação, peso ao nascer < 2.500 g, incompatibilidade de Rh na 2ª gestação e hipóxia elevam o risco. Testes neurobiológicos e neuropsiquiátricos sensíveis sugerem que o ajuste ocular fino aberrante, o comprometimento cognitivo e atenção e deficiência da percepção sensorial ocorrem mais comumente entre os pacientes com esquizofrenia do que na população geral. Esses achados também ocorrem nos parentes de 1º grau das pessoas esquizofrênicas e, de fato, em pacientes com outros transtornos psicóticos, e podem representar um componente de vulnerabilidade hereditário. A semelhança desses achados entre os transtornos psicóticos sugere que nossas categorias diagnósticas convencionais não refletem as distinções biológicas subjacentes entre as psicoses. Estressores ambientais Estressores ambientais podem desencadear o surgimento ou a recorrência dos sintomas psicóticos nas pessoas vulneráveis. Estressores podem ser primariamente farmacológicos (p. ex., abuso de substâncias , especialmente maconha ) ou sociais (p. ex., ficar desempregado ou empobrecer, sair de casa para entrar na faculdade, romper um relacionamento amoroso, entrar nas forças armadas). Há evidências emergentes de que eventos ambientais podem iniciar mudanças epigenéticas que podem influenciar a transcrição gênica e o início da doença. Os fatores protetores que podem diminuir o efeito do estresse na formação ou exacerbação dos sintomas são o forte suporte psicossocial, boa capacidade de enfrentamento e os antipsicóticos . Sinais e Sintomas Fases da esquizofrenia Na fase prodrômica, os indivíduos podem não manifestar sintomas ou podem ter competência social prejudicada, desorganização cognitiva leve ou distorção perceptiva, diminuição da capacidade de sentir prazer (anedonia) e outras deficiências gerais de lidar com situações. Tais traços podem ser leves e reconhecíveis apenas retrospectivamente ou serem mais evidentes, com comprometimento dos funcionamentos social, acadêmico e vocacional. Na fase prodrômica avançada, podem surgir sintomas subclínicos; englobam afastamento ou isolamento, irritabilidade, desconfiança, pensamentos incomuns, distorções perceptivas e desorganização (1 ). O início do quadro franco de esquizofrenia (delírios e alucinações) pode ser súbito (em dias ou semanas) ou lento e insidioso (ao longo de anos). Na fase precoce da psicose, os sintomas são ativos e muitas vezes são piores. Na fase intermediária, os períodos sintomáticos podem ser episódicos (com exacerbações e remissões identificáveis) ou contínuos; os deficits funcionais tendem a piorar. Na fase tardia do transtorno, o padrão do transtorno pode ser estabelecido, mas há variabilidade considerável; a incapacidade pode estabilizar ou mesmo diminuir. Categorias dos sintomas na esquizofrenia Geralmente, os sintomas são classificados como • Positivos: distorção das funções normais • Negativos: diminuição ou perda das funções normais e de afeto • Desorganizados: transtornos de pensamento e comportamento bizarro • Cognitivos: deficits no processamento de informações e na resolução de problemas Pacientes podem ter sintomas de uma ou de todas as categorias. Os sintomas positivos podem ser classificados adicionalmente como • Delírios • Alucinações Delírios são convicções errôneas que são mantidas apesar de evidências contraditórias claras. Há vários tipos de delírios: • Delírios persecutórios: pacientes acreditam que estão sendo atormentados, seguidos, enganados ou espionados. • Delírios de referência: pacientes acreditam que passagens de livros, jornais, letras de música ou outras evidências ambientais são direcionadas a eles. • Delírios de retirada ou inserção de pensamento: pacientes acreditam que outras pessoas conseguem ler sua mente e que seus pensamentos são transmitidos para outras pessoas ou que forças externas estão impondo pensamentos e impulsos a eles. Delírios na esquizofrenia tendem a ser bizarros—i. e., claramente implausíveis e não derivados de experiências comuns de vida (p. ex., acreditar que alguém removeu os órgãos internos sem deixar cicatriz). Alucinações são percepções sensoriais que não são percebidas por ninguém mais. Elas podem ser auditivas, visuais, olfatórias, gustativas ou táteis, mas as alucinações auditivas são, de longe, as mais comuns. Os pacientes podem ouvir vozes comentando sobre seus comportamentos, conversando com outra voz ou fazendo comentários críticos e abusivos. Os delírios e as alucinações podem ser extremamente vergonhosos para os pacientes. Sintomas negativos (deficitários) incluem • Afeto embotado: a face do paciente parece imóvel, com contato visual precário e falta de expressividade. • Pobreza da fala: o paciente fala pouco e dá respostas concisas a perguntas, criando a impressão de vazio interno. • Anedonia: há falta de interesse nas atividades e aumento de atividades sem propósito. • Associabilidade: há falta de interesse em relacionamentos. Os sintomas negativos frequentemente levam a perda de motivação e diminuição no sentido de propósito e de objetivos. Sintomas desorganizados, que podem ser considerados um tipo de sintoma positivo, envolvem • Transtornos do pensamento • Comportamentos bizarros O pensamento é desorganizado, com discurso errático, não orientado a um objetivo e que se desvia de um tópico para outro. O discurso pode variar de levemente desorganizado até incoerente e incompreensível. O comportamento bizarro pode incluir puerilidades, agitação e aparência, higieneou conduta inapropriada. A catatonia é um exemplo extremo do comportamento bizarro, que compreende manter postura rígida e esforços para resistir a serem movimentados ou engajamento em atividade motora sem propósito e sem que ela tenha sido estimulada. Deficits cognitivos incluem deficiência nos seguintes: • Atenção • Velocidade de processamento • Memória de trabalho ou declarativa • Pensamento abstrato • Resolução de problemas • Compreensão das interações sociais O pensamento do paciente pode ser inflexível e a capacidade de resolver problemas, entender os pontos de vista das outras pessoas e aprender com as experiências pode estar diminuída. A gravidade do comprometimento cognitivo é o determinante principal da incapacitação geral. Subtipos da esquizofrenia Alguns especialistas classificam a esquizofrenia em subtipos com deficits e sem deficits, com base na presença e na gravidade dos sintomas negativos, tais como afeto embotado, perda da motivação e redução do sentido de propósito. Os pacientes do subtipo com deficit têm sintomas negativos proeminentes, os quais não são explicados por outros fatores (p. ex., depressão, ansiedade, ambiente sem estimulação, efeitos adversos de fármacos). Aqueles com subtipo sem deficit podem ter delírios, alucinações e distúrbios do pensamento, mas são indivíduos relativamente sem sintomas negativos. Os subtipos anteriormente reconhecidos da esquizofrenia (paranoide, desorganizado, catatônico, residual, indiferenciado) não provaram ser válidos ou confiáveis e não são mais usados. Diagnostico • Clinical criteria (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders, Fifth Edition [DSM-5]) • Combinação de história, sinais e sintomas Quanto mais cedo o diagnóstico é feito, melhor o resultado. Não existe nenhum teste definitivo para detecção de esquizofrenia. O diagnóstico se baseia na avaliação abrangente de história clínica, sinais e sintomas. Informações oriundas de fontes auxiliares, tais como família, amigos, professores e colegas de trabalho, são muitas vezes importantes. De acordo com o DSM-5, o diagnóstico da esquizofrenia requer ambos do seguinte: • ≥ 2 sintomas característicos (delírios, alucinações, fala desorganizada, comportamento desorganizado, sintomas negativos) por um porção significativa de um período de 6 meses (os sintomas devem incluir pelo menos um dos 3 primeiros) • Sinais prodrômicos ou atenuados da enfermidade com prejuízos sociais, ocupacionais ou de cuidados pessoais devem ficar evidentes por período de 6 meses, incluindo 1 mês de sintomas ativos Diagnóstico diferencial Psicose decorrente de outros distúrbios médicos ou por abuso de substâncias deve ser descartada por história e exames, os quais incluem exames laboratoriais e estudos de neuroimagem (Avaliação médica do paciente com sintomas mentais ). Embora alguns pacientes com esquizofrenia tenham anormalidades da estrutura cerebral nos exames de imagem, elas não são suficientemente específicas para ter valor diagnóstico. Outros transtornos mentais com sintomas similares incluem os diversos transtornos relacionados à esquizofrenia: • Transtorno psicótico breve • Transtorno delirante • Transtorno esquizoafetivo • Transtorno esquizofreniforme • Transtorno de personalidade esquizotípica Além disso, transtornos do humor podem produzir psicose em algumas pessoas. Testes neuropsicológicos, imagens do cérebro, eletroencefalograma (EEG) e outros testes de função cerebral (p. ex., acompanhamento ocular) não ajudam a distinguir entre os principais transtornos psicóticos. No entanto, pesquisas preliminares(1) sugerem que os resultados desses testes podem ser usados para agrupar os pacientes em 3 biotipos distintos de psicose que não correspondem às categorias vigentes de diagnóstico clínico. Certos transtornos de personalidade (especialmente esquizotípico) ocasionam sintomas similares aos da esquizofrenia, ainda que eles sejam geralmente mais leves e não envolvam psicose. Tratamento • Fármacos antipsicóticos • Reabilitação, incluindo retificação cognitiva, treinamento na comunidade e serviços de suporte • Psicoterapia, orientada para o treinamento de resiliência O período entre o início dos sintomas psicóticos e o primeiro tratamento se correlaciona à rapidez da resposta do tratamento inicial e à qualidade da resposta ao tratamento. Quando tratados precocemente, os pacientes respondem de maneira mais rápida e completa. Sem o uso de fármacos antipsicóticas, após episódio inicial, 70 a 80% dos pacientes apresentam episódio subsequente durante os 12 meses seguintes. O uso continuado dos antipsicóticos pode reduzir a recidiva em 1 ano para cerca de 30% ou menos com os fármacos de ação prolongada. O tratamento é mantido por pelo menos 1 a 2 anos após o primeiro episódio. Se os pacientes estiveram enfermos por mais tempo, é administrado por muitos anos. A detecção precoce e o tratamento multifacetado transformaram o tratamento de pacientes com transtornos psicóticos como esquizofrenia. Cuidados especializados coordenados - que incluem treinamento de resiliência, terapia pessoal e familiar abordando a disfunção cognitiva e apoio ao emprego - são uma contribuição importante para a recuperação psicossocial. Os objetivos gerais para o tratamento da esquizofrenia são • Reduzir a gravidade dos sintomas psicóticos • Preservar a função psicossocial • Prevenir recorrências dos episódios sintomáticos e da deterioração associada do funcionamento • Reduzir o uso de drogas ilícitas Antipsicóticos, reabilitação com serviços de apoio comunitários e psicoterapia constituem os componentes principais do tratamento. Como a esquizofrenia é uma doença de longa duração e recorrente, ensinar aos pacientes habilidades de automanejo da doença é uma meta geral significativa. Fornecer informações sobre o transtorno (psicoeducação) para os pais dos pacientes mais jovens pode diminuir a recidiva (1,2) . (Ver também the American Psychiatric Association’s Practice Guideline for the Treatment of Patients With Schizophrenia, 2nd Edition. ) Os antipsicóticos são divididos em antipsicóticos convencionais e antipsicóticos de 2ª geração (ASGs) com base em sua atividade e afinidade com os receptores de neurotransmissores específicos. ASG podem oferecer algumas vantagens, tanto em termos de eficácia ligeiramente maior (embora evidências recentes coloquem em dúvida a vantagem dos ASG como classe) quanto em termos de menor probabilidade de distúrbios de movimentos involuntários e efeitos adversos relacionados. Contudo, o risco de síndrome metabólica (excesso de gordura abdominal, resistência à insulina, dislipidemia e hipertensão) é maior com os ASG do que com os antipsicóticos convencionais. Vários antipsicóticos de ambas as classes podem causar a síndrome do QT longo e essencialmente aumentam o risco de arritmias fatais; esses fármacos incluem tioridazina, haloperidol, olanzapina, risperidona e ziprasidona.