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Pâncreas e suas alterações O ducto pancreático principal e o ducto pancreático acessório desembocam na papila duodenal maior As células acinares são 80% da massa células do órgão e produzem as enzimas digestivas que desembocam no ducto pancreático principal. As células endócrinas são 20% da massa células do órgão que representam a ilhota de Langherans, e essas ilhotas estão imersas entre os ácinos. As células da ilhota de Langherans são compostas por três tipos celulares: Delta, secretora de Somatostatina, Alfa, secretora de Glucagon, e Beta, secretora de Insulina. A diferenciação dos três tipos celulares só é possível por imuno-histoquímica, ou seja, na microscopia, há poucas diferenças entre as células, sabendo-se que a célula beta tem um núcleo menor e mais compactado, e em maior quantidade, do que a célula alfa, de núcleo maior e menos compactado. As ilhotas de Langherans são muito capilarizadas. Nos ácinos, temos a composição das células acinosas, que teêm uma região mais visível apical que são os grânulos de zimogênio, compostos pelas enzimas digestivas pancreáticas. No interior do ácinos, temos o ducto intercalar, onde desembocam as enzimas, que desemboca no ducto excretor (maior na histologia) e que cai no ducto pancreático principal. As células centroacinares não produzem enzimas. As enzimas produzidas são em sua maioria na forma de pró-enzimas ou seja, que necessitam de ativação externa, no caso pela tripsina, que também é uma pró-enzima acinopancreática e só será ativada e desencadeará a ativação das outras enzimas somente no duodeno(pela ação da enteropeptidase/enteroquinase duodenal), sendo que as únicas que não são produzidas dessa maneira são as enzimas lipase e amilase pancreática. Além disso, há enzimas inibidoras da tripsina que estão presentes na secreção dos ácinos e dos ductos, que é a chamada PSTI, o que soma com os mecanismos anteriores como mecanismos de defesa do órgão para evitar sua autodigestão. A atuação do pâncreas como glândula exócrina se dá pela ação neuroendócrina, pela ação das células enteroendócrinas do jejuno/íleo/duodeno, que são estimulados pelo pH baixo e pelo estímulo do nervo vago, o que estimula a liberação de secretina e colecistoquinina, que atuará nas células acinares a secretarem o suco pancreático, rico em água, bicarbonato e enzimas digestivas. PANCREATITES AGUDA Lesão reversível da parte exócrina do pâncreas, ocasionada pela autodigestão do pâncreas, sendo que o fator mais importante é a ativação inapropriada do tripsinogênio em tripsina ainda nos ácinos, o que acarreta em ativação das outras enzimas pancreáticas e autodigere os ácinos serosos, além de ativar a pré-calicreína sanguínea, o que produz calicreína que é uma citocina pró- inflamatória que faz a taxia de leucócitos. Alguns fatores podem desencadear a ativação do tripsinogênio em tripsina, no entanto, o que mais ocorre é uma cascata de lesão acinar que se inter-relaciona e possibilita o processo de pancreatite aguda. A lesão da célula acinar pode ser por alguns mecanismos que se relacionam mutuamente para ativação das pró-enzimas: 1. Obstrução do ducto pancreático: o que gera um acúmulo de lipase, degeneração dos lipócitos locais, estímulo da necrose e do processo inflamatório pela liberação de citocinas das células lesionadas e dos miofibroblastos ao redor, o que gera a inflamação, edema local, compressão dos vasos e isquemia da célula acinar. 2. Inflamação das células acinares pode gerar liberação de pró-enzimas e hidrolases lisossomais, o que pode acarretar a ativação o tripsinogênio. * O álcool, algumas infecções virais e traumas também podem gerar essa inflamação. 3. Transporte defeituoso de pró-enzimas: As hidrolases dos lisossomos podem se encontrar com os grânulos de zimogênio e ativação das enzimas pancreáticas intra- acinares. *Outros problemas que podem acarretar na lesão acinar são as coledococeles (dilatações dos ductos pancreáticos congênitos), cálculos biliares, alcoolismo, parasitos locais, medicações como AINE e anticoncepcionais, alterações genéticas que inativam as enzimas que inibem a tripsina. *O mecanismo de lesão pelo álcool se dá pela ação de produção de uma secreção proteica, que pode gerar uma obstrução dos ductos e até contração crônica esfíncter de Oddi(da papila maior do duodeno). A classificação da gravidade da pancreatite aguda se dá em como ocorrerá o processo inflamatório, sendo que há uma subdivisão em branda/intersticial (sem necrose das células acinares e somente dos adipócitos), necrosante (com necrose dos adipócitos e das células parenquimatosas acinares, com a presença de células fantasmas e reação de saponificação, que é a reação dos ácidos graxos liberados com ao cálcio do meio extracelular, além de uma hemorragia leve), hemorrágico (mais grave e com presença de muitas hemácias soltas no tecido e destruição total do pâncreas). Na macroscopia vemos a esteatonecrose, bolinhas brancas que são os pingos-de-vela das células gordurosas, regiões de coágulos no órgão, necrose observada e presença de região de reparo. Principais sinais clínicos: • Sinal de Grey-Turner e Cullen: equimose na região periumblical e dos flancos, que indica ruptura do parênquima acinar. • Paniculite: inflamação do tecido adiposo subcutâneo por liberação das enzimas e inflamação adipócita • Icterícia: obstrução dos canalículos biliares e • Xantomas: pela liberação do ácido graxo dos adipócitos pancreáticos, podemos ter acúmulo desses em algumas outras regiões, como da região periorbital (xantelasma), que são regiões de macrófagos xantomizados. Achados laboratoriais: elevação da amilase nas primeiras 24 horas e da lipase entre 72 e 96 horas, podendo ver até glicosúria e hipocalcemia (já que a reação de saponificação se dá pela gordura e pelo cálcio do interstício). Tratamento: cessamento da ingestão oral e descanso do órgão, com boa possibilidade de cura do caso se tratado adequadamente. Complicações: Abscesso pancreático, insuficiência renal, embolia gordurosa, pseudocisto por ser uma região de necrose e tentativa de reparo. PANCRETITE CRÔNICA É a ocorrência de múltiplos episódios de inflamação do tecido parenquimatoso do pâncreas com comprometimento do tecido endócrino, com uma fisiopatogenia similar à pancreatite aguda, o que gera fibrose local. São algumas causas desse processo, sendo que a mais comum é a ingesta crônica de álcool que ocorre assim: • Obstrução crônica dos ductos por concreções: Concreções são cálculos proteicos que são formados em demasia por pessoas que têm um hábito alimentar distorcido, como a ingesta de álcool, o que gera um suco pancreático com maior quantidade de proteínas e, assim, possibilita a junção dessas em cálculos que são progressivos. • Estresse oxidativo: Induzido pela ingesta de álcool, o que pode gerar quimiocinas liberadas pela insuficiência mitocondrial, que possibilita a inflamação e ativação dos miofibroblastos locais, o que amplia seu estímulo na síntese de colágeno e de fibrinogênio nas células parenquimatosas, tendo fibrose local e perca da função pancreática. Outros processos que podem ocasionar pancreatite crônica são traumas, neoplasia, pâncreas divisium (estenose relativa causada pela alteração anatômica de desembocar a maior parte do suco pancreático pelo suco pancreático acessório e não pelo principal), mutações genéticas nas enzimas que inibem a tripsina, pancreatite esclerosante linfoplasmocitária (autoimune). Na microscopia vemos necrose e muitas regiões de fibrose, com ilhotas de Langherans espaçadas, poucos ácinos e muita região amorfa, ductos com concreções proteicas. Na macroscopia vemos áreas esbranquiçadas de necrose, lóbulos raros e unificação do tecido por essa região fibrótica. São sinais clínicos ataquesrecorrentes de icterícia, dor abdominal recorrente, diabetes mielitus (por comprometimento das ilhotas), paciente com perda de peso e edema e, como complicação principal, risco de desenvolvimento de neoplasia.