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A FE CRISTA
Estudos baseados no
Breve Catecismo
de Westminster
O clássico A Body o f Divinity de
Thomas Watson
A Fé Crista
A Fé Cristã - Estudos no Breve Catecismo de Westminster, por Thomas Watson O 2009 Editora Cultura
Cristà. Publicado originalmente em 1692 como parte da obra A Body o f Divinity. 1" edição da Banner o f
Truth Trust a partir da edição de 1890: 1958. Edição revisada da Banner: 1965. São reservados todos os
direitos desta tradução.
I* edição - 2009 — 3.000 exemplares
Conselho Editorial
Ageu Cirilo de Magalhães, Jr.
Alderi Souza de Matos
André Luis Ramos
Cláudio Marra (Presidente)
Fernando Hamilton Costa
Francisco Solano Portela Neto
Mauro Fernando Meister
Tarcizio José Freitas de Carvalho
Valdeci da Silva Santos
Produção Editorial
Tradução
Trinity Traduções e Produções S/C Ltda
Revisão
Charles Marcelino da Silva
Wilton de Lima
Edna Guimarães
Editoração
Rissato
Capa
Osiris C. Rangel Rodrigues
W331f Watson, Thomas
A fé cristã, estudos baseados no breve catecismo de Westminster / Thomas Watson;
traduzido por Trinity Traduções e Publicações S/C. _ São Paulo: Cultura Cristã, 2009
368 p.: 16x23cm
Tradução A Body of divinity
ISBN 978-85-7622-290-3
I. Fé cristã 2. Doutrina I. Título
234.1 CDD
CÊ
CDITORfl CULTURA CRISTÃ
R. Miguel Teles Jr., 394 - Cambuci - SP
15040-040 - Caixa Postal 15.136
Fone (011) 3207-7099 - Fax (011) 3279-1255
www.editoraculturacrista.com.br
Superintendente: Haveraldo Ferreira Vargas
Editor: Cláudio Antônio Batista Marra
http://www.editoraculturacrista.com.br
Sumário
Biografia de Thomas Watson................................................................................... 7
I. Preâmbulo - Firmes e fundamentados na f é ...................................................... 15
1. É dever dos cristãos se firmarem na doutrina........................................... 15
2. É dever dos cristãos se fundamentarem na doutrina............................... 18
II. Primeira Parte - O Homem e as Sagradas Escrituras.................................... 21
A. O fim principal do homem........................................................................... 21
1. Glorificar a Deus para sempre............................................................. 21
2. Deleitar-se em Deus para sempre....................................................... 37
B. As Sagradas Escrituras.................................................................................. 43
1. A autoridade das Escrituras Sagradas................................................ 43
2. As Escrituras canônicas são a regra completa.................................. 48
3. O escopo principal e o fim da Escritura............................................ 48
4. A legítima interpretação das Escrituras............................................. 49
III. Segunda Parte - Deus, seu Ser e seus decretos............................................. 57
A. O ser de D eus.................................................................................................. 57
1. A existência de D eus............................................................................. 57
2. Deus é Espírito...................................................................................... 64
3. Que tipo de Espírito é Deus?............................................................... 69
B. O conhecimento de D eu s............................................................................. 74
1. A grandeza do conhecimento de D eus............................................... 74
2. A natureza do conhecimento de D e u s ............................................... 75
3. A infinitude do conhecimento de D eus.............................................. 76
C. A eternidade de D eu s.................................................................................... 81
1. O que é a eternidade de D eus.............................................................. 81
D. A imutabilidade de D eus.............................................................................. 86
1. Deus é imutável em sua natureza....................................................... 86
2. Deus é imutável em seu decreto......................................................... 90
E. A sabedoria de D eus...................................................................................... 92
1. A infinita inteligência de D eu s........................................................... 93
2. O trabalho de Deus é perfeito.............................................................. 93
F. O poder de D eus............................................................................................. 99
1. Deus tem direito soberano e autoridade sobre o hom em ............... 99
2. A autoridade e o poder de Deus são infinitos................................... 100
3. Deus limita o uso de seu poder segundo sua vontade.................... 102
G. A santidade de D eus...................................................................................... 105
1. A natureza da santidade de D eus........................................................ 105
2. A santidade de Deus em seus eleitos................................................. 108
H. A justiça de D eu s.......................................................................................... ........111
1. O que é a justiça de D eus?.................................................................. ........111
2. Onde identificamos a justiça de D eu s? ............................................. ........112
3. Deus é justo ao permitir que o ímpio prospere?............................. ........113
4. Deus é justo ao permitir que o justo sofra aflições?...................... ........114
5. Deus é justo ao salvar uns e punir outros?....................................... ........115
I..A misericórdia de D eu s..........................................................................................117
1. Particularidades da misericórdia de D eus........................................ ........118
2. A natureza da misericórdia de D eus.................................................. ........121
J. A verdade de D eu s......................................................................................... ........125
1. Deus é a verdade............................................................................................125
2. A verdade de D eus................................................................................ ....... 125
L. A unidade de Deus......................................................................................... ........130
1. Há somente uma causa primeira......................................................... ........130
2. Há somente um ser infinito.................................................................. ....... 131
3. Há somente um poder onipotente....................................................... ....... 131
M. A Trindade............................................................................................................. 135
1. A unidade na Trindade................................................................................. 136
2. A Trindade na unidade.......................................................................... ....... 136
N. A criação.................................................................................................................140
1. A feitura do mundo............................................................................... ....... 141
2. O adorno do mundo.............................................................................. ....... 142
3. Razões para a criação do mundo........................................................ ....... 143
O. A providência de D eus.........................................................................................147
1. A realidade da providência de D eus.................................................. ....... 147
2. A definição de providência de D eus.................................................. ....... 147
3. O alcance da providência de D eu s............................................................ 148
4. Objeções à doutrina da providência de D eus.......................................... 150
5. Proposições sobre a providência de D eus........................................ ....... 152
IV. Terceira Parte - O pecado e a queda....................................................................... 157
A. O pacto das obras......................................................................................... ....... 157
1. O pacto das obras feito com Adão e toda a humanidade...................... 157
2. Características do pacto feito com Adão.......................................... ....... 158
B. O pecado......................................................................................................... ....... 162
1. Quanto ao pecado em geral................................................................. ....... 162
2. Quanto à odiosidade do pecado......................................................... ....... 162
C. O pecado de Adão......................................................................................... ....... 167
1. Nossos primeiros pais caíram de seu glorioso estado de inocência 167
2. O pecado pelo qual nossos primeiros pais caíram foi comer do
fruto proibido........................................................................................ ....... 169
D. O pecado original......................................................................................... ....... 173
1. No pecado original há algo exclusivo e algo absoluto................... ....... 174
2. Algumas características do pecado original..................................... .......175
E. A desgraça do homem no pecado....................................................................... 180
1. Particularmente...................................................................................... ...... 180
2. Absolutamente....................................................................................... ...... 180
V. Quarta Parte - O pacto da graça e seu mediador.................................................. 187
A. O pacto da graça.................................................................................................. 187
1. Qual é o novo pacto?............................................................................ ...... 187
2. Quais nomes são dados a esse pacto?............................................... ...... 187
3. Por que Deus deveria fazer um pacto conosco?.............................. ...... 188
4. Os dois pactos, da graça e das obras, são diferentes?.................... ...... 188
5. Qual é a condição do pacto da graça?............................................... ...... 189
B. Cristo, o mediador do p acto .............................................................................. 194
1. A pessoa do mediador do pacto.......................................................... ...... 196
2. A graça do mediador do pacto................................................................... 197
C. O ofício profético de Cristo............................................................................... 200
1. Como Cristo ensina?............................................................................. ...... 200
2. Quais são as lições que Cristo ensina?.............................................. ...... 201
3. Como o ensino de Cristo difere de outros ensinos?.............................. 201
D. O ofício sacerdotal de Cristo............................................................................. 206
1, Em seu oficio sacerdotal. Cristo satisfaz a le i........................................ 207
2. Em seu ofício sacerdotal, Cristo intercede por nós...............................212
E. O ofício real de Cristo................................................................................... ......222
1. Cristo é rei em relação a seu p o v o ...........................................................223
2. Cristo é rei em relação a seus inim igos............................................. ......224
F. A humilhação de Cristo em sua encarnação.............................................. ......227
G. A exaltação de C risto.................................................................................... ......239
1. Em que sentido Deus exaltou a Cristo?...................................................239
2. De quantas maneiras Cristo foi exaltado?........................................ ......239
H. Cristo, o redentor.................................................................................................245
1. Cristo comprou nossa redenção.......................................................... ......245
VI. Quinta Parte - A Redenção e sua aplicação..........................................................251
A. F é ..................................................................................................................... ......251
1. A natureza da fé salvadora................................................................... ......251
2. A operação da fé salvadora.................................................................. ......253
3. A preciosidade da fé salvadora........................................................... ......253
4. A justificação na fé salvadora....................................................................254
B. Vocação e fica z ............................................................................................... ......257
C. Justificação...................................................................................................... ......263
1. Definição de justificação..................................................................... ......264
2. Características da justificação...................................................................266
D. A adoção......................................................................................................... ......269
E. A santificação................................................................................................. ......278
1. O que é santificação?............................................................................ ......279
2. Quais são as falsificações da santificação?...................................... ......281
3. Onde se vê a necessidade da santificação?...................................... ...... 283
4. Quais são os sinais da santificação?.................................................. ...... 284
F. A certeza.......................................................................................................... ...... 289
1. Definição de certeza da santificação................................................. ...... 290
2. A diferença entre certeza e presunção............................................... ...... 291
3. Deve-se procurar essa certeza................................................................... 292
4. Firmando-se nessa certeza................................................................... ...... 297
G A p a z ....................................................................................................................... 301
H. A alegria.......................................................................................................... ...... 307
I..O crescimento na graça........................................................................................ 314
J. A perseverança................................................................................................ ...... 320
1. Ao dizer que os crentes perseveram, admitimos que:.................... ...... 321
2. Por quais meios os cristãos perseveram?......................................... ...... 322
3. Argumentos para provar a perseverança dossantos.............................. 323
4. Respondendo a algumas das objeções dos arminianos........................ 325
VII. Sexta Parte - A morte e o último d ia ....................................................................333
A. A morte do justo...................................................................................................333
1. A vida do cristão é C risto.................................................................... ......333
2. A morte do cristão é lucro ................................................................... ......334
B. O privilégio do crente na morte.................................................................. ......339
1. Os cristãos recebem benefícios em sua morte........................................339
2. Os cristãos são unidos a Cristo em sua morte........................................343
3. Os cristãos têm suas almas glorificadas em sua morte................... ......344
C. A ressurreição................................................................................................. ......350
1. Os justos terão seus corpos glorificados.................................................350
2. Os justos serão justificados publicamente....................................... ......356
Notas............................................................................................................................. ......363
índice Rem issivo..............................................................................................................368
D igitalizado por :
Jo go is2 0 0 6
BIOGRAFIA DE
THOMAS WATSON
Compilada por C. H. Spurgeon
A Body o f Divinity [em nossa edição, A Fé Cristã - Estudos baseados
no Breve Catecismo de Westminster] é uma das mais preciosas e inigualáveis
obras dos puritanos. Todos os que tiveram contato com esta obra sabem muito
bem disso. Watson foi um dos escritores mais objetivos, profundos, sugestivos
e elucidativos dentre os célebres teólogos que fizeram da era puritana o período
dourado da literatura evangélica. Há uma união muito feliz entre a boa
doutrina, a profunda experiência e a sabedoria prática evidentes em todas as
suas obras. Este livro é, mais que todos os outros, útil aos alunos e aos ministros.
Embora Thomas Watson tenha escrito muitos livros preciosos,
comparativamente pouco se sabe de sua pessoa. Nem mesmo as datas de
seu nascimento e morte são conhecidas.1 Seus escritos são suas melhores
memórias. Ele talvez não precisasse de outras e, portanto, a providência
evitou o desnecessário. Não devemos tentar descobrir sua ascendência e,
como fazem os antiquários, encontrar uma famosa família Wat, à qual esteja
ligado, cujo filho se destacou nas cruzadas ou em qualquer empreendimento
insano. E de pouca importância se teve ou não sangue azul correndo em
suas veias, pois sabemos que foi de semente real redimido pelo Senhor.
Alguns homens são seus próprios ancestrais e, pelo que sabemos, a
genealogia de Thomas Watson não lhe atribuiu fama, mas todo o seu brilho
provém de suas realizações.
Teve a felicidade de ser educado no Emmanuel College, em Cambridge,
que naqueles dias merecia ser chamada de a escola dos santos, a grande
mãe que alimentou eruditos evangélicos. No Register and Chronicle de
Kennet (vol. 1, págs. 933,934) encontra-se uma lista de 87 nomes de
ministros puritanos, incluindo-se muitos famosos e queridos pregadores e
comentaristas como: Anth. Burgess, W. Jenkyn, Ralph Venning, Thomas
Brooks, T. White, Samuel Slater, Thomas Watson, John Rowe, Dr. W. Bates,
Stephen Chamock, Samuel Clarke, Nathaniel Vincent, Dr. John Collings,
William Bridge, Samuel Hildersam e Adoniram Bifield. Após cada nome
havia um comentário que dizia: “A maioria destes homens é mencionada
na lista dos sofredores a favor do não-conformismo e aparece no rol dos
alunos matriculados no Emmanuel College. Apesar de serem muitos, sem
dúvida são da mesma sociedade que produziu pregadores no contexto das
infelizes mudanças de 1641”,2 etc. Na margem da introdução do livro se
encontra a seguinte observação: “Não é impróprio observar quantos jovens
estudantes, de ambas as universidades, ficaram desanimados em virtude
do preconceito de seus diretores e tutores. Por isso, somente Emmanuel
College, em Cambridge, produziu mais puritanos e não-conformistas que,
talvez, todas as outras sete faculdades ou academias em qualquer uma das
universidades”. Um fato como esse deveria direcionar as orações de todos
os crentes a favor dos nossos seminários e dos nossos discípulos, pois da
maneira como essas instituições são conduzidas dependerá, diante de Deus,
o futuro bem-estar de nossas igrejas. O seminário Pastors’ College, que
publica esta obra para o uso de seus alunos, pede insistentemente as orações
intercessoras dos santos.
Não nos surpreende descobrir que Thomas Watson desfrutou a boa
reputação de ser o aluno mais aplicado enquanto estudava em Cambridge.
Os grandes autores puritanos devem ter sido muito ativos na universidade,
ou nunca teriam se tornado inigualáveis mestres em Israel. O aluno
consciente é aquele que muito provavelmente se tomará um pregador de
sucesso. Após completar seu curso com honras, Watson se tornou reitor da
paróquia de St. Stephen, em Walbrook, onde, no coração de Londres, exerceu
fielmente o ofício de pastor por quase dezesseis anos, com grande diligência
e devoção. Felizes foram os cidadãos que receberam regularmente as
ministrações tão instrutivas e espirituais de Watson. A igreja estava
constantemente cheia, pois a fama e a popularidade do pregador eram
merecidamente grandes. Envolvendo-se com seu rebanho, cheio de santo
zelo pelo destino eterno dele, os anos passaram com muitas alegrias
enquanto crescia o respeito por parte de todos os que o conheciam.
Calamy,3 em seu memorial não-conformista, diz o seguinte de Watson:
Ele era tão conhecido na cidade por sua piedade e disposição em
ajudar que, embora fosse afamado no Friendly Debate,4 levou para a
sepultura o respeito geral de todas as pessoas sérias. Era um homem
culto, um pregador popular, mas sensato (se assim podemos julgá-lo
por seus escritos), e conspícuo no dom da oração. Sobre como gostava
de orar, segue-se um fato que será prova suficiente.
Uma vez, em um dia de palestra, antes de acontecer o Ato de
Bartolomeu,5 ficou sabendo que o bispo Richardson veio ouvi-lo na
igreja de St. Stephen. O bispo ficou muito satisfeito com seu sermão,
mas especialmente com sua oração ao final, de maneira que o seguiu a
fim de lhe agradecer e pedir uma cópia de sua oração. Em resposta, o
Sr. Watson disse: “Não posso te dar o que me pedes, pois não escrevo
minhas orações. Não é algo estudado, mas espontâneo, pro re nata ,
com o Deus me capacitou, de todo o meu coração e sentim ento” .
O bom bispo foi embora pensativo pelo fato de um homem poder orar
daquela maneira extemporaneamente.
8 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
Entretanto, a mão que outrora oprimira a igreja se estendia novamente
para afligir alguns dos santos. Os mais cultos, santos e zelosos do clero da
Igreja da Inglaterra descobriram que o ato da uniformidade não lhes
permitiria manter suas consciências puras e seus estilos de vida, por isso se
submeteram a perder tudo por causa de Cristo. Thomas Watson não hesitou
em relação ao caminho que deveria seguir. Não era um faccioso inimigo da
realeza, nem um republicano vermelho, nem mesmo um homem da quinta
monarquia. Na verdade, havia sido muito leal à casa de Stuart nos dias do
Cromwell. Havia protestado contra a execução do rei e se unido ao plano
de Love para conduzir Charles II ao trono. Embora tivesse tudo isso a seu
favor, era um puritano e, portanto, não deveria ser tolerado pelos espíritos
ressentidos que dominavam o governo da época. Quaisquer que tenham
sido as sementes de discórdia semeadas na trágica história do Ato de
Bartolomeu, ele não guardou rancor. Mas os resultados finais estavam cheios
do inimaginável.A compreensão pode ter atrapalhado a verdade. Os direitos
da coroa do rei Jesus poderiam ter sofrido de falta de advogados se os
monarcas e os sacerdotes tivessem sido mais tolerantes. Da maneira como
aconteceu, homens bons foram forçados a uma posição mais verdadeira do
que aquela que, por outro lado, ocupavam, e o começo de uma reforma real
estava inaugurado. A partir desse começo sofredor houve muito progresso.
A cada dia, a causa dos excluídos empurrava e forçava os adversários em
direção à beira do precipício, pois abaixo devem cair todos os levantes
contra o reino de Deus.
Com muitas lágrimas e lamentos, a congregação de St. Stephen viu
seu pastor ser arrancado de seu rebanho. Com corações doloridos ouviram
suas palavras de despedida. Ele mesmo falando como quem está de luto do
que mais deleitava seu coração, sofrendo com alegria a perda de todas as
coisas, despediu-se deles e saiu “sem saber aonde ia” .
Na coleção Sermões de Despedida, há três sermões do Sr. Watson.
Dois foram pregados no dia 17 de agosto e o terceiro na terça-feira seguinte.
O primeiro deles, pregado um pouco antes do meio-dia, foi baseado no
evangelho de João 13.34: “Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns
aos ou tros...” . O serm ão enfoca m uito do esp írito do evangelho,
particularmente ao recomendar amor aos inimigos e perseguidores.
O segundo sermão, pregado à tarde, foi baseado em 2 Coríntios 7.1:
“Tendo, pois, ó am ados, tais prom essas, purifiquem o-nos de toda
impureza, tanto da carne como do espírito, aperfeiçoando a nossa
santidade no temor de Deus” . Na primeira parte do sermão, ele insiste
muito nas “ ... ardentes afeições de um bom ministro do evangelho para
com seu povo”.
Biografia de Thomas Watson 9
10 A fé cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
Watson termina essa primeira parte assim:
Eu exerci meu m inistério com vocês por quase dezesseis anos.
E me regozijo e agradeço a Deus por não ter o direito de dizer de
vocês que quanto mais vos amei, menos fui amado. Recebi muitos
sinais que demonstram o amor de vocês. Ao passo que outras igrejas
tenham mais membros que a nossa, entretanto, eu acredito que nenhuma
tem tão forte afeição.
Tenho observado com muita satisfação a reverente atenção que
vocês têm à palavra pregada. E esta luz alegra vocês, não por um breve
momento, mas até o dia de hoje. Tenho observado em vocês o zelo
contra o erro em momentos críticos, e a unidade e a harmonia que
vocês têm. Essa é a honra de vocês. Se for necessária uma interrupção
de meu ministério nesta igreja, visto que não seja permitido pregar
para vós novamente, contudo não deixarei de amá-los e orar por vocês.
Porém, por que deve haver alguma interrupção? Onde está o
crim e? A lguns, de fato, dizem que som os d eslea is e rebeldes.
Amados, minhas atitudes e sofrim entos por Sua Majestade são de
conhecim ento de muitos. No entanto, devem os ir para o céu com
elogios e críticas. E é bom que possam os chegar à glória, mesmo
que lutemos contra baionetas.
Eu me esforçarei para ainda mostrar a sinceridade de meu amor por
vocês. Não prometerei que outra vez pregarei para essa igreja, nem
direi o contrário. Desejo ser guiado pelo fio de prata da Palavra de
Deus e sua providência. Meu coração é vosso. Há, como vós sabeis,
uma expressão neste último Ato de Uniformidade dizendo: “que
possamos, em breve, ser como que naturalmente mortos”. Se eu devo
morrer, vou deixar algum legado a vocês.
A seguir, deixou uma lista com vinte orientações admiráveis, dignas
do exame fervoroso de cada cristão.
A conclusão das orientações foi a seguinte:
Rogo a vocês que as guardem como as muitas jóias no cofre dos
corações. Carreguem-nas por onde forem, serão um antídoto para
guardar vocês do pecado e um meio de preservar o zelo da chama da
piedade sobre o altar dos corações de vocês. Ainda tenho muito a dizer,
mas não sei se Deus me dará outra oportunidade. Minhas forças se
extinguem quase de todo. Rogo a vocês que essas coisas produzam
uma grande marca em vossas almas. Meditem no que foi dito e o Senhor
dará entendimento em todas as coisas.
O último discurso, em 19 de agosto, foi baseado em Isaías 3.10,11:
“Dizei aos justos que bem lhes irá; porque comerão do fruto das suas ações.
Ai do perverso! Mal lhe irá; porque a sua paga será o que as suas próprias
mãos fizeram”.
Após sua saída, Watson pregou esporadicamente onde pudesse fazê-
lo em segurança. Multas e prisões foram insuficientes para fechar a boca
das testemunhas de Jesus. Em barracões, cozinhas, casas de fazendas, vales
e florestas, os poucos fiéis se reuniam para ouvir a mensagem de vida eterna.
Sem dúvida alguma, as pequenas assembléias secretas eram boas ocasiões
para as mentes piedosas: a Palavra do Senhor era preciosa naqueles dias.
Pão comido em secreto é proverbialmente doce e a Palavra de Deus na
perseguição é especialmente deliciosa. Não podemos imaginar a alegria
que antecedia aquelas reuniões ou as mem órias inesquecíveis que
permaneciam por muito tempo depois que acabavam.
Após o grande incêndio de 1666, quando igrejas foram queimadas, o
Sr. Watson e outros nâo-conformistas prepararam grandes salas para os
que desejavam se reunir. Em um tempo de tolerância, em 1672, ele
conseguiu uma licença para usar uma grande sala na Crosby House, no
lado leste da rua Bishopsgate, que pertencia a Sir John Langham (um não-
conformista). Foi uma circunstância em que o digno nobre favoreceu a
causa da não-con form idade e que tão distinta câmara estava à sua disposição.
Ali, Watson pregou por vários anos. O Rev. Stephen Chamock, B.D. tomou-
se seu pastor auxiliar na Sala Crosby, em 1675, e continuou até sua morte
em 1680. Dois ótimos pastores para o rebanho. Homens assim, com dons e
graças tão extraordinários, dificilmente, se é que isso ocorreu alguma vez,
uniram-se em um único pastorado. Ambos se propuseram a escrever um
livro sobre fé cristã, e o volume piedoso sobre Os Atributos Divinos foi a
primeira pedra colocada pelo pastor Chamock numa estrutura colossal que
conseguiu completar. Watson foi mais modesto na tentativa de escrever, e
este volume mostra como teve sucesso.
Thomas Watson, depois de um tempo, voltou a Essex, onde morreu
repentinamente em seu quarto enquanto orava. Morreu por volta dos anos
de 1689 ou 1690. A data de seu nascimento e a de sua morte não são
mencionadas em lugar algum.
Na b iografia do C oronel Jam es G ard iner há uma citação
impressionante:
Em julho de 1719, um sábado, ele havia passado o com eço da noite
com companhias agradáveis. Dentre elas havia uma senhora casada
com quem com binou um encontro am oroso secreto à m eia-noite.
A reunião de amigos acabou às 23 horas e então, enquanto aguardava
dar meia-noite, foi para seu quarto esperar o tedioso tempo passar.
Aconteceu que ele pegou um livro religioso, que sua boa mãe ou tia
havia colocado em sua sacola. O livro se chamava O Soldado Cristão,
escrito pelo Sr. Watson. Pensando, pelo título, que iria achar algumas
frases espiritualizadas de sua profissão que pudessem fazê-lo rir,
Biografia de Thomas Watson 11
começou a lê-lo. Enquanto aquele livro estava em suas mãos, uma
im pressão veio sobre sua m ente que resultou em uma série de
conseqüências muito importantes. De repente, pensou ter visto um
brilho incomum de luz cair sobre o livro enquanto o estava lendo e, ao
levantar seus olhos, descobriu, para sua perplexidade extrema, que
diante dele estava suspensa no ar uma representação de Jesus Cristo
na cruz, rodeado de glória. Ficou impressionado como se uma voz lhe
dissesse: “Pecador, eu sofri isto por ti e assim me retribuis?” Ele afundou
na cadeira e ficou algum tempo sem ação. Então, levantou-se com os
sentimentos confusos, andou de um lado para o outro em seu quarto
até quase cair pela incomum surpresa e agonia no coração. Isso
continuou até outubro do ano seguinte, quando suas ansiedades foram
transformadas em alegria indizível.
O Sr. Watson publicouvários livros sobre assuntos práticos e úteis,
dentre eles podemos citar os mais importantes: Three treatises: 1. The
Christians Charter; 2. The Art o f Divine Contentment; 3. A Discourse o f
Meditation, ao qual foram acrescentados vários sermões em 1660. Esse
volume contém, além dos três tratados, G od’s Anatomy upon Man s Heart,
The Saint s Delight, A Christian on Earth still in Heaven, Christ s Loveliness,
The Upright Man s Character and Crown, The One Thing Necessary, The
Holy Longing', ou, The Saint s Desire to be with Christ, Beatitudes', ou,
A Discourse upon part o f Christ’s Famous Sermon upon the Mount, 1660,
A Body o f Practical Divinity, etc., além de alguns sermões: A Divine Cordial,
The Holy Eucharist, Heaven taken by Storm, etc.
Porém, sua obra principal foi A Body o f Divinity,6 uma coleção de 176
sermões sobre o Breve Catecismo da Assembléia de Westminster, que só
apareceu depois de sua morte. Esse livro foi publicado em um volume, em
1692, e acompanhava uma descrição do autor feita por Stuart, além de um
prefácio recomendatório feito pelo rev. William Lorimer e 25 outros
ministros de destaque da época.
Por muitos anos, esse volume continuou a ensinar teologia ao povo
comum e ainda pode ser encontrado em cabanas pobres da Escócia. O Rev.
George Rogers, diretor do The Pastor’s College, foi quem cuidadosamente
organizou o lançamento desta edição atual e escreveu uma nota para nós:
Não conheço outra obra com tanto material para sermão dentro da
mesma área. Em Howe, Chamock e Owen geralmente lemos bastante
antes de fechar o livro e elaborar um sermão, mas Watson nos ensina a
cortar o caminho. Tudo que diz pode ser usado, por isso, penso, seria
uma obra de grande valor para todos os nossos alunos que exercem o
ministério pastoral. Foi para benefício deles, suponho, que foi feita a
reedição. Vários sermões selecionados, que geralmente são relacionados
12 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
a esta obra, não aparecem aqui, mas aparecerão na obra completa de
suas obras na série feita por Nichol.
Este é um trabalho distinto e completo em si. Todas as edições
existentes que já verificamos estão cheias de erros e imperfeições.
Esta edição foi retificada, não inteiramente, mas conforme o esperado.
Nenhuma mudança de posição foi feita, mas cada detalhe do que o
autor quis dizer foi cautelosamente mantido. O estilo foi modernizado
sem que deturpasse suas características. Sentenças longas foram
divididas em duas ou três, quando possível, sem ferir a clareza ou
força da significação. Palavras obsoletas foram substituídas por
m odernas. C itações latinas foram restauradas à forma correta,
conforme suas fontes foram confirmadas, e as divisões de assuntos
foram organizadas com mais lógica. O todo ficou mais legível e,
conseqüentemente, mais atrativo e inteligível, que em nossa opinião
sobrepuja todas as supostas vantagens que poderiam se levantar na
perpetuação de crueldades e vulgaridades (da linguagem) dos tempos
passados conforme parecem agora para nós. Ao se popularizar obras
antigas, multiplica-se os leitores de tais obras e suas mensagens podem
ser mais rapidamente apreendidas.
Biografia de Thomas Watson 13
I. PREÂMBULO
FIRMES E FUNDAMENTADOS NA FÉ
“ ... se é que permaneceis na fé, alicerçados e firmes...” (Cl 1.23).
Considerando que, no próximo domingo, iniciarei uma instrução na
doutrina com a igreja, toma-se útil um sermão introdutório para mostrar a
vocês quanto é necessário ao cristão ser bem instruído nos fundamentos da
religião, “se é que permaneceis na fé, alicerçados e firmes...” .
Este sermão está dividido em duas partes: 1. E dever dos cristãos
se firm arem na doutrina, e 2. E dever dos cristãos se fundamentarem
na doutrina.
1. É dever dos cristãos se firmarem na doutrina
É obrigação dos cristãos serem firmes na doutrina da fé. O apóstolo
afirma: “Ora, o Deus de toda a graça..., ele mesmo vos há de aperfeiçoar,
firmar, fortificar e fundamentar” (1 Pe 5.10). Essas palavras ensinam que os
cristãos não devem ser semelhantes aos meteoros no céu, mas como as
estrelas fixas.
O apóstolo Judas fala sobre “estrelas errantes” (Jd 13). São chamadas
estrelas errantes porque, como Aristóteles7 diz: “elas vão para cima e para
baixo vagueando por várias partes do céu; e por não serem feitas do mate
rial celeste do qual as estrelas fixas são, mas apenas uma emanação dele,
essas estrelas geralmente caem na terra”.8 Assim são aqueles que não são
firmes na fé. Uma hora ou outra, eles farão como as estrelas cadentes,
perderão a firm eza e vaguearão de uma a outra opinião. A girão
impetuosamente à semelhança da tribo de Rúben (Gn 49.4); como um navio
sem lastro, levado por qualquer vento de doutrina.
O francês Leodore Beza (1519-1603), sucessor de Cal vino, escreve
sobre Belfectius de quem a religião mudava como a lua. Os arianos,’ por
sua vez, a cada ano mudavam a sua fé. Pessoas assim não são pilares no
templo de Deus, mas caniços movidos para todas as direções. O apóstolo
chama tal atitude de “heresias destruidoras” (2Pe 2.1). Uma pessoa pode ir
para o inferno tanto por heresia quanto por adultério. Não ser firme na fé é
querer julgamento. Se as mentes deles não fossem volúveis, não mudariam
tão rápido de opinião. A razão de tal atitude é a falta de substância. Como
penas sopradas para todos os lados, assim também são os cristãos sem fé.
Como disse Cipriano:10 “O trigo que não é ajuntado, o vento sopra
como palha”. Portanto, são comparados às crianças: “para que não mais
sejamos como meninos, agitados de um lado para outro...” (E f 4.14). As
crianças são volúveis, às vezes se comportam de um modo e às vezes de
outro. Nada lhes agrada por muito tempo. Por isso, cristãos que não são
firmes, são infantis. As verdades que abraçam em um momento rejeitam
noutro. As vezes gostam da religião protestante, mas logo se agradam
dos papistas.
/. O propósito da pregação é conduzir à firmeza na religião
O grande propósito da pregação da Palavra é conduzir à firmeza na fé.
Efésios 4.11,12,14 diz: “E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros
para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres,
com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço,
para a edificação do corpo de Cristo... para que não mais sejamos como
meninos...” . A Palavra de Deus é chamada de martelo (Jr 23.29). Cada
pancada do martelo serve para firmar os pregos na madeira, assim a palavra
do pregador serve para firmar o ouvinte mais e mais em Cristo. Os pregadores
se desgastam para fortalecer e firmar o crente. E este é o grande propósito
da pregação: não somente iluminar, mas edificar almas; não somente guiar
no caminho certo, mas manter no caminho. Então, se você não for firmado,
não atingiu o propósito de Deus que concedeu a você a instrução.
2. Firmar-se na fé é uma honra e uma qualidade do cristão
Firmar-se na fé é tanto uma honra para os cristãos quanto uma
qualidade. E sua qualidade. Quando o leite fica firme, vira nata; o cristão
zeloso pela verdade andará em comunhão com Deus.
A honra do cristão são as cãs: “Coroa de honra são as cãs, quando se
acham no caminho da justiça” (Pv 16.31). É maravilhoso ver um discípulo
idoso, ver cabelos prateados enfeitados com virtudes de ouro.
3. Aqueles que não são firmes na f é nunca sofrerão peto reino de Deus
Aqueles que não são firmados na fé nunca poderão sofrer por ela.
Céticos jamais experimentam o martírio. Aqueles que não estão firmes,
estão em suspense. Quando pensam nas alegrias do céu se entregam ao
evangelho, mas quando pensam nas perseguições, o abandonam. Cristãos
que não são firmes não levam em consideração o que é melhor, mas o que
é mais seguro. Tertuliano" diz que “o apóstata parece colocar Deus e
Satanás em uma balança e, depois de pesar ambos, prefere servir ao
maligno. Proclama-o como o melhor mestre e, neste sentido, ‘expõe Cristo
à ignomínia’” (Hb 6.6). Ele nunca sofrerá pelaverdade, mas será como,
16 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
um soldado que deixa sua farda e corre para o lado do inimigo. Lutará do
lado do maligno por lucro.
4. Não ser firm e n a fé é provocar a Deus
Dar-se à verdade e depois se desviar traz mal-estar sobre o evangelho,
e isso não ficará sem punição. “Tomaram atrás e se portaram aleivosamente
como seus pais; desviaram-se como um arco enganoso... Deus ouviu isso, e
se indignou, e sobremodo se aborreceu de Israel” (SI 78.57,59). O apóstata
cai repentinamente na boca do demônio.
5. Não ser firm e na religião impede o crescimento na vida cristã
Caso você não seja firme na fé, nunca crescerá. Somos ordenados a
crescer “naquele que é a cabeça, Cristo” (Ef 4.15). Contudo, se não estamos
firmados, não há crescimento: “a planta que é constantemente transplantada,
nunca cresce”. Quem não é firme não pode crescer na piedade, como um
osso do corpo não pode crescer se estiver fora da junta.
6. Firmar-se na religião para resistir àqueles que tentam nos abalar
Há uma grande necessidade de ser firme em razão de tantas coisas
que existem para nos abalar. Os sedutores estão por toda parte. E o trabalho
deles é afastar as pessoas dos princípios da fé: “Isto que vos acabo de escrever
é acerca dos que vos procuram enganar” (U o 2.26). Os enganadores são
agentes do maligno; são os grandes bandidos que tentam nos tirar da verdade.
Eles têm línguas de prata que podem semear coisas más. Eles são astuciosos
em induzir ao erro (Ef 4.14).
A palavra grega para astúcia, em Efésios 4.14, provém do jogo de
dados. Há os que jogam dados e o fazem para vantagem própria. Sedutores
são impostores, podem jogar um dado. Podem dissimular e distorcer a
verdade enganando os outros. Sedutores enganam pelo uso inteligente das
palavras. Romanos 16.18 diz: “ ... com suaves palavras e lisonjas, enganam
o coração dos incautos”. Eles apresentam frases elegantes, uma linguagem
bajuladora com a qual atacam o caráter do mais fraco.
Outra astúcia dos sedutores é sua pretensa piedade extraordinária,
de maneira que muita gente os admira e corrobora suas doutrinas.
Parecem homens zelosos, santos e divinamente inspirados, mas simulam
novas revelações.
Uma terceira enganação por parte dos sedutores é seu trabalho para
difamar e anular mestres da boa ortodoxia. Ofuscam aqueles que trazem a
verdade, como a fumaça negra que escurece a luz do céu. Difamam outros
para que sejam mais admirados. Assim os falsos mestres depreciaram Paulo,
a fim de serem o centro das atenções (G1 4.17).
Preâmbulo - f ir m e s e fundamentados na f é 17
A quarta enganação por parte dos sedutores é sua pregação da doutrina
da liberdade. Como se o homem estivesse livre da lei moral, da regra e do
castigo, e Cristo tenha feito tudo por eles e não precisassem fazer mais nada.
Transformam a doutrina da livre graça em uma porta para toda licenciosidade.
Outra maneira usada pelos enganadores é o estremecimento dos
cristãos por meio da perseguição (2Tm 3.12). O evangelho é uma rosa que
não pode ser arrancada sem espinhos. O legado que Cristo deixou em herança
é a CRUZ. Enquanto houver o diabo e um homem da iniqüidade no mundo,
não espere a isenção de problemas. Muitos são os que caem na hora da
perseguição. Apocalipse 12.3,4 fala sobre “um dragão, grande, vermelho,
com sete cabeças, dez chifres e, nas cabeças, sete diademas. A sua cauda
arrastava a terça parte das estrelas do céu...” . O dragão vermelho, por seu
poder e sutileza, arrastou estrelas, ou destacados mestres, que pareciam
brilhar como estrelas no firmamento da igreja.
Não estar firmado no bem é o pecado dos demônios (Jd 6). São
chamados “estrelas da alva” (Jó 38.7), mas são “estrelas cadentes”. Eram
santos, mas mudaram. À semelhança de um navio que naufragou, eles,
quando suas velas (corações) se incharam de orgulho, foram derrubados
(lTm 3.6). Com a inconstância, os homens imitam anjos caídos. O diabo
foi o primeiro apóstata. Os filhos de Sião devem ser como o monte Sião,
que não se abala.
2. É dever dos cristãos se fundam entarem na doutrina
A segunda proposição ensina que a melhor maneira de os cristãos
estarem firmes é se fundamentar bem. O texto bíblico diz: “se é que
permaneceis na fé, alicerçados e firmes”. A palavra grega traduzida por
alicerçados é uma metáfora que se refere a uma construção cujo alicerce
está bem colocado. Assim, os cristãos devem se fundamentar nos pontos
essenciais da fé e ter seu alicerce bem colocado. Preciso esclarecer algumas
coisas em relação a essa fundamentação.
I. Devemos nos fundamentar no conhecimento das coisas elementares
Em Hebreus 5.12, o apóstolo12 fala de “princípios elementares dos
oráculos de Deus”. Em todas as artes e ciências, na lógica, na física, na
matemática, há alguns conhecimentos prévios, algumas regras e princípios
que devem necessariamente ser apreendidos para a prática daquelas artes.
No estudo teológico, os princípios elementares devem ser os primeiros a
ser fundamentados. O conhecimento das bases e dos princípios da fé é
muitíssimo útil, por algumas razões que apresentarei agora.
i. Essa fundamentação ajuda a servir a Deus adequadamente. Sem o
conhecimento dos fundamentos da religião não poderemos servir a Deus
18 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
adequadamente. Nunca poderemos adorar a Deus de maneira aceitável, a
menos que o adoremos regularmente. E como podemos fazer isso se somos
ignorantes quanto às regras e aos elementos da fé cristã? Devemos oferecer
a Deus um “culto racional” (Rm 12.1), mas se não entendemos as bases da
fé, como pode ser um culto racional?
ii. Essa fundam entação é útil para enriquecer nossa mente.
O conhecimento dos fundamentos da fé enriquece muito a mente do cristão.
É uma lâmpada para nossos pés, dirige-nos durante todo o curso do
Cristianismo, como o olho dirige o corpo. O conhecimento das coisas
elementares é uma chave de ouro que abre os principais mistérios da fé.
Dá-nos um sistem a com pleto e um corpo da teologia, exatam ente
esquematizado em todos os seus delineamentos e cores vivas. Ajuda-nos a
entender muitas das dificuldades que ocorrem na leitura da Palavra. Ajuda-
nos a desenvolver muitos pontos entrelaçados nas Escrituras.
iii. Essa fundamentação nos equipa para resistir aos adversários.
Ela nos fornece uma arma em provações. Ela nos equipa com uma armadura
resistente, e nos arma para lutar contra os adversários da verdade.
iv. Essa fundamentação é a semente da qual a graça é gerada. É a
semente da fé (SI 9.10). E a raiz do amor, “... estando vós arraigados e
alicerçados em amor” (Ef 3.17). O amor aos princípios leva à formação de
um cristão completo.
2. Devemos ser fundamentados para permanecer firmes
Buscar nossa fundamentação é a melhor maneira de permanecermos
firmes: "... alicerçados e firmes ...”. Uma árvore bem firme deve ser uma
árvore bem enraizada, para sermos bem firmes na religião precisamos estar
enraizados em seus princípios. Lemos em Plutarco13 sobre um homem que
cuidava de um cadáver. O cadáver não ficava em pé. Então aquele homem
disse: “E necessário haver alguma coisa por dentro” . Assim, para que
possamos ficar em pé em momentos difíceis, deve haver um princípio de
conhecimento dentro de nós. Primeiramente, alicerçados e, então, firmes.
Para que um navio não vire, é necessário que tenha sua âncora baixada.
O conhecimento dos princípios é para a alma como a âncora para o navio:
ele a segura firme no meio de ondas vivas do erro, ou dos ventos violentos
da perseguição. Primeiramente, alicerçados e, depois, firmes.
A p l i c a ç õ e s
Primeira aplicação: aí está a razão por que tantas pessoas são instáveis,
prontas a abraçar qualquer opinião nova e se vestirem da religião da última
moda. A razão é não estarem alicerçadas. Vejam só como o apóstolo Pedro
alinha essas duas características ao fazer menção de “ignorantes e instáveis”
Preâmbulo - f ir m e s e fundamentados na f é 19
(2Pe 3.16). Da maneira como são ignorantes quanto aos aspectos principais
da teologia, são instáveis. Como o corpo não pode ser forte tendo apenas
tendões atrofiados, também o cristão que tem falta dos fundamentos do
conhecimento não pode ser forte na fé, pois são os tendões que o fortalecem
e o firmam em pé.
Segunda aplicação: vejam a grande necessidade que há da construção
das bases principais da fé por meio da instrução doutrinária, para que a
opinião mais fraca possa ser instruída no conhecimento da verdade e
fortalecida no amor a ela. Doutrinar é a melhor maneira para alicerçar e
firmar as pessoas. Eu temo que muito mais benefícios não são produzidos
por meio da pregação pelo fato de os temas principais e os artigos da fé não
serem explicados de uma maneira doutrinária. Doutrinar é lançar a base
(Hb 6.1). Pregar e não ensinar doutrinariamente é construir sem fundamento.
Essa maneira de doutrinar não é uma novidade, ela vem desde os
tempos apostólicos. A igreja primitiva tinha suas formas de catecismo, como
as seguintes frases pressupõem: um “padrão das sãs palavras” (2Tm 1.13)
e “os princípios elementares dos oráculos de Deus” (Hb 5.12). A igreja
tinha seus catechumenoi (alunos), como Grócio14 e Erasmo15 observam.
Muitos dos pais da igreja, como Fulgêncio, Austin, Teodoreto, Lactâncio e
outros, escreveram a favor do ensino doutrinário.16 Deus fez a instrução na
fé se suceder muito bem. Assim, lançando as bases da religião de modo
doutrinário, os cristãos foram muito bem instruídos e maravilhosamente
edificados na fé cristã, a tal ponto de Julião, o apóstata, vendo o grande
sucesso da instrução na fé, ter desprezado todas as escolas, bibliotecas e o
ensino dos jovens.
Por isso, meu propósito é (com a bênção de Deus) começar este
trabalho de doutrinamento no próximo dia de Sabbath,* à tarde. Eu farei
desse propósito meu maior esforço a fim de lançar as bases e fundamentos
da religião de maneira doutrinária. Se eu for impedido de fazê-lo por
hom ens, ou levado pela m orte, espero que Deus levante outros
trabalhadores da vinha entre vós, que possam aperfeiçoar o trabalho que
estou começando agora.
20 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
II. PRIMEIRA PARTE
O HOMEM E AS SAGRADAS ESCRITURAS
P e r g u n t a s 1 jç 2
A. O _FIM PRINCIPAL DO HOMEM
PERGUNTA 1: Qual é o fim principal do homem?
RESPOSTA: O fim principal do homem é glorificar a Deus e deleitar-
se nele para sempre.
Nessa pergunta são apresentadas duas finalidades específicas para a
vida: A. A glorificação de Deus, e B J satisfação com Deus.
1. G lorificar a Deus para sempre
A Bíblia diz: “para que em todas as coisas seja Deus glorificado”
(1 Pe 4.11). A glória de Deus é o fio de prata que deve estar presente em
todas as nossas ações: “ ... quer comais, quer bebais, ou façais outra coisa
qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (1 Co 10.31). No mundo natural
e nas coisas artificiais, tudo coopera para uma finalidade. Portanto, o homem,
sendo uma criatura racional, deve propor uma finalidade para si mesmo, a
qual deveria ser exaltar Deus no mundo. A finalidade de sua existência é
mais importante que a própria vida. A grande verdade já nos foi apresentada
e nos afirma que a finalidade da existência de todo homem deveria ser
glorificar a Deus.
Glorificar a Deus diz respeito a todas as pessoas da Trindade. Diz respeito
a Deus, o Pai, que nos deu vida; Deus, o Filho, que entregou sua vida por
nós; e Deus, o Espírito Santo, que produz uma nova vida em nós. Devemos
dar glória a toda a Trindade.
a. O que é a glória de Deus?
Quando falamos da glória de Deus, a melhor abordagem é a seguinte
pergunta: o que se entende por glória de Deus?
A glória de Deus pode ser considerada de duas maneiras: a glória que
Deus tem em si mesmo, a sua glória intrínseca, e a glória que é atribuída a
Deus, com a qual suas criaturas se empenham para glorificá-lo.
i. A glória intrínseca de Deus. A glória intrínseca de Deus é algo
essencial à divindade, assim como a luz o é para o sol. Ele é chamado o
“Deus da glória” (At 7.2). A glória é o brilho da deidade, ela é tão natural à
divindade que Deus não é Deus sem ela.
A honra tributada por suas criaturas não é essencial a seu ser. Um rei
é um homem comum quando está sem seus paramentos, sua coroa e suas
roupas reais, porém a glória de Deus é parte essencial de seu ser, de maneira
que não pode ser Deus sem ela. A própria existência de Deus está posta em
sua glória. A glória de Deus não pode receber nenhum acréscimo porque é
infinita. E o que Deus é de mais afável, e o que ele não reparte com ninguém.
Em suas Escrituras ele diz: A minha glória, não a dou a outrem”
(Is 48.11). Deus dá bênçãos temporais a seus filhos como a sabedoria, a
riqueza e a honra e ele também proporciona a eles bênçãos espirituais como
sua graça, seu amor e o seu céu; mas sua glória essencial ele não compartilha
com ninguém. O rei, faraó, deu a José um dos seus anéis e uma corrente
de ouro, mas não repartiu com ele seu trono: somente no trono eu
serei maior do que tu” (Gn 41.40). Deus fará muito por seu povo, dará a
eles a herança, colocará neles uma porção da glória de Cristo, como
mediador, mas não repartirá sua glória essencial, assentado em seu “trono”
ele “será maior” .
ii. A glória tribu tada a Deus. A glória que Deus recebe é a que suas
criaturas se empenham para lhe dar. As Escrituras ensinam: “Tributai ao
S k n h o r a glória devida ao seu nome” (lC r 16.29); e ainda “ ... glorificai a
Deus no vosso corpo” (ICo 6.20). A glória que tributamos a Deus de nada
valerá se não exaltarmos seu nome no mundo e não o magnificarmos diante
dos outros: “ ... será Cristo engrandecido no meu corpo” (Fp 1.20).
b. O que é glorificar a Deus?
G lorificar a Deus consiste de quatro atitudes: a. A preciação;
b. A doração; c. Afeição; e d. Sujeição. Elas são nossas obrigações para
com o reino dos céus.
i. Apreciação. Glorificar a Deus é colocá-lo no lugar mais alto de
nossos pensamentos e tê-lo em uma venerável estima: “tu, porém, S i-nhor,
és o Altíssimo eternamente” (SI 92.8), e “ ... tu és sobremodo elevado acima
de todos os deuses” (SI 97.9). Em Deus estão reunidos todos os bens que
transmitem admiração e felicidade. Nele há uma constelação de todas as
bem-aventuranças. Ele é prima causa, a origem e a fonte do ser, que lança
glória sobre a criatura.
Glorificamos a Deus quando somos adm iradores dele. Quando
admiramos seus atributos, que são os fachos de luz em que a natureza divina
se manifesta, e quando admiramos suas promessas, as quais são o pacto da
graça e da arca espiritual em que a pérola preciosa está escondida. A obra
dos seus dedos (SI 8.3) são os nobres resultados de seu poder e de sua
sabedoria na criação do mundo. Glorificar a Deus é ter pensamentos que o
22 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
apreciam; é estimá-lo incomparavelmente; é procurar por diamantes somente
nele, a rocha.
ii. Adoração. Glorificar a Deus consiste em adoração. “Tributai ao
S en h o r a glória devida ao seu nome, adorai o S e n h o r na beleza da santidade”
(S I 29.2). A adoração pode ser entendida de dois modos.
Primeiramente, pode ser uma reverência civil que conferimos às pessoas
de honra. “Então, se levantou Abraão e se inclinou diante do povo da terra,
diante dos filhos de Hete” (Gn 23.7). A piedade não é inimiga da cortesia.
Ela pode ser também a adoração que se dá a Deus como sua
prerrogativa real: “ inclinaram-se e adoraram o S e n h o r , com o rosto em
terra” (Ne 8.6). Deus é muito zeloso quanto a essa adoração divina. E a
menina de seus olhos e a pérola de sua coroa. Deus protege sua glória,
como fez com a árvore da vida, usando querubins e uma espada flamejante,
de maneira que nenhum homem pudesse se aproximar e a violar. A adoração
divina deve ser da maneira como Deus mesmo a designou ou, então, será o
oferecimento de um fogo estranho (Lv 10.1).Deus mandou Moisés construir
um tabemáculo segundo o modelo que lhe foi mostrado no monte (Ex 25.40).
Não poderia deixar nada de fora nem acrescentar nada. Sendo Deus tão
exato e atencioso em relação ao lugar de adoração, quanto mais sério em
relação à adoração. Certamente, nesse particular, tudo deve ser de acordo
com o padrão prescrito em sua Palavra.
iii. Afeição. Esta é a parte da glória que oferecemos a Deus, que se
considera glorificado quando é amado: “Amarás, pois, o S e n h o r , teu Deus,
de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força” (Dt 6.5).
Manifestamos amor de duas maneiras distintas.
Ele pode ser o amor de concupiscência, ou o amor-próprio. Esse é o
amor que temos por outra pessoa porque ela nos fez algum bem. Pode-se
dizer que um ímpio ama a Deus porque Deus lhe deu uma boa colheita ou
uma boa produção de vinho. Isso é, acima de qualquer coisa, amar a bênção
de Deus e não amar a Deus.
Ele pode ser também o amor que nos faz bem, como o amor entre
amigos. Quando amamos a Deus com essa afeição, amamos a Deus de fato.
O coração está posto em Deus, como o coração de um homem está posto
em seu tesouro. Esse amor é exuberante, não é aplicado como em conta-
gotas, mas como uma fonte. Ele é superlativo, ou seja, nós oferecemos a
Deus o melhor de nosso amor, “a flor de farinha” do nosso amor.
A esposa diz assim: “ ... eu te daria a beber vinho aromático e mosto
das minhas romãs” (Ct 8.2). Se a esposa tinha um vinho mais saboroso e
mais aromático guardado em sua casa, o esposo deveria usufruir dele.
Também Cristo deve participar do melhor de nosso amor. Deve-se amar
O fim principal do homem 23
intensa e ardentemente. Verdadeiros santos são serafins, pois queimam
de santo amor por Deus. A esposa estava desfalecida de amor, ou “doente
de amor” (Ct 2.5). Então, amar a Deus é glorificá-lo. Deus, a melhor de
nossas felicidades, deve ter o melhor de nossas afeições.
iv. Sujeição. A sujeição acontece quando nos dedicamos a Deus e nos
apresentamos prontos para seu serviço. É assim que os anjos no céu o
glorificam. Eles esperam diante de seu trono e estão prontos para receber
uma missão da parte dele. Por isso, eles são representados pelos querubins
com suas asas abertas para mostrar quão rápidos são para obedecer.
Glorificamos a Deus quando somos devotados ao seu serviço, quando nossa
mente estuda para servi-lo, nossa língua clama por seu serviço e nossas
mãos assistem a seus filhos. Os homens sábios que procuraram Cristo não
somente dobraram seus joelhos diante dele, mas levaram a ele ouro e mirra
(Mt 2.11). Assim, devemos não somente dobrar nossos joelhos e adorar a
Deus, mas lhe oferecer o presente de nossa obediência sincera. Glorificamos
a Deus quando o servimos livremente e de boa vontade: “teu servo irá e
pelejará contra o filisteu” (1 Sm 17.32).
Um bom cristão é como o Sol, que além de irradiar calor circula a
Terra. Assim, aquele que glorifica a Deus não tem somente suas afeições
aquecidas com o amor a Deus, mas também realiza suas obras e se move
com vigor na esfera da obediência.
c. Por que devemos glorificar a Deus?
i. Porque Deus é o doador de nossa vida. Deus nos dá a vida, o
salmista diz: “... foi ele quem nos fez...” (SI 100.3). Consideramos um grande
ato de bondade alguém poupar nossa vida, então, quão maior é a bondade
de Deus que nos dá a vida. Nosso respirar vem dele. Ele nos dá a vida com
todo o seu conforto. Ele nos dá saúde, que é o tempero para nosso viver.
Ele nos dá o alimento, que é o óleo que abastece a lâmpada da vida. Se tudo
que recebemos vem de sua bondade, não seria razoável glorificá-lo?
Não deveríamos viver para ele, pois vivemos por meio dele? Como está
registrado em Romanos 11.36: “Porque dele, e por meio dele, e para ele são
todas as coisas”. Tudo que temos vem completamente dele, tudo que temos
é por meio de sua graça e, portanto, para ele devem ser todas as coisas. E o
versículo de Romanos termina assim: “A ele, pois, a glória eternamente.
Amém”. Deus não é somente nosso benfeitor, mas a fonte da qual viemos,
como os rios que provêm do mar e esvaziam seus prateados cursos d ’água
no mar novamente.
ii. Porque Deus fez todas as coisas para sua glória. “O S en h o r fez
todas as coisas para determinados fins...” (Pv 16.4), isto é, para sua glória.
Assim como um rei tem direito de se apropriar de qualquer produção feita
24 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
em seu reino, Deus também se glorificará em todas as coisas. Ele se
glorificará nos ímpios; e caso eles não o glorifiquem, Deus se glorificará
sobre eles. "... serei glorificado em Faraó...” (Êx 14.17).
Porém, Deus criou especialmente os fiéis para sua glória. Eles são
instrumentos vivos de seu louvor: “... ao povo que formei para mim, para
celebrar o meu louvor” (Is 43.21). É verdade que eles não podem acrescentar
nada à sua glória, mas podem exaltá-lo. Também não podem levantá-lo ao
céu, mas podem levantá-lo na estima de outros sobre a terra. Deus adotou
os santos em sua família e os fez um sacerdócio real, a fim de proclamarem
as virtudes daquele que os chamou (1 Pe 2.9).
iii. Porque a glória de Deus é valiosa e sublime. A glória de Deus
tem seu valor intrínseco e excelso. Ela transcende os pensamentos dos
homens e as línguas dos anjos. A glória de Deus é seu tesouro, todas as suas
riquezas residem nela, como disse Mica: “Como, pois, me perguntais: Que
é o que tens?” (Jz 18.24). A glória de Deus é mais valiosa que o céu e mais
valiosa que a salvação da alma de todos os homens. É melhor que os reinos
sejam derrubados, os homens e os anjos sejam aniquilados, do que Deus
perder uma jóia de sua coroa, um raio de luz de sua glória.
iv. Porque todas as cria tu ras glorificam a Deus. Todas as criaturas
inferiores e superiores aos homens glorificam a Deus. Diante disso, como
podemos ficar imóveis? Toda criação glorificará a Deus, exceto o homem?
Se for assim, é uma pena que o homem tenha sido criado.
As criaturas inferiores ao homem glorificam a Deus, isto é, as criaturas
inanimadas e os céus glorificam a Deus: “Os céus proclamam a glória de
Deus” (SI 19.1). A minuciosa construção do céu manifesta a glória de seu
Criador. É manifesta no belo firmamento, pintado de azul e tons de azul,
no qual o poder e a sabedoria de Deus podem ser vistos claramente. “Os
céus proclamam...”, no qual podemos ver a glória de Deus resplandecendo
no Sol e cintilando nas estrelas. Observe a atmosfera e os pássaros que
gorjeiam suas músicas entoando hinos de louvor a Deus. Cada uma das
feras glorifica a Deus: “Os animais do campo me glorificarão” (Is 43.20).
As criaturas superiores aos homens glorificam a Deus. Os anjos “são
espíritos ministradores” (Hb 1.14). Eles permanecem diante do trono de
Deus e apresentam riquezas gloriosas ao tesouro do céu. Certamente, o
homem deveria ser muito mais diligente quanto à glória de Deus do que os
anjos, pois Deus o honrou acima deles, haja vista que Cristo tomou sobre si
a natureza humana e não a dos anjos. Embora, quanto à criação, Deus o
tenha feito menor que os anjos (Hb 2.7), quanto à redenção, Deus colocou
os homens acima dos anjos. Deus casou o homem consigo mesmo, porém
os anjos são amigos de Cristo, não a sua esposa. Cobriu-nos com uma túnica
O fim p r incipal do homem 25
púrpura de retidão, que é uma retidão superior à dos anjos (2Co 5.21).
Por isso, visto que os anjos glorificam a Deus, muito mais nós, que somos
dignificados com honra superior aos espíritos angelicais.
v. Porque todas as nossas esperanças dependem dele. Devemos dar
glória a Deus porque todas as nossas esperanças dependem dele. O salmista
afirma: “Tu és a minha esperança” (SI 39.7) e “ ... porque dele vem a minha
esperança” (SI 62.5). Esperamos um reino da parte dele. Uma criança que
é de boa natureza honrará seus pais ao esperar tudo o que necessita deles:
“Todas as minhas fontes são em ti” (SI 87.7). As fontes prateadas da graça
e as fontesdouradas da glória estão nele.
d. De quantas maneiras podemos glorificar a Deus?
i. Glorifícamos a Deus desejando somente a sua glória. Deus é
glorificado quando se busca somente a sua glória. Uma coisa é promover a
glória de Deus, outra é desejá-la. Deus deve ser o alvo principal de todas as
atitudes. Assim foi com Cristo: Eu não procuro a minha própria glória, mas
a glória de quem me enviou (Jo 8.50 e 7.18). O hipócrita observa
tendenciosamente, pois olha mais para a própria glória do que para a de
Deus. Nosso Salvador, desmascarando essa hipocrisia, faz uma admoestação
contra eles: “Quando, pois, deres esmola, não toques trombeta...” (Mt 6.2).
Pois, se um estranho perguntasse o motivo do som da trombeta, a resposta
seria: “Darão uma esmola aos pobres” . Com essa atitude, não davam
esmolas, mas as vendiam pela honra e o aplauso esperando receber a glória
dos homens. A atenção dos homens era o vento que soprava as velas de
suas caridades. Realmente “já receberam a recompensa” (Mt 6.2).
O hipócrita era aquele que ao fazer a quitação de uma dívida escrevia:
“totalmente pago”. Crisóstomo17 diz que a vangloria é uma das melhores
redes do diabo para laçar os homens. E Cipriano diz: “A quem Satanás não
pôde vencer pela intemperança, venceu-o pelo orgulho e pela vangloria” .
E necessário ter muito cuidado com a auto-adoração. Procure somente a
glória de Deus. Eis alguns conselhos para esse agir:
Primeiro, prefira a glória de Deus acima de todas as outras coisas.
Acima do respeito, das posses e dos relacionamentos. Quando a glória de
Deus competir com essas coisas, deveremos preferir a glória de Deus.
Se relacionam entos se interpuserem em nossa caminhada para o céu
deveremos pular sobre eles ou pisá-los. Em casos extremos, é como se um
filho deixasse de ser filho ou esquecesse de que é filho de seu pai. Deve-se
desconhecer seu pai ou sua mãe na causa de Deus: “ ... aquele que disse a
seu pai e à sua mãe: nunca os vi; e não conheceu a seus irmãos” (Dt 33.9).
Isto é procurar a glória de Deus.
26 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
Em segundo lugar, procuramos a glória de Deus quando nos alegramos
pelo fato de que ela está se realizando, embora se oponha à nossa própria
glória. Oraremos assim: sinto-me contente em ser um perdedor se o Senhor
for o vencedor; em ter menos riqueza, se tenho mais graça e Deus mais
glória. Que seja o alimento ou o sofrimento físico se tu és quem me dás.
Desejo, Senhor, o melhor para sua glória. Nosso querido Salvador disse:
“ ... não seja como eu quero, e sim como tu queres” (Mt 26.39). Se Deus
recebesse glória maior por meio do sofrimento de Jesus, este estaria contente
em sofrer. “Pai, glorifica o teu nome” (Jo 12.28).
E, por fim, procuramos a glória de Deus quando nos contentamos em
que outros brilhem mais do que nós por seus dons e suas honras, para que a
glória de Deus cresça. O homem que tem Deus em seu coração e a glória
dele como perspectiva deseja a exaltação do Senhor, e, seja essa exaltação
por meio de quem for escolhido por Deus para fazê-lo, nela se alegrará.
“Alguns, efetivamente, proclamam a Cristo por inveja e porfia... Todavia,
que importa? Uma vez que Cristo, de qualquer modo, está sendo pregado...
também com isto me regozijo, sim, sempre me regozijarei” (Fp 1.15,18).
Aqueles falsos mestres pregavam a Cristo por inveja. Eles tiveram inveja
de Paulo que reunia multidões. Eles afirmavam ser melhores que Paulo nos
dons e afugentaram alguns dos ouvintes dos apóstolos. No entanto, Paulo
diz que Cristo foi pregado e Deus recebeu a glória, por isso, se alegra.
Que minha luz se apague, se o sol da retidão não brilhar.
ii. Glorificamos a Deus confessando sinceram ente nosso pecado.
Nós glorificamos a Deus quando fazemos uma confissão sincera de nossos
pecados. O ladrão da cruz desonrou a Deus em sua vida, mas em sua morte
glorificou a Deus pela confissão do seu pecado: “recebemos o castigo que
os nossos atos merecem” (Lc 23.41). Aquele homem reconheceu que merecia
não só a crucificação, mas a perdição. “Filho meu, dá glória ao S e n h o r ... e
declara-me, agora, o que fizeste; não mo ocultes” (Js 7.19).
Uma confissão humilde exalta a Deus. Quanto engrandecimento é
atribuído à graça de Deus quando ela honra aqueles que merecem ser
condenados. Desculpas e falsidades em relação ao pecado envergonham a
Deus. Adão negou que havia experimentado do fruto proibido e, em vez de
uma confissão plena, culpou a Deus: “A mulher que me deste por esposa,
ela me deu da árvore, e eu comi” (Gn 3.12). Em outras palavras, se você
não tivesse me dado essa m ulher para me tentar eu não teria pecado.
A confissão glorifica a Deus, porque realça o caráter de Deus, nela se
reconhece que ele é santo e reto, faça o que fizer. Neemias defende a retidão
de Deus: “tu és justo em tudo quanto tem vindo sobre nós” (Ne 9.33).
A confissão é sincera quando é voluntária, e não forçada. O filho pródigo
O fim principal do homem 27
reconheceu seu pecado diante de seu pai: “Pai, pequei contra o céu e diante
de ti” (Lc 15.18).
iii. Glorificamos a Deus crendo em sua salvação. Nós glorificamos
a Deus pela nossa fé. Abraão “pela fé, se fortaleceu, dando glória a Deus”
(Rm 4.20). A incredulidade afronta a Deus, fazendo dele um mentiroso:
“Aquele que não dá crédito a Deus o faz mentiroso” (U o 5.10). Mas, a fé
tributa glória a Deus, “certifica que Deus é verdadeiro” (Jo 3.33). Aquele
que crê segue em direção à misericórdia e à verdade, como se elas fossem
um altar de refúgio. Ele se resguarda nas promessas e confia tudo que tem
nas mãos de Deus: “Nas tuas mãos, entrego o meu espírito” (SI 31.5).
Essa é uma excelente maneira de dar glória a Deus. Deus honra a fé
porque a fé honra a Deus. E uma grande coisa confiar em uma pessoa de
todo o coração e colocar vidas e bens em suas mãos; isso é um sinal de que
temos grande estima por ele. Três homens glorificaram a Deus ao crer:
“Se o nosso Deus, a quem servimos, quer livrar-nos, ele nos livrará...”
(Dn 3.17). A fé sabe que não há causas impossíveis para Deus, e confiará
nele onde não pode percebê-lo.
iv. Glorificamos a Deus cuidando de sua glória. Nós glorificamos a
Deus quando somos zelosos por sua glória. Deus estima a sua glória como
a menina dos seus olhos. Uma criança inocente chora ao ver uma desgraça
acontecida com seu pai: “... as injúrias dos que te ultrajam caem sobre
mim” (SI 69.9). É como se fôssemos ultrajados quando ouvimos Deus ser
ultrajado e quando a glória de Deus sofre, é como se nós sofrêssemos. Isso
é ter cuidado com sua glória.
v. Glorificamos a Deus frutificando em seu reino. Nós glorificamos
a Deus pela nossa frutificação. “Nisto é glorificado meu Pai, em que deis
muito fruto” (Jo 15.8). Assim como ser infrutífero desonra a Deus, ser
frutífero o honra: “ ... cheios do fruto de justiça, o qual é mediante Jesus
Cristo, para a glória e louvor de Deus” (Fp 1.11). Não devemos ser como
aquela figueira descrita no evangelho, que tinha somente folhas, mas devemos
ser como o abacateiro que está constantemente brotando ou amadurecendo e
nunca fica sem fruto. Não é somente a profissão de fé que glorifica a Deus,
mas os frutos também. Ele espera que o glorifiquemos desta maneira: “Quem
planta a vinha e não come do seu fruto?” (ICo 9.7). Arvores na floresta
podem ser infrutíferas, mas árvores no pomar são frutíferas.
Devemos dar frutos de amor e de boas obras: “Assim brilhe também a
vossa luz diante dos homens, para que vejam as nossas obras e glorifiquem
a vosso Pai que está nos céus” (Mt 5.16). A fé santifica nossas obras e as
obras testificam nossa fé. Fazer o bem aos outros, sendo os olhos do cego e
os pés do aleijado, glorifica muito a Deus. Assim Cristo glorificou ao seu
28 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
Pai: “o qual andou por toda a parte, fazendo o bem e curando a todos os
oprimidos do diabo” (At 10.38).
Quando somos frutíferos, somos justos aos olhos de Deus:“ O S en h o r
te chamou de oliveira verde, formosa por seus deliciosos frutos” (Jr 11.16).
Devemos dar muito fruto, a quantidade de frutos glorifica a Deus: “Nisto
é glorificado meu Pai, em que deis muito fruto” (Jo 15.8). Temos a figura
bíblica em que os seios da esposa são comparados a cachos de uvas para
mostrar quão fértil ela era (Ct 7.7). Embora a dispensação mínima da
graça nos dê a salvação, ela não tributará alta glória a Deus. Não foi uma
fagulha de amor que Cristo confiou a Maria, mas muito amor. “Ela muito
amou” (Lc 7.47).
vi. Glorificamos a Deus nos contentando com nossas circunstâncias.
Nós glorificamos a Deus quando estamos contentes no estado em que sua
providência nos colocou. Nós damos glória a Deus por sua sabedoria quando
descansamos satisfeitos com o que ele estabeleceu para nós. Assim Paulo
glorificou a Deus. O Senhor lançou-o em uma grande quantidade de
situações diferentes em relação a qualquer homem, “ ... em prisões;... em
perigos de morte...” (2Co 11.23), mesmo assim ele aprendeu a estar contente.
Paulo pôde velejar tanto na tempestade quanto na calmaria; podia ser
qualquer coisa que Deus quisesse que fosse; até mesmo em fartura ou em
necessidade (Fp 4.13).
Um bom cristão argumenta assim: “foi Deus quem me colocou nesta
posição; ele poderia ter me colocado numa situação mais alta, se quisesse,
mas seria uma armadilha para mim. O que ele faz é por sabedoria e por
amor, portanto ficarei satisfeito com minha condição”. Certamente, tal
atitude glorifica bastante a Deus. Deus fica muito honrado com um cristão
assim. Deus diz a respeito deste servo: “Aqui está alguém segundo o meu
próprio coração, deixe-me fazer o que eu desejo com ele, eu não ouvirei
nenhum murmúrio e ele ficará contente”. Isto mostra abundância de graça.
Quando a graça é abundante, não há grande vantagem em se contentar, mas
quando a graça se contradiz pelas circunstâncias inconvenientes, então se
contentar é algo glorioso. Quando uma pessoa se contenta por estar no céu
não causa admiração, mas quando se contenta sob a cruz é uma atitude de
um verdadeiro cristão. As necessidades de tal cristão glorificam a Deus,
pois ele mostra ao mundo que, embora tenha pouca comida em sua despensa,
possui o suficiente em Deus para que o faça contente. Ele diz como Davi:
“ O S e n h o r é a porção da minha herança e o meu cálice; tu és o arrimo da
minha sorte” (SI 16.5).
vii. Glorificamos a Deus desenvolvendo nossa salvação. A glória
de Deus e o nosso bem estão intimamente ligados. Nós o glorificamos ao
O fim principal do homem 29
promover nossa própria salvação. É uma glória para Deus ter multidões de
convertidos. No entanto, o seu desígnio gracioso se destaca e sua
misericórdia é glorificada enquanto nós desenvolvemos a nossa salvação,
visto que estamos honrando a Deus. Quão grande encorajamento é servir a
Deus sabendo que, enquanto ouvimos a Deus e oramos, glorificamos a
ele. Enquanto estou promovendo minha própria glória no céu, estou
aumentando a glória de Deus. Seria um encorajamento para alguém ouvir
seu príncipe dizer assim: “você me honrará e agradará muito se for para
aquela mina de ouro e cavar o máximo de ouro que puder levar”. E Deus
diz: “vá até as ordenanças e pegue o máximo de graça que puder, cave o
máximo de salvação que puder e quanto mais feliz você estiver, mais eu
ficarei glorificado”.
viii. G lorificam os a Deus vivendo som ente para ele. Nós
glorificamos a Deus quando vivemos para ele. O apóstolo diz: “E ele morreu
por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para
aquele que por eles morreu e ressuscitou” (2Co 5.15). “Porque, se vivemos,
para o Senhor vivemos” (Rm 14.8).
O mamonita vive para seu dinheiro, o epicurista vive para sua barriga.
O propósito da vida de um pecador é satisfazer o desejo da carne. Nós,
porém, glorificamos a Deus quando vivemos para ele. Vivemos para Deus
quando vivemos para servi-lo e nos oferecemos totalmente a ele. O Senhor
nos enviou ao mundo como um mercador envia seu agente além dos mares
para negociar em seu lugar. Vivemos para Deus quando agenciamos seus
interesses e propagamos seu evangelho.
Deus deu um talento para cada homem e quando alguém não o
embrulha e guarda, mas o desenvolve para Deus, esse alguém vive para
ele. Quando um mestre em uma família, pelo conselho e o bom exemplo,
trabalha para levar seus servos a Cristo; quando um ministro se desgasta
para ganhar almas para Cristo e fazer que a coroa floresça sobre a cabeça
de Cristo; quando o magistrado não usa a espada em vão, mas trabalha para
eliminar o pecado e suprimir o vício; isto é viver para Deus e glorificá-lo:
“também agora, será Cristo engrandecido no meu corpo, quer pela vida,
quer pela morte” (Fp 1.20). Paulo tinha três desejos e eram todos a respeito
de Cristo. Que ele pudesse ser encontrado em Cristo, estar com Cristo e
magnificar Cristo.
ix. Glorificamos a Deus andando em alegria. Nós glorificamos a
Deus quando andamos em alegria. Deus é glorificado quando o mundo vê
um cristão que tem algo em seu interior, que pode fazê-lo alegre nos piores
momentos; que pode capacitá-lo à semelhança de um rouxinol que canta
mesmo com um espinho em seu peito.
30 A f é crista — Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
O povo de Deus possui uma fundamentação para sua alegria. Ele é
justificado e adotado, e essa graça produz paz interior e faz brotar música
dele quaisquer que sejam as tempestades (2Co 1.4; ITs 1.6). Há fundamento
para uma grande alegria se levarmos em consideração o que Cristo realizou
por nós com seu sangue e executou em nós por meio de seu Espírito. E essa
alegria glorifica a Deus.
Quando o servo está desanimado e triste sua insatisfação recai sobre o
seu mestre. Quer dizer que o servo tem sido tratado de maneira dura e seu
mestre não lhe dá o que é apropriado. Da mesma maneira, quando o povo
de Deus anda cabisbaixo, demonstra que não serve a um Deus bom, ou está
arrependido de servi-lo, o que desonra a Deus. Assim como os pecados do
ímpio trazem escândalo ao evangelho, também a tristeza do filho de Deus:
“Servi ao S en h o r com alegria” (S I 100.2). Servir a ele não o glorifica, a
menos que seja com alegria. Uma aparência alegre do cristão glorifica a
Deus. A religião não elimina nossa alegria, mas a refina. Não quebra nossa
harpa, mas a afina e faz a música mais doce.
x. Glorificamos a Deus defendendo suas verdades. Nós glorificamos
a Deus quando defendemos suas verdades. Muito da glória de Deus está
em sua verdade. Deus nos confiou sua verdade como um mestre confia ao
seu servo sua bolsa de dinheiro para guardá-la. Não temos uma jóia mais
cara para confiar a Deus do que nossas almas, nem Deus tem uma jóia mais
cara para confiar a nós do que sua verdade. A verdade é uma luz brilhante que
vem de Deus. Muito de sua glória está em sua verdade. Quando somos
defensores da verdade glorificamos a Deus: “ ... exortando-vos a batalhardes,
diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 3).
A palavra grega “batalhar” significa uma grande contenda pela
própria terra, como alguém que luta por sua terra buscando os direitos
para que ela não lhe seja tomada; assim deveríamos lutar pela verdade.
Se houvesse mais dessa santa batalha, Deus teria mais glória. Alguns lutam
com muita intensidade por bagatelas e cerimônias, mas não pela verdade.
Deveríamos considerar aquele que luta mais por uma fábula do que por
sua herança, por uma caixa de moedas do que por seu próprio nome,
como alguém imprudente.
xi. Glorificamos a Deus louvando seu nome. Nós glorificamos a
Deus quando louvamos seu nome. A doxologia ou o louvor é uma obra que
exalta a Deus: “O que me oferece sacrifício de ações de graças, esse me
glorificará” (S I 50.23). As palavras hebraicas bara (criar) e barak (louvar)
são bem semelhantes porque a finalidade da criação é louvar a Deus. Davi
foi chamado o doce cantor de Israel e seu louvor a Deus foi chamado
glorificaçãoa Deus: “Dar-te-ei graças, S e n h o r , Deus meu, de todo o coração
O fim principal do homem 31
e glorificarei para sempre o teu nome” (SI 86.12). Embora nada possa ser
acrescido à glória essencial de Deus, o louvor o exalta aos olhos dos outros.
Quando louvamos a Deus, espalham os a sua fama e seu renom e,
apresentamos os troféus de sua excelência. Os anjos o glorificam desse
modo; eles são os coristas do céu e proclamam seus louvores.
Louvar a Deus é um dos atos mais sublimes e mais puros da religião.
Na oração nós agimos como homens e no louvor como anjos. Os crentes
são chamados “santuário de Deus” (ICo 3.16). Quando nossas línguas
louvam, então os órgãos no templo espiritual de Deus soam. Que pena
Deus não receber mais glória da nossa parte dessa maneira. Muitos estão
cheios de murmúrio e de descontentamento e dificilmente dão glórias a
Deus ao louvá-lo como o seu nome merece. Lemos sobre os santos com
harpas em suas mãos, os emblemas do louvor. Muitos têm lágrimas em
seus olhos e reclamações em suas bocas, mas poucos têm harpas em suas
mãos e glorificam e louvam a Deus. Honremos a Deus dessa maneira.
O louvor é uma obrigação que devemos a Deus: enquanto Deus renova
nossas bênçãos, devemos renovar nossa devoção.
xii. Glorificamos a Deus zelando por seu nome. Nós glorificamos a
Deus ao ser zelosos por seu nome. “Finéias... desviou a minha ira... pois
estava animado com o meu zelo” (Nm 25.11). O zelo é um sentimento
misto, uma composição de amor e ira; leva adiante nosso amor por Deus e
nossa ira contra o pecado em um grau intenso. O zelo é impaciente quando
Deus é desonrado. Um cristão queima com zelo, leva uma desonra feita a
Deus como se fosse pior do que feita a si mesmo: não podes suportar
homens maus...” (Ap 2.2). Nosso salvador, Cristo, glorifica assim seu Pai.
Sendo batizado com um espírito de zelo, expulsou os mercadores do templo:
“O zelo da tua casa me consumirá” (Jo 2.14-17).
xiii. Glorificamos a Deus buscando sua glória na vida civil e natural.
Nós glorificamos a Deus quando sua glória é nossa perspectiva em nossas
vidas civis e naturais. Em nossas ações naturais ao comer e beber: “Portanto,
quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a
glória de Deus” (ICo 10.31). Uma pessoa boa guarda a regra máxima da
temperança. Ela come carne como um remédio para curar o desgaste natu
ral para que fique bem, com a força que ganha, para o serviço de Deus. Faz
de sua comida não um combustível para a malícia, mas auxílio para o dever.
Ao comprar e vender, fazemos tudo para a glória de Deus. O ímpio
vive com o ganho injusto, pelo uso de balanças enganosas como em Oséias
12.7: “têm nas mãos balança enganosa” e assim, enquanto os homens fazem
seus pesos mais leves, fazem seus pecados mais pesados. Inflacionam a
mercadoria, no lugar de 40 escrevem 50, no lugar de 50, 40; outras vezes
32 A f é crista - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
dobram o preço do valor de uma mercadoria. Nós compramos e vendemos
para a glória de Deus quando observamos aquela máxima de ouro: “Por
isso, também me esforço por ter sempre consciência pura diante de Deus e
dos homens” (At 24.16).
Nós glorificamos a Deus quando ele é nosso objetivo em todas as nossas
atitudes naturais e civis e não fazemos nada que possa manchar a fé cristã.
xiv. Glorificamos a Deus trabalhando para trazer outros para ele.
Nós glorificamos a Deus quando trabalhamos para trazer outros ao seu
reino. Ao procurar converter outros, fazendo deles instrumentos da glória
de Deus. Deveríamos ser tanto diamantes quanto magneto: diamantes pelo
lustre da graça e magneto pela virtude atraente em conduzir outros para
Cristo: “meus filhos, por quem, de novo, sofro as dores de parto, até ser
Cristo formado em vós” (G1 4.19). Uma grande maneira de glorificar a
Deus é arrombar as prisões do diabo e libertar homens do poder de Satanás
para Deus.
xv. Glorificamos a Deus sofrendo por ele e selando o evangelho
com nosso sangue. Nós glorificamos muito a Deus quando sofremos por
sua causa e selamos o evangelho com nosso sangue. “ ... quando, porém,
fores velho, estenderás as mãos, e outro te cingirá e te levará para onde não
queres. Disse isto para significar com que gênero de morte Pedro havia de
glorificar a Deus” (Jo 21.18,19).
A glória de Deus brilha nas cinzas de seus mártires: “Por isso, glorificai
ao S e n h o r no Oriente” 18 (Is 2 4 .1 5 ) . Micaías esteve na prisão, Isaías foi
cerrado ao meio, Paulo decapitado, Lucas enforcado numa oliveira; assim
eles, pela morte, glorificaram a Deus. Os sofrimentos dos santos da igreja
primitiva honraram a Deus e fizeram o evangelho famoso no mundo. O que
poderia se dizer? Veja que bom mestre eles servem e como o amam a ponto
de arriscarem a perda de tudo em seu serviço. A glória do reino de Cristo
não se levanta em pompa e grandiosidade mundana como a de outros reis,
mas é vista nos sofrimentos alegres de seu povo. Os santos do passado “não
amaram a própria vida” (Ap 12.11). Eles abraçaram tormentos como muitos
abraçaram coroas. Deus nos capacita a glorificá-lo quando nos chama.
Muitos oram: “passa de mim este cálice”, mas poucos oram: “seja feita a
tua vontade”.
xvi. Glorificamos a Deus lhe rendendo glória em tudo o que
fazemos. Nós glorificamos a Deus quando lhe damos glória em tudo o que
fazemos. Quando Herodes fez um discurso e o povo gritou, dizendo: “é a
voz de um deus, não de um homem”, ele tomou a glória para si mesmo.
O texto diz: “No mesmo instante, um anjo do Senhor o feriu, por ele não ter
dado glória a Deus” (At 12.23). Nós glorificam os a Deus quando
O fim principal do homem 33
sacrificamos o louvor e a glória de tudo para Deus. O apóstolo diz:"... trabalhei
muito mais do que todos eles” (IC o 15.10), tais palavras parecem um
discurso cheio de orgulho, mas ele tira a coroa da própria cabeça e a coloca
sobre a cabeça da graça: “Mas, pela graça de Deus, sou o que sou”.
Como Joabe, quando lutou contra Rabá, que pediu ao rei Davi que
pudesse carregar a coroa da vitória (2Sm 12.28), assim um cristão, quando
consegue poder sobre qualquer corrupção ou tentação, chama por Cristo
para que ele possa carregar a coroa da vitória.
Como a lagarta quando tece seu impressionante trabalho se esconde
sob a seda e não é vista, da mesma maneira quando fazemos algo digno de
louvor devemos nos esconder sob o véu da humildade e transferir a glória
de tudo o que fizemos para Deus.
Como Constantino,19 que costumava escrever o nome de Cristo sobre
sua porta, também deveríamos escrever o nome de Cristo sobre nossas
responsabilidades. Que ele vista as vestimentas de louvor.
xvii. Glorificamos a Deus em uma vida santificada. Nós glorificamos
a Deus por meio de uma vida santa. Uma vida má desonra a Deus: “Vós,
porém, sois... nação santa... a fim de proclamardes as virtudes daquele que
vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1 Pe 2.9); “ ... o nome de
Deus é blasfemado entre os gentios...” (Rm 2.24). Epifânio20 diz: “a
frouxidão de alguns cristãos em sua época, fez que muitos dos gentios se
afastassem da companhia dele, e não eram atraídos para ouvir seus sermões”,
por meio de nossa conversa bíblica precisa glorificamos a Deus. Embora a
obra principal da religião esteja localizada no coração, mesmo assim nossa
luz deve brilhar de tal maneira que outros possam contemplá-la. A segurança
de um prédio é a fundação, mas a glória dele está na fachada; assim, a
beleza da fé está na conversação. Quando os santos são chamados jóias,
lançam um brilho cintilante de santidade nos olhos do mundo, então eles
andam como Cristo andou (1 Jo 2.6). Quando vivem como se tivessem visto
o Senhor com os próprios olhos e estado com ele no monte, enfeitam a
religião e trazem ganhos e glória para a coroa do céu.
A p l i c a ç õ e s
Primeira aplicação: este assunto nos mostra que nosso objetivo prin
cipal não deveria ser obter grandes propriedades nem acumular tesouros
sobre a terra;atitudes que revelam o estado de degeneração do ser humano
desde a queda. As vezes, os homens nunca alcançam uma propriedade,
nem conseguem os alimentos que desejam; ou mesmo quando eles
conseguem: qual é o tesouro deles? Têm aquilo que não enche o coração,
assim como o sopro de um marinheiro não empurra as velas do navio.
34 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
Passam seu tempo, como Israel, ajuntando palha, e não se lembram que o
fim da vida é glorificar a Deus: “que proveito lhe vem de haver trabalhado
para o vento?” (Ec 5.16). Essas coisas logo se vão.
Segunda aplicação: esse assunto nos mostra também haver algumas
atitudes que são reprováveis, bem como aqueles que as praticam. Vejamos:
1. Tornam-se reprováveis aqueles que não dão glória a Deus, aqueles
que não respondem ao fim de sua criação; aqueles cujo tempo não é tempo
vivido, mas um tempo perdido; aqueles que são como a madeira da vinha
(Ez 15.2). Aqueles cujas vidas são, como diz São Bernardo,21 “ou
pecaminosas ou áridas. Um peso inútil sobre a terra”. Deus um dia fará a
mesma pergunta que o rei Assuero fez: “Que honras e distinções se deram
a Mordecai?” (Et 6.3). Que honras foram dadas a mim? Que ganhos de
glória você trouxe para meu tesouro? Não há ninguém neste auditório a
quem Deus não tenha privilegiado com a capacidade de glorificá-lo. A saúde
que ele nos dá, a posição social, as propriedades, a graça, tudo isto são
oportunidades colocadas em nossas mãos para glorificá-lo. E, tenho certeza,
ele irá pedir conta, para saber o que você fez com as bênçãos que lhe confiou.
Que glória demos a ele?
A parábola dos talentos, na qual os homens com cinco talentos e dois
talentos são levados a prestar contas, evidentemente mostra que Deus nos
chamará a uma específica prestação de contas para saber como negociamos
seus talentos e que glória tributamos a ele. Que triste será para aqueles que
escondem seus talentos embrulhados, que não dão glória nenhuma a Deus.
“E o servo inútil lançai para fora nas trevas” (Mt 25.30). Não é suficiente
você dizer que não desonrou a Deus e que não viveu em práticas de pecados
graves; pois a questão será: que bem você fez? Que glória você rendeu a
Deus? Não é suficiente ao servo da vinha não machucar alguém nela, não
quebrar árvores ou destruir suas cercas, pois se ele não serve na vinha
perde seu pagamento. Da mesma maneira, se você não fizer o bem onde
estiver, não glorificará a Deus e perderá seu pagamento: não terá salvação.
Pense nisto, todos vocês que vivem sem servi-lo. Cristo amaldiçoou a
figueira infrutífera.
2. Tornam-se reprováveis aqueles que estão bem longe de dar glórias
a Deus, a tal ponto de roubarem a glória de Deus: “Roubará o homem a
Deus? Todavia vós me roubais?” (Ml 3.8). Roubam a Deus, sim, aqueles
que tomam a glória devida a Deus para si mesmos roubam a Deus.
i. Se compram uma propriedade atribuem tudo à própria inteligência
e esforço, colocam a coroa sobre as próprias cabeças, não considerando
que “Antes, te lembrarás do S e n h o r , teu Deus, porque é ele o que te dá
força para adquirires riquezas” (Dt 8.18).
O fim principal do homem 35
ii. Se prestam qualquer serviço à religião, fazem-no para a própria
glória: “...para serem vistos dos homens” (Mt 6.5). Fazem o que fazem
para se colocarem num patamar para os outros admirarem e canonizarem.
O óleo da vangloria alimenta suas lâmpadas. Quantos que pelo som do
aplauso popular já seguiram para o inferno. Aqueles a quem o diabo não
pode destruir pela temperança, destrói pela vangloria.
3. Tomam-se reprováveis aqueles que lutam contra a glória de Deus:
“para que não sejais, porventura, achados lutando contra Deus” (At 5.39).
Aqueles que se opõem a qualquer circunstância em que a glória de Deus
seja promovida lutam contra ela.
Promove-se bastante a glória de Deus por meio da pregação da Palavra,
que é seu motor segundo o qual converte almas. Aqueles que impedem a
pregação da Palavra lutam contra a glória de Deus: “a ponto de nos
impedirem de falar a gentios para que estes sejam salvos” (lTs 2.16).
Dioclesiano,22 que promoveu a décima perseguição contra os cristãos,
proibiu encontros da igreja e fez que os templos dos cristãos fossem
derrubados. Aqueles que põem obstáculos à pregação, assim como os
filisteus que taparam os poços, esses tapam o poço da água da vida. Eles
levam embora o médico que poderia curar as almas enfermas pelo pecado.
Ministros são luzes (Mt 5.14) e somente os ladrões odeiam a luz. Eles atacam
diretamente a glória de Deus, e que prestação de contas darão a Deus quando
cobrar o sangue das almas dos homens que está sobre eles? “Ai de vós,
intérpretes da lei! Porque tomastes a chave da ciência; contudo, vós mesmos
não entrastes e impedistes os que estavam entrando” (Lc 11.52). Se há
justiça no céu ou fogo no inferno, não sairão sem punição.
Terceira aplicação: por meio desse tema também somos exortados.
Vejamos algumas exortações.
Exortados a que cada um de nós, onde estamos, façamos à ação prin
cipal e o propósito de tudo glorificar a Deus.
1. Deixe-me falar aos magistrados. Deus colocou muita glória sobre
eles: “eu disse: sois deuses” (SI 82.6), e não glorificarão a Deus que colocou
tanta glória sobre eles?
2. Quanto aos pastores. Eles deveriam estudar a fim de promover a
glória de Deus. Deus lhes confiou duas coisas muito preciosas, sua verdade
e as almas de seu povo. Ministros, pela virtude do ofício, devem glorificar
a Deus. Devem glorificá-lo pelo labor na palavra e na doutrina: “Conjuro-
te, perante Deus e Cristo Jesus, que há de julgar vivos e mortos, pela sua
manifestação e pelo seu reino: prega a palavra, insta, quer seja oportuno,
quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina”
(2Tm 4.1,2). Agostinho tinha um desejo, que Cristo em sua vinda o
encontrasse orando ou pregando.
36 A f é cristã — Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
Pastores devem glorificar a Deus em seus zelos e suas santidades.
Os sacerdotes sobre a lei, antes de servirem no altar, lavavam-se na pia;
assim, aqueles que servem na casa de Deus deveriam primeiro ser lavados
dos grandes pecados na pia do arrependimento. E uma realidade penosa e
vergonhosa pensar naqueles que se chamam pastores, mas que em vez de
darem glória a Deus o desonram (2Cr 11.15). Suas vidas, assim como suas
doutrinas, são heterodoxias e não estão livres dos pecados que reprovam
em outros. O servo de Plutarco23 o censurou, dizendo: “ele escreveu um
livro contra a ira, et ipse mihi irasciíur, mas cai numa paixão de ira comigo”.
Assim é o ministro que prega contra a bebedeira, mas ele mesmo é um
bêbado; prega contra palavrões, mas ele mesmo fala palavrões.
3. Agora aos chefes de famílias. Eles devem glorificar a Deus, devem
acostumar seus filhos e servos com o conhecimento do Senhor. Suas casas
deveriam ser pequenas igrejas: “Porque eu o escolhi para que ordene a seus
filhos e a sua casa depois dele, a fim de que guardem o caminho do S e n h o r ”
(Gn 18.19). Vocês que são mestres têm uma responsabilidade com as almas.
Pela falta das rédeas da disciplina familiar, a juventude vive sem domínio.
C o n c l u s ã o
Seria um grande conforto na hora da morte pensar que glorificamos a
Deus em nossas vidas. Foi o consolo de Cristo antes de sua morte: “Eu te
glorifiquei na terra” (Jo 17.4). Na hora da morte, tudo o que consola você
nesta vida acabará. Pensar em quão rico você é e em quais prazeres teve
nesta terra será algo incapaz de consolá-lo, constituindo um tormento ainda
maior. Que benefício trará a alguém uma propriedade destruída? Por outro
lado, quão grande será o consolo e a paz trazidos à alma pela consciência
tranqüila em ter glorificado a Deus nesta terra. Como isto o fará até mesmo
ansiar pela morte, pois o servo que trabalhou o dia inteiro na vinha deseja
que a noite venha, quando receberá seu pagamento. Como aqueles que
viveram sem dar glórias a Deus podem pensar que morrer éum consolo?
Não podem esperar uma colheita em que não semearam uma semente. Como
podem esperar glória de Deus, pois nunca deram glória a ele? Que horror
será a morte deles. O verme da consciência consumirá suas almas antes
que os vermes consumam seus corpos.
Quando glorificamos a Deus, ele glorifica nossas almas para sempre.
Ao promover a glória de Deus aumentamos a nossa própria: ao glorificar a
Deus, iremos finalmente ao abençoado deleite nele.
2. Deleitar-se em Deus para sempre
O fim principal do homem é se deleitar em Deus para sempre: “quem
mais tenho eu no céu?” (SI 73.25). Isto é, o que há no céu que eu desejo
O fim principal do homem 37
usufruir além de ti? O deleitar-se em Deus se apresenta em duas partes: a
primeira é nesta vida e a outra na vida por vir.
1. Deleitar-se em Deus nesta vida
E muito bom usufruir as ordenanças de Deus, mas usufruir a presença
de Deus nas ordenanças é o desejo incessante do coração agraciado: “Assim,
eu te contemplo no santuário, para ver a tua força e a tua glória” (SI 63.2).
Usufruímos esse doce deleite em Deus nas seguintes circunstâncias: quando
sentimos seu Espírito cooperando nas ordenanças e destilando graça sobre
nossos corações; quando por meio da Palavra o Espírito vitaliza e aumenta
as afeições: “Porventura, não nos ardia o coração” (Lc 24.32); quando o
Espírito transforma o coração deixando uma marca de santidade sobre ele
e “... somos transformados de glória em glória” (2Co 3.18); quando o Espírito
revive o coração com consolo, vem com sua unção e com seu selo e derrama
o amor de Deus em abundância no coração (Rm 5.5). “Ora, a nossa
comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo” (1 Jo 1.3).
Na Palavra, ouvimos a voz de Deus, no sacramento temos seu beijo.
O coração ser aquecido e inflamado em uma tarefa é resposta de Deus a
nosso pedido de devoção. As doces comunicações do Espírito de Deus são
os primeiros frutos de glória. Cristo já retirou seu véu e mostrou sua face
amigável, agora conduz o crente para o salão do banquete e lhe dá do vinho
aromático de seu amor para beber. Ele tocou o coração e o fez pular de
alegria. Como é doce usufruir Deus. O crente tem, nas ordenanças, divinos
êxtases de alegria e transfigurações da alma, a tal ponto de ser elevado
acima do mundo e desprezar todas as coisas aqui embaixo.
A p l i c a ç õ e s
Primeira aplicação: ter o deleite de Deus nesta vida é assim tão doce?
Quão maus são aqueles que preferem se deleitar em suas malícias em lugar
de Deus, conforme dito no texto: “... nos últimos dias, virão escamecedores
com seus escárnios, andando segundo as próprias paixões” (2Pe 3.3).
O desejo da carne, o desejo do olho e o orgulho da vida é a trindade que
eles adoram (U o 2.16). A malícia é um desejo ou impulso descontrolado
que provoca na alma aquilo que é maligno.
Existem a malícia vingativa e a malícia deliberada. A malícia, como
um calor febril, incendeia a alma. Aristóteles chama a malícia sensual de
algo cruel, porque qualquer malícia é violenta, e a razão e a consciência
não podem ser ouvidas. Essas malícias obcecam e brutalizam o homem:
“A sensualidade, o vinho e o mosto tiram o entendimento” (Os 4.11).
Tiram o entendimento de tudo que é bom. Quantos estabelecem como
objetivo de suas vidas não se deleitar em Deus, mas usufruir as próprias
38 A fé cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
malícias. São como aquele cardeal que disse: “que se mantivesse a posição
de cardeal de Paris, ele se contentaria em perder sua parte no paraíso” .
A malícia primeiramente encanta com o prazer e, depois, vem o dardo fa
tal: “até que a flecha lhe atravesse o coração” (Pv 7.23). Isto poderia ser
como uma espada flamejante que detém os homens no caminho de seus
desejos carnais. Quem por um pingo de prazer beberia um mar de ira?
Segunda aplicação: que seja nosso grande interesse usufruir a doce
presença de Deus em suas ordenanças. Usufruir a comunhão espiritual com
Deus é um enigma e um mistério para a maioria das pessoas. Aqueles que
ficam ao redor da corte não falam com o rei. Podemos nos aproximar de
Deus em suas ordenanças e ficar perto da corte do céu, mas mesmo assim
não usufruir a comunhão com Deus. Podemos ter a letra e não o Espírito, o
sinal visível sem a graça invisível. Isto significa usufruir Deus de maneira
errada, deveríamos essencialmente contemplar: “A minha alma tem sede
de Deus, do Deus vivo” (SI 42.2). O que é todo nosso usufruir mundano
sem o usufruir Deus? O que vale usufruir uma boa saúde e ser como um
guerreiro mas não usufruir Deus? “Ando de luto, sem a luz do sol” (Jó 30.28),
esta é a verdade que podemos afirmar a respeito de qualquer criatura que
não se deleita em Deus, pois anda de luto, sem a luz do sol. Nosso grande
propósito deveria ser não somente ter as ordenanças divinas, mas o Deus
das ordenanças.
O usufruir a doce presença de Deus neste mundo é a maior alegria da
vida: é uma colméia cheia de mel, uma casa de riquezas, uma fonte de
prazer (SI 36.8,9). Quanto mais alto a laverca voa, mais doce canta: e quanto
mais alto nós voamos pelas asas da fé, mais usufruímos Deus. O coração se
inflama na oração e na meditação. Que grande alegria e paz há em crer.
Não é confortável estar no céu? Aquele que usufrui muito Deus nesta vida
leva o céu com ele. Que isto seja o que principalmente desejamos: usufruir
Deus em suas ordenanças. O usufruir a doce presença de Deus aqui é uma
séria intenção de usufruí-lo no céu. Essa convicção nos leva a considerar o
segundo aspecto que é usufruir Deus na vida futura.
2. Deleitar-se em Deus na vida futura
O fim principal do homem é usufruir Deus para sempre. Antes de
entrarmos plenamente na presença de Deus no céu, há um estágio preliminar
que o antecede, isto é, estarmos em um estado de graça. Devemos nos
conformar com ele em graça antes de ter comunhão com ele em glória.
Graça e glória estão ligadas em uma corrente. A graça precede a glória
como a estrela da manhã introduz o Sol. Deus nos qualificará e nos deixará
apropriados para um estado de bênção. Bebedices e palavrões não são
apropriados para usufruirmos Deus em glória; o Senhor não colocará tais
O fim principal do homem 39
víboras em sua intimidade. Somente aquele que é “puro de coração verá a
Deus”. Devemos primeiramente ser, como a filha do rei, gloriosos por dentro,
antes de sermos vestidos com as roupas de glória. Como o rei Assuero fez
que as virgens fossem purificadas, e ungidas, e fossem perfumadas, e, depois,
se apresentassem diante do rei (Et 2.12), assim nós devemos ter a unção de
Deus e sermos perfumados com as graças do Espírito, aqueles perfumes
aromáticos, e, então, nos apresentarmos perante o rei do céu. Sendo assim
divinamente qualificados pela graça seremos levados ao monte santo e
usufruiremos Deus para sempre.
O que é usufruir Deus para sempre, senão ser colocado em um estado
de alegria? Assim como o corpo não pode ter vida, senão em comunhão com
a alma, assim a alma não pode ter bênção, a não ser em comunhão imediata
com Deus. Deus é o bem maior; portanto, usufruir dele é a maior felicidade.
Ele é “um bem no qual estão todos os bens”. As grandes qualidades da
criatura são limitadas. Uma pessoa pode ter saúde, mas não beleza,
conhecimento, mas não descendentes, riquezas, mas não sabedoria; mas
em Deus estão contidas todas as qualidades. Ele é bom, completo para a
alma, um sol, uma porção, uma fonte de salvação; em quem permanece
“toda a plenitude” (Cl 1.19).
Deus é um bem sem misturas. Não há nada nesta vida sem uma mistura.
Para cada gota de mel há uma gota de fel. Salomão, que se dedicou a
encontrar a pedra filosofal e a buscar a felicidade neste mundo, não encontrou
nada senão vaidade e perplexidade (Ec 1.2). Deus é perfeito, a quintessência
do bom. Ele é doce em flor.
Deus é o bem satisfatório. A alma clama que tem o suficiente: “Eu,
porém, na justiça contemplarei a tua face” (SI 17.15). Então, que o sedento
seja levado a um oceano de puraágua e se satisfaça. Se há o suficiente em
Deus para satisfazer os anjos, haverá também o suficiente para nos satisfazer.
A alma é finita, mas Deus é infinito. Embora Deus seja um bem que satisfaça,
ele não excede. Alegrias renovadas jorram continuamente de sua face. Deus
é ardentemente desejado pelas almas glorificadas, mesmo após milhões de
anos, como foi desde o início. Há uma realização em Deus que satisfaz e ao
mesmo tempo é doce o suficiente para que a alma ainda o deseje.
Deus é um bem delicioso. Este que é o bem principal deve
impressionar a alma com prazer. Há nele um prazer arrebatador e o su-
pra-sumo da alegria. Existe uma doçura na pessoa de Deus que alegra, ou
melhor, que arrebata a alma: o amor de Deus goteja tal suavidade infinita
na alma assim como é inexprimível e cheio de glória. Há muito prazer em
Deus ainda que o vejamos somente pela fé (lP e 1.8), imagine como será
alegre vê-lo face a face. Se os santos encontraram tanto prazer em Deus
40 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
enquanto estavam sofrendo, quanta alegria e prazer terão quando forem
coroados. Se as chamas são camas de rosas, o que será deitar no colo de
Jesus. Que cama de rosas isso será.
Deus é um bem superlativo, ele é melhor que qualquer coisa que se
possa comparar a ele. Ele é melhor que a saúde, as riquezas e a honra.
As demais coisas sustentam a vida, ele dá a vida. Quem compararia alguma
coisa a Deus? Quem pesaria uma pena em comparação com uma montanha
de ouro? Deus excede a todas as coisas, é mais infinito que o sol em relação
à luz de uma vela.
Deus é um bem eterno. Ele é “Ancião de dias”, porém nunca envelhece,
nem se desgasta (Dn 7.9). A alegria que ele dá é eterna, a coroa nunca se
desfaz (lP e 5.4). A alma glorificada sempre será consolada em Deus,
celebrando o seu amor e banhando-se na luz de sua face. Nós lemos
sobre o rio de prazer na mão direita de Deus; mas será que com o passar
do tempo não secará? Absolutamente. Há uma fonte na base que a
alimenta: “Pois em ti está o manancial da vida” (SI 36.9). Assim, Deus é
o bem maior e o usufruir Deus para sempre é a maior felicidade que a
alma é capaz de experimentar.
A p l i c a ç õ e s
Primeira aplicação: que a finalidade principal de nosso viver seja
usufruir esse bem maior na vida por vir. Agostinho registra 288 opiniões
entre filósofos sobre a felicidade, mas todas elas foram insuficientes.
O ponto mais alto que uma alma pode alcançar é usufruir Deus para sempre.
É o usufruir Deus que faz o céu: “estaremos para sempre com o Senhor”
(1 Ts 4.17). A alma se agita como a agulha de uma bússola e nunca descansa
até que chegue a Deus. A fim de descrever esse excelente estado de uma
alma glorificada que usufrui Deus, podemos considerar que:
1. Não deve ser entendido de uma maneira sensual: não devemos
imaginar quaisquer prazeres carnais no céu. Os turcos, no Alcorão, falam
de um paraíso de prazer em que há riquezas em abundância e vinho tinto
servido em cálices dourados. Os epicuristas desta era gostariam de tal
céu quando morressem. Embora o estado de glória seja comparado a uma
festa adornada com pérolas e com pedras preciosas, essas metáforas são
somente auxílio para nossa fé para nos mostrar que há alegria abundante
e felicidade nos mais altos céus; mas não são prazeres carnais, porém
espirituais. Nossa alegria será na perfeição da santidade, em ver a face
pura de Cristo, em sentir o amor de Deus, em conversar com os seres
celestiais; tudo isso será glorioso para a alma que receberá infinitamente
de todos os prazeres celestiais.
O fim principal do homem 41
2. Deveremos ter um sentimento vivido desse estado glorioso.
Por exemplo, uma pessoa num estado letárgico, embora esteja viva, encontra-
se ao mesmo tempo sã e morta, porque não está sensível à vida ao seu redor
nem tem qualquer prazer em sua vida. Os cristãos, porém, devem ter um
sentimento vivido e imediato do prazer infinito que vem de se deleitar em
Deus. Nós deveríamos saber o que é ser feliz; e deveríamos refletir alegremente
sobre a nossa dignidade e a nossa felicidade; deveríamos saborear cada
pedacinho dessa doçura e cada gota desse prazer que fluem de Deus.
3. Devemos ser capacitados a levar uma amostra dessa glória.
Não suportaríamos toda essa glória nesta vida terrena, seria muito para
nós, assim como um olho fraco não pode contemplar o Sol. Mas, Deus nos
capacitará para a glória; nossas almas serão tão celestiais e tão perfeitas em
santidade que elas serão capazes de usufruir a bendita contemplação de
Deus. Moisés viu a glória de Deus pela fissura da rocha (Êx 33.22).
De nossa abençoada rocha, Cristo, nós contemplaremos a Deus.
4. Esse usufruir Deus será mais uma pura contemplação dele. Alguns
perguntam se usufruir Deus será somente pela contemplação. Isto não
será tudo, senão m etade do céu. H averá um Deus de amor, uma
condescendência nele, um saborear de sua doçura; não som ente
observação, mas detenção. Há uma observação: “para que vejam a minha
glória que me conferiste” (Jo 17.24) e há uma detenção: “Eu lhes tenho
transmitido a glória que me tens dado” (Jo 17.22). A glória não somente
será revelada a nós, porém em nós: “a glória a ser revelada em nós”
(Rm 8.18). Contemplar a glória de Deus é a glória revelada para nós;
mas compartilhar sua glória é a glória revelada em nós. Assim como a
esponja suga o vinho, nós sugaremos a glória.
5. Não há nenhuma interrupção nesse estado de glória. Não teremos a
presença gloriosa de Deus somente em alguns momentos especiais, mas
continuam ente estarem os em sua presença, continuam ente sob o
arrebatamento divino da alegria. Não haverá sequer um minuto no céu em
que uma alma glorificada possa dizer que não usufrui felicidade. As fontes
de glória não são como as de água, que costumam acabar, de maneira a não
termos uma gota sequer delas. As fontes e as alegrias celestiais estão
continuamente fluindo. Deveríamos desprezar este vale de lágrimas onde
estamos agora em troca do monte da transfiguração. Com que ardor os
cristãos deveriam desejar usufruir totalmente Deus no paraíso. Ao ter uma
idéia da terra da promessa, precisamos paciência para estar contentes em
viver aqui um pouco mais.
Segunda aplicação: que isto seja um incentivo ao dever. Como
deveríamos ser diligentes e zelosos em glorificar a Deus, de maneira a
finalmente usufruir dele. Se Tully, Demóstenes34 e Platão,25 que tinham a
42 A f é crista - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
razão um pouquinho iluminada pela qual vislumbravam grandes coisas,
imaginaram um “Campos Elíseos” e a felicidade depois desta vida, e que
eram necessárias dores hercúleas para disso usufruir, quanto mais deveriam
os cristãos, que têm a luz das Escrituras pela qual ver, estimularem-se de
maneira a se ater à fruição eterna de Deus e da glória eterna. Se alguma coisa
pudesse nos tirar de nossa cama de preguiça para servir a Deus com toda a
nossa força, deveria ser a esperança do nosso usufruir Deus para sempre, o
que está próximo. O que fez Paulo tão ativo na esfera da religião? “Trabalhei
muito mais do que todos eles” (ICo 15.10). Sua obediência não se moveu
devagar, como o sol no relógio solar; mas rápido, como a luz que vem do sol.
Por que ele era tão zeloso em glorificar a Deus, senão pelo fato de finalmente
centrar e realizar-se nele? “Estaremos para sempre com o Senhor” (1 Ts 4.17).
Terceira aplicação: que isto console o piedoso diante de todos os
sofrimentos presentes que ele sente. Tu reclamas, cristão, não usufruis a ti
mesmo, temes ansiedade, a necessidade te deixa perplexo; durante o dia
não podes usufruir paz, durante a noite não usufruis sono; não usufruis os
confortos da tua vida. Que isto te reviva, que em breve usufruirás Deus e,
então, terás mais do que podes pedir ou pensar; terás a alegria dos anjos,
glória sem fim ou intervalos. Nós nunca nos realizaremos totalmente até
que usufruamos Deus eternamente.
B. As S a g r a da s E s c r i t u r a s
PERGUNTA 2: Que regra Deus nos deu para nos orientar na maneira
de o glorificar e deleitar-se nele?
RESPOSTA: A Palavra de Deus, que se acha nas Escrituras do Antigo
e Novo Testamentos, é a única regra para nos orientar na maneira de
glorificá-lo e deleitar-se nele.
“Toda a Escritura é inspirada por Deus...” (2Tm 3.16). Escritura
quer dizer o Livro sagrado de Deus. Foi dado por inspiração divina, isto
é, as Escrituras não são um artifício do cérebro humano, mas são divinas
em sua origem. A imagem de Diana era venerada pelos efésios porque
supunham que caíra de Júpiter (At 19.35), as Sagradas Escrituras devem
ser muito reverenciadas e bastante consideradas porque temos a certeza
que vieram do céu (2Pe 1.21). Os dois Testamentos são os dois lábios
pelos quais Deus nos falou.
1. A autoridade das Escrituras Sagradas
a. Como se evidencia a autoridade das Escrituras?
Podemos estabelecer uma pergunta: Como se evidencia que as
Escrituras têm uma autoridade divina nelas impressa? Porque o Antigo e o
As Sagradas Escrituras 43
Novo Testamentos são a base de toda nossa fé, e se a divindade das Escrituras
não puder ser provada, a base sobre a qual nós construímos nossa fé é vã.
Devo, então, abraçar o desafio de provar essa grande verdade que afirma as
Escrituras, de fato, Palavra de Deus.
Fico pensando: de onde mais as Escrituras poderiam vir, senão de
Deus? Homens maus não poderiam ser seus autores. Suas mentes poderiam
compor linhas tão santas? Fariam declarações tão severas contra o pecado?
Homens bons também não poderiam ser os autores. Poderiam escrever
de maneira tão afinada? Ou, quem sabe, poderiam usar sua agilidade para
falsificar o nome de Deus usando o “Assim diz o Senhor” em um livro de
autoria de homens?
Também, nenhum anjo no céu poderia ser o autor delas, porque os
anjos investigam e pesquisam nas profundezas dos mistérios do evangelho
(lPe 1.12), o que implica ignorância de algumas partes das Escrituras.
Portanto, não poderiam ser autores de um livro que eles mesmos não
compreendem completamente. E mais, que anjo no céu teria a ousadia de
ser tão arrogante em agir como se fosse Deus e dizer: “eu crio” (Is 65.17),
“Eu, o S e n h o r , falei” (Nm 14.35)? Assim, fica evidente que a origem das
Escrituras é sagrada, que não poderia vir de outro senão do próprio Deus.
Além do consenso harmonioso de todas as partes da Escritura, há
sete argumentos convincentes que podem patenteá-la como sendo a Palavra
de Deus.
i. As E scritu ras relatam um am plo período histórico. Em sua
antiguidade, as Escrituras são uma obra de caráter antigo. Os cabelos brancos
delas a fazem venerável. Nenhuma história humana existente vai tão longe
quanto o dilúvio de Noé, mas as Sagradas Escrituras relatam assuntos reais
desde o começo do mundo e relatam sobre coisas até mesmo anteriores à
existência de tudo. Encaixam-se com a regra de Tertuliano: “O que é mais
antigo, deve ser recebido como mais sagrado e autêntico”.
ii. As E sc ritu ra s fo ram p rese rv ad as de m odo so b ren a tu ra l.
Podemos saber que as Escrituras são a Palavra de Deus por meio de sua
preservação miraculosa no decorrer dos anos. As Sagradas Escrituras são
as jóias mais caras que Cristo nos deixou e que a igreja de Deus preservou
como registros públicos do céu, de maneira que não foram perdidos.
A Palavra de Deus nunca teve inimigos à altura para extirpá-la, se isso
fosse possível. Inimigos se levantaram com leis contra as Escrituras, como
fez faraó para com as parteiras decretando que matassem os filhos das
hebréias estrangulando-os no parto. Deus, porém, preservou esse Livro
inviolável até hoje. O demônio e seus agentes têm soprado para ver se
apagam a luz das Escrituras, mas não têm conseguido apagá-la, um sinal
evidente de que elas vêm do céu.
44 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A igreja de Deus, em todas as revoluções e mudanças, não somente
guardou as Escrituras para que não se perdessem, mas as preservou da
depravação. A letra das Escrituras foi preservada na língua original sem
qualquer corrupção.
As Escrituras não foram corrompidas antes da vinda de Cristo, pois se
assim fosse, Cristo não teria mandado os judeus pesquisarem nas Escrituras.
Ele disse: “Examinai as Escrituras” . Cristo sabia que aquelas fontes sagradas
não estavam contaminadas com tendências humanas.
iii. O conteúdo das E scritu ras é divinam ente inspirado. Que as
Escrituras são a Palavra de Deus se verifica pelo material contido nela.
O mistério da Escritura é de tão difícil compreensão e profundeza que
nenhum homem ou anjo poderia conhecê-la se não fosse divinamente
revelada. Quem poderia conceber que o Eterno deveria nascer; que aquele
que troveja nos céus deveria chorar em um berço; que aquele que governa
as estrelas deveria amamentar no peito; que o Príncipe da Vida deveria
morrer; que o Senhor da Glória deveria ser envergonhado; e que o pecado
deveria ser punido completamente, mas perdoado completamente? Quem
poderia conceber tal mistério se as Escrituras não tivessem sido reveladas
a nós? E, em relação à doutrina da ressurreição, que o mesmo corpo moído
em milhares de pedaços pudesse levantar o mesmo corpo individual, como
se fosse uma criação, não uma ressurreição. Como tal enigma, acima de
toda explicação humana, poderia ser conhecido se as Escrituras não
fizessem uma revelação dele?
O material das Escrituras é tão cheio de bondade, de justiça e de
santidade que não poderia ter sido inspirado por mais ninguém, a não ser
Deus. A santidade dele mostra que é de Deus. As Escrituras são comparadas
à prata refinada sete vezes (SI 12.6). O Livro de Deus não tem errata em si;
é um raio do sol da justiça, um fluxo cristalino de água da fonte da vida.
Todas as leis e decretos humanos tiveram suas corrupções, mas a Palavra
de Deus sequer tem uma manchinha, é de um esplendor astronômico:
“Puríssima é a tua palavra” (SI 119.140), como o vinho das uvas, que não é
misturado ou adulterado. E tão puro que purifica tudo o mais: “Santifica-os
na verdade” (Jo 17.17).
As Escrituras exigem santidade de maneira que nenhum livro o faz:
comanda-nos a viver “sensata, justa e piedosamente” (Tt 2.12). Viver de
maneira sensata em atos de temperança; de maneira justa em atos de justiça;
de maneira piedosa em atos de zelo e de devoção. Ela nos recomenda o que
é “puro... amável de boa fama” (Fp 4.8). Essa espada do Espírito corta a
prática imoral (Ef 6.17). De cima da torre das Escrituras é lançado uma mó
na cabeça do pecado. As Escrituras são a lei real que comanda as ações e as
afeições; conecta o coração ao bom comportamento. Onde tal santidade
As Sagradas Escrituras 45
será encontrada se não for escavada dessa mina sagrada? Quem poderia ser
o autor de um livro assim, a não ser o próprio Deus?
iv. As Escrituras apresentam profecias sobrenaturais. Que as
Escrituras são a Palavra de Deus é evidente por suas predições. Profetiza
coisas que acontecerão, mostra a voz de Deus falando nela: foi predita pelo
profeta: “Eis que a virgem conceberá” (Is 7.14), e, “será morto o Ungido”
(Dn 9.26). As Escrituras prevêem coisas que acontecerão muitas eras e
séculos mais tarde; por exemplo, quanto tempo Israel serviria na fornalha
de ferro e até o dia exato de sua libertação: “Aconteceu que, ao cabo dos
quatrocentos e trinta anos, nesse mesmo dia, todas as hostes do S k n iio r
saíram da terra do Egito” (Êx 12.41). Esta predição de coisas futuras,
meramente contingentes, e não dependentes de causas naturais, é uma
demonstração clara de sua origem divina.
v. As Escrituras apresentam narrativas imparciais. A imparcialidade
daqueles homens de Deus que escreveram as Escrituras, que não deixaram
de reconhecer as próprias falhas. Quem escreveria uma história maculando
a própria face ao registrar coisas a seu respeito que poderiam manchar sua
reputação? Moisés registra a própria impaciência quando bateu na rocha, e
nos diz que porcausa daquilo não poderia entrar na terra prometida. Davi
relata o próprio adultério e assassinato, que aparecem como um borrão em
seu brasão nas eras futuras. Pedro relata a própria covardia ao negar Cristo.
Jonas apresenta as próprias paixões: “é razoável a minha ira até a morte”.
Certamente, se suas penas não fossem guiadas pela própria mão de Deus,
nunca teriam escrito o que refletiria desonra para eles mesmos. Geralmente
o homem esconde suas culpas e não as publica para o mundo, mas as penas
dos homens das Sagradas Escrituras obscurecem os próprios nomes. Tiram
toda a glória deles mesmos e a dão para Deus.
vi. A ação renovadora das Escrituras sobre os homens. O grande
poder e eficácia que a Palavra teve sobre as almas e as consciências dos
homens. Mudou seus corações. Alguns, ao lerem a Escritura se transformaram
em outros homens, foram feitos santos e graciosos. Ler outros livros pode
aquecer o coração, mas ler a Bíblia transforma. A Palavra foi copiada em
seus corações e se tomaram cartas de Cristo, de maneira que os outros
pudessem ler Cristo neles: “estando já manifestos como carta de Cristo,
produzida pelo nosso ministério, escrita não com tinta, mas pelo Espírito
do Deus vivente” (2Co 3.3).
Caso um selo fosse comprimido sobre uma pedra de mármore e
deixasse uma impressão sobre o mármore, haveria uma estranha virtude
nesse selo. Assim, quando o selo da Palavra deixa uma impressão celestial
de graça sobre o coração, tem de haver um poder atuando com a Palavra,
um poder divino.
46 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
As Escrituras confortaram o coração dos crentes. Quando os cristãos
se sentaram à beira dos rios chorando, a Palavra caiu como mel e suavemente
os reanimou. O conforto maior do cristão sai dessa fonte de salvação: “a
fim de que, pela paciência e pela consolação das Escrituras, tenhamos
esperança” (Rm 15.4). Quando uma pobre alma está quase desmaiando,
nada a conforta, mas as Escrituras a tonificam. Quando doente, a Palavra
reanimou a alma: “Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz
para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação” (2Co 4.17).
Quando a alma foi abandonada, a Palavra pingou como óleo dourado
de alegria: “O Senhor não rejeitará para sempre” (Lm 3.31). Ele pode mudar
sua providência, não seu propósito. Ele pode ter o olhar de um inimigo,
mas tem o coração de um pai. Assim, a Palavra tem um poder em si para
confortar um coração: “O que me consola na minha angústia é isto: que a
tua palavra me vivifica” (SI 119.50). Como o álcool é transmitido pelas
artérias do corpo, assim o consolo divino é transmitido pelas promessas da
Palavra. As Escrituras, com um poder estimulante e consolador em si,
mostram claramente que vem de Deus quem colocou o leite da consolação
nessas fontes.
vii. As E scrituras são confirm adas por milagres. Os milagres pelos
quais as Escrituras são confirmadas. Milagres foram realizados por Moisés,
Elias e Cristo, e continuaram muitos anos depois pelos apóstolos para
confirmar a veracidade das Escrituras Sagradas. Assim como suportes
são colocados debaixo de tonéis de vinhos mais fracos, da mesma maneira
esses milagres foram colocados sob a frágil fé dos homens, de modo que,
se não acreditassem nos escritos da Palavra, poderiam crer nos milagres.
Lemos sobre Deus dividindo as águas, fazendo um caminho no mar para
seu povo atravessar, um machado boiando, azeite aumentando nas vasilhas,
Cristo transformando água em vinho, a cura do cego e a ressurreição do
morto. Assim, Deus colocou um selo de verdade e divindade nas Escrituras
pelos milagres.
b. De quem provém a autoridade das Escrituras?
Os papistas não podem negar que a Escritura é divina e sagrada.
Porém, afirmam que, com respeito a nós, ela recebe sua autoridade divina
da igreja. Epara provar isso citam as Escrituras de 1 Timóteo 3.15, em que
se diz da igreja ser o fundamento e a coluna da verdade.
De fato, a igreja é a coluna da verdade, mas não significa que as
Escrituras recebem sua autoridade da igreja. A proclamação do rei é afixada
na coluna, a coluna segura o aviso de maneira que todos possam ler, mas a
proclamação não recebe sua autoridade da coluna, mas do rei. Assim, a
igreja segura as Escrituras abertas, mas estas não recebem sua autoridade
As Sagradas Escrituras 47
da igreja, mas de Deus. Se a Palavra de Deus for divina meramente porque
a igreja a segura aberta, então concluiremos que nossa fé deve ser colocada
sobre a igreja e não sobre a Palavra, o que contrariaria os ensinos do apóstolo:
“edifícados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas” (Ef 2.20).
2. As Escrituras canônicas são a regra completa
a. Por que as Escrituras são chamadas canônicas?
Todos os livros da Bíblia são da mesma autoridade divina? Nem todos,
apenas aqueles que chamamos canônicos.
Seguindo-se a essa, surge outra pergunta: Por que as Escrituras são
chamadas canônicas? Porque a Palavra é uma regra de fé, um cânon para
dirigir nossas vidas. A Palavra é o juiz das controvérsias e a rocha da
infalibilidade. Somente deve ser recebido como verdade aquilo que concorda
com as Escrituras, como transcrito no original. Todas as máximas na teologia
devem ser levadas ao teste das Escrituras, assim como todas as medidas
são comparadas ao padrão.
b. As Escrituras são a regra de f é e prática?
As Escrituras são um cânon perfeito e completo, contendo nele todas
as coisas necessárias para a salvação: “e que, desde a infância, sabes as
sagradas letras, que podem tornar-te sábio para a salvação” (2Tm 3.15).
Ela mostra o Credenda, o que devemos crer; e a Agenda, o que devemos
praticar. Dá-nos um exato modelo da religião e nos instrui perfeitamente
nas profundezas de Deus. Os papistas, portanto, tomam-se culpados por si
mesmos, pois apóiam as Escrituras com suas tradições, as quais consideram
iguais às Escrituras. O Concilio de Trento diz que as tradições da Igreja de
Roma devem ser recebidas com a mesma devoção que as Escrituras. Logo,
colocam-se a si mesmos sob maldição: “Se alguém lhe fizer qualquer
acréscimo, Deus lhe acrescentará os flagelos escritos neste livro” (Ap 22.18).
3. O escopo principal e o fim da Escritura
Pode-se levantar a seguinte questão: Qual é o escopo principal e o fim
da Escritura? Revelar o caminho da salvação. As Escrituras fazem uma
clara descoberta de Cristo: “estes, porém, foram registrados para que creiais
que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em
seu nome” (Jo 20.31). O propósito da Palavra é ser um teste pelo qual
nossa graça deve ser testada, uma bóia de demarcação marítima para nos
mostrar que rochas devem ser evitadas. A Palavra deve sublimar e saciar
nossas afeições. Deve ser diretiva e consoladora, deve soprar na direção da
terra prometida.
48 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
As Sagradas Escrituras
4. A legítima interpretação das Escrituras
49
a. Quem deveria ter o poder para interpretar as Escrituras?
Os papistas afirmam que é da igreja tal poder. Se perguntarmos a eles
quem é a igreja, dirão que é o papa, que é o cabeça dela, e que ele é infalível.
É o que diz Bellarmino.26 Porém, essa afirmação é falsa porque muitos dos
papas foram ignorantes e depravados, como afirma Platina, que escreveu
sobre a vida dos papas. O papa Libério era um ariano, e o papa João XII
negou a imortalidade da alma. Portanto, os papas não são apropriados
intérpretes das Escrituras. Então, quem é?
As Escrituras devem ser seu próprio intérprete, ou melhor, o Espírito
que fala nelas. Nada pode cortar o diamante senão o diamante; nada pode
interpretar as Escrituras, senão as Escrituras. O sol se revela melhor por
meio dos próprios raios; as Escrituras interpretam-se a si mesmas para o
entendimento. Mas a questão feita aqui se refere aos textos complicados
das Escrituras, em que o cristão fraco corre o risco de atravessar além de
seus limites. Quem deve interpretar esses textosmais difíceis?
A igreja de Deus apontou alguns expoentes e intérpretes das Escrituras,
portanto deu dons aos homens. Vários pastores de igrejas, como constelações
brilhantes, dão luz a textos obscuros das Escrituras: “Porque os lábios dos
sacerdotes devem guardar o conhecimento, e da sua boca devem os homens
procurar a instrução” (Ml 2.7).
b. Mas isso significaria colocar nossa fé sobre homens?
Não devemos aceitar nada como verdade se não estiver de acordo
com a Palavra. Assim como Deus deu a seus ministros dons para interpretar
textos obscuros, da mesma maneira deu a seu povo muito do espírito de
discernimento para que possam dizer (ao menos nas coisas relativas à
salvação) o que está de acordo com as Escrituras, e o que não está: “a outro,
profecia; a outro, discernimento de espíritos” (ICo 12.10). Deus proveu
seu povo com tal medida de sabedoria e ponderação que pode discernir
entre a verdade e o erro, julgar o que é bom e o que é espúrio: “Ora, estes de
Beréia... receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras
todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim ” (At 17.11).
Eles verificavam a doutrina que ouviam para ver se estava de acordo com
as Escrituras, embora Paulo e Silas fossem seus mestres (2Tm 3.16).
A p l i c a ç õ e s
Primeira aplicação: veja a maravilhosa bondade de Deus, que, apesar
da luz da natureza, nos confiou às Sagradas Escrituras. O não-convertido
está envolvido na ignorância todos “ ignoram seus preceitos” (SI 147.20).
Ele tem os oráculos das Sibilas, mas não os escritos de Moisés e dos
apóstolos. Quantos vivem na região da morte, onde essa estrela brilhante
das Escrituras nunca aparece. Nós temos esse Livro bendito vindo de Deus
para resolver todas as nossas dúvidas, para nos indicar um modo de vida:
“ Donde procede, Senhor, que estás para manifestar-te a nós e não ao
mundo?” (Jo 14.22). Deus, dando-nos sua Palavra escrita para ser nosso
guia, retira todas as desculpas dos homens. Nenhum homem pode dizer:
“eu fiz errado por falta de luz”, pois Deus deu sua Palavra como lâmpada
para os pés, portanto se alguém errou, o fez de livre e de espontânea vontade.
Nenhum homem pode dizer: “se eu soubesse a vontade de Deus, teria
obedecido”. E indesculpável, pois Deus deu uma regra pela qual se basear,
escreveu sua lei com o próprio dedo, portanto se não o obedeceram não há
desculpas. Se um mestre deixa sua mente por escrito com seu servo e lhe
diz que obra quer que faça e o servo negligencia a obra, tal servo não tem
desculpas: “mas, agora, não têm desculpa do seu pecado” (Jo 15.22).
Segunda aplicação: se toda a Escritura é de inspiração divina, então
alguns são reprovados.
1. Reprovam-se os papistas, que tiram uma parte das Escrituras,
cortando um pedaço da moeda do reino do céu. Eliminam o segundo
mandamento de seus catecismos, porque fala contra imagens. É comum
entre eles, ao encontrar um ensinamento indesejável nas Escrituras, colocar
uma máscara sobre aquela matéria ou, se tal ato não resolver, fazer de conta
que é algo espúrio. Eles são como Ananias, que escondeu parte do dinheiro
(At 5.2). Eles escondem parte das Escrituras do povo. É uma grande afronta
contra Deus apagar e ocultar qualquer parte de sua Palavra, o que nos leva
a sofrer as imprecações de Apocalipse 22.19: “e, se alguém tirar qualquer
coisa das palavras do livro desta profecia, Deus tirará sua parte da árvore
da vida, da cidade santa e das coisas que se acham escritas neste livro”.
2. Reprovam-se os antinomianos, uma vez que toda a Escritura é de
inspiração divina, porque põem de lado o Antigo Testamento como se fosse
inútil e ultrapassado, chamando aqueles que o adotam de cristãos do Antigo
Testamento. Deus estam pou sua majestade divina sobre ambos os
Testamentos, e até que alguém possa me mostrar onde Deus repeliu o Antigo,
continua com força.
Os dois Testamentos são dois poços de salvação. Os antinomianos
tapam um desses poços, secam uma das fontes de nutrição que saem das
Escrituras. Há muito evangelho no Antigo Testamento. Os consolos no
evangelho no Novo Testamento provêm do Antigo. A grande promessa do
Messias está no Antigo Testamento: “uma virgem conceberá e dará à luz a
um filho”. E digo mais, a lei moral, em algumas partes dela, é discurso do
50 A fé crista - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
evangelho: “eu sou o Senhor teu Deus”, aqui está o puro vinho do evangelho.
O grande alvará dos santos, em que Deus promete “aspergir água pura sobre
eles e colocar seu Espírito dentro deles” é encontrado principalmente no
Antigo Testamento (Ez 36.25,26). Então, quem elimina o Antigo Testa
mento faz como Sansão que empurrou as colunas, elimina as colunas do
consolo do cristão.
3. Reprovam-se os entusiastas, que, fingindo ter o Espírito, põem de
lado toda a Bíblia e dizem que as Escrituras são letras mortas, vivendo
acima delas. Como são atrevidas tais pessoas. Até que estejamos acima do
pecado, não estaremos acima das Escrituras. Nenhum homem fale de uma
revelação do Espírito, senão sob suspeita de ser um impostor. O Espírito de
Deus age regularmente na Palavra e pela Palavra. E, aquele que forja uma
nova luz, que esteja acima ou que seja contrário à Palavra, viola tanto a si
mesmo quanto ao Espírito: sua luz é tomada emprestada daquele que
transforma a si mesmo em um anjo de luz.
4. Reprovam-se também os que diminuem as Escrituras; como
aqueles que podem passar semanas e meses sem ler a Palavra. Colocam-na
de lado como se fosse uma armadura enferrujada, preferem ler uma novela
ou um romance em detrimento das Escrituras. Os assuntos pesados da lei
são para eles insignificantes. Quanta gente consegue ficar olhando suas
faces no espelho durante toda a manhã, mas seus olhos começam a doer
quando olham para uma Bíblia. Os ímpios morrem por falta das Escrituras,
e outros por desprezá-las. Aqueles que desprezam seu guia certamente se
dão mal. Colocam rédeas sobre o pescoço de suas malícias, mas nunca
usam o freio das Escrituras para checá-las, assim são levados ao inferno
e nunca param.
5. Reprovam-se os ofensores das Escrituras. Aqueles que enlameiam
e que envenenam essa fonte pura e cristalina com seus enganos corruptos e que
torcem a Escritura (2Pe 3.16). A palavra grega para deturpar (versão R.A.)
significa torcer. Por não comparar Escrituras com Escrituras, interpretam-
nas erroneamente.
Assim, os antinomianos torcem a Escritura. Lendo Números 23.21:
“Não viu iniqüidade em Jacó”, inferem que o povo de Deus pode tomar a
liberdade de pecar, pois Deus não vê pecado neles. É verdade, Deus não vê
o pecado em seu povo com o olho da vingança, mas vê com o olho da
observação. Não vê pecado neles, de maneira a condená-los, mas vê a ponto
de ficar irado e severamente puni-los. Davi não descobriu isso quando
clamou por seus ossos quebrados?
Dessa mesma maneira os arminianos torcem a Escritura. Lendo, por
exemplo, João 5.40: “Contudo, não quereis vir a mim”, vêem o livre-arbítrio.
Esse texto mostra como Deus permite termos vida, como pode permitir aos
As Sagradas Escrituras 51
pecadores fazer mais do que fazem, multiplicando os talentos que deu a
eles; mas não prova o poder do livre-arbítrio, pois é contrário à Escritura
em João 6.44: “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o
trouxer” . Torcem o texto com tanta força que sai até sangue dele, não
comparam a Escritura.
Outros torcem as Escrituras zombando delas. Quando estão tristes,
pegam a Escritura como se fosse um alaúde ou menestrel para tocar, e
assim expulsam o espírito triste. Fazem como um beberrão cuja história eu
li, que, após ter bebido, chamou alguns de seus amigos, dizendo: “Dê-nos
de seu óleo, pois nossas lâmpadas se apagaram”. Só quando estão com
medo de Deus é que dão atenção à Palavra. Eusébio27 nos conta de alguém
que pegou uma parte das Escrituras para fazer uma brincadeira, mas foi
possuído de loucura e saiu correndo. Há um dito de Lutero28 que diz assim:
“quem Deus pretendedestruir, deixa brincar com as Escrituras”.
Terceira aplicação: já que a Escritura é de inspiração divina, então
devemos ser exortados.
1. Somos exortados a estudar a Escritura. E uma cópia da vontade de
Deus. Sejam homens da Escritura, cristãos da Bíblia. Tertuliano disse assim:
“eu adoro a totalidade da Escritura”. No Livro de Deus estão espalhadas
muitas verdades assim como pérolas. O apóstolo João diz: “Examinais as
Escrituras” (Jo 5.39). Examine como se estivessem procurando um veio de
prata. Esse Livro abençoado encherá sua mente de conhecimento e seu
coração de graça. Deus escreveu as duas tábuas com os próprios dedos e, se
sofreu dores para escrevê-las, também temos de sofrer dores para lê-las.
Apoio era poderoso nas Escrituras (At 18.24). A Palavra é nossa Magna
Charta para o céu. Podemos ser ignorantes quanto a nosso dever? “Habite,
ricamente, em vós a palavra de Cristo” (Cl 3.16). A memória deve ser
caderno de anotações em que a Palavra é escrita. Há majestade cintilando
em cada linha da Escritura, por exemplo: “quem é este que vem de Edom,
de Bozra, com vestes de vivas cores, que é glorioso em sua vestidura, que
marcha na plenitude da sua força? Sou eu que falo em justiça, poderoso
para salvar” (Is 63.1). Aqui se vê um alto e magnifícente estilo. Que anjo
poderia falar dessa maneira? Junius foi convertido ao ler um versículo de
João, contemplou a majestade nele além de toda retórica humana.
Há uma melodia nas Escrituras. Ela é a harpa abençoada que expulsa
a tristeza do espírito. Ouça um pouquinho dessa harpa: “Fiel é a palavra e
digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os
pecadores” (1 Tm 1.15). Jesus não tomou somente nossa forma carnal, mas
nossos pecados. “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados,
e eu vos aliviarei” (Mt 11.28). Quão doce essa harpa das Escrituras soa.
52 A fé cristã — Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
que música celestial toca aos ouvidos de um pecador cansado, especialmente
quando o dedo do Espírito de Deus toca esse instrumento.
Há divindade na Escritura, ela contém a substância e a essência da
religião. E uma rocha de diamantes, um mistério de piedade. Os lábios das
Escrituras têm graça derramada neles. As Escrituras falam de fé, de
autonegação e de todas as graças que, como uma corrente de pérolas,
adornam um cristão. Incitam à santidade, tratam de outro mundo, dão uma
visão da eternidade. Então, examine as Escrituras. Tome a Palavra sua grande
conhecida. Se eu tivesse a língua dos anjos, não poderia expressar a
excelência da Escritura suficientemente.
Elas são os óculos espirituais por meio dos quais contemplamos a
glória de Deus, são a árvore da vida, o oráculo de sabedoria, a regra de
comportamentos, a semente celestial da qual a nova criatura é formada
(Tg 1.18). “Os dois Testamentos”, diz Agostinho, “são os dois seios nos
quais todo cristão deve sugar, para que obtenha alim ento espiritual” .
As folhas da árvore da vida eram para a cura (Ap 22.2), da mesma maneira,
as folhas santas das Escrituras são para cura de nossas almas.
As Escrituras são benéficas para todas as coisas. Se estivermos
desolados, nelas está o vinho aromático que alegra um coração pesaroso;
se somos perseguidos por Satanás, nelas está a espada do Espírito para
resisti-lo; se estamos doentes com a lepra do pecado, nelas estão as águas
do santuário, tanto para limpar quanto para curar, por tudo isso, então,
exam inai as Escrituras. Não há perigo em provar dessa árvore do
conhecimento. Havia uma penalidade anteriormente colocada que não
podíam os provar da árvore do conhecim ento: “mas da árvore do
conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela
comeres, certamente morrerás” (Gn 2.17). Não há perigo em tomar o fruto
dessa árvore das Escrituras Sagradas. Se não comermos dessa árvore do
conhecimento, certamente morreremos. Então, leia as Escrituras. Pode
chegar uma época em que as Escrituras nos sejam proibidas.
Leia a Bíblia com reverência. Pense sobre cada linha em que Deus
está falando com você. A arca onde a lei foi colocada era revestida com puro
ouro, era carregada com barras, os levitas não podiam tocá-la (Êx 25.14).
Para quê era isso, senão para reverenciar a lei?
Leia com seriedade, pois é uma questão de vida ou morte. Pela Palavra
somos testados: a consciência e as Escrituras são os parâmetros pelos quais
Deus irá se basear ao nos julgar.
Leia a Palavra com apreciação. Sacie seu coração com a Palavra, vá
até ela para buscar fogo: “Porventura, não nos ardia o coração?” (Lc 24.32).
Empenhe-se de maneira que a Palavra não seja somente uma lâmpada para
orientar, mas um fogo para aquecer.
As Sagradas Escrituras 53
Leia as Escrituras não somente como uma história, mas como uma
carta de amor enviada por Deus, que pode afetar os corações.
Ore para que o mesmo Espírito que escreveu a Palavra possa assisti-lo
ao lê-la; que o Espírito de Deus lhe mostre as coisas maravilhosas de sua lei:
“aproxima-te desse carro”, disse Deus a Filipe, “acompanha-o” (At 8.29).
Assim, quando o Espírito de Deus se une com o carro de sua Palavra se
torna eficaz.
2. Considere-se exortado a valorizar a Palavra escrita (Jo 23.12). Davi
valorizou a Palavra mais que o ouro. O que teriam os mártires dado por
uma folha da Bíblia. A Palavra é o campo onde Cristo, a pérola valorosa,
está escondido. Nessa mina sagrada nós cavamos, não por um pedaço de
ouro, mas por um peso de glória. As Escrituras são colírios sagrados ou
ungüentos para nos iluminar: “porque o mandamento é lâmpada, e a
instrução, luz” (Pv 6.23). As Escrituras são o plano e a bússola pelos quais
velejamos para a nova Jerusalém. É um remédio estimulante soberano para
todas as fraquezas. O que são as promessas, além de água da vida para
renovar espíritos desanimados? É o pecado que incomoda? Aqui está um
remédio da Escritura: “se prevalecem as nossas transgressões, tu no-las
perdoas” (SI 65.3). São aflições externas que o agitam? Nelas está o remédio:
“na sua angústia eu estarei com ele” (SI 91.15), não somente para olhar,
mas para apoiar. Assim como o maná foi colocado na arca, as promessas
são colocadas na arca das Escrituras.
As Escrituras nos farão sábios. A sabedoria é maior do que rubis: “por
meio dos teus preceitos, consigo entendimento” (SI 119.104). O que fez
Eva desejar a árvore do conhecimento? Era uma “árvore desejável para dar
entendimento” (Gn 3.6). As Escrituras ensinam o homem a se conhecer,
revelam os desígnios e estratagemas de Satanás (2Co 2.11), “podem tomar-
te sábio para a salvação” (2Tm 3.15). Então, valorize muito as Escrituras.
Li a respeito da rainha Elizabete, que em sua coroação recebeu uma Bíblia
de presente com ambas as mãos e a beijou, colocou contra seu peito e disse
que aquele livro sempre foi sua maior alegria.
3. Você é exortado a crer nas Escrituras, porque elas são de divina
inspiração. Os romanos, a fim de darem crédito às suas leis, diziam que
haviam sido inspirados pelos deuses de Roma. Dê credibilidade à Palavra.
Ela é soprada da boca do próprio Deus. Se não for assim, a profanação dos
homens cresce, pois não crêem na Escritura: “quem creu em nossa
pregação?” (Is 53.1). Você creu nos galardões gloriosos de que as Escrituras
falam, senão não se esforçaria para ter certeza de sua eleição? Você acreditou
nos tormentos do inferno de que a Escritura fala? Não lhe fez suar frio e
provocou um temor no coração por causa do pecado? Porém, as pessoas
54 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
são em parte ateístas, dão pouco crédito à Palavra, portanto são muito ímpias
e atraem sombras escuras em suas vidas. Aprenda a compreender a Escritura,
faça que seu coração trabalhe para uma firme crença nela. Alguns acham
que se Deus enviasse um anjo do céu e declarasse o que pensa, acreditariam
nele. Ou, se enviasse alguém do inferno e pregasse sobre os tormentos do
inferno em chamas, acreditariam nele.Porém, “se não ouvem a Moisés e
aos profetas, tampouco se deixarão persuadir, ainda que ressuscite alguém
dentre os mortos” (Lc 16.31). Deus é sábio e entende que a maneira mais
apropriada para se fazer conhecido a nós é pela escrita. E aqueles que não
forem convencidos pela Palavra serão julgados pela Palavra. A crença nas
Escrituras é de grande importância. Ela nos capacitará a resistir à tentação:
“a palavra de Deus permanece em vós, e tendes vencido o Maligno” (1 Jo 2.14).
Ela nos conduz em nossa santificação, portanto a santificação do espírito e
a crença na verdade estão colocadas juntas (2Ts 2.13). Se a palavra escrita
não for crida é como escrever na água, não faz nenhuma marca.
4. Sinta-se exortado também a amar a Palavra escrita: “quanto amo a
tua lei!” (SI 119.97). Agostinho disse assim: “Senhor, que as Sagradas
Escrituras sejam meu puro deleite”. Crisóstomo compara as Escrituras a
um jardim, cada uma das verdades é uma flor perfumosa que devemos
colher e carregar, não somente em nosso peito, mas em nosso coração.
Davi considerava a Palavra de Deus “mais doce do que o mel e o destilar
dos favos” (SI 19.10). Há algo nas Escrituras que produz deleite. Mostra-
nos o caminho das riquezas: Deuteronômio 28.5, Provérbios 3.10; a vida
longa: Salmo 34.12; e um reino: Hebreus 12.28. Sendo assim, que possamos
contar as horas utilizadas na leitura das Sagradas Escrituras como as horas
mais doces. Que digamos como o profeta: “Achadas as tuas palavras, logo
as comi; as tuas palavras me foram gozo e alegria para o coração” (Jr 15.16).
5. Além disso, somos exortados a nos conformar às Escrituras. Que
nossas vidas sejam guiadas segundo as Escrituras. Que a Bíblia possa ser
vista impressa em nossas vidas. Faça o que a Palavra manda. Obediência é
uma excelente maneira de ensinar a Bíblia: “andarei na tua verdade” (SI 86.11).
Deixe que a Palavra seja o relógio de sol pelo qual você acerta a sua vida.
Que bem fazemos se o que falamos e se nossas ações não são conforme as
Escrituras? Que vantagem tem um carpinteiro que deixa o metro no bolso e
nunca faz uso dele para medir e esquadrinhar seu trabalho? Também nós, que
vantagem temos se não usamos a Palavra e se não regemos nossas vidas por
ela? Quantas pessoas se transformam e se desviam da regra. A Palavra ensina
a ser sóbrio e teinperante, mas eles são bêbados. Ela ensina a ser puro e santo,
mas eles são profanos. Desviam-se completamente da regra. Que desonra é
para a religião que homens vivam em contradição com as Escrituras.
As Sagradas Escrituras 55
A Palavra é chamada “lâmpada para os meus pés” (SI 119.105). Não é
somente uma luz para os nossos olhos, para corrigir nossa visão, mas para
nossos pés para corrigir nosso andar. Que tenhamos conversas bíblicas.
6. Somos exortados a lutar pelas Escrituras. Embora não devamos ser
de espírito contencioso, devemos lutar pela Palavra de Deus. Essa jóia é
muito preciosa para ser abandonada: “guarda-a porque ela é a tua vida”
(Pv 4.13). As Escrituras são cercadas pelos inimigos; hereges lutam contra
ela. Portanto, devemos batalhar “diligentemente pela fé que uma vez por
todas foi entregue aos santos” (Jd 3). As Escrituras são nosso livro de
evidências do céu. Devemos abandonar nossas evidências? Os santos do
passado eram tanto defensores quanto mártires da verdade. Eles estavam
firmes nas Escrituras, apesar da perda de suas vidas.
7. Outra exortação que recebemos é sermos agradecidos a Deus pelas
Escrituras. Que grande misericórdia de Deus, pois não somente nos dá a
conhecer sua vontade, mas a deu por escrito. No passado, Deus revelou
seus pensamentos por intermédio de visões, mas a Palavra escrita é uma
maneira mais clara de conhecer o pensamento de Deus: “ora, esta voz,
vinda do céu, nós a ouvimos quando estávamos com ele no monte santo.
Temos assim tanto mais confirmada a palavra profética” (2Pe 1.18,19).
Cuidado, o diabo é um imitador de Deus e pode se transformar em um
anjo de luz. Pode enganar com falsas revelações. Uma vez ouvi falar de
alguém que teve uma revelação de Deus para sacrificar seu filho, como
Abraão teve. Então, seguindo aquele impulso do maligno, matou seu filho.
Assim, Satanás engana as pessoas com ilusões, em vez de revelações divinas.
Portanto, devemos ser agradecidos a Deus por revelar seu pensamento a
nós por escrito. Não somos deixados em um suspense duvidoso de maneira
a não saber no que crer, mas temos uma regra infalível pela qual nos basear.
As Escrituras são nossa estrela polar para nos dirigir ao céu, mostra-nos
cada passo que temos de tomar. Quando andamos de maneira errada, nos
instrui. Quando fazemos o certo, nos conforta. E uma questão de gratidão
que as Escrituras foram feitas inteligíveis ao serem traduzidas.
8. Finalmente, somos exortados a adorar a graça distinta de Deus. Você
deve adorá-la caso tenha sentido o poder e a autoridade da Palavra sobre sua
consciência e se pode dizer como Davi: “a tua palavra me vivifica” (SI 119.50).
Cristão, dê graças a Deus por ter dado sua Palavra para ser uma regra de
santidade, mas também um princípio de santidade. Dê graças a Deus que não
somente escreveu sua Palavra, mas a selou sobre seu coração e a fez eficaz.
Você pode dizer que ela é de inspiração divina, pois sentiu a operação viva
dela. Que maravilhosa graça. Deus enviou sua Palavra e com ela o curou, de
maneira que curou você e não outros. As mesmas Escrituras que para outros
é uma letra morta, para você devem ser sinônimo de vida.
56 A fé cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
III. SEGUNDA PARTE
D e u s , s e u S e r e s e u s d e c r e t o s
P e r g u n t a s 3 a 7,9,11
A. O s e r d e D e u s
PERGUNTA 3: Qual é o ensino principal das Escrituras?
RESPOSTA: As Escrituras nos ensinam principalmente o que o homem
deve crer a respeito de Deus e qual dever Deus requer do homem.
PERGUNTA 4: Quem é Deus?
RESPOSTA: Deus é um Espírito infinito, eterno e imutável em seu
ser, sabedoria, poder, santidade, justiça, bondade e verdade.
Nessas perguntas, aprendemos sobre o ser de Deus, implicitamente,
que há um Deus; explicitamente, que ele é um Espírito; e, em terceiro
lugar, que tipo de Espírito Deus é?
1. A existência de Deus
A pergunta: quem é Deus? subentende a existência de Deus. A crença
na essência de Deus é o fundamento da adoração em todas as religiões:
“porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele
existe” (Hb 11.6). Deve haver uma causa primeira pela qual tudo existe.
Pelas seguintes razões podemos reconhecer a existência de Deus.
a. Pelo livro da natureza
A noção de uma deidade está impressa no coração do homem bem
como é demonstrada pela luz da natureza. Acho difícil um homem ser
naturalmente ateu. Ele pode desejar que Deus não exista e pode lutar
contra uma deidade, mas não pode em sã consciência crer que não há Deus.
A menos que sua consciência esteja cauterizada pelo acúmulo de pecado e,
por esse mesmo motivo, encontre-se em um estado tão grande de letargia
que já tenha atingido seu senso e sua razão.
b. Pelas obras de Deus
Sabemos que há um Deus por meio de suas obras. Isso é evidência tão
clara da existência de uma deidade que a maioria dos ateístas, quando
considera essas obras, tem sido forçada a aceitar a existência de um criador
sábio e supremo de todas as coisas, como aconteceu com Galeno29 e outros.
Vamos iniciar pela criação do tecido glorioso do céu e da terra.
É claro que houve um arquiteto ou causa primeira, pois o mundo não poderia
criar a si mesmo. Quem penduraria a terra sobre o nada a não ser o grande
Deus? Quem poderia fornecer tal riqueza de aparatos para os céus? E as
gloriosas constelações? E o firmamento enfeitado com luzes tão cintilantes?
Vemos a glória de Deus brilhando no sol e cintilando nas estrelas. Quem
poderia dar a roupagem à terra, cobri-la com grama e milho, adorná-la com
flores, enriquecê-la com ouro? Somente Deus (Jó 38.4). Quem, além de
Deus, poderia ter feito adoce música nos céus, ajuntando os anjos em harmo
nia entoando louvores ao seu criador? “Quando as estrelas da alva, juntas,
alegremente cantavam, e rejubilavam todos os filhos de Deus?” (Jó 38.7).
Se um homem fosse para um país longínquo onde visse edifícios bem altos,
ele nunca imaginaria que esses edifícios foram construídos por si mesmos,
mas suporia que algum poder maior os construiu. Imaginar que a obra da
criação não foi estruturada por Deus é como se entendêssemos uma curiosa
paisagem desenhada por um lápis sem a mão de um artista. “Deus... fez o
mundo e tudo que nele existe” (At 17.24). Criar é algo próprio da deidade.
O sábio governo de todas as coisas manifesta a existência de Deus.
Deus é o grande superintendente do mundo, ele tem o cetro dourado do
governo em sua mão, guiando todas as coisas regular e harmoniosamente
ao seu devido fim. Qual pessoa, ao contemplar a providência, necessita ser
forçada a reconhecer a existência de Deus? A providência é a rainha e a
governanta do mundo; é a mão que gira a roda de toda a criação; ela dá a
velocidade certa ao Sol e os limites aos oceanos. Se Deus não guiasse o
mundo, as coisas entrariam em desordem e confusão. Quando alguém olha
para um relógio e vê o movimento das engrenagens, o bater do martelo, os
pêndulos balançando diria que algum artífice o fez. Da mesma maneira,
temos de reconhecer a existência de um Deus que sabiamente ordena e
governa todas essas coisas quando vemos a excelente ordem e harmonia no
universo: o Sol, esse grande astro que irradia luz e calor para o mundo, sem
o qual o mundo seria somente uma sepultura ou uma prisão; os rios, com
seus fluxos prateados de água que refresca os corpos dos homens e evita a
seca; todas as criaturas agindo conforme sua natureza e mantendo seus
devidos limites. Quem poderia organizar esse grande exército de criaturas
em seus diversos postos e esquadrões e mantê-los em marcha constante a
não ser aquele cujo nome é O SENHOR DOS EXÉRCITOS?
Da mesma maneira como Deus sabiamente dispõe todas as coisas no
regimento das criaturas por meio de seu poder, também as sustenta. Se Deus
suspendesse ou tirasse sua influência só um pouquinho, as rodas da criação
sairiam do lugar e seu eixo se quebraria em pedaços. Todo movimento,
58 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
O ser de Deus 59
dizem os filósofos, vem de alguma coisa que é imóvel. Os elementos, por
exemplo, são movidos pela influência e o movimento dos corpos celestiais,
o Sol e a Lua, e estes são movidos por uma esfera superior chamada Primum
M obile. Se alguém perguntasse quem m ove a órbita superior ou
primeiramente moveu os planetas, a resposta só poderia ser: o próprio Deus.
O homem é um microcosmo ou um mundo menor. A excelência da
estrutura e disposição de seu corpo é algo produzido de modo inteligente
como que um tricotar: “no oculto fui formado e entretecido como nas
profundezas da terra” (SI 139.15). Esse corpo é equipado com uma alma
nobre. Quem além de Deus poderia fazer tal união de substâncias diferentes
como carne e espírito? Em Deus nós vivemos, nos movemos e existimos.
A movimentação precisa de cada parte do corpo aponta para a existência
de Deus. Podemos ver algo dele no brilho do olho. Se o porta-jóias, que é o
corpo, foi tão bem trabalhado, o que dizer da jóia que está dentro dele?
A alma tem um brilho celestial em si, como disse Damasceno:30 “é um
diamante colocado em um anel de barro”. Quão nobres são as faculdades
com as quais a alma é adornada. O entendimento, a vontade, as afeições
são um espelho da Trindade, como diz Platão. O material da alma é espiritual,
é uma chama divina acesa pelo céu. Ser espiritual é ser imortal, como observa
Scaliger:31 “ ... a alma não envelhece”, ela vive para sempre. Quem poderia
criar uma alma enobrecida com propriedades angelicais tão raras, a não ser
Deus? Nós devemos dizer como o salmista: “foi ele quem nos fez, e dele
somos” (SI 100.3).
c. Pela nossa consciência
A consciência é prova da deidade, ela é uma representante e uma
delegada de Deus. A consciência é uma testemunha da deidade. Se não
houvesse uma Bíblia para nos dizer que há um Deus, a consciência o faria.
A consciência, como diz o apóstolo: “mutuamente acusando-se ou defen
dendo-se” (Rm 2.15), age de acordo com um tribunal superior.
A consciência natural, livre dos grandes pecados, desculpa-se. Quando
alguém pratica ações virtuosas, vive temperante e retamente, observa o
grande mandamento fazendo aos outros o que gostaria que fosse feito a ele,
então a consciência, aprovando suas ações, diz: “muito bem!”
Como é natural a uma abelha produzir mel, o é à consciência, natural
do ímpio acusá-lo. Quando os homens agem contra a luz, sentem peso de
consciência. Sêneca32 disse: “Que coisa. Parece que um escorpião se esconde
dentro de mim”. Quando alguém peca contra a consciência, é como se ela
cuspisse fogo no rosto da pessoa, enchendo-a de vergonha e horror. Quando
o pecador vê a escrita manuscrita na parede da consciência, seu semblante
se transtorna. Muitos já se enforcaram para silenciar suas consciências.
O imperador Tibério, um homem sanguinário, sentiu o golpe de sua
consciência. Foi tão perseguido com essa fúria que disse ao senado que
sofria a morte diariamente. O que poderia colocar a consciência de um
homem em tal agonia, além da im pressão da deidade e o futuro
enfrentamento de seu tribunal? Aqueles que se colocam acima das leis
humanas estão sujeitos às verificações de suas próprias consciências. Pode-
se notar isso claramente, pois quanto mais perto o ímpio se aproxima da
morte, mais atemorizado fica. De onde vem isso a não ser da apreensão
do juízo que se aproxima? A alma, sendo sensível quanto à sua natureza
imortal, treme diante daquele que nunca cessa de viver e, portanto, nunca
cessará de punir.
d. Pela religião universal
A existência de um Deus é algo que se verifica no consenso das nações,
na consagração universal e nas orações de todos os homens. Tully disse o
seguinte: “nenhuma nação é tão bárbara a ponto de não acreditar que existe
um Deus”. Embora o pagão não adore o verdadeiro Deus, adora um deus.
Eles montam um altar ao “Deus desconhecido” (At 17.23). Sabiam que um
deus deveria ser adorado, embora não soubessem qual deus deveriam adorar.
Alguns adoraram Júpiter, outros, Netuno e outros, Marte. Em lugar de não
adorar nada, adoraram alguma coisa.
e. Pelas predições infalíveis
Que há um Deus se verifica por sua previsão das coisas futuras. Aquele
que pode prever coisas que certamente acontecerão, é o verdadeiro Deus.
Deus previu que uma virgem conceberia e prefixou o tempo em que o
Messias deveria ser morto (Dn 9.26). Ele previu o cativeiro dos judeus na
Babilônia e quem seria o libertador deles (Is 45.1). O próprio Deus usa
desse argumento para provar que ele é o verdadeiro Deus e que todos os
deuses dos pagãos são invenções nulas (Is 41.23). Tertuliano dizia que
predizer coisas possíveis de acontecer, que não dependem de causas naturais,
é algo peculiar à deidade.
f. Pelo seu poder soberano
Que há um Deus se verifica por meio de seu poder ilimitado e sua
soberania. Aquele que age e ninguém o impede é o verdadeiro Deus.
Pode fazer como quiser: “agindo eu, quem o impedirá?” (Is 43.13). Nada
pode interromper sua ação senão algum poder superior, mas não há poder
acima de Deus. Todo poder que existe, existe por ele, portanto todo
poder está submisso a ele: “o teu braço é armado de poder” (SI 89.13).
Ele enxerga os desígnios que os homens têm contra ele e os impede.
60 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
O ser de Deus 61
Ele enlouquece os adivinhadores (Is 44.25). Ele recolhe o espírito dos
príncipes; acalma o mar, faz o leviatã parar, amarra o demônio em
correntes. Deus age de acordo com o que lhe agrada, faz o que é de sua
vontade. “Agindo eu, quem impedirá?”
g. Pela existência dos demônios
Existem demônios, portanto existe um Deus.Os ateus não podem
negar que existam demônios e, portanto, devem admitir a existência de
Deus. Lemos a respeito de muitos que foram possuídos pelo demônio.
Os demônios são chamados na Escritura de “cabeludos”, porque geralmente
apareciam na forma de bodes ou de um sátiro.33 Em seu livro, Deprobatione
spirituum, Gerson34 nos conta como Satanás apareceu com uma aparência
gloriosa a um homem santo, professando ser de Cristo, e o velho homem
respondeu: “não desejo ver meu Salvador aqui neste deserto, é suficiente
pra mim vê-lo no céu”. Então, se há um demônio, há um Deus. Sócrates,
um pagão, quando foi acusado em sua morte, confessou que, de fato, como
pensara, havia um malus genius, um espírito maligno, então certamente
haveria um espírito bom.
A p l i c a ç õ e s
Primeira aplicação: visto que Deus existe, reprovam-se os tolos
ateístas que o negam. Epicúrio negou que havia uma providência, dizendo
que todas as coisas aconteciam por acaso. Afirmar a não-existência de um
Deus toma o homem a criatura mais ímpia que existe, sendo pior que um
ladrão que leva nossas mercadorias, pois o ateísta nos toma nosso Deus:
“levaram o meu Senhor” (Jo 20.13). Então podemos dizer dos ateístas que
levariam nosso Deus de nós, aquele em quem toda nossa esperança e consolo
estão colocados, conforme o salmista: “Diz o insensato no seu coração:
não há Deus” (SI 14.1). Ele não se atreve a falar com a língua, mas o faz em
seu coração, esse é o seu desejo.
E certo que ninguém pode ser um ateísta especulativo: “Até os
demônios crêem e tremem” (Tg 2.19). Li a respeito de um homem chamado
Arthur, um ateu professo, que, quando estava perto de morrer, clamou que
estava perdido. Embora haja poucos que dizem que não há Deus, muitos o
negam em suas ações: “o negam por suas obras” (Tt 1.16). Cícero35 disse a
respeito de Epicúrio: “... em suas palavras tanto nega a existência dos deuses
quanto permite que eles existam”. O mundo é cheio de ateísmo prático; a
maioria das pessoas vive como se não acreditasse em Deus. Elas se
atreveriam a mentir, defraudar, ser impuras, se acreditassem que há um
Deus que lhes pediria conta? Se um índio, que nunca ouviu falar de Deus,
viesse até nossa sociedade e não tivéssemos nenhuma maneira para
convencê-lo a respeito da deidade senão por meio da vida dos homens de
nossa era, certamente ele questionaria se existe ou não um Deus. Ele diria:
“eu não me arriscaria em afirmar que existam deuses”.
Segunda aplicação: afirmar a existência de um Deus é dizer que ele
tratará justamente e dará galardões justos aos homens. As coisas parecem
acontecer no mundo de maneira muito inadequada, pois os ímpios florescem
(SI 73.3). Aqueles que tentam a Deus escapam (Ml 3.15). O cacho de uvas
madura é esprimido nos copos desses homens e, enquanto isso, os piedosos,
que choraram pelo pecado e serviram a Deus, são afligidos: “Por pão tenho
comido cinza e misturado com lágrimas a minha bebida” (SI 102.9). Homens
malignos usufruem tudo que é bom e homens bons sofrem todo o mal.
Porém, afirmar a existência de Deus é dizer que ele retribuirá justamente
aos homens: “Não fará justiça o Juiz de toda a terra?” (Gn 18.25). Os
ofensores devem ser punidos. O dia da morte e da destruição do pecador
está próximo: “Rir-se-á dele o Senhor, pois vê estar-se aproximando o seu
dia” (SI 37.13). Enquanto existir o inferno, o ímpio será bastante punido; e,
enquanto houver eternidade, os ímpios ficarão confinados nele; e Deus
recompensará em abundância o serviço fiel de seu povo. Eles receberão
suas roupas brancas e suas coroas: “Então, se dirá: Na verdade, há
recompensa para o justo; há um Deus, com efeito, que julga na terra” (SI
58.11). Porque Deus é Deus, ele dará galardões gloriosos ao seu povo.
Terceira aplicação: afirmar que há um Deus é dizer da tristeza de
todos aqueles que têm esse Deus contra eles. Deus vive eternamente para
se vingar deles: “estarão fortes as tuas mãos, nos dias em que eu vier a
tratar contigo?” (Ez 22.14). Os ímpios são os que infringem o sábado de
Deus e se opõem aos seus santos massacrando essas jóias no pó.
Aqueles que vivem em contradição à Palavra de Deus atraem a
majestade infinita do céu contra eles; e quão triste será o fim deles. “Se eu
afiar a minha espada reluzente, e a minha mão exercitar o juízo, tomarei
vingança contra os meus adversários e retribuirei aos que me odeiam.
Embriagarei as minhas setas de sangue” (Dt 32.41,42). Se é tão terrível
ouvir o leão rugir, pior ainda será quando ele começar a partir sua presa:
“Considerai, pois, nisto, vós que vos esqueceis de Deus, para que não vos
despedace, sem haver quem vos livre” (SI 50.22).
Caso os homens pensassem a respeito disso, não continuariam em
pecado. Deveríamos atrair o grande Deus contra nós? Deus golpeia
lentamente, mas de maneira pesada: “Tens braço como Deus ou podes
trovejar com a voz como ele o faz?” (Jó 40.9). Podes tu despedaçar como
ele? Deus é o melhor amigo, mas o pior inimigo. Se ele pode ver os
homens em suas sepulturas, quão longe pode lançá-los? “Quem conhece
62 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
O ser de Deus 63
o poder da tua ira?” (SI 90.11). Que pessoas tolas, pois por uma gota de
prazer bebem o mar de ira. Paracelso fala a respeito de um frenesi que
alguns têm que fará que morram dançando; assim, pecadores vão dançando
para o inferno.
Quarta aplicação', afirmar a existência de Deus é crer firmemente
neste grande artigo de nosso Credo Apostólico. Que religião pode haver
nos homens, se não crêem em Deus? “Aquele que se aproxima de Deus
deve crer que ele existe.” Adorar a Deus e orar a ele e não crer que ele
existe é escarnecê-lo bastante e desprezá-lo. Creia que Deus é o único e
verdadeiro Deus, um Deus como revelado em sua Palavra. “Amas a justiça
e odeias a iniqüidade” (SI 45.7).
A crença real em uma deidade dá vida a toda adoração religiosa. Quanto
mais acreditamos na verdade e infinitude de Deus, tanto mais santos e angélicos
somos em nossas vidas. Quer estejamos sozinhos ou acompanhados, Deus
nos vê. Ele é o que sonda os corações. A crença nesta onisciência de Deus nos
fará viver sempre sob os olhos dele: “O S f.n h o r , tenho-o sempre à minha
presença” (S I 16.8). A crença em uma deidade é uma rédea para o pecado e
um estímulo ao dever. Dá asas à oração e óleo à lâmpada de nossa devoção.
A crença em uma deidade gera dependência de Deus em todas as
nossas dificuldades e nossas emergências: “Eu sou o Deus Todo-poderoso”
(Gn 17.1). Ele é um Deus que pode suprir todas as suas necessidades, afastar
todos os seus temores, resolver todas as suas dúvidas, vencer todas as suas
tentações. O poderoso braço de Deus nunca se encolherá. Ele pode derramar
sua misericórdia sobre nós e, portanto, pode nos ajudar, ao mesmo tempo
em que não se torna devedor de alguma coisa em relação à criatura.
Se acreditam os que há um Deus, devemos confiar em sua providência a
tal ponto de não usarmos quaisquer meios indiretos; não deveríamos correr
em direção ao pecado para nos livrar dos problemas: “Porventura, não há
Deus em Israel, para irdes consultar Baal-Zebube, deus de Ecrom?”
(2Rs 1.3). Quando os homens correm para artimanhas pecaminosas é porque
não crêem que exista um Deus, ou que ele seja todo suficiente.
Quinta aplicação', saber que há um Deus faz que nos esforcemos em
nosso interesse por ele: “Este é Deus, o nosso Deus” (SI 48.14). Desde a
queda perdemos a semelhança de Deus e a comunhão com ele. Vamos
trabalhar para recuperar o interesse perdido e pronunciar este shibolete
“Deus meu” (SI 43.5). Consola pouco saber que há um Deus, a menos que
ele seja o nosso Deus. Deus se oferece a nós para ser nosso Deus: “serei o
seu Deus” (Jr 31.33). A fé agarra a oferta e se apropria de Deus, ela faz que
todas as coisas existentes nele para nós sejam nossas. Que sua sabedoria
seja nossa, para nos ensinar. Que sua santidade seja nossa, para nos santificar.
Que o seu Espírito seja nosso, para nos consolar.Que sua misericórdia seja
nossa, para nos salvar. Ser capaz de dizer que Deus é meu é muito mais do
que possuir todas as minas de ouro e de prata.
Sexta aplicação: afirmar a existência de Deus nos leva a servi-lo e
adorá-lo como Deus. Em Romanos 1.21, vemos uma acusação contra
algumas pessoas a esse respeito: “não o glorificaram como Deus”. Oremos
a ele como Deus. Oremos com fervor: “muito pode, por sua eficácia, a
súplica do justo” (Tg 5.16). Isto é tanto o fogo quanto o incenso. Sem fer
vor não há oração. Amemos a Deus como Deus: “Amarás, pois, o S e n h o r
teu Deus, de todo o teu coração” (Dt 6.5). Amar a Deus de todo o coração
é lhe dar prioridade em nosso amor, deixá-lo ter o melhor de nossas afeições.
É amá-lo não somente de maneira apreciativa, mas intensamente, isto é, quanto
nós pudermos. Assim como o raio de sol unido e concentrado por meio de
uma lente de vidro queima, também nossas afeições deveriam estar unidas
de maneira que nosso amor por Deus fosse mais ardente. Obedeçamos-lhe
como Deus. Todas as criaturas o obedecem, as estrelas lutam suas batalhas, o
vento e o mar o obedecem (Mc 4.41). O homem, acima de tudo, deveria
obedecer a Deus, pois ele o qualificou com a razão. Ele é Deus e tem soberania
sobre nós, portanto, como recebemos vida dele, devemos receber uma lei da
parte dele e nos submeter à sua vontade em todas as coisas. Isto significa
beijá-lo com um beijo de lealdade e glorificá-lo como Deus.
2. Deus é Espírito
Em segundo lugar, aprendem os explicitam ente sobre o ser de
Deus que ele é Espírito: “Deus é espírito” (Jo 4.24). Deus é essentia
spiritualissima (Zanchi).36
a. O que significa dizer que Deus é Espírito?
Por um espírito queremos dizer que Deus é uma substância não mate
rial e uma essência sem misturas, sutil e pura, que não é composto de corpo
e alma e que não tem o prolongamento anatômico das partes de um corpo.
O corpo é algo com mistura. A essência de Deus é muito espiritual e por
isso muito nobre e excelente. Os espíritos do vinho (o álcool) são o que há
de mais refinado no vinho.
b. Em quê Deus se difere de outros espíritos?
Devemos distinguir entre os espíritos. Primeiramente, dos anjos que
também são espíritos. Os anjos são criados, Deus é um Espírito não criado.
Os anjos são finitos e capazes de ser aniquilados. O mesmo poder que os
criou é capaz de reduzi-los a nada, Deus, porém, é um Espírito infinito.
Os anjos são espíritos limitados, não podem estar em dois lugares ao mesmo
64 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
O ser de Deus 65
tempo, mas são limitados a um lugar. Deus é um Espírito imenso e está em
todos os lugares ao mesmo tempo. Os anjos, embora espíritos, são espíritos
ministradores (Hb 1.13,14). Embora sejam espíritos, são servos. Deus é
um Espírito superexcelente, o Deus dos espíritos (Ap 22.6).
Além disso, a alma é um espírito: “o espírito volte a Deus, que o deu”
(Ec 12.7).
c. Como Deus, sendo um Espírito, difere da alma?
Serveto37 e Osiander38 pensavam que a alma, por ser algo infundido,
transmitia ao homem a mesma substância e o mesmo espírito de Deus.
Essa é uma opinião absurda, pois a essência de Deus é incomunicável.
Quando se diz que a alma é um espírito, significa que Deus a fez inteligível
e imprimiu nela sua semelhança, mas não sua essência.
d. Em que sentido somos co-participantes da natureza divina?
Porém, não se diz que somos co-participantes da natureza divina? Por
natureza divina queremos dizer qualidades divinas (2Pe 1.4). Somos co-
participantes da natureza divina não por identidade ou união com a essência
divina, mas por uma transformação à semelhança divina. Assim se vê como
Deus se distingue de outros espíritos, anjos e almas dos homens. Ele é um
Espírito de excelência transcendente, o “Deus dos espíritos” (Ap 22.6).
e. Como se explicam as figuras humanas dadas a Deus nas Escrituras?
Contrários a isso, Vorstius39 e os antropomorfistas afirmam que nas
Escrituras figuras e formas humanas são atribuídas a Deus. E dito que ele
tem olhos e mãos. E contrário à natureza de um espírito ter uma substância
corpórea: “Apalpai-me e verificai, porque um espírito não tem carne nem
ossos, como vedes que eu tenho" (Lc 24.39). Partes do corpo são atribuídas
a Deus não estritamente, mas metaforicamente e em um sentido emprestado.
Pela mão direita do Senhor se quer dizer seu poder. Com olhos do Senhor
se quer dizer sua sabedoria. O fato de Deus ser um Espírito e não ser
composto de formas ou substâncias físicas se toma claro tendo em vista
que um corpo é algo visível, ao passo que Deus é invisível. Portanto, ele é
um Espírito, “a quem homem algum jamais viu, nem é capaz de ver”
(lT m 6.16). Um corpo é limitado espacialmente, só pode estar em um
lugar de cada vez, mas Deus está em todos os lugares ao mesmo tempo,
portanto ele é um Espírito (SI 139.7,8). O centro de Deus está em todo lugar
e sua silhueta em nenhum lugar. Um corpo é composto de partes integrais e
pode ser desintegrado; mas Deus não pode ser desintegrado, não pode ter fim
e é de onde todas as coisas têm seu começo. Então, claramente se vê que
Deus é um Espírito, o que se acrescenta à perfeição de sua natureza.
A p l i c a ç õ e s
Primeira aplicação: se Deus é um Espírito, então ele não pode ser
atingido. Ele não pode sofrer ferimento. Homens ímpios levantam suas
bandeiras e organizam suas forças contra Deus, e dizem que lutam contra
Deus (At 5.39). Qual a vantagem nessa luta? Que mal podem fazer contra
a deidade? Deus é um Espírito e, portanto, não pode sofrer qualquer sinal
de dano. Os ímpios podem imaginar o mal contra o Senhor: “Que pensais
vós contra o S f n h o r ? ” (Na 1.9). Mas Deus sendo um Espírito é impenetrável.
O ímpio pode encobrir a glória divina, mas não pode tocar sua essência.
Deus pode machucar seus inimigos, mas eles não podem lhe fazer o mesmo.
Juliano40 pôde lançar sua adaga ao ar contra o céu, mas não poderia tocar a
deidade. Deus é um espírito invisível. Como pode o ímpio, com todas as
suas forças, machucá-lo se não pode vê-lo? Todas as tentativas do ímpio
contra Deus são tolas e vãs. “Os reis da terra se levantam, e os príncipes
conspiram contra o S e n h o r ... Ri-se aquele que habita nos céus; o S en h o r
zomba deles” (SI 2.2,4). Ele é Espírito, pode machucá-los, porém não pode
ser tocado.
Segunda aplicação: se Deus é um Espírito, a tolice dos papistas está
exposta, pois o adoram por intermédio de figuras e de imagens. Sendo Deus
um espírito, não podemos fazer qualquer imagem para representá-lo: “Então,
o S e n h o r v o s falou do meio do fogo; a voz das palavras ouvistes; porém,
além da voz, não vistes aparência nenhuma” (Dt 4.12).
Deus é espírito imperceptível, logo não pode ser distinguido. Como,
então, se pode fazer qualquer descrição dele? “Com quem comparareis a
Deus? Ou que coisa semelhante confrontareis com ele?” (Is 40.18). Como
alguém pode pintar a deidade? Podemos fazer a imagem de quem nunca
vimos? Não vistes aparência nenhuma. Deus é um Espírito. É tolice se
empreender em fazer uma pintura da alma, porque é algo espiritual, ou
uma pintura dos anjos, porque são espíritos.
Em relação a isso, alguém pode acrescentar: Não são os anjos na
Escritura representados pelo querubim? Distinguimos “a imagem da pessoa
e a imagem que representa o ofício”. Os querubins não representavam as
pessoas dos anjos, mas seus ofícios. Os querubins tinham asas para mostrar
a suavidade dos anjos em cumprir seus ofícios. Se não podemos pintar as
almas nem as pessoas dos anjos, porque são espíritos, muito menos podemos
fazer uma imagem ou pintura de Deus, que é infinito e o Pai dos espíritos.
Deus é também um Espírito onipresente, ele está presente em todos
os lugares: “Ocultar-se-ia alguém em esconderijos, de modo que eu não o
veja? - diz o S e n h o r ; porventura, não encho eu os céus e a terra? - diz o
S e n h o r ” (Jr 23.24). Portanto, estando presente em todos os lugares, é um
66 A f é cristã —Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
O ser de Deus 67
absurdo adorá-lo por intermédio de uma imagem. Não seria uma coisa tola
se ajoelhar diante da pintura do rei quando ele está presente? Da mesma
maneira, adorar uma imagem de Deus quando o próprio Deus está presente
também é.
Ainda alguém perguntará: Como então poderemos conceber Deus como
um Espírito, se não podemos fazer uma imagem ou descrição dele? Devemos
concebê-lo espiritualmente, em seus atributos: sua santidade, sua justiça e
sua bondade que são os meios pelos quais a natureza divina se manifesta.
Podemos concebê-lo como ele é em Cristo: “Ele é a imagem do Deus invisível”
(Cl 1.15). Aponte os olhos da fé para Cristo como Deus-homem. Em Cristo
vemos algum brilho da glória divina, nele está a semelhança exata de todas
as qualidades de seu Pai. A sabedoria, o amor e a santidade de Deus Pai são
refletidos em Cristo: “quem me vê a mim vê o Pai” (Jo 14.9).
Terceira aplicação: se Deus é um Espírito, mostra-nos que quanto
mais crescermos espiritualmente, mais nos pareceremos com ele. Como o
espiritual e o terreno se relacionam? (Fp 3.19). As coisas terrenas são as altas
montanhas, mamíferos ou tartarugas que vivem na terra. Que semelhança
há entre um coração terreno e aquele que é Espírito? Quanto mais espiritual
alguém é, tanto mais se assemelha a Deus.
f O que é ser espiritual?
É ser refinado e elevado, ter o coração fixo no céu, pensar em Deus e
em sua glória e ser carregado para cima numa carruagem de fogo do amor
de Deus. “... quem mais tenho eu no céu?” (SI 73.25), o que Beza parafraseia
assim: “Que a terra se vá! Ah! se eu estivesse no céu contigo!” Um cristão,
que é retirado dessas coisas terrenas, como os espíritos (álcool) são retirados
do vinho, tem uma alma espiritual nobre e se assemelha muito àquele que
é Espírito.
Quarta aplicação: a adoração que Deus requer de nós, e que lhe é a
mais aceitável, é uma adoração espiritual: “Importa que os seus adoradores
o adorem em espírito e em verdade” (Jo 4.24). Uma adoração espiritual é
uma adoração pura. Embora Deus receba o culto de nossos corpos, nossos
olhos e mãos levantados para testificar a outros a reverência que temos por
sua glória e majestade, ele deve receber a adoração principalmente de nossa
alma: “glorificai a Deus no vosso corpo” (IC o 6.20). Uma adoração
espiritual de Deus o valoriza muito, pois chega perto de sua própria natureza
que é espiritual.
g. O que é adorar a Deus em espírito?
i. Adorar a Deus em espírito é adorá-lo sem cerimônias. As cerimônias
da lei, que o próprio Deus ordenou, são, em nossos tempos, nulas e
ultrapassadas. Quando Cristo veio, as sombras se foram e, portanto, os
apóstolos chamam as cerimônias da lei de rituais carnais (Hb 9.10). Se não
podemos usar aquelas cerimônias judias que Deus uma vez determinou,
então não podemos usar aquelas que ele nunca determinou.
ii. A dorar a Deus em espírito é adorá-lo com fé no sangue do
Messias (Hb 10.19). Adorá-lo com maiores zelo e intensidade da alma. “...
as nossas dozes tribos, servindo a Deus fervorosamente de noite e de dia”
(At 26.7); vemos a intensidade dessa adoração não somente em sua
constância, mas também em sua urgência. Isso é adorar a Deus em espírito.
Quanto mais espiritual um culto for, tanto mais próximo se torna de
Deus, que é um Espírito, e mais excelente esse culto será. A parte espiritual
do culto é a gordura do sacrifício: é a alma e a essência da religião.
As maiores riquezas do coração são espirituais e as melhores obrigações
são aquelas de natureza espiritual. Deus é Espírito e deverá ser adorado em
espírito; não é a pompa da adoração que Deus aceita, mas a pureza.
Arrependimento não são as penitências externas afligidas ao corpo, como a
penitência, o jejum e os flagelos corporais, mas consiste no sacrifício de
um coração quebrantado. Ação de graças não se caracteriza na música da
igreja, na melodia ou em um órgão, porém em fazer melodia no coração do
Senhor (Ef 5.19). Oração não é afinar a voz em uma confissão sem coração
ou contar as pedras de um rosário, mas consiste em expressar sofrimento e
lamento (Rm 8.26). Quando o fogo do fervor é colocado no incenso da
oração, sobe como um aroma suave. A verdadeira água benta não é aquela
que o papa asperge, mas é a destilada do olho penitente. A adoração espiritual
agrada muito a Deus, que é Espírito. “São estes que o Pai procura para seus
adoradores” (Jo 4.23), para lhes mostrar a sua grande aceitação e como se
agrada com uma adoração espiritual. Essa é a carne sacrificial agradável
que Deus ama.
Quão poucos se importam com isso, pois oferecem mais refugos que
essências; acham que é suficiente apresentar suas obrigações cumpridas,
mas não seus corações; o que faz Deus renunciar os próprios cultos que ele
mesmo determinou (Is 1.12; Ez 33.31). Vamos, então, dar a Deus uma
adoração espiritual, pois é a mais apropriada à sua natureza. Um elixir
soberano cheio de virtude pode ser dado em poucas gotas; assim uma
pequena oração, se for feita com o coração e o espírito, pode ter muita
virtude e eficácia em si. O publicano fez uma oração curta: “Ó Deus, sê
propício a mim, pecador!” (Lc 18.13), mas foi cheia de vida e de espírito,
veio do coração, portanto foi aceita.
Quinta aplicação: vamos orar a Deus para que, como um Espírito,
possa nos dar de seu Espírito. A essência de Deus é incomunicável, mas
não as operações, a presença e as influências de seu Espírito. Quando o sol
68 A fé cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
O ser de Deus 69
brilha em uma sala, não é o corpo do sol que está ali, mas a luz, o calor e a
influência dele. Deus fez uma promessa de seu Espírito: “ ... porei dentro de
vós o meu Espírito” (Ez 36.27). Transforme as promessas em orações:
“Senhor, tu que és Espírito, dá-me de teu Espírito. Eu, carne, imploro teu
Espírito, a iluminação, a santificação e o enchimento do teu Espírito”.
Melanchton41 orou assim: “Senhor, inflama minha alma com teu Santo
Espírito”. Quão necessário é o Espírito de Deus. Sem ele, não podemos
fazer nenhuma obra de maneira vivida. Quando esse vento sopra em nossas
velas, movemo-nos suavemente em direção ao céu. Oremos, portanto, para
que Deus nos dê uma porção de seu Espírito (Ml 2.15), de maneira que
possamos nos mover com mais vigor na esfera da religião.
Sexta aplicação: assim como Deus é Espírito, os galardões que oferece
são espirituais. As principais bênçãos que ele nos dá, nesta vida, são bênçãos
espirituais (Ef 1.3), e não ouro e prata; ao nos dar Cristo, seu amor, enche-
nos com graça. Da mesma maneira os galardões principais que nos dá após
esta vida são espirituais, “a imarcescível coroa da glória” (1 Pe 5.4). Coroas
terrenas se desfazem, mas a coroa do crente é imortal, pois é espiritual,
uma coroa que nunca se apaga. “É impossível”, diz Joseph Scaliger, “para
o que é espiritual estar sujeito à mudança ou à corrupção”. Isto pode consolar
um cristão diante de suas lutas e seus sofrimentos; ele se oferece a si mesmo
para Deus e tem pouco ou nenhum prêmio nesta vida, mas lembre-se: Deus,
que é Espírito, dará galardões espirituais, a visão de sua face no céu, as
roupas brancas e o peso de glória. Que o serviço de Deus não seja um peso,
mas pense no prêmio espiritual: uma coroa de glória que não se desfaz.
3. Que tipo de Espírito é Deus?
a. Deus é Espírito onipresente
Ele é infinito. Todos os seres criados são finitos. Embora o atributo da
infinidade seja aplicado a todos os atributos de Deus - ele é infinitamente
misericordioso, infinitamente sábio, infinitamente santo - no entanto, a
infinitude se aplica mais à onipresença de Deus.
A onipresença de Deus. A palavra grega para “infinito” significa “sem
limites ou barreiras”. Deus não está confinado a nenhum lugar, ele é infinito
e, por isso, está presente em todos os lugares ao mesmo tempo. Seu centro é em
todos os lugares. Agostinho disse assim: “o ser de Deus não é confinado ou
excluído dequalquer lugar”. “Eis que os céus e até o céu dos céus não te podem
conter” (1 Rs 8.27). Os muçulmanos constroem seus templos com o teto aberto
para mostrar que Deus não pode ficar confinado dentro deles, porque sua
presença está em todos os lugares. A essência de Deus não é limitada às regiões
celestes nem ao globo terrestre, mas está em todos os lugares.
Os filósofos dizem a respeito da alma que ela “está em todas as
partes do corpo”, está no olho, no coração, no pé; podemos dizer também
de Deus que sua essência está em todo lugar. Seus limites estão no céu,
na terra e no mar e estão em todos os lugares de seu circuito ao mesmo
tempo. “Isto é ser infinito.” Deus, que cerca todas as coisas, não é cercado
por nada. Ele determina os limites do mar, Hue usque, “até aqui deve ir,
não além”. Ele determina os limites dos anjos. Eles, como os querubins,
movem-se e param conforme suas ordens (Ez 10.16), mas ele é infinito,
sem limites. Aquele que pode medir os céus e pesar a terra em balança
tem de ser infinito (Is 40.22).
Vorstius defende que Deus está em todos os lugares ao mesmo tempo,
mas não em relação à sua essência; mas em sua virtude e influência: assim
como o corpo do sol está no céu e somente envia seus raios e influências
para a terra, ou como um rei que está em todos os lugares de seu reino,
autoritativamente, por meio de seu poder de autoridade, mas pessoalmente
está em seu trono.
Deus, que é infinito, está em todos os lugares ao mesmo tempo, não
somente por sua influência, mas por sua essência; pois, se sua essência
enche todos os lugares, então ele tem de estar ali pessoalmente: “Porventura,
não encho eu os céus e a terra?” (Jr 23.24).
Porém, nas Escrituras, Deus não diz que o céu é seu trono? (Is 66.1)
Também é dito que um coração humilde é seu trono (Is 57.15). O coração
humilde é seu trono em relação à sua presença graciosa, e o céu é seu trono
em relação à sua presença gloriosa. Contudo, nenhum desses tronos o
manterá, pois o céu dos céus não pode contê-lo.
b. Deus é Espírito puro
Mas se Deus é infinito em todos os lugares, está em lugares impuros e
se mistura à impureza? Embora Deus esteja em todos os lugares, no coração
de um pecador pela sua sondagem, e no inferno por sua justiça, mesmo
assim não se mistura com a impureza ou recebe qualquer mancha do
maligno. Agostinho disse assim: “a natureza divina não se mistura com a
matéria criada, nem é contaminada por suas impurezas”. Assim como o Sol
brilhando em um lugar degradado não se contamina ou tem sua beleza
manchada, ou como Cristo entre os pecadores não foi contaminado, mas,
ao contrário, sua liderança foi um antídoto eficiente contra a infecção.
Deus tem de ser infinito em todos os lugares ao mesmo tempo, não
somente em relação à simplicidade e à pureza de sua natureza, mas com
respeito a seu poder. Sendo tão glorioso, quem pode limitá-lo ou determinar
um distrito para o qual andar? É como se um pingo d ’água pudesse limitar
o oceano ou uma estrela limitar o Sol.
70 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
O ser de Deus 71
A p l i c a ç õ e s
Primeira aplicação: isso condena os papistas porque fazem outras coisas
infinitas além de Deus. Entendem que o corpo de Cristo está em muitos
lugares ao mesmo tempo, que está no céu e no pão e no vinho do sacramento.
Embora Cristo, sendo Deus infinito, esteja em todos os lugares ao mesmo
tempo, como homem ele não está. Quando estava na terra, sua humanidade
não estava no céu, embora sua deidade estivesse. Agora ele está no céu, sua
personalidade não está na terra, embora sua divindade esteja. A respeito de
Cristo as Escrituras dizem: “um corpo me formaste” (Hb 10.5). Esse corpo
não pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo, pois não seria corpo,
mas um espírito. O corpo de Cristo no céu, embora glorificado, não é deificado.
O corpo de Cristo não seria infinito, neste caso deveria ser, se estivesse tanto
no céu quanto no pão e no vinho pela transubstanciação.
Segunda aplicação: se Deus é infinito, está presente em todos os
lugares ao mesmo tempo, então, é certo que governa todas as coisas em sua
própria pessoa, e não precisa de representantes ou de delegados para ajudá-
lo a levar avante o seu governo . Ele está em todos os lugares
instantaneamente e administra todas as questões tanto da terra quanto dos
céus. Um rei não pode estar em todos os lugares de seu reino pessoalmente,
portanto está obrigado a governar utilizando representantes e auxiliares
que geralmente pervertem a justiça. Mas Deus, sendo infinito, não precisa
de representantes, está presente em todos os lugares, vê todas as coisas
com os próprios olhos e ouve tudo com seus próprios ouvidos. Ele está em
todos os lugares em sua própria pessoa, portanto é apropriado para julgar o
mundo. Fará o que é correto para com todos.
Terceira aplicação: Deus é infinito por sua onipresença, então veja a
grandeza e a imensidão de sua divina majestade. Quão grandioso é o Deus
que servimos. “Teu, S e n h o r , é o poder, a grandeza, a honra, a vitória e a
majestade; porque teu é tudo quanto há nos céus e na terra” (1 Cr 29.11). As
Escrituras apresentam muito bem a grandeza de sua glória, a qual é infinita
em todos os lugares. Ele transcende nossas concepções fracas; como pode
nosso entendimento finito compreender aquele que é infinito? Ele está
infinitamente acima de todos os nossos louvores: “Bendito seja o nome da
tua glória, que ultrapassa todo bendizer e louvor” (Ne 9.5). Pobre do homem
que não é nada, quando pensamos na infinitude de Deus. Como as estrelas
desaparecem quando do nascer do sol, assim um homem encolhe até o
nada quando a majestade infinita brilha em sua glória. “Eis que as nações
são consideradas por ele como um pingo que cai de um balde e como um
grão de pó na balança” (Is 40.15). Quão pequeninos pingos nós somos.
Os ímpios pensaram que haviam adorado Júpiter suficientemente quando o
chamaram de grande Júpiter. De que grande majestade é Deus, que enche
todos os lugares ao mesmo tempo (SI 150.2).
Quarta aplicação: se Deus é infinito, enchendo o céu e a terra, veja
que grande porção os santos têm. Eles têm por sua porção aquele que é
infinito. Sua grandeza é uma grandeza infinita e ele é infinitamente doce,
assim como infinitamente completo. Se uma fonte estiver repleta de vinho,
nela haverá uma grande doçura, mas ainda é finita. Mas Deus é uma
grandeza, ele é doce e é infinito.
Ele é infinitamente completo de beleza e de amor. Suas riquezas são
chamadas inalcançáveis porque são infinitas (E f 3.8). Amplie seus
pensamentos quanto puder, mesmo assim ainda haverá algo em Deus que
o excede; pois ele é uma grandeza infinita. E dito dele que é abundante
para nós acima de tudo o que podemos pedir (Ef 3.20). O que pode um
espírito ambicioso pedir? Pode pedir coroas e reinos, milhões de mundos?
Mas Deus pode dar mais do que podemos pedir ou pensar porque ele é
infinito. Nós podemos pensar que toda a poeira se transformasse em prata,
que todas as flores se convertessem em rubis, e toda a areia do mar em
diamantes; mesmo assim Deus poderia nos dar mais do que pensamos porque
ele é infinito. Quão ricos são aqueles que têm o Deus infinito por sua porção.
O poderoso Davi diz: “O S f.n iio r é a porção da minha herança e o meu
cálice; tu és o arrimo da minha sorte. Caem-me as divisas em lugares amenos,
é mui linda a minha herança” (SI 16.5,6). Podemos fazer como as abelhas,
que vão de flor em flor, mas nunca teremos total satisfação até que
encontremos o Deus infinito. Jacó disse: “tenho fartura”, no hebraico “eu
tenho tudo”, porque tinha o Deus infinito por sua porção (Gn 33.11).
Deus, sendo de grandeza infinita, não deixa que os seus herdeiros do
céu tenham qualquer necessidade. Embora haja milhões de anjos e de santos,
que têm uma parte nas riquezas de Deus, mesmo assim ele tem para todos,
pois é infinito. Embora mil homens contemplem o Sol, há luz suficiente
para todos eles. Não haverábaldes suficientes para o mar, visto que existe
água suficiente para enchê-los todos. Um exército inumerável de santos e
de anjos se enche da grandeza de Deus, no entanto, Deus, sendo infinito,
tem o suficiente para satisfazê-los. Deus tem o suficiente para dar a todos
os seus herdeiros. Não pode haver falta naquele que é infinito.
Quinta aplicação: se Deus é infinito, ele enche todos os lugares e está
presente em todos os lugares. Isso é triste para o ímpio: Deus é seu inimigo e
não pode escapar nem fugir dele, pois está em todos os lugares. Nunca estarão
longe de sua vista nem fora de seu alcance: “a tua mão alcançará todos os
teus inimigos” (SI 21.8). Em que cavernas ou matas podem os homens se
esconder onde Deus não os encontre? Podem ir aonde quiserem, mas ali ele
72 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
O ser de Deus 73
está presente: “para onde fugirei da tua face?” (SI 139.7). Se alguém deve a
outra pessoa, pode fugir de seu credor indo para outra cidade, onde não possa
ser encontrado. “Mas quem fugirá da tua presença?” Deus é infinito, está em
todos os lugares; assim encontrará seus inimigos e os punirá.
Neste ponto, alguém pode argumentar o seguinte: Mas não está escrito
que Caim fugiu de sua presença? (Gn 4.16) O significado desse texto é que
Caim saiu da igreja de Deus, na qual estavam os sinais visíveis da presença
de Deus que, de uma maneira especial, manifestavam sua doce presença ao
seu povo. Contudo, Caim não poderia sair da vista de Deus, pois Deus,
sendo infinito, está em todos os lugares. Os pecadores não podem fugir de
uma consciência acusatória nem de um Deus vingador.
Sexta aplicação: se Deus está presente em todos os lugares, então um
cristão andar com Deus não é algo impossível. Deus não está somente no
céu, mas também na terra (Is 66.1). O céu é seu trono, lá ele se assenta.
A terra é o estrado de seus pés, aqui ele apóia seus pés. Deus está presente
em todos os lugares, portanto podemos andar com Deus: “andou Enoque
com Deus” (Gn 5.22). Se Deus estivesse confinado no céu, uma alma
temerosa poderia pensar: “como posso eu conversar com Deus, como posso
andar com aquele que vive na região superior?” Porém, Deus não está
confinado no céu, ele é onipresente, está acima de nós e ao mesmo tempo
ao nosso redor, perto de nós (At 17.27).
Ele não está longe da assembléia dos santos: “ Deus assiste na
congregação divina” (SI 82.1). Ele está presente entre nós e em cada um de
nós, de maneira que podemos andar com Deus aqui na terra. No céu os
santos descansam com ele, na terra andam com ele. Andar com Deus é
andar pela fé. A Palavra diz para nos aproximarmos de Deus (Hb 10.22) e
vê-lo: “permaneceu firme como quem vê aquele que é invisível” (Hb 11.27).
Ter comunhão com ele: “a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho,
Jesus Cristo” (U o 1.3). Assim, podemos dar uma volta com ele todos os
dias pela fé. Não andar com Deus é desdenhá-lo. S e um rei está presente,
continuar fazendo uma tarefa sem parar é desdenhá-lo, negligenciá-lo. Não
há uma caminhada neste mundo tão doce quanto a caminhada com Deus:
“anda... na luz da tua presença” (SI 89.15). “Cantarão os caminhos do
S f.n h o r ” (SI 138.5). E como andar entre canteiros de temperos que exalam
uma fragrância perfumosa.
Sétima aplicação: se Deus é infinito em sua gloriosa essência, aprenda
a admirar o que você não pode compreender. Os anjos vestem um véu,
cobrem suas faces como que adorando essa majestade infinita (Is 6.2). Elias se
enrolou em um manto quando a glória de Deus passou por ele. Admire o
que você não pode compreender: “porventura, desvendarás os arcanos de
Deus ou penetrarás até à perfeição do Todo-poderoso?” (Jó 11.7).
Neste mundo, vemos alguns raios de sua glória, nós o vemos no
espelho da criação, nós o vemos em sua imagem que brilha nos santos;
mas quem pode penetrar toda sua glória essencial? Que anjo pode medir
esse colosso? “Porventura, desvendarás os arcanos de Deus?” Ele é
infinito. Não podemos penetrar sua infinita perfeição, assim como alguém
no topo da montanha mais alta não pode tocar o firmamento ou pegar
uma estrela em sua mão.
Tenha pensamentos admiráveis a respeito de Deus. Adore a realidade
que você não pode compreender. Há muitos mistérios na natureza que não
podemos compreender: o mar é mais profundo que a terra, mas não a afoga;
o Nilo deve transbordar no verão, quando, pelo curso da natureza, as águas
estão mais baixas; uma criança se desenvolve misteriosamente no ventre
materno (Ec 11.5). Se essas coisas nos impressionam o mistério infinito da
deidade transcendente impressionará muito mais os grandes intelectuais.
Pergunte ao geômetra se ele pode, com o compasso, medir a largura da
terra. Quão incapazes somos nós de medir as perfeições infinitas de Deus.
No céu veremos Deus claramente, mas não totalmente, pois ele é infinito.
Ele se comunicará conosco de acordo com a grandeza de nosso vaso, mas
não de acordo com a imensidão de sua natureza. Adore o que você não
pode compreender.
Se Deus é infinito em todos os lugares, não o limitemos: “agravaram
o Santo de Israel” (SI 78.41). Confinar Deus dentro do estreito compasso
de nossa razão é limitá-lo. A razão cogita que Deus deve seguir uma direção
para realizar algo, caso contrário tal coisa nunca acontecerá. Isso é limitar
Deus à nossa razão. Ele é infinito, seus caminhos vão além do que se pode
compreender (Rm 11.33).
Sobre a salvação da igreja, quando se determina um tempo ou se
prescreve um método, limita-se Deus. Deus salvará Sião, mas o fará
livremente. Ele não estará preso a um lugar, a um tempo ou a um instrumento
que o limite, pois se assim não fosse, não seria infinito. Deus seguirá seu
próprio cam inho, ele agirá e confundirá a razão, trabalhará pelas
improbabilidades, salvará de tal maneira que pensaríamos que destruiria.
Ele age como ele mesmo, como um Deus que trabalha de maneira
maravilhosamente infinita.
B. O CONHECIMENTO DE DEJUS
1. A grandeza do conhecimento de Deus
“O S e n h o r é o Deus da sabedoria e pesa todos os feitos na balança”
(ISm 2.3). Coisas gloriosas são ditas a respeito de Deus: ele transcende
nossos pensamentos e os louvores dos anjos. A glória de Deus se apresenta
74 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
O conhecimento de Deus 75
principalmente em seus atributos, que são vários raios pelos quais a natureza
divina se irradia.
Entre outras de suas qualidades manifestas, que não são menores que
qualquer delas, o Senhor é um Deus de conhecimento, ou, como no origi
nal hebraico: “um Deus de conhecimentos”. Pelo espelho brilhante de sua
própria essência Deus tem a idéia completa e o conhecimento total de tudo.
O mundo é para ele um corpo transparente. Ele faz a anatomia do coração:
“sou aquele que sonda mentes e corações” (Ap 2.23). As nuvens não são
coberturas e a noite não é uma cortina que se coloca entre nós e sua visão:
“até as próprias trevas não te serão escuras: as trevas e a luz são a mesma
coisa” (S I 139.12). Não há uma palavra que cochichemos que Deus não
ouça: “ainda a palavra me não chegou á língua, e tu, S e n h o r , já a conheces
toda” (SI 139.4). Não há um pensamento mais sutil que venha à nossa mente
e que Deus não conheça: “porque conheço as suas obras e os seus
pensamentos” (Is 66.18). Os pensamentos soam tão alto nos ouvidos de
Deus como as palavras aos nossos ouvidos. Todas as nossas ações, embora
sutilmente elaboradas e secretamente comunicadas, são visíveis aos olhos
do Onisciente: “conheço as suas obras” (Is 66.18). Acã escondeu a capa
babilônica enterrando-a, mas Deus a trouxe à luz (Js 7.21).
A estátua de Minerva foi desenhada com cores tão impressionantes e
detalhada com tanta vivacidade que em qualquer lugar que alguém se
posicionasse o olhar de Minerva estava fixo nele. Assim, em qualquer lugar
que estivermos, os olhos de Deus estarão sobre nós: “tens tu notícia do
equilíbrio das nuvens e das m aravilhas daqueleque é perfeito em
conhecimento?” (Jó 37.16).
2. A natureza do conhecimento de Deus
Deus sabe, em suas contingências, todas as coisas que são possíveis
de se conhecer. Ele profetizou a saída de Israel da Babilônia e a concepção
virginal da mãe do Messias. Por meio desse conhecimento, o Senhor prova
a verdade de sua deidade contra os deuses-ídolos: “Anuncia-nos as coisas
que ainda hão de vir, para que saibamos que sois deuses” (Is 41.23).
A perfeição do conhecimento de Deus é básica. Ele é a origem, o padrão
e o protótipo de todo o conhecimento; os outros tomam o conhecimento
emprestado dele. Os anjos acendem suas lâmpadas na sua gloriosa luz.
O conhecimento de Deus é puro e não se contamina com o objeto
conhecido. Embora Deus conheça o pecado, odeia e pune o pecado. Nenhum
mal pode se misturar ou se incorporar a seu conhecimento, assim como o
Sol não pode ficar impuro com os vapores que se levantam da terra.
O conhecimento de Deus é simples, não apresenta dificuldade. Nós
estudamos e procuramos o conhecimento: “se buscares a sabedoria como a
prata e como a tesouros escondidos a procurares” (Pv 2.4). A lâmpada do
conhecimento de Deus é tão infinitamente brilhante que todas as coisas são
inteligíveis para ele.
O conhecimento de Deus é infalível, pois não há erro em seu
conhecimento. O conhecimento humano está sujeito a erro. Um médico
pode errar em relação à causa de uma doença, mas o conhecimento de
Deus é sem erro, ele não pode se enganar, nem ser enganado. Ele não pode
se enganar porque é a verdade, nem ser enganado porque é a sabedoria.
O conhecimento de Deus é instantâneo. Nosso conhecimento é
sucessivo, uma coisa depois da outra. Nós argumentamos de o efeito para a
causa. Deus sabe coisas do passado, do presente e do futuro de uma só vez;
estão todas diante dele em uma perspectiva integral.
O conhecim ento de Deus é retentivo. Ele nunca perde o seu
conhecimento, ele tem reminiscentia, assim como intelligentia; ele lembra
assim como entende. M uitas coisas fogem à nossa m ente, mas o
conhecimento de Deus é eternizado. Coisas que aconteceram há mil anos
são tão novas para ele como se tivessem acontecido há um minuto. Assim
ele é perfeito em conhecimento.
3. A infinitude do conhecimento de Deus
Em relação ao conhecimento de Deus se levanta a seguinte pergunta:
Porém, a Bíblia diz assim sobre Deus: “descerei e verei se, de fato, o que
têm praticado corresponde a esse clamor que é vindo até mim; e, se assim
não é, sabê-lo-ei” (Gn 18.21).
A menção de um clamor não significa a ignorância de Deus em relação
aos acontecimentos. Nessa passagem, o Senhor fala como um juiz que
primeiro examinará a causa que está diante dele, para então declarar a
sentença. Quando ele está diante de uma tarefa de justiça não está com
pressa, como se não se importasse onde batesse, mas vai diretamente con
tra os ofensores: “farei do juízo a régua e da justiça, o prumo” (Is 28.17).
Outro texto que se cita é: “As iniqüidades de Efraim estão atadas...
seu pecado está armazenado” (Os 13.12). Isso não significa que seu pecado
está escondido de Deus, mas que está guardado, isto é, registrado e
armazenado para o dia do juízo. Esse é o significado que fica claro pelas
palavras anteriores, “sua iniqüidade está atada”. A semelhança de um
secretário de tribunal que organiza as acusações dos malfeitores em um
arquivo e no julgamento traz as acusações e as lê no tribunal, assim Deus
ata os pecados dos homens em um arquivo que abrirá no dia do julgamento
quando todos os pecados serão trazidos à luz, diante dos homens e dos anjos.
Deus é infinito em conhecimento. Ele só pode ser assim, pois aquele
que dá vida deve ter uma clareza a respeito dela: “O que fez o ouvido, acaso,
76 A fé cristã — Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
O conhecimento de Deus 11
não ouvirá? E o que formou os olhos será que não enxerga?” (SI 94.9).
Aquele que faz um relógio ou um motor sabe todos os detalhes de
funcionamento deles. Deus, que fez o coração, conhece todos os seus
movimentos. Ele é cheio de olhos, como as rodas de Ezequiel e, como
disse Agostinho: “Deus é todo olho”. Tem de ser assim, pois ele é o “Juiz
de toda a terra” (Gn 18.25). Há tantas causas para serem trazidas diante
dele e tantas pessoas para serem julgadas que ele tem de ter um conhecimento
perfeito ou não poderia fazer justiça. Um juiz comum não pode prosseguir
sem júri, o júri deve pesquisar a causa e dar o veredicto, mas Deus pode
julgar sem um júri. Ele conhece todas as coisas em si mesmas e de si mesmas
e não necessita de testemunhas para informá-lo. Um juiz julga somente
questões de fato, mas Deus julga o coração. Ele não somente julga ações
malignas, mas desígnios malignos, ele vê a traição do coração e a pune.
A p l ic a ç õ e s
Primeira aplicação: Deus é infinito em conhecimento? Ele é luz e
nele não há trevas? Então, quão afastados de Deus são aqueles que estão
nas trevas, sem luz, que são destituídos de conhecimento, como os índios
que nunca ouviram de Deus. E, entre nós, quantos são piores que os pagãos
batizados? Esses necessitam buscar os rudimentos dos oráculos de Deus.
É uma realidade triste o fato de que depois de o sol do evangelho brilhar
por tanto tempo em nosso horizonte o véu esteja até hoje sobre seus corações.
Tais pessoas estão emaranhadas em ignorância e não podem dar a Deus um
culto racional (Rm 12.1). A ignorância é o que alimenta a impiedade.
Os estudiosos dizem: todo pecado está fundamentado na ignorância.
“ ... avançam de malícia em malícia e não me conhecem , diz o S e n h o r ”
(Jr 9.3). Onde a ignorância reina no entendimento, a malícia enfurece nas
afeições: “não é bom proceder sem refletir” (Pv 19.2). Tal pessoa não tem
fé nem temor: ela não tem fé, pois o conhecimento vai iluminando a frente
da fé. “Em ti, pois, confiam os que conhecem o teu nome” (S I 9.10). Um
homem não pode crer sem conhecer, assim como o olho não pode ver sem
a luz. Não pode ter o temor de Deus, pois como pode temê-lo se não o
conhece? Cobrir o rosto de Hamã era um presságio triste de morte. Quando
as mentes das pessoas são cobertas com ignorância é como o cobrir da
face, que é um presságio fatal de destruição.
Segunda aplicação: se Deus é um Deus de conhecimento, então como
vê a tolice da hipocrisia? Melanchton disse assim: “os hipócritas não fazem
o bem, meramente aparentam fazê-lo” . Eles encenam muito bem aos
homens, mas não cuidam quão mau sejam seus próprios corações. Vivem
em pecado secreto: “e diz: como sabe Deus?” (SI 73.11). “Deus se esqueceu,
virou o rosto e não verá isto nunca” (SI 10.11). Todavia, o Salmo 147.5 diz
que “o seu entendimento não se pode medir”. Ele tem uma janela pela qual
olha para dentro do coração dos homens. Tem a chave para o coração;
contempla todas as obras pecaminosas dos espíritos dos homens, como
contemplamos as abelhas trabalhando em suas colméias dentro de uma
caixa de vidro. Ele vê em secreto (Mt 6.4). Como um comerciante dá entrada
de débitos em seu livro, assim Deus o faz em seu diário com nossos pecados.
A esposa de Jeroboão se disfarçou de tal maneira que o profeta não a
reconhecesse, mas ele a reconheceu: “por que finges assim?” (1 Rs 14.6).
O hipócrita pensa se dar bem e enganar a Deus, mas Deus o
desmascarará. “Deus há de trazer a juízo todas as obras, até as que estão
escondidas, quer sejam boas, quer sejam más” (Ec 12.14). “Porquanto
fizeram loucuras em Israel, cometeram adultérios com as mulheres de seus
companheiros e anunciaram falsamente em meu nome palavras que não
lhes mandei dizer: eu o sei e sou testemunha disso, diz o S i-n h o r ” (Jr 29.23).
Mas o hipócrita espera maquiar seu pecado fazendo-o parecer agradável
aos olhos. Absalão mascarou sua traição fingindo que fosse um voto
religioso. Judas camuflou sua inveja de Cristo e sua cobiça com uma
falsa caridade aos pobres (Jo 12.5). Jeú faz da religião um estribo para
seus propósitos ambiciosos (2Rs 10.16,17). Mas Deus vê por meio das
folhasda figueira. Pode ver uma pedra de jade sob enfeites dourados.
“Nem se encobre a sua iniqüidade aos meus olhos” (Jr 16.17). Aquele
que tudo vê punirá adequadamente.
Terceira aplicação: Deus é assim tão infinito em conhecimento? Então,
deveríamos sempre nos sentir sob seu olhar onisciente. Sêneca disse assim:
“Assim devemos viver, como se estivéssemos sempre sendo completamente
observados”. Vamos pensar sempre em consonância com a perspectiva de
Davi: “O S i-n h o r , tenho-o sempre à minha presença” (SI 16.8). Sêneca
aconselhou Lucilius: “seja o que for que esteja fazendo sempre imagine
algumas personalidades importantes de Roma diante de você, assim não
fará nada desonroso”.
A consideração da onisciência de Deus previne muitos pecados.
O olhar dos homens nos refreia de pecar, e não o faria muito mais os olhos
de Deus? “Então, disse o rei: Acaso teria ele querido forçar a rainha perante
mim, na minha casa?” (Et 7.8). Pecaremos à vista de nosso juiz? Falaria
em vão os homens se considerassem Deus sobre eles? Latimer42 prestou
atenção a cada palavra no exame que fez, quando ouviu uma pena escrevendo
atrás dos quadros. Assim, quem se importaria com as palavras senão quem
se lembra que Deus ouve e que sua pena está escrevendo no céu? Os homens
iriam atrás de sacrifícios estranhos se cressem que Deus está olhando suas
impiedades e os fará sofrer no inferno por isso? Defraudariam em suas
78 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
O conhecimento de Deus 79
negociações e usariam pesos falsos se pensassem que Deus está olhando?
Pois, ao usar pesos mais leves fariam sua condenação mais pesada.
Ver-nos debaixo do olhar onisciente de Deus produziria reverência na
adoração a ele. Deus vê a estrutura e o andamento de nossos corações quando
vamos até ele. Como isso chamaria a atenção de nossos pensamentos
distraídos? Como nos animaria e trabalharia nosso espírito? Nos faria
acender o incenso. “As nossas doze tribos, servindo a Deus fervorosamente
de noite e de dia” (At 26.7), com o maior zelo e intensidade de espírito.
Pensar que Deus está aqui acrescentaria asas à oração e óleo à chama de
nossa devoção.
Quarta aplicação: o conhecimento de Deus é infinito? Então, estude
a sinceridade, seja o que você for. Deus vê o coração (1 Sm 16.7). O homem
julga o coração pelas ações, Deus julga as ações pelo coração. Se o coração
for sincero, Deus verá a fé e ajudará o que está em falta. Asa teve suas
manchas, mas seu coração era reto diante de Deus (2Cr 15.17). Sinceridade
em um cristão é como a castidade em uma esposa. Apresentando várias
desculpas, muitos caem nesse particular. A sinceridade torna nossas obras
aceitáveis, à semelhança da resina que perfuma o linho quando aplicada
nele. Como disse Jeú a Jonadabe: “Tens tu sincero o coração para comigo,
como o meu o é para contigo? Respondeu Jonadabe: Tenho. Então, se tens,
dá-me a mão. Jonadabe deu-lhe a mão; e Jeú fê-lo subir consigo ao carro”
(2Rs 10.15). Assim, quando Deus vê a retidão em nosso coração, o amor
com o qual o amamos e o desejo com que buscamos a sua glória, ele nos
diz para que o entreguemos nossas orações e lágrimas e que subiremos
com ele em sua carruagem de glória. A sinceridade toma nossas obras
valiosas, e Deus não lançará fora essa riqueza mesmo que ele espere algo a
mais de nós. Deus é onisciente e seu olhar enxerga o coração? Use o cinto
da verdade sobre você e nunca o tire.
Quinta aplicação: Deus é um Deus de conhecimento infinito? Então
encontramos consolo para os santos em particular e para a igreja em geral.
O conhecimento infinito de Deus dá consolo aos santos. No caso da
devoção particular, o cristão deve separar horas para Deus. Os pensamentos
dos cristãos devem correr para Deus como se fosse seu tesouro pessoal.
Deus está ciente de cada bom pensamento. “Havia um memorial escrito
diante dele para os que temem ao S e n h o r e para os que se lembram do seu
nome” (Ml 3.16). Entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai,
que está em secreto, pois ele ouve cada suspiro e gemido. “A minha
ansiedade não te é oculta” (SI 38.9). Ágüe a semente de tua oração com
lágrimas. “Recolheste as minhas lágrimas no teu odre” (S I 56.8). Quando
os segredos de todos os corações forem revelados, Deus fará menção honrosa
do zelo e da devoção de seu povo e ele mesmo será o arauto de seus louvores.
“Cada um receberá o seu louvor da parte de Deus” ( ICo 4.5).
A infinitude do conhecimento de Deus é um consolo no caso dos santos
não terem um conhecimento claro de si mesmos. Encontram tanta corrupção
que julgam não ter graça. “Se é assim, por que vivo eu?” (Gn 25.22). Se eu
tenho graça, por que meu coração está num corpo tão mortal e terreno?
Então, lembre-se que Deus tem conhecimento infinito. Ele pode descobrir
graça onde você não pode. Ele pode ver graça escondida sob a corrupção
como as estrelas podem estar escondidas atrás das nuvens. Deus pode ver
santidade em você, mesmo sendo aquela que você não consegue discernir.
Ele pode descobrir a flor da graça em você, mesmo coberta por ervas daninhas.
“Porquanto se achou nele coisa boa para com o S e n h o r ” (IR s 14.13).
Deus vê coisas boas em seu povo mesmo quando ele não pode ver nada
de bom em si mesmo. E, embora condenados por si mesmos. Deus lhes
dará absolvição.
E um consolo com respeito a injúrias pessoais. E destino dos santos
sofrer. Se a cabeça foi coroada com espinhos, os pés não devem caminhar
sobre rosas. O verdadeiro purgatório para os santos é nesta vida, mas o
consolo deles é que Deus vê o que se faz de errado com eles. A menina de
seus olhos está sendo tocada, não a sentiria? Paulo foi surrado por mãos
cruéis: “fui três vezes fustigado com varas” (2Co 11.25). Como se o filho
do rei fosse surrado pelo escravo. Deus viu. “Conheço-lhe o sofrimento”
(Êx 3.7). O ímpio faz feridas nas costas dos santos e então derrama vinagre,
mas Deus toma nota da crueldade. Os crentes são partes do corpo místico
de Cristo, por isso, a cada gota de sangue derramada de um santo, Deus
acrescenta uma gota de ira em seu cálice.
O conhecim ento infinito de Deus dá consolo à igreja de Deus.
Se Deus é um Deus de conhecimento, então ele vê todas as armações dos
inimigos contra Sião e pode frustrá-las. O ímpio é sutil porque tomou
emprestadas suas habilidades da velha serpente. Eles cavam profundamente
para esconder seus planos de Deus, mas Deus os vê e pode facilmente con-
tra-atacá-los. O dragão é descrito em Apocalipse 12.3 como tendo sete
cabeças para mostrar como trama contra a igreja. Mas, Deus é descrito
com sete olhos em Zacarias 3.9, para mostrar que Deus vê todas as tramas
e estratagemas dos inimigos e que pode superá-los quando eles agem
orgulhosamente. “Venha”, disse faraó, “usemos de astúcia para com ele”
(Êx 1.10). Faraó nunca agiu tão tolamente, apesar de pensar estar sendo
sábio. “Na vigília da manhã, o S e n h o r , na coluna de fogo e de nuvem, viu
o acampamento dos egípcios e alvorotou o acampamento dos egípcios”
(Êx 14.24). Como isso pode consolar a igreja de Deus em seu estado
militante. E como o suco na vinha. O Senhor vê atentamente os concílios e
80 A fé cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A eternidade de Deus 81
as combinações do inimigo. Ele os vê se preparando e pode acabar com
eles em seu próprio acampamento.
C. A ETERNIDADE DE DEUS
1. O que é a eternidade de Deus
O próximo atributo afirma que “Deus é eterno”. “De eternidade a
eternidade, tu és Deus” (SI 90.2). Os eruditos destacam o termo aevun et
aeternum para explicar a noção de eternidade. O ser se divide em três partes:
1. Aquele que tem um começo e terá um fim, como todas as criaturas
sensíveis, as feras, as aves, os peixes, estes, quando morrem, são destruídos
e voltam ao pó. O ser deles termina com o fim de suas vidas.
2. Aquele que tem um começo, mas não terá um fim, como os anjos e
as almas dos homens, que são eternos e que permanecem para sempre.
3. Aqueleque não tem nem início, nem fim, o que é próprio somente
de Deus. Ele é de eternidade a eternidade. Este é o título de Deus e uma
jóia de sua coroa. Ele é chamado o “Rei eterno” (lTm 1.17).
Jeová43 é uma palavra que representa apropriadamente a eternidade
de Deus, uma palavra tão temível que os judeus receavam pronunciá-la ou
lê-la, a tal ponto de usarem os títulos Adonai ou Senhor em seu lugar. Jeová
compreende o tempo passado, presente e futuro. “Aquele que é, que era e
que há de vir” (Ap 1.8) interpreta a palavra Jeová, como se segue. Aquele
que é significa que ele subsiste em si mesmo, tendo um ser puro e
independente. Aquele que era significa que, antes do tempo, havia somente
ele, e não há como pesquisar nos registros da eternidade. Aquele que há de
vir significa que seu reino não tem fim. Sua coroa não tem sucessores.
“O Deus, o teu trono subsiste pelos séculos dos séculos” (Hb 1.8, versão
RC). A repetição da palavra ratifica a certeza, como a repetição do sonho
do faraó.
Provarei que somente Deus poderia ser eterno, ou seja, sem começo.
Os anjos não poderiam ser eternos, pois eles são criaturas, embora espíritos.
Eles foram criados e, portanto, seu começo pode ser conhecido. Sua
antiguidade pode ser pesquisada. Se fosse perguntado quando foram criados,
alguns responderiam que foi antes de existir o mundo, mas não foi, pois
tudo que existia antes do tempo era eterno. A origem dos anjos é tão antiga
quanto o começo do mundo. Entende-se que os anjos foram criados no dia
em que os céus foram feitos. “Quando as estrelas da alva, juntas, alegremente
cantavam, e rejubilavam todos os filhos de Deus” (Jó 38.7). Jerônimo,44
Gregório45 e o venerável Beda46 entendiam assim, que quando Deus colocou
a pedra fundamental do mundo, os anjos criados cantaram hinos de alegria
e de louvor. Ser eterno é próprio somente de Deus porque ele não teve um
começo. Ele é o Alfa e o Omega, o primeiro e o último (Ap 1.8). Nenhuma
criatura pode dizer de si mesma ser o Alfa, isto é somente uma flor na coroa
do céu. “Eu Sou o q u e S o u ” ( Ê x 3.14), isto é, ele existe desde a eternidade
e por toda a eternidade.
A p l ic a ç õ e s
Primeira aplicação: aqui está um trovão e um relâmpago para o ímpio.
Deus é eterno, portanto os tormentos do ímpio são eternos. Deus vive para
sempre e pelo tempo que viver punirá o condenado. A conseqüência deve
ser como a da escrita na parede: “as juntas dos seus lombos se relaxaram, e
os seus joelhos batiam um no outro” (Dn 5.6). O pecador peca com liberdade,
quebra a lei de Deus como uma fera selvagem que estoura a cerca e entra
em pasto proibido. O pecador peca insaciavelmente, o mais rápido que
pode (Ef 4.19). Mas lembre-se, um dos nomes de Deus é Eterno e, conquanto
seja eterno, tem tempo suficiente para tratar de todos os seus inimigos.
Para fazer os pecadores tremerem. Que pensem nestas três coisas: os
tormentos do condenado são ininterruptos, são puros e são eternos.
Os tormentos dos condenados são ininterruptos. Suas dores devem
ser agudas e pungentes, sem alívio. O fogo não deverá se apaziguar ou
cessar. “E não têm descanso algum, nem de dia nem de noite” (Ap 14.11).
É com o alguém colocado num a m áquina de esticar, que estica
continuamente, que não tem descanso. A ira de Deus é comparada a um
ribeiro de enxofre (Is 30.33). Por que um ribeiro? Porque um ribeiro corre
sem cessar, a ira de Deus flui assim como um ribeiro que manda água sem
cessar. Nas dores desta vida há abatimento e alívio. A febre passa, uma
convulsão vem, mas passa e o paciente fica tranqüilo. Contudo, as dores do
inferno são na mais alta intensidade e na pior violência. A alma condenada
nunca dirá que está mais tranqüila que antes.
Os tormentos dos condenados são sem misturas. O inferno é um lugar
de pura justiça. Nesta vida, Deus, quando irado, lembra-se da misericórdia
e mistura compaixão com sofrimento, à semelhança da tribo de Aser, cujos
sapatos eram de ferro, porém, imersos no azeite (Dt 33.25). A aflição é o
sapato de ferro, mas a misericórdia está misturada com a aflição. Mas, os
tormentos do condenado não têm mistura alguma. “Esse beberá do vinho
da cólera de Deus, preparado sem mistura, do cálice da sua ira” (Ap 14.10).
Nenhuma mistura de misericórdia. Contudo, o cálice da ira também está
cheio de mistura. “Porque na mão do S e n h o r há um cálice cujo vinho
espuma, cheio de mistura, dele dá a beber; servem-no, até às escórias, todos
os ímpios da terra” (S I 75.8). O livro de Apocalipse diz que é sem mistura
e no salmo diz que não. O cálice é cheio de mistura no que se refere aos
ingredientes que o fazem amargo. O bicho, o fogo, a maldição de Deus são
82 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A eternidade de Deus 83
ingredientes hostis. O cálice é misturado e, ao mesmo tempo, puro.
Não haverá nada que possa produzir consolo, nenhuma mistura de
misericórdia, por isso é sem mistura. Na oferta de ciúmes (Nm 5.15), nenhum
azeite era adicionado, da mesma maneira nos tormentos do condenado,
não há azeite de misericórdia para fazer cessar seus sofrimentos.
Os tormentos dos condenados são eternos. Os prazeres do pecado só
duram um período, mas os tormentos do ímpio são para sempre. Pecadores
têm uma alegria passageira, mas uma longa retribuição. Orígenes47
erroneamente pensou que após mil anos o condenado deveria ser liberto de
suas misérias, porém o verme, o fogo e a prisão são eternos. “A fumaça de
seu tormento sobe pelos séculos dos séculos” (Ap 14.11). Próspero48 (da
Aquitânia) disse assim: “Os tormentos do inferno punem continuamente,
nunca terminam”.
A eternidade é um mar sem fundo e sem praias. Depois de milhões de
anos, não há sequer um minuto desperdiçado na eternidade. O condenado
deve ser queimado para sempre, mas nunca consumido, sempre morrendo,
mas nunca morto. “Os homens buscarão a morte e não a acharão” (Ap 9.6).
O fogo do inferno é um fogo que multidões de lágrimas não o saciarão,
uma grande quantidade de tempo não o findará. O frasco da ira de Deus
sempre gotejará sobre o pecador. Conquanto Deus seja eterno, vive para se
vingar do ímpio.
Oh! eternidade! Eternidade, quem pode medi-la? Os marinheiros têm
suas sondas para medir as profundezas do mar, mas que linha ou que sonda
usaremos para medir a profundeza da eternidade? O sopro do Senhor
alimenta o lago infernal (Is 30.33). Onde encontraremos bombas d ’água ou
baldes para apagar tal fogo? Oh! eternidade! Se toda a massa da terra e do
mar fosse transformada em areia, e todo o ar até o céu estrelado fosse areia,
e um pequeno pássaro viesse a cada mil anos e apanhasse com o bico a
décima parte de um grão de toda essa imensidão de areia, seriam necessários
inúmeros anos até que a imensidão de areia fosse toda transportada. Porém,
se ao final de todo esse tempo, o pecador pudesse sair do inferno, haveria
alguma esperança, mas a palavra “sempre” quebra o coração. “A fumaça
de seu tormento sobe pelos séculos dos séculos.” Que terror é isso para o
ímpio, o suficiente para fazê-lo suar frio e pensar. Conquanto Deus seja
eterno, vive para se vingar do ímpio.
Aqui pode ser feita uma pergunta: Por que um pecado que é cometido
por pouco tempo deve ser punido eternamente? Devemos entender como
Agostinho que “os julgamentos de Deus sobre o ímpio podem ser secretos,
mas nunca injustos” . A razão pela qual um pecado cometido em um curto
espaço de tempo é eternamente punido é que cada pecado é cometido
contra a infinita essência, e nada menos que a punição eterna pode satisfazê-lo.
Se a traição contra a pessoa de um rei, que é sagrada, é punida com o
confisco e a morte, muito mais contra a coroa e a dignidade de Deus, que é
de uma natureza infinita e cheia de ira contra o pecado. Não pode ser
satisfeita com menos que a punição eterna.
Segunda aplicação: a certeza da eternidade de Deus consola o fiel.
Deus é eterno, portanto vive para sempre para galardoar o fiel. “A vida
eterna aos que, perseverandoem fazer o bem, procuram glória, honra e
incorruptibilidade” (Rm 2.7). O povo de Deus nesse texto está numa situação
de sofrimento. “Que me esperam cadeias e tribulações” (At 20.23).
O ímpio está vestido de púrpura e se farta com delícias, enquanto o
fiel sofre. Cabras escalam altas montanhas, enquanto ovelhas de Cristo
estão no vale da matança. Porém, aqui está o consolo, Deus é eterno e
preparou recompensas eternas para os santos. No céu há prazeres puros,
doçura abundante. A vida “eterna” é a coroa e o zênite da felicidade do
céu (1 Jo 3.15). Se houvesse a mínima suspeita de que essa glória pudesse
cessar ou obscurecer, ela amargaria. Contudo, a glória é eterna. Que anjo
poderia medir a eternidade? “Eterno peso de glória” (2Co 4.17). Os santos
se banharão nos rios do prazer divino, rios que nunca secarão. “Na tua
destra, delícias perpetuamente” (SI 16.11). Isso representa o Elá (Deus
maravilhoso em hebraico), a tendência superior na retórica do apóstolo.
“ Estaremos para sempre com o Senhor” (lT s 4.17). Haverá paz sem
problemas, tranqüilidade sem dor, glória sem fim, “estaremos para sempre
com o Senhor”. Que isso console os santos em todos os seus problemas: as
suas tribulações são passageiras, mas o galardão é eterno. A eternidade faz
o céu ser céu, é o diamante no anel. Dia abençoado, que não terá noite.
A luz da glória nascerá sobre a alma e nunca se porá. Abençoada primavera,
que não terá outono ou queda de folhas.
Os imperadores romanos tinham três coroas sobre suas cabeças, a
primeira de ferro, a segunda de prata e a terceira de ouro, da mesma maneira
o Senhor coloca três coroas sobre seus filhos: graça, consolo e glória.
A coroa da glória é eterna: “Recebereis a imarcescível coroa de glória”
(1 Pe 5.4). O ímpio terá um verme que nunca morre e o fiel uma coroa que
nunca se desfaz. Quão estimulante à virtude deve ser esse consolo.
Deveríamos ser dispostos a trabalhar para Deus. Embora nada tenhamos
aqui, Deus tem tempo suficiente para galardoar seu povo. A coroa da
eternidade será colocada sobre suas cabeças.
Terceira aplicação: esta certeza também nos exorta a estudar a respeito
da eternidade. Nossos pensamentos deveriam se ocupar principalmente com
a eternidade. Todos nós desejamos o presente, algo que possa agradar os
84 A f é cristã — Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A eternidade de Deus 85
sentidos. Se pudéssemos ter vivido, como disse Agostinho, desde a infância
do mundo até a velhice do mundo, como seria? O que é o tempo em
comparação à eternidade? Assim como o mundo é um pequeno ponto no
céu, assim é o tempo, nem um raro minuto em relação à eternidade. E o que
é a pobre vida que se vai tão rápido? Pense na eternidade. Irmãos, todos os
dias estamos viajando para a eternidade, e quer acordemos ou durmamos,
estamos em uma jornada. Alguns estão às portas da eternidade. Estudem a
brevidade da vida e o comprimento da eternidade.
Em especial, pense sobre a eternidade de Deus e a eternidade da alma.
Pense na eternidade de Deus. Ele é Ancião de Dias, que era antes de todo o
tempo. Há uma descrição figurada de Deus em Daniel 7.9: “O Ancião de
dias se assentou; sua veste era branca como a neve, e os cabelos da cabeça,
como a pura lã” . A veste branca com a qual estava vestido significa sua
majestade. Seu cabelo, como pura lã, significa sua santidade e Ancião de
Dias significa sua eternidade.
Pensar na eternidade de Deus deveria nos levar a ter altos pensamentos
de adoração em relação a ele. Em geral, som os propensos a ter
pensamentos ruins e irreverentes a respeito de Deus. “Pensavas que eu
era teu igual” (SI 50.21), tão fraco e mortal, porém se pensarmos na
eternidade de Deus, quando todo nosso poder cessa, veremos que ele é Rei
eterno, sua coroa prospera para sempre, pode nos fazer feliz ou infeliz para
sempre, isto nos leva a ter altos pensamentos de adoração para com Deus.
“Os vinte e quatro anciãos prostrar-se-ão diante daquele que se encontra
sentado no trono, adorarão o que vive pelos séculos dos séculos e depositarão
as suas coroas diante do trono” (Ap 4.10). Os anciãos se prostram diante
daquele que está no trono, significando pela postura que não são dignos de
se sentar na presença de Deus. Eles se prostram e adoram aquele que vive
para sempre e sempre, agem como se fossem beijar seus pés. Eles colocam
suas coroas diante do trono, depositam suas honras ante seus pés. Assim,
mostram uma adoração humilde à essência eterna. Meditar na eternidade
de Deus nos fará adorar aquilo que não podemos alcançar.
Pensemos na eternidade da alma. Assim como Deus é eterno, nos
fez eternos. Somos criaturas que nunca morrem. Logo entraremos num
estado eterno, seja de felicidade ou de miséria. Pensemos seriamente sobre
isso. Diga assim: “Oh! minha alma, qual dessas duas eternidades será sua
porção? Logo partirei e para onde irei, para qual das eternidades: glória ou
miséria?” Uma séria meditação sobre o estado eterno em que passaremos
mexerá muito conosco.
1. Pensar nos tormentos eternos é um bom antídoto contra o pecado.
O pecado tenta com seus prazeres, mas quando pensamos sobre a eternidade
somos serenados do calor da malícia. Será que devo, pelo prazer breve do
pecado, agüentar a dor eterna? O pecado, como aqueles gafanhotos, libertos
com o toque da quinta trombeta (Ap 9.7), parece ter em sua cabeça uma
coroa de ouro, mas tem uma cauda como a do escorpião (Ap 9.10) e um
aguilhão nele que nunca pode ser extraído. Devemos nos aventurar em
sofrer a ira eterna? O pecado cometido é tão doce a ponto de sofrermos o
inferno amargo para sempre? Esse pensamento nos faria fugir do pecado,
como Moisés da serpente.
2. Pensar seriamente na felicidade eterna nos apartaria das coisas
mundanas, as quais são apenas bens terrestres diante da eternidade.
Rapidamente se vão, saúdam-nos e se despedem de nós. Porém, entrarei
num estado eterno, espero viver com aquele que é eterno. O que é o mundo
para mim? Para aqueles em pé sobre os Alpes, as grandes cidades de
Cam pânia são pequeninas aos olhos. Assim, para os que têm seus
pensamentos fixos no estado eterno após esta vida todas essas coisas parecem
como nada aos olhos. O que é a glória deste inundo? Pobre e desprezível
comparada com um peso eterno de glória.
3. Pensar seriamente no estado eterno, seja de felicidade ou miséria,
teria uma poderosa influência sobre o que quer que pegássemos às mãos.
Toda obra que fazem os prom ove uma e tern idade abençoada ou
amaldiçoada. Toda boa ação nos coloca um passo mais perto da felicidade
eterna. Cada má ação nos coloca a um passo mais próximo do sofrimento
eterno. Quanta influência devem ter nossos pensamentos a respeito da
eternidade sobre nossas responsabilidades religiosas. Deveriam nos fazer
executá-las com toda a nossa força. Responsabilidades bem executadas
elevam o cristão mais alto em direção ao céu e o colocam um passo mais
próximo da abençoada eternidade.
D. A IMUTABILIDADE DF. D f.ü S
O próximo atributo é a imutabilidade de Deus. “Porque eu, o S e n h o r ,
não mudo” (Ml 3.6). Sobre a imutabilidade de Deus podemos dizer que
Deus é imutável em sua natureza e que Deus é imutável em seu decreto.
1. Deus é imutável em sua natureza
Podemos considerar os seguintes pontos na imutabilidade da natureza
de Deus.
a. Não há mudança em seu brilho
O brilho de Deus não se ofusca. Sua essência brilha com um resplendor
fixo. “Em quem não pode existir variação ou sombra de mudança” (Tg 1.17).
“Tu, porém, és sempre o mesmo” (SI 102.27). Todas as coisas criadas são
cheias de mudanças repentinas. Príncipes e imperadores são sujeitos a
86 A fé cristã — Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A imutabilidade de Deus 87
mudança. Sesóstris, um príncipe egípcio, tendo subjugado diversos reis em
guerras, fez que seus cavalos fossem substituídos pelos reis conquistados e
os fazia imitar os cavalos, como se pretendesse que comessem grama,
semelhantemente ao que Deus fez com o rei Nabucodonosor.A coroa tem
muitos sucessores. Reinos têm seus eclipses e convulsões. O que aconteceu
com a glória de Atenas? Da pomposa Tróia restou o ditado: hoje cresce
milho onde um dia estava Tróia. Embora reinos tenham a cabeça de ouro,
seus pés são de barro.
Os céus mudarão. “Todos eles envelhecerão como um vestido, como
roupa os mudarás, e serão mudados” (SI 102.26). Os céus são os registros
mais antigos, nos quais Deus escreveu sua glória com um raio de luz, mas
mesmo assim eles mudarão. Embora particularmente não ache que devam
ser destruídos até sua substância, ainda assim eles serão mudados em
relação às suas qualidades. Derreterão com o calor fervente e, assim, serão
mais refinados e purificados (2Pe 3.12). Assim os céus serão mudados,
mas aquele que habita nos céus não. “Em quem não pode existir variação
ou sombra de mudança.”
Os melhores santos têm seus eclipses e mudanças. Observe um cristão
em sua vida espiritual, ele é cheio de variação. Ainda que a semente da graça
não morra, sua beleza e atividade geralmente diminuem. Um cristão tem
recaídas na religião. As vezes sua fé está num nível alto, às vezes muito
baixo. Às vezes seu amor arde, outras vezes é como fogo de brasas, perde seu
primeiro amor. Como foi forte o estado de graça de Davi certa vez. “O meu
Deus, o meu rochedo em que me refugio; o meu escudo, a força da minha
salvação” (2Sm 22.3). Outras vezes disse: “Um dia perecerei nas mãos de
Saul”. Que cristão pode dizer que não encontra mudanças em seu estado de
graça a ponto do arco de sua fé nunca dobrar, as cordas de sua viola nunca
afrouxarem? Certamente nunca conheceremos cristãos assim até que nos
encontremos com eles no céu. Mas Deus é sem sombra de variação.
Os anjos foram sujeitos a mudança; foram criados santos, mas
mutáveis: “... anjos, os que não guardaram o seu estado original” (Jd 6).
Essas estrelas matinais do céu eram estrelas cadentes. Mas a glória de Deus
brilha com um fulgor fixo. Em Deus não há nada que se parece com
mudança, para melhor ou pior. Nem para melhor, porque então não seria
perfeito. Nem para pior, pois cessaria de ser perfeito. Ele é imutavelmente
santo, imutavelmente bom; não há sombra de variação nele.
b. Não há mudança na encarnação
Neste ponto, alguém pode apresentar a seguinte indagação: Mas quando
Cristo, que é Deus, assumiu a natureza humana, houve uma mudança em Deus.
Caso a natureza divina tivesse sido convertida em humana, ou a humana
em divina, teria havido uma mudança, mas não foi assim que aconteceu. A
natureza humana era distinta da divina. Portanto, não houve mudança. Uma
nuvem sobre o sol não muda o corpo solar, assim, embora a natureza divina
fosse coberta com a humana, isso não a mudou.
c. Não há mudança em sua existência
Não há um tempo determinado para sua existência: “O único que possui
imortalidade” (lTm 6.16). Deus não pode morrer. Uma essência infinita
não pode ser mudada para uma fmita. Deus é infinito. Ele é eterno, por isso
não é mortal. Ser eterno e mortal é uma contradição.
A p l ic a ç õ e s
Primeira aplicação: veja a excelência da natureza divina em sua
imutabilidade. Essa é a glória da divindade. Mutabilidade denota fraqueza,
o que não há em Deus, que é “o mesmo e o será para sempre” (Hb 13.8).
Os homens são inconstantes e mutáveis, como Rúben, “impetuoso como
a água” (Gn 49.4). São mutáveis em seus princípios. Se seus semblantes
se alteram rapidamente como suas opiniões, não se pode conhecê-los.
Os homens são mutáveis em suas decisões, mudam como o vento que
sopra para o leste, de repente muda para o oeste. Decidem ser virtuosos,
mas logo se arrependem de suas decisões. Suas mentes são como o pulso
de um homem doente, mudam a cada meia hora. Um dos apóstolos
compara o homem às ondas do mar e às estrelas errantes (Jd 13). Não são
pilares no templo de Deus, mas juncos. Outros são mutáveis em suas
amizades. Rapidamente amam e rapidamente odeiam. As vezes somos
íntimos deles, então nos afastam de seu favor. Mudam como o camaleão,
em várias cores, mas Deus é imutável.
Segunda aplicação: veja a vaidade da criatura. Há mudanças em tudo,
mas não em Deus. “Somente vaidade são os homens plebeus; falsidade, os
de fina estirpe” (SI 62.9). Esperamos mais das criaturas do que Deus colocou
nelas. Há dois males nas criaturas: prometem mais do que podem cumprir
e nos decepcionam quando mais precisamos delas. Há decepção na
humanidade. Um homem deseja seu milho moído, mas a água falta.
O marinheiro vai viajar e o vento não sopra, ou o contrário. Um depende do
outro para o pagamento de uma promessa e falha, e é como um pé fora da
junta. Quem procuraria estabilidade na criatura vã? E como construir casas
na areia, onde o mar alcança e faz enchente. A criatura é fiel a nada mais
que decepção, é constante somente nos desapontamentos. Não há surpresa
maior nas mudanças aqui embaixo que ver a Lua se vestindo de uma nova
forma e figura. Espere encontrar mudanças em tudo, mas não em Deus.
88 A fé cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A imutabilidade de Deus 89
Terceira aplicação: consolo ao fiel.
1. Em casos de perdas. Se uma propriedade for quase totalmente
desvalorizada, se amigos forem perdidos pela morte, se houver um eclipse
duplo, o consolo é que Deus é imutável. Podemos perder essas coisas, mas
não perdemos Deus. Ele nunca morre. Quando a figueira e a oliveira não
produziram, Deus não falhou: “Exulto no Deus da minha salvação” (Hc 3.18).
As flores do jardim morrem, mas a porção do homem permanece. Coisas
exteriores morrem e mudam, mas “ainda que a minha carne e o meu coração
desfaleçam, Deus é a fortaleza do meu coração e a minha herança para
sempre” (SI 73.26).
2. Em caso de tristeza de espírito. Deus parece lançar a alma no
abandono, como em Cântico 5.6: “ele se retirara e tinha ido embora”, mas
é imutável. E imutável em seu amor. Pode mudar seu semblante, mas não
seu coração. “Com amor eterno eu te amei” (Jr 31.3). Amor eterno é a
palavra olam, no hebraico. Se o amor eletivo de Deus se acender sobre uma
alma, nunca se apagará. “Porque os montes se retirarão, e os outeiros serão
removidos; mas a minha misericórdia não se apartará de ti, e a aliança
da minha paz não será removida, diz o S e n h o r , que se compadece de ti”
(Is 54.10). O amor de Deus é mais forte que as montanhas. Seu amor por
Cristo é imutável, por isso nunca cessará de amar os crentes, assim como
não cessará de amar a Cristo.
Quarta aplicação: quanto à exortação
Tenha interesse no Deus imutável, então você será como uma rocha
no mar, imóvel no meio de todas as mudanças.
Como posso ter parte no Deus imutável? Ao ter uma mudança
segundo os padrões divinos. “Mas vós vos lavastes, mas fostes santificados”
(IC o 6.11). Assim somos mudados das trevas para a luz, mudados de tal
maneira como se outra alma vivesse no mesmo corpo. Por meio dessa
mudança, damos provas de nosso interesse no Deus imutável.
Confie que somente Deus é imutável. “Afastai-vos, pois, do homem”
(Is 2.22). Pare de confiar no junco e confie na Rocha Eterna. Aquele que é
fortificado em Deus pela fé está a salvo de todas as mudanças. Ele é como
um barco amarrado a uma rocha irremovível. Quem confia em Deus, confia
naquele que não pode decepcioná-lo. Ele é imutável. “De maneira alguma
te deixarei, nunca jamais te abandonarei” (Hb 13.5). A saúde pode nos
abandonar, assim como as riquezas, os amigos, mas Deus diz que não nos
abandonará, seu poder nos sustentará, seu Espírito nos santificará, sua
misericórdia nos salvará. Ele nunca nos deixará. Confie nesse Deus imutável.
Deus é zeloso em relação a duas coisas: nosso amor e nossa confiança.
Zela quanto ao nosso amor, para que não amemos a criatura mais que a ele,
e deixa isso bem claro. E zela quanto à nossa confiança, para que não
coloquemos mais confiança em nós mesmos que nele, pois se assim o
fizermos, mostrará que confiar em nós mesmos não é seguro. Consolos
externos nos são dados como alimento para nos refazer,não como muletas
para nos apoiar. Se fizermos da criatura um ídolo, Deus envergonhará a
quem confiamos. Confie no Deus imortal. Como a pomba de Noé, não
temos lugar para apoiar nossas almas, até que cheguemos à arca do Deus
imutável. “Os que confiam no S e n h o r são como o monte Sião, que não se
abala, firme para sempre” (S I 125.1).
2. Deus é imutável em seu decreto
a. A imutabilidade do decreto de Deus é fruto de sua onisciência
Aquilo que Deus decretou desde a eternidade é imutável. “O meu
conselho permanecerá de pé” (Is 46.10). O conselho eterno de Deus, ou seu
decreto, é imutável. Se ele mudasse seu decreto, seria por uma falha de
sabedoria ou previsão, pois essa é a razão pela qual os homens mudam seus
propósitos. Os homens enxergam algo só depois que acontece, porque não
vêem previamente. Esta, porém, não pode ser a causa pela qual Deus deveria
alterar seu decreto, pois seu conhecimento é perfeito, ele vê todas as coisas
numa inteira perspectiva diante de si.
b. A imutabilidade do decreto de Deus e a aplicação de suas sentenças
Porém, não é dito que Deus se arrependeu? Parece ter havido uma
mudança em seu decreto em Jonas 3.10: “Deus se arrependeu do mal que
tinha dito lhes faria e não o fez” .
O arrependimento é atribuído a Deus figurativamente. “Deus não
é homem para que minta, nem filho de homem para que se arrependa”
(Nm 23.19). Pode haver mudança na obra de Deus, mas não em sua vontade.
Pode desejar uma mudança, mas não pode mudar sua vontade. “Deus pode
mudar sua sentença, mas não seu decreto.” Um rei pode sentenciar um
malfeitor a quem pretende salvar, assim Deus ameaçou destruir Nínive,
mas com o arrependimento do povo Deus a poupou (Jn 3.10). Ali, Deus
mudou sua sentença, não seu decreto. Era o que tinha depositado em seu
propósito desde a eternidade.
c. A imutabilidade do decreto de Deus prevê os meios para a salvação
Mas se o decreto de Deus é imutável e não pode voltar atrás, para
que servem os meios em relação aos fins já determinados? Nossos esforços
em relação à salvação não podem alterar seu decreto.
O decreto de Deus não afeta meu esforço, pois aquele que decretou
minha salvação decretou-a no uso dos meios e, se eu negligenciar os meios,
90 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A imutabilidade de Deus 91
condeno a mim mesmo. Homem nenhum raciocina assim: Deus decretou
quanto tempo vou viver, então não usarei de nenhum meio para preservar
minha vida, não comerei nem beberei. Deus decretou o tempo de minha
vida considerando o uso dos meios, assim decretou minha salvação
considerando o uso da Palavra e da oração. Como um homem que rejeita
comida mata a si mesmo, assim aquele que recusa desenvolver sua salvação
destrói a si mesmo. Os vasos de misericórdia foram preparados de antemão
(Rm 9.23). Como são preparados, senão ao serem santificados? Isso só
pode ocorrer por intermédio de meios. Portanto, que o decreto de Deus não
nos tire de empreendimentos santos. Dr. Preston diz algo muito bom: “Tens
tu um coração para orar a Deus? É um sinal que nenhum decreto de ira foi
promulgado contra ti”.
A p l i c a ç õ e s
Primeira aplicação: se o decreto de Deus é eterno e imutável, então
Deus não elege com base na previsão de nossa fé como os arminianos
defendem. “E ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o
bem ou o mal (para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse,
não por obras, mas por aquele que chama)... Como está escrito: Amei Jacó,
porém me aborreci de Esaú” (Rm 9.11 e 13). Não somos eleitos pela nossa
santidade, mas para a santidade (Ef 1.4). Se não somos justificados por
nossa fé, muito menos somos eleitos pela nossa fé. Não somos justificados
pela fé, somos justificados por meio da fé como um instrumento (Ef 2.8),
mas não por fé como uma causa. Assim, se não somos justificados por fé,
então muito menos somos eleitos pela fé. O decreto da eleição é eterno e
imutável e, portanto, não depende da previsão da fé. “E creram todos os
que haviam sido destinados para a vida eterna” (At 13.48). Não foram eleitos
porque creram, mas creram porque foram eleitos.
Segunda aplicação: se o decreto de Deus é imutável, dá consolo em
duas situações.
1. Em relação à providência de Deus para com sua igreja. Estamos
prontos para lutar contra a providência se as coisas não acontecem conforme
nosso desejo. Lembre-se que a obra de Deus continua e nada acontece senão
o que ele determinou desde a eternidade.
2. Deus decretou problemas para o bem da igreja. Os problemas da
igreja de Deus são como as águas agitadas pelo anjo, as quais serviam para
curar seu povo (Jo 5.4). Ele decretou problemas para a igreja: “Fogo está
em Sião e ... fornalha, em Jerusalém” (Is 31.9). As engrenagens de um
relógio se movem cruzando uma com a outra, mas todas dão movimento ao
relógio, assim as engrenagens da providência geralmente se movem
cruzando nossos desejos, mas mesmo assim levam a cabo o decreto imutável
de Deus. “Muitos serão purificados” (Dn 12.10). Deus permite que as águas
da aflição sejam derramadas sobre seu povo para purificá-lo. Portanto, não
murmuremos com a maneira de Deus, sua obra continua, nada ocorre senão
o que ele decretou sabiamente desde a eternidade. Todas as coisas
promoverão o desígnio de Deus e cumprirão seu decreto.
Terceira aplicação: consolo ao crente com respeito à sua salvação.
“ Entretanto, o firme fundamento de Deus permanece, tendo este selo:
O Senhor conhece os que lhe pertencem” (2Tm 2.19). O conselho de Deus
quanto à eleição é imutável. Uma vez eleito, eleito para sempre. “De modo
nenhum apagarei seu nome do livro da vida” (Ap 3.5). O livro do decreto
de Deus não contém errata, não há rasuras. Uma vez justificados, nunca
mais sem justificação. “Meus olhos não vêem em mim arrependimento
algum” (Os 13.14). Deus nunca se arrepende de seu amor eletivo. “Amou-os
até ao fim” (Jo 13.1). Portanto, se você é um crente, seja consolado com a
imutabilidade do decreto de Deus.
Quarta aplicação: para concluir com uma palavra ao ímpio, que
marcha furiosamente contra Deus e seu povo, que saiba que o decreto de
Deus é imutável. Deus não alterará o seu decreto, nem será quebrado. Ainda
que resistam à vontade de Deus, mesmo assim a cumprem. Há uma vontade
de Deus dividida em duas: “a vontade do preceito de Deus e de seu decreto” .
Ainda que o ímpio resista à vontade do preceito de Deus, cumpre a vontade
de seu decreto permissivo. Judas traiu Cristo, Pilatos o condenou, os soldados
o crucificaram. Ainda que resistam à vontade dos preceitos de Deus,
cumprem a vontade de seu decreto permissivo (At 4.28). Deus manda os
ímpios fazerem algo e eles fazem exatamente o contrário. Um exemplo
disso é o mandamento da guarda do dia de descanso - ou o dia de sábado; o
que eles constantem ente profanam . Ainda que desobedeçam a seu
mandamento, cumprem seu decreto permissivo. Se uma pessoa armar duas
redes, uma de seda e outra de ferro, a de seda pode se romper, mas a de ferro
não. Assim, enquanto as pessoas quebram as redes de seda dos mandamentos
de Deus, são pegas na rede de ferro de seu decreto. Enquanto se sentam de
costas para os preceitos de Deus, estão de frente para seus decretos. Os decretos
que permitem seus pecados, os punem pelos pecados permitidos.
E. A SABEDORIA DE DEUS
O próximo atributo é a sabedoria de Deus, que é uma das mais brilhantes
características de Deus. “Ele é sábio de coração” (Jó 9.4). O coração é a
cadeira da sabedoria. Pineda49 disse o seguinte: Para os hebreus, o coração é
o lugar da sabedoria. “Os homens sensatos dir-me-ão” (Jó 34.34). Deus é
sábio no coração, isto é, ele é o mais sábio. Só Deus é sábio; ele possui toda
a sabedoria, portanto é chamado “Deus único” (1 Tm 1.17). Todos os tesouros
92 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A sabedoria de Deus 93
de sabedoria estão guardados com ele, nenhuma criatura pode ter sabedoria
se Deus não quiser lhe dar de seu tesouro.Deus é perfeitamente sábio, não há defeito em sua sabedoria. Os homens
podem ser sábios em algumas coisas, mas em outras apresentam imprudência
e fraqueza. Porém, Deus é o exemplo e o padrão de sabedoria, e o padrão
deve ser perfeito (Mt 5.48). A sabedoria de Deus aparece em duas coisas:
em sua infinita inteligência e em seu trabalho perfeito.
1. A infinita inteligência de Deus
Ele conhece os mais profundos segredos (Dn 2.28). Ele conhece os
pensamentos, que são as coisas mais confusas que há. “Porque é ele quem...
declara ao homem qual é o seu pensamento” (Am 4.13). Mesmo que o
pecado seja politicamente tramado, Deus retirará todas as máscaras e os
disfarces e conhecerá todos os corações. Ele conhece todas as possibilidades
futuras e já avista de antemão, pois todas as coisas estão diante dele em
uma perspectiva clara.
2. O trabalho de Deus é perfeito
Ele é sábio de coração e sua sabedoria está em suas obras. Essas obras
de Deus estão encadernadas em três grandes volumes, nos quais podemos
ler sua sabedoria.
a. A sabedoria de Deus se manifesta na obra da criação
A criação é tanto um monumento do poder de Deus quanto um espelho
em que podemos ver sua sabedoria. Ninguém, a não ser um Deus sábio,
poderia de maneira tão intrigante elaborar o mundo. Observe a terra enfeitada
com uma variedade de flores, tanto para beleza quanto para fragrância.
Observe o céu enfeitado com luzes. Podemos ver a sabedoria gloriosa de
Deus cintilando no sol e brilhando nas estrelas.
A sabedoria de Deus é vista em organizar e em ordenar tudo no seu
próprio lugar e esfera. Se o sol fosse colocado mais abaixo nos queimaria,
se fosse mais alto, não nos aqueceria com seus raios. A sabedoria de Deus
é vista ao determinar as estações do ano: “Verão e inverno, tu os fizeste”
(SI 74.17). Se sempre fosse verão, o calor nos torraria. Se sempre fosse
inverno, o frio nos mataria. A sabedoria de Deus é vista na variação do
escuro e do claro. Se sempre fosse noite, não haveria trabalho. Se sempre
fosse dia, não haveria descanso. A sabedoria é vista na mistura dos elementos,
como a terra com o mar. Se tudo fosse mar, teríamos falta de pão. Se tudo
fosse terra, teríamos falta de água. A sabedoria de Deus é vista na preparação
e amadurecimento das frutas da terra, no vento e no frio que preparam as
frutas e no sol e chuva que as amadurecem. A sabedoria de Deus é vista nos
limites do mar, sabiamente o idealizando. Embora o mar seja mais alto que
a terra em muitos lugares, mesmo assim nâo inunda a terra. Assim, falamos
como o salmista: “Que variedade, S e n h o r , nas tuas obras! Todas com
sabedoria as fizeste” (SI 104.24). Não há nada mais a ser visto, a não ser
milagres de sabedoria.
A sabedoria de Deus é vista na organização das coisas na estrutura
social, de maneira que um tem necessidade do outro. O pobre precisa do
dinheiro do homem rico e o rico precisa do trabalho do homem pobre.
Deus faz que um negócio dependa de outro, que uma pessoa seja útil para
outra, que o amor mútuo seja preservado.
b. A sabedoria de Deus brilha na obra da redenção
i. A sabedoria do plano pelo qual o pecador é salvo. Esta é a obra-
prima da sabedoria divina: a elaboração de uma conjunção bem-sucedida
entre o pecado do homem e a justiça de Deus. Podemos gritar com o apóstolo:
“Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria quanto do conhecimento
de Deus!” (Rm 11.33).
Tal intervenção da sabedoria divina impressionou homens e anjos. Se
Deus tivesse nos dado condições de encontrar a salvação quando estávamos
perdidos, não teríamos inteligência suficiente para idealizar, nem coração
para desejar o que a sabedoria infinita de Deus proporcionou a nós.
A misericórdia tem uma estratégia para salvar os pecadores e não permitir
que a justiça de Deus seja ofendida. “Seria uma pena”, diz a misericórdia,
“que tão nobre criatura como o homem fosse criado para ser desfeito, no
entanto, a justiça de Deus não pode ser ofendida”. Em quê, então, se encontraria
uma saída? Os anjos não poderiam satisfazer a ofensa feita à justiça de Deus,
nem é apropriado que uma natureza pecasse e outra sofresse em seu lugar.
O que fazer então? O homem estará perdido para sempre?
Bem, enquanto a misericórdia estava debatendo consigo mesma o que
fazer para o resgate do homem caído, a sabedoria de Deus entrou em cena
e a decisão foi profetizada: tome-se Deus em homem: a segunda pessoa da
Trindade seja encarnada e sofredora. E, assim, para preencher os requisitos
era apropriado que fosse homem e para garantir a salvação era apropriado
que fosse Deus. Então, a justiça ficaria satisfeita e o homem salvo. Oh!
profundidade das riquezas da sabedoria de Deus, que dessa maneira fez
que a justiça e a misericórdia se beijassem! Grande é este mistério, Deus
“foi manifestado na carne” ( lTm 3.16). Que sabedoria, o fato de que Cristo
foi feito pecado, mas não conheceu pecado algum, de modo que Deus
pudesse condenar o pecado e salvar o pecador. Quão grande foi a sabedoria
que encontrou uma saída de salvação.
94 A f é cristã - Estados baseados no Breve Catecismo de Westminster
A sabedoria de Deus 95
ii. A sabedoria do instrumento pelo qual o pecador é salvo. O meio
pelo qual a salvação é aplicada destaca a sabedoria de Deus; pelo que a
salvação deveria ser pela fé, não por obras. Fé é uma graça humilde, conduz
tudo para Cristo; é um adorador da graça, quando a graça avança, Deus é
glorificado; sua mais alta sabedoria exalta sua glória.
iii. A sabedoria da maneira em que a fé trabalha. A maneira de a fé
operar declara a sabedoria de Deus. Ela é ativada pela palavra pregada.
“A fé vem pela pregação” (Rm 10.17). Quão fraco é o sopro de uma pessoa
para converter uma alma? E como soprar nos ouvidos de um homem morto.
Isso é tolice aos olhos do mundo, mas o Senhor ama mostrar sua sabedoria
por intermédio daquilo que parece tolice: “Deus escolheu as coisas loucas
do mundo para envergonhar os sábios” ( ICo 1.27). Por quê? “A fim de que
ninguém se vanglorie na presença de Deus” (ICo 1.29). Se Deus usasse o
ministério de anjos para converter, então deveríamos estar prontos para dar
glória aos anjos, honrá-los com a honra que pertence a Deus. Porém, quando
Deus utiliza instrumentos fracos, homens que têm paixões semelhantes às
nossas, e os usa para converter outros, então claramente percebe-se que o
poder é de Deus. “Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que
a excelência do poder seja de Deus e não de nós” (2Co 4.7). Nisto a sabedoria
de Deus é vista, para que ninguém se vanglorie em sua presença.
c. A sabedoria de Deus aparece nas obras de sua providência
Deus m anifesta sua sabedoria de maneira m aravilhosa na sua
providência. Todo ato providencial de Deus tem misericórdia ou algo
maravilhoso envolto em si. A sabedoria de Deus em suas obras de
providência aparece quando:
i. Deus aplica sua providência por meios insignificantes. Ao efetuar
grandes realizações por intermédio de meios insignificantemente pequenos,
a sabedoria de Deus nas obras da providência se toma notória. Ele curou os
israelitas picados por serpentes com uma serpente de bronze. Se algum
antídoto soberano fosse usado ou se o bálsamo de Gileade fosse utilizado
haveria cura do mesmo modo. Porém, o que havia na serpente de bronze?
Era somente uma imagem, nem mesmo era um remédio para ser aplicado
sobre a ferida, no entanto, os israelitas deveriam somente olhar para ela.
Porém, isso operou a cura. Quanto menor a probabilidade no instrumento,
maior será o destaque da sabedoria de Deus.
ii. Deus aplica sua providência em situações adversas. Percebe-se
a sabedoria de Deus quando ele faz sua obra por meio do que aos olhos dos
homens parece totalmente contrário. Deus pretendia prosperar José e fazer
que todos os seus irmãos se prostrassem diante dele. Mas, quais caminhos
Deus usou? Primeiramente José é lançado em um poço, depois vendido
para o Egito, depois lançado em prisão (Gn 39.20). Por meio de sua prisão,
Deus fez caminhopara seu desenvolvimento. Se Deus o salvasse de uma
maneira comum, não mostraria tanto sua sabedoria. Mas quando ele age
estranhamente e salva de uma maneira que pensávamos levar à destruição,
sua sabedoria brilha de um modo mais evidente.
Deus faria Israel vitorioso, mas que caminho tomaria? Ele diminui o
exército de Gideão: “Disse o S en h o r a Gideão: É demais o povo que está
contigo” (Jz 7.2). Ele reduz um exército de 230 mil homens para 300 homens
e, ao tirar os meios de vitória, faz Israel vitorioso.
Deus tinha o propósito de tirar seu povo do Egito e toma um curso
estranho para proceder a seu propósito. Ele faz que os corações dos egípcios
odeiem seu povo: “Mudou-lhes o coração para que odiassem o seu povo”
(SI 105.25). Quanto mais odiavam e oprimiam Israel, mais Deus mandava
pragas para os egípcios, e, assim, se alegravam mais em deixar Israel ir
(Êx 12.33). Os egípcios agiram com insistência sobre Israel para que os
enviassem para fora do Egito depressa.
Deus pensou em salvar Jonas quando foi lançado ao mar e permitiu que
um peixe o engolisse, assim o levou até a praia. Deus salvou Paulo e todos
que com ele estavam, mas o navio tinha de ser despedaçado, a tripulação
alcançou a praia agarrada aos pedaços de madeira do barco (At 27.44).
Quanto à igreja, Deus geralmente age por meios contraditórios e faz
que o inimigo faça seu trabalho. Deus pode dar uma pancada reta com uma
vara torta. Geralmente fez sua igreja crescer e florescer por meio da
perseguição. “As chuvas de sangue fez dela mais frutífera”, disse Juliano.
“Eia, usemos de astúcia para com ele, para que não se multiplique” (Êx 1.10),
e a maneira que reagiram para oprimi-los acabou levando o povo a se
multiplicar. “Mas, quanto mais os afligiam, tanto mais se multiplicavam”
(Êx 1.12), assim como a terra que quanto mais é moída, melhor produção
dá. Os apóstolos foram espalhados pela perseguição e a maneira como fo
ram dispersos se assemelha à semente espalhada na terra; caíram aqui e ali,
e, assim, os cristãos pregaram o evangelho e produziram convertidos
diariamente. Paulo foi colocado na prisão e sua prisão foi o meio para
espalhar o evangelho (Fp 1.12).
iii. Deus aplica sua providência mudando o mal em bem. A sabedoria
de Deus é vista quando transforma os males mais terríveis em algo bom
para seus filhos. Como vários ingredientes venenosos sabiamente misturados
pela habilidade do farmacêutico fazem uma droga soberana, assim Deus
faz que as aflições mais ameaçadoras de morte cooperem para o bem de
seus filhos. Ele os purifica e os prepara para o céu (2Co 4.17). O gelo duro
precipita as flores da primavera da glória. O Deus sábio, por uma química
96 A fé cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A sabedoria de Deus 97
divina, transforma aflições em algo revigorante. Faz que seu povo seja
vencedor por meio das perdas que transformam suas cruzes em bênçãos.
iv. Deus aplica sua providência apesar dos pecados dos homens.
A sabedoria de Deus é vista nisto, que os pecados dos homens levam avante
a obra de Deus, ainda que ele não toque em seus pecados. O Senhor permite
o pecado, mas não o aprova. Ele tem a mão na ação na qual o pecado está,
mas não no pecado da ação. Percebe-se isso na crucificação de Cristo, ao
passo que os homens agiram por meios naturais, Deus contribuiu. Se Deus
não tivesse dado vida e respiração aos judeus, eles não teriam crucificado
Jesus, entretanto, sendo um ato pecaminoso, Deus o aborreceu. Um músico
pode tocar uma harpa desafinada, o músico é que causa o som, mas o som
estridente e a dissonância vêm da própria harpa. Assim, a motivação natu
ral dos homens vem de Deus, mas suas atitudes pecaminosas vêm deles
mesmos. Quando um homem cavalga em um cavalo manco, a cavalgada é
a causa da maneira como o cavalo vai, mas o defeito físico é do cavalo.
Da mesma maneira é a sabedoria de Deus, os pecados dos homens levam
avante a obra dele, ainda que não tenha sua mão nos pecados.
v. Deus aplica sua providência socorrendo os desesperados.
A sabedoria de Deus é vista no auxílio a casos de desespero. Deus ama
mostrar sua sabedoria quando o auxílio humano e a sabedoria humana
falham. Alguns advogados amam labutar com a exatidão e as dificuldades
da lei para mostrar como sabem lidar com ela. A sabedoria de Deus nunca
se perde, mas quando as providências são obscuras, então a estrela da manhã
da libertação aparece. “A quem se lembrou de nós em nosso abatimento”
(SI 136.23). As vezes Deus derrete os espíritos de seus inimigos (Js 2.24).
As vezes Deus lhes proporciona outra coisa para fazer, o que parece um
descanso para eles, como fez com Saul quando estava perseguindo Davi.
“Os filisteus estão na terra.” “No monte, Deus será visto.” Quando a igreja
parece estar sobre o altar, sua paz e sua liberdade prontas para serem
sacrificadas, então o anjo vem e segura a mão em que está o cutelo.
vi. Deus aplica sua providência confundindo a sabedoria dos
inimigos. A sabedoria de Deus é vista quando ridiculariza homens sábios
e quando faz a sabedoria deles o meio para vencê-los. Aitofel tinha uma
regra importante: “O conselho que Aitofel dava, naqueles dias, era como
resposta de Deus a uma consulta” (2Sm 16.23), mas ele consultou para
sua própria vergonha. “Transtornes em loucura o conselho de Aitofel”
(2Sm 15.31). “Ele apanha os sábios na sua própria astúcia” (Jó 5.13), isto
é, quando pensam que estão agindo sabiamente, Deus não somente os
frustra, mas os apanha. As armadilhas que armam para os outros são as
que pegam eles mesmos. “Na cova que fizeram, no laço que esconderam,
prendeu-se-lhes o pé” (SI 9.15). Deus gosta muito de contrariar os
politiqueiros, faz uso da própria sagacidade deles para desfazê-los, e pendura
Amã em sua própria forca.
A p l i c a ç õ e s
Primeira aplicação: adore a sabedoria de Deus. É uma profundeza
infinita, os anjos não podem perscrutar. “Quão inescrutáveis os seus caminhos”
(Rm 11.33). Devemos adorar e também descansar na sabedoria de Deus.
Deus vê qual condição é a melhor para nós. Se crerm os na sabedoria
de Deus, ela nos manterá longe do murmúrio. Descanse na sabedoria de
Deus nas seguintes circunstâncias.
1. Na falta de conselho espiritual. Deus é sábio, ele entende ser bom
que, às vezes, estejamos sem consolo. Talvez devêssemos ser elevados com
amplitudes espirituais, como Paulo em suas revelações (2Co 12.7). E duro
ter o coração desanimado por conta do muito consolo. Deus entende que a
humilhação é melhor para nós que a alegria. E melhor ter falta de consolo
e ser humilde que ter consolo e ser orgulhoso.
2. Na falta de força física. Quando necessitar de força física, descanse
na sabedoria de Deus. Ele vê o que é melhor. Talvez quanto menos saúde,
mais graça. Quanto mais fraco o corpo, mais forte a fé. “Mesmo que o nosso
homem exterior se corrompa, contudo, o nosso homem interior se renova de
dia em dia” (2Co 4.16). Havia em Roma duas árvores loureiras, quando uma
secava, a outra florescia. O homem exterior é renovado. Quando Deus
chacoalha a árvore do corpo, está juntando os frutos de justiça (Hb 12.11).
A doença é uma flecha de Deus para eliminar o pus do pecado (Is 27.9).
3. Quanto às providências de Deus para com sua igreja. Quando nos
perguntamos o que Deus está fazendo conosco e ficamos desesperados,
precisamos descansar na sabedoria de Deus. Ele sabe o melhor que tem a
fazer. “As tuas pegadas não se conheceram” (SI 77.19, RC). Confie nele
onde não pode descobrir suas pegadas. Deus é o máximo em seu caminho
quando pensamos que está o máximo fora do caminho. Quando pensamos
que a igreja de Deus está na sepultura, como já esteve, e há uma lápide
sobre ela, sua sabedoria pode mover a pedra da sepultura. “Ei-lo aí galgando
os montes, pulando sobre outeiros” (Ct 2.8). Ou seu poder pode remover a
montanha, ou sua sabedoria sabe como pular sobre ela.
4. Na falta de bens materiais. Em caso de estarmos numa posição baixa
no mundo, com pouco óleo em nossos jarros,vamos descansar na sabedoria
de Deus. Ele vê de uma maneira melhor, tudo o que está acontecendo é para
curar o orgulho e a intemperança. Deus sabia que se sua propriedade não
fosse perdida, sua alma seria. Deus viu que as riquezas seriam uma armadilha
em seu caminho (lTm 6.9). É sua preocupação se Deus o tem prevenido de
98 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
uma armadilha? Deus fará sua vida rica em fé. O que faltar na vida temporal
será acrescentado na espiritual. Deus lhe dará mais de seu amor. Você tem
poucas propriedades, mas Deus o fará forte em certeza. Descanse na sabedoria
de Deus. Ele separará a melhor parte para você.
5. No caso da perda de amigos queridos, uma esposa, criança, esposo,
vamos descansar satisfeitos na sabedoria de Deus. Deus os leva embora
porque terá mais de nosso amor. Ele quebra essas muletas para que possamos
viver mais sobre ele pela fé. Deus nos ensinará a andar sem muletas.
Segunda aplicação: se Deus é infinitamente sábio, vamos até ele à
procura de sabedoria como Salomão fez. “Dá, pois, ao teu servo coração
compreensivo... Estas palavras agradaram ao Senhor” (lR s 3.9,10). Isto é
um encorajamento para nós: “Se, porém, um de vós necessita de sabedoria,
peça a Deus, que a todos dá liberalmente” (Tg 1.5). A sabedoria está em
Deus “como na fonte” . Sua sabedoria é compartilhada e não se enfraquece.
Seu estoque não se esvazia ao dar. Vá, então, até Deus pedindo: “Senhor,
acenda a minha lâmpada e em tua luz verei a luz. Dá-me sabedoria para
conhecer a falácia do meu coração e as sutilezas da antiga serpente, a fim
de andar zelosamente em relação a mim mesmo, religiosamente para
contigo, e prudentemente para com os outros. Guia-me por teu conselho e
então me receba na glória” .
F . O p o d e r d e D e u s
O próximo atributo é o poder de Deus. “Se se trata da força do poderoso,
ele dirá: Eis-me aqui” (Jó 9.19). Nesse capítulo está uma descrição
magnificente do poder de Deus. “A força do poderoso.” A palavra hebraica
para força significa uma conquista, a força que prevalece. “Ele é forte.”
Nesta expressão utiliza-se o grau superlativo, isto é, ele é o mais forte.
Ele é chamado El-shaddai, Deus todo poderoso (Gn 17.1). Seu poder está
nisto: que pode fazer qualquer coisa que seja possível. As coisas divinas se
distinguem entre autoridade e poder. Deus tem ambas.
I. Deus tem direito soberano e autoridade sobre o homem
Ele pode fazer o que quiser com suas criaturas. Quem poderá discutir
com ele? Quem pedirá a ele uma razão por seus feitos? “Todos os moradores
da terra são por ele reputados em nada; e, segundo a sua vontade, ele opera
com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter
a mão, nem lhe dizer: Que fazes?” (Dn 4.35). Deus se assenta para julgar
na corte suprema; ele chama os monarcas da terra para julgamento e não
tem de dar uma razão de seus procedimentos. “Deus é o juiz; a um abate, a
outro exalta” (SI 75.7). Ele tem a salvação e a perdição em suas mãos.
Ele tem a chave da justiça consigo para prender quem desejar na prisão
O poder de Deus 99
terrível do inferno e tem a chave da misericórdia em sua mão para abrir a
porta dos céus para quem ele desejar. O nome gravado em suas vestes é:
“Rei dos reis e Senhor dos senhores” (Ap 19.16). Ele se apresenta como o
Senhor soberano, quem pode lhe pedir satisfação? “Farei toda a minha
vontade” (Is 46.10). O mundo é o bispado de Deus, não faria o que quisesse
em seus domínios? Foi ele quem fez o rei Nabucodonosor comer grama e
lançou no inferno os anjos que pecaram. Foi ele quem quebrou a cabeça do
império babilônico. “Como caístes do céu, ó estrela da manhã, filho da
alva! Como fostes lançado por terra, tu que debilitavas as nações!” (Is 14.12).
“Até aqui virás e não mais adiante, e aqui se quebrará o orgulho das
tuas ondas?” (Jó 38.11). Deus é o monarca supremo e todo o poder
reside originalmente nele. “Não há autoridade que não proceda de Deus”
(Rm 13.1). Os reis possuem coroa por causa dele: “Por meu intermédio,
reinam os reis” (Pv 8.15).
2. A autoridade e o poder de Deus são infinitos
O que é a autoridade sem poder? “Ele é ... grande em poder” (Jó 9.4).
Esse poder de Deus é manifesto:
a, O poder de Deus é manifesto na obra da criação
Para criar se requer poder infinito. O mundo inteiro não pode criar um
mosquito. O poder de Deus na criação é evidente, pois não precisou de
instrumentos para seu trabalho, ele trabalhou sem ferramentas e não precisou
de alguma matéria com que trabalhar, ele criou a matéria e então trabalhou
nela. Deus trabalha sem labutar, “Falou e tudo se fez” (SI 33.9).
h. O poder de Deus é manifesto na conversão de almas
O mesmo poder que atrai o pecador a Deus é o que conduziu Cristo
para fora da sepultura e o levou ao céu (E f 1.19). Um grande poder é
manifestado na conversão, maior que o manifestado na criação. Quando
Deus fez o mundo não encontrou oposição. Não tinha nada para ajudá-lo
nem tinha nada para atrapalhá-lo, mas quando converte um pecador, encontra
oposição. Satanás se opõe a Deus, também o coração do homem se opõe a
Deus; pois o pecador está irado em relação à graça que o pode converter.
O mundo foi “obra dos teus dedos” (SI 8.3). A conversão é o trabalho de
“seu braço” (Lc 1.51).
Na criação, Deus operou somente um milagre, ele pronunciou sua
palavra; mas, na conversão, Deus executa muitos milagres. O cego vê, o
morto é ressuscitado, o surdo ouve a voz do Filho de Deus. Quão infinito é
o poder de Jeová. Ante o seu cetro, os anjos se cobriam e se prostravam, os
reis lançavam suas coroas aos seus pés. “Porque o Senhor, o S en h o r dos
100 A f é cristã — Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
Exércitos, é o que toca a terra, e ela se derrete” (Am 9.5). “Quem move
a terra para fora do seu lugar, cujas colunas estrem ecem ” (Jó 9.6).
Um terremoto faz que a terra trema sobre seus pilares, mas Deus pode
remover a terra de seu centro.
Ele pode fazer o que quiser, seu poder é tão grande quanto sua
vontade. Se o poder dos homens fosse tão grande quanto suas vontades,
quão terríveis seriam as coisas que fariam no mundo. O poder de Deus é
de igual extensão à sua vontade. Com uma palavra pode remover as rodas e
quebrar o eixo da criação. Ele pode fazer “mais do que ... pensamos”
(E f 3.20). Ele pode parar os agentes naturais. Ele calou as bocas dos
leões; fez o fogo não queimar; fez as águas ficarem em pé como dois
montes; ele fez que o Sol retornasse 10 graus no relógio solar de Acaz
(Is 38.8). Quem pode apresentar onipotência? “Ele quebranta o orgulho
dos príncipes” (SI 76.12). Ele contra-ataca seus inimigos abaixando suas
bandeiras e suas faixas de orgulho, ridicularizando seus conselhos,
quebrando suas forças; e tudo isso faz facilmente com um movimento de
sua mão, “pelo sopro de sua boca” (SI 33.6; Is 40.24). Um olhar, um lance
de seus olhos é o necessário para que Deus destrua seus inimigos: “Na
vigília da manhã, o S e n h o r , na coluna de fogo e de nuvem, viu o
acampamento dos egípcios e alvorotou o acampamento dos egípcios”
(Ex 14.24). Quem pode pará-lo em sua marcha?
Deus comanda e todas as criaturas no céu e na terra obedecem a suas
ordens. Xerxes, o monarca persa, lançou correntes ao mar e as ondas as
engoliram como se estivesse acorrentado às águas, mas quando Deus fala,
o vento e o mar lhe obedecem. Se falar somente uma palavra, as estrelas
brigam em seus cursos contra Sisera. Se ele bater o pé, um exército de
anjos imediatamente se apresentará para a batalha. O que o poder do
onipotente não pode fazer? “O S en h o r é homem de guerra” (Êx 1 5 .3 ) “O teu
braço é armado de poder” (S I 8 9 .1 3 ) .
O poder de Deus é “a força da sua glória” (Cl 1.11). É um poder
irresistível. “Pois quem jamais resistiu à sua vontade?” (Rm 9.19). Contestá-
lo é como se os espinhos se organizassem em marcha de batalha contra o
fogo, ou, como se uma criança sensível lutasse com um arcanjo. Se o pecador
forpego na rede de ferro de Deus, não há escapatória. “Nenhum há que
possa livrar alguém das minhas mãos” (Is 43.13).
O poder de Deus é inexaurível, nunca passa ou se desgasta. Os homens,
enquanto exercitam suas forças, se enfraquecem, mas Deus tem uma eterna
renovação de força em si mesmo (Is 2 6 .4 ) . Embora Deus gaste suas flechas
contra seus inimigos, mesmo assim não gasta sua força (Dt 3 2 .2 3 ) . “O S en h o r ,
o Criador dos fins da terra, nem se cansa, nem se fatiga” (Is 4 0 .2 8 ) .
O poder de Deus 101
3. Deus limita o uso de seu poder segundo sua vontade
Deus não fa z todas as coisas porque ele não pode negar a si mesmo.
Embora Deus possa fazer todas as coisas, não pode fazer aquilo que
manche a sua glória. Ele não pode pecar, não pode fazer aquilo que implica
numa contradição. Ser um Deus da verdade e ainda negar a si mesmo é
uma contradição.
A p l i c a ç õ e s
Primeira aplicação: se Deus é infinito em poder, temos de temê-lo.
Tememos aqueles que estão no poder. “Não temereis a mim? - Diz o S e n h o r ;
não tremereis diante de mim...?” (Jr 5.22). Ele tem o poder de lançar as
nossas almas e os nossos corpos no inferno. “Quem conhece o poder da tua
ira?” (SI 90.11). O mesmo sopro que nos fez pode acabar conosco. “A sua
cólera se derrama como fogo, e as rochas são por ele demolidas” (Na 1.6).
Salomão disse assim: “Porque a palavra do rei tem autoridade suprema”
(Ec 8.4), muito mais a Palavra de Deus. Temamos esse poderoso Deus.
O temor de Deus eliminará todos os outros temores.
Segunda aplicação: veja a condição deplorável dos homens ímpios
porque o poder de Deus não lhes é favorável, mas está contra eles.
1. O poder de Deus não é favorável aos ímpios. Eles não têm união
com Deus, portanto não têm garantia em reclamar seu poder. Seu poder
não os alivia. Ele tem poder para perdoar pecados, mas não manifestará o
seu poder para com o pecador impenitente. O poder de Deus é a asa de uma
águia, para carregar os santos para o céu. O ímpio, porém, que privilégio
tem? Um homem carrega seu filho nos braços sobre um córrego perigoso,
mas não carregará um inimigo. O poder de Deus não age para ajudar aqueles
que lutam contra ele. Quando sofrimentos vêm sobre os ímpios, não têm
nada para ajudá-los, são como um navio em uma tempestade sem o piloto
e dirigindo-se às rochas.
2. O poder de Deus está contra o ímpio. O poder de Deus não será o
escudo para defesa do pecador, mas uma espada a feri-lo. O poder de Deus
atará o pecador em cadeias. Seu poder serve para vingar o mal feito à sua
misericórdia. Ele será o poderoso para acabar com o pecador. Então, em
que condição está cada um dos descrentes? O poder de Deus está contra
eles e “horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo” (Hb 10.31).
Terceira aplicação: reprovam-se aqueles que não crêem no poder de
Deus. Dizemos não questionar o poder de Deus, mas sim sua vontade. Porém,
na verdade é o seu poder que questionamos. “Acaso, haveria coisa
demasiadamente maravilhosa para mim?” (Jr 32.27). Nós nos tomamos
temerosos com a descrença, como se o braço poderoso de Deus estivesse
102 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
encolhido e não pudesse ajudar em casos de desespero. Se o poder de um
rei for tomado, ele é destronado; elimine, em sua mente, o poder do Senhor
e ele deixará de ser Deus. Quantas vezes agimos dessa maneira. Israel não
questionou o poder de Deus? “Pode, acaso, Deus preparar-nos mesa no
deserto?” (SI 78.19). Pensavam que o deserto era um lugar apropriado para
fazer covas e não armar uma mesa. Marta não duvidou do poder de Cristo?
“Senhor, já cheira mal, porque já é de quatro dias” (Jo 11.39). Se Cristo
estivesse lá enquanto Lázaro estava doente, ou quando estava à beira da
morte, Marta não questionaria que pudesse reanimá-lo, mas estava morto e
na cova por quatro dias e agora ela parece questionar seu poder. Cristo
tinha mais dificuldade para ressuscitar a fé de Marta que o seu irmão morto.
Moisés, mesmo sendo um homem santo, limitou o poder de Deus por meio
da descrença: “Respondeu Moisés: seiscentos mil homens de pé é este povo
no meio do qual estou; e tu disseste: dar-lhes-ei carne, e a comerão um mês
inteiro” (Nm 11.21). Isto é uma grande afronta contra Deus: negar seu poder.
Que homens duvidam do poder de Deus é algo que se vê por meio de
caminhos indiretos; não defraudariam em seus negócios, não usariam falsos
pesos, se cressem no poder que providencia para eles. Os homens se apóiam
mais em causas secundárias do que em Deus. “Caiu Asa doente dos pés; a
sua doença era em extremo grave; contudo, na sua enfermidade não recorreu
ao S e n h o r , mas confiou nos médicos” (2Cr 16.12).
Quarta aplicação: se Deus é infinito em poder, vamos evitar endurecer
nossos corações contra ele. “Quem porfiou com ele e teve paz?” (Jó 9.4).
Jó envia um desafio a todas as criaturas no céu e na terra. Quem já se
levantou contra Deus e saiu vencedor? O fato de alguém se arriscar em
qualquer pecado significa endurecer seu coração contra Deus e declarar
guerra contra o céu. Que esta pessoa se lembre que Deus é o El-Shaddai, o
poderoso; e será muito duro para com aqueles que se opõem a ele. “Ou tens
braço como Deus ou podes trovejar com a voz como ele o faz” (Jó 40.9).
Todos aqueles que não se curvarem diante de seu cetro dourado serão
quebrados com sua vara de ferro. O imperador romano Júlio endureceu seu
coração contra Deus, opôs-se diante da sua face; mas o que ele conseguiu?
Ele prosperou? Sendo ferido na batalha lançou seu sangue para o ar e disse
a Cristo: “Ó Galileu, tu vencestes! Eu reconheço teu poder, cujo nome e
verdade me opus” . Será que o tolo pode contender com o sábio; a fraqueza
com o poder; o finito com o infinito?
Livre-se de endurecer seu coração contra Deus. Ele pode enviar legiões
de anjos para vingar sua causa. E melhor se encontrar com Deus com
lágrimas nos olhos do que com armas nas mãos. Pode-se convencê-lo mais
rapidamente por meio do arrependimento do que da resistência.
O poder de Deus 103
Quinta aplicação: interesse-se em Deus e então esse glorioso poder
será dispensado a você. Deus distribuirá com mãos estendidas e manifestará
todo o poder para o bem de seu povo: “O S e n h o r dos Exércitos é o Deus de
Israel, é Deus para Israel” (lC r 17.24). A força do poder de Deus é apoio e
consolo maravilhosos para o crente. Era o enigma de Sansão: “Do forte
saiu doçura” (Jz 14.14). Assim, do atributo do poder de Deus, que é sua
força, saiu doçura. Isso é consolador em vários casos.
1. Em caso de forte corrupção. Meus pecados, diz um filho de Deus,
são poderosos. Não tenho poder contra esse exército que se levanta contra
mim. Eu oro e humilho minha alma por meio do jejum, mas meus pecados
novamente me atingem. Será que você crê no poder de Deus? O Deus
poderoso pode vencer sua grande corrupção e ainda que o pecado seja muito
forte para você não o será para Deus. Ele pode amaciar corações duros e
restaurar os mortos. “Acaso para o S en h o r há coisa demasiadamente difícil?”
(Gn 18.14). Coloque seu poder em ação por meio da fé e da oração. Diga:
Senhor, não honra a ti o inimigo ter vitória tão grande dentro de mim,
quebre a cabeça desse leviatã! Aba Pai, todas as coisas são possíveis para ti.
2. Em caso de forte tentação. Satanás é chamado de homem forte, mas
lembre do poder de Deus. Cristo é chamado “o leão da tribo de Judá”, ele
amassou a cabeça da serpente na cruz. Satanás é um inimigo acorrentado e
vencido. Miguel é mais forte que o dragão.
3. Em caso de instabilidade na fé. Quando estamos com fraqueza na
graça e temor de cair. Eu oro, mas não consigo exprimir fortes sentimentos.
Eu creio, mas a minha fé balança e treme. Será que Deus não pode fortalecer
o fraco? “O poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais
me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo”
(2Co 12.9). Temo que não vá agüentar. Cristão, acredita no poder de Deus?
Deus não preservoua graça até aqui? Não poderá preparar um Ebenézer
para você? Deus sustentou a graça em você até agora como um farol em
meio ao grande oceano e será que não poderá mantê-la mais? “Sois
guardados pelo poder de Deus” (1 Pe 1.5). A misericórdia de Deus nos perdoa,
mas seu poder nos preserva. Aquele que pelo seu poder mantém as estrelas,
de maneira que não caiam de suas órbitas, mantém nossa graça para que
não caia e não seja aniquilada.
4. Em caso de circunstâncias de privações. Deus pode multiplicar o
óleo na botija e miraculosamente pode multiplicar mantimentos. Será que
o provedor para os pássaros do ar não pode prover para seus filhos? Será
que aquele que veste os lírios do campo não vestiria seus cordeirinhos?
5. Consolo em relação à ressurreição. Parece difícil crer que os corpos
dos homens, depois de serem comidos por vermes, devorados pelas bestas
104 A f é crista - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A santidade de Deus 105
e peixes ou consumidos pelas chamas, levantariam-se novamente. Porém,
se cremos no poder de Deus, nada é de admirar. O que é mais difícil, criar
ou ressuscitar os mortos? Aquele que pode fazer o corpo a partir do nada
também pode restaurá-lo em todas as suas partes, mesmo quando degenerado
e misturado com outras substâncias. “Isto é impossível aos homens, mas
para Deus tudo é possível” (Mt 19.26). Se acreditarmos no primeiro artigo
do credo apostólico em que se afirma que Deus é todo-poderoso, facilmente
acreditaremos no outro que fala da ressurreição do corpo. Deus pode
ressuscitar os mortos por causa do seu poder e por causa de sua verdade.
6. E um consolo em relação á igreja de Deus. Ele pode salvá-la e libertá-
la quando está em sofrimento. Os inimigos têm poder em suas mãos, mas a
ira de Deus os prenderá (SI 76.10). Ele pode tanto limitar o poder do inimigo
como confundi-lo. “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” Deus pode
criar alegria para Jerusalém (Is 65.18). A igreja, em Ezequiel, é comparada a
ossos secos, mas Deus fez o espírito entrar neles e viveram (Ez 37.10).
O navio da igreja pode ser lançado de um lado para o outro, porque há pecado
nele, mas não será afundado, pois Cristo está nele (SI 46.5). Deus in medio.
Todos os sofrimentos da igreja ajudarão a promover sua libertação.
GL A SANTIDADE DF. D EUS
1. A natureza da santidade de Deus
O próximo atributo é a santidade de Deus. “Quem é como tu,
glorifícado em santidade?” (Êx 15.11). A santidade é a jóia mais brilhante
de sua coroa. E o nome pelo qual Deus é conhecido: “Santo e tremendo é o
seu nome” (SI 111.9), “O Santo” (Jó 6.10). Serafins cantam: “Santo, santo,
santo é o S en h o r dos Exércitos” (Is 6.3). Seu poder faz dele poderoso, sua
santidade faz dele glorioso. A santidade de Deus consiste em seu perfeito
amor justo e em se aborrecer do mal: “Tu és tão puro de olhos, que não
podes ver o mal” (Hc 1.13).
a. A santidade de Deus é intrínseca
Ele é santo em sua natureza. Seu ser é feito de santidade, assim como
a luz é da essência do Sol. Ele é santo em sua Palavra. A Palavra leva um
selo de sua santidade sobre si, como a cera levava a impressão do selo.50
“Puríssima é a tua palavra” (SI 119.140), ela é comparada à prata refinada
sete vezes (SI 12.6). Cada linha da Palavra transpira santidade e estimula à
santidade. Deus é santo em suas atitudes. Tudo que ele faz é santo; não
pode agir diferentemente daquilo que é; não pode fazer injustiça, assim
como o Sol não pode negar sua luz. “Justo é o S e n h o r ... em todas as suas
obras” (SI 145.17).51
b. A santidade de Deus é primária
Ele é a origem e o padrão de santidade. A santidade começou com ele
que é o Ancião de dias.
c. A santidade de Deus é eficiente
Ele é a causa de tudo o que é santo nos outros. “Toda boa dádiva e
todo dom perfeito são lá do alto” (Tg 1.17). Ele fez os anjos santos. Ele
infundiu toda a santidade na natureza humana de Cristo. Toda a santidade
que temos é somente um fio cristalino dessa fonte. Recebemos toda a nossa
santidade de Deus. Assim como as luzes do santuário foram acesas pela
lâmpada do meio, assim toda a santidade dos outros é uma lâmpada acesa
do céu. “Eu sou o S e n h o r , que vos santifico” (Lv 20.8). Deus não é somente
um padrão de santidade, mas o princípio da santidade: suas fontes alimentam
todas as nossas cisternas, ele goteja seu santo óleo da graça sobre nós.
d. A santidade de Deus é transcendente
“Não há santo como o S e n h o r ” ( 1 S m 2.2). Nenhum anjo no céu pode
medir a santidade de Deus. O mais alto serafim é muito baixo em estatura
para medir esse colosso; a santidade de Deus ultrapassa a santidade dos
santos ou dos anjos.
i. A santidade de Deus é superior à dos santos. É uma santidade
pura. A santidade dos santos é como o ouro na forma bruta, imperfeito; a
humildade deles é manchada com orgulho; aquele que tem mais fé necessita
de oração: “Senhor, me ajuda na minha falta de fé” . Porém, a santidade de
Deus é pura como o vinho da uva; não tem o mínimo traço ou mancha de
impureza misturada nela. E uma santidade imutável. Embora os santos não
possam perder suas vestes brancas de santidade, pois a semente de Deus
permanece neles, podem perder alguns graus dessa santidade. “Tenho,
porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor” (Ap 2.4). A graça
não pode morrer, ainda que sua chama possa se apagar. A santidade nos
santos é sujeita ao declínio, mas a santidade em Deus é imutável; ele nunca
perde uma gota sequer de sua santidade. Deus não pode ter mais santidade
porque ele é perfeitamente santo; assim, não pode ter menos santidade,
pois é perfeitam ente santo. Não pode ter menos santidade, pois é
imutavelmente santo.
ii. A santidade de Deus é superior à dos anjos. A santidade nos
anjos é somente uma qualidade que pode ser perdida, como vemos
nos anjos caídos. Mas, a santidade em Deus é sua essência, ele é
totalmente santo, e como não pode perder sua deidade, não pode perder
sua santidade.
106 A f é cristã — Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A santidade de Deus 107
e. A santidade de Deus é imanente
Alguém poderia levantar a seguinte questão: Mas não compartilha o
segredo de todos os pecados dos homens? Como pode observar suas
impurezas e não ser contaminado?
Deus vê todos os pecados dos homens, mas não é contaminado com
eles, assim como o Sol não é contaminado com os vapores que se levantam
da terra. Deus vê o pecado, mas não como um patrão que o aprova, mas
como um juiz que o julga.
A p l i c a ç õ e s
Primeira aplicação: Deus é assim tão infinitamente santo? Então,
veja como o pecado é distinto dele. O pecado é algo impuro, exageradamente
mau (Rm 1.23). O pecado é chamado de abominação (Dt 7.25). Deus não
se mistura com o mal; o pecado não se mistura com o bem. O pecado é o
espírito e a essência do mal; ele transforma o bem em mal; ele deflorou o
solo virgem fazendo que ficasse vermelho de culpa e escuro de sujeira.
O pecado é chamado de violação (Js 7.11). Não é de surpreender, portanto,
que Deus odeia o pecado, pois é muito distinto dele, muito contrário a ele.
O pecado fere sua santidade fazendo tudo que pode para contrariar a Deus.
Se o pecado tivesse tal poder, Deus não seria mais Deus.
Segunda aplicação: Deus é o santo e a sua santidade é sua glória?
Quão ímpios são aqueles que odeiam a santidade. Como o abutre odeia
perfumes, tais pessoas odeiam o doce perfume da santidade nos santos;
seus corações se levantam contra a santidade como o estômago de uma
pessoa ojeriza determinado prato. Não há maior sinal da devoção de uma
pessoa ao inferno que odiar alguém naquilo que mais se parece com Deus.
Muitos desprezam a santidade, desprezando a glória da deidade, daquele
que é “glorioso em santidade” . O desprezo da santidade é visto no
ridicularizar dela. Não é triste que os homens ridicularizem aquilo que os
salvaria? Certamente o paciente que ridiculariza o médico morrerá.
Ridicularizar a graça do Espírito se assemelha a desprezar o Espíritoque dá
graça. O desprezado Ismael foi lançado fora da casa de Abraão (Gn 21.9).
Quem despreza a santidade será lançado fora do céu.
Terceira aplicação: Deus é assim tão infinitamente santo? Então vamos
nos emprenhar em imitá-lo em sua santidade. “Sede santos, porque eu sou
santo” (1 Pe 1.16). Há uma santidade dupla; uma santidade de equabilidade
e uma santidade de similitude. A santidade de equabilidade não é atingível
por homem ou anjo. Quem pode ser santo igual a Deus? Quem pode ser
santo como ele? Mas, há uma santidade de similitude que devemos desejar.
Isso significa ter alguma analogia ou alguma semelhança à santidade de
Deus em nós, ser como ele em santidade tanto quanto pudermos. Embora
uma vela não dê tanta luz quanto o Sol, mesmo assim se assemelha a ele.
Devemos imitar a Deus na santidade.
2. A santidade de Deus em seus eleitos
a. O que é a santidade dos eleitos
Esta aplicação nos leva a uma pergunta: Se devemos ser como Deus
em santidade, em que consiste nossa santidade? Em duas coisas: em nossa
adequação em relação à natureza de Deus e em nossa sujeição à sua vontade.
Nossa santidade consiste em nossa adequação para com a natureza de
Deus. Pois os santos são participantes da natureza divina, o que não significa
ser participante de sua essência, mas de sua imagem (2Pe 1.4). Nisto está a
santidade dos santos, quando são a imagem viva de Deus. Eles carregam a
imagem da humildade divina em Cristo, de sua misericórdia, de sua
celestial idade; de sua apreciação dos valores celestiais, de sua disposição
para Deus e de amar o que Deus ama e odiar o que ele odeia.
Nossa santidade consiste também em nossa sujeição à vontade de Deus.
Assim como a natureza de Deus é o padrão de santidade, assim sua vontade
é a regra de santidade. A nossa santidade tem relevo quando fazemos sua
vontade (At 13.22) e quando suportamos sua vontade (Mq 7.9); ou seja,
quando o que ele sabiamente nos inflige, de bom grado, nós o sofremos.
Nossa grande perspectiva deveria ser nos assemelhar a Deus em santidade.
Nossa santidade deveria ser qualificada como a santidade de Deus; assim
como sua santidade é real, a nossa também deveria ser. “Justiça e retidão
procedentes da verdade” (E f 4.24). Não deveria ser uma imagem de
santidade, mas vida; não como os templos egípcios, embelezados, mas sem
pureza. Deveria ser como o templo de Salomão, dourado por dentro: “Toda
formosura é a filha do Rei no interior do palácio; a sua vestidura é recamada
de ouro” (SI 45.13).
b. O valor da santidade dos eleitos
A fim de fazer você se assemelhar a Deus em santidade, gostaria que
considerasse o valor da santidade dos eleitos:
i. A dignidade que se aplica aos santos. Quão ilustre cada pessoa
santa é. E como um vidro limpo em que alguns dos raios da santidade de
Deus brilham. Lemos que Arão vestiu suas roupas para glória e beleza
(Êx 28.2). Quando vestimos a roupa bordada de santidade é para glória e
beleza. Um bom cristão é avermelhado, pois foi aspergido com o sangue de
Cristo; e branco, pois foi adornado com santidade. Assim como o diamante
108 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A santidade de Deus 109
está para um anel, está a santidade para a alma; a qual, como Crisóstomo
diz, “aqueles que a opõem só podem admirá-la”.
ii. A grandeza do propósito da santificação. É um grande propósito
que Deus executa no mundo fazer uma pessoa à sua semelhança em
santidade. O que são os respingos das ordenanças senão gotejos de justiça
sobre nós para nos fazer santos? Para quê servem as promessas senão para
encorajar à santidade? Para que o Espírito foi enviado ao mundo senão
para nos ungir com a santa unção? (1 Jo 2.20). Para que servem todas as
aflições senão para nos fazer participantes da santidade de Deus? (Hb 12.10).
Para que servem as misericórdias senão para nos atrair à santidade? Qual é
a finalidade da morte de Cristo senão que seu sangue pudesse nos purificar
em nossa falta de santidade? “O qual a si mesmo se deu por nós, a fim de
rem ir-nos de toda iniqüidade, e purificar para si mesmo um povo
exclusivamente seu” (Tt 2.14). Assim, se não somos santos, crucificamos o
grande propósito de Deus no mundo.
iii. Nossa santidade atrai o coração de Deus. A santidade é a imagem
de Deus e ele não pode fazer outra coisa senão amar sua imagem onde a vê.
Um rei ama ver sua efígie sobre uma moeda. “Amas a justiça” (SI 45.7).
E onde a justiça cresce, senão em um coração santo? “Chamar-te-ão Minha-
Delicia ... porque o S e n h o r se delicia em ti” (Is 62.4). Foi sua santidade
que atraiu o amor de Deus a ela. “Chamar-vos-ão Povo Santo” (Is 62.12).
Deus valoriza alguém não pelo nascimento rico, mas pela santidade pessoal.
iv. A santidade distingue os cristãos no mundo. A santidade é a
única coisa que nos distingue dos ímpios. O povo de Deus tem seu selo
sobre si. “Entretanto, o firme fundamento de Deus permanece, tendo este
selo: O Senhor conhece os que lhe pertencem. E mais: Aparte-se da injustiça
todo aquele que professa o nome do Senhor” (2Tm 2.19). O povo de Deus
é selado com um selo duplo: a eleição: “O Senhor conhece aqueles que são
seus” e a santificação: “Afaste-se da injustiça todo aquele que professa o
nome do Senhor”. Como um nobre é reconhecido por outra pessoa pela sua
estrela prateada; como uma mulher virtuosa é diferenciada de uma prostituta
por sua castidade; assim a santidade é reconhecida entre os homens. Todos
os que são de Deus têm Cristo por seu capitão e a santidade é a cor branca
que vestem (Hb 2.10).
v. A santidade é a honra dos cristãos. A santidade e a honra são
colocadas juntas (lT s 4.4). A dignidade caminha com a santificação.
“Aquele que nos ama e, pelo seu sangue nos libertou dos nossos pecados,
e nos constituiu reino, sacerdotes para o seu Deus e Pai” (Ap 1.5). Quando
somos lavados e feitos santos, então somos reino e sacerdotes para Deus.
Os santos são chamados vasos de honra; são chamados jóias pelo brilho
de sua santidade, pelo enchimento com o vinho do Espírito. Isso faz deles
anjos terrenos.
vi. A santidade nos dá ousadia diante de Deus. “Se afastares a
injustiça da tua tenda... levantarás o teu rosto para Deus” (Jó 22.23 e 26).
Levantar a face é um símbolo de ousadia. Nada pode nos envergonhar
tanto ao nos aproximar de Deus quanto o pecado. Um homem ímpio pode
levantar suas mãos na oração, mas não pode levantar sua face. Quando
Adão perdeu sua santidade, perdeu sua confiança, escondeu-se. Porém, a
pessoa santa vai até Deus como uma criança vai até seu pai; sua consciência
não o censura com a possibilidade de qualquer pecado, portanto pode ir
ousadamente ao trono da graça e ter a misericórdia para ajudá-lo em tempo
de necessidade (Hb 4.16).
vii. A santidade traz paz aos cristãos. O pecado levanta uma
tem pestade na consciência: onde há pecado, há tum ulto. “ Para os
perversos, diz o meu Deus, não há paz” (Is 57.21). Justiça e paz são
colocadas juntas. A santidade é a raiz que sustenta esse doce fruto da paz.
A retidão e a paz se beijam.
viii. A santidade conduz o cristão ao céu. Ela é a estrada do céu do
Rei. “E ali haverá bom caminho, caminho que se chamará o Caminho Santo”
(Is 35.8). Havia em Roma o templo da virtude e o da honra, e todos deveriam
passar pelo templo da virtude para chegar ao templo da honra; assim,
devemos ir do templo da santidade para o templo do céu. A glória começa
na virtude. “Nos chamou para a sua própria glória e virtude” (2Pe 1.3).
A felicidade não é nada mais que a essência da santidade; a santidade é a
glória militante e a felicidade a santidade triunfante.
c. Como os eleitos devem buscar santidade
O que devemos fazer para nos assemelharmos a Deus em santidade?
Ou como devemos buscar nossa santidade?
i. Buscando refúgio em Cristo. Busque socorro no sangue de Cristo
pela fé. Isso é o lavar da alma. As purificações da lei eram tipos e emblemas
disso (1 Jo 1.7). A Palavra é o espelho que mostra nossas manchas e o sangue
de Cristo é uma fontepara lavá-las.
ii. Pedindo um coração santo. Orando a Deus lhe pedindo um
coração santo. “Cria em mim, ó Deus, um coração puro” (SI 51.10).
Derramem o coração diante de Deus e digam: “Senhor, meu coração está
cheio de lepra, contamina tudo que toca. Senhor, eu não posso viver com
tal coração, pois não posso te honrar; nem morrer com tal coração, pois
não poderei te ver. Cria em mim um coração puro, envia-me o teu Espírito,
refina-me e purifica-me, para que eu possa ser um templo apropriado
para ti, ó santo Deus, habitar”.
110 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
iii. A ndando na com panhia dos santos. “Quem anda com os sábios
será sábio” (Pv 13.20). Fique no meio dos temperos e terá o cheiro deles.
A associação produz a assimilação. Nada tem maior poder e energia para
efetivar a santidade do que a comunhão dos santos.
H. A j u s t iç a d e D e u s
O próximo atributo é a justiça de Deus. Todos os atributos de Deus
são idênticos e os mesmos em sua essência. Embora tenha vários atributos
pelos quais se faz conhecido a nós, tem só uma essência. Uma árvore de
cedro pode ter vários galhos, mas é um cedro. Assim, há vários atributos de
Deus pelos quais o compreendemos, mas somente uma essência completa.
Então, com respeito à justiça de Deus: “É justo e reto” (Dt 32.4); “Não
o podemos alcançar; ele é grande em poder, porém não perverte o juízo e a
plenitude da justiça” (Jó 37.23). Diz-se que Deus habita na justiça: “Justiça e
direito são o fundamento do teu trono” (SI 89.14). Em Deus, poder e justiça
se encontram. O poder segura o cetro e a justiça mantém o equilíbrio.
1. O que é a justiça de Deus?
“Justiça significa dar a cada um o que merece.” Ajustiça de Deus é a
retidão de sua natureza, aquilo pelo qual faz o que é reto e de igual medida.
“E não pagará ele ao homem segundo as suas obras?” (Pv 24.12). Deus é
um juiz imparcial. Ele julga a causa. Os homens geralmente julgam a pessoa,
mas não a causa. Isso não é justiça, mas malícia. “Descerei e verei se, de
fato, o que têm praticado corresponde a esse clamor que é vindo até mim”
(Gn 18.21). Quando o Senhor está diante de um ato punitivo, pesa as coisas
na balança, não pune de qualquer maneira; não age desordenadamente,
mas de maneira lógica contra os ofensores. Em relação à justiça de Deus,
devo apresentar as seis seguintes posições:
a. A justiça de Deus é santa
Deus só pode ser ju sto . Sua santidade é a causa de sua justiça .
A santidade não permitirá que faça outra coisa senão o que é justo.
b. A justiça de Deus é o padrão de justiça
A vontade de Deus é a suprema regra de justiça; é o padrão de eqüidade.
Sua vontade é sábia e boa. Deus deseja somente o que é justo e, portanto, é
justo porque deseja ser.
c. Ajustiça é natural ao ser de Deus
Deus faz justiça voluntariamente. A justiça flui de sua natureza.
Os homens podem agir injustamente, pois são forçados ou subornados.
A ju stiça de Deus 111
A vontade de Deus nunca será subornada, por causa de sua justiça. Não
pode ser forçado, por causa de seu poder. Ele pratica a justiça por amor à
justiça: “Amas ajustiça” (SI 45.7).
d. A justiça de Deus é perfeita
Ajustiça é a perfeição da natureza divina. Aristóteles disse: “Ajustiça
engloba em si todas as virtudes” . Dizer que Deus é justo é dizer que é tudo
o que há de excelente: as perfeições se encontram nele como linhas
convergem para um centro. Ele não é somente justo, mas a própria justiça.
e. A justiça de Deus é exata
Deus nunca cometeu nem nunca cometerá o mínimo erro em relação às
suas criaturas. Ajustiça de Deus já foi distorcida, mas nunca distorceu. Deus
não segue de acordo com o rigor da lei, ele alivia sua severidade. Pode infligir
penas mais pesadas do que impõe: “Nos tens castigado menos do que merecem
as nossas iniqüidades” (Ed 9.13). As misericórdias para conosco são mais do
que merecemos, e nossas punições são menos do que merecemos.
f A justiça de Deus é definitiva
Ajustiça de Deus é tal que não é apropriado para qualquer homem ou
anjo censurá-lo ou exigir uma razão por suas ações. Deus não tem só a
autoridade do seu lado, mas a eqüidade. “Farei do juízo a régua e da justiça,
o prumo” (Is 28.17). É algo inferior a ele, dar razão para nós de seus
procedimentos. Qual destes dois é mais apropriado prevalecer, ajustiça de
Deus ou a razão humana? “Quem és tu, ó homem, para discutires com
Deus?!” (Rm 9.20). A linha de prumo de nossa razão é muito curta para
compreender a profundidade da justiça de Deus. “Quão insondáveis são os
seus juízos” (Rm 11.33). Devemos adorar ajustiça de Deus mesmo onde
não vemos razão para tal.
2. Onde identificamos a justiça de Deus?
A justiça de Deus corre em dois canais. Ela é vista em duas coisas: na
distribuição de prêmios e de punições.
a. A justiça de Deus é vista na premiação dos justos
Deus premia o virtuoso. “Na verdade, há recompensa para o justo”
(SI 58.11). Os santos não devem servi-lo sem recompensa, ele recompensará
os clamores e as lágrimas; embora os justos possam ser derrotados por
causa dele, não serão derrotados por ele. “Porque Deus não é injusto para
ficar esquecido do vosso trabalho e do amor que evidenciastes para com o
seu nome” (Hb 6.10). Ele nos dá um prêmio, não porque mereçamos, mas
porque nos prometeu.
112 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A justiça de Deus
b. A justiça de Deus é vista na punição dos ímpios
113
Ele é justo em punir os ofensores. Por que Deus é justo em punir os
pecadores?
i. Porque Deus pune os pecadores baseado em uma lei. “Onde não
há lei, também não há transgressão” (Rm 4.15). Mas Deus deu uma lei aos
homens e eles a quebraram, portanto os pune justamente.
ii. Porque Deus pune os pecadores fundamentado em provas
concretas. Ele é justo em punir os ímpios, pois nunca os pune senão depois
de obter prova e evidência. Que maior evidência há do que a própria
consciência de uma pessoa como testemunha contra si. Não há nada que
Deus lance sobre um pecador que a consciência não sele como verdade.
A p l i c a ç õ e s
Primeira aplicação: veja aqui mais uma flor da coroa de Deus: ele é
justo e reto. Ele é exemplo e padrão de justiça.
3. Deus é justo ao permitir que o ímpio prospere?
Como fica a prosperidade do ímpio neste mundo em relação à justiça
de Deus? “Por que prospera o caminho dos perversos, e vivem em paz
todos os que procedem perfidamente?” (Jr 12.1).
Tal dúvida tem sido uma grande pedra de tropeço e tem levado muitos
a questionar a justiça de Deus. Os que são mais pecaminosos são mais
poderosos. Diógenes,52 quando viu o ladrão Harpalus prosperando, disse:
“E certo que Deus jogou fora o governo do mundo e não se importa como
as coisas acontecem aqui embaixo”.
Deus se relaciona com a prosperidade do ímpio das seguintes maneiras:
a. Usando-a como instrumento de sua vontade
Os ímpios, às vezes, podem ser instrumentos da obra de Deus. Embora
não tenham em vista a glória de Deus, podem promovê-la. Ciro (Ed 1.7) foi
um instrumento na construção do templo de Deus em Jerusalém. Deus
permite que esses prosperem sob as asas de quem seu povo é protegido.
Deus não fica em débito com homem algum. “Tomara houvesse entre vós
quem feche as portas, para que não acendêsseis, debalde, o fogo do meu
altar” (Ml 1.10).
b. Usando-a para torná-los ainda mais indesculpáveis
Deus permite que os homens pequem e prosperem de maneira que
fiquem ainda mais indesculpáveis. “Dei-lhe tempo para se arrependesse...
da sua prostituição” (Ap 2.21). Deus adia o julgam ento, estica suas
misericórdias para com os pecadores e, se não se arrependem, sua paciência
será testemunha contra eles e sua justiça será mais clara na condenação
deles. “Serás tido por justo no teu falar e puro no teu julgar” (SI 51.4).
c. Usando-a para destacar ainda mais sua justiça
Deus nem sempre deixa o ímpio prosperar em seu pecado. Alguns
ímpios, Deus pune abertamente, para que sua justiça seja observada. “Faz-
se conhecido o Senhor,pelo juízo que executa” (SI 9.16), isto é, sua justiça
faz homens caírem no ato do pecado. Assim fez com Zimri e Cozbi no ato
da impureza.
d. Usando-a para encher plenamente o cálice de sua ira
Quando Deus permite que os homens prosperem um pouco em seus
pecados, o cálice de sua ira está sempre enchendo, sua espada está sempre
afiada: e embora Deus possa evitar os homens por um pouco, a demora em
agir não é perdão. Quanto mais Deus demorar em tomar uma atitude, mais
pesado será no final. Enquanto existir a eternidade, Deus tem tempo o
suficiente para lidar com seus inimigos.
A justiça pode ser como um leão adormecido, mas o leão acordará e
rugirá sobre o pecador. Nero, Júlio e Caim já não se depararam com a
justiça de Deus?
4. Deus é justo ao permitir que o justo sofra aflições?
Mas o próprio povo de Deus sofre muitas aflições, são injuriados
e perseguidos. “Pois de contínuo sou afligido e cada manhã, castigado”
(SI 73.14). Como isso se relaciona com a justiça de Deus?
a. As aflições dos santos são motivadas por suas falhas
Neste particular, é verdadeira a regra de Agostinho: “Os caminhos de
Deus, no julgar, são às vezes secretos, mas nunca injustos”. O Senhor nunca
aflige seu povo sem uma causa, assim não é injusto. Há coisas boas nos
filhos de Deus, por isso os ímpios os afligem. Há coisas ruins nos ímpios,
por isso Deus os aflige.
Os próprios filhos de Deus têm suas manchas: “Acaso, não sois vós
mesmos culpados contra o S e n h o r , vosso Deus?” (2Cr 28.10). Será que
esses diamantes espirituais não têm falhas? Não lemos a respeito das
manchas nos filhos de Deus? (Dt 32.5). Não são culpados de muito orgulho,
da disposição de condenar e de criticar, de paixão e de mundanidade?
Embora, por meio de suas profissões de fé, assemelhem-se aos pássaros do
paraíso, voando alto e se alimentando com o orvalho do céu, mesmo assim,
à semelhança da serpente, lambem o pó. Os pecados dos filhos de Deus
provocam mais que os dos ímpios. “Viu isto o S e n h o r e os desprezou, por
114 A fé cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
causa da provocação de seus filhos e suas filhas” (Dt 32.19). Os pecados
dos ímpios traspassam o lado de Jesus, os dos filhos de Deus ferem seu
coração. Portanto, será que Deus não é justo em todos os males que faz
recair sobre eles? “De todas as famílias da terra, somente a vós outros vos
escolhi; portanto, eu vos punirei por todas as vossas iniqüidades” (Am 3.2).
Sem dúvida, serão punidos antes e mais duramente que os outros.
b. As aflições dos justos têm uma finalidade suprema
Os sofrimentos e as dificuldades dos justos são para refiná-los e
purificá-los. A fornalha de Deus está em Sião (Is 31.9). Há qualquer injustiça
da parte de Deus em colocar seu ouro na fornalha para purificá-lo? Há
qualquer injustiça da parte de Deus em afligir seu povo, em fazê-lo
participante de sua santidade? (Hb 12.10). O que mais a fidelidade de Deus
proclama, senão tomar tal curso para com seus filhos para fazê-los melhor?
“Com fidelidade me afligiste” (SI 119.75).
c. As aflições dos justos revelam a misericórdia de Deus
Há qualquer injustiça da parte de Deus em aplicar uma punição menor
para prevenir uma maior? Os filhos de Deus não são merecedores do
inferno. Há qualquer injustiça da parte de Deus em usar a vara, onde
mereciam o escorpião? O pai é injusto quando somente corrige seu filho
que merecia ser deserdado? Deus lida tão favoravelmente com seus filhos
que põe somente absinto no cálice deles, quando poderia pôr fogo e
enxofre, logo deveriam agradecer a misericórdia de Deus, em vez de
reclamar de sua justiça.
5. Deus é justo ao salvar uns e punir outros?
Há qualquer injustiça da parte de Deus em salvar uns e desprezar
outros, sendo que todos são igualmente culpados por natureza? Por que
não tida com todos da mesma maneira?
“Há injustiça da parte de Deus? De modo nenhum” (Rm 9.14).
“Perverteria o Todo-poderoso ajustiça?” (Jó 8.3).
a. Deus é soberanamente livre em suas decisões
Deus não tem de dar justificativas de suas atitudes às suas criaturas.
Assim como não se pode dizer para um rei: “Que fazes?” (Ec 8.4), muito
menos para Deus. Isto é o suficiente, Deus é o Senhor supremo, tem um
poder soberano sobre suas criaturas, portanto não pode fazer injustiça.
“Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer
um vaso para honra e outro, para desonra?” (Rm 9.21). Deus tem liberdade
em si para salvar um e não outro, e sua justiça não é culpada ou manchada.
A ju stiça de Deus 115
Se dois homens lhe deverem dinheiro, você pode, sem qualquer injustiça,
cobrar de um e esquecer a dívida do outro. Se dois malfeitores são
condenados à morte, o rei pode perdoar um e não o outro. Ele não é injusto
se deixar um sofrer, porque quebrou a lei, e o outro salvar, usando sua
prerrogativa real de perdoar.
b. O ímpio é totalmente culpado por suas decisões
Embora uns sejam salvos e outros pereçam, não há injustiça da parte
de Deus, pois quem se perde é culpado por isso. “A tua ruína, ó Israel, vem
de ti, e só de mim, o teu socorro” (Os 13.9). Deus oferece graça e os
pecadores a rejeitam. Deus é obrigado a dar graça? Se um cirurgião tenta
curar a ferida de alguém e esse alguém não é curado, o cirurgião é obrigado
a curá-lo? “Clamei, e vós recusastes” (Pv 1.24). “Israel não me atendeu”
(SI 81.11). Deus não é obrigado a impor suas misericórdias sobre os homens.
Se recusarem livremente a oferta da graça, seus pecados devem ser
considerados como a causa de sua perdição, não a justiça de Deus.
Segunda aplicação: veja a diferença entre Deus e grande parte do
mundo, que é injusta.
1. Em seus tribunais de magistratura pervertem a justiça. “Decretam
leis injustas” (Is 10.1). A palavra hebraica que se refere à toga de um juiz
significa prevaricação, engano ou injustiça, que geralmente é mais verdade
em relação ao juiz que à toga. De que vale uma boa lei sem um bom juiz?
A injustiça se apóia em duas coisas: ou não punir onde há falta, ou punir
onde não há falta.
2. Os homens são injustos em seus negócios. Isto é, eles usam pesos
falsos. “Tem nas mãos balança enganosa” (Os 12.7). É triste ter a Bíblia em
uma das mãos e pesos falsos em outra. Os homens são injustos em seus
negócios na adulteração de produtos, quando grãos ruins são misturados
com grãos bons e vendidos como grãos puros: “O teu licor se misturou com
água” (Is 1.22). Não posso crer em quem não é bom da primeira vez, que o
será na segunda. Quem é filho de Deus não pode ser injusto. Embora Deus
não deseje que sejamos onipotentes como ele é, deseja que sejamos tão
justos quanto ele.
Terceira aplicação : imite a Deus na justiça. Que o grande mandamento
de Cristo seja observado: “Tudo quanto, pois, quereis que os homens vos
façam, assim fazei-o vós também a eles” (Mt 7.12). Você não quer ser
enganado por eles, então não os engane. Antes, sofra o engano, mas não
engane. “Por que não sofreis, antes, o dano?” (ICo 6.7). Seja exemplar na
justiça. Que a justiça seja um omamento em você: “Eu me cobria de justiça,
e esta me servia de veste” (Jó 29.14). Ela era veste em sua beleza graciosa.
E Jó diz que se vestia dela e que estava vestido com justiça. Um juiz veste
116 A fé cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A m isericórdia de Deus 117
sua toga e à noite a retira, mas Jó vestiu ajustiça de tal maneira que não a
tirou até à morte, ficou vestido para sempre. Não devemos tirar essa veste
de justiça até que deitemos nosso tabemáculo. Se você tem algo de Deus
em você, será como ele. Com cada ação injusta você se nega a ser um
cristão, mancha a glória de sua profissão de fé. Gentios se levantarão em
juízo contra você. Assim como o Sol pode alterar seu curso, também Deus
poderá deixar de fazer justiça.
Quarta aplicação: se Deus é justo, haverá um dia de julgamento. Agora
as coisas estão sem rumo, o pecado é crescente, os santos são enganados,
geralmente são lançados em uma causa justa, não encontramjustiça aqui, a
justiça se transforma em amargura, mas o dia se aproxima quando Deus
endireitará todas as coisas. Deus fará justiça a todo homem, coroará o justo
e condenará o ímpio: “Porquanto estabeleceu um dia” (At 17.31). Se Deus
é um Deus justo, se vingará. Deus deu uma lei aos homens pela qual viveriam
e eles a quebraram. Tem de haver um dia para a execução dos ofensores.
Uma lei não executada é como uma adaga de madeira, que só serve para
ser vista. No último dia, a espada de Deus será desembainhada contra os
ofensores, então sua justiça será revelada diante de todo o mundo: “Há de
julgar o mundo com justiça” (At 17.31). “Não fará justiça o Juiz de toda a
terra?” (Gn 18.25). O ímpio beberá um mar de ira, mas não experimentará
um gole de injustiça. Naquele dia toda boca se calará e a justiça de Deus
será totalmente executada apesar de todas as reclamações e clamores de
homens injustos.
Quinta aplicação: consolo ao verdadeiro penitente. Como Deus é um
Deus justo, perdoará. Se o homem reconhece seu pecado, Deus o poupa.
“Se confessarmos os nossos pecados ele é fiel e justo para nos perdoar os
pecados” (U o 1.9). Ele não é só misericordioso, mas justo. Por que ele é
justo? Porque prometeu perdoar (Pv 28.13). Se o seu coração se separou do
pecado, você pode clamar pela misericórdia e justiça de Deus para o perdão
de seu pecado. Mostre-lhe sua mão e o selo e não poderá rejeitá-lo.
I. A M ISERICÓ RDIA DE D f.U S
O segu in te a trib u to é a bondade ou a m ise ricó rd ia de D eus.
A misericórdia é o resultado e o efeito da bondade de Deus (SI 33.5).
Então, este é o próximo atributo, a bondade ou a misericórdia de Deus.
O mais estudado dos ímpios pensou que deu ao deus Júpiter dois caracteres
dourados quando o intitularam: bom e grande. Tudo isto se encontra em
D eus: bondade e g randeza , m a jes tad e e m ise ricó rd ia . Deus é
essencialmente bom em si mesmo e relativamente bom para conosco.
Esses dois atributos são colocados juntos no Salmo 119.68: “tu és bom e
fazes o bem ” . Essa bondade relativa não é nada mais do que sua
misericórdia, que é uma propensão inata em Deus para piedade e socorro
àqueles que estão na miséria.
1. Particularidades da misericórdia de Deus
Com respeito à misericórdia de Deus, devo apresentar estas doze
particularidades:
a. As Escrituras apresentam a misericórdia de Deus
E o grande desígnio de a Escritura apresentar Deus como misericordioso.
É um marco para atrair pecadores a ele: “ S e n h o r , S e n h o r Deus compassivo,
clemente e longânimo e grande em misericórdia” (Êx 34.6). Nesse texto das
Escrituras, encontramos seis expressões que apresentam a misericórdia de
Deus. E uma que apresenta a sua justiça: “que não inocenta o culpado”
(Êx 34.7). “Pois a tua misericórdia se eleva até aos céus”; “e a tua fidelidade,
para além das nuvens” (SI 57.10 e SI 108.4). Deus é representado por meio
de um rei cujo trono é rodeado por um arco-íris (Ap 4.3). O arco-íris era um
emblema de misericórdia (Gn 9.9-17). A Escritura representa Deus em
vestimentas brancas de misericórdia com mais freqüência do que em
vestimentas sujas de sangue. Descreve Deus com seu cetro dourado com
mais freqüência do que com sua vara de ferro.
b. Deus se compraz em aplicar sua misericórdia
Deus é mais inclinado à misericórdia do que à ira. A misericórdia é
seu atributo querido, no qual mais tem prazer (Mq 7.18). A misericórdia
agrada a Deus. Crisóstomo diz que é agradável para uma mãe amamentar
seu filho em seus seios; da mesma maneira para Deus é agradável seus
filhos sorverem da fonte de sua misericórdia. “Não há indignação em mim”
(ls 27.4), isto é, ele não tem prazer nisso. Os atos de severidade são forçados
para Deus, ele não aflige de bom grado (Lm 3.33). A abelha dá o mel
naturalmente, só pica quando é provocada. Assim, também, Deus somente
pune quando não pode mais agüentar: “O S e n h o r já não podia por mais
tempo sofrer a maldade das vossas obras” (Jr 44.22). A misericórdia é a
mão direita de Deus, que é a mais usada; infligir punição é chamado sua
obra estranha (Is 28.21). Ele não está acostumado a punir. Quando Deus
acabava com o orgulho de uma nação, era dito que alugara uma navalha,
como se não tivesse a própria navalha: “Naquele dia, rapar-te-á o Senhor
com uma navalha alugada do outro lado do rio” (Is 7.20). “O S e n h o r é
misericordioso e compassivo; longânimo e assaz benigno” (Sl 103.8),
“abundante em benignidade” (Sl 86.5).
118 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A misericórdia de Deus 119
c. A misericórdia de Deus pode ser vista em todas as circunstâncias
Não há nada além da misericórdia nele. Quando a igreja estava cativa,
clamou: “As m isericórdias do S e n h o r são a causa de não sermos
consumidos” (Lm 3.22). Geógrafos escrevem a respeito de Siracusa, na
Sicília, que é situada onde o Sol nunca se perde de vista. Em todas as nossas
aflições podemos ver algum brilho do sol da misericórdia. Problemas
externos e internos não virem até nós conjuntamente é misericórdia.
d. A misericórdia de Deus apazigua todos os seus outros atributos
Ela adoça todos os demais atributos dele. A santidade de Deus e a sua
justiça sem a misericórdia seriam terríveis. Quando a água esteve amarga e
Israel não pôde beber, Moisés lançou um galho de árvore nas águas, então
foram adoçadas. Como seriam amargos e terríveis os outros atributos de
Deus se a misericórdia não os adoçasse. A misericórdia faz que o poder
de Deus trabalhe para nos ajudar; faz que sua justiça se torne nossa amiga;
vinga nossas lutas.
e. A misericórdia de Deus é uma pérola valiosa em sua coroa
A misericórdia de Deus é uma das pérolas mais orientais de sua coroa,
faz sua deidade parecer amigável e amável. Quando Moisés disse para Deus
“rogo-te que me mostre a tua glória”, o Senhor lhe respondeu: “Farei passar
toda a minha bondade diante de ti e te proclamarei o nome do S e n h o r ; terei
misericórdia” (Ex 33.19). A misericórdia de Deus é sua glória. Sua santidade
faz dele ilustre; sua misericórdia faz que seja favorável.
f. Os ímpios também experimentam a misericórdia de Deus
Até mesmo aquele que não aprova a misericórdia de Deus experimenta
dela. Assim como os que lutam contra a misericórdia a experimentam.
O ímpio recebe algumas migalhas da mesa da misericórdia: “O S en h o r é
bom para todos” (S l 145.9). Gotas adocicadas se encontram tanto no
espinheiro quanto na rosa. O alcance da misericórdia de Deus é imenso.
A cabeça do faraó estava coroada, embora seu coração estivesse endurecido.
g. A misericórdia de Deus é derramada abundantemente no pacto
A misericórdia que vem a nós em um pacto é a mais doce que há. Pela
misericórdia Deus deu a chuva a Israel, o pão em abundância, a paz e a
vitória sobre seus inimigos (Lv 26.4-6), mas foi a misericórdia ainda maior
que fez Deus ser o Deus deles (Lv 26.12). Ter saúde é uma misericórdia,
mas ter Cristo e a salvação é misericórdia ainda maior. É como o diamante
em um anel, que dá ao anel um brilho ainda maior.
Um ato de misericórdia faz que Deus realize outro. O ser humano diz
assim: “já mostrei bondade, portanto não me perturbe mais”. Porém, porque
Deus mostra a misericórdia, está sempre pronto a mostrar mais misericórdia.
Sua misericórdia na eleição faz que justifique, adote, glorifique; um ato de
misericórdia faz que Deus realize outros. O amor de um pai para com seu
filho faz que ele sempre dê mais amor.
/. A misericórdia humana se fundamenta na divina
Toda misericórdia na criatura é derivada de Deus e é somente uma
gota desse oceano. A misericórdia e a piedade que uma mãe tem para com
seu filho vêm de Deus. Aquele que põe leite no peito da mãe, põe compaixão
em seu coração. Deus é chamado “Pai de misericórdias” (2Co 1.3), porque
ele produz todas as misericórdias no mundo. Deus colocou bondade na
criatura, então, quanta bondade há nele que é o Pai de misericórdias.
j. A misericórdia de Deus deve produzir humildade noseleitos
Assim como a misericórdia de Deus faz os santos felizes, da mesma
maneira deveria fazê-los humildes. A misericórdia não é o fruto de nossa
bondade, mas o fruto da bondade de Deus. A misericórdia é dádiva que
Deus concede. Aquele que vive sobre a dádiva da misericórdia de Deus
não tem por que ser orgulhoso. “Se for justo, não ouso levantar a cabeça”
(Jó 10.15): toda minha retidão é conseqüência da misericórdia de Deus,
portanto serei humilde e não levantarei minha cabeça.
/. A misericórdia adia a execução imediata da justiça de Deus
Pecadores continuam ente provocam Deus, que diz: “a minha
indignação será mui grande” (Ez 38.18). Qual a razão de Deus não prender
e condenar os pecadores agora? Não que Deus não possa fazê-lo, pois está
arm ado com o n ip o tên c ia , mas é po r causa de sua m ise ricó rd ia .
A misericórdia produz uma amortização para o pecador e pára o rápido
processo de justiça . Deus, por sua bondade, conduz pecadores ao
arrependimento.
m. A misericórdia de Deus é terrível testemunha contra o ímpio
É terrível ter a misericórdia como testemunha contra qualquer pessoa.
Foi algo triste com Hamã quando a rainha o acusou (Et 7.6). Assim será
quando essa rainha de misericórdia se levantar contra uma pessoa e o acusar.
Somente a misericórdia salva o pecador; como é triste, então, ter a
misericórdia como inimiga. Se a misericórdia for um acusador, quem será
120 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
h. Deus não se cansa de aplicar sua misericórdia sobre seus filhos
A misericórdia de Deus 121
nosso advogado? O pecador nunca escapa do inferno quando a misericórdia
prepara a acusação.
Até aqui, falei a vocês sobre alguns tipos de misericórdia, como a
misericórdia preventiva, a previdente, a que supre, a que guia, a misericórdia
que aceita, a curativa, a revigorante, a que apoia, a misericórdia que perdoa,
a que corrige, a que conforta, a que liberta, a que coroa. Eu discursarei a
respeito de cada uma delas a seguir.
2. A natureza da misericórdia de Deus
Também quero destacar as seguintes qualificações ou propriedades
da misericórdia de Deus:
a. A misericórdia de Deus é gratuita
Determinar mérito é destruir a misericórdia. Nada pode merecer a
misericórdia, porque nosso sangue está contaminado. Nada pode forçar a
misericórdia. Podemos forçar Deus a nos punir, mas não a nos amar. “Eu
de mim mesmo os amarei” (Os 14.4). Cada gomo da corrente da salvação é
moldado e tecido com a graça gratuita. A eleição é de graça. Nos escolheu
“segundo o beneplácito de sua vontade” (E f 1.4). A justificação é gratuita:
“sendo justificados gratuitamente” (Rm 3.24). A salvação é de graça:
“segundo sua misericórdia, ele nos salvou” (Tt 3.5). Não diga “eu sou
indigno”, pois a misericórdia é gratuita. Se Deus fosse mostrar a misericórdia
somente àqueles que são dignos, não mostraria nada a ninguém.
b. A misericórdia de Deus é infinita
A misericórdia de Deus é superabundante, é infinita. “Pois tu, Senhor,
és bom e compassivo; abundante em benignidade” (SI 86.5); “rico em
misericórdia” (Ef2.4); ele tem multidão de misericórdias (SI 51.1). O jarro
da ira goteja, mas a fonte de misericórdia corre. O Sol não é tão cheio de luz,
como Deus é de misericórdia. Deus tem misericórdias pela manhã: “renovam-
se cada manhã” (Lm 3.23). Ele tem misericórdias noturnas: “à noite
comigo está o seu cântico” (SI 42.8). Deus derrama misericórdia sob o céu, a
qual experimentamos; e na vida eterna, a qual esperamos.
c. A misericórdia de Deus é eterna
“A misericórdia do S e n h o r é de eternidade a eternidade” (SI 103.17).
“Sua misericórdia dura para sempre” é uma frase repetida 26 vezes no Salmo
136. As almas dos abençoados serão banhadas nesse doce e agradável oceano
da misericórdia de Deus. A ira de Deus para com seus filhos dura somente
um pouco: “não... conserva para sempre a sua ira” (SI 103.9). Enquanto ele
for Deus, m ostrará m isericórdia. Assim como sua m isericórd ia é
superabundante, também é abundante para sempre.
122 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A p l ic a ç õ e s
Primeira aplicação: devemos olhar para Deus em nossa oração não o
imaginando em suas vestimentas de justiça, mas vestido com um arco-íris
cheio de misericórdia e clemência. Dê asas à oração. Quando Jesus Cristo
subiu ao céu, o que fez que subisse para lá com alegria foi: “eu vou para
meu Pai” . Então, o que deveria fazer nossos corações cheios de alegria é
que estamos indo ao Pai de misericórdia, que se assenta no trono de graça.
Apresente-se diante dele com confiança em sua misericórdia, à semelhança
de alguém que se aproxima de uma lareira acesa, sem duvidar, sabendo que
irá se esquentar nela.
Segunda aplicação: creia em sua misericórdia. “Confio na misericórdia
de Deus para todo o sempre” (Sl 52.8). A misericórdia de Deus é uma fonte
aberta. Apresente o balde de sua fé debaixo dela e beba dessa fonte de
salvação. Há um encorajamento maior à fé que a misericórdia de Deus?
Deus considera sua glória ao espalhar perdão, deseja que pecadores toquem
o cetro dourado de sua misericórdia e vivam. Esse desejo de mostrar a
misericórdia aparece de duas maneiras:
1. Ao convidar pecadores a vir e se apropriar de sua misericórdia.
“Aquele que tem sede venha, e quem quiser receba de graça a água da
vida” (Ap 22.17). A misericórdia deseja pecadores, até mesmo se ajoelha
para eles. Seria estranho para um príncipe im plorar a um homem
condenado a aceitar o perdão. Deus diz: “pobre pecador, sofri para amá-
lo, deixe-me salvá-lo” .
2. Ao se alegrar quando pecadores agarram a sua misericórdia. O que
melhora em Deus se nós recebemos ou não sua misericórdia? Será que uma
fonte sai ganhando quando bebem dela? Mas, a bondade de Deus é assim,
se alegra na salvação de pecadores e se regozija quando sua misericórdia é
aceita. Quando o filho pródigo voltou para a casa do pai, o pai ficou contente
e deu uma festa para expressar sua alegria, assim, Deus se alegra quando
um pobre pecador volta e se agarra em sua misericórdia. Que grande
encorajamento encontramos aqui para crer em Deus. Ele é um Deus
perdoador (Ne 9.17). A misericórdia o agrada (Mq 7.18). Nada mais nos
prejudica do que a descrença. A descrença faz a misericórdia de Deus parar
de fluir. Fecha a porta das profundezas de Deus e tapa o fluxo do sangue
que emana das feridas de Cristo, de maneira que nenhuma virtude curativa
saia dele. “E não fez ali muitos milagres, por causa da incredulidade deles”
(Mt 13.58). Por que você não acredita na misericórdia de Deus? Os seus
pecados desencorajam você? A misericórdia de Deus pode perdoar grandes
pecados, apesar de serem grandes (Sl 25.11). O mar cobre as rochas assim
como a areia. Alguns que pensavam em crucificar Cristo encontraram
A misericórdia de Deus 123
misericórdia. Quanto dista os céus da terra, a misericórdia de Deus está
acima de nossos pecados (Is 55.9). O que nos inclina a acreditar, a não ser
a misericórdia de Deus?
Terceira aplicação: cuidado para não abusar da misericórdia de Deus.
Não sugue veneno da doce flor da misericórdia de Deus. Não pense que
pelo fato de Deus ser misericordioso você vai poder continuar pecando,
isso é fazer da misericórdia o seu inimigo. Ninguém podia tocar a arca
senão os sacerdotes, que por seu ofício eram mais santos. Da mesma maneira
ninguém pode tocar a arca da misericórdia de Deus senão aqueles decididos
em serem santos. Pecar porque superabunda a misericórdia é uma lógica
satânica. Aquele que peca por causa da misericórdia é como alguém que
machuca sua cabeça porque existe um curativo. Aquele que peca por causa
da misericórdia de Deus terá um julgamento sem misericórdia. O abuso da
misericórdia se transforma em fúria. “Terei paz, ainda que ande na
perversidade do meu coração, para acrescentar à sede a bebedice. O S e n h o r
não lhe quererá perdoar; antes, fumegará a ira do S e n h o r e o seu zelo sobre
tal homem, e toda maldição escritaneste livro jazerá sobre ele; e o S e n h o r
lhe apagará o nome de debaixo do céu” (Dt 2 9 .1 9 ,2 0 ) . Nada é mais doce
que a misericórdia quando é aperfeiçoada; nada é mais terrível quando
insultada; assim como nada é mais frio que o chumbo quando tirado da
mina, e é mais quente quando aquecido. Nada é mais sem corte que o ferro,
porém nada é mais afiado quando amolado. “A misericórdia do S e n h o r é
de eternidade a eternidade, sobre os que o temem” (S I 1 0 3 .1 7 ) . A misericórdia
não é para aqueles que pecam e não temem, mas para aqueles que temem e
não pecam. A misericórdia de Deus é uma misericórdia santa, quando ela
perdoa, cura.
O que devemos fazer para nos direcionar à misericórdia de Deus?
1. Seja sensível às suas necessidades. Veja quanto você necessita de
perdão e da misericórdia salvadora. Enxergue-se como um órfao: “por ti o
órfão alcançará misericórdia” (Os 14.3). Deus confere dons de misericórdia
somente àqueles que estão necessitados. Esvazie-se de toda opinião de valor
próprio. Deus derrama o óleo dourado da misericórdia em vasos vazios.
2. Peça a Deus misericórdia. “Compadece-te de mim, ó Deus” (SI 51.1).
Não me ponha junto das misericórdias comuns que os réprobos podem ter;
não me dê somente bolotas, mas pérolas; não me dê somente a misericórdia
para me alimentar e me vestir, mas misericórdia para me salvar. Dê-me a
nata de tuas misericórdias. Senhor! Que eu tenha misericórdia e bondade:
“E te coroa de graça e misericórdia” (SI 103.4). Dê-me misericórdia como
fala o seu amor eletivo à minha alma. Ore por misericórdia! Deus tem
tesouros de misericórdia e a oração é a chave que abre esses tesouros. E, na
oração, tenha certeza de carregar Cristo em seus braços, pois toda
misericórdia vem por meio dele. “Tomou, pois, Samuel um cordeiro que
ainda mamava” (ISm 7.9); carregue o cordeiro, Cristo, em seus braços,
vá em seu nome, apresente seus méritos, diga: “Senhor! Aqui está o sangue
de Cristo, que é o preço do meu perdão. Senhor! Mostre-me misericórdia,
porque Cristo a com prou”. Embora Deus possa nos recusar quando
buscamos misericórdia em nosso próprio nome, não fará quando formos
em nome de Cristo. Alegue a expiação de Cristo e esse será um argumento
que Deus não poderá negar.
A p l i c a ç ã o
Aqueles que encontraram misericórdias são exortados a três coisas:
Ia. Ficar sobregerizim, a montanha da bênção e do louvor. Não somente
ouviram que o rei do céu é misericordioso, mas descobriram por si mesmos.
O favo de mel da misericórdia de Deus pingou sobre eles. Quando na
necessidade, a misericórdia os sustenta, quando estavam próximos da morte,
a misericórdia os levantou do leito de enfermidades; quando cobertos por
culpa, a misericórdia os perdoou. “Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e
tudo o que há em mim bendiga ao seu santo nome” (Sl 103.1). Os vasos
devem transbordar com louvores. “A mim, que, noutro tempo, era blasfemo,
e perseguidor, e insolente. M as obtive m isericó rd ia” (lT m 1.13).
Fui agraciado com misericórdia como o mar transborda e quebra os bancos
de areia, da mesma maneira a misericórdia de Deus quebrou os bancos de
areia do meu pecado e a misericórdia docemente fluiu para a minha alma.
Vocês que têm sido monumento da misericórdia de Deus deveriam ser
trombetas de louvores; vocês que experimentaram que o Senhor é gracioso,
digam aos outros que experiências vocês tiveram com a misericórdia de
Deus para encorajá-los a buscá-lo por sua misericórdia. “Vinde, ouvi,
vós que temeis a Deus, e vos contarei o que tem ele feito por minha
alma” (Sl 66.16). Quando meu coração se achou morto, o Espírito de Deus
veio sobre mim com poder e o sopro desse vento fez que as flores secas do
meu estado de graça revivessem. Ó, diga aos outros sobre a bondade de
Deus, de maneira que estimule outros a louvá-lo, e que faça os louvores
de Deus vivos mesmo quando você estiver morto!
2a. Ame a Deus. A misericórdia deveria ser a atração do amor. “Eu te
amo, ó S enhor, força minha” (Sl 18.1). A palavra hebraica para amor
significa “amor que sai das entranhas”. A justiça de Deus pode fazer que o
temamos, mas sua misericórdia faz que o amemos. Se a misericórdia não
produzir amor, o que produzirá? Nós devemos amar a Deus por ele nos dar
comida, e ainda mais por nos dar graça; pela misericórdia protetora e muito
mais pela m isericórdia salvadora. Não há coração de pedra que a
124 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A verdade de Deus 125
misericórdia de Deus não enterneça com o amor. “Eu odiaria minha própria
alma se não a encontrasse amando a Deus”, disse Agostinho.
3a. Imitar a Deus na demonstração da misericórdia. Assim como Deus
é o Pai da misericórdia, devemos mostrar que somos seus filhos ao ser
como ele. Ambrósio53 disse: “o resumo e a definição de religião é: seja rico
em obras de misericórdia, seja uma ajuda aos corpos e almas dos outros.
Espalhe sementes douradas; que a lâmpada de sua profissão de fé seja cheia
com o óleo da caridade. Seja misericordioso em dar e perdoar. Seja
misericordioso como seu Pai celestial é misericordioso” .
J . A VERDADE l)E D EUS
O atributo seguinte é a verdade de Deus. “Deus é fidelidade, e não há
nele injustiça, é justo e reto” (Dt 32.4). “Pois a tua misericórdia se eleva até
aos céus e a tua fidelidade, até às nuvens” (SI 57.10). “Mas tu, Senhor, és...
grande em misericórdia” (SI 86.15).
1. Deus é a verdade
Ele é a verdade em sentido físico. Verdadeiro em seu ser: ele tem
uma subsistência real e dá existência aos outros. Ele é a verdade no sentido
moral. Ele é a verdade sem erros e sem engano. Deus é o padrão e o
protótipo da verdade. Não há nada verdadeiro, senão o que está em Deus
ou vem de Deus.
2. A verdade de Deus
Entende-se por verdade de Deus sua veracidade em fazer suas
promessas se realizarem. “ ... nem uma só palavra falhou de todas as suas
boas promessas” (1 Rs 8.56). A promessa é o compromisso de Deus; a
verdade de Deus é o seu selo colocado em seu compromisso. Há duas coisas
a serem observadas nas promessas de Deus para nosso consolo:
a. O poder de Deus para cumprir suas promessas
O poder de Deus é o atributo pelo qual é capaz de cumprir suas
promessas. Deus prometeu subjugar nossa corrupção. “Pisará aos pés as
nossas iniqüidades” (Mq 7.19). Um crente pode dizer que sua corrupção é
tão forte que está certo de que nunca a conseguirá controlar. Abraão olhou
para o poder de Deus “convicto de que ele era poderoso para cumprir o que
prometera” (Rm 4.21). Ele creu que Deus, que fez o mundo, poderia fazer
que seios secos dessem leite. É uma prerrogativa da fé, que não há nada
difícil para Deus. Aquele que tirou água da rocha é capaz de cumprir todas
as suas promessas.
b. A verdade de Deus presente em suas promessas
A verdade de Deus é o selo colocado sobre a promessa. “Na esperança
da vida eterna que o Deus que não pode mentir prometeu antes dos tempos
eternos” (Tt 1.2). Vida eterna, aí esta a doçura da promessa: Deus, que não
pode mentir, certifica a promessa. A misericórdia faz a promessa, a verdade
a cumpre. As providências de Deus são certas, mas suas promessas são as
“santas e fiéis promessas feitas a Davi” (At 13.34). “Não é homem, para
que se arrependa” (ISm 15.29). A palavra de um príncipe nem sempre
pode ser crida, mas a promessa de Deus é inviolável.
A verdade de Deus é uma das jóias mais ricas de sua coroa e ele a
penhorou em uma promessa. “Não está assim com Deus a minha casa?
Pois estabeleceu comigo uma aliança eterna, em tudo bem definida e segura”
(2Sm 23.5). Embora minha casa não esteja bem, isto é, embora eu falhe
muito em relação à pureza perfeita requerida pelo Senhor, mesmo assim
ele fez comigo uma aliança eterna, na qual me perdoaria, me adotaria e me
glorificaria. Essa aliança é completa e segura. “Os elementos se derreterão
com o calor fervente”, mas esse pacto continua firme e inviolável, sendo
selado com a verdade de Deus.
Deus acrescentou à sua palavra seu juramento,no qual empenhou o
seu ser, sua vida e sua justiça para tornar a promessa boa (Hb 6.17). Se
Deus quebrasse sua promessa conosco, assim como quebramos nossos votos
com ele, seria muito triste, mas sua verdade está engajada em sua promessa,
portanto, é como a lei dos medos e persas, que não pode ser alterada.
Crisóstomo disse assim: “não devemos confiar em nossos sentidos tanto
quanto nas promessas” . Nossos sentidos podem falhar, mas a promessa
não, se for construída sobre a verdade de Deus. Deus não enganará a fé de
seu povo, não, ele não pode. “Deus, que não pode mentir, prometeu”
certificá-la com sua deidade. A Bíblia descreve Deus como abundante em
fidelidade, ou verdade (Êx 34.6). O que significa isso? Significa que se
Deus fez uma promessa de misericórdia para seu povo, não falhará em sua
palavra, ele será melhor que sua palavra. Ele geralmente fará mais do que
disse, nunca menos, ele é abundante em verdade.
i. A dem ora de Deus não implica que ele negará cum prir suas
promessas. O Senhor pode, às vezes, demorar em cumprir uma promessa,
mas ele não a negará. Ele pode dem orar na execução da prom essa.
A prom essa de Deus pode ficar um bom tempo como uma semente debaixo
do chão, mas finalmente brotará. Ele prometeu livrar Israel da fornalha de
ferro, mas essa promessa esteve em aberto por 400 anos antes de se realizar.
Simeão recebeu a promessa que não morreria “antes de ver o Cristo do
Senhor” (Lc 2.26). Demorou em acontecer, mas um pouco antes de sua
126 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A verdade de Deus 127
morte viu de fato o Cristo. Embora Deus atrase a promessa, não a negará.
Depois que fez a confirmação, no tempo oportuno o dinheiro será pago.
ii. A mudança na promessa não implica que Deus não a cumprirá.
Deus pode mudar sua promessa, mas não pode quebrá-la. As vezes, Deus
muda uma promessa material para uma espiritual. “O Senhor dará o que é
bom” (SI 85.12); o que não pode ser cumprido em um sentido temporal,
mas espiritual. Deus pode permitir que o cristão seja frustrado materialmente,
mas ele o recompensará espiritualmente. Se ele não aumentar o que há na
despensa e no estoque, dará aumento de fé e de paz interior. Aqui ele muda
a sua promessa, mas não a quebra, dá o que é melhor. Se um homem promete
me pagar na moeda de meu país e me paga numa moeda melhor, como
ouro, não quebra sua promessa. “Mas jamais retirarei dele a minha bondade,
nem desmentirei a minha fidelidade” (SI 89.33). Em hebraico é usada a
palavra mentir.
c. A verdade das promessas na salvação dos eleitos
i. Deus não mente ao dizer que todos serão salvos. No que consiste
a verdade de Deus que todos serão salvos, mas que alguns perecerão?
1 Timóteo 2.4.
Agostinho entende que isso não se refere a cada uma das pessoas
individualmente, mas alguns de todos os tipos serão salvos. Assim como na
arca, quando Deus salvou todas as criaturas vivas, no entanto, não foram
cada pássaro ou peixe salvos, pois muitos pereceram no dilúvio. Mas todos,
isto é, alguns de cada espécie foram salvos, então Deus salvará todos, isto
é, alguns de todas as nações.
ii. Deus não mente ao dizer que Cristo morreu por todos. Ê dito
que Cristo morreu por todos. “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do
mundo!” (Jo 1.29). Como isso se alinha com a verdade de Deus, pois alguns
são vasos de ira? (Rm 9.22).
Antes de tudo, devemos qualificar o termo mundo. O mundo é
considerado em termos limitados, em relação ao mundo dos eleitos; ou em
termos amplos, os eleitos e os rejeitados. “Cristo tira o pecado do mundo”,
isto é, o mundo dos eleitos.
E depois, devemos qualificar Cristo morrendo pelo mundo. Cristo
morreu suficientemente por todos, mas não eficazmente. Há o valor e a
virtude do sangue de Cristo. O sangue de Cristo tem valor suficiente para
redimir o mundo todo, mas sua virtude é aplicada somente para os que
crêem. O sangue de Cristo é meritório para todos, mas não é eficaz. Nem
todos são salvos, pois alguns deixam de lado a salvação, como em Atos
13.46, e difamam o sangue de Cristo, profanando-o (Hb 10.29).
A p l i c a ç õ e s
Primeira aplicação: a verdade de Deus é uma grande coluna para a nossa
fé. Se ele não fosse um Deus da verdade, como poderíamos crer nele? Nossa fé
foi concebida, mas ele é a própria verdade e nenhuma palavra que falou pode
cair por terra. “A verdade é o objeto da confiança.” A verdade de Deus é uma
pedra irremovível na qual podemos arriscar nossa salvação (ls 59.15).
“A verdade falha.” A verdade na terra falha, mas não a verdade no
céu. Assim como Deus pode cessar de ser Deus, sua verdade pode cessar de
ser verdade. Deus disse coisas como: “Bom é o S enhor para os que esperam
por ele” (Lm 3.25), e “eu vos aliviarei” (Mt 11.28). Aqui está uma âncora
segura em que se pode confiar, ele não mudará qualquer coisa que saiu de
seus lábios. A fé celestial publicada é enfocada para os crentes. Podemos
ter melhor segurança? Toda a terra se sustenta na Palavra do poder de Deus,
nossa fé não deveria se sustentar na Palavra da verdade de Deus? Onde
mais poderíamos depositar nossa fé, a não ser sobre a fidelidade de Deus?
Não há mais nada para se crer a não ser na verdade de Deus. Confiar em
nós mesmos é construir sobre areia movediça, mas a verdade de Deus é
uma coluna de ouro na qual a fé pode se apoiar. Deus não pode negar a si
mesmo: “se somos infiéis, ele permanece fiel, pois de maneira nenhuma
pode negar-se a si mesmo” (2Tm 2.13). Não crer na veracidade de Deus é
afrontá-lo. “Aquele que não dá crédito a Deus o faz mentiroso” (1 Jo 5.10).
Uma pessoa honrada não pode ser mais afrontada ou provocada do que
quando não crêem nela. Quem nega a verdade de Deus faz da sua promessa
uma falsidade. Pode haver maior afronta para com Deus?
Segunda aplicação: se Deus é um Deus da verdade, é verdadeiro para
com suas ameaças. Suas ameaças são um rolo compressor contra os
pecadores. Deus ameaçou partir “a cabeça dos seus inimigos e o cabeludo
crânio do que anda nos seus próprios delitos” (Sl 68.21). Ele ameaçou julgar
os adúlteros (Hb 13.4). Ameaçou vingança sobre o malicioso (Sl 10.14).
“Fará chover sobre os perversos brasas de fogo e enxofre, e vento abrasador
será parte do seu cálice” (Sl 11.6). Deus é tão verdadeiro em relação às suas
ameaças quanto às suas promessas. Para mostrar sua verdade, executou
suas ameaças e permitiu que seus raios de julgamento caíssem sobre os
pecadores nesta vida. Ele golpeou Herodes no ato de seu orgulho. Ele puniu
blasfemadores. Olímpio, um bispo ariano, reprovou e blasfemou contra a
Trindade santa e imediatamente um raio caiu do céu sobre ele e o consumiu.
Temamos as ameaças, que não as soframos.
Terceira aplicação: Deus é um Deus da verdade? Sejamos como Deus.
1. Devemos ser verdadeiros em nossas palavras. Quando Pitágoras54
foi questionado sobre o que poderia tomar os homens semelhantes a Deus,
128 A fé cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
ele respondeu: “quando falam a verdade, se assem elham a Deus” .
Um homem que irá para o céu tem a seguinte característica: “De coração,
fala a verdade” (SI 15.2).
1. A verdade em palavras é oposta a mentir. “Por isso, deixando a
mentira, fale cada um a verdade com o seu próximo” (Ef 4.25). Mentir é
falar algo em lugar da verdade quando se sabe que é uma falsidade.
O mentiroso se opõe muito a Deus.
Há, como diz Agostinho, dois tipos de mentira. Uma mentira oficiosa,
quando um homem diz uma mentira para seu lucro; como, quando um
negociante diz que seu produto custou tanto, quando talvez não lhe custasse
nem a metade. Aquele que mente em seu negócio, mentirá no inferno. Uma
mentira de chacota, quando alguém diz uma mentira por prazer, para alegrar
os outros. Esse irá sorrindo para o inferno.
“[O diabo] é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8.44). Ele enganou nossos
primeiros pais com uma mentira. Alguns são tão ímpios que não somente
falam uma mentira, mas juram por ela. Esses lançarão uma maldiçãosobre
si mesmos se esta inverdade não for verdade. Li a história de uma mulher,
Anne Avarie, que em 1575, quando estava numa loja, jurou que havia pagado
as mercadorias que pegou sob pena de, caso contrário, sofrer a morte.
Ela caiu no chão sem fala imediatamente e morreu.
Não é apropriado que um mentiroso viva em comunidade. A mentira
faz perder toda a sociedade e opõe os homens. Como se pode conversar
com alguém quando não se pode acreditar no que diz? A mentira deixa o
homem fora do céu. “Fora ficam os cães... e todo aquele que ama e pratica a
mentira” (Ap 22.15). Mentir é um grande pecado, pior ainda é ensinar uma
mentira. “O profeta que ensina a mentira é a cauda” (Is 9.15). Quem amplia
o erro ensina mentiras, espalha a praga, não somente prejudica a si mesmo,
mas ajuda a prejudicar os outros.
ii. A verdade em palavras é oposta ao fingimento. O coração e a
língua devem caminhar juntos, assim como a sombra no relógio solar. Falar
bem para alguém sem sinceridade não é melhor que uma mentira. “Suas
palavras eram mais brandas que o azeite; contudo, eram espadas
desembainhadas” (SI 55.21). Alguns têm a arte de bajular e de odiar.
Jerônimo, falando sobre os arianos, diz: “Eles fingiram amizade, beijaram
minhas mãos, mas planejaram ciladas contra mim”. “O homem que Iisonjeia
a seu próximo, arma-lhe uma rede aos passos” (Pv 29.5). Veneno cruel
pode ser escondido sob doce mel. Falsidade na amizade é uma mentira.
Falsificar uma amizade é pior que falsificar dinheiro.
2. Devemos ser verdadeiros em nossa profissão de fé. Que as ações
combinem com as palavras. “E vos revistais do novo homem, criado segundo
A verdade de Deus 129
Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade” (Ef 4.24). Hipocrisia na
religião é uma mentira. O hipócrita é como uma face num espelho, vê-se a
face, mas não a verdadeira. Mostra santidade, mas não há verdade nela.
Efraim fingiu ser quem não era e o que Deus diz dele? “Efraim me cercou
por meio de mentiras” (Os 11.12). Por meio de uma mentira em nossas
palavras negamos a verdade; por meio de uma mentira em nossa profissão
de fé nós a desgraçamos. Não ser para com Deus o que professamos é dizer
uma mentira, o que as Escrituras dizem ser blasfêmia. “Conheço... a
blasfêmia dos que a si mesmos se declaram judeus e não são” (Ap 2.9). Eu
vos rogo que vos empenheis para ser como Deus. Ele é um Deus da verdade.
Ele pode tanto desistir de sua deidade quanto de sua verdade. Seja como
Deus, seja verdadeiro em suas palavras, seja verdadeiro em sua profissão
de fé. Filhos de Deus são filhos que não mentem (Is 63.8). Quando Deus
vê “verdade nas partes internas” e “ lábios em que não há duplicidade”,
ele vê a própria imagem, o que atrai seu coração em nossa direção.
Semelhança produz amor.
L. A UNIDADE DE D E U S
PERGUNTA 5: Há mais do que um Deus?
RESPOSTA: Há somente um Deus, o Deus vivo e verdadeiro.
Já foi provado que Deus existe e que aqueles incrédulos da veracidade
de sua essência sofrerão a severidade de sua ira. “Ouve, Israel, o Senhor,
nosso Deus, é o único Senhor” (Dt 6.4). Ele é “o único Deus”. Deuteronômio
4.39 diz: “Por isso, hoje, saberás e refletirás no teu coração que só o S enhor
é Deus em cima no céu e embaixo na terra; nenhum outro há”. “Deus justo
e Salvador não há além de mim” (Is 45.21). Há muitos deuses nominais.
Reis representam Deus; seus cetros reais são emblemas de seu poder e de
sua autoridade. Juizes são tomados por deuses. “Eu disse: sois deuses”
(Sl 82.6), isto é, assentados no lugar de Deus para exercerem a justiça;
contudo são deuses mortos. “Todavia, como homens, morrereis” (v. 7).
“Porque, ainda que há também alguns que se chamem deuses... todavia,
para nós há um só Deus” (ICo 8.5,6).
1. Há somente uma causa primeira
Há somente uma causa primeira que tem existência em si mesma, e
da qual todos os outros seres dependem. Como nos céus, o primum mo
bile move todos os outros orbes, assim Deus dá vida e movimento a tudo
que existe. Não pode haver senão um único Deus, pois há somente uma
causa primeira.
130 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A unidade de Deus 131
2. Há somente um ser infinito
Há somente um ser infinito e, por essa razão, há somente um Deus.
Não pode haver dois infinitos. “Diz o S bnhor, porventura, não encho eu
os céus e a terra?” (Jr 23.24). Se há um infinito, preenchendo todos os
lugares ao mesmo tempo, como pode haver qualquer espaço para que
outro infinito subsista?
3. Há somente um poder onipotente
Caso houvesse dois onipotentes, então deveríamos sempre esperar
uma competição entre eles: o que um poder fizesse, o outro, sendo igual,
se colocaria em oposição e, então, todas as coisas estariam em confusão.
Se um navio tivesse dois timoneiros de igual poder, um haveria de querer
sempre contradizer o outro; quando um quisesse navegar, o outro iria
querer lançar âncora; haveria confusão e o navio afundaria. A ordem e a
harmonia no mundo, ou o governo constante e uniforme de todas as coisas,
são um argumento claro de que há somente um Onipotente, um Deus que
governa tudo. “Eu sou o primeiro e eu sou o último, e além de mim não
há Deus” (Is 44.6).
A p l i c a ç õ e s
Primeira aplicação'. 1. Se há somente um Deus, então isso exclui
todos os outros deuses. Alguns alegaram que havia dois deuses, como os
valentinianos; outros disseram que havia muitos deuses, como os politeístas.
Os persas cultuavam o Sol; os egípcios, o leão e o elefante; os gregos
prestavam culto a Júpiter. “Errais, não conhecendo as Escrituras” (Mt 22.29).
A fé desses homens é uma fábula. “Deus lhes manda a operação do erro,
para darem crédito à mentira, a fim de serem julgados todos quantos não
deram crédito à verdade” (2Ts 2.11,12).
2. Se há somente um Deus, então pode haver somente uma verdadeira
religião no mundo. “Um só Senhor, uma só fé” (Ef 4.5). Se houvesse muitos
deuses, então haveria muitas religiões, cada Deus sendo adorado à sua
maneira; porém, se há somente um Deus, há somente uma religião; um só
Senhor, uma só fé. Muitos dizem que podem ser salvos em qualquer religião.
Porém, é absurdo imaginar que Deus, que é Um em essência, iria indicar
várias religiões pelas quais seria cultuado. E perigoso se estabelecer numa
falsa religião, tanto quanto se estabelecer em um falso deus. Há muitas
maneiras de ir para o inferno; os homens podem ir para lá por qualquer
caminho de sua imaginação, porém, há somente um caminho para o céu, a
saber, fé e santidade. Não há outro modo de ser salvo a não ser esse. Como há
somente um Deus, há somente uma religião verdadeira.
3. Se há somente um Deus, então há somente um a quem é preciso
agradar acima de todos, e esse é Deus. Se houvesse diversos deuses, seria
difícil agradá-los. Um ordenaria uma coisa, outro ordenaria o contrário, e
agradar a dois mestres opostos é impossível. Há somente um Deus.
Por conseguinte, temos somente um a quem agradar. Como em um reino há
somente um rei, todos buscam se colocar sob suas boas graças (Pv 19.6),
assim há somente um verdadeiro Deus e nossa tarefa principal é agradá-lo.
Assegure-se de agradar a Deus, não importa a quem mais você desagrade.
Essa foi a sabedoria de Enoque. Ele obteve esse testemunho antes de ser
trasladado, que havia “agradado a Deus” (Hb 11.5).
O que implica esse agradar a Deus? Podemos responder que:
i. Agradamos a Deus quando acatamos sua vontade. A comida e a
bebida de Cristo foram fazer a vontade do Pai (Jo 4.34) e, assim, ele o
agradou (Mt 3.17). Uma voz veio do céu, dizendo: “Este é o meu Filho
amado, em quem me com prazo” . E vontade de Deus que sejamos
santificados (1 Ts 4.3). Quando nos ornamos de santidade, as nossas vidas
são como Bíblias ambulantes. Isso está de acordo com a vontade de Deus
e o agrada.
ii. Agradamos a Deus quando fazemos a obra que ele nos designa.
“Consumando a obra que me confiaste para fazer”, a saber, “minha obra
mediadora” (Jo 17.4). Muitos terminam sua vida sem terminar sua obra.
O trabalhoque Deus talhou para nós é observar as duas tábuas da lei.
Na primeira, estão nossas obrigações para com Deus; na segunda, nossas
obrigações para com o próximo. Os que fazem da moralidade a parte prin
cipal e única da religião colocam a segunda tábua diante da primeira; mais
ainda, jogam fora a primeira tábua. Se a prudência, a justiça e a temperança
fossem suficientes para salvar, quem precisaria da primeira tábua? Assim
nossa adoração a Deus será, aos poucos, deixada de lado. Porém, aquelas
duas tábuas, as quais Deus juntou, homem nenhum pode separar.
iii. Agradamos a Deus quando dedicamos nossos corações a lhe dar o
melhor de tudo. Abel deu a Deus a gordura da oferta (Gn 4.4.). Domiciano55
não queria sua imagem esculpida em madeira ou em ferro, mas em ouro.
Agradamos a Deus quando o servimos com amor, com fervor e com alegria.
Estes são serviços de ouro. Porém, há somente um Deus e, portanto, há
somente um a quem temos de primeiramente agradar, ou seja, Deus.
iv. Se há somente um Deus, então não devemos orar a nenhum outro,
senão a esse único Deus. Os papistas oram aos santos e aos anjos.
Primeiramente, eles oram aos santos. Um escritor católico diz: “quando
oramos aos santos que já morreram, eles ficam sensibilizados, com
compaixão e intercedem por nós diante Deus, da mesma maneira que os
132 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A unidade de Deus 133
discípulos fizeram pela mulher cananita: ‘Despede-a, pois vem clamando
atrás de nós’ “ (Mt 15.23). Os santos que já estão no céu não conhecem
nossas necessidades; e mesmo que conhecessem, não temos autorização
para orar a eles. “Abraão não nos conhece” (Is 63.16). A oração é uma parte
do culto divino, o qual deve ser prestado somente a Deus.
Em segundo lugar, eles oram aos anjos. A adoração aos anjos é proibida
(Cl 2.18,19). No texto de Romanos 10.14 está claro que não devemos orar
aos anjos: “Como, porém, invocarão aquele em quem não creram?” Não
devemos orar a ninguém, somente em quem cremos; então, uma vez que
não cremos em nenhum anjo, não devemos orar a eles. Há somente um
Deus, e é pecado invocar alguém além dele.
v. Se há somente um Deus, que é “sobre todos” (Ef 4.6), então ele
deve ser amado sobre tudo. Devemos amá-lo com um amor de apreciação;
colocar sobre ele nossa mais alta estima, pois ele é a única fonte de existência
e de contentamento. Devemos amá-lo com um amor de desvanecimento.
Tomás de Aquino56 disse que os “esforços do amante para agradar ao amado
é amor”. Nosso amor pelas outras coisas deve ser menos intenso, de modo
que algumas gotas de amor podem correr em direção à criatura, mas o
caudal deve correr em direção a Deus. A criatura pode ter o leite de nosso
amor, mas devemos guardar a nata para Deus. Aquele que é sobre todas as
coisas deve ser amado sobre todas as coisas. “Quem mais tenho eu no céu?
Não há outro em quem eu me compraza na terra” (SI 73.25).
Segunda aplicação: sobre a advertência. Se há somente um Deus,
então vamos tomar cuidado para não estabelecer mais deuses. “Muitas serão
as penas dos que trocam o Senhor por outros deuses; não oferecerei as suas
libações de sangue, e os meus lábios não pronunciarão o seu nome” (SI 16.4).
Deus é um Deus ciumento e não suportará que tenhamos outros deuses.
É fácil relacionar a idolatria com a criatura.
1. Alguns fazem do prazer um deus. “Mais amigos dos prazeres que
amigos de Deus” (2Tm 3.4). Fazemos um deus de qualquer coisa que
amemos mais que a Deus.
2. Outros fazem do dinheiro o seu deus. O homem cobiçoso adora a
imagem de ouro, portanto é chamado de idólatra (Ef 5.5.). Aquilo em que
um homem confia é seu deus; ele faz da cunha de ouro sua esperança; faz
do dinheiro seu criador, seu redentor e seu consolador. Seu dinheiro é seu
criador: se ele tem dinheiro, pensa que foi criado por ele. O dinheiro é
seu redentor: se estiver em perigo, confia que seu dinheiro vai salvá-lo.
E seu consolador: a qualquer tempo em que estiver triste, a harpa dourada
expulsa o espírito maligno; portanto, o dinheiro é seu deus. Deus criou o
homem do pó da terra e o homem fez do pó da terra um deus.
3. Outros fazem de seus filhos deuses, colocando-os no lugar de Deus,
fazendo que os levem. Se você se apóia pesadamente sobre um vidro, ele se
quebra; do mesmo modo eles quebram seus filhos por se apoiarem
pesadamente sobre eles.
4. Outros fazem um deus do próprio ventre. “O deus deles é o ven
tre” (Fp 3.19). Clemente de Alexandria escreve sobre um peixe que tem
seu coração no ventre: um emblema dos epicureus, cujo coração está no
ventre, que não se preocupam com nada além de satisfazer seu apetite
sensual. Adoram os confortos domésticos: seu ventre é seu deus e a isso
eles deitam ofertas de bebidas. Os homens criam muitos deuses. O apóstolo
nomeia a trindade do homem iníquo: “a concupiscência da carne, a
concupiscência dos olhos e a soberba da vida” (1 Jo 2.16). A concupiscência
da carne é o prazer; a concupiscência dos olhos, o dinheiro; e a soberba
da vida, a fama. Cuidado com isso. Qualquer coisa que você endeusar e
pôr em lugar de Deus lhe trará um espinheiro e dele virá fogo que lhe
devorará (Jz 9.15).
Terceira aplicação: sobre a reprovação. Se o Senhor Jeová é o único
Deus, ele reprova aqueles que renunciam ao verdadeiro Deus, ou seja,
aqueles que buscam os espíritos dos familiares mortos, algo muito praticado
entre aqueles que se chamam de cristãos. É um pecado condenado pela lei
de Deus. “Não se achará entre ti... quem consulte os mortos” (Dt 18.10,11).
Como isso é comum. Se as pessoas perdem algum de seus bens, consultam
feiticeiros para reavê-lo. Isso não é nada mais que consultar o diabo!
Renunciam a Deus e ao batismo. O quê? Por havermos perdido nossos
bens também vamos perder nossas almas? “Assim diz o Senhor: Porventura,
não há Deus em Israel, para que mandes consultar Baal-Zebube, deus de
Ecrom?” (2Rs 1.6). Assim, não é por pensar que não há Deus no céu que
você pede conselhos ao diabo? Se alguém for culpado nesse pecado,
arrependa-se profundamente por ter renunciado ao verdadeiro Deus.
E melhor perder todos os bens do que permitir, novamente, a ajuda do diabo.
Quarta aplicação: sobre a exortação.
1. Como há somente um Deus, como Deus é um, deixemos que os que
o servem sejam um. Esta foi a sincera oração de Cristo: “a fim de que todos
sejam um” (Jo 17.21).
i. Os cristãos deveriam ser um no discernimento. O apóstolo exorta a
que todos tenham uma mesma disposição mental (1 Co 1.10). Como é triste
ver a religião usando um casaco de várias cores, ver cristãos de tantas
opiniões diferentes e agindo de tantas maneiras diferentes. É Satanás quem
mostra esse joio de divisão (Mt 13.39). Primeiro, ele separa os homens de
Deus e, depois, separa-os uns dos outros.
134 A f é cristã - Estados baseados no Breve Catecismo de Westminster
A Trindade 135
ii. Os cristãos deveriam ser um no amor. Eles deveriam ter um só coração.
“Da multidão dos que creram era um o coração e a alma” (At 4.32). Como
na música, embora haja várias cordas na harpa todas tocam uma doce har
monia; assim, embora haja muitos cristãos, todos deveriam estar em doce
harmonia de amor entre si. Há somente um Deus e aqueles que o servem
devem ser um. Não há nada que traduza a fé cristã de maneira mais amável
ou que atraia maior número de convertidos do que ver os professos da fé
unidos entre si com os laços do amor. “Como é bom e agradável viverem
unidos os irmãos!” (SI 133.1). E como o doce orvalho do Hermom e a
perfumada unção sobre a cabeça de Arão. Se Deus é um, permitamos que
todos que o professam tenham uma só mente e um só coração e, então,
cumpram a oração de Cristo: “a fim de que todos sejam um”.
2. Se há somente um Deus, vamos trabalhar para tornar claro o
emblema de que esse Deus é nosso. “Este é Deus, o nosso Deus” (SI 48.14).
Qual consolo há em ouvir que há um Deus e que ele é único, a menos que
ele seja nosso? O que é a divindade sem usufruto? Vamos trabalhar paratomar claro o seu emblema sobre nós. Implore ao Espírito Santo. O Espírito
trabalha pela fé. Pela fé somos um com Cristo, e por meio de Cristo temos
Deus como nosso Deus e, assim, toda a sua gloriosa plenitude está sobre
nós por um ato de doação.
Quinta aplicação', sobre a gratidão. Só o fato de conhecer o Deus
verdadeiro já é um grande motivo para sermos gratos. Outros não o
conhecem. Alguns seguem a Maomé. Muitos adoram o demônio; acendem-
lhe velas, para que ele não os machuque. Os que não conhecem o verdadeiro
Deus andarão no inferno aos trambolhões, na escuridão. Sejamos gratos
por ter nascido em um lugar onde a luz do evangelho brilha. Conhecer o
verdadeiro Deus é mais que possuir minas de ouro, ou montanhas de
diamantes, ou ilhas de especiarias; especialmente se Deus, de maneira
salvadora, revelou-se a nós; se ele já nos deu olhos para ver a luz; se
conhecemos Deus a ponto de sermos conhecidos por ele, para amá-lo e crer
nele (Mt 11.25). Jamais poderemos ser suficientemente gratos a Deus, que
não se revelou aos sábios e aos prudentes do mundo, mas se revelou a nós.
M. A T r in d a d e
PERGUNTA 6: Quantas pessoas existem na Trindade?
RESPOSTA: Três pessoas, porém, um só Deus.
“Pois há três que dão testemunho [no céu: o Pai, a Palavra e o Espírito
Santo; e estes três são um]” (U o 5.7).
Deus é somente um, ainda que haja três pessoas distintas existindo
numa única divindade. Esse é um mistério sagrado, que a luz dentro do
homem jamais poderá descobrir. Assim como as duas naturezas em Cristo,
que é uma única pessoa, causam espanto, também as três pessoas da Trindade
que são somente um Deus. Isto é muito profundo: Deus Pai, Deus Filho e
Deus Espírito Santo - não três deuses, mas somente um Deus. As três pessoas
na bendita Trindade são distintas, mas não divididas: três substâncias, mas
somente uma essência. E um enigma divino, no qual um forma três e três
formam um. Nossos pensamentos limitados não podem compreender a
Trindade mais que uma casca de noz pode conter toda a água do mar. Deixe-
me demonstrar isso por meio de uma analogia: na massa do Sol há a
substância do Sol, há os raios solares e há o calor. Os raios são gerados pela
massa solar e o calor provém tanto do Sol como dos raios. Porém esses
três, embora diferentes, não se dividem: todos os três formam um único
Sol. Assim acontece na bendita Trindade: o Filho é gerado pelo Pai, o Espírito
Santo provém de ambos: embora sejam três pessoas distintas, são um único
Deus. Primeiro, vamos falar sobre a unidade na Trindade, depois, da
Trindade na unidade.
1. A unidade na Trindade
Sobre a unidade na Trindade podemos dizer que a unidade das pessoas
na divindade consiste de duas coisas:
a. A igualdade da essência
Na Trindade há unidade na essência. As três pessoas são da mesma
natureza e substância divinas. Assim, “não há hierarquia na divindade”, ou
seja, uma pessoa não é mais Deus que a outra.
b. A unidade da inerência
A unidade das pessoas na divindade consiste na sua mútua inerência, ou
sua existência no conjunto. As três pessoas são tão unidade que uma pessoa é
na outra e com a outra. “Como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti” (Jo 17.21).
2. A Trindade na unidade
a. A primeira pessoa na Trindade é Deus, o Pai
Ele é chamado de primeira pessoa, quanto à ordem, não quanto à
dignidade: pois Deus Pai não tem uma perfeição fundamental que as outras
pessoas não tenham; ele não é mais sábio, mais santo, mais poderoso que
as outras pessoas. E uma prioridade, não uma superioridade.
b. A segunda pessoa na Trindade é Jesus Cristo, o Filho
Jesus é gerado pelo Pai antes dos tempos eternos. “Desde a eternidade
fui estabelecido, desde o princípio, antes do começo da terra. Antes de haver
136 A f é crista - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A Trindade 137
abismos, eu nasci, e antes ainda de haver fontes carregadas de águas. Antes
que os montes fossem firmados, antes de haver outeiros, eu nasci” (Pv 8.23-
25).57 Esse texto das Escrituras apresenta a geração eterna do Filho de Deus.
A segunda pessoa da Trindade, que é Jeová, tomou-se nosso Jesus. As
Escrituras o chamam de Renovo de Davi (Jr 23.5), e posso chamá-lo de escol
da nossa natureza. “E, por meio dele, todo o que crê éjustificado” (At 13.39).
c. A terceira pessoa na Trindade é o Espirito Santo
O Espirito Santo procede do Pai e do Filho, cujo trabalho é iluminar a
mente e inflamar impulsos santificados. A essência do Espírito está no céu
e em todo lugar, mas sua influência opera no coração dos que crêem. Esse é
o bendito Espírito, que nos dá a santa unção (1 Jo 2.20). Embora Cristo nos
tome merecedores da graça, é o Espírito Santo que trabalha em nós. Embora
Cristo tenha feito a aquisição, é o Espírito Santo que dá a garantia, selando-
nos para o dia da redenção.
Dessa maneira, falei sobre as três pessoas. Em Mateus 3.16,17, pode-
se observar a prova da Trindade: “Batizado Jesus, saiu logo da água, e eis
que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba,
vindo sobre ele. E eis uma voz dos céus, que dizia: Este é o meu Filho
amado, em quem me comprazo”. Aqui, temos os três nomes dados às três
pessoas. O que falou com uma voz vinda do céu era Deus Pai; o que foi
batizado no Jordão era Deus Filho; o que desceu na forma de pomba foi
Deus Espírito Santo. Assim, demonstrei a unidade da essência e a Trindade
das pessoas.
A p l i c a ç õ e s
Primeira aplicação: refutações.
1. Os judeus e os turcos refutam a idéia da Trindade, pois crêem
somente na primeira pessoa da divindade. Jogando fora a distinção das
pessoas na Trindade, destrói-se a redenção do homem. Como Deus Pai,
uma vez ofendido pelo pecado do homem, será apaziguado sem um
mediador? Esse mediador é Cristo, que faz nossa reconciliação. Cristo,
uma vez tendo morrido e espargido seu sangue, como aplicaria esse sangue,
a não ser pelo Espírito Santo? Portanto, se não houver três pessoas na
divindade, a salvação do homem não pode ser completada; se não houver
uma segunda pessoa na Trindade, não há redentor; se não houver uma
terceira pessoa, não há consolador e, assim, é retirada a tábua de salvação
que nos leva ao céu.
2. A idéia da Trindade refuta a opinião execrável dos socinianos,58 que
negam a divindade do Senhor Jesus, fazendo dele somente uma criatura de
um grau mais alto. Como os católicos escondem o segundo mandamento, o
mesmo fazem os socinianos com a segunda pessoa da Trindade. Se se opor
às partes de Cristo é pecado, o que será se opor ao próprio Cristo?
Jesus Cristo é co-igual a Deus Pai. Ele não julgava como usurpação
ser igual a Deus (Fp 2.6).
Jesus é coeterno com Deus Pai: “Desde a eternidade fui estabelecida”
(Pv 8.23). Se não for assim, houve, então, um tempo em que Deus não teria
um Filho e, portanto, ele não seria Pai. Mas, não somente isso, houve um
tempo no qual Deus estava despido de sua glória, porque Cristo “é o
resplendor da glória... do seu Ser” (Hb 1.3).
Ele é co-fundamental com Deus Pai. A divindade se sustenta em Cristo:
“Porquanto, nele, habita, corporalmente, toda a plenitude da Divindade”
(Cl 2.9). Ou seja, não somente Cristo estava com Deus antes do princípio,
mas ele era Deus. João 1.1 e 1 Timóteo 3.16: “Foi manifestado na carne”.
O título de Senhor, tão freqüentemente dado a Cristo, no Novo Testamento,
corresponde ao título de Jeová, no Antigo Testamento (Dt 6.5; Mt 22.37).
Cristo tem coetemidade e co-substancialidade com seu Pai: “Eu e o
Pai somos um” (Jo 10.30). Seria blasfêmia um anjo falar de tal modo.
Além de provarmos a divindade de Cristo, considere também:
i. Os gloriosos e incomunicáveis atributos de Deus Pai são atribuídos
a Cristo - Deus Pai é onipotente? Também o é Jesus Cristo. Ele é Todo-
poderoso (Ap 1.8) e criador (Cl 1.16). Deus Pai é infinitamente imenso,
preenchendo todos os lugares (Jr 23.24)? Jesus Cristo também é. Enquanto
Cristo estava sobre a terra, em presença corpórea, estava também, ao mesmo
tempo, no seio do Pai, em presençadivina (Jo 3.13).
ii. As mesmas prerrogativas régias que pertencem a Deus Pai
pertencem, também, a Cristo. Deus Pai determina absolvição? Esta é a
parte mais nobre da coroa de Cristo: “Estão perdoados os teus pecados”
(Mt 9.2). Cristo não somente perdoa o pecado como fazem os ministros59
(por meio de um poder que lhes é delegado divinamente), ele o faz por seu
próprio poder e por sua própria autoridade. É Deus o objeto adequado da
fé? Deve-se crer nele? Da mesma m aneira com seu Filho (Jo 14.1).
A adoração pertence a Deus Pai? Também pertence ao Filho. “E todos os
anjos de Deus o adorem” (Hb 1.6). Quão sacrílegos, então, foram os
socinianos, que tiraram de Cristo sua divindade, o mais fino adorno de sua
coroa. Aqueles que negam que Cristo é Deus interpretam mal as Escrituras
ou, então, pior que isso, negam que elas sejam a Palavra de Deus.
3. O ensino escriturístico da Trindade refuta os arianos,60 que negam a
divindade do Espírito Santo. A divindade eterna se sustenta no Espírito
Santo. “Ele vos guiará a toda a verdade” (Jo 16.13). Cristo não está falando
de um atributo, mas de uma pessoa.
138 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A Trindade 139
A divindade se sustenta na pessoa do Santo Espírito, e essa verdade se
evidencia nisto: o Espírito, que distribui os diversos dons, chama-se o mesmo
Senhor e o mesmo Deus (ICo 12.5,6). As Escrituras afirmam que o pior
pecado e o pecado imperdoável é aquele cometido contra a divindade que
existe no Espírito Santo (Mt 12.32). O enorme poder de Deus se manifesta
pelo Espírito Santo, uma vez que é este que modifica os corações dos
hom ens. O diabo queria que C risto provasse sua d ivindade pela
transformação de pedras em pães, mas o Espírito Santo mostrou sua
divindade ao transformar pedras em carne: “Tirarei de vós o coração de
pedra e vos darei coração de carne” (Ez 36.26).
Mais ainda, o poder e a divindade do Espírito Santo apareceram ao se
realizar a gloriosa concepção de nosso Senhor Jesus Cristo. A sombra real
do Espírito Santo fez que uma virgem concebesse (Lc 1.35). O Espírito
Santo opera milagres que transcendem a esfera da natureza, como erguer
da morte (Rm 8.11). A ele pertence a adoração divina; nossas almas e nossos
corpos são templos do Espírito Santo (1 Co 6.19,20), nos quais ele deve ser
adorado. Somos batizados no nome do Espírito Santo, portanto, devemos
crer em sua divindade ou renunciar ao batismo em seu nome. Penso que
teria sido melhor para tais homens não terem ouvido tanto a respeito da
existência do Espírito Santo (At 19.2), do que negar sua deidade. Aqueles
que, intencional e prontamente, apagam a terceira pessoa terão seus nomes
apagados do livro da vida.
Segunda aplicação: exortação.
1. Creia nesta doutrina da Trindade de pessoas em uma unidade de
essência. A Trindade é simplesmente um objeto de fé; a linha de prumo
da razão é muito curta para penetrar esse mistério; porém, onde a razão
não pode atravessar a pé, a fé pode nadar. Há algumas verdades na religião
que podem ser demonstradas pela razão (como a verdade que há um Deus),
mas a Trindade de pessoas numa unidade de essência é completamente
sobrenatural e deve ser aceita pela fé. Essa doutrina sagrada não vai de
encontro à razão, mas coloca-se acima dela. Aqueles filósofos iluminados,
que podiam encontrar as causas das coisas e discursar sobre a magnitude
e a influência das estrelas, sobre a natureza dos minerais, não puderam
jamais, nem por intermédio de suas buscas mais profundas, desvendar o
mistério da Trindade. Ela é uma revelação divina e deve ser adorada com
uma crença humilde.
Não podemos ser bons cristãos sem uma firme crença na Trindade.
Como podemos orar a Deus Pai se não no nome de Cristo e pela ajuda do
Espírito? Como crer na gloriosa Trindade? Como são abomináveis os Quakers
que, usando o nome de cristãos, menosprezam e renunciam a Jesus Cristo.
Ouvi de alguns Quakers o seguinte: “Negamos a pessoa daquele a quem
vocês chamam Cristo, e afirmamos que aqueles que esperam serem sal
vos por tal Cristo, sem obras, serão condenados nessa fé”. Poderia o próprio
diabo proferir blasfêmia pior? Eles arrancam toda a religião pela raiz e
jogam fora a pedra de alicerce, sobre a qual se ergue a esperança de
nossa salvação.
2. Se há um Deus subsistindo em três pessoas, então devemos dar a
mesma reverência a todas as pessoas da Trindade. Não há mais ou menos
na Trindade; o Pai não é mais Deus que o Filho ou que o Espírito Santo.
Há uma ordem na divindade, mas não uma gradação; uma pessoa não detém
a maioridade ou a supereminência sobre outra; portanto, devemos dar igual
adoração a todas as pessoas. “A fim de que todos honrem o Filho do modo
por que honram o Pai” (Jo 5.23). Adore a unidade na Trindade.
3. Obedeça a todas as pessoas na bendita Trindade, porque todas são
Deus. Obedeça a Deus Pai. O próprio Cristo, enquanto homem, obedeceu
a Deus Pai (Jo 4.34), e nós ainda mais devemos obedecer (Dt 27.10).
Obedeça a Deus Filho. “Beijai o Filho para que se não irrite” (SI 2.12).
Beije-o com o beijo da obediência. Os mandamentos de Cristo não são
penosos (1 Jo 5.3). Qualquer coisa que ele nos ordene é para nosso interesse
e benefício. Então, beije o Filho. Por que os anciãos depositaram suas
coroas aos pés de Cristo e se prostraram diante do Cordeiro (Ap 4.10,11)?
Para testificar sua sujeição a Cristo e professar sua prontidão em servi-lo
e obedecê-lo.
Obedeça a Deus Espírito Santo. Nossos espíritos são soprados para
dentro de nós pelo glorioso Espírito. “O Espírito de Deus me fez” (Jó 33.4).
Nossos espíritos são adornados pelo bendito Espírito. Toda a graça é uma
centelha divina acesa no espírito pelo Espírito Santo. Mais ainda, o Espírito
de Deus santificou a natureza humana de Cristo e a uniu à divina e qualificou
o homem Cristo para ser nosso mediador. Bem, então, essa terceira pessoa
na Trindade, o Espírito Santo, merece ser obedecida, porque ele é Deus e é
digno desse tributo de reverência e obediência de nossa parte.
N. A CRIAÇÃO
PERGUNTA 7: Quais são os decretos de Deus?
RESPOSTA: Os decretos de Deus são seu propósito eterno, de acordo
com o plano de sua vontade, por meio dos quais, para sua própria glória,
ele preordenou todas as coisas que acontecerão.
Já falei alguma coisa a respeito dos decretos de Deus em minha
exposição do atributo da imutabilidade de Deus. Ele é imutável em sua
essência e é imutável em seus desígnios; seu plano permanecerá. Ele designa
140 A f é cristã — Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
o fim de todas as coisas e o executa por sua providência; devo, portanto,
prosseguir na execução de seus desígnios.
PERGUNTA 9: A próxima pergunta é: Qual é a obra da criação?
RESPOSTA: É Deus criando todas as coisas a partir do nada, pela palavra
de seu poder. Gênesis 1.1: “No princípio, criou Deus os céus e a terra”.
É glorioso contemplar a criação, além de ser um estudo agradável e
proveitoso. Pensa-se que quando Isaque saiu ao campo para meditar foi
para estar em contato com o livro da criação. A criação é a Bíblia do homem
pagão, a cartilha do lavrador, os óculos de perspectiva do viajante, pelos
quais ele vê uma representação das infinitas excelências que há em Deus.
A criação é um grande volume, no qual as obras de Deus estão unidas.
Nesse volume há três grandes folhas: céu, terra e mar.
O autor da criação é Deus, como está no texto: “Deus criou” . O mundo
foi criado no tempo, e não podia ser desde a eternidade, como pensava
Aristóteles. O mundo precisou de um construtor e não poderia ter feito a si
mesmo. Se alguém for para um país distante e lá vir edifícios grandiosos,
jamais irá imaginar que eles se construíram a si próprios, mas que houve
um artífice que levantou tais estruturas tão vistosas. Do mesmo modo, este
grande sistema que é o mundo não poderia criar a si mesmo, foi necessário
um construtor, e este é Deus. “No início, Deus criou.” Imaginar que a obra
da criação não foi moldadapelo Senhor Jeová é como se concebêssemos
uma paisagem singular sendo desenhada sem a mão de um artista. “O Deus
que fez o mundo e tudo o que nele existe” (At 17.24).
Na obra da criação há duas coisas a serem consideradas: 1. A feitura',
2. Os adornos.
1. A feitura do mundo
Aqui, vamos considerar:
a. Deus fe z o mundo sem nenhum material preexistente
Essa é a diferença entre geração e criação. Na geração há material
adequado à disposição, ou seja, algum tipo de material para se trabalhar a
partir dele; porém, na criação, não há material preexistente. Deus trouxe toda
essa construção de mundo maravilhosa do ventre do nada. Nosso começo foi
do nada. Alguns se orgulham de seu nascimento e de sua descendência; mas
quão pouco eles têm para se jactar, os que vieram do nada.
h. Deus fe z o mundo com uma palavra
Quando Salomão construiu o templo, precisou de muitos trabalhadores
e todos eles tinham ferramentas com que trabalhar. Porém, Deus lavrou
A criação 141
sem ferramentas. “Os céus por sua palavra se fizeram” (SI 33.6). Os
discípulos se maravilharam de que Cristo pudesse acalmar o mar com uma
palavra, mas foi necessária somente uma palavra para fazer o mar acalmar.
c. Deus fe z o mundo em perfeição
Ele fez todas as coisas muito boas (Gn 1.31), sem nenhum defeito ou
deformidade. A criação emergiu das mãos de Deus como uma peça exata;
estava passada a limpo, sem rasura, escrita pelos próprios dedos de Deus
(SI 8.3). Sua obra foi perfeita.
2. O adorno do mundo
Deus fez essa grande massa compacta, sem forma ou ordem e, então,
tomou-a bela. Ele dividiu o mar e a terra, cobriu a terra de flores, de árvores
com frutos, mas o que é a beleza quando está encoberta? Portanto, para que
pudéssemos contemplar essa glória, Deus fez a luz. Os céus resplandeceram
com o Sol, com a Lua e com as estrelas. Dessa maneira, a beleza do mundo
podia ser contemplada e admirada. Deus, na criação, começou com coisas
menos nobres e excelentes, como rochas e vegetais; depois criou as criaturas
racionais: os anjos e os homens.
O homem é a peça mais extraordinária da criação. Ele é um
microcosmo, um mundo em miniatura. O homem foi feito com ponderação
e com planejamento. Diz a Bíblia: “Façamos o homem” (Gn 1.26). E comum
os artífices serem mais cuidadosos que o normal quando estão prestes a
fazer sua obra-prima. O homem devia ser a obra-prima deste mundo visível,
portanto, Deus se aconselhou sobre a feitura de peça tão incomum. Um
conselho solene das pessoas sagradas da Trindade foi convocado: “Façamos
o homem à nossa imagem”. Na moeda do rei é estampada sua própria
imagem ou efígie; do mesmo modo, Deus estampou sua imagem no homem,
e fez dele participante de muitas das qualidades divinas. Falarei um pouco
sobre o corpo do homem e sobre a alma do homem.
a. As partes do corpo do homem
i. A cabeça, a parte arquitetonicam ente mais excelente. É a fonte
das disposições e o lugar da razão. Na natureza a cabeça é a melhor parte,
porém o coração a excede em graça.
ii. Os olhos são a beleza da face. Brilham e refulgem como um
pequeno sol no corpo. Os olhos ocasionam muito pecado e, portanto, podem
trazer lágrimas.
iii. O ouvido é o canal pelo qual o conhecim ento é transm itido .
É melhor perder nossa vista que nossa audição, porque a fé vem pelo ouvir
(Rm 10.17,). Ter um ouvido aberto para Deus é a melhor jóia.
142 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
iv. A língua é a glória do homem. Davi chama a língua de sua glória
(Sl 16.9), porque ela é um instrumento para declarar a glória de Deus.
O espírito, no começo, era como uma harpa afinada para louvar a Deus e a
língua fazia a melodia. Deus nos deu dois ouvidos, mas uma só língua, para
nos mostrar que devemos ser prontos para ouvir, mas tardios para falar.
Deus colocou uma cerca dupla diante da língua: os dentes e os lábios, para
nos ensinar a ser cuidadosos em não ofender com nossa língua.
v. O coração é uma parte nobre e o órgão da vida
b. A alma do homem
Isto é o homem do homem. O homem, com relação à sua alma, tem
parte com os anjos. Mais ainda, como diz Platão, o entendimento, a vontade
e a consciência são um espelho que remete à Trindade. A alma é o diamante
no anel, é um vaso de honra; o próprio Deus se serve desse vaso. E uma
centelha do brilho celestial, diz Damasceno. Davi admirou a estrutura
extraordinária e a feitura de seu corpo: “por modo assombrosamente
maravilhoso me formaste... entretecido como nas profundezas da terra”
(Sl 139.14,15). Se o porta-jóias foi tão maravilhosamente formado, o que
dizer da jóia? Quão magnificamente foi entretecida a alma. Desta maneira
se pode ver quão gloriosa é a obra da criação, especialmente o homem, que
é a epitome do mundo.
3. Razões para a criação do mundo
Uma pergunta se toma pertinente aqui: Por que Deus fe z o mundo?
Podemos responder negativamente e positivamente.
a. Negativamente
Ele não fez para si mesmo, pois sendo infinito, não precisava dele.
Ele era feliz em cogitar sobre as próprias excelências e perfeições sublimes
antes que o mundo existisse. Deus não criou o mundo para ser uma mansão
em que residiria perpetuamente. O céu é sua morada (Jo 14.2). O mundo é
somente um corredor para a eternidade; o mundo é para nós como o deserto
para Israel, não um descanso, mas uma jornada para chegar a Canaã.
O mundo é um camarim para adornar nossas almas, não um lugar onde
ficaremos para sempre. O apóstolo nos fala sobre o funeral do mundo:
“Os elementos se desfarão abrasados; também a terra e as obras que nela
existem serão atingidas” (2Pe 3.10).
b. Positivamente
Deus fez o mundo para revelar a própria glória. O mundo é um espelho
pelo qual podemos ver o poder e a bondade de Deus refletidos. “Os céus
A criação 143
proclamam a glória de Deus” (SI 19.1). O mundo é como uma curiosa
peça de tapeçaria, na qual podemos ver a habilidade e a sabedoria daquele
que a fez.
A p l i c a ç õ e s
Primeira aplicação: Deus criou o mundo? Então considere o seguinte:
1. Deus é o criador do mundo, isso deve nos convencer da realidade
de sua divindade. Criar é próprio de um Deus (At 17.24). Platão se convenceu
da existência de um Deus quando viu que nada no mundo poderia fazer
uma mosca. Assim, Deus prova ser o verdadeiro Deus, distinguindo-se dos
ídolos (Jr 10.11). Está escrito na língua dos caldeus: “Assim lhes direis: Os
deuses que não fizeram os céus e a terra, e as nações não podem suportar a
sua indignação”. Quem pode criar, senão Deus? A criação é suficiente para
convencer o pagão de que há um Deus. Há dois livros pelos quais Deus
julgará e condenará o idólatra, a saber, o livro da consciência - “mostram a
norma da lei gravada no seu coração” (Rm 2.15) - e o livro da criação -
“Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como
também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o
princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram
criadas” (Rm 1.20). O mundo está cheio de emblemas e de hieróglifos.
Toda estrela no céu e toda ave que voa nos ares são testemunhas contra o
pagão. Uma criatura não pode criar a si mesma.
2. O fato de Deus criar é um poderoso pináculo da fé. Ele, que fez
todas as coisas com uma palavra, o que não poderá fazer? Ele pode criar
força na fraqueza; pode criar um suprimento para as nossas necessidades.
Que questão louca foi aquela suscitada entre os israelitas no deserto: “Pode,
acaso, Deus preparar-nos mesa no deserto?” (SI 78.19). Aquele que fez o
mundo não pode fazer muito mais? “O nosso socorro está em o nome do
S enhor, criador do céu e da terra” (SI 124.8). Espere por socorro nesse
Deus, que fez o céu e a terra. Assim como a obra da criação é um monumento
do poder de Deus, da mesma maneira é um suporte para a fé. Está o teu
coração pesado? Ele pode, com uma palavra, criar leveza. Está sujo? Ele
pode criar pureza. “Cria em mim, ó Deus, um coração puro” (SI 51.10).
Está a igreja de Deus fraca? Ele pode criar alegriapara Jerusalém (Is 65.18).
Não há pilar mais dourado para a fé do que se firmar sobre um poder criador.
3. Deus fez este mundo cheio de beleza e de glória, tudo muito bom?
Então, que coisa nociva é o pecado, que colocou em desordem toda a criação.
O pecado eclipsou a beleza, deixou amarga a doçura e arruinou a harmonia
do mundo. Como esse fel é amargo, pois uma gota pôde tomar amargo um
mar inteiro. O pecado trouxe tormento e tomou vão o mundo, sim, uma
144 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
maldição. Deus amaldiçoou a terra por causa do homem (Gn 3). Houve
muitos frutos da maldição, veja alguns:
i. A fadiga no sustento. “Em fadigas obterás dela [da terra] o sustento”
(v. 17). “Em fadigas” deve ser entendido em todos os problemas e cuidados
desta vida.
ii. A pena no trabalho. “No suor do rosto comerás o teu pão” (v. 19).
Na inocência, Adão cultivava a terra, pois não devia viver ociosamente;
porém, era mais um prazer que um trabalho. Esse arado era sem labuta.
O sustento com fadiga e o suor da fronte vieram após o pecado.
iii. A desordem na natureza. “Ela [a terra] produzirá também cardos e
abrolhos” (v. 18). Durante o período da inocência a terra produzia cardos,
qual motivo de após a queda serem considerados uma punição? E provável
que a terra produzisse cardos, porque quando Deus terminou a criação não
produziu outras espécies ou outros tipos de coisa. Porém, o significado é
que, agora, depois do pecado, a terra produziria cardos de maneira mais
abundante e, também, que eles seriam danosos e sufocariam o trigo, pois a
qualidade de serem nocivos não estava neles antes. Desde a queda, todos
os confortos desta vida têm um espinho e um cardo neles.
iv. A expulsão do paraíso. O quarto fruto da maldição foi a expulsão
do homem do paraíso. “E, expulso o homem...” (v. 24). No princípio, Deus
colocou o homem no paraíso como numa casa recém-decorada, como um
rei em seu palácio. “Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos
céus e sobre todo animal que rasteja pela terra” (Gn 1.28). O fato de Deus
expulsar Adão do paraíso significou seu destronamento e o seu banimento
significou que ele devia procurar um paraíso celestial e ainda melhor.
v. A maldição da morte. Um quinto fruto da maldição foi a morte. “Ao
pó tomarás” (v. 19). A morte não era natural para Adão, mas veio após o
pecado. Josefo61 é de opinião que o homem devia morrer, embora devesse
ter um longo período de anos acrescentado à sua vida; porém , é
inquestionável que a morte cresceu da raiz do pecado, como diz o apóstolo:
“e pelo pecado, a morte” (Rm 5.12).
Portanto, veja que coisa amaldiçoada é o pecado, que trouxe tantas
maldições sobre a criação. Se não odiarmos o pecado por sua deformidade,
então odiemo-lo por causa das maldições que traz.
4. Deus fez este mundo glorioso? Ele fez tudo bom? Havia na criatura
tanta beleza e doçura? Então, quanta doçura há em Deus? “A causa é sempre
mais nobre que o efeito.” Pense por si só: há muita excelência em casa e em
propriedades? Então, quanto mais há em Deus, que as fez. Há beleza numa
rosa? Quanta beleza, então, há em Cristo, a Rosa de Sarom. O azeite dá
brilho ao rosto? (Sl 104.15) Como, então, não deve brilhar o semblante
A criação 145
de Deus. O vinho alegra o coração? Quanta virtude há no verdadeiro vinho.
O fruto do jardim é doce? Como são deliciosos os frutos do Espírito. Uma
mina de ouro é preciosa? Quão precioso é aquele que fundou a mina.
Quão precioso é Cristo, em quem estão escondidos todos os tesouros?
(Cl 2.3). Deveríamos ascender da criatura para o Criador. Se há algum
conforto aqui neste mundo, quanto mais há em Deus, que fez todas essas
coisas. Como é irracional que tenhamos mais prazer no mundo que naquele
que o fez. Os nossos corações deveriam estar assentados em Deus e
deveríamos estar com ele, em quem há infinitamente mais doçura que em
qualquer outra criatura!
Segunda aplicação: sobre a exortação.
1. Deus criou o mundo? Vamos, sabiamente, observar as obras da
criação. Deus não nos deu somente o livro das Escrituras para ler, mas,
também, o livro da criação. Olhe para cima, para os céus, porque eles
mostram muito da glória de Deus. O Sol doura o mundo com seus raios
brilhantes. Observe as estrelas, o movimento regular delas em suas órbitas,
a magnitude, a luz e a influência. Podemos ver a glória de Deus brilhando
no Sol e cintilando nas estrelas. Olhe para o mar, e veja as maravilhas de
Deus na profundeza (SI 107.24). Olhe para o ar, onde os pássaros entoam
melodias de louvor ao Criador. Olhe para a terra, onde podemos nos admirar
com a natureza dos minerais, o poder da magnetita, a virtude das ervas.
Veja a terra adornada com flores, como uma noiva. Todas essas coisas são
efeitos gloriosos do poder de Deus. Ele bordou a criação com pontos
singulares, de maneira que observemos sua sabedoria e sua bondade, e lhe
rendamos o louvor que lhe é devido. “Que variedade, S hnhor, nas tuas
obras! Todas com sabedoria as fizeste” (SI 104.24).
2. Deus criou todas as coisas? Vamos obedecer nosso Criador. Somos
dele por direito de criação, pois devemos nossa existência a ele. Se alguém
nos sustenta, sentimo-nos impelidos a servi-lo; muito mais deveríamos servir
e obedecer a Deus, que nos dá vida. “Pois nele vivemos e nos movemos”
(At 17.28). Deus fez as coisas para serviço do homem: o cereal para nutrição,
os animais do campo para benefício, os pássaros para a música, o homem
deveria estar a serviço de Deus. Os rios vêm do mar e tornam para ele.
Tudo o que temos vem de Deus. Vamos honrar nosso Criador e viver para
ele, que nos fez.
3. Deus fez nossos corpos do pó e o pó do nada? Vamos reprimir o
orgulho. Quando Deus admoestou Adão, usou esta expressão: “pois dela [da
terra] foste formado” (Gn 3.19). Por que és orgulhoso, tu que és pó e cinza?
Foste formado de metal ordinário. “Uma vez que tu és humilde, por que não
caminhas humildemente?” (Bernard). Davi escreveu: “por modo assombrosamente
maravilhoso me formaste” (SI 139.14). Tu, que foste maravilhosamente
146 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
formado, deves ser grato; tendo sido feito do pó, deves te manter humilde. Se
tu és belo, isso nada mais é que terra colorida. Teu corpo não é mais que ar e
poeira misturados, e este pó voltará ao pó. Quando o Senhor disse que os
juizes eram deuses (Sl 82.6), receando que se ensoberbecessem, disse-lhes
que eram deuses mortais: “como homens, morrereis” (v. 7).
4. Deus criou nossas almas segundo sua imagem, mas a perdemos?
Não vamos ter descanso enquanto não formos restaurados à imagem de
Deus. Agora somos a imagem do diabo no orgulho, na malícia e na inveja.
Vamos ter restaurada a imagem de Deus, que consiste no conhecimento e
na retidão (Cl 3.10; Ef 4.24). A graça é nossa maior beleza, ela nos faz
semelhantes a Deus e aos anjos. Como o Sol é para o mundo, assim é a
santidade para a alma. Vamos a Deus para que ele repare sua imagem em
nós. Senhor, tu que uma vez me fizeste, faz-me outra vez; o pecado tem
desfigurado tua imagem em mim, então, Senhor, desenha-a novamente com
a caneta do Santo Espírito.
O . A PROVIDÊNCIA DE D EUS
PERGUNTA 11: Quais são as obras da providência de Deus?
RESPOSTA: As obras da providência de Deus são seus atos
máximos de santidade, de sabedoria e seu poder para governar suas
criaturas e suas ações.
Cristo diz a respeito da obra da providência de Deus: “Meu Pai trabalha
até agora, e eu trabalho também” (Jo 5.17). Deus descansou da obra da
criação, não criou mais nenhuma espécie de coisas. “Descansou nesse dia
de toda a sua obra que tinha feito” (Gn 2.2). Portanto, esse deve ser o
significado das obras da providência: “Meu Pai trabalha e eu trabalho”.
“O seu reino domina sobre tudo” (Sl 103.19); isto é, seu reino providencial.
Para esclarecer esse ponto, é preciso primeiramente mostrar que há uma
providência; em seguida definir o que seja essa providência; e depois, formular
algunsconceitos ou proposições a respeito da providência de Deus.
1. A realidade da providência de Deus
Há uma providência. Não há o que se chama destino cego, mas há
uma providência que guia e governa o mundo. “A sorte se lança no regaço,
mas do S enhor procede toda decisão” (Pv 16.33).
2. A definição de providência de Deus
O que é essa providência? Minha resposta: a providência é a ordenação
de Deus sobre todas as causas e conseqüências das coisas, segundo o
conselho de sua vontade, para sua própria glória.
A providência de Deus 147
148 A fé cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
a. A providência se distingue dos decretos de Deus
Chamo de providência a ordenação de Deus sobre as coisas para fazer
distinção entre isso e seus decretos. Os decretos de Deus ordenam as coisas
que acontecerão. A providência de Deus as determina.
b. A providência se conforma ao conselho de Deus
Chamo de providência a ordenação das coisas segundo o conselho da
vontade de Deus.
c. A providência visa à glorificação de Deus
Deus comanda todos os eventos, segundo o conselho de sua vontade,
para sua glória, que é o fim maior de todos os seus atos e o ponto em que
todas as linhas de providência se encontram. A providência de Deus é Regina
m u n d i- lla rainha e governante do mundo”; é o olho que vê, a mão que gira
todas as engrenagens do universo. Deus não é como um artesão que constrói
uma casa e, então, deixa-a; antes é como um piloto que conduz o navio de
toda a criação.
3. O alcance da providência de Deus
Podemos apresentar a seguinte proposição acerca da providência de
Deus: ela está presente em tudo na vida dos homens, isto é, todos os lugares,
todas as pessoas e todos os acontecimentos.
a. A providência de Deus alcança todos os lugares
“Acaso sou Deus apenas de perto, diz o S enhor, e não também de
longe?” (Jr 23.23). O alcance da providência de Deus é imenso, ela alcança
o céu, a terra e o mar. “Os que, tomando navios, descem aos mares... esses
vêem as obras do S enhor” (SI 107.23,24). Pois bem, que o mar, que é maior
que a terra, não a inunde é uma maravilha da providência. O profeta Jonas
viu as maravilhas de Deus nas profundezas, quando o grande peixe que o
engoliu depois o deixou a salvo na praia.
b. A providência de Deus alcança todas as pessoas
Ela alcança especialmente as pessoas devotas que, de maneira espe
cial, procuram conhecê-la. Deus tem cuidado de cada santo em particular,
como se não houvesse mais ninguém de quem cuidar. “Porque ele tem
cuidado de vós” (1 Pe 5.7), isto é, o eleito de maneira especial. “Eis que os
olhos do S enhor estão sobre os que o temem, sobre os que esperam na sua
misericórdia... e, no tempo da fome, conservar-lhes a vida” (SI 33.18,19).
Deus, por seu providencial cuidado, defende seu povo dos perigos e coloca
anjos protetores ao seu redor (Sl 34.7). A providência de Deus preserva
os ossos dos santos (Sl 34.20), recolhe no odre suas lágrimas (Sl 56.8),
fortalece-os na sua fraqueza (Hb 11.34), e supre todas as suas necessidades
(Sl 23.5). Assim, a providência supre maravilhosamente as necessidades
dos eleitos.
Quando os protestantes em Rochelle foram sitiados pelo rei da França,
Deus, por sua providência, mandou um grande número de pequenos peixes
para alimentá-los, como nunca tinham visto antes naquele porto. Da
mesma maneira o corvo, aquela criatura desnaturada (que dificilmente
alimenta a própria prole), providencialmente trouxe sustento ao profeta
Elias (lR s 17.6).
Veja o caso de Maria que, gerando e dando à luz ao Messias, ajudou a
enriquecer o mundo, ainda que ela mesma fosse muito pobre. Um pouco
depois de ter nascido o bebê, foi alertada pelo anjo para que fugisse para o
Egito (Mt 2.13), no entanto, não tinha recursos suficientes para levar seus
pertences àquela terra; porém, observe como Deus, antecipadamente, provê:
em sua providência, ele envia os magos, desde o oriente, os quais levaram
presentes caros, como o ouro, a mirra e o incenso, que presentearam Cristo.
Assim, Maria teve o suficiente para custear suas despesas no Egito. Os
filhos de Deus, às vezes, não sabem como são alimentados, sabem somente
que a providência os alimentou. “Verdadeiramente serás alimentado”
(Sl 37.3, RC). Se Deus vai dar um reino a seus filhos, quando morrerem,
não lhes negará o pão de cada dia enquanto viverem.
c. A providência de Deus alcança todos os acontecimentos
Ou seja, ela alcança todos os negócios e ocorrências no mundo. Não
há nada que se mova no mundo que Deus não tenha, por sua providência,
ordenado. Há honra na exaltação do homem? (Sl 75.7). A um ele abate, a
outro exalta. O sucesso e a vitória na batalha são resultados da providência.
Saul tinha a vitória, mas Deus deu a salvação (ISm 11.13). O fato de que
dentre todas as virgens trazidas à presença do rei só Ester tenha achado
graça diante de seus olhos, não teria acontecido sem a providência especial
de Deus. Por causa disso o Senhor salvou os judeus que estavam destinados
à destruição. A providência atinge as mínimas coisas: dos pássaros às
formigas. A providência alimenta os filhotes dos corvos, quando a mãe os
abandona e não mais lhes providencia comida (Sl 147.9). A providência
atinge até mesmo os cabelos de nossa cabeça. “Até os cabelos todos da
cabeça estão contados” (Mt 10.30).
Certamente, a providência atinge todos os lugares, todas as pessoas,
todas as ocorrências e todos os negócios.
A providência de Deus 149
4. Objeções à doutrina da providência de Deus
Há, porém, duas objeções contra essa doutrina:
a. As desordens do mundo contradizem a providência de Deus
A primeira objeção pode ser apresentada assim: Alguns dizem que há
muitas coisas no mundo feitas de maneira desordenada ou irregular e que,
com certeza, a providência de Deus não está nessas coisas.
Sim, as coisas que nos parecem irregulares Deus faz uso delas para a
própria glória. Suponha que você esteja na oficina de um mecânico vendo
os vários tipos de ferramentas, algumas torcidas, algumas curvas, outras
em forma de gancho. Você reprovaria todas essas ferramentas por não
parecerem bonitas? O mecânico usa todas elas para fazer seu trabalho.
O mesmo acontece com as providências de Deus: elas nos parecem muito
tortuosas e bastante estranhas, mas ainda assim levam avante a obra de
Deus. Posso esclarecer isso com dois casos em particular:
i. A hum ildade e a aflição dos piedosos. Às vezes, o povo de Deus é
humilde. Parece errado que aqueles que são os melhores estejam na condição
mais humilde, mas há mais sabedoria nessa providência, como:
Em primeiro lugar, pense que talvez os corações dos piedosos se
exaltem com as riquezas ou com o sucesso. Então, Deus envia uma
providência humilhante para afligi-los e lapidá-los. Melhor é o prejuízo
que os faz humildes do que o sucesso que os toma orgulhosos.
Também pense que se os piedosos não fossem, às vezes, afligidos,
sofrendo um eclipse em seu aparente bem-estar, como suas virtudes
poderiam ser vistas, especialmente a fé e a paciência? Se o Sol estivesse
sempre brilhando, não veríamos as estrelas; da mesma maneira, se
tivéssemos somente prosperidade, seria difícil perceber a fé do homem em
ação. Dessa maneira, podemos ver que as providências de Deus são sábias
e harmoniosas, embora, para nós, pareçam estranhas e tortuosas.
ii. A prosperidade e a segurança dos ímpios. Eis o outro caso: a
prosperidade do ímpio. Isso parece muito errado. Porém, Deus, em sua
providência, considera bom que, algumas vezes, os piores dos homens sejam
exaltados e que eles façam uma parte da obra de Deus, embora ela seja
oposta à vontade deles (Is 10.7). A vontade de Deus não depende de homem
algum. Algumas vezes, ele usa o ímpio para proteger e defender sua igreja;
e, outras vezes, para refiná-la e purificá-la. “[Tu] o fundaste para servir de
disciplina” (Hc 1.12). Como disse o profeta: tu ordenaste o ímpio para
corrigir teus filhos. Na verdade, como bem disse Agostinho: “Somos
devedores aos ímpios,