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A FE CRISTA
Estudos baseados no 
Breve Catecismo 
de Westminster
O clássico A Body o f Divinity de
Thomas Watson
A Fé Crista
A Fé Cristã - Estudos no Breve Catecismo de Westminster, por Thomas Watson O 2009 Editora Cultura 
Cristà. Publicado originalmente em 1692 como parte da obra A Body o f Divinity. 1" edição da Banner o f 
Truth Trust a partir da edição de 1890: 1958. Edição revisada da Banner: 1965. São reservados todos os 
direitos desta tradução.
I* edição - 2009 — 3.000 exemplares
Conselho Editorial 
Ageu Cirilo de Magalhães, Jr. 
Alderi Souza de Matos 
André Luis Ramos 
Cláudio Marra (Presidente) 
Fernando Hamilton Costa 
Francisco Solano Portela Neto 
Mauro Fernando Meister 
Tarcizio José Freitas de Carvalho 
Valdeci da Silva Santos
Produção Editorial
Tradução
Trinity Traduções e Produções S/C Ltda 
Revisão
Charles Marcelino da Silva
Wilton de Lima
Edna Guimarães
Editoração
Rissato
Capa
Osiris C. Rangel Rodrigues
W331f Watson, Thomas
A fé cristã, estudos baseados no breve catecismo de Westminster / Thomas Watson; 
traduzido por Trinity Traduções e Publicações S/C. _ São Paulo: Cultura Cristã, 2009 
368 p.: 16x23cm
Tradução A Body of divinity
ISBN 978-85-7622-290-3
I. Fé cristã 2. Doutrina I. Título
234.1 CDD
CÊ
CDITORfl CULTURA CRISTÃ
R. Miguel Teles Jr., 394 - Cambuci - SP 
15040-040 - Caixa Postal 15.136 
Fone (011) 3207-7099 - Fax (011) 3279-1255 
www.editoraculturacrista.com.br
Superintendente: Haveraldo Ferreira Vargas 
Editor: Cláudio Antônio Batista Marra
http://www.editoraculturacrista.com.br
Sumário
Biografia de Thomas Watson................................................................................... 7
I. Preâmbulo - Firmes e fundamentados na f é ...................................................... 15
1. É dever dos cristãos se firmarem na doutrina........................................... 15
2. É dever dos cristãos se fundamentarem na doutrina............................... 18
II. Primeira Parte - O Homem e as Sagradas Escrituras.................................... 21
A. O fim principal do homem........................................................................... 21
1. Glorificar a Deus para sempre............................................................. 21
2. Deleitar-se em Deus para sempre....................................................... 37
B. As Sagradas Escrituras.................................................................................. 43
1. A autoridade das Escrituras Sagradas................................................ 43
2. As Escrituras canônicas são a regra completa.................................. 48
3. O escopo principal e o fim da Escritura............................................ 48
4. A legítima interpretação das Escrituras............................................. 49
III. Segunda Parte - Deus, seu Ser e seus decretos............................................. 57
A. O ser de D eus.................................................................................................. 57
1. A existência de D eus............................................................................. 57
2. Deus é Espírito...................................................................................... 64
3. Que tipo de Espírito é Deus?............................................................... 69
B. O conhecimento de D eu s............................................................................. 74
1. A grandeza do conhecimento de D eus............................................... 74
2. A natureza do conhecimento de D e u s ............................................... 75
3. A infinitude do conhecimento de D eus.............................................. 76
C. A eternidade de D eu s.................................................................................... 81
1. O que é a eternidade de D eus.............................................................. 81
D. A imutabilidade de D eus.............................................................................. 86
1. Deus é imutável em sua natureza....................................................... 86
2. Deus é imutável em seu decreto......................................................... 90
E. A sabedoria de D eus...................................................................................... 92
1. A infinita inteligência de D eu s........................................................... 93
2. O trabalho de Deus é perfeito.............................................................. 93
F. O poder de D eus............................................................................................. 99
1. Deus tem direito soberano e autoridade sobre o hom em ............... 99
2. A autoridade e o poder de Deus são infinitos................................... 100
3. Deus limita o uso de seu poder segundo sua vontade.................... 102
G. A santidade de D eus...................................................................................... 105
1. A natureza da santidade de D eus........................................................ 105
2. A santidade de Deus em seus eleitos................................................. 108
H. A justiça de D eu s.......................................................................................... ........111
1. O que é a justiça de D eus?.................................................................. ........111
2. Onde identificamos a justiça de D eu s? ............................................. ........112
3. Deus é justo ao permitir que o ímpio prospere?............................. ........113
4. Deus é justo ao permitir que o justo sofra aflições?...................... ........114
5. Deus é justo ao salvar uns e punir outros?....................................... ........115
I..A misericórdia de D eu s..........................................................................................117
1. Particularidades da misericórdia de D eus........................................ ........118
2. A natureza da misericórdia de D eus.................................................. ........121
J. A verdade de D eu s......................................................................................... ........125
1. Deus é a verdade............................................................................................125
2. A verdade de D eus................................................................................ ....... 125
L. A unidade de Deus......................................................................................... ........130
1. Há somente uma causa primeira......................................................... ........130
2. Há somente um ser infinito.................................................................. ....... 131
3. Há somente um poder onipotente....................................................... ....... 131
M. A Trindade............................................................................................................. 135
1. A unidade na Trindade................................................................................. 136
2. A Trindade na unidade.......................................................................... ....... 136
N. A criação.................................................................................................................140
1. A feitura do mundo............................................................................... ....... 141
2. O adorno do mundo.............................................................................. ....... 142
3. Razões para a criação do mundo........................................................ ....... 143
O. A providência de D eus.........................................................................................147
1. A realidade da providência de D eus.................................................. ....... 147
2. A definição de providência de D eus.................................................. ....... 147
3. O alcance da providência de D eu s............................................................ 148
4. Objeções à doutrina da providência de D eus.......................................... 150
5. Proposições sobre a providência de D eus........................................ ....... 152
IV. Terceira Parte - O pecado e a queda....................................................................... 157
A. O pacto das obras......................................................................................... ....... 157
1. O pacto das obras feito com Adão e toda a humanidade...................... 157
2. Características do pacto feito com Adão.......................................... ....... 158
B. O pecado......................................................................................................... ....... 162
1. Quanto ao pecado em geral................................................................. ....... 162
2. Quanto à odiosidade do pecado......................................................... ....... 162
C. O pecado de Adão......................................................................................... ....... 167
1. Nossos primeiros pais caíram de seu glorioso estado de inocência 167
2. O pecado pelo qual nossos primeiros pais caíram foi comer do
fruto proibido........................................................................................ ....... 169
D. O pecado original......................................................................................... ....... 173
1. No pecado original há algo exclusivo e algo absoluto................... ....... 174
2. Algumas características do pecado original..................................... .......175
E. A desgraça do homem no pecado....................................................................... 180
1. Particularmente...................................................................................... ...... 180
2. Absolutamente....................................................................................... ...... 180
V. Quarta Parte - O pacto da graça e seu mediador.................................................. 187
A. O pacto da graça.................................................................................................. 187
1. Qual é o novo pacto?............................................................................ ...... 187
2. Quais nomes são dados a esse pacto?............................................... ...... 187
3. Por que Deus deveria fazer um pacto conosco?.............................. ...... 188
4. Os dois pactos, da graça e das obras, são diferentes?.................... ...... 188
5. Qual é a condição do pacto da graça?............................................... ...... 189
B. Cristo, o mediador do p acto .............................................................................. 194
1. A pessoa do mediador do pacto.......................................................... ...... 196
2. A graça do mediador do pacto................................................................... 197
C. O ofício profético de Cristo............................................................................... 200
1. Como Cristo ensina?............................................................................. ...... 200
2. Quais são as lições que Cristo ensina?.............................................. ...... 201
3. Como o ensino de Cristo difere de outros ensinos?.............................. 201
D. O ofício sacerdotal de Cristo............................................................................. 206
1, Em seu oficio sacerdotal. Cristo satisfaz a le i........................................ 207
2. Em seu ofício sacerdotal, Cristo intercede por nós...............................212
E. O ofício real de Cristo................................................................................... ......222
1. Cristo é rei em relação a seu p o v o ...........................................................223
2. Cristo é rei em relação a seus inim igos............................................. ......224
F. A humilhação de Cristo em sua encarnação.............................................. ......227
G. A exaltação de C risto.................................................................................... ......239
1. Em que sentido Deus exaltou a Cristo?...................................................239
2. De quantas maneiras Cristo foi exaltado?........................................ ......239
H. Cristo, o redentor.................................................................................................245
1. Cristo comprou nossa redenção.......................................................... ......245
VI. Quinta Parte - A Redenção e sua aplicação..........................................................251
A. F é ..................................................................................................................... ......251
1. A natureza da fé salvadora................................................................... ......251
2. A operação da fé salvadora.................................................................. ......253
3. A preciosidade da fé salvadora........................................................... ......253
4. A justificação na fé salvadora....................................................................254
B. Vocação e fica z ............................................................................................... ......257
C. Justificação...................................................................................................... ......263
1. Definição de justificação..................................................................... ......264
2. Características da justificação...................................................................266
D. A adoção......................................................................................................... ......269
E. A santificação................................................................................................. ......278
1. O que é santificação?............................................................................ ......279
2. Quais são as falsificações da santificação?...................................... ......281
3. Onde se vê a necessidade da santificação?...................................... ...... 283
4. Quais são os sinais da santificação?.................................................. ...... 284
F. A certeza.......................................................................................................... ...... 289
1. Definição de certeza da santificação................................................. ...... 290
2. A diferença entre certeza e presunção............................................... ...... 291
3. Deve-se procurar essa certeza................................................................... 292
4. Firmando-se nessa certeza................................................................... ...... 297
G A p a z ....................................................................................................................... 301
H. A alegria.......................................................................................................... ...... 307
I..O crescimento na graça........................................................................................ 314
J. A perseverança................................................................................................ ...... 320
1. Ao dizer que os crentes perseveram, admitimos que:.................... ...... 321
2. Por quais meios os cristãos perseveram?......................................... ...... 322
3. Argumentos para provar a perseverança dossantos.............................. 323
4. Respondendo a algumas das objeções dos arminianos........................ 325
VII. Sexta Parte - A morte e o último d ia ....................................................................333
A. A morte do justo...................................................................................................333
1. A vida do cristão é C risto.................................................................... ......333
2. A morte do cristão é lucro ................................................................... ......334
B. O privilégio do crente na morte.................................................................. ......339
1. Os cristãos recebem benefícios em sua morte........................................339
2. Os cristãos são unidos a Cristo em sua morte........................................343
3. Os cristãos têm suas almas glorificadas em sua morte................... ......344
C. A ressurreição................................................................................................. ......350
1. Os justos terão seus corpos glorificados.................................................350
2. Os justos serão justificados publicamente....................................... ......356
Notas............................................................................................................................. ......363
índice Rem issivo..............................................................................................................368
D igitalizado por : 
Jo go is2 0 0 6
BIOGRAFIA DE
THOMAS WATSON
Compilada por C. H. Spurgeon
A Body o f Divinity [em nossa edição, A Fé Cristã - Estudos baseados 
no Breve Catecismo de Westminster] é uma das mais preciosas e inigualáveis 
obras dos puritanos. Todos os que tiveram contato com esta obra sabem muito 
bem disso. Watson foi um dos escritores mais objetivos, profundos, sugestivos 
e elucidativos dentre os célebres teólogos que fizeram da era puritana o período 
dourado da literatura evangélica. Há uma união muito feliz entre a boa 
doutrina, a profunda experiência e a sabedoria prática evidentes em todas as 
suas obras. Este livro é, mais que todos os outros, útil aos alunos e aos ministros.
Embora Thomas Watson tenha escrito muitos livros preciosos, 
comparativamente pouco se sabe de sua pessoa. Nem mesmo as datas de 
seu nascimento e morte são conhecidas.1 Seus escritos são suas melhores 
memórias. Ele talvez não precisasse de outras e, portanto, a providência 
evitou o desnecessário. Não devemos tentar descobrir sua ascendência e, 
como fazem os antiquários, encontrar uma famosa família Wat, à qual esteja 
ligado, cujo filho se destacou nas cruzadas ou em qualquer empreendimento 
insano. E de pouca importância se teve ou não sangue azul correndo em 
suas veias, pois sabemos que foi de semente real redimido pelo Senhor. 
Alguns homens são seus próprios ancestrais e, pelo que sabemos, a 
genealogia de Thomas Watson não lhe atribuiu fama, mas todo o seu brilho 
provém de suas realizações.
Teve a felicidade de ser educado no Emmanuel College, em Cambridge, 
que naqueles dias merecia ser chamada de a escola dos santos, a grande 
mãe que alimentou eruditos evangélicos. No Register and Chronicle de 
Kennet (vol. 1, págs. 933,934) encontra-se uma lista de 87 nomes de 
ministros puritanos, incluindo-se muitos famosos e queridos pregadores e 
comentaristas como: Anth. Burgess, W. Jenkyn, Ralph Venning, Thomas 
Brooks, T. White, Samuel Slater, Thomas Watson, John Rowe, Dr. W. Bates, 
Stephen Chamock, Samuel Clarke, Nathaniel Vincent, Dr. John Collings, 
William Bridge, Samuel Hildersam e Adoniram Bifield. Após cada nome 
havia um comentário que dizia: “A maioria destes homens é mencionada 
na lista dos sofredores a favor do não-conformismo e aparece no rol dos 
alunos matriculados no Emmanuel College. Apesar de serem muitos, sem 
dúvida são da mesma sociedade que produziu pregadores no contexto das 
infelizes mudanças de 1641”,2 etc. Na margem da introdução do livro se 
encontra a seguinte observação: “Não é impróprio observar quantos jovens
estudantes, de ambas as universidades, ficaram desanimados em virtude 
do preconceito de seus diretores e tutores. Por isso, somente Emmanuel 
College, em Cambridge, produziu mais puritanos e não-conformistas que, 
talvez, todas as outras sete faculdades ou academias em qualquer uma das 
universidades”. Um fato como esse deveria direcionar as orações de todos 
os crentes a favor dos nossos seminários e dos nossos discípulos, pois da 
maneira como essas instituições são conduzidas dependerá, diante de Deus, 
o futuro bem-estar de nossas igrejas. O seminário Pastors’ College, que 
publica esta obra para o uso de seus alunos, pede insistentemente as orações 
intercessoras dos santos.
Não nos surpreende descobrir que Thomas Watson desfrutou a boa 
reputação de ser o aluno mais aplicado enquanto estudava em Cambridge. 
Os grandes autores puritanos devem ter sido muito ativos na universidade, 
ou nunca teriam se tornado inigualáveis mestres em Israel. O aluno 
consciente é aquele que muito provavelmente se tomará um pregador de 
sucesso. Após completar seu curso com honras, Watson se tornou reitor da 
paróquia de St. Stephen, em Walbrook, onde, no coração de Londres, exerceu 
fielmente o ofício de pastor por quase dezesseis anos, com grande diligência 
e devoção. Felizes foram os cidadãos que receberam regularmente as 
ministrações tão instrutivas e espirituais de Watson. A igreja estava 
constantemente cheia, pois a fama e a popularidade do pregador eram 
merecidamente grandes. Envolvendo-se com seu rebanho, cheio de santo 
zelo pelo destino eterno dele, os anos passaram com muitas alegrias 
enquanto crescia o respeito por parte de todos os que o conheciam.
Calamy,3 em seu memorial não-conformista, diz o seguinte de Watson:
Ele era tão conhecido na cidade por sua piedade e disposição em 
ajudar que, embora fosse afamado no Friendly Debate,4 levou para a 
sepultura o respeito geral de todas as pessoas sérias. Era um homem 
culto, um pregador popular, mas sensato (se assim podemos julgá-lo 
por seus escritos), e conspícuo no dom da oração. Sobre como gostava 
de orar, segue-se um fato que será prova suficiente.
Uma vez, em um dia de palestra, antes de acontecer o Ato de 
Bartolomeu,5 ficou sabendo que o bispo Richardson veio ouvi-lo na 
igreja de St. Stephen. O bispo ficou muito satisfeito com seu sermão, 
mas especialmente com sua oração ao final, de maneira que o seguiu a 
fim de lhe agradecer e pedir uma cópia de sua oração. Em resposta, o 
Sr. Watson disse: “Não posso te dar o que me pedes, pois não escrevo 
minhas orações. Não é algo estudado, mas espontâneo, pro re nata , 
com o Deus me capacitou, de todo o meu coração e sentim ento” . 
O bom bispo foi embora pensativo pelo fato de um homem poder orar 
daquela maneira extemporaneamente.
8 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
Entretanto, a mão que outrora oprimira a igreja se estendia novamente 
para afligir alguns dos santos. Os mais cultos, santos e zelosos do clero da 
Igreja da Inglaterra descobriram que o ato da uniformidade não lhes 
permitiria manter suas consciências puras e seus estilos de vida, por isso se 
submeteram a perder tudo por causa de Cristo. Thomas Watson não hesitou 
em relação ao caminho que deveria seguir. Não era um faccioso inimigo da 
realeza, nem um republicano vermelho, nem mesmo um homem da quinta 
monarquia. Na verdade, havia sido muito leal à casa de Stuart nos dias do 
Cromwell. Havia protestado contra a execução do rei e se unido ao plano 
de Love para conduzir Charles II ao trono. Embora tivesse tudo isso a seu 
favor, era um puritano e, portanto, não deveria ser tolerado pelos espíritos 
ressentidos que dominavam o governo da época. Quaisquer que tenham 
sido as sementes de discórdia semeadas na trágica história do Ato de 
Bartolomeu, ele não guardou rancor. Mas os resultados finais estavam cheios 
do inimaginável.A compreensão pode ter atrapalhado a verdade. Os direitos 
da coroa do rei Jesus poderiam ter sofrido de falta de advogados se os 
monarcas e os sacerdotes tivessem sido mais tolerantes. Da maneira como 
aconteceu, homens bons foram forçados a uma posição mais verdadeira do 
que aquela que, por outro lado, ocupavam, e o começo de uma reforma real 
estava inaugurado. A partir desse começo sofredor houve muito progresso. 
A cada dia, a causa dos excluídos empurrava e forçava os adversários em 
direção à beira do precipício, pois abaixo devem cair todos os levantes 
contra o reino de Deus.
Com muitas lágrimas e lamentos, a congregação de St. Stephen viu 
seu pastor ser arrancado de seu rebanho. Com corações doloridos ouviram 
suas palavras de despedida. Ele mesmo falando como quem está de luto do 
que mais deleitava seu coração, sofrendo com alegria a perda de todas as 
coisas, despediu-se deles e saiu “sem saber aonde ia” .
Na coleção Sermões de Despedida, há três sermões do Sr. Watson. 
Dois foram pregados no dia 17 de agosto e o terceiro na terça-feira seguinte. 
O primeiro deles, pregado um pouco antes do meio-dia, foi baseado no 
evangelho de João 13.34: “Novo mandamento vos dou: que vos ameis uns 
aos ou tros...” . O serm ão enfoca m uito do esp írito do evangelho, 
particularmente ao recomendar amor aos inimigos e perseguidores.
O segundo sermão, pregado à tarde, foi baseado em 2 Coríntios 7.1: 
“Tendo, pois, ó am ados, tais prom essas, purifiquem o-nos de toda 
impureza, tanto da carne como do espírito, aperfeiçoando a nossa 
santidade no temor de Deus” . Na primeira parte do sermão, ele insiste 
muito nas “ ... ardentes afeições de um bom ministro do evangelho para 
com seu povo”.
Biografia de Thomas Watson 9
10 A fé cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
Watson termina essa primeira parte assim:
Eu exerci meu m inistério com vocês por quase dezesseis anos. 
E me regozijo e agradeço a Deus por não ter o direito de dizer de 
vocês que quanto mais vos amei, menos fui amado. Recebi muitos 
sinais que demonstram o amor de vocês. Ao passo que outras igrejas 
tenham mais membros que a nossa, entretanto, eu acredito que nenhuma 
tem tão forte afeição.
Tenho observado com muita satisfação a reverente atenção que 
vocês têm à palavra pregada. E esta luz alegra vocês, não por um breve 
momento, mas até o dia de hoje. Tenho observado em vocês o zelo 
contra o erro em momentos críticos, e a unidade e a harmonia que 
vocês têm. Essa é a honra de vocês. Se for necessária uma interrupção 
de meu ministério nesta igreja, visto que não seja permitido pregar 
para vós novamente, contudo não deixarei de amá-los e orar por vocês.
Porém, por que deve haver alguma interrupção? Onde está o 
crim e? A lguns, de fato, dizem que som os d eslea is e rebeldes. 
Amados, minhas atitudes e sofrim entos por Sua Majestade são de 
conhecim ento de muitos. No entanto, devem os ir para o céu com 
elogios e críticas. E é bom que possam os chegar à glória, mesmo 
que lutemos contra baionetas.
Eu me esforçarei para ainda mostrar a sinceridade de meu amor por 
vocês. Não prometerei que outra vez pregarei para essa igreja, nem 
direi o contrário. Desejo ser guiado pelo fio de prata da Palavra de 
Deus e sua providência. Meu coração é vosso. Há, como vós sabeis, 
uma expressão neste último Ato de Uniformidade dizendo: “que 
possamos, em breve, ser como que naturalmente mortos”. Se eu devo 
morrer, vou deixar algum legado a vocês.
A seguir, deixou uma lista com vinte orientações admiráveis, dignas 
do exame fervoroso de cada cristão.
A conclusão das orientações foi a seguinte:
Rogo a vocês que as guardem como as muitas jóias no cofre dos 
corações. Carreguem-nas por onde forem, serão um antídoto para 
guardar vocês do pecado e um meio de preservar o zelo da chama da 
piedade sobre o altar dos corações de vocês. Ainda tenho muito a dizer, 
mas não sei se Deus me dará outra oportunidade. Minhas forças se 
extinguem quase de todo. Rogo a vocês que essas coisas produzam 
uma grande marca em vossas almas. Meditem no que foi dito e o Senhor 
dará entendimento em todas as coisas.
O último discurso, em 19 de agosto, foi baseado em Isaías 3.10,11: 
“Dizei aos justos que bem lhes irá; porque comerão do fruto das suas ações. 
Ai do perverso! Mal lhe irá; porque a sua paga será o que as suas próprias 
mãos fizeram”.
Após sua saída, Watson pregou esporadicamente onde pudesse fazê- 
lo em segurança. Multas e prisões foram insuficientes para fechar a boca 
das testemunhas de Jesus. Em barracões, cozinhas, casas de fazendas, vales 
e florestas, os poucos fiéis se reuniam para ouvir a mensagem de vida eterna. 
Sem dúvida alguma, as pequenas assembléias secretas eram boas ocasiões 
para as mentes piedosas: a Palavra do Senhor era preciosa naqueles dias. 
Pão comido em secreto é proverbialmente doce e a Palavra de Deus na 
perseguição é especialmente deliciosa. Não podemos imaginar a alegria 
que antecedia aquelas reuniões ou as mem órias inesquecíveis que 
permaneciam por muito tempo depois que acabavam.
Após o grande incêndio de 1666, quando igrejas foram queimadas, o 
Sr. Watson e outros nâo-conformistas prepararam grandes salas para os 
que desejavam se reunir. Em um tempo de tolerância, em 1672, ele 
conseguiu uma licença para usar uma grande sala na Crosby House, no 
lado leste da rua Bishopsgate, que pertencia a Sir John Langham (um não- 
conformista). Foi uma circunstância em que o digno nobre favoreceu a 
causa da não-con form idade e que tão distinta câmara estava à sua disposição. 
Ali, Watson pregou por vários anos. O Rev. Stephen Chamock, B.D. tomou- 
se seu pastor auxiliar na Sala Crosby, em 1675, e continuou até sua morte 
em 1680. Dois ótimos pastores para o rebanho. Homens assim, com dons e 
graças tão extraordinários, dificilmente, se é que isso ocorreu alguma vez, 
uniram-se em um único pastorado. Ambos se propuseram a escrever um 
livro sobre fé cristã, e o volume piedoso sobre Os Atributos Divinos foi a 
primeira pedra colocada pelo pastor Chamock numa estrutura colossal que 
conseguiu completar. Watson foi mais modesto na tentativa de escrever, e 
este volume mostra como teve sucesso.
Thomas Watson, depois de um tempo, voltou a Essex, onde morreu 
repentinamente em seu quarto enquanto orava. Morreu por volta dos anos 
de 1689 ou 1690. A data de seu nascimento e a de sua morte não são 
mencionadas em lugar algum.
Na b iografia do C oronel Jam es G ard iner há uma citação 
impressionante:
Em julho de 1719, um sábado, ele havia passado o com eço da noite 
com companhias agradáveis. Dentre elas havia uma senhora casada 
com quem com binou um encontro am oroso secreto à m eia-noite. 
A reunião de amigos acabou às 23 horas e então, enquanto aguardava 
dar meia-noite, foi para seu quarto esperar o tedioso tempo passar. 
Aconteceu que ele pegou um livro religioso, que sua boa mãe ou tia 
havia colocado em sua sacola. O livro se chamava O Soldado Cristão, 
escrito pelo Sr. Watson. Pensando, pelo título, que iria achar algumas 
frases espiritualizadas de sua profissão que pudessem fazê-lo rir,
Biografia de Thomas Watson 11
começou a lê-lo. Enquanto aquele livro estava em suas mãos, uma 
im pressão veio sobre sua m ente que resultou em uma série de 
conseqüências muito importantes. De repente, pensou ter visto um 
brilho incomum de luz cair sobre o livro enquanto o estava lendo e, ao 
levantar seus olhos, descobriu, para sua perplexidade extrema, que 
diante dele estava suspensa no ar uma representação de Jesus Cristo 
na cruz, rodeado de glória. Ficou impressionado como se uma voz lhe 
dissesse: “Pecador, eu sofri isto por ti e assim me retribuis?” Ele afundou 
na cadeira e ficou algum tempo sem ação. Então, levantou-se com os 
sentimentos confusos, andou de um lado para o outro em seu quarto 
até quase cair pela incomum surpresa e agonia no coração. Isso 
continuou até outubro do ano seguinte, quando suas ansiedades foram 
transformadas em alegria indizível.
O Sr. Watson publicouvários livros sobre assuntos práticos e úteis, 
dentre eles podemos citar os mais importantes: Three treatises: 1. The 
Christians Charter; 2. The Art o f Divine Contentment; 3. A Discourse o f 
Meditation, ao qual foram acrescentados vários sermões em 1660. Esse 
volume contém, além dos três tratados, G od’s Anatomy upon Man s Heart, 
The Saint s Delight, A Christian on Earth still in Heaven, Christ s Loveliness, 
The Upright Man s Character and Crown, The One Thing Necessary, The 
Holy Longing', ou, The Saint s Desire to be with Christ, Beatitudes', ou, 
A Discourse upon part o f Christ’s Famous Sermon upon the Mount, 1660, 
A Body o f Practical Divinity, etc., além de alguns sermões: A Divine Cordial, 
The Holy Eucharist, Heaven taken by Storm, etc.
Porém, sua obra principal foi A Body o f Divinity,6 uma coleção de 176 
sermões sobre o Breve Catecismo da Assembléia de Westminster, que só 
apareceu depois de sua morte. Esse livro foi publicado em um volume, em 
1692, e acompanhava uma descrição do autor feita por Stuart, além de um 
prefácio recomendatório feito pelo rev. William Lorimer e 25 outros 
ministros de destaque da época.
Por muitos anos, esse volume continuou a ensinar teologia ao povo 
comum e ainda pode ser encontrado em cabanas pobres da Escócia. O Rev. 
George Rogers, diretor do The Pastor’s College, foi quem cuidadosamente 
organizou o lançamento desta edição atual e escreveu uma nota para nós:
Não conheço outra obra com tanto material para sermão dentro da 
mesma área. Em Howe, Chamock e Owen geralmente lemos bastante 
antes de fechar o livro e elaborar um sermão, mas Watson nos ensina a 
cortar o caminho. Tudo que diz pode ser usado, por isso, penso, seria 
uma obra de grande valor para todos os nossos alunos que exercem o 
ministério pastoral. Foi para benefício deles, suponho, que foi feita a 
reedição. Vários sermões selecionados, que geralmente são relacionados
12 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
a esta obra, não aparecem aqui, mas aparecerão na obra completa de 
suas obras na série feita por Nichol.
Este é um trabalho distinto e completo em si. Todas as edições 
existentes que já verificamos estão cheias de erros e imperfeições. 
Esta edição foi retificada, não inteiramente, mas conforme o esperado. 
Nenhuma mudança de posição foi feita, mas cada detalhe do que o 
autor quis dizer foi cautelosamente mantido. O estilo foi modernizado 
sem que deturpasse suas características. Sentenças longas foram 
divididas em duas ou três, quando possível, sem ferir a clareza ou 
força da significação. Palavras obsoletas foram substituídas por 
m odernas. C itações latinas foram restauradas à forma correta, 
conforme suas fontes foram confirmadas, e as divisões de assuntos 
foram organizadas com mais lógica. O todo ficou mais legível e, 
conseqüentemente, mais atrativo e inteligível, que em nossa opinião 
sobrepuja todas as supostas vantagens que poderiam se levantar na 
perpetuação de crueldades e vulgaridades (da linguagem) dos tempos 
passados conforme parecem agora para nós. Ao se popularizar obras 
antigas, multiplica-se os leitores de tais obras e suas mensagens podem 
ser mais rapidamente apreendidas.
Biografia de Thomas Watson 13
I. PREÂMBULO
FIRMES E FUNDAMENTADOS NA FÉ
“ ... se é que permaneceis na fé, alicerçados e firmes...” (Cl 1.23).
Considerando que, no próximo domingo, iniciarei uma instrução na 
doutrina com a igreja, toma-se útil um sermão introdutório para mostrar a 
vocês quanto é necessário ao cristão ser bem instruído nos fundamentos da 
religião, “se é que permaneceis na fé, alicerçados e firmes...” .
Este sermão está dividido em duas partes: 1. E dever dos cristãos 
se firm arem na doutrina, e 2. E dever dos cristãos se fundamentarem 
na doutrina.
1. É dever dos cristãos se firmarem na doutrina
É obrigação dos cristãos serem firmes na doutrina da fé. O apóstolo 
afirma: “Ora, o Deus de toda a graça..., ele mesmo vos há de aperfeiçoar, 
firmar, fortificar e fundamentar” (1 Pe 5.10). Essas palavras ensinam que os 
cristãos não devem ser semelhantes aos meteoros no céu, mas como as 
estrelas fixas.
O apóstolo Judas fala sobre “estrelas errantes” (Jd 13). São chamadas 
estrelas errantes porque, como Aristóteles7 diz: “elas vão para cima e para 
baixo vagueando por várias partes do céu; e por não serem feitas do mate­
rial celeste do qual as estrelas fixas são, mas apenas uma emanação dele, 
essas estrelas geralmente caem na terra”.8 Assim são aqueles que não são 
firmes na fé. Uma hora ou outra, eles farão como as estrelas cadentes, 
perderão a firm eza e vaguearão de uma a outra opinião. A girão 
impetuosamente à semelhança da tribo de Rúben (Gn 49.4); como um navio 
sem lastro, levado por qualquer vento de doutrina.
O francês Leodore Beza (1519-1603), sucessor de Cal vino, escreve 
sobre Belfectius de quem a religião mudava como a lua. Os arianos,’ por 
sua vez, a cada ano mudavam a sua fé. Pessoas assim não são pilares no 
templo de Deus, mas caniços movidos para todas as direções. O apóstolo 
chama tal atitude de “heresias destruidoras” (2Pe 2.1). Uma pessoa pode ir 
para o inferno tanto por heresia quanto por adultério. Não ser firme na fé é 
querer julgamento. Se as mentes deles não fossem volúveis, não mudariam 
tão rápido de opinião. A razão de tal atitude é a falta de substância. Como 
penas sopradas para todos os lados, assim também são os cristãos sem fé.
Como disse Cipriano:10 “O trigo que não é ajuntado, o vento sopra 
como palha”. Portanto, são comparados às crianças: “para que não mais 
sejamos como meninos, agitados de um lado para outro...” (E f 4.14). As 
crianças são volúveis, às vezes se comportam de um modo e às vezes de 
outro. Nada lhes agrada por muito tempo. Por isso, cristãos que não são 
firmes, são infantis. As verdades que abraçam em um momento rejeitam 
noutro. As vezes gostam da religião protestante, mas logo se agradam 
dos papistas.
/. O propósito da pregação é conduzir à firmeza na religião
O grande propósito da pregação da Palavra é conduzir à firmeza na fé. 
Efésios 4.11,12,14 diz: “E ele mesmo concedeu uns para apóstolos, outros 
para profetas, outros para evangelistas e outros para pastores e mestres, 
com vistas ao aperfeiçoamento dos santos para o desempenho do seu serviço, 
para a edificação do corpo de Cristo... para que não mais sejamos como 
meninos...” . A Palavra de Deus é chamada de martelo (Jr 23.29). Cada 
pancada do martelo serve para firmar os pregos na madeira, assim a palavra 
do pregador serve para firmar o ouvinte mais e mais em Cristo. Os pregadores 
se desgastam para fortalecer e firmar o crente. E este é o grande propósito 
da pregação: não somente iluminar, mas edificar almas; não somente guiar 
no caminho certo, mas manter no caminho. Então, se você não for firmado, 
não atingiu o propósito de Deus que concedeu a você a instrução.
2. Firmar-se na fé é uma honra e uma qualidade do cristão
Firmar-se na fé é tanto uma honra para os cristãos quanto uma 
qualidade. E sua qualidade. Quando o leite fica firme, vira nata; o cristão 
zeloso pela verdade andará em comunhão com Deus.
A honra do cristão são as cãs: “Coroa de honra são as cãs, quando se 
acham no caminho da justiça” (Pv 16.31). É maravilhoso ver um discípulo 
idoso, ver cabelos prateados enfeitados com virtudes de ouro.
3. Aqueles que não são firmes na f é nunca sofrerão peto reino de Deus
Aqueles que não são firmados na fé nunca poderão sofrer por ela. 
Céticos jamais experimentam o martírio. Aqueles que não estão firmes, 
estão em suspense. Quando pensam nas alegrias do céu se entregam ao 
evangelho, mas quando pensam nas perseguições, o abandonam. Cristãos 
que não são firmes não levam em consideração o que é melhor, mas o que 
é mais seguro. Tertuliano" diz que “o apóstata parece colocar Deus e 
Satanás em uma balança e, depois de pesar ambos, prefere servir ao 
maligno. Proclama-o como o melhor mestre e, neste sentido, ‘expõe Cristo 
à ignomínia’” (Hb 6.6). Ele nunca sofrerá pelaverdade, mas será como,
16 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
um soldado que deixa sua farda e corre para o lado do inimigo. Lutará do 
lado do maligno por lucro.
4. Não ser firm e n a fé é provocar a Deus
Dar-se à verdade e depois se desviar traz mal-estar sobre o evangelho, 
e isso não ficará sem punição. “Tomaram atrás e se portaram aleivosamente 
como seus pais; desviaram-se como um arco enganoso... Deus ouviu isso, e 
se indignou, e sobremodo se aborreceu de Israel” (SI 78.57,59). O apóstata 
cai repentinamente na boca do demônio.
5. Não ser firm e na religião impede o crescimento na vida cristã
Caso você não seja firme na fé, nunca crescerá. Somos ordenados a 
crescer “naquele que é a cabeça, Cristo” (Ef 4.15). Contudo, se não estamos 
firmados, não há crescimento: “a planta que é constantemente transplantada, 
nunca cresce”. Quem não é firme não pode crescer na piedade, como um 
osso do corpo não pode crescer se estiver fora da junta.
6. Firmar-se na religião para resistir àqueles que tentam nos abalar
Há uma grande necessidade de ser firme em razão de tantas coisas 
que existem para nos abalar. Os sedutores estão por toda parte. E o trabalho 
deles é afastar as pessoas dos princípios da fé: “Isto que vos acabo de escrever 
é acerca dos que vos procuram enganar” (U o 2.26). Os enganadores são 
agentes do maligno; são os grandes bandidos que tentam nos tirar da verdade. 
Eles têm línguas de prata que podem semear coisas más. Eles são astuciosos 
em induzir ao erro (Ef 4.14).
A palavra grega para astúcia, em Efésios 4.14, provém do jogo de 
dados. Há os que jogam dados e o fazem para vantagem própria. Sedutores 
são impostores, podem jogar um dado. Podem dissimular e distorcer a 
verdade enganando os outros. Sedutores enganam pelo uso inteligente das 
palavras. Romanos 16.18 diz: “ ... com suaves palavras e lisonjas, enganam 
o coração dos incautos”. Eles apresentam frases elegantes, uma linguagem 
bajuladora com a qual atacam o caráter do mais fraco.
Outra astúcia dos sedutores é sua pretensa piedade extraordinária, 
de maneira que muita gente os admira e corrobora suas doutrinas. 
Parecem homens zelosos, santos e divinamente inspirados, mas simulam 
novas revelações.
Uma terceira enganação por parte dos sedutores é seu trabalho para 
difamar e anular mestres da boa ortodoxia. Ofuscam aqueles que trazem a 
verdade, como a fumaça negra que escurece a luz do céu. Difamam outros 
para que sejam mais admirados. Assim os falsos mestres depreciaram Paulo, 
a fim de serem o centro das atenções (G1 4.17).
Preâmbulo - f ir m e s e fundamentados na f é 17
A quarta enganação por parte dos sedutores é sua pregação da doutrina 
da liberdade. Como se o homem estivesse livre da lei moral, da regra e do 
castigo, e Cristo tenha feito tudo por eles e não precisassem fazer mais nada. 
Transformam a doutrina da livre graça em uma porta para toda licenciosidade.
Outra maneira usada pelos enganadores é o estremecimento dos 
cristãos por meio da perseguição (2Tm 3.12). O evangelho é uma rosa que 
não pode ser arrancada sem espinhos. O legado que Cristo deixou em herança 
é a CRUZ. Enquanto houver o diabo e um homem da iniqüidade no mundo, 
não espere a isenção de problemas. Muitos são os que caem na hora da 
perseguição. Apocalipse 12.3,4 fala sobre “um dragão, grande, vermelho, 
com sete cabeças, dez chifres e, nas cabeças, sete diademas. A sua cauda 
arrastava a terça parte das estrelas do céu...” . O dragão vermelho, por seu 
poder e sutileza, arrastou estrelas, ou destacados mestres, que pareciam 
brilhar como estrelas no firmamento da igreja.
Não estar firmado no bem é o pecado dos demônios (Jd 6). São 
chamados “estrelas da alva” (Jó 38.7), mas são “estrelas cadentes”. Eram 
santos, mas mudaram. À semelhança de um navio que naufragou, eles, 
quando suas velas (corações) se incharam de orgulho, foram derrubados 
(lTm 3.6). Com a inconstância, os homens imitam anjos caídos. O diabo 
foi o primeiro apóstata. Os filhos de Sião devem ser como o monte Sião, 
que não se abala.
2. É dever dos cristãos se fundam entarem na doutrina
A segunda proposição ensina que a melhor maneira de os cristãos 
estarem firmes é se fundamentar bem. O texto bíblico diz: “se é que 
permaneceis na fé, alicerçados e firmes”. A palavra grega traduzida por 
alicerçados é uma metáfora que se refere a uma construção cujo alicerce 
está bem colocado. Assim, os cristãos devem se fundamentar nos pontos 
essenciais da fé e ter seu alicerce bem colocado. Preciso esclarecer algumas 
coisas em relação a essa fundamentação.
I. Devemos nos fundamentar no conhecimento das coisas elementares
Em Hebreus 5.12, o apóstolo12 fala de “princípios elementares dos 
oráculos de Deus”. Em todas as artes e ciências, na lógica, na física, na 
matemática, há alguns conhecimentos prévios, algumas regras e princípios 
que devem necessariamente ser apreendidos para a prática daquelas artes. 
No estudo teológico, os princípios elementares devem ser os primeiros a 
ser fundamentados. O conhecimento das bases e dos princípios da fé é 
muitíssimo útil, por algumas razões que apresentarei agora.
i. Essa fundamentação ajuda a servir a Deus adequadamente. Sem o 
conhecimento dos fundamentos da religião não poderemos servir a Deus
18 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
adequadamente. Nunca poderemos adorar a Deus de maneira aceitável, a 
menos que o adoremos regularmente. E como podemos fazer isso se somos 
ignorantes quanto às regras e aos elementos da fé cristã? Devemos oferecer 
a Deus um “culto racional” (Rm 12.1), mas se não entendemos as bases da 
fé, como pode ser um culto racional?
ii. Essa fundam entação é útil para enriquecer nossa mente. 
O conhecimento dos fundamentos da fé enriquece muito a mente do cristão. 
É uma lâmpada para nossos pés, dirige-nos durante todo o curso do 
Cristianismo, como o olho dirige o corpo. O conhecimento das coisas 
elementares é uma chave de ouro que abre os principais mistérios da fé. 
Dá-nos um sistem a com pleto e um corpo da teologia, exatam ente 
esquematizado em todos os seus delineamentos e cores vivas. Ajuda-nos a 
entender muitas das dificuldades que ocorrem na leitura da Palavra. Ajuda- 
nos a desenvolver muitos pontos entrelaçados nas Escrituras.
iii. Essa fundamentação nos equipa para resistir aos adversários. 
Ela nos fornece uma arma em provações. Ela nos equipa com uma armadura 
resistente, e nos arma para lutar contra os adversários da verdade.
iv. Essa fundamentação é a semente da qual a graça é gerada. É a 
semente da fé (SI 9.10). E a raiz do amor, “... estando vós arraigados e 
alicerçados em amor” (Ef 3.17). O amor aos princípios leva à formação de 
um cristão completo.
2. Devemos ser fundamentados para permanecer firmes
Buscar nossa fundamentação é a melhor maneira de permanecermos 
firmes: "... alicerçados e firmes ...”. Uma árvore bem firme deve ser uma 
árvore bem enraizada, para sermos bem firmes na religião precisamos estar 
enraizados em seus princípios. Lemos em Plutarco13 sobre um homem que 
cuidava de um cadáver. O cadáver não ficava em pé. Então aquele homem 
disse: “E necessário haver alguma coisa por dentro” . Assim, para que 
possamos ficar em pé em momentos difíceis, deve haver um princípio de 
conhecimento dentro de nós. Primeiramente, alicerçados e, então, firmes. 
Para que um navio não vire, é necessário que tenha sua âncora baixada. 
O conhecimento dos princípios é para a alma como a âncora para o navio: 
ele a segura firme no meio de ondas vivas do erro, ou dos ventos violentos 
da perseguição. Primeiramente, alicerçados e, depois, firmes.
A p l i c a ç õ e s
Primeira aplicação: aí está a razão por que tantas pessoas são instáveis, 
prontas a abraçar qualquer opinião nova e se vestirem da religião da última 
moda. A razão é não estarem alicerçadas. Vejam só como o apóstolo Pedro 
alinha essas duas características ao fazer menção de “ignorantes e instáveis”
Preâmbulo - f ir m e s e fundamentados na f é 19
(2Pe 3.16). Da maneira como são ignorantes quanto aos aspectos principais 
da teologia, são instáveis. Como o corpo não pode ser forte tendo apenas 
tendões atrofiados, também o cristão que tem falta dos fundamentos do 
conhecimento não pode ser forte na fé, pois são os tendões que o fortalecem 
e o firmam em pé.
Segunda aplicação: vejam a grande necessidade que há da construção 
das bases principais da fé por meio da instrução doutrinária, para que a 
opinião mais fraca possa ser instruída no conhecimento da verdade e 
fortalecida no amor a ela. Doutrinar é a melhor maneira para alicerçar e 
firmar as pessoas. Eu temo que muito mais benefícios não são produzidos 
por meio da pregação pelo fato de os temas principais e os artigos da fé não 
serem explicados de uma maneira doutrinária. Doutrinar é lançar a base 
(Hb 6.1). Pregar e não ensinar doutrinariamente é construir sem fundamento.
Essa maneira de doutrinar não é uma novidade, ela vem desde os 
tempos apostólicos. A igreja primitiva tinha suas formas de catecismo, como 
as seguintes frases pressupõem: um “padrão das sãs palavras” (2Tm 1.13) 
e “os princípios elementares dos oráculos de Deus” (Hb 5.12). A igreja 
tinha seus catechumenoi (alunos), como Grócio14 e Erasmo15 observam. 
Muitos dos pais da igreja, como Fulgêncio, Austin, Teodoreto, Lactâncio e 
outros, escreveram a favor do ensino doutrinário.16 Deus fez a instrução na 
fé se suceder muito bem. Assim, lançando as bases da religião de modo 
doutrinário, os cristãos foram muito bem instruídos e maravilhosamente 
edificados na fé cristã, a tal ponto de Julião, o apóstata, vendo o grande 
sucesso da instrução na fé, ter desprezado todas as escolas, bibliotecas e o 
ensino dos jovens.
Por isso, meu propósito é (com a bênção de Deus) começar este 
trabalho de doutrinamento no próximo dia de Sabbath,* à tarde. Eu farei 
desse propósito meu maior esforço a fim de lançar as bases e fundamentos 
da religião de maneira doutrinária. Se eu for impedido de fazê-lo por 
hom ens, ou levado pela m orte, espero que Deus levante outros 
trabalhadores da vinha entre vós, que possam aperfeiçoar o trabalho que 
estou começando agora.
20 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
II. PRIMEIRA PARTE
O HOMEM E AS SAGRADAS ESCRITURAS
P e r g u n t a s 1 jç 2
A. O _FIM PRINCIPAL DO HOMEM
PERGUNTA 1: Qual é o fim principal do homem?
RESPOSTA: O fim principal do homem é glorificar a Deus e deleitar- 
se nele para sempre.
Nessa pergunta são apresentadas duas finalidades específicas para a 
vida: A. A glorificação de Deus, e B J satisfação com Deus.
1. G lorificar a Deus para sempre
A Bíblia diz: “para que em todas as coisas seja Deus glorificado” 
(1 Pe 4.11). A glória de Deus é o fio de prata que deve estar presente em 
todas as nossas ações: “ ... quer comais, quer bebais, ou façais outra coisa 
qualquer, fazei tudo para a glória de Deus” (1 Co 10.31). No mundo natural 
e nas coisas artificiais, tudo coopera para uma finalidade. Portanto, o homem, 
sendo uma criatura racional, deve propor uma finalidade para si mesmo, a 
qual deveria ser exaltar Deus no mundo. A finalidade de sua existência é 
mais importante que a própria vida. A grande verdade já nos foi apresentada 
e nos afirma que a finalidade da existência de todo homem deveria ser 
glorificar a Deus.
Glorificar a Deus diz respeito a todas as pessoas da Trindade. Diz respeito 
a Deus, o Pai, que nos deu vida; Deus, o Filho, que entregou sua vida por 
nós; e Deus, o Espírito Santo, que produz uma nova vida em nós. Devemos 
dar glória a toda a Trindade.
a. O que é a glória de Deus?
Quando falamos da glória de Deus, a melhor abordagem é a seguinte 
pergunta: o que se entende por glória de Deus?
A glória de Deus pode ser considerada de duas maneiras: a glória que 
Deus tem em si mesmo, a sua glória intrínseca, e a glória que é atribuída a 
Deus, com a qual suas criaturas se empenham para glorificá-lo.
i. A glória intrínseca de Deus. A glória intrínseca de Deus é algo 
essencial à divindade, assim como a luz o é para o sol. Ele é chamado o 
“Deus da glória” (At 7.2). A glória é o brilho da deidade, ela é tão natural à 
divindade que Deus não é Deus sem ela.
A honra tributada por suas criaturas não é essencial a seu ser. Um rei 
é um homem comum quando está sem seus paramentos, sua coroa e suas 
roupas reais, porém a glória de Deus é parte essencial de seu ser, de maneira 
que não pode ser Deus sem ela. A própria existência de Deus está posta em 
sua glória. A glória de Deus não pode receber nenhum acréscimo porque é 
infinita. E o que Deus é de mais afável, e o que ele não reparte com ninguém.
Em suas Escrituras ele diz: A minha glória, não a dou a outrem” 
(Is 48.11). Deus dá bênçãos temporais a seus filhos como a sabedoria, a 
riqueza e a honra e ele também proporciona a eles bênçãos espirituais como 
sua graça, seu amor e o seu céu; mas sua glória essencial ele não compartilha 
com ninguém. O rei, faraó, deu a José um dos seus anéis e uma corrente 
de ouro, mas não repartiu com ele seu trono: somente no trono eu 
serei maior do que tu” (Gn 41.40). Deus fará muito por seu povo, dará a 
eles a herança, colocará neles uma porção da glória de Cristo, como 
mediador, mas não repartirá sua glória essencial, assentado em seu “trono” 
ele “será maior” .
ii. A glória tribu tada a Deus. A glória que Deus recebe é a que suas 
criaturas se empenham para lhe dar. As Escrituras ensinam: “Tributai ao 
S k n h o r a glória devida ao seu nome” (lC r 16.29); e ainda “ ... glorificai a 
Deus no vosso corpo” (ICo 6.20). A glória que tributamos a Deus de nada 
valerá se não exaltarmos seu nome no mundo e não o magnificarmos diante 
dos outros: “ ... será Cristo engrandecido no meu corpo” (Fp 1.20).
b. O que é glorificar a Deus?
G lorificar a Deus consiste de quatro atitudes: a. A preciação;
b. A doração; c. Afeição; e d. Sujeição. Elas são nossas obrigações para 
com o reino dos céus.
i. Apreciação. Glorificar a Deus é colocá-lo no lugar mais alto de 
nossos pensamentos e tê-lo em uma venerável estima: “tu, porém, S i-nhor, 
és o Altíssimo eternamente” (SI 92.8), e “ ... tu és sobremodo elevado acima 
de todos os deuses” (SI 97.9). Em Deus estão reunidos todos os bens que 
transmitem admiração e felicidade. Nele há uma constelação de todas as 
bem-aventuranças. Ele é prima causa, a origem e a fonte do ser, que lança 
glória sobre a criatura.
Glorificamos a Deus quando somos adm iradores dele. Quando 
admiramos seus atributos, que são os fachos de luz em que a natureza divina 
se manifesta, e quando admiramos suas promessas, as quais são o pacto da 
graça e da arca espiritual em que a pérola preciosa está escondida. A obra 
dos seus dedos (SI 8.3) são os nobres resultados de seu poder e de sua 
sabedoria na criação do mundo. Glorificar a Deus é ter pensamentos que o
22 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
apreciam; é estimá-lo incomparavelmente; é procurar por diamantes somente 
nele, a rocha.
ii. Adoração. Glorificar a Deus consiste em adoração. “Tributai ao 
S en h o r a glória devida ao seu nome, adorai o S e n h o r na beleza da santidade” 
(S I 29.2). A adoração pode ser entendida de dois modos.
Primeiramente, pode ser uma reverência civil que conferimos às pessoas 
de honra. “Então, se levantou Abraão e se inclinou diante do povo da terra, 
diante dos filhos de Hete” (Gn 23.7). A piedade não é inimiga da cortesia.
Ela pode ser também a adoração que se dá a Deus como sua 
prerrogativa real: “ inclinaram-se e adoraram o S e n h o r , com o rosto em 
terra” (Ne 8.6). Deus é muito zeloso quanto a essa adoração divina. E a 
menina de seus olhos e a pérola de sua coroa. Deus protege sua glória, 
como fez com a árvore da vida, usando querubins e uma espada flamejante, 
de maneira que nenhum homem pudesse se aproximar e a violar. A adoração 
divina deve ser da maneira como Deus mesmo a designou ou, então, será o 
oferecimento de um fogo estranho (Lv 10.1).Deus mandou Moisés construir 
um tabemáculo segundo o modelo que lhe foi mostrado no monte (Ex 25.40). 
Não poderia deixar nada de fora nem acrescentar nada. Sendo Deus tão 
exato e atencioso em relação ao lugar de adoração, quanto mais sério em 
relação à adoração. Certamente, nesse particular, tudo deve ser de acordo 
com o padrão prescrito em sua Palavra.
iii. Afeição. Esta é a parte da glória que oferecemos a Deus, que se 
considera glorificado quando é amado: “Amarás, pois, o S e n h o r , teu Deus, 
de todo o teu coração, de toda a tua alma e de toda a tua força” (Dt 6.5). 
Manifestamos amor de duas maneiras distintas.
Ele pode ser o amor de concupiscência, ou o amor-próprio. Esse é o 
amor que temos por outra pessoa porque ela nos fez algum bem. Pode-se 
dizer que um ímpio ama a Deus porque Deus lhe deu uma boa colheita ou 
uma boa produção de vinho. Isso é, acima de qualquer coisa, amar a bênção 
de Deus e não amar a Deus.
Ele pode ser também o amor que nos faz bem, como o amor entre 
amigos. Quando amamos a Deus com essa afeição, amamos a Deus de fato. 
O coração está posto em Deus, como o coração de um homem está posto 
em seu tesouro. Esse amor é exuberante, não é aplicado como em conta- 
gotas, mas como uma fonte. Ele é superlativo, ou seja, nós oferecemos a 
Deus o melhor de nosso amor, “a flor de farinha” do nosso amor.
A esposa diz assim: “ ... eu te daria a beber vinho aromático e mosto 
das minhas romãs” (Ct 8.2). Se a esposa tinha um vinho mais saboroso e 
mais aromático guardado em sua casa, o esposo deveria usufruir dele. 
Também Cristo deve participar do melhor de nosso amor. Deve-se amar
O fim principal do homem 23
intensa e ardentemente. Verdadeiros santos são serafins, pois queimam 
de santo amor por Deus. A esposa estava desfalecida de amor, ou “doente 
de amor” (Ct 2.5). Então, amar a Deus é glorificá-lo. Deus, a melhor de 
nossas felicidades, deve ter o melhor de nossas afeições.
iv. Sujeição. A sujeição acontece quando nos dedicamos a Deus e nos 
apresentamos prontos para seu serviço. É assim que os anjos no céu o 
glorificam. Eles esperam diante de seu trono e estão prontos para receber 
uma missão da parte dele. Por isso, eles são representados pelos querubins 
com suas asas abertas para mostrar quão rápidos são para obedecer. 
Glorificamos a Deus quando somos devotados ao seu serviço, quando nossa 
mente estuda para servi-lo, nossa língua clama por seu serviço e nossas 
mãos assistem a seus filhos. Os homens sábios que procuraram Cristo não 
somente dobraram seus joelhos diante dele, mas levaram a ele ouro e mirra 
(Mt 2.11). Assim, devemos não somente dobrar nossos joelhos e adorar a 
Deus, mas lhe oferecer o presente de nossa obediência sincera. Glorificamos 
a Deus quando o servimos livremente e de boa vontade: “teu servo irá e 
pelejará contra o filisteu” (1 Sm 17.32).
Um bom cristão é como o Sol, que além de irradiar calor circula a 
Terra. Assim, aquele que glorifica a Deus não tem somente suas afeições 
aquecidas com o amor a Deus, mas também realiza suas obras e se move 
com vigor na esfera da obediência.
c. Por que devemos glorificar a Deus?
i. Porque Deus é o doador de nossa vida. Deus nos dá a vida, o 
salmista diz: “... foi ele quem nos fez...” (SI 100.3). Consideramos um grande 
ato de bondade alguém poupar nossa vida, então, quão maior é a bondade 
de Deus que nos dá a vida. Nosso respirar vem dele. Ele nos dá a vida com 
todo o seu conforto. Ele nos dá saúde, que é o tempero para nosso viver. 
Ele nos dá o alimento, que é o óleo que abastece a lâmpada da vida. Se tudo 
que recebemos vem de sua bondade, não seria razoável glorificá-lo? 
Não deveríamos viver para ele, pois vivemos por meio dele? Como está 
registrado em Romanos 11.36: “Porque dele, e por meio dele, e para ele são 
todas as coisas”. Tudo que temos vem completamente dele, tudo que temos 
é por meio de sua graça e, portanto, para ele devem ser todas as coisas. E o 
versículo de Romanos termina assim: “A ele, pois, a glória eternamente. 
Amém”. Deus não é somente nosso benfeitor, mas a fonte da qual viemos, 
como os rios que provêm do mar e esvaziam seus prateados cursos d ’água 
no mar novamente.
ii. Porque Deus fez todas as coisas para sua glória. “O S en h o r fez 
todas as coisas para determinados fins...” (Pv 16.4), isto é, para sua glória. 
Assim como um rei tem direito de se apropriar de qualquer produção feita
24 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
em seu reino, Deus também se glorificará em todas as coisas. Ele se 
glorificará nos ímpios; e caso eles não o glorifiquem, Deus se glorificará 
sobre eles. "... serei glorificado em Faraó...” (Êx 14.17).
Porém, Deus criou especialmente os fiéis para sua glória. Eles são 
instrumentos vivos de seu louvor: “... ao povo que formei para mim, para 
celebrar o meu louvor” (Is 43.21). É verdade que eles não podem acrescentar 
nada à sua glória, mas podem exaltá-lo. Também não podem levantá-lo ao 
céu, mas podem levantá-lo na estima de outros sobre a terra. Deus adotou 
os santos em sua família e os fez um sacerdócio real, a fim de proclamarem 
as virtudes daquele que os chamou (1 Pe 2.9).
iii. Porque a glória de Deus é valiosa e sublime. A glória de Deus 
tem seu valor intrínseco e excelso. Ela transcende os pensamentos dos 
homens e as línguas dos anjos. A glória de Deus é seu tesouro, todas as suas 
riquezas residem nela, como disse Mica: “Como, pois, me perguntais: Que 
é o que tens?” (Jz 18.24). A glória de Deus é mais valiosa que o céu e mais 
valiosa que a salvação da alma de todos os homens. É melhor que os reinos 
sejam derrubados, os homens e os anjos sejam aniquilados, do que Deus 
perder uma jóia de sua coroa, um raio de luz de sua glória.
iv. Porque todas as cria tu ras glorificam a Deus. Todas as criaturas 
inferiores e superiores aos homens glorificam a Deus. Diante disso, como 
podemos ficar imóveis? Toda criação glorificará a Deus, exceto o homem? 
Se for assim, é uma pena que o homem tenha sido criado.
As criaturas inferiores ao homem glorificam a Deus, isto é, as criaturas 
inanimadas e os céus glorificam a Deus: “Os céus proclamam a glória de 
Deus” (SI 19.1). A minuciosa construção do céu manifesta a glória de seu 
Criador. É manifesta no belo firmamento, pintado de azul e tons de azul, 
no qual o poder e a sabedoria de Deus podem ser vistos claramente. “Os 
céus proclamam...”, no qual podemos ver a glória de Deus resplandecendo 
no Sol e cintilando nas estrelas. Observe a atmosfera e os pássaros que 
gorjeiam suas músicas entoando hinos de louvor a Deus. Cada uma das 
feras glorifica a Deus: “Os animais do campo me glorificarão” (Is 43.20).
As criaturas superiores aos homens glorificam a Deus. Os anjos “são 
espíritos ministradores” (Hb 1.14). Eles permanecem diante do trono de 
Deus e apresentam riquezas gloriosas ao tesouro do céu. Certamente, o 
homem deveria ser muito mais diligente quanto à glória de Deus do que os 
anjos, pois Deus o honrou acima deles, haja vista que Cristo tomou sobre si 
a natureza humana e não a dos anjos. Embora, quanto à criação, Deus o 
tenha feito menor que os anjos (Hb 2.7), quanto à redenção, Deus colocou 
os homens acima dos anjos. Deus casou o homem consigo mesmo, porém 
os anjos são amigos de Cristo, não a sua esposa. Cobriu-nos com uma túnica
O fim p r incipal do homem 25
púrpura de retidão, que é uma retidão superior à dos anjos (2Co 5.21). 
Por isso, visto que os anjos glorificam a Deus, muito mais nós, que somos 
dignificados com honra superior aos espíritos angelicais.
v. Porque todas as nossas esperanças dependem dele. Devemos dar 
glória a Deus porque todas as nossas esperanças dependem dele. O salmista 
afirma: “Tu és a minha esperança” (SI 39.7) e “ ... porque dele vem a minha 
esperança” (SI 62.5). Esperamos um reino da parte dele. Uma criança que 
é de boa natureza honrará seus pais ao esperar tudo o que necessita deles: 
“Todas as minhas fontes são em ti” (SI 87.7). As fontes prateadas da graça 
e as fontesdouradas da glória estão nele.
d. De quantas maneiras podemos glorificar a Deus?
i. Glorifícamos a Deus desejando somente a sua glória. Deus é 
glorificado quando se busca somente a sua glória. Uma coisa é promover a 
glória de Deus, outra é desejá-la. Deus deve ser o alvo principal de todas as 
atitudes. Assim foi com Cristo: Eu não procuro a minha própria glória, mas 
a glória de quem me enviou (Jo 8.50 e 7.18). O hipócrita observa 
tendenciosamente, pois olha mais para a própria glória do que para a de 
Deus. Nosso Salvador, desmascarando essa hipocrisia, faz uma admoestação 
contra eles: “Quando, pois, deres esmola, não toques trombeta...” (Mt 6.2). 
Pois, se um estranho perguntasse o motivo do som da trombeta, a resposta 
seria: “Darão uma esmola aos pobres” . Com essa atitude, não davam 
esmolas, mas as vendiam pela honra e o aplauso esperando receber a glória 
dos homens. A atenção dos homens era o vento que soprava as velas de 
suas caridades. Realmente “já receberam a recompensa” (Mt 6.2).
O hipócrita era aquele que ao fazer a quitação de uma dívida escrevia: 
“totalmente pago”. Crisóstomo17 diz que a vangloria é uma das melhores 
redes do diabo para laçar os homens. E Cipriano diz: “A quem Satanás não 
pôde vencer pela intemperança, venceu-o pelo orgulho e pela vangloria” . 
E necessário ter muito cuidado com a auto-adoração. Procure somente a 
glória de Deus. Eis alguns conselhos para esse agir:
Primeiro, prefira a glória de Deus acima de todas as outras coisas. 
Acima do respeito, das posses e dos relacionamentos. Quando a glória de 
Deus competir com essas coisas, deveremos preferir a glória de Deus. 
Se relacionam entos se interpuserem em nossa caminhada para o céu 
deveremos pular sobre eles ou pisá-los. Em casos extremos, é como se um 
filho deixasse de ser filho ou esquecesse de que é filho de seu pai. Deve-se 
desconhecer seu pai ou sua mãe na causa de Deus: “ ... aquele que disse a 
seu pai e à sua mãe: nunca os vi; e não conheceu a seus irmãos” (Dt 33.9). 
Isto é procurar a glória de Deus.
26 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
Em segundo lugar, procuramos a glória de Deus quando nos alegramos 
pelo fato de que ela está se realizando, embora se oponha à nossa própria 
glória. Oraremos assim: sinto-me contente em ser um perdedor se o Senhor 
for o vencedor; em ter menos riqueza, se tenho mais graça e Deus mais 
glória. Que seja o alimento ou o sofrimento físico se tu és quem me dás. 
Desejo, Senhor, o melhor para sua glória. Nosso querido Salvador disse: 
“ ... não seja como eu quero, e sim como tu queres” (Mt 26.39). Se Deus 
recebesse glória maior por meio do sofrimento de Jesus, este estaria contente 
em sofrer. “Pai, glorifica o teu nome” (Jo 12.28).
E, por fim, procuramos a glória de Deus quando nos contentamos em 
que outros brilhem mais do que nós por seus dons e suas honras, para que a 
glória de Deus cresça. O homem que tem Deus em seu coração e a glória 
dele como perspectiva deseja a exaltação do Senhor, e, seja essa exaltação 
por meio de quem for escolhido por Deus para fazê-lo, nela se alegrará. 
“Alguns, efetivamente, proclamam a Cristo por inveja e porfia... Todavia, 
que importa? Uma vez que Cristo, de qualquer modo, está sendo pregado... 
também com isto me regozijo, sim, sempre me regozijarei” (Fp 1.15,18). 
Aqueles falsos mestres pregavam a Cristo por inveja. Eles tiveram inveja 
de Paulo que reunia multidões. Eles afirmavam ser melhores que Paulo nos 
dons e afugentaram alguns dos ouvintes dos apóstolos. No entanto, Paulo 
diz que Cristo foi pregado e Deus recebeu a glória, por isso, se alegra. 
Que minha luz se apague, se o sol da retidão não brilhar.
ii. Glorificamos a Deus confessando sinceram ente nosso pecado. 
Nós glorificamos a Deus quando fazemos uma confissão sincera de nossos 
pecados. O ladrão da cruz desonrou a Deus em sua vida, mas em sua morte 
glorificou a Deus pela confissão do seu pecado: “recebemos o castigo que 
os nossos atos merecem” (Lc 23.41). Aquele homem reconheceu que merecia 
não só a crucificação, mas a perdição. “Filho meu, dá glória ao S e n h o r ... e 
declara-me, agora, o que fizeste; não mo ocultes” (Js 7.19).
Uma confissão humilde exalta a Deus. Quanto engrandecimento é 
atribuído à graça de Deus quando ela honra aqueles que merecem ser 
condenados. Desculpas e falsidades em relação ao pecado envergonham a 
Deus. Adão negou que havia experimentado do fruto proibido e, em vez de 
uma confissão plena, culpou a Deus: “A mulher que me deste por esposa, 
ela me deu da árvore, e eu comi” (Gn 3.12). Em outras palavras, se você 
não tivesse me dado essa m ulher para me tentar eu não teria pecado. 
A confissão glorifica a Deus, porque realça o caráter de Deus, nela se 
reconhece que ele é santo e reto, faça o que fizer. Neemias defende a retidão 
de Deus: “tu és justo em tudo quanto tem vindo sobre nós” (Ne 9.33). 
A confissão é sincera quando é voluntária, e não forçada. O filho pródigo
O fim principal do homem 27
reconheceu seu pecado diante de seu pai: “Pai, pequei contra o céu e diante 
de ti” (Lc 15.18).
iii. Glorificamos a Deus crendo em sua salvação. Nós glorificamos 
a Deus pela nossa fé. Abraão “pela fé, se fortaleceu, dando glória a Deus” 
(Rm 4.20). A incredulidade afronta a Deus, fazendo dele um mentiroso: 
“Aquele que não dá crédito a Deus o faz mentiroso” (U o 5.10). Mas, a fé 
tributa glória a Deus, “certifica que Deus é verdadeiro” (Jo 3.33). Aquele 
que crê segue em direção à misericórdia e à verdade, como se elas fossem 
um altar de refúgio. Ele se resguarda nas promessas e confia tudo que tem 
nas mãos de Deus: “Nas tuas mãos, entrego o meu espírito” (SI 31.5).
Essa é uma excelente maneira de dar glória a Deus. Deus honra a fé 
porque a fé honra a Deus. E uma grande coisa confiar em uma pessoa de 
todo o coração e colocar vidas e bens em suas mãos; isso é um sinal de que 
temos grande estima por ele. Três homens glorificaram a Deus ao crer: 
“Se o nosso Deus, a quem servimos, quer livrar-nos, ele nos livrará...” 
(Dn 3.17). A fé sabe que não há causas impossíveis para Deus, e confiará 
nele onde não pode percebê-lo.
iv. Glorificamos a Deus cuidando de sua glória. Nós glorificamos a 
Deus quando somos zelosos por sua glória. Deus estima a sua glória como 
a menina dos seus olhos. Uma criança inocente chora ao ver uma desgraça 
acontecida com seu pai: “... as injúrias dos que te ultrajam caem sobre 
mim” (SI 69.9). É como se fôssemos ultrajados quando ouvimos Deus ser 
ultrajado e quando a glória de Deus sofre, é como se nós sofrêssemos. Isso 
é ter cuidado com sua glória.
v. Glorificamos a Deus frutificando em seu reino. Nós glorificamos 
a Deus pela nossa frutificação. “Nisto é glorificado meu Pai, em que deis 
muito fruto” (Jo 15.8). Assim como ser infrutífero desonra a Deus, ser 
frutífero o honra: “ ... cheios do fruto de justiça, o qual é mediante Jesus 
Cristo, para a glória e louvor de Deus” (Fp 1.11). Não devemos ser como 
aquela figueira descrita no evangelho, que tinha somente folhas, mas devemos 
ser como o abacateiro que está constantemente brotando ou amadurecendo e 
nunca fica sem fruto. Não é somente a profissão de fé que glorifica a Deus, 
mas os frutos também. Ele espera que o glorifiquemos desta maneira: “Quem 
planta a vinha e não come do seu fruto?” (ICo 9.7). Arvores na floresta 
podem ser infrutíferas, mas árvores no pomar são frutíferas.
Devemos dar frutos de amor e de boas obras: “Assim brilhe também a 
vossa luz diante dos homens, para que vejam as nossas obras e glorifiquem 
a vosso Pai que está nos céus” (Mt 5.16). A fé santifica nossas obras e as 
obras testificam nossa fé. Fazer o bem aos outros, sendo os olhos do cego e 
os pés do aleijado, glorifica muito a Deus. Assim Cristo glorificou ao seu
28 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
Pai: “o qual andou por toda a parte, fazendo o bem e curando a todos os 
oprimidos do diabo” (At 10.38).
Quando somos frutíferos, somos justos aos olhos de Deus:“ O S en h o r 
te chamou de oliveira verde, formosa por seus deliciosos frutos” (Jr 11.16). 
Devemos dar muito fruto, a quantidade de frutos glorifica a Deus: “Nisto 
é glorificado meu Pai, em que deis muito fruto” (Jo 15.8). Temos a figura 
bíblica em que os seios da esposa são comparados a cachos de uvas para 
mostrar quão fértil ela era (Ct 7.7). Embora a dispensação mínima da 
graça nos dê a salvação, ela não tributará alta glória a Deus. Não foi uma 
fagulha de amor que Cristo confiou a Maria, mas muito amor. “Ela muito 
amou” (Lc 7.47).
vi. Glorificamos a Deus nos contentando com nossas circunstâncias. 
Nós glorificamos a Deus quando estamos contentes no estado em que sua 
providência nos colocou. Nós damos glória a Deus por sua sabedoria quando 
descansamos satisfeitos com o que ele estabeleceu para nós. Assim Paulo 
glorificou a Deus. O Senhor lançou-o em uma grande quantidade de 
situações diferentes em relação a qualquer homem, “ ... em prisões;... em 
perigos de morte...” (2Co 11.23), mesmo assim ele aprendeu a estar contente. 
Paulo pôde velejar tanto na tempestade quanto na calmaria; podia ser 
qualquer coisa que Deus quisesse que fosse; até mesmo em fartura ou em 
necessidade (Fp 4.13).
Um bom cristão argumenta assim: “foi Deus quem me colocou nesta 
posição; ele poderia ter me colocado numa situação mais alta, se quisesse, 
mas seria uma armadilha para mim. O que ele faz é por sabedoria e por 
amor, portanto ficarei satisfeito com minha condição”. Certamente, tal 
atitude glorifica bastante a Deus. Deus fica muito honrado com um cristão 
assim. Deus diz a respeito deste servo: “Aqui está alguém segundo o meu 
próprio coração, deixe-me fazer o que eu desejo com ele, eu não ouvirei 
nenhum murmúrio e ele ficará contente”. Isto mostra abundância de graça. 
Quando a graça é abundante, não há grande vantagem em se contentar, mas 
quando a graça se contradiz pelas circunstâncias inconvenientes, então se 
contentar é algo glorioso. Quando uma pessoa se contenta por estar no céu 
não causa admiração, mas quando se contenta sob a cruz é uma atitude de 
um verdadeiro cristão. As necessidades de tal cristão glorificam a Deus, 
pois ele mostra ao mundo que, embora tenha pouca comida em sua despensa, 
possui o suficiente em Deus para que o faça contente. Ele diz como Davi: 
“ O S e n h o r é a porção da minha herança e o meu cálice; tu és o arrimo da 
minha sorte” (SI 16.5).
vii. Glorificamos a Deus desenvolvendo nossa salvação. A glória 
de Deus e o nosso bem estão intimamente ligados. Nós o glorificamos ao
O fim principal do homem 29
promover nossa própria salvação. É uma glória para Deus ter multidões de 
convertidos. No entanto, o seu desígnio gracioso se destaca e sua 
misericórdia é glorificada enquanto nós desenvolvemos a nossa salvação, 
visto que estamos honrando a Deus. Quão grande encorajamento é servir a 
Deus sabendo que, enquanto ouvimos a Deus e oramos, glorificamos a 
ele. Enquanto estou promovendo minha própria glória no céu, estou 
aumentando a glória de Deus. Seria um encorajamento para alguém ouvir 
seu príncipe dizer assim: “você me honrará e agradará muito se for para 
aquela mina de ouro e cavar o máximo de ouro que puder levar”. E Deus 
diz: “vá até as ordenanças e pegue o máximo de graça que puder, cave o 
máximo de salvação que puder e quanto mais feliz você estiver, mais eu 
ficarei glorificado”.
viii. G lorificam os a Deus vivendo som ente para ele. Nós 
glorificamos a Deus quando vivemos para ele. O apóstolo diz: “E ele morreu 
por todos, para que os que vivem não vivam mais para si mesmos, mas para 
aquele que por eles morreu e ressuscitou” (2Co 5.15). “Porque, se vivemos, 
para o Senhor vivemos” (Rm 14.8).
O mamonita vive para seu dinheiro, o epicurista vive para sua barriga. 
O propósito da vida de um pecador é satisfazer o desejo da carne. Nós, 
porém, glorificamos a Deus quando vivemos para ele. Vivemos para Deus 
quando vivemos para servi-lo e nos oferecemos totalmente a ele. O Senhor 
nos enviou ao mundo como um mercador envia seu agente além dos mares 
para negociar em seu lugar. Vivemos para Deus quando agenciamos seus 
interesses e propagamos seu evangelho.
Deus deu um talento para cada homem e quando alguém não o 
embrulha e guarda, mas o desenvolve para Deus, esse alguém vive para 
ele. Quando um mestre em uma família, pelo conselho e o bom exemplo, 
trabalha para levar seus servos a Cristo; quando um ministro se desgasta 
para ganhar almas para Cristo e fazer que a coroa floresça sobre a cabeça 
de Cristo; quando o magistrado não usa a espada em vão, mas trabalha para 
eliminar o pecado e suprimir o vício; isto é viver para Deus e glorificá-lo: 
“também agora, será Cristo engrandecido no meu corpo, quer pela vida, 
quer pela morte” (Fp 1.20). Paulo tinha três desejos e eram todos a respeito 
de Cristo. Que ele pudesse ser encontrado em Cristo, estar com Cristo e 
magnificar Cristo.
ix. Glorificamos a Deus andando em alegria. Nós glorificamos a 
Deus quando andamos em alegria. Deus é glorificado quando o mundo vê 
um cristão que tem algo em seu interior, que pode fazê-lo alegre nos piores 
momentos; que pode capacitá-lo à semelhança de um rouxinol que canta 
mesmo com um espinho em seu peito.
30 A f é crista — Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
O povo de Deus possui uma fundamentação para sua alegria. Ele é 
justificado e adotado, e essa graça produz paz interior e faz brotar música 
dele quaisquer que sejam as tempestades (2Co 1.4; ITs 1.6). Há fundamento 
para uma grande alegria se levarmos em consideração o que Cristo realizou 
por nós com seu sangue e executou em nós por meio de seu Espírito. E essa 
alegria glorifica a Deus.
Quando o servo está desanimado e triste sua insatisfação recai sobre o 
seu mestre. Quer dizer que o servo tem sido tratado de maneira dura e seu 
mestre não lhe dá o que é apropriado. Da mesma maneira, quando o povo 
de Deus anda cabisbaixo, demonstra que não serve a um Deus bom, ou está 
arrependido de servi-lo, o que desonra a Deus. Assim como os pecados do 
ímpio trazem escândalo ao evangelho, também a tristeza do filho de Deus: 
“Servi ao S en h o r com alegria” (S I 100.2). Servir a ele não o glorifica, a 
menos que seja com alegria. Uma aparência alegre do cristão glorifica a 
Deus. A religião não elimina nossa alegria, mas a refina. Não quebra nossa 
harpa, mas a afina e faz a música mais doce.
x. Glorificamos a Deus defendendo suas verdades. Nós glorificamos 
a Deus quando defendemos suas verdades. Muito da glória de Deus está 
em sua verdade. Deus nos confiou sua verdade como um mestre confia ao 
seu servo sua bolsa de dinheiro para guardá-la. Não temos uma jóia mais 
cara para confiar a Deus do que nossas almas, nem Deus tem uma jóia mais 
cara para confiar a nós do que sua verdade. A verdade é uma luz brilhante que 
vem de Deus. Muito de sua glória está em sua verdade. Quando somos 
defensores da verdade glorificamos a Deus: “ ... exortando-vos a batalhardes, 
diligentemente, pela fé que uma vez por todas foi entregue aos santos” (Jd 3).
A palavra grega “batalhar” significa uma grande contenda pela 
própria terra, como alguém que luta por sua terra buscando os direitos 
para que ela não lhe seja tomada; assim deveríamos lutar pela verdade. 
Se houvesse mais dessa santa batalha, Deus teria mais glória. Alguns lutam 
com muita intensidade por bagatelas e cerimônias, mas não pela verdade. 
Deveríamos considerar aquele que luta mais por uma fábula do que por 
sua herança, por uma caixa de moedas do que por seu próprio nome, 
como alguém imprudente.
xi. Glorificamos a Deus louvando seu nome. Nós glorificamos a 
Deus quando louvamos seu nome. A doxologia ou o louvor é uma obra que 
exalta a Deus: “O que me oferece sacrifício de ações de graças, esse me 
glorificará” (S I 50.23). As palavras hebraicas bara (criar) e barak (louvar) 
são bem semelhantes porque a finalidade da criação é louvar a Deus. Davi 
foi chamado o doce cantor de Israel e seu louvor a Deus foi chamado 
glorificaçãoa Deus: “Dar-te-ei graças, S e n h o r , Deus meu, de todo o coração
O fim principal do homem 31
e glorificarei para sempre o teu nome” (SI 86.12). Embora nada possa ser 
acrescido à glória essencial de Deus, o louvor o exalta aos olhos dos outros. 
Quando louvamos a Deus, espalham os a sua fama e seu renom e, 
apresentamos os troféus de sua excelência. Os anjos o glorificam desse 
modo; eles são os coristas do céu e proclamam seus louvores.
Louvar a Deus é um dos atos mais sublimes e mais puros da religião. 
Na oração nós agimos como homens e no louvor como anjos. Os crentes 
são chamados “santuário de Deus” (ICo 3.16). Quando nossas línguas 
louvam, então os órgãos no templo espiritual de Deus soam. Que pena 
Deus não receber mais glória da nossa parte dessa maneira. Muitos estão 
cheios de murmúrio e de descontentamento e dificilmente dão glórias a 
Deus ao louvá-lo como o seu nome merece. Lemos sobre os santos com 
harpas em suas mãos, os emblemas do louvor. Muitos têm lágrimas em 
seus olhos e reclamações em suas bocas, mas poucos têm harpas em suas 
mãos e glorificam e louvam a Deus. Honremos a Deus dessa maneira. 
O louvor é uma obrigação que devemos a Deus: enquanto Deus renova 
nossas bênçãos, devemos renovar nossa devoção.
xii. Glorificamos a Deus zelando por seu nome. Nós glorificamos a 
Deus ao ser zelosos por seu nome. “Finéias... desviou a minha ira... pois 
estava animado com o meu zelo” (Nm 25.11). O zelo é um sentimento 
misto, uma composição de amor e ira; leva adiante nosso amor por Deus e 
nossa ira contra o pecado em um grau intenso. O zelo é impaciente quando 
Deus é desonrado. Um cristão queima com zelo, leva uma desonra feita a 
Deus como se fosse pior do que feita a si mesmo: não podes suportar 
homens maus...” (Ap 2.2). Nosso salvador, Cristo, glorifica assim seu Pai. 
Sendo batizado com um espírito de zelo, expulsou os mercadores do templo: 
“O zelo da tua casa me consumirá” (Jo 2.14-17).
xiii. Glorificamos a Deus buscando sua glória na vida civil e natural. 
Nós glorificamos a Deus quando sua glória é nossa perspectiva em nossas 
vidas civis e naturais. Em nossas ações naturais ao comer e beber: “Portanto, 
quer comais, quer bebais ou façais outra coisa qualquer, fazei tudo para a 
glória de Deus” (ICo 10.31). Uma pessoa boa guarda a regra máxima da 
temperança. Ela come carne como um remédio para curar o desgaste natu­
ral para que fique bem, com a força que ganha, para o serviço de Deus. Faz 
de sua comida não um combustível para a malícia, mas auxílio para o dever.
Ao comprar e vender, fazemos tudo para a glória de Deus. O ímpio 
vive com o ganho injusto, pelo uso de balanças enganosas como em Oséias 
12.7: “têm nas mãos balança enganosa” e assim, enquanto os homens fazem 
seus pesos mais leves, fazem seus pecados mais pesados. Inflacionam a 
mercadoria, no lugar de 40 escrevem 50, no lugar de 50, 40; outras vezes
32 A f é crista - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
dobram o preço do valor de uma mercadoria. Nós compramos e vendemos 
para a glória de Deus quando observamos aquela máxima de ouro: “Por 
isso, também me esforço por ter sempre consciência pura diante de Deus e 
dos homens” (At 24.16).
Nós glorificamos a Deus quando ele é nosso objetivo em todas as nossas 
atitudes naturais e civis e não fazemos nada que possa manchar a fé cristã.
xiv. Glorificamos a Deus trabalhando para trazer outros para ele. 
Nós glorificamos a Deus quando trabalhamos para trazer outros ao seu 
reino. Ao procurar converter outros, fazendo deles instrumentos da glória 
de Deus. Deveríamos ser tanto diamantes quanto magneto: diamantes pelo 
lustre da graça e magneto pela virtude atraente em conduzir outros para 
Cristo: “meus filhos, por quem, de novo, sofro as dores de parto, até ser 
Cristo formado em vós” (G1 4.19). Uma grande maneira de glorificar a 
Deus é arrombar as prisões do diabo e libertar homens do poder de Satanás 
para Deus.
xv. Glorificamos a Deus sofrendo por ele e selando o evangelho 
com nosso sangue. Nós glorificamos muito a Deus quando sofremos por 
sua causa e selamos o evangelho com nosso sangue. “ ... quando, porém, 
fores velho, estenderás as mãos, e outro te cingirá e te levará para onde não 
queres. Disse isto para significar com que gênero de morte Pedro havia de 
glorificar a Deus” (Jo 21.18,19).
A glória de Deus brilha nas cinzas de seus mártires: “Por isso, glorificai 
ao S e n h o r no Oriente” 18 (Is 2 4 .1 5 ) . Micaías esteve na prisão, Isaías foi 
cerrado ao meio, Paulo decapitado, Lucas enforcado numa oliveira; assim 
eles, pela morte, glorificaram a Deus. Os sofrimentos dos santos da igreja 
primitiva honraram a Deus e fizeram o evangelho famoso no mundo. O que 
poderia se dizer? Veja que bom mestre eles servem e como o amam a ponto 
de arriscarem a perda de tudo em seu serviço. A glória do reino de Cristo 
não se levanta em pompa e grandiosidade mundana como a de outros reis, 
mas é vista nos sofrimentos alegres de seu povo. Os santos do passado “não 
amaram a própria vida” (Ap 12.11). Eles abraçaram tormentos como muitos 
abraçaram coroas. Deus nos capacita a glorificá-lo quando nos chama. 
Muitos oram: “passa de mim este cálice”, mas poucos oram: “seja feita a 
tua vontade”.
xvi. Glorificamos a Deus lhe rendendo glória em tudo o que 
fazemos. Nós glorificamos a Deus quando lhe damos glória em tudo o que 
fazemos. Quando Herodes fez um discurso e o povo gritou, dizendo: “é a 
voz de um deus, não de um homem”, ele tomou a glória para si mesmo. 
O texto diz: “No mesmo instante, um anjo do Senhor o feriu, por ele não ter 
dado glória a Deus” (At 12.23). Nós glorificam os a Deus quando
O fim principal do homem 33
sacrificamos o louvor e a glória de tudo para Deus. O apóstolo diz:"... trabalhei 
muito mais do que todos eles” (IC o 15.10), tais palavras parecem um 
discurso cheio de orgulho, mas ele tira a coroa da própria cabeça e a coloca 
sobre a cabeça da graça: “Mas, pela graça de Deus, sou o que sou”.
Como Joabe, quando lutou contra Rabá, que pediu ao rei Davi que 
pudesse carregar a coroa da vitória (2Sm 12.28), assim um cristão, quando 
consegue poder sobre qualquer corrupção ou tentação, chama por Cristo 
para que ele possa carregar a coroa da vitória.
Como a lagarta quando tece seu impressionante trabalho se esconde 
sob a seda e não é vista, da mesma maneira quando fazemos algo digno de 
louvor devemos nos esconder sob o véu da humildade e transferir a glória 
de tudo o que fizemos para Deus.
Como Constantino,19 que costumava escrever o nome de Cristo sobre 
sua porta, também deveríamos escrever o nome de Cristo sobre nossas 
responsabilidades. Que ele vista as vestimentas de louvor.
xvii. Glorificamos a Deus em uma vida santificada. Nós glorificamos 
a Deus por meio de uma vida santa. Uma vida má desonra a Deus: “Vós, 
porém, sois... nação santa... a fim de proclamardes as virtudes daquele que 
vos chamou das trevas para a sua maravilhosa luz” (1 Pe 2.9); “ ... o nome de 
Deus é blasfemado entre os gentios...” (Rm 2.24). Epifânio20 diz: “a 
frouxidão de alguns cristãos em sua época, fez que muitos dos gentios se 
afastassem da companhia dele, e não eram atraídos para ouvir seus sermões”, 
por meio de nossa conversa bíblica precisa glorificamos a Deus. Embora a 
obra principal da religião esteja localizada no coração, mesmo assim nossa 
luz deve brilhar de tal maneira que outros possam contemplá-la. A segurança 
de um prédio é a fundação, mas a glória dele está na fachada; assim, a 
beleza da fé está na conversação. Quando os santos são chamados jóias, 
lançam um brilho cintilante de santidade nos olhos do mundo, então eles 
andam como Cristo andou (1 Jo 2.6). Quando vivem como se tivessem visto 
o Senhor com os próprios olhos e estado com ele no monte, enfeitam a 
religião e trazem ganhos e glória para a coroa do céu.
A p l i c a ç õ e s
Primeira aplicação: este assunto nos mostra que nosso objetivo prin­
cipal não deveria ser obter grandes propriedades nem acumular tesouros 
sobre a terra;atitudes que revelam o estado de degeneração do ser humano 
desde a queda. As vezes, os homens nunca alcançam uma propriedade, 
nem conseguem os alimentos que desejam; ou mesmo quando eles 
conseguem: qual é o tesouro deles? Têm aquilo que não enche o coração, 
assim como o sopro de um marinheiro não empurra as velas do navio.
34 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
Passam seu tempo, como Israel, ajuntando palha, e não se lembram que o 
fim da vida é glorificar a Deus: “que proveito lhe vem de haver trabalhado 
para o vento?” (Ec 5.16). Essas coisas logo se vão.
Segunda aplicação: esse assunto nos mostra também haver algumas 
atitudes que são reprováveis, bem como aqueles que as praticam. Vejamos:
1. Tornam-se reprováveis aqueles que não dão glória a Deus, aqueles 
que não respondem ao fim de sua criação; aqueles cujo tempo não é tempo 
vivido, mas um tempo perdido; aqueles que são como a madeira da vinha 
(Ez 15.2). Aqueles cujas vidas são, como diz São Bernardo,21 “ou 
pecaminosas ou áridas. Um peso inútil sobre a terra”. Deus um dia fará a 
mesma pergunta que o rei Assuero fez: “Que honras e distinções se deram 
a Mordecai?” (Et 6.3). Que honras foram dadas a mim? Que ganhos de 
glória você trouxe para meu tesouro? Não há ninguém neste auditório a 
quem Deus não tenha privilegiado com a capacidade de glorificá-lo. A saúde 
que ele nos dá, a posição social, as propriedades, a graça, tudo isto são 
oportunidades colocadas em nossas mãos para glorificá-lo. E, tenho certeza, 
ele irá pedir conta, para saber o que você fez com as bênçãos que lhe confiou. 
Que glória demos a ele?
A parábola dos talentos, na qual os homens com cinco talentos e dois 
talentos são levados a prestar contas, evidentemente mostra que Deus nos 
chamará a uma específica prestação de contas para saber como negociamos 
seus talentos e que glória tributamos a ele. Que triste será para aqueles que 
escondem seus talentos embrulhados, que não dão glória nenhuma a Deus. 
“E o servo inútil lançai para fora nas trevas” (Mt 25.30). Não é suficiente 
você dizer que não desonrou a Deus e que não viveu em práticas de pecados 
graves; pois a questão será: que bem você fez? Que glória você rendeu a 
Deus? Não é suficiente ao servo da vinha não machucar alguém nela, não 
quebrar árvores ou destruir suas cercas, pois se ele não serve na vinha 
perde seu pagamento. Da mesma maneira, se você não fizer o bem onde 
estiver, não glorificará a Deus e perderá seu pagamento: não terá salvação. 
Pense nisto, todos vocês que vivem sem servi-lo. Cristo amaldiçoou a 
figueira infrutífera.
2. Tornam-se reprováveis aqueles que estão bem longe de dar glórias 
a Deus, a tal ponto de roubarem a glória de Deus: “Roubará o homem a 
Deus? Todavia vós me roubais?” (Ml 3.8). Roubam a Deus, sim, aqueles 
que tomam a glória devida a Deus para si mesmos roubam a Deus.
i. Se compram uma propriedade atribuem tudo à própria inteligência 
e esforço, colocam a coroa sobre as próprias cabeças, não considerando 
que “Antes, te lembrarás do S e n h o r , teu Deus, porque é ele o que te dá 
força para adquirires riquezas” (Dt 8.18).
O fim principal do homem 35
ii. Se prestam qualquer serviço à religião, fazem-no para a própria 
glória: “...para serem vistos dos homens” (Mt 6.5). Fazem o que fazem 
para se colocarem num patamar para os outros admirarem e canonizarem. 
O óleo da vangloria alimenta suas lâmpadas. Quantos que pelo som do 
aplauso popular já seguiram para o inferno. Aqueles a quem o diabo não 
pode destruir pela temperança, destrói pela vangloria.
3. Tomam-se reprováveis aqueles que lutam contra a glória de Deus: 
“para que não sejais, porventura, achados lutando contra Deus” (At 5.39). 
Aqueles que se opõem a qualquer circunstância em que a glória de Deus 
seja promovida lutam contra ela.
Promove-se bastante a glória de Deus por meio da pregação da Palavra, 
que é seu motor segundo o qual converte almas. Aqueles que impedem a 
pregação da Palavra lutam contra a glória de Deus: “a ponto de nos 
impedirem de falar a gentios para que estes sejam salvos” (lTs 2.16). 
Dioclesiano,22 que promoveu a décima perseguição contra os cristãos, 
proibiu encontros da igreja e fez que os templos dos cristãos fossem 
derrubados. Aqueles que põem obstáculos à pregação, assim como os 
filisteus que taparam os poços, esses tapam o poço da água da vida. Eles 
levam embora o médico que poderia curar as almas enfermas pelo pecado. 
Ministros são luzes (Mt 5.14) e somente os ladrões odeiam a luz. Eles atacam 
diretamente a glória de Deus, e que prestação de contas darão a Deus quando 
cobrar o sangue das almas dos homens que está sobre eles? “Ai de vós, 
intérpretes da lei! Porque tomastes a chave da ciência; contudo, vós mesmos 
não entrastes e impedistes os que estavam entrando” (Lc 11.52). Se há 
justiça no céu ou fogo no inferno, não sairão sem punição.
Terceira aplicação: por meio desse tema também somos exortados. 
Vejamos algumas exortações.
Exortados a que cada um de nós, onde estamos, façamos à ação prin­
cipal e o propósito de tudo glorificar a Deus.
1. Deixe-me falar aos magistrados. Deus colocou muita glória sobre 
eles: “eu disse: sois deuses” (SI 82.6), e não glorificarão a Deus que colocou 
tanta glória sobre eles?
2. Quanto aos pastores. Eles deveriam estudar a fim de promover a 
glória de Deus. Deus lhes confiou duas coisas muito preciosas, sua verdade 
e as almas de seu povo. Ministros, pela virtude do ofício, devem glorificar 
a Deus. Devem glorificá-lo pelo labor na palavra e na doutrina: “Conjuro- 
te, perante Deus e Cristo Jesus, que há de julgar vivos e mortos, pela sua 
manifestação e pelo seu reino: prega a palavra, insta, quer seja oportuno, 
quer não, corrige, repreende, exorta com toda a longanimidade e doutrina” 
(2Tm 4.1,2). Agostinho tinha um desejo, que Cristo em sua vinda o 
encontrasse orando ou pregando.
36 A f é cristã — Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
Pastores devem glorificar a Deus em seus zelos e suas santidades. 
Os sacerdotes sobre a lei, antes de servirem no altar, lavavam-se na pia; 
assim, aqueles que servem na casa de Deus deveriam primeiro ser lavados 
dos grandes pecados na pia do arrependimento. E uma realidade penosa e 
vergonhosa pensar naqueles que se chamam pastores, mas que em vez de 
darem glória a Deus o desonram (2Cr 11.15). Suas vidas, assim como suas 
doutrinas, são heterodoxias e não estão livres dos pecados que reprovam 
em outros. O servo de Plutarco23 o censurou, dizendo: “ele escreveu um 
livro contra a ira, et ipse mihi irasciíur, mas cai numa paixão de ira comigo”. 
Assim é o ministro que prega contra a bebedeira, mas ele mesmo é um 
bêbado; prega contra palavrões, mas ele mesmo fala palavrões.
3. Agora aos chefes de famílias. Eles devem glorificar a Deus, devem 
acostumar seus filhos e servos com o conhecimento do Senhor. Suas casas 
deveriam ser pequenas igrejas: “Porque eu o escolhi para que ordene a seus 
filhos e a sua casa depois dele, a fim de que guardem o caminho do S e n h o r ” 
(Gn 18.19). Vocês que são mestres têm uma responsabilidade com as almas. 
Pela falta das rédeas da disciplina familiar, a juventude vive sem domínio.
C o n c l u s ã o
Seria um grande conforto na hora da morte pensar que glorificamos a 
Deus em nossas vidas. Foi o consolo de Cristo antes de sua morte: “Eu te 
glorifiquei na terra” (Jo 17.4). Na hora da morte, tudo o que consola você 
nesta vida acabará. Pensar em quão rico você é e em quais prazeres teve 
nesta terra será algo incapaz de consolá-lo, constituindo um tormento ainda 
maior. Que benefício trará a alguém uma propriedade destruída? Por outro 
lado, quão grande será o consolo e a paz trazidos à alma pela consciência 
tranqüila em ter glorificado a Deus nesta terra. Como isto o fará até mesmo 
ansiar pela morte, pois o servo que trabalhou o dia inteiro na vinha deseja 
que a noite venha, quando receberá seu pagamento. Como aqueles que 
viveram sem dar glórias a Deus podem pensar que morrer éum consolo? 
Não podem esperar uma colheita em que não semearam uma semente. Como 
podem esperar glória de Deus, pois nunca deram glória a ele? Que horror 
será a morte deles. O verme da consciência consumirá suas almas antes 
que os vermes consumam seus corpos.
Quando glorificamos a Deus, ele glorifica nossas almas para sempre. 
Ao promover a glória de Deus aumentamos a nossa própria: ao glorificar a 
Deus, iremos finalmente ao abençoado deleite nele.
2. Deleitar-se em Deus para sempre
O fim principal do homem é se deleitar em Deus para sempre: “quem 
mais tenho eu no céu?” (SI 73.25). Isto é, o que há no céu que eu desejo
O fim principal do homem 37
usufruir além de ti? O deleitar-se em Deus se apresenta em duas partes: a 
primeira é nesta vida e a outra na vida por vir.
1. Deleitar-se em Deus nesta vida
E muito bom usufruir as ordenanças de Deus, mas usufruir a presença 
de Deus nas ordenanças é o desejo incessante do coração agraciado: “Assim, 
eu te contemplo no santuário, para ver a tua força e a tua glória” (SI 63.2). 
Usufruímos esse doce deleite em Deus nas seguintes circunstâncias: quando 
sentimos seu Espírito cooperando nas ordenanças e destilando graça sobre 
nossos corações; quando por meio da Palavra o Espírito vitaliza e aumenta 
as afeições: “Porventura, não nos ardia o coração” (Lc 24.32); quando o 
Espírito transforma o coração deixando uma marca de santidade sobre ele 
e “... somos transformados de glória em glória” (2Co 3.18); quando o Espírito 
revive o coração com consolo, vem com sua unção e com seu selo e derrama 
o amor de Deus em abundância no coração (Rm 5.5). “Ora, a nossa 
comunhão é com o Pai e com seu Filho, Jesus Cristo” (1 Jo 1.3).
Na Palavra, ouvimos a voz de Deus, no sacramento temos seu beijo. 
O coração ser aquecido e inflamado em uma tarefa é resposta de Deus a 
nosso pedido de devoção. As doces comunicações do Espírito de Deus são 
os primeiros frutos de glória. Cristo já retirou seu véu e mostrou sua face 
amigável, agora conduz o crente para o salão do banquete e lhe dá do vinho 
aromático de seu amor para beber. Ele tocou o coração e o fez pular de 
alegria. Como é doce usufruir Deus. O crente tem, nas ordenanças, divinos 
êxtases de alegria e transfigurações da alma, a tal ponto de ser elevado 
acima do mundo e desprezar todas as coisas aqui embaixo.
A p l i c a ç õ e s
Primeira aplicação: ter o deleite de Deus nesta vida é assim tão doce? 
Quão maus são aqueles que preferem se deleitar em suas malícias em lugar 
de Deus, conforme dito no texto: “... nos últimos dias, virão escamecedores 
com seus escárnios, andando segundo as próprias paixões” (2Pe 3.3). 
O desejo da carne, o desejo do olho e o orgulho da vida é a trindade que 
eles adoram (U o 2.16). A malícia é um desejo ou impulso descontrolado 
que provoca na alma aquilo que é maligno.
Existem a malícia vingativa e a malícia deliberada. A malícia, como 
um calor febril, incendeia a alma. Aristóteles chama a malícia sensual de 
algo cruel, porque qualquer malícia é violenta, e a razão e a consciência 
não podem ser ouvidas. Essas malícias obcecam e brutalizam o homem: 
“A sensualidade, o vinho e o mosto tiram o entendimento” (Os 4.11). 
Tiram o entendimento de tudo que é bom. Quantos estabelecem como 
objetivo de suas vidas não se deleitar em Deus, mas usufruir as próprias
38 A fé cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
malícias. São como aquele cardeal que disse: “que se mantivesse a posição 
de cardeal de Paris, ele se contentaria em perder sua parte no paraíso” . 
A malícia primeiramente encanta com o prazer e, depois, vem o dardo fa­
tal: “até que a flecha lhe atravesse o coração” (Pv 7.23). Isto poderia ser 
como uma espada flamejante que detém os homens no caminho de seus 
desejos carnais. Quem por um pingo de prazer beberia um mar de ira?
Segunda aplicação: que seja nosso grande interesse usufruir a doce 
presença de Deus em suas ordenanças. Usufruir a comunhão espiritual com 
Deus é um enigma e um mistério para a maioria das pessoas. Aqueles que 
ficam ao redor da corte não falam com o rei. Podemos nos aproximar de 
Deus em suas ordenanças e ficar perto da corte do céu, mas mesmo assim 
não usufruir a comunhão com Deus. Podemos ter a letra e não o Espírito, o 
sinal visível sem a graça invisível. Isto significa usufruir Deus de maneira 
errada, deveríamos essencialmente contemplar: “A minha alma tem sede 
de Deus, do Deus vivo” (SI 42.2). O que é todo nosso usufruir mundano 
sem o usufruir Deus? O que vale usufruir uma boa saúde e ser como um 
guerreiro mas não usufruir Deus? “Ando de luto, sem a luz do sol” (Jó 30.28), 
esta é a verdade que podemos afirmar a respeito de qualquer criatura que 
não se deleita em Deus, pois anda de luto, sem a luz do sol. Nosso grande 
propósito deveria ser não somente ter as ordenanças divinas, mas o Deus 
das ordenanças.
O usufruir a doce presença de Deus neste mundo é a maior alegria da 
vida: é uma colméia cheia de mel, uma casa de riquezas, uma fonte de 
prazer (SI 36.8,9). Quanto mais alto a laverca voa, mais doce canta: e quanto 
mais alto nós voamos pelas asas da fé, mais usufruímos Deus. O coração se 
inflama na oração e na meditação. Que grande alegria e paz há em crer. 
Não é confortável estar no céu? Aquele que usufrui muito Deus nesta vida 
leva o céu com ele. Que isto seja o que principalmente desejamos: usufruir 
Deus em suas ordenanças. O usufruir a doce presença de Deus aqui é uma 
séria intenção de usufruí-lo no céu. Essa convicção nos leva a considerar o 
segundo aspecto que é usufruir Deus na vida futura.
2. Deleitar-se em Deus na vida futura
O fim principal do homem é usufruir Deus para sempre. Antes de 
entrarmos plenamente na presença de Deus no céu, há um estágio preliminar 
que o antecede, isto é, estarmos em um estado de graça. Devemos nos 
conformar com ele em graça antes de ter comunhão com ele em glória. 
Graça e glória estão ligadas em uma corrente. A graça precede a glória 
como a estrela da manhã introduz o Sol. Deus nos qualificará e nos deixará 
apropriados para um estado de bênção. Bebedices e palavrões não são 
apropriados para usufruirmos Deus em glória; o Senhor não colocará tais
O fim principal do homem 39
víboras em sua intimidade. Somente aquele que é “puro de coração verá a 
Deus”. Devemos primeiramente ser, como a filha do rei, gloriosos por dentro, 
antes de sermos vestidos com as roupas de glória. Como o rei Assuero fez 
que as virgens fossem purificadas, e ungidas, e fossem perfumadas, e, depois, 
se apresentassem diante do rei (Et 2.12), assim nós devemos ter a unção de 
Deus e sermos perfumados com as graças do Espírito, aqueles perfumes 
aromáticos, e, então, nos apresentarmos perante o rei do céu. Sendo assim 
divinamente qualificados pela graça seremos levados ao monte santo e 
usufruiremos Deus para sempre.
O que é usufruir Deus para sempre, senão ser colocado em um estado 
de alegria? Assim como o corpo não pode ter vida, senão em comunhão com 
a alma, assim a alma não pode ter bênção, a não ser em comunhão imediata 
com Deus. Deus é o bem maior; portanto, usufruir dele é a maior felicidade.
Ele é “um bem no qual estão todos os bens”. As grandes qualidades da 
criatura são limitadas. Uma pessoa pode ter saúde, mas não beleza, 
conhecimento, mas não descendentes, riquezas, mas não sabedoria; mas 
em Deus estão contidas todas as qualidades. Ele é bom, completo para a 
alma, um sol, uma porção, uma fonte de salvação; em quem permanece 
“toda a plenitude” (Cl 1.19).
Deus é um bem sem misturas. Não há nada nesta vida sem uma mistura. 
Para cada gota de mel há uma gota de fel. Salomão, que se dedicou a 
encontrar a pedra filosofal e a buscar a felicidade neste mundo, não encontrou 
nada senão vaidade e perplexidade (Ec 1.2). Deus é perfeito, a quintessência 
do bom. Ele é doce em flor.
Deus é o bem satisfatório. A alma clama que tem o suficiente: “Eu, 
porém, na justiça contemplarei a tua face” (SI 17.15). Então, que o sedento 
seja levado a um oceano de puraágua e se satisfaça. Se há o suficiente em 
Deus para satisfazer os anjos, haverá também o suficiente para nos satisfazer. 
A alma é finita, mas Deus é infinito. Embora Deus seja um bem que satisfaça, 
ele não excede. Alegrias renovadas jorram continuamente de sua face. Deus 
é ardentemente desejado pelas almas glorificadas, mesmo após milhões de 
anos, como foi desde o início. Há uma realização em Deus que satisfaz e ao 
mesmo tempo é doce o suficiente para que a alma ainda o deseje.
Deus é um bem delicioso. Este que é o bem principal deve 
impressionar a alma com prazer. Há nele um prazer arrebatador e o su- 
pra-sumo da alegria. Existe uma doçura na pessoa de Deus que alegra, ou 
melhor, que arrebata a alma: o amor de Deus goteja tal suavidade infinita 
na alma assim como é inexprimível e cheio de glória. Há muito prazer em 
Deus ainda que o vejamos somente pela fé (lP e 1.8), imagine como será 
alegre vê-lo face a face. Se os santos encontraram tanto prazer em Deus
40 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
enquanto estavam sofrendo, quanta alegria e prazer terão quando forem 
coroados. Se as chamas são camas de rosas, o que será deitar no colo de 
Jesus. Que cama de rosas isso será.
Deus é um bem superlativo, ele é melhor que qualquer coisa que se 
possa comparar a ele. Ele é melhor que a saúde, as riquezas e a honra. 
As demais coisas sustentam a vida, ele dá a vida. Quem compararia alguma 
coisa a Deus? Quem pesaria uma pena em comparação com uma montanha 
de ouro? Deus excede a todas as coisas, é mais infinito que o sol em relação 
à luz de uma vela.
Deus é um bem eterno. Ele é “Ancião de dias”, porém nunca envelhece, 
nem se desgasta (Dn 7.9). A alegria que ele dá é eterna, a coroa nunca se 
desfaz (lP e 5.4). A alma glorificada sempre será consolada em Deus, 
celebrando o seu amor e banhando-se na luz de sua face. Nós lemos 
sobre o rio de prazer na mão direita de Deus; mas será que com o passar 
do tempo não secará? Absolutamente. Há uma fonte na base que a 
alimenta: “Pois em ti está o manancial da vida” (SI 36.9). Assim, Deus é 
o bem maior e o usufruir Deus para sempre é a maior felicidade que a 
alma é capaz de experimentar.
A p l i c a ç õ e s
Primeira aplicação: que a finalidade principal de nosso viver seja 
usufruir esse bem maior na vida por vir. Agostinho registra 288 opiniões 
entre filósofos sobre a felicidade, mas todas elas foram insuficientes. 
O ponto mais alto que uma alma pode alcançar é usufruir Deus para sempre. 
É o usufruir Deus que faz o céu: “estaremos para sempre com o Senhor” 
(1 Ts 4.17). A alma se agita como a agulha de uma bússola e nunca descansa 
até que chegue a Deus. A fim de descrever esse excelente estado de uma 
alma glorificada que usufrui Deus, podemos considerar que:
1. Não deve ser entendido de uma maneira sensual: não devemos 
imaginar quaisquer prazeres carnais no céu. Os turcos, no Alcorão, falam 
de um paraíso de prazer em que há riquezas em abundância e vinho tinto 
servido em cálices dourados. Os epicuristas desta era gostariam de tal 
céu quando morressem. Embora o estado de glória seja comparado a uma 
festa adornada com pérolas e com pedras preciosas, essas metáforas são 
somente auxílio para nossa fé para nos mostrar que há alegria abundante 
e felicidade nos mais altos céus; mas não são prazeres carnais, porém 
espirituais. Nossa alegria será na perfeição da santidade, em ver a face 
pura de Cristo, em sentir o amor de Deus, em conversar com os seres 
celestiais; tudo isso será glorioso para a alma que receberá infinitamente 
de todos os prazeres celestiais.
O fim principal do homem 41
2. Deveremos ter um sentimento vivido desse estado glorioso. 
Por exemplo, uma pessoa num estado letárgico, embora esteja viva, encontra- 
se ao mesmo tempo sã e morta, porque não está sensível à vida ao seu redor 
nem tem qualquer prazer em sua vida. Os cristãos, porém, devem ter um 
sentimento vivido e imediato do prazer infinito que vem de se deleitar em 
Deus. Nós deveríamos saber o que é ser feliz; e deveríamos refletir alegremente 
sobre a nossa dignidade e a nossa felicidade; deveríamos saborear cada 
pedacinho dessa doçura e cada gota desse prazer que fluem de Deus.
3. Devemos ser capacitados a levar uma amostra dessa glória. 
Não suportaríamos toda essa glória nesta vida terrena, seria muito para 
nós, assim como um olho fraco não pode contemplar o Sol. Mas, Deus nos 
capacitará para a glória; nossas almas serão tão celestiais e tão perfeitas em 
santidade que elas serão capazes de usufruir a bendita contemplação de 
Deus. Moisés viu a glória de Deus pela fissura da rocha (Êx 33.22). 
De nossa abençoada rocha, Cristo, nós contemplaremos a Deus.
4. Esse usufruir Deus será mais uma pura contemplação dele. Alguns 
perguntam se usufruir Deus será somente pela contemplação. Isto não 
será tudo, senão m etade do céu. H averá um Deus de amor, uma 
condescendência nele, um saborear de sua doçura; não som ente 
observação, mas detenção. Há uma observação: “para que vejam a minha 
glória que me conferiste” (Jo 17.24) e há uma detenção: “Eu lhes tenho 
transmitido a glória que me tens dado” (Jo 17.22). A glória não somente 
será revelada a nós, porém em nós: “a glória a ser revelada em nós” 
(Rm 8.18). Contemplar a glória de Deus é a glória revelada para nós; 
mas compartilhar sua glória é a glória revelada em nós. Assim como a 
esponja suga o vinho, nós sugaremos a glória.
5. Não há nenhuma interrupção nesse estado de glória. Não teremos a 
presença gloriosa de Deus somente em alguns momentos especiais, mas 
continuam ente estarem os em sua presença, continuam ente sob o 
arrebatamento divino da alegria. Não haverá sequer um minuto no céu em 
que uma alma glorificada possa dizer que não usufrui felicidade. As fontes 
de glória não são como as de água, que costumam acabar, de maneira a não 
termos uma gota sequer delas. As fontes e as alegrias celestiais estão 
continuamente fluindo. Deveríamos desprezar este vale de lágrimas onde 
estamos agora em troca do monte da transfiguração. Com que ardor os 
cristãos deveriam desejar usufruir totalmente Deus no paraíso. Ao ter uma 
idéia da terra da promessa, precisamos paciência para estar contentes em 
viver aqui um pouco mais.
Segunda aplicação: que isto seja um incentivo ao dever. Como 
deveríamos ser diligentes e zelosos em glorificar a Deus, de maneira a 
finalmente usufruir dele. Se Tully, Demóstenes34 e Platão,25 que tinham a
42 A f é crista - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
razão um pouquinho iluminada pela qual vislumbravam grandes coisas, 
imaginaram um “Campos Elíseos” e a felicidade depois desta vida, e que 
eram necessárias dores hercúleas para disso usufruir, quanto mais deveriam 
os cristãos, que têm a luz das Escrituras pela qual ver, estimularem-se de 
maneira a se ater à fruição eterna de Deus e da glória eterna. Se alguma coisa 
pudesse nos tirar de nossa cama de preguiça para servir a Deus com toda a 
nossa força, deveria ser a esperança do nosso usufruir Deus para sempre, o 
que está próximo. O que fez Paulo tão ativo na esfera da religião? “Trabalhei 
muito mais do que todos eles” (ICo 15.10). Sua obediência não se moveu 
devagar, como o sol no relógio solar; mas rápido, como a luz que vem do sol. 
Por que ele era tão zeloso em glorificar a Deus, senão pelo fato de finalmente 
centrar e realizar-se nele? “Estaremos para sempre com o Senhor” (1 Ts 4.17).
Terceira aplicação: que isto console o piedoso diante de todos os 
sofrimentos presentes que ele sente. Tu reclamas, cristão, não usufruis a ti 
mesmo, temes ansiedade, a necessidade te deixa perplexo; durante o dia 
não podes usufruir paz, durante a noite não usufruis sono; não usufruis os 
confortos da tua vida. Que isto te reviva, que em breve usufruirás Deus e, 
então, terás mais do que podes pedir ou pensar; terás a alegria dos anjos, 
glória sem fim ou intervalos. Nós nunca nos realizaremos totalmente até 
que usufruamos Deus eternamente.
B. As S a g r a da s E s c r i t u r a s
PERGUNTA 2: Que regra Deus nos deu para nos orientar na maneira 
de o glorificar e deleitar-se nele?
RESPOSTA: A Palavra de Deus, que se acha nas Escrituras do Antigo 
e Novo Testamentos, é a única regra para nos orientar na maneira de 
glorificá-lo e deleitar-se nele.
“Toda a Escritura é inspirada por Deus...” (2Tm 3.16). Escritura 
quer dizer o Livro sagrado de Deus. Foi dado por inspiração divina, isto 
é, as Escrituras não são um artifício do cérebro humano, mas são divinas 
em sua origem. A imagem de Diana era venerada pelos efésios porque 
supunham que caíra de Júpiter (At 19.35), as Sagradas Escrituras devem 
ser muito reverenciadas e bastante consideradas porque temos a certeza 
que vieram do céu (2Pe 1.21). Os dois Testamentos são os dois lábios 
pelos quais Deus nos falou.
1. A autoridade das Escrituras Sagradas
a. Como se evidencia a autoridade das Escrituras?
Podemos estabelecer uma pergunta: Como se evidencia que as 
Escrituras têm uma autoridade divina nelas impressa? Porque o Antigo e o
As Sagradas Escrituras 43
Novo Testamentos são a base de toda nossa fé, e se a divindade das Escrituras 
não puder ser provada, a base sobre a qual nós construímos nossa fé é vã. 
Devo, então, abraçar o desafio de provar essa grande verdade que afirma as 
Escrituras, de fato, Palavra de Deus.
Fico pensando: de onde mais as Escrituras poderiam vir, senão de 
Deus? Homens maus não poderiam ser seus autores. Suas mentes poderiam 
compor linhas tão santas? Fariam declarações tão severas contra o pecado?
Homens bons também não poderiam ser os autores. Poderiam escrever 
de maneira tão afinada? Ou, quem sabe, poderiam usar sua agilidade para 
falsificar o nome de Deus usando o “Assim diz o Senhor” em um livro de 
autoria de homens?
Também, nenhum anjo no céu poderia ser o autor delas, porque os 
anjos investigam e pesquisam nas profundezas dos mistérios do evangelho 
(lPe 1.12), o que implica ignorância de algumas partes das Escrituras. 
Portanto, não poderiam ser autores de um livro que eles mesmos não 
compreendem completamente. E mais, que anjo no céu teria a ousadia de 
ser tão arrogante em agir como se fosse Deus e dizer: “eu crio” (Is 65.17), 
“Eu, o S e n h o r , falei” (Nm 14.35)? Assim, fica evidente que a origem das 
Escrituras é sagrada, que não poderia vir de outro senão do próprio Deus.
Além do consenso harmonioso de todas as partes da Escritura, há 
sete argumentos convincentes que podem patenteá-la como sendo a Palavra 
de Deus.
i. As E scritu ras relatam um am plo período histórico. Em sua
antiguidade, as Escrituras são uma obra de caráter antigo. Os cabelos brancos 
delas a fazem venerável. Nenhuma história humana existente vai tão longe 
quanto o dilúvio de Noé, mas as Sagradas Escrituras relatam assuntos reais 
desde o começo do mundo e relatam sobre coisas até mesmo anteriores à 
existência de tudo. Encaixam-se com a regra de Tertuliano: “O que é mais 
antigo, deve ser recebido como mais sagrado e autêntico”.
ii. As E sc ritu ra s fo ram p rese rv ad as de m odo so b ren a tu ra l. 
Podemos saber que as Escrituras são a Palavra de Deus por meio de sua 
preservação miraculosa no decorrer dos anos. As Sagradas Escrituras são 
as jóias mais caras que Cristo nos deixou e que a igreja de Deus preservou 
como registros públicos do céu, de maneira que não foram perdidos.
A Palavra de Deus nunca teve inimigos à altura para extirpá-la, se isso 
fosse possível. Inimigos se levantaram com leis contra as Escrituras, como 
fez faraó para com as parteiras decretando que matassem os filhos das 
hebréias estrangulando-os no parto. Deus, porém, preservou esse Livro 
inviolável até hoje. O demônio e seus agentes têm soprado para ver se 
apagam a luz das Escrituras, mas não têm conseguido apagá-la, um sinal 
evidente de que elas vêm do céu.
44 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A igreja de Deus, em todas as revoluções e mudanças, não somente 
guardou as Escrituras para que não se perdessem, mas as preservou da 
depravação. A letra das Escrituras foi preservada na língua original sem 
qualquer corrupção.
As Escrituras não foram corrompidas antes da vinda de Cristo, pois se 
assim fosse, Cristo não teria mandado os judeus pesquisarem nas Escrituras. 
Ele disse: “Examinai as Escrituras” . Cristo sabia que aquelas fontes sagradas 
não estavam contaminadas com tendências humanas.
iii. O conteúdo das E scritu ras é divinam ente inspirado. Que as 
Escrituras são a Palavra de Deus se verifica pelo material contido nela. 
O mistério da Escritura é de tão difícil compreensão e profundeza que 
nenhum homem ou anjo poderia conhecê-la se não fosse divinamente 
revelada. Quem poderia conceber que o Eterno deveria nascer; que aquele 
que troveja nos céus deveria chorar em um berço; que aquele que governa 
as estrelas deveria amamentar no peito; que o Príncipe da Vida deveria 
morrer; que o Senhor da Glória deveria ser envergonhado; e que o pecado 
deveria ser punido completamente, mas perdoado completamente? Quem 
poderia conceber tal mistério se as Escrituras não tivessem sido reveladas 
a nós? E, em relação à doutrina da ressurreição, que o mesmo corpo moído 
em milhares de pedaços pudesse levantar o mesmo corpo individual, como 
se fosse uma criação, não uma ressurreição. Como tal enigma, acima de 
toda explicação humana, poderia ser conhecido se as Escrituras não 
fizessem uma revelação dele?
O material das Escrituras é tão cheio de bondade, de justiça e de 
santidade que não poderia ter sido inspirado por mais ninguém, a não ser 
Deus. A santidade dele mostra que é de Deus. As Escrituras são comparadas 
à prata refinada sete vezes (SI 12.6). O Livro de Deus não tem errata em si; 
é um raio do sol da justiça, um fluxo cristalino de água da fonte da vida. 
Todas as leis e decretos humanos tiveram suas corrupções, mas a Palavra 
de Deus sequer tem uma manchinha, é de um esplendor astronômico: 
“Puríssima é a tua palavra” (SI 119.140), como o vinho das uvas, que não é 
misturado ou adulterado. E tão puro que purifica tudo o mais: “Santifica-os 
na verdade” (Jo 17.17).
As Escrituras exigem santidade de maneira que nenhum livro o faz: 
comanda-nos a viver “sensata, justa e piedosamente” (Tt 2.12). Viver de 
maneira sensata em atos de temperança; de maneira justa em atos de justiça; 
de maneira piedosa em atos de zelo e de devoção. Ela nos recomenda o que 
é “puro... amável de boa fama” (Fp 4.8). Essa espada do Espírito corta a 
prática imoral (Ef 6.17). De cima da torre das Escrituras é lançado uma mó 
na cabeça do pecado. As Escrituras são a lei real que comanda as ações e as 
afeições; conecta o coração ao bom comportamento. Onde tal santidade
As Sagradas Escrituras 45
será encontrada se não for escavada dessa mina sagrada? Quem poderia ser 
o autor de um livro assim, a não ser o próprio Deus?
iv. As Escrituras apresentam profecias sobrenaturais. Que as 
Escrituras são a Palavra de Deus é evidente por suas predições. Profetiza 
coisas que acontecerão, mostra a voz de Deus falando nela: foi predita pelo 
profeta: “Eis que a virgem conceberá” (Is 7.14), e, “será morto o Ungido” 
(Dn 9.26). As Escrituras prevêem coisas que acontecerão muitas eras e 
séculos mais tarde; por exemplo, quanto tempo Israel serviria na fornalha 
de ferro e até o dia exato de sua libertação: “Aconteceu que, ao cabo dos 
quatrocentos e trinta anos, nesse mesmo dia, todas as hostes do S k n iio r 
saíram da terra do Egito” (Êx 12.41). Esta predição de coisas futuras, 
meramente contingentes, e não dependentes de causas naturais, é uma 
demonstração clara de sua origem divina.
v. As Escrituras apresentam narrativas imparciais. A imparcialidade 
daqueles homens de Deus que escreveram as Escrituras, que não deixaram 
de reconhecer as próprias falhas. Quem escreveria uma história maculando 
a própria face ao registrar coisas a seu respeito que poderiam manchar sua 
reputação? Moisés registra a própria impaciência quando bateu na rocha, e 
nos diz que porcausa daquilo não poderia entrar na terra prometida. Davi 
relata o próprio adultério e assassinato, que aparecem como um borrão em 
seu brasão nas eras futuras. Pedro relata a própria covardia ao negar Cristo. 
Jonas apresenta as próprias paixões: “é razoável a minha ira até a morte”. 
Certamente, se suas penas não fossem guiadas pela própria mão de Deus, 
nunca teriam escrito o que refletiria desonra para eles mesmos. Geralmente 
o homem esconde suas culpas e não as publica para o mundo, mas as penas 
dos homens das Sagradas Escrituras obscurecem os próprios nomes. Tiram 
toda a glória deles mesmos e a dão para Deus.
vi. A ação renovadora das Escrituras sobre os homens. O grande 
poder e eficácia que a Palavra teve sobre as almas e as consciências dos 
homens. Mudou seus corações. Alguns, ao lerem a Escritura se transformaram 
em outros homens, foram feitos santos e graciosos. Ler outros livros pode 
aquecer o coração, mas ler a Bíblia transforma. A Palavra foi copiada em 
seus corações e se tomaram cartas de Cristo, de maneira que os outros 
pudessem ler Cristo neles: “estando já manifestos como carta de Cristo, 
produzida pelo nosso ministério, escrita não com tinta, mas pelo Espírito 
do Deus vivente” (2Co 3.3).
Caso um selo fosse comprimido sobre uma pedra de mármore e 
deixasse uma impressão sobre o mármore, haveria uma estranha virtude 
nesse selo. Assim, quando o selo da Palavra deixa uma impressão celestial 
de graça sobre o coração, tem de haver um poder atuando com a Palavra, 
um poder divino.
46 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
As Escrituras confortaram o coração dos crentes. Quando os cristãos 
se sentaram à beira dos rios chorando, a Palavra caiu como mel e suavemente 
os reanimou. O conforto maior do cristão sai dessa fonte de salvação: “a 
fim de que, pela paciência e pela consolação das Escrituras, tenhamos 
esperança” (Rm 15.4). Quando uma pobre alma está quase desmaiando, 
nada a conforta, mas as Escrituras a tonificam. Quando doente, a Palavra 
reanimou a alma: “Porque a nossa leve e momentânea tribulação produz 
para nós eterno peso de glória, acima de toda comparação” (2Co 4.17).
Quando a alma foi abandonada, a Palavra pingou como óleo dourado 
de alegria: “O Senhor não rejeitará para sempre” (Lm 3.31). Ele pode mudar 
sua providência, não seu propósito. Ele pode ter o olhar de um inimigo, 
mas tem o coração de um pai. Assim, a Palavra tem um poder em si para 
confortar um coração: “O que me consola na minha angústia é isto: que a 
tua palavra me vivifica” (SI 119.50). Como o álcool é transmitido pelas 
artérias do corpo, assim o consolo divino é transmitido pelas promessas da 
Palavra. As Escrituras, com um poder estimulante e consolador em si, 
mostram claramente que vem de Deus quem colocou o leite da consolação 
nessas fontes.
vii. As E scrituras são confirm adas por milagres. Os milagres pelos 
quais as Escrituras são confirmadas. Milagres foram realizados por Moisés, 
Elias e Cristo, e continuaram muitos anos depois pelos apóstolos para 
confirmar a veracidade das Escrituras Sagradas. Assim como suportes 
são colocados debaixo de tonéis de vinhos mais fracos, da mesma maneira 
esses milagres foram colocados sob a frágil fé dos homens, de modo que, 
se não acreditassem nos escritos da Palavra, poderiam crer nos milagres. 
Lemos sobre Deus dividindo as águas, fazendo um caminho no mar para 
seu povo atravessar, um machado boiando, azeite aumentando nas vasilhas, 
Cristo transformando água em vinho, a cura do cego e a ressurreição do 
morto. Assim, Deus colocou um selo de verdade e divindade nas Escrituras 
pelos milagres.
b. De quem provém a autoridade das Escrituras?
Os papistas não podem negar que a Escritura é divina e sagrada. 
Porém, afirmam que, com respeito a nós, ela recebe sua autoridade divina 
da igreja. Epara provar isso citam as Escrituras de 1 Timóteo 3.15, em que 
se diz da igreja ser o fundamento e a coluna da verdade.
De fato, a igreja é a coluna da verdade, mas não significa que as 
Escrituras recebem sua autoridade da igreja. A proclamação do rei é afixada 
na coluna, a coluna segura o aviso de maneira que todos possam ler, mas a 
proclamação não recebe sua autoridade da coluna, mas do rei. Assim, a 
igreja segura as Escrituras abertas, mas estas não recebem sua autoridade
As Sagradas Escrituras 47
da igreja, mas de Deus. Se a Palavra de Deus for divina meramente porque 
a igreja a segura aberta, então concluiremos que nossa fé deve ser colocada 
sobre a igreja e não sobre a Palavra, o que contrariaria os ensinos do apóstolo: 
“edifícados sobre o fundamento dos apóstolos e profetas” (Ef 2.20).
2. As Escrituras canônicas são a regra completa
a. Por que as Escrituras são chamadas canônicas?
Todos os livros da Bíblia são da mesma autoridade divina? Nem todos, 
apenas aqueles que chamamos canônicos.
Seguindo-se a essa, surge outra pergunta: Por que as Escrituras são 
chamadas canônicas? Porque a Palavra é uma regra de fé, um cânon para 
dirigir nossas vidas. A Palavra é o juiz das controvérsias e a rocha da 
infalibilidade. Somente deve ser recebido como verdade aquilo que concorda 
com as Escrituras, como transcrito no original. Todas as máximas na teologia 
devem ser levadas ao teste das Escrituras, assim como todas as medidas 
são comparadas ao padrão.
b. As Escrituras são a regra de f é e prática?
As Escrituras são um cânon perfeito e completo, contendo nele todas 
as coisas necessárias para a salvação: “e que, desde a infância, sabes as 
sagradas letras, que podem tornar-te sábio para a salvação” (2Tm 3.15). 
Ela mostra o Credenda, o que devemos crer; e a Agenda, o que devemos 
praticar. Dá-nos um exato modelo da religião e nos instrui perfeitamente 
nas profundezas de Deus. Os papistas, portanto, tomam-se culpados por si 
mesmos, pois apóiam as Escrituras com suas tradições, as quais consideram 
iguais às Escrituras. O Concilio de Trento diz que as tradições da Igreja de 
Roma devem ser recebidas com a mesma devoção que as Escrituras. Logo, 
colocam-se a si mesmos sob maldição: “Se alguém lhe fizer qualquer 
acréscimo, Deus lhe acrescentará os flagelos escritos neste livro” (Ap 22.18).
3. O escopo principal e o fim da Escritura
Pode-se levantar a seguinte questão: Qual é o escopo principal e o fim 
da Escritura? Revelar o caminho da salvação. As Escrituras fazem uma 
clara descoberta de Cristo: “estes, porém, foram registrados para que creiais 
que Jesus é o Cristo, o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais vida em 
seu nome” (Jo 20.31). O propósito da Palavra é ser um teste pelo qual 
nossa graça deve ser testada, uma bóia de demarcação marítima para nos 
mostrar que rochas devem ser evitadas. A Palavra deve sublimar e saciar 
nossas afeições. Deve ser diretiva e consoladora, deve soprar na direção da 
terra prometida.
48 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
As Sagradas Escrituras
4. A legítima interpretação das Escrituras
49
a. Quem deveria ter o poder para interpretar as Escrituras?
Os papistas afirmam que é da igreja tal poder. Se perguntarmos a eles 
quem é a igreja, dirão que é o papa, que é o cabeça dela, e que ele é infalível. 
É o que diz Bellarmino.26 Porém, essa afirmação é falsa porque muitos dos 
papas foram ignorantes e depravados, como afirma Platina, que escreveu 
sobre a vida dos papas. O papa Libério era um ariano, e o papa João XII 
negou a imortalidade da alma. Portanto, os papas não são apropriados 
intérpretes das Escrituras. Então, quem é?
As Escrituras devem ser seu próprio intérprete, ou melhor, o Espírito 
que fala nelas. Nada pode cortar o diamante senão o diamante; nada pode 
interpretar as Escrituras, senão as Escrituras. O sol se revela melhor por 
meio dos próprios raios; as Escrituras interpretam-se a si mesmas para o 
entendimento. Mas a questão feita aqui se refere aos textos complicados 
das Escrituras, em que o cristão fraco corre o risco de atravessar além de 
seus limites. Quem deve interpretar esses textosmais difíceis?
A igreja de Deus apontou alguns expoentes e intérpretes das Escrituras, 
portanto deu dons aos homens. Vários pastores de igrejas, como constelações 
brilhantes, dão luz a textos obscuros das Escrituras: “Porque os lábios dos 
sacerdotes devem guardar o conhecimento, e da sua boca devem os homens 
procurar a instrução” (Ml 2.7).
b. Mas isso significaria colocar nossa fé sobre homens?
Não devemos aceitar nada como verdade se não estiver de acordo 
com a Palavra. Assim como Deus deu a seus ministros dons para interpretar 
textos obscuros, da mesma maneira deu a seu povo muito do espírito de 
discernimento para que possam dizer (ao menos nas coisas relativas à 
salvação) o que está de acordo com as Escrituras, e o que não está: “a outro, 
profecia; a outro, discernimento de espíritos” (ICo 12.10). Deus proveu 
seu povo com tal medida de sabedoria e ponderação que pode discernir 
entre a verdade e o erro, julgar o que é bom e o que é espúrio: “Ora, estes de 
Beréia... receberam a palavra com toda a avidez, examinando as Escrituras 
todos os dias para ver se as coisas eram, de fato, assim ” (At 17.11). 
Eles verificavam a doutrina que ouviam para ver se estava de acordo com 
as Escrituras, embora Paulo e Silas fossem seus mestres (2Tm 3.16).
A p l i c a ç õ e s
Primeira aplicação: veja a maravilhosa bondade de Deus, que, apesar 
da luz da natureza, nos confiou às Sagradas Escrituras. O não-convertido
está envolvido na ignorância todos “ ignoram seus preceitos” (SI 147.20). 
Ele tem os oráculos das Sibilas, mas não os escritos de Moisés e dos 
apóstolos. Quantos vivem na região da morte, onde essa estrela brilhante 
das Escrituras nunca aparece. Nós temos esse Livro bendito vindo de Deus 
para resolver todas as nossas dúvidas, para nos indicar um modo de vida: 
“ Donde procede, Senhor, que estás para manifestar-te a nós e não ao 
mundo?” (Jo 14.22). Deus, dando-nos sua Palavra escrita para ser nosso 
guia, retira todas as desculpas dos homens. Nenhum homem pode dizer: 
“eu fiz errado por falta de luz”, pois Deus deu sua Palavra como lâmpada 
para os pés, portanto se alguém errou, o fez de livre e de espontânea vontade. 
Nenhum homem pode dizer: “se eu soubesse a vontade de Deus, teria 
obedecido”. E indesculpável, pois Deus deu uma regra pela qual se basear, 
escreveu sua lei com o próprio dedo, portanto se não o obedeceram não há 
desculpas. Se um mestre deixa sua mente por escrito com seu servo e lhe 
diz que obra quer que faça e o servo negligencia a obra, tal servo não tem 
desculpas: “mas, agora, não têm desculpa do seu pecado” (Jo 15.22).
Segunda aplicação: se toda a Escritura é de inspiração divina, então 
alguns são reprovados.
1. Reprovam-se os papistas, que tiram uma parte das Escrituras, 
cortando um pedaço da moeda do reino do céu. Eliminam o segundo 
mandamento de seus catecismos, porque fala contra imagens. É comum 
entre eles, ao encontrar um ensinamento indesejável nas Escrituras, colocar 
uma máscara sobre aquela matéria ou, se tal ato não resolver, fazer de conta 
que é algo espúrio. Eles são como Ananias, que escondeu parte do dinheiro 
(At 5.2). Eles escondem parte das Escrituras do povo. É uma grande afronta 
contra Deus apagar e ocultar qualquer parte de sua Palavra, o que nos leva 
a sofrer as imprecações de Apocalipse 22.19: “e, se alguém tirar qualquer 
coisa das palavras do livro desta profecia, Deus tirará sua parte da árvore 
da vida, da cidade santa e das coisas que se acham escritas neste livro”.
2. Reprovam-se os antinomianos, uma vez que toda a Escritura é de 
inspiração divina, porque põem de lado o Antigo Testamento como se fosse 
inútil e ultrapassado, chamando aqueles que o adotam de cristãos do Antigo 
Testamento. Deus estam pou sua majestade divina sobre ambos os 
Testamentos, e até que alguém possa me mostrar onde Deus repeliu o Antigo, 
continua com força.
Os dois Testamentos são dois poços de salvação. Os antinomianos 
tapam um desses poços, secam uma das fontes de nutrição que saem das 
Escrituras. Há muito evangelho no Antigo Testamento. Os consolos no 
evangelho no Novo Testamento provêm do Antigo. A grande promessa do 
Messias está no Antigo Testamento: “uma virgem conceberá e dará à luz a 
um filho”. E digo mais, a lei moral, em algumas partes dela, é discurso do
50 A fé crista - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
evangelho: “eu sou o Senhor teu Deus”, aqui está o puro vinho do evangelho. 
O grande alvará dos santos, em que Deus promete “aspergir água pura sobre 
eles e colocar seu Espírito dentro deles” é encontrado principalmente no 
Antigo Testamento (Ez 36.25,26). Então, quem elimina o Antigo Testa­
mento faz como Sansão que empurrou as colunas, elimina as colunas do 
consolo do cristão.
3. Reprovam-se os entusiastas, que, fingindo ter o Espírito, põem de 
lado toda a Bíblia e dizem que as Escrituras são letras mortas, vivendo 
acima delas. Como são atrevidas tais pessoas. Até que estejamos acima do 
pecado, não estaremos acima das Escrituras. Nenhum homem fale de uma 
revelação do Espírito, senão sob suspeita de ser um impostor. O Espírito de 
Deus age regularmente na Palavra e pela Palavra. E, aquele que forja uma 
nova luz, que esteja acima ou que seja contrário à Palavra, viola tanto a si 
mesmo quanto ao Espírito: sua luz é tomada emprestada daquele que 
transforma a si mesmo em um anjo de luz.
4. Reprovam-se também os que diminuem as Escrituras; como 
aqueles que podem passar semanas e meses sem ler a Palavra. Colocam-na 
de lado como se fosse uma armadura enferrujada, preferem ler uma novela 
ou um romance em detrimento das Escrituras. Os assuntos pesados da lei 
são para eles insignificantes. Quanta gente consegue ficar olhando suas 
faces no espelho durante toda a manhã, mas seus olhos começam a doer 
quando olham para uma Bíblia. Os ímpios morrem por falta das Escrituras, 
e outros por desprezá-las. Aqueles que desprezam seu guia certamente se 
dão mal. Colocam rédeas sobre o pescoço de suas malícias, mas nunca 
usam o freio das Escrituras para checá-las, assim são levados ao inferno 
e nunca param.
5. Reprovam-se os ofensores das Escrituras. Aqueles que enlameiam 
e que envenenam essa fonte pura e cristalina com seus enganos corruptos e que 
torcem a Escritura (2Pe 3.16). A palavra grega para deturpar (versão R.A.) 
significa torcer. Por não comparar Escrituras com Escrituras, interpretam- 
nas erroneamente.
Assim, os antinomianos torcem a Escritura. Lendo Números 23.21: 
“Não viu iniqüidade em Jacó”, inferem que o povo de Deus pode tomar a 
liberdade de pecar, pois Deus não vê pecado neles. É verdade, Deus não vê 
o pecado em seu povo com o olho da vingança, mas vê com o olho da 
observação. Não vê pecado neles, de maneira a condená-los, mas vê a ponto 
de ficar irado e severamente puni-los. Davi não descobriu isso quando 
clamou por seus ossos quebrados?
Dessa mesma maneira os arminianos torcem a Escritura. Lendo, por 
exemplo, João 5.40: “Contudo, não quereis vir a mim”, vêem o livre-arbítrio. 
Esse texto mostra como Deus permite termos vida, como pode permitir aos
As Sagradas Escrituras 51
pecadores fazer mais do que fazem, multiplicando os talentos que deu a 
eles; mas não prova o poder do livre-arbítrio, pois é contrário à Escritura 
em João 6.44: “Ninguém pode vir a mim se o Pai, que me enviou, não o 
trouxer” . Torcem o texto com tanta força que sai até sangue dele, não 
comparam a Escritura.
Outros torcem as Escrituras zombando delas. Quando estão tristes, 
pegam a Escritura como se fosse um alaúde ou menestrel para tocar, e 
assim expulsam o espírito triste. Fazem como um beberrão cuja história eu 
li, que, após ter bebido, chamou alguns de seus amigos, dizendo: “Dê-nos 
de seu óleo, pois nossas lâmpadas se apagaram”. Só quando estão com 
medo de Deus é que dão atenção à Palavra. Eusébio27 nos conta de alguém 
que pegou uma parte das Escrituras para fazer uma brincadeira, mas foi 
possuído de loucura e saiu correndo. Há um dito de Lutero28 que diz assim: 
“quem Deus pretendedestruir, deixa brincar com as Escrituras”.
Terceira aplicação: já que a Escritura é de inspiração divina, então 
devemos ser exortados.
1. Somos exortados a estudar a Escritura. E uma cópia da vontade de 
Deus. Sejam homens da Escritura, cristãos da Bíblia. Tertuliano disse assim: 
“eu adoro a totalidade da Escritura”. No Livro de Deus estão espalhadas 
muitas verdades assim como pérolas. O apóstolo João diz: “Examinais as 
Escrituras” (Jo 5.39). Examine como se estivessem procurando um veio de 
prata. Esse Livro abençoado encherá sua mente de conhecimento e seu 
coração de graça. Deus escreveu as duas tábuas com os próprios dedos e, se 
sofreu dores para escrevê-las, também temos de sofrer dores para lê-las. 
Apoio era poderoso nas Escrituras (At 18.24). A Palavra é nossa Magna 
Charta para o céu. Podemos ser ignorantes quanto a nosso dever? “Habite, 
ricamente, em vós a palavra de Cristo” (Cl 3.16). A memória deve ser 
caderno de anotações em que a Palavra é escrita. Há majestade cintilando 
em cada linha da Escritura, por exemplo: “quem é este que vem de Edom, 
de Bozra, com vestes de vivas cores, que é glorioso em sua vestidura, que 
marcha na plenitude da sua força? Sou eu que falo em justiça, poderoso 
para salvar” (Is 63.1). Aqui se vê um alto e magnifícente estilo. Que anjo 
poderia falar dessa maneira? Junius foi convertido ao ler um versículo de 
João, contemplou a majestade nele além de toda retórica humana.
Há uma melodia nas Escrituras. Ela é a harpa abençoada que expulsa 
a tristeza do espírito. Ouça um pouquinho dessa harpa: “Fiel é a palavra e 
digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os 
pecadores” (1 Tm 1.15). Jesus não tomou somente nossa forma carnal, mas 
nossos pecados. “Vinde a mim, todos os que estais cansados e sobrecarregados, 
e eu vos aliviarei” (Mt 11.28). Quão doce essa harpa das Escrituras soa.
52 A fé cristã — Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
que música celestial toca aos ouvidos de um pecador cansado, especialmente 
quando o dedo do Espírito de Deus toca esse instrumento.
Há divindade na Escritura, ela contém a substância e a essência da 
religião. E uma rocha de diamantes, um mistério de piedade. Os lábios das 
Escrituras têm graça derramada neles. As Escrituras falam de fé, de 
autonegação e de todas as graças que, como uma corrente de pérolas, 
adornam um cristão. Incitam à santidade, tratam de outro mundo, dão uma 
visão da eternidade. Então, examine as Escrituras. Tome a Palavra sua grande 
conhecida. Se eu tivesse a língua dos anjos, não poderia expressar a 
excelência da Escritura suficientemente.
Elas são os óculos espirituais por meio dos quais contemplamos a 
glória de Deus, são a árvore da vida, o oráculo de sabedoria, a regra de 
comportamentos, a semente celestial da qual a nova criatura é formada 
(Tg 1.18). “Os dois Testamentos”, diz Agostinho, “são os dois seios nos 
quais todo cristão deve sugar, para que obtenha alim ento espiritual” . 
As folhas da árvore da vida eram para a cura (Ap 22.2), da mesma maneira, 
as folhas santas das Escrituras são para cura de nossas almas.
As Escrituras são benéficas para todas as coisas. Se estivermos 
desolados, nelas está o vinho aromático que alegra um coração pesaroso; 
se somos perseguidos por Satanás, nelas está a espada do Espírito para 
resisti-lo; se estamos doentes com a lepra do pecado, nelas estão as águas 
do santuário, tanto para limpar quanto para curar, por tudo isso, então, 
exam inai as Escrituras. Não há perigo em provar dessa árvore do 
conhecimento. Havia uma penalidade anteriormente colocada que não 
podíam os provar da árvore do conhecim ento: “mas da árvore do 
conhecimento do bem e do mal não comerás; porque, no dia em que dela 
comeres, certamente morrerás” (Gn 2.17). Não há perigo em tomar o fruto 
dessa árvore das Escrituras Sagradas. Se não comermos dessa árvore do 
conhecimento, certamente morreremos. Então, leia as Escrituras. Pode 
chegar uma época em que as Escrituras nos sejam proibidas.
Leia a Bíblia com reverência. Pense sobre cada linha em que Deus 
está falando com você. A arca onde a lei foi colocada era revestida com puro 
ouro, era carregada com barras, os levitas não podiam tocá-la (Êx 25.14). 
Para quê era isso, senão para reverenciar a lei?
Leia com seriedade, pois é uma questão de vida ou morte. Pela Palavra 
somos testados: a consciência e as Escrituras são os parâmetros pelos quais 
Deus irá se basear ao nos julgar.
Leia a Palavra com apreciação. Sacie seu coração com a Palavra, vá 
até ela para buscar fogo: “Porventura, não nos ardia o coração?” (Lc 24.32). 
Empenhe-se de maneira que a Palavra não seja somente uma lâmpada para 
orientar, mas um fogo para aquecer.
As Sagradas Escrituras 53
Leia as Escrituras não somente como uma história, mas como uma 
carta de amor enviada por Deus, que pode afetar os corações.
Ore para que o mesmo Espírito que escreveu a Palavra possa assisti-lo 
ao lê-la; que o Espírito de Deus lhe mostre as coisas maravilhosas de sua lei: 
“aproxima-te desse carro”, disse Deus a Filipe, “acompanha-o” (At 8.29). 
Assim, quando o Espírito de Deus se une com o carro de sua Palavra se 
torna eficaz.
2. Considere-se exortado a valorizar a Palavra escrita (Jo 23.12). Davi 
valorizou a Palavra mais que o ouro. O que teriam os mártires dado por 
uma folha da Bíblia. A Palavra é o campo onde Cristo, a pérola valorosa, 
está escondido. Nessa mina sagrada nós cavamos, não por um pedaço de 
ouro, mas por um peso de glória. As Escrituras são colírios sagrados ou 
ungüentos para nos iluminar: “porque o mandamento é lâmpada, e a 
instrução, luz” (Pv 6.23). As Escrituras são o plano e a bússola pelos quais 
velejamos para a nova Jerusalém. É um remédio estimulante soberano para 
todas as fraquezas. O que são as promessas, além de água da vida para 
renovar espíritos desanimados? É o pecado que incomoda? Aqui está um 
remédio da Escritura: “se prevalecem as nossas transgressões, tu no-las 
perdoas” (SI 65.3). São aflições externas que o agitam? Nelas está o remédio: 
“na sua angústia eu estarei com ele” (SI 91.15), não somente para olhar, 
mas para apoiar. Assim como o maná foi colocado na arca, as promessas 
são colocadas na arca das Escrituras.
As Escrituras nos farão sábios. A sabedoria é maior do que rubis: “por 
meio dos teus preceitos, consigo entendimento” (SI 119.104). O que fez 
Eva desejar a árvore do conhecimento? Era uma “árvore desejável para dar 
entendimento” (Gn 3.6). As Escrituras ensinam o homem a se conhecer, 
revelam os desígnios e estratagemas de Satanás (2Co 2.11), “podem tomar- 
te sábio para a salvação” (2Tm 3.15). Então, valorize muito as Escrituras. 
Li a respeito da rainha Elizabete, que em sua coroação recebeu uma Bíblia 
de presente com ambas as mãos e a beijou, colocou contra seu peito e disse 
que aquele livro sempre foi sua maior alegria.
3. Você é exortado a crer nas Escrituras, porque elas são de divina 
inspiração. Os romanos, a fim de darem crédito às suas leis, diziam que 
haviam sido inspirados pelos deuses de Roma. Dê credibilidade à Palavra. 
Ela é soprada da boca do próprio Deus. Se não for assim, a profanação dos 
homens cresce, pois não crêem na Escritura: “quem creu em nossa 
pregação?” (Is 53.1). Você creu nos galardões gloriosos de que as Escrituras 
falam, senão não se esforçaria para ter certeza de sua eleição? Você acreditou 
nos tormentos do inferno de que a Escritura fala? Não lhe fez suar frio e 
provocou um temor no coração por causa do pecado? Porém, as pessoas
54 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
são em parte ateístas, dão pouco crédito à Palavra, portanto são muito ímpias 
e atraem sombras escuras em suas vidas. Aprenda a compreender a Escritura, 
faça que seu coração trabalhe para uma firme crença nela. Alguns acham 
que se Deus enviasse um anjo do céu e declarasse o que pensa, acreditariam 
nele. Ou, se enviasse alguém do inferno e pregasse sobre os tormentos do 
inferno em chamas, acreditariam nele.Porém, “se não ouvem a Moisés e 
aos profetas, tampouco se deixarão persuadir, ainda que ressuscite alguém 
dentre os mortos” (Lc 16.31). Deus é sábio e entende que a maneira mais 
apropriada para se fazer conhecido a nós é pela escrita. E aqueles que não 
forem convencidos pela Palavra serão julgados pela Palavra. A crença nas 
Escrituras é de grande importância. Ela nos capacitará a resistir à tentação: 
“a palavra de Deus permanece em vós, e tendes vencido o Maligno” (1 Jo 2.14). 
Ela nos conduz em nossa santificação, portanto a santificação do espírito e 
a crença na verdade estão colocadas juntas (2Ts 2.13). Se a palavra escrita 
não for crida é como escrever na água, não faz nenhuma marca.
4. Sinta-se exortado também a amar a Palavra escrita: “quanto amo a 
tua lei!” (SI 119.97). Agostinho disse assim: “Senhor, que as Sagradas 
Escrituras sejam meu puro deleite”. Crisóstomo compara as Escrituras a 
um jardim, cada uma das verdades é uma flor perfumosa que devemos 
colher e carregar, não somente em nosso peito, mas em nosso coração. 
Davi considerava a Palavra de Deus “mais doce do que o mel e o destilar 
dos favos” (SI 19.10). Há algo nas Escrituras que produz deleite. Mostra- 
nos o caminho das riquezas: Deuteronômio 28.5, Provérbios 3.10; a vida 
longa: Salmo 34.12; e um reino: Hebreus 12.28. Sendo assim, que possamos 
contar as horas utilizadas na leitura das Sagradas Escrituras como as horas 
mais doces. Que digamos como o profeta: “Achadas as tuas palavras, logo 
as comi; as tuas palavras me foram gozo e alegria para o coração” (Jr 15.16).
5. Além disso, somos exortados a nos conformar às Escrituras. Que 
nossas vidas sejam guiadas segundo as Escrituras. Que a Bíblia possa ser 
vista impressa em nossas vidas. Faça o que a Palavra manda. Obediência é 
uma excelente maneira de ensinar a Bíblia: “andarei na tua verdade” (SI 86.11). 
Deixe que a Palavra seja o relógio de sol pelo qual você acerta a sua vida. 
Que bem fazemos se o que falamos e se nossas ações não são conforme as 
Escrituras? Que vantagem tem um carpinteiro que deixa o metro no bolso e 
nunca faz uso dele para medir e esquadrinhar seu trabalho? Também nós, que 
vantagem temos se não usamos a Palavra e se não regemos nossas vidas por 
ela? Quantas pessoas se transformam e se desviam da regra. A Palavra ensina 
a ser sóbrio e teinperante, mas eles são bêbados. Ela ensina a ser puro e santo, 
mas eles são profanos. Desviam-se completamente da regra. Que desonra é 
para a religião que homens vivam em contradição com as Escrituras.
As Sagradas Escrituras 55
A Palavra é chamada “lâmpada para os meus pés” (SI 119.105). Não é 
somente uma luz para os nossos olhos, para corrigir nossa visão, mas para 
nossos pés para corrigir nosso andar. Que tenhamos conversas bíblicas.
6. Somos exortados a lutar pelas Escrituras. Embora não devamos ser 
de espírito contencioso, devemos lutar pela Palavra de Deus. Essa jóia é 
muito preciosa para ser abandonada: “guarda-a porque ela é a tua vida” 
(Pv 4.13). As Escrituras são cercadas pelos inimigos; hereges lutam contra 
ela. Portanto, devemos batalhar “diligentemente pela fé que uma vez por 
todas foi entregue aos santos” (Jd 3). As Escrituras são nosso livro de 
evidências do céu. Devemos abandonar nossas evidências? Os santos do 
passado eram tanto defensores quanto mártires da verdade. Eles estavam 
firmes nas Escrituras, apesar da perda de suas vidas.
7. Outra exortação que recebemos é sermos agradecidos a Deus pelas 
Escrituras. Que grande misericórdia de Deus, pois não somente nos dá a 
conhecer sua vontade, mas a deu por escrito. No passado, Deus revelou 
seus pensamentos por intermédio de visões, mas a Palavra escrita é uma 
maneira mais clara de conhecer o pensamento de Deus: “ora, esta voz, 
vinda do céu, nós a ouvimos quando estávamos com ele no monte santo. 
Temos assim tanto mais confirmada a palavra profética” (2Pe 1.18,19).
Cuidado, o diabo é um imitador de Deus e pode se transformar em um 
anjo de luz. Pode enganar com falsas revelações. Uma vez ouvi falar de 
alguém que teve uma revelação de Deus para sacrificar seu filho, como 
Abraão teve. Então, seguindo aquele impulso do maligno, matou seu filho. 
Assim, Satanás engana as pessoas com ilusões, em vez de revelações divinas. 
Portanto, devemos ser agradecidos a Deus por revelar seu pensamento a 
nós por escrito. Não somos deixados em um suspense duvidoso de maneira 
a não saber no que crer, mas temos uma regra infalível pela qual nos basear. 
As Escrituras são nossa estrela polar para nos dirigir ao céu, mostra-nos 
cada passo que temos de tomar. Quando andamos de maneira errada, nos 
instrui. Quando fazemos o certo, nos conforta. E uma questão de gratidão 
que as Escrituras foram feitas inteligíveis ao serem traduzidas.
8. Finalmente, somos exortados a adorar a graça distinta de Deus. Você 
deve adorá-la caso tenha sentido o poder e a autoridade da Palavra sobre sua 
consciência e se pode dizer como Davi: “a tua palavra me vivifica” (SI 119.50). 
Cristão, dê graças a Deus por ter dado sua Palavra para ser uma regra de 
santidade, mas também um princípio de santidade. Dê graças a Deus que não 
somente escreveu sua Palavra, mas a selou sobre seu coração e a fez eficaz. 
Você pode dizer que ela é de inspiração divina, pois sentiu a operação viva 
dela. Que maravilhosa graça. Deus enviou sua Palavra e com ela o curou, de 
maneira que curou você e não outros. As mesmas Escrituras que para outros 
é uma letra morta, para você devem ser sinônimo de vida.
56 A fé cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
III. SEGUNDA PARTE
D e u s , s e u S e r e s e u s d e c r e t o s
P e r g u n t a s 3 a 7,9,11 
A. O s e r d e D e u s
PERGUNTA 3: Qual é o ensino principal das Escrituras?
RESPOSTA: As Escrituras nos ensinam principalmente o que o homem 
deve crer a respeito de Deus e qual dever Deus requer do homem.
PERGUNTA 4: Quem é Deus?
RESPOSTA: Deus é um Espírito infinito, eterno e imutável em seu 
ser, sabedoria, poder, santidade, justiça, bondade e verdade.
Nessas perguntas, aprendemos sobre o ser de Deus, implicitamente, 
que há um Deus; explicitamente, que ele é um Espírito; e, em terceiro 
lugar, que tipo de Espírito Deus é?
1. A existência de Deus
A pergunta: quem é Deus? subentende a existência de Deus. A crença 
na essência de Deus é o fundamento da adoração em todas as religiões: 
“porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele 
existe” (Hb 11.6). Deve haver uma causa primeira pela qual tudo existe. 
Pelas seguintes razões podemos reconhecer a existência de Deus.
a. Pelo livro da natureza
A noção de uma deidade está impressa no coração do homem bem 
como é demonstrada pela luz da natureza. Acho difícil um homem ser 
naturalmente ateu. Ele pode desejar que Deus não exista e pode lutar 
contra uma deidade, mas não pode em sã consciência crer que não há Deus. 
A menos que sua consciência esteja cauterizada pelo acúmulo de pecado e, 
por esse mesmo motivo, encontre-se em um estado tão grande de letargia 
que já tenha atingido seu senso e sua razão.
b. Pelas obras de Deus
Sabemos que há um Deus por meio de suas obras. Isso é evidência tão 
clara da existência de uma deidade que a maioria dos ateístas, quando 
considera essas obras, tem sido forçada a aceitar a existência de um criador 
sábio e supremo de todas as coisas, como aconteceu com Galeno29 e outros.
Vamos iniciar pela criação do tecido glorioso do céu e da terra. 
É claro que houve um arquiteto ou causa primeira, pois o mundo não poderia 
criar a si mesmo. Quem penduraria a terra sobre o nada a não ser o grande 
Deus? Quem poderia fornecer tal riqueza de aparatos para os céus? E as 
gloriosas constelações? E o firmamento enfeitado com luzes tão cintilantes? 
Vemos a glória de Deus brilhando no sol e cintilando nas estrelas. Quem 
poderia dar a roupagem à terra, cobri-la com grama e milho, adorná-la com 
flores, enriquecê-la com ouro? Somente Deus (Jó 38.4). Quem, além de 
Deus, poderia ter feito adoce música nos céus, ajuntando os anjos em harmo­
nia entoando louvores ao seu criador? “Quando as estrelas da alva, juntas, 
alegremente cantavam, e rejubilavam todos os filhos de Deus?” (Jó 38.7). 
Se um homem fosse para um país longínquo onde visse edifícios bem altos, 
ele nunca imaginaria que esses edifícios foram construídos por si mesmos, 
mas suporia que algum poder maior os construiu. Imaginar que a obra da 
criação não foi estruturada por Deus é como se entendêssemos uma curiosa 
paisagem desenhada por um lápis sem a mão de um artista. “Deus... fez o 
mundo e tudo que nele existe” (At 17.24). Criar é algo próprio da deidade.
O sábio governo de todas as coisas manifesta a existência de Deus. 
Deus é o grande superintendente do mundo, ele tem o cetro dourado do 
governo em sua mão, guiando todas as coisas regular e harmoniosamente 
ao seu devido fim. Qual pessoa, ao contemplar a providência, necessita ser 
forçada a reconhecer a existência de Deus? A providência é a rainha e a 
governanta do mundo; é a mão que gira a roda de toda a criação; ela dá a 
velocidade certa ao Sol e os limites aos oceanos. Se Deus não guiasse o 
mundo, as coisas entrariam em desordem e confusão. Quando alguém olha 
para um relógio e vê o movimento das engrenagens, o bater do martelo, os 
pêndulos balançando diria que algum artífice o fez. Da mesma maneira, 
temos de reconhecer a existência de um Deus que sabiamente ordena e 
governa todas essas coisas quando vemos a excelente ordem e harmonia no 
universo: o Sol, esse grande astro que irradia luz e calor para o mundo, sem 
o qual o mundo seria somente uma sepultura ou uma prisão; os rios, com 
seus fluxos prateados de água que refresca os corpos dos homens e evita a 
seca; todas as criaturas agindo conforme sua natureza e mantendo seus 
devidos limites. Quem poderia organizar esse grande exército de criaturas 
em seus diversos postos e esquadrões e mantê-los em marcha constante a 
não ser aquele cujo nome é O SENHOR DOS EXÉRCITOS?
Da mesma maneira como Deus sabiamente dispõe todas as coisas no 
regimento das criaturas por meio de seu poder, também as sustenta. Se Deus 
suspendesse ou tirasse sua influência só um pouquinho, as rodas da criação 
sairiam do lugar e seu eixo se quebraria em pedaços. Todo movimento,
58 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
O ser de Deus 59
dizem os filósofos, vem de alguma coisa que é imóvel. Os elementos, por 
exemplo, são movidos pela influência e o movimento dos corpos celestiais, 
o Sol e a Lua, e estes são movidos por uma esfera superior chamada Primum 
M obile. Se alguém perguntasse quem m ove a órbita superior ou 
primeiramente moveu os planetas, a resposta só poderia ser: o próprio Deus.
O homem é um microcosmo ou um mundo menor. A excelência da 
estrutura e disposição de seu corpo é algo produzido de modo inteligente 
como que um tricotar: “no oculto fui formado e entretecido como nas 
profundezas da terra” (SI 139.15). Esse corpo é equipado com uma alma 
nobre. Quem além de Deus poderia fazer tal união de substâncias diferentes 
como carne e espírito? Em Deus nós vivemos, nos movemos e existimos. 
A movimentação precisa de cada parte do corpo aponta para a existência 
de Deus. Podemos ver algo dele no brilho do olho. Se o porta-jóias, que é o 
corpo, foi tão bem trabalhado, o que dizer da jóia que está dentro dele? 
A alma tem um brilho celestial em si, como disse Damasceno:30 “é um 
diamante colocado em um anel de barro”. Quão nobres são as faculdades 
com as quais a alma é adornada. O entendimento, a vontade, as afeições 
são um espelho da Trindade, como diz Platão. O material da alma é espiritual, 
é uma chama divina acesa pelo céu. Ser espiritual é ser imortal, como observa 
Scaliger:31 “ ... a alma não envelhece”, ela vive para sempre. Quem poderia 
criar uma alma enobrecida com propriedades angelicais tão raras, a não ser 
Deus? Nós devemos dizer como o salmista: “foi ele quem nos fez, e dele 
somos” (SI 100.3).
c. Pela nossa consciência
A consciência é prova da deidade, ela é uma representante e uma 
delegada de Deus. A consciência é uma testemunha da deidade. Se não 
houvesse uma Bíblia para nos dizer que há um Deus, a consciência o faria. 
A consciência, como diz o apóstolo: “mutuamente acusando-se ou defen­
dendo-se” (Rm 2.15), age de acordo com um tribunal superior.
A consciência natural, livre dos grandes pecados, desculpa-se. Quando 
alguém pratica ações virtuosas, vive temperante e retamente, observa o 
grande mandamento fazendo aos outros o que gostaria que fosse feito a ele, 
então a consciência, aprovando suas ações, diz: “muito bem!”
Como é natural a uma abelha produzir mel, o é à consciência, natural 
do ímpio acusá-lo. Quando os homens agem contra a luz, sentem peso de 
consciência. Sêneca32 disse: “Que coisa. Parece que um escorpião se esconde 
dentro de mim”. Quando alguém peca contra a consciência, é como se ela 
cuspisse fogo no rosto da pessoa, enchendo-a de vergonha e horror. Quando 
o pecador vê a escrita manuscrita na parede da consciência, seu semblante 
se transtorna. Muitos já se enforcaram para silenciar suas consciências.
O imperador Tibério, um homem sanguinário, sentiu o golpe de sua 
consciência. Foi tão perseguido com essa fúria que disse ao senado que 
sofria a morte diariamente. O que poderia colocar a consciência de um 
homem em tal agonia, além da im pressão da deidade e o futuro 
enfrentamento de seu tribunal? Aqueles que se colocam acima das leis 
humanas estão sujeitos às verificações de suas próprias consciências. Pode- 
se notar isso claramente, pois quanto mais perto o ímpio se aproxima da 
morte, mais atemorizado fica. De onde vem isso a não ser da apreensão 
do juízo que se aproxima? A alma, sendo sensível quanto à sua natureza 
imortal, treme diante daquele que nunca cessa de viver e, portanto, nunca 
cessará de punir.
d. Pela religião universal
A existência de um Deus é algo que se verifica no consenso das nações, 
na consagração universal e nas orações de todos os homens. Tully disse o 
seguinte: “nenhuma nação é tão bárbara a ponto de não acreditar que existe 
um Deus”. Embora o pagão não adore o verdadeiro Deus, adora um deus. 
Eles montam um altar ao “Deus desconhecido” (At 17.23). Sabiam que um 
deus deveria ser adorado, embora não soubessem qual deus deveriam adorar. 
Alguns adoraram Júpiter, outros, Netuno e outros, Marte. Em lugar de não 
adorar nada, adoraram alguma coisa.
e. Pelas predições infalíveis
Que há um Deus se verifica por sua previsão das coisas futuras. Aquele 
que pode prever coisas que certamente acontecerão, é o verdadeiro Deus. 
Deus previu que uma virgem conceberia e prefixou o tempo em que o 
Messias deveria ser morto (Dn 9.26). Ele previu o cativeiro dos judeus na 
Babilônia e quem seria o libertador deles (Is 45.1). O próprio Deus usa 
desse argumento para provar que ele é o verdadeiro Deus e que todos os 
deuses dos pagãos são invenções nulas (Is 41.23). Tertuliano dizia que 
predizer coisas possíveis de acontecer, que não dependem de causas naturais, 
é algo peculiar à deidade.
f. Pelo seu poder soberano
Que há um Deus se verifica por meio de seu poder ilimitado e sua 
soberania. Aquele que age e ninguém o impede é o verdadeiro Deus. 
Pode fazer como quiser: “agindo eu, quem o impedirá?” (Is 43.13). Nada 
pode interromper sua ação senão algum poder superior, mas não há poder 
acima de Deus. Todo poder que existe, existe por ele, portanto todo 
poder está submisso a ele: “o teu braço é armado de poder” (SI 89.13). 
Ele enxerga os desígnios que os homens têm contra ele e os impede.
60 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
O ser de Deus 61
Ele enlouquece os adivinhadores (Is 44.25). Ele recolhe o espírito dos 
príncipes; acalma o mar, faz o leviatã parar, amarra o demônio em 
correntes. Deus age de acordo com o que lhe agrada, faz o que é de sua 
vontade. “Agindo eu, quem impedirá?”
g. Pela existência dos demônios
Existem demônios, portanto existe um Deus.Os ateus não podem 
negar que existam demônios e, portanto, devem admitir a existência de 
Deus. Lemos a respeito de muitos que foram possuídos pelo demônio. 
Os demônios são chamados na Escritura de “cabeludos”, porque geralmente 
apareciam na forma de bodes ou de um sátiro.33 Em seu livro, Deprobatione 
spirituum, Gerson34 nos conta como Satanás apareceu com uma aparência 
gloriosa a um homem santo, professando ser de Cristo, e o velho homem 
respondeu: “não desejo ver meu Salvador aqui neste deserto, é suficiente 
pra mim vê-lo no céu”. Então, se há um demônio, há um Deus. Sócrates, 
um pagão, quando foi acusado em sua morte, confessou que, de fato, como 
pensara, havia um malus genius, um espírito maligno, então certamente 
haveria um espírito bom.
A p l i c a ç õ e s
Primeira aplicação: visto que Deus existe, reprovam-se os tolos 
ateístas que o negam. Epicúrio negou que havia uma providência, dizendo 
que todas as coisas aconteciam por acaso. Afirmar a não-existência de um 
Deus toma o homem a criatura mais ímpia que existe, sendo pior que um 
ladrão que leva nossas mercadorias, pois o ateísta nos toma nosso Deus: 
“levaram o meu Senhor” (Jo 20.13). Então podemos dizer dos ateístas que 
levariam nosso Deus de nós, aquele em quem toda nossa esperança e consolo 
estão colocados, conforme o salmista: “Diz o insensato no seu coração: 
não há Deus” (SI 14.1). Ele não se atreve a falar com a língua, mas o faz em 
seu coração, esse é o seu desejo.
E certo que ninguém pode ser um ateísta especulativo: “Até os 
demônios crêem e tremem” (Tg 2.19). Li a respeito de um homem chamado 
Arthur, um ateu professo, que, quando estava perto de morrer, clamou que 
estava perdido. Embora haja poucos que dizem que não há Deus, muitos o 
negam em suas ações: “o negam por suas obras” (Tt 1.16). Cícero35 disse a 
respeito de Epicúrio: “... em suas palavras tanto nega a existência dos deuses 
quanto permite que eles existam”. O mundo é cheio de ateísmo prático; a 
maioria das pessoas vive como se não acreditasse em Deus. Elas se 
atreveriam a mentir, defraudar, ser impuras, se acreditassem que há um 
Deus que lhes pediria conta? Se um índio, que nunca ouviu falar de Deus, 
viesse até nossa sociedade e não tivéssemos nenhuma maneira para
convencê-lo a respeito da deidade senão por meio da vida dos homens de 
nossa era, certamente ele questionaria se existe ou não um Deus. Ele diria: 
“eu não me arriscaria em afirmar que existam deuses”.
Segunda aplicação: afirmar a existência de um Deus é dizer que ele 
tratará justamente e dará galardões justos aos homens. As coisas parecem 
acontecer no mundo de maneira muito inadequada, pois os ímpios florescem 
(SI 73.3). Aqueles que tentam a Deus escapam (Ml 3.15). O cacho de uvas 
madura é esprimido nos copos desses homens e, enquanto isso, os piedosos, 
que choraram pelo pecado e serviram a Deus, são afligidos: “Por pão tenho 
comido cinza e misturado com lágrimas a minha bebida” (SI 102.9). Homens 
malignos usufruem tudo que é bom e homens bons sofrem todo o mal. 
Porém, afirmar a existência de Deus é dizer que ele retribuirá justamente 
aos homens: “Não fará justiça o Juiz de toda a terra?” (Gn 18.25). Os 
ofensores devem ser punidos. O dia da morte e da destruição do pecador 
está próximo: “Rir-se-á dele o Senhor, pois vê estar-se aproximando o seu 
dia” (SI 37.13). Enquanto existir o inferno, o ímpio será bastante punido; e, 
enquanto houver eternidade, os ímpios ficarão confinados nele; e Deus 
recompensará em abundância o serviço fiel de seu povo. Eles receberão 
suas roupas brancas e suas coroas: “Então, se dirá: Na verdade, há 
recompensa para o justo; há um Deus, com efeito, que julga na terra” (SI 
58.11). Porque Deus é Deus, ele dará galardões gloriosos ao seu povo.
Terceira aplicação: afirmar que há um Deus é dizer da tristeza de 
todos aqueles que têm esse Deus contra eles. Deus vive eternamente para 
se vingar deles: “estarão fortes as tuas mãos, nos dias em que eu vier a 
tratar contigo?” (Ez 22.14). Os ímpios são os que infringem o sábado de 
Deus e se opõem aos seus santos massacrando essas jóias no pó.
Aqueles que vivem em contradição à Palavra de Deus atraem a 
majestade infinita do céu contra eles; e quão triste será o fim deles. “Se eu 
afiar a minha espada reluzente, e a minha mão exercitar o juízo, tomarei 
vingança contra os meus adversários e retribuirei aos que me odeiam. 
Embriagarei as minhas setas de sangue” (Dt 32.41,42). Se é tão terrível 
ouvir o leão rugir, pior ainda será quando ele começar a partir sua presa: 
“Considerai, pois, nisto, vós que vos esqueceis de Deus, para que não vos 
despedace, sem haver quem vos livre” (SI 50.22).
Caso os homens pensassem a respeito disso, não continuariam em 
pecado. Deveríamos atrair o grande Deus contra nós? Deus golpeia 
lentamente, mas de maneira pesada: “Tens braço como Deus ou podes 
trovejar com a voz como ele o faz?” (Jó 40.9). Podes tu despedaçar como 
ele? Deus é o melhor amigo, mas o pior inimigo. Se ele pode ver os 
homens em suas sepulturas, quão longe pode lançá-los? “Quem conhece
62 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
O ser de Deus 63
o poder da tua ira?” (SI 90.11). Que pessoas tolas, pois por uma gota de 
prazer bebem o mar de ira. Paracelso fala a respeito de um frenesi que 
alguns têm que fará que morram dançando; assim, pecadores vão dançando 
para o inferno.
Quarta aplicação', afirmar a existência de Deus é crer firmemente 
neste grande artigo de nosso Credo Apostólico. Que religião pode haver 
nos homens, se não crêem em Deus? “Aquele que se aproxima de Deus 
deve crer que ele existe.” Adorar a Deus e orar a ele e não crer que ele 
existe é escarnecê-lo bastante e desprezá-lo. Creia que Deus é o único e 
verdadeiro Deus, um Deus como revelado em sua Palavra. “Amas a justiça 
e odeias a iniqüidade” (SI 45.7).
A crença real em uma deidade dá vida a toda adoração religiosa. Quanto 
mais acreditamos na verdade e infinitude de Deus, tanto mais santos e angélicos 
somos em nossas vidas. Quer estejamos sozinhos ou acompanhados, Deus 
nos vê. Ele é o que sonda os corações. A crença nesta onisciência de Deus nos 
fará viver sempre sob os olhos dele: “O S f.n h o r , tenho-o sempre à minha 
presença” (S I 16.8). A crença em uma deidade é uma rédea para o pecado e 
um estímulo ao dever. Dá asas à oração e óleo à lâmpada de nossa devoção.
A crença em uma deidade gera dependência de Deus em todas as 
nossas dificuldades e nossas emergências: “Eu sou o Deus Todo-poderoso” 
(Gn 17.1). Ele é um Deus que pode suprir todas as suas necessidades, afastar 
todos os seus temores, resolver todas as suas dúvidas, vencer todas as suas 
tentações. O poderoso braço de Deus nunca se encolherá. Ele pode derramar 
sua misericórdia sobre nós e, portanto, pode nos ajudar, ao mesmo tempo 
em que não se torna devedor de alguma coisa em relação à criatura. 
Se acreditam os que há um Deus, devemos confiar em sua providência a 
tal ponto de não usarmos quaisquer meios indiretos; não deveríamos correr 
em direção ao pecado para nos livrar dos problemas: “Porventura, não há 
Deus em Israel, para irdes consultar Baal-Zebube, deus de Ecrom?” 
(2Rs 1.3). Quando os homens correm para artimanhas pecaminosas é porque 
não crêem que exista um Deus, ou que ele seja todo suficiente.
Quinta aplicação', saber que há um Deus faz que nos esforcemos em 
nosso interesse por ele: “Este é Deus, o nosso Deus” (SI 48.14). Desde a 
queda perdemos a semelhança de Deus e a comunhão com ele. Vamos 
trabalhar para recuperar o interesse perdido e pronunciar este shibolete 
“Deus meu” (SI 43.5). Consola pouco saber que há um Deus, a menos que 
ele seja o nosso Deus. Deus se oferece a nós para ser nosso Deus: “serei o 
seu Deus” (Jr 31.33). A fé agarra a oferta e se apropria de Deus, ela faz que 
todas as coisas existentes nele para nós sejam nossas. Que sua sabedoria 
seja nossa, para nos ensinar. Que sua santidade seja nossa, para nos santificar.
Que o seu Espírito seja nosso, para nos consolar.Que sua misericórdia seja 
nossa, para nos salvar. Ser capaz de dizer que Deus é meu é muito mais do 
que possuir todas as minas de ouro e de prata.
Sexta aplicação: afirmar a existência de Deus nos leva a servi-lo e 
adorá-lo como Deus. Em Romanos 1.21, vemos uma acusação contra 
algumas pessoas a esse respeito: “não o glorificaram como Deus”. Oremos 
a ele como Deus. Oremos com fervor: “muito pode, por sua eficácia, a 
súplica do justo” (Tg 5.16). Isto é tanto o fogo quanto o incenso. Sem fer­
vor não há oração. Amemos a Deus como Deus: “Amarás, pois, o S e n h o r 
teu Deus, de todo o teu coração” (Dt 6.5). Amar a Deus de todo o coração 
é lhe dar prioridade em nosso amor, deixá-lo ter o melhor de nossas afeições. 
É amá-lo não somente de maneira apreciativa, mas intensamente, isto é, quanto 
nós pudermos. Assim como o raio de sol unido e concentrado por meio de 
uma lente de vidro queima, também nossas afeições deveriam estar unidas 
de maneira que nosso amor por Deus fosse mais ardente. Obedeçamos-lhe 
como Deus. Todas as criaturas o obedecem, as estrelas lutam suas batalhas, o 
vento e o mar o obedecem (Mc 4.41). O homem, acima de tudo, deveria 
obedecer a Deus, pois ele o qualificou com a razão. Ele é Deus e tem soberania 
sobre nós, portanto, como recebemos vida dele, devemos receber uma lei da 
parte dele e nos submeter à sua vontade em todas as coisas. Isto significa 
beijá-lo com um beijo de lealdade e glorificá-lo como Deus.
2. Deus é Espírito
Em segundo lugar, aprendem os explicitam ente sobre o ser de 
Deus que ele é Espírito: “Deus é espírito” (Jo 4.24). Deus é essentia 
spiritualissima (Zanchi).36
a. O que significa dizer que Deus é Espírito?
Por um espírito queremos dizer que Deus é uma substância não mate­
rial e uma essência sem misturas, sutil e pura, que não é composto de corpo 
e alma e que não tem o prolongamento anatômico das partes de um corpo. 
O corpo é algo com mistura. A essência de Deus é muito espiritual e por 
isso muito nobre e excelente. Os espíritos do vinho (o álcool) são o que há 
de mais refinado no vinho.
b. Em quê Deus se difere de outros espíritos?
Devemos distinguir entre os espíritos. Primeiramente, dos anjos que 
também são espíritos. Os anjos são criados, Deus é um Espírito não criado. 
Os anjos são finitos e capazes de ser aniquilados. O mesmo poder que os 
criou é capaz de reduzi-los a nada, Deus, porém, é um Espírito infinito. 
Os anjos são espíritos limitados, não podem estar em dois lugares ao mesmo
64 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
O ser de Deus 65
tempo, mas são limitados a um lugar. Deus é um Espírito imenso e está em 
todos os lugares ao mesmo tempo. Os anjos, embora espíritos, são espíritos 
ministradores (Hb 1.13,14). Embora sejam espíritos, são servos. Deus é 
um Espírito superexcelente, o Deus dos espíritos (Ap 22.6).
Além disso, a alma é um espírito: “o espírito volte a Deus, que o deu” 
(Ec 12.7).
c. Como Deus, sendo um Espírito, difere da alma?
Serveto37 e Osiander38 pensavam que a alma, por ser algo infundido, 
transmitia ao homem a mesma substância e o mesmo espírito de Deus. 
Essa é uma opinião absurda, pois a essência de Deus é incomunicável. 
Quando se diz que a alma é um espírito, significa que Deus a fez inteligível 
e imprimiu nela sua semelhança, mas não sua essência.
d. Em que sentido somos co-participantes da natureza divina?
Porém, não se diz que somos co-participantes da natureza divina? Por 
natureza divina queremos dizer qualidades divinas (2Pe 1.4). Somos co- 
participantes da natureza divina não por identidade ou união com a essência 
divina, mas por uma transformação à semelhança divina. Assim se vê como 
Deus se distingue de outros espíritos, anjos e almas dos homens. Ele é um 
Espírito de excelência transcendente, o “Deus dos espíritos” (Ap 22.6).
e. Como se explicam as figuras humanas dadas a Deus nas Escrituras?
Contrários a isso, Vorstius39 e os antropomorfistas afirmam que nas 
Escrituras figuras e formas humanas são atribuídas a Deus. E dito que ele 
tem olhos e mãos. E contrário à natureza de um espírito ter uma substância 
corpórea: “Apalpai-me e verificai, porque um espírito não tem carne nem 
ossos, como vedes que eu tenho" (Lc 24.39). Partes do corpo são atribuídas 
a Deus não estritamente, mas metaforicamente e em um sentido emprestado. 
Pela mão direita do Senhor se quer dizer seu poder. Com olhos do Senhor 
se quer dizer sua sabedoria. O fato de Deus ser um Espírito e não ser 
composto de formas ou substâncias físicas se toma claro tendo em vista 
que um corpo é algo visível, ao passo que Deus é invisível. Portanto, ele é 
um Espírito, “a quem homem algum jamais viu, nem é capaz de ver” 
(lT m 6.16). Um corpo é limitado espacialmente, só pode estar em um 
lugar de cada vez, mas Deus está em todos os lugares ao mesmo tempo, 
portanto ele é um Espírito (SI 139.7,8). O centro de Deus está em todo lugar 
e sua silhueta em nenhum lugar. Um corpo é composto de partes integrais e 
pode ser desintegrado; mas Deus não pode ser desintegrado, não pode ter fim 
e é de onde todas as coisas têm seu começo. Então, claramente se vê que 
Deus é um Espírito, o que se acrescenta à perfeição de sua natureza.
A p l i c a ç õ e s
Primeira aplicação: se Deus é um Espírito, então ele não pode ser 
atingido. Ele não pode sofrer ferimento. Homens ímpios levantam suas 
bandeiras e organizam suas forças contra Deus, e dizem que lutam contra 
Deus (At 5.39). Qual a vantagem nessa luta? Que mal podem fazer contra 
a deidade? Deus é um Espírito e, portanto, não pode sofrer qualquer sinal 
de dano. Os ímpios podem imaginar o mal contra o Senhor: “Que pensais 
vós contra o S f n h o r ? ” (Na 1.9). Mas Deus sendo um Espírito é impenetrável. 
O ímpio pode encobrir a glória divina, mas não pode tocar sua essência. 
Deus pode machucar seus inimigos, mas eles não podem lhe fazer o mesmo. 
Juliano40 pôde lançar sua adaga ao ar contra o céu, mas não poderia tocar a 
deidade. Deus é um espírito invisível. Como pode o ímpio, com todas as 
suas forças, machucá-lo se não pode vê-lo? Todas as tentativas do ímpio 
contra Deus são tolas e vãs. “Os reis da terra se levantam, e os príncipes 
conspiram contra o S e n h o r ... Ri-se aquele que habita nos céus; o S en h o r 
zomba deles” (SI 2.2,4). Ele é Espírito, pode machucá-los, porém não pode 
ser tocado.
Segunda aplicação: se Deus é um Espírito, a tolice dos papistas está 
exposta, pois o adoram por intermédio de figuras e de imagens. Sendo Deus 
um espírito, não podemos fazer qualquer imagem para representá-lo: “Então, 
o S e n h o r v o s falou do meio do fogo; a voz das palavras ouvistes; porém, 
além da voz, não vistes aparência nenhuma” (Dt 4.12).
Deus é espírito imperceptível, logo não pode ser distinguido. Como, 
então, se pode fazer qualquer descrição dele? “Com quem comparareis a 
Deus? Ou que coisa semelhante confrontareis com ele?” (Is 40.18). Como 
alguém pode pintar a deidade? Podemos fazer a imagem de quem nunca 
vimos? Não vistes aparência nenhuma. Deus é um Espírito. É tolice se 
empreender em fazer uma pintura da alma, porque é algo espiritual, ou 
uma pintura dos anjos, porque são espíritos.
Em relação a isso, alguém pode acrescentar: Não são os anjos na 
Escritura representados pelo querubim? Distinguimos “a imagem da pessoa 
e a imagem que representa o ofício”. Os querubins não representavam as 
pessoas dos anjos, mas seus ofícios. Os querubins tinham asas para mostrar 
a suavidade dos anjos em cumprir seus ofícios. Se não podemos pintar as 
almas nem as pessoas dos anjos, porque são espíritos, muito menos podemos 
fazer uma imagem ou pintura de Deus, que é infinito e o Pai dos espíritos.
Deus é também um Espírito onipresente, ele está presente em todos 
os lugares: “Ocultar-se-ia alguém em esconderijos, de modo que eu não o 
veja? - diz o S e n h o r ; porventura, não encho eu os céus e a terra? - diz o 
S e n h o r ” (Jr 23.24). Portanto, estando presente em todos os lugares, é um
66 A f é cristã —Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
O ser de Deus 67
absurdo adorá-lo por intermédio de uma imagem. Não seria uma coisa tola 
se ajoelhar diante da pintura do rei quando ele está presente? Da mesma 
maneira, adorar uma imagem de Deus quando o próprio Deus está presente 
também é.
Ainda alguém perguntará: Como então poderemos conceber Deus como 
um Espírito, se não podemos fazer uma imagem ou descrição dele? Devemos 
concebê-lo espiritualmente, em seus atributos: sua santidade, sua justiça e 
sua bondade que são os meios pelos quais a natureza divina se manifesta. 
Podemos concebê-lo como ele é em Cristo: “Ele é a imagem do Deus invisível” 
(Cl 1.15). Aponte os olhos da fé para Cristo como Deus-homem. Em Cristo 
vemos algum brilho da glória divina, nele está a semelhança exata de todas 
as qualidades de seu Pai. A sabedoria, o amor e a santidade de Deus Pai são 
refletidos em Cristo: “quem me vê a mim vê o Pai” (Jo 14.9).
Terceira aplicação: se Deus é um Espírito, mostra-nos que quanto 
mais crescermos espiritualmente, mais nos pareceremos com ele. Como o 
espiritual e o terreno se relacionam? (Fp 3.19). As coisas terrenas são as altas 
montanhas, mamíferos ou tartarugas que vivem na terra. Que semelhança 
há entre um coração terreno e aquele que é Espírito? Quanto mais espiritual 
alguém é, tanto mais se assemelha a Deus.
f O que é ser espiritual?
É ser refinado e elevado, ter o coração fixo no céu, pensar em Deus e 
em sua glória e ser carregado para cima numa carruagem de fogo do amor 
de Deus. “... quem mais tenho eu no céu?” (SI 73.25), o que Beza parafraseia 
assim: “Que a terra se vá! Ah! se eu estivesse no céu contigo!” Um cristão, 
que é retirado dessas coisas terrenas, como os espíritos (álcool) são retirados 
do vinho, tem uma alma espiritual nobre e se assemelha muito àquele que 
é Espírito.
Quarta aplicação: a adoração que Deus requer de nós, e que lhe é a 
mais aceitável, é uma adoração espiritual: “Importa que os seus adoradores 
o adorem em espírito e em verdade” (Jo 4.24). Uma adoração espiritual é 
uma adoração pura. Embora Deus receba o culto de nossos corpos, nossos 
olhos e mãos levantados para testificar a outros a reverência que temos por 
sua glória e majestade, ele deve receber a adoração principalmente de nossa 
alma: “glorificai a Deus no vosso corpo” (IC o 6.20). Uma adoração 
espiritual de Deus o valoriza muito, pois chega perto de sua própria natureza 
que é espiritual.
g. O que é adorar a Deus em espírito?
i. Adorar a Deus em espírito é adorá-lo sem cerimônias. As cerimônias 
da lei, que o próprio Deus ordenou, são, em nossos tempos, nulas e
ultrapassadas. Quando Cristo veio, as sombras se foram e, portanto, os 
apóstolos chamam as cerimônias da lei de rituais carnais (Hb 9.10). Se não 
podemos usar aquelas cerimônias judias que Deus uma vez determinou, 
então não podemos usar aquelas que ele nunca determinou.
ii. A dorar a Deus em espírito é adorá-lo com fé no sangue do 
Messias (Hb 10.19). Adorá-lo com maiores zelo e intensidade da alma. “... 
as nossas dozes tribos, servindo a Deus fervorosamente de noite e de dia” 
(At 26.7); vemos a intensidade dessa adoração não somente em sua 
constância, mas também em sua urgência. Isso é adorar a Deus em espírito.
Quanto mais espiritual um culto for, tanto mais próximo se torna de 
Deus, que é um Espírito, e mais excelente esse culto será. A parte espiritual 
do culto é a gordura do sacrifício: é a alma e a essência da religião. 
As maiores riquezas do coração são espirituais e as melhores obrigações 
são aquelas de natureza espiritual. Deus é Espírito e deverá ser adorado em 
espírito; não é a pompa da adoração que Deus aceita, mas a pureza. 
Arrependimento não são as penitências externas afligidas ao corpo, como a 
penitência, o jejum e os flagelos corporais, mas consiste no sacrifício de 
um coração quebrantado. Ação de graças não se caracteriza na música da 
igreja, na melodia ou em um órgão, porém em fazer melodia no coração do 
Senhor (Ef 5.19). Oração não é afinar a voz em uma confissão sem coração 
ou contar as pedras de um rosário, mas consiste em expressar sofrimento e 
lamento (Rm 8.26). Quando o fogo do fervor é colocado no incenso da 
oração, sobe como um aroma suave. A verdadeira água benta não é aquela 
que o papa asperge, mas é a destilada do olho penitente. A adoração espiritual 
agrada muito a Deus, que é Espírito. “São estes que o Pai procura para seus 
adoradores” (Jo 4.23), para lhes mostrar a sua grande aceitação e como se 
agrada com uma adoração espiritual. Essa é a carne sacrificial agradável 
que Deus ama.
Quão poucos se importam com isso, pois oferecem mais refugos que 
essências; acham que é suficiente apresentar suas obrigações cumpridas, 
mas não seus corações; o que faz Deus renunciar os próprios cultos que ele 
mesmo determinou (Is 1.12; Ez 33.31). Vamos, então, dar a Deus uma 
adoração espiritual, pois é a mais apropriada à sua natureza. Um elixir 
soberano cheio de virtude pode ser dado em poucas gotas; assim uma 
pequena oração, se for feita com o coração e o espírito, pode ter muita 
virtude e eficácia em si. O publicano fez uma oração curta: “Ó Deus, sê 
propício a mim, pecador!” (Lc 18.13), mas foi cheia de vida e de espírito, 
veio do coração, portanto foi aceita.
Quinta aplicação: vamos orar a Deus para que, como um Espírito, 
possa nos dar de seu Espírito. A essência de Deus é incomunicável, mas 
não as operações, a presença e as influências de seu Espírito. Quando o sol
68 A fé cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
O ser de Deus 69
brilha em uma sala, não é o corpo do sol que está ali, mas a luz, o calor e a 
influência dele. Deus fez uma promessa de seu Espírito: “ ... porei dentro de 
vós o meu Espírito” (Ez 36.27). Transforme as promessas em orações: 
“Senhor, tu que és Espírito, dá-me de teu Espírito. Eu, carne, imploro teu 
Espírito, a iluminação, a santificação e o enchimento do teu Espírito”. 
Melanchton41 orou assim: “Senhor, inflama minha alma com teu Santo 
Espírito”. Quão necessário é o Espírito de Deus. Sem ele, não podemos 
fazer nenhuma obra de maneira vivida. Quando esse vento sopra em nossas 
velas, movemo-nos suavemente em direção ao céu. Oremos, portanto, para 
que Deus nos dê uma porção de seu Espírito (Ml 2.15), de maneira que 
possamos nos mover com mais vigor na esfera da religião.
Sexta aplicação: assim como Deus é Espírito, os galardões que oferece 
são espirituais. As principais bênçãos que ele nos dá, nesta vida, são bênçãos 
espirituais (Ef 1.3), e não ouro e prata; ao nos dar Cristo, seu amor, enche- 
nos com graça. Da mesma maneira os galardões principais que nos dá após 
esta vida são espirituais, “a imarcescível coroa da glória” (1 Pe 5.4). Coroas 
terrenas se desfazem, mas a coroa do crente é imortal, pois é espiritual, 
uma coroa que nunca se apaga. “É impossível”, diz Joseph Scaliger, “para 
o que é espiritual estar sujeito à mudança ou à corrupção”. Isto pode consolar 
um cristão diante de suas lutas e seus sofrimentos; ele se oferece a si mesmo 
para Deus e tem pouco ou nenhum prêmio nesta vida, mas lembre-se: Deus, 
que é Espírito, dará galardões espirituais, a visão de sua face no céu, as 
roupas brancas e o peso de glória. Que o serviço de Deus não seja um peso, 
mas pense no prêmio espiritual: uma coroa de glória que não se desfaz.
3. Que tipo de Espírito é Deus?
a. Deus é Espírito onipresente
Ele é infinito. Todos os seres criados são finitos. Embora o atributo da 
infinidade seja aplicado a todos os atributos de Deus - ele é infinitamente 
misericordioso, infinitamente sábio, infinitamente santo - no entanto, a 
infinitude se aplica mais à onipresença de Deus.
A onipresença de Deus. A palavra grega para “infinito” significa “sem 
limites ou barreiras”. Deus não está confinado a nenhum lugar, ele é infinito 
e, por isso, está presente em todos os lugares ao mesmo tempo. Seu centro é em 
todos os lugares. Agostinho disse assim: “o ser de Deus não é confinado ou 
excluído dequalquer lugar”. “Eis que os céus e até o céu dos céus não te podem 
conter” (1 Rs 8.27). Os muçulmanos constroem seus templos com o teto aberto 
para mostrar que Deus não pode ficar confinado dentro deles, porque sua 
presença está em todos os lugares. A essência de Deus não é limitada às regiões 
celestes nem ao globo terrestre, mas está em todos os lugares.
Os filósofos dizem a respeito da alma que ela “está em todas as 
partes do corpo”, está no olho, no coração, no pé; podemos dizer também 
de Deus que sua essência está em todo lugar. Seus limites estão no céu, 
na terra e no mar e estão em todos os lugares de seu circuito ao mesmo 
tempo. “Isto é ser infinito.” Deus, que cerca todas as coisas, não é cercado 
por nada. Ele determina os limites do mar, Hue usque, “até aqui deve ir, 
não além”. Ele determina os limites dos anjos. Eles, como os querubins, 
movem-se e param conforme suas ordens (Ez 10.16), mas ele é infinito, 
sem limites. Aquele que pode medir os céus e pesar a terra em balança 
tem de ser infinito (Is 40.22).
Vorstius defende que Deus está em todos os lugares ao mesmo tempo, 
mas não em relação à sua essência; mas em sua virtude e influência: assim 
como o corpo do sol está no céu e somente envia seus raios e influências 
para a terra, ou como um rei que está em todos os lugares de seu reino, 
autoritativamente, por meio de seu poder de autoridade, mas pessoalmente 
está em seu trono.
Deus, que é infinito, está em todos os lugares ao mesmo tempo, não 
somente por sua influência, mas por sua essência; pois, se sua essência 
enche todos os lugares, então ele tem de estar ali pessoalmente: “Porventura, 
não encho eu os céus e a terra?” (Jr 23.24).
Porém, nas Escrituras, Deus não diz que o céu é seu trono? (Is 66.1) 
Também é dito que um coração humilde é seu trono (Is 57.15). O coração 
humilde é seu trono em relação à sua presença graciosa, e o céu é seu trono 
em relação à sua presença gloriosa. Contudo, nenhum desses tronos o 
manterá, pois o céu dos céus não pode contê-lo.
b. Deus é Espírito puro
Mas se Deus é infinito em todos os lugares, está em lugares impuros e 
se mistura à impureza? Embora Deus esteja em todos os lugares, no coração 
de um pecador pela sua sondagem, e no inferno por sua justiça, mesmo 
assim não se mistura com a impureza ou recebe qualquer mancha do 
maligno. Agostinho disse assim: “a natureza divina não se mistura com a 
matéria criada, nem é contaminada por suas impurezas”. Assim como o Sol 
brilhando em um lugar degradado não se contamina ou tem sua beleza 
manchada, ou como Cristo entre os pecadores não foi contaminado, mas, 
ao contrário, sua liderança foi um antídoto eficiente contra a infecção.
Deus tem de ser infinito em todos os lugares ao mesmo tempo, não 
somente em relação à simplicidade e à pureza de sua natureza, mas com 
respeito a seu poder. Sendo tão glorioso, quem pode limitá-lo ou determinar 
um distrito para o qual andar? É como se um pingo d ’água pudesse limitar 
o oceano ou uma estrela limitar o Sol.
70 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
O ser de Deus 71
A p l i c a ç õ e s
Primeira aplicação: isso condena os papistas porque fazem outras coisas 
infinitas além de Deus. Entendem que o corpo de Cristo está em muitos 
lugares ao mesmo tempo, que está no céu e no pão e no vinho do sacramento. 
Embora Cristo, sendo Deus infinito, esteja em todos os lugares ao mesmo 
tempo, como homem ele não está. Quando estava na terra, sua humanidade 
não estava no céu, embora sua deidade estivesse. Agora ele está no céu, sua 
personalidade não está na terra, embora sua divindade esteja. A respeito de 
Cristo as Escrituras dizem: “um corpo me formaste” (Hb 10.5). Esse corpo 
não pode estar em todos os lugares ao mesmo tempo, pois não seria corpo, 
mas um espírito. O corpo de Cristo no céu, embora glorificado, não é deificado. 
O corpo de Cristo não seria infinito, neste caso deveria ser, se estivesse tanto 
no céu quanto no pão e no vinho pela transubstanciação.
Segunda aplicação: se Deus é infinito, está presente em todos os 
lugares ao mesmo tempo, então, é certo que governa todas as coisas em sua 
própria pessoa, e não precisa de representantes ou de delegados para ajudá- 
lo a levar avante o seu governo . Ele está em todos os lugares 
instantaneamente e administra todas as questões tanto da terra quanto dos 
céus. Um rei não pode estar em todos os lugares de seu reino pessoalmente, 
portanto está obrigado a governar utilizando representantes e auxiliares 
que geralmente pervertem a justiça. Mas Deus, sendo infinito, não precisa 
de representantes, está presente em todos os lugares, vê todas as coisas 
com os próprios olhos e ouve tudo com seus próprios ouvidos. Ele está em 
todos os lugares em sua própria pessoa, portanto é apropriado para julgar o 
mundo. Fará o que é correto para com todos.
Terceira aplicação: Deus é infinito por sua onipresença, então veja a 
grandeza e a imensidão de sua divina majestade. Quão grandioso é o Deus 
que servimos. “Teu, S e n h o r , é o poder, a grandeza, a honra, a vitória e a 
majestade; porque teu é tudo quanto há nos céus e na terra” (1 Cr 29.11). As 
Escrituras apresentam muito bem a grandeza de sua glória, a qual é infinita 
em todos os lugares. Ele transcende nossas concepções fracas; como pode 
nosso entendimento finito compreender aquele que é infinito? Ele está 
infinitamente acima de todos os nossos louvores: “Bendito seja o nome da 
tua glória, que ultrapassa todo bendizer e louvor” (Ne 9.5). Pobre do homem 
que não é nada, quando pensamos na infinitude de Deus. Como as estrelas 
desaparecem quando do nascer do sol, assim um homem encolhe até o 
nada quando a majestade infinita brilha em sua glória. “Eis que as nações 
são consideradas por ele como um pingo que cai de um balde e como um 
grão de pó na balança” (Is 40.15). Quão pequeninos pingos nós somos. 
Os ímpios pensaram que haviam adorado Júpiter suficientemente quando o
chamaram de grande Júpiter. De que grande majestade é Deus, que enche 
todos os lugares ao mesmo tempo (SI 150.2).
Quarta aplicação: se Deus é infinito, enchendo o céu e a terra, veja 
que grande porção os santos têm. Eles têm por sua porção aquele que é 
infinito. Sua grandeza é uma grandeza infinita e ele é infinitamente doce, 
assim como infinitamente completo. Se uma fonte estiver repleta de vinho, 
nela haverá uma grande doçura, mas ainda é finita. Mas Deus é uma 
grandeza, ele é doce e é infinito.
Ele é infinitamente completo de beleza e de amor. Suas riquezas são 
chamadas inalcançáveis porque são infinitas (E f 3.8). Amplie seus 
pensamentos quanto puder, mesmo assim ainda haverá algo em Deus que 
o excede; pois ele é uma grandeza infinita. E dito dele que é abundante 
para nós acima de tudo o que podemos pedir (Ef 3.20). O que pode um 
espírito ambicioso pedir? Pode pedir coroas e reinos, milhões de mundos? 
Mas Deus pode dar mais do que podemos pedir ou pensar porque ele é 
infinito. Nós podemos pensar que toda a poeira se transformasse em prata, 
que todas as flores se convertessem em rubis, e toda a areia do mar em 
diamantes; mesmo assim Deus poderia nos dar mais do que pensamos porque 
ele é infinito. Quão ricos são aqueles que têm o Deus infinito por sua porção. 
O poderoso Davi diz: “O S f.n iio r é a porção da minha herança e o meu 
cálice; tu és o arrimo da minha sorte. Caem-me as divisas em lugares amenos, 
é mui linda a minha herança” (SI 16.5,6). Podemos fazer como as abelhas, 
que vão de flor em flor, mas nunca teremos total satisfação até que 
encontremos o Deus infinito. Jacó disse: “tenho fartura”, no hebraico “eu 
tenho tudo”, porque tinha o Deus infinito por sua porção (Gn 33.11).
Deus, sendo de grandeza infinita, não deixa que os seus herdeiros do 
céu tenham qualquer necessidade. Embora haja milhões de anjos e de santos, 
que têm uma parte nas riquezas de Deus, mesmo assim ele tem para todos, 
pois é infinito. Embora mil homens contemplem o Sol, há luz suficiente 
para todos eles. Não haverábaldes suficientes para o mar, visto que existe 
água suficiente para enchê-los todos. Um exército inumerável de santos e 
de anjos se enche da grandeza de Deus, no entanto, Deus, sendo infinito, 
tem o suficiente para satisfazê-los. Deus tem o suficiente para dar a todos 
os seus herdeiros. Não pode haver falta naquele que é infinito.
Quinta aplicação: se Deus é infinito, ele enche todos os lugares e está 
presente em todos os lugares. Isso é triste para o ímpio: Deus é seu inimigo e 
não pode escapar nem fugir dele, pois está em todos os lugares. Nunca estarão 
longe de sua vista nem fora de seu alcance: “a tua mão alcançará todos os 
teus inimigos” (SI 21.8). Em que cavernas ou matas podem os homens se 
esconder onde Deus não os encontre? Podem ir aonde quiserem, mas ali ele
72 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
O ser de Deus 73
está presente: “para onde fugirei da tua face?” (SI 139.7). Se alguém deve a 
outra pessoa, pode fugir de seu credor indo para outra cidade, onde não possa 
ser encontrado. “Mas quem fugirá da tua presença?” Deus é infinito, está em 
todos os lugares; assim encontrará seus inimigos e os punirá.
Neste ponto, alguém pode argumentar o seguinte: Mas não está escrito 
que Caim fugiu de sua presença? (Gn 4.16) O significado desse texto é que 
Caim saiu da igreja de Deus, na qual estavam os sinais visíveis da presença 
de Deus que, de uma maneira especial, manifestavam sua doce presença ao 
seu povo. Contudo, Caim não poderia sair da vista de Deus, pois Deus, 
sendo infinito, está em todos os lugares. Os pecadores não podem fugir de 
uma consciência acusatória nem de um Deus vingador.
Sexta aplicação: se Deus está presente em todos os lugares, então um 
cristão andar com Deus não é algo impossível. Deus não está somente no 
céu, mas também na terra (Is 66.1). O céu é seu trono, lá ele se assenta. 
A terra é o estrado de seus pés, aqui ele apóia seus pés. Deus está presente 
em todos os lugares, portanto podemos andar com Deus: “andou Enoque 
com Deus” (Gn 5.22). Se Deus estivesse confinado no céu, uma alma 
temerosa poderia pensar: “como posso eu conversar com Deus, como posso 
andar com aquele que vive na região superior?” Porém, Deus não está 
confinado no céu, ele é onipresente, está acima de nós e ao mesmo tempo 
ao nosso redor, perto de nós (At 17.27).
Ele não está longe da assembléia dos santos: “ Deus assiste na 
congregação divina” (SI 82.1). Ele está presente entre nós e em cada um de 
nós, de maneira que podemos andar com Deus aqui na terra. No céu os 
santos descansam com ele, na terra andam com ele. Andar com Deus é 
andar pela fé. A Palavra diz para nos aproximarmos de Deus (Hb 10.22) e 
vê-lo: “permaneceu firme como quem vê aquele que é invisível” (Hb 11.27). 
Ter comunhão com ele: “a nossa comunhão é com o Pai e com seu Filho, 
Jesus Cristo” (U o 1.3). Assim, podemos dar uma volta com ele todos os 
dias pela fé. Não andar com Deus é desdenhá-lo. S e um rei está presente, 
continuar fazendo uma tarefa sem parar é desdenhá-lo, negligenciá-lo. Não 
há uma caminhada neste mundo tão doce quanto a caminhada com Deus: 
“anda... na luz da tua presença” (SI 89.15). “Cantarão os caminhos do 
S f.n h o r ” (SI 138.5). E como andar entre canteiros de temperos que exalam 
uma fragrância perfumosa.
Sétima aplicação: se Deus é infinito em sua gloriosa essência, aprenda 
a admirar o que você não pode compreender. Os anjos vestem um véu, 
cobrem suas faces como que adorando essa majestade infinita (Is 6.2). Elias se 
enrolou em um manto quando a glória de Deus passou por ele. Admire o 
que você não pode compreender: “porventura, desvendarás os arcanos de 
Deus ou penetrarás até à perfeição do Todo-poderoso?” (Jó 11.7).
Neste mundo, vemos alguns raios de sua glória, nós o vemos no 
espelho da criação, nós o vemos em sua imagem que brilha nos santos; 
mas quem pode penetrar toda sua glória essencial? Que anjo pode medir 
esse colosso? “Porventura, desvendarás os arcanos de Deus?” Ele é 
infinito. Não podemos penetrar sua infinita perfeição, assim como alguém 
no topo da montanha mais alta não pode tocar o firmamento ou pegar 
uma estrela em sua mão.
Tenha pensamentos admiráveis a respeito de Deus. Adore a realidade 
que você não pode compreender. Há muitos mistérios na natureza que não 
podemos compreender: o mar é mais profundo que a terra, mas não a afoga; 
o Nilo deve transbordar no verão, quando, pelo curso da natureza, as águas 
estão mais baixas; uma criança se desenvolve misteriosamente no ventre 
materno (Ec 11.5). Se essas coisas nos impressionam o mistério infinito da 
deidade transcendente impressionará muito mais os grandes intelectuais. 
Pergunte ao geômetra se ele pode, com o compasso, medir a largura da 
terra. Quão incapazes somos nós de medir as perfeições infinitas de Deus. 
No céu veremos Deus claramente, mas não totalmente, pois ele é infinito. 
Ele se comunicará conosco de acordo com a grandeza de nosso vaso, mas 
não de acordo com a imensidão de sua natureza. Adore o que você não 
pode compreender.
Se Deus é infinito em todos os lugares, não o limitemos: “agravaram 
o Santo de Israel” (SI 78.41). Confinar Deus dentro do estreito compasso 
de nossa razão é limitá-lo. A razão cogita que Deus deve seguir uma direção 
para realizar algo, caso contrário tal coisa nunca acontecerá. Isso é limitar 
Deus à nossa razão. Ele é infinito, seus caminhos vão além do que se pode 
compreender (Rm 11.33).
Sobre a salvação da igreja, quando se determina um tempo ou se 
prescreve um método, limita-se Deus. Deus salvará Sião, mas o fará 
livremente. Ele não estará preso a um lugar, a um tempo ou a um instrumento 
que o limite, pois se assim não fosse, não seria infinito. Deus seguirá seu 
próprio cam inho, ele agirá e confundirá a razão, trabalhará pelas 
improbabilidades, salvará de tal maneira que pensaríamos que destruiria. 
Ele age como ele mesmo, como um Deus que trabalha de maneira 
maravilhosamente infinita.
B. O CONHECIMENTO DE DEJUS
1. A grandeza do conhecimento de Deus
“O S e n h o r é o Deus da sabedoria e pesa todos os feitos na balança” 
(ISm 2.3). Coisas gloriosas são ditas a respeito de Deus: ele transcende 
nossos pensamentos e os louvores dos anjos. A glória de Deus se apresenta
74 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
O conhecimento de Deus 75
principalmente em seus atributos, que são vários raios pelos quais a natureza 
divina se irradia.
Entre outras de suas qualidades manifestas, que não são menores que 
qualquer delas, o Senhor é um Deus de conhecimento, ou, como no origi­
nal hebraico: “um Deus de conhecimentos”. Pelo espelho brilhante de sua 
própria essência Deus tem a idéia completa e o conhecimento total de tudo. 
O mundo é para ele um corpo transparente. Ele faz a anatomia do coração: 
“sou aquele que sonda mentes e corações” (Ap 2.23). As nuvens não são 
coberturas e a noite não é uma cortina que se coloca entre nós e sua visão: 
“até as próprias trevas não te serão escuras: as trevas e a luz são a mesma 
coisa” (S I 139.12). Não há uma palavra que cochichemos que Deus não 
ouça: “ainda a palavra me não chegou á língua, e tu, S e n h o r , já a conheces 
toda” (SI 139.4). Não há um pensamento mais sutil que venha à nossa mente 
e que Deus não conheça: “porque conheço as suas obras e os seus 
pensamentos” (Is 66.18). Os pensamentos soam tão alto nos ouvidos de 
Deus como as palavras aos nossos ouvidos. Todas as nossas ações, embora 
sutilmente elaboradas e secretamente comunicadas, são visíveis aos olhos 
do Onisciente: “conheço as suas obras” (Is 66.18). Acã escondeu a capa 
babilônica enterrando-a, mas Deus a trouxe à luz (Js 7.21).
A estátua de Minerva foi desenhada com cores tão impressionantes e 
detalhada com tanta vivacidade que em qualquer lugar que alguém se 
posicionasse o olhar de Minerva estava fixo nele. Assim, em qualquer lugar 
que estivermos, os olhos de Deus estarão sobre nós: “tens tu notícia do 
equilíbrio das nuvens e das m aravilhas daqueleque é perfeito em 
conhecimento?” (Jó 37.16).
2. A natureza do conhecimento de Deus
Deus sabe, em suas contingências, todas as coisas que são possíveis 
de se conhecer. Ele profetizou a saída de Israel da Babilônia e a concepção 
virginal da mãe do Messias. Por meio desse conhecimento, o Senhor prova 
a verdade de sua deidade contra os deuses-ídolos: “Anuncia-nos as coisas 
que ainda hão de vir, para que saibamos que sois deuses” (Is 41.23).
A perfeição do conhecimento de Deus é básica. Ele é a origem, o padrão 
e o protótipo de todo o conhecimento; os outros tomam o conhecimento 
emprestado dele. Os anjos acendem suas lâmpadas na sua gloriosa luz.
O conhecimento de Deus é puro e não se contamina com o objeto 
conhecido. Embora Deus conheça o pecado, odeia e pune o pecado. Nenhum 
mal pode se misturar ou se incorporar a seu conhecimento, assim como o 
Sol não pode ficar impuro com os vapores que se levantam da terra.
O conhecimento de Deus é simples, não apresenta dificuldade. Nós 
estudamos e procuramos o conhecimento: “se buscares a sabedoria como a
prata e como a tesouros escondidos a procurares” (Pv 2.4). A lâmpada do 
conhecimento de Deus é tão infinitamente brilhante que todas as coisas são 
inteligíveis para ele.
O conhecimento de Deus é infalível, pois não há erro em seu 
conhecimento. O conhecimento humano está sujeito a erro. Um médico 
pode errar em relação à causa de uma doença, mas o conhecimento de 
Deus é sem erro, ele não pode se enganar, nem ser enganado. Ele não pode 
se enganar porque é a verdade, nem ser enganado porque é a sabedoria.
O conhecimento de Deus é instantâneo. Nosso conhecimento é 
sucessivo, uma coisa depois da outra. Nós argumentamos de o efeito para a 
causa. Deus sabe coisas do passado, do presente e do futuro de uma só vez; 
estão todas diante dele em uma perspectiva integral.
O conhecim ento de Deus é retentivo. Ele nunca perde o seu 
conhecimento, ele tem reminiscentia, assim como intelligentia; ele lembra 
assim como entende. M uitas coisas fogem à nossa m ente, mas o 
conhecimento de Deus é eternizado. Coisas que aconteceram há mil anos 
são tão novas para ele como se tivessem acontecido há um minuto. Assim 
ele é perfeito em conhecimento.
3. A infinitude do conhecimento de Deus
Em relação ao conhecimento de Deus se levanta a seguinte pergunta: 
Porém, a Bíblia diz assim sobre Deus: “descerei e verei se, de fato, o que 
têm praticado corresponde a esse clamor que é vindo até mim; e, se assim 
não é, sabê-lo-ei” (Gn 18.21).
A menção de um clamor não significa a ignorância de Deus em relação 
aos acontecimentos. Nessa passagem, o Senhor fala como um juiz que 
primeiro examinará a causa que está diante dele, para então declarar a 
sentença. Quando ele está diante de uma tarefa de justiça não está com 
pressa, como se não se importasse onde batesse, mas vai diretamente con­
tra os ofensores: “farei do juízo a régua e da justiça, o prumo” (Is 28.17).
Outro texto que se cita é: “As iniqüidades de Efraim estão atadas... 
seu pecado está armazenado” (Os 13.12). Isso não significa que seu pecado 
está escondido de Deus, mas que está guardado, isto é, registrado e 
armazenado para o dia do juízo. Esse é o significado que fica claro pelas 
palavras anteriores, “sua iniqüidade está atada”. A semelhança de um 
secretário de tribunal que organiza as acusações dos malfeitores em um 
arquivo e no julgamento traz as acusações e as lê no tribunal, assim Deus 
ata os pecados dos homens em um arquivo que abrirá no dia do julgamento 
quando todos os pecados serão trazidos à luz, diante dos homens e dos anjos.
Deus é infinito em conhecimento. Ele só pode ser assim, pois aquele 
que dá vida deve ter uma clareza a respeito dela: “O que fez o ouvido, acaso,
76 A fé cristã — Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
O conhecimento de Deus 11
não ouvirá? E o que formou os olhos será que não enxerga?” (SI 94.9). 
Aquele que faz um relógio ou um motor sabe todos os detalhes de 
funcionamento deles. Deus, que fez o coração, conhece todos os seus 
movimentos. Ele é cheio de olhos, como as rodas de Ezequiel e, como 
disse Agostinho: “Deus é todo olho”. Tem de ser assim, pois ele é o “Juiz 
de toda a terra” (Gn 18.25). Há tantas causas para serem trazidas diante 
dele e tantas pessoas para serem julgadas que ele tem de ter um conhecimento 
perfeito ou não poderia fazer justiça. Um juiz comum não pode prosseguir 
sem júri, o júri deve pesquisar a causa e dar o veredicto, mas Deus pode 
julgar sem um júri. Ele conhece todas as coisas em si mesmas e de si mesmas 
e não necessita de testemunhas para informá-lo. Um juiz julga somente 
questões de fato, mas Deus julga o coração. Ele não somente julga ações 
malignas, mas desígnios malignos, ele vê a traição do coração e a pune.
A p l ic a ç õ e s
Primeira aplicação: Deus é infinito em conhecimento? Ele é luz e 
nele não há trevas? Então, quão afastados de Deus são aqueles que estão 
nas trevas, sem luz, que são destituídos de conhecimento, como os índios 
que nunca ouviram de Deus. E, entre nós, quantos são piores que os pagãos 
batizados? Esses necessitam buscar os rudimentos dos oráculos de Deus. 
É uma realidade triste o fato de que depois de o sol do evangelho brilhar 
por tanto tempo em nosso horizonte o véu esteja até hoje sobre seus corações. 
Tais pessoas estão emaranhadas em ignorância e não podem dar a Deus um 
culto racional (Rm 12.1). A ignorância é o que alimenta a impiedade. 
Os estudiosos dizem: todo pecado está fundamentado na ignorância. 
“ ... avançam de malícia em malícia e não me conhecem , diz o S e n h o r ” 
(Jr 9.3). Onde a ignorância reina no entendimento, a malícia enfurece nas 
afeições: “não é bom proceder sem refletir” (Pv 19.2). Tal pessoa não tem 
fé nem temor: ela não tem fé, pois o conhecimento vai iluminando a frente 
da fé. “Em ti, pois, confiam os que conhecem o teu nome” (S I 9.10). Um 
homem não pode crer sem conhecer, assim como o olho não pode ver sem 
a luz. Não pode ter o temor de Deus, pois como pode temê-lo se não o 
conhece? Cobrir o rosto de Hamã era um presságio triste de morte. Quando 
as mentes das pessoas são cobertas com ignorância é como o cobrir da 
face, que é um presságio fatal de destruição.
Segunda aplicação: se Deus é um Deus de conhecimento, então como 
vê a tolice da hipocrisia? Melanchton disse assim: “os hipócritas não fazem 
o bem, meramente aparentam fazê-lo” . Eles encenam muito bem aos 
homens, mas não cuidam quão mau sejam seus próprios corações. Vivem 
em pecado secreto: “e diz: como sabe Deus?” (SI 73.11). “Deus se esqueceu, 
virou o rosto e não verá isto nunca” (SI 10.11). Todavia, o Salmo 147.5 diz
que “o seu entendimento não se pode medir”. Ele tem uma janela pela qual 
olha para dentro do coração dos homens. Tem a chave para o coração; 
contempla todas as obras pecaminosas dos espíritos dos homens, como 
contemplamos as abelhas trabalhando em suas colméias dentro de uma 
caixa de vidro. Ele vê em secreto (Mt 6.4). Como um comerciante dá entrada 
de débitos em seu livro, assim Deus o faz em seu diário com nossos pecados. 
A esposa de Jeroboão se disfarçou de tal maneira que o profeta não a 
reconhecesse, mas ele a reconheceu: “por que finges assim?” (1 Rs 14.6).
O hipócrita pensa se dar bem e enganar a Deus, mas Deus o 
desmascarará. “Deus há de trazer a juízo todas as obras, até as que estão 
escondidas, quer sejam boas, quer sejam más” (Ec 12.14). “Porquanto 
fizeram loucuras em Israel, cometeram adultérios com as mulheres de seus 
companheiros e anunciaram falsamente em meu nome palavras que não 
lhes mandei dizer: eu o sei e sou testemunha disso, diz o S i-n h o r ” (Jr 29.23). 
Mas o hipócrita espera maquiar seu pecado fazendo-o parecer agradável 
aos olhos. Absalão mascarou sua traição fingindo que fosse um voto 
religioso. Judas camuflou sua inveja de Cristo e sua cobiça com uma 
falsa caridade aos pobres (Jo 12.5). Jeú faz da religião um estribo para 
seus propósitos ambiciosos (2Rs 10.16,17). Mas Deus vê por meio das 
folhasda figueira. Pode ver uma pedra de jade sob enfeites dourados. 
“Nem se encobre a sua iniqüidade aos meus olhos” (Jr 16.17). Aquele 
que tudo vê punirá adequadamente.
Terceira aplicação: Deus é assim tão infinito em conhecimento? Então, 
deveríamos sempre nos sentir sob seu olhar onisciente. Sêneca disse assim: 
“Assim devemos viver, como se estivéssemos sempre sendo completamente 
observados”. Vamos pensar sempre em consonância com a perspectiva de 
Davi: “O S i-n h o r , tenho-o sempre à minha presença” (SI 16.8). Sêneca 
aconselhou Lucilius: “seja o que for que esteja fazendo sempre imagine 
algumas personalidades importantes de Roma diante de você, assim não 
fará nada desonroso”.
A consideração da onisciência de Deus previne muitos pecados. 
O olhar dos homens nos refreia de pecar, e não o faria muito mais os olhos 
de Deus? “Então, disse o rei: Acaso teria ele querido forçar a rainha perante 
mim, na minha casa?” (Et 7.8). Pecaremos à vista de nosso juiz? Falaria 
em vão os homens se considerassem Deus sobre eles? Latimer42 prestou 
atenção a cada palavra no exame que fez, quando ouviu uma pena escrevendo 
atrás dos quadros. Assim, quem se importaria com as palavras senão quem 
se lembra que Deus ouve e que sua pena está escrevendo no céu? Os homens 
iriam atrás de sacrifícios estranhos se cressem que Deus está olhando suas 
impiedades e os fará sofrer no inferno por isso? Defraudariam em suas
78 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
O conhecimento de Deus 79
negociações e usariam pesos falsos se pensassem que Deus está olhando? 
Pois, ao usar pesos mais leves fariam sua condenação mais pesada.
Ver-nos debaixo do olhar onisciente de Deus produziria reverência na 
adoração a ele. Deus vê a estrutura e o andamento de nossos corações quando 
vamos até ele. Como isso chamaria a atenção de nossos pensamentos 
distraídos? Como nos animaria e trabalharia nosso espírito? Nos faria 
acender o incenso. “As nossas doze tribos, servindo a Deus fervorosamente 
de noite e de dia” (At 26.7), com o maior zelo e intensidade de espírito. 
Pensar que Deus está aqui acrescentaria asas à oração e óleo à chama de 
nossa devoção.
Quarta aplicação: o conhecimento de Deus é infinito? Então, estude 
a sinceridade, seja o que você for. Deus vê o coração (1 Sm 16.7). O homem 
julga o coração pelas ações, Deus julga as ações pelo coração. Se o coração 
for sincero, Deus verá a fé e ajudará o que está em falta. Asa teve suas 
manchas, mas seu coração era reto diante de Deus (2Cr 15.17). Sinceridade 
em um cristão é como a castidade em uma esposa. Apresentando várias 
desculpas, muitos caem nesse particular. A sinceridade torna nossas obras 
aceitáveis, à semelhança da resina que perfuma o linho quando aplicada 
nele. Como disse Jeú a Jonadabe: “Tens tu sincero o coração para comigo, 
como o meu o é para contigo? Respondeu Jonadabe: Tenho. Então, se tens, 
dá-me a mão. Jonadabe deu-lhe a mão; e Jeú fê-lo subir consigo ao carro” 
(2Rs 10.15). Assim, quando Deus vê a retidão em nosso coração, o amor 
com o qual o amamos e o desejo com que buscamos a sua glória, ele nos 
diz para que o entreguemos nossas orações e lágrimas e que subiremos 
com ele em sua carruagem de glória. A sinceridade toma nossas obras 
valiosas, e Deus não lançará fora essa riqueza mesmo que ele espere algo a 
mais de nós. Deus é onisciente e seu olhar enxerga o coração? Use o cinto 
da verdade sobre você e nunca o tire.
Quinta aplicação: Deus é um Deus de conhecimento infinito? Então 
encontramos consolo para os santos em particular e para a igreja em geral.
O conhecimento infinito de Deus dá consolo aos santos. No caso da 
devoção particular, o cristão deve separar horas para Deus. Os pensamentos 
dos cristãos devem correr para Deus como se fosse seu tesouro pessoal. 
Deus está ciente de cada bom pensamento. “Havia um memorial escrito 
diante dele para os que temem ao S e n h o r e para os que se lembram do seu 
nome” (Ml 3.16). Entra no teu quarto e, fechada a porta, orarás a teu Pai, 
que está em secreto, pois ele ouve cada suspiro e gemido. “A minha 
ansiedade não te é oculta” (SI 38.9). Ágüe a semente de tua oração com 
lágrimas. “Recolheste as minhas lágrimas no teu odre” (S I 56.8). Quando 
os segredos de todos os corações forem revelados, Deus fará menção honrosa
do zelo e da devoção de seu povo e ele mesmo será o arauto de seus louvores. 
“Cada um receberá o seu louvor da parte de Deus” ( ICo 4.5).
A infinitude do conhecimento de Deus é um consolo no caso dos santos 
não terem um conhecimento claro de si mesmos. Encontram tanta corrupção 
que julgam não ter graça. “Se é assim, por que vivo eu?” (Gn 25.22). Se eu 
tenho graça, por que meu coração está num corpo tão mortal e terreno? 
Então, lembre-se que Deus tem conhecimento infinito. Ele pode descobrir 
graça onde você não pode. Ele pode ver graça escondida sob a corrupção 
como as estrelas podem estar escondidas atrás das nuvens. Deus pode ver 
santidade em você, mesmo sendo aquela que você não consegue discernir. 
Ele pode descobrir a flor da graça em você, mesmo coberta por ervas daninhas. 
“Porquanto se achou nele coisa boa para com o S e n h o r ” (IR s 14.13). 
Deus vê coisas boas em seu povo mesmo quando ele não pode ver nada 
de bom em si mesmo. E, embora condenados por si mesmos. Deus lhes 
dará absolvição.
E um consolo com respeito a injúrias pessoais. E destino dos santos 
sofrer. Se a cabeça foi coroada com espinhos, os pés não devem caminhar 
sobre rosas. O verdadeiro purgatório para os santos é nesta vida, mas o 
consolo deles é que Deus vê o que se faz de errado com eles. A menina de 
seus olhos está sendo tocada, não a sentiria? Paulo foi surrado por mãos 
cruéis: “fui três vezes fustigado com varas” (2Co 11.25). Como se o filho 
do rei fosse surrado pelo escravo. Deus viu. “Conheço-lhe o sofrimento” 
(Êx 3.7). O ímpio faz feridas nas costas dos santos e então derrama vinagre, 
mas Deus toma nota da crueldade. Os crentes são partes do corpo místico 
de Cristo, por isso, a cada gota de sangue derramada de um santo, Deus 
acrescenta uma gota de ira em seu cálice.
O conhecim ento infinito de Deus dá consolo à igreja de Deus. 
Se Deus é um Deus de conhecimento, então ele vê todas as armações dos 
inimigos contra Sião e pode frustrá-las. O ímpio é sutil porque tomou 
emprestadas suas habilidades da velha serpente. Eles cavam profundamente 
para esconder seus planos de Deus, mas Deus os vê e pode facilmente con- 
tra-atacá-los. O dragão é descrito em Apocalipse 12.3 como tendo sete 
cabeças para mostrar como trama contra a igreja. Mas, Deus é descrito 
com sete olhos em Zacarias 3.9, para mostrar que Deus vê todas as tramas 
e estratagemas dos inimigos e que pode superá-los quando eles agem 
orgulhosamente. “Venha”, disse faraó, “usemos de astúcia para com ele” 
(Êx 1.10). Faraó nunca agiu tão tolamente, apesar de pensar estar sendo 
sábio. “Na vigília da manhã, o S e n h o r , na coluna de fogo e de nuvem, viu 
o acampamento dos egípcios e alvorotou o acampamento dos egípcios” 
(Êx 14.24). Como isso pode consolar a igreja de Deus em seu estado 
militante. E como o suco na vinha. O Senhor vê atentamente os concílios e
80 A fé cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A eternidade de Deus 81
as combinações do inimigo. Ele os vê se preparando e pode acabar com 
eles em seu próprio acampamento.
C. A ETERNIDADE DE DEUS
1. O que é a eternidade de Deus
O próximo atributo afirma que “Deus é eterno”. “De eternidade a 
eternidade, tu és Deus” (SI 90.2). Os eruditos destacam o termo aevun et 
aeternum para explicar a noção de eternidade. O ser se divide em três partes:
1. Aquele que tem um começo e terá um fim, como todas as criaturas 
sensíveis, as feras, as aves, os peixes, estes, quando morrem, são destruídos 
e voltam ao pó. O ser deles termina com o fim de suas vidas.
2. Aquele que tem um começo, mas não terá um fim, como os anjos e 
as almas dos homens, que são eternos e que permanecem para sempre.
3. Aqueleque não tem nem início, nem fim, o que é próprio somente 
de Deus. Ele é de eternidade a eternidade. Este é o título de Deus e uma 
jóia de sua coroa. Ele é chamado o “Rei eterno” (lTm 1.17).
Jeová43 é uma palavra que representa apropriadamente a eternidade 
de Deus, uma palavra tão temível que os judeus receavam pronunciá-la ou 
lê-la, a tal ponto de usarem os títulos Adonai ou Senhor em seu lugar. Jeová 
compreende o tempo passado, presente e futuro. “Aquele que é, que era e 
que há de vir” (Ap 1.8) interpreta a palavra Jeová, como se segue. Aquele 
que é significa que ele subsiste em si mesmo, tendo um ser puro e 
independente. Aquele que era significa que, antes do tempo, havia somente 
ele, e não há como pesquisar nos registros da eternidade. Aquele que há de 
vir significa que seu reino não tem fim. Sua coroa não tem sucessores. 
“O Deus, o teu trono subsiste pelos séculos dos séculos” (Hb 1.8, versão 
RC). A repetição da palavra ratifica a certeza, como a repetição do sonho 
do faraó.
Provarei que somente Deus poderia ser eterno, ou seja, sem começo. 
Os anjos não poderiam ser eternos, pois eles são criaturas, embora espíritos. 
Eles foram criados e, portanto, seu começo pode ser conhecido. Sua 
antiguidade pode ser pesquisada. Se fosse perguntado quando foram criados, 
alguns responderiam que foi antes de existir o mundo, mas não foi, pois 
tudo que existia antes do tempo era eterno. A origem dos anjos é tão antiga 
quanto o começo do mundo. Entende-se que os anjos foram criados no dia 
em que os céus foram feitos. “Quando as estrelas da alva, juntas, alegremente 
cantavam, e rejubilavam todos os filhos de Deus” (Jó 38.7). Jerônimo,44 
Gregório45 e o venerável Beda46 entendiam assim, que quando Deus colocou 
a pedra fundamental do mundo, os anjos criados cantaram hinos de alegria 
e de louvor. Ser eterno é próprio somente de Deus porque ele não teve um
começo. Ele é o Alfa e o Omega, o primeiro e o último (Ap 1.8). Nenhuma 
criatura pode dizer de si mesma ser o Alfa, isto é somente uma flor na coroa 
do céu. “Eu Sou o q u e S o u ” ( Ê x 3.14), isto é, ele existe desde a eternidade 
e por toda a eternidade.
A p l ic a ç õ e s
Primeira aplicação: aqui está um trovão e um relâmpago para o ímpio. 
Deus é eterno, portanto os tormentos do ímpio são eternos. Deus vive para 
sempre e pelo tempo que viver punirá o condenado. A conseqüência deve 
ser como a da escrita na parede: “as juntas dos seus lombos se relaxaram, e 
os seus joelhos batiam um no outro” (Dn 5.6). O pecador peca com liberdade, 
quebra a lei de Deus como uma fera selvagem que estoura a cerca e entra 
em pasto proibido. O pecador peca insaciavelmente, o mais rápido que 
pode (Ef 4.19). Mas lembre-se, um dos nomes de Deus é Eterno e, conquanto 
seja eterno, tem tempo suficiente para tratar de todos os seus inimigos. 
Para fazer os pecadores tremerem. Que pensem nestas três coisas: os 
tormentos do condenado são ininterruptos, são puros e são eternos.
Os tormentos dos condenados são ininterruptos. Suas dores devem 
ser agudas e pungentes, sem alívio. O fogo não deverá se apaziguar ou 
cessar. “E não têm descanso algum, nem de dia nem de noite” (Ap 14.11). 
É com o alguém colocado num a m áquina de esticar, que estica 
continuamente, que não tem descanso. A ira de Deus é comparada a um 
ribeiro de enxofre (Is 30.33). Por que um ribeiro? Porque um ribeiro corre 
sem cessar, a ira de Deus flui assim como um ribeiro que manda água sem 
cessar. Nas dores desta vida há abatimento e alívio. A febre passa, uma 
convulsão vem, mas passa e o paciente fica tranqüilo. Contudo, as dores do 
inferno são na mais alta intensidade e na pior violência. A alma condenada 
nunca dirá que está mais tranqüila que antes.
Os tormentos dos condenados são sem misturas. O inferno é um lugar 
de pura justiça. Nesta vida, Deus, quando irado, lembra-se da misericórdia 
e mistura compaixão com sofrimento, à semelhança da tribo de Aser, cujos 
sapatos eram de ferro, porém, imersos no azeite (Dt 33.25). A aflição é o 
sapato de ferro, mas a misericórdia está misturada com a aflição. Mas, os 
tormentos do condenado não têm mistura alguma. “Esse beberá do vinho 
da cólera de Deus, preparado sem mistura, do cálice da sua ira” (Ap 14.10). 
Nenhuma mistura de misericórdia. Contudo, o cálice da ira também está 
cheio de mistura. “Porque na mão do S e n h o r há um cálice cujo vinho 
espuma, cheio de mistura, dele dá a beber; servem-no, até às escórias, todos 
os ímpios da terra” (S I 75.8). O livro de Apocalipse diz que é sem mistura 
e no salmo diz que não. O cálice é cheio de mistura no que se refere aos 
ingredientes que o fazem amargo. O bicho, o fogo, a maldição de Deus são
82 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A eternidade de Deus 83
ingredientes hostis. O cálice é misturado e, ao mesmo tempo, puro. 
Não haverá nada que possa produzir consolo, nenhuma mistura de 
misericórdia, por isso é sem mistura. Na oferta de ciúmes (Nm 5.15), nenhum 
azeite era adicionado, da mesma maneira nos tormentos do condenado, 
não há azeite de misericórdia para fazer cessar seus sofrimentos.
Os tormentos dos condenados são eternos. Os prazeres do pecado só 
duram um período, mas os tormentos do ímpio são para sempre. Pecadores 
têm uma alegria passageira, mas uma longa retribuição. Orígenes47 
erroneamente pensou que após mil anos o condenado deveria ser liberto de 
suas misérias, porém o verme, o fogo e a prisão são eternos. “A fumaça de 
seu tormento sobe pelos séculos dos séculos” (Ap 14.11). Próspero48 (da 
Aquitânia) disse assim: “Os tormentos do inferno punem continuamente, 
nunca terminam”.
A eternidade é um mar sem fundo e sem praias. Depois de milhões de 
anos, não há sequer um minuto desperdiçado na eternidade. O condenado 
deve ser queimado para sempre, mas nunca consumido, sempre morrendo, 
mas nunca morto. “Os homens buscarão a morte e não a acharão” (Ap 9.6). 
O fogo do inferno é um fogo que multidões de lágrimas não o saciarão, 
uma grande quantidade de tempo não o findará. O frasco da ira de Deus 
sempre gotejará sobre o pecador. Conquanto Deus seja eterno, vive para se 
vingar do ímpio.
Oh! eternidade! Eternidade, quem pode medi-la? Os marinheiros têm 
suas sondas para medir as profundezas do mar, mas que linha ou que sonda 
usaremos para medir a profundeza da eternidade? O sopro do Senhor 
alimenta o lago infernal (Is 30.33). Onde encontraremos bombas d ’água ou 
baldes para apagar tal fogo? Oh! eternidade! Se toda a massa da terra e do 
mar fosse transformada em areia, e todo o ar até o céu estrelado fosse areia, 
e um pequeno pássaro viesse a cada mil anos e apanhasse com o bico a 
décima parte de um grão de toda essa imensidão de areia, seriam necessários 
inúmeros anos até que a imensidão de areia fosse toda transportada. Porém, 
se ao final de todo esse tempo, o pecador pudesse sair do inferno, haveria 
alguma esperança, mas a palavra “sempre” quebra o coração. “A fumaça 
de seu tormento sobe pelos séculos dos séculos.” Que terror é isso para o 
ímpio, o suficiente para fazê-lo suar frio e pensar. Conquanto Deus seja 
eterno, vive para se vingar do ímpio.
Aqui pode ser feita uma pergunta: Por que um pecado que é cometido 
por pouco tempo deve ser punido eternamente? Devemos entender como 
Agostinho que “os julgamentos de Deus sobre o ímpio podem ser secretos, 
mas nunca injustos” . A razão pela qual um pecado cometido em um curto 
espaço de tempo é eternamente punido é que cada pecado é cometido
contra a infinita essência, e nada menos que a punição eterna pode satisfazê-lo. 
Se a traição contra a pessoa de um rei, que é sagrada, é punida com o 
confisco e a morte, muito mais contra a coroa e a dignidade de Deus, que é 
de uma natureza infinita e cheia de ira contra o pecado. Não pode ser 
satisfeita com menos que a punição eterna.
Segunda aplicação: a certeza da eternidade de Deus consola o fiel. 
Deus é eterno, portanto vive para sempre para galardoar o fiel. “A vida 
eterna aos que, perseverandoem fazer o bem, procuram glória, honra e 
incorruptibilidade” (Rm 2.7). O povo de Deus nesse texto está numa situação 
de sofrimento. “Que me esperam cadeias e tribulações” (At 20.23).
O ímpio está vestido de púrpura e se farta com delícias, enquanto o 
fiel sofre. Cabras escalam altas montanhas, enquanto ovelhas de Cristo 
estão no vale da matança. Porém, aqui está o consolo, Deus é eterno e 
preparou recompensas eternas para os santos. No céu há prazeres puros, 
doçura abundante. A vida “eterna” é a coroa e o zênite da felicidade do 
céu (1 Jo 3.15). Se houvesse a mínima suspeita de que essa glória pudesse 
cessar ou obscurecer, ela amargaria. Contudo, a glória é eterna. Que anjo 
poderia medir a eternidade? “Eterno peso de glória” (2Co 4.17). Os santos 
se banharão nos rios do prazer divino, rios que nunca secarão. “Na tua 
destra, delícias perpetuamente” (SI 16.11). Isso representa o Elá (Deus 
maravilhoso em hebraico), a tendência superior na retórica do apóstolo. 
“ Estaremos para sempre com o Senhor” (lT s 4.17). Haverá paz sem 
problemas, tranqüilidade sem dor, glória sem fim, “estaremos para sempre 
com o Senhor”. Que isso console os santos em todos os seus problemas: as 
suas tribulações são passageiras, mas o galardão é eterno. A eternidade faz 
o céu ser céu, é o diamante no anel. Dia abençoado, que não terá noite. 
A luz da glória nascerá sobre a alma e nunca se porá. Abençoada primavera, 
que não terá outono ou queda de folhas.
Os imperadores romanos tinham três coroas sobre suas cabeças, a 
primeira de ferro, a segunda de prata e a terceira de ouro, da mesma maneira 
o Senhor coloca três coroas sobre seus filhos: graça, consolo e glória. 
A coroa da glória é eterna: “Recebereis a imarcescível coroa de glória” 
(1 Pe 5.4). O ímpio terá um verme que nunca morre e o fiel uma coroa que 
nunca se desfaz. Quão estimulante à virtude deve ser esse consolo. 
Deveríamos ser dispostos a trabalhar para Deus. Embora nada tenhamos 
aqui, Deus tem tempo suficiente para galardoar seu povo. A coroa da 
eternidade será colocada sobre suas cabeças.
Terceira aplicação: esta certeza também nos exorta a estudar a respeito 
da eternidade. Nossos pensamentos deveriam se ocupar principalmente com 
a eternidade. Todos nós desejamos o presente, algo que possa agradar os
84 A f é cristã — Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A eternidade de Deus 85
sentidos. Se pudéssemos ter vivido, como disse Agostinho, desde a infância 
do mundo até a velhice do mundo, como seria? O que é o tempo em 
comparação à eternidade? Assim como o mundo é um pequeno ponto no 
céu, assim é o tempo, nem um raro minuto em relação à eternidade. E o que 
é a pobre vida que se vai tão rápido? Pense na eternidade. Irmãos, todos os 
dias estamos viajando para a eternidade, e quer acordemos ou durmamos, 
estamos em uma jornada. Alguns estão às portas da eternidade. Estudem a 
brevidade da vida e o comprimento da eternidade.
Em especial, pense sobre a eternidade de Deus e a eternidade da alma. 
Pense na eternidade de Deus. Ele é Ancião de Dias, que era antes de todo o 
tempo. Há uma descrição figurada de Deus em Daniel 7.9: “O Ancião de 
dias se assentou; sua veste era branca como a neve, e os cabelos da cabeça, 
como a pura lã” . A veste branca com a qual estava vestido significa sua 
majestade. Seu cabelo, como pura lã, significa sua santidade e Ancião de 
Dias significa sua eternidade.
Pensar na eternidade de Deus deveria nos levar a ter altos pensamentos 
de adoração em relação a ele. Em geral, som os propensos a ter 
pensamentos ruins e irreverentes a respeito de Deus. “Pensavas que eu 
era teu igual” (SI 50.21), tão fraco e mortal, porém se pensarmos na 
eternidade de Deus, quando todo nosso poder cessa, veremos que ele é Rei 
eterno, sua coroa prospera para sempre, pode nos fazer feliz ou infeliz para 
sempre, isto nos leva a ter altos pensamentos de adoração para com Deus. 
“Os vinte e quatro anciãos prostrar-se-ão diante daquele que se encontra 
sentado no trono, adorarão o que vive pelos séculos dos séculos e depositarão 
as suas coroas diante do trono” (Ap 4.10). Os anciãos se prostram diante 
daquele que está no trono, significando pela postura que não são dignos de 
se sentar na presença de Deus. Eles se prostram e adoram aquele que vive 
para sempre e sempre, agem como se fossem beijar seus pés. Eles colocam 
suas coroas diante do trono, depositam suas honras ante seus pés. Assim, 
mostram uma adoração humilde à essência eterna. Meditar na eternidade 
de Deus nos fará adorar aquilo que não podemos alcançar.
Pensemos na eternidade da alma. Assim como Deus é eterno, nos 
fez eternos. Somos criaturas que nunca morrem. Logo entraremos num 
estado eterno, seja de felicidade ou de miséria. Pensemos seriamente sobre 
isso. Diga assim: “Oh! minha alma, qual dessas duas eternidades será sua 
porção? Logo partirei e para onde irei, para qual das eternidades: glória ou 
miséria?” Uma séria meditação sobre o estado eterno em que passaremos 
mexerá muito conosco.
1. Pensar nos tormentos eternos é um bom antídoto contra o pecado. 
O pecado tenta com seus prazeres, mas quando pensamos sobre a eternidade 
somos serenados do calor da malícia. Será que devo, pelo prazer breve do
pecado, agüentar a dor eterna? O pecado, como aqueles gafanhotos, libertos 
com o toque da quinta trombeta (Ap 9.7), parece ter em sua cabeça uma 
coroa de ouro, mas tem uma cauda como a do escorpião (Ap 9.10) e um 
aguilhão nele que nunca pode ser extraído. Devemos nos aventurar em 
sofrer a ira eterna? O pecado cometido é tão doce a ponto de sofrermos o 
inferno amargo para sempre? Esse pensamento nos faria fugir do pecado, 
como Moisés da serpente.
2. Pensar seriamente na felicidade eterna nos apartaria das coisas 
mundanas, as quais são apenas bens terrestres diante da eternidade. 
Rapidamente se vão, saúdam-nos e se despedem de nós. Porém, entrarei 
num estado eterno, espero viver com aquele que é eterno. O que é o mundo 
para mim? Para aqueles em pé sobre os Alpes, as grandes cidades de 
Cam pânia são pequeninas aos olhos. Assim, para os que têm seus 
pensamentos fixos no estado eterno após esta vida todas essas coisas parecem 
como nada aos olhos. O que é a glória deste inundo? Pobre e desprezível 
comparada com um peso eterno de glória.
3. Pensar seriamente no estado eterno, seja de felicidade ou miséria, 
teria uma poderosa influência sobre o que quer que pegássemos às mãos. 
Toda obra que fazem os prom ove uma e tern idade abençoada ou 
amaldiçoada. Toda boa ação nos coloca um passo mais perto da felicidade 
eterna. Cada má ação nos coloca a um passo mais próximo do sofrimento 
eterno. Quanta influência devem ter nossos pensamentos a respeito da 
eternidade sobre nossas responsabilidades religiosas. Deveriam nos fazer 
executá-las com toda a nossa força. Responsabilidades bem executadas 
elevam o cristão mais alto em direção ao céu e o colocam um passo mais 
próximo da abençoada eternidade.
D. A IMUTABILIDADE DF. D f.ü S
O próximo atributo é a imutabilidade de Deus. “Porque eu, o S e n h o r , 
não mudo” (Ml 3.6). Sobre a imutabilidade de Deus podemos dizer que 
Deus é imutável em sua natureza e que Deus é imutável em seu decreto.
1. Deus é imutável em sua natureza
Podemos considerar os seguintes pontos na imutabilidade da natureza 
de Deus.
a. Não há mudança em seu brilho
O brilho de Deus não se ofusca. Sua essência brilha com um resplendor 
fixo. “Em quem não pode existir variação ou sombra de mudança” (Tg 1.17). 
“Tu, porém, és sempre o mesmo” (SI 102.27). Todas as coisas criadas são 
cheias de mudanças repentinas. Príncipes e imperadores são sujeitos a
86 A fé cristã — Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A imutabilidade de Deus 87
mudança. Sesóstris, um príncipe egípcio, tendo subjugado diversos reis em 
guerras, fez que seus cavalos fossem substituídos pelos reis conquistados e 
os fazia imitar os cavalos, como se pretendesse que comessem grama, 
semelhantemente ao que Deus fez com o rei Nabucodonosor.A coroa tem 
muitos sucessores. Reinos têm seus eclipses e convulsões. O que aconteceu 
com a glória de Atenas? Da pomposa Tróia restou o ditado: hoje cresce 
milho onde um dia estava Tróia. Embora reinos tenham a cabeça de ouro, 
seus pés são de barro.
Os céus mudarão. “Todos eles envelhecerão como um vestido, como 
roupa os mudarás, e serão mudados” (SI 102.26). Os céus são os registros 
mais antigos, nos quais Deus escreveu sua glória com um raio de luz, mas 
mesmo assim eles mudarão. Embora particularmente não ache que devam 
ser destruídos até sua substância, ainda assim eles serão mudados em 
relação às suas qualidades. Derreterão com o calor fervente e, assim, serão 
mais refinados e purificados (2Pe 3.12). Assim os céus serão mudados, 
mas aquele que habita nos céus não. “Em quem não pode existir variação 
ou sombra de mudança.”
Os melhores santos têm seus eclipses e mudanças. Observe um cristão 
em sua vida espiritual, ele é cheio de variação. Ainda que a semente da graça 
não morra, sua beleza e atividade geralmente diminuem. Um cristão tem 
recaídas na religião. As vezes sua fé está num nível alto, às vezes muito 
baixo. Às vezes seu amor arde, outras vezes é como fogo de brasas, perde seu 
primeiro amor. Como foi forte o estado de graça de Davi certa vez. “O meu 
Deus, o meu rochedo em que me refugio; o meu escudo, a força da minha 
salvação” (2Sm 22.3). Outras vezes disse: “Um dia perecerei nas mãos de 
Saul”. Que cristão pode dizer que não encontra mudanças em seu estado de 
graça a ponto do arco de sua fé nunca dobrar, as cordas de sua viola nunca 
afrouxarem? Certamente nunca conheceremos cristãos assim até que nos 
encontremos com eles no céu. Mas Deus é sem sombra de variação.
Os anjos foram sujeitos a mudança; foram criados santos, mas 
mutáveis: “... anjos, os que não guardaram o seu estado original” (Jd 6). 
Essas estrelas matinais do céu eram estrelas cadentes. Mas a glória de Deus 
brilha com um fulgor fixo. Em Deus não há nada que se parece com 
mudança, para melhor ou pior. Nem para melhor, porque então não seria 
perfeito. Nem para pior, pois cessaria de ser perfeito. Ele é imutavelmente 
santo, imutavelmente bom; não há sombra de variação nele.
b. Não há mudança na encarnação
Neste ponto, alguém pode apresentar a seguinte indagação: Mas quando 
Cristo, que é Deus, assumiu a natureza humana, houve uma mudança em Deus.
Caso a natureza divina tivesse sido convertida em humana, ou a humana 
em divina, teria havido uma mudança, mas não foi assim que aconteceu. A 
natureza humana era distinta da divina. Portanto, não houve mudança. Uma 
nuvem sobre o sol não muda o corpo solar, assim, embora a natureza divina 
fosse coberta com a humana, isso não a mudou.
c. Não há mudança em sua existência
Não há um tempo determinado para sua existência: “O único que possui 
imortalidade” (lTm 6.16). Deus não pode morrer. Uma essência infinita 
não pode ser mudada para uma fmita. Deus é infinito. Ele é eterno, por isso 
não é mortal. Ser eterno e mortal é uma contradição.
A p l ic a ç õ e s
Primeira aplicação: veja a excelência da natureza divina em sua 
imutabilidade. Essa é a glória da divindade. Mutabilidade denota fraqueza, 
o que não há em Deus, que é “o mesmo e o será para sempre” (Hb 13.8). 
Os homens são inconstantes e mutáveis, como Rúben, “impetuoso como 
a água” (Gn 49.4). São mutáveis em seus princípios. Se seus semblantes 
se alteram rapidamente como suas opiniões, não se pode conhecê-los. 
Os homens são mutáveis em suas decisões, mudam como o vento que 
sopra para o leste, de repente muda para o oeste. Decidem ser virtuosos, 
mas logo se arrependem de suas decisões. Suas mentes são como o pulso 
de um homem doente, mudam a cada meia hora. Um dos apóstolos 
compara o homem às ondas do mar e às estrelas errantes (Jd 13). Não são 
pilares no templo de Deus, mas juncos. Outros são mutáveis em suas 
amizades. Rapidamente amam e rapidamente odeiam. As vezes somos 
íntimos deles, então nos afastam de seu favor. Mudam como o camaleão, 
em várias cores, mas Deus é imutável.
Segunda aplicação: veja a vaidade da criatura. Há mudanças em tudo, 
mas não em Deus. “Somente vaidade são os homens plebeus; falsidade, os 
de fina estirpe” (SI 62.9). Esperamos mais das criaturas do que Deus colocou 
nelas. Há dois males nas criaturas: prometem mais do que podem cumprir 
e nos decepcionam quando mais precisamos delas. Há decepção na 
humanidade. Um homem deseja seu milho moído, mas a água falta. 
O marinheiro vai viajar e o vento não sopra, ou o contrário. Um depende do 
outro para o pagamento de uma promessa e falha, e é como um pé fora da 
junta. Quem procuraria estabilidade na criatura vã? E como construir casas 
na areia, onde o mar alcança e faz enchente. A criatura é fiel a nada mais 
que decepção, é constante somente nos desapontamentos. Não há surpresa 
maior nas mudanças aqui embaixo que ver a Lua se vestindo de uma nova 
forma e figura. Espere encontrar mudanças em tudo, mas não em Deus.
88 A fé cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A imutabilidade de Deus 89
Terceira aplicação: consolo ao fiel.
1. Em casos de perdas. Se uma propriedade for quase totalmente 
desvalorizada, se amigos forem perdidos pela morte, se houver um eclipse 
duplo, o consolo é que Deus é imutável. Podemos perder essas coisas, mas 
não perdemos Deus. Ele nunca morre. Quando a figueira e a oliveira não 
produziram, Deus não falhou: “Exulto no Deus da minha salvação” (Hc 3.18). 
As flores do jardim morrem, mas a porção do homem permanece. Coisas 
exteriores morrem e mudam, mas “ainda que a minha carne e o meu coração 
desfaleçam, Deus é a fortaleza do meu coração e a minha herança para 
sempre” (SI 73.26).
2. Em caso de tristeza de espírito. Deus parece lançar a alma no 
abandono, como em Cântico 5.6: “ele se retirara e tinha ido embora”, mas 
é imutável. E imutável em seu amor. Pode mudar seu semblante, mas não 
seu coração. “Com amor eterno eu te amei” (Jr 31.3). Amor eterno é a 
palavra olam, no hebraico. Se o amor eletivo de Deus se acender sobre uma 
alma, nunca se apagará. “Porque os montes se retirarão, e os outeiros serão 
removidos; mas a minha misericórdia não se apartará de ti, e a aliança 
da minha paz não será removida, diz o S e n h o r , que se compadece de ti” 
(Is 54.10). O amor de Deus é mais forte que as montanhas. Seu amor por 
Cristo é imutável, por isso nunca cessará de amar os crentes, assim como 
não cessará de amar a Cristo.
Quarta aplicação: quanto à exortação
Tenha interesse no Deus imutável, então você será como uma rocha 
no mar, imóvel no meio de todas as mudanças.
Como posso ter parte no Deus imutável? Ao ter uma mudança 
segundo os padrões divinos. “Mas vós vos lavastes, mas fostes santificados” 
(IC o 6.11). Assim somos mudados das trevas para a luz, mudados de tal 
maneira como se outra alma vivesse no mesmo corpo. Por meio dessa 
mudança, damos provas de nosso interesse no Deus imutável.
Confie que somente Deus é imutável. “Afastai-vos, pois, do homem” 
(Is 2.22). Pare de confiar no junco e confie na Rocha Eterna. Aquele que é 
fortificado em Deus pela fé está a salvo de todas as mudanças. Ele é como 
um barco amarrado a uma rocha irremovível. Quem confia em Deus, confia 
naquele que não pode decepcioná-lo. Ele é imutável. “De maneira alguma 
te deixarei, nunca jamais te abandonarei” (Hb 13.5). A saúde pode nos 
abandonar, assim como as riquezas, os amigos, mas Deus diz que não nos 
abandonará, seu poder nos sustentará, seu Espírito nos santificará, sua 
misericórdia nos salvará. Ele nunca nos deixará. Confie nesse Deus imutável.
Deus é zeloso em relação a duas coisas: nosso amor e nossa confiança. 
Zela quanto ao nosso amor, para que não amemos a criatura mais que a ele,
e deixa isso bem claro. E zela quanto à nossa confiança, para que não 
coloquemos mais confiança em nós mesmos que nele, pois se assim o 
fizermos, mostrará que confiar em nós mesmos não é seguro. Consolos 
externos nos são dados como alimento para nos refazer,não como muletas 
para nos apoiar. Se fizermos da criatura um ídolo, Deus envergonhará a 
quem confiamos. Confie no Deus imortal. Como a pomba de Noé, não 
temos lugar para apoiar nossas almas, até que cheguemos à arca do Deus 
imutável. “Os que confiam no S e n h o r são como o monte Sião, que não se 
abala, firme para sempre” (S I 125.1).
2. Deus é imutável em seu decreto
a. A imutabilidade do decreto de Deus é fruto de sua onisciência
Aquilo que Deus decretou desde a eternidade é imutável. “O meu 
conselho permanecerá de pé” (Is 46.10). O conselho eterno de Deus, ou seu 
decreto, é imutável. Se ele mudasse seu decreto, seria por uma falha de 
sabedoria ou previsão, pois essa é a razão pela qual os homens mudam seus 
propósitos. Os homens enxergam algo só depois que acontece, porque não 
vêem previamente. Esta, porém, não pode ser a causa pela qual Deus deveria 
alterar seu decreto, pois seu conhecimento é perfeito, ele vê todas as coisas 
numa inteira perspectiva diante de si.
b. A imutabilidade do decreto de Deus e a aplicação de suas sentenças
Porém, não é dito que Deus se arrependeu? Parece ter havido uma 
mudança em seu decreto em Jonas 3.10: “Deus se arrependeu do mal que 
tinha dito lhes faria e não o fez” .
O arrependimento é atribuído a Deus figurativamente. “Deus não 
é homem para que minta, nem filho de homem para que se arrependa” 
(Nm 23.19). Pode haver mudança na obra de Deus, mas não em sua vontade. 
Pode desejar uma mudança, mas não pode mudar sua vontade. “Deus pode 
mudar sua sentença, mas não seu decreto.” Um rei pode sentenciar um 
malfeitor a quem pretende salvar, assim Deus ameaçou destruir Nínive, 
mas com o arrependimento do povo Deus a poupou (Jn 3.10). Ali, Deus 
mudou sua sentença, não seu decreto. Era o que tinha depositado em seu 
propósito desde a eternidade.
c. A imutabilidade do decreto de Deus prevê os meios para a salvação
Mas se o decreto de Deus é imutável e não pode voltar atrás, para 
que servem os meios em relação aos fins já determinados? Nossos esforços 
em relação à salvação não podem alterar seu decreto.
O decreto de Deus não afeta meu esforço, pois aquele que decretou 
minha salvação decretou-a no uso dos meios e, se eu negligenciar os meios,
90 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A imutabilidade de Deus 91
condeno a mim mesmo. Homem nenhum raciocina assim: Deus decretou 
quanto tempo vou viver, então não usarei de nenhum meio para preservar 
minha vida, não comerei nem beberei. Deus decretou o tempo de minha 
vida considerando o uso dos meios, assim decretou minha salvação 
considerando o uso da Palavra e da oração. Como um homem que rejeita 
comida mata a si mesmo, assim aquele que recusa desenvolver sua salvação 
destrói a si mesmo. Os vasos de misericórdia foram preparados de antemão 
(Rm 9.23). Como são preparados, senão ao serem santificados? Isso só 
pode ocorrer por intermédio de meios. Portanto, que o decreto de Deus não 
nos tire de empreendimentos santos. Dr. Preston diz algo muito bom: “Tens 
tu um coração para orar a Deus? É um sinal que nenhum decreto de ira foi 
promulgado contra ti”.
A p l i c a ç õ e s
Primeira aplicação: se o decreto de Deus é eterno e imutável, então 
Deus não elege com base na previsão de nossa fé como os arminianos 
defendem. “E ainda não eram os gêmeos nascidos, nem tinham praticado o 
bem ou o mal (para que o propósito de Deus, quanto à eleição, prevalecesse, 
não por obras, mas por aquele que chama)... Como está escrito: Amei Jacó, 
porém me aborreci de Esaú” (Rm 9.11 e 13). Não somos eleitos pela nossa 
santidade, mas para a santidade (Ef 1.4). Se não somos justificados por 
nossa fé, muito menos somos eleitos pela nossa fé. Não somos justificados 
pela fé, somos justificados por meio da fé como um instrumento (Ef 2.8), 
mas não por fé como uma causa. Assim, se não somos justificados por fé, 
então muito menos somos eleitos pela fé. O decreto da eleição é eterno e 
imutável e, portanto, não depende da previsão da fé. “E creram todos os 
que haviam sido destinados para a vida eterna” (At 13.48). Não foram eleitos 
porque creram, mas creram porque foram eleitos.
Segunda aplicação: se o decreto de Deus é imutável, dá consolo em 
duas situações.
1. Em relação à providência de Deus para com sua igreja. Estamos 
prontos para lutar contra a providência se as coisas não acontecem conforme 
nosso desejo. Lembre-se que a obra de Deus continua e nada acontece senão 
o que ele determinou desde a eternidade.
2. Deus decretou problemas para o bem da igreja. Os problemas da 
igreja de Deus são como as águas agitadas pelo anjo, as quais serviam para 
curar seu povo (Jo 5.4). Ele decretou problemas para a igreja: “Fogo está 
em Sião e ... fornalha, em Jerusalém” (Is 31.9). As engrenagens de um 
relógio se movem cruzando uma com a outra, mas todas dão movimento ao 
relógio, assim as engrenagens da providência geralmente se movem 
cruzando nossos desejos, mas mesmo assim levam a cabo o decreto imutável
de Deus. “Muitos serão purificados” (Dn 12.10). Deus permite que as águas 
da aflição sejam derramadas sobre seu povo para purificá-lo. Portanto, não 
murmuremos com a maneira de Deus, sua obra continua, nada ocorre senão 
o que ele decretou sabiamente desde a eternidade. Todas as coisas 
promoverão o desígnio de Deus e cumprirão seu decreto.
Terceira aplicação: consolo ao crente com respeito à sua salvação. 
“ Entretanto, o firme fundamento de Deus permanece, tendo este selo: 
O Senhor conhece os que lhe pertencem” (2Tm 2.19). O conselho de Deus 
quanto à eleição é imutável. Uma vez eleito, eleito para sempre. “De modo 
nenhum apagarei seu nome do livro da vida” (Ap 3.5). O livro do decreto 
de Deus não contém errata, não há rasuras. Uma vez justificados, nunca 
mais sem justificação. “Meus olhos não vêem em mim arrependimento 
algum” (Os 13.14). Deus nunca se arrepende de seu amor eletivo. “Amou-os 
até ao fim” (Jo 13.1). Portanto, se você é um crente, seja consolado com a 
imutabilidade do decreto de Deus.
Quarta aplicação: para concluir com uma palavra ao ímpio, que 
marcha furiosamente contra Deus e seu povo, que saiba que o decreto de 
Deus é imutável. Deus não alterará o seu decreto, nem será quebrado. Ainda 
que resistam à vontade de Deus, mesmo assim a cumprem. Há uma vontade 
de Deus dividida em duas: “a vontade do preceito de Deus e de seu decreto” . 
Ainda que o ímpio resista à vontade do preceito de Deus, cumpre a vontade 
de seu decreto permissivo. Judas traiu Cristo, Pilatos o condenou, os soldados 
o crucificaram. Ainda que resistam à vontade dos preceitos de Deus, 
cumprem a vontade de seu decreto permissivo (At 4.28). Deus manda os 
ímpios fazerem algo e eles fazem exatamente o contrário. Um exemplo 
disso é o mandamento da guarda do dia de descanso - ou o dia de sábado; o 
que eles constantem ente profanam . Ainda que desobedeçam a seu 
mandamento, cumprem seu decreto permissivo. Se uma pessoa armar duas 
redes, uma de seda e outra de ferro, a de seda pode se romper, mas a de ferro 
não. Assim, enquanto as pessoas quebram as redes de seda dos mandamentos 
de Deus, são pegas na rede de ferro de seu decreto. Enquanto se sentam de 
costas para os preceitos de Deus, estão de frente para seus decretos. Os decretos 
que permitem seus pecados, os punem pelos pecados permitidos.
E. A SABEDORIA DE DEUS
O próximo atributo é a sabedoria de Deus, que é uma das mais brilhantes 
características de Deus. “Ele é sábio de coração” (Jó 9.4). O coração é a 
cadeira da sabedoria. Pineda49 disse o seguinte: Para os hebreus, o coração é 
o lugar da sabedoria. “Os homens sensatos dir-me-ão” (Jó 34.34). Deus é 
sábio no coração, isto é, ele é o mais sábio. Só Deus é sábio; ele possui toda 
a sabedoria, portanto é chamado “Deus único” (1 Tm 1.17). Todos os tesouros
92 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A sabedoria de Deus 93
de sabedoria estão guardados com ele, nenhuma criatura pode ter sabedoria 
se Deus não quiser lhe dar de seu tesouro.Deus é perfeitamente sábio, não há defeito em sua sabedoria. Os homens 
podem ser sábios em algumas coisas, mas em outras apresentam imprudência 
e fraqueza. Porém, Deus é o exemplo e o padrão de sabedoria, e o padrão 
deve ser perfeito (Mt 5.48). A sabedoria de Deus aparece em duas coisas: 
em sua infinita inteligência e em seu trabalho perfeito.
1. A infinita inteligência de Deus
Ele conhece os mais profundos segredos (Dn 2.28). Ele conhece os 
pensamentos, que são as coisas mais confusas que há. “Porque é ele quem... 
declara ao homem qual é o seu pensamento” (Am 4.13). Mesmo que o 
pecado seja politicamente tramado, Deus retirará todas as máscaras e os 
disfarces e conhecerá todos os corações. Ele conhece todas as possibilidades 
futuras e já avista de antemão, pois todas as coisas estão diante dele em 
uma perspectiva clara.
2. O trabalho de Deus é perfeito
Ele é sábio de coração e sua sabedoria está em suas obras. Essas obras 
de Deus estão encadernadas em três grandes volumes, nos quais podemos 
ler sua sabedoria.
a. A sabedoria de Deus se manifesta na obra da criação
A criação é tanto um monumento do poder de Deus quanto um espelho 
em que podemos ver sua sabedoria. Ninguém, a não ser um Deus sábio, 
poderia de maneira tão intrigante elaborar o mundo. Observe a terra enfeitada 
com uma variedade de flores, tanto para beleza quanto para fragrância. 
Observe o céu enfeitado com luzes. Podemos ver a sabedoria gloriosa de 
Deus cintilando no sol e brilhando nas estrelas.
A sabedoria de Deus é vista em organizar e em ordenar tudo no seu 
próprio lugar e esfera. Se o sol fosse colocado mais abaixo nos queimaria, 
se fosse mais alto, não nos aqueceria com seus raios. A sabedoria de Deus 
é vista ao determinar as estações do ano: “Verão e inverno, tu os fizeste” 
(SI 74.17). Se sempre fosse verão, o calor nos torraria. Se sempre fosse 
inverno, o frio nos mataria. A sabedoria de Deus é vista na variação do 
escuro e do claro. Se sempre fosse noite, não haveria trabalho. Se sempre 
fosse dia, não haveria descanso. A sabedoria é vista na mistura dos elementos, 
como a terra com o mar. Se tudo fosse mar, teríamos falta de pão. Se tudo 
fosse terra, teríamos falta de água. A sabedoria de Deus é vista na preparação 
e amadurecimento das frutas da terra, no vento e no frio que preparam as 
frutas e no sol e chuva que as amadurecem. A sabedoria de Deus é vista nos
limites do mar, sabiamente o idealizando. Embora o mar seja mais alto que 
a terra em muitos lugares, mesmo assim nâo inunda a terra. Assim, falamos 
como o salmista: “Que variedade, S e n h o r , nas tuas obras! Todas com 
sabedoria as fizeste” (SI 104.24). Não há nada mais a ser visto, a não ser 
milagres de sabedoria.
A sabedoria de Deus é vista na organização das coisas na estrutura 
social, de maneira que um tem necessidade do outro. O pobre precisa do 
dinheiro do homem rico e o rico precisa do trabalho do homem pobre. 
Deus faz que um negócio dependa de outro, que uma pessoa seja útil para 
outra, que o amor mútuo seja preservado.
b. A sabedoria de Deus brilha na obra da redenção
i. A sabedoria do plano pelo qual o pecador é salvo. Esta é a obra- 
prima da sabedoria divina: a elaboração de uma conjunção bem-sucedida 
entre o pecado do homem e a justiça de Deus. Podemos gritar com o apóstolo: 
“Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria quanto do conhecimento 
de Deus!” (Rm 11.33).
Tal intervenção da sabedoria divina impressionou homens e anjos. Se 
Deus tivesse nos dado condições de encontrar a salvação quando estávamos 
perdidos, não teríamos inteligência suficiente para idealizar, nem coração 
para desejar o que a sabedoria infinita de Deus proporcionou a nós.
A misericórdia tem uma estratégia para salvar os pecadores e não permitir 
que a justiça de Deus seja ofendida. “Seria uma pena”, diz a misericórdia, 
“que tão nobre criatura como o homem fosse criado para ser desfeito, no 
entanto, a justiça de Deus não pode ser ofendida”. Em quê, então, se encontraria 
uma saída? Os anjos não poderiam satisfazer a ofensa feita à justiça de Deus, 
nem é apropriado que uma natureza pecasse e outra sofresse em seu lugar. 
O que fazer então? O homem estará perdido para sempre?
Bem, enquanto a misericórdia estava debatendo consigo mesma o que 
fazer para o resgate do homem caído, a sabedoria de Deus entrou em cena 
e a decisão foi profetizada: tome-se Deus em homem: a segunda pessoa da 
Trindade seja encarnada e sofredora. E, assim, para preencher os requisitos 
era apropriado que fosse homem e para garantir a salvação era apropriado 
que fosse Deus. Então, a justiça ficaria satisfeita e o homem salvo. Oh! 
profundidade das riquezas da sabedoria de Deus, que dessa maneira fez 
que a justiça e a misericórdia se beijassem! Grande é este mistério, Deus 
“foi manifestado na carne” ( lTm 3.16). Que sabedoria, o fato de que Cristo 
foi feito pecado, mas não conheceu pecado algum, de modo que Deus 
pudesse condenar o pecado e salvar o pecador. Quão grande foi a sabedoria 
que encontrou uma saída de salvação.
94 A f é cristã - Estados baseados no Breve Catecismo de Westminster
A sabedoria de Deus 95
ii. A sabedoria do instrumento pelo qual o pecador é salvo. O meio 
pelo qual a salvação é aplicada destaca a sabedoria de Deus; pelo que a 
salvação deveria ser pela fé, não por obras. Fé é uma graça humilde, conduz 
tudo para Cristo; é um adorador da graça, quando a graça avança, Deus é 
glorificado; sua mais alta sabedoria exalta sua glória.
iii. A sabedoria da maneira em que a fé trabalha. A maneira de a fé 
operar declara a sabedoria de Deus. Ela é ativada pela palavra pregada. 
“A fé vem pela pregação” (Rm 10.17). Quão fraco é o sopro de uma pessoa 
para converter uma alma? E como soprar nos ouvidos de um homem morto. 
Isso é tolice aos olhos do mundo, mas o Senhor ama mostrar sua sabedoria 
por intermédio daquilo que parece tolice: “Deus escolheu as coisas loucas 
do mundo para envergonhar os sábios” ( ICo 1.27). Por quê? “A fim de que 
ninguém se vanglorie na presença de Deus” (ICo 1.29). Se Deus usasse o 
ministério de anjos para converter, então deveríamos estar prontos para dar 
glória aos anjos, honrá-los com a honra que pertence a Deus. Porém, quando 
Deus utiliza instrumentos fracos, homens que têm paixões semelhantes às 
nossas, e os usa para converter outros, então claramente percebe-se que o 
poder é de Deus. “Temos, porém, este tesouro em vasos de barro, para que 
a excelência do poder seja de Deus e não de nós” (2Co 4.7). Nisto a sabedoria 
de Deus é vista, para que ninguém se vanglorie em sua presença.
c. A sabedoria de Deus aparece nas obras de sua providência
Deus m anifesta sua sabedoria de maneira m aravilhosa na sua 
providência. Todo ato providencial de Deus tem misericórdia ou algo 
maravilhoso envolto em si. A sabedoria de Deus em suas obras de 
providência aparece quando:
i. Deus aplica sua providência por meios insignificantes. Ao efetuar 
grandes realizações por intermédio de meios insignificantemente pequenos, 
a sabedoria de Deus nas obras da providência se toma notória. Ele curou os 
israelitas picados por serpentes com uma serpente de bronze. Se algum 
antídoto soberano fosse usado ou se o bálsamo de Gileade fosse utilizado 
haveria cura do mesmo modo. Porém, o que havia na serpente de bronze? 
Era somente uma imagem, nem mesmo era um remédio para ser aplicado 
sobre a ferida, no entanto, os israelitas deveriam somente olhar para ela. 
Porém, isso operou a cura. Quanto menor a probabilidade no instrumento, 
maior será o destaque da sabedoria de Deus.
ii. Deus aplica sua providência em situações adversas. Percebe-se 
a sabedoria de Deus quando ele faz sua obra por meio do que aos olhos dos 
homens parece totalmente contrário. Deus pretendia prosperar José e fazer 
que todos os seus irmãos se prostrassem diante dele. Mas, quais caminhos 
Deus usou? Primeiramente José é lançado em um poço, depois vendido
para o Egito, depois lançado em prisão (Gn 39.20). Por meio de sua prisão, 
Deus fez caminhopara seu desenvolvimento. Se Deus o salvasse de uma 
maneira comum, não mostraria tanto sua sabedoria. Mas quando ele age 
estranhamente e salva de uma maneira que pensávamos levar à destruição, 
sua sabedoria brilha de um modo mais evidente.
Deus faria Israel vitorioso, mas que caminho tomaria? Ele diminui o 
exército de Gideão: “Disse o S en h o r a Gideão: É demais o povo que está 
contigo” (Jz 7.2). Ele reduz um exército de 230 mil homens para 300 homens 
e, ao tirar os meios de vitória, faz Israel vitorioso.
Deus tinha o propósito de tirar seu povo do Egito e toma um curso 
estranho para proceder a seu propósito. Ele faz que os corações dos egípcios 
odeiem seu povo: “Mudou-lhes o coração para que odiassem o seu povo” 
(SI 105.25). Quanto mais odiavam e oprimiam Israel, mais Deus mandava 
pragas para os egípcios, e, assim, se alegravam mais em deixar Israel ir 
(Êx 12.33). Os egípcios agiram com insistência sobre Israel para que os 
enviassem para fora do Egito depressa.
Deus pensou em salvar Jonas quando foi lançado ao mar e permitiu que 
um peixe o engolisse, assim o levou até a praia. Deus salvou Paulo e todos 
que com ele estavam, mas o navio tinha de ser despedaçado, a tripulação 
alcançou a praia agarrada aos pedaços de madeira do barco (At 27.44).
Quanto à igreja, Deus geralmente age por meios contraditórios e faz 
que o inimigo faça seu trabalho. Deus pode dar uma pancada reta com uma 
vara torta. Geralmente fez sua igreja crescer e florescer por meio da 
perseguição. “As chuvas de sangue fez dela mais frutífera”, disse Juliano. 
“Eia, usemos de astúcia para com ele, para que não se multiplique” (Êx 1.10), 
e a maneira que reagiram para oprimi-los acabou levando o povo a se 
multiplicar. “Mas, quanto mais os afligiam, tanto mais se multiplicavam” 
(Êx 1.12), assim como a terra que quanto mais é moída, melhor produção 
dá. Os apóstolos foram espalhados pela perseguição e a maneira como fo­
ram dispersos se assemelha à semente espalhada na terra; caíram aqui e ali, 
e, assim, os cristãos pregaram o evangelho e produziram convertidos 
diariamente. Paulo foi colocado na prisão e sua prisão foi o meio para 
espalhar o evangelho (Fp 1.12).
iii. Deus aplica sua providência mudando o mal em bem. A sabedoria 
de Deus é vista quando transforma os males mais terríveis em algo bom 
para seus filhos. Como vários ingredientes venenosos sabiamente misturados 
pela habilidade do farmacêutico fazem uma droga soberana, assim Deus 
faz que as aflições mais ameaçadoras de morte cooperem para o bem de 
seus filhos. Ele os purifica e os prepara para o céu (2Co 4.17). O gelo duro 
precipita as flores da primavera da glória. O Deus sábio, por uma química
96 A fé cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A sabedoria de Deus 97
divina, transforma aflições em algo revigorante. Faz que seu povo seja 
vencedor por meio das perdas que transformam suas cruzes em bênçãos.
iv. Deus aplica sua providência apesar dos pecados dos homens. 
A sabedoria de Deus é vista nisto, que os pecados dos homens levam avante 
a obra de Deus, ainda que ele não toque em seus pecados. O Senhor permite 
o pecado, mas não o aprova. Ele tem a mão na ação na qual o pecado está, 
mas não no pecado da ação. Percebe-se isso na crucificação de Cristo, ao 
passo que os homens agiram por meios naturais, Deus contribuiu. Se Deus 
não tivesse dado vida e respiração aos judeus, eles não teriam crucificado 
Jesus, entretanto, sendo um ato pecaminoso, Deus o aborreceu. Um músico 
pode tocar uma harpa desafinada, o músico é que causa o som, mas o som 
estridente e a dissonância vêm da própria harpa. Assim, a motivação natu­
ral dos homens vem de Deus, mas suas atitudes pecaminosas vêm deles 
mesmos. Quando um homem cavalga em um cavalo manco, a cavalgada é 
a causa da maneira como o cavalo vai, mas o defeito físico é do cavalo. 
Da mesma maneira é a sabedoria de Deus, os pecados dos homens levam 
avante a obra dele, ainda que não tenha sua mão nos pecados.
v. Deus aplica sua providência socorrendo os desesperados. 
A sabedoria de Deus é vista no auxílio a casos de desespero. Deus ama 
mostrar sua sabedoria quando o auxílio humano e a sabedoria humana 
falham. Alguns advogados amam labutar com a exatidão e as dificuldades 
da lei para mostrar como sabem lidar com ela. A sabedoria de Deus nunca 
se perde, mas quando as providências são obscuras, então a estrela da manhã 
da libertação aparece. “A quem se lembrou de nós em nosso abatimento” 
(SI 136.23). As vezes Deus derrete os espíritos de seus inimigos (Js 2.24). 
As vezes Deus lhes proporciona outra coisa para fazer, o que parece um 
descanso para eles, como fez com Saul quando estava perseguindo Davi. 
“Os filisteus estão na terra.” “No monte, Deus será visto.” Quando a igreja 
parece estar sobre o altar, sua paz e sua liberdade prontas para serem 
sacrificadas, então o anjo vem e segura a mão em que está o cutelo.
vi. Deus aplica sua providência confundindo a sabedoria dos 
inimigos. A sabedoria de Deus é vista quando ridiculariza homens sábios 
e quando faz a sabedoria deles o meio para vencê-los. Aitofel tinha uma 
regra importante: “O conselho que Aitofel dava, naqueles dias, era como 
resposta de Deus a uma consulta” (2Sm 16.23), mas ele consultou para 
sua própria vergonha. “Transtornes em loucura o conselho de Aitofel” 
(2Sm 15.31). “Ele apanha os sábios na sua própria astúcia” (Jó 5.13), isto 
é, quando pensam que estão agindo sabiamente, Deus não somente os 
frustra, mas os apanha. As armadilhas que armam para os outros são as 
que pegam eles mesmos. “Na cova que fizeram, no laço que esconderam,
prendeu-se-lhes o pé” (SI 9.15). Deus gosta muito de contrariar os 
politiqueiros, faz uso da própria sagacidade deles para desfazê-los, e pendura 
Amã em sua própria forca.
A p l i c a ç õ e s
Primeira aplicação: adore a sabedoria de Deus. É uma profundeza 
infinita, os anjos não podem perscrutar. “Quão inescrutáveis os seus caminhos” 
(Rm 11.33). Devemos adorar e também descansar na sabedoria de Deus. 
Deus vê qual condição é a melhor para nós. Se crerm os na sabedoria 
de Deus, ela nos manterá longe do murmúrio. Descanse na sabedoria de 
Deus nas seguintes circunstâncias.
1. Na falta de conselho espiritual. Deus é sábio, ele entende ser bom 
que, às vezes, estejamos sem consolo. Talvez devêssemos ser elevados com 
amplitudes espirituais, como Paulo em suas revelações (2Co 12.7). E duro 
ter o coração desanimado por conta do muito consolo. Deus entende que a 
humilhação é melhor para nós que a alegria. E melhor ter falta de consolo 
e ser humilde que ter consolo e ser orgulhoso.
2. Na falta de força física. Quando necessitar de força física, descanse 
na sabedoria de Deus. Ele vê o que é melhor. Talvez quanto menos saúde, 
mais graça. Quanto mais fraco o corpo, mais forte a fé. “Mesmo que o nosso 
homem exterior se corrompa, contudo, o nosso homem interior se renova de 
dia em dia” (2Co 4.16). Havia em Roma duas árvores loureiras, quando uma 
secava, a outra florescia. O homem exterior é renovado. Quando Deus 
chacoalha a árvore do corpo, está juntando os frutos de justiça (Hb 12.11). 
A doença é uma flecha de Deus para eliminar o pus do pecado (Is 27.9).
3. Quanto às providências de Deus para com sua igreja. Quando nos 
perguntamos o que Deus está fazendo conosco e ficamos desesperados, 
precisamos descansar na sabedoria de Deus. Ele sabe o melhor que tem a 
fazer. “As tuas pegadas não se conheceram” (SI 77.19, RC). Confie nele 
onde não pode descobrir suas pegadas. Deus é o máximo em seu caminho 
quando pensamos que está o máximo fora do caminho. Quando pensamos 
que a igreja de Deus está na sepultura, como já esteve, e há uma lápide 
sobre ela, sua sabedoria pode mover a pedra da sepultura. “Ei-lo aí galgando 
os montes, pulando sobre outeiros” (Ct 2.8). Ou seu poder pode remover a 
montanha, ou sua sabedoria sabe como pular sobre ela.
4. Na falta de bens materiais. Em caso de estarmos numa posição baixa 
no mundo, com pouco óleo em nossos jarros,vamos descansar na sabedoria 
de Deus. Ele vê de uma maneira melhor, tudo o que está acontecendo é para 
curar o orgulho e a intemperança. Deus sabia que se sua propriedade não 
fosse perdida, sua alma seria. Deus viu que as riquezas seriam uma armadilha 
em seu caminho (lTm 6.9). É sua preocupação se Deus o tem prevenido de
98 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
uma armadilha? Deus fará sua vida rica em fé. O que faltar na vida temporal 
será acrescentado na espiritual. Deus lhe dará mais de seu amor. Você tem 
poucas propriedades, mas Deus o fará forte em certeza. Descanse na sabedoria 
de Deus. Ele separará a melhor parte para você.
5. No caso da perda de amigos queridos, uma esposa, criança, esposo, 
vamos descansar satisfeitos na sabedoria de Deus. Deus os leva embora 
porque terá mais de nosso amor. Ele quebra essas muletas para que possamos 
viver mais sobre ele pela fé. Deus nos ensinará a andar sem muletas.
Segunda aplicação: se Deus é infinitamente sábio, vamos até ele à 
procura de sabedoria como Salomão fez. “Dá, pois, ao teu servo coração 
compreensivo... Estas palavras agradaram ao Senhor” (lR s 3.9,10). Isto é 
um encorajamento para nós: “Se, porém, um de vós necessita de sabedoria, 
peça a Deus, que a todos dá liberalmente” (Tg 1.5). A sabedoria está em 
Deus “como na fonte” . Sua sabedoria é compartilhada e não se enfraquece. 
Seu estoque não se esvazia ao dar. Vá, então, até Deus pedindo: “Senhor, 
acenda a minha lâmpada e em tua luz verei a luz. Dá-me sabedoria para 
conhecer a falácia do meu coração e as sutilezas da antiga serpente, a fim 
de andar zelosamente em relação a mim mesmo, religiosamente para 
contigo, e prudentemente para com os outros. Guia-me por teu conselho e 
então me receba na glória” .
F . O p o d e r d e D e u s
O próximo atributo é o poder de Deus. “Se se trata da força do poderoso, 
ele dirá: Eis-me aqui” (Jó 9.19). Nesse capítulo está uma descrição 
magnificente do poder de Deus. “A força do poderoso.” A palavra hebraica 
para força significa uma conquista, a força que prevalece. “Ele é forte.” 
Nesta expressão utiliza-se o grau superlativo, isto é, ele é o mais forte. 
Ele é chamado El-shaddai, Deus todo poderoso (Gn 17.1). Seu poder está 
nisto: que pode fazer qualquer coisa que seja possível. As coisas divinas se 
distinguem entre autoridade e poder. Deus tem ambas.
I. Deus tem direito soberano e autoridade sobre o homem
Ele pode fazer o que quiser com suas criaturas. Quem poderá discutir 
com ele? Quem pedirá a ele uma razão por seus feitos? “Todos os moradores 
da terra são por ele reputados em nada; e, segundo a sua vontade, ele opera 
com o exército do céu e os moradores da terra; não há quem lhe possa deter 
a mão, nem lhe dizer: Que fazes?” (Dn 4.35). Deus se assenta para julgar 
na corte suprema; ele chama os monarcas da terra para julgamento e não 
tem de dar uma razão de seus procedimentos. “Deus é o juiz; a um abate, a 
outro exalta” (SI 75.7). Ele tem a salvação e a perdição em suas mãos. 
Ele tem a chave da justiça consigo para prender quem desejar na prisão
O poder de Deus 99
terrível do inferno e tem a chave da misericórdia em sua mão para abrir a 
porta dos céus para quem ele desejar. O nome gravado em suas vestes é: 
“Rei dos reis e Senhor dos senhores” (Ap 19.16). Ele se apresenta como o 
Senhor soberano, quem pode lhe pedir satisfação? “Farei toda a minha 
vontade” (Is 46.10). O mundo é o bispado de Deus, não faria o que quisesse 
em seus domínios? Foi ele quem fez o rei Nabucodonosor comer grama e 
lançou no inferno os anjos que pecaram. Foi ele quem quebrou a cabeça do 
império babilônico. “Como caístes do céu, ó estrela da manhã, filho da 
alva! Como fostes lançado por terra, tu que debilitavas as nações!” (Is 14.12). 
“Até aqui virás e não mais adiante, e aqui se quebrará o orgulho das 
tuas ondas?” (Jó 38.11). Deus é o monarca supremo e todo o poder 
reside originalmente nele. “Não há autoridade que não proceda de Deus” 
(Rm 13.1). Os reis possuem coroa por causa dele: “Por meu intermédio, 
reinam os reis” (Pv 8.15).
2. A autoridade e o poder de Deus são infinitos
O que é a autoridade sem poder? “Ele é ... grande em poder” (Jó 9.4). 
Esse poder de Deus é manifesto:
a, O poder de Deus é manifesto na obra da criação
Para criar se requer poder infinito. O mundo inteiro não pode criar um 
mosquito. O poder de Deus na criação é evidente, pois não precisou de 
instrumentos para seu trabalho, ele trabalhou sem ferramentas e não precisou 
de alguma matéria com que trabalhar, ele criou a matéria e então trabalhou 
nela. Deus trabalha sem labutar, “Falou e tudo se fez” (SI 33.9).
h. O poder de Deus é manifesto na conversão de almas
O mesmo poder que atrai o pecador a Deus é o que conduziu Cristo 
para fora da sepultura e o levou ao céu (E f 1.19). Um grande poder é 
manifestado na conversão, maior que o manifestado na criação. Quando 
Deus fez o mundo não encontrou oposição. Não tinha nada para ajudá-lo 
nem tinha nada para atrapalhá-lo, mas quando converte um pecador, encontra 
oposição. Satanás se opõe a Deus, também o coração do homem se opõe a 
Deus; pois o pecador está irado em relação à graça que o pode converter. 
O mundo foi “obra dos teus dedos” (SI 8.3). A conversão é o trabalho de 
“seu braço” (Lc 1.51).
Na criação, Deus operou somente um milagre, ele pronunciou sua 
palavra; mas, na conversão, Deus executa muitos milagres. O cego vê, o 
morto é ressuscitado, o surdo ouve a voz do Filho de Deus. Quão infinito é 
o poder de Jeová. Ante o seu cetro, os anjos se cobriam e se prostravam, os 
reis lançavam suas coroas aos seus pés. “Porque o Senhor, o S en h o r dos
100 A f é cristã — Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
Exércitos, é o que toca a terra, e ela se derrete” (Am 9.5). “Quem move 
a terra para fora do seu lugar, cujas colunas estrem ecem ” (Jó 9.6). 
Um terremoto faz que a terra trema sobre seus pilares, mas Deus pode 
remover a terra de seu centro.
Ele pode fazer o que quiser, seu poder é tão grande quanto sua 
vontade. Se o poder dos homens fosse tão grande quanto suas vontades, 
quão terríveis seriam as coisas que fariam no mundo. O poder de Deus é 
de igual extensão à sua vontade. Com uma palavra pode remover as rodas e 
quebrar o eixo da criação. Ele pode fazer “mais do que ... pensamos” 
(E f 3.20). Ele pode parar os agentes naturais. Ele calou as bocas dos 
leões; fez o fogo não queimar; fez as águas ficarem em pé como dois 
montes; ele fez que o Sol retornasse 10 graus no relógio solar de Acaz 
(Is 38.8). Quem pode apresentar onipotência? “Ele quebranta o orgulho 
dos príncipes” (SI 76.12). Ele contra-ataca seus inimigos abaixando suas 
bandeiras e suas faixas de orgulho, ridicularizando seus conselhos, 
quebrando suas forças; e tudo isso faz facilmente com um movimento de 
sua mão, “pelo sopro de sua boca” (SI 33.6; Is 40.24). Um olhar, um lance 
de seus olhos é o necessário para que Deus destrua seus inimigos: “Na 
vigília da manhã, o S e n h o r , na coluna de fogo e de nuvem, viu o 
acampamento dos egípcios e alvorotou o acampamento dos egípcios” 
(Ex 14.24). Quem pode pará-lo em sua marcha?
Deus comanda e todas as criaturas no céu e na terra obedecem a suas 
ordens. Xerxes, o monarca persa, lançou correntes ao mar e as ondas as 
engoliram como se estivesse acorrentado às águas, mas quando Deus fala, 
o vento e o mar lhe obedecem. Se falar somente uma palavra, as estrelas 
brigam em seus cursos contra Sisera. Se ele bater o pé, um exército de 
anjos imediatamente se apresentará para a batalha. O que o poder do 
onipotente não pode fazer? “O S en h o r é homem de guerra” (Êx 1 5 .3 ) “O teu 
braço é armado de poder” (S I 8 9 .1 3 ) .
O poder de Deus é “a força da sua glória” (Cl 1.11). É um poder 
irresistível. “Pois quem jamais resistiu à sua vontade?” (Rm 9.19). Contestá- 
lo é como se os espinhos se organizassem em marcha de batalha contra o 
fogo, ou, como se uma criança sensível lutasse com um arcanjo. Se o pecador 
forpego na rede de ferro de Deus, não há escapatória. “Nenhum há que 
possa livrar alguém das minhas mãos” (Is 43.13).
O poder de Deus é inexaurível, nunca passa ou se desgasta. Os homens, 
enquanto exercitam suas forças, se enfraquecem, mas Deus tem uma eterna 
renovação de força em si mesmo (Is 2 6 .4 ) . Embora Deus gaste suas flechas 
contra seus inimigos, mesmo assim não gasta sua força (Dt 3 2 .2 3 ) . “O S en h o r , 
o Criador dos fins da terra, nem se cansa, nem se fatiga” (Is 4 0 .2 8 ) .
O poder de Deus 101
3. Deus limita o uso de seu poder segundo sua vontade
Deus não fa z todas as coisas porque ele não pode negar a si mesmo. 
Embora Deus possa fazer todas as coisas, não pode fazer aquilo que 
manche a sua glória. Ele não pode pecar, não pode fazer aquilo que implica 
numa contradição. Ser um Deus da verdade e ainda negar a si mesmo é 
uma contradição.
A p l i c a ç õ e s
Primeira aplicação: se Deus é infinito em poder, temos de temê-lo. 
Tememos aqueles que estão no poder. “Não temereis a mim? - Diz o S e n h o r ; 
não tremereis diante de mim...?” (Jr 5.22). Ele tem o poder de lançar as 
nossas almas e os nossos corpos no inferno. “Quem conhece o poder da tua 
ira?” (SI 90.11). O mesmo sopro que nos fez pode acabar conosco. “A sua 
cólera se derrama como fogo, e as rochas são por ele demolidas” (Na 1.6). 
Salomão disse assim: “Porque a palavra do rei tem autoridade suprema” 
(Ec 8.4), muito mais a Palavra de Deus. Temamos esse poderoso Deus. 
O temor de Deus eliminará todos os outros temores.
Segunda aplicação: veja a condição deplorável dos homens ímpios 
porque o poder de Deus não lhes é favorável, mas está contra eles.
1. O poder de Deus não é favorável aos ímpios. Eles não têm união 
com Deus, portanto não têm garantia em reclamar seu poder. Seu poder 
não os alivia. Ele tem poder para perdoar pecados, mas não manifestará o 
seu poder para com o pecador impenitente. O poder de Deus é a asa de uma 
águia, para carregar os santos para o céu. O ímpio, porém, que privilégio 
tem? Um homem carrega seu filho nos braços sobre um córrego perigoso, 
mas não carregará um inimigo. O poder de Deus não age para ajudar aqueles 
que lutam contra ele. Quando sofrimentos vêm sobre os ímpios, não têm 
nada para ajudá-los, são como um navio em uma tempestade sem o piloto 
e dirigindo-se às rochas.
2. O poder de Deus está contra o ímpio. O poder de Deus não será o 
escudo para defesa do pecador, mas uma espada a feri-lo. O poder de Deus 
atará o pecador em cadeias. Seu poder serve para vingar o mal feito à sua 
misericórdia. Ele será o poderoso para acabar com o pecador. Então, em 
que condição está cada um dos descrentes? O poder de Deus está contra 
eles e “horrível coisa é cair nas mãos do Deus vivo” (Hb 10.31).
Terceira aplicação: reprovam-se aqueles que não crêem no poder de 
Deus. Dizemos não questionar o poder de Deus, mas sim sua vontade. Porém, 
na verdade é o seu poder que questionamos. “Acaso, haveria coisa 
demasiadamente maravilhosa para mim?” (Jr 32.27). Nós nos tomamos 
temerosos com a descrença, como se o braço poderoso de Deus estivesse
102 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
encolhido e não pudesse ajudar em casos de desespero. Se o poder de um 
rei for tomado, ele é destronado; elimine, em sua mente, o poder do Senhor 
e ele deixará de ser Deus. Quantas vezes agimos dessa maneira. Israel não 
questionou o poder de Deus? “Pode, acaso, Deus preparar-nos mesa no 
deserto?” (SI 78.19). Pensavam que o deserto era um lugar apropriado para 
fazer covas e não armar uma mesa. Marta não duvidou do poder de Cristo? 
“Senhor, já cheira mal, porque já é de quatro dias” (Jo 11.39). Se Cristo 
estivesse lá enquanto Lázaro estava doente, ou quando estava à beira da 
morte, Marta não questionaria que pudesse reanimá-lo, mas estava morto e 
na cova por quatro dias e agora ela parece questionar seu poder. Cristo 
tinha mais dificuldade para ressuscitar a fé de Marta que o seu irmão morto. 
Moisés, mesmo sendo um homem santo, limitou o poder de Deus por meio 
da descrença: “Respondeu Moisés: seiscentos mil homens de pé é este povo 
no meio do qual estou; e tu disseste: dar-lhes-ei carne, e a comerão um mês 
inteiro” (Nm 11.21). Isto é uma grande afronta contra Deus: negar seu poder. 
Que homens duvidam do poder de Deus é algo que se vê por meio de 
caminhos indiretos; não defraudariam em seus negócios, não usariam falsos 
pesos, se cressem no poder que providencia para eles. Os homens se apóiam 
mais em causas secundárias do que em Deus. “Caiu Asa doente dos pés; a 
sua doença era em extremo grave; contudo, na sua enfermidade não recorreu 
ao S e n h o r , mas confiou nos médicos” (2Cr 16.12).
Quarta aplicação: se Deus é infinito em poder, vamos evitar endurecer 
nossos corações contra ele. “Quem porfiou com ele e teve paz?” (Jó 9.4). 
Jó envia um desafio a todas as criaturas no céu e na terra. Quem já se 
levantou contra Deus e saiu vencedor? O fato de alguém se arriscar em 
qualquer pecado significa endurecer seu coração contra Deus e declarar 
guerra contra o céu. Que esta pessoa se lembre que Deus é o El-Shaddai, o 
poderoso; e será muito duro para com aqueles que se opõem a ele. “Ou tens 
braço como Deus ou podes trovejar com a voz como ele o faz” (Jó 40.9). 
Todos aqueles que não se curvarem diante de seu cetro dourado serão 
quebrados com sua vara de ferro. O imperador romano Júlio endureceu seu 
coração contra Deus, opôs-se diante da sua face; mas o que ele conseguiu? 
Ele prosperou? Sendo ferido na batalha lançou seu sangue para o ar e disse 
a Cristo: “Ó Galileu, tu vencestes! Eu reconheço teu poder, cujo nome e 
verdade me opus” . Será que o tolo pode contender com o sábio; a fraqueza 
com o poder; o finito com o infinito?
Livre-se de endurecer seu coração contra Deus. Ele pode enviar legiões 
de anjos para vingar sua causa. E melhor se encontrar com Deus com 
lágrimas nos olhos do que com armas nas mãos. Pode-se convencê-lo mais 
rapidamente por meio do arrependimento do que da resistência.
O poder de Deus 103
Quinta aplicação: interesse-se em Deus e então esse glorioso poder 
será dispensado a você. Deus distribuirá com mãos estendidas e manifestará 
todo o poder para o bem de seu povo: “O S e n h o r dos Exércitos é o Deus de 
Israel, é Deus para Israel” (lC r 17.24). A força do poder de Deus é apoio e 
consolo maravilhosos para o crente. Era o enigma de Sansão: “Do forte 
saiu doçura” (Jz 14.14). Assim, do atributo do poder de Deus, que é sua 
força, saiu doçura. Isso é consolador em vários casos.
1. Em caso de forte corrupção. Meus pecados, diz um filho de Deus, 
são poderosos. Não tenho poder contra esse exército que se levanta contra 
mim. Eu oro e humilho minha alma por meio do jejum, mas meus pecados 
novamente me atingem. Será que você crê no poder de Deus? O Deus 
poderoso pode vencer sua grande corrupção e ainda que o pecado seja muito 
forte para você não o será para Deus. Ele pode amaciar corações duros e 
restaurar os mortos. “Acaso para o S en h o r há coisa demasiadamente difícil?” 
(Gn 18.14). Coloque seu poder em ação por meio da fé e da oração. Diga: 
Senhor, não honra a ti o inimigo ter vitória tão grande dentro de mim, 
quebre a cabeça desse leviatã! Aba Pai, todas as coisas são possíveis para ti.
2. Em caso de forte tentação. Satanás é chamado de homem forte, mas 
lembre do poder de Deus. Cristo é chamado “o leão da tribo de Judá”, ele 
amassou a cabeça da serpente na cruz. Satanás é um inimigo acorrentado e 
vencido. Miguel é mais forte que o dragão.
3. Em caso de instabilidade na fé. Quando estamos com fraqueza na 
graça e temor de cair. Eu oro, mas não consigo exprimir fortes sentimentos. 
Eu creio, mas a minha fé balança e treme. Será que Deus não pode fortalecer 
o fraco? “O poder se aperfeiçoa na fraqueza. De boa vontade, pois, mais 
me gloriarei nas fraquezas, para que sobre mim repouse o poder de Cristo” 
(2Co 12.9). Temo que não vá agüentar. Cristão, acredita no poder de Deus? 
Deus não preservoua graça até aqui? Não poderá preparar um Ebenézer 
para você? Deus sustentou a graça em você até agora como um farol em 
meio ao grande oceano e será que não poderá mantê-la mais? “Sois 
guardados pelo poder de Deus” (1 Pe 1.5). A misericórdia de Deus nos perdoa, 
mas seu poder nos preserva. Aquele que pelo seu poder mantém as estrelas, 
de maneira que não caiam de suas órbitas, mantém nossa graça para que 
não caia e não seja aniquilada.
4. Em caso de circunstâncias de privações. Deus pode multiplicar o 
óleo na botija e miraculosamente pode multiplicar mantimentos. Será que 
o provedor para os pássaros do ar não pode prover para seus filhos? Será 
que aquele que veste os lírios do campo não vestiria seus cordeirinhos?
5. Consolo em relação à ressurreição. Parece difícil crer que os corpos 
dos homens, depois de serem comidos por vermes, devorados pelas bestas
104 A f é crista - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A santidade de Deus 105
e peixes ou consumidos pelas chamas, levantariam-se novamente. Porém, 
se cremos no poder de Deus, nada é de admirar. O que é mais difícil, criar 
ou ressuscitar os mortos? Aquele que pode fazer o corpo a partir do nada 
também pode restaurá-lo em todas as suas partes, mesmo quando degenerado 
e misturado com outras substâncias. “Isto é impossível aos homens, mas 
para Deus tudo é possível” (Mt 19.26). Se acreditarmos no primeiro artigo 
do credo apostólico em que se afirma que Deus é todo-poderoso, facilmente 
acreditaremos no outro que fala da ressurreição do corpo. Deus pode 
ressuscitar os mortos por causa do seu poder e por causa de sua verdade.
6. E um consolo em relação á igreja de Deus. Ele pode salvá-la e libertá- 
la quando está em sofrimento. Os inimigos têm poder em suas mãos, mas a 
ira de Deus os prenderá (SI 76.10). Ele pode tanto limitar o poder do inimigo 
como confundi-lo. “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” Deus pode 
criar alegria para Jerusalém (Is 65.18). A igreja, em Ezequiel, é comparada a 
ossos secos, mas Deus fez o espírito entrar neles e viveram (Ez 37.10). 
O navio da igreja pode ser lançado de um lado para o outro, porque há pecado 
nele, mas não será afundado, pois Cristo está nele (SI 46.5). Deus in medio. 
Todos os sofrimentos da igreja ajudarão a promover sua libertação.
GL A SANTIDADE DF. D EUS
1. A natureza da santidade de Deus
O próximo atributo é a santidade de Deus. “Quem é como tu, 
glorifícado em santidade?” (Êx 15.11). A santidade é a jóia mais brilhante 
de sua coroa. E o nome pelo qual Deus é conhecido: “Santo e tremendo é o 
seu nome” (SI 111.9), “O Santo” (Jó 6.10). Serafins cantam: “Santo, santo, 
santo é o S en h o r dos Exércitos” (Is 6.3). Seu poder faz dele poderoso, sua 
santidade faz dele glorioso. A santidade de Deus consiste em seu perfeito 
amor justo e em se aborrecer do mal: “Tu és tão puro de olhos, que não 
podes ver o mal” (Hc 1.13).
a. A santidade de Deus é intrínseca
Ele é santo em sua natureza. Seu ser é feito de santidade, assim como 
a luz é da essência do Sol. Ele é santo em sua Palavra. A Palavra leva um 
selo de sua santidade sobre si, como a cera levava a impressão do selo.50 
“Puríssima é a tua palavra” (SI 119.140), ela é comparada à prata refinada 
sete vezes (SI 12.6). Cada linha da Palavra transpira santidade e estimula à 
santidade. Deus é santo em suas atitudes. Tudo que ele faz é santo; não 
pode agir diferentemente daquilo que é; não pode fazer injustiça, assim 
como o Sol não pode negar sua luz. “Justo é o S e n h o r ... em todas as suas 
obras” (SI 145.17).51
b. A santidade de Deus é primária
Ele é a origem e o padrão de santidade. A santidade começou com ele 
que é o Ancião de dias.
c. A santidade de Deus é eficiente
Ele é a causa de tudo o que é santo nos outros. “Toda boa dádiva e 
todo dom perfeito são lá do alto” (Tg 1.17). Ele fez os anjos santos. Ele 
infundiu toda a santidade na natureza humana de Cristo. Toda a santidade 
que temos é somente um fio cristalino dessa fonte. Recebemos toda a nossa 
santidade de Deus. Assim como as luzes do santuário foram acesas pela 
lâmpada do meio, assim toda a santidade dos outros é uma lâmpada acesa 
do céu. “Eu sou o S e n h o r , que vos santifico” (Lv 20.8). Deus não é somente 
um padrão de santidade, mas o princípio da santidade: suas fontes alimentam 
todas as nossas cisternas, ele goteja seu santo óleo da graça sobre nós.
d. A santidade de Deus é transcendente
“Não há santo como o S e n h o r ” ( 1 S m 2.2). Nenhum anjo no céu pode 
medir a santidade de Deus. O mais alto serafim é muito baixo em estatura 
para medir esse colosso; a santidade de Deus ultrapassa a santidade dos 
santos ou dos anjos.
i. A santidade de Deus é superior à dos santos. É uma santidade 
pura. A santidade dos santos é como o ouro na forma bruta, imperfeito; a 
humildade deles é manchada com orgulho; aquele que tem mais fé necessita 
de oração: “Senhor, me ajuda na minha falta de fé” . Porém, a santidade de 
Deus é pura como o vinho da uva; não tem o mínimo traço ou mancha de 
impureza misturada nela. E uma santidade imutável. Embora os santos não 
possam perder suas vestes brancas de santidade, pois a semente de Deus 
permanece neles, podem perder alguns graus dessa santidade. “Tenho, 
porém, contra ti que abandonaste o teu primeiro amor” (Ap 2.4). A graça 
não pode morrer, ainda que sua chama possa se apagar. A santidade nos 
santos é sujeita ao declínio, mas a santidade em Deus é imutável; ele nunca 
perde uma gota sequer de sua santidade. Deus não pode ter mais santidade 
porque ele é perfeitamente santo; assim, não pode ter menos santidade, 
pois é perfeitam ente santo. Não pode ter menos santidade, pois é 
imutavelmente santo.
ii. A santidade de Deus é superior à dos anjos. A santidade nos 
anjos é somente uma qualidade que pode ser perdida, como vemos 
nos anjos caídos. Mas, a santidade em Deus é sua essência, ele é 
totalmente santo, e como não pode perder sua deidade, não pode perder 
sua santidade.
106 A f é cristã — Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A santidade de Deus 107
e. A santidade de Deus é imanente
Alguém poderia levantar a seguinte questão: Mas não compartilha o 
segredo de todos os pecados dos homens? Como pode observar suas 
impurezas e não ser contaminado?
Deus vê todos os pecados dos homens, mas não é contaminado com 
eles, assim como o Sol não é contaminado com os vapores que se levantam 
da terra. Deus vê o pecado, mas não como um patrão que o aprova, mas 
como um juiz que o julga.
A p l i c a ç õ e s
Primeira aplicação: Deus é assim tão infinitamente santo? Então, 
veja como o pecado é distinto dele. O pecado é algo impuro, exageradamente 
mau (Rm 1.23). O pecado é chamado de abominação (Dt 7.25). Deus não 
se mistura com o mal; o pecado não se mistura com o bem. O pecado é o 
espírito e a essência do mal; ele transforma o bem em mal; ele deflorou o 
solo virgem fazendo que ficasse vermelho de culpa e escuro de sujeira. 
O pecado é chamado de violação (Js 7.11). Não é de surpreender, portanto, 
que Deus odeia o pecado, pois é muito distinto dele, muito contrário a ele. 
O pecado fere sua santidade fazendo tudo que pode para contrariar a Deus. 
Se o pecado tivesse tal poder, Deus não seria mais Deus.
Segunda aplicação: Deus é o santo e a sua santidade é sua glória? 
Quão ímpios são aqueles que odeiam a santidade. Como o abutre odeia 
perfumes, tais pessoas odeiam o doce perfume da santidade nos santos; 
seus corações se levantam contra a santidade como o estômago de uma 
pessoa ojeriza determinado prato. Não há maior sinal da devoção de uma 
pessoa ao inferno que odiar alguém naquilo que mais se parece com Deus. 
Muitos desprezam a santidade, desprezando a glória da deidade, daquele 
que é “glorioso em santidade” . O desprezo da santidade é visto no 
ridicularizar dela. Não é triste que os homens ridicularizem aquilo que os 
salvaria? Certamente o paciente que ridiculariza o médico morrerá. 
Ridicularizar a graça do Espírito se assemelha a desprezar o Espíritoque dá 
graça. O desprezado Ismael foi lançado fora da casa de Abraão (Gn 21.9). 
Quem despreza a santidade será lançado fora do céu.
Terceira aplicação: Deus é assim tão infinitamente santo? Então vamos 
nos emprenhar em imitá-lo em sua santidade. “Sede santos, porque eu sou 
santo” (1 Pe 1.16). Há uma santidade dupla; uma santidade de equabilidade 
e uma santidade de similitude. A santidade de equabilidade não é atingível 
por homem ou anjo. Quem pode ser santo igual a Deus? Quem pode ser 
santo como ele? Mas, há uma santidade de similitude que devemos desejar. 
Isso significa ter alguma analogia ou alguma semelhança à santidade de
Deus em nós, ser como ele em santidade tanto quanto pudermos. Embora 
uma vela não dê tanta luz quanto o Sol, mesmo assim se assemelha a ele. 
Devemos imitar a Deus na santidade.
2. A santidade de Deus em seus eleitos
a. O que é a santidade dos eleitos
Esta aplicação nos leva a uma pergunta: Se devemos ser como Deus 
em santidade, em que consiste nossa santidade? Em duas coisas: em nossa 
adequação em relação à natureza de Deus e em nossa sujeição à sua vontade.
Nossa santidade consiste em nossa adequação para com a natureza de 
Deus. Pois os santos são participantes da natureza divina, o que não significa 
ser participante de sua essência, mas de sua imagem (2Pe 1.4). Nisto está a 
santidade dos santos, quando são a imagem viva de Deus. Eles carregam a 
imagem da humildade divina em Cristo, de sua misericórdia, de sua 
celestial idade; de sua apreciação dos valores celestiais, de sua disposição 
para Deus e de amar o que Deus ama e odiar o que ele odeia.
Nossa santidade consiste também em nossa sujeição à vontade de Deus. 
Assim como a natureza de Deus é o padrão de santidade, assim sua vontade 
é a regra de santidade. A nossa santidade tem relevo quando fazemos sua 
vontade (At 13.22) e quando suportamos sua vontade (Mq 7.9); ou seja, 
quando o que ele sabiamente nos inflige, de bom grado, nós o sofremos. 
Nossa grande perspectiva deveria ser nos assemelhar a Deus em santidade. 
Nossa santidade deveria ser qualificada como a santidade de Deus; assim 
como sua santidade é real, a nossa também deveria ser. “Justiça e retidão 
procedentes da verdade” (E f 4.24). Não deveria ser uma imagem de 
santidade, mas vida; não como os templos egípcios, embelezados, mas sem 
pureza. Deveria ser como o templo de Salomão, dourado por dentro: “Toda 
formosura é a filha do Rei no interior do palácio; a sua vestidura é recamada 
de ouro” (SI 45.13).
b. O valor da santidade dos eleitos
A fim de fazer você se assemelhar a Deus em santidade, gostaria que 
considerasse o valor da santidade dos eleitos:
i. A dignidade que se aplica aos santos. Quão ilustre cada pessoa 
santa é. E como um vidro limpo em que alguns dos raios da santidade de 
Deus brilham. Lemos que Arão vestiu suas roupas para glória e beleza 
(Êx 28.2). Quando vestimos a roupa bordada de santidade é para glória e 
beleza. Um bom cristão é avermelhado, pois foi aspergido com o sangue de 
Cristo; e branco, pois foi adornado com santidade. Assim como o diamante
108 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A santidade de Deus 109
está para um anel, está a santidade para a alma; a qual, como Crisóstomo 
diz, “aqueles que a opõem só podem admirá-la”.
ii. A grandeza do propósito da santificação. É um grande propósito 
que Deus executa no mundo fazer uma pessoa à sua semelhança em 
santidade. O que são os respingos das ordenanças senão gotejos de justiça 
sobre nós para nos fazer santos? Para quê servem as promessas senão para 
encorajar à santidade? Para que o Espírito foi enviado ao mundo senão 
para nos ungir com a santa unção? (1 Jo 2.20). Para que servem todas as 
aflições senão para nos fazer participantes da santidade de Deus? (Hb 12.10). 
Para que servem as misericórdias senão para nos atrair à santidade? Qual é 
a finalidade da morte de Cristo senão que seu sangue pudesse nos purificar 
em nossa falta de santidade? “O qual a si mesmo se deu por nós, a fim de 
rem ir-nos de toda iniqüidade, e purificar para si mesmo um povo 
exclusivamente seu” (Tt 2.14). Assim, se não somos santos, crucificamos o 
grande propósito de Deus no mundo.
iii. Nossa santidade atrai o coração de Deus. A santidade é a imagem 
de Deus e ele não pode fazer outra coisa senão amar sua imagem onde a vê. 
Um rei ama ver sua efígie sobre uma moeda. “Amas a justiça” (SI 45.7). 
E onde a justiça cresce, senão em um coração santo? “Chamar-te-ão Minha- 
Delicia ... porque o S e n h o r se delicia em ti” (Is 62.4). Foi sua santidade 
que atraiu o amor de Deus a ela. “Chamar-vos-ão Povo Santo” (Is 62.12). 
Deus valoriza alguém não pelo nascimento rico, mas pela santidade pessoal.
iv. A santidade distingue os cristãos no mundo. A santidade é a 
única coisa que nos distingue dos ímpios. O povo de Deus tem seu selo 
sobre si. “Entretanto, o firme fundamento de Deus permanece, tendo este 
selo: O Senhor conhece os que lhe pertencem. E mais: Aparte-se da injustiça 
todo aquele que professa o nome do Senhor” (2Tm 2.19). O povo de Deus 
é selado com um selo duplo: a eleição: “O Senhor conhece aqueles que são 
seus” e a santificação: “Afaste-se da injustiça todo aquele que professa o 
nome do Senhor”. Como um nobre é reconhecido por outra pessoa pela sua 
estrela prateada; como uma mulher virtuosa é diferenciada de uma prostituta 
por sua castidade; assim a santidade é reconhecida entre os homens. Todos 
os que são de Deus têm Cristo por seu capitão e a santidade é a cor branca 
que vestem (Hb 2.10).
v. A santidade é a honra dos cristãos. A santidade e a honra são 
colocadas juntas (lT s 4.4). A dignidade caminha com a santificação. 
“Aquele que nos ama e, pelo seu sangue nos libertou dos nossos pecados, 
e nos constituiu reino, sacerdotes para o seu Deus e Pai” (Ap 1.5). Quando 
somos lavados e feitos santos, então somos reino e sacerdotes para Deus. 
Os santos são chamados vasos de honra; são chamados jóias pelo brilho
de sua santidade, pelo enchimento com o vinho do Espírito. Isso faz deles 
anjos terrenos.
vi. A santidade nos dá ousadia diante de Deus. “Se afastares a 
injustiça da tua tenda... levantarás o teu rosto para Deus” (Jó 22.23 e 26). 
Levantar a face é um símbolo de ousadia. Nada pode nos envergonhar 
tanto ao nos aproximar de Deus quanto o pecado. Um homem ímpio pode 
levantar suas mãos na oração, mas não pode levantar sua face. Quando 
Adão perdeu sua santidade, perdeu sua confiança, escondeu-se. Porém, a 
pessoa santa vai até Deus como uma criança vai até seu pai; sua consciência 
não o censura com a possibilidade de qualquer pecado, portanto pode ir 
ousadamente ao trono da graça e ter a misericórdia para ajudá-lo em tempo 
de necessidade (Hb 4.16).
vii. A santidade traz paz aos cristãos. O pecado levanta uma 
tem pestade na consciência: onde há pecado, há tum ulto. “ Para os 
perversos, diz o meu Deus, não há paz” (Is 57.21). Justiça e paz são 
colocadas juntas. A santidade é a raiz que sustenta esse doce fruto da paz. 
A retidão e a paz se beijam.
viii. A santidade conduz o cristão ao céu. Ela é a estrada do céu do 
Rei. “E ali haverá bom caminho, caminho que se chamará o Caminho Santo” 
(Is 35.8). Havia em Roma o templo da virtude e o da honra, e todos deveriam 
passar pelo templo da virtude para chegar ao templo da honra; assim, 
devemos ir do templo da santidade para o templo do céu. A glória começa 
na virtude. “Nos chamou para a sua própria glória e virtude” (2Pe 1.3). 
A felicidade não é nada mais que a essência da santidade; a santidade é a 
glória militante e a felicidade a santidade triunfante.
c. Como os eleitos devem buscar santidade
O que devemos fazer para nos assemelharmos a Deus em santidade? 
Ou como devemos buscar nossa santidade?
i. Buscando refúgio em Cristo. Busque socorro no sangue de Cristo 
pela fé. Isso é o lavar da alma. As purificações da lei eram tipos e emblemas 
disso (1 Jo 1.7). A Palavra é o espelho que mostra nossas manchas e o sangue 
de Cristo é uma fontepara lavá-las.
ii. Pedindo um coração santo. Orando a Deus lhe pedindo um 
coração santo. “Cria em mim, ó Deus, um coração puro” (SI 51.10). 
Derramem o coração diante de Deus e digam: “Senhor, meu coração está 
cheio de lepra, contamina tudo que toca. Senhor, eu não posso viver com 
tal coração, pois não posso te honrar; nem morrer com tal coração, pois 
não poderei te ver. Cria em mim um coração puro, envia-me o teu Espírito, 
refina-me e purifica-me, para que eu possa ser um templo apropriado 
para ti, ó santo Deus, habitar”.
110 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
iii. A ndando na com panhia dos santos. “Quem anda com os sábios 
será sábio” (Pv 13.20). Fique no meio dos temperos e terá o cheiro deles. 
A associação produz a assimilação. Nada tem maior poder e energia para 
efetivar a santidade do que a comunhão dos santos.
H. A j u s t iç a d e D e u s
O próximo atributo é a justiça de Deus. Todos os atributos de Deus 
são idênticos e os mesmos em sua essência. Embora tenha vários atributos 
pelos quais se faz conhecido a nós, tem só uma essência. Uma árvore de 
cedro pode ter vários galhos, mas é um cedro. Assim, há vários atributos de 
Deus pelos quais o compreendemos, mas somente uma essência completa.
Então, com respeito à justiça de Deus: “É justo e reto” (Dt 32.4); “Não 
o podemos alcançar; ele é grande em poder, porém não perverte o juízo e a 
plenitude da justiça” (Jó 37.23). Diz-se que Deus habita na justiça: “Justiça e 
direito são o fundamento do teu trono” (SI 89.14). Em Deus, poder e justiça 
se encontram. O poder segura o cetro e a justiça mantém o equilíbrio.
1. O que é a justiça de Deus?
“Justiça significa dar a cada um o que merece.” Ajustiça de Deus é a 
retidão de sua natureza, aquilo pelo qual faz o que é reto e de igual medida. 
“E não pagará ele ao homem segundo as suas obras?” (Pv 24.12). Deus é 
um juiz imparcial. Ele julga a causa. Os homens geralmente julgam a pessoa, 
mas não a causa. Isso não é justiça, mas malícia. “Descerei e verei se, de 
fato, o que têm praticado corresponde a esse clamor que é vindo até mim” 
(Gn 18.21). Quando o Senhor está diante de um ato punitivo, pesa as coisas 
na balança, não pune de qualquer maneira; não age desordenadamente, 
mas de maneira lógica contra os ofensores. Em relação à justiça de Deus, 
devo apresentar as seis seguintes posições:
a. A justiça de Deus é santa
Deus só pode ser ju sto . Sua santidade é a causa de sua justiça . 
A santidade não permitirá que faça outra coisa senão o que é justo.
b. A justiça de Deus é o padrão de justiça
A vontade de Deus é a suprema regra de justiça; é o padrão de eqüidade. 
Sua vontade é sábia e boa. Deus deseja somente o que é justo e, portanto, é 
justo porque deseja ser.
c. Ajustiça é natural ao ser de Deus
Deus faz justiça voluntariamente. A justiça flui de sua natureza. 
Os homens podem agir injustamente, pois são forçados ou subornados.
A ju stiça de Deus 111
A vontade de Deus nunca será subornada, por causa de sua justiça. Não 
pode ser forçado, por causa de seu poder. Ele pratica a justiça por amor à 
justiça: “Amas ajustiça” (SI 45.7).
d. A justiça de Deus é perfeita
Ajustiça é a perfeição da natureza divina. Aristóteles disse: “Ajustiça 
engloba em si todas as virtudes” . Dizer que Deus é justo é dizer que é tudo 
o que há de excelente: as perfeições se encontram nele como linhas 
convergem para um centro. Ele não é somente justo, mas a própria justiça.
e. A justiça de Deus é exata
Deus nunca cometeu nem nunca cometerá o mínimo erro em relação às 
suas criaturas. Ajustiça de Deus já foi distorcida, mas nunca distorceu. Deus 
não segue de acordo com o rigor da lei, ele alivia sua severidade. Pode infligir 
penas mais pesadas do que impõe: “Nos tens castigado menos do que merecem 
as nossas iniqüidades” (Ed 9.13). As misericórdias para conosco são mais do 
que merecemos, e nossas punições são menos do que merecemos.
f A justiça de Deus é definitiva
Ajustiça de Deus é tal que não é apropriado para qualquer homem ou 
anjo censurá-lo ou exigir uma razão por suas ações. Deus não tem só a 
autoridade do seu lado, mas a eqüidade. “Farei do juízo a régua e da justiça, 
o prumo” (Is 28.17). É algo inferior a ele, dar razão para nós de seus 
procedimentos. Qual destes dois é mais apropriado prevalecer, ajustiça de 
Deus ou a razão humana? “Quem és tu, ó homem, para discutires com 
Deus?!” (Rm 9.20). A linha de prumo de nossa razão é muito curta para 
compreender a profundidade da justiça de Deus. “Quão insondáveis são os 
seus juízos” (Rm 11.33). Devemos adorar ajustiça de Deus mesmo onde 
não vemos razão para tal.
2. Onde identificamos a justiça de Deus?
A justiça de Deus corre em dois canais. Ela é vista em duas coisas: na 
distribuição de prêmios e de punições.
a. A justiça de Deus é vista na premiação dos justos
Deus premia o virtuoso. “Na verdade, há recompensa para o justo” 
(SI 58.11). Os santos não devem servi-lo sem recompensa, ele recompensará 
os clamores e as lágrimas; embora os justos possam ser derrotados por 
causa dele, não serão derrotados por ele. “Porque Deus não é injusto para 
ficar esquecido do vosso trabalho e do amor que evidenciastes para com o 
seu nome” (Hb 6.10). Ele nos dá um prêmio, não porque mereçamos, mas 
porque nos prometeu.
112 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A justiça de Deus
b. A justiça de Deus é vista na punição dos ímpios
113
Ele é justo em punir os ofensores. Por que Deus é justo em punir os 
pecadores?
i. Porque Deus pune os pecadores baseado em uma lei. “Onde não 
há lei, também não há transgressão” (Rm 4.15). Mas Deus deu uma lei aos 
homens e eles a quebraram, portanto os pune justamente.
ii. Porque Deus pune os pecadores fundamentado em provas 
concretas. Ele é justo em punir os ímpios, pois nunca os pune senão depois 
de obter prova e evidência. Que maior evidência há do que a própria 
consciência de uma pessoa como testemunha contra si. Não há nada que 
Deus lance sobre um pecador que a consciência não sele como verdade.
A p l i c a ç õ e s
Primeira aplicação: veja aqui mais uma flor da coroa de Deus: ele é 
justo e reto. Ele é exemplo e padrão de justiça.
3. Deus é justo ao permitir que o ímpio prospere?
Como fica a prosperidade do ímpio neste mundo em relação à justiça 
de Deus? “Por que prospera o caminho dos perversos, e vivem em paz 
todos os que procedem perfidamente?” (Jr 12.1).
Tal dúvida tem sido uma grande pedra de tropeço e tem levado muitos 
a questionar a justiça de Deus. Os que são mais pecaminosos são mais 
poderosos. Diógenes,52 quando viu o ladrão Harpalus prosperando, disse: 
“E certo que Deus jogou fora o governo do mundo e não se importa como 
as coisas acontecem aqui embaixo”.
Deus se relaciona com a prosperidade do ímpio das seguintes maneiras:
a. Usando-a como instrumento de sua vontade
Os ímpios, às vezes, podem ser instrumentos da obra de Deus. Embora 
não tenham em vista a glória de Deus, podem promovê-la. Ciro (Ed 1.7) foi 
um instrumento na construção do templo de Deus em Jerusalém. Deus 
permite que esses prosperem sob as asas de quem seu povo é protegido. 
Deus não fica em débito com homem algum. “Tomara houvesse entre vós 
quem feche as portas, para que não acendêsseis, debalde, o fogo do meu 
altar” (Ml 1.10).
b. Usando-a para torná-los ainda mais indesculpáveis
Deus permite que os homens pequem e prosperem de maneira que 
fiquem ainda mais indesculpáveis. “Dei-lhe tempo para se arrependesse... 
da sua prostituição” (Ap 2.21). Deus adia o julgam ento, estica suas 
misericórdias para com os pecadores e, se não se arrependem, sua paciência
será testemunha contra eles e sua justiça será mais clara na condenação 
deles. “Serás tido por justo no teu falar e puro no teu julgar” (SI 51.4).
c. Usando-a para destacar ainda mais sua justiça
Deus nem sempre deixa o ímpio prosperar em seu pecado. Alguns 
ímpios, Deus pune abertamente, para que sua justiça seja observada. “Faz- 
se conhecido o Senhor,pelo juízo que executa” (SI 9.16), isto é, sua justiça 
faz homens caírem no ato do pecado. Assim fez com Zimri e Cozbi no ato 
da impureza.
d. Usando-a para encher plenamente o cálice de sua ira
Quando Deus permite que os homens prosperem um pouco em seus 
pecados, o cálice de sua ira está sempre enchendo, sua espada está sempre 
afiada: e embora Deus possa evitar os homens por um pouco, a demora em 
agir não é perdão. Quanto mais Deus demorar em tomar uma atitude, mais 
pesado será no final. Enquanto existir a eternidade, Deus tem tempo o 
suficiente para lidar com seus inimigos.
A justiça pode ser como um leão adormecido, mas o leão acordará e 
rugirá sobre o pecador. Nero, Júlio e Caim já não se depararam com a 
justiça de Deus?
4. Deus é justo ao permitir que o justo sofra aflições?
Mas o próprio povo de Deus sofre muitas aflições, são injuriados 
e perseguidos. “Pois de contínuo sou afligido e cada manhã, castigado” 
(SI 73.14). Como isso se relaciona com a justiça de Deus?
a. As aflições dos santos são motivadas por suas falhas
Neste particular, é verdadeira a regra de Agostinho: “Os caminhos de 
Deus, no julgar, são às vezes secretos, mas nunca injustos”. O Senhor nunca 
aflige seu povo sem uma causa, assim não é injusto. Há coisas boas nos 
filhos de Deus, por isso os ímpios os afligem. Há coisas ruins nos ímpios, 
por isso Deus os aflige.
Os próprios filhos de Deus têm suas manchas: “Acaso, não sois vós 
mesmos culpados contra o S e n h o r , vosso Deus?” (2Cr 28.10). Será que 
esses diamantes espirituais não têm falhas? Não lemos a respeito das 
manchas nos filhos de Deus? (Dt 32.5). Não são culpados de muito orgulho, 
da disposição de condenar e de criticar, de paixão e de mundanidade? 
Embora, por meio de suas profissões de fé, assemelhem-se aos pássaros do 
paraíso, voando alto e se alimentando com o orvalho do céu, mesmo assim, 
à semelhança da serpente, lambem o pó. Os pecados dos filhos de Deus 
provocam mais que os dos ímpios. “Viu isto o S e n h o r e os desprezou, por
114 A fé cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
causa da provocação de seus filhos e suas filhas” (Dt 32.19). Os pecados 
dos ímpios traspassam o lado de Jesus, os dos filhos de Deus ferem seu 
coração. Portanto, será que Deus não é justo em todos os males que faz 
recair sobre eles? “De todas as famílias da terra, somente a vós outros vos 
escolhi; portanto, eu vos punirei por todas as vossas iniqüidades” (Am 3.2). 
Sem dúvida, serão punidos antes e mais duramente que os outros.
b. As aflições dos justos têm uma finalidade suprema
Os sofrimentos e as dificuldades dos justos são para refiná-los e 
purificá-los. A fornalha de Deus está em Sião (Is 31.9). Há qualquer injustiça 
da parte de Deus em colocar seu ouro na fornalha para purificá-lo? Há 
qualquer injustiça da parte de Deus em afligir seu povo, em fazê-lo 
participante de sua santidade? (Hb 12.10). O que mais a fidelidade de Deus 
proclama, senão tomar tal curso para com seus filhos para fazê-los melhor? 
“Com fidelidade me afligiste” (SI 119.75).
c. As aflições dos justos revelam a misericórdia de Deus
Há qualquer injustiça da parte de Deus em aplicar uma punição menor 
para prevenir uma maior? Os filhos de Deus não são merecedores do 
inferno. Há qualquer injustiça da parte de Deus em usar a vara, onde 
mereciam o escorpião? O pai é injusto quando somente corrige seu filho 
que merecia ser deserdado? Deus lida tão favoravelmente com seus filhos 
que põe somente absinto no cálice deles, quando poderia pôr fogo e 
enxofre, logo deveriam agradecer a misericórdia de Deus, em vez de 
reclamar de sua justiça.
5. Deus é justo ao salvar uns e punir outros?
Há qualquer injustiça da parte de Deus em salvar uns e desprezar 
outros, sendo que todos são igualmente culpados por natureza? Por que 
não tida com todos da mesma maneira?
“Há injustiça da parte de Deus? De modo nenhum” (Rm 9.14). 
“Perverteria o Todo-poderoso ajustiça?” (Jó 8.3).
a. Deus é soberanamente livre em suas decisões
Deus não tem de dar justificativas de suas atitudes às suas criaturas. 
Assim como não se pode dizer para um rei: “Que fazes?” (Ec 8.4), muito 
menos para Deus. Isto é o suficiente, Deus é o Senhor supremo, tem um 
poder soberano sobre suas criaturas, portanto não pode fazer injustiça. 
“Ou não tem o oleiro direito sobre a massa, para do mesmo barro fazer 
um vaso para honra e outro, para desonra?” (Rm 9.21). Deus tem liberdade 
em si para salvar um e não outro, e sua justiça não é culpada ou manchada.
A ju stiça de Deus 115
Se dois homens lhe deverem dinheiro, você pode, sem qualquer injustiça, 
cobrar de um e esquecer a dívida do outro. Se dois malfeitores são 
condenados à morte, o rei pode perdoar um e não o outro. Ele não é injusto 
se deixar um sofrer, porque quebrou a lei, e o outro salvar, usando sua 
prerrogativa real de perdoar.
b. O ímpio é totalmente culpado por suas decisões
Embora uns sejam salvos e outros pereçam, não há injustiça da parte 
de Deus, pois quem se perde é culpado por isso. “A tua ruína, ó Israel, vem 
de ti, e só de mim, o teu socorro” (Os 13.9). Deus oferece graça e os 
pecadores a rejeitam. Deus é obrigado a dar graça? Se um cirurgião tenta 
curar a ferida de alguém e esse alguém não é curado, o cirurgião é obrigado 
a curá-lo? “Clamei, e vós recusastes” (Pv 1.24). “Israel não me atendeu” 
(SI 81.11). Deus não é obrigado a impor suas misericórdias sobre os homens. 
Se recusarem livremente a oferta da graça, seus pecados devem ser 
considerados como a causa de sua perdição, não a justiça de Deus.
Segunda aplicação: veja a diferença entre Deus e grande parte do 
mundo, que é injusta.
1. Em seus tribunais de magistratura pervertem a justiça. “Decretam 
leis injustas” (Is 10.1). A palavra hebraica que se refere à toga de um juiz 
significa prevaricação, engano ou injustiça, que geralmente é mais verdade 
em relação ao juiz que à toga. De que vale uma boa lei sem um bom juiz? 
A injustiça se apóia em duas coisas: ou não punir onde há falta, ou punir 
onde não há falta.
2. Os homens são injustos em seus negócios. Isto é, eles usam pesos 
falsos. “Tem nas mãos balança enganosa” (Os 12.7). É triste ter a Bíblia em 
uma das mãos e pesos falsos em outra. Os homens são injustos em seus 
negócios na adulteração de produtos, quando grãos ruins são misturados 
com grãos bons e vendidos como grãos puros: “O teu licor se misturou com 
água” (Is 1.22). Não posso crer em quem não é bom da primeira vez, que o 
será na segunda. Quem é filho de Deus não pode ser injusto. Embora Deus 
não deseje que sejamos onipotentes como ele é, deseja que sejamos tão 
justos quanto ele.
Terceira aplicação : imite a Deus na justiça. Que o grande mandamento 
de Cristo seja observado: “Tudo quanto, pois, quereis que os homens vos 
façam, assim fazei-o vós também a eles” (Mt 7.12). Você não quer ser 
enganado por eles, então não os engane. Antes, sofra o engano, mas não 
engane. “Por que não sofreis, antes, o dano?” (ICo 6.7). Seja exemplar na 
justiça. Que a justiça seja um omamento em você: “Eu me cobria de justiça, 
e esta me servia de veste” (Jó 29.14). Ela era veste em sua beleza graciosa. 
E Jó diz que se vestia dela e que estava vestido com justiça. Um juiz veste
116 A fé cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A m isericórdia de Deus 117
sua toga e à noite a retira, mas Jó vestiu ajustiça de tal maneira que não a 
tirou até à morte, ficou vestido para sempre. Não devemos tirar essa veste 
de justiça até que deitemos nosso tabemáculo. Se você tem algo de Deus 
em você, será como ele. Com cada ação injusta você se nega a ser um 
cristão, mancha a glória de sua profissão de fé. Gentios se levantarão em 
juízo contra você. Assim como o Sol pode alterar seu curso, também Deus 
poderá deixar de fazer justiça.
Quarta aplicação: se Deus é justo, haverá um dia de julgamento. Agora 
as coisas estão sem rumo, o pecado é crescente, os santos são enganados, 
geralmente são lançados em uma causa justa, não encontramjustiça aqui, a 
justiça se transforma em amargura, mas o dia se aproxima quando Deus 
endireitará todas as coisas. Deus fará justiça a todo homem, coroará o justo 
e condenará o ímpio: “Porquanto estabeleceu um dia” (At 17.31). Se Deus 
é um Deus justo, se vingará. Deus deu uma lei aos homens pela qual viveriam 
e eles a quebraram. Tem de haver um dia para a execução dos ofensores. 
Uma lei não executada é como uma adaga de madeira, que só serve para 
ser vista. No último dia, a espada de Deus será desembainhada contra os 
ofensores, então sua justiça será revelada diante de todo o mundo: “Há de 
julgar o mundo com justiça” (At 17.31). “Não fará justiça o Juiz de toda a 
terra?” (Gn 18.25). O ímpio beberá um mar de ira, mas não experimentará 
um gole de injustiça. Naquele dia toda boca se calará e a justiça de Deus 
será totalmente executada apesar de todas as reclamações e clamores de 
homens injustos.
Quinta aplicação: consolo ao verdadeiro penitente. Como Deus é um 
Deus justo, perdoará. Se o homem reconhece seu pecado, Deus o poupa. 
“Se confessarmos os nossos pecados ele é fiel e justo para nos perdoar os 
pecados” (U o 1.9). Ele não é só misericordioso, mas justo. Por que ele é 
justo? Porque prometeu perdoar (Pv 28.13). Se o seu coração se separou do 
pecado, você pode clamar pela misericórdia e justiça de Deus para o perdão 
de seu pecado. Mostre-lhe sua mão e o selo e não poderá rejeitá-lo.
I. A M ISERICÓ RDIA DE D f.U S
O segu in te a trib u to é a bondade ou a m ise ricó rd ia de D eus. 
A misericórdia é o resultado e o efeito da bondade de Deus (SI 33.5). 
Então, este é o próximo atributo, a bondade ou a misericórdia de Deus. 
O mais estudado dos ímpios pensou que deu ao deus Júpiter dois caracteres 
dourados quando o intitularam: bom e grande. Tudo isto se encontra em 
D eus: bondade e g randeza , m a jes tad e e m ise ricó rd ia . Deus é 
essencialmente bom em si mesmo e relativamente bom para conosco. 
Esses dois atributos são colocados juntos no Salmo 119.68: “tu és bom e
fazes o bem ” . Essa bondade relativa não é nada mais do que sua 
misericórdia, que é uma propensão inata em Deus para piedade e socorro 
àqueles que estão na miséria.
1. Particularidades da misericórdia de Deus
Com respeito à misericórdia de Deus, devo apresentar estas doze 
particularidades:
a. As Escrituras apresentam a misericórdia de Deus
E o grande desígnio de a Escritura apresentar Deus como misericordioso. 
É um marco para atrair pecadores a ele: “ S e n h o r , S e n h o r Deus compassivo, 
clemente e longânimo e grande em misericórdia” (Êx 34.6). Nesse texto das 
Escrituras, encontramos seis expressões que apresentam a misericórdia de 
Deus. E uma que apresenta a sua justiça: “que não inocenta o culpado” 
(Êx 34.7). “Pois a tua misericórdia se eleva até aos céus”; “e a tua fidelidade, 
para além das nuvens” (SI 57.10 e SI 108.4). Deus é representado por meio 
de um rei cujo trono é rodeado por um arco-íris (Ap 4.3). O arco-íris era um 
emblema de misericórdia (Gn 9.9-17). A Escritura representa Deus em 
vestimentas brancas de misericórdia com mais freqüência do que em 
vestimentas sujas de sangue. Descreve Deus com seu cetro dourado com 
mais freqüência do que com sua vara de ferro.
b. Deus se compraz em aplicar sua misericórdia
Deus é mais inclinado à misericórdia do que à ira. A misericórdia é 
seu atributo querido, no qual mais tem prazer (Mq 7.18). A misericórdia 
agrada a Deus. Crisóstomo diz que é agradável para uma mãe amamentar 
seu filho em seus seios; da mesma maneira para Deus é agradável seus 
filhos sorverem da fonte de sua misericórdia. “Não há indignação em mim” 
(ls 27.4), isto é, ele não tem prazer nisso. Os atos de severidade são forçados 
para Deus, ele não aflige de bom grado (Lm 3.33). A abelha dá o mel 
naturalmente, só pica quando é provocada. Assim, também, Deus somente 
pune quando não pode mais agüentar: “O S e n h o r já não podia por mais 
tempo sofrer a maldade das vossas obras” (Jr 44.22). A misericórdia é a 
mão direita de Deus, que é a mais usada; infligir punição é chamado sua 
obra estranha (Is 28.21). Ele não está acostumado a punir. Quando Deus 
acabava com o orgulho de uma nação, era dito que alugara uma navalha, 
como se não tivesse a própria navalha: “Naquele dia, rapar-te-á o Senhor 
com uma navalha alugada do outro lado do rio” (Is 7.20). “O S e n h o r é 
misericordioso e compassivo; longânimo e assaz benigno” (Sl 103.8), 
“abundante em benignidade” (Sl 86.5).
118 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A misericórdia de Deus 119
c. A misericórdia de Deus pode ser vista em todas as circunstâncias
Não há nada além da misericórdia nele. Quando a igreja estava cativa, 
clamou: “As m isericórdias do S e n h o r são a causa de não sermos 
consumidos” (Lm 3.22). Geógrafos escrevem a respeito de Siracusa, na 
Sicília, que é situada onde o Sol nunca se perde de vista. Em todas as nossas 
aflições podemos ver algum brilho do sol da misericórdia. Problemas 
externos e internos não virem até nós conjuntamente é misericórdia.
d. A misericórdia de Deus apazigua todos os seus outros atributos
Ela adoça todos os demais atributos dele. A santidade de Deus e a sua 
justiça sem a misericórdia seriam terríveis. Quando a água esteve amarga e 
Israel não pôde beber, Moisés lançou um galho de árvore nas águas, então 
foram adoçadas. Como seriam amargos e terríveis os outros atributos de 
Deus se a misericórdia não os adoçasse. A misericórdia faz que o poder 
de Deus trabalhe para nos ajudar; faz que sua justiça se torne nossa amiga; 
vinga nossas lutas.
e. A misericórdia de Deus é uma pérola valiosa em sua coroa
A misericórdia de Deus é uma das pérolas mais orientais de sua coroa, 
faz sua deidade parecer amigável e amável. Quando Moisés disse para Deus 
“rogo-te que me mostre a tua glória”, o Senhor lhe respondeu: “Farei passar 
toda a minha bondade diante de ti e te proclamarei o nome do S e n h o r ; terei 
misericórdia” (Ex 33.19). A misericórdia de Deus é sua glória. Sua santidade 
faz dele ilustre; sua misericórdia faz que seja favorável.
f. Os ímpios também experimentam a misericórdia de Deus
Até mesmo aquele que não aprova a misericórdia de Deus experimenta 
dela. Assim como os que lutam contra a misericórdia a experimentam. 
O ímpio recebe algumas migalhas da mesa da misericórdia: “O S en h o r é 
bom para todos” (S l 145.9). Gotas adocicadas se encontram tanto no 
espinheiro quanto na rosa. O alcance da misericórdia de Deus é imenso. 
A cabeça do faraó estava coroada, embora seu coração estivesse endurecido.
g. A misericórdia de Deus é derramada abundantemente no pacto
A misericórdia que vem a nós em um pacto é a mais doce que há. Pela 
misericórdia Deus deu a chuva a Israel, o pão em abundância, a paz e a 
vitória sobre seus inimigos (Lv 26.4-6), mas foi a misericórdia ainda maior 
que fez Deus ser o Deus deles (Lv 26.12). Ter saúde é uma misericórdia, 
mas ter Cristo e a salvação é misericórdia ainda maior. É como o diamante 
em um anel, que dá ao anel um brilho ainda maior.
Um ato de misericórdia faz que Deus realize outro. O ser humano diz 
assim: “já mostrei bondade, portanto não me perturbe mais”. Porém, porque 
Deus mostra a misericórdia, está sempre pronto a mostrar mais misericórdia. 
Sua misericórdia na eleição faz que justifique, adote, glorifique; um ato de 
misericórdia faz que Deus realize outros. O amor de um pai para com seu 
filho faz que ele sempre dê mais amor.
/. A misericórdia humana se fundamenta na divina
Toda misericórdia na criatura é derivada de Deus e é somente uma 
gota desse oceano. A misericórdia e a piedade que uma mãe tem para com 
seu filho vêm de Deus. Aquele que põe leite no peito da mãe, põe compaixão 
em seu coração. Deus é chamado “Pai de misericórdias” (2Co 1.3), porque 
ele produz todas as misericórdias no mundo. Deus colocou bondade na 
criatura, então, quanta bondade há nele que é o Pai de misericórdias.
j. A misericórdia de Deus deve produzir humildade noseleitos
Assim como a misericórdia de Deus faz os santos felizes, da mesma 
maneira deveria fazê-los humildes. A misericórdia não é o fruto de nossa 
bondade, mas o fruto da bondade de Deus. A misericórdia é dádiva que 
Deus concede. Aquele que vive sobre a dádiva da misericórdia de Deus 
não tem por que ser orgulhoso. “Se for justo, não ouso levantar a cabeça” 
(Jó 10.15): toda minha retidão é conseqüência da misericórdia de Deus, 
portanto serei humilde e não levantarei minha cabeça.
/. A misericórdia adia a execução imediata da justiça de Deus
Pecadores continuam ente provocam Deus, que diz: “a minha 
indignação será mui grande” (Ez 38.18). Qual a razão de Deus não prender 
e condenar os pecadores agora? Não que Deus não possa fazê-lo, pois está 
arm ado com o n ip o tên c ia , mas é po r causa de sua m ise ricó rd ia . 
A misericórdia produz uma amortização para o pecador e pára o rápido 
processo de justiça . Deus, por sua bondade, conduz pecadores ao 
arrependimento.
m. A misericórdia de Deus é terrível testemunha contra o ímpio
É terrível ter a misericórdia como testemunha contra qualquer pessoa. 
Foi algo triste com Hamã quando a rainha o acusou (Et 7.6). Assim será 
quando essa rainha de misericórdia se levantar contra uma pessoa e o acusar. 
Somente a misericórdia salva o pecador; como é triste, então, ter a 
misericórdia como inimiga. Se a misericórdia for um acusador, quem será
120 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
h. Deus não se cansa de aplicar sua misericórdia sobre seus filhos
A misericórdia de Deus 121
nosso advogado? O pecador nunca escapa do inferno quando a misericórdia 
prepara a acusação.
Até aqui, falei a vocês sobre alguns tipos de misericórdia, como a 
misericórdia preventiva, a previdente, a que supre, a que guia, a misericórdia 
que aceita, a curativa, a revigorante, a que apoia, a misericórdia que perdoa, 
a que corrige, a que conforta, a que liberta, a que coroa. Eu discursarei a 
respeito de cada uma delas a seguir.
2. A natureza da misericórdia de Deus
Também quero destacar as seguintes qualificações ou propriedades 
da misericórdia de Deus:
a. A misericórdia de Deus é gratuita
Determinar mérito é destruir a misericórdia. Nada pode merecer a 
misericórdia, porque nosso sangue está contaminado. Nada pode forçar a 
misericórdia. Podemos forçar Deus a nos punir, mas não a nos amar. “Eu 
de mim mesmo os amarei” (Os 14.4). Cada gomo da corrente da salvação é 
moldado e tecido com a graça gratuita. A eleição é de graça. Nos escolheu 
“segundo o beneplácito de sua vontade” (E f 1.4). A justificação é gratuita: 
“sendo justificados gratuitamente” (Rm 3.24). A salvação é de graça: 
“segundo sua misericórdia, ele nos salvou” (Tt 3.5). Não diga “eu sou 
indigno”, pois a misericórdia é gratuita. Se Deus fosse mostrar a misericórdia 
somente àqueles que são dignos, não mostraria nada a ninguém.
b. A misericórdia de Deus é infinita
A misericórdia de Deus é superabundante, é infinita. “Pois tu, Senhor, 
és bom e compassivo; abundante em benignidade” (SI 86.5); “rico em 
misericórdia” (Ef2.4); ele tem multidão de misericórdias (SI 51.1). O jarro 
da ira goteja, mas a fonte de misericórdia corre. O Sol não é tão cheio de luz, 
como Deus é de misericórdia. Deus tem misericórdias pela manhã: “renovam- 
se cada manhã” (Lm 3.23). Ele tem misericórdias noturnas: “à noite 
comigo está o seu cântico” (SI 42.8). Deus derrama misericórdia sob o céu, a 
qual experimentamos; e na vida eterna, a qual esperamos.
c. A misericórdia de Deus é eterna
“A misericórdia do S e n h o r é de eternidade a eternidade” (SI 103.17). 
“Sua misericórdia dura para sempre” é uma frase repetida 26 vezes no Salmo 
136. As almas dos abençoados serão banhadas nesse doce e agradável oceano 
da misericórdia de Deus. A ira de Deus para com seus filhos dura somente 
um pouco: “não... conserva para sempre a sua ira” (SI 103.9). Enquanto ele 
for Deus, m ostrará m isericórdia. Assim como sua m isericórd ia é 
superabundante, também é abundante para sempre.
122 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A p l ic a ç õ e s
Primeira aplicação: devemos olhar para Deus em nossa oração não o 
imaginando em suas vestimentas de justiça, mas vestido com um arco-íris 
cheio de misericórdia e clemência. Dê asas à oração. Quando Jesus Cristo 
subiu ao céu, o que fez que subisse para lá com alegria foi: “eu vou para 
meu Pai” . Então, o que deveria fazer nossos corações cheios de alegria é 
que estamos indo ao Pai de misericórdia, que se assenta no trono de graça. 
Apresente-se diante dele com confiança em sua misericórdia, à semelhança 
de alguém que se aproxima de uma lareira acesa, sem duvidar, sabendo que 
irá se esquentar nela.
Segunda aplicação: creia em sua misericórdia. “Confio na misericórdia 
de Deus para todo o sempre” (Sl 52.8). A misericórdia de Deus é uma fonte 
aberta. Apresente o balde de sua fé debaixo dela e beba dessa fonte de 
salvação. Há um encorajamento maior à fé que a misericórdia de Deus? 
Deus considera sua glória ao espalhar perdão, deseja que pecadores toquem 
o cetro dourado de sua misericórdia e vivam. Esse desejo de mostrar a 
misericórdia aparece de duas maneiras:
1. Ao convidar pecadores a vir e se apropriar de sua misericórdia. 
“Aquele que tem sede venha, e quem quiser receba de graça a água da 
vida” (Ap 22.17). A misericórdia deseja pecadores, até mesmo se ajoelha 
para eles. Seria estranho para um príncipe im plorar a um homem 
condenado a aceitar o perdão. Deus diz: “pobre pecador, sofri para amá- 
lo, deixe-me salvá-lo” .
2. Ao se alegrar quando pecadores agarram a sua misericórdia. O que 
melhora em Deus se nós recebemos ou não sua misericórdia? Será que uma 
fonte sai ganhando quando bebem dela? Mas, a bondade de Deus é assim, 
se alegra na salvação de pecadores e se regozija quando sua misericórdia é 
aceita. Quando o filho pródigo voltou para a casa do pai, o pai ficou contente 
e deu uma festa para expressar sua alegria, assim, Deus se alegra quando 
um pobre pecador volta e se agarra em sua misericórdia. Que grande 
encorajamento encontramos aqui para crer em Deus. Ele é um Deus 
perdoador (Ne 9.17). A misericórdia o agrada (Mq 7.18). Nada mais nos 
prejudica do que a descrença. A descrença faz a misericórdia de Deus parar 
de fluir. Fecha a porta das profundezas de Deus e tapa o fluxo do sangue 
que emana das feridas de Cristo, de maneira que nenhuma virtude curativa 
saia dele. “E não fez ali muitos milagres, por causa da incredulidade deles” 
(Mt 13.58). Por que você não acredita na misericórdia de Deus? Os seus 
pecados desencorajam você? A misericórdia de Deus pode perdoar grandes 
pecados, apesar de serem grandes (Sl 25.11). O mar cobre as rochas assim 
como a areia. Alguns que pensavam em crucificar Cristo encontraram
A misericórdia de Deus 123
misericórdia. Quanto dista os céus da terra, a misericórdia de Deus está 
acima de nossos pecados (Is 55.9). O que nos inclina a acreditar, a não ser 
a misericórdia de Deus?
Terceira aplicação: cuidado para não abusar da misericórdia de Deus. 
Não sugue veneno da doce flor da misericórdia de Deus. Não pense que 
pelo fato de Deus ser misericordioso você vai poder continuar pecando, 
isso é fazer da misericórdia o seu inimigo. Ninguém podia tocar a arca 
senão os sacerdotes, que por seu ofício eram mais santos. Da mesma maneira 
ninguém pode tocar a arca da misericórdia de Deus senão aqueles decididos 
em serem santos. Pecar porque superabunda a misericórdia é uma lógica 
satânica. Aquele que peca por causa da misericórdia é como alguém que 
machuca sua cabeça porque existe um curativo. Aquele que peca por causa 
da misericórdia de Deus terá um julgamento sem misericórdia. O abuso da 
misericórdia se transforma em fúria. “Terei paz, ainda que ande na 
perversidade do meu coração, para acrescentar à sede a bebedice. O S e n h o r 
não lhe quererá perdoar; antes, fumegará a ira do S e n h o r e o seu zelo sobre 
tal homem, e toda maldição escritaneste livro jazerá sobre ele; e o S e n h o r 
lhe apagará o nome de debaixo do céu” (Dt 2 9 .1 9 ,2 0 ) . Nada é mais doce 
que a misericórdia quando é aperfeiçoada; nada é mais terrível quando 
insultada; assim como nada é mais frio que o chumbo quando tirado da 
mina, e é mais quente quando aquecido. Nada é mais sem corte que o ferro, 
porém nada é mais afiado quando amolado. “A misericórdia do S e n h o r é 
de eternidade a eternidade, sobre os que o temem” (S I 1 0 3 .1 7 ) . A misericórdia 
não é para aqueles que pecam e não temem, mas para aqueles que temem e 
não pecam. A misericórdia de Deus é uma misericórdia santa, quando ela 
perdoa, cura.
O que devemos fazer para nos direcionar à misericórdia de Deus?
1. Seja sensível às suas necessidades. Veja quanto você necessita de 
perdão e da misericórdia salvadora. Enxergue-se como um órfao: “por ti o 
órfão alcançará misericórdia” (Os 14.3). Deus confere dons de misericórdia 
somente àqueles que estão necessitados. Esvazie-se de toda opinião de valor 
próprio. Deus derrama o óleo dourado da misericórdia em vasos vazios.
2. Peça a Deus misericórdia. “Compadece-te de mim, ó Deus” (SI 51.1). 
Não me ponha junto das misericórdias comuns que os réprobos podem ter; 
não me dê somente bolotas, mas pérolas; não me dê somente a misericórdia 
para me alimentar e me vestir, mas misericórdia para me salvar. Dê-me a 
nata de tuas misericórdias. Senhor! Que eu tenha misericórdia e bondade: 
“E te coroa de graça e misericórdia” (SI 103.4). Dê-me misericórdia como 
fala o seu amor eletivo à minha alma. Ore por misericórdia! Deus tem 
tesouros de misericórdia e a oração é a chave que abre esses tesouros. E, na
oração, tenha certeza de carregar Cristo em seus braços, pois toda 
misericórdia vem por meio dele. “Tomou, pois, Samuel um cordeiro que 
ainda mamava” (ISm 7.9); carregue o cordeiro, Cristo, em seus braços, 
vá em seu nome, apresente seus méritos, diga: “Senhor! Aqui está o sangue 
de Cristo, que é o preço do meu perdão. Senhor! Mostre-me misericórdia, 
porque Cristo a com prou”. Embora Deus possa nos recusar quando 
buscamos misericórdia em nosso próprio nome, não fará quando formos 
em nome de Cristo. Alegue a expiação de Cristo e esse será um argumento 
que Deus não poderá negar.
A p l i c a ç ã o
Aqueles que encontraram misericórdias são exortados a três coisas:
Ia. Ficar sobregerizim, a montanha da bênção e do louvor. Não somente 
ouviram que o rei do céu é misericordioso, mas descobriram por si mesmos. 
O favo de mel da misericórdia de Deus pingou sobre eles. Quando na 
necessidade, a misericórdia os sustenta, quando estavam próximos da morte, 
a misericórdia os levantou do leito de enfermidades; quando cobertos por 
culpa, a misericórdia os perdoou. “Bendize, ó minha alma, ao Senhor, e 
tudo o que há em mim bendiga ao seu santo nome” (Sl 103.1). Os vasos 
devem transbordar com louvores. “A mim, que, noutro tempo, era blasfemo, 
e perseguidor, e insolente. M as obtive m isericó rd ia” (lT m 1.13). 
Fui agraciado com misericórdia como o mar transborda e quebra os bancos 
de areia, da mesma maneira a misericórdia de Deus quebrou os bancos de 
areia do meu pecado e a misericórdia docemente fluiu para a minha alma. 
Vocês que têm sido monumento da misericórdia de Deus deveriam ser 
trombetas de louvores; vocês que experimentaram que o Senhor é gracioso, 
digam aos outros que experiências vocês tiveram com a misericórdia de 
Deus para encorajá-los a buscá-lo por sua misericórdia. “Vinde, ouvi, 
vós que temeis a Deus, e vos contarei o que tem ele feito por minha 
alma” (Sl 66.16). Quando meu coração se achou morto, o Espírito de Deus 
veio sobre mim com poder e o sopro desse vento fez que as flores secas do 
meu estado de graça revivessem. Ó, diga aos outros sobre a bondade de 
Deus, de maneira que estimule outros a louvá-lo, e que faça os louvores 
de Deus vivos mesmo quando você estiver morto!
2a. Ame a Deus. A misericórdia deveria ser a atração do amor. “Eu te 
amo, ó S enhor, força minha” (Sl 18.1). A palavra hebraica para amor 
significa “amor que sai das entranhas”. A justiça de Deus pode fazer que o 
temamos, mas sua misericórdia faz que o amemos. Se a misericórdia não 
produzir amor, o que produzirá? Nós devemos amar a Deus por ele nos dar 
comida, e ainda mais por nos dar graça; pela misericórdia protetora e muito 
mais pela m isericórdia salvadora. Não há coração de pedra que a
124 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A verdade de Deus 125
misericórdia de Deus não enterneça com o amor. “Eu odiaria minha própria 
alma se não a encontrasse amando a Deus”, disse Agostinho.
3a. Imitar a Deus na demonstração da misericórdia. Assim como Deus 
é o Pai da misericórdia, devemos mostrar que somos seus filhos ao ser 
como ele. Ambrósio53 disse: “o resumo e a definição de religião é: seja rico 
em obras de misericórdia, seja uma ajuda aos corpos e almas dos outros. 
Espalhe sementes douradas; que a lâmpada de sua profissão de fé seja cheia 
com o óleo da caridade. Seja misericordioso em dar e perdoar. Seja 
misericordioso como seu Pai celestial é misericordioso” .
J . A VERDADE l)E D EUS
O atributo seguinte é a verdade de Deus. “Deus é fidelidade, e não há 
nele injustiça, é justo e reto” (Dt 32.4). “Pois a tua misericórdia se eleva até 
aos céus e a tua fidelidade, até às nuvens” (SI 57.10). “Mas tu, Senhor, és... 
grande em misericórdia” (SI 86.15).
1. Deus é a verdade
Ele é a verdade em sentido físico. Verdadeiro em seu ser: ele tem 
uma subsistência real e dá existência aos outros. Ele é a verdade no sentido 
moral. Ele é a verdade sem erros e sem engano. Deus é o padrão e o 
protótipo da verdade. Não há nada verdadeiro, senão o que está em Deus 
ou vem de Deus.
2. A verdade de Deus
Entende-se por verdade de Deus sua veracidade em fazer suas 
promessas se realizarem. “ ... nem uma só palavra falhou de todas as suas 
boas promessas” (1 Rs 8.56). A promessa é o compromisso de Deus; a 
verdade de Deus é o seu selo colocado em seu compromisso. Há duas coisas 
a serem observadas nas promessas de Deus para nosso consolo:
a. O poder de Deus para cumprir suas promessas
O poder de Deus é o atributo pelo qual é capaz de cumprir suas 
promessas. Deus prometeu subjugar nossa corrupção. “Pisará aos pés as 
nossas iniqüidades” (Mq 7.19). Um crente pode dizer que sua corrupção é 
tão forte que está certo de que nunca a conseguirá controlar. Abraão olhou 
para o poder de Deus “convicto de que ele era poderoso para cumprir o que 
prometera” (Rm 4.21). Ele creu que Deus, que fez o mundo, poderia fazer 
que seios secos dessem leite. É uma prerrogativa da fé, que não há nada 
difícil para Deus. Aquele que tirou água da rocha é capaz de cumprir todas 
as suas promessas.
b. A verdade de Deus presente em suas promessas
A verdade de Deus é o selo colocado sobre a promessa. “Na esperança 
da vida eterna que o Deus que não pode mentir prometeu antes dos tempos 
eternos” (Tt 1.2). Vida eterna, aí esta a doçura da promessa: Deus, que não 
pode mentir, certifica a promessa. A misericórdia faz a promessa, a verdade 
a cumpre. As providências de Deus são certas, mas suas promessas são as 
“santas e fiéis promessas feitas a Davi” (At 13.34). “Não é homem, para 
que se arrependa” (ISm 15.29). A palavra de um príncipe nem sempre 
pode ser crida, mas a promessa de Deus é inviolável.
A verdade de Deus é uma das jóias mais ricas de sua coroa e ele a 
penhorou em uma promessa. “Não está assim com Deus a minha casa? 
Pois estabeleceu comigo uma aliança eterna, em tudo bem definida e segura” 
(2Sm 23.5). Embora minha casa não esteja bem, isto é, embora eu falhe 
muito em relação à pureza perfeita requerida pelo Senhor, mesmo assim 
ele fez comigo uma aliança eterna, na qual me perdoaria, me adotaria e me 
glorificaria. Essa aliança é completa e segura. “Os elementos se derreterão 
com o calor fervente”, mas esse pacto continua firme e inviolável, sendo 
selado com a verdade de Deus.
Deus acrescentou à sua palavra seu juramento,no qual empenhou o 
seu ser, sua vida e sua justiça para tornar a promessa boa (Hb 6.17). Se 
Deus quebrasse sua promessa conosco, assim como quebramos nossos votos 
com ele, seria muito triste, mas sua verdade está engajada em sua promessa, 
portanto, é como a lei dos medos e persas, que não pode ser alterada. 
Crisóstomo disse assim: “não devemos confiar em nossos sentidos tanto 
quanto nas promessas” . Nossos sentidos podem falhar, mas a promessa 
não, se for construída sobre a verdade de Deus. Deus não enganará a fé de 
seu povo, não, ele não pode. “Deus, que não pode mentir, prometeu” 
certificá-la com sua deidade. A Bíblia descreve Deus como abundante em 
fidelidade, ou verdade (Êx 34.6). O que significa isso? Significa que se 
Deus fez uma promessa de misericórdia para seu povo, não falhará em sua 
palavra, ele será melhor que sua palavra. Ele geralmente fará mais do que 
disse, nunca menos, ele é abundante em verdade.
i. A dem ora de Deus não implica que ele negará cum prir suas 
promessas. O Senhor pode, às vezes, demorar em cumprir uma promessa, 
mas ele não a negará. Ele pode dem orar na execução da prom essa. 
A prom essa de Deus pode ficar um bom tempo como uma semente debaixo 
do chão, mas finalmente brotará. Ele prometeu livrar Israel da fornalha de 
ferro, mas essa promessa esteve em aberto por 400 anos antes de se realizar. 
Simeão recebeu a promessa que não morreria “antes de ver o Cristo do 
Senhor” (Lc 2.26). Demorou em acontecer, mas um pouco antes de sua
126 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A verdade de Deus 127
morte viu de fato o Cristo. Embora Deus atrase a promessa, não a negará. 
Depois que fez a confirmação, no tempo oportuno o dinheiro será pago.
ii. A mudança na promessa não implica que Deus não a cumprirá. 
Deus pode mudar sua promessa, mas não pode quebrá-la. As vezes, Deus 
muda uma promessa material para uma espiritual. “O Senhor dará o que é 
bom” (SI 85.12); o que não pode ser cumprido em um sentido temporal, 
mas espiritual. Deus pode permitir que o cristão seja frustrado materialmente, 
mas ele o recompensará espiritualmente. Se ele não aumentar o que há na 
despensa e no estoque, dará aumento de fé e de paz interior. Aqui ele muda 
a sua promessa, mas não a quebra, dá o que é melhor. Se um homem promete 
me pagar na moeda de meu país e me paga numa moeda melhor, como 
ouro, não quebra sua promessa. “Mas jamais retirarei dele a minha bondade, 
nem desmentirei a minha fidelidade” (SI 89.33). Em hebraico é usada a 
palavra mentir.
c. A verdade das promessas na salvação dos eleitos
i. Deus não mente ao dizer que todos serão salvos. No que consiste 
a verdade de Deus que todos serão salvos, mas que alguns perecerão?
1 Timóteo 2.4.
Agostinho entende que isso não se refere a cada uma das pessoas 
individualmente, mas alguns de todos os tipos serão salvos. Assim como na 
arca, quando Deus salvou todas as criaturas vivas, no entanto, não foram 
cada pássaro ou peixe salvos, pois muitos pereceram no dilúvio. Mas todos, 
isto é, alguns de cada espécie foram salvos, então Deus salvará todos, isto 
é, alguns de todas as nações.
ii. Deus não mente ao dizer que Cristo morreu por todos. Ê dito 
que Cristo morreu por todos. “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do 
mundo!” (Jo 1.29). Como isso se alinha com a verdade de Deus, pois alguns 
são vasos de ira? (Rm 9.22).
Antes de tudo, devemos qualificar o termo mundo. O mundo é 
considerado em termos limitados, em relação ao mundo dos eleitos; ou em 
termos amplos, os eleitos e os rejeitados. “Cristo tira o pecado do mundo”, 
isto é, o mundo dos eleitos.
E depois, devemos qualificar Cristo morrendo pelo mundo. Cristo 
morreu suficientemente por todos, mas não eficazmente. Há o valor e a 
virtude do sangue de Cristo. O sangue de Cristo tem valor suficiente para 
redimir o mundo todo, mas sua virtude é aplicada somente para os que 
crêem. O sangue de Cristo é meritório para todos, mas não é eficaz. Nem 
todos são salvos, pois alguns deixam de lado a salvação, como em Atos 
13.46, e difamam o sangue de Cristo, profanando-o (Hb 10.29).
A p l i c a ç õ e s
Primeira aplicação: a verdade de Deus é uma grande coluna para a nossa 
fé. Se ele não fosse um Deus da verdade, como poderíamos crer nele? Nossa fé 
foi concebida, mas ele é a própria verdade e nenhuma palavra que falou pode 
cair por terra. “A verdade é o objeto da confiança.” A verdade de Deus é uma 
pedra irremovível na qual podemos arriscar nossa salvação (ls 59.15).
“A verdade falha.” A verdade na terra falha, mas não a verdade no 
céu. Assim como Deus pode cessar de ser Deus, sua verdade pode cessar de 
ser verdade. Deus disse coisas como: “Bom é o S enhor para os que esperam 
por ele” (Lm 3.25), e “eu vos aliviarei” (Mt 11.28). Aqui está uma âncora 
segura em que se pode confiar, ele não mudará qualquer coisa que saiu de 
seus lábios. A fé celestial publicada é enfocada para os crentes. Podemos 
ter melhor segurança? Toda a terra se sustenta na Palavra do poder de Deus, 
nossa fé não deveria se sustentar na Palavra da verdade de Deus? Onde 
mais poderíamos depositar nossa fé, a não ser sobre a fidelidade de Deus? 
Não há mais nada para se crer a não ser na verdade de Deus. Confiar em 
nós mesmos é construir sobre areia movediça, mas a verdade de Deus é 
uma coluna de ouro na qual a fé pode se apoiar. Deus não pode negar a si 
mesmo: “se somos infiéis, ele permanece fiel, pois de maneira nenhuma 
pode negar-se a si mesmo” (2Tm 2.13). Não crer na veracidade de Deus é 
afrontá-lo. “Aquele que não dá crédito a Deus o faz mentiroso” (1 Jo 5.10). 
Uma pessoa honrada não pode ser mais afrontada ou provocada do que 
quando não crêem nela. Quem nega a verdade de Deus faz da sua promessa 
uma falsidade. Pode haver maior afronta para com Deus?
Segunda aplicação: se Deus é um Deus da verdade, é verdadeiro para 
com suas ameaças. Suas ameaças são um rolo compressor contra os 
pecadores. Deus ameaçou partir “a cabeça dos seus inimigos e o cabeludo 
crânio do que anda nos seus próprios delitos” (Sl 68.21). Ele ameaçou julgar 
os adúlteros (Hb 13.4). Ameaçou vingança sobre o malicioso (Sl 10.14). 
“Fará chover sobre os perversos brasas de fogo e enxofre, e vento abrasador 
será parte do seu cálice” (Sl 11.6). Deus é tão verdadeiro em relação às suas 
ameaças quanto às suas promessas. Para mostrar sua verdade, executou 
suas ameaças e permitiu que seus raios de julgamento caíssem sobre os 
pecadores nesta vida. Ele golpeou Herodes no ato de seu orgulho. Ele puniu 
blasfemadores. Olímpio, um bispo ariano, reprovou e blasfemou contra a 
Trindade santa e imediatamente um raio caiu do céu sobre ele e o consumiu. 
Temamos as ameaças, que não as soframos.
Terceira aplicação: Deus é um Deus da verdade? Sejamos como Deus.
1. Devemos ser verdadeiros em nossas palavras. Quando Pitágoras54 
foi questionado sobre o que poderia tomar os homens semelhantes a Deus,
128 A fé cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
ele respondeu: “quando falam a verdade, se assem elham a Deus” . 
Um homem que irá para o céu tem a seguinte característica: “De coração, 
fala a verdade” (SI 15.2).
1. A verdade em palavras é oposta a mentir. “Por isso, deixando a 
mentira, fale cada um a verdade com o seu próximo” (Ef 4.25). Mentir é 
falar algo em lugar da verdade quando se sabe que é uma falsidade. 
O mentiroso se opõe muito a Deus.
Há, como diz Agostinho, dois tipos de mentira. Uma mentira oficiosa, 
quando um homem diz uma mentira para seu lucro; como, quando um 
negociante diz que seu produto custou tanto, quando talvez não lhe custasse 
nem a metade. Aquele que mente em seu negócio, mentirá no inferno. Uma 
mentira de chacota, quando alguém diz uma mentira por prazer, para alegrar 
os outros. Esse irá sorrindo para o inferno.
“[O diabo] é mentiroso e pai da mentira” (Jo 8.44). Ele enganou nossos 
primeiros pais com uma mentira. Alguns são tão ímpios que não somente 
falam uma mentira, mas juram por ela. Esses lançarão uma maldiçãosobre 
si mesmos se esta inverdade não for verdade. Li a história de uma mulher, 
Anne Avarie, que em 1575, quando estava numa loja, jurou que havia pagado 
as mercadorias que pegou sob pena de, caso contrário, sofrer a morte. 
Ela caiu no chão sem fala imediatamente e morreu.
Não é apropriado que um mentiroso viva em comunidade. A mentira 
faz perder toda a sociedade e opõe os homens. Como se pode conversar 
com alguém quando não se pode acreditar no que diz? A mentira deixa o 
homem fora do céu. “Fora ficam os cães... e todo aquele que ama e pratica a 
mentira” (Ap 22.15). Mentir é um grande pecado, pior ainda é ensinar uma 
mentira. “O profeta que ensina a mentira é a cauda” (Is 9.15). Quem amplia 
o erro ensina mentiras, espalha a praga, não somente prejudica a si mesmo, 
mas ajuda a prejudicar os outros.
ii. A verdade em palavras é oposta ao fingimento. O coração e a 
língua devem caminhar juntos, assim como a sombra no relógio solar. Falar 
bem para alguém sem sinceridade não é melhor que uma mentira. “Suas 
palavras eram mais brandas que o azeite; contudo, eram espadas 
desembainhadas” (SI 55.21). Alguns têm a arte de bajular e de odiar. 
Jerônimo, falando sobre os arianos, diz: “Eles fingiram amizade, beijaram 
minhas mãos, mas planejaram ciladas contra mim”. “O homem que Iisonjeia 
a seu próximo, arma-lhe uma rede aos passos” (Pv 29.5). Veneno cruel 
pode ser escondido sob doce mel. Falsidade na amizade é uma mentira. 
Falsificar uma amizade é pior que falsificar dinheiro.
2. Devemos ser verdadeiros em nossa profissão de fé. Que as ações 
combinem com as palavras. “E vos revistais do novo homem, criado segundo
A verdade de Deus 129
Deus, em justiça e retidão procedentes da verdade” (Ef 4.24). Hipocrisia na 
religião é uma mentira. O hipócrita é como uma face num espelho, vê-se a 
face, mas não a verdadeira. Mostra santidade, mas não há verdade nela. 
Efraim fingiu ser quem não era e o que Deus diz dele? “Efraim me cercou 
por meio de mentiras” (Os 11.12). Por meio de uma mentira em nossas 
palavras negamos a verdade; por meio de uma mentira em nossa profissão 
de fé nós a desgraçamos. Não ser para com Deus o que professamos é dizer 
uma mentira, o que as Escrituras dizem ser blasfêmia. “Conheço... a 
blasfêmia dos que a si mesmos se declaram judeus e não são” (Ap 2.9). Eu 
vos rogo que vos empenheis para ser como Deus. Ele é um Deus da verdade. 
Ele pode tanto desistir de sua deidade quanto de sua verdade. Seja como 
Deus, seja verdadeiro em suas palavras, seja verdadeiro em sua profissão 
de fé. Filhos de Deus são filhos que não mentem (Is 63.8). Quando Deus 
vê “verdade nas partes internas” e “ lábios em que não há duplicidade”, 
ele vê a própria imagem, o que atrai seu coração em nossa direção. 
Semelhança produz amor.
L. A UNIDADE DE D E U S
PERGUNTA 5: Há mais do que um Deus?
RESPOSTA: Há somente um Deus, o Deus vivo e verdadeiro.
Já foi provado que Deus existe e que aqueles incrédulos da veracidade 
de sua essência sofrerão a severidade de sua ira. “Ouve, Israel, o Senhor, 
nosso Deus, é o único Senhor” (Dt 6.4). Ele é “o único Deus”. Deuteronômio 
4.39 diz: “Por isso, hoje, saberás e refletirás no teu coração que só o S enhor 
é Deus em cima no céu e embaixo na terra; nenhum outro há”. “Deus justo 
e Salvador não há além de mim” (Is 45.21). Há muitos deuses nominais. 
Reis representam Deus; seus cetros reais são emblemas de seu poder e de 
sua autoridade. Juizes são tomados por deuses. “Eu disse: sois deuses” 
(Sl 82.6), isto é, assentados no lugar de Deus para exercerem a justiça; 
contudo são deuses mortos. “Todavia, como homens, morrereis” (v. 7). 
“Porque, ainda que há também alguns que se chamem deuses... todavia, 
para nós há um só Deus” (ICo 8.5,6).
1. Há somente uma causa primeira
Há somente uma causa primeira que tem existência em si mesma, e 
da qual todos os outros seres dependem. Como nos céus, o primum mo­
bile move todos os outros orbes, assim Deus dá vida e movimento a tudo 
que existe. Não pode haver senão um único Deus, pois há somente uma 
causa primeira.
130 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A unidade de Deus 131
2. Há somente um ser infinito
Há somente um ser infinito e, por essa razão, há somente um Deus. 
Não pode haver dois infinitos. “Diz o S bnhor, porventura, não encho eu 
os céus e a terra?” (Jr 23.24). Se há um infinito, preenchendo todos os 
lugares ao mesmo tempo, como pode haver qualquer espaço para que 
outro infinito subsista?
3. Há somente um poder onipotente
Caso houvesse dois onipotentes, então deveríamos sempre esperar 
uma competição entre eles: o que um poder fizesse, o outro, sendo igual, 
se colocaria em oposição e, então, todas as coisas estariam em confusão. 
Se um navio tivesse dois timoneiros de igual poder, um haveria de querer 
sempre contradizer o outro; quando um quisesse navegar, o outro iria 
querer lançar âncora; haveria confusão e o navio afundaria. A ordem e a 
harmonia no mundo, ou o governo constante e uniforme de todas as coisas, 
são um argumento claro de que há somente um Onipotente, um Deus que 
governa tudo. “Eu sou o primeiro e eu sou o último, e além de mim não 
há Deus” (Is 44.6).
A p l i c a ç õ e s
Primeira aplicação'. 1. Se há somente um Deus, então isso exclui 
todos os outros deuses. Alguns alegaram que havia dois deuses, como os 
valentinianos; outros disseram que havia muitos deuses, como os politeístas. 
Os persas cultuavam o Sol; os egípcios, o leão e o elefante; os gregos 
prestavam culto a Júpiter. “Errais, não conhecendo as Escrituras” (Mt 22.29). 
A fé desses homens é uma fábula. “Deus lhes manda a operação do erro, 
para darem crédito à mentira, a fim de serem julgados todos quantos não 
deram crédito à verdade” (2Ts 2.11,12).
2. Se há somente um Deus, então pode haver somente uma verdadeira 
religião no mundo. “Um só Senhor, uma só fé” (Ef 4.5). Se houvesse muitos 
deuses, então haveria muitas religiões, cada Deus sendo adorado à sua 
maneira; porém, se há somente um Deus, há somente uma religião; um só 
Senhor, uma só fé. Muitos dizem que podem ser salvos em qualquer religião. 
Porém, é absurdo imaginar que Deus, que é Um em essência, iria indicar 
várias religiões pelas quais seria cultuado. E perigoso se estabelecer numa 
falsa religião, tanto quanto se estabelecer em um falso deus. Há muitas 
maneiras de ir para o inferno; os homens podem ir para lá por qualquer 
caminho de sua imaginação, porém, há somente um caminho para o céu, a 
saber, fé e santidade. Não há outro modo de ser salvo a não ser esse. Como há 
somente um Deus, há somente uma religião verdadeira.
3. Se há somente um Deus, então há somente um a quem é preciso 
agradar acima de todos, e esse é Deus. Se houvesse diversos deuses, seria 
difícil agradá-los. Um ordenaria uma coisa, outro ordenaria o contrário, e 
agradar a dois mestres opostos é impossível. Há somente um Deus. 
Por conseguinte, temos somente um a quem agradar. Como em um reino há 
somente um rei, todos buscam se colocar sob suas boas graças (Pv 19.6), 
assim há somente um verdadeiro Deus e nossa tarefa principal é agradá-lo. 
Assegure-se de agradar a Deus, não importa a quem mais você desagrade. 
Essa foi a sabedoria de Enoque. Ele obteve esse testemunho antes de ser 
trasladado, que havia “agradado a Deus” (Hb 11.5).
O que implica esse agradar a Deus? Podemos responder que:
i. Agradamos a Deus quando acatamos sua vontade. A comida e a 
bebida de Cristo foram fazer a vontade do Pai (Jo 4.34) e, assim, ele o 
agradou (Mt 3.17). Uma voz veio do céu, dizendo: “Este é o meu Filho 
amado, em quem me com prazo” . E vontade de Deus que sejamos 
santificados (1 Ts 4.3). Quando nos ornamos de santidade, as nossas vidas 
são como Bíblias ambulantes. Isso está de acordo com a vontade de Deus 
e o agrada.
ii. Agradamos a Deus quando fazemos a obra que ele nos designa. 
“Consumando a obra que me confiaste para fazer”, a saber, “minha obra 
mediadora” (Jo 17.4). Muitos terminam sua vida sem terminar sua obra. 
O trabalhoque Deus talhou para nós é observar as duas tábuas da lei. 
Na primeira, estão nossas obrigações para com Deus; na segunda, nossas 
obrigações para com o próximo. Os que fazem da moralidade a parte prin­
cipal e única da religião colocam a segunda tábua diante da primeira; mais 
ainda, jogam fora a primeira tábua. Se a prudência, a justiça e a temperança 
fossem suficientes para salvar, quem precisaria da primeira tábua? Assim 
nossa adoração a Deus será, aos poucos, deixada de lado. Porém, aquelas 
duas tábuas, as quais Deus juntou, homem nenhum pode separar.
iii. Agradamos a Deus quando dedicamos nossos corações a lhe dar o 
melhor de tudo. Abel deu a Deus a gordura da oferta (Gn 4.4.). Domiciano55 
não queria sua imagem esculpida em madeira ou em ferro, mas em ouro. 
Agradamos a Deus quando o servimos com amor, com fervor e com alegria. 
Estes são serviços de ouro. Porém, há somente um Deus e, portanto, há 
somente um a quem temos de primeiramente agradar, ou seja, Deus.
iv. Se há somente um Deus, então não devemos orar a nenhum outro, 
senão a esse único Deus. Os papistas oram aos santos e aos anjos.
Primeiramente, eles oram aos santos. Um escritor católico diz: “quando 
oramos aos santos que já morreram, eles ficam sensibilizados, com 
compaixão e intercedem por nós diante Deus, da mesma maneira que os
132 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A unidade de Deus 133
discípulos fizeram pela mulher cananita: ‘Despede-a, pois vem clamando 
atrás de nós’ “ (Mt 15.23). Os santos que já estão no céu não conhecem 
nossas necessidades; e mesmo que conhecessem, não temos autorização 
para orar a eles. “Abraão não nos conhece” (Is 63.16). A oração é uma parte 
do culto divino, o qual deve ser prestado somente a Deus.
Em segundo lugar, eles oram aos anjos. A adoração aos anjos é proibida 
(Cl 2.18,19). No texto de Romanos 10.14 está claro que não devemos orar 
aos anjos: “Como, porém, invocarão aquele em quem não creram?” Não 
devemos orar a ninguém, somente em quem cremos; então, uma vez que 
não cremos em nenhum anjo, não devemos orar a eles. Há somente um 
Deus, e é pecado invocar alguém além dele.
v. Se há somente um Deus, que é “sobre todos” (Ef 4.6), então ele 
deve ser amado sobre tudo. Devemos amá-lo com um amor de apreciação; 
colocar sobre ele nossa mais alta estima, pois ele é a única fonte de existência 
e de contentamento. Devemos amá-lo com um amor de desvanecimento. 
Tomás de Aquino56 disse que os “esforços do amante para agradar ao amado 
é amor”. Nosso amor pelas outras coisas deve ser menos intenso, de modo 
que algumas gotas de amor podem correr em direção à criatura, mas o 
caudal deve correr em direção a Deus. A criatura pode ter o leite de nosso 
amor, mas devemos guardar a nata para Deus. Aquele que é sobre todas as 
coisas deve ser amado sobre todas as coisas. “Quem mais tenho eu no céu? 
Não há outro em quem eu me compraza na terra” (SI 73.25).
Segunda aplicação: sobre a advertência. Se há somente um Deus, 
então vamos tomar cuidado para não estabelecer mais deuses. “Muitas serão 
as penas dos que trocam o Senhor por outros deuses; não oferecerei as suas 
libações de sangue, e os meus lábios não pronunciarão o seu nome” (SI 16.4). 
Deus é um Deus ciumento e não suportará que tenhamos outros deuses. 
É fácil relacionar a idolatria com a criatura.
1. Alguns fazem do prazer um deus. “Mais amigos dos prazeres que 
amigos de Deus” (2Tm 3.4). Fazemos um deus de qualquer coisa que 
amemos mais que a Deus.
2. Outros fazem do dinheiro o seu deus. O homem cobiçoso adora a 
imagem de ouro, portanto é chamado de idólatra (Ef 5.5.). Aquilo em que 
um homem confia é seu deus; ele faz da cunha de ouro sua esperança; faz 
do dinheiro seu criador, seu redentor e seu consolador. Seu dinheiro é seu 
criador: se ele tem dinheiro, pensa que foi criado por ele. O dinheiro é 
seu redentor: se estiver em perigo, confia que seu dinheiro vai salvá-lo. 
E seu consolador: a qualquer tempo em que estiver triste, a harpa dourada 
expulsa o espírito maligno; portanto, o dinheiro é seu deus. Deus criou o 
homem do pó da terra e o homem fez do pó da terra um deus.
3. Outros fazem de seus filhos deuses, colocando-os no lugar de Deus, 
fazendo que os levem. Se você se apóia pesadamente sobre um vidro, ele se 
quebra; do mesmo modo eles quebram seus filhos por se apoiarem 
pesadamente sobre eles.
4. Outros fazem um deus do próprio ventre. “O deus deles é o ven­
tre” (Fp 3.19). Clemente de Alexandria escreve sobre um peixe que tem 
seu coração no ventre: um emblema dos epicureus, cujo coração está no 
ventre, que não se preocupam com nada além de satisfazer seu apetite 
sensual. Adoram os confortos domésticos: seu ventre é seu deus e a isso 
eles deitam ofertas de bebidas. Os homens criam muitos deuses. O apóstolo 
nomeia a trindade do homem iníquo: “a concupiscência da carne, a 
concupiscência dos olhos e a soberba da vida” (1 Jo 2.16). A concupiscência 
da carne é o prazer; a concupiscência dos olhos, o dinheiro; e a soberba 
da vida, a fama. Cuidado com isso. Qualquer coisa que você endeusar e 
pôr em lugar de Deus lhe trará um espinheiro e dele virá fogo que lhe 
devorará (Jz 9.15).
Terceira aplicação: sobre a reprovação. Se o Senhor Jeová é o único 
Deus, ele reprova aqueles que renunciam ao verdadeiro Deus, ou seja, 
aqueles que buscam os espíritos dos familiares mortos, algo muito praticado 
entre aqueles que se chamam de cristãos. É um pecado condenado pela lei 
de Deus. “Não se achará entre ti... quem consulte os mortos” (Dt 18.10,11). 
Como isso é comum. Se as pessoas perdem algum de seus bens, consultam 
feiticeiros para reavê-lo. Isso não é nada mais que consultar o diabo! 
Renunciam a Deus e ao batismo. O quê? Por havermos perdido nossos 
bens também vamos perder nossas almas? “Assim diz o Senhor: Porventura, 
não há Deus em Israel, para que mandes consultar Baal-Zebube, deus de 
Ecrom?” (2Rs 1.6). Assim, não é por pensar que não há Deus no céu que 
você pede conselhos ao diabo? Se alguém for culpado nesse pecado, 
arrependa-se profundamente por ter renunciado ao verdadeiro Deus. 
E melhor perder todos os bens do que permitir, novamente, a ajuda do diabo.
Quarta aplicação: sobre a exortação.
1. Como há somente um Deus, como Deus é um, deixemos que os que 
o servem sejam um. Esta foi a sincera oração de Cristo: “a fim de que todos 
sejam um” (Jo 17.21).
i. Os cristãos deveriam ser um no discernimento. O apóstolo exorta a 
que todos tenham uma mesma disposição mental (1 Co 1.10). Como é triste 
ver a religião usando um casaco de várias cores, ver cristãos de tantas 
opiniões diferentes e agindo de tantas maneiras diferentes. É Satanás quem 
mostra esse joio de divisão (Mt 13.39). Primeiro, ele separa os homens de 
Deus e, depois, separa-os uns dos outros.
134 A f é cristã - Estados baseados no Breve Catecismo de Westminster
A Trindade 135
ii. Os cristãos deveriam ser um no amor. Eles deveriam ter um só coração. 
“Da multidão dos que creram era um o coração e a alma” (At 4.32). Como 
na música, embora haja várias cordas na harpa todas tocam uma doce har­
monia; assim, embora haja muitos cristãos, todos deveriam estar em doce 
harmonia de amor entre si. Há somente um Deus e aqueles que o servem 
devem ser um. Não há nada que traduza a fé cristã de maneira mais amável 
ou que atraia maior número de convertidos do que ver os professos da fé 
unidos entre si com os laços do amor. “Como é bom e agradável viverem 
unidos os irmãos!” (SI 133.1). E como o doce orvalho do Hermom e a 
perfumada unção sobre a cabeça de Arão. Se Deus é um, permitamos que 
todos que o professam tenham uma só mente e um só coração e, então, 
cumpram a oração de Cristo: “a fim de que todos sejam um”.
2. Se há somente um Deus, vamos trabalhar para tornar claro o 
emblema de que esse Deus é nosso. “Este é Deus, o nosso Deus” (SI 48.14). 
Qual consolo há em ouvir que há um Deus e que ele é único, a menos que 
ele seja nosso? O que é a divindade sem usufruto? Vamos trabalhar paratomar claro o seu emblema sobre nós. Implore ao Espírito Santo. O Espírito 
trabalha pela fé. Pela fé somos um com Cristo, e por meio de Cristo temos 
Deus como nosso Deus e, assim, toda a sua gloriosa plenitude está sobre 
nós por um ato de doação.
Quinta aplicação', sobre a gratidão. Só o fato de conhecer o Deus 
verdadeiro já é um grande motivo para sermos gratos. Outros não o 
conhecem. Alguns seguem a Maomé. Muitos adoram o demônio; acendem- 
lhe velas, para que ele não os machuque. Os que não conhecem o verdadeiro 
Deus andarão no inferno aos trambolhões, na escuridão. Sejamos gratos 
por ter nascido em um lugar onde a luz do evangelho brilha. Conhecer o 
verdadeiro Deus é mais que possuir minas de ouro, ou montanhas de 
diamantes, ou ilhas de especiarias; especialmente se Deus, de maneira 
salvadora, revelou-se a nós; se ele já nos deu olhos para ver a luz; se 
conhecemos Deus a ponto de sermos conhecidos por ele, para amá-lo e crer 
nele (Mt 11.25). Jamais poderemos ser suficientemente gratos a Deus, que 
não se revelou aos sábios e aos prudentes do mundo, mas se revelou a nós.
M. A T r in d a d e
PERGUNTA 6: Quantas pessoas existem na Trindade?
RESPOSTA: Três pessoas, porém, um só Deus.
“Pois há três que dão testemunho [no céu: o Pai, a Palavra e o Espírito 
Santo; e estes três são um]” (U o 5.7).
Deus é somente um, ainda que haja três pessoas distintas existindo 
numa única divindade. Esse é um mistério sagrado, que a luz dentro do
homem jamais poderá descobrir. Assim como as duas naturezas em Cristo, 
que é uma única pessoa, causam espanto, também as três pessoas da Trindade 
que são somente um Deus. Isto é muito profundo: Deus Pai, Deus Filho e 
Deus Espírito Santo - não três deuses, mas somente um Deus. As três pessoas 
na bendita Trindade são distintas, mas não divididas: três substâncias, mas 
somente uma essência. E um enigma divino, no qual um forma três e três 
formam um. Nossos pensamentos limitados não podem compreender a 
Trindade mais que uma casca de noz pode conter toda a água do mar. Deixe- 
me demonstrar isso por meio de uma analogia: na massa do Sol há a 
substância do Sol, há os raios solares e há o calor. Os raios são gerados pela 
massa solar e o calor provém tanto do Sol como dos raios. Porém esses 
três, embora diferentes, não se dividem: todos os três formam um único 
Sol. Assim acontece na bendita Trindade: o Filho é gerado pelo Pai, o Espírito 
Santo provém de ambos: embora sejam três pessoas distintas, são um único 
Deus. Primeiro, vamos falar sobre a unidade na Trindade, depois, da 
Trindade na unidade.
1. A unidade na Trindade
Sobre a unidade na Trindade podemos dizer que a unidade das pessoas 
na divindade consiste de duas coisas:
a. A igualdade da essência
Na Trindade há unidade na essência. As três pessoas são da mesma 
natureza e substância divinas. Assim, “não há hierarquia na divindade”, ou 
seja, uma pessoa não é mais Deus que a outra.
b. A unidade da inerência
A unidade das pessoas na divindade consiste na sua mútua inerência, ou 
sua existência no conjunto. As três pessoas são tão unidade que uma pessoa é 
na outra e com a outra. “Como és tu, ó Pai, em mim e eu em ti” (Jo 17.21).
2. A Trindade na unidade
a. A primeira pessoa na Trindade é Deus, o Pai
Ele é chamado de primeira pessoa, quanto à ordem, não quanto à 
dignidade: pois Deus Pai não tem uma perfeição fundamental que as outras 
pessoas não tenham; ele não é mais sábio, mais santo, mais poderoso que 
as outras pessoas. E uma prioridade, não uma superioridade.
b. A segunda pessoa na Trindade é Jesus Cristo, o Filho
Jesus é gerado pelo Pai antes dos tempos eternos. “Desde a eternidade 
fui estabelecido, desde o princípio, antes do começo da terra. Antes de haver
136 A f é crista - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A Trindade 137
abismos, eu nasci, e antes ainda de haver fontes carregadas de águas. Antes 
que os montes fossem firmados, antes de haver outeiros, eu nasci” (Pv 8.23- 
25).57 Esse texto das Escrituras apresenta a geração eterna do Filho de Deus. 
A segunda pessoa da Trindade, que é Jeová, tomou-se nosso Jesus. As 
Escrituras o chamam de Renovo de Davi (Jr 23.5), e posso chamá-lo de escol 
da nossa natureza. “E, por meio dele, todo o que crê éjustificado” (At 13.39).
c. A terceira pessoa na Trindade é o Espirito Santo
O Espirito Santo procede do Pai e do Filho, cujo trabalho é iluminar a 
mente e inflamar impulsos santificados. A essência do Espírito está no céu 
e em todo lugar, mas sua influência opera no coração dos que crêem. Esse é 
o bendito Espírito, que nos dá a santa unção (1 Jo 2.20). Embora Cristo nos 
tome merecedores da graça, é o Espírito Santo que trabalha em nós. Embora 
Cristo tenha feito a aquisição, é o Espírito Santo que dá a garantia, selando- 
nos para o dia da redenção.
Dessa maneira, falei sobre as três pessoas. Em Mateus 3.16,17, pode- 
se observar a prova da Trindade: “Batizado Jesus, saiu logo da água, e eis 
que se lhe abriram os céus, e viu o Espírito de Deus descendo como pomba, 
vindo sobre ele. E eis uma voz dos céus, que dizia: Este é o meu Filho 
amado, em quem me comprazo”. Aqui, temos os três nomes dados às três 
pessoas. O que falou com uma voz vinda do céu era Deus Pai; o que foi 
batizado no Jordão era Deus Filho; o que desceu na forma de pomba foi 
Deus Espírito Santo. Assim, demonstrei a unidade da essência e a Trindade 
das pessoas.
A p l i c a ç õ e s
Primeira aplicação: refutações.
1. Os judeus e os turcos refutam a idéia da Trindade, pois crêem 
somente na primeira pessoa da divindade. Jogando fora a distinção das 
pessoas na Trindade, destrói-se a redenção do homem. Como Deus Pai, 
uma vez ofendido pelo pecado do homem, será apaziguado sem um 
mediador? Esse mediador é Cristo, que faz nossa reconciliação. Cristo, 
uma vez tendo morrido e espargido seu sangue, como aplicaria esse sangue, 
a não ser pelo Espírito Santo? Portanto, se não houver três pessoas na 
divindade, a salvação do homem não pode ser completada; se não houver 
uma segunda pessoa na Trindade, não há redentor; se não houver uma 
terceira pessoa, não há consolador e, assim, é retirada a tábua de salvação 
que nos leva ao céu.
2. A idéia da Trindade refuta a opinião execrável dos socinianos,58 que 
negam a divindade do Senhor Jesus, fazendo dele somente uma criatura de 
um grau mais alto. Como os católicos escondem o segundo mandamento, o
mesmo fazem os socinianos com a segunda pessoa da Trindade. Se se opor 
às partes de Cristo é pecado, o que será se opor ao próprio Cristo?
Jesus Cristo é co-igual a Deus Pai. Ele não julgava como usurpação 
ser igual a Deus (Fp 2.6).
Jesus é coeterno com Deus Pai: “Desde a eternidade fui estabelecida” 
(Pv 8.23). Se não for assim, houve, então, um tempo em que Deus não teria 
um Filho e, portanto, ele não seria Pai. Mas, não somente isso, houve um 
tempo no qual Deus estava despido de sua glória, porque Cristo “é o 
resplendor da glória... do seu Ser” (Hb 1.3).
Ele é co-fundamental com Deus Pai. A divindade se sustenta em Cristo: 
“Porquanto, nele, habita, corporalmente, toda a plenitude da Divindade” 
(Cl 2.9). Ou seja, não somente Cristo estava com Deus antes do princípio, 
mas ele era Deus. João 1.1 e 1 Timóteo 3.16: “Foi manifestado na carne”. 
O título de Senhor, tão freqüentemente dado a Cristo, no Novo Testamento, 
corresponde ao título de Jeová, no Antigo Testamento (Dt 6.5; Mt 22.37).
Cristo tem coetemidade e co-substancialidade com seu Pai: “Eu e o 
Pai somos um” (Jo 10.30). Seria blasfêmia um anjo falar de tal modo.
Além de provarmos a divindade de Cristo, considere também:
i. Os gloriosos e incomunicáveis atributos de Deus Pai são atribuídos 
a Cristo - Deus Pai é onipotente? Também o é Jesus Cristo. Ele é Todo- 
poderoso (Ap 1.8) e criador (Cl 1.16). Deus Pai é infinitamente imenso, 
preenchendo todos os lugares (Jr 23.24)? Jesus Cristo também é. Enquanto 
Cristo estava sobre a terra, em presença corpórea, estava também, ao mesmo 
tempo, no seio do Pai, em presençadivina (Jo 3.13).
ii. As mesmas prerrogativas régias que pertencem a Deus Pai 
pertencem, também, a Cristo. Deus Pai determina absolvição? Esta é a 
parte mais nobre da coroa de Cristo: “Estão perdoados os teus pecados” 
(Mt 9.2). Cristo não somente perdoa o pecado como fazem os ministros59 
(por meio de um poder que lhes é delegado divinamente), ele o faz por seu 
próprio poder e por sua própria autoridade. É Deus o objeto adequado da 
fé? Deve-se crer nele? Da mesma m aneira com seu Filho (Jo 14.1). 
A adoração pertence a Deus Pai? Também pertence ao Filho. “E todos os 
anjos de Deus o adorem” (Hb 1.6). Quão sacrílegos, então, foram os 
socinianos, que tiraram de Cristo sua divindade, o mais fino adorno de sua 
coroa. Aqueles que negam que Cristo é Deus interpretam mal as Escrituras 
ou, então, pior que isso, negam que elas sejam a Palavra de Deus.
3. O ensino escriturístico da Trindade refuta os arianos,60 que negam a 
divindade do Espírito Santo. A divindade eterna se sustenta no Espírito 
Santo. “Ele vos guiará a toda a verdade” (Jo 16.13). Cristo não está falando 
de um atributo, mas de uma pessoa.
138 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
A Trindade 139
A divindade se sustenta na pessoa do Santo Espírito, e essa verdade se 
evidencia nisto: o Espírito, que distribui os diversos dons, chama-se o mesmo 
Senhor e o mesmo Deus (ICo 12.5,6). As Escrituras afirmam que o pior 
pecado e o pecado imperdoável é aquele cometido contra a divindade que 
existe no Espírito Santo (Mt 12.32). O enorme poder de Deus se manifesta 
pelo Espírito Santo, uma vez que é este que modifica os corações dos 
hom ens. O diabo queria que C risto provasse sua d ivindade pela 
transformação de pedras em pães, mas o Espírito Santo mostrou sua 
divindade ao transformar pedras em carne: “Tirarei de vós o coração de 
pedra e vos darei coração de carne” (Ez 36.26).
Mais ainda, o poder e a divindade do Espírito Santo apareceram ao se 
realizar a gloriosa concepção de nosso Senhor Jesus Cristo. A sombra real 
do Espírito Santo fez que uma virgem concebesse (Lc 1.35). O Espírito 
Santo opera milagres que transcendem a esfera da natureza, como erguer 
da morte (Rm 8.11). A ele pertence a adoração divina; nossas almas e nossos 
corpos são templos do Espírito Santo (1 Co 6.19,20), nos quais ele deve ser 
adorado. Somos batizados no nome do Espírito Santo, portanto, devemos 
crer em sua divindade ou renunciar ao batismo em seu nome. Penso que 
teria sido melhor para tais homens não terem ouvido tanto a respeito da 
existência do Espírito Santo (At 19.2), do que negar sua deidade. Aqueles 
que, intencional e prontamente, apagam a terceira pessoa terão seus nomes 
apagados do livro da vida.
Segunda aplicação: exortação.
1. Creia nesta doutrina da Trindade de pessoas em uma unidade de 
essência. A Trindade é simplesmente um objeto de fé; a linha de prumo 
da razão é muito curta para penetrar esse mistério; porém, onde a razão 
não pode atravessar a pé, a fé pode nadar. Há algumas verdades na religião 
que podem ser demonstradas pela razão (como a verdade que há um Deus), 
mas a Trindade de pessoas numa unidade de essência é completamente 
sobrenatural e deve ser aceita pela fé. Essa doutrina sagrada não vai de 
encontro à razão, mas coloca-se acima dela. Aqueles filósofos iluminados, 
que podiam encontrar as causas das coisas e discursar sobre a magnitude 
e a influência das estrelas, sobre a natureza dos minerais, não puderam 
jamais, nem por intermédio de suas buscas mais profundas, desvendar o 
mistério da Trindade. Ela é uma revelação divina e deve ser adorada com 
uma crença humilde.
Não podemos ser bons cristãos sem uma firme crença na Trindade. 
Como podemos orar a Deus Pai se não no nome de Cristo e pela ajuda do 
Espírito? Como crer na gloriosa Trindade? Como são abomináveis os Quakers 
que, usando o nome de cristãos, menosprezam e renunciam a Jesus Cristo.
Ouvi de alguns Quakers o seguinte: “Negamos a pessoa daquele a quem 
vocês chamam Cristo, e afirmamos que aqueles que esperam serem sal­
vos por tal Cristo, sem obras, serão condenados nessa fé”. Poderia o próprio 
diabo proferir blasfêmia pior? Eles arrancam toda a religião pela raiz e 
jogam fora a pedra de alicerce, sobre a qual se ergue a esperança de 
nossa salvação.
2. Se há um Deus subsistindo em três pessoas, então devemos dar a 
mesma reverência a todas as pessoas da Trindade. Não há mais ou menos 
na Trindade; o Pai não é mais Deus que o Filho ou que o Espírito Santo. 
Há uma ordem na divindade, mas não uma gradação; uma pessoa não detém 
a maioridade ou a supereminência sobre outra; portanto, devemos dar igual 
adoração a todas as pessoas. “A fim de que todos honrem o Filho do modo 
por que honram o Pai” (Jo 5.23). Adore a unidade na Trindade.
3. Obedeça a todas as pessoas na bendita Trindade, porque todas são 
Deus. Obedeça a Deus Pai. O próprio Cristo, enquanto homem, obedeceu 
a Deus Pai (Jo 4.34), e nós ainda mais devemos obedecer (Dt 27.10).
Obedeça a Deus Filho. “Beijai o Filho para que se não irrite” (SI 2.12). 
Beije-o com o beijo da obediência. Os mandamentos de Cristo não são 
penosos (1 Jo 5.3). Qualquer coisa que ele nos ordene é para nosso interesse 
e benefício. Então, beije o Filho. Por que os anciãos depositaram suas 
coroas aos pés de Cristo e se prostraram diante do Cordeiro (Ap 4.10,11)? 
Para testificar sua sujeição a Cristo e professar sua prontidão em servi-lo 
e obedecê-lo.
Obedeça a Deus Espírito Santo. Nossos espíritos são soprados para 
dentro de nós pelo glorioso Espírito. “O Espírito de Deus me fez” (Jó 33.4). 
Nossos espíritos são adornados pelo bendito Espírito. Toda a graça é uma 
centelha divina acesa no espírito pelo Espírito Santo. Mais ainda, o Espírito 
de Deus santificou a natureza humana de Cristo e a uniu à divina e qualificou 
o homem Cristo para ser nosso mediador. Bem, então, essa terceira pessoa 
na Trindade, o Espírito Santo, merece ser obedecida, porque ele é Deus e é 
digno desse tributo de reverência e obediência de nossa parte.
N. A CRIAÇÃO
PERGUNTA 7: Quais são os decretos de Deus?
RESPOSTA: Os decretos de Deus são seu propósito eterno, de acordo 
com o plano de sua vontade, por meio dos quais, para sua própria glória, 
ele preordenou todas as coisas que acontecerão.
Já falei alguma coisa a respeito dos decretos de Deus em minha 
exposição do atributo da imutabilidade de Deus. Ele é imutável em sua 
essência e é imutável em seus desígnios; seu plano permanecerá. Ele designa
140 A f é cristã — Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
o fim de todas as coisas e o executa por sua providência; devo, portanto, 
prosseguir na execução de seus desígnios.
PERGUNTA 9: A próxima pergunta é: Qual é a obra da criação?
RESPOSTA: É Deus criando todas as coisas a partir do nada, pela palavra 
de seu poder. Gênesis 1.1: “No princípio, criou Deus os céus e a terra”.
É glorioso contemplar a criação, além de ser um estudo agradável e 
proveitoso. Pensa-se que quando Isaque saiu ao campo para meditar foi 
para estar em contato com o livro da criação. A criação é a Bíblia do homem 
pagão, a cartilha do lavrador, os óculos de perspectiva do viajante, pelos 
quais ele vê uma representação das infinitas excelências que há em Deus. 
A criação é um grande volume, no qual as obras de Deus estão unidas. 
Nesse volume há três grandes folhas: céu, terra e mar.
O autor da criação é Deus, como está no texto: “Deus criou” . O mundo 
foi criado no tempo, e não podia ser desde a eternidade, como pensava 
Aristóteles. O mundo precisou de um construtor e não poderia ter feito a si 
mesmo. Se alguém for para um país distante e lá vir edifícios grandiosos, 
jamais irá imaginar que eles se construíram a si próprios, mas que houve 
um artífice que levantou tais estruturas tão vistosas. Do mesmo modo, este 
grande sistema que é o mundo não poderia criar a si mesmo, foi necessário 
um construtor, e este é Deus. “No início, Deus criou.” Imaginar que a obra 
da criação não foi moldadapelo Senhor Jeová é como se concebêssemos 
uma paisagem singular sendo desenhada sem a mão de um artista. “O Deus 
que fez o mundo e tudo o que nele existe” (At 17.24).
Na obra da criação há duas coisas a serem consideradas: 1. A feitura',
2. Os adornos.
1. A feitura do mundo
Aqui, vamos considerar:
a. Deus fe z o mundo sem nenhum material preexistente
Essa é a diferença entre geração e criação. Na geração há material 
adequado à disposição, ou seja, algum tipo de material para se trabalhar a 
partir dele; porém, na criação, não há material preexistente. Deus trouxe toda 
essa construção de mundo maravilhosa do ventre do nada. Nosso começo foi 
do nada. Alguns se orgulham de seu nascimento e de sua descendência; mas 
quão pouco eles têm para se jactar, os que vieram do nada.
h. Deus fe z o mundo com uma palavra
Quando Salomão construiu o templo, precisou de muitos trabalhadores 
e todos eles tinham ferramentas com que trabalhar. Porém, Deus lavrou
A criação 141
sem ferramentas. “Os céus por sua palavra se fizeram” (SI 33.6). Os 
discípulos se maravilharam de que Cristo pudesse acalmar o mar com uma 
palavra, mas foi necessária somente uma palavra para fazer o mar acalmar.
c. Deus fe z o mundo em perfeição
Ele fez todas as coisas muito boas (Gn 1.31), sem nenhum defeito ou 
deformidade. A criação emergiu das mãos de Deus como uma peça exata; 
estava passada a limpo, sem rasura, escrita pelos próprios dedos de Deus 
(SI 8.3). Sua obra foi perfeita.
2. O adorno do mundo
Deus fez essa grande massa compacta, sem forma ou ordem e, então, 
tomou-a bela. Ele dividiu o mar e a terra, cobriu a terra de flores, de árvores 
com frutos, mas o que é a beleza quando está encoberta? Portanto, para que 
pudéssemos contemplar essa glória, Deus fez a luz. Os céus resplandeceram 
com o Sol, com a Lua e com as estrelas. Dessa maneira, a beleza do mundo 
podia ser contemplada e admirada. Deus, na criação, começou com coisas 
menos nobres e excelentes, como rochas e vegetais; depois criou as criaturas 
racionais: os anjos e os homens.
O homem é a peça mais extraordinária da criação. Ele é um 
microcosmo, um mundo em miniatura. O homem foi feito com ponderação 
e com planejamento. Diz a Bíblia: “Façamos o homem” (Gn 1.26). E comum 
os artífices serem mais cuidadosos que o normal quando estão prestes a 
fazer sua obra-prima. O homem devia ser a obra-prima deste mundo visível, 
portanto, Deus se aconselhou sobre a feitura de peça tão incomum. Um 
conselho solene das pessoas sagradas da Trindade foi convocado: “Façamos 
o homem à nossa imagem”. Na moeda do rei é estampada sua própria 
imagem ou efígie; do mesmo modo, Deus estampou sua imagem no homem, 
e fez dele participante de muitas das qualidades divinas. Falarei um pouco 
sobre o corpo do homem e sobre a alma do homem.
a. As partes do corpo do homem
i. A cabeça, a parte arquitetonicam ente mais excelente. É a fonte 
das disposições e o lugar da razão. Na natureza a cabeça é a melhor parte, 
porém o coração a excede em graça.
ii. Os olhos são a beleza da face. Brilham e refulgem como um 
pequeno sol no corpo. Os olhos ocasionam muito pecado e, portanto, podem 
trazer lágrimas.
iii. O ouvido é o canal pelo qual o conhecim ento é transm itido .
É melhor perder nossa vista que nossa audição, porque a fé vem pelo ouvir 
(Rm 10.17,). Ter um ouvido aberto para Deus é a melhor jóia.
142 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
iv. A língua é a glória do homem. Davi chama a língua de sua glória 
(Sl 16.9), porque ela é um instrumento para declarar a glória de Deus. 
O espírito, no começo, era como uma harpa afinada para louvar a Deus e a 
língua fazia a melodia. Deus nos deu dois ouvidos, mas uma só língua, para 
nos mostrar que devemos ser prontos para ouvir, mas tardios para falar. 
Deus colocou uma cerca dupla diante da língua: os dentes e os lábios, para 
nos ensinar a ser cuidadosos em não ofender com nossa língua.
v. O coração é uma parte nobre e o órgão da vida
b. A alma do homem
Isto é o homem do homem. O homem, com relação à sua alma, tem 
parte com os anjos. Mais ainda, como diz Platão, o entendimento, a vontade 
e a consciência são um espelho que remete à Trindade. A alma é o diamante 
no anel, é um vaso de honra; o próprio Deus se serve desse vaso. E uma 
centelha do brilho celestial, diz Damasceno. Davi admirou a estrutura 
extraordinária e a feitura de seu corpo: “por modo assombrosamente 
maravilhoso me formaste... entretecido como nas profundezas da terra” 
(Sl 139.14,15). Se o porta-jóias foi tão maravilhosamente formado, o que 
dizer da jóia? Quão magnificamente foi entretecida a alma. Desta maneira 
se pode ver quão gloriosa é a obra da criação, especialmente o homem, que 
é a epitome do mundo.
3. Razões para a criação do mundo
Uma pergunta se toma pertinente aqui: Por que Deus fe z o mundo? 
Podemos responder negativamente e positivamente.
a. Negativamente
Ele não fez para si mesmo, pois sendo infinito, não precisava dele. 
Ele era feliz em cogitar sobre as próprias excelências e perfeições sublimes 
antes que o mundo existisse. Deus não criou o mundo para ser uma mansão 
em que residiria perpetuamente. O céu é sua morada (Jo 14.2). O mundo é 
somente um corredor para a eternidade; o mundo é para nós como o deserto 
para Israel, não um descanso, mas uma jornada para chegar a Canaã. 
O mundo é um camarim para adornar nossas almas, não um lugar onde 
ficaremos para sempre. O apóstolo nos fala sobre o funeral do mundo: 
“Os elementos se desfarão abrasados; também a terra e as obras que nela 
existem serão atingidas” (2Pe 3.10).
b. Positivamente
Deus fez o mundo para revelar a própria glória. O mundo é um espelho 
pelo qual podemos ver o poder e a bondade de Deus refletidos. “Os céus
A criação 143
proclamam a glória de Deus” (SI 19.1). O mundo é como uma curiosa 
peça de tapeçaria, na qual podemos ver a habilidade e a sabedoria daquele 
que a fez.
A p l i c a ç õ e s
Primeira aplicação: Deus criou o mundo? Então considere o seguinte:
1. Deus é o criador do mundo, isso deve nos convencer da realidade 
de sua divindade. Criar é próprio de um Deus (At 17.24). Platão se convenceu 
da existência de um Deus quando viu que nada no mundo poderia fazer 
uma mosca. Assim, Deus prova ser o verdadeiro Deus, distinguindo-se dos 
ídolos (Jr 10.11). Está escrito na língua dos caldeus: “Assim lhes direis: Os 
deuses que não fizeram os céus e a terra, e as nações não podem suportar a 
sua indignação”. Quem pode criar, senão Deus? A criação é suficiente para 
convencer o pagão de que há um Deus. Há dois livros pelos quais Deus 
julgará e condenará o idólatra, a saber, o livro da consciência - “mostram a 
norma da lei gravada no seu coração” (Rm 2.15) - e o livro da criação - 
“Porque os atributos invisíveis de Deus, assim o seu eterno poder, como 
também a sua própria divindade, claramente se reconhecem, desde o 
princípio do mundo, sendo percebidos por meio das coisas que foram 
criadas” (Rm 1.20). O mundo está cheio de emblemas e de hieróglifos. 
Toda estrela no céu e toda ave que voa nos ares são testemunhas contra o 
pagão. Uma criatura não pode criar a si mesma.
2. O fato de Deus criar é um poderoso pináculo da fé. Ele, que fez 
todas as coisas com uma palavra, o que não poderá fazer? Ele pode criar 
força na fraqueza; pode criar um suprimento para as nossas necessidades. 
Que questão louca foi aquela suscitada entre os israelitas no deserto: “Pode, 
acaso, Deus preparar-nos mesa no deserto?” (SI 78.19). Aquele que fez o 
mundo não pode fazer muito mais? “O nosso socorro está em o nome do 
S enhor, criador do céu e da terra” (SI 124.8). Espere por socorro nesse 
Deus, que fez o céu e a terra. Assim como a obra da criação é um monumento 
do poder de Deus, da mesma maneira é um suporte para a fé. Está o teu 
coração pesado? Ele pode, com uma palavra, criar leveza. Está sujo? Ele 
pode criar pureza. “Cria em mim, ó Deus, um coração puro” (SI 51.10). 
Está a igreja de Deus fraca? Ele pode criar alegriapara Jerusalém (Is 65.18). 
Não há pilar mais dourado para a fé do que se firmar sobre um poder criador.
3. Deus fez este mundo cheio de beleza e de glória, tudo muito bom? 
Então, que coisa nociva é o pecado, que colocou em desordem toda a criação. 
O pecado eclipsou a beleza, deixou amarga a doçura e arruinou a harmonia 
do mundo. Como esse fel é amargo, pois uma gota pôde tomar amargo um 
mar inteiro. O pecado trouxe tormento e tomou vão o mundo, sim, uma
144 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
maldição. Deus amaldiçoou a terra por causa do homem (Gn 3). Houve 
muitos frutos da maldição, veja alguns:
i. A fadiga no sustento. “Em fadigas obterás dela [da terra] o sustento” 
(v. 17). “Em fadigas” deve ser entendido em todos os problemas e cuidados 
desta vida.
ii. A pena no trabalho. “No suor do rosto comerás o teu pão” (v. 19). 
Na inocência, Adão cultivava a terra, pois não devia viver ociosamente; 
porém, era mais um prazer que um trabalho. Esse arado era sem labuta. 
O sustento com fadiga e o suor da fronte vieram após o pecado.
iii. A desordem na natureza. “Ela [a terra] produzirá também cardos e 
abrolhos” (v. 18). Durante o período da inocência a terra produzia cardos, 
qual motivo de após a queda serem considerados uma punição? E provável 
que a terra produzisse cardos, porque quando Deus terminou a criação não 
produziu outras espécies ou outros tipos de coisa. Porém, o significado é 
que, agora, depois do pecado, a terra produziria cardos de maneira mais 
abundante e, também, que eles seriam danosos e sufocariam o trigo, pois a 
qualidade de serem nocivos não estava neles antes. Desde a queda, todos 
os confortos desta vida têm um espinho e um cardo neles.
iv. A expulsão do paraíso. O quarto fruto da maldição foi a expulsão 
do homem do paraíso. “E, expulso o homem...” (v. 24). No princípio, Deus 
colocou o homem no paraíso como numa casa recém-decorada, como um 
rei em seu palácio. “Dominai sobre os peixes do mar, sobre as aves dos 
céus e sobre todo animal que rasteja pela terra” (Gn 1.28). O fato de Deus 
expulsar Adão do paraíso significou seu destronamento e o seu banimento 
significou que ele devia procurar um paraíso celestial e ainda melhor.
v. A maldição da morte. Um quinto fruto da maldição foi a morte. “Ao 
pó tomarás” (v. 19). A morte não era natural para Adão, mas veio após o 
pecado. Josefo61 é de opinião que o homem devia morrer, embora devesse 
ter um longo período de anos acrescentado à sua vida; porém , é 
inquestionável que a morte cresceu da raiz do pecado, como diz o apóstolo: 
“e pelo pecado, a morte” (Rm 5.12).
Portanto, veja que coisa amaldiçoada é o pecado, que trouxe tantas 
maldições sobre a criação. Se não odiarmos o pecado por sua deformidade, 
então odiemo-lo por causa das maldições que traz.
4. Deus fez este mundo glorioso? Ele fez tudo bom? Havia na criatura 
tanta beleza e doçura? Então, quanta doçura há em Deus? “A causa é sempre 
mais nobre que o efeito.” Pense por si só: há muita excelência em casa e em 
propriedades? Então, quanto mais há em Deus, que as fez. Há beleza numa 
rosa? Quanta beleza, então, há em Cristo, a Rosa de Sarom. O azeite dá 
brilho ao rosto? (Sl 104.15) Como, então, não deve brilhar o semblante
A criação 145
de Deus. O vinho alegra o coração? Quanta virtude há no verdadeiro vinho. 
O fruto do jardim é doce? Como são deliciosos os frutos do Espírito. Uma 
mina de ouro é preciosa? Quão precioso é aquele que fundou a mina. 
Quão precioso é Cristo, em quem estão escondidos todos os tesouros? 
(Cl 2.3). Deveríamos ascender da criatura para o Criador. Se há algum 
conforto aqui neste mundo, quanto mais há em Deus, que fez todas essas 
coisas. Como é irracional que tenhamos mais prazer no mundo que naquele 
que o fez. Os nossos corações deveriam estar assentados em Deus e 
deveríamos estar com ele, em quem há infinitamente mais doçura que em 
qualquer outra criatura!
Segunda aplicação: sobre a exortação.
1. Deus criou o mundo? Vamos, sabiamente, observar as obras da 
criação. Deus não nos deu somente o livro das Escrituras para ler, mas, 
também, o livro da criação. Olhe para cima, para os céus, porque eles 
mostram muito da glória de Deus. O Sol doura o mundo com seus raios 
brilhantes. Observe as estrelas, o movimento regular delas em suas órbitas, 
a magnitude, a luz e a influência. Podemos ver a glória de Deus brilhando 
no Sol e cintilando nas estrelas. Olhe para o mar, e veja as maravilhas de 
Deus na profundeza (SI 107.24). Olhe para o ar, onde os pássaros entoam 
melodias de louvor ao Criador. Olhe para a terra, onde podemos nos admirar 
com a natureza dos minerais, o poder da magnetita, a virtude das ervas. 
Veja a terra adornada com flores, como uma noiva. Todas essas coisas são 
efeitos gloriosos do poder de Deus. Ele bordou a criação com pontos 
singulares, de maneira que observemos sua sabedoria e sua bondade, e lhe 
rendamos o louvor que lhe é devido. “Que variedade, S hnhor, nas tuas 
obras! Todas com sabedoria as fizeste” (SI 104.24).
2. Deus criou todas as coisas? Vamos obedecer nosso Criador. Somos 
dele por direito de criação, pois devemos nossa existência a ele. Se alguém 
nos sustenta, sentimo-nos impelidos a servi-lo; muito mais deveríamos servir 
e obedecer a Deus, que nos dá vida. “Pois nele vivemos e nos movemos” 
(At 17.28). Deus fez as coisas para serviço do homem: o cereal para nutrição, 
os animais do campo para benefício, os pássaros para a música, o homem 
deveria estar a serviço de Deus. Os rios vêm do mar e tornam para ele. 
Tudo o que temos vem de Deus. Vamos honrar nosso Criador e viver para 
ele, que nos fez.
3. Deus fez nossos corpos do pó e o pó do nada? Vamos reprimir o 
orgulho. Quando Deus admoestou Adão, usou esta expressão: “pois dela [da 
terra] foste formado” (Gn 3.19). Por que és orgulhoso, tu que és pó e cinza? 
Foste formado de metal ordinário. “Uma vez que tu és humilde, por que não 
caminhas humildemente?” (Bernard). Davi escreveu: “por modo assombrosamente 
maravilhoso me formaste” (SI 139.14). Tu, que foste maravilhosamente
146 A f é cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
formado, deves ser grato; tendo sido feito do pó, deves te manter humilde. Se 
tu és belo, isso nada mais é que terra colorida. Teu corpo não é mais que ar e 
poeira misturados, e este pó voltará ao pó. Quando o Senhor disse que os 
juizes eram deuses (Sl 82.6), receando que se ensoberbecessem, disse-lhes 
que eram deuses mortais: “como homens, morrereis” (v. 7).
4. Deus criou nossas almas segundo sua imagem, mas a perdemos? 
Não vamos ter descanso enquanto não formos restaurados à imagem de 
Deus. Agora somos a imagem do diabo no orgulho, na malícia e na inveja. 
Vamos ter restaurada a imagem de Deus, que consiste no conhecimento e 
na retidão (Cl 3.10; Ef 4.24). A graça é nossa maior beleza, ela nos faz 
semelhantes a Deus e aos anjos. Como o Sol é para o mundo, assim é a 
santidade para a alma. Vamos a Deus para que ele repare sua imagem em 
nós. Senhor, tu que uma vez me fizeste, faz-me outra vez; o pecado tem 
desfigurado tua imagem em mim, então, Senhor, desenha-a novamente com 
a caneta do Santo Espírito.
O . A PROVIDÊNCIA DE D EUS
PERGUNTA 11: Quais são as obras da providência de Deus?
RESPOSTA: As obras da providência de Deus são seus atos 
máximos de santidade, de sabedoria e seu poder para governar suas 
criaturas e suas ações.
Cristo diz a respeito da obra da providência de Deus: “Meu Pai trabalha 
até agora, e eu trabalho também” (Jo 5.17). Deus descansou da obra da 
criação, não criou mais nenhuma espécie de coisas. “Descansou nesse dia 
de toda a sua obra que tinha feito” (Gn 2.2). Portanto, esse deve ser o 
significado das obras da providência: “Meu Pai trabalha e eu trabalho”. 
“O seu reino domina sobre tudo” (Sl 103.19); isto é, seu reino providencial. 
Para esclarecer esse ponto, é preciso primeiramente mostrar que há uma 
providência; em seguida definir o que seja essa providência; e depois, formular 
algunsconceitos ou proposições a respeito da providência de Deus.
1. A realidade da providência de Deus
Há uma providência. Não há o que se chama destino cego, mas há 
uma providência que guia e governa o mundo. “A sorte se lança no regaço, 
mas do S enhor procede toda decisão” (Pv 16.33).
2. A definição de providência de Deus
O que é essa providência? Minha resposta: a providência é a ordenação 
de Deus sobre todas as causas e conseqüências das coisas, segundo o 
conselho de sua vontade, para sua própria glória.
A providência de Deus 147
148 A fé cristã - Estudos baseados no Breve Catecismo de Westminster
a. A providência se distingue dos decretos de Deus
Chamo de providência a ordenação de Deus sobre as coisas para fazer 
distinção entre isso e seus decretos. Os decretos de Deus ordenam as coisas 
que acontecerão. A providência de Deus as determina.
b. A providência se conforma ao conselho de Deus
Chamo de providência a ordenação das coisas segundo o conselho da 
vontade de Deus.
c. A providência visa à glorificação de Deus
Deus comanda todos os eventos, segundo o conselho de sua vontade, 
para sua glória, que é o fim maior de todos os seus atos e o ponto em que 
todas as linhas de providência se encontram. A providência de Deus é Regina 
m u n d i- lla rainha e governante do mundo”; é o olho que vê, a mão que gira 
todas as engrenagens do universo. Deus não é como um artesão que constrói 
uma casa e, então, deixa-a; antes é como um piloto que conduz o navio de 
toda a criação.
3. O alcance da providência de Deus
Podemos apresentar a seguinte proposição acerca da providência de 
Deus: ela está presente em tudo na vida dos homens, isto é, todos os lugares, 
todas as pessoas e todos os acontecimentos.
a. A providência de Deus alcança todos os lugares
“Acaso sou Deus apenas de perto, diz o S enhor, e não também de 
longe?” (Jr 23.23). O alcance da providência de Deus é imenso, ela alcança 
o céu, a terra e o mar. “Os que, tomando navios, descem aos mares... esses 
vêem as obras do S enhor” (SI 107.23,24). Pois bem, que o mar, que é maior 
que a terra, não a inunde é uma maravilha da providência. O profeta Jonas 
viu as maravilhas de Deus nas profundezas, quando o grande peixe que o 
engoliu depois o deixou a salvo na praia.
b. A providência de Deus alcança todas as pessoas
Ela alcança especialmente as pessoas devotas que, de maneira espe­
cial, procuram conhecê-la. Deus tem cuidado de cada santo em particular, 
como se não houvesse mais ninguém de quem cuidar. “Porque ele tem 
cuidado de vós” (1 Pe 5.7), isto é, o eleito de maneira especial. “Eis que os 
olhos do S enhor estão sobre os que o temem, sobre os que esperam na sua 
misericórdia... e, no tempo da fome, conservar-lhes a vida” (SI 33.18,19). 
Deus, por seu providencial cuidado, defende seu povo dos perigos e coloca
anjos protetores ao seu redor (Sl 34.7). A providência de Deus preserva 
os ossos dos santos (Sl 34.20), recolhe no odre suas lágrimas (Sl 56.8), 
fortalece-os na sua fraqueza (Hb 11.34), e supre todas as suas necessidades 
(Sl 23.5). Assim, a providência supre maravilhosamente as necessidades 
dos eleitos.
Quando os protestantes em Rochelle foram sitiados pelo rei da França, 
Deus, por sua providência, mandou um grande número de pequenos peixes 
para alimentá-los, como nunca tinham visto antes naquele porto. Da 
mesma maneira o corvo, aquela criatura desnaturada (que dificilmente 
alimenta a própria prole), providencialmente trouxe sustento ao profeta 
Elias (lR s 17.6).
Veja o caso de Maria que, gerando e dando à luz ao Messias, ajudou a 
enriquecer o mundo, ainda que ela mesma fosse muito pobre. Um pouco 
depois de ter nascido o bebê, foi alertada pelo anjo para que fugisse para o 
Egito (Mt 2.13), no entanto, não tinha recursos suficientes para levar seus 
pertences àquela terra; porém, observe como Deus, antecipadamente, provê: 
em sua providência, ele envia os magos, desde o oriente, os quais levaram 
presentes caros, como o ouro, a mirra e o incenso, que presentearam Cristo. 
Assim, Maria teve o suficiente para custear suas despesas no Egito. Os 
filhos de Deus, às vezes, não sabem como são alimentados, sabem somente 
que a providência os alimentou. “Verdadeiramente serás alimentado” 
(Sl 37.3, RC). Se Deus vai dar um reino a seus filhos, quando morrerem, 
não lhes negará o pão de cada dia enquanto viverem.
c. A providência de Deus alcança todos os acontecimentos
Ou seja, ela alcança todos os negócios e ocorrências no mundo. Não 
há nada que se mova no mundo que Deus não tenha, por sua providência, 
ordenado. Há honra na exaltação do homem? (Sl 75.7). A um ele abate, a 
outro exalta. O sucesso e a vitória na batalha são resultados da providência. 
Saul tinha a vitória, mas Deus deu a salvação (ISm 11.13). O fato de que 
dentre todas as virgens trazidas à presença do rei só Ester tenha achado 
graça diante de seus olhos, não teria acontecido sem a providência especial 
de Deus. Por causa disso o Senhor salvou os judeus que estavam destinados 
à destruição. A providência atinge as mínimas coisas: dos pássaros às 
formigas. A providência alimenta os filhotes dos corvos, quando a mãe os 
abandona e não mais lhes providencia comida (Sl 147.9). A providência 
atinge até mesmo os cabelos de nossa cabeça. “Até os cabelos todos da 
cabeça estão contados” (Mt 10.30).
Certamente, a providência atinge todos os lugares, todas as pessoas, 
todas as ocorrências e todos os negócios.
A providência de Deus 149
4. Objeções à doutrina da providência de Deus
Há, porém, duas objeções contra essa doutrina:
a. As desordens do mundo contradizem a providência de Deus
A primeira objeção pode ser apresentada assim: Alguns dizem que há 
muitas coisas no mundo feitas de maneira desordenada ou irregular e que, 
com certeza, a providência de Deus não está nessas coisas.
Sim, as coisas que nos parecem irregulares Deus faz uso delas para a 
própria glória. Suponha que você esteja na oficina de um mecânico vendo 
os vários tipos de ferramentas, algumas torcidas, algumas curvas, outras 
em forma de gancho. Você reprovaria todas essas ferramentas por não 
parecerem bonitas? O mecânico usa todas elas para fazer seu trabalho. 
O mesmo acontece com as providências de Deus: elas nos parecem muito 
tortuosas e bastante estranhas, mas ainda assim levam avante a obra de 
Deus. Posso esclarecer isso com dois casos em particular:
i. A hum ildade e a aflição dos piedosos. Às vezes, o povo de Deus é 
humilde. Parece errado que aqueles que são os melhores estejam na condição 
mais humilde, mas há mais sabedoria nessa providência, como:
Em primeiro lugar, pense que talvez os corações dos piedosos se 
exaltem com as riquezas ou com o sucesso. Então, Deus envia uma 
providência humilhante para afligi-los e lapidá-los. Melhor é o prejuízo 
que os faz humildes do que o sucesso que os toma orgulhosos.
Também pense que se os piedosos não fossem, às vezes, afligidos, 
sofrendo um eclipse em seu aparente bem-estar, como suas virtudes 
poderiam ser vistas, especialmente a fé e a paciência? Se o Sol estivesse 
sempre brilhando, não veríamos as estrelas; da mesma maneira, se 
tivéssemos somente prosperidade, seria difícil perceber a fé do homem em 
ação. Dessa maneira, podemos ver que as providências de Deus são sábias 
e harmoniosas, embora, para nós, pareçam estranhas e tortuosas.
ii. A prosperidade e a segurança dos ímpios. Eis o outro caso: a 
prosperidade do ímpio. Isso parece muito errado. Porém, Deus, em sua 
providência, considera bom que, algumas vezes, os piores dos homens sejam 
exaltados e que eles façam uma parte da obra de Deus, embora ela seja 
oposta à vontade deles (Is 10.7). A vontade de Deus não depende de homem 
algum. Algumas vezes, ele usa o ímpio para proteger e defender sua igreja; 
e, outras vezes, para refiná-la e purificá-la. “[Tu] o fundaste para servir de 
disciplina” (Hc 1.12). Como disse o profeta: tu ordenaste o ímpio para 
corrigir teus filhos. Na verdade, como bem disse Agostinho: “Somos 
devedores aos ímpios,

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