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Mecanismos de ação tóxica Identificação do perigo Relação dose-resposta em Toxicologia Toxicidade aguda, subcrônica e crônica Demais testes de toxicidade Avaliação da exposição Valores de NOAEL e NOEL Caracterização do risco Aula 02 2021/1 1- Ação direta sobre o tecido →Lesão celular Ex.: etanol (cirrose hepática) 2- Ação indireta sobre o tecido → Interferência com sistemas enzimáticos → Interferência com o DNA/RNA; Ex.: citostáticos → Interferência com as funções gerais da célula. Ex.: dr. abuso → Interferência na secreção de bile; Ex.: MDMA → Desacoplamento de reações metabólicas; Ex.: AAS → Hipersensibilidade; Ex.: Halotano → Bloqueio do transporte de oxigênio; Ex.: CO → Interferência na neurotransmissão; Ex.: drogas de abuso → Outros Principais mecanismos de ação tóxica Classificação dos Efeitos tóxicos Podem ser imediatos, crônicos ou retardados Podem ser reversíveis ou irreversíveis Podem ser locais ou sistêmicos Exposição aguda Efeitos aparecem até 24h Ex.: envenenamento por cianetos Exposição crônica (pequenas doses, por meses ou anos) Ex.: tabaco Ocorrem após período de latência Ex.:carcinogênicos (latência 20-30 anos) Depende das características químicas do toxicante e da capacidade do tecido lesado em se recuperar. Ex.: lesões hepáticas são geralmente reversíveis → tecido com grande capacidade de regeneração lesões no SNC são geralmente irreversíveis → células nervosas são pouco renovadas. Avaliação do risco - etapas Avaliação do risco: estudo qualitativo e quantitativo de um produto tóxico com a finalidade de se estabelecer o grau de segurança para as diferentes espécies e para o meio ambiente; são considerados a concentração e as condições de exposição O processo de avaliação do risco envolve: 1) Identificação do perigo 2) Avaliação da relação dose-resposta 3) Avaliação da exposição Risco = Toxicidade x Exposição Identificação do perigo Identificação do Perigo: reconhecimento do potencial tóxico de uma substância a partir de dados sobre toxicidade aguda e crônica, animal e humana, e também de situações e estados de um sistema que possam levar a um evento indesejável. Exemplos: - Uso de substâncias tóxicas no ambiente de trabalho; - Exposição do ambiente a poluentes orgânicos persistentes; - Uso de medicamentos com baixo índice terapêutico. Avaliação da Relação dose-resposta Avaliação da relação dose- resposta: estudos em animais de experimentação para se estimar a frequência de distribuição de resposta tóxica em uma população. - Cumulativa: doses crescentes e sucessivas do toxicante - Não cumulativa: dose única do toxicante Toxicante B Toxicante A Dose (mg/kg) Inclinação da curva: Determina o risco de resposta toxicológica Quanto maior a inclinação, maior o risco de resposta tóxica após exposição a doses crescentes do toxicante. Avaliação da Relação dose-resposta DL50: dose necessária para causar a morte de 50% da população de estudo Mas não podemos nos esquecer de fatores como o tempo de exposição, pp dos toxicantes, fatores relacionados ao organismo, à exposição e ao meio ambiente!!! Dependendo das condições de uso, uma substância classificada como muito tóxica (elevada toxicidade intrínseca) pode ser menos “perigosa” do que uma pouco tóxica. 1) DL50 do agente tóxico: Composto muito tóxico causa dano em quantidades muito pequenas. Composto pouco tóxico causa dano em quantidades maiores. Fatores que determinam o risco de intoxicação Limitação da classificação acima: se baseia apenas na toxicidade intrínseca da substância que é um parâmetro extremamente variável, sendo influenciado por uma série de fatores, relacionados principalmente ao agente químico, organismo e à exposição. 2) Tempo de exposição: Exposição Aguda x Crônica 3) Propriedades do agente tóxico - Propriedade físico-químicas - - Impurezas e contaminantes; - Fatores envolvidos na formulação (veículo, adjuvantes). 4) Fatores relacionados ao organismo - Espécie, linhagem, fatores genéticos; - Fatores imunológicos, estado nutricional, dieta; - Sexo, estado hormonal, idade, peso corpóreo; - Estado emocional, estado patológico. 5) Fatores relacionados à exposição Via de introdução, dose ou concentração e frequência. 6) Fatores relacionados ao meio ambiente Temperatura, pressão, radiações, luz, umidade, etc. 7) Inclinação da curva (toxicidade aguda) Fatores que determinam o risco de intoxicação Exemplo de exposição crônica a toxicante: mercúrio utilizado na mineração Toxicante B Toxicante A Dose (mg/kg) Considere as curvas ao lado, correspondentes à relação dose- resposta de dois compostos distintos (toxicantes A e B): 1) Qual apresenta a maior DL50? 2) Qual o risco de morte após exposição a 5 mg/kg de A e de B? 3) Qual o risco de morte após exposição a 10 mg/kg de A e de B? 4) Qual o risco de morte após exposição da 15 mg/kg de A e de B? Avaliação da Relação dose-resposta Importância da inclinação da curva Toxicante B Toxicante A Toxicante B Toxicante A E s c a la l o g a rí tm ic a Dados plotados em escala Log: obtenção de retas (mais fáceis de trabalhar) Avaliação da Relação dose-resposta Índice terapêutico: qual a distância entre a DE50 e a DL50? Quanto maior o índice terapêutico, maior a segurança de um composto utilizado como medicamento. Avaliação da Relação dose-resposta Toxicidade de Fármacos **DE50: dose que induz o efeito terapêutico em 50% da população de estudo Margem de segurança: doses que induzem efeito terapêutico em 99% da população de estudo causam toxicidade? Quanto maior a margem de segurança, maior a segurança do fármaco. Margem de Segurança: ED99 LD1 = 180 200 = 0,9 Avaliação da Relação dose-resposta Toxicidade de Fármacos Avaliação da Relação dose-resposta Toxicidade de fármacos: outros parâmetros importantes NOAEL (No Observed Adverse Effect Level): dose do fármaco ou do toxicante na qual são observados efeitos benéficos, mas não são observados efeitos adversos. LOAEL (Lowest Observed Adverse Effect Level): a menor concentração do toxicante capaz de induzir um efeito adverso. NOEL (No Observed Effect Level): dose máxima antes que apareça qualquer efeito benéfico de um fármaco. Avaliação da Relação dose-resposta Os estudos dose-resposta de um medicamento X mostraram os seguintes resultados: Pergunta-se: quais os valores de NOAEL, LOAEL e NOEL? Grupo Efeito terapêutico Efeitos adversos (I) Controle -------- -------- (II) 5 mg/kg/dia -------- -------- (III) 10 mg/kg/dia + -------- (IV) (20 mg/kg/dia) ++ + (V) (30 mg/kg/dia) +++ ++ (VI) (40 mg/kg/dia) ++ +++ NOAEL (No Observed Adverse Effect Level): dose do fármaco ou do toxicante na qual são observados efeitos benéficos, mas não são observados efeitos adversos. LOAEL (Lowest Observed Adverse Effect Level): a menor concentração do toxicante capaz de induzir um efeito adverso. NOEL (No Observed Effect Level): dose máxima antes que apareça qualquer efeito benéfico de um fármaco. Testes de Toxicidade Toxicidade Aguda Exame anato-patológico (aspectos macro e microscópico) Peso dos orgãos Exames fisiológicos Exames bioquímicos Estudos do comportamento Efeito sobre a fertilidade e feto DE50 e DL50 2 ou 3 espécies Doses únicas e crescentes do toxicante Até 24 horas Objetivos: Avaliar a toxicidade intrínseca (DL50) Determinar o NOEL, NOAEL e LOAEL Avaliar a suscetibilidade das espécies Identificar órgãos alvo Promover informações para o delineamento e seleção dos níveis de dose para estudo mais prolongados (toxicidade subcrônica e crônica) Controle (veículo) OU ... Animais de procedência 5 de cada sexo Veículo/via 3 a 5 doses simples Sacrif. animais: 12h a 14d após Exame clínico Sobreviventes: sacrifício Toxicidade Sub-Crônica Exame anato-patológico (aspectos macro e microscópico) Peso dos orgãos Crescimento do animalExames fisiológicos Exames bioquímicos Estudos do comportamento Efeito sobre a fertilidade e feto No mínimo 3 doses, sendo que a dose máxima não pode ultrapassar a DL10 1 a 3 meses Objetivos: Confirmar o NOEL, NOAEL e LOAEL Estudar mais efetivamente órgãos alvos e determinar aqueles com mais suscetibilidade. Prover dados sobre dosagens seletivas para estudo de toxicidade crônica. Controle (veículo) OU ... 10 de cada sexo Uma espécie não roedora Adm inicia após desmame 3 doses baixas mas com ef tóxico Acompanhamento diário Exames: inclui hemat e urina Sacrif. animais: 1 a 3 meses após Exame clínico Sobreviventes: sacrifício Toxicidade Crônica Exame anato-patológico (aspectos macro e microscópico) Peso dos orgãos Crescimento do animal Exames fisiológicos Exames bioquímicos Estudos do comportamento Efeito sobre a fertilidade e feto No mínimo 3 doses, sendo que a dose máxima não pode ultrapassar a DL10 2 anos ou toda a vida do animal Objetivos: Verificar níveis máximos de dose das substâncias que não produzem efeitos discerníveis de doença quando administrados durante a maior parte da vida do animal. Verificar os efeitos tóxicos que não são resultados dos estudos de toxicidade sub-crônica Procura-se determinar o mecanismo de ação tóxica das substâncias químicas. Controle (veículo) OU ... 10 de cada sexo 2 espécies, uma não roedora Quanrentena – est geral Adm inicia após desmame 3 doses baixas Acompanhamento diário Exames: inclui hemat e urina Sacrif. animais: 1 a 3 meses após Exame clínico Sobreviventes: sacrifício Teste de Carcinogenicidade 50 animais da mesma espécie - Necropsia completa - Testes que detectam lesão do DNA - Testes que evidenciam alterações dos produtos gênicos ou das funções celulares - Testes que avaliam alterações cromossômicas. No mínimo 2 doses, sendo a maior a DMT (dose máxima tolerada) e a menor, metade da DMT Aproximadamente 120 dias Objetivos: Determinar o potencial carcinogênico de um composto químico; Determinar os mecanismos de ação envolvidos Classificar o composto em toxicante de ação genômica ou não-genômica Controle (veículo) OU ... ***DMT: não provoca perda de mais de 10% do peso e não induz a morte ou a intoxicação Teste de Mutagenicidade Bactérias (testes in vitro) No mínimo 3 concentrações Avaliação de mutações no material genético dos microrganismos (teste de Ames) No mínimo 3 concentrações Retirada da medula óssea do fêmur para a observação das alterações cromossômicas Animais de experimentação Controle OU ... Controle (veículo) OU ... Teste de Mutagenicidade Bactérias (testes in vitro) No mínimo 3 concentrações Avaliação de mutações no material genético dos microrganismos (teste de Ames) No mínimo 3 concentrações Retirada da medula óssea do fêmur para a observação das alterações cromossômicas Animais de experimentação Controle OU ... Controle (veículo) OU ... Teste de Mutagenicidade Teste de Ames Realizado em linhagens de Salmonella typhymurium com mutações pré-existentes no operon do gene histidina que deixam a bactéria auxotrófica, isto é, incapaz de sintetizar histidina. Se houver reversão para a prototrofia para a histidina frente à exposição de uma substância, a mesma tem potencial mutagênico. Testes de fertilidade e de teratogenicidade Animais machos e fêmeas (3 espécies) No mínimo 3 concentrações Testes sobre fertilidade e desempenho reprodutivo (machos e fêmeas) Animais prenhes No mínimo 3 concentrações Retirada dos fetos ou filhotes Alterações na organogênese Desenvolvimento peri e pós- natal Controle (veículo) OU ... Controle (veículo) OU ... Outros testes Toxicocinética aguda Irritação ocular aguda (doses simples) Irritação primária de pele (doses simples) Irritação primária de pele (doses repetidas) Sensibilização cutânea Fotossensibilização cutânea Leitura: Manual de ensaios toxicológicos in vivo Alba Souza Brito Editora da Unicamp Avaliação da exposição Exposição: contato que um organismo tem ao(s) toxicante(s) durante determinado período de tempo. A avaliação da exposição envolve a determinação ou estimativa da magnitude, da frequência, da duração, da quantidade de indivíduos exposto e a identificação das vias de exposição. Uma das etapas é a identificação/quantificação de biomarcadores no sangue ou em outros fluidos, utilizando diferentes métodos analíticos (cromatografia, espectrofotometria etc.). Biomarcador: é um indicador da intoxicação. Ex.: atividade da colinesterase x organofosforados Ácido hipúrico x tolueno QUALIDADE EM ANÁLISES TOXICOLÓGICAS Validação do método analítico em Toxicologia - Parâmetros: 1) Linearidade: resultados são proporcionais à concentração do toxicante/do biomarcador? 2) Sensibilidade: o método distingue duas concentrações próximas? 3) Especificidade: somente o analito de interesse é reconhecido? 4) Limite de detecção/de quantificação: qual a mínima concentração do toxicante/do biomarcador capaz de ser detectada? 5) Precisão: se forem realizadas várias medidas em uma mesma amostra, os resultados são próximos? 6) Exatidão: o valor detectado na amostra é próximo do valor real? 7) Robustez: se as condições ambientais/operacionais sofrerem pequenas oscilações, os resultados são mantidos? 8) Abrangência: com um mesmo método, eu consigo identificar um grupo de toxicantes? EXERCÍCIOS Drogas lícitas são substâncias que têm tanto sua produção quanto seu uso permitidos por lei, sendo liberadas para comercialização. Dois exemplos são as bebidas alcoólicas e o cigarro. Considerando as DL50 dessas drogas, obtidas experimentalmente pela administração oral em ratos machos, pode-se inferir que o hábito de fumar é mais nocivo do que o hábito de beber? Por quê? Dados: DL50 do etanol: 7000 mg/kg; DL50 da nicotina: 60 mg/kg. a) Sim, porque a DL50 do etanol é maior do que a da nicotina, dado derivado estatisticamente a partir da administração da substância química que produz letalidade. b) Sim, porque a DL50 da nicotina é menor do que a do etanol. Assim, é necessária uma dose muito menor de nicotina do que de etanol para levar a óbito 50% dos animais testados. c) Sim, porque a DL50 define valores de toxicidade aguda. São valores obtidos a partir da administração única de uma substância química capaz de causar a morte de 50% dos animais expostos, entretanto também podem ser utilizadas como índice de risco para o uso crônico dessas substâncias. d) Não, porque a DL50 define valores de toxicidade aguda. São valores obtidos a partir da administração única de uma substância química capaz de causar a morte de 50% dos animais expostos, portanto não podem ser utilizadas como índice de risco para o uso crônico dessas substâncias. EXERCÍCIOS Você realizou o teste de Ames para determinar o potencial mutagênico da nicotina e do alcatrão. Para isso, você semeou uma mesma quantidade de bactérias Salmonella typhymurium utilizada para esse fim em cinco placas contendo meio carente em histidina. Em seguida, adicionou as substâncias a serem testadas, no meio da placa. Após dois dias, foram observados os seguintes resultados: Placa Substância adicionada Crescimento de colônias de bactérias 1 água -------- 2 nicotina -------- 3 alcatrão ++ 4 histidina ++ De acordo com os resultados, a(s) substância(s) com potencial mutagênico é/são: a) água e nicotina b) nicotina c) nicotina e alcatrão d) alcatrão e histidina e) alcatrão