Prévia do material em texto
MANUAL DO CURSO DE LICENCIATURA EM ENSINO DE GEOGRAFIA 1º Ano Disciplina: PENSAMENTO GEOGRÁFICO Código: Total Horas/1o Semestre: Créditos (SNATCA): Número de Temas: 4 INSTITUTO SUPER INSTITUTO SUPERIOR DE CIÊNCIAS E EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA - ISCED ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico i Direitos de autor (copyright) Este manual é propriedade do Instituto Superior de Ciências e Educação a Distância (ISCED), e contém reservados todos os direitos. É proibida a duplicação ou reprodução parcial ou total deste manual, sob quaisquer formas ou por quaisquer meios (eletrónicos, mecânico, gravação, fotocópia ou outros), sem permissão expressa de entidade editora (Instituto Superior de Ciências e Educação a Distância (ISCED). A não observância do acima estipulado o infrator é passível a aplicação de processos judiciais em vigor no País. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico ii Instituto Superior de Ciências e Educação a Distância (ISCED) Direcção Académica Rua Dr. Almeida Lacerda, No 212 Ponta - Gêa Beira - Moçambique Telefone: +258 23 323501 Cel: +258 82 3055839 Fax: 23323501 E-mail: isced@isced.ac.mz Website: www.isced.ac.mz Agradecimentos O Instituto Superior de Ciências e Educação a Distância (ISCED) e o autor do presente manual agradecem a colaboração dos seguintes indivíduos e instituições na elaboração deste manual: Pela Coordenação Pelo design Direção Académica do ISCED Direção de Qualidade e Avaliação do ISCED Financiamento e Logística Pela Revisão Instituto Africano de Promoção da Educação a Distancia (IAPED) Sualé Amade, Mestre em Gestão Ambiental Elaborado Por: António dos Anjos Luís, Mestrado em Ciência e Sistemas de Informação Geográfica ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico iii Índice Visão geral 1 Bem-vindo à Disciplina de Pensamento Geográfico ......................................................... 1 Objetivos do Módulo ........................................................................................................ 1 Quem deveria estudar este módulo ................................................................................. 1 Como está estruturado este módulo ................................................................................ 1 Ícones de actividade ......................................................................................................... 3 Habilidades de estudo ...................................................................................................... 3 Precisa de apoio? .............................................................................................................. 5 Tarefas (avaliação e auto-avaliação) ................................................................................ 5 Avaliação ........................................................................................................................... 6 TEMA – I: O SABER GEOGRÁFICO. 9 UNIDADE Temática 1.1. A curiosidade do homem e a sua aventura na Terra ................. 9 Introdução ......................................................................................................................... 9 Sumário ........................................................................................................................... 15 Auto-avaliação ................................................................................................................ 15 Avaliação ......................................................................................................................... 16 REFERÊCIAS BIBLIOGRÁFICAS ......................................................................................... 17 TEMA – II: O EVOLUÇÃO DO PENSAMENTO GEOGRÁFICO. 18 Unidade Temática 2.1. A Geografia na Antiguidade ...................................................... 18 Introdução ....................................................................................................................... 18 Sumário ........................................................................................................................... 26 Autoavaliação ................................................................................................................. 27 Avaliação ......................................................................................................................... 28 Referencias Bibliográficas ............................................................................................... 29 UNIDADE Temática 2.2. A Geografia na idade Média .................................................... 29 Introdução ....................................................................................................................... 29 Sumário ........................................................................................................................... 35 Autoavaliação ................................................................................................................. 35 Referencias Bibliograficas ............................................................................................... 35 UNIDADE Temática 2.3. A Geografia na era dos Descobrimentos ................................. 36 Introdução ....................................................................................................................... 36 Sumário ........................................................................................................................... 43 Autoavaliação ................................................................................................................. 44 Avaliação ......................................................................................................................... 45 Referencias Bibliográficas ............................................................................................... 45 UNIDADE Temática 2.4. A Institucionalização da geografia ........................................... 46 Introdução ....................................................................................................................... 46 Sumário ........................................................................................................................... 51 Auto-avaliação ................................................................................................................ 51 ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico iv Avaliação ......................................................................................................................... 52 Referencias Bibliográficas ............................................................................................... 53 Sumário ........................................................................................................................... 59 Exercícios de AUTO-AVAL Avaliação ............................................................................... 60 Referencias Bibliográficas Referências Bibliográficas ..................................................... 61 TEMA – III: OUTRAS CONTRIBUICOES GEOGRÁFICAS. 62 Unidade Temática 3.1. Geografia Ratzeliana e o seucontexto ...................................... 62 Introdução ....................................................................................................................... 62 Sumário ........................................................................................................................... 69 Auto-avaliação ................................................................................................................ 69 Avaliação ......................................................................................................................... 70 Referências Bibliográficas ............................................................................................... 71 UNIDADE Temática 3.2. A Geografia Vidaliana e o seu contexto ................................... 72 Introdução ....................................................................................................................... 72 Sumário ........................................................................................................................... 78 Autoavaliação ................................................................................................................. 79 Avaliação ......................................................................................................................... 80 Referências Bibliográficas ............................................................................................... 81 UNIDADE Temática 3.3. A abordagem regional vidaliana .............................................. 81 Introdução ....................................................................................................................... 81 Sumário ........................................................................................................................... 89 Autoavaliação ................................................................................................................. 90 Avaliação ......................................................................................................................... 91 Referências Bibliográficas ............................................................................................... 91 UNIDADE Temática 3.4. Os movimentos de renovação ................................................. 92 Introdução ....................................................................................................................... 92 Sumário ........................................................................................................................... 97 Autoavaliação ................................................................................................................. 97 Avaliação ......................................................................................................................... 98 Referências Bibliográficas ............................................................................................... 99 TEMA – IV: GEOGRAFIA COMO CIENCIA. 100 UNIDADE Temática 4.1. Geografia como Ciência ......................................................... 100 Introdução ..................................................................................................................... 100 Sumário ......................................................................................................................... 113 Autoavaliação ............................................................................................................... 113 Avaliação ....................................................................................................................... 114 Referências Bibliográficas ............................................................................................. 115 ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 1 Visão geral Bem-vindo à Disciplina de Pensamento Geográfico Objetivos do Módulo O objetivo geral da disciplina visa fazer compreender o aluno a evolução histórica do pensamento geográfico, seus principais autores e a sistematização desse conhecimento numa área específica do saber científico Objectivos Específicos Analisar as atuais perspetivas da ciência geográfica, enfatizando os movimentos de renovação do pensamento geográfico Conhecer as diferentes escolas da Geografia Conhecer os fundamentos da geografia quantitativa e qualitativa Quem deveria estudar este módulo Este Módulo foi concebido para estudantes do 1º ano do curso de Ensino em Geografia do ISCED bem como para todos os leitores que desejam atualizar e consolidar seus conhecimentos nessa disciplina, adquirindo o manual sem ter que se inscrever na disciplina. Como está estruturado este módulo Este módulo de Pensamento Geográfico, para estudantes do 1º ano do curso de licenciatura em Ensino de Geografia, à semelhança dos restantes do ISCED, está estruturado como se segue: Páginas introdutórias Um índice completo. Uma visão geral detalhada dos conteúdos do módulo, resumindo os aspetos-chave que você precisa conhecer para melhor estudar. Recomendamos vivamente que leia esta secção com atenção antes de começar o seu estudo, como componente de habilidades de estudos. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 2 Conteúdo desta Disciplina / Módulo Este módulo está estruturado em Temas. Cada tema, por sua vez comporta certo número de unidades temáticas ou simplesmente unidades, Cada unidade temática se caracteriza por conter uma introdução, objectivos, conteúdos. No final de cada unidade temática ou do próprio tema, são incorporados antes o sumário, exercícios de autoavaliação, só depois é que aparecem os exercícios de avaliação. Os exercícios de avaliação têm as seguintes características: Puros exercícios teóricos/Práticos, Problemas não resolvidos e atividades práticas algumas incluindo estudo de caso. Outros recursos A equipa dos académicos e pedagogos do ISCED, pensando em si, num cantinho, recôndito deste nosso vasto Moçambique e cheio de dúvidas e limitações no seu processo de aprendizagem, apresenta uma lista de recursos didáticos adicionais ao seu módulo para você explorar. Para tal o ISCED disponibiliza na biblioteca do seu centro de recursos mais material de estudos relacionado com o seu curso como: Livros e/ou módulos, CD, CD-ROOM, DVD. Para além deste material físico ou eletrónico disponível na biblioteca, pode ter acesso a Plataforma digital moodle para alargar mais ainda as possibilidades dos seus estudos. Autoavaliação e Tarefas de avaliação Tarefas de auto-avaliação para este módulo encontram-se no final de cada unidade temática. As tarefas dos exercícios de auto - avaliação apresentam exercícios resolvidos com detalhes (orientação das paginas e ou do paragrafo) Comentários e sugestões Este e o principal documento da disciplina. Contudo para cada tema recomenda-se que os estudantes usem outras fontes nomeadamente as que aparecem na lista bibliográfica de cada unidade temática ou mesmo através da pesquisa na internet. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 3 Ícones de actividade Ao longo deste manual irá encontrar uma série de ícones nas margens das folhas. Estes ícones servem para identificar diferentes partes do processo de aprendizagem. Podem indicar uma parcela específica de texto, uma nova actividade ou tarefa, uma mudança de actividade, etc. Habilidades de estudo O principal objetivo deste campo é o de ensinar aprender a aprender. Aprender aprende-se. Durante a formação e desenvolvimento de competências, para facilitar a aprendizagem e alcançarmelhores resultados, implicará empenho, dedicação e disciplina no estudo. Isto é, os bons resultados apenas se conseguem com estratégias eficientes e eficazes. Por isso é importante saber como, onde e quando estudar. Apresentamos algumas sugestões com as quais esperamos que caro estudante possa rentabilizar o tempo dedicado aos estudos, procedendo como se segue: 1º Praticar a leitura. Aprender a Distância exige alto domínio de leitura. 2º Fazer leitura diagonal aos conteúdos (leitura corrida). 3º Voltar a fazer leitura, desta vez para a compreensão e assimilação crítica dos conteúdos (ESTUDAR). 4º Fazer seminário (debate em grupos), para comprovar se a sua aprendizagem confere ou não com a dos colegas e com o padrão. 5º Fazer TC (Trabalho de Campo), algumas atividades práticas ou as de estudo de caso se existirem. IMPORTANTE: Em observância ao triângulo modo-espaço-tempo, respectivamente como, onde e quando... Estudar, como foi referido no início deste item, antes de organizar os seus momentos de estudo reflicta sobre o ambiente de estudo que seria ideal para si: Estudo melhor em casa/biblioteca/café/outro lugar? Estudo melhor à noite/de manhã/de tarde/fins-de-semana/ao longo da semana? Estudo melhor com música/num sítio sossegado/num sítio barulhento!? Preciso de intervalo em cada 30 minutos, em cada hora, etc. É impossível estudar numa noite tudo o que devia ter sido estudado durante um determinado período de tempo; Deve estudar cada ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 4 ponto da matéria em profundidade e passar só ao seguinte quando achar que já domina bem o anterior. Privilegia-se saber bem (com profundidade) o pouco que puder ler e estudar, que saber tudo superficialmente! Mas a melhor opção é juntar o útil ao agradável: Saber com profundidade todos conteúdos de cada tema, no módulo. Dica importante: não recomendamos estudar seguidamente por tempo superior a uma hora. Estudar por tempo de uma hora intercalado por 10 (dez) a 15 (quinze) minutos de descanso (chama- se descanso à mudança de actividades). Ou seja que durante o intervalo não se continuar a tratar dos mesmos assuntos das actividades obrigatórias. Uma longa exposição aos estudos ou ao trabalho intelectual obrigatório, pode conduzir ao efeito contrário: baixar o rendimento da aprendizagem. Por que o estudante acumula um elevado volume de trabalho, em termos de estudos, em pouco tempo, criando interferência entre os conhecimentos, perde sequência lógica, por fim ao perceber que estuda tanto mas não aprende, cai em insegurança, depressão e desespero, por se achar injustamente incapaz! Não estude na última da hora; quando se trate de fazer alguma avaliação. Aprenda a ser estudante de facto (aquele que estuda sistematicamente), não estudar apenas para responder a questões de alguma avaliação, mas sim estude para a vida, sobre tudo, estude pensando na sua utilidade como futuro profissional, na área em que está a se formar. Organize na sua agenda um horário onde define a que horas e que matérias deve estudar durante a semana; Face ao tempo livre que resta, deve decidir como o utilizar produtivamente, decidindo quanto tempo será dedicado ao estudo e a outras actividades. É importante identificar as ideias principais de um texto, pois será uma necessidade para o estudo das diversas matérias que compõem o curso: A colocação de notas nas margens pode ajudar a estruturar a matéria de modo que seja mais fácil identificar as partes que está a estudar e pode escrever conclusões, exemplos, vantagens, definições, datas, nomes, pode também utilizar a margem para colocar comentários seus relacionados com o que está a ler; a melhor altura para sublinhar é imediatamente a seguir à compreensão do texto e não depois de uma primeira leitura; Utilizar o dicionário sempre que surja um conceito cujo significado não conhece ou não lhe é familiar; ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 5 Precisa de apoio? Caro estudante, temos a certeza que por uma ou por outra razão, o material de estudos impresso, lhe pode suscitar algumas dúvidas como falta de clareza, alguns erros de concordância, prováveis erros ortográficos, falta de clareza, fraca visibilidade, página trocada ou invertidas, etc). Nestes casos, contacte os serviços de atendimento e apoio ao estudante do seu Centro de Recursos (CR), via telefone, SMS, E-mail, se tiver tempo, escreva mesmo uma carta participando a preocupação. Uma das atribuições dos Gestores dos CR e seus assistentes (Pedagógico e Administrativo) é a de monitorar e garantir a sua aprendizagem com qualidade e sucesso. Dai a relevância da comunicação no Ensino a Distância (EAD), onde o recurso as TIC se torna incontornável: entre estudantes, estudante – Tutor, estudante – CR, etc. As sessões presenciais são um momento em que você caro estudante, tem a oportunidade de interagir fisicamente com staff do seu CR, com tutores ou com parte da equipa central do ISCED indicada para acompanhar as sua sessões presenciais. Neste período pode apresentar dúvidas, tratar assuntos de natureza pedagógica e/ou administrativa. O estudo em grupo, que está estimado para ocupar cerca de 30% do tempo de estudos a distância, é muita importância, na medida em que permite-lhe situar, em termos do grau de aprendizagem com relação aos outros colegas. Desta maneira ficará a saber se precisa de apoio ou precisa de apoiar aos colegas. Desenvolver hábito de debater assuntos relacionados com os conteúdos programáticos, constantes nos diferentes temas e unidade temática, no módulo. Tarefas (avaliação e auto-avaliação) O estudante deve realizar todas as tarefas (exercícios, actividades e autoavaliação), contudo nem todas deverão ser entregues, mas é importante que sejam realizadas. As tarefas devem ser entregues duas semanas antes das sessões presenciais seguintes. Para cada tarefa serão estabelecidos prazos de entrega, e o não cumprimento dos prazos de entrega, implica a não classificação do estudante. Tenha sempre presente que a nota dos trabalhos de campo conta e é decisiva para ser admitido ao exame final da disciplina/módulo. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 6 Os trabalhos devem ser entregues ao Centro de Recursos (CR) e os mesmos devem ser dirigidos ao tutor/docente. Podem ser utilizadas diferentes fontes e materiais de pesquisa, contudo os mesmos devem ser devidamente referenciados, respeitando os direitos do autor. O plágio1 é uma violação do direito intelectual do(s) autor(es). Uma transcrição à letra de mais de 8 (oito) palavras do testo de um autor, sem o citar é considerado plágio. A honestidade, humildade científica e o respeito pelos direitos autorais devem caracterizar a realização dos trabalhos e seu autor (estudante do ISCED). Avaliação Muitos perguntam: Com é possível avaliar estudantes à distância, estando eles fisicamente separados e muito distantes do docente/tutor!? Nós dissemos: Sim é muito possível, talvez seja uma avaliação mais fiável e consistente. Você será avaliado durante os estudos à distância que contam com um mínimo de 90% do total de tempo que precisa de estudar os conteúdos do seu módulo. Quando o tempo de contacto presencial conta com um máximo de 10% do total de tempo do módulo. A avaliação do estudante consta detalhada do regulamentado de avaliação. Os trabalhos de campo por si realizados, durante estudos e aprendizagem no campo, pesam 25% e servem para a nota de frequência para ir aos exames. Os exames são realizados no final da cadeira disciplina ou módulo e decorrem durante as sessões presenciais. Os exames pesam nomínimo 75%, o que adicionado aos 25% da média de frequência, determinam a nota final com a qual o estudante conclui a cadeira. A nota de 10 (dez) valores é a nota mínima de conclusão da cadeira. Nesta cadeira o estudante deverá realizar pelo menos 2 (dois) trabalhos e 1 (um) (exame). Algumas atividades práticas, relatórios e reflexões serão utilizados como ferramentas de avaliação formativa. Durante a realização das avaliações, os estudantes devem ter em consideração a apresentação, a coerência textual, o grau de cientificidade, a forma de conclusão dos assuntos, as 1 Plágio - copiar ou assinar parcial ou totalmente uma obra literária, propriedade intelectual de outras pessoas, sem prévia autorização. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 7 recomendações, a identificação das referências bibliográficas utilizadas, o respeito pelos direitos do autor, entre outros. Os objectivos e critérios de avaliação constam do Regulamento de Avaliação do ISCED. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 9 TEMA – I: O SABER GEOGRÁFICO. UNIDADE Temática 1.1. O saber geográfico e o seus elementos UNIDADE Temática 1.2. Exercícios Integrados deste Tema UNIDADE Temática 1.1. A curiosidade do homem e a sua aventura na Terra Introdução Nesta primeira aula da disciplina de Pensamento Geográfico, vamos aprender o que se entende por saber geográfico. Nesse sentido, estudaremos: como esse saber é essencial para os homens; de que maneira os conhecimentos geográficos servem para ordenar a superfície da Terra, gerir, explorar, organizar e substituir uma primeira natureza, que chamamos “intocada”, por uma natureza segunda, entendida como a natureza transformada pelo homem; e como a Geografia e os saberes geográficos ajudam a compreender as relações humanas e as inter-relações do homem e do seu entorno, fazendo brotar, na superfície, os meios humanos, as paisagens, as regiões, os territórios. Usando elementos do cotidiano e de nossa formação/informação básica, pretendemos auxiliá-lo na compreensão de como se estrutura o espaço geográfico e de como ele é apreendido pela Geografia enquanto ciência. Ao completar esta unidade, você deverá ser capaz de: Objectivos Específicos Compreender como o saber geográfico se relaciona à aventura humana na Terra; Identificar de que maneira as necessidades do homem criam espacialidades diversas; Relacionar os elementos que compõem o saber geográfico. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 10 A curiosidade do homem e sua aventura na Terra Antes de começarmos este estudo, é importante distinguirmos Geografia (enquanto ciência) de conhecimento ou saber geográfico. O saber geográfico é algo mais do que a Geografia enquanto ciência que se institucionaliza no século XIX. Essa institucionalização significou a sistematização científica do saber geográfico desenvolvido no processo civilizatório. Nesse sentido, não podemos confundir ciência geográfica com saber geográfico, uma vez que este último não se resume às formas instituídas pela academia. O saber geográfico enquanto conhecimento acerca do mundo está presente em todos os tempos e em todas as civilizações. Assim, quando falamos de geografia, antes da sua sistematização, estamos, na verdade, falando de saber geográfico. Você sabia que a geografia tem a idade da humanidade? Caso tenha respondido positivamente, você deve ter entendido que ela é, como todo saber, a expressão de uma curiosidade e a resposta a essa curiosidade. Habitante da superfície da Terra, o homem tem, desde o início dos tempos, procurado saber onde se encontra, conhecer o que existe além do lugar onde mora, inventariar cada elemento da extensão terrestre, identificar e nomear os lugares, descrever e conferir representações. Poder se situar, de forma absoluta (onde estou?) e relativa (o que existe aquém e além do lugar onde estou?); poder se deslocar e construir um itinerário; conhecer as terras longínquas onde jamais se esteve e a diversidade dos homens que lá vivem, os recursos, as riquezas para explorar; representar e transmitir saberes: tal é a longa busca empreendida pelo saber geográfico. Essa aventura geográfica da humanidade comporta a história da exploração e da descoberta da Terra, bem como a extraordinária história de sua representação cartográfica. A seguir, vemos dois exemplos: um da Antiguidade grega e outro do século XVIII. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 11 a b Figura 1- (a) Cópia de mapas gregos antigos representando o continente Antártico sem gelo; (b) Mapa de Buache desenhado em 1737 O homem jamais se contentou em apenas observar a Terra. Por meio de uma constante interação com o meio, ele tem deixado as suas marcas: tira da Terra os elementos essenciais à sua vida. Com essa intervenção, as sociedades humanas “desnaturam” a superfície da Terra, o que implica sua transformação. Com estas palavras, você já deve estar imaginando que o homem é um agente geográfico quando ele descobre novos lugares, drena, cultiva, constrói, substitui o meio natural por um meio artificial, ou melhor, por um meio “humano”. A ação geográfica dos homens implica inscrição de traços, de linhas, de superfícies de volume (áreas produtivas, manchas urbanas), sendo alguns destes visíveis, como rotas, campos, construções, e outros não diretamente percetíveis, como relações sociais, fronteiras, fluxos de relações. Pontos, linhas, superfícies, volume, densidade são, de maneira ampla, escrituras geográficas. As paisagens atestam a diversidade dessa escritura. Tomando por base Milton Santos (2006), podemos dizer que a paisagem é constituída por um conjunto de formas que, num dado momento, exprime as heranças que representam as sucessivas relações localizadas entre o homem e a natureza. Conjunto de elementos naturais e artificiais que fisicamente caracterizam uma determinada área. Depois de ter “escutado”, atentamente, o que disse o professor Milton Santos, você deve estar percebendo que o saber geográfico está relacionado à análise da paisagem, à compreensão de seus significados e de seus valores. Veja que o saber geográfico nasce da forma de olhar que os homens constroem sobre seu meio, das questões que eles se colocam sobre o sentido de sua presença nesse meio, sobre as influências que eles sofrem do meio e sobre os efeitos de suas intervenções. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 12 A partir dessa breve exposição, você deve ter percebido que o saber geográfico surge da curiosidade humana e das interrogações que os homens se colocam diante das possibilidades e das limitações de suas ações frente às condições do meio; e que suas ações implicam marcas e um perpétuo conflito entre a realização de suas necessidades e o meio. Elementos do saber geográfico Neste item, veremos cinco elementos importantes para a compreensão do desenvolvimento do saber geográfico, vá se familiarizando com eles, pois serão importantes para sua formação como professor de Geografia. Esses elementos variam no tempo, mas são sempre importantes para a análise geográfica. Posições e contornos Os homens desenvolveram esforços consideráveis para poder se situar e ter uma ideia da forma,dos contornos e da articulação entre os continentes. De diversas maneiras, o homem enfrentou as difíceis etapas do reconhecimento da Terra; os navegadores foram os principais descobridores dos limites das terras e dos litorais. Sobre seus barcos, guiados pelo fio condutor das costas, impulsionados pelos ventos e pelas correntes, esses homens empreenderam viagens e expedições em direção a terras míticas, imaginárias ou reais. Eles desenharam os contornos das costas; depois, com seus barcos mediram as distâncias, a duração das navegações, identificaram as posições topográficas. Deram às terras descobertas milhares de nomes. Foi subindo e descendo rios ou acreditando descobrir suas desembocaduras ou mares interiores que os homens adentraram os continentes. As viagens de exploração por via terrestre, mais difíceis, foram raras e tardias. Veja que a identificação da configuração dos continentes e oceanos necessitava da resolução de três séries de problemas: 1) o conhecimento da forma da Terra; 2) o conhecimento de suas dimensões; e 3) a definição das coordenadas de um lugar. A esfericidade da Terra foi admitida e suas dimensões foram medidas desde a Antiguidade. Entretanto, enquanto a latitude e a longitude2 não foram definidas com precisão, os homens não puderam “dominar” efetivamente o seu Planeta. A partir disso, fica claro que a atitude de se orientar constitui uma das bases de todo saber geográfico. 2 Distância em graus de qualquer ponto da Terra tomando como referência a linha do equador e distância em graus de qualquer ponto da Terra tomando como referência o meridiano de Greenwich, respetivamente. Você verá melhor esses dois conceitos na disciplina Leitura Cartografia ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 13 Identificação e Inventário dos Lugares O conhecimento dos contornos e das posições geográficas depende de outro conhecimento, aquele do conteúdo de cada lugar da superfície terrestre. A curiosidade dos homens apenas se satisfaz quando ele preenche os vazios das cartas e substitui os lugares míticos e imaginários por lugares “reais”. Diversas finalidades deram sustentação a esta empreitada: terras a conquistar, impérios a dominar, riquezas para se apropriar, populações para descobrir, rios e fontes, montanhas e lagos para inventariar. Assim, o desejo de conhecer foi sempre orientado e seletivo em relação às intenções dos homens e das sociedades. Ele varia com a escala que se deseja atingir, ou seja, varia em função da distância e do afastamento dos lugares que se quer conhecer. Conhecer significa criar itinerários que são “memorizados” graças à observação dos traços da topografia próxima e longínqua, à memorização das cores da vegetação, das nuances do relevo etc. Figura 2- Registo dos lugares nas primeiras sociedades Para melhor inventariar e identificar, primeiramente, fixa-se os fenômenos mais remarcáveis ou que fornecem os melhores marcos e sinais: o traçado dos rios, os obstáculos montanhosos, os desfiladeiros, os vulcões, os lagos, os animais e também as cidades. Em segundo lugar, elenca-se os fenômenos menos visíveis, relações de troca, tipos de organização social, religiosidade etc. Gostaríamos de frisar que um bom inventário leva em consideração também – e não é menos importante – os lugares habitados, rotas, construções religiosas, riachos, paradas etc. As cidades, os portos, as redes de rotas representam nós e linhas de funcionamento das sociedades ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 14 humanas e são reveladoras de dados essenciais. É fundamental chamar sua atenção para o fato de que o inventário dos lugares comporta um outro aspecto essencial: aquele de sua denominação. A toponímia é uma etapa indispensável do conhecimento da superfície da Terra. A Terra torna-se Terra dos homens quando deixa de ser anônima e é nomeada por eles. Todo lugar nomeado pelo homem torna-se significativo no sentido forte do termo. Baptizar o terreno e cobri-lo de uma camada de nomes transforma o conhecimento dos lugares em saber coletivo. Desde o instante em que os lugares têm um nome, eles são integrados a uma grade social de localização. Seu conhecimento geográfico deixa de ser fechado no círculo estreito das pequenas comunidades e se socializa para além do local. A gente ouve falar de vilarejos, de cidades, de montanhas, de reinos que jamais vimos e que não veremos nunca. A existência, além do que é pessoalmente conhecido, de uma esfera muito mais ampla e que existe apenas como um universo de palavras tem efeitos múltiplos: ela suscita, para alguns, uma fascinação por aqueles lugares dos quais ouviram falar; ela alimenta sua imaginação; ela faz nascer uma necessidade de evasão. A camada de nomes que constitui a toponímia alarga a esfera dos deslocamentos e das trocas para além do que foi percorrido pelo indivíduo. Localização e Distribuição Você já deve estar sabendo que o saber geográfico se particulariza por sua primazia com os dados de localização. É importante salientar que, além de coletados através de critérios rigorosos, é necessário que eles sejam cartografados. O que o geógrafo procura ver na paisagem não é a simples localização deste ou daquele objeto geográfico particular (fazenda, cidade, capela e outros), mas a distribuição de todos os objectos de uma mesma espécie (as casas, as cidades, as vilas, a vegetação, as florestas) e as diversas fisionomias de conjunto que revelam o meio. A relação homem-natureza Os homens se colocam, desde sempre, questões relativas às relações entre as sociedades e o seu meio, mesmo antes de ter um saber geográfico sistematizado. Hipócrates (século V antes de Cristo), em seu tratado Sobre os Ares, as Águas e os Lugares, já opunha os povos das regiões elevadas e húmidas a povos de regiões sem água e de variações climáticas bruscas. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 15 Veja que foi e ainda é normal que, inseridos em meios naturais diversos, os homens tenham de retirar desses meios o seu sustento, os materiais para construir suas casas, as matérias-primas para sua produção, dentre outras coisas. Bem como que se interroguem sobre as influências desse meio no seu comportamento. O saber geográfico como totalizador da superfície terrestre Por sua vez, no século XIX, o nível de descrição da superfície da Terra já permitia uma visualização de sua totalidade. Além das descrições de lugares particulares, de inventários sobre as diversas partes da Terra, o saber geográfico segue na direção de compreender os conjuntos de elementos naturais e humanos e a solidariedade entre seus componentes, numa dimensão totalizante. Sumário Nesta Unidade temática, aprendemos que a curiosidade do homem foi e é um importante elemento para a constituição das sociedades e da Geografia. Vimos também que as necessidades básicas nos impõem atividades diversas e que, para satisfazê-las, deixamos as nossas marcas e impressões na superfície da Terra. Aprendemos ainda que as paisagens são um elemento revelador para a análise da Geografia. Auto-avaliação 1. Ao conjunto de elementos naturais e artificiais que fisicamente caracterizam uma determinada área chama-se: A. Paisagem B. Pensamento Geográfico C. Saber geográfico D. Todas opções estão correctas. 2. O homem enfrentou as difíceis etapas do reconhecimento da Terra; os principais descobridores dos limites das terras e dos litorais foram: A. Os geógrafos B. Os navegadores C. Os expositores D. Antropólogos ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 16 3. A latitude e a longitude são elementos muito importante para dominar e delimitar o planeta Terra, mas o que constitui uma das bases de todo saber geográfico é: A. Longitude B. Meridianos C. Latitude D. Equador 4. A toponímia é uma etapa indispensável do conhecimento da superfície da Terra. 5. O que o geógrafo procura ver na paisagem é a simples localização deste ou daquele objeto geográfico particular, a distribuição de todos os objectos de uma mesma espécie e as diversas fisionomias de conjunto que revelam o meio. Guião de Correcção 1-A; 2-B; 3-C; 4-V; 5-V Avaliação 1. O conceito de lugar articula-se a partir da relação ou compreensão do ser diante do espaço geográfico, ou seja, o lugar é o espaço apropriado ou percebido pelas relações humanas. 2. A respeito do conceito de região, avalie as proposições a seguir a que esta incorrecta: A. Uma região pode ser criada com a finalidade de realizar estudos sobre as características gerais de um território, assim como para entender determinados aspectos do espaço. B. A região resulta de uma elaboração racional e intencional do ser humano. Tem a finalidade de facilitar a análise, a gestão e a compreensão de uma determinada área e dos elementos que a compõem. C. Em geral, a região pode ser entendida como uma área que foi dividida obedecendo-se a um critério específico. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 17 D. Algumas regiões surgem de forma natural e são estabelecidas sem que seja necessária a especificação de um critério que as defina ou classifique. 3. Onde surgiu o conhecimento Geográfico? A. No mundo Árabe. B. Na América. C. No Brasil. D. Na Grécia Antiga. 4. A Geografia é a ciência que estuda e analisa o espaço produzido pelo homem 5. O Espaço Geográfico é um importante conceito para a Geografia, haja vista que ele é o objeto principal de estudo dessa área do conhecimento. o espaço geográfico é um conjunto de sistemas de objetos e ações, isto é, os itens e elementos artificiais e as ações humanas que manejam tais instrumentos no sentido de construir e transformar o meio, seja ele natural ou social. Essa ideia foi defendida por: A. Milton Santos B. Frederich Engels. C. André Cholley D. Alexander Von Humboldt Guião de Correcção 1-V; 2-D; 3-D; 4-V; 5-A REFERÊCIAS BIBLIOGRÁFICAS DANTAS, Aldo. Pierre Monbeig: um marco da geografia brasileira. Porto Alegre: Sulina, 2005. KAERCHER, Nestor André. A geografia é o nosso dia-a-dia. In: CASTROGIOVANNI, António Carlos (Org.). Geografia em sala de aula. Porto Alegre: Editora da Universidade/AGB, 1998. SANTOS, Milton. A natureza do espaço. São Paulo: EDUSP, 2006. http://brasilescola.uol.com.br/geografia/milton-santos.htm ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 18 TEMA – II: O EVOLUÇÃO DO PENSAMENTO GEOGRÁFICO. Unidade Tematica 2.1. Geografia na Antiguidade Unidade Tematica 2.2 Geografia na Idade Média Unidade Tematica 2.3 Geografia na era dos descobrimentos Unidade Tematica 2.4 A Institucionalização da Geografia Unidade temática 2.5. Exercícios Integrados deste Tema Unidade Temática 2.1. A Geografia na Antiguidade Introdução Como você aprendeu na aula 1 (O saber geográfico) o conhecimento geográfico está fundado na relação homem/natureza (notadamente a biosfera), na ação humana e na maneira como estão distribuídos os fenômenos físicos e humanos na superfície da Terra. Nesta aula, você irá estudar como se deu a evolução desse conhecimento na antiguidade, principalmente a influência dos gregos e romanos na construção das ideias geográficas. Ao completar esta unidade, você deverá ser capaz de: Objectivos específicos Compreender a evolução do pensamento geográfico na Antiguidade. Relacionar as necessidades dos povos antigos com a produção e compreensão do espaço geográfico. Compreender a influência dos gregos e romanos no desenvolvimento do conhecimento geográfico. Perceber como surge a Geografia geral e regional. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 19 A indagação geográfica Para darmos início ao conteúdo desta aula, poderíamos, antes, nos fazer a seguinte indagação: qual é a questão específica que se coloca para a Geografia? Entre tantas possibilidades de respostas, poderíamos responder da seguinte maneira: a questão específica da Geografia é entender por que e como as distribuições espaciais estão estruturadas da maneira que estão. Lembramos a você que as distribuições espaciais são estruturadas a partir das ações humanas individuais e coletivas sobre a extensão terrestre. Quando Começam as Indagações Geográficas? Os primeiros indícios de uma preocupação com a distribuição dos fenômenos surgiram desde os primórdios da humanidade. Nesse período, o homem pouco modificava a natureza, uma vez que estava muito subordinado às condições naturais o que, provavelmente, lhe impunha uma condição de nômade. Essa condição se exprime no constante deslocamento à procura de meios de subsistência ou em atividades guerreiras e condiciona a uma necessidade de conservar informações sobre os caminhos percorridos e as suas direções. Dessa maneira, surgem os primeiros esboços representando a superfície da Terra, isto é, os primeiros mapas. Você pode confirmar essa informação perguntando a qualquer pessoa, mesmo aquelas que não sabem ler, qual o melhor caminho para ir a um lugar. Ela será capaz de fazer um esboço, mostrando o caminho a seguir, os fatos mais importantes que existem ao longo do percurso e os principais obstáculos. Há mesmo quem diga que fazer mapas é uma aptidão inata do ser humano. Desde a Antiguidade, a cartografia tem grande importância. O mapa mais antigo de que se tem notícia data de 2500 a.C. e é uma representação de um rio, provavelmente o Eufrates, com uma montanha de cada lado desaguando por um delta de três braços. Nesse período, a concepção existente era de uma Terra plana, com a forma de um disco e constituída por uma massa flutuante na água, com a abóbada celeste por cima. A expansão política, comercial e marítima dos povos do mediterrâneo (Mesopotâmia, Fenícia, Egipto) levou à elaboração de mapas marítimos e, sobretudo, à descrição de lugares e de povos. Tais descrições eram denominadas de périplos. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 20 O périplo mais antigo data do século VII a.C. e foi feito por marinheiros fenícios a serviço do faraó egípcio. Foi na Grécia antiga que a ciência geográfica recebeu seu nome, entretanto, outros povos que vieram antes dos gregos, já tinham conhecimentos geográficos, entre estes, destacamos os egípcios, babilônios e fenícios. Os egípcios •Umas das mais antigas civilizações do mundo: 5 mil anos a.C.; •Se estabeleceram às margens do Rio Nilo e tiveram na agricultura a principal atividade; •Devido às condições climáticas da região essa era a única área que permitia atividade agrícola, no período de cheias; •Os egípcios estudaram a periodicidade das estações do ano observando o movimento do Sol, Lua e estrelas. Figura 3-Registo dos egípcios Os fenícios e babilônios •Povos que habitavam a região do atual Oriente Médio; •Fenícios ocupavam uma faixa do litoral do Mar Mediterrâneo, onde atualmente fica o Líbano; •Dedicavam-se ao comércio e faziam inúmeras viagens pelo Mar Mediterrâneo e Mar Vermelho;ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 21 •Chegaram a ultrapassar o Estreito de Gibraltar e atingir o Oceano Atlântico; •Conheciam muito bem esses litorais, ilhas, golfos e baías. Figura 4-Rotas comerciais dos fenícios e babilônios •Os babilônios habitavam a região da Mesopotâmia, entre os rios Tigre e Eufrates, atual Iraque; •Esse povo serviu-se de crenças espirituais e mitológicas para explicar os fenômenos naturais que eram inexplicáveis; •Os babilônios supunham que a Terra era uma grande montanha redonda cercada por mares; •No interior da montanha estava o reino dos Mortos e sobre ela, no céu, a Morada dos Deuses; •O mais antigo mapa que se tem notícia foi elaborado pelos babilônios. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 22 Figura 5- Localização geográfica do império da Babilónia A Sistematização do Conhecimento Geográfico A palavra geografia (descrever a Terra) foi criada pelos gregos, povos que originalmente vão se preocupar com a sistematização desse conhecimento. Para Nelson Werneck Sodré (1987), talvez a Geografia seja a ciência de história mais longa entre todas que conhecemos. Ela começa com as descrições, nas comunidades de tradição oral, das migrações e das diferenciações dos lugares. Isso mostra que é importante que o conhecimento seja registado e transmitido. É na Grécia, já com o domínio da escrita e em decorrência de sua posição geográfica no Mediterrâneo, em relação às outras partes do mundo conhecido, que cabe (aos gregos) coletar e sistematizar os conhecimentos de natureza geográfica. O primeiro mapa grego de que se tem notícia foi elaborado por Anaximandro de Mileto (650-615 a.C.), que viajou e escreveu relatos das suas viagens. Discípulo de Tales de Mileto é provável que Anaximandro de Mileto tenha sido o inventor do gnómon, instrumento que serve para medir a altura do Sol (Figura 2). ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 23 Figura 6-Gnomon O segundo mapa da Antiguidade foi elaborado por Hecateu de Mileto (560-480 a.C.). Viajou por toda parte do mundo conhecido, escreveu a Descrição da Terra, obra ilustrada por um mapa onde a Terra é representada por um disco com água em sua volta. Outros documentos importantes dessa época são os poemas épicos Ilíada e Odisseia, de Homero, conhecidos e apreciados por seu valor literário e pelas informações geográficas contidas na descrição dos lugares distantes e das longas viagens marítimas. Os dois pontos de vista da Geografia Você deve ter percebido, até aqui, que duas são as preocupações que fundamentam os conhecimentos geográficos desse período. Um está relacionado com a física terrestre – forma, dimensão, posição sideral. A outra, com a descrição das diferenças da constituição da superfície terrestre e com as diversas culturas que nela se instalam. Essas duas dimensões dão origem a dois pontos de vistas: o da Geografia Geral e o da Geografia Regional. Dois “geógrafos” gregos Erastóstenes (276-194 a.C.) – Além de demonstrar a existência da curvatura da Terra e calcular suas dimensões com notável precisão, também localizou mares, terras, montanhas, rios e cidades no primeiro sistema de coordenadas geográficas, no qual estavam presentes as latitudes e as longitudes. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 24 Estudou, ainda, questões relativas à hidrografia e à climatologia, às zonas climáticas e às cheias dos rios, notadamente aquelas relativas ao Nilo. Contudo, os níveis de generalização traziam consigo margens de erros consideráveis, fortalecendo a abordagem regional. Matemático, filósofo e astrónomo grego da escola de Alexandria. Graças a medição ingeniosa de um arco de meridiano, foi o primeiro a medir corretamente a circunferência da terra (em 40 000 Km. aproximadamente). Figura 7-Erastostenes Heródoto (484-425 a.C.) – Filósofo e historiador, considerado o pai da História e da Geografia, inseriu a história dos povos no contexto geográfico. Suas crônicas registam a gênese da Geografia Regional e retratam os mais diferentes e distantes países. São conhecidas suas viagens à Fenícia, ao Egipto e à Babilônia. Ao estudar as cheias do rio Nilo, Heródoto associou a sua desembocadura à letra grega delta, razão pela qual é encontrada até os dias atuais a foz em delta nos livros escolares. Figura 8- Mapa de Eratóstenes ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 25 Dois “geógrafos” romanos Estrabão (64 a.C – 20 d. C) – Grande enciclopedista destaca o caráter filosófico e transdisciplinar da Geografia. Em sua obra, afirmava que o amplo conhecimento, necessário ao empreendimento de qualquer trabalho geográfico, deve estar relacionado tanto com as coisas humanas como divinas, conhecimento que constitui a Filosofia. Ao contrário dos gregos, interessava-se por uma abordagem mais humana, cujos ensinamentos destinavam-se às ações de governo. Além do mais, ensinava que os geógrafos não deviam preocupar-se com o que estava fora do mundo habitado. Assim como Heródoto, Estrabão foi um grande viajante, tendo descrito no seu livro várias partes do mundo daquela época. Por tal feito, é, ainda hoje, considerado um dos mais importantes geógrafos da Antiguidade. Estrabão tinha como metodologia geográfica a localização e delimitação dos aspetos físicos de uma região seguidas da descrição da população, com suas lendas, costumes e atividades econômicas. Ptolomeu (90 – 168 d.C.) – É o último grande geógrafo da antiguidade, foi também astrônomo e matemático. Interessou- se pelas técnicas de projeção cartográfica e elaboração de mapas. Em sua obra Geographia, de 8 volumes, traz os princípios de construção de globos e projeções de mapas, indica os princípios da Geografia, Matemática e da cartografia, além de organizar um grande vocabulário com todos os nomes de 8000 lugares que conhecia, localizando-os por meio da latitude e da longitude. Em sua obra “el Almagesto” descreve os princípios da Teoria Geocêntrica, o movimento circular uniforme e a divisão do Universo em dois domínios) o Cosmos e o mundo sub lunar), que estiveram vigentes até ao final da idade media e o Renascimento; imaginou a terra imóvel no centro do universo. Foi o primeiro a fazer mapas com coordenadas. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 26 Figura 9-Representação da teoria Geocêntrica de Ptolomeu Sumário Nesta Unidade temática, aprendemos que o saber geográfico não é algo que começou a ser produzido recentemente. Chega-se mesmo a afirmar que o seu início remonta às primeiras comunidades gentílicas. O rótulo geografia, por outro lado, somente passou a ser utilizado na antiguidade clássica e é fruto direto do pensamento grego. No processo histórico de construção desta especificidade do saber humano, os (as) gregos (as) são considerados (as) os (as) primeiros (as) a registar de forma sistematizada os conhecimentos geográficos. Tais contribuições decorrem do posicionamento geográfico da Grécia, que possibilitou a navegação, o comércio e o domínio sobre os povos do mediterrâneo, além do desenvolvimento social, político, econômico e cultural. Os (as) romanos (as), partindo dos conhecimentos herdados dos (as) gregos (as), ampliaram significativamente estes conhecimentos, tornando-se os (as) responsáveispelas grandes contribuições que passariam ser, mais tarde, fundamentais no desenvolvimento da Geografia enquanto ciência (Um dos grandes problemas enfrentados pelos que pretendem desenvolver uma pesquisa mais aprofundada acerca da história da Geografia, é a ausência quase que total de informações sobre as produções teórico-metodológicas dos povos orientais, sobretudo os da Antiguidade, fato que nos obriga, neste processo de construção, a citar apenas os feitos dos geógrafos ocidentais, e, mais particularmente, os dos greco-romanos). Autores como Eratóstenes, Tales de Mileto, Anaximandro, Heródoto, Hipócrates, Hiparco, além de outros, produziram os conhecimentos ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 27 alicerçadores do que mais tarde seria a geografia científica, fato que justifica alguns comentários sobre eles. Apesar da imensa contribuição destes autores citados, foram, sem dúvida, Estrabão e Cláudio Ptolomeu os maiores responsáveis pela sistematização dos conhecimentos geográficos na Antiguidades Clássica. Suas obras, ressaltamos, serviram de modelo para os geógrafos responsáveis pela grande retomada da produção de conhecimentos geográficos, ocorrida a partir do século XV. Auto-avaliação 1. Desde a Antiguidade, a cartografia tem grande importância para representar os contornos do planeta terra. O mapa mais antigo foi em: A. 2500 a.C. B. 2500 d. C C. 2000 a. C D. 2000 d.C 2. A expansão política, comercial e marítima dos povos do mediterrâneo (Mesopotâmia, Fenícia, Egipto) levou à elaboração de mapas marítimos e, sobretudo, à descrição de lugares e de povos. Essas descrições eram chamados de: A. terráqueo B. périplos. C. Trilho D. todas opções estão correctas. 3. Atende as características: antigas civilizações do mundo: 5 mil anos a.C. e situada as margens do Rio Nilo com a principal actividade agricultura. Estas particularidades refere-se aos: A. Os fenícios B. Os babilônios C. Os egípcios D. Todos 4. Ocupavam uma faixa do litoral do Mar Mediterrâneo, dedicavam-se ao comércio e faziam viagens pelo Mar Mediterrâneo e Mar Vermelho e litorais, ilhas, golfos e baías. São características típicas de: A. Os babilônios B. Os egípcios C. Gregos D. Fenícios 5. A Geografia é uma ciência que tem por objetivo o estudo da superfície terrestre e a distribuição https://pt.wikipedia.org/wiki/Ci%C3%AAncia ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 28 espacial de fenômenos significativos na paisagem. Os primeiro que coletar e sistematizar os conhecimentos de natureza geográfica foram: A. Gregos B. Egípcios C. Babilónicos D. Todos Guião de Correcção 1-A; 2-B; 3-C; 4-D; 5-A Avaliação 1. O primeiro mapa grego de que se tem notícia foi elaborado por: A. Eratóstenes (276-194 a.C.) B. Anaximandro de Mileto (650-615 a.C.) C. Heródoto (484-425 a.C.) D. Ptolomeu (90 – 168 d.C.) 2. O segundo mapa da Antiguidade que fazia a Descrição da Terra, obra ilustrada por um mapa onde a Terra é representada por um disco com água em sua volta, foi elaborado por: A. Anaximandro de Mileto (650-615 a.C.) B. Heródoto (484-425 a.C.) C. Ptolomeu (90 – 168 d.C.) D. Hecateu de Mileto (560-480 a.C.) 3. No processo histórico de construção desta especificidade do saber humano, os gregos são considerados os primeiros a registar de forma sistematizada os conhecimentos geográficos. 4. Eratóstenes foi ele que localizou mares, terras, montanhas, rios e cidades no primeiro sistema de coordenadas geográficas. 5. Qual o objeto de estudo da Geografia? A. Interpretação de Mapas. B. Descrição dos Lugares. C. Observação da Paisagem. D. Estudo do Espaço Geográfico. https://pt.wikipedia.org/wiki/Paisagem ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 29 Guião de Correcção 1-B; 2-D; 3-V; 4-V; 5-D Referencias Bibliográficas ANDRADE, Manuel Correia de. Geografia: ciência da sociedade. Recife: Editora Universitária/UFPE, 2006. BAILLY, A. FERRAS, R. Élements d’éspistemoligie de la géographie. Paris: Armand Colin, 1997. CLAVAL, Paul. Histoire de la géopgraphie. Paris: PUF, 1996. SANTOS, Milton. O país distorcido. São Paulo: Publi folha, 2002. p. 82. UNIDADE Temática 2.2. A Geografia na idade Média Introdução Esta aula discute a influência das mudanças ocorridas na passagem da Antiguidade para o medievo e suas repercussões no conhecimento geográfico, assim como a influência árabe no desenvolvimento da Geografia. período. Ao completar esta unidade, você deverá ser capaz de: Objectivos específicos Compreender a evolução do pensamento geográfico na Idade Média. Entender que as mudanças ocorridas na sociedade com a queda do Império Romano e ascensão Medieval repercutem no desenvolvimento do conhecimento geográfico. Compreender a influência dos árabes no desenvolvimento da Geografia. Quadro geral do Sistema Feudal A obra de Ptolomeu, que vimos no final da aula sobre a Geografia na Antiguidade, encerra a primeira etapa da Geografia. A própria riqueza que essa obra produziu por meio de uma ampla sistematização e o método de documentação que preconizou mantiveram-se durante muitos séculos presentes no pensamento geográfico. Como Aristóteles para a Filosofia, Ptolomeu será, até o Renascimento, a autoridade ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 30 inconteste em matéria do conhecimento da Terra e do sistema Mundo. E, desse modo, a Idade Média é, para a Geografia, um período de estagnação e mesmo de retrocesso do conhecimento produzido por essa ciência. A queda do Império Romano e a difusão do Cristianismo dão início a esse novo momento da história da humanidade, instalando um processo de fragmentação na produção do conhecimento científico e geográfico. As causas para essa fragmentação podem ser encontradas no contexto social, econômico e religioso daquela época. As invasões bárbaras vão provocar uma situação de guerra generalizada em boa parte do espaço europeu ocupado pelo Império Romano. Tal situação irá provocar na Europa consequências importantes que levaram ao isolacionismo espacial das sociedades e à instauração do sistema feudal, conforme você pode perceber na passagem a seguir. A Europa que daí surge está dividida em uma série de pequenas áreas politicamente diferenciadas, deixando de existir uma política uniforme sobre todo o território. Veja que a desarticulação dos sistemas de comunicação ligada ao fato de a Europa se encontrar relativamente despovoada dificultava o deslocamento de pessoas e a troca de ideias e de bens entre suas diferentes áreas. O sistema que se constitui é essencialmente isolacionista e tenta resolver seus problemas a partir da auto – subsistência do próprio feudo, prejudicando a mobilidade de pessoas, as trocas e a ampliação do horizonte geográfico que se verificou na Antiguidade. A influência da Igreja Nesse período, a Igreja Católica representa o maior poder europeu associada às diversas aristocracias, uma vez que se constitui na única instituição com influência sobre todos os feudos. Dessa maneira, as respostas para as questões da vida cotidiana, individual, social e políticas passaram a ser dadas a partir de interpretações bíblicas. É claro que o homem continua se perguntando sobre as questões geográficas. Entretanto, indagações sobre “como” e O fervor intelectual que havia favorecido a reflexão sobre a forma e a configuração da Terra desapareceu. O Estoicismo deixoude apoiar-se na hipótese geocêntrica e na imagem de um mundo harmonioso que daí emanava. A deslocação progressiva da administração tornou inúteis os levantamentos de informações tão procuradas na época de Augusto. As formas de construção social que triunfaram na Idade Média assentam em relações pessoais: é através de notáveis locais que o poder se exerce à distância; como tal, não é necessário formalizar o saber geográfico nesta sociedade: o conhecimento das pessoas é sufi ciente. (CLAVAL, 1996, p. 17-8). ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 31 “onde” continuam a ser feitas, só que agora as respostas são buscadas nas ordens religiosas e não nas cosmologias, como era mais comum anteriormente. A Bíblia era um instrumento que continha referências cosmológicas e geográficas, as quais davam respostas a tais perguntas. Veja que, no fundo, é a Igreja e não a ciência que busca respostas para indagações da realidade sócio espacial. Vale destacar que nesse período ocorre certo imobilismo populacional e uma diminuição dos eventos das viagens e, com isso, um maior desconhecimento do mundo real. Esses fatores aliados ao poder da Igreja provocam a diminuição da busca de respostas nas ciências. “Era natural que em um período de lutas constantes houvesse grande dificuldade de comunicação e uma queda no ritmo do comércio e nas preocupações filosóficas e, consequentemente, um retrocesso do conhecimento na Europa Ocidental”. (ANDRADE, 2006, p. 46). Depois de Ptolomeu houve um declínio evidente na exatidão dos mapas do mundo, declínio que perdurou até ao século XIV. Portanto, durante a Idade Média, período que se estendeu da queda do Império Romano (476 d.C.) a tomada de Constantinopla (1453 d.C.), a Cartografia experimentou uma fase de estagnação, onde todas as conquistas científicas realizadas anteriormente foram substituídas por uma representação simbólica, de caráter religioso. Isodoro (570-636 d.C.), bispo de Sevilha, criou o mapa etimologias, também conhecido como mapa T-0 (Figura 5). Este mapa esquemático tinha o seguinte significado: o "T" representava os três cursos d'água que dividiam o ecúmero, o Mediterrâneo, que separa a Europa da África; o Nilo, separando a África da Ásia; e o Don, entre a Ásia e a Europa. O ecúmero teria sido dividido por Noé entre seus três filhos após o Dilúvio. Além disso, o "T" também simbolizava a cruz e na sua junção estaria localizada Jerusalém, centro do mundo. Esses mapas, em sua maioria, eram circulares e emoldurados por um grande oceano. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 32 Figura 10- Mapa T em O, típico da era medieval Neste mapa a Ásia ocupava sempre a metade superior do “O”, com a Europa e a África ocupando, cada uma, a metade da parte inferior. O mediterrânico uma posição meridiano entre os dois continentes. Jerusalém estava no centro do círculo, segundo o texto bíblico «esta Jerusalém; no meio das nações eu a coloquei e suas terras ao redor dela». O paraíso aparecia localizado a leste na parte superior do mapa. Nestes mapas foram incluídos elementos teológicos, perdeu-se a noção de localização rigorosa dos lugares e não existia sistemas de projeção. Considerava-se a terra de forma plana representada circularmente. Nem tudo foi sombra na Idade Média Se por um lado o conhecimento declinava no mundo ocidental “em outras áreas, porém, a formação de Estados fortes e a intensificação das viagens e do comércio permitiram que as tradições culturais gregas e latinas se integrassem com a de povos do Oriente e houvesse maior difusão cultural” (ANDRADE, 2006, p.46). Aqui um fator merece destaque: a expansão Árabe-Muçulmana. A expansão Árabe-Muçulmana A civilização Árabe-Muçulmana emerge depois da queda de Roma e se baseia na nova e vigorosa religião do Islã. Surgida no século VII, seu fundador foi Maomé (570-632), um próspero mercador da cidade de Meca. Maomé acreditava ter visto o anjo Gabriel que lhe ordenou “recitar em nome do Senhor”. Tomado por essa visão, Maomé se considera o escolhido e se transforma em profeta. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 33 Nesse período, a maioria do povo árabe acreditava em deuses tribais, entretanto, nos grandes centros, a maioria da população já havia tomado conhecimento do Judaísmo e do Cristianismo, o que facilitou a aceitação de um Deus único anunciado por Maomé. Os padrões islâmicos de moralidade e as normas que regulam a vida cotidiana são fixados pelo Alcorão, que os muçulmanos acreditam conter a palavra de Alá, revelada a Maomé. Para eles, o Islã é o aperfeiçoamento do Judaísmo e do Cristianismo e reconhecem Jesus como um grande profeta, mas não divino. Maomé unifica as tribos árabes, envolvidas em constantes disputas, através da difusão da fé islâmica. Entre os séculos VIII e IX, a civilização muçulmana conhece o seu apogeu. Enquanto o conhecimento estava em baixa na Europa ocidental, os muçulmanos desenvolviam grandes conhecimentos embasados nas realizações dos gregos antigos através da tradução de obras gregas para o árabe. Com as suas conquistas, o império árabe estende-se desde a Espanha até a Índia e foi unificado, principalmente, pela fé. Por volta do século XI, começam a perder seu domínio. Os árabes encontravam-se assim extraordinariamente bem colocados para realizarem a exploração do domínio da Antiguidade clássica. O interesse pelas viagens e pelo conhecimento de outros lugares era grande. As peregrinações a Meca, exigência do Corão, significavam também grandes distâncias a percorrer. Assistiu-se assim a um período de desenvolvimento do conhecimento de muitos lugares. Os árabes procuravam também estabelecer relações com outros povos distantes. No século XII, Edrisi enriqueceu os seus conhecimentos geográficos com longas viagens e, ao serviço do rei da Sicília, elaborou e 1154 um mapa-múndi, que é considerado a obra mais importante da cartografia árabe. No século XIV, Ibn Batutah percorreu o Egipto, a Arábia, a Palestina, a Rússia, o Iraque, o Irão, o Afeganistão, a Índia e a China. Ultrapassou o Equador, demonstrando que a zona tórrida era habitada. O relato das suas viagens, rico de observações e de informações pessoais, é, sobretudo, uma descrição da sociedade muçulmana da 1ª metade do século XIV. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 34 Figura 11- Itinerários e expansão árabe na idade media Os árabes mantiveram, deste modo, as tradições da geografia descritiva. Foram também eles que traduziram no século IX a geografia de Ptolomeu, com o nome de Almagesto. Desenvolveram a astronomia, a matemática, a geometria. Aperfeiçoaram o astrolábio e a bússola. E enquanto a cartografia ocidental ia pouco além de uma ilustração decorativa de textos teológicos, o mundo muçulmano recolheu e desenvolveu a antiguidade clássica. As suas cartas são no entanto esquemáticas: não há nem projetado, nem coordenadas, e a configuração real das várias regiões é inteiramente ignorada. A latitude e a longitude foram utilizadas pelos astrónomos nas suas observações, mas geógrafos, ao elaborarem os mapas, não se serviam desses dados. Existia no mundo árabe uma separação entre os geógrafos e astrónomos, que não aconteceu na antiguidade. Figura 12-Cartogramas usados pelos árabes na idade média ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 35 Sumário Na aula 1 (O saber geográfico), você observou a diferençaexistente entre o conhecimento geral e o geográfico. Agora, você terá visto como esses conhecimentos e, em particular, o geográfico, recrudesceu no início da Idade Média. A partir desse período, a influência do Cristianismo passa a ocorrer, também, no cerne do conhecimento e as respostas para as indagações do homem passam a ser pautadas nos conhecimentos da Bíblia e no desenvolvimento do conhecimento humano, como o incremento de tecnologias que viabilizassem os empreendimentos da Igreja Católica – as cruzadas, por exemplo. Viu ainda que a influência dos árabes é grande nesse período e que ela foi fundamental para o desenvolvimento geográfico dessa época. Autoavaliação 1. A Europa, da Idade Média, é uma sociedade relativamente estável e fechada. Mas, esse período inicia grande processo de abertura e expansão comercial e marítima. 2. Qual das alternativas abaixo aponta características da religião na Idade Média? A - Várias igrejas cristãs e protestantes atuavam na Europa Medieval. B - A Igreja Católica dominava na Europa Medieval, controlando a produção cultural e tendo grande influência sobre a vida espiritual das pessoas. C - As pessoas não davam importância à religião na Idade Média, sendo que grande parte da população era composta por ateus. D - Embora monopolizasse a vida religiosa na Idade Média, a Igreja Católica era muito aberta aos avanços científicos e manifestações culturais diversas. Guião de Correcção 1-V; 2-B Referencias Bibliograficas ANDRADE, Manuel Correia de. Geografia: ciência da sociedade. Recife: Editora Universitária/UFPE, 2006. BAILLY, A.; FERRAS, R. Élements d’éspistemoligie de la géographie. Paris: Armand Colin, 1997. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 36 CLAVAL, Paul. Histoire de la géopgraphie. Paris: PUF, 1996. FERREIRA, Conceição Coelho; SIMÕES, Natércia Neves. A evolução do pensamento geográfico. Lisboa: Gradiva, 1990. (Panfl etos Gradiva, 5). MARCO Pólo. Direção de Giuliano Montaldo. São Paulo: Versátil, 1982. AS MONTANHAS da lua. Direção de Bob Rafelson. [S. l.]: Tel Vídeo/20.20 Vision, 1990. O NOME da rosa. Direção de Jean-Jacques Annaud. São Paulo: Warner Bros, 1986. UNIDADE Temática 2.3. A Geografia na era dos Descobrimentos Introdução Nesta aula, veremos as mudanças ocorridas no período de transição entre a Idade Média e os Tempos Modernos, destacando os acontecimentos que deram origem à chamada Renascença e ao Iluminismo e a forma como essas mudanças influenciaram e demandaram uma nova ordem espacial. deseríodo. Ao completar esta unidade, você deverá ser capaz de: Objectivos específicos Compreender a importância da Renascença e do Iluminismo para os tempos modernos. Mostrar a relação entre mudanças sociais e estruturas espaciais ocorridas na transição do Feudalismo para o Capitalismo. Relacionar mudanças ocorridas na estrutura social com a estruturação espacial. O Renascimento O Renascimento3 foi um dos mais importantes momentos de inflexão (mudança de direção) da história do ocidente e significa uma rotura 3 Segundo o dicionário Michaelis, o Renascimento pode ser definido como o movimento literário, científico e artístico surgido na Itália, no século XV, e difundindo-se pelos outros países da Europa, no século XVI; sua característica principal foi a imitação dos modelos da civilização grega e latina. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 37 entre o mundo medieval, caracterizado como uma sociedade agrária, estamental, teocrática e fundiária, e o mundo moderno, caracterizado pela urbanização, pelo modo burguês de pensar e, principalmente, por se caracterizar como uma sociedade de trocas. O Renascimento vai do século XV ao XVII. Neste momento ocorrem significativas mudanças. Na Europa, estas mudanças estão na origem do que viria a ser o mundo contemporâneo. Como vimos na aula anterior, a Europa, da Idade Média, é uma sociedade relativamente estável e fechada. Mas, esse período inicia grande processo de abertura e expansão comercial e marítima. A identidade das pessoas, de forte vinculação com o clã (tribo constituída de varias famílias subordinadas a um chefe hereditário) com a propriedade fundiária, passa a ter como referência o nacionalismo e o cultivo da própria individualidade. O homem vai tornando-se, aos poucos, o centro das preocupações, possibilitando paulatinamente a instalação de mentalidade laica (o que se opõe à eclesiástica), a qual vai se desligando do sagrado e das questões transcendentais tão características da Idade Média. Essas mudanças afetaram todas as esferas sociais: Na esfera econômica, o comércio e a manufatura tiveram grande expansão e o capitalismo substitui amplamente as formas medievais de organização econômica. Na esfera política, o governo central torna-se mais forte e viabiliza a consolidação do Estado, nova forma de governar. Na esfera religiosa, veremos a ascensão do protestantismo. Na esfera social, surge o que hoje chamamos de classe média, que assume um papel importante no campo da política e da cultura. Na esfera cultural, o clero perde o monopólio do ensino e a teologia cede lugar à ciência na explicação do mundo. A sociedade renascentista é uma sociedade fascinada pela vida da cidade, pelo comércio e pelos prazeres terrenos. A ideia de viver bem neste mundo passa a rivalizar com a promessa do paraíso. Ao se afastarem da orientação religiosa predominante na Idade Média, a sociedade que daí emerge vai discutir a condição humana na sua relação com o mundo, abrindo, assim, novas possibilidades de reflexão sobre questões políticas e morais. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 38 Note que nesse processo de transição do medieval para a modernidade o mundo vai tornando-se cada vez mais laico e independente da tutela da religião e o homem vai sendo levado a pensar e analisar a realidade que o cerca em toda a sua objetividade e não como resultado da vontade divina. Perceba que neste momento aparecem novas instituições políticas e sociais – nações, estados, novas legislações, novas classes sociais, exércitos etc. – o que implica também numa nova maneira de pensar a vida social, a história e a geografia. As cidades ganham vida, atraindo pessoas de diferentes lugares dispostas a conquistar um espaço no mundo, a competir e a enriquecer. A cidade vai transformar-se também no lócus de sustentação do desenvolvimento do capitalismo, inaugurando também uma nova divisão social e territorial do trabalho (trataremos melhor desse assunto na aula seguinte, na qual veremos as consequências espaciais de toda essa transformação). O Iluminismo Mais que um movimento, o Iluminismo foi um modo de pensar. Falando de modo geral, foi uma consequência da “revolução científica” do final do século XVII, que havia transformado a concepção que a maior parte das pessoas instruídas tinha a respeito do mundo habitado. Como vimos a pouco, o Renascimento inicia o movimento de transição da sociedade medieval para o capitalismo moderno. Sistema econômico voltado para a produção concentrada de bens, para a troca, para a expansão comercial, para a circulação crescente de mercadorias e para o adensamento populacional. Perceba que é um sistema que demanda constantemente ajustes e ordenamento espacial. Essa sociedade que emerge é individualista e financista. Voltada para expansão comercial e busca do lucro, ela engendra novos valores e atitudes que passam a reger o comportamento social. Veja quea nova sociedade mexe de maneira radical com a estruturação espacial: expansão significa busca e dominação de novos territórios; produção concentrada exige deslocamento de população e novo papel para as cidades; circulação demanda vias de comunicação e de fluxos, dando origem a redes urbanas hierarquizadas. O Desenvolvimento Científico Essas novas condições fizeram do comércio a principal atividade motora da sociedade que daí emergia. Para esse fim, organizavam-se viagens internacionais e faziam-se guerras nas quais eram disputadas as melhores rotas comerciais, as fontes de produtos e matérias-primas e a ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 39 clientela. As grandes navegações ocorreram nesse cenário. A valorização e intensificação das trocas, a descoberta de novas rotas e do desenvolvimento das redes urbanas, e a possibilidade, cada vez maior, de se auferir lucro repercutiram no estímulo à produção. Tornava-se urgente produzir mais e em condições capazes de responder à demanda que se tornava cada vez mais intensa. Esse quadro passa a exigir dos produtores uma outra racionalidade e, principalmente, planeamento. Além disso, a intensificação e ampliação dos mercados requerem um desenvolvimento tecnológico que acompanhe os novos ritmos da produção em larga escala para um mercado que já se reveste de tendências mundiais. Perceba que nesse caso estão dadas as condições para o desenvolvimento tecnológico voltado para a invenção e produção de máquinas que potencializasse a produção e o barateamento dos produtos. Isso provoca um verdadeiro corre-corre por engenhos tecnológicos. O planeamento, a racionalidade e o desenvolvimento da pesquisa científica vão, aos poucos, sendo disseminados visando à produção, e também vão se disseminando na vida cotidiana. Essa turbulência provoca a curiosidade dos homens no sentido da busca do entendimento dos mecanismos que regulam o mundo circundante, ou seja, o homem da modernidade procura compreender os mecanismos da vida e da natureza. Com a saída sistemática de populações do campo em direção à cidade, o interesse pela produção agrícola tornou-se iminente dado que, pela primeira vez na história, dever-se-ia produzir para um contingente de produtores não primários. Essa preocupação manifesta-se numa verdadeira revolução agrícola que buscava aumentar a produção e a produtividade de alimentos. E esse movimento somente foi possível porque junto com a revolução agrícola vieram também a revolução científica, tecnológica e industrial. As Grandes Navegações Imagine que, diante do quadro apresentado até aqui, os interesses econômicos e de expansão manifestavam-se de forma nunca vista na história. São esses interesses que vão provocar, entre os séculos XVI e VXII, o ingresso da Europa Ocidental numa era de agressiva exploração ultramarina e expansão econômica que transformará em definitivo o mundo em que vivemos. Os exploradores europeus descobriram um novo caminho para a Índia, fazendo o ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 40 contorno do continente Africano. Conquistaram, colonizaram e exploraram a América, o que provocou um extraordinário aumento nas atividades mercantis e no suprimento monetário, promovendo o desenvolvimento do capitalismo. As Grandes Navegações levaram ao progresso da Cartografia, além de inúmeras invenções como a bússola, a caravela e o astrolábio. Figura 13- bússola, a caravela e o astrolábio. Os primeiros mapas desse período eram elaborados de acordo com as necessidades dos navegadores, que descreviam os litorais por onde passavam, deixando de lado a descrição do interior dos continentes. Esses mapas eram denominados portulanos. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 41 Figura 14- mapas portulanos As grandes navegações (ou os grandes descobrimentos) foram fundamentais para o alargamento do horizonte geográfico a partir da Europa. Para superar as dificuldades na busca de novas terras, os navegadores tiveram que aprimorar seus instrumentos de observação da natureza. Alguns instrumentos serviram, portanto, como potencializadores da capacidade de observação e de registo do que os homens conseguiam ver e conhecer. A combinação dos usos de instrumentos, resultado das invenções do ser humano, foi fundamental para que as navegações ocorressem muito além das proximidades dos continentes. Depois de ultrapassar o Cabo Bojador, no Marrocos, os portugueses foram além, acompanhando a costa oeste da África, até chegarem ao Oceano Índico depois de ultrapassarem o Cabo da Boa Esperança ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 42 Figura 15- Cabo da Boa Esperança, África do Sul Daí, chegar à Índia, acertar o rumo para a América, ir além do Estreito de Magalhães, foi resultado de um passo arrojado e corajoso que os navegadores portugueses, depois os espanhóis, desafiando as condições naturais e adversas de correntes marítimas e de ventos, puderam chegar a terras antes desconhecidas por eles. Para que isso ocorresse, no entanto, foi necessário o desenvolvimento de outros conhecimentos. A elaboração de mapas com o domínio da linguagem matemática e das projeções cartográficas foi necessária para que as rotas fossem, ao longo do tempo, definidas com mais precisão. Um novo desafio se colocava: a Terra, de formato esférico, precisava ser representada em um plano constituído pela folha que se colocava sobre a mesa dos cartógrafos. As medidas de latitude e longitude precisavam ser respeitadas e, para isso, a precisão matemática se tornava cada vez mais necessária. A linguagem da ciência, no Renascimento, consolidava-se como sendo a matemática. Por meio de pontos, retas e ângulos, poder-se-ia localizar qualquer ponto, pessoa, lugar etc. num sistema tridimensional de coordenadas. Cabia, com as mudanças paradigmáticas do Renascimento, compreender como o mundo funcionava, muito mais do que compreender por que ele foi criado. O ser humano emerge como centro do universo e sua posição nesse universo, mesmo tendo como referência a Terra, era importante para se ampliar os horizontes da ciência. Para que isso ocorresse, os europeus foram responsáveis pela conquista de novas terras, associando-se ou dizimando outras populações que já aí viviam. Sua capacidade de conquista foi potencializada por alguns elementos: a caravela, mais leve e ágil e que podia ultrapassar, por ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 43 causa das suas velas, cabos com ventos contrários; a pólvora, elemento básico para a demonstração do poderio bélico, que possibilitou o avanço dos conquistadores sem se arriscarem no corpo-a-corpo das batalhas; e a bússola, instrumento que permitiu a orientação dia e noite nos deslocamentos pelos mares e pelas terras. A esses elementos, acrescenta-se a imprensa, invenção que permitiu o registo dos conhecimentos e sua divulgação em diferentes línguas para todos aqueles que pudessem decifrar os códigos das letras e sílabas, e das representações cartográficas. Atitudes como a observação, a anotação, o uso de instrumentos, a descrição e a explicação foram incorporados pela Geografia e, ainda hoje, são importantes para a abordagem do temário geográfico. Para completar esse quadro, é importante lembrar o papel do método científico, que serviu para que os cientistas se orientassem, registassem e transformassem a observação dos fatos em elementoscientíficos. O método científico, como ele foi organizado no Renascimento, continha alguns princípios que, quando seguidos, davam o estatuto de ciência ao que era enunciado. Observar sempre, experimentar, utilizar a linguagem matemática, decompor o facto estudado, não deixar de lado nenhum aspecto do facto para que ele tivesse todas as suas possibilidades esgotadas, eram os princípios que deviam ser seguidos por todos aqueles que tinham, como objectivo, fazer ciência. Sumário Nesta aula, mostramos as principais mudanças ocorridas à época da Renascença e do Iluminismo, dois momentos que significaram o período de transição entre a Idade Média e a Idade Moderna. Destacamos ainda as relações entre o clima intelectual, o desenvolvimento político, cultural, social e econômico e a relação recíproca entre essas mudanças e as mudanças de ordem espacial. Este período significou para a geografia, como para quase todo os sectores do saber humano, uma época de renovação e de fabril actividade. Foi o tempo das grandes viagens, que revelaram mundos desconhecidos, e das grandes descobertas científicas, que forneceram novas bases a todos os conhecimentos. Três factos importantes caracterizaram este momento único: — Um prodígio alargamento do horizonte geográfico; ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 44 — O grande desenvolvimento da cartografia; — Os progressos das ciências físicas auxiliares da geografia. Autoavaliação 1. O Renascimento inicia o movimento de transição da sociedade medieval para o capitalismo moderno 2. O desenvolvimento da pesquisa científica vão, aos poucos, sendo disseminados visando à produção, e também vão se disseminando na vida cotidiana. Foi no desenvolvimento cientifico que: A. Ocorreram as grandes navegações B. Queda do império Romano C. Descoberta da Geografia D. Todas opções estão correctas. 3. Os primeiros mapas desse período eram elaborados de acordo com as necessidades dos navegadores, que descreviam os litorais por onde passavam 4. Os primeiros mapas desse período eram elaborados de acordo com as necessidades dos navegadores, que descreviam os litorais por onde passavam. Esse tipos de mapa eram denominados por: A. Bússola B. caravela C. astrolábio D. portulanos. 5. Os grandes descobrimentos foram fundamentais para o alargamento do horizonte geográfico a partir da: A. Africa B. Ásia C. Europa D. América ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 45 Guião de Correcção 1-V; 2-A; 3-V; 4-D; 5-C Avaliação 1. A elaboração de mapas com o domínio da linguagem matemática e das projeções cartográficas foi necessária para que as rotas fossem, ao longo do tempo, definidas com menor precisão. 2. O método científico, como ele foi organizado no Renascimento, continha alguns princípios que, quando seguidos, não davam o estatuto de ciência. 3. As principais mudanças ocorridas à época da Renascença e do Iluminismo, são dois momentos que significaram o período de transição entre: A. A Idade Moderna e a Idade Média B. a Idade Média e a Idade Moderna. C. Contemporânea e a Idade Moderna. D. Contemporânea e a Idade Média 4. Nas grandes navegações, podemos destacar um dos factos muito importantes para contributo do sucesso da Geografia: A. O grande desenvolvimento da cartografia B. Revolução Industrial C. Avanço Tecnológico D. Todas opções estão correctas. 5. Os progressos das ciências físicas auxiliares da geografia foram marcado na era de descobrimentos. Guião de Correcção 1-F; 2-F; 3-B; 4-A; 5-V Referencias Bibliográficas ANDRADE, Manuel Correia de. Geografia: ciência da sociedade. Recife: Editora Universitária/UFPE, 2006. BAILLY, A.; FERRAS, R. Élements d’éspistemoligie de la géographie. Paris: Armand Colin, 1997. CLAVAL, Paul. Histoire de la géopgraphie. Paris: PUF, 1996. PERRY, Marvin. Civilização ocidental. São Paulo: Martins Fontes, 2002. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 46 TARNAS, Richard. A epopéia do pensamento ocidental. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2000. UNIDADE Temática 2.4. A Institucionalização da geografia Introdução A Geografia moderna surge na Alemanha, a então Prússia, no século XIX, marcada pelas particularidades desse país. Mostrar isso é um dos intuitos desta aula. Mostraremos também que o contexto cultural, político e filosófico devem estar relacionadas quando se trata de entender o desenvolvimento de qualquer ciência. Você verá ainda como se dá o processo de sistematização e institucionalização da Geografia, quais foram os pressupostos materiais e históricos que deram sustentação a essa sistematização e quais os pressupostos imateriais/subjectivos. Esta aula tenta responder às seguintes questões: por que a geografia, um conhecimento de longa data, vai se transformar em um saber sistematizado e científico apenas no século XIX e por que é na Alemanha que isso acontece? Quais as relações entre o contexto da modernidade4 e o surgimento dessa ciência? desse período. Ao completar esta unidade, você deverá ser capaz de: Objectivos específicos Compreender como as transformações ocorridas na modernidade influenciaram o processo de desenvolvimento das ciências em geral e da Geografia em particular. Identificar as mudanças ocorridas nesse período que influenciaram, especificamente, o pensamento geográfico. Relacionar os processos históricos, sociais, econômicos e políticos com o desenvolvimento e sistematização do conhecimento geográfico. Articular a especificidade da Alemanha no século XIX com o surgimento da Geografia moderna. 4 Estilo e costume de vida ou organização social que emergiram na Europa a partir do século XVII e que vai, paulatinamente, influenciando todo o mundo. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 47 Contexto geral Como você viu na aula sobre Geografia na Antiguidade, as primeiras indagações geográficas sobre a localização e distribuição dos fenômenos remontam às origens da humanidade. Entretanto, de forma mais rigorosa, a Geografia como conhecimento mais sistematizado nasce na Grécia, onde Anaximandro de Mileto (650- 615 a.C.) constrói o primeiro “mapa do mundo” e Hecateu de Mileto (560-480 a.C.) constrói o segundo. Por outro lado, a Geografia enquanto ciência autônoma e sua institucionalização ocorrerão somente no século XIX. Perceba que desde o início o conhecimento geográfico apresentou-se polarizado entre duas tendências opostas e complementares. De um lado, os geômetras (versados em Geometria) e os astrônomos, com uma visão mais geral; de outro, os desbravadores, os aventureiros e curiosos, os historiadores, os filósofos e os políticos que, preocupados com os aspectos diferenciados da superfície terrestre, das diversas formas de produção, dos povos e de seus costumes, refletem sobre as relações entre os diferentes territórios e as várias sociedades humanas. Vimos também que no decorrer da história da humanidade os périplos e conquistas se multiplicam, os contactos com os povos “bárbaros” vão pari passu (simultaneamente) alargando o horizonte geográfico. A gênese da Geografia moderna A constituição da Geografia enquanto saber científico sistematizado e institucionalizado é fruto de um processo lento que tem por base factores diversos no que se refere aos fenômenos históricos e estruturais relacionados a determinado grau de desenvolvimento material das sociedades e às ideias a elesvinculadas, ou seja, o desenvolvimento da geografia (assim como de todas as outras ciências) prescinde do desenvolvimento da vida material e do pensamento filosófico-científico. Dessa forma, a geografia moderna, em seu nascedouro, necessitou de uma série de condições históricas para poder se tornar realidade. Essas condições históricas a que nos referimos dizem respeito ao processo de transição do Feudalismo para o Capitalismo. Podemos dizer que a grande revolução para o conhecimento geográfico começa a ser preparada a partir da extraordinária expansão do espaço conhecido, do domínio da configuração da Terra e do desprezo às ideias e crenças a respeito da superfície terrestre que vem com a Idade Moderna. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 48 Mas, para que a geografia desponte como um saber autônomo, particular, faz-se necessárias ainda certas condições que só estarão suficientemente amadurecidas no século XIX. Pressupostos para o surgimento da Geografia moderna Como vimos anteriormente, a institucionalização da Geografia dependeu tanto de factores externos quanto de factores de ordem interna à lógica do conhecimento científico em geral. Vimos também que o desenvolvimento dessa lógica está intimamente ligada ao processo mais amplo de desenvolvimento histórico da humanidade. Em se tratando especificamente da institucionalização do conhecimento geográfico moderno, que é o nosso caso, podemos dizer que quatro ordens de factores ou pressupostos fundamentais contribuíram para a erupção da sistematização da Geografia como ciência: a. O efetivo conhecimento do planeta (alargamento do horizonte geográfico, ampliação do ecúmeno – áreas da Terra habitadas pelo homem); b. Acúmulo de informações sobre os diferentes lugares; c. Aperfeiçoamento das técnicas cartográficas; d. Desenvolvimento do conhecimento científico-filosófico. O conhecimento do planeta O conhecimento efetivo da extensão real da Terra é um pressuposto fundamental para a emergência da Geografia moderna e as condições materiais para a realização de tal conhecimento encontram se na expansão europeia que se concretiza através das grandes navegações e descobertas e na constituição de um espaço mundial de relações. No século XIX, a constituição de um espaço mundial já é uma realidade efectiva e consolida definitivamente aquele processo que se inicia com as primeiras evidências de decadência do sistema feudal, ou seja, no século XIX, com a Revolução Industrial, o Capitalismo está consolidado. Essa consolidação atua de forma decisiva no processo de reafirmação das relações mercantis de produção que, ao se articular em escala planetária, estende a influência das sociedades europeias em todo o globo. Preste atenção, também, ao facto de que a constituição de uma economia mundial desembocou numa exploração colonial, pois esse processo de expansão econômica exigiu uma necessária apropriação e submissão de novos territórios e sua incorporação ao sistema produtivo. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 49 Este processo se baseia, pelo menos, em dois elementos fundantes da Geografia: apropriação e exploração. A apropriação desses novos territórios ocorre de forma lenta e vai, paulatinamente, fragmentando os modos de vida locais, promovendo novos ordenamentos e “ajustes espaciais”. Além disso, coloca o europeu expansionista em contacto com realidades espaciais bastante diversas da sua. Para ter o conhecimento dessas novas realidades particulares e de suas localizações (lembre-se de que localização e nomeação dos lugares são elementos constitutivos do saber geográfico, veja aula 1), o levantamento de informações sobre esses lugares singulares torna-se imprescindível. O acúmulo de informações Como vimos, os grandes descobrimentos dão origem a um conhecimento cada vez mais apurado da realidade do planeta, factor primordial para o surgimento de uma Geografia moderna. Junto a esse conhecimento, faz-se necessária a sistematização de informações sobre os diferentes pontos da Terra, ou seja, sobre os diferentes territórios que vão sendo incorporados às relações mercantis. A descoberta de novas terras torna possível a expansão das relações capitalistas. A apropriação e incorporação de novos territórios exigem, como já foi dito, o conhecimento de realidades distintas entre si e distintas do quadro europeu de referência. Assim, a exploração colonial demanda o levantamento constante de informações que vai sendo feito de forma criteriosa, dando origem a grande acervo de dados. O acúmulo de informações é primordial nesse momento de expansão, uma vez que o “mundo”, tal qual o conhecemos hoje, está sendo descoberto e apropriado (dominado) e do qual se tem poucas informações. Além disso, conhecer e localizar detalhadamente os diferentes lugares é uma tarefa demandada pela própria necessidade de realização da expansão capitalista que, para aumentar seu domínio e fortalecer suas atividades nos territórios colônias, necessita de informação. A cartografia O avanço e aprimoramento da cartografia (instrumento por excelência geográfico) se constituem efetivamente num outro pressuposto da Geografia moderna. Esse avanço na linguagem cartográfica é uma demanda primária e uma exigência prática para o pleno desenvolvimento das relações comerciais que requer o estabelecimento preciso de rotas de navegação, assim como a localização exata dos lugares e portos. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 50 O tráfego terrestre também se amplia em função da regularidade crescente das trocas e do atendimento de distâncias maiores a serem percorridas. É a economia “global” que emerge, articulando regiões diferentes e distantes e demandando a confeção, cada vez mais detalhada, de mapas confiáveis que facilitem o deslocamento mais rápido e seguro dos meios de transporte, os quais também sofrem grande desenvolvimento nesse período. Mapas mais confiáveis propiciam ainda o conhecimento e a extensão real das colônias. A técnica de impressão, recém-descoberta nesse período, populariza o instrumental cartográfico que vai se juntar às descrições dos viajantes naturalistas do século XVII, dando-lhes cunho mais geográfico. Alemanha: berço da institucionalização da Geografia moderna Na Alemanha, emergem questões da prática social e da sua particularidade histórica que irão estimular a sistematização e institucionalização da geografia no seio da sociedade germânica. O repertório geográfico e os interesses sociais e políticos engendrados na sociedade alemã formam um par indissociável para a discussão dos problemas colocados para os alemães e seu contexto histórico frente às mudanças e transformações por que passavam as diferentes sociedades europeias. Um dos elementos fundamentais para a tessitura do “ajuste espacial”, demandado pelo processo de modernização, é a constituição do Estado. Enquanto outros países constituem seu Estado Nacional, a Alemanha encontra dificuldade para sua unificação frente à extrema diversidade entre as várias unidades germânicas, a ausência de relações mais duradouras entre elas e a falta de um centro organizador do espaço que faça convergir as relações econômicas e amenizem as disputas de fronteiras. A Alemanha é, nesse período, um país em situação de atraso em relação às demais nações europeias e tal situação parece ser um aspecto fundamental para fazer da discussão geográfica um tema da maior importância para a sociedade alemã. Essas singularidades germânicas vão marcar profundamente todos os planos da história da Alemanha, das relações econômicas, passando pela organizaçãopolítica, até as formas de pensamento. É nele inclusive que residem as determinações históricas específicas explicativas do afloramento pioneiro do processo de sistematização do pensamento geográfico nesse país (MORAES, 2002, p.26). ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 51 Como você deve estar percebendo, a maior parte dos temas colocados pelo processo de sistematização da Geografia constitui dificuldades vividas pela sociedade alemã ainda não unificada. A geografia nasce nesse contexto específico da Alemanha para dar respostas a duas questões fundamentais: resolver uma questão territorial premente para a constituição de um Estado Nacional e a conquista de um lugar de destaque para a Alemanha no cenário apresentado pela realidade europeia do século XIX. Os acontecimentos históricos e as necessidades práticas da sociedade alemã são pontos importantes para a compreensão do surgimento da Geografia moderna, mas não são suficientes. O nascimento de uma ciência ou de uma ideia depende de factores históricos, mas também de homens concretos. E em se tratando de Geografia alemã, esses homens são Humboldt e Ritter, que teremos oportunidade de conhecer na próxima unidade. Sumário Esta aula mostra a relação entre o desenvolvimento da ciência geográfica e o das condições materiais da vida social dentro do contexto histórico da modernidade. Analisa os pressupostos para a sistematização da Geografia e a especificidade da Alemanha no século XIX, país que primeiro fará a sistematização do conhecimento geográfico, dando-lhe estatuto científico e institucional. Auto-avaliação 1. A Geografia enquanto ciência autônoma e sua institucionalização ocorrerão somente no século: A. XIX B. XX C. XVII D. XV 2. A constituição da Geografia enquanto saber científico sistematizado e institucionalizado é fruto de um processo rápido que tem por base factores diversos como aos fenômenos históricos e estruturais. (F) 3. A constituição da Geografia enquanto saber científico sistematizado e institucionalizado é fruto de um processo que envolve fenômenos históricos. Essas condições históricas a que nos referimos dizem respeito ao processo de transição do: A. Capitalismo para o Socialismo B. Feudalismo para o Capitalismo. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 52 C. Feudalismo para o Socialismo D. Socialismo para o Marxismo 4. O conhecimento geográfico começa a ser preparada a partir da extraordinária expansão do espaço conhecido, do domínio da configuração da Terra e do desprezo às ideias e crenças a respeito da superfície terrestre que apareceu com a: A. Idade Media B. Idade Antiga C. Idade Moderna D. Todas as idades 5. O conhecimento efetivo da extensão real da Terra é um pressuposto fundamental para a emergência da Geografia moderna Guião de Correcção 1-A; 2-F; 3-B; 4-C; 5-V Avaliação 1. Os grandes descobrimentos dão origem a um conhecimento cada vez mais apurado da realidade do planeta, factor primordial para o surgimento de uma Geografia moderna. A institucionalização da Geografia foi na: A. França B. Itália C. América D. Alemanha 2. O nascimento de uma ciência ou de uma ideia depende de factores económicos, mas também de seres homens concretos. 3. As primeiras colocações, no sentido de uma Geografia sistematizada, vão ser a obra de dois autores prussianos ligados à aristocracia: Alexandre Von Humboldt, conselheiro do rei da Prússia, e Karl Ritter, tutor de uma família de banqueiros. Guião de Correcção 1-D; 2-F; 3-V ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 53 Referencias Bibliográficas ANDRADE, Manuel Correia. Geografia: ciência da sociedade. Recife: Editora Universitária/UFPE, 2006. MORAES, António Carlos Robert. A gênese da geografia moderna. São Paulo: ANNABLUME/HUCITEC, 2002. MORAES, António Carlos Robert. Geografia: pequena história crítica. São Paulo: HUCITEC, 1983. MOREIRA, Ruy. Pensar e ser em geografia. São Paulo: Contexto, 2007. SANTOS, Milton. A natureza do espaço. São Paulo: EDUSP, 2006. UNIDADE Temática 2.5. A geografia de Humboldt e Ritter Introdução No período que analisaremos nesta aula, você verá que a geografia vai deixando de ser apenas uma obra de erudição a serviço de outras ciências, no papel de auxiliar; que ela deixa de ser um amontoado de conhecimentos, uma enumeração mais ou menos ordenada de nomes de rios, montanhas ou cidades; e que deixa também de ser um agregado de nomes e de números. Você verá ainda que a geografia se beneficia dos acontecimentos gerais e do desenvolvimento de outras ciências. Ligados a essas mudanças, encontraremos os pais da geografia moderna: Humboldt e Ritter. São esses dois sábios geógrafos os primeiros a se preocuparem com a Geografia enquanto ciência e como um saber sistematizado. Viveram na mesma época, caminharam por vias diversas, mas suas ideias convergiam significativamente para os mesmos princípios. De modo geral, podemos dizer que o conjunto da obra desses dois alemães respondia ao desafio da sociedade europeia em que viviam: desenvolvimento do Capitalismo, colonização e a formação específica da Alemanha. desse período. Ao completar esta unidade, você deverá ser capaz de: Objectivos Específicos Compreender como o panorama de ampliação do horizonte geográfico contribuiu para o alargamento das ciências em geral e da Geografia em particular. Identificar as mudanças ocorridas nesse período que influenciaram, especificamente, o pensamento de Humboldt e de Ritter. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 54 Relacionar os processos históricos, sociais, econômicos e políticos com o desenvolvimento e a sistematização do conhecimento geográfico elaborado por Humboldt e Ritter. Refletir geograficamente, utilizando-se da relação entre forças locais e gerais na explicação dos fenômenos. Panorama geográfico Séculos XVIII e XIX O século XVIII foi o século da exploração dos oceanos e da elaboração do material cartográfico, o que preparou as vias para o desenvolvimento da Geografia moderna. A navegação à vela aperfeiçoa-se. As caravelas dão lugar a navios mais longos, mais largos e mais pesados, chamadas galeotas. Os navios aumentam a sua capacidade de tonelagem e de calado (distância vertical entre a superfície da água e a parte mais baixa do navio naquele ponto). São navios que andam mais rápido e bem armados, e que vão munidos de aparelhos de bordo que permitem uma navegação mais segura pela determinação exata, não apenas em termos de latitudes, mas das longitudes. Com o desenvolvimento de técnicas que tornaram as medições de longitude mais precisas foi possível fazer medições, cada vez mais rigorosas, das dimensões da Terra que vão possibilitar a precisão da forma do globo terrestre. Com essas medições, os erros das cartas vão sendo paulatinamente eliminados, dando uma precisão cada vez maior à cartografia, que culmina com a publicação em 1780 do Atlas Universal de Bourguignon d’Anville, no qual foram suprimidas indicações errôneas e as deformações de representação que existiam desde Ptolomeu. Esse desenvolvimento da cartografia permitiu a exploração dos oceanos. No século XVIII, são feitas grandes e ousadas missões de reconhecimentos das Em 1617, o holandês Snellius criou o método das medições geodésicas. Mas a primeira medição exata do arco do meridiano foi do francês Picard em 1669- 1670. De 1638 a 1712, por instigação da Academia das Ciências, Cassini e Lahire determinaramas medidas geométricas da França. Em 1735, Claivaut e Maupertuis eram enviados à Lapónia para medirem o arco do meridiano, enquanto Bouguer e La Condamine iam ao Peru a fim de realizarem uma operação semelhante; achou-se que as dimensões do arco eram maiores no equador do que perto dos pólos; estas missões forneceram assim prova do achatamento da terra junto dos pólos (CLOZIER, [1974?], p.73). ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 55 localizações e descobertas dos continentes. É graças a essa ousadia que se descobre que o hemisfério Sul é oceânico, se estabelece a carta do Pacífico em suas grandes linhas e se pode afirmar que os mares cobrem um espaço duas vezes maior do que as terras. Esse período é decisivo para o conhecimento geográfico da Terra. Os continentes se revelam; as regiões mais hostis, como os desertos e as regiões polares, são exploradas; e são feitas sondagens sobre o relevo submarino e a alta atmosfera. Se o século XVIII foi de grande desenvolvimento para as descobertas marítimas, o século XIX é o século, por excelência, da penetração dos continentes. Por volta de 1800, a África, excepto algumas regiões, é ainda um continente incógnito; a Austrália é totalmente desconhecida; a Ásia Central e o interior do continente americano mal começaram a ser conhecidos. O avanço para o interior dos continentes e a ocupação colonial que daí resultam vão colocar “frente a frente” povos, costumes, histórias e sociedades diferentes. O europeu explorador deparar-se-á com novos climas, novas paisagens, novos gêneros de vida. O desenvolvimento dos meios de transporte intensifica as viagens de mapeamento do interior dos continentes, pois a mobilidade se torna mais eficaz com o advento da máquina a vapor e, por terra, o desenvolvimento da rede de estradas de ferro vai se tornando uma realidade concreta, o que permite um extraordinário progresso na circulação de bens e pessoas. Com a expansão colonial, o mundo vai se revelando e as relações de apropriação, exploração e dominação vão sendo tecidas em conjunto com a incorporação territorial e as grandes vias de circulação demandadas pela expansão industrial. A Revolução Industrial, que começa a partir do fim do século XVIII, promove também uma revolução nas técnicas de produção, nas formas de transformação da natureza, demandando progressivamente matérias-primas e mercado. Tais revoluções, industrial e técnica, que ocorreram principalmente na França, Bélgica e Holanda, modificam irreversivelmente o equilíbrio dos continentes e das sociedades. Graças a essas revoluções, a Europa vai exercer, no século XIX, hegemonia política e econômica sobre o mundo através dos Estados, das companhias de navegação e das sociedades capitalistas. Panorama intelectual e científico Como vimos em aulas passadas, as transformações materiais que se iniciaram com o fim da Idade Média formam um par inseparável com as transformações no mundo das ideias. A extraordinária expansão do conhecimento sobre o horizonte geográfico e sobre a configuração da Terra, a dessacralização da natureza e a quebra de algumas crenças a respeito da superfície terrestre marcam as transformações das ideias nos tempos modernos. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 56 Algumas descobertas da Física e da Astronomia têm grande repercussão nos conhecimentos geográficos. Newton descobre a lei da gravitação universal; Copérnico, com o seu sistema heliocêntrico, joga por “água abaixo” a crença de que a Terra era o centro do sistema planetário; Kepler descreve as leis dos movimentos planetários. Das explicações teológicas de origem divina, passa-se para a sistematização com base na observação e experimentação. As indagações das ciências nascentes vão incidir sobre os fenômenos naturais, daí o desenvolvimento fantástico que ocorre nos estudos sobre a natureza nos séculos XVII e XVIII. É desse período a sistematização da Zoologia, da Botânica e da Geologia, que tiveram como combustível principal as informações oriundas das grandes expedições que se tornaram também missões científicas. Movida pelos avanços de outras ciências, a Geografia deixa de ser obra de erudição, deixa de ser um conjunto de conhecimentos práticos, uma enumeração mais ou menos ordenada de montanhas, rios ou cidades. Deixa der ser um agregado de nomes e números. À Geografia cabe não apenas descrever, mas também explicar. O século XIX, do ponto de vista do desenvolvimento da ciência, é especialmente importante para a sistematização e institucionalização da Geografia. É no final do século XVIII e início do XIX que se instala um novo sistema de positividades, apoiado nas observações dos factos, sobretudo a partir dos estudos da Física por parte de Newton. Para Newton, o conhecimento deve resultar da observação, do cálculo e da comparação dos resultados, o que permitiria a elaboração de leis. Dois factos marcam as ciências, em geral, e a Geografia em particular, no século XIX: o reconhecimento de que a história dos homens, seu passado e seu futuro dependem dos próprios homens; e, a partir disso, o homem poderá manter uma outra relação com a natureza. O homem agora depende de si mesmo e da relação que estabelece em sociedade e com a natureza, abandonando assim os desígnios divinos. Quatro grandes aportes (teorias de explicação), que já se esboçavam em tempos anteriores, vão se consolidar no ideário científico do século XIX: 1) A racionalidade que dava primazia à experiência, a explicação científica concerne sempre à razão pura; 2) A dessacralização e banalização da natureza, o que possibilitará a intervenção humana na ordem natural e na valorização da positividade do trabalho; 3) A fé na ciência; 4) A fé no progresso. Datam também do final do século XVIII e início do XIX os primeiros censos, o que vai incrementar os dados de outros fenômenos que já vinham sendo levantados. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 57 O interesse em cartografar os fenômenos aumenta e, assim, surgem os primeiros mapas temáticos, em que são representadas as distribuições de populações, os climas, a vegetação, o relevo, a hidrografia etc. Como já vimos, o século XIX é o século das grandes explorações ao interior dos continentes e, ligadas a estas, surgem as sociedades de Geografia que vão organizar expedições, conferências, exposições, elaborar mapas, instalar estações meteorológicas e editar revistas. As sociedades geográficas são financiadas e apoiadas pelas políticas expansionistas dos Estados colonialistas e essa ligação com as estruturas de poder levou a uma expansão do ensino de Geografia nas universidades e ao reconhecimento oficial da geografia como ciência. Outra marca que decorre do expansionismo e da formação dos Estados Nacionais é a presença da Geografia no ensino primário e secundário. Para melhor conhecer a pátria, é preciso saber Geografia. Humboldt (1769-1859) Humboldt é considerado, juntamente com Ritter, o pai da Geografia moderna. Nascido em 1769, pertencia a uma família aristocrática prussiana. Seu pai preocupou-se desde cedo em dar uma esmerada educação aos filhos através de preceptores. Alexandre de Humboldt recebeu precocemente uma boa formação em Economia Política, Matemática, Ciências Naturais, Botânica, Física e Mineralogia. Viaja para a Venezuela, onde sobe o rio Orenoco até o Cassiquiare que faz parte da bacia do rio Negro, afluente do Amazonas. A etapa seguinte leva-o através da Colômbia até o Equador e ao Peru. Esse deslocamento lhe dá a oportunidade de escalar alguns dos picos mais altos dos Andes e de medir as suas altitudes. Através desse procedimento,observa a variação do clima com a altitude, tendo introduzido a terminologia de quente, temperado e frio, ainda hoje utilizada. Segue para o México e depois para Cuba. Volta à Europa após passar pelos Estados Unidos. Essa viagem durou quatro anos e com ela recolhe uma riqueza tão grande de dados que sua publicação leva vários anos. Os trabalhos que decorrem de suas viagens estão voltados para a explicação daquilo que diferencia as diversas áreas do globo, tentando encontrar as relações que se estabelecem entre os diversos fenômenos da superfície da Terra, de modo a produzir espaços com características diferentes. Ou seja, interessou-se pela diferenciação espacial e considerou a paisagem resultante da interação de vários fenômenos. Comparou as formações vegetais de regiões diversas entre si, como foi o caso da América Latina e da Sibéria. Tentou encontrar semelhanças entre as culturas dos povos asiáticos e dos índios americanos. Das suas investigações feitas em escalas ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 58 diferentes (mundial, continental ou regional) resultou uma sistematização do conhecimento geográfico. Assim, com Humboldt, a Geografia passa a ser uma ciência sistemática. Os fenômenos poderiam ser estudados tanto no nível mundial quanto no regional. A utilização de comparações universais foi talvez a sua contribuição mais importante. Ele comparava sistematicamente as paisagens das áreas que estudava com outras partes da Terra. O seu método era empírico e indutivo. Partia dos casos particulares para os gerais, tentando obter uma lei geral, válida também para os casos não observados. Humboldt foi essencialmente um grande viajante naturalista de sua época. Ao contrário de boa parte de seus colegas geógrafos, que permaneceram nos gabinetes, ele entende que a pesquisa deve se iniciar no campo. Os seus conhecimentos de Mineralogia, Geologia e Botânica permitem-lhe desvendar muitos traços interessantes nas paisagens e relacioná-los. Em lugar de justapor informações, procura compreender como os fenômenos se condicionam. No caso dos Andes, visto há pouco, a partir da altitude, ele introduz um escalonamento das formas de vegetação e tipos de agricultura, passando das terras quentes para as terras temperadas e, em seguida, para as terras frias. Nas pesquisas de biogeografia, introduz o conceito de meio. Para melhor compreender a distribuição dos fenômenos geográficos, Humboldt utilizasse das observações que faz em diferentes escalas, inaugurando a ideia de que os lugares não se explicam em si mesmos. Foi ele o primeiro a perceber a influência das correntes marítimas sobre os climas. Percebe isso especialmente nas costas do Peru, onde empresta o nome a uma corrente fria que se origina no polo Sul e ameniza a temperatura nas costas desse país. Foi ele também o primeiro a perceber os mecanismos que regem tais correntes. Humboldt igualmente sabe fazer uso dos dados estatísticos, que as administrações coloniais acumulavam, para tratar das realidades humanas da América hispânica. Em um de seus livros (Ensaio político sobre o reino de Nova Espanha, 1811), analisa a situação calamitosa da escravidão em Cuba. Para Humboldt a explicação dos fenômenos deve partir do meio, mas devemos ter sempre em mente que este reflete realidades em outras escalas: outra marca de Humboldt. Ritter (1779-1859) Ritter nasce dez anos depois de Humboldt e morre no mesmo ano em que este; teve uma vida pouco movimentada. Enquanto Humboldt foi um grande viajante, Ritter foi um homem que se dedicou mais à reflexão, ao magistério e ao intuito explícito de sistematização da Geografia. Sua obra é explicitamente metodológica, vemos isso, por exemplo, no título de seu livro mais importante: Geografia comparada. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 59 A formação de Ritter em História e Filosofia também difere daquela de Humboldt. Mas, a ideia de unidade terrestre e da relação entre o lugar, a região e o todo terrestre está presente nos dois autores. Ritter propõe o método descritivo regional e utiliza comparação para fazer compreender as especificidades de cada país e as configurações de sua história. Com Ritter, a geografia deixa de ser uma modesta descrição da Terra e torna-se indispensável para quem quer compreender a cena mundial, a dinâmica das civilizações e a maneira através da qual os povos exploram o seu ambiente. O problema essencial estudado por Ritter é o das relações, das conexões que se estabeleciam entre os factos físicos e humanos. Para ele, a Terra e seus habitantes desenvolvem mútuas e estreitas relações onde um elemento não pode ser considerado em sua plenitude sem que se considerem tais relações. Nesse sentido, a História e a Geografia devem estar sempre juntas. Dessa forma, foi um observador atento do devir histórico dos povos que habitavam em cada uma das regiões que estudava. Entendia o espaço terrestre como o teatro da história e considerava que quanto maior o desenvolvimento cultural maior harmonia seria estabelecida entre o homem e a natureza. Após a morte de Humboldt e de Ritter, a geografia sofre certo declínio. No entanto, mantém-se como disciplina com grande dinamismo e se expressa por duas vias: através das inúmeras sociedades de Geografia e a permanência como disciplina lecionada no ensino primário e secundário. Do ponto de vista da institucionalização, os impactos de seus ensinamentos não foram imediatos: as cátedras de Geografia permanecem raras nas universidades e os estudantes que frequentam as suas aulas seguem carreiras variadas. Sumário Sumário Esta aula mostra a partir de que elementos Humboldt e Ritter partem para se tornar os primeiros sistematizadores da Geografia moderna. Mostra também que existe uma íntima relação entre o desenvolvimento da ciência geográfica e a expansão colonial de desenvolvimento do Capitalismo, assim como o desenvolvimento da vida material e aquele das ideias. ____________________________ Autoavaliação 1. Na causalidade, o geógrafo, ao observar um fato, deve identificar as causas que levam à sua existência, procurando estabelecer as relações de causa e efeito. 2. Com o desenvolvimento da cartografia permitiu a exploração dos oceanos. As descobertas dos continentes foi precisamente no: ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 60 A. Século XVIII B. Século XVII C. Século XVI D. Século XV 3. Apos grande desenvolvimento para as descobertas dos continentes. O século a seguir é conhecido de penetração dos continentes. O referido século é: A. Século XVIII B. Século XIX C. Século XVII D. Século XVI 4. O desenvolvimento dos meios de transporte intensifica as viagens de mapeamento do interior dos continentes, pois a mobilidade se torna mais eficaz com o advento da máquina a vapor. 5. A Revolução Industrial, que começa a partir do fim do século XVIII, promove também uma revolução nas técnicas de produção, nas formas de transformação da natureza, demandando progressivamente matérias-primas e mercado. As principais revoluções, industrial e técnica, ocorreram principalmente na: A. Alemanha, China e Holanda B. China, Japão e França C. França, Bélgica e Holanda D. Alemanha, China e Bélgica Guião de Correcção 1-V; 2- B; 3- B; 4-V; 5-C Exercícios de AUTO-AVAL Avaliação 1. Por motivos de avanços de outras ciências, a Geografia deixa de ser obra de erudição, deixa de ser um conjunto de conhecimentos práticos, uma enumeração mais ou menos ordenada de montanhas, rios ou cidades. Até hoje é considerado o pai da Geografia moderna o geógrafa: A. A. Frederich Engels. B. André Cholley C. FredericoRatzel. D. Alexander Von Humboldt 2. Foi através de Ritter, a geografia deixa de ser uma modesta descrição da Terra e torna-se indispensável para quem quer compreender a cena mundial, a dinâmica das civilizações e a maneira através da qual os povos exploram o seu ambiente. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 61 3. Foi nos séculos XVIII e XIX que a sistematização do conhecimento geográfico. O interesse em cartografar os fenômenos aumenta e, assim, surgem os primeiros mapas temáticos, em que são representadas as distribuições de populações, os climas, a vegetação, o relevo, a hidrografia. A geografia sofre certo declínio, por causa da morte de: A. Alexander Von Humboldt e Karl Ritter B. André Cholley e Frederich Engels C. Frederico Ratzel e Karl Ritter D. Frederich Engels e Alexander Von Humboldt 4. Karl Ritter: Geógrafo alemão; foi o primeiro a relacionar clima, solo e vegetação, onde em sua obra Kosmos, mostrou que tudo funciona em plena interação. 5. Alexandre Von Humboldt: Geógrafo alemão; descreve a relação entre natureza e o Homem, ou seja, a influência dos fenômenos físicos na atividade humana. Guião de Correcção 1-D; 2-V; 3-A; 4-F; 5-F Referencias Bibliográficas Referências Bibliográficas ANDRADE, Manuel Correia. Geografi a, ciência da sociedade. Recife: Editora Universitária/UFPE, 2006. CLAVAL, Paul. Histoire de la gèogaphie. Paris: PUF, 1995. CLOZIER, René. História da geografi a. Lisboa: Publicação Geral da América, [1974?]. MORAES, Antonio Carlos Robert. A gênese da geografi a moderna. São Paulo: ANNABLUME/HUCITEC, 2002. ______. Geografi a: pequena história crítica. São Paulo: HUCITEC, 1983. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 62 TEMA – III: OUTRAS CONTRIBUICOES GEOGRÁFICAS. Unidade Tematica 3.1. Geografia Ratzeliana e o seu contexto Unidade Tematica 3.2 Geografia Vidaliana e o seu contexto Unidade Tematica 3.3 Abordagem Regional Vidaliana Unidade Tematica 3.4 A Os movimentos de Renovação Unidade temática 3.5. Exercícios Integrados deste Tema Unidade Temática 3.1. Geografia Ratzeliana e o seu contexto Introdução Friedrich Ratzel (1844-1904) e sua obra foram de fundamental importância para o processo de sistematização da Geografia moderna. Foi de sua autoria uma das pioneiras formulações de um estudo geográfico especificamente dedicado à discussão dos problemas humanos, o qual denominou de antropogeografia. Seu projecto teórico, com forte carácter interdisciplinar, teve a preocupação central de entender: a difusão e distribuição dos povos sobre a superfície da Terra; as diversas formas de circulação de pessoas e bens materiais; a influência das condições naturais sobre o comportamento humano; as formações territoriais e, intimamente vinculada a estas, a dimensão política da relação homem-natureza. Ao completar esta unidade, você deverá ser capaz de: Objectivos Específicos Entender em que contexto histórico se desenvolve o pensamento ratzeliano. Compreender a dimensão determinista da obra de Ratzel para a sistematização da Geografia. Contexto histórico Após o falecimento, em 1859, dos dois principais pioneiros da Geografia moderna, Ritter e Humboldt, o desenvolvimento dos estudos geográficos acelerou-se, uma vez que esses dois estudiosos colocaram, por assim dizer, a pedra fundamental para a construção e evolução da Geografia como ciência. A seguir, estudaremos três aspetos gerais do desenvolvimento dessa ciência: o contexto político econômico; a Geografia como ciência; e o ensino da Geografia. Contexto político-económico ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 63 Com o processo de expansão colonial, os conflitos entre populações nativas e o elemento europeu são cada vez mais intensos e demandam intervenções. O domínio político aparece como garantia de abertura real dos espaços ao comércio mundial e impõe o respeito aos interesses ocidentais. A independência da América espanhola e portuguesa reduz fortemente o domínio ocidental sobre o mundo no século XIX. É nesse momento que surge o que os historiadores chamam de novo imperialismo (diferente do colonialismo de povoamento e comércio que floresceu entre os séculos XVI e XVIII) e que foi o resultado direto da industrialização. Com isso, intensificam-se a actividade e a competição econômica, os europeus disputam matérias-primas, mercados para seus produtos manufaturados e lugares onde investir seu capital. Para tanto, os políticos e industriais vão entender que somente garantirão as suas necessidades econômicas e de suas nações através da aquisição de territórios ultramarinos. 1870 é um ano que marca um novo avanço ultramarino dos europeus, não mais apenas sob a égide de Portugal e Espanha. Percebemos que no século XIX progride rapidamente a constituição de um espaço econômico mundial influenciado pelo desenvolvimento da navegação a vapor, o que provoca uma reviravolta na relação dos homens com as distâncias. A construção do Canal de Suez – ligando o mar Mediterrâneo ao mar Vermelho – terminada em 1869, promove a aproximação entre a Europa, a Ásia Meridional e Oriental e a Austrália; as estradas de ferro já haviam alterado o ordenamento espacial da Europa; a primeira estrada de ferro transcontinental é inaugurada nos Estados Unidos em 1866. Como já estudamos, a integração dos espaços continentais, após os oceânicos, intensificam-se no século XIX e integram esses espaços às relações internacionais: as imensidões interiores da Ásia e da África são finalmente integradas às redes mundiais de troca. Em 1860, somente a Grã-Bretanha e os Países Baixos dispunham de verdadeiros impérios colônias. Entretanto, no espaço de uma geração, França, Portugal, Bélgica e Espanha dotam-se de colônias mais ou menos extensas. Por volta de 1900, o movimento se alastra para outros países, como é o caso da Itália e Alemanha que procuram aumentar o seu império ainda modesto. Um novo ator entra em cena, os Estados Unidos, e retira da Espanha as suas possessões no Pacífico e nas Antilhas, o Japão começa sua expansão sobre Coreia e China; e a Rússia anexa-se à Ásia Central. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 64 A Geografia como ciência Essas alterações provocam um reordenamento e uma necessidade cada vez maior da formalização dos saberes geográficos. Veja que, inicialmente, as práticas comerciais demandam conhecimento apenas das redes de portos, que permanecem em certa estabilidade, relacionadas às áreas produtivas e aos mercados que encontravam de modo geral, próximos ao litoral. As novas possibilidades de troca exigem outras formas de organização. É nesse contexto que vamos assistir à substituição das casas de comércio familiares por grandes firmas de exportação e importação que demandam cada vez mais conhecimentos ligados à Geografia para a formação de seus agentes deslocados para regiões remotas. É aí que as sociedades de Geografia comercial, marítima e colonial se multiplicam e dão respostas a essas necessidades. A História e a Geografia que eram as ciências que vinham abordando os fatos humanos deixam de ser exclusivas nesse aspecto à medida que a Sociologia, a Etnologia, a Antropologia e as Ciências Políticas vão surgindo. É o período também de desenvolvimento da economia política. Com o aparecimento de outras ciências no campo dos estudos humanos e sociais os geógrafos são confrontados com o problema da delimitação face aos novos campos científicos, os quais evidentementenão ignoram a dimensão espacial dos seus domínios. Em 1859, Charles Darwin (1809-1882) publica o que seria o seu mais importante livro, Origem das Espécies. Tal facto tem significado particular para a Geografia. A ideia de que os seres vivos evoluem já estava formulada desde meados do século XVIII e início do século XIX. Lamarck (1744-1829) será o primeiro a fazer uma sistematização dessa ideia concluindo que o organismo se adapta ao meio onde está inserido e acaba por se modificar. É durante a viagem de circum-navegação que realiza entre 1831 e 1836 a bordo do famoso Beagle que Charles Darwin formula a sua teoria. Darwin se depara, nas ilhas Galápagos com uma flora e fauna muito ricas e que não se assemelham às dos espaços continentais próximos. Para ele, essas diferenças explicam-se por meio da diferenciação no lugar e a partir de uma origem comum longínqua, e o único factor que pode explicar as diferenças das formas encontra- se no meio. O evolucionismo darwinista leva à Geografia uma tarefa fundamental: a de identificar a diferenciação das formas vivas. Lembre-se de que a ideia de que a Geografia deve ter vocação explicativa e analisar os fenômenos em diversas escalas vem desde as obras de Humboldt e Ritter. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 65 A explicação geográfica estaria na relação entre os fenômenos locais, regionais e gerais e na relação do homem com o meio: o darwinismo é uma apelação ao desenvolvimento de uma ciência das relações dos seres vivos com o ambiente. Outro nome que vai influenciar os estudos da Geografia nesse período (e continua a influenciar ainda hoje vários ramos da ciência) é o do biólogo alemão Ernest Haeckel (1834- 1919) que propõe em 1866, em seu livro Morfologia Geral dos Organismos, o termo ecologia para designar o novo campo de estudo: aquele que investigará as relações dos seres vivos com o ambiente. O ensino de Geografia O interesse por conhecimentos geográficos úteis à vida comercial internacional nunca havia sido tão grande como nas últimas três décadas do século XIX. Nesse mesmo período, a engenharia política dos estados europeus apontava em direção aos nacionalismos e essa tarefa recai, entre outros, sobre o ensino da Geografia na escola elementar, que teria a função de dar aos cidadãos uma consciência clara sobre o espaço em que se desenvolve a sua existência. Por outro lado, as elites tinham a necessidade de um bom conhecimento dos mapas e das rotas do comércio. Na França, por exemplo, após a derrota de 1870 (derrota da França frente à Prússia), é confiado a Emile Levasseur um estudo (Relatório Levasseur) sobre as causas da inferioridade dos oficiais franceses frente aos prussianos. Esse relatório conclui que a inferioridade francesa recai no baixo nível dos oficias quanto ao conhecimento das línguas e da Geografia. O relatório recomenda que seja feita uma reforma do ensino, particularmente do ensino de Geografia. O essencial das recomendações desse relatório está presente, ainda hoje, nos programas do ensino primário e secundário da França (nas próximas aulas vocês estudarão como se deu o desenvolvimento da Geografia na França). Nos outros países da Europa Ocidental ocorre o mesmo com o ensino da Geografia, pouco tempo antes na Alemanha e um pouco mais tarde na Inglaterra. Como estamos vendo, em todo o nosso curso, o contexto intelectual no qual se desenvolve a Geografia modifica-se par e passo com as mudanças econômicas, políticas e culturais. E você deve estar lembrado que à medida que o Capitalismo se desenvolve exige mais racionalidade e respostas da ciência; é a fé na ciência e no progresso. Esse cientificismo que vai se firmando tem também a ambição de abarcar as realidades sociais tal como fez anteriormente com as realidades do mundo físico e biológico. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 66 Ratzel e a Antropogeografia Ao longo do século XIX, a Geografia vai se desenvolver mais rapidamente na Alemanha do que na Grã-Bretanha. Nesta, a Geografia permanece vinculada aos modelos do século XVIII, no qual se privilegia a exploração das pesquisas históricas em detrimento do estudo das relações que estabelecem entre os grupos humanos e os meios em que vivem. Dessa forma, o impacto do evolucionismo de Darwin foi mais directo na Alemanha que em sua pátria. Friedrich Ratzel (1844-1904) é filho de uma modesta família do Sudoeste da Alemanha. Na universidade, estuda Zoologia. Tem contacto com o darwinismo através de Moritz Wagner que introduziu as teses do cientista inglês na Alemanha e se distingue pelo papel que dava às migrações para explicar a diferenciação das espécies. A primeira obra de Ratzel (Essência e Destino do Mundo orgânico, 1869) é inspirada nesse mestre. Ratzel participa ativamente, como militar, da guerra de 1870 contra a França e em seguida a sua carreira toma novos rumos, mas sua ligação com a política e com a conquista de território continua através das análises científicas que irá fazer criando mesmo um novo ramo da Geografia, a Geopolítica. Depois da guerra, Ratzel parte para os Estados Unidos, como jornalista, onde passa vários anos. Nesse período, visita também o México. De volta à Alemanha, defende uma tese sobre a imigração chinesa na Califórnia. Ao doutor Ratzel é designada, em 1876, uma cátedra de Geografia na Universidade de Munique. Em 1886, ele troca essa universidade pela Universidade de Leipzig, considerada de maior prestígio. A concepção de Geografia de Ratzel tem forte influência das formulações de Humboldt e Ritter, autores que estudou detidamente. Mas essa concepção é estruturada também sob forte influência de Darwin. Ratzel procura estabelecer leis gerais que rejam a influência do meio sobre os grupos humanos, dedicando-se ao estudo das relações que se desenvolvem entre as sociedades e o ambiente em que vivem, mas introduz uma outra ideia: o movimento é uma das características centrais do mundo vivo, em especial do homem. Essa ideia leva-o a interessar-se pelos fenômenos de circulação que as sociedades desenvolvem de um ponto da Terra a outro. Veja no texto a seguir o que diz Antônio Carlos Robert de Moraes sobre a importância da obra de Ratzel. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 67 Ratzel dividiu a Geografia em três grandes ramos: Geografia Física, Biogeografia e a Antropogeografia. Vai dedicar seus estudos fundamentalmente a esta última. A Antropogeografia Para Ratzel, a Antropogeografia seria dedicada a três questões básicas. A mais fundamental seria aquela voltada para a indagação da influência que as condições naturais exercem sobre os homens, sobre a sociedade e sobre a história. Para ele, a diversidade das condições naturais deveria também ser considerada na explicação para a diversidade dos povos “pois o substrato da humanidade seria a Terra, onde as sociedades se desenvolvem em íntimo relacionamento com os elementos naturais. O estudo da acção de tais elementos sobre a evolução das sociedades seria o objecto primordial da pesquisa antropogeográfica”. (MORAES, 1990, p. 9). A segunda questão colocada por Ratzel para os estudos da Antropogeografia é relativa à circulação e distribuição das sociedades humanas. Para ele, a localização dos grupos humanos estaria relacionada à mobilidade de seu passado, assim sendo, os estudos antropogeográficos deveriam se interessar em levantar dados sobre as áreas de origem de cada povo e os seus itinerários. Esse procedimento de pesquisa deveria fornecer elementos para se entender os condicionantes pretéritos, os quais migrariam com os povos. A terceiraquestão de interesse da Antropogeografia deveria ser o estudo da formação dos territórios. Além de ser o fundador da moderna Geografia humana, ao introduzir esta terceira questão, Ratzel será também o primeiro geógrafo a trazer para essa ciência a discussão sobre os elementos políticos na relação A obra de Friedrich Ratzel representou um papel fundamental no processo de sistematização da geografia moderna. Ela contém a primeira proposta explícita de um estudo geográfico especificamente dedicado à discussão dos problemas humanos. Foi, assim, de sua autoria uma das pioneiras formulações – sem dúvida a mais trabalhada – de uma geografia do homem. A importância de sua obra também emerge por ela ter sido uma das originárias manifestações do positivismo nesse campo do conhecimento científico. Ratzel foi um dos introdutores desse método – que posteriormente se assentou como dominante – no âmbito do pensamento geográfico. O significado de sua produção para o desenvolvimento da geografia pode ainda ser apontado no facto de ele ter aclarado aquela que viria a ser a principal via de indagação dos geógrafos, ou seja, a questão da relação entre a sociedade e as condições ambientais (MORAES, 1990, p. 7). ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 68 entre o homem e a natureza, tratados anteriormente apenas sob o ponto de vista técnico e econômico. Para ele, há na relação homem- natureza uma dimensão política essencial que se expressa e se materializa na propriedade e no Estado. Positivismo e Determinismo na obra de Ratzel Você já deve ter lido ou ouvido alguém fazer relação entre o nome de Ratzel e o Determinismo geográfico e/ou contrapondo este ao possibilismo de Vidal de la Blache (assunto que estudaremos na próxima aula). Iremos, então, tentar entender o que é o Determinismo e qual a ligação deste com a obra de Ratzel. Como já vimos nas aulas anteriores, o período de transição da Idade Média para a Moderna e a consequente consolidação do Capitalismo foi um período de grandes transformações sociais, econômicas, políticas, espaciais, culturais e também de grandes mudanças nas ciências e nas formas de pensar o mundo. Vimos ainda que as formas de pensar o mundo, originárias desse período, têm forte relação com o desenvolvimento das Ciências Naturais, principalmente a partir dos estudos de Física de Newton. Para este, o conhecimento deveria ser o resultado da observação, do cálculo e da comparação dos resultados, de modo a permitir a elaboração de leis. Essa ideia de que a ciência deveria ser positiva se espalhou para todos os ramos das ciências, inclusive das chamadas ciências humanas e sociais, entre elas a Geografia. Mas, é somente em meados do século XIX que surge o Positivismo. Embasado nas elaborações de Auguste Comte (1791-1857), o Positivismo fundamenta-se no palpável, no que é passível de comparação e de experimentação. Na concepção positivista, para se alcançar o conhecimento, a observação é imprescindível. O Determinismo geográfico tem suas raízes fincadas no Positivismo, principalmente em sua fase evolucionista. Essa fase tem como base fundamental a teoria darwinista da evolução das espécies, na qual o homem nada mais é que um ser dependente dos processos naturais. O Determinismo considerava o homem com um produto do meio, logo, deveria adaptar-se ao meio ambiente para que pudesse sobreviver. Para seus defensores, as condições naturais, especialmente a climática, determinam o comportamento do homem, interferindo inclusive na sua capacidade de progredir. Assim sendo, em áreas climáticas mais propícias (as zonas climáticas temperadas) floresceriam povos mais desenvolvidos. Tais ideias foram adotadas por alguns estudiosos da Geografia, e fora dela, que viam nelas a possibilidade de explicar a sociedade através de mecanismos que ocorrem na natureza. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 69 É comum, nos manuais e nas obras de vulgarização e/ou divulgação, a associação do nome e da obra de Ratzel ao Determinismo geográfico. Como podemos ver nos trechos que se seguem. Sumário A aula contextualiza o período em que Ratzel, fundador da moderna Geografia humana, vive, assim como a influência que sofreu do desenvolvimento das ciências naturais, principalmente aquelas oriundas do evolucionismo darwinista. Discute as relações entre as elaborações ratzelianas e o positivismo, bem como a pecha de que seria ele o maior representante e elaborador do Determinismo geográfico. Mostra ainda que não se pode de forma simplista acusar esse pensador de se utilizar de um Determinismo absoluto. Auto-avaliação 1. O princípio da Extensão foi enunciado por Frederico Ratzel e, de acordo com o mesmo, o geógrafo, ao estudar uma determinada área, deve, primeiramente, utilizando-se de um mapa, localizá-la, identificando os seus limites. 2. “Esse autor, porém, traria a grande contribuição para a formulação esquemática do conhecimento geográfico, com seu livro Antropogeografia e com a propagação das idéias deterministas, que consideravam a existência de uma grande influência do meio natural sobre o homem. De formação antropológica, ele foi bastante influenciado pelas idéias evolucionistas de Charles Darwin e Ernest Haeckel, admitindo que, na luta pela vida, venceriam sempre os mais fortes e que a vitória dos mais fortes, dos mais aptos sobre os mais fracos era o resultado lógico da luta pela vida. O texto está se referindo ao seguinte pensador da Geografia A. Frederich Engels. B. André Cholley C. Alexander Von Humboldt D. Frederico Ratzel. 3. Os dois principais pioneiros da Geografia moderna, que colocaram, alicerce para a construção e evolução da Geografia como ciência são: A. Ritter e Humboldt B. Cholley e Engels C. Ratzel e Ritter D. Engels e Humboldt ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 70 4. A Geografia Humana é a ciência que estuda o espaço geográfico, concebendo-o não tão-somente como um meio, mas também como um agente e um produto das atividades humanas, sendo também visto como um organismo vivo e dinâmico. Assim, podemos dizer que os estudos dessa área do conhecimento resumem-se: A. Às sociedades em geral B. À relação entre homem e espaço C. À distribuição das práticas culturais D. À dinâmica dos conhecimentos abstratos humanos 5. A História e a Geografia que eram as ciências que vinham abordando os fatos humanos deixam de ser exclusivas nesse aspecto à medida que a Sociologia, a Etnologia, a Antropologia e as Ciências Políticas vão surgindo. Guião de Correcção 1-V; 2-D; 3- A; 4-B; 5-V Avaliação 1. O evolucionismo darwinista leva à Geografia uma tarefa fundamental: a de identificar a diferenciação das formas vivas. O livro de Charles Darwin “Origem das Espécies” foi publicado em: A. 1985 B.1895 C. 1859 D. 1598 2. O primeiro cientista a fazer uma sistematização das ideias que o organismo se adapta ao meio onde está inserido e acaba por se modificar é: A. Ernest Haeckel B. Charles Darwin C. Emile Levasseur D. Jean-Baptiste Lamarck 3. O nome que vai influenciar os estudos da Geografia nesse período (e continua a influenciar ainda hoje vários ramos da ciência) é o grande biólogo alemão que propõe em 1866, em seu livro Morfologia Geral dos ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 71 Organismos, o termo ecologia para designar o novo campo de estudo que investigará as relações dos seres vivos com o ambiente. O nome que se refere acima é: A. Ernest Haeckel B. Charles Darwin C. Emile Levasseur D. Jean-BaptisteLamarck 4. A concepção de Geografia de Ratzel tem forte influência das formulações de Humboldt e Ritter. Ratzel dividiu a Geografia em três grandes ramos: A. Geografia Regional, Geomorfologia e Antropogeografia B. Geografia Física, Biogeografia e a Antropogeografia. C. Geografia Económica, Geofísica e Geomorfologia D. Geodesia, Geografia Económica e Geoprocessamento. 5. Geografia verifica que os fatores físicos e humanos não agem de forma isolada na formação de uma paisagem, existindo, pois, uma inter- relação entre eles. Estes fatores agem de maneira integrada. Guião de Correcção 1-C; 2-D; 3-A; 4-B; 5-V Referências Bibliográficas CLAVAL, Paul. Histoire de la gèogaphie. Paris: PUF, 1995. CORRÊA, Roberto Lobato. Região e organização espacial. São Paulo: Ática, 1991. MARTINS, Luciana de Lima. Friedrich Ratzel hoje: a alteridade de uma geografia. Revista Brasileira de Geografia, Rio de Janeiro, v. 54, n. 3, p. 105-113, jul./set. 1992. MORAES, António Carlos Robert. Geografia: pequena história crítica. São Paulo: HUCITEC, 1983. ______. Ratzel. São Paulo: Ática, 1990. (Coleção Grandes Cientistas Sociais). MOREIRA, Ruy. O que é geografia. São Paulo: Brasiliense,1989. PINCHEMEL, Philippe; PINCHEMEL, Geneviève. La face de la Terre. Paris: Armand Colin, 1997. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 72 RATZEL, F. Las razas humanas. Barcelona: Montaner y Simon, 1906. v 1. UNIDADE Temática 3.2. A Geografia Vidaliana e o seu contexto Introdução Friedrich Ratzel (1844-1904) e sua obra foram de fundamental importância para o processo de sistematização da Geografia moderna. Foi de sua autoria uma das pioneiras formulações de um estudo geográfico especificamente dedicado à discussão dos problemas humanos, o qual denominou de antropogeografia. Seu projecto teórico, com forte carácter interdisciplinar, teve a preocupação central de entender: a difusão e distribuição dos povos sobre a superfície da Terra; as diversas formas de circulação de pessoas e bens materiais; a influência das condições naturais sobre o comportamento humano; as formações territoriais e, intimamente vinculada a estas, a dimensão política da relação homem-natureza. Em meados do século XIX, a disputa entre a Prússia e a França se acelera, culminando na guerra de 1870. Dessa guerra, a França sai derrotada e perde o controlo da Alsácia e da Lorena. Nesse período, a geografia obtém grande desenvolvimento e, apoiada pelo Estado, é implantada em todo o Ensino Básico, surgindo as primeiras cátedras e os institutos de Geografia. Até o advento da guerra, os estudos geográficos eram muito negligenciados pelos franceses, ao contrário da Prússia, que já contava com grandes nomes no ramo da ciência geográfica. Após terem sido derrotados, os franceses perceberam a importância do ensino da geografia e do desenvolvimento da pesquisa geográfica, como mostraremos no decorrer desta aula. Mesmo sendo derrotados pelos alemães, os franceses esforçaram-se para transferir para seu país o modelo de ensino adotado na Alemanha. Caberá a Paul Vidal de la Blache a tarefa maior de implantação e institucionalização da Geografia francesa. Tomando como referência, as formulações de sábios alemães (Humboldt, Ritter, Ratzel), Vidal de la Blache elabora com originalidade a sua geografia e dá sustentação para a criação de Escola Francesa de Geografia, que irá, durante muito tempo, influenciar o desenvolvimento dessa área em várias partes do mundo. Para construir o edifício teórico e metodológico da Geografia, Vidal de la Blache se embasará na ideia de totalidade, de “possibilismo”, de mapeamento das densidades e de gênero de vida. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 73 Ao completar esta unidade, você deverá ser capaz de: Objectivos específicos Compreender o contexto em que a Geografia surge como ciência na França, influenciada pelo pensamento geográfico alemão. Perceber a partir de que fenômenos Vidal de la Blache constrói os conceitos fundamentais para o desenvolvimento da Geografia francesa. Apreender qual a importância de elementos e conceitos como totalidade, densidade, gênero de vida e possibilismo para a análise geográfica. Contexto geral Para Vincent Berdoulay (grande especialista francês em história do pensamento geográfico), a Escola Francesa de Geografia, formada nas últimas décadas do século XIX e início do século XX, teve em Vidal de la Blache (1845-1918) o seu maior elaborador e ocupa um lugar importante na história das ideias e das ciências. A formação dessa escola, como veremos, corresponde a um momento crucial do desenvolvimento do pensamento geográfico. Um dado importante é o facto da Geografia se desenvolver tanto como ciência como disciplina escolar no Ensino Básico, Médio e Superior. A escola de Vidal de la Blache vai ter grande influência e considerável notoriedade no mundo até por volta dos anos 1950. Como veremos na próxima aula (Pierre Monbeig: o nascimento da Geografia científica no Brasil), o pensamento geográfico de Vidal de la Blache terá grande influência na implantação da Geografia no Brasil. Como estamos fazendo até aqui, é importante elucidar, minimamente, o contexto geral em que se dá a implantação da Geografia na França. Para começar, esse é um período situado entre duas grandes crises: a guerra de 1870 (guerra franco-prussiana) e a primeira guerra mundial. É também um dos períodos cruciais na história da França, que corresponde à implantação de um novo regime político, a Terceira República, o qual implicará em novos ajustamentos de base ideológica e social. É uma época em que o interesse por questões geográficas se dissemina entre os círculos cultos e a população em geral. Ocorre aí um clamor generalizado a favor da acumulação de uma massa de informações sobre o globo e sobre o território nacional. A Geografia se instala de forma impressionante na universidade e nos programas de ensino primário e secundário. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 74 O desafio alemão Na segunda metade do século XIX, a França e a Alemanha, no caso ainda a Prússia, disputam a hegemonia, no controle continental da Europa. Havia, entre estes dois países, um choque de interesses nacionais, uma disputa entre imperialismos. Tal situação culminou com a guerra franco-prussiana, em 1870, na qual a Prússia saiu vencedora. A França perde os territórios de Alsácia e Lorena, vitais para sua industrialização, pois neles se localizavam suas principais reservas de carvão. No contexto da guerra, caiu o Segundo Império de Luís Bonaparte, ocorreu o levante da Comuna de Paris, e, sob as suas ruínas, ergueu se, com o beneplácito prussiano, a Terceira República francesa. Foi nesse período que a Geografia se desenvolveu. E se desenvolveu com apoio deliberado do Estado francês. Esta disciplina foi colocada em todas as séries do ensino básico, na reforma efetuada pela Terceira República. Foram criadas, nessa época, as cátedras e os institutos de Geografia. (MORAES, 1983, p. 63-64). O resultado da guerra, ou seja, a derrota humilha profundamente grande parte da população francesa. A partir dessa derrota, a Alemanha aparece para os franceses como um desafio nos domínios político, intelectual e econômico. Após a guerra, os franceses tomam, dolorosamente, a consciência da negligência com os conhecimentos geográficos que tinham até então. Constataram que o inimigo estava mais bem preparado no tocante ao conhecimento do território e descobriram, a duras penas, sua ignorância geográfica. Para eles, a superioridade militar e econômica da Alemanha derivara de seugrande desenvolvimento científico. Dessa forma, a Alemanha se constituía, ao mesmo tempo, em inimigo e exemplo a ser seguido. O professor Vidal de La Blache Vidal nasce no sul da França. Membro de uma família de professores e militares, seu pai, professor, deseja para o filho a mesma profissão, por isso o envia para um colégio interno em Paris onde teria melhores condições para fazer uma carreira brilhante. Na Escola Normal Superior, onde estuda, se dedica, principalmente, aos estudos de história. Vai para Escola de Atenas, onde fica por três anos, e prepara sua tese sobre a Ásia Menor. Percorrendo a Turquia para preparação de seu trabalho, toma como guia a obra que Carl Ritter havia escrito sobre esse país. A partir desse contacto inicial, passa a se dedicar aos estudos geográficos, tornando-se um dos grandes nomes dessa ciência. Como vimos a pouco, a derrota de 1870 leva a França a uma política de promoção da Geografia que começa pelo ensino primário e secundário, seguido pelo seu desenvolvimento nas universidades e pela política de ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 75 incentivo à criação de instituições geográficas. Vidal vai saber tirar proveito dessa situação. Em 1875, é nomeado conferencista de Geografia da Universidade de Nancy; em 1880, torna-se subdiretor da Escola Normal Superior onde fica até 1898, ano em que vai para a Sorbonne. Vidal foi um professor irrepreensível e um viajante incansável. Conheceu muito bem a França e a Europa, assim como boa parte do norte da África e da América do Norte. Produziu uma obra pouco volumosa, mas muito densa. Formou e incentivou os jovens que estavam à sua volta e que em boa parte se transformaram em grandes geógrafos. Vidal, mesmo sendo original, nunca escondeu o quanto foi devedor aos mestres alemães, sobretudo Ritter e Ratzel. Para ele, a geografia deveria partir de uma ideia simples: explicar a desigual repartição dos homens sobre a superfície da Terra e suas densidades. Para tanto, deveríamos dar um tratamento cartográfico aos dados e considerar na análise os sinais expressos pela paisagem e a relação dos assentamentos humanos com o solo. A geografia de Vidal de la Blache Veremos aqui quatros aspetos importantes da Geografia Vidaliana – a ideia de totalidade, a questão das densidades e do trabalho de campo, os gêneros de vida e o possibilismo. Na aula seguinte, veremos especificamente a sua noção de região. A influência de Ritter: a ideia de totalidade Vidal toma como ponto de partida para as suas reflexões geográficas a ideia de totalidade desenvolvida por Ritter, entretanto, ele vê nessa ideia um convite para a análise de relações complexas e das conexões entre os diversos fenômenos e não um chamamento à reflexão sobre o destino do mundo e da humanidade, como era a preocupação de Ritrter. Veja no texto a seguir um trecho do próprio Vidal sobre esse ponto. “A ideia de que a Terra é um todo, cujas partes estão coordenadas, fornece à Geografia um princípio de método cuja fecundidade aparece melhor à medida que amplia a sua aplicação. Se nada existe isoladamente no organismo terrestre, se por toda parte repercute leis gerais de modo que não se pode tocar em uma parte sem provocar encadeamentos de causa e efeito, a tarefa do geógrafo toma um carácter diferente daquele que lhe é atribuído. Qualquer que seja a ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 76 fração da Terra que ele estude, ele não pode aí se fechar. Um elemento geral se introduz em toda pesquisa local. Não existe, efetivamente, região cuja fisionomia não dependa de influências múltiplas e longínquas da qual importa determinar o foco. Cada região age imediatamente sobre sua vizinha e é influenciada por ela”. (VIDAL DE LA BLACHE, 1896, p. 122) Os mapas de densidade e o trabalho de campo Um dos pontos importantes para os estudos da Geografia vidaliana eram as cartas de densidade. Para ele, essas cartas colocavam o problema fundamental de toda a Geografia humana: aquele das relações que os grupos humanos estabelecem com os lugares onde vivem e com o seu entorno. Figura 16-Exemplo de um mapa de densidade Dessa forma, a Geografia deve analisar e explicar as relações entre os grupos humanos e o meio ambiente onde moram. Nesse sentido, a tarefa mais importante dela é estudar e explicar os mapas de densidades, porque eles dão uma ideia clara dessas relações. A prática vidaliana do trabalho de campo é indissociável de suas pesquisas e de sua compreensão de Geografia. O campo, em certa medida, deve substituir o livro, o texto e, até mesmo, o arquivo histórico. Ele adquire um valor heurístico fundamental, visto que constitui o substrato no qual se lê a relação homem/meio e que vai se transformar na problemática explícita ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 77 da Geografia humana francesa. Assim sendo, as manifestações elementares da vida, as formas de trabalho, de deslocamentos, de habitat, de vestuário, observados no campo, são consideradas como sinais das interações entre as sociedades locais e o meio. O gênero de vida Ao abordar a relação entre o meio e a acção humana, Vidal de la Blache, considerava que o meio é uma força viva, que tem movimento próprio e regras de conexão que escapam à intervenção humana. Por outro lado, a acção do homem tem grande capacidade de transformação. O conjunto das acções e as formas através das quais os homens tiram proveito das possibilidades oferecidas pela natureza é dada pela diversidade dos gêneros de vida. A noção de gênero de vida permite à análise geográfica vidaliana compreender as relações que os homens tecem com o seu meio. Relações que são estabelecidas pelas técnicas, pelas formas de trabalho, pelas formas de habitação, pela cultura etc. No seu entendimento, como os grupos humanos, necessariamente, têm que se adaptarem (se defrontarem, estabelecerem relações com as condições ambientais), essa adaptação se traduz na adoção de um modo de vida, de um gênero de vida: caça, pesca, criação de bovinos, ovelhas, suínos, cavalos, agricultura etc. O estabelecimento do gênero de vida seria a acção humana destinada a extrair do meio ambiente o que se necessita para comer, vestir-se, proteger-se do vento, da chuva, do frio e a forma como dispor de ferramentas diversas. O gênero de vida aparece como um conjunto de técnicas e hábitos. Para o mestre francês, a adaptação de um grupo humano a um meio ambiente específico dependia: 1. Das técnicas produtivas e da possibilidade de inventar novas técnicas; 2. Da capacidade da tradição em transmitir, para gerações futuras, as técnicas produtivas; 3. Das técnicas de transporte e da possibilidade de desenvolver trocas com grupos de localidade diversa; 4. Da força do hábito. O Possibilismo O possibilismo é comumente reduzido à seguinte ideia: a natureza propõe, o homem dispõe. Esta é, sem dúvida, a noção mais conhecida para definir a abordagem das relações homem/meio da escola francesa de Geografia e, em particular, de seu fundador Paul Vidal de la Blache. No entanto, o autor desse neologismo não é Vidal de la Blache e sim o historiador Lucien Febvre, em seu livro “A terra e a evolução humana”. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 78 Nesse livro, Febvre, inspirado nas elaborações de Vidal de la Blache, faz deste a referência para os “possibilistas” em oposição aos “deterministas” e se arroga o papel de encarnar o espírito da escola francesa de Geografia. O possibilismo constituiriase, assim, numa alternativa ao determinismo do meio físico na análise das relações que o homem mantém com esse meio. O possibilismo é a rejeição à ideia de que o homem é, antes de tudo, passivo, submisso às condições locais e constrangido a se adaptar. Na análise de Vidal, a compreensão das relações homem/meio se dá em toda sua complexidade, dando relevante atenção às iniciativas humanas transformadoras da natureza. Sua posição é frontalmente anti determinista, ou seja, contrário ao determinismo, mas considera que o homem sofre influências do meio no sentido de que existe uma diferenciação natural frente à qual o homem se depara e que em cada meio dado a natureza apresenta um conjunto de possibilidades, com limites próprios e que é em função dos dados históricos, culturais e técnicos que algumas dessas possibilidades serão exploradas pelos seus habitantes. “Uma individualidade geográfica não resulta da simples consideração da geologia e do clima. Isso não é uma coisa dada de antemão pela natureza. É preciso partir da ideia de que uma região é um reservatório onde dormem energias na qual a natureza depositou o germe, mas cujo emprego depende do homem. É ele quem, ao submetê-las ao seu uso, traz à luz sua individualidade. Ele estabelece uma conexão entre os traços dispersos; aos efeitos incoerentes de circunstâncias locais ele substitui um concurso sistemático de forças. É só então que uma região se precisa e se diferencia e transforma-se, por extensão, numa medalha cunhada à esfinge de um povo”. (VIDAL DE LA BLACHE, 1979, p.8) Sumário Esta aula mostra como, a partir da derrota sofrida pela França frente à Alemanha em 1870, a Geografia obtém grande impulso no ensino francês. Mostra também que Paul Vidal de La Blache é o grande nome da Geografia francesa desse período e é quem desenvolverá os elementos constitutivos da análise geográfica da Escola Francesa de Geografia. Para esse mestre francês, a Geografia deveria ter como base para sua análise noções como totalidade, densidade, gênero de vida e possibilismo. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 79 Autoavaliação 1. Apos a derrota da França a geografia obtém grande desenvolvimento e, apoiada pelo Estado, é implantada em todo o Ensino Básico, surgindo as primeiras cátedras e os institutos de Geografia. A implantação e institucionalização da Geografia francesa foi ao cargo de: A. Charles Darwin B. Emile Levasseur C. Paul Vidal de la Blache D. Jean-Baptiste Lamarck 2. A partir do conceito de REGIÃO, assinale a opção CORRETA: A. O Conceito de Região na Geografia refere-se à porção do espaço que agrupa elementos diferentes. B. Por regionalização pode-se entender a divisão de um grande espaço em regiões, sem nenhum critério anteriormente estabelecido. C. Para estudar todos os países do mundo não precisamos regionalizar as informações, podemos estudar todos os dados geográficos juntos. D. Cada região se diferencia das outras por apresentar particularidades próprias, ou seja, semelhança entre seus elementos 3. A relação entre o meio e a acção humana, o meio é uma força viva, que tem movimento próprio e regras de conexão que escapam à intervenção humana. Por outro lado, a acção do homem tem grande capacidade de transformação. Essas ideias são atribuídas ao: A. Ernest Haeckel B. Emile Levasseur C. Jean-Baptiste Lamarck D. Paul Vidal de la Blache 4. O estabelecimento do gênero de vida seria a acção humana destinada a extrair do meio ambiente o que se necessita para comer, vestir-se, proteger-se do vento, da chuva, do frio e a forma como dispor de ferramentas diversas. 5. O determinismo geográfico colocava o homem numa condição de submissão aos aspectos naturais (a natureza é que determina a ação humana), ou seja, sugeria que é o meio ambiente em que uma pessoa vive que define suas características físicas e psicológicas. Esta corrente surgiu na Alemanha foi idealizado por: A. Friedrich Ratzel B. Emile Levasseur C. Jean-Baptiste Lamarck ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 80 D. Paul Vidal de la Blache Guião de Correcção 1-C; 2-D; 3-D; 4V; 5-A Avaliação 1. O possibilismo é comumente reduzido à seguinte ideia: a natureza propõe, o homem dispõe ou seja afirmava que a relação homem- natureza é percebida a partir da interpretação da paisagem. Esta corrente foi idealizado por: A. Friedrich Ratzel B. Emile Levasseur C. Jean-Baptiste Lamarck D. Paul Vidal de la Blache 2. Qual é a ideologia da corrente determinista: A. O homem é dependente dos aspectos e fenômenos naturais, não sendo capaz de superá-los. B. O homem não é dependente dos aspectos e fenômenos naturais. C. Que o homem que habitam as regiões mais quentes são mais inteligentes do que os das áreas mais frias. D. Que o homem consegue prever e evitar os fenômenos naturais (ex: terremoto) 3. Qual é a ideologia da corrente do possibilismo: A. O homem é dependente dos aspectos e fenômenos naturais, não sendo capaz de superá-los. B. O homem não consegue transformar a natureza para o seu próprio benefício. C. O homem tem as condições necessárias para se adaptar à natureza e transformá-la para o seu próprio benefício. D. Que o homem que habitam as regiões mais quentes são mais inteligentes do que os das áreas mais frias. 4. Assinale, a seguir, a alternativa que melhor indica o conceito atual de espaço geográfico: A. Compreende o substrato superficial onde habitam os seres vivos terrestres. B. Abrange o meio físico da Terra e suas dinâmicas naturais, tais como o clima, o relevo e a vegetação. C. É o resultado da interação mediada pelas técnicas entre as práticas humanas e suas sociedades com a superfície terrestre e seus elementos. D. É tudo aquilo que pode ser contemplado pela visão em um ambiente imediatamente próximo. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 81 5. Assinale a opção INCORRETA em relação as características do Espaço Geográfico: A. Espaço geográfico é que predominam os aspectos originais da natureza. B. Lugar é a parte do espaço geográfico onde vivemos e interagimos com a paisagem. C. O espaço geográfico é a natureza transformada pelos seres humanos, por meio de seu trabalho ao longo da história. D. Para entendermos o espaço geográfico faz-se necessário compreender a sociedade que o criou e continua a transformá-lo ao longo do tempo. Guião de Correcção 1-D; 2-A; 3-C; 4- C; 5- A Referências Bibliográficas ANDRADE, Manuel Correia. Geografia, ciência da sociedade: uma introdução à análise do pensamento geográfico. Recife: Editora Universitária/UFPE, 2006. CLAVAL, Paul. Histoire de la Gèogaphie. Paris: PUF, 1995. MORAES, António Carlos Robert. Geografia: pequena história crítica. São Paulo: HUCITEC,1983. VIDAL DE LA BLACHE, Paul. Le principe de la géographie générale. Annales de Géographie, v. 5, n. 20, p. 122-142, 1896. VIDAL DE LA BLACHE, Paul. Tableau de la géographie de la France. Paris: Tallandier, 1979. UNIDADE Temática 3.3. A abordagem regional vidaliana Introdução A questão regional é uma das mais tradicionais em Geografia, sendo a região um conceito chave dessa ciência. Entretanto, trataremos, nesta aula, apenas da concepção de região elaborada por Vidal de la Blache. Isso porque é esse geógrafo a maior expressão da chamada Geografia regional. Como vimos na aula sobre a Geografia vidaliana e o seu contexto, até Vidal de la Blache, a ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 82 Geografia não se constituía num ramo autônomodo conhecimento, é com ele que atinge status de ciência na França. Ele é um pensador do possível, das diversas possibilidades que o homem tem diante do imperativo de habitar a Terra. Procurou salientar a importância da vinculação entre o geral e o particular e a complexidade das entidades (regiões) geográficas, para tanto, desenvolve a ideia de unidade terrestre. Considerava fundamental para análise geográfica a diferenciação da superfície terrestre, das sociedades e a compreensão de como estão articuladas, ou seja, como as diversidades dos lugares se expressam numa determinada organização espacial. Ao completar esta unidade, você deverá ser capaz de: Objectivos específicos Compreender a noção de região para Vidal de la Blache. Entender a importância do conceito de região para a análise geográfica. Perceber, na análise regional, a dialética das escalas. A evolução do pensamento regional Vidaliano Apoiando-se, por um lado, nos resultados obtidos pelos geólogos e, por outro, em sua formação essencialmente de historiador, Vidal concebe o espaço dos países como sendo a combinação da história do solo e a história dos homens. Partindo de quadros naturais – geologia, geomorfologia, vegetação relevo, clima, hidrografia –, ele mostra como a geologia e o clima oferecem uma série de possibilidades, cujo emprego depende dos homens, e que é o grupo humano que, ao fazer uso da natureza, diferencia uma região “transformando a sua extensão numa medalha cunhada como a esfinge de um povo” (VIDAL DE LA BLACHE, 1979, p.8). Para Vidal, cabe ao geógrafo explicar e compreender a lógica interna de cada fragmento da superfície terrestre revelando sua individualidade, cuja réplica exata não se encontra em nenhuma outra parte. É atribuição do geógrafo estudar a organização de cada espaço diferenciado e individualizado. Desde 1889, Vidal propõe uma primeira concepção das “divisões fundamentais do solo francês”. Quinze anos de reflexão sobre o tema o levam à elaboração de seu mais famoso livro Tableau de la géographie de la France (Quadro da Geografia da França), em 1903, no qual ele apresenta um espaço hierarquizado em graus diferenciados. No entanto, o ponto de partida permanece sendo a “região natural”, apoiada na geologia, no relevo ou no clima – Bassin parisien, Massif Central, Midi océanique. Essas regiões se diversificam em unidades ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 83 mais reduzidas e são compreendidas segundo aspectos históricos, em função de elementos políticos e de desenvolvimento econômico – as rotas – ou em função de elementos oriundos do raio de influência de uma cidade. Por sua vez, tais regiões se revestem de aspectos e traços bastante diferenciados, cuja originalidade se exprime numa certa fisionomia, num estilo particular de organização espacial engendrada pelo casamento entre a natureza e a história. Essa fisionomia é o que nós chamamos hoje de paisagem. Compreendendo o Tableau e o papel das cidades Para compreendermos o espírito do Tableau de la France, é necessário lembrarmos que foi encomendado a Vidal por Ernest Lavisse para servir de introdução a uma “História da França” e que deveria tratar da geografia francesa até 1789. É em função desse aspecto que encontramos no Tableau elementos fixos e permanentes inseridos em quadros que remontam aos aspectos mais antigos e tradicionais daquele país. Mas, Vidal não ignora as transformações que o desenvolvimento urbano e a concentração industrial promoveram, no início do século XX, na estrutura regional da França. Ele demonstra isso em artigos que escreve entre 1910 e 1917. Mostrou como algumas cidades, Lyon em particular, passavam a ser grandes geradoras de unidade regional e organizavam em torno de si uma região de tipo novo, que ele qualificou de nodal, termo tomado emprestado ao geógrafo inglês Mackinder. Essas regiões definiram-se em função do seu centro. Num artigo escrito em 1917 e intitulado “A renovação da vida regional”, diz Vidal: “Quando se trata de região, não é necessário procurar os limites. É necessário conceber a região como uma espécie de auréola que se estende sem limites bem determinados, que circunda e que avança” (VIDAL DE LA BLACHE,1917, p. 104). A cidade não é uma novidade para os geógrafos dessa época, uma vez que, em vários momentos do desenvolvimento da humanidade, a cidade aparece como organizadora de um espaço que a circunda. A novidade reside na amplitude do fenômeno, no raio de influência das cidades, viabilizado pelo desenvolvimento das comunicações e das estradas de ferro. Essa “renovação regional” Vidal sente perfeitamente – de forma mais marcante no final de sua vida – e exprime, cabalmente, em sua obra La France de l’Est (1917). Ele se torna mesmo um defensor de uma reforma administrativa do país, propondo, em 1910, um recorte em 17 regiões geográficas, concebidas a partir de espaços organizados pelas maiores cidades. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 84 Entre os geógrafos de seu tempo, é Vidal quem coloca a reflexão e a análise regional no centro de sua obra. Ele se interessa pela história da exploração do mundo, pelas formas de povoamento, pelos gêneros de vida, pela demografia etc. No entanto, a preocupação regional, que se esboça por volta de 1880, permanece central e evolui bastante até os seus últimos trabalhos, dentre eles La France de l’Est, publicado às vésperas de sua morte, no ano de 1918, em plena guerra mundial. Ao finalizar essa obra e deixar inacabados os Príncipes de Géographie humaine, Vidal indica o peso que tem a démarche regional em suas elaborações. É num artigo escrito em 1888, Des divisions fondamentales du sol français, que Vidal inicia sua reflexão sobre a questão regional da França: questão capital em seu pensamento, que o acompanhará até o fim de sua vida. Região e Ensino O texto de 1888 destina-se aos professores de geografia do ensino médio e pretende dar algumas indicações de método apoiadas em exemplos da realidade francesa. A ideia é que os alunos percebam que a Geografia é uma coisa viva. Segundo o próprio Vidal, o texto deveria, sobretudo, inspirar o desejo de ver. Ver com os próprios olhos e compreender as diferenças das regiões. Diferenças que escapam à observação superficial, mas que se descobrem de imediato quando se tem um olhar atento e se associam a ele lembranças e impressões. Para Vidal de La Blache, isso é o que de melhor poder-se-ia desejar para o estudo da escola da França. Uma das dificuldades, apontadas por esse geógrafo no ensino de Geografia é a incerteza sobre as divisões que melhor convém para a descrição das regiões. Para ele, essa incerteza implica a própria concepção que se tem da Geografia. Os factos, diz Vidal, se esclarecem segundo a ordem na qual nós os agrupamos. A Geografia não seria uma nomenclatura à qual se juntam outros conhecimentos práticos do mesmo gênero. Se se separa o que deve ser relacionado, se se une o que deve ser separado, toda a ligação natural está quebrada. A noção que Vidal de la Blache tem de região é uma noção fundada no princípio da “unidade terrestre”, segundo o qual a região se constituiria enquanto parte de um todo e ela mesma se constituiria numa unidade, em que, havendo a quebra das ligações naturais, seria impossível reconhecer o encadeamento que religa os fenômenos dos quais se ocupa a Geografia e que é sua razão de ser científica. Vidal de la Blache insiste no facto de que a Geografia deve ser tratada como ciência e não como uma simples nomenclatura. A região, para ele, não é a descrição de um mosaico de ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico85 paisagens. Existe, na sua noção de região, uma visão de movimento, de imbricações dos seres regionais. As regiões de um país são peças que mantêm relações entre si, formando um todo. Vidal mostra que existem regiões naturais, mas para a Geografia, interessa a relação entre essa região natural e as regiões históricas, e essa unidade natural/histórica não se realiza sem implicações complexas. Não existe uma superposição automática entre elas. A ideia é que existe uma base geográfica no desenvolvimento histórico de um povo. Não nos parece haver dúvidas de que a região é um tema central no pensamento de Vidal de la Blache, que é um pensamento que evolui. Segundo Sanguin (1993, p. 327). Há primeiro a região versão 1888 (a do artigo Des divisions fondamentales du sol français), onde ele tenta encontrar um princípio integrador suscetível de clarificar o conceito em geografia. Em outras palavras, esse artigo é um exercício para dar uma definição funcional à palavra região. Passamos em seguida à região versão 1903 (a do Tableau de la géographie de la France). Paul fez sua a ideia central desenvolvida por Michelet. Existe uma base geográfica na história de um povo: tal é a pátria, tal é o homem, segundo Michelet. Enfim, chegamos à região vidaliana versão 1910 (a do artigo Régions françaises), no qual, de uma forma visionária, Paul propõe, 80 anos antes, uma França constituída de regiões concebidas pela Europa do Mercado único e pela Comunidade saída do Tratado de Maastricht! Sem sombra de dúvida, a ideia de região evolui no pensamento vidaliano, no entanto, parece-nos que toda essa evolução tem um fio condutor que acompanhou esse grande geógrafo durante toda a sua carreira: aquele que se funda sobre a concepção da relação homem/natureza. Em seu Principes de géographie humaine, e em outros escritos, Vidal expõe a sua concepção geral da relação homem/natureza. Para ele, o homem participa da natureza. Homem e natureza não são termos opostos: o homem faz parte da criação e é o seu colaborador mais ativo. “Ele não age sobre a natureza senão nela e por ela” (VIDAL DE LA BLACHE, 1896, p.122). Em função da realização de suas necessidades vitais – respiração, alimentação, habitação etc. –, o homem, segundo Vidal, permaneceria, assim como os outros animais, embebido nas influências do meio ambiente. Essa influência estabeleceria uma “ligação” entre as condições naturais e os factos geográficos. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 86 No entanto, considera o autor, essa ligação não seria absoluta e sofreria as influências do tempo, pois os homens são dotados de capacidade criadora, o que faria com que essas influências do meio se modificassem com a evolução técnica das sociedades e o homem tiraria cada vez mais partido das possibilidades oferecidas pela natureza. O poder de ação do homem sobre a natureza está ligado, na concepção vidaliana, ao grau de evolução das sociedades humanas. Vidal reconhece que é “verdadeiramente muito difícil desvendar, nas grandes sociedades civilizadas, a influência do meio local”, mas elas “são resultado infinitamente complicados de uma longa acumulação da actividade humana” (VIDAL DE LA BLACHE, 1896, p. 123). Nesse ponto, Vidal de La Blache concebe a actividade humana como mediatizadora entre a influência do meio e as formas de organização espacial das sociedades. Em Vidal, existe uma concepção que explicaria, ao mesmo tempo, a dependência e a liberdade do homem em relação à natureza. Para ele, o homem é definido como um ser saído da natureza e que não pode e jamais poderá desligar-se dessa entidade, que o contém e à qual deve sua existência. Na sua ideia mesma de região, está a marca dessa tensão entre as sociedades e a natureza, entre liberdade e dependência. Região e Estado Mesmo o Estado tem, na concepção vidaliana, um componente regional ligado às condições naturais. Segundo Mercier (1995, p. 220/221), tanto Ratzel quanto Vidal: Sustentam que a diferenciação regional e a solidariedade inter-regional subjacente à criação do Estado resultam de uma dinâmica geográfica determinada, ao mesmo tempo, pela capacidade técnica das sociedades humanas, as condições naturais nas quais elas evoluem e a intensidade das trocas entre uma sociedade e suas vizinhas. O papel das trocas As trocas ocupam um lugar significativo na análise de Vidal, uma vez que estão diretamente ligadas à geração de uma rede de circulação que é ao mesmo tempo fruto e causa da intensificação dessas mesmas trocas e que transformam e alteram profundamente as formas de ocupação do espaço. A intensificação das trocas geraria o que Vidal chama de solidariedade regional. Isso deslocaria o foco da análise regional do princípio da homogeneidade para a da solidariedade regional. Vidal de la Blache é ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 87 um homem atento às mudanças de seu tempo, essa ideia de solidariedade regional tem em seu cerne o desenvolvimento das cidades. Para Vidal de la Blache (1993, p. 309), “Cidades e rotas são as grandes iniciadoras da unidade; elas criam a solidariedade das regiões. [...]. Esse papel nas condições econômicas do mundo atual, se precisa e se define”. As monografias regionais Vidal de la Blache é, sem dúvida, a maior expressão da Geografia francesa, principalmente, em se tratando de Geografia regional. Para ele, uma monografia regional, ou seja, um trabalho científico em Geografia, deveria estar atenta para os elementos que compõem a região: os elementos do meio físico, sobretudo, o solo; formas de habitação, actividades humanas, e como as comunidades se integram com o meio físico e com outras comunidades; além de estar atenta para elementos solidários que pudessem parecer estranhos à região estudada. Vidal e o Movimento Regionalista Por volta de 1860, por influência das ideias de Proudhon (1809-1865), Mistral (1830 - 1914) e Barres (1862 – 1923), desenvolveu-se na França um movimento regionalista, que se articula em torno da revista L’Acion Régionaliste e da Federação Regionalista Francesa. Entre 1890 e 1910, esse movimento defendeu uma reforma territorial na França. A partir de 1910, Vidal se insere nesse movimento. A primeira tomada de posição regionalista de Vidal foi muito discreta. Manifestou-se em um comentário que ele fez, em 1898, sobre o livro de Pierre Foncin “Les Pays de France. Projet de fédéralisme administratif. (Compte rendu du livre de Pierre Foncin: Les pays de France) Annales de Geographie, 1898). Nesse livro, Foncin propõe ao movimento regionalista uma doutrina e um programa. Em seu comentário, Vidal subscreve a ideia de “livrar a França da opressão da centralização”. Como Foncin, ele lamenta a ineficácia da organização territorial em vigor na França e concorda que seria necessário dotar a França de uma circunscrição administrativa melhor adaptada às “unidades locais naturais”. Esse breve comentário revela duas orientações que Vidal, nessa época, dava à sua reflexão sobre a região. De um lado, ele queria dotar a Geografia de uma definição do conceito de região e de um método de análise regional. Ele sustenta, como vários outros, que a realidade regional não corresponde necessariamente a divisões administrativas. Por outro lado, ele revela a sua sensibilidade política e faz elogios às vantagens de Estados onde a diversidade regional se exprime. Ao descrever a Suíça, deixa transparecer o valor moral que ele atribui à ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 88 autonomia dos organismos locais. Para ele, a Suíça havia atingido um alto nível de civilização porque cada região era dotadade uma identidade política própria. Se, por um lado, Vidal, ao comentar Foncin, concorda com a reforma regional, ele não se torna efetivamente um advogado do movimento regionalista. No entanto, dá um passo nessa direção quando publica, em 1903, o seu célebre Tableau de la géographie de la France. Nesse trabalho, ele adopta uma posição regionalista, sem se referir diretamente a nenhuma posição política ou debate partidário. Ele se situa “acima” de qualquer querela doutrinária ou política e reclama para si tão-somente a análise científica. Restringe-se a dizer, no final de sua obra, que a reforma regional emana da própria Geografia e que uma regionalização está verdadeiramente inscrita na história do solo e do povo francês, que somente “o esquecimento” ou “a complacência” poderiam contrariar tal reforma. Ele explica que a centralização é uma herança do século XVIII e que nessa época uma coação política externa havia favorecido essa centralização. A França precisava rivalizar com os outros Estados europeus e esse esforço de afirmação e de resistência exigia que a unidade do país fosse incontestável. Entretanto, essa centralização havia, segundo Vidal, sufocado o pleno desenvolvimento e a manifestação da Geografia francesa e no século XIX o dinamismo local começava a se manifestar, mostrando que a Geografia regional da França iniciava a retomada de seus direitos. Alguns anos mais tarde, Vidal decide defender mais abertamente o movimento regionalista. Sua atitude se manifesta, primeiramente, (VIDAL DE LA BLACHE, 1909), quando comenta o livro de Lucien Gallois, Régions naturelles et noms de pays, no qual denuncia abertamente e sem rodeios “o despotismo” que mantém a França num “excesso de centralização”. Essa nova coloração é o prelúdio de um outro artigo, publicado em 1910, Regions françaises. Nesse artigo, Vidal ultrapassa, sem hesitação, os horizontes científicos, para elaborar e legitimar um autêntico programa regionalista. Desde a primeira linha, ele denuncia a inércia da classe política e se congratula com a clarividência dos partidários da reforma regional. Com essa amostra, manifesta a sua intenção de tomar partido em um debate político de sua época. Aliás, ele critica “a insuficiência das divisões administrativas atuais”. Mesmo reconhecendo um certo valor nas divisões departamentais, lamenta a ausência de entidades regionais mais amplas. Para ele, o departamento, criado no rasto da Revolução, trazia uma forte marca de uma França largamente rural. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 89 Contudo, a geografia da França havia mudado bastante no século XIX. A grande indústria havia ampliado consideravelmente a escala dos fenômenos econômicos e isso simultaneamente à formação de centros urbanos que drenavam grandes hinterlândias. O Método Regional Vidal se interessa muito pelas realidades geográficas extensas: nações ou grandes zonas geográficas, como o Mediterrâneo. Se ele efetua recortes regionais, é para melhor compreender a natureza das entidades que lhe interessam. Seu método repousa sobre uma incessante dialética das escalas. Para ele, essa dialética se realiza quando analisa a situação dos lugares ou de pequenos conjuntos territoriais: pontos ou áreas mais ou menos extensos. A outra vertente dessa dialética das escalas procede de modo inverso, indo das grandes áreas naturais, das nações, das grandes regiões em direção aos “pays”, ao local. Essas operações de regionalização que “revelam” componentes que existem no seio de um grande espaço o apaixonam. Quando os critérios de partição são mudados, a forma do recorte toma toda sua amplitude. É o que torna a démarche regional insubstituível no pensamento vidaliano. Ela revela, assim, a complexidade dos objectos estudados quer se trate de nações, de grandes espaços, ou do estudo do local. Para descrever a França, Vidal utiliza sucessivamente várias perspetivas: ele a recorta em regiões naturais (1988); analisa conjuntos onde se desenvolvem formas de sociabilidade originais, mas que têm na França a particularidade de se completar (VIDAL DE LA BLACHE, 1979); faz um inventário dos pequenos “pays” e das paisagens agrárias (VIDAL DE LA BLACHE, 1904). Retornando dos Estados Unidos, se volta para a análise com base nas grandes cidades, nas zonas de influência que elas talham no seio do território nacional (VIDAL DE LA BLACHE, 1993). Nesse sentido, a démarche regional vidaliana não pode ser concebida de maneira estática, uma vez que é dinâmica. Abrindo vários flancos, ela permite envolver na análise a natureza, a natureza humana, a cultura e todo o conjunto complexo de “objectos e de acções” que constituem a estrutura do território. Sumário Nesta unidade, discutimos a evolução do pensamento regional de Paul Vidal de la Blache. Você percebeu que, para esse autor, a região é um recorte espacial relacionado à diferenciação natural e cultural dos lugares. Mostramos também que elementos como clima, geologia, ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 90 cultura, história e técnica se imbricam e dão singularidades ao local e que o advento das cidades promovem um novo reordenamento regional. Autoavaliação 1. Uma região pode ser criada com a finalidade de realizar estudos sobre as características gerais de um território, assim como para entender determinados aspectos do espaço. 2. A região resulta de uma elaboração racional e intencional do ser humano. Tem a finalidade de facilitar a análise, a gestão e a compreensão de uma determinada área e dos elementos que a compõem. 3. Em geral, a região pode ser entendida como uma área que foi dividida obedecendo-se a um critério específico. 4. Algumas regiões surgem de forma natural e são estabelecidas sem que seja necessária a especificação de um critério que as defina ou classifique. Elas são chamadas de regiões naturais. 5. O espaço geográfico é aquele que foi modificado pelo homem ao longo da história. Nele estão contidos alguns elementos. I Um dos principais da geografia, está ligado a espaços que nos são familiar e que fazem parte da nossa vida. Desde a infância, começamos a construir e organizar nosso próprio espaço e a conhecer o espaço das pessoas com as quais convivemos. II Refere-se às configurações externas do espaço. Por muitas vezes, ela foi definida como “aquilo que a visão alcança”. III É classicamente definido como sendo um espaço delimitado. Tal delimitação se dá através de fronteiras, sejam elas definidas pelo homem ou pela natureza. IV É uma área ou espaço que foi dividido obedecendo a um critério específico. Trata-se de uma elaboração racional humana para melhor compreender uma determinada área ou um aspecto dela. Pela análise realizada a sequência correta é: A. Lugar, paisagem, território, região. B. Paisagem, território, lugar, região. C. Território, lugar, paisagem, região. D. Região, paisagem, lugar, território. Guião de Correcção 1-F; 2-F; 3-V; 4-F; 5-A ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 91 Avaliação 1. A partir do conceito de REGIÃO, assinale a opção CORRETA: A. O Conceito de Região na Geografia refere-se à porção do espaço que agrupa elementos diferentes. B. Cada região se diferencia das outras por apresentar particularidades próprias, ou seja, semelhança entre seus elementos. C. Para estudar todos os países do mundo não precisamos regionalizar as informações, podemos estudar todos os dados geográficos juntos. D. O conceito de região é menor que a escala local, e maior que a escala nacional. Correlacione a segunda coluna de acordo com a primeira: 2. Espaço geográficoConjunto indissociável de sistemas de objetos e sistemas de ações, que procura revelar as práticas sociais dos diferentes grupos. 3. Paisagem É, numa determinada porção do espaço, o resultado da combinação dinâmica, portanto instável, de elementos físicos, biológicos e antrópicos que, reagindo dialeticamente, uns sobre os outros, fazem da paisagem um conjunto indissociável, em perpétua evolução. 4. Território Para algumas correntes da geografia, pode ser entendido(a) como uma classe de área, que pode apresentar grande uniformidade interna e grandes diferenças quando comparada a outras áreas. 5. Lugar É marcado(a) pelas relações de consenso, conflito, dominação e resistência, onde se cria identidade e onde se vive. 6. Região As relações de poder construídas e estabelecidas são determinantes para a sua definição e delimitação. Guião de Correcção 1-B; Referências Bibliográficas ANDRADE, Manuel Correia. Geografia, ciência da sociedade. Recife: Editora Universitária/ UFPE, 2006. CLAVAL, Paul. Histoire de la gèogaphie. Paris: PUF, 1995. CLAVAL, Paul. Histoire de la Géographie française de 1870 à nos jour. Paris: NATAN, 1998. DANTAS, Aldo. Pierre Monbeig: um marco da geografi a brasileira. Porto Alegre: Sulina, 2005. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 92 MERCIER, Guy. La région e l´’état selon Friedrich Ratzel et Paul Vidal de la Blache. Annales de Géographie, Paris, v. 583, p. 211-235, 1995. MORAES, Antonio Carlos Robert. Geografia: pequena história crítica. São Paulo: HUCITEC, 1983. SANGUIN, André-Louis. Vidal de la Blache: un génie de la géographie. Paris: Belin, 1993. VIDAL DE LA BLACHE, Paul. Le principe de la géographie générale. Annales de Géographie, v. 5, n. 20, p. 122-142, 1896. ______. Régions naturelles et noms de pays. Journal des Savants, p. 389-401, sept./oct. 1909. ______. De la signifi cations populaire des noms pays. Roma Tipografia Della R. Academia dei Lincei, 1904. ______. La rénovaion de la vie régionale: foi et vie. Cheir, 1917. ______. Tableau de la géographie de la France. Paris: Tallandier, 1979. ______. Régions françaises. In: SANGUIN, André-Louis. Vidal de la Blache: un génie de la géographie. Paris: Belin, 1993. UNIDADE Temática 3.4. Os movimentos de renovação Introdução A Geografia começa a viver a partir da década de 1950, em todo o mundo, uma dramática crise de transição. Essa crise adveio do rompimento de grande parte dos geógrafos em relação à perspetiva tradicional, aquela que se fundamentava no positivismo. Esse rompimento ensejou a busca de novos caminhos, de nova linguagem, de novas propostas, enfim, de uma maior liberdade para reflexão e criação. Com o movimento de renovação, a Geografia passa a trabalhar a partir de críticas e propostas; abrem-se novas discussões e buscam-se caminhos até então desconhecidos. Instala-se, de maneira sólida, um tempo de críticas e de propostas no âmbito dessa ciência. As principais propostas geradas a partir desse momento são os movimentos que deram origem às geografias quantitativa, radial e da perceção. São esses três movimentos que analisaremos nesta aula. Ao completar esta unidade, você deverá ser capaz de: Objectivos Compreender a realidade colocada para o mundo nos pós Segunda Guerra Mundial. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 93 Específicos Entender a relação entre realidade social e histórica do período estudado e suas vinculações com os movimentos de renovação da Geografia. Perceber as especificidades que compõe as propostas da geografia quantitativa, radical e da perceção. Contexto geral O contexto dos pós Segunda Guerra Mundial modifica profundamente a maneira de se conceber os problemas da sociedade. O mundo que se reconstitui, depois da guerra, é um mundo dominado por dois blocos antagônicos, no qual se firma um Terceiro Mundo confrontado com grande explosão demográfica e miséria. Um crescimento espetacular dos fluxos de homens, mercadorias, informações e finanças se estabelecem fortemente nesse período e acirram as rivalidades geopolíticas: é o tempo da Guerra Fria. A evolução das técnicas e os processos históricos modificam profundamente as relações econômicas e políticas até então estabelecidas. Começa a se estabelecer o período que Milton Santos denominou de técnico científico-informacional (Milton Santos: o filósofo da técnica). Os meios de aquisição de dados também tornam-se mais sofisticados. A fotografia aérea, desenvolvida desde a Primeira Guerra Mundial, toma novo impulso. As imagens de radar atravessam as coberturas nebulosas. O aperfeiçoamento de satélites de observação possibilita uma cobertura cada vez mais regular da Terra, com uma resolução cada vez melhor, chegando à ordem de metro. O progresso das técnicas de modelação e de cálculo encontra grande eco nas ciências. Ocorre nesse momento grande expansão do Capitalismo, que vai permitir o desenvolvimento das corporações transnacionais, as quais ampliam seus programas de acção, visando controlar as matérias-primas e o mercado consumidor em escala mundial. Os métodos matemático-estatísticos, para a confeção de modelos abstratos a serem aplicados em realidades diversas, são a febre desse momento. É nesse ambiente que surgem as correntes de renovação da geografia. A Geografia Quantitativa Denominada também como Nova Geografia, Geografia Pragmática ou Geografia Teorética, essa nova corrente de pensamento rompe com a chamada Geografia Clássica. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 94 De modo geral, podemos dizer que essa corrente vai se apoiar no uso maciço da estatística, com o emprego de diagramas, matrizes, análise fatorial e equações matemáticas. Dá pouca importância aos trabalhos de campo, que é substituído pelo laboratório, onde seriam feitas medições matemáticas e traçados gráficos estatísticos, procurando visualizar a problemática da paisagem através de modelos sistêmicos. Para os autores filiados a esta corrente, o temário geográfico poderia ser explicado totalmente com o uso de métodos matemáticos. Todas as questões aí tratadas – as relações e interações de fenômenos de elementos, as variações locais da paisagem, a acção da natureza sobre os homens etc. – seriam passíveis de ser expressas em termos numéricos (pela mediação de suas manifestações) e compreendidas na forma de cálculos. Para eles, os avanços da estatística e da computação propiciam uma explicação geográfica. Por exemplo, ao se estudar uma determinada região, a análise deveria começar pela contagem dos elementos presentes (número de estabelecimentos agrícolas, total de população, extensão, número e tamanho das vilas e cidades etc.); este procedimento forneceria tabelas numéricas de cada dado, as quais seriam trabalhadas estatisticamente pelo computador (médias, variâncias, desvio-padrão, medianas etc.) e relacionadas (correlação simples e múltipla, regressão linear, covariação, análise de agrupamento etc.); ao final, surgiriam resultados numéricos, cuja interpretação daria a explicação da região estudada. Poder-se-iam formular juízos do seguinte tipo: a estrutura fundiária é explicável pela topografia, em relação ao tipo de produto na razão de 70%; o tamanho das cidades relaciona-se com o sistema viário em 0,6 numa escala de 0 a 1; variando a produtividade agrícola, variará o volume de estradas asfaltadas, na proporção de 7.0 numa escala de 1 a 10; e assim por diante. A relação de várias destas constatações permitiria chegar à explicação geral da área estudada. (MORAES, 1983, p.103). A Geografia crítica ou radical Como já mencionamosno início desta aula, o mundo passa por grandes transformações a partir do final da Segunda Guerra Mundial, tais como: Início e fim da Guerra Fria, através da política de coexistência pacífica que amortece as tensões entre os dois blocos hegemônicos, o que permite o florescimento da reflexão marxista no ocidente; Mudanças nos países do Terceiro Mundo; Crise do sistema de dominação ocidental. O processo de descolonização, ocorrido após a Segunda Guerra Mundial, de muitos países da África, como a Guiné e a Argélia, é fruto dessas mudanças e contribuiu para alterar de modo significativo as relações internacionais. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 95 Vêm a baila os problemas do chamado mundo subdesenvolvido, o que dá origem a movimentos com o dos Países não-alinhados – conjunto de países que tinham a pretensão de não se alinharem nem ao bloco capitalista nem ao bloco comunista – e também à Conferência Mundial de Comércio e Desenvolvimento, realizada em Bruxelas em 1964, que permitiu levantar muitos dos problemas sociais e econômicos do subdesenvolvimento e influenciou não só a economia como também as outras ciências sociais. Toma-se consciência que, em boa medida, os problemas do subdesenvolvimento são consequência da dominação capitalista e se reconhece as relações entre o atraso econômico, a dependência e a relações comerciais internacionais. Entra em crise o sistema de dominação levado a cabo pela Europa e Estados Unidos da América (EUA). Essas mudanças refletem-se nas ciências sociais, que vão buscar uma nova compreensão para os países dependentes e para o papel das potências ocidentais e do próprio sistema capitalista. No campo da Geografia, os procedimentos metodológicos descritivos da Geografia Tradicional e o tecnicismo quantitativo da Geografia Teorética começam a ser criticados por não conseguirem explicar a nova realidade posta. Esse movimento de crítica é denominado de radical. Tem sua origem nos Estados Unidos, em meio à turbulência social originada pela intervenção americana no Vietnam. Para além da pesquisa sobre a produção e organização do espaço, das causalidades estruturais e históricas ligadas às formações sociais, essa corrente acrescentava, às suas formulações, forte contestação à realidade social, notadamente à sociedade capitalista americana, onde se exacerbavam os problemas sociais, com destaque aos das grandes cidades. Esse movimento era composto, basicamente, de jovens geógrafos que criticavam a inoperância das barreiras disciplinares, a falta de pertinência da Geografia social e sua frequente associação com os interesses e instituições dominantes e de todos aqueles que contribuíam para a manutenção do status quo, ou seja, acreditavam que a Geografia de então contribuía mais para o controle do que para a resolução dos problemas sociais tal como eles se expressavam no território, tanto em escala mundial, das relações entre centro e periferia, como em escala urbana. Assim sendo, suas pesquisas, com base teórico-marxista, se voltaram para temas como a produção do espaço, a pobreza, a fome, a saúde, a criminalidade, os problemas urbanos, o imperialismo e a geopolítica. O designativo de crítica diz respeito, principalmente, a uma postura frente à realidade, frente à ordem constituída. São os autores que se posicionam por uma transformação da ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 96 realidade social, pensando o seu saber como uma arma desse processo. São, assim, os que assumem o conteúdo político de conhecimento científico, propondo uma Geografia militante, que lute por uma sociedade mais justa. São os que pensam a análise geográfica como instrumento de libertação do homem. Os autores da geografia crítica vão fazer uma avaliação profunda das razões da crise; são os que acham fundamental evidenciá-la. Vão além de um questionamento puramente acadêmico do pensamento tradicional, buscando suas raízes sociais. Ao nível acadêmico criticam o empirismo exacerbado da Geografia Tradicional, que manteve suas análises presas ao mundo das aparências [...]. A vanguarda desse processo crítico renovador vai ainda mais além, apontando o conteúdo de classe da Geografia tradicional. Seus autores mostram as vinculações entre as teorias geográficas e o imperialismo, a ideia de progresso veiculando sempre uma apologia da expansão. Mostram o trabalho dos geógrafos, como articulado às razões do Estado. Desmistificam a pseudo “objectividade” desse processo, especificando como o discurso geográfico escamoteou as contradições sociais. (MORAES, 1983, 112-113). A Geografia da Perceção Também conhecida com Geografia comportamental, a Geografia da perceção surge como uma corrente de pensamento que se aproxima da psicologia e tem nas formulações fenomenológicas de Edmund Husserl (1859-1938) o seu suporte teórico. A fenomenologia coloca importância primordial no indivíduo para o processo de construção do conhecimento. Para esta corrente, o mundo deve ser descrito segundo a maneira como é visto, sentido e percebido pelo indivíduo. Desenvolvida nos Estados Unidos por Yifu Tuan, esta corrente ficou também conhecida como Topofilia. Topofilia quer dizer, literalmente, amor aos lugares (Topo, lugar, e filia, amor). Esse termo foi utilizado pelo pela primeira vez pelo filósofo Gaston Bachelard, no seu livro “A poética do espaço”. Para ele, tratava-se de considerar os “espaços felizes” e os espaços vividos. Para Tuan, Topofilia designa a ligação afetiva que existe entre cada indivíduo e os lugares. Nesse caso, trata-se de um sentimento extremamente particular. Sabemos que os indivíduos estabelecem relações significativas com os lugares e que os lugares significam sempre “alguma coisa” para os seres humanos. Assim sendo, caberia ao geógrafo (da perceção) pesquisar essa “alguma coisa”, levando em consideração que os seres humanos interpretam os lugares e, simultaneamente, lhes dão sentido. Trata-se, então, de compreender as modalidades segundo as quais os ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 97 seres humanos constroem suas relações com os lugares, quer eles seja simbólicos, constitutivos de identidade, ou mais banais e familiares. Entretanto, devemos chamar a atenção para o facto de que a ligação dos seres humanos com os lugares é intermediada por factores culturais, sociais, econômicos e, mesmo, de origem biológica. Nesse sentido, para se compreender as preferências, afetividades e atitudes de cada indivíduo ou grupo, é necessário levar em consideração aqueles factores. Para compreender a preferência ambiental de uma pessoa, necessitaríamos examinar sua herança biológica, criação, educação, trabalho e arredores físicos. No nível de atitudes e preferências de grupo, é necessário conhecer a história cultural e a experiência de um grupo no contexto de seu ambiente físico. Em nenhum dos casos é possível distinguir nitidamente entre factores culturais e o papel do meio ambiente físico. Os conceitos de “cultura” e “meio ambiente” se superpõem do mesmo modo que os conceitos de “homem” e “natureza” [...]. Na sociedade ocidental o mapa mental da dona de casa com crianças pequenas, provavelmente, é diferente do de seu esposo. Os caminhos de circulação do casal, durante os dias de trabalho, dificilmente coincidem, exceto dentro de casa. Quando saem às compras, o homem e a mulher vão querer olhar lojas diferentes. Eles podem ir de braço dado, mas com isso não vão ver ou escutar as mesmas coisas. Ocasionalmente, são arrancados de seus próprios mundos preceptivos para atender cortesmente ao pedido do outro, como por exemplo,quando o marido pede à esposa que admire os tacos de golfe na vitrina. Pense em uma rua movimentada e procure lembrar as suas lojas: certas lojas aparecerão nitidamente, enquanto outras se dissolverão em uma névoa como um sonho. Os papéis dos sexos têm muita a ver com as diferenças nos padrões (TUAN, 1980 p. 68-70). Sumário Considerando as transformações ocorridas com o final da Segunda Guerra Mundial, você estudou os movimentos de renovação da Geografia, denominados de quantitativo, radical e da perceção, os quais foram influenciados por essas mudanças. Autoavaliação 1. A Geografia começa a viver em todo o mundo, uma dramática crise de transição. Essa crise adveio do ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 98 rompimento de grande parte dos geógrafos em relação à perspetiva tradicional, aquela que se fundamentava no positivismo. Esta crise foi: A. A partir da década de 1950 B. A partir da década de 1590 C. A partir da década de 1920 D. Todas opções estão erradas 2. A Nova Geografia defende que o subdesenvolvimento é um estágio para se chegar ao desenvolvimento. 3. A Nova Geografia defende que Todo o conhecimento apoia-se na experiência (empirismo). 4. A Geografia Crítica apóia-se em dados estatísticos e planos para explicar a espacialidade social. 5. Uma das grandes metas conceituadas da geografia foi justamente de um lado, esconder o papel do Estado bem como o das classes sociais na organização da sociedade e do espaço. A justificativa da obra colonial fio um outro aspecto do mesmo programa (M. Santos) ”. As nações teórico-metodológicas que invertem essas metas conceituadas estão contidas na: A. Geografia teórica B. geografia descritiva C. geografia crítica D. geografia de perceção Guião de Correcção 1-A; 2-V; 3-V; 4-V; 5-C Avaliação 1. A Geografia comportamental, a Geografia da perceção surge como uma corrente de pensamento que se aproxima da psicologia e tem nas formulações fenomenológicas. Para esta corrente, o mundo deve ser descrito segundo a maneira como é visto, sentido e percebido pelo indivíduo. Esta corrente foi desenvolvida por: A. Friedrich Ratzel B. Gaston Bachelard C. Milton Santos D. Yifu Tuan 2. A geografia crítica desmascara a geografia tradicional e a nova geografia ao demostrar o papel da geografia na legitimação dos interesses das classes hegemônicas. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 99 3. Segundo o princípio da causalidade, o geógrafo só realiza a Geografia plenamente como ciência quando demonstra, comprove e explica o fenômeno estudado, evidenciando suas causas e consequências. 4. A geografia crítica sucede a corrente do pensamento geográfico denominada nova geografia ou geografia quantitativa. 5. O Determinismo Geográfico de Ratzel, surge como resposta ao Possibilismo de Vidal de la Blache. Guião de Correcção 1-D; 2-V; 3-V; 4-V; 5-F Referências Bibliográficas BACHELARD, G. A poética do espaço. São Paulo: Martins Fontes, 1998. BAILLY, A. FERRAS, R. Élements d’éspistemoligie de la géographie. Paris: Armand Colin, 1997. CLAVAL, Paul. Histoire de la géopgraphie. Paris: PUF, 1996. MORAES, António Carlos Robert. Geografia: pequena história crítica. São Paulo: HUCITEC, 1983. MOREIRA, Ruy. Para onde vai o pensamento geográfico? São Paulo: Contexto, 2006. TUAN, Yi-fi . Topofilaia. São Paulo: Difel, 1980. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 100 TEMA – IV: GEOGRAFIA COMO CIENCIA. Unidade Tematica 4.1. Geografia como Ciência UNIDADE Temática 4.1. Geografia como Ciência Introdução Friedrich Ratzel (1844-1904) e sua obra foram de fundamental importância para o processo de sistematização da Geografia moderna. Foi de sua autoria uma das pioneiras formulações de um estudo geográfico especificamente dedicado à discussão dos problemas humanos, o qual denominou de antropogeografia. Seu projecto teórico, com forte carácter interdisciplinar, teve a preocupação central de entender: a difusão e distribuição dos povos sobre a superfície da Terra; as diversas formas de circulação de pessoas e bens materiais; a influência das condições naturais sobre o comportamento humano; as formações territoriais e, intimamente vinculada a estas, a dimensão política da relação homem-natureza. Ao completar esta unidade, você deverá ser capaz de: Objectivos Específicos Entender em que contexto histórico se desenvolve o pensamento ratzeliano. Compreender a dimensão determinista da obra de Ratzel para a sistematização da Geografia. Geografia como Ciência A geografia é um dos saberes mais antigos que existem. De forma resumida, podemos dizer que ela é o estudo do espaço que os seres humanos habitam. Assim sendo, seu início coincide com o advento dos primeiros mapas, na Antiguidade, pois a elaboração de um mapa - para mostrar o caminho para um lugar, para localizar cada objecto ou fenômeno numa determinada região, etc. - já pressupõe um estudo geográfico. O mapa é um excelente instrumento para a geografia e, normalmente, os estudos ou trabalhos dessa disciplina são acompanhados por mapas. A palavra Geografia (geo, “Terra”; grafia, “descrição”, “escrita”) foi criada pelo filósofo grego Eratóstenes no século III a.C. Esse filósofo foi um estudioso da geografia, algo muito comum na época, quando praticamente todos os sábios ou estudiosos eram filósofos (filo, “amigo”; Sofia, “saber”, “sabedoria”) e, ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 101 com frequência, se ocupavam de quase todos os temas ou assuntos que hoje dividimos entre várias disciplinas distintas. Foi somente nos séculos XVII, XVIII e XIX, dependendo de cada caso, que as ciências modernas (química, física, geologia, geografia, astronomia, sociologia, economia, etc.) se definiram mais precisamente, isto é, tornaram-se autônomas ou independentes da filosofia e adquiriram os seus conceitos e métodos próprios e específicos. Para que uma disciplina torne-se ciência é necessário que a mesma tenha um objecto de estudo e um objectivo que a diferencie das demais, que seja peculiar, própria, particular a ela. Foi somente no século XIX que a geografia se tornou uma ciência específica, tendo-se separado da filosofia, da astronomia, da geologia e de outros saberes que, até então, eram mais ou menos integrados com ela. Isso ocorreu como consequência da especialização dos saberes, isto é, de uma maior delimitação de cada objecto ou campo de estudos. Os Aspectos teórico e prático da geografia A geografia sempre apresentou dois aspectos: um teórico e outro prático ou estratégico. O aspecto teórico da disciplina refere-se aos conhecimentos sobre o mundo como um todo, ou seja, a geografia geral, e também aos estudos sobre um determinado lugar ou região, a geografia regional. Por exemplo: as densidades demográficas no mundo, o comércio internacional, os climas do nosso planeta, etc. (geografia geral); ou o estudo da Europa ocidental, da Grécia ou da Amazônia (geografia regional). O aspecto estratégico da geografia diz respeito à sua utilidade prática para o Estado (isto é, para o poder público), para os militares (para fazer a guerra), para as empresas e indivíduos em geral (para conhecer o mundo e os lugares a fim de neles poder atuar mais eficazmente). Afinal, todos os povos, todas as sociedades humanas, habitam um determinado espaço, que é o seu território. E não é possível que exista um governo (isto é, a cúpula ou comando do Estado) que administre uma sociedade,cobrando impostos e garantindo a lei e a ordem, sem dispor de informações geográficas a respeito dessa sociedade e do seu território: conhecimentos e mapas sobre os recursos naturais (solos, minérios, recursos hídricos, etc.), sobre a população (número de habitantes e suas características - sexo, idade, faixas de rendimentos -, locais onde eles se concentram), etc. Durante muito tempo a Geografia se caracterizou por ser uma disciplina meramente descritiva e voltada para memorização, tendo como objecto principal o fornecimento de conhecimento de carácter informativo (catalogando nome de continentes, países, Estados, montanhas, rios, etc.). ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 102 Nos dias atuais a Geografia mudou sua imagem e passou a caracterizar- se por interpretativa, ou seja, procura estudar como os homens organizam o espaço que habita e nele age, reage, interage e transforma. A geografia estuda tudo aquilo necessário à manutenção da vida humana neste espaço organizado. Etimologicamente a Geografia teria a função de explicar todos os fenômenos apresentados no globo, porém, o seu objecto de estudo e objectivo define a Geografia como o estudo da manutenção do homem no meio. A Geografia é uma ciência porque tem um objecto de estudo (a Terra, apesar de ser esta objecto de estudo de outras ciências). Porém, seu objectivo (estudar a organização do espaço humano) é específico, próprio, singular. Surge a Geografia moderna com Humboldt e Ritter Dois estudiosos germânicos do século XIX são considerados os criadores da geografia moderna ou científica: Alexandre Von Humboldt (1769- 1859) e Karl Ritter (1779-1859). Eles produziram importantes trabalhos de pesquisa no estudo da geografia física (climas e suas relações com a vegetação, às águas e o relevo, interação entre os elementos naturais de uma paisagem), como foi o caso principalmente de Humboldt, ou então da geografia humana (os povos e seus territórios, os Estados e suas relações políticas, econômicas, etc.), como foi o caso de Ritter. Figura 17- Alexander von Humboldt (1769- 1859) Alexander von Humboldt foi um viajante incansável, que conheceu todos os continentes. Em suas viagens, fazia anotações, ilustrações, mapas, e recolhia dados para estabelecer as relações entre os fenômenos da geografia física. Ao contrário de inúmeros estudos ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 103 anteriores, que apenas recolhiam factos isolados, ele procurou integrá- los, formando um conjunto ou um sistema de fenômenos interligados e que se influenciam mutuamente. Procurou também deixar de lado os conhecimentos ou crenças especulativos e se ater somente àquilo que pode ser comprovado cientificamente, por meio da observação e do raciocínio. Um dos grandes méritos de Humboldt foi ter percebido que a natureza não é algo estático ou "eterno", como se pensava até então. Ele assinalou a dinamicidade da natureza, as suas alterações com o decorrer do tempo. Observou que ocorreram modificações climáticas e geológicas na superfície terrestre e que todos os aspetos da natureza - inclusive os seres vivos - não existiram sempre da mesma forma. Karl Ritter não foi um viajante pertinaz (persistente), tal como Humboldt. Trabalhou muito mais com pesquisas bibliográficas do que com pesquisas de campo, procurando sempre verificar o que era fantasia e separá-la dos factos ou conhecimentos comprováveis ou aceitáveis. Ritter também insistiu nas inter-relações entre fenômenos (não apenas entre os naturais, mas também entre os humanos e, principalmente, entre a humanidade e a natureza) que ocorrem no espaço geográfico. Contrariando a maioria dos estudiosos do período, que pensavam que o homem fosse um produto do meio natural, ele assinalou o domínio progressivo (embora problemático) que a humanidade exerce sobre a natureza graças à tecnologia. Ritter também percebeu que o mundo estava ficando pequeno, isto cada vez mais integrado, com uma multiplicação (intercâmbios entre todas as regiões do globo. Figura 18- KARL RITTER 1779-1859 Podemos ainda relacionar o advento da geografia moderna com o seu momento histórico, o século XIX. Nessa época, a humanidade já tinha unificado todo espaço planetário, processo que se iniciou no século XV, com a expansão marítimo-comercial europeia, e se prolongou nos ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 104 séculos posteriores, com a conquista da Oceânia e um melhor conhecimento da África, a o século XIX, com o estudo das regiões polares, as últimas a serem exploradas pelos povos europeus. Não foi por acaso que os trabalhos desses de geógrafos, Humboldt e Ritter, surgiram nesse período em que o conhecimento geográfico acumulado sob o mundo já permitia separar a realidade da fantasia dos mitos. A construção da geografia moderna, portanto, só pôde ocorrer num momento em que praticamente toda a superfície terrestre havia sido conhecida, estudada e mapeada. As concepções, correntes ou escolas geográficas Na tentativa de formular as leis que regem as relações entre o homem e a natureza, surgiram duas importantes correntes geográficas no século XIX que foram: A Escola Determinista ou Ambientalista Teoria formulada no século XIX pelo geógrafo alemão Friedrich Ratzel que fala das influências que as condições naturais exerceriam sobre o ser humano, sustentando a tese de que o meio natural determinaria o homem. O determinismo geográfico sustentava que as condições ambientais, em especial o clima, são capazes de influenciar o desenvolvimento intelectual e cultural das pessoas. Esta teoria afirmava que nas áreas temperadas a humanidade teria um desenvolvimento mais elevado do que nas áreas tropicais, quente e húmidas; As afirmações de Ratzel estavam fortemente ligadas ao momento histórico que vivia, durante a unificação da alemã. O expansionismo do Império Alemão, arquitetado pelo primeiro-ministro da Prússia Otto von Bismarck (1815-1898), foi legitimado pelas duas principais correntes de pensamento ratzeliano, o determinismo geográfico e o espaço vital (espaço necessário à sobrevivência de uma dada comunidade). A primeira explicaria a superioridade de algumas raças - nesse caso, a alemã -, que naturalmente se desenvolveriam mais do que outras, e a segunda justificaria a conquista de novos territórios para suprir a maior demanda de recursos para seu desenvolvimento, ou seja, ou expansionismo. Os discípulos do determinismo foram além das proposições ratzelianas, chegando a afirmar que o homem seria um produto do meio. Defendiam que um meio natural mais hostil proporcionaria um maior nível de desenvolvimento ao exigir um alto grau de organização social para suportar todas as contrariedades impostas pelo meio. Ex: O inverno justificaria o desenvolvimento das sociedades europeias, que não tiveram grandes dificuldades em subjugar os povos tropicais, mais indolentes e atrasados. Essa ideia justificou o expansionismo ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 105 neocolonial na África e na Ásia entre o fim do século XIX e o início do século XX. Pensamentos que, mais tarde, foram aproveitadas pelos cientistas e políticos da Alemanha Nazista. A Escola Possibilista Fundada na França pelo francês Vidal De La Blache (1845-1918), esta contesta a teoria anterior defendendo a ideia de que a natureza exerce influências sobre o homem, mas este pode escolher e modificar o meio físico, conforme sua capacidade de desenvolvimento técnico, visto que as novas técnicas possibilitaram que a humanidadetivesse a capacidade de dominar o meio de acordo com suas necessidades. Enquadrado no pensamento político dominante, num momento em que a França tornou-se uma grande soberania, ele realizou estudos regionais procurando provar que a natureza exercia influências sobre o homem, mas que homem tinha possibilidades de modificar e de melhorar o meio, dando origem ao possibilismo. A natureza passou a ser considerada fornecedora de possibilidades e o homem o principal agente geográfico. Geografia Regional ou Método Regional Representou a reafirmação de que os aspectos próprios da Geografia eram o espaço e os lugares. O método era comparar regiões, segundo critérios de similaridade e diferenciação. Os geógrafos regionais dedicaram-se à coleta de informações descritivas sobre lugares, dividir a Terra em regiões. As bases filosóficas foram desenvolvidas por Vidal de La Blache e Richard Hartshorne. Hartshorne não utilizava o termo região: para ele os espaços eram divididos em classes de área, nas quais os elementos mais homogêneos determinariam cada classe, e assim as descontinuidades destes trariam as divisões das áreas. Este pensamento geográfico ficou conhecido como método regional. Geografia Pragmática (Nova Geografia, Geografia Teorética ou Quantitativa) Corrente de pensamento da década de 1950 que surgiu da necessidade de exatidão, através de conceitos mais teóricos e apoiados em uma explicação matemático-estatística. As principais características dessa corrente geográfica são: ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 106 -Todo o conhecimento apoia-se na experiência (empirismo); - Deve existir uma linguagem comum entre todas as ciências; - Recusa de um dualismo científico entre as ciências naturais e as ciências sociais. -Maior rigor na aplicação da metodologia científica; - O uso de técnicas estatísticas e matemáticas; - A investigação científica e os seus resultados devem ser expressos de uma forma clara, o que exige o uso da linguagem matemática e da lógica. Foi usada como um forte instrumento de poder estatal, pois manipulava dados através de resultados estatísticos. Predominou na Grã-Bretanha e nos Estados Unidos, principalmente na década de 1960 a meados de 1970. A partir da década de 1960, a Geografia Pragmática começou a sofrer duras críticas. Uma das principais críticas é o facto de não considerar as peculiaridades dos fenômenos, pois o método matemático explica o que acontece em determinados momentos, mas não explica os intervalos entre eles, além de apresentar dados considerando o “todo” de forma homogênea, desconsiderando, portanto, as particularidades. Geografia Crítica ou Geografia Marxista A referência a uma geografia crítica é feita com muita ênfase na obra "A Geografia - isso serve, em primeiro lugar, para fazer a guerra", do francês Yves Lacoste. Essa corrente de pensamento geográfico surgiu na França, em 1970, e depois na Alemanha, Brasil, Itália, Espanha, Suíça, México e outros países. Ganhou mais força na Alemanha, Espanha, França e Brasil, com um grande movimento de renovação da geografia na década de 80. No Brasil, o grande nome da Geografia Crítica foi Milton Santos, que publicou os primeiros trabalhos da nova escola nesse país. A Geografia crítica estabelece o rompimento da neutralidade no estudo da geografia e propõe engajamento e criticidade junto a toda a conjuntura social, econômica e política do mundo. Estabelece também ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 107 uma leitura crítica frente aos problemas e interesses que envolvem as relações de poder e pró-atividade frente as causas sociais, defendendo a diminuição das disparidades sócio-econômicas e diferenças regionais. Defendia ainda a mudança do ensino da geografia nas escolas, ao estabelecer uma educação que estimulasse a inteligência e o espírito crítico. O pensamento crítico na geografia significou, principalmente, uma aproximação com os movimentos sociais, principalmente na busca da ampliação dos direitos civis e sociais, como o acesso a educação de boa qualidade, a moradia, pelo acesso à terra, o combate à pobreza, entre outras temáticas. Geografia Humanística ou Cultural Tem como base os trabalhos realizados por Yi-Fu Tuan, Anne Buttimer, Edward Relph e Mercer e Powell. A Geografia Humanística ou Cultural procura valorizar a experiência do indivíduo ou do grupo, visando compreender o comportamento e as maneiras de sentir das pessoas em relação aos seus lugares, ou seja, a cultura dos grupos sociais. Para cada indivíduo, para cada grupo humano, existe uma visão do mundo, que se expressa através das suas atitudes e valores para com o ambiente. É o contexto pelo qual a pessoa valoriza e organiza o seu espaço e o seu mundo, e nele se relaciona. Os geógrafos culturais argumentam que sua abordagem merece o rótulo de "humanística", pois estudam os aspectos do homem que são mais distintamente humanos: significações, valores, metas e propósitos (Entrikin, 1976). O lugar é aquele em que o indivíduo se encontra ambientado no qual está integrado, tem significância afetiva para uma pessoa ou grupo de pessoas. O espaço envolve um complexo de ideias. A perceção visual, o tato, o movimento e o pensamento se combinam para dar o sentido característico de espaço, possibilitando a capacidade para reconhecer e estruturar a disposição dos objectos. A integração espacial faz-se mais pela dimensão afetiva que pela métrica. Estar junto, estar próximo, significa o relacionamento afetivo com outra pessoa ou com outro lugar. Lugares e pessoas fisicamente distantes podem estar afetivamente muito próximos. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 108 O estudo do espaço é a análise dos sentimentos e ideias espaciais das pessoas e grupos de pessoas. Valoriza-se o contexto ambiental e os aspectos que redundam no encanto e na magia dos lugares, na sua personalidade e distinção. Geografia Ambiental Ramo da geografia que descreve os aspectos espaciais da interação entre humanos e o mundo natural. Requer o entendimento dos aspectos tradicionais da geografia física e humana, assim como os modos que as sociedades conceitualizam o ambiente. Emergiu como um ponto de ligação entre a geografia física e humana como resultado do aumento da especialização destes dois campos de estudo. Como a relação do homem com o ambiente tem mudado em consequência da globalização e mudança tecnológica, uma nova aproximação é necessária para entender esta relação dinâmica e mutável. Exemplos de áreas de pesquisa em geografia ambiental incluem administração de emergência, gestão ambiental, sustentabilidade e ecologia política. Os princípios metodológicos Princípios normas que regem o estudo permitindo realizar uma investigação eficiente dos fenómenos geográficos. Em geografia estes foram de grande importância para a construção de competências e habilidades do conhecimento geográfico, pois deram a forma e o sentido à ciência geográfica. Tais princípios são: O Princípio da Extensão Criado pelo alemão Friedrich Ratzel. Neste, o geógrafo deve localizar o facto geográfico e determinar sua área de ocorrência e a Cartografia é indispensável; O Princípio da Analogia Seus defensores foram o alemão Karl Ritter e o francês Paul Vidal De La Blache. Neste, o estudo de um fenômeno geográfico supõe a preocupação constante em estabelecer semelhanças e as diferenças dos fenômenos ocorridos em outras partes do globo; O Princípio da Causalidade Criado por Alexander Von Humboldt, entende que toda causa tem seu efeito; todo efeito tem suacausa; todas as coisas acontecem de acordo ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 109 com a Lei; o acaso é simplesmente um nome dado a uma lei não reconhecida; existem muitos planos de causalidade, mas nada escapa à Lei. Tudo o que você faz, pensa, sente toda ação e reação desencadeada por esses pensamentos, atitudes e sentimentos, provocam uma resposta consequente e subsequente. Este estabelece que se deve sempre buscar as causas e determinar as consequências do facto geográfico, pois nada acontece por acaso; Há uma estreita relação em todas as coisas. O simples facto de eu estar escrevendo esta matéria trará algumas consequências em minha vida, e provavelmente trará algumas consequências na sua. Essas consequências podem ser pequenas, grandes ou enormes, depende da reação de cada um a esta matéria. Ela poderá não atingi- lo em absolutamente nada, mas pode gerar um sentimento de necessidade por algum motivo, seja este consciente ou inconsciente. O Princípio da Conexão ou Coexistência ou ainda Interação Formulado pelo francês Jean Brunhes. Este estabelece que os factos geográficos físicos ou humanos nunca aparecem isolados e estão sempre interligados por elos de relacionamento, o objectivo é identificar e analisar as relações existentes; O Princípio da Actividade Formulado também por Brunhes, estabelece o carácter dinâmico do facto geográfico que deve ser estudado em seu passado para poder ser compreendido no presente para se ter uma imagem de seu futuro. Categorias Geográficas Originalmente, as categorias são formas, modos de ser (...) É algo que se sobrepõe ao conceito, dando – lhe conteúdo, e esse conteúdo deve ser concreto. O conceito define a ideia ou conjunto de ideias a respeito do objecto pelo pensamento, por suas características gerais. Assim, o conjunto de categoria de uma ciência está relacionado ao objecto de conhecimento dessa ciência. Por exemplo, a física trabalha com as categorias massa, corpo, luz energia, átomo, etc.; As categoria fundamentais do conhecimento geográfico são, entre, outras espaço, lugar, área, região, território, paisagem e população que definem o objecto da Geografia em seu relacionamento. Paisagem A paisagem é um conjunto heterogêneo de formas naturais e artificiais; é formada por frações de ambas, seja quanto ao tamanho, volume, cor, utilidade, ou por qualquer outro critério. A paisagem é sempre heterogênea. A vida em sociedade ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 110 supõe uma multiplicidade de funções, e quanto maior o número destas, maior a diversidade de formas e de factores. Quanto mais complexa a vida social, tanto mais nos distanciamos de um modo natural e nos endereçamos a um mundo artificial. A paisagem artificial é a paisagem transformada pelo homem, enquanto grosseiramente podemos dizer que a paisagem natural é aquela que ainda não foi mudada pelo esforço humano. Se no passado havia a paisagem natural, hoje essa modalidade de paisagem praticamente não existe mais. Se um lugar não é fisicamente tocado pela força do homem, ele, todavia, é objecto de preocupação e de intenções econômicas ou políticas, tudo hoje se situa no campo de interesses da História, sendo desse modo, social. Para Milton Santos, paisagem é tudo aquilo que nós vemos, o que nossa visão alcança é a paisagem. Esta pode ser definida como o domínio do visível, aquilo que a vista abarca. Não é formado apenas por volume, mas também de cores, movimentos, odores, sons, etc. Território O território é a base geográfica de uma nação. De tamanho variável, essa porção da superfície terrestre deve incorporar os solos e subsolos, os rios e lagos, as águas marítimas contíguas e o espaço aéreo. Daí a inegável importância estratégica do território, razão das lutas empreendidas por todas as espécies do mundo animal e todas as sociedades humanas. Lugar Lugar é a porção ou parte do espaço onde vivemos. Ele é palco de nossa existência real, é nele que ocorre o nosso cotidiano, as nossas experiências de vida. Todos nós criamos uma identidade com o lugar no qual vivemos; Isto quer dizer que ele significa algo para nós, que a nossa memória guarda sobre eles determinadas perceções e vivências com as quais nos identificamos. Portanto, estabelecemos com o lugar uma relação de afetividade. Quando mudamos, por exemplo, de uma cidade para outra ou mesmo de um bairro ou rua para outra, dentro de uma mesma cidade, temos de nos adaptar às novas condições não só materiais, mas também de significados, de vínculos. Região A região é uma determinada posição do espaço terrestre (de dimensão variável), passível de ser individualizada, em função de um carácter próprio ou homogêneo arbitrado para fins de territorização. Com relação à globalização dos anos 1990, a ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 111 conceito regional perde importância em virtude da mundialização da economia, dos hábitos culturais e dos problemas ambientais. A ordem mundial provocou a queda de fronteiras produzindo uma única região, o mundo. Espaço geográfico Segundo Melhem Adas, o espaço geográfico somente surge após o território ser trabalhado, modificado ou transformado pelo homem, ou quando, ele imprime na paisagem as marcas de sua atuação e organização social. Possuí, além de uma dinâmica natural, uma dinâmica social exercida pelas formações sociais que nele atuam (...) A medida que se apropria da natureza (espaço natural) e a transforma, o homem (a sociedade) cria ou produz o espaço geográfico, e o faz através do trabalho. Utiliza, para tanto as técnicas de que dispõe segundo o momento histórico e segundo suas representações, ou seja, crenças, valores, normas e interesses econômicos, factores que orientam suas intervenções e relações com os elementos naturais ou físicos do espaço. Assim, no processo de produção do espaço geográfico, o homem se apropria do espaço natural, que pode ser chamado de primeira natureza, e o transforma em uma segunda natureza, segundo suas necessidades e interesses. A segunda natureza, portanto, nada mais é do que a natureza humanizada. A importância do estudo da Geografia Em um mundo marcado por desigualdades socioeconômicas, étnicas e religiosas além de inúmeros problemas ambientais, a Geografia assume cada vez um papel de maior importância. A Geografia estimula a exploração racional dos recursos além de levar ao conhecimento das pluralidades culturais, evitando preconceitos e predisposições contra os diversos grupos sociais. Em uma época em que as informações são transmitidas pelos meios de comunicação em grande volume e com grande rapidez, é impossível compreender o mundo sem conhecimentos geográficos. É preciso compreender a organização e transformações do espaço geográfico para entender o mundo em que vivemos. Perspetivas e desafios da Geografia para o século XXI Em pesquisa e desenvolvimento científico é sempre arriscado trabalhar com as previsões dos avanços. Não se pode falar do futuro sem se cair no mundo da imaginação e da crença. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 112 As tendências podem apenas abrir frestas em janelas, mas não mostrar tudo que se aproxima. Os factos que não escaparão de nenhum pesquisador é o uso da tecnologia que avança no campo do mapeamento genético e sua manipulação, da química inteligente, da nanotecnologia, das redes virtuais em todos os sentidos e dinâmicas, da computação quântica e, talvez, a imbricação de todos esses conjuntos de agrupadostecnológicos embutidos em artefactos, produtos e até novas formas de vida artificializada. A Geografia é uma ciência do espaço e toda essa dimensão tecnológica que ora parece ameaçadora, ora libertadora, será a força motriz da transformação, uso e abandono de espaços, de países e de parcelas da sociedade. Nisso nada há de diferente, mas da mesma forma que se pode avaliar a transformação do espaço como uma fatalidade de expropriação contínua e acelerada do empobrecimento da maior parte da população mundial, é impossível afirmar que a sociedade se manterá como espectadora de acontecimentos tão radicais. Não sabemos que desafios deverão surgir, mas a fome e alimentação inadequada, falta de acesso aos recursos naturais de qualidade, desemprego estrutural e conjuntural, perda de direitos e conquistas sociais, conflitos étnicos religiosos e destruição por crises econômicas, por exemplo, estarão em pauta em todas as frentes que a Geografia vai atuar nas próximas décadas. Entretanto, não há qualquer certeza sobre o agravamento, mudança ou desaparecimento de problemas que hoje são tão vigorosos. A geopolítica, os modelos econômicos, a evolução dos eixos de mercado e poder estão sendo transformados e países líderes nos últimos três séculos estão dividindo sua preponderância de forma muito acelerada. A matriz energética que sustentou o século XX está sendo questionada, substituída ou consorciada por outras matrizes. Ações globais estão sendo tomadas para conter processos de destruição ambiental e seus impactos sociais e polemicamente tratados no campo da climatologia, recursos hídricos e dos bens comuns naturais. Delongar nas variáveis não irá servir a muita coisa. O correto parece, é assumir uma posição responsável sobre a óbvia esgotabilidade da natureza e da sociedade diante da força da vida humana e da natureza em moldes que não comprometam os limites das virtualidades espaciais. Habilitar a sociedade em bases políticas, técnicas, científicas e informacionais, resguardada pelos valores democráticos, é o desafio central das várias ciências e não será diferente para Geografia. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 113 Sumário A aula faz um resumo da história do pensamento geográfico dando enfase aos aspectos que dão cientificidade a geografia, nomeadamente as escolas ou doutrinas geográficas, os princípios bem como a metodologia. Autoavaliação 1. São várias as Correntes de Pensamentos Geográficos ou Paradigmas da Geografia a última corrente a ser incorporada que passou a existir conflitualmente com as anteriores foi: A. Geografia teórica B. Determinismo Ambientalismo C. Método Regional D. Geografia cultural. 2. A GEOGRAFIA é uma das ciências humanas que tem por objecto o estudo do espaço, é concebida também como o estudo da superfície terrestre e a distribuição espacial de fenômenos geográficos, frutos da relação recíproca entre homem e meio ambiente que podemos chamar de ecologia, mas também pode ser uma prática humana de conhecer o espaço onde se vive para compreender e planejar onde se vive. A palavra Geografia (geo, “Terra”; grafia, “descrição”, “escrita”) foi criada pelo filósofo grego: A. Eratóstenes no século III a.C. B. Tales de Mileto século IV a.C C. Anaximandro seculo V. d.C D. Todas opções estão correctas. 3. Assinale a opção CORRETA em relação ao conceito de Paisagem. A. Paisagem representa o que ouvimos de um determinado lugar. B. Paisagem é uma fotografia de um lugar só com características naturais. C. Paisagem é o que vemos e observamos de um lugar. D. Paisagem geográfica é apenas um quadro bonito de um lugar. 4. A paisagem em que predominam os aspectos originais da natureza como a vegetação, o relevo e a hidrografia é chamada de paisagem natural. Assinale a alternativa abaixo que contenha apenas paisagens naturais. A. Rodovia, edifícios e represa. B. Geleira, floresta e conjunto de montanhas. C. Hidrelétrica, cidade e lago. D. Ruas avenidas, florestas. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 114 5. A Geopolítica é o ramo da Geografia Econômica que busca explicar a expansão peIa superfície terrestre, da influência dos grandes grupos econômicos e dos países a eles ligados, em função dos recursos naturais existentes. Guião de Correcção 1-D; 2-A; 3-C; 4- B;5-F Avaliação 1. A Geografia, como ciência, possui um método próprio de análise, o chamado método geográfico, que se baseia em cinco princípios. 2. Toda paisagem que reflete uma porção do espaço ostenta marcas de um passado mais ou menos remoto, apagado ou modificado de maneira desigual, mas sempre presente”. (Olivier Dolfus, 1991). De acordo com o texto, é correcto afirmar que: A. A paisagem é um conjunto de formas heterogêneas de idades diferentes. B. A paisagem é estática, ao passo que o espaço é dinâmico. C. As paisagens refletem, sempre, as marcas das desigualdades sociais, por serem produzidas sob o modo de produção capitalista. D. A paisagem é uma representação do espaço, mas não é espaço, portanto, exibe as formas, mas esconde a essência de sua produção. 3. A paisagem é um dos conceitos básicos da ciência geográfica e suas modificações ocorreram ao longo da História. Sobre as paisagens, é INCORRETO afirmar que: A. Após a Revolução Industrial, os crescimentos econômico e demográfico reordenaram e deram à paisagem geográfica novos significados sócio - culturais em vários países europeus. B. Durante a introdução da cultura no interior de Moçambique no período colonial, a paisagem ficou inalterada. C. No final da Idade Média, as Ligas Hanseáticas, o comércio e a formação dos burgos contribuíram para a elaboração de novas paisagens culturais na Europa. D. Na Idade Moderna, a prática político-social dos cercamentos dos campos ou “enclosures”, contribuiu para a modificação das paisagens rural e urbana. 4. Assinale a opção INCORRETA em relação às características da Paisagem: A. As paisagens representam apenas elementos naturais de um determinado lugar. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 115 B. A Paisagem é tudo o que os nossos olhos vêem de um determinado local. C. As paisagens mudam. D. As paisagens podem ser bonitas ou feias. 5. O espaço geográfico é composto por “formas visíveis” e “formas invisíveis”. Assinale a alternativa abaixo que contenha apenas “formas invisíveis” do espaço geográfico. A. Rodovias e legislação B. Hidrelétricas e praias C. Fluxo de comunicação e fluxo de informação D. Fábricas e fluxo de informação Guião de Correcção 1-V; 2-D; 3-B; 4-A; 5-C Referências Bibliográficas CLAVAL, Paul. Histoire de la gèogaphie. Paris: PUF, 1995. CORRÊA, Roberto Lobato. Região e organização espacial. São Paulo: Ática, 1991. MARTINS, Luciana de Lima. Friedrich Ratzel hoje: a alteridade de uma geografia. Revista Brasileira de Geografia, Rio de Janeiro, v. 54, n. 3, p. 105-113, jul./set. 1992. ALMEIDA, Lucia Marina Alves de & RIGOLIN, Tércio. Fronteiras da Globalização – O mundo natural e o espaço humanizado. São Paulo: Ática. 2011. p. 08 – 16. Vol. 1. PENA, Rodolfo Alves. Friedrich Ratzel. Disponível em < http://www.brasilescola.com/geografia/friedrich-ratzel.htm >. ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 116 EXÉRCÍCIOS FINAIS PARA PREPARAÇÃO DE EXAMES DO MÓDULO 1. Vidal de La Blache criou uma doutrina, o Possibilismo, e fundou a escola francesa de Geografia. E, mais, trouxe para a França o eixo da discussão geográfica, situação que se mantevedurante todo o primeiro quartel do século XX. 2. O que significa “determinismo geográfico”? A. Trata-se de um princípio geográfico que leva em consideração apenas a ação do homem sobre o meio natural. B. Trata-se de uma escola geográfica que defende a ideia de que o crescimento da população deve ser controlado pelo Estado. C. Trata-se de uma corrente da Geografia que considera as condições naturais como determinantes do desenvolvimento ou não do espaço geográfico. D. Trata-se de um princípio da chamada Geografia Marxista que vê na natureza a causa principal do desenvolvimento econômico do espaço geográfico. 3. O determinismo geográfico deve ser entendido como a corrente da Geografia que defende a possibilidade de a ação humana vencer as determinações do meio natural. 4. A Analogia foi o princípio enunciado por Vidal de la Blache. 5. Determinismo, Trata-se de uma tendência da Geografia que considera que a sociedade pode vencer as adversidades naturais. 6. O Determinismo geográfico tem suas raízes fincadas no Positivismo, principalmente em sua fase evolucionista. Essa fase tem como base fundamental a teoria darwinista da evolução das espécies, na qual o homem nada mais é que um ser dependente dos processos naturais. 7. O Determinismo não considerava o homem com um produto do meio, logo não deveria adaptar-se ao meio ambiente para que pudesse sobreviver. 8. Frederico Ratzel admitiu o determinismo geográfico no relacionamento do meio com o homem, como se o meio fosse a causa e o homem a consequência. Para Ratzel, o homem é um produto do meio em que vive, subordinado, condicionado e fatalizado pelos imperativos fatores do meio natural. 9. Paul Vidal de La Blache, defensor do princípio de extensão e do determinismo geográfico, é considerado o Pai da Antropogeografia. 10. A ideologia segundo a qual os povos mais inteligente e os mais cultos são os das zonas temperadas, enquanto os da zona trópica, em função do clima quente, são os mais indolentes, resultando disso o desenvolvimento e o subdesenvolvimento, essa postura é defendida pelo (a): ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 117 A. Geografia crítica B. Darwinismo geográfico C. Determinismo geográfico D. Possibilismo geográfico 11. Vidal de la Blache é, sem dúvida, a maior expressão da Geografia francesa, principalmente, em se tratando de Geografia regional. 12. Vidal se interessa muito pelas realidades geográficas extensas: nações ou grandes zonas geográficas, como o Nilo. 13. A démarche regional vidaliana não pode ser concebida de maneira estática, uma vez que é dinâmica. 14. Jean Brunhes formulou o princípio da Atividade, no qual assinala que a paisagem não é estática mas está em constante transformação e é, portanto, dinâmica. 15. A nova geografia (geografia quantitativista), no pó 45, escamoteia a realidade vivência pelos países subdesenvolvidos, ao afirmar que a situação de pobreza de miséria existente é um estágio superável da adoção de política de planeamento eficaz. 16. A geografia crítica segue os mesmos postulados da geografia tradicional e d e nova geografia. Essa corrente de pensamento geográfico surgiu na França em: A. 1970 B.1980 C. 1960 D. 1990 17. A Geografia é uma ciência do espaço e toda essa dimensão tecnológica que ora parece ameaçadora, ora libertadora, será a força motriz da transformação, uso e abandono de espaços, de países e de parcelas da sociedade. 18. A paisagem artificial é a paisagem transformada pelo homem, enquanto grosseiramente podemos dizer que a paisagem natural é aquela que ainda não foi mudada pelo esforço humano. 19. A paisagem é um conjunto homogéneo de formas naturais e artificiais; é formada por frações de ambas, seja quanto ao tamanho, volume, cor, utilidade, ou por qualquer outro critério. 20. Os factos geográficos devem ser estudado em seu passado para poder ser compreendido no presente para se ter uma imagem de seu futuro. Este princípio chama-se de: A. Princípio da Analogia B. Princípio da Causalidade C. Princípio da Conexão D. Princípio da Actividade ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 118 21. Os factos geográficos físicos ou humanos nunca aparecem isolados e estão sempre interligados por elos de relacionamento, o objectivo é identificar e analisar as relações existentes, refere-se ao: A. Princípio da Analogia B. Princípio da Causalidade C. Princípio da Conexão D. Princípio da Actividade 22. Toda causa tem seu efeito; todo efeito tem sua causa; todas as coisas acontecem de acordo com a Lei ou seja tudo o que você faz, pensa, sente toda ação e reação desencadeada por esses pensamentos, atitudes e sentimentos, provocam uma resposta consequente e subsequente, esta relacionado à: A. Princípio da Analogia B. Princípio da Causalidade C. Princípio da Conexão D. Princípio da Actividade 23. O estudo de um fenômeno geográfico supõe a preocupação constante em estabelecer semelhanças e as diferenças dos fenômenos ocorridos em outras partes do globo. Esta associado ao: A. Princípio da Analogia B. Princípio da Causalidade C. Princípio da Conexão D. Princípio da Actividade 24. Toda causa tem seu efeito; todo efeito tem sua causa; todas as coisas acontecem de acordo com a Lei ou seja tudo o que você faz, pensa, sente toda ação e reação desencadeada por esses pensamentos, atitudes e sentimentos, provocam uma resposta consequente e subsequente, foi criado por: A. Eratóstenes no século B. Alexander Von Humboldt, C. Tales de Mileto século D. Anaximandro século 25. O estudo de um fenômeno geográfico supõe a preocupação constante em estabelecer semelhanças e as diferenças dos fenômenos ocorridos em outras partes do globo. Este principio foram defendido por: A. Karl Ritter e La Blache B. Ritter e Von Humboldt, C. Friedrich Ratzel e La Blache D. Todos 26. Os factos geográficos físicos ou humanos nunca aparecem isolados e estão sempre interligados por elos de relacionamento, o objectivo é ISCED CURSO: GEOGRAFIA; 10 Ano Disciplina/Módulo: Pensamento Geográfico 119 identificar e analisar as relações existentes. Formulado pelo: A. Karl Ritter e La Blache B. Ritter e Von Humboldt, C. Friedrich Ratzel e La Blache D. Jean Brunhes 27. Os factos geográficos devem ser estudado em seu passado para poder ser compreendido no presente para se ter uma imagem de seu futuro. Este princípio foi criado por: A. Karl Ritter e La Blache B. Ritter e Von Humboldt, C. Friedrich Ratzel e La Blache D. Jean Brunhes Guião de Correcção 1-V; 2- C; 3-F; 4-V; 5-F; 6-V; 7-F; 8-V; 9-F; 10-C; 11-V; 12-F; 13-V; 14-V; 15-V; 16-A; 17-V; 18-V;19-F; 20-D; 21-C; 22-B; 23-A; 24-B; 25-A; 26-D; 27-D.