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Departamento de Engenharia Agronômica
Curso de Engenharia Agronômica
Faculdade do Nordeste da Bahia – FANEB
Apostila Geral de Zoologia Agrícola
Professor Me. João Paulo Sousa
Fevereiro/2021
Coronel João Sá/BA
SUMÁRIO
1 CLASSIFICAÇÃO E NOMENCLATURA ..........................................................................................1
1.1 INTRODUÇÃO .............................................................................................................................1
1.2 A CLASSIFICAÇÃO DOS SERES VIVOS .................................................................................1
2 A SISTEMÁTICA .................................................................................................................................4
2.1 O CONCEITO DE ESPÉCIE.........................................................................................................4
2.2 OUTROS GRUPOS TAXONÔMICOS.........................................................................................4
3 REGRAS DE NOMENCLATURA.......................................................................................................5
4 O REINO PROTISTA ...........................................................................................................................7
PROTOZOÁRIOS ...............................................................................................................................7
4.1 MORFOLOGIA DOS PROTOZOÁRIOS.....................................................................................8
4.1.1 CITOPLASMA.......................................................................................................................8
4.1.2 NÚCLEO................................................................................................................................8
4.1.3 ENVELOPE CELULAR ........................................................................................................9
4.1.4 LOCOMOÇÃO ......................................................................................................................9
4.2 PROCESSO REPRODUTIVO DOS PROTOZOÁRIOS............................................................10
4.3 CARACTERÍSTICAS DOS FILOS ............................................................................................10
4.3.1 SARCODÍNEOS ..................................................................................................................10
4.3.1.1 DIVERSIDADE DE SARCODÍNEOS ........................................................................11
4.3.1.2 SARCODÍNEOS PARASITAS DO HOMEM.............................................................12
4.3.2 MASTIGOPHORA OU FLAGELADOS ............................................................................13
4.3.2.1 FLAGELADOS PARASITAS DO HOMEM ..............................................................13
4.3.3 OS CILIADOS .....................................................................................................................15
4.3.3.1 DIVERSIDADE DOS CILIADOS...............................................................................18
4.3.4 ESPOROZOÁRIOS .............................................................................................................19
4.3.4.1 O GÊNERO PLASMODIUM ......................................................................................19
4.3.4.2 TOXOPLASMA GONDII............................................................................................21
5. O REINO ANIMAL............................................................................................................................22
A) CARACTERÍSTICAS GERAIS DOS ANIMAIS........................................................................22
NÍVEIS DE ORGANIZAÇÃO DO CORPO ................................................................................22
SIMETRIA ....................................................................................................................................22
DISPOSIÇÃO DAS ESTRUTURAS RELACIONADAS À DIGESTÃO...................................23
NÚMERO DE FOLHETOS GERMINATIVOS...........................................................................25
PRESENÇA DO CELOMA ..........................................................................................................25
B) ORIGEM E EVOLUÇÃO DOS EUMETAZOÁRIOS.................................................................26
OS INVERTEBRADOS ....................................................................................................................27
1 FILO PORIFERA (AS ESPONJAS)...............................................................................................27
1.1 CONCEITOS GERAIS ...........................................................................................................27
1.2 CARACTERÍSTICAS.............................................................................................................27
1.3 TIPOS MORFOLÓGICOS .....................................................................................................29
1.4 FISIOLOGIA...........................................................................................................................30
1.5 ASPECTOS EVOLUTIVOS...................................................................................................32
1.6 AS CLASSES DE ESPONJAS ...............................................................................................33
2 FILO CNIDARIA ...........................................................................................................................34
2.1 CONCEITOS GERAIS ...........................................................................................................34
2.2 CARACTERÍSTICAS GERAIS .............................................................................................34
2.3 CLASSIFICAÇÃO..................................................................................................................35
2.3.1 CLASSE HYDROZOA ...................................................................................................35
2.3.2 CLASSE SCYPHOZOA..................................................................................................37
2.3.3 CLASSE ANTHOZOA ...................................................................................................38
2.4 FISIOLOGIA...........................................................................................................................39
3 FILO PLATYHELMINTHES.........................................................................................................42
3.1 CONCEITOS GERAIS ...........................................................................................................42
3.2 CLASSIFICAÇÃO..................................................................................................................43
3.2.1 CLASSE TURBELLARIA..............................................................................................43
3.2.2 CLASSE TREMATODA ................................................................................................46
3.2.3 CLASSE CESTODA .......................................................................................................46
3.3 DOENÇAS CAUSADAS POR PLATELMINTES AO HOMEM .........................................48
3.3.1 ESQUISTOSSOMOSE....................................................................................................48
3.3.2 TENÍASE.........................................................................................................................49
4 OS ASQUELMINTOS....................................................................................................................51
4.1 FILO GASTROTRICHA ........................................................................................................51
4.2FILO ROTIFERA....................................................................................................................52
4.3 FILO NEMATODA ................................................................................................................54
NEMATÓDEOS PARASITAS DO HOMEM .........................................................................55
5 FILO MOLLUSCA (MOLUSCOS)................................................................................................61
5.1 CARACTERÍSTICAS GERAIS: ............................................................................................61
5.2 CLASSIFICAÇÃO..................................................................................................................64
5.2.1 CLASSE BIVALVIA (OU PELECYPODA)..................................................................64
5.2.2 CLASSE GASTROPODA...............................................................................................66
5.2.3 CLASSE CEPHALOPODA ............................................................................................67
5.2.4 CLASSE AMPHINEURA OU POLYPLACOPHORA..................................................70
5.2.5 CLASSE SCAPHOPODA...............................................................................................71
5.2.6 CLASSE MONOPLACOPHORA...................................................................................71
6 FILO ANNELIDA ..........................................................................................................................72
6.1 CONCEITOS GERAIS ...........................................................................................................72
6.2 CARACTERÍSTICAS.............................................................................................................72
6.3 CLASSIFICAÇÃO..................................................................................................................73
6.3.1 CLASSE CLITELLATA .................................................................................................73
6.3.2 CLASSE POLYCHAETA...............................................................................................77
6.4 ANATOMIA E FISIOLOGIA GERAL ..................................................................................78
6.5 IMPORTÂNCIA PARA O HOMEM .....................................................................................80
7 FILO ARTHROPODA....................................................................................................................80
INTRODUÇÃO.............................................................................................................................80
CARACTERÍSTICAS GERAIS ...................................................................................................81
7.1 EXOESQUELETO .............................................................................................................81
7.2 MOVIMENTO E MUSCULATURA.................................................................................83
7.3 CELOMA E SISTEMA CIRCULATÓRIO .......................................................................83
7.4 TRATO DIGESTIVO.........................................................................................................83
7.5 CÉREBRO..........................................................................................................................84
7.6 ÓRGÃOS SENSORIAIS....................................................................................................84
7.7 REPRODUÇÃO .................................................................................................................85
CLASSIFICAÇÃO DOS ARTRÓPODES....................................................................................85
A) SUBFILO TRILOBITA ......................................................................................................85
B) SUBFILO CHELICERATA (GR. CHELE=GARRA + KEROS=CORNO) ......................85
C) SUBFILO CRUSTACEA (CRUSTA = CARAPAÇA DURA) ..........................................94
D) SUBFILO UNIRAMIA .....................................................................................................101
8 FILO ECHINODERMATA ..........................................................................................................112
8.1 CARACTERÍSTICAS GERAIS ...........................................................................................112
8.2 CLASSIFICAÇÃO................................................................................................................114
8.2.1 CLASSE CRINOIDEA (CRINÓIDES).........................................................................114
8.2.2 CLASSE ECHINOIDEA...............................................................................................115
8.2.3 CLASSE ASTEROIDEA ..............................................................................................116
8.2.4 CLASSE OPHIUROIDEA ............................................................................................117
8.2.5 CLASSE HOLOTHUROIDEA .....................................................................................117
8.3 IMPORTÂNCIA PARA O HOMEM ...................................................................................119
9 FILO CHORDATA.......................................................................................................................119
9.1 OS CORDADOS INVERTEBRADOS.................................................................................121
9.1.1 SUBFILO UROCHORDATA (TUNICADOS) ............................................................121
9.1.2 SUBFILO CEPHALOCHORDATA (ANFIOXOS) .....................................................122
9.2 SUBFILO VERTEBRATA ...................................................................................................123
9.2.1 SUPERCLASSSE PISCES............................................................................................124
9.2.2 SUPERCLASSE TETRAPODA ...................................................................................135
9.2.2.1 CLASSE AMPHIBIA ............................................................................................135
9.2.2.2 CLASSE REPTILIA ..............................................................................................139
9.2.2.3 CLASSE AVES .....................................................................................................144
9.2.2.4 CLASSE MAMMALIA.........................................................................................152
GLOSSÁRIO ........................................................................................................................................160
QUESTÕES DE REVISÃO..................................................................................................................161
BIBLIOGRAFIA ..................................................................................................................................163
1
1 Classificação e Nomenclatura
1.1 Introdução
Estima-se que existam na Terra milhões de diferentes tipos de organismos vivos
compartilhando a biosfera. O reconhecimento dessas espécies está intimamente relacionado à
história do homem.
Num determinado momento da história evolutiva, o homem começou a utilizar
animais e plantas para sua alimentação, cura de doenças, fabricação de armas, objetos
agrícolas e abrigo. A necessidade de transmitir as experiências adquiridas para os
descendentes forçou-o a denominar plantas e animais. O documento zoológico mais antigo
que se tem notícia, é um trabalho grego de medicina, do século V a.C., que continha uma
classificação simples dos animais comestíveis, principalmente peixes.
Assim, a classificação dos seres vivos surgiu com a própria necessidade do homem
em reconhecê-los. O grande número de espécies viventes levou-o a organizá-lasde forma a
facilitar a identificação e, conseqüentemente, seu uso.
1.2 A classificação dos seres vivos
Inicialmente, com base no modo de vida, direção da evolução e tipo da organização
de seu corpo, os seres vivos foram divididos em dois grandes reinos: Animal e Vegetal. Mais
tarde, como o desenvolvimento do microscópio, entre outras técnicas, tornou-se óbvio que
muitos organismos não se encaixavam em nenhum desses reinos, por exemplo uma bactéria,
que é um organismo unicelular, desprovido de envoltório nuclear e de estruturas
membranosas intracelulares como retículo endoplasmático, mitocôndrias, cloroplastos e
complexo de Golgi. Essas diferenças que a distingue dos demais organismos é bem mais
fundamental que as diferenças entre animais e vegetais.
Outro sistema proposto, e também não mais utilizado, foi o de três reinos: Protista,
Plantae e Animalia. Nesse sistema, reuniam-se no reino Protista organismos com
características vegetais e animais.
Posteriormente, surgiu um novo sistema de classificação agrupando os organismos
em quatro reinos: Monera (bactérias e cianofíceas), Protista (demais algas, protozoários e
fungos), Plantae ou Metaphyta (desde briófitas até as angiospermas) e Animalia ou
Metazoa (desde espongiários até mamíferos).
Um sistema de classificação mais recente, compreende cinco reinos e foi proposto por
Whittaker (1969). É composto por um reino procariótico, Monera, e outros quatro reinos
eucarióticos (figura 1). Dos grupos eucarióticos, acredita-se que o Protista deu origem aos
outros três grupos restantes (Plantae, Animalia e Fungi). Tais grupos, na maioria
multicelulares, diferem fundamentalmente no seu modo nutricional.
O reino Monera é constituído por organismos unicelulares procariotos, coloniais ou
não, autótrofos ou heterótrofos. Engloba as bactérias e cianofíceas (cianobactérias).
Organismos unicelulares eucariotos, coloniais ou não, constituem o reino Protista.
Neste, existem diversos métodos nutricionais, incluindo a fotossíntese, a absorção e a
ingestão. Compreende as algas unicelulares e os protozoários.
2
Figura 1: Divisão dos seres vivos em 5 reinos proposta por Whittaker (1969).
O reino Fungi é composto por organismos eucariotos heterotróficos, geralmente
multinucleados (cenocíticos), sendo sua nutrição realizada por absorção.
Os organismos eucariotos fotossintetizantes (autótrofos) multicelulares compõem o
reino Plantae, que compreende desde algas multicelulares até vegetais superiores.
O reino Animalia é composto por organismos eucaritos multicelulares heterotróficos,
que têm a ingestão, ou absorção em alguns casos, como forma primária de nutrição. Engloba
desde as esponjas até o homem. (A tabela 1 resume as características dos grandes grupos de
organismos).
É claro que qualquer sistema de classificação apresenta muitas dificuldades, pois os
seres vivos se modificam e evoluem ao longo do tempo e ainda, com o avanço da ciência,
surgem novas descobertas a respeito das relações existentes entre os organismos. Todavia, o
sistema de classificação proposto por Whittaker é, ainda hoje, o mais aceito e utilizado.
3
Tabela 1 - Características dos grandes grupos de organismos (Curtis,1977)
Característica Monera Protista Fungi Plantae Animalia
Tipo celular procarioto eucarioto eucarioto eucarioto Eucarioto
Núcleo sem envoltório nuclear
com
envoltório
nuclear
com
envoltório
nuclear
com envoltório
nuclear
com envoltório
nuclear
Mitocôndrias ausentes presentes presentes presentes presentes
cloroplastos
ausentes, há
apenas lamelas
fotossintéticas
presentes em
algumas
formas
ausentes presentes ausentes
parede celular
não celulósica
(polissacarídeo +
aminoácido)
presente em
algumas
formas
composta por
quitina e
outros polis-
sacarídeos
Celulósica ausente
meios de
recombinação
genética
conjugação;
transdução;
transformação ou
nenhum
fertilização e
meiose,
conjugação ou
nenhum
fertilização e
meiose ou
nenhum
fertilização e
meiose
fertilização e
meiose
Modo de
nutrição
autotrófica
(quimio e fotos-
sintetizante) e
heterotrófica
fotossinte-
tizante e
heterotrófica
ou uma
combinação
heterotrófica
por absorção
fotossinteti-
zante, na
maioria
heterotrófica,
por ingestão
Motilidade
por flagelos,
deslizamento ou
imóveis
cílios; flagelos;
amebóide;
fibrilas
contráteis
cílios e
flagelos em
algumas
formas,
nenhuma na
maioria
cílios e flagelos
em formas
inferiores e
alguns
gametas,
nenhuma na
maioria
cílios e flagelos,
fibrilas
contráteis
Pluricelulari-
dade ausente ausente
presente, na
maioria
presente nas
formas
superiores
presente em
todas as formas
Sistema
Nervoso ausente
mecanismos
primitivos
para
condução de
estímulos em
algumas
formas
ausente ausente presente
4
2 A Sistemática
O estudo descritivo de todas as espécies de seres vivos e sua classificação dentro de
uma verdadeira hierarquia de grupamentos constitui a sistemática ou taxonomia. Vamos
começar a interpretar o papel da taxonomia revendo o conceito de espécie.
2.1 O Conceito de Espécie
Species em latim significa simplesmente "tipo". As espécies são, no sentido mais
simples, os diferentes tipos de organismos. Uma definição mais técnica de espécie é: "um
grupo de organismos que se cruzam entre si, sem normalmente cruzar-se com representantes
de outros grupos". Os organismos pertencentes a uma espécie devem apresentar semelhanças
estruturais e funcionais, similaridades bioquímicas e mesmo cariótipo, além da capacidade
de reprodução entre si. A definição acima, embora útil para os animais, não é, entretanto, útil
na taxonomia vegetal, porque cruzamentos férteis podem ocorrer entre plantas de tipos
bastante diferentes. Também não se aplica esta distinção a organismos que não se
reproduzem sexualmente.
À luz da teoria evolucionista, observa-se que uma espécie se modifica constantemente,
no espaço e no tempo, em vez de ser uma forma imutável, ideal, como foi concebida por
Lineu. Desta maneira, a palavra "espécie" possui diferentes significados para diferentes tipos
de organismos, o que não é surpresa se considerarmos que a evolução nos vários grupos de
organismos seguiu caminhos diversificados. No entanto, o termo permanece sendo útil e
possibilita uma maneira adequada de se referir a organismos e catalogá-los.
2.2 Outros Grupos Taxonômicos
O reino é a maior unidade usada em classificação biológica. Entre o nível do reino e
do gênero, entretanto, Lineu e taxonomistas posteriores adicionaram diversas categorias (ou
taxa). Temos então, os gêneros agrupados em famílias, as famílias em ordens, as ordens em
classes e as classes em filos (ou divisão, para os botânicos), seguindo um padrão hierárquico.
Essas categorias podem ser subdivididas ou agregadas em várias outras, menos importantes,
como, por exemplo, os subgêneros e as superfamílias.
Assim, hierarquicamente, temos:
Reino
Filo
Classe Classe
OrdemOrdem
Família
Gênero
Espécie
5
3 Regras de Nomenclatura
Os animais, assim como as plantas, são popularmente conhecidos por nomes muito
variáveis de um lugar para outro. Numa tentativa de universalizar os nomes de animais e
plantas, os cientistas têm, há muito, procurado criar uma nomenclatura internacional para a
designação dos seres vivos. Mark Catesby, por volta de 1740, publicou um livro de zoologia
onde denominava o pássaro conhecido como tordo (sabiá americano) de Turdus minor cinereo-
albus non maculatus, que significava: “tordo pequeno branco-acinzentado sem manchas”. Essa
foi uma tentativa de padronizar o nome do pássaro, para que ele pudesse ser conhecido em
qualquer idioma ou região, mas havia o inconveniente de usar uma denominação muito
extensa.
Em 1735, o sueco Carl von Linné, botânico e médico, conhecido simplesmente por
Lineu, lançou seu livro Systema Naturae, no qual propôs regras para classificare denominar
animais e plantas. Porém, foi somente na 10a edição do seu livro, em 1758, que ele sugeriu
uma nomenclatura mais simples, onde cada organismo seria conhecido por dois nomes
apenas, seguidos e inseparáveis. Surgiu assim a nomenclatura binomial, a qual é ainda hoje
utilizada. As regras para a denominação científica dos seres vivos foram firmadas
posteriormente, no I Congresso Internacional de Nomenclatura Científica, em 1898.
A denominação científica dos animais segue certas regras definidas, as quais são
esboçadas no Código Internacional de Nomenclatura Zoológica. Nomes científicos são
latinizados, mas podem ser derivados de qualquer outra língua ou de nomes de pessoas ou
lugares; a maioria dos nomes é derivada de palavras latinas ou gregas e geralmente refere-se
a alguma característica do animal ou do grupo denominado. Por convenção, os nomes
genéricos e específicos são latinizados, enquanto o nome das famílias, ordens, classes e outras
categorias não o são, embora tenham letra inicial maiúscula. As principais regras da
nomenclatura científica estão resumidas a seguir:
• Na designação científica os nomes devem ser em latim de origem ou, então, latinizados.
• Todo nome científico deve estar destacado no texto. Pode ser escrito em itálico, se for
impresso, ou sublinhado se for em trabalhos manuscritos.
• Cada organismo deve ser reconhecido por uma designação binomial, sendo o primeiro
termo para designar o seu gênero e o segundo, a sua espécie. Considera-se um erro grave
usar o nome da espécie isoladamente, sem ser antecedido pelo gênero.
• O nome relativo ao gênero deve ser um substantivo simples ou composto, escrito com
inicial maiúscula.
• O nome relativo à espécie deve ser um adjetivo escrito com inicial minúscula, salvo
raríssimas exceções: nos casos de denominação específica em homenagem a pessoa
célebre. Por exemplo no Brasil, há quem escreva: Trypanosoma Cruzi, já que o termo Cruzi
é a transliteração latina do nome de Oswaldo Cruz, uma homenagem a esse grande
sanitarista brasileiro.
• Em trabalhos científicos, após o nome do organismo é colocado, por extenso ou
abreviadamente, o nome do autor que primeiro descreveu e denominou, sem qualquer
pontuação intermediária, seguindo-se depois uma vírgula e data da primeira publicação.
Exemplos:
Cachorro: Canis familiaris Lineu ou L., 1758.
6
Ancilóstoma: Ancylostoma duodenale Creplin ou C., 1845.
• A designação para espécies é binomial, mas para subespécies é trinomial. Por exemplo:
Mycobacterium tuberculosis hominis (tuberculose humana)
Mycobacterium tuberculosis bovis (tuberculose bovina)
Mycobacterium tuberculosis avis (tuberculose aviária)
• Em zoologia, a família é denominada pela adição do sufixo idae ao radical
correspondente ao nome do gênero-tipo (gênero mais característico da família). Para
subfamília, o radical adotado é inae. Exemplos:
Gato - gênero: Felis; família: Felidae; sufamília: Felinae.
Cascavel - gênero: Crotalus; família: Crotalidae; sufamília: Crotalinae.
• Lei da prioridade: Se diversos autores denominarem um mesmo organismo
diferentemente, prevalece sempre aquela mais antiga, ou seja, a primeira denominação.
• A substituição de nomes científicos é permitida somente em casos excepcionais, adotando
para esses casos uma notação especial, já convencionada, que indica tratar-se de espécime
reclassificado. Desta forma, se a posição sistemática de um organismo é modificada, o
nome científico deve assumir a seguinte forma: menciona-se o nome do organismo já no
novo gênero e, a seguir, entre parênteses, o nome do primeiro autor e a data em que a
denominou; só então, fora dos parênteses, coloca-se o nome do segundo autor e a data em
que reclassificou o espécime. Assim, a denominação da formiga saúva Atta sexdans (Lineu,
1758) Fabricius, 1804, indica que Fabricius mudou de gênero o animal inicialmente
descrito e "batizado" por Lineu.
• Ao publicar a descrição de uma nova espécie, é prática comum designar um espécime-
tipo, descrevê-lo e indicar em que coleção foi colocado.
7
4 O Reino Protista
Durante os últimos 20 anos, uma classificação básica alternativa às pré-existentes, que
procura refletir mais acuradamente a filogenia sem ser ambígua, tem gradualmente
adquirido adeptos e hoje se encontra bastante difundida. Neste contexto, os protistas
englobam os antigos protozoários e certas algas, sendo que as classificações modernas
reconhecem entre 27 e 45 filos (RUPPERT & BARNES, 96). A seguir descreveremos
sucintamente os principais filos englobados pelos antigos protozoários, tratando os protistas
fotossintetizantes juntamente com representantes do Reino Vegetal.
PROTOZOÁRIOS
Os protozoários são eucariontes que ocorrem como células isoladas ou em colônias de
células. Apresentam dimensões predominantemente microscópicas. Sua denominação deriva
do grego protos e zoon, que significam, respectivamente, "primeiro" e "animal". Esse termo,
consagrado até hoje, foi criado para agrupar organismos eucariotos unicelulares com
características próprias dos animais, tais como a capacidade de deslocamento e heterotrofia.
Porém, alguns organismos com características animais e vegetais como a Euglena, por
exemplo, também eram considerados protozoários. Atualmente, o termo protozoário tem
sido aplicado numa designação coletiva, sem valor taxonômico em referência a unicelulares
eucariotos heterotróficos (na maioria), que obtém seus alimentos por ingestão ou absorção.
Os organismos unicelulares eucariotos autótrofos por sua vez, são denominados
coletivamente de algas, termo que também não tem valor taxonômico.
Nos protozoários de formas coloniais, as células individuais podem ser ligadas por
filamentos citoplasmáticos ou embebidas numa matriz comum. Tais células são semelhantes
em estrutura e função, embora em algumas poucas formas, haja uma diferenciação de
indivíduos em células vegetativas e reprodutivas. Em outros termos, os protozoários
coloniais são apenas agregados de células independentes.
Estimava-se em 45.000 o número de espécies de protozoários em 1990, mas os
protozoologistas reclamam que diversas vezes, o número existe num estado de anonimato.
Do total citado, cerca de 20.000 são espécies fósseis, 18.000 são de formas de vida livre e 7.000
parasitas.
Os protistas em geral ocupam um importante papel nas cadeias alimentares das
comunidades naturais, onde existe água livre. Os autótrofos (algas) são abundantes nas
águas salgadas e doces, assim como em associações simbióticas com animais, de vários níveis
de organização, e protozoários. Alguns grupos em particular formam uma parte importante
na dieta de numerosos animais. Há protozoários saprófitas e também que ingerem bactérias,
fazendo uso de substâncias e organismos envolvidos na decomposição final das cadeias
alimentares, e assim, fazendo recircular a matéria orgânica. Naturalmente, existem alguns
protozoários que podem provocar doenças no homem.
Os principais grupos de protozoários são diferenciados em grupos baseados no modo
de locomoção do organismo. As amebas se movem por expansões do seu citoplasma. Os
membros do grupo Ciliophora se movimentam por meio de finos apêndices, ou cílios, que
impulsionam a célula através de ondulações sincrônicas, como os braços de um nadador. Os
flagelados têm apêndices filiformes, ou flagelos, geralmente localizados numa das
extremidades do corpo celular, que movem as células em meio líquido. Os esporozoários se
locomovem por deslizamento, já que não possuem organelas de locomoção externas.
Os protozoários encontram-se no reino Protista (organismos unicelulares eucariotos,
coloniais ou não). Os principais filos são:
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Sarcodina Protozoários que se locomovem através de projeções celulares
denominadas pseudópodos
Mastigophora Protozoários que se locomovem através de flagelos.
Ciliophora Protozoários que se locomovem utilizando cílios
Sporozoa Protozoáriosque não possuem estrutura locomotora.
A maioria dos protozoários é microscópica. Alguns, entretanto, podem ser vistos a
olho nu, como é o caso do Spirostomum, um ciliado de água doce que alcança 3 mm de
comprimento, de algumas espécies do gênero Globigerina, um sarcodíneo marinho que vive
em suspensão na água do mar. Além desses, que são organismos atuais, existe um registro
fóssil, de eras geológicas passadas, de um sarcodíneo denominado Nummulites, com 19 cm de
comprimento.
4.1 Morfologia dos Protozoários
O tamanho e forma desses organismos mostram considerável variação. Em geral, a
célula individual dos protozoários representa um organismo completo. Como todas as
células eucarióticas, a célula dos protozoários também consiste em citoplasma, separado do
meio ambiente por um envelope especial, e em núcleo.
4.1.1 Citoplasma
É um material mais ou menos homogêneo, composto de moléculas protéicas
globulosas, frouxamente reunidas para formar uma moldura molecular tridimensional.
Embebidas em seu interior, encontram-se várias estruturas que dão aos protozoários seu
aspecto característico.
As fibrilas protéicas submicroscópicas (feixes fibrilares, mionemas, microtúbulos) são
grupos de fibrilas paralelos existentes no citoplasma. A contratibilidade dos protozoários é
devida a presença dessas fibrilas.
Em diversas formas de protozoários, pigmentos se difundem no citoplasma. Suas
tonalidade são numerosas: verdes, castanhas, azuis, púrpuras ou róseas.
Na maioria desses organismos, o citoplasma diferencia-se em ectoplasma e
endoplasma. O ectoplasma é mais semelhante a um gel, enquanto o endoplasma é mais
volumoso e fluído. A mudança de uma camada para outra é gradual. As estruturas celulares
acham-se no endoplasma.
Como outras células eucarióticas, os protozoários possuem sistemas membranosos no
citoplasma. Estes formam uma rede mais ou menos contínua de canais e de lacunas, dando
origem ao retículo endoplasmático da célula. Outras estruturas do citoplasma incluem os
ribossomos, os complexos de Golgi, as mitocôndrias, os cinetossomas ou blefaroplastos
(corpúsculos basais intracitoplasmáticos dos cílios ou flagelos), vacúolos nutritivos, vacúolos
contráteis e núcleo.
4.1.2 Núcleo
Cada protozoário tem, ao menos, um núcleo eucariótico. Muitos protozoários
contudo, possuem núcleos múltiplos (quase todos os ciliados), durante a maior parte de seus
ciclos vitais. Os núcleos são de várias formas, tamanhos e estruturas. Em diversas espécies
cada indivíduo tem 2 núcleos similares. Nos ciliados, dois núcleos diferentes: um grande
(macronúcleo) e um pequeno (micronúcleo). Os macronúcleos controlam as atividades
metabólicas e os processos de regeneração; os micronúcleos estão relacionados com os
processos de reprodução.
9
4.1.3 Envelope Celular
O citoplasma, com suas diversas estruturas, está separado do ambiente externo pelo
envelope celular. Este funciona não somente na proteção, mas também no controle das trocas
de substâncias e é o sítio de percepção de estímulos químicos e mecânicos, servindo
igualmente, para estabelecer contatos com outras células. Este envelope contém, às vezes,
uma película, intimamente aposta à membrana celular. Sua espessura, sua flexibilidade e seu
número de camadas são variáveis.
Em sua forma mais simples, a película é a membrana celular ou plasmalema. A
película dos ciliados é espessa e, freqüentemente, enrijecida e estruturada de modos diversos.
Pode haver até mesmo a presença de fileiras de plaquetas elevadas e de espessamentos
modulares.
Existem outros tipos de membranas protetoras, produzidas pelos protozoários, que
são coberturas externas à película. São elas carapaças, testas, lóricas e cistos. Tais envelopes
consistem de materiais diferentes e, em geral, possuem uma matriz orgânica, reforçada pela
incrustação de substâncias, tais como carbonato de cálcio ou sílica.
Deve-se lembrar que os cistos são apenas envoltórios temporários. Muitos
protozoários podem encistar-se e, dessa maneira, aumentar sua proteção contra agressões
externas. Em alguns casos, a escassez de alimentos e a dessecação favorecem o encistamento.
Em outros, a reprodução é regularmente ligada com a formação de cistos. As fases
desenvolvidas das espécies parasitas são, muitas vezes, transmitidas a um outro hospedeiro
envelopadas por um cisto resistente.
4.1.4 Locomoção
Os protozoários podem se locomover por meio de três estruturas: pseudópodos,
flagelos e cílios. Além disso, algumas espécies podem desenvolver um movimento de
deslizamento por flexões do corpo, sem o uso de estruturas especializadas.
Pseudópodos: um pseudópodo é uma projeção temporária de parte do citoplasma daqueles
protozoários que não apresentam uma película rígida. É utilizado pelas amebas (sarcodina)
para locomoção e captura de alimento. O movimento amebóide pode também ser verificado
em células de outros organismos, como por exemplo nos glóbulos brancos do sangue
humano.
Flagelos e Cílios: O flagelo é uma extensão filamentosa do citoplasma, extremamente fina.
Como regra geral, o número de flagelos presentes num indivíduo varia de um a oito (1 ou 2
são os números mais freqüentes). O flagelo se compõe de duas partes: um filamento elástico,
chamado axonema, e a bainha citoplasmática contrátil que envolve o axonema.
Em certos mastigóforas parasitas, como o gênero Trypanosoma, há uma delicada
membrana que se estende do lado do corpo, com um flagelo em sua margem externa.
Quando esta membrana vibra, mostra um movimento ondulante típico, chamando-se, por
isso, de membrana ondulante.
Os cílios, além de sua função locomotora, também auxiliam na ingestão de alimentos e
servem , muitas vezes, como organelas tácteis. São extensões celulares finas, curtas e
filiformes, podendo ser o comprimento uniforme ou não. De modo geral, os cílios se dispõem
em fileiras longitudinais, oblíquas ou espiraladas, inseridos em arestas ou em sulcos.
A microscopia eletrônica mostrou a existência dos mesmos desenhos básicos da fina
estrutura flagelar e ciliar, presente em todas as células eucarióticas. Os cortes mostram duas
fibras centrais e nove fibras duplas periféricas (estrutura "9+2"), envolvidas por uma
membrana contínua como película.
10
4.2 Processo Reprodutivo dos Protozoários
Os protozoários reproduzem-se por diversos processos sexuados e assexuados. A
reprodução assexuada ocorre por simples divisão, que pode ser igual ou desigual,
originando células filhas iguais ou não, respectivamente. Se houver mais de duas células
filhas, a divisão será múltipla. A gemulação é uma variante da divisão celular desigual.
Para lembrar, a gemulação é a formação de uma ou mais células menores, a partir de
uma célula original. Em seu uso estrito em protozoologia, esta denominação deve ser
reservada para aqueles casos onde a célula-mãe permanece séssil e libera uma ou mais
células-filhas natatórias. Estas diferem da célula-mãe, não apenas quanto ao seu menor grau
de diferenciação, mas também porque possuem organelas locomotoras especiais.
Dois processos relacionados devem ser mencionados: plasmotomia e esquizogonia. No
primeiro deles, o corpo multinucleado de um protozoário se divide em dois ou mais
indivíduos multinucleados pequenos, cujos núcleos maternos são distribuídos ao acaso entre
eles. Na esquizogonia, o organismo multinucleado dá origem, em curto espaço de tempo, a
muitas gêmulas mononucleadas sendo abandonada, usualmente, uma massa de protoplasma
anucleada.
Vários tipos de reprodução sexuada foram observados entre os protozoários. Um
deles é a fusão sexuada de dois gametas entre os protozoários. A fusão sexuada de dois
gametas (singamia ou gametogamia) ocorre em diversos grupos de protozoários. A
conjugação, geralmente uma união temporária de dois indivíduos para troca de material
nuclear, é observada exclusivamente em Ciliophora. Após a troca de núcleos, os conjugantes
se separam e cada um dá origem à suarespectiva progênie por fissão ou gemulação. Alguns
ciliados porém, demonstram "total conjugação", com fusão completa dos dois organismos.
Regeneração: a capacidade de regenerar partes perdidas é característica de todos os
protozoários, desde formas mais simples até aqueles que apresentam estruturas altamente
complexas. Quando um protozoário é cortado em dois, a porção nucleada se regenera, a
anucleada não. Nos ciliados, a macronúcleo sozinho (ou mesmo parte dele) é suficiente para
assegurar esse processo.
4.3 Características dos Filos
4.3.1 Sarcodíneos
As amebas são as principais representantes dos sarcodíneos e seu nome deriva da
palavra grega amoibe, que significa "modificação", já que suas formas estão em constante
modificação. Exemplo típico é fornecido pela Amoeba proteus, cuja célula chega a atingir 0,5
mm de diâmetro.
Como já foi dito, a locomoção das amebas se dá pela emissão de pseudópodos ("falsos
pés") que são também empregados na captura de alimentos. As amebas alimentam-se por
ingestão de pequenos protozoários e algas, e também de protoplasma morto. Ao perceberem
a presença de alimento, elas deslocam-se em direção a ele, englobando-o com os
pseudópodos. Esse processo de ingestão de alimento é denominado fagocitose.
O alimento é incorporado pela célula, juntamente com um pouco de água, ficando no
interior de um vacúolo alimentar (fagossomo). Este recebe enzimas digestivas armazenadas
em organelas denominadas lisossomos, passando a ser chamado de vacúolo digestivo, onde
o alimento será digerido. Devido às correntes citoplasmáticas, o vacúolo digestivo é
deslocado no interior da célula, distribuindo o alimento digerido. Os restos não aproveitáveis
da digestão são armazenados no vacúolo, que passa a ser chamado vacúolo residual, até
serem eliminados da célula através da clasmocitose ou "defecação celular" (é a eliminação da
escória).
11
As células dos protozoários de água doce são hipertônicas em relação ao meio externo.
Nesse caso ocorre entrada de água na célula por osmose. Como a diferença entre a
concentração do suco celular e da água doce é suficiente para saturar a célula e rompê-la, as
amebas e outros protozoários de água doce desenvolveram organelas citoplasmáticas
denominadas vacúolos pulsáteis ou contráteis que, de tempos em tempos, eliminam o
excesso de água que penetra na célula.
Nos protozoários de água salgada geralmente não há vacúolos pulsáteis, pois a
concentração do meio externo é semelhante à do citoplasma das células.
O tipo de reprodução mais comum entre os sarcodíneos é a divisão binária. Nesse tipo
de reprodução assexuada, a célula divide-se ao meio, dando origem a duas células-filhas com
a mesma informação genética da célula-mãe.
A figura 2 mostra um esquema de uma ameba.
Figura 2: Esquema de uma ameba.
4.3.1.1 Diversidade de sarcodíneos
Os representantes mais comuns de sarcodíneos pertencem a dois grupos principais de
organismos: o das amebas e dos foraminíferos.
O grupo das amebas inclui espécies de vida livre, existem algumas que possuem uma
carapaça revestindo externamente a célula: estas são denominadas tecamebas. As tecamebas
ocorrem em água doce e em solos úmidos e suas carapaças podem ser secretadas pela
12
própria célula ou formadas por pequenas partículas que se aglutinam ao redor de suas
células.
Entre as espécies que podem ocorrer no corpo do homem, algumas são parasitas,
outras, no entanto, não o são. É o caso da Entamoeba gengivalis, que ocorre na gengiva, e o da
Entamoeba coli, que ocorre no intestino.
Os foraminíferos são sarcodíneos principalmente marinhos, que possuem carapaça
secretada ou aglutinada, formada por várias câmaras. A carapaça pode ser formada de
carbonato de cálcio secretado pelo organismo ou por grãos de areia que se aglutinam ao
redor da célula. A forma da carapaça varia muito de espécie para espécie, sendo que muitas
lembram pequenos caracóis. Os foraminíferos são muito importantes nas pesquisas sobre
prospecção de petróleo, pois constituem um grupo com muitos representantes fósseis, bons
indicadores da presença de combustível fóssil. A figura 3 mostra alguns representantes dos
sarcodíneos.
4.3.1.2 Sarcodíneos Parasitas do Homem
Dentre os sarcodíneos, apenas no grupo das amebas existem espécies parasitas,
destacando-se duas que parasitam o intestino do homem: a Entamoeba histolytica e a
Endolimax nana.
A Entamoeba histolytica causa a disenteria amebiana (amebíase), caracterizada por
diarréias mucosas e fezes sanguinolentas.
Indivíduos dessa espécie têm a capacidade de se encistar, sendo liberados nesta forma
pelas fezes do homem. Estes cistos são resistentes, permitindo a manutenção do parasita por
longos períodos fora do corpo do hospedeiro. Ao comer frutas ou verduras mal lavadas ou
beber água contaminada, o homem pode ingerir esses cistos, que então se rompem liberando
os protozoários e que se instalam na mucosa intestinal causando lesões. A profilaxia dessa
doença deve ser feita através de medidas de saneamento básico e higiênicas.
Endolimax nana é um parasita intestinal que provoca dores abdominais, diarréia,
vômitos e fadiga. O parasita é adquirido pela ingestão de alimentos contaminados.
Figura 3: Esquemas de representantes de grupos de sarcodíneos: heliozoário (a), foraminífero (b), ameba (c,d,e)
e tecameba (f).
13
4.3.2 Mastigophora ou Flagelados
Os protozoários flagelados são divididos em dois grupos: os fitoflagelados, que
geralmente contém clorofila e são fotossintéticos e que, normalmente são estudados
juntamente com as algas, e os zooflagelados que não possuem clorofila e realizam sua
nutrição de modo heterotrófico. Todos os componentes da classe apresentam um ou mais
flagelos.
Os flagelados são também chamados de Mastigóforos (mastix = flagelo; phoros =
portar, ter) e têm estrutura interna semelhante a dos flagelos das células dos demais
eucariontes. Eles correspondem a centríolos modificados e alongados, e diferem dos flagelos
dos procariontes, que são formados só por proteínas.
A reprodução dos flagelados é, na maioria dos casos assexuada por divisão binária,
longitudinal.
Os flagelados podem ter vida livre, alguns locomovem-se livremente na água,
utilizando-se dos flagelos, enquanto outros vivem fixos ao substrato por um pedúnculo,
empregando o flagelo apenas na captura de alimento. Alguns flagelados possuem um
"colarinho" ao redor da base do flagelo e são, por isso, denominados coanoflagelados.
Existem coanoflagelados coloniais que formam colônias fixas ao substrato por um pedúnculo
e os que formam colônias livres, imersas em matriz gelatinosa.
A figura 4 mostra alguns representantes dos flagelados e a figura 5 mostra o esquema
de uma euglena.
Figura 5: Alguns representantes dos flagelados.
4.3.2.1 Flagelados parasitas do Homem
Entre esses, destacam-se os gêneros Trichomonas, Giardia, Leishmania e Trypanosoma,
por serem muito comuns.
Trichomonas vaginalis é parasita do sistema genital feminino e masculino, produzindo
infecção denominada tricomoníase. Sua transmissão ocorre através do contato sexual ou,
14
incomumente, da utilização de sanitários sem condições higiênicas.
Leishmania brasiliensis é um flagelado parasita que provoca ulceração das mucosas,
doença popularmente conhecida como úlcera-de-bauru ou leishmaniose. A moléstia
determina ulcerações progressivas cutâneas que, por vezes, alastram-se para as mucosas da
boca, nariz e faringe. A transmissão ao homem é feita pela picada do inseto Phlebotomus
intermedius, conhecido como "mosquito-palha" ou "birigüi". Há tratamento para essa afecção
e a profilaxia, tal como na malária, consiste essencialmente em combater o mosquito.
Giardia lamblia (ou G. intestinalis) parasita o intestino e pode causar disenteria,
denominada giardíase. A transmissão se dá pela ingestão de alimentos ou água
contaminados. Instala-se no jejuno-íleo e, freqüentemente, pode se instalar navesícula biliar,
tornando o tratamento bem mais difícil. Os cuidados com saneamento básico constituem os
principais recursos na prevenção contra a giardíase.
Figura 4: Anatomia da Euglena.
15
No Brasil, uma das parasitoses mais importantes é a doença de Chagas, causada pelo
Trypanosoma cruzi (fig. 6.a). A doença de Chagas (nome dado em homenagem a Carlos
Chagas, pesquisador brasileiro que estudou e descobriu o ciclo de doença) é extremamente
grave e não tem cura. Calcula-se que somente na América do Sul, aproximadamente 7
milhões de pessoas sofram dessa moléstia, que costuma ser chamada de "doença dos mega"
(grande), em virtude de determinar hipertrofia e flacidez na região atingida (megacolo,
megaesôfago, etc.). A doença de Chagas apresenta certa seletividade pela musculatura
cardíaca e como conseqüências disfunções que podem levar a morte, embora, às vezes, a
longo prazo.
Figura 6.a: T. cruzi, forma tripomastigota entre eritrócitos.
O agente etiológico a doença é o T. cruzi e o vetor é um inseto hematófago do grupo dos
triatomídeos, popularmente conhecido como barbeiro ou chupança (Triatoma infestans,
Panstrongylus megistus e outras espécies).
Portanto, no ciclo de vida do Trypanosoma existem dois hospedeiros: o homem (ou
outro mamífero) e o barbeiro. O modo mais eficiente de erradicação da doença de Chagas é
eliminar o vetor (barbeiro). A figura 6b mostra um esquema do ciclo de vida do T. cruzi.
Outras espécies importantes deste grupo são o Trypanosoma gambiensis e o Trypanosoma
rhodesiense transmitidos pela mosca tsé-tsé e agentes etiológicos da doença do sono africano.
O Trypanosoma equiperdum, por exemplo, infecta apenas os eqüinos, sendo transmitido por
via sexual.
4.3.3 Os ciliados
Os ciliados são protozoários que possuem cílios, estruturas utilizadas na locomoção e
captura de alimento. Os cílios, que também ocorrem em algumas células eucariotas
multicelulares, têm a mesma estrutura interna dos flagelos, diferindo destes com relação ao
comprimento (os cílios são bem mais curtos), número e batimento.
Paramecium caudatum, um protozoário de vida livre, é um exemplo de ciliado bastante
comum que aparece em açudes e lagos de água doce (figura 7).
Os paramécios são facilmente distinguidos por sua forma típica, semelhante à sola de
um chinelo. A porção anterior (frontal) da célula é arredondada e a porção posterior
ligeiramente afilada. A camada mais externa da célula é menos flexível que a das amebas
dando uma forma mais constante à célula. Toda a célula é coberta por pequenas projeções
filiformes (cílios), que além de órgãos de locomoção, servem também para orientar os
alimentos em direção ao poro bucal.
16
Figura 6b: Ciclo de vida do T. cruzi.
17
Figura 7: Anatomia de um protozoário ciliado, Paramecium caudatum.
No paramécio, a ingestão de alimento ocorre através de uma reentrância bem definida
e de localização constante na célula, denominada sulco oral ou, ainda, funil bucal. O
alimento conduzido pelo batimento ciliar coordenado, entra nessa reentrância, que também é
ciliada, passa pelo citóstoma (cito = célula, stoma = boca), localizado no final do sulco oral, e
penetra na citofaringe, estrutura tubular que possui um tufo de cílios.
O alimento é impulsionando para o final da citofaringe, no interior do endoplasma.
Nessa região forma-se um vacúolo digestivo, que se desprende e passa a circular pelo
interior da célula movido pelas correntes citoplasmáticas, distribuindo o alimento digerido.
Os restos não aproveitáveis são eliminados através de uma região específica da célula,
denominada citopígeo ou citoprocto ou, ainda, poro anal.
Como nas amebas e em outros microrganismos unicelulares, o oxigênio ingressa na
célula através da membrana celular, enquanto o CO2 se difunde para fora.
Os líquidos usados são coletados nos vacúolos contráteis, que têm posições fixas nos
paramécios, em vez de aparecerem em qualquer lugar da célula, como nas amebas. Outra
18
característica dos paramécios, e ciliados em geral, é a presença de 2 tipos distintos de núcleo:
o micro e macronúcleo, já comentado anteriormente. Nos paramécios existem um macro e
um micronúcleo por célula, mas em outras espécies de ciliados, o número de micronúcleos
por célula pode variar, existindo, no entanto, sempre um macronúcleo.
A reprodução assexuada se dá por divisão ou fissão binária. O macro e micronúcleo
dividem-se e ocorre a formação de um sulco transversal, separando a célula ao meio.
O processo sexuado de reprodução dos ciliados é a conjugação. Nesse processo ocorre
a união temporária de dois indivíduos seguida de degeneração do macronúcleo, divisão
meiótica do micronúcleo, troca de micronúcleos entre os indivíduos conjugantes e fusão do
micronúcleo que migrou com o micronúcleo estacionário. O micronúcleo resultante da fusão
sofre mitose e os indivíduos conjugantes separam-se, cada um desses sofre um número de
divisões celulares, que varia de espécie para espécie, restabelecendo o número de núcleos
típico da espécie. O macronúcleo surge por diferenciação do micronúcleo.
4.3.3.1 Diversidade dos Ciliados
Os ciliados podem apresentar cílios recobrindo toda a célula, como ocorre no gênero
Paramecium, ou apenas em algumas regiões.
A maioria dos representantes desse filo é aquática, vivendo em água doce ou salgada.
Há espécies que nadam livremente, outras que vivem fixas ao substrato por um pedúnculo e
outras que formam colônias.
Figura 8: Esquemas de representantes de grupos dos ciliados: suctórios (a, b), peritríqueo (c)
hipotríqueo (d).
19
Um grupo de ciliados bastante diferente é o dos suctórios. Esses organismos possuem
cílios apenas nas fases iniciais do desenvolvimento, quando adultos, fixam-se ao substrato,
perdem os cílios e desenvolvem estruturas especiais denominadas tentáculos, que são
utilizados na captura de alimentos. As principais presas dos suctórios são outros ciliados
que, ao serem tocados pelos tentáculos ficam imobilizados pelos tricocistos (estruturas ovais
ou em forma de bastonetes que atuam como defesa). Então, o citoplasma da presa é sugado
pelos tentáculos e digerido em vacúolos digestivos no interior do corpo do suctório.
Além dos ciliados de vida livre, há formas parasitas, como Balantidium coli, que se
aloja no intestino do homem. Este protozoário é adquirido ao se ingerir água contaminada.
A figura 8 (página anterior) mostra alguns representantes dos ciliados.
4.3.4 Esporozoários
São protozoários parasitas caracterizados pela ausência de estruturas empregadas na
locomoção nas formas adultas. Obtém alimento por absorção direta dos nutrientes dos
organismos que parasitam. Muitas espécies têm ciclos vitais complicados, com algumas fases
se desenvolvendo num hospedeiro e outras em hospedeiros diferentes. Pode ocorrer uma
fase reprodutiva sexuada durante o ciclo vital. A reprodução assexuada ocorre por divisão
múltipla, ou esquizogonia. Para lembrar, a divisão múltipla é aquela onde a célula inicial
sofre várias divisões mitóticas sem que o citoplasma se divida. Quando as divisões nucleares
cessam, uma membrana plasmática circunda cada núcleo juntamente com parte do
protoplasma da célula inicial. Formam-se assim, várias células-filhas com um só núcleo de
pequeno tamanho que são, então, liberadas.
A esporogonia é um tipo de reprodução, característica dos esporozoários, tendo sido
responsável pelo nome do grupo. Na esporogonia formam-se várias células que lembram
esporos, por isso denominadas esporozoítos. Esse tipo de reprodução ocorre logo após a
formação do zigoto, durante o ciclo reprodutivo dos esporozoários. O zigoto geralmente
sofre um encistamento e, invariavelmente, uma divisão meiótica, originando quatro
esporozoítos com metade do número cromossômico do zigoto. Por mitoses sucessivas, essas
células multiplicam-se originando muitos outros esporozoítos, que são finalmente liberados
do cisto.4.3.4.1 O gênero Plasmodium
Em relação ao homem, os esporozoários mais importantes são os do gênero
Plasmodium, responsáveis pela malária ou maleita.
A malária afeta milhões de pessoas no mundo inteiro, mas em especial em regiões
tropicais. Estima-se que anualmente ocorram cerca de 100 milhões de novos casos, dos quais
aproximadamente um milhão são fatais.
A transmissão do agente causador da malária ao homem é feita por um mosquito do
gênero Anopheles. É importante ressaltar que não são todas as espécies de Anopheles que são
boas transmissoras, e sim quatro delas: A. darlingi, no interior do país; A. aquasalis, na região
costeira do país, de SP para o Norte; A. cruzi e A. bellator, na região Sul do país.
Ao picar uma pessoa sadia, o inseto contaminado introduz o protozoário, na forma de
esporozoítos, iniciando o ciclo do parasita no interior do corpo do indivíduo. Os esporozoítos
caem na corrente sangüínea e são levados até as células do fígado, no interior das quais se
reproduzem por esquizogonia, originando vários indivíduos, chamados de trofozoítos. Esses
rompem as células hepáticas, podendo reinfectar novas células ou voltar a corrente
sangüínea e penetrar novamente nas hemácias. Nessas células, os trofozoítos adquirem
inicialmente a forma de anel e sofrem nova esquizogonia, dando origem a muitos indivíduos,
agora chamados merozoítos. As hemácias rompem-se e os merozoítos são liberados para
infectar novos glóbulos vermelhos, dividindo-se por esquizogonia. Em alguns casos, os
20
merozoítos não se dividem dentro da hemácia, mas passam por um processo de
diferenciação, originando gametócitos.
Ao picar um indivíduo doente, o mosquito suga hemácias normais e também aquelas
que contém os gametócitos, iniciando o ciclo do Plasmodium no corpo do inseto. Uma vez no
estômago do mosquito, os gametócitos diferenciam-se em gametas masculinos e femininos e
em seguida há a fecundação. O zigoto formado fixa-se na parede do estômago formando um
cisto, no interior do qual ocorre a esporogonia: o zigoto sofre meiose e as células haplóides
resultantes multiplicam-se várias vezes, dando origem a muitos esporozoítos que rompem o
cisto, são liberados e penetram na glândula salivar do inseto. Esse, ao picar o indivíduo
sadio, reinicia-se o ciclo (figura 9).
Figura 9: Ciclo de vida do Plasmodium no homem e no mosquito.
21
A doença causada por Plasmodium é caracterizada por acessos febris característicos,
dependendo da espécie infectante. As três espécies que ocorrem no Brasil possuem
patogenicidade diferente, e apenas o P. falciparum é capaz de levar o paciente à morte. Além
disso, essa espécie possui linhagens resistentes aos medicamentos usuais. As outras duas
espécies, embora dificilmente levem o paciente à morte, provocam acessos maláricos e
anemia capazes de reduzir sua economia física e capacidade de trabalho.
• Plasmodium vivax: acessos febris de 48 em 48 horas (febre terçã benigna, ocorre de 3 em 3
dias).
• Plasmodium malariae: acessos febris de 72 em 72 horas (febre quartã benigna, ocorre de 4
em 4 dias).
• Plasmodium falciparum: acessos febris irregulares, de 36 a 48 horas de intervalo (febre
terçã maligna).
É importante ressaltar que o ciclo de vida do plasmódio só se completa se houver dois
hospedeiros; Anopheles e o homem. No mosquito ocorre a reprodução sexuada e por isso
denomina-se o inseto de hospedeiro definitivo. No homem ocorre apenas reprodução
assexuada e esse hospedeiro é por isso conhecido como hospedeiro intermediário.
A profilaxia da malária pode ser conseguida erradicando o mosquito transmissor e
tratando os indivíduos portadores da doença.
4.3.4.2 Toxoplasma gondii
Toxoplasma gondii é um protozoário de distribuição geográfica mundial, podendo
atingir até 60% da população em determinados países; no entanto, os casos de doença são
menos freqüentes. É uma zoonose muito freqüente em várias espécies de mamíferos e aves.
O gato e outros felídeos são os hospedeiros definitivos ou completos e o homem, entre outros
animais, pode ser o hospedeiro intermediário ou incompleto.
Este esporozoário, Toxoplasma gondii, é o agente causador da toxoplasmose, uma
infecção causada por contágio indireto, pois, ainda que não haja vetores ou transmissores
para a contaminação, ela não se faz diretamente de um indivíduo doente para outro sadio. O
parasita, durante seu ciclo vital, passa por um estágio de reprodução por esporogonia, no
hospedeiro definitivo (gatos e outros felídeos não imunes), e por uma fase de reprodução
assexuada (esquizogonia), nos tecidos de vários hospedeiros, inclusive de gatos e do homem.
Vários tecidos e células (exceto hemácias) e líquidos orgânicos como saliva, leite,
esperma etc, podem ser o hábitat do T. gondii. Nos felídeos não imunes podem ser
encontradas as formas do ciclo sexuado no epitélio intestinal e também no meio exterior,
junto às fezes (sendo esta a forma resistente, dita oocisto).
A contaminação pode se dar através ingestão de oocistos presentes em jardins,
alimentos ou objetos contaminados; ingestão de cistos presentes em carnes mal cozidas,
especialmente de porco e carneiro; e ainda a transmissão congênita ou placentária.
A moléstia se manifesta com febre constante, exantema (manchas puntiformes
avermelhadas na pele), gânglios aumentados, aumento do fígado e do baço, podendo
complicar com pneumonia e encefalite. Na forma congênita da toxoplasmose, na qual a
mulher grávida portadora da doença serve de meio de contaminação, o parasita atravessa a
barreira placentária e atinge o feto, provocando lesões oculares graves, cegueira ou lesões no
crânio e encéfalo, o que pode causar aborto, ou parto prematuro.
Ainda não existe uma droga eficaz contra a toxoplasmose. Os medicamentos
utilizados atuam contra as formas proliferativas, mas não contra os cistos. Como a maioria
das pessoas que têm sorologia positiva não tem a doença e as drogas empregadas são tóxicas
em dosagens prolongadas, recomenda-se tratar apenas os casos agudos, a toxoplasmose
ocular e os indivíduos imunodeficientes contaminados.
22
5. O Reino Animal
O Reino Animal acha-se genericamente dividido em dois grandes grupos:
invertebrados e vertebrados. Embora a maioria das pessoas pense em um vertebrado quando
se fala em animal, esse grupo representa apenas 5% de cerca de 1,5 milhão de espécies
animais descritas. Mais curioso ainda é pensar que 95% das espécies animais restantes são
agrupadas por uma característica que elas não possuem, ou seja, a ausência de espinha
dorsal!
Assim, a divisão do Reino Animal em vertebrados e invertebrados é artificial e reflete
uma inclinação humana histórica em favor dos próprios “parentes” da humanidade. Essa
característica de um único subfilo de animais é utilizada como base para a separação de todo
o reino Animal. Poderiam se dividir bem logicamente os animais em artrópodos e não
artrópodos, por exemplo, pois pelo menos seria numericamente sustentável, já que
aproximadamente 85% de todos os animais são artrópodos.
Mesmo cientes da artificialidade dessa divisão iniciaremos nosso estudo do Reino
Animal pelos invertebrados mais primitivos para, assim, compreender a ascendência dos
vertebrados.
a) Características Gerais dos Animais
Como discutido no início, o Reino Animal foi definido segundo características comuns
a todos os animais: organismos eucariotos, multicelulares, heterotróficos e que obtém seus
alimentos por ingestão de nutrientes do meio.
Mesmo dentro de critérios tão amplos, podemos encontrar exceções, em função de
fatores diversos, como a adaptação de organismos a meios de vida especiais. É o que ocorre
por exemplo com certos endoparasitas que perderam a capacidade de ingestão de nutrientes ,
passando a obtê-los por absorção direta.
Algumas características gerais dos grupos (táxons) situados logo abaixo do reino, os
filos, são muito utilizadas na tentativa de se entender a filogenia do Reino Animal.Essas
características, freqüentemente encontradas durante o desenvolvimento embrionário e não
apenas no organismo adulto são: níveis de organização do corpo, simetria, disposição das
estruturas relacionadas com a digestão, número de folhetos germinativos e presença de
celoma.
Níveis de Organização do Corpo
Todos os animais iniciam seu desenvolvimento a partir de uma única célula, a célula-
ovo ou zigoto. Essa célula sofre várias divisões mitóticas, dando origem a organismos
multicelulares. Alguns animais desenvolvem-se até um conjunto de células, com organização
tissular muito restrita, enquanto a maioria atinge níveis de organização superior a tecidos,
tais como órgãos e sistemas. Pode-se encontrar em muitos livros a seguinte subdivisão do
Reino Animal, baseada na complexidade tissular: Parazoa - representado pelos Porifera
(esponjas) e Eumetazoa - representado por todos os demais animais.
Simetria
Simetria é a divisão imaginária do corpo de um organismo em metades especulares.
Quanto a esse caráter, os animais podem ter simetria radial, quando há mais que um plano
de simetria, ou bilateral, quando existe um único plano de simetria possível a ser traçado
(figura 10). Existem, no entanto, animais cujo corpo não pode ser dividido em metades
23
especulares. Nesses casos, não há plano de simetria e fala-se, então, em animais assimétricos.
A maioria dos animais possuem o mesmo tipo de simetria na fase embrionária e
adulta. Porém, alguns têm um tipo de simetria na fase embrionária e outro na fase adulta,
sendo as mudanças geralmente associadas a adaptações dos adultos a modos de vida
especiais. A simetria observada no embrião é denominada primária e no adulto, secundária,
sendo que é a simetria primária que fornece indícios da estrutura real do corpo do animal,
sob o ponto de vista taxonômico-evolutivo.
Figura 10: Planos de simetria
Os animais com simetria primária radial são chamados radiados e os com simetria
primária bilateral, bilatérias. São radiados os poríferos e cnidários e bilatéria todos os demais
(figura 11).
Disposição das estruturas relacionadas à digestão
Existem três tipos básicos de disposição: rede de canais, tubo com uma abertura e
tubo com duas aberturas.
A disposição em rede de canais é exclusiva das esponjas. Há células flageladas que
estabelecem correntes de água através do corpo do animal. A água entra por pequenos poros
na parede do corpo do animal e sai por uma abertura única, chamada ósculo, transportando
partículas alimentares. Não há tubo digestivo, a digetão se dá intracelularmente.
A presença de um tubo digestivo já pode ser verificada a partir dos cnidários. A
disposição em tubo ou saco aberto em um só ponto é típica dos cnidários e platelmintos.
Nesses há uma abertura única que funciona como boca e ânus e por isso dizemos que o trato
digestivo é incompleto.
24
Figura 11: Animais radiados e bilatérias.
A disposição em tubo com duas aberturas (trato digestivo completo) ocorre nos
demais bilatérias. No decorrer do desenvolvimento embrionário, esse tubo começa com um
saco aberto em um só ponto; mais tarde, esse saco se alonga e se forma outra abertura,
geralmente no extremo oposto à primeira. Uma dessas aberturas desenvolve-se em boca e a
outra em ânus. A passagem de alimento estabelece-se num só sentido: da boca para o ânus.
No tubo que surge entre esses dois orifícios ocorre a diferenciação de regiões com funções
específicas (faringe, esôfago, estômago e intestino).
Podemos distinguir dois grandes grupos entre os eumetazoários, com relação ao
desenvolvimento do tubo digestivo: protostômios e deuterostômios (figura 12). Nos
protostômios, a primeira abertura do tubo digestivo, surgida durante o desenvolvimento
embrionário, diferencia-se em boca e, nos deuterostômios, em ânus. São protostômios os
nemátodas, anelídeos, moluscos e artrópodes; são deuterostômios os equinodermos e
cordados.
Figura 12: Esquema da origem da boca e do ânus nos metazoários.
25
Número de Folhetos Germinativos
Baseados no número de folhetos germinativos que surgem durante o desenvolvimento
embrionário animal, podemos distinguir dois grandes grupos: os diploblásticos (ou
diblásticos) e os triploblásticos (ou triblásticos). Os diploblásticos possuem dois folhetos
germinativos: a ectoderme, mais externa, e a endoderme, mais interna. Os animais
triploblásticos, além da ecto e endoderme, possuem ainda um terceiro folheto intermediário,
a mesoderme. Somente os cnidários são diploblásticos.
Presença do Celoma
Celoma é a denominação para a cavidade interna do corpo que é totalmente
delimitada pela mesoderme (peritônio). Entre os animais triploblásticos podemos distinguir
os celomados, pseudocelomados e acelomados (figura 13).
Figura 13: Esquemas de cortes transversais ao corpo de animais triblásticos, mostrando a disposição
da ectoderme, mesoderme e endoderme e a presença ou não de celoma.
Os celomados são aqueles que possuem celoma, enquanto os acelomados têm a
mesoderme preenchendo totalmente o espaço entre a ecto e endoderme, não havendo
formação de cavidade. Já os pseudocelomados possuem cavidade interna, mas essa é
delimitada pela mesoderme e endoderme e, potanto, é chamada de pseudoceloma.
São acelomados os platelmintos e alguns asquelmintos; pseudocelomados os demais
asquelmintos e celomados os demais eumetazoários triploblásticos.
Entre os celomados podemos distinguir dois grandes grupos, com base no tipo de
desenvolvimento embrionário da mesoderme e do celoma. Num deles, a mesoderme
origina-se a partir de células situadas ao redor da estrutura que dará origem ao tubo
digestivo do adulto; são formadas várias células que depois se organizam formando uma
membrana que delimita o celoma. O celoma assim formado chama-se esquizoceloma e os
animais que o apresentam são denominados esquizocelomados.
A mesoderme e o celoma ainda podem se formar a partir de evaginações da
endoderme, formando bolsas dispostas entre a ectoderme e endoderme. Essas bolsas se
desprendem, havendo diferenciação de mesoderme e da cavidade celomática. Nesses casos o
celoma é denominado enteroceloma, e os animais que o possuem, enterocelomados.
26
b) Origem e evolução dos eumetazoários
Baseando-se nas características acima discutidas, é possível tentar compreender a
evolução dos animais. Uma hipótese aceita por muitos zoológos, mas não a única, é de que os
animais surgiram provavelmente de protozoários flagelados coloniais, que teriam se
especializado, aumentando a interdependência celular. Dessa maior especialização teriam
surgido, de um lado, os parazoários e, de outro, os eumetazoários, que apresentam maior
interdependência entre suas células, formando tecidos verdadeiros. Entre os eumetazoa,
apenas os cnidários são diblásticos; os demais já apresentam três folhetos germinativos. O
metazoário ancestral, que deu origem aos cnidários e platelmintos, provavelmente tinha
simetria radial, mantida nos cnidários e modificada para simetria bilateral no ramo que
originou os platelmintos. Esses são triblásticos acelomados e acredita-se que tenham dado
origem aos pseudocelomados e celomados. Esses últimos teriam se especializado segundo
duas linhas evolutivas principais: a dos esquizocelomados e a dos enterocelomados.
O esquema a seguir apresenta a provável filogenia dos animais (figura 14).
Figura 14: Esquema das prováveis relações filogenéticas entre os filos dos animais.
27
Os Invertebrados
Para aquele que estiver tentando estudar os invertebrados pela primeira vez, a tarefa
pode parecer difícil, pois cada grupo tem suas peculiaridades estruturais (“design” de
arquitetura exclusivos). Uma forma importante de se lidar com a diversidade animal consiste
em compreender os princípios e padrões subjacentes que são repartidos pelos numerosos
grupos de animais, permitindo que se unam grandes grupos de filos e que façam(ou
prevejam) correlações entre o “design”, a função e o ambiente.
1 FILO PORIFERA (AS ESPONJAS) - do latim: porus=poro; ferre=possuir
1.1 Conceitos Gerais
São os mais primitivos entre os animais pluricelulares. Não estão presentes órgãos ou
tecidos verdadeiros, apresentando suas células com considerável grau de independência.
Todos os membros do Filo são sésseis (fixos) e demonstram poucos movimentos detectáveis.
Essa combinação característica convenceu Aristóteles, Plínio e ainda outros naturalistas
antigos de que as esponjas seriam plantas! De fato, não foi antes de 1765, quando se observou
pela primeira vez as correntes internas de água, que a natureza animal das esponjas ficou
claramente estabelecida. O nome “porífera” advém do fato desses seres possuírem poros por
todo o corpo
Exceto por 150 espécies de água doce, as esponjas são animais marinhos. Elas
abundam em todos os mares sempre que houver rochas, conchas, madeira submersa ou coral
para fornecer um substrato, necessário à fixação, embora existam espécies que vivem sobre
areia ou lodo. A maioria prefere águas relativamente rasas, porém alguns grupos vivem em
águas profundas.
1.2 Características
Animais diblásticos;
simetria radial ou assimétricos;
vida solitária ou em colônias.
Os poríferos têm tamanho muito variável que é determinado, principalmente, pela
estrutura interna destes organismos. Algumas esponjas exibem simetria radial, porém a
maioria mostra-se irregular, exibindo padrões de crescimento que podem ser: massivos,
eretos, incrustantes ou ramificados. O tipo de padrão de crescimento é influenciado pela
velocidade das correntes de água , inclinação e natureza do substrato e disponibilidade de
espaço. Assim, uma determinada espécie pode assumir diferentes padrões devido as
diferentes situações ambientais, o que tem causado algumas confusões taxonômicas.
A maioria das espécies comumente encontradas exibem cores fortes, o que tem sido
sugerido ser uma forma de proteção contra a radiação solar ou advertência.
Tomando-se como exemplo a estrutura mais simples de um porífero, pode-se
estabelecer o seguinte padrão básico e tipos celulares presentes no grupo como um todo. A
superfície desses organismos é perfurada por pequenas aberturas, os poros inalantes, de
onde deriva o nome Porífera (portador de poros). Esses poros abrem-se em uma cavidade
interior chamada de átrio (fig. 15.4). Esse, por sua vez, abre-se para o exterior através do
ósculo (fig. 15.5), uma grande abertura localizada na parte superior do animal. O fluxo de
água é portanto o seguinte:
meio externo→poro inalante→átrio→ósculo→meio externo
28
Esse fluxo é possibilitado pelos coanócitos, células que caracterizam o grupo e
apresentam um flagelo circundado por um colarinho contrátil (fig. 15.9). Elas se localizam no
lado interno do animal, revestindo a cavidade do átrio. Sua função básica é promover uma
corrente de água dentro do átrio.
Figura 15: Anatomia de uma esponja tipo Sycon. Detalhes da estrutura da parede e do coanócito.
A parede do corpo é relativamente simples, sendo a superfície externa formada por
células achatadas, os pinacócitos, os quais em conjunto, constituem a pinacoderme.
Diferentemente do epitélio de outros animais, está ausente uma membrana basal e as
29
margens dos pinacócitos podem ser expandidas ou contraídas de forma que o animal pode
aumentar ligeiramente de tamanho. Os pinacócitos basais secretam um material que fixa a
esponja ao substrato.
Os poros são formados por um tipo celular chamado porócito, o qual tem a forma de
um tubo que se estende desde a superfície externa até o átrio. A cavidade do tubo forma os
poros inalantes, ou óstios, que podem se abrir ou fechar por contração. O porócito é derivado
de um pinacócito através do surgimento de uma perfuração intracelular.
Abaixo da pinacoderme encontra-se uma camada chamada meso-hilo (ou
mesênquima, fig. 15) que é constituída por uma matriz protéica gelatinosa contendo material
esquelético e células amebóides, ou seja, células que possuem movimentos amebóide e são
capazes de se diferenciarem em outros tipos de células.
O esqueleto, que é relativamente complexo, fornece a estrutura de sustentação para as
células vivas do animal. Assim, o esqueleto para todo o filo das esponjas, pode ser composto
por espículas calcáreas, silicosas, fibras protéicas de espongina ou então por uma combinação
das duas últimas.
As espículas podem ser de várias formas, importantes para a identificação e
classificação das espécies. Espículas monoáxonas têm o formato de agulhas ou bastonetes
podendo ser retas ou curvas, com extremidade afiladas ou ainda em forma de gancho.
Apesar das espículas freqüentemente se projetarem através da pinacoderme, o
esqueleto se localiza primariamente no meso-hilo. O arranjo das espículas é organizado com
vários tipos que se combinam de maneira a formar grupos distintos. Elas podem estar
fundidas ou apenas entrelaçadas, sendo que a organização em uma porção do corpo pode
diferir da organização que se observa em outra porção do mesmo indivíduo.
O meso-hilo contém também fibras colágenas dispersas, mas algumas esponjas podem
ter fibras grossas de colágeno chamadas esponginas (proteína fibrosa). Algumas esponjas são
muito resistentes e têm uma consistência semelhante à borracha devido a quantidade de
espongina presente no esqueleto. As esponjas de banho possuem apenas espongina no
esqueleto.
Vários tipos de células amebóides estão presentes no meso-hilo. Células grandes com
núcleos também grandes: os arqueócitos que são células fagocitárias que desempenham
papel no processo da digestão. Os arqueócitos também são capazes de formar outros tipos
celulares caso haja necessidade ao animal e são por isso chamadas totipotentes. Há também
células fixas, chamadas colêncitos que ficam ancoradas por longas fitas citoplasmáticas e que
são as responsáveis pelas secreção das fibras de colágeno dispersas. Pode haver, em algumas
esponjas, células móveis que secretam tais fibras.
O esqueleto de espículas ou espongina é secretado pelos esclerócitos amebóides ou
espongiócitos. Para secreção de uma única espícula numa esponja calcária podem estar
envolvidos de um a vários esclerócitos, num processo relativamente complexo.
Do lado interno do meso-hilo, revestindo o átrio, encontra-se a camada dos coanócitos,
os quais tem uma estrutura muito similar à dos protozoários coanoflagelados. De fato,
muitos zoólogos crêem que as esponjas tiveram uma origem distinta a partir de
coanoflagelados, não tendo desta forma, relação com outros metazoários. O coanócito é uma
célula ovóide, com uma extremidade adjacente ao meso-hilo e a extremidade oposta
projetada para dentro do átrio, apresentando esta um colarinho contrátil. São células
responsáveis pelo movimento de água através da esponja e pela obtenção de alimento.
1.3 Tipos Morfológicos
A estrutura morfológica dos poríferos é bem peculiar, bem caracterizada por sistemas
de canais para a circulação de água, numa forma que se relaciona com o caráter séssil (fixo)
30
do grupo.
Existem três tipos estruturais segundo este arranjo interno de canais :
Asconóides: tipo mais primitivo, não há canais. A área revestida por coanócitos é
reduzida e ocorre um grande átrio. O fluxo de água pode ser lento, uma vez, que o átrio é
grande e contém água demais para que possa ser levada rapidamente através do ósculo.
Quanto maior a esponja, mais intenso é o problema do movimento de água. O aumento do
átrio não é acompanhado por um aumento suficiente da camada de coanócitos para superar
o problema. Assim, as esponjas tipo Ascon são invariavelmente pequenas (figura 16).
Esses problemas de fluxo de água e área de superfície das esponjas foram superados
durante sua evolução através do dobramento da parede do corpo e redução do átrio. As
dobras aumentaram a superfície da camada de coanócitos enquanto a redução do átriodiminuiu o volume de água circulante. O resultado final dessas mudanças é uma circulação
de água muito maior e mais eficiente através do corpo. Com isso é possível um grande
aumento de tamanho.
As esponjas que apresentam os primeiros sinais de dobramento do corpo são as
siconóides ou tipo Sycon (figura 15). Nessas, a parede do corpo tornou-se dobrada
horizontalmente formando protuberâncias digitiformes. Esse tipo de desenvolvimento
produz bolsas externas estendendo-se para dentro a partir do exterior e evaginações que se
estendem para fora a partir do átrio.
Nesse tipo mais evoluído de esponja, os coanócitos não mais revestem o átrio, mas
ficam confinados às evaginações as quais são chamadas canais radias ou flagelados. As
invaginações correspondentes da pinacoderme chamam-se canais aferentes. Os dois canais se
comunicam através de aberturas, equivalentes aos poros das esponjas asconóides.
Leuconóides: O mais alto grau de dobramento da parede do corpo ocorre neste tipo
de esponja (figura 16). Os canais flagelados sofrem evaginações de maneira a formar
pequenas câmaras flageladas arredondadas e o átrio usualmente desaparece, exceto pelos
canais hídricos que levam ao ósculo. A água entra na esponja através dos poros dérmicos
provavelmente localizados entre células e passa pelos espaços subdérmicos.
Muitas esponjas (a maioria) são constituídas segundo a arquitetura leuconóides, fato
que põe em evidência a eficácia desse tipo de estrutura. As esponjas leuconóides são
compostas por uma massa de câmaras flageladas e canais hídricos e podem atingir um
tamanho considerável.
1.4 Fisiologia
Os aspectos fisiológicos dos poríferos são muito dependentes da corrente de água que
fluem através do organismo. O volume de água que passa é extremamente alto. O ósculo é
regulado de forma a diminuir ou até parar o fluxo.
Digestão:
O hábito filtrador envolve necessariamente a formação de uma corrente unidirecional
de água, que entra pelos poros trazendo alimentos, circula pelo átrio e sai pelo ósculo. Desta
forma as partículas alimentares são capturadas e filtradas nas câmaras flageladas pelos
coanócitos. Tanto os coanócitos como os amebócitos fagocitam o alimento e transferem-no
para outras células. Portanto a digestão é intracelular. Os detritos são eliminados pelo fluxo
de água.
31
Figura 16 : Tipos morfológicos das esponjas.
As esponjas se alimentam de material particulado extremamente fino. Estudos
efetuados em três espécies de esponjas jamaicanas mostraram que 80% da matéria orgânica
filtrável consumida por estas esponjas tem um tamanho inferior àquele que pode ser
resolvido pela microscopia comum. Os outros 20% constituem bactérias, dinoflagelados e
outros pequenos seres planctônicos.
Aparentemente, as partículas de alimento são selecionadas principalmente com base
em seu tamanho, sendo retiradas no curso de sua passagem pelas câmaras flageladas.
Apenas partículas menores que um certo tamanho podem entrar nos poros dérmicos,
essas são partículas finalmente filtradas pelos coanócitos. A captação de partículas resulta
provavelmente do fluxo de água através das microvilosidades que compõem o colarinho.
Partículas grandes (5 a 50 µm) são fagocitadas por células que revestem os canais
inalantes. Partículas com dimensões bacterianas ou ainda menores (menor que 1 µm) são
removidas e engolfadas pelos coanócitos.
Respiração, Circulação e Excreção:
As trocas gasosas ocorrem por simples difusão entre a água que entra e as células do
32
animal. As excretas nitrogenadas (particularmente amônia) saem do organismo junto com a
corrente de água. Não há, portanto, sistema circulatório.
Sistema Nervoso:
Não existe sistema nervoso. As reações são localizadas e a coordenação é em função
da transmissão de substâncias mensageiras por difusão no meso-hilo ou por células
amebóides se locomovendo. Pode também ocorrer entre células fixas que estejam em contato.
Reprodução:
A reprodução pode ser assexuada ou sexuada.
Assexuada: Regeneração: Ocorre quando parte do animal fragmenta-se e os pedaços são
facilmente regenerados formando novos indivíduos.
Brotamento: Em algumas espécies ocorrem expansões laterais do corpo,
denominadas brotos. Estes podem desprender-se e depois se fixar em um substrato.
Gemulação: Ocorre em esponjas de água doce e em algumas espécies marinhas.
Nestas esponjas formam-se estruturas reprodutoras chamadas gêmulas. Estas são
constituídas por aglomerados de amebócitos e arqueócitos envoltos por uma membrana
rígida formada por espículas e por material semelhante a espongina, que deixa uma pequena
abertura, denominada micrópila. Isto confere às gêmulas proteção contra condições
ambientais adversas (baixas temperaturas, falta d’água, etc.). Em condições favoráveis, as
células internas são liberadas e se diferenciam nos outros tipos de células sob um substrato.
Sexuada :
Nos poríferos ocorre hermafroditismo ou sexos separados. Os óvulos e
espermatozóides são originados dos arqueócitos e amebócitos. Os espermatozóides quando
maduros, saem pelo ósculo, juntamente com a corrente exalante de água. Penetram em
outras esponjas pelos poros através de correntes inalantes e são captados pelos pelos
coanócitos. Esses se modificam em células amebóides, transportando-o até o óvulo presente
no meso-hilo onde ocorre a fecundação, que é portanto, interna. Do ovo surge uma larva
ciliada, que abandona o corpo da esponja. Após breve período de vida-livre (não mais que
dois dias) fixa-se a um substrato e dá origem à esponja adulta.
Depois de se fixar através da extremidade anterior, a larva sofre uma reorganização
interna comparável à gastrulação de outros animais.
1.5 Aspectos Evolutivos
As esponjas são consideradas metazoários parazoa, ou seja, animais sem tecidos
verdadeiramente diferenciados e nenhum órgão. O restante dos seres do reino animal são
chamados de eumetazoa, ou seja, animais “verdadeiros” com tecidos diferenciados, órgãos,
ou pelo menos boca e cavidade digestiva.
A origem dos porífera é ainda incerta, porém evidências sugerem que derivam de
algum tipo de flagelado colonial simples, oco e de vida livre, talvez o mesmo grupo que deu
origem aos ancestrais dos outros metazoários. Outra abordagem leva em consideração a
semelhança estrutural entre os coanócitos e os protozoários coanoflagelados, o que indica
uma origem distinta, sem relação com os outros metazoários.
O caráter primitivo do grupo, como já mencionado, é a ausência de órgãos e o baixo
nível de diferenciação e inter-dependência celular. Entretanto, o sistema de canais hídricos e
falta de extremidade anterior e posterior é característica singular deste grupo, não sendo
encontrado em nenhum outro filo.
33
1.6 As Classes de Esponjas
Aproximadamente 10.000 espécies de esponjas foram descritas até o momento,
estando estas distribuídas em 4 classes :
1.6.1 Classe Calcarea
Os membros dessa classe, conhecidos como esponjas calcáreas, distinguem-se por
possuírem espículas compostas de CaCO3. Nas outras classes as espículas são
invariavelmente silicosas. Os três graus de estruturas (Ascon, Sycon e Leucon) são
encontrados. A maioria das espécies tem menos de 10 cm de altura.
1.6.2 Classe Hexactinellida
Os representantes dessa classe são conhecidos como esponjas-de-vidro. O nome
Hexactinellida vem do fato que as espículas são do tipo com seis pontas ou hexáctinas. Além
disso, freqüentemente algumas espículas estão fundidas formando um esqueleto que pode
ser reticulado, constituído por longas fibras silicosas. Por isso elas são então chamadas de
esponjas-de-vidro. A forma siconóide é dominante.
Vivem principalmente em águas profundas (450 a 900 m de profundidade em média),
sendo totalmente marinhas.
Há um átrio bem desenvolvido e um único ósculo que às vezes pode estar coberto por
uma placa crivada formada por espículas fundidas. Os pinacócitos presentes em todas as
demaisclasses estão ausentes, sendo que a epidermeé formada por pseudópodos
interconectados de amebócitos.
Algumas espécies do gênero Euplectella apresentam uma interessante relação comensal
com uma certa espécie de camarão (Spongicola). Quando um jovem macho e uma fêmea
entram no átrio, após crescerem, não podem escapar devido a placa crivada que cresce e
recobre o ósculo. Por isso, passam a vida toda presos no interior da esponja alimentando-se
do plâncton, que lhes chega através de correntes de água, e reproduzindo-se, sendo por isso
considerados símbolos da união eterna por certos orientais.
1.6.3 Classe Demonspogiae
Contém 90% das espécies de esponjas, distribuídas desde águas rasas até profundas.
A coloração freqüentemente brilhante é devido a grânulos de pigmento localizados
nos amebócitos. Espécies diferentes são caracterizadas por diferentes cores.
O esqueleto nessa classe é variável, podendo consistir de espículas silicosas ou de
fibras de espongina ou uma combinação de ambas.
Todas as Demospongiae são leuconóides. As maiores esponjas conhecidas pertencem
a essa classe. Exemplo : Spheciospongia com mais de 1 m de diâmetro e altura. Há
representantes de água doce.
A família Spongidae contém as famosas esponjas de banho cujo esqueleto é composto
apenas por espongina. Spongia e Hippospongia, dois gêneros de valor comercial, são coletadas
em importantes fundos de pesca de esponjas no Golfo do México, Caribe e Mediterrâneo.
As esponjas são coletadas por mergulhadores deixando que o tecido vivo se
decomponha na água. O esqueleto restante, composto por fibras entrelaçadas de espongina, é
então lavado.
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1.6.4 Classe Sclerospongiae
Classe pequena no número de espécies marinhas, sendo encontradas em grutas e
túneis associadas a recifes de coral em várias partes do mundo. Todas leuconóides.
Possuem, além do esqueleto interno de espículas silicosas mais espongina, um
invólucro externo de CaCO3.
2 FILO CNIDARIA
2.1 Conceitos Gerais
O Filo Cnidaria apresenta animais predominantemente marinhos, incluindo as hidras,
medusas, anêmonas-do-mar e corais.
O termo “Coelenterata” (celenterados), comumente utilizado como sinônimo de
Cnidaria, é atualmente empregado para abranger dois filos distintos de animais: o Filo
Cnidaria e o Filo Ctenophora. Assim, o termo celenterado passa a não ter mais valor
taxonômico de filo, sendo apenas utilizado como um coletivo do grupo. O filo Ctenophora* é
pequeno, com cerca de 100 espécies conhecidas, distribuídas em duas classes, e por isso
nosso estudo se restringirá ao filo Cnidaria somente.
Nos cnidários nota-se o início de uma organização tecidual. Existe uma boca,
circundada por tentáculos, e uma cavidade digestiva, chamada cavidade gastrovascular. O
antigo nome celenterados provém de cele, que significa cavidade e entero que quer dizer
intestino. Já a denominação Cnidaria provém de estruturas (células) de defesa características
do filo, chamadas cnidócitos.
A presença de boca e cavidade digestiva tem importante significado evolutivo. Os
alimentos podem ser ingeridos em maiores proporções e digeridos na cavidade antes de
penetrarem nas células.
2.2 Características gerais
Diblásticos;
Simetria radial, com tentáculos ao redor da boca;
Com espaço interno para digestão, a “cavidade gastrovascular”;
Corpo consistindo de dois tecidos: epiderme e gastroderme;
Presença de cnidócitos contendo nematocistos;
Sistema nervoso em rede difusa presente.
Os membros deste filo podem apresentar-se em duas formas estruturais distintas:
medusa, a qual é de vida livre e pólipo, que vive fixo em substratos (rochas, conchas, etc)
(figura 17). O pólipo pode, em certas circunstâncias, se deslocar através de movimentos tipo
“mede-palmos” e por cambalhotas (por exemplo, as hidras).
*O Filo Ctenophora (do grego ktenos, pente e phoros, portador) é exclusivamente marinho. Possui indivíduos
medusóides, embora a simetria radial tenha se transformado em birradial por meio de dois tentáculos. Presença
de caviadade gastrovascular com boca e poros anais. A parede do corpo tem duas camadas de células entre as
quais há uma espessa mesogléia quew apresenta amebócitos e fibras musculares lisas. A locomoção se dá por
placas ciliadas fundidas (placas de pentes) dispostas em oito faixas orais/aborais. As trocas gasosas ocorrem
por difusão. São carnívoros e hermafroditas na totalidade.
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Figura 17: A) Forma corporal polipóide. B) Forma corporal medusóide.
A parede do corpo é formada por três camadas: epiderme, revestindo externamente o
organismo, onde se encontram células epitélio-musculares, células intersticiais, de defesa e
sensoriais; gastroderme que reveste a cavidade gastrovascular, onde há células nutritivo-
musculares que produzem pseudópodos para englobar os alimentos, células enzimático-
glandulares que secretam enzimas digestivas e, em algumas espécies, algas simbióticas; e a
mesogléia, que se localiza entre as duas primeiras.
A célula característica do filo é chamada cnidócito (figura 18). Esta tem a função de
defesa e captura de alimento. Localiza-se por toda a epiderme, mas é particularmente
abundante nos tentáculos. Os cnidócitos são células ovóides que contêm no seu interior uma
cápsula com um tubo enrolado chamada nematocisto. Quando ocorre algum tipo de
estímulo mecânico ou químico, os cnidócitos descarregam os nematocistos que podem
prender, paralisar ou inocular substâncias tóxicas na presa. Existem vários tipos de
nematocistos, entre eles os penetrantes, os volventes e glutinantes.
Um grande números de cnidários, em todas as classes, abriga autótrofos simbiontes:
zooclorelas (algas verdes) na gastroderme de hidrozoários; zooclorelas na mesogléia de
cifozoários; dinoflagelados na gastroderme de antozoários.
2.3 Classificação
Existem cerca de 10 mil espécies viventes descritas. A divisão delas em taxa depende
do indivíduo dominante no ciclo ser pólipo ou medusa.
2.3.1 Classe Hydrozoa
Nesta classe encontra-se um grande número de cnidários. Entretanto eles são muito
pequenos e pouco conhecidos.
Os hidrozoários podem apresentar tanto a forma polipóide como medusóide, ou então
as duas durante o ciclo de vida.
Dentre os membros mais estudados, merecem destaque a Hydra, que é de água doce,
na qual desapareceu o estágio medusóide; Obelia que apresenta os dois estágios (pólipo e
medusa) durante o seu ciclo de vida e a caravela portuguesa (Physalia). Esta última, nada
mais é do que uma colônia natante com uma estrutura flutuante - o flutuador - cheio de gás.
Apresenta indivíduos medusóides e polipóides modificados e um único tentáculo longo para
36
captura de alimento (pescador).
Nos hidrozoários a mesogléia jamais é celular, a gastroderme não apresenta
nematocistos e as gônodas são epidérmicas ou, se gastrodérmicas, os óvulos e
espermatozóides são emitidos diretamente para o exterior e não para dentro da cavidade
gastrovascular. Estas características peculiares servem como união de todos os membros
desta classe (figura 18).
Figura 18: Anatomia de um hidrozoário.
Alguns pólipos, principalmente em Hydra, vivem solitariamente, contudo a maioria
das espécies tem vida colonial. Entre estes últimos, o polimorfismo, ou seja, a presença de
indivíduos diferentes estrutural e funcionalmente pode ocorrer. Na colônia polimórfica, o
tipo mais numeroso e destacado é o pólipo nutritivo, conhecido como gastrozoóide. Os
gastrozoóides capturam e ingerem as presas, tendo portanto a função de nutrição na colônia.
37
Outros tipos importantes presentes são os indivíduos reprodutores - os medusóides - que são
produzidos como brotos assexuados de alguma parte da colônia. Estes podem se destacar,
como medusas livres ou ficarem retidos como gonóforos. Os medusóides podem também
podem ser produzidos por pólipos especializados chamados gonozoóides.
2.3.2 Classe Scyphozoa
Os membros desta classe apresentampredominantemente no ciclo de vida, a forma
medusóide, sendo o pólipo restrito ao estágio larval. Várias especializações levaram a
estrutura medusóide a uma maior complexidade: tamanho maior que as medusas dos
hidrozoários, mesogléia celular, cavidade gástrica septada ou com filamentos gástricos,
cnidócitos na gastroderme e desenvolvimento de órgãos sensoriais (figura 19.a). As águas-
vivas são os cifozoários mais conhecidos, incluindo o gênero Aurelia (fig. 19.b).
Figura 19.a: Anatomia de um cifozoário.
Figura 19.b: Aurelia sp, um cifozoário.
38
2.3.3 Classe Anthozoa
Nestes organismos o estágio medusóide está completamente ausente. São as
anêmonas-do-mar, os corais escleratínios (produtores de esqueletos externos de CaCO3) e
octocorais característicos com oito tentáculos.
É a maior classe dos cnidários. Apresentam cavidade gastrovascular mais
especializada que as outras classes, com várias divisões de um mesentério longitudinal,
fixados na parede do corpo, o que aparentemente auxilia na circulação de água e na digestão
de presas maiores (figura 20).
Figura 20: Estrutura de uma anêmona-do-mar. A) Corte longitudinal. B) Corte transversal.
O pólipo dos antozoários é mais especializado e a presença de mesogléia celular,
cavidade gastrovascular septada, cnidócitos nos filamentos gástricos e gônodas
gastrodérmicas, indicam que eles estão filogeneticamente relacionados mais intimamente
39
com os Scyphozoa que os Hydrozoa.
Anêmonas-do-mar são antozoários solitários familiares e ocorrem em todo o mundo
em águas costeiras. Elas comumente vivem presas a substratos duros na região litoral. Os
antozoários formadores de corais são constituídos de colônias de pólipos.
Os Recifes de Coral
Os recifes de coral são formações rochosas calcárias que dão suporte a um amplo
conjunto de plantas e animais marinhos, e alguns destes organismos de recife secretam
carbonato de cálcio que forma a maior parte do recife.
De todos os organismos secretores de CaCO3, os corais escleratínios são os mais
importantes. As exigências ambientais desses animais também descrevem os limites de
distribuição do recife.
Corais formadores de recifes contém algas simbióticas que necessitam de luz para a
fotossíntese. Consequentemente, a distribuição vertical dos recifes é restringida pela
profundidade de penetração de luz. Assim, os recifes são encontrados apenas em lugares
onde a água circulante contenha pequenas quantidades de material em suspensão, ou seja,
águas de baixa turbidez e baixa produtividade. Outro fator limitante para a presença de
recifes de coral é a temperatura, cuja média mínima não deve ser inferior a 20°C, o que acaba
restringindo os recifes coralinos a áreas como o Caribe, Oceano Índico e Pacífico tropical. No
Brasil o Atol das Rocas é originado de algas produtoras de exoesqueleto calcário.
Os tipos principais de recifes de coral são:
- Recifes em franja: projetam-se diretamente em direção ao mar, a partir da praia;
- Recifes em barreira: são separados da massa terrestre por uma laguna;
- Atóis: repousam sobre ápices ovais de vulcões submersos. Usualmente circulares ou
ovais com uma laguna central e partes da plataforma do recife podem emergir como uma ou
mais ilhas.
2.4 Fisiologia
2.4.1. Digestão
O alimento é capturado pelos tentáculos e imobilizado por cnidócitos. A digestão é
inicialmente extracelular e depois intracelular.
2.4.2. Respiração/Circulação/Excreção
Difusão direta com o meio ambiente.
2.4.3. Sistema Nervoso
Os cnidários são os primeiros animais a apresentarem um sistema nervoso, que é
bastante primitivo ainda. Ele é difuso pelo corpo; os neurônios são arranjados como uma
rede nervosa na base da epiderme e gastroderme. A transmissão de impulsos tende a ser
irradiante.
2.4.4. Reprodução
A reprodução assexuada ocorre por brotamento ou fissão binária. A reprodução
sexuada envolve a formação de gametas. Abaixo são descritas a forma de reprodução
sexuada encontrada nas diferentes classes.
• Classe Hydrozoa:
Em Hydra não existe a forma medusóide. A maioria é dióica e a reprodução ocorre
principalmente no outono. Existem células especiais na epiderme do pólipo que dão origem
40
aos óvulos e espermatozóides. No caso do óvulo, após seu aumento de tamanho, há ruptura
da epiderme, expondo-o ao meio exterior. Dentre muitos espermatozóides liberados na água,
um único fecunda o óvulo. Após a fecundação o ovo é recoberto por uma capa quitinosa.
Quando completa-se esse processo, o embrião encapsulado destaca-se do corpo parental e
permanece em sua cápsula protetora durante todo o inverno. Somente na primavera a
cápsula amolece e a hidra jovem emerge.
Em Obelia existem as formas polipóides e medusóides. Neste gênero ocorre
metagênese, ou seja, há alternância de gerações entre pólipos e medusas. O pólipo produz
assexuadamente medusas livre-natantes, normalmente dióicas. Estas se reproduzem
sexuadamente através da liberação de espermatozóides e óvulos na água. Após a fecundação
forma-se uma larva ciliada plânula que se fixa a um substrato e desenvolve novamente um
pólipo adulto (figura 21).
Figura 21: Ciclo de vida de um hidrozoário - Obelia.
41
• Classe Scyphozoa:
Em Aurelia as formas medusóides adultas dióicas liberam espermatozóides e óvulos
na água. Com a fecundação e fixação da larva plânula em um substrato, desenvolve-se uma
pequena larva polipóide chamada cifístoma que é muito parecida com uma hidra. O
cifístoma fixo se reproduz assexuadamente por brotamento dando origem a várias destas
estruturas que ficam arranjadas uma sobre as outras (estróbilo). Começa então a ocorrer
fissões neste estróbilo e cada cifístoma se solta para o meio circundante dando origem a
novas medusas (figura 22).
Figura 22: Ciclo de vida de um cifozoário - Aurelia.
42
• Classe Anthozoa:
Nas anêmonas-do-mar os espermatozóides e óvulos são produzidos tanto por
indivíduos hermafroditas ou dióicos. A fecundação pode ocorrer na cavidade gastrovascular
ou no exterior do corpo e a larva formada fixa-se para o desenvolvimento do adulto.
3 FILO PLATYHELMINTHES
(do grego: platy, achatado; helminthes, vermes)
De todos os filos bilaterais, os vermes chatos de vida livre do filo Platyhelminthes são
considerados há muito tempo os mais primitivos. Porém, alguns zoólogos questionam essa
visão, em parte porque acredita-se que vários atributos dos vermes chatos, anteriormente
considerados indicativos da primitividade do filo, na verdade sejam resultado do pequeno
tamanho do corpo.
3.1 Conceitos Gerais
O filo Platyhelminthes abrange os vermes achatados. A maioria é de vida livre, como
as planárias, porém existem espécies parasitas de vertebrados, incluindo o homem (por
exemplo, esquistossomo e solitária).
Três aspectos importantes a serem destacados no filo são: a ocorrência de simetria
bilateral verdadeira; uma evolução de uma terceira camada celular (parênquima), entre a
epiderme e o revestimento intestinal (gastroderme); e o achatamento dorsoventral do corpo.
A simetria bilateral está relacionada à motilidade do animal, enquanto o achatamento é
encarado como uma conseqüência inevitável da ausência dos sistemas circulatório e
respiratório.
A porção do corpo que primeiro entra em contato com o meio e onde se localizam boa
parte dos órgãos sensoriais é chamada região anterior. A extremidade oposta é denominada
região posterior. A parte superior do corpo chama-se dorsal e a inferior, ventral.
O intestino termina em fundo cego e a boca é tipicamente a única abertura para o trato
digestivo, quando este se encontra presente.
Neste filo aparece, pela primeira vez, o sistema “excretor” protonefridial. As aspas são
usadas porque sua função provavelmente é principalmente osmorreguladora e não
excretora. Assim, os principais produtos de excreta são eliminados principalmente pela
superfície do corpo, por difusão. Os protonefrídiosconsistem de tubos em fundo cego, que
terminam em “células flama”, que consistem de duas unidades celulares, sendo uma célula
tubular e uma célula de capuz, com dois ou mais flagelos. Esses batem, como uma chama, e
os líquidos entram, dirigindo-se através de túbulos até um poro excretor e, finalmente, para o
exterior do corpo.
Características gerais do filo:
Animais triblásticos;
simetria bilateral;
acelomados;
trato digestivo incompleto;
dorsoventralmente achatados.
43
3.2 Classificação
Classe Turbellaria
Apresenta membros de vida livre, entre eles as planárias de água doce, Dugesia sp e
Geoplana sp.
Classe Cestoda
Todos os membros desta classe são endoparasitas e incluem as solitárias, Taenia sp.
Classe Trematoda
Os vermes desta classe são conhecidos como facíolas e representam um dos principais
grupos de parasitas de outros animais. Dentre os tremátodas mais conhecidos
encontra-se o Schistosoma mansoni.
3.2.1 Classe Turbellaria
As planárias são dorsoventralmente achatadas. A boca é a única abertura do trato
digestivo, ou seja, o aparelho digestivo é incompleto, não há a presença de ânus. Ocorrem,
normalmente, na região anterior do animal, a presença de projeções chamadas aurículas,
dotadas de receptores ciliares para recepção química principalmente, e dois ocelos
(estruturas fotorreceptoras) (figura 23). A parede ventral do corpo é recoberta por uma
epiderme ciliada para facilitar a locomoção. Uma característica peculiar dos turbelários é a
presença de numerosas células glandulares localizadas no interior da epiderme ou mais
internamente. Essas glândulas fornecem adesão, revestimento do substrato para locomoção
ou recobrimento da presa. Outra peculiaridade é a presença de rabditos, que são corpúsculos
em forma de bastonetes localizados perpendicularmente à superfície. Eles são secretados por
glândulas epidérmicas. A função é incerta, porém há indícios que sejam usados na defesa ou
para formação de muco em torno do corpo.
Figura 23 : Planária
Internamente, percorrendo todo o corpo do animal, existem camadas musculares que
distendem e contraem o corpo. O pequeno tamanho, formato achatado e o intestino
ramificado (nas formas maiores) fazem com que sejam desnecessários sistemas
especializados para transporte interno, trocas gasosas e excreção.
As planárias são predominantemente carnívoras. O intestino é em fundo cego, com a
boca servindo tanto para a ingestão quanto para a egestão. As ramificações presentes no
intestino (divertículos laterais) aumentam a superfície para a digestão e distribuição dos
alimentos. Isto compensa a ausência de um sistema interno de circulação. A boca é situada,
geralmente, no meio da superfície ventral e antes do alimento chegar ao intestino há uma
44
faringe muscular de grande mobilidade (chamada de protrátil, ou seja, que pode ser
protraída), que é usada na captura do alimento. A digestão é portanto inicialmente
extracelular e posteriormente intracelular (figura 24A). A presa é engolida inteira pelos
turbelários. Naqueles que possuem uma faringe protraível, essa é inserida no corpo da presa,
sendo a ingestão dos tecidos auxiliada por enzimas proteolíticas produzidas pelas glândulas
faringianas. O conteúdo parcialmente digerido e liquefeito é bombeado então para o interior
do intestino por ação peristáltica.
Figura 24: Anatomia da planária - Sistemas digestivo (A) e excretor (B).
45
Há a presença de um sistema excretor formado por protonefrídios. Esses são do tipo
“célula-flama”, cada qual consistindo de um túbulo ramificado contendo numerosos
capilares em fundo cego com flagelos do lado interno. Essas estruturas drenam os resíduos
metabólicos para os ductos excretores que são eliminados para o exterior através de poros
dorsais. Entretanto, a função dos protonefrídios parece ser mais a regulação osmótica que a
excreção (figura 24B).
Figura 25: Tipos de reprodução em planária.
Quanto ao sistema nervoso, existe um par de gânglios nervosos ventrais localizados
na cabeça. Deles saem cordões nervosos longitudinais ligados transversalmente por
comissuras. Há inervação principalmente da musculatura do animal.
A reprodução assexuada ocorre por fissão binária com posterior regeneração.
Com relação à reprodução sexuada, embora as planárias sejam hermafroditas, é raro
46
apresentarem auto-fecundação. Entre elas, geralmente há cópula, com dois indivíduos
colocando em contato seus poros genitais e ocorrendo fecundação interna. Os ovos
resultantes são eliminados e deles saem planárias jovens, que não passam por estágio larval:
o desenvolvimento é direto (figura 25).
3.2.2 Classe Trematoda
Os tremátodas, mesmo sendo parasitas, apresentam estruturas mais semelhantes as
dos turbelários que com a outra classe de platelmintes (os céstodas).
Ocorrem adaptações para a vida parasita no grupo, tais como: presença de ventosas
adesivas orais; tegumento com cutícula protetora que impede a ação de enzimas digestivas
dos hospedeiros; ausência órgãos dos sentidos; há produção de muitos ovos na reprodução
com o objetivo de facilitar a sobrevivência e infestação de novos hospedeiros.
A excreção e as trocas gasosas ocorrem através do tegumento.
Na reprodução, os espermatozóides deixam os testículos e se armazenam na vesícula
seminal. Ocorre copulação mútua e fertilização cruzada. O ciclo de vida pode envolver de
um a vários hospedeiros. Os tremátodas que possuem um único hospedeiro foram colocados
na ordem Monogenea. Nesta ordem encontram-se os parasitas de muitos peixes marinhos e
dulcícolas e também anfíbios, répteis e moluscos. A grande maioria são parasitas externos
(ectoparasitas). A ordem Digenea contém a maioria dos tremátodas parasitas, onde há o
envolvimento de 2 a 4 hospedeiros no ciclo de vida dos organismos, sendo a maioria
endoparasitas. Nesta ordem é que se encontra o responsável pela esquistossomose humana
(Schistosoma mansoni). A figura 26 mostra dois tremátodas endoparasitas: Fasciola hepatica e
Schistosoma mansoni.
Figura 26: Tremátodas endoparasitas.
3.2.3 Classe Cestoda
Esta classe apresenta os platelmintes mais especializados.
O corpo é recoberto por um tegumento protetor, como nos tremátodas, porém esse
tem papel adicional na absorção de alimento, uma vez que ocorre ausência total de trato
47
digestivo em algumas espécies (Taenia sp).
Há uma região anterior chamada escólex, adaptada a aderência no hospedeiro com
ganchos e ventosas. Seguida desta estrutura existe uma região denominada colo da qual se
origina vários segmentos individuais arranjados linearmente. Esses segmentos são chamados
proglótides e compõem a maior parte do verme (figura 27). As tênias são geralmente longas,
podendo atingir até 12 metros de comprimento. As proglótides mais jovens estão localizadas
mais próximas do colo, aumentando de tamanho e maturidade em direção à região posterior
do animal.
Figura 27: Anatomia da Taenia sp, com detalhe para o escólex e a proglótide.
O sistema nervoso e excretor (protonefrídios) se estendem ao longo das proglótides.
Existe uma massa nervosa no escólex e dois cordões longitudinais laterais que se estendem
para trás. Comissuras conectam os cordões longitudinais em cada proglótide.
48
Em cada proglótide existe o sistema reprodutor masculino e feminino. Esses animais
são, portanto, hermafroditas. Depois que ocorre a fecundação, o útero enche-se de ovos,
dando à proglótide o aspecto gravídico. São as proglótides gravídicas que se desprendem,
sendo eliminadas com as fezes humanas (figura 27 E).
Os cestódeos não apresentam sistema digestivo, recebendo o alimento já digerido pelo
hospedeiro. O alimento é incorporado pela superfície do corpo do parasita.
3.3 Doenças causadas por Platelmintes ao homem:
3.3.1 Esquistossomose
Agente etiológico: Schistosoma mansoni - Classe Trematoda
Local: Sistema porta hepático (veias próximasà parede intestinal).
Os adultos desta espécie habitam as veias intestinais. Eles são dióicos com dimorfismo
sexual, sendo que o macho mede de 6 a 10 mm de
comprimento e 0,5 mm de diâmetro. Existe um sulco
ventral que estende-se por quase toda extensão do corpo
do macho e neste sulco acomoda-se a fêmea, que é mais
longa (15 mm), porém mais fina (figura 28a). Após a
postura dos ovos, a fêmea estira-se do sulco do macho ou
o abandona. Os ovos depositados perfuram a parede
intestinal, causando sangramento e passam desta
maneira para o interior do intestino e daí para o meio
externo junto com as fezes.
Figura 28a: Schistosoma mansoni, macho e fêmea durante a
cópula.
Ciclo da doença:
Os ovos que saem com as fezes de um homem infectado ao atingirem a água, eclodem
em uma larva ciliada chamada miracídeo. Esta penetra num caramujo planorbídeo do gênero
Biomphalaria. No interior do caramujo, o miracídeo sofre reprodução assexuada, originando
cerca de 200 esporocistos que vão produzir novas larvas chamadas cercária. Cada miracídeo
pode gerar até 1000 cercárias. As cercárias abandonam o caramujo e tornam-se livre-natantes.
Ao entrar em contato com o homem, elas penetram pela pele, infectando-o. A cercária é
levada pela corrente sangüínea aos pulmões, fígado e finalmente se desenvolve nas formas
adultas nas veias intestinais, onde se reproduz, como anteriormente descrito, reiniciando o
ciclo (figura 28b).
Sintomas : - Mal-estar, cansaço, febre alta;
- Emagrecimento
- Diarréia, fezes sanguinolentas
- Cólicas hepáticas e intestinais
- Hepatomegalia (dilatação do fígado)
- Ascite (barriga d’água)
Profilaxia: - Educação sanitária
- Saneamento básico (redes de esgotos)
- Eliminação do caramujo
- Evitar contato com água contaminada
49
Figura 28b: Ciclo de vida de Schistosoma mansoni.
3.3.2 Teníase
Agente etiológico: Taenia solium (solitária) – Classe Cestoda
Local: Intestino
As solitárias adultas permanecem fixas na parede intestinal através dos ganchos e
ventosas. O verme pode atingir até 7 metros de comprimento.
Ciclo da doença:
As proglótides maduras com ovos são eliminadas pelas fezes do homem infectado. Ao
chegar ao meio externo, os ovos são ingeridos pelo hospedeiro intermediário – o porco.
Neste, os ovos eclodem e as larvas oncosferas atravessam a parede intestinal, caem na
corrente sangüínea e são transportados para qualquer tecido mole (pele, músculos
esqueléticos e cardíacos, olhos, cérebro, etc), porém preferem os músculos com maior
movimentação e oxigenação (coração, cérebro e língua), onde se desenvolvem num estágio
chamado cisticerco. O cisticerco, também conhecido como canjiquinha, é um estágio ovalado
com cerda de 10 mm de comprimento, apresentando o escólex invaginado. O homem sadio,
então, ao comer a carne de porco crua ou pouco cozida acaba ingerindo o cisticerco. No
intestino, esta estrutura libera o escólex que é evaginado e se desenvolve no verme adulto,
ficando fixado à parede intestinal (figura 29).
50
Figura 29: Ciclo de vida de Taenia solium.
Sintomas : - Cólicas intestinais
- Fome constante ou ausente
- Diarréia
Profilaxia : - Saneamento básico e educação sanitária
- Não ingerir carne crua ou mal cozida
- Construção de pocilgas (impedir o acesso de suínos às fezes humanas)
- Inspeção fiscal de carnes
Obs: Cisticercose (ingestão de ovos da Taenia solium)
Quando o homem ingere ovos da solitária, ele passará a ser o hospedeiro
intermediário no ciclo da doença, ou seja, os estágios desenvolvidos no porco ocorrerão no
homem. Neste caso os cisticercos, dependendo da localização que vierem a se fixar, no
cérebro por exemplo, podem causar problemas ao portador, como dores de cabeça, vômitos,
desordem mental (delírios), alucinações entre outros mais graves. A localização no globo
ocular, por exemplo, pode levar ao deslocamento da retina e/ou perda da visão. Não são
raros casos de mortes do hospedeiro. É bom lembrar que se o cisticerco não for ingerido pelo
hospedeiro definitivo, não dará continuidade ao ciclo.
51
4 OS ASQUELMINTOS
Os asquelmintos são representados por um grupo heterogêneo de animais marinhos e
de água doce, que apresentam simetria bilateral. Embora anteriormente reconhecidos como
classe dentro do filo Aschelminthes, cada uma das antigas classes é hoje designada como um
filo distinto. No entanto, o nome informal de asquelmintos ainda é um termo conveniente
para todo o grupo.
A maioria dos asquelmintos de vida livre é de animais vermiformes pequenos,
variando de um tamanho microscópico até 1cm de comprimento. Os protonefrídeos são
órgão excretores típicos. Embora a parte anterior do corpo porte a boca e os órgãos sensoriais,
não há cabeça bem formada. O trato digestivo é um tubo completo que possui boca e ânus.
Historicamente, os asquelmintos foram descritos como animais pseudocelomados,
significando que tinham uma cavidade preenchida por fluidos e revestida por epitélio
celômico, surgido como uma blastocele embrionária persistente. No entanto, a pesquisa
ultra-estrutural e embriológica nos últimos 30 anos demonstrou que muitos asquelmintos
não tem absolutamente cavidade corporal, ou seja, são acelomados. Entretanto, alguns
asquelmintos como os rotíferos, por exemplo, possuem uma cavidade tradicionalmente
chamada de pseudoceloma.
A seguir, faremos uma breve descrição dos filos mais representativos do grupo
asquelminto.
Principais filos: GASTROTRICHA, ROTIFERA e NEMATODA
4.1 Filo Gastrotricha
(do grego: gaster, estômago; trix, cabelo)
É um pequeno filo com cerca de 430 espécies entre marinhas e de água doce, que
habitam os espaços intersticiais dos sedimentos e dos detritos superficiais, das superfícies de
plantas e animais submersos e filmes de água das partículas do solo. São, portanto, animais
comuns em lagoas, córrego, lagos e mares (litoral).
Têm dimensões microscópicas (50µm a 1mm comprimento) na maioria, cílios na parte
ventral e tufos de cílios na cabeça (anterior). O corpo em forma de pino de boliche ou de fita é
achatado ventralmente e arqueado dorsalmente (figura 30). A locomoção se dá por
deslizamento. Posteriormente, o tronco geralmente porta dois ou mais órgão adesivos,
contendo sistemas glandulares duplos que permitem a adesão temporária ao substrato.
Celoma, sistema circulatório e de trocas gasosas ausentes.
Alimentam-se de bactérias, protistas e detritos, levados até a boca pelo batimento dos
cílios bucais ou por bombeamento faríngeo. A digestão é gastrointestinal e o intestino
completo com ânus subterminal.
As espécies de água doce têm um par de protonefrídios responsáveis pela excreção.
O sistema nervoso, com um gânglio em cada lado da faringe, é unido dorsalmente por
uma comissura e um par de cordões longitudinais.
São hermafroditas ou partenogenéticos. Fato curioso ocorre na Ordem Chaetonotida:
existem somente fêmeas partenogenéticas.
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Figura 30: A) e B) Gastrótrico generalizado da ordem Macrodasyda e C) e D) Gastrótrico
generalizado da ordem Chaetonida.
4.2 Filo Rotifera
(do latim: rota, roda; ferre, carregar, portar)
O filo Rotifera contém animais comuns, conhecidos como rotíferos, que juntamente
com os protozoários e crustáceos pequenos dominam o zooplâncton de água doce e são
importantes na reciclagem dos nutrientes nos sistemas aquáticos. Embora existam algumas
espécies marinhas e algumas que vivam em musgos, a maioria habita água doce. O filo
compõe-se de cerca de 1800 espécies.
A maioria dos rotíferos tem de 0,1 a 1 mm de comprimento, somente um pouco mais
compridos que os protozoários ciliados. Porém diferentemente dos protozoários, o corpo dos
rotíferos é composto de cerca de 1000 células! A maioria é de animais solitários, de vida livre
ou rastejantes, embora existam animais sésseis e coloniais. O corpo é geralmente
transparente, embora alguns rotíferos pareçam verdes, alaranjados,vermelhos ou marrons,
devido à coloração do trato digestivo.
Características diagnósticas e especiais:
São bilateralmente simétricos. O corpo é alongado (forma de saco) com espessura de
mais de duas camadas de células, com tecidos e órgãos. Externamente, o corpo é coberto por
uma cutícula esculturada (chamada lórica). Há uma coroa de cílios na parte anterior do corpo
na forma de faixas pré-oral e pós-oral, quase sempre organizadas em forma de roda (de onde
deriva o nome do grupo), chamada de coroa. Esta é usada na alimentação e na natação. Na
53
parte posterior, o corpo estreita-se para formar o “pé”, estreito e móvel, que pode ser
retraído para dentro da lórica. O pé, que termina num par de dedos para ancorar os
organismos no substrato, pode estar reduzido ou ausente em formas permanentemente
planctônicas. É a contração da musculatura longitudinal que permite a contração da coroa e
pé.
A boca do rotífero é tipicamente ventral e geralmente circundada por uma parte da
coroa. A faringe, ou mástax, é característica de todos os rotíferos, e sua estrutura é distintiva
no filo. O mástax é geralmente oval ou alongado e altamente muscular, com grandes peças
internas interconectadas, sendo utilizado tanto na captura como na trituração do alimento
(figura 31).
A maioria dos rotíferos alimenta-se de material em suspensão (partículas orgânicas)
ou é predadora (ingerem protozoários, outros rotíferos, etc.), capturando sua presa por meio
de um armadilha ou de sucção.
O trato digestivo é completo. O sistema alimentar possui boca anterior, aparelho
mandibular complexo, faringe muscular e ânus posterior abrindo-se numa cloaca comum
com o sistema urogenital. Possuem tipicamente dois protonefrídios no pseudoceloma, um em
cada lado do corpo, responsáveis pela excreção. Cada protonefrídio tem de uma a muitas
células terminais, que descarregam no interior de um túbulo coletor. Os túbulos coletores são
esvaziados numa bexiga, que se abre na cloaca.
Os rotíferos são dióicos (sexos separados) ou então as fêmeas partenogenéticas. Entre
as espécies dióicas, os machos sempre são menores que as fêmeas e seus órgão não-
reprodutivos são degenerados. A partenogênese é característica da maioria dos grupos de
rotíferos.
No geral, o sistema reprodutivo das fêmeas constitui-se de dois ovários, localizados no
pseudoceloma, que desembocam na cloaca ou num poro genital (se não houver intestino). O
macho tem vida curta. Encontra-se presente testículo, ligado a um ducto espermático que
termina num órgão copulatório, formado por glândulas acessórias.
Figura 31: Anatomia de um rotífero. A) Vista dorsal. B) Vista lateral. C) Corte transversal.
54
4.3 Filo Nematoda
(do grego: nema, fio; eidos, forma)
Os nematódeos fazem parte de uma das histórias de sucesso do reino animal. Mais de
15.000 espécies foram descritas, numa estimativa de 1 milhão de espécies viventes!
Numericamente falando, são os maiores representantes dos asquelmintos.
Os nematódeos de vida livre são encontrados no mar, água doce, solo. Aparecem
desde regiões polares até os trópicos em todos os tipos de ambientes, incluindo desertos. Os
nematódeos não parasitas são animais bentônicos vivendo em sedimentos e solos aquáticos,
sendo encontrados freqüentemente em altas densidades. Além das espécies de vida livre,
existem muitos representantes parasitas, exibindo vários graus de parasitismo e que atacam
virtualmente todos os grupos de animais e plantas.
O tamanho e forma dos nematódeos são adaptações importantes para se viver nos
espaços intersticiais. Eles possuem corpos delgados e alongados, com ambas as extremidades
gradualmente afiladas, na maioria das espécies. A maioria dos representantes de vida livre
tem menos de 2,5 cm de comprimento, sendo mais comuns indivíduos em torno de 1mm de
comprimento ou microscópicos.
Figura 32: A) Vista oral de um nemátodo generalizado, mostrando as estruturas sensoriais típicas.
B) Estereograma da extremidade anterior de um nemátodo generalizado.
O corpo desses vermes é perfeitamente cilíndrico, daí o nome Nematoda, e é
envolvido por uma cutícula (mais complexa que aquela dos demais asquelmintos) que
reveste também a faringe, o intestino posterior e outras aberturas corporais. A boca localiza-
se na extremidade anterior e é circundada por lábios e órgãos sensoriais de vários tipos
(figura 32A).
A camada muscular da parede corporal é composta completamente de fibras
longitudinais, que se localizam em quatro quadrantes entre cordões longitudinais. Cada fibra
muscular de um nematódeo, como as dos gastrótricos, possui um braço delgado que se
estende a partir da fibra para o cordão nervoso dorsal ou ventral longitudinal, onde ocorre a
inervação.
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A pseudocele (ou pseudoceloma) dos nematódeos é pequena e inexistente na maioria
das espécies de vida livre pequenas, mas pode ser volumosa nas formas grandes (tais como
em Ascaris) (figura 32B). Quando presente, a cavidade estende-se da musculatura até a
parede intestinal e circunda os órgãos reprodutivos. O fluido na cavidade é pressurizado e
funciona como um hidrostato.
Os nematódeos excretam resíduos nitrogenados na forma de íons de amônia que se
difundem pela parede corporal. A osmorregulação, a regulação iônica e talvez a excreção de
outros metabólitos residuais parecem associar-se a estruturas excretoras especializadas
exclusivas dos nematódeos, sejam células glandulares excretoras (renete), sistema de canais
excretores ou ambos. Alguns nematódeos porém não tem quaisquer órgãos excretores.
O sistema nervoso é inteiramente intra-epitelial, localizando-se dentro da epiderme,
da faringe e do intestino posterior. O cérebro é um anel nervoso circunfaringiano.
Não há sistema circulatório ou respiratório.
Sexos geralmente separados (maioria) ou hermafroditas.
NEMATÓDEOS PARASITAS DO HOMEM
a) Ascaris lumbricoides (Lineu, 1758)
Este parasita é encontrado em quase todos os países do globo, estimando-se que 30%
da população mundial estejam por ele parasitadas (NEVES, 91). Popularmente é conhecido
como lombriga e causa a doença denominada ascaridíase ou ascariose.
Em conseqüência de sua elevada prevalência e ação patogênica, especialmente em
infecções altas e crônicas em crianças, atribui-se a esse helminto uma das causas e
conseqüências do subdesenvolvimento de grande parte da população dos países do Terceiro
Mundo.
Morfologia:
O tamanho desse helminto é dependente do número de formas albergadas pelo
hospedeiro e estado nutricional deste. Assim as dimensões dadas a seguir se referem a
helmintos oriundos de crianças bem nutridas e com poucos vermes: fêmea de 30 a 40 cm e
macho de 20 a 30 cm de comprimento. O dimorfismo sexual é claro não só pelo tamanho
distinto, mas também pelo macho apresentar a extremidade posterior do corpo fortemente
encurvada para a face ventral, além de dois espículos que funcionam como órgãos acessórios
da cópula. Ambos (macho e fêmea) apresentam lábios fortes que podem prendê-los à
mucosa.
Habitat: intestino delgado do homem, principalmente jejuno e íleo. Podem ficar presos à
mucosa ou migrarem pela luz intestinal.
Ciclo biológico: monoxênico (um só hospedeiro durante o ciclo vital). A fêmea é capaz de
produzir 200 mil ovos/dia! Esses são expulsos para o meio junto com as fezes. Os ovos férteis
na presença de ambiente favorável (temperatura entre 25o C e 30o C, umidade mínima de
70% e oxigênio), tornar-se-ão embrionados em 15 dias. A primeira larva (rabditóide) forma-se
dentro do ovo, sofre mudas e permanece no ovo até que este seja ingerido pelo hospedeiro.
Após a ingestão, os ovos contendo as larvas (L3) atravessam todo o trato digestivo e vão
eclodir no intestino delgado. As larvas liberadas atravessam a parede intestinal na região do
ceco, caem nos vasos linfáticos e veias e invadem o fígado cerca de um dia após a infecção.
Dois a três dias depois, invadem o coração direito, migram para o pulmão, onde sofremnova
muda. Rompem os capilares e caem nos alvéolos, sofrendo nova muda. Chegam à faringe
pela árvore brônquica e traquéia, sendo expelidas pela boca ou deglutidas e estas últimas
então chegam incólumes ao estômago. Fixam-se ao intestino delgado transformando-se em
adulto (20 a 30 dias após a infecção). Em 60 dias atingem a maturidade sexual e começam a
56
liberar ovos junto às fezes do hospedeiro, fechando o ciclo (figura 33).
Nutrição: alimenta-se do quimo intestinal, com preferência por carboidratos, vitaminas A
e C.
Transmissão: ingestão de ovos infectantes junto com alimentos contaminados. Poeira e
insetos são capazes de veicular ovos.
Patologia e Sintomas: A intensidade das alterações provocadas é dependente do número
de larvas presente no hospedeiro. Infecções pequenas geralmente são assintomáticas. Em
infecções maciças, durante a migração da larva, pode ocorrer pneumonia, bronquite,
vômitos, etc., além de lesões hepáticas. Os vermes adultos, quando em número superior a 30
indivíduos, podem causar traumatismos na mucosa intestinal, oclusão intestinal,
hipoglicemia, ação tóxica (reação entre antígenos parasitários e anticorpos do hospedeiro).
Diagnóstico: laboratorial (exame de fezes).
Profilaxia: educação sanitária; saneamento básico; cuidado na ingestão de alimentos;
tratamento da população contaminada.
Tratamento: medicamento específico e cuidados na alimentação (dieta rica e de fácil
absorção).
Figura 33: Ciclo de vida de Ascaris lumbricoides.
b) Wuchereria bancrofti
Esse helminto apresenta-se com boca sem lábios, com a fêmea medindo em média 7 a
10 cm e o macho 3,5 cm comprimento. Parasitam o sistema sangüíneo e linfático do homem,
apresentando longevidade de 5 a 10 anos.
Macho e fêmea vivem juntos “enovelados” no sistema linfático humano, prejudicando
a circulação. As regiões do corpo que mais freqüentemente abrigam as formas adultas são:
abdominal, pélvica, mamas e braços.
O ovo embrionado (contendo uma larva “embainhada”) é chamado de microfilária e
movimenta-se ativamente na corrente sangüínea.
Vetor transmissor: Culex quinquefasciatus, Culex fatigans, Aedes (este último na Ásia).
Ciclo biológico: é do tipo heteroxênico (necessitas de mais de um hospedeiro para
completar seu ciclo vital). A fêmea do mosquito vetor, ao se alimentar do sangue de pessoas
parasitadas, ingere algumas microfilárias que, no estômago do mosquito, perdem a bainha.
Atravessam a parede do estômago do inseto, caindo em sua cavidade e daí migram para o
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tórax. Nesta etapa, encistam-se na musculatura do mosquito para transforma-se, desta vez,
numa larva salsichóide. Sofrem uma várias mudas, crescem e migram pelo inseto até
alcançar a probóscide (aparelho bucal picador). Quando o inseto se alimenta de sangue
novamente, as larvas saem do lábio e penetram ativamente pela pele sã ou lesada do homem
(note que elas não são inoculadas pelo mosquito!). Da pele chegam aos vasos linfáticos,
tornam-se adultas e um ano depois já estarão produzindo as primeiras microfilárias (figura
34).
Figura 34: Ciclo de vida de Wuchereria bancrofti.
A filariose: Nas filarioses, é importante distinguir os casos de infecção (presença da
microfilária) dos casos de doença, sendo que 95% dos portadores são assintomáticos,
funcionando como fonte de infecção. O aparecimento da doença pode ser devido a reação do
hospedeiro a um ou mais dos seguintes fatores: presença e permanência das microfilárias
mortas, dos vermes adultos e das formas infectantes e suas respectivas mudas. As lesões
podem ser devido à ação mecânica do parasita (obstrução) e/ou ação irritativa do parasita
(inflamações).
Transmissão: pela deposição das larvas no hospedeiro através do vetor. Nos casos
sintomáticos, determina patologias menos graves ou pode evoluir para elefantíase. Essa é
caracterizada por um processo de inflamação e fibrose crônica do órgão atingido, com
hipertrofia do tecido conjuntivo, dilatação dos vasos linfáticos e edema linfático. Há um
aumento exagerado do volume do órgão com queratinização e rugosidade da pele, dando a
aparência típica da elefantíase.
Profilaxia: tratamento dos casos positivos, combate ao inseto vetor.
Tratamento: uso de drogas anti-parasitárias; correção das alterações.
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c) Ancylostoma duodenale (Dubini, 1843) e Necator americanus (Stiles, 1092)
Esses helmintos são responsáveis pela ancilostomose, o popular amarelão. Há cerca de
900 milhões de pessoas infectadas no mundo. No Brasil, a ancilostomose é mais freqüente
por N. americanus e sempre foi motivo de muita preocupação, até mesmo por Monteiro
Lobato, quando em 1919, referindo-se aos 2/3 da população brasileira, mencionou: “17
milhões são caricaturas derreadas no físico e no moral pela ancilostomíase, a inteligência do
amarelado atrofia-se e a triste criatura vive em soturno urupê humano, incapaz de ação,
incapaz de vontade, incapaz de progresso; os escravos dos vermes…”
Esses helmintos são parasitas do intestino delgado do homem e, como muitos
nematódeos parasitas, apresentam um ciclo biológico direto, não necessitando de
hospedeiros intermediários. Há duas fases bem definidas: a 1a de vida livre e a 2a, que se
desenvolve no hospedeiro definitivo.
Ciclo de vida:
As fêmeas, após a cópula, depositam os ovos no intestino delgado do hospedeiro,
permitindo que sejam liberados juntamente com as fezes. No meio externo, se os ovos
encontrarem condições adequadas (temperatura e umidade altas, boa oxigenação), haverá o
desenvolvimento de uma larva que se libertará do ovo. Essa larva, que se alimenta de
matéria orgânica e microrganismos, sofre várias mudas até que se torne uma larva infectante.
A infecção por essa larva se dá por penetração ativa através da pele ou por ingestão da
larva. Se ocorrer a penetração através da pele, após cerca de 30 minutos as larvas atingem a
circulação sangüínea e/ou linfática migrando para o coração e pulmão. A partir dos
brônquios pulmonares atingem a traquéia, faringe, laringe, sendo ingeridas (deglutidas) para
alcançarem o intestino delgado, seu habitat final. Quando adultos, os vermes fixam-se na
mucosa intestinal por meio de “dentes” (placas cortantes), causando pequenas hemorragias,
e aí se reproduzem.
Se a ingestão é a forma de contágio, o ciclo se reduz à migração das larvas do estômago para
células da mucosa intestinal, onde sofrem as mudas necessárias e, então, retornam a luz do
intestino para fixação, término do desenvolvimento e posterior reprodução (figura 35).
Há muitos casos assintomáticos, sendo a patogenia da enfermidade diretamente
proporcional ao número de parasitas presentes no intestino. A ancilostomose pode causar:
perturbações gastrointestinais; depressão física (fraqueza, emagrecimento); hemorragias;
úlceras e, às vezes, pneumonia resultante da passagem das larvas (Necator americanus).
A confirmação do diagnóstico se dá pelo exame de fezes, pela presença de ovos. A
tratamento utiliza anti-helmínticos (vermífugos) de amplo espectro, capazes de matar
diferentes espécies de helmintos, que são então liberados nas fezes. O uso dos referidos
medicamentos deve ser praticado sob recomendação e orientação médica, pois os produtos
apresentam efeitos colaterais.
d) Larva migrans
Os animais domésticos possuem uma série de parasitas próprios, cujas larvas
infectantes só são capazes de completar o ciclo de vida quando alcançam seu hospedeiro
próprio. Se as larvas desses parasitas infectarem um hospedeiro que não o seu, normalmente
não serão capazes de evoluir nesse hospedeiro, podendo realizar migrações pelo tecido
subcutâneo ou visceral. Esse é o caso da síndrome conhecida como larva migrans (“Bicho-
geográfico”). Ocorre a infestação CUTÂNEA pela larva de Ancylostoma caninum ou
Ancylostoma braziliense. A larva vagueia o tecido subcutâneo na marcha de 2 a 5 cm/dia,
causando prurido, principalmente à noite, mas não atingem a maturidade sexual e acabam
59
morrendoapós semanas ou meses. As regiões do corpo mais freqüentemente atingidas são os
pés, pernas, nádegas e antebraços.
Se ingeridas pelo homem, as larvas atingem o intestino e podem migrar através das
vísceras, provocando a síndrome LMV (larva migrans visceral).
Figura 35: Ciclo biológico de Ancylostomatidae de humanos.
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Ovos de A. caninum e A.brasiliense são eliminados aos milhares, diariamente, por cães e
gatos contaminados. No meio exterior, sob condições ideais de umidade, temperatura e
oxigenação, ocorre o desenvolvimento das larvas, que se alimentam no solo e sofrem mudas
para tornarem-se infectantes. Cães e gatos podem infectar-se por voa oral, cutânea ou
transplacentária e somente nesses hospedeiros o ciclo de vida é completado.
e) Enterobius vermicularis
É um parasita monoxênico, comum em crianças de 5 a 15 anos. NA maioria dos casos
o parasitismo passa despercebido pelo paciente. Este só nota que alberga o verme quando
sente ligeiro prurido anal (à noite principalmente) ou quando vê o verme nas fezes. Em
infecções maiores, pode provocar inflamação no ceco e apêndice.
Tamanhos médios: fêmea com 1cm de comprimento por 0,04 mm de diâmetro e
machos com cerca de 5 mm de comprimento, por 2 mm de diâmetro. Ambos vivem no ceco e
apêndice, sendo que as fêmeas, repletas de ovos (5 a 16 mil ovos), são encontradas na região
perianal.
Figura 36: Ciclo do Enterobius vermicularis.
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Ciclo biológico: Após a cópula, os machos são eliminados junto com as fezes e
morrem. As fêmeas, cheias de ovos, se desprendem do ceco e dirigem-se para o ânus
(principalmente à noite). A maioria dos autores afirma que a fêmea não é capaz de fazer
postura de ovos; sendo esses eliminados pelo rompimento do corpo da fêmea. Os ovos
eliminados já embrionados, tornam-se infectantes em poucas horas e são ingeridos pelo
hospedeiro. Ao chegarem ao intestino delgado eclodem, pondo em liberdade a larva, que
sofre mudas no trajeto intestinal até o ceco. No ceco transformam-se em adultos e um a dois
meses depois as fêmeas são encontradas na região perianal. Se não houver reinfecção, o ciclo
termina aí (figura 36).
Transmissão: -ingestão de ovos junto aos alimentos ou poeira;
- auto-infecção, quando a criança (freqüentemente) ou o adulto, levam os
ovos da região perianal à boca;
- retroinfecção: os ovos eclodem na região perianal e as larvas penetram
pelo ânus e migram pelo intestino grosso chegando até o ceco, onde se transformam em
vermes adultos.
Profilaxia:
roupa de cama e de dormir, usada pelo hospedeiro, não deve ser sacudida, mas sim
enrolada e lavada em água fervente, diariamente;
tratamento de todas as pessoas da família parasitadas;
unhas cortadas rentes; higiene pessoal.
5 FILO MOLLUSCA (Moluscos)
5.1 Características gerais:
O filo Mollusca (do latim mollis = mole) constitui um dos grupos mais abundantes
dentre os invertebrados, sendo superados apenas pelos artrópodes. Foram descritas mais de
50.000 espécies vivas. Além disso, conhece-se cerca de 35.000 espécies fósseis, sendo as
conchas minerais dos animais um rico registro fóssil que data do período Cambriano.
Incluem-se nesse filo formas tais como mariscos, ostras, lulas, caramujos, polvos etc.
O grupo é considerado muito bem sucedido evolutivamente, apresentando uma
grande diversidade de formas que habitam os mais variados ambientes (mar, água doce e
terra). Portanto, à primeira vista, torna-se difícil uma homogeneidade morfológica entre seus
representantes. Contudo, o filo, de maneira geral, apresenta animais com corpo mole não
segmentado e muitas vezes protegido por uma concha calcária. Muitas espécies de moluscos
são utilizadas na alimentação humana, como as ostras, mariscos, mexilhões, lulas e polvos.
As características básicas dos representantes do filo podem ser resumidas em animais
de corpo mole, não segmentado, com simetria bilateral, triblásticos, celomados, trato
digestivo completo, sistema circulatório aberto, com presença de sistema respiratório,
excretor e nervoso.
Os moluscos de maneira geral apresentam o corpo constituído das seguintes partes:
cabeça, região onde se localizam a boca e os órgãos sensoriais (olhos e tentáculos), em
algumas formas, como polvo, esta região é bem desenvolvida e em outros, como os
mexilhões, é muito reduzida; pé ventral, órgão musculoso relacionado com a locomoção (que
pode ser por deslizamento, escavação e natação); massa visceral dorsal, área onde
encontram-se os órgãos de digestão, excreção e reprodução.
Recobrindo a massa visceral existe o manto (dobra carnosa da epiderme) que
geralmente é responsável pela formação da concha. Entre o corpo e o manto há um espaço
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denominado cavidade do manto ou cavidade palial. Nesse espaço, situam-se as brânquias.
Na cavidade abrem-se ainda os sistemas digestivo, excretor e reprodutor.
5.1.1 Revestimento e proteção
A epiderme é simples, rica em células mucosas e geralmente ciliada. Uma dobra
interna da pele forma o manto ou pálio. Este, além de recobrir a massa visceral, secreta a
concha, constituída de carbonato de cálcio (CaCO3) e uma substância orgânica (conchiolina).
Existem cromatóforos responsáveis pela mudança de cor do corpo.
Na maioria dos moluscos vivos, não só a cavidade do manto, mas também o restante
das partes corporais expostas (incluindo o pé), são revestidos por cílios e contém células
glandulares mucosas. As glândulas mucosas são especialmente evidentes no pé , onde
lubrificam o substrato facilitando, assim, a locomoção.
5.1.2 Sustentação e locomoção
O esqueleto é representado pela concha externa com uma só peça (univalve) ou com
duas peças articuladas (bivalve). As lulas apresentam um vestígio de concha, em forma de
pena, no interior do corpo, enquanto outros moluscos, como as lesmas, não apresentam
esqueleto. A locomoção geralmente é feita lentamente através do pé musculoso que pode ser
modificado para rastejar, cavar ou nadar. O polvo e a lula, além de rastejarem, utilizando-se
dos braços com ventosas, podem se locomover rapidamente emitindo jatos d’água pelo sifão
de propulsão.
5.1.3 Nutrição
O sistema digestivo é completo. Alguns animais (ostras e mexilhões) filtram nas
brânquias algas microscópicas, protozoários, bactérias e possuem, no interior do enorme ceco
intestinal, o estilete cristalino que secreta enzimas digestivas.
Os animais não filtradores (caracóis, lesmas, polvo, lula) são herbívoros e carnívoros.
Raspam o alimento (algas finas e outros organismos) que crescem sobre as rochas. A boca
anterior abre-se numa cavidade bucal revestida por cutícula, cujo piso é espessado por uma
massa cartilaginosa muscular e alongada, chamada odontóforo. Uma cinta membranosa com
fileiras transversais de dentes, a rádula, (fig. 37) estende-se sobre o odontóforo. Não só o
odontóforo pode se projetar para fora da boca, mas também a rádula pode se mover um
pouco acima do odontóforo. A rádula cresce lentamente para frente, sobre o odontóforo, para
substituir sua perda gradual, resultado do desgaste da raspagem.
Glândulas salivares (1 par pelo menos) abrem-se sobre a parede anterior da cavidade
bucal. Essas glândulas secretam muco, que lubrifica a rádula e envolve as partículas
alimentares ingeridas. O alimento nos cordões mucosos passa da cavidade bucal para o
esôfago tubular, do qual se move para o estômago. Nesse desembocam um par de glândulas
digestivas laterais (fígado). A digestão é realizada em parte intracelularmente e em parte na
cavidade gástrica. O longo intestino funciona na formação de pelotas fecais, que são
despejadas na cavidade do manto e carreadas pelas correntes exalantes.
5.1.4 Circulação
A cavidade celômica circunda o coração e parte do intestino. O coração dorsal é
envolto pelo pericárdio e apresenta 2 ou 3 câmaras (1 par de aurículas e 1 ventrículo). Nos
cefalópodes existem ainda os corações branquiais. Estes são vasos dilatados que bombeiam o
sangue para as brânquias edaí ao coração, que o distribui já oxigenado para os tecidos.
No sangue da maioria dos moluscos existe como pigmento respiratório a
hemocianina. A circulação em geral é aberta, sendo exceção os cefalópodes, nos quais o
sangue encontra-se completamente encerrado em vasos revestidos por um endotélio.
63
Figura 37: Ação raspadora da rádula em moluscos.
5.1.5 Respiração
A respiração pode ocorrer através das brânquias, pelos “pulmões” ou ainda pela
epiderme. As brânquias podem se apresentar em forma de lâminas (mexilhão e ostras) ou de
pena, recebendo o nome de ctenídeos (nos cefalópodes). Nas formas terrestres (caracóis e
lesmas) a cavidade do manto é intensamente vascularizada e funciona como um pulmão.
Portanto, a respiração nos moluscos pode ser branquial ou pulmonar.
5.1.6 Excreção
A excreção se dá por um ou dois pares de nefrídeos que também são chamados de
“rins”. Ocorre uma drenagem das excreções nitrogenadas do fluido celômico para a cavidade
do manto, estando portanto uma extremidade do nefrídio conectada ao celoma e outra
abrindo-se na cavidade do manto.
5.1.7 Sistema nervoso
É do tipo ganglionar com vários pares de gânglios: cerebróides, pediosos, pleurais e
viscerais, de onde partem nervos para todo o organismo.
Os cefalópodes possuem um “cérebro” formado pela fusão de vários gânglios; desse
cérebro partem algumas fibras nervosas gigantes, não encontradas em outros moluscos.
5.1.8 Órgãos dos Sentidos
Existem algumas estruturas e órgãos sensoriais, tais como: células sensíveis ao tato na
epiderme; estatocistos (equilíbrio); osfrádios (quimiorreceptores); olhos (fotorreceptores).
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O olho mais desenvolvido, com íris e cristalino, aparece nos cefalópodes, enquanto
nos demais moluscos o olho é rudimentar e aparece na extremidade dos tentáculos.
5.1.9 Reprodução
A maioria dos moluscos apresenta sexos separados e alguns são hermafroditas. Nas
formas terrestres, e em alguns cefalópodes, a fecundação é interna e o desenvolvimento é
direto. Nos demais, a fecundação é externa e o desenvolvimento é indireto através da larva
ciliada de vida livre denominada véliger (nos animais marinhos) ou de larvas conhecidas por
gloquídeos, que se fixam e se desenvolvem nas brânquias de certos peixes.
5.2 Classificação
O filo Mollusca compreende de 7 classes: Bivalvia, Gastropoda, Cephalopoda,
Polyplacophora, Scaphopoda, Monoplacophora e Aplacophora.
5.2.1 Classe Bivalvia (ou Pelecypoda)
A classe Bivalvia é representada, na sua maioria, por moluscos filtradores, tais como:
ostras, mexilhões, mariscos, etc. Habitam o ambiente aquático, tanto na água doce quanto na
salgada.
O corpo desses animais é lateralmente comprimido, possuindo uma concha com duas
valvas (bivalves, veja figura ao lado) recobrindo-o. O pé, localizado na região antero-ventral,
como o restante do corpo, também é lateralmente comprimido, sendo esta a origem do nome
pelecypoda, que significa “pé em forma de machado” (do grego pele, machado e podos, pé). A
cabeça é muito reduzida e a cavidade do manto é mais espaçosa dentre as demais classes de
moluscos.
As duas valvas são unidas por dois grandes músculos
dorsais, chamados adutores, que são responsáveis pela
abertura e fechamento da concha. Observando a superfície
interna dessas valvas (sem o corpo do animal), podemos
evidenciar as cicatrizes de inserção desses músculos adutores
(anterior e posterior), além dos locais onde se prendem os
músculos retratores (anterior e posterior), responsáveis pelo
recolhimento do pé, e o protrator que auxilia o estendimento do pé.
As brânquias localizam-se na cavidade palial, ocorrendo um par de cada lado e são
recobertas exteriormente pelo manto. Nesta classe, as brânquias são usualmente muito
grandes e laminares, tendo, na maioria das formas, assumido a função de coletar partículas
alimentares, além da função respiratória (trocas gasosas).
Na região posterior, o manto origina dois canais para a entrada e saída de água,
chamados, respectivamente, de sifão inalante e exalante. A corrente de água é criada por
batimentos ciliares que ocorrem na cavidade do manto. Nas brânquias existe um muco que
aglutina as partículas alimentares existentes na água. Estas partículas são então conduzidas
através dos cílios das brânquias até a boca do animal (figura 38a e 38b).
Analisando estruturalmente a concha dos bivalves (figura 39) a partir da superfície
externa para a interna, encontramos 3 camadas distintas, a saber:
1-perióstraco: reveste externamente a concha, é formado por materiais orgânicos;
2-camada prismática: localiza-se numa posição intermediária e constitui-se de prismas
calcários (CaCO3);
3-camada nacarada: é a camada mais interna constituída por material orgânico e calcário,
tendo leve iridescência.
Em algumas espécies de ostras pode ocorrer a formação de pérolas. Quando algum
65
corpo estranho, areia ou parasita se introduz entre o manto e a concha, inicia-se uma reação
de defesa, que consiste em secretar camadas concêntricas de nácar em torno com corpo
estranho. Portanto, a forma da pérola depende do corpo estranho e pode-se provocar
artificialmente este processo (cultivo de pérolas).
Figura 38a: Anatomia de um Bivalve.
66
Figura 38b: Bivalve de água doce, Anodonta. Concha e aspectos externos (a); Estrutura interna e secção
transversal.
5.2.2 Classe Gastropoda
A classe Gastropoda é a maior classe de moluscos, sendo representada pelos caracóis,
caramujos e lesmas. Compreende formas marinhas, de água doce e terrestres (fig. 40a e 40b).
A cabeça é bem desenvolvida, com dois pares de tentáculos sensoriais, um deles
provido de olhos nas extremidades. O pé é grande, musculoso e serve para locomoção,
enquanto que a massa visceral fica encerrada dentro da concha. Nas formas terrestres, junto à
abertura da concha há um orifício que comunica o meio externo com a cavidade do manto
denominado poro respiratório ou pneumostoma. Nestas espécies, o manto é muito
vascularizado e funciona como um verdadeiro “pulmão”. Podemos observar ainda o ânus e o
poro excretor.
A concha, quando presente (as lesmas não a possuem), é tipicamente uma espiral
cônica compostas de voltas tubulares que contém a massa visceral do animal. As voltas se
dão em torno de um eixo central denominado columela. A última volta termina numa
abertura, da qual projetam-se a cabeça e o pé do animal vivo.
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Figura 39: Secção transversal ampliada da concha e manto de um Bivalve de água doce.
5.2.3 Classe Cephalopoda
Os cefalópodes formam um grupo muito especializado dentro dos moluscos. A classe
é representada pelos polvos (fig. ao lado), lulas,
argonautas, náutilos, etc., todos marinhos. A maioria
apresenta adaptações para um modo de vida mais ativo,
são predadores e nadam com relativa rapidez (fig. 41a e
41b).
A concha é muito reduzida ou ausente, nas lulas e
sépias ela é interna e transparente, denominada “pena”.
Contudo, nos náutilos é externa, espiralada e dividida em
câmaras por septos. A primeira câmara contém o animal e
as outras apresentam um gás cuja quantidade regula a
flutuabilidade e, consequentemente, a profundidade do
animal.
A locomoção rápida neste grupo é feita por jato-propulsão (fig. 42), isto é, o animal
expele a água presente na cavidade do manto por contrações musculares através de um sifão
exalante, que junto com os tentáculos representam uma modificação do pé, impulsionando o
corpo do animal.
68
Figura 40a: Formas corporais em gastrópodes: (a) representam os diferentes grupos de
prosobrânquios, (b) heterobrânquios. Observar que a maioria se aproxima da forma em caracol ou
lesma. (c) algumas formas atípicas, associadas com modos de vida incomuns entre os gastrópodes.
Figura 40b: Caracol, Helix aspersa. (a) aspecto externo visto do lado direito, (b) estrutura interna visto
do lado esquerdo.
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Nos cefalópodes existem ainda outras especializaçõesrelacionadas com um modo de
vida ativo, tais como a capacidade de camuflagem graças à presença de cromatóforos (células
com pigmentos) na pele cuja concentração ou expansão origina uma mudança rápida da cor;
presença de uma glândula de tinta escura que, quando esguichada na água, dificulta a visão
dos predadores que estão perseguindo o animal.
Figura 41a: Formas corporais de cefalópodes coleóides aspecto externo.
Figura 41b: Cefalópodes nautilóides: (a) aspecto externo; (b) secção longitudinal diagramática. A
cabeça é grande, com olhos bem desenvolvidos, destacando-se a presença de tentáculos ou braços
com ventosas que o animal utiliza na captura de presas.
70
Figura 42: Representação esquemática da propulsão a jato.
5.2.4 Classe Amphineura ou Polyplacophora
A classe Amphineura ou Polyplacophora é considerada a mais primitiva entre os
moluscos. Nela encontram-se os quítons (fig. 43).
Embora algumas feições de sua estrutura e embriogenia sejam primitivos, os quítons
tornaram-se altamente adaptados à adesão
em rochas e conchas. O corpo é ovóide e
achatado no sentido dorsoventral, sob 8
placas transversais imbricadas, possuindo
uma cabeça muito reduzida e recoberto
lateralmente pelo manto (figura 43 e 44).
Estes animais vivem no ambiente
marinho, fixos sobre rochas, alimentando-se
de algas e microorganismos. As brânquias
estão na região ventral, entre o pé e o
manto.
Figura 43: Vista dorsal de alguns quítons, em seu
ambiente natural.
Figura 44: Aspecto diagramático da anatomia de um poliplacóforo generalizado, visto pelo lado
ventral com o pé, parede do corpo e intestino removidos.
71
5.2.5 Classe Scaphopoda
Os membros desta classe são moluscos marinhos cavadores, providos de uma concha
cilíndrica em forma de presa aberta nas extremidades (figura 45). Vivem enterrados com a
extremidade anterior (maior) voltada para baixo e a posterior (menor) próxima à superfície
do substrato. Através da extremidade anterior ou basal, saem estruturas relacionadas com a
obtenção de alimentos (captáculos) e o pé, que é utilizado para escavar a areia.
Figura 45: (a) modo de vida de um escafópode, (b) corte longitudinal de um escafópode.
5.2.6 Classe Monoplacophora
Figura 46: Aspecto de um monoplacóforo em vista (a) ventral e (b) lateral.
72
Todos os monoplacóforos são pequenos (3mm - 3cm), marinhos, dióicos, comedores
de sedimentos. Como o próprio nome diz, um monoplacóforo possui uma única concha
simétrica que pode variar de placa achatada a um formato de cone ou escudo, sob a qual
localiza-se o pé circular, fracamente musculoso e rodeado nas laterais e na região posterior,
por uma cavidade do manto extensa (figura 46).
Acredita-se que o molusco monoplacóforo tenha sido o ancestral dos caramujos,
bivalves, lulas e polvos. Comparada com a maioria dos moluscos vivos, a característica mais
notável é a repetição das partes. Por exemplo, o sulco palial contém 5 a 6 pares de brânquias,
enquanto internamente pode-se notar, geralmente, 8 pares de músculos retratores podais.
6 FILO ANNELIDA
6.1 Conceitos Gerais
O Filo Annelida (latim: annellus, um diminutivo de annulus, um anel) compreende os
vermes segmentados e inclui as conhecidas minhocas e sanguessugas, além de um grande
número de espécies marinhas e de água doce. Quanto ao tamanho, existem formas de 1 mm a
2 m de comprimento.
Uma característica distinguível do filo é a segmentação (metamerismo), que é a
divisão do corpo em partes ou segmentos (metâmeros), que se arranjam numa série linear ao
longo do eixo ântero-posterior. A segmentação encontrada nesse filo é externa e interna. Ao
longo da seqüência de metâmeros, há órgãos que se repetem, como nefrídios e gânglios
nervosos. A divisão do corpo é dada por septos transversais que separam o celoma em
cavidades, normalmente correspondentes aos segmentos externos.
Na maioria dos segmentos, externamente, há cerdas quitinosas filiformes (não
encontradas em Hirudinea - uma das Subclasses do filo). O corpo é revestido por uma
cutícula fina e úmida que recobre uma epiderme contendo células glandulares e sensoriais.
Junto à parede do corpo, internamente, existe um sistema muscular constituído por
músculos circulares e longitudinais que possibilita ampla movimentação. O fluido celômico
funciona como um esqueleto hidráulico contra o qual os músculos agem para alterar a forma
do corpo. A contração dos músculos longitudinais faz com que o fluido celômico exerça uma
força direcionada lateralmente e o corpo se amplie. A contração dos músculos circulares faz
com que o fluido celômico exerça uma força no sentido ântero-posterior, alongando o corpo.
As cerdas laterais quitinosas, pareadas em cada segmento, aumentam a tração com o
substrato.
Os anelídeos assemelham-se aos artrópodes, por terem o corpo segmentado e pela
formação da mesoderme a partir de células embrionárias especiais, e aos moluscos, pela
presença de uma larva trocófora.
6.2 Características
• Simetria bilateral, vermiformes.
• Corpo com espessura de mais de duas camadas de células, com tecidos e órgãos.
• Um intestino muscular com boca e ânus (completo).
• Corpo dividido em segmentos (a segmentação pode não estar visível externamente, mas é
sempre evidente no sistema nervoso).
• Um prostômio (lobo carnoso recobrindo a boca) pré-segmentar, contendo um gânglio
nervoso, e um pigídio (região posterior não segmentada).
73
• Cavidade do corpo com uma série de esquizocelos (formação de celoma no interior de
blocos de tecido mesodérmico por meio de cavitação), indistintos em espécimes com
ventosas anterior e posterior.
• Cavidade do corpo freqüentemente subdividida por septos transversais, mas quase
sempre suprimida ou obscurecida em alguns ou todos os segmentos.
• Epitélio externo coberto por uma cutícula e com cerdas epidérmicas em feixes ou únicas,
exceto em espécimes com ventosas anterior e posterior.
• Parede do corpo muscular, freqüentemente com camada muscular completa e quatro
blocos de músculos longitudinais.
• Sistema circulatório fechado.
• Sistema nervoso com gânglios supra-esofágicos pré-segmentares, anel circum-esofágico e
um cordão nervoso ventral com gânglios segmentares.
• Ductos segmentares de origem mesodérmica e ectodérmica, que podem estar
combinados, restritos a um ou poucos segmentos ou parcialmente suprimidos.
• Um grau variado de cefalização.
• Desenvolvimentos com clivagem espiral, mas com modificações desta e gastrulação
epibólica∗ formando ovos com muito vitelo.
• Desenvolvimento planctônico em formas marinhas, algumas vezes através de uma larva
trocófora de vida livre, mas este estágio é freqüentemente com ovos encapsulados.
6.3 Classificação
O Filo Annelida apresenta 3 grandes grupos: Oligochaeta (gr. Oligo = poucos + chaíte =
cerda), Polychaeta (gr. Polys = muito + chaíte = cerdas) e Hirudinea (Lt. Hirudo =
sanguessuga) ou Achaeta (sem cerdas) e dois grupos menores. Os Oligochaeta e os
Hirudinea pertencem à atual Classe Clitellata, mas muitos autores consideram-nos classes
distintas.
6.3.1 Classe Clitellata
a) Subclasse Oligochaeta (cerca de 3100 espécies)
Os oligoquetos são anelídeos terrestres e de água doce, existentes também no mar.
Ocorre um pequeno número de cerdas ao longo do corpo, derivando daí o nome da classe.
A minhoca é o oligoqueto mais conhecido. No Brasil encontramos a “minhoca louca”
(Pheretyna hawayana) que apresenta movimentos de contrações rápidas quando incomodada,
por isso recebeu este nome na linguagem popular. As figuras 47 e 48 apresentam a
morfologia externa e interna de uma minhoca (Lumbricus terrestris).
A respiração é cutânea, pois existe uma cutícula sempre úmida, secretada pela
epiderme, que facilita as trocas gasosas, feitas por difusão.
Não existe uma cabeça distinta e a boca encontra-se no primeiro segmento. Este é
recoberto por um lobo carnoso, o prostômio; o ânus situa-se no últimosegmento.
Há aproximadamente 150 segmentos (número muito variável dentro da classe). Em
espécies maduras encontramos o clitelo, uma dilatação glandular que recobre parcial ou
totalmente alguns segmentos formando uma espécie de faixa ao redor do corpo. Essa
estrutura secreta material para a formação dos casulos e também uma secreção viscosa, que
ajuda na fixação do casal durante a cópula. A posição do clitelo é variável, mas geralmente
localiza-se na metade anterior do verme e tem apenas alguns segmentos.
∗ [gastrulação epibólica = migração de células móveis sem vitelo sobre células com vitelo durante a gastrulação.]
74
Figura 47 : (a) A morfologia externa da minhoca Lumbricus terrestris observada em vista
ventral. (b) Secção transversal diagramática da minhoca Lumbricus terrestris.
Figura 48 - A anatomia interna dos segmentos anteriores da minhoca Lumbricus terrestris.
A maioria das espécies de oligoquetos alimentam-se de matéria orgânica morta,
especialmente vegetais. As minhocas nutrem-se de matéria em decomposição, na superfície,
e podem arrastar folhas para dentro da galeria.
O trato digestivo é reto e relativamente simples. A boca , situada abaixo do prostômio,
abre-se no interior de uma pequena cavidade bucal, que por sua vez se abre em uma faringe
espaçosa. A parede dorsal da câmara faringeana é muscular e glandular. Nas minhocas, a
faringe age como uma bomba de sucção, além de produzir uma secreção salivar contendo
muco e enzimas. A faringe abre-se num esôfago tubular estreito, que pode formar uma
moela (utilizada na moagem do alimento) ou um papo (para armezenamento).
Uma característica importante do intestino dos oligoquetas é a presença de glândulas
75
calcíferas em determinadas partes do esôfago. Essas glândulas secretam carbonato de cálcio
no interior do esôfago, na forma de calcita. Os cristais liberados são transportados ao longo
do intestino, mas não são reabsorvidos, sugerindo que essa seja uma forma alternativa de
eliminar CO2, proveniente da respiração em solos com elevados níveis desse composto.
Nesses, a difusão seria impedida por um gradiente de concentração desfavorável. Ainda,
sugere-se que as glândulas funcionem para a eliminação do excesso de cálcio coletado no
alimento.
Os oligoquetas movem-se por meio de contrações peristálticas, como descrito para os
anelídeos escavadores. A contração muscular circular e o conseqüente alongamento dos
segmentos são mais importantes no rastejamento e sempre geram um pulso de pressão e
fluido celômico. A contração muscular longitudinal é mais importante na escavação, na
dilatação do buraco ou na ancoragem dos segmentos contra a parede do buraco. As cerdas
estendem-se durante a contração muscular longitudinal e retraem-se durante a contração
circular.
O intestino forma o restante do trato digestivo e estende-se como um tubo reto através
de todo o corpo, menos seu quarto anterior. A metade anterior do intestino é seu principal
local de secreção e digestão, e a metade posterior é primariamente absortiva. As minhocas
secretam além das enzimas digestivas comuns, quitinases e celulases. A área superficial do
intestino encontra-se aumentada em muitas minhocas por meio de uma crista ou dobra,
chamada tiflossole.
As atividades das minhocas têm efeito benéfico ao solo. As extensas galerias
aumentam a drenagem e a aeração do solo; a manobras de escavação misturam e revolvem o
solo, fazendo com que materiais mais profundos sejam levados à superfície, do mesmo modo
que as substâncias orgânicas e suas fezes nutritivas sejam deslocadas para níveis inferiores.
b) Subclasse Hirudinea (ou Achaeta) (cerca de 500 espécies)
Os hirudíneos são anelídeos aquáticos (água doce ou marinhos), raramente terrestres e
são considerados os mais especializados dentro do filo. Não possuem cerdas e a maioria é
ectoparasita, alimentando-se de sangue e fluidos de diversos animais. A espécie mais
conhecida é a sanguessuga Hirudo medicinalis.
As sanguessugas são principalmente noturnas, mas
podem ser atraídas por alimento durante o dia. Locomovem-
se por movimentos sinuosos do corpo (como uma lagarta
mede-palmos) e usam as ventosas para fixação. Alguns
também locomovem-se por natação.
O corpo das sanguessugas é achatado
dorsoventralmente e freqüentemente afilado na parte
anterior. Há duas ventosas em suas extremidades. Uma
menor e anterior que circunda a boca e uma maior e
posterior em forma de disco na posição ventral (figura 49).
A segmentação externa não corresponde à interna
(figuras 49, 50 e 51). O número de segmentos é fixo em 34.
Contudo, a formação de segmentos secundários externos
oculta esta segmentação original.
Figura 49 - Anatomia externa da sanguessuga Hirudo. A anelação externa
é mostrada à esquerda e a segmentação verdadeira à direita.
76
Figura 50 - Uma secção transversal semidiagramática da sanguessuga Hirudo. O espaço celômico está
preenchido por um tecido semelhante a um parênquima.
Figura 51- A anatomia interna da sanguessuga , como demonstrada por dissecção pelo lado dorsal. O
intestino é mostrado deslocado.
A maioria das espécies é hermafrodita com fecundação cruzada, o desenvolvimento
direto e há presença de clitelo. A respiração, a exemplo dos oligoquetos, é cutânea.
As formas sugadoras de sangue de mamíferos como o gênero Hirudo, apresentam
especializações para tal tipo de alimentação. A boca, localizada na extremidade anterior (na
ventosa), possui 3 mandíbulas com dentes quitinosos para perfuração da pele.
Imediatamente atrás dos dentes há uma faringe muscular sugadora que é seguida por um
esôfago curto. Nessa região abrem-se glândulas salivares que secretam uma substância
77
anticoagulante chamada hirudina. O resto do aparelho digestivo se constitui de um palpo
com 11 pares de cecos laterais (divertículos). Estes armazenam o sangue que será digerido em
um estômago pequeno e globoso. O terço posterior do canal alimentar é formado por um
intestino simples ou com cecos laterais que se estende a um reto curto. Este se esvazia ao
exterior através de um ânus dorsal, localizado na frente da ventosa posterior.
Os hirudíneos podem sugar uma enorme quantidade de sangue. Algumas espécies
são capazes de ingerir 10 vezes o seu próprio peso. A digestão ocorre muito lentamente
fazendo com que estes animais tolerem grandes períodos de jejum. Há estudos comprovados
que sanguessugas medicinais permaneçam sem se alimentar por até 1 ano e meio.
Um fato curioso é que, desde tempo remotos, Hirudo medicinalis tem sido usada para
sangrias. Durante o início do século XIX essa foi uma técnica comum, embora errônea, de
tratamento médico.
6.3.2 Classe Polychaeta
A classe Polychaeta (cerca de 8000 espécies) é representada por animais marinhos, tais
como: Eunice, Neanthus (antigo gênero Nereis), etc. Estes diferem dos oligoquetos em muitos
aspectos. As figuras 52 e 53 demonstram as variações de formas de poliquetos.
Os poliquetos apresentam em cada segmento do corpo um par de apêndices laterais
carnosos, semelhantes a nadadeiras, chamados parapódios, com muitas cerdas implantadas.
Esses apêndices laterais servem para locomoção e também, em algumas espécies, para trocas
gasosas.
Figura 52 - A variação da forma entre os Polychaeta errantes; (i) e (ii) vista dorsal e ventral,
respectivamente, do animal. (a) Nereidae, (b) Glyceridae, (c) Eunicidae, (d) Phyllodocidae, (e)
Aphroditidae, (f) Tomopteridae, (g) Polynoidae.
Figura 53 - Exemplos da variação da forma do corpo entre poliquetos sedentários. (a) Cirratulidae, (b)
Capitellidae, (c) Arenicolidae, (d) Terebellidae, (e) Sabellidae, (f) Pectinariidae, (g) Serpulidae.
78
Na região anterior existe uma cabeça bem desenvolvida com um prostômio que
contêm olhos, antenas e um par de palpos. A boca situa-se no lado ventral, entre o prostômio
e a região pós-oral, chamada peristômio,que é o primeiro segmento verdadeiro. A região
não segmentada terminal (o pigídeo) traz o ânus. Porém poucos poliquetas exibem essa
estrutura típica. Os diferentes estilos de vida dos vermes dessa classe levaram a graus
variáveis de modificação no plano básico.
Esses anelídeos podem ser errantes (movimentos livres) ou sedentários (tubícolas). Os
errantes são vermes nadadores, carnívoros caçadores e portanto, apresentam adaptações para
este modo de vida. Os parapódios são bem desenvolvidos, ocorrem apêndices sensoriais. A
cabeça é comumente provida de palpos ou outras estruturas para auxiliar a alimentação.
A respiração encontrada na classe é geralmente branquial. Os sexos são geralmente
separados e o desenvolvimento é indireto com uma larva trocófora (figura 54). Existe
também a reprodução assexuada em algumas espécies (brotamento ou regeneração). os
poliquetas têm um alto poder de regeneração. Os tentáculos, palpos e até as cabeças
arrancadas por predadores são logo repostos.
A epitoquia é um fenômeno reprodutivo característico de muitos poliquetas e
especialmente bem conhecido em alguns. Trata-se da formação de um indivíduo reprodutivo
pelágico (epítoco) que é adaptado a deixar os
buracos, tubos e outras adaptações no fundo. Os
segmentos portadores de gametas do epítoco são
com freqüência os mais incrivelmente modificados e
corpo do verme parece dividir-se em duas regiões
acentuadamente diferentes.
Geralmente, os poliquetas epítocos nadam para a
superfície durante a eliminação de óvulos e
espermatozóides. esse comportamento sincronizado
(chamado enxameamento) congrega indivíduos
sexualmente maduros em um período relativamente
curto, aumentando a probabilidade de fertilização.
Figura 54 - Larva trocófora de um poliqueto.
6.4 Anatomia e Fisiologia Geral
Os aspectos fisiológicos dos anelídeos possuem variações dentro de suas classes,
refletindo os diferentes modos de vida, habitat, tipo de alimentação, etc. Aqui serão tratados
aspectos referentes apenas Subclasse Oligochaeta (minhoca).
Aparelho digestivo
O tubo digestivo é completo com regiões bem diferenciadas: boca, faringe muscular,
esôfago, papo, moela, intestino (figura 55).
Respiração
As troca gasosas se dão entre a epiderme e o meio (figura 47). As glândulas mantém a
epiderme úmida, facilitando a difusão do oxigênio. Este passa à corrente sangüínea e é
distribuído para todas as células do corpo. Geralmente há a presença de hemoglobina no
sangue que combina-se com o O2, transportando-o pelo corpo da minhoca.
79
Figura 55 - Esquema de uma minhoca do gênero Pheretyna, mostrando os sistemas digestivo,
circulatório e reprodutor.
Circulação
O sistema circulatório é fechado e consiste de dois grande vasos longitudinais, um
ventral e outro dorsal (figura 48). Esses vasos comunicam-se através de vasos laterais que
circundam o tubo digestivo. Na região anterior os vasos laterais têm a capacidade de
contração e bombeiam o sangue, sendo chamados, portanto, de “corações laterais” (estes têm
número variável).
Sistema Nervoso
É do tipo ganglionar (figura 48). Na região anterior do animal há dois gânglios
cerebrais (um supra-esofágico e um grande gânglio sub-esofágico), ligados por um anel
nervoso ao redor da faringe. Do gânglio sub-esofágico sai um cordão nervoso ventral que
apresenta um par de gânglios nervosos por metâmeros.
Reprodução
As minhocas são hermafroditas com fecundação cruzada, externa e desenvolvimento
direto.
Na cópula, dois animais sexualmente maduros unem suas superfícies ventrais, com
suas extremidades anteriores opostas (figura 56). Ocorre troca de espermatozóides. Cada um
dos indivíduos elimina seus espermatozóides nos receptáculos seminais do outro, onde ficam
armazenados. Após a cópula, os animais separam-se e formam, ao redor do clitelo, um casulo
gelatinoso onde os óvulos são colocados.
O casulo contendo os óvulos desloca-se para a região anterior do animal e passa pelos
poros dos receptáculos seminais. Nesse momento os espermatozóides aí armazenados são
liberados e fecundam os óvulos no interior do casulo. Esse continua deslizando, sai do corpo
do animal e, depois de certo tempo, os ovos originam minhocas jovens.
80
Figura 56 - O comportamento copulatório da minhoca Lumbricus terrestris. (a) Os animais deixam seus
refúgios e formam um casal numa camada de muco. Enquanto copulam, troca mútua de
espermatozóides ocorre, os espermatozóides sendo transferidos das vesículas seminais para as
espermatecas, como é mostrado pelas flechas. (b) Um ovo maduro é liberado do ducto genital
feminino e passa para trás até o clitelo. O casulo secretado pelo clitelo, ao redor de um pequeno
número de ovos, passa para a frente e os ovos são fertilizados, enquanto o casulo passa pela abertura
das espermatecas. (d) O casulo contendo os embriões em desenvolvimento é depositado no solo.
6.5 Importância para o homem
A maior importância dos anelídeos está relacionada com a agricultura, onde as
minhocas desempenham um papel relevante na preparação de solos, deixando-os férteis para
o plantio. Elas alteram profundamente as condições físicas do terreno onde vivem pois
cavam galerias aumentando a aeração, drenagem e retenção de água, além de
homogeneizarem o solo. Os restos digestivos das minhocas contêm substâncias que são
necessárias ao crescimento dos vegetais. Por esses motivos, alguns países com solo pouco
apropriado ao cultivo chegam a importar minhocas de outros países.
7 FILO ARTHROPODA
(gr. árthron = articulação + podos = pé)
Introdução
Constitui o maior grupo de organismos quanto ao número de espécies viventes, sendo
conhecidas cerca de 1.000.000 espécies. A enorme diversidade tem lhes permitido sobreviver
em praticamente todos os habitats. Este Filo inclui os caranguejos, camarões, cracas e outros
crustáceos, os insetos, as aranhas, escorpiões, carrapatos, as centopéias, os piolhos-de-cobra e
outros menos conhecidos, além de formas fósseis.
Estes animais tiveram origem a partir de um tronco primitivo de poliquetos, o que
pode ser evidenciado pela presença de metameria, pela mesma organização do sistema
nervoso e, primitivamente, pela presença de um par de apêndices por segmento, também
observado nos poliquetos (os parapódios).
Os artrópodes eram freqüentemente classificados em 3 subfilos: Trilobitas, Chelicerata
81
e Mandibulata, sendo esse último uma divisão artificial, que engloba dois novos subfilos:
Crustacea e Uniramia.
Os trilobitos são todos extintos e provavelmente representavam os artrópodes mais
primitivos. Eles não possuíam apêndices cefálicos especializados. Os quelicerados incluem as
aranhas-do-mar, os xifosuros e os aracnídeos (aranhas, escorpiões, carrapatos), a cabeça e o
tórax se fundem num cefalotórax, ao passo que nos mandibulados a cabeça e o tórax podem
ser separados. Há, também, claras diferenças nos apêndices. Os apêndices anteriores dos
crustáceos são dois pares de antenas, enquanto nos Uniramia há somente um par, seguidos
dos apêndices relacionados à alimentação (mandíbulas). Os quelicerados não têm antenas
nem mandíbulas, seu primeiro par de apêndices consiste de quelíceras, que geralmente têm a
forma de pinças ou de presas.
Características gerais
7.1 Exoesqueleto
Embora os artrópodes ainda guardem muitas características observadas nos anelídeos,
eles sofreram profundas modificações no curso de sua evolução. A mais notável é o
exoesqueleto quitinoso, que aparece cobrindo o corpo todo. O movimento só é possível
graças a divisão da cutícula em placas separadas. Basicamente a cutícula de cada segmento
está dividida em quatro placas primárias: um tergo dorsal, duas pleuras laterais e um
esterno ventral (figura 57). Esse padrão desapareceu em muitos casos, seja por fusão
secundária, seja por subdivisão.
O esqueleto cuticular dos apêndices, assim como do corpo, encontra-se dividido em
segmentos tubulares, unidos entre si por membranasarticulares, criando desse modo, uma
articulação em cada ponto de união. Assim, os movimentos dos segmentos dos apêndices e
do corpo são possíveis graças à essas articulações (dessa característica deriva o nome do Filo
Arthropoda: pés articulados). Em alguns artrópodes, o desenvolvimento adicional de
côndilos e alvéolos articulares lembra as estruturas esqueléticas dos vertebrados.
Figura 57: Corte transversal através do corpo de um artrópode mostrando as várias placas esqueléticas que
revestem o corpo e os apêndices articulados. O número de artículos distintos que constituem um apêndice varia
de grupo para grupo e em cada filo existe uma terminologia própria.
Houve também o desenvolvimento do que é chamado, às vezes, de endoesqueleto.
Este constitui-se de uma dobra, para dentro, da procutícula, que produz projeções internas,
ou apódemas, onde os músculos se inserem; ou podem envolver esclerotização do tecido
interno, formando placas livres para a fixação dos músculos dentro do corpo.
Nos artrópodes, o esqueleto é secretado pela camada subjacente de células epiteliais
tegumentares, conhecida como hipoderme. É composto por uma delgada epicutícula externa
82
e por uma procutícula muito mais espessa. A epicutícula é composta de proteínas e, em
muitos casos, de cera. A procutícula consta de uma exocutícula externa (curtida) e de uma
endocutícula interna, ambas compostas por quitina e proteínas ligadas para formar uma
glicoproteína complexa (figura 58). Nas articulações a exocutícula está ausente, assim como
ao longo das linhas pelas quais o esqueleto se abrirá durante a muda. Em muitos artrópodes,
a procutícula está também impregnada de sais minerais. É o que acontece nos crustáceos, nos
quais ocorre uma deposição de carbonato de cálcio e fosfato de cálcio na procutícula. Quando
o exoesqueleto não possui epicutícula cerosa e é delgado, constitui um revestimento bastante
permeável a água e gases. Geralmente a cutícula apresenta finos canais que servem para
passagem de secreções das células glandulares subjacentes.
A cutícula dos artrópodes não se restringe a superfície do corpo. Observa-se em partes
do intestino; tubos traqueais (respiratórios) dos insetos, quilópodos e diplópodos e alguns
aracnídeos; pulmões foliáceos dos escorpiões e aranhas; e partes do sistema reprodutor de
alguns grupos. Todos esses revestimentos cuticulares internos são também substituídos na
época da muda. A deposição de pigmentos de melanina castanha, amarela, alaranjada e
vermelha no interior da cutícula confere a cor resultante dos artrópodes na maioria das
vezes. Cores púrpura ou verde iridescente, entretanto, devem-se a finas estriações da
epicutícula que, ao refratarem a luz dão o aspecto colorido.
Figura 58: Corte através do exoesqueleto cuticular de um artrópode, mostrando as várias camadas e
uma projeção interna (apódema), com função esquelética.
Apesar das vantagens locomotoras e de suporte de um esqueleto externo, ele
apresenta alguns problemas ao animal em crescimento. Isso se resolveu com o
desprendimento periódico do esqueleto, processo chamado de muda ou ecdise, sendo o
esqueleto abandonado chamado de exúvia. Antes que o esqueleto velho seja desprendido, a
camada epidérmica (hipoderme) se desprende do esqueleto e secreta nova epicutícula. A
hipoderme secreta enzimas (quitinases e proteases) que passam através da nova epicutícula e
vão atacar a endocutícula velha.
83
As inserções musculares e as conexões nervosas não são afetadas. Após a digestão da
endocutícula, a epiderme secreta uma nova procutícula. Nesse instante o animal está alojado
dentro de dois esqueletos, um velho e outro novo. O velho se rompe, ao longo de linhas
predeterminadas, e o animal abandona o exoesqueleto antigo. O novo esqueleto,
imediatamente após a muda, é mole e maleável e isso permite que se adapte ao tamanho
aumentado do animal. Algum estiramento é produzido pela pressão (resultante do
crescimento dos tecidos durante a intermuda), mas é facilitado também pela absorção de
água pelo animal. O curtimento da proteína e o estiramento resultam no endurecimento da
cutícula. A superfície final da epicutícula é freqüentemente formada por uma camada de
cimento.
Os estágios entre as mudas são conhecidos como instars e a duração dos instars se
torna maior a medida que o animal envelhece. Alguns artrópodes, como as lagostas e a
maioria dos caranguejos, continuam sofrendo mudas durante toda a vida. Outros artrópodes,
tais como os insetos e as aranhas, têm um número mais ou menos fixo de instars, alcançando
o último com a maturidade sexual.
Apesar do animal ser maior e mais pesado após a ecdise, o crescimento é contínuo,
como na maioria dos animais. Proteínas e outros compostos orgânicos são sintetizados
durante o período de intermuda, repondo fluídos absorvidos após a ecdise.
A muda é um processo sob controle hormonal, mais especificamente pela ecdisona,
que é levada pela corrente sangüínea e atua diretamente nas células epidérmicas.
7.2 Movimento e musculatura
O movimento se restringe a flexão das placas ou cilindros da cutícula e há uma
mudança na natureza da musculatura corporal. Os músculos estão fixados à superfície
interna da procutícula por meio de fibrilas derivadas de células especializadas. A flexão e
extensão entre as placas são efetuadas pela contração destes músculos, que atuam junto com
a cutícula como uma alavanca. A extensão, total ou parcial, especialmente dos apêndices,
ocorre por aumento da pressão sangüínea.
O principal meio de locomoção utilizado pelos artrópodes são os apêndices
articulados, que atuam como nadadeiras nas espécies aquáticas ou como pernas nos grupos
terrestres.
7.3 Celoma e sistema circulatório
O celoma metamérico sofreu uma drástica redução nos artrópodes (quando
compararmos com os anelídeos) e é representado apenas pela cavidade das gônadas e, em
certos organismos, pelos órgãos excretores. Os demais espaços do corpo não constituem um
verdadeiro celoma, mas um hemocelo (espaços nos tecidos cheios de sangue).
O sistema vascular sangüíneo é aberto nos artrópodes com um coração dorsal que
varia de posição segundo a espécie. Uma vez no coração o sangue é bombeado aos tecidos do
corpo por meio de vasos, chamados freqüentemente de artérias, para esvaziar-se
coletivamente no hemocelo, banhando diretamente os tecidos. Depois o sangue retorna por
várias vias ao seio pericárdico.
O sangue contém várias formas de amebócitos e pode ter a hemocianina como
pigmento respiratório em alguns grupos ou, menos comumente, a hemoglobina.
7.4 Trato digestivo
O intestino possui grandes regiões diferenciadas, estomodeal e proctodeal. Os
derivados dessas porções ectodérmicas estão revestidos de quitina e constituem os intestinos
anterior e posterior. A região intermediária (derivada da endoderme) forma o intestino
médio. A parte anterior está principalmente relacionada à ingestão, trituração e
84
armazenamento do alimento; suas partes são modificadas para as funções segundo a dieta e
o modo de alimentação. A produção de enzimas se da no intestino médio, juntamente com a
digestão e absorção. Em alguns artrópodes há exceções, sendo que as enzimas passam para
frente e a digestão tem início no intestino anterior. Saliências na superfície do intestino para
aumentar a superfície são freqüentes. No intestino posterior ocorre a absorção de água e
formação de fezes.
7.5 Cérebro
Nos artrópodes ocorre um alto grau de cefalização, sendo o tamanho do cérebro
relacionado aos órgãos sensoriais bem desenvolvidos, tais como olhos e antenas. O cérebro
consiste de três regiões principais: um protocérebro anterior, onde penetram os nervos dos
olhos, um deutocérebro que recebe os nervos das antenas (primeiras antenas dos crustáceos)
e contém seus centros de associação e, a terceira região do cérebro, o tritocérebro que origina
os nervos que chegam ao labium (lábio inferior), trato digestivo, as quelícerasdos
quelicerados e as segundas antenas dos crustáceos. É interessante notar que a ausência de
antenas nos quelicerados (escorpiões, aranhas e ácaros) é acompanhada da ausência
correspondente do deutocérebro nesses animais (veja figura 59).
Figura 59: Cérebros de artrópode: A, Mandibulado; B, Quelicerado.
7.6 Órgãos sensoriais
Os receptores sensoriais dos artrópodes usualmente estão associados a algumas
modificações do exoesqueleto quitinoso, pois de outra forma ele agiria como uma barreira
para a detecção do estímulo externo. Um tipo bastante comum e não menos importante é o
receptor que está conectado com pêlos e cerdas. Eles podem estar localizados na base das
cerdas, os mecanorreceptores, ou podem ser terminações quimiorreceptoras. Outras
modificações comuns dos receptores são canais, fendas, cavidades ou outras aberturas no
exoesqueleto. Eles podem alojar quimiorreceptores ou a abertura pode estar coberta por uma
delgada membrana, em cujo lado inferior está fixada uma terminação nervosa. Esses órgãos
sensoriais detectam vibrações ou outras forças que alteram a tensão do esqueleto. Todos os
receptores descritos acima podem estar dispostos sobre a superfície do corpo ou estar
concentrados em articulações ou determinados apêndices, por exemplo antenas ou pernas.
Existem também propriorreceptores fixados à parte interna do tegumento ou a tendões e
músculos.
A maioria dos artrópodes tem olhos de estrutura variavelmente complexa. Há olhos
simples com apenas poucos receptores e outros grandes com milhares de células retinianas,
que podem formar uma imagem bruta. O que é geral na visão dos artrópodes é que o
esqueleto proporciona ao olho a córnea e o cristalino transparentes, sendo o foco sempre fixo
85
devido ao cristalino imóvel ser contínuo com o exoesqueleto circundante.
Insetos e numerosos crustáceos têm um tipo de olho chamado composto, porque é
formado por numerosas unidades cilíndricas e longas (omatídio) que possuem todos os
elementos para a recepção da luz.
7.7 Reprodução
Os artrópodes são dióicos, como poucas exceções; além disso muitos utilizam
apêndices modificados durante a cópula. A fecundação é sempre interna nas formas
terrestres, mas pode ser externa nas espécies aquáticas.
Classificação dos artrópodes
A) Subfilo Trilobita (fósseis)
B) Subfilo Chelicerata
Classe Arachnida - aranhas, ácaros, carrapatos, escorpiões, opiliões
Classe Merostomata
Classe Pycnogonida
C) Subfilo Crustacea - caranguejos, lagostas, camarões
D) Subfilo Uniramia
Classe Insecta (Hexápode) - insetos, vespas, formigas, abelhas, pulgas, etc.
Classe Diplopoda - piolhos-de-cobra
Classe Chilopoda - lacraias
Classe Symphyla
Classe Pauropoda
A) Subfilo Trilobita
São os artrópodes conhecidos mais antigos. Esses artrópodes marinhos primitivos,
muito abundantes durante o Paleozóico, tinham o corpo dividido por dois sulcos
longitudinais dorsais que corriam da parte anterior até a posterior, formando três lobos
distintos (o nome Trilobita refere-se a essa trilobulação da superfície dorsal do corpo). Eram
cobertos por uma casca dura e espessa, segmentada, que podia ser enrolada. O corpo
também era dividido em cabeça, tronco (tórax) e pigídio. Na cabeça distinta, havia um par de
antenas delicadas (antênulas), quatro pares de apêndices birremes e freqüentemente um par
de olhos compostos (figura 60).
B) Subfilo Chelicerata (gr. chele=garra + keros=corno)
Os membros deste grupo diferem na forma do corpo e natureza das suas
extremidades. São principalmente terrestres, pequenos de vida livre e a grande maioria é
mais numerosa em regiões quentes e secas do que em outros lugares. Muitos possuem
glândulas venenosas e mandíbulas ou ferrões venenosas, com os quais matam insetos e
outros animais pequenos, cujos líquidos e tecidos moles sugam como alimento.
Os animais pertencentes ao subfilo Chelicerata compõem uma das três linhagens
evolutivas dos artrópodes vivos. O corpo de um quelicerado é dividido em cefalotórax (ou
prossomo) e um abdome (ou epissomo). Nenhum quelicerado possui antenas, sendo o único
86
subfilo dos artrópodes no qual elas se encontram ausentes. O primeiro par de apêndices são
estruturas alimentares, chamadas quelíceras. O segundo par são os pedipalpos e encontram-
se modificados para realizar diferentes funções nas diversas classes. Os pedipalpos são
geralmente seguidos de 4 pares de pernas.
Existem 3 classes de quelicerados, sendo duas delas pequenas (Merostomata e
Pycnogonida) com espécies marinhas, mas a maioria dos quelicerados é terrestre e pertence à
classe Arachnida.
Figura 60: Subfilo Trilobita. Um trilobito do Ordoviciano (Triarthus becki).
Classe Merostomata
São quelicerados aquáticos, caracterizados por cinco ou seis pares de apêndices
abdominais modificados como brânquias e por um télson em forma de esporão na
extremidade do corpo. O grupo é dividido em duas classes: Eurypterida (extintos) e
Xiphosura, sendo a última representada pelos límulos (fig. 61.a).
Classe Pycnogonida (aranhas-do-mar)
Já foram descritas mais de 1000 espécies, todas incluídas numa única ordem. A classe
constitui-se de pequenos artrópodes bentônicos marinhos (menores que 6cm de
comprimento), sendo considerados por muitos zoólogos como não relacionados com os
demais quelicerados e, até mesmo, com outros artrópodes.
O primeiro apêndice (o quelíforo) é quelado de modo semelhante à quelícera, o
segundo (o palpo) pode ser homólogo ao pedipalpo. A maioria das espécies possui 4 pares
de pernas locomotoras. Entretanto, há aquelas com 5 ou 6 pares. As pernas são bem
desenvolvidas e podem ser longas (fig. 61.b).
87
O cefalotórax não tem carapaça e apresenta dois olhos simples. O abdome não é
segmentado e é desprovido de apêndices.
Não há órgãos excretores ou para trocas gasosas.
As gônadas são peculiares, pois se estendem pelo interior das pernas, assim como os
divertículos digestivos e os óvulos amadurecem nas pernas! Há pseudocópula.
Os adultos alimentam-se principalmente de esponjas, cnidários e briozoários.
Figura 61.a: Um merostomado em (a) vista dorsal e (b) vista ventral, semi-diagramática, mostrando
os vários apêndices.
Figura 61.b: Formas do corpo de alguns picnogônidos (Barnes, Calow & Olive, 95).
88
Classe Arachnida
Os aracnídeos (gr. arachne = aranha) incluem aranhas, escorpiões, pseudo-escorpiões,
carrapatos, ácaros e alguns outros grupos.
Provavelmente os primeiros aracnídeos eram aquáticos, mas, atualmente, os viventes
são terrestres. Esta migração de um ambiente aquático para o terrestre exigiu algumas
modificações fundamentais, como: aumento e impermeabilidade da cutícula, as brânquias
foliáceas modificaram-se em pulmões foliáceos e traquéias, desenvolvimento de apêndices
especializados à locomoção terrestre. Além disso, um grande número de modificações
surgiram ao longo da evolução deste grupo, como o desenvolvimento de glândulas
produtoras de seda por parte das aranhas, dos pseudo-escorpiões e de alguns ácaros, usadas
para construir ninhos, abrigos, casulos de ovos e outras finalidades e também glândulas
produtoras de veneno em escorpiões e aranhas.
Anatomia e fisiologia geral dos aracnídeos
Anatomia: Corpo dividido em:
Prossomo - não segmentado, coberto por carapaça sólida.
Abdome - segmentado, dividido em pré e pós-abdome. Na maioria dos aracnídeos,
essa divisão desapareceu em virtude da fusão dos segmentos (fig. 62).
Os apêndices têm origem no prossomo e constam de um par de quelíceras, um par de
pedipalpos e 4 pares de pernas.
Figura 62: Escorpião. A, estrutura interna; B, vista externa da região ventral.
89
Nutrição
A maioria dos aracnídeos é carnívora e a digestão ocorre parcialmente fora do corpo.
Enquanto a presa é morta pelas quelíceras e pedipalpos, enzimas secretadas pelo intestino
médio são lançadas nos tecidos dilacerados da presa. O caldo parcialmente digerido éingerido, passando pela boca, faringe, esôfago, intestino anterior, intestino médio com
divertículos laterais que se enchem com o caldo alimentar. Depois que o alimento chega ao
intestino médio, são lançadas enzimas digestivas para completar a digestão. Grande parte do
alimento é armazenado nas células dos divertículos. Em seguida os restos alimentares vão ao
intestino posterior, à câmara cloacal (depósito) e finalmente ao ânus.
Excreção
O produto excretado mais importante é a guanina. Os órgãos excretores são as
glândulas coxais e os túbulos de Malpighi. As glândulas coxais são sacos esféricos situados
ao longo do prossomo, que coletam detritos do sangue circundante e são lançados ao exterior
por poros que se abrem na coxa dos apêndices. Os túbulos de Malpighi consistem de 1 ou 2
pares de tubos delgados com origem na parte posterior do intestino médio, ramificando-se
anteriormente. Os detritos passam do sangue para os túbulos de Malpighi e deles para o
intestino (figura 75).
Sistema Nervoso
O cérebro é uma massa ganglionar anterior situada acima do esôfago. Contêm os
centros ópticos e os destinados às quelíceras. O restante do sistema nervoso consta de nervos
e gânglios localizados no abdome e tórax.
Os órgãos sensoriais são freqüentemente os pêlos sensoriais, olho e órgãos sensoriais
em fenda (detecção de vibrações sonoras).
Trocas Gasosas
Os aracnídeos possuem pulmões foliáceos, traquéias ou ambos. Os pulmões foliáceos
(figura 64) são menos derivados e provavelmente são uma modificação das brânquias
foliáceas, associadas à ocupação do ambiente terrestre. Estão localizados no ventre do
abdome. Os escorpiões têm até 4 pares, cada um ocupando um segmento distinto. Cada
pulmão é formado por lamelas e a difusão de gases ocorre entre o sangue circulante no
interior da lamela e o ar dos espaços interlamelares.
O sistema traqueal é análogo ao dos insetos, mas evoluiu independentemente. Parece
ser uma derivação dos pulmões foliáceos. As traquéias tendem a ser mais desenvolvidas nos
aracnídeos pequenos. São revestidas de quitina e terminam em pequenos túbulos cheios de
líquido que fornecem oxigênio diretamente aos tecidos. São mais eficazes que os pulmões
foliáceos, sendo que em alguns escorpiões e aranhas que possuem somente pulmões
foliáceos, existe também um pigmento, a hemocianina, que auxilia no transporte de gases.
Sistema Circulatório
O coração está no abdome, de onde sai a aorta anterior que irriga o prossomo, e a
aorta posterior que dirige-se à metade posterior do abdome. Pequenas artérias lançam o
sangue nos espaços tissulares e num grande seio venal que banha os pulmões foliáceos. Um
ou mais canais venosos levam o sangue do seio venal ou dos pulmões até o coração.
Reprodução
São dióicos, com fecundação interna e desenvolvimento direto nas aranhas e
escorpiões, e indireto nos carrapatos. O orifício genital está localizado no lado ventral do
segundo segmento abdominal. Pode ocorrer transmissão indireta de espermatozóides, via
90
espermatóforo. Freqüentemente há corte antes do acasalamento. A fêmea especialmente
responde a estímulos químicos, táteis ou visuais.
Figura 64:À esquerda, pulmão foliáceo de uma aranha (adaptado de Barnes, Calow & Olive, 1995).
Classificação
As principais ordens da Classe Aracnida são: Scorpiones, Pseudoescorpiones,
Opiliones, Araneae e Acarina, entre outras menos representativas.
Ordem Scorpiones
Inclui os escorpiões e são os mais antigos artrópodes terrestres conhecidos. Seu
registro fóssil data do Siluriano. São comuns em áreas tropicais e subtropicais.
São de hábitos noturnos e crípticos, carnívoros predadores, alimentando-se
principalmente de insetos.
O corpo está dividido em prossomo e abdome longo que termina em um aguilhão
pontiagudo. O prossomo é curto (figura 65) e tem 2 a 5 pares de pequenos olhos laterais.
As quelíceras são pequenas, enquanto que os pedipalpos são enormes e formam um
par de pinças destinadas à captura de presas. Cada perna termina em 2 pares de garras.
O abdome é dividido em pré, com 7 segmentos e pós, com 5 segmentos. Os opérculos
genitais estão logo após o esterno, no lado ventral, e consistem de 2 placas que cobrem a
abertura genital. Atrás destas estão os pentes sensoriais, que são responsáveis pelas
sensações táteis, provavelmente.
Do segundo ao quinto segmento do abdome, há um par de fendas transversais
(estigmas) que são as aberturas dos pulmões foliáceos.
Os segmentos do pós abdome parecem com estreitos anéis, sendo que o último
contém a abertura anal e também sustenta o télson e o aguilhão.
Há pouco dimorfismo sexual. A característica mais útil para a diferenciação é o
gancho presente nas placas operculares do macho.
91
Reprodução e história natural dos escorpiões
Os machos podem ter o abdome maior que as
fêmeas, mas a característica mais marcante para a distinção
dos sexos nos escorpiões é o gancho presente nas placas
operculares do macho (figura 65). Em cada sexo, o átrio
genital comum abre-se para o meio externo entre os
opérculos genitais no primeiro segmento abdominal.
Durante a estação de acasalamento, o macho
perambula até encontrar uma fêmea, com quem inicia uma
prolongada corte. Em algumas espécies, macho e fêmea
encaram-se, cada um erguendo seu abdome e elevando-o
para o ar, movimentando-se em círculos; em outras, o
macho agita-se.
O macho então prende a fêmea com seus pedipalpos
e andam para trás e para frente por 10 minutos ou até
mesmo horas (figura 66). O tempo dependerá de quanto
será necessário
para localizar um
local adequado
para depositar o
espermatóforo.
Finalmente, o
macho põe um
espermatóforo que
se prende ao solo.
Uma alavanca em
forma de asa que se estende do espermatóforo
permite que esse se abra no instante que a fêmea for
pressionada sobre ele pelo macho. A massa de
esperma é então transportada para o orifício genital
feminino.
Figura 65: O escorpião
Androctonus australis -
vista ventral.
Todos os escorpiões incubam seus ovos dentro
do trato reprodutivo feminino e parem jovens
desenvolvidos. O desenvolvimento leva de vários
meses a um ano ou mais, produzindo de 1 a 95
jovens medindo somente alguns milímetros ao
nascer.
Figura 66: A) diagrama de um
espermatóforo de escorpião. B-D)
transferência espermática nos escorpiões;
F) fêmea carregando jovens (adaptado de
Rupert & Barnes, 1996).
92
Ordem Pseudoescorpiones
Inclui os pseudo-escorpiões que vivem no folhiço, debaixo de cascas de árvores, em
musgos e em ninhos de alguns mamíferos. Atingem até 8 mm no máximo.
São muito parecidos com os escorpiões verdadeiros, mas lhes faltam o pós-abdome e o
aguilhão. Além disso, nenhum escorpião é tão pequeno quanto os pseudo-escorpiões.
Alimentam-se de pequenos artrópodes como colêmbolos (insetos) e ácaros.
Ordem Araneae
Incluem as aranhas e são descritas aproximadamente 32.000 espécies. Apresentam
várias especializações relacionadas ao seu hábito de vida: as teias; utilização de veneno; visão
relativamente bem desenvolvida; modificação dos pedipalpos no macho, para formar um
órgão copulador e seus diversos hábitos alimentares.
Variam de 0,5 mm a 9 cm de comprimento do corpo. A carapaça geralmente possui 4
pares de olhos. Cada quelícera possui uma parte basal (onde fica a glândula de veneno) e
uma terminal, onde fica o ferrão.
Os pedipalpos da fêmea são curtos e semelhantes à pernas, mas no macho, modificam-
se, formando os órgãos copuladores.
As pernas possuem geralmente 8 segmentos e terminam em 2 garras.
O abdome não é segmentado, embora a segmentação seja refletida no padrão de
coloração, e é ligado ao prossomo através de uma porção curta, chamada pedicelo. No lado
ventral há o sulco epigástrico e os estigmas (que são aberturas) dos pulmões foliáceos.
Na extremidade do abdome está um grupo de estruturas especializadas, produtoras
de seda, as fiandeiras, localizadas imediatamente à frentedo ânus. A maioria das aranhas
possui 6 fiandeiras (figura 67).
A seda das aranhas é uma proteína composta de glicina, alanina, serina e tirosina. É
liberada como líquido e o endurecimento resulta do próprio processo de estiramento, não da
exposição ao ar. A seda desempenha um papel importante na vida das aranhas,
principalmente referente à captura de alimento ou, ainda, como guia. As aranhas alimentam-
se de insetos e pequenos vertebrados. As caçadoras saltam sobre a presa, enquanto que nas
tecedoras, a obtenção de alimento é pela teia. As aranhas picam sua presa com as quelíceras,
que podem também macerar os tecidos durante a digestão.
A reprodução: na fêmea grávida, os ovários podem ocupar até 2/3 ou mais do
abdome. Associados à vagina e ao útero, existem dois receptáculos seminais e glândulas.
O sistema reprodutor masculino é relativamente simples. Há dois grandes testículos
ventrais ao longo de cada lado do abdome. O palpo no macho consiste de um reservatório
bulboso do qual se estende um ducto ejaculatório. Um glóbulo de sêmen é ejaculado sobre
uma pequena teia espermática, em seguida, os palpos são submergidos no glóbulo, até que o
sêmen esteja incluído em seus reservatórios. Com os palpos cheios, o macho procura uma
fêmea para acasalar, mas a corte não depende só disso. Estímulos químicos e táteis são muito
importantes para a cópula. Certas fêmeas (como as licosídeas) liberam feromônios como sinal
positivo para a corte.
Algum tempo após a cópula, a fêmea põe seus ovos (podem ser até 3000, dependendo
da espécie) sobre uma seda previamente tecida onde são fecundados, a medida que são
depositados na seda. Ao terminar, nova camada de seda é tecida e as bordas são seladas,
formando o que chamamos de ooteca. Os jovens eclodem dentro da ooteca e lá permanecem
até a primeira muda.
A longevidade média das aranhas é de 1 a 2 anos, mas há notícias de caranguejeiras
em cativeiro de até 25 anos de idade.
93
Figura 67: Estrutura interna de uma aranha, vista lateral.
Ordem Acarina
Os Acari são um agrupamento de aracnídeos enormemente diverso, que contém os
ácaros e carrapatos (figura 68). Um grande número de espécies é parasita do homem, animais
e plantações. São abundantes em folhas caídas, humo, solo, madeira podre e detritos. Os
ácaros também ocorrem em água doce e no mar. Antigamente eram agrupados numa única
ordem (Acarina), mas hoje são distribuídos em 7 novas ordens. Para simplificar nosso estudo,
trataremos seus representantes como se ainda fossem uma única ordem.
Apesar da abundância dos ácaros, sua taxonomia e biologia ainda não são tão bem
conhecidas como outras ordens de aracnídeos. Até hoje foram descritas cerca de 30 mil
espécies, mas muitos acreditam que esse número é apenas uma fração do total e que a
maioria das espécies de ácaros extinguir-se-á antes sequer de serem conhecidas, a medida
que as florestas tropicais e outros habitats desaparecem.
Morfologia externa:
A maioria das espécies adultas possui de 0,25 a 0,75mm de comprimento, embora
algumas espécies de carrapatos possam atingir 3 cm de comprimento. Seu grande sucesso
evolutivo está certamente correlacionado, pelo menos em parte, ao reduzido tamanho,
94
podendo com isso ocupar muitos tipos de micro-habitats não disponíveis para outros
aracnídeos. Podem viver, por exemplo, na traquéia de insetos, sob a asas de besouros, nos
folículos pilosos de vertebrados, etc..
Figura 68: Alguns ácaros representativos, todos ampliados (não na mesma escala).
A característica notável nesses artrópodes é a falta de divisão do corpo. A segmentação
abdominal desapareceu e o abdome fundiu-se ao prossomo. Desta forma, somente as
posições dos apêndices, olhos e orifício genital permitem diferenciar as regiões originais do
corpo. Coincidindo com esta fusão, o corpo tornou-se coberto de um só escudo (ou carapaça).
A estrutura das quelíceras e dos pedipalpos é variável e depende de sua função.
Os sexos são separados e a fecundação é interna, porém o desenvolvimento é indireto.
No estágio larval há 3 pares de pernas. O quarto par é adquirido após a muda, e a larva
transforma-se em uma protoninfa, depois em uma deutoninfa, uma tritoninfa e, finalmente
num adulto. Durante esses estágios, as estruturas dos adultos vão surgindo gradualmente.
C) Subfilo Crustacea (crusta = carapaça dura)
Cerca de 38.000 espécies descritas.
São animais predominantemente aquáticos, de água doce ou salgada. Vivem também
na areia das faixas litorâneas, como os caranguejos, e em terra úmida, como os tatuzinhos-de-
jardim. As cracas ficam presas às rochas, podendo suportar longos períodos de exposição ao
ar. Outros vivem enterradas na areia da praia (siris) ou na lama dos mangues (caranguejos).
Há também espécies parasitas e formas microscópicas que compõem o zooplâncton.
Deteremo-nos a estudar alguns grupos, como as Classes Copepoda e Malacostraca.
Anatomia e Fisiologia Geral dos Crustáceos
Anatomia
Cabeça uniforme e portadora de 5 pares de apêndices. O primeiro par são as
antênulas, o segundo as antenas. Flanqueando e cobrindo a boca ventral se encontra o
terceiro par: as mandíbulas. Geralmente, atrás das mandíbulas estão o quarto e quinto pares
de apêndices alimentares acessórios: a primeira e segunda maxilas. Em frente e por trás da
boca existem processos superior e inferior não móveis de desenvolvimento variável, ou labro
e lábio, respectivamente.
Na maioria dos crustáceos, os segmentos do tronco estão caracterizados por diferentes
graus de especialização, como redução ou fusão. Geralmente um tórax e um abdome estão
presentes, mas o número de segmentos é muito variável e apresentam um télson terminal
95
portador do ânus na sua base. Em muitos crustáceos comuns o tórax, ou os segmentos
anteriores do tronco, está coberto por uma carapaça dorsal. A carapaça origina-se geralmente
de uma dobra posterior da cabeça e pode estar fundida com um número variável de
segmentos localizados atrás dela. Em casos extremos a carapaça envolve completamente todo
o corpo como as valvas de um molusco bivalve.
Os apêndices dos segmentos que constituem o tórax servem principalmente à
locomoção e são, geralmente, em número de 5. Estes apêndices são tipicamente birremes,
cada um dos quais pode estar composto de um a muitos artículos. Há inúmeras variações do
plano básico.
Freqüentemente os crustáceos apresentam o tórax fundido à cabeça, formando o
cefalotórax. Os apêndices correspondentes aos apêndices torácicos são chamados de
pereópodes, enquanto aqueles correspondentes aos segmentos abdominais são ditos
pleópodes.
Tegumento
A cutícula dos crustáceos maiores é geralmente calcificada. Tanto a epicutícula como a
procutícula contém deposições de sais de cálcio e a camada externa da procutícula é também
pigmentada e contém proteínas tanificadas.
Locomoção
Alguns crustáceos têm existência epibentônica (que vive acima da superfície do fundo
aquático), filtadores. A propulsão para nadar é produzida pelo movimento semelhante a uma
hélice ou a um remo de certos apêndices, que geralmente estão providos de cerdas natatórias
que aumentam a superfície resistente à água.
A maioria dos crustáceos assumiu um hábito rastejador. Alguns dos apêndices se
tornaram mais pesados e se adaptaram para rastejar e cavar.
Nutrição
Apresentam grande variedade de dietas e mecanismos de alimentação. Geralmente
utilizam os apêndices anteriores para segurar, morder e levar o alimento à boca (há alguns
representantes filtradores).
A boca é ventral e o tubo digestivo é quase sempre reto. Da boca, o alimento vai ao
esôfago, que funciona como um triturador, cujas paredes são quitinosas, com dentículos e
ossículos. A seguir, o bolo alimentar vai para o intestino médio, onde sofre a ação de
inúmeras enzimas, secretadas pelo grande hepatopâncreas, e onde já começa a ocorrer a
absorção. Daí, vai para o intestino posterior e os restos não digeridos sãoeliminados pelo
ânus.
Sistema Circulatório
A forma do coração pode variar de um tubo longo até uma vesícula esférica.
Geralmente localizado na parte dorsal do tórax, mas, quando tubular, pode estender-se por
todo o tronco.
O coração recebe das brânquias o sangue arterial e o bombeia para a hemocele, que o
distribui para as brânquias.
Sistema Respiratório
As brânquias são órgãos responsáveis pelas trocas gasosas e estão associadas aos
apêndices, responsáveis pela formação da corrente de água. O oxigênio é transportado em
solução simples, no sangue, ou ligado à hemocianina (a hemoglobina também pode ser
encontrada).
96
Excreção e Osmorregulação
Os órgãos excretores são um par de sacos terminais e túbulos excretores localizados na
cabeça e que se abrem nas bases do segundo par de antenas (glândulas antenais) ou no
segundo par de maxilas (glândulas maxilares). A amônia é o principal produto de excreção
nitrogenado.
Para a maioria dos crustáceos, as brânquias são os principais locais para a excreção da
amônia. Portanto, na maioria dos crustáceos, as glândulas antenais e maxilares devem
funcionar na regulação de outros metabólitos e íons e no controle do volume interno de
fluidos.
Sistemas Nervoso e Órgãos Sensoriais
Ocorre uma tendência geral à concentração e fusão dos gânglios na região ventral.
Os órgãos sensoriais dos crustáceos incluem 2 tipos de olhos; um par de olhos
compostos e um olho náuplio pequeno (característico da larva dos crustáceos), mediano e
dorsal, composto de 3 ou 4 ocelos situados bem próximos. Os olhos compostos estão
localizados a cada lado da cabeça e bem separados. Os olhos podem estar na extremidade de
um pedúnculo geralmente móvel ou podem ser sésseis (fixos).
Há órgãos de equilíbrio, os estatocistos, na base das antênulas ou na base do abdome,
e órgãos táteis e olfáticos, especialmente na região bucal e nas antenas.
Reprodução
Os crustáceos são dióicos na maioria, com cópula, incubação de ovos e
desenvolvimento indireto. A larva náuplio é o primeiro estágio de eclosão. Com apenas 3
pares de apêndices. Entretanto, a maioria das cracas é hermafrodita, com fecundação interna
e cruzada.
As gônadas são órgãos pares tipicamente alongados, que se encontram na porção
dorsal do tórax ou do abdome. Os oviductos e os ductos espermáticos são geralmente
túbulos pares simples que se abrem na base de um par de apêndices do tronco ou em um
esternito (uma placa do esterno).
A copulação constitui a regra geral nos crustáceos. O macho dispõe de uma série de
apêndices modificados para segurar a fêmea. Em muitos crustáceos, os espermatozóides não
possuem flagelo e são imóveis, e em alguns são transmitidos em espermatóforos (“bolsas” de
espermatozóides). Nas fêmeas existe, às vezes, um receptáculo seminal e em alguns grupos o
ducto espermático se abre na extremidade de um pênis, ou pode ocorrer também que alguns
apêndices se modifiquem para a transmissão de espermatozóides.
A maioria dos crustáceos incuba seus ovos durante períodos de duração variável. Os
ovos podem ser fixados a certos apêndices, podem estar contidos dentro de uma câmara
incubadora localizada em várias partes do corpo, ou podem ser retidos no interior de um
saco formado quando os ovos são expelidos.
Os ovos dos crustáceos superiores são centrolécitos e a clivagem é superficial; nos
grupos inferiores os ovos são pequenos e é comum a clivagem holoblástica.
Uma larva planctônica livre-natante é característica da maior parte das espécies
marinhas e de água doce. O tipo básico e mais primitivo da larva é conhecido como náuplio.
Existem somente três pares de apêndices: as primeiras antenas, as segundas antenas e as
mandíbulas. Não é evidente a segmentação do tronco, podendo-se observar a presença, na
parte anterior da cabeça, de um olho mediano único ou olho de náuplio.
No curso de mudas sucessivas, o animal vai adquirindo gradualmente segmentos do
tronco e apêndices adicionais. Quando os primeiros oito pares dos apêndices do tronco se
libertam da carapaça, a larva dos malacóstracos superiores recebe o nome de zoea.
97
Classe Copepoda
Estão descritas mais de 7500 espécies. A maioria é marinha, mas também existem
espécies parasitas de peixes ou de água doce. O número de copépodos marinhos é muito
grande e, uma vez que a maioria das espécies é planctônica se alimenta de fitoplâncton, eles
constituem o elo principal entre o fitoplâncton e os níveis tróficos superiores, na maioria das
cadeias alimentares marinhas.
Suas dimensões variam de 1 mm a 32 cm de comprimento. A maioria é transparente.
O tronco possui 10 segmentos e consiste de um cefalotórax e abdome (figura 69).
Figura 69: Copépodo ciclopóide, Macrocyclops albidus (vista dorsal, ampliado).
Classe Malacostraca
Esta subclasse contém quase ¾ de todas as espécies de crustáceos (22.651 espécies) e
inclui formas maiores como caranguejos, lagostas, camarões e tatuzinhos-de-jardim.
O tronco é composto de 14 segmentos e um télson, dos quais, os 8 primeiros formam o
tórax e os 6 últimos, o abdome. Todos os segmentos têm apêndices. Geralmente um ou mais
apêndices torácicos voltam-se para frente e funcionam para manipular alimentos, os outros
são utilizados para rastejar. Os apêndices abdominais são chamados de pleópodos e
urópodos (terminais) (fig. 70). As primeiras antenas são birremes. A mandíbula possui um
palpo e a superfície trituradora da mandíbula é dividida em processo molar para mastigação
e processo incisivo para cortar (figura 72).
A maioria dos malacóstracos tem o intestino anterior modificado em estômago de 2
câmaras, que possui dentes trituradores e cerdas filtradoras. Dentro do estômago, o alimento
é mastigado e inicia-se a digestão. Os produtos desta ação são filtrados e passados aos
divertículos do intestino médio, chamados hepatopâncreas (figura 71).
São dióicos, geralmente com reprodução sexuada, fecundação interna e
desenvolvimento indireto.
As duas ordens mais importantes são: Decapoda e Isopoda.
Ordem Decapoda
Essa é a maior ordem dos crustáceos (cerca de 10.000 espécies descritas), sendo
representada pelas lagostas (fig. 72), caranguejos, siris (fig. 73), caranguejos-eremita, lagostins
98
e camarões.
Os decápodos são distinguidos por seus primeiros três pares de apêndices torácicos
serem modificados em maxilípedes. Os cinco pares de apêndices torácicos restantes são
pernas, de onde o nome Decapoda deriva. O primeiro par, ou algumas vezes o segundo,
encontra-se freqüentemente mais aumentado e com garras, chamando-se quelípode.
Figura 70: Um malacóstraco generalizado. A, vista lateral do corpo. B, um apêndice torácico.
Figura 71: Corte longitudinal de uma lagosta, estrutura interna.
99
Figura 72: Anatomia externa de uma lagosta.
A maioria dos decápodos é marinha e possui hábitos saprofágicos, mas existem
espécies filtradoras, comedoras de detritos e herbívoras, inclusive de água doce. Quase todos
os decápodos possuem um equilíbrio osmótico dos fluidos corporais com o ambiente
aquático, embora muitas espécies tenham invadido a água doce e a terra. As brânquias são o
principal local para a excreção de amônia,
e, nas espécies de água doce, são um importante local de absorção de íons para equilibrar
100
perda através da urina.
Todos os decápodos terrestres são cavadores e noturnos, mas precisam voltar à água
para a reprodução.
Figura 73: Estrutura externa do siri nadador Callinectes. As pernas posteriores agem como hidrofólios
durante a natação. A, vista frontal; B, vista ventral; C, abdome de uma fêmea (note que os pleópodos
são usados para transportar ovos) e D, abdome de um macho. Observe que o abdome do macho é
muito mais estreito que o da fêmea. No macho estão presentes apenas dois pares anteriores de
pleópodos, que são usados como órgãos copulatórios.
101
Ordem Isopoda
São os tatuzinhos-de-jardim e as baratas de praia.
A maioria émarinha, mas existem espécies que vivem na água doce e terra, inclusive
em desertos.
Os terrestres são noturnos e se ocultam, vivendo debaixo de pedras, madeiras, no
folhiço ou solo. Continuam a usar as brânquias como locais de trocas gasosas e não possuem
a cutícula cerosa dos aracnídeos e insetos. Apresentam, contudo, grande tolerância às
condições de dessecação, com adaptações para reduzir a perda de água, por exemplo, a
capacidade de enrolar-se.
D) Subfilo Uniramia
4.1 Classe Insecta (Hexapoda)
Os insetos constituem a classe de maior diversidade (mais de 750.000 espécies) e
biomassa entre os seres vivos. A organização desses animais segue basicamente um mesmo
padrão estrutural, variando alguns caracteres como tipo de asa, metamorfose e peças bucais.
O corpo está dividido em 3 regiões: cabeça, tórax e abdome. Na cabeça estão os órgãos
sensoriais, 1 par de antenas e 1 par de olhos compostos. No tórax há a inserção das asas
(geralmente 2 pares) e os 3 pares de pernas (daí o nome “hexapoda” = seis pés). O abdome é
geralmente de forma fusiforme ou ovóide, segmentado, sem apêndices locomotores e o
principal responsável pela respiração e reprodução, por conter as vísceras e os órgãos
reprodutores. Os apêndices genitais encontrados no abdome são o ovopositor (nas fêmeas) e
clásper e pênis (nos machos), (figura 74). As trocas gasosas se dão através do sistema
traqueal. A reprodução é sexuada, com fecundação interna. Pode ocorrer partenogênese em
abelhas e pulgões.
Figura 74: Diagrama do corte longitudinal através de um Uniramia generalizado (Hexápodo).
O sucesso dos insetos é evidenciado pelo grande número de espécies e indivíduos e
pela enorme radiação adaptativa (dispersão). Embora essencialmente terrestres, os insetos
também invadiram os habitats aquáticos e só se encontram ausentes nas águas marinhas
sublitorâneas. Esse sucesso pode ser atribuído a vários fatores, mas certamente a evolução do
vôo concedeu a esses animais uma distinta vantagem sobre os demais invertebrados
terrestres. Outras características significativas para esse sucesso dos insetos poderiam ser
102
resumidas em: presença de uma epicutícula cerosa, reduzindo a dessecação; uma casca de
ovo resistente, permitindo que esses fiquem expostos a condições extremas; desenvolvimento
com fase larval, permitindo que o inseto utilize diferentes recurso ao longo do seu ciclo vital.
Quanto ao desenvolvimento, este pode ser:
* DIRETO: nos ametábolos (sem metamorfose) - Ovo → adulto
* INDIRETO: nos metábolos (com metamorfose)
- Hemimetábolos: metamorfose incompleta - Ovo→ninfa→adulto
- Holometábolos: metamorfose completa - Ovo→larva→pupa→adulto
Classificação (segundo STORER, 1991)
Classe Insecta (Hexapoda)
Subclasse Apterygota (sem asas) - Ametábolos
Ordem Protura: Proturos
Ordem Thysanura: traças-de-livros
Ordem Collembola: colêmbolos
Subclasse Pterygota (com asas, ao menos, primitivamente)
Hemimetábolos:
Ordem Ephemeroptera: efemérides
Ordem Odonata: libélulas
Ordem Blattaria: baratas
Ordem Mantodea: louva-a-Deus
Ordem Ensifera: grilo
Ordem Phasmatodea: bicho-pau
Ordem Caelifera: gafanhoto
Ordem Isoptera: cupins
Ordem Plecoptera: plecópteros
Ordem Dermaptera: tesourinhas
Ordem Mallophaga: piolhos mastigadores
Ordem Anoplura: piolhos sugadores
Ordem Thysanoptera: tisanopteros
Ordem Hemiptera: percevejos, barbeiros
Ordem Homoptera: cigarra, pulgões
Holometábolos
Ordem Neuroptera: formigas-leão
Ordem Coleoptera: besouros
Ordem Mecoptera: mecópteros
Ordem Lepidoptera: borboletas
Ordem Diptera: moscas, pernilongos
Ordem Siphonaptera: pulgas, bichos-de-pé
Ordem Hymenoptera: formigas, vespas, abelhas
Ordem Strepsiptera: vivem em colméias, parasitando-as.
103
A Subclasse Apterygota
Reconhecem-se 5 grupos de insetos primitivamente ápteros, cada um dos quais deve
ter divergido dos demais numa fase bem inicial da história evolutiva dos insetos (se não
tiverem origens diferentes), cada um constituindo uma ordem (ou Classe para alguns
autores). Todos as ordens dos Apterygota são pequenas, sendo mais conveniente discuti-las
em conjunto. Os representantes desse grupo têm peças bucais parcialmente enceradas no
interior da cápsula cefálica e compartilham entre si (e com os miriápodos) uma série de
outras características que não aparecem nos demais insetos. Entre as características
presumivelmente ancestrais que esses hexápodas retiveram, estão: mandíbulas com uma
única articulação com a cabeça; hipofaringe trilobada (uma estrutura semelhante a uma
língua, associada com as glândulas salivares); artículos das antenas providos de musculatura
própria; apêndices abdominais, entre outras. Todos são pequenos (comprimentos menores
que 7mm, em média) e não apresentam túbulos de Malpighi, eliminando resíduos
nitrogenados através do epitélio do intestino médio. Em muitos não ocorrem traquéias, olhos
ou ocelos. Os representantes mais familiares dos apterigotos talvez sejam as traças-de-livro
A Subclasse Pterygota
Compreendem 29 ordens dos insetos alados, incluindo formas secundariamente
ápteras e constitui 98% das espécies atuais do subfilo Uniramia.
Os Pterygota são identificados pela presença das asas, mas o desenvolvimento delas
só se tornou possível após a liberação dos hábitos de vida confinados a ambientes úmidos.
As características em conjunto que restringiram a perda d’água nos Pterygota podem ser
resumidas em: aquisição da cutícula e traquéias; músculos que controlam a
abertura/fechamento dos espiráculos; mecanismo de reabsorção de água no intestino, que
pode ser de várias formas.
Características gerais dos insetos
1. Revestimento e proteção
A epiderme é simples e apresenta além da cutícula, uma fina camada de cera para
impedir a desidratação.
2. Sustentação e locomoção
O exoesqueleto é de quitina, ocorrendo trocas periódicas (chamadas ecdise) para o
crescimento do organismo. O exoesqueleto velho é chamado de muda ou exúvia.
Possuem três pares de pernas para a locomoção em terra e em geral, um ou dois pares
de asas para voar. As asas, ausentes na traça (fig. 75) , são de vários tipos. Podem ser:
- Membranosas: flexíveis, delgadas e transparentes. Nas borboletas e mariposas, a
transparência desaparece devido ao grande número de escamas coloridas. São encontradas
nas moscas (fig. 76), abelhas (fig. 77), cigarras (fig. 78), etc .
- Pergamináceas: são menos flexíveis, delgadas e transparentes que as membranosas. Recebem
essa denominação por assemelharem-se a papel. São encontradas nos gafanhotos, baratas,
grilos e outros, que apresentam ainda um segundo par de asas membranosas (fig. 79).
- Élitros: são espessas, duras e totalmente opacas. Têm função protetora. Abaixo das asas
élitros existe ainda um par membranoso para o vôo. São encontradas principalmente nos
besouros (fig. 80).
- Hemiélitros: a metade anterior é dura e resistente como os élitros, e a metade posterior é
flexível como a membranosa. Correspondem ao primeiro par de asas dos percevejos e da
barata d’água, cujo segundo par é membranoso (fig. 81).
104
Figura 75: A, Representantes da ordem Protura, Acerentulus barberi de 1,0 mm de comprimento; B,
Ordem Collembola (2mm de comprimento); C, Ordem Diplura, Japyx (até 25 mm); D, Ordem
Thysanura, a traça de livros, Lepisma, com 10mm de comprimento; E, Ordem Thysanura (até 20mm),
mostrando o ciclo vital (ovo→jovem→adulto, sem metamorfose).
Figura 76: Ordem Diptera. Mosca e mosquitos. A, Tipula (10-25 mm de comprimento). B, Mosquito-
palha, Phebotomus (1,5 mm). C, Borrachudo, Simulium (2 mm). D, Tendipes (3-10 mm). E, Mosca
predadora, Erax (25 mm). F, Melophagus ovinus (6 mm). G, Phytophaga destructor (2,5 mm). H, Syrphus
(10 mm). I, Tachina (8 mm). J, Mutuca, Tabanus (25 mm). K, Tsé-tsé, Glossina (13 mm). L. Hypoderma
bovis (12 mm). M, Bombylius (10 mm). N, Sarcophaga (7 mm).
105
Figura 77: Ordem Hymenoptera. A, Urocerus ou Sirex (30 mm).B, Endelomyia (15 mm). C, Megarhyssa
(até 38 mm). D, Aphytis (0,8 mm). E, Rhodites (3 mm). F, Blastophaga psenes (2,5 mm). G, Sphaerophtalma
(12 mm). H, Parnopes (6 a 12 mm). I, Pepsis (20 a 40 mm). J, Vespula maculata (12 a 19 mm). K, Sphecius
(12 a 20 mm). L, Andrena (6 a 18 mm). M, Megachile (12 mm). N, Xylocopa (12 a 20 mm). O,
Mamangaba, Bombus (10 a 20 mm).
Figura 78: Ordem Homoptera. A, Cigarra periódica, Magicicada septendecim (25 mm de comp.). B,
Aphrophora (10 mm). C, Empoasca (3.5 mm). D, Platycotis (10 mm). E, Scolops (6 mm). F, Paratrioza (1,4
mm). G, Mosquinha branca, Dialeurodes (2 mm). H-I, Aspidiotus perniciosus: H, escamas em cortiça de
árvore; I, Fêmea (1 mm) e macho alado.
106
Figura 79: Ordem Orthoptera. A, Bicho-pau, Anisomorpha (75-100 mm comp.). B, Louva-a-deus,
Paratenodera (70 mm). C, Barata americana, Periplaneta americana (45 mm). D, Esperança, Microcentrum
(70 mm). E, Grilo, Gryllus (30 mm). F, Grilo arborícola, Oecanthus (19 mm). G, Gryloblatta (25 mm).
Figura 80: Ordem Coleoptera. Besouros. Não na mesma escala. A, Cicindela (14-16 mm comp.). B,
Pterostichus (8-17 mm). C, Rhantus (10-12 mm). D, Staphylinus (12-25 mm). E, Silpha (11-18 mm). F,
Tropisternus (8-11 mm). G, Photinus (6-14 mm). H, Limonius (5-12mm). I, Buprestis (14-19 mm). J,
Hippodamia (6-8 mm). K, Dermestes (6-7 mm). L, Epicauta, (7-14 mm). M, Nyctoporis (11-15 mm). N,
Phyllophaga (13-24 mm). O, Megacyllene (13-23 mm). P, Chrysochus (9-11 mm). Q, Dendroctonus (5-8
mm). R, Balanius (5-9 mm).
107
Figura 81: Ordem Hemiptera. A, Ranatra (50 mm comp.). B, Gerris (20 mm). C, Corytucha (3 mm). D,
Percevejo-da-cama, Cimex (5 mm). E, Cenocorixa (10 mm). F, Rasahus (18 mm). G, Barata-d’água,
Lethocerus (60 mm). H, Anasa (16 mm). I, Percevejo de planta, Lygus (6 mm). J, Lygaeus (12 mm). K,
Notonecta (12 mm).
3. Sistema Digestivo
O sistema digestivo é completo, com boca, faringe, papo, estômago mecânico
(proventrículo), estômago químico, intestino e ânus.
No estômago químico há vários cecos, que produzem enzimas digestivas. Os cecos
gástricos são locais de digestão final e, juntamente com a extremidade anterior do intestino,
são os principais pontos de absorção alimentar. A água também é absorvida aí, embora não
toda.
O aparelho bucal possui uma grande importância e sua morfologia indica a dieta
alimentar. Pode ser mastigador (como em gafanhotos), picador (mosquitos), lambedor
(abelhas) e sugador (borboletas).
4. Sistema Circulatório e Respiratório
É do tipo aberta (lacunoso), pois do coração saem alguns vasos que terminam em
lacunas. Aí o sangue mistura-se aos líquidos intercelulares. O coração é um tubo muscular
longitudinal dorsal. Não há pigmentos respiratórios e a respiração é feita por traquéias.
Cada traquéia é um longo tubo ramificado, que se estende desde a abertura externa
(estigma) até o interior dos tecidos. Internamente, as traquéias têm reforços de quitina em
forma de anéis, o que evita deformações e obstruções do sistema por pressões externas.
Este tipo de sistema respiratório permite uma difusão livre, dos gases respiratórios
para o interior das células. Dada esta eficiência, o sangue dos insetos não tem a função de
transporte de gases, como em outros animais.
5. Sistema Excretor
A excreção é feita por túbulos de Malpighi (figura 82). O conteúdo dos túbulos de
Malpighi deriva mais da secreção que da filtração. A água entra passivamente como
conseqüência do transporte ativo de íons no interior da luz. O ácido úrico, formado nos
tecidos e eliminado na hemolinfa, é coletado pelas células dos túbulos de Malpighi, junto
108
com aminoácidos e sais. Essas substâncias juntas são secretadas na luz do túbulo.
Em toda a extensão, a parede desses túbulos removem excretas das lacunas corporais
(hemoceles). Na luz deles, precipitam-se os cristais de ácido úrico, que são arrastados com
líquidos até o intestino e misturados as fezes sólidas. Como seria esperado, os insetos
aquáticos excretam amônia ao invés de ácido úrico.
Figura 82: Túbulos de Malpighi (M) e glândula retal (GR) de insetos. → = alimento; ---→ = água e
alguns íons; …..→ = ácido úrico. A ultraestrutura do túbulo de Malpighi está também representada.
Observe que é rica em mitocôndrias, sugerindo que está envolvida no transporte ativo (adaptado de
Barnes, Calow & Olive, 1995).
Nem todos os produtos residuais são removidos pelos túbulos de Malpighi; alguns
são armazenados em células especializadas. As células pericárdicas ou nefrócitos,
tipicamente localizadas no ou próximas ao coração, capturam resíduos particulados ou
complexos para a degradação intracelular. As células dos corpos gordurosos também podem
ser o local de deposição do ácido úrico em alguns insetos, tais como colêmbolos
(Apterygota).
Dos artrópodes terrestres, os insetos encontram-se entre os mais bem adaptados à
prevenção de perda hídrica. A epicutícula é impregnada de compostos cerosos, que reduzem
a evaporação superficial, e o mecanismo de fechamento dos estigmas reduz a evaporação
pelo sistema traqueal. Reabsorção de água pelo reto e produção de uma urina hiperosmótica
também auxiliam na prevenção da perda de água.
6. Sistema Nervoso
Há vários gânglios na cabeça formando uma grande massa cerebral. Além deste, existe
uma cadeia ganglionar ventral e uma rede nervosa periférica bem desenvolvida. O cérebro
também está relacionado com a secreção de hormônios pela muda.
109
7. Órgãos dos Sentidos
Os órgãos táteis e olfativos ocorrem nas antenas. Os olhos podem ser simples ou
compostos, estes últimos reunidos em muitas unidades, os omatídios. Cada omatídio capta
um ponto-imagem; como existem milhares deles, num só olho, há uma visão em mosaico,
sendo a imagem total igual à soma de vários pontos.
Cada unidade do olho composto, o omatídio, está coberta em sua extremidade externa
por uma córnea translúcida derivada da cutícula esquelética. A córnea funciona como lente e
sua superfície externa, chamada faceta, é geralmente quadrada ou hexagonal. Atrás da
córnea existe o cone cristalino, elemento longo e cilíndrico que funciona como uma segunda
lente.
A extremidade basal do omatídio é formada pelo elemento receptor (a retínula), cujo
centro é ocupado por um cilindro transparente (o rabdoma) com células fotorreceptoras. De
cada célula da retínula parte um axônio e, deste modo, um feixe de sete axônios sai de cada
omatídio.
A imagem total formada pelo olho composto resulta do número de omatídios
excitados. A imagem é portanto um tanto quanto análoga à imagem produzida em uma tela
de televisão. Dos diversos fatores que afetam o grau de acuidade visual nos olhos compostos,
o número de omatídios que compõem o olho em relação ao tamanho deste é da maior
importância. De fato, quanto maior é o número de omatídios, mais fino é o grão retiniano e
mais perfeita a imagem. Os olhos de certas formigas possuem apenas uns poucos omatídios
enquanto a libélula pode possuir 10.000 deles. Os estudos de certos crustáceos com olhos
compostos bem desenvolvidos indicam certa capacidade de distinção de formas e tamanhos,
mas o grau de acuidade visual é certamente pequeno e a imagem total é grotesca em relação
a que é formada pelo olho humano. A discriminação de cores tem sido demonstrada para
muitos artrópodes.
As figuras 83 a 85 mostram as morfologias externa e interna de um gafanhoto.
Figura 83: Aspecto externo do gafanhoto, um inseto não especializado. I-III, segmentos do tórax; 1-11,
segmentos do abdome.
110
Figura 84: À esquerda, vista frontal da cabeça de um gafanhoto. À direita, suas peças bucais
separadas (desenhos ampliados).
Figura 85: O gafanhoto. Fêmea, estrutura interna vista com o lado esquerdo da parede do corpo
removido. As traquéias foram omitidas.
Classes Chilopoda e Diplopoda
Essas duas classes (10.500 espécies) eram agrupadas sob a denominação de
Miriápodos,como o nome indica, com inúmeros pares de pés (pernas).
A principal característica diagnóstica é a existência do tronco formado por uma série
de segmentos muito semelhantes, cada um dos quais com um par de pernas locomotoras,
exceto no último ou dois últimos e, às vezes, no primeiro segmento. Não há diferenciação
entre tórax e abdome. Possuem apenas um único par de túbulos de Malpighi (geralmente
alongados); não há ocelos na cabeça, mas sim estruturas sensoriais, provavelmente a
substâncias químicas presentes no ar e também à umidade. Há um par de antenas articuladas
e a respiração é traqueal (figura 86).
A maioria requer um ambiente úmido, por não possuírem uma cutícula impermeável.
111
Vivem sob pedras e troncos, no solo e no folhiço.
São animais dióicos, de fecundação interna e ovíparos, com desenvolvimento direto.
Figura 86: Diagrama do corte longitudinal através de um Uniramia generalizado (miriápodo).
As principais diferenças entre quilópodos e diplópodos:
Quilópodos Diplópodos
* carnívoros * herbívoros ou saprófagos
* movimentos rápidos * movimentos lentos
* não se enrolam * enrolam-se em espiral
* secção corporal achatada * secção corporal circular
* 1 par de antenas longas * 1 par de antenas curtas
* 1 par de pernas por segmento * 2 pares de pernas por segmento
* com forcípulas inoculadoras de
veneno
* sem forcípulas (possuem glândulas
repugnatórias)
* pequeno número de segmentos * grande número de segmentos
Figura 87: A, Centopéia (Classe Chilopoda); B, Piolho-de-cobra (Classe Diplopoda).
112
8 FILO ECHINODERMATA
Os Echinodermatas (gr. echinos, espinho; ouriço + derma, pele) constituem um dos filos
mais facilmente reconhecíveis do Reino Animal, com aproximadamente 6.000 espécies
viventes. Incluem as bem conhecidas estrelas-do-mar, ofiúros, ouriços-do-mar, bolachas-da-
praia, lírios-do-mar (crinóides) e pepinos-do-mar (holotúrias) (figura 88). A diversidade dos
equinodermos hoje é bem menor do que foi no Paleozóico, sobrevivendo apenas 6 das 24
classes do filo.
Figura 88 : Equinodermos representativos, como vivem no mar; todos reduzidos em tamanho.
Todos são animais grandes e nenhum é parasita ou colonial. Praticamente todos têm
hábitos bentônicos e são permanentemente presos ao fundo oceânico ou se movem
lentamente sobre o substrato. São peculiares entre os animais por não apresentarem cabeça;
terem um esqueleto interno; suas larvas apresentarem simetria bilateral e sofrerem
metamorfose para gerar animais adultos de simetria radial e, finalmente, por terem uma
subdivisão interna do celoma que é usada na locomoção e na captura de alimento. Todos os
equinodermos são exclusivamente marinhos, sendo comuns e abundantes em todos os
oceanos do mundo. São animais de sexos separados (dióicos), sem dimorfismo sexual.
A inexistência de cabeça ou plano bilateral de simetria torna os termos dorsal e
ventral, anterior e posterior, lado direito e esquerdo completamente impróprios. Assim
costuma-se falar em face oral (onde situa-se a boca) e aboral (face oposta à boca).
Em resumo: os Equinodermatas são triblásticos, celomados, deuterostômios,
apresentam simetria radial pentâmera (o corpo pode ser dividido em 5 partes organizadas
em torno de um eixo central), têm esqueleto interno de origem mesodérmica e o exclusivo
sistema de canais celomáticos e apêndices superficiais compondo o sistema hidrovascular ou
ambulacrário.
8.1 Características Gerais
Revestimento e proteção
A epiderme simples recobre o esqueleto e os espinhos (quando presentes). Os
espinhos, que servem como proteção (principalmente no ouriço-do-mar), são bem alongados
e às vezes providos de glândulas venenosas. Algumas espécies possuem ainda pequenas
pinças (pedicelárias) que servem para defesa e para manter sempre limpa a superfície do
corpo.
113
Sustentação e locomoção
Possuem endoesqueleto de placas calcárias móveis (articuladas) ou fixas,
freqüentemente com espinhos. As placas podem ser microscópicas, distribuídas pelo corpo,
como nos pepinos-do-mar, ou constituir uma carapaça muito resistente, como nos ouriços-
do-mar. Nestes animais, a locomoção é lenta e é feita pelos pés ambulacrários e ainda por
espinhos movidos por músculos.
Sistema Hidrovascular
É um sistema de canais e apêndices da parede do corpo, peculiar aos equinodermos.
Como todo o sistema deriva-se do celoma, os canais são revestidos por um epitélio ciliado e
são preenchidos por fluido, similar à água do mar, exceto pelo fato de conter amebócitos,
proteínas e altos teores do íon potássio. O sistema hidrovascular é bem desenvolvido nos
asteróides, atuando como meio de locomoção.
Nutrição e digestão
O sistema digestivo é completo (figura 89), exceto nos ofiúros. As estrelas-do-mar são
carnívoras e predadoras, seu alimento preferido são as ostras. Apesar da potente
musculatura das ostras, as estrelas-do-mar conseguem abrir-lhe as valvas, introduzir seu
estômago no interior e lançar enzimas, ocorrendo uma digestão externa. Os ouriços-do-mar
alimentam-se de algas, que são trituradas pelos cinco dentes calcários, que formam uma
estrutura chamada “lanterna de Aristóteles”.
Figura 89: Filo Echinodermata. Secções esquemáticas mostrando nas cinco classes viventes as relações
da boca (M), ânus (A), pés ambulacrários (T) e espinho (S). O trato digestivo delineado.
Circulação e Respiração
Não possuem coração nem mesmo sistema circulatório típico. Existe, porém, um
reduzido sistema de canais (canais hemais), com disposição radial, onde circula um líquido
incolor contendo amebócitos.
A respiração, por difusão, é realizada pelo sistema ambulacrário. Além disso, na
estrela-do-mar e ouriço-do-mar existem diminutas e ramificadas brânquias dérmicas.
A troca gasosa na maioria dos holoturóides (pepinos-do-mar) é realizada por meio de
um sistema notável de túbulos ramificados, as árvores respiratórias. Essas localizam-se no
celoma nos lados direito e esquerdo do trato digestivo principal com muitos ramos, cada um
dos quais terminando numa pequena vesícula. Os troncos das duas árvores emergem da
extremidade superior da cloaca. A água circula através dos túbulos por meio da ação
bombeadora da cloaca e das árvores respiratórias.
114
Excreção
Não existe nenhum órgão especializado. Os catabólitos são levados por amebócitos
aos pés ambulacrários, hidropulmões ou a qualquer estrutura exposta à água, que os elimina
por difusão.
Sistema nervoso e Órgãos dos Sentidos
Não há gânglios, mas sim um anel nervoso próximo à região oral, de onde saem
nervos radiais.
Possuem células táteis na superfície do corpo. Na extremidade dos braços das estrelas-
do-mar existem células fotorreceptoras.
Reprodução
São animais de sexos separados e de fecundação externa. Os órgãos sexuais são
simples, existindo, geralmente, apenas gônadas sem ductos genitais. O desenvolvimento é
indireto, aparecendo em cada classe um tipo característico de larva: bipinária (nas estrelas-
do-mar), pluteus (ofiúros e ouriço), dolidária (crinóides) e auriculária (pepino-do-mar).
A simetria é bilateral nas larvas, passando a radial nos animais adultos. A reprodução
assexuada aparece em algumas larvas que se auto-dividem; além disso, as estrelas-do-mar e
o pepino-do-mar têm a capacidade de regenerar partes perdidas.
Evisceração e Regeneração
A expulsão dos túbulos pegajosos a partir da região anal, encontra-se geralmente
associada aos pepinos-do-mar, mas esse fenômeno defensivo geralmente se limita a algumas
espécies dos gêneros de Holothuria e Actinopyga. Alguns desses organismos possuem uma
grande massa de túbulos cegos brancos, rosados ou vermelhos, chamados túbulos de Cuvier
preso à base da árvore respiratória. Quando em perigo, esses pepinos orientam o ânus em
direção ao intruso, contraem a parede corporal e disparam os túbulos, através do
rompimento da cloaca. Os túbulos nem sempre são adesivos, mas podem liberar umasubstância tóxica (a holoturina).
Um fenômeno mais comum, chamado evisceração, pode ser confundido com a
descarga dos túbulos de Cuvier. Dependendo da espécie, partes do intestino e órgãos
associados podem ser expelidos. A evisceração é seguida pela regeneração das partes
perdidas.
8.2 Classificação
8.2.1 Classe Crinoidea (Crinóides)
Estes equinodermos semelhantes a flores vivem desde abaixo da linha de maré baixa
até profundidades abissais. O corpo é um pequeno cálice em forma de taça, de placas
calcáreas, ao qual estão presos 5 braços flexíveis que se bifurcam formando 10 ou mais
extremidades estreitas, cada uma contendo muitas pínulas delicadas. Alguns possuem um
pedúnculo longo, que fixa o crinóide ao fundo do mar (figura 90). O tubo digestivo curva-se
em U de maneira que a boca e o ânus estão presentes na superfície oral (face superior),
dispostas lado a lado. Alimentam-se de plâncton e de detritos, colhidos pelos tentáculos e
dirigidos à boca pelos cílios. Exemplo: lírio-do-mar.
115
Figura 90: Subclasse Crinoidea. Um crinóide sedentário simples fixo
8.2.2 Classe Echinoidea (ouriços-do-mar e bolachas-da-praia)
Os membros desta classe têm o corpo arredondado (forma: hemisférica ou ovóide, nos
ouriços-do-mar e disciforme, nas bolachas-do-mar) sem braços ou raios livres, mas possuem
espinhos delgados e móveis (fig. 91).
Figura 91: Forma do corpo de alguns equinóides.
Em um ouriço-do-mar comum as vísceras estão encerradas em uma testa ou carapaça.
Cinco áreas (ambúlacros), correspondem aos braços da estrela-do-mar, são perfuradas para
116
uma série dupla de pés ambulacrários. Nas placas há tubérculos baixos, arredondados, nos
quais os espinhos se articulam. Entre os espinhos há pedicelárias, as quais mantêm o corpo
limpo e capturam pequenas presas. Boca e ânus são centrais, mas em pólos opostos. Ouriços
alimentam-se de plantas marinhas, matéria animal morta e pequenos organismos. Bolachas-
da-praia alimentam-se de partículas orgânicas da areia ou do lodo através de ingestão direta
ou por meio de rede de muco.
8.2.3 Classe Asteroidea (estrelas-do-mar)
As estrelas-do-mar abundam em quase todas as costas marinhas, especialmente em
praias rochosas e ao redor de pilares de portos. Várias espécies vivem desde as linhas de
maré até profundidades consideráveis na areia e no lodo.
O corpo de uma estrela-do-mar consiste de um disco central e cinco raios ou braços
afilados (figura 92), mas um número maior de braços é característico de muitos asteróides. A
boca está no centro da superfície oral, na face inferior do disco. Em cada braço, um grande
sulco estende-se radialmente a partir da boca (sulcos ambulacrários). Cada sulco contém
duas ou quatro fileiras de projeções tubulares chamadas pés ambulacrários, estes são os
órgãos locomotores e formam parte do sistema hidrovascular. Na ponta de cada braço há um
tentáculo táctil e uma mancha ocelar, sensível a luz.
Na superfície aboral há espinhos obtusos calcários, os quais são partes do esqueleto.
Brânquias dérmicas pequenas e moles (chamadas de pápulas) projetam-se da cavidade do
corpo entre os espinhos para a respiração e excreção. Ao redor dos espinhos e pápulas há
pedicelárias diminutas em forma de pinça, que mantém a superfície do corpo limpa e
também auxiliam na captura de alimento. O ânus é uma abertura diminuta próxima ao
centro da superfície aboral e nas proximidades do madreporito (placa que comunica o
sistema ambulacrário ao meio externo).
Figura 92: Subclasse Asteroidea. Estrela-do-mar, Asterias forbesi.
As estrelas-do-mar alimentam-se de moluscos, crustáceos, vermes tubícolas e de
outros equinodermos. Algumas alimentam-se de matéria orgânica em suspensão. Animais
pequenos e ativos, mesmo peixes, ocasionalmente podem ser capturados pelos pés
ambulacrários e pedicelárias e levados à boca.
Quanto à reprodução, óvulos e espermatozóides são postos na água do mar, onde
ocorre a fecundação. A clivagem é rápida, total, igual e indeterminada. A larva originada
possui simetria bilateral e passa por diferentes fases.
Estrelas-do-mar sofrem acidentes na natureza e podem soltar um braço (autotomia)
quando manuseadas rudemente, mas os braços regeneram-se prontamente.
117
8.2.4 Classe Ophiuroidea (ofiúros ou serpentes-do-mar)
Os ofiúros têm um disco pequeno, arredondado, com 5 braços distintos, longos,
delgados, articulados e frágeis (fig.93). Um braço consiste de muitos segmentos semelhantes,
cada um compreendendo 2 ossículos centrais fundidos, cobertos por placas. No braço há um
ramo do sistema ambulacrário. Os pés ambulacrários são ventrolaterais, sem ventosas. Eles
são sensitivos, auxiliam na respiração e podem levar alimento à boca. Não há pedicelárias e
brânquias dérmicas. Todos os órgãos digestivos e reprodutores estão no disco. A boca fica no
centro da superfície oral. Não há ânus.
Vivem desde águas rasas a profundas, algumas vezes, escondendo-se embaixo de
pedras ou plantas marinhas ou no lodo e areia, tornando-se ativos à noite. Movem-se por
movimentos serpenteantes rápidos. Alimentam-se de pequenos crustáceos, moluscos e
outros animais e detritos do fundo; podem servir de alimentos a peixes.
Figura 93: Formas do corpo de ofiuróides.
8.2.5 Classe Holothuroidea (Holotúrias)
Em oposição aos outros equinodermos, as holotúrias têm o corpo delgado, alongado
em um eixo oral-aboral (figura 94). A parede do corpo é coriácea e contêm somente ossículos
calcários microscópicos. A boca é circundada por 10 a 30 tentáculos que são modificações de
pés ambulacrários bucais encontrados em outros equinodermos. Algumas holotúrias
apresentam 2 zonas longitudinais de pés ambulacrários na região dorsal, de função táctil e
respiratória. O lado ventral tem tipicamente três zonas de pés ambulacrários, com ventosas,
que servem para a locomoção.
As holotúrias movem-se como lesmas no fundo do mar ou cavam no lodo ou areia da
superfície deixando somente as extremidades do corpo expostas, quando perturbadas,
contraem-se lentamente. O alimento é de material orgânico dos detritos do fundo, que é
118
empurrado para a boca ou de plâncton
aprisionado em muco nos tentáculos. As
holotúrias freqüentemente são os
invertebrados dominantes nas partes
mais profundas dos oceanos e muitos
taxa são restritos a águas profundas.
Figura 94: O pepino-do-mar Cucumaria
frondosa.
Resumo da classificação:
CLASSE EM PORTUGUÊS CARACTERÍSTICAS EXEMPLOS
CRINOIDEA crinóides
alguns, fixos no fundo do
mar (com tentáculos
móveis); outros, flutuantes
lírios-do-mar
OPHIUROIDEA ofiuróides
livres, corpo em forma de
medalha com 5 braços finos,
longos e muito móveis
serpentes-do-mar
ASTEROIDEA asteróides
livres, com formato de
estrela (número de braços
variável)
estrelas-do-mar
ECHINOIDEA equinóides
livres, semi-esféricos e
alguns cobertos de espinhos
grandes
ouriços-do-mar,
bolachas-do-mar
HOLOTHUROIDEA holoturóides
poucos movimentos,
vivendo junto às rochas no
fundo da água
pepinos-do-mar
119
8.3 Importância para o homem
Os equinodermos são pouco usados como alimento, no entanto, habitantes da bacia do
Mediterrâneo comem, assadas ou cruas, as gônodas do ouriço-do-mar. As paredes do corpo
do pepino-do-mar, após serem fervidas e secas, produzem o “trepang” usado para fazer
sopas. As vísceras de vários equinodermos são usadas como iscas para peixes.
As estrela-do-mar podem danificar culturas comerciais de ostras e mexilhões, trazendo
sérios prejuízos aos criadores.
As pesquisas biológicas tem sido a maior fonte de utilidade dos equinodermos. Muitos
são os ensaios experimentais sobre fecundação e desenvolvimento feitos com o ouriço-do-
mar.
9 FILO CHORDATA
O filo CHORDATA (gr. chorda, cordão) é o maior filo e o ecologicamente mais
significante da linha deuterostômia de evolução. Compreende alguns grupos invertebrados,bem como todos os animais vertebrados. Ocorre em todos os habitats, marinho, de água doce
e terrestre. Compreende dois grupos diferentes de organismos. Os protocordados ou cordados
inferiores são todos marinhos, pequenos e não têm vértebras; incluem os tunicados (Ascídias)
e os anfioxos. Todos os outros cordados são vertebrados e compreendem os peixes, anfíbios,
répteis, aves e mamíferos.
Caracteres gerais
• Uma notocorda dorsal, semelhante a um bastonete, presente durante pelo menos parte do
ciclo de vida.
• Um tubo nervoso dorsal oco presente em algum momento do ciclo vital.
• Fendas faríngeas durante algum estágio do ciclo vital.
• Cauda projetando-se atrás do ânus, persistente ou não no adulto.
• Simetria bilateral, com três folhetos germinativos e um corpo segmentado.
• Deuterostômios; tubo digestivo completo.
• Celoma de origem enterocélica e bem desenvolvido (exceto em Urochordata).
• O esqueleto, quando presente, é um endoesqueleto formado no mesoderma.
• Sistema circulatório fechado com um coração ventral (exceto em Urochordata).
• Sexos geralmente separados (alguns hermafroditos ou protândricos); ovíparos ou
vivíparos.
Os primeiros quatro caracteres gerais definem os CHORDATA, separando-os de todos
os outros filos. Esses caracteres formam-se no embrião jovem de todos os cordados; eles
persistem, podem ser alterados ou podem desaparecer no adulto.
A notocorda é a primeira estrutura de sustentação do corpo de um cordado. No
embrião jovem forma-se acima do intestino primitivo como um delgado bastonete de células
contendo uma matriz gelatinosa e é envolvida por tecido conjuntivo fibroso. Constitui um
bastonete flexível, todavia rígido, sobre o qual agem os músculos para efetivar a locomoção.
O tubo nervoso forma-se na superfície dorsal do embrião jovem, logo após a gástrula.
Uma invaginação da ectoderme produz o cordão tubular oco que se situa acima da
notocorda. A extremidade anterior dilata-se e diferencia-se no encéfalo.
As fendas faríngeas (às vezes referidas como fendas branquiais), pares, desenvolvem-
120
se nos lados da faringe embrionária. Cada uma é formada por uma evaginação da
endoderme da faringe e uma invaginação da ectoderme da parede do corpo; a parede
intermediária rompe-se para formar a fenda branquial nos representantes aquáticos. Em
vertebrados superiores, que respiram por pulmões, as brânquias desenvolvem-se somente no
embrião e desaparecem antes do nascimento.
Tabela 1. Grandes divisões do filo Chordata (Obs.: *são extintos).
Subfilos
Classes e suas principais características
UROCHORDATA
Notocorda e tubo nervoso apenas na larva;
adulto dentro de túnica secretada.
APPENDICULARIA: diminutos,
semelhantes a girinos; túnica temporária; 2
fendas branquiais
ASCIDIACEA: Ascídias. Túnica com
músculos dispersos; muitas fendas
branquiais
THALIACEA: Salpas. Túnica com faixas
musculares circulares
CEPHALOCHORDATA
Notocorda e tubo nervoso ao longo de todo
o corpo e persistentes; fendas branquiais
persistentes.
ANFIOXOS: Delgados, semelhantes a
peixes, segmentados; epiderme
uniestratificada, sem escamas; muitas
fendas branquiais
VERTEBRATA
Com crânio, arcos
viscerais e encéfalo.
Superclasse
PISCES
Nadadeiras pares,
brânquias, pele com
escamas
*OSTRACODERMI: Peixes primitivos
encouraçados. Escamas grandes,
freqüentemente fundidas formando escudo
cefalotorácico
CYCLOSTOMATA: Ciclóstomos. Pele sem
escamas; boca sugadora; 5 a 16 pares de
brânquias
*PLACODERMI: Peixes primitivos.
Mandíbulas primitivas; fendas branquiais
completas na frente do hióide
CHONDRICHTHYES: Tubarões e raias.
Pele com escamas placóides; esqueleto
cartilaginoso; 5 a 7 pares de brânquias em
fendas separadas
OSTEICHTHYES: Peixes ósseos. Pele com
escamas ciclóides ou ctenóides; 4 pares de
brânquias em uma cavidade comum coberta
por opérculo
Superclasse
TETRAPODA
Extremidades pares,
pulmões, pele
cornificada,
esqueleto ósseo.
AMPHIBIA: Anfíbios. Pele úmida, mole,
sem escamas externas
REPTILIA: Répteis. Pele seca, com escamas
ou escudos
AVES: Aves. Pele com penas; extremidades
anteriores transformadas em asas;
homeotermos
MAMMALIA: Mamíferos. Pele com pêlos;
homeotermos; amamentam os filhotes
121
9.1 Os Cordados Invertebrados
9.1.1 Subfilo Urochordata (tunicados)
Os tunicados são um grupo com aproximadamente 1250 espécies de animais marinhos
(exemplo: ascídia). A maioria deles é séssil quando adulto e somente a larva apresenta
notocorda e tubo neural. Os adultos não apresentam segmentação nem cavidade corporal. A
maioria das espécies ocorre em águas pouco profundas, mas alguns podem ser encontrados a
grandes profundidades. Em alguns tunicados, os adultos são coloniais, vivendo em massas
sobre o fundo oceânico. Os tunicados obtém o alimento pela ação dos cílios que se encontram
em fileiras nas suas faringes. Os cílios batem formando uma corrente de água que entra na
faringe e as partículas microscópicas são capturadas em uma secreção mucosa.
As larvas de tunicados exibem todas as características básicas dos cordados. As larvas
são transparentes e livre-natantes. A cauda contém uma notocorda de sustentação, um tubo
nervoso dorsal e pares seriados de músculos segmentados laterais. A extremidade anterior
apresenta três glândulas mucosas ou adesivas. O trato digestivo é completo, com boca,
seguida das fendas faríngeas (ou fendas branquiais) perfuradas abrindo-se num átrio,
endóstilo, intestino e ânus. Há um aparelho circulatório com vasos sangüíneos. O sistema
nervoso e estruturas sensitivas incluem um “cérebro”, um gânglio do tronco, um olho
mediano e um otólito.
Depois de umas horas ou dias de vida livre a larva prende-se verticalmente por suas
glândulas adesivas a uma rocha ou superfície dura. Segue-se uma rápida transformação
(metamorfose retrógrada) na qual a maioria dos caracteres dos cordados desaparece (figura
95). A cauda é parcialmente absorvida e parcialmente perdida, a notocorda, o tubo neural e
os músculos são retraídos para o corpo e absorvidos. Do sistema nervoso subsiste o gânglio
do tronco. A cesta branquial aumenta, desenvolve muitas aberturas e é invadida por vasos
sangüíneos. O estômago e o intestino crescem. As gônadas e ductos formam-se entre o
estômago e o intestino. As glândulas adesivas desaparecem e a túnica cresce para cima para
envolver totalmente o animal (figura 96).
Figura 95: Subfilo Urochordata.
Fases da metamorfose de uma
ascídia solitária desde a larva
livre-natante até o adulto séssil.
As setas indicam a entrada e a
saída das correntes de água.
(Adaptada de Kolwalewsky e
Herdman). A. Larav prende-se
a um objeto sólido por meio de
ventosas mucosas anteriores. B.
Cauda reabsorvida, notocorda e
tubo nervoso reduzidos. C. A
notocorda desaparece, os órgãos
internos começam a sofrer
rotação. D. Metamorfose
completa, com rotação (90 a 180
graus) dos órgãos internos e das
aberturas externas; a cesta
branquial aumenta, a túnica é
secretada e o sistema nervosos
reduz-se a um gânglio.
122
Figura 96: Subfilo Urochordata
Estrutura de uma ascídia
solitária adulta; esquemática.
A túnica, o manto e a metade
superior do saco branquial
foram retirados no lado
esquerdo. As setas indicam a
direção das correntes da água
através do animal.
9.1.2 Subfilo Cephalochordata (anfioxos)
Este grupo compreende aproximadamente 30 espécies de animais semelhantes a
peixes, comumente chamados de anfioxos, que habitam costas tropicais e temperadas. O
anfioxo enterra-se na areia limpa e fofa de águas rasas costeiras deixando apenas a
extremidade anterior para fora. De vez em quando sai para nadar por meio de rápidos
movimentos laterais do corpo.
São animais pequenos (até 10 cm de comprimento), cujo corpo é delgado, longo,
comprimido lateralmente, afilado nas duas extremidades e não tem cabeça distinta (figura
97). Possui uma nadadeira dorsal medianaao longo de quase todo o corpo e a nadadeira
pré-anal do atrióporo ao ânus, sendo constituídas por câmaras contendo curtos raios de
tecido conjuntivo. A cauda tem uma nadadeira membranosa. A boca é ventral, na
extremidade anterior, o ânus fica perto da base da nadadeira caudal e o atrióporo é uma
abertura adicional na frente do ânus.
Figura 97: Subfilo Cephalocordata. Anfioxo (Branchiostoma). Adulto parcialmente dissecado no lado esquerdo.
Tamanho natural cerca de 5 cm de comprimento.
O tegumento é uma epiderme mole. A notocorda, que acompanha todo o
comprimento do corpo, é o principal elemento de sustentação. Ao longo de cada lado do
123
corpo e da cauda, diferentes espécies têm de 50 a 85 músculos com forma de < (ou
miômeros) cada um constituído por fibras musculares longitudinais. Estes músculos
contraem-se para produzir as ondulações laterais quando o animal se enterra ou nada.
O trato digestivo é simples* Começa com o capuz oral (vestíbulo) que apresenta cirros
bucais. A boca, propriamente dita, se encontra na parte posterior do vestíbulo. Atrás da boca
fica a grande faringe comprimida, com muitas fendas faríngeas diagonais nos lados. Segue-
se o intestino reto que termina no ânus.
O aparelho circulatório tem algo do plano daquele dos cordados superiores, mas falta
o coração. Além dos vasos sangüíneos definitivos, há espaços abertos de onde o sangue
incolor escapa para os tecidos.
A respiração resulta da passagem de água, contendo oxigênio, da faringe, através das
fendas faríngeas em cada lado, para dentro do átrio; as fendas situam-se entre as traves
branquiais que contêm vasos sangüíneos.
O aparelho excretor compreende aproximadamente 100 pares de pequenos nefrídios
ciliados nos vestígios dorsais do celoma acima da faringe.
O sistema nervoso situa-se acima da notocorda; consiste de um tubo nervoso simples
com um pequeno canal central. A parte anterior, ligeiramente maior, forma uma vesícula
cerebral mediana, com uma fosseta olfativa, uma pequena mancha ocelar não-sensitiva de
pigmento preto e dois pares de nervos “cranianos”. O tubo nervoso emite para cada
miômero, alternadamente, um par de nervos.
Os sexos são separados; há mais ou menos 25 pares de gônadas. Óvulos e
espermatozóides caem na cavidade atrial, de onde saem através do atrióporo, sendo a
fecundação externa.
9.2 Subfilo Vertebrata (vertebrados)
Caracteres gerais
As classes de CYCLOSTOMATA a MAMMALIA compreendem a maior parte do filo
CHORDATA. Os caracteres diagnósticos do subfilo VERTEBRATA são um encéfalo grande
encerrado numa caixa craniana ou crânio e uma coluna espinal segmentada, de vértebras,
que constitui o suporte axial do corpo. O corpo compreende tipicamente cabeça, pescoço,
tronco e cauda.
O tegumento é um epitélio estratificado de epiderme e derme. A maioria dos peixes é
coberta com escamas de proteção; a parte externa é cornificada nos habitantes terrestres,
com escamas nos répteis, penas nas aves e pêlos nos mamíferos.
O esqueleto interno articulado é cartilaginoso, nos vertebrados inferiores, ou ósseo, nos
grupos superiores; sustenta e protege vários órgãos. A coluna vertebral estende-se da
base do crânio até a extremidade da cauda e tem arcos neurais dorsais para abrigar o tubo
nervoso. Dois pares de extremidades, as nadadeiras dos peixes e as pernas dos
tetrápodos, com suportes esqueléticos, articulam-se com a coluna vertebral através de
cinturas. Sobre o esqueleto existem músculos que movem suas partes e são responsáveis
pela locomoção.
O trato digestivo completo é ventral à coluna vertebral; a boca contém uma língua e
geralmente dentes; o ânus abre-se no final do tronco; o fígado e o pâncreas são duas
grandes glândulas digestivas.
O aparelho circulatório inclui um coração muscular bem desenvolvido com 2, 3 ou 4
câmaras, localizado ventralmente ao trato digestivo; suas contrações impelem o sangue
124
através de um sistema fechado de artérias, capilares e veias, sendo o fluxo no lado ventral
para frente e na parte dorsal para trás; o plasma sangüíneo contém tanto glóbulos brancos
como vermelhos, estes com hemoglobina como pigmento respiratório; um sistema de
vasos linfáticos é presente.
A respiração das formas inferiores é feita por brânquias pares; espécies terrestres
apresentam pulmões desenvolvidos. O pulmão é uma câmara revestida internamente por
epitélio úmido, sob o qual há uma rede de capilares sangüíneos, o que permite o
aproveitamento do ar atmosférico.
Os órgãos excretores pares ou rins descarregam através de ductos que se abrem perto ou
através do ânus. Os rins compõe-se em geral de uma massa de celomoductos que se
abrem num ducto coletor. Os rins de todos, exceto em peixes e salamandras, são curtos e
localizam-se posteriormente; nesses dois grupos estendem-se ao longo de quase toda a
cavidade do corpo. Os rins dos ciclóstomos e anfíbios (vertebrados inferiores) e os
embrionários dos grupos superiores desenvolvem-se segmentariamente, um par por
segmento do corpo (pronefro, mesonefro); alguns dos túbulos têm nefróstomas abertos
para o celoma, assemelhando-se assim aos nefrídios das minhocas. Os rins adultos
(metanefros) dos répteis, aves e mamíferos não são segmentares e drenam excretas
unicamente do sangue. De cada rim, qualquer que seja seu tipo, parte um ducto coletor
comum, o ureter, que conduz as excretas para trás. Nos anfíbios, répteis e aves, os dois
ureteres desembocam na cloaca, a qual se liga a uma bexiga urinária nos anfíbios e alguns
répteis. A excreção é líquida, exceto nos répteis e aves, que têm excretas semi-sólidas
(ácido úrico), eliminadas juntamente com as fezes.
Sistema Nervoso. Em todos os vertebrados, o sistema nervoso origina-se,
embrionariamente, de modo semelhante e é sempre único, tubular e dorsal ao tubo
digestivo. O encéfalo diferencia-se estrutural e funcionalmente em regiões; os hemisférios
cerebrais e o cerebelo aumentam, especialmente nas formas superiores; há 10 ou 12 pares
de nervos cranianos na cabeça, que servem tanto para funções motoras como para funções
sensitivas, incluindo os órgãos pares de sentidos especiais (olfato, visão, audição e
equilíbrio). Da medula parte um par de nervos espinais para cada somito primitivo do
corpo e um sistema nervoso autônomo regula funções involuntárias de órgãos internos.
Uma série de glândulas endócrinas (tireóide, hipófise, etc.) produz secreções internas ou
hormônios transportados pelo sangue, que regulam processos do corpo, crescimento e
reprodução.
Os sexos são separados e cada um tem um par de gônadas que descarregam as células
sexuais através de ductos que se abrem perto do ânus ou cloaca.
Um celoma perivisceral bem desenvolvido está presente.
9.2.1 Superclassse Pisces
Por conveniência, as 4 classes conhecidas de peixes e vertebrados semelhantes a peixes
serão consideradas em conjunto. São elas:
• Agnatha (vertebrados desprovidos de mandíbulas);
• Placodermi (peixes primitivos com mandíbulas);
• Chondrichthyes (peixes cartilaginosos);
• Osteichthyes (peixes ósseos).
Na realidade, há mais peixes no mundo do que animais de qualquer outro grupo de
125
vertebrados, tanto em termos individuais, como em número de espécies. O total supera o
número de todos os grupos de vertebrados juntos.
Como grupo, os peixes apresentam tamanhos bem variados. O maior é o tubarão-
baleia (Rhineodon typus) que pode atingir mais de 15 metros de comprimento, sendo que o
menor (Pandaka pygmea) mede pouco mais de 8 mm de comprimento. A maioria das espécies
encontra-se no mar, mas há muitas espécies encontradas em água doce.
Os peixes podem suportar temperaturas extremas, como por exemplo as espécies que
vivem em fontes termais, onde a água pode atingir mais de 42o C. Contudo numa mesma
espécie o limite de tolerância é, geralmente, muito restrito. Os peixes são ectotérmicos, com
isso queremos dizer que a temperatura de seu corpo depende da do ambiente e,
consequentemente,é bem próxima da temperatura deste.
a) Os Agnatha
Classes Cyclostomata (Ciclóstomos, do gr. cyclos, circular; stoma, boca) e Ostracodermi
(extintos)
Os agnatas eram abundantes nos mares de eras geológicas passadas, mas na fauna
atual estão representados por apenas dois grupos: o das lampreias (com 30 espécies) e o das
feiticeiras (com 20 espécies).
As lampréias são principalmente ectoparasitas de peixes e de baleias. Ocorrem tanto
no mar como na água doce de regiões temperadas. A boca é ampla, com numerosos dentes
córneos que elas usam para se fixar na pele dos outros animais. A língua também apresenta
dentículos córneos, usados para dilacerar a pele da vítima. São dióicos e a fecundação é
externa. Após a eliminação dos gametas, os adultos morrem. Do ovo surge uma larva, que
vive enterrada em detritos e lodo de riachos calmos, filtrando partículas de alimentos na
água. Vivem cerca de 3 a 7 anos, sofrem metamorfose e originam o adulto.
As feiticeiras são exclusivamente marinhas e vivem a mais de 25 metros de
profundidade nos oceanos. São carnívoras, alimentando-se principalmente de pequenos
poliquetos e peixes moribundos. Sua boca, rodeada por 6 tentáculos, é reduzida, com dentes
pequenos usados para arrancar pedaços do corpo da presa. Esses animais são hermafroditas,
mas geralmente só o ovário ou só o testículo é funcional no indivíduo. Dos ovos eclodem
indivíduos jovens, sendo o desenvolvimento direto.
Nos agnatas, as fendas branquiais abrem-se diretamente para fora do corpo, ao
contrário do que ocorre nos protocordados. Além disso, existem brânquias nessa região, a
qual assume um papel meramente respiratório, enquanto nos protocordados a região das
fendas branquiais se relacionava também alimentação.
Caracteres gerais
Corpo longo, delgado e cilíndrico, com a região da cauda comprimida; nadadeiras
medianas sustentadas por raios cartilaginosos; pele mole e lisa, com muitas glândulas
mucosas unicelulares; escamas, mandíbulas e nadadeiras pares ausentes.
Boca ântero-inferior, sugadora em lampreias e protrátil e mordedora em peixes-bruxa;
órgãos olfativos pares, mas com uma abertura mediana no focinho.
Crânio e arcos viscerais cartilaginosos; notocorda persistente; vértebras representadas por
pequenos arcos neurais imperfeitos sobre a notocorda.
Coração com 2 câmaras, aurícula e ventrículo; múltiplos corações no peixe-bruxa.
Brânquias em bolsas saculiformes laterais da faringe, 7 nas lampreias, 5 a 16 nos peixes-
bruxa (figura 98).
126
Encéfalo diferenciado, com 8 ou 10 pares de nervos cranianos.
Rins mesonéfricos com ductos para a papila urogenital; produtos nitrogenados
principalmente amônia.
Temperatura do corpo variável (ectotérmicos).
Gônada única, grande, sem ducto; fecundação externa; desenvolvimento direto (peixes-
bruxa) ou com um longo estágio larval (lampréias).
Os ciclóstomos diferem dos outros vertebrados por não apresentarem cabeça bem
diferenciada, não possuírem mandíbulas verdadeiras, extremidades pares, cinturas, costelas
ou ductos genitais, ligados às gônadas (figura 99).
As lampreias podem ser parasitas ou não, alimentando-se do sangue do hospedeiro
(outro peixe). Os peixes-bruxa normalmente vivem no fundo marinho e se alimentam de
invertebrados e peixes mortos.
Figura 98: Classe Cyclostomata. A. Eptatretus stouti, peixe-bruxa da Califórnia, com boca sugadora
mole, 4 pares de tentáculos e 11 pares de fendas branquiais. B. Lampreia marinha (Petromyzon
marinus), com funil bucal, olhos e 7 pares de fendas branquiais.
Figura 99: Classe Cyclostomata. Estrutura de uma lampreia adulta (Entosphenus tridentatus); grande
parte do lado esquerdo do corpo foi retirada.
O aparecimento da mandíbula.
Talvez a maior de todas as inovações surgidas durante a história evolutiva dos
vertebrados tenha sido o desenvolvimento da mandíbula que, manipulada por músculos e
associada a dentes, permitiu aos peixes primitivos arrancar grandes pedaços de algas e
animais maiores, explorando novas fontes de alimentos. Sem as mandíbulas, os cordados
127
estavam restritos à filtração, à sucção do alimento ou a captura de pequenos invertebrados. A
maior vantagem competitiva sobre os agnatas levou esses últimos quase à extinção.
A região das fendas branquiais tem como elementos esqueléticos de sustentação os
arcos branquiais. A mandíbula originou-se de uma modificação no primeiro arco branquial,
sendo que a parte superior do arco deu origem à maxila, que fica em contato como crânio, e a
parte inferior originou a mandíbula. O segundo arco branquial, denominado arco hióide,
passou a sustentar a mandíbula e mantê-la unida ao crânio. Os arcos branquiais restantes
continuaram com sua função original de sustentação das brânquias.
O hábito predador, derivado do surgimento das mandíbulas, veio associado a muitas
modificações no corpo desses animais, tornando-os ativos e ágeis nadadores.
O surgimento das nadadeiras pares
As nadadeiras pares foram a segunda importante inovação importante, porque
proporcionaram aos vertebrados a uma natação direcionada, precisa e controlada, já que
atuam como estabilizadores, aplicando forças sobre a coluna
d’água.
b) Classe Chondrichthyes: peixes cartilaginosos
Os tubarões, raias e quimeras da Classe CHONDRICHTHYES (gr. chondros, cartilagem
+ ichthys, peixe) são os vertebrados viventes mais inferiores que têm vértebras completas e
separadas, mandíbulas móveis e extremidades pares. São predadores e praticamente todos
são habitantes dos oceanos.
Os Chondrichthyes subdividem-se nas Subclasses Elasmobranchii (cações e raias) e
Holocephali (quimeras); figura 100.
Figura 100: Classe Chondrichthyes. A. Cação (Squalus acanthias). B. Raia (Raja). C. Quimera (Chimaera colliei).
Caracteres gerais
Pele rija, coberta de pequenas escamas placóides [cobertas de esmalte (figura 101)] e
apresentando muitas glândulas mucosas; tanto nadadeiras medianas como pares
presentes, todas sustentadas por raios; nadadeiras pélvicas com clásperes nos machos;
128
nadadeira caudal heterocerca (lobo superior é maior que o inferior).
Figura 101: Escamas placóides (ampliadas). A. Pele com escamas em vista superficial. B. Secção mediana através
de uma escama.
Boca ventral, com dentes cobertos de esmalte; 2 narinas não comunicadas com a cavidade
bucal; tanto mandíbula, como maxila presentes; intestino com válvula espiral (para
aumentar a superfície de absorção).
Esqueleto cartilaginoso, sem ossos verdadeiros; crânio unido a cápsulas sensitivas pares;
notocorda persistente; muitas vértebras, completas e separadas, cinturas peitoral e pélvica
presentes.
Coração com 2 câmaras (1 aurícula e 1 ventrículo), com seio venoso e cone arterial,
contém apenas sangue venoso; diversos pares de arcos aórticos; algumas veias
expandidas em seios; glóbulos vermelhos nucleados e ovais.
Respiração por brânquias presas às paredes opostas de cinco a sete pares de bolsas
branquiais, tendo cada bolsa uma abertura independente em forma de fenda; sem bexiga
natatória.
Dez pares de nervos cranianos; cada “ouvido” com três canais semicirculares.
Excreção por meio de rins mesonéfricos, o principal produto de excreção nitrogenada é a
uréia.
Temperatura do corpo variável (ectotérmicos).
Sexos separados; gônadas tipicamente pares; ductos reprodutores abrem-se na cloaca;
fecundação interna; ovíparos ou ovovivíparos; ovos grandes, com muito vitelo,
segmentação meroblástica; sem membranas embrionárias; desenvolvimento direto, sem
metamorfose.
O tamanho destes animais é muito variável. Cações (Squalus) medem até 90 cm de
comprimento e a maioria dos tubarões não atinge 2,5 metros de comprimento, mas o grande
anequim (Carcharodon carcharias) cresce até 6 metros e Cetorhinus maximus até 12 metros; o
tubarão-baleia (Rhincodon typus) atinge 18 metros. São os maiores vertebrados viventes com
exceção das baleias. A maioriadas raias tem de 30 a 90 cm de comprimento, mas a maior
jamanta (Manta birostris) mede até 5 metros de comprimento e 6 metros de envergadura. As
quimeras têm menos de 1 m de comprimento.
129
Aspecto externo: A cabeça termina em ponta arredondada e o tronco é fusiforme, maior perto
das nadadeiras peitorais, afilando para trás. Há duas nadadeiras dorsais medianas separadas,
uma nadadeira caudal mediana e dois pares de nadadeiras laterais, peitorais e pélvicas. Entre as
pélvicas, nos machos, há um par de delgados cláspers, usados na cópula. A cauda é
heterocerca, a coluna vertebral penetrando no lobo dorsal maior. Ventralmente na cabeça há
duas narinas e a larga boca; os olhos são laterais e sem pálpebras. Cinco fendas branquiais
abrem-se na frente de cada nadadeira peitoral; o espiráculo abre-se atrás de cada olho. O ânus
fica entre as nadadeiras pélvicas.
A maioria dos tubarões assemelha-se ao cação quanto à anatomia geral (figura 102). As
raias têm o corpo muito achatado, com nadadeiras peitorais grandes, largamente unidas à
cabeça e ao tronco. Nadam levantando e abaixando as nadadeiras. As aberturas branquiais
estão na superfície ventral e, nas formas de hábitos bentônicos, os espiráculos servem para a
entrada das correntes de água respiratória. Isto evita o entupimento das brânquias com
detritos do fundo. A cauda geralmente é delgada e pouco usada na locomoção.
As quimeras distinguem-se taxonomicamente dos cações e das raias. São peixes
grotescos do fundo dos oceanos (baixas latitudes) ou de águas rasas (altas latitudes). Têm um
comprimento de 0,5 a 2 metros. A pele não tem escamas e a maxila é totalmente fundida com
o crânio. Suas mandíbulas contêm grandes placas achatadas. Alimentam-se de algas
marinhas, invertebrados e peixes. As grandes nadadeiras peitorais são usadas para a natação.
Os dentes dos elasmobrânquios refletem seus hábitos alimentares. Os dos tubarões são
triangulares até em forma de sovela - freqüentemente com bordas serrilhadas usadas para
cortar, rasgar ou talhar. A maioria das raias habitam o fundo e seus dentes geralmente são
pequenos, obtusos e em forma de um ladrilho; são usados para quebrar e triturar.
Figura 102: Cação; estrutura interna
Os órgãos dos sentidos que apresentam os elasmobrânquios são: duas narinas,
ventrais no focinho que servem para perceber materiais dissolvidos. A faringe contém botões
gustativos esparsos. Os olhos não tem pálpebras e parecem estar adaptados para pouca luz.
O “ouvido” é um órgão de equilíbrio. A linha lateral, um fino sulco ao longo de cada lado do
tronco e da cauda, contém um delgado canal com muitas aberturas pequenas para a
superfície. Dentro do canal existem células sensitivas ciliadas relacionadas com um ramo do
décimo nervo craniano. Elas respondem a estímulos de baixa freqüência da água
circundante. Na cabeça dos cações, e na cabeça e nadadeiras peitorais das raias, existem
estruturas denominadas ampolas de Lorenzini (figura 103). Estas ampolas são
eletrorreceptores. O canal que conecta o eletrorreceptor à superfície do corpo está preenchido
por uma sustância gelatinosa condutora de eletricidade. Como os canais são subepidérmicos
e distribuem-se por uma certa área, as células sensoriais podem detectar a diferença entre os
130
potenciais elétricos do tecido onde estão alojadas e o existente no meio externo circundante.
A célula receptora primitiva é uma modificação das células mecanorreceptoras da linha
lateral. Os elasmobrânquios usam esta sensibilidade elétrica para detectar presas, e
possivelmente para orientar sua natação.
Figura 103: Disposição das ampolas de Lorenzini na cabeça do tubarão. Os círculos abertos
representam os poros superficiais.
A maioria dos tubarões e raias é marinha, mas alguns vivem em rios ou lagos
tropicais. Tubarões são encontrados em águas abertas e raias no fundo, mas a jamanta e
outras grandes raias nadam perto da superfície. Alguns tubarões ficam deitados no fundo e
são principalmente predadores. São nadadores ativos e geralmente se alimentam no meio de
cardumes de peixes. As espécies menores também comem lulas e crustáceos enquanto
algumas das formas maiores podem capturar focas ou leões-marinhos. Os tubarões-baleia
alimentam-se de plâncton. As raias comem diversos invertebrados. As raias elétricas
atordoam sua presa com choques elétricos. Os espinhos cobertos de veneno das raias-de-
espinho são usados como defesa.
c) Classe Osteichthyes: peixes ósseos
Os peixes ósseos têm esqueleto ósseo, são cobertos com escamas dérmicas, geralmente
tem corpo fusiforme, nadam por meio das nadadeiras e a maioria respira por brânquias
(figura 104). O grupo dos osteícties é o maior entre todos os grupos de vertebrados,
totalizando cerca de 21 mil espécies. Estão presentes em todos os tipos de água, doce, salobra,
salgada, quente ou fria, desde a superfície até cerca de 9 mil metros de profundidade.
Caracteres gerais
Pele com muitas glândulas mucosas, geralmente com escamas de origem mesodérmica
(ciclóides, ctenóides, às vezes ganóides; figura 105); alguns sem escamas; alguns com
escamas revestidas com esmalte; nadadeiras medianas e pares presentes (com algumas
exceções), sustentadas por raios cartilaginosos ou ósseos.
Boca geralmente terminal e com dentes, maxilas e mandíbulas bem desenvolvidas,
articuladas com o crânio; 2 bolsas olfativas dorsais, geralmente não comunicadas com a
cavidade bucal; olhos grandes, sem pálpebras.
Esqueleto principalmente ósseo (cartilagem em esturjões e alguns outros); muitas
vértebras, distintas; cauda geralmente homocerca (lobos são simétricos) nas formas
avançadas (figura 106); restos de notocorda freqüentemente persistem.
131
Figura 104: Peixes ósseos
representativos (Classe
Osteichthyes), com diferentes
formas do corpo. A. Bonito
(Scomber), hidrodinâmico e
nadador rápido. B. peixe-cofre
(Ostracion), corpo rígido, somente
nadadeiras móveis. C. Peixe-lua
(Mola), enorme, comprimido
lateralmente. D. Baiacu
(Chilomycterus), corpo espinhoso,
inchado, nada-deiras pequenas. E.
Cavalo-marinho (Hippocampus),
nada em posição ereta por meio
de pequena nadadeira dorsal,
cauda preênsil.. F. Enguia
(Anguilla), longa e altamente
flexível.
Figura 105: Escamas de peixes
ósseos, ampliadas. A. Ctenóide
(com finos dentes). B. Ciclóide. C,
D. ganóide (Lepidosteus) em
vista superficial e secção vertical.
Coração com 2 câmaras (1 aurícula, 1 ventrículo) com seio venoso e cone arterial,
contendo apenas sangue venoso; 4 pares de arcos aórticos; glóbulos vermelhos nucleados
e ovais.
Respiração por pares de brânquias em arcos branquiais ósseos dentro de uma câmara
comum em cada lado da faringe, cobertas por opérculo (figura 106a e 107); geralmente
132
com bexiga natatória, algumas vezes com ducto para a faringe e semelhante a um pulmão
em DIPNOI e alguns outros.
Figura 106: Tipos de cauda em peixes
ósseos, mostrando a relação entre as
vértebras (ou notocorda) e os raios
com a nadadeira caudal. A.
Heterocerca (esturjão, Acipenser). B.
Heterocerca abreviada (Amia). C.
Dificerca, lobos iguais (peixes
pulmonados).
Figura 106a: Brânquias de um peixe ósseo (carpa). A. Brânquias na câmara branquial com o opérculo
cortado. B. Parte de uma brânquia mostrando os rastelos e filamentos branquiais, com a direção no
sangue dos últimos; vasos aferentes escuros, vasos eferentes claros (em muitos peixes os rastelos
branquiais são delagados). C. Parte de um filamento, muito ampliado; cada lamela contém capilares
onde o sangue é arterializado. D. Posição dos filamentos branquiais durante a respiração. A direção
das correntes de água e do sangue são mostradas, respectivamente, por setas inteiras e interrompidas.
Encéfalo com lobos ópticos e cerebelo bem desenvolvidos; dez pares de nervos cranianos.
Apresentam como órgão sensorial a linha lateral igual aquela dos peixes cartilaginosos(figura 108 e 108a).
Excreção por meio de rins mesonéfricos; o principal produto de excreção nitrogenada das
larvas é a amônia, da maioria dos adultos é a uréia.
133
Figura 107: O mecanismo respiratório dos peixes; secções frontais esquemáticas (lobos da válvula oral
realmente dorsais e ventrais); as setas mostram a direção das correntes de água. CAÇÃO. A. A água
entra pela boca situada ventralmente, que se fecha em seguida; o assoalho da boca levanta-se para
forçar a passagem da água sobre as brânquias e para fora através de fendas separadas. PEIXE ÓSSEO.
B. Inalação, os opérculos estão fechados, a válvula oral aberta, a cavidade dilatada e a água entra. C.
Exalação, a válvula oral fecha-se, a cavidade bucal contrai-se e a água passa sobre as brânquias, em
cavidades comuns os lados da faringe e para fora por baixo dos opérculos.
Figula 108: Parede do corpo da carpa em secção longitudinal com o sistema sensitivo da linha lateral.
Figura 108a: Perca-amarela (Perca flavescens); caracteres externos.
134
São ectotérmicos; mas a temperatura corpórea pode ser elevada metabolicamente em
peixes grandes e ativos.
Gônadas tipicamente pares; geralmente ovíparos (alguns ovovivíparos ou vivíparos);
fecundação externa (algumas exceções), ovos pequenos, até 25 mm (Latimeria), quantidade
de vitelo nutritivo variável; segmentação geralmente meroblástica; sem membranas
embrionárias; jovens (pós-larva) algumas vezes muito diferentes dos adultos.
O tamanho varia muito. O menor peixe é um gobídeo (Pandaka) das Filipinas, de 10
mm de comprimento. A maioria dos peixes tem menos de 1 m de comprimento. Algumas
exceções são o hipoglosso de 2,70 m, o espadarte de 3,60 m, o esturjão do rio Colúmbia de
3,80 m e 590 kg e o peixe-lua (Mola), marinho, de 900 kg.
Aspecto externo: corpo fusiforme, mais alto que largo, de secção transversal oval para
facilitar a passagem através da água (figura 109). A cabeça estende-se da extremidade do
focinho até o canto posterior do opérculo, o tronco deste ponto até o ânus e o resto é a cauda.
A grande boca é terminal, com maxilas e mandíbulas distintas que apresentam dentes finos.
Na parte dorsal do focinho há duas narinas duplas (bolsas olfativas), os olhos são laterais, sem
pálpebras, e atrás de cada um há uma cobertura fina das brânquias, o opérculo, com margens
livres embaixo e atrás. Por baixo de cada opérculo existem quatro brânquias em forma de
pente. O ânus e a abertura urogenital precedem a nadadeira anal. No dorso há duas nadadeiras
dorsais separadas, na ponta da cauda a nadadeira caudal e ventralmente na cauda a nadadeira
anal; todas estas são medianas. As nadadeiras laterais ou pares são as nadadeiras peitorais,
atrás dos opérculos e as nadadeiras pélvicas ou ventrais, logo abaixo. As nadadeiras são
expansões membranosas do tegumento, sustentadas por raios das nadadeiras. Os espinhos são
rígidos e não articulados; os raios moles são flexíveis, têm muitas articulações e geralmente
são ramificados. As nadadeiras ajudam a manter o equilíbrio, a direção e a locomoção.
Figura 109: Perca-amarela; estrutura geral. O opérculo, a nadadeira peitoral, a maioria da pele e das
escamas e alguns músculos do tronco e da cauda foram retirados.
Todos os peixes ósseos são suficientemente semelhantes na forma e estrutura gerais
para serem reconhecidos como membros da classe OSTEICHTHYES, mas diferem entre si em
muitos detalhes. Muitos têm a forma geral da perca; linguados e alguns peixes tropicais de
recifes de corais têm corpo fino, enquanto as enguias são delgadas e os baiacus globosos.
Os osteícties são classificados em dois grupos: os Sarcopterygii (Sarcos = carnoso;
135
pterygium = nadadeira) e os Actinopterygii (actinos = raios).
Os Sarcopterygii são peixes que possuem nadadeiras carnosas, sustentadas por ossos
semelhantes aos das patas dos tetrápodes. Em função disso, acredita-se que os primeiros
vertebrados terrestres - os anfíbios - teriam surgido de um grupo de sarcopterígeo primitivo
(Crossopterygii), que vivia em águas rasas, respirando por brânquias e também por pulmões.
Os sarcopterígeos eram abundantes em períodos geológicos passados, mas na fauna atual
estão representados apenas por quatro gêneros, classificados em dois grupos: Crossopterygii
e Dipnoi. Os crossopterígios eram tidos apenas como animais fósseis, até que em 1938, no
oceano Índico, foi encontrado um exemplar de um grupo, conhecido por celacanto (nomeado
de Latimeria chalumnae) e que possui fecundação interna e viviparidade. Os dipnóicos são os
peixes pulmonados, representados por apenas 3 gêneros viventes que vivem em rios de
regiões tropicais. Possuem brânquias reduzidas, por isto a respiração por pulmões (bexiga
natatória modificada) é obrigatória para eles. Ao contrário dos demais peixes, possuem
narinas em comunicação com a faringe através de coanas. Com relação a reprodução, os
peixes pulmonados são ovíparos.
Os Actinopterygii são peixes cujas nadadeiras são sustentadas por raios. É o grupo mais
diversificado e o que reúne o maior número de espécies. São principalmente ovíparos,
embora algumas poucas espécies sejam vivíparas. O estágio jovem desses animais é
denominado alevino. Nos actinopterígeos, a bexiga natatória tem a função básica de
sustentação, embora em alguns possa atuar também como um pulmão. São exemplos de
actinopterígeos as sardinhas, o salmão, a truta, o baiacu, o arenque, entre outros.
9.2.2 Superclasse Tetrapoda
A superclasse Tetrapoda (do grego tetra - quatro e podos - pés) consiste no
agrupamento da maior parte dos vertebrados, já que na sua maior parte eles são portadores
de quatro membros locomotores adaptados para o deslocamento em terra. Essa superclasse
compreende as classes Amphibia, Reptilia, Aves e Mammalia. Ainda que alguns grupos
tenham sofrido regressão dos membros locomotores, como sucede com certos répteis, como
as cobras, a maior parte dos Tetrapoda apresenta quatro membros geralmente pentadáctilos.
Além disso, são suas características comuns: fossas nasais comunicando-se com a faringe,
fendas branquiais sempre presentes no embrião jovem, circulação fechada e dupla, bem
como esqueleto interno e ósseo.
9.2.2.1 Classe Amphibia
Os anfíbios (do grego amphi - ambos, dos dois modos e bios - vida) representam os
tetrápodos mais antigos aparecidos na Terra e correspondem a cerca de 4000 espécies
descritas. Seu nome é dado em consideração ao fato de levarem parte da vida (fase larvária)
na água e o restante (fase adulta) em terra firme, embora existam representantes que passam
toda a vida no ambiente aquático. Mesmo os adultos terrestres, ainda não podem dispensar
totalmente a vida em ambientes úmidos e próximos à ambientes aquáticos, tendo em vista a
respiração cutânea e a necessidade da água para a reprodução.
São atualmente incluídos em três ordens (fig. 110):
A. Ordem Urodela ou Caudata - são as salamandras, nas quais a cauda é bem desenvolvida e
os membros, apesar de sofrerem redução em diferentes graus, estão sempre presentes.
Dentre os anfíbios atuais, as salamandras possuem a forma do corpo e a locomoção mais
generalizadas. As salamandras são alongadas, e quase todas as espécies completamente
aquáticas apresentam 4 pernas funcionais. São aproximadamente 350 espécies, quase
totalmente limitadas ao hemisfério Norte, embora atinjam o norte da América do Sul. A
136
pedomorfose (retenção de características larvais no “adulto”) é uma característica
amplamente distribuída entre as salamandras. Tais formas podem ser reconhecidas pela
retenção da linha lateral funcional, ausência de pálpebras, retenção de brânquias externas.
B. Ordem Anura - sapos, rãs e pererecas. São adaptados para o salto e não possuem cauda
quando adultos. Em contraste com o limitado número e distribuição geográfica das
espécies de salamandras, os anuros (an= sem; uro= cauda), incluem cerca de 3500 espécies
e ocorrem em todos os continentes, excetona Antártida.
C. Ordem Gymnophiona ou Apoda - animais ápodos e alongados, conhecidos popularmente
por cobras-cegas ou cecílias.
Figura 110: Classe Amphibia. A. Ordem Urodela. B. Ordem Anura. C. Ordem Gymnophiona.
Caracteres gerais
apresentam pele lisa, fina, úmida e glandular, coberta de muco, ricamente vascularizada,
sem escamas ou placas, apta para a respiração cutânea, que nesses animais chega a ser
mais importante que a respiração pulmonar;
desenvolvimento por metamorfose. Larva chamada de girino, com brânquias
(inicialmente externas e depois internas) e nadadeira caudal. Adultos com pulmões e
pernas (há exceções, pois adultos de algumas espécies podem reter os brânquias);
portadores de cloaca;
fecundação externa em quase todo o grupo (as fêmeas eliminam os óvulos e os machos
disseminam os espermatozóides sobre eles, na água). Há uma falsa cópula que é realizada
dentro d’água;
todos são ectotérmicos, sendo a temperatura corpórea atingida por calor gerado pelo
ambiente;
sangue com hemácias ovóides e nucleadas. Coração com três cavidades: duas aurículas e
um ventrículo. O sangue arterial, que entra na aurícula ou átrio esquerdo, e o sangue
venoso, que chega à aurícula ou átrio direito, vão se juntar no nível do ventrículo único.
Por isso, diz-se que a circulação desses animais é fechada, dupla, porém incompleta (há
mistura de sangue arterial com sangue venoso);
a maioria das rãs e sapos tem ouvido médio e membrana timpânica externa. Os sons
desta membrana, pela cavidade timpânica, para o ouvido interno através de um osso
137
(columela). A cavidade timpânica comunica-se com a faringe pela trompa de Eustáquio;
todos os representantes são anamniotas e analantoidianos, isto é, não formam âmnio nem
alantóide durante o desenvolvimento embrionário.
Evolução
Os anfíbios são os primeiros e mais inferiores Tetrapoda. Derivam de um ancestral
semelhante a um peixe. A transição da água para a terra envolveu: modificação do corpo
para andar em terra firme, retendo ainda a capacidade de nadar, desenvolvimento de pernas
em lugar de nadadeiras pares, modificações da pele para permitir a exposição ao ar,
substituição das brânquias por pulmões, modificações no aparelho circulatório para permitir
a respiração pelos pulmões e pela pele, e aquisição de órgãos dos sentidos que funcionam
tanto no ar como na água.
Sistema esquelético
Os anfíbios têm o crânio largo e achatado, se comparado a maioria dos peixes. Como
não existe palato secundário, as coanas se abrem na região anterior do teto da boca. Em
alguns pode não haver nenhum dente, enquanto em outros podem estar ausentes apenas na
mandíbula.
O número de vértebras é bastante variável (10 a 200), além dessas serem mais
diferenciadas que aquelas dos peixes. São os primeiros vertebrados com ESTERNO, mas as
costelas são pouco desenvolvidas e, em nenhum caso, têm contato com o esterno.
A maioria dos anfíbios tem 2 pares de pernas, com 4 dedos em cada perna anterior e 5
dedos em cada perna posterior, embora esse número possa ser reduzido. As pernas
posteriores ou ambos os pares podem estar ausentes (salamandras e cobras-cega,
respectivamente). Alguns dotados de caudas, outros não.
Sistema urogenital e reprodução
Os ovários, oviductos, testículos e ductos aquinéfricos são pares e desembocam na
cloaca. Não existe nenhum órgão copulatório especial. Em algumas espécies de sapos, existe
uma estrutura chamada órgão de Bidder, que se localiza na frente de cada testículo. Em
certas circunstâncias, esse órgão pode vir a desenvolver-se num ovário. Mais estranho ainda
talvez, seja o fato desse órgão, às vezes, produzir espermatozóides em fêmeas velhas.
De todas as características dos anfíbios, a mais notável é a variedade de modos de
reprodução e de cuidado parental exibida. A maioria das espécies de anfíbios deposita ovos:
na água, na terra ou podem eclodir em larvas aquáticas ou em miniaturas dos adultos
terrestres.
A maioria dos anfíbios acasala-se na água, onde seus ovos são depositados e eclodem
onde as larvas resultantes vivem e crescem até a metamorfose para o estágio adulto. Cada
espécie tem um lugar característico para a reprodução, como um grande lago calmo ou
açude, um rio ou uma poça transitória; alguns procriam na terra. Os machos de sapos e rãs,
ao entrar na água, começam a coaxar para atrair as fêmeas. Cada fêmea sexualmente
“madura” que entra na água é agarrada por um macho, que a abraça subindo em suas costas.
Quando ela elimina seus óvulos, o macho descarrega o esperma sobre eles para efetuar a
fecundação, que acontece no ambiente.
Os ovos dos anfíbios são envolvidos por uma ou mais camadas gelatinosas que os
protegem contra choques e dessecação e tornam os ataques dos inimigos mais difíceis. Larvas
de sapos e rãs são os familiares girinos com cabeça e corpo ovóides e uma longa cauda. A
metamorfose envolve: o crescimento de uma larga boca e perda das placas córneas; a perda
das brânquias, fechamento das fendas branquiais e desenvolvimento dos pulmões; o
aparecimento das pernas anteriores; redução do comprimento do intestino do tipo longo
138
(herbívoro) ao curto (carnívoro) da rã; reabsorção da cauda e das nadadeiras medianas.
Muitas salamandras, entretanto, retém caracteres juvenis por toda a vida, como as brânquias
(fig. 111).
Como muitos anfíbios vivem parcial ou inteiramente na água doce, eles
desenvolveram grandes corpúsculos renais para auxiliar a eliminação de água e, deste modo,
impedir a entrada de água em excesso.
A bexiga dos anfíbios representa uma estrutura nova que se desenvolve como uma
evaginação do soalho da cloaca. Em certos anfíbios terrestres, parte da água da urina
armazenada é reabsorvida para o sistema, em determinadas épocas, para compensar a
umidade perdida pela pele. Os anfíbios que passam grande parte do tempo enterrados, como
certos sapos de regiões áridas, podem absorver água do solo se a pressão osmótica dos
fluidos corpóreos for maior que a tensão da água do solo.
Figura 111: Desenvolvimento da salamandra.
Respiração
Anfíbios têm mais recursos para a respiração que qualquer outro grupo animal,
refletindo a transição de habitats aquáticos para terrestres. Em diferentes espécies as
brânquias, os pulmões, a pele e a bucofaringe servem separadamente ou em combinação.
Três pares de brânquias externas ocorrem em todos os embriões e larvas. Nos adultos, os
pulmões são bastante simples. Geralmente o ar é bombeado para os pulmões através de um
simples processo de deglutição. Em espécies aquáticas os pulmões também servem como
órgãos hidrostáticos, sendo inflados quando os animais estão flutuando. A pele de todos os
anfíbios contém muitos vasos sangüíneos que ajudam na oxigenação do sangue; isto permite
que espécies aquáticas permaneçam submersas durante longos períodos e que hibernem em
açudes.
Muitas espécies têm respiração bucofaríngea; pulsações da região gular movem o ar
para dentro e para fora da cavidade bucal e a oxigenação do sangue ocorre nos vasos
situados por baixo da mucosa aí existente. Cordas vocais na laringe de rãs e sapos servem
para produzir a coaxação familiar, distinta para cada espécie, que serve para reunir os sexos
para a reprodução - principalmente durante a primavera.
139
Características Especiais
Pele e Glândulas: a pele dos anfíbios é mais importante para a respiração e proteção.
Numerosas glândulas mucosas lubrificam e fazem com que pele esteja sempre úmida e lisa.
Alguns anfíbios desenvolvem glândulas no focinho e no dorso antes da eclosão e a secreção
serve para romper a cápsula do ovo. Muitos anfíbios possuem glândulas granulosas, que
podem produzir secreções venenosas, servindo como defesa. Nos sapos, as grandes
glândulas paratóides (situadas ao lado do pescoço) representam aglomerações de glândulas
de veneno. A toxidade desses venenos varia enormenente. Algumas rãs neotropicais
apresentam coloração viva e são venenosas,provavelmente “usam” a cor como sinal de
advertência.
Muda: a superfície externa de toda a pele é trocada periodicamente pelos anfíbios.
Parece que esse processo de muda está sob controle hormonal. A camada externa da pele não
é trocada inteira, como em certos répteis, mas em fragmentos. A freqüência das mudas varia
de acordo com a espécie, podendo ter extremos de uma muda por dia (Hyla cinerea). Em
outros anfíbios, o intervalo pode ser de um mês ou mais.
Membros: há uma variação considerável no número de membros e dedos, como
resultado dos diferentes modos de vida. Por exemplo: cobras-cegas são ápodas, mas a
maioria dos anfíbios caudados têm quatro membros com 4 dedos nas pernas anteriores e 5
nas posteriores, geralmente, mas há variações. Os membros de sapos e rãs são em geral
muito mais especializados que os das salamandras, sendo os membros posteriores alongados
e adaptados ao salto. Nas pererecas, as pontas dos dedos são alargadas e com discos adesivos
na superfície inferior, enquanto as rãs possuem membranas natatórias entre os artelhos.
Regeneração: os anfíbios anuros são capazes de regenerar membros ou dedos
perdidos, mas as salamandras não o fazem.
Vocalização: o canto dos anuros é diversificado, varia com a espécie, sendo que uma
espécie pode ter cantos diferentes para diversas situações. Os cantos mais familiares são
aqueles referidos como nupciais (ou de advertência). As características do canto identificam a
espécie e o sexo do indivíduo que canta. As fêmeas dos anuros são sensíveis ao canto de sua
própria espécie durante curto período, quando os óvulos estão prontos para serem
depositados. Acredita-se que os hormônios relacionados à ovulação sensibilizem células
específicas relacionadas à audição.
Atividades estacionais
Anfíbios vivem principalmente na água e em lugares úmidos; nunca no mar. Todos
precisam evitar temperaturas extremas e a seca porque não têm regulação da temperatura do
corpo através de calor gerado pelo metabolismo e, além disso, podem perder facilmente água
através de sua pele fina. Durante o inverno rãs e salamandras aquáticas hibernam no fundo
de lagos e rios que não congelam; sapos e salamandras terrestres enterram-se ou vão até
abaixo da linha de congelamento. Durante a hibernação todos os processos vitais são
reduzidos, o batimento cardíaco é lento e o animal sobrevive de reservas armazenadas no
corpo.
9.2.2.2 Classe Reptilia
Os répteis constituem o primeiro grupo dos vertebrados totalmente adaptados à vida
em lugares secos na terra (figura 112). A pele seca e córnea e as escamas resistem à perda de
umidade do corpo e facilitam a vida em superfícies secas e ásperas. Diferentemente dos
anfíbios, que dependem da água ou de um ambiente úmido para evitar a dessecação dos
ovos, os répteis desenvolveram uma casca sólida ao redor do ovo repleto de vitelo. A casca é
140
suficientemente porosa para permitir a passagem de gases respiratórios, mas sólida o
bastante para protegê-lo. O mais importante porém, foi o desenvolvimento de uma
membrana embrionária (o âmnio), que envolve uma câmara cheia de líquido, no qual o
indivíduo pode se desenvolver protegido da dessecação.
Figura 112: Tipos de répteis vivos. A. Chelonia. B e C. Lepidosauromorpha. D. Crocodylia.
Juntamente com âmnio, surgiram também outros dois anexos embrionários: o córion
(membrana de proteção embrionária externa ao âmnio) e o alantóide, que participam das
trocas gasosas. O alantóide atua também como uma estrutura armazenadora de excretas
nitrogenadas resultantes do metabolismo protéico. A excreta nitrogenada dos embriões de
répteis é o ácido úrico, insolúvel em água e atóxico, podendo ser armazenado dentro do ovo.
Os adultos também excretam ácido úrico, representando uma grande economia de água, uma
vez que não precisa de água para ser eliminado.
O nome da Classe refere-se ao modo de locomoção (do latim reptare - rastejar), e sendo
dividida informalmente em três grandes grupos:
1. Chelonia - englobando todas as tartarugas e jabutis.
As tartarugas são os vertebrados mais facilmente reconhecíveis. Alguns aspectos de
sua morfologia as aproxima dos primeiros vertebrados amniotas, entretanto, em outros
aspectos, as tartarugas são tão especializadas que torna-se difícil fazer ligações com outros
vertebrados. O casco é o caráter mais distintivo, mas o esqueleto como um todo acha-se
igualmente modificado.
A fusão das costelas ao casco impede que esses animais utilizem-se de movimentos
da caixa torácica para inspirar/expirar, como ocorre nos lagartos durante a respiração.
Apenas as aberturas das extremidades anterior e posterior do casco contém tecidos
flexíveis. Os pulmões, que são grandes, estão ligados dorsal e lateralmente à carapaça.
Ventralmente, os pulmões estão ligados a uma lâmina de tecido conjuntivo que prende-se
às vísceras. O peso dessas, por sua vez, mantém a lâmina diafragmática estirada para
baixo. Assim, as tartarugas produzem mudanças na pressão pulmonar pela contração de
músculos que forçam as vísceras para cima, comprimindo os pulmões e expelindo o ar.
Como as vísceras estão ligadas à lâmina diafragmática, a qual está ligada aos pulmões, o
movimento das vísceras para baixo expande os pulmões, aspirando ar.
O problema básico de respirar dentro de um casco rígido é o mesmo para a maioria
das tartarugas, mas os mecanismos apresentam algumas variações. As tartarugas
aquáticas, por exemplo, podem utilizar a pressão hidrostática para auxiliar a
movimentação do ar para dentro e fora dos pulmões, enquanto a tartaruga australiana
pode utilizar a respiração cloacal (grandes bolsas na região cloacal com revestimento
altamente vascularizado e numerosas vilosidades funcionando para a respiração).
141
Todas as tartarugas são ovíparas e nenhuma exibe cuidado com a prole. O
desenvolvimento embrionário de algumas espécies é bastante peculiar, sendo o sexo de
um indivíduo determinado pela temperatura a que este é exposto no ninho.
As tartarugas são desprovidas de dentes, portando um bico córneo formado pelas
maxilas inferior e superior.
2. Crocodilia - jacarés, crocodilos e gaviais.
Os Crocodilia retiveram as narinas na extremidade do focinho e desenvolveram um
palato secundário que desloca as passagens de ar para a porção posterior da boca. Uma
aba de tecido, que se origina da base da língua, pode formar um selo à prova d’água entre
a boca e a garganta. desse modo, um Crocodilia pode respirar somente com as narinas
expostas, sem inalar água. Houve também um desenvolvimento progressivo dos pré-
maxilares e maxilares no palato secundário.
Os Crocodilia modernos são animais semi-aquáticos, mas apresentam patas bem
desenvolvidas e algumas espécies realizam extensos movimentos pela terra. Possuem
tipicamente uma armadura corporal dérmica e a cauda, pesada e lateralmente achatada,
impulsiona seu corpo na água, enquanto as patas são mantidas contra suas laterais.
Apenas 21 espécies de Crocodilia sobrevivem atualmente. A maioria é encontrada em
regiões tropicais e subtropicais, embora existam três espécies que penetram na zona
temperada. Os sistematas dividem os Crocodilia em 3 famílias: os Alligatoridae, que
incluem 2 espécies de jacarés e os caimans, que são formas de água doce. Os Crocodylidae
incluem espécies como o crocodilo de água salgada, que habita estuários, pântanos de
manguezais e regiões baixas de grandes rios e é, provavelmente, a maior espécie atual do
grupo (adultos com até 7 m de comprimento). A terceira família de Crocodilia, os
Gavialidae, contém uma única espécie, o gavial, que já viveu em grandes rios do norte da
Índia. Essa espécie apresenta o focinho mais estreito que os demais Crocodilia e pode
representar um tipo de especialização à alimentação baseada em peixes, que são
capturados por meio de um rápido golpe lateral da cabeça (figura 113).
Figura 113: Os Crocodilia diferem pouco entre si ou das formas do Mesozóico. A maior variação interespecífica,nos
Crocodilia atuais, é observada na forma da cabeça. Os jacarés e os caimans são formas de focinho largo, com dietas
variadas. Os crocodilos incluem uma variedade de larguras de focinho. Os mais largos focinhos de crocodilos são
quase tão largos quanto aqueles da maioria dos jacarés e caimans, e essas espécies de crocodilos apresentam dietas
variadas que incluem tartarugas, peixes e animais terrestres. Outros crocodilos possuem focinhos muito estreitos e
são primariamente piscívoros. (a) crocodilo cubano; (b) jacaré chinês; (c) crocodilo americano; (d) gavial.
142
3. Lepidosauria - tuatara, lagartos, serpentes e cobras-de-duas-cabeças.
Os Lepidosauria são distinguidos por diversos caracteres derivados, tanto do
esqueleto como da anatomia das partes moles. Talvez o mais interessante desses seja o
crescimento determinado, ou seja, o crescimento é interrompido quando a placas
cartilaginosas que separam as extremidades dos ossos longos e as epífises tornam-se
completamente ossificadas. Essa modificação do padrão de crescimento contínuo não é
observada em Crocodilia e nas tartarugas.
Dois grupos principais podem ser distinguidos: Sphenodontia (com a tuatara,
único vivente, que ocorre em ilhas da Nova Zelândia) e Squamata (lagartos, serpentes e
cobra-de-duas-cabeças).
Squamata: mostram numerosos caracteres derivados no crânio, esqueleto pós-
craniano e tecidos moles. O mais evidente destes é a perda da barra temporal inferior e do
osso quadrado-jugal , que formava parte dessa barra. Essa modificação faz parte de uma
série de mudanças estruturais do crânio, que contribuem para o desenvolvimento de uma
complexidade de movimentos. Nas serpentes, a flexibilidade do crânio foi aumentada
ainda mais, através da perda da segunda barra temporal.
O órgão de Jacobson tem seu ápice de desenvolvimento em serpentes e lagartos e é
ligado ao teto da boca e não ao canal nasal.
Caracteres gerais
Há uma considerável variação na estrutura do ouvido dos répteis. Nas serpentes, o
tímpano, o ouvido médio e a trompa de Eustáquio inexistem. As vibrações recebidas são
transmitidas por meio do quadrado à columela e então ao ouvido interno. Os lagartos
possuem um ouvido médio bem desenvolvido.
A ossificação do crânio dos répteis é maior do que a dos anfíbios. Durante a evolução,
ocorreu uma considerável variação na região temporal dos répteis. A condição sólida do
crânio sem aberturas (anápsido), característico de certos répteis do tronco primitivo, nos
representantes viventes só pode ser observado na tartarugas. A maioria dos répteis
viventes tem um crânio diápsido (com aberturas tanto supra como infratemporais), como
os répteis dominantes no Mesozóico.
teto do crânio é arqueado e não mais achatado, como nos anfíbios.
2 pares de membros locomotores situados no mesmo plano do corpo, justificando o
rastejamento do ventre no solo (as cobras não possuem membros locomotores, mas
também rastejam). Cada membro tipicamente com 5 dedos terminando em garras córneas
e adaptadas para correr, rastejar ou trepar. Pernas semelhantes a remos nas tartarugas
marinhas, reduzidas em alguns lagartos, ausentes em alguns outros lagartos e em todas
as serpentes;
pele seca e freqüentemente recoberta por escamas (cobras e lagartos), placas dérmicas
(crocodilianos) ou plastrões e carapaças (tartarugas). Em muitos casos, ocorrem mudas do
tegumento, com a eliminação das camadas mais superficiais da epiderme;
respiração pulmonar em todo o grupo, respiração cloacal em tartarugas marinhas;
o sistema digestivo é completo, com glândulas bem desenvolvidas, como fígado e
pâncreas, terminando em cloaca;
pálpebras presentes em muitos representantes, mais moveis que as dos anfíbios. Em
serpentes e lagartos cavadores não existem pálpebras móveis.
a respiração é estritamente pulmonar, com pulmões parenquimatosos menos
aprimorados do que os dos mamíferos, porém, com alvéolos, e, portanto, mais evoluídos
que o dos anfíbios. As serpentes só têm o pulmão direito, já que o esquerdo é bastante
atrofiado;
143
a circulação é fechada, dupla e praticamente completa, uma vez que o coração possui
duas aurículas ou átrios e um ventrículo dividido por um septo incompleto em dois
ventrículos;
o desenvolvimento é direto, sem metamorfose;
todos são ectotérmicos;
são os primeiros tetrápodos amniotas e alantoidianos na escala zoológica.
presença de ovos com casca.
Caracteres especiais
Termorreceptores: as cascavéis e outros membros da família possuem fossetas loreais ou
cavidades sensoriais de cada lado da cabeça com capacidade termossensível. Essas
fossetas são anteroventrais aos olhos e possuem a abertura dirigida para frente.
Evolução
Os répteis estão melhor enquadrados ao ambiente terrestre em relação aos anfíbios,
tendo tegumento seco e com escamas, adaptado à vida no ar seco; pernas adaptadas para a
locomoção rápida, maior separação do sangue arterial e venoso no coração, completa
ossificação do esqueleto e ovos adaptados para o desenvolvimento em terra, com membranas
e cascas para proteger o embrião. Aos répteis faltam tegumento isolante, regulação da
temperatura do corpo e algumas outras características de aves e mamíferos.
Reprodução e sistema urogenital
Em Sphenodon não há órgãos copulatórios, todavia, na maioria dos répteis o macho
possui algum tipo de órgão acessório, um pênis, para auxiliar a transferência de
espermatozóides. Nas cobras e lagartos ocorrem estruturas exclusivas: os hemipênis, que são
formados por um par de bolsas providas de espinhos e situadas na pele adjacente à abertura
cloacal. Durante a cópula os hemipênis podem ser evertidos e introduzidos na cloaca da
fêmea para a transferência dos espermatozóides.
Nos répteis a fecundação é sempre interna, mas a maioria das espécies deposita seus
ovos para o desenvolvimento fora de seu corpo. Em adaptação à vida terrestre, os ovos dos
répteis assemelham-se um pouco aos das aves, sendo encerrados numa casca resistente e
flexível, com uma membrana interna. Há muito vitelo para nutrir o embrião. Durante o
desenvolvimento, este é circundado por membranas embrionárias: âmnio, córion e alantóide;
essas novas estruturas funcionam protegendo o delicado embrião contra dessecação e choque
físico durante o desenvolvimento.
O desenvolvimento do embrião ocorre fora d’água sem o perigo da desidratação.
Mesmo os répteis de habitat aquático, como jacarés e tartarugas, desovam em terra, onde os
ovos são incubados. O filhote, ao eclodir, é geralmente semelhante ao adulto e torna-se
imediatamente independente.
Répteis Fósseis
Os répteis viventes, apesar de numerosos, são na maioria pequenos e ocupam uma
posição secundária entre os animais existentes. Durante o Mesozóico foram os vertebrados
dominantes e ocuparam a maioria dos habitats animais disponíveis. Variaram em tamanho,
de pequenos a grandes, alguns excedendo de longe os elefantes em comprimento e peso e
foram muito diversificados em estrutura e hábitos. Das 16 ordens de répteis primitivos,
apenas 4 sobreviveram. Entre os espécimes que não são encontrados na atualidade, apenas
em registros fósseis, estão os dinossauros e os pterodáctilos. Ainda hoje existe muita
especulação para se saber a causa da extinção em massa ocorrida na transição Cretáceo-
144
Terciário (figura 114). Alguns autores também sugerem que os répteis tenham sido incapazes
de competir com os mamíferos. Porém, a hipótese mais aceita ainda hoje, diz que mudanças
graduais do nível do mar e um aumento na variação climática tenham fornecido um contexto
no qual pressões físicas e biológicas podem ser combinadas, resultando uma explicação
plausível para as extinções de certos grupos.
Figura 114: Restaurações dos répteis do Mesozóico.
9.2.2.3 Classe Aves (~ 8700 espécies viventes)
De todos os animais as aves são os mais bem conhecidos e os mais facilmente
reconhecidos porque são comuns, ativas durante o dia e facilmente vistas.São singulares na
posse de penas que revestem e isolam o corpo tornando possível a regulação da temperatura
e ajudam no vôo. Nenhuma outra classe animal possui penas. A capacidade de voar
possibilita às aves ocuparem alguns habitats negados a outros animais. As aves ocupam
todos os continentes, os mares e a maioria das ilhas.
145
Caracteres gerais
Corpo coberto com penas.
Dois pares de apêndices; o anterior transformado em asas para voar; o posterior adaptado
para empoleirar-se, andar ou nadar; cada pé geralmente com 4 dedos envolvidos por pele
cornificada (figura 115).
Esqueleto delicado, forte, totalmente ossificado; muitos ossos fundidos, dando rigidez; a
boca é um bico que se projeta, com bainhas córneas; sem dentes nas aves viventes; crânio
com um côndilo occipital; pescoço geralmente longo e flexível; pelve fundida a
numerosas vértebras, mas aberta ventralmente; esterno grande, geralmente com quilha
mediana; poucas vértebras caudais, comprimidas na parte posterior.
Coração com 4 câmaras (2 aurículas, 2 ventrículos separados); persiste apenas o arco
aórtico (sistêmico) direito; glóbulos vermelhos nucleados, ovais e biconvexos.
Respiração por pulmões compactos, muito eficientes, presos às costelas e ligados a sacos
aéreos de paredes finas que se estendem entre os órgãos internos; caixa vocal (siringe) na
base da traquéia.
Doze pares de nervos cranianos.
Excreção por meio de rins metanéfricos; o ácido úrico é o principal produto de excreção
nitrogenada; urina semi-sólida; sem bexiga urinária (exceto nas emas e nos avestruzes);
um sistema porta-renal.
Temperatura do corpo essencialmente constante (isto é, homeotermas, com temperatura
entre 40-41 °C) e endotérmicas, ou seja mantém a temperatura corpórea com calor gerado
pelo metabolismo.
Fecundação interna; ovos com muito vitelo, envolvidos por uma casca calcária dura e
depositados externamente para a incubação; segmentação meroblástica; membranas
embrionárias (âmnio, córion, saco vitelino e alantóide) presentes durante o
desenvolvimento dentro do ovo; filhotes são alimentados e vigiados pelos pais.
Evolução
As aves parecem ter se originado de répteis um tanto delgados, de cauda longa e
andar bípede. Estes animais provavelmente corriam rapidamente com suas pernas
posteriores, tendo os membros anteriores levantados e livres para darem origem às asas. Os
fatores seletivos na evolução das penas não são bem esclarecidos.
Figura 115: Alguns tipos de pés nas aves.
146
A ave mais antiga que se conhece
assemelha-se mais a um dinossauro do que as
aves atuais. Foi descoberta em registros fósseis e
denominada Archeopteryx (figura à esquerda),
que significa “ave primitiva”. Tinha muitas
características dos répteis (cauda longa, ossos
pesados e compactos, dentes na boca), mas
apresentavama característica mais
predominante das aves: asas e penas.
As aves herdaram diversos aspectos dos
répteis que contribuíram para seu sucesso como
voadoras pela redução de peso. Os ovos desenvolvem-se totalmente fora do corpo materno e
os produtos de excreção nitrogenada são excretados sem o peso de uma abundante urina
aquosa. Outras reduções de peso foram conseguidas pela perda da bexiga e tornando o seu
esqueleto mais leve.
As modificações viscerais relacionadas com a endotermia incluem um coração com
quatro câmaras, separação completa das circulações venosa e arterial e aperfeiçoamento da
respiração. Os sacos aéreos internos, que se abrem para o exterior através do trato
respiratório, auxiliam a respiração e a dissipar o calor gerado pelo elevado metabolismo.
O vôo requer um corpo compacto, aerodinâmico e rígido, adquirido nas aves pela
fusão, perda e reforço de ossos. Muitas modificações ocorreram no esqueleto para diminuir a
massa total do corpo. As pernas localizam-se abaixo do corpo e podem ser retraídas entre as
penas do ventre.
Uma grande acuidade visual e uma rápida acomodação são necessárias para um
animal voador, sendo a visão um sentido primário nas aves. A grande mobilidade e a
necessidade de comunicação a grandes distâncias promoveram a elaboração da voz e da
audição. A quimiorrecepção, importante nos vertebrados inferiores, diminuiu inclusive o
sentido do órgão de Jacobson.
O cuidado que os pais têm pelos ovos e pelos filhotes é muito mais avançado que nos
ectotérmicos, mas nenhuma ave é vivípara.
As maiores aves viventes incluem o avestruz da África, que tem 2 m de altura e pesa
até 136 kg e os grandes condores das Américas com envergadura de até 3 m; a menor é o
beija-flor-de-helena, de Cuba, com 5,7 cm de comprimento e cerca de 3 g de peso.
Aspecto externo: apresentam uma cabeça distinta, um pescoço longo e flexível e um forte corpo
fusiforme ou tronco. Os dois membros anteriores ou asas prendem-se no alto do dorso e têm
longas penas apropriadas ao vôo (rêmiges). Em cada membro posterior os dois segmentos
superiores são musculosos, enquanto que a canela contém tendões mas poucos músculos e é
revestida com escamas córneas, assim como os 4 artelhos que terminam em garras córneas. A
cauda curta apresenta um leque de longas penas caudais (retrizes). A boca projeta-se como
um bico pontudo, com revestimento córneo (figura 116). No maxilar superior há duas narinas
em forma de fenda. Os olhos são grandes e laterais, cada um com pálpebra superior e inferior;
abaixo destas fica a membrana nictitante (membrana delicada que ocorre sobre os olhos, abaixo
das pálpebras, para proteger o globo ocular). Por baixo e atrás de cada olho há uma abertura
do ouvido, escondida embaixo de penas especiais. A crista mediana carnosa, as barbelas laterais
na cabeça e os esporões cornificados das pernas são peculiares aos galos, faisões e algumas
outras aves. Abaixo da base da cauda fica a cloaca (figura 117). A pele mole, flexível e seca é
presa frouxamente à musculatura subjacente. Faltam glândulas, com exceção da glândula
uropigial acima da base da cauda, que secreta uma substância oleosa para impermeabilizar as
penas e é distribuída com o bico. As penas crescem a partir de folículos na pele.
147
Figura 116: Alguns tipos de bicos nas aves.
Figura 117: Galo doméstico; estrutura interna. Os dois cecos foram cortados.
Penas: constituem um revestimento do corpo leve e flexível, mas resistente, com espaços
aéreos úteis como isolante; protegem a pele contra o desgaste e as penas finas das asas e da
cauda formam superfícies para sustentar a ave no vôo (fig. 118).
1. Penas de contorno. Fornecem o revestimento externo e estabelecem o contorno do corpo da
ave, incluindo as grandes penas do vôo das asas e da cauda. Cada uma consiste em um
148
vexilo achatado, sustentado pelo ráquis central que é uma expansão do cálamo oco preso ao
folículo. Cada metade do vexilo é constituída por muitas barbas estreitas paralelas. Nos lados
proximal e distal de cada barba há bárbulas menores, paralelas que apresentam minúsculos
ganchos ou hâmulos, servindo para segurar levemente as fileiras opostas de bárbulas entre si.
2. Plumas. São penas macias que fornecem excelente isolamento. Têm cálamo curto, ráquis
reduzidas e longas e flexíveis barbas com bárbulas curtas, sem ganchos.
3. Filoplumas. Minúsculas penas filiformes com poucas barbas e bárbulas.
4. Cerdas. Penas modificadas em forma de pêlo, cada uma com um cálamo curto e ráquis
delgada com poucas ou nenhuma barba na base. São encontradas perto das narinas, e em
torno da boca.
5. Plumas pulverulentas. As barbas nas extremidades desintegram-se à medida que crescem
formando um pó fino que impermeabiliza as penas. São encontradas em garças, gaviões,
papagaios etc.
Com exceção de avestruzes, pingüins e de algumas outras aves completamente
cobertas por penas, as penas só crescem em certas áreas da pele chamadas ptérilas, entre as
quais há espaços vazios (aptérios), visíveis quando se depena uma ave (figura 119).
Figura 118 (à esquerda): Em cima. Quatro tiposde
penas. Embaixo. Estereograma das partes de uma
pena de contorno; *, duas bárbulas proximais
cortadas para mostrar a parte superior dobrada,
ao longo da qual os hâmulos deslizam para deixar
a pena flexível.
____________________________________
Figura 119: Áreas com penas do galo doméstico.
Sistema Esquelético
Muitos ossos contêm cavidades aéreas (ossos pneumáticos) para diminuir o peso e têm
uma estrutura de reforços ósseos que fornecem resistência. O esqueleto é modificado em
relação ao vôo, à locomoção bípede e à postura de grandes ovos com casca dura (figura 120).
Nas aves que voam (também chamadas de carenatas, porque têm carena) os ossos são
extremamente leves. Isso é essencial para diminuir seu peso específico durante o vôo. Os
ossos maiores apresentam cavidades pneumáticas conectadas com sistema respiratório,
sendo os principais: úmero, esterno, vértebras e crânio.
149
Figura 120: Esqueleto do galo doméstico.
As maxilas são alongadas para a sustentação do BICO.
Há muitas adaptações na coluna vertebral: vértebras cervicais são mais numerosas e
variáveis em número que em qualquer outro vertebrado vivente.
As costelas das aves são achatadas e todas, com exceção da primeira e última,
possuem uma projeção posterior, que se sobrepõe a costela subseqüente e é chamada de
processo uncinado.
O esterno é muito achatado e largo, de maneira que seja obtida uma superfície
suficiente para fixação dos músculos do vôo. Em todas as aves que voam, o esterno tem uma
quilha ou carena (prolongamento para baixo, a partir da linha mediana ventral), que serve
como uma superfície adicional para a fixação dos músculos.
Sistema respiratório
É extremamente eficiente e, consequentemente, mais complicado que nos demais
vertebrados de respiração aérea.
As narinas no bico ligam-se às coanas acima da cavidade bucal. A glote em forma de
fenda no assoalho da faringe, abre-se na laringe ou em uma traquéia longa e flexível. A
laringe das aves, entretanto, não é o órgão produtor de som, mas sim o modulador dos tons
que se originam na siringe (caixa vocal), que se localiza na extremidade inferior da traquéia.
Dentro da siringe existem músculos vocais. Da siringe parte um brônquio curto para cada
pulmão (figura 121). Os cantos e gritos das aves são produzidos por ar forçado através de
membranas nas paredes da siringe, que vibram como palhetas e podem variar a tensão para
produzir notas de diferentes alturas.
A maioria das aves pode emitir gritos e cantos. Os gritos geralmente são sons breves,
simples, estereotipados que influenciam o comportamento diário de manutenção,
alimentação, interação entre pais e filhotes, migração, evitando o perigo e reunindo as aves.
Os cantos tendem a ser mais complexos, geralmente são emitidos pelos machos,
150
influenciados pelas modificações endócrinas do ciclo reprodutivo e são relacionados com a
reprodução, estabelecimento e defesa do território, atraem uma parceira, mantém a união de
um casal e sincronizam os ciclos reprodutivos de machos e fêmeas.
Figura 121: O pulmão e o sistema
de sacos aéreos do periquito
australiano; é mostrado somente
o lado esquerdo. 1. Seio
infraorbital; 2. Saco aéreo
clavicular; 2a. divertículo axilar
do úmero; 2b. divertículo
esternal; 3. Saco aéreo cervical; 4.
Saco aéreo torácico cranial; 5.
Saco aéreo torácico caudal; 6. Saco
aéreo abdominal; 7. Pulmão
parabronquial.
Os pulmões das aves são proporcionalmente menores e incapazes de grande
expansão, se comparados àqueles dos mamíferos. Entretanto, nas aves os pulmões são
ligados a nove sacos aéreos, situados em várias partes do corpo, estendendo-se até aos
espaços pneumáticos dos ossos. Os sacos aéreos não são revestidos de epitélio respiratório e
servem essencialmente de reservatório, bem como para dissipar calor gerado pelos altos
níveis de atividade muscular do vôo. Os sacos aéreos fornecem um sistema no qual o fluxo
de ar através dos pulmões tem sentido único, ao invés de ter fluxo e refluxo como ocorre nos
mamíferos. Assim, durante a inspiração e a expiração, o ar flui através do pulmão na mesma
direção (figura 122). Durante a inspiração, o volume do tórax aumenta, conduzindo o ar
pelos brônquios e sacos aéreos torácicos posteriores e abdominais, bem como para o pulmão.
Simultaneamente, o ar do pulmão é conduzido aos sacos clavicular e torácicos posteriores
anteriores.
Figura 122: Padrão do fluxo de ar durante a inspiração e a expiração. Note que o ar flui através do
pulmão parabronquial durante as duas fases do ciclo respiratório. 1, pulmão parabronquial; 2, saco
aéreo clavicular; 3, saco aéreo torácico cranial; 4, saco aéreo torácico caudal; 5, saco aéreo abdominal.
Na expiração, o volume do tórax diminui, o ar, dos sacos torácicos posteriores e
151
abdominais, é impelido para o pulmão e ar dos sacos clavicular e torácicos é expelido pelos
brônquios.
As aves não têm diafragma e, portanto, a respiração se faz as custas de movimentos
das costelas e do esterno.
Sistema Digestivo.
As aves apresentam muitas modificações interessantes, algumas das quais associadas
à ausência de dentes. Como não existem lábios, não há glândulas labiais na boca, mas sim
sublinguais. Nas aves granívoras (que comem grãos) e carnívoras, existe uma porção do
esôfago em forma de saco, o papo, que se destina ao armazenamento temporário de
alimentos. Não há glândulas digestivas no papo, embora nos pombos e espécies aparentadas
existam estruturas semelhantes a glândulas que produzem substância nutritiva (o “leite” dos
pombos), que é regurgitada pelos pais para alimentar os filhotes.
O estômago tem uma porção glandular anterior, o proventrículo, que secreta sucos
gástricos, e uma porção posterior, muscular e com espessas paredes, chamada moela. Na
moela, areia e pedriscos engolidos pela ave ajudam a triturar o alimento. O intestino delgado
é enrolado ou forma alças. A maioria das aves possui um ou dois cecos na junção dos
intestinos delgado e grosso, que por sua vez termina numa câmara cloacal (figura 123).
Figura 123: Trato digestivo de um pombo.
Reprodução.
A fecundação é sempre interna e todas as aves botam ovos com muito vitelo e uma
casca calcária dura, que precisam ser aquecidos ou incubados para o crescimento do embrião.
Em quase todas as aves cada um ou ambos pais sentam sobre os ovos para fornecer o calor
necessário. Os filhotes de galinhas, codornizes, patos, aves litorâneas e outras são nidífugos
152
(aptos à correr assim que saem do ovo), sendo bem formados, totalmente cobertos de plumas
e capazes de perambular logo após a eclosão, enquanto que os de aves canoras, pica-paus,
pombos e outros nascem com os olhos fechados, nus e desprotegidos. Precisam ser
alimentados e cuidados no ninho; estes são chamados nidícolas.
Migração.
Muitas espécies migram ou deslocam-se regularmente de uma região a outra com a
mudança das estações. Tanto as rotas de verão como as de inverno das espécies são bem
definidas. A maior parte da migração é latitudinal, das regiões setentrionais e subárticas,
onde há facilidades de alimentação e nidificação durante os meses quentes e depois retiram-
se para o sul, onde passam o inverno. Algumas outras aves fazem migrações altitudinais para
regiões montanhosas para passarem o verão e voltam para as terras baixas no inverno.
Migração, reprodução e muda são fases do ciclo anual das aves, todas reguladas pelo sistema
neuroendócrino. Geralmente, antes da migração, acumulam rapidamente reservas de
gordura, não presentes em outras épocas, para combustível extra durante os longos vôos.
9.2.2.4 Classe Mammalia
Os mamíferos (do latim mamma - mama e feros - portador), com cerca de 4.500 espécies
atuais, distribuem-se por quase todo o globo terrestre, explorando amplamente os recursos
da Terra, de pólo a pólo, do topo das montanhas às profundezas dos mares e mesmo no céu
noturno. Apresentam uma grande disparidademorfológica relacionada à diversidade de
hábitos alimentares e modos de locomoção. Reconhecemos 20 ordens atuais, que refletem
essa diversidade. Essas ordens englobam representantes bem conhecidos popularmente:
gambá, coala, canguru, tamanduá, preguiça, tatu, morcegos, macacos, cão, gato, lontra, onça,
porco, camelo, veado, boi, rinoceronte, baleia, golfinho, elefante, entre outros.
Os mamíferos modernos podem ser divididos em três grupos principais, separados
com base em seus modos de reprodução. Entre os Prototheria, ou Monotremados,
sobrevivem cerca de seis espécies isoladas geograficamente na Austrália e Nova Guiné. Estão
agrupadas em duas subordens, a das équidnas e a dos ornitorrincos. Os Prototheria
caracterizam-se por botar ovos que são incubados e eclodem fora do trato reprodutivo das
fêmeas. Apesar disso, são vertebrados com pêlos, endotérmicos, produtores de leite,
possuindo dentes (apenas na maxila inferior) e portanto classificados como mamíferos.
Os dois grupos restantes de mamíferos são estreitamente relacionados, mas tiveram
histórias evolutivas separadas. Os Metatheria (Marsupiais), cerca de 250 espécies,
caracterizam-se pelo curto período de gestação, pela prematuridade dos filhotes e, em
muitos, por possuírem uma bolsa de proteção (o marsúpio). Esta bolsa recobre as glândulas
mamárias das mães e o jovem arrasta-se até seu interior imediatamente após o nascimento,
para alimentar-se e completar seu desenvolvimento. Os marsupiais são restritos à Austrália e
Novo Mundo.
Os Eutheria, ou placentários, incluem cerca de 3800 espécies, e nascem num estágio de
desenvolvimento muito mais avançado que os marsupiais. Muitos estão prontos para correr
ou nadar ao lado das mães minutos após o nascimento. Embora isso signifique um maior
potencial de sobrevivência, o custo é alto e prolongado para a fêmea.
Caracteres gerais
De um modo geral, as principais características dos mamíferos são:
presença de mamas em número par, com localização variável;
presença de pêlos em algum estágio da vida, os quais contribuem para a manutenção da
temperatura corpórea, já que são chamados homeotérmicos. Os pêlos podem ser
153
reduzidos ou completamente ausentes em alguns mamíferos adultos.
São endotérmicos;
presença de glândulas cutâneas (sebáceas e sudoríparas) em certas regiões do corpo;
além da formação do âmnio e do alantóide, durante o desenvolvimento embrionário,
também ocorre a formação da placenta, um anexo que permite as trocas respiratórias e
nutritivas entre o feto e a mãe, contribuindo para que aquele passe todo o seu período de
desenvolvimento no interior do útero materno, livre dos perigos do meio exterior;
respiração pulmonar, presença de diafragma separando a cavidade torácica da cavidade
abdominal;
encéfalo altamente desenvolvido;
crânio com dois côndilos occipitais, o que não permite uma rotação tão ampla da cabeça
sobre o pescoço, como sucede com as aves (figuras 124 e figura 125);
Figura 124: Esqueleto de gato doméstico.
Figura 125: Pés de mamíferos
154
circulação dupla e completa. Coração com quatro cavidades distintas. São os únicos
animais com eritrócitos bicôncavos e anucleados;
boca com dentes nas mandíbulas e maxilas (figura 126), língua usualmente móvel, olhos
com pálpebras móveis, ouvidos com pavilhões externos carnosos;
uma bexiga urinária, excreta fluída (urina).
Figura 126: Crânios e dentes de mamíferos
Evolução
Os mamíferos surgiram na Terra a partir dos répteis Synapsida. Muitas características
tornam os animais da classe Mammalia altamente especializados, diferenciando-os dos
demais tetrápodes. O revestimento isolante do corpo (pêlos e gordura subcutânea) e a
separação completa dos sangues venoso e arterial no coração tornam possível a temperatura
regulada do corpo. Com isto o metabolismo é alto e consequentemente há necessidade de
muito alimento. Os dentes são geralmente conspícuos e diferenciados. Os sentidos da visão,
audição e olfato são altamente desenvolvidos. Cerebelo e cérebro grandes são responsáveis
por um alto grau de coordenação em todas as atividades, pela aprendizagem e pela memória
retentiva.
Classificação
Filo Chordata
Subfilo Vertebrata
Superclasse Tetrapoda
Classe Mammalia
Sistema Esquelético
Maior ossificação em relação às formas inferiores, bem como redução na quantidade
de elementos ósseos, principalmente no crânio. Este é relativamente grande para acomodar o
encéfalo, proporcionalmente aumentado. O crânio articula-se com a primeira vértebra
cervical através de 2 côndilos occiptais.
155
No ouvido médio aparece além do estribo, bigorna e martelo.
As vértebras cervicais são em no de 7 em todos os mamíferos, exceto no peixe-boi (06),
preguiça-de-dois-dedos (06), tamanduá (08) e na preguiça-de-três-dedos (09).
Embora os mamíferos possuam basicamente 4 membros pentadáctilos, estes estiveram
sujeitos a consideráveis modificações em muitos grupos especializados. A redução ocorre
mais freqüentemente no número de dedos, porém nos cetáceos (golfinhos e baleias) e sirênios
(peixe-boi), todas as evidências externas de membros posteriores desaparecem.
A tabela a seguir mostra alguns representantes das subclasses de Mammalia. Obs.: nos
Eutheria não estão colocadas todas as ordens, mas apenas as mais popularmente conhecidas.
SUBCLASSE ORDENS EXEMPLOS
Prototheria
Monotremata
Ornitorrinco e équidnas
Metatheria
Marsupialia
gambá, coalas, cangurus, cuícas
Eutheria
Cetacea
Sirenea
Artiodactyla
Perissodactyla
Chiroptera
Edentata
Rodentia
Lagomorfa
Carnivora
Prossimia
Simia
Hominia
Proboscidia
Pinnipedia
Baleia,golfinho
Peixe-boi
Porco, boi, girafas
cavalos, antas
morcegos
tatu, tamanduá
rato, capivara
coelho, lebre
gato, cão, leão
lêmures
macaco
Homem
elefantes
leões-marinhos, focas, morsas
Sistema Muscular
Muito variável nas diferentes formas especializadas. Contudo, aspectos distintivos
podem ser indicados:
a) musculatura dérmica bem desenvolvida (por exemplo, os músculos de expressão facial,
das pálpebras, nariz e lábios);
b) disposição metamérica do tronco, tão evidente nos vertebrados inferiores, desaparece em
grande parte dos mamíferos ou é encoberta.
Sistema Circulatório
Coração com 4 câmaras (2 atriais e 2 ventriculares). Há completa separação do sangue
venoso e arterial como nas aves. Os eritrócitos são anucleados.
Sistema Digestivo
Aspectos particulares de mamíferos:
Existem lábios móveis em todos os grupos, exceto em monotremados e cetáceos.
156
Geralmente existem dentes e estes são tão especializados em certas espécies que os
discutiremos em separado.
As glândulas orais, primariamente relacionadas à secreção de muco, estão presentes
em todos os mamíferos, contudo, são mais desenvolvidas nas espécies terrestres, já que
mantém a boca umedecida e auxiliam na deglutição do alimento.
Muitos mamíferos arfam, isto é, respiram rapidamente com a boca aberta, para ajudar a
regular a temperatura do corpo. Isso ocorre com o resultado da evaporação salivar e da
evaporação nos pulmões.
A maioria dos mamíferos tem a língua muito desenvolvida (com exceção das baleias) e
capaz de muitos movimentos. Em sua superfície superior há numerosas papilas, algumas
relacionadas à gustação.
O estômago tem formas e padrões variados, relacionados com os hábitos alimentares,
podendo ser simples estruturas em forma de saco, até estruturas compostas por uma série de
câmaras, como nos ruminantes.
O intestino delgado é longo e convoluto na maioria, mas nas espécies herbívoras é
ainda maior.
A cloaca aparece somente nos monotremados.
Sistema Respiratório
É muito menos complicado que o das aves. Em alguns mamíferos de água doce
ocorrem adaptações de partes do sistema respiratório. Estas, freqüentemente, envolvem o
desenvolvimento de abas e válvulas para fechar as narinas externas.
Os mamíferosaquáticos apresentam adaptações para mergulhar a grandes
profundidades, sem sofrer privação de oxigênio. Estas podem ser:
• redução da pulsação e da freqüência cardíaca;
Ex.: elefante-marinho: pulso cai de 85 para 12 batimentos/min.
• tem maior tolerância ao CO2;
• tem grande quantidade de mioglobina no tecido muscular para “armazenar” oxigênio.
Os mamíferos que mergulham mais profundamente são os cetáceos, que podem
resistir a uma enorme pressão e segurar a respiração por, pelo menos, uma hora. A pressão
exercida a grandes profundidades é suportada através de um colapso alveolar (a partir dos
60m, aproximadamente) que impede as trocas gasosas. Além disso, o sangue é desviado da
musculatura e pele para suprir as necessidades do encéfalo e coração e, no mergulho, a
freqüência cardíaca é reduzida para cerca de 10 batimentos/minuto.
Sistema urogenital
As fêmeas têm geralmente dois ovários funcionais ligados a dois oviductos [(Trompas
de Falópio) (figura 127)].
Os Monotremados põem ovos e os oviductos abrem-se na cloaca, separadamente,
embora apenas o esquerdo pareça ser funcional.
Nos Marsupiais e placentários, o oviducto expande-se num útero, onde ocorre o
desenvolvimento embrionário dos filhotes. Nos primeiros, a gestação é curta e o
desenvolvimento termina no marsúpio. Após o nascimento, os embriões se arrastam para o
marsúpio, onde agarram fortemente a um mamilo da mãe, sendo então alimentado pela
secreção da glândula mamária.
Nos placentários, a placenta possibilita o desenvolvimento embrionário intra-uterino,
já que o suprimento energético se dá via placenta. Nos machos, os testículos são bem
posteriores ou podem estar no escroto (bolsa fora da cavidade do corpo). Há 1 único pênis.
Adultos apresentam um rim metanéfrico, bexiga urinária e uréia como excreta
nitrogenada.
157
A fecundação é sempre interna e os filhotes são alimentados com leite após o
nascimento.
Figura 127: Tratos reprodutivos característicos de fêmeas do ancestral e dos principais mamíferos
viventes: (a) ancestral hipotético dos mamíferos, semelhante a um lagarto; (b) monotremado ovíparo;
(c) marsupial mostrando estruturas vaginais complicadas; (d) mamífero placentário exemplificado
por um primata avançado.
A maioria dos mamíferos tem estações de reprodução bem definidas, freqüentemente
no inverno ou na primavera. As fêmeas passam por um ciclo estral periódico, marcado por
modificações celulares no útero e na vagina e por diferenças no comportamento.
Uma curiosidade que vale a pena comentar aqui, diz respeito aos tatus. As
informações sobre o comportamento e a ecologia desses animais restritos ao Novo Mundo
são raras e vêm principalmente de estudos feitos na natureza com a única espécie que ocorre
na América do Norte, Dasypus novencinctus. De modo geral, esses animais têm hábitos
solitários; raramente formam pares ou andam em bando. Sobre seu comportamento sexual,
quase nada se sabe.
Dasypus é o único gênero de mamífero que apresenta o que é cientificamente
conhecido por poliembrionia homozigótica, isto é, dá sempre origem a quatro gêmeos
idênticos. As fêmeas provavelmente não ovulam até completar dois anos de idade. Os
adultos da espécie são solitários e são comumente vistos forrageando sozinhos. Entretanto,
podem apresentar alguma sobreposição de área de uso.
Já Priodontes maximus é a maior espécie de tatu de que se tem notícia. Apesar de sua
ampla distribuição, está na lista das espécies brasileiras ameaçadas de extinção. Embora não
haja estudos sobre sua biologia e ecologia, acredita-se que sejam solitários, com um padrão
de atividade crepuscular/noturno. Após um período de gestação que ainda não se conhece
com precisão, as fêmeas em geral dão à luz um único filhote.
158
Sistema Nervoso
É mais desenvolvido que em outros vertebrados. Em muitas espécies, os hemisférios
cerebrais possuem circunvoluções na superfície, de forma que há giros e sulcos. O córtex
(camada externa do cérebro) é composto de matéria cinzenta.
Nos mamíferos, os lobos olfativos são pequenos, se comparados aos vertebrados
inferiores.
O hipotálamo é muito importante e consiste de 4 partes, que controlam muitas funções
inclusive pressão sangüínea, sono, conteúdo de água, metabolismo de gorduras e
carboidratos, temperatura do corpo e, possivelmente, atividades rítmicas, como a migração
por exemplo. O cerebelo, o centro de controle dos movimentos do corpo, também é mais
desenvolvido nos mamíferos.
Órgãos dos Sentidos
O olfato bem desenvolvido, graças às cornetas nasais, que aumentam o epitélio
olfativo. Nos olhos há modificações relacionadas aos hábitos, mas basicamente segue o
padrão dos demais vertebrados.
No ouvido aparecem várias modificações: a cóclea é maior e enrolada, para acomodar
o aumento de tamanho; o ouvido médio tem 3 ossículos que transmitem vibrações da
membrana timpânica ao ouvido interno; existe um canal auditivo externo e, na maioria, um
pavilhão auditivo externo. Em certos mamíferos terrestres, o pavilhão cresceu muito e serve
não apenas para conduzir o som para o canal auditivo, mas também pode funcionar para
ajudar na termorregulação. As enormes orelhas dos elefantes e as dos coelhos podem ter esse
uso suplementar. É bom lembrar que em alguns cetáceos e mamíferos como a toupeira, o
pavilhão externo desapareceu.
O aparelho auditivo de alguns mamíferos mostra uma especialização marcante.
Muitos morcegos e cetáceos dependem em grande parte dos ecos e sons, que eles próprios
produzem, para detectar a presença de objetos em seu ambiente (eco-localização). Os
morcegos produzem som de alta freqüência (> 100 kHz), enquanto as baleias sem dentes
emitem sons de baixa freqüência.
Características Especiais
Glândulas mamárias: aparecem nos machos e fêmeas, mas são funcionais só nas fêmeas.
Estendem-se numa linha mamária e a posição é variável nas espécies (abdominais, peitorais,
inguinais). “Desembocam” em mamilos (de 1 a 13 pares, geralmente) e os lábios são
importantes para a sucção do leite.
Glândulas cutâneas:
Sudoríparas: eliminam resíduos e ajudam na termorregulação. Têm distribuição diversa pelo
corpo.
Sebáceas: lubrificam os pêlos e a pele.
Odoríferas: têm papel de defesa, atração sexual, reconhecimento.
Pêlos: depois das glândulas mamárias, são a característica mais diagnóstica dos mamíferos.
São estruturas ectodérmicas, com funções de manutenção da homeotermia (nos cetáceos e
paquidermes foram “substituídos”), de proteção e sensoriais (táteis).
Dentes:
Embora encontrados em outros vertebrados, os dentes são mais especializados nos
mamíferos. Foram perdidos em alguns (tamanduás, certas baleias), mas na maioria dos
mamíferos representam um importante papel na vida diária, ajudando na aquisição e
mastigação do alimento, além de muitas vezes, atuar na defesa.
159
A maioria dos mamíferos possui duas dentições, uma decídua ou láctea e outra
permanente, ao contrário de muitos vertebrados inferiores que podem substituir os dentes
por toda a vida.
A dentição permanente, que não é substituída em caso de perda, compõe-se de quatro
grupos de dentes, da parte anterior para a posterior da maxila: INCISIVOS, CANINOS, PRÉ-
MOLARES e MOLARES. O número de dentes em cada um desses grupos varia nos
diferentes tipos de mamíferos, exceto os caninos, que ocorrem em número de apenas um em
cada lado da maxila. Ao expressar o número de dentes de uma espécie, os zoologistas
utilizam-se freqüentemente uma fórmula dentária que representa o número e o tipo de
dentes existentes num lado da cabeça. Abaixo segue o exemplo da fórmula dentária do coiote
e do homem:
Fórmula dentária:
Canis latrans I 3 , C 1 , P 4 , M 2 (= 21 dentes num lado da cabeça)
3 1 4 3
↓
x 2 = no total de dentes da espécie.
Homo sapiens sapiens I 2 , C 1 , P 2 , M 3 (= 16 dentes num lado da cabeça)
2 1 2 3
↓
x 2 = no totalde dentes da espécie.
Chifres e Cornos
Chifres: aparece na família Cervidae, presente apenas nos machos. É trocado periodicamente,
de natureza óssea, recoberto por pêlos.
Cornos: exibido nas famílias Bovidae e Antilocapridae. Podem ocorrer em machos e fêmeas,
são ocos e córneos, porém têm um centro ósseo.
Algumas exceções entre os mamíferos:
Os monotremados, como o ornitorrinco, são ovíparos e não vivíparos. A fêmea é
portadora de glândulas mamárias, ainda que sem mamilo. Eles não têm pavilhões
auditivos; os dentes são presentes apenas nos filhotes, tendo os adultos um bico córneo;
presença de cloaca.
Nos Metatheria (marsupiais) as fêmeas têm útero e vagina duplos, geralmente sem
placenta, sendo que os ovos são fecundados internamente e o começo do
desenvolvimento se dá no útero, mas após alguns dias, os filhotes prematuros saem e
rastejam até o marsúpio onde, pela boca, prendem-se firmemente aos mamilos da mãe.
Permanecem assim até estarem completamente formados, embora ainda continuem
depois a utilizar o marsúpio da mãe para proteção.
Apesar de os mamíferos pertencerem à superclasse Tetrapoda, alguns deles (baleias,
golfinhos etc.) não possuem os membros posteriores.
O habitat comum dos mamíferos é a terra, mas alguns como os cetáceos (baleias e
golfinhos) e sirênios (peixe-boi da Amazônia) têm habitat aquático.
Embora sejam todos genericamente ditos homeotérmicos, alguns têm a capacidade de
diminuir a temperatura corpórea durante os períodos de hibernação, como sucede com os
ursos, marmotas, morcegos e outros.
Os morcegos são os únicos mamíferos verdadeiramente voadores. Existem outros que são
apenas “planadores”.
160
GLOSSÁRIO
Cecos: (do lat. Caecus - cego) evaginações do intestino, de fundo cego.
Clivagem espiral: (do fr. Clivage) propriedade de se fragmentar, relativo ao processo
embrionário. Esse tipo de Clivagem é característico dos protostômios, grupo ao qual o
Filo Annelida pertence.
Espinhos: projeções do endoesqueleto; longos ou curtos, móveis (como nos ouriços) ou não
(como nas estrelas).
Esquizocelos: relativo ao desenvolvimento embrionário onde ocorre a segmentação do
celoma. Alguns poliquetas fazem reprodução por esquizogênese (fragmentação do
corpo com desenvolvimento de cada pedaço em um novo indivíduo).
Filiforme: semelhante a um fio.
Hermafrodita: possui órgãos reprodutores dos dois sexos.
Lanterna de Aristóteles - aparelho bucal do ouriço-do-mar com cinco dentes acionados por
fortes músculos.
Larva trocófora: tipo de larva característica dos poliquetos, com desenvolvimento a partir de
ovos encapsulados.
Metâmeros (ou segmentos): cada um dos anéis do verme, segmentos homólogos.
Pápulas ou brânquias dérmicas - elevações muito pequenas da pele fina; realizam trocas
gasosas.
Pedicelárias: projeções da pele que terminam em pinças. Servem para proteção e defesa;
podem ser venenosas (ouriços) ou não (estrelas).
Pés ambulacrais: (do latim, ambulare: caminhar) - projeções de um sistema interno de canais
no qual circula a água do mar filtrada por uma placa porosa, o madreporito. Esses pés
atravessam pequenos orifícios do endoesqueleto para poderem se projetar
externamente, e ajudam o animal a se locomover.
Pigídio: último segmento do corpo de um Annelida ou, também, região terminal (pós-
segmentar).
Planctônico: que pertence ao plâncton (comunidade de pequenos animais ou vegetais que
vivem suspensos nas águas doces, salobras ou marinhas).
Prostômio: 1ª boca (relativo ao desenvolvimento embrionário), a sua boca definitiva tem
origem na boca primitiva da gástrula, o blastóporo. A cabeça do anelídeo, ou ácron,
representada pelo prostômio e contendo o cérebro, não é segmentada e tampouco o é o
pigídio. Existe, também, nos animais uma tendência à fusão dos segmentos anteriores
do tronco com a cabeça, não segmentada, que também recebe o nome de prostômio.
Protândrico: diz-se da dicogamia na qual os órgãos sexuais masculinos se desenvolvem
inteiramente antes dos femininos.
Respiração cutânea: respiração pela pele.
Zooplâncton: (do gr. zoon, animal; plagnkton, flutuante) conjunto de diminutos animais
flutuantes (microcrustáceos, larvas de moluscos, anelídeos e de artrópodes em geral),
que vagueiam arrastados pelas correntezas.
161
Questões de revisão
1. Descreva o sistema de classificação dos seres vivos proposto por Whittaker.
2. Em que consiste a nomenclatura binomial dos seres vivos? Com relação à grafia, observe os nomes
científicos abaixo relacionados e indetifique se há erros, corrigindo-os:
a) Enterobacter aerogenes
b) homo sapiens
c) Allium Cepa
d) Paramecium Caudatum
3. Dê o significado dos seguintes termos: celomado, acelomado, pseudocelomado, protostômio,
deuterostômio, diblástico e triblástico.
4. Quais as características gerais dos Protistas?
5. Em que se baseia a classificação dos protozoários?
6. Caracterize os filos Mastigophora, Sarcodina, Sporozoa e Ciliophora.
7. Esquematize os ciclos de vida do Trypanosoma e do Plasmodium.
8. Quais os tipos celulares (com respectivas funções) encontrados nas esponjas?
9. Explique o mecanismo e as finalidades da circulação de água na estrutura do corpo de um porífero.
10. Esquematize o fluxo de água numa esponja dos tipos Ascon, Sycon e Leucon.
11. Qual a importância econômica das esponjas?
12. Caracterize resumidamente as três classes dos Cnidários: Hydrozoa, Scyphozoa e Anthozoa.
13. O que são cnidócitos (ou cnidoblastos) e para que servem?
14. Caracterize pólipo e medusa. Em quais classes dos Cnidários eles aparecem?
15. Como é feita a nutrição e a digestão nestes animais?
16. Descreva a metagênese da Aurelia sp.
17. Fale sobre a importância dos cnidários para o homem.
18. Quais as características gerais dos platelmintos?
19. Explique como as planárias resolveram o problema da ausência de sistema circulatório para a
distribuição, às celulas do organismo, dos nutrientes absorvidos ao nível de intestino.
20. Descreva, em poucas palavras, o ciclo evolutivo da Taenia saginata.
21. Que medidas podem ser adotadas na zona rural para diminuir o risco de contaminação pela solitária?
22. O que diferencia os asquelmintos dos platelmintos?
23. Fale sobre a sustentação, locomoção e a reprodução em Nematoda.
24. Como ocorre a contaminação do hospedeiro pela Ascaris lumbricoides?
25. Qual a finalidade do trajeto da lombriga pelo corpo do hospedeiro durante seu ciclo? Descreva, em
poucas palavras, o ciclo de vida do Ancylostoma duodenale no homem. Qual o nome da doença que ele
causa? Qual a profilaxia?
26. Como se dá a transmissão da filariose e onde se instala o verme no hospedeiro?
27. Que doença causa o verme Ancylostoma braziliensis e como se dá a sua transmissão?
28. Dê o significado dos seguintes termos: celomado, acelomado, pseudocelomado, protostômio,
deuterostômio, diblástico e triblástico.
29. Por que os poríferos não são considerados metazoários típicos?
30. O que é dimorfismo sexual?
31. Qual a função do manto ou pálio nos moluscos?
32. O que é a rádula? Explique sua função. Todos os moluscos têm rádula?
33. Os moluscos sempre têm respiração branquial? Explique.
34. Fale da locomoção nas diferentes Classes de moluscos. Caracterize essas classes.
35. Qual a estrutura das conchas nos moluscos? Como se apresenta a concha nos cefalópodas?
36. Defina o Filo Annelida.
37. Quais as diferenças entre as Classes em anelídeos? Em que se baseiam?
38. Caracterize a respiração e o aparelho digestivo dos oligoquetos.
39. Como ocorre a reprodução nas minhocas?
40. Como é a sustentação do corpo nos anelídeos?
41. O que são parapódios?
42. O que você sabe sobre o sistema circulatório dos Anelídeos?
43. Quais características levam a suposição que os artrópodes e anelídeos derivam de um ancestral comum?
O que aconteceu com o celoma nos artrópodes? Por quê?
44. Caracterize o Subfilo Crustacea. Sobre este subfilo responda: qual a função das glândulas antenais?
Como são realizadasas trocas gasosas nestes animais?
45. Caracterize o Filo Artrópode e explique o fenômeno da muda, dizendo qual sua importância.
162
46. Quem compõe o Subfilo Chelicerata? Como você caracterizaria esse Subfilo dentro do Filo Artrópode?
47. Descreva o processo de nutrição e trocas gasosas nos aracnídeos.
48. Como é feita a excreção nos aracnídeos? Explique.
49. Quais os órgãos sensoriais presentes na Classe Aracnida?
50. O que são quelíceras? E pedipalpos?
51. Onde se localizam as glândulas de veneno na Ordem Aracnida e Scorpione?
52. Onde é produzida e qual a composição da seda utilizada pelas aranhas? Qual seu papel vital?
53. Comente sobre a reprodução nos aracnídeos e defina o que são ootecas?
54. Descreva a Ordem Acarina.
55. O enorme número de indivíduos e o grande espectro adaptativo refletem o sucesso da Classe Insecta. A
que podemos atribuir esse enorme sucesso dos insetos?
56. Como podemos distinguir a Classe Insecta dos demais artrópodes? Descreva o sistema respiratório
órgãos excretores na Classe Insecta.
57. Por que encontramos tanta diversidade nas peças bucais dos insetos? Peças bucais picadoras são
características de quais tipos de insetos?
58. O que diferencia o desenvolvimento hemimetábolo do holometábolo?
59. Diga em quais Ordens de Insecta aparece a organização social e dê exemplo.
60. Distinga Miriápodes dos Insetos e Diplópodes de Quilópodes.
61. Apresente características únicas de Echinodermata. Explique-as.
62. Como se dá a alimentação nos equinodermos da Classe Asteroidea? O que são pedicelárias e para que
servem?
63. Você é capaz de dar um exemplo de um holoturóide bastante popular em nossas praias? Como se dão
sua respiração e alimentação?
64. Enumere as características básicas que identificam um cordado.
65. Defina notocorda. Em que fase do ciclo vital a notocorda pode ser observada nos Urocordados, nos
Cefalocordados e na maioria dos Vertebrados?
66. Por que consideramos os Protocordados como animais de transição entre Vertebrados e Invertebrados?
67. Defina peixes cartilaginosos e ósseos, destacando as diferenças entre eles.
68. O que é e qual a função da linha lateral nos peixes?
69. Como os Osteichtyes se mantém na coluna d’água?
70. Como se dá a respiração nos peixes dipnóicos?
71. Quais as características evolutivas que colocaram os primeiros gnatostomatas numa posição privilegiada
em relação aos Agnatas?
72. Explique por que os anfíbios ainda são dependentes da água, embora sejam os primeiros vertebrados a
viverem na terra. Descreva sua pele, explicando por que é necessária a muda.
73. Quais as ordens de anfíbios viventes? Dê exemplos.
74. Quais os órgãos dos sentidos que aparecem nos anfíbios pela primeira vez?
75. Qual a vantagem evolutiva dos répteis em relação aos anfíbios? Quais as conseqüências disso?
76. Que anexos embrionários apareceram pela primeira vez nos répteis? O que essas estruturas
possibilitaram?
77. Para que serve a fosseta loreal que aparece em algumas serpentes?
78. Cite os quatro grupos de répteis viventes e seus representantes.
79. Descreva as peculiaridades do sistema esquelético das aves.
80. Como os pulmões das aves, relativamente pequenos, conseguem suprir as necessidades de oxigênio de
suas altas taxas metabólicas?
81. Descreva o sistema digestivo nas aves granívoras.
82. As aves formam uma classe muito homogênea. Justifique essa afirmativa.
83. As penas são fundamentais para o vôo, mas há um conjunto de características que o tornam possível.
Comente essas características.
84. Dê as características fundamentais para que um animal seja enquadrado na Classe Mammalia.
85. Quais são os 3 grandes grupos de mamíferos e o que os distingue?
86. O que significa dizer que um animal é endotémico? Quem são esses animais?
87. Como as aves mantêm a temperatura corpórea? E os répteis?
88. Cite estruturas epidérmicas e hipodérmicas exclusivas dos mamíferos e diga como contribuem para a
endotermia.
163
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1 Classificação e Nomenclatura
1.1 Introdução
1.2 A classificação dos seres vivos
2 A Sistemática
2.1 O Conceito de Espécie
2.2 Outros Grupos Taxonômicos
3 Regras de Nomenclatura
PROTOZOÁRIOS
4.1 Morfologia dos Protozoários
4.1.1 Citoplasma
4.1.2 Núcleo
4.1.3 Envelope Celular
4.1.4 Locomoção
Processo Reprodutivo dos Protozoários
4.3 Características dos Filos
4.3.1 Sarcodíneos
4.3.1.1 Diversidade de sarcodíneos
4.3.1.2 Sarcodíneos Parasitas do Homem
4.3.2 Mastigophora ou Flagelados
4.3.2.1 Flagelados parasitas do Homem
4.3.3 Os ciliados
4.3.3.1 Diversidade dos Ciliados
4.3.4 Esporozoários
4.3.4.1 O gênero Plasmodium
4.3.4.2 Toxoplasma gondii
5. O Reino Animal
a\) Características Gerais dos Animais
Níveis de Organização do Corpo
Simetria
Disposição das estruturas relacionadas à digestão
Número de Folhetos Germinativos
Presença do Celoma
b\) Origem e evolução dos eumetazoário�
Os Invertebrados
1 FILO PORIFERA (AS ESPONJAS) - do latim: porus=poro; ferre=
1.1 Conceitos Gerais
1.2 Características
1.3 Tipos Morfológicos
1.4 Fisiologia
1.5 Aspectos Evolutivos
1.6 As Classes de Esponjas
2 FILO CNIDARIA
2.1 Conceitos Gerais
2.2 Características gerais
2.3 Classificação
2.3.1 Classe Hydrozoa
2.3.2 Classe Scyphozoa
2.3.3 Classe Anthozoa
2.4 Fisiologia
3 FILO PLATYHELMINTHES
3.1 Conceitos Gerais
3.2 Classificação
3.2.1 Classe Turbellaria
3.2.2 Classe Trematoda
3.2.3 Classe Cestoda
3.3 Doenças causadas por Platelmintes ao homem:
3.3.1 Esquistossomose
3.3.2 Teníase
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8 FILO ECHINODERMATA
8.1 Características Gerais
8.2 Classificação
8.2.1 Classe Crinoidea (Crinóides)
8.2.2 Classe Echinoidea (ouriços-do-mar e bolachas-da-praia)
8.2.3 Classe Asteroidea (estrelas-do-mar)
8.2.4 Classe Ophiuroidea (ofiúros ou serpentes-do-mar)
8.2.5 Classe Holothuroidea (Holotúrias)
8.3 Importância para o homem
9 FILO CHORDATA
9.1 Os Cordados Invertebrados
9.1.1 Subfilo Urochordata (tunicados)
9.1.2 Subfilo Cephalochordata (anfioxos)
9.2 Subfilo Vertebrata (vertebrados)
9.2.1 Superclassse Pisces
a) Os Agnatha
b) Classe Chondrichthyes: peixes cartilaginosos
c\) Classe Osteichthyes: peixes ósseos
9.2.2 Superclasse Tetrapoda
9.2.2.1 Classe Amphibia
9.2.2.2 Classe Reptilia
9.2.2.3 Classe Aves (~ 8700 espécies viventes)
9.2.2.4 Classe Mammalia
Evolução
Chifres e Cornos
Glossário
Questões de revisão