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Georges Cognet Compreender e interpretar desenhos infantis Tradução de Stephania Matousek Dados Internacionais de Catalogação na Publicação (CIP) (Câmara Brasileira do Livro, SP, Brasil) Cognet, Georges Compreender e interpretar desenhos infantis / Georges Gognet ; tradução de Stephania Matousek. - Petrópolis, RJ : Vozes, 2013. Título original : Comprendre et interpréter les dessins d’enfants Bibliografia ISBN 978-85-326-4645-3 – Edição digital 1. Crianças - Psicologia 2. Desenhos - Aspectos psicológicos 3. Desenhos infantis I. Título. 13-05076 CDD-155.418 Índices para catálogo sistemático: 1. Desenhos de crianças : Estudos psicológicos : Psicologia infantil 155.418 © Dunod, Paris, 2011. Título do original francês: Comprendre et interpréter les dessins d’enfants Direitos de publicação em língua portuguesa – Brasil: Editora Vozes Ltda. Rua Frei Luís, 100 25689-900 Petrópolis, RJ Internet: http://www.vozes.com.br Brasil Todos os direitos reservados. Nenhuma parte desta obra poderá ser reproduzida ou transmitida por qualquer forma e/ou quaisquer meios (eletrônico ou mecânico, incluindo fotocópia e gravação) ou arquivada em qualquer sistema ou banco de dados sem permissão escrita da editora. Diretor editorial Frei Antônio Moser Editores Aline dos Santos Carneiro José Maria da Silva Lídio Peretti Marilac Loraine Oleniki Secretário executivo João Batista Kreuch Editoração: Maria da Conceição B. de Sousa Projeto gráfico: Victor Mauricio Bello Capa: ISBN 978-85-326-4645-3 (edição brasileira digital) ISBN 978-2-10-055296-2 (edição francesa impressa) http://www.vozes.com.br Editado conforme o novo acordo ortográfico. Sumário Agradecimentos Preâmbulo 1 Crianças desenham O desenho precisa dos outros para advir Prazer e realidade As engrenagens da fantasia As etapas do “tornar-se si mesmo(a)” As crianças são artistas 2 O desenho livre Uma produção sem instruções Estudos psicológicos do desenho 3 Expressões de sintomas pelo desenho As faces da angústia Imagens da depressão O trauma psíquico A agressão sexual 4 O desenho em exames psicológicos O “desenho livre” na dinâmica dos exames psicológicos O desenho livre como um teste projetivo em psicologia clínica infantil Processo de análise do desenho 5 Os testes de desenhos temáticos Desenhos de seres humanos As origens dos testes de desenhos de personagens humanas Desenhos da família O teste da árvore A Senhora de Fay O D10 de Jean Le Men O AT9 de Yves Durand O mapa da cidade imaginária de Raphaël Djan Conclusão Compreensão e interpretação Interculturalidade Prognóstico Referências Textos de capa Agradecimentos Mil obrigados a Eugénie, Lucas e a todos os jovens pacientes que me entregaram suas obras. Meu reconhecimento também vai a Brigitte Couteau, Joseph Collot, Alain Guérin, Corinne Laheye, Pascal e Ménetrier, Sylvie Normier e Patrick Pipet, psicólogos que atuam no sistema educacional da França, por suas observações e pelos desenhos que me enviaram. E, por fim, eu gostaria de exprimir toda a minha gratidão a Anna, pela pertinência de sua experiência clínica e por suas correções. Preâmbulo Em francês, “desenho” (dessin) rima com “destino” (destin), e “desenhar” (dessiner) rima com sina (destinée). As palavras-chave dessa atividade de produções gráficas não forçadas são: liberdade, fantasia, tornar-se si mesmo(a), relação com os outros, mas também, e em outros termos, imaginário, simbolismo, narcisismo, relação de objeto. Em resumo, o desenho contribui para a constituição singular de uma história de vida, o que Paul Ricoeur chama de identidade narrativa. Ele constitui, portanto, a meu ver e empregando os termos da abordagem psicodinâmica, uma expressão incontornável da dimensão subjetiva das crianças. Os profissionais ligados à infância, psicólogos, terapeutas e professores não se deixam enganar – todos, em determinado momento, recorrem ao desenho em seus encontros com crianças ou jovens adolescentes. Pode ser durante um exame psicológico em que ele desempenhe a função de um teste projetivo – o sujeito permite ver, no sentido concreto da palavra, um momento de seu funcionamento psíquico, suas angústias, seus mecanismos de adaptação –, mas também em sessões de psicoterapia regulares, acompanhamento psicológico, remediação; as produções gráficas tornam-se então suportes de relação. Assim, o destino do desenho da criança é multiforme: para o psicólogo ou psicanalista, ele surge como um espelho, com reflexos mais ou menos límpidos, da organização, e até dos conflitos intrapsíquicos do sujeito; para o professor, o que se identifica é a sua evolução, em comparação com um desenvolvimento médio (a criança está adiantada ou atrasada?); para as famílias, ele é um presente, repetido de forma quase cotidiana, que evoca o universo interior, a magia da infância, mas também a capacidade de ficar sozinho face ao seu imaginário, criar, aplicar-se e, para os mais jovens, preparar-se para as tarefas escolares que estão por vir. A abordagem que eu desenvolvo neste trabalho provém das minhas pesquisas, reflexões e da minha experiência clínica, a qual eu espero que seja esclarecida. Ou seja, que ela leve em conta os dois lados da disciplina Psicologia, que nunca sacrifique nem a dimensão subjetiva e nem o estudo rigoroso dos fatos. Não há, na minha concepção da prática do psicólogo, espaço para uma abordagem clínica frouxa que se libere dos conhecimentos desenvolvidos pelas disciplinas conexas e das pesquisas estruturadas, tampouco para uma perspectiva que evite o sujeito, sua singularidade, recorrendo quase que exclusivamente às normas e aos estudos de amostragens. As primeiras partes deste livro evocam as premissas da atividade representativa, as protorrepresentações que conduzem à expressão do sujeito nos desenhos ditos livres. As concepções de grandes figuras que escreveram sobre desenhos de crianças são, obviamente, discutidas: Georges-Henri Luquet, Sophie Morgenstern, Françoise Dolto, Daniel Widlöcher etc., bem como as expressões da angústia, da depressão, dos episódios traumáticos e das violências sexuais nas composições infantis. Por fim, eu comparei o TAT[1] com o desenho livre e apresento, a partir do modelo da ficha de controle do TAT de R. Debray, uma grelha de análise dos processos gráficos do desenho. A última parte discute um conjunto de testes de desenhos temáticos (desenhos de personagens humanas, da família, da Senhora de Fay, da árvore, D10 etc.), com os quais tenho experiência em minha prática clínica e para os quais eu proponho uma abordagem interpretativa. No plano formal, eu concebi este livro intercalando no texto pouco mais de uma centena de desenhos. A maioria deles tem uma função pedagógica; eu os selecionei a fim de ilustrar uma noção, permitir uma melhor compreensão das minhas ideias ou amparar minhas interpretações. Visto que cada um desempenha uma função bem definida, eu não julguei pertinente me estender sobre elementos de anamnese com relação aos autores. Somente os desenhos realizados por crianças vítimas de violências sexuais são acompanhados por uma apresentação clínica (evidentemente, o nome da criança, bem como as circunstâncias dos fatos e encontros foram modificados, no intuito de preservar seu anonimato). Tanto o conteúdo quanto a forma, tanto as ideias e concepções teóricas quanto os meios técnicos utilizados para transmiti-los são frutos das escolhas que o autor, em determinado momento, pensou serem as mais adequadas. Cabe ao leitor julgar a pertinência delas. [1]. Teste de apercepção temática [N.T.]. 1 Crianças desenham O DESENHO PRECISA DOS OUTROS PARA ADVIR O desenho, como sabemos, é um meio muito empregado por criançaspequenas, pais e professores. Trata-se de uma produção impregnada de liberdade, a qual é comum a criança dar de presente, como uma parte de si mesma, a um adulto. Inconscientemente, ela bem sabe que aquele desenho, por mais tosco que possa parecer a olhos inexperientes que não conheçam o universo próprio à infância, fala sobre ela mesma, sobre seu desenvolvimento, desejos, temores e mesmo angústias. A prova disso – se fosse preciso uma – reside no fato de que o desenho infantil não é estereotipado, não é o mesmo desenho que é destinado aos pais, à professora da escola e ao psicólogo. Cada desenho é um destino, sendo concebido, realizado e transformado involuntariamente por aquele a quem ele foi prometido. O desenho infantil não existe fora da cultura, fora da interação com o outro. Não existe desenho “puro”, como talvez ainda se encontre, em zonas protegidas das atividades humanas, uma água límpida e clara. Muito pelo contrário, assim como a linguagem, o desenho infantil precisa de olhares, incentivos e interpretações para nascer e prosperar. É o grupo humano que permite que a criança desenhe; ela não é um adulto em miniatura, mas sim um ser que precisa dos outros para advir: “Tudo aquilo que não possuímos ao nascermos e de que precisamos quando adultos nos é dado pela educação” (ROUSSEAU, 1762). Obviamente, para as crianças de nossas sociedades ocidentais, deixar traços em uma folha de papel, uma parede, uma casca de árvore ou, como nas Ilhas Vanuatu, na areia, não é uma necessidade fisiológica indispensável à vida. O pré-requisito consiste em considerar a infância como um momento do desenvolvimento físico e psicológico do ser humano e dar importância às suas produções. É também perceber que a educação não é uma simples instrução, mas um chamado à expressão do eu, à criação e à liberdade na interação com os outros. Por parte da criança, há o prazer de desenhar[2] e oferecer o desenho; por parte do adulto, há o prazer de observar a criança desenhando e receber o desenho (JUMEL, 2011). Portanto, quando as condições essenciais estão reunidas e se o ambiente ao seu redor a incentivar a prosseguir – interessando-se pela sua produção, interpretando-a, dando-lhe um nome –, a criança levará conjuntamente sua vida e a representação da mesma em um suporte gráfico. Bem rápido, o que é vivenciado e o que é representado surgirão como as duas faces de um mesmo desenvolvimento psíquico. PRAZER E REALIDADE Embora o grupo de pessoas próximas seja essencial para o desenvolvimento das produções gráficas infantis, estas últimas têm suas origens e tiram seu vigor e singularidade no âmago na intimidade psíquica, imaginário e sofrimento estando, às vezes, confundidos. Como prova disso, os desconcertantes desenhos de crianças tratadas contra o câncer que D. Oppenheim e O. Hartman (2003) descrevem, por exemplo, o de Julien, 7 anos, que “desenhou a si mesmo com a boca bem aberta, vazia – um grito inaudível –, as orelhas tapadas, o pescoço estreito e rígido, não deixando passar nada, separando a cabeça do resto do corpo, que é desenhado de outra cor. O corpo é um grande saco, no qual a morte é representada sob um duplo aspecto: bolas (o tumor e suas metástases) e xis (sua preocupação e questionamento)”. Essas composições representam em imagens os símbolos da doença e da morte e nos mostram bem que o desenho é um precioso indicador do funcionamento psíquico da criança, de suas angústias, capacidades de resiliência ou desistências. Felizmente, a doença somática nem sempre está em primeiro plano para alimentar, infiltrar o desenho. Este último estabelece então um estreito laço com o imaginário. A capacidade de desenvolver pensamentos preexiste à expressão dos mesmos no espaço de duas dimensões. O universo criado pela imaginação, fora do mundo, é anterior a toda representação externa, transmissível. Portanto, não se trata nunca de um desenho traçado com base no real, de um desenho de imitação, e ainda menos de um desenho geométrico ou um desenho de arte, mas sim da transformação de fantasias psíquicas, e mesmo de fantasmas, em um objeto feito sobre uma superfície plana, realizado com lápis, canetas de feltro ou qualquer outro meio possível. O imaterial oriundo do psiquismo é retraduzido, no real, pelo jovem desenhista. Essa concepção linear, que vai do psiquismo à representação, não é, entretanto, inteiramente satisfatória – é através da observação de crianças que desenham, algumas desde os dois anos, que se concebe a relação entre o imaginário e o desenho como uma interação íntima. É graças às primeiras realizações, no real, que o imaginário pode desenvolver-se. É porque existe um outro, próximo, benévolo, amoroso, que recolhe e reinterpreta as produções – sejam elas verbais, por movimento ou por traços deixados – que a máquina de pensar o quimérico, o inexistente e o fabuloso pode exercer-se. Não há a construção de um e depois a realização do outro, mas sim o desenvolvimento conjunto da fantasia imaginária e do real da produção. Assim, quando Freud (1925) analisa a produção literária e artística, ele evoca “o reino da imaginação” como sendo uma “reserva organizada durante a passagem, dolorosamente sentida, do princípio de prazer ao princípio de realidade, a fim de oferecer um substituto à satisfação instintiva à qual é preciso renunciar na vida real”. Identifica-se bem, nessa situação, os dois lados da sequência que conduz à expressão através do desenho: o imaginário, reserva de desejo, de prazer, e o real, compartilhável. A relação em torno do desenho entre, por exemplo, a criança e seus pais mostra bem a proximidade psíquica, a permeabilidade entre as instâncias e o enriquecimento dos imaginários respectivos. A criança deixa seu lápis percorrer o papel e realiza, fortuitamente, uma forma que pode adquirir sentido, incitar o adulto que a observa a pensar. Como os pais aprendem a falar com seus filhos atribuindo palavras e intenções aos balbucios e às repetições iterativas de sílabas, o parceiro do desenhista vai atribuir àquele traçado não intencional uma representação de coisas. Assim, um traçado em espiral vai imediatamente evocar, para os pais ou o professor, um caracol, depois vários traçados – pois a criança buscará reproduzir esse traço que agrada tanto –, uma família de caracóis. Luquet (1927) chama essa interação de “realismo fortuito”, o qual, ao longo do tempo, a criança tentará primeiro repetir e depois dominar. Ela nem sempre alcançará esse objetivo, e será o “realismo falhado” que suscitará, por parte dos adultos ou da própria criança, novas descobertas, novas interpretações. Cd1 Menininha de um pouco mais de 3 anos, que intitula tardiamente seu desenho: “um papai caracol”. AS ENGRENAGENS DA FANTASIA O imaginário Como já vimos, o imaginário, fantasia íntima cuja origem encontra-se, como demonstra Freud, na frustração, na renúncia à satisfação imediata, constrói-se em sua relação com o real encarnado pelo outro. Não se pode pensar o imaginário sem o recurso ao real. A fantasia não pode existir sem esse contraponto, esse ato de compartilhar com a alteridade. O imaginário é fonte de criatividade e originalidade, ao passo que o recurso ao real protege do face a face entre o eu e o eu, colocando a distância a atividade delirante. Cd2 Para essa criança (Cd2), de 6 anos e meio, a inspiração do desenho tem origem em um imaginário fértil, ligado ao real. Segue-se uma produção em que a fantasia domina, mas permanece compartilhável, acessível ao outro, ao espectador. Tudo no desenho é interessante dese observar: as abelhas que, cansadas de irem longe para colherem o pólen das flores, vão diretamente com suas cestas abastecer-se junto à “abelha comerciante”, que vende frutas. Algumas se deslocam mesmo de carro. Observam-se também nuvens, das quais algumas possuem formas reconhecíveis. A jovem desenhista evoca aquela brincadeira que crianças e adultos praticam e que consiste em reconhecer objetos, animais e personagens formados pelos cúmulos dos dias de verão. O simbólico Da mesma forma que com o imaginário, o desenho infantil tira grande parte de sua essência do simbólico. Os símbolos são culturais, mas também íntimos, singulares, originais e, obviamente, sua expressão é múltipla, ao passo que o campo do simbolizado, por sua vez, é restrito (sexualidade, família, morte, nudez, angústia etc.). No desenho, o símbolo levanta um problema epistemológico, na medida em que sua relação com o que é simbolizado não é determinada de forma unívoca por uma convenção explicitada entre o desenhista e aquele a quem o desenho é destinado. Nesse sentido, o desenho pode assemelhar-se, em certa medida, à linguagem do sonho: Freud demonstra que as imagens do sonho, por trás de seu sentido manifesto, aparente, escondem um significado latente, revelador dos conflitos intrapsíquicos. Pode-se evocar também a linguagem poética, que, através de suas metáforas, construções e termos escolhidos, apresenta uma multiplicidade de sentidos, assim como o desenho o faz pela escolha das cores, proximidade das representações e estilo gráfico. De forma mais ampla, essa função simbólica tem importância fundamental. Graças a ela, a criança pode representar para si mesma suas condutas e relações sem ter de efetuá-las realmente, pois ela se confunde com o desenvolvimento da linguagem e da brincadeira. Uma criancinha de 2 anos e meio volta-se nos seguintes termos para a foto de um pônei que ela recentemente teve a oportunidade de ver e afagar: “tudo bem, Fanfan, você está bem aí na sua foto?” Ela mostra assim que acedeu à função simbólica. Ela é capaz de dar vida a uma representação em imagem, levando em conta, ao mesmo tempo, o real, encarnado aqui pelo objeto foto. No desenho, os símbolos estão evidentemente presentes, bem diferentes em função da idade, e, portanto, do desenvolvimento intelectual e grafomotor do desenhista. Cd3 Aquela mesma criança de 2 anos e meio (Cd3) realiza uma série de pequenas linhas quebradas. Já se pode notar o controle que foi preciso exercer para permanecer dentro dos limites da folha, não ultrapassá-los, e sobretudo tornar o gesto mais devagar, a fim de realizar essas formas de dentes de serra. De maneira espontânea, ela própria sugere uma interpretação simbólica de seus rabiscos: o menor deles é o seu primo de 8 meses; o maior, o seu pai. Percebe-se a função simbólica em ação nessas premissas, nesses primeiríssimos traços. Mais tarde, certos símbolos mais culturais e mais facilmente compartilháveis aparecerão, mas sempre impor-se-ão aos jovens desenhistas, que não poderão controlá-los e nem “convocá-los” conscientemente. O símbolo, que quase sempre adota um aspecto pictórico também, apresenta uma ligação estreita, e na maior parte das vezes estável, com a afetividade e o universo dos desejos conscientes ou inconscientes. A estética Por essência, o desenho traz uma relação com a sensibilidade e o julgamento estético, tanto por parte de seu autor quanto por parte de seus contempladores. Com frequência, a criança exprime seu sentimento do belo, sua sensibilidade diante da harmonia, sua percepção artística. É claro que tal estetismo não é, para a criança pequena, uma arte de viver, mas sim um suplemento de sensibilidade que vem enriquecer as produções e, por conseguinte, a fantasia das quais elas são oriundas. A receptividade à estética torna-se, quando a criança cresce, um poderoso estímulo para manter o gosto pelo desenho. Com efeito, muitas crianças abandonam o desenho quando se dão conta da crescente discrepância entre sua capacidade gráfica e seu desejo de expressão. AS ETAPAS DO “TORNAR-SE SI MESMO(A)” Crianças muito pequenas, de múltiplas maneiras – com um dedo esticando uma gota de leite, um bastão abrindo um estreito sulco na areia –, deixam traços muitas vezes efêmeros. Quando, sob a influência da cultura, do ambiente, a mão se mune de um objeto, giz ou lápis, a criança pequena faz uma dupla descoberta: de um lado, os traços podem subsistir e, de outro, normalmente – tudo depende do suporte escolhido –, sua atividade é valorizada pelos adultos. O desenho, em especial nessa fase da vida, distingue-se da brincadeira ou da linguagem, cujas marcas e traços podem parecer paradoxais: efêmeros em sua persistência no real concreto, exterior, mas duradouros e constitutivos no que diz respeito ao universo psíquico do sujeito. O ato gráfico levanta, ao contrário, um princípio de unidade, reforçando, ao mesmo tempo, a diferenciação entre o eu e o não eu, interioridade e exterioridade. O traço, a representação psíquica – tingida de fantasia e imaginário –, possui um representante no real com uma imagem gráfica realizada em um suporte material. Uma, reflexo da outra, respondendo-se, fortalece a segurança dos limites entre o eu e o ambiente. Além disso, o traço no suporte, por sua duração e materialidade, permite aos outros (pessoas próximas, profissionais ligados à infância) um certo acesso, embora ulterior, à interioridade psíquica singular do jovem autor. Um indicador do desenvolvimento psíquico O encontro entre o gesto, armado com um instrumento escritural, e o suporte sempre é fortuito no início. É através da repetição, alimentada pelo desejo do indivíduo e do ambiente ao seu redor, que essa atividade vai adquirir valor. A criança deixará exprimir sua energia e as pulsões que a movem, bem como, paradoxalmente, o controle ao qual ela tende. Será possível observar então rabiscos frenéticos que, apesar de tudo e fora alguns acidentes, permanecerão contidos no espaço do suporte, dentro das margens da página. Do sucesso dessa aliança de opostos, a criança pequena com frequência tirará um grande prazer, um forte sentimento de não estar mais somente passiva, mas sim controlar uma parte de seu desenvolvimento íntimo. O desenho é um bom indicador da maturação fisiológica e psíquica da criança. O funcionamento da motricidade básica e o equipamento neurológico refletem-se bem no desenho (GUILLAUMIN, 1959). Cada um dos pais e cada profissional ligado à infância identificam esses momentos da evolução da atividade de deixar traços: pode ser não manchar mais suas roupas ou limitar a atividade gráfica aos suportes destinados a esse uso. Mais tarde, quando a criança tiver crescido, será também o capricho do traço, a beleza do esboço e a riqueza criativa que chamarão a atenção dos adultos. Observadores atentos podem então levantar a questão da origem das primeiras formas que aparecem no suporte: Seriam elas simplesmente traços sensório-afetivo-motores? (BRUN, 2006). Tomariam elas forma na relação do corpo com o espaço? “Dar forma é dar corpo”, escreve S. Korff-Sausse (2005), ou ainda seriam elas uma manifestação gráfica do “desenvolvimento das capacidades de simbolização [que] acompanha o processo de separação-individuação”? (HAAG, 1996). Para G. Haag (1996), “parece que o que é primitivamente percebido são formas cinestésicas visuais rapidamente combinadas, tendo primeiro uma estrutura rítmica ligadas às sensações rítmicas biológicas pré e pós-natais: coração, depoisrespiração, cinestesias da mamada”. Cd4 Traçados realizados por um menino de quase 2 anos. Pontilhação, esfregas e movimentos em espiral coexistem em um conjunto relativamente estável e controlado. Para aquela psicanalista, as principais formas dos traços prefigurativos repartem-se em três categorias: “a esfrega simples”, que reflete, no espaço de duas dimensões, uma ritmicidade “de superfície”; a pontilhação (Cd4), que tem a ver com as experiências de penetração psíquica ligadas ao olhar e com a tridimensionalidade; e as espirais, que são os traços privilegiados pelas crianças de 2 anos a 2 anos e meio, cujo sentido de rotação anti-horário parece ser o mais comum. Mais tarde, por volta do quarto ano de vida, para G. Haag – com frequência muito mais precocemente, segundo a minha experiência clínica –, aparecem as primeiras formas fechadas (Cd5), que “adquirem formas de aglomeração celular ou formas impressionantes de aspecto embriológico”. O mesmo menino, com 2 anos e 3 meses, traça três conjuntos, os quais ele explica (Cd5). A figura fechada é “papai”, a linha longa e recurvada é chamada de “mamãe” e a junção de dois traços curtos, no alto do desenho, ganha o seu próprio nome. Essas são, assim, suas primeiras figurações humanas sexuadas. Cd5 Cd6 Menina de 2 anos e meio. Protorrepresentação do ser humano. Duas manchas a partir das quais saem algumas linhas fibrosas. A partir dos primeiros traços gráficos e, em seguida, das protorrepresentações (Cd6) da figura humana, a criança vai, traçado após traçado, fechar o contorno linear (Cd7) do “saco que guarda em seu interior o bem e a completude que a amamentação, os cuidados, o banho de palavras acumularam ali” (ANZIEU, 1974), reforçar a barreira “que marca o limite com o exterior e contém o mesmo” e permitir “uma interação com os outros”. Cd7 Primeira realização de uma personagem humana por uma menina de quase 3 anos. Assim continua, etapa por etapa, a evolução da criança pequena para a plena consciência de si, a qual ela nos permite ver na sucessão de suas representações, principalmente nas do ser humano. “Existe um instante puro e preciso da vida”, escreve Jean-Louis Barrault (1948) no prefácio ao catálogo de exposição do pintor Mayo, “que, para o Ser vivo, é tão importante quanto o primeiro e fugitivo nascimento. É aquele em que se tem consciência de Ser, em que se toma consciência, no instante puro, de sua própria existência. Eu existo”. Esse curto texto destinado ao artista que se produz parece-me perfeitamente adaptado ao jovem sujeito que está surgindo. AS CRIANÇAS SÃO ARTISTAS Todas as crianças possuem as qualidades de um artista quando alcançam uma forma de permeabilidade entre seus desejos inconscientes, que são a fonte de seu imaginário, e o real, representado ao mesmo tempo pelo material (lápis, canetas de feltro, tintas) e pelo outro, adulto ou criança, a quem o desenho é destinado. Da magia desse encontro nasce uma obra com frequência efêmera, mas que apresenta as características de uma obra de arte. Quer dizer, uma produção criativa, astuta, oriunda de uma produção da mente que se opõe à natureza e que não é, de maneira alguma, útil. Uma das particularidades da arte infantil reside no fato de que o autor da obra, mesmo que possua as qualidades do artista, no fim das contas, não é um artista, pois não tem consciência de sua arte e nem adquiriu igual maestria. Muitas vezes também, a arte infantil esmorece com o decorrer da infância. Todos nós já encontramos poetas em potencial, capazes de metáforas que não seriam rejeitadas por Baudelaire ou Rimbaud. Assim, embora ainda não tivesse nem seis anos, um jovem paciente recorreu, para explicar a palavra “pluma”, da qual não conseguia lembrar-se, à expressão “é uma folha de galinha”. Naquele exato momento, ele fez obra poética, assim como outros, em certos dias, fazem obra de arte. No entanto, junto com André Malraux (1951), nós afirmamos que, “embora a criança muitas vezes seja artista, ela não é um artista. Pois é o talento que a possui, e não ela que o possui”. Certamente, A. Malraux promove uma definição restritiva da arte, próxima da etimologia do termo, feita de maestria e talento, ao passo que a arte moderna, e em especial o dadaísmo, levou-nos a considerar que é arte aquilo que é dito como tal. Assim, mesmo que as convenções tradicionais que definem esse conceito sejam abandonadas, mesmo que, para muitos, a criança aja como um artista – pela originalidade de suas representações –, suas produções não são consideradas, pela comunidade humana, como arte. Nenhum dos valores ligados às artes plásticas, discursos sobre o mundo, experimentações estéticas ou diálogos entre forma e conteúdo encontra-se nas obras infantis, exceto seu valor afetivo. Alguns (Cd8) mostram-nos, todavia, competências gráficas excepcionais, um “olhar” espantoso, uma habilidade pouco comum, uma exigência de representação que talvez abra – mas ainda resta um longo caminho a percorrer – portas para a prática das artes plásticas. Portanto, embora a criança não seja um puro artista, consideremo-la como um artesão de arte que concebe e realiza por si mesmo suas próprias obras. Cd8 Retrato do psicólogo realizado por uma jovem paciente de 8 anos. [2]. Evidentemente, certas crianças dizem que não gostam de desenhar, manifestam movimentos de recusa e de oposição, cujas causas às vezes aparecem para nós de forma clara: por exemplo, uma fragilidade tamanha que ela torna impossível a exposição de si mesma através de uma produção gráfica. Com frequência, elas alegam inabilidade o fato de não saberem desenhar, uma falta de ideias. Razões estas que são sinal de uma mobilização defensiva que é importante compreender e respeitar. Se a recusa não for absoluta e definitiva, pode-se mostrar proveitoso propor que o sujeito realize um desenho temático que mobilize de forma menos direta os mecanismos defensivos (teste da Senhora de Fay, por exemplo). 2 O desenho livre UMA PRODUÇÃO SEM INSTRUÇÕES Muitas vezes, quando deixam uma criança desenhar sozinha ou sem demasiadas instruções, os profissionais evocam a noção de desenho livre; isto é, uma produção sem instrução inicial, a qual a criança parece levar em frente como bem entender. Essa expressão gráfica sem pedido formal é compreendida, em um tipo de abuso de linguagem, como liberta das amarras, livre de estereotipias ou então ainda não predeterminada, não escrava. Como se a liberdade criativa sempre pudesse advir quando o suporte para a expressão consistisse no desenho. Como se o fato de deixar traços virasse sinônimo de autonomia, afirmação original de um verdadeiro self. Aliás, os esboços às vezes malfeitos, os tons pastéis dos lápis de cor ou os tons fortes das canetas de feltro estão, para muitos professores ou pais, associados a um frescor, sinceridade e verdade da infância. Em minha prática clínica, eu verifico, quase que cotidianamente, o que essa noção de desenho livre tem de factícia e o quão artificial ela pode parecer. Como se a expressão nunca fosse, mesmo nos limites do desenho, entravada pelo peso das culturas familiares e escolares, cingida pelo desejo de agradar ao adulto – como sabemos, a observação modifica o objeto observado –, em certos casos também reduzida pela escassez dos meios de representação pictural. Em uma acepção estrita, a criança encontra-se raramente nas condições que lhe permitem aquela imensa liberdade de expressão de si, que ultrapassa amplamente as escolhas formais do suporte, das ferramentas e mesmo do tema da representação. Somente a prática artística assumida e a relação psicoterapêutica, em que o desenhodecorre “de suas únicas associações provocadas por um esboço de transferência” (A. Anzieu), permitem ao sujeito uma real autonomia criativa. Em muitos outros casos, a criança não tem a liberdade de escolha das modalidades de sua expressão; normalmente, os adultos mais chegados incitam-na a pegar um lápis e deixar um traço. O próprio médico, no contexto do exame psicológico, pede para a criança desenhar – a liberdade reside então na escolha dos temas, cores e procedimentos. Trata-se de uma liberdade bastante relativa, que se define de modo subjacente, pela ausência de instruções precisas ou restrições demasiado fortes, e não necessariamente pela expressão criativa feita de espontaneidade, autonomia e originalidade. Ou então, ao contrário – e essa é a minha concepção –, equivocadamente associado ao epíteto livre, o desenho, laboriosa emanação, seria oriundo de uma série de compromissos – uma manifestação subjetiva, de certa forma um sintoma. O primeiro comprometimento conclui-se, evidentemente, consigo mesmo e é arbitrado pelo pré-consciente – em referência ao primeiro tópico freudiano –, que, dependendo da situação, filtra ou permite ver. O segundo, com o ecossistema – família, pessoas próximas, escola – e a riqueza ou não dos envolvimentos e estímulos. Por fim, o último, com aquele a quem o desenho é dedicado, o outro, encarnado pelo médico. Essas pressões, paradoxalmente, dão um maior interesse às produções da criança, insistindo em suas dimensões eminentemente subjetivas e relacionais. O desenho livre surge como fruto do encontro singular de um criador, levado por sua história pessoal inscrita no seu tempo, e um olhar. É essa criação, evidentemente única, que suscita a nossa curiosidade. ESTUDOS PSICOLÓGICOS DO DESENHO Todo estudo proposto sobre o desenho livre, seja por um estudante escrevendo uma monografia, um médico no contexto de sua prática clínica ou um autor, começa por uma revisão bibliográfica. Esta última imediatamente coloca o pesquisador diante de uma massa de livros e artigos, expondo-o ao risco de desânimo e renúncia. Por conseguinte, é, não necessário, mas sim vital realizar uma escolha racional. Assim, eu conservei seis referências que, a títulos diversos, parecem-me essenciais. Desses textos, eu extraí, no âmago das concepções dos autores, suas construções teóricas, mas também reflexões e observações que fazem refletir e que correspondem às minhas preocupações neste livro. Georges-Henri Luquet (1927): as formas do realismo[3] Para Luquet, o termo “realismo” é o que melhor caracteriza o desenho infantil. Com efeito, ele é evidentemente realista pela “natureza de seus motivos, dos assuntos de que trata”, pois, especifica ele, o desenho da criança “tem como papel essencial representar alguma coisa”. As crianças raramente recorrem à abstração em suas produções. Os desenhos “abstratos”, feitos de preenchimento, coloração, entrecruzamentos de linha remetem, na maior parte das vezes, a uma certa restrição da elaboração psíquica. A não figuração tem valor de mecanismo defensivo de tipo evasão. A principal crítica que se poderia fazer à teorização de Luquet é o emprego do conceito de realismo em uma acepção truncada. Para ele, o realismo significa pôr em cena objetivamente o real externo, concreto, das coisas e, por conseguinte, negligenciar a existência da realidade psíquica singular, subjetiva, que é, contudo, a única que conta em psicologia. Por questão de unidade e para que minhas palavras estejam de acordo com as citações do autor, eu utilizarei, porém, neste resumo o termo “realismo” na acepção, certamente criticável, de seu autor. Luquet distingue então três fases pelas quais a criança aborda a questão do realismo no desenho, notando, entretanto, que a passagem de uma para a outra segue um progresso quase insensível. O realismo fortuito Trata-se da primeira etapa em direção à representação no desenho. A criança pequena traça traços, por imitação, para deixar uma marca no papel, depois “chega o dia em que a criança percebe uma similitude de aspecto mais ou menos vaga entre um de seus traçados e algum objeto real: ela considera então o traçado como uma representação do objeto”. Ela própria denomina diretamente seu desenho ou são as pessoas próximas que se encarregam disso. Figura 1 Jovem menino de 2 anos e 3 meses, que identifica, ulteriormente, seu desenho como sendo um caracol. Obviamente, esse primeiro esboço representativo a enche “de uma alegria intensa”, mas, “como foi fortuitamente que a semelhança se produziu no traçado em que a criança o percebeu, esse feliz acaso não se repete imediatamente, e a criança é obrigada a reconhecer que ainda não é capaz, salvo por acidente, de fazer um traçado que se pareça com alguma coisa... A passagem da produção de imagens involuntárias à execução de imagens premeditadas faz-se por intermédio de desenhos em parte involuntários e em parte deliberados” (LUQUET, 1927). Com efeito, aquele desenho foi realizado sem nenhuma intenção representativa prévia, e a criança denominou-o ulteriormente em função da semelhança do traçado com um elemento do real, pela pregnância, naquele momento em seu imaginário, de uma representação de objeto. Assim, quando lhe pergunto o que ele acabou de desenhar, um menino bem pequeno, de 2 anos e 3 meses, indica-me que se trata de um caracol (figura 1). A identificação do esboço, depois do desenho terminado, provém da conjunção de dois fatos: primeiro, da persistência da representação de um caracol, visto em uma imagem pouco tempo antes do desenho, e também da semelhança, através de um traço arredondado e vagamente em espiral, com aquele animal. O autor nota, após uma atenta observação da criança desenhando, que às vezes a mesma acaba completando um esboço executado sem intenção de representação. A primeira etapa é um traçado fortuito, a segunda é a interpretação dessa garatuja como sendo, por exemplo, um animal, e a última consiste em acrescentar patas, um rabo etc., de modo intencional, a fim de acentuar o aspecto representativo do traçado que, no início, não era deliberado. O realismo falhado Trata-se da fase em que “o desenho quer ser realista, mas não consegue sê-lo”. A criança ainda não é capaz de dirigir, limitar seus movimentos gráficos, de modo a dar ao seu traçado o aspecto que ela gostaria de dar, “assim como um violinista iniciante que tocaria uma nota desafinada”, explica Luquet. O desenho é, portanto, imperfeito, quanto às relações entre as partes e às proporções das mesmas. Para o autor, a incapacidade da criança é sintética: por exemplo, os detalhes não são situados com coerência, ficando mal-orientados, maldimensionados. A figura humana dita “homem girino” é típica dessa fase. Obviamente – e Luquet não se esquece disso –, os erros de proporção e dimensão, de diferentes personagens, por exemplo, não devem ser necessariamente imputados à fase do realismo falhado, mas sim compreendidos em uma perspectiva psicodinâmica, como a tradução gráfica do fantasma. Assim, a exageração de um detalhe corporal ou o tamanho desmedido de uma personagem não podem ser exclusivamente atribuíveis à inabilidade gráfica, pois também são determinados pela expressão fantasmática. O realismo intelectual Quando a criança tem à sua disposição as capacidades gráficas para representar objetos, nada deveria impedi-la de ser, segundo Luquet (1927), plenamente realista, mas, explica ele: O realismo do desenho infantil não é, de modo algum, igual ao do adulto: enquanto esteúltimo é um realismo visual, o primeiro é um realismo intelectual. Na visão do adulto, para ser semelhante, um desenho deve ser, de certa forma, uma fotografia do objeto: ele deve reproduzir todos os detalhes e somente os detalhes visíveis do lugar onde o objeto pode ser visto e com a forma que eles tomam desse ponto de vista; em suma, o objeto deve ser figurado em perspectiva. Na concepção infantil, ao contrário, para ser semelhante, um desenho deve conter todos os elementos reais do objeto, mesmo invisíveis...[4] Assim, em certa medida, essa primeira construção infantil da realidade do mundo pode ser comparada à alegoria da caverna exposta por Platão. Assim como os homens acorrentados dentro da caverna, de costas para a luz, concebem apenas as sombras do real projetadas nas paredes, as crianças, durante essa fase, mostram um momento do estabelecimento de seus conhecimentos da realidade exterior, que liga experiência sensível e intelectualização. Figura 2 Um menino de 8 anos representa sua sessão com o psicólogo (figura 2). Este último possui uma cadeira de escritório com rodinhas (no alto), enquanto a criança está sentada em uma cadeira mais tradicional. Observa-se o achatamento dos pés dos assentos e dos corpos. A cena é representada a partir de vários ângulos: o assento da criança e a tampa da mesa são vistos do alto, os pés da mesa são vistos no nível dos olhos e a cadeira giratória do psicólogo ainda é apresentada, graficamente, de vários outros pontos de vista. Os procedimentos do realismo intelectual são variados: pode-se notar a transparência, que permite, quando a criança desenha uma casa, por exemplo, ver os objetos que estão em seu interior, o achatamento (figura 2), que consiste em desenhar um carro com as quatro rodas (duas de cada lado). Para Luquet, “esses diversos procedimentos revelam a engenhosidade da criança e a força do realismo intelectual, às quais eles têm como papel satisfazer”. O realismo visual Essa última fase do desenvolvimento do desenho infantil corresponde ao desenho de um adulto, que desenha o que ele vê de um objeto, e não o que ele sabe sobre o mesmo. Não há achatamento, nem transparência, nem mudança de ponto de vista, mas, ao contrário, um ângulo de visão único, uma linha de horizonte que leva à perspectiva. A teoria de Luquet peca, a meu ver, pela imprecisão, em especial quando ele evoca o desenho em perspectiva como sendo a realização final da capacidade de desenhar. Aqui, ele deixa de abordar o desenvolvimento das aptidões perceptivo-representativas da criança para entrar na esfera das aprendizagens. De fato, a perspectiva não existe, no estado natural, no desenho do ser humano, pois ela é fruto de uma formação longa e complexa, que foi codificada pela primeira vez no Renascimento como uma teoria geométrica: plano, linha de horizonte, pontos de fuga, projeções ortogonais etc. A perspectiva evocada por Luquet é dita cavaleira. Isto é, um esboço de representação que sugere, por exemplo, a profundidade do objeto ou os diferentes planos de uma paisagem. Sophie Morgenstern (1937): os desenhos inspirados pelo inconsciente[5] Sophie Morgenstern (1875-1940) foi uma psicanalista de crianças, contemporânea de Freud, de origem judia polonesa, que desapareceu tragicamente, pondo fim aos seus dias em 16 de junho de 1940, quando da entrada do exército alemão em Paris. Segundo Georges Heuyer, seu chefe de serviço no hospital da Salpêtrière, ela foi a primeira, antes mesmo de Mélanie Klein, a utilizar o desenho em psicanálise infantil. Georges Heuyer nota no prefácio que dedicou ao seu livro: Além disso, a Sra. Morgenstern inovou. Ela não se contentou em aplicar, de forma automática, o método ortodoxo de Freud, a primeira, de acordo com os nossos conhecimentos. Em vez de fazer a criança falar, ela empregou o desenho para penetrar mais profundamente, para revelar as tendências instintivas e inconscientes da criança. [...] Em outros países, por exemplo em Londres[6], vimos que o mesmo método já foi empregado, mas gostaríamos de reconhecer que a prioridade dessa invenção pertence à Sra. Morgenstern. Sophie Morgenstern recorre ao desenho de modo quase fortuito durante o tratamento, em 1926, de um caso de mutismo psicogênico. Trata-se de um menino de 9 anos, “preso em um mutismo que durou quase dois anos”, cujo único meio de expressão é o desenho. Logo na primeira sessão, a psicanalista pede para ele desenhar e lhe dá então interpretações sobre suas produções, as quais o jovem paciente confirma ou não com um sinal de cabeça. Era assim que eu o ajudava a exprimir seus conflitos inconscientes. Eu perguntava se ele tinha alguma mágoa e, quando ele respondia afirmativamente, eu dizia: “Desenhe-a para mim”. Durante duas semanas Jacques desenhou cenas de terror: um duplo assassinato, um homem assassinando um menino e ele próprio assassinado por um soldado; cabeças cortadas; pássaros e animais com formas fantásticas e atitudes agressivas; um homem com um bastão excessivamente longo, tocando o sino de uma igreja; um homem preso nas teias de uma aranha; uma mulher gritando e pedindo socorro. Sophie Morgenstern observa que seu jovem paciente vai livrando-se progressivamente, através dos desenhos, de todas as suas angústias. Ela incentiva-o, pedindo-lhe, sistemática e diretamente, para representar no papel as causas de suas angústias, de seu segredo e seus sonhos. Para ela, o desenho posiciona-se no vasto “campo das criações imaginativas da criança” e permite certamente tratar distúrbios, mas também “adivinhar uma situação familiar e estabelecer um diagnóstico”. A partir daquele primeiro caso Sophie Morgenstern aplicou seu método de “confidências através de desenhos” a vários outros casos, dos quais se pode tirar lições de alcance mais geral: • Com frequência, não são os desenhos mais bonitos que são os mais interessantes para o médico. Com efeito, certos desenhos podem apresentar “um valor pictural medíocre”, mas ter um alto valor simbólico e clínico, em especial quando “tentam, ao mesmo tempo, esconder e exprimir os problemas que agitam a alma infantil em sofrimento”. • A criança expõe nos desenhos suas preocupações e angústias de modo simbólico: Ele desenhava repetitivamente barquinhos em apuros pedindo socorro a um grande barco: este último recusava-se a ir prestar socorro, sob pretexto de que já era tarde demais. O barquinho insistiu, mas não recebeu socorro e naufragou, e os peixes exultavam de antemão com a ideia do banquete que os esperava. Parece-nos quase certo que o barquinho era o símbolo do nosso menininho; o grande, o de seu pai, e os peixes representavam provavelmente seus irmãozinhos, que se deleitavam enquanto o nosso pequeno doente encontrava-se na clínica. • Para Sophie Morgenstern, os desenhos são de uma ajuda inestimável no tratamento psicanalítico de crianças. Assim como ao analisar sonhos, ela dá importância a detalhes e em especial às dimensões e proporções dos objetos que figuram em um mesmo desenho. Dessa forma, incoerências de proporções carregam significados psicológicos: Essa desproporção tão flagrante entre o tamanho real e figurado dos objetos provavelmente depende também do valor afetivo que esses diferentes objetos tinham para a nossa menininha. • “Ao comparar os desenhos dos nossos pequenos doentes, com frequência temos a impressão de que a maneira como um desenho é executado revela não somente os transtornos neuróticos de seu autor, mas também seu caráter.” Sophie Morgenstern estabelece assim um laço entre a representação tensa e rígida dos membros do corpo de uma personagem, “uma paralisiaobsessiva”, e a presença de elementos obsessivos no autor do desenho. Ou, ao contrário, escreve ela sobre outra jovem paciente: “Aquela criança tinha na vida a mesma flexibilidade mental, a mesma capacidade de adaptar-se a novas circunstâncias, que ela demonstrava ter na técnica de seus desenhos”. • Seja no sonho, no conto ou no desenho, o clima afetivo determina o caráter da produção onírica, literária ou gráfica – atmosferas glaciais, tristes, alegres, punitivas, angustiantes etc. Sophie Morgenstern também presta especial atenção à expressão das personagens figuradas: rosto estranho, olhar carregado de reprovações, olhos desviados, sensualidade, temor. Elementos de atmosfera e expressão estes que “indicam a profundidade do conflito e a gravidade da neurose”. Por fim, deixemos a palavra com Sophie Morgenstern (1937), que faz algumas reflexões em torno do desenho, a partir de sua prática da psicanálise infantil: O conflito interior era o fator de inspiração das realizações artísticas, e nós sentimo-nos quase autorizados a dizer que, quanto mais profundo o conflito e mais grave a neurose, mais ricas e originais eram as produções artísticas dos nossos doentes. Quanto mais reprimido o conflito que a criança quer expressar através de suas criações imaginativas, menos transparente se torna às vezes seu simbolismo. Quanto mais dissociada a mente do doente, mais variados e ricos são os meios que ele utiliza para exprimir seus complexos. Françoise Dolto (1948): o desenho como um enigma simbólico[7] Françoise Dolto foi iniciada à psicanálise infantil com o auxílio do desenho livre por Sophie Morgenstern. Para Françoise Dolto, O desenho livre é uma expressão, uma manifestação da vida profunda. Através do grafismo o sujeito exprime também suas dificuldades, seus transtornos surgem para nós não dissimulados, o desenho expõe-nos de fato o inconsciente do sujeito, revelando-nos assim seu “clima psicológico” e, portanto, representando para nós uma fotografia instantânea do estado afetivo. A análise do desenho permite assim mergulhar nas camadas profundas da personalidade, identificar os organizadores, traçar um “autorretrato inconsciente”. Porém, logo observa a autora, estamos em presença de sujeitos em evolução, cuja organização psíquica é flexível, plástica, e, por isso, é primordial situar essa abordagem no tempo: trata- se de uma fotografia da vida emocional do sujeito em um instante “t”, que é o momento da fabricação gráfica das representações psíquicas da criança. Nessa palestra, concedida no congresso Psyché de 1948, Françoise Dolto levanta alguns pré-requisitos à interpretação dos desenhos infantis: ela relembra, em primeiro lugar, que às vezes a compreensão do sentido, parcial ou total, foge ao médico. O desenho nem toda vez permite conhecer profundamente a vida psíquica do sujeito. É necessário, em psicologia infantil mais do que em qualquer outra área, não forçar o sentido do esclarecimento, sobretudo porque o suporte desenho, pela possível multiplicidade das interpretações, é propício a isso. “Não há acaso em um desenho, tudo ali é necessário”, escreve ela, acrescentando: “nem sempre podemos compreender todo o sentido dele”, citação esta que eu sugiro retomar e completar com a frase: “nem sempre podemos compreender todo o sentido dele imediatamente durante uma mesma sessão com a criança. Como sabemos, muitas vezes acontece de nós desvendarmos o sentido do primeiro desenho recebido de uma criança em uma psicoterapia somente após algumas – e até muitas – sessões. Ao mergulharmos então novamente nos arquivos, para exumar, junto com a criança, trabalhos mais antigos, tomamos consciência de que “tudo poderia ter sido compreendido desde o primeiro desenho. Tudo já estava ali para quem soubesse ver”. Françoise Dolto também explica que todo desenho livre, sobretudo se for traçado rapidamente, é impregnado pelas circunstâncias atuais da vida da criança e que sempre é necessário, após a sequência de desenho, levar a criança a reconsiderá-lo em um “estudo clínico”. Ou seja, durante uma conversa bastante livre e leve em que o médico apresente um estado “de liberdade afetiva” que lhe permita “sentir dentro de si o que emana do desenho, do ponto de vista do seu clima, e depois, analisando esses elementos, interpretá-los sempre com relação ao conjunto”. Essas interpretações, sublinha a autora, enriquecem as futuras produções – de fato, “quando o adulto interpreta para uma criança o seu desenho, ela imediatamente manifesta gratidão, fornecendo-lhe um material cada vez mais rico”. Essa observação é especialmente relevante, e os médicos que utilizam o desenho em seu trabalho constatam-na na prática com bastante frequência. Por fim, Françoise Dolto sugere que os médicos examinem certos aspectos mais específicos e mais técnicos do desenho, os quais ela relaciona a interpretações: A composição Análise Interpretações de F. Dolto As bases do desenho estão traçadas? O sujeito cria raízes em algo sólido e real na vida? O desenho está em um mesmo plano ou em vários eixos diferentes? Não há uma cisão na personalidade do sujeito? O desenho dispõe de margens delimitadas? O sujeito vive na realidade e em certa harmonia com o mundo ao seu redor? Qual é o tamanho do desenho? O sujeito está seguro de si? Ele ousa exprimir-se? Não está fugindo de uma parte de si mesmo? O tema Análise Interpretações de F. Dolto Há uma ausência total de personagens? Essa ausência é constante? O sujeito participa do mundo dos humanos ou vive dentro de si mesmo? Quais são os animais representados e qual pode ser seu significado? Ele gosta do mundo vegetal? Suas árvores e flores possuem raízes, estão cortadas ou Será a tradução de instintos agressivos ou a liberação de instintos demasiado violentos que assustam o sujeito? plantadas direto na terra? O grafismo e as cores Análise Interpretações de F. Dolto Os traços são fracos ou fortes? Eles revelam, conforme as circunstâncias, timidez, inquietação ou então violência, autoconfiança ou ainda um desejo de afirmar-se e existir. As cores são escuras ou claras, apagadas ou violentas? As cores informam-nos sobre a tonalidade afetiva do sujeito. Tons escuros ou apagados correspondem geralmente a um estado depressivo; claros ou violentos, a um humor menos moroso. As associações que o sujeito estabelece entre as cores são frequentemente muito importantes para a interpretação – cores “de menina” ou cores “de menino”, cores feias, tristes, malvadas, de que eu gosto, de que eu não gosto e que fulano acha legal etc. Através da análise e interpretação do desenho, Françoise Dolto revela-nos a situação do sujeito com relação a si mesmo e ao mundo: “o estudo de sua vida instintiva joga luz, de um lado, sobre sua vitalidade, apetite, equilíbrio, todo o seu metabolismo (instintos vegetativos), necessidade de ar, água, luz, comida, e, de outro, sobre sua agressividade, passividade (instintos animais), suas necessidades motoras e produtivas”. Daniel Widlöcher (1965): traçar um retrato psicológico[8] A abordagem de Daniel Widlöcher é um pouco diferente da de F. Dolto. Para ele, o interesse principal de um psicólogo não deve ficar concentrado no desenho, mas sim no ato de criação, pois “o desenho infantil possui um fraco valor informativo: ele não nos diz nada, e a única coisa que nos atinge é o seu valor de comunicação pessoal. Através desse depoimento a criança revela não somente certas aptidões práticas (habilidade manual, qualidade perceptiva, boa orientação espacial), mas sobretudo traços de personalidade”.Para o autor, o desenho é uma tarefa fácil de realizar, agradável, recorrendo principalmente ao imaginário, o que só faz aumentar o seu valor expressivo. Sem demasiadas instruções, no contexto do desenho livre, ele reflete a visão de seu autor e, por conseguinte, “constitui, de certa forma, uma abordagem projetiva”. A criança fornece, assim, “um certo retrato psicológico” de si mesma. Para analisar bem o desenho, “expressão dos sentimentos e do caráter”, Daniel Widlöcher sugere uma abordagem em três níveis. O valor expressivo do desenho Este depende, em grande parte, do gesto gráfico. Os traços produzidos na folha já são um reflexo do temperamento, quase fisiológico, da criança, no momento em que ela está realizando o desenho. Há traços vigorosos, rápidos e até agressivos, que quase rasgam o suporte, e, ao contrário, aqueles que se mostram hesitantes, que raspam a folha com timidez, quase desaparecendo. Com raras exceções, e desde a mais tenra infância da criança que desenha, há uma concordância entre “a expressão gráfica e o humor, o caráter”. A utilização do espaço é, obviamente, um dos agentes do valor expressivo de um desenho. O lugar do desenho na página é importante. No entanto, com razão, Daniel Widlöcher mantém grande reserva no que diz respeito às interpretações simbólicas ligadas ao uso da superfície gráfica. Isso porque, embora existam significados singulares que correspondem a determinada criança, eles evidentemente não são generalizáveis a todas as outras crianças. Os valores expressivos da cor Na maior parte das vezes, a expressividade através das cores está intimamente ligada à expressividade através do traço. Este último pode ser duro ou elástico, forçar ou raspar o suporte, privilegiar os ângulos ou então as curvas. Assim, tanto os traços quanto as cores adquirem um valor de metáfora: “um rosto anguloso”, “vermelho de raiva”, “verde de medo”. Cores Sugestões de interpretações de D. Widlöcher Combinações de cores Certas combinações dão uma impressão de harmonia, coerência; outras, ao contrário, provocam um efeito de colisão. Cores expressivas da luz e do céu Elas sempre acompanham ideias de pureza e virtude, de sabedoria divina. Cores quentes Elas são, em seu conjunto, um privilégio de crianças abertas, bem-adaptadas ao grupo. Cores neutras Elas caracterizam crianças fechadas, independentes e, na maior parte das vezes, agressivas. Vermelho É a cor preferida de crianças pequenas. Mais tarde, ela exprime impulsos de hostilidade e disposições agressivas. Preto Exprime inibição, medo, ansiedade. Laranja Essa cor frequentemente exprime um estado de espírito feliz, descontraído. Marrom Muitas vezes está ligado à necessidade de sujar. Verde Pode exprimir uma reação contra uma disciplina demasiado rigorosa. Roxo Com frequência está ligado a tensões conflitantes. Superposição de cores Exprime um conflito de tendências. Isolamento de cores Revela rigidez e temor. Mistura sem discriminação Expressa imaturidade e impulsividade. O valor projetivo Para Daniel Widlöcher, a interpretação do desenho assemelha-se à do sonho. Assim como com este último, não se trata de interpretá-lo referindo-se, quase que mecanicamente, a uma chave do estetismo, no lugar de uma chave dos sonhos. Visto que não há nenhum código para decifrar o desenho, o acesso a esse registro de significado necessita “obter da criança associações de pensamentos, repetições de desenhos” – sábia precaução, que incita o médico a frear seu desejo interpretativo em proveito do aprofundamento da relação com seu jovem paciente. Demonstrar discernimento a respeito de um desenho também é distinguir o que depende do desenvolvimento psicomotor, da maturação neurofisiológica e o que está ligado à singularidade do funcionamento psicoafetivo do sujeito. Todo estudo da interpretação do desenho supõe previamente que nós saibamos em que medida o grau de maturação perceptiva, visual e intelectual interfere na escolha das formas e dos temas. É somente após estudar o desenvolvimento do gesto gráfico e, em um segundo momento, identificar como o desenho, antes de ser uma reprodução dos dados da percepção, é um sistema de escrita da criança, que poderemos abordar o problema da interpretação. Baseando-se nos trabalhos de Françoise Minkowska, Daniel Widlöcher descreve dois tipos de criança: a criança sensorial, que “gosta de acumulações, o que dá ao seu desenho uma impressão de extrema riqueza. [...] Tudo vive, tudo se agita”, e a criança racional, para a qual “o desenho prevalece sobre as cores, as quais, quando são utilizadas, servem apenas para enfeitar um elemento do desenho. A construção aqui é exata e equilibrada, mas estática, rígida. [...] A simetria domina, o espaço é preenchido de modo incompleto, os objetos deixando entre si superfícies vazias”. Obviamente, essa tipologia, explica o autor, apresenta as mesmas desvantagens que qualquer classificação binária. Portanto, ela deve ser utilizada com precaução. O valor narrativo Na maior parte das vezes é a própria criança, quando o adulto lhe pede um desenho, que escolhe o tema. Ela é normalmente determinada por duas séries de motivações: “o desejo de representar tal objeto e o prazer de reproduzir certas cadeias gráficas habituais”. Para Daniel Widlöcher, o valor narrativo também estabelece referências à atualidade, ao mundo exterior, mas talvez sobretudo ao universo imaginário da criança, que vai refletir-se no desenho. “Aquilo que ela não pode nos dizer sobre seus devaneios, sobre suas emoções em situações concretas, ela nos indica através de seus desenhos.” É claro, observa ele, um único desenho não basta para acessar o universo imaginário da criança – é preferível proceder a “uma análise comparativa de uma série de desenhos da mesma criança, buscando temas em comum”. Jacqueline Royer[9] (1995): o desenho é uma linguagem Para Jacqueline Royer, o desenho é “uma linguagem universal” própria à humanidade inteira, sejam quais forem as épocas ou os lugares. Embora reconheça, evidentemente, as especificidades culturais, ela insiste em seus textos sobre as invariantes, os universais, os quais ela chama de “língua do desenho” e que transcendem os particularismos sociais, civilizacionais e culturais. Assim, ela se situa abertamente em uma perspectiva universalista que me parece difícil de sustentar, em razão de as especificidades culturais e educativas ainda estarem – em nosso planeta, contudo, globalizado – tão arraigadas e infiltrarem as produções humanas não comerciais, dentre as quais as das crianças. Ao contrário, em outro ângulo, Jacqueline Royer descreve o desenho infantil como um “diário íntimo”, “uma correspondência consigo mesmo”, que deixa o jovem desenhista acessar sua internalidade e ter uma compreensão íntima de seu funcionamento psíquico. Aqui, mais uma vez, apesar de o desenho ser um bom indicador, para o profissional, da psicopatologia de uma criança, eu não acho que, em si, ele abra à introspecção. Na realidade, seja qual for o suporte, brincadeira, desenho, conversa, psicodrama etc., é o próprio sujeito que carrega ou não suficientes capacidades de elaboração psíquica, as únicas que podem permitir aproximar-se de uma forma de autoanálise. Método geral de tradução do desenho Sob essa terminologia, Jacqueline Royer elabora uma metodologia de interpretação do desenho, baseando-se na analogia entre o desenho e a literatura: “há gêneros gráficos assim como há gêneros literários”. Por isso, segundo ela, existem três leituras possíveis: • A leitura rápida ou intuitiva. Trata-se de um modo espontâneo de conhecimento, que recorre à contemplação,intensa e passiva, da obra. O médico deve adotar uma atitude sem a priori, a fim de sentir profundamente as emoções que o desenho suscita. Para Jacqueline Royer, essa leitura rápida e intuitiva lança mão da perspicácia clínica, “que se alimenta da vivência inconsciente do médico, mas também dos conhecimentos que ele tiver adquirido e de sua experiência”. • A leitura normativa. “O objetivo da leitura normativa do desenho é situar o autor do grafismo, da mesma forma como, em uma aula de francês, tentamos situar o autor de um texto desconhecido, observando nele a presença de certas particularidades (vocabulário, construções de frases, expressão etc.), identificadas, em textos bem conhecidos, como sendo específicas de uma época, nível cultural, região ou forma de lógica.” Aqui não se enfatiza a singularidade da personalidade do sujeito que realiza o desenho, mas sim a comparação com seus iguais, no que diz respeito à qualidade da realização. Faz-se referência a uma padronização, ou seja, aos desempenhos de uma amostra de população análoga: “A maneira de desenhar da criança examinada corresponde à maneira de desenhar das crianças da mesma idade? Ela está atrasada ou adiantada com relação às mesmas?” • A leitura analítica. Esta última etapa da análise do desenho infantil permite identificar “em que o sujeito em questão se diferencia da massa, o que ele tem de peculiar, e mesmo de original, aquilo que faz dele um ser único”. Retomando sua comparação do desenho com um texto literário, Jacqueline Royer escreve que “o primeiro trabalho do tradutor é observar particularidades nessa página de escrita”. Em seguida, obviamente, o tradutor-psicólogo concentra-se no tema do desenho, no “léxico” utilizado, depois na forma, no movimento e, por fim, na cor. Annie Anzieu[10] (2008): o psicanalista e a criança que desenha Annie Anzieu, psicanalista, utiliza o desenho da criança em seu trabalho terapêutico. Ela define o desenho como estando “em um nível intermediário entre a brincadeira e a fala” e considera que, “assim que tem consciência de estar deixando um traço por intermediário de um instrumento, a criança é capaz de utilizar esse meio como um equivalente das associações livres utilizadas na análise dos adultos”. A autora retoma aqui a técnica empregada por Mélanie Klein na psicanálise infantil. É claro que, no contexto bem específico do tratamento psicanalítico, Annie Anzieu nunca pede para a criança desenhar da mesma forma como, na minha prática do exame psicológico, acontece de eu pedi-lo para as crianças que recebo. Ela coloca, portanto, à disposição de seus pequenos pacientes papel, lápis, mas também material de modelagem e brinquedos, os quais eles vão usar ou não, conforme seus desejos. A partir desse momento ela pode notar que “o desenho surge como uma parte da expressão livre do paciente, inscrevendo-se no desenrolar do processo transferencial”. A realização gráfica não pode ser então interpretada em si, mas somente “observando a transferência no analista e no ambiente, do qual o material de desenho faz parte”. Dentre os textos de Annie Anzieu (2008), eu selecionei, fora de seu contexto, algumas observações, reflexões e aforismos que me fizeram refletir: O traço que limita um espaço reconhecível é definido tanto pelo interior quanto pelo exterior. No exterior ele é percebido como o traçado dos limites de conteúdos interiores que ele contorna. Uma criança cujos desenhos nos parecem agradáveis por serem “bem-feitos” não necessariamente é uma criança que vai bem. [...] O próprio traçado do desenho pode ser um sintoma, assim como uma linguagem muito bem-elaborada: a bela linha de um envelope pode esconder o caos ou o vazio. A beleza linear dos desenhos de certas crianças durante sua cura analítica faz o analista correr o risco da sedução. [...] Seja como for a aparência final do traçado, o analista deve encontrar ali o rastro dos fantasmas, dos conflitos psíquicos, dos objetos internos da criança. A folha em branco, representante do eu-pele, superfície de apoio como, nas origens, o envelope materno, fornece um espaço superficial ao desenhista. O caráter de persistência distingue o desenho da fala: “verba volent”. Através de suas transformações e destinos durante a sessão, o desenho significa a possibilidade de uma continuidade do Eu e de suas manifestações. Assim, certas crianças continuam e corrigem, completam ou modificam um desenho durante várias sessões. Dentre os materiais que organizam o desenho, a cor manifesta em especial os movimentos afetivos. [...] A cor lhe dá sua tonalidade afetiva. Assim são determinadas as habituais associações de calor (amarelo), frio (cinza, azul) e violência (vermelho). Uma separação nítida dos espaços coloridos determina contentores compartimentados contra a continuação afetiva manifestada pela atração de uma cor pela outra. [3]. Le dessinenfantin [Tradução portuguesa: O desenho infantil]. [4]. Todas as citações foram traduzidas livremente [N.T.]. [5]. Psychanalyse infantile. Symbolisme et valeur clinique des créations imaginatives chez l’enfant. [6]. Georges Heuyer faz alusão aqui à técnica psicanalítica de Mélanie Klein. [7]. Palestra concedida no congresso Psyché e publicada na revista epônima. [8]. L’interprétation des dessins d’enfants [Tradução portuguesa: Interpretação dos desenhos infantis]. [9]. Que nous disent les dessins d’enfant [Jacqueline Royer faleceu em 2 de outubro de 2007]. [10]. Le travail du dessin en psychothérapie de l’enfant. http://www.estantevirtual.com.br/q/daniel-widlocher-interpretacao-dos-desenhos-infantis 3 Expressões de sintomas pelo desenho OS DESENHOS, seja qual for sua qualidade estética, são testemunhas bastante diretas do universo psíquico de seu autor. A análise dos mesmos permanece, no entanto, difícil, semeada de armadilhas: a crença em sobredeterminações, ou seja, acreditar “que o aumento ou a diminuição de um detalhe gráfico remete necessariamente a um significado inconsciente” (GUILLAUMIN, 1959); e o desejo de fazer interpretações, muitas vezes pouco convincentes, quase sempre inverificáveis, que, no final das contas, denegam o sujeito. A correta abordagem profissional consiste, obviamente, em privilegiar a coerência e só tirar um significado do desenho se ele condisser, se estiver em conformidade com os outros dados oriundos das consultas, do exame psicológico. AS FACES DA ANGÚSTIA Logo de início, é preciso lembrar que não existem possibilidades de vida sem manifestações de angústia. Esta última é consubstancial ao ser humano e acompanha o seu desenvolvimento e maturação psíquica. Conhecemos bem as angústias de aniquilação dos bebês, as angústias de perda do objeto preferido e, por fim, as angústias de castração que emanam do complexo edipiano. Todos esses diferentes tipos de angústia pontuam, com manifestações mais ou menos “barulhentas”, os primeiros anos de vida de uma criança, sob a forma de momentos de ternura, choros, dificuldades para dormir, pesadelos, terrores noturnos, fobias. A angústia está intimamente ligada à vida, pois não pode existir desenvolvimento ou maturação sem as inevitáveis frustrações, conflitos internos e separações que geram os afetos de angústia sentidos pelo Eu. É a hipótese que Freud levanta a partir de 1926: Embora até então a tenhamos considerado como um afeto-sinal de perigo, ela surge agora para nós, por se tratar com frequência do perigo de castração, como a reação interna a uma separação. Angústia e organização do Eu Em outros termos, a angústia, companheira de viagem do desenvolvimento de todas as crianças e adultos, não carrega, em si,um caráter patológico. Ela revela os efeitos do trabalho psíquico quando o sujeito é confrontado a certas situações: prova, procura de emprego, tensão com um ente querido, luto etc. A capacidade de sentir e suportar a angústia, sem se desorganizar e sem buscar eliminá-la a qualquer preço, demonstra uma saúde psíquica suficiente (FERRANT, 2007). Assim, a angústia está presente em cada um e, se for tolerada e elaborada, atesta uma boa constituição psíquica. Costuma-se distinguir medo, pavor e angústia. Os dois primeiros termos referem-se a um perigo, real, não fantasmado. O medo é uma reação sadia, que permite ficar alerta quanto à existência do perigo e reagir combatendo-o ou fugindo. O pavor é o medo alçado ao seu paroxismo, quando ele petrifica e impede de reagir. A angústia nasce do confronto com um perigo interno: Os objetos julgados como ameaçadores, que causam o surgimento da angústia, são internos e, paradoxalmente, sem representação. O que faz a angústia surgir é a impossibilidade de o sujeito resolver totalmente em seu benefício uma situação de conflito interno entre os objetos de seu desejo e aqueles que o ameaçam de represálias. O que faz a angústia surgir é a impossibilidade de o sujeito representar o conflito (BIRRAUX, 2009). Dessa citação podemos guardar em mente dois pontos importantes: a origem da angústia, que é um afeto sentido face a um perigo interno, e a ausência de representação correspondente, o que a torna ainda mais inquietante. Por isso, nos desenhos infantis, não se trata de identificar uma encenação do conflito interno que é fonte de angústia, mas, através da qualidade das produções, avaliar o nível de organização do Eu. É o que escreve A. Birraux (2009): Desde aquelas, arcaicas, de queda e fragmentação, que Winnicott estudou de perto junto a seus pequenos pacientes, até aquelas, mais tardias ontogeneticamente, de separação e castração, das quais Freud dá uma interpretação doravante clássica na psicanálise do pequeno Hans. O diferencial de qualidade desses estados, de fato não semelhantes em sua expressão – que pode ir desde agitação e choros até dificuldades para dormir, pesadelos e terrores noturnos –, é determinado essencialmente pelo nível de organização do Eu, ou seja, de seus mecanismos de defesa, da consciência que o sujeito tem de si mesmo e de sua capacidade de enfrentar situações que o ameaçam fantasmaticamente. As crianças não sabem descrever sua angústia – nem a fortiori os conflitos internos dos quais ela decorre –, salvo através das manifestações somáticas, corporais, dores de cabeça, de barriga, faltas de ar, palpitações, tremores etc., que a acompanham. A criança sente um sofrimento confuso, doloroso, mas não consegue elaborá-lo, ou seja, verbalizá-lo, nem expressá-lo em representações picturais. Na maior parte das vezes, sua vida interior é um mistério para ela. Em compensação, o psicólogo escuta – o que é consubstancial à sua posição – o sofrimento da criança, tentando identificar o tipo do mesmo e os conflitos internos nos quais ele tem origem. Suas ferramentas são normalmente a consulta, os testes projetivos, as brincadeiras e, é claro, o desenho. No entanto, às vezes a angústia associa-se a uma representação que adquire então um valor fobiogênico – é o que descreve bem Annette Fréjaville (2010): Embora nem todas as angústias se tornem fobias, é por causa de uma angústia anterior que uma fobia se cria. Logo que, investidos de forma pulsional, o Eu e o objeto distinguem-se, sente-se angústia. Enquanto esta última pode associar-se a uma representação e, depois, assim carregada, ser projetada no exterior, tornando-se medo, medo de alguma coisa, o lugar de projeção perceptivo torna-se um objeto fobiogênico. O sujeito pode então evitar a angústia contanto que não encontre a percepção que suscita a fobia e enquanto a associação da angústia à percepção se mantiver sólida. Desenhos de angústia A angústia acompanha a vida adulta e o desenvolvimento da criança. Ela não é, em si, patológica, podendo ser às vezes tolerada, ligada a representações ou submergir às barragens psíquicas. Obviamente, as crianças a experimentam, sentindo um sofrimento que, para elas, é difícil conceber e compartilhar, mesmo através de um desenho. Em consultas com as famílias, elas frequentemente descrevem as crianças como muito vigilantes, e mesmo hipervigilantes, sensíveis, e mesmo hipersensíveis, com relação às dificuldades da vida (pessoais ou profissionais) dos diferentes membros da família. Os pais gostariam que elas fossem mais descontraídas, menos sérias, tendo uma vida que correspondesse mais ao que eles imaginam ser a despreocupação da infância. Muitas vezes também, os próprios pais foram crianças “ansiosas” e ainda exprimem múltiplas inquietações sobre a vida, a sociedade, o futuro. São crianças que se deixam afetar pelas grandes catástrofes mundiais ou pelos acontecimentos locais. Uma delas, por exemplo, mencionou o falecimento de um diretor de escola que trabalhava em uma cidade vizinha. Na verdade, ela não o conhecia e nunca havia ouvido falar dele antes. Ela recolheu essa informação durante uma competição esportiva acadêmica, fez com que a notícia amadurecesse, desse frutos e entregou-a para mim vários meses mais tarde. Uma outra, de 8 anos, contou-me que os dois acontecimentos que mais a haviam marcado foram o acidente do avião supersônico Concorde em dezembro de 2000 e os atentados de 11 de setembro de 2001. Dois dos maiores acontecimentos trágicos da história, que se haviam produzido bem antes de seu nascimento e cujas imagens ela viu e me descreveu. Por que tais crianças são atraídas por acontecimentos trágicos. Por que imagens vislumbradas no telejornal da noite provocam tamanha repercussão em sua psique? Por que elas as repetem, às vezes de forma compulsiva? Parece-me, na realidade, que tais crianças são vulneráveis a uma angústia flutuante que elas não conseguem elaborar e à qual não conseguem associar nenhuma representação. Elas tornam-se, assim, ávidas de representações e acontecimentos graves à altura da angústia sentida, a fim de poder colocar palavras e imagens trágicas em sua vida interior. Esta última torna-se então mais compreensível e observável. A necessidade de representações É exatamente o caso de um menino de 8 anos que realiza vários desenhos, colocando em cena motins em periferias (Ang1), um veículo cuspindo fogo e um rapper na moda. Elementos estes portadores de violência, agressividade e de uma certa forma de destruição que, a meu ver, colam-se à angústia sentida pelo seu Eu. Esse garoto havia vivido situações de aflição e certamente não havia contado, quando ainda era bebê, com pessoas próximas que pudessem conter e tratar a angústia. Ele ainda hoje parece estar sozinho, não apoiado por um ambiente familiar ou terapêutico que o ajude a tratar um pouco da angústia. Então, em um movimento quase de desespero, ele busca, coloca em cena, de forma compulsiva, representações que ele imagina corresponderem aos afetos de angústia sentidos. Outra cena caótica de periferia (Ang2), com uma pessoa armada, jovens que pulam do alto de prédios e, acrescenta ele oralmente, como se quisesse indicar melhor o seu sofrimento, um bebê que se enforcou. Deve-se notar que o menino em questão não mora na periferia, mas tira suas representações do telejornal da noite. Ang1 Ang2 Ang3 “Angústias de separação e castração vivem dissimuladas, travestidas, mas prontas para ressurgir na primeira oportunidade e, antes de tudo, quando as situações atravessadas reatualizam maisou menos as situações originais que as engendraram” (BIRRAUX, 2009). Essa criança de 6 anos vive atualmente, e com intensidade, o conflito que dilacera o casal parental. Nenhuma representação consegue acalmá-la, mesmo quando, como por exemplo no desenho Ang3, ela ilustra um castelo massivo, duplamente protegido por muralhas com ameias, inatacável. Rapidamente, o desenho se agita, chovem bombas, jorra o sangue, e o comentário acrescenta: “é um castelo onde os cavaleiros são torturados durante três dias”. Produções secundarizadas O funcionamento mental obedece a dois regimes: o dos processos primários dá conta de uma circulação livre da energia, dos processos automáticos de descarga, de um pensamento associativo descontrolado; o dos processos secundários sustenta o Eu, instância de adaptação ao real, entravando o processo primário ao obrigá-lo a reter a descarga, elaborar o pensamento e levar em consideração as restrições da realidade na satisfação das necessidades pulsionais (CHABERT, 2004). O desenho a seguir (Ang4) foi realizado de acordo com os “cânones” dos processos secundários; todos os elementos simbólicos da angústia estão presentes nele: a cor preta, símbolo da morte, o preenchimento da folha, que não deixa nenhum espaço para a ausência, o vazio, o branco, evitando assim que afetos depressivos venham à tona, e a representação de um esqueleto, igualmente símbolo da morte e, ainda por cima, um esqueleto fosforescente de um animal assustador: “um T- Rex fosforescente”. Um desenho cujo objetivo, inconsciente, seria transformar a angústia em medo, pois, neste último, existe um elemento objetivo, identificável e inquietante. Além disso, o medo é uma reação saudável que permite uma mobilização do sujeito para assegurar sua defesa. Ang4 A secundarização ainda pode ser um pouco mais aprofundada e vestir os trajes da história. Não se trata mais de um desenho inventado (Ang5), mas sim da reprodução de uma lenda do Egito Antigo: em um dos pratos da balança é depositado o coração de um homem morto e, no outro, uma pena de avestruz. A representação é inquietante em função da escolha do tema e do tratamento gráfico, que privilegia o preto. Em compensação, são tomadas duas precauções contra um possível efeito de retorno de representação, criando um risco de alimentar a angústia interna: trata-se, primeiro, não de uma ficção imaginada pelo autor do desenho, mas de uma lenda “histórica” e, depois, a cena aconteceu há vários milhares de anos, muito longe de nós, e portanto provavelmente não reproduzível nos tempos atuais. Ang5 O desenho Ang6, realizado por uma criança de 9 anos, é raro, na medida em que não nos oferece uma representação simbólica que poderia estar associada à angústia sentida, mas sim uma certa forma de representação inconsciente e direta dessa angústia. A angústia é representada pelas “vibrações” que cercam e atacam a casa, vindo de diversas fontes. A casa protege seu ocupante, refugiado lá no alto, com espécies de triângulos pontiagudos e uma porta dupla. A representação evoca uma problemática pré-genital com um invólucro protetor e um ambiente hostil, o que permite a projeção do bom e do mau. Ang6 IMAGENS DA DEPRESSÃO A realidade dos transtornos depressivos infantis foi reconhecida tardiamente e “foi na ocasião do congresso da União Europeia de Pedopsiquiatras de Estocolmo em 1971 que apareceram os primeiros dados numéricos da depressão em crianças e adolescentes” (VANTALON et al., 1999). Antes, a maioria dos profissionais da saúde denegava a existência da depressão infantil, principalmente nas crianças menores, pois, visto que eram seres em desenvolvimento, a maturação de suas instâncias psíquicas estava incompleta. Porém, observações clínicas de crianças mostraram que elas podiam apresentar sintomas muito próximos dos de adultos deprimidos. A partir daí, foi o modelo da depressão dos adultos que foi transposto tal qual às crianças, com algumas ligeiras adaptações no DSM-IV[11], enquanto que, como nota J. Croas (2008), “a semiologia dos transtornos depressivos infantis difere em parte da dos adultos, pois os sinais clínicos polimorfos e às vezes paradoxais levantam problemas de nosografia e de semiologia depressiva específicos, na qual certas inclinações, como a desaceleração psicomotora observada no adulto, nem sempre se repetem ou se expõem sob uma forma ‘disfarçada’: uma agitação com nuanças maníacas”. Portanto, os quadros clínicos da criança e do adulto não se superpõem de maneira exata, embora se notem paralelos (PETOT, 2008); ao passo que, no adulto, a semiologia depressiva articula-se principalmente em torno da perda de interesse e da tristeza, nas crianças a melancolia está, na maior parte do tempo, ausente no plano sintomatológico, mas parece ser substituída pela irritabilidade. Obviamente, a criança também pode exprimir sua tristeza sob a forma de lamentações e choros que custamos a consolar. A esses sintomas acrescentam-se a perda da autoestima, dificuldades de concentração, memorização e aprendizagem escolar, distúrbios das funções essenciais (sono, alimentação etc.) e, em certos casos, uma forma de inibição psicomotora. Como reconhecer os transtornos depressivos infantis Sobre o tema Les troubles dépressifs chez l’enfant: reconnaître, soigner, prévenir, devenir[12], a conferência de consenso (1995)[13], iniciada pela Federação Francesa de Psiquiatria, levantou como primeira questão: “Como reconhecer os transtornos depressivos na criança?” Os trabalhos dos especialistas e da banca permitiram ressaltar um conjunto de sinais clínicos consensuais, os quais estão reproduzidos aqui: O episódio depressivo infantil apresenta uma expressão clínica singular: face a uma criança retraída, com o rosto frequentemente sério, pouco ativa, ou com um ar ausente, é preciso saber buscar o humor depressivo. O mesmo vale em presença de uma criança descrita como irritável, agitada, opositora e insatisfeita – também é preciso pensar em jogar luz sobre a tristeza. Humor depressivo e tristeza, que são as características do episódio depressivo, só podem ser percebidos através de uma escuta atenta e alerta. A expressão semiológica pode ser analisada a partir do discurso e do comportamento da criança e ainda das declarações dos pais. A partir do discurso da criança: As palavras da criança diretamente exprimidas ou relatadas pelos pais são explícitas: – “Não estou nem aí” – “Não dou a mínima”, falta de interesse e de prazer – “Não estou com vontade de nada” – “Não sirvo para nada”, perda da autoestima, desvalorização – “Não consigo”, impotência – “Eu sou mau” – “É culpa minha”, sentimento de culpa, vergonha – “Estou com vergonha” – “Meus pais não me amam”, perda de amor, sentimento de desespero – “Ninguém me ama”, às vezes ideias de morte e suicídio – “Não estou conseguindo, é difícil demais”– “Não entendo nada” – “Não sei, não lembro”. Essa equivalência estabelecida entre as palavras da criança e a semiologia do médico não deve resumir-se a uma decodificação sistemática. Assim, a dificuldade de se concentrar e pensar provoca ou uma fuga, uma recusa de realizar os trabalhos escolares, ou uma obstinação estéril, longas horas todas as noites debruçado sobre os livros e cadernos, culminando em uma incapacidade de aprender e memorizar. Em ambos os casos, o resultado é um fracasso escolar. Ao contrário, o excesso de investimento e o êxito escolar não excluem a depressão. A partir do comportamento da criança: Embora os transtornos de comportamento mais turbulentos sejam os mais facilmente identificáveis, eles nãosão os únicos que se deve levar em conta. Uma irritabilidade da criança e uma excitação transbordante, que leva a um esgotamento em detrimento das brincadeiras, às vezes estão em primeiro plano. Nota-se então a falta de interesse pelo contato com os outros. Esses sintomas alternam-se com momentos de recolhimento e inércia motora. Com a idade, a semiologia marcada por instabilidade, irritabilidade e raiva pode tornar-se preponderante com relação à inércia e o retraimento. Pode-se igualmente observar distúrbios do apetite: um comportamento anoréxico é mais comum na tenra infância, e um comportamento de bulimia ou uma tendência a beliscar, em crianças maiores ou pré-adolescentes. Eles sofrem também com dificuldades de sono, muitas vezes fazendo birra na hora de deitar, recusando-se a adormecer, tendo pesadelos. A partir do discurso dos pais e das pessoas próximas: “Ele não é mais como antes”, “Eu não estou reconhecendo-o”. Essas frases, frequentemente ouvidas, traduzem a perturbação dos pais ao perceberem o mal- estar de seus filhos. Às vezes, a intensidade dos transtornos apresentados pela criança levam os pais a dizerem: “Ele nunca está contente”, “Ele nunca concorda com nada”, “Ele é terrível”. Essa conotação negativa dá-se no sentido de uma desvalorização e depreciação da criança e cria um verdadeiro círculo vicioso depressogênico, para o qual contribui o ambiente, tanto familiar quanto escolar. “Nunca conseguimos agradar-lhe.” Essas palavras demonstram a impotência sentida pelos pais. O quadro semiológico é compilado pelo médico, mas não se mostra necessariamente completo nem permanente. Em consulta com a criança sozinha, o médico dá grande valor à permanência das declarações: “não sei, não posso, não consigo”, bem como à repetição das mesmas em comentários negativos do desenho: “está errado, está feio”, ou ainda a uma sensibilidade exacerbada diante de brinquedos quebrados. Essas constatações com a criança sozinha reforçam os dados da consulta com os pais e confirmam o provável diagnóstico. Uma mudança progressiva, e até uma ruptura com o estado anterior da criança, constitui um elemento de orientação diagnóstica. A duração do episódio deve ser levada em conta. Ela varia de acordo com a idade. Esse conjunto semiológico reúne os sinais característicos da depressão infantil. Para evocar o episódio depressivo infantil é importante localizar, através de modos de expressão diversos, um sofrimento ligado à perda e ao sentimento de impotência. Essa exigência torna obsoleta a noção de depressão mascarada. Além disso, é imprescindível ressaltar que: – A depressão enquanto patologia inscreve-se na repetição e/ou duração. Ela deve ser reposicionada em uma compreensão global do desenvolvimento infantil. – Os períodos depressivos, de tempo limitado, podem ser compreendidos como uma organização da vida ou da sobrevivência, uma tentativa de obter uma resposta adequada das pessoas próximas, um processo de luta que coloca o sujeito em ação de forma consciente ou inconsciente, para preservar a sua pessoa. O episódio depressivo Descreve-se, portanto, uma síndrome mutável, que não se encontra no tratamento clínico de todas as crianças afetadas por transtornos depressivos, o que leva certos autores, dentre os quais D. Marcelli, a distinguirem o episódio depressivo e a doença depressiva. O episódio depressivo ocorre em ligação com um acontecimento “com um valor de perda ou de luto” – pode-se citar, obviamente, lutos familiares, mas também fatos marcantes, como um divórcio ou mesmo circunstâncias que, para um adulto, parecem mais banais, como uma mudança de residência. A família e os profissionais da saúde normalmente notam a mudança de atitude de uma criança, seu retraimento, sua falta de interesse em ligação com um acontecimento bem-identificado. A doença depressiva é caracterizada por “uma sintomatologia ou mais fraca, ou mais difusa, mas sobretudo mais duradoura” (MARCELLI, 2003), sendo assim menos facilmente detectável pelas pessoas ao redor. Dep1 A casa que se apoia nas beiras da página está vazia (Dep1). Nenhum sinal de vida, a não ser uma fraca fumacinha saindo da chaminé. A garotinha de 7 anos que realizou essa representação o fez sem prazer, sem energia. O desenho, pálido, é parecido com o seu rosto sem expressão. O equivalente depressivo A essas duas categorias, parece interessante considerar o que Sperling (1959, apud ARBISIO, 2003) chama de “equivalente depressivo”. Trata-se principalmente de transtornos funcionais e somáticos (enxaquecas e distúrbios diversos) e mesmo de comportamentos que substituem, na sintomatologia do sujeito, os transtornos depressivos. O “sentido da manifestação depressiva revela- se somente durante a psicoterapia, quando emergem os afetos depressivos” (ARBISIO, 2003). Essas tentativas de categorização apontam a complexidade de uma nosografia exata e compartilhável dos transtornos depressivos infantis. Conforme a maneira de apreender os mesmos for mais restritiva ou mais ampla, levando por exemplo em conta os “equivalentes depressivos”, a prevalência de tais transtornos vai variar entre 0,5% e 2,5%. Deve-se notar um aumento significativo dos transtornos depressivos na adolescência. As taxas na infância não são muito altas, mas mostram que a depressão infantil realmente existe e afeta um número relevante de jovens sujeitos. Depressão e desenho As primeiras manifestações de um transtorno depressivo em uma criança exprimem-se ou pela recusa de desenhar: “eu não sei desenhar”, “não tenho nenhuma ideia”, ou pelo sentimento de ter fracassado: “que feio”, “está malfeito”. Estas atitudes e palavras remetem a um humor depressivo e à perda da autoestima. Quando a criança aceita desenhar, pode-se também analisar sua produção tendo em vista o tratamento clínico da depressão. Antes de tudo, no plano formal: desenhos restritos, inanimados, sem personagens (Dep1), realizados com cores escuras. Os temas fazem referência a perdas (Dep2), a dificuldades de todo tipo, inclusive escolares (Dep3), ao passar do tempo, à extenuação das coisas: personagens doentes, natureza morta, árvores cortadas etc. Deve-se notar também a atitude da criança, que, durante o desenho, não parece sentir nenhum prazer em dividir com uma outra pessoa benévola elementos pessoais ou alguma fantasia que fale sobre ela própria. Dep2 É um garotinho de 6 anos que realiza o desenho Dep2 sem instruções. Um acontecimento familiar, ocorrido recentemente, é identificado. Sua mãe está doente, hospitalizada, o prognóstico vital está em risco. Observa-se que a personagem está sozinha, perdida na floresta. O traço é leve, cinza, o corpo aparece transparente, através das roupas, como se fosse visto em uma imagem de radiologia. A doença e a angústia de perda do primeiro objeto de amor parecem-me deslocadas e condensadas na própria personagem. Deve-se notar que a representação de perfil denota boas competências cognitivas. Dep3 Realização de um menino escolarizado no primeiro ano do ensino fundamental (Dep3) com grandes dificuldades de aprendizado da leitura. Ele não consegue memorizar elementos de leitura, diz que “é burro” e acaba jogando a toalha. Na maior parte das vezes, quando a escola, ou melhor, os resultados escolares baixam, eles podem ser considerados como um indicador, e mesmo um sintoma, da ocorrência de um transtorno depressivo. No caso dessa criança, eu levanto a hipótese de que o fracasso nos primeiros passos em leitura desempenha mais o papel de um fator causal. Eu interpreto esse desenhocomo o autorretrato de uma criança perseguida pelo aprendizado das letras. Deve-se notar que a representação bastante secundarizada e simbólica parece ser, nesse caso, um bom prognóstico. Com frequência também se observa, nas produções verbais, lúdicas e gráficas, realizações que ilustram não diretamente um transtorno depressivo, mas sim os efeitos da luta contra o mesmo. O desenho destaca então os mecanismos defensivos mobilizados a fim de evitar que o sujeito fique submerso pelos afetos depressivos: podem ser desenhos sobrecarregados (Dep4), preenchidos até a borda, não deixando nenhum espaço para o branco e o vazio, tão propícios ao surgimento de representações portadoras de pensamentos tristes, dolorosos. Dep4 Desenho de uma criança de 5 anos (Dep4), que representa a si mesma em uma casa, rapidamente traçada no interior de uma bola de neve, por sua vez no meio da neve, que “não para de cair”. Aqui, mais uma vez, um acontecimento deflagrador é identificado: a garotinha vivenciou dramaticamente a tentativa de suicídio de sua mãe, seguida de uma longa hospitalização. O rosto está triste, a menina representada está duplamente encerrada, em sua casa, mas também no frio branco da bola de neve. Observa-se que o desenho inteiro está cheio de neve e que não resta mais espaço livre, vazio, para sentir os afetos dolorosos. Ao se absorver no preenchimento da folha, a criança evita o surgimento de sentimentos depressivos. Existem também ilustrações em que uma personagem, avatar do sujeito que desenha, é ridicularizada; em termos mais exatos, instaura- se um jogo que alterna movimentos no sentido de uma ênfase ou de sentimentos nobres, logo reprimidos por uma ironia mordaz (Dep5). Essa última muitas vezes é representada sob a forma de detalhes negativos, zombarias voltadas para si mesmo, que rebaixam as aspirações da personagem central do desenho (EP20, capítulo O desenho em exames psicológicos). Dep5 O menino que desenhou o Dep5 tem 9 anos de idade. Ele gostaria de se tornar bombeiro, assim como o pai de um de seus coleguinhas. Ele é certamente sensível a uma forma de prestígio ligada ao uniforme e ao equipamento, mas, sobretudo, parece-me que ele possui, no fundo de si mesmo, o que poderíamos chamar de “uma pulsão altruísta”, ou seja, uma disposição a se interessar pelos outros e ser generoso. Porém, eu observo no desenho em questão, bem como nos encontros que tivemos, que seu desinteresse e sua generosidade nunca conseguem exprimir-se plenamente, mas são sempre, rapidamente, reprimidos. Assim, nesse desenho, ele coloca em cena uma intervenção de bombeiros em um acidente de carro. O veículo está em chamas, e os “soldados do fogo” chegam, com a sirene ligada, ao local da ocorrência. Não se sabe se foi por excesso de velocidade ou erro de cálculo, mas o caminhão dos bombeiros atropela um dos acidentados, cortando-o ao meio. Desse lado da estrada, percebem-se apenas as pernas do infeliz. A compaixão, a fraternidade, enfim, a humanidade desse menino nunca parecem poder manifestar-se totalmente. A ironia – ou seja, o escárnio, dizendo o exato oposto do que ele deseja profundamente –, a caçoada e a chacota sempre vêm impor obstáculos, impedindo a expressão de bons sentimentos. O medo de ser levado ou submerso pela emoção é demasiado forte; mais vale rir dela, ser zombeteiro e gracejar ao invés de correr o risco de ser afetado. Aqui, trata-se realmente de um modo defensivo contra a depressão. O TRAUMA PSÍQUICO Em todas as situações de crise, e em especial nas de guerra, o desenho livre ou com instruções está intimamente ligado aos primeiros tratamentos profiláticos oferecidos a crianças que tenham vivenciado ou sofrido acontecimentos dramáticos, que podemos supor traumatogênicos, ou seja, potencialmente frutos de traumas psíquicos. Trata-se então, para os profissionais da saúde, “de iniciar um trabalho de reconstrução psíquica” (BAQUÉ, 2000), “suscitar um primeiro movimento para se livrar da agonia psíquica” (GANNAGÉ, 1999), lançar “uma boia salva-vidas para exprimir o sofrimento e um pedido de ajuda” (RIPA, 2006), favorecer “uma elaboração progressiva dos acontecimentos que elas sofreram” (COQ & CREMNITER, 2004) ou empreender “uma terapia catártica” (DE CLERCQ & LEBIGOT, 2001). Para crianças afetadas por guerras, o desenho, graças a suas qualidades projetivas, constitui um meio de expressão de destaque, favorecendo uma elaboração progressiva dos acontecimentos que elas sofreram (COQ & CREMNITER, 2004). Inúmeras pesquisas e textos referem-se a acontecimentos de guerra (Líbano, Kosovo, Ruanda etc.), obviamente a respeito dos terríveis saldos desses conflitos: milhares de mortos, mais feridos e refugiados ainda, destruições massivas. No entanto, o horror e a extensão dos fatos não devem ocultar o aspecto sempre singular do trauma psíquico: Não se deve enfatizar a descrição fatual dos acontecimentos, em outros termos, o acontecimento traumático, mas sim a vivência do acontecimento pelo sujeito, observando bem, ao mesmo tempo, a dificuldade de ele verbalizar o eventual encontro com a realidade da morte. [...] Não é o acontecimento que é traumático, mas sim a vivência subjetiva do sujeito que o sofreu (DE CLERCQ & LEBIGOT, 2001). Há o sentimento de um choque emocional violento por “perfuração do paraexcitação” (FREUD, 1920): “um afluxo de excitação que é excessivo, com relação à tolerância do sujeito e à sua capacidade de controlar e elaborar psiquicamente essas excitações” (LAPLANCHE & PONTALIS, 1967). A imagem traumática A imagem traumática perfura o psiquismo ainda insuficientemente estruturado da criança. Ela se fixa ali, como um corpo estranho inabordável, não elaborável, portador de uma sucessão de sintomas – a imagem traumática impõe-se à consciência nos momentos em que a criança está acordada e, em especial, durante o sono, sob a forma de pesadelos repetitivos. É “a morte que penetra” (LEBIGOT, 2006), não uma morte secundarizada, encenação de ritos culturais ou cultuais, mas sim a morte bruta, acompanhada por sons surdos, gritos, tremores, cheiros de pólvora e cadáveres, visão do sangue, sensações somestésicas intensas e novas, que levam a temer a sua própria aniquilação. Não há espaço para o medo, pois é o pavor que domina e coloca a criança em presença “do vazio, do nada, onde o sujeito fica como que abandonado, principalmente pela linguagem [...]” (LEBIGOT, 2006). Trauma e desenho A técnica dos Brauner As abordagens clínicas, em especial as infantis, dão uma importância primordial ao desenho, proposto em todas as situações traumatogênicas e, obviamente, nas guerras, desde o engajamento de Françoise e Alfred Brauner, em 1937, com crianças da Espanha. Françoise Brauner é transferida para o hospital militar de Benicasim, no norte de Valência, onde, durante dois anos, vai praticar essencialmente cirurgia, enquanto assistente. O estabelecimento logo abre suas portas para crianças que fugiram das Astúrias, já bastante marcadas pela repressão de outubro de 1934, que os mais velhos daqueles pequenos refugiados, no melhor dos casos, viram, no pior, sofreram. Alfred Brauner toma, por sua vez, o caminho de Benicasim; ele se reúne lá com sua esposa e imediatamente divide com ela a mesma convicção: curar os corpos, trabalho dela, e cuidar dos mesmos, trabalho dele, nunca bastaria. É preciso restaurar o reino da brincadeira e do riso, a fim de “reduzir o impacto dos acontecimentos nas crianças terrorizadas, oferecendo-lhes a chance de levarem uma vida humana sem ficarem obcecadas por lembranças de lutoe angústia” (RIPA, 2006). É a partir dessa experiência inicial que os Brauner aperfeiçoam uma técnica que permite que as crianças exprimam realmente seu sofrimento. Ela comporta três desenhos, seguidos por uma consulta dirigida por eles próprios ou por educadores formados; pede-se para as crianças desenharem minha vida antes da guerra, o que eu vi da guerra e como eu imagino minha vida após a guerra. Eles deixam a Espanha em 1938, não levando, por questão de ética, nenhuma obra original, “mas as reproduções de 4.000 desenhos e 102 dissertações do concurso e 10.251 desenhos, criados conforme as vontades das crianças” (RIPA, 2006). Mais tarde, a partir de 1945, eles acolhem muitas crianças mártires dos campos de concentração nazistas, juntos às quais eles utilizam novamente o desenho para lhes permitir comunicar o inefável. Trauma1 O desenho[14] Trauma1 foi realizado por uma menininha de 9 anos que havia sofrido, no vilarejo onde morava na Argélia, as destruições dos ataques perpetrados pelo exército em guerra contra o GIA (Grupo Islâmico Armado). Nesse “desenho livre”, ela elabora, espontaneamente, uma composição em que se misturam elementos da realidade (árvores mortas queimadas, um avião largando bombas), elementos fantasmáticos (tubarão voador, dragões), elementos simbólicos (voo de pássaros negros) e, por fim, uma fantasia de utilidade defensiva (uma menina em cima de uma prancha de skate). Esse último componente evoca uma defesa de tipo maníaco: evitar através das brincadeiras, mesmo as mais inesperadas, os afetos depressivos ligados às representações de destruição. Como uma cortina diante do sofrimento Desde então, encontros com crianças que tenham vivido acontecimentos traumatogênicos sempre se baseiam, em um momento ou em outro, em desenhos. É o que fazem M. De Clercq e F. Lebigot, chamados “para dar assistência às crianças do sul do Líbano sobreviventes dos bombardeamentos israelenses do final de abril de 1996”. Eles pedem, “a título de complemento de exploração clínica e de terapia catártica”, para elas realizarem três desenhos inspirados nos trabalhos dos Brauner: “desenhe você e sua família antes da guerra, desenhe você e sua família durante o acontecimento de guerra, desenhe você e sua família como você deseja que estejam mais tarde”. Uma instrução precisa apresenta a vantagem de ajudar as crianças, com a progressividade do tema e a associação da família, a exprimirem diretamente o horror vivenciado: aviões negros, céu escuro, bombas, mísseis, carros e casas arrasados, mortos, feridos, sangue, todo esse conjunto sendo tratado com cores apropriadas: vermelho, laranja e preto, “cor do sangue, do fogo e da morte” (DE CLERCQ & LEBIGOT, 2001). Portanto, não se trata de desenhos “livres”, pois os mesmos, na maior parte do tempo, adquirem a forma de produções estereotipadas, que no fim das contas são banais e puxam uma cortina artificial diante do sofrimento; “quando ficam livres para escolher o tema de seus desenhos, apenas uma fraca proporção das crianças representa a guerra (5% dos casos)” (COQ & CREMNITER, 2004). Trauma2 Esse desenho[15] (Trauma2), feito por uma jovem haitiana de 6 anos, ilustra um aspecto importante do trauma psíquico: a síndrome de repetição das angústias ligadas ao acontecimento traumatogênico inicial. Este último havia sido a entrada brutal e violenta de uma milícia paramilitar na escola maternal daquela criança: gritos, golpes, professora jogada no chão, medo. A reiteração da experiência traumática surge, obviamente, em pesadelos (ela acorda em prantos, cai da cama e precisa então ser acalmada durante um longo momento), na vida cotidiana (se uma porta bater ou uma voz mais alta for ouvida, ela é tomada de pavor), mas também no desenho. Observa-se o caos, uma confusão que invade a superfície da folha. Essa garotinha desenha personagens com olhos vazios, rostos iguais aos de pesadelos, formas indeterminadas e inquietantes, acrescentando séries de manchas e pontos, os quais ela não consegue explicar durante a consulta. Os desenhos-trapaças O que H. Romano (2010) chama de “desenhos-trapaças” são “desenhos sem vestígio aparente do trauma sofrido, embora o fato de tratar as crianças de imediato ou ulteriormente ateste a realidade e a intensidade da ferida traumática subsequente ao acontecimento”. Um estudo (ROMANO, 2009) realizado junto a 87 crianças com idades entre 5 meses e 17 anos e mergulhadas em luto após acontecimentos extremamente traumatogênicos – suicídio de um ente querido, morte acidental, incêndio, guerra, homicídio, catástrofe natural – mostra que a grande maioria dos sujeitos, dentre aqueles que estão em idade de desenhar, “produz desenhos totalmente dissonantes com relação ao horror que eles acabaram de sofrer” (ROMANO, 2010). Alguns realizam até produções tranquilas e alegres: “um grande sol com um magnífico sorriso é assim desenhado por Fouziane (8 anos), que acaba de perder sua irmãzinha de 2 anos, queimada viva diante de seus olhos; Marie (11 anos), sobrevivente do tsunami, desenha uma cena bucólica representando o passeio de uma família em uma floresta, enquanto seu pai e sua madrasta são mortos levados pela onda; Benjamin (9 anos) faz um buquê de flores e de corações, embora tenha acabado de descobrir o corpo de seu pai, que se suicidou com uma bala na caixa craniana” (ROMANO, 2010). Os desenhos não indicam que as crianças em questão tenham ficado indiferentes ao horror vivenciado (confrontação direta com a morte, descoberta de um corpo etc.), embora metade delas tenha exprimido, no momento do drama, uma forma de indiferença, enquanto as outras mostrassem sobretudo uma forte agitação. Todas foram capazes, mais tarde, de descrever precisamente sua experiência traumatogênica e quase todas apresentaram transtornos pós-traumáticos compostos de repetições e evasões. Na realidade, são desenhos insignificantes, tendo em vista o contexto e o que os autores sofreram. Traçados banais que indicam a impossibilidade de exprimir o horror e o sofrimento e que revelam que uma elaboração psíquica é impossível. Trauma3 Chegando à França com seu pai, essa jovem zairense (Trauma3), de 8 anos, apresenta uma grande desorganização psíquica. Ela chora com bastante frequência, tanto em casa quanto na escola, e não consegue dedicar-se às aprendizagens escolares. Seu pai faz alusão a uma infinita tristeza que afeta principalmente sua filha mais velha e ele próprio. Ele descreve também pesadelos recorrentes que invadem as noites, desde aquela em que a mãe dessa menininha foi morta na sua frente. Seu desenho mostra-nos que os elementos depressivos instauram-se com o trauma. Observa-se também, de uma produção para a outra, a reprodução da mesma tentativa de representação de sua mãe, sempre esboçada sobre um fundo azul puro, rodeado por um outro pano de fundo vermelho- sangue. O que parece especialmente comovente para o psicólogo que a recebe é essa forma de impossibilidade, de impotência, apesar de muitas tentativas, de representar o rosto de sua mãe, que, inexoravelmente, parece apagar-se da memória. Deve-se notar as manchas pretas, as quais ela não consegue explicar e que se repetem constantemente em seus desenhos. A necessidade de propor uma instrução Um exemplo disso são os desenhos de jovens kosovares acolhidos na França, com suas famílias, em abril de 1999. “Dentre os vinte desenhos realizados, dezoito representam uma casa, tema frequentemente escolhido de maneira espontânea pelas crianças (quase tão frequentemente quanto uma personagem humana). A casa evoca para acriança a problemática do dentro-fora, ela corresponde então à representação de um envelope protetor face ao exterior, mas também face às turbulências pulsionais” (COQ & CREMNITER, 2004). Enquanto as primeiras representações gráficas são irrelevantes e banais, a evolução dos temas e dos desenhos, que passam a ter personagens com maior frequência, mostra aos psicólogos que seus esforços não são em vão. Para M. Grappe (2006), “A criança não desenha a guerra [...] ela desenha o seu trauma pessoal, que se mistura com a guerra, mas não necessariamente”. Para que surja um desenho dos acontecimentos é necessário propor uma instrução. É o que faz S. Bacqué (2000) com crianças de Ruanda ao abrir um ateliê de expressão através do desenho, no intuito de permitir, após o genocídio, que elas iniciem um trabalho de “reconstrução psíquica”. Ali, as representações no papel sobre o tema do genocídio “abrem um amplo espaço à representação do sangue: sangue jorrando como gêiseres, charcos de sangue espalhando-se, grandes gotas de sangue escorrendo. Acontece de o único elemento colorido de um desenho ser o sangue ou de a cor vermelha contaminar todos os motivos representados, chegando até a revestir a totalidade da página. Sem dúvida, há ali referências a cenas reais que aquelas crianças testemunharam [...]. Outros desenhos chamam a atenção pela impressão de caos que emana deles”. Trauma4 O trauma viajou com o garotinho, 8 anos, que produziu o desenho Trauma4. Ele ainda está ali, vivaz, desde aquela noite de bombardeamentos que ele presenciou na Sérvia. Obviamente, na França ele está em segurança, mas o pavor e, no caso dele, a raiva estão intactos e manifestam a confusão e a culpa sentidas. Na escola, o menino não aprende a ler e nem mesmo a falar francês. Ele parece defender-se contra o efeito depressivo do trauma, recorrendo a um forte temperamento, a uma extrema raiva, constantemente manifestada, contra o mundo inteiro. Eu entendo seu desenho como uma figuração do lugar que o trauma ocupa no aparelho psíquico: não elaborável, ele bloqueia todo o processo de simbolização. Ele se parece com aquela árvore morta, sem folhas, que preenche todo o espaço. A vida, que porém continua, só pode organizar-se nos espaços periféricos, assim como as pequenas árvores coloridas e os passarinhos. A AGRESSÃO SEXUAL A agressão sexual de menores faz parte do conjunto de maus-tratos infligidos às crianças. Eu vou empregar neste capítulo os termos de agressão sexual, em referência ao Código Penal[16], para designar os maus-tratos de origem sexual dos quais as crianças são vítimas. Eu não utilizo, por exemplo, o termo de abuso sexual, tradução infeliz do inglês sexual abuse, que “subentende que haveria, se ousarmos dizer, uma utilização sexual legítima das crianças” (PETOT, 2008). Essas violências entram na categoria dos maus-tratos de crianças com, no entanto, as especificidades e o papel particularmente patogênico das agressões sexuais, que não podem ser reduzidas a nenhum outro tipo de maus-tratos. Na maior parte das vezes, elas não permitem enxergar nenhum vestígio visível sem uma auscultação especializada; os maus-tratos físicos deixam as marcas dos golpes, as negligências graves inscrevem-se normalmente em um conjunto composto de atrasos de desenvolvimento e ausência de cuidados identificável pelos professores. As agressões sexuais exercem-se frequentemente no seio das famílias. Estas últimas são, em grande número de casos, decadentes (nível socioeconômico muito baixo, problemática psiquiátrica) e definem- se, além disso, por relações intrafamiliares marcadas pelo incesto (RACAMIER, 1995). No cotidiano daquelas famílias geralmente estão presentes a violência, a humilhação, a sedução e a tirania, todos os ingredientes para descrever o campo do incestual, se não for incestuoso[17] (CIAVALDINI, 2001). Contudo, tais fatores de risco não são, em si, indicadores satisfatórios, pois se observam também violências sexuais em contextos familiares que não correspondem aos elementos citados acima. Os avisos de preocupação Os sintomas de apelo que alertam os profissionais ligados à infância também não são específicos: trata-se de indícios persistentes, tais como a presença de ansiedade, transtornos depressivos, problemas escolares, perturbações de concentração, instabilidade etc., que os professores, os agentes médico-sociais e os psicólogos escutam sem, no entanto, serem capazes de inferir com certeza a causa deles. O risco é que o não dito instaure-se na família, mas também nos diferentes lugares em que a criança vive, e que, não reconhecida em sua dimensão de alteridade, ela continue sendo coisificada por seu agressor (CIAVALDINI, 2004). O paradoxo então é este: somente a palavra daquele a quem a mesma é denegada, que não é identificado como sujeito, é capaz de liberá-lo. Os profissionais que estão bem cientes dessa contradição, dessa impossibilidade, contam muito com a expressão através do desenho para permitir que a criança reconquiste o lugar de sujeito de seu destino. Todavia, as produções gráficas muitas vezes aparecem, como observamos no capítulo dedicado aos traumas, pobres e mesmo estereotipadas, difíceis de se ler. Como sempre, a posteriori, quando por exemplo a agressão sexual é comprovada, as interpretações parecem- nos simples e claras, e os símbolos impõem-se. O incesto O incesto não é uma categoria jurídica[18], embora seja a agressão sexual com as consequências mais patogênicas e sua frequência seja alta (H. Parat, 2004, observa que 20% dos processos judiciais, na França, envolvem casos de incesto). O dicionário da Academia Francesa define o incesto como uma “relação sexual entre duas pessoas que sejam parentas ou ligadas em um grau que proíbe o casamento pelas leis civis ou religiosas”. Essa definição pode, portanto, envolver também os incestos com padrastos ou madrastas, avós ou qualquer outro membro da família. Notemos que, nos âmbitos antropológico e psicológico, o incesto é a violação de uma proibição suprema, da lei fundamental que estrutura a humanidade, tanto o corpo social quanto o sujeito singular. Para a criança, sempre se trata de um abalo e uma perda de referências. Enquanto os pais deveriam desempenhar um papel de proteção, de paraexcitação, eles vestem os trajes do sedutor, do agressor e muitas vezes do cúmplice. As referências, os limites e as fronteiras são profundamente diluídos, pois ocorre “um encontro singular entre realidade externa e realidade psíquica, um conluio entre o exterior e a vida fantasmática” (PARAT, 2004). Epidemiologia Os dados epidemiológicos são pouco fiáveis, pois dependem especificamente da definição de agressão sexual escolhida por cada estudo. E. Boë (2005) ressalta que as porcentagens do que ela chama de abuso sexual variam, de um a dez, por exemplo de 3,4 a 30%, na população geral, e observa com bom-senso que nem todas as investidas sexuais apresentam uma gravidade e repercussões psicológicas idênticas: “Em que momento começa o abuso (visualizar um filme pornográfico com uma criança pode ser considerado como um abuso de mesma natureza que um contato físico ou uma relação sexual completa?) e quem pode ser considerado como abusador? (uma relação sexual implicando duas crianças com a mesma idade pode ser abusiva?)” Uma enquete epidemiológica (CHABAUD, 1999), realizada em maio de 1999, no departamento Charente-Maritime da França, junto a 4.334 adolescentes oriundos de 57 estabelecimentos, mostrou que 2,9% dos jovens questionadosdeclararam ter sofrido violências sexuais, e 3,4%, violências ao mesmo tempo físicas e sexuais. Mais exatamente, 1,5% disseram ter sido vítimas de estupro. Deve-se notar que as violências físicas predominam em meio aos meninos, e as violências sexuais em meio às meninas. Uma sintomatologia banal O caso clínico que eu apresento a seguir tem como objetivo ilustrar, com cinco reproduções de desenhos, o quão tênues são os indícios que permitem, a partir de uma sintomatologia, no fim das contas, bastante habitual, orientar-se para a suspeita de agressão sexual. Trata-se de uma garotinha de 8 anos e meio, a qual eu chamo aqui de Manon[19], que vem consultar-me, no meio do ano letivo, por causa de uma sintomatologia marcada pela recusa de ir à escola sob pretexto de dores de barriga. Durante o primeiro encontro eu converso com Manon e sua mãe. Esta última, antes de procurar um psicólogo, já consultou seu médico clínico geral, que prescreveu calmantes leves (fitoterapia), pensando que era um distúrbio de ansiedade, cuja causa talvez fosse a escola. Outras iniciativas também foram tomadas pela família: a primeira, com relação à escola. Os pais imediatamente pensaram em dificuldades de relacionamento com a professora ou os coleguinhas. A hipótese podia parecer perfeitamente plausível, visto que a professora de Manon era descrita como uma pessoa, embora competente, bastante severa. Poderia ser então uma forma de fobia escolar, gerada por uma professora ansiogênica? Os pais questionaram a filha, que não expressou nenhum temor particular com relação à mesma ou aos seus colegas de turma. A professora tranquilizou a família, e os resultados escolares também. Manon é uma criança estudiosa, que se sai bem em todas as matérias. Da mesma forma, não se observa nenhuma queda das notas ao longo do ano. A mãe de Manon mudou então seus horários de trabalho, a fim de poder passar mais tempo, de manhã, com a filha. Nenhuma das reorganizações efetuadas pela família e pela escola teve algum efeito sobre a sintomatologia da criança. Naquela época, Manon tinha aula aos sábados. Nesses dias, era o pai que a levava, e ela ia com prazer, sem recusa nem dor abdominal. Essa observação, bem como a persistência dos sintomas apresentados por Manon, incitou a família a considerar que, embora a origem das dores permanecesse indeterminada, as mesmas eram mantidas por uma forma de “capricho”. De fato, Manon parecia aproveitar, nessa situação, a atenção extra de sua mãe e os benefícios secundários que decorriam dela. Primeira consulta Eu recebo uma mãe muito ansiosa e pouco à vontade e uma criança espontânea e aberta. As palavras e perguntas de uma e de outra se focalizam no sintoma. O pedido explícito não é, nesse caso, feito pelo adulto que acompanha a criança, mas sim por ambos. A mãe não surge, portanto, como porta-voz da filha. É a própria criança que exprime o pedido: ela gostaria de compreender, diz ela, a que correspondem suas dores de barriga, de manhã, antes de ir para a escola. Explicitamente, Manon apropria-se do processo de consulta e, em certa medida, afasta sua mãe desse espaço de discussão. Eu observo, entretanto, que as palavras da criança estão presas aos fatos, ao concreto, mesmo à estereotipia, e que a abertura notada acima consiste apenas em uma fachada. Durante a consulta, eu tento desvendar a dinâmica, o sentido do sintoma, e, por exemplo, pergunto à mãe de Manon como foi a sua própria infância. A resposta parece banal e eu não percebo nenhum movimento associativo. Várias sessões mais tarde, ela me diz ter pensado muito, em casa, na minha pergunta. No fim da consulta, eu peço para ficar alguns minutos com Manon e sugiro-lhe desenhar. Diante de sua hesitação, eu dou como única indicação que ela efetue um desenho destinado a mim (AS1). Trata-se de um autorretrato com um cachorro. A criança está sorridente e é reconhecível com seus cabelos longos e aspecto descontraído. O único acessório é um largo cinto, que eu percebo e cuja presença eu menciono, sem no entanto tirar dela nenhuma interpretação simbólica. AS1 Segunda consulta Eu recebo Manon sozinha. O rosto continua sendo afável, mas o tom é mais grave. Ela explica que os sintomas não cessam e, depois, a pedido meu, fala sobre suas relações com seu irmão mais novo e sua família. Em seguida, ela exprime o desejo de desenhar de novo e traça rapidamente uma casa (AS2). Ela fica bastante orgulhosa de sua realização em perspectiva e diz que o irmãozinho está jantando no segundo andar com a mamãe, enquanto a menina está no primeiro andar. Eu interesso-me pela figuração de uma personagem (AS3), que parece atirar uma flecha e acertar um coração. Há ali uma representação alegórica, universal, da declaração amorosa: o coração simbolizando o amor perfurado pela flecha de Eros. Manon declara que é o namorado dela. AS2 AS3 Terceira consulta Manon vem acompanhada por seu pai, que conversa alguns minutos comigo. Ele não parece muito preocupado, pois confia na capacidade de recuperação de sua filha e pensa que é apenas uma fase ruim. Logo de início, Manon deseja desenhar. O primeiro desenho (AS4) coloca em cena diretamente os protagonistas da sessão. De um lado, Manon, nua, com exceção de um cinto e de uma espécie de gravata, seu corpo repleto de manchinhas, “bolhas de catapora”, e, de outro, o psicólogo, vestindo uma capa. Para não haver ambiguidade, ela escreve meu nome em uma etiqueta que ela liga à personagem masculina. Entre os dois, um cachorro esquisito, com a língua de fora, aproxima-se dela. Eu sei, desde a sessão anterior, que Manon é capaz de manipular os símbolos culturais e universais. Eu não apreendo o sentido profundo do que ela figurou, mas entendo que ela está mandando-me uma mensagem sobre a razão pela qual ela vem consultar-me. Eu compreendo que ela está em perigo e espera de mim uma intervenção salvadora, visto que representa o psicólogo como um herói adornado com uma capa. Eu digo-lhe o que acredito ter compreendido e peço para ela contar- me um pouco mais com outro desenho. AS4 (Texto da ilustração: Senhor Conier) Este último (AS5) é extremamente explícito, acompanhado, como nas histórias em quadrinhos, de balões e textos. Há ali duas personagens, a garotinha e uma personagem masculina que eu reconheço como o namorado que acertava o coração em um desenho anterior. O tio, já que Manon chama-o assim, tenta puxar a sobrinha em sua direção. Ela resiste, parece repeli-lo e pede socorro à sua mãe. Observa-se, apesar do fato de as duas personagens terem sido traçadas com muita rapidez, que todos os elementos gráficos têm importância: os corpos são realizados com transparência, exprimindo que sob as vestimentas existem zonas corporais íntimas, a roupa incompleta do homem sugere que ele está despindo-se, a figuração de um sol eriçado, surpreso, leva a pensar no espanto ou mesmo no choque previsível do pai de Manon, que está aguardando na sala de espera; por fim, os pontos de exclamação mostram que Manon é capaz de um certo distanciamento com relação à expressão de sua experiência. AS5 (Texto da ilustração: mi deixa em paz – cadê você mamãe socorru!!!!!!!! – veim aqui minha prinsezinha) AS6 (Texto da ilustração: para de tirá a roupa – vou co colocar meu moletom em cima da cadeira) Manon deseja realizar um terceiro e último desenho (AS6). Ele aumenta ainda em um grau a expressão da investida sexual que ela sofreu. Os pontinhos nas personagens representam as “apalpadelas” dos corpos, como se os mesmos tivessem de conservar a marca delas, como uma doença. Observa-se que Manon está deitada na cama e que o tio está despindo-se parajuntar-se a ela. O desenho permite-lhe, portanto, evocar com muita exatidão a realidade da agressão sexual. Porém, mesmo nesse contexto de “depoimento gráfico”, o desenho não deixa de ser uma fantasia que efetua pequenos ajustes com o real. Assim, no desenho, a menina ainda vestia uma calcinha, e o homem havia tirado o moletom, ao passo que, na experiência vivenciada por Manon, tal como ela consegue agora contar em palavras, ela estava nua, e seu tio ainda vestia o moletom na cama, mas havia botado de lado a cueca. Epílogo Naquele ano, Manon frequentava uma escola particular que ficava bem longe do apartamento de sua família. Tendo em vista que os pais às vezes trabalhavam até tarde, quem buscava a garotinha na saída da escola era o tio (o irmão da mãe), que a levava à sua casa, dava um lanche e ajudava com os deveres, até a hora em que um dos pais (na maior parte do tempo, a mãe) ia pegá-la. Pretextando um possível cansaço após um longo dia na escola, ele convidava então Manon a repousar na cama antes de fazer os deveres. A menina era uma vítima, mas sentia sobretudo uma forma de culpa, ainda mais que a violência era intrafamiliar e que seus próprios pais confiavam naquele tio, que havia feito com que ela prometesse não revelar o “segredo deles”. O sentimento de estar fazendo algo errado e a vergonha impediam qualquer possibilidade de pedir socorro. Sabemos que aos sábados de manhã, quando devia ir à escola acompanhada pelo pai, ela não sentia nenhum sintoma. De fato, como a aula terminava ao meio-dia e os pais estavam de folga, ela podia voltar para casa diretamente, sem passar pelo domicílio do tio. A mãe de Manon não havia reagido à minha pergunta a respeito de sua própria infância. Ela desejou contar-me, mais tarde, que ela própria havia sofrido, em sua juventude, com aquele irmão mais velho, pouco equilibrado, que lhe dava medo e se aproveitava da promiscuidade da vida familiar em um pequeno apartamento para acariciá-la à força. Os pais culpabilizaram-se muito por não ter conseguido proteger a filha. O pai guardou grande rancor com relação à esposa por ter entregado Manon a um tio pervertido, e ela própria não entendia sua escolha. Manon mostrou-me, em seus desenhos, capacidade de elaboração e resistência. Ela repele seu agressor, pede socorro e é capaz, em plena crise, de exprimir isso através do desenho, com um bom distanciamento. Logo após a família ter dado queixa, Manon começou uma psicoterapia. Hoje, ela está terminando o ensino médio. [11]. Dois critérios são adaptados aos transtornos depressivos de crianças e/ou adolescentes: a equivalência entre o humor depressivo e a irritabilidade; a ausência de aumento do peso esperado nas crianças. [12]. Transtornos depressivos infantis: reconhecer, tratar, prevenir, tornar-se [N.T.]. [13]. Em 14 e 15 de dezembro de 1995, conclusões e recomendações disponíveis em http://psydoc-fr.broca.inserm.fr/conf&rm/conf/confdepression.html [em francês]. [14]. Os desenhos que eu apresento aqui são de crianças que viveram situações dramáticas de agressão e guerra. Todas elas guardaram sequelas traumáticas. Nenhuma se beneficiou, ali mesmo ou em um lapso de tempo suficientemente curto, de consultas ou ajuda psicológica. Foi apenas mais tarde, após obterem asilo político na França com suas famílias ou serem recolhidas por pais adotivos, que elas puderam começar um trabalho psicoterapêutico. [15]. Eu faço questão de agradecer em especial a Alain Guérin, psicólogo do sistema educacional na cidade de Saint-Ouen, França, que me entregou vários desenhos de crianças que haviam sofrido traumas. [16]. A agressão sexual, que engloba o estupro e outras agressões sexuais, diz respeito a “toda investida sexual cometida com violência, coação, ameaça ou surpresa” (artigo 222-22, livro II do Código Penal da França). O artigo 222-22 do Código Penal francês especifica claramente que “todo ato de penetração sexual, seja qual for a sua natureza, cometido contra uma pessoa alheia por violência, coação, ameaça ou surpresa é um estupro”. • No Brasil, a agressão sexual é definida pelo artigo 213 do Código Penal – Decreto Lei 2848/40: “Constranger alguém, mediante violência ou grave ameaça, a ter conjunção carnal ou a praticar ou permitir que com ele se pratique outro ato libidinoso” (Redação dada pela Lei 12.015, de 2009) [N.T.]. [17]. O psiquiatra Paul-Claude Racamier criou o neologismo “incestual” para caracterizar o incesto não consumido, isto é, um clima ou comportamento ambíguo sem que o incesto seja colocado em prática. Ao contrário, o adjetivo “incestuoso” implica um ato real de incesto [N.T.]. [18]. Circunstâncias agravantes são aplicadas quando a agressão sexual “é cometida por um ascendente legítimo, natural ou adotivo, ou por qualquer outra pessoa que tenha autoridade sobre a vítima” (artigo 222-28, livro II do Código Penal francês). • No Código Penal brasileiro, o artigo 226 do Título VI, que trata dos crimes contra a dignidade sexual, estipula que “a pena é aumentada de metade se o agente é ascendente, padrasto ou madrasta, tio, irmão, cônjuge, companheiro, tutor, curador, preceptor ou empregador da vítima ou que por qualquer outro título tem autoridade sobre ela” (Redação dada pela Lei 11.106, de 2005) [N.T.]. [19]. Tanto o nome quanto os elementos circunstanciais foram mudados no intuito de preservar o anonimato da criança em questão e de sua família. 4 O desenho em exames psicológicos O “DESENHO LIVRE” NA DINÂMICA DOS EXAMES PSICOLÓGICOS Na perspectiva que dirige a minha prática de psicólogo clínico, o exame psicológico não é considerado como uma simples aplicação de testes, mas adquire, em vez disso, o valor de um dispositivo que permite um encontro entre um observador e um observado, um psicólogo clínico e uma criança ou adolescente. Trata-se, explica Robert Voyazopoulos (2003), “de um método curto e intenso de avaliação clínica e diagnóstica, visando compreender a especificidade individual do funcionamento psíquico da criança, considerada como sujeito e também autor de seu destino”. Assim, “por sua brevidade e pela intensidade da observação que se exerce durante ele, por sua forma dual, que o constitui em um campo fechado onde os protagonistas afrontam-se, em princípio, sem testemunhas e, na maior parte do tempo, face a face, o exame psicológico apresenta, ao máximo, condições que correspondem a uma situação de interação. Tudo ali favorece o influenciamento[20] constante de cada um dos parceiros pelo outro” (GUILLAUMIN, 1965). O influenciamento, neologismo de Jean Guillaumin para designar aquilo que outros chamam de transferência ou contratransferência, deve obviamente ser levado em conta ao longo do exame psicológico inteiro, mas em especial quando o psicólogo pede para a criança desenhar. Nesse momento, parece operar-se um tipo de ruptura: de certa forma, psicólogo e sujeito substituem a atenção da primeira consulta, a seriedade que convém à aplicação de testes cognitivos, não por um descompromisso, mas sim por uma modalidade diferente de relação, com uma nuança regressiva. É que o desenho, embora favoreça socialmente o desenvolvimento pessoal na tenra infância, adquire muito rápido, logo no começo do ensino primário, o status de uma espécie de hobby, de espaço onde se admite uma liberdade que lembra os primeiros anos da infância. O sujeito não deixa de sentir essa queda de intensidade formal do dispositivo no qual está envolvido. Ele tende a apreciar a descontração suscitada pela solicitação de desenhar, mas pode também sentir uma forma de incompreensãoou culpa, já que na maior parte das vezes vai consultar por causa de uma preocupação da família ou da escola. É óbvio que a criança ou o adolescente não entende conscientemente que a proposta de representação gráfica apresenta uma vantagem essencial para o seu parceiro, o psicólogo, que busca apreender seu funcionamento psíquico sob diversos prismas, dentre os quais um inevitável: o desenho. Na prática de muitos psicólogos, o desenho faz parte, assim como os testes projetivos, do exame psicológico, incluindo, como já escrevi anteriormente, um teste geral de avaliação intelectual e cognitiva, tanto testes específicos quanto testes de conhecimentos escolares. Ele ocupa, portanto, um lugar de destaque, ao lado, e mesmo no centro, dos testes projetivos, que se definem como “testes cujo material é definido e padronizado, mas cujas respostas são livres” (BOEKHOLT, 1998). Contexto e temporalidade A relação com o tempo é consubstancial ao exame psicológico, que, por sua própria concepção, é obrigado a conciliar os contrários, ou seja, a rapidez e a exaustividade. Assim, opõem-se a necessária brevidade do dispositivo – não se trata de uma situação “de longa duração”, mas sim de “um breve e intenso encontro” (ANZIEU, D., 1980) – e o desejo bem legítimo do psicólogo de multiplicar as observações e os ângulos, a fim de alcançar uma compreensão mais detalhada do funcionamento psíquico do sujeito em exame. A temporalidade própria ao exame psicológico envolve também – e talvez sobretudo – a ordem de sucessão dos testes. O exame sempre começa com uma consulta e depois, na maior parte das vezes, prossegue com um teste geral de inteligência, o qual os psicólogos utilizam como quadro de orientação. Em seguida, vêm os testes específicos, conforme as necessidades da avaliação, e, por fim, os testes de personalidade. Dependendo das escolhas e orientações do psicólogo e em função das regras inerentes ao campo de exercícios, o exame será realizado em uma ou várias sessões. Levanta-se então a questão do momento adequado para pedir que a criança produza um desenho. A partir de minha experiência e minhas reflexões, eu sugiro aos profissionais que praticam o exame psicológico dar importância à escolha desse momento. De fato, essa escolha provoca repercussões na qualidade, no sentido de proveito para o psicólogo, da realização pictural. Eu penso que um desenho feito para o psicólogo, mesmo no contexto do exame, não se assemelha a um outro destinado ao professor ou à família. Porém, para que essa asserção seja comprovada, é preciso ainda instaurar um contexto temporal e psíquico que lhe seja favorável. Assim, na minha prática, eu aviso de antemão, durante a primeira consulta com a criança, o desenrolar, a ordem de sucessão das sequências e, é claro, explico que a atividade de desenhar que estou propondo faz parte do exame psicológico. Não me parece necessário expor em detalhes, por exemplo, o momento exato em que vou apresentar essa atividade à criança – o risco é estabelecer um contexto demasiado rígido, o que pode criar, em ambas as partes, uma forma de inibição. O lugar do desenho no exame psicológico Em compensação, parece-me totalmente conveniente que o desenho ocupe, durante o exame, um lugar de destaque; isto é, que ele não sirva apenas para completar uma sessão. A sugestão de recorrer à representação gráfica deve ser feita em uma hora oportuna da dinâmica que se constrói entre o sujeito e o psicólogo. Quando pode então se situar esse momento fecundo? De forma alguma logo no início do exame, enquanto os dois protagonistas ainda não se conhecem. Mais do que outros testes, o desenho mostra uma sensibilidade à relação: o sujeito precisa sentir confiança para revelar, para deixar traços de sua interioridade. Ele insere-se e impõe-se, conforme as respectivas disposições dos parceiros, no meio ou no final do exame, quando as condições de escuta tornam-se ideais, permitindo conter a angústia e expressar conflitos internos, às vezes com uma concisão impressionante. Uma instrução aberta Na maior parte das vezes, no contexto do exame psicológico, o desenho interfere a pedido do psicólogo, obedecendo ou não a uma instrução. No desenho dito “livre” a instrução confunde-se com o pedido, por exemplo: “Você quer desenhar? O material está aí, bem na sua frente”. Nesse caso, o desenho é solicitado, o que retira um espaço de liberdade da criança, mas nenhuma expectativa de representação é manifestada em especial. O sujeito pode, no entanto, experimentar o sentimento que deve atender ao desejo do adulto, que, por não ser formalmente verbalizado, torna a tarefa ainda mais difícil e ansiogênica para ele. Em algumas crianças ou jovens adolescentes, eu já pude assim observar o efeito paradoxal dessa “liberdade”, que pode causar fortes resistências e até uma inibição total. As condições de um desenho realmente livre não estão necessariamente reunidas quando o psicólogo abstém-se de explicitar suas expectativas. A partir dessa observação – e unicamente no contexto do exame psicológico –, eu opto por um desenho dito “livre” com instruções. Mesmo sendo bastante abrangentes, elas sempre me pareceram trazer uma forma de tranquilização, e eu raramente vi crianças limitarem sua criatividade por causa disso. Em sua época, Françoise Dolto (1948) tomava igualmente o partido de utilizar uma instrução: “faça um belo desenho para mim: o que você quiser, qualquer coisa; não um desenho de escola, mas um desenho que lhe agrade”. Esse método, que, por seu próprio dirigismo, pode representar um freio aos processos associativos durante um tratamento psicoterapêutico, parece-me, ao contrário, perfeitamente adequado à dinâmica do exame psicológico. No meu caso, eu não emprego o qualificativo “belo”, que pode tingir a relação com uma forma de sedução. Eu dou ao sujeito a seguinte instrução: “faça um desenho que conte uma história para mim”. O DESENHO LIVRE COMO UM TESTE PROJETIVO EM PSICOLOGIA CLÍNICA INFANTIL Os testes projetivos O principal cenário de utilização dos testes projetivos é obviamente o exame psicológico. Na maior parte das vezes, são propostos ao sujeito testes de personalidade, após uma consulta clínica e um teste geral de avaliação intelectual e cognitiva. A perspectiva deles é clínica, e o resultado, em matéria de compreensão da personalidade do sujeito, integra-se aos objetivos do exame. Vamos deixar Catherine Chabert (2004), que fundou o Grupo de Pesquisa em Psicologia Projetiva junto com Nina Rausch de Traubenberg e V. Shentoub, expor o objetivo desses testes: [...] permitir um estudo do funcionamento psíquico individual em uma perspectiva dinâmica, isto é, fazer esforços para considerar, ao mesmo tempo, as condutas psíquicas identificáveis, mas também suas articulações singulares e potencialidades de mudança. A questão fundamental que ordena qualquer trabalho sobre os testes projetivos diz respeito às operações mentais ativadas durante a aplicação dos mesmos, com a hipótese de que elas traduzem o modo de funcionamento psíquico do sujeito. O objetivo (acessar o funcionamento psíquico de sujeitos singulares) bem como o processo que consiste em se inserir em uma perspectiva psicodinâmica são divididos pelo profissional que lança mão do desenho no exame psicológico. Dois grandes tipos de testes projetivos são então utilizados com a criança: de um lado, os que oferecem ao sujeito um percepto[21] indistinto, “formas informes” (ROMAN, 2009) – trata-se aqui principalmentedo Rorschach –, e, de outro, os testes ditos temáticos, que propõem imagens constituídas de desenhos ou fotografias que colocam em cena uma ou várias personagens humanas ou animais. Os principais testes temáticos administrados em clínica infantil são o Thematic apperception tests (TAT), o Children apperception test (CAT) ou ainda o Pata Negra (PN). O princípio desses testes reside na projeção, a qual Laplanche e Pontalis definem, no Vocabulário da Psicanálise, como uma “operação pela qual o sujeito expulsa de si e localiza no outro, pessoa ou coisa, qualidades, sentimentos, desejos e mesmo ‘objetos’ que ele desconhece ou recusa dentro de si”. Porém, no âmbito dos testes projetivos, o processo epônimo não é simplesmente a expulsão, para fora de si, de elementos, mas a instauração de um “dispositivo para simbolizar” (ROMAN, 2009). Escolha dos testes A escolha dos testes é delicada, precisando levar em conta a idade da criança, mas também sua maturidade. Para os jovens, quanto mais estruturado e bem-definido no plano manifesto for o teste – por exemplo, o Pata Negra, que utiliza imagens com contornos nítidos –, mais bem- adaptado ele será. Com certas crianças, bastante maduras, o Rorschach ou o TAT podem ser administrados por volta dos seis ou oito anos de idade. O CAT, que apresenta animais em cenas antropomórficas, convém a crianças menores, bem como àquelas um pouco mais velhas que ainda não tenham adquirido uma maturidade psicoafetiva suficiente – esta última deve ser estimada pelo psicólogo. É claro, todos esses testes mobilizam a linguagem para organizar as respostas. O mesmo não vale para o desenho, que pode ser inteiramente não verbal, embora, em muitas situações, psicólogos e crianças troquem ideias a seu respeito depois de terminado. Para P. Roman (2007), o desenho dito livre só pode ser considerado como um verdadeiro teste projetivo se o psicólogo utilizá-lo como tal, esperar tirar dele uma compreensão do funcionamento psíquico e fizer uma leitura clínica do mesmo: Para adquirir sua dimensão de teste projetivo é preciso que a proposta de desenho livre insira-se em um projeto do psicólogo quanto à solicitação da criança e que a mesma esteja explicitamente comprometida por um incentivo a desenhar o que deseja. Ela deve então pôr à prova sua capacidade de inscrever-se no espaço aberto pela folha em branco (no sentido de blank, em inglês) e organizar ali, sobre um fundo de ausência (ausência de traços, ausência de recurso a uma figuração enunciada), um tipo de roteirização que implique uma construção gráfica pondo à prova uma dinâmica de diferenciação entre conteúdo e forma. O Thematic Apperception Test O TAT criado por Murray Henri Murray, médico, elabora em 1935 um teste para, segundo suas palavras, explorar a personalidade da criança e do adulto. Ele seleciona reproduções de fotos, desenhos e gravuras artísticas que tenham em comum o fato de serem representações figurativas, criadas em preto e branco, e pede para o sujeito contar, para cada imagem, uma história com começo e fim. Ele levanta a hipótese de que o adulto ou a criança a quem o teste é administrado vai identificar-se com os protagonistas que aparecem em certas pranchas e que o discurso produzido é diretamente analisável e interpretável em relação ao real da vida do sujeito. Nem todas as imagens são mostradas ao sujeito, pois algumas se destinam aos adultos, e outras, às crianças. Outrossim, algumas também apresentam especificidades de acordo com o sexo do sujeito em exame. Além de uma escolha pertinente das imagens, Murray introduz uma interpretação em dois momentos distintos: de um lado, a análise do discurso e de sua organização, e, de outro, a análise dos temas abordados. A escola francesa do TAT Esse teste de personalidade – cujo potencial é interessante, mas cujas aplicações clínicas são decepcionantes – foi retomado e desenvolvido nos anos de 1950 pela equipe do laboratório de psicologia clínica e projetiva do Instituto de Psicologia de Paris. Assim, graças especialmente a Vica Shentoub, mas também a Rosine Debray e muitos outros membros da equipe, o processo projetivo foi conceitualizado a partir de um teste temático, permitindo então uma utilização do TAT totalmente nova. A iniciativa consistia em considerar o TAT sob a perspectiva mais rigorosamente psicanalítica possível, divulgada então pelos ensinamentos de Daniel Lagache na Sorbonne, e enfatizar a ação dos mecanismos de defesa do Eu, identificáveis de acordo com a forma da narrativa, e as questões edipianas do conteúdo (ANZIEU, D., 1990). A hipótese fundamental sustentada por V. Shentoub, que permitiu todas as evoluções ulteriores, é “que existe, em cada imagem, um conteúdo manifesto, figurado pelos principais elementos presentes – personagens, sexo, idade e posições respectivas das mesmas, objetos etc. –, e solicitações latentes, propícias a reativar tal ou tal nível da problemática”. Assim, cada imagem carrega um duplo significado: de um lado, um conteúdo dito manifesto, declarativo, que retoma os elementos descritivos da prancha, e, de outro, um conteúdo subjacente, dito latente, que não aparece de modo explícito para o sujeito, mas entra em sintonia com suas problemáticas psíquicas. A partir dessa hipótese inicial, o processo TAT – “forjar para si mesmo uma fantasia a partir de certa realidade” – pode lançar-se. Três parâmetros essenciais da situação TAT são apontados por V. Shentoub (1987): • O material “Para H. Murray, as imagens representavam ‘situações humanas clássicas’. Eu teria mais tendência a dizer que se trata de situações relativas aos conflitos universais. De fato, seja qual for a prancha, existe uma referência permanente ao que singulariza a condição humana, a saber, a manipulação da libido e da agressividade, seja no registro da problemática edipiana, que envolve a diferença dos sexos e a diferença das gerações, seja no registro de uma problemática mais arcaica.” • A instrução “A instrução: ‘imagine uma história a partir da prancha’ carrega uma mesma contradição interna. Aqui, enfatizam-se, em bloco, o controle consciente, ou seja, a necessidade de levar em conta o conteúdo manifesto da imagem – representante do real –, de elaborar uma história lógica, coerente, transmissível aos outros e, portanto, obedecendo aos imperativos da secundarização, e, ao mesmo tempo, a necessidade de reduzir o grau de controle para deixar-se levar pela imaginação, o que significa regressão, acesso aos fantasmas e processos primários.” • O psicólogo clínico “O psicólogo, elemento constitutivo da situação projetiva, que o futuro sujeito só pode conceber de forma aproximativa, é, como todo objeto, investido antes mesmo de ser percebido.” Para compreender bem a distinção entre conteúdo manifesto e conteúdo latente, vamos tomar o exemplo da prancha 13B. O material manifesto é descrito da seguinte maneira: garotinho sentado no limiar de uma porta, na entrada de uma cabana com tábuas afastadas, visto em um vivo contraste de luz, no exterior, e de sombra, no interior. Esta é uma descrição fatual, precisa e neutra dos objetos que compõem a imagem. Em compensação, as solicitações latentes associadas remetem a representações com forte carga emocional: a solidão em um contexto de precariedade do simbolismo materno: solidão, na medida em que vemos uma personagem sozinha, e fragilidade do simbolismo materno, figurado pela casa com tábuas afastadas. Portanto, uma das principais utilidades desse teste está no paralelo entre o comentário, feito ao psicólogo, sobrea imagem e o conteúdo latente veiculado pela mesma, que, necessariamente, reativa problemáticas subjacentes no sujeito. O discurso manifesto torna-se, de certa forma, um equivalente simbólico do sintoma. Outra utilidade essencial reside na análise dos procedimentos formais de elaboração das histórias. A exposição direta dos procedimentos do discurso, relatados em uma ficha de controle (grelha de análise), dá indicações sobre o registro de funcionamento psíquico do sujeito, pois, explica F. Brelet (1986), “os procedimentos de construção da narrativa são análogos aos mecanismos de defesa identificáveis na conduta humana e com tendência a regular o conflito pulsional”. O teste do TAT com crianças R. Debray conceitualizou a utilização do TAT com sujeitos de 6 anos de idade, após experimentações realizadas junto com a equipe do laboratório de psicologia escolar da Universidade Paris Descartes. Para R. Debray, a principal vantagem dessa ferramenta é que ela permite avaliar o equilíbrio da conciliação defensiva da criança com um material que não seja nem demasiado regressivo (como o Rorschach) e nem demasiado excitante (como o CAT). De maneira bastante lógica, R. Debray (1987) aprofunda seu método do TAT aos seis anos de idade, elaborando uma nova ficha de controle em referência às suas opções teóricas: Com essa nova ficha de controle do TAT, é em função das minhas referências teóricas a propósito do desenvolvimento psicossomático, no qual emergem progressivamente o aparelho psíquico e o aparelho cognitivo, que eu proponho inverter a ordem comum dos procedimentos defensivos. De fato, após uma avaliação da “primeira impressão global do protocolo”, eu sugiro examinar “os procedimentos revelados”, indo desde os mais primários até os mais mentalizados. Deve-se convir que é realmente nessa ordem que o desenvolvimento psíquico se dá, do mais primário até o mais mentalizado, e que, por essa razão, pode ser mais fácil identificar os procedimentos nessa exata ordem nos protocolos infantis. FICHA DE CONTROLE DO TAT (1986) CRIANÇAS E PRÉ-ADOLESCENTES I. Primeira impressão global do protocolo 1) Atenção predominante ao conteúdo manifesto conformista, tipo enumeração. 2) Fantasia pessoal dominante, tipo interpretação. 3) Histórias construídas como um tema banal, tipo interpretação. II. Os procedimentos em ação: dos mais primários aos mais mentalizados 1) Fatores que traduzem uma alteração da secundarização: E E1 Rupturas verbais*, distúrbios de sintaxe, talvez ligados a uma má utilização da língua. E2 Associações por consonância ou contiguidade, mudanças bruscas de assunto. E3 Associações curtas. E4 Expressões “cruas” ligadas a uma temática sexual ou agressiva. E5 Expressões de afetos e/ou representações massivas ligadas a quaisquer problemáticas (dentre as quais sucesso megalomaníaco, incapacidade, privação, medo, morte, destruição, perseguição etc.). E6 Inadequação do tema ao estímulo, fabulação sem relação com as imagens. E7 Perseveração. E8 Desorganização das sequências temporais. E9 Instabilidade dos objetos. E10 Confusão das identidades (telescopagem dos papéis). E11 Escotoma de objetos manifestos. E12 Falsas percepções, percepções sensoriais, percepções do objeto errado. E13 Percepção de detalhes raros ou bizarros. 2) Fatores que colocam em jogo uma descarga de comportamento e de caráter: D D1 Agitação motora, mímicas e/ou expressões corporais. D2 Pedidos ao examinador. D3 Atitudes de provocação. 3) Fatores que revelam inibição da mente: C C1 Tempo de latência inicial longo e/ou grandes silêncios intranarrativos. C2 Tendência geral à restrição. C3 Anonimato das personagens. C4 Conflitos não exprimidos, motivos não especificados. C5 Narrativas banalizadas ao máximo. C6 Necessidade de fazer perguntas, tendência a recusar, recusa. C7 Evocação de elementos ansiogênicos seguidos ou precedidos de pausas no discurso (temas de medo, catástrofe...). 4) Fatores da série labilidade: B B1 Introdução de personagens que não figuram na imagem. B2 Entrada direta na expressão, fuga adiante. B3 História com reviravoltas, fabulação longe da imagem, repetições. B4 Ênfase nas relações interpessoais, narração em diálogo. B5 Expressão verbalizada de afetos fortes ou exagerados, gosto pelo drama, teatro. B6 Representações contrastadas, alternação entre estados emocionais opostos. B7 Oscilação entre desejos contraditórios, objetivo de realização mágica do desejo. B8 Exclamações, digressões, comentários, inversão da situação em uma tentativa de sedução. B9 Erotização das relações, pregnância da temática sexual e/ou sintomas transparentes. B10 Ênfase no olhar, apego a detalhes narcisistas. B11 Instabilidade das identificações, hesitação quanto ao sexo das personagens. B12 Ênfase em uma temática do tipo: ir, correr, dizer, fugir, fazer. 5) Fatores da série rigidez: A A1 Descrição detalhada, atenção a detalhes banais. A2 Precauções verbais. A3 Afastamento tempo-espacial, insistência sobre o aspecto fictício. A4 Precisões numéricas. A5 Alternação entre expressões de agressividade e de defesa. A6 Tendência a remoer, ruminação. A7 Elemento do tipo “formação reacional” (limpeza, ordem, ajuda, dever, economia). A8 Mudança brusca no rumo da história (acompanhada ou não de pausa no discurso), ruptura de laços. A9 Isolamento de elementos ou personagens. III. Avaliação das modalidades do funcionamento mental Tipo 3 (legibilidade - ou -+) Predominância dos fatores E D C Defesas massivas, afetos massivos. Tipo 2 (legibilidade -+) Predominância dos fatores D C B A Produção alterada pelos mecanismos acionados, permitindo uma liberação parcial. Tipo 1 (legibilidade +) Procedimentos flexíveis e variados Histórias construídas com ressonância fantasmática. * No original, craquées verbales faz referência a elipses não gramaticais (quando o sujeito interrompe-se por ter mudado de ideia no meio da frase ou para refrear a conclusão da mesma), desvios de linguagem, problemas de sintaxe, lapsos, enfim, uma desorganização do pensamento e do discurso [N.T.]. Desenho e TAT, uma mesma situação projetiva? Situação-desenho e situação-TAT não se superpõem de forma exata, longe disso: obviamente, a mobilização varia de uma situação para a outra – o tempo de aplicação dos testes, bem como as sínteses do funcionamento psíquico que eles permitem, difere de modo significativo. No entanto, eles apresentam muitos pontos em comum, a começar pelo aspecto projetivo, que constitui a vantagem de ambos em termos de conhecimento de um funcionamento psíquico singular. Da mesma forma, assim como cada prancha, cada desenho articula-se duplamente em torno de um conteúdo manifesto, figurado por elementos reconhecíveis, identificáveis (uma personagem, uma casa, um sol), e de um conteúdo latente, ou seja, “um conjunto de significados que resulta da análise de uma produção do inconsciente [...]” (LAPLANCHE & PONTALIS, 1967), lembrando que o conteúdo manifesto tem a ver com o princípio de realidade, ao passo que o conteúdo latente recorre ao princípio de prazer. Para aprofundar essa comparação é necessário retomar os três parâmetros essenciais citados por V. Shentoub (1987), que caracterizam a situação-TAT. O material Assim como no TAT, o desenho tem um valor duplo. De um lado, ele é um objeto material constituído pelo encontro de um suporte e de um instrumento de escrita, solicitando então plenamente a percepção e enraizando-se no real, e, de outro, ele recorre ao imaginário e incita o sujeito a expressar graficamente uma “fantasia consciente” (SHENTOUB, 1987). No TAT, os conteúdos manifestos e latentes preexistem ao discurso do sujeito – eles são oriundos do material. Em compensação,com uma notável diferença, o conteúdo dos desenhos infantis é, por essência, imprevisível; nesse sentido, a interpretação do desenho assemelha-se mais à do sonho. Entretanto, a contradição interna da atividade que consiste em produzir graficamente um objeto comunicável, divulgável, próximo ao real, deixando, ao mesmo tempo, vir à tona, exprimir-se o fantasma, parece-se muito com o processo da resposta ao TAT, que “envolve um trabalho de ligação entre processos primários e secundários e uma história corretamente secundarizada e ao mesmo tempo tingida por uma ressonância fantasmática” (SHENTOUB, 1987). Obviamente, a página em branco do futuro desenho não carrega uma mensagem latente como a prancha do TAT[22]. Nenhum conteúdo latente preexiste ao desenho e sempre deve ser descoberto, e mesmo construído, pelas observações do psicólogo, à medida que a composição se produz e nas consultas com o autor. Um conteúdo manifesto pode preexistir à produção do desenho quando o sujeito diz de antemão o que deseja realizar ou quando o desenho é temático (desenho de família, por exemplo). Ele estabelece assim o conteúdo manifesto de sua futura composição, mas a realização, em sua materialidade, é inevitavelmente influenciada pelas solicitações latentes que acompanham toda representação. A criança fica presa a uma dupla regra, sendo levada, se conseguir, a conciliar real e imaginário. No desenho, ela expõe seus modos de organização do exterior, mas também de seu universo interno. É o que escreve C. Chabert (2004) a respeito do TAT, o qual ela define como uma “situação característica análoga à vida, visto que é preciso conformar-se aos limites impostos pela realidade, abrindo espaço, ao mesmo tempo, para o imaginário, os fantasmas e os afetos ligados a ela”. Embora possamos estabelecer laços teóricos entre desenho e TAT, sabemos que subsistem diferenças irredutíveis. Uma delas, relativa ao material, consiste no aspecto de estranheza e na indução disfórica causada pelas imagens do TAT, exclusivamente executadas em preto e branco e às vezes contrastadas com nuanças de cinza, apresentando figurações de época (com as vestimentas das personagens, por exemplo) e semblantes sérios. A situação adquire um aspecto inusitado, mas extremamente interessante, pois permite revelar o funcionamento psíquico das crianças de hoje, acostumadas com imagens coloridas e quase sempre lúdicas veiculadas pela mídia, desde livros, escolares ou não, até filmes e desenhos animados. Em compensação, produzir desenhos não é nem um pouco insólito e nem provoca uma inquietante estranheza. Ao contrário, trata-se de uma atividade valorizada em nossa sociedade. A instrução A instrução que eu proponho quando incentivo uma criança a desenhar, faça um desenho que conte uma história para mim, foi diretamente inspirada na instrução do TAT; imagine uma história a partir da prancha. A instrução dada à criança implica, como no TAT, um duplo movimento: o ato de contar uma história recorre ao imaginário, ao abandono de si, enquanto o de realizar um desenho resulta em uma representação transmissível, divulgável aos outros. Dá-se uma “oscilação necessária entre controle e abandono de si” (BRELET, 1986). O psicólogo “Faça um desenho para mim” introduz uma relação singular com o psicólogo, que se abstém de interferir no decorrer do desenho, mesmo com perguntas aparentemente inofensivas, mas que pode – e inclusive deve – incentivar uma criança inibida a prosseguir e levar, com benevolência e empatia, uma criança agitada a efetuar a tarefa sugerida. Em todo caso, assim como no TAT, o psicólogo é indissociável da situação: ele é a pessoa a quem o desenho parece ser transmitido, embora saiba que não é o verdadeiro destinatário dele, pois a mensagem representada graficamente destina-se sempre a outro indivíduo. Enfim, contar uma história durante o TAT necessita um trabalho psíquico idêntico, em grande parte, ao que consiste em colocar em cena, colocar em desenho. PROCESSO DE ANÁLISE DO DESENHO Assim, em minha prática, eu sugiro que a criança realize um desenho quando uma relação de confiança já se instaurou. Portanto, para fazer o pedido, eu utilizo a instrução “faça um desenho que conte uma história para mim”, que enfatiza a dimensão intersubjetiva da relação. Se necessário, para responder às dúvidas da criança, eu explico que ela deve imaginar um desenho a partir do qual se possa construir uma narração. Em tal momento, parece-me imprescindível propor opções, para que a criança se interesse facilmente pelo pedido do adulto: será que ela prefere desenhar com lápis de cor ou canetinhas? Ela pretende escolher um suporte grande ou de formato padrão? Uma vez a realização terminada, pode começar o processo de compreensão propriamente dito. Ele consiste primeiro em uma conversa com a criança a respeito de sua produção: O que ela representou? Que história seu desenho está contando? O psicólogo pode então passar a tecer algumas interpretações, as quais ele confirma imediatamente com o autor. Após isso, chega a hora de analisar o desenho, isto é, refletir primeiro sobre o modo de participação da criança (veja abaixo) e depois fazer uma leitura bastante global do desenho, tentando formalizar a primeira impressão de conjunto. Em seguida, o exame torna-se mais preciso em torno dos procedimentos de elaboração do desenho. Por fim, relatando na ficha de controle sintético as diferentes modalidades identificadas, o psicólogo será capaz de caracterizar os procedimentos de elaboração do desenho e, por conseguinte, o modo de funcionamento psíquico do sujeito. Modo de participação da criança Antes de qualquer análise sistemática do desenho propriamente dito, o psicólogo observa o modo de participação da criança. Quais são as relações que o sujeito estabelece com a atividade proposta: • Como ocorreu o primeiro contato com o material, os objetos? • Qual foi a qualidade do comprometimento? Ela ficou absorvida pela criação do desenho ou o realizou simplesmente para atender ao pedido? • Que competências de estruturação do espaço ela demonstra, em especial no princípio? Ela é capaz de antecipar, reservar espaço suficiente para continuar seu desenho? • Que características de seu discurso verbal acompanham sua atividade? Primeira impressão global do desenho Obviamente, um desenho infantil é, na maior parte das vezes, um objeto complexo, uma forma estruturada detentora de sentido, que não podemos compreender através de uma abordagem elementarista ou demasiado analítica. A primeira etapa consiste em conhecer globalmente a produção da criança, observá-la, estar sensível ao estetismo obtido, escutar suas próprias emoções. O que, em tal forma, parece trazer algum significado, o que considerar importante de imediato, que síntese fazer? Eu selecionei quatro impressões globais em concordância com as principais categorias que encontramos na ficha de controle. Processos primários prevalecentes As produções mostram cenas desorganizadas, às vezes incoerentes, cujas temáticas são, na maior parte das vezes, cruas, agressivas, angustiantes. EP1 Aqui (EP1), uma criança de 7 anos cria uma cena em que as diferentes personagens, meninas e meninos, com sorrisos nos lábios, matam-se umas às outras com tiros de revólver ou estrelas ninja. Atenção predominante ao conteúdo manifesto Os desenhos desse tipo distinguem-se pela disposição lado a lado, em uma mesma página, de múltiplas representações que tenham como principal característica não estarem ligadas entre si. Assim,observa-se uma realização frequentemente caprichada com elementos justapostos, independentes, em detrimento da expressão de um tema ou da ilustração de uma cena. EP2 Nessa figura, um menino de 6 anos traça, de forma minuciosa, três elementos (locomotiva, furadeira, camisa) que, manifestamente, não apresentam laços entre si. Desenho com um tema banal A produção gráfica é estereotipada e não demonstra nem um pouco de originalidade ou personalização. Não é por falta de capacidades técnicas, mas sim por incapacidade de exprimir-se através do desenho. EP3 Produção realizada por uma menina de 10 anos e marcada pelo estereótipo e pela restrição da expressão. Fantasia pessoal dominante É a ilustração original de uma cena ou a representação bem peculiar de uma personagem com características singulares, não estereotipadas. Os registros podem ser lábeis ou mais rígidos. EP4 Desenho de uma garotinha de 7 anos, de cultura muçulmana, que evoca uma cena de férias (EP4). Dentro e na beira de uma piscina, meninos e meninas, de origens e cores de pele diferentes, nadam ou tomam sol, uns deitados de barriga para cima, e, outros, de bruços. Análise dos procedimentos de elaboração do desenho A metodologia interpretativa que eu sugiro separa nitidamente o estudo dos procedimentos de elaboração do desenho e o estudo dos temas. Nessa parte, deve-se analisar as modalidades de elaboração gráfica, utilizando uma ficha de controle[23], no intuito de jogar luz sobre os diferentes modos de funcionamento psíquico da criança. Para criar essa grelha específica de auxílio à análise de desenhos infantis, eu me baseei na ficha de controle do TAT elaborada por R. Debray (1987) para crianças e adolescentes. Referindo-se ao desenvolvimento cognitivo e afetivo da criança, essa ficha considera os procedimentos, indo dos mais primários até os mais mentalizados. O psicólogo é, portanto, levado a reconhecer os procedimentos de representação acionados pela criança em um encontro singular, mediatizado pelo desenho. Que impressão geral o desenho passa? Quais são as modalidades gráficas mais utilizadas? A que tipo de elaboração mental, em plena organização, ele remete? É a essas perguntas que o método de controle apresentado busca responder. Alterações da secundarização (AS) Os procedimentos descritos vão da massividade dos processos primários a uma alteração da secundarização mais ou menos considerável e duradoura. Obviamente, alterações da secundarização parciais ou temporárias surgem frequentemente sem, no entanto, serem um sinal patológico. Desenhos crus, temáticas agressivas Tais produções ilustram, em sua maioria, matanças, combates, sangue, corpos destruídos ou transformados, vísceras do corpo humano. Para que um desenho inscreva-se nesse registro é necessário que os elementos evocados sejam executados com certa confusão e incoerência. Muitas vezes também a produção torna-se saturada e ilegível. EP5 Esse desenho (EP5), realizado por um menino de 7 anos e meio, apresenta uma cena digna de pesadelos, com um dragão, um ser humano preso em uma jaula, enquanto duas outras personagens são representadas com cabeças quadradas, seios flácidos e pelos, bem visíveis, nas pernas e axilas. EP6 Essa produção (EP6), extremamente saturada, foi feita por um menino de 8 anos e representa o combate entre o bem e o mal. No início, ele traça sucintamente uma casa, uma flor e um sol. Esse desenho, de aparência estereotipada, logo se torna um espaço de conflito entre um sol, que toca fogo em todos os elementos através de seus raios, e um outro astro, que tenta em vão combater o incêndio, que vence. EP7 Personagem extremamente belicosa (EP7) representada por um menino de 6 anos, que enfatiza os dentes e as garras e pinta tudo de preto, sombreado que reforça o sentimento de agressividade. Deve-se notar que o pescoço está incompletamente ligado ao tronco, o que revela uma consciência de si destruída, em vez de dividida. Desenhos crus, temática sexual Realizações desse tipo mostram, sem secundarização e nem transformação, órgãos sexuais eretos (ou equivalentes) e aproximações não ambíguas entre personagens. EP8 Autorretrato de uma criança de 6 anos com “as roupas da mamãe” (EP8). A representação dos seios e do órgão sexual aqui é bem direta. Da mesma forma, a ilustração da calcinha, visível por transparência, não pode ser considerada como uma representação sexual simbolizada, pois ela é executada com bastante precisão e pouco sugerida. Ocorre nitidamente uma alteração da secundarização. Desorganização das sequências gráficas Os diferentes elementos representados encobrem-se uns aos outros, às vezes por inteiro, como um palimpsesto, ou mais comumente de maneira parcial. Também pode haver formas de invasão dos compartimentos; por exemplo, o desenho de uma casa com o surgimento dos componentes inicialmente previstos no interior. Para compreender bem o que a criança realizou, é absolutamente indispensável conversar com ela uma vez o desenho concluído. EP9 Produção de uma menina de 7 anos (EP9). O desenho é confuso por diversas razões: a criança repassa sobre seus primeiros traçados e acrescenta elementos que não têm nenhuma relação uns com os outros. Ela dá a impressão de ter feito vários desenhos diferentes. O discurso que acompanha o desenho também é muito confuso: “uma árvore e um alface misturados. Sangue na árvore misturado com tinta”. Desenho de pequenos detalhes raros ou bizarros Observa-se, em muitas situações, uma focalização em um detalhe corporal, que toma então grande espaço na representação. Pode ser, no melhor dos casos, espinhas no rosto e longos pelos nas axilas, e, no pior, um ferimento ou amputação. EP10 Essa criança de 6 anos ressalta o olho furado de sua personagem (EP10). Ela o escurece com capricho. Deve-se notar também o corpo disforme. Diferentes registros no espaço da folha Observa-se uma justaposição, por associação gráfica, de elementos pertencentes a registros diferentes. Por exemplo, indicações de ordem escolar junto com outras imaginárias; números e personagens etc. EP11 (Texto da ilustração: a conjugação – vou conjugar o futuro – obrigada – tchal – sexta-feira – 1 de dezembro) Essa garotinha de 8 anos representa primeiro um rio (EP11), depois uma menina, que se vê dentro dele sem querer. De fato, ela só foi colocada ali com os pés dentro d’água porque um rio havia acabado de ser desenhado no mesmo lugar, e não para compor uma cena. Em seguida, aparecem um esboço de exercício de conjugação, a data e depois uma mensagem para o psicólogo. Instabilidade dos objetos Uma personagem e um objeto podem mudar de identidade e de significado durante o desenho. Por exemplo, tal personagem inicialmente destinada a ser um dos pais pode logo se tornar uma criança, sem que o desenhista precise fazer o mínimo ajuste. Outro exemplo é a representação de um pacote embrulhado com uma fita que vira um caminhão após se adicionarem rodas. O conteúdo transformou-se em seu contentor. Obviamente, é o que a criança vai dizer sobre o desenho que fornecerá as precisões necessárias à identificação do procedimento de elaboração. EP12 Personagem um pouco singular (EP12), desenhada por um menino de 5 anos. Na verdade, influenciado pelo colorido da parte inferior da personagem, a criança declara que é “ou um dinossauro ou uma mulher”. Confusão das identidades sexuadas Assim como no procedimento descrito anteriormente, a identidade sexuada pode mudar durante a realização de um desenhoe permanecer ambígua. EP13 (Texto da ilustração: papo) Uma garotinha de 8 anos decide, antes de começar, representar seu pai (EP13). Durante a execução, dando-se conta da forma que sua produção adquire, ela declara que é “o papai de vestido”. Bem no finalzinho do desenho, diante da dificuldade em assumir o que ela acabou de desenhar, ela resolve o problema com um subterfúgio, chamando, com uma pitada de humor, a sua personagem de “papo”[24]. Escotoma de objetos manifestos Trata-se, em referência à definição médica de escotoma – mancha cega na retina –, da ausência de um objeto que, manifestamente, deveria estar presente na folha de papel. Com frequência, os escotomas omitem partes do corpo humano. Não é um simples esquecimento, por negligência, mas sim uma lacuna inconsciente. EP14 Autorretrato de uma criança de 7 anos junto com sua mãe (EP14). Nesse caso específico, pode-se falar de escotoma, ou seja, não desenho, dos braços da criança à esquerda, pois os mesmos adquirem especial importância na representação da mãe, que parece flutuar acima do chão graças a seus braços-asas. Apelo à relação com o psicólogo (RP) Os fatores que traduzem um apelo à relação com o psicólogo não aparecem nas produções da criança, mas são identificáveis em certos comportamentos. Eles exprimem uma busca de aproximação, apoio e reconforto. São sujeitos que: • solicitam com insistência a opinião do psicólogo quanto à escolha do tema ou das cores a serem utilizadas; • pedem frequentemente ajuda para a realização de certas partes do desenho; • exprimem globalmente um pedido de auxílio para compensar sua própria incapacidade de desenhar. Evasão (EV) Os principais fatores de evasão têm um caráter ou restritivo ou defensivo. Os movimentos psíquicos tendem ao empobrecimento e à renúncia à elaboração mental. O ato de se esquivar pode adotar várias formas: inibição, ironia, apelo à realidade externa. Inibição da mente A inibição da mente manifesta-se através de certas recusas, longos tempos de latência iniciais (hesitação quanto ao tema do desenho) e também realizações muito lentas (aplicação metódica de cores por zonas delimitadas, em todos os detalhes, constantes mudanças de cor etc.). EP15 Uma criança de 7 anos realiza, em cada sessão, o mesmo e interminável desenho (EP15), que ela nunca consegue concluir satisfatoriamente durante a consulta. O tempo de latência inicial é bem longo, e a aplicação de cores também é muito lenta. A figura representa a casa da família, na qual aparece, após vários desenhos, um pouco de vida sob a forma de três pares de olhos (EP16), que, declara a criança, “observam as plantas crescerem”. Todas as modalidades de realização – tempo de latência inicial muito longo, aplicação de cores lenta, estereotipia do tema, comentário que cristaliza a vida nos olhares – revelam uma forte inibição. EP16 Tendência geral à restrição Na maior parte das vezes, são desenhos pequenos, contendo poucos elementos, poucas ou nenhuma personagem – quando há, elas são representadas de forma anônima. EP17 Desenho (EP17) de um menino de 6 anos típico desse procedimento: restrição da superfície ocupada na página e restrição das representações – um matinho e uma flor. EP18 Outro desenho que ilustra essa tendência geral à restrição (EP18). Aqui ela é espacial e representativa, pois, embora apareçam seres humanos, eles não são diferenciados quanto ao sexo, nem em termos de idade e nem mesmo por suas roupas. Apelo à realidade externa Os desenhos que traduzem esse procedimento com frequência são excessivamente banais, mas nem sempre. Em compensação, o ponto em comum entre eles é o fato de lançarem mão de representações impessoais e/ou estereotipadas. Através de um apelo total à realidade externa, esse procedimento permite evitar a elaboração psíquica. EP19 “Uma ilha” (EP19) realizada por uma menina de 8 anos, excelente desenhista. Ela lança mão de todas as suas competências gráficas, desenvolvidas no ateliê de desenho que ela frequenta todas as quartas- feiras, para criar esse belíssimo desenho. Ela evita assim, recorrendo a um estereótipo externo, qualquer implicação pessoal. Suas qualidades técnicas não estão a serviço de sua criatividade, mas, ao contrário, impõem um obstáculo à sua expressão pessoal. Ironia, escárnio O desenho pode apresentar um senso de humor ácido, tendendo a ridicularizar a situação ou o próprio sujeito – a ironia aqui está a serviço da luta contra os afetos disfóricos ou depressivos. A criança faz escárnio ou zombaria no intuito de impedir o surgimento de afetos ligados à perda de um objeto. EP20 (Texto da ilustração: no estádio Parc des Princes – time Paris Saint-Germain (PSG)) Aos 10 anos de idade, o jovem jogador de futebol do desenho EP20 não se autoriza a sonhar em ser goleiro do time Paris Saint-Germain. Quando representa a si mesmo como tal, ele se ridiculariza ao mesmo tempo, figurando um indivíduo sujo, malbarbeado, divulgando na camisa a marca de um patrocinador ridículo [apagado pelo autor]. Preenchimento O suporte é inundado de representações, no intuito de não deixar nenhum espaço livre, nenhum espaço vazio que abra portas para representações detentoras de afetos tristes ou depressivos. EP21 É o que uma garotinha de 9 anos faz aqui (EP21): ela só consegue terminar o desenho de uma casa aconchegante e ensolarada quando o céu fica coberto de pássaros e a faixa entre o céu e a terra fica inteiramente ocupada por uma chuva fina. Fantasia e labilidade (FL) Estamos aqui no registro da fantasia consciente, ou seja, da criação pessoal em relação com o real das representações. As produções gráficas são secundarizadas e transmissíveis a outrem, mas também estão em sintonia com a problemática do autor. A labilidade remete a uma certa instabilidade emocional que transparece nos desenhos. Desenho com reviravoltas Os desenhos podem ser compostos de várias imagens, cada uma representando uma sequência temporal, reproduzindo reviravoltas, muitas vezes inesperadas, no decorrer de uma história personalizada. EP22 (Texto da ilustração: restaurante – meu carro!!! – depósito → – meu carro – vou ter de pagar 206 €) Em seis quadrinhos, uma menina de 8 anos (EP22) relata uma experiência vivenciada em família, que acaba no depósito de veículos rebocados. A representação não é simplesmente fatual, mas sim personalizada, na medida em que a criança coloca em cena a irritação fictícia de seu pai diante do funcionário da prefeitura. Introdução de personagens não representadas O desenho é bem constituído, personalizado, mas o autor sente a necessidade de introduzir em seu comentário outras personagens que não figuram na produção gráfica. EP23 Desenho feito por uma menina de 9 anos e que pode parecer incompleto (EP23). Elementos intrigantes são inseridos: casas gêmeas com chaminés opostas e uma barraca no jardim. Quando eu a incito a falar sobre seu desenho, ela conta uma história singular, bem construída e com várias personagens. Estas últimas, porém, não aparecem no suporte de papel. Cenário interativo entre várias personagens Alguns desenhos permitem elaborar um cenário original e tecer um comentário que se afasta da representação gráfica inicial. Para que esse procedimento seja comprovado, o desenho tem de apresentar, ao mesmo tempo, uma cena não estereotipada com várias personagens e uma relação, um diálogo entre os protagonistas. EP24 (Texto da ilustração: no consultório do psicólogo – você tá bonito hoje – você também) A sessão com o psicólogocomeça com uma série de amabilidades (EP24). São representados o consultório bem como os protagonistas (dentre os quais o sujeito, visto de costas), que dialogam. Expressão gráfica de afetos fortes Os afetos podem ser representados por exageros gráficos do rosto ou das posturas, mas também – e talvez na maior parte das vezes – pela utilização de cores significativas com valor caricatural, no intuito de exacerbar as emoções atribuídas às personagens, animais ou objetos, no sentido vasto da palavra. Por exemplo, uma personagem “vermelha” de raiva ou um animal tão “sombrio” quanto os sentimentos que residem dentro dele. EP25 (Texto da ilustração: O FALSO E O VERDADEIRO) Na época do Natal, um menino de 10 anos realiza um desenho, o qual ele intitula “O falso e o verdadeiro” (EP25). É um desenho original que coloca em cena um falso Papai Noel, com uma barba preta e olhos assustadores, que, em vez de entregar brinquedos, sequestra crianças. Lá fora, através da janela, podemos ver o verdadeiro Papai Noel em seu trenó. Representações contrastadas Para ser comprovado, esse procedimento necessita, em certos casos, analisar vários desenhos de uma mesma criança. De fato, deve-se identificar uma alternação entre estados emocionais opostos. Em um único desenho é possível observar uma heterogeneidade dos procedimentos de representação gráfica: por exemplo, um estilo grafomotor agressivo (muito hachurado, grosseiro) combinando com uma paleta de cores pastéis. EP26 EP27 Um menino de 9 anos, bem-adaptado e educado, mostra através da alternação de dois desenhos (EP26 e EP27) que sua raiva está bradando e pode facilmente submergi-lo. O primeiro representa uma paisagem alpina na qual sentimos a potência de forças subjacentes, e o segundo, a previsível explosão de um vulcão. Simbolismo transparente São representações gráficas de “aproximações” de personagens e cenas secundarizadas que ilustram o corpo, vestido ou nu, seu bem- estar e símbolos sexuais individuais ou culturais. EP28 Um menino de 5 anos e meio desenha sucintamente seu pai em um dia de pesca (EP28). Ele declara: “o papai tem uma vara de pescar bem grande” e depois acrescenta “eu tenho uma pequenininha”. A pedido do psicólogo, ele explica: “Não, né! A mamãe não vai pescar porque ela não tem vara de pescar!” Percebe-se bem aqui o simbolismo sexual transparente. Apego a detalhes narcisistas Observa-se uma focalização em motivos com valência narcisista, como por exemplo a decoração do suporte com guirlandas de coraçõezinhos, flores ou arco-íris. Elementos de afeição estes dedicados ao destinatário do desenho, mas também, indiretamente, a si mesmo, sob a forma de ricochetes gratificantes. EP29 Frequentemente, as crianças fazem questão de entregar produções decoradas, como o desenho EP29, feito por uma criança de 11 anos, com nuvens e sóis. Fantasia e rigidez (FR) Assim como na série anterior de procedimentos de elaboração do desenho, vemos mais uma vez a fantasia consciente, secundarizada, criativa e pessoal. A rigidez também envolve uma certa forma de estabilidade emocional. Há um equilíbrio dos mecanismos adaptativos, que resistem às forças pulsionais, preservando ao mesmo tempo o fôlego criativo. Desenhos muito detalhados As representações gráficas desse tipo são realizadas de forma muito metódica e denotam uma atenção aos detalhes, em relação direta e necessária com o objeto desenhado. Os detalhes não estão ali para decorar, mas são absolutamente úteis para a compreensão do desenho. Com frequência, o acabamento também é de qualidade. EP30 (Texto da ilustração: o desembarque) Esse desenho bastante realista de um porta-aviões (EP30) foi feito por um menino de 9 anos. É possível ver aviões com as asas recolhidas, o que permite guardá-los no porão, e um submarino aproximando-se perigosamente das bombas suspendidas dentro do mar. Porém, não falta fantasia nessa produção, pois a criança se diverte ao figurar um paraquedista cujo paraquedas não se abriu corretamente e que “vai dar um sensacional mergulho no mar”. Afastamento tempo-espacial, insistência sobre o aspecto fictício O afastamento tempo-espacial adota a tradicional forma de representações historicamente datadas, a fim de ilustrar um período passado ou uma projeção no futuro. A insistência sobre o aspecto fictício pode ocorrer sob modalidades diferentes, como por exemplo um antropomorfismo. EP31 Cena de uma abordagem do século XVIII (EP31) desenhada por um menino de 8 anos, colecionador de minerais, “vestígios” segundo suas próprias palavras. Um navio da marinha real é atacado por piratas que chegam na pequena embarcação representada à direita. “O combate está em seu auge!” Alternação entre expressões de agressividade e de defesa Representações agressivas coexistem, no espaço da folha ou no tempo do ato de desenhar, com elementos ou técnicas gráficas visando isolar e denegar a agressividade. EP32 Esse vulcão (EP32), que ocupa a página inteira, foi realizado por um menino de 7 anos com largos traços forçados e mesmo rabiscados. Contudo, de tanto rabiscar e consertar, o colorido agressivo transforma- se em uma zona quase lisa, na qual predomina uma cor suave. Formação reacional A temática de desordem, no sentido vasto da palavra, é contradita por uma execução gráfica muito precisa, resultando em um desenho no qual reinam limpeza e ordem. Outros desenhos são realizados quase que exclusivamente na parte superior da folha, na pureza do céu, representando estrelas, astros, foguetes, ou seja, elementos que permitem afastar-se de pulsões e instintos baixos. EP33 Vulcão desenhado por um menino de 8 anos (EP33). Esse vulcão não explode com barulho: ao invés disso, ele faz “pshiii”, e suas projeções parecem ser bem refreadas. Deve-se notar, no canto direito, o desenho de um coraçãozinho, que está ali para compensar, embora sem necessidade, o efeito negativo do vulcão. Precisões numéricas, anotações escritas A representação gráfica é acompanhada por “legendas” escritas ou numéricas, como se fosse preciso explicar bem, para o observador, os diferentes elementos desenhados. EP34 (Texto da ilustração: telhado – janela – janela – cortinas – cortinas – venezianas – venezianas – flor – Mamãe – Eu – Geoffroy – porta – Papai – árvore) Casa de uma família com os pais e duas crianças (EP34), desenhada pela filha mais velha, de 9 anos. Em cada personagem ou objeto ela insere uma legenda indicando o nome. Avaliação das modalidades de funcionamento mental A lista de procedimentos de desenho mencionada acima não visa a ser exaustiva e nem representar todas as possibilidades de produção gráfica. Ela serve de guia para analisar ponderadamente o material iconográfico entregue pela criança. Portanto, ela permite identificar e caracterizar as particularidades formais de cada desenho e, por conseguinte, refletir sobre as modalidades de funcionamento psíquico da criança. Existem três tipos de funcionamento mental, indo dos menos até os mais mentalizados: • O primeiro é o tipo 3. A primeira impressão global é de uma produção na qual a secundarização parece alterada. Os fatores AS (alterações da secundarização), RP (apelo à relação com o psicólogo) e EV (evasão) predominam no desenho. Encontram-se em elevado grau mecanismos de defesa e afetos. A legibilidade global do desenho, ou seja, sua capacidade de expor um conteúdo latente, é considerada como ruim ou média. • O segundo é o tipo 2. A primeira impressão global é de uma produção na qual os elementos têm pouca relação entre si e estão ligados ao conteúdomanifesto. Os fatores RP (apelo à relação com o psicólogo) e EV (evasão) predominam. No entanto, pode-se observar a presença dos fatores FL (fantasia e labilidade) e FR (fantasia e rigidez). Os mecanismos de defesa consistem majoritariamente na evasão e alteram a legibilidade do desenho. • O último é o tipo 1. A primeira impressão global é marcada pelo sentimento de uma fantasia pessoal e criativa. Os fatores FL (fantasia e labilidade) e FR (fantasia e rigidez) predominam. A visibilidade é boa e passa o sentimento de uma produção elaborada, cuja simbólica é compartilhável. O funcionamento defensivo é flexível e adequado. Os afetos entram em sintonia com as representações. SÍNTESE DA FICHA DE CONTROLE A. Primeira impressão global • Processos primários prevalecentes • Atenção predominante ao conteúdo manifesto • Histórias construídas como um tema banal • Fantasia pessoal dominante B. Análise dos procedimentos do desenho 1) Alterações da secundarização (AS) • Desenhos crus, temáticas agressivas • Desenhos crus, temáticas sexuais • Desorganização das sequências gráficas • Desenho de pequenos detalhes raros ou bizarros • Diferentes registros no espaço da folha • Instabilidade dos objetos • Confusão das identidades sexuadas • Escotoma de objetos manifestos 2) Apelo à relação com o psicólogo (RP) • Solicitações insistentes junto ao psicólogo • Pedidos de ajuda para realizar o desenho • Pedidos de assistência diante de uma incapacidade de desenhar 3) Evasão (EV) • Inibição da mente • Tendência geral à restrição • Apelo à realidade externa • Ironia, escárnio • Preenchimento 4) Fantasia e labilidade (FL) • Desenho com reviravoltas • Introdução de personagens não representadas • Cenário interativo entre várias personagens • Expressão gráfica de afetos fortes • Representações contrastadas • Simbolismo transparente • Apego a detalhes narcisistas 5) Fantasia e rigidez (FR) • Desenhos muito detalhados • Afastamento tempo-espacial, insistência sobre o aspecto fictício • Alternação entre expressões de agressividade e de defesa • Formação reacional • Precisões numéricas, anotações escritas C. Avaliação das modalidades de funcionamento mental Tipo 3 (legibilidade - ou -+) • Predominância dos fatores AS, RP e EV • Defesas massivas, afetos massivos Tipo 2 (legibilidade -+) • Predominância dos fatores RP, EV, FL e FR • Produção gráfica alterada pelos mecanismos de defesa acionados. Porém, uma liberação parcial é possível. Tipo 1 (legibilidade +) • Procedimentos flexíveis e variados de tipo FL e FR • Os desenhos são construídos com uma ressonância fantasmática. [20]. Grifo pelo autor. [21]. O que é percebido como tal, sem referência ao conceito, como resultado do ato da percepção [N.T.]. [22]. Salvo, é claro, a prancha 16, que também é uma página em branco. [23]. Uma primeira sugestão de ficha de controle do desenho foi publicada em 1996 sob a referência: COGNET, G. (1996). Enfants voleurs d’étincelles – Le dessin d’enfant, de l’approche génétique à l’interprétation clinique. Grenoble: La Pensée Sauvage. [24]. Em vez de papa, “papai” em francês [N.T.]. 5 Os testes de desenhos temáticos EXISTEM MUITOS testes de desenho, que também poderíamos chamar de desenhos temáticos. Neste livro, eu selecionei apenas os que me pareciam mais relevantes e apresentavam uma dupla vantagem. De um lado, graças a uma certa padronização, eles permitem estabelecer comparações e, em momentos oportunos, beneficiarem-se das indicações do autor e dos trabalhos efetuados ulteriormente para interpretá-los. De outro, o fato de se basear em uma instrução, por vezes específica, ajuda certos autores a superarem seus bloqueios e produzirem uma realização gráfica. Essa é a principal vantagem dos desenhos com instruções na prática da psicologia clínica. DESENHOS DE SERES HUMANOS Não se pode negar o interesse espontâneo das crianças, mesmo muito pequenas, pelo desenho de seres humanos. Praticamente em todas as culturas, as crianças traçam, por livre vontade, formas fechadas, que depois se propagam por radiações e que têm a ver com representações humanas. A figura humana é o objeto predominante nos desenhos de todas as idades da infância e em quase todos os países. Segundo o estudo de Anastasi, 71% dos desenhos espontâneos de algumas centenas de crianças, representando 41 países diferentes, têm como objeto seres humanos (ABRAHAM, 1985). Impregnados de universalidade, os desenhos de seres humanos ocupam um lugar de destaque nas produções infantis, pois, através do desenho de uma personagem, é sempre um pouco de si mesmo que o autor tenta, em parte inconscientemente, representar. Quando os entes queridos incentivam a criança a prosseguir – demonstrando interesse, interpretando e dando nomes às suas produções –, ela leva conjuntamente sua vida e a representação da mesma em duas dimensões. A experiência vivenciada e a representada logo aparecem como duas faces de um mesmo desenvolvimento psíquico. Obviamente, o termo “desenvolvimento” utilizado aqui não significa que eu considero o desenho de seres humanos como um simples indicador do conhecimento do esquema corporal ou um índice cognitivo ou até um teste de inteligência. Muito pelo contrário: a minha perspectiva é de orientação psicodinâmica e leva em conta o aspecto projetivo de toda atividade de representação, que não deixa de incluir o desenho de personagens. Os desenhos Sh1 e Sh2 foram realizados por duas crianças de 5 anos. O primeiro é de um menino, e o segundo, de uma menina. Os jovens artistas utilizaram apenas – nada lhes foi imposto – duas cores: preto e azul (azul no chapéu e nas pernas do desenho do menino e também no corpo da personagem desenhada pela menina). Se compararmos o nível de desenvolvimento cognitivo ou o conhecimento do esquema corporal em ambos os desenhos, fica claro que o do menino leva vantagem. Ele representou uma personagem relativamente completa: o pescoço é visível e um acessório (o chapéu) está presente. Por outro lado, se o critério de comparação escolhido for o nível de organização das instâncias psíquicas, o desenho da menina mostra-se amplamente mais elaborado. Embora a estrutura da personagem representada seja típica do “homem girino” – o que revela um atraso com relação à idade cronológica –, o conjunto traz uma secundarização e mesmo um pouco de humor. Ela fez uma “mamãe-presente” muito sorridente. Podemos notar a forma de embrulho de presente da cabeça e o cabelo representado como se fosse um laço decorativo. Esse desenho recorre ao simbolismo e à criatividade lúdica. O desenho realizado pelo menino é mais inquietante: o corpo não está completamente unido, mas sim destruído – quase fragmentado –, os dentes e os dedos-garras são valorizados, e o colorido é marcado por agressividade. Esse conjunto exprime uma forte angústia subjacente. Sh1 Sh2 Desenhos de seres humanos e esquema corporal A expressão “transtorno de esquema corporal” é comumente utilizada por profissionais para designar, na criança, um desconhecimento dos termos que denominam as diferentes partes do corpo, uma falta de lateralização, um distúrbio motor ou ainda desenhos de seres humanos fracos ou incompletos. No entanto, antes de discutir esse transtorno, é importante definir o que é esquema corporal, pois esse conceito é enganador, como afirmam Fauconnier, Scalabrini e Meljac (2009): Apesar da antiguidade da literatura sobre esse tema (esquematia de Bonnier; modelo postural de Head), a dificuldade de se obter uma definição de esquema corporal interativa e consensual ilustra a complexidade dessa noção, que se encontra na interface entre várioscorpus disciplinares. Pode-se citar, não exaustivamente, a neurologia, a psicologia cognitiva, a psicologia genética, a psicomotricidade e, é claro, a psicanálise, que enfatiza a dimensão relacional e ressalta, com Spitz (1954), a importância, na formação do esquema corporal, das sensações cenestésicas, cinestésicas, visuais e posturais, que dependem estreitamente das primeiras relações com a mãe. A definição, já antiga, sugerida por Ajuriaguerra (1970) é aprovada por especialistas da área. Sua concepção é dinâmica e se baseia na construção da noção de esquema corporal: Edificado sobre impressões táteis, cinestésicas, labirínticas e visuais, o esquema corporal realiza, em uma construção ativa constantemente remodelada, dados atuais e passados, uma síntese dinâmica que fornece tanto aos nossos atos quanto às nossas percepções o contexto espacial de referência do qual eles tiram seu significado. O autor também explica: A noção de corpo não pode ser compreendida sem levarmos em conta a figura do outro como coformador. No início, simbiose com o outro, objeto de medo e amor, a criança primeiro diferencia a pessoa que lhe administra cuidados e os estranhos; ela vive em um universo de presença ou ausência, em um diálogo protopático durante o qual a comunhão afetiva se dá sob a forma de um corpo dando e um corpo recusando; ela vivencia fenômenos de projeção de maneira extremamente plena até o momento em que o objeto exterior, tornando-se substanciado, adquire qualidades de unidade permanente; em tal momento, seu próprio corpo é concebido, por sua vez, como um objeto dentre outros. Pode ser tentador utilizar o simples e rápido teste do desenho de um boneco como ferramenta de investigação do tão complexo conceito de esquema corporal. É incontestável que no desenho de seres humanos reflete-se, em certa medida, a imagem de seu próprio corpo. Contudo, será que, por isso, esse tipo de desenho é um bom indicador de que o desenvolvimento do esquema corporal está instaurando-se? A resposta, a meu ver, é claramente negativa, pois o desenho de personagens humanas mobiliza certamente o conhecimento do seu próprio corpo, mas também a grafomotricidade, que interfere na qualidade de sua representação, e ainda – e talvez sobretudo – os aspectos projetivos que F. Dolto[25] (1984) chama de “imagem inconsciente do corpo”. Esquema corporal e imagem inconsciente do corpo Em minha prática profissional eu já tive a oportunidade de comprovar que esquema corporal e imagem inconsciente do corpo eram distintos várias vezes e em especial quando recebi em consulta um menino de 6 anos e meio, com grande área do corpo queimada (queimaduras aos 3 anos de idade, nas pernas, com muitos enxertos). O menino era capaz de produzir, em um espaço de tempo restrito, duas personagens humanas com níveis de desenvolvimento bem diferentes: o primeiro desenho avaliando seu conhecimento do esquema corporal, enquanto o segundo exprimia como ele concebia a imagem inconsciente de seu corpo. O mais evoluído (Sh3) havia sido realizado a partir da instrução de F. Goodenough (1926): “desenhe um boneco, o boneco mais bonito que você conseguir desenhar”. Para atender a esse pedido, o menino, que havia sofrido em seu corpo, representou no papel um corpo humano baseando-se, no sentido concreto, em seu próprio corpo. Assim, enquanto a mão esquerda percorria as diferentes partes do seu próprio corpo, tocando-as, apalpando-as, apertando-as, a mão direita, segurando o lápis, com um movimento quase simétrico, delineava as diferentes partes no suporte de papel. Era como se ele estivesse utilizando uma “máquina de reproduzir” comparável ao pantógrafo[26] de desenhista. Na verdade, o menino não parecia alcançar uma representação de si, mas sim uma retranscrição, um relato de seu envelope corporal no suporte em duas dimensões. Porém, pouco tempo após esse desenho com instrução específica, parecido com um exercício escolar, ele realiza espontaneamente um desenho (Sh4), colocando em cena uma figura humana com um esquema corporal muito pouco elaborado. Sh3 Representação baseada no envelope corporal Sh4 Representação espontânea correspondente à imagem inconsciente do corpo Em outros casos, observa-se uma verdadeira discordância entre a realização do desenho de uma personagem e o teste para avaliar o esquema corporal. Por exemplo, a recente Épreuve de schémacorporel[27] (MELJAC; FAUCONNIER & SCALABRINI, 2009), que pede para reconstituir, com quebra-cabeças, um corpo humano de frente e de perfil, revela uma grande diferença, em muitas crianças (apresentem elas ou não alguma síndrome neurológica), entre o conhecimento do esquema corporal medido pelo teste e a fraca qualidade do desenho de um boneco. As etapas da evolução do desenho de seres humanos As etapas do desenvolvimento infantil manifestam-se nos traços gráficos primeiro borrados e depois cada vez mais bem controlados. O mesmo vale para o desenho de seres humanos, que mostra, em suas realizações sucessivas, que a criança adquire, fase após fase, “um crescente controle do Eu sobre seu universo interior e exterior” (FREUD, A., 1965). Na apresentação abaixo eu vou empregar a terminologia de estádios para designar essas diferentes fases. De fato, as etapas da evolução do desenho de bonecos têm todas as características de estádios de desenvolvimento: a ordem de sucessão permanece constante de uma criança para a outra, e as diferentes etapas revelam um caráter integrativo, ou seja, as estruturas construídas em determinado momento são assimiladas pela seguinte. Eu sugiro assim três estádios de desenvolvimento do desenho de bonecos, que englobam o período que vai do fim da fase anal até a puberdade. O estádio do boneco “eu” A experiência do espelho, tal como vivenciada pela criança, permite que ela perceba a diferença entre uma simples imagem (tudo o que ela vê) e uma representação (aqui, seu reflexo) – a representação não existiria sem o artifício do espelho. Logo, para Jacques Lacan (1949), o estádio do espelho é concebido como formador da função do eu, isto é, um momento da vida psíquica em que a criança constrói, como uma forma de antecipação e através de uma dupla identificação, à imagem do outro e à sua própria imagem, sua unidade corporal. É também, de certo modo, o que escreve Kant em sua Antropologia de um ponto de vista pragmático: Todas as línguas, quando falam na primeira pessoa, devem pensar o Eu, mesmo que não o exprimam através de nenhuma palavra específica. Porque essa faculdade (de pensar) é o entendimento. É preciso ressaltar que uma criança que já sabe falar mais ou menos corretamente começa somente tarde (talvez um ano depois) a dizer Eu; antes, ela fala de si na terceira pessoa (Karl quer comer, andar etc.). [...] Antes, ela apenas sente a si mesma; depois, ela pensa a si mesma. Logo, uma criança que ainda designa a si mesma na terceira pessoa diferencia-se mal do ambiente ao seu redor; um mesmo nome pode aplicar-se a diferentes objetos, ao passo que o “eu” designa somente o enunciador. É exatamente isso que está em jogo no que eu considero como a primeiríssima representação do ser humano (Sh5). O traço delimita dois espaços: um interior e outro exterior, permitindo que surja uma figura fechada em si, distinta do outro, do caos ambiente, que age ao mesmo tempo como organizador, mas também indicador do controle da unidade corporal. E, quando uma criança bem pequena consegue desenhar essas primeiras formas, fechadas, encerradas, unificadas, observamos então sua dedicação e o prazer que lhe proporciona essanova capacidade de dominar uma representação, certamente a primeira, que está em estreitíssima relação com o seu fundamento: sua unidade corporal e, por conseguinte, a continuidade do seu ser. Lacan (1949) sublinha que, na experiência do espelho, é indispensável que um adulto dê seu assentimento: “sim, é você no espelho”, para que uma simples intuição de identificação torne-se a representação adequada. Assim como ele, eu estou convencido de que o fato de um adulto interferir dando sentido, reconhecendo a representação, mesmo que apenas esboçada – “ah, o seu boneco está bonito” –, permite que a criança alcance suas próprias capacidades de representar e representar- se. Esse primeiro estádio surge assim que a criança consegue fazer um traço fechado (por volta dos 2 anos ou 2 anos e meio) e termina de modo relativamente rápido, por volta dos 3 anos ou 3 anos e meio, no momento em que a criança entra no estádio do boneco-si próprio. Sh5 Figura fechada, primeira representação de uma personagem humana (Sh5) realizada por uma menina de 2 anos e meio. Deve-se notar que essa primeira possibilidade de desenhar um corpo fechado coincidiu com a época em que a menina em questão se desfraldou durante o dia. O estádio do boneco “Si próprio” É um período muito rico para a criança: a linguagem desenvolve-se de forma exponencial, permitindo que se instaure uma comunicação cada vez mais fina com os entes queridos, as brincadeiras simbólicas enriquecem-se e ampliam-se, novas capacidades de autonomização e identificação nascem com a multiplicação dos lugares de convívio da criança (creche, escola). E, obviamente, através das investigações e da evolução de seus desenhos (Sh6 e Sh7), a criança mostra-nos o desenvolvimento do processo de subjetivação no qual ela entrou. Esse processo psíquico e corporal manifesta-se, com essas duas dimensões, no desenho de personagens humanas. Constata-se assim uma substituição do sentimento de si pela consciência de si. É o que Leibniz (1704) designa como a capacidade de “apercepção”, no sentido de “aperceber-se de si mesmo”. Trata-se de uma operação mental: é quando a mente considera-se como o sujeito que está percebendo ou sentindo alguma impressão – em outras palavras, é a possibilidade de ver a si mesmo em ação, é quando o indivíduo se dá conta de que pensa. É por isso que eu decidi chamar essa etapa de estádio do boneco-si próprio. De fato, é o mesmo “si próprio” de todos os verbos pronominais, exatamente aqueles que concedem uma dupla posição para a pessoa que está falando, ao mesmo tempo sujeito e objeto da frase: “eu me sinto bem”, “tu te olhas no espelho”, “ele se levanta” etc., como se uma parte de si próprio sempre fosse ativada, e uma outra, passivada. A criança elabora, portanto, uma consciência de sua imagem corporal, cujas etapas, tentativas, sucessos e fracassos ela vai pôr no papel: “eu me desenho, coloco na página minha representação atual”. Todas essas imagens têm um ponto em comum: elas estão concentradas no sujeito que as realiza. A diferenciação com a figura do outro ocorre desde o estádio do boneco “eu” e não é mais um problema para o sujeito. Sua representação da figura humana, seja qual for o título que ele lhe der, remete fundamentalmente à sua própria imagem fantasmática e corporal em construção. Os desenhos de personagens humanas nunca são reproduções das personagens reais do mundo ao redor da criança, mas sim as etapas do tornar-se si mesmo(a). Dentre essas etapas, há uma, bem conhecida pelos pedagogos, que se chama, desde o início do século XX, homem-girino. Essa denominação significa que o desenho do boneco mais simples (uma única cabeça e os membros) é o embrião de um desenho mais elaborado, que não deixará de surgir. Para mim, sem descartar essa bela metáfora, eu não acho que o homem-girino corresponda, em uma perspectiva psicodinâmica, a um estádio de desenvolvimento do desenho. É por essa razão que eu o incluo como uma primeira etapa incontornável durante o estádio do boneco-si próprio. Logo, esse estádio divide-se em dois subestádios: primeiro, o do boneco-si próprio-girino, que vai dos 3 anos de idade aos 3 anos e meio/4 anos, seguido pelo subestádio do boneco-si próprio-padrão, comum até por volta dos 4 anos e meio e 5 anos. Os pais, irmãos e professores, no sentido vasto da palavra, desempenham um papel muito importante na elaboração do boneco-si próprio. Com efeito, todos eles são, na maior parte das vezes, solicitados por figurações humanas que eles reconhecem como sendo representações de si mesmos e, através de um efeito espelho, eles também reconhecem, no jovem desenhista, o alter ego deles. Logo, assim como J.Y. Chagnon (2008), eu acho “que não poderia haver identificação do sujeito com o objeto sem identificação reflexiva do objeto com o sujeito...” A seguir figuram dois desenhos realizados pela mesma criança, o primeiro quando ela tinha pouco mais de 3 anos de idade, e o segundo, 3 anos e meio. Há uma semelhança total entre os desenhos, que mostram as etapas da construção do seu eu corporal. Notam-se os cabelos, a linha representando a testa e o sorriso, tão difícil de desenhar na forma de uma curva. Somente o corpo, primeiro ausente e depois presente, distingue esses dois momentos do desenho de um ser humano. Embora a etapa que consiste em substituir um boneco-si próprio-girino por um boneco-si próprio-padrão seja importante, ela não representa nenhuma ruptura na dinâmica da representação de si. Sh6 Sh7 O estádio do boneco “avatar” Ao crescer – e talvez com uma idade que poderíamos qualificar de “idade da razão” –, a criança adquire a imagem de um eu-corporal- padrão (desenho de um ser humano composto de uma cabeça, tronco, membros, principais órgãos sensoriais e alguns acessórios). O desenho desse tipo de boneco evolui então somente às margens, ou seja, não em sua estrutura, mas sim na riqueza dos detalhes e qualidade do estetismo. Algumas crianças, com mais habilidade gráfica e maior sensibilidade ao belo, progridem em seus desenhos de forma mais nítida. De certo modo, para elas também, mas talvez sobretudo para a maioria das outras, a questão não está mais exclusivamente focalizada na construção, através da representação gráfica, de uma imagem de si, mas sim na forma como a mesma se relaciona em diferentes ambientes. É por isso que eu gostaria de utilizar o termo avatar, “oriundo de uma palavra em sânscrito (“avatarâ”), cujo significado é a descida do céu à terra, [que foi] utilizada para designar as sucessivas encarnações das divindades dos hindus [...] Hoje, o termo designa a personagem que um jogador ou utilizador de um mundo virtual encarna virtualmente” (VIROLE, 2010). Logo, a figura humana representada pela criança apresenta características parecidas com as de avatares de videogames. O suporte de papel, transformado pelo imaginário, é como um mundo virtual no qual tudo é possível – as personagens podem revestir múltiplas aparências, o esquema corporal do avatar distingue-se do de um utilizador de jogos eletrônicos assim como ele se distingue, aqui nesse estádio, do de um jovem desenhista. No entanto, em ambos os casos, subsiste uma relação de encarnação entre o sujeito e a representação da personagem humana. Nesse estádio, mesmo quando é desenhada sozinha em uma página (Sh8), a figura humana está quase sempre em relação, mesmo implícita, com o ambiente em seu sentido vasto. Pode ser através de sinais específicos de identificação a um dos adultos mais chegados, diferenciação sexual ou expressão de uma sensibilidadecultural, indicações escritas, representação de um cenário etc. Sh8 Princesa rapidamente traçada por uma criança de 6 anos e meio. Embora a personagem esteja sozinha no suporte, ela carrega um sentido latente e estabelece uma relação, mesmo implícita, com os universos internos e externos da criança. O estádio do boneco-avatar continua durante alguns anos até o esgotamento do desejo de representar cenas, que chega um pouco antes ou ao mesmo tempo que a puberdade. Antropomorfismo e desenho de seres humanos Muitas vezes, quando a criança alcança o estádio do boneco-avatar, que indica uma capacidade de simbolizar e também projetar uma representação de si no mundo exterior, observa-se o surgimento de representações de objetos e animais antropomórficos. Para dizer a verdade, isso não constitui um estádio de evolução do desenho de personagens humanas. A perspectiva antropomórfica de objetos ou animais denota, é claro, uma mudança de eixo que às vezes pode facilitar as representações, mas sobretudo uma capacidade de manipular simbolicamente a representação de si, a imagem de si próprio ou dos entes queridos. Desenhos desse tipo (como, por exemplo, o Sh9, Sh10 e Sh11) frequentemente apresentam um caráter alegre e lúdico. Sh9 Sh10 Tradicionalmente, a forma de uma casa com porta e janelas é bastante propícia a transformações antropomórficas. A criança que realizou o desenho Sh9 era pequena (4 anos e meio). É interessante notar que, embora ela perceba bem, no plano simbólico, a possível semelhança entre a representação de uma casa e de um rosto, ela ainda não é capaz de lançar mão dos diferentes elementos que compõem uma casa – por exemplo, as janelas para fazer os olhos, e a porta, para a boca. No intuito de esboçar uma figura humana, ela utiliza apenas o envelope da casa, no qual ela acrescenta elementos de um rosto. Outros desenhos exprimem mais criatividade e originalidade. Eles são frequentemente feitos à imagem de seus autores. No exemplo Sh10, vemos um martelo que, paradoxalmente, declara com malícia o jovem desenhista, “bateu a cabeça” e, por conseguinte, está com um galo e uma lagrimazinha escorrendo do olho, de tão intensa que foi a dor. Na realidade, esse desenho tem uma dupla origem: de um lado, o comportamento da criança na escola, que, frequentemente com a cabeça “no mundo da Lua”, dá respostas inesperadas, fazendo seus coleguinhas rirem, e, de outro, o nome do psicólogo que ela consulta: “M. Cognet”[28]. Ela condensa duas representações em um pequeno desenho impregnado de ironia. Sh11 (Texto da ilustração: meu nome é geladeira) Desenho tão raro quanto o anterior, representando uma geladeira com rosto humano (Sh11). Aqui, mais uma vez, o objeto não foi escolhido ao acaso, mas corresponde em todos os aspectos a um conflito em torno da alimentação (rejeição aguda a comida), que gera tensões quase cotidianas na família. A extrema ansiedade que acompanha os conflitos na hora das refeições é denegada no desenho, que diz o contrário. AS ORIGENS DOS TESTES DE DESENHOS DE PERSONAGENS HUMANAS A ideia de que desenhos infantis espontâneos podem esclarecer a psicologia do desenvolvimento não é nova. É com essa frase que começa o livro de Florence L. Goodenough (1926), intitulado Measurement of intelligence by drawings[29]. De fato, muitos outros antes dela, no finalzinho do século XIX, interessaram-se por desenhos infantis, principalmente desenhos de personagens humanas. Porém, foi preciso esperar o início do século XX para que esse interesse adquirisse um aspecto mais científico. Pesquisas internacionais foram então lançadas com entusiasmo. Algumas, mais impregnadas pela antropologia cultural do que pela psicologia, buscavam recolher desenhos realizados por crianças de todos os níveis escolares em todos os países do mundo. Por seu universalismo, o desenho de seres humanos é especialmente propício a esses tipos de estudo. No mesmo período, outros sugeriam estudar as etapas do desenvolvimento infantil através do desenho de personagens, coletando dados muitas vezes abundantes. Em Munique, por exemplo, foram recolhidos até 100.000 desenhos! O entusiasmo em torno dessas coletas massivas foi intenso, pois muitos psicólogos imaginavam ter encontrado, com os desenhos de personagens humanas, um teste simples, rápido, independente da cultura, que permitiria descobrir as leis do desenvolvimento infantil em geral. Outros ainda realizaram estudos comparativos entre populações “normais” e grupos patológicos (afecções neurológicas, retardos mentais, distúrbios de caráter). Logo ficou constatado que desenhos de figuras humanas forneciam informações que ultrapassavam amplamente as expectativas, referindo-se não somente ao desenvolvimento da inteligência, mas também – e talvez sobretudo – à maturação geral, à socialização e aos distúrbios afetivos. Uma outra perspectiva de pesquisa baseava-se em um estudo longitudinal de casos únicos. Realizaram-se então monografias a partir da observação, na maior parte das vezes, dos próprios filhos dos pesquisadores. Eu gostaria de citar aqui o trabalho de Luquet (1913), que recolheu e analisou todos os desenhos feitos por sua filha desde os 3 anos e 3 meses até os 8 anos e meio. Levado por um desejo de “verdade”, Luquet tenta, durante esse longo período, tirar sua filha o máximo possível da influência dos adultos, e mesmo de seus iguais, a fim de entrar nas etapas mais “puras” do desenvolvimento do desenho. Obviamente, surge de imediato outra deformação: o interesse fora do comum que o pai demonstra pelas produções da filha, que com certeza não deixou de percebê-lo. Todavia, baseado em cerca de 1.500 desenhos, esse estudo continua sendo precioso e mostra que os desenvolvimentos decisivos do desenho instauram-se com regressões e muitos retornos a “estádios” menos evoluídos antes de estabilizar-se. Em outros termos, a evolução notada um dia não aparece invariavelmente nos dias e mesmo nas semanas seguintes. Paralelamente, terapeutas infantis e psicanalistas – estou fazendo especial referência aqui a Sophie Morgenstern – utilizam o desenho em uma perspectiva completamente diferente. Embora sejam identificadas as etapas do desenvolvimento, enfatiza-se aquilo que os desenhos (principalmente os de personagens humanas) revelam no que diz respeito à complexa construção da personalidade e ao tipo de relações estabelecidas com os entes queridos. K. Machover (apud ABRAHAM, 1985) ressalta, por sua vez, utilizando o teste do desenho de figuras humanas, que “crianças que obtêm a mesma idade mental no teste frequentemente fazem desenhos que se distinguem de modo notável e carregam a marca pessoal delas”. Ela considera, portanto, que o teste do desenho de pessoas equivale a um teste projetivo e sistematiza sua análise. O teste de Machover (human figure drawing) A instrução consiste em pedir que o sujeito desenhe uma pessoa com um lápis preto em uma folha de papel de formato padrão. É autorizado usar borracha. A instrução “desenhe uma pessoa” é deliberadamente vasta, a fim de conceder o máximo de liberdade possível e, por conseguinte, abrir portas para a projeção. No mesmo sentido, para não interferir no processo projetivo, Machover responde “faça como você quiser” à maioria das perguntas que as crianças podem fazer. Porém, ela explica aos sujeitos que dizem não saberem desenhar que o teste “não tem nada a ver com a aptidão a desenhar. Eu quero saber comovocê desenha uma pessoa”. Em nenhum momento ela faz alusão ao status ou sexo da pessoa representada. Por outro lado, enquanto o sujeito está desenhando, ela anota os comentários espontâneos dele, a ordem do desenho das diferentes partes do corpo e o tempo de execução. Quando o primeiro desenho está pronto, Machover (1949) pede para o sujeito desenhar, em outra folha, uma pessoa do outro sexo. A principal vantagem desse teste consiste na comparação de ambos os desenhos de acordo com uma metodologia em dois tempos: • Uma análise para examinar o conteúdo do desenho, ou seja, as diferentes partes do corpo: cabeça, boca, pés, roupas e detalhes. • Um estudo para verificar os aspectos formais e estruturais do desenho: tema, movimento, simetria, tamanho e lugar da figura na página, perspectiva e qualidade do traço. O teste de Machover em exames psicológicos O teste de Machover é, ainda hoje, um teste adequado para exames psicológicos. A principal vantagem é, obviamente, levar a criança a desenhar personagens sexuadas. A instrução enfatiza explicitamente a diferença dos sexos. Como o sujeito vai ressaltar, mostrar e representar essa diferença essencial, que estrutura sua própria pessoa e o mundo ao seu redor? Para Abraham (1985), “a instrução incita o sujeito a revelar sua concepção de um mundo no qual as pessoas pertencem a um ou outro sexo, suas atitudes diante de ambos os sexos (dos quais um é necessariamente o seu) e a forma como ele reconhece e aceita o fato de pertencer ao seu sexo. O desenho de duas personagens de sexos opostos revela, portanto, as reações afetivas do sujeito quanto aos papéis masculino e feminino, as relações que ele supõe que devem existir entre homens e mulheres e sua concepção da vida sexual propriamente dita”. Idade de aplicação De 4 ou 5 anos até 10 ou 12 anos. Embora Machover sugira que seu teste também seja aplicado a adolescentes e adultos, minha experiência clínica demonstra que testes de desenho de personagens não são bem aceitos por adolescentes, mesmo pelos mais jovens. Instrução Aqui, mais uma vez, minha instrução distingue-se notavelmente da de Machover. Com efeito, a tradução literal da instrução original “draw a person” pode induzir, na nossa língua, a uma deformação pelo gênero feminino da palavra “pessoa”. Por isso, eu prefiro uma instrução mais explícita: “Eu vou pedir para você desenhar primeiro uma personagem masculina ou feminina, o que você quiser, menina ou menino, homem ou mulher. Depois, quando você tiver terminado, eu vou pedir para você desenhar uma segunda personagem do outro sexo no verso da folha dobrada” (obviamente, essa instrução deve ser adaptada ao nível de compreensão da criança). A segunda vantagem dessa instrução é preparar o sujeito a ter de desenhar uma personagem do outro sexo, levando-o assim a pensar, desde o primeiro desenho, nas características de diferenciação sexual que ele vai ressaltar. Aplicação Como K. Machover, eu digo para a criança desenhar com lápis preto, deixando a possibilidade de utilizar borracha. Por outro lado, eu faço o sujeito desenhar em uma folha A4 previamente dobrada pela metade. Assim, uma vez prontos ambos os desenhos, eles estão um ao lado do outro na mesma folha e ficam mais fáceis de comparar. Interpretação A partir desse teste, K. Machover levanta a hipótese de “que é perfeitamente normal desenhar primeiro uma personagem de seu próprio sexo”. Estudos realizados por A. Abraham (1985) junto a uma população de 1.459 crianças e adolescentes israelenses de 5 a 17 anos confirmam minhas próprias observações e revelam que a primeira personagem é, na maior parte das vezes, do mesmo sexo que o seu autor. No entanto, é essencial notar que, em uma relevante proporção da amostra (de um terço a um quinto), o sexo da primeira personagem desenhada não é o mesmo que o do sujeito que desenhou. Perron e Perron-Borelli (1996) fazem uma observação semelhante: De forma bastante majoritária, o desenhista declara ter desenhado uma criança do mesmo sexo que o seu (78% dos casos). Porém, as exceções são mais frequentes em meio às meninas (27% delas dizem ter desenhado um menino) do que em meio aos meninos (somente 17% dos meninos declaram ter desenhado uma menina). Essas proporções excluem, evidentemente, qualquer interpretação demasiado rápida. Sh12 Sh13 (Texto da ilustração: papai) Figura feminina (Sh12) que uma garotinha de 7 anos desenhou em primeiro lugar. Ela declara que é sua mãe, com quem ela mora, e faz em seguida uma personagem masculina, denominada “papai” (Sh13), pai este que ela não vê há muitos anos. A diferença dos sexos está bem marcada, sem nenhuma ambiguidade, mas essa menina, cujas referências da representação masculina parecem apagar-se, sente a necessidade de indicar por escrito que é mesmo o seu pai no desenho. Questões em jogo Para Abraham (1985), o teste de Machover levanta importantes questões: Além da ordem dos sexos desenhados e da distância entre os dois desenhos, outro elemento básico do teste deve ser destacado: o tratamento diferencial da figura masculina e da figura feminina. Em geral, os elementos gráficos comuns a ambos os desenhos de um mesmo sujeito aparecem em tamanha quantidade que não é nem um pouco difícil reconhecê-los como tendo sido desenhados pela mesma pessoa, no meio de produções de muitas outras pessoas. Em paralelo a esse parentesco, sempre há variações notáveis no tratamento das figuras masculina e feminina, o que pode expor, ao mesmo tempo, aspectos projetivos e expressivos. Tais variações são o resultado da instrução que pede para desenhar duas personagens que se diferem pelo sexo. A instrução incita o sujeito a revelar sua concepção de um mundo no qual as pessoas pertencem a um ou outro sexo, suas atitudes diante de ambos os sexos (dos quais um é necessariamente o seu) e a forma como ele reconhece e aceita o fato de pertencer ao seu sexo. O desenho de duas personagens de sexos opostos revela, portanto, as reações afetivas do sujeito quanto aos papéis masculino e feminino, as relações que ele supõe que devem existir entre homens e mulheres e sua concepção da vida sexual propriamente dita. Portanto, o estímulo essencial aqui é a identificação da criança com os indivíduos machos ou fêmeas reais que a cercam. Estão em jogo o pai e a mãe, a relação que os une à criança, o clima familiar, a posição da criança quanto aos seus irmãos e os costumes do grupo sociocultural. Identificação sexuada A principal vantagem desse teste reside no tratamento das diferentes representações das duas personagens e da descrição de cada uma delas enquanto seres sexuados. Portanto, é extremamente interessante observar os conteúdos específicos (partes do corpo valorizadas ou escotomizadas, roupas, acessórios) de ambas as personagens, bem como prestar atenção à execução expressiva das mesmas (movimento, escurecimento, rapidez e qualidade do traço, hesitações do lápis, partes apagadas etc.). Com frequência, o modo de ressaltar o sexo das personagens nem sempre é claro e pede uma observação mais aprofundada. Perron e Perron-Borelli, no estudo citado mais acima, dão pistas de reflexão. Eles constatam, por exemplo, que crianças pequenas “tendem a desenhar maior a figura parental do mesmo sexo que o delas”. Já as mais velhas, 8-10 anos, utilizam sinais mais fáceis de distinguir quando desejam atribuir um sexo às representações de seres humanos: “comprimento e forma dos cabelos, roupas (em primeiro lugar as que na nossa cultura têm justamente a função de designar o sexo) e alguns aspectos somáticos cujassobredeterminações fantasmáticas são mais difíceis de decifrar: boca, pescoço, pés e sapatos, botões...” É possível comparar esses indícios a uma verdadeira linguagem gráfica – eles adquirem então valor de palavras. Apesar de tudo, em certos desenhos, é difícil reconhecer o sexo das duas personagens desenhadas; já em outros, a diferença é frequentemente estereotipada – em ambos os casos, vê-se uma forma de inibição da capacidade de elaborar a diferença dos sexos. Há também desenhos, em sua maioria realizados por meninos, em que a representação do sexo masculino fica bem clara e concreta, com um traço (Sh14), mais ou menos longo e mais ou menos forçado, entre as pernas da personagem masculina. Tal representação bruta evoca a prevalência do processo primário no aparelho psíquico, que não consegue suportar a excitação pulsional e recorre ao caminho mais curto, ou seja, a descarga da tensão psíquica. Sh14 Desenho realizado por um menino de 4 anos e meio Em outros casos, a tensão psíquica ligada à representação sexuada das personagens pode ser tolerada e investida – há desenhos em que as características que diferenciam as duas personagens surgem mais nuançadas, valorizadas e secundarizadas. Em todos os casos, parece útil fazer alusão aos indícios de diferença dos sexos (Sh15), que devem ser identificados pelo psicólogo junto com a criança, e deixá-la exprimir-se sobre o assunto. Sh15 Traçados de forma muito rápida, esses pais (Sh15) exibem acessórios que indicam nitidamente a diferença dos sexos: uma escova na mão da mamãe e uma barbicha no queixo do papai. Esses elementos são oriundos do imaginário da jovem desenhista, pois sua mãe tem cabelos bem curtos e seu pai não usa barba. O teste do boneco de Goodenough Como dito mais acima, as crianças demonstram espontaneamente um forte interesse por desenhos de personagens humanas. Em compensação, elas utilizam muito pouco por livre vontade a terminologia de “boneco” antes de entrar para a escola maternal. É o que nota J. Favez Boutonier (1953), que explica que a expressão desenho do boneco foi criada por adultos: Os trabalhos de Luquet já haviam chamado a atenção sobre a preponderância, dentre os primeiros desenhos das crianças, de “bonecos” ou, mais exatamente, figuras humanas. Isso porque acreditamos, pessoalmente, que a palavra “boneco”[30] seja sugerida pelos adultos, e não pelas crianças, pelo menos no estado atual da nossa sociedade. Crianças pequenas na frente das quais essa palavra não é pronunciada desenham figuras humanas que elas identificam com um moço, uma moça, o papai, um bebê, uma bruxa etc., dependendo dos recursos da experiência delas, mas “o boneco” parece-nos ser uma invenção de adultos... O teste do desenho de personagens humanas iniciado por Goodenough chamou a atenção dos psicólogos, de tão simples que são os procedimentos de aplicação e avaliação e de tão sólida que é a metodologia. Para F. Goodenough (1926), fica claro que “os desenhos infantis dependem sobretudo do desenvolvimento intelectual” e que, por conseguinte, com uma metodologia adequada (uma instrução, ficha de controle, classificação conforme a idade de desenvolvimento) e uma vasta amostragem (4.000 desenhos de alunos de Nova Jersey recolhidos em 1920), o teste do boneco ganha espaço dentre os testes usados para medir a inteligência de crianças, permitindo inclusive o cálculo do QI (veja mais abaixo uma crítica dessa concepção). Críticas ao teste do boneco Elas são, obviamente, de vários tipos. A primeira crítica diz respeito aos 51 itens selecionados para a avaliação. Eles privilegiam, de um lado, os desenhos conformes e precisos, nos quais os traços juntam-se com nitidez, e dão um bônus ao acúmulo de detalhes. A segunda crítica ressalta o fato de que as produções das meninas são melhores do que as dos meninos e que essa diferença é estatisticamente muito significativa. Ela é bem marcante desde os 4 anos de idade, visto que nessa faixa etária encontram-se somente 12% de “homens-girinos” nos desenhos das meninas e 51% nos dos meninos. Uma análise mais fina revela que essa superioridade das meninas destaca-se, em primeiro lugar, pela quantidade de elementos da representação e qualidade das execuções, em segundo, pela figuração das roupas e, por fim, em menor proporção, pela organização do esquema corporal e dinamismo (PERRON & PERRON-BORELLI, 1996). Essa crítica parece-me ser mais fundamental, pois a autora pretendia, a partir de um teste único, em certa medida trivial – trata-se apenas de desenhar a lápis, em uma folha, em alguns minutos, um boneco –, avaliar a inteligência. É claro, todos nós, pais, professores e psicólogos, sabemos que “as representações de personagens humanas modificam- se e enriquecem-se ao longo do desenvolvimento” (DEBRAY, 2000), mas também sabemos que tal enriquecimento dos desenhos não progride com a mesma velocidade em todas as crianças e depende de muitos fatores – família, educação, habilidade gráfica, gosto pessoal – que não estão ligados ao desenvolvimento cognitivo e intelectual. Por isso, não me parece aceitável converter, de uma maneira ou de outra, um número de pontos obtidos ao se julgar um desenho em uma idade mental ou uma idade de desenvolvimento e, obviamente, a fortiori, um QI. A avaliação dos processos cognitivos ou do funcionamento intelectual necessita, é claro, de testes específicos e diversificados, em grande quantidade e construídos com base em um modelo teórico reconhecido e comprovado. Em compensação, pode ser perfeitamente aceitável e útil para o psicólogo poder objetivar a riqueza de um desenho singular e compará- lo às produções de uma amostragem composta de sujeitos da mesma idade. Assim, no contexto de uma pesquisa ou de um exame psicológico, o teste do boneco de Florence Goodenough, apesar de seus limites, pode muito bem ser aplicado em crianças pequenas até por volta dos 7 ou 8 anos de idade. O teste do boneco É por essa razão que eu vou retomar mais abaixo os 51 itens originais de Florence Goodenough e apresentar a classificação em quartis que eu realizei com 144 desenhos recolhidos em 2011 em turmas de escolas maternais e primárias. A avaliação do desenho de bonecos de Goodenough baseia-se em 51 itens que permitem obter o mesmo número de pontos. Eu copiei, entre parênteses ao lado dos itens ambíguos, as dicas de avaliação dadas pela autora. São avaliáveis “todos os desenhos em que se pode reconhecer um corpo humano, por mais grosseiro que ele for”. Gostaríamos de ressaltar que, para que a avaliação faça sentido, o examinador deve demonstrar rigor e só atribuir pontos se os critérios forem bem-atendidos. (Extraído do livro Measurement of intelligence by drawings) 1. Presença da cabeça. 2. Pernas presentes. 3. Braços presentes. 4a. Tronco presente. (Qualquer indicação do tronco e mesmo através de uma única linha reta.) 4b. Tronco mais comprido do que largo. 4c. Ombros indicados. (Neste item é preciso rigor na hora de dar um ponto, não se deve aceitar a forma elíptica comum... Um tronco perfeitamente retangular nunca dá direito a ganhar um ponto, a menos que os ângulos sejam arredondados...) 5a. Ambos os braços e ambas as pernas ligados ao tronco (em qualquer parte... no pescoço ou na junção da cabeça com o tronco). 5b. Pernas ligadas ao tronco. Braços ligados ao tronco no lugar certo. (Deve-se conceder um ponto, e de forma bem rigorosa, sobretudo se 4c tiver sido negativo.) 6a. Pescoço presente. 6b. Linhas do pescoço continuando as da cabeça, do tronco ou de ambos. 7a. Olhos presentes. 7b. Nariz presente. 7c. Boca presente. 7d. Nariz eboca ao mesmo tempo; dois lábios indicados. (Deve-se tolerar qualquer figuração em duas dimensões – ou seja, condensada – da forma real do nariz. Um triângulo equilátero grosseiro dá direito a um ponto se a base estiver embaixo. A boca dá direito a um ponto se for desenhada em duas dimensões e se houver uma linha separando os dois lábios.) 7e. Narinas indicadas. (Um nariz representado por dois pontos só dá direito a um ponto em 7e e 7b, mas não dá nada em 7d.) 8a. Presença de cabelos. 8b. Cabelos ultrapassando a circunferência da cabeça e sem transparência (a cabeça não deve aparecer através dos cabelos). A representação deve ser melhor do que um rabisco. 9a. Roupas presentes. (Em geral, as primeiras indicações consistem em uma fileira de botões descendo no meio do tronco ou um chapéu...) 9b. Duas peças de roupa não transparentes. 9c. Desenho inteiramente sem transparência quando são representados paletó e calça. 9d. Quatro ou mais peças de roupa claramente indicadas (as quatro peças devem estar incluídas na seguinte lista: chapéu, sapatos, paletó ou casaco, camisa, colarinho, gravata, cinto ou suspensório, calça). 9e. Traje completo, sem ingenuidade (traje definido e reconhecível). 10a. Dedos indicados. (Eles devem aparecer nas duas mãos, se ambas estiverem presentes, mas, se houver apenas uma mão com dedos, deve-se atribuir um ponto.) 10b. Número exato de dedos. 10c. Dedos em duas dimensões, mais compridos do que largos e com um ângulo menor do que 180° entre si. 10d. Oposição do polegar (deve haver uma nítida diferença entre o polegar e os outros dedos – é preciso rigor ao atribuir um ponto). 10e. Mãos representadas de forma distinta dos dedos ou dos braços. 11a. Articulação dos braços, com cotovelo ou ombro ou ambos. (O cotovelo precisa estar dobrado – não arredondado – mais ou menos na metade do braço... é preciso haver uma curva no ponto de ligação para indicar o ombro.) 11b. Articulação das pernas, com joelho ou quadril ou ambos. (Assim como o cotovelo, o joelho precisa estar dobrado mais ou menos na metade da perna... Se as linhas internas das pernas se encontrarem no ponto de junção com o corpo, deve-se conceder um ponto. Crianças pequenas geralmente desenham as pernas bem-afastadas uma da outra.) 12a. Proporção da cabeça. (A superfície da cabeça deve estar compreendida entre a metade e um décimo da superfície do tronco.) 12b. Proporção dos braços. (Os braços devem ter o mesmo comprimento que o tronco ou ser ligeiramente mais longos, mas nunca devem descer até o nível dos joelhos.) 12c. Proporção das pernas. (O comprimento das pernas deve medir entre a altura do tronco e o dobro dessa altura.) 12d. Proporção dos pés. 12e. Braços e pernas representados em duas dimensões. 13. Calcanhar indicado. 14a. Coordenação motora. Linhas de tipo A. (Todas as linhas suficientemente firmes que se encontram, em sua maioria, nos pontos de junção, caprichosamente, sem estarem demasiado borradas e nem sobrecarregadas, sem espaços brancos demais entre as extremidades.) 14b. Coordenação motora. Linhas de tipo B. (Todas as linhas firmemente traçadas com os pontos de junção certos. Para atribuir um ponto aqui, deve-se fazer uma interpretação muito mais rígida das instruções dadas no item anterior.) 14c. Coordenação motora. Linhas da cabeça. (Só se concede um ponto se a forma da cabeça tiver sido executada de forma mais complexa do que um círculo ou uma elipse grosseira.) 14d. Coordenação motora. Linhas do tronco. (Deve-se aplicar ao tronco as mesmas observações que no item anterior.) 14e. Coordenação motora. Braços e pernas. (Os braços e as pernas não devem apresentar irregularidades e nem estreitamento no ponto de junção com o corpo. Todos os braços e as pernas devem ser representados em duas dimensões.) 14f. Coordenação motora. Traços do rosto. (Os traços devem ser simétricos. Os olhos, o nariz e a boca devem ser desenhados em duas dimensões. Nesse quesito, é mais fácil dar um ponto para os desenhos de perfil do que para os de face.) 15a. Orelhas presentes. 15b. Orelhas presentes na posição e proporção corretas. (A orelha deve ser mais comprida do que larga. Nos desenhos de perfil, é preciso haver alguns detalhes, como um ponto para figurar o canal auricular.) 16a. Detalhe dos olhos. Sobrancelhas, cílios ou ambos. 16b. Detalhe dos olhos. Pupila indicada. 16c. Detalhe dos olhos. Proporções. (O olho deve ser mais comprido do que largo.) 16d. Detalhe dos olhos. Olhar para frente nos desenhos de perfil (o desenho deve ser de perfil, e o olho deve ser desenhado em perspectiva). 17a. Testa e queixo indicados. (Nos desenhos de face, devem estar presentes os olhos e a boca e deve restar um espaço suficiente acima dos olhos para figurar a testa, bem como abaixo da boca para representar o queixo. Deve-se ter cautela na hora de dar um ponto.) 17b. Avanço do queixo. (Só se atribui um ponto em desenhos de perfil. No entanto, também se deve dar um ponto em desenhos de face se o contorno do queixo for indicado de alguma maneira.) 18a. Desenho de perfil com no máximo um erro. (Só se pode tolerar um dos seguintes erros: uma transparência; pernas desenhadas de frente, e não de perfil; braços ligados aos contornos das costas e estendendo-se adiante.) 18b. Perfil correto. (O desenho deve ser executado realmente de perfil, sem erro, nem transparência, exceto na forma dos olhos, que pode ser ignorada.) Classificação em quartis A classificação foi realizada por Joseph Collot (psicólogo do sistema educacional na cidade de Moulins, França), em janeiro e fevereiro de 2011, junto a uma população urbana e rural de 147 sujeitos (68 meninos e 79 meninas) de 4 a 7 anos de idade. QUADRO 5.1 Tabela de classificação do desenho do boneco (COLLOT, 2011) Crianças de 4 anos Q4 De 4 a 6 pontos Q3 De 7 a 9 pontos Q2 De 10 a 11 pontos Q1 De 12 a 14 pontos Média = 9,1 – Desvio padrão = 2,8 Crianças de 5 anos Q4 De 5 a 7 pontos Q3 De 8 a 9 pontos Q2 De 10 a 11 pontos Q1 De 12 a 16 pontos Média = 9,8 – Desvio padrão = 2,3 Crianças de 6 anos Q4 De 6 a 10 pontos Q3 De 11 a 12 pontos Q2 De 12 a 13 pontos Q1 De 13 a 16 pontos Média = 11,8 – Desvio padrão = 1,8 Exemplo de avaliação O exemplo apresentado abaixo ensina a avaliar o desenho do boneco, de acordo com as indicações de Goodenough, e caracterizar o desempenho do sujeito, a partir da classificação Collot de 2011. Sh16 Desenho realizado por um menino de 5 anos e meio QUADRO 5.2 Tabela de avaliação dos itens Item Avaliação Item Avaliação Item Avaliação Item Avaliação Item Avaliação 1 2 3 4a 4b 4c 5a 5b 6a 6b 7a + + + + + + 7b 7c 7d 7e 8a 8b 9a 9b 9c 9d 9e + + + 10a 10b 10c 10d 10e 11a 11b 12a 12b 12c 12d + + 12e 13 14a 14b 14c 14d 14e 14f 15a 15b 16a + + 16b 16c 16d 17a 17b 18a 18b O desenho do boneco acima obtém, é claro, os pontos correspondentes aos itens 1, 2, 3 e 4a, mas o item 4b (tronco mais comprido do que largo) obviamente não é marcado, bem como os outros itens da série 4. O item 5a (braços e pernas ligados ao tronco) é marcado, mas não o 5b, pois braços e pernas não estão ligados ao tronco no lugar certo. Nota-se que o nariz e a boca não estão em duas dimensões, os cabelos não ultrapassam a circunferência da cabeça (item 8b), e a personagem não está vestindo roupas. Marcamos o item 10a, relativo à presença de dedos, mas, é óbvio, todos os outros itens a respeito do número exato de dedos, detalhes corretos dos mesmos ou oposição do polegar não podem ser avaliados positivamente. Os dois últimos itens marcados são o 12e (braços e pernas em duas dimensões) e o 14a (coordenação motora, linhas de tipo A). Porém, todos os outros itens envolvendo uma coordenação motora mais fina não podem ser avaliados positivamente. Com base na avaliação sugerida por Goodenough,o desenho em questão obtém um total de 13 pontos, que corresponde, referindo-se à classificação Collot de 2011, a um desempenho situado no Q1 das crianças de 5 anos. DESENHOS DA FAMÍLIA Quando a criança atinge o estádio do boneco-avatar, o foco do desenho e da representação não é mais construir uma imagem de si, mas sim colocá-la em relação, mesmo implícita, com o ambiente da criança e, em especial, com os primeiros objetos de investimento, isto é, os membros da família. Logo, em seu curso natural, em determinado momento da evolução de seu autor, o desenho coloca em cena pai, mãe, irmãos, ascendentes e colaterais, relações filiais e fraternas. Na maior parte das vezes o estabelecimento de relações é parcial: observa-se então uma representação da criança com um ou vários membros da família, raramente com a família completa. Às vezes, a família é representada quase por completo na ausência, porém, da criança que desenhou. O desenho adquire então o valor de uma fotografia na qual está evidentemente ausente o fotógrafo. Família imaginada, família real Na maior parte das vezes também, a família desenhada apresenta uma diferença com a família real, tal como ela pode ser descrita por um observador exterior. O desenho é uma fantasia, ou seja, a resultante de moções inconscientes ao contato com o real materializado pela representação gráfica. Por isso, a maioria das representações que, em certa medida, têm a ver com a família afasta-se do real da genealogia ou do estado civil, expondo, através das relações familiares e/ou fraternas, uma certa forma da realidade psíquica da criança. É este último aspecto que dá ao desenho da família toda a sua riqueza e importância para acessar o funcionamento psíquico do sujeito no interior de seu ecossistema familiar. Muito cedo, diversos psicólogos clínicos interessaram-se pela representação gráfica da configuração familiar. Já em 1926, Sophie Morgenstern, uma das primeiras psicanalistas infantis a utilizar desenhos em terapias, trata o caso de Jacques, um menino de 9 anos e meio afetado por um mutismo psicogênico. Quando ela o recebe em consulta, já faz um ano que o garotinho não fala mais com o pai e quatro meses que não diz nenhuma palavra. Obviamente, o desenho impõe-se para o tratamento: Logo na primeira sessão eu lhe pedi para desenhar. Eu dava a seus desenhos interpretações, as quais Jacques aprovava ou desaprovava por meio de acenos de cabeça. Foi assim que eu consegui ajudá-lo a exprimir seus conflitos inconscientes. A terapeuta incita-o então a desenhar e sugere-lhe inclusive representar “os aborrecimentos que ele havia tido com o papai”. Para atender a esse pedido, Jacques desenha, de modo relativamente realista, toda a sua família aos prantos por causa de seu mutismo. Várias vezes durante a terapia, por vontade própria ou a pedido de Sophie Morgenstern, o menino coloca em cena membros de sua família, imediatamente identificáveis ou transformados, deslocados em outras representações. Para a psicanalista, o desenho da família não é, evidentemente, utilizado como um teste, mas surge naturalmente no desenrolar da terapia da criança, pois permite representar o contexto familiar, que é, como bem sabemos, o primeiro lugar de interações privilegiadas, projeções, identificações e conflitos ligados às primeiras emoções. As origens do teste Mais tarde, Françoise Minkowska (1945) pede, de forma relativamente sistemática, para seus jovens pacientes desenharem uma casa e depois a família deles, mas é com Daniel Porot (1952) que o desenho de família torna-se um verdadeiro teste. Esse autor toma o partido de considerar o teste do desenho da família como um teste projetivo e codifica as regras de sua aplicação: ele pede para a criança desenhar sua família e, para isso, entrega-lhe um suporte de papel e um lápis preto. Enquanto a criança estiver realizando o desenho, o psicólogo a observa e anota a ordem de chegada das personagens, as rasuras e os arrependimentos. A análise da produção pronta focaliza-se em especial nos lugares de destaque e no tamanho das personagens. A ideia subjacente é que uma personagem assim privilegiada, desenhada primeiro na folha, em um lugar de destaque (no canto superior esquerdo, por exemplo) e de tamanho maior do que as outras é a pessoa mais investida pela criança. Após esses precursores, muitos outros autores elaboraram outras versões do teste inicial de Porot. Eu selecionei três que, a meu ver, marcaram a evolução do teste do desenho de família. São os trabalhos de Louis Corman, Colette Jourdan-Ionescu e Joan Lachance e uma versão um pouco diferente de Roger Perron e Michèle Perron-Borelli. Representações da família Louis Corman, o teste do desenho de família como um teste de personalidade Duas convicções movem L. Corman (1964) em suas pesquisas sobre desenhos: a primeira decorre de sua prática pedopsiquiátrica, na qual ele observa a frequência das “dificuldades de adaptação da criança ao seu ambiente familiar”, e a segunda reside em um verdadeiro interesse pelo desenho como meio de expressão livre, em especial o desenho da família, “que permite que a criança projete para fora as tendências reprimidas em seu inconsciente e que, assim, pode revelar-nos os verdadeiros sentimentos que o sujeito alimenta pelos membros da sua família”. O método proposto por Corman Manifestamente, para ele, “o desenho de família é, portanto, um teste de personalidade [que ele interpreta] baseando-se nas leis da projeção”. Para isso, o desenho deve ter uma instrução aberta, permitindo projeções. Embora Corman inscreva seu trabalho na continuidade do de Porot, ele difere notavelmente de seu predecessor ao elaborar uma instrução que recorre muito mais ao imaginário. Em vez de pedir um desenho da família real da criança, ele propõe: “Desenhe uma família, a família que você imaginar” ou então “imagine e desenhe uma família inventada por você”. A padronização do teste também é bastante flexível – Corman insiste sobre a necessidade de deixar a criança à vontade, mas não indica dimensões específicas para o papel e sugere, para a realização, lápis preto ou lápis de cor, à escolha do psicólogo. Em seguida, o autor enfatiza a maneira como se constrói o desenho, que, para ele, tem quase tanta importância quanto o resultado final: Deve-se notar em que lugar da folha e por qual personagem a criança começou a desenhar. A ordem na qual os diversos membros da família são desenhados é, de fato, muito importante. [...] Também são importantes o tempo levado para desenhar tal ou tal personagem, o capricho dado aos detalhes ou às vezes uma tendência obcecante a voltar constantemente à mesma figura. Corman sublinha que o desenho pode já estar terminado, mas não o teste. De fato, “é preciso reduzir ao mínimo possível a parte de interpretação pessoal do psicólogo” e, para isso, parece ser indispensável uma consulta pós-teste. A análise do desenho sugerida por Corman ocorre em três etapas: 1) Descrição: deve-se pedir para a criança descrever cada uma das personagens desenhadas, seu lugar na família, sexo e idade. 2) Preferências afetivas: o sujeito deve indicar por quem sente simpatia ou antipatia. Depois, com um pouco mais de distância, designar a personagem da família mais feliz e, obviamente, a menos feliz. 3) Identificações: o autor aplica aos desenhos de família seu método de preferências-identificações, aperfeiçoado com o teste Pata Negra. O sujeito é então levado a envolver-se mais profundamente com a família imaginada, identificando-se a uma das personagens: “Quemseria você?” Obviamente, Corman recomenda uma consulta semiestruturada para conversar sobre desenhos de famílias imaginadas. Caso a criança tenha realizado sua família real, é necessário adaptar tal consulta. A última etapa do método de Corman consiste em considerar, junto com a criança, seu próximo desenho de família. Será que ela vai fazer a mesma coisa? Caso contrário, que modificações ela vai introduzir no desenho inicial? Como direi um pouco mais adiante, na parte intitulada Desenhos de famílias imaginadas, a consulta que eu costumo conduzir é menos diretiva do que a sugerida por Corman. A partir da minha prática clínica de exames, eu acho que um questionamento demasiado rígido rompe o processo associativo e não favorece nenhuma fantasia, aspecto lúdico necessário para estabelecer uma tela de projeção. Eu mantenho, porém, a questão final de Corman, que pergunta se a criança está, ou não, satisfeita com o que ela desenhou. Isso a estimula a deixar de lado o mecanismo de projeção e lançar sobre o desenho um olhar distanciado. Interpretação Corman distingue três planos de interpretação: • O plano gráfico, que tradicionalmente engloba a força do traço (espessura, grau de escurecimento ligado à audácia, violência de um lado ou então suavidade e mesmo inibição de outro), o ritmo do traço (estereotipia) e a zona da página ocupada pelo desenho. Mais interessante ainda, Corman insiste nas “zonas em branco”, sem grafismo, as quais ele interpreta como espaços de censura. • O plano das estruturas formais, no qual se observa, de um lado, a maturidade, o grau de perfeição da produção (avaliado a partir da análise do desenho do boneco) e, de outro, a “estrutura formal do grupo de personagens figuradas, suas interações mútuas e o contexto, estático ou dinâmico, no qual elas evoluem”. • O plano do conteúdo e a interpretação psicanalítica. Para Corman, a subjetividade predomina em desenhos de família, e a criança “comporta-se como um artista, representando em seu desenho não sua verdadeira família, mas uma família de acordo com seus desejos”. O sujeito exprime então suas inclinações afetivas sob a forma de tendências positivas (investindo um objeto privilegiado ao valorizá-lo no desenho) ou negativas (desvalorizando um objeto pelo qual sente desprezo ou ódio). O autor estabelece um paralelo entre o princípio de prazer, o qual ele associa à família imaginária, e o princípio de realidade, que, ao dominar o funcionamento psíquico do sujeito, leva-o a fazer um desenho exatamente comparável à sua família real. C. Jourdan-Ionescu e J. Lachance, testes do desenho da família A grande originalidade da perspectiva desses dois autores é ter formalizado e codificado ainda mais o teste do desenho da família, sugerindo uma grelha de avaliação que se adapta a diferentes instruções: “desenhar uma família, sua própria família, sua família em atividades, uma família imaginária, sua família de origem etc.” C. Jourdan-Ionescu e J. Lachance fornecem previamente ao sujeito uma folha em formato paisagem e somente lápis de cor. O tempo de execução do desenho é cronometrado. Depois, uma vez pronto o desenho, o psicólogo pede para o sujeito denominar sua família e escrever, acima de cada personagem, o nome, idade, sexo, bem como o laço de parentesco. Por fim, a criança deve dizer a qual membro ela se identifica: “Que personagem você gostaria de ser?” Os autores também recomendam fazer algumas das perguntas sugeridas por Corman. Tradicionalmente, os autores aconselham os psicólogos a observarem o sujeito profundamente durante a execução do desenho: sua aparência, linguagem, atitude de espontaneidade, iniciativa ou retraimento, vontade de autonomia, maneira de relacionar-se, adaptação à situação de teste, grau de cooperação, grau de atenção, nível de ansiedade, comentários e respostas às perguntas feitas anteriormente. Depois, deve-se proceder a uma análise e codificá-la na grelha de avaliação[31]: • Família desenhada, família real. O primeiro ponto consiste em comparar a família desenhada com a família real, tal como ela poderia ser descrita por um observador exterior. Observa-se, evidentemente, a valorização (através do tamanho, por exemplo) ou desvalorização (através da ausência) de uma ou várias personagens. Uma omissão frequentemente indica um afeto de rejeição a uma pessoa, enquanto o acréscimo de um ser humano que não pertence à família real pode ser compreendido como um deslocamento ou camuflagem de si mesmo através de uma censura. • Nível de desenvolvimento. “Esse item visa situar o nível de desenvolvimento do desenho da personagem mais bem executada.” Os autores sugerem basear-se na avaliação de Goodenough para julgar o nível de desenvolvimento da personagem mais bem desenhada. Eu estou convencido, como já mostrei no capítulo sobre o desenho de seres humanos, que a avaliação elaborada por Florence Goodenough é demasiado antiga e, portanto, não pode ser utilizada. • Aspecto global. Os autores prestam atenção: - ao posicionamento, sentido de utilização da folha, qualidade do desenho (equilibrado ou não), sua situação na página (localização dos elementos no espaço gráfico); - ao tamanho dos membros da família (os profissionais devem medir com precisão as diferentes personagens, bem como as partes de cada corpo), às proporções do tronco e da cabeça, dos braços e das pernas; - ao tipo de traço (contínuo, leve, pressionado, esmaecido etc.); - à disposição, ou seja, ao alinhamento global do desenho, distância e hierarquia (organização que o sujeito atribui à família) entre as personagens; - à perseveração (estereotipia dos componentes); - aos fatores regressivos, regressão simplificação (desenho simplificado), fragmentação (presença de elementos dissociados), escotomização (personagens ausentes, apesar de haver espaço disponível), esquisitices; - à disposição de cada uma, equilíbrio, apresentação da silhueta, posição das partes do corpo, posturas e movimentos, simetria; - às cores, utilização ou não de cor, tipos de cor, nuanças; - à expressão das personagens (sorridentes, tristes, preocupadas, agressivas, reprovadoras, plácidas, estranhas etc.). • Detalhes. Os autores prestam atenção: - ao tipo de detalhes: essenciais, acessórios, adicionais ou incomuns; - aos detalhes corporais: cabelos, cabeça, expressão do rosto, sobrancelhas etc.; - à forma de dar sexo às figuras: Como a valorização do sexo de uma personagem é enfatizada? - a elementos adicionais, roupas, acessórios. • Aspecto clínico. Os autores prestam atenção: - a valorizações ou desvalorizações: Que membros da família ganham destaque ou, ao contrário, são diminuídos e mesmo ignorados? - a identificações: A qual personagem o sujeito identifica-se? - à organização da personalidade: O desenho é expressionista, racional? Que modalidades do funcionamento psíquico ele reflete? - às relações entre as personagens, posições respectivas e inter- relações entre si. A grelha de avaliação elaborada por C. Jourdan-Ionescu e J. Lachance é fruto de um enorme trabalho de análise dos componentes de desenhos de família. No entanto, ela parece demasiado exaustiva e complicada para permitir, em uma perspectiva psicodinâmica da personalidade, realizar uma síntese de todos os elementos notados. Deve-se selecionar alguns itens, conservando, ao mesmo tempo, uma perspectiva global, pois senão há um risco de perder de vista o próprio sentido do teste, que é compreender o funcionamento psíquico de um sujeito em suas relações familiares. R. Perron e M. Perron-Borelli, desenhos de crianças com o pai e a mãe Originalmente, a abordagem de R. Perrone M. Perron-Borelli (1996) inscreve-se em uma experimentação que tem como objetivo identificar os significantes da diferença sexual nos desenhos. Assim, os autores pediram para crianças desenharem “uma criança com seu pai e sua mãe”. Essa instrução incita a diferenciar três personagens, de acordo com a dupla dimensão que pretendemos estudar: a diferença de sexos – comparando desenhos que representam o pai e a mãe – e a diferença de gerações – comparando a criança aos dois adultos, considerados então pelo que eles têm em comum. Porém, além disso, é possível observar se o desenhista utiliza, para indicar o sexo da criança, as características que ele atribuiu aos pais. No final, procedemos, portanto, a uma análise dos três lados do triângulo, das três personagens, e isso com cada desenhista: ou seja, uma análise das possíveis expressões da problemática edipiana, em seus aspectos mais gerais. A experimentação envolveu 600 sujeitos de ambos os sexos, com idades entre 4 e 10 anos. Os autores notavam a ordem de execução das personagens e depois recebiam cada sujeito em consulta para descobrir “suas intenções e o sentido de suas produções”: • Onde estão o papai, a mamãe e a criança? • A criança é menino ou menina? • Quem está mais bem desenhado, quem é o mais bonito? • Ao lado de quem está a criança? Eles gostam de estar juntos? O que eles gostam de fazer juntos? • Com quem a criança prefere estar? • Como dá para ver que é um papai? Uma mamãe? • Será que eles poderiam ser o seu papai e a sua mamãe? Obtêm-se os resultados dessa experimentação através de duas grelhas de avaliação, a primeira focalizada na evolução gráfica, e a segunda, nas diferenças e semelhanças das personagens consideradas duas a duas. Nessa pesquisa, eu considero importante o que diz respeito à diferença dos sexos e das gerações, que, como vou explicar mais adiante, está realmente no âmago do desenho de família. Contudo, antes de discutir esse aspecto, R. Perron e M. Perron-Borelli dão referências estatísticas quanto à ordem de execução das três personagens. Essa ordem é primordial, como já vimos com L. Corman e C. Jourdan-Ionescu e J. Lachance, que atribuem, em sua interpretação, grande valor ao primeiro ser humano representado. A questão que eu levanto é a seguinte: será que a escolha da primeira personagem posta na folha deve ser analisada como uma expressão da originalidade ou singularidade da relação do sujeito com tal pessoa ou interpretada como um reflexo do funcionamento normal de crianças incentivadas a desenharem essas três personagens? A questão é, no fundo, essencial, pois condiciona futuras interpretações que, conforme a resposta dada pelos autores, poderiam ser qualificadas de “selvagens”. Logo, caricaturando certos psicólogos, dispostos a confirmar significados, o fato de desenhar primeiro a criança poderia parecer a expressão de um ego extremamente forte. Por isso eu dou especial importância aos dados obtidos por R. Perron e M. Perron-Borelli: Constata-se que a personagem preferida, nesse sentido, é a criança, tendência que se afirma com a idade do desenhista; depois, vem a figura parental do mesmo sexo, pois a do outro sexo raramente é desenhada primeiro (e cada vez mais raramente à medida que o desenhista vai crescendo). Por conseguinte, cabe aos psicólogos demonstrar o máximo de prudência ao analisar desenhos de família e não tirar conclusões precipitadas sobre a ordem de surgimento das personagens. Na maior parte das vezes, o desenho começa então com a criança ou a figura parental do mesmo sexo. Porém, embora não seja representada primeiro com tanta frequência, a figura parental do outro sexo não deixa de se manifestar em proporções tamanhas (de 28% a 14%), que não se pode falar de patologia de identificação ou outra problemática específica. Espaço gráfico Da mesma forma, parece difícil exterminar ideias prontas sobre a localização das personagens na página. Os estudiosos sabem coisas, ou melhor, repetem coisas sem verificar corretamente, desde Pulver (1931), grafólogo suíço, e depois Koch (1969), que elaboraram um esquema do espaço gráfico. Observa-se que o suporte é delimitado em quatro zonas, cada uma remetendo a interpretações com múltiplos fundamentos teóricos. Notam-se, por exemplo, referências à teoria das pulsões, dos estados do Eu, e à psicossociologia, mas o conjunto também é impregnado de representações culturais (lugar da mulher, sentido da escrita ocidental). De início, não se pode aceitar os qualificativos sugeridos por Koch, incutidos com uma concepção machista e arcaica das posições masculinas e femininas. As mulheres são assimiladas à passividade (talvez, na mente do estudioso, à da dona de casa) e ao passado; valores depressivos e mesmo negativos por excelência. No entanto, deixemos a palavra com R. Perron e M. Perron-Borelli: Embora, aos 4 anos, as três personagens pareçam estar frequentemente dispostas um pouco ao acaso na folha (e muitas vezes sendo grafismos pouco identificáveis ou homens-girinos), observa-se a partir dessa idade que, em um terço dos casos, elas são desenhadas em alinhamento horizontal da esquerda para a direita; a proporção sobe para 53% aos 5 anos e 63% aos 6 anos, estabilizando-se em seguida em torno de 75%. O aprendizado da escrita, sem dúvida alguma, desempenha um papel capital nessa evolução. Além disso, a ordem das personagens da esquerda para a direita não é aleatória (ela não necessariamente corresponde a uma ordem de execução, visto que uma personagem pode ser desenhada à esquerda de outra). A criança é figurada entre os pais na maioria dos casos (em 39% dos desenhos de meninos e 41% dos de meninas); constata-se então que a figura parental do mesmo sexo que o do desenhista fica, na maior parte das vezes, à esquerda da criança, e a do outro sexo, à sua direita. QUADRO 5.3 Interpretação das diferentes zonas do espaço gráfico segundo Koch Mãe Passado Zona da passividade Espaço do espectador da vida Zona de confronto ativo com a vida Pai Futuro Introversão Início, regressão, fixação em um estádio primitivo Estado ultrapassado Pulsões, instintos, conflitos Nostalgia da lama Extroversão Assim, de acordo com as conclusões dessa pesquisa, os meninos posicionam-se majoritariamente entre os pais e desenham o pai na zona que Koch atribui à “mãe”, ou seja, na zona da passividade e do passado. Minha experiência clínica, associada aos resultados desse estudo, levou-me, já há muito tempo, a abandonar completamente qualquer referência a esse esquema do espaço gráfico elaborado por Koch. Eu não estou dizendo, apesar disso, que o posicionamento no espaço do suporte é aleatório e que representar tal ou tal membro da família em uma parte bem delimitada da folha, que valoriza ou relega, não carrega um sentido latente que é preciso reconhecer. Por outro lado, na minha opinião, aplicar sistematicamente uma grelha de interpretação, tal como uma chave dos sonhos, é um erro que impede um verdadeiro encontro com o sujeito singular tratado em terapia ou avaliado em exame. A forma de dar sexo às personagens Ao cabo do estudo, R. Perron e M. Perron-Borelli ressaltam que desde a mais tenra idade, a partir de 4 anos, as crianças especificam o sexo das figuras de modo principalmente sincrético, através da dimensão (o pai é maior, a cabeça é comprida) e dos detalhes do rosto (em especial os olhos e a boca). É claro que essas diferenças só são perceptíveis quando ambas as personagens são representadas e identificadas pela criança e quando podemosentão compará-las. Entretanto, tais diferenças não bastam para um profissional desatento identificar o sexo de uma personagem única. Para isso, é necessário basear-se em “indicadores semânticos”, que podem ser detalhes corporais significativos (pescoço, pés, cabelos) ou roupas e atributos (vestidos, calças, forma do corpo em trapézio ou triângulo). Para os estudiosos, “esses indícios constituem uma verdadeira linguagem gráfica da diferença dos sexos e adquirem valor de palavras. Os aspectos globais da representação, através dos quais a criancinha indica o sexo de suas personagens, desempenham, nesse plano, apenas um papel relativamente reduzido”. Isso quer dizer que, enquanto crianças mais jovens, por volta dos 4 ou 5 anos, figuram a diferença dos sexos através do tamanho (o pai é maior), crianças um pouco mais velhas não recorrem a um aumento da figuração masculina. Na realidade, para crianças mais velhas ou jovens muito evoluídos, a escolha da personagem que será desenhada com tamanho maior está ligada ao sexo do autor do desenho: as meninas, em sua maioria, representam a mãe maior do que o pai, ao passo que os meninos fazem o contrário. Aqui, mais uma vez, essa conclusão é, a meu ver, muito importante para ajudar os psicólogos a procederem à análise do desenho de família, que, muitas vezes baseada em ideias a priori, propõe interpretações abusivas e sem fundamento. Fam1 Desenho espontâneo (Fam1) de uma menina bem pequena, que havia acabado de completar 4 anos, mostrando justamente o quão uma análise fina e singular é necessária. Ela figura seus avós: a “Vovó” à esquerda e o “Vovô” à direita. Uma leitura demasiado superficial poderia levar a crer que se trata de duas representações femininas, pois as personagens têm cabelos longos e estão usando colares. No entanto, quando a questionamos, a garotinha declara que a representação à esquerda é feminina (e maior, como notam R. Perron e M. Perron- Borelli), tem cabelos louros, usa batom e várias bijuterias (o que é representado não são as orelhas, mas sim os brincos), e a que está à direita é masculina, tem cabelos pretos e usa uma correntinha. Logo, sempre é necessário terminar uma sequência de desenho com uma consulta, a fim de compreender bem o lugar das personagens. Desenhos de famílias imaginadas A necessidade de uma instrução aberta Em minha prática clínica, eu entendi a importância de estabelecer a instrução mais aberta possível, pois o exercício que consiste em evocar uma família, frequentemente em estreita relação com a da criança, traz uma carga emotiva considerável, a qual devemos levar em conta. Negá- la significa correr o risco de expor o sujeito a uma impossibilidade de elaborar e acionar massivamente os mecanismos de defesa. Negá-la é, por exemplo, pedir para uma criança representar sua família “real”, enquanto que ela experimenta dentro de si própria uma deslocação do grupo familiar, súbita ou embrionária, que gera angústias de perda no melhor dos casos – e mesmo de aniquilamento nos sujeitos menos estruturados. Negá-la também é ignorar as novas famílias: monoparentais, recompostas e mesmo homoparentais. Negá-la é, por fim, levar uma criança adotada ou oriunda de outra cultura a produzir representações conformes e correspondentes, a seu ver, às expectativas dos adultos. Por isso, eu sempre peço para as crianças que eu recebo em consulta desenharem uma família imaginada, inventada. Essa instrução apresenta, a meu ver, uma tripla vantagem: ela está em maior sintonia com as novas configurações familiares, permite expressar particularidades culturais e, por fim, abre mais espaço para fantasias, projeções e em especial complexos fraternais. As novas configurações familiares Desde o final do século XVIII na Europa, “novas famílias” passaram a constituir-se, não mais pela reunião de bens ou serviços, mas sim por amor, que se tornou o fundamento delas. O amor permite formar casais de pais e atingir a satisfação sexual genital, depois se transforma em “ternura inibida em seu alvo” (FREUD, 1930), tornando-se então o cimento da unidade familiar. Esse tipo de família, cuja unidade repousa, originalmente, em sentimentos – valores frágeis por excelência –, sofre, há várias décadas, mudanças radicais e reorganizações. Não se pode mais sustentar o discurso de Durkheim de 1888: “O grupo que é o mais simples de todos e cuja história é a mais antiga: a família”. As configurações familiares contemporâneas muitas vezes são oriundas de reorganizações após separação ou divórcio ou provenientes das profundas revoluções da nossa sociedade. Há famílias recompostas ou monoparentais ou ainda com crianças criadas por casais homossexuais, que “se questionam igualmente sobre os laços entre filiação e autoridade parental. Nesses últimos anos, o uso do termo de parentalidade difundiu-se amplamente, bem como o de homoparentalidade. A parentalidade engloba uma função de responsabilidade, proteção e educação da criança, distinguindo-se de parentesco, que remete a uma relação de filiação. [...] a uma posição jurídica” (REBOURG, 2000). Para o psicanalista François Marty (2003), o processo de parentalidade ocupa um lugar central na família e tem origem nas primeiras relações de objeto: A parentalidade é uma das figuras da relação de objeto que une o sujeito ao seu filho. A parentalidade funda-se em uma função psíquica e biológica: assegurar o desenvolvimento e o bem-estar do filho. A parentalidade alude ao caráter interativo dessa relação e pode distinguir-se em maternalidade (RACAMIER, 1961) e paternalidade, termos que designam o trabalho psíquico que se efetua em cada membro do casal que se torna mãe ou pai. A parentalidade de um sujeito enraíza-se em sua história; observam-se as premissas desse processo desde a infância, quando a criança brinca de boneca ou de “papai e mamãe”, por exemplo. O futuro pai constrói-se a partir de um entrelaçamento complexo de identificações, oriundas, por sua vez, de encontros com figuras paternas na infância (KONICHECKIS, 1999). Estima-se assim o quão essa capacidade de se projetar em um papel parental está intimamente ligada à sexualidade e às representações veiculadas no espaço familiar de cada criança. Assim, o conceito de família, que pensamos conhecer em termos de laços jurídicos ou filiais, mostra uma face muito mais complexa nas práticas reais da parentalidade. Além disso, existem configurações familiares que poderíamos qualificar de proteiformes. Estou referindo-me aqui em especial a algumas famílias de países subdesenvolvidos, que seguem um modelo dito familialista, composto de solidariedade entre os membros de um grupo mais vasto e de uma divisão do trabalho, às vezes rígida, entre os sexos. Essas famílias são proteiformes, pois, quando moram em países desenvolvidos, com frequência são nucleares, mas voltam a ampliar-se durante as férias ou ao voltarem “à terra natal”. Enfim, há famílias que adotam crianças, em seu país ou no exterior, ou cujos filhos foram concebidos por fecundação in vitro com doador. Todas essas configurações permitem que a socióloga Bawin-Legros (1996) escreva que já foi o tempo “em que as famílias mostravam-se essencialistas, institucionais, naturais e, em sua maioria, uniformes”. O campo fechado em que se situa a questão edipiana As configurações familiares evoluem, mas, como sublinha Jean Bergeret (2002), “também não deixa de ser verdade que, para os pacientes de Freud, bem como para os nossos, o contexto familiar (seja qual for a forma que lhe derem) sempre será um espaçode interações privilegiadas, permitindo estudar tanto as causalidades quanto as projeções que operam nos dois sentidos de interação: o que vai da família ao sujeito que nos está consultando e o que vai do sujeito à sua família”. E, obviamente, é o contexto edipiano que continua sendo essencial investigar e elaborar no desenho de família. “Todo ser humano vê-se na obrigação de controlar o complexo de Édipo; se falhar nessa tarefa, ele será neurótico”, escreve Freud em 1905. Eu não vou discutir aqui as sucessivas etapas da descoberta do complexo de Édipo, nem o mito de Édipo Rei ao qual Freud refere-se ao fazer um paralelo entre as emoções e sentimentos que crianças pequenas experimentam com relação aos pais – em especial à figura parental de sexo oposto – e a tragédia vivida por Édipo na obra de Sófocles. Em vez disso, nesta parte dedicada a desenhos de família, eu gostaria de debater as relações bem precoces que uma criança pequena estabelece com os pais e que a levam a orientar-se quanto à sua identidade sexual e filiação. Logo, para F. Marty (2008), o complexo de Édipo age, em certa medida, como um GPS, dando-nos pontos de referência psíquicos: O complexo de Édipo dá à criança suas coordenadas psíquicas, ao mesmo tempo em que descreve dentro dela um modo específico de investimento libidinal e escolha de objetos. [...] A proibição do incesto sela as relações entre os seres humanos, distinguindo os lugares (simbólicos) dos pais e dos filhos no seio da dinâmica familiar. O complexo de Édipo é, nesse sentido, um processo de simbolização que permite à criança identificar-se com relação ao seu pertencimento sexual, aos seus ascendentes e à sua filiação. Com Édipo, a criança confronta-se assim com a diferença dos sexos e das gerações. O desenho de uma família imaginada age então como um poderoso revelador do nível de elaboração das coordenadas psíquicas do sujeito. No desenho, manifesta-se a diferenciação dos sexos e das gerações mentalizada, profundamente integrada, distinta daquela descrita conscientemente pela mente racional. Todavia, também é preciso que o psicólogo saiba localizar os indicadores relevantes e simbólicos da inserção do sujeito em sua afiliação sexual e geracional. Desenhos de família levam igualmente a considerar as relações do sujeito com seus irmãos e, ao contrário, a rivalidade entre eles. Freud insiste sobre o ódio e a violência que presidem as relações fraternas: crianças pequenas não necessariamente amam seus irmãos e, em geral, não os amam nem um pouco. Em Além do princípio de prazer, o nascimento de um novo filho é a prova inequívoca da infidelidade da figura parental amada e o sinal indubitável, para o filho mais velho, do imenso desprezo que se tornou sua sina (BOURDELLON & KAMIENIAK, 2008). A filiação No que diz respeito mais especificamente à filiação, parece-me oportuno mencionar a pesquisa realizada por Marie-Claude Mietkiewicz (2005), que pediu para 310 alunos de 6 a 12 anos representarem seus avós. A instrução exata era: “Eu gostaria que você desenhasse para mim o seu avô e a sua avó”. O objetivo desse estudo era tentar responder a várias perguntas: “Que visão as crianças têm de seus avós? Como elas representam a si mesmas suas avós e seus avôs? Que funções lhes designam? Que papéis específicos lhes atribuem?” Essas são questões capitais para professores e psicólogos que trabalham com desenhos de família para identificar representações do passar do tempo, do salto de gerações e do envelhecimento. A pesquisa ocorre em duas fases. A primeira, coletiva, com uma atmosfera favorável e o apoio dos pesquisadores, consiste em representar um dos avós. A segunda, individual, incita cada criança a falar sobre seu desenho, no intuito de eliminar qualquer ambiguidade gráfica. As conclusões do estudo de Marie-Claude Mietkiewicz confirmam, em grande parte, o que os psicólogos costumam descobrir ao analisarem desenhos de família: Crianças mais novas marcam a diferença de idade através de uma diferença de tamanho, enquanto as mais velhas tomam o cuidado de representar os sinais do envelhecimento (em especial a cor dos cabelos, o uso de óculos, a presença de rugas) e figurar indicadores de gerações. Durante a consulta, a personagem designada como um dos avós é sistematicamente a maior, e a criança justifica o que, para ela, é evidente: a equação maior igual mais velho. Ela não ouve frequentemente os adultos ao seu redor dizerem que ela é pequena demais (jovem demais) para fazer igual ao seu irmão e à sua prima, que são maiores (mais velhos)? Eu não acho que seja preciso interpretar a ausência de indicadores de envelhecimento como uma prova de que a criança os ignora, mas sim como uma incapacidade de transcrevê-los através de sinais gráficos. Logo, os avós continuam sendo associados à velhice e, por conseguinte, também à morte – o que é consubstancial ao status deles: “Certas crianças (33 de 310) demonstram, através do desenho, a maneira como um de seus avós as confrontou com a mortalidade humana”. Essa observação é, a meu ver, preciosa para interpretar certos desenhos que colocam em cena uma ou várias personagens idosas. Dois desenhos raros, que me foram entregues por uma colega psicóloga, ilustram esse estudo de forma bastante comovente. São as produções de uma menina de 12 anos, que vai consultar não por causa de um problema de aprendizagem, mas sim uma queda de rendimento, falta de dedicação e de interesse pelas disciplinas ensinadas no colégio. Na realidade, durante as conversas e encontros, a psicóloga nota elementos depressivos, os quais são confirmados, assim me parece, pelos desenhos realizados. Utilizando uma abordagem pessoal, a psicóloga pede para ela produzir dois desenhos de família: o primeiro (Fam2), contrariamente à instrução de Corman, mostra sua família real ou, mais exatamente, a configuração atual da sua família. O segundo (Fam3), uma família imaginada, idealizada. Obviamente, o desenho da configuração familiar atual não nos surpreende. A psicóloga tomou conhecimento, da própria boca da mãe, que levava a filha às consultas, que a separação e a recomposição familiar, dois anos antes, ainda não haviam sido aceitas e nem elaboradas pela filha mais velha. E talvez dificilmente por ela mesma. Fam2 O primeiro desenho, o da família real (Fam2), é uma representação precisa e fatual da configuração atual. No lado esquerdo, a caçula, a mãe e a filha mais velha, autora do desenho. Na extremidade direita figuram o pai e, perto dele, sua companheira e as duas filhas desta última. Na realidade, esse desenho poderia parecer inútil, supérfluo, pois o aspecto descritivo do real predomina sobre a fantasia e a projeção. No entanto, é interessante notar alguns elementos: por exemplo, somente duas personagens estão isoladas, a filha mais velha e o pai, abrindo os braços como se quisessem reencontrar-se, apertar-se em um abraço com nuanças edipianas. É possível perceber, enfim, que a jovem autora do desenho representou a si mesma como uma adolescente com uma calça jeans remendada. O desenho seguinte (Fam3), que mostra uma família imaginada, consiste no desenho de uma família idealizada. Fam3 A utilização do imaginário exigida pela instrução funciona imediatamente – a autora representa uma configuração familiar que ela viveu quando era mais nova: mamãe e papai reunidos, ela, a mais velha, ao lado de seu pai. A fantasia pode correr solta quando se coloca em cena uma família imaginada. A autora tem, evidentemente, todos os direitos,como por exemplo o de transformar a irmã caçula, às vezes irritante na vida cotidiana, em um irmão mais novo, talvez mais conciliante. Ela também se permite ressuscitar um avô prematuramente falecido e, portanto, realizar o afresco da família “idealizada”, a qual ela gostaria que ainda existisse, como se o tempo tivesse parado. Embora todos os rostos de ambos os desenhos sejam afáveis e sorridentes, o conjunto não deixa de estar marcado pela nostalgia de um passado, de uma infância definitivamente extinta. Em uma perspectiva mais técnica, observa-se (Fam4 e Fam5) que a diferenciação das gerações é bastante evoluída, figurando sinais de envelhecimento tais como calvície, cabelos brancos ou barba (deve-se notar as qualidades expressivas demonstradas pela desenhista). Todos esses elementos são facilmente identificáveis no plano gráfico. Fam4 Avô de barba espessa e calvície avançada Fam5 Avó sorridente, certamente vaidosa, mas cujos cabelos embranqueceram irremediavelmente Desenhos de famílias imaginadas como testes projetivos Eu não vou repetir aqui a definição da projeção tal como eu a descrevi no capítulo dedicado aos desenhos no contexto de exames psicológicos. O que me parece relevante mencionar é que desenhos de famílias imaginadas, ao darem a maior liberdade possível para a criança representar como bem entender uma família inventada, permitindo liberdade psíquica e fantasia, oferecem “um meio de exteriorizar mecanismos e conteúdos internos, fornecendo, de certa forma, uma superfície de projeção” (ANDRONIKOF, 2008). E a criança se aproveita disso, lançando mão de tal liberdade (graças aos deslocamentos, por exemplo) para liberar-se dos mecanismos de defesa que restringem sua criatividade e exprimir características às vezes essenciais de seu lugar enquanto sujeito no seio da família. Os conflitos edipianos, é claro, estão especialmente presentes ali, a partir de toda uma trama de identificações cruzadas, aproximações e evasões. Os desenhos a seguir ilustram bem a liberação que pode operar-se através do mecanismo de deslocamento, permitindo tirar do centro – dissimular, de certa forma – as representações, tornando-as mais acessíveis e elaboráveis. Fam6 Família de marcianos (Fam6), solução de compromisso encontrada por um garotinho de imaginação fértil para colocar em cena uma família. Ele opera assim um deslocamento com ficção científica, e o aspecto estranho da família desenhada – cuja estrutura é, em todos os sentidos, semelhante à da sua própria família – permite-lhe, durante a consulta a respeito do desenho, exprimir um conflito fraterno causado por um ciúme edipiano. Fam7 Aqui (Fam7), o deslocamento opera-se através de um antropomorfismo. No início, não se trata de um desenho de família, mas sim de um desenho “livre” que uma garotinha de 8 anos realiza. Eu interpreto o pequeno grupo de árvores como sendo uma família que se assemelha muito à sua própria família. De imediato, entrando na brincadeira da fantasia consciente, a menina acrescenta em cada folhagem os rudimentos de um rosto humano. Durante a consulta que se sucede, ela cita a separação familiar em andamento, sua tristeza e sua proximidade com o pai. Nota-se que, embora pai e filha não estejam perto um do outro no espaço da folha, eles têm em comum um rosto triste, enquanto a mãe e o caçula exibem um largo sorriso. Fam8 Representação de uma “família do céu”, resposta de uma menina de 7 anos, precoce no plano intelectual, ao lhe pedirmos para desenhar uma família imaginada. Estão ali o papai-sol, a mamãe-lua, o irmão-caçula- nuvem e a menina-estrela. Esse deslocamento, talvez excessivo, leva a pensar em uma formação reacional: a família é elevada à pureza do céu para conter melhor desejos não aceitáveis. Fam9 Família de fantasmas relegados ao sótão da casa (Fam9), forma que adquire a família imaginada por um menino de 7 anos. Os fantasmas estão estáticos são pouco ameaçadores e parecem inclusive assustados por uma aranha. É difícil interpretar esse desenho, pois o garoto não conseguiu tecer nenhum comentário sobre ele. O desenho impôs-se sem que ele pudesse acrescentar nada. Em referência aos sonhos, podemos citar o procedimento de figurabilidade, que consiste em transformar pensamentos em imagens que não podem ser diretamente expressas com palavras. Representação do sistema familiar Em uma perspectiva sistêmica, a família é considerada como um sistema biológico e psicossocial complexo. Duas dimensões-chave são normalmente escolhidas para descrever as relações familiares: coesão e hierarquia. O termo “coesão” é geralmente definido como o laço ou apego emocional entre membros de uma família. Com relação a sistemas familiares, o termo é utilizado para descrever em que medida os membros da família consideram-se como um todo coerente. O termo “hierarquia” é definido de forma diferente conforme os postulados teóricos de base. Ele pode, por exemplo, corresponder a uma autoridade, dominação, poder de decisão ou influências recíproca dos membros da família. Esse conceito também já foi utilizado para estudar mudanças na estrutura dos papéis e das regras no interior da família (GEHRING & DEBRY, 1992). A esses dois conceitos fundamentais acrescenta-se geralmente o de fronteira, que permite descrever as relações entre a família e o mundo ao seu redor, bem como, por exemplo, entre subgrupos ou subsistemas familiares, tais como as diferentes gerações que compõem a família. Fala-se então de fronteira geracional. Essas diferentes noções parecem ser especialmente adequadas para analisar desenhos de famílias imaginadas. De fato, uma interpretação baseada em conceitos sistêmicos leva em conta a coesão, ou seja, a proximidade das diferentes personagens, e a hierarquia, que corresponde ao tamanho dos protagonistas. Pode-se, assim, qualificar a coesão do sistema familiar como forte (proximidade muito grande), média ou fraca (personagens disseminadas na folha). A hierarquia é avaliada em função da diferença de tamanho entre pais e filhos. Aqui, mais uma vez, é possível qualificá-la de alta, média ou fraca. A vantagem da perspectiva sistêmica é considerar também os subsistemas familiares, isto é, o subsistema-pais e o subsistema-filhos, caso haja irmãos. Em cada subsistema deve-se analisar a coesão e a hierarquia. Por exemplo, um desenho representando pais bem próximos um do outro mostra que o subsistema-pais é muito coesivo. Esse subsistema também pode ser qualificado de bastante hierárquico se um dos dois for representado de tamanho bem maior do que o outro. QUADRO 5.4 Tipos de estruturas relacionais familiares (GEHRING & DEBRY, 1992) Obviamente, esses tipos de estruturas relacionais (quadro 5.4) de sistemas ou subsistemas familiares devem ser utilizados com muita prudência. Eles podem ser de grande ajuda como metodologia de análise, mas, a meu ver, não substituem uma perspectiva psicodinâmica que apreenda o sujeito com seus objetos privilegiados (os pais e os irmãos). Interpretar desenhos de famílias imaginadas Quando a instrução dada é desenhar uma família imaginada, o adulto deve, evidentemente, observar o processo de realização do desenho. Eu aconselho não tomar notas durante essa fase, pois há um risco de o sujeito sentir-se avaliado e, por conseguinte, frear sua fantasia e criatividade. Por outro lado, é absolutamente necessário estar presente de forma amável e atenciosa. Sua produção adquire assim valor de comunicação, de uma mensagem destinada a um outro, encarnado pelo psicólogo. Ordem das personagens Observa-se tradicionalmente a ordem das personagens representadas:Quem foi a primeira a aparecer na folha? Que lugar ela ocupa? A criança planejou desenhá-la? Reservou espaço para os outros membros da família? Ou a primeira personagem é fantasmaticamente tão importante (Fam10) que ocupa o espaço essencial do suporte? Existem personagens, durante um tempo esquecidas, que vêm, no final do desenho, intercalar-se nos espaços restantes? É fácil entender toda a importância dessas observações, ainda mais quando o sujeito consegue deixar-se levar pela fantasia. A representação colocada no suporte é então guiada mais pelo fantasma do que pela racionalidade, e a personagem que surge primeiro, que se impõe quase que involuntariamente, desempenha, é claro, um papel central na organização das relações de objeto do sujeito. A última personagem, que, ao contrário, é incluída em um espaço ainda não ocupado, que é “salva”, “reintegrada” pela retomada, no último segundo, do real sobre o imaginário – a criança se dá conta então de que esqueceu um membro real de sua família, o qual convém, de acordo com o princípio de realidade, representar –, ocupa um lugar totalmente diferente para o sujeito. A relação com aquela “esquecida” pelo desejo é muitas vezes impregnada de culpa. Fam10 Na figura acima, um menino de 9 anos começa o desenho de uma família imaginada em formato paisagem. Ele esboça metade de uma personagem, depois vira a folha em formato retrato e desenha, com um traço forte, uma segunda personagem, massiva (Fam10). Essa família, que no final das contas limita-se a dois membros, bota em cena o sujeito, todo-poderoso, e seu pai, metade esmagado. A expressão do fantasma parricida foi mais forte e não permitiu, mesmo em um segundo momento, uma fixação a mínima no real, a fim de colocar na folha alguns outros membros da família. Interpretação Uma vez o desenho pronto, é indispensável realizar uma consulta, no intuito de esclarecer as identidades dos diferentes protagonistas e eliminar todas as ambiguidades gráficas. Eu preconizo uma troca de ideias livre, discursiva, seguindo o raciocínio e as associações do sujeito a partir de uma frase de abertura do tipo: “Então, você acabou de desenhar uma família imaginada. Pode falar sobre ela comigo?” Se for necessário fazer mais perguntas, elas podem vir no fim da consulta, sendo sempre, a meu ver, inspiradas nas que R. Perrone e M. Perron- Borelli (1996) fazem ao cabo dos desenhos de crianças com seus pais. Por fim, chega a hora de fazer a análise propriamente dita do desenho de uma família imaginada, que comporta quatro etapas principais: • A primeira consiste em tirar uma primeira impressão global. Como referência, pode-se consultar o capítulo dedicado ao desenho em exames psicológicos e em especial a parte que aborda o processo de análise do desenho. Será que a primeira impressão global transmite uma ausência de fixação na realidade, processos primários prevalecentes ou ainda insistência em um conteúdo manifesto (na maior parte das vezes, na representação da família real) ou então uma fantasia pessoal? • A segunda etapa leva o psicólogo a comparar a família imaginada com a família real da criança. Estão presentes todos os membros desta última? Quais deles são valorizados, antes de tudo, pela ordem de surgimento no suporte, pelo tamanho e pela riqueza de detalhes e acessórios? A contrario, quais são os que foram esquecidos ou reintegrados no último segundo com um retorno in extremis ao princípio de realidade? • A terceira etapa visa compreender as relações que se estabelecem entre as personagens presentes e observar as identificações cruzadas que, na maior parte das vezes, são evocadas com sutileza. Deve-se, assim, notar as “aproximações”, evasões e afastamentos que sublinham a intensidade ou não dos laços afetivos, mas também as características físicas, atitudes e emoções pintadas nos rostos: Elas estão em harmonia ou desarmonia com as relações de proximidade? • A última etapa é a síntese de todas as informações e interpretações, que será então necessário confirmar, de forma bastante flexível, hic et nunc, junto com o sujeito. Exemplos clínicos Para ilustrar a representação de famílias imaginadas, eu selecionei quatro desenhos efetuados por crianças de 5 e 6 anos. Esse período da infância é duplamente interessante em termos de desenhos de famílias imaginadas, pois, de um lado, as capacidades de representação gráfica estão suficientemente desenvolvidas para produzir desenhos sutis e interpretáveis e, de outro, é uma idade em que ainda se observa o complexo de Édipo em toda a sua acuidade, antes que ele se “dissolva” e que subsista no inconsciente apenas a situação edipiana, organizador central da vida psíquica do sujeito. Fam11 Membros de uma família desenhados por uma garotinha de 5 anos e meio, seguindo uma ordem notada pelo psicólogo (Fam11). Primeiro, ela desenha seu pai, depois a si própria, bem perto dele, sua mãe, no canto direito da folha, e por último a irmã caçula. Ela acrescenta, por fim, um sol, como se quisesse “iluminar” a aproximação pai-filha. Tanto a ordem quanto a proximidade das personagens revelam o sentimento de amor edipiano que ela alimenta pela figura parental de sexo oposto. Esse desejo é, em grande parte, inconsciente. De fato, se lhe perguntarmos se existem diferenças entre pais e filhos, ela responderá, com suas palavras, que os pais são muito mais velhos, mais responsáveis, maiores... só que, no desenho, que sempre é um compromisso entre o imaginário e o real, ela representa a si própria do mesmo tamanho que seu pai; ambos parecem, para um leigo ou alguém que não tenha observado a realização do desenho, formar um casal. Ela não integra a diferença das gerações em si mesma, mas apenas na irmã caçula, a qual ela representa com tamanho menor. Fam12 A desenhista da figura Fam12 tem 5 anos de idade. Ela representa sua família dentro e perto da casa onde moram. Através do seu desenho ela nos mostra que a diferença dos sexos foi bem integrada. As personagens são identificáveis: as de sexo feminino têm cabelos compridos, recaindo pelos lados e sugerindo feminilidade, enquanto o pai tem cabelos “erguidos” e o irmão mais velho à direita é pouco favorecido em termos capilares. Pai e mãe são representados com tamanho superior ao da menina, o que marca uma integração da diferença geracional. Porém, a garotinha também exprime seu desejo inconsciente de ter um laço exclusivo com o pai, ao se posicionar perto dele e no interior da casa. A mãe e o irmão mais velho são dispostos no exterior, um de cada lado. Embora a autora do desenho deseje estabelecer uma relação privilegiada com o pai, ela nem por isso aceita que o irmão e a mãe se aproximem. Ela exprime, assim, certa ambivalência de sentimentos. Quanto aos detalhes que têm a ver com a resolução do conflito edipiano, observa-se que somente os pais possuem umbigo, que eu interpreto como o equivalente de uma representação dos órgãos genitais. O cabelo, que é um símbolo sexual, é abundante na menina e na mãe, erguido no pai e ausente no irmão mais velho, a quem a criança denega qualquer expressão sexual, que o menino só poderia dirigir à mãe nessa configuração edipiana. Por fim, deve-se notar a expressão de uma forma de culpa edipiana ou compensação, que pode ser interpretada a partir da representação de quatro janelas, que indicam, assim me parece, que cada um tem, apesar de tudo, seu lugar no interior da casa. Fam13 Representação de uma família imaginada (Fam13) muito simples no plano gráfico. As personagens são traçadas sumariamente, com aspecto frontal. No entanto, embora a autora, de 5 anos e meio,apresente um desenho pouco desenvolvido, seu nível de evolução libidinal é, em compensação, mais elevado. De fato, ela nos mostra que a diferenciação dos sexos e das gerações está integrada e que as crianças ocupam o lugar que lhes é devido. Notam-se também uma identificação com a mãe (mesmo corte de cabelo) e uma aproximação discreta com o pai (mesmo tipo de roupa). Assim como no desenho anterior, o irmão aparece, aqui, igualmente pouco favorecido no plano libidinal. Fam14 Desenho de uma família imaginada (Fam14) realizado por um menino de 5 anos e meio. Observa-se um deslocamento em uma família de animais, permitindo assim se liberar da problemática edipiana e fazer uma representação mais livre. Essa família imaginada retoma a configuração da família real. Vários aspectos são notáveis nesse desenho: • O deslocamento da representação na esfera animal, com a majestosa escolha de leões, que carregam poder em sua juba. Vê-se, é claro, uma identificação do leãozinho com o pai, mas também, implicitamente, o temor edipiano. • A distinção dos sexos e das gerações é bem percebida e integrada: a hierarquia de tamanho é figurada de forma bastante manifesta, bem como a diferença dos sexos, através da presença ou ausência de uma abundante juba. • A coesão do subgrupo de pais é boa, mas é possível notar, além disso, a proximidade da leoazinha com o leão e do leãozinho com a leoa. Esses elementos indicam que, embora o complexo de Édipo, enquanto tal, esteja desaparecendo, a situação edipiana está bem presente no plano inconsciente. Observa-se também, a partir da expressão dos rostos, identificações cruzadas mãe/filho, pai/filha. • A família é figurada dentro de um espaço fechado, protegido com a presença de um objeto fobiogênico (aranha), que condensa, a meu ver, a angústia edipiana. Os desenhos de família das duas crianças a seguir são bem-acabados no plano formal, mas veiculam angústias mais arcaicas que não entram mais no registro da castração, mas sim no da perda do objeto. O desenho Fam15 foi rapidamente traçado por um menino de 7 anos e meio. Ele representa uma família imaginada composta de três personagens (em vez de quatro na vida real, pois a irmã caçula não é figurada). A primeira personagem é a da esquerda, a segunda, a da direita, e a terceira, a menor no centro. Contrariamente à interpretação imediata que poderíamos fazer dessa representação, a última personagem desenhada, no centro, não é a criança, mas sim o pai. O menino comenta o desenho então com muita agitação, ele ri da brincadeira que acaba de fazer com o psicólogo, que, com certeza em sua opinião, esperava uma família tradicional. Enquanto observava a realização do desenho, eu tive o sentimento de que a ideia original do menino era representar uma família com o filho no meio dos pais, mas foi no último momento, durante o comentário, que as ideias encaixaram- se e levaram à descrição de uma família com um pai bem pequenininho. Os sintomas, identificados também durante a consulta, tais como exaltação de humor, euforia, comportamento lúdico e fuga de ideias (telescopagem, profusão) levam a considerar um episódio hipomaníaco de defesa contra uma depressão que está ameaçando chegar. Fam15 Fam16 Essa família, em que quase todos são semelhantes (Fam16), foi desenhada por um menino de 8 anos. A ordem de desenho das personagens foi da esquerda para a direita. Essa família imaginada comporta, com relação à família real, um membro a mais (a criança representada à direita). A diferença das gerações não é marcante nos outros membros da família – somente a diferença dos sexos é visível. Durante os encontros com o menino e os pais, eu constato todas as características de um transtorno depressivo infantil (agitação estéril, perda de interesse, irritabilidade, dificuldades de concentração e perturbações do sono), dissimuladas sob uma alegria superficial, comprovada por seu desenho. Nele se observa que todos na família estão bem próximos e mesmo ligados, superpondo-se e não parecendo muito diferenciados, e que as cores são escuras e bastante tristes. O TESTE DA ÁRVORE Desde sempre, estabelece-se uma analogia entre a árvore, erguida verticalmente, com galhos afastados e raízes plantadas no solo, e o ser humano: uma o alter ego do outro. Lendas, poemas (fábulas de Esopo, por exemplo) e figurações artísticas celebram esse paralelo, essa semelhança e mesmo identidade entre um dos mais majestosos representantes da natureza e o ser humano. Assim como os homens, as árvores não são todas formadas pela mesma madeira e não são todas idênticas. A imensa diversidade de uns e dos outros sempre foi vista como outra semelhança entre os representantes desses dois reinos. Além disso – e é o que nos interessa aqui –, através de um movimento antropomórfico, os seres humanos, jovens ou mais velhos, atribuem traços de caráter aos grandes vegetais de nossas florestas. Quando ereta, imponente e monumental, a árvore é dita orgulhosa, digna, imperial. Se for franzina e curvada pelo vento, ela será qualificada de humilde e mesmo servil. Uma vez coberta de frutos, eis que se torna generosa. Os psicólogos do século XX, como por exemplo o suíço Émile Juncker[32] (1928), o inglês John N. Buck[33] (1948), o alemão Charles Koch[34] (1957) ou ainda a francesa Renée Stora[35] (1978), perceberam sensivelmente essa metáfora. Aplicação e análise O teste da árvore é fácil de aplicar e pode convir tanto a crianças pequenas quanto a pré-adolescentes (Ar1). Como todo teste temático, o teste da árvore é especialmente bem-acolhido pelas crianças que apresentam certa forma de inibição ou pelas mais velhas, que não gostam de realizar desenhos sem instruções. Todavia, veremos mais adiante que repetir o desenho da árvore, como estipula a instrução, pode mostrar-se certamente proveitoso com certas crianças, mas também desagradável para outras. Já me aconteceu, por exemplo, de alterar a instrução inicial para não colocar um jovem adolescente em dificuldade. De fato, quando considero que o sujeito já se exprimiu plenamente no primeiro desenho, eu não lhe peço para realizar um segundo e depois um terceiro desenho da árvore, como indicado na instrução desse teste (veja abaixo). Ar1 Árvore bastante original (Ar1) desenhada por uma mocinha de 13 anos. Ela é pequena, muito bem podada e plantada em um vaso. Quanto ao aspecto geral da árvore, não há dúvida: trata-se de uma representação da própria menina, bem magrinha e com um recente “penteado afro”. O que chama principalmente a atenção é o fato de a árvore não estar enraizada na terra, o que reflete uma circunstância de sua história: seu pai foi adotado e não sabe nada sobre sua família biológica, a não ser que ele veio da África Subsaariana. Em seguida, eu pergunto sobre aquele sol, elemento relativamente infantil, que ela desenhou com um sorriso e grandes raios, como se fossem braços estendidos na direção da árvore: “Quem ele poderia ser?” Minha jovem paciente compreende bem a interpretação simbólica que estou querendo e me diz que poderia ser seu pai e que sua mãe seria a água do regador, que ajuda as florezinhas dispostas ao pé da árvore no vaso a desabrocharem. Deve-se notar que a mãe deseja vê-la crescer e tornar-se mais feminina. Ela conclui dizendo que sua árvore precisa de sol e água para crescer. Instrução Ao longo do tempo, as instruções flutuaram muito. A primeira, de Koch, era: “Desenhe uma árvore, mas não um pinheiro[36]”. A segunda, “Por favor, desenhe uma árvorefrutífera, da melhor forma que você conseguir”. Se o desenho fosse demasiado estereotipado, ele pedia outro desenho: “Por favor, desenhe uma árvore frutífera de novo, mas totalmente diferente da que você desenhou”. A instrução dada por Stora é muito mais completa e decompõe-se em quatro etapas. Em cada uma o sujeito recebe uma folha de papel disposta no sentido da altura: 1) “Desenhe uma árvore, qualquer uma, como você quiser, mas não um pinheiro.” 2) “Desenhe outra árvore, qualquer uma, como você quiser, mas não um pinheiro.” 3) “Desenhe uma árvore de sonho, uma árvore de imaginação, uma árvore que não exista na vida real, desenhe-a como você quiser.” 4) “Desenhe uma árvore, qualquer uma, como você quiser, mas de olhos fechados.” Psicologia clínica e interpretação Koch baseia-se principalmente na teoria das zonas de Pulver (consulte o capítulo sobre os desenhos de família), segundo a qual a cada parte do espaço gráfico corresponde uma simbólica específica. Logo, a parte superior da folha teria a ver com a transcendência e o universo intelectual, ao passo que a parte inferior representaria a materialidade e instintos inconfessáveis. A direita da página refletiria extroversão, imagem paterna e, por conseguinte, sociabilidade e audácia, enquanto a esquerda indicaria introversão, passado, ou seja, atração pela mãe. Percebe-se muito bem hoje o quão tais formulações estão imbuídas de ideias a priori sobre o lugar das mulheres na sociedade e são inaceitáveis. Em minha prática clínica, eu costumo observar que o espaço gráfico carrega obviamente um sentido. Por exemplo, uma criança que só desenha no alto da folha estrelas e foguetes pode apresentar – é preciso ser prudente ao fazer interpretações – um funcionamento em formação reacional, bloqueando assim a expressão de interesses que ela julga mais baixos, vergonhosos. No entanto, hipóteses como essa não devem ser generalizadas sistemática e mesmo automaticamente, eu diria, em função da utilização de tal ou tal parte do espaço da folha. Corre-se, é claro, o risco de negar a existência de um sujeito singular, atribuindo-lhe, em nome de alguns princípios, traços de personalidade e conflitos arbitrários. O mesmo vale para os componentes da árvore, ou seja, a arborescência da folhagem, que simboliza as relações com os outros, o tronco, que, segundo Koch, é um fator de equilíbrio entre um lado e outro, bem como, é claro, as raízes, cuja simbólica remete, quando elas são abundantes, à curiosidade pelo que é proibido e à vida pulsional. As possíveis interpretações são, portanto, extremamente numerosas e às vezes contraditórias. Foi a partir de um trabalho estatístico[37] que R. Stora isolou grande quantidade de “traçados” (146) e deu um significado psicológico a cada um. Entende-se por “traçado” uma forma inteira ou uma forma específica isolada do conjunto ou um conjunto típico facilmente identificável, diferenciado no interior do desenho do qual ele faz parte (MUEL, 1978). Por exemplo, se as raízes forem menores do que o tronco, isso indica que o sujeito “quer ver o que escondem dele” (MUEL, 1978), ou, outro exemplo, se a folhagem acompanhar o formato da página, a interpretação sugerida é: “o sujeito sente-se um pouco estorvado pelas normas do meio em que vive, mas se adapta a elas” (MUEL, 1978). Leitor, você já entendeu: eu não concordo muito com esses tipos de interpretação, em que cada elemento traçado corresponde, seja qual for o sujeito que tiver realizado o desenho, a um esquema interpretativo pronto para uso. Ainda mais que as análises sugeridas são construídas sem registros diferentes: simbólico e pragmático. Por exemplo, um tronco “subindo” reflete um espírito empreendedor, e um tronco “descendo”, decepção e tristeza – em ambos esses casos, as interpretações são de origem simbólica. Porém, se o tronco for desenhado com um traço torto e rápido, o comentário de R. Stora menciona destreza e desenvoltura – reflexão perfeitamente pragmática, que todo profissional pode fazer ao observar um sujeito desenhando. Esse comentário obviamente vale para o tronco e também para qualquer outro elemento do desenho. Que interpretações tirar do teste da árvore? Para evitar uma análise demasiado automatizada dos diferentes elementos e símbolos, sempre me pareceu judicioso dar imediatamente, após cada desenho, interpretações bastante livres, as quais o sujeito pode confirmar ou não. Em vez de utilizar o teste da árvore como um teste de personalidade em que, mal se fizeram quatro traços, e tudo já foi dito, eu prefiro lançar mão dessa boa ferramenta como suporte de incentivo psíquico. Cada desenho é sucedido por uma consulta em que são consideradas exclusivamente interpretações simbólicas ligando certos aspectos do desenho à problemática apresentada pela criança ou adolescente. Eu já pude observar que esse método sempre enriquece os desenhos que se seguem ao primeiro. O sujeito entende muito rápido que a árvore que ele está representando é vista pelo psicólogo como uma analogia portadora de um sentido. Por conseguinte, as criações são realizadas com espírito de duelo interpretativo. Exemplo clínico Um menino de 11 anos realiza, a pedido meu, três desenhos. O primeiro (Ar2) mostra uma macieira, com raízes firmes, que ocupa toda a página. Os galhos não são muito impressionantes, mas a árvore está carregada de frutos. Ar2 Assim que o desenho termina, nós começamos uma conversa a respeito de sua produção. Ele caracteriza sua árvore como “generosa” e “bem plantada”. Nesse momento, de forma bem explícita, eu menciono para ele a tradicional e cultural analogia que existe entre a árvore e o ser humano. De imediato, meu jovem paciente responde que sua árvore é mais “papai” do que “mamãe” e, pegando um lápis, ele desenha no tronco uma ferida, um galho quebrado. Ele explica então que seu próprio pai havia sofrido, quando ele tinha 8 anos, um acidente de bicicleta que havia deixado uma cicatriz bem marcada no joelho. É possível perceber aqui a flexibilidade do funcionamento psíquico, que faz a criança passar do imaginário, representado pelo desenho, ao real da sua família. Ainda no registro simbólico, deve-se notar que o pai do menino segue uma profissão que exige muito tempo, mas é bem remunerada, permitindo-lhe suprir amplamente as necessidades da família, o que a quantidade de frutos suspensos nos galhos parece indicar. Ar3 Assim que começa a realizar o segundo desenho (Ar3), o menino diz que a árvore é uma “mamãe”. Trata-se de uma palmeira, curvada pelo vento à direita, com os galhos terminando na beira da página. Alguns esboços de dunas completam o desenho. O enraizamento está totalmente correto, embora o solo pareça menos consistente. Quando eu pergunto sobre as características femininas ou maternas do desenho, ele responde que reconhece ali sua mãe, uma mulher muito esportista que já participou várias vezes de ralis automobilísticos em países quentes. Por fim, o último desenho de árvore (Ar4) é uma espécie de autorretrato. A árvore é desenhada com fluidez, ocupando bem todo o espaço da página e estando presa ao solo com sólidas raízes. Deve-se notar que os galhos começam logo na parte inferior do tronco. Para o menino, o desenho da terceira árvore, que representa a si mesmo, parece ser a expressão de uma teoria sexual infantil: o tronco ergue-se como o da árvore-pai, porém com um pouco mais de flexibilidade no alto, e a folhagem é indistinta e agitada como a do desenho-mamãe. É, portanto, com um pouco do papai e da mamãe que se faz um filho, parece dizer o menino. Obviamente, essa jovem árvoreainda não carrega frutos; aliás, será que um dia ela produzirá algum? É preciso julgar também as qualidades gráficas desses desenhos, que são sugestivos ao invés de descreverem com precisão. Ar4 A SENHORA DE FAY Os testes de desenho, um pouco antigos, atravessam décadas como bens culturais e às vezes se fixam em uma região marcada por suas particularidades e produções. Foi o que aconteceu com o teste do desenho da Senhora de Fay, cuja primeira publicação saiu em 1924, mas que ainda é ensinado em algumas poucas universidades, dentre as quais a Paris Descartes. Não se trata de uma tradição, mas sim de um interesse pela riqueza clínica dessa ferramenta rápida de pôr em ação. Quem a elaborou foi o Dr. Fay, clínico geral do Hospital Saint-Jacques e inspetor médico de escolas, que define seu teste da seguinte forma: Esse teste permite explorar a atenção, memória, imaginação, juízo e, por conseguinte, tem um alcance maior do que a maioria dos textos coletivos. Ele permite também, sobretudo quando o aplicamos individualmente, descobrir diversas especificidades de caráter (FAY, 1933). Em aplicações coletivas, muito prezadas na primeira metade do século XX, as crianças exprimem através de um desenho uma curta frase que o professor escreve no quadro-negro: “Uma senhora está passeando e está chovendo”. Percebemos, assim como Fay em sua época, o erro de sintaxe que consiste em ligar duas proposições bem distintas; para respeitar as regras da língua, seria preciso escrever: “Uma senhora está passeando, está chovendo”. O estudioso adotou a primeira formulação, pois achou que crianças pequenas a entendiam melhor. Composição do teste Antes de começar o desenho propriamente dito, o aluno deve copiar a frase no alto da folha, enquanto o professor abstém-se absolutamente de dar instruções complementares: É para fazer um guarda-chuva, colocar a moça na rua ou na natureza etc.? Depois, os desenhos são avaliados não por seu valor estético, mas sim em função da quantidade de ideias representadas, que são indicadores das capacidades expressivas da criança. Deixemos a palavra com o Dr. Fay (1933): No tema-tipo que eu elaborei, há cinco elementos: (1°) uma mulher; (2°) está passeando. Há nessas palavras a noção de caminhada conseguinte a um deslocamento ocorrendo ao ar livre, na rua ou na natureza, donde (3°) uma paisagem; (4°) está chovendo, portanto (5°) a mulher abriga-se de alguma forma. A ideia de que a mulher possa enfrentar a chuva sem se proteger não passa pela cabeça das crianças parisienses; ela é, ao contrário, perfeitamente normal na das que moram no campo – portanto, eu levarei em conta essa especificidade caso necessário. Para fazer a avaliação, examina-se a forma como esses cinco elementos essenciais são representados. A mulher deve ser reconhecível a partir de certos atributos. O mais importante é a roupa – deve-se reconhecer uma saia. Quando a personagem é esquemática a ponto de representar apenas um vago boneco, ela ganha nota 0. Se tiver um coque como único atributo, ganha 0,5 ponto. Uma saia basta para dar 1 ponto. Quando há mais de quatro atributos femininos, dá-se 0,25 por atributo adicional. É possível reconhecer o ato de passear através da posição dos pés, da presença de um cachorro sendo levado pela coleira etc. Uma chuva representada com turbilhões semelhantes a fumaça ganha 0,25 ponto; com pequenas hachuras regulares no alto do desenho ou linhas mais ou menos curvas espalhadas, 0,5 ponto; com riscos regulares atravessando o fundo em sentido único, 1 ponto. Se a chuva parar no guarda-chuva, em um alpendre ou gotejar das pontas do guarda-chuva ou respingar ao cair no chão ou formar poças d’água ou escorrer abundantemente na sarjeta da rua, dá-se 0,25 ponto a mais e mesmo 0,5 ponto se três ou quatro dessas particularidades forem representadas. Uma paisagem simples representada com um traço único vale 0,25 ponto; se o chão for representado em vários planos, 0,5 ponto. Uma rua ou uma paisagem, mesmo que se limite a uma árvore, loja ou casa, vale 1 ponto. Se o guarda-chuva não estiver na mão, 0,5 ponto. Na mão, 1 ponto. Um capuz ou capa de chuva valem igualmente 1 ponto. Depois, o estudioso apresenta uma classificação realizada junto a várias centenas de crianças de 6 a 14 anos. Abordagem psicométrica Desde então, diversos pesquisadores levaram adiante o trabalho iniciado por Fay. Primeiro, A. Rey, certamente consciente dos limites da avaliação de Fay, realiza, em 1946, outro tipo de avaliação, inspirando- se nos trabalhos de F. Goodenough, com 44 itens. Ele obtém, é claro, um quadro de classificação muito mais preciso e rigoroso. No entanto, apesar de seus esforços, uma abordagem psicométrica do desenho da Senhora de Fay continua sendo pouco apropriada, e eu permaneço convencido de que a vantagem desse teste não reside em uma visão quantitativa, mesmo que ela seja sólida, mas sim em uma análise qualitativa e clínica da produção do sujeito, no intuito de ter acesso a uma parte de seu funcionamento psíquico. J. Guillaumin e R. Lachanat (1959) conduziram um trabalho cujo enfoque era objetivar elementos de interpretação clínica do desenho em geral. Eles escolheram o da Senhora de Fay para essa experimentação, realizada no Centro de Observação Regional em Defesa da Infância da cidade de Lyon, França, envolvendo 183 sujeitos de ambos os sexos com idades entre 5 e 14 anos. Para os estudiosos, o objetivo era comprovar bases interpretativas cientificamente e não repetir as mesmas observações sem antes verificá-las. De fato, como eu já disse na parte sobre os desenhos de família, muitos profissionais fazem referência a indicações de análise que nunca foram demonstradas. Três variáveis são estudadas na pesquisa citada: o tamanho da personagem, o lugar dela na folha e a paisagem (definida como todos os constituintes do grafismo, exceto a senhora e seus acessórios). Deve-se ter em mente que, antes de dar qualquer interpretação, é necessário “levar em conta parâmetros de desenvolvimento em uma área na qual muitas vezes não nos preocupamos com eles” (GUILLAUMIN & LACHANAT, 1959). Isso quer dizer que o significado das dimensões ou da posição de um elemento muda completamente, dependendo da idade da criança. Por exemplo, o tamanho da senhora passeando desenhada por crianças mais novas é grande, mas vai aproximando-se da média conforme elas vão crescendo. Mais interessante ainda, as personagens, que antes dos 6 anos são representadas no meio da folha, passam a figurar à esquerda com a entrada da criança na escola. A composição na página evolui, portanto, ao mesmo tempo em que se aprendem as regras da escrita. A paisagem, por sua vez, é ignorada aos 5 anos de idade, mas aparece ulteriormente – primeiro da mesma forma como a representação humana, no meio e no lado esquerdo da folha, depois, com crianças mais velhas, ocupando a totalidade da página em torno da figura feminina, que se torna central. Instruções, análise e interpretação Instruções de aplicação A instrução não varia desde 1924. Em minha prática clínica, assim como Fay, eu peço para o sujeito desenhar em um quarto da folha; não me parece útil mudar esse formato, pois ele é inusitado e, além disso, agrada às crianças. Uma única concessão à modernidade: com frequência eu forneço caneta esferográfica para obter desenhos mais precisos do que com lápis preto, o que se mostra necessário em um espaço tão pequeno. Assim como no original, o psicólogo dita a instrução (quando a criança possui as capacidades e o desejo de escrever por si própria) ou a copia no alto da folha, caso contrário:Uma senhora está passeando e está chovendo. Em seguida, o sujeito deve representar o que ele ou o adulto acabou de escrever. Obviamente, não há limite de tempo e nem cronometragem. A criança fica absolutamente livre para desenhar o que desejar, mas respeitando a instrução. Fay aplicava seu teste em crianças com idades entre 6 e 14 anos. Hoje, em minha prática clínica, eu acho que esse teste é mais adaptado às que estão na fase de latência. A instrução, extremamente simples, e o lado pueril do tema não convêm a pré-adolescentes ou jovens adolescentes. Análise e interpretação A análise pode ser dividida em duas partes: a primeira consiste, quando tiver sido a própria criança que escreveu a instrução, em um estudo da produção escrita, e a segunda, mais clássica, focaliza-se na criação gráfica. “Uma senhora está passeando e está chovendo.” Na verdade, a instrução pode ser resumida, no plano formal, em uma frase: você escreve e depois desenha. Isso quer dizer que, de um lado, os processos cognitivos e os aprendizados avançados são acionados, e, de outro, um desenho em pequeno formato, com lápis ou caneta preta, incita a uma certa forma de regressão. O teste solicita, portanto, maturidade escolar e rigor, mas também criatividade e relaxamento. No primeiro caso, há apenas uma única maneira certa de escrever e copiar a frase, enquanto no outro há uma infinidade de maneiras de desenhar e representar o enunciado através de traços gráficos. O espaço de liberdade pertence ao desenho, e o de imposição, à escrita. Em certas situações, a violência ligada à escrita e à ortografia é tamanha que o adulto é obrigado a desistir de ditar a frase e escrevê-la no lugar da criança. Em outras, o caráter escolar do exercício pode acalmar, pois o sujeito tem a impressão de estar em território conhecido. A instrução é simples, fácil de entender. Certos elementos são inevitáveis: primeiro, o fato de ser uma senhora passeando, perambulando, uma senhora que, por conseguinte, pode simplesmente aproveitar e demorar o tempo que quiser. Porém, entra então o último componente, capital: a chuva, que vem estragar tudo, obrigar a voltar mais cedo para casa ou procurar abrigo, que distingue os precavidos, os que saem com guarda-chuva ou capa de chuva, e os outros, os hedonistas, os que gozam da vida, os que andam com a cabeça no mundo da Lua (ou as pessoas do interior, segundo Fay), que se aventuram ao ar livre sem precauções. Análise do enunciado Se a própria criança tiver escrito o enunciado da instrução, o psicólogo deve analisar ao mesmo tempo os elementos ortográficos e grafológicos. A análise ortográfica aplica-se primeiro à escrita fonética das palavras. É possível reconhecê-las quando elas são lidas em voz alta? Depois, deve-se prestar atenção na escrita lexical. O verbo “passear” apresenta uma dificuldade especial para as crianças mais novas, com duas fontes de erro: o dígrafo “ss” é frequentemente trocado por “c”, “ç” ou um só “s”, e a letra “e” muitas vezes é substituída por “i”.O verbo “chover” também contém o dígrafo “ch”, que costuma ser confundido com “x”, e a letra “o”, às vezes trocada por “u”. Por fim, termina-se com uma análise gramatical do acordo de ambos os verbos e da acentuação – o verbo conjugado “está” às vezes é confundido com o pronome demonstrativo “esta”. Uma análise grafológica aplica-se tanto à frase escrita ao ser ditada quanto à copiada. Obviamente, a avaliação da letra nesse teste é fragmentária, pois se baseia em uma única frase, e, assim como na ortografia, nota-se uma evolução muito nítida dependendo da idade do sujeito. No entanto, diversos elementos podem ser identificados: • A presença ou não de letra maiúscula no início da frase, que reflete uma forma de respeito das regras. • A ausência de ponto-final na frase não parece ser significativa. De fato, a maioria das crianças não pontua o final desse curto texto, como se ele continuasse no desenho. • A letra é grande, caótica, as linhas são retilíneas, as palavras estão demasiado apertadas, as ligações entre as letras são interrompidas, algumas delas se interpenetram, há distorções entre elas, uma equívoca altura relativa dos diferentes tipos, formas ambíguas, correções, hesitações e tremores? Tais elementos traduzem desde dificuldades gráficas mais ou menos sérias até uma patologia da escrita (CHARLES, SOPPELSA & ALBARET, 2004). • Qual é a velocidade de escrita? Demasiado rápida e, por conseguinte, responsável pelas dificuldades notadas acima ou então realmente muito lenta, laboriosa demais? Se grande quantidade desses indicadores for reunida, talvez seja preciso considerar uma consulta especializada, a fim de verificar se existe ou não uma possível disgrafia. Aqui, mais uma vez, mostra-se necessário realizar uma consulta com o sujeito sobre sua produção gráfica. Análise e interpretação do desenho A análise pode, evidentemente, basear-se no que eu escrevi sobre os desenhos de personagens. Contudo, eu acho mais interessante concentrar a análise e a interpretação nas especificidades do teste da Senhora de Fay. Respeito da instrução – A primeira coisa a verificar é se a criança respeitou ou não o enunciado. De fato, o teste é determinado por uma instrução bem precisa, que não exclui, porém, um certo potencial de liberdade criativa dentro do tema geral definido pela frase: Uma senhora está passeando e está chovendo. Eu já tive a oportunidade de notar que, apesar dessa estrita instrução ou, ao contrário, em reação a ela, certas crianças apresentam um desenho completamente diferente dos termos da frase de instrução. Nesse caso, a interpretação, fundada na consulta que se sucede ao desenho, orienta-se mais no sentido de uma provocação ou oposição. Eu pude observar com muito mais frequência que as crianças costumam respeitar a instrução em sua globalidade. A partir de um estudo de 50 desenhos[38], realizados por sujeitos não pacientes, eu percebo que todos atendem ao pedido inicial com mais ou menos precisão e que as produções deles enriquecem-se com a idade. Por exemplo, o guarda-chuva aparece somente na metade dos desenhos de alunos do 1° ou 2° ano do ensino fundamental, enquanto ele está presente em três quartos dos de alunos do 3° ou 4° ano. Essa proporção sobre para nove décimos nos de alunos do 6° ano. Fay1 (Texto da ilustração: Uma senhora está passeando e esta chuvendo) Desenho raríssimo (Fay1), realizado por uma menina de 8 anos, que coloca em cena uma moça segurando um guarda-chuva fechado. A chuva, é claro, ainda está fraca, molhando pouquinho, e a senhora certamente só vai abri-lo quando ela ficar mais forte. Porém, só uma consulta com o sujeito permitirá determinar isso. A segunda observação que me parece ser relevante é a harmonia ou desarmonia constatada entre a frase escrita, em termos de ortografia e grafologia, e a qualidade global do desenho, inclusive o respeito da instrução. Qualquer desarmonia deve alertar o psicólogo e levá-lo a refletir sobre sua natureza. Fay2 (Texto da ilustração: Uma senhora está passeando e está chovendo) Desenho (Fay2) realizado por uma menina de 10 anos, excelente aluna que apresenta transtornos de origem psicossomática. Como vemos, a frase escrita está em conformidade com o rendimento em sala de aula, pois a aplicação está perfeitamente correta, bem como a ortografia. Em compensação, o desenho é pouco elaborado – a personagem parece flutuar acima da grama, sem proteção e ao mesmo tempo estática. De forma semelhante, eu já pude observar no TAT histórias inacabadas, pouco legíveis efatuais. Há aqui uma discordância entre as capacidades de aprendizagem refletidas pela frase escrita e a realização gráfica, que é mais regressiva. Dinâmica do desenho – A instrução do desenho da Senhora de Fay não suscita inquietude e nem projeções angustiantes, mas sim depressão. A chuva é, na maior parte das vezes, associada à morosidade, melancolia e mesmo depressão dita sazonal. Dias chuvosos frequentemente são descritos como dias fastidiosos – e muitos são os paralelos que se estabelecem entre chuva e tristeza, melancolia. Não se diz por aí “lágrimas de chuva”, “depois da tempestade, vem a bonança” etc.? Fay3 Fay4 As figuras acima mostram como uma garotinha de 8 anos representa ao mesmo tempo, em um quarto da folha, “a senhora” antes (Fay3), com o guarda-chuva na mão, e durante (Fay4) a pancada de chuva. Como vemos, a alegria está associada ao tempo bom, ao passo que a tristeza chega junto com o tempo moroso e chuvoso. Nesse contexto, o guarda-chuva surge como um elemento que protege, que guarda a moça da chuva, mas também, em certa medida, como um guarda-depressão. Em francês, guarda-chuva se diz parapluie, literalmente “para-chuva”. As crianças francesas entendem bem o prefixo “para”, o qual elas associam facilmente a paraquedas, para-raios, às vezes mesmo interpretando-o com acepções arriscadas, como a que eu um dia ouvi de uma criança que confundiu a palavra francesa parvis (adro, pátio) com “parevie” (“para-vida”), termo que não existe em francês, mas que, se existisse, seria homófono de parvis e significaria algo contra a vida. Deve-se notar também que o guarda-chuva, gramaticalmente de gênero masculino, parece possuir uma inscrição simbólica bissexual: fálico enquanto está fechado, feminino e materno em posição aberta, protetora, pronta para abrigar. A chuva pode ser fraca – garoa, chuvisco, bruma – ou, ao contrário, cair abundante e violentamente – quando chove canivetes, cai trombas d’água, dá trovoadas, há chuvas tropicais e tempestades. Ela pode vir acompanhada de nuvens baixas, relâmpagos e rajadas de vento. Ela invade então o desenho ou se aloja em um espaço significativo, com frequência bem acima da moça passeando. Como acabamos de ver, convém interpretar tais elementos em relação ao aspecto simbólico das inclemências do tempo: vaporoso, agradável ou denso, ameaçador, opressivo. Fay5 Desenho de um menino de 6 anos e meio. (Texto da ilustração: uma senhora está passiando e esta chuvendo) Aluno inteligente, que já demonstra boas competências em escrita e ortografia após um mês de aula no 1° ano do ensino fundamental. Esse menino também está muito abalado no plano psicoafetivo e em suas relações com os outros. A borrasca (Fay5), que arranca o guarda-chuva das mãos da senhora, obrigando-a a enfrentar sem proteção a natureza enfurecida, é igual ao seu imaginário invasivo. Os outros acessórios que servem para se precaver da chuva, tal como a capa de chuva, o chapéu, a jaqueta impermeável e as botas, parecem ser mais elementos de sexuação da personagem do que componentes simbólicos de proteção contra o mau tempo e, por extensão, contra a morosidade e melancolia. Senhora de Fay e personalidade – Muitas vezes, esse teste rápido e de instrução específica age como um teste projetivo. O sujeito revela uma parte de seu funcionamento psíquico em tentativas de figurações e de simbolizações primárias e secundárias. Embora o desenho conceda ao sujeito muita liberdade de representação, o caráter restritivo da instrução, ao mesmo tempo simples e precisa, é capaz de suscitar movimentos projetivos. De fato, como já vimos, certas temáticas (chuva, guarda-chuva) agem como condensações simbólicas, suficientemente elaboradas e secundarizadas para serem aplicadas com sucesso em crianças no período de latência. Assim como no TAT, espera-se uma resposta global em função do sexo, da idade etc., e, por isso mesmo, é nos detalhes que se descobrem elementos que traduzem a singularidade da personalidade. Fay6 Desenho feito por uma menina de 11 anos (Fay6). Vê-se que a chuva está concentrada na personagem, que, bem-vestida, acaba estando bem protegida com suas botas e seu guarda-chuva. O desenho é um reflexo fiel da personalidade bastante rígida, conforme e caprichosa da autora. Fay7 (Texto da ilustração: Uma sinhora está passieando e tá xo chovendo) Desenho (Fay7) de um menino de 9 anos e meio. O conjunto é bastante homogêneo entre a escrita e a parte gráfica: ambas feitas de forma atabalhoada e mesmo caótica, em conformidade também com a organização da personalidade do desenhista. “Está chovendo canivetes, e a água está escorrendo na rua”, explica o autor, acrescentando: “A moça está chorando porque não está dando sol”. De fato, nas bochechas da personagem estão escorrendo lágrimas, que se misturam com a água da chuva. O afeto depressivo, marcado pelo choro, parece estar em harmonia com a chuva, tal como ela é desenhada, mas desproporcional com relação à representação consciente do que é a chuva. Ela traz morosidade, e não desespero. O D10 DE JEAN LE MEN O D10, desenho com instrução que consiste em produzir uma paisagem composta de dez elementos, foi criado por J. Le Men, um dos primeiros psicólogos escolares contratados no departamento francês Isère logo após a Segunda Guerra Mundial. Assim, bem no início dos anos de 1950, enquanto o desenho vai adquirindo um valor catártico com os Brauner, que recolhem produções de crianças saídas dos campos de concentração, J. Le Men aperfeiçoa seu teste em colaboração com o quadro de funcionários da instituição República de Crianças do Moulin-Vieux[39], que acolhe jovens sem família sobreviventes da Guerra Civil Espanhola, das deportações e dos bombardeamentos. O estabelecimento é implantado no que se tornou o Parque Nacional dos Écrins, e muitos textos psicológicos daquela época estudam a gênese do espaço (Piaget, Wallon etc.). Duas formas de influência – panorama grandioso e pensamento inovador – certamente contribuíram para a elaboração do D10. Aplicação e análise Originalmente, o D10 destina-se a sujeitos entre 7 anos até a idade adulta. Tal amplitude é, na minha opinião, demasiado grande; embora a faixa etária inferior, de 7 ou 8 anos, seja definida pelo estudioso como o limite aquém do qual o conceito de paisagem não é compreendido, eu acho que a faixa etária superior é avançada demais para um teste de desenho. Em minha experiência clínica, eu já pude constatar que os desenhos mais interessantes são feitos por crianças no fim do período de latência ou no início da adolescência. Muito cedo, corre-se o risco de obter uma justaposição, sem grande utilidade, de elementos; mais tarde, o D10 pode parecer demasiado infantil e ser rejeitado. Instrução Você vai desenhar uma paisagem com um homem, uma estrada, uma mulher, algumas montanhas, um menino, uma casa, uma menina, um rio, um animal e um carro. Você pode começar quando quiser e acrescentar o que quiser no desenho. Você vai desenhar sem borracha e sem régua (LE MEN, 1996). O sujeito recebe então uma folha de tamanho padrão, na qual está impresso um resumo da instrução, que lhe serve de referência ao longo da execução. Obviamente, é bom o psicólogo explicar o que é uma paisagem para as crianças mais novas: “é o que vemos quando estamos ao ar livre”, “é um pedaço do mundo” etc. Durante a realização do desenho, traçado de lápis preto ou qualquer outro instrumento de escrita com ponta fina, às vezes é necessário incentivar o sujeito a continuar seu trabalho, de forma amável, mas sem lhe fornecer informações específicas. A principalvantagem desse teste reside na confrontação entre uma instrução bem precisa, indicada no alto do espaço gráfico, e a liberdade não somente de execução, mas também de criação. O método de análise de J. Le Men Para o estudioso, o D10 “representa a vivência real e profunda do sujeito, oposta ao que poderíamos inferir a partir de seus comportamentos cotidianos” (LE MEN, 1996). Isso quer dizer que essa ferramenta é considerada por ele como um teste projetivo que põe “à prova a capacidade de a criança estruturar seus objetos internos (registro narcisista – identitário), através de uma encenação gráfica figurada na realidade externa (figuração dos limites internos, articulação entre os espaços, figuração das capacidades de interação etc.)” (ROMAN, 2007). O estudioso sugere analisar quatro aspectos: • A estruturação da paisagem no espaço da folha. • A grafomotricidade – deve-se examinar sistematicamente os gestos, os comportamentos motores, a pressão do lápis no papel, as “freagens” etc. • O dinamismo, principalmente das personagens, em suas atividades e laços. Essa análise deve basear-se nas sinestesias e no caráter intratensivo do Rorschach. • O simbolismo dos dez elementos presentes ou omitidos durante a execução do desenho. Evidentemente, ressalta o estudioso, para utilizar o teste de forma correta, é necessário ter grande prática, longa experiência e “aperfeiçoar incansavelmente a sua técnica”, assim como um violinista. Psicologia clínica e interpretação Se eu quisesse expandir a comparação feita por J. Le Men entre o D10 e um violino, eu não citaria o mais ilustre deles, o Stradivarius, que deve ser reservado ao Rorschach, mas sim um instrumento mais modesto que, apesar disso, fosse capaz de obter belas harmonias em mãos habilidosas, mas prudentes. Primeira impressão global A análise começa, tanto no D10 quanto em qualquer outro desenho, com uma primeira impressão global: a produção está organizada, estruturada e, sobretudo, é fácil de interpretar? Ela traz uma certa unidade que a torna abordável, compreensível pelos outros? O desenho obedeceu à instrução ou se afastou muito dela? Como vemos, tais perguntas pertencem a registros bem diferentes: uma expressão confusa, pouco legível e sem ligação com as diretivas iniciais revela uma prevalência dos processos primários; um desenho que atende rigidamente à instrução, com elementos justapostos e figurações estereotipadas, mostra que a inibição da mente está em primeiro plano; uma produção que, ao mesmo tempo em que respeita a instrução, cria laços entre os elementos e demonstra criatividade leva a pensar que foram a fantasia e os processos secundários que guiaram a mão do desenhista. D1 Desenho caótico (D1), não estruturado e com elementos justapostos, realizado por um menino de 9 anos. Obviamente, um desenho desse tipo expõe globalmente as perturbações que estão afetando a criança. Por outro lado, uma análise mais detalhada dos diferentes elementos (somente a personagem masculina é omitida) não nos permite compreender seu funcionamento psíquico em uma perspectiva psicodinâmica. Análise dos elementos e interpretações A instrução do D10, muito precisa, nem sempre abre espaço suficiente para o imaginário e o foco em um objeto. De fato, o pedido para realizar uma paisagem com frequência lembra um quadro, uma obra de arte, supondo então uma estética que o sujeito pode interpretar como um clichê, um estereótipo. É o que se observa frequentemente nesse teste, quando as montanhas aparecem no plano de fundo, superpondo-se uma sucessão de cumes e picos. Além disso, uma paisagem não é uma estória, mas sim uma vista em que tudo parece estar petrificado. As personagens, aliás, não necessariamente precisam relacionar-se umas com as outras, mas podem coexistir no espaço da folha sem estarem próximas e nem mesmo se encontrarem. Por conseguinte, é imprescindível conversar com a criança a respeito do que ela tiver desenhado: Onde se situa a paisagem? Os diferentes elementos estão ligados, fazem parte de uma cena? Caso contrário, por que ela valorizou este em vez daquele? Como é que pode aquele outro estar ausente? As personagens se conhecem? O que elas estão fazendo? Por que ela escolheu tal animal? etc. Interpretação dos diferentes elementos Interpretar o desenho é, no entanto, uma iniciativa arriscada. Não pode haver interpretação unívoca dos diferentes elementos representados, como na criticadíssima chave dos sonhos, que analisa os constituintes dos sonhos individualmente e fora de contexto. A elucidação baseia-se então no aspecto simbólico e cultural dos diferentes componentes, como se cada elemento proposto, cada elemento desenhado, cada elemento manifesto só possuísse uma ligação, e somente uma, com um sentido latente. Lembremos que, “embora sejam muitos os símbolos descobertos pela psicanálise, o campo do que é simbolizado é bem limitado: corpos, pais e consanguíneos, nascimento, morte, nudez e sobretudo sexualidade (órgãos sexuais, ato sexual)” (LAPLANCHE & PONTALIS, 1967). Em outras palavras, existe uma grande quantidade de símbolos culturais, por essência diferentes de uma cultura para a outra (o que levanta o problema da interpretação unívoca de tais símbolos com crianças de diversas origens), ao passo que os símbolos individuais são inúmeros e que o campo do que é simbolizado permanece, em todo caso, bastante restrito. J. Le Men (1996) escreve, a respeito do rio, que “a água é a vida: o rio é como todo ser humano, sempre diferente e sempre o mesmo. Assim como o destino pessoal transcorre irremediavelmente, a água do rio nunca volta à sua nascente”. Ele também lembra a história de Moisés, a travessia do Mar Vermelho, as fadas das nascentes e das fontes, as águas do Estige etc. Os símbolos citados são evidentemente culturais, assim como o “Deus água” da cosmogonia do povo dogon, mas não constituem sozinhos todo o conjunto dos laços simbólicos possíveis. Levar em conta apenas os códigos culturais e ignorar as metáforas individuais representa um erro de interpretação capital (erro que não comete J. Le Men, pois ele dá importância aos símbolos individuais). D2 (Texto da ilustração: Desenhe uma paisagem com um homem, uma estrada, uma mulher, algumas montanhas, um menino, uma casa, uma menina, um rio, um animal e um carro.) Desenho de um menino de 11 anos, que obedece à instrução de forma metódica e com concentração (D2). Ele marca os elementos já ilustrados à medida que vai desenhando. Eles estão justapostos, sem integração, quase na ordem sugerida pela frase escrita no alto da página. Logo, aparecem primeiro o homem e depois a estrada no centro da folha. Vêm em seguida as montanhas, que envolvem os dois primeiros elementos. Por fim, os outros componentes do D10 são distribuídos um pouco ao acaso, dependendo dos espaços ainda livres ou para respeitar relações de contiguidade óbvias. Observa-se, em especial, que a estrada e o rio são representados como porções de estrada e de rio que não vêm e não levam a lugar nenhum. Pode-se dar dois tipos de explicação nesse caso: a primeira, transtornos cognitivos graves na área da organização visuoespacial (nota-se, aliás, uma discrepância de dois desvios-padrão no exercício da figura de Rey ou no teste dos cubos do Wisc-IV), e a segunda, uma síndrome depressiva (cansaço, baixa autoestima, humor triste). Portanto, os elementos revelados nesse teste de desenho não bastam para distinguir um transtorno cognitivo primário ou a repercussão, nas funções cognitivas, de um episódio depressivo já bem-instaurado.Omissões Obviamente, é tentador prestar atenção em um ou vários elementos omitidos, esquecidos, censurados. O que desperta esse interesse por omissões é a hipótese de um ato falho, e não um esquecimento banal. Muitas vezes, a criança deseja consertar seu erro, como está acostumada a fazer na escola, e alega ter feito uma besteira. Por isso, é necessário, durante a consulta pós-desenho, mencionar as omissões, lembrando imediatamente ao sujeito que foi uma escolha dele, mais ou menos consciente, a qual nós respeitamos. Depois, direta ou mais indiretamente, eu acho importante refletir em conjunto sobre o sentido simbólico daquilo que está faltando e tentar estabelecer ligações sobre o tema. Não devemos esquecer o que Freud escreve a respeito dos símbolos nos sonhos, que surgem como elementos mudos sem trazerem nenhuma associação. Acréscimos A meu ver, os acréscimos são mais interessantes do que as omissões. São elementos não mencionados na instrução inicial, mas dos quais a criança precisa para expor o seu imaginário e permitir que seu desenho seja compreendido. Pode-se distinguir dois tipos de acréscimo: de um lado, os que enriquecem a produção, carregam secundarização e parecem imediatamente simbólicos para nós, e, de outro, os quase compulsivos e automáticos, que preenchem o espaço da folha, pertencendo, portanto, a um registro mais primário. Associações de elementos O fato de ser preciso ligar todos os elementos entre si representa, ao mesmo tempo, a riqueza, mas também um dos defeitos desse teste. Eu acho que a obrigação de estabelecer laços é propícia a frear uma parte das projeções, deixando, portanto, as interpretações menos interessantes. Por exemplo, embora os elementos da instrução sejam citados em uma forma de desordem, no intuito de evitar aproximações demasiado óbvias – estrada e carro estão bem longe um do outro na frase de instrução –, tais aproximações são, é claro, imediatamente percebidas pelas crianças, que terão tendência a reproduzi-las. Logo, a casa chama o homem, a mulher, o menino e a menina, o que evoca irreprimivelmente um desenho de família. Nela, acrescenta-se com frequência o animal, que, perdendo seu poder de projeção, rebaixa-se a bicho de estimação, gato ou cachorro na maior parte das vezes, e não selvagem, como um desenho mais livre permitiria. No desenho D3, executado por um menino de 10 anos, vê-se que os diferentes componentes foram ilustrados na ordem indicada pela instrução e da direita para a esquerda: isto é, o homem é representado primeiro, depois a estrada, na forma de uma linha reta, a mulher etc. As montanhas foram colocadas à direita por causa da solidez delas, a fim de deixar espaço livre à esquerda para os outros constituintes. Observa- se que o animal é necessariamente um bicho de estimação, para respeitar a coerência do conjunto. Os únicos elementos projetivos são os corações lançados pela moça ao homem de boné. D3 (Texto da ilustração: Desenhe uma paisagem com um homem, uma estrada, uma mulher, algumas montanhas, um menino, uma casa, uma menina, um rio, um animal e um carro.) D4 Neste outro desenho (D4), feito por um menino de 11 anos, o animal é muito mais surpreendente, pois se trata de uma girafa. Poderíamos ficar tentados a imaginar interpretações acerca desse animal fálico, mas correríamos o risco de ocultar o essencial, ou seja, o fato de que a produção foi efetuada sem nenhum planejamento, de que o garoto a realizou em um estado de grande exaltação de humor, o que o leva, por exemplo, a dar ao psicólogo, na consulta pós-desenho, a possibilidade de escolher entre várias análises plausíveis. As diferentes personagens (exceto a menina, que é omitida) exercem atividades frenéticas, escalando as montanhas, acelerando “ao máximo” de carro, elementos estes pouco integrados, levando a pensar na expressão de uma sintomatologia hipomaníaca. O D10 surge, assim, como uma ferramenta adequada para crianças no fim do período de latência e no início da adolescência. O ponto forte desse teste se deve, na verdade, à sua instrução extremamente precisa. Ela permite superar a inibição que um desenho livre poderia engendrar. Os sujeitos não vivenciam o D10 como algo intrusivo e perigoso, não mobilizando, em um grau demasiado elevado, seus mecanismos de defesa. O ponto fraco dele também consiste nessa instrução, que entrava a projeção, em especial a das crianças que respeitam escrupulosamente o pedido do adulto. Delimitar a expressão gráfica com instruções obrigatórias é, de certa forma, comparável a dirigir uma consulta utilizando uma lista de perguntas. À maneira de Balint, eu penso que, ao darmos diretivas, obtemos sobretudo respostas, gráficas no caso do D10, mas poucas associações livres. O AT9 DE YVES DURAND O AT9 ou Arquétipo-Teste consiste em fazer com que o sujeito produza um desenho e uma narrativa, a partir de uma instrução contendo nove palavras de estímulo: Componha um desenho com uma queda, uma espada, um refúgio, um monstro devorador, uma coisa cíclica (que gira, que se reproduz ou que progride), uma personagem, água, um animal, fogo. Esse teste é bastante parecido, no plano formal, com o D10 de J. Le Men, mas se diferencia notavelmente dele por seus fundamentos teóricos. De fato, em 1962, Y. Durand concebe seu teste baseando-se, de um lado, nos textos de G. Durand, que descreve o imaginário em três dimensões estruturais, as quais ele chama de esquizomorfa (ou heroica), mística e sintética, e, de outro, nos trabalhos de S. Lupasco dedicados à concepção de três ordens de sistematização energética. Aplicação e análise Assim como no D10, a instrução é impressa no alto da página e serve de suporte à produção gráfica. Porém, além disso, os adolescentes (principal público-alvo dessa ferramenta) são incitados, em um segundo momento, a escrever uma narrativa correspondente ao desenho. Para Y. Durand, a instrução do teste leva o sujeito a realizar “um desenho ‘unificado’ a partir de nove elementos, que são considerados como estímulos arquetípicos, acionando uma dimensão universal do imaginário” (ROMAN, 2007). Psicologia clínica e interpretação Deve-se primeiro interpretar o desenho globalmente, classificando a produção do adolescente em duas grandes categorias arquetípicas: heroica ou mística, cada uma “contendo, por sua vez, quatro categorias, distribuindo-se entre uma orientação hiperpolarizante (monopolar) e a tendência a uma equilibração bipolar” (DURAND, 1998). A segunda fase consiste em interpretar os diferentes constituintes conforme o sentido latente deles: A personagem representaria um elemento de dramatização: a queda e o monstro devorador refletiriam a questão do tempo, da morte e das angústias; a espada, o refúgio e o elemento cíclico constituiriam “eixos” de estruturação da produção gráfica; a água, o animal e o fogo seriam solicitados a título de elementos complementares, capazes de orientar a expansão do imaginário (ROMAN, 2007). O desenho a seguir foi feito por um menino de 12 anos, bom aluno, capaz de cultivar muitas relações sociais, mas apresentando transtornos alimentares. É possível notar que o sujeito realizou o desenho com dedicação e especial capricho e que dois registros estão simultaneamente presentes no espaço da folha. No lado esquerdo, o registro é místico (uma personagem é empurrada por um gorila, cai em cima do monstro, que, por sua vez, é atacado pela espada, agitada por um movimento cíclico), enquanto, no lado direito, a cena é mais pacífica, concreta e mesmo depressiva (uma árvore morta, um pescador à beira da água, um corvo em cima de um galho). Portanto, de um lado,o jovem adolescente deixa a fantasia instaurar- se em um plano delimitado e controlado (a caverna, o monstro e a personagem atuam como se estivessem em um cenário de teatro) e, de outro, em um espaço de tempo muito próximo, os procedimentos do discurso gráfico são mais fatuais (o sujeito explica que desenhou uma árvore do jeito que aprendeu na aula de artes plásticas). O único elemento fantástico, no lado direito, consiste na presença de um chapéu na cabeça do corvo, o que eu interpreto como um subterfúgio, um elemento irônico que adquire aqui um valor defensivo de luta contra os afetos depressivos. AT1 (Texto da ilustração: Componha um desenho com: uma queda, uma espada, um refúgio, um monstro devorador, uma coisa cíclica – que gira, que se reproduz ou que progride –, uma personagem, água, um animal – pássaro, peixe, réptil ou mamífero – e fogo.) Em minha prática clínica, eu já pude observar que esse teste é bem- aceito pelos adolescentes, principalmente pelos rapazes. Em função dos símbolos universais mobilizados, ele corresponde à época do início da adolescência e das reorganizações impostas por ela. Além disso, a instrução lembra, para muitos e sobretudo para os meninos, um imaginário com o qual eles frequentemente têm contato nos videogames, em certos livros fantásticos e nas obras cinematográficas que lhes são destinadas, mas que também conseguem despertar interesse nos adultos. Apesar da utilidade desse teste, permanecem algumas questões essenciais: as simbólicas veiculadas pela instrução, que são fortes e às vezes nem um pouco sutis (monstro devorador, espada, fogo etc.), não criam um risco de colocar o adolescente na defensiva, de deixá-lo com medo de que sua interioridade seja revelada pelo desenho? Como sabemos, “o que caracteriza então o período pubertário é seu aspecto invasivo: inelutabilidade e brutalidade em termos biológicos, reorganizações psíquicas extremas nas instâncias ideais e do superego, reatualização e renúncia frustrante ao Édipo infantil” (COGNET, 2006). Ou, ao contrário, será que a travessia desse imaginário simbólico e arquetípico libera suficientemente “o adolescente de uma manobra traumática, autorizando, ao mesmo tempo, um reconhecimento implícito. [...] pelo fato de que ele pode sentir-se visado pela solicitação da instrução?” (ROMAN, 2007). O MAPA DA CIDADE IMAGINÁRIA DE RAPHAËL DJAN Esse teste de desenho pode ser definido como uma versão simplificada, em duas dimensões, do teste da cidade. O autor é R. Djan, psicólogo que, encarregado de selecionar candidatos para os cursos preparatórios da Escola Superior de Comércio de Marselha em 1971, sugeriu não que eles fizessem o teste da cidade com um material concreto, mas sim realizassem o mapa de uma cidade imaginária. A instrução era então: “Desenhe o mapa de uma cidade na qual você gostaria de morar. Indique principalmente a localização dos principais edifícios... a localização da sua casa (e a idade que você teria), talvez a localização da casa dos seus pais” (DJAN, 2001). O psicólogo emprega essa técnica com cerca de 5.000 adolescentes e, depois, ao se tornar perito no Tribunal de Segunda Instância da cidade de Aix-em-Provence, França, continua utilizando o Mapa da Cidade Imaginária em suas perícias judiciárias. Uma considerável quantidade de desenhos é recolhida junto a pequenos delinquentes e também junto aos maiores criminosos do final do século XX em Marselha. Sua interpretação do Mapa da Cidade Imaginária é impressionante. Em poucos minutos, após alguns traçados, R. Djan apresenta ao sujeito hipóteses que ele confirma hic et nunc. No entanto, como de costume, é difícil transmitir a experiência clínica, e esse teste, que alcançava tão bons resultados nas peritas mãos de Djan, requer hoje um manejo mais delicado e complexo. Do Teste da Cidade Imaginária ao Mapa da Cidade Imaginária Em seu livro, Le test du village imaginaire[40], R. Mucchielli retoma o histórico desde o Teste do Mundo até o Teste da Cidade. A primeira versão, o World Apparatus, foi elaborada em 1925 por Margaret Lowenfeld. Depois, em 1934, Charlotte Buhler aperfeiçoa o World Test com todo um material padronizado, que ainda hoje é utilizado. O primeiro teste da cidade foi criado na França por Henri Arthus em 1939. Essa versão é composta de trinta casas, uma igreja e um castelo, uma usina, uma prefeitura, uma escola, uma estação de trem etc. A padronização do material e da aplicação, bem como a interpretação do teste da cidade, são frutos do trabalho do Dr. Pierre Mabille em 1950, em seu livro La technique du test du village. Em sua mais recente versão, o Teste da Cidade Imaginária necessita um material abundante, bem como um tempo de aplicação longo. Foi por isso que R. Djan aperfeiçoou o Mapa da Cidade Imaginária, de aplicação mais fácil, que não poderia, entretanto, substituir o teste original. Aplicação e análise Como em qualquer teste projetivo, é importante fazer com que o sujeito sinta confiança. A singularidade dos testes de desenho é o fato de eles recorrerem a uma competência que a maioria das crianças pequenas possui, mas que, com frequência desde o início da adolescência, transforma-se em um talento que se tem ou não. O ato de desenhar torna-se então a expressão de um dom criativo, e os indivíduos que estão cientes de não o possuírem ficam inibidos diante de uma realização gráfica. Para evitar recusas por causa de um sentimento de falta de habilidade para desenhar, é importante explicar bem que o teste pede apenas para estabelecer um plano que todo o mundo é capaz de fazer. Observa-se então um certo prazer em ocupar a posição de um urbanista que pode expor suas concepções de planejamento. Instruções A instrução é a seguinte: “Imagine que você mora em uma cidade imaginária. Desenhe a vista aérea do mapa dessa cidade”. Obviamente, o psicólogo deve explicar ao sujeito que não há respostas certas ou erradas, que tudo deve ser representado de forma plana (uma casa é um retângulo, por exemplo) e que o tempo é livre. Enquanto o sujeito estiver desenhando seu mapa, o examinador anota a ordem de chegada dos diferentes edifícios que compõem a cidade e depois sugere que o sujeito acrescente, se desejar, certos elementos: correios, banco, biblioteca, livraria, moinho, hotel, escola, bar, café, redil, discoteca, delegacia, lojas, prefeitura, igreja, confeitaria, quartel de bombeiros, creche, rio, coreto para shows de rock, cabeleireiro, farmácia, hospital, lavanderia, prisão, posto de gasolina, estádio, semáforos. Todos esses componentes urbanos carregam uma simbólica. Essa lista, é claro, não é exaustiva e nem definitiva – deve-se adaptá-la à época e aos sujeitos que estejam fazendo o teste. Seguem-se várias séries de perguntas: • Onde você mora? • Dê a si mesmo uma idade imaginária, a idade que você teria se morasse nessa cidade. • O que você faria então? • Se a cidade fosse atacada, de onde viria o ataque? • Como defendê-la? Suponha que a cidade fosse destruída e que você tivesse um poder mágico que permitisse salvar três edifícios: quais seriam? Depois, uma instrução precisa: • Agora, sem pensar, acrescente um elemento insólito à cidade. Faça isso rápido, você não é obrigado a desenhar. Escreva o nome dele no lugar onde deve ficar. E, por fim, o psicólogo pergunta ao sujeito: • Você está satisfeito com o que fez? • Se sim ou se não, diga o porquê. • Que parte da cidade mais lhe agrada? Por quê? Especificidades do tema da cidade O tema da cidade traz consigo lembranças, em certa medida, regressivas: pode ser a cidade natal, um vilarejo isolado, uma localidadeem que se exerce uma forma de vida social comunitária e talvez, sobretudo, um lugar imaginário, sonhado. Eu acho que esse conjunto de elementos é especialmente adequado aos adolescentes, na medida em que não é uma cidade imensa, mas sim um local de vida em escala humana. Psicologia clínica e interpretação A síntese interpretativa apresentada pelo estudioso insere-se, desde o princípio, em uma abordagem decididamente subjetiva. R. Djan explica: “não há nenhum esquema interpretativo, nem uma espécie de grelha que bastaria aplicar para interpretar” o Mapa da Cidade Imaginária. O psicólogo deve demonstrar empatia, impregnar-se pela cidade desenhada, e mesmo “fantasmar” e, depois, interessar-se pela maneira como o desenhista utiliza o espaço. Será que a cidade está, nos termos de Corman, dilatada ou retraída? Por fim, deve-se interpretar a dimensão simbólica dos elementos desenhados, bem como a idade imaginária que o sujeito deu a si mesmo quando respondeu ao item 2. No entanto, com base em minha experiência, eu sugiro evitar esquemas de interpretação demasiado rígidos e confirmar as interpretações diretamente com o sujeito. Em tal momento, esse teste de desenho com instrução oferece, principalmente a sujeitos confrontados ao processo da adolescência, um suporte para expressar a estruturação psíquica em elaboração deles. Embora seja preciso prudência ao interpretar símbolos, eu recomendo fazer com que os sujeitos estabeleçam associações a partir de lembranças da infância, que podem estar subjacentes e latentes no teste do Mapa da Cidade Imaginária. O mapa da cidade a seguir foi concebido e executado por um adolescente de 14 anos e parece, à primeira impressão, coerente, estruturado e aberto ao mundo. Eu observo, no entanto, que ele não desenhou uma unidade independente, tal como uma cidade, mas sim um bairro, parte de um conjunto maior que não aparece na folha. Essa observação indica que sua produção é, de certa forma, enraizada no real e no concreto e, a contrario, pouco imbuída de fantasia. O rapaz também nos dá informações contraditórias. Assim, se vivesse nesse “bairro”, ele teria 6 anos e moraria (ponto de referência 1) bem perto do colégio (ponto de referência 2), única instituição de ensino representada. A idade imaginária de 6 anos, assim como a figura de dois colégios, que são os locais onde o rapaz e seus colegas convivem, indicam bem uma ambivalência entre a dificuldade de dar o “salto da puberdade” (MARTY, 2001) e o intenso desejo de viver esse momento de genitalização do corpo e da psique. Cim1 (Texto da ilustração: começando no número 1 em sentido horário – 6 anos – shopping – salão de cabeleireiro – colégio colégio – padaria – açougue – bumerangue – padaria – estádio – esporte – sala de esportes – salão de cabeleireiro – padaria – shopping – padaria – açougue – parque) As lojas posicionadas no mapa também representam uma dimensão simbólica. O rapaz colocou, de um lado, muitos comércios alimentares (padaria e açougue), que correspondem à satisfação de necessidades, certamente primárias, mas também ligadas à oralidade, e, de outro, dois salões de cabeleireiro e três locais para praticar esportes (pontos de referência 3 e 4). Esses componentes da cidade têm a ver com o corpo, o narcisismo e o investimento libidinal de si. O objeto insólito desenhado pelo rapaz (ponto de referência 5) é um bumerangue. Na consulta pós-desenho, o jovem adolescente não conseguiu fazer associações em torno dessa escolha, indicando, por isso mesmo, que para ele esse objeto é simbólico. Não conseguimos deixar de pensar, com muita prudência, que a natureza do bumerangue é voltar ao seu ponto de partida quando o alvo não é alcançado e que, de fato, é o efeito do bumerangue que a idade imaginária de 6 anos evoca, pois ela corresponde ao fim do complexo de Édipo e à entrada na fase de latência, ao passo que o rapaz está confrontando-se com o processo da adolescência. Devemos notar, por fim, que o centro – o coração – do desenho é um parque composto de um laguinho e de bosques, que lembram a vida fora de casa e o reencontro com a natureza. Há certamente aqui uma simbólica do paraíso perdido da infância: brincadeiras na rua, férias. [25]. F. Dolto faz uma nítida e sistemática distinção entre imagem do corpo e esquema corporal. Para ela, a imagem do corpo é inconsciente e singular para cada sujeito – ela é a síntese das experiências emocionais e relacionais, enquanto o esquema corporal é semelhante para todos e sobretudo, em grande parte, consciente. [26]. Um pantógrafo é um instrumento de desenho, composto de barras articuladas, que permite executar ampliações ou reduções utilizando as propriedades da homotetia para conservar as proporções entre o desenho original e a cópia (enciclopédia Wikipédia – versão francesa – Disponível em http://fr.wikipedia.org/wiki/Pantographe_(dessin)). • Link para a versão em português: http://pt.wikipedia.org/wiki/Pant%C3%B3grafo [N.T.]. [27]. Teste de esquema corporal [N.T.]. [28]. O nome Cognet é homófono do verbo cogner, que significa “bater” em francês [N.T.]. [29]. Medição da inteligência através de desenhos [N.T.]. [30]. No original em francês, bonhomme [N.T.]. [31]. Disponível no site da editora francesa Éditions du Centre de Psychologie Appliquée: www.ecpa.fr (em francês). [32]. Conselheiro de orientação profissional que utilizou, pela primeira vez, o desenho da árvore como teste de personalidade. http://fr.wikipedia.org/wiki/Pantographe_(dessin) http://pt.wikipedia.org/wiki/Pant%C3%B3grafo [33]. Criador do teste House, Tree, Person. [34]. O primeiro a ter aperfeiçoado um método de aplicação do Teste da Árvore padronizado. [35]. Ela enriqueceu os trabalhos de Koch com estatísticas e uma escala de maturidade. [36]. O estudioso queria, assim, evitar os estereótipos ligados à representação da árvore de Natal. [37]. Pesquisa efetuada no Laboratório de Psicologia Infantil, dirigido sucessivamente pelos professores Henri Wallon e René Zazzo. [38]. Eu faço questão de agradecer a Brigitte Couteau, psicóloga do sistema educacional na cidade de Villers-Cotterêts, França, pela grande quantidade de desenhos da Senhora de Fay que ela teve a gentileza de me entregar. [39]. Fundada no departamento francês Isère por Henri e Henriette Julien. [40]. Livro tirado de sua tese de doutorado, defendida em 1960. Conclusão COMPREENSÃO E INTERPRETAÇÃO O objetivo deste livro é permitir, através da análise de desenhos, que profissionais ligados à infância vejam de perto, percebam com sensibilidade e inteligência, apreendam o funcionamento psíquico de um sujeito singular. Em suma, compreendam. Em seguida, e somente em um segundo momento, impõem-se as tarefas de tecer um comentário, explicar significados ocultos e buscar um sentido para o que não está, à primeira vista, manifesto. Em outras palavras, devemos interpretar um desenho como costumamos interpretar uma expressão facial, ou seja, dando um sentido pessoal ao que permanecer ambíguo. Não devemos nunca decifrar uma produção gráfica como se fosse uma partitura musical, que é composta com um código conhecido pelo instrumentista. Em psicologia, o intérprete não decodifica uma combinação harmoniosa de notas brancas e pretas escritas em uma pauta, mas permanece diante de algo indizível. Logo, as interpretações são hesitantes e incertas. É, ao mesmo tempo, a fraqueza, mas também o enorme ponto forte delas. As interpretações não são ditas de uma vez por todas e nem estão inscritas, de forma clara, no desenho, mas sim emanam de um encontro intersubjetivo em que cada um influencia o outro, seu alter ego narelação. O desenho sempre muda dependendo do seu destinatário. Se for realizado para os pais, o professor, o educador ou o psicólogo, ele se adaptará a cada um, carregando intenções específicas e mesmo opostas, embora a forma continue semelhante. O “influenciamento” (GUILLAUMIN, 1965) às vezes é tênue, mas sempre é recíproco. Recentemente, uma criancinha de 5 anos, cujo progresso no desenho eu estava observando, fez com que eu mergulhasse de novo na minha tenra infância. O garotinho estava desenhando, com empenho, as regulares reentrâncias de uma fortificação – representação de todas as épocas para os meninos – e exprimindo uma intensa satisfação ao conseguir completar aquele difícil exercício. Eu enxergara a mim mesmo na idade dele e fora invadido por um antiquíssimo sentimento de impotência ao me lembrar de quando, aos 4 ou 5 anos, eu tentara desenhar as mesmas reentrâncias, pois meu lápis lhes dava formas mais parecidas com ondas do que com pedras talhadas. Eu percebera, com mais acuidade, uma expressão de plena realização em seu rosto e em seus gestos calmos. Em outros casos de “influenciamento”, eu lembro os momentos especiais em que os copensamentos e as cossimbolizações contribuíram para o ato criativo. As interpretações de desenhos sempre devem ser aceitas hic et nunc; é somente o sujeito que pode julgar a adequação delas. No entanto, muitas vezes, elas só são confirmadas indireta e ulteriormente. Por exemplo, às vezes somente um segundo desenho mais explícito vai mostrar que a criança entregou-se mais profundamente e está esperando, daquele outro indivíduo que a compreendeu, uma nova elucidação, uma nova clarificação de seu universo interno. E, visto que o desenho nem sempre é o único que se faz ouvir, algumas confirmações provêm de um novo envolvimento na consulta, na conversa, no exame, de uma palavra de acompanhamento às vezes mais livre, mas também de expressões mais vivazes e flexíveis, transmitidas pelo rosto e pelo corpo. São, por fim, declarações da família que indicam que as palavras ditas a respeito da produção gráfica foram ouvidas. O principal obstáculo do ato de interpretar é seu imediatismo, a ausência de uma passagem obrigatória pela compreensão prévia, que impõe então ao sujeito a teoria do outro, psicólogo, terapeuta ou professor. O perigo aqui é denegar uma subjetividade. INTERCULTURALIDADE[41] Já no final do século XIX, influenciados pelo positivismo científico, alguns pesquisadores consideraram o desenho, em especial o de seres humanos, como um suporte universal para conhecer o desenvolvimento psicológico infantil. Um teste simples, apreciado por todos, permitia assim – em todo caso, acreditava-se que sim – estabelecer, graças a vastas coletas, comparações internacionais sem fronteiras culturais. Um generoso universalismo guiava as reflexões da maioria, mas certas derrapagens metodológicas (como por exemplo o cálculo de um QI a partir da avaliação de alguns traços de uma personagem) levaram certos pesquisadores a tirarem conclusões ambíguas, de má-fé e mesmo abertamente racistas. Muito preocupado com a utilização equivocada[42] que se fez (e que talvez ainda se faz?) dos testes de inteligência – uma versão declinada do Binet-Simon foi usada em Ellis Island[43] para identificar, dentre imigrantes exaustos e que não falavam inglês, os “fracos de espírito” –, eu quis levar adiante uma reflexão sobre o aspecto intercultural do desenho infantil. Para isso, eu mesmo recolhi produções de crianças em situação intercultural; correspondentes também me entregaram desenhos de crianças malgaxes, vietnamitas, peruanas etc. Todos esses materiais brutos permitem fazer observações, mas também exigem um profundo trabalho de aproximação com as culturas em questão para poder falar sobre o assunto com legitimidade. Por enquanto, eu desisti desse considerável trabalho de antropologia cultural. Por conseguinte, eu tomei o partido – e é uma escolha refletida – de não abordar neste livro os aspectos interculturais do desenho infantil. O risco disso é sentir- se omnisciente e, a partir de uma psicologia clínica muitas vezes repetida, empurrar observações e interpretações enviesadas. PROGNÓSTICO Quando trabalhamos com crianças ou jovens adolescentes, devemos ser irrepreensíveis no plano ético. São seres em constituição e não adultos em miniatura. O funcionamento psíquico de jovens sujeitos também depende, em grande parte, do funcionamento psíquico dos pais, do contexto de vida e das feridas sofridas. No entanto, nada nunca é completamente definitivo, inclusive antes de 1 ano, antes dos 6 anos, antes dos 12 anos, antes dos 15 anos e até mais tarde. Mesmo quando o transtorno é determinado pelo defeito de um gene, pela duplicação de um cromossomo, por uma atmosfera familiar de má qualidade ou, mais grave ainda, por um ambiente patogênico, o sujeito, considerado, concebido como tal, ainda dispõe de uma margem de evolução ou até de revolução. As épocas, os sistemas e as ideias que consideravam grupos de nossas crianças como irrecuperáveis já causaram catástrofes educativas. Cada um de nós sabe e comprova em sua longa experiência profissional que acompanhamentos personalizados, voluntaristas, generosos e ambiciosos podem mudar o prognóstico de evolução e o rumo de uma vida. Muitas vezes investido de prazer e liberdade pela criança e pelo profissional, o desenho não deve, não pode estar a serviço de uma visão ou de um prognóstico de evolução negativo. Muitos testes revelam bem lacunas e fraquezas. Em compensação, uma mediação através de desenhos, constituída de estestismo e criação, é mais apta do que qualquer outra a mostrar e colocar em primeiro plano as primícias de inclinações positivas, as tendências e razões de ter esperança. É, acho eu, uma das principais razões que me levam a privilegiar o desenho em minha prática profissional. [41]. Se estiver interessado nesses aspectos, o leitor com certeza sairá ganhando ao consultar o capítulo intitulado Aspects interculturels de l’examen psychologique de l’enfant (TROADEC, B. & GEADAH, R.-R.) do livro L’examen psychologique avec l’enfant et l’utilisation des mesures (Dunod, 2011). [42]. Georges Cognet é o autor da última versão do teste Binet-Simon, chamada de Nemi-2. [43]. Porta de entrada, no início do século XX, dos imigrantes que chegavam aos Estados Unidos. Referências ABRAHAM, A. (1985). Le dessin d’une personne, le test de Machover. Paris: EAP. AJURIAGUERRA, J. (1970). Manuel de psychiatrie de l’enfant. 3. ed. Paris: Masson, 1980 [Tradução portuguesa: Manual de Psiquiatria Infantil. São Paulo: Masson, 1983]. ANDRONIKOF, A. (2008). “Le Rorschach et les techniques projectives”. Psychiatrie, 37-150-A-10. Paris: Elservier Masson/EMC. ANZIEU, A.; BARBEY, L.; BERNARD-NEY, J. & DAYMAS, S. (2008). Le travail du dessin en psychothérapie de l’enfant. Paris: Dunod. ANZIEU, D. (1990). “Préface”. In: SHENTOUB, V.S. Manuel d’utilisation du TAT – Approche psychanalytique. Paris: Dunod [Tradução portuguesa: Manual de utilização do TAT. Lisboa: Climepsi, 1999]. ______ (1980). Les méthodes projectives. Paris: PUF [Tradução portuguesa: Os métodos projetivos. Rio de Janeiro: Campus, 1981]. ______ (1974). “Le moi-peau”. 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